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JORNADAS TÉCNICAS

DCCS-DPDP

ENERGIA EÓLICA

1 – INTRODUÇÃO
2 - AVALIAÇÃO DE POTENCIAL EÓLICO
3 - CONVERSÃO DA ENERGIA DO VENTO
4 - LIGAÇÃO À REDE ELÉCTRICA
5 – CONCLUSÃO

Catarina Carvalhinho
(Janeiro 2002)
1 - INTRODUÇÃO

Em meados do século XX, evoluía-se no sentido da produção energética de grande escala e assim se
construíram grandes centrais termoeléctricas.
Nos anos 70, deu-se o primeiro choque petrolífero e esta tendência começou a alterar-se, com a
necessidade de assegurar a diversidade e segurança no fornecimento de energia e simultaneamente a
obrigação de proteger o ambiente, cuja degradação se acentua com o uso de combustíveis fósseis.
Aparece assim a viragem para uma filosofia energética de produção descentralizada e o ressurgimento
das energias renováveis.
A produção de energia a partir da energia eólica desempenhará no futuro um papel relevante, pois
têm pouco impacto ambiental e não contribui para o aquecimento global. Como não há combustão, não há
emissão de CO2 nem de quaisquer outros gases tóxicos para a atmosfera. Também não há produção de
resíduos nem poluição térmica. Sendo uma fonte de energia endógena, porque utiliza recursos internos e
naturais do país, contribui para a sua independência energética. A força do vento é inesgotável, livre de
custos, independente das crises da oferta e das próprias condições políticas. Em termos económicos, é um
investimento favorável porque se pode obter energia mais barata. De referir ainda que o uso do solo não
fica comprometido após a instalação de um parque eólico, uma vez que apenas 1% do espaço fica
efectivamente ocupado, podendo o restante ser cultivado com uma cultura rasteira.

Fig.1 – Parque eólico

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2 - AVALIAÇÃO DE POTENCIAL EÓLICO

Nos estudos eólicos, tem particular interesse o estudo da camada atmosférica, onde as
características da superfície terrestre são preponderantes na caracterização do vento: a Camada Limite
Atmosférica - CLA. O vento na CLA é retardado por acção do atrito devido às rugosidades, aos obstáculos
e aos elementos orográficos da superfície terrestre. Por seu lado, estas camadas inferiores que são
retardadas, vão provocar também um retardamento nos movimentos de ar nas camadas superiores e assim,
até que as forças de atrito se anulem na designada “altura gradiente” (entre os 2000 e os 2500 m), e as
variações na velocidade do vento passam a depender unicamente de fenómenos de grande escala. Deste
modo, resulta a variação da velocidade do vento com a altura “wind shear”.

Fig.2 - Variação da velocidade do vento com a altura

A equação que permite estimar a distribuição da velocidade com a altura (o perfil transversal de
velocidades), a partir da velocidade que se verifica para uma cota de referência, é:

U(z) = U(z ref ) × ( )


z a
z ref

U(z ref ) , é a velocidade na cota de referência (normalmente 10 m)


z e z ref , são cotas
α , é o coeficiente de atrito da superfície e depende da rugosidade do local através da expressão:
z 0 = 15,25 exp (-1/α); z 0 , é o factor de rugosidade.

• RUGOSIDADE

A rugosidade é causada pelos elementos superficiais de várias dimensões. A sua variação no sentido
do escoamento, afecta o perfil transversal da velocidade do vento, devido ao atrito imposto pelas
superfícies rugosas que dissipam parte da força motora do vento. Por outro lado, o aumento da rugosidade
faz aumentar a altura da CLA, o que se traduz numa diminuição de velocidade junto ao solo. Na fig. 2
pode ver-se como terrenos mais rugosos (área urbana), com coeficientes de atrito (α) maiores, originam
um perfil de velocidades de vento mais alto e estreito.

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Fig.3 - Influência do coeficiente de atrito no perfil de vento

Fig.4 – Aproveitamento “offshore”

• OROGRAFIA

Elementos orográficos como colinas, planaltos e cordilheiras, exercem um efeito adicional no perfil
de vento. Geralmente, nos cumes o vento sopra com maior intensidade que nos vales. No entanto,
dependendo da orientação das elevações, pode haver um aumento do nível de turbulência, bem como a
separação do fluxo, o que faz diminuir a velocidade do vento.

Fig.5 - Aumento da velocidade do vento no cume das elevações

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Num terreno montanhoso, devido ao aquecimento solar nas zonas altas durante o dia, podem ocorrer
escoamentos ascendentes. Já no período nocturno, o arrefecimento superficial tem efeito oposto. Este
processo pode gerar ventos fortes quando existem vales estreitos com orientação apropriada.

• OBSTÁCULOS

Perto de um obstáculo (um edifício, árvores, etc.), o vento é bastante influenciado e esse efeito
estende-se de uma forma empírica por 2 a 3 vezes a altura do obstáculo e longitudinalmente 20 a 30 vezes
a altura do mesmo.

Fig.6 - Escoamento do vento a jusante de um obstáculo

Qualquer estrutura que se opõe ao escoamento do vento, constitui um obstáculo criando zonas de
turbulência, com o consequente decréscimo da velocidade e provocando por vezes mudanças bruscas de
direcção e intensidade. A turbulência aumenta com a altura e espessura do obstáculo sendo mais intensa
na parte de trás, junto do obstáculo e perto do chão.

Fig.7 - Escoamento na zona envolvente de um obstáculo

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3 - CONVERSÃO DA ENERGIA DO VENTO

A energia captada do vento é convertida em energia mecânica através de uma turbina eólica. Esta
energia é depois transformada em electricidade através de um gerador eléctrico.

Fig.8 - Nacelle de uma turbina eólica

A energia cinética (Ec) do ar em movimento depende da velocidade do vento (v) e da densidade do


ar ( ρ = 1.23 kg/m3 a 15ºC ), sendo:

Ec = 1/2 ρ v2 [J/m2]

Assim, a energia eólica (E) de uma massa de ar que atravessa uma superfície plana (S), orientada
perpendicularmente à direcção do vento e durante um certo tempo (t) é:

E = 1/2 ρ v3 S t [J]

Sendo a massa de ar deslocada: ρ S v [kg/s]


A potência (P) contida no vento é dada por:

P = 1/2 ρ v3 S [W]

Sabendo a velocidade do vento, pode estimar-se a energia que uma turbina converte em
electricidade. Como a energia contida no vento varia com o cubo da velocidade, a potência é também
proporcional ao cubo da velocidade do vento. No gráfico da fig. 7, tem-se para uma velocidade de vento
de 8 m/s uma potência de 314 W/m2. Para uma velocidade de 16 m/s, que é o dobro, a potência já é 2509
W/m2, ou seja, oito vezes superior.

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Fig.9 - Variação da potência contida no vento com a velocidade

Existe contudo um limite de potência máxima extraível do vento que é de apenas 59,3% da potência
nele contida, segundo o “LIMITE DE BETZ ”. Isto porque a potência disponível no vento (Pdisp), não pode ser
integralmente convertida em potência mecânica no veio da turbina (Pmec), uma vez que o ar depois de
atravessar o plano das pás, tem que sair com velocidade não nula. O máximo teórico para o rendimento da
conversão eolo-mecânica é dado pelo “LIMITE DE BETZ ”.
O rendimento efectivo da conversão aerodinâmica eólica (CP), assume valores entre 40% a 50%,
depende da velocidade do vento, e é dado por:
P
C p = Pmec
disp

A potência que se pode obter com uma turbina eólica que intersecta uma secção circular com
diâmetro D e com um rendimento aerodinâmico de 30%, é dada por:

P = 1/2 × ρ × 0,3 × v3 × (π D2)/4 [W]

Para produzir uma potência elevada, é necessária uma grande velocidade de vento e/ou um grande
diâmetro de pás. Um dos aspectos cruciais do desenvolvimento das turbinas eólicas prende-se com o perfil
aerodinâmico das pás, dadas as limitações no aumento do diâmetro das mesmas.

• AERODINÂMICA

Ao movimento das pás de uma turbina eólica estão associadas duas forças: a de arrastamento (drag)
e a de sustentação (lift).
A força de arrastamento tem origem na resistência que as pás oferecem
à passagem do ar.

Fig.10 - Forças actuantes na pá de uma turbina

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A força de sustentação é equivalente à força produzida nas asas de um avião em voo, e deriva do
facto de se produzir uma zona de baixa pressão na parte superior da asa e uma zona de alta pressão na
parte inferior da mesma. A resultante é uma força perpendicular à direcção do escoamento.
Assim, as forças de sustentação (L) têm uma contribuição positiva para o movimento, enquanto as
forças de arrastamento (D) têm uma contribuição negativa.
Como estas forças dependem da aerodinâmica das pás e como na ponta da pá se tem uma velocidade
angular maior, as pás são normalmente manipuladas aerodinamicamente (torcidas, reduzidas em espessura
e reduzidas na corda) ao longo do raio, para que toda a superfície se encontre próximo do ponto óptimo
de funcionamento isto é, para se maximizar a razão L/D.

Fig.11 – Pormenor de um rotor eólico

• CARACTERÍSTICA ELECTROMECÂNICA

Como a potência que se pode obter com uma turbina eólica, depende do cubo da velocidade do vento
que passa pelo rotor, a curva de potência da turbina tem que ser adaptada a esta realidade.
Quando a velocidade do vento for inferior à velocidade de “cut-in”, não tem interesse a turbina
produzir potência. Se a velocidade do vento exceder esse limite, a potência produzida aumenta, à medida
que a velocidade do vento aumenta, até se atingir um máximo a que corresponde a potência nominal - para
a velocidade nominal. Essa velocidade situa-se geralmente nos 12 a 13 m/s, sendo comum à maioria dos
fabricantes.
Para velocidades superiores não interessa aumentar a potência, pois isso obrigaria a robustecer a
construção e desse acréscimo de investimento só se tiraria partido durante poucas horas no ano. Sendo
assim, a partir do máximo, o output mantém-se praticamente constante.
Para velocidades superiores à velocidade de “cut-out”, a produção da turbina é interrompida de
maneira a evitar a instabilidade da estrutura causada por ventos muito fortes.

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Fig.12 - Curva de potência de uma turbina

Concluindo, a potência produzida será calculada para o intervalo de velocidades entre a velocidade
de “cut-in” e a velocidade de “cut-out”. Para que os limites deste intervalo sejam respeitados, existe no
cimo da nacelle, um anemómetro e o respectivo sensor de direcção. As suas leituras são usadas pelo
sistema de controlo da turbina que determina a sua entrada em funcionamento e paragem. O sistema de
controlo, em função da informação recebida, tem ainda a função rodar a nacelle da turbina de forma a
que o rotor se mantenha alinhado com a direcção do vento e possa extrair a máxima energia possível.
O controlo de potência pode ser feito de duas formas:
Sistema “STALL”: as pás estão fixas, não rodam em torno de um eixo longitudinal. O ângulo de
incidência do vento é constante. O controlo assenta nas características aerodinâmicas das pás que são
projectadas para entrar em perda (força de sustentação nula), a partir de uma certa velocidade do vento.
Sistema “PITCH”: permitindo a rotação das pás em torno do seu eixo longitudinal, pode variar-se a
inclinação destas. O sistema de controlo vai variando o ângulo de incidência do vento de modo a maximizar
a força que contribui para o movimento. Desta forma consegue-se um controlo mais fino.

• SISTEMAS DE CONVERSÃO DE VELOCIDADE CONSTANTE E VARIÁVEL

Relativamente ao sistema de conversão de energia mecânica em energia eléctrica, as turbinas


eólicas comercialmente disponíveis dividem-se em dois grupos:
a) Turbinas de velocidade constante (CSCF - constant speed, constat frequency).
b) Turbinas de velocidade variável (VSCF - variable speed, constat frequency).
Praticamente todas as turbinas de velocidade constante utilizam geradores de indução (ou
assíncronos), enquanto a maioria das máquinas de velocidade variável recorrem a geradores síncronos ou,
nos casos em que a potência é abaixo da dezena de quilowattes, recorre-se a geradores de corrente
contínua.

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Fig.13 - Turbina eólica de velocidade constante (a) e variável (b)

Máquina Assíncrona:
Existem diversas razões para que a máquina assíncrona seja o gerador eleito para equipar a maioria
das turbinas disponíveis no mercado. A principal, é o seu baixo custo aliado a uma grande robustez.
Nestes geradores, a velocidade de rotação dos rotores eólicos é função da velocidade do vento e
daí as máquinas não trabalharem normalmente a velocidade constante, como a sua designação (CSCF) pode
fazer supor. A variação de algumas rotações por minuto na velocidade do rótor eólico, traduz-se numa
variação das centenas de rotações por minuto à saída da caixa de velocidades, funcionando o gerador
num modo de velocidade variável, embora numa gama estreita para o comum das aplicações de velocidade
variável. Assim, dada a pequena variação de velocidade, a frequência das grandezas induzidas não
depende directamente da velocidade de rotação do veio.
Outra vantagem é o facto do gerador assíncrono ter uma contribuição desprezável para o aumento
da potência de curto-circuito. Assim, como este gerador não tem excitação independente (esta vem da
rede), se ocorrer um curto-circuito, a máquina fica desligada da rede, sem excitação, e não alimenta o
curto-circuito.
Ao contrário dos geradores síncronos, nos assíncronos, o factor de potência ou “cosϕ“ (coseno do
ângulo de desfasagem entre a tensão e a corrente) é um parâmetro construtivo pouco variável em função
do ponto de funcionamento - da carga. O elevado consumo de potência reactiva destes geradores obriga a
um investimento adicional em sistemas de compensação do factor de potência.
A instalação do gerador assíncrono não é recomendada para utilização em regime isolado da rede,
pois o controlo tensão/frequência é difícil. No entanto, quando ligado à rede, desde que o sistema de
controlo seja eficaz, não apresenta problemas.

Máquina Síncrona:
Os sistemas que incluem geradores síncronos, têm tido menos aplicabilidade em sistemas eólicos
devido ao carácter variante do vento, incompatível com o facto do gerador síncrono ter que funcionar a
velocidade exactamente constante. O que significa que apesar das variações na velocidade do vento, as
pás da turbina têm que rodar sempre à mesma velocidade porque estão directamente associadas ao veio do
rótor da máquina. Estes geradores têm aplicabilidade quando associados a sistemas de electrónica de
potência convenientes, mas sem esquecer o inevitável e substancial aumento de preço, bem como a
produção indesejada de harmónicas.

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Por outro lado, os geradores síncronos podem funcionar com qualquer ângulo de desfasamento
entre a tensão e a corrente, tendo uma característica de funcionamento ajustável através da excitação do
gerador (com excepção da frequência). Assim, pode-se controlar a produção de energia reactiva, evitando
flutuações de potência.
Além disso, os conversores VSCF, dado que estão ligados à rede através de uma unidade de
rectificação/ondulação, permitem que algumas flutuações do vento sejam “filtradas”.
No entanto, devido a terem excitação independente, no caso de ocorrer um curto-circuito, a
excitação continua a alimentar a máquina e esta contribui para o aumento da corrente de curto-circuito.
Assim, há que reforçar as protecções de máxima intensidade, tendo em conta estes aumentos na
intensidade da corrente que se verificam em regime transitório.

Fig.14 – Sistema de transmissão de energia mecânica de uma turbina

1 – Sistema de pás (rotor eólico);


2 – Veio de baixa velocidade (VBV);
3 – Chumaceiras do VBV;
4 – Travão de disco (sistema de segurança);
5 – União elástica;
6 – Caixa de velocidades;
7 – Veio de alta velocidade (VAV);
8 – União elástica de elevado amortecimento;
9 – Gerador eléctrico;
10 – Ligação para a rede eléctrica.

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4 - LIGAÇÃO À REDE ELÉCTRICA

A energia eólica constitui uma fonte não controlável pela gestão central do despacho (fonte não
despachável), devido à relação directa entre a potência eléctrica instantânea produzida pelos
aerogeradores e a variabilidade temporal do vento. Aliado a este facto tem-se a impossibilidade de
armazenamento bem como a de se controlar a potência produzida, com excepção da potência máxima. No
caso da associação de aerogeradores em parques eólicos, é entregue à rede receptora uma potência da
ordem das dezenas de megawatts continuamente flutuante em regime normal de funcionamento.
Na fig.15 tem-se a potência produzida por um parque eólico de 17 aerogeradores de 600kW cada,
para uma velocidade do vento de 8m/s.

6.00E+6 Pout
Qout
5.00E+6
Pwec1
Qwec1
4.00E+6

3.00E+6
P, Q [W,VAr]

2.00E+6

1.00E+6

0.00E+0

-1.00E+6

-2.00E+6

-3.00E+6

0 200 400 600


t [seg]

Fig.15 – Variabilidade da potência produzida

A “força” da ligação eléctrica num sistema de potência é normalmente descrita pela sua potência de
curto-circuito (Scc), que se define como o produto da tensão (V) pela corrente que fluiria em caso de
curto-circuito (Icc):

Icc = V ⇒ Scc = 3. Icc . V


3 .Z

Sendo Z = (R2 + X2)1/2 o módulo da impedância da linha de transmissão/rede.


R é o valor de resistência e X o valor de reactância da linha.
Um valor elevado da potência de curto-circuito só existe quando a impedância equivalente da rede é
baixa.
A potência de curto-circuito constitui um indicador da capacidade da rede em “aceitar”
perturbações, neste caso introduzidas pelos conversores eólicos.
A lei impõe que a potência nominal máxima instalada, não possa exceder 8% da potência de curto-
circuito mínima no Ponto de Interligação do parque à rede.

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Fig.16 - Esquema de ligação à rede eléctrica

• FLUTUAÇÕES DE TENSÃO

Um elemento importante a ter em conta ao integrar conversores de energia eólica na rede eléctrica,
é a não degradação da qualidade de energia fornecida aos consumidores locais. Essa degradação
verifica-se especialmente nas redes “fracas” quando a variabilidade da potência activa produzida (e
reactiva consumida), dá origem a flutuações de tensão nos barramentos próximos do parque eólico que
afectam directamente os consumidores locais, conduzindo mesmo a situações de “flicker” (flutuações de
tensão perceptíveis à visão) acima dos valores normalizados. Estas são flutuações em regime permanente,
provocadas pela variação do trânsito de energia e forte variabilidade temporal da energia eólica.
Existem ainda variações rápidas da tensão, de carácter transitório, provocadas pela ligação das
turbinas à rede. Geralmente estas constituem a situações mais gravosas pelos valores de pico atingidos,
pelo que são usados “soft-starters” para efectuar a ligação à rede.

• COMPENSAÇÃO DE ENERGIA REACTIVA

As turbinas eólicas equipadas com geradores de indução consomem potência reactiva em quantidade
não desprezável. Se nada for feito em contrário, ocorre um fluxo de potência reactiva da rede para o
parque, reflectindo-se em facturação directa para o produtor e aumentando a potência de perdas na linha
de transmissão.
A utilização de unidades de compensação, reduz a quantidade de potência reactiva consumida da
rede, reduzindo assim os efeitos de uma das maiores desvantagens dos geradores de indução.
O dimensionamento e instalação apropriados de baterias de condensadores, pode ainda contribuir
para a regulação da tensão no barramento de interligação do parque eólico à rede, evitando um número
excessivo de operações de mudança de tomadas do transformador elevador.
A actual legislação obriga a que para além das necessidades em potência reactiva para consumo
interno, que são aproximadamente 70% da potência activa em funcionamento nominal, seja preciso equipar
a instalação independente com uma unidade de potência reactiva com capacidade para fornecer 40% da
potência activa nominal à rede, nos períodos fora de vazio.

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Fig.17 – Rede eléctrica interna de um parque

Algumas características técnicas de uma turbina eólica (exemplo):

Fabricante NORDEX
Modelo N43 – 600
Potência nominal 600 kW
cos ϕ n nominal 0.88
Frequência 50 Hz
Tensão nominal 690 V
Corrente nominal 576 A
Altura da nacelle 40 m
Diâmetro do rotor 43 m
Velocidade de rotação do rotor 26.9 r.p.m.
Comprimento da pá 19.1 m
Massa da pá 1928 kg
Massa da torre 39000 kg

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5 – CONCLUSÃO

Como conclusão e tendo em conta os temas focados, apresenta-se um esquema de procedimentos a


seguir para a instalação de um parque eólico.

Escolha do Escolha da
Local Turbina

Estudo da ligação à Avaliação do


rede eléctrica Recurso

Estimativa da
Energia Produzida

Estudo de Viabilidade
Económica do projecto

Custo do kWh / Preço de Venda do kWh

Para a escolha do local é necessário caracterizar o recurso existente. Pelo que será necessário
instalar um anemómetro para a recolha de dados do vento (velocidade e direcção), no mínimo durante um
ano. Se o local se revelar favorável, geralmente se a velocidade média for superior a 8 m/s, há ainda a
considerar as possibilidades da ligação do futuro parque à rede eléctrica existente, tendo em conta a
distância, a necessidade de construção de uma linha para interligação, o custo da mesma e o tipo de rede
(nível de tensão, potência de curto circuito).
Após a avaliação do recurso, pode escolher-se a turbina eólica a instalar em termos de fabricante,
tipo de aerogerador, potência nominal, custo, etc., de forma a optimizar o aproveitamento. Existem

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programas de simulação onde é possível obter a melhor distribuição geográfica de cada turbina com a
digitalização da carta topográfica do local e os dados do vento.
O valor da energia produzida por uma turbina durante um certo período de tempo, obtém-se por
integração do produto de duas funções: a característica electromecânica do aerogerador e a função
densidade de probabilidade (que representa a probabilidade de a velocidade do vento ser igual a um
determinado valor).
A estimativa da energia produzida pelo parque eólico é necessária ao estudo de viabilidade
económica, no cálculo do preço de venda do kWh, de acordo com a legislação em vigor (decreto-lei
169/99), e no cálculo do custo de cada kWh produzido. Por comparação destes valores é possível avaliar a
rentabilidade do projecto.
Os parâmetros que condicionam o interesse económico da conversão da energia do vento, ou
generalizando, das fontes de energia renováveis, são essencialmente:

- O investimento total unitário no empreendimento [€/kW];


- A utilização anual média da potência instalada [hora/ano];
- As condições de financiamento;
- O preço que a rede receptora paga pela energia [€/kWh].

É certo que a penetração das energias renováveis depende em grande parte da evolução
tecnológica, que tende a reduzir o investimento unitário. No entanto, não é menos certo que a penetração
pode ser igualmente favorecida actuando nos dois últimos parâmetros.

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BIBLIOGRAFIA

[1] C. Carvalhinho, A. Freitas, “Avaliação Técnico-Económica de um Parque Eólico” ”, Trabalho final


de curso, IST, 1998.

[2] C. Carvalhinho, A. Estanqueiro, “The Effect of the Internal Grid Topology on a Wind Park Power
Quality”, Proceedings of the EWEC’99, 1999.

[3] C. Carvalhinho, A. Estanqueiro, “Estudo do Comportamento do Parque Eólico de Cabeço da Rainha


em Regime Estacionário e Dinâmico”, INETI, 1999.

[4] H. Wegley, J. Ramsdell, M. Orgill, R. Drake, “A Siting Handbook for Small Wind Energy
Convesion Systems”, Battele Pacific Northwest Laboratories, 1980.

[5] “Curso de Formação - Energia Eólica”, Programa Altener, INETI/ITE, COALTEC, 1996.

[6] Decreto-Lei 168/99, Diário da República 1ª Série-A Nº 115/99, 1999.

[7] “Livro Branco para uma Estratégia e um Plano de Acção Comunitários”, Comissão Europeia, 1997.

[8] http://www.windpower.dk/Danish Wind Turbine Manufactures Association.

[9] http://www.risoe.dk/Risoe National Laboratory, Wind Energy and Atmospheric Physics


Department.

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