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Superior Tribunal de Justiça

AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 1.380.413 - DF


(2018/0273047-8)

RELATOR : MINISTRO ROGERIO SCHIETTI CRUZ


AGRAVANTE : MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL E
TERRITÓRIOS
AGRAVADO : SANDRA FARAJ CAVALCANTE
ADVOGADOS : CLEBER LOPES DE OLIVEIRA E OUTRO(S) - DF015068
MARCEL ANDRÉ VERSIANI CARDOSO - DF017067
NINA RIBEIRO NERY DE OLIVEIRA - DF046126

DECISÃO

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL


E TERRITÓRIOS agrava de decisão que inadmitiu seu recurso especial,
interposto com fundamento no art. 105, III, "a", da Constituição Federal,
contra acórdão proferido pelo Tribunal distrital na Ação Penal originária n.
2017002013076-7.

Os embargos declaratórios opostos na origem foram


rejeitados.

No recurso especial, o Parquet sustentou a violação dos arts.


41, 395, I, II e III, 386, 387 e 400 do Código de Processo Penal e 171, § 3º,
do Código Penal. Argumentou que a narrativa constante da inicial acusatória
era suficiente para justificar a imputação do crime de estelionato majorado à
investigada.

Asseverou que "o fundamento jurídico utilizado pela Corte


local para rejeição da denúncia – atipicidade dos fatos objeto da imputação –
não é, com todo respeito, condizente com a realidade esposada nos autos,
posto nítida a subsunção da causa de pedir fática da pretensão deduzida na
inicial às elementares do tipo penal descrito no artigo 171, § 3º do Código
Penal" (fl. 538).

Requereu, dessa forma, o provimento do recurso para


"determinar-se o recebimento da denúncia e prosseguimento da ação penal
contra a Deputada Distrital Sandra Faraj Cavalcante, no âmbito da Operação
Hemera" (fl. 565).

A Corte distrital não admitiu o recurso, o que ensejou a


interposição deste agravo.
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O Ministério Público Federal manifestou-se pelo
conhecimento e não provimento do agravo, por considerar que o exame da
matéria suscitada demanda o revolvimento do contexto fático-probatório (fls.
673-682).

Decido.

I. Admissibilidade

O agravo é tempestivo e preencheu os demais requisitos de


admissibilidade. Quanto ao recurso especial, verifico que não comporta
conhecimento, pois a análise da questão suscitada demanda o
revolvimento do contexto fático-probatório dos autos, como será
detalhado a seguir, providência vedada pela Súmula n. 7 do STJ.

II. Recebimento da denúncia – necessária dilação


probatória

A ora agravada foi denunciada pela suposta prática do crime


previsto no art. 171, § 3º, do Código Penal, por 12 vezes (fls. 2-16).

O Tribunal de origem decidiu, por maioria, rejeitar a inicial


acusatória, sob a seguinte motivação (fls. 430-432, grifei):

Senhor Presidente, observo, inicialmente, conforme


memoriais que me foram distribuídos (às fls. 33 e
seguintes dos autos, numeração do Ministério Público),
que o contrato é de prestação de serviços
especializados para apoio à atividade parlamentar,
isto é, o contrato da prestação de serviços é entre a
deputada e a contratada NETPUB Comunicações e
Tecnologia. Essa é a primeira observação que faço. O
contrato não é entre a Câmara e a NETPUB. É um
contrato privado de prestação de serviços entre a
deputada e a empresa contratada.
Estou com a denúncia aberta e observo o seguinte
parágrafo:
(...) Os serviços foram efetivamente prestados
pela empresa NETPUB LTDA, que emitiu,
mensalmente, relatórios com a discriminação das
atividades desenvolvidas para o gabinete
parlamentar da Deputada. (...)
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Esse parágrafo consta expressamente da denúncia no
sentido de que os serviços foram efetivamente
prestados pela empresa à deputada.
Passo a anotações rápidas que fiz.
Acusa o Ministério Público a Deputada SANDRA FARAJ
por conduta de estelionatos, por 12 (doze) vezes,
consistentes em ter recebido a importância de R$
174.000,00 (cento e setenta e quatro mil reais) da Câmara
Legislativa do Distrito Federal, a título de reembolso de
serviços especializados para apoio à atividade
parlamentar, e de ter repassado à empresa que prestou os
serviços, a NETPUB LTDA, somente a importância de R$
31.860,00 (trinta e um mil, oitocentos e sessenta reais).
Segundo informações do próprio Ministério Público, em
memorial, a NETPUB LTDA está cobrando a diferença
dos valores não repassados no Juízo Cível.
Delimitada a matéria para o julgamento sobre o
recebimento ou rejeição da Denúncia, passemos às
considerações e fundamentos para a decisão.
Inicialmente observo, às fls. 32 e seguintes dos autos –
numeração do MP, conforme cópias que me trouxeram as
partes, que o contrato celebrado para a prestação dos
serviços é uma convenção privada entre a Sra. Sandra
Faraj e a empresa NETPUB LTDA.
Estou com a denúncia aberta na tela do computador e
dela consta, expressamente, num dos seus primeiros
parágrafos, que não houve qualquer prejuízo para a
Câmara Distrital, eis que os serviços foram prestados.
Em outras palavras: nunca negou o Ministério Público
que a Deputada não tivesse direito ao reembolso, eis
que os serviços foram efetivamente prestados.
O que alega o Ministério Público é que a NETPUB
LTDA, por solicitação da Deputada, adiantava as notas
fiscais para que fossem solicitados os reembolsos junto à
Câmara Legislativa do Distrito Federal e que estes
valores não foram repassados para a prestadora efetiva
dos serviços, com exceção da importância de R$
31.860,00. E que dessas doze notas fiscais emitidas pela
NETPUB LTDA, em duas delas, constam carimbos e
assinaturas de recebimento dos seus respectivos valores,
que não são das pessoas credenciadas da empresa
NETPUB para firmá-los.
Passemos aos fundamentos.
[...]
Com muito respeito à pessoa subscritora desta denúncia, a
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"placa", aqui, indica e aponta para possível fraude cível,
pois sequer o Ministério Público indiciou os outros
possíveis coautores, Felipe Nogueira Coimbra, Michelly
Ribeiro de Souza Nogueira (esposa de Felipe e sócia da
empresa prestadora dos serviços), Manoel Carneiro de
Mendonça Neto e outros, com menor participação,
fazendo constar do seu arrazoado uma situação inusitada
em matéria penal, ao arrolar os possíveis corréus como
testemunhas, quando, todos sabem, réus não depõem
como testemunhas, pois têm interesse na causa.
Lembremos, somente para deixar consignado, que há
diferença entre fraude cível e penal. Na fraude cível, o
ardil está no negócio. No campo penal, a fraude está na
manobra para a obtenção ilícita da vantagem indevida.
Aqui, nem uma, nem a outra, estão evidenciadas. Não
houve vantagem indevida no campo penal, em desfavor
da Câmara Distrital, pois o serviço foi prestado e a
Deputada tem direito ao reembolso. Logo, não se pode
falar em ilicitude no recebimento dos valores, eis que os
serviços foram efetivamente prestados pela NETPUB
LTDA. Não há discussão sobre esses aspectos. Se o
serviço foi prestado, o reembolso à Deputada é um
exercício do seu direito; não se podendo falar, portanto,
em ilicitude penal no recebimento dos valores
reembolsados. E estão eles atestados por notas fiscais
expedidas pela empresa prestadora do Serviço, pela
NETPUB LTDA.
A discussão sobre o repasse para os coautores que,
segundo eles, adiantaram as notas fiscais, é matéria a ser
tratada, querendo eles, no juízo civil, eis que na regência
penal não há legitimidade para exercícios de direitos por
aqueles que do delito participam. Exemplo: não pode
alegar legítima defesa aquele que ataca, pois o direito ao
amparo da excludente é de defesa e, não, do atacante. Não
pode alegar legítima defesa contra os policiais o ladrão
que está em fuga e é alvejado pela escolta em
perseguição. Não podem alegar o amparo do Direito Penal
pessoas que articulam o crime nos negócios mercantis.
Para concluir, somente a expedição das notas fiscais por
parte da NETPUB LTDA já autorizaria a Câmara Distrital
a efetuar o reembolso, pois são as notas fiscais os
atestados da prestação dos serviços e dos negócios cíveis
derivados, que a Câmara não participa. A discussão sobre
nota fiscal com carimbo de recebimento, ou não, não é
elementar do negócio jurídico subjacente, pois não é
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exigência do Direito Civil. A contratação subsequente
está perfeita e acabada, eis que formulada segundo o
consentimento das partes, da coisa e do preço, com
inversão, a principio, do ônus da prova em desfavor da
NETPUB, eis que expediu e disponibilizou as notas
fiscais para o reembolso da Deputada, segundo sua
versão.
Pelo exposto, por estarmos apenas diante do
inconformismo de pessoas que afirmam insucessos nos
seus negócios cíveis, rejeito a Denúncia por falta de
justa causa, com fundamento nas disposições do artigo
395, inciso III, do Código de Processo Penal.

Contra essa decisão, foram opostos embargos declaratórios


pelo Ministério Público distrital, sob a alegação de contradição no decisum.
Confira-se excerto do voto que rejeitou os aclaratórios (fls. 522-523,
destaquei):

Não há contradição a ser sanada.


A parte dispositiva é específica ao rejeitar a denúncia
com fundamento na ausência de justa causa para a
instauração da ação penal, apoiando-se no disposto no
art. 395, inciso III, do Código de Processo Penal, que tem
a seguinte redação:
[...]
A fundamentação do acórdão faz uma leitura dos fatos
conforme apresentados pela denúncia, em face dos
indícios de prova apontados pelo órgão de acusação, para
concluir que podem caracterizar ilícitos cíveis e
administrativos, mas não restaram demonstrados os
elementos que constituem os crimes imputados à
Deputada, sem prejuízo de que essa percepção sofra
modificação com o avançar das investigações, se
houverem.
Os votos que se seguiram também espelham essa
percepção.
Nesse sentido, o Desembargador Mário-Zam Belmiro
consigna que "o não recebimento da denúncia em nada
obsta o aprofundamento das investigações, de modo
que, diante de elementos a dar suporte, possa vir
novamente a ser oferecida a peça, mas agora
devidamente instruída, levando à convicção da
existência de indícios de materialidade".
O Desembargador Getúlio de Moraes Oliveira segue o
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mesmo posicionamento: "Se está sob investigação,
continuem investigando, trazendo elementos
consistentes e densos suficientes para poder provocar
a abertura de uma ação penal".
Da mesma forma manifestou-se a Desembargadora Ana
Maria Duarte Amarante: "Não seria caso de se cogitar de
possibilidade futura de aditamento e sim de possibilidade
futura de novo oferecimento de denúncia, se colhidos os
elementos de convicção necessários a tanto, ainda
arrefecidos, é bem verdade, nessa etapa primeira, que é a
do juízo de admissibilidade da acusação".
Por fim, ressalte-se que constou da decisão registrada a
rejeição da denúncia por falta de justa causa.
O Código de Processo Penal não enumera expressamente
a atipicidade da conduta como causa de rejeição da
denúncia (art. 395), mas o faz com referência à falta de
justa causa (art. 395, inciso III).
[...]
Nesses termos e considerando-se, igualmente, os
eminentes Desembargadores que votaram pelo
recebimento da denúncia, por vislumbrarem os requisitos
necessários à instauração da ação penal, entendo que a
decisão deste Conselho Especial convergiu mesmo foi
para a ausência de justa causa que demandou a
rejeição da denúncia, e, não, a improcedência da
acusação.
Dessa forma, inexistindo deficiências fundadas em
omissão, obscuridade ou contradição, nos estritos limites
do art. 619 do Código de Processo Penal, qualquer
incursão acerca da matéria alegada nos presentes
embargos ensejaria o reexame de questão já apreciada no
acórdão, inclusive expressamente, inviável pela via eleita.

Pela leitura dos excertos transcritos, noto que a instância


antecedente considerou que os elementos informativos até então colhidos
não eram bastantes para demonstrar a existência de prova da
materialidade e de indícios suficientes de autoria, sobretudo porque o
serviço contratado pela agravada foi efetivamente prestado, a
demonstrar a ausência de comprovação de prejuízo suportado pela
Câmara Legislativa Distrital.

Assim, considero assistir razão ao Subprocurador-Geral da


República Augusto Aras, ao ressaltar que, a despeito das alegações do
Parquet distrital na petição de interposição do recurso, de que "o real
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fundamento jurídico para a rejeição da denúncia não foi a falta de justa causa
para o exercício da ação penal (art. 395, III do CPP), mas a ausência de
condição da ação (art. 395, II do CPP), em razão da atipicidade, [...] a
conclusão do Conselho Especial foi sim pela insuficiência de indícios de
materialidade delitiva para o início da persecução penal" (fl. 679, grifei).

Logo, para rever a conclusão da Corte de origem seria


necessário o revolvimento do contexto fático-probatório dos autos, o que
é vedado em recurso especial, consoante o enunciado da Súmula n. 7 do STJ.

Nesse sentido, mutatis mutandis:

[...]
5. A falta de justa causa para a ação penal foi
rechaçada por maioria pelo Tribunal de origem
porque presentes indícios de autoria e materialidade,
notadamente diante do evento morte da vítima e da
fundada dúvida sobre a autoria apta a configurar o
delito de homicídio ou suicídio, sendo certo que para
se concluir de modo diverso seria necessário o
revolvimento fático-probatório, vedado conforme
Súmula n. 7/STJ.
[...]
10. Agravo regimental desprovido.
(AgRg no REsp n. 1.737.252/SP, Rel. Ministro Joel Ilan
Paciornik, 5ª T., DJe 5/8/2019, destaquei)

[...]
4. As instâncias ordinárias, após preambular análise do
delineamento fático e probatório, até então coligido aos
autos, concluíram pela existência de elementos
suficientes a fundamentar a justa causa necessária ao
recebimento da denúncia, na forma do art. 396, caput,
do CPP. Logo, a desconstituição do julgado, no intuito
defensivo de rejeição da incoativa, sob a alegação de
inexistir, nos autos, qualquer indício de que tenha o
imputado atuado com os demais corréus na prática
delitiva apontada, não encontra guarida na via eleita,
visto que seria necessário a esta Corte o revolvimento
do contexto fático-probatório, providência incabível,
conforme inteligência do enunciado n.º 7 da Súmula
do STJ.
5. Agravo regimental desprovido.
(AgRg no AREsp n. 1.333.052/PR, Rel. Ministra Laurita
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Vaz, 6ª T., DJe 1º/4/2019, grifei)

III. Dispositivo

À vista do exposto, conheço do agravo para não conhecer


do recurso especial.

Publique-se e intimem.se

Brasília (DF), 25 de setembro de 2019.

Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ


Relator

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