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ATMA NIRVRITI-—SRI

ATMANANDA KRISHNA
MENON
O CAMINHO DIRETO - SRI ATMANANDA KRISHNA MENON·QUARTA-FEIRA, 22 DE NOVEMBRO DE 2017·24
MINUTES

PREFÁCIO

Não há muito o que se dizer como prefácio deste livro.

Este tem relação com "Atma Darshan", outro trabalho meu publicado há
alguns anos. Alguns dos temas tratados naquele livro são clarificados neste,
e alguns outros são vistos de diferentes ângulos de visão. Em muitos lugares,
o livro vai além do “Atma Darshan” e expõe a verdade a partir de um nível
superior. Um estudo deste livro será de grande ajuda para aqueles que
alcançaram o Conhecimento da Verdade do “Atma Darshan”, para que este
conhecimento se estabeleça, e, assim, obter uma paz duradoura.

Krishna Menon

(O prefácio anterior foi impresso como uma reprodução gráfica do que Sri
Atmananda escreveu pessoalmente à mão e com sua assinatura.)

Este livro é uma interpretação livre do malabar, feita pelo próprio autor, de
obra poética do mesmo nome.

ATMA NIRVRITI-—SRI ATMANANDA KRISHNA MENON

1.ATMA

1
I. É a mente que tem pensamentos e sentimentos. Não, Eu. Nascimento,
crescimento, decadência e morte pertencem ao corpo, não a Mim.

II. Eu não sou o corpo – eu não tenho corpo. Eu não sou a mente – eu não
tenho mente. Eu não sou um fazedor, eu não sou um desfrutador. Eu sou a
Consciência Pura que não conhece a dissolução.

III. Isso que brilha justo antes e depois de cada pensamento e sentimento é o
“Eu”. É a consciência sem objeto, é o Atma.

IV. É, de novo, esse Atma o que brilha como felicidade no sono profundo e
também quando se obtém um objeto desejado.

V. O mundo brilha por causa da Minha luz; sem Mim nada é. Eu sou a luz na
percepção do mundo.

2. A ELIMINAÇÃO DE UMA DÚVIDA FUNDAMENTAL SOBRE A CONSCIÊNCIA

I. Aquele que diz que a consciência nunca é experimentada sem seu objeto
fala a partir de um nível superficial.

II. Se perguntado: "Você é um ser consciente?", ele, espontaneamente, dará a


resposta "Sim". Esta resposta vem do nível mais profundo.

III. Aqui ele, mesmo silenciosamente, não se refere a algo como um objeto
dessa consciência. Isto mostra que a consciência a que ele se refere é a
consciência sem objeto.

IV. Aquele que diz: "Eu tenho consciência" ou "Estou consciente" está
separando a consciência de si mesmo; isto é surpreendente.

V. O que não é a consciência pertence à categoria do conhecido. O "eu" é


sempre o conhecedor e nunca pode ser o conhecido. Portanto, a consciência
e o "Eu" são um e o mesmo.

3. VER E OUVIR
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I. A menos que exista o ver, não há forma. A forma não tem existência
independente, e, portanto, é o próprio ver.

II. Se a forma é em si o ver, como se pode ver uma forma? Portanto o que é
visto não é a forma, mas algo diferente.

III. Da mesma maneira, os objetos dos outros sentidos também são meras
percepções sensoriais.

IV. Uma vez que a audição é o próprio som, ninguém ouve um som. Esta
verdade aplica-se em geral a todos os objetos dos sentidos.

V. Portanto, se uma investigação é realizada para saber o que realmente se


percebe, descobrir-se-á que é a própria realidade absoluta.

VI. Se a Realidade Absoluta é o que é percebido, como pode existir, daí em


diante, a ilusão de um mundo?

4. O CONHECIMENTO É SEMPRE ALHEIO AOS OBJETOS

I. O conhecimento de uma coisa não prova a existência da coisa. Não existe o


conhecimento de uma cobra em uma corda e o conhecimento dos objetos em
um sonho?

II. O conhecimento de uma coisa não prova a natureza da coisa, só prova o


conhecimento.

III. É grande aquele que vê apenas a luz (da consciência) na manifestação de


todos os objetos.

IV. Estejam os objetos presentes ou ausentes, aquele que viu a pura


consciência permanece sempre nela.

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V. Esta é verdadeiramente a sua própria morada. É imutável, despreocupada,
é verdade, total harmonia, é paz, é sagrada e a mais elevada.

5. O SUBSTRATO DO MUNDO OBJETIVO

I. O som, a forma, o tato, o paladar e o olfato não podem nunca existir por si
mesmos. Eles precisam sempre de um substrato que os sustente.

II. O substrato não pode ser visto pelos órgãos dos sentidos. A ele
geralmente são dados nomes sem que se conheça a sua natureza.

III. Há o aroma e a beleza (forma) de uma flor. Mas quem sabe o que é
realmente uma flor?

IV. A mesma ignorância existe em relação ao substrato de todos os objetos


dos sentidos.

V. O substrato de todos é um e o mesmo. A diversidade é somente das coisas


percebidas.

VI.O substrato permanece imperceptível; portanto não há diversidade nele.


É a existência, é o próprio eu, é pura consciência, a beleza transcendente e a
morada da paz.

6. O HOMEM IGNORANTE E O SÁBIO

I. A compreensão de um homem ignorante e mundano é que ele é um corpo,


grosseiro ou sutil. Ele não precisa pensar, ou fazer japa (cantando um nome
ou sílaba sagrada), a fim de manter a sua compreensão.

II. Quando ele percebe o corpo, ele se torna seu dono e quando não o
percebe, permanece como corpo.

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III.O que quer que seja que aconteça ao corpo é reivindicado como se
acontecesse a ele mesmo, por causa de tão íntima identificação.

IV. Quanto ao sábio, a sua compreensão é a de que ele é pura consciência.


Para manter esse entendimento não é preciso pensar ou fazer japa.

V. Um sábio sabe muito bem que a consciência é autoluminosa e que é a


consciência que ilumina o mundo inteiro.

VI. Ele também sabe que sua verdadeira natureza é a consciência e a


experiência e, como tal, não pode ser conhecida ou experienciada.

VII. Por isso ele não quer nem faz nenhuma tentativa para conhecê-la ou
experienciá-la.

VIII. O sábio, em sua mais profunda convicção, sabe que ele é a consciência e
que ele alcançou o que tem que ser alcançado.

IX. Dado que a consciência não sofre nenhuma mudança, ele sabe também
que ele é imutável.

X. Por causa de sua profunda certeza de que ele é a consciência, a


consciência pode, por vezes, manifestar-se antes de uma percepção.

XI. No entanto, seja manifesta ou não, como ele tem essa certeza
profundamente enraizada, está sempre contente, livre e feliz.

7. A ORIGEM E DISSOLUÇÃO DO MUNDO

I. O conhecimento objetivado é pensamento. Portanto o "eu" permanece


testemunha do pensamento.

II. Quando o Meu ser não é visto como a testemunha, o pensamento se junta
a Mim e os viventes fazem de Mim o pensador.

III. Posteriormente, o observador se torna o percebedor físico e, em seguida,


o pensamento correspondente torna-se um objeto grosseiro.

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IV. Portanto os viventes fazem de Mim o mundo e, sendo ignorantes de Mim,
vivem em cativeiro.

V. A ilusão do mundo produzido por estas sobreposições sucessivas só pode


ser removida retornando-se pelo mesmo caminho que construiu essas
sobreposições.

8. PARA ALÉM DE QUALQUER DÚVIDA

I. Para alcançar a realidade última, é preciso ir além tanto da existência


quanto da não-existência do não-Atma.*

* Por NÃO-ATMA entende-se tudo o que é objetal, incluindo os pensamentos,


sentimentos, percepções e ações.

9. CONHECIMENTO NÃO É O NOME DE UMA FUNÇÃO

I. Todos os objetos se dissolvem no conhecimento. Portanto eles não são


nada além do que consciência.

II. Um pote de barro (quando quebrado) é dissolvido na terra, uma vez que é
feito de terra. Não pode dissolver-se em alguma outra coisa.

III. Assim, a afirmação "eu conheço a coisa", quando devidamente


examinada, revelará tão somente que a coisa se dissolveu no conhecimento.

IV. Admitindo que ver e ouvir são funções, é apenas após a cessação dessas
funções que se pode dizer que se conhece.

V. Então, você pode ver claramente que o conhecimento não é o nome dado a
uma função.

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VI. Portanto é incorreto dizer "eu conheço isso”, porque aqui conhecer
denota uma função. O que deve ser dito adequadamente é "isso tornou-se
conhecimento."

VII. Quando a mente está plenamente satisfeita com a verdade assim


exposta, isso resulta numa completa mudança de atitude.

10. PAZ E CONHECIMENTO

I. Já que os sentimentos surgem e desaparecem na paz, a swarupa deles é


paz.

II. Já que os pensamentos surgem e desaparecem no conhecimento, a


swarupa deles é conhecimento.

III. A paz profunda e o conhecimento puro são uma e a mesma coisa. São
dados nomes diferentes a isso, porque são considerados a partir de
diferentes ângulos.

11. OS PENSAMENTOS E EU MESMO

I. Como podem os pensamentos que surgem e desaparecem em Mim serem


outros que não Eu mesmo?

II. Quando há pensamento, estou vendo a Mim mesmo; quando não há


pensamento, permaneço na Minha própria glória.

12. A NÃO EXISTÊNCIA DE OBJETOS

I. Antes do ver, não há nenhum "visto" (drishyam)* e não há nenhum "visto"


depois do ver. Não pode haver dúvida sobre isto.

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II. Quando esta verdade é claramente compreendida, torna-se evidente que
não há nenhum "visto", inclusive no momento de ver. E então todas as
amarras cessam.

*drishyam é um objeto visto, com ênfase não na coisa - que não tem
existência em si - mas no ver como um resultado, a partir do qual a coisa
vem à existência.

13. A NÃO EXISTÊNCIA DO PENSAMENTO

I. O pensamento é sutil: não pode entrar em contato com um objeto denso ou


ter alguma conexão com ele porque eles estão em planos diferentes.

II. Sendo assim, nunca se pode pensar em um objeto denso e dizer que se
pode é um erro.

III. A ideia de que objetos sutis podem surgir em pensamento também se


mostrará irreal, após um exame cuidadoso.

IV. Não há dúvida de que um objeto sutil é em si mesmo uma forma


pensamento. Um pensamento nunca pode existir em outro.

V. Um pensamento, portanto, nunca pode ter um objeto, denso ou sutil. Não


pode ser então chamado de pensamento.

VI. Este pensamento sem objeto é o nosso domínio real, sem forma e sem
mudança. Isto é o que está sendo sinalizado pela palavra "eu".

VII. Não havia cativeiro antes, não há agora e não haverá no futuro, já que o
pensamento não tem existência.

14. O PASSADO SENDO PASSADO, ONDE ESTÁ O CATIVEIRO?

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I. Uma ação passada* não pode voltar novamente, nem um pensamento
passado.

II. Não há pensamento em uma ação e nenhuma ação em um pensamento;


eles não têm conexão entre si.

III. Embora um pensamento possa ocorrer após uma ação, esse pensamento
não pode estar relacionado à ação, já que a ação não está presente quando
acontece o pensamento.

IV. Embora um pensamento possa seguir outro pensamento, também não


pode haver nenhuma conexão entre eles.

V. Um pensamento passado deixou de existir; como pode então esse


pensamento entrar em contato com um novo?

VI. Dois ou mais pensamentos nunca podem ocorrer simultaneamente. Por


esse motivo também, os pensamentos nunca podem ter nenhuma conexão
entre si.

VII. Isso demonstra claramente que a ação e o pensamento existem


independentemente um do outro.

VIII. Sendo assim, como podem ser eles causa de cativeiro?

IX. Pensar que o cativeiro é causado por eles é claramente uma ilusão.

*nesta seção, a palavra “ação “ é utilizada para denominar apenas atividades


corporais.

15. O SUJEITO E O OBJETO SÃO UM EM MIM MESMO

I. Experiência e conhecimento estão dentro. Como podem seus objetos estar


fora?

II. Disso se depreende que não há nada fora: tudo está dentro.

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III. O que está dentro é Eu mesmo e, portanto, o experimentador e a
experiência são um e o mesmo, que é Eu mesmo.

16. O "EU" EM SEU ESTADO PURO

I. No intervalo entre pensamentos e no estado do sono profundo, brilha esse


princípio para o qual a palavra "Eu" aponta.

II. Aqui a mente se dissolveu e, portanto, ela não pode percebê-lo.

III. Quando a mente é direcionada para esse princípio, torna-se ela mesma o
princípio, perdendo as características da mente. Isso é chamado samadhi.

IV. Tendo pensamentos ou não, estar sempre centrado no Si Mesmo é


chamado de estado natural (Sahaja-samadhi).

17. PERCEPÇÕES E OBJETOS

I. O ver entra na composição da forma e a forma entra na composição da


visão; portanto ambos são inexistentes como tal. Isso também é verdade
para outras percepções sensoriais.

II. Ninguém vê nada, ninguém ouve nada e ninguém pensa em nada, já que
objetos e atividades dos sentidos não existem.

III. Portanto todos estão em um estado de sono profundo, um estado de sono


profundo onde não há ignorância (não-conhecimento).

18. PARA A MENTE

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I. Se você vai viver como quiser, afirmando que você é Eu, como você vai
cumprir seu desejo?

II. Não acredite que, com tal declaração, daqui em diante os seus caprichos
serão aceitos por Mim.

III. Pelo menos a partir de agora, você deve conhecer a verdade do ditado:
"Aquele que faz uma coisa, ele tão somente colhe o fruto dessa ação, bom ou
ruim".

IV. Se você pode viver de acordo com sua declaração, ótimo. Mas, para fazer
isso, você deve primeiro tentar Me ver.

V. Embora eu esteja na sua frente, dentro e atrás de você, é melhor que você
primeiro olhe para trás e tente Me ver aí.

VI. Eu estou sempre atrás de você, desinteressadamente testemunhando


suas variadas atividades. Você, assim, pode Me ver sem muito esforço.

VII. Tão logo se vire para Me ver, Eu a levarei ao centro mais íntimo do seu
ser e lá você Me verá.

VIII. Em seguida, Me verá em seus pensamentos e sentimentos.

IX. Ainda mais tarde, você verá que pensamentos e sentimentos não são
nada além de Mim mesmo.

X. Como todos os objetos são meras formas-pensamento, também serão


vistos, por fim, como Eu mesmo.

XI. Então você não vai Me ver como diferente de você mesmo. Sua afirmação
de que você é Eu se tornará realidade somente quando alcançar a esse
estado.

19. PUJA* DOS ÓRGÃOS DOS SENTIDOS E DA MENTE

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I. Eu sou felicidade pura. Todas as atividades dos órgãos dos sentidos e da
mente visam a felicidade.

II. Deste modo, todas suas atividades são puja feitos a Mim.

III. Eu estou sempre em repouso, percebendo desinteressadamente este


puja.

IV. Repetidamente Me tocam inconscientemente (sem se darem conta) e se


perdem na passividade.

V. Quando saem da passividade, continuam de novo com seu puja.

VI. Uma vez que compreendam que, por suas atividades, Me estão fazendo
puja e na passividade permanecem Me tocando, todo seu sofrimento cessa.

VII. A partir de então, a ação realizada será não-ação, e a passividade será


não-passividade, porque a ignorância foi erradicada.

* PUJA (pronunciado Puja) é adoração ou culto feito a um ídolo (Deus).


Consiste em vários atos, como banhar o ídolo ou lavar os pés, colocar as
guirlandas em volta do pescoço, aplicar pasta de sândalo na testa e outras
partes do corpo, queimar cânfora na frente dele e lançar flores aos seus pés.
O ato final é a postura do devoto diante do ídolo. Tudo isso constitui o Puja.
Esses atos, tomados por si mesmos, não têm conexão entre si. Eles se
conectam através do ídolo. Da mesma forma, as várias atividades dos
sentidos e da mente estão conectadas entre si através do aspecto
"Felicidade" do “Princípio-Eu”.

20. O ESTADO NATURAL

12
I. A variedade está nos objetos (da consciência). A consciência que os
percebe é uma e a mesma por todos os lugares. Mas, como comumente a
consciência é vista conectada aos objetos, a mudança também é atribuída a
essa (consciência) através da ilusão.

II. Os objetos não podem causar qualquer mudança na consciência. Se a


consciência mudasse, como poderia ela perceber a variedade de objetos?

III. Os objetos passam por essa mudança chamada destruição. A consciência


em si é imutável. O corpo, os órgãos dos sentidos, a mente, a vontade e o
intelecto pertencem à categoria de objetos.

IV. Por causa da inabilidade de vê-los simplesmente como objetos, supõe-se,


por meio da ilusão, que eles são imutáveis.

V. Sendo-se sempre o conhecedor, nunca se pode pertencer à categoria do


conhecido. Até mesmo a palavra conhecedor é incorreta, porque o
conhecedor imutável é conhecimento (consciência) em si, e não um ser
encarnado.

VI. Nada obscurece a consciência. Está presente em todas as atividades


mentais, como o pensamento, o sofrimento, o prazer, a dor etc. É nela (a
consciência) onde se sucedem todas as atividades da vida humana.

VII. Um homem acredita ser limitado, torna-se miserável, busca a libertação


e, para esse propósito, ele se aproxima de um Guru e escuta seus
ensinamentos. Mas todo esse tempo ele desapercebidamente permaneceu
na pura consciência apenas, a qual é, ela mesma, a verdade que ele
procurava.

VIII. Uma vez que se ele torna plenamente consciente desse fato, é liberado
e, a partir de então, todos os pensamentos, sentimentos e objetos de
percepção estarão apontando para ele mesmo.

21. TUDO É CONSCIÊNCIA

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I. O conhecimento não tem nada para conhecer. O não sensciente nunca pode
conhecer, sendo não sensciente.

II. Portanto, ninguém conhece nada. Todos os seres permanecem


estabelecidos como consciência pura.

22. A DECEPÇÃO DO ATMA

I. Eu criei pensamentos, sentimentos, percepções e tudo mais como um meio


pelo qual eu posso Me tornar conhecido.

II. Ainda assim as pessoas não veem a Mim, mas se apegam aos objetos de
seus pensamentos e sentimentos. Então, como seu cativeiro vai acabar?

III. Removendo os objetos, criei um estado de sono profundo, também com a


intenção de Me dar a conhecer.

IV. Não havendo nenhum pensamento ou sentimento ou qualquer outra


coisa para ser vista neste estado, eles cegamente começaram a não ver nada
nele.

V. Estando os objetos presentes ou ausentes, Eu estou sempre aí, sem mudar.

VI. Minha posição está bem à frente dos olhos. É em Mim e através de Mim
que todos os homens veem, ainda que não Me vejam. Isso é o mais
surpreendente.

VII. Se um homem sempre insiste em fechar seus olhos quando está face a
face Comigo, como ele pode Me ver?

23. A EXPERIÊNCIA* É O MUNDO OBJETIVO

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I. É a experiência que deve provar a existência de qualquer coisa. Um objeto
como tal nunca é experimentado.

II. É o conhecimento dele que pode ser dito como experimentado. Mesmo
isso não é estritamente correto.

III. Se um objeto não for experimentado, é preciso considerar que ele é não-
existente. Como pode haver conhecimento de uma coisa não-existente?

IV. Portanto não é sequer o conhecimento de um objeto o que se


experimenta, mas o próprio conhecimento. Desta forma, a experiência
demonstra que o mundo objetivo inteiro é o conhecimento, e somente
conhecimento. Isso é consciência, e isso é ATMA.

*a experiência é mais profunda que o conhecimento ou o sentimento


superficiais. É nesse sentido que a palavra é usada aqui.

Apêndice - Três artigos

O que se segue é a tradução em inglês de três artigos em Malabar que eu


publiquei em diferentes revistas e em momentos diferentes. Eles estão
incorporados neste livro, pois se espera que sejam de ajuda para
compreender melhor a VERDADE.

“EU”

O homem comum não se importa em conhecer o verdadeiro significado da


palavra "eu". Nem precisa disso para suas necessidades temporais. Somente
quando se começa a perder o interesse pela vida mundana e se desenvolve
um sincero desejo de conhecer a Verdade, é que a atenção se volta para
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assuntos espirituais. Aqueles que são puramente mundanos e não querem
saber de mais nada nunca podem tirar proveito de ouvir a verdade. Há
alguns que têm samskaras espirituais que ficam adormecidos e não se
manifestam por causa de seus opostos que têm influência temporária. Se
essas pessoas ouvirem a verdade, seus samskaras espirituais latentes
despertam e um sincero desejo pela Verdade ocorre. Isso os leva ao objetivo
desejado. O objetivo é a libertação do cativeiro, que é obtida ao se
estabelecerem na verdadeira natureza do “Princípio-Eu”.

A palavra "Eu" é frequentemente usada de modo indiscriminado para se


referir a muitas coisas. Eu me identifico com o corpo quando eu digo "Eu sou
gordo, eu sou magro, eu me sento, eu ando etc."; com os sentidos quando
digo "Eu vejo, eu escuto etc."; e com a mente quando eu digo "Eu penso, eu
sinto, eu desejo etc." Conheço as atividades do corpo, dos sentidos e da
mente e também sei que eles são coordenados e subordinados a mim. Este
fato está na experiência de todos. Daqui decorre que essas atividades
pertencem à categoria do conhecido. O “Princípio-Eu” é seu conhecedor e,
portanto, separado e distinto do corpo, dos sentidos e da mente. Ele
simplesmente permanece como a testemunha deles quando eles estão
funcionando. No final será visto que mesmo esse testemunhar é uma
sobreposição. No entanto isso ajuda a elevarmo-nos acima do ego (fazedor e
desfrutador) e estabelecermo-nos no puro "Princípio-Eu".

Também pode ser demonstrado de forma diferente que o “Princípio-Eu” é


distinto e separado do corpo, dos sentidos e da mente. Os estados de vigília,
de sonho e de sono profundo são comuns a todos os seres vivos. No estado
de sonho, o "eu" se identifica não com o corpo que existe no estado de vigília,
mas com um completamente diferente. É evidente que o corpo de vigília e o
corpo do sonho são muito diferentes. O corpo dos sonhos não existe no
estado de vigília, nem o corpo de vigília existe no estado de sonho. Nenhum
desses corpos nem a mente que opera nos estados de sonho e vigília
continuam no estado de sono profundo. Eu sei que estou presente sem
mudança em todos esses estados. O "eu" nunca pode ser os corpos ou a

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mente que aparecem em um estado e desaparecem em outro. Sem dúvida,
transcende tudo isso. Uma vez que o eu sabe do ir e vir desses três estados,
ele é da natureza da consciência. Essa consciência nunca desaparece.
Quando há objetos, conheço objetos. Quando não há objetos, permaneço sem
objetos na minha própria natureza como consciência pura. A dor que
experimento no sonho é limitada ao estado de sonho e não me afeta no
estado de vigília. E a dor que experiencio no estado de vigília é igualmente
limitada a este estado, e isso não me afeta no estado dos sonhos. Portanto é
evidente que as experiências que estou tendo em certos estados não afetam
meu ser. Por esta razão fica estabelecido que o “Princípio-Eu”, que é da
natureza da consciência, também não é afetado.

Eu amo e procuro os objetos porque eles me dão prazer. Portanto é evidente


que os objetos não são amados por si mesmos. O “Princípio-Eu” é amado
mais do que os objetos. Mas, desde que ele permanece transcendente até
mesmo à mente, ele não está no reino dos objetos. Portanto não pode ser um
objeto que me dá felicidade. É pura felicidade em si mesma. Deste modo
vimos que a verdadeira natureza do “Princípio-Eu” é pura consciência e
felicidade. Isso em si é Sat, que nem sequer pode ser pensado como algo não-
existente. Podemos pensar em algo não-existente. Mas ninguém pode pensar
que o "Eu" é inexistente. Portanto o “Princípio-Eu” é em si Sat. É este
“Princípio-Eu” em sua verdadeira natureza de Sat-Chit-Ananda que o
homem comum confunde com o corpo, os sentidos e a mente e, portanto,
torna-se limitado e sofre.

A tarefa do homem é obter a libertação desse cativeiro e isso é alcançado ao


se conhecer a sua verdadeira natureza e estabelecer-se nela.

“TESTEMUNHA”

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Nenhum objeto pode existir sem ser registrado no conhecimento. Os objetos
dos sentidos (som, forma, tato, gosto e cheiro), atividades corporais,
atividades dos sentidos (visão, audição etc.) e mente (pensamento e
sentimento) - todos pertencem à "sequência de objetos" (isto é, o
conhecido). É evidente que, sem esse conhecimento, não é possível lembrar-
se das últimas atividades do corpo, dos sentidos e da mente. É assim que eles
podem se conectar e essa conexão é absolutamente necessária para a vida
neste mundo. Não há como negar o fato de que este conhecimento não é
transitório, como o são atividades corporais, sensoriais e mentais.
Pensamentos, sentimentos e percepções são imediatamente registrados no
conhecimento. Se esse conhecimento não fosse permanente, jamais seria
possível lembrá-los mais tarde. Este conhecimento tem que estar aí para que
qualquer coisa apareça. Portanto ele é a testemunha de tudo. Não é de ajuda
para exercer as atividades da vida tomar posição como testemunha. O
homem ordinário não sabe que é a testemunha de tudo e daí, sua miséria e
escravidão. Se alguém assume conscientemente essa posição (como
testemunha), isso por si mesmo, e sem qualquer outra coisa, resulta em
libertação.

Nós dizemos: "Eu sei disso, eu sei aquilo etc." Em tais declarações, o
conhecimento é tratado como se fosse o nome de uma ação e o "eu" como
um realizador. Aqui a palavra conhecimento não é entendida no sentido em
que foi tratada no parágrafo anterior. A ação precisa de um instrumento. A
visão tem seu instrumento, o olho; o ouvir, o ouvido; o pensar e sentir, a
mente. O conhecimento por si só não possui tal instrumento. Afirmar que há
uma ação além da mente é absurdo. No sono profundo e em Samadhi, onde
não há mente, não há ação mas há conhecimento. O conhecimento que
conhece o pensamento e as sensações deve, sem dúvida, estar além da
mente. Portanto ele não pode ser um realizador e o conhecer não pode ser
uma ação pelo mesmo motivo. O conhecimento não pode ser a função de um
conhecedor, porque não há outro conhecedor que não o conhecimento.
Existe apenas esse conhecimento além da mente. Tudo o que não é "eu" é o
seu objeto. Tudo o que não é consciência é o seu objeto. Entre o "eu" e a

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consciência, nenhum deles pode ser o objeto do outro. Além disso, em
nenhum momento do tempo, eles podem ser separados. Portanto o "eu" e a
consciência (conhecimento) são um e o mesmo. Na sua verdadeira natureza,
o "eu" não é possuidor de corpo, de sentidos e de mente. Confundir este
“Princípio-Eu” com um realizador ou desfrutador é a raiz do cativeiro e da
miséria. Mesmo quando há esta confusão, o "eu" simplesmente permanece
como a Testemunha. Permanecer aí conscientemente é tudo o que é
necessário. Isto é o que o Ashtavakra diz no seguinte verso:

"Você é o único conhecedor de tudo, então você é a alma liberada. Ver o


conhecedor de forma diferente (ou não vê-lo como tal) é o seu único
cativeiro".

“MUNDO”

Um exame do mundo também é útil para estabelecer-se no Eu Real. A


seguinte estrofe pode ser vista no Paramarthasaram, uma antiga fonte
autorizada da Filosofia Vedanta.

Isso significa, literalmente, que o que é percebido não é diferente da


percepção e percepção não é diferente do Percebedor e, portanto, o mundo é
o próprio Percebedor. Isso exige elaboração para esclarecer seu significado.
O mundo não é senão objetos sensoriais, quais sejam: som, forma, toque,
gosto e cheiro. Não é possível separá-los das percepções sensoriais. Não se
pode sequer pensar em uma forma sem deixar que a ideia do ver faça parte
do ato de pensar. O mesmo acontece também com os objetos dos outros
sentidos. Segue-se que, mesmo na ideia, não se admite a separação dos
objetos sensoriais de suas correspondentes percepções sensoriais. Portanto
os objetos não são diferentes, mas são unos com percepções. Essas
percepções não estando fora, o que é chamado de mundo também não pode
existir fora. As próprias percepções sensoriais podem agora ser examinadas.

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Elas nunca estão separadas da consciência. Com os olhos abertos, não se vê
nada a menos que a consciência esteja lá. Portanto as percepções sensoriais
nada são senão consciência. O mesmo acontece com todas as atividades da
mente. Isso mostra que todo o mundo denso e sutil é a própria consciência.
No meu artigo anterior sobre o "Eu", demonstrei que o “Princípio-Eu” é
consciência. Segue-se então que tudo o que é conhecido e o conhecedor "Eu"
são apenas a consciência pura. A libertação do cativeiro consiste em
estabelecer-se aí.

Agora podemos examinar o mundo de uma maneira diferente. O mundo é


apenas objetos de percepção. Estes não são experimentados por ninguém. A
experiência é que deve comprovar qualquer coisa. Como os objetos não são
experienciados, eles não existem como tais. O som e a forma não vêm com a
experiência de um alguém. Somente pode-se dizer que o conhecimento deles
forma o conteúdo da experiência. Portanto, com base na experiência, só
podemos dizer que há conhecimento de um mundo, não que exista um
mundo. Pode haver conhecimento de um mundo quando não há mundo?
Não. Portanto não é nem mesmo o conhecimento de um mundo o que é
experimentado, mas apenas o mero conhecimento. Daqui decorre que o que
é chamado de mundo é apenas o próprio conhecimento (consciência).

No primeiro parágrafo, mostrou-se que o mundo é apenas uma percepção e


a percepção é a própria consciência. Isso pode ser feito ainda mais
brevemente. Os mundos densos e sutis (físicos e mentais) não podem ser
separados do conhecimento (consciência) em nenhum momento do tempo.
Portanto nada são senão Consciência.

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