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Análise retórica da filosofia da educação brasileira de Saviani

Tarso Mazzotti / Rita Pimenta

Logo: Revista de Retórica y Teoría de la Comunicación, año IV, nº 7, pp. 105-116,


Diciembre 2004, ISSN 1577-5089

Resumo
A Filosofia da Educação Brasileira, constituída na obra de Saviani, é referência obriga-
tória e paradigma para um setor acadêmico da área de Educação no Brasil. A análise
retórica a que foi submetida sua obra inicia-se pela exposição da falácia central de sua
tese de doutorado, que percorre toda sua obra, apresentada em um modus tollens, que
o autor supõe bem construído, mas que não respeita a regra básica desta figura. Seu au-
ditório admite a tese falsa. Isto se deve ao desconhecimento da lógica? Talvez. Todavia,
há outras razões que podem explicar esta situação. Uma delas é a aceitação da dialética
sem diálogo; outra, a dissociação de noções. Tudo indica que os enganos e falácias ficam
obscurecidos pela metáfora percurso determinado e determinável agenciada pela de cor-
po social semelhante ao corpo orgânico. Nem o autor nem seu auditório percebem os
enganos, pois pretendem realizar uma transformação social fundada naquelas metáforas,
que coordenam os sentidos de uma certa política marxista da década de 70.

Abstract
The Philosophy of Brazilian Education, constituted in the work of Saviani, is obligatory
reference and paradigm to an academic sector of the area of Education in Brazil. The rhe-
torical analyses to which was submitted his work begins by the exposition of the central
fallacy of his Phd thesis, presented in a modus tollens, that the author supposes well cons-
tructed, but that does not respect the basic rule of this figure. His audience admits the
false thesis. Is this due to not knowing logic? Maybe. However, there are other reasons
that can explain this situation. One of them is the acceptance of the dialectic without
dialogue; the other is the dissociation of notions. Everything indicates that the mistakes
and fallacies are obscured by the metaphor determined and determinable course mana-
ged by the social body similar to the organic body. Neither the author nor his audience
perceive the mistakes, because they intend to achieve a social transformation based on
those metaphors, that coordinates the senses of a certain Marxist politic of the 70’s.

C omo lemos os teóricos e filósofos da educação? Temos instrumentos para uma leitura
crítica que não se sustente em uma outra filosofia? Possuímos alguma técnica de análise
que permita avaliar as qualidades internas de uma teoria sem que, para isto, precisemos recor-
rer a uma tomada de posição metafísica ou a uma filosofia primeira?
Apresentamos algumas indicações que respondem a estas questões, particularmente as úl-
timas. Para isto utilizamos a obra de um filósofo da educação muito respeitado, em nossos
dias, no Brasil: Dermeval Saviani. Examinamos seus trabalhos mais difundidos, listados nas
referências bibliográficas, e considerados relevantes para um certo auditório, o composto por
alguns formuladores de políticas educacionais e pesquisadores na área Educação, assim como
Mazzotti, T.; Pimenta, R.: Análise retórica da filosofia da educação brasileira de Saviani

professores. Analisamos todos os trabalhos, no entanto, aqui, centramos a atenção no que deu 2
origem aos demais, sua tese de doutorado, que em 2000 alcançou sua 8ª edição. Esta obra é
o ponto de partida do autor e de nossas análises, as demais são utilizadas segundo as neces-
sidades explicativas e analíticas, conforme se verá. O objetivo imediato é analisar a obra com
vistas a apreender as razões pelas quais seu auditório valoriza-a tão positivamente, o que pode
ser evidenciado pelo fato dela ser conteúdo obrigatório em concursos públicos para o cargo
de professor no ensino básico, bem como referencial para dissertações e teses acadêmicas e de
organizações sindicais nas três últimas décadas.
Nos inscrevemos entre os que recuperam a retórica via Chaïm Perelman e continuadores.
Para nós, o orador/escritor o é para um certo auditório/leitores. Por certo, a noção de audi-
tório universal é reguladora dos discursos, mas os oradores sempre estão vinculados a audi-
tórios particulares. Quando examinamos uma obra —como no presente caso— ao mesmo
tempo que falamos do orador expomos o que seu auditório admite e sustenta. Há, ainda, que
salientar que uma obra pública, como é o caso em pauta, é passível de um exame público,
aberto e que apresente seus argumentos e técnicas analíticas, uma vez que isto é do interesse
de muitos. De maneira alguma, pretendemos atingir a pessoa Dermeval Saviani, pois esta é
intocável, como toda e qualquer pessoa, salvo quando comete erros ou enganos éticos, o que,
por certo, não está em questão.
Iniciamos a análise retórica da filosofia da educação sustentada por Saviani pela exposição
da falácia central de sua tese de doutorado. Em seguida, procuramos encontrar as principais
razões que explicariam a adesão do auditório a uma tese falaciosa para expor e contraditar,
em seguida, a dialética sem diálogo sustentada pelo filósofo da educação brasileira. Uma vez
exposta a crítica, examinamos uma técnica utilizada pelo autor: a dissociação de noções,
mostrando que ele mesmo compromete suas antinomias ao sustentar que o senso comum de
uma época foi consciência filosófica de outra. Tudo indica que os enganos do autor fiquem
obscurecidos pelo fato de que seus juízos estarem coordenados pela metáfora percurso agen-
ciada pela de corpo social similar ao corpo orgânico, exigindo um processo de equilíbrio
estático similar ao proposto por Platão na República. Sendo assim, nem ele e nem seus audi-
tórios percebem os enganos em que estão envolvidos, pois pretendem, antes de tudo, realizar
uma transformação social fundada naquelas metáforas. As conclusões procuram sintetizar a
análise e, portanto, as críticas.

A falácia central na tese de doutorado de Saviani

S aviani acredita que um processo educativo adequado ao nosso tempo só pode acontecer se
houver um sistema educacional. No entanto, para ele, o “sistema educacional brasileiro”
é inadequado por diversas razões, entre elas pelo uso impróprio da palavra sistema na Lei
de Diretrizes e Bases (4.024/61). Procura, então, explicitamente construir um silogismo na
figura modus tollens para demonstrar que a sua conclusão é válida. Sabemos que o modus
tollens requer que todas as alternativas possíveis sejam afastadas, salvo uma, a que permite
concluir com segurança, caso contrário, obtém-se uma falácia. A forma válida é a seguinte:
P —> Q, ¬Q |— ¬P; ou: se P então Q, não-Q, portanto não-P. Por exemplo: Se chovesse, o
chão estaria molhado; ora, o chão não está molhado; logo não choveu. Como há muitas outras
alternativas para o chão não está molhado, tem-se uma falácia, por não ter excluído outras
hipóteses plausíveis de modo a restar apenas a que permitiria a conclusão necessária. Saviani
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(2000a, pp. 4; p. 109, 110, entre outras) considera operar um modus tollens bem construído
ao apresentar o seguinte silogismo:
Há um sistema educacional no Brasil (premissa maior)
A LDB é a expressão observável da existência de um sistema educacional no Brasil (pre-
missa menor)
Então, a LDB é o sistema educacional (conclusão)
Sua tarefa é demonstrar a falsidade do conseqüente, ou seja, a LDB não pode ser considerada
a expressão de um sistema educacional, porque a noção correta de sistema não se encontra
presente na Lei. Para o nosso autor, um sistema resulta da sistematização produzida por uma
atividade intencional que dá unidade à multiplicidade. O sistema tem por características: a
intencionalidade, a unidade, a variedade, a coerência interna e externa (SAVIANI, 2000a, p.
77). Enumera, então, quantas vezes aparece a palavra sistema na LDB indicando que ocorre
18 vezes em 120 artigos, nos quais, em nenhum momento, a palavra sistema é empregada
no sentido que ele considera próprio. Sendo assim, conclui pela falsidade do conseqüente,
“demonstrando” que a LDB não expressa as características de sistema, pois não preencheu as
condições necessárias à atividade sistematizadora.
Observando o silogismo montado pelo autor verifica-se que a premissa menor — a LDB é a
expressão observável da existência de um sistema educacional no Brasil — não é a única situação
que torna observável o sistema educacional no Brasil, isto quando adotamos os mesmos crité-
rios do filósofo da educação brasileira. Ele mesmo mostra que há muitos casos que inviabili-
zam seu silogismo ao indicar outras situações plausíveis que explicariam a ausência de sistema
educacional no Brasil, entre elas a que afirma insuficiência teórica dos educadores. O modus
tollens requer, como já assinalamos, que as premissas sejam exaustivas, bastando um caso em
contrário para destruir o argumento.
Podemos dizer, então, que o autor não percebe a falácia cometida, a qual também seu auditó-
rio deixa de perceber, caso contrário já teria sido denunciada. Como o livro em exame foi sua
tese de doutorado, então um auditório muito particular, a banca de exame, ou deixou passar
a falácia ou a indicou, mas o autor desconsiderou-a em sua publicação. Caso nosso interesse
fosse apenas o de verificar a validade da tese, poderíamos encerrar este artigo, uma vez que
uma falácia destrói um argumento, neste caso, a tese. No entanto, pretendemos mostrar as
razões que nos parecem plausíveis para verificar porque nosso autor persuade tantos e por
tanto tempo, desde, pelo menos, o final da década de 1970.

Características persuasivas do discurso de Saviani

U ma vez que o auditório especializado não percebe a falácia cometida pelo filósofo da
educação brasileira, nem este parece que a percebeu, pode-se julgar que ambos des-
conhecem a lógica. Isto explicaria porque, até agora, não se fez uma crítica do silogismo
montado pelo autor. Esta asserção pode ser verdadeira, mesmo assim, por si só, não explica
as razões que podem levar o auditório e o autor a persuadirem-se de uma idéia falsa. Deve
haver outras razões que permitam sustentar uma falácia, outros aspectos da argumentação
que encapsulam a tese e lhe dão ares de um argumento perfeitamente coerente e lógico, tor-
nando-o admissível.
Mazzotti, T.; Pimenta, R.: Análise retórica da filosofia da educação brasileira de Saviani

O argumento principal de Saviani, estabelecido em seu silogismo falacioso, sustenta-se em 4


dois lugares comuns (koiná topoí): os da quantidade e da qualidade, com vistas a determinar
o caráter da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Os lugares comuns, ou
tópicos gerais, são usuais nas argumentações, particularmente os que buscam persuadir sem
que seja preciso mostrar ou demonstrar de maneira extensa, como se requer no discurso for-
mal ou lógico, por exemplo. Examinemos, então, como aqueles dois lugares comuns operam
na caracterização da LDB.
Saviani justifica a centralidade da LDB para demonstrar a inexistência de um sistema edu-
cacional brasileiro afirmando que ela foi produzida em um momento único na história da
legislação educacional no Brasil. Sendo assim, apresenta uma qualidade que a torna central
para a exposição do que ele pretende. O momento único é a expressão dos debates que ocor-
rem ao longo de 13 anos, quantidade que determina a qualidade particular do processo de
elaboração da Lei. Deixaremos de lado o argumento que permite a construção do modus
tollens, pois verificamos que resulta em uma falácia. Centremos a atenção em outro aspecto,
o da necessidade de univocidade para a palavra sistema requerida pelo autor, o que aparece
com a afirmação de que nos 120 artigos da Lei apenas 18 apresentam as características con-
sideradas definidoras do termo sistema tal qual o autor o entende. O autor supõe ser factível
e necessária a univocidade de palavras em contextos políticos e legislativos. A falta de univo-
cidade só pode ter origem na confusão, na incompreensão, na incapacidade dos legisladores
estabelecerem claramente “o que é sistema”.
Saviani descarta o fundamental de qualquer legislação: a de ser fruto de acordos políticos, que
se estabelecem de maneira polissêmica. Por essa via, nega a possibilidade mesma da política,
uma vez que esta é sempre um acordo entre pessoas. Para ele, a polissemia deve ser banida,
como se faz em lógica formal. Diante disso, mais uma falácia é cometida por Saviani: a da
definição persuasiva, que consiste em definir um termo de tal maneira que a definição pareça
correta, mas sutilmente tendenciosa. Seus auditórios, ao que tudo indica, aderem ao discurso
falacioso por considerar que uma Lei deve expressar e dirigir as ações humanas sem qualquer
outra mediação, como a interpretação ou a jurisprudência. É muito provável que a aceitação
de certa identidade entre o nome e a coisa nomeada baseie-se em uma certa concepção de
dialética, método que permite a exposição do real. Examinemos, pois, a dialética sem diálogo
defendida pelo filósofo da educação brasileira.

Dialética sem diálogo

A dialética sem diálogo apresenta-se quando Saviani propõe constituir uma ontologia do
homem brasileiro, uma antropologia filosófica, que esclareça as razões pelas quais a ati-
vidade sistematizadora lhe é essencial.
Em sua ontologia procura mostrar que os elementos fundamentais da estrutura do homem
são: a situação, na qual se encontram natureza e cultura; a liberdade, com as atitudes de ade-
são e opção; e a consciência, em suas formas de irreflexão e reflexão. Há, aqui, ligação íntima
e de dependência direta entre os pólos, que isolados se comportariam como síntese de pares
antitéticos (SAVIANI, 2000a, p 35 e seguintes). Conclui que a estrutura do homem é dialé-
tica, porque seus elementos contrapõem-se e se compõem, negam-se e se afirmam, num con-
junto dinâmico, no qual múltiplas combinações podem ser feitas (ibidem). Para ele, dialética
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é a interação recíproca do todo com as partes, a convergência e a contraposição das partes do
todo entre si, sendo que o homem comum não apresenta, de fato, este “caráter dialético”, que
está reservado ao que é capaz de superar o senso comum. Acredita que “o homem comum,
imerso no cotidiano, é incapaz de ultrapassar o domínio do prático-utilitário para perceber
as implicações e conseqüências de sua própria atividade prática” (ibidem, p.86). O que era
para ser a demonstração da capacidade de todos sistematizarem, reduz-se à de alguns dentre
eles, os filósofos que sabem e que devem ser os agentes da seleção dos pensamentos corretos.
O que foi realizado por meio do método dialético sem a dialogia, pois “há um entendimento
idealista da dialética, onde dialética é concebida como relação intersubjetiva, como dialógica”
(SAVIANI, 1997, p.83). Uma vez que se opõe ao entendimento idealista, então sua dialética
só pode ser a que nega o dialógico ou uma dialética sem diálogo, seria um monólogo.
Uma dialética sem diálogo tem sentido completo ao considerar que o conhecimento foi efe-
tivado pelo espírito absoluto —o espírito em si e por si, outro nome para Deus—, tal como
Hegel apresenta na Ciência da Lógica, nas Lições sobre Filosofia da História, ou na Fenomenolo-
gia do Espírito. Neste caso, o espírito em si e por si (absoluto) realizou um processo pelo qual
se diferenciou da matéria ao procurar efetivar alguma coisa e percebeu que o mundo é um
obstáculo aos seus desejos. Soube-se, então, limitado pela matéria, assim resolveu experimen-
tar a sua força no mundo por meio dos homens, pois estes também são espíritos. Neste caso
temos uma dialética sem diálogo, pois o espírito absoluto não tem interlocutor, afinal é Deus,
que realizou suas experiências no mundo através e por meio dos povos históricos — as figuras
históricas do espírito. À filosofia cabe relatar este movimento, não pode fazer mais do que
isto, só pode interpretar o ocorrido, donde a “coruja de Atenas alçar seu vôo ao entardecer”.
A dialética sem diálogo só é factível em duas situações: ou é um monólogo efetivado por
algum humano, que tenha uma certa percepção privilegiada do mundo; ou é o monólogo de
Deus, como é o caso do sistema filosófico erigido por Hegel. Ao contrário do postulado por
Saviani, a concepção dialógica da dialética não é e nem pode ser idealista, uma vez que requer
o reconhecimento de que o saber, o conhecimento, erige-se das conversações reguladas entre
homens e mulheres em uma situação de igualdade no debate das idéias. Em suma, a posição
defendida por Saviani, a da dialética sem diálogo, ou é idealista ou solipsista.
Os que assumem a posição de Saviani, ficam com o problema da validação do monólogo dito
dialético. Quem detém a autoridade que garanta a validade dos enunciados que resultaram
de tal monólogo? Um humano privilegiado que apreende o mundo em sua inteireza e pode
dizer aos outros como devem agir? O espírito absoluto (Deus), centro do sistema filosófico
de Hegel?
Tudo indica que, em Saviani, a validade do monólogo dito dialético encontra-se no método
que ele denominou histórico-crítico, que, segundo ele, alcançou certa hegemonia por volta
de 1983, quando o filósofo da educação brasileira elaborou suas Onze teses sobre educação e
política (SAVIANI, 1999a). O critério de validade encontra-se, pois, no interior da obra de
Saviani, suas teses são em si e por si, além de serem os marcos históricos de um pensamento
pedagógico que se quer dialético sem diálogo. Nesta dialética sem diálogo os que não parti-
lham de as concepções de seu propositor só podem apresentar alguma “consciência ingênua”,
logo devem ser descartados do debate. A mesma caracterização atribuída aos debatedores que
estiveram envolvidos na elaboração das LDBs, uma vez que eles não procuraram estabelecer
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um significado unívoco para a palavra sistema, os quais são considerados ou pré críticos ou 6
ingênuos, ou seja, não filósofos (cfr., entre outros locais, SAVIANI, 2000a). Como não se
dialoga com desiguais, tem-se que os elaboradores das Leis só podem ser apresentados como
exemplos de falsa consciência, nunca buscando entender as razões que tinham para tomarem
esta ou aquela posição, nas circunstâncias em que estavam debatendo e tomando decisões.
Em suma, a dialética sem diálogo defendida por Saviani torna-o critério de validação dos
discursos dos outros.
Examinemos outra técnica argumentativa, a dissociação de noções, que utiliza, por exemplo,
para separar a consciência ingênua da consciência crítica.

Dissociação de noções

A dissociação de noções exprime uma visão do mundo, estabelece hierarquias, procurando


modificar as realidades que separa. De forma direta ou indireta encontramos em todas
as dissociações o par aparência versus realidade, que constitui o modelo representado sob a
forma termo I versus termo II, no qual o termo II fornece um critério, uma norma, que per-
mite distinguir o que é válido do que não é dentre os aspectos do termo I. Certamente, este
tipo de argumento é uma construção do orador. A dissociação do termo I determina-se por
uma regra que permite hierarquizá-lo em múltiplos aspectos, qualificando-os como ilusórios,
errados, aparentes — no sentido pejorativo da palavra —, pois não estão de acordo com a
regra que fornece o “real” (termo II). Por exemplo, em Platão desvaloriza-se o mundo sensível
para se lhe opor a verdadeira realidade, o mundo das idéias. Na Alegoria da Caverna, no livro
VII da República, Platão afirma que as realidades sensíveis estão para o mundo das idéias
assim como as sombras projetadas pelos objetos estão para os próprios objetos. Portanto, o
mundo das idéias constitui a verdadeira realidade — termo II — em relação às aparências
— termo I, o sensório. Em seu sistema filosófico Platão propaga seus juízos de valor a partir
de pares, mundo material/mundo das idéias; opinião/ciência; conhecimento sensível/conhe-
cimento racional; corpo/alma; devir/imutabilidade; pluralidade/unicidade.
O filósofo da educação brasileira faz o mesmo, opera com os pares antitéticos aparência
versus realidade, sistemático versus assistemático (SAVIANI, 2000b). Do par senso comum/
consciência filosófica, o autor produz outros pares antitéticos: fragmentário/unitário; inco-
erente/coerente; desarticulado/articulado; implícito/explícito; degradado/original; mecâni-
co/intencional; passivo/ativo; simplista/cultivado, nos quais o senso comum é o primeiro
termo. Esta cadeia de dissociações conduz ou é conduzida pela noção de que o senso comum,
próprio da mentalidade popular, expressa a hegemonia de uma consciência filosófica que se
tornou comum. Em suas palavras:
[…] as características da consciência filosófica constituem expressão da hegemonia. Com
efeito, a concepção de mundo hegemônica é exatamente aquela que, mercê de sua expres-
são universalizada e seu alto grau de elaboração, logrou obter o consenso das diferentes
camadas que integram a sociedade, vale dizer, logrou converter-se em senso comum (SA-
VIANI, 2000b, p. 2).
Assim sendo, a elaborada dissociação dissolve-se, uma vez que não há consciência filosófica
em si e por si que sirva de critério para estabelecer o próprio do senso comum. Uma certa
consciência filosófica pode ser o senso comum em um momento histórico e, em outro, estar
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afastada deste. O problema está, então, nos meios ou instrumentos pelos quais é factível rea-
lizar a crítica do senso comum. Saviani julga que tal instrumento é a dialética, mas como sua
dialética baniu o diálogo ela culmina por se afirmar em formas quase-lógicas, que dariam
validade categórica aos seus enunciados. Afinal as dissociações que produziu são demolidas
pelo próprio autor ao estabelecer que o termo II, a consciência filosófica, é circunstancial, não
podendo ser um critério estável, como o é em Platão, por exemplo. Isto mostra que deve haver
algum outro mecanismo cognitivo que dê sentido a mais esta incoerência. Ao que parece, isto
ocorre porque há, nessa filosofia da educação brasileira, o predomínio de uma metáfora, a do
percurso determinado e determinável agenciada pela de corpo social.

Metáfora percurso agenciada pela de corpo social

P ara o autor há um caminho único a ser seguido o que Filosofia da Educação Brasileira in-
dica. A metáfora percurso determinado coordena e condensa a necessidade de um único
tipo de sistema, uma vez que há um próprio instituído pela comparação e semelhança entre
o corpo social e o orgânico, no qual há um equilíbrio estável, uma harmonia (homonóia), a
mesma que deve ser realizada na vida social. O “real” instituído pela metáfora corpo social
como se fosse um organismo, estabelece um percurso único: o do crescimento ou desenvol-
vimento (MAZZOTTI, 2002). Por esta via o orador constitui o par antitético “real” versus
“aparente”que coordena seus discursos, como vimos. Tal modo de conceber as relações sociais
é análoga à filosofia de Platão (CASSIN, 1994, p. 85-107) com todas suas implicações políti-
cas. O caminho determinado e determinável, indicado por Saviani , é o da dialética sem diá-
logo, que se sustenta na mesma metáfora platoniciana de corpo social, na qual a homonóia, o
consenso social, realiza-se por meio de uma unidade supra humana, alcançável pela reflexão
do filósofo. Daí Platão e Saviani convergirem em suas atitudes, ambos instituem a filosofia
como o conhecimento que deve reger todos os demais. Esta confiança em uma consciência
reflexiva, ou filosófica, é atestada pelas atribuições feitas pelo filósofo da educação brasileira
ao orientador educacional e ao diretor de escola. É notável a proximidade do ideal platonicia-
no com o de Saviani, quanto este considera que o orientador deve ser o conscientizador e o
diretor de escola o educador por excelência.
Vejamos a pertinência da aproximação de ambas as filosofias. Na República, Platão propõe
um modelo de cidade-estado (pólis) ideal. A estrutura do Estado e o equilíbrio social são
comparados ao equilíbrio individual. Assim como a sabedoria do indivíduo resulta de um
equilíbrio entre os elementos que o compõem, da mesma maneira o equilíbrio de uma so-
ciedade resulta de uma harmonia hierarquizada dos elementos que a compõem: a economia,
o exército, a direção política. No Estado justo reina uma harmonia, homonóia, que expressa
uma ordem hierárquica segundo a separação entre os filósofos dirigentes, soldados e artesãos.
À frente do Estado devem ser colocados os melhores — o Rei Filósofo –, que constituem a
aristocracia do saber, o que explica a necessidade de serem educados no conhecimento filo-
sófico.
Saviani, por seu lado, entende que a escola é um típico organismo da sociedade civil, pre-
cisando estar em constante busca de equilíbrio. A idéia de sistematização está diretamente
ligada à necessidade do que ele denominou “controle social inovador” (SAVIANI, 2000b,
p. 142). O Estado deve constituir-se em agência com o decisivo papel de realizar o controle
social inovador no aparelho escolar. O corpo social como se fosse um corpo orgânico coor-
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dena seu discurso ao defender a necessidade de um “sistema educacional” —isto desde sua 8
tese de doutorado (SAVIANI, 2000a). Os construtores do sistema educacional devem ter o
perfil análogo ao que assinala tanto para o orientador educacional —o de ser um conscien-
tizador— e o diretor de escola se lhe apresenta como o educador por excelência. Para tanto,
é preciso que possuam uma consciência refletida, resultado da passagem do senso comum à
consciência filosófica (SAVIANI, 2000b).
Tudo indica que o acordo entre o autor e seu auditório se dá pela adesão à metáfora corpo
social, que expressa a noção de estabilidade hierarquizada, donde o caráter totalizante e tota-
litário desse discurso, tal como o de Platão, para apresentar a fonte originária de tal concepção
no Ocidente.

Conclusão

A filosofia defendida por Saviani é uma metafísica, uma filosofia primeira, que deve seu
núcleo argumentativo a alguns aspectos do pensamento de Platão, que se quer impor
como a única, por ser a verdadeira. O auditório também acredita na unicidade defendida por
Saviani. O filósofo da educação brasileira apóia-se, como qualquer um de nós, em técnicas
retóricas e argumentativas, sustentando-se nas crenças do auditório constituído por um seg-
mento do grupo de professores e pesquisadores da educação. É o Professor que dá lições de
filosofia àquele grupo, empregando noções pouco elaboradas das filosofias e pedagogias que
apresenta. Seu lugar social não é o de professor de filosofia, que usa uma filosofia para falar
de educação e afirmar uma doutrina unívoca, um modelo de educação capaz de produzir um
educando sob uma única maneira de ser, aquela defendida por sua antropologia filosófica.
Parece razoável considerar Saviani o orador credenciado (autoridade) de um segmento de
professores e especialistas da educação em um dado momento histórico. Ou, para dizer em
sua linguagem: Saviani é o “intelectual orgânico” de pesquisadores, especialistas da educação
e professores que se valem do marxismo, particularmente do legado de Antonio Gramsci.
A antropologia da Filosofia da Educação Brasileira sustenta-se em uma dialética sem diálo-
go, o que implica considerá-la um monólogo do autor sobre o que ele considera ser o real.
A validade dos enunciados decorrentes deste monólogo, dito dialético, é simplesmente uma
afirmação autoreferente. Tal dialética, que não se quer idealista, não é, por outro lado, ma-
terialista, logo só pode ser solipsista. Para ser idealista precisaria considerar que o autor do
conhecimento ou é o espírito em si e por si, o absoluto (Deus), como encontramos no sistema
filosófico hegeliano; ou, que as Idéias se encontram em algum lugar cabendo ao pensador
apreendê-las, como em Platão. Para ser materialista, deveria forçosamente reconhecer que o
conhecimento é o resultado de um processo dialógico, que envolve vivos e mortos, pelo qual
se busca estabelecer enunciados confiáveis sobre algo, os quais serão sempre provisórios. Não
sendo nem um nem outro, resta o solipsismo, que é próprio das concepções que se querem
válidas por serem a expressão de seus enunciadores.
A Filosofia da Educação Brasileira, estabelecida por Saviani, recorre à dissociação de noções
que, no geral, facilita a adesão do auditório quando expressa as mesmas dicotomias utilizadas
por este. Assim, os pares antitéticos consciência ingênua versus consciência reflexiva, expressa
cristalizações usuais sobre as características do pensamento humano, nas quais aquela disso-
ciação é aceita, sem maiores questionamentos. No entanto, a dissociação entre consciência
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filosófica e senso comum dilui-se na obra do filósofo, pois este considera que o senso comum
de um momento histórico foi a consciência filosófica de outro. Sendo assim, a dissociação,
longamente elaborada, perde seu sentido, uma vez que não há uma consciência reflexiva em
si e por si que sirva de critério para diferenciar uma da outra. O que mostra a falta de rigor
com que opera seus esquemas.
A falta de rigor, de quem pretende que sua concepção seja rigorosa, fica ainda mais exposta
quando verificamos que a sua principal tese é uma falácia. No silogismo fundamental de
sua tese de doutorado, que percorre toda sua obra, por meio do qual procura demonstrar a
inexistência de sistema educacional brasileiro, ele comete uma falácia, pois o modus tollens
requer que quase todas as possibilidades explicativas sejam afastadas, salvo uma, a que per-
mite a conclusão, o que não é o caso no silogismo que ele montou. Como vimos, ele mesmo
indica outras situações que explicariam a ausência de um sistema educacional brasileiro, logo
há, segundo o próprio autor, outras premissas que permitiriam concluir a falta de um sistema
educacional no Brasil.
Procuramos mostrar ser factível examinar uma filosofia sem recorrer a uma outra por cri-
tério, apoiando-nos na análise retórica e na lógica, esta contida naquela. No entanto, esta
maneira de ver pode ser considerada uma filosofia. Por essa via, não há saída, uma vez que
sempre estaremos defendendo alguma filosofia, caindo em uma circularidade infinita, na
qual qualquer argumento sustenta-se em alguma tomada de posição filosófica. Isto, de fato,
é considerar que a filosofia é a matriz e origem de qualquer argumento, o que nos parece
desmedido. Desmedido, porque as técnicas que utilizamos são comuns a qualquer situação
argumentativa, em qualquer deliberação, uma vez que são instrumentos comuns, não se
subordinam a este ou aquele sistema filosófico. A virada retórica, promovida por Perelman e
Toulmin, não propõe um novo sistema filosófico, antes afirma o caráter comum e usual das
formas argumentativas, uma vez que não são propriedades de qualquer filosofia.

Referências
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