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Crítica da razão mal escrita

O Ministério da Cultura deveria também advertir:


Texto mal escrito é prejudicial à saúde!

E, em caso de ingestão acidental de alguma baboseira impressa, consulte,


imediatamente, a razão mais próxima de você.

Por Sirley Cardoso*

No tempo de Aristóteles - 384 a.C – o que prevalecia era a oralidade.


Destacavam-se aqueles homens que possuíam grande talento para a retórica
(discurso). O discurso tinha que ser bem elaborado, com idéias perfeitamente
ordenadas, dentro de um raciocínio lógico. Não bastava “falar bonito” – aliás,
isso era condenado à sua época – esses eram os chamados sofistas que
dominavam a arte de “enrolar” seu interlocutor, ou o público. As obras
doutrinais de Aristóteles manifestam um grande rigor científico; exposição
breve e expressão clara e ordenada. A grande e única preocupação do
orador era a de ser entendido, principalmente compreendido pelo seu
público. Poderia até ser contestado, mas ele, o orador, deveria estar
fortemente preparado em idéias consistentes, para um possível debate.
Segundo Aristóteles, os elementos primeiros do conhecimento, da ciência –
conceitos e juízos – têm que ser num caso e noutro, tirados da experiência.
Isso significa mais ou menos que não se pode discorrer sobre um assunto
que não se conhece. Assim, é preciso ter certeza dos fatos para poder sair
contando por aí. Mas só isso também não basta.
É necessário, acima de tudo, saber repassar a informação, de forma
clara e concisa, respeitando as regras gramaticais mais elementares do
idioma no qual se escreve. Isso também significa tomar muito cuidado com o
uso de expressões e gírias locais, de palavras fora de contexto. Assim,
igualmente ao tempo dos filósofos gregos, quando não bastava “falar bonito”
– o discurso tinha que ter consistência - não tente “escrever bonito” que vai
acabar ficando feio. Mais do que fazer feio, isso fará mal aos concidadãos da
sociedade para quem se escreve. Nietzsche com isso afirmava, no seu
tempo (1888) que na Alemanha “escrevia-se muito mal” e, talvez, por causa
de certa ignorância do povo germânico também não se contestava, e tudo
ficava por isso mesmo. Isso, trazidos para os nossos dias é mais ou menos a
mesma coisa. Por isso, a responsabilidade de quem escreve torna-se cada
vez maior.
Quando analisamos que aquilo que for escrito e publicado é o que vai
ficar para o aprendizado de gerações futuras, que isso vai virar aprendizado,
ensinamento, verdade, mentira, ou coisa parecida, certamente, aqueles
escritores mais sérios devem sentir um frio na barriga e se preparar melhor
antes de sair escrevendo qualquer coisa, dando sentenças, fazendo juízos de
valor. Pior ainda se tudo isso for mal escrito, de forma confusa e obscura.
Então não é porque seu pai é o dono do jornal ou que o dono do jornal seja
seu amigo que você poderá achar-se no direito de escrever o que você
quiser, da maneira que quiser e pior, sem o pleno domínio da boa escrita. Em
linhas gerais, quando Nietzsche fala que “na Alemanha se trata o escrever
mal como uma prerrogativa nacional”, ele está sendo irônico com muita gente
de seu tempo, com muitos escritores “festejados” pela sociedade burguesa
alemã, segundo ele eram pessoas medíocres que escreviam um monte de
baboseiras, de pouca compreensão. Esses “falsos escrevedores”, de acordo
com o pensamento nietzscheniano se sentiam bem à vontade para escrever
o que queriam porque sabiam que para escrever para aquele povo
acostumado à “desinformação” e também um tanto preguiçoso para pensar,
não demandava muito talento. Para escrever para esse público
contemporâneo de Nietzsche, o escritor não precisava imprimir em seu texto,
nem beleza na linguagem, nem profundidade no assunto. Escrever melhor é
segundo Nietzsche, “pensar melhor, descobrir sempre algo mais digno de ser
comunicado e poder, efetivamente, comunicá-lo; é tornar-se traduzível”.
Quem, no nosso tempo, escreve pensando com essa cabeça? Quem de nós
jornalistas, principalmente quem trabalha com a escrita no dia-a-dia, fica
pensando como ficaria seu texto se traduzido para o idioma tal? Que
esperança minha! Já me contentaria se quem está escrevendo, no dia-a-dia:
jornalistas, publicitários, professores universitários, entre outros atrevidos
neste universo, se preocupasse em ser “compreendido”. Quantas vezes, no
meu trabalho, já vimos colegas se perguntando ou perguntando entre si: “o
que é que você quis dizer com isso aqui que você escreveu neste
parágrafo?”
Sempre que isso acontece me vem uma pergunta que não quer calar:
já pensou se o jornalista que escreve para o jornal - seja ele do bairro
pertinho da casa do leitor, seja naqueles jornalões nacionais e ou mundiais,
como por exemplo, Folha de São Paulo, The New York Times – jornais com
tiragens de mais de um milhão de exemplares -; já pensou se o jornalista-
escritor tiver que explicar aquela frase ou aquele parágrafo para o leitor - um
a um? Prefiro pensar que este tipo de “escritor” não está nos jornais, pelo
menos não nos grandes jornais. Aí, perdão do trocadilho, quem não está no
maior é menor. Quem escreve mal lê mal. Logo, por analogia, se estão
escrevendo mal, estamos lendo mal, conseqüentemente também deveremos
escrever mal. E o “escrever mal” já é atávico – virou herança maldita. Por
isso, o pensador alemão do final do século dezenove, concluiu no seu artigo
“Aprender a escrever bem” – que são os maus escritores os grandes
responsáveis pela restrição do pensamento europeu que o levava a um
“nacionalismo fechado”, segundo ele, a grande doença de seu século, inimigo
dos homens de espíritos livres.

Assim escreveu Nietzsche - O tempo do bem passou, porque o


tempo das civilizações citadinas passou. O último limite que Aristóteles
permitia à grande cidade - era preciso que o arauto ainda estivesse em
condições de se fazer ouvir por toda a comunidade reunida -, esse limite nos
limites nos aflige tão pouco quanto em geral nos afligem ainda comunidades
citadinas, a nós que queremos, nós mesmos, ser entendidos para além dos
povos.
Por isso, agora, todo aquele que tem a mentalidade do bom europeu
tem de aprender a escrever bem e cada vez melhor; não há escapatória, nem
mesmo se ele próprio nasceu na Alemanha, onde se trata o escrever mal
como uma prerrogativa nacional.
Escrever melhor, porém, significa também, ao mesmo tempo, pensar
melhor; descobrir sempre algo mais digno de ser comunicado e poder
efetivamente comunicá-lo; tornar-se traduzível para as línguas dos vizinhos;
fazer-se acessível ao entendimento daqueles estrangeiros que aprenderam
nossa língua; agir para que tudo o que é bom se torne um bem comum e que
os homens livres tenham toda a liberdade; enfim, preparar aquele estado de
coisas tão distante, em que os bons europeus tomarão em mãos sua grande
tarefa: a orientação e supervisão de toda a civilização terrestre. Quem prega
o contrário, quem não se afligir com o bem escrever e o bem ler - essas duas
virtudes crescem juntas e diminuem juntas, na realidade mostram aos povos
um caminho para que possam tornar-se cada vez mais nacionais - aumenta a
doença deste século e é um inimigo dos bons europeus, um inimigo dos
espíritos livres.
*Sirley Cardoso é jornalista e acadêmica de Direito