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MEDIAÇÕES DAS ATUAIS DEMANDAS

POSTAS AO ASSISTENTE SOCIAL


Mediações das atuais demandas postas ao assistente social

MEDIAÇÕES DAS ATUAIS DEMANDAS POSTAS AO ASSISTENTE SOCIAL

Luciana Batista de Oliveira Cantalice*


Edna Tania Ferreira da Silva**

RESUMO O presente artigo objetiva discutir as mediações das atuais *LUCIANA BATISTA DE OLIVEIRA CANTALICE
demandas postas ao assistente social, a partir do recorte é Mestre em Serviço Social pela
Universidade Federal da Paraíba,
das transformações societárias, enfocando, sobretudo, as professora do Departamento de Serviço
metamorfoses do mundo do trabalho e as novas expressões Social da Universidade Federal da Paraíba
da questão social, uma vez que se firmam a partir dessas e pesquisadora do Setor de Estudos em
transformações de situações de transição e de crise nas Análise de Conjuntura e Políticas Sociais
(SEPACOPS/PPGSS/UFPB. E-mail.:
formas de identidade, de integração e de conflito em lucantalice@bol.com.br.
sociedade, estabelecendo novas configurações no âmbito
da questão social e no curso desta, um processo que se **EDNA TANIA FERREIRA DA SILVA é Mestre
em Serviço Social pela Universidade
assevera devido ao esfacelamento da esfera pública e Federal da Paraíba, professora do
democrática do Estado. Desta feita, colocando para o Departamento de Serviço Social da
assistente social emergentes demandas, expressadas nas Universidade Federal da Paraíba e
diversas formas de precarização das condições de vida e de pesquisadora do Setor de Estudos em
Análise de Conjuntura e Políticas Sociais
trabalho da população. (SEPACOPS/PPGSS/UFPB.

Palavras-chave: Atualidade. Demandas. Serviço Social.

E
sta é uma discussão cujo foco parte da série capital, - vale ressaltar o caráter de
de transformações societárias que se indissociabilidade das crises – identificando
consolidam na atualidade, articulando-as suas inflexões para o assistente social e as
às novas determinações que estão sendo postas problematizações inferidas às demandas dessa
ao Serviço Social. Essas novas configurações categoria profissional, buscando decifrá-las.
requisitam do assistente social a formulação de Optamos por discutir a categoria trabalho,
novas competências e de respostas às novas considerando que ele se constitui enquanto um
necessidades sociais. São tempos marcados por pressuposto da existência humana, por meio
uma crise societária, considerando que o atual do qual o homem faz a história, sendo uma
contexto sócio-histórico é permeado pelas atividade que se inscreve na esfera da produção
crises ideológicas, de valores, do capital, do e reprodução da vida material e social. Contudo,
trabalho, das utopias, dos paradigmas etc., as na atualidade, afirmar a centralidade do
quais, segundo Bobbio (1996), definem-se trabalho pode parecer um contra-senso, vez que
como um momento de mudanças dentro do vivenciamos, por várias vias, o descentramento
funcionamento de um sistema, em sentido e a desconstrução da categoria do trabalho,
positivo ou negativo, uma virada, por vezes, não mediante as metamorfoses instaladas nas suas
prevista e que desenvolve interações dentro formas de produção e organização. Tal
do referido sistema. centralidade se reafirma no fato de que o
Nessa perspectiva, abre-se um leque com trabalho “(...) se constitui, na sua essência, em
múltiplos caminhos de análise para a uma inter-relação ineliminável entre o homem
abordagem das transformações societárias da e a natureza” (LUKÄCS apud LESSA, 1997, p.09).
atualidade, bem como suas mediações com o “(...) o trabalho, na sua forma mais
Serviço Social. Entretanto, a presente proposta genérica, é uma necessidade natural e eterna
delimita-se em torno da crise do trabalho e do de efetivar o intercâmbio entre o homem e a

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natureza e, por isso, uma esfera ineliminável deixar de ser um processo civilizatório de
do ser social” (MARX,1998, p. 218). É através do alcance mundial, envolvendo nações, regimes
trabalho que o homem transforma a natureza, políticos, projetos nacionais, classes e grupos
ao mesmo tempo em que transforma a si sociais, economias e sociedades, culturas e
mesmo, em busca da satisfação das suas civilizações, transpondo as fronteiras
necessidades. geográficas, históricas e político-culturais e
E o que nos parece intrínseco, na verdade, multiplicando as suas formas de articulação e
é adverso: a centralidade ontológica do trabalho contradição.
e a diminuição da sua presença enquanto Assim, processa-se uma totalidade
dimensão da vida cotidiana são duas questões abrangente, complexa e contraditória,
distintas. A centralidade, para o ser social, não circunscrevendo uma nova escala de valores,
decorre prescritivamente da centralidade ou mesmo, novas formulações às cartografias
política dos trabalhadores nem da centralidade geopolíticas, blocos e alianças, polarizações
cotidiana do trabalho. O papel e a condição ideológicas e interpretações científicas. Mas
política dos trabalhadores estão intimamente esse processo, conforme Ianni (1999), tem-se
relacionados à concreta relação social de uma realizado de forma violenta, no qual se
classe e à totalidade social que implicam o globalizam as coisas, as idéias, as pessoas, num
desdobramento de várias mediações sociais ciclo histórico de continuidades, recorrências,
necessárias à categoria trabalho, porém que tensões e rupturas, versando, dessa forma, a
não podem ser contidas e resumidas ao trabalho universalização do capitalismo, corporificado
enquanto tal. em um novo impulso, de forma extensiva e
A compreensão do caráter fundante do intensiva, através de novas tecnologias, da
trabalho para o ser social, isto é, o ser puro, criação de novos produtos, recriação do mundo
imediato e indeterminado, passa a assumir a do trabalho e mundialização dos mercados.
posição do ser que se apresenta a partir da Nessa divisão transnacional do trabalho,
materialização do trabalho, porquanto é a forja-se uma nova configuração que é
categoria de trabalho que potencializa a perpassada por uma redistribuição de
transformação do ser meramente biológico e empresas, de corporações e conglomerados por
indeterminado para o ser efetivamente social. todo o mundo. Estabelece-se uma nova diretriz
Estabelecida uma mediação que articula a de organização, ao invés de áreas de
especificidade do ser no mundo dos homens concentração da indústria, centros financeiros,
com a totalidade existente, elucidam-se a organizações de comércio e mídia nos países
gênese e o desenvolvimento do ser - o ente - dominantes, firmando-se uma redistribuição
social. em vários países e continentes. “Forma-se toda
Em face de o trabalho proporcionar a uma cadeia mundial de cidades globais, que
sociabilidade, as transformações societárias em passam a exercer papéis cruciais na
desenvolvimento na contemporaneidade generalização das forças produtivas e relações
apontam, conseqüentemente, para a emersão de produção em moldes capitalistas, bem como
de metamorfoses no mundo do trabalho, que na polarização de estruturas globais de poder”
põem em “xeque” as condições de sua (IANNI, 1999, p.13-14).
realização, organização e reprodução. Ocorre uma reestruturação das empresas,
Vivenciamos, nas últimas décadas do que apontam para produtividade, agilidade,
século XX e se estendendo até os dias atuais, capacidade de inovação e competitividade. Na
de forma contundente e contínua, o processo realidade, tal reestruturação assinala novas
de globalização e criação da sociedade global formas de organização social e técnica do
que, em si, formam uma unidade em trabalho.
movimento, expressando um novo ciclo de Uma questão a ser considerada na relação
expansão do capitalismo, que não poderia entre capitalismo e trabalho é que, nas mais

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diversas formas sociais e técnicas de fragmentado, com o parcelamento das tarefas,


organização, o processo de trabalho e o de reduzindo as ações dos trabalhadores a um
produção são submetidos aos movimentos do conjunto repetitivo de atividades, cujo
capital. Considerado esse preceito, concebe-se somatório resultava no trabalho coletivo e no
que o processo de globalização passa a trazer produto final. Nesse patamar, dava-se a
consigo a globalização do mundo do trabalho. extração do sobretrabalho e da mais-valia de
Remetendo à crise do trabalho, a qual se traça, forma extensiva, por meio do prolongamento
enquanto quadro de análise, temos a sua da jornada de trabalho.
delimitação na expressão da crise do padrão de Firmava-se, então, uma linha rígida de
produção fordista/taylorista, que assinalou produção, que articulava diferentes trabalhos,
uma “crise” estrutural do capital, fazendo com estabelecendo ligações entre as ações
que deste último derive um processo de individuais, ditando o ritmo e o tempo
reestruturação produtiva. Esse processo dá necessários à realização das tarefas. A partir
início a um novo ciclo do capital, em virtude do dessa configuração, subscrevia-se enquanto
restabelecimento de uma política de modo de produção em série, associado ao uso
dominação societária, abalada também pelas do cronômetro taylorista e que carregava em si
contradições da relação capital/trabalho, que a separação entre elaboração e execução,
provocaram o questionamento das bases de suprimindo a dimensão intelectual do trabalho
sociabilidade do capital e suas formas de operário e aferindo-a às esferas da gerência,
controle social. competindo ao trabalhador a ação mecânica e
Nesse sentido, o novo ciclo do capital é repetitiva.
perpassado pelas transformações no processo Assim, o taylorismo/fordismo repre-
produtivo, fundamentadas nas formas de sentou a forma mais potencializada da
acumulação flexível1, de gestão organizacional racionalização capitalista do processo de
e da revolução técnico-científica, esta última trabalho, firmado por várias décadas do século
também denominada de “Terceira Revolução XX, demonstrando sinais de esgotamento
Industrial”. somente a partir da década de 1970, mediante
Em princípio, o fordismo/taylorismo se comprometimento de sua estrutura. Esse
configurou como expressão dominante do comprometimento era desencadeado pela
sistema produtivo e de seu respectivo processo própria dinâmica social do capital que, embora
de trabalho, na fase da grande indústria, parecesse efetiva, definitivamente controlada,
fundamentando-se na produção em massa de regulada e sustentada pelo compromisso entre
mercadorias, fulcrada em uma produção o capital e o trabalho e pela mediação do Estado,
homogeneizada e fortemente verticalizada. torna-se, mais tarde, questionada a partir do
Era necessário racionalizar ao máximo o ciclo de expansão dos ideais coletivos e
trabalho, exaurindo qualquer forma de democráticos, como o direito ao trabalho, à
desperdício, reduzindo o tempo e aumentando- moradia, à saúde, à educação, à formação
lhe o ritmo, em uma prática de intensificação profissional, ao lazer, etc.
das formas de exploração dos trabalhadores. A Nesse sentido, o capital, por um lado,
produção estruturava-se a partir do trabalho buscou reorganizar o seu processo produtivo e,
por outro, procurou concretizar um plano de
reposição da hegemonia nos mais diversos
1
âmbitos da sociabilidade, tentando reafirmar
Entenda-se por flexibilização o processo que insere novas
tecnologias de criação, recriação, organização e suas formas de dominação social. Para tanto,
redistribuição de produtos e divisas, na perspectiva da elaborou uma plataforma ideológica, tendo
internacionalização da economia e da mundialização dos como via o subjetivismo e uma idéia de
mercados, balizado pela instituição de um novo padrão de
racionalidade do processo de reprodução ampliada do fragmentação que assinala, sobremaneira, a
capital. perspectiva do individualismo, contestando as

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formas de solidariedade e de atuação coletiva Passa-se a gerir uma acentuada e


e social. generalizada potencialização da capacidade
Foram tão intensas as modificações que produtiva da força de trabalho, tendo como
se pode mesmo afirmar que a classe-que-vive- palco uma revolução microeletrônica - com a
do-trabalho sofreu a mais aguda crise deste automação, a robótica etc. - a expansão do setor
século, atingindo não só a sua materialidade, de serviços e em pauta expressões particulares
mas repercutindo profundamente na sua desta nova ótica, como a qualidade total e a
subjetividade e no íntimo inter-relacionamento gestão participativa.
desses níveis (ANTUNES,1997, p.15). Já no que se refere, especificamente, à
Portanto, essas metamorfoses signi- força humana de trabalho nessa aferição
ficariam: produtiva, desenvolve-se uma estrutura flexível
[...] a instauração de uma nova forma em que se recorre à desconcentração produtiva
de organização industrial e de e às empresas terceirizadas, utilizando-se de
relacionamento entre o capital e o
trabalho [...] que possibilitaram o [...] novas técnicas de gestão da força
advento de um trabalhador mais de trabalho, do trabalho em equipe,
qualificado, participativo, multi- das ‘células de produção’, dos ‘times
funcional, polivalente, dotado de de trabalho’, dos grupos ‘semi-
‘maior realização no espaço de autônomos’, além de requerer, ao
trabalho’ [...] da especialização flexível menos no plano discursivo, o
[...] as chamadas ‘características novas’ ‘envolvimento participativo’ dos
da ‘nova fase’, mais apropriada a uma trabalhadores, em verdade, uma
interação entre o capital e o trabalho participação manipuladora e que
e, nesse sentido, superadora das preserva, na essência, as condições do
contradições básicas constitutivas da trabalho alienado e estranhado
sociedade capitalista. (ANTUNES, 2000, (HARVEY apud ANTUNES, 2000, p. 50).
p. 48)
P rocede-se a uma reorganização do
Na realidade, conformam-se outras trabalho, em que se efetiva a intensificação das
tendências: condições de exploração da força de trabalho, a
a) No que diz respeito à introdução da eliminação do trabalho improdutivo e suas
tecnologia computadorizada, esta não tem contrações - como as atividades de manutenção
significado a emergência do trabalho e inspeção - incorporando essas funções ao
qualificado, e sim, tem demonstrado a trabalhador produtivo.
consolidação da produção em larga escala e das Tem-se, dessa forma, o trabalho
diretrizes de acumulação intensiva; b) as polivalente e/ou multifuncional, que é
mudanças no processo capitalista de trabalho transvestido enquanto “multi-especializado e
não são tão profundas, exprimem uma contínua qualificado”. Essas nuanças são despojadas
transformação dentro do mesmo processo de como manifestação de cunho ideológico que,
trabalho, perpassando sobretudo as formas de na verdade, servem para despertar certa
gestão e o fluxo de controle, mas que levam confiabilidade dos trabalhadores para o
impreterivelmente à intensificação do trabalho, chamamento de um processo produtivo
“[...] retendo o caráter essencialmente “participativo”, fundamentado na captura da
capitalista do modo de produção vigente e de subjetividade desses trabalhadores em
seus pilares fundamentais.” (Ib., p.49); c) temos benefício do capital. Toda essa plataforma
na nova “[...] divisão de mercados o articulada a uma estrutura mais horizontalizada
desemprego, a divisão global do trabalho, o e integrada entre várias empresas.
capital volátil, o fechamento de unidades, a Este novo modelo de produção e esta nova
reorganização financeira e tecnológica” organização do trabalho têm trazido resultados
(HARVEY apud ANTUNES, 2000, p.50), d) além diretos e imediatos ao mundo do trabalho,
da eliminação, transferência, terceirização e o indicados na desregulamentação dos direitos
enxugamento das unidades produtivas. trabalhistas, em escala global; na fragmentação

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e heterogeneização dos trabalhadores; na sinônimo de um desenvolvimento capitalista


precarização, terceirização e temporalização atrasado, e sim, como um capitalismo
dos contratos e postos de trabalho; e no refluxo “avançado”, atual e que se centra na lei do
do movimento sindical. desenvolvimento desigual e combinado, sob as
Nesse contexto, a reestruturação produ- dimensões de economias de centro e de
tiva inscreve-se como ponto predominante de periferia, considerando a totalidade e as
um poder ideológico, considerando a posição vicissitudes das relações no circuito do mercado
de objetivação universal da categoria mundial capitalista.
flexibilidade para o capital em processo, tendo Aqui o desenvolvimento desigual e
em vista as próprias exigências do capitalismo combinado diz respeito não somente às
mundial, as novas condições de concorrência e questões relacionadas às políticas
de valorização do capital. Tais preceitos são internacionais entre as nações imperialistas,
identificados enquanto condições sócio- periféricas e semiperiféricas, mas à estrutura
históricas de gênese de uma nova subordinação interna do capital que, devido à busca
formal-intelectual do trabalho ao capital. incessante do lucro, coloca o capital em
Trata-se, então, da evidência de um concorrência com o próprio capital. No limiar
estágio superior de racionalização do trabalho, dessa concorrência, a formação da economia
que não rompe com a perspectiva fordista, no capitalista brasileira expressa fielmente o
que tange à reprodução do capital. Não
movimento desigual da própria acumulação de
queremos conceber, diante disso, que a
capital, numa justaposição do desenvolvimento
flexibilização trata de uma continuidade do
e do subdesenvolvimento.
fordismo, mas que ambos não caminham para
Reverberada por esse processo de
lados opostos quando falamos da subsunção
dependência econômica, política e de gestão
real do trabalho ao capital.
do capitalismo desigual e combinado, há a
No que se refere à ocidentalização do
modelo de produção flexível, asseguram-se as incorporação dos primeiros impulsos da
questões singulares de cada sociedade, tanto reestruturação produtiva no Brasil, a partir da
em suas condições econômicas, sociais, políticas crise da dívida externa, em meados de 1981,
e ideológicas quanto de inserção desses países quando, neste país, a debilidade econômica
na divisão internacional do trabalho, o fluxo de fundia às condições de reprodução do
seus movimentos sindicais, as condições do capitalismo industrial.
mercado de trabalho, entre outras questões Nesse contexto, evidenciam-se situações
inerentes ao processo de incorporação das de transição e de crise nas formas de identidade,
diretrizes do toyotismo oriental. de integração e conflito em sociedade,
Por outro lado, identificamos a vigência estabelecendo novas configurações em nível
do Neoliberalismo - entendido como a via real e simbólico no âmbito da questão social e
política nessa reengenharia produtiva, posto do curso que esta pode seguir.
que ventilou as condições favoráveis à No momento em que se gestam novos
incorporação diferenciada dos elementos do moldes no mundo do trabalho, através dos
toyotismo no ocidente, “[...] sendo o processo quais se transgridem as bases de uma
de reestruturação produtiva do capital a base sociedade salarial, põem-se em xeque os modos
material do projeto ideopolítico neoliberal, a de socialização e as formas de integração social,
estrutura sob a qual se erige o ideário e a cuja base está no trabalho e no pacto social que
programática neoliberal.” (Ib. 58) se afirmavam mediante este, assim revertendo
No Brasil, essa incorporação é perpassada um estatuto de proteção e inserção contido no
pelos reflexos históricos do processo de trato à questão social.
desenvolvimento do capitalismo neste país, Vivenciamos uma sociedade, capitalista
tipificado nos moldes do capitalismo tardio, até então, cuja massa de trabalhadores ocupava
concebido por Mandel (1995) não como a condição de assalariada e era essa condição

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que a vinculava à maior parte das proteções E, nessas situações descritas, encon-
contra os riscos sociais, porque a condição tramos o trabalho como um elo que pode
salarial era, na modernidade, a matriz-base representar um suporte de inserção na estrutura
dessas sociedades. Na contemporaneidade, social, através de uma relação sólida e estável
cria-se o abismo quando se firma o declínio - de forma a representar uma área de integração
para não dizer o aniquilamento - da condição ou através de uma relação aleatória - fator
salarial para uma enorme parcela dos determinante para uma “possível” recolocação
trabalhadores, em escala mundial. na dinâmica social. Todavia a não participação
em uma atividade produtiva e/ou a ausência
[ ...] o desemprego em massa e a
instabilidade das situações de de relação com o trabalho traz para o indivíduo
trabalho, a inadequação dos sistemas a exclusão2.
clássicos de proteção para dar Ainda nesse contexto, há uma zona que
cobertura a essas condições, a
multiplicação de indivíduos que
se configura enquanto intermediária, que é
ocupam na sociedade uma posição de perpassada pela vulnerabilidade social disposta
supranumerários, “ inempregáveis”, no trabalho precário e na fragilidade dos
inempregados ou empregados de um mecanismos de proteção, delimitando a parcela
modo precário, intermitente. (CASTEL,
1998, p. 21).
de incluídos precariamente. Mas quando há uma
crise, como a que se firma na contem-
Contudo, não podemos falar do fim da poraneidade, essa zona intermediária se dilata,
condição de assalariamento, haja vista que, alavancando processos de exclusão e/ou
atualmente, expande-se o setor de prestação desfiliação.
de serviços, cuja remuneração desse tipo de Diante do exposto, a questão social
trabalho recorre à figura do salário. Mas o que persiste incisivamente, todavia metamor-
se verifica é a ruptura com o estatuto de foseando-se na aproximação dos atores
proteção contra os riscos sociais, visto que este intitulados de “ inúteis para o mundo”,
passa a não mais existir no novo e precário reconhecidos nos vagabundos da revolução
mundo do trabalho, sendo estabelecidas formas industrial, como também nos inúmeros
precarizadas e fragmentadas de inserção social. “ inempregáveis” do mundo do trabalho da
Diante da nova ofensiva do capital, ganha atualidade, particularizando, é claro, os
centralidade a problemática da integração e/ processos que geravam tais situações e as
ou coesão social, num cenário em que se prima diferentes dinâmicas no que concerne à forma
pelas determinações da dissociação social de suas manifestações, mas podendo ser
através dos ditames da vulnerabilidade, da comparados.
invalidação e da exclusão em massa, ou como
Essa problematização se fundamenta em
concebe Castel, do processo de “desfiliação”,
um divórcio entre o reconhecimento dos
no qual o indivíduo é colocado em situação de
direitos dos cidadãos - com o respaldo da ordem
flutuação na estrutura social, passando a vagar
jurídico-política - e uma ordem econômica que
à margem da sociedade sem encontrar um lugar
assinala e sustenta a pauperização e a
designado.
desmoralização da massa de trabalhadores.
Silhuetas incertas, à margem do Sobrepõe-se um enigma social entre a coesão
trabalho e nas fronteiras das formas e a fratura da sociedade, que coloca em questão
de troca socialmente consagradas -
desempregados por período longo,
moradores dos subúrbios pobres, 2
A exclusão, para Martins (1997, p.19), consiste em um
beneficiários da renda mínima de
processo crescente de acumulação da pobreza, e esta, em
inserção, vítimas das readaptações
níveis absolutos, passando a incorporar um caráter de
industriais, jovens à procura de
irreversibilidade, em que o excluído não vê nenhuma
emprego e que passam de estágio a
possibilidade de ascensão social nem dispõe dela “[...] Ela
estágio, de pequeno trabalho à
cai sobre o destino dos pobres como uma condenação
ocupação provisória [...] (Ib. 23) irremediável.”

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a capacidade de uma sociedade - em termos Já os atuais supranumerários são os


políticos - existir como um conjunto ligado por supérfluos, nem sequer fazem parte de uma
relações de interdependência. Do contrário, parcela de explorados. São lançados para fora
estamos falando de um colapso da sociedade, do setor de vida social, são conferidos como sem
causado pelas tensões sociais inerentes a um valor social, não representando uma força de
processo de reestruturação produtiva que pressão e/ou um potencial de luta por uma vida
prima pela desordem do mundo do trabalho e melhor. E, assim, inaugura-se, dentro do leque
pela vulnerabilidade e/ou pulverização dos de problemáticas sociais, que já não podemos
trabalhadores. constituir uma unidade diante da amplitude de
Assim, a questão social aqui se põe em multiplicidade de expressões da questão social,
uma “[...] aporia fundamental sobre a qual uma um enigma na sociedade: Não são mais atores
sociedade experimenta o enigma de sua coesão sociais, posto que não detêm valor social, não
e tenta conjurar o risco de sua fratura.” (Ib. 30) produzem nada de socialmente necessário.
Na sociedade industrial, entrou em cena
Sendo assim, como podem existir socialmente?
o “social”, que se inscreveu no hiato entre a
Mas, como não existem? Eles estão presentes
organização política e o sistema econômico,
nas ruas, nas esquinas, embaixo dos viadutos e
como uma articulação que se desdobrava nesse
espaço e que não obedecia estritamente nem à são famílias inteiras!
lógica econômica nem à maestria política. Na Assim, evidencia-se uma nova
verdade, configurava-se como um complexo de problemática, mas não outra questão social “[...]
sistemas de regulações não mercantis que a volta histórica [...] cristaliza na estrutura social
preenchiam uma lacuna na sociedade, que [...] os vagabundos antes da revolução industrial
procedia com um conjunto de dispositivos [...] os “miseráveis” do século XIX [...] os
montados para “proteção” e “integração” social. excluídos de hoje - inscreve-se numa dinâmica
Naquele momento, o Estado assumiu um papel social global.” (Ib. 33). Contudo, coloca-se em
fundamental no espaço social, materializado questão, segundo Castel: Qual é o limite de
em intervenções públicas que se centravam na tolerância de uma sociedade democrática para
gestão e manutenção da organização do o processo de invalidação social? O que fazer
trabalho e como regulador das relações de para reintegrar socialmente esses
trabalho. Tudo isso aconteceu mediante um supranumerários e cessar com esse processo de
árido reconhecimento de uma questão social exclusão que, de tão crescente, ameaça
que se apresentava e que prescindia de desfazer o corpo social? E o Estado Social, que
estatutos sociais delimitados, dada a representava o ponto de interseção do mercado
coexistência de pressões e tensões exercidas e do trabalho regulando o crescimento
por aqueles que se perfilavam em um espaço econômico e estruturando a condição salarial?
de organização do trabalho e de definição de
À medida que a economia se reautonomiza e a
uma nova base social.
condição salarial se desagrega, esse Estado
Esses novos supranumerários são, no
passa a perder o seu poder de integrador e,
entanto, lançados a uma sorte bem pior dos
desprotegidos dos tempos da emersão da posteriormente, o seu caráter social.
questão social, os quais ainda faziam parte, Com a proposta de modernização do
mesmo que em último lugar, de uma sociedade Estado, cuja diretriz tem por base os ditames
de classes interdependentes, vinculando-se ao do neoliberalismo, fundamenta-se um caminho
conjunto de trocas sociais e buscavam, por um que, necessariamente, não é dos compromissos
lado, pelo viés reformista, a redução das sociais, tendo em vista que o mote central são
desigualdades sociais e uma política de o crescimento econômico e a reprodução do
oportunidades de inserção social, e, por outro capital. Desse modo, podemos conferir como
lado, sob a ótica revolucionária, lutavam por sendo o núcleo atual da questão social a
uma transformação da estrutura social. (re)emersão de “inúteis para o mundo”, apre-

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sentados agora como “[...] supranumerários e, arcabouço teórico-metodológico reflete o


em torno deles, uma nebulosa de situações impacto das transformações societárias.”
marcadas pela instabilidade e pela incerteza do Decerto, é preciso ler e decifrar as mudanças
amanhã que atestam o crescimento de uma conjunturais que vêm afetando o mundo da
vulnerabilidade de massa” (Ib. 593). produção, a intervenção do Estado e o campo
Essa vulnerabilidade se apresenta face a das políticas públicas.
face com um estado de pós-proteções. Aqui, Nesta análise, convém evidenciar que,
estamos nos reportando ao desmantelamento como afirma Iamamoto (2000), não se pode
de uma rede de proteções sociais e considerar o cenário que se configura na
regulamentações entre o capital e o trabalho, contemporaneidade apenas como pano de
um exacerbado retrocesso social. fundo da intervenção do assistente social, vez
A nova perspectiva que se engendra é a que o atual quadro sócio-histórico permeia e
de que cada vez mais se instaura uma sociedade conforma o cotidiano do nosso exercício
de indivíduos que já não mais constituem uma profissional.
identidade social, dando uma nova face ao [...] é necessário romper com uma visão
processo de individualização, classificado por endógena, focalista, uma visão “de
dentro” do Serviço Social, prisioneira
Castel como sendo um “[...] individualismo em seus muros internos. Alargar os
negativo [...] <obtido> por subtração em relação horizontes, olhar para mais longe, para
ao encastramento em coletivos” (Ib. 596), o movimento das classes sociais e do
Estado em suas relações com a
apontando para um “individualismo coletivo” - sociedade [...] [sob esse prisma] um
em uma forma anômica - que difere da forma dos maiores desafios que o Assistente
de individualização que reúne a valorização do Social vive no presente é desenvolver
sua capacidade de decifrar a realidade
indivíduo e sua independência total quanto a e construir propostas de trabalho
pertencimentos coletivos. criativas e capazes de preservar e
Essa fragmentação de organizações e/ou efetivar direitos, a partir das demandas
emergentes no cotidiano. (IAMAMOTO,
enquadramentos coletivos, que indicavam a
2000, p. 20)
construção e manutenção de uma identidade
social, passa a extrapolar o veio do trabalho, Nesse sentido, remetemo-nos à possível
suas relações e interconexões, afetando, direção apontada por Mota (1998): a articulação
também, a vida extratrabalho, flexibilizando a orgânica entre as dinâmicas da economia e da
própria vida social. E essa é a primeira premissa política, para que possamos ler e decifrar
a ser considerada na relação entre a criticamente o discurso político dominante
reestruturação produtiva e o Serviço Social, que expresso no processo de reestruturação
é a vertente de construção e/ou de produtiva. Tendo por base essas delimitações,
reconstrução de um “novo” equilíbrio do capital Mota (1998, p. 24) visualiza a hipótese de que
que, sobretudo, não se reflete apenas na esfera
[...] a atual recomposição do ciclo de
da produção, mas atinge amplamente o reprodução do capital, ao determinar
patamar das relações sociais. Isso acontece um conjunto de mudanças na
porque a reorganização proposta cria e recria organização da produção material e
nas modalidades de gestão e consumo
mecanismos sócio-políticos, culturais e da força de trabalho, provoca impactos
institucionais necessários à reestruturação do nas práticas sociais que intervêm no
ciclo do capital e à manutenção do processo de processo de reprodução material e
espiritual da força de trabalho, onde
reprodução social, ainda que em outros moldes. se inclui a experiência profissional
Assinalamos, nessa perspectiva, um dos Assistentes Sociais.
desafio teórico-analítico, como afirma Netto
(1996), “(...) que significa explicar e compre- A partir dessa idéia, são apontados novos
ender como para o Serviço Social e seu desafios para o profissional do Serviço Social,

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Mediações das atuais demandas postas ao assistente social

considerando as novas modalidades de para poderem fazer história, fazendo parte da


produção e reprodução social da força de vida, sobretudo, o ato de comer e beber. Assim,
trabalho e os desdobramentos sociais, que para Marx, constitui-se como primeiro ato
determinam a elucidação de novas histórico a produção dos meios para satisfação
“competências” técnico-políticas, configu- dessas necessidades, sendo visualizada a
rando-se um novo estatuto de demandas postas própria vida material como condição
à profissão, que se refletem no universo do fundamental de toda a história.
assistente social sob duas dimensões, quais Prosseguindo nesse entendimento, com
sejam: o que concerne às questões de alteração a primeira necessidade satisfeita, essa ação de
no mercado de trabalho e nas condições de satisfação e os meios de obtenção da satisfação
trabalho profissional; e o surgimento de novas levam à criação de novas necessidades, e essa
problemáticas sociais que podem ser produção de novas necessidades é história. Na
mobilizadoras de intervenções estratégicas do sociedade capitalista, são apreendidas como
assistente social para que esse profissional necessidades alienadas, posto que se baseiam
elaborar proposições teórico-metodológicas, em necessidade econômica e/ou de consumo.
políticas e éticas que elucidem linhas de E o que se propõe em Marx é uma transição
enfrentamento às novas questões postas à sua revolucionária que transpõe esse tipo de
profissão. necessidade alienada para um sistema de
Considerando o que afirma Iamamoto ,
necessidades radicalmente distinto, centrado
(...) as possibilidades estão dadas na na riqueza das necessidades qualitativas - tal
realidade, mas não são automa- transição tem seu fulcro na efetivação da práxis
ticamente transformadas em alter-
nativas profissionais. Cabe aos
revolucionária, com a revolução política e a
profissionais apropriarem-se dessas constituição de uma emancipação humana.
possibilidades e, como sujeitos, HELLER (1986) indica, segundo Marx, a
desenvolvê-las transformando-as em
projetos e frentes de trabalho. Assim,
classificação histórico-filosófico-antropológica
a conjuntura não condiciona uni- das necessidades, nas seguintes categorias: as
direcionalmente as perspectivas necessidades naturais – que são as biológicas,
profissionais; todavia impõe limites e de manutenção das condições vitais; as
possibilidades. (2000, p. 27)
necessidades socialmente determinadas - as de
É preciso, entretanto, esclarecer que, a conteúdo social, produzidas no conjunto das
partir da leitura e captura das tendências e relações sociais. Ambas constituem a estrutura
possibilidades apresentadas pelo novo e das necessidades necessárias à manutenção e
precário mundo do trabalho, podemos reprodução do homem e são satisfeitas a partir
apreender as novas necessidades sociais do trabalho
postas, contudo elas estão subjacentes às No bojo do acirramento das contradições
demandas profissionais, posto que estas da relação capital/trabalho e dentro das tensões
últimas não se resumem às necessidades sociais produzidas, emergem, segundo Marx (apud
ou se confundem com elas. HELLER, p.1986), as necessidades radicais, que
Para esclarecer essa diferenciação entre só serão satisfeitas na transcendência da
necessidades e demandas, reportamo-nos ao sociedade capitalista, porquanto contestam e
significado de ambas. Primeiramente, faremos buscam a superação da disposição da mesma.
referência às necessidades, tomando um Já nos reportando às demandas, tomamos
conceito clássico, via Marx, no tocante à teoria como ponto de partida a colocação de Mota
das necessidades humanas, cuja primeira (1998, p.25), para quem
premissa é a de que, em toda a existência
humana e, por conseguinte, em toda história, As de mandas, a rigor, são requisições
técnico-operativas que, através do
os homens têm de estar em condições de viver mercado de trabalho, incorporam as

Teor. Pol. e Soc. v.1, n.1, p.95-110, dez. 2008 103


Luciana Batista de Oliveira Cantalice; Edna Tania Ferreira da Silva

exigências dos sujeitos demandantes. fundantes, o espaço, as determinações sociais


Em outros termos, elas comportam uma
verdadeira “teleologia” dos requisi-
e sua complexidade na sociedade capitalista
tantes a respeito das modalidades de contemporânea, particularmente nas inflexões
atendimento de suas necessidades. promulgadas no processo de reprodução social.
Por isso mesmo, a identificação das Circunscreve-se no plano das neces-
demandas não encerra o desvelamento
das reais necessidades que os deter- sidades do capital, na forma de respostas à crise
minam. pela qual perpassa, a determinação de novas
formas de domínio do trabalho, sendo, para isso,
Em relação ao profissional de Serviço posta em prática uma verdadeira reforma
Social, reproduz-se na sociedade por ser intelectual e estrutural do trabalho e dos
socialmente necessária, insere-se em proces- trabalhadores, em que se promulgam a
sos de trabalho social produzidos pela idealização e a construção de uma nova cultura
sociedade, atuando na criação e prestação de de trabalho, permeadas por uma racionalidade
serviços que demandam das necessidades política e institucional que indique uma nova
sociais, conferindo, para si, um valor de uso, conotação e/ou organização social que,
uma utilidade social, sendo, assim, legitimada sobretudo, elucide um novo modo de pensar,
socialmente. de agir, sentir, viver e conceder compatíveis
Todavia, é preciso estar atento quanto à com o vigente projeto do capital.
relação que se faz entre as necessidades sociais A reestruturação produtiva, no plano da
e os desdobramentos sociais da reestruturação classe dominante, processa-se com base no
produtiva, para que não transformemos as ideário econômico-político do neoliberalismo,
necessidades sociais em demandas do expresso nas diretrizes da economia de
mercado, chegando a negar, a contrapor e a mercado, na regulação mínima estatal e na
contradizer as reais necessidades sociais dos subordinação de projetos e/ou processos
indivíduos sociais. sociais às necessidades dessa reestruturação do
Por essa razão, tomamos como central a capital que, para os trabalhadores, apresenta
problematização das demandas, como um os reflexos de um momento de crise como o
caminho para a apreensão das mediações que desemprego, a precarização do trabalho e das
ligam as reais necessidades sociais, dentro do relações de trabalho, bem como a flexibilização
processo de reestruturação produtiva, e as que também é proposta ao Estado e ao Sistema
exigências postas ao trabalho do assistente de Proteção Social, além de demarcar uma nova
social para, a partir daí, fomentar objetos e configuração de sociabilidade, pautada em
objetivos estratégicos de intervenção do práticas pragmáticas de enfrentamento à crise,
Serviço Social, assinalando ponto de atuação em detrimento das formas históricas de
que se orienta pela conexão da análise das organização das mesmas, que condensavam
tendências societárias macroscópicas e pelos uma cultura política revolucionária oposta à
objetivos e valores ético-políticos amplamente ordem do capital e que compunha uma base de
defendidos em um projeto profissional para a lutas em busca de uma sociedade mais justa.
sociedade, numa ação coletiva . Assim, essa sociabilidade que emerge,
Nesses termos, é colocada ao assistente relaciona-se e alterna-se na cadência do projeto
social a tarefa de identificar, na atualidade, o do capital e de todas as necessidades inerentes
conjunto de necessidades políticas, sociais, a um novo ciclo deste e de sua hegemônica
materiais e culturais, na dimensão do capital, reprodução.
na variação do trabalho, no campo das Além do conjunto de mudanças no âmbito
necessidades sociais, no prisma das demandas da produção e da organização social, a
emergentes, refazendo o caminho entre as reestruturação produtiva e o novo ciclo do
demandas postas e as suas necessidades capital também direcionam uma nova

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Mediações das atuais demandas postas ao assistente social

delimitação e intervenção da gestão estatal, sob profissional; engajamento do mercado de


a égide de transformações nas relações entre o trabalho; atividades do mercado informal como
Estado, a sociedade civil e o mercado e a alternativa para solucionar o problema do
reconfiguração de suas disposições e papéis. desemprego e complementação da renda
Processam-se essas mudanças através de familiar; e a mercantilização do trabalho
uma série de medidas de ajuste econômico e doméstico, dentre outras, na verdade,
de reformas institucionais que se materializam, evidenciam as necessidades do processo de
predominantemente, segundo Mota, em torno reestruturação produtiva e do próprio capital,
dos mecanismos de privatização, pressões do tendo como estratégia de fundo a integração
mercado para supressão de direitos sociais e passiva dos trabalhadores à nova (des)ordem
trabalhistas e do processo de “naturalização” do capital.
da superexploração do trabalho: “O objetivo é Essas demandas dão continuidade e
reduzir o papel do Estado na área das políticas potencializam o que, historicamente, o capital
de proteção social e na regulação das condições vem “ (...) tirando das mangas da camisa como
de produção material [...]” (1998, p.37). um coringa (...)”, segundo Mota (1995), como os
Para o sistema de proteção social, é “aparelhos privados de hegemonia”, que são as
prevista a substituição da ação do Estado pela
instituições - ditas de políticas sociais públicas
atuação de organizações particulares, sendo
- a serviço e para o atendimento das neces-
estas responsáveis também pelo controle das
sidades particulares do capital, que criam e
ações em torno do social. Na esfera da produção
recriam escolas e agências de trabalho reestru-
e do trabalho, é proposto o deslocamento da
turado.
regulação legal dos contratos de trabalho para
as livres negociações. O efeito de todas essas novas / velhas
Dessa forma, ocorre a submissão dos estratégias tem colocado para o assistente
direitos sociais e trabalhistas à funcionalidade social o redesenho das esferas do trabalho, da
do mercado, promovendo uma nova mercan- cultura, da vida privada, do papel e da
tilização da força de trabalho e a redução e/ou intervenção do Estado e da sociedade civil. E
mesmo negação de direitos historicamente mais, tem processado o trajeto de algumas das
conquistados, como também da dimensão ética necessidades do processo de reestruturação
dos mesmos. Neste momento, é exaltado e produtiva para o campo das demandas postas
findado o critério de eficácia e produtividade aos assistentes sociais, via o conjunto de
no mercado e no mundo econômico, como os mediações existentes na interpelação do
valores essenciais da modernidade. capital e a sociedade, nas formas de
O momento atual é o da passivização da enfrentamento da crise e das expressões da
ordem: a expansão do capital requer e exige a questão social, nas contradições geradas pelo
recusa à plena cidadania, ainda que formal. processo de reestruturação produtiva, na
Trata-se da quebra de direitos sociais com base desresponsabilização do Estado, no processo de
na acumulação e na velha/nova cidadania despolitização das necessidades do trabalho e
burguesa. O ‘novo’ como matriz de reconstrução dos trabalhadores etc.
e permanência do ‘velho’ (MOTA, 1998, p.38). Cabe, no entanto ao assistente social
Inserido nesse contexto de redefinições reconstruir “[...] o caminho entre a demanda
das práticas sociais, configura-se o campo de objetivada e as relações que a determinam [...]
intervenção do assistente social. Todavia é a reconstrução dos seus objetos de intervenção
preciso cautela na leitura e no trato que e das suas estratégias de ação [...] (MOTA, 1995,
suscitam as demandas profissionais que são p.42). A nosso ver, a adoção dessa postura
colocadas para esse profissional. Tal advertência subentende que ele deve seguir rumo ao
prende-se ao fato de que algumas demandas horizonte onde está a efetivação do projeto
postas, como: programas de formação de mão- ético-político-profissional que objetiva a práxis
de-obra; qualificação e requalificação do Serviço Social.

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Luciana Batista de Oliveira Cantalice; Edna Tania Ferreira da Silva

Nesse contexto, estabelece-se um Por outro lado, temos um problema


paradoxo para o Assistente Social, posto que, central: o do domínio do capital financeiro sobre
por um lado, está o projeto profissional da o capital produtivo, fazendo emergirem o
categoria voltado à defesa dos direitos sociais, desemprego e a crescente exclusão de
da democracia, da universalidade no acesso aos contigentes hiperexpressivos de trabalhadores
bens e serviços e a defesa dos interesses da do mercado de trabalho, radicalizando a questão
coletividade, mas do outro lado, impõem-se as do trabalhador livre, que não consegue se
prioridades orçamentárias que incorporam uma transformar em trabalhador assalariado,
lógica contabilista, onde todos tem direito aos porque, em ritmo acelerado, o enorme
serviços sociais públicos, mas os recursos não contigente de trabalhadores sobrantes não é
são destinados a todos, então pulveriza-se, absorvido pelas necessidades do capital, nem
reduz-se, corta-se estes serviços e sonega-se o o será nas atuais condições de desenvolvimento
direito universal de uma Constituição Cidadã. das forças produtivas. Cada vez mais, esses
Para as políticas sociais públicas, o sujeitos são atingidos pela miséria, que lhes
rebatimento da proposta neoliberal, sobretudo compromete os direitos sociais, a satisfação das
pela via da Reforma do Estado, aponta para sua necessidades básicas e o próprio direito à vida.
focalização, descentralização e privatização,
Devido a isso, na divisão social e no mundo
configurando um arrefecimento dos direitos
do trabalho, o perfil exigido para o assistente
sociais, materializados através dos serviços
social vem mudando na sociedade e no próprio
sociais públicos. Cabe ressaltar que o
mercado de trabalho. A emersão de novos
enxugamento dos gastos públicos do Estado se
perfis, demandas e formas de atuação decorre
dão de forma unidirecional, posto que ocorrem
apenas no plano da proteção social, já que é do fato de a esfera de trabalho dos prestadores
cada vez maior a linha de proteção do Estado de serviços sociais ter sido sempre a da
aos oligopólios, passando o fundo público a reprodução social, predominantemente estatal,
sustentar os grandes capitais. e a gradativa perda estatizante dessa esfera vem
Nesse patamar, na sociedade brasileira, lhes conferir uma situação de desespecialização
tem-se feito “[...] do interesse privado a medida e desqualificação frente às novas expressões
de todas as coisas, obstruindo a esfera pública, da questão social e às novas formas de trabalho
a dimensão ética da vida social pela recusa das que, a rigor, começam a se delinear (ALMEIDA,
responsabilidades e obrigações sociais do 2000, p.08).
Estado” (IAMAMOTO, 2000 p.37). Por outro lado, com as novas mediações
Assim, a questão social tem apresentado, históricas refletidas na questão social,
atualmente, traços “modernos” inseridos num conformam-se novas perspectivas acerca do seu
contexto de globalização, porém tem enfrentamento. O grande desafio para os
reafirmado particularidades históricas no assistentes sociais é como fazer frente ao
processo de desigualdades sociais, sendo, pois, contexto sócio-político e econômico - terreno
possível “[...] na coexistência de tempora- adverso aos princípios ético-políticos que
lidades históricas desiguais [...]” (IAMAMOTO, norteiam o Serviço Social. Todavia, não se trata
2000 p.37) encontrarmos marcas do passado e de assumir uma postura messiânica, redentora
do presente, constatando um ciclo de nem mágica. Qualquer (ou quaisquer) forma (s)
radicalização da questão social. de enfretamento assumida (s) pelo assistente
Confirma-se, então, o desafio com que se social passa, inexoravelmente, pelo projeto
depara o assistente social que, cotidianamente, político de sociedade. Portanto, uma das formas
trabalha diretamente com questões de saúde emergentes de atuação consiste em decifrar os
pública, da criança e do adolescente, do idoso, determinantes e as múltiplas expressões da
da violência, da educação e com os sujeitos que questão social e identificar também as práticas
experienciam essas questões, sempre em busca de resistência e de rebeldia gestadas e
de estratégias que possam resolver as questões vivenciadas pelos sujeitos sociais que
da pulverização das políticas públicas. experienciam os recortes da questão social.

106 Teor. Pol. e Soc. v.1, n.1, p.95-110, dez. 2008


Mediações das atuais demandas postas ao assistente social

Já no que se refere ao mercado profis- tendo como parâmetro o desenvolvimento


sional de trabalho para o Assistente Social este humano e econômico do aperfeiçoamento
também tem sofrido o impacto das atuais democrático, à transparência nas ações do
transformações, sobretudo no que concerne às poder público e, evidentemente, ao controle
relações que se processam entre o Estado e a social, mediante participação dos cidadãos.
sociedade. Levante-se ainda a abertura de mercado
A municipalização das políticas públicas profissional para os assistentes sociais, na esfera
tem assinalado para uma possibilidade de das ONG’s -Organizações Não Governamentais
ampliação do mercado de trabalho profissional, – que, com a retração do Estado na prestação
vez que emergiram novos canais de intervenção dos serviços sociais, apresentam um
da sociedade civil organizada no fomento, na crescimento enquanto forma de terceirização
gestão e no controle das políticas sociais. Tais desses serviços, haja vista que têm atuado em
canais se expressam nos Conselhos de Saúde, parceria com o Estado ou com entidades de
de Assistência Social e Previdência, nos financiamento, na formulação, gestão e
Tutelares, de Direitos Humanos etc. avaliação de programas e projetos sociais com
Nesse entendimento, os Conselhos atuação em diversas áreas.
As organizações empresariais têm
podem se tornar campos da capacitação e
requisitado profissionais para ocuparem área
intervenção dos assistentes sociais
dos Recursos Humanos, cuja atuação tem se
[...] na elaboração de planos de dado em torno de programas de “qualidade de
assistência social; na organização e vida no trabalho”, saúde do trabalhador, gestão
mobilização popular em experiências
de orçamentos participativos; na
de recursos humanos, gerenciamento
assessoria e consultorias no campo das participativo, administração de benefícios,
políticas públicas e dos movimentos círculos de qualidade, sindicalismo de
sociais; em pesquisas, estudos e empresas, treinamento e reciclagem de
planejamentos sociais [...] (Ib. 125)
pessoal, constituição de orçamentos sociais, etc.
Outro demanda que emerge para o A atuação do assistente social nessa área
Serviço Social consiste na gestão social pública tem exigido novas qualificações que, somadas
que, em consonância com as diretrizes às já tradicionalmente existentes na formação
apontadas por organismos internacionais, desses profissionais, irão compor um perfil de
adquire uma nova perspectiva à gerência profissional experiente, criativo,
pública, ao distinguir a administração pública desembaraçado, versátil, interdisciplinar, com
burocrática das formas de gerência iniciativa e liderança, com capacidade de
desenvolvidas nas organizações privadas. Trata- negociação, com fluência verbal, habilidade em
se de uma nova gerência que exige e com o público, além da capacidade de se
sintonizar com as mudanças no mundo dos
conhecimento do contexto político e
negócios, como requerem o mercado e as
constitucional em torno da gestão gover-
corporações empresariais na atualidade.
namental, competência para agir diante de
Enquanto funcionários públicos, os
pressão política constante e habilidade para assistentes sociais vêm sendo atingidos pelos
trabalhar em consonância com as metas efeitos da Reforma de Estado, que tem primado
estabelecidas, dentro da lei e sob o controle do pela redução do campo de emprego e
sistema jurídico da estrutura organizacional. precarizado as relações de trabalho,
A bem da verdade, essa “nova” notavelmente através da “[...] redução dos
perspectiva, segundo Klisksberg (apud concursos públicos, da demissão de
IAMAMOTO, 2001), busca forjar um “Estado funcionários não estáveis, contenção salarial,
Inteligente” que alie a competência - diante da corrida à aposentadoria, falta de incentivo à
complexidade e da incerteza de melhorar a carreira, terceirização acompanhada de
qualidade aos serviços prestados aos cidadãos, contratação precária, temporária, com perda de

Teor. Pol. e Soc. v.1, n.1, p.95-110, dez. 2008 107


Luciana Batista de Oliveira Cantalice; Edna Tania Ferreira da Silva

direitos” (IAMAMOTO, 2001, p.124). Nessa perspectiva voluntarista, ocorrem


Ë preciso considerar a reemersão de um uma banalização e uma fragmentação no
contigente de voluntários que também firmam enfrentamento das expressões da questão
uma atuação no âmbito da “questão social”. Há social.
voluntários “Amigos da Escola” e tantos outros Diante desse quadro contextual, fica
que irão surgir, representantes das pessoas da evidente que é preciso retornar os coletivos em
sociedade e que, sensibilizadas pelo discurso direção à defesa da radicalidade democrática
de “solidariedade”, doam uma parcela de seu e, dentre as lutas sociais, priorizar a oferta e a
tempo livre para “ajudar” instituições e qualidade da prestação dos serviços sociais
entidades públicas e/ou filantrópicas que públicos, da preservação e da ampliação de
atuam na educação, na saúde, com idosos, etc. postos de trabalho, afetados pelo projeto
Convém destacar que está por trás dessa político-econômico e social implementado pelo
ampla campanha do voluntariado mais uma Neoliberalismo, enquanto reação do capital.
tentativa de repasse da responsabilidade do Na área do conhecimento em Serviço
Estado com o trato das questões sociais à Social, a pesquisa apresenta-se como um
sociedade civil, maquiando o sucateamento das instrumento indispensável, haja vista que
permite captar interesses e necessidades,
instituições estatais pela falta de contratação
núcleos de contestação e resistência, formas de
dos profissionais competentes, pelo corte nos
luta e de reinvenção do cotidiano em defesa da
recursos e verbas, pela pulverização das ações
vida e da dignidade dos trabalhadores e da
e conseqüente comprometimento da
população. Portanto, a realidade social exige
qualidade e abrangência dos serviços sociais
um assistente social
prestados por uma dada instituição.
[...] culto e atento às possibilidades
(...) a reforma neoliberal, ao promover descortinadas pelo mundo contem-
uma suposta “passagem” dos serviços porâneo, capaz de formular, avaliar e
e assistência sociais do Estado para o recriar propostas em nível das políticas
setor privado (mercantil e “terceiro sociais e da organização da sociedade
setor”), ao promover uma “refilan- civil ... informado, crítico e propositivo,
tropização” (Cf. YASBEK, 1995) e uma “re- que aposte no protagonismo dos
mercantilização” da “questão social”, sujeitos sociais ... que supere tanto o
não está, no entanto, promovendo teoricismo estéril, o pragmatismo,
paralelamente uma passagem do quanto o mero militantismo. (Ib. 144)
Serviço Social do Estado para o
chamado “terceiro setor”, como muitas É necessário, cima de tudo, um assistente
vezes se supõe (...) o que parece se social que seja comprometido com a sua
processar, na verdade, é uma
tendencial perda paulatina do espaço capacitação permanente, que invista em sua
profissional – ocupacional dos assis- formação intelectual, cultural e que acompanhe
tentes sociais (fundamental-mente no a dinâmica histórico-conjuntural dos processos
âmbito estatal), que deixa lugar para – sociais, extraindo dos mesmos propostas de
porém não evolui em – um aumento
das práticas filantrópicas e voluntárias trabalho, contidas na contemporaneidade
( no interior do chamado “terceiro enquanto transformações e possibilidades.
setor”) . (MONTAÑO, 2002:248) Sob essa perspectiva, delineiam-se as
(...) a clara precarização das condições formas possíveis de investigação em torno das
de trabalho das condições de trabalho demandas postas ao Serviço Social, uma vez que
do assistente social, sua terceirização
e/ou sua substituição por agentes de
a prática do assistente social não pode se revelar
menor preparo e salários mais baixos a si mesma, mas encontra sua inteligibilidade e
(ou voluntários), precarizando/redu- sentido na história da qual é parte e expressão.
zindo a demanda por assistentes Assim, demandas têm sido forjadas nas relações
sociais, o que, por seu turno, se reflete
negativamente na qualidade daqueles
entre o Estado e a sociedade e, a partir do seu
serviços. (Ib. 249) desvelamento, é que apreendemos as
demandas inscritas atualmente.

108 Teor. Pol. e Soc. v.1, n.1, p.95-110, dez. 2008


Mediações das atuais demandas postas ao assistente social

A história tem inscrito o primado da impossibilita a obtenção do trabalho e, com


produção da riqueza social e da constituição dos isso, a satisfação das necessidades básicas dos
sujeitos sociais, bem como das relações entre sujeitos sociais.
as classes sociais e suas frações, com as quais Vivenciamos a alteração, em massa, do
tem levantado os fundamentos das modo de vida das classes populares, que estão
problemáticas sociais, da exclusão social e sendo criados e recriados nesse movimento
política, e aponta, por outro lado, a chave para a histórico. Processos sociais contemporâneos
solução desses problemas. vêm forjando e alterando as demandas por
Nessa perspectiva, afirmamos que a parte da população usuária dos serviços sociais.
identificação das atuais demandas para o
[...] estamos diante de uma sociedade
Serviço Social passa pelo movimento da brasileira com novas feições: com uma
sociedade, do Estado, das classes sociais e dos distinta conformação das classes
projetos políticos, relacionada aos processos de sociais, dispondo de formas peculiares
de organização dos processos de
trabalho e ao mercado de trabalho nacional e trabalho, e uma ampla diferenciação
mundial, uma vez que a produção da riqueza interna das classes subalternas,
social e os indivíduos sociais têm o trabalho acompanhada da ampliação significa-
tiva da população excedente, alijada
enquanto categoria e/ou atividade fundante.
do mercado formal de trabalho. (Ib. 158)
Decerto, nesses moldes, inscrevem-se as
demandas para a profissão. Reconhecemos que Sem dúvida, as mudanças estru-
as atuais transformações no mundo do trabalho turais como as que se processam na atualidade
têm alterado e redimensionado tais demandas, são complexas e, nem sempre, com muita
suscitadas à ação das políticas sociais visibilidade no terreno das demandas “[...]
implementadas pelo assistente social sob a convivem ao mesmo tempo e, às vezes, se
forma de serviços sociais. entrecruzam demandas tradicionais (ou
A ausência de tais serviços na área estatal tradicionais travestidas de novas roupagens e/
agudiza o processo de barbarização nas ou expressões) e de demandas potenciais”
condições de vida e de trabalho para a classe (SERRA, 2000, p.163). Nessa perspectiva,
trabalhadora, promovendo a radicalização da circunscrevem-se as atuais demandas postas ao
pobreza e da miséria, na medida em que assistente social na contemporaneidade.

ABSTRACT The present objective article to argue the mediations of current of the demands ece of fishes to the
social assistent from the clipping of social transformations, over all, focusing the metamorphoses of
the world of the work and the new expressions of the social mutter. Search to identify, in this context,
the situations of transitions and crisis in the forms of identity of integration and conflict in the society,
Radicalized for the fragments of the public and democratic sphere of the state. In intetion to point the
mediations to the traditional demands, reedited, imminent and potential of the expressed social
service in the diverse forms of poor conditions of life and work of the population.

Keywords: Present; Demand; Social Service.

Teor. Pol. e Soc. v.1, n.1, p.95-110, dez. 2008 109


Luciana Batista de Oliveira Cantalice; Edna Tania Ferreira da Silva

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