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Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - Campus Poços de Caldas

Filosofia: Razão e Modernidade – Profa. M.Sc. Cláudia Ferreira Galvão

O que é a Filosofia? ... em menos de 3 mil palavras


Da maneira como a desenvolvo, a filosofia tem uma dupla acepção. De um ponto de vista geral, ela
é uma narrativa de desbanalização do banal. De um ponto de vista específico, ela é uma
investigação que lida com os mecanismos que nos fazem tomar o aparente pelo real - se é que
estamos envolvidos nesse problema. Essa maneira de descrever o que faço como filósofo é o
melhor modo que encontrei para colocar meu leitor, de modo rápido, inteirado a respeito do que é
o meu cotidiano.

Tudo que vejo e que os outros também enxergam todos os dias se toma banal para nós. O trânsito
não funciona na cidade de São Paulo e o prefeito diz que está tudo bem. Alguns reclamam. Mas a
pressão do trabalho faz com que todos entrem no ônibus lotado e se submetam a condições
desumanas para ir para o serviço. Eis que em determinado momento, ninguém reclama mais. Toma-
se como banal que o trânsito não funcione. Ocorre aí a banalização de nossa própria vida. Então,
é hora do filósofo mostrar uma cidade grande, em outro lugar, em outro país, onde o trânsito
funciona — para desbanalizar o nosso banal, que é o trânsito não funcionando.

O filósofo é aquele que vê o que todos vêem todos os dias, mas ele, diferente de outros, aponta
para situações em que aquilo que é visto não é algo que deveria estar ali como está. Poderia não
estar. Talvez devesse não estar como está. Até aí, estou no âmbito da minha atividade de
desbanalizador do banal. Caminho na função da filosofia, assumida de acordo com a acepção geral
que dou a ela. Mas essa desbanalização do banal me conduz para à minha segunda acepção de
filosofia.

Entro em casa, ligo a televisão e vejo o prefeito, de helicóptero, passeando por cima de São Paulo
e afirmando que o trânsito em São Paulo não é tão ruim, que "sempre foi dessa maneira", que São
Paulo é muito grande e que com 22 milhões de pessoas aglomeradas "não poderia ser diferente".
Eis que está na sala um vizinho, e ele apóia o prefeito. Ele acredita que, de certo modo, o prefeito
está certo. Como poderiam 22 milhões de pessoas aglomeradas, todo mundo de carro, não
congestionar a cidade — impossível. O jeito de lidar com a coisa, então, é uma só: paciência - esta
é a fórmula do prefeito e do meu vizinho. Bem, diante dessa conclusão do meu vizinho, minha
atividade de desbanalização do banal caminha para o campo da minha segunda acepção de
filosofia. Pois o que meu parente está fazendo é simplesmente parar de pensar e aceitar o discurso
- ideológico — do prefeito.

O problema, então, não é o de convencer o meu vizinho de que o prefeito está usando de um
discurso ideológico. O problema filosófico, neste caso, é mais complexo. O filósofo não é o que vai
desideologizar o discurso do prefeito. O filósofo é o que vai investigar para entender quais os
mecanismos (se é que existem) tornaram o vizinho capaz de tomar o aparente - o problema do
trânsito não tem solução - pelo real - o problema do trânsito deve ter solução, uma vez que a
racionalidade em outros lugares eliminou tal problema.

Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo com doutorado pela USP e com pós-doutorado em medicina social pela UERJ, diretor do Centro de
Estudos em Filosofia Americana, e da TV Filosofia.

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