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Estou aqui porque finalmente não há mais como me refugiar de mim mesmo. Até que me confronte nos olhos e no coração de outros estarei fugindo, até que sofra o partilhar dos meus segredos não me libertarei deles. Temeroso de ser conhecido, não poderei me conhecer e nem aos outros, estarei só. Onde senão em meu companheiro poderei encontrar este espelho? Aqui, juntos, posso finalmente conhecer-me por inteiro, não como o gigante que sonho ser, mas tão pouco o anão dos meus temores, mas como alguém parte de um todo, compartilhando seus propósitos. Neste solo poderei criar raízes e crescer, não mais isolado como na morte, mas vivo, para mim, e para o mundo.

Richard Beauvis

Sumário

PROCESSO TERAPEÛTICO

O

PROCESSO TERAPÊUTICO NA COMUNIDADE TERAPÊUTICA

9

Objetivos do Tratamento

9

Sete condições básicas para propiciar o tratamento

9

Abstinência forçada X Abstinência estável

10

Saber, conformar-se, aceitar

11

SINTOMAS OBSERVADOS NO DEPENDENTE QUÍMICO

12

12

PASSOS

12

PASSOS – ENUNCIADOS

13

OS 12 PASSOS E A BÍBLIA PROGRAMAÇÃO DO TRATAMENTO PARA A RECUPERAÇÃO DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA GUIA PARA INVENTARIO MORAL

14

15

16

DEFEITOS DE PERSONALIDADE

16

OS SETE PECADOS CAPITAIS

18

VIRTUDES

20

GUIA PARA O INVENTÁRIO MORAL DIÁRIO

22

1. Mecanismos de Defesa

22

2. Defeitos de caráter e Pecados Capitais

22

3. Danos causados

22

4. Obsessões

23

5. Instintos

deturpados

23

6. Virtudes

Divinas

23

7. materiais de construção

Virtudes

23

8. Busca espiritual

23

DEPENDÊNCIA QUÍMICA

O CONSCIENTE E O INCONSCIENTE

24

1. O

Consciente

24

2. O

Inconsciente

25

EGO – SUPER-EGO - ID

26

1. O ID

26

 

Instintos

26

a) auto-preservação

Instinto

de

26

b) segurança:

Instinto

de

27

1)Instinto de segurança

27

2) Instinto de segurança

27

c) Instinto

27

d) Instinto

27

Instintos deturpados

28

2. O

Super-ego

30

3. O

Ego

31

MECANISMOS DE DEFESA

32

SISTEMA DE ÁLIBIS – NEGAÇÃO

32

PRINCIPAIS MECANISMOS DE DEFESA

32

EVOLUÇÃO

33

CONCLUSÃO

33

DEPENDÊNCIA QUÍMICA – UMA DOENÇA

34

A DEPENDÊNCIA QUÍMICA: uma doença física

34

Incurável

34

Progressiva

36

Fatal

37

A DEPENDÊNCIA QUÍMICA: uma doença psíquica

38

Obsessão

38

Compulsão

39

RECAÍDA – ORIGEM E EVOLUÇÃO

41

DEFINIÇÃO DE

RECAÍDA

41

MANUTENÇÃO

DA LINGUAGEM

41

PREVENÇÃO DA RECAÍDA

42

RECAÍDA

EMOCIONAL

42

RECAÍDA

FÍSICA

42

SINTOMAS DA RECAÍDA

42

DOZE SINTOMAS QUE ANTECEDEM A RECAÍDA

44

ANEXOS GUIA DE CONFRONTO

GENERALIDADES

45

1. DEFEITOS

45

2. RELAÇÃO COM HOMEM VELHO

46

3. ATIVIDADES DE LAZER / TEMPO LIVRE

47

4. VIRTUDES

47

5. CONDIÇÕES BÁSICAS

48

6. CONVIVÊNCIA

48

NORMAS DE MORADIA

50

Generalidades

50

Banheiros e Lavanderia

51

Dormitórios

51

Laborterapia

51

Refeitório

52

Reuniões

52

ORAÇÕES

 

54

Oração

Preparatória

54

Oração

da

manhã

54

Oração da noite

54

Salve Rainha

54

Credo

54

Oração de São Francisco

55

Oração de Santo Agostinho

55

Consagração a Nossa Senhora

55

Oração da Serenidade

55

Pai-Nosso

55

Ave Maria

55

Gloria ao Pai

56

TERÇOS

56

TERÇO NORMAL

56

MISTÉRIOS

GOZOSOS

56

MISTÉRIOS

GLORIOSOS

57

MISTÉRIOS

LUMINOSOS

57

TERÇO

DA

MISERICORDIA

58

TERÇO DO AMOR

58

TERÇO

DA

LIBERTAÇÃO

58

TERÇOS DIVERSOS

59

CT Nova Jornada – Pablo Kurlander – O Processo Terapêutico na Comunidade Terapêutica

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O PROCESSO TERAPÊUTICO NA COMUNIDADE TERAPÊUTICA

Extraído de: FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE COMUNIDADES TERAPÊUTICAS. Drogas e Álcool: Prevenção e Tratamento. Campinas: Komedi, 2012.

A dependência química é uma doença que atinge as pessoas de forma indiscriminada, de tal

forma que, uma vez instalada, provoca a desestruturação da pessoa em todas as áreas do ser: física, mental, espiritual, social, familiar e profissional. É nesse estado que se encontra o dependente que

procura um tratamento numa Comunidade Terapêutica.

Objetivos do Tratamento

O tratamento tem por objetivos básicos: - PARAR A DOENÇA - RECUPERAR A PESSOA

Esses objetivos estão intimamente relacionados e se complementam entre si, o que quer dizer que um não ocorre sem o outro e vice-versa. Para que aconteça a recuperação da pessoa é preciso não usar drogas (abstinência), mas só será possível manter a abstinência se houver uma genuína e efetiva recuperação pessoal (hábitos, vícios e emoções). Assim, o Processo Terapêutico é toda atitude, ação ou circunstância que propicie essa reestruturação pessoal. Portanto, este processo se dá em todas as relações, atividades e ambiente proporcionados pela Comunidade Terapêutica, e não somente no “setting terapêutico”, que é o atendimento individual ou grupal com um objetivo terapêutico específico e dirigido, ou coordenado por um técnico ou pessoa preparada. Na verdade, tudo na Comunidade Terapêutica deve contribuir para que o dependente alcance uma forma alternativa de reorganização pessoal (no sentido mais amplo do termo) com novos padrões de comportamento e pensamento, ou seja, um novo estilo de vida.

Sete condições básicas para propiciar o tratamento

O Processo Terapêutico permite ajudar a pessoa a reconhecer esses comportamentos a fim

de viabilizar a mudança necessária. Por isso é importante a criação de algumas condições básicas para que esse processo possa ter lugar:

1.

o responsabilidade, o que significa que enquanto a pessoa estiver em tratamento depende única e exclusivamente dela mesma aprender o básico para a sua recuperação. Nenhum membro da equipe ou do grupo pode fazer com que a pessoa aprenda alguma coisa, se ela mesma não quiser. Somente ela pode decidir se vai participar ativamente do tratamento e permitir que o Processo Terapêutico tenha lugar. Exemplos disto são todas aquelas coisas que podemos e devemos fazer durante o tratamento, embora elas não sejam diretamente exigidas pela equipe de coordenação.

auto-

AUTO-RESPONSABILIDADE:

Todo

tratamento

deve

estar

centrado

na

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10

“ELA”. Por exemplo, é inadequado quando se está falando de alguém que não está no grupo dizer “ele fez isto ou aquilo”, e não ser capaz de falar diretamente com essa pessoa depois. “Fofoca não antecede a comunicação direta!”.

3. OUVIR ATIVAMENTE: significa estar atento para tudo o que a pessoa diz, lembrando que uma grande parte da mensagem não é dita em palavras, mas são mensagens não verbais, transmitidas através de gestos, tons de voz, pausas, postura pessoal, etc. Devemos lembrar também, que ouvir ativamente significa ser capaz de participar do assunto que está sendo exposto, colocando exemplos pessoais, perguntando o que não foi compreendido, discordando, debatendo, enfim, dando um pouco de si para que a conversa seja mais produtiva.

4. AMOR SINCERO: É definido como preocupar-se o suficiente com uma pessoa a ponto de dizer a ela exatamente o que você vê ou sente que está errado com ela, ao invés de dizer o que ela gostaria de ouvir. Cada membro da Comunidade Terapêutica precisa ter em mente que é vítima de uma doença que eventualmente o matará, se não mudar. Por isso deve se preocupar o suficiente com os demais para praticar o amor sincero, a fim de facilitar a percepção dos companheiros. O amor sincero é essencial para penetrar nos escudos emocionais de defesa criados pela doença.

5. ARRISCAR-SE: Significa tentar sorte com algo novo, experimentar novas formas de agir. Fazer algo novo, algo que nunca se tentou antes, é sempre arriscado, mas muitas vezes pode ser a única forma de aprender. A pessoa tem que tentar alguma coisa nova para poder crescer interior e emocionalmente. Arriscar-se pode ser amedrontador e, muitas vezes, doloroso. Mas sabemos que todo crescimento causa alguma forma de dor, e crescer como pessoa é fundamental para que aconteça a recuperação.

6. FEED BACK: (retro-alimentação) Significa compartilhar as impressões, positivas e negativas, que tempos de uma pessoa do grupo, ou seja, o que “EU” acho e sinto de “VOCÊ” neste momento. Uma das ferramentas terapêuticas que existem dentro da Comunidade Terapêutica para facilitar esta prática é a Reunião de Confronto. O Feed Back é uma forma de testar a realidade, uma vez que permite que cada um vivencie de que forma suas ações afetam os outros. È muito importante desejar proporcionar um Feed Back para alguém, quanto desejar recebê-lo, para poder continuar a busca do crescimento interior.

7. CONFIDENCIALIDADE: Significa que o que é dito no grupo permanece no grupo. É obvio que as pessoas só irão falar de assuntos íntimos se se sentirem seguras e protegidas dentro do grupo, ou da relação com uma determinada pessoa. Uma das formas de sentir-se seguro e protegido, e ser capaz de expor um sentimento profundo e íntimo, é ter a certeza de que qualquer coisa que seja compartilhada com a pessoa ou com o grupo não será exposta fora do mesmo, mesmo com as pessoas que participaram do grupo. Por isso é tão importante ser capaz de expor um sentimento quanto ser capaz de guardar o sentimento do outro, respeitando a sua privacidade, e honrando a confiança depositada em nós.

Tais condições funcionam como uma espécie de exo-esqueleto que propicia o Processo Terapêutico (exo-esqueleto: suporte externo em cirurgias ortopédicas).

Abstinência forçada X Abstinência estável

Quando o dependente chega para iniciar o tratamento, ocorre uma parada “forçada” das drogas, ou seja, o ambiente provoca a abstinência forçada. Isto é absolutamente necessário para que

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a pessoa recupere as condições físicas e mentais mínimas a fim de iniciar o trabalho de conscientização da pessoa. É justamente essa conscientização que levará o dependente à recuperação pessoal, o que por sua vez tornará a abstinência cada vez mais firme e duradoura (Abstinência estável). À medida que isto acontece mais força o dependente tem para continuar investindo na sua recuperação pessoal, e assim sucessivamente.

Abstinência

Forçada

pessoal, e assim sucessivamente. Abstinência Forçada Conscientização Recuperação da pessoa Abstinência

Conscientização

Recuperação da pessoa Abstinência estável
Recuperação
da pessoa
Abstinência
estável

Para que ocorra a recuperação, a participação e o comprometimento do dependente para com o tratamento devem ser irrestritos e sem reservas, pois se não houver aceitação interna e motivação pessoal, a doença continuará em atividade. A motivação pessoal pode ser ampliada, por assim dizer, por aquele que trabalha com o dependente, seja o coordenador, o monitor ou o terapeuta. Mas a motivação interna se dá de forma absolutamente subjetiva.

Saber, conformar-se, aceitar

ACEITAR é muito mais que SABER ou CONFORMAR-SE

SABER reflete uma posição intelectual e racionalizada frente ao problema da dependência química, onde embora a compreensão do fato (ser dependente químico) e o entendimento da necessidade de mudar existam, não se observa um comportamento de mudança porque o indivíduo ainda incorporou esta realidade no seu interior.

CONFORMAR-SE implica numa atitude passiva diante da compreensão do fato e do entendimento da necessidade de mudar, o comportamento observado é o de sujeição frente ao fardo imposto pela realidade, e consequente sentimento de culpa e de auto-piedade. O dependente sente que tudo deve mudar para que ele tenha chance de sair em frente. O sentimento é similar ao experimentado por uma pessoa qualquer frente a uma chuva, quando se preparou uma festa ao ar livre para essa mesma tarde.

ACEITAR, porem, implica numa atitude ativa específica diante da compreensão do fato e do entendimento da necessidade de mudança. O comportamento observado é o de rendição frente à doença, e uma consequente disposição interna de mudança desta realidade, a fim de que aquilo que se apresenta como uma dificuldade se transforme numa possibilidade de crescimento, gerando assim sentimentos de gratificação pessoal.

Aceitar é fundamental para iniciar o processo de recuperação.

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SINTOMAS OBSERVADOS NO DEPENDENTE QUÍMICO

Tende a negar ou minimizar o consumo de drogas.

Defende-se do diagnóstico.

Afirma que não usa drogas.

Admite somente que usa eventualmente ou socialmente.

Muitas vezes restringe o hábito ao momento atual da vida.

Justifica o excesso como consequência de problemas que os outros vem lhe causando.

Coloca os prejuízos num futuro muito distante, que não o atingirá.

A droga assume um caráter prioritário, e o alívio que consegue através dela vai ser buscado além de qualquer outra consideração. Ele precisa da droga para enfrentar o mundo.

A droga tem a finalidade de eliminar a ansiedade da espera e a angústia da frustração.

Precisa da droga de acordo com o seu desejo, possuidora de um poder mágico de suprir todas as suas necessidades. Projeta na droga uma imagem idealizada.

Sua

sentimento de urgência.

vivência

do

tempo

é

premente,

está

sempre

sob

um

Imediatismo.

Situações de espera, mesmo de alguns minutos, lhe resultam insuportáveis, como se fosse uma tortura, não podendo tolerar a espera para que um desejo seja atendido.

Substitui a reflexão pela ação impulsiva, atua para evitar o desprazer.

Baixa tolerância a estados de tensão, frustração, o que o faz querer ser saciado no mesmo momento. Irritabilidade.

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12 PASSOS - ENUNCIADOS

1º PASSO Admitimos que somos impotentes perante o álcool e as drogas,

e que perdemos o domínio sobre as nossas vidas.

2º PASSO Admitimos que somente um Poder Superior a nós mesmos poderia nos devolver a sanidade.

3º PASSO Decidimos entregar as nossas vidas e as nossas vontades, aos cuidados de um Poder Superior, na forma em que o concebíamos.

4º PASSO Fizemos um minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.

5º PASSO Admitimos perante Deus, perante nós mesmos, e perante outro ser humano, a natureza exata das nossas falhas.

6º PASSO Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus remova todos esses defeitos de caráter.

7º PASSO Humildemente rogamos a Ele que nos livre das nossas imperfeições.

8º PASSO Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado, e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.

9º PASSO Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las, ou a outrem.

10º PASSO Continuamos fazendo o inventário pessoal, e quando estávamos errados o admitíamos prontamente.

11º PASSO Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que o concebíamos, rogando apenas

o conhecimento de sua vontade me relação a nós, e forças para realizar essa vontade.

12º PASSO Tendo experimentado um despertar espiritual graças a estes Passos, nos dispusemos a transmitir esta mensagem a outros dependentes químicos, e a praticar estes princípios em todas as nossas atividades.

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OS 12 PASSOS E A BÍBLIA

1º PASSO – ROMANOS 7,15-25; ISAÍAS 53,6; 64,4 2º PASSO – FILIPENSES 4,19; ISAÍAS 41,13; SALMO 57,1 3º PASSO – SALMO 31,5; SALMO 37,4-5; SALMO 145,17-20 4º PASSO – SALMO 139,23-24 5º PASSO – I JOÃO 1,9; PROVÉRBIOS 28,13 6º PASSO – SALMO 19,12-13 7º PASSO – SALMO 51,7-12; SALMO 32; TIAGO 4,7-10, I PEDRO 5,6-7 8º PASSO – LUCAS 19,8; HEBREUS 12,14-15 9º PASSO – TIAGO 5,16; MATEUS 5,23-24 10º PASSO – SALMO 51; SALMO 139; PROVÉRBIOS 14,23-27 11º PASSO – SALMO 19; MATEUS 6,5-15; I PEDRO 2,1-3; I PEDRO 5,6-7 12º PASSO – GÁLATAS 6,2; TIAGO 1,19-26; I PEDRO 1,22-25, MATEUS 28,18-20

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PROGRAMAÇÃO DO TRATAMENTO PARA A RECUPERAÇÃO DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA

0 ao 3º mês: Período de DESINTOXICAÇÃO E ADAPTAÇÃO.

Neste período inicial o recuperando é orientado pela equipe em pontos referenciais como:

adaptabilidade, vivência em grupo, espiritualidade, retomada de hábitos saudáveis de vida (alimentação, sono, disciplina). Neste período se estimula também a prática do 1º, 2º e 3º Passos, que representam os Passos Desobsessores. Observamos, contudo, que tanto a desintoxicação quanto a adaptação se estendem, em muitos casos, além dos três primeiros meses.

3º ao 6º mês: Período de CONSCIENTIZAÇÃO.

Neste período crítico, de modificação do caráter e da personalidade, se experimentam grandes mudanças, como: aceitação de si, conscientização da problemática interna e familiar, aprofundamento da convivência em grupo, desenvolvimento da responsabilidade para a participação nas atividades do programa de tratamento (integração). Ocorre neste período a formação de equipes: esporte, cultura, espiritualidade e outras. Desenvolve-se a criatividade e a participação do dia a dia. Nesta etapa se estimula a prática dos Passos Modificadores, sendo os mesmos o 4º, 5º, 6º e 7º Passos.

6º ao 9º mês: Período de REINTEGRAÇÃO SOCIAL OU RESSOCIALIZAÇÃO.

Neste período o residente, além de ajudar aos irmãos que estão chegando na comunidade, experimenta a nova maneira de viver na sociedade e na família durante as saídas no 6º, 7º e 8º mês.

Chegando ao final dos nove meses os conceitos aprendidos até o momento são revisados e reforçados. Nesta etapa se estimula a prática dos Passos Reparadores (8º e 9º) e dos Passos de Manutenção (10º, 11º, 12º).

1º1º1º1º ---- Aceitação 2º2º2º2º ---- Relação com a fé 3º3º3º3º ---- Decisão 4º4º4º4º ----
1º1º1º1º ---- Aceitação
2º2º2º2º ---- Relação com a fé
3º3º3º3º ---- Decisão
4º4º4º4º ---- Relacionamento interior
5º5º5º5º ---- Sinceridade
6º6º6º6º ---- Prontidão
7º7º7º7º ---- Humildade
8º8º8º8º ---- Responsabilidade
9º9º9º9º ---- Reparação
10º10º10º10º ---- Manutenção diária
11º11º11º11º ---- Relacionamento espiritual
12º12º12º12º ---- Caridade, gratidão
1º ao 5º : Passos de POSICIONAMENTO 6º ao 9º : Passos de AÇÃO 10º
1º ao 5º : Passos de POSICIONAMENTO
6º ao 9º : Passos de AÇÃO
10º ao 12º : Passos de MANUTENÇÃO

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GUIA PARA INVENTARIO MORAL

Fazendo o inventário moral necessitamos examinar a nós mesmos nas seguintes áreas:

a) Defeitos de personalidade

b) Os Sete Pecados Capitais

c) Virtudes

DEFEITOS DE PERSONALIDADE

Quando uma pessoa deseja realizar uma auto-análise, ela primeiramente analisa suas qualidades e defeitos. As qualidades são resumidamente exemplificadas, como por exemplo: sou bom escritor, bom empregado, bom amigo, etc. Pesquise-se em você mesmo e anote em uma folha de papel. Quanto aos defeitos, num modo geral encontramos o que se segue, em diversos graus:

1. EGOÍSMO

2. ÁLIBIS

3. PENSAMENTOS DESONESTOS

4. ORGULHO

5. RESSENTIMENTOS

6. INTOLERÂNCIA

7. IMPACIÊNCIA

8. INVEJA

9. MALANDRAGEM

10. PROCRASTINAÇÃO

11. AUTO-PIEDADE

12. FALSA SENSIBILIDADE

13. MEDO

1 – EGOÍSMO (Egocentrismo): Preocupar-se com o próprio conforto, vantagens, etc., sem

consideração para com os outros. Ex.: A família gostaria de dar um passeio no parque, mas você quer assistir o jogo na TV. Quem vence? O garoto precisa um par de sapatos, mas você compra um litro de uísque. Egocentrismo: achar que o mundo gira ao seu redor. Não dança porque tem medo de parecer desajeitado. Teme aparecer em desvantagem porque isto machucaria a sua fachada falsa perante os outros.

2 – ÁLIBIS: A arte altamente desenvolvida de justificar nossas dependências mediante acrobacias mentais. Desculpa para usar que o dependente chama de “razoes”. Ex.: Vou tomar uma para alegrar, para abrir o apetite, para esquecer. Uso drogas porque todo mundo usa.

3 – PENSAMENTO DESONESTO (Semelhante à mentira): Uma outra maneira de mentir.

Podemos até usar fatos reais e verdadeiros como base para modificá-los segundo a nossa conveniência, apresentando-os depois exatamente como desejamos. O dependente químico é mestre neste assunto. Ex.: Se eu contar para a minha mulher que eu a traí ela vai ficar muito mal, melhor não dizer nada, coitada. Eu não roubei o relógio do meu pai, eu só peguei ele para levar para consertar, mas ninguém acredita em mim. Minha mulher e os meus filhos têm de tudo, comida não falta, roupa tão pouco, não sei porquê se queixam tanto, o que mais eles querem?

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4 – ORGULHO: Um sério defeito de personalidade, bem como um dos Sete Pecados Capitais.

Representa a vaidade, egoísmo, admiração exagerada por si mesmo, arrogância, ostentação, auto- promoção. Ex.: Vergonha de contar que parou de beber e de usar drogas. Vergonha de ir à igreja. Não gosta de ser chamado à atenção em público. Exige demais dos outros, critica facilmente. Justifica os seus erros, não admite os seus defeitos.

5 – RESSENTIMENTOS: Como o ódio e a raiva é um dos Sete Pecados Capitais. Para muitos

dependentes químicos é a fraqueza mais perigosa de todas. É o desprazer causado por situações concretas ou imaginárias, acompanhado de irritação, exasperação e desejo de vingança. Ex.: Você é demitido, e passa a odiar o chefe. Fica extremamente magoado com aqueles que o alertam sobre a sua dependência. Alguém o faz ficar em ridículo na frente de outras pessoas, e começa a alimentar um sentimento de vingança que o carcome por dentro.

6 – INTOLERÂNCIA: Recusa a conviver com credos políticos, religiosos, ou de outra espécie,

diferentes dos próprios. Incapacidade de conviver com costumes diferentes das próprias. Ex.: Odiar alguém por ser judeu, evangélico, católico. Racismo, semitismo encoberto. Ir numa festa e ficar irritado porque não gosta da música que toca.

7 – IMPACIÊNCIA: Má vontade de suportar atrasos, oposições, dor, aborrecimentos.

Ex.: Reclama quando a namorada o faz esperar cinco minutos. Odeia esperar um ônibus. Imediatismo, quer tudo pra já. Xinga quando se machuca, nem que seja levemente.

8 – INVEJA: Também é um dos Sete Pecados Capitais. É o descontentamento frente o sucesso

alheio. Incapacidade de alcançar o seu próprio êxito. Ex.: O vizinho troca de carro depois de economizar o ano inteiro, e nós falamos que ele está roubando o chefe. O cunhado é um bom pai e um bom esposo, mas nós o ridiculizamos constantemente dizendo que ele é babaca. Utilizar frequentemente a frase: “Se eu tivesse a mesma oportunidade com certeza seria muito melhor”.

9 – MALANDRAGEM: Manifestação do nosso grande e falso orgulho. Uma forma refinada de

mentir, a velha máscara. Ex.: Presenteio minha mulher com um vestido novo para encobrir a última bebedeira. Visito os meus familiares justamente nos dias de pagamento. Faço amizades com aquelas pessoas que podem me oferecer alguma coisa.

10 – PROCRASTINAÇÃO: A arte de deixar para depois, de adiar as coisas que precisam ser feitas. O velho “amanhã eu faço”. Engano a mim mesmo dizendo que vou fazer as coisas que hoje não tenho vontade ou coragem. Ex.: Amanhã eu paro, eu prometo. Depois eu arrumo o meu quarto. Quando eu voltar eu conserto a pia da cozinha, querida.

CT Nova Jornada – Pablo Kurlander – Os 12 Passos

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11 – AUTO-PIEDADE: Um insidioso defeito de personalidade, e um sinal vermelho de perigo.

Pena de si mesmo, sentimento constante de inferioridade, queixas contínuas. “Coitadinho de mim”. Achar-se incapaz de enfrentar a realidade, vontade constante de fugir das situações. Quando se sentir assim visite um hospital, um asilo, uma ala de crianças com AIDS, e depois reflita nas bênçãos que já recebeu e recebe diariamente. Ex.: Tudo mundo nesta festa está bebendo, somente eu não posso! Porquê justo eu tive que nascer neste lugar. Nada dá certo comigo, ninguém gosta de mim.

12 – FALSA SENSIBILIDADE: Tipo melindroso, cheio de não me toque. Magoa-se com facilidade, fica emburrado o tempo todo. É uma das maneiras de conseguir o que se quer, de chamar a atenção. Uma desculpa para atitudes infantis e imaturas. Ex.: Chego numa festa e alguém não me cumprimenta, então fico emburrado num canto a noite inteira. Espero ser chamado para falar na reunião, mas não me chamam. Então eu juro que nunca mais vou falar numa reunião. Uma garota me dá um fora, eu fico deprimido, choro, me sinto um lixo.

13 – MEDO: Pressentimento real ou imaginário de uma fatalidade iminente. Suspeitamos que algo

vai nos prejudicar e começamos a temer o pior. Aumentamos as possíveis consequências dos fatos. Quando aprendemos a confiar mais num poder superior, o medo começa a desaparecer. Ex.: A polícia passa na outra esquina e eu acho que estão me procurando. Vejo duas pessoas conversando e acho que estão planejando algo contra mim. Doenças psicossomáticas, fobias, paranóias.

OS SETE PECADOS CAPITAIS

1 – ORGULHO: A vaidade egoísta, admiração exagerada por si mesmo. O orgulho faz com que eu

faça a minha própria lei, que faça de mim meu próprio juiz e meu próprio Deus. Produz as críticas destrutivas, fofocas, assassinatos morais, tudo para conseguir elevar um pouco o próprio ego. O orgulho gera:

- Gabolice – auto glorificação.

- Amor pela publicidade – preocupação com o que dizem ao meu respeito.

- Hipocrisia – fingir ser o que não sou, por conveniência.

- Teimosia – impor a minha vontade ou opinião.

- Discórdia – sentimentos negativos contra os que não estão ao meu favor.

- Brigas – quando não satisfazem os meus desejos.

- Desobediência – recusa-se a submeter-se à vontade alheia.

2 – AVAREZA: Perversão do direito dado por Deus ao homem de possuir bens materiais. Desejo

exagerado pela riqueza, transformando o dinheiro numa finalidade deixando de ser um simples

básicas. A avareza provoca todo tipo de

meio

comportamento desonesto, já que uma pessoa avarenta é capaz de fazer qualquer coisa para

conseguir o que deseja, mais riqueza.

de

conseguir

satisfazer

as

necessidades

- Para adquirir o que desejo desrespeito os direitos alheios?

- Sou digno do meu salário? Trabalho o suficiente como para ganhar o que ganho?

- Utilizo os meus bens unicamente no meu próprio beneficio?

- Dou esmola? Ajudo os pobres?

- Sou pão duro com a minha família?

- De que maneira preservo a minha riqueza?

- Dou mais atenção ao dinheiro do que à minha família?

- Justifico esta falta de atenção dizendo que ganho o dinheiro para sustento de todos?

CT Nova Jornada – Pablo Kurlander – Os 12 Passos

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- Chamo a sovinice de economia?

- Chamo de segurança o meu acúmulo excessivo de reservas financeiras?

- Chamo aos negócios obscuros de esperteza?

- Sou capaz de “passar para trás” outra pessoa para obter um lucro?

3 – LUXÚRIA: Gosto e desejo descontrolado pelos prazeres da carne, pelo sexo e pela sexualidade.

Para estar praticando a luxúria não é necessário chegar à prática sexual. Muitas vezes a luxúria pode ser representada por olhares libidinosos, gestos ou palavras com sentidos duplos. Infidelidade conjugal, poligamia, incesto, homossexualidade, bestialidade, prostituição, masturbação exagerada e compulsiva, pornografia, acosso sexual, estupro, violência sexual, são muitas das manifestações diárias deste pecado que enfraquece a prudência, abalando o meu esquema de valores básicos, animando-me a tomar atitudes temerárias e descontroladas.

- Acredito no “sexo livre”?

- Digo a mim mesmo que a prática sexual sadia é a que não restringe nenhum relacionamento?

- Assisto frequentemente filmes pornográficos? Revistas ou fotos?

- A minha masturbação é compulsiva e constante?

- Quantas “namoradas” eu tenho? E amantes?

- Em casa ajo como homem ou como animal?

4 – INVEJA: Mal estar perante o bem dos outros. Incapacidade de ver o êxito alheio sem sentir um

certo remorso por não estar no seu lugar. A inveja gera incapacidade e sentimento de inferioridade. Uma pessoa invejosa é alguém que está sempre se comparando com os outros, e vive a sua vida sempre querendo atingir as metas que outros atingiram. Um invejoso não possui objetivos próprios, seus objetivos consistem em conseguir igualar, ou melhor ultrapassar, as conquistas de outras pessoas. Um invejoso é um escravo do êxito alheio.

- Não me sinto bem quando presencio o êxito de outras pessoas?

- Desejo sempre os bens dos que me rodeiam?

- Critico sempre os logros de outras pessoas, minimizando as suas conquistas, porque secretamente gostaria de tê-las realizado eu mesmo?

- Sou capaz de inventar ou distorcer os fatos para prejudicar o nome de alguém?

- Considero as pessoas sábias, respeitosas e cultas como esnobes e arrogantes, porque no fundo eu gostaria de ser assim?

- Tento convencer todo mundo de que levo uma boa vida?

- Gosto das aparências?

5 – ÓDIO: Desejo violento de punir os outros. Entregando-se às crises temperamentais o desejo de

vingança aparece, e os impulsos de violência se tornam incontroláveis. A raiva cega a pessoa e esta se torna capaz de prejudicar até mesmo àqueles que mais ama. É típico de pessoas hipersensíveis, melindrosas e impacientes, personalidades pobres e sem nenhum tipo de auto-controle. O ódio, ao igual que a inveja, deixam a pessoa incapaz de fazer qualquer coisa para o seu próprio bem. Os sentimentos negativos decorrentes do ódio são tão fortes que dificilmente o indivíduo consegue progredir e modificar a sua situação.

- Sempre tento me vingar quando alguém me prejudica?

- Apelo à violência para resolver os meus conflitos com outras pessoas?

- Reclamo e resmungo até mesmo em situações menores?

- Desfruto com a ruína dos meus inimigos?

- Tenho muitos inimigos?

- Jamais consigo ficar quieto frente às agressões externas?

6º - GULA: Abuso dos prazeres legítimos que Deus concedeu ao homem pelo prazer e pelo beber. Deturpação do instinto de auto-preservação. Enfraquecimento da vontade, do auto controle. A gula faz com que diminua a minha vida espiritual e moral, fazendo com que ocupe uma grande parte da

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minha atenção em assuntos referentes à comida ou à bebida. De certa forma, é uma outra maneira de escravizar-nos aos prazeres do corpo, satisfazendo de maneira exagerada as suas necessidades básicas.

- Geralmente como ou bebo em excesso?

- Acho que posso ser um comilão sem enfraquecer a minha vida espiritual e moral?

- Como ou bebo em maiores quantidades em situações extremas?

- Não consigo dizer não a um bom prato ou a uma boa bebida?

- Penso muito em comida ou bebida?

- Quando chego numa festa, o primeiro que procuro é a comida e a bebida?

7º - PREGUIÇA: Doença da vontade que causa a negligência do dever. A preguiça chama a procrastinação, que faz com que eu deixe sempre para depois o que poderia fazer agora, normalmente deixando para nunca mais. A preguiça provoca desânimo, falta de vontade e de

disciplina, e se torna um pecado capital justamente porque faz com que não utilizemos as tantas capacidades que recebemos de Deus, tornando-nos absolutamente inúteis e improdutivos. E como a gente sabe, aquele que não der frutos deve ser cortado.

- Sou incapaz de cumprir com as minhas obrigações?

- Não consigo ser pontual?

- Tenho medo do trabalho?

- Desanimo facilmente dos meus objetivos?

- Não pratico a auto-disciplina frequentemente?

- Sou morno nas minhas orações, distraindo-me com muita facilidade?

- Traço grandes metas, mas jamais executo nenhuma delas?

VIRTUDES

1. Virtudes Divinas (Teologais) – Fé, Esperança e Caridade.

FÉ: O ato de deixarmos aquela parte do nosso destino que não podemos controlar (futuro) nas mãos de um Poder Superior a nós mesmos, ou de Deus, com a certeza de que Ele proverá o nosso bem estar. Fraca no início pode se tornar uma convicção profunda.

A fé é um presente, mas é adquirida através de muita dedicação, da aceitação e das preces

cotidianas, meditação diária e com o esforço dia a dia em todas as nossas atividades.

A fé espiritual é a aceitação dos nossos dons, dos nossos problemas e situações adversas

com gratidão, sabendo que Deus tem um plano para nós. Com o “Seja feita a Vossa vontade” como o nosso guia diário perderemos o medo, e encontraremos a nós mesmos e a nosso destino.

ESPERANÇA:

A sugere confiança. Começamos a acreditar, e por isso a Esperança

pressupõe , mas também determina os nossos objetivos: esperamos obter a sobriedade, o

auto-respeito, o amor da família. A Esperança resulta uma força propulsora que dá propósito à nossa vida diária.

A nos orienta. A Esperança nos empurra.

Esperança reflete atitude. Removendo-se a Esperança nossa atitude perante a vida torna-se insípida.

CARIDADE: Estão juntas a , a Esperança e a Caridade, mas a maior delas é a Caridade.

A Caridade é paciente, é bondosa, não tem inveja, não é pretensiosa. Não tem vaidade nem

é ambiciosa, não é rebuscada nem provocadora. Não pensa o mal nem se alegra com a

maldade; antes rejubila-se com a verdade. Suporta todas as coisas, crê todas as coisas, tem

esperança e resiste a tudo.

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No seu sentido mais profundo a Caridade é a arte de viver realística e plenamente, guiado pela consciência espiritual das nossas responsabilidades e pelos nossos débitos de gratidão para com o nosso Poder Superior e para com o nosso semelhante.

2. As pequenas virtudes materiais de construção.

1.

Cortesia: alguns de nós temos medo de sermos cavalheiros, amáveis, e preferimos fazer o tipo grosseiro e vaidoso exigido pela sociedade machista.

2.

Contentamento: as circunstâncias não determinam o nosso estado de espírito, nós o fazemos. Hoje me sentirei contente, hoje procurarei a beleza da ida.

3.

Ordem: Viva apenas o dia de hoje, organize o dia de hoje. Aprender a viver o momento presente é uma virtude enorme, é a primeira lei do Paraíso.

4.

Lealdade: A prova do verdadeiro senso moral de um homem.

5.

Uso do tempo: O tempo pode ser produtivo, desperdiçado ou profanado. De todas maneiras é uma ferramenta que podemos ter ao nosso favor, ou não.

6.

Pontualidade: Auto-disciplina, ordem, consideração para com os outros.

7.

Sinceridade: A marca registrada do auto respeito e da autenticidade. A sinceridade produz a convicção, gera entusiasmo e contagia aos outros.

8.

Cautela ao falar: Devemos vigiar o nosso único órgão imprevisível: a língua. Podemos ser maldosos, irrefletidos ou cínicos. Frequentemente os danos são quase irreparáveis.

9.

Bondade: Uma das maiores satisfações da vida. Não conhecemos a felicidade verdadeira enquanto não aprendemos a dar algo de nós mesmos para os outros.

10.

Paciência: O antídoto para o ressentimento, a auto-piedade e a impulsividade.

11.

Tolerância: Requer a cortesia normal, a coragem de saber viver e deixar viver.

12.

Integridade: A qualidade máxima de um homem: honestidade, lealdade e sinceridade.

13.

Equilíbrio: Não se leve demasiado à sério. Alcançamos melhor visão perspectiva se pudermos rir de nós mesmos.

14.

Gratidão: Um homem sem gratidão é arrogante, estúpido ou ambos. Gratidão é simplesmente

o reconhecimento honesto de ajuda recebida. Use-a nas suas orações, nos trabalhos dos Doze

Passos e nas suas reuniões familiares. Lembramos que a melhor forma de expressar a gratidão

é aproveitar realmente a ajuda recebida.

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GUIA PARA O INVENTÁRIO MORAL DIÁRIO (10º PASSO)

Para praticar o 10º Passo devemos tentar identificar diariamente os seguintes itens:

1. Mecanismos de Defesa

Processos inconscientes de defesa do EGO.

a) Racionalização – justificar comportamentos errados.

b) Minimização diminuir a importância dos fatos.

c) Hostilidade ficar agressivo para evitar a conversa.

d) Projeção transferir a nossa culpa a outro.

e) Intelectualização justificar com termos difíceis.

f) Repressão bloqueio inconsciente de situações dolorosas.

g) Desfocalização mudar de assunto quando o mesmo nos incomoda.

h) Generalização nos esconder no comportamento dos outros.

2. Defeitos de caráter e Pecados Capitais

a) Egoísmo – preocupar-se apenas consigo mesmo.

b) Álibis – justificar conscientemente nossos comportamentos errados.

c) Pensamento desonesto – distorcer a realidade a nosso gosto.

d) Orgulho (PC) – admiração exagerada por si mesmo.

e) Ressentimento – falta de perdão, gera raiva e medo.

f) Intolerância não admitir pensamentos ou crenças diferentes dos próprios.

g) Impaciência não saber esperar o momento certo.

h) Inveja (PC) – ciúme da sorte alheia.

i) Malandragem – utilizar qualquer recurso para atingir um fim.

j) Procrastinação – deixar tudo para depois.

k) Auto-piedade – pena de si mesmo.

l) Falsa sensibilidade – magoar-se por pouca coisa.

m) Medo – falta de fé, insegurança.

n) Avareza (PC) – desejo exagerado de possuir bens materiais, egoísmo.

o) Luxúria (PC) – desejo descontrolado pelo sexo e pela sexualidade.

p) Ódio (PC) – desejo de vingança.

q) Gula (PC) – exagero na comida e na bebida.

r) Preguiça (PC) – falta de vontade, apatia, despreocupação exagerada.

3. Danos causados

Diferentes maneiras de prejudicar outras pessoas.

a) Danos físicos agressões físicas com ou sem motivo, acidentes.

b) Danos materiais – roubo, fraude, dívidas não pagas, destruição de bens alheios.

c) Danos sexuais – estupro, abuso sexual, manter relações sexuais através de pressão física ou psicológica. Estes três tipos de danos exteriores podem provocar, como consequência, algum destes

três outros tipos de danos interiores:

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a) Danos morais humilhações, insultos, ofensas, calúnias, provocados por algum dos três tipos de danos anteriores, a pessoas com as quais não se tem intimidade.

b) Danos emocionais – o mesmo que danos morais, mas provocados a seres queridos (amigos, namoradas, colegas de trabalho, etc.).

c) Danos espirituais – o mesmo, mas provocados a seres íntimos, com os quais se tem uma relação muito estreita (pais, esposa, filhos).

4. Obsessões

Pensamentos fixos, bitolação, restringir-se à prática de uma única atividade (positiva ou negativa). Pensar o tempo todo numa única pessoa.

5. Instintos deturpados

Desejos naturais praticados em exagero, praticados insuficientemente, ou não praticados.

a) Instinto de Auto-preservação: pratiquei algum ato que prejudicasse a minha integridade conscientemente?

b) Instinto de Segurança Material: fui muito ambicioso ou avarento?

c) Instinto de Segurança Emocional: quis ser o centro das atenções?

d) Instinto Sexual: pensei ou pratiquei o sexo exageradamente? Pratiquei a masturbação descontroladamente?

6. Virtudes Divinas

a) : entregar as nossas vidas nas mãos de Deus.

b) Esperança: confiança nos planos divinos.

c) Caridade: Amor.

7. Virtudes materiais de construção

a) Cortesia: ser educado, tratar bem aos outros.

b) Contentamento: não deixar-se ser atingido pelos contratempos.

c) Ordem: organização, um dia de cada vez.

d) Lealdade: ser fiel a si mesmo e aos demais.

e) Uso do tempo: utilizar o tempo em atividades produtivas.

f) Pontualidade: respeitar horários, auto-disciplina.

g) Sinceridade: autenticidade, não usar máscaras.

h) Cautela ao falar: pensar antes de falar.

i) Bondade: saber dar o que temos de bom e precioso.

j) Paciência: manter a calma, saber esperar.

k) Tolerância: aceitação de idéias diferentes das nossas, “viver e deixar viver”.

l) Equilíbrio: evitar euforia e depressão.

m) Integridade: honestidade consigo mesmo.

n) Gratidão: saber agradecer, reconhecer uma ajuda recebida.

8. Busca espiritual

Manter um contato consciente com Deus. Alimentar a vida espiritual através de oração e meditação, e principalmente com a prática das virtudes.

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O CONSCIENTE E O INCONSCIENTE

Todo ser humano percebe que existe como um ser singular em relação aos demais objetos e seres do universo. Sob este aspecto a consciência constitui a própria essência do ser humano. Já o inconsciente seria uma outra parte do ser, uma imensa parte, que determina comportamentos e sentimentos, mas da que o indivíduo não percebe a sua existência. Por isto podemos dizer que o ser humano possui dois estágios psicológicos: 1) o Consciente,

e 2) o Inconsciente.

1. O Consciente

O consciente é constituído por todas aquelas coisas das que temos conhecimento e lembrança. Todas as nossas recordações, todos os nossos conhecimentos, enfim, tudo o que está guardado na nossa memória pode ser chamado de consciente.

O consciente determina o nosso comportamento, as nossas reações e as nossas emoções.

Tudo o que fazemos de livre e espontânea vontade parte dele, todas as nossas decisões partem dele.

O consciente existe desde antes do nosso nascimento, e registra informações desde que nos

encontrávamos no ventre materno, informações estas que de uma maneira ou de outra determinaram

a nossa personalidade.

Mas como o consciente registra as informações?

Através dos cinco sentidos: a) vista – olhos – ver.

b) audição – ouvidos - escutar.

c) olfato – nariz – cheirar.

d) tato – dedos-pele – apalpar.

e) paladar – língua – saborear.

Estes cinco sentidos funcionam como gravadoras de tempo integral, que gravam e guardam todas as informações que recebem a cada momento de cada dia de nossa vida. Assim, a vista guarda

cada visão do nosso dia, cada pessoa que vemos, cada lugar que observamos, cada cor, cada planta.

A audição guarda cada som, por mais imperceptível que seja. Cada música, cada palavra,

cada voz, cada grito, cada cochicho. O olfato registra cada cheiro, cada perfume, de cada lugar, de

cada pessoa. O tato guarda cada sensação de frio ou calor, de liso ou áspero, de suave ou grosso. E

o paladar lembra de cada sabor, doce, amargo, azedo. São estas câmaras escondidas que nos trazem todas as lembranças de cada dia de nossa vida,

e através do que vemos, ouvimos, cheiramos, tocamos, e saboreamos, a nossa vida se enche de informação e conteúdo. Por isso estamos sempre aprendendo, sempre guardando alguma coisa.

Mas e por que não lembramos de todo o que os nossos sentidos guardaram?

Porque seria impossível viver com tanta informação na nossa memória. Por isso o nosso consciente utiliza somente aquelas coisas que serão necessárias no nosso dia a dia, como o que estudamos para uma prova, o horário de um programa de TV, o nome das pessoas com as que convivemos, e tantas outras coisas que precisamos lembrar para poder viver.

E aonde vão parar as coisas que não lembramos?

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2. O Inconsciente

Podemos dizer que o inconsciente está formado por todas aquelas coisas que não lembramos, mas que de uma forma ou e outra fazem parte da nossa personalidade. Como o consciente não pode guardar tudo recorre ao inconsciente para deixar reservadas

todas aquelas coisas que não serão necessárias no momento, ou talvez nunca, mas que já ficaram gravadas no nosso cérebro. É um mecanismo inteligente. Já pensou se você tivesse que carregar tudo o que há dentro da sua casa cada vez que for viajar? Seria bastante desconfortável, por isso levamos somente o que será necessário na nossa viajem, mas isso não quer dizer que tudo o que deixamos na nossa casa não seja nosso. Embora o inconsciente não seja percebido, já que é constituído por cosas que não lembramos, ele é de fundamental importância na nossa vida, e se encontra sempre presente. Por exemplo, em situações corriqueiras, como, por exemplo, quando nos encontramos num lugar em que nunca estivemos antes, mas temos a sensação de que já estivemos lá. Ou quando sentimos um cheiro que não conseguimos identificar, mas que nos remonta a uma época bem distante. Uma das mais fortes manifestações do inconsciente é durante os sonhos, onde ele “solta” muitas das imagens do nosso dia, que talvez não guardamos na nossa memória consciente, mas que o inconsciente guardou.

E falando da manifestação do inconsciente na nossa vida, para entender melhor até onde

pode interferir, podemos falar das fobias, que são justamente medos inconscientes de coisas das que

não deveríamos temer, como por exemplo a hidrofobia, que é o medo a água. Não deveríamos ter medo da água, como uma piscina ou um rio, principalmente pessoas que não lembram de ter tido alguma experiência traumática num lugar desses. Mas muitas vezes lembranças guardadas no inconsciente fazem com que uma pessoa se desespere em situações normais, como essa por

exemplo. Existem muitos tipos de fobias, medos inconscientes, como a claustrofobia (medo a lugares fechados), a agorafobia (medo a lugares abertos, contrário de claustrofobia), a vertigem aguda ou acrofobia (medo a lugares elevados), a nictofobia (o clássico medo do escuro), e tantos outros medos que muitas vezes não possuem uma razão aparente.

O inconsciente também se apresenta na forma de tics nervosos, movimentos constantes das

mãos ou dos pés, sudorese, assim como em proporções maiores em casos de queda de cabelo prematura, doenças psicossomáticas, impotência sexual, e tantas outras. Tudo isto sem falar de que o inconsciente representa mais do 95% do nosso psiquismo (da nossa mente), já que é muito pouco o que conseguimos levar conosco na nossa viagem. Desta forma podemos perceber como o inconsciente nos afeta diretamente, embora não o percebamos. Por isso devemos estar atentos com os nossos comportamentos, já que muitos deles podem ser fruto de experiências guardadas no nosso inconsciente, e por isso nunca os perceberemos como errados. Disto falaremos mais quando abordarmos os Mecanismos de Defesa, que são justamente processos inconscientes de defesa do ego.

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EGO – SUPER-EGO - ID

Assim como os estágios psicológicos estudados no assunto anterior, também possuímos três

estágios da personalidade, que seriam as partes integrantes da nossa personalidade, da nossa maneira de ser. Estes três estágios são: o Ego, o Super-ego, e o ID.

O Ego representa a nossa parte consciente. O Super-ego seria a nossa parte inconsciente, e o

ID seria a nossa parte inconsciente-instintiva. Estes três estágios estão intimamente relacionados, e da relação entre eles resultam as mais importantes características da personalidade e do caráter do indivíduo.

Para podermos explicar corretamente deveremos começar pelo último citado, deixando o Ego, que é o resultante dos outros dois, para o final.

1. O ID

O ID representa a nossa parte instintiva, o nosso lado animal.

Mas o que é instinto?

Instintos

O instinto é um desejo natural, inato, que serve para garantir o nosso bem estar, assim como a satisfação das nossas necessidades básicas. Por necessidades básicas podemos entender:

alimentação, higiene, moradia, vestimenta, segurança. Inato significa: não aprendido, algo que se adquire naturalmente, que nasce junto com a pessoa, assim como a cor dos olhos, as feições do rosto, e até mesmo os dons que possuímos. Os instintos não são próprios da raça humana, mas sim de todos os seres vivos, sendo que todos os instintos, com exceção do instinto gregário, são característicos da enorme maioria dos animais. Um exemplo claro de instinto é observar o João-de-Barro construir a sua casa com uma enorme perfeição geométrica, sem nunca ter tido uma única aula de arquitetura. Outro exemplo claro é o instinto materno que as fêmeas da maioria das espécies possuem, assim como a criação natural de grupos e de líderes de grupos em conjuntos das mais variadas espécies de seres vivos. Nos seres humanos podemos dividir os instintos em 4 tipos:

a) Instinto de auto-preservação.

Este é o instinto básico para a nossa sobrevivência. Este instinto garante que procuremos evitar todas aquelas situações que representem um perigo para a nossa integridade física. É um sensor do perigo que faz com que percebamos naturalmente um perigo aparentemente desconhecido, assim como por exemplo perceber o perigo frente ao fogo sem nunca ter nos queimado. Assim como em todo instinto, esta percepção do perigo é totalmente inconsciente, já que raramente temos fontes de conhecimento que indiquem o perigo. A percepção do mesmo não surge de informações adquiridas, mas sim de informações inatas.

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b) Instinto de segurança:

1) material, 2) emocional.

1)Instinto de segurança material.

Este instinto se ocupa de exigir naturalmente a satisfação das nossas necessidades materiais básicas, assim como as relacionadas anteriormente. Se não tivéssemos este instinto, deixaríamos frequentemente de satisfazer as necessidades básicas do nosso organismo, colocando em risco a nossa saúde. De certa forma este instinto é uma extensão do anterior.

2) Instinto de segurança emocional.

Este é um dos instintos mais complicados e controvertidos, assim como o primeiro instinto a ser deturpado. A função deste instinto é criar a necessidade do indivíduo de ser aceito e querido por um grupo, o que faz com que este indivíduo se sujeite naturalmente a normas e regras de um grupo determinado. Se não fosse assim, seria praticamente impossível viver em sociedades organizadas. Este instinto complementa o instinto gregário.

c) Instinto sexual.

É o instinto que garante a continuação da espécie. Este instinto é observado em todas as categorias de animais, desde os mais primitivos até os mais evoluídos. É o que garante a capacidade de se reproduzir sem nunca ter tido instrução alguma para isso. Digamos que é a capacidade natural de descobrir os meios necessários para a reprodução. Por isso o desejo sexual é absolutamente natural, e enquanto permaneça equilibrado não representa nenhum perigo para nós. Muitas vezes este instinto é mal interpretado, ou muitas vezes tido como tabu ou até mesmo pecado. Podemos dizer que durante um longo período a humanidade não soube tratar este assunto, colocando a sexualidade, absolutamente natural, como algo pecaminoso e repreensível, como algo impuro, agindo como se a mesma não fizesse parte integrante do nosso ser, como se fosse algo que houvéssemos adquirido durante a nossa vida, algo sujo e proibido. Mas não é assim, a sexualidade é tão natural quanto a alimentação, mas assim como esta, se torna prejudicial quando desmedida e desequilibrada. Por isso não devemos pensar que porque seja natural e bom podemos nos exceder sem experimentar consequências negativas.

d) Instinto gregário.

É o instinto dos grupos. Gregário provém da palavra grei, que significa grupo ou rebanho. O instinto gregário é o que faz com que o homem sinta naturalmente a necessidade de viver em grupos, em sociedades. Desde a pré-história o homem absolutamente selvagem já compreendia esta necessidade ditada pelo seu instinto já existente. A convivência em grupos garante maior segurança, assim como uma maior satisfação das necessidades básicas e secundárias. Obviamente, por necessidades secundárias entendemos tudo aquilo que de certa maneira não é básico, e que embora seja muito necessário, é perfeitamente prescindível.

De que maneira o instinto gregário garante estas duas coisas?

Em relação à questão da segurança, o homem pré-histórico percebeu que era mais fácil se defender dos animais selvagens, assim como de outros invasores, estando em

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grupos. Por esse motivo começaram a juntar as famílias que se encontravam dispersas em cavernas isoladas, para formar as primeiras sociedades da história. Mas a segurança também se garante através da satisfação das necessidades básicas,

sendo esse o segundo e principal motivo da formação de sociedades. Todos nós possuímos um grande número de necessidades básicas, e um número ainda maior de necessidades secundárias, que quando satisfeitas melhoram a nossa qualidade de vida. E é justamente esta a intenção deste instinto (assim como a de todos os outros), melhorar a nossa qualidade de vida. Sozinhos nunca conseguiríamos satisfazer um número muito elevado de necessidades,

já que não conseguiríamos desempenhar todas as funções necessárias.

Analisemos uma sociedade normal, onde cada membro tem a sua função, o seu trabalho. Todos precisamos do pão, mas nem todos somos padeiros, porque também precisamos da carne, e nem todos somos açougueiros. Todos comemos feijão e arroz, mas nem todos o plantamos e colhemos. Todos vestimos roupas, mas não somos nós que as fabricamos. E assim poderíamos continuar numa interminável corrente de mútua necessidade. Por isso podemos compreender a importância deste desejo natural, que nos garante a plena satisfação de todas as nossas necessidades, fazendo com que dividamos as nossas capacidades com aqueles que fazem parte do mesmo grupo, e dessa forma todos usufruam daquilo que poderia ser particular e exclusivo.

usufruam daquilo que poderia ser particular e exclusivo. Como podemos observar, todos os instintos são úteis

Como podemos observar, todos os instintos são úteis e benéficos, todos eles, quando equilibrados, servem para melhorar a nossa qualidade de vida. Todos eles fazem parte da nossa constituição natural, e nada há de errado ou anormal neles, enquanto permaneçam equilibrados. Mas quando estes instintos são praticados de maneira diferente à exigida pela própria natureza, então podemos dizer que os estamos deturpando.

Instintos deturpados

São aqueles que são utilizados: - exageradamente

- insuficientemente

- não utilizados

A deturpação dos instintos provoca sérios transtornos de comportamento em quem os deturpa, já que podemos afirmar que utilizar um instinto de maneira deturpada é uma ação contra a nossa própria natureza. Normalmente os instintos são deturpados da primeira maneira, que é o exagero. Ou seja, a satisfação exagerada das nossas necessidades e desejos. Mas também ocorrem casos de utilização mínima ou não utilização de um determinado instinto, o que também pode ser denominado de deturpação, já que provoca danos da mesma forma que o exagero.

O primeiro instinto a ser deturpado é o Instinto de segurança emocional, porque é o que

atinge mais profundamente o nosso emocional. A deturpação deste instinto resulta na necessidade exagerada de aprovação dentro de um grupo, desejar e necessitar que todos nos amem e apreciem, coisa que raramente acontece com uma pessoa normal. Este desejo é natural, e quando equilibrado o indivíduo consegue suportar uma rejeição, um desafeto, uma falta de atenção, principalmente daquelas pessoas que não participam diretamente da nossa vida. Mas quando o instinto se encontra deturpado é impossível suportar qualquer tipo de desamor ou desaprovação da parte de qualquer pessoa, inclusive daquelas que pouca importância têm para nós. A desaprovação de qualquer um pode ser um inferno pessoal, e isto seguramente acarretará distúrbios de comportamento.

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Uma vez exagerada esta necessidade de aprovação e afeto, e naturalmente não satisfeita no grau que o desejo exagerado espera, o indivíduo pode partir para uma das outras duas opções, que é a baixa ou a não utilização deste instinto, o que torna o indivíduo solitário, egoísta e ressentido. Como dissemos, este é o primeiro instinto a ser deturpado, e através dele todos os outros podem ser deturpados, sempre em função da aprovação e amor de um grupo, já que esta é uma das bases mais sólidas para a construção da auto-estima.

da

solitário, egoísta e ressentido pode

perfeitamente perder a noção de perigo que o instinto de auto-preservação lhe dá, justamente porque por ter perdido (ou pensar ter perdido) o afeto e a aprovação dos seus semelhantes já não tem motivos para se preocupar consigo mesmo, a sua vida já não vale nada. Neste caso a deturpação do instinto de auto-preservação seria a não utilização deste instinto. Também podemos encontrar o exagero deste instinto em fatos isolados como manias ou neuroses, não relacionados com a deturpação do instinto de segurança emocional. Podemos citar exemplos de pessoas com síndrome de pânico, manias de limpeza ou de higiene, como por exemplo pessoas que tomam banho 8 ou 10 vezes por dia para evitar doenças infecciosas, ou que usam um sabonete uma única vez para não ficar contaminado, ou que não pegam na mão de outras pessoas para não se infectar com doenças contagiosas, e tantos outros casos clássicos de neuroses obsessivas.

deturpação deste instinto. O indivíduo que se tornou

Por exemplo, a deturpação do Instinto de auto-preservação ocorre justamente depois

Já a deturpação do instinto de segurança material ocorre de forma ambígua. Pode ser tanto

excessiva como insuficiente, dependendo das características do indivíduo, e também ocorre depois

da queda emocional provocada pela deturpação do instinto de segurança emocional.

O indivíduo que se encontra numa situação deplorável por causa da queda emocional terá

duas opções: a) procurar satisfazer exageradamente os seus desejos materiais, tanto para compensar a perda como para tentar chamar à atenção daqueles que o “desprezaram” com os seus novos bens.

E se for assim começará uma luta desmedida para conseguir dinheiro e bens materiais, coisas que

poderão garantir-lhe uma nova posição dentro do grupo. Estará preso no materialismo, embora nem suspeite que tudo isso está acontecendo na sua personalidade. b) abandonar-se na mágoa e na auto-piedade, sentindo-se a criatura mais infeliz do universo. Dessa forma esquecerá qualquer tipo de desejo material, bloqueando inconscientemente

as necessidades básicas acima citadas. É o caso de pessoas que se tornam mendigos depois de uma

grande frustração, embora estivessem acostumados a um padrão de vida de classe média ou até média-alta. É mais terrível enfrentar os próprios medos do que suportar a miséria! É claro que existem os casos moderados, que não chegando aos extremos, deturpam cotidianamente este instinto. É o caso das pessoas que quando chateadas ou magoadas deixam de se alimentar, ou de dormir, ou de trabalhar, ou de satisfazer qualquer um dos seus desejos materiais básicos.

O instinto sexual deturpado é o mais famoso, embora seja conhecida mundialmente a sua

faceta exagerada, e até mesmo tida como algo engraçado e proveitoso. O desejo descontrolado por sexo não somente não é tido como algo anormal na nossa sociedade atual, mas é incentivado de muitas formas, principalmente através dos meios de comunicação. A questão é que poucas pessoas sabem ou desconfiam que o desejo exagerado, seja pelo que for, esconde uma anormalidade no indivíduo. Da mesma forma que o desejo exagerado por bens materiais esconde uma enorme frustração

pessoal e uma imensa necessidade de compensação, proveniente da falta de aprovação e de amor do grupo, este desejo exagerado também é uma forma de compensar essa carência, assim como de tentar ser aceito novamente no grupo que uma vez o desaprovou.

É claro que nem todas as pessoas que possuem um instinto sexual deturpado passaram

necessariamente por experiências de desaprovação, mas o mesmo instinto de segurança emocional

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deturpado faz com que o simples pensamento de ter que passar por essa experiência seja tão terrível que qualquer coisa que a possa evitar se torne válida. Mas tudo isto ocorre num nível inconsciente, pelo qual o indivíduo não pode perceber estes mecanismos. O sujeito acha que é gostoso, e que esse é o único motivo real, mas não é assim. Por trás de tudo isso existe uma necessidade de compensação e de auto-afirmação. Uma outra maneira de construir a sua auto-estima, tão abalada pela desaprovação (ou possível desaprovação) do grupo. Neste caso específico a cultura machista contribui muito para que a deturpação sexual (exagerada) no homem seja um bom mecanismo de aproximação com o grupo, já que é considerada pelo mesmo como uma característica favorável, e não como um problema de personalidade. Dentro destes exemplos não devemos incluir as perversões sexuais, que não são deturpações, mas transtornos de personalidade mais profundos.

E, por último, podemos citar o instinto gregário deturpado, que nada mais é do que o isolamento agudo, provocado pelo sentimento de incompetência deixado por uma ou mais experiências traumáticas de não aprovação dentro de um grupo específico. Já no fundo do poço o indivíduo se isola e alimenta a falsa ilusão de que não necessita de ninguém para viver. Esta é a única possibilidade que encontra para parar de sofrer: convencer-se de que na verdade não precisa daquele grupo que o rejeitou, e por isso a sua desaprovação é insignificante. Mas isto jamais acontece realmente, embora o indivíduo procure alimentar esta idéia. Neste caso o sentimento de solidão e abandono é inevitável.

Como podemos ver, nem todos os instintos podem ser deturpados das três maneiras antes citadas. Temos que ter em conta também que todas as características relacionadas nestes exemplos se aplicam a pessoas que não possuam distúrbios psíquicos ou outras patologias. Estamos falando de indivíduos “normais”, digamos, na sua “sanidade mental”.

2. O Super-ego

O Super-ego é o controlador do instinto, ou seja, o controlador do ID.

A diferença do ID, o Super-ego não é inato, mas aprendido. Ele é adquirido, principalmente do Super-ego dos nossos pais.

Explicando: o Super-ego está constituído por todos os valores éticos e morais de um indivíduo, valores estes aprendidos por meio da convivência com os pais, e pela educação a que seja sujeitado, e que pela sua vez impõem uma censura nos nossos desejos naturais para que estes não se excedam. Por exemplo: se a criança cresce numa família de ladrões os seus valores éticos e morais não indicarão que roubar é errado ou proibido, e por consequência o seu Super-ego não censurará este tipo de conduta quando o instinto, por exemplo o de segurança material, assim o exija. Lembremos que os instintos não possuem valores éticos ou morais. Se sentir fome o instinto de auto-preservação indicará que devemos ingerir algum tipo de alimento, mas não indicará o lugar em que pode ser obtido o mesmo. Para o instinto não há certo ou errado, por isso o Super-ego deve controlá-lo e censurá-lo, para que possa ser adaptável às exigências do meio. Assim como neste exemplo, poderíamos citar inúmeros exemplos para cada tipo de instinto ou de desejo, e para cada tipo de família ou de criação, mas o importante é saber que a censura exercida pelo Super-ego sobre os nossos instintos é de vital importância para a nossa convivência dentro de um grupo e de uma sociedade organizada.

Desta forma, podemos perceber que as características do Super-ego dependem diretamente do meio em que a criança conviva nos seus primeiros anos de vida, assim como durante a sua infância. Mas por serem características aprendidas, também podem ser desaprendidas, ou melhor,

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re-aprendidas, como é o caso dos dependentes químicos em recuperação, que começam a adquirir uma censura sobre o uso de álcool e drogas dentro do tratamento, censura esta que até então não possuíam. Neste exemplo podemos observar muitas outras censuras adquiridas durante o tratamento, sendo que todas elas contribuem para uma melhor integração na sociedade e na família. Podemos consertar um Super-ego ineficiente, mas para isso precisamos de novos modelos de comportamento, de pessoas que nos transmitam os novos valores éticos e morais a serem aprendidos, e também precisamos de tempo, muito tempo.

3. O Ego

O Ego é o intermediário, o negociador da batalha entre o Super-ego e o ID.

Ego significa eu”.

Na luta entre o desejo e a censura surge a personalidade.

O Ego atua no campo consciente, a diferença dos outros dois estágios estudados. O Ego é a

consciência que se tem de si mesmo. Para a formação do Ego encontramos dois elementos básicos: os desejos naturais idênticos

em todos os seres humanos; e os valores éticos e morais diferentes para cada família e cultura.

Mas de tudo jeito

Tendo isto em conta podemos perceber que as combinações são infinitas. podemos classificar os resultados em dois tipos de caráter:

a)

caráter ajustado

b)

caráter desajustado

O

primeiro tipo de caráter é aquele que, embora apresentando falhas na censura, consegue

conviver em grupos organizados sem maiores dificuldades, fazendo parte das mais diversas atividades.

O segundo tipo seria aquele que não consegue se adaptar à convivência em grupos por causa

do seu desajuste. Este tipo de desajuste ultrapassa o limite tolerável para uma convivência aceitável com um grupo organizado. Todos os tipos apresentam desajustes, não existe um caráter perfeitamente ajustado (seria patológico), mas alguns ultrapassam o limite fazendo com que seja impossível conviver com eles.

Neste caso não estamos citando unicamente àquelas pessoas que se tornam extremamente inconvenientes dentro de um grupo, mas também àquelas que não conseguem participar ativamente

de nenhuma das atividades do grupo. Com essas pessoas também é impossível conviver, co-agir. De todas maneiras podemos afirmar que o resultado final depende unicamente da censura exercida sobre o desejo, já que os desejos naturais são os mesmos para todas as pessoas. Por este motivo o Super-ego se torna tão importante na formação do caráter. Se o indivíduo aprende valores éticos e morais errados, ou desajustados, inevitavelmente o seu caráter será desajustado, ou seja, terá uma dificuldade enorme em conviver com aqueles que possuam informações corretas. Mas o indivíduo não tem culpa, já que não foi ele quem escolheu as informações a serem aprendidas, mas unicamente se sujeitou ao meio em que cresceu. Por isso é importante ter em conta que estas informações são reapreendíveis, e por isso é possível reconstruir o nosso caráter. Normalmente os desajustes são atribuídos aos instintos deturpados, ou seja, aos desejos exagerados principalmente, mas na realidade, como vimos, os desajustes são provocados por desajustes na censura, e como a censura é aprendida, os desajustes seriam provocados por desajustes na censura daqueles que inconscientemente a ensinaram. E assim poderíamos continuar até o primeiro ser humano.

O importante é conhecer estes mecanismos para podermos compreender os nossos próprios

desajustes, e assim conseguir ajustar-nos num comportamento que não se torne auto-destrutivo.

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MECANISMOS DE DEFESA DO DEPENDENTE QUÍMICO

Na dependência química os mecanismos de defesa passam a fazer parte da própria

sintomatologia da doença. A maioria dos dependentes químicos não se identificam como tal, e por isto é mais fácil que a doença se instale. Isto se deve, em muitos casos, porque a droga e o álcool não provocam efeitos negativos imediatos, sendo que muitas vezes acontece o contrário: no início do uso provocam mais prazer do que sofrimento, e durante algum tempo as pessoas que começam a usar drogas ou álcool sentem-se mais “felizes” do que as outras, pelo que é mais fácil autoenganar-

se acreditando que o uso é absolutamente inofensivo. Quando os problemas começam a surgir na vida do dependente químico, o mesmo não os vê como consequências do seu uso porque são facilmente racionalizados como resultantes de outros acontecimentos. Com a evolução e agravamento da dependência, consequentemente, os problemas vão se agravando e avolumando, e se estendendo às diversas áreas da sua vida (trabalho, família, economia, amigos, etc.), forçando o dependente a racionalizar estes fatos. Com o passar do tempo ele torna-se perito em engendrar e utilizar as mais variadas estratégias para defender a continuidade da sua dependência, que embora não esteja mais trazendo tanto prazer e benefícios para ele, continua sendo a solução perfeita para os seus problemas e o remédio para os seus males. Assim passa a usar cada vez mais os mecanismos de defesa. Segundo alguns autores, a raiz da utilização destes mecanismos estaria na resistência em admitir, para si mesmo e para os outros, que é impotente perante o álcool e as drogas, que a sua dependência causa problemas para si e para os outros, que necessita de ajuda, que deve abrir mão da sua dependência o mais rápido possível. Admitir esta realidade implicaria numa agressão à sua auto-estima, na aceitação da sua

anormalidade, o que para ele significaria fraqueza e inferioridade. Soma-se a isto a sua relação com

o álcool e a droga, que fica extremamente ameaçada, e da qual julga não poder abrir mão. O

dependente não concebe a sua vida sem o álcool ou a droga, e ele sabe disso, embora não o admita nem para si mesmo.

SISTEMA DE ÁLIBIS – NEGAÇÃO

Em razão das circunstâncias acima descritas o dependente químico monta um sistema de álibis para garantir a continuidade do seu vício. Este sistema, composto por vários mecanismos de defesa, dos quais o mais importante é a negação, é descrito por vários autores como um Processo de Negação no qual o dependente químico passa a utilizar vários subterfúgios e estratégias para negar a sua condição de dependente. Se destina a explicar todos os episódios de exagero gerados pelo vício, com os quais ficaria evidenciada a sua relação anormal com a bebida ou com a droga. A negação levanta uma muralha que isola efetivamente a realidade de que a dependente é responsável pelos seus atos falhos, deixando a impressão de que os problemas da vida cotidiana são os responsáveis pelo seu vício. Obstrui todas as pistas que possam levar à conclusões concretas sobre a sua doença.

PRINCIPAIS MECANISMOS DE DEFESA

Racionalização: Tendência a justificar os comportamentos inadequados. Ex.: Eu exagerei na bebida porque fui demitido.

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Minimização: Tendência a acentuar os problemas relacionados com o vício, para diminuir os efeitos do mesmo. Ex.: Não entendo como isso aconteceu, eu só tomei uma cervejinha.

Hostilidade: O dependente torna-se agressivo ou hostil quando abordado ou questionado em relação ao seu vício. Ex.: Esse assunto não diz respeito a vocês!!! Eu cuido da minha vida!!! Eu não pedi pra nascer!!!

Projeção: Tendência a transferir a culpa ou a responsabilidade dos seus erros para outras pessoas. Ex.: Eu não tive culpa se me ofereceram bebida nessa festa. Você me deixou esperando muito tempo e eu fiquei nervoso.

Intelectualização: Usar termos difíceis e teorias complexas para justificar o comportamento errado. Ex.: É uma questão de preconceito inerente à sociedade.

Repressão: Bloqueio inconsciente de situações ou momentos que são dolorosos demais para serem lembrados. Ex.: Eu não me lembro de ter agredido assim a minha filha!

Desfocalização: Tendência a deslocar o assunto para outro lugar, espaço ou tempo, para evitar conversas incômodas para a sua dependência. Ex.: Quando abordado sobre o que aprontou na escola começa a falar sobre o acampamento que estão programando para o final do ano.

Generalização: Tendência a generalizar os seus problemas ou comportamentos errados. Ex.: Todo mundo na minha escola fuma maconha. Todos bebemos bastante para comemorar.

EVOLUÇÃO

O processo de negação continua durante anos e exacerba a confusão mental do dependente químico, o coloca cada vez mais fora de contato com a realidade à medida que ele consegue se convencer de suas próprias ilusões. Ao recorrerem ao seu próprio sistema de negação para explicar e justificar o comportamento comprometedor quando bebem, eles se tornam os principais agentes de uma conspiração que os mantém presos no círculo vicioso da sua dependência.

CONCLUSÃO

Os Mecanismos de Defesa são processos psicológicos utilizados involuntariamente por todos os seres humanos, e têm como principal característica negar, falsificar ou distorcer uma realidade com a qual temos dificuldade de conviver. Alguns Mecanismos de Defesa fazem parte da própria sintomatologia da dependência química, e são usados em função de negar a realidade da dependência e defender a continuidade do uso do álcool. Assim, é extremamente importante para os profissionais da área o conhecimento destes mecanismos, pois sua remoção é indispensável para que qualquer intervenção tenha sucesso. Por desconhecerem estes processos, as pessoas ligadas diretamente com dependentes químicos são frequentemente manipuladas por estes, envolvendo-se no processo como facilitadores, sem sequer perceber este envolvimento. Quando lidamos com dependentes químicos devemos estar atentos também com os nossos próprios Mecanismos de Defesa, como medos, culpa, raiva, etc.; para que não nos tornemos também facilitadores.

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DEPENDÊNCIA QUÍMICA – UMA DOENÇA

Como todos sabemos a dependência química é uma doença que atinge muitas áreas da nossa vida. Mas embora conheçamos esta realidade, nem todos temos absoluta consciência do que

isto significa. Quando dizemos que a droga afeta a nossa vida estamos nos referindo não somente às consequências negativas óbvias, facilmente reconhecíveis, que todo dependente químico experimenta (problemas familiares, sociais, laborais, etc.), mas também à grande quantidade de estruturas físicas e psíquicas, praticamente irreconhecíveis à primeira vista, que acabam sendo igualmente comprometidas, e que da mesma forma contribuem para a nossa falência total como seres humanos.

quando

avaliamos as consequências negativas diretas decorrentes do uso (problemas familiares, sociais,

laborais, etc.), ou como uma doença quando avaliamos a degeneração destas duas estruturas básicas: a estrutura física, e a estrutura psíquica; degeneração esta que acontece de maneira absolutamente involuntária e imperceptível.

Desta

forma

podemos

definir

a

dependência

química

como

um

problema,

Em relação à dependência química como um problema, já vimos o suficiente nos capítulos anteriores, por isso vamos agora centralizar a nossa atenção na avaliação da dependência química como uma doença. E como acabamos de observar, nesta avaliação podemos separar as duas estruturas básicas: - física - psíquica

E em cada uma destas estruturas se engendrarão problemas absolutamente diferentes, como

veremos a seguir.

A DEPENDÊNCIA QUÍMICA: uma doença física

Como estávamos dizendo, a dependência química provoca muito mais do que problemas ocasionais que podem ser resolvidos com certa facilidade. A dependência química gera problemas (doenças) dos que poucas vezes temos conhecimento, e que aninham no mais íntimo do nosso ser.

Como uma doença física, a dependência química é uma doença Incurável, Progressiva e de término Fatal.

Mas por que?

Incurável

O nosso organismo sofre modificações radicais no seu funcionamento normal para poder

adaptar-se à droga, que inicialmente é uma substância desconhecida, mas que com o tempo passa a ser algo a ser assimilado diariamente.

E como o nosso organismo se adapta àquilo que não consegue evitar, acaba conseguindo

funcionar “normalmente” com essa nova substância circulando dentro dele. Mas, como é característico também, acaba necessitando dessa substância para poder continuar funcionando “normalmente”, já que a partir do momento em que ocorrem modificações mais profundas no nosso organismo, este não conseguirá tão facilmente voltar a funcionar como antigamente, e por isso exigirá diariamente a substância a qual forçadamente se adaptou. A isto podemos chamar de dependência.

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Mas por que Incurável?

Como toda estrutura inteligente, o nosso organismo funciona de uma forma que evita o desperdiço de energia e informação, por isso otimiza sempre o seu desempenho, procurando não gastar tempo e energia além do estritamente necessário.

E aí?

Aí que quando o organismo se adapta a uma substância – seja ela qual for, neste caso a

droga ou o álcool – ele grava as informações referentes a esta substância, como por exemplo o tipo de substância, a quantidade em que é ingerida (dosagem), e a frequência de uso. Existem vários tipos de substâncias, sendo que as drogas são substâncias que alteram de alguma forma o funcionamento do nosso organismo. No nosso caso não são todas as drogas as que nos interessam, mas somente as chamadas drogas psico-ativas, isto é, aquelas drogas que atuam no nosso Sistema Nervoso Central, cujo centro é o nosso cérebro. (psico = mente, ativas = ação) Existem drogas que alteram o funcionamento de outros sistemas do nosso organismo, como por exemplo o Sistema Circulatório ou o Sistema Digestivo, mas estas drogas são mais conhecidas como remédios, e não têm nenhum efeito no nosso cérebro. Por isso o nosso organismo vai registrar uma substância psico-ativa, que está sendo ingerida numa quantidade determinada, e numa frequência constante.

O nosso organismo gravará as informações referentes a este uso, gravando principalmente os

valores referentes ao tipo, quantidade e frequência, o que significa que criará uma memória da substância referida, assim como dos valores citados. Esta memória se chama memória celular, e é uma das principais responsáveis pelo fato da dependência química ser incurável.

A memória celular está formada pelas informações referentes ao tipo de substância, à quantidade consumida
A memória celular está formada pelas informações referentes
ao tipo de substância, à quantidade consumida
e à frequência de consumo.

A memória celular é criada naturalmente pelo próprio organismo, e não temos nenhum

controle sobre ela. Ela acontece sem a nossa participação, e nada podemos fazer para apagá-la, e é

justamente esta característica que torna a dependência química uma doença incurável. O nosso organismo cria esta memória justamente para otimizar o desempenho e poupar energia. Ou seja, o organismo cria um “gabarito” de funcionamento com substâncias psico-ativas para não ter necessidade de criar outro futuramente.

Quando estacionamos a doença o nosso organismo sofre novamente as modificações referentes à abstinência da substância à qual tinha se acostumado, e por isso o dependente químico experimenta uma variedade de sintomas negativos no início da abstinência, desde febre e dores de cabeça até convulsões no caso dos alcoólatras (lembremos que o álcool também é uma substância psico-ativa, e por sinal uma das mais fortes). Como dizíamos, a doença é estacionada, mas a memória celular não se apaga, ela permanece latente no nosso organismo. O “gabarito” de funcionamento com substâncias psico- ativas permanece intacto, e isto torna extremamente perigosa qualquer tentativa de consumo. Se chegarmos a experimentar qualquer tipo de substância psico-ativa durante o período de abstinência, colocaremos novamente em funcionamento a nossa memória celular.

O nosso organismo reconhecerá a nova substância ingerida como uma substância do tipo

psico-ativo, e para não gastar energia criando novamente uma forma de adaptação a essa substância, ele usará sempre aquela maneira, aquele “gabarito” que já está registrado na sua memória.

O problema é que nesse “gabarito” estão registradas também as informações referentes à

quantidade e frequência, o que significa que o nosso organismo nos forçará a nos adaptar novamente à quantidade e frequência de consumo antigas, registradas na nossa memória celular. E desta forma voltaremos à quantidade e frequência de uso anteriores, mais rápido do que possamos perceber.

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É impossível apagar a nossa memória celular
É impossível apagar a nossa memória celular

Devemos lembrar que não possuímos nenhum tipo de controle consciente sobre o nosso organismo, e muito menos sobre estruturas tão complexas como a nossa memória celular. Pensar que podemos controlar de alguma forma esta memória seria como pensar que podemos controlar a quantidade de vitaminas que o nosso organismo sintetizará, ou a quantidade de carboidratos que o nosso sistema digestivo absorverá no dia de hoje. Definitivamente esta memória faz com que a nossa doença seja absolutamente incurável, já que não importa o tempo de abstinência que tenhamos, ela sempre existirá, e estará pronta para ser ativada a qualquer momento em que utilizemos novamente qualquer tipo de substância psico-ativa. E o mais perigoso desta característica é que a volta ao uso acontece sempre na mesma intensidade – ou mais – que antes da abstinência, o que significa que o dependente químico que recai retoma o caminho do vício exatamente onde o deixou, e daí pra frente irá se aprofundando cada vez mais. Devemos lembrar também que antidepressivos, ansiolíticos, “remédios para dormir”, moderadores de apetite, contém também substâncias psico-ativas, pelo qual o seu uso não é recomendado para dependentes químicos em recuperação.

Progressiva

Progressiva significa que progride, que avança.

De fato, a dependência química é uma doença Progressiva porque vai se tornando cada vez mais grave com o passar do tempo. Não é uma doença que se estaciona num ponto determinado. Esta progressão acontece tanto em relação ao comprometimento pessoal do indivíduo com a droga, quanto à quantidade e frequência do uso. Em relação ao comprometimento pessoal podemos observar, em praticamente todos os casos, como a droga vai progressivamente tomando conta de todas as áreas da vida do indivíduo. Ele começa consumindo somente nos finais de semana e em algumas festas, tendo um comprometimento social, familiar, escolar e laboral mínimo, mas com o tempo a frequência aumenta e inevitavelmente colocará em risco as suas relações sociais e familiares, assim como o seu desempenho escolar e laboral. Uma vez que a quantidade e frequência de uso aumentam, inevitavelmente se verão comprometidas as outras áreas da vida, e cada vez num grau maior. Aquele que começa a ter um desempenho laboral menor por causa da droga, numa hora ou outra chegará a não conseguir ter mais nenhum tipo de desempenho laboral. Aquele que vê as suas relações familiares e sociais comprometidas por causa da droga, chegará a perdê-las por completo.

Mas por que a quantidade e a frequência aumentam?

Qualquer pessoa que comece a fazer uso de drogas com certa frequência, por mínima que seja (uma vez por semana, por exemplo), desenvolverá automaticamente a chamada Tolerância orgânica. A Tolerância se desenvolve naturalmente, sem nenhuma participação voluntária do usuário, porque o organismo começa a acostumar-se à droga utilizada, começa a criar uma certa resistência natural que faz com que sejam necessárias doses maiores e em espaços mais curtos de tempo para obter o mesmo efeito.

Tolerância é : maiores quantidades em maior frequência para obter o mesmo efeito.
Tolerância é :
maiores quantidades
em maior frequência
para obter o mesmo efeito.

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Por este motivo o dependente sente-se naturalmente impelido a aumentar as doses normais, assim como a aumentar a frequência de uso. O desejo pela droga aumenta cada vez mais sem que o dependente o perceba, já que o que ele busca é simplesmente o mesmo efeito. Este é também um dos fatores que contribuem para que o dependente troque a sua droga de preferência por uma droga mais forte, como por exemplo a frequente troca da maconha pela cocaína. Esta troca acontece principalmente porque o organismo cria uma resistência natural à maconha que faz com que ela não consiga mais provocar o efeito desejado. Então, quando o dependente experimenta uma nova droga, perante a qual o organismo não possui uma resistência natural, ela provoca um efeito muito mais nítido do que a anterior, e isto faz com que a troca ocorra facilmente. Ocorrendo esta troca de uma droga leve por outra mais forte, ocorre também a progressão da doença, já que neste momento de troca a dependência química atinge um grau mais elevado no seu caráter de doença progressiva. De todas maneiras, com o passar do tempo e do uso contínuo, o dependente criará uma tolerância também pela nova droga, o que fará com que o processo de progressão continue eternamente. E como dizíamos anteriormente, o comprometimento pessoal com a droga aumentará proporcionalmente, o que fará que cada vez mais a vida do dependente esteja comprometida com a droga.

Outro fator que contribui para que a progressão do comprometimento pessoal aconteça é o fator econômico. O dependente gastará cada vez mais dinheiro em drogas, e ele terá que arrumar esse dinheiro de alguma forma. Geralmente essas formas de arrumar o dinheiro implicarão práticas ilegais, como o roubo ou o tráfico, o que fará que corra o risco de ser preso ou morto. Quando o dependente químico se encontra nesta fase, a sua vida particular pouco vale para ele, ficando apenas a saudade de algo que uma vez foi muito bom.

Fatal

A dependência química é uma doença de término fatal.

Por que?

Porque leva à morte, um dependente químico que não estacione a sua doença certamente acabará morrendo por causa dela.

Mas nem todas as drogas podem chegar a provocar a morte, ou podem?

Em termos de morte, podemos distinguir dois conceitos: a morte por overdose e a morte por desregramento. Quando falamos de overdose estamos nos referindo aos efeitos nocivos diretos de uma droga sobre o corpo, onde interagem o nível de toxicidade da droga, a quantidade utilizada e a maneira em que a droga é utilizada. Ou seja, há drogas que possuem um nível de toxicidade elevado, e que por isso, se usadas em grandes quantidades, e de uma maneira determinada, podem provocar a overdose, ou seja, a morte. Das drogas consumidas no Brasil, são poucas as que podem provocar a overdose, e dentre elas destacamos: o álcool, a cocaína e o crack. Lembremos que quando falamos em overdose estamos falando de morte provocada pelo próprio uso da droga, e não por consequências secundárias como acidentes, brigas, etc. Por isso existem drogas que não chegariam a provocar uma morte por overdose, justamente por causa do nível de toxicidade ser baixo, como por exemplo a maconha. No caso da cocaína e do crack, a overdose significa, na maioria dos casos, uma parada cardíaca, já que os batimentos cardíacos aumentam de acordo com a quantidade utilizada. No caso da utilização intravenosa da droga a quantidade não precisa ser tão grande, porque quando utilizada

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dessa forma o organismo absorve uma quantidade muito maior da droga. Por isso é muito mais fácil sofrer uma overdose utilizando drogas injetáveis do que por outros meios. Já com o álcool a overdose significa uma parada respiratória, o que também leva a morte, embora por uma questão de permissividade social, a overdose por causa do álcool é chamada de coma alcoólico, termo suavizado para uma cultura essencialmente consumista.

Por outro lado temos a morte provocada pelo desregramento, isto significa, a falta de regras e organização na vida do dependente químico. Seriam as chamadas consequências secundarias. Quantos tipos de morte podem ser provocados direta ou indiretamente pela droga e o álcool? Acidentes com carros, acidentes de trabalho, brigas, violência, e tantas outras formas de morte que, camufladamente, envolvem o álcool ou a droga dentro dos seus principais motivos. Isto sem falar nas doenças adquiridas tanto pelo uso da droga (HIV, Hepatite, pressão alta), pelo desregramento de vida (HIV, doenças venéreas, anemia), e pela falta de defesas do organismo causada pela má alimentação, a falta de sono, o nível de toxicidade no organismo (doenças oportunistas).

Desta forma, podemos concluir que qualquer dependente químico que não estacione a sua doença deixando de fazer uso de qualquer tipo de droga (incluindo o álcool) muito provavelmente se encaixará num destes exemplos dados anteriormente. Isto não quer dizer que o dependente químico necessariamente morrerá sendo ainda novo, mas sim que a sua vida será muito mais curta do que seria de maneira natural.

A DEPENDÊNCIA QUÍMICA: uma doença psíquica

Dando continuação ao que estávamos estudando anteriormente, podemos afirmar que a dependência química não provoca somente problemas físicos. O problema da dependência química não é somente uma questão médica, mas principalmente uma questão psicológica, já que os abalos psíquicos e emocionais são constantes durante todo o processo de dependência, desde antes do primeiro uso até a recuperação ou a morte. Embora sejam inúmeras as causas que favorecem o uso de drogas, as mais importantes são sempre as causas emocionais, e são estas as primeiras a aparecer. Mas não iremos estudar agora todas as questões emocionais que favorecem o uso de drogas, mas apenas uma: a Obsessão.

Obsessão

Podemos dizer que a Obsessão é uma doença psíquica que o dependente químico geralmente desenvolve após iniciar o uso de drogas. Existem muitas personalidades obsessivas que nunca fizeram uso de drogas, mas não existe um dependente químico que não seja obsessivo. Por isso, nesta parte do nosso estudo, falaremos somente de doenças psíquicas causadas pela droga, e não anteriores a ela; neste caso a obsessão.

Mas o que é obsessão?

Obsessão é o pensamento fixo numa única coisa. O objeto de obsessão é aquilo pelo
Obsessão é o pensamento fixo numa única coisa.
O objeto de obsessão é aquilo pelo que a pessoa é obcecada.
O objeto de obsessão nem sempre é negativo.

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A obsessão é sempre uma maneira de compensar angústias, carências, sofrimentos em

geral. É uma das saídas que o nosso inconsciente encontra para equilibrar uma situação de

sofrimento interno.

Explicando: Podemos dizer que a obsessão, ou seja, o pensamento fixo, é uma característica bastante perigosa para quem a engendra, já que manter o pensamento focalizado a maior parte do tempo numa única coisa, num único objeto, faz com que muitas coisas da nossa vida acabem

passando despercebidas. E dentro destas coisas que não percebemos se encontram os perigos do dia a dia, que dificilmente nos atingiriam se tivéssemos a capacidade e a concentração necessária para enxergá-los. A obsessão funciona como um tapa de burro que não nos permite ver para os lados, e assim não nos deixa perceber os perigos do caminho, mas somente olhar numa única direção. Obsessão não significa ser incapaz de pensar em outra coisa que não seja o objeto de obsessão, mas sim não conseguir deixar de pensar nele com uma frequência maior que o normal. E o limite entre o normal e o anormal é muito tênue, e é muito difícil de perceber a diferença, principalmente quando a obsessão começa a se instalar na nossa vida.

A questão principal é perceber até onde um determinado pensamento fixo está nos

prejudicando, por exemplo, tirando a nossa concentração em outras atividades, ou fazendo com que não nos preocupemos com os problemas que não estejam diretamente relacionados ao objeto de obsessão. Tudo isto é fácil de acontecer porque, como dissemos anteriormente, o objeto de obsessão nem sempre é negativo, o indivíduo nem sempre se torna obcecado por coisas negativas, e quando o objeto de obsessão é positivo (religião, Deus, trabalho) é muitíssimo mais difícil de dar-se conta de que a obsessão está se instalando em nós. Quando o objeto de obsessão é positivo, automaticamente se transforma em algo negativo para a nossa vida, porque já não o percebemos como realmente é, mas sim como queremos vê-lo. Quando o objeto de obsessão é negativo, o idealizamos, para não ter que nos desfazer dele. Idealizar significa ocultar os defeitos e ressaltar as virtudes do objeto.

De todas formas a obsessão é apenas um pensamento e não uma atitude. Por isso, para podermos aceder ao objeto de obsessão, ela se transforma em atitude através da compulsão.

Obsessão: pensamento fixo Compulsão: desejo exagerado + atitude descontrolada
Obsessão: pensamento fixo
Compulsão: desejo exagerado + atitude descontrolada

Compulsão

A compulsão é uma soma de um desejo exagerado seguido por uma atitude descontrolada,

e através dela a obsessão consegue alcançar o objeto de desejo.

O desejo exagerado é provocado diretamente pelo pensamento fixo, que pela sua vez

provoca uma atitude descontrolada em relação ao objeto de desejo.

Por exemplo, um dependente químico absolutamente obcecado pela droga, pensa a maior parte do tempo na droga, em como irá consegui-la, aonde irá usá-la, quanto tempo durará. E esse pensamento contínuo faz com que desperte ainda mais um desejo exagerado pela droga, um desejo

incontrolável, que fará com que o dependente tenha atitudes descontroladas por causa desse desejo, como por exemplo roubar, brigar, e tantas outras situações que demonstram a total falta de controle de uma pessoa obcecada.

A esta falta de controle chamamos de Compulsão.

Por isso dissemos que a obsessão é psíquica e a compulsão é física.
Por isso dissemos que a obsessão é psíquica e a compulsão é física.

CT Nova Jornada – Pablo Kurlander – Dependência Química

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Mas nem sempre o objeto da obsessão é o mesmo objeto da compulsão. E por objeto da compulsão entendamos aquilo pelo qual temos desejo exagerado e atitudes descontroladas.

Mas por que não seria o mesmo?

Porque nem sempre é possível satisfazer a nossa obsessão. Como, por exemplo, um homem obcecado por uma mulher que não possui nenhum interesse nele, dificilmente poderá satisfazer a sua obsessão original por aquela mulher. Então deverá canalizar a energia procedente da sua obsessão e conduzi-la a uma compulsão diferente, como por exemplo outras mulheres, trabalho, drogas, etc. Todas elas atividades pelas quais o indivíduo poderá ser compulsivo, mas somente como uma canalização da energia. Canalização da energia significa reconduzir a energia que não pôde ser utilizada para outras direções. Isto não quer dizer que seja bom, mas é um mecanismo que o nosso inconsciente utiliza para não entrar em curto-circuito, já que não pode ficar com essa quantidade de energia excedente que supõe uma obsessão não realizada. Assim como na obsessão, também existem objetos de compulsão positivos e negativos, com as mesmas características que os anteriores. E assim como na obsessão, e muito difícil admitir uma compulsão quando se trata de um objeto positivo, como o trabalho, por exemplo. O indivíduo que se torna compulsivo dificilmente o percebe sozinho, e se alguém lhe apontar este problema, dificilmente o admitirá, porque para ele sempre há motivos reais suficientes para justificar o seu comportamento. Mas de todas formas, independentemente das razoes que possua, ingressar num círculo obsessivo-compulsivo é extremamente perigoso, principalmente para os dependentes químicos em recuperação. Uma situação destas representa certamente uma recaída iminente.

E o que fazer? Certamente, e como já vimos nos 12 Passos, a primeira atitude a ser tomada é a admissão. Nada acontecerá de diferente se antes não aceitarmos a nossa fraqueza. Mas no caso da obsessão e a compulsão, dificilmente esta admissão acontecerá sem a ajuda de outras pessoas, porque raramente alguém conseguirá enxergar em si mesmo algo tão sutil e camuflado como uma obsessão. De todas formas, quando percebamos em nós qualquer indício de compulsividade, poderemos ter certeza de que há alguma obsessão escondida por trás dela.

CT Nova Jornada – Pablo Kurlander – Recaída

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RECAÍDA – ORIGEM E EVOLUÇÃO

Durante o processo evolutivo das técnicas para tratamento da dependência química, a maioria dos profissionais, e também dos dependentes, se deparam com um fenômeno interessante desde o ponto de vista clínico: a recaída. Muitos de nós, ao presenciarmos tal fenômeno, talvez tenhamos nos perguntado: como uma

pessoa após ter vivenciado tantas situações de risco, danosas para si e para os outros, volta ao uso de drogas?

A resposta para este questionamento pode não nos satisfazer, porém, de certo modo, é

simples. A recaída está inserida no processo do uso de drogas. Vêm-nos, então, outras perguntas:

Então não adianta? Não tem jeito? Dizemos que a recaída faz parte da doença e não da recuperação, e esta afirmação nos faz animar um pouco mais.

DEFINIÇÃO DE RECAÍDA

Recaída é a volta ao uso de substâncias psicoativas, do mesmo jeito que utilizava antes de iniciar um programa de tratamento e recuperação.

Para entendermos esta realidade citaremos um exemplo comum a qualquer aprendizado: a linguagem. Durante o desenvolvimento da dependência química o indivíduo vai construindo seu arsenal linguístico que, a grosso modo, poderíamos chamar de arsenal patológico, se pensarmos na estruturação de valores que circundam o meio das drogas: códigos, formas particulares de se comunicar, ética, moral, vícios, etc.

A recuperação tem como objetivo construir uma nova linguagem, ou seja, a modificação

mais ampla possível em seu estilo de vida, reformulando sua maneira de se comunicar com o mundo, e também sua maneira de se comportar nele. Internamente o dependente químico precisa trabalhar a sua arrogância, prepotência, egocentrismo, egoísmo, orgulho, raiva, rancor, mágoa, culpa pelas consequências negativas do uso, inseguranças que são origem de comportamentos agressivos, sua baixa qualidade de vida, etc. Externamente precisa reformular conceitos como: nova forma de vestir, nova linguagem verbal, corte de cabelo, enfim, mudança dos comportamentos desenvolvidos durante a dependência.

MANUTENÇÃO DA LINGUAGEM

Após o tratamento o indivíduo teoricamente construiu uma nova linguagem, a linguagem da recuperação, isto é, uma modificação em seu estilo de vida. Experimentou o despertar espiritual em que a melhora faz ver o mundo cor-de-rosa (lua de mel com a recuperação).

A origem da recaída se dá quando a linguagem introduzida no processo de recuperação não

é mantida no processo de reinserção social que acontece post-tratamento. O enfraquecimento da linguagem implica no fortalecimento do processo de recaída, que deve ser encarado não como um drama ou uma tragédia, mas sim como a necessidade objetiva de adequadamente reintroduzir o indivíduo no programa. Podemos pensar na tolerância que a maioria de nós têm com as recaídas de outras doenças, como por exemplo gripe, pneumonia, tuberculose. Infelizmente, devido às consequências diretas ou indiretas da volta ao uso, não temos a mesma tolerância com relação à dependência química, que também é uma doença, e como tal devemos ter cuidados especiais para prevenir a reinstalação do quadro.

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PREVENÇÃO DA RECAÍDA

Conjunto de habilidades e modificações de estilos de vida de uma pessoa para evitar a volta ao uso. É um programa de auto-controle e manutenção que tem como objetivos:

- habilidade para lidar consigo mesmo

- habilidade para lidar com situações de risco

- modificação do seu estilo de vida

- modificação do sistema de crenças e expectativas acerca do uso de substâncias psicoativas.

RECAÍDA EMOCIONAL

Quando ocorre o enfraquecimento da linguagem da recuperação, o indivíduo começa a dar sinais. No início tais ou mensagens são extremamente sutis e não percebidos por ele próprio nem pelas pessoas que o cercam, principalmente aqueles que estão cientes do programa. Para melhor compreensão da evolução podemos dar o seguinte exemplo: um cometa desloca-se do ponto A para o ponto B. Nesta trajetória não existe nenhum obstáculo e o deslocamento é natural, sem problemas. Se em outro caso houver um obstáculo e ele desviar a sua rota de origem pode encontrar um asteróide. Seu fim será uma colisão e consequente destruição sem chegar ao final do percurso que estava previsto, ou seja, a recaída emocional é o início de uma rota de colisão que se não for interrompida por uma técnica adequada correrá o risco de colisão e morte, isto é, o processo natural de vida interrompido. Porem, quando o dependente químico tem chance de pedir e receber ajuda, a recaída pode ser utilizada como instrumento extremamente eficaz no processo de recuperação.

RECAÍDA FÍSICA

Significa que os sinais comunicados através de comportamentos não foram revertidos, então o indivíduo entrou em contato direto com a droga, dando início ao processo compulsivo de uso, mais intensivo que antes, até mesmo de forma mais violenta. Tem-se a impressão de que o dependente químico deseja chegar à colisão com velocidade mil vezes maior do que desejava no uso anterior ao conhecimento do programa de recuperação. Isto se explica pelos fortes sentimentos de culpa, vergonha, intolerância, baixa auto-estima, raiva de si mesmo e outros sentimentos negativos. Desta forma não podemos minimizar ou entrar juntos na negação da recaída com o dependente, nem devemos encarar quaisquer condutas com os indivíduos que recaem como castigo, pois provavelmente os afastaremos ainda mais da sua rota anterior (recuperação), direcionando-o para a auto-destruição.

SINTOMAS DA RECAÍDA

Fase I – Mudança de atitudes

- Compromete-se a ficar em abstinência de maneira teimosa (auto-suficiência).

- Estruturação compulsiva dos próprios pensamentos (obsessão).

- Minimiza problemas (manipulação).

- Traça objetivos muito além das possibilidades, para si e para os outros (fuga da realidade).

- Espera uma melhora imediata da sua vida (impaciência).

- Não percebe que encobre a realidade (negação).

- Síndrome de “pelo menos eu vou tentar” (justificação).

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Fase II – Deterioração de um estilo de vida.

- Encobre seus sentimentos (isolamento).

- Mudanças de humor frequentes (instabilidade, desequilíbrio).

- Desonestidade consigo e com os outros (auto-engano).

- Fica aborrecido ou com raiva frequentemente (mau-humor).

- Coleciona ressentimentos (auto-obsessão).

- Queixa-se facilmente e com frequência (auto-piedade).

- Tem um desejo imaturo de ser feliz (felicidade infantil).

- Sentimentos de remorso, auto-piedade e culpa tornam-se pronunciados (depressão).

- Perde a auto-confiança (insegurança, medo).

- Diminuição da auto-estima (cuidados pessoais).

- Sentimentos de solidão e falta de esperança (medo).

- Evita contato com as pessoas (isolamento).

- Utilização pouco frequente de grupos de auto-ajuda ou outros recursos pós-tratamento (auto-responsabilidade).

Fase III – Mudança situacional.

- Evita falar sobre álcool ou drogas (medo, evasão).

- Irritabilidade (insegurança).

- Hábitos irregulares de sono e alimentação (perca da linguagem da recuperação).

- Comportamentos inconscientes (mecanismos de defesa).

- Apresenta confusão mental e raiva constantemente (desequilíbrio emocional).

- Coloca-se em situações onde álcool e/ou drogas em excesso estão envolvidas (situação de risco provocada – desafio).

- Fala dos bons e velhos tempos em que bebia e/ou usava drogas (papo de ativa).

- Cria uma série de crises (família, amigos, trabalho) (consequências negativas – codependência).

- Para de frequentar grupos de auto-ajuda pós-tratamento (abandono).

- Rejeita ajuda abertamente (hostilidade).

- Maximiza problemas (mecanismos de defesa – justificação).

- Atitudes de “não estou nem aí” ou “não ligo para nada” (desafio).

Fase IV – Volta ao uso de álcool/droga.

- Preocupação constante com álcool/drogas (obsessão).

- Hostilidade aberta em relação ao assunto (sentimento de culpa).

- Perde o controle do uso (compulsão).

Fase V – Insanidade, morte, cadeia ou volta à abstinência total.

A volta à recuperação pode ocorrer diante de qualquer sintoma de recaída, em qualquer um

dos pontos citados.

A vontade compulsiva de usar álcool ou drogas, “porres secos”, sonhos com as substancias e

períodos de emoções negativas intensas podem ocorrer periodicamente, até mesmo meses depois de ter cortado o consumo. Devemos ter cuidados especiais até dois anos após a parada do consumo, o que não quer dizer que a partir desse momento não necessitaremos mais cuidados. Essas experiências nem sempre indicam uma recaída necessariamente, e não devem causar alarmes falsos; com tudo, tome sempre as precauções necessárias. Um indivíduo não necessita apresentar cada um dos sintomas da progressão para se encaixar dentro do processo de recaída. Os sintomas agrupados indicam a fase em que a pessoa se encontra, e de cada uma das fases se obtém os traços mais marcantes do indivíduo.

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DOZE SINTOMAS QUE ANTECEDEM A RECAÍDA

1.

DESONESTIDADE: Começa com mentiras nas pequenas coisas: saídas, amigos, escola, trabalho; e continua com as mentiras maiores, como justificar comportamentos errados com

aprendido durante o tratamento, principalmente para deixar de realizar as suas obrigações. Termina com a desonestidade para consigo mesmo (auto-engano) que o levará, irremediavelmente, à recaída.

o

2.

IMPACIÊNCIA: Exigir demais dos outros e de si mesmo; querer tudo pra já; traçar metas que não poderá alcançar com um esforço normal e num tempo normal; concentrar-se unicamente em problemas que ainda não estão completamente resolvidos: vá com calma!

3.

INTOLERÂNCIA: Discutir e disputar pequenos e ridículos pontos de vista achando-se dono da verdade, tendo sempre respostas para todos, e para si mesmo. Desejo de que todos mudem de vida só porque ele mudou a sua. Viva e deixe viver!

4.

INDISCIPLINA: Descuidar horários e compromissos, esquecer orações, meditações e inventário moral diário (Décimo Passo). Nada de grandioso se consegue nesta vida sem sacrifício. Não inverta prioridades, primeiro as primeiras coisas!

5.

DEPRESSÃO: Medos e desesperos inexplicáveis e irracionais, sentimentos de vazio constantes. Deve-se procurar a causa de maneira imediata para que seja combatida frequentando grupos de auto-ajuda, reuniões, terapia, etc. Olhe a vida positivamente, acredite me si mesmo, aposte em você.

6.

FRUSTRAÇÃO: Alimentar o desencanto com as pessoas e coisas que não estão sendo favoráveis. Lembre-se que nem tudo é exatamente como a gente quer; felicidade não é ter o que se quer, mas amar o que se tem.

7.

EUFORIA: Acreditar que é impossível ficar melhor do que está, que o progresso e o sucesso na recuperação são tão grandes que é bobagem ficar se cuidando tanto com coisas insignificantes. Neste momento a falta de cuidado devido à ignorância dos perigos circundantes produz uma enorme quantidade de recaídas. Cultive a moderação, mantenha seu equilíbrio emocional.

8.

EXAUSTÃO: Discipline horários de trabalho e lazer, não se canse demais, proteja a saúde. Se você se sentir bem, mais chances terá de pensar bem.

9.

TROCA DE DEPENDÊNCIA: Substituir álcool ou drogas por tranquilizantes, ou tóxicos por álcool, é uma mera troca de dependência, e está trapaceando consigo mesmo. É a maneira mais sutil de caminhar em direção à recaída.

10.

AUTOPIEDADE: Julgar as suas falhas sempre de maneira benevolente justificando-se sempre. Lamentar-se: por que as coisas só acontecem comigo? Ninguém dá valor ao que eu faço! Todos podem beber menos eu! Buscar sempre desculpas para o fato de ser dependente.

11.

PRETENSÃO: Estou curado, não tenho mais medo do álcool e das drogas. Qualquer um pode recair menos eu. Posso frequentar lugares de ativa que não tem nenhum perigo para mim. Vou demonstrar para todos que já posso fazer o que quero porque já sei tudo sobre dependência química. Estas posturas fazem com que se percam totalmente as defesas que evitam a recaída.

12.

AUSÊNCIA AOS GRUPOS: Todas as recaídas contam com a história do abandono, ou frequência mínima, aos grupos de auto-ajuda. A troca de experiências é vital para fortalecer

a

vontade de continuar em recuperação relembrando os frequentes fracassos ocasionados

pelo vício, e assim evitá-los. Se por algum motivo não simpatizar mais com o grupo que está frequentando, procure outro, mas não abandone o hábito de frequentar sempre algum grupo deste estilo.

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GUIA DE CONFRONTO

GENERALIDADES

O residente a ser confrontado deverá, antes do seu Confronto, responder as seguintes perguntas, para depois serem confrontadas com as respostas do grupo sobre si mesmo durante o Retorno do Confronto. Também deverá fazer uma relação de Amizades e Antipatias dentro do grupo, e esta relação também será utilizada durante o Retorno do Confronto, juntamente com o monitor responsável. Quando responderem estas perguntas para o confronto de outra pessoa, devem ser lembradas sempre as seguintes recomendações:

o

Sempre que for indicar alguma característica deverá ser oferecido um exemplo concreto sobre a pessoa confrontada.

o

A Condição Básica a ser utilizada durante o Confronto é o Amor Sincero, já que o uso da Comunicação Direta pressupõe a exposição de sentimentos ou opiniões que afetam pessoalmente quem está confrontando e, por tanto, isto deveria ser realizado fora do Confronto.

o

Nunca devem ser expostos fatos externos à Comunidade durante o Confronto, como situações da vida passada.

o

Ao utilizar este guia devem ser escolhidos, com o critério de maior importância ou recorrência, apenas dois itens de cada seção, com a finalidade de otimizar o tempo e focar apenas os pontos mais relevantes a serem trabalhados.

o

Nas seções 5 e 6 podem ser apontados estes indicadores como positivos ou negativos, segundo o residente pratique ou não estes pontos. O mesmo funciona para os itens 3.2 e 3.5.

o

Não falar nada durante o Confronto é uma falta de respeito para com o outro residente, além de representar uma falta na Condição Básica “Feed Back”.

o

Não devem ser expostos fatos revelados pelo residente em Confidencialidade, por significar uma falta em relação a esta Condição Básica.

o

Durante o Confronto nunca se deve pressupor que o residente já sabe o que será falado, por isso todos os comentários são relevantes para o bom desenvolvimento do mesmo.

o

O tempo para cada residente durante o Confronto não deverá ultrapassar os 10 minutos.

o

O monitor responsável poderá interromper a fala de um residente se entender que está fugindo aos critérios do Confronto, e que isto pode ser prejudicial para o bom desenvolvimento do mesmo.

o

Para realizar o Retorno do Confronto o residente deverá escolher um Padrinho dentre os residentes que tenham mais de 3 meses de tratamento, podendo trocar este padrinho de um confronto para o outro.

o

Somente poderão falar no Confronto os residentes que tenham pelo menos 1 mês de casa.

Lembramos também que o Confronto não tem a finalidade de analisar o que a pessoa é de fato, mas sim como ela é vista pelo grupo de convivência, e por este motivo não existem Confrontos errados ou sem utilidade, já que o grupo sempre acaba demonstrando o que sente ao respeito do residente confrontado, seja isto através de hostilidade, de condescendência, ou de indiferença.

1. DEFEITOS

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1.2. Mentiras: Invento fatos para chamar a atenção? Não respondo com a verdade quando questionado sobre algum fato ou assunto? Meu sim é sim, e meu não é não? Invento histórias, ou omito fatos, para me livrar de consequências negativas?

1.3. Fofocas: Me preocupo excessivamente com a vida dos outros, sendo este geralmente o assunto das minhas conversas? Comento fatos desnecessários sobre outras pessoas? Não me preocupo se o que estou contando pode prejudicar outras pessoas?

1.4. Ressentimentos: Consigo perdoar quando alguém me magoa ou chateia, ou fico segurando a raiva por muitos dias? Tenho sentimentos de vingança quando me sinto prejudicado por alguém? Chego a fazer alguma coisa para prejudicar essa pessoa?

1.5. Impaciência: Quero tudo para ontem? Não consigo esperar quando me pedem ou quando a situação o exige? Fico irritado, de mau humor, por causa dessa espera?

1.6. Falta de Aceitação: Reajo violentamente, ou fico extremamente zangado, quando as coisas não são como esperava que fossem? Como está minha tolerância à frustração? Consigo entender que nem sempre vai ser como quero que seja?

1.7. Procrastinação: Deixo tudo para depois? Cumpro com as minhas responsabilidades imediatamente, ou sempre espero que alguém me cobre para isso?

1.8. Auto-piedade: Utilizo as pequenas (ou grandes) desgraças da minha vida para chamar a atenção dos outros, ou para tentar me livrar de alguma consequência negativa dos meus atos? Vivo me queixando de tudo quando alguém vem conversar comigo?

1.9. Falsa Sensibilidade: Sou cheio de “não me toque”? Me magôo facilmente, e fico “de mal” com as pessoas por qualquer coisa?

1.10. Álibis / Justificativa: Estou sempre tentando me livrar dos meus erros com argumentações de todo tipo? Assumo os meus erros, ou busco sempre evitar as consequências? Ponho a culpa dos meus erros em outras pessoas, ou em situações externas?

1.11. Descumprimento de Normas de Moradia: Citar algumas das N. M. que são descumpridas, com exemplos claros de cada uma delas.

2. RELAÇÃO COM HOMEM VELHO

2.1. Malandragem: Me aproveito da ingenuidade dos outros para tirar vantagem? Busco sempre tirar proveito das situações do dia-a-dia quando é possível? Abuso da confiança das pessoas?

2.2. Pensamento na rua: Não consigo me concentrar nas atividades do Cronograma por estar sempre pensando em situações externas? A saudade da família, dos amigos, dos lugares, faz com que não consiga falar de outra coisa?

2.3. Papo de Ativa: Falo ostensivamente sobre a droga/álcool, lembrando somente dos momentos bons que ela me proporcionou? Insinuo que vou continuar usando drogas quando sair da Comunidade? Conto vantagens sobre o tempo de uso nas minhas conversas?

2.4. Gírias: Utilizo a mesma linguagem que utilizava com os meus companheiros de ativa dentro da Comunidade? A minha linguagem me identifica facilmente como dependente químico?

2.5. Palavrões: Palavrões e xingamentos estão sempre presentes em minha linguagem, mesmo que em brincadeiras? Percebo que os meus palavrões acabam desagradando algumas pessoas?

2.6. Contratos negativos: Fico quieto quando vejo alguém fazendo algo errado? Tento tirar proveito disso depois? Descumpro regras ou faço coisas escondido de forma combinada com outros residentes?

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2.8. Brincadeiras de mau-gosto: As minhas brincadeiras costumam desagradar os outros? Ofendo ou irrito os outros com as minhas brincadeiras? Elas sempre tem a finalidade de ridiculizar ou diminuir alguém?

2.9. Brincadeiras ostensivas de ativa/droga: Faço gestos que lembrem a droga/álcool nas minhas brincadeiras? Nas minhas brincadeiras sempre falo de droga/álcool, ou assuntos semelhantes? Fico com vontade de beber ou usar drogas com essas brincadeiras?

2.10. Não aceitação do tratamento: Sinto que estou internado de forma obrigada? Sinto (ou falo) que estou “pagando pra trabalhar”? Sinto que estou perdendo meu tempo dentro da Comunidade?

3. ATIVIDADES DE LAZER / TEMPO LIVRE

3.1. Esportes/Lazer: Participo dos esportes da Comunidade, dentro das minhas possibilidades, ou sempre estou desanimado para isso? Faço parte dos jogos e brincadeiras do grupo, ou estou sempre isolado e fora dessas atividades?

3.2. Comportamento no lazer/esporte: Costumo brigar durante os jogos ou brincadeiras? As pessoas me evitam nos jogos por causa disso? Sei perder, ou geralmente fico bravo e irritado quando isso acontece?

3.3. Oração espontânea: Reservo alguns momentos do meu dia para a oração e meditação? Costumo ir à Capela durante os meus horários livres? Faço alguma leitura da Bíblia nestes horários?

3.4. Leituras/estudos: Gosto de ler alguma coisa durante o meu tempo livre? Estudo a Apostila da Comunidade, ou os 12 Passos?

3.5. TV: Assisto TV sempre que possível, ou procuro também outro tipo de lazer? Discuto ou brigo com os companheiros por casa da programação, do volume, ou de alguma outra coisa relacionada com a TV?

4. VIRTUDES

4.1. Cortesia: Procuro tratar bem as pessoas da Comunidade, ou sou grosso com elas? Costumo fazer pequenos favores aos outros quando posso, ou não me importo com isso? Falo “bom dia” durante a manhã, ou pelo menos respondo quando me cumprimentam?

4.2. Ordem / Organização: Como está a arrumação do meu armário, cama e objetos pessoais? Eu costumo arrumar ou devolver no lugar as coisas depois de utilizar? Deixo o banheiro organizado ao sair do banho?

4.3. Pontualidade: Costumo chegar atrasado às reuniões e atividades do Cronograma? Entrego as minhas tarefas e Experiências Educativas no prazo combinado?

4.4. Cautela ao falar: As minhas respostas são secas e hostis, ou respondo com tranquilidade? Evito falar assuntos delicados se percebo que o outro não está bem naquele momento? Quando tenho que fazer uma cobrança, procuro não ser excessivamente duro com o outro? Evito cobrar coisas que sei que não vão fazer diferença, ou que o outro não está pronto para fazer?

4.5. Gratidão: Reconheço o que os outros fazem por mim? Este reconhecimento se transforma em atitudes concretas? Sei retribuir um favor, ou sinto que o outro só fez sua obrigação? Sou grato às pessoas que estão me ajudando na minha recuperação, sabendo pelo menos entender as suas dificuldades e limitações, ou critico tudo o que está em desacordo com a minha vontade? E com a minha família, faço a mesma coisa?

4.6. Humildade: Me ponho no meu lugar, ou quero sempre ser mais do que os outros? Fico contando vantagem? Utilizo a minha situação econômica, ou a da minha família, para me prevalecer perante os outros? Utilizo alguma das minhas capacidades (estudo, inteligência, trabalho, etc.) para me achar melhor do que os outros?Uso de falsa humildade, querendo me mostrar inferior aos outros só para chamar a atenção? Sinto que os outros têm os mesmos direitos que eu, ou acho que eu mereço privilégios diferenciados?

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5. CONDIÇÕES BÁSICAS

5.1. Auto-Responsabilidade: Faço a minha parte por mim mesmo, ou espero sempre que alguém me cobre para isso? Se conseguir, fujo das minhas obrigações? Faço alguma coisa por iniciativa própria, ou me limito a cumprir somente com as minhas obrigações básicas? Uso da minha iniciativa e criatividade para desempenhar as minhas funções, tentando fazer algo de novo em cada caso, ou faço apenas o mínimo indispensável?

5.2. Comunicação direta: Quando tenho um problema com alguém falo diretamente com a pessoa, ou sempre fico falando da pessoa para os outros? Quando vou falar com a pessoa, falo realmente o que estava pensando, ou sempre amenizo a situação para não me complicar?

5.3. Ouvir ativamente: Estou atento de verdade nas reuniões da Comunidade, procurando participar através de comentários e perguntas, ou permaneço sempre quieto durante as mesmas? Dou a minha opinião nos trabalhos em que participo, procurando assim melhorar o desempenho, ou faço apenas o que é determinado?

5.4. Amor sincero: Consigo falar o que estou pensando para o companheiro se for para o seu bem, mesmo que isso possa deixá-lo chateado comigo, ou geralmente deixo quieto o assunto? Procuro amenizar todas as situações para não entrar em atrito com os outros, falando o que gostariam de ouvir, ou me permito dar a minha opinião verdadeira, mesmo que isso possa significar um momento de tensão? Na hora do Confronto, falo o que realmente penso sobre o outro, ou geralmente amenizo para evitar constrangimentos e confusões?

5.5. Arriscar-se: Quando estou frente a uma atividade que nunca fiz, geralmente a evito ou tento dar o melhor de mim? Quando me colocam numa responsabilidade nova, me sinto inseguro e com medo, ou me sinto tranquilo sabendo que vou desempenhar bem mesmo sem saber? Aceito funções que me exponham frente aos outros, como Padre do dia, leituras na Missa, e semelhantes?

5.6. Feed Back: Procuro evitar atitudes que possam prejudicar o grupo, ou assumo o meu erro quando o grupo todo pode pagar por isso? Procuro manter uma postura adequada nas reuniões e outras atividades, para não prejudicar o desempenho do grupo?

5.7. Confidencialidade: Sou uma pessoa de confiança, ou falo tudo o que me contam? Confio em algumas pessoas do grupo, ou acho que não da para confiar em ninguém mesmo? Consigo manter um segredo?

6. CONVIVÊNCIA

6.1. Participação em reuniões: Procuro estar sempre presente nas reuniões, ou as evito sempre que tenho oportunidade? Durante as reuniões mantenho uma postura adequada, ou permaneço distraído, dormindo ou com conversas paralelas? Levo o material necessário para as respectivas reuniões? Participo ativamente (ver: Ouvir ativamente)? Evito sair desnecessariamente das reuniões?

6.2. Participação em laborterapia: Durante a laborterapia, procuro fazer o melhor de mim, ou fico “enrolando” sempre que puder? Busco sempre os serviços mais fáceis, ou faço o que for necessário, mesmo que não goste? Consigo trabalhar em equipe, ou tenho sempre que estar sozinho para poder desempenhar as minhas funções? Brigo muito durante a laborterapia?

6.3. Higiene pessoal: Lavo as minhas roupas com frequência, e de forma adequada? Faço a barba apenas quando me chamam à atenção? Procuro me arrumar um pouco melhor quando tem visitas na Comunidade? Tomo banho e escovo os dentes adequadamente?

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6.5. Cuidados com os materiais da Comunidade: Me preocupo em não estragar nenhum dos materiais da Comunidade, ou faço pouco caso deles? Quebro as ferramentas de propósito para parar de trabalhar? Assumo quando estrago ou quebro alguma coisa?

6.6. Expor sentimentos: Procuro conversar com alguém sobre o que estou sentindo, ou me fecho em mim mesmo? Quando sinto raiva de alguém, procuro falar sobre isso, ou apenas guardo ressentimentos? E quando sinto vontade de ir embora? Procuro ajuda?

6.7. Conversas produtivas: Qual o assunto das minhas conversas? Converso sobre assuntos de recuperação e espiritualidade, ou apenas faço brincadeiras e piadas? As pessoas do grupo me procuram quando querem conversar sobre assuntos produtivos?

6.8. Bons modos: Como me comporto na mesa? Tenho atitudes desagradáveis para os outros (peidar, arrotar, cuspir, etc.) em locais inadequados?

6.9. Prontidão para ajudar: Quando pedem alguma ajuda voluntária, eu me ofereço ou procuro evitar? Percebo quando alguém está precisando de ajuda com seu serviço e me ofereço para isso, ou faço “vista grossa”?

6.10. Demonstrações de afeto: Me sinto natural durante o Abraço da Paz, ou prefiro evitar? Me sinto desconfortável quando alguém me abraça ou me beija? Consigo falar para o companheiro que gosto dele? Consigo falar “eu te amo” para minha família, ou para alguém importante?