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I CINGEN- Conferência Internacional em Gestão de Negócios 2015

Cascavel, PR, Brasil, 16 a 18 de novembro de 2015


UNIOESTE-Universidade Estadual do Oeste do Paraná
CCSA-Centro de Ciências Sociais Aplicadas

O código das águas de 1934

André Vinicius Marujo (Unioeste) andremarujo1@hotmail.com


Kamyla Taysa Tesk (Unioeste) kamyllateske@hotmail.com
Carla Cristiane do Nascimento Antunes (Unioeste) carlacna@gmail.com

Resumo
Observa-se que água é um dos mais importantes recursos naturais, porém a utilização
inconsciente dela e o aumento de sua demanda tem provocado a constante redução dos
estoques hídricos de nosso planeta. Uma das maneiras de realizar o controle e preservação dos
recursos hídricos é por meio do planejamento, seja pela implementação de leis reguladoras ou
de políticas publicas. Nesse sentido o presente trabalho tem como objetivo analisar o contexto
econômico e histórico em que o decreto de águas de 1934 foi criado, e analisar suas principais
propostas tais como a regulamentação do uso de águas publica e sua utilização nas forças
hidráulicas. Assim pode-se avaliar que embora o decreto tenha sido desenvolvido em um
cenário onde a preocupação em relação a preservação ambiental era algo pouco explorado o
mesmo continua em vigor na atual legislação brasileira, demonstrando sua importância na
gestão preservação dos recursos hídricos no país.

Palavras-chave: Água. Planejamento ambiental. Código das águas. Decreto 24.643/34.

Área Temática: Áreas afins das Ciências Sociais Aplicas

1 Introdução

A água potável é um recurso finito e essencial para a manutenção do ser humano. Suas
reservas são limitadas e, além disso, sua distribuição pela superfície terrestre é desigual.
Nesse sentido, o estudo voltado em conciliar o crescente aumento do consumo dos recursos
hídricos e sua limitação tem levado a diversas discussões a respeito do consumo inapropriado,
tornando-o cada vez mais escasso. Entre os fatores responsáveis pela carência desse recurso,
destacam-se os efeitos naturais, demográficos e socioeconômicos, tais como: escassez de
chuvas, alto crescimento demográfico, desperdício, poluição de mananciais entre outros que
corroboram para a redução do estoque de água potável no planeta.
Segundo o relatório da Agência Nacional das Águas (ANA) de 2009, o total de água
doce disponível em nosso planeta representa apenas 3%. Contudo, somente 0,5% desta
quantidade estão disponíveis, o restante permanece imobilizado nas geleiras do Ártico e

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Antártica. Esta porcentagem de água potável tem como principal utilidade o consumo das
famílias, indústrias e nas atividades agrícolas. Esta última finalidade, em especifico, demanda
cerca de 70% da água doce mundial, podendo chegar a um nível de 90%, em partes da
América do Sul, Ásia Central e África.
Por outro lado, para Roesler (2007), a população mundial, no período de 1990 a 1997,
teve seu tamanho dobrado, sendo que a quantidade demanda de água teve um incremento de
sete vezes a mais no período o que acarretou na multiplicação da quantidade de água
demandada a cada 21 anos. Towsend (2007) complementa que no intervalo de tempo entre
1950 a 1995, o volume de água doce disponível per capita em nosso planeta reduziu de
17.000m³ para apenas 7.300³ por habitante. Importante ressaltar que outros acontecimentos
também contribuíram para este aumento de consumo dos recursos hídricos, como a
diminuição da pobreza no mundo em comparação aos séculos anteriores, o crescimento do
sistema econômico de produção, que exige cada vez mais dos recursos naturais de nosso
planeta, a rápida urbanização e as mudanças climáticas, devido a elevação da temperatura que
provoca o continuo derretimento das geleiras e, como consequência, redução do estoque de
água potável em nosso planeta (ANA, 2009).
Desta maneira, observar-se que devido às expectativas do aumento populacional se
elevarem e à impossibilidade do continuo aumento de estoque de recursos hídricos, este
recurso tende-se a esgotar. Assim, muitos economistas e ambientalistas apontam que a água
será motivo de inúmeras guerras em um futuro próximo, transformando a água no “ouro do
século XXI” (ROESLER, 2007).
Contudo, ao longo do tempo, ficou evidente que este constante aumento da pressão
sobre os recursos naturais não poderá se sustentar ao longo prazo. Assim, os países
começaram a adotar políticas ambientais com o objetivo de induzir ou forçar os agentes
econômicos a assumirem práticas menos destrutivas ao meio ambiente.
O caso Brasileiro, apresenta situações distintas ao se tratar dos recursos hídricos. O
país é afetado tanto pela escassez hídrica quanto pela degradação dos recursos ambientais, por
possuir uma baixa cobertura de serviços de saneamento e sistema de abastecimento com altas
taxas de perdas físicas, este sistema não consegue atingir toda a necessidade da sua
população. Nesse sentido nos últimos 20 anos, o Brasil vem procurando estruturar um
processo sustentável de reversão do atual cenário de degradação dos corpos hídricos,

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procurando fornecer uma alocação mais racional da água em zonas que já apresentam
problemas de escassez. Os avanços brasileiros na questão de políticas voltadas a questão
hídrica teve seu marco com a lei dos recursos hídricos de São Paulo em 1992, o que acabou
acarretando a lei federal de recursos hídricos (lei 9.433/1997), outro marco importante foi a
criação da Agencia Nacional de Águas (ANA) (MAY, 2010).
Neste contexto, este artigo tem como propósito analisar os objetivos do decreto Nº
24.643, de 10 de Junho de 1934, avaliando o cenário econômico e ambiental em que o mesmo
foi implementado. Apesar de já existir o Código civil de 1916, que regulamentava o
fundamento do direito de vizinhança e da utilização da água como bem de valor econômico,
este não regulamentava todos os deveres e direitos sobre a questão das águas. Assim o Código
das Águas de 1934, procurou regulamentar a questão hídrica e conservar os elementos básicos
para o desenvolvimento do setor elétrico no país (ANTUNES, 2002). Desta forma, ressalta-se
que a Constituição Republicana de 1934, ao contrario das anteriores, possuía um cunho
ambientalista que reconhecia os aspectos econômicos dos recursos naturais como viés para o
desenvolvimento do país.

2.1 Planejamento ambiental

O planejamento segundo Gonçalves (1976) caracteriza-se com a elaboração de


programas para solução de problemas ou realização de objetivos, sendo possível aplica-lo em
diversas escalas e setores da economia. Porém, porque planejar?
O planejamento econômico, segundo Tinbergen (1969), permite apresentar uma visão
do futuro do país, ou seja, é por meio dele que se traçam objetivos e define o melhor caminho
para alcançar estas metas. Nesse sentido, Gomes (1959) afirma que o planejamento
econômico se faz necessário para alcançar o bem estar social, uma vez que é por meio dele
que se corrigem os problemas econômicos e sociais, acelerando o processo de
desenvolvimento de uma nação. Assim, Delfin Netto (1966) complementa que as economias
que não são adeptas ao planejamento econômico, acabam desperdiçando recursos escassos e
oportunidades para promover o desenvolvimento econômico da nação.
Porém o planejamento econômico só passa ater relevância, segundo Miglioli (1983), a
partir de dois acontecimentos importantes: o primeiro refere-se à implantação do socialismo
na União Soviética em 1917, pois pelo fato do Estado passar a controlar todos os fatores de

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produção era necessário programar a alocação de seus recursos de maneira eficiente. O autor
também destaca que, após o final da Segunda Guerra Mundial, os países passaram a ter que
planejar a reconstruções estruturais devido aos danos causados pela guerra e passam a
reorganizar todo o sistema econômico e produtivo. Para evitar repetição de palavras.
Da mesma forma para o caso dos recursos naturais, o planejamento ambiental surge
diante das dificuldades que vem se agravando cada vez mais tais como: aquecimento global,
escassez de recursos, alto nível de poluição atmosférica, uso indevido de agrotóxicos, que se
configuram entre alguns problemas emergenciais que precisam ser resolvidos.
Assim os estudos acerca do planejamento ambiental, tem como objetivo procurar
alternativas para melhorar o equilíbrio entre social e ambiental. Entre os percussores da teoria
do planejamento ambiental destacam-se teóricos como John Ruskin, Viollet-le-Duc, Henry
David Thoureau, entre outros. Ambos presenciaram a expansão da indústria, das
comunicações ferroviárias, da navegação e as ideologias do liberalismo e do positivismo
econômico. No entanto, estes teóricos compartilhavam de ideologias divergentes, onde
compreendiam a limitação dos recursos naturais, alertando para a manutenção e preservação
dos mesmos (FRANCO, 2008). Nas palavras de Franco:

...no inicio do século XXI, acreditamos que a vida futura do planeta só será
possível mediante o planejamento ambiental, entendendo como
entrelaçamentos inter, multi e trans-escalares. Essa revolução deverá dar-se
com a inclusão da visão ecossistêmica em três instâncias: nos ecossistemas
urbanos, nos agroecossistemas e nos ecossistemas naturais. Isto, e claro, se
desejamos preservar a vida, tal como conhecemos hoje, e a própria espécie
humana no planeta Terra... (FRANCO, 2008, p. 21).

Nesse sentido, Santos (2004) considera o planejamento ambiental como um papel


importante na orientação dos instrumentos metodológicos, administrativos, legislativos e de
gestão para o desenvolvimento de atividades em um determinado espaço e período,
incentivando a participação institucional e dos cidadãos, alterando as relações entre sociedade
e autoridades. Assim é importante observar que a ênfase do planejamento está na tomada de
decisões par a uma melhor utilização dos recursos.
Seguindo essa linha de pensamento, Teixeira (1998) caracteriza o planejamento como
um processo político, social, econômico e tecnológico de natureza educativa no qual deve
ocorrer participação do governo e da comunidade em geral. Para Lanna (1955), o

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planejamento ambiental é um processo ordenado de coleta de dados sobre os problemas e


potencialidade que atingem uma determinada localidade, procurando definir metas, objetivos,
estratégias e ações. Desta maneira, este processo procura organizar as atividades
socioeconômicas no meio, obedecendo a sua funcionalidade ecológica de maneira a promover
o desenvolvimento sustentável.
Ademais, o planejamento ambiental com foco nas bacias hidrográfica transforma-se
como um elemento básico na elaboração dos programas de desenvolvimento econômico e
social. Assim, o planejamento dos recursos hídricos é de fundamental importância para o
gerenciamento da água e das bacias hidrográfica, pois esta pode influenciar ou limitar o uso e
ocupação dos solos e, sendo assim, o gerenciamento das águas e bacias hidrográficas (LEAL,
2012). Dessa maneira, o planejamento ambiental utiliza-se de instrumentos jurídicos,
mediante a criação de leis para regulamentar e gerenciar os recursos naturais.
Neste sentido para Leal (2012) o gerenciamento dos recursos hídricos deve se pautar
na legislação hídrica, que prevê:

...a água como um bem publico, recurso estratégico e com valor econômico;
gestão integrada e sustentável dos recursos hídricos; bacia hidrográfica como
unidade de planejamento e gerenciamento; participação social na tomada de
decisões; e o papel do Estado na mediação dos conflitos...(LEAL,2012,
p.69).

Também para a CEPAL (1994), a gestão de bacias hidrográficas deve ser vista como
um processo que busca o equilíbrio entre o aproveitamento dos recursos naturais das bacias
hidrográficas como forma de crescimento econômico e alteração da produtividade, devendo
mover os recursos com finalidade de prevenir conflitos e problemas ambientais.
Neste contexto, o desenvolvimento de políticas voltadas ao planejamento e
preservação dos recursos hídricos deparam com o suporte das leis. Dessa maneira uma das
primeiras políticas adotadas no Brasil com intuito de legislar sobre a questão da água é
implementada por meio do Decreto 24.643/1034, conhecido como Código das Águas, que
surgiu para regulamentar o uso da água no país. Assim a próxima seção procura apresentar o
período de implementação do decreto, o cenário histórico e econômico seus principais
proposta na regulamentação do uso da água no Brasil.

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2.2 Código das águas no Brasil

O Código de Águas brasileiro foi parte de um conjunto de iniciativas que se iniciou na


‘Era Vargas’ com a Revolução de 30 onde iniciou-se a ideia republicana de transformar o
Brasil em um país moderno, industrializado e desenvolvido. Para ancorar o processo de
desenvolvimento, era necessário a criação de regimentos essenciais como o Código de Águas
de 1934. O código surgiu em um cenário de crises, tais como as crises internacionais de 1914-
19 e 1929-31, provocando impactos negativos a economia brasileira que tinha como base a
exportação de produtos primários, demonstrando uma urgente necessidade de substituição do
modelo econômico da época a criação de uma base industrial no país. Ademais,
independentemente das controvérsias acerca de qual maneira, extensão e profundidade com
que tais momentos afetaram a indústria no Brasil, sem dúvida alguma as políticas adotadas
frente à crise de 1929-31 estavam focadas em estimular as atividades industriais. A crise de
29, acompanhada de uma economia predominantemente agrícola, que tinha como principal
atividade a produção de café, começou a sofrer os fortes impactos da crise mundial tendo que
encontrar no mercado interno e na industrialização sua principal saída da estagnação
econômica (FURTADO, 2006).
Assim, na década de 30 o país começou a trilhar um rumo diferente, focado no
desenvolvimento industrial e no planejamento de políticas econômicas e sociais e de cunho
nacionalista, sendo assim:

Na ‘Era Vargas’, o planejamento deu seus primeiros passos, no sentido de


modernizar a economia, para isso utilizou-se de diversas iniciativas: a
criação do Ministério da Educação e Saúde Pública e do Ministério do
Trabalho, Indústria e Comércio, da Superintendência da Moeda e do Crédito
(SUMOC) – entidade precursora do Banco Central –, do Conselho Federal
de Comércio Exterior e do Conselho Nacional do Petróleo. Para aprofundar
a reforma administrativa, organizar e controlar a grande máquina burocrática
estatal, em 1938 foi instituído o Departamento Administrativo do Serviço
Público, DASP (SILVESTRE, 2008. p.7).

Nesse contexto, o Código das Águas foi criado em 10 de julho de 1934, sendo fruto da
ideia do professor Alfredo Valadão, que em 1907, elaborou a primeira proposta no sentido de
regulamentar o uso da água. No entanto esta proposta, só foi retomada após Revolução de 30,
por meio do governo Vargas, que procurou regulamentar a então ideia proposta pelo
professor, onde resultou no decreto n°24.643/1934, trabalho que foi elaborado por um
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conjunto de juristas e engenheiros sob a coordenação do Ministro Juarez Tavora (NETO,


2015).
Ademais, um importante fator que impulsionou a regulamentação do Código das
Águas foi o setor elétrico, visto que o país estava em crescente demanda de energia elétrica
devido o processo de industrialização e urbanização, o que acarretava em um custo elevado da
energia. Além disso, as empresas privadas eram detentoras da maior parte do setor de
produção e distribuição de energia. Segundo Neto (2015), as discussões do Decreto estavam
ligadas diretamente aos interesses de uma parte da classe de empresários nacionais, da classe
média e trabalhadora, as quais estavam descontentes com os preços e serviços prestados pelas
distribuidoras do setor elétrico, por outro lado, os militares estavam preocupados com a
concentração de investimentos estrangeiro que financiavam o setor elétrico.
Assim, o decreto de 1934, conhecido como código das Águas, é considerado o marco
legal de gerenciamento dos recursos hídricos:

(...) Considerando que o uso das águas no Brasil tem-se regido por uma
legislação obsoleta, em desacordo com as necessidades e interesse da
coletividade nacional; Considerando que se torna necessário modificar esse
estado de coisas, dotando o país de uma legislação adequada que, de acordo
com a tendência atual permita ao Poder Público controlar e incentivar o
aproveitamento industrial das águas; Considerando que, em particular, a
energia hidráulica exige medidas que facilitem e garantam seu
aproveitamento racional; (...) Resolve decretar o seguinte Código de Águas...
(Brasil. Decreto nº 24.643, de 10 de julho de 1934).

O objetivo geral do Decreto de 34 era regulamentar a realidade do uso da água da


época. As condições de sua utilização e o do tratamento com o uso água visavam o controle
da mesma. Nesse cenário, a água era considerada como recurso natural renovável e
acreditava-se que seu estoque era infinito, nesse sentido, o maior desafio não era apenas
preservar, mais sim proporcionar o desenvolvimento industrial e agrícola do país,
principalmente por meio de incentivos a produção de energia elétrica.
Dessa maneira, o Decreto n° 24.643 está dividido em três livros: I Águas em geral e
sua propriedade; II Aproveitamento das águas; III Forças hidráulicas – regulamentação da
indústria hidroelétrica.
O primeiro livro do Decreto é iniciado caracterizando as águas públicas, as águas
comuns e as águas comuns a todos. As águas públicas podem ser classificadas como de uso

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comum ou domiciliar, ambas podem pertencer à jurisdição Federal, Estadual ou ainda


Municipal. Foram definidas como águas públicas de uso comum os mares territoriais,
incluindo os golfos, bahias, enseadas e portos, as correntes, canais, lagos e lagoas navegáveis
ou flutuáveis as correntes que fazem essas águas, as fontes e reservatório públicos, as
nascentes quando forem de tal modo consideradas o “caput fluminis”, os braços de quaisquer
correntes públicas (art. 1 e 2 Decreto).
Observa-se que encontravam-se sob o domínio do Estado as águas nas condições de
“uso comum”, todas as águas notadamente relevantes para o desenvolvimento econômico e o
controle do território. As águas comuns consideradas pelo código são as correntes não
navegáveis e não flutuáveis que não formavam águas públicas de uso comum (art. 7). Na
categoria de águas particulares estavam as nascentes e as águas situadas em terrenos
particulares não incluídas entre as águas comuns de todos, as águas públicas ou as “águas
comuns (art. 8). Já as águas comuns de todos eram consideradas todas e qualquer água,
corrente ou nascente, destinada às primeiras necessidades da vida, o que determinou sua
gratuidade quando fosse destinado a esse fim (art. 34).
O decreto procura tratar a utilização das águas publicas ou de comum acesso a todos,
visto que no período anterior a década de 30 a utilização de águas publicas para consumo era
de uso gratuito. O Código das Águas prevê a possibilidade da cobrança do uso do recurso (art.
36, § 2º) mesmo que seja de preferência o abastecimento das populações (art. 36, § 1º).
Contudo, o Decreto não regulamenta em quais situações são possíveis de cobranças e a
valoração econômica a ser cobrada pela utilização da mesma.
O uso das águas públicas para agricultura, indústria ou para higiene, cujo intuito era
atender a utilidade pública, estariam sujeitas a concessão administrativas, no entanto se o
recurso fosse usado em beneficio particular dependeriam de uma autorização (art. 43). Apesar
de prevenira permissão para a utilização das águas públicas, o Código regulamentou apenas
as outorgas para a indústria hidrelétrica, pois o foco do governo nessa época era o crescimento
econômico e a urbanização do país, onde a oferta de água e de energia não poderiam ser um
obstáculo para alcançar o objetivo do governo.
O Código também caracteriza as responsabilidades sobre os possíveis riscos as águas
públicas. O art. 54 define que os donos de propriedades do qual o fluxo de água esteja
presente dentro ou margeei a propriedade de qualquer cidadão, terá como obrigação para o

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dono do local remover qualquer obstáculo que seja nocivo à água, mesmo que este obstáculo
seja de ação natural. Caso não seja identificado um dono para a propriedade, a
responsabilidade passará para a administração pública.
Ademais, o Código prevê que donos de propriedades do qual possuam nascentes de
águas, após o consumo pessoal de parte da água, os mesmos não poderão impedir o curso
natural da mesma e principalmente, desviar esta nascente em casos que ela seja utilizada para
consumo da população. Assim como, os imóveis localizados posteriormente as nascentes, são
obrigados a manter o fluxo da água. Em situações em que a nascente esteja entre duas
propriedades, independente de sua extensão em cada propriedade, ela pertencerá a ambos os
edifícios (art. 89, 90, 91 e 92).
No final do Livro II, o Decreto determina que nenhum indivíduo possui o direito de
contaminar qualquer fluxo ou nascente de água, independente de sua localização ou
utilização. Caso a contaminação ocorra, os responsáveis estão sujeitos a responder
criminalmente pelas percas e danos causados, sendo obrigados a pagarem multas que serão
definidos pela administração pública. Além disso, as águas podem ser utilizadas para
atividades industriais e agrícolas, porém, caso ocorra a poluição da mesma, os responsáveis
deveram providenciar o tratamento e purificação da água contaminada e deverá indenizar a
União, os Estados, os Municípios, as corporações ou qualquer individuo que for lesado (art.
109, 110 e 112).
O Livro III dispõe sobre a regulamentação do uso da água pela indústria hidroelétrica.
O art. 139 rege que a utilização da água para transformar em energia elétrica somente pode
ocorrer em quedas da água do qual pode-se gerar energia superior a 50 kws para uso do
proprietário. Contudo, o art. 141 decreta que em situações que a geração de energia for
superior a 150 kws, a utilização da água somente será considerada lícita se o proprietário da
geradora possuir prévia autorização de funcionamento concedido pela Serviço de Águas do
Departamento Nacional de Produção Mineral do Ministério da Agricultura. Está autorização é
feita Presidente da República em comitê com o Ministro da Agricultura.
Desta maneira, o Decreto dispõe sobre as obrigações das concessionárias detentoras da
autorização de funcionamento no artigo 153:

depositar nos cofres públicos, ao assinar o termo de concessão, em moeda


corrente do país, ou em apólices da divida pública federal, como garantia do
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implemento das obrigações assumidas, a quantia de vinte mil réis, por


kilowatt de potencia concedida, sempre que esta potencia não exceder a
2.000 Kws. Para potencias superiores a 2.000 Kws. a caução será de
quarenta contos de réis em todos os casos; a cumprir todas as exigências da
presente lei, das clausulas contratuais e dos regulamentos administrativos; a
sujeitar-se a todas as exigências da fiscalização; a construir e manter nas
proximidades da usina, onde for determinado pelo Serviço de Aguas, as
instalações necessárias para observações linimetricas e medições de
descargas do curso d'agua utilizado; a reservar uma fracção da descarga
d'agua, ou a energia correspondente a uma fracção da potencia concedida,
em proveito dos serviços públicos da União, dos Estados ou dos Municípios
(art 153, 1934).

Em contrapartida, conforme artigo 151, as concessionárias terão como direitos:

utilizar os terrenos de domínio publico e estabelecer as servidões nos


mesmos e através das estradas, caminhos e vias publicas, com sujeição aos
regulamentos administrativos; desapropriar nos prédios particulares e nas
autorizações pré-existentes os bens, inclusive as aguas particulares sobe que
verse a concessão e os direitos que forem necessários, de acordo com a lei
que regula a desapropriação por utilidade publica, ficando a seu cargo a
liquidação e pagamento das indenizações; estabelecer as servidões
permanentes ou temporárias exigidas para as obras hidráulicas e para o
transporte e distribuição da energia elétrica; construir estradas de ferro,
rodovias, linhas telefônicas ou telegráficas, sem prejuízo de terceiros, para
uso exclusivo da exploração; estabelecer linhas de transmissão e de
distribuição (art 151, 1934).

Contudo, o governo da época preocupava-se com a influência de empresas


multinacionais no setor elétrico resolvendo incentivar as empresas nacionais por meio do art.
195, ficando decretado que as autorizações ou concessões somente seriam emitidas para
brasileiros ou empresas nacionais, sendo que estas deverão ser constituídas sobre uma
administração que tenha em sua maioria diretores brasileiros que residam no país ou que
possua delegado de gerencia exclusivamente brasileiro. Além disso, estas empresas deverão
operar com pelo menos dois terços de engenheiros brasileiros e três quartos de operários
brasileiros.
Assim, o Decreto de 1934, foi considerado como um marco legal, sendo o pioneiro no
gerenciamento dos recursos hídricos no Brasil, levando em conta que as legislações anteriores
eram consideradas obsoletas. Ademais, o Decreto foi considerado como um modelo complexo
para época, que procurou tratar de diversos aspectos das leis e a previsão de penalidades pelo
uso indevido do recurso, a denominação de propriedade, o domínio de navegação, o

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aproveitamento da água, a utilização da força hidráulica, questões de fiscalização e direitos de


concessões, entre outros.
Desta forma, o Código de Águas possui reconhecimento mundial sendo considerado
como uma das mais completas leis sobre o uso das águas, apesar de ter sofrido alterações nas
edições posteriores, encontra-se vigente até os dias atuais, dando ressalva para alguns
dispositivos que foram revogados, na Constituição Federal de 1988.

3 Considerações finais

Tendo em vista a legislação brasileira anterior a Revolução de 30, onde era composta
por leis obsoletas voltadas á preservação dos recursos ambientais, aprovou-se o Decreto
24.643/1934 que tem como objetivo regulamentar o uso da água no Brasil. Esse código foi
implantado pelo governo Vargas, que buscava a modernização e urbanização do país por meio
da industrialização. Além disso, o propósito do decreto não era apenas de cunho ambiental, os
interesses em desestimular o capital estrangeiro no gerenciamento da produção e distribuição
da energia elétrica, contribui para que a elaboração do decreto tivesse apoio do governo e de
empresários nacionais.
Assim, o Decreto procura prever a responsabilidade social de cada individuo por meio
da cobrança de taxas sobre o mau uso da água e determina que estes indivíduos devam
responder criminalmente, procurando minimizar as externalidades negativas causadas por
terceiros. Nesse sentido, pode-se afirmar que o Código das Águas era considerado moderno
para a época em que o mesmo foi elaborado visto que encontra-se presente na atual legislação
brasileira contendo poucas alterações. Com o advento do Decreto em 1934, estabeleceu-se
uma preocupação em definir o domínio das águas brasileiras, dividindo-as este entre os entes
federativos, União, Estados e Municípios, além da abordagem a cerca das competências
legislativas.
Além disso, cabe ressaltar a importância do planejamento para promoção de politicas
públicas que assegurem a preservação ambiental. Nesse sentido, o Código das Águas foi um
instrumento utilizado na promoção de políticas com intuito de assegurar o direito de uso dos
recursos hídricos e para impulsionar o desenvolvimento do setor elétrico brasileiro.

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