Você está na página 1de 4

NOTAS DO SEMINÁRIO LIVRO 4 – A RELAÇÃO DE OBJETO

LIÇÃO II – AS TRÊS FORMAS DE FALTA DE OBJETO

(Sobre o discurso da ciência)

Farei aqui somente algumas reflexões de passagem, para mostrar quanto os


psicanalistas ficam prisioneiros de categorias realmente estranhas a tudo a que sua prática
deveria, entretanto, ao que me parece, introduzi-los, diria facilmente, quanto à própria noção
de realidade. Se é concebível que, para um espírito da tradição mecano-dinamista, que
remonta ao século XVIII, à tentativa de La Mettrie e de Holbach de elaborar o homem-
máquina, tudo o que se passa no nível da vida mental exige ser referido a algo que se propõe
como material, em que essa perspectiva pode ter o mínimo interesse para um analista? – ao
passo que o próprio princípio do exercício de sua função atua numa sucessão de efeitos que se
admite por hipótese, se ele é analista, terem uma ordem própria. Caso acompanha Freud,
conceba o que dirige todo o espírito do sistema, a perspectiva que deve adotar é uma
perspectiva energética.

A matéria Stoff primitivo, exerce um tal fascínio sobre o espírito médico que se
acredita dizer alguma coisa quando se afirma de maneira inteiramente gratuita que nós, como
os outros médicos, colocamos no princípio de tudo o que se exerce na análise uma realidade
orgânica. Freud disso isso também, simplesmente é preciso reportar-se ali onde ele o disse, e
ver que função isso tem. Ele deu a essa realidade uma importância inteiramente diversa. A
referência ao fundamento orgânico não responde, nos analistas, a nada mais que uma espécie
de necessidade de segurança, que os leva a retomar incessantemente essa ladainha, coo quem
bate na madeira: Afinal de contas, só pomos em jogo mecanismos superficiais, tudo deve se
referir, em última instância, a coisas que talvez saibamos um dia, à matéria principal que está
na origem de tudo o que acontece. Existe aí uma espécie de absurdo para um analista, se é que
este admite a ordem de efetividade em que se desloca.

Deixem-me fazer uma simples comparação para mostra-lo a vocês. É mais ou menos
como se, tendo que discorrer sobre uma usina hidrelétrica em pleno meio da corrente de um
grande rio, o Reno, por exemplo, alguém se pusesse, para falar do que acontece nessa
máquina, a sonhar com o momento em que a paisagem ainda era virgem e as águas do Reno
fluíam em abundância. Ora, é a máquina que está no princípio da acumulação de uma energia
qualquer, no caso essa força elétrica, que pode ser depois distribuída e posta à disposição dos
consumidores. O que se acumula na máquina tem, antes de tudo, a mais íntima relação com a
máquina. Dizer que a energia já estava ali em estado virtual na corrente do rio não nos
adiante nada. Isso não quer dizer nada, falando propriamente, pois a energia, neste caso, só
começa a nos interessar a partir do momento em que as máquinas foram acionadas. Sem
dúvida, elas são animadas por uma propulsão que vem da corrente do rio, mas acreditar que a
correnteza do rio é a ordem primitiva da energia, confundir com uma noção da ordem do
mana esta coisa de uma ordem bem diferente que é a energia, e mesmo que é a força, querer
a todo custo reencontrar em algo que estaria ali desde toda a eternidade a permanência
daquilo que é acumulado ao final como o elemento de Wirkung, de Wirklichkeit possível, isso
só poderia vir à ideia de alguém que fosse inteiramente louco.

A necessidade que temos de confundir o Stoff, ou a matéria primitiva, ou o impulso, ou


o fluxo, ou a tendência, com aquilo que está realmente em jogo no exercício da realidade
analítica nada mais representa que um desconhecimento da Wirklichkeit simbólica. O conflito,
a dialética, a organização, a estruturação de elementos que se compõem e se edificam, dão ao
que está em questão um alcance energético inteiramente outro. É desconhecer a realidade
própria em que nos deslocamos conservar a necessidade de falar da realidade última como se
ela estivesse noutra parte que não nesse próprio exercício. Essa referência, posso realmente
qualificá-la nesta ocasião de supersticiosa. É uma espécie de sequela do postulado dito
organicista, que não pode ter literalmente nenhum sentido na perspectiva analítica. (p.31-33)

(Sobre as três formas de falta de objeto: castração, frustração e privação e seus respectivos
objetos)

Jamais, em nossa experiência concreta da teoria analítica, podemos prescindir de uma


noção da falta do objeto como central. Não é um negativo, mas a própria mola da relação do
sujeito com o mundo.

Desde seu início, a análise, a análise da neurose, começa pela noção tão paradoxal que
podemos dizer que ainda não está completamente elaborada, a castração.

Acreditamos falar sempre dela como se falava no tempo de Freud. É totalmente


errado. Falamos bem mais é da frustração, e estamos errados. O de que mais falamos é da
frustração. Existe ainda um terceiro termo de que se começa a falar, ou, mais exatamente, de
que veremos quão necessariamente a noção foi introduzida, e em que via e por que exigência:
é a noção de privação.

Estas não são, em absoluto, três coisas equivalentes. Elas devem ser distinguidas. Vou
fazer algumas observações para tentar, simplesmente, fazê-los compreender inicialmente o
que é isso.

Vamos começar por aquela cujo uso é o mais familiar, a noção de frustração.

Que diferença há entre uma frustração e uma privação? Vamos partir daí, já que Jones
introduz a noção de privação e diz que essas duas noções são experimentadas da mesma
maneira no psiquismo. Isso é algo de muito ousado. É claro que a privação, se temos que nos
referir a ela, é na medida em que o falicismo, a saber, a exigência do falo, é, como diz Freud, o
ponto principal de todo o jogo imaginário no progresso conflitual que é o descrito pela análise
do sujeito. Ora, é somente a propósito desse real, como uma coisa inteiramente distinta do
imaginário, que se pode falar em privação. Não é por aí que a exigência fálica se exerce. Parece
mais problemático, com efeito, que um ser apresentado como uma totalidade possa sentir-se
privado de algo que, por definição, ele não tem. Portanto, diremos que a privação, em sua
natureza de falta, é essencialmente uma falta real. É um furo.
A noção de que temos da frustração, referimo-nos simplesmente ao uso que é feito
dela quando dela falamos, é a de um dano. É uma lesão, um prejuízo que, tal como temos o
hábito de vê-lo se exercer, para seguir a maneira com que o fazemos entrar em jogo na nossa
dialética, é sempre um dano imaginário. A frustração é, por essência, o domínio da
reivindicação. Ela diz respeito a algo que é desejado e não obtido, mas que é desejado sem
nenhuma referência a qualquer possibilidade de satisfação nem de aquisição. A frustração é
por si mesma o domínio das exigências desenfreadas e sem lei. O centro da noção de
frustração, na medida em que esta é uma das categorias da falta, é um dano imaginário. É no
plano imaginário que ela se situa.

A partir dessas duas observações, talvez nos seja mais fácil perceber o que vem a ser a
castração, cuja natureza essencial, o Wesen, foi muito mais negligenciada que aprofundada.

A castração foi introduzida por Freud de uma maneira absolutamente coordenada à


noção da lei primordial, do que há de lei fundamental na interdição do incesto e na estrutura
do Édipo. Aí está, se pensarmos nisso agora, o sentido do que foi inicialmente enunciado por
Freud. Foi por uma espécie de salto mortal na experiência que Freud pôs uma noção tão
paradoxal como a da castração no centro da crise decisiva, formadora, principal, que é o Édipo.
Podemos, no só-depois, nos maravilhar com isso, pois é certamente maravilhoso que só
queiramos não falar disso. A castração só pode se classificar na categoria da dívida simbólica.

Dívida simbólica, dano imaginário e furo, ou ausência, real, eis o que nos permite
situar esses três elementos a que vamos chamar os três termos de referência da falta do
objeto.

Sem dúvida isso será aceito por alguns com uma certa reserva. Eles têm razão, na
medida em que é preciso ater-se fortemente à noção central de que se trata de categorias da
falta do objeto, para que isso seja válido. Digo falto do objeto e não objeto, pois, situando-nos
no nível do objeto, vamos poder formular a questão – o que é o objeto que falta nesses três
casos?

É no nível da castração que isso fica mais claro. O que falta no nível da castração, na
medida em que esta é constituída pela dívida simbólica, a alguma coisa que sanciona a lei e
que lhe dá seu suporte e seu inverso, o que é a punição, fica absolutamente claro que não é,
em nossa experiência analítica, um objeto real. É só na lei de Manu que se diz que aquele que
se deitar com sua mãe deve cortar os genitais e, segurando-os nas mãos, dirigir-se para o oeste
até a morte advir. Nós, até segunda ordem, só observamos essas cosias em casos
excessivamente raros, que nada têm a ver com nossa experiência, e que nos parecem merecer
explicações que permanecem, aliás, numa ordem bem diferente daquela dos mecanismos
estruturantes e normalizantes comumente em jogo na nossa experiência.

O objeto é imaginário. A castração de que se trata é sempre a de um objeto


imaginário. É essa comunidade que existe entre o caráter imaginário da falta na frustração e o
caráter imaginário do objeto da castração, o fato da castração ser uma falta imaginária do
objeto, que nos facilitou crer que a frustração nos permitiria alcançar bem mais facilmente ao
centro dos problemas. Ora, não é absolutamente obrigatório que a falta e o objeto, e mesmo
um terceiro termo a que vamos chamar o agente, sejam do mesmo nível nessas categorias. De
fato, o objeto da castração é um objeto imaginário, e isso é que nos deve fazer levantar a
questão do que é o falo, que se levou tanto tempo para identificar como tal.

O objeto da frustração, em contrapartida, é realmente, em sua natureza, um objeto


real, por mais imaginária que seja a frustração. É sempre de um objeto real que sente falta a
criança, por exemplo, sujeito preferencial da nossa dialética da frustração. Isso vai nos ajudar a
perceber essa evidência que exige um pouco mais de manejo metafísico dos termos do que se
tem o hábito de fazer quando nos referimos a esses critérios de realidade de que falávamos há
pouco – o objeto da privação, este não passa jamais de um objeto simbólico. (p.35-37)

Você também pode gostar