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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB

DEPARTAMENTO DE TECNOLOGIA E CIÊNCIAS SOCIAIS - DTCS

COLEGIADO DO CURSO DE DIREITO


D. PENAL I - 2º PERÍODO - 3ª Avaliação
Prof.º JÚLIO CÉSAR SOARES LIRA

A Avaliação consta de 10 (dez) questões. Deverão ser respondidas e entregues até dia
24/09

1º) Jonh, cidadão inglês, capitão de uma embarcação particular de bandeira americana,
é assassinado por Tião, cidadão brasileiro, dentro do aludido barco, que se encontrava
atracado no Porto de Santos, no Estado de São Paulo. Qual a solução jurídica a ser
determinada sobre a aplicação da Lei Penal ? Justifique.

Resposta:
Nesse contexto é correto afirmar que a lei brasileira é aplicável, uma vez que a
embarcação estrangeira de propriedade privada estava atracada em território nacional. Dado
que, de acordo com o art. 5° do Código Penal, “Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de
convenções, tratados e regras de direito internacional, ao crime cometido no território
nacional”, expressa ainda o §2º do mesmo artigo que: “É também aplicável a lei brasileira aos
crimes praticados a bordo de aeronaves ou embarcações estrangeiras de propriedade
privada, achando-se aquelas em pouso no território nacional ou em voo no espaço aéreo
correspondente, e estas em porto ou mar territorial do Brasil”.

2º) Uma semana antes de completar 18 (dezoito) anos Tião, durante uma briga, causou
graves ferimentos em Zezinho. No mesmo dia, sequestrou Jacinta. Quinze dias após
os fatos, Zezinho faleceu em razão dos ferimentos e Jacinta foi libertada em razão do
pagamento do resgate. Dê a solução jurídica, justificando sua posição.

Resposta:
Nesse âmbito, Tião não pode ser condenado pelo crime, pois quando ele causou os
ferimentos graves em Zezinho, Tião era menor de dezoito anos e a lei penal brasileira adota
o art. 4º do CP a teoria da atividade, dispondo que “Considera-se praticado o crime no
momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o momento do resultado” então, mesmo
que a vítima tenha vindo a óbito quinze dias depois e o agente já tenha completado 18 anos,
Tião não pode ser condenado, mas praticou um ato infracional e será sancionado de acordo
com o Estatuto da criança e do adolescente. No caso do sequestro, é considerado crime
permanente porque estende ao longo do tempo e o criminoso continua a cometer o crime
enquanto mantiver a vítima sequestrada. Portanto, aplica-se a teoria do resultado porque
quando finalizou o sequestro Tião já tinha completado 18 anos e vai responder por extorsão
mediante sequestro.

3º) A todo crime ocorrido no Brasil aplicamos a lei brasileira ? Justifique.

Resposta:
Em conformidade com o art. 5° do Código Penal, que expressa: “Aplica-se a lei
brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito internacional, ao crime
cometido no território nacional”, é determinado que seja aplicada a lei brasileira ao crime
praticado no território nacional. Contudo, da mesma maneira que uma infração penal pode se
fracionar em tempos diversos, é possível que ela se desenvolva em lugares diversos,
percorrendo, inclusive, território de dois ou mais países igualmente soberanos. Nesses casos,
é aplicável o art. 6° do Código Penal que diz: “Considera-se praticado o crime no lugar em
que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria
produzir-se o resultado”.
Podemos também comentar sobre a adoção, quanto ao lugar de crime (locus
commissi delicti), a teoria da ubiquidade, híbrida ou mista. Por conseguinte, sempre que por
força do critério da ubiquidade o fato se deva considerar praticado tanto no território brasileiro
como no estrangeiro, será aplicável a lei brasileira. Contudo, nota-se que a conduta e o
resultado são desvalorizados pelo legislador. Se no Brasil ocorre somente o planejamento
e/ou preparação do crime, o fato, em regra, não interessará ao direito brasileiro, salvo quando
a preparação caracterizar, por si só, crime.

4°) Tião, brasileiro, na cidade de Nova York, matou um empresário paraibano num hotel.
A esse caso concreto aplica-se a lei penal brasileira ? Justifique.

resposta:
Aplica-se a lei penal brasileira. Conforme prescrito no artigo 7° inciso II - B, ficam
sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro, os crimes praticados por brasileiro;
tendo o país o dever de obrigar o seu nacional a cumprir as leis, permite-se a aplicação da lei
brasileira ao crime por ele cometido no estrangeiro. Trata-se do dispositivo da aplicação do
princípio da nacionalidade ou personalidade ativa.
Nos casos do inciso II, a aplicação da lei brasileira depende das seguintes condições:
entrar o agente no território nacional; ser o fato punível também no país em que foi praticado;
estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasileira autoriza a extradição; não ter
sido o agente absolvido no estrangeiro ou não ter aí cumprido a pena e não ter sido o agente
perdoado no estrangeiro ou, por outro motivo, não estar extinta a punibilidade, segundo a lei
mais favorável.

5º) O Inglês Jonh matou o brasileiro Tião em Londres. Ele poderia ser punido no Brasil
? Justifique.

Resposta: Ele pode ser punido no Brasil. Esse é o caso de extraterritorialidade


hipercondicionada, que está positivada no artigo 7°, §3°, do Código Penal. Ao crime cometido
por estrangeiro contra brasileiro fora do Brasil, além das condições previstas no artigo 7°, §2°,
para a aplicação da lei brasileira, é preciso observar ainda: não ter sido pedida ou ter sido
negada a extradição; houve requisição do Ministro da Justiça.

6º) Se a ANVISA retirasse o tetraidrocanabinol, princípio ativo da maconha, da lista de


substâncias entorpecentes, haveria, nessa hipótese, efeitos retroativos, operando-se
a abolitio criminis, a qual beneficiaria todos aqueles que tivessem anteriormente sido
condenados ou que ainda estivessem sendo processados por fatos delituosos
envolvendo a mercancia ou o uso de maconha ? Justifique.
Resposta:
A assertiva é verdadeira, pois, consoante com art. 2° do Código Penal, que expõe
“Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em
virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória.”, e ainda no parágrafo
único, “A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos
anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado”.
Se a lei posterior deixar de considerar o fato como criminoso, isto é, se a lei posterior
extingue o tipo penal, retroage e torna extinta a punibilidade de todos os autores da conduta
antes tida por delituosa. Em conformidade, podemos citar o art. 107, inciso III do Código
Penal, que versa sobre a extinção da punibilidade.

7º) A lei posterior que, de qualquer modo, favoreça o agente aplica-se aos fatos
anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado. Por
essa razão, o agente condenado por crime hediondo em 1998, que não teria direito a
progredir de regime de cumprimento da pena por vedação expressa da lei, faria jus à
progressão de regime prisional caso tal vedação fosse declarada inconstitucional pelo
STF e adviesse lei prevendo a progressão de regimes para os crimes hediondos, desde
que o agente fosse réu primário e tivesse cumprido dois quintos da pena. Julgue a
afirmação, justificando a resposta.

Resposta:

Conforme o doutrinador Cezar Roberto Bitencourt: “toda lei penal, seja de natureza
processual, seja de natureza material, que de alguma forma amplie as garantias de liberdade
do indivíduo, reduza as proibições e, por extensão, as consequências negativas do crime”
será uma lei penal benigna.
A Lei n° 8.072/1990, no seu artigo 2°, §1°, afirmava que o condenado por crime hediondo
cumpriria sua pena, de forma integral, em regime fechado. No entanto, a lei n° 11.464/2007
alterou essa parte do Código Penal, permitindo, de acordo com seu artigo 2°, §2°; a
progressão do regime prisional ao condenado por esse crime, sendo essa possibilidade aceita
após dois quintos de cumprimento da pena, caso esse fosse réu primário e três quintos para
aqueles que fossem reincidentes.
Com base no exposto, percebe-se que a lei posterior é mais benéfica ao condenado.
Não obstante, levando-se em consideração os princípios da lei penal no tempo, mais
especificamente o da retroatividade da lei penal mais benigna; a lei posterior quando for mais
benéfica, alcançará fatos cometidos antes de sua vigência.
Além disso, esse efeito retroativo é consagrado pela Constituição Federal, aplicando-se
ao Direito Penal em algumas situações, como por exemplo: na alteração de regimes de
cumprimento de pena. Dessa forma, a afirmação feita no enunciado encontra-se de acordo
com a legislação penal brasileira. Entretanto, falta-lhe uma informação no que diz respeito a
quem tem direito a essa progressão, pois não só os réus primários terão esse direito, mas
também os reincidentes, havendo apenas uma divergência em relação ao tempo de
cumprimento mínimo da pena, como foi exposto acima.

8º) Sinfrônio, conduzindo seu veículo automotor em velocidade incompatível para a via
de direção, atropela e mata a vítima Maria das Couves. O Promotor de Justiça ofereceu
Denúncia contra Sinfrônio imputando ao mesmo a prática do crime previsto no art. 121,
§ 3°, do Código Penal. A defesa de Sinfrônio, por sua vez, alega que o Promotor de
Justiça se equivocou, alegando que a Denúncia deveria ter sido oferecida com base no
art. 302, do Código de Trânsito, Lei 9.503/97. Julgue a questão, justificando sua
resposta.

Resposta:

É possível perceber o conflito de normas existente nesta questão. Quando se fala nos artigos
citados deve ser observado com cautela o caso concreto, onde diz que o indivíduo atropelou
a vítima pois estava passando do limite de velocidade. Percebe-se que ele não tinha a
intenção de ter esse resultado. Para ser aplicado o artigo 121, parágrafo 3º do CP, Sinfrônio
deveria ter tido a intenção de matar a vítima ou ter assumido o risco, o que não aconteceu,
devendo, assim, ser aplicado o artigo 302 do CTB.

9º) João Teimoso após roubar a bolsa da vítima Angélica, visando obter vantagem
ilícita, preenche uma das folhas do talão de cheques que estava no seu interior e se
dirigiu à agência bancária, onde tentou sacar a quantia lançada no referido título de
crédito. O Promotor de Justiça denunciou João Teimoso pelo crime de roubo e pelo
crime de estelionato tentado. A Defesa Técnica sustentou que a tentativa seria mero
exaurimento da conduta do roubo. Dentro do conflito aparente de normas penais,
indique a solução jurídica.

Resposta:
João Teimoso cometeu crime de roubo e tentativa de crime de estelionato contra Angélica.
O crime de roubo está tipificado no artigo 157 do Código Penal e consiste em “subtrair coisa
móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa…”, tendo
como pena a reclusão de 4 a 10 anos. Não obstante, estelionato, tipificado no artigo 171 do
C.P., é quando alguém obtém “para si ou para outrem, vantagem ilícita em prejuízo alheio,
induzindo ou mantendo alguém em erro”, mediante qualquer meio fraudulento; tendo como
pena reclusão de 1 a 5 anos. Assim sendo, o crime de roubo é mais gravoso que a tentativa
de estelionato.
O caso exposto se enquadra em uma situação que deve se utilizar o princípio da
consunção. Esse princípio se sustenta na ideia de condutas sucessivas, interligadas e
dependentes. Consequentemente, o crime meio é absorvido pelo crime fim, afastando, dessa
forma, a condenação por dois crimes relacionados a uma mesma conduta. Ademais, de
acordo com Rogério Greco, o princípio de consunção pode ocorrer quando: “...um crime é
meio necessário ou formal fase de preparação ou de execução de outro crime”, o doutrinador
ainda afirma que: “O pós-fato impunível pode ser considerado um exaurimento do crime
principal praticado pelo agente, portanto, por ele não pode ser punido”.
Assim, João Teimoso não poderá ser duplamente condenado, por roubo e tentativa de
estelionato, visto que a legislação brasileira não admite tal decisão, baseando-se no princípio
da consunção. Logo, ele será condenado apenas por roubo, uma vez que este é o crime
principal e mais gravoso.

10º) As disposições da Lei 13.654, de 23/04/2018, no que é pertinente as novas redações


do art.155 e 157, ambos do CP, trazem casos de “Novatio legis” incriminadora, “Novatio
legis in pejus (Lex Gravior)”, “Abolitio criminis” ou “Novatio legis in mellius (Lex
mitior)” ??? Justifique.

Resposta:
As novas disposições, que foram incluídas no Código Penal, trazem casos de “Novatio
legis” incriminadora ao adicionar o uso de explosivos como uma tipificação penal no rol dos
crimes dispostos no art. 155 e 157 do CP. Também traz um caso de “Novatio legis in pejus
(Lex Gravior)” quanto ao uso de arma de fogo, ao aumentar a pena em ⅔ (dois terços) ao
invés de ⅓ (um terço), essa última presente até a nova redação trazida pela Lei 13.654/18..