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Sumário

Introdução

A mãe de todas as perguntas

PARTE I: ROMPEU-SE O SILÊNCIO

Uma breve história do silêncio


Um ano de insurreição
Feminismo: Chegam os homens
Um ano após sete mortes
O feliz caso recente da piada sobre estupros

PARTE II: ROMPE-SE A HISTÓRIA

Fuga do bairro de 5 milhões de anos


Os pombais quando as pombas saem
Oitenta livros que nenhuma mulher deveria ler
Homens me explicam Lolita
O caso do agressor desaparecido
Giantess

Agradecimentos e créditos dos textos
Créditos das ilustrações

Na esperança de continuarmos
com amor por quem vem chegando
e fazendo um alarde maravilhoso:
Atlas
Ella e irmã
Isaac e Martin
Berkeley
Brooke, Dylan e Solomon,
Daisy e Jake;
agradecendo aos leitores
e ao pessoal que arma escarcéu

Introdução

O ensaio mais longo e mais recente neste livro trata do silêncio; quando o
comecei, achei que estava escrevendo sobre as várias maneiras de silenciar as
mulheres. Logo percebi que as maneiras de silenciar os homens eram
inseparáveis da questão, e que todos nós existimos numa somatória de diversas
espécies de silêncio, inclusive os silêncios mútuos que chamamos de papéis de
gênero. Este é um livro feminista, mas não apenas sobre a experiência das
mulheres, mas sobre a de todos nós — homens, mulheres, crianças e pessoas que
estão questionando o binarismo e os limites do gênero.
Este livro trata tanto de homens que são feministas fervorosos como daqueles
que são estupradores em série, e tem como pressuposto que todas as categorias
são permeáveis e só podemos usá-las provisoriamente. Aborda as rápidas
transformações sociais de um movimento feminista que se revitalizou nos
Estados Unidos, no Canadá e no mundo inteiro e não está apenas modificando
as leis; está mudando a maneira como entendemos o consentimento, o poder, os
direitos, o gênero, a voz e a representação. É um movimento maravilhosamente
transformador, conduzido em especial pelos jovens nas universidades, nas redes
sociais, nas ruas, e tenho enorme admiração por essa nova geração franca e
destemida de feministas e ativistas dos direitos humanos. É enorme também meu
medo da reação contra ele, uma reação que, por si só, indica a ameaça que o
feminismo, como parte de um projeto mais amplo de libertação, impõe ao
patriarcado e ao statu quo.
Este livro é uma viagem pelo massacre, uma celebração da libertação e da
solidariedade, da percepção e da empatia, e um exame dos termos e instrumentos
com que podemos explorar todas essas coisas.
A mãe de todas as perguntas
(2015)

Há alguns anos, dei uma palestra sobre Virginia Woolf. Quando as perguntas
se abriram para o público, o assunto que aparentemente despertou mais interesse
entre muitas pessoas era se Woolf não deveria ter tido filhos. Atenciosa, respondi
que ela, ao que consta, pensou em ter filhos no começo do casamento, depois de
ver a alegria da irmã, Vanessa Bell, com os seus. Mas, com o tempo, Woolf passou
a considerar a maternidade uma ideia imprudente, talvez devido a sua
instabilidade psíquica. Ou talvez, sugeri eu, ela quisesse ser escritora e dedicar
sua vida à arte, o que fez com extraordinário sucesso. Durante a apresentação, eu
havia citado de maneira positiva passagens sobre a necessidade de matar “o Anjo
do Lar”, a voz interior que instrui muitas mulheres a se sacrificar como servas da
vida doméstica e do ego masculino. Fiquei surpresa que o conselho de asfixiar o
espírito da feminilidade convencional suscitasse essa conversa.
O que eu devia ter dito àquela plateia era que ficar especulando sobre o status
reprodutor de Woolf constituía um desvio absurdo e enfadonho das magníficas
questões presentes em sua obra. (Creio que a certa altura falei “Foda-se essa
merda”, passando o sentido geral da coisa e encerrando o assunto.) Afinal, filhos
muita gente faz, mas Ao Farol e Três Guinéus só uma pessoa fez, e era por causa
disso que estávamos debatendo Woolf.
Aquela linha de perguntas era bem familiar para mim. Dez anos antes,
durante uma conversa que deveria girar em torno de um livro meu sobre
política, um entrevistador britânico insistiu que, em vez de falar sobre os frutos
da minha mente, deveríamos falar sobre os frutos do meu ventre — ou a falta
deles. Ele me perguntava insistentemente por que eu não tinha filhos. E não se
dava por satisfeito com nada que eu dissesse. Ele parecia defender que eu deveria
ter filhos, que era incompreensível que eu não os tivesse, e assim tínhamos que
ficar falando sobre os filhos que eu não tinha, em vez de falar sobre os livros que
eu tinha.
Quando saí dali, minha assessora de imprensa escocesa — uma moça miúda,
de vinte e poucos anos, com sapatilhas cor-de-rosa e um belo anel de noivado —
estava espumando de raiva. E esbravejou: “Ele nunca perguntaria isso a um
homem”. Tinha razão. (Hoje em dia, uso esse argumento para rebater alguns
entrevistadores: “Você perguntaria isso a um homem?”.) Perguntas como essa
parecem nascer da ideia de que não existem mulheres — esses 51% da espécie
humana com necessidades tão variadas e desejos tão misteriosos quanto os
outros 49% —, mas apenas a mulher, aquela que deve se casar, ter filhos, deixar
os homens entrarem e os bebês saírem, como um elevador da humanidade. Essas
questões, na essência, não são perguntas e sim declarações que afirmam que nós,
com a nossa veleidade de nos imaginar como indivíduos, definindo nosso
próprio curso, estamos erradas. O cérebro é um fenômeno individual que gera as
mais variadas criações; o útero gera apenas um tipo de criação.
Quanto a mim, não tenho filhos por diversas razões: sou muito boa no uso de
anticoncepcionais; embora eu goste de crianças e adore ser tia, também aprecio a
solidão; fui criada por gente bruta e infeliz e não quis reproduzir essa forma de
criação nem criar seres humanos que pudessem sentir por mim aquilo que às
vezes eu sentia pelos meus progenitores; o planeta não tem condições de
sustentar mais gente de primeiro mundo, e o futuro é muito incerto; e eu
realmente queria escrever livros, vocação que, tal como a exerço, exige muito.
Não sou dogmática contra ter filhos. Poderia ter tido em outras circunstâncias e
estaria bem — como estou agora.
Há pessoas que querem ter filhos, mas não os têm por várias razões pessoais,
médicas, emocionais, financeiras, profissionais; outras não querem, e ninguém
tem nada a ver com isso. Só porque é uma pergunta passível de resposta não
significa que a pessoa tenha obrigação de respondê-la ou que ela deva ser feita. A
pergunta que o entrevistador me fez foi indecente, pois presumia que as
mulheres deveriam ter filhos e que as atividades reprodutoras de uma mulher
eram naturalmente um assunto público. Sobretudo, a pergunta pressupunha que,
para as mulheres, só existia uma maneira certa de viver.
Mas mesmo dizer que só existe uma maneira certa de viver pode ser uma
formulação demasiado otimista, visto que as mães também são sistematicamente
consideradas relapsas. Uma mãe pode ser tratada como criminosa se deixar o
filho sozinho por cinco minutos, mesmo que o pai dessa criança a tenha deixado
sozinha por vários anos. Algumas mulheres me disseram que, depois de terem
tido filhos, passaram a ser tratadas como seres apáticos desprovidos de
inteligência, que não devem ser levados em consideração. Muitas tiveram de
ouvir que não podem ser levadas a sério como profissionais porque em algum
momento vão engravidar. E muitas mães que de fato se saem bem no exercício
da profissão são suspeitas de estar negligenciando os filhos. Não existe nenhuma
boa maneira de responder como é ser mulher; o truque talvez esteja em saber
rejeitar a pergunta.

* * *

Falamos sobre perguntas abertas, mas também há as fechadas, aquelas para as


quais só há uma resposta certa, pelo menos no que concerne ao indagador. São
indagações que nos forçam a concordar com elas ou que nos ferem quando delas
divergimos; que trazem suas próprias respostas e cujo objetivo é coagir e punir.
Uma das minhas metas na vida é me tornar rabínica o suficiente, conseguir
responder perguntas fechadas com perguntas abertas, ter autoridade interna para
frear a aproximação de intrusos e pelo menos me lembrar de questionar: “Por
que você está perguntando isso?”. Descobri que essa é sempre uma boa resposta
para uma questão antipática, e as perguntas fechadas costumam ser antipáticas.
Mas, no dia do meu interrogatório sobre filhos, fui pega de surpresa (e estava
com um sério jet lag) e só fiquei pensando: por que é tão previsível que façam
essas perguntas tão infames?
Talvez parte do problema seja termos aprendido a questionar as coisas erradas
sobre nós mesmos. A nossa cultura está impregnada de uma espécie de
psicologia pop que pergunta obsessivamente: você é feliz? E perguntamos isso
num reflexo tão condicionado que parece a coisa mais natural do mundo querer
que um farmacêutico com uma máquina do tempo vá entregar um lote de
antidepressivos em Bloomsbury, o bastante para a vida toda, pois assim seria
possível reorientar uma incomparável estilista literária feminista para a produção
de uma ninhada de pequeninos Woolf.
As perguntas sobre a felicidade geralmente pressupõem que sabemos como
deve ser uma vida feliz. Muitas vezes se descreve a felicidade como algo
resultante de uma longa fileira de coisas — casamento, prole, bens próprios,
experiências eróticas —, embora baste um milionésimo de segundo para nos
lembrarmos de um monte de gente que tem tudo isso e mesmo assim é infeliz.
Recebemos fórmulas padronizadas a torto e a direito, mas essas fórmulas
costumam falhar. Apesar disso, continuamos a recebê-las. E outra vez. E mais
uma. Convertem-se em prisões e castigos; a prisão imaginária acorrenta muita
gente na prisão de uma vida que segue as receitas à risca, e mesmo assim é
tremendamente infeliz.
Talvez o problema seja literário: recebemos um roteiro único sobre o que é ter
uma boa vida, mesmo que muitos que seguem fiéis ao roteiro tenham uma vida
ruim. Falamos como se existisse um único enredo bom e um único final feliz,
embora as inúmeras formas que uma vida pode assumir floresçam — e murchem
— ao nosso redor.
Mesmo os que vivem a melhor versão do roteiro familiar nem sempre têm a
felicidade como recompensa. Não é algo necessariamente ruim. Conheço uma
mulher que viveu durante setenta anos um casamento de muito amor. Sua longa
vida é cheia de sentido, e ela vive de acordo com os seus princípios; é amada e
respeitada pelos seus descendentes. Mas eu não diria que ela é feliz; sua
compaixão pelos vulneráveis e sua preocupação com o futuro dão a ela uma visão
sombria do mundo. Para descrever o que ela experimenta, em vez de felicidade,
precisamos de uma linguagem melhor. Existem critérios totalmente diferentes
para uma boa vida, que podem ser mais importantes para alguns — amar e ser
amado, ter satisfação, honra, sentido, profundidade, engajamento, esperança.

Parte de meu empenho como escritora tem sido encontrar formas de valorizar
o que é esquivo e subestimado, em descrever sombras e matizes de significado,
em celebrar a vida pública e a vida solitária, em encontrar — na expressão de
John Berger — “outra maneira de contar”, o que também explica por que é tão
desalentador esse repisar constante das mesmas velhas maneiras de contar.
A conservadora “defesa do casamento”, que na verdade não passa de uma
defesa do velho esquema hierárquico que era o casamento convencional antes
que as feministas começassem a transformá-lo, infelizmente não é monopólio
dos conservadores. Muita gente nesta nossa sociedade se aferra à piedosa crença
de que os filhos veem a família heteronormativa cercada por uma espécie de aura
mágica maravilhosa, o que leva muitos casais a se manter em casamentos
infelizes, destrutivos para todos os que estão por perto. Conheço gente que
hesitou por muito tempo antes de sair de um casamento pavoroso, porque a
velha fórmula insiste que uma situação que é terrível para um ou para os dois
genitores será, de alguma maneira, benéfica para os filhos. Mesmo mulheres com
maridos violentamente abusivos são com frequência pressionadas a continuar
em situações tidas como tão irrefutavelmente maravilhosas que tais detalhes nem
vêm ao caso. A forma prevalece sobre o conteúdo. No entanto, tenho visto a
alegria do divórcio e as inúmeras formas que podem ser assumidas por famílias
felizes, cada vez mais variadas, desde um genitor só e um filho só até incontáveis
configurações de múltiplos lares e famílias ampliadas.
Depois que escrevi um livro sobre mim e minha mãe, que se casou com um
profissional liberal muito bruto, teve quatro filhos e vivia nervosa, com raiva e
infeliz, uma entrevistadora me emboscou ao perguntar se era por causa do meu
pai violento que eu não conseguira encontrar um companheiro. A pergunta
vinha carregada de pressupostos espantosos sobre o que eu queria fazer com
minha vida e o direito da entrevistadora de se intrometer nela. O livro The
Faraway Nearby [O próximo distante] discorria de maneira serena e indireta,
pensava eu, sobre minha longa jornada rumo a uma vida realmente agradável, e
era uma tentativa de dar conta da fúria da minha mãe, inclusive falando de sua
origem estar no fato de ela ter ficado presa a expectativas e papéis femininos
convencionais.
Tenho feito da minha vida o que decidi fazer, e não era isso que a minha mãe
ou a entrevistadora imaginavam. Decidi escrever livros, estar cercada por gente
inteligente e generosa e ter grandes aventuras. Algumas dessas aventuras incluem
homens — casos passageiros, grandes paixões e relações duradouras — e incluem
também desertos distantes, mares árticos, cumes de montanhas, levantes e
desastres, exploração de ideias, arquivos, registros e vidas.
As receitas da sociedade para a realização pessoal parecem gerar grande
infelicidade, tanto nas pessoas que são estigmatizadas porque não podem ou não
querem adotá-las como naquelas que as adotam, mas não encontram a
felicidade. Claro que existem pessoas com vidas bem convencionais que são
muito felizes. Conheço algumas, assim como conheço muitos monges, padres e
freiras no celibato e sem filhos, gays divorciados e todo o leque de entremeio. No
verão passado, minha amiga Emma entrou na igreja acompanhada do pai, e o
marido dele foi logo atrás acompanhando a mãe de Emma; os quatro, mais o
novo marido dela, formam uma família excepcionalmente amorosa e unida, que
luta pela justiça em suas atividades políticas. Neste verão, os dois casamentos a
que fui tinham dois noivos e nenhuma noiva; no primeiro deles, um dos noivos
chorou porque passara a maior parte da vida privado do direito de se casar e
nunca pensou que veria seu próprio casamento.
Apesar disso, as velhas perguntas de sempre continuam rondando — ainda
que pareçam mais uma espécie de sistema coercitivo do que questões de fato. Na
visão de mundo tradicional, a felicidade é algo essencialmente particular e
egoísta. As pessoas sensatas buscam o interesse próprio e, quando se saem bem,
supõe-se que sejam felizes. A própria definição do que significa ser humano é
estreita, e o altruísmo, o idealismo e a vida pública (exceto como fama, prestígio
ou sucesso material) não têm muito lugar na lista de desejos. Raramente surge a
ideia de buscar significado na vida; as atividades corriqueiras não só são tidas
como intrinsecamente significativas, como são tratadas como as únicas opções
dotadas de significado.
Uma das razões pelas quais as pessoas se prendem à maternidade como
elemento essencial da identidade feminina é a crença de que são os filhos que
permitem consumar a capacidade de amar. Mas há tantas coisas a amar além da
própria prole, tantas coisas que precisam de amor, tantas outras tarefas no
mundo que cabem ao amor…
Enquanto muita gente questiona os motivos dos que não têm filhos, tidos
como egoístas por recusarem os sacrifícios que acompanham o papel de genitor,
se esquecem de que, para os que amam intensamente os seus filhos, pode sobrar
menos amor pelo resto do mundo. Christina Lupton, escritora que também é
mãe, apresentou recentemente algumas coisas que teve de abandonar quando
estava sobrecarregada pelas exigentes tarefas da maternidade, entre elas:
Todas as maneiras de cuidar do mundo que não são tão facilmente validadas quanto cuidar dos filhos,
mas que são, da mesma forma, fundamentalmente necessárias para que os filhos cresçam bem. Refiro-
me aqui à escrita, à criação, à política e ao ativismo; à leitura, ao discurso público, aos protestos, ao
ensino, à realização de filmes… As coisas que mais valorizo e das quais acredito que virá qualquer
melhoria na condição humana são, em sua maioria, brutalmente incompatíveis com o trabalho concreto
e imaginativo de cuidar dos filhos.

Uma das coisas fascinantes na súbita aparição de Edward Snowden, alguns


anos atrás, foi a incapacidade de muita gente em entender como um rapaz podia
abrir mão da receita da felicidade — salário alto, emprego estável, casa no Havaí
— para se tornar o foragido mais procurado do planeta. Ao que parece, a
premissa dessas pessoas é que, como todos são egoístas, Snowden só poderia
estar fazendo aquilo por ser interesseiro e querer atenção ou dinheiro.
Na primeira onda de comentários, Jeffrey Toobin, o especialista jurídico da
New Yorker, escreveu que Snowden era “um narcisista pomposo que merece ir
para a cadeia”. Outro especialista anunciou: “Eu acho que o que temos em
Edward Snowden é apenas um jovem narcisista que pensa que é mais inteligente
do que todos nós”. Outros imaginaram que ele estava revelando os segredos do
governo americano porque era pago por um país inimigo.
Snowden parecia um sujeito de outro século. Nos seus contatos iniciais com o
jornalista Glenn Greenwald, ele se nomeava Cincinnatus — o estadista romano
que agia em prol da sociedade, sem procurar se promover. Era um sinal de que
Snowden formara os seus ideais e modelos longe das fórmulas padronizadas de
felicidade. Outras épocas e outras culturas costumavam fazer perguntas
diferentes das que fazemos agora: o que de mais significativo você pode fazer
com sua vida? Qual é sua contribuição para o mundo ou para sua comunidade?
Você vive de acordo com os seus princípios? Qual será seu legado? O que
significa sua vida? Talvez a nossa obsessão pela felicidade seja uma maneira de
não responder a essas outras perguntas, uma maneira de ignorar a amplitude que
as nossas vidas podem ter, o resultado que o nosso trabalho pode trazer, a
abrangência que o nosso amor pode alcançar.
Há um paradoxo no cerne da questão da felicidade. A alguns anos atrás, Todd
Kashdan, professor de psicologia na Universidade George Mason, divulgou
estudos concluindo que as pessoas que julgam importante ser feliz são as que têm
maior probabilidade de se deprimir: “Organizar a vida tentando ser mais feliz,
fazer da felicidade o objetivo primeiro da vida atrapalha a pessoa ser realmente
feliz”.
Finalmente tive meu momento rabínico na Inglaterra. Depois de superar o jet
lag, fui entrevistada ao vivo por uma mulher com uma entonação compassiva e
elegante. “Então”, disse ela num gorjeio, “você foi ferida pela humanidade e se
refugiou nas paisagens da natureza.” A conotação era óbvia: eu, um excepcional e
deplorável exemplar, estava ali exposto, uma estranha no ninho. Virei para o
público e perguntei: “Algum de vocês já foi ferido pela humanidade?”. Riram
comigo; naquele momento, percebemos que todos tínhamos as nossas
esquisitices, estávamos todos no mesmo barco, e que é para isso mesmo — para
cuidar das nossas feridas, ao mesmo tempo aprendendo a não ferir os outros —
que estamos aqui. E também pelo amor, que vem sob inúmeras formas e pode ser
dirigido a inúmeras coisas. Há muitas perguntas na vida que vale a pena fazer,
mas talvez, se formos sábios, nós possamos entender que nem toda pergunta
precisa de resposta.
PARTE I
ROMPEU-SE O SILÊNCIO
Uma breve história do silêncio

O que eu mais lamentava eram meus silêncios…


E são tantos os silêncios a romper.
Audre Lorde

O OCEANO EM TORNO DO ARQUIPÉLAGO

O silêncio é de ouro, ou assim me diziam quando eu era nova. Mais tarde,


tudo mudou. O silêncio equivale à morte, gritavam nas ruas os ativistas queer,
lutando contra a indiferença e a repressão em torno da aids. O silêncio é o
oceano do não dito, do indizível, do reprimido, do apagado, do não ouvido. Ele
cerca as ilhas dispersas formadas pelos que foram autorizados a falar, pelo que
pode ser dito e pelos ouvintes. O silêncio ocorre de muitas maneiras e por muitas
razões; todos nós temos o nosso próprio mar de palavras não ditas.
O inglês é cheio de palavras que se sobrepõem, mas, para os objetivos deste
ensaio, considere-se silêncio como aquilo que é imposto e quietude como aquilo
que se busca deliberadamente. A tranquilidade de um lugar quieto, da quietude
do nosso espírito, da recusa das palavras e da agitação é igual, em termos
acústicos, ao silêncio da intimidação ou da repressão, mas, em termos psíquicos e
políticos, é algo totalmente diferente. O que não se diz pela busca da serenidade e
da introspecção é diferente do que não se diz porque os riscos são grandes ou as
barreiras são impeditivas, do mesmo modo como nadar é diferente de se afogar.
A quietude está para o barulho assim como o silêncio está para a comunicação. A
quietude do ouvinte abre espaço para a fala do outro, como a quietude do leitor
absorvendo as palavras na página, como o papel em branco recebendo tinta.
“Somos vulcões”, certa vez Ursula K. Le Guin comentou. “Quando nós,
mulheres, apresentamos a nossa experiência como a nossa verdade, como
verdade humana, todos os mapas se alteram. Surgem novas montanhas.” As
novas vozes, como vulcões submarinos, irrompem à superfície da água e nascem
novas ilhas; é uma atividade furiosa e surpreendente. O mundo muda. O silêncio
é o que permite que as pessoas sofram sem remédio, o que permite que as
mentiras e hipocrisias cresçam e floresçam, que os crimes passem impunes. Se
nossas vozes são aspectos essenciais da nossa humanidade, ser privado de voz é
ser desumanizado ou excluído da sua humanidade. E a história do silêncio é
central na história das mulheres.
As palavras nos unem e o silêncio nos separa, priva-nos da ajuda, da
solidariedade ou da simples comunhão que a fala pode solicitar ou provocar.
Certas espécies de árvores espalham sistemas subterrâneos de raízes que
interligam os troncos individuais e entrelaçam as árvores num conjunto mais
estável, mais difícil de ser derrubado pelo vento. As conversas e os relatos
pessoais são como essas raízes. Durante um século, definiu-se a reação humana à
tensão e ao perigo como “lutar ou fugir”. Um estudo da Ucla, realizado em 2000
por vários psicólogos, mostrou que essa pesquisa se baseava amplamente no
comportamento de ratos machos e homens. Mas, ao estudarem mulheres,
chegaram a uma terceira opção, empregada com grande frequência: unirem-se
por solidariedade, para apoio e conselhos. Eles observaram que, “em termos
comportamentais, as reações femininas são mais marcadas por um padrão de
‘cuidar-e-ajudar’. O cuidado abrange atividades de nutrição destinadas a proteger
o indivíduo e a prole, que promovem a segurança e reduzem o sofrimento;
ajudar é criar e manter redes sociais que podem contribuir nesse processo”. Boa
parte disso se faz falando, contando as dificuldades pessoais, sendo ouvido,
sentindo compaixão e compreensão na reação das pessoas que são cuidadas e
ajudadas. Não são apenas as mulheres que fazem isso, mas talvez o façam mais
rotineiramente. É como eu enfrento ou como a minha comunidade, agora que
tenho uma, me ajuda a enfrentar as coisas.
Não poder contar a sua história pessoal é uma agonia, uma morte em vida que
às vezes se torna literal. Se ninguém ouve quando você diz que seu ex-marido
está tentando matá-la, se ninguém acredita quando você diz que está sofrendo, se
ninguém escuta quando você pede socorro, se você não se atreve a pedir socorro,
se você foi ensinada a não incomodar os outros pedindo socorro. Se consideram
que você saiu da linha ao falar numa reunião, se não é admitida numa instituição
de poder, se está sujeita a críticas improcedentes que trazem implícito que ali não
é lugar de mulher ou que mulher não é para ser ouvida. Histórias salvam a sua
vida. Histórias são a sua vida. Nós somos as nossas histórias, que podem ser a
prisão e o pé de cabra que vai arrombar a porta; criamos histórias que nos salvam
ou que nos prendem, a nós ou a outros, histórias que nos elevam ou nos
esmagam contra o muro de pedra dos nossos medos e limitações. A libertação
sempre é, em parte, um processo de contar uma história: romper histórias,
romper silêncios, criar novas histórias. Uma pessoa livre conta a sua história
própria. Uma pessoa valorizada vive numa sociedade em que a sua história
ocupa um lugar.
A violência contra as mulheres muitas vezes se dá contra as nossas vozes e as
nossas histórias pessoais. É uma recusa das nossas vozes e do que significa uma
voz: o direito de autodeterminação, de participação, de concordância ou
divergência, de viver e participar, de interpretar e narrar. Um marido bate na
mulher para silenciá-la; um namorado ou um conhecido estuprador impede que
o “não” da sua vítima signifique o que deveria significar, isto é, que a jurisdição
sobre o seu corpo pertence apenas a ela; a cultura do estupro afirma que o
depoimento das mulheres não tem valor, não merece confiança; os ativistas
contra o aborto também procuram silenciar a autodeterminação das mulheres;
um assassino silencia para sempre. São afirmações de que a vítima não tem
nenhum direito, nenhum valor, não é uma igual. Esses silenciamentos ocorrem
nas menores coisas: as pessoas assediadas se entocam no silêncio on-line,
abafadas ou interrompidas na conversa, menosprezadas, humilhadas,
desconsideradas. Ter voz é fundamental. Os direitos humanos não se resumem a
isso, mas isso é essencial para eles, e assim podemos considerar a história dos
direitos e a falta de direitos das mulheres como uma história do silêncio e do
rompimento do silêncio.
Às vezes a fala, as palavras, a voz mudam as próprias coisas, quando trazem a
inclusão, o reconhecimento, a reumanização que anula a desumanização. Às
vezes são apenas as condições prévias para mudar regras, leis, regimes e trazer
justiça e liberdade. Às vezes, a mera possibilidade de falar, de ser ouvida e ser
acreditada é parte essencial do pertencimento a uma família, uma comunidade,
uma sociedade. Às vezes, as nossas vozes destroçam essas coisas; às vezes, essas
coisas são prisões. E então, quando as palavras rompem o indizível, o que era
tolerado numa sociedade às vezes passa a ser intolerável. Os que não são afetados
pela segregação, pela brutalidade policial ou pela violência doméstica podem não
ver ou não sentir o impacto delas: as histórias pessoais mostram o problema e o
tornam incontornavelmente visível.
Por voz não me refiro apenas à voz em sentido literal — o som produzido
pelas cordas vocais nos ouvidos dos outros —, mas à capacidade de se posicionar,
de participar, de se experimentar e de ser experimentado como uma pessoa livre
com direitos. Isso inclui o direito de não falar, quer seja o direito de não ser
torturado para confessar, como no caso dos prisioneiros políticos, quer seja o
direito de não ter de atender a desconhecidos que nos abordam, como alguns
homens procedem com as moças, exigindo atenção e lisonjas e punindo-as
quando não as recebem. A ideia de voz ampliada para a ação abrange amplos
setores de poder e falta de poder.1

Quem não tem sido ouvido? O mar é extenso e é impossível mapear a


superfície do oceano. Sabemos quem é, na grande maioria das vezes, ouvido
sobre questões oficiais: os que detiveram cargos, frequentaram a universidade,
comandaram os exércitos, foram juízes e jurados, escreveram livros e
governaram impérios ao longo de muitos séculos. Sabemos que isso mudou um
pouco, graças às inúmeras revoluções a partir do século XX — contra o
colonialismo, o racismo, a misoginia, os incontáveis silêncios forçados impostos
pela homofobia e muito mais. Sabemos que a diferença de classes nos Estados
Unidos foi em certa medida nivelada no século XX, e depois reforçada mais para
o final do século, com a desigualdade de renda, a redução da mobilidade social e
o surgimento de uma nova elite extremada. A pobreza silencia.
Quem foi ouvido, sabemos, forma as ilhas bem mapeadas, e os demais formam
o mar da humanidade não ouvida e não registrada, impossível de ser mapeado.
Ao longo dos séculos, muitos foram ouvidos e amados, e suas palavras
desapareceram no ar tão logo foram proferidas, mas se enraizaram nos espíritos,
contribuíram para a cultura, como um adubo fertilizando a terra; dessas palavras
brotaram coisas novas. Muitos outros foram silenciados, excluídos, ignorados.
Setenta por cento do planeta é composto de água, mas a proporção entre silêncio
e voz é muito maior. Se as bibliotecas contêm todas as histórias que foram
contadas, existem bibliotecas fantasmas de todas as que não o foram. Os
fantasmas ultrapassam os livros numa proporção incalculável. Mesmo os que se
fizeram ouvir muitas vezes ganharam esse privilégio por meio de silêncios
estratégicos ou pela incapacidade de ouvir certas vozes, inclusive a própria.
A luta de libertação consiste, em parte, em criar as condições para que os
silenciados falem e sejam ouvidos. Uma inglesa me contou que a Grã-Bretanha
tem uma população carcerária de velhos cada vez maior, porque inúmeras
vítimas que antes ninguém queria ouvir agora vêm relatando os abusos sexuais
que sofreram. O caso britânico mais notório é o do apresentador Jimmy Savile da
BBC, que recebeu o título de Sir, sendo enaltecido e tratado como celebridade. Ele
morreu antes de ser denunciado por mais de 450 pessoas por abuso sexual, na
maioria moças, mas também garotos e mulheres adultas. Quatrocentos e
cinquenta pessoas que não foram ouvidas, que talvez não achassem que tinham o
direito de falar, ou mesmo de objetar ou de receber crédito. Ou talvez soubessem
que não tinham esses direitos, que eram destituídos de voz.
John Lydon, conhecido como Johnny Rotten, do Sex Pistols, falou sobre Savile
à BBC, em 1978: “Aposto que ele está em todas as sujeiradas que sabemos, mas
não podemos comentar. Eu já ouvi alguns rumores. Aposto que não vão liberar
nada disso”. A declaração de Lydon não foi liberada até 2013, quando a entrevista
foi transmitida na íntegra. Naquela mesma época, vieram à tona outros casos de
grupos de pedofilia envolvendo políticos britânicos de grande destaque. Muitos
dos crimes tinham acontecido muito tempo antes. Alguns deles resultaram na
morte das crianças vitimadas. Os escândalos que envolvem figuras públicas
fornecem versões nacionais e internacionais de coisas que, de outra maneira,
permaneceriam como pequenos dramas locais sob a versão predominante.
Muitas vezes esses escândalos determinam uma mudança de rumo na opinião
pública, ao motivarem conversas e discussões. Às vezes, lançam as bases para que
outros se apresentem e falem de outros abusos e outros perpetradores.
Ultimamente, isso se converteu num processo que usa as redes sociais para criar
tribunais coletivos, depoimentos em massa e formas de apoio mútuo que podem
ser vistas como uma versão daquele comportamento de “cuidar-e-ajudar”
destacado mais acima.
O silêncio foi o que permitiu que os predadores atacassem ao longo das
décadas, sem impedimentos. É como se as vozes desses homens públicos
importantes devorassem e aniquilassem as vozes dos outros, num canibalismo
narrativo. Tiraram-lhes a voz para recusar e lhes infligiram histórias
inacreditáveis. Inacreditável significa que os poderosos não queriam saber, ouvir,
acreditar, não queriam que eles tivessem voz. As pessoas morriam por não serem
ouvidas. Então algo mudou.
A mesma história poderia ser contada no caso de inúmeras figuras norte-
americanas, com os famosos exemplos recentes de Roger Ailes, diretor executivo
da Fox News, denunciado por várias mulheres por assédio e perseguição sexual,
exploração, chantagem e violência psicológica no local de trabalho por mais de
cinquenta anos; Bill Cosby e os seus estupros em série com o auxílio de drogas,
também pelo mesmo período de tempo; e Jian Ghomeshi no Canadá,
denunciado por várias mulheres por ataques brutais — figuras poderosas que
sabiam que suas vozes e sua credibilidade afogariam as de suas vítimas, até que
algo se rompeu, até que o silêncio se rompeu, até que um mar de histórias
estrugiu e acabou com a impunidade deles. Mesmo quando as provas eram
acachapantes, alguns ainda continuaram abusando, ameaçaram as vítimas e
encontraram formas de negar a validade das suas histórias pessoais. Pois
acreditar nelas significaria contestar postulados fundamentais. Seria incômodo, e
muitos falam da comodidade como um direito, mesmo quando —
principalmente quando — essa comodidade se funda sobre o sofrimento e o
silenciamento de outros.
Se o direito de falar, de ter credibilidade, de ser ouvido é uma espécie de
riqueza, essa riqueza agora vem sendo redistribuída. Por muito tempo houve
uma elite com audibilidade e credibilidade e uma subclasse de destituídos de voz.
Com a redistribuição da riqueza, a perplexidade e a incompreensão das elites
afloram incessantemente, furiosas e incrédulas que tal mulher ou tal criança
tenha ousado abrir a boca, que as pessoas se dignaram a acreditar nela, que sua
voz tenha algum valor, que sua verdade possa pôr fim ao reinado de um
poderoso. Essas vozes, ouvidas, subvertem as relações de poder. Uma faxineira
de hotel marcou o começo do fim da carreira do diretor do Fundo Monetário
Internacional, o agressor em série Dominique Strauss-Kahn. Mulheres puseram
fim à carreira de nomes notáveis em muitas áreas — ou, melhor, esses nomes
notáveis destruíram a si mesmos com ações que cometeram contando com a
impunidade que acompanha a falta de poder de suas vítimas. Muitos viveram na
impunidade por longos anos, alguns durante toda a vida; muitos agora
descobriram que não a têm mais.
Quem é e quem não é ouvido define o statu quo. Os que o encarnam, muitas
vezes ao custo de extraordinários silêncios para com eles mesmos, ocupam o
centro; os que encarnam o que não é ouvido ou o que perturba os que ascendem
graças ao silêncio são marginalizados. Ao redefinirmos qual voz há de se
valorizar, redefinimos a nossa sociedade e os seus valores.

Meu tema neste livro é aquela subespécie de silêncio e de silenciamento


específica para as mulheres, se é que se pode considerar específico algo que
envolve mais da metade da humanidade. Se ter voz, poder falar, ser ouvido e
acreditado é essencial para ser um participante, uma pessoa com poder, um ser
humano com pleno reconhecimento, então é importante reconhecer que o
silêncio é a condição universal da opressão, e existem muitas espécies de silêncio
e de silenciados.
A categoria mulheres é uma longa avenida que cruza com várias outras, entre
elas classe, raça, pobreza e riqueza. Percorrer essa avenida significa cruzar outras
e jamais significa que a cidade do silêncio tem apenas uma rua ou uma rota
importante. Agora cabe questionar as categorias de masculino e feminino, mas
também cabe lembrar que a misoginia se baseia numa inabalável crença na
realidade dessas categorias (ou tenta reforçá-las demonstrando o papel
apropriado de cada gênero).
O genocídio é um grande silenciamento, assim como a escravidão. E foi contra
a escravidão que surgiu o feminismo americano, nascido nesse cruzamento.
Elizabeth Cady Stanton foi à Convenção Antiescravista Mundial em Londres, em
1840, uma entre as diversas abolicionistas que viajaram até lá para participar e
descobriram que não teriam assento nem palavra. Mesmo os que se
consideravam defensores dos oprimidos não enxergavam o que havia de
opressor num sistema tão antigo que era considerado natural. A controvérsia
surgiu. Em sua autobiografia, Stanton escreveu sobre as mulheres admiráveis lá
reunidas, que foram “todas obrigadas a ouvir em silêncio as banalidades
masculinas sobre a esfera das mulheres”. Voltou para casa furiosa, e essa fúria, ao
ser silenciada e reprimida, com a percepção resultante, deu início ao primeiro
movimento pelos direitos das mulheres.
Além de conquistar os direitos de voto e de acesso ao ensino e às escolas, uma
parte significativa da luta pelos direitos civis consistiu — e ainda consiste — em
incluir pessoas não brancas nos corpos de jurados, tanto para lhes dar o direito
de plena participação como para dar aos réus em julgamento o direito de serem
ouvidos por pessoas capazes de entender quem eles são e de onde vêm — um júri
composto por seus pares, como garante a Constituição. Ainda em 2016, a
composição racial dos júris foi objeto de contestação no Supremo Tribunal. As
lutas por questões de gênero são análogas.
Em 1927, sete anos depois de as mulheres conquistarem o direito de voto em
escala nacional,2 apenas dezenove estados permitiam que as mulheres
integrassem os júris, e mesmo em 1961 o Supremo Tribunal confirmou a
dispensa automática de juradas na Flórida. Isso significa que muitos, incontáveis
processos de violência e discriminação sexual foram ouvidos por júris
exclusivamente masculinos, com advogados homens em tribunais presididos por
juízes homens, cenário em que era extraordinariamente alta a probabilidade de
que a voz da vítima mulher fosse desacreditada e silenciada (a menos que ela
estivesse depondo contra uma pessoa de outro grupo silenciado: às vezes,
homens brancos usavam mulheres brancas como arma contra homens negros). E
significa também que, dessa e de muitas outras maneiras, as mulheres não
tinham voz na sociedade.
O silêncio foi a condição histórica das mulheres, às quais, salvo raras exceções,
negava-se instrução e papéis na vida pública — cargos como juízas, preladas e
praticamente qualquer outro com o uso da palavra. As mulheres foram
silenciadas nas casas de Deus. Em Coríntios 1,14.34, Paulo determinou: “estejam
caladas as mulheres nas assembleias, pois não lhes é permitido tomar a palavra”.
Em outra parte, o Novo Testamento declara: “Eu não permito que a mulher
ensine ou domine o homem. Quer ela conserve, pois, o silêncio”. Nenhuma
mulher tomou o sacerdócio na Igreja anglicana nos Estados Unidos até 1944,
nem na Igreja da Inglaterra até 1994. A primeira rabina nos Estados Unidos foi
ordenada em 1972. Nenhuma mulher foi ordenada na Igreja católica.
As mulheres foram silenciadas nos tribunais. Nenhuma mulher integrou o
Supremo Tribunal dos Estados Unidos até 1981, e atualmente as mulheres
ocupam apenas um terço dos assentos, a maior proporção de todos os tempos.
Na Escola de Direito de Harvard, onde estudaram tantos dos senhores do
mundo, o primeiro pedido de admissão de uma mulher foi em 1871, e a primeira
mulher ingressou em 1950. As mulheres estavam excluídas dos cursos de
graduação em muitas das universidades da Ivy League, onde se formam as
alianças de poder mundiais. A primeira aluna de graduação em Yale ingressou na
faculdade em 1969. As mulheres receberam uma acolhida tão hostil que, em
1977, a primeira ação judicial americana baseada no Título IX [contra a
discriminação sexual] deu entrada na justiça, por assédio sexual no campus e
estupro perpetrado por docentes, o processo Alexander v. Yale. O caso
estabeleceu um precedente, determinando que todas as universidades do país
tratassem esses abusos como discriminação (mas a mudança não foi suficiente:
39 anos depois, no verão de 2016, 169 filósofos assinaram uma carta condenando
a conduta do professor Thomas Pogge, de Yale, especialista na área de ética, por
uma série de supostos episódios de assédio sexual ao longo de 27 anos).
Novos reconhecimentos exigem uma nova linguagem, e o feminismo cunhou
uma imensidão de termos para descrever as experiências individuais que
passaram a sair dos seus esconderijos durante os debates dos anos 1960 e 1970.
Susan Brownmiller cunhou o termo “date rape” em 1975. A expressão “assédio
sexual” [sexual harassment] foi cunhada talvez em 1974 por Mary Rowe, para
descrever condutas impróprias no MIT [Massachusetts Institute of Technology],
ou em 1975 por um grupo de mulheres tratando do mesmo problema em
Cornell. A lendária advogada Catherine MacKinnon deu impulso ao conceito
com seu livro Sexual Harassment of Working Women [Assédio sexual na vida
profissional feminina], de 1979. O termo e os conceitos por trás dele só se
tornaram conhecidos pelo público com as audiências Clarence Thomas-Anita
Hill em 1991. Em 1993, Oklahoma e a Carolina do Norte são os últimos estados a
criminalizar o estupro da própria esposa. A falta de jurisdição sobre o próprio
corpo é uma forma de silenciamento, uma maneira de anular o valor daquilo que
se diz, e as palavras sem valor são piores do que o silêncio: a pessoa pode ser
punida por dizê-las.

TODO HOMEM É UMA ILHA: O SILÊNCIO MASCULINO

Sob o patriarcado, o silêncio está em toda parte, embora ele exija dos homens
silêncios diferentes dos das mulheres. Pode-se imaginar o policiamento do
gênero como a criação de silêncios recíprocos, e assim se pode começar a
reconhecer o silêncio masculino como uma troca por poder e pertencimento.
Quem melhor formulou isso foi bell hooks, que disse:
O primeiro ato de violência que o patriarcado exige dos homens não é a violência contra as mulheres.
Em vez disso, o patriarcado exige de todos os homens que pratiquem atos de automutilação psíquica,
que matem suas partes emocionais. Se um indivíduo não conseguir se mutilar emocionalmente, pode ter
certeza de que os homens patriarcais encenarão rituais de poder que investirão contra seu amor-próprio.

Ou seja, o patriarcado exige que primeiramente os homens silenciem a si


mesmos (e talvez caiba notar mais uma vez que, embora o patriarcado seja um
sistema que privilegia os homens e a masculinidade, muitas mulheres são
cúmplices, alguns homens se rebelam e algumas pessoas estão desmontando as
normas de gênero que o sustentam). Isso significa aprender a silenciar não só
perante os outros, mas também perante si mesmo, sobre aspectos da sua vida e
da sua identidade interior.
Fiquei arrepiada ao ler a passagem de hooks, ao perceber de repente que é
como se fosse o enredo de um filme de terror ou de zumbi. Os mortos vão atrás
dos vivos para exterminar os sentimentos, seja conseguindo que os alvos se
juntem ao entorpecimento deles, seja atacando-os e reduzindo-os ao silêncio. Na
paisagem do silêncio, há três domínios que se alternam: o silêncio imposto de
dentro, aquele imposto de fora e o que existe em torno, que ainda não foi
nomeado, reconhecido, descrito ou admitido. Mas não são distintos; alimentam-
se mutuamente; e o que é e não é dito torna-se incognoscível e vice-versa, até que
algo se rompe.
O preço que os homens pagam pelo poder é um certo tipo de integridade
emocional, e as renúncias começam cedo. Quando perguntei no tom mais neutro
possível a um sobrinho, que acabava de fazer cinco anos, por que o rosa não
estava mais entre suas cores favoritas, ele sabia exatamente do que estávamos
falando: “Gosto de meninas. Só não gosto de coisas de menina”, exclamou ele,
sabendo o que eram coisas de menina e que não devia deixar se definir por elas.
Na verdade, ele já sentia desprezo por elas e prosseguiu com um discurso contra
Meu pequeno pônei.
Achei que cinco anos era cedo demais para começar a ser bombardeado, até
que fui fazer compras para o filho de uma amiga que estava grávida e logo me
relembraram que os nossos papéis se colam em nós desde a hora do nascimento.
Para as meninas, ser fofa, bonitinha, simpática e talvez passiva: cores quentes,
gatinhos, flores, arabescos. Para os meninos, distância: cores frias e figuras ativas,
geralmente ameaçadoras ou removidas do espaço da intimidade e da
emotividade — figuras esportivas, bastões e bolas, foguetes, animais de sangue
frio como répteis, dinossauros e tubarões, estranhas escolhas para mamíferos
desamparados que dependem de cuidados.
A masculinidade é uma grande renúncia. O cor-de-rosa é apenas uma
miudeza, mas meninos e homens bem-sucedidos renunciam a emoções, à
expansividade, à receptividade, a todo um conjunto de possibilidades na vida
cotidiana, e homens que ocupam áreas masculinizadas — esportes, Forças
Armadas, polícia, trabalhos exclusivamente masculinos como construção ou
extração de recursos minerais — muitas vezes ainda precisam renunciar a outras
coisas mais. As mulheres mantêm um leque mais amplo de possibilidades
emocionais, embora sejam desestimuladas ou estigmatizadas ao expressar
algumas das emoções mais fortes, sentimentos que não são femininos e
respeitosos, e muitas outras coisas — ambição, inteligência crítica, análise
independente, discordância, raiva. Ou seja, o silêncio é uma força difusa,
distribuída de diferentes maneiras entre diferentes categorias de pessoas. Ele
subjaz a um statu quo que depende de uma homeostasia de silêncios.
A misoginia e a homofobia são, ambas, formas de odiar o que não é
patriarcado. “O que causa a heterossexualidade?”, era a pergunta num dos
adesivos distribuídos pela minha cidade natal, como parte da campanha de
protesto da Nação Queer contra a homofobia, 25 anos atrás. Era uma ótima
pergunta, invertendo a pergunta convencional, reconhecendo que a
heterossexualidade também era socialmente construída e não precisava ser vista
como norma inquestionável. Tive a grande sorte de conviver com gays desde os
treze anos de idade, pessoas que resistiam às doutrinações sobre a masculinidade
heterossexual, visto que pelo menos alguns dos privilégios dessa
heterossexualidade as excluíam, não lhes interessavam ou não valia a pena
fazerem concessões por causa deles, ou também porque a dissidência erótica
abria a possibilidade de outras espécies de dissidência. A convivência com eles
tem sido um longo contato com as outras coisas que os homens podem ser.
Muitos dos gays em minha vida parecem mais inteiros do que a maioria dos
héteros que conheço. Mostram-se mais capazes de sentir e expressar um leque
completo de emoções, de entendê-las e apreciá-las nos outros (e, muitas vezes, de
ter uma percepção aguçada de sombras e nuances de significados que ultrapassa
a dos demais, bem como uma grande sagacidade em expressá-las). São soldados
que desertaram da guerra do patriarcado, gente com aquela visão binocular que
chamamos de humor: a capacidade de reconhecer a distância entre as coisas
como são e as coisas como supostamente deveriam ser.
A própria masculinidade estava e está aberta a questões numa cultura que
inclui todo um espectro que vai das drag queens à hipermasculinidade estetizada,
em que os homens se reconhecem como objeto do olhar masculino. Sob tudo
isso há uma percepção de que as identidades são roupas que se usam, e por trás
se encontra o amplo leque de escolhas quanto ao que se quer ser. É claro que
todos, em todas as categorias do ser humano, têm o direito de ser horríveis, e o
mero fato da orientação sexual, assim como da raça, classe, religião e gênero, não
gera necessariamente uma libertação ou compreensão das coisas; não estou
falando de todos os gays, mas apenas dos meus amigos e da minha comunidade.
No mainstream heterossexual, as mulheres ficam com a tarefa de portar e
expressar a emoção pelos outros. Quando eu era bem nova, fui viajar com meu
namorado, e o pai dele, vendo-nos sair, disse: “Dê notícias. Sua mãe vai ficar
preocupada”. Ela era a dublê para as emoções que ele não podia expressar. Ela
tinha os sentimentos que podiam ser admitidos. Era ela que preenchia o silêncio
em casa, jogando conversa fora para manter a ligação entre as pessoas, para ser
extrovertida numa casa cheia de homens bons, mas fechados, homens decentes
que ficavam extremamente incomodados com a expressão da emotividade e
sentiam que o trabalho de estabelecer vínculos não lhes cabia.
Se é preciso matar a emoção, isso pode converter as mulheres em alvos.
Homens menos decentes perseguem a vulnerabilidade porque, se ser homem
significa aprender a odiar a vulnerabilidade, você vai odiá-la em você e no gênero
que a carrega para você. Mulherzinha e frutinha foram insultos usados por muito
tempo contra meninos e homens, da mesma forma que veado e bicha; um
homem não pode ser maricas, não pode chorar, não pode ser fraco; o medo de
ser gay era o medo de ter uma sexualidade que talvez não fosse a da dominação e
da penetração, que podia ser a de ser penetrado, ser igual, ser aberto. Como se
abertura fosse fraqueza em vez de força. Na Grécia antiga e em algumas culturas
contemporâneas, a masculinidade foi e é definida como aquele que penetra. A
condição daquele ou daquela que é penetrado corresponde a uma degradação
que equivale a não ser masculino — o que faz do ser heterossexualmente
feminino uma condição de perpétua degradação e equipara, talvez, quem penetra
a quem degrada. (Na Islândia medieval, o insulto “um troll te usa como uma
mulher” era considerado tão ofensivo que o insultado tinha o legítimo direito de
matar.)
O amor é uma negociação constante, uma conversa constante; amar alguém é
se abrir à rejeição e ao abandono; o amor é algo que se pode conquistar, mas não
extorquir. É uma arena que não se controla, porque a outra pessoa também tem
direitos e toma decisões; é um processo colaborativo; fazer amor é, em sua
melhor forma, um processo em que essas negociações se transformam em alegria
e diversão. Grande parte da violência sexual é uma recusa dessa vulnerabilidade;
muitas das normas sobre a masculinidade inculcam uma falta de habilidade e de
disposição para negociar de boa-fé. A inabilidade e o sentimento de estar em seu
direito se deterioram e viram uma fúria de controlar, de transformar uma
conversa num monólogo que dita ordens, de transformar o ato de fazer amor
numa imposição agressiva e numa demonstração de controle. O estupro é o ódio
e a fúria ocupando o lugar do amor entre os corpos. É uma visão do corpo
masculino como arma e do corpo feminino (no estupro heterossexual) como
inimigo. Como é converter seu corpo em arma?
Se não fomos ensinados a colaborar, a negociar, a respeitar e prestar atenção,
se não vemos os nossos bem-amados como iguais, dotados de certos direitos
inalienáveis, não estamos bem preparados para o trabalho do amor. Estamos
num mundo em que os homens nas sociedades industrializadas, até
recentemente, pressupunham que o acesso ao corpo das mulheres era um direito
deles que elas não deviam tolher. Ainda é comum ouvir homens heterossexuais
reclamarem da obrigação insensata e trabalhosa de precisar obter o
consentimento sexual, e talvez seja o caso de lembrar que, até pouco tempo atrás,
os maridos nos Estados Unidos tinham direitos irrestritos sobre o corpo da
esposa, o que é outra maneira de dizer que a esposa não tinha praticamente
nenhum direito sobre o próprio corpo.
Somente na Califórnia e em Nova York, há pouco tempo, é que o
consentimento explícito se tornou o padrão vigente para o sexo consensual nas
universidades. Quando o consentimento explícito se converteu em lei, uma
legião de homens nos Estados Unidos (e no website do Guardian em Londres)
armou uma gritaria indignada contra o fato de ambas as partes terem de
participar ativa e conscientemente a favor do que estava acontecendo. O
significativo era que consideravam a questão como um obstáculo terrível que
acabava de surgir. Pelo critério anterior, bastava não haver discordância, o que,
evidentemente, significava que se sentir sob intimidação, estar sob efeito de
dopagem ou em estado de inconsciência podia ser interpretado como
consentimento. Em outras palavras, o silêncio era consentimento, como se o
silêncio dissesse uma coisa só quando pode significar tantas outras, como se a
questão fosse pronunciar um não em vez de emitir um sim.

Existe uma separação tradicional entre estupro, violência doméstica,


assassinato e misoginia institucional. Mas muitas vezes as mulheres que são
estupradas, espancadas, perseguidas, molestadas na rua têm medo, e com razão,
de ser mortas, e às vezes são — somos — mesmo. As distinções entre os tipos de
violência não nos adiantam de nada quando nos impedem de falar sobre a
chamada violência de gênero como um fenômeno amplo e profundo. E mesmo
chamar todos eles de violência de gênero encobre o fato de que a violência é
apenas um meio para um fim, e que existem também outros meios. Se a questão
é o silêncio, então as formas de silenciamento que uns empregam contra outros
ampliam o campo, passando a incluir a vergonha, a humilhação, a exclusão, a
desvalorização, o descrédito, as ameaças e a distribuição desigual do poder por
meios sociais, econômicos, culturais e jurídicos.
Evan Stark, especialista em violência doméstica, afirma que o próprio termo é
equivocado; em seu livro de 2009, Coercive Control: How Men Entrap Women in
Personal Life [Controle coercitivo: Como os homens cerceiam as mulheres na
vida pessoal], escreve:
Este livro reformula o cerceamento e a violência doméstica contra a mulher do ponto de vista das
sobreviventes como um modo de conduta deliberado e malévolo, empregado quase exclusivamente por
homens para dominar as mulheres em termos individuais, entrelaçando a reiterada violência física com
três táticas igualmente importantes: a intimidação, o isolamento e o controle. […] O dano primário que
os homens violentos infligem é político, não físico, e reflete a privação de direitos e de recursos que são
essenciais para a condição de pessoa e para a cidadania.

Ele compara esse cerceamento a um sequestro, as vítimas a reféns, muitas


vezes privadas do acesso a outras pessoas, sem liberdade de movimentos, sem
recursos materiais como carro ou dinheiro, punidas por infrações pelo ditador da
casa. Geralmente, o momento mais perigoso é quando as vítimas de controle
coercitivo tentam ir embora. Muitas são mortas por tentar ou por conseguir
alcançar a liberdade, liberdade que não é segurança. Stark acrescenta:
As mulheres em minha experiência prática têm deixado claro, repetidamente, que o que os seus
parceiros lhes fazem é menos importante do que aquilo que eles as impedem de fazer por conta própria,
apropriando-se dos seus recursos, minando seu apoio social, tirando os seus direitos à privacidade, ao
respeito próprio e à autonomia, e privando-as da igualdade essencial. […] O controle coercitivo é um
crime contra a liberdade, mais do que um crime de agressão.

A atriz e ativista feminista Patricia Arquette comentou em 2016:


Há um efeito cascata na sub-remuneração para as mulheres. Dez mil mulheres são encaminhadas
diariamente para abrigos contra o abuso doméstico. Muitas vezes, o abuso doméstico consiste em parte
em suprimir os recursos econômicos; há homens que tomam semanalmente o pagamento das esposas e
nunca lhes dão dinheiro ou não as deixam trabalhar por serem ciumentos demais. A principal razão
dada pelas mulheres para voltarem e ficarem com o abusador é a insegurança financeira. Muitas vezes
elas têm filhos com eles.

Podemos ampliar o quadro de Stark e ver muitas formas de ataque às


mulheres — não só dos seus parceiros, mas também de conhecidos e
desconhecidos, de políticos e do Estado — como controle coercitivo. A guerra
interminável contra os direitos reprodutivos — não só contra o aborto, mas
também contra métodos anticoncepcionais, o acesso à educação sexual e ao
planejamento familiar — é uma tentativa de controle coercitivo institucional. Às
vezes, a violência desempenha um papel, mas a coerção ocorre por muitos outros
meios, inclusive pela criação de leis punitivas que tolhem direitos. Não é difícil
ver que uma legislação que diz se concentrar nos direitos dos não nascidos, em
vez de nos direitos das mulheres que carregam os não nascidos, na verdade se
concentra nos direitos dos homens e do Estado e não no corpo das mulheres;
tampouco é difícil ver no esforço de negar acesso à contracepção e ao aborto um
ataque à autonomia, à capacidade de ação e ao direito das mulheres de
escolherem o que o sexo significa para elas, de terem controle sobre o próprio
corpo, de buscarem prazer e intimidade sem se submeter às enormes exigências
da maternidade, ou de escolherem essa maternidade segundo seus próprios
termos.
A ampla presença da violência de gênero e da violência sexual serve para
restringir a liberdade e a confiança daquelas que têm de viver num mundo em
que as ameaças compõem o pano de fundo de suas vidas, uma nota de rodapé a
cada página, uma nuvem nublando todos os céus. Não são “crimes passionais”,
como se costumava dizer, nem de desejo, mas sim de fúria em controlar, impor
ou reforçar uma estrutura de poder. Inúmeros homicídios na violência
doméstica são punições ou tentativas de manter o controle sobre mulheres que
anunciam que estão indo, tentam ir ou já foram embora. Matar alguém é matar
sua liberdade, sua autonomia, seu poder, sua voz. O fato de muitos homens
acreditarem que têm o direito e a necessidade de controlar as mulheres, pela
violência ou por qualquer outro meio, revela muito sobre os sistemas de crença
que adotam e sobre a cultura em que vivemos.
Nos últimos anos, do Brasil ao Canadá, há estupradores que filmam suas
agressões sexuais. Então põem o vídeo em circulação entre seus pares masculinos
como prova da capacidade de ação dos estupradores e da incapacidade de ação
da vítima, a subsequente humilhação e a perda de controle sobre sua privacidade
e dignidade (e boa parte da pornografia heterossexual mainstream retoma esse
roteiro com infindáveis variações, a excitação parecendo brotar do poder
homoerótico e não do prazer heterossexual). Essa vergonha leva algumas
sobreviventes do estupro ao suicídio — e é muito significativo que uma agressão
sexual seja vergonhosa para a vítima e não para o agressor. Esses vídeos nos
relembram a coexistência de dois mundos radicalmente diversos: quando
circulam no sistema jurídico, são provas de crimes, mas, quando circulam entre
os pares masculinos, servem para demonstrar aos outros como os agressores
atendem às normas da masculinidade.
Porém, a lei e os estupradores não são tão diferentes assim em outros aspectos.
Muitos casos de estupros levam as vítimas ao tribunal ou a sindicâncias
universitárias, em que aqueles que julgam perpetuam o descrédito e a
desvalorização da vítima com perguntas que a tratam como culpada, pintam-na
como pessoa intrinsecamente suspeita, atacam-na com perguntas invasivas,
impertinentes e lascivas sobre o seu histórico sexual. As autoridades judiciais e
universitárias às vezes se preocupam mais com o futuro dos estupradores do
campus do que com o futuro das vítimas, e frequentemente tendem a acreditar
mais neles do que nelas. A decorrente falta de disposição de muitas sobreviventes
em cooperar com o sistema judicial resulta numa perda dos seus direitos legais,
no silenciamento, na aceitação de que os estupradores saiam impunes e muitas
vezes voltem a agir, isso numa sociedade (os Estados Unidos) em que somente
3% dos estupradores cumprem pena pelos seus crimes.
Assim, o controle coercitivo opera no nível da sociedade tal como opera no
lar. O tratamento dado às vítimas e a tolerância generalizada diante de uma
epidemia de violência ensinam às mulheres que elas têm pouco valor, que erguer
a voz pode resultar em maiores punições, que o silêncio pode ser uma estratégia
de sobrevivência melhor. Às vezes isso recebe o nome de “cultura do estupro”,
mas, tal como “violência doméstica”, o termo reduz o foco apenas para a ação
individual, deixando de ver a motivação de muitos; “patriarcado” é melhor como
termo abrangente.
A epidemia de estupros universitários nos relembra que esse tipo específico de
crime não é cometido por um grupo que possa ser sumariamente descartado
como marginal; as fraternidades estudantis em instituições de elite, de Vanderbilt
a Stanford, têm sido palco de ações excepcionalmente perversas; a cada
primavera, as melhores universidades formam uma nova safra de estupradores
impunes. Eles nos relembram que essa insensibilidade está no centro, não nas
margens, que a falta de empatia e de respeito são centrais, não marginais.
A empatia é uma narrativa que contamos a nós mesmos para que as outras
pessoas ganhem realidade para nós, para que sintamos com elas e por elas, e
assim possamos nos ampliar, nos alargar e nos abrir. Não sentir empatia é fechar
ou aniquilar uma parte de si mesmo e da sua humanidade, é se proteger contra
algum tipo de vulnerabilidade. O silenciamento, ou a recusa em ouvir, rompe
esse contrato social de reconhecer a humanidade do outro e a nossa ligação com
ele.
Ao olhar um livro de fotos de linchamento, publicado algumas décadas atrás,
pareceu-me que os brancos que iam com os filhos fazer piquenique na frente das
cenas de tortura estavam celebrando seu próprio entorpecimento e dissociação.
As pessoas que fazem ou consomem vídeos de estupro e pornografia misógina
devem estar fazendo a mesma coisa. A nossa humanidade é feita de histórias ou,
na falta de palavras e narrativas, de imaginação: aquilo que não senti
literalmente, porque aconteceu a você e não a mim, posso imaginar como se
fosse eu ou posso me importar com aquilo, mesmo não tendo sido comigo.
Assim estamos ligados, não estamos dissociados. Essas histórias podem ser
aniquiladas e reduzidas ao silêncio, e as vozes que poderiam gerar empatia são
silenciadas, desacreditadas, censuradas, tornando-se afônicas e inaudíveis. A
discriminação é um treinamento de não se identificar ou não sentir empatia pelo
outro, porque é diferente em alguma coisa, acreditando que a diferença é tudo e a
humanidade em comum, nada.
Em seu livro Love and War: How Militarism Shapes Sexuality and Romance
[Amor e guerra: Como o militarismo molda a sexualidade e o romance], Tom
Digby afirma que vivemos numa sociedade militarizada em que os homens
sofrem mil formas de pressão para adotar as práticas e os costumes dos soldados.
Um soldado cercado pela morte de outros e pela possibilidade da sua própria
mutilação e morte se fecha. Fecham-se também muitos sobreviventes de
atrocidades, individuais e coletivas, muitas vezes cometidas por aqueles que se
fecharam para perpetrá-las. Robert Jay Lifton denominou esse entorpecimento
emocional de Morte em vida, título de seu livro sobre os sobreviventes de
Hiroshima. Ele sustenta que sobreviveram ao horror se fechando, mas que
ficarem fechados significava serem mortos-vivos, não vivos. Isso nos leva de
volta à crítica de hooks aos “atos de automutilação psíquica” dos homens. Talvez
a questão seja qual é o significado de estar vivo e como estar plenamente vivo.
Os soldados são treinados para descartar a empatia, a fim de se transformarem
em máquinas de matar; é assim que vão para a guerra cumprir sua tarefa, é assim
que voltam para casa, com um trauma muitas vezes impossível de expressar.
David Morris, em sua obra admirável sobre o trauma, The Evil Hours [As horas
más], observa:
Uma parte da força corrosiva do trauma consiste em sua capacidade de destruir as narrativas, e […] as
histórias, escritas e faladas, têm um enorme poder terapêutico tanto para o narrador como para o
ouvinte. As memórias normais, não traumáticas, são reconhecidas e integradas à história do eu em
curso. São, em certo sentido, como animais domesticados, tratáveis, passíveis de controle. Em contraste,
a memória traumática se mantém à parte, como um cão feroz, rosnando, selvagem e imprevisível.

Morris nota que as vítimas de estupro e os soldados têm muito em comum. O


trauma desorganiza a narrativa de uma vida porque estilhaça a memória em
cacos que não serão reconhecidos como história digna de crédito, às vezes nem
pelo próprio narrador — assim, alguns sobreviventes de estupros e de outras
atrocidades emergem com histórias fraturadas, o que indicaria que elas não são
confiáveis, não têm validade nem merecem confiança. Assim, o estupro é uma
ação que procura estilhaçar o eu e sua narrativa, às vezes seguida por
procedimentos judiciais que exigem que o eu se recomponha como uma
narrativa coesa (mas não coesa demais: o depoimento bem-sucedido não pode
ser racional e frio demais, nem muito sobrecarregado emocionalmente). Uma
amiga que trabalha na área diz que muitas mulheres apresentam queixa dos
ataques sexuais por razões altruístas: para impedir que o mesmo aconteça com
outras pessoas. Às vezes apresentam-se para corroborar o depoimento de alguém
que já deu parte. Manifestar-se, em outras palavras, muitas vezes é um gesto de
empatia.
Morris prossegue: “Embora o estupro seja a forma mais comum e mais danosa
de trauma, a grande maioria das pesquisas sobre os TEPT [transtornos de estresse
pós-traumático] trata de traumas e de veteranos de guerra. A maior parte do
nosso conhecimento sobre os TEPT provém de estudos com homens”. Em outras
palavras, há um silêncio sobre quem sofre tais transtornos que silencia ainda
mais as mulheres. Inúmeros cidadãos que silenciam para ser aceitos pelos
silenciados. Pessoas que se apresentam como caricaturas de seres humanos,
oferecendo seus silêncios umas às outras, esquivando-se mutuamente a
estabelecer ligações. Represas e diques construídos contra as histórias, que às
vezes se rompem e inundam a cidade.

SILÊNCIO: AS JAULAS

Há aqueles que são literalmente silenciosos.


“Quem, se eu gritasse, me ouviria.” Assim começa a primeira Elegia de Duíno
de Rainer Maria Rilke, e há os que não ouvem ninguém, nem a si mesmos, que
reprimiram, esqueceram, enterraram o conhecimento e, com isso, enterraram a
si mesmos. Quando buscamos o silêncio, constantemente encontramos os
mortos. Quem os ouviria? Somente os que os puniriam ainda mais. Sarah Chang
escreveu sobre assistir pornografia infantil como parte de seu trabalho como
promotora em crimes de abuso sexual de crianças. Ela notou o silêncio:
Vídeo após vídeo, presenciei o sofrimento silencioso. Soube mais tarde que é uma reação típica de
vítimas de abuso infantil. Os psiquiatras dizem que o silêncio transmite o sentimento de desamparo
delas, que também se manifesta como relutância em registrarem as ocorrências e a tendência de se
reconciliarem com os abusadores. Se uma criança chega a revelar o abuso, o relato costuma ser
ambivalente, às vezes seguido por total retraimento e retorno ao silêncio.

Ela fala sobre uma vítima que foi ameaçada de morte pelo irmão caso gritasse.
Maya Angelou ficou muda durante cinco anos após o estupro aos sete anos de
idade.
Durante a infância, Barry Lopez foi estuprado durante anos, sistematicamente,
por um amigo da família. Ele escreve sobre o estuprador:
Ele me falou, com calma, mas enfático, que era médico, que eu precisava de tratamento e que não
iríamos aumentar as preocupações da minha mãe contando a ela sobre o meu problema. De tempos em
tempos, geralmente no carro quando me levava de volta para casa, Shier me relembrava que, se algum
dia eu contasse para alguém, se os tratamentos fossem interrompidos, ele não teria outra escolha a não
ser me internar numa instituição. […] Achei que seria melhor continuar a ser o menino corajoso que ele
dizia que eu era.

Ele foi silenciado durante anos e, quando se manifestou nos meados da


adolescência, o padrasto ficou em dúvida e decidiu não acreditar nele. Passou-se
meio século antes que Lopez falasse publicamente sobre seu suplício e seus
traumas.

Quando os lábios não podem falar, o corpo às vezes revela: testemunho


silencioso.
Kelly Sundberg escreveu sobre o ex-marido violento e a relação oscilante que
ela mantinha com essa violência:
Depois de dois anos que nos mudamos, comecei a pós-graduação e finalmente fiz alguns amigos, mas
era difícil passar algum tempo com eles. Eu tinha de mentir: Prendi o braço na porta. Tropecei no tapete
e bati o rosto na mesa. Não sei de onde veio esse machucado. Deve ter sido dormindo. Acho que tenho
anemia. Eu me machuco muito fácil.
Uma vez, Caleb me disse: “Você provavelmente gostaria que alguém descobrisse de onde vêm esses
machucados. Você provavelmente quer que alguém saiba e aí as coisas poderiam mudar”. Ele falou isso
com muita tristeza.
Só uma vez ele me bateu no rosto. Uma mancha vermelha se espalhou pela face e fiquei com o olho
arrebentado e sangrando. Depois, sentamos no chão do banheiro, exaustos. “Você me fez bater no seu
rosto”, ele disse muito abatido. “Agora todo mundo vai ficar sabendo.”

Ela tinha mantido o silêncio. Mas o rosto falou. A verdade ameaçava o marido,
o casamento, o conforto e as suposições das pessoas próximas. Sundberg rompeu
o silêncio e escreveu sobre a questão num ensaio bastante aclamado, que serviu
de incentivo para que outras pessoas contassem suas histórias sobre a violência
de cônjuges e genitores. Uma voz solo se tornou um coro.
Um aspecto complicado do abuso e do assédio é a ideia de que a traição não
está no crime, e sim na revelação do crime. Não se espera que você vá falar. Os
abusadores muitas vezes se supõem donos do privilégio de exigir o silêncio dos
abusados e de haver uma proteção unilateral. Frequentemente são outros que
impõem o silêncio, retratando a vítima como se fosse ela a escolher a ruína de
uma carreira ou de uma família, como se não tivesse sido o próprio agressor a
fazer essa escolha.

Há vozes que se erguem na ausência de ouvintes.


Em 2015, um estudante da Universidade de Stanford atacou sexualmente uma
mulher inconsciente. A mulher depôs em seu julgamento: “Tentei tirar da minha
cabeça, mas pesava tanto que eu não falava, não comia, não dormia, não tinha
contato com ninguém. Depois do trabalho, eu ia para um lugar isolado para
gritar…”. Ela absorvera, de certa forma, a ideia de que a sua raiva e o seu trauma
eram descabidos, de que os seus gritos não deviam ser ouvidos. Mas então ela foi
ouvida no mundo inteiro. Escreveu uma carta a seu agressor que, depois de ler
em voz alta no tribunal, foi anexada aos documentos do processo, e em junho de
2016 se tornou o relato em primeira pessoa de um estupro e seus
desdobramentos com, talvez, o maior número de consultas. Ela recuperou a voz
que lhe fora tomada e com isso reumanizou seu eu desumanizado. Disse palavras
que construíram uma jaula em torno dele, ergueram um monumento à sua
maldade e indiferença, palavras que provavelmente o acompanharão pelo resto
da vida. Sua voz foi seu poder.
Ela rompeu o silêncio (embora não tenha rompido a vergonha e o medo que
muitas vezes mantêm as vítimas de estupro no anonimato). Falou dele, das suas
mentiras e subterfúgios com raiva e indignação, mas terminou com ternura: “Às
garotas de todas as partes, estou com vocês. Nas noites em que se sentem
sozinhas, estou com vocês. Quando as pessoas duvidam ou negam, estou com
vocês. Lutei diariamente por vocês. Então nunca deixem de lutar, eu acredito em
vocês. […] vocês não podem ser silenciadas”. Estou com vocês é a voz da empatia,
as palavras que dizem que não há separação entre nós.

Mas há as que gritam em vão.


O famoso caso de Kitty Genovese, estuprada e morta a facadas por um
desconhecido enquanto os vizinhos dos outros apartamentos ignoravam os seus
gritos, converteu-se num exemplo emblemático da indiferença dos espectadores.
Catherine Pelonero retomou o caso em 2014. Numa resenha do seu livro, Peter
C. Baker comentou:
Pelonero assinala que, no mesmo mês em que Genovese foi assassinada, a United Press International
publicou uma matéria sobre um juiz em Cleveland que determinara que “tudo bem que o marido
provoque um olho roxo na mulher e lhe quebre um dente se ela ficar fora de casa até muito tarde”.
Pelonero também cita de modo mais extenso as várias testemunhas que justificaram explicitamente sua
inação de acordo com o que se espera das mulheres e do seu lugar no mundo. “Imaginei que era uma
briga de casal, que ele tinha dado uma surra nela. Então minha mulher e eu voltamos para a cama.”

E continua:
O caso foi várias vezes relatado por grandes especialistas e professores universitários, em geral como se
nunca se tratasse especificamente de violência contra as mulheres ou da complexa rede de mecanismos
judiciais e culturais que permite o florescimento dessa violência. Pelo contrário, tornou-se uma lenda
clássica da “natureza” humana — e, como a maioria dessas lendas, não tem quase nada a dizer sobre a
fina textura da prática ou da vivência humana.

Em outras palavras, o caso foi um alarde encoberto pelo silêncio sobre as


causas reais da morte de Genovese e de muitas outras mulheres.

Além das pessoas que são acusadas de mentir, fantasiar, inventar coisas por
maldade, confusão ou insanidade, há outras que são acreditadas, mas o que
ouvem é que seus sofrimentos e direitos não têm nenhuma importância.
Muitos anos atrás, minha mãe foi até um policial para lhe contar que o
marido, meu pai, estava batendo nela. O policial lhe deu algum conselho banal —
acho que sugeriu que fizesse um bom jantar — e deixou claro que era o tipo de
agressão ao qual a lei era indiferente. Inútil falar. Em seu livro de 1976 sobre a
violência doméstica, quando se começava a romper o silêncio em torno do
assunto, Del Martin, grande ativista pelos direitos das lésbicas, escreveu: “Essas
mulheres suportam a brutalidade do marido em silêncio porque não têm a quem
recorrer nem para onde ir”.3 O feminismo mudou as leis. Mas recorrer à polícia,
que tem sua própria incidência elevada de casos de violência doméstica e meios
limitados para dar qualquer eficácia às ordens de restrição, é uma estratégia que
costuma falhar com muita frequência.


Há pessoas que falam e recebem crédito, e em consequência desaparecem.
Em muitas comunidades, há lugares para onde elas podem ir, os santuários
secretos que são os abrigos femininos — locais onde as mulheres desaparecem,
perdendo seu lar e literalmente seu lugar no mundo como resultado da violência
do seu companheiro. Muitas mulheres são refugiadas no seu próprio país; muitas
mulheres são obrigadas a desaparecer do próprio lar e da sua própria vida e a
adotar vidas secretas em locais secretos. Os abrigos de mulheres espancadas
surgiram nos anos 1970. Há milhares deles na América do Norte e na Grã-
Bretanha, embora não em escala suficiente para receber todas as vítimas de
violência doméstica. Depois de se divorciar, minha mãe foi voluntária num deles
durante anos. Ela cuidava da contabilidade.


E há pessoas que falam e são silenciadas pela lei.
“A pequena sereia” é um conto escrito por Hans Christian Andersen, um
homem que era queer em muitos sentidos, um sujeito esquisito, desajeitado,
grandalhão, de sexualidade ambígua, filho de uma camponesa, que se tornou
queridinho da aristocracia. No conto, uma sereia renuncia à sua voz em troca da
oportunidade de viver na terra. Ela sai do oceano com pernas e sem palavras.
Como a heroína silenciada de “Os cisnes selvagens” de Andersen, ela não pode,
não deve defender a si mesma. Em 2011, quando Nafissatou Diallo, faxineira
num hotel elegante de Manhattan, foi atacada sexualmente pelo diretor do FMI,
Dominique Strauss-Kahn, foi difamada e desacreditada na mídia, os promotores
desistiram do caso, mas ela ganhou uma ação civil contra Strauss-Kahn. O preço,
como em tantos casos assim, foi o silêncio.
O Centro de Integridade Pública informou em 2009: “Mas, enquanto a imensa
maioria das estudantes que sofrem ataques sexuais mantém silêncio — mais de
95%, segundo um estudo subvencionado pelo setor de pesquisas do Ministério
da Justiça americano —, as que se apresentam podem se deparar com
procedimentos disciplinares ilusórios, sindicâncias internas sigilosas e
negociações por baixo do pano”. Na Universidade da Virgínia, as denunciantes
foram avisadas de que deviam manter silêncio sobre todos os aspectos dos seus
processos e corriam o risco de sofrer penalidades em caso de desobediência, até
que o governo federal interveio. E o BuzzFeed informou em 2015: “Uma pós-
graduanda do Bard College entrou nesta semana com uma queixa formal junto
ao Ministério da Educação dos Estados Unidos dizendo que não teve permissão
de discutir seu suposto estupro com um funcionário da faculdade, até que
assinou um acordo impedindo-a de comentar a agressão”.
Em 2013, 10 das 37 estudantes e ex-estudantes que entraram com uma ação
contra o Occidental College receberam pagamento em dinheiro, mas foram
impedidas de participar do grupo universitário Coligação do Occidental contra a
Agressão Sexual, que organizou a campanha resultando na investigação federal.
Foram pagas para manter silêncio. A professora de Criminologia Danielle Dirks
disse ao Los Angeles Times que a exigência para “as mulheres manterem silêncio
e não participarem do ativismo universitário poderia ter um efeito de
arrefecimento no Occidental. Muitas mulheres vêm se apresentando, em parte
porque outras sobreviventes de ataques têm conseguido falar abertamente sobre
os seus tratamentos”.
O que significa quando uma suposta vitória inclui a imposição do silêncio? Ou
devemos dizer “reimposição”?

Há outras formas de silenciar as vítimas: a ridicularização, as ameaças, o


descrédito, o isolamento.
Rebecca Donner rompeu recentemente seu silêncio com um ensaio na revista
on-line Guernica, contando que foi estuprada pelo tio na adolescência, que não
conseguia falar e respondia às perguntas da mãe apenas assentindo com a cabeça,
que a família se dividiu entre os que a culparam pelo fato e os que não
acreditaram que ocorrera um estupro, a costumeira dissonância cognitiva de
culpabilização da vítima. “Disseram-me para superar o que tinha acontecido.
Disseram-me para manter o silêncio. E, até agora, fiquei de boca fechada como
uma boa menina.” Existem milhões de histórias como esta, com os seus tristes
detalhes próprios, mas com o mesmo esquema de negação e silenciamento.

A vergonha é um grande silenciador.


O silêncio é um fardo que cabe ou cabia à maioria de nós, embora seu peso
seja maior para umas do que para outras, e algumas tenham virado grandes
especialistas em largá-lo, deixá-lo de lado e se livrarem dele. Elizabeth Smart, que
aos catorze anos foi sequestrada da sua casa em Salt Lake City e estuprada
durante meses a fio, disse que, na educação sexual restrita à abstinência que havia
recebido, aprendera que ficaria contaminada e se tornaria indigna se fizesse sexo
antes do casamento. “E como é fácil sentir que você não é mais digna. A sua vida
não tem mais valor.” Esse sentimento de indignidade contribuiu para mantê-la
prisioneira, desesperançada, sem uma vida boa a que pudesse voltar. O
movimento contra o estupro nas universidades surgiu, em parte, da posição de
jovens sobreviventes que não aceitaram ficar reduzidas ao silêncio por vergonha
e, depois, não aceitaram que a vergonha se instalasse como situação ou até estado
psíquico.

A boa educação também.


O que chamamos de boa educação muitas vezes significa aprender que o bem-
estar alheio é mais importante. Você não pode incomodar, e estará errada se
perturbar os outros, em qualquer circunstância. Décadas atrás, ouvi no rádio um
conto que nunca mais esqueci, a narrativa em primeira pessoa de uma mulher
sendo apalpada no metrô de Nova York, tentando imaginar um jeito de se livrar
sem ofender o molestador nem lhe dar a entender que estava sendo
inconveniente. Era um incidente mostrando tortuosamente como são
entranhadas as regras de ser bem-educada, gentil, agradável, inofensiva, e como
essas regras podem interferir na sobrevivência. Lembro-me de um episódio aos
vinte e poucos anos, quando fui ameaçada na rua por um homem assustador à
noite, e não me ocorreu acenar os braços para que algum carro parasse, nem
armar um escarcéu, nenhuma das coisas que eu faria com mais idade, mais
segura das minhas avaliações e dos meus direitos, e com menos medo de fazer
um escândalo. A boa educação, a insegurança, o silenciamento interno podem
converter as mulheres mais novas em alvos mais fáceis. A filósofa Martha
Mussbaum começou a pós-graduação em Harvard em 1969; recentemente, ela
relembrou quando o seu orientador “se estendeu para lhe tocar os seios… ela o
afastou delicadamente, com cuidado para não o constranger”.

* * *

O silêncio também é um estatuto jurídico de impotência.


Em 2015, a juíza Ruth Bader Ginsburg invocou um caso do Supremo Tribunal
de 1982 numa audiência sobre os direitos do casamento homossexual. “O
casamento hoje não é o que era sob a tradição do direito consuetudinário, sob a
tradição do direito civil”, disse Ginsburg quando os juízes Roberts e Kennedy
começaram a questionar se o tribunal tinha o direito de contestar séculos de
tradição. “O casamento era uma relação entre um homem dominante e uma
mulher subordinada”, explicou a juíza. “Isso teve fim com a decisão deste
tribunal em 1982, quando foi derrubada a Norma do Chefe e Senhor da
Louisiana.”
Ginsburg, a segunda mulher a ter assento no Supremo Tribunal, referia-se à lei
do “chefe e senhor” da Louisiana, que conferia ao marido o direito irrestrito de
dispor de bens conjuntos sem o conhecimento ou consentimento da esposa. A
ação envolvia um marido que hipotecou a casa que a esposa comprara com os
seus vencimentos para se defender das acusações de ter molestado a filha de
ambos. Ela não teve voz na gestão da sua casa e dos seus vencimentos, não teve
voz no curso da sua vida; o que devia ser dela ou deles era apenas dele.

Negando-se a falar e a testemunhar, os indivíduos e as sociedades servem ao


poder e aos poderosos.
Quando se recusam a falar, as testemunhas consentem com a perda dos
direitos, da capacidade de agir, da integridade física ou da vida de outra pessoa.
O silêncio protege a violência. Sociedades inteiras podem ser silenciosas — e,
como ocorreu com o genocídio armênio na Turquia, falar sobre os crimes pode
se tornar perigoso ou ilegal. O escritor Orhan Pamuk foi acusado de “insultar a
identidade turca” e obrigado a fugir do país, por ter falado de um crime excluído
dos livros escolares e da história oficial.

Há maneiras específicas de silenciar pessoas específicas, mas há também uma


cultura que esvazia o lugar de fala das mulheres, deixando claro que as vozes dos
homens contam mais do que as delas. Existem testemunhas especialistas no
fenômeno.
Na literatura clássica, Tirésias era um sacerdote que, por castigo, foi
transformado em mulher, vivendo assim por sete anos, e depois transformado de
volta em homem. Os deuses foram ouvir seu depoimento de primeira mão sobre
gênero e sexualidade. Na nossa época, as pessoas transexuais são testemunhas
especializadas na imposição e no reforço dos papéis de gênero. Uma pessoa que
deu um testemunho de grande impacto, mais de dez anos atrás, foi Ben Barres,
nascido Barbara Barres, biólogo na Universidade de Stanford. Em 2006, ele
escreveu na revista Nature sobre a tendenciosidade que conhecera como mulher
na área científica, desde perder bolsas para candidatos masculinos menos
qualificados até ouvir que teria provavelmente recebido a ajuda de algum
namorado para fazer cálculos matemáticos. Um homem lhe disse que ele era
mais inteligente do que a irmã, acreditando que a identidade feminina anterior
de Barres era sua irmã. Algumas coisas ele só percebeu depois que deixaram de
ocorrer.
Então, como bom cientista, observou meticulosamente: “Anedotas, porém,
não são dados, e é por isso que estudos com ocultação do gênero são tão
importantes. Esses estudos revelam que, em muitos processos de seleção,
inconscientemente eleva-se tanto o patamar exigido aos candidatos de minorias e
mulheres que poucos conseguem passar”. Ele contestou Larry Summers, reitor de
Harvard, que afirmara em 2005 que as diferenças biológicas inatas de aptidão
explicavam por que os homens se saíam melhor do que as mulheres em
matemática e ciências. (Na época, o Guardian observou: “Durante o período em
que dr. Summers foi reitor, o número de vagas com estabilidade oferecidas a
mulheres caiu de 36% para 13%. No ano passado, apenas quatro das 32 novas
vagas estáveis foram oferecidas a mulheres”.) Num boxe sobre a sua experiência
pessoal, Barres dizia irônico: “De longe, a principal diferença que percebi é que
as pessoas que não sabem que sou transgênero me tratam com muito mais
respeito: até consigo terminar uma frase sem que nenhum homem me
interrompa”.

Homens e mulheres recebem tipos e quantidades diferentes de espaços para


ocupar, em termos literais, geográficos, conceituais e conversacionais. Isso é
mensurável nos filmes, mas também existe na vida real.
Em 2010, o Instituto Geena Davis sobre Gênero na Mídia publicou estatísticas
de filmes de Hollywood num período de três anos: “Entre os personagens com
fala, 32,4% são mulheres em filmes de classificação livre, 30% são mulheres em
filmes de classificação livre mediante a companhia dos pais das crianças, e 27,7%
são mulheres em filmes que exigem a companhia dos pais de menores de treze
anos. Dos 1565 criadores de conteúdo, são mulheres apenas 7% na direção, 13%
no roteiro e 20% na produção”. Em 2014, o instituto realizou outro estudo com
filmes dos dez maiores mercados cinematográficos do mundo e descobriu que
mais de dois terços dos personagens que falavam e tinham nome eram
masculinos e menos de um quarto dos filmes “mostravam uma menina ou
mulher no papel principal ou dividindo o enredo da história com outro
personagem principal”.
Um estudo semelhante com os setecentos filmes de maior sucesso entre 2007 e
2014, realizado pela Escola de Comunicação Annenberg, mostrou: “Nos cem
filmes mais populares de 2014, 21 tinham uma mulher no papel principal, uma
porcentagem parecida com a dos vinte entre os filmes de maior sucesso de 2007.
Entre os cem filmes de maior sucesso em 2014, dois eram dirigidos por
mulheres. Em 2007, eram três. Entre os setecentos filmes examinados, três eram
dirigidos por afro-americanos”. Nenhum dos cem filmes de maior sucesso em
2014 era estrelado por uma mulher com mais de 45 anos. Um estudo de 2016
com 2 mil filmes, feito pela Polygraph, mostrou que os homens ocupavam 88%
dos papéis principais.
Quando as mulheres estão na tela, nem sempre falam e, mesmo quando falam,
nem sempre falam uma com a outra; quando falam uma com a outra, é sobre os
homens que continuam com papel central no filme. A autora de graphic novels
Alison Bechdel inventou o que agora é conhecido como o Teste Bechdel, o
requisito de que um filme tenha dois personagens femininos que conversem
sobre qualquer coisa que não seja um homem. É um critério ridiculamente baixo
a que muitos filmes não atendem. Na trilogia original de Guerra nas estrelas,
tirando a princesa Leia, as mulheres falam durante 63 segundos no total de 386
minutos dos filmes, segundo a conclusão de uma análise recente. Esses 63
segundos estão divididos entre três mulheres nos três filmes, correspondendo a
cerca de um terço de 1% do tempo total.
No entanto, esses filmes não são apresentados como filmes de meninos ou de
homens, e sim como filmes para todos nós, ao passo que os filmes com uma
desproporção parecida na quantidade de tempo atribuída a personagens
femininos seriam inevitavelmente vistos como filmes para meninas ou mulheres.
Não se espera que os homens se empenhem no processo empático de se
identificar com outro gênero, assim como não se pede aos brancos, como se pede
às pessoas não brancas, que se identifiquem com outras raças. Ser dominante
significa ver a si mesmo e não ver os outros; o privilégio costuma limitar ou
obstruir a imaginação.

* * *

O lugar de fala e a esfera pública estão entrelaçados, e isso vem de milênios.


A especialista em estudos clássicos Mary Beard analisou as geografias de
gênero ao longo dos milênios. Em seu ensaio fundamental de 2014, “The Public
Voice of Women” [A voz pública das mulheres], ela observa que o silenciamento
das mulheres começa praticamente junto com o início da literatura ocidental, na
Odisseia, com Telêmaco dizendo à sua mãe Penélope para se calar. Penélope já
está castamente confinada dentro de casa, cercada de pretendentes, enquanto o
marido perambula ociosamente pelo Mediterrâneo, dormindo com outras
mulheres. (Dá para imaginar uma revisão feminista em que Penélope aproveita a
sua autonomia, toma alguns pretendentes como amantes e talvez não suspire
pela volta do marido; Margaret Atwood tentou uma versão dessas no seu A
odisseia de Penélope.) Beard descreve como ter voz — de preferência grossa —
era um elemento definidor da masculinidade, e que a esfera pública é a esfera
masculina: “Na maioria das circunstâncias, uma mulher falando em público não
era mulher, por definição”.
Ela mesma se tornou uma figura pública muito criticada no século XXI, com o
surgimento das redes sociais:
Não faz muita diferença que linha você adota como mulher; se você se arrisca no território masculino
tradicional, o abuso sempre vem. O que o desencadeia não é o que você diz, é o fato de você estar
dizendo. E ele vem junto com os detalhes das próprias ameaças. Entre elas está um cardápio totalmente
previsível de estupro, bombardeio, assassinato e assim por diante. Mas uma subseção significativa se
refere ao silenciamento da mulher — “Cala a boca, sua vaca” é um refrão muito comum. Ou promete
remover a capacidade de falar da mulher. Recebi um tuíte que dizia: “Vou cortar e estuprar a tua cabeça”.

E isso provavelmente diferencia Beard da maioria dos especialistas em estudos


clássicos homens que dão aulas em Cambridge. Em abril de 2016, ela declarou ao
New York Times: “Nunca escapamos a um certo desejo cultural masculino pelo
silêncio das mulheres”.
As mulheres são frequentemente desqualificadas e impedidas de participar do
tipo de vida pública que Beard comenta.
Existem inúmeras maneiras de eliminar as mulheres da vida pública e
profissional. Mulheres da área de engenharia falam como foram impedidas de
fazer estágios e desempenhar papéis importantes; mulheres disputando
campeonatos de xadrez falam de menosprezo e assédio sexual; mulheres de
outros campos contam as mesmas histórias. Mulheres na política são criticadas
pela aparência, pela voz, pela ambição, por não se dedicarem em tempo integral à
família (ou por não terem família). Termos como “estridente” e “mandona” são
em larga medida reservados a mulheres, tal como “insolente” para afro-
americanos. Mulheres na política não podem ser femininas demais, visto que não
se associa feminilidade à liderança, mas também não podem ser masculinas
demais, visto que masculinidade não é prerrogativa delas; esse nó cego exige que
ocupem um espaço que não existe, que sejam uma coisa impossível para não
serem uma coisa errada. Até onde consigo entender, ser mulher é estar
constantemente numa condição errada. Pelo menos sob o patriarcado.
Observei várias vezes a acolhida de Primavera silenciosa, o livro fundamental
de Rachel Carson sobre o efeito devastador dos pesticidas, de 1962, abismada
com a maneira como a destratavam, chamando-a de histérica, sentimental, não
qualificada. Enquanto eu escrevia este livro e fazia pesquisas para outro projeto,
li uma história oral em que o homem que estava na diretoria do Sierra Club
quando Primavera silenciosa foi lançado, fazendo de Carson a ambientalista
talvez mais renomada dos anos 1960, declarou: “Não consigo pensar no nome
dela a não ser como uma mulher que não é cientista e que escreveu uma história
sobre pesticidas terríveis”. A única descrição que ele quis associar a essa cientista
— que tinha mestrado e só não concluiu seu doutorado em zoologia e genética
na Johns Hopkins por razões financeiras, que trabalhou como cientista para o
governo federal e depois para o Instituto Oceanográfico de Woods Hole — foi
que “não é cientista”.
Era um homem de idade falando sobre uma época que não existe mais, mas a
ideia de que as mulheres não são qualificadas, quaisquer que sejam as suas
qualificações, continua grassando como na época de Carson. A jornalista
investigativa Suki Kim se disfarçou para fazer uma matéria sobre as condições na
Coreia do Norte, mas seus editores insistiram em lançar o artigo como material
autobiográfico. Um livro sobre a vida pública e coletiva foi reenquadrado como
uma viagem pessoal por razões de marketing, mas também por causa da ideia de
que as mulheres pertencem à esfera privada e, por extensão, não têm lugar fora
dela. Em 2016, Kim escreveu na New Republic:
Ao lançarem o meu livro como pessoal e não profissional — ao me divulgarem como uma mulher numa
viagem de autodescoberta e não como uma repórter com uma tarefa pioneira —, fui efetivamente
despojada do meu conhecimento especializado sobre o assunto que eu melhor conhecia. A mudança foi
sutil, mas familiar a mulheres de todas as profissões. Fui transferida de uma posição de autoridade — O
que você sabe? — para o campo da emoção: Como você se sentiu?

Foi-lhe vetado pensar e conhecer os outros, ficou confinada às suas próprias


emoções, como se o único campo em que ela tivesse competência fosse ela
mesma.
Esse aprisionamento ecoava a velha ordem, quando as mulheres eram
confinadas ao lar e à vida privada, e a vida pública era assunto dos homens. Claro
que o corolário costuma ser, ainda hoje, a exclusão dos homens da vida
emocional e pessoal. As duas esferas são importantes, mas o poder econômico,
político e social depende de se ter presença na esfera pública. A revolução é para
o livre movimento de todos, em todas as partes. Ela não terminou; está em curso;
ela mudou todos os mapas; eles vão mudar ainda mais.

A CIDADE INUNDADA

Quero escrever um romance sobre o silêncio.


As coisas que as pessoas não dizem.
Virginia Woolf

A literatura feminista examina a natureza, as causas e os efeitos desses


silêncios, e alcançou seu auge nos anos 1970 e começo dos anos 1980, com uma
avalanche de ensaios sobre o silêncio. Mary Wollstonecraft e as feministas
oitocentistas trataram da exclusão e da impotência, inclusive da exclusão do
ensino. As sufragistas mostraram que não ter o direito de voto significava o
silenciamento político e a exclusão da cidadania plena, da autodeterminação e da
esfera pública. Charlotte Perkins Gilman falou, em 1911, que as mulheres eram
“tolhidas por mil tipos de restrições […] a ignorância imposta da qual agora
estão emergindo rapidamente”. Na época em que as mulheres haviam
conquistado o voto — 1920 nos Estados Unidos, 1918 na Grã-Bretanha —, mas
faltavam-lhes muitas outras coisas, teve andamento a investigação do silêncio.
Virginia Woolf deu o sinal de alarme em dois ensaios fundamentais. O mais
famoso, “Um teto todo seu”, saiu em 1929, baseado em duas palestras de 1928
sobre as restrições práticas, financeiras, sociais e psicológicas para que as
mulheres escrevessem e, por extensão, tivessem voz. Mas que tipo de voz ela
poderia ter? Adrienne Rich, meio século depois, escreveu:
Fiquei assombrada com o tom de esforço, de muito trabalho, de tentativa encarniçada que transparecia
naquele ensaio. E reconheci esse tom. Já o ouvira muito, em mim mesma e em outras mulheres. É o tom
de uma mulher quase apalpando a sua raiva, que está decidida a não aparentar raiva, querendo ser
calma, distanciada e até cativante numa sala cheia de homens onde se disseram coisas que são agressões
à sua própria integridade. Virginia Woolf se dirige a um público de mulheres, mas tem aguda
consciência — como sempre teve — de estar sendo secretamente ouvida por homens.

Seu outro ensaio, “Profissões para mulheres”, originalmente apresentado como


um discurso na Sociedade Nacional de Mulheres em 1931, trata da outra
modalidade de voz, não a do convencimento, criticada por Rich (e critica-se com
muita frequência o tom de voz das mulheres), e sim a reconfortante. Ela
apresenta as instruções interiorizadas pelas mulheres para serem agradáveis,
graciosas, elogiosas, que podem silenciar a voz real e os pensamentos reais: o eu
real. Woolf aponta que existem maneiras de falar que são o ruído branco do
silêncio: as banalidades e o restabelecimento de certezas, as cortesias e negativas
que lubrificam um sistema perpetuador do silêncio. Você fala pelos outros, não
por si. Woolf comentou sobre a voz dentro das mulheres que lhes diz: “Seja
simpática, seja meiga, elogie, engane, use todas as manhas e artifícios do nosso
sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem inteligência própria”. Woolf
deu a essa voz o nome de Anjo do Lar, orgulhando-se por tê-lo assassinado por
necessidade, para poder ter voz. Para poder romper o silêncio.

Meio século depois, no seu livro Pornography and Silence [Pornografia e


silêncio], Susan Griffin citou Norman Mailer a respeito de Marilyn Monroe: “Ela
é um espelho do prazer daqueles que a fitam”. Ou seja, Monroe tinha aparência e
fala, mas essa aparência e essa fala não eram para ela se expressar, para ser ela
mesma, e sim para servir aos outros. Griffin comenta: “No entanto, sabendo que
a existência simbólica [de Monroe] era uma máscara, ele se recusa a olhar por
trás dessa máscara. E, no entanto, se não existisse outro eu, um eu a ser perdido e
um eu a ser violentado, a vida dessa atriz não teria sido uma tragédia”. Era uma
análise mostrando como uma pessoa pode ser visível e audível, e no entanto
silenciada.
Monroe pode representar qualquer mulher, todas as mulheres que silenciam,
ocultam, disfarçam ou eliminam aspectos de si mesmas e da sua expressão
pessoal ao buscar o prazer, a aprovação, o reconforto, o reforço dos homens. Não
é apenas uma questão erótica; é como uma mulher no trabalho, na sala de aula
ou na rua aprende a se locomover entre as expectativas masculinas, sabendo que,
se for segura, imperiosa ou contida demais, poderá ser punida. Existem analogias
— meu amigo Garnette Cadogan descreveu com grande pungência e eloquência
como ele, por ser negro, precisa se comportar constantemente em público como
“não-sou-um-criminoso, não-sou-uma-ameaça” para aplacar o medo dos
brancos e preservar a si mesmo. Ser mulher e ser negra é cumprir tarefa dobrada
nessa obrigação de servir aos outros.
Mailer, ao chamar Monroe de “espelho do prazer”, não pergunta o que
acontece quando este é rotineiramente o de outrem. É uma morte do prazer
disfarçada de prazer, uma morte do eu a serviço dos outros. É o silêncio envolto
em nulidades agradáveis. O retrato de Monroe, que morreu jovem em 1962, é
como um apêndice da observação de bell hooks sobre a “automutilação psíquica”
dos homens — é um retrato do outro tipo de automutilação, para que um eu
atenda e sirva àqueles eus mutilados. Um silêncio para atender ao silêncio,
silêncios que se encaixam como molde em peças fundidas, uma história de
fantasmas.
Tillie Olsen deu uma palestra em 1962, publicada em 1965 na Harper’s, que em
1978 veio a integrar seu best-seller Silences [Silêncios]. O silêncio, ou o desejo de
interrogá-lo e acabar com ele, chegava à maioridade. O texto começa: “A história
da literatura está carregada de silêncios: alguns são os longos silêncios dos nossos
grandes autores reconhecidos; alguns, ocultos; alguns, quando se para de
publicar depois de determinada obra; alguns, o de nunca ter chegado à forma de
livro”. Em outras palavras, havia tipos diferentes de silêncio, um para o que era
dito e o que continuava sem ser dito, e outro para quem falava e quem tinha
permissão de falar.
Olsen se demora até chegar a seu verdadeiro tema, como se antes precisasse
mostrar suas credenciais, seu conhecimento e apreço pela grande literatura
escrita por homens. Então ela passa para o silêncio das mulheres na literatura,
observando que a maioria das escritoras com carreira literária não tinha filhos,
porque ter tempo para si e para a sua voz é indispensável à criação. Isso se refere
ao silêncio prático — a falta de tempo para construir o castelo de palavras em que
consiste um longo texto —, mas há muitos tipos de silêncio que se referem à
experiência feminina na época. A segunda metade do livro é uma ampla
compilação de “apartes, amuletos, exumações, fontes”, ampliando o conjunto de
provas sobre o silenciamento das mulheres e as suas consequências, não só para
elas, mas para a literatura. Um resumo dos fatos para a defesa.
Mística feminina (1963), de Betty Friedan, era sobre “o problema que não tem
nome”, sobre as mulheres americanas que viviam com conforto material, mas
anuladas social e politicamente devido à sua exclusão da vida pública e do poder
em casa e no mundo. O livro pode ser, e tem sido, criticado por tratar de
mulheres brancas de classe média; mas também pode ser apreciado como obra
que, durante a luta contra a pobreza e os movimentos dos direitos civis, dizia que
o gênero era um problema que igualmente merecia exame, e que nomeá-lo é
parte essencial da transformação.
Em seu livro At the Dark End of the Street [No fim escuro da rua], de 2010,
Danielle L. McGuire afirma que o próprio Movimento pelos Direitos Civis foi
silenciado, em certo sentido, ao ser reescrito como uma história das
contribuições de um movimento liderado por homens (e mulheres esquecidas)
para os direitos de todos. Ela retoma o começo da história com Rosa Parks,
investigadora dos casos de estupro para a NAACP (National Association for the
Advancement of Colored People, Associação Nacional para o Progresso de
Pessoas de Cor), reformulando assim o movimento inteiro como iniciativa de
mulheres negras pelos direitos de mulheres negras, cruzamento geralmente
apagado da história daquela avenida.
Em contraste, Susan Sontag publicou em 1969 um ensaio, “A estética do
silêncio”, que silencia sobre o gênero. O texto trata de artistas homens e utiliza o
pronome masculino para descrever “o artista”. Sontag discorreu sobre artistas que
escolheram o silêncio, como Marcel Duchamp e Arthur Rimbaud, para os quais
o silêncio era um gesto de desprezo ou de transcendência, uma retirada — mas
então ela observa: “Uma decisão exemplar dessa espécie só pode ser tomada
depois que o artista demonstrou que é dotado de gênio e exerceu esse gênio de
maneira irrefutável”. É a quietude que alguns escolhem depois de serem ouvidos
e valorizados — a antítese de ser silenciado.
O que se costuma chamar de segunda onda do feminismo traz inúmeros relatos
de opressões que antes não eram nomeadas nem descritas, expondo também a
alegria em reconhecer até mesmo a opressão: o diagnóstico é o primeiro passo
para a cura e para a recuperação. Ao falar, encontrar definições para o que as
afligiam, as mulheres saíam do isolamento e adquiriam poder. Os escritos dos
anos 1960 e 1970 formam uma literatura de exploração e mesmo de revelação: as
pessoas avançam aos tropeços, sem saber bem o que estão encontrando,
descrevem-no de maneira atabalhoada, procuram uma nova linguagem para
coisas que nunca tinham sido descritas, veem o novo tomando o lugar do que
lhes é conhecido, tornam-se pessoas que integram esse novo território, tanto
quanto ou ainda mais do que o anterior, seguem para um mundo que vai sendo
inventado à medida que avançam.
Viagens de descoberta: uma parte essencial do movimento feminista dos anos
1970 eram os “grupos de conscientização”, nos quais as mulheres conversavam
sobre as suas experiências. Susan Griffin, com participação importante no
feminismo daquela fase, me contou que primeiro elas reclamavam do trabalho
doméstico e então começavam a falar sobre estupros, violências e coisas
horríveis, rompendo a vergonha que as mantivera até então em silêncio e
sozinhas. Citavam com frequência os versos da poeta Muriel Rukeyser: “O que
aconteceria se apenas uma mulher contasse a verdade sobre a sua vida? O mundo
se cindiria”. O que aconteceu quando muitas mulheres contaram a verdade sobre
as suas vidas? O próprio silêncio se tornou um tema fundamental.
Em 1977, Audre Lorde apresentou à Associação da Linguagem Moderna uma
palestra fundamental e um ensaio tratando conjuntamente de raça, gênero e
orientação sexual, “A transformação do silêncio em linguagem e ação” (publicado
em 1984). É um ensaio curto, denso, aforismático, com certa premência própria
dos manifestos:
Os meus silêncios não me protegeram. O silêncio de vocês não as protegerá. Mas, em cada palavra
efetivamente dita, para cada tentativa minha de dizer essas verdades que ainda estou procurando,
estabeleci contato com outras mulheres enquanto examinávamos as palavras que coubessem num
mundo em que todas nós acreditávamos, superando as nossas diferenças. E foi o cuidado e a atenção de
todas essas mulheres que me deram força.

Lorde mostrou que romper o silêncio era um gesto não só de coragem, mas
também de criação: “Quais são as palavras que vocês ainda não têm? O que vocês
precisam dizer? […] Cada uma de nós está aqui e agora porque temos, de uma
ou de outra maneira, um compromisso com a linguagem e com sua força e com a
retomada daquela linguagem que foi usada contra nós”.
Em 1978, Michelle Cliff, nascida na Jamaica, publicou “Notas sobre a ausência
de fala”, que abordava a questão tanto de evitar como de explorar verdades
difíceis. “O retraimento e o humor são, ambos, tipos de ausência de fala. O
obscurecimento e a trivialização do que é real também são ausência de fala.” No
texto, ela falava de pesadelos, escrevia em fragmentos, tratava de si mesma, mas
também de história política e literária, revelava-se lésbica e expunha a farsa que
era fazer-se de hétero, mais um rodeio evitando a verdade. Cliff conclui o ensaio
dizendo que tentará eliminar o que a eliminou: “Isso significa nada mais, nada
menos que procurar minha própria linguagem. Isso pode ser o que as mulheres
farão”.
Sua amante e companheira, Adrienne Rich, deu a um dos seus livros de
poemas o título de The Dream of a Common Language [O sonho de uma
linguagem comum]. O poema principal nesse livro é “Cartografias do silêncio”,
que inicia com “Uma conversa começa/ com uma mentira” e fala do “grito de
uma voz ilegítima”. No final do longo poema, a verdade irrompe como uma coisa
que acaba de brotar, verdejante. Muitas mulheres que falaram sobre o silêncio
eram lésbicas, como Griffin e Rich; algumas também eram negras, como Cliff e
Lorde. Embora a “intersecionalidade” seja um termo de difusão recente, essas
mulheres entenderam o que significa operar numa ou em várias interseções. O
livro de Rich saiu um ano antes do ensaio de Cliff; pela primeira vez em sua
extensa obra, há poemas de amor lésbico.
Dois anos depois, em 1979, Rich publicou a antologia de ensaios On Lies,
Secrets, and Silence [Sobre mentiras, segredos e silêncio], em que consta seu
comentário sobre “Um teto todo seu”, de Virginia Woolf. Em outra passagem do
livro, ela escreve:
Acredito que qualquer mulher para a qual o rompimento feminista do silêncio foi uma força
transformadora também pode rever uma época em que os contornos tênues e improváveis de perguntas
que não podiam ser feitas, agitando-se em suas células cerebrais, desencadearam um choque de
reconhecimento diante de certas linhas, expressões, imagens, na obra desta ou daquela mulher, morta
tanto tempo atrás, cuja vida e experiência conseguia imaginar apenas de maneira muito vaga.

Agora se faziam perguntas que antes não podiam ser feitas. Em 1980, Rich
ampliou sua crítica com o ensaio fundamental “Heterossexualidade compulsória
e existência lésbica”, examinando como a identidade e a atividade de uma parcela
significativa de mulheres eram subestimadas ou excluídas, e como isso distorcia
as possibilidades de vida e de entendimento de todas nós. Comenta, a propósito
de um livro feminista muito popular na época, que ele “ignora, especificamente,
a história das mulheres — como bruxas, femmes seules, contrárias ao casamento,
solteironas, viúvas autônomas e/ou lésbicas —, que conseguiu em vários níveis
gerenciar para que não colaborassem. É precisamente essa história, com a qual as
feministas têm tanto a aprender, sobre a qual se estende todo essa cobertura de
silêncio”.
Rich foi uma grande exploradora. Questionou a heterossexualidade como
norma:
A suposição de que “a maioria das mulheres é congenitamente heterossexual” representa um obstáculo
teórico e político para muitas mulheres […]. Falhar em examinar a heterossexualidade como instituição
é como falhar em admitir que o sistema econômico chamado capitalismo ou o sistema de castas do
racismo é sustentado por várias forças.

Ela expõe como a própria vida das lésbicas foi silenciada, junto com a
possibilidade de que a heterossexualidade não seja natural, “mas algo que teve de
ser imposto, controlado, organizado, propagandeado e mantido pela força”.
Construía-se uma nova cidade de ideias e possibilidades, como uma cidade
concreta, graças a uma somatória de projetos, trabalhos, decisões e desejos, e as
mulheres ali estavam instalando sua residência.
O feminismo dos anos 1970 é repleto de alegria e ardor pelo reconhecimento,
assim como do poder que vem com ele, ainda que de coisas terríveis. O que pode
ser reconhecido pode ser remediado ou combatido. No terceiro romance da sua
Série Napolitana, Elena Ferrante narra a surpresa da protagonista quando
descobre a análise feminista nos anos 1970: “Como é possível, me perguntei, que
uma mulher saiba pensar assim? Trabalhei muito nos livros, mas sempre me
submeti a eles, nunca os utilizei realmente, nunca os voltei contra si mesmos”. Ela
enxerga pela primeira vez como o mundo poderia ser, visto sem os pressupostos
que circunscreviam o campo de possibilidades para si mesma, para o seu gênero
e a sua linguagem.
Algumas feministas daquela época, em particular Catherine MacKinnon e
Andrea Dworkin, manifestaram-se contra uma forma de linguagem e
representação — a pornografia — por contribuir para a sujeição das mulheres. O
trabalho delas levou a passeatas, manifestações, ações judiciais e proibições que
foram derrubadas em nome da livre expressão. Outras participantes do
movimento defendiam a pornografia, em si mesma ou como livre expressão. (O
nome contestador da revista Off Our Backs [Sai de cima] foi satirizado pela
revista erótica lésbica On Our Backs [Vem pra cima]). As feministas antipornô
foram muito difamadas e também descartadas com desdém como dogmáticas
com argumentos puritanos, um obstáculo para a libertinagem libertadora.
Era mais complicado do que isso (e a posição de que a pornografia misógina
pode encorajar e moldar a misoginia efetiva apenas requer que você aceite a ideia
bastante razoável de que as representações têm poder e influência). Como ocorre
com o atual assédio pela internet, a questão levantada foi em que consiste o
direito de livre manifestação, quando algumas manifestações se destinam a
esmagar o direito e a capacidade alheia de falar e ser ouvido.
Susan Griffin, em Pornography and Silence, de 1981, apresentou um
argumento original: que a pornografia mainstream podia ser vista não como um
discurso libertador, como vozes livres que devem ser ouvidas, e sim como um
tipo específico de repressão. Segundo Griffin, “a pornografia é uma expressão
não de desejo e erotismo humano, não de amor pela vida do corpo, e sim de um
medo do conhecimento carnal e de um desejo de silenciar o eros”. Para ela, a
pornografia não era erótica — se erótico significava a experiência plena e aberta
do corpo, do eu, das emoções e do outro —, mas seu contrário, cheio da
“metafísica do cristianismo […] um edifício moderno construído no lugar das
antigas catedrais, utilizando os mesmos alicerces”.
Esses alicerces incluem a repulsa pela carne, a fúria no desejo e uma projeção
desse desejo e dessa fúria sobre as mulheres. “Veremos que ‘a mulher’ na
pornografia, como ‘o judeu’ no antissemitismo e ‘o negro’ no racismo, é
simplesmente uma parte perdida da alma, aquela região do ser que a mente
pornográfica ou racista quer esquecer e negar.” Desde então, a obra de Griffin
tem procurado o oposto: lembrar, admitir, ampliar os espaços em que podemos
ser, sonhar, pensar, amar e celebrar o erótico e o sensual.
O debate sobre a pornografia nunca se interrompeu. Em 1993, a filósofa Rae
Langton abordou o tema num admirável e rigoroso ensaio, “Speech Acts e
Unspeakable Acts” [Atos de fala e atos indizíveis]. Em sua investigação e análise,
lança luz em áreas muito além da pornografia. Ela começa transferindo o foco da
discussão do conteúdo da fala para o que ele faz, qual é o seu poder. Destaca que
é com a linguagem que casamos, votamos, emitimos vereditos, damos ordens —
ou não, se não tivermos o poder para isso. Um senhor, ao dizer a um escravo
“Quero comida”, está dando uma ordem; o escravo, ao dizer as mesmas palavras,
está fazendo um apelo; o poder de cada qual tem tudo a ver com o que suas
palavras significam e fazem. Ou não podem fazer.
Langton sustenta que a pornografia porta autoridade também como instrução,
não só como entretenimento. Ela cita provas sugerindo que uma grande
porcentagem de meninos e rapazes considera a satisfação dos homens como um
direito, e os direitos das mulheres como um detalhe que não vem ao caso, além
de estatísticas sobre o estupro pelos namorados e homens que consideram
erótico as mulheres sentirem dor, e relaciona essas coisas com a cultura
pornográfica. Ela destaca três espécies de silêncio. O primeiro é o silêncio literal
da intimidação ou da derrota. O segundo é quando o falante não tem ouvinte,
não tem resposta. E conclui: “Se a pornografia silencia as mulheres, ela impede
que as mulheres façam coisas com suas palavras”.
A terceira espécie de silêncio “ocorre quando a pessoa fala, enuncia palavras e
não consegue […] realizar a ação que pretende”. Essa ação é o proibir, o dizer
não. “É de fato possível silenciar alguém […] tornando seus atos de fala
indizíveis […]. Considere-se o enunciado ‘não’. Todos nós sabemos como fazer
coisas com essa palavra. No entanto, em contextos sexuais acontece algo
estranho. Às vezes, uma mulher tenta usar a palavra ‘não’ para recusar relações
sexuais, e não funciona. A recusa — em tal contexto — se tornou indizível para
ela. Nesse caso, a recusa não é apenas malograda, mas impossibilitada.” Ela
examina as ramificações. “Alguém que aprenda as regras do jogo com esse tipo de
pornografia pode nem sequer reconhecer uma tentativa de recusa.”
Em seu livro Girls and Sex [Garotas e sexo], de 2016, Peggy Orenstein
confirmou esse apagamento da voz, escrevendo:
Em um estudo de comportamentos na pornografia popular, quase 90% das 304 cenas aleatórias
continham agressões físicas a mulheres, que quase sempre reagiam de forma neutra ou com prazer. De
maneira mais insidiosa, às vezes as mulheres rogavam ao parceiro que parasse, então acediam e
começavam a gostar da atividade, por mais dolorosa ou degradante que fosse.

Em outra passagem, ela nota:


Observou-se repetidamente que os estudantes universitários de ambos os sexos que informam o uso
recente de pornografia têm mais probabilidade do que os outros de acreditar em “mitos do estupro”, isto
é, que apenas desconhecidos cometem ataques sexuais ou que a vítima “estava pedindo” […]. As
usuárias de pornografia têm menos probabilidade do que outras em intervir quando veem outra mulher
sendo ameaçada ou atacada e demoram mais a reconhecer quando elas mesmas estão correndo perigo.

Ou seja, a pornografia passou a servir de instrução para as mulheres, e não só


para os homens, e as instruções podem torná-las surdas às vozes das mulheres, e
até a suas próprias vozes. O silêncio anda por muitas avenidas.
Às vezes imagino a pornografia como um universo paralelo de compensação,
em que o privilégio masculino aumentou e no qual se exerce continuamente uma
vingança contra o poder feminino. (Vários anos atrás, Sam Benjamin escreveu
sobre a sua carreira como jovem diretor na capital da pornografia mainstream, o
Vale de São Fernando: “Embora minha tarefa explícita fosse garantir que as
garotas ficassem nuas, minha verdadeira responsabilidade como diretor era
garantir que as garotas fossem punidas”.) A quantidade imensurável de
pornografia atualmente existente assume inúmeras formas, e sem dúvida existem
muitas exceções. Mas o produto mainstream parece consistir mais na erotização
do poder do que no poder do erotismo. Muita pornografia apresentada como
heterossexual tem um homoerotismo do triunfo masculino; é como um esporte
cuja excitação consiste na derrota constante das mulheres.

O silêncio e a vergonha são contagiosos; a coragem e a fala, também. Mesmo


agora, quando as mulheres começam a falar de suas experiências, vêm outras em
apoio e partilham as suas próprias. Derruba-se um tijolo, depois outro; a represa
rompe, as águas se precipitam. Nos anos 1970 e 1980, foi enorme o impacto
prático causado pelas mulheres contando os abusos sofridos na infância e os
assédios e ataques vividos quando adultas. As leis e suas respectivas aplicações
mudaram. Mas essas histórias também constituíam um ataque à impunidade da
autoridade, muitas vezes indissociável do patriarcado. Essas histórias diziam que
a autoridade não era necessariamente confiável, que o poder estava sujeito a
abusos.
Tais histórias fizeram parte da grande revolta antiautoritária que às vezes é
designada como os anos 60, embora os anos 60 não raro se reduzam a rapazes
brancos ou a universitários se insuflando contra alguma guerra, sem reconhecer
a amplitude de diversos movimentos — pelos direitos civis e pela justiça racial,
incluindo não os só grupos negros, mas também latinos, asiáticos e indígenas
americanos, pelos direitos de gays e lésbicas, pelos direitos dos portadores de
necessidades especiais e pelas críticas ambientais, anticoloniais e anticapitalistas
— que mudaram as bases dos nossos diálogos. Era como a redistribuição de
riquezas, mas, no caso, era uma redistribuição de audibilidade, credibilidade,
valor, participação, poder e direitos. Foi um grande nivelamento, que ainda está
em curso — com retrocessos tentando empurrar as pessoas de volta ao silêncio
de onde saíram.
Em algum momento da década de 2010, iniciou-se uma nova rodada de
conversas feministas, em parte como reação às atrocidades e ao rompimento do
silêncio sobre elas, entre as quais o estupro nas universidades (graças às pessoas
responsáveis pela organização dos campi, muitas das quais são, elas mesmas,
sobreviventes de estupros). Uma série de histórias ganhou atenção em escala
quase inédita, e a interseção de uma mídia mainstream menos misógina e as
feministas na mídia alternativa e nas redes sociais gerou uma nova conversa de
grande intensidade.
Em várias ocasiões nos últimos anos, houve casos notáveis de violência de
gênero — o massacre de Isla Vista em Santa Barbara, os ataques de Ghomeshi no
Canadá, a violência doméstica praticada pelo jogador de futebol americano Ray
Rice em Nova Jersey, o caso do estupro em Stanford — que levaram as mulheres
a publicar suas histórias nas redes sociais. Algumas simplesmente compartilham
as hashtags: #yesallwomen, #whyIstayed e #whyIleft, sobre violência doméstica;
#ibelieveher, em apoio às vítimas de Ghomeshi; #iwasrapedtoo, em reação ao caso
de Stanford em 2016; #notokay, identificada em mais de 27 milhões de tuítes de
mulheres contando suas histórias pessoais sobre os ataques sexuais que sofreram,
em reação ao vídeo do candidato presidencial Donald Trump falando em agarrar
as mulheres “pela xoxota”.*4
Às vezes, havia homens participando do compartilhamento das hashtags ou
apoiando as depoentes. Como será exposto mais adiante neste livro, a presença
de homens falando ativamente e agindo em favor do feminismo e dos direitos
das mulheres foi um dos avanços dos últimos anos (embora também tenham
surgido muitos recuos). As redes sociais também se tornaram palco de
campanhas furiosas para silenciar as mulheres que denunciavam a misoginia e a
violência contra as mulheres, e o Twitter, em particular, tolerou amplas
campanhas de estupro e ameaças de morte. Converteu-se numa nova plataforma,
tanto para romper o silêncio quanto para impô-lo com ameaças e intimidações.
“O assédio on-line se tornou o equivalente intelectual do assédio de rua”, disse a
crítica da mídia Jennifer Pozner depois que a atriz negra Leslie Jones foi
assediada, insultada e forçada a deixar o Twitter. “É a tentativa de policiar e
punir as mulheres por estarem num espaço público. São homens e garotos
dizendo: ‘Não entre no meu parquinho’.”
Mesmo o Guardian fez um balanço da sua virulenta seção de comentários em
2016 e informou que oito dos seus colunistas mais atacados eram mulheres, dois
eram homens negros, e a mais atacada de todas era a feminista Jessica Valenti.
Essa campanha recente de silenciar as mulheres on-line está longe de acabar,
embora muitas coisas sugiram que se trata de uma resistência, uma tentativa de
fazer retroceder o que avançou, de silenciar o que se tem ouvido.

* * *
Sempre há algo não dito e ainda por dizer, sempre há uma mulher lutando
para encontrar palavras e vontade de contar sua história. Todos os dias, cada uma
de nós inventa o mundo e o eu diante desse mundo, abre ou fecha o espaço para
outros dentro dele. O silêncio está sendo incessantemente rompido e então,
como onda encobrindo as pegadas, os castelos de areia, as algas e as conchas
lavadas, o silêncio ressurge.
Em parte, construímo-nos a partir das nossas histórias sobre nós mesmas e o
nosso mundo, juntas e separadas. A grande experiência feminista de refazer o
mundo refazendo nossas ideias de gênero e instigando quem tem o direito de
romper o silêncio tem tido imenso sucesso e ainda continua extremamente
incompleta. Desfazer as estruturas sociais de milênios não é obra de uma geração
ou de algumas décadas, mas um processo de criação e destruição de escala épica
e execução muitas vezes encarniçada. É um trabalho que envolve os mais ínfimos
gestos e contatos cotidianos, a transformação das leis, das convicções, da política
e da cultura em escala nacional e internacional; muitas vezes tal transformação
surge do impacto cumulativo daqueles gestos mínimos.
A tarefa de chamar as coisas pelos seus verdadeiros nomes, de contar a
verdade da melhor forma possível, de saber como chegamos aqui, de ouvir
especialmente os que foram silenciados no passado, de ver como as inúmeras
histórias se encaixam e se separam, de usar qualquer privilégio que possamos ter
recebido para acabar com os privilégios ou para ampliar seu escopo, tudo isso é
tarefa nossa. É assim que construímos o mundo.

1. Uma vez, conversando com o historiador cultural Joel Dinerstein, quando fazia pesquisas para seu projeto
American Cool, perguntei por que a lista tinha tão poucas mulheres, e então percebi que a indiferença ou
impassibilidade, que é a essência de grande parte do cool masculino, geralmente era vista como catatonia ou
uma arrogância inaceitável quando partia de uma mulher. O que o faz cool a faz fria.
2. Nos Estados Unidos, costuma-se dizer que as mulheres negras só obtiveram o direito de voto na época
dos direitos civis, o que é verdade para as negras e os negros de grande parte do Sul, mas não da nação como
um todo; antes de 1920, havia negras em Chicago organizando blocos eleitorais, porque as mulheres de
Illinois conquistaram o direito de voto em 1913. Quatro estados no Oeste — Wyoming, Utah, Colorado e
Idaho — deram o direito de voto às mulheres no século XIX. Mulheres índias e asiáticas ficaram privadas
desse direito até anos bem avançados do século XX, e algumas brancas no movimento sufragista
desacreditaram e excluíram mulheres negras. Depois da Guerra Civil, a pioneira feminista Elizabeth Cady
Stanton não quis apoiar o direito dos homens negros ao voto como questão independente do direito das
mulheres ao voto, o que significou que ela e um setor do movimento feminista não apoiaram ou até se
opuseram ativamente a essa luta. A desabilitação do votante racista voltou a ser um tema importante no
século XXI.
3. Martin, que em 1955 foi uma das fundadoras das Filhas de Bilítis, o primeiro grupo americano pelos
direitos das lésbicas, se casou em fevereiro de 2004 com sua companheira Phyllis Lyon, com quem vivia
fazia 51 anos, na primeira leva de casamentos homossexuais de San Francisco, impulsionando a luta pela
igualdade matrimonial, que culminaria na decisão do Supremo Tribunal em 2015.
4. No Brasil, tivemos um movimento semelhante com as hashtags #naomerecoserestuprada,
#meuprimeiroassedio e #meuamigosecreto, que tem dominado as redes sociais nos últimos anos. (N. E.)
Um ano de insurreição
(2014)

Esperei a vida inteira pelo que 2014 trouxe. Foi um ano de insurreição
feminista contra a violência masculina: um ano de recusa crescente em guardar
silêncio, recusa em deixar que as nossas vidas e tormentos fossem apagados ou
desconsiderados. Não foi um tempo de harmonia, mas muitas vezes a harmonia
se dá às custas da supressão daqueles que têm algo a dizer. Foi um tempo
ruidoso, discordante e talvez transformador, porque foram ditas coisas
importantes — não necessariamente novas, mas faladas com mais ênfase, por um
maior número de mulheres, e ouvidas como nunca antes.
Foi um ano divisor de águas para as mulheres e para o feminismo, por não
aceitarmos a epidemia de violência contra as mulheres — os estupros, os
assassinatos, os espancamentos, os assédios nas ruas e as ameaças on-line. As
vozes das mulheres alcançaram um poder que parecia sem precedentes, e toda a
conversa mudou. Houve avanços concretos — como a lei de consentimento
sexual nas universidades da Califórnia, “Sim significa sim” —, mas essas
mudanças foram uma consequência relativamente pequena da imensa mudança
na consciência coletiva. Os problemas não eram simplesmente legais — por
exemplo, havia leis contra o espancamento da esposa desde o século XIX,
raramente aplicadas até o final dos anos 1970 e que ainda hoje não conseguem
conter a epidemia de violência doméstica. O problema fundamental é cultural. E
a cultura — muitas culturas, em todo o mundo — está começando a mudar.
Podemos pensar o ano de 2014 quase como uma paródia daqueles pequenos
calendários com a flor ou a pedra preciosa do mês. Janeiro não foi de rubis; foi,
finalmente, de falar sobre as ameaças on-line e sobre o depoimento de Dylan
Farrow, contando que seu pai adotivo a molestara aos sete anos de idade. A
conversa de abril foi sobre o sequestro de alunas nigerianas e um multimilionário
do Vale do Silício flagrado em vídeo espancando a namorada. Maio não foi de
esmeraldas; foi do massacre de seis pessoas em Isla Vista, na Califórnia, cometido
por um jovem misógino, e do nascimento do #yesallwomen, talvez o maior
catalisador num ano de vigorosos protestos on-line sobre as mulheres e a
violência.
Setembro não foi de turmalinas; foi da liberação de um vídeo que mostrava o
jogador de futebol americano Ray Rice nocauteando a noiva no elevador e da
retomada do debate público sobre a violência doméstica, acompanhado das
hashtags #whyileft e #whyistayed. Outubro trouxe, por fim, uma conversa
substancial sobre o assédio nas ruas e uma reação maciça às denúncias de quinze
mulheres sobre os ataques que sofreram do locutor de rádio mais famoso do
Canadá, Jian Ghomeshi.

Nem todas as denúncias citadas acima foram comprovadas. Mas, em alguns


casos, crimes que raramente ou nunca recebiam muita cobertura — ou que eram
tratados como episódios isolados, ou minimizados das mais variadas formas —
finalmente passavam a ser reconhecidos como parte de um padrão de violência
que constituía uma verdadeira crise social. O número de mulheres falando e
sendo ouvidas era suficiente para impedir que os velhos problemas fossem
desconsiderados. Assim é que se amplia o círculo de quem tem direitos e de
quem é ouvido, e, embora não sejam exatamente os mesmos, são inseparáveis.
Em Wanderlust, meu livro sobre a história da caminhada, relatei minha
experiência quando jovem:
A descoberta mais devastadora da minha vida foi que eu não tinha nenhum direito real à vida, à
liberdade e à busca da felicidade fora de casa, que o mundo estava cheio de desconhecidos que pareciam
me odiar e queriam me fazer mal só por causa do meu gênero, que o sexo se convertia prontamente em
violência e que quase ninguém considerava o fato como um assunto público, e não um problema
privado.

Aconselharam-me a modificar ou limitar minha própria vida — em vez de


dizer que aquilo estava errado e devia mudar.
Era e ainda é uma espécie de estrutura culpar a vítima, essa insistência para
que as mulheres modifiquem seu modo de estar presente no espaço público ou
simplesmente desistam e fiquem em casa, em vez de transformarmos o espaço
público (ou os homens) para que as mulheres tenham o direito de andar na rua
sem sofrer assédio. Essa mesma culpabilização é aplicada às mulheres em quase
todas as situações em que sofrem ataques de homens, como forma de não culpar
os homens. Se estou entusiasmada neste ano em que li transcrições de
julgamentos por estupro; depoimentos de vítimas; relatos de assassinatos,
espancamentos e ameaças; tuítes de estupros e comentários misóginos numa
quantidade provavelmente maior do que em todos os meus anos de vida
somados, é porque a violência contra as mulheres agora é uma questão pública.
Até que enfim.

ESPERANDO O DIVISOR DE ÁGUAS

Por que essa questão finalmente veio a público? Por que uma coisa tolerada
por tanto tempo se tornou intolerável — ou melhor, por que as pessoas para as
quais ela é intolerável finalmente estão participando da conversa? Por que é
possível falar sobre o que foi por tanto tempo calado, ocultado, trivializado e
desconsiderado? Esperei por décadas.
Em junho de 1994, quando Nicole Brown Simpson e Ronald Goldman foram
encontrados mortos e o extenso histórico de espancamento e perseguição do ex-
marido dela foi revelado, tive a esperança de termos uma verdadeira conversa
sobre a violência doméstica e a misoginia (que muitas vezes resulta na morte
colateral de amigos, parentes, colegas de trabalho e outros, e é um grande fator
nos massacres nos Estados Unidos). Mas O.J. Simpson contratou um esquadrão
inteiro de advogados poderosos, que o apresentaram como vítima. E aí o
racismo, a corrupção e a incompetência da polícia e do judiciário de Los Angeles
o absolveram, apesar de um volume descomunal de provas contra ele. (Mais
tarde, Simpson foi considerado responsável pelos assassinatos num processo
civil.)
Ao longo de todo o julgamento transmitido pela televisão, que se arrastou por
quase um ano, houve pouco debate público sobre a violência doméstica. Como
disse uma advogada após o julgamento:
Houve alguns comentários de jurados após o veredito que diziam: “Por que eles ficaram falando de
violência doméstica quando é um caso de assassinato?”. Quando percebi que os jurados não entendiam a
ligação entre violência doméstica e homicídio e não sabiam por que lhes estavam descrevendo a
violência doméstica, percebi que estávamos falhando na tarefa de fazer as pessoas entenderem que este é
um desfecho muito comum.

Em termos globais, 38% de todas as mulheres assassinadas são mortas pelos


seus parceiros íntimos, segundo um estudo recente da Organização Mundial da
Saúde.
Quatro anos depois, em 1998, o assassinato de Matthew Shepard em Laramie,
Wyoming, chamou a atenção mundial para a homofobia (embora se tenha
questionado mais recentemente se o assassinato de Shepard foi motivado por sua
orientação sexual). Um ano antes, uma garota de quinze anos chamada Daphne
Sulk foi encontrada morta próximo a Laramie — nua, espancada com um
cassetete e esfaqueada dezessete vezes. Um homem de 38 anos, que fora seu
amante (ou molestador; ela ainda não tinha idade para dar consentimento), foi
condenado por homicídio voluntário — não assassinato — um pouco antes da
morte de Shepard. Não houve nenhuma indignação nacional com o assassinato
de Sulk, nem com o estupro e assassinato de uma menina de Laramie, com oito
anos de idade, Christin Lamb, naquele verão.
Essas três mortes foram monstruosas, mas duas não eram exatamente
novidade: a mesma coisa de sempre, como muitos milhares de outros crimes
violentos contra mulheres. Se chegavam a ser abordados para além das páginas
internas de um jornal, eram tratados como episódios isolados — crimes de
indivíduos que eram aberrações. Havia a cobertura inflamada de assassinatos de
meninas e mulheres brancas, mas nunca o tipo de indignação que se viu naquele
ano — a afirmação pública de que isso faz parte de um padrão, e que o padrão
precisa mudar.
É sempre um tanto misteriosa a razão pela qual um episódio específico torna-
se a gota d’água: por que foi o suicídio de Mohammed Bouazizi na Tunísia, no
final de 2010, que desencadeou a Primavera Árabe, e não outra coisa; por que a
morte de Michael Brown em Ferguson, no Missouri, desencadeou meses de
protestos por todo o país, como nunca acontecera antes nos casos de jovens
negros mortos pela polícia. É o rompimento da tensão acumulada, o
esgotamento da paciência, obra da raiva do modo como as coisas são e da
esperança de que pode, deve existir algo melhor. Moro num país sujeito a
terremotos, e aqui sabemos que o abalo súbito vem precedido por anos, decênios
ou séculos de tensão. Mas isso não significa que sabemos quando vai ocorrer um
terremoto.
Na violência contra as mulheres, o longo silêncio foi rompido no final de 2012
com três histórias: o ataque sexual de um grupo de secundaristas contra uma
menor inconsciente em Steuvenville, Ohio; a inédita revelação pública de Angie
Epifano, estudante no Amherst College em Massachusetts, de ter sido estuprada
e de ter sido essencialmente punida por denunciar o fato, enquanto o agressor
saía impune; e o ataque a uma moça num ônibus de Nova Délhi, um estupro tão
brutal que a vítima morreu por causa das lesões. Por que o terremoto veio nessa
hora? Vejo várias razões.
O mundo em que ocorreram esses episódios já tinha mudado. Graças ao
trabalho pioneiro de gerações anteriores, as vozes feministas sobre questões
essenciais se tornaram normais e mais ou menos mainstream. Elas aparecem em
jornais e revistas importantes, e não apenas na mídia feminina ou em pequenos
sites progressistas. E isso criou um baluarte que muitas vezes é capaz de resistir à
descaracterização, à trivialização e ao silêncio sobre questões de interesse para as
mulheres.
Outro fator é o surgimento das redes sociais. A internet é um local estranho,
onde grassam trolls, misóginos e pregadores do ódio, desde 4chan, Reddit e sites
de revenge porn até a falsa indignação e o verdadeiro ódio de GamerGate. O
Twitter se tornou o sistema de entrega em domicílio mais eficiente para ameaças
de estupro e morte, visando silenciar e intimidar as mulheres que se manifestam.
Mas, pelo lado positivo, as redes sociais são o que os usuários fazem delas, e
desde a Primavera Árabe a essa insurreição feminista, as ativistas criaram uma
espécie de coro grego para os dramas das nossas vidas e do nosso mundo.
Às vezes, em grandes manifestações políticas — contra a guerra no Iraque no
começo de 2003, por exemplo — os milhares de cartazes com frases, trocadilhos
e fatos escritos à mão, apesar de toda a sua concisão, constituem uma crítica
cumulativa que abrange inúmeros ângulos. As redes sociais podem fazer a
mesma coisa, construindo argumentos a cada comentário, questionando,
testando, reforçando e divulgando os argumentos mais extensos em blogs,
ensaios e matérias. É como um mutirão de ideias: inúmeras pessoas trazem suas
experiências, percepções, análises, concepções e novas terminologias. Estas então
se tornam parte da vida cotidiana e, quando isso acontece, o mundo muda. Aí, o
que antes era uma ideia radical passa a estar de tal forma entrelaçado na vida
cotidiana que as pessoas imaginam que é algo evidente por si só, e que todo
mundo sempre soube. Mas não; é resultado de uma luta — uma luta de ideias e
vozes, não de violência.
O momento mais transformador que presenciei nesse ano foi após o tiroteio
em série de Isla Vista — lembram, foi aquele episódio em que um rapaz
envenenado pela misoginia “do conquistador”, possuído pela ideia de que todas
as mulheres lhe deviam o que ele bem quisesse e que tinha o direito de impor
uma punição coletiva ao gênero, matou seis, feriu catorze pessoas e então se
matou. Ele começou massacrando integrantes de uma república universitária
feminina, mas acabou matando quem aparecia pela frente, inclusive outros
homens. Muita gente na mídia mainstream se apressou em dizer que era um
episódio isolado, devido a algum distúrbio mental, mas então se ergueu o
enérgico revide de vozes individuais vigorosas e um grande protesto coletivo nas
redes sociais, insistindo que fazia parte de um padrão de matança em massa e
violência misógina.
O feminismo conseguiu estruturar o caso. Uma moça cunhou a hashtag
#yesallwomen e por algum tempo ficou acuada, obrigada ao silêncio e à
invisibilidade, mas o que ela começou foi irrefreável. Mulheres começaram a
contar suas histórias de assédios, ameaças, violência e medo, fortalecendo suas
vozes mutuamente. A mudança começa pelas margens e avança para o centro; as
redes sociais tornaram as beiradas mais fortes e o avanço das margens para o
centro mais rápido — ou talvez tenham até borrado essa distinção, já que às
vezes a mídia mainstream corre para pegar um debate público vibrante na mídia
alternativa e nas redes sociais.
O debate público sobre a violência contra as mulheres começara a mudar: de
repente, o mundo estava falando sobre a frequência com que ocorre a violência e
quais as desculpas inventadas para ela, conclamando os homens que estavam
mais preocupados em se desculpar do que em resolver a violência. (Foi por isso
que o refrão ofendido deles, “Nem todos os homens” [not all men] — como em
“nem todos os homens são estupradores” — foi convertido em #yesallwomen,
como em “sim, todas as mulheres têm de lidar com o estupro de uma maneira ou
de outra”.)
Muitos homens que dedicaram tempo a ouvir o que as mulheres estavam
dizendo — nas redes sociais e em outros lugares — perceberam pela primeira vez
o que elas por muito tempo vinham suportando. E a presença de homens
ativamente engajados foi outro sinal do que parece ter sido inédito e
transformador nesse ano — o que é fundamental, pois mudar o mundo para as
mulheres significa mudar o que é aceitável e admirável para os homens, entre os
quais, em alguns círculos, o comportamento misógino tem sido por muito tempo
motivo de orgulho. Alguns homens escreveram publicamente que tinham
entendido os tipos de hostilidade e perigo que as mulheres enfrentam e ficaram
muito chocados ao se deparar finalmente com a questão. Durante décadas, o
feminismo foi tido como trabalho das mulheres, embora seja impossível
diminuir o sexismo sem envolver os homens, assim como é impossível que as
pessoas não brancas combatam o racismo sem a participação de gente branca.

DEPOIS QUE AS REGRAS MUDAM

O melhor sinal de quanto as mudanças na conversa transformaram as regras


em 2014 é o tratamento dado às alegações contra Bill Cosby e às denúncias
contra o radialista canadense Jian Ghomeshi, no final do mesmo ano. Os dois
pareciam pensar que as velhas regras ainda se aplicavam, mas descobriram que o
mundo mudara desde a última vez que tinham olhado. Vê-los tentando afastar as
várias denúncias contra eles era como ver um bonequinho de corda chegando à
parede; as rodas giravam, mas não iam a parte nenhuma.
Ghomeshi foi demitido da CBC (Canadian Broadcasting Corporation) em
outubro de 2014, por assédio sexual no local de trabalho. Ele entrou com uma
ação por demissão sem justa causa, exigindo 55 milhões de dólares canadenses,
para a qual contratou uma empresa de relações públicas muito badalada. Lançou
com grande alarde um ataque preventivo contra possíveis denunciantes numa
longa postagem no Facebook, de ampla circulação, que dizia: “Fui demitido da
CBC pelo risco de que a minha vida sexual privada se tornasse pública em
decorrência de uma campanha de falsas alegações, conduzida por uma ex-
namorada em quem dei o fora e por uma escritora freelancer”. Alegou que a
escritora e a ex-namorada estavam distorcendo suas atividades sexuais
plenamente consensuais na intenção de prejudicá-lo, e que estava sendo atacado
por fazer parte de uma minoria sexual, afeita ao sadomasoquismo. Em outras
palavras, a vítima era ele. O tiro saiu pela culatra.
A própria linguagem serviu de alerta para alguns leitores, pois a caricatura da
mulher pérfida e vingativa que mente só para criar encrenca para os homens é,
talvez, o estereótipo mais batido do mundo. É uma tática essencial na rotina de
desacreditar as mulheres que relatam os ataques que sofreram. O gesto público
de Ghomeshi levou o Toronto Star a publicar uma matéria baseada no
depoimento de quatro mulheres sobre atividades que não eram consensuais nem
convencionalmente sexuais (mas que pareciam excitar Ghomeshi). Alegaram que
ele as agredira de maneira súbita e brutal. As mulheres preservaram o
anonimato, pois sabiam que seriam atacadas, e, num primeiro momento, suas
declarações foram amplamente criticadas.
As consequências de levar as alegações a público costumam ser desagradáveis.
A necessidade de contar a própria história ou o desejo de justiça são motivos
capazes de vencer essa relutância. No caso de Ghomeshi, outras mulheres se
apresentaram, cinco logo a seguir e depois várias outras. A mais notável foi talvez
a respeitada atriz e capitã da Royal Canadian Air Force Lucy DeCoutere, a
primeira, mas de forma nenhuma a última, a vir a público: “De repente ele me
sufocou e me esbofeteou algumas vezes”, disse ela sobre uma ocorrência de 2003.
“Foi totalmente desconcertante porque nunca ninguém me batera no rosto. Não
é agradável se sentir sufocada e aquilo surgiu do nada. Não foi provocado.”
Àquela altura, oito mulheres haviam dito que tinham sido asfixiadas e
espancadas, e que a violência não era um jogo sexual consensual. Pelos relatos
dessas mulheres, Ghomeshi gostava de estrangular e espancar as mulheres contra
a vontade delas, o que fazia com frequência.5
Muitos agressores pensavam que sempre se safariam porque as vítimas não
tinham voz nem credibilidade ou porque conseguiriam invalidá-las ou, ainda,
silenciá-las pelo terror. Que essas regras tenham, em alguns casos, passado por
certas alterações foi algo que deixou alguns agressores visivelmente perplexos.
A crença de ser o único com direito a ser ouvido, a receber crédito e ser
respeitado tem silenciado inúmeras mulheres que podem nunca serem ouvidas,
nos mais variados casos. Pois, quando essas histórias vêm à luz, é preciso lembrar
quantas nunca serão reveladas — os casos em que as vítimas morreram em
silêncio, como tem acontecido ao longo das gerações, ou ainda não encontraram
uma arena em que ousem falar, ou falaram e, por isso mesmo, só foram motivo
de escárnio, vergonha ou ataque. DeCoutere observou: “No mês passado, houve
uma grande mudança no debate sobre a violência contra as mulheres. Tem sido
um período doloroso e opressivo para muita gente, inclusive eu mesma, mas
também muito inspirador. Espero que as vozes das vítimas continuem a ser
ouvidas e que este seja o começo de uma mudança tão desesperadamente
necessária”.
As alegações contra Cosby ficaram no ar durante anos, até décadas. Uma ação
civil em 2005 reunira quinze mulheres que o acusavam de agressão sexual, mas a
reclamante fez um acordo extrajudicial e a cobertura do caso foi modesta. A
maioria de suas supostas vítimas tinha mantido silêncio. Barbara Bowman, que
informa ter sido drogada e estuprada por Cosby em 1985, quando tinha dezessete
anos de idade, conta uma história típica:
Uma amiga me levou a um advogado, mas ele me acusou de inventar a história. As reações descartando
a questão destruíram qualquer esperança minha de conseguir ajuda; fui convencida de que ninguém me
ouviria. Essa sensação de inutilidade foi o que, no fundo, me impediu de ir à polícia. Contei aos amigos o
que havia acontecido e, embora se solidarizassem comigo, também não podiam fazer nada a respeito. Eu
era uma adolescente de Denver trabalhando em comerciais do McDonald’s. Ele era Bill Cosby: o perfeito
pai americano Cliff Huxtable e o porta-voz da Jell-O. No fim, tive de seguir em frente com a minha vida
e a minha carreira.

Suas supostas vítimas eram, na maioria, jovens e vulneráveis, vulnerabilidade


esta formada pela falta de voz e de credibilidade que sempre afetou as mulheres.
Nesse outono, o comediante Hannibal Buress gritou para Cosby no palco: “É,
mas você estupra mulheres, Bill Cosby, então modere um pouco o tom”. Muita
gente reclamou que teve de ser um homem a acusar Cosby para se desencadear
uma reação — mas talvez Buress representasse algo mais, um homem que ouvia
e acreditava nas mulheres e considerava importante o que acontecia com elas.
Um amplo debate — abordando por que as mulheres não registram a ocorrência
de estupro; como são desacreditadas, constrangidas, culpabilizadas, julgadas,
retraumatizadas, como aconteceu com Bowman; como é raro que os
estupradores sejam condenados — lançara as bases para que as pessoas
entendessem que muito provavelmente essas mulheres estavam falando a
verdade e que até então o mundo não lhes dera muito motivo para denunciarem.
Na verdade, não se trata de Cosby ou de Ghomeshi. Como dissemos, após o
tiroteio em série de Isla Vista, os perpetradores de violências contra as mulheres
não constituem exceções nem anomalias. São epidêmicos. Na melhor das
hipóteses, esses casos envolvendo celebridades nos dão oportunidade de discutir
o significado desses tipos de crimes, de investigar as questões sociais mais
abrangentes e de mudar um pouco o quadro. As mulheres atacadas por
celebridades importam. Também importam as indígenas dos Estados Unidos e
do Canadá, que enfrentam índices excepcionalmente elevados de agressão sexual,
estupro e assassinato; as mulheres estupradas nas universidades, estupradas nas
Forças Armadas e nas prisões; as profissionais do sexo que enfrentam
dificuldades extraordinárias quando são vítimas de agressão sexual. Também
importam as mulheres que são estupradas por policiais, com inúmeros relatos e
algumas condenações criminais recentes. Nesse ano, pelo menos algumas pessoas
que acham que ir à polícia é uma boa solução talvez tenham aprendido que a
polícia pode ser incrédula, indiferente, abusiva ou ineficiente. Apenas uma
pequena porcentagem dos estupros é registrada nas delegacias, e apenas uma
pequena porcentagem dos boletins de ocorrência resulta em condenação.
O que mais importa nos casos envolvendo celebridades não é tanto que um ou
outro tenha de responder tardiamente por crimes passados. É a mensagem que
esses casos transmitem: que a época da impunidade acabou; que no futuro não
será tão fácil se safar dos crimes cometidos. Em outras palavras, o mundo mudou
o suficiente para alterar a disparidade entre vítimas e perpetradores. Agora as
mulheres têm voz.

DEPOIS DA VERGONHA

Nesse mês, uma gerente artística, conhecida minha, decidiu falar, 44 anos
depois do ocorrido, como ela fora, aos dezenove anos, quase inerte por conta de
uma overdose num hotel vagabundo, estuprada por um bando de homens aos
quais pedira ajuda e, depois, humilhada por um médico que a culpou pelo
acontecido. O médico lhe disse, relembra ela, que “eu não estava em posição de
fazer nenhuma denúncia” e assim vieram quatro décadas de silêncio. O inverno
deste ano lhe pareceu o momento certo para romper o silêncio.
A vergonha tem sido um enorme peso no silêncio das mulheres — e homens
— que são vítimas de agressão sexual. A vergonha silencia e isola as pessoas,
permite que os crimes continuem. A mídia, tradicionalmente, não revelava os
nomes das vítimas de estupro para “protegê-las”, mas essa tradição, ao mantê-las
invisíveis, isoladas e silenciosas, tinha como efeito adicional reiterar que elas
haviam passado vergonha. “Quem ia querer esses quinze minutos não de fama,
mas de infâmia?”, perguntou uma das denunciantes de Cosby, explicando por
que não havia falado antes. O estupro é um ataque não só ao corpo, mas também
aos direitos, à humanidade e à voz da vítima. O direito de recusar, de ter
autodeterminação, é retirado; a vergonha perpetua esse silenciamento. A
vergonha, diz um site para sobreviventes:
envolve a destruição do respeito próprio, os esforços deliberados do atacante em obrigá-la a fazer coisas
contra a sua vontade, em levá-la a se sentir suja, repulsiva e envergonhada. Os sentimentos de vergonha
também podem afetar sua decisão de dar parte do crime à polícia ou de procurar auxílio […]. Ela
também pode achar que suas experiências sexuais anteriores e pormenores da agressão serão
minuciosamente examinados.

“Ele disse/ela disse” é sempre para desacreditar “ela disse”, como me falou
outro dia um profissional universitário que lida com casos de agressão sexual.
Funcionou bem até agora. Agora o jogo se inverteu. Quando as fotografias da
atriz Jennifer Lawrence nua foram roubadas e divulgadas on-line, ela começou
pela maneira habitual de se sentir envergonhada e se justificando, até que se
revoltou e esbravejou: “Todos vocês que olharam essas fotos estão perpetuando
um crime sexual. Deviam se encolher de vergonha”. Uns dois meses depois, um
californiano foi condenado a um ano de prisão por utilizar fotos nuas para vexar
e humilhar sua ex-namorada na frente dos seus patrões e de outras pessoas; a
Califórnia está entre os diversos estados que aprovaram leis contra o revenge
porn desde que essa categoria surgiu.
Emma Sulkowicz, estudante de artes na Universidade Columbia em Nova
York, depois de acusar um colega de estuprá-la em seu próprio dormitório,
reagiu à falta de amparo legal ou institucional andando com seu colchão por
onde fosse no campus — mas começou com uma reação mais convencional.
Primeiro, ficou calada; depois, foi pedir à universidade que deliberasse sobre a
questão, mas nem isso nem ir à polícia trouxeram alguma resposta que lhe
parecesse significativa. Então recorreu à arte e, como disse uma colega, ela
“rompeu a vergonha não só para si, mas para todas nós”. Deve ser muito
desagradável o sujeito descobrir que violentou uma artista brilhante que faz a
partir disso uma performance pública sobre ele, atraindo a atenção internacional
e ganhando amplo apoio.

A vergonha silenciava as pessoas, muitas vezes durante décadas ou pela vida


inteira, e as isolava; falar cria comunidades e incentiva o ativismo. É difícil
imaginar o gesto de desafio de Sulkowicz sem o extraordinário movimento
contra o estupro nas universidades, incluindo sobreviventes do estupro
universitário que se tornaram ativistas, como Andrea Pino e Annie Clark, e
organizações como Safer (Students Active for Ending Rape, acrônimo que
também significa Mais Seguras), que têm enfrentado universidades em todo o
país. O lance genial de Sulkowicz foi dar materialidade a seu fardo, ao peso que
carregava, criando assim algo que podia ser compartilhado por outras pessoas. A
solidariedade tem desempenhado um grande papel nesse movimento feminista
contra a violência.
No caso de Sulkowicz, era possível realmente carregar aquele colchão. No final
de setembro, vi quando ela saía de um prédio da escola com um estudante loiro,
de barba, a ajudá-la, até que apareceu um grupo de moças que se encarregou do
colchão durante algumas horas. Ficaram segurando bem alto o grande colchão
azul, como os carregadores de um caixão, durante algumas horas numa bela
manhã de outono em Columbia, rindo e conversando como moças em qualquer
lugar, mas também empenhadas numa firme solidariedade na forma de
transportar esse símbolo de conflito pelas escadas e pelas calçadas. Sulkowicz fez
do estupro um peso visível e, embora vá carregar seu colchão enquanto ela e seu
suposto agressor estiverem na Universidade Columbia, está devolvendo a
vergonha aos seus legítimos donos.
Num dos locais mais conservadores dos Estados Unidos, a cidade de Norman
em Oklahoma, três alunas secundaristas denunciaram terem sido estupradas pelo
mesmo colega. O suposto estuprador, como os secundaristas que haviam
documentado sua agressão sexual a uma colega em Steubenville, Ohio, em 2012,
e tantos outros, pôs em circulação um vídeo com a última dessas agressões em
setembro de 2014. Em Norman, como em tantos casos anteriores em escolas
secundárias, as supostas vítimas foram alvo de zombarias e provocações dos
colegas, sem a proteção da direção, que lhes recomendou que deixassem a escola.
Até aí, era parecido com inúmeros outros casos.
Então a onda virou: outro estudante, incomodado com o suposto estuprador
expondo seus atos, gravou as bravatas dele que, na verdade, constituíam uma
confissão, e em dezembro de 2014 o suposto estuprador foi indiciado pela
polícia. Um grupo de mulheres, inclusive uma colega secundarista, Danielle
Brown, abraçou a causa, criou a hashtag #yesalldaughters e exigiu providências
da escola. Em 24 de novembro de 2014, centenas de estudantes saíram numa
passeata de protesto, como parte de uma manifestação estimada em 1500
participantes. Talvez não precisemos mais ler e reler incessantemente a mesma
história; talvez os rapazes deixem de pensar que esses crimes lhes dão prestígio
ou que têm impunidade. Talvez a vergonha volte aos seus legítimos donos.
As histórias norte-americanas que estou contando aqui tratam de uma
mudança no poder que, em parte, é uma mudança de papéis: de quem são as
histórias contadas e acreditadas e quem está contando.
Não tem sido um ano de harmonia, e a raiva masculina definitivamente
integra a paisagem — os trolls, os misóginos dos movimentos dos direitos dos
homens, os fanfarrões do GamerGate e os perpetradores da violência efetiva, que
não cessou. A reação histriônica à lei do consentimento sexual nas universidades,
“Sim significa sim”, na Califórnia, mostra que alguns homens héteros estão
alarmados com a ideia de que agora terão de negociar suas interações eróticas e
sociais com seres humanos dotados de voz e de direitos amparados por lei. Em
outras palavras, estão descontentes que o mundo tenha mudado — mas o mais
importante é que de fato mudou. As mulheres estão saindo de um silêncio que
durou tanto tempo que ninguém sabe quando começou. Esse ano ruidoso não é
o fim — mas talvez seja o começo do fim.

5. Em março de 2016, Ghomeshi foi absolvido de quatro acusações de agressão sexual e uma de
estrangulamento. No julgamento, o advogado de Ghomeshi intimidou as vítimas e o juiz as acusou de
mentirem ou de ocultarem provas. Ghomeshi evitou um segundo processo por agressão sexual assinando
um termo de compromisso de bom comportamento.
Feminismo: Chegam os homens
(2014)

O que o primeiro-ministro da Índia, o punter aposentado da NFL [National


Football League] Chris Kluwe e o famoso comediante Aziz Ansari têm em
comum? Não é terem entrado juntos num bar, ainda que Ansari talvez
começasse a piada por aí. Os três se manifestaram pelo feminismo neste ano,
como parte de uma onda inédita de homens ativamente engajados em “questões
de mulheres”, como se costuma dizer, embora a violência e a discriminação
contra as mulheres só sejam questões de mulheres porque são coisas praticadas
contra as mulheres — principalmente por homens, de forma que talvez sempre
tenham sido “questões de homens”.
A chegada dos caras significa uma enorme mudança, que faz parte de um ano
extraordinário para o feminismo, em que os termos da conversa mudaram e
algumas leis fundamentais também, enquanto se acrescentavam novas vozes e
novos eleitorados. Sempre existiram homens que concordavam com a
importância dessas questões de mulheres, e alguns que se manifestavam, mas
nunca em tal quantidade nem com tais efeitos. E precisamos deles. Então
consideremos este ano de 2014 como um divisor de águas para o feminismo.
Vejamos o discurso que o primeiro-ministro indiano Narendra Modi,
geralmente hostil, pronunciou no Dia da Independência da Índia. Costuma ser
uma ocasião de ufanismo e orgulho. Em vez disso, ele discorreu energicamente
sobre o pavoroso problema do estupro no país. “Irmãos e irmãs, quando
ouvimos sobre os casos de estupro, baixamos a cabeça de vergonha”, disse ele em
híndi.
Pergunto a todos os pais [que têm] uma filha de dez ou doze anos de idade se estão sempre alertas, vivem
perguntando aonde você vai, quando você volta. […] Os pais fazem centenas de perguntas às filhas, mas
algum pai se atreve alguma vez a perguntar ao filho aonde ele vai, por que vai sair, quem são os seus
amigos? Afinal, um estuprador também é filho de alguém. Também tem pais.

É uma colocação admirável, resultante de um novo discurso naquele país em


que muitos agora começam a culpar os agressores, não as vítimas — a aceitar,
como dizem as ativistas contra o estupro nas universidades nos Estados Unidos,
que “a causa do estupro é o estuprador”. Essa ação, em outras palavras, não é
causada por nenhuma das atividades cotidianas pelas quais as mulheres
costumam ser culpabilizadas quando os homens as atacam. Isso em si representa
uma enorme mudança, em especial quando a análise vem da boca dos próprios
homens. E, vindas desse homem violentamente conservador, tais palavras
pareciam admiráveis — não porque fossem prova de alguma nova virtude de
Modi, mas porque ele parecia ser veículo de argumentos desenvolvidos em outro
lugar: o feminismo como força tão poderosa que saía até da sua própria boca.
O governo Obama também lançou recentemente uma campanha para que os
espectadores, sobretudo homens, interviessem para proteger potenciais vítimas
de agressão sexual, com o nome de “Depende de nós”. Por mais fácil que seja
criticar esse slogan como um gesto um tanto destoante, mesmo assim é um
marco, parte de uma reação maior do país ao estupro universitário em particular.
E o que isso significa é o seguinte: os ventos da mudança alcançaram os
pontos mais altos de ressonância. Os poderes máximos do país começaram a
conclamar os homens a assumirem responsabilidade não só pela sua conduta
pessoal, mas também pela conduta dos homens ao seu redor, e a serem agentes
de transformação.

QUANDO X NÃO É IGUAL A Y

O feminismo precisa dos homens. Para começar, os homens que odeiam e


desprezam as mulheres só serão transformados por uma cultura em que fazer
coisas horríveis às mulheres ou falar coisas horríveis sobre elas não aumentará, e
sim prejudicará o prestígio de um homem entre outros.
Existem infinitas variedades de homens, ou pelo menos cerca de 3,5 bilhões de
homens diferentes vivendo agora na Terra, suprematistas brancos e ativistas dos
direitos humanos, drag queens e caçadores. Para as finalidades do feminismo,
gostaria de traçar três grandes categorias gerais. Há os aliados, mencionados
antes (e mais adiante). Há os misóginos raivosos e os haters nas palavras e nas
ações. Podemos vê-los em vários espaços virtuais, em que proliferam à vontade
(e parecem dispor de uma quantidade de tempo impressionante): os fóruns dos
direitos dos homens, por exemplo, nos quais ficam atiçando incessantemente as
chamas do seu ressentimento, e os caras no Twitter que investem contra
praticamente qualquer mulher que se manifeste, cobrindo-a de ameaças e
insultos. Veja-se a ameaça não só de matar a analista da mídia Anita Sarkeesian
por se atrever a falar contra o sexismo nos video games, mas de desencadear um
massacre de mulheres durante um discurso que ela ia apresentar na Universidade
de Utah. Sarkeesian não é a única a receber ameaças de morte naquele ambiente.
E não esqueçamos todos os gamers que entraram na bizarrice das teorias
conspiratórias misóginas sob a hashtag #Gamergate.
A posição deles foi recentemente atacada por Chris Kluwe, gamer fanático, ex-
jogador profissional de futebol americano, feminista e franco defensor dos
direitos queer, num discurso impressionante. Num dos trechos mais amenos, ele
disse aos irmãos gamers:
Infelizmente, todos vocês #Gamergaters continuam defendendo essa imundície pueril, e assim a única
conclusão lógica a tirar é: que vocês apoiam aqueles cretinos misóginos em toda a sua gloriosa
babaquice. Que vocês apoiam o assédio das mulheres na indústria do video game (e em geral). Que vocês
apoiam o estereótipo idiota do “gamer” como aquele cara nojento que mora num porão, que deu tanto
trabalho para tanta gente tentar se livrar.

Então alguém tuitou para Kluwe: “Vá se foder, seu cuzão. GamerGate não é
ódio às mulheres”. A isso eu gostaria de acrescentar uma variante da Lei de Lewis
(“todos os comentários sobre o feminismo justificam o feminismo”): os
inúmeros homens que atacam mulheres e os que se levantam em favor das
mulheres para demonstrar que as mulheres não estão sob ataque e que o
feminismo não tem base na realidade não percebem, pelo visto, que estão
habilmente demonstrando o contrário.
Hoje em dia, são incontáveis as ameaças de estupro e morte. No caso de
Sarkeesian, a Universidade de Utah preferiu não levar a sério a ameaça de um
massacre na faculdade (embora o porte de armas no salão de conferências fosse
autorizado por lei), pois Sarkeesian recebe ameaças de morte o tempo todo, e
assim ela mesma teve de cancelar sua palestra.
Então há os aliados e os haters. E há também um monte de homens que
podem ter boas intenções, mas que entram na conversa sobre o feminismo com
afirmativas na verdade equivocadas que alguém — geralmente, segundo a minha
experiência, uma mulher — passará um tempo enorme tentando corrigir. Pode
ter sido por causa deles que Elizabeth Sims criou um website chamado The
Womansplainer: “Para homens que têm coisa melhor a fazer do que aprender
sobre o feminismo”.
Outras vezes, eles tentam reformular algo que se disse sobre as desgraças das
mulheres ou sobre as desgraças dos homens. Lendo os comentários masculinos
on-line sobre o estupro nas universidades, por exemplo, fica parecendo que
estamos diante de uma invasão de moças inconscientes, mas mal-intencionadas,
que se jogam sistematicamente em cima de caras inocentes que estão por ali, só
para criar problema para eles. Pouco tempo atrás, a Forbes publicou, e depois
teve um trabalhão para apagar, uma longa declaração de um ex-presidente de
uma fraternidade do MIT com o título “Convidadas bêbadas são a ameaça mais
grave para as fraternidades”.
Às vezes, os homens insistem que “equidade” significa admitir que eles sofrem
com as mulheres tanto quanto ou até mais do que elas sofrem com eles. Aí
também poderíamos dizer que os brancos sofrem com o racismo tanto quanto os
negros, ou que não existem hierarquias de privilégios e graus de opressão neste
mundo. Há quem diga isso.
É verdade, por exemplo, que existem mulheres que realmente cometem
violência doméstica, mas as consequências são drasticamente diferentes, tanto na
gravidade quanto na quantidade. Como escrevi em Os homens explicam tudo
para mim, a violência doméstica é:
a causa número um de agressões a mulheres americanas; entre os 2 milhões de mulheres agredidas
anualmente, mais de meio milhão dessas agressões exigem cuidados médicos, enquanto cerca de 145 mil
exigem um dia de internação hospitalar, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças, e nem
queiram saber sobre a necessidade posterior de atendimento odontológico. Os cônjuges são também a
causa principal de morte de grávidas nos Estados Unidos.

No entanto, as grávidas não são a principal causa da morte dos cônjuges de


mulheres grávidas. Simplesmente não há equivalência.
Nem todos os homens entendem, mas alguns sim (e isso daria uma boa
hashtag). Vi o comediante Aziz Ansari apresentar um quadro sobre o assédio
sexual. “Há caras assustadores por toda parte”, disse ele, ao comentar o caso de
uma mulher que teve de se refugiar num pet shop durante uma hora para se
livrar de um sujeito que a seguia. Como frisou, os homens nunca precisam lidar
com mulheres exibindo os seus genitais e se masturbando na frente deles em
público ou os assediando de outras maneiras igualmente grotescas. “As mulheres
simplesmente não fazem essas merdas!”, exclamou Ansari. (Ele atribuiu à sua
namorada o fato de ter se tornado um feminista.)
Os humoristas Nato Green, W. Kamau Bell e Elon James White estão entre os
outros comediantes feministas que agora se manifestam, e Jon Stewart tem tido
alguns excelentes momentos feministas. É ótimo que os homens não só estejam
na conversa, mas também desempenhem um papel cada vez mais espirituoso.
Homens negros como Bell, White e Teju Cole têm se mostrado
excepcionalmente perspicazes, expressando-se com grande clareza e franqueza
sobre as questões, talvez porque opressão entenda opressão.
Cole escreveu:
Ontem à noite, lendo os relatos de mulheres que tinham sido atacadas por Cosby, senti um profundo
pesar.
É complicado falar a respeito, mas o silêncio está fora de questão. Isso é assunto de todos. Mas vou
falar algumas coisas para os homens que estão lendo.
Nós homens tiramos proveito, todos nós homens tiramos proveito da cultura do estupro. Tiramos
proveito com a dor que ele causa às mulheres porque disparamos na frente esquecendo o assunto;
tiramos proveito com a forma como ele as elimina do circuito e abre espaço para nós; tiramos proveito
com a forma como ele as desumaniza para que a nossa própria humanidade possa brilhar ainda mais; e
tiramos proveito com a aura de poder que ele nos dá como agressores ou como beneficiários. E por
tirarmos proveito, explícita ou implicitamente, não vociferamos o suficiente na nossa oposição a ele.
Temos de ser aliados nisso, num papel secundário, mas vital, para as gerações de mulheres que o vêm
combatendo desde sempre. Por que haveria de ser fácil? Não tem como.

A OBSESSÃO PELAS FALSAS DENÚNCIAS DE ESTUPRO: UMA SAÍDA MUITO PRÁTICA

Claro, as velhas ideias também mantêm sua força. Quase sempre quando estou
assistindo a algo (ou lendo na internet) e alguém levanta o tema do estupro,
aparece um homem para abordar a “questão” das “falsas denúncias de estupro”.
Sério, é quase inevitável que seja a primeira coisa que sai da boca do sujeito; os
homens parecem obcecados pelo tema, e muitas vezes é uma maneira muito
conveniente de transferir o foco do grande número de vítimas femininas para os
casos extremamente raros de vítimas masculinas. Por causa disso, montei esse
guia muito prático sobre o assunto, esperando nunca mais precisar abordá-lo.
O estupro é tão comum na nossa cultura que cabe considerá-lo epidêmico.
Afinal, de que outra maneira se qualificaria algo que atinge diretamente quase
20% das mulheres (e 1,4% dos homens) e, como ameaça, potencialmente 100%
de todas as mulheres, que é tão infiltrado que modifica a maneira como vivemos,
pensamos e andamos pelo mundo durante a maior parte da nossa vida? Os casos
concretos de mulheres mentindo que foram estupradas, simplesmente para
difamar algum homem, são extremamente raros. Os estudos mais confiáveis
indicam que cerca de 2% das denúncias de estupro são falsas, o que significa que
98% são verdadeiras. Mas mesmo essa estatística não significa que esses 2% são
falsas denúncias de estupro, pois você dizer que foi estuprada sem ter sido não é
a mesma coisa que alegar que alguém específico a estuprou quando isso não é
verdade. (Aliás, ninguém apura a falsa denúncia de estupro de um indivíduo.)
Mesmo assim, essas estatísticas não impedem que vários homens retomem a
questão mais e mais vezes. E mais vezes.
Eis uma tradução dessas denúncias:
ELA: Há uma epidemia atingindo meu povo!

ELE: Estou preocupado com essa doença incrivelmente rara da qual ouvi falar (mas não pesquisei) que
talvez possa atingir alguém da minha tribo!

Ou assim:
ELA: Sua tribo faz coisas horríveis à minha tribo, que está bem documentado.

ELE: Sua tribo está cheia de mentirosos mal-intencionados. Na verdade, não tenho provas disso, mas
meus sentimentos são mais racionais do que os seus fatos.

Aliás, ao avaliarmos esses dados sobre estupro, não podemos esquecer que a
maioria dos estupros não é denunciada. Entre os denunciados, na maioria dos
casos não se instaura processo. Nos casos em que se instaura processo, a grande
maioria não obtém condenação. Entrar com uma denúncia de estupro
geralmente não é uma maneira divertida e eficiente de conseguir desagravo ou
justiça, e denunciar falsamente um crime é, em si, um crime, algo que a polícia
não costuma ver com bons olhos.
Centenas de milhares de provas de estupro coletados pela polícia nos Estados
Unidos, sabemos agora, nunca foram enviadas para os laboratórios de perícia
criminal, e alguns anos atrás revelou-se que várias cidades — New Orleans,
Baltimore, Filadélfia e St. Louis — nem sequer se preocuparam em arquivar os
relatórios policiais sobre dezenas de milhares de alegações de estupro. Isso
deveria ajudar a convencê-lo de que o sistema não funciona tão bem assim para
as vítimas de estupro. E lembre quem são os policiais: um grupo
majoritariamente masculino, cada vez mais militarizado, com altos índices de
violência doméstica e que acumulam, recentemente, contra eles mesmos algumas
denúncias notáveis de estupro. Em outras palavras, nem sempre são as pessoas
mais receptivas para ouvirem mulheres — em particular mulheres pretas e
pardas, profissionais do sexo, trans e outros grupos marginalizados — falando
sobre condutas sexuais masculinas impróprias.
Muitas vezes, as pessoas também se perguntam por que as universidades
fazem as suas próprias diligências sobre os casos de estupro, em vez de dar parte
à polícia, ainda mais porque muitas delas não as fazem direito. Há várias razões,
entre as quais o fato de que as universidades devem assegurar a todos um acesso
igualitário ao ensino, por disposição do Título IX (uma emenda de 1972 à Lei dos
Direitos Civis de 1964, de âmbito federal). A agressão sexual solapa essa
igualdade por lei. E há o fato de que o sistema penal é muito falho quando se
trata de violência sexual e, para muitas sobreviventes de estupro, lidar com o
sistema judicial é uma segunda rodada de violação e humilhação. Às vezes a
vítima retira a queixa porque simplesmente não pode mais aguentar o processo.
Pelo que me disseram, o recurso judicial contra uma condenação de estupro, na
esperança de que a vítima não dê conta de enfrentar outro julgamento, tornou-se
uma tática para derrubar a sentença.
E agora voltemos àquelas falsas denúncias de estupro. Em Os homens explicam
tudo para mim, acrescentei a seguinte nota de rodapé:
As falsas denúncias de estupro são uma realidade, e relativamente rara, embora as histórias dos
indevidamente condenados sejam terríveis. Um estudo britânico feito pelo Setor da Promotoria da
Coroa, lançado em 2013, observou que havia 5651 processos por estupro no período estudado, contra
apenas 35 processos por falsas denúncias de estupro (ou mais de 160 estupros para uma falsa denúncia,
bem abaixo de 1%). E um relatório do Ministério da Justiça dos Estados Unidos de 2000 citou as
seguintes estimativas para o país: 322 230 estupros anuais, resultando em 55 424 denunciados na polícia,
26 271 detenções e 7007 condenações — ou um pouco mais de 2% dos estupros estimados e 12% dos
estupros denunciados resultaram em pena de prisão.

Em outras palavras, não é provável que dar parte de um estupro resulte em


cadeia, e embora talvez 2% das denúncias de estupro sejam falsas, apenas um
pouco mais de 2% de todas as denúncias resultam em condenações. (Algumas
estimativas chegam a até 3%.) Em outras palavras, há uma quantidade
assustadora de estupradores impunes à solta. E a maioria dos estupradores,
quando denunciados ou acusados, não admitem ter cometido o crime. O que
significa que temos uma legião de estupradores à solta que também são
mentirosos, e talvez essas mentiras difundidas sejam de homens que estupraram,
e não de mulheres que não foram estupradas.
Claro que ocorrem falsas denúncias de estupro.6 Minha amiga Astra Taylor
assinala que os exemplos mais dramáticos no país foram os casos em que
homens brancos acusaram falsamente homens negros de terem agredido
mulheres brancas. Isso significa que, se você quiser se indignar com o assunto,
terá de invocar um quadro mais complicado sobre o real funcionamento do
poder, da vergonha e da mentira. Houve episódios — o caso infame do estupro
coletivo envolvendo os Garotos de Scottsboro nos anos 1930, por exemplo — em
que mesmo as autoridades pressionaram mulheres brancas a mentir a fim de
incriminar homens negros. No caso Scottsboro, uma das denunciantes, Ruby
Bates, de dezessete anos, depois se retratou e contou a verdade, apesar das
ameaças que sofreu.
E há o caso da corredora do Central Park em 1989, em que a polícia extorquiu
confissões falsas de cinco adolescentes inocentes latinos e afro-americanos, que
então foram condenados e encarcerados pelo sistema judiciário (incluindo uma
promotora). A vítima branca, que fora espancada quase até a morte, não
recordava o episódio e não testemunhou contra eles. Em 2002, o verdadeiro
agressor confessou e os cinco foram absolvidos, mas somente depois de terem
passado a juventude na prisão por crimes que não haviam cometido. Mesmo em
2016, Donald Trump continuava a proclamar que esses inocentes eram culpados.
A condenação de inocentes costuma resultar da corrupção e de desvirtuamentos
no sistema judicial, e não apenas de um acusador isolado. Claro que existem
exceções. O que digo é que são poucas.
A obsessão pelas falsas denúncias de estupro deriva, ao que tudo indica, de
uma série de coisas, inclusive da ilusão de que são habituais e da persistente
pecha contra as mulheres, de que seriam naturalmente ambíguas, manipuladoras
e desonestas. A constante referência a essa questão sugere que existe uma
estranha espécie de confiança masculina, decorrente da ideia de terem mais
credibilidade do que as mulheres. E agora isso está mudando. Talvez, eu queira
dizer por confiança que eles se acham no direito. Talvez o que esses sujeitos
feministas estão dizendo seja o seguinte: os homens estão finalmente passando a
ter de responder pelos seus atos e isso os amedronta. Talvez seja bom que fiquem
amedrontados — ou pelo menos se tornem responsáveis.

O QUE TORNA UM PLANETA HABITÁVEL

A situação, tal como existe há muito tempo, precisa ser descrita de modo
simples e direto. Digamos apenas que um número significativo de homens odeia
mulheres, seja a desconhecida molestada na rua, a twitteira ameaçada e
condenada ao silêncio on-line ou a esposa espancada. Alguns homens se acham
no direito de humilhar, punir, silenciar, violentar e até aniquilar mulheres. Por
causa disso, as mulheres enfrentam um grau assombroso de violência cotidiana e
uma atmosfera ameaçadora, bem como uma infinidade de insultos e agressões
menores na intenção de nos manter sob domínio. Assim, não admira que o
Southern Poverty Law Center [Centro Sulino de Advocacia Gratuita] classifique
alguns grupos de direitos dos homens como grupos de ódio.
Nesse contexto, avalie o que queremos dizer com cultura do estupro. É ódio.
Aqueles estupros por times esportivos e membros de fraternidades se baseiam na
ideia de que violar os direitos, a dignidade e o corpo de outro ser humano é uma
coisa bacana de se fazer. Essas ações grupais se fundam numa noção predatória
monstruosa de masculinidade, que muitos homens não subscrevem, mas que
afeta a todos nós. É também um problema que os homens são capazes de corrigir
de outras maneiras, não acessíveis às mulheres.
Numa noite dessas, saí de uma palestra de uma astrofísica conhecida minha
sobre as condições para que um planeta seja habitável — temperatura, atmosfera,
distância de uma estrela. Pensei em pedir a um rapaz, amigo de uma amiga, que
me acompanhasse até meu carro, no estacionamento totalmente escuro da
Academia de Ciências da Califórnia, mas a astrofísica e eu ficamos conversando e
fomos juntas até lá, sem nem questionar, e então a levei de carro até o carro dela.
Algumas semanas antes, juntei-me a Emma Sulkowicz e um grupo de moças
que estavam carregando um colchão entre uma aula e outra na Universidade
Columbia. Como disse antes, Sulkowicz é uma estudante de artes que denunciou
um estupro e não recebeu nada que se parecesse com justiça, nem das
autoridades do campus, nem do Departamento de Polícia de Nova York. Como
reação, ela vem expondo seu drama com uma performance artística que consiste
em carregar um colchão do dormitório universitário para todos os lugares
enquanto está no campus.
A reação da mídia foi estrondosa.7 Uma equipe de documentário estava lá
naquele dia, e a cinegrafista, uma mulher de meia-idade, comentou comigo que,
se os critérios de consentimento sexual nas universidades já existissem, se o
direito das mulheres de negar e a obrigação dos homens em respeitar a decisão
feminina já fossem reconhecidos quando ela era jovem, sua vida teria sido
totalmente diferente. Refleti nisso por um instante e percebi: a minha também.
Gastei muita energia entre os doze e os trinta anos simplesmente para sobreviver
a homens predadores. A revelação de que desconhecidos totais e conhecidos
eventuais podiam me infligir humilhação, dano e talvez até a morte por causa de
meu gênero e que eu tinha de estar alerta o tempo inteiro para escapar a esse
destino — bom, faz parte do que me levou a ser feminista.
Tenho profunda preocupação com as condições habitáveis do nosso planeta de
um ponto de vista ambiental, porém, enquanto não for plenamente habitável por
mulheres que possam caminhar livremente pelas ruas sem o medo constante,
teremos de carregar fardos práticos e psicológicos que prejudicam a nossa total
capacidade. É por isso que, mesmo considerando o clima a coisa mais importante
neste momento, ainda escrevo sobre feminismo e direitos das mulheres. E
celebro os homens que tornaram um pouco mais fácil mudar o mundo ou que
agora fazem parte das grandes mudanças em curso.

6. Depois de ter escrito este ensaio, a Rolling Stone publicou e depois retirou do ar uma matéria sobre
estupro na Universidade da Virgínia. O artigo se concentrava numa suposta vítima, cujas declarações não
foram verificadas e não eram corretas. A mídia mainstream e a Twitteresfera ficaram obcecadas pelo caso e
deram cobertura maciça à vítima e às suas mentiras, de uma maneira que dava a entender que as falsas
denúncias de estupro é que constituíam o grande problema na universidade, que estava sob investigação
federal e era acusada de lidar mal há anos com dezenas de episódios de agressão sexual. Em 2004, o
Charlottesville Hook publicara: “No mesmo período, sessenta estudantes da Universidade da Virgínia
denunciaram que tinham sido abusadas sexualmente, muitas por colegas. No entanto, segundo várias fontes
na administração da universidade, nos últimos cinco anos não houve nenhum transgressor sexual expulso
ou sequer suspenso da escola”. Porém, depois do fora da Rolling Stone, dezenas de histórias jornalísticas
deram a impressão de que houve apenas um caso de estupro na Universidade da Virgínia, e que era falso.
7. Depois que escrevi isso, Sulkowicz foi submetida a ataques maciços nas redes sociais e em outros lugares,
como resultado do movimento pelos direitos dos homens. Em 2016, uma pesquisa sobre o seu sobrenome
na internet dá como primeiro resultado “Emma Sulkowicz” e como segundo, “Emma Sulkowicz mentirosa”.
Puseram cartazes por todo o campus de Columbia chamando-a de “pretty little liar” [referência ao seriado
Pretty Little Liars], e uma conta do Twitter chamada @fakerape passou a persegui-la até ser suspensa.
Um ano após sete mortes
(2015)

Em 1988, o fotógrafo Richard Misrach encontrou dois exemplares da revista


Playboy que haviam sido usados para o treino de tiro ao alvo no Campo de Testes
Nucleares de Nevada, onde tinham sido detonadas mais de mil armas nucleares
americanas e britânicas. Enquanto ele olhava, um vento soprou nas páginas da
revista, que parou numa foto de Ray Charles cantando. Todas as páginas da
revista estavam cravejadas de orifícios de balas — denteados, com perfurações
nas páginas por baixo — espalhados pela superfície. Misrach relembra:
o êxtase [de Ray Charles] se transformou num grito por uma bala que tinha atravessado a revista.
Percebi que os alvos eram as mulheres na capa das duas revistas, mas que a violência dirigida
especificamente às mulheres penetrava simbolicamente em todas as camadas da nossa sociedade. Todos
os aspectos da nossa sociedade […] estavam crivados de violência.

Pensei nas grandes fotos coloridas de celebridades masculinas e femininas de


Misrach, nas paisagens, produtos, cenas de filme, todas perfuradas a tiros, e nesse
seu comentário, quando comecei a rever o massacre de Isla Vista que hoje
completa um ano. Na noite de 23 de maio de 2014, um rapaz de 22 anos entrou
num surto de violência que deixou seis mortos e muitos feridos, atingidos de
raspão pelas balas ou abalroados pelo seu carro, antes de se matar com a própria
arma.
Fazia um tempo ameno naquela noite em Isla Vista, uma área costeira junto à
Universidade da Califórnia em Santa Barbara, cheia de pizzarias e casas de
burritos com nomes chamativos, de repúblicas estudantis masculinas e femininas
e de prédios residenciais. Havia estudantes andando de skate, de bicicleta, a pé
com amigos, de shorts, camisetas e trajes de banho. O assassino, cujo nome não
se deve relembrar, que não deve ser glorificado como foram os assassinos de
Columbine, não tinha amigos, embora tivesse morado lá por quase três anos.
Planejara longamente uma chacina como vingança contra um mundo que, a seu
ver, lhe devia sexo, adoração, amizade e sucesso. Seu ódio se concentrava
especialmente nas moças e mulheres e nos homens que se divertiam em sua
companhia.
A autobiografia do rapaz, criado nas margens da indústria cinematográfica de
Hollywood, postada on-line naquele dia, é notável pela superficialidade e pela
convicção de estar no seu direito. São termos duros, mas não há outra forma de
descrever a sua absoluta falta de empatia, de imaginação e de compromisso com
a vida dos outros. Muitas vezes atribuem-lhe distúrbios mentais, mas, em vez
disso, ele parece ser excepcionalmente suscetível à loucura da sociedade ao seu
redor, a nossa sociedade no que ela tem de pior.
A misoginia dele era a misoginia da nossa cultura. O seu patético sonho de
ganhar na loteria para ficar rico, ser admirado e ter sucesso sexual era banal,
amplamente fomentado pela propaganda. A sua preocupação com produtos de
marca e símbolos de status era exatamente o que a indústria publicitária tenta
injetar em nós. A sua fantasia de ganhar poder e prestígio à base de armas é a
fantasia que nos é vendida pelo lobby armamentista e pelos filmes de ação, em
que um super-homem invulnerável sempre acerta infalivelmente os vilões da
história, um deus que se torna deus graças à sua arma. “A minha primeira
providência foi comprar a minha primeira arma”, escreveu ele sobre a chacina
longamente planejada. “Depois de pegar a arma, trouxe para o meu quarto e tive
uma sensação nova de poder. Agora estava armado. Quem é o macho alfa agora,
suas vagabundas?, disse comigo mesmo, pensando em todas as garotas que
tinham me desprezado.”
Naquele dia, conforme planejara, ele esfaqueou e matou três rapazes no seu
apartamento, emboscando, ao que tudo indica, um por vez. Dois eram colegas de
quarto, um estava de visita: Weihan Wang, com vinte anos, Chen Hong, também
com vinte, e George Chen, com dezenove. Então foi com as suas armas até a
república feminina onde moravam as moças que achava mais bonitas e bateu à
porta, na esperança de entrar e massacrar todas elas — “cheia de loiras lindas e
gostosas; o tipo de garota que sempre desejei mas nunca consegui ter porque
todas me desprezam. São todas umas vagabundas mimadas, perversas e sem
coração”. As jovens ficaram alarmadas com as batidas fortes e insistentes na porta
e ninguém foi abrir. O assassino então atirou em três moças que estavam em
frente, Katherine Cooper, com 22 anos, Veronica Weiss, com dezenove anos, e
uma terceira que sobreviveu, socorrida por passantes e depois por seguranças.
Voltando ao carro, ele foi para cima dos pedestres, jogando alguns ao ar com o
impacto, trombando em outros, errando outros, e distribuindo tiros entre outros
mais. Feriu catorze pessoas, além das seis que matou.
A última pessoa que ele assassinou antes de se matar foi Christopher
Michaels-Martinez, que estava na rua com os amigos e foi o último a entrar na
loja de conveniência onde se refugiaram. Em 23 de maio de 2014, lá pelas nove e
meia da noite, diz o relatório do delegado, uma bala “penetrou no lado esquerdo
do peito e saiu pelo lado direito do peito, perfurando o fígado e o ventrículo
direito do coração”. Christopher Michaels-Martinez, um rapaz atlético de vinte
anos de idade, estudante de inglês, que tinha saído para passear com os amigos,
morreu imediatamente no piso da loja de conveniência, apesar do socorro que
uma jovem de dezenove anos tentou lhe prestar. Alguns dias depois, no
memorial improvisado de velas e flores na calçada diante da loja, ela relembrou:
“Eu estava aplicando nele uma reanimação cardiorrespiratória, olhei para baixo e
reconheci seu rosto. Foi a primeira pessoa que conheci na orientação aos
calouros”.
“Eu daria o resto da minha vida por mais um dia com Christopher”, disse-me
Richard Martinez, pai de Christopher, algumas semanas atrás. “Mas não é
possível. Então faço isso” — sendo o “isso” seu trabalho de advocacia pelo
controle de armas na organização Everytown for Gun Safety. “Não quero que
nenhum outro pai passe pela perda de um filho tão amado como era o nosso.
Trata-se de salvar vidas.” Naquela noite, morreram mais seis jovens. Todos
tinham família; todas as famílias devem ter sentido uma dor como a de Richard
Martinez. E da mãe do rapaz. E dos primos, amigos, namorada e colegas.
E seu tio, Alan Martinez, arquiteto de San Francisco que é meu amigo, que
amava o sobrinho, recorda suas conversas com o rapaz, discutindo Cícero, o
Alhambra, a aids, o budismo e tudo o mais que existe debaixo do sol. Há uma
foto do tio com o sobrinho deitados de costas numa colina verdejante da
Califórnia, os dois rindo da mesma piada ou pela pura alegria do momento. E
então houve a coletiva de imprensa no dia seguinte, com Alan ao lado de Richard
e este dizendo, numa voz embargada de angústia: “Nenhum a mais” [Not One
More], que se tornou o lema da sua campanha pelo controle de armas.
Richard Martinez, um homem imponente de cabelo escuro e barba grisalha,
falou pela última vez com Christopher poucas horas antes da sua morte; o aluno
da UCSB estava entusiasmado com o ano que ia passar estudando em Londres.
Richard se pergunta se, caso tivessem ficado mais um pouco ao telefone ou
tivessem encerrado a conversa um pouco antes, Christopher ainda estaria vivo.
A cada vez que encontro o pai de Christopher, conheço mais sobre o filho, em
histórias, retratos, vídeos no celular: um rapaz bonito, cheio de energia e
vitalidade, conhecido não só pela inteligência e pelo gosto por esportes, mas
também pela bondade. De cabelos e olhos castanhos, tinha um sorriso largo e
cativante, alegre, cheio de vontade de viver. Aos dezesseis anos, queria saltar de
paraquedas, mas os pais não deixaram; quatro anos depois, poucos meses antes
de morrer, ele foi. Após a morte, alguém deu um vídeo a Richard, que ele me
mostrou no começo deste mês. Chris aparece com um macacão de salto amarelo,
preparando-se para entrar no aeroplano, dentro do aeroplano, saltando no céu
azul em queda livre com o instrutor e depois, quando se abre o paraquedas,
caindo mais devagar até chegar ao solo verde da Califórnia. Está sempre com um
grande sorriso no rosto. Tinha tanta vida. E então morreu.
Martinez tinha um filho; agora não tem nenhum. Usa pulseiras de borracha,
daquelas distribuídas para causas e campanhas assistenciais, uma em cima da
outra no pulso direito. Cada uma corresponde a uma criança morta por arma de
fogo em algum lugar dos Estados Unidos, em Sandy Hook e outros tiroteios de
massa, e ele passa uma por uma, dizendo onde e quando a vítima foi assassinada.
É como se o braço fosse um cemitério. Os pais dessas vítimas compartilham as
pulseiras como parte de suas campanhas; formam uma comunidade de
devastados. Sempre, desde a primeira vez que falei com Martinez poucos dias
após o assassinato, tenho a sensação de que ele precisava fazer alguma coisa para
extrair algum sentido da dor insuportável. Não podia evitá-la, mas tinha de fazer
alguma coisa com ela, e assim ele deixou o cargo de promotor público, que
ocupava fazia muito tempo, e pôs o pé na estrada.
As causas do surto assassino podem ser interpretadas de várias maneiras. As
feministas (eu incluída) se concentraram no ano passado na misoginia, o
sentimento furioso do assassino de que as mulheres lhe deviam alguma coisa, de
que ele tinha o direito a todos os prazeres e adulações que elas pudessem
oferecer. A discussão sobre essa orgia de crimes se juntou ao debate mais amplo
sobre a violência contra as mulheres. Como continuavam a aparecer homens
dizendo “Nem todos os homens”, às vezes na forma da hashtag #notallmen, como
em “nem todos os homens são estupradores e assassinos e não se deve falar em
padrões da violência masculina”, uma jovem que tuíta com o nome de Gilded
Spine criou a hashtag #yesallwomen.
A intenção era dizer que sim, sabemos que nem todos os homens cometem
esses crimes, mas a questão é que todas as mulheres sofrem o impacto deles. A
hashtag viralizou nos meses após Isla Vista, embora Gilded Spine tenha recebido
tantos tuítes ameaçadores que silenciou por muito tempo. Até mesmo falar sobre
a violência era perigoso, e os homens que postavam comentários de escárnio,
imagens pornográficas e ameaças pareciam não perceber que estavam
demonstrando precisamente a necessidade do feminismo. A hashtag feminista
#yesallwomen foi talvez a mais difundida entre todas as que abrigaram, em anos
recentes, a conversa coletiva e os depoimentos sobre violência e sobrevivência.
Em toda violência há autoritarismo ou sensação de se achar no direito de fazer
aquilo. Dizemos que um assassino tomou a vida de outra pessoa. Tomar é se
apoderar. É roubar, é supor-se com os privilégios de um dono, é dispor da vida
de outrem como se fosse sua. Nunca é. E ainda há o gigantesco arsenal
americano e a destruição que ele traz. Neste país, diariamente 91 americanos são
mortos por armas de fogo; anualmente ocorrem nos Estados Unidos 12 mil
homicídios por arma de fogo, mais de vinte vezes acima da média de outras
nações industrializadas, segundo a organização de Martinez, Everytown for Gun
Safety. O índice de homicídios por armas de fogo parece não ter aumentado, mas
não porque o número de pessoas alvejadas seja menor do que há dez anos. O
número de alvejados é maior, mas os ambulatórios e os prontos-socorros
melhoraram e salvam mais vidas. O número de ferimentos a bala não fatais
duplicou entre 2002 e 2011.
Estamos numa zona de guerra em duas acepções. A primeira é a guerra literal
que gera esses 12 mil cadáveres anuais, incluindo suicídios, homicídios por
violência doméstica (3110 mulheres mortas por parceiros ou ex-parceiros entre
2008 e 2012), outros assassinatos, mortes acidentais. A segunda é uma guerra de
significados. De um lado estão os que nos dizem incessantemente que as armas
nos darão mais segurança, e que precisamos de mais armas em mais mãos em
mais lugares, nas lojas, nas ruas, nas escolas e nas universidades. Apregoam
constantemente o roteiro do “cara bonzinho com uma arma que detém o vilão
com uma arma”.
É absolutamente raro que um indivíduo armado entre numa situação caótica
e, como o herói pistoleiro de um bangue-bangue, atire com precisão e eficiência,
eliminando os maus e poupando os bons. Os outros roteiros envolvendo armas
— homicídios, suicídios e acidentes horríveis — são incessantes. Quando uma
criança pequena encontra uma arma e atira em amigos, irmãos e pais, dizem-nos
que foi um acidente terrível e não que é uma coisa provável de acontecer com
armas ao fácil alcance. O argumento a favor de mais armas não trata de fatos, e
sim das armas como símbolos de identidade, de fantasias de domínio, controle,
sujeição, o mesmo velho sonho impossível machista de ser, como disse o
assassino de Isla Vista, o macho alfa. Para os defensores convictos das armas de
fogo, elas são totens identitários, e não os instrumentos que realmente tiram 12
mil vidas por ano.
Uma reação à chacina de Isla Vista é uma lei californiana, a AB 1014, que
autoriza familiares e policiais a encaminharem petição a um tribunal para
recolher armas em posse de alguém que apresente risco a terceiros. A Ordem de
Restrição contra a Violência com Armas de Fogo, como se chama a lei, poderia
ter impedido, pelo menos em parte, o surto homicida que ocorreu em Isla Vista e
talvez pudesse ter modificado todo o cenário. No começo do mês, a mãe do
assassino havia telefonado para o escritório do delegado de Santa Barbara para
registrar a sua preocupação a respeito do filho. Ela pode impedir outros
assassinatos quando entrar em vigor, em 1o de janeiro de 2016. Foi aprovada
uma boa legislação também no Oregon e no estado de Washington, pelo que me
disse Martinez; e no Texas e na Flórida foram barrados alguns projetos de lei
para ampliar os direitos de porte de armas. Mas naquela noite terrível de um ano
atrás, além de armas de fogo, também houve o uso de facas e até de um carro
para ferir outras pessoas.
Não existe uma causa única e tampouco uma solução fácil para a violência
neste país. Como Misrach observou ao ver aquelas revistas da Playboy usadas em
exercícios de tiro ao alvo: “Todos os aspectos da nossa sociedade […] estavam
crivados de violência”. Mas a sociedade tem muitos outros aspectos a que não
faltam alternativas à violência: a disposição em negociar, o amor à vida, a
generosidade, a empatia, que também são forças poderosas na cultura. Depois da
série de assassinatos, muitos acorreram para reconfortar, abrigar e prestar
primeiros socorros — torniquetes, pressão nos ferimentos a tiros, reanimação
cardiorrespiratória — aos feridos e moribundos, e naquela semana
compareceram 20 mil pessoas ao memorial no estádio da UCSB. Mas as pessoas
que encarnam o que há de melhor em nós, como todas nós, vivem num clima em
que a violência pode eclodir a qualquer momento em qualquer lugar.
Existe uma bolsa de estudos em nome de Christopher Michaels-Martinez para
estudantes de inglês empenhados na justiça social. Estão organizando exposições,
eventos comemorativos e um jardim para o aniversário de primeiro ano na
Universidade da Califórnia em Santa Barbara. Há leis aprovadas e aguardando
aprovação, há um vibrante debate feminista sobre a violência e a misoginia. Mas
os mortos continuam mortos, os enlutados continuam de luto e o cenário
continua preparado para outros assassinatos.
O feliz caso recente da piada sobre estupros
(2015)

As piadas sobre estupro são engraçadas? A posição feminista, alguns anos


atrás, parecia ser firmemente contrária, e então as coisas mudaram. Na verdade,
a rápida evolução da piada sobre estupros nos últimos três anos é uma
ressonância em pequena escala das enormes mudanças que têm ocorrido no
debate público sobre a violência sexual, o gênero, o feminismo, as vozes que
importam e quem vai contar a história.
O desafio foi lançado em 2012, quando o comediante Daniel Tosh estava
dizendo que as piadas sobre estupro sempre são engraçadas, e uma mulher na
plateia gritou: “Piadas sobre estupro nunca são engraçadas”. Tosh teria
respondido: “Não seria engraçado se essa garota fosse imediatamente estuprada
por uns cinco caras?”. A destinatária desse comentário então escreveu sobre isso
no seu blog, e o blog e o episódio ganharam bastante atenção naquele momento.
O episódio já pertence a outra época, graças ao que, desde então, veio a acontecer
com o feminismo e a comédia.
As piadas sobre estupro não são engraçadas segundo o axioma de que elas se
dão às custas da vítima. A insistência de que são engraçadíssimas vem da parte
dos piadistas e dos fãs dessas piadas.

* * *

Aconteceu uma coisa horrível com você, hahahaha! Eu ia violentar e humilhar


uma mulher e negar a humanidade dela, quaquaquaquá! Pra mim, é engraçado, e
você, o que me importa?
Sam Morril, que sem dúvida estava no palco e a quem imagino que devo
chamar de comediante, contava o seguinte tipo de piada: “Minha ex-namorada
nunca me fez usar camisinha. Era demais! Ela usava pílula”. Pausa. “Pílula para
dormir.” O sexo com vítimas desacordadas é uma coisa tão absolutamente
engraçada que o comediante mais celebrado dos Estados Unidos procedera assim
durante décadas, segundo alegavam, mas em 2012 ainda não estávamos falando
sobre Bill Cosby.
Quando o debate começou, as pessoas traçaram uma distinção entre escrachar
(gozar do mais fraco) e criticar (os privilegiados, o statu quo, talvez até
desferindo ataques contra o império). A piada sobre estupros, como existia na
época, era só escracho. Louis C.K., que na época tinha umas piadas sobre estupro
nojentas, comentou que o episódio envolvendo Tosh fazia parte de uma “luta
[maior] entre comediantes e feministas, que são inimigos naturais. Pois, em
termos de estereótipos, as feministas não aceitam piadas”. (Ou talvez eles não
achassem as feministas engraçadas porque elas estavam rindo era deles.)
Um tempo depois, ele disse que é preciso coragem para um homem convidar
uma mulher para sair e para uma mulher sair com ele. Pois “como é que as
mulheres ainda saem com os caras, quando se leva em conta que não existe
maior ameaça às mulheres do que os homens? Somos a ameaça número um para
as mulheres! (Em 2017, ele foi tido como uma ameaça, ou, no mínimo, como um
pervertido que repetidas vezes obrigou mulheres a vê-lo se masturbando.) O que
não tem graça nenhuma, a não ser a graça de dizer verdades transgressoras e
chocantes. Ou pelo menos rimos ao ouvi-las, por surpresa, incômodo ou
identificação. O humor e a transgressão são inseparáveis, mas existem inúmeras
formas de transgressão — o tipo de piada que as crianças de oito anos adoram
transgride as expectativas convencionais em relação à linguagem, à lógica ou ao
motivo pelo qual a galinha atravessou a rua.
Claro que Margaret Atwood havia apontado a mesma coisa, muito tempo
antes e de modo muito mais incisivo do que Louis C.K., ao dizer: “Os homens
têm medo de que as mulheres riam deles. As mulheres têm medo de que os
homens as matem”. Homens sem senso de humor talvez constituam os
subgrupos que alimentam o movimento dos direitos dos homens, o GamerGate e
as demais reações misóginas. Não acredito em revanche, mas estamos num
momento em que daria para lamentar que os homens não são engraçados.
Mulheres engraçadas — Amy Poehler, Tina Fey, Cameron Esposito, Margaret
Cho, Sarah Silverman — têm alcançado destaque cada vez maior nos últimos
anos, mas foi um homem que deu o golpe de misericórdia na comédia patriarcal.
Hannibal Buress questionou Bill Cosby. Finalmente era o momento certo de
depor “o paizão da América” — que um tabloide renomeou em 2015, na matéria
de capa, como “o estuprador da América”.
Depois que Buress abriu a porteira, foi a hora de cair em cima de Cosby. Nos
Golden Globes de janeiro, Fey e Poehler fizeram Cosby em pedacinhos.
Referindo-se a Caminhos da floresta [Into the Woods], o filme soturno baseado
em conto de fadas, Poehler comentou: “e a Bela Adormecida achava que estava
apenas tomando um café com Bill Cosby”. Fey então fez uma paródia de Cosby,
com a voz excitada e afetada, enquanto aludia às acusações de drogar suas
vítimas. “Pus as pílulas nas pessoas. As pessoas não queriam as pílulas.” Poehler
se juntou às zombarias e as câmeras deram uma panorâmica na plateia, onde
algumas celebridades pareciam achar graça nas piadas antiestupro e outras
pareciam estupefatas.
E Cosby caiu porque, na onda da porteira aberta por Buress, seguiram-se
depoimentos de vítimas e matérias de jornalistas sérios. Mais para o final de
janeiro, o grande tio-avô da comédia, Jay Leno, comentou: “Não sei por que é tão
difícil acreditar nas mulheres. Na Arábia Saudita, é preciso que duas mulheres
testemunhem contra um homem. Aqui você precisa de 25”. Há uma ironia
especial quando um comediante famoso se torna alvo de piadas. Marca o
surgimento da comédia feminina no mainstream e o enfraquecimento da cultura
do estupro. Não há troca de guarda mais clara do que essa.
Bill Cosby sobreviveu tanto tempo à sua alegada orgia de crimes graças a uma
cultura em que as mulheres tinham pouca voz e nenhuma credibilidade, e suas
denúncias de terem sido estupradas por ele levavam apenas a mais ataques, à
preservação da sua impunidade, à desigualdade de poder. Ele perdeu essa
impunidade e grande parte desse poder, e o número de 26 de julho da revista
New York, em que 35 das 46 vítimas que haviam se apresentado até a data para
falar e mostrar a cara, foi basicamente a sua sepultura. As histórias delas o
enterraram. E exumaram a si mesmas do silêncio da tumba.
O show de Amy Schumer na Comedy Central apresentou uma ou duas
esquetes sobre Cosby — em uma delas ela é sua advogada de defesa tentando
convencer os jurados que eles gostam mais do “paizão da América”, do pudim e
tudo mais do que da verdade e da justiça. Ela mostra como as pessoas se negam a
abandonar algo que lhes agrada e se recusam a olhar algo que lhes causa
incômodo. O quadro termina com uma virada: um Cosby nos bastidores envia a
Schumer uma bebida como agradecimento; ela olha o copo consternada e então
o atira por cima do ombro. Ela está sabendo.
Mas o grande marco, o grande épico, a Ilíada de todas as piadas de estupro
gozando dos estupradores é, sem dúvida, o “Football Town Nights” de Inside
Amy Schumer, uma paródia de Friday Night Lights (o programa de tevê sobre o
futebol americano das escolas secundárias no Texas) e paródia ainda mais
sarcástica da lógica da cultura do estupro. A esquete de final de abril apresenta
um novo técnico tentando ensinar os garotos a não estuprar, para a franca
incompreensão deles e a indignação da comunidade. Schumer faz o papel da sua
boa esposa, que, silenciosamente, surge trazendo ao técnico copos cada vez
maiores de vinho branco à medida que as coisas vão de mal a pior no novo
emprego.
No começo, o time no vestiário tenta encontrar brechas na regra “sem
estupros” do treinador. “Podemos estuprar em partidas fora daqui?” Não. “E se
for Halloween e ela estiver vestida de gata sexy?” Não. “E se ela acha que é
estupro, e eu não?” Não. “E se minha mãe for a promotora distrital e não abrir
processo, posso estuprar?” “Se a garota concordou no outro dia, mas era sobre
outra coisa?” “E se a garota concorda e aí, de uma hora para a outra, muda de
ideia feito uma louca?”
Os argumentos dos secundaristas são exatamente o tipo de lógica e ilógica que
se vê nos campi das universidades e também nas caixas de comentários: a recusa
em reconhecer os limites dos direitos dos homens ou a existência dos direitos das
mulheres. Depois desse quadro vem uma cena excelente, aterradora, quando
aparecem umas senhoras de meia-idade cuspindo no treinador porque ele não
deixa “nossos garotos” praticarem os seus legítimos estupros (relembrando a
verdadeira fúria contra qualquer moça que acusa algum esportista famoso de
estupro e o foco dominante sobre o impacto sofrido pelo agressor e não pela
vítima).8 A esquete inteira é uma piada de estupro engraçada mostrando como os
potenciais estupradores são uns babacas irracionais que inventam qualquer
desculpa e como muitas comunidades dão apoio a alguns desses babacas — em
suma, não é sobre o estupro (não há nenhum estupro no quadro), mas sobre a
cultura do estupro. O jogo virou. O feminismo não ganhou e a guerra para que
os direitos humanos básicos de todos sejam respeitados não terminou, mas agora
estamos numa temporada vencedora. E às vezes até que é engraçado, além de
mortalmente sério.

Pós-escrito: Depois que escrevi este texto, Schumer tem errado muito a mão
quanto à questão racial nos seus quadros e declarações. A sua posição e os seus
roteiros são falhos, e às vezes ela defende as necessidades emocionais de jovens
brancas heterossexuais em vez de mostrar como uma revolução poderia
transformar o que significa ser mulher, ser muitos tipos de mulheres. Mas criou
uma ou duas obras-primas.

8. A revista satírica Onion publicou essa manchete em 2011: “Astro do basquete universitário supera
heroicamente o trágico estupro que cometeu”.
PARTE II
ROMPE-SE A HISTÓRIA
Fuga do bairro de 5 milhões de anos
(2015)

Nas conversas sobre quem somos, quem fomos e quem podemos ser, mais
cedo ou mais tarde alguém conta uma história sobre o Homem, o Caçador. A
história não é só sobre o Homem, mas também sobre a Mulher e a Criança. As
variantes são incontáveis, mas todas dizem algo assim: nos tempos primordiais,
os homens saíam, caçavam e traziam comida para casa, para alimentar as
mulheres e as crianças, que ficavam ali sentadas, dependendo deles. Em muitas
versões, a história se situa em unidades nucleares, em que os homens provêm
apenas à própria família e as mulheres não têm nenhum núcleo comunitário
próprio para ajudá-las com os filhos. Em todas as versões, as mulheres são fardos
que procriam.
Embora trate de sociedades humanas de 200 mil ou 5 milhões de anos atrás, a
história em si não é tão antiga. Seja qual for sua origem, ela parece ter alcançado
o auge da sua popularidade apenas em meados do século passado. Eis um trecho
de uma das versões mais conhecidas dos anos 1960, O macaco nu, de Desmond
Morris:
Devido ao período de dependência extremamente longo da prole e a suas grandes exigências, as fêmeas
se viam quase sempre confinadas à base doméstica […]. Os grupos de caça, ao contrário dos grupos dos
carnívoros “puros”, tiveram de se tornar totalmente masculinos […]. Um primata viril sair numa
excursão alimentar e deixar suas fêmeas desprotegidas contra os avanços de outros machos que
pudessem aparecer era algo inédito […]. A resposta foi o desenvolvimento de uma união monogâmica.

Essa narrativa, em outras palavras, procura remontar às origens da nossa


espécie os arranjos socioeconômicos dominantes da classe média no final dos
anos 1950 e começo dos anos 1960. É, a meu ver, a história do bairro de 5
milhões de anos. Os machos proto-humanos saem — todos eles, já que, pelo
visto, nenhum é velho nem doente, nem fica por ali falando sobre o maravilhoso
antílope que pegaram na semana passada. Saem todos os dias, o dia todo,
levando suas lanças e zarabatanas para trabalhar e bater o relógio de ponto
primordial. As fêmeas ficam em volta do fogo com as crianças, esperando os
homens trazerem o bacon. O homem alimenta a mulher. A mulher propaga os
genes do homem. Inúmeras dessas histórias, como depois apontaram
antropólogas mulheres, estão preocupadas com a fidelidade feminina e o poder
masculino. Elas acalmam essas preocupações explicando por que as fêmeas são
fiéis e os machos poderosos: a fidelidade é trocada por um pedaço de carne.
Em 1966, chegou a haver uma conferência na Universidade de Chicago
intitulada “Homem, o Caçador”, que resultou num livro de mesmo nome. Numa
busca da versão on-line do livro, no Google, a palavra “mulher” aparece pela
primeira vez à página 74, na seguinte frase: “Os membros que não se movem são
pessoas com menos capacidade física ou idosos, mulheres e crianças”. A palavra
“coletor” é igualmente rara, embora o livro pretenda tratar de coletores-
caçadores. Tudo isso seria mera curiosidade histórica se as histórias não
colassem. O pessoal do mainstream até as alas misóginas atuais alardeia essas
coisas como fatos, mostrando como éramos e, com extrema frequência, como
ainda somos.
Vim a aprender algumas coisas sobre essa estranha fantasia da biologia
evolucionista no final dos anos 1990, quando escrevia um livro sobre a história
da caminhada. Topei com a obra do anatomista C. Owen Lovejoy, que por mais
de uma década vinha escrevendo sobre a evolução do andar humano em
periódicos acadêmicos. Ele apresentava uma versão da lenda de Morris sobre a
união monogâmica com maior complexidade técnica: “O bipedalismo apareceu
nesse novo esquema reprodutivo porque, ao liberar as mãos, permitia que o
macho transportasse o alimento coletado longe do seu par”. Essa coisa de andar
nos dois pés e essa coisa de usar a mão eram para os homens. As mulheres
ficavam em casa, dependentes.
Um ensaio citadíssimo de Lovejoy, “The Origin of Man” [A origem do
Homem], publicado em 1981, tem de fato uma seção chamada “A família
nuclear”, em que ele postula que Homem, o Caçador — que é mais monogâmico
do que o caçador de Morris com “suas fêmeas” — levava comida para casa para
sua fiel companheira e prole, e não para todo o grupo. Isso parece meio estranho,
quando se está falando de um animal de grande porte abatido numa época
quente ou de qualquer coisa caçada na companhia de amigos. Não seria mais
provável dividir a presa e talvez fazer um banquete coletivo? Em todo caso, o
argumento de Lovejoy é que os homens proviam e as mulheres esperavam. Ele
discorre sobre o “índice de mobilidade reduzida das fêmeas”. Em resumo: “A
família nuclear e o comportamento sexual humano podem ter suas primeiras
origens muito antes do início do Plistoceno”.
Existem amplas indicações que contradizem a história do Homem, o Caçador.
Nos anos 1950, Elizabeth Marshall Thomas morou com o povo do Kalahári,
também chamado de san. Considera-se que eles mantiveram, até data recente,
um modo de vida mais antigo do que praticamente qualquer outro povo na face
da Terra. A alegação de Morris sobre “o período de dependência extremamente
longo da prole”, que mantinha as fêmeas “quase sempre confinadas à base
doméstica”, é manifestamente inverídica no caso dos san, como Thomas pôde
ver.
O grupo inteiro se deslocava regularmente, e as famílias também podiam se
deslocar independentemente do grupo. As mulheres que Thomas conheceu
saíam e coletavam alimentos quase todos os dias. As crianças que já estavam
grandes demais para ser carregadas, mas ainda eram pequenas para acompanhar
o passo, costumavam ficar aos cuidados de alguém que permanecia no
acampamento, enquanto as mães vagueavam em busca de comida. Thomas deixa
claro que a caça e a coleta não são atividades totalmente separadas e fala em
“presas lentas — tartarugas, cobras, caracóis e filhotes de aves que muitas vezes
são encontrados pelas pessoas que estão coletando”.
Não só os homens não eram os provedores exclusivos de alimento, como
tampouco eram os provedores exclusivos de carne. Isso não significa que não
levassem carne para casa ou que não tivessem sua importância. Significa apenas
que todos levavam comida para casa, mesmo as crianças. Isso era fundamental.
Thomas menciona um caçador excepcional, um atleta que conseguia alcançar
um antílope na corrida. Um dia, ele matou três animais de grande porte. Ficou
tomando conta das carcaças enquanto a esposa e a mãe iam chamar outros para
ajudar a transportar a carne até o acampamento. Era realmente um grande
caçador, mas dependia de mulheres de grande mobilidade e da comunidade
estendida para ajudar com a presa. Thomas observa que “a carne unia as pessoas.
Uma revigorante refeição de carne se destinava a todos”. Os san não caçavam
como chefes de famílias nucleares seguindo um modo de vida individualista;
caçavam como integrantes de uma comunidade.
Os inuits também dividiam a carne, segundo Peter Freuchen, escritor e
explorador que passou décadas vivendo entre eles no começo do século XX. Ele
conta que uma vez sua esposa inuit escarneceu vivamente de uma mulher que foi
muito avara na hora de partilhar uma foca abatida por seu marido. A partilha era
regra de sobrevivência e também de etiqueta. Mesmo entre os inuits, um dos
povos mais carnívoros do mundo, às vezes as mulheres acompanhavam os
homens nas longas expedições de caça, pois os caçadores podiam morrer
congelados nas temperaturas abaixo de zero caso suas roupas sofressem algum
dano. As mulheres cuidavam da comida, das roupas e do abrigo.
As histórias usuais sobre a independência masculina, do tipo “era bem assim”,
também distorcem a dinâmica familiar dos agricultores sedentários e dos
trabalhadores artesãos, industriais e do setor terciário. Os agricultores em sua
maioria trabalhavam em casa — uma casa em acepção ampla, incluindo os
campos e os pomares — e as famílias muitas vezes trabalhavam junto com eles.
As mulheres e os filhos dos artesãos frequentemente participavam do trabalho de
várias formas. Durante a Revolução Industrial, as mulheres e as crianças das
classes operárias trabalhavam arduamente em fábricas e estabelecimentos
escravizantes, como fazem hoje nas fábricas da Guatemala, da China e de
Bangladesh.
Todos contribuem. Você pode dizer que as mulheres são dependentes, mas
apenas se se dispuser a dizer que os homens também o são. A dependência não é
um bom critério; interdependência seria melhor. As mulheres, na maioria, não
foram e continuam não sendo inúteis e dependentes. As histórias sobre o
Homem, o Caçador que carregam essa ideia de que os homens dão e as mulheres
tomam, de que os homens trabalham e as mulheres são ociosas, não passam de
justificativas de posições políticas atuais. Um exemplar perfeito do fanfarrão dos
direitos dos homens escreveu nas redes sociais, no começo deste ano, que as
mulheres simplesmente nunca evoluíram:
porque as mulheres nunca trabalharam. […] E agora terminamos com essa cloaca cancerosa de
degeneração feminina com que todos nós sofremos, entra dia, sai dia. Temos de largar as mulheres no
mundo totalmente sozinhas, sem ajuda, e deixar que morram ou sobrevivam sem nenhuma espécie de
ajuda ou interferência, para que então possam nos alcançar na evolução e atingir também o estágio de
ser humano.

Sua fúria se baseia numa invenção, que seria ridícula se não fosse a forma
extrema de uma crença amplamente compartilhada, que pinta um retrato muito
triste da espécie humana, com homens e mulheres ocupando papéis fixos e
alienados.
Há uma contradição interessante embutida nesse retrato: ele sugere, por um
lado, que as mulheres nunca trabalharam e, por outro lado, que gerar e criar os
filhos era uma tarefa tão assoberbante que as mulheres ficavam presas em casa —
ou em cavernas ou em árvores. É como se todas as mulheres tivessem
literalmente as mãos cheias de bebês o tempo inteiro, como Madonas nas
pinturas, enquanto o mais provável é que as mulheres que realmente viravam
mães passavam um período concentrado com as crianças de colo e dando os
primeiros passos, mas não para sempre, e que levavam uma vida ativa antes,
depois e muito possivelmente durante essa fase da maternidade.
As histórias que promovem a ideia da família nuclear patriarcal têm pouco a
ver com o que as mulheres realmente fizeram ao longo da maior parte da história
ou da pré-história. Sugerem que a condição humana sempre foi parecida com o
que se esperava que as mulheres de classe média, casadas e do lar fizessem no
século XX. Mesmo Hannah Arendt descreve a condição feminina como algo que
não ia muito além da procriação. Ela estava falando das características da Atenas
clássica, onde as mulheres de recursos, as esposas e filhas dos cidadãos viviam
basicamente confinadas em casa, o que restringia sua produtividade e
participação. Não que os homens atenienses estivessem necessariamente
produzindo muito; o alimento vinha do campo e de colônias distantes, e a maior
parte do trabalho manual era realizada por escravos e camponeses. Isso significa
que as mulheres atenienses continuavam a gerar filhos, enquanto os homens da
cidade descontinuavam a gerar alimento. Apesar disso, Arendt escreve em A
condição humana: “Era evidente que a preservação individual devia ser tarefa do
homem e a sobrevivência da espécie tarefa da mulher, e essas duas funções
naturais, o trabalho do homem em prover alimento e o trabalho da mulher em
procriar, estavam submetidas à mesma premência vital”.
Pelo visto, Arendt não conseguiu resistir à simetria entre “o trabalho do
homem” e “o trabalho da mulher”.*9 Mas devemos resistir. Durante a maior parte
da história, o trabalho doméstico foi muito mais árduo do que agora. Consistia
em cavar e carregar carvão ou cortar lenha, alimentar o fogo, bombear água,
esvaziar urinóis, lavar tudo a mão, criar e matar animais, fazer pão, fiar lã e
algodão, fazer tecidos e roupas, e muitas coisas mais partindo do zero. Mas
geralmente eram casadas com homens de posses, que viviam no ócio. E o ócio
era possível não por causa dos companheiros de caçada, e sim por causa da
criadagem, também constituída em boa parte por mulheres.
Seja como for, o ócio não era a condição humana primordial nem é a condição
da maioria das mulheres no mundo atual. Durante um curto período no mundo
ocidental, a industrialização facilitou a administração do lar e muitas mulheres
de classe média não faziam parte da economia assalariada. Pode-se considerar
algumas dessas mulheres como consumidoras improdutivas, desde que se
desconte o trabalho envolvido em criar os filhos, cuidar da casa e atender ao
marido que trabalha fora. Esse período se estendeu por várias décadas, mas não
começou 5 milhões de anos atrás e definhou quando a redução salarial enviou
um número muito maior de mulheres para o mercado de trabalho.
Neste momento, as mulheres constituem 47% dos assalariados nos Estados
Unidos; 74% dessas mulheres trabalham em tempo integral. Em grande parte do
mundo industrializado, os números são semelhantes ou mais altos. Em outros
lugares, há mulheres plantando comida, carregando água e lenha, cuidando da
criação animal, batendo raiz de mandioca, pilando cereais a mão.
O patriarcado — significando tanto a dominação masculina como as
sociedades obcecadas com a sucessão patrilinear, que exige um controle rigoroso
sobre a sexualidade feminina — tem criado, em muitos tempos e lugares
distintos, diversas versões de mulheres dependentes e improdutivas, que ficam
incapacitadas pela alteração do corpo ou das roupas, restritas ao lar, com acesso
limitado ao ensino, ao emprego e à profissionalização por leis e costumes
respaldados por ameaças de violência. Alguns misóginos reclamam que as
mulheres são fardos imóveis, mas em grande parte foi a misoginia que levou as
mulheres a serem assim.
Antropólogos e antropólogas antiautoritários e feministas vêm tentando
inverter algumas dessas histórias. Em 1972, Elaine Morgan contrapôs aos
argumentos da tropa que defende o Homem, O Caçador um livro chamado The
Descent of Woman [A descendência da mulher]; em 1981, Sarah Blaffer Hrdy
escreveu um livro mais sólido em termos científicos, The Woman That Never
Evolved [A mulher que nunca evoluiu], que também apresentava teorias
alternativas. Mesmo Marshal Sahlins, que participou da conferência “Man the
Hunter” e contribuiu para o livro de mesmo nome, em 1972 publicou Stone Age
Economics [A economia da Idade da Pedra], um tratado sustentando que os
coletores-caçadores levavam uma vida de muito tempo livre e alimentos em
abundância.
Mas todas essas histórias têm um pressuposto implícito: estamos fadados a
permanecer como éramos muitíssimo tempo atrás. Por essa lógica, pode-se
argumentar que, como costumávamos comer nossa comida crua, não devíamos
cozinhá-la, ou que essa coisa do bipedalismo nem devia existir, já que
antigamente a gente andava de quatro. Não faz tanto tempo assim, os seres
humanos viviam com dietas quase totalmente vegetarianas em alguns locais
quentes e com dietas quase totalmente carnívoras no ártico.
Somos uma espécie altamente adaptável. Vivemos em cidades, em grupos
nômades, em unidades nucleares; somos polígamos, poliândricos, praticamos
monogamia em série ou fazemos voto de celibato; casamos com pessoas de outro
gênero ou do mesmo gênero, ou não nos casamos nunca; criamos nossos filhos
biológicos, adotamos filhos alheios, somos tias e tios devotados ou detestamos
crianças; trabalhamos em casa, num escritório, como lavradores safristas
itinerantes ou como enfermeiras visitantes; vivemos em sociedades em que o
apartheid por gênero é a norma ou nas quais todos se misturam ou onde a
própria ideia de gênero como coisa binária e oposta está sendo repensada.
Existem elementos dados em nossa biologia e existem padrões
particularmente comuns em nosso passado. Mas não somos necessariamente o
que fomos outrora, e o que fomos outrora não é necessariamente o que dizem as
histórias do tipo “é bem isso”. O presente não é de maneira nenhuma como o
passado recontado por essas histórias “bem isso”, e tampouco o passado era.
Precisamos parar de contar essa história da mulher que ficava em casa, passiva e
dependente, esperando seu homem. Ela não estava ali esperando. Estava
ocupada. Ainda está.

9. Na simetria apontada há um trocadilho: “the labor of man” e “the labor of the woman”, visto que “labor”
também significa “parto”, como se os homens trabalhassem e as mulheres apenas dessem à luz. (N. T.)
Os pombais quando as pombas saem

De vez em quando percebo que, na verdade, é impossível dizer qualquer coisa.


As palavras são categorias gerais que amontoam coisas diferentes em aspectos
importantes; azul são mil cores e cavalo é puro-sangue, é pônei, é brinquedo;
amor significa tudo e nada; a linguagem é uma série de generalizações que
traçam figuras incompletas que não transmitem absolutamente nada. Usar a
linguagem é entrar no território das categorias, que são necessárias e igualmente
perigosas.
As categorias transbordam. Eu ia escrever que todas as categorias
transbordam, mas certamente é possível dizer coisas sobre os números primos
ou as estrelas que são verdadeiras sem exceção. Todos os ratos-almiscarados são
mamíferos e todos os presidentes americanos até o momento foram homens,
mas muitas outras categorias são complexas, contendo uma verdade, mas
também contradições e exceções a essa verdade. Mesmo a categoria homens
agora é aberta a questionamentos, pelo menos quando contemplamos nossos 45
presidentes até essa data.
Alguém me disse outro dia que todos os judeus apoiam Israel. Quando objetei,
o sujeito me perguntou se eu tinha estado em Nova York ultimamente, certo de
que esta seria uma prova contundente do seu argumento. Respondi que sim, e
que acabava de concluir um livro sobre a cidade. Um dos mapas do livro trata
dos judeus ou, melhor, como a categoria judeu contém pessoas de todas as
espécies que mais ou menos se anulam mutuamente — sionistas e antissionistas,
gângsters e humanitários, Harpo Marx e Sandy Koufax, Hannah Arendt, Bernie
Madoff e Elena Kagan; o subtítulo do mapa é “De Emma Goldman a Goldman
Sachs”, caso alguém não notasse as contradições dentro da categoria. Meu
interlocutor estava tomado pela ideia de que os judeus são uma massa
homogênea com uma única mente, como uma gelatina ou uma pasta de lama
sencientes.
A palavra “discriminação” significa duas coisas contraditórias. Em termos de
percepção, discriminar é distinguir claramente, perceber em detalhe; em termos
sociopolíticos, é se recusar a distinguir claramente, falhar em enxergar os
indivíduos e as particularidades, deixando de ver para além da categoria. O
racismo é uma discriminação movida por indiscriminação ou, pelo menos, pelo
categórico. Claro que esta é uma afirmação categórica que encerra seu oposto. As
categorias também são úteis e necessárias ao antirracismo: os corretores de
créditos hipotecários tomavam como alvo os negros, que, assim, perderam uma
porcentagem muito maior do valor líquido de seus imóveis na crise de 2008; as
escolas, como mostram estudos recentes, muitas vezes castigam as crianças
negras com mais severidade. Mas essas são descrições das condições de um
grupo, e não sua essência.
A ideia de que um grupo é uma categoria hermeticamente fechada, cujos
membros têm as mesmas maneiras de pensar, as mesmas convicções e
eventualmente a mesma culpa, é essencial para a discriminação. Leva à punição
coletiva, à ideia de que, se esta mulher o traiu, aquela outra pode ser brutalmente
atacada; se alguns sem-teto cometem crimes, todos os desabrigados podem e
devem ser punidos ou expulsos. O Supremo Tribunal concluiu certa vez que “as
distinções entre cidadãos baseadas exclusivamente nos seus antepassados são,
por sua própria natureza, odiosas a um povo livre cujas instituições se fundam na
doutrina da igualdade. Por essa razão, a classificação ou discriminação legal
baseada apenas na raça tem sido frequentemente considerada uma negação da
proteção igualitária”. Isso se deu no processo de Fred Korematsu, que protestou
contra a iniciativa de prendê-lo e a outros nipo-americanos da Costa Oeste como
ele durante a Segunda Guerra Mundial, mas o tribunal manteve a prisão apesar
dessas belas palavras. Desde então, a discriminação vem se tornando cada vez
mais ilegal, mas os hábitos mentais não são regulados pela lei.
As narrativas antirracistas também podem ser indiscriminadas. Alguns
gostam de afirmar que a 19a Emenda não deu o direito de voto a todas as
mulheres, porque muitas (mas não todas) negras — e negros — do Sul não
receberam o direito de voto até os anos 1960, embora as mulheres de algumas
partes do Norte do país tenham recebido o direito de voto antes da 19a Emenda.
Por exemplo, as negras estavam votando em Chicago em 1913, enquanto
Wyoming concedeu o direito de voto às mulheres em 1869 (e, numa anomalia
ainda maior, as mulheres com bens, presumivelmente brancas, tiveram direito de
voto em Nova Jersey desde 1807).
Tecnicamente, a 19a Emenda reconhecia o direito de voto a todas as mulheres
adultas cidadãs ou, melhor dizendo, estabelecia que ele não podia ser negado a
ninguém “por causa do sexo”; é mais exato dizer que esse direito era negado em
alguns lugares — e notar que os indígenas americanos que conservavam suas
identidades tribais só vieram a receber o direito de voto com a Lei da Cidadania
Indígena de 1924. Essas exceções são suficientes para invalidar a regra? É
importante reconhecer as frestas nessas categorias? Como filtrar quem obteve o
direito de voto em 1920? Qual é a escala de precisão dos crivos de seleção?
Os paleontólogos e os biólogos evolucionistas às vezes são classificados como
agregadores ou divisores — dentro de categorias de acordo com o modo como
analisam as evidências de sermos uma única espécie com grandes variações ou
como espécies distintas e separadas. Para os paleontólogos, são poucos os
materiais primários com que têm de trabalhar. Por vezes são refutados ou
reforçados por indicações materiais posteriores: mesmo os estudos cuidadosos
podem resultar em questões insolúveis ou em interpretações controversas. Mas
os juízos que tecemos mutuamente são, amiúde, formulados sem consultar
indícios e provas. As categorias se tornam, para algumas pessoas, sistemas de
contenção. É muito habitual juntar num pacote só o que somos e o que fazemos,
simplesmente desconsiderando o conjunto. Todos os judeus apoiam Israel.
Todos os muçulmanos são jihads. Todas as lésbicas odeiam homens. Põe-se o
mundo inteiro no mesmo saco, e pode-se parar de pensar.
A discriminação indiscriminada também leva a ideias de punição coletiva:
quando se enxerga o outro como um organismo único — muçulmanos, judeus,
negros, mulheres, gays, desabrigados, vagabundos —, pode-se atacar qualquer
parte desse organismo. Foi o que Dylann Storm Roof, o assassino naquela igreja
de Charleston, na Carolina do Sul, quis dizer quando atirou em nove homens e
mulheres em 2015 e explicou que os negros estavam estuprando “nossas
mulheres”, sem tomar a situação como um quadro em que brancos — ele mesmo,
em particular, naquele momento — estavam matando negros e negras.
Qualquer mulher individual é capaz de ser tratada como um referendo
ambulante sobre as mulheres — somos todas emotivas, intrigantes, ruins em
matemática? —, enquanto os homens estão relativamente livres desse tipo de
categorização. Não ouvimos muitas generalizações sobre ser branco, e Roof ou
Charles Manson não são considerados uma desgraça para a sua raça ou para o
seu gênero. Ser tratado fora ou além das categorias pode ser uma espécie de
privilégio, com status mais de indivíduo do que de espécie. É poder definir a si
mesmo e ter espaço para isso. E sem dúvida a recusa de enxergar padrões é uma
parte importante do discurso ou da ausência de discurso na nossa sociedade, em
que todos os tiroteios em série são anomalias chocantes, mesmo quando eles
agora se repetem de poucos em poucos dias.
Estar livre da discriminação é poder ser um indivíduo avaliado de acordo com
seus próprios méritos. Mas torna-se uma forma de liberdade que permite que
dados importantes escapem por entre as frestas. Por exemplo, a coisa que, até
data muito recente, quase nunca se comentava a respeito dos tiroteios em série
modernos é que quase todos eles foram cometidos por homens, e que esses
homens eram, na sua maioria, brancos. Pelo contrário, tais episódios costumam
ser apresentados ou como coisas tremendamente surpreendentes e misteriosas
ou como decorrência de doenças mentais e outras especificidades que fazem de
cada tiroteio uma ocorrência singular, como um floco de neve.
Exceto quando são cometidos por pessoas de origens islâmicas, e nesses casos
os tiroteios são chamados de terrorismo e tomados como manifestos políticos
associados a movimentos políticos — embora no caso de Omar Mateen, nascido
nos Estados Unidos, que matou mais de cinquenta pessoas numa boate queer em
Orlando, neste mês de junho, fosse apenas um anseio ou um pretexto numa vida
infeliz, em que a idealização da violência e a incapacidade de se relacionar são
parecidas com as da maioria dos outros assassinos em série que geramos aqui no
país.
Não temos sequer um termo, e menos ainda um debate sobre o tipo mais
comum de homicídio em massa, que poderíamos chamar de familicídio, o
homem ensandecido que mata não só a esposa, foco principal da sua fúria, mas
também os filhos e outros membros da família, às vezes colegas de trabalho ou
circunstantes, e às vezes a si mesmo. A falta de uma categoria significa ausência
de termos para descrever um fenômeno comum e, assim, reconhecer os seus
parâmetros e a sua grande frequência. Se as categorias abarcam, este é um
fenômeno que extrapola a categorização.
Se houvesse uma epidemia de tiroteios em série cometidos por, digamos,
indígenas americanos ou por lésbicas, as características físicas dos atiradores
seriam notadas, apareceriam sarcasmos exaltados, provavelmente alguém
sugeriria prender ou excluir a categoria inteira. “Um fato de vida ou morte cada
vez mais horrendo nos Estados Unidos é que o fácil acesso a armas de fogo
oferece a americanos perturbados o poder de materializar suas insatisfações em
público”, escreveu o editorial do New York Times após um massacre desses, como
se não fosse possível estreitar melhor as probabilidades sobre a autoria desses
atentados, para além dessa coisa da cidadania. Gostaria que isso fosse feito não
como acusação, mas como diagnóstico capaz de levar a algum tipo de
tratamento; se se reconhece que as mulheres são muito mais imunes ao desejo de
massacrar e, no geral, são menos violentas (com algumas bombásticas exceções,
claro), talvez fosse possível apontar com mais precisão as causas da violência
extrema. Ou pelo menos mostrar quem é assustador.
Em contraste, alguns aproveitam qualquer crime cometido por uma pessoa
negra para criminalizar todos os negros. O surgimento da organização Black
Lives Matter veio acompanhado pela pressão embaraçosa de brancos exigindo
que cada pessoa negra explicasse ou se desculpasse pelos distúrbios turbulentos
em Ferguson ou Baltimore ou por outros incidentes parecidos, como se cada
pessoa negra que vissem fosse responsável por toda a população negra. Não é
possível ser racista sem uma fé acrítica em categorias.

Não ver categorias também pode ser uma forma de percepção. Um mestre
taoista contava uma história que ouvi quando era muito jovem e ainda volto a
ela: o duque Mu de Chin manda um sábio encontrar um cavalo que seja
excepcional. O homem retorna com o que ele descreve como uma égua baia, mas
o animal é um garanhão negro — e excepcional, conforme o solicitado. Um
amigo do comprador do cavalo comenta: “Concentrado nas qualidades internas,
ele perde de vista as externas… Ele olha as coisas que deve olhar e deixa de lado
as que não precisam ser olhadas”. Não vendo a superfície, o sábio vê a
profundeza. Num dia de São Patrício, quando minha mãe irlando-americana já
estava no estágio do Alzheimer em que o cérebro não processava de forma
confiável o que via, ela perguntou a um negro se ele também era irlandês. Ele
ficou encantado, pois de fato era em parte irlandês, mas as pessoas raramente
pensam em perguntar sobre os antepassados europeus de uma pessoa de pele
escura.
Isso é diferente de imaginar que podemos ser cegos à cor da pele numa
sociedade em que ela afeta nossa posição social, nossa experiência de vida, nossas
oportunidades e nossas chances de sermos alvos da polícia. Na verdade, o que
estou defendendo é a possibilidade de uma arte de usar e não usar categorias, de
sermos hábeis, maleáveis e imaginativos ou, talvez, estarmos apenas bem
despertos na maneira de imaginar e descrever o mundo e nossas vivências nele.
Nem muito apertado, nem muito frouxo, como disse um mestre zen certa vez. As
categorias são necessárias para a fala, principalmente para a fala social e política,
em que tratamos de tendências gerais. São fundamentais para a linguagem; se a
linguagem é feita de categorias — chuva, sonhos, prisões —, então a fala é uma
questão de aprender a reger a orquestra de palavras e levá-la a algo preciso e até
belo, talvez. Ou, pelo menos, a descrever bem nosso mundo e tratar os outros
com imparcialidade.
Uma parte dessa arte consiste em aprender a reconhecer exceções. Um médico
que conheço cita um aforismo apropriado que aprendeu durante a sua
residência. Era algo mais ou menos assim: “Quando vê marcas de cascos, você
pensa num cavalo, mas às vezes é uma zebra”. Ou seja, os sintomas conhecidos
costumam indicar a doença conhecida, mas às vezes apontam algo
completamente diferente. Uma categoria é um conjunto de pressupostos; o
aforismo nos relembra que às vezes nossos pressupostos estão errados e que o
particular nem sempre se enquadra no geral. Mas o fato ocasional de ser uma
zebra não invalida o padrão de serem usualmente cavalos.

Alguns dos debates mais acalorados da nossa época ocorrem quando os lados
opostos insistem que tudo numa determinada categoria corresponde apenas à
sua própria versão do fenômeno. Em debates recentes sobre a prostituição, uma
das posições mais dogmáticas insiste que as prostitutas — pelo visto, todas as
prostitutas — são agentes livres cujas escolhas de estilo de vida e profissão devem
ser respeitadas e deixadas em paz. Conheci algumas profissionais do sexo
brancas e de classe média. Conservavam o controle sobre o que e com quem
faziam, além de terem a opção de largar a atividade quando deixasse de ser o que
queriam fazer.
É claro que essa experiência de ser profissional do sexo por iniciativa própria
existe. Existe também o tráfico sexual, existe o encaminhamento forçado de
crianças, imigrantes e outras categorias de pessoas social e economicamente
vulneráveis à prostituição. A prostituição não é uma categoria de pessoas livres
ou escravizadas, e sim de ambas. E sem dúvida há áreas cinzentas entre as duas.
Como se pode sequer falar e menos ainda propor a regulamentação de uma
categoria tão repleta de contradições internas? Talvez seja um problema de
linguagem, como em tantas outras coisas, e precisamos de termos diferentes para
falar de categorias diferentes de pessoas que fazem sexo por dinheiro.
Em 2014, quando as mulheres queriam falar sobre violência sexual, muitas
vezes eram confrontadas por homens que queriam se concentrar no fato de que
nem todos os homens são estupradores. Esse subconjunto de homens até criou
uma hashtag, #notallmen, como se a questão central fossem eles, com sua
reputação e suas comodidades, e não esse flagelo sobre a Terra. É um problema
de lógica e linguagem: os estupradores estão longe, muito longe de abranger
todos os homens; imaginávamos que todos entendiam isso, mas praticamente
todos os estupradores são homens, e assim tem sua utilidade poder dizer que
homens estupram (e homens e garotos também são estuprados, mas muito
menos do que mulheres e meninas).
Segundo a excelente história do estupro Asking for It [Pedindo por isso], de
Kate Harding, 98% dos estupradores são homens. Há exceções. Um aluno de
uma faculdade da Ivy League quis saber por que eu insistia em falar sobre gênero
quando falava sobre estupro. Outro aluno de lá comentou que minhas ideias de
gênero eram “muito binárias”. Falo binariamente sobre o gênero porque é com
essa base binária que as pessoas costumam operar. O estupro é, entre outras
coisas, um rito de afirmação dessas categorias de quem tem e de quem não tem
direitos, e muitas vezes é um ato de hostilidade contra um gênero. Nenhum dos
estupradores das repúblicas masculinas e das irmandades universitárias parece
interessado em olhar além do gênero, embora talvez isso fosse essencial para
acabar com a cultura do estupro. Ou seja, possibilitar que se veja uma categoria
comum de humanidade que ultrapassa categorias separadas de órgãos genitais e
papéis de gênero.
O fato de imaginarmos os dois gêneros principais como opostos ou em
oposição fecha as categorias e as maneiras como se definem mutuamente. A ideia
de que o gênero é um falso binário tem a sua utilidade, mas o gênero também
tem a sua inegável utilidade para falarmos sobre quem faz e tem feito o que a
quem, ao longo das eras. Se, por exemplo, não fôssemos capazes de notar que
todos os nossos presidentes até agora foram homens, não poderíamos sugerir
que em algum momento é preciso corrigir essa situação. Homens e mulheres,
masculino e feminino: é assim que as pessoas têm organizado grande parte do seu
pensamento social desde muito tempo. “Homem e mulher Ele os criou”, diz o
Antigo Testamento, e vale lembrar que as firmes convicções bíblicas sobre o que
são os homens e as mulheres ainda nos acompanham, caso você não esteja a par
dos recentes debates cristãos conservadores sobre o casamento.
Temos de falar e, ao falar, temos de usar categorias como negro e branco,
masculino e feminino. Também precisamos entender os limites dessas categorias,
as suas fendas e porosidades, e que masculino e feminino são adjetivos de negro e
branco e vice-versa. As exceções às categorias são importantes, tanto os
indivíduos que nasceram com anomalias anatômicas como os que têm uma
relação anômala com a sua anatomia e cuja identidade é decorrente disso. A
Sociedade Intersexo da América do Norte observa: “Se perguntamos a
especialistas dos centros médicos com que frequência nasce uma criança com
características tão perceptivelmente atípicas nos órgãos genitais que precisam
chamar um especialista em diferenciação dos sexos, o número apresentado varia
entre um em 1500 e um em 2 mil nascimentos. Mas há uma quantidade muito
maior de pessoas que nascem com formas mais sutis de variações na anatomia
sexual, algumas das quais só aparecerão mais tarde na vida”. Quanto a estas,
calculam uma incidência de um em cem. Isso significa que há nos Estados
Unidos milhões de pessoas que não correspondem inteiramente, nem mesmo em
termos biológicos, às nossas categorias.
Os autores do texto naquele website defendem a palavra “intersexo” não como
uma categoria, mas sim como um termo que nos permite reconhecer a
porosidade das categorias e que alguns de nós não cabemos nelas:
“Intersexo” é um termo geral usado para uma variedade de condições em que uma pessoa nasce com
uma anatomia sexual ou reprodutora que parece não se enquadrar nas definições típicas de feminino ou
masculino. Por exemplo, pode nascer uma pessoa com aparência externa feminina, mas, internamente,
com predomínio da anatomia masculina típica. Ou pode nascer com órgãos genitais que parecem
intermediários entre os tipos masculino e feminino usuais — por exemplo, uma menina pode nascer
com um clitóris visivelmente grande ou sem abertura vaginal, ou um menino pode nascer com um pênis
notavelmente pequeno ou com um saco escrotal dividido, formado à semelhança de grandes lábios. Ou
pode nascer com uma genética mista, e algumas de suas células têm cromossomos XX e algumas têm
cromossomos XY.

No linguajar contemporâneo, o sexo é biológico e o gênero é socialmente


construído; o primeiro está nas nossas roupas e genes, o segundo na nossa
cabeça. Talvez isso venha a mudar se as pessoas se deixarem tolher menos pelas
atividades e paramentos que acompanham o gênero que lhes é designado: os
jovens estão avançando no processo de desmantelamento desse sistema,
desmantelamento este que queers e feministas vêm empreendendo há décadas,
tanto na identidade quanto no desejo. (Num estudo recente, 46% de jovens entre
dezoito e 24 anos se identificaram como totalmente heterossexuais, 6% como
totalmente queer e quase metade numa posição intermediária.) Alguns não
permitem que o gênero os defina.
Foi em minha cidade natal, San Francisco, que o primeiro homem deu à luz
uma criança (de que temos notícia). Costumamos pensar que dar à luz é trabalho
de mulher, mas um homem trans na minha cidade, que conservou o útero dele,
teve uma criança antes do caso muito mais divulgado de Thomas Beatie em 2008.
Uma coisa legal no caso Beatie é que o homem carregou e pariu três filhos
porque a esposa era estéril e ele não. As categorias têm frestas, e algumas delas
tendem a ser revistas. Nunca pensei que iria escrever “o útero dele”. Às vezes, mas
nem sempre, essa porosidade nas categorias é motivo de comemoração.
Oitenta livros que nenhuma mulher deveria ler
(2015)

Alguns anos atrás, a Esquire montou uma lista que volta e meia retorna dos
mortos como um zumbi para assombrar a internet. O título “Oitenta melhores
livros que todos os homens deveriam ler” é um lembrete que é uma revista
masculina e que, se agora há muitos jovens rejeitando o binarismo de gênero,
eles estão se revoltando contra gente em posição muito mais sólida, que constrói
o gênero como uma Cortina de Ferro dividindo a humanidade.
É claro que revistas femininas, como a Cosmopolitan, passaram décadas dando
instruções igualmente problemáticas sobre a feminilidade e como ser mulher. O
fato de passarem tanto tempo publicando mensalmente instruções sobre as
maneiras de ser de um ou do outro gênero principal talvez apenas revele muito
sobre a fragilidade do conceito de gênero. Os homens devem ler livros diferentes
dos das mulheres? Nessa lista da Esquire, eles não devem ler nem sequer livros
escritos por mulheres, exceto um de Flannery O’Connor entre 79 escritos por
homens.
O autor comenta É difícil encontrar um homem bom e outros contos com uma
citação: “Ela até seria uma boa mulher… se houvesse alguém ali para atirar nela a
cada minuto da sua vida”. Atirar nela. O que combina muito bem com o
comentário para As vinhas da ira, de John Steinbeck: “Pois o que interessa são os
peitos”. Em outras palavras, livros são manuais de instruções; você os lê para ser
homem, e é por isso que os homens precisam de uma lista. E o que é um
homem? O comentário sobre O chamado da selva, de Jack London, nos diz: “Um
livro sobre cães é também um livro sobre homens”. Mano é tudo doido, imagino
eu.*10
O exame da lista, cheia dos livros mais machos de toda a história, montes de
livros de guerra, e só um deles escrito por um gay assumido, serviu para me
lembrar que, se é duro ser mulher, em muitos aspectos é mais duro ainda ser
homem, esse gênero que precisa defender e demonstrar o tempo inteiro sua
masculinidade. Olhei a lista e de repente me ocorreu: Não admira que existam
tantos assassinatos em massa. É a expressão suprema da masculinidade quando a
coisa é posta dessa forma, embora, felizmente, muitos homens tenham maneiras
mais simpáticas e educadas de estar no mundo.
A lista me fez pensar que devia existir outra, com alguns dos mesmos livros,
chamada “Oitenta livros que nenhuma mulher deveria ler” — embora, claro, eu
ache que todo mundo deva ler o que quiser. Só acho que alguns livros são
manuais de instruções explicando os motivos pelos quais as mulheres não
passam de escória ou mal existem, a não ser como acessórios, ou por que são
intrinsecamente pérfidas e vazias. Ou são manuais ensinando a versão de
masculinidade que consiste em ser bruto e insensível, aquele conjunto de valores
que irrompe como violência em casa, na guerra e por meios econômicos. Quero
provar que não sou misândrica começando minha lista com Quem é John Galt?,
de Ayn Rand, porque qualquer livro tão apreciado pelo congressista Paul Ryan
tem parte da responsabilidade pela miséria que ele tanto se empenha em criar.
Por falar em manuais de instruções sobre as mulheres como não pessoas,
quando li pela primeira vez On the road — pé na estrada (que não está na lista,
embora Os vagabundos do Dharma esteja), percebi que o livro supunha que você
se identificasse com o protagonista, que se acha muito sensível e profundo
mesmo quando larga a jovem namorada mexicana, deixando-a com todos os
problemas que criou para ela. O livro supõe que você não se identificará com a
moça, que não põe o pé na estrada e não chega a ser tratada como muito mais do
que um mero receptáculo descartável.
Eu me identifiquei com ela, assim como com Lolita (e Lolita, aquela obra-
prima da falta de empatia de Humbert Humbert, está na lista da Esquire com
uma descrição muito recatada). Acabei perdoando Kerouac, assim como perdoei
Jim Harrison por objetificar a luxúria nos seus livros, porque ambos têm
qualidades redentoras. E há uma pureza interiorana na lascívia de Harrison, ao
contrário da de Charles Bukowski e Henry Miller.
Claro que esses três estão na lista da Esquire. Como disse a editora da revista
n+1, Dayna Tortorici: “Nunca vou esquecer quando li Cartas na rua de Bukowski
e me senti horrível com o modo como o narrador descreve as pernas grossas das
feiosas. Creio que foi a primeira vez que me senti rejeitada por um livro com o
qual eu tentava me identificar. E, no entanto, absorvi aquilo e claro que me fez
odiar meu corpo e tudo mais”. Alguns anos atrás, a escritora Emily Gould
qualificou Bellow, Roth, Updike e Mailer como os “misóginos de meados do
século”, o que descreve bem esses quatro sujeitos da lista da Esquire que eu
também poria na minha lista.
Ernest Hemingway também está na minha zona de não leitura, pois, se o cara
tanto aprendeu com Gertrude Stein, não devia ser homofóbico, misógino e
antissemita, e, além disso, matar animais de grande porte nunca deveria ser
sinônimo de masculinidade. Esse lance de arma-pênis-morte, além de feio, é
muito triste. E também porque a prosa em estilo conciso e reprimido fica, nas
mãos de Hemingway, afetada, pretensiosa e sentimental. O sentimental macho é
o pior tipo de sentimental, porque se ilude sobre si mesmo de uma maneira que,
digamos, um Dickens, honestamente emotivo, nunca se iludiu.
Além disso, as merdas que Hemingway falou sobre o tamanho do pênis de F.
Scott Fitzgerald foram lamentáveis e bastante transparentes, na época em que
Fitzgerald era um autor de muito mais sucesso. E Fitzgerald ainda é muito
melhor do que ele, com frases com uma maleabilidade de seda, enquanto a prosa
de Hemingway é feita de blocos de Lego, e a empatia de Fitzgerald não se resume
aos personagens masculinos, pondo-se também no lugar de Daisy Buchanan e
Nicole Diver. (Suave é a noite pode ser lido como, entre outras coisas, um exame
das profundas consequências do incesto e do abuso infantil.)

Norman Mailer e William Burroughs iriam lá para o alto da minha lista de


nãos, pois há inúmeros escritores que podemos ler e que não esfaqueavam nem
atiravam na esposa (e porque um escritor que todos deviam ler, Luc Sante,
escreveu trinta anos atrás um texto magnífico sobre a horrenda política de
gênero de Burroughs, e que teve grande influência em mim). Para lá iriam todos
aqueles romances de autores homens que parecem acreditar que tamanho é tudo,
aquelas monstruosidades de novecentas páginas que, se tivessem sido escritas
por mulheres, seriam chamadas de gordas e mandadas fazer regime. Todos
aqueles livros lúbricos sobre crimes violentos contra mulheres, em especial o
caso do assassinato de Black Dahlia [Dália Negra, como era conhecida Elizabeth
Short], que é um exemplo pavoroso do grau de violência contra as mulheres que
alguns homens erotizam para outros homens, e que leva as mulheres a
interiorizarem esse ódio. Como Jacqueline Rose observou recentemente na
London Review of Books: “O patriarcado prospera encorajando as mulheres a se
desprezarem”. Também sei que existe um escritor chamado Jonathan Franzen,
mas dele só li os repetidos ataques a Jennifer Weiner em entrevistas.
Há livros bons e ótimos na lista da Esquire, muito embora Moby Dick, que eu
adoro, me faça lembrar que um livro sem mulheres costuma ser considerado um
livro sobre a humanidade, mas um livro com mulheres em primeiro plano é tido
como livro de mulher. E com essa lista você iria aprender sobre as mulheres com
James M. Cain e Philip Roth, que não são os especialistas mais adequados a que
se recorrer, não quando existem as grandes obras de Doris Lessing, Louise
Erdrich e Elena Ferrante. Olho a minha prateleira de favoritos e vejo Philip
Levine, Rainer Maria Rilke, Virginia Woolf, Shunryu Suzuki, Adrienne Rich,
Pablo Neruda, Subcomandante Marcos, Eduardo Galeano, James Baldwin.
Nesses livros, são dadas instruções sobre alguma coisa, é como ampliar e abrir a
nossa identidade ao mundo humano e não humano na imaginação, como um
grande gesto de empatia que não nos encerra no nosso gênero, mas nos eleva
acima de nós mesmos.

Pós-escrito: Este artigo saiu inicialmente no Lithub.com, onde recebeu grande


atenção on-line, levando a Esquire a me responder: “O que podemos dizer?
Erramos. Nossa lista de ‘Oitenta melhores livros que todos os homens deveriam
ler’, publicada vários anos atrás, levou uma repreensão merecida por causa da sua
falta de diversidade, tanto nos autores quanto nos títulos. Assim, convidamos
oito importantes figuras literárias femininas, de Michiko Kakutani a Anna
Holmes e Roxane Gay, para nos ajudar a criar uma nova lista”.

10. Parodiando a frase “Mina é tudo doida” [Bitches be crazy], dita por um personagem do seriado The Big
Bang Theory. (N. T.)
Homens me explicam Lolita
(2015)

É um fato universalmente reconhecido que uma mulher em posse de uma


opinião deve estar precisando de um corretivo. Bom, na verdade não é, não, mas
quem não gosta de parafrasear Jane Austen e a sua famosa frase de abertura? A
resposta é: um monte de gente, porque todas nós somos diferentes e nem todas
leram Orgulho e preconceito dezenas de vezes, mas a questão principal é que
tenho feito umas experiências interessantes, expressando as minhas opiniões, e
ando descobrindo que algumas pessoas, em especial homens, reagem a partir do
princípio de que a minha opinião está errada enquanto a delas está certa, pois
acreditam piamente que a opinião delas é um fato, enquanto a minha é uma
ilusão. Às vezes também parecem achar que são donas da verdade e donas de
mim.
Não é uma verdade universal que alguém que toma suas opiniões por fatos
também pode se achar Deus. Isso pode acontecer se o sujeito não tiver tido
contato suficiente com outras experiências, e que também foram criadas da
mesma maneira, com certos direitos inalienáveis, e também têm na cabeça
aquela coisa da consciência, que é tão interessante e complicada. É um problema
que afeta especialmente os homens brancos heterossexuais, porque faz muito
tempo que o mundo ocidental ergue um espelho na frente deles — e converte as
mulheres submissas em espelhos que lhes devolvem uma imagem com o dobro
do tamanho real, como notou Virginia Woolf. O resto de nós nos acostumamos
ao transgênero e ao cruzamento racial das nossas identidades quando nos
detemos em protagonistas que vão de Ismael e David Copperfield a Dirty Harry e
Holden Caulfield. Mas os homens brancos, nem tanto. Cunhei algum tempo
atrás o termo “privelobliviousness” para descrever como o indivíduo
privilegiado, o indivíduo representado o tempo todo, se isenta de ter uma
consciência e, muitas vezes, de fato não tem uma. É, à sua maneira, uma forma
de perda.
Boa parte do feminismo consiste em mulheres expondo experiências até então
não reveladas, e boa parte do antifeminismo consiste em homens lhes dizendo
que essas coisas não acontecem. O estuprador pode lhe dizer: “Você não foi
estuprada”, e aí, se você insistir, ele pode ameaçá-la de morte, pois matar é o jeito
mais simples de ser a única voz na sala. As pessoas não brancas também ouvem
asneiras muito parecidas, dizendo que não existe racismo, que elas não são
tratadas de maneira diferente, que a raça não afeta ninguém, pois quem melhor
para falar disso do que as pessoas brancas que tentam silenciar os outros? E as
pessoas queer também, mas todos nós já sabemos disso, ou devemos saber se
estivermos prestando atenção.
Prestar atenção é o ato fundamental da empatia, de ouvir, ver, imaginar outras
experiências além das pessoais, de sair dos limites da experiência própria. Um
argumento bastante usual é que os livros nos ajudam a sentir empatia, mas, se
eles fazem isso, o fazem nos ajudando a imaginar que somos gente que não
somos. Ou a nos aprofundarmos mais em nós mesmos, a entendermos melhor o
que significa sofrer uma desilusão amorosa, ou estar doente, ou ter seis ou 96
anos de idade, ou se sentir totalmente perdido. Não só versões do nosso eu,
apresentado como algo maravilhoso, eternamente justificado, sempre certo,
vivendo num mundo onde os outros só existem para ajudar a aumentar a nossa
grandiosidade, embora esses tipos de livros, de quadrinhos e filmes existam em
profusão para atender à imaginação masculina. E servem para lembrar que a arte
e a literatura também podem nos ajudar a não ter empatia, se nos sequestrarem e
nos encerrarem na Velha e Tediosa Fortaleza do Próprio Grandioso Eu.
É por isso que me diverti outro dia implicando com um cânone literário muito
macho, montado pela Esquire como “Oitenta melhores livros que todos os
homens deveriam ler”, 79 deles escritos por homens. Parecia reforçar esse caráter
estreito da experiência. Na resposta, meu argumento não foi que todo mundo
devia ler livros escritos por mulheres — embora seja importante mudar o
equilíbrio da balança —, e sim que toda a questão da leitura é ser capaz de
explorar e também transcender o próprio gênero (e raça, classe, orientação
sexual, nacionalidade, momento na história, idade, capacidade) e sentir como é
ser outra pessoa. Alguns homens não gostaram do que falei. Muitos dos
integrantes desse curioso gênero ficam nervosinhos à toa, e quando isso acontece
nem percebem. Apenas acham que a gente está errada e que às vezes é por
maldade.
Este ano, falou-se muito sobre estudantes universitários — isto é, estudantes
mulheres, estudantes negros, estudantes trans — dizendo que são hipersensíveis
e querem que os outros sejam censurados. Foi por isso que o Atlantic, uma
publicação esquisita que vai do progressismo ao reacionarismo e depois volta
como um pêndulo impetuoso, publicou recentemente um artigo sobre “Os
afagos na mente americana”. O artigo nos diz que “Jerry Seinfeld e Bill Maher
condenaram publicamente a excessiva suscetibilidade dos estudantes
universitários, dizendo que muitos deles não conseguem aceitar uma piada”,
invocando os nomes desses dois sujeitos brancos e velhos como autoridades
definitivas.
Mas, sério: você sabe quem não consegue aceitar uma piada? São os sujeitos
brancos. Não quando a piada se refere a eles e ao universo deles; e quando vemos
a fúria ou recebemos as ameaças, estamos vendo uns caras que realmente
esperavam ter tudo o que queriam, ouvindo o tempo todo como são
maravilhosos. E aqui, só para deixar registrado, esclareço que não estou dizendo
que são todos incapazes de aceitar uma piada. Muitos homens brancos — entre
os quais tenho muitos amigos (e, naturalmente, meus parentes quase tão
branquelos quanto eu) — têm senso de humor, esse talento de enxergar a
distância que existe entre as coisas como são e como deveriam ser, e de ver para
além dos limites da própria posição. Alguns têm profunda empatia e percepção, e
escrevem tão bem quanto os outros. Alguns são defensores dos direitos
humanos.
Mas também há aqueles que aparecem e querem afagos. Um grupo de
estudantes universitários negros não gosta de alguma coisa; reivindicam algo
diferente de maneira muito civilizada, e são acusados de exigirem afagos, como
se exigissem armas nucleares ou exigissem que você lhes entregue a carteira sob a
mira de um revólver. Um grupo de gamers brancos não gosta do que uma crítica
cultural fala sobre a misoginia nos jogos virtuais, e passam cerca de um ano
perseguindo a mulher com uma enxurrada interminável de ameaças de estupro,
ameaças de morte, ameaças de bomba, escarafunchando e divulgando coisas
particulares dela, e por fim terminam com a ameaça de um massacre citando
como modelo exemplar Marc Lépine, o misógino de Montreal que assassinou
catorze mulheres em 1989. Estou falando, claro, do caso de Anita Sarkeesian e o
GamerGate. Esses caras é que podíamos — devíamos — chamar de mimados. E
será que eles achavam mesmo que todo mundo julgava lindo e maravilhoso tudo
o que diziam, gostavam e faziam, ou simplesmente se conservava em silêncio? É,
decerto achavam, pois ficaram nessa por muito tempo.
Outro dia, mexi num vespeiro ao manifestar opiniões feministas sobre alguns
livros. A coisa acabou se concentrando toda em Lolita. O argumento usual de
que romances são bons porque inculcam empatia tem como pressuposto que a
gente se identifica com os personagens, e ninguém é advertido por se identificar
com Gilgamesh ou mesmo com Elizabeth Bennett. Só que, quando você se
identifica com Lolita, você está deixando claro que é um livro sobre um homem
branco estuprando repetidamente uma menina ao longo de vários anos. Você vai
ler Lolita fazendo o máximo esforço em não perceber que o enredo é este e que
estes são os personagens? A narrativa não pode ter nenhuma relação com a sua
experiência pessoal?
A única coisa que eu realmente disse foi que, assim como eu tinha me
identificado com um personagem tratado com menosprezo em On the Road —
Com o pé na estrada, eu me identifiquei com Lolita. Li muitos romances de
Nabokov tempos atrás, mas um romance concentrado no estupro em série de
uma menina mantida como refém, na época em que eu tinha mais ou menos a
mesma idade dela, era um pequeno aviso lembrando como o mundo ou, melhor,
como os homens que viviam nesse mundo podiam ser hostis. Não é uma coisa
agradável.
A onipresença de homens estuprando meninas como tema literário, desde Tess
dos d’Urbervilles de Thomas Hardy a Abaixo de zero de Brett Easton Ellis, além
de narrativas verídicas como a de Jaucee Dugard (raptada aos onze anos, em
1991, e usada como escrava sexual por um homem da Bay Area durante dezoito
anos) ou de Elizabeth Smart (raptada em 2002 e usada da mesma forma durante
nove meses), pode ter o efeito cumulativo de lembrar às mulheres que passamos
boa parte da vida em silêncio, tentando estrategicamente não ser estupradas, o
que nos cobra um preço enorme e afeta o nosso senso de identidade. Às vezes a
arte nos avisa da vida.
O romance de Hardy é, na verdade, uma tragédia sobre o que acontece
quando a incapacidade de agir de uma moça pobre, começando por não ter o
direito de se negar ao sexo que lhe é imposto por um homem rico, entra numa
espiral que lhe destrói a vida em grande estilo. Poderia ser visto como um grande
romance feminista. Existem muitos escritores homens, mesmo antigos, nos quais
vejo humanitarismo e empatia em relação aos seus personagens, tanto
masculinos como femininos: Wordsworth, Hardy, Tolstói, Trollope, Dickens me
acorrem à mente. (Que nenhum deles é um ser humano perfeito e imaculado,
podemos conversar outra hora, talvez no dia de São Nunca.)
Muitas vezes faz-se à arte um ataque que se julga uma defesa. É o argumento
de que a arte não exerce nenhuma influência na nossa vida; que não é perigosa e,
portanto, toda arte é irrepreensível; que não temos razões para fazer qualquer
objeção a qualquer obra de arte, e que qualquer objeção é censura. Nunca
ninguém contestou esse tipo de visão com elegância maior do que o grande
crítico falecido Arthur C. Danto, cujo ensaio de 1988 sobre o assunto teve papel
formador nas minhas reflexões. Isso foi na época em que senadores de direita
queriam censurar a arte ou acabar totalmente com o órgão federal de
financiamento artístico, o National Endowment for the Arts (NEA). Eram
contrários às obras de arte que o NEA subsidiara, entre elas as imagens de
refinado formalismo de Robert Mapplethorpe com homens envolvidos em jogos
sadomasoquistas. Segundo eles, era algo perigoso, que podia afetar a mentalidade
e a vida das pessoas, e então toda a nossa cultura. Alguns defensores adotaram a
infeliz posição de que a arte não é perigosa porque, em última instância, não
exerce nenhuma influência.
Fotos, ensaios, romances e tudo o mais podem mudar a nossa vida; são
perigosos. A arte molda o mundo. Conheço muitas pessoas que leram um livro
que acabou determinando o que fariam na vida ou lhes salvou a vida; se não há
um livro particular que me salvou, é porque centenas ou milhares me salvaram.
Existem razões mais complexas e menos urgentes para ler, inclusive o prazer, e o
prazer é uma coisa importante. Danto descreve a concepção de mundo daqueles
que acreditam num sistema de segregação entre arte e vida da seguinte maneira:
“Mas o conceito de arte coloca entre a vida e a literatura uma membrana muito
resistente, que garante a incapacidade do artista em infligir dano moral desde
que se reconheça que o que ele faz é arte”. A questão de Danto é que a arte pode
infligir, e muitas vezes inflige, um dano moral, assim como outros livros fazem
bem. Ele cita os regimes totalitários, cujas autoridades reconheciam com grande
clareza que a arte pode mudar o mundo e reprimiam as obras dotadas dessa
capacidade.

Pode-se interpretar de várias maneiras a relação de Nabokov com seu


personagem. Vera Nabokov, a esposa do escritor, observou: “Gostaria, porém,
que se notasse a terna descrição da menina, a sua patética dependência do
monstruoso HH e a sua comovente coragem ao longo de tudo…”. E as mulheres
que leram o romance de Nabokov sob o regime repressor do Irã, diz Azar Nafisi
em seu famoso livro Lendo Lolita em Teerã, também se identificaram:
Lolita pertence a uma categoria de vítimas que não têm defesa e nunca têm a oportunidade de contar a
sua própria história. Assim ela se torna duplamente vítima — não só a sua vida, mas também a sua
história lhe são tiradas. Dissemos a nós mesmas que estávamos naquela classe para impedir que
caíssemos vítimas desse segundo crime.

Quando escrevi o ensaio que provocou reações tão furibundas, estava


tentando dizer que existe um corpo literário canônico em que as histórias das
mulheres lhes são retiradas, em que a única coisa que temos são histórias de
homens. E que às vezes são livros que não só não descrevem o mundo de um
ponto de vista feminino, mas também inculcam a difamação e a degradação das
mulheres como coisa bacana de se fazer.
Scott Adams, o criador do personagem de quadrinhos Dilbert, escreveu
recentemente que vivemos num matriarcado porque “o acesso ao sexo é
estritamente controlado pela mulher”. Ou seja, você não consegue ter sexo com
alguém a menos que a pessoa queira ter sexo com você, o que, se não usarmos
pronomes pessoais, parece plenamente sensato. Você não vai ganhar um pedaço
do sanduíche de alguém a menos que a pessoa queira dividir o sanduíche dela
com você, e isso não é uma forma de opressão. Decerto você aprendeu isso desde
o jardim de infância.
Mas, se você acha que fazer sexo com um corpo feminino é um direito que os
homens heterossexuais têm, então as mulheres são mesmo aquelas barreiras
ilegítimas sempre tentando se interpor entre você e os seus direitos. Isso significa
que você não reconhece que as mulheres são pessoas, e talvez isso venha não só
de um inculcamento direto das pessoas e dos sistemas ao seu redor, mas também
dos livros e filmes que você tem — e não tem — lido e visto. A arte é importante,
e uma boa parte dela celebra o estupro como um triunfo da vontade (veja-se o
livro Sexual Politics de Kate Millet, de 1970, que abrange alguns dos mesmos
escritores homens presentes na lista da Esquire). Ela é sempre ideológica, e forma
o mundo em que vivemos.
Os jornalistas investigativos T. Christian Miller e Ken Armstrong publicaram
um longo artigo em dezembro de 2015, contando como um estuprador em série
foi capturado pela polícia (e como uma das vítimas não só passou anos
desacreditada, mas também foi coagida a dizer que mentira e, assim, foi
processada por mentir). O estuprador disse aos policiais que “fantasias
desviantes haviam se apoderado dele quando criança, desde que vira Jabba, o
Hutt, escravizar e acorrentar a princesa Leia”. Somos moldados pela cultura.
Mas “ler Lolita e ‘se identificar’ com um dos personagens é entender Nabokov
totalmente errado”, disse um dos meus instrutores voluntários. Achei engraçado
e então postei no Facebook; aí veio um cara muito liberal e simpático me explicar
que esse livro era, na verdade, uma alegoria — como se eu nunca tivesse pensado
nisso. De fato é, e é também um romance sobre um velho que fica violentando
uma menina frágil vezes e mais vezes. Então ela chora. E aí vem outro cara muito
simpático e liberal que diz: “Você parece não entender a verdade básica da arte.
Eu não ligaria se algum romance fosse sobre um bando de mulheres andando por
aí castrando homens. Se fosse bem escrito, eu ia querer ler. Provavelmente mais
de uma vez”. Claro que não existe essa categoria temática em literatura, e se o
cara tão simpático e liberal que fez essa afirmação tivesse recebido livros e mais
livros cheios de cenas de castração, talvez até celebrando a castração, quem sabe
isso não teria um impacto sobre ele.
Apresso-me em acrescentar que não me sinto insultada por esses caras a essa
altura da minha vida, e não sinto pena de mim mesma. Só fico boquiaberta com
as asneiras que soltam; é como se eu trabalhasse num laboratório e eles ficassem
aparecendo o tempo todo com espécimes fantásticos. Pelo visto, alguns ficaram
tão irritados que ninguém menos que Marlon James, o ganhador do Booker
Prizer deste ano, veio dizer: “Liberais: não vou deter o inevitável avanço de vocês
para neoliberais e, no fim, para neoconservadores, então vamos fazer isso rápido.
Parece que alguns de vocês estão com problemas com o novo artigo da Rebecca
Solnit. Uma coisa é censura, outra coisa é questionar a maneira de alguém
faturar com o seu trabalho. Não são a mesma coisa”.
Embora agradecida a James por dar uma chamada no pessoal, eu nem estava
questionando o enriquecimento de ninguém. Fiz apenas uns comentários bem-
humorados sobre alguns livros e personagens de alguns autores mortos num
artigo que também elogiava e enaltecia escritores homens (na verdade, o artigo
elogiava e malhava mais ou menos o mesmo número de homens; então dá para
considerar como empate). Esses caras ficaram visivelmente irritados e convictos
de que a minha voz e as minhas opiniões ameaçavam os direitos de outras
pessoas. Gente, censura é quando as autoridades reprimem uma obra de arte,
não quando alguém não gosta dela.
Nunca falei que não devíamos ler Lolita. Li e reli o livro. Brinquei que devia
haver uma lista de livros que nenhuma mulher devia ler porque há um monte de
livros incensados que são bastante sórdidos em relação ao meu gênero, mas
também falei: “Embora, claro, eu ache que todo mundo deva ler o que quiser. Só
acho que alguns livros são manuais de instruções explicando os motivos pelos
quais as mulheres não passam de escória ou mal existem, a não ser como
acessórios, ou por que são intrinsecamente pérfidas e vazias”. E aí fiquei me
divertindo em soltar umas opiniões sobre livros e autores. Mas sobre uma coisa
falei a sério: lemos muitas coisas em que pessoas como nós são descartáveis ou
são escória, ou ficam em silêncio, são ausentes ou indignas, e isso influi em nós.
Porque a arte cria o mundo, porque ela importa, porque ela nos cria. Ou nos
destrói.
BEBER DEMAIS PODE TRAZER MUITOS RISCOS
PARA AS MULHERES
Para qualquer grávida e bebê
aborto espontâneo
criança natimorta
parto prematuro
síndrome alcoólica fetal
síndrome da morte súbita infantil

Para qualquer mulher
ferimentos/violência
doença cardíaca
câncer
doenças sexualmente transmissíveis
problemas de fertilidade
gravidez indesejada

Para as mulheres, beber demais significa:

GRÁVIDAS

qualquer consumo alcoólico por mulheres que estão ou podem estar


grávidas

NÃO GRÁVIDAS

8 ou mais doses por semana (mais do que a média de uma dose por
dia)
bebedeira (4 ou mais doses em 2-3 horas)

qualquer consumo alcoólico para menores de 21 anos



Médicos, enfermeiras ou outros profissionais da saúde devem examinar
todos os pacientes adultos, inclusive mulheres grávidas, e fazer
recomendações aos que bebem demais. Os atendentes podem ajudar
as mulheres a evitar o excesso de álcool, inclusive o consumo de álcool
durante a gravidez, em 5 passos.

1. Avalie o consumo de bebidas de uma mulher.


Use um exame reconhecido (p. ex., um Teste de Identificação de Problemas
Relacionados ao Uso de Álcool, AUDIT [US]*).
Dedique 6-15 minutos para explicar os resultados e dê aconselhamento às mulheres
que estão bebendo demais.
Recomende que ela se abstenha totalmente de beber se estiver ou puder estar grávida.
Proponha um plano juntos.

2. Recomende métodos contraceptivos se uma mulher estiver tendo sexo


(se apropriado) sem pretender engravidar e esteja consumindo álcool.
Repasse os riscos de engravidar e a importância do uso de métodos contraceptivos.
Apresente e explique todos os métodos disponíveis.
Incentive-a a usar sempre preservativos para diminuir o risco de doenças sexualmente
transmissíveis.

3. Se a mulher está tentando engravidar e não usa contraceptivos no sexo,


recomende que pare de beber.
Exponha as razões para interromper o consumo de álcool antes que a mulher descubra
que está grávida.

4. Se a mulher não conseguir parar de beber sozinha, encaminhe-a a


outros serviços de atendimento.
Forneça informações sobre programas locais ou consulte o localizador de tratamentos
do SAMHSA. www.findtreatment.samhsa.gov
Avalie encaminhar a tratamento ou recomende Alcoólicos Anônimos. www.aa.org

5. Dê acompanhamento anual ou com maior frequência, se necessário.


Marque uma data para nova consulta.
Continue com o apoio no acompanhamento.


* Aprenda a fazer exames de identificação da presença de álcool e modos de
aconselhamento em <www.cdc.gov/ncbddd/fasd/alcohol-screening.html>.
O caso do agressor desaparecido
(2016)

Num romance de detetive, começamos num estado de ignorância e vamos


avançando para o conhecimento, a cada pista. As pequenas pistas se juntam por
fim numa revelação que põe ordem no mundo e se faz justiça ou, pelo menos,
oferece a satisfação de um mundo posto às claras no final. Se a literatura
detetivesca é a literatura da desilusão, há, por outro lado, uma literatura da ilusão
que quer iludir e despistar em vez de esclarecer.
Um ótimo exemplo recente é o novo guia com orientações sobre o consumo
de álcool, alvo de grande zombaria. É como uma história de detetive de trás para
a frente — se a gente lê acreditando naquilo, fica difícil entender o que é uma
mulher, como ocorre a violência, como ela engravida e quem está envolvido
nessas coisas. Se a gente lê com mais cuidado, dá para entender por que a voz
passiva tantas vezes serve para acobertar e o sujeito elíptico numa frase cheia de
circunlóquios costuma ser a parte culpada.
O que é uma mulher? Segundo o CDC [Centro de Prevenção e Controle de
Doenças], todas as mulheres correm o risco de engravidar. “Beber demais pode
trazer muitos riscos para as mulheres”, diz o folheto, especificando-os para
“qualquer mulher”. A lista é encabeçada por “agressões/violência” e na rabeira
fica “gravidez indesejada”. “Beber demais pode trazer muitos riscos para as
mulheres”, inclusive “qualquer consumo alcoólico por mulheres que estão ou
podem estar grávidas”. Os médicos devem “recomendar que a mulher pare de
beber se estiver tentando engravidar ou se não usar contraceptivos no sexo”. Isso,
em poucas e rápidas pinceladas, reduz todas as mulheres a fêmeas férteis em
idade reprodutiva que tenham o que poderíamos chamar de exposição a homens
férteis. Nega a existência de muitos outros tipos de mulheres e a igual
responsabilidade de pelo menos um tipo de homem. Talvez negue a existência de
homens, já que as mulheres aqui parecem engravidar em decorrência de se
unirem ao álcool, não a rapazes.
Mulheres é uma categoria que abrange uma grande variedade de pessoas que
escapam aos critérios do CDC. Muitas de nós já passamos da idade fértil e de
todas as incertezas que acompanham essa fase. Mesmo que a gente dê umas
escapadinhas com uns sommeliers bonitões nos grandes tonéis de Pinot Noir
amadurecendo em Napa Valley, não vamos engravidar, querendo ou não. Muitas
mulheres mais jovens são totalmente estéreis por uma ou outra razão, desde
implantes anticoncepcionais de longo prazo e ligação das trompas até
consequências de problemas de saúde e tratamentos médicos, além da loteria
genética. Nem com fontes de mojitos jorrando do solo como gêiseres elas vão
engravidar. Em terceiro lugar, uma população significativa de mulheres são
lésbicas e/ou, quando bebem, ficam com outras mulheres e não com homens, ou
não com homens férteis que fazem sexo sem proteção com mulheres. Nenhum
rio de uísque terá qualquer efeito em engravidá-las. Por fim, mulheres trans
geralmente não engravidam nem mesmo na presença de uma Catarata do
Niágara de prosecco, embora alguns homens trans tenham gerado filhos por
querer, mas essa é outra história, e bem legal, muito mais legal do que a que
temos de examinar aqui.
Pois a loucura mesmo é o seguinte: como mulheres (cis férteis) engravidam?
Vamos voltar à educação sexual da sexta série: lembra aquela aula sobre a união
entre o esperma e o óvulo? Enquanto examinávamos o novo infográfico do CDC,
o que chamou muito a nossa atenção foi que ele evita mencionar como as
mulheres engravidam. A gravidez ocorre quando certos subconjuntos de homens
e de mulheres se juntam de determinadas maneiras. Sem homem, nada de
gravidez. Se essa linguagem é forte demais para você, então digamos apenas que
as mulheres engravidam quando um pouco de material genético masculino é
introduzido por um órgão masculino (não dá para dizer que a gravidez obtida
com os outros métodos de introdução do esperma ou de óvulos fecundados no
útero foi sem querer). Ah, e devo acrescentar que esse órgão masculino costuma
vir sempre ligado a um indivíduo do gênero masculino.
Uma mulher pode ser tão fértil quanto o Vale do Tigre nos tempos de Abraão,
mas ela não vai engravidar na ausência de união com um homem portador do
sêmen. Mas, se você acreditar no modo como a coisa é normalmente descrita, vai
ficar achando que as mulheres engravidam sozinhas. É o que afirmam os
conservadores quando desancam as mulheres por terem filhos “sem pai” ou por
fazerem sexo por prazer. A narrativa contra o aborto gosta muito de falar de
mulheres depravadas que fazem sexo só pela diversão e estão se lixando para as
consequências; o fato de não poderem estar praticando o tal do sexo com risco de
gravidez na ausência de um homem é o mais estranho de tudo, uma estranheza
que fica encoberta por ser tão corrente.
Num período eleitoral de algum tempo atrás, o político Todd Akin declarou
que o “estupro legítimo” não engravidava as mulheres. Disse que o corpo da
mulher tinha formas de “fechar aquela coisa lá”, como se o útero tivesse uma
espécie de porta acionada por controle remoto. Olhando com atenção a
insanidade dessa ideia, um aspecto que passou relativamente despercebido foi
que o comentário dele se prestava a negar o direito de aborto até mesmo para
vítimas de estupro. Nos atuais extremos a que chegam as posições e as medidas
contra o aborto (como os casos das mulheres processadas na justiça por tentarem
induzi-lo), as mulheres não têm nenhum valor em comparação aos fetos que
carregam no ventre, ainda que cerca de metade desses fetos venham a ser
mulheres que, por sua vez, serão consideradas sem nenhum valor em
comparação à próxima potencial geração de fetos. As mulheres podem ser
depósitos sem valor de depósitos sem valor de depósitos sem valor de coisas de
valor, a saber, homens. Homens em embrião. Ou talvez as crianças tenham valor
até se revelarem mulheres. Não sei. Para mim, é um mistério o que esse povo
pensa.
Enquanto isso, os mecanismos da gravidez são evitados meticulosamente
nessa narrativa de mistificação da reprodução. Primeiro, tem o que podemos
chamar de mistério do homem desaparecido: ela elimina o homem da
reprodução e absolve o pai daquilo que se chama “sem paternidade”, como se a
sua ausência da vida do filho ou da filha não tivesse nada a ver com ele. (Ah, é,
tem as mulheres más que proíbem os caras legais de ter contato com os filhos,
embora, por experiência pessoal, eu saiba de um número maior de casos de pais
sumidos e de mães fugindo arrepiadas de medo.) Sério, sabemos por que os
homens são excluídos desse tipo de narrativa: ela os absolve da responsabilidade
pela gravidez, inclusive daquele tipo infeliz e acidental, e depois os absolve da
produção daquele fenômeno pelo qual muitas coitadas têm sido malhadas há
tanto tempo: os filhos sem pai. Os pais dos sem pai são legião.
Podemos imaginar um universo paralelo sem misoginia, em que os homens
são avisados que carregam por aí esse troço perigoso que pode desencadear nove
meses de gravidez numa mulher e a produção de outros seres humanos, e que
eles são uns irresponsáveis, imorais e lhes falta alguma coisa — o que é mesmo
que falta às mulheres? — quando saem enfiando aquele troço sem
consentimento, sem planejamento nem preocupação com as consequências a
longo prazo em gente que pode emprenhar. Não há muitas advertências nesse
sentido, afora o alerta de que existem mulheres que usam a gravidez como cilada
para prender o homem, o que muitas vezes é uma maneira de isentá-lo da
responsabilidade, mas não isenta o esperma.

As recomendações às mulheres sobre o vírus Zika são parecidas com aquelas


diretrizes sobre o consumo de álcool entre as mulheres: a responsabilidade em
evitar a gravidez diante de uma doença que causa problemas no feto tem sido
imputada exclusivamente às mulheres, mesmo em países como El Salvador, onde
o aborto é ilegal em qualquer circunstância, os métodos anticoncepcionais não
são de fácil acesso e as mulheres (como praticamente em qualquer lugar) nem
sempre têm como recusar o sexo. Dezessete mulheres acusadas de abortar (em El
Salvador não se faz distinção entre aborto espontâneo e aborto deliberado) estão
presas por homicídio. Não fica muito claro a quem pertence o corpo da mulher
nessa concepção, mas é evidente que não é a ela. O Brasil passou a recomendar
aos homens o uso de camisinha durante o sexo com grávidas (mas não com
mulheres com risco de ser fecundadas).
Nessa mistificação da reprodução prolifera o sumiço dos homens e do acesso a
recursos. Com esse destaque que o CDC dá à gravidez não intencional nos Estados
Unidos, a questão que surge é se um melhor acesso aos direitos reprodutivos, à
educação e à assistência médica não contribuiria mais para reduzir as gravidezes
indesejadas do que a declaração de que todas as mulheres em idade reprodutiva
sem anticoncepcionais não devem consumir álcool (determinação esta, aliás, que
ignora o índice de mulheres que usam métodos anticoncepcionais e mesmo
assim engravidam sem querer).
Eu gostaria que essa campanha que diz às mulheres que o álcool é perigoso
fosse a manifestação de um país que ama tanto os bebês que eliminou totalmente
a contaminação por chumbo, de New Orleans a Baltimore e a Flint, a água
horrível de Iowa, contaminada de nitrato, os pesticidas cancerígenos e a relação
entre os alimentos industrializados cheios de açúcares e a diabetes juvenil, e
garante plenamente o acesso à assistência à saúde, a creches e a alimentos sadios
e adequados. Mas não é. É apenas ódio às mulheres. O ódio às mulheres exige
narrativas que desaparecem com os homens e convertem as mulheres em seres
mágicos, gerando bebês apenas com o ar e costumes dissolutos. É uma narrativa
interessante pelo poder que confere às mulheres, mas eu preferiria uma narrativa
mais exata. E talvez uma mais abrangente, que falasse sobre todos os fatores
ecológicos e econômicos que afetam o bem-estar das crianças. Mas aí a culpa é
nossa, não deles.
A linguagem é importante. Brigamos muito sobre a linguagem a respeito do
estupro, para que as pessoas parassem de culpar as vítimas. A frase que resume a
questão é a seguinte: a causa do estupro é o estuprador. Não as roupas que as
mulheres usam, nem o que elas consomem, nem os lugares aonde vão nem nada
disso, pois, quando você acha que o erro é delas, entra em mais uma daquelas
nossas histórias de detetive às avessas, ou em mais um capítulo do mistério do
protagonista sumido. O estupro é uma ação deliberada: o agente é um
estuprador. E no entanto você bem que poderia achar que as moças, sobretudo
nos campi universitários, estavam estuprando a si mesmas, tão ubíqua é a
ausência dos rapazes nos campi nessas narrativas mistificadoras. Os homens se
convertem numa espécie de condição climática, uma força natural ambiente,
uma inevitabilidade impossível de controlar ou de responsabilizar. Os homens
como indivíduos somem nessa narrativa, e o estupro, a agressão sexual, a
gravidez viram meras condições climáticas às quais as mulheres têm de se
adaptar. Se essas coisas acontecem com elas, a falha é delas.
Temos montes de histórias assim neste país, histórias nas quais você só
acreditaria se fosse muito burro. Histórias que não são exposições, e sim
encobrimentos de coisas como as causas da pobreza e as consequências do
racismo. Histórias que dissociam causa e efeito e deixam o sentido de lado. O
CDC amplia a ausência dos agressores nos crimes dizendo às mulheres, no folheto
simples verde e alaranjado sobre as razões de evitar o consumo de álcool, que
beber demais traz riscos de “ferimentos/violência”. Bom, cair e quebrar alguma
coisa é um risco que se corre quando se está bêbado feito um gambá, mas, como
aqui os ferimentos vêm acoplados com a violência, e como um tropeção numa
cadeira geralmente não é tido como violência, fica claro que o significado é: você
pode ser ferida e machucada por alguém. Num mundo não insano e numa
narrativa gramaticalmente coerente, a violência tem uma causa, e essa causa tem
consciência e capacidade de ação: há de ser outro ente vivo. Este ente não pode
ser o álcool, já que o álcool não tem consciência nem capacidade de agir. Uma
árvore que cai em cima da gente não é violenta, embora você possa
responsabilizar o dono do imóvel se o teto da casa onde você mora cair na sua
cabeça por falta de manutenção.
Você bebe, você fica ferida, mas não se pode mencionar quem feriu você. É
como se na sala só houvesse mulheres e álcool. Mesmo quando esse alguém é a
pessoa a quem se dirige a mensagem: as orientações do CDC voltadas para os
homens, dizendo que eles também devem controlar o consumo de álcool, dizem
que “O consumo excessivo de álcool está comumente presente na agressão
sexual”. É como se existisse uma pessoa chamada “uso excessivo de álcool” ou,
melhor, Uso Excessivo de Álcool, que traz o monograma UEA bordado na camisa
ou gravado na garrafinha de bolso. Todas nós conhecemos o UEA. Envolve-se
com frequência em agressões sexuais. Mas aí está a questão: ele nunca age
sozinho. Acontece que o CDC dá mil voltas para não precisar dizer “vocês”,
“homens”, “bêbados” ou “agressores”. O CDC parece menos preocupado que uma
pessoa saia ferida, no sentido de espancada ou estuprada, do que vir a ferir os
sentimentos de alguém. Mas, em parte, as pessoas são feridas porque não
queremos falar sobre quem causa os ferimentos.
Nessa lista, O Uso Excessivo de Álcool tem um irmão chamado Consumo
Excessivo de Álcool, que também é uma encrenca: “O consumo excessivo de
álcool aumenta a agressão e, em decorrência disso, pode aumentar o risco de
atacar fisicamente outra pessoa”. O CEA também parece agir sozinho nessa
narrativa, que é uma frase em busca de um sujeito. Agressão de quem? Quem
atacará? O CDC bem que podia ir logo ao ponto e lançar advertências sobre os
homens. Afinal, os homens são a principal origem da violência contra mulheres
(e, aliás, a principal origem da violência contra homens também). Imagine como
ficaria! “O uso de um homem pode resultar em gravidez ou ferimentos; homens
devem ser usados com cautela. Avalie cuidadosamente os riscos potenciais de
cada homem. Tenha cuidado em usar homens com álcool.” Será que deviam vir
com rótulo e advertência no rótulo? Mas isso também iria exonerá-los da
responsabilidade pelos seus atos, e creio que seria bem melhor um mundo em
que não se praticasse tanto essa exoneração. A violência doméstica é a causa
principal de ferimentos a mulheres entre quinze e 44 anos nos Estados Unidos.
O raciocínio do tipo “ela me obrigou a fazer isso” é uma causa secundária;
muitas vezes, o verbo passivo e a violência ativa andam juntos. Um policial,
durante seu julgamento em San Francisco por ter matado um homem desarmado
que não trazia nenhuma ameaça, disse: “Foi trágico. Mas infelizmente fui
forçado”, embora a única coisa a forçá-lo tenha sido seu erro de avaliação. A
advogada Georgia Black, defensora de vítimas por mais de vinte anos, comentou
comigo: “Nem sei dizer a quantas condenações ou audiências de condicional
assisti em que o agressor se refere à ‘coisa horrível que aconteceu’. Mesmo as
cartas de desculpas à vítima ou à família da vítima declaram ‘Lamento o que lhe
aconteceu’”. É como se a simplicidade da equação eu + ação = consequência fosse
um problema de matemática que não conseguem resolver, uma sequência que
não conseguem encarar; a saída é a linguagem, uma linguagem frouxa, uma
linguagem vaga. É, acontece.
Nos santuários das reservas naturais da literatura, estudamos as espécies de
linguagem, os padrões de voo das palavras individuais, o comportamento de
rebanho das palavras agrupadas, e aprendemos o que a linguagem faz e por que
ela tem importância. É um ótimo treinamento para sairmos no mundo e
observarmos toda a linguagem profana das declarações políticas, das manchetes
dos jornais e das orientações do CDC, e vermos o que ela faz com o mundo ou,
neste caso, a confusão que arma no mundo. A mais legítima e excelsa finalidade
da linguagem é dar clareza às coisas e nos ajudar a enxergar; quando se usam as
palavras para o contrário disso, já sabemos que tem alguma encrenca e talvez seja
um acobertamento.
O trabalho de detetive e os hábitos de percepção que ele desenvolve podem
nos impedir de acreditar em mentiras e às vezes, quando a mentira também é um
álibi, mostram-nos quem está sendo protegido. O CDC tem razão em advertir
sobre os perigos do abuso do álcool, mesmo que não o faça de uma boa maneira.
Eu, pelo meu lado, tento advertir sobre o uso errôneo da linguagem. Todos
somos detetives da linguagem e, com atenção suficiente, podemos perceber o
significado das declarações, mesmo quando elas não os querem dizer, e até
podemos saber quando as histórias estão mentindo para nós. Muitas mentem.
Giantess
(2016)

O radical é imaginado como marginal com tanta frequência que às vezes algo
verdadeiramente subversivo passa despercebido, só porque aparece de smoking
em vez de camiseta ou máscara de esqui. Tome-se o filme Assim caminha a
humanidade [Giant], de 1956, dirigido por George Stevens. É um épico, uma
saga, uma longa história familiar, uma síntese histórica da transição econômica
do Texas, passando da pecuária para o petróleo, um faroeste pós-faroeste, e
também uma peça incendiária. Com três horas e pouco de duração, nele cabe de
tudo, desde cenas de casamento a questões de raça, classe e gênero.
É estrelado por Elizabeth Taylor e três gays, Rock Hudson, James Dean e Sal
Mineo, que se orbitam um pouco constrangidos um do outro, de um jeito que
apenas em parte tem a ver com seus respectivos papéis no filme. Percebi isso na
primeira vez em que assisti a Giant, quando passou em comemoração a seu
trigésimo aniversário, no Castro Theatre em San Francisco. Frequentando aquele
grande palácio dos sonhos de 1400 lugares desde a minha adolescência, aprendi
com os suspiros, os gemidos e os risinhos dos gays que estavam lá no escuro do
cinema a perceber os subtextos homoeróticos, a me deliciar com mulheres cheias
de verve e a apreciar a breguice, a bitchiness e os clichês. Giant tinha tudo isso.
Enquanto muita gente do meu convívio decorava filmes cult como The Rocky
Horror Picture Show, e no Castro ainda passam filmes com os quais as pessoas
cantam junto, como A pequena sereia ou A noviça rebelde, agora sei recitar junto
com Taylor algumas das suas melhores falas em Giant. Liz Taylor é aquela
preciosidade absoluta, uma mulher que rompe as regras, triunfa, diverte-se, em
vez de ser abandonada, derrotada ou acabar morrendo no final, como acontece
com tantas mulheres rebeldes em tantos enredos patriarcais. Um ano antes de eu
ver o filme pela primeira vez, Hudson tinha morrido de aids e Taylor começara a
se erguer em defesa dos que sofriam daquela doença então incurável e
horrivelmente estigmatizada. Com sua atitude franca e heroica como defensora e
arrecadadora de fundos, ela ficava um pouco parecida com a heroína indômita
que interpretara trinta anos antes.
Sempre que vejo uma mulher dessas na tela, fico empolgada da mesma forma
como os homens que se identificam com o infindável sortimento hollywoodiano
de heróis de ação devem ficar o tempo todo. Só de ver Jennifer Lawrence
andando por uma rua do Texas como um pistoleiro clássico para enfrentar um
inimigo no filme biográfico Joy: O nome do sucesso, de 2015, vibro como só me
acontece uma vez por ano e olhe lá. A Katniss Everdeen interpretada por Jennifer
é barra pesada, como uma série de heroínas de ação de Hong Kong e La Femme
Nikita, muito tempo antes. Os vídeos recentes de Beyoncé também me dão um
pouco dessa mesma empolgação, uma mulher que arrasa e não abaixa a cabeça.
Garota invicta, mulher que age.
Na segunda vez em que vi Giant na tela enorme do Castro, em seu
quadragésimo aniversário, levei a minha magnífica fonte pessoal de comentários
em voz baixa, o artista performático Guillermo Gómez-Peña. Quase desde o
início, ele não parava de cochichar: “Rebecca, não acredito no que estou vendo”.
No começo do filme, a jovem debutante de Maryland, Leslie Lynnton,
interpretada por uma Liz Taylor jovem, serena e radiante, ao mesmo tempo
encanta e irrita o pecuarista do Texas Ocidental, interpretado por Rock Hudson:
encanta por ser bonita e flertar, irrita por falar o que pensa. Acende-se o alerta do
tema freudiano: ele foi comprar um garanhão — um cavalo negro reluzente que
ela monta de uma maneira magnífica na cena de abertura — do pai de Leslie. Na
manhã seguinte, Liz desce e diz a ele que passou a noite toda lendo sobre o Texas;
ele está para se sentir lisonjeado quando ela comenta: “Realmente roubamos o
Texas! Quero dizer, do México”.
É uma cena discretamente insultuosa, com o belo mordomo negro com ar de
embaraço no rosto, que recebe alguma atenção da câmera junto com Hudson se
engasgando com a torrada. O filme, feito no ano posterior ao caso Brown v.
Conselho de Ensino e o caso em paralelo, o pouco lembrado Hernandez v. Texas,
trata da questão racial no Texas, um romance entre brancos e negros, embora
não trate da questão política de ser negro no Sul. Não é uma polêmica perfeita, e
recai no amplo gênero da justiça racial vista da perspectiva de um aliado branco,
e não da população atingida, mas mesmo assim é extraordinário para um
blockbuster filmado quando Martin Luther King estava terminando a faculdade e
Rosa Parks ainda cedia seu lugar no ônibus.
Realmente roubamos o Texas. É uma coisa espantosa de se dizer, mesmo hoje,
e, como observação que Elizabeth Taylor faz ao desjejum para um barão do gado
apaixonado pela sua terra natal, é um assombro. Ainda é um bom lembrete. No
ano em que Guillermo e eu vimos Giant completar quarenta anos no Castro —
1996 —, estávamos em plena fase de perseguir imigrantes na Califórnia,
impulsionada por vários mitos sobre o impacto econômico que transferia o ônus
de uma nova economia brutal dos seus donos e senhores para as classes mais
desfavorecidas. Aquele ano também foi o aniversário de 150 anos do início da
guerra dos Estados Unidos contra o México, que terminou dois anos depois com
a tomada da metade setentrional do México, o rico território do Novo México
até a Califórnia que, se tivesse permanecido nas mãos dos mexicanos, teria
levado a uma geopolítica global totalmente diferente e, talvez, a ondas de ianques
pobres atravessando clandestinamente a fronteira, em busca de trabalho na
superpotência a sudoeste. (O Texas, claro, tinha sido roubado antes disso.) A
amnésia é um componente importante da ideologia dos políticos que
demonizam os imigrantes e a população latina, desde a Corrida do Ouro, até o
governador Pete Wilson da Califórnia nos anos 1990 e o candidato presidencial
republicano em 2016.
O personagem de Hudson, o pecuarista Jordan Benedict II, sobrevive à
verdade saída dos lábios de uma bela mulher e, uma ou duas cenas depois, os
pombinhos recém-casados seguem para o lar no vagão particular dele. Ela, que
aparecera cavalgando pelos campos ondulantes e verdejantes do sudeste, fica
chocada ao descobrir que está destinada a viver nos pastos ressequidos do árido
Texas Ocidental. Mas ela se adapta ao ambiente. E também faz adaptações:
começa se intrometendo no tratamento que é dado aos mexicanos na fazenda de
meio milhão de acres, ao ver que não só estava numa região árida, mas também
numa região de segregação. Lá, seu marido impera como Abraão na terra de
Canaã. Grandes são os seus rebanhos, vastas são as suas terras. O filme, entre
outras coisas, parece propor que a grande divisão nos Estados Unidos não é
necessariamente a famosa configuração da Guerra Civil de Norte/Sul, e sim de
Leste/Oeste, com diferenças de hábitos, costumes, histórias, ecologias e escala de
tamanho. Fica claro que, para Leslie, encontrar gente falando espanhol e não
inglês significa que ela está em outro país.
O cavalo que Liz/Leslie montava confiante naquela cena de abertura foi junto
com ela, e assim tem-se a sua identificação com o garanhão, o reprodutor, a força
indomável — uma bela inversão da ideia de que o Leste ou a feminilidade
significa uma inação etérea. Numa cena do começo, o marido e a cunhada
insistem que ela é delicada demais para conseguir se manter no cavalo fogoso ou
para acompanhar a recolha do gado sob o sol inclemente. Enviam-na no veículo
conduzido pelo personagem de James Dean, um empregado de serviços gerais
meio preguiçoso chamado Jett Rink, que se apaixona por ela, em parte porque ela
o trata com um afável respeito (e em parte porque ela é a coisa mais linda que já
se viu no mundo).
A cunhada rude, que vive e respira o ambiente rústico da fazenda, consegue a
proeza de matar a si mesma e ao cavalo cravando-lhe fundo as esporas e
tentando dominar o poder de uma criatura acostumada a montarias mais gentis.
Ela quebra a perna, ele quebra o pescoço; ela expira num sofá, ele some sob a
câmera estendido no chão. Mas o filme chega à cena da sua morte um pouco
depois; antes disso, inicia-se um subenredo de ressurreição. Taylor faz Dean
parar no conjunto de barracos onde moram os peões mexicanos da fazenda e
encontra uma mulher com um bebê, ambos doentes. Quando o médico vai
examinar a morte da cunhada, Leslie transgride a segregação do local dando ao
médico algo mais útil para fazer — ir salvar a vida do bebê Angel Obregon (que,
mais adiante no filme, quando já cresceu e se tornou um rapaz, é interpretado
por Mineo).

É incrível: um filme em tecnicolor dos meados dos anos 1950, um tremendo


sucesso, sobre questões de raça, classe e gênero de um ponto de vista radical,
tendo como centro uma mulher indômita e carismática. Bom, é verdade que
naquela época havia filmes ainda mais à esquerda. O sal da terra, também
narrado da perspectiva de uma mulher forte, estreou em 1954, mas era um filme
meticuloso sobre uma greve de mineiros no Novo México, em branco e preto,
que foi proibido; Giant, com suas cores exuberantes, foi indicado para vários
Oscar e ganhou o de melhor diretor, fez rios de dinheiro na bilheteria e teve
ampla audiência no mundo. E é isso que gostaríamos que a propaganda e a
advocacia fizessem; talvez Giant mostre que o prazer ajuda a chegar lá (e o
orçamento também).
Levei outra década para perceber que Giant também é um filme sério sobre
um casamento que é sólido, mas não fácil, entre duas pessoas que sobrevivem a
profundas divergências com paciência e persistência. Chama-se Giant por causa
da escala de tamanho das coisas no Texas, e Rock Hudson é um homenzarrão
que avulta sobre todo o resto, mas bem que podia se chamar Giantess. A Leslie
Benedict de Liz Taylor possui uma estatura moral e um destemor que
obscurecem todos os demais: dá bronca em homens poderosos, auxilia pessoas
que deveriam se manter como subalternos invisíveis, e, de modo geral, luta
contra o poder. E também não perde muito, embora transija um pouco. O
marido basicamente reage e tenta entender. Virginia Woolf comentou certa vez
que Gilbert Imlay, amante de Mary Wollstonecraft, ao se envolver com a grande
revolucionária feminista, queria pegar um peixinho de rio “e fisgou um golfinho,
que o arrastou entre as águas até deixá-lo atordoado”. O Jordan Benedict II de
Rock Hudson fica várias vezes atordoado ao se ver casado com uma aguerrida
militante pela justiça racial, de classe e de gênero, mas, ao contrário de Imlay,
nunca se desprende do anzol.
É muito instrutivo ver Hudson absorver o impacto de uma relação — perceber
que nem sempre se tem o que se quer, ou não saber o que fazer a seguir ou nem
sempre concordar com a pessoa que se ama —, e ele trabalha bem, com emoções
complexas lhe passando pelo rosto largo e liso como nuvens passando pela
pradaria. “Você sabia que eu era uma garota orgulhosa e desagradável quando se
casou comigo”, diz-lhe Leslie numa manhã, depois de ter rompido mais algumas
regras metendo-se numa conversa de política entre o marido e os seus parceiros,
pessoal com influência política e que manipula as eleições das planícies texanas.
Há muitos filmes falando de relacionamentos, casamentos, paixões e desilusões,
mas não são muitos os que falam de um casamento atravessando anos. Eles
brigam, fazem as pazes, toleram, se adaptam, procriam.
As obras de arte que nos acompanham ao longo das décadas são espelhos em
que podemos nos enxergar, fontes nas quais podemos continuar bebendo. Elas
nos lembram que o importante é não só o que nos trazem, mas também o que
colocamos nelas, tornando-se registros das nossas mudanças pessoais. Se Giant é
um filme diferente a cada década em que assisto a ele, talvez seja porque mudei,
sou outra pessoa concentrada em outras coisas no mundo ao meu redor. Não
que eu tenha renunciado às aulas cochichadas no escuro.
Quanto tempo leva para enxergar alguma coisa, para conhecer alguém? Se
calcularmos em anos, vemos que pouco percebíamos no começo, mesmo quando
achávamos que conhecíamos. Atravessamos a vida geralmente sem enxergar o
que está em torno, sem conhecer quem nos rodeia, sem entender as forças em
jogo, sem entender a nós mesmos. A menos que a gente persista, e talvez este seja
um filme sobre a persistência. Quando assisti a Giant neste ano, no seu
sexagésimo aniversário, já conhecia a trama do casamento, a força de Leslie
Benedict continuava a ser um encanto e percebi nuances que não percebera
antes.
Acontece com os nossos protagonistas a pior coisa que se pode imaginar: têm
um filho que, adulto, é interpretado por Dennis Hopper. O personagem Jordan
Benedict III é um rapaz ruivo nervoso, desajeitado, inconstante que, quando
criança, tinha medo de cavalos e, adulto, quer ser médico, o que se torna com
notável rapidez. Também se casa com uma enfermeira desmazelada, interpretada
pela atriz mexicana Elsa Cárdenas, sem o conhecimento dos pais. Guillermo me
disse, quando vimos o filme vinte anos atrás, que Cárdenas, artista de porte
médio no seu país natal, era muito mais sensual do que a deixaram ser no filme,
e, como em todos os personagens mexicanos de Giant, parecia que tinham
passado nela uma “graxa marrom” para ficar mais morena do que era.
O personagem de Hopper nem de longe quer assumir o comando da fazenda
de meio milhão de acres e uma das duas filhas do casal protagonista, embora
adore a vida de fazenda, deixa o pai ainda mais triste ao lhe dizer que quer uma
pequena área onde ela e o marido vaqueiro possam experimentar novos métodos
científicos. Na cena em que o personagem de Hudson percebe que teve filhos,
mas não herdeiros nem continuadores da dinastia, no pano de fundo está Angel
Obregon, interpretado por Mineo, que poucas cenas antes fora considerado o
melhor homem dali. Foi a primeira vez que notei isso e percebi que, assim, o
filme dava a entender que o personagem de Hudson, se ao menos conseguisse
vencer o seu racismo, tinha ali um verdadeiro herdeiro, o homem que Taylor,
anos antes, salvara da morte. Mas, em vez disso, Angel passa batido, sem
reconhecimento, e volta da Segunda Guerra Mundial num caixão. O que ele
tinha de promissor, como no caso de tantos outros, foi desperdiçado.
O filme também pode ser visto como uma saga sobre a transição econômica,
passando da pecuária para o petróleo, e Jett Rink passa de peão relaxado a
magnata quando começa a jorrar combustível fóssil no seu pequeno sítio. Mas é
também, pelo menos em igual medida, uma saga sobre a transição de uma época
amplamente marcada pela segregação e pela discriminação para uma incipiente
era dos direitos civis, e Cárdenas, como noiva de Hopper e nora de Hudson,
encarna o ímpeto das batalhas que acabam por envolver o sogro na parte final do
filme. No novo hotel de Rink, as cabeleireiras se recusam a atendê-la; depois,
quando ela, o filho, o marido e os sogros param na volta para jantar, o chef
insulta a jovem. Um trio mexicano visivelmente humilde (os atores pareciam uns
capangas de Pancho Villa) é expulso do estabelecimento. Hudson, depois de
décadas de enredo e horas de filme, finalmente se ergue à altura da ocasião e dá
um soco no chef grandalhão, que lhe devolve um soco ainda mais forte. Hudson
perde a briga e ganha a admiração de Liz/Leslie ao se tornar na marra um ativista
dos direitos civis, um rebelde com causa.
Dessa vez, percebi que o filme, devagar e sutilmente, negava ao patriarca toda
e qualquer forma de poder patriarcal: a esposa não o obedece e muitas vezes não
o respeita; os filhos não aceitam os projetos que o pai lhes traça, em especial o
filho que não quis assumir a herança da fazenda e se casa com uma mexicana ou
chicana (ou tejana, uma texana nativa de origem mexicana; o filme não traça
muito claramente essas distinções). A própria pecuária deixa de ser a grande
atividade central que define o Texas; foi superada pelo petróleo, que muda tudo.
Jordan Benedict II, um dos maiores criadores de gado do Texas, viu-se privado de
todas as formas de poder que mais lhe importam, diz-nos o filme, e para ele,
depois de superar o fato, fica tudo bem, sem problema, como para os outros. É
uma mudança não só de gado para petróleo, mas do patriarcado para algum tipo
de redefinição aberta e negociada de todas as coisas, a nossa controvertida era
contemporânea.
Uma das coisas espantosas que percebi, assistindo ao filme nessa última vez,
foi que ele trata de um homem descobrindo que não tinha controle sobre coisa
alguma e não se faz de Jó e nem vem com queixumes. Não é que ele imaginasse
que controlava as coisas e acha uma tristeza quando vê que não consegue. Nem
que os reis não possam ser depostos. O filme afirma o contrário: o rei caiu —
como cai literalmente na cena do jantar — e está tudo bem. É por isso que o
filme é radical.

Quem dera os homens brancos em geral se comportassem tão bem diante das
mudanças como Jordan Benedict II no final do filme. Para mim, Giant sempre
tinha sido sobre o personagem monumental de Liz Taylor, mas talvez seja um
anti-Bildungsroman sobre a chegada da meia-idade e o abandono das ilusões,
inclusive a ilusão de controle. O filho insubordinado, Jordan Benedict III, trouxe-
lhe um neto que dá continuidade ao nome da família, Jordan Benedict IV, um
menino moreno de grandes olhos castanhos que — finalmente percebi —
encerram a cena final do filme. Este, diz Giant, é o futuro; acostume-se a isso.
Agradecimentos e créditos dos textos

Há uma guerra contra as mulheres, como vi sendo criada numa casa cheia de
violência masculina, e achava que estaria a salvo se e quando saísse de lá, o que
fiz muito jovem, apenas para descobrir que agora eram desconhecidos na rua que
me ameaçavam. Como escrevi em Wanderlust (2000):
A descoberta mais devastadora da minha vida foi que eu não tinha nenhum direito real à vida, à
liberdade e à busca da felicidade fora de casa, que o mundo estava cheio de desconhecidos que pareciam
me odiar e queriam me fazer mal só por causa do meu gênero, que o sexo se convertia prontamente em
violência e que quase ninguém considerava o fato como um assunto público, e não um problema
privado.

Tentei convertê-lo numa questão pública.


Essa guerra está tão imiscuída na nossa cultura que desperta pouca indignação
e ainda menos atenção; fatos isolados se tornam notícia, mas o padrão geral é
muito frequente para ser notícia. Venho tentando chamar a atenção para ele
descrevendo alguns dos seus impactos, enumerando-os em frases como esta,
sobre a violência doméstica: “é a causa número um de agressões em mulheres
americanas; entre os 2 milhões de mulheres agredidas anualmente, mais de meio
milhão dessas agressões exigem cuidados médicos, enquanto cerca de 145 mil
exigem um dia de internação hospitalar, segundo os Centros de Controle e
Prevenção de Doenças”, tentando entender o ódio, o medo e o sentimento de se
achar no direito dos que estão por trás da violência, e mostrando que a violência
é apenas a manifestação mais dramática de um sistema que desvaloriza,
desumaniza e anula as mulheres. Pode ser um trabalho horrível, ler inúmeras
transcrições de julgamentos judiciais, relatos de estupros e assassinatos,
estatísticas sobre corpos espancados e vidas destroçadas — mas, como parte do
projeto de mudar o mundo, vale a pena.
Minha gratidão ao movimento feminista como parte crítica e central das
revoluções mais amplas para dar igualdade a todos sob a lei e, na nossa vida
cotidiana, para garantir os direitos e o respeito por todos. Tenho idade suficiente
para lembrar como o mundo era ruim antes que houvesse recurso contra a
violência doméstica, o estupro por namorados e conhecidos e o assédio sexual no
local de trabalho (parte integrante corriqueira na minha experiência de trabalho
quando adolescente), idade suficiente para ter visto o mundo mudar graças a
percepção, organização e intervenção. Sou grata às pessoas e aos coletivos que
geraram um novo mundo, em que somos mais livres e mais iguais, grata por ter
tido em anos recentes um pequeno papel nesse trabalho, que não terminará tão
cedo. E tampouco recuaremos, por maior que seja a reação.
Agradeço às mulheres mais velhas que conheci, e foram as primeiras mulheres
livres, insubmissas, poderosas na minha vida: as primas do meu pai Mary Solnit
Clarke e June Solnit Sale, ativistas pelos direitos humanos desde os anos 1940 e
integrantes fundamentais da grande organização Women Strike for Peace desde
o seu início em 1961, de importância ainda não plenamente reconhecida; a Carry
e Mary Dann, as matriarcas shoshones ocidentais a cuja luta pelos direitos à terra
me somei em 1992, durante alguns anos de valoroso esforço e grande aventura
no leste de Nevada; alguns anos depois, à escritora feminista Lucy Lippard; à
grande Susan Griffin, e a muitas outras. Agradeço às jovens que estão injetando
um novo vigor e uma nova visão no feminismo, inclusive muitas grandes
escritoras como Jia Tolentino, Roxane Gay, Mona Eltahawy, Caroline Criado-
Perez, Brittney Cooper, Rebecca Traister, Adrienne Maree Brown, Emma
Sulkowicz e as mulheres de Black Lives Matter, e muitas jovens que tive a sorte
de conhecer graças a esses textos. Agradeço às minhas colegas, em especial Astra
Taylor e Marina Sitrin, feministas enérgicas, inteligências brilhantes e amigas
queridas. Agradeço aos muitos homens que se tornaram feministas, e sou grata
por agora entendermos que, assim como existem mulheres que servem ao
patriarcado, existem homens e quaisquer outras pessoas que se rebelam contra
ele; agradeço especialmente às vozes de muitos homens negros que entendem a
opressão, onde quer que ela se manifeste: entre eles, Taj James, Elon James
White, Teju Cole, Garnette Cadogan e Jarvis Masters. Agradeço aos homens gays
que têm sido grandes amigos, aliados e fontes de percepção desde os meus treze
anos de idade, grata por crescer numa cidade que é a capital mundial da
libertação queer. Agradeço às mulheres da minha família educando crianças
feministas.
Agradeço à inteligência e à dedicação de Anthony Arnove, editor da
Haymarket, e ao belo trabalho editorial de Caroline Luft; ao genial design de
Abby Weintraub, que colocou o título Men Explain Things to Me [Homens me
explicam coisas] em palavras tão claras e destacadas que o livreto servia de cartaz
e provocação, design que mantivemos em Hope in the Dark [Esperança no
escuro] e neste volume, que completa uma trilogia que sempre foi sobre a
esperança, e não só sobre a luta e a violência; e ao generoso trabalho de Rory
Fanning, Jim Plank, Julie Fain e todos os integrantes da equipe da Haymarket;
agradeço aos leitores que quiseram participar dessa conversa sobre gênero e
poder; agradeço às livrarias independentes que mantêm os meus livros
disponíveis aos leitores; sou grata que os livros ainda tenham um papel central na
nossa vida, continuando a ser a maneira mais profunda de se relacionar com os
pensamentos dos outros na tranquilidade e na solidão.
Agradeço especialmente a Christopher Beha, que me convidou para a coluna
Easy Chair da Harper’s, em que “A mãe de todas as perguntas”, “Fuga do bairro de
5 milhões de anos” e “Giantess” foram inicialmente publicados; aos editores do
Guardian que publicaram vários desses artigos, incluindo “Um ano de
insurreição”, “Um ano após sete mortes” e “O feliz caso recente da piada sobre
estupros”; e a John Freeman e Jonny Diamond no Lithub, onde saíram
inicialmente os ensaios “Oitenta livros que nenhuma mulher deveria ler”,
“Homens me explicam Lolita” e “O caso do agressor desaparecido”.
Créditos das ilustrações

6: American College of Obstetricians and Gynecologists


1, 2, 3, 4, 5 e 7: Arte de Paz de la Calzada. Cortesia da artista.

Paz de la Calzada (www.pazdelacalzada.com) é uma artista multidisciplinar
residente em San Francisco. Seus desenhos e instalações ambientais criam
labirintos complexos que oferecem uma trilha entre a esfera pública e um espaço
contemplativo, ligando assim dois mundos muito isolados. As linhas intrincadas
e os padrões repetitivos dos desenhos da série HairScape convivem e colaboram
com a arquitetura ambiente, resgatando aspectos da beleza feminina. Paz criou
projetos artísticos públicos de caráter temporário nos Estados Unidos, Índia,
Creta e Espanha, envolvendo-se com as comunidades locais e inspirando-se nas
suas histórias pessoais. Ilustrações: p. 5: carvão sobre tela, 46” × 40”; p. 23: carvão
sobre tela, 56” × 54”; p. 85: carvão sobre tela, 24” × 26”; p. 133: carvão sobre
papel, 30” × 22”; p. 157: carvão sobre papel, 30” × 22”; p. 193: carvão sobre tela,
20” × 18”.
JUDE MOONEY


REBECCA SOLNIT autora do best-seller internacional Os homens explicam
tudo para mim, é colunista da revista Harper’s, colaboradora do jornal The
Guardian, historiadora e ativista. Escreveu mais de quinze livros sobre
feminismo, história indígena e ocidental, poder popular e insurreição, entre
outros temas contemporâneos.
Copyright © 2017 BY REBECCA SOLNIT

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil
em 2009.

Título original
The Mother of All Questions

Capa
Tereza Bettinardi

Preparação
Ana Lima Cecilio

Revisão
Huendel Viana
Adriana Moreira Pedro

ISBN 978-85-438-1066-9



Todos os direitos desta edição reservados à
EDITORA SCHWARCZ S.A.
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