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HeberCarlosdeCarnpqs

Estudos em
Antropologia
Bíblica
Jonas de Gols
Técnico Judiciário

Ao meu amado neto HENRIQUE -


filho de meus filhos Claudia e Rinaldo,
filho do pacto, na esperança de que ele venha
a contemplar, ainda que pela fé, o fim deste
presente habitat e vislumbrar coisas gloriosas do
habitat restaurado que o Senhor prometeu aos
que o amam- dedico este livro.
APRESENTAÇÃO

Prefaciar uma obra do dr. Heber Carlos de Campos é


um desafio conjugado com um sentimento de gratidão a
Deus pelo trabalho realizado por esse servo do Senhor. O
rev. Heber, com seu estilo claro e conciso, envolve o leitor
com o desejo de aprender mais e de descobrir coisas novas
à medida que examina as suas obras.
Tive o privilégio e a alegria de conviver com ele ain-
da jovem no Seminário Presbiteriano do Sul, Campinas/
SP, quando preparava-se para o ministério sagrado, já de-
monstrando toda a sua capacidade de pesquisa e dedica-
ção como um estudioso da teologia reformada. A sua área
de dedicação envolveu- dentro da visão pastoral que sem-
pre possuiu - o ensino da teologia sistemática, de uma for-
ma eminentemente bíblica e , ao mesmo tempo, envolvendo
os desafios contundentes do pensamento dos autores da
teologia sistemática.
Seu preparo não só fora firmado na busca do conhe-
cimento dos teólogos, mas principalmente numa análi-
se profunda dentro de uma exegese bíblica, procurando
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

apresentar o texto em uma linguagem inteligível para qual-


quer leitor de seus livros.
Tem escrito nos mais diferentes campos da teologia,
procurando sempre, de uma maneira contemporânea,
apresentar o seu pensamento à luz das melhores ferra-
mentas dos nossos dias, mas de uma forma pertinente e
pastoral para a edificação da igreja do Senhor Jesus Cristo.
Sou grato a Deus por ter como ministro do evangelho na
Igreja Presbiteriana do Brasil um teólogo dos mais emi-
nentes dos nossos dias e o mais proficuo escritor em nossa
língua de temas tão apaixonantes e necessários.
O presente livro, O habitat humano- o paraíso ausen-
te, faz parte da série "Estudos em Antropologia Bíblica",
que teve o seu início com o livro O habitat humano - o
paraíso criado, em 20 11, O habitat humano - o paraíso
perdido, em 2012 e agora O habitat humano- o paraíso
ausente. Seus livros têm uma caracteristica comum: o em-
basamento bíblico numa interpretação reformada, tendo
as Escrituras como única regra de fé e prática e, ao mesmo
tempo, apresentando uma exegese firme, ao mostrar a sua
fé na inerrância das Escrituras Sagradas. Portanto, ler os
livros do rev. Beber é como se tivéssemos a oportunidade
de fazer uma excursão nas profundidades das Escrituras,
descobrindo as belezas ali presentes a fim de fortalecer,
edificar, confortar e despertar a nossa vida para andarmos
mais com o Senhor da Seara. Como já afirmamos, toda a
sua análise bíblica é de cunho pastoral, conduzindo-nos
ao texto do salmo 23: O SENHOR é o meu pastor; nada me
faltará. Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-
me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma
(Sl23.1-3).
O paraíso ausente apresenta o habitat humano na ter-
ra como a preocupação básica das Escrituras de mostrar
que Deus fez a terra para que nela os homens pudessem
viver: Sede benditos do SENHOR, que fez os céus e a terra.
Os céus são os céus do SENHOR, mas a terra, deu-a ele aos

6
APRESENTAÇÃO

filhos dos homens. (Sl 115.15-16). No presente livro, o au-


tor deixa bem claro que o "coração de Deus" pendeu, na
imensidão do Universo, para um pequeno ponto chamado
Terra, a fim de que nela os homens e principalmente seus
filhos desenvolvessem sua vida e ministério.
O autor desenvolve no presente livro a tese de que
o habitat humano está sob o sofrimento, pois o paraíso
está ausente. A criação geme e aguarda a redenção final. O
mundo atual existe sem a presença do paraíso. O paraíso
foi formado por Deus, mas, por conta da queda do homem,
foi levado para o céu. Todavia, este ainda é o lugar que
Deus destinou para a morada do homem e, por conseguin-
te, há esperança e agradáveis expectativas para os que
creem em Deus. Na verdade, o Senhor mantém interesse
evidente para com a Terra e seus habitantes, de tal modo
que providenciou a sua salvação e renovação em Jesus
Cristo. Com efeito, o habitat humano sofre com os efeitos
da queda e, em virtude de sua condição, está destinado à
destruição por meio do julgamento divino. No entanto, até
que venha o grande Dia do Senhor, aos cristãos cabem
deveres diante do atual habitat, nutrindo esperança e ex-
pectação acerca da gloriosa restauração final.
O livro está dividido em três partes. Na primeira dis-
cute o sofrimen_to no presente habitat, apontando para a
restauração. Nesta primeira parte, firma-se a exegese de
Romanos 8.17-25 de forma clara e concisa. Na segunda
parte, o autor desenvolve sobre a destruição da terra, sem,
contudo, levar ao aniquilamento.
Em uma linguagem poética e fascinante, ele afirma:
((O presente habitat será destruído no Dia do Juízo, porque
ele foi amaldiçoado por Deus em Gênesis 3, por causa do
pecado de Adão. De lá para cá, podemos ver constantemen-
te a maldição de Deus sobre o solo e sobre todos os outros
elementos da terra. Eles serão queimados, mas não ani-
quilados. Deus lançará fogo sobre a terra, mas será para
a purificação dela, não para o seu desaparecimento. O que

7
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

desaparecerá será a maldição, não a terra que o próprio


Deus criou".
Na terceira parte, o autor desenvolve o ministério dos
cristãos antes da destruição do presente habitat. É impor-
tante observar que sua análise mostra uma cosmovisão do
ser de Deus em consonãncia com os seus atributos, levan-
do o cristão a responsabilidades diante de todo o quadro
que antevê a destruição. A ênfase principal envolve uma
vida de santidade que se expressa com procedimento san-
to e piedoso na perspectiva da eternidade. O cristão ver-
dadeiro vive seu dia a dia na expectativa do Dia de Deus,
quando o Senhor estabelecerá o seu juízo sobre todas as
coisas, e a justiça de Deus permeará nova terra e novo
céu: Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primei-
ra terra passaram, e o mar já não existe (Ap 21. 1).
O rev. Heber Carlos de Campos em todo o livro desa-
fia o leitor a depositar a sua confiança irrestrita na pessoa
de Deus, no redentor Jesus Cristo e na instrumentalidade
do Espírito Santo. É um livro de esperança, mesmo que
apresente uma realidade de sofrimento e destruição, pois
enfatizao relacionamento profundo do homem com o seu
Criador, levando-o às responsabilidades e obrigações ante
o paraíso ausente que tanto ansiamos por ter presente.
Este livro está no campo de estudos da teologia sis-
temática, mas é uma exposição fiel das Escrituras como
pouco se vê. Por essa razão, como presidente do Supremo
Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, desejo que todo
cristão, comprometido com a Palavra de Deus, possa lê-lo
e apresentá-lo a outros.

Rev. Roberto Brasileiro Silva


Presidente do Supremo Concílio
Igreja Presbiteriana do Brasil

8
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ••............................•.....................•............•• 13

PARTE 1 - O SOFRIMENTO DO PRESENTE HABITAT


CAPÍTULO 1 ......... ··················· ........................................ 37
Os sofrimentos dos remidos no presente habitat
e as glórias futuras

CAPÍTULO 2 ................................................................... . 6 7
O gemido do presente habitat

3 ................................................................... 1 o1
CAPÍTULO
O gemido da criatura remida no presente habitat

CAPÍTULO 4 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159
Verdades sobre a criação a ser restaurada

PARTE 2 -A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

CAPÍTULO 5 ····· ····························································· 185


A destruição do presente habitat precisa ser
lembrada pelos destinatários de Pedro
CAPÍTULO 6 ................................................................... 191
A destruição do presente habitat é motivo de escárnio
para os ímpios

CAPÍTULO7 .................................................................. 203


Os escarnecedores se esqueceram deliberadamente
das coisas passadas

CAPÍTULO 8 ·································································· 235


Os escarnecedores desprezam o que vai acontecer
no futuro

CAPÍTULO 9 .................................................................. 239


Verdades que os destinatários não podiam esquecer

CAPÍTULO 10 ................................................................ 263


A destruição do presente habitat tem conexão com
um dia especial

11 ................................................................ 303
CAPÍTULO
O modo de destruição do presente habitat

PARTE 3- OS DEVERES DO CRISTÃO ANTES DA DESTRUIÇÃO


DO PRESENTE HABITAT
CAPÍTULO 12 .... ································· ........................... 353
A destruição do presente habitat deve levar o cristão
a uma vida de santidade

CAPÍTULO 13 ································································ 365


A destruição do presente habitat deve levar o cristão
a uma expectativa com relação ao Dia de Deus

CAPÍTULO 14 ································································ 373


A destruição do presente habitat deve levar o cristão
a uma expectativa dos novos céus e da nova terra
CAPÍTULO 15 ................................................................ 387
A destruição do presente habitat deve levar o cristão
a viver com empenho

CAPÍTULO 16 ................................................................ 40 1
A destruição do presente habitat deve levar o cristão
a considerar a longanimidade do Senhor

CAPíTULO 17 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 411
A destruição do presente habitat deve levar o cristão
a se acautelar dos erros teológicos

CAPÍTULO 18 ································································ 427


A destruição do presente habitat deve levar
o cristão a crescer espiritualmente
INTRODUÇÃO

A ideia de escrever este livro nasceu da necessidade


de tratar das coisas que acontecem no presente habitat.
O primeiro livro da série, O habitat humano- Opa-
raíso criadd, tratou do habitat original dos homens, que
era o jardim de Deus , localizado na enorme porção seca
chamada Éden. Sustentamos no primeiro livro a teoria da
pangeia, segundo a qual os continentes não eram da forma
como vieram a existir posteriormente. Esse habitat origi-
nal localizado no Éden durou até o tempo em que Deus
transportou o paraíso para o céu, o que se deu bem depois
da expulsão do primeiro casal do paraíso e, certamente,
antes da chegada do dilúvio. Esse livro foi uma análise de
Gênesis 2.

1
CAMPOS, Heber Carlos de. O habitat humano -O paraíso criado. São
Paulo : Hagnos, 2011.
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O segundo livro da série, O habitat humano- O paraí-


so perdido, 2 tratou do habitat em que os homens continua-
ram a viver depois da expulsão do paraíso até o dilúvio,
quando apareceu a divisão dos continentes que existem
até agora. Nesse período, todas as maldições pronuncia-
das no jardim de Deus foram implementadas. Nele, não
somente o homem ficou corrompido, mas também o seu
habitat. Esse segundo livro apresentou uma análise de
Gênesis 3.
Este terceiro livro da série trata de O habitat humano
-O paraíso ausente. Este presente habitat, sem o paraíso,
é o que existe desde o dilúvio do tempo de Noé, com todas
as mudanças causadas por essa grande catástrofe, até a
chegada do Dia de Deus. Do dilúvio até agora não houve
nada digno de nota em termos de geografia da Terra.
Este terceiro livro trata do período pós-dilúvio até o
dia final, mas o foco da pesquisa será eminentemente a
Escritura, sem que usemos outras ciências específicas
para trabalhar paralelamente com ela. Eu me aterei, neste
livro, às informações fornecidas pela infalível Palavra de
Deus com respeito ao término deste habitat na forma como
se encontra.
Portanto, o foco da minha pesquisa neste terceiro
livro estará ligado a dois textos fundamentais do Novo
Testamento que não abordam detalhadamente os novos
céus e a nova terra, mas tratam do presente habitat an-
tes que as coisas restauradas apareçam. Portanto, eu me
deterei numa análise de dois textos básicos para o en-
tendimento do que vai acontecer com o presente habitat:
Romanos 8.17-25 e 2Pedro 3.1-18. Os demaís textos de
Isaías e de Apocalipse, que falam sobre a nova terra pro-
priamente, serão analisados num quarto livro, quando eu
abordar O habitat humano - O paraíso restaurado.

2
CAMPOS, Heber Carlos de. O habitat humano- O paraíso perdido. São
Paulo: Hagnos, 2012.

14
INTRODUÇÃO

1. UM POUQUINHO DE COSMOGONIA E
COSMOLOGIA BÍBLICAS

A "cosmogonia é o estudo das ideias a respeito da


origem do cosmos". 3 Ela diz respeito à teoria da origem e
do desenvolvimento do Universo, do sistema solar ou do
sistema da Terra/Lua. 4 A cosmogonia também procura in-
corporar a descoberta de novas informações sobre o pro-
cesso de entendimento das origens do Universo e de como
ele continua a funcionar.

1) DIFERENÇA ENTRE COSMOGONIA E COSMOLOGIA


No sentido mais estrito, a cosmologia se refere ao
Universo como ele é agora (ou ao menos como ele pode ser
observado agora), ao passo que a cosmogonia se refere ao
estudo das origens do Universo.
A diferença entre cosmogonia e cosmologia está no sufixo.

O sufixo de cosmologia (logos) é acrescentado a uma palavra


quando você quer falar a respeito da ciência ou do estudo de
alguma coisa. Assim, uma cosmologia é simplesmente um
estudo do cosmos ou do Universo. O sufixo de cosmogonia,
por outro lado, vem do grego gonia, que está relacionado
ao se tomar ou ao vir a ser. Assim, uma cosmogonia é uma
explicação de como o Universo veio à existência. 5

3
MORRIS, Henry. The biblical basis for modem science. Grand Rapids: Baker,
1991, p. 135.
4
Disponível em : <http ://wiki .answers.com/Q/What_ does_cosmogony_
mean#ixzz1xDq6Nhp9>, acessado em: 15/05/2013.
5
Disponível em: <http://www.toddjana.com/cosmology-or-cosmogony>,
acessado em : 15/05/2013.

15
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Nesse sentido, podemos dizer que a cosmogonia é um


pouco mais específica do que a cosmologia, sendo um as-
pecto desta.

Algumas vezes a cosmogonia é identificada como uma


subcategoria especializada da astronomia ou cosmologia
e mesmo como filosofia, visto que o estudo inclui
consideração das histórias da criação encontradas em
muitas religiões. 6

No entanto,

o estudo da cosmogonia difere da abordagem da


cosmologia. Embora ambas tenham a ver com o Universo,
a cosmologia está mais preocupada com o estudo do
que está acontecendo com o Universo aqui e agora, com
alguma atenção para o estudo dos eventos que levaram
ao presente estado. Por contraste, a cosmogonia está
mais facada sobre como o Universo veio a existir e
seguindo o curso dos eventos que transpiraram daquele
ponto de partida.7

A consideração de ambas as abordagens é melhor


para entender a realidade em que a raça humana vive,
pois cada método individualmente determina um resulta-
do diferente, dependendo das pressuposições assumidas.
6
Disponível em : <http://www.wisegeek.com/what-is-cosmogony.htm>,
acessado em : 16/05/2013.
7
Disponível em: <http://www.wisegeek.com/what-is-cosmogony.htm>,
acessado em: 16/05/2013.

16
INTRODUÇÃO

A cosmogonia está intimamente relacionada com a cos-


mologia, que é o estudo do cosmos em todas as suas
facetas.

2) A IMPORTÂNCIA DO NOSSO PRESENTE HABITAT


No entanto, mesmo conhecendo um pouco da cos-
mogonia e da cosmologia, e das enormes implicações que
o Universo todo tem sobre o nosso habitat, percebemos
que o coração de Deus pendeu para um lugar pequenino
localizado na imensidão do Universo. O habitat huma-
no sempre teve para Deus uma importância singular. Ao
menos na Escritura há uma grande ênfase na especial
significação do nosso habitat aos olhos de Deus.
Não obstante o tamanho imensurável do Universo
criado por Deus, a Terra tem assumido um papel abso-
lutamente singular. A preocupação da Escritura com o
nosso planeta é única porque ele é o habitat dos seres
humanos. Deus fez todas as coisas, mas pensou de um
modo especial na obra-prima de sua criação- o homem
-quando fez a Terra. Veja o que diz o autor em Salmos
115. 15, 16: Sede benditos do SENHOR, que fez os céus e a
terra. Os céus são os céus do SENHOR, mas a terra, deu-a
ele aos filhos dos homens.
Deus fez a Terra para ser a habitação dos homens
e, até onde se pode provar, ela é o único lugar onde há
vida. "É quase certo que nenhum outro planeta em nos-
so sistema solar favorece o fenõmeno da vida." 8 Mesmo
considerando o imenso universo das galáxias, parece-
-nos que Deus deu uma atenção especial a este pequeno
planeta, a ponto de, até agora, não haver qualquer ma-
nifestação cientificamente provada de vida em nenhuma
outra parte do Universo. Deus fez todas as coisas imen-
sas, mas colocou a vida somente neste nosso pequeno
8
POLLARD, William G. The prevalence of earthlike p/anets, Amerícan
scíentist, 67 (Nov-Dec. 1979), p. 653.

17
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

mundo. A fim de que haja vida, é necessário haver uma


grande concentração de água, e não há qualquer regis-
tro desse elemento em outra parte do Universo, mesmo
com as inteligentes buscas dos grandes satélites e de
seus poderosos telescópios. 9
Portanto, somente a Terra pode manter a vida, por-
que muitíssimas de suas formas de vida provêm da água,
e nenhuma forma de vida dispensa a água, que existe em
extrema abundância em nosso planeta. Provavelmente
por causa e para o beneficio dos seres humanos é que
Deus teve uma preocupação pelo planeta no qual ele os
colocou.
A destruição trazida pelo dilúvio , por causa da ira
divina pelo pecado humano , não fez Deus perder a preo-
cupação que ele sempre teve com o habitat humano. Na
verdade , no pacto feito com Noé após o dilúvio, Deus
estabeleceu uma espécie de novo começo e, nesse pacto ,
ele mostra a importância do habitat e de seus habitantes.

2. UM POUQUINHO DE ETNOLOGIA BÍBLICA

Enquanto a cosmologia trata do habitat físico , a etno-


logia trata de seus habitantes. A etnologia é um ramo da
antropologia que aborda comparativamente as culturas de
vários povos , incluindo sua distribuição sobre a face da
terra, suas características e seus costumes.

9"Embora haja alguma evidência de gelo e de vapor em outros planetas,


nenhum deles possui qualquer quantia significativa - provavelmente nada
de água líquida" (MORRIS, Henry. The biblical basisfor modem science.
Grand Rapids : Baker, 1991, p. 244) .

18
INTRODUÇÃO

1) A ORIGEM DAS ETNIAS SEGUNDO AS ESCRITURAS


Embora haja muitas etnias (nações) 10 no mundo, ba-
sicamente todas elas fazem parte da mesma raça. Todos
os homens são basicamente iguais, possuindo certamente
uma origem comum. Todos somos da mesma espécie. O
apóstolo Paulo, ensinando aos gregos desejosos de conhe-
cimento, apresentou-lhes o Deus verdadeiro e lhes disse o
que ele fez: O Deus que fez o mundo [. ..} de um só fez toda
a raça humana para habitar sobre toda a face da terra,
havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os
limites da sua habitação (At 17.24,26).
Segundo os registros de Gênesis 1O, a civilização
começou no Oriente Médio, nas proximidades do monte
Ararate (agora na Turquia) e da Babilõnia (atual Iraque). A
dispersão das nações após a torre de Babel pode ser tra-
çada pela descendência dos filhos de Noé, como registra
Gênesis 10.

A) Os DESCENDENTES DE JAFÉ (GN 10.2-5)


Estes foram para o norte e o oeste da Europa, for-
mando as seguintes etnias:
Os filhos de Javã deram origem à Grécia.
Os filhos de Magogue, Meseque e Tubal deram origem
aos povos da Rússia.
Os filhos de Gômer deram origem aos povos da
Alemanha.
Os filhos de Tiras deram origem à Trácia e aos etruscos.
Os filhos de Madai deram origem aos medos.

10
Quando o termo "nações" for usado neste estudo, não deve ser
entendido no sentido geopolítico moderno, como Brasil, Argentina, Chile
etc., mas no sentido de raças ou etnias.

19
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Os filhos de Togarma deram origem aos armênios.


Os filhos de Dodanim deram origem aos dardânios.
A maioria desses povos emigrou para a Europa, e eles
se tornaram, em linhas gerais, os ancestrais dos caucasia-
nos e das raças arianas que, posteriormente, se espalha-
ram para outras partes do mundo.

B) Os DESCENDENTES DE CAM (GN 10.6-20)


Estes emigraram para o sul e o oeste da África, e os
hititas se tomaram o grande Império da Turquia e da Ásia
Ocidental. Outros foram para o Extremo Oriente, formando
algumas etnias que podem ser facilmente identificadas:
Os filhos de Cuxe deram origem aos etíopes.
Os filhos de Canaã deram origem aos cananeus,
fenícios e hititas.
Os filhos de Pute deram origem aos líbios.
Os filhos de Mizraim deram origem aos egípcios.
Certamente Mizraim e seu pai Cam viveram ainda
longo tempo após a dispersâo e puderam migrar para
o vale do Nilo, lançando os fundamentos da civilização
egípcia. A Escritura, de forma inequívoca, diz que o Egito
é chamado de "a terra de Cam", pai de Mizraim. Falando
dos filhos de Israel que saíram do Egito, o salmista diz:
Esqueceram-se de Deus, seu Salvador, que, no Egito [em
hebraico é Mizraim], fizera coisas portentosas, maravilhas
na terra de Cam, tremendos feitos no mar Vermelho (SI
106.21,22).
Embora nâo seja fácil estabelecer a sua real origem,
é provável que as tribos negras tenham também a ascen-
dência de Cam, visto que os camitas se dirigiram para a
África. Os primeiros babilônios e sumérios também foram
camitas, da descendência de Ninrode.

20
INTRODUÇÃO

c) Os DESCENDENTES DE SEM (GN 10.21-31)


Estes se concentraram nas proximidades do Oriente
Médio, formando as seguintes etnias:
Os filhos de Héber deram origem aos hebreus.
Os filhos de Elão deram origem aos persas.
Os filhos de Arã deram origem aos sírios.
Os filhos de Assur deram origem aos assírios.
Posteriormente, por meio de Ismael, Esaú e outros
descendentes de Abraão (assim como Moabe e Amom), vie-
ram todas as nações árabes.

2) A CRONOLOGIA DAS ETNIAS


Infelizmente , todos os cursos universitários relacio-
nados à etnologia 11 vêm carregados de fortes tons evolu-
cionistas. Por isto , nos estudos científicos, a Escritura
não é levada em conta no estudo das raças. Os evolucio-
nistas costumam datar as raças dizendo que os humanos
existem há milhões de anos, para mostrar que o proces-
so evolutivo do homem é muito lento e longo. Embora
não tenhamos dados exatos sobre a cronologia humana,
certamente os dados fornecidos pela Escritura são muito
mais confiáveis do que os apresentados pela cronologia
evolucionista.
Um estudo sério das origens das raças pode surpre-
endentemente mostrar que o evolucionismo comete alguns
erros absurdos que expõem o seu caráter não científico,
especialmente quando trata da origem da raça humana.
Um método muito usado pelos cientistas tem sido o
teste do radiocarbono. Morris diz que:

11
Disciplinas universitárias como Arqueologia , Antropologia cultural,
Linguística, História natural e Demografia são altamente relacionadas com a
etnologia, ou seja, o estudo das raças.

21
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

esses métodos, quando criticamente examinados, podem


apresentar sérios erros em relação ãs datas anteriores a
2000 a.C. As datas do radiocarbono para eventos mais
recentes do que 2000 a.C. podem ser razoavelmente boas ,
mas todas as datas mais antigas são invãlidas devido às
suposições falazes envolvidas nestes e em outros cãlculos
radiométricos das eras. 12

Outro método usado pelos cientistas para datar a ori-


gem da raça humana é o da dendrocronologia, ou seja, o
ramo da ciência que estuda a idade das árvores pela me-
dida dos seus anéis. Contudo, mesmo esse método não é
confiável como alguns pensam. 13 Morris diz que ambos, o
método de datar do radiocarbono e o da dendrocronologia,
são sujeitos a erros e não são confiáveis. Contudo, são es-
ses os dois métodos usados pelos cientistas para datar a
cronologia da raça humana.
Portanto, não devemos dar muita atenção às datas
propostas por alguns círculos científicos, pois sua tendên-
cia é sempre tornar o homem mais antigo a fim de tentar
provar a sua teoria com fortes tons evolucionistas. As pes-
quisas que sugerem uma data mais recente para a crono-
logia humana não são publicadas. Eles sempre procuram
datas mais distantes e, assim, têm esperança de que a teo-
ria do evolucionismo possa triunfar sobre as informações
cronológicas das Escrituras.
Há alguns povos, mencionados a seguir, que, se de-
vidamente estudados, nos fornecerão dados para que evi-
temos totalmente a tentativa de colocar a origem das ra-
ças em datas muito antigas , como já é hábito nos círculos
evolucionistas.

12 MORRIS, Henry. The bíblica/ basis for modem science, p. 449.


13
lbid, p. 449-451.

22
INTRODUÇÃO

3) EXEMPLOS DE ETNIAS ANTIGAS

As civilizações mais antigas de que temos notícia são


as que floresceram em quatro diferentes partes dos climas
temperados mais amenos do planeta. Obviamente, todas
elas cresceram em regiões de grandes vales, onde a água
e o abrigo eram mais facilmente encontrados: o vale do
rio Nilo, o vale dos rios Tigre e Eufrates, o vale do Indo,
na região noroeste da Índia, e do rio Amarelo, no norte
da China, além do vale de um pequeno rio, bem na região
central da Terra, que é o Jordão, na Palestina.
As civilizações do Egito e dos sumérios, com especia-
lidade, têm sido a fonte para a cronologia que geralmente
se tem seguido, pois eles foram os primeiros a nos deixar
registros de sua civilização. Não há qualquer registro escri-
to de civilização pré-histórica.
No Egito, na Mesopotâmia e nos vales da Índia, pode-
mos encontrar civilizações extremamente avançadas, cuja
história não passa muito dos 3.500 a 4.000 anos antes de
Cristo, e com algumas coisas em comum que aconteceram
simultaneamente.

Se a raça humana tem milhões de anos de idade, por


que não há nenhum registro histórico anterior a 3500
a.C., e por que esses registros aparecem em numerosos
lugares ao mesmo tempo, em muitas linguagens
diferentes ao redor de todo o mundo? A escrita começou
simultaneamente em 3000 a 4000 a.C. na Mesopotâmia,
no Egito , no vale do Indo e em outros lugares. Esses
registros mostram que , nesse tempo, o homem já era
altamente avançado e civilizado. 14

14
SIPPERT, Albert. From eternity to eternity, p. 21.

23
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

A) CIVILIZAÇÃO DO VALE DO NILO- Os EGÍPCIOS

Os egípcios, no vale do Nilo, têm seus registros a par-


tir de 3000 a 2800 a.C. Um cientista evolucionista, para
justificar os muitos milhões de anos da existência das ra-
ças, incluindo a cultura egípcia, escreveu:

Estas coisas, das quais pensamos como essenciais para


a nossa verdadeira definição de civilização, parecem
ter aparecido com a rapidez de um nascimento do sol,
no vale do Nilo, entre 3000 e 2800 a.C. É muito dificil,
após meio milhão de anos de existência semiconsciente,
o homem ter saltado para uma consciência plena de
si mesmo e de seus arredores no decurso de cerca de
200 anos. A ciência tem descoberto uma evidência
fascinante dos fragmentos da vida civilizada em muitas
outras terras, mas o Egito foi o primeiro grande berço da
civilização . 15

Kenneth Clark não pode fugir do seu evolucionis-


mo, que tem que durar milhões de anos, mas não pode
explicar a rapidez do aparecimento de uma civilização
como a do Egito, por exemplo. É espantoso como essas

15CLARK, Kenneth. In the begining: The mystery of ancient Egipt- uma


condensação dessa obra que apareceu no Reader's Digest {June, 1975, p.
86) . Citado por SIPPERT, Albert, From eternity to eternity, p. 21.

24
INTRODUÇÃO

civilizações antigas vieram a construir pirâmides, 16 tendo


uma arquitetura extremamente avançada, 17 ferramentas
precisas, uma matemática altamente desenvolvida, me-
dicina adiantadíssima para a época, 18 além de um co-
nhecimento fantástico sobre astronomia. 19 A pergunta
que podemos fazer diante de tal quadro é: Como essa
civilização veio a florescer abruptamente, sem ter qual-
quer história precedente? A única explicação possível é
a que a Escritura nos dá. Eles floresceram rapidamente
no Egito porque já vieram de outras terras com uma
bagagem de conhecimento necessário para implantar o
16
As colossais pirâmides mostram a avançada engenharia sob domínio dos
egípcios. É maravilhoso observar como suas pedras foram não somente
transportadas de regiões muito distantes (pois ali não há tais pedras), mas
também como foram engenhosamente colocadas umas sobre as outras
de forma tão matematicamente calculada. Sippert diz que a pirâmide de
Gizé tem "cerca de 2 milhões de blocos de granito e pedra calcária, cada
um deles pesando de 2 a 7 toneladas, originando mais de 201 degraus em
toda a sua estrutura . Ela contém mais pedras do que todas as catedrais,
igrejas e capelas construídas na Inglaterra desde os dias de Cristo" (From
eternity to eternity, p. 24}.
17
Além da arquitetura "faraônica" do Egito, outras civilizações
possuíram arquitetura fabulosa. É o caso dos sumérios . Suas maiores
obras foram seus enormes templos, chamados zigurates, que eram
adornados com colunas retangulares" (SIPPERT, Albert. From eternity to
eternity, p. 24).
18
As técnicas de embalsamamento dos corpos, usadas pelos egípcios,
são um mistério mesmo para a medicina de hoje. Com toda a tecnologia
moderna, não podemos ir além da tecnologia avançada dos egípcios,
que viveram em cerca de 3000 a.C.
19
Há indicações de que os sumérios e seus sucessores, os babilônios,
conheciam muito mais sobre astronomia do que os povos que
vieram depois deles. Os babilônios conheciam os planetas, e há
fortes evidências de que eles sabiam algo sobre quatro satélites do
planeta Júpiter e sete do planeta Saturno . Não se sabe se eles tinham
t elescópios, como os conhecemos hoje, mas certamente tinham
ferramentas para observar o firmamento e ver nele coisas que a olho
nu não podem ser vistas. Isso é espantoso nessa época da história
humana . Só é possível com um conhecimento adquirido no período
imediatamente após o dilúvio, certamente concedido por Deus (ver
SIPPERT, Albert, From eternity to eternity, p. 26-27) .

25
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

que implantaram no Egito. Eles procederam dos des-


cendentes altamente civilizados dos filhos de Noé, que
foram dispersos depois dos eventos da torre de Babel.
Essa é uma verdade inegável, pois todas as outras civili-
zações (como a dos sumérios, dos vales dos rios da Índia
e da China, do vale do Jordão e das Américas) flores-
ceram no mesmo período em vários lugares do mundo.

s) CIVILIZAÇÕES Dos VALES DO TIGRE E Do EuFRATEs: Os


SUMÉRIOS E BABILÕNIOS

Os sumérios e os babilõnios viveram na região do co-


meço do mundo e na região geograficamente central do
mundo , nos vales dos rios Tigre e Eufrates, mencionados
no Gênesis. Essa região é conhecida como Mesopotãmia,
que significa "entre rios".
É sabido que essas duas civilizações têm mais ou
menos a mesma idade da dos egípcios. Segundo o enten-
dimento de Woodley, um arqueólogo inglês, "não há ne-
nhuma evidência fisica para indicar que os sumérios não
tenham simplesmente surgido do deserto como sementes
brotando após a chuva". 20 Eles surgiram repentinamente,
por volta de 3500 a.C., exatamente como aconteceu com
os egípcios. Não há quaisquer evidências de que os su-
mérios tenham sido precedidos por qualquer outra civili-
zação que tenha evoluído por milhões de anos até chegar
onde chegaram os sumérios. Como os egípcios, os sumé-
rios e as outras civilizações antigas tiveram o seu começo
algum tempo após o dilúvio, quando os filhos de Noé (e
sua descendência) se separaram, após o evento da torre
de Babel, gerando essas nações. O que aconteceu é que os
sumérios surgiram repentinamente, evidenciando uma ci-
vilização à qual poucas se comparam, mesmo aparecendo
posteriormente.

20
The readers digest, September 1977, p. 131.

26
INTRODUÇÃO

Os sumérios desenvolveram um sistema de irrigação


com canais que procediam dos rios supramencionados,
produzindo muitas espécies de vegetais , frutos e grãos.
Eles domesticaram animais e desenvolveram um sistema
complexo de comércio entre as cidades da região e de fora
dela. 21
Os sumérios foram um dos primeiros povos a desen-
volver a sua linguagem de forma escrita, por volta de 3000
a.C., o que combina com o tempo em que as etnias foram
separadas no evento do juízo de Deus , com a confusão das
línguas em Babel.
As pesquisas arqueológicas têm sido de grande ajuda
nessa área. Milhares de tábuas de barro foram encontrados
com inscrições contendo informações a respeito de como os
sumérios praticavam os seus negócios, govemo, leis e reli-
gião. Essas tábuas também mostram os conhecimentos de
medicina, matemática e astronomia dos sumérios. Um dos
primeiros calendários baseados nos movimentos do Sol foi
encontrado nessas tábuas. Eles também descobriram que
o círculo tem 360 graus. 22 Os sumérios ainda inventaram a
roda, que era usada pelos oleiros para dar forma ao barro.
Usaram-na para movimentar grandes objetos e carroças. 23
Os sumérios e seus sucessores , os babilõnios , conhe-
ceram astronomia muito mais do que os povos que vieram
depois deles. Analisavam os astros e tinham conhecimen-
to sobre os planetas do sistema solar. Não sabemos como
eram seus instrumentos , mas seria impossível o conheci-
mento que tinham sem algum tipo de lente que magnifi-
casse os objetos observados.

21
SIPPERT, Albert. From eternity to eternity, p. 25 .
22
lbid, p. 26.
23
lbid .

27
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Além disso tudo, uma das obras mais espantosas en-


contradas nas escavações é o épico de GiZgamesh, 24 que
fala a respeito do dilúvio. Juntamente com outras narrati-
vas encontradas em outros lugares do mundo, comprova a
veracidade da narrativa de Génesis.
Sippert diz que essas civilizações antigas não podem
ter se desenvolvido em poucos anos, a menos que tenham
sido capacitadas por Deus com conhecimento e habilidades .

Nas ruínas de Ur, o Museu Britânico e o Museu da


Universidade da Pensilvânia escavaram camadas de três
civilizações diferentes abaixo do solo e perceberam que
através de toda a história de Ur, desde o seu começo, as
pessoas foram capacitadas com um alto grau de cultura,
talentos e habilidades e de civilização. 25

c) CIVILIZAÇÃO DO VALE DO INDO NA ÍNDIA

Essa civilização também surgiu em cerca de 3000 a.C.


na parte noroeste da Índia, a oeste da Mesopotâmia. Alguns
chamam essa civilização de dravidiana. Eles tinham uma
linguagem e uma escrita comuns, mas os estudiosos não
foram capazes de decifrar o que eles escreveram.
Não é de espantar o fato de que muitas línguas vie-
ram a surgir do fenômeno de Babel. Sippert diz que
"essa civilização não foi conhecida como existente até
1920, quando por acidente duas de suas muitas cidades

24
As doze grandes tábuas encontradas contêm cerca de 3.400 linhas de texto.
Esse épico descreve as aventuras de Gilgamesh, um rei lendário de Uruk no
começo do terceiro milênio a.C., que foi muito conhecido por sua sabedoria .
É ele que narra o dilúvio babilônico, que alguns estudiosos têm afirmado ser a
fonte em que o escritor bíblico se baseou para registrar o dilúvio da Escritura, o
que se tem demonstrado não ser a expressão da verdade.
25
SIPPERT, Albert. From eternity to eternity, p. 26.

28
INTRODUÇÃO

sepultadas por um longo período foram descobertas:


Harappa e Mohenjo-Daro". 26
Essa civilização, também conhecida como "harrapa-
na", se espalhou do mar Arábico até a região do Himalaia,
e do Irã ocidental até o vale do rio Ganges. 27
As cidades descobertas tinham características de lu-
gares muito desenvolvidos. Havia um sistema de drenagem
muito bem planejado, como nas cidades modernas. Havia
um sistema sanitário no qual os canos de esgoto eram fei-
tos com tijolos devidamente queimados e tinham orificios
através dos quais os homens podiam entrar para fazer
limpeza. As casas possuíam sanitários e banheiras, assim
como ferramentas domésticas feitas de bronze, prataria,
joias e vasos de barro. Havia moedas de cobre que circula-
vam para o comércio, com as quais faziam transações com
outras civilizações, inclusive com a dos sumérios.
À semelhança de algumas outras civilizações, o que
deve ser notado com espanto é que ela apareceu de modo
repentino na terra, e também repentinamente sua cultu-
ra desapareceu soterrada. As civilizações que permanecem
nas regiões do vale do Indo, e na Índia em geral, não man-
têm o mesmo grau de desenvolvimento de seus ancestrais.
Há mais indícios de uma retroação do que de uma evolução.

D) CIVILIZAÇÃO DO VALE DO RIO AMARELO: CHINA

Essa civilização também é muito antiga, mas a sua


história não passa de 4000 a.C. Esse povo apareceu no vale
do rio Amarelo e do Yangtze para formar uma grande, po-
derosa e desenvolvida nação, a China, com a sua própria
linguagem. Os chineses datam o começo da sua história em
2850 a 2250 a.C. 28

26
SIPPERT, Albert. From eternity to eternity, p. 28.
27
1bid.
28
SIPPERT, Albert. From eternity to eternity, p.29.

29
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

É curioso que na história dos chineses haja menção


de reinados extremamente longos de imperadores muito
antigos , o que é considerado "impossível" pela historiogra-
fia moderna. Todavia, se levarmos em conta a narrativa
bíblica de que, antes do dilúvio, os homens viviam cente-
nas de anos, não é de estranhar que houvesse governantes
chineses reinando por longo período de tempo. O que é
impossível para os "cientistas" modernos é perfeitamente
possível segundo a narrativa bíblica a respeito da idade
dos homens antigos.
Além disso, é proverbial a sabedoria dos chineses,
não somente nos seus "ditos", mas também na ciência.
Eles conheceram a pólvora muito antes dos ocidentais.
Tornaram- -se habilidosos em muitas artes. Por exemplo,
na confecção da seda, que foi descoberta e desenvolvida
pelos chineses há milênios. A China foi uma grande potên-
cia de desenvolvimento. Todavia, não há história anterior.
Os chineses apareceram na região onde vivem de uma for-
ma repentina. Vieram logo após a separação dos povos no
evento de Babel. Não se pode explicar a origem desse povo
ali, de outra forma.
Nenhuma teoria científica consegue explicar a origem dos
chineses. A origem dos caracteres de sua língua não pode ser
explicada, a não ser por um fenômeno sobrenatural no qual
Deus confundiu a língua dos homens e tomou impossível a
comunicação entre as várias divisões após o evento de Babel.

E) CIVILIZAÇÃO DO VALE DO JORDÃO: JERICÓ

No mundo médio-oriental, a civilização mais fami-


liar a nós, cristãos, é a que viveu no vale do rio Jordão.
Talvez a cidade mais antiga do mundo seja a de Jericó,
bem perto desse rio. Há quem date a origem de Jericó por
volta de 5800 a 6800 a.C., mas isso é questionado porque
não há instrumentos que possam averiguar com preci-
são essa idade. Noorbergen diz que é melhor comparar a

30
INTRODUÇÃO

data da origem de Jericó com as datas das outras gran-


des culturas antigas do mundo, como a dos sumérios e
dos egípcios. 29

CoNcLusÃo
Descobertas arqueológicas podem demonstrar que to-
das as civilizações mais antigas usaram o ouro, a prata, o
cobre, as pedras preciosas, confeccionaram joias, produzi-
ram o carvão, o marfim etc., no mesmo período da história
humana. Seria mera coincidência? Não. Elas procederam
dos mesmos descendentes de Noé, que foram dispersos
com as suas línguas diferentes para os quatro cantos da
terra. O surgimento repentino dessas civilizações não pode
ser explicado pelo evolucionismo, que exigiria milhões de
anos de desenvolvimento. Somente a Escritura pode ex-
plicar a origem simultânea e repentina dessas civiliza-
ções. Seria mera coincidência que os egípcios, sumérios,
indianos, centro e sul-americanos, com suas civilizações
antiquíssimas, emergiram com as suas culturas de um
modo tão repentino, sem os milhões de anos necessários
para chegarem cientificamente onde chegaram? Ao invés
de evolucionismo, podemos crer que houve um involucio-
nismo na história das civilizações. "Estes povos foram tão
avançados (se não mais) quanto a maioria das pessoas
mais dotadas de hoje. É verdade que mais conhecimento
tem sido acumulado para as pessoas hoje, mas dificilmen-
te podemos reivindicar superioridade sobre eles ou maior
sofisticação. Todavia, no decurso do tempo, em vez de a
evolução acontecer, tem ocorrido a degeneração ou a per-
da do conhecimento científico, segundo a History of Tools
do Instituto Smithsoniano. 30

9
L NOORBERGEN, Rene. Secrets of lost roces, 1977. Citado por SIPPERT, Albert,
From eternity to eternity, p. 28.
3
°Citado por SIPPERT, Albert, From eternity to eternity, p. 23 .

31
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Não há quaisquer sinais de que as civilizações tenham


se desenvolvido após milhões de anos, ou de que todos nós
tenhamos vindo de animais inferiores ou das cavernas, até
chegarmos onde chegamos. "Sem dúvida o começo dessas
civilizações aconteceu algumas centenas de anos após o
dilúvio e algum tempo depois da torre de Babel." 31
A arqueologia feita por gente honesta tem sido extre-
mamente útil para mostrar que, nos mais variados lugares
do mundo, culturas avançadas viveram, e todas, invaria-
velmente, surgiram quase no mesmo período, sem que se
possa explicar cientificamente esse fenômeno. Foram civi-
lizações desenvolvidas nas mais variadas artes e ciéncias,
incluindo a escrita.
Isso mostra que os homens sempre foram inteligen-
tes , que não passaram por eras diferentes de desenvolvi-
mento, como a "idade da pedra", "idade do bronze", "idade
do ferro" e do "homem moderno". O que podemos perceber
no estudo das civilizações é um fenômeno contrário ao da
evolução. Algumas civilizações involuíram, perderam toda
a sua pujança; algumas delas estão somente agora na ida-
de moderna, começando a recuperar o desenvolvimento
perdido.
Os povos ou tribos primitivos são apenas produto do
isolamento das grandes e inteligentes civilizações, tribos
que ficaram perdidas no planeta depois do evento da torre
de Babel.
Este livro trata de algumas coisas importantes que
se deram desde o dilúvio até o dia em que o Senhor voltar
ao habitat que está prestes a ser destruído, mas, ao mes-
mo tempo , um habitat cheio de esperança, porque ele será
redimido!
Os objetos de estudo neste livro são o sofrimento da
criação e a situação em que vivem as criaturas em quem a
redenção já começou, mas que estão vivendo ainda neste
31
lbid ., p. 25.

32
INTRODUÇÃO

presente habitat: seus sofrimentos, suas esperanças e


suas expectativas diante das promessas divinas. Não tra-
taremos dos sofrimentos dos ímpios neste presente habitat
e no seu habitat futuro, pois é um assunto que merece
outro livro.

33
PARTE 1

O SOFRIMENTO DO
PRESENTE HABITAT

ANÁLISE DE RoMANOS 8.17-25


CAPÍTULO 1

OS SOFRIMENTOS DOS REMIDOS


NO PRESENTE HABITAT E AS
GLÓRIAS FUTURAS

Ora, se somos filhos, somos também herdeiros,


herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo; se com
ele sofremos, também com ele seremos glorificados.
Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos
do tempo presente não podem ser comparados com a
glória a ser revelada em nós (Rm 8.17, 18).

Sofrimentos e glória sempre fizeram parte da vida de


todos os seres humanos. A presente existência é uma al-
ternância entre esses dois polos em conflito. Nâo pode-
mos fugir deles enquanto habitamos neste mundo sob a
maldiçâo divina. Paulo, no entanto, tem uma cosmovisâo
que o ajuda a entender sobremaneira a tensâo entre es-
ses dois polos porque ele é um homem cheio de esperança
no acontecimento de realidades inimaginâveis para os que
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

são ímpios. Como cristão, Paulo consegue ter certeza de


que sofrimentos serão substituídos plenamente por glória!
Na verdade, a sua expectativa é a de que as glórias supera-
rão em muito o tempo e a intensidade dos sofrimentos que
experimentamos aqui e agora. O futuro, para Paulo, não é
de negras nuvens, mas de céu azul cheio de limpidez que
é trazido na revelação de Jesus Cristo!
É sobre a supremacia dessa esperança gloriosa sobre
a presente realidade de sofrimento que Paulo trata no ca-
pítulo 8 de sua carta aos Romanos.

1. OS SOFRIMENTOS DE CRISTO , ASSIM COMO


SUA GLÓRIA, SÃO PARTILHADOS PELA CRIATURA
REMIDA NO PRESENTE HABITAT

Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros


de Deus e coerdeiros com Cristo; se com ele sofremos,
também com ele seremos glorificados (Rm 8.17).

Quando estudamos a criação do Universo, podemos


ver a maravilha que Deus fez, mas não temos a mínima
ideia de quão belo era o mundo antes da maldição vir so-
bre ele. Antes, a criação vivia em plena harmonia. Hoje,
mesmo depois da queda, ainda podemos ver o esplendor
dos céus , a magnificência das montanhas, a imensidão do
mar, a beleza delicada das flores, o encanto dos animais.
Mas não podemos imaginar quão belo era o nosso habitat
antes da queda! Existe um contraste muito grande entre
o que era no princípio, antes da maldição, e o que existe
hoje. O mundo hoje não reflete mais o que Deus disse dele:
e eis que era muito bom (Gn 1.31). Não é sem razão que
Paulo diz que toda a criação geme e suporta angústias até
agora (Rm 8.22). Depois da queda, a criação sob maldição

38
OS SOFRIMENTOS DOS REMIDOS NO PRESENTE HABITAT E AS GLÓRIAS FUTURAS

geme e suporta angústias até agora. A despeito de todo so-


frimento, ainda vivemos numa criação maravilhosa! Mas,
no meio dessa grandeza, da majestade e da imensidão da
criação, observamos constantemente crueldade no mundo
animal, terríveis desastres naturais, como terremotos, ma-
remotos, furacões, enchentes, fome, destruição e miséria,
acontecendo em todas as partes do mundo.
O texto de Romanos 8.17 nos ajuda enormemente a
descobrir as chaves para o significado do sofrimento no
universo dos cristãos. O mapa apresentado pela Escritura
revela o ato de maldição divina sobre o Universo e o pro-
cesso de restauração de indivíduos e da própria criação
inanimada.

1. OS SOFRIMENTOS DA CRIATURA REMIDA SÃO


UMA REALIDADE INEGÁVEL NO PRESENTE HABITAT
Mesmo os mais otimistas neste mundo têm de se cur-
var à realidade do sofrimento. Aqueles que fecham os olhos
a essa realidade ou não querem enxergar o que é óbvio ou
querem contrariar o que Deus diz em sua Palavra. Todos
os seres humanos passam por sofrimentos, de forma que
nem os cristãos escapam deles!

Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se


necessário, sejais contristados por várias provações, para
que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais
preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo,
redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus
Cristo; a quem, não havendo visto, amais; no qual, não
vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e
cheia de glória (lPe 1.6-8).

39
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O sofrimento será a nossa porção até que sejamos


tirados deste mundo que está sob maldição divina. Toda
a criação participa dos sofrimentos a que Deus submeteu
este mundo, os quais nos levam a gemidos.

"QUANDO SOFREMOS, ONDE ESTÁ DEus?" 32

Essa é uma pergunta que invade a alma dos cristãos!


Todos nós, em alguma medida, já fizemos ou ouvimos al-
guém fazendo essa pergunta.
Quando houve a queda das Torres Gêmeas, em 11 de
setembro de 2001, a grande pergunta era: "Onde estava
Deus?".
Quando a dor bate à nossa porta, somos tentados a
fazer perguntas como essa. Elas são produto de nossa in-
disposição natural contra o sofrimento e de nossa incli-
nação pecaminosa, que acha que temos o direito de não
sofrer.

PoR QUE EXISTE O SOFRIMENTO?

Em Romanos 8, Paulo reconhece que o sofrimento é


parte da criação de Deus no período pós-queda. O sofri-
mento não é exclusivo dos cristãos, mas cristãos também
sofrem. Paulo nos ensina que a frustração (vaidade, futili-
dade, inutilidade) da criação inevitavelmente produz sofri-
mento. A criação tem dores. As dores dela e as nossas são
dores judiciais, como resultado da maldição da queda.
Mesmo nós , os cristãos, que temos as primícias do
Espírito Santo, gememos juntamente com a criação, por-
que somos parte da criação sob os efeitos da maldição ain-
da prevalente.

32
Philip Yancey tem um livro com o título Where is God when it hurts?

40
OS SOFRIMENTOS DOS REMIDOS NO PRESENTE HABITAT E AS GLÓRIAS FUTURAS

PARA QUE SERVEM OS SOFRIMENTOS?

Os sofrimentos são para o nosso bem, mas não são


agradáveis. São um dom de Deus para nós, mas um dom
que ninguém quer. Todos nós sabemos que os sofrimentos
podem até ser bênçãos, mas ninguém ama o sofrimento.
Por que a dor é um dom? Se não tivéssemos dor, vive-
ríamos em grande dificuldade. A dor serve como uma es-
pécie de advertência que nos ajuda a ver que alguma coisa
está errada. Yancey disse:

Quando eu quebro um braço e tomo muitas aspirinas


para diminuir a dor, a gratidão pela dor não é o primeiro
pensamento que me vem à mente . Todavia, naquele
real momento , a dor está alertando o meu corpo para
o perigo , mobilizando defesas anti-infecção ao redor da
ferida e forçando-me a me refrear de algumas atividades
que poderiam posteriormente prejudicar a ferida. A dor
exige atenção que é crucial para a minha recuperação. 33

Se não houvesse a dor, eu correria riscos muito maiores


porque não prestaria atenção aos cuidados que deveria ter.
Os leprosos têm dificuldade com essa matéria porque
não sentem dor e podem ferir gravemente certas partes do
corpo sem que percebam. A dor os ajudaria a evitar mais
ferimentos. Estes não são parte da doença, mas podem
agravá-la como resultado da falta de dor e sensibilidade.
Nesse sentido, a dor é um dom de Deus. Muitos morrem
de infarto do miocárdio porque a pressão alta e o entupi-
mento das artérias não são coisas que provocam dor, ao
menos até uma certa medida. Se tivéssemos dor em cada
33
YANCEY, Philip. Where is God when it hurts?- A comforting, healing guide
for coping with hard times. Grand Rapids: Zondervan, Ml, 1990, p. 22 .

41
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

momento de pressão alterada ou de entupimento parcial


das artérias, tomaríamos mais cuidado com a alimenta-
ção, por exemplo.
As nossas dores espirituais são um dom divino para
que acordemos para a realidade espiritual em que vivemos.
As consequências seriam muito desastrosas se os cristãos
não sentissem dores espirituais. Quando Deus as supri-
me, ficamos cauterizados espiritualmente, como leprosos
espirituais, e isso é terrível!
Li a respeito de uma mulher que entrou no caminho
das drogas, e ela admitiu duas coisas: que enveredou pe-
las drogas para não sentir a dor que estava em seu interior
e que, após utilizar drogas por vários anos, ela não sentia
absolutamente nada.
Essa mulher se tornou totalmente insensível, incapaz
de perceber o grande abismo em que estava metida. E, quan-
do isso acontece, a pessoa não tem capacidade de reabili-
tação. A dor é uma bênção divina para nós, a fim de nos
acordar do estado em que nos encontramos.
Paulo nos mostra em Romanos 8 que o sofrimento é
parte integrante da vida do cristão neste mundo. O sofri-
mento é uma realidade inegável e da qual não podemos
fugir. É um dom divino, pelo qual devemos dar graças.
Quanto mais amadurecidos em nossa fé cristã, mais
entendemos que todas as coisas cooperam para o [nosso]
bem (Rm 8.28). Reclamamos das dores do sofrimento, mas
não daquele que impõe o sofrimento sobre nós!

QUE TIPOS DE SOFRIMENTOS TEMOS?


TEMOS SOFRIMENTOS FÍSICOS

Temos visto irmãos nossos sofrerem dores fisicas.


Alguns têm dores atrozes, a ponto de ficarem desespera-
dos da própria vida.

42
OS SOFRI MENTOS DOS REMIDOS NO PRESENTE HABITAT E AS GLÓRI AS FUTURAS

Há muito sofrimento em nosso mundo. É só você ir a


um asilo de idosos , ou a uma UTI de hospital, ou a uma
UTI pediátrica. Você fica com o coração partido quando
contempla esse sofrimento .

TEMOS SOFRIMENTOS EMOCIONAIS

Pense naqueles que perdem entes queridos , ou sofrem


traumas por causa da violência. Cristãos sofrem traumas
em razão da violência neste mundo. Eles também não es-
tão imunes aos sofrimentos de natureza emocional.
Pense nas crianças que veem seus familiares mais
queridos separados. O divórcio causa grande mal-estar a
elas. Essa realidade também afeta cristãos, ainda que o
divórcio não devesse fazer parte da vida delas.
Os sofrimentos fisicos e emocionais são partilhados
por todos. No entanto , o que Paulo fala, me parece, tem
a ver com os sofrimentos que são típicos dos cristãos 34 e
que não são experimentados pelos outros deste mundo: os
sofrimentos espirituais.

TEMOS SOFRIMENTOS ESPIRITUAIS

Muitos sofrimentos vêm por causa de pecados. Há


muitos infelizes porque são afligidos por Deus em razão de
sua desobediência.
Todo filho de Deus honesto tem de admitir com Paulo
que , embora tenhamos desejos santos e bons, acabamos
fazendo o que é mau. E isso nos causa dor e nos leva a
um estado de miserabilidade. Todavia, parece-me, não é
a esse tipo de sofrimento que Paulo se refere em Romanos
8.18.

34
Veja meu livro A providência e sua realização histórica. São Paulo : Cultura
Cristã, 2001, p. 555-595 .

43
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

OS SOFRIMENTOS NOS SOBREVÊM POR SERMOS


CRISTÃOS

Uma das verdades mais fundamentais da fé cristã é


que o sofrimento é parte integrante da vida de todos os
filhos de Deus neste mundo. Paulo disse a Timóteo que
todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus
serão perseguidos (2Tm 3.12). Não há como evitar o sofri-
mento dos cristãos porque é um vaticínio muito sério da
Escritura. O sofrimento é uma evidência de que pertence-
mos a Cristo Jesus.
O mundo hostil a Cristo não pode mostrar hostilidade
a Cristo pessoalmente porque, segundo a sua humanida-
de, ele não está aqui. Então, o mundo odeia os cristãos
porque eles lembram Cristo, especialmente quando sua
santidade acentua o contraste com a pecaminosidade dos
ímpios. A perseguição por parte deste mundo hostil não
deveria surpreender os cristãos. Jesus disse que Se o mun-
do vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me
odiou a mim (Jo 15.18). Se você é cristão, não tenha medo
do mundo hostil, porque Deus o colocou nele para ser tes-
temunha de sua fidelidade ao Senhor!

TODAVIA, OS SOFRIMENTOS DOS CRISTÃOS SÃO


ACOMPANHADOS DE ALÍVIO

Os sofrimentos menos doloridos são aqueles que você


experimenta pelo fato de ser cristão. Devem-se a algo belo
e maravilhoso- Jesus Cristo! Eles são menos doloridos
porque são acompanhados da bem-aventurança. Todavia,
eles ainda doem! São sofrimentos de injustiça porque os
ímpios odeiam Cristo e descontam em nós, os irmãos mais
fracos de Cristo!

44
OS SOFRIMENTOS DOS REMIDOS NO PRESENTE HABITAT E AS GLÓRIAS FUTURAS

1. OS SOFRIMENTOS DA CRIATURA REDIMIDA SÃO


ACOMPANHADOS DA PRESENÇA DIVINA

Quando Deus fez o ser humano, sua presença era


constante com a sua criatura. Ela foi designada para ter a
companhia de Deus. A Escritura diz que o Senhor andava
no jardim com a sua criatura (Gn 3.8). Mas , quando hou-
ve a queda, o homem se separou de Deus. Isso é morte!
Essa é a realidade que veio sobre todos os descendentes de
Adão. Eles perderam a glória da presença de Deus, e a sua
tendência, desde então , foi ter conduta pecaminosa devido
à herança pecaminosa recebida do cabeça da raça.
Com a morte, o homem ficou sem a doce companhia
do seu Criador e sem a glória da sua presença! No entan-
to, quando Deus começa a operar a salvação do pecador,
essa glória é parcialmente devolvida, e Cristo passa a ser
a companhia diária dos remidos , porque ele diz: eis que
estou convosco todos os dias até à consumação do século
(Mt 28 .20). Com Cristo, a companhia divina é trazida de
volta, e a glória começa a aparecer, mas ainda não em sua
plenitude. O cristão passa por sofrimentos por viver em
um mundo ainda amaldiçoado.

Porque, assim como os sofrimentos de Cristo se


manifestam em grande medida a nosso favor, assim
também a nossa consolação transborda por meio de Cristo
(2Co 1.5).

Todavia, o sofrimento do remido é acompanhado da


presença de Deus. Cristo, o nosso substituto nos sofri-
mentos e na cruz, é o nosso irmão mais velho e sofreu pro-
fundamente, mas Deus estava presente em Cristo. Não há
alívio para o nosso sofrimento à parte de Jesus Cristo. Por

45
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

essa razão, o sofrimento com o Senhor é cheio de consola-


ção! Paulo diz ainda que essa consolação é transbordante!
Muitos cristãos no presente temem sofrer pelo teste-
munho de Cristo porque pensam que não serão capazes
de suportar. Alguns até afirmam, em sua teologia, que os
crentes não passarão pela grande tribulação, que se dará
nos dias imediatos à vinda de Cristo, não somente por cau-
sa de seus pressupostos teológicos, mas também por seus
temores. No entanto, os cristãos não precisam ter medo,
porque a consolação de Cristo vai estar presente nos dias
de sofrimento. A consolação os fará suportar até com rego-
zijo, porque eles serão considerados bem-aventurados por
sofrerem por causa do nome de Jesus!
Sofrer por causa de Cristo é glória, não maldição; é
honra, não castigo. Os crentes, em alguma medida, são
sempre discriminados, mas tempo virá em que eles serão
violentamente perseguidos. Todavia, não devem ter medo,
porque a presença de Cristo estará sobre eles em plena
consolação!
Os sofrimentos cheios de consolação são um prelúdio
para o dia da glorificação, que se dará no dia de Cristo. Por
isso, Paulo escreve cheio de confiança:

Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros


de Deus e coerdeiros com Cristo; se com ele sofremos,
também com ele seremos glorificados (Rm 8.17).

Se participamos dos sofrimentos por causa de Cristo,


haveremos de participar também da sua glória. O alívio que
vem do conforto transbordante de Cristo é um anúncio cla-
ro de que o dia da plenitude de nossa redenção gloriosa está
para chegar!

46
OS SOFRIMENTOS DOS REMIDOS NO PRESENTE HABITAT E AS GLÓRIAS FUTURAS

2. OS SOFRIMENTOS DA CRIATURA REDIMIDA


DEVEM SER ACOMPANHADOS DE UM SENSO DE
DEPENDÊNCIA DE DEUS
Li sobre um homem que tinha profundas dores crô-
nicas em seu corpo. Ele disse que a sua vida estava uma
desordem. Ele não tinha agilidade e nem mesmo podia sair
de sua cadeira, tamanha era sua dor. Então, ele começou
a orar: "Ensina-me a viver de uma nova maneira, ó Senhor.
Ensina-me e mostra-me os teus modos no meio disto".
Agora, como cristão, Tim Hansel tem orado centenas,
se não milhares de vezes por cura, e, todavia, as dores
fisicas não desaparecem. Ele ainda sofre. Mas, por meio
de sua dor, ele ganhou uma nova maneira de ver a vida.
Chegou à conclusão de que a dor é inevitável, mas a miséria
é opcional. Ele teve de ser curado da necessidade de ser
curado. E disse que encontrou paz dentro da dor. 35
Aprenda a passar por seus sofrimentos sob a depen-
dência de Deus! Reagir adequadamente às dores pode ser
melhor do que ficar sem elas. As dores servem para nos
amadurecer se reagimos a elas de modo correto.

3. OS SOFRIMENTOS DA CRIATURA REDIMIDA


DEVEM SER ACOMPANHADOS DE UM SENSO DE
BEM-AVENTURANÇA
Muitos neste mundo não conseguem ver nenhum be-
neficio no sofrimento. Não veem nada que os alegra no meio
do sofrimento. No entanto, a consolação ê que o sofrimen-
to deve ser considerado um privilégio bendito, que produz
alegria interior. Pedro disse várias vezes que, se sofremos
por causa do nome de Cristo, somos bem-aventurados.

35
HANSEL, Tim. You gotta keep dancin' in the midst of life's hurts, you can
choose joy! Colorado Springs, CO : Chariot Victor Pub., 1998.

47
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois


coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que
também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando.
Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados
sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de
Deus. Não sofra, porém, nenhum de vós como assassino,
ou ladrão, ou malfeitor, ou como quem se intromete em
negócios de outrem; mas, se sofrer como cristão, não se
envergonhe disso; antes, glorifique a Deus com esse nome
(1Pe 4.13-16).

4. OS SOFRIMENTOS DA CRIATURA REDIMIDA SÃO


ACOMPANHADOS DE UMA ESPERANÇA DE GLÓRIA
Esse é um alívio muito grande para aquele que está
em sofrimentos neste mundo. Ter esperança de alguma
coisa gloriosa no futuro é altamente confortador!

• Os REMIDOS TÊM UMA ESPERANÇA DE GLÓRIA

iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual


é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da
glória da sua herança nos santos (Ef 1.18) .

Deus prometeu aos seus remidos uma riqueza de gló-


ria. É uma espécie de herança que temos por causa de
Jesus, o nosso irmão mais velho. Ele conquistou todas as
coisas gloriosas para nós, as quais nos dá paulatinamen-
te. Todavia, a esperança de glória tem o seu ápice na se-
gunda manifestação de Jesus neste mundo.

48
OS SOFRIMENTOS DOS REMIDOS NO PRESENTE HABITAT E fJS GLÓRIAS FUTURAS

• JESUS EM NÓS É A PRÓPRIA ESPERANÇA DA GLÓRIA

A Escritura apresenta a maior esperança na vida do


cristão: a esperança da glória. Esta é possível em nós por-
que estamos em Cristo Jesus e porque Jesus está em nós.

aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da


glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós,
a esperança da glória (Cl 1.27).

Jesus Cristo tem uma glória que lhe é inerente, em-


bora tenha dito que a recebeu do Pai (Jo 17.24). Ele parti-
lha sua glória conosco a partir do completamento de nossa
redenção. Enquanto essa glória não pode ser desfrutada,
porque ainda estamos neste mundo debaixo da maldição
divina, temos algo que nos encoraja em meio ao sofrimento,
que é essa esperança de estar em glória. Jesus Cristo em
nós é a esperança da glória. Não existe tal esperança à parte
de Jesus Cristo!

• VER JESUS SERÁ A ESPERANÇA DA GLÓRIA

Todo remido que ainda está neste mundo tem esperan-


ça da glória. Aquele que perde essa esperança perde tudo.
A única coisa que nos conforta em meio ao sofrimento é
essa esperança da glória na manifestação de Jesus Cristo.
Veja o que João escreveu para confortar os que viviam em
sofrimentos:

Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se


manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando
ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque
haveremos de vê-lo como ele é (lJo 3.2).

49
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Parte da nossa glória será ver a glória de Cristo; a sua


glória será a nossa, porque haveremos de ser como ele é!
Essa promessa de ser semelhante ao Senhor, segundo a
sua humanidade, já é bem antiga: Eu, porém, na justiça con-
templarei a tua face; quando acordar, eu me satisfarei com
a tua semelhança (Sl 17 .15). Ser semelhante a Cristo será a
nossa glória! É nisso que esperamos, porque hoje já temos
a garantia de que será uma realidade, pois temos Cristo em
nós, que é a esperança dessa glória! Ted Schroder disse que
"a riqueza da glória encontrada em Cristo é a base para a
confiança do cristão num destino glorioso por vir". 36

2. OS SOFRIMENTOS DA CRIATURA REMIDA


PRECEDEM SUA GLÓRIA

Antes da bonança vem a tempestade; antes da paz, a


guerra; antes da vitória, a derrota; antes da luz, as trevas
(post tenebras lux); antes da glória, o sofrimento. O sal-
mista diz: Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vem
pela manhã (Sl 30.5).
Paulo é muito consistente com o ensino geral da Bíblia:
primeiro o sofrimento e, então, a glória. Isso foi verdadeiro a
respeito do próprio Jesus. Ele teve que ser humilhado para
depois ser exaltado. À semelhança dele, nós experimentamos
primeiro o sofrimento. Depois vem a glória!

1. OS SOFRIMENTOS DA CRIATURA REMIDA SÃO


SEGUIDOS DE UMA PROMESSA DE GLÓRIA
A esperança da glória que o cristão possui está ba-
seada numa promessa de glória que a Escritura faz para

36SCHRODER, Ted. The hope of g/ory, Disponível em: <http://www.


peopleoffa ith .com/Sermons-on-Roma ns-8-18. htm>, acessado em:
01/03/2012.

50
OS SOFRI MENTOS DOS REMIDOS NO PRESENTE HABITAT E AS GLÓRIAS FUTURAS

aqueles que estão em sofrimento, especialmente (embora


não exclusivamente) por causa de Jesus Cristo.
No meio do sofrimento, Deus nos dá uma promessa
de glória:

Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados


sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de
Deus {lPe 4 .14}.

Veremos posteriormente que, em meio ao nosso so-


frimento , temos a ajuda tremenda de Deus, o Espírito.
Quando estamos em grande sofrimento, o Espírito de Deus
ora por nós e o Espírito glorioso é percebido por nós. Nada
é mais importante para nós do que o seu relacionamento
conosco também nas horas de dor.
No meio do sofrimento, o Espírito de Deus nos forma
à imagem de Cristo, ajudando-nos a descobrir as nossas
fraquezas e a fortalecer a nossa alma. Para que sejamos
parecidos com Cristo, temos que aprender a sofrer de maneira
resignada. O alvo final de Deus é tornar-nos parecidos com
Cristo. E o Espírito Santo é habilitado a desenvolver essa
semelhança de Cristo em nós em meio aos nossos problemas
e sofrimentos. A semelhança com Cristo será sempre via
sofrimento.
Todavia, os sofrimentos sempre precedem a glória de
ser semelhante a Cristo em plenitude!

0 QUE É GLÓRIA?

O termo grego para glória descreve um estado e uma


condição de vida que refletem a presença pura, santa e
gozosa de Deus! Isaías percebeu uma nesga da glória de
Deus em sua visão (Is 6.3). Ele viu um esplendor indescri-
tível de Deus, cheio de bondade, poder e pureza.

51
O HA BITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

A palavra "glória" carrega consigo as associações de


luz e esplendor fisico que apontam para uma ideia de bri-
lho moral- como na transfiguração (Mt 17.2) e no cami-
nho de Damasco (At 26.13). O esplendor fisico é um sím-
bolo da glória espiritual. Esta é dificil de definir, porque
nenhum de nós a experimentou ainda. Aqueles que a ex-
perimentam no céu não podem descer aqui para testificar
o que ela significa. Só sabemos que existe uma presença
gloriosa de Deus , e que essa presença está hoje no céu e
amanhã estará na nova terra. Ela fará com que não mais
haja trevas sobre a face da terra, porque a sua luz gloriosa
brilhará sobre o habitat restaurado.

2. OS SOFRIMENTOS DA CRIATURA REMIDA SÃO


INFERIORES À SUA GLÓRIA

Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do


tempo presente não podem ser comparados com a glória a
ser revelada em nós (Rm 8.18) .

Não há sofrimento tão grande que ultrapasse a glória


que vamos experimentar. Não há trevas tão escuras que
não sejam vencidas pela luz. Além disso, não há glória tão
grande neste mundo que seja maior do que a glória a ser
vista e experimentada pelos cristãos no completamento da
sua redenção!

1) Qs CRISTÃOS EXPERIMENTARÃO UMA GLÓRIA INCOMPARÁVEL

Não nos esqueçamos de que Paulo tem em mente os


sofrimentos por causa do nome de Cristo, que são típi-
cos do cristão. Esse sofrimento não pode ser compara-
do com o que vamos receber de glória na era vindoura.
Diferentemente dos cristãos, os sofrimentos dos ímpios

52
OS SOFRIMENTOS DOS REMIDOS NO PRESENTE HABITAT E AS GLÓRI AS FUTU RAS

não têm nada a ver com o nome de Cristo, e os ímpios não


têm qualquer esperança no meio do sofrimento. Todavia,
os cristãos são consolados em meio ao sofrimento . Uma
glória lhes está proposta, e a promessa de glória aponta
para uma luz no fim do túnel.
Paulo não está apenas afirmando que os cristãos so-
frem continuamente nesta vida, mas a sua preocupação
é asseverar que os nossos sofrimentos ficam pequenos se
comparados com a glória a ser revelada em nós.
Paulo está enfatizando que as nossas provações são
reais e , às vezes , parecem além de nossa capacidade de
suportar, mas a glória que se sucede é incomparável.

2) Os CRISTÃOS EXPERIMENTARÃO UMA GLÓRIA ETERNA

A glória a ser experimentada pelos remidos será não


somente incomparável, mas também eterna. Essas duas
verdades estão presentes no ensino de Paulo aos coríntios:
a glória será acima de toda comparação e terá uma dura-
ção infindável, eterna.

Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz


para nós eterno peso de glória, acima de toda
comparação (2Co 4.17) .

Nada das glórias oferecidas neste mundo é compa-


rável à glória que haveremos de receber na nova terra, a
qual não terá fim . As bem-aventuranças gloriosas serão
inapagáveis porque seremos guardados nelas pelo poder
de Deus (lPe 1.4,5).
Todas as alegrias e bem-aventuranças deste tem-
po presente têm um fim , mas não as coisas gloriosas que

53
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

haveremos de experimentar! Esta é a razão pela qual Paulo


prorrompe em alegria nesta terra:

por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela


f é, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na
esperança da glória de Deus (Rm 5 .2) .

Tudo nesta presente existência envelhece, adoece, mas


a herança gloriosa dos cristãos é incorruptível e eterna!
E o cristão tem toda a razão de gloriar-se nela; podemos
nos gloriar se damos a Deus a glória pela glória eterna que
recebemos!
Quanto mais sofrermos neste mundo por causa de
Cristo, mais certa e gozosa se tornará a glória eterna na
era vindoura!
Quanto mais sofrermos neste mundo, mais capacida-
de teremos de irradiar a glória de Deus aqui e de desfrutar
a herança gloriosa eterna na era vindoura!
Quanto mais sofrermos neste mundo, mais aprende-
remos a servir ao Altíssimo no meio da perseguição, para
que venhamos a experimentar o gozo glorioso da libertação
eterna do sofrimento desta terra!
Por essas razões gloriosas , não devemos temer o so-
frimento neste mundo por causa de Cristo. Essas razões
devem nos incentivar a atravessar o período de sofrimento
considerando uma bem-aventurança sofrer pelo nome do
Redentor! Afinal de contas, o sofrimento dura no máximo
alguns anos , e a glória incomparável dura para sempre!

3) Os CRISTÃOS EXPERIMENTARÃO UMA GLÓRIA PESSOAL

Há uma frase muito interessante de Paulo em Romanos


8.18: comparados com a glória a ser revelada em nós.

54
OS SOFRIMENTOS OOS REMIOOS NO PRESENTE HABITAT E AS GLÓRIAS FUTURAS

Não se trata apenas de uma glória que vai ser mos-


trada a nós, mas de uma glória que vai ser mostrada em
nós. Deus vai mostrar uma glória que é vista nos elemen-
tos da criação, mas também vai mostrar uma glória em
nós mesmos! Refletiremos perfeitamente quem é o nosso
Redentor!
A glória é ainda futura enquanto o sofrimento é pre-
sente. Nem sequer imaginamos o fulgor do nosso estado
futuro. Por essa razão, não podemos comparar o presente
sofrimento com a glória futura!
Não sabemos quase nada dessa glória porque nunca
vimos Jesus glorificado; não sabemos nada dessa glória
porque nunca estivemos no paraíso; não sabemos nada
dessa glória porque não experimentamos aínda a reden-
ção final; não sabemos nada dessa glória porque ela está
escondida de nós!
Perceba que a glória não vai ser simplesmente reve-
lada a nós, mas revelada em nós. Paulo está falando da
nossa glorificação. Ele não está se referindo à glória de
Cristo em sua vinda, mas à glória que nós teremos, pois
vamos compartilhar da glória de Cristo. Por isso, o que
você sofre agora não pode se comparar ao que vai ser vis-
to em nós.
É como se Paulo estivesse dizendo: "Não importa o que
estamos sofrendo em nosso corpo agora. O que importa é
o tempo da redenção dos filhos de Deus, em que seremos
todos transformados num abrir e fechar de olhos. Seremos
incorruptíveis e cheios de glória. Eu não estou preocupa-
do que tenhamos ainda problemas emocionais, afetivos e
mesmo espirituais. Nunca essas coisas nos abandonarão
nesta presente existência, mas eu sei que vamos experi-
mentar a limpeza de nosso interior. Vamos ser alvos como a
neve, sem mácula alguma. Vamos ser uma igreja sem ruga,
nem mancha, uma igreja plenamente vitoriosa, e a glória de
Cristo será a nossa glória".

55
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

4) Os CRISTÃOS EXPERIMENTARÃO UMA GLÓRIA PARTILHADA

Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de


Deus e coerdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também
com ele seremos glorificados (Rm 8 . 17) .

a) Somos coerdeiros com Cristo


Assim como nos tornamos, em algum sentido, par-
ticipantes dos sofrimentos de Cristo, assim também re-
ceberemos partilhadamente a glória de Cristo. O fato de
sermos coerdeiros com ele nos coloca também na condição
de glória. Quem está unido a Cristo recebe os sofrimentos
e o gozo que pertence a Cristo, ainda que em proporção
menor.
Quem está em Cristo recebe as bênçãos por causa de
Cristo. Não há como escapar delas, pois a bênção do re-
presentante passa a ser a bênção dos representados. Por
isso, Paulo diz:

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que


nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual
nas regiões celestiais em Cristo (Ef 1.3) .

Tudo o que recebemos está vinculado a Cristo. Não


existem bênçãos à parte dele, sejam materiais ou espiritu-
ais , porque Deus nos colocou unidos a ele, de forma que
tudo o que pertence a ele pertence a nós.
b) Somos glorificados com Cristo
Paulo disse que em Cristo fomos também Jeitos heran-
ça (Ef 1.11). Cristo é o herdeiro e , com ele, recebemos a
herança da glória.

56
OS SOFRIMENTOS DOS REMI DOS NO PRESENTE HABITAT E AS GLÓRIAS FUTURAS

A Escritura diz que Deus constituiu Cristo herdeiro de


todas as coisas. Veja o que o escritor aos Hebreus afirma:

Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas


maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias,
nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas
as coisas, pelo qual tambémfez o universo (Hb 1.1,2).

Como irmãos mais novos de Jesus, partilhamos com


ele da herança do Pai. Se ele é herdeiro de tudo, como ir-
mão amoroso, ele reparte a sua herança com os irmãos
menores. É importante lembrar que Jesus Cristo é o her-
deiro por direito. Ele é o único Filho de Deus. No entanto,
por graça divina, somos feitos seus filhos adotivos e, en-
tão , recebemos parte da herança. Não temos direito a ela,
mas Deus , por causa do seu grande amor, repartiu conos-
co a herança do seu Filho. Por isso, é dito que recebemos
as bênçãos todas em Cristo e por causa de Cristo e pelos
méritos de Cristo.
O Pai é infinitamente rico e , portanto, o Filho tem todo
direito à riqueza. Ele herdou essa riqueza cheia de glória
antes da existência do mundo. Em sua oração, ele disse
ao Pai: glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que
eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo (Jo 17.5). No
entanto, por amor de nós , o Filho abriu mão de todos os
privilégios dessa riqueza, e a Escritura diz que, sendo rico,
se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza,
vos tornásseis ricos (2Co 8.9).
Essa glória do irmão mais velho será repartida co-
nosco, seus irmãos pequeninos. Nunca seremos iguais a
Jesus Cristo em sua divindade, mas seremos iguais a ele
em sua humanidade , porque haveremos de ser como ele é!
Teremos as glórias humanas que ele tem, inclusive as gló-
rias do seu corpo e de sua alma humanos. Por essa razão,

57
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

ele disse em oração ao seu Pai: Eu lhes tenho transmitido


a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o
somos (Jo 17.22).
Como irmãos mais novos de Jesus Cristo , deveríamos
dar mais atenção a esse compartilhamento maravilhoso de
sua glória! Pensamos somente no aqui e agora e nos es-
quecemos desse privilégio de sermos coerdeiros com Cristo
de todas as graças do céu e da terra que ainda hão de
ser reveladas! A grandeza dessas bênçãos partilhadas vai
além da compreensão humana.

3. OS SOFRIMENTOS DA CRIATURA REMIDA SÃO EM


MEIO A GRANDE EXPECTATIVA DE GLÓRIA
Romanos 8.18 é o primeiro indício de que o mundo futu-
ro não será como o de agora. A esperança do cristão sofredor
diz respeito a realidades definitivas. Está baseada na redenção
não somente de pessoas, mas de toda a natureza criada.
Esse versículo é uma palavra de encorajamento no meio
do sofrimento em que nós vivemos e a criação vive. Somos
filhos de Deus , e os sofrimentos do presente não podem ser
comparados com a glória que haveremos de experimentar
como filhos. Os beneficios da filiação são muito grandes, e
Paulo conforta seus leitores em meio aos sofrimentos.
Somente os cristãos têm uma expectativa de liberta-
ção gloriosa. Somente eles possuem esperança soterioló-
gica (Rm 8.23,24), que é a libertação final do gemido que
agora ouvem em si mesmos e na natureza. Eles esperam
por uma restauração total do cosmo , uma recuperação
completa da alma e do corpo, assim como do seu habitat.

1) PAULO ESTÁ FALANDO DA GLÓRIA PRESENTE DOS QUE JÁ MORRERAM


Há um sentido em que os que morrem em Cristo já
estão desfrutando de uma glória, ainda que não em sua

58
OS SOFRIMENTOS DOS REMIDOS NO PRESENTE HABITAT E AS GLÓRIAS FUTURAS

plenitude. Paulo está se referindo a uma glória revelada


naqueles que partem deste mundo em Cristo.
Onde estão os remidos que já partiram? Um huma-
nista secular diria que os mortos não estão em lugar ne-
nhum. Para os humanistas, o homem está apenas no pó.
Nada mais. O destino do homem é a terra. Tudo se acaba
na terra.
No entanto, de modo muitíssimo diferente, para o
cristão, os remidos mortos não estão no purgatório, nem
mesmo num sono da alma, mas estão com o Senhor.
Pense na glória futura de sua alma
Essa glória da alma, os que morreram em Cristo já
experimentam. Todavia, nós, que vivemos neste mundo
amaldiçoado, não experimentamos ainda a glória de ter
uma alma absolutamente pura e cheia de gozo! A nossa
alma ainda não experimenta a glória da presença local de
Jesus Cristo, pois esta só é percebida agora no céu. Ela
começa a existir somente quando morremos com Cristo e
adentramos a glória celeste!
Jesus, que é a ressurreição e a vida (Jo 11.25,26),
concede a sua glória aos que chegam na esfera celestial. O
ladrão crucificado a experimentou no mesmo dia em que
morreu, porque ele adentrou a glória paradisíaca. Jesus
disse ao ladrão arrependido: hoje estarás comigo no paraí-
so (Lc 23.43). Os cristãos mortos estão vivos com Cristo,
desfrutando a glória em sua alma, ainda que seu corpo
esteja na sepultura.
Paulo diz que os cristãos já mortos foram estar com
Cristo. É uma grande glória estar com Cristo! Paulo mes-
mo preferia morrer e estar com Cristo, o que é incompa-
ravelmente melhor (Fp 1.21; 2Co 5.8)! A glória dos que já
morreram em Cristo é muito maior do que os sofrimentos
que eles tiveram aqui na terra.

59
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

2) PAULO ESTÁ FALANDO DA GLÓRIA FUTURA DOS QUE JÁ


MORRERAM

Que glória é essa de que Paulo fala, que vai ser reve-
lada em nós? Paulo está falando da glória futura, após o
retorno do Senhor. Pense no que vai acontecer a você!
a) Pense na glória futura do seu corpo
Essa glória do corpo ainda não foi experimentada por
ninguém, nem mesmo pelos antigos que partiram com
Cristo . Eles ainda estão sepultados. Somente no último
dia é que experimentarão a glória em seu corpo.

Pois assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se


o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se
em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza,
ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural, ressuscita
corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo
espiritual (lCo 15.42-44) .

O seu corpo vai ser semeado (sepultado) em corrup-


ção; será ressuscitado incorruptível; sepultado em de-
sonra e ressuscitado em honra; sepultado em fraqueza e
ressuscitado em poder; sepultado como corpo natural e
ressuscitado como corpo espiritual; sepultado como terre-
no e ressuscitado como celestial!
Essa glória vai ser revelada em nós, não somente a nós!
b) Pense na glória de sua existência de vida no futuro

Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o


tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com
eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com

60
OS SOFRIMENTOS DOS REMIDOS NO PRESENTE HABITAT E AS GLÓRIAS FUTURAS

eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte


já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor,
porque as primeiras coisas passaram (Ap 21.3, 4).

Para o futuro, Deus promete aos crentes uma vida


melhor e nova e um corpo melhor e novo, uma terra onde
o sofrimento terá passado completamente.

3) PAULO ESTÁ ENCORAJANDO OS REMIDOS NO TEMPO DO SEU


SOFRIMENTO

Não é somente na carta aos Romanos que Paulo confor-


ta os seus irmãos na fé. Confira o que ele diz aos corin tios:

Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que


o nosso homem exterior se corrompa, contudo o nosso
homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa
leve e momentãnea tribulação produz para nós eterno peso
de glória, acima de toda comparação, não atentando nós
nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque
as que se veem são temporais, e as que se não veem são
eternas (2Co 4 .16-18).

a) Paulo os encoraja falando do seu próprio ânimo

Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que


o nosso homem exterior se corrompa, contudo o nosso
homem interior se renova de dia em dia (2Co 4.16).

61
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Paulo estava falando a irmãos que estavam sofrendo


na carne, seja por envelhecimento, seja pela dureza das tri-
bulações. Ele estava ensinando, em outras palavras, que na
esfera das coisas naturais a segunda lei da termodinãmica
funciona. Ou seja, quanto mais velhos nos tornamos, mais
deteriorado fica o nosso corpo e mais cansada a nossa alma.
Contudo, ele também ensina que, na esfera das coi-
sas espirituais , a segunda lei não funciona. Quanto mais
amadurecemos (não envelhecemos!) , mais o nosso interior
se renova. Portanto, há esperança para o cristão que se vê
em sofrimento na deterioração de todo o seu ser. Ele vai
se renovando dia após dia, até que seja completamente
transformado no dia de Cristo!
Paulo foi um dos homens que mais sofreu persegui-
ções , que atingiram seu corpo e sua alma. Suas tribula-
ções são inigualáveis na história da igreja! No entanto , a
sua visão da graça divina o fazia manter o ânimo! Ao invés
de se concentrar no sofrimento , ele olhava para o futuro
glorioso que o esperava. Essa atitude injeta muito ânimo
na alma do sofrido . É desse modo que ele quer que nós ,
seus irmãos séculos depois , enfrentemos o tempo de tri-
bulação pelo qual passamos. Por isso, não desanimamos ...

b) Paulo os encoraja falando da superioridade da


glória sobre o sofrimento

Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós


eterno p eso de glória, acima de toda comparação (2Co 4 .17) .

A tribulação dos cristãos , embora possa durar anos ,


é chamada por Paulo de leve e momentânea, por uma
simples razão: ele está vendo a transitoriedade desta exis-
tência em comparação com a eternidade que nos espera.

62
OS SOFRIMENTOS DOS REMIDOS NO PRESENTE HABITAT E AS GLÓRIAS FUTURAS

Como no caso de Pedro no meio da tempestade, que não


devia focar o tamanho das ondas, mas Cristo, assim o
foco do cristão deve estar sempre na esperança futura da
glória, não nos sofrimentos do tempo presente.
Quando olhamos para a presente tribulação, o nos-
so coração se exaspera e fica desencorajado, deprimido.
Quando nos preocupamos com os problemas que nos cer-
cam, perdemos a alegria na vida, os nossos temores e an-
siedades aumentam, e nós somos derrotados.
Entretanto, quando concentramos a nossa atenção na
glória futura, então o encorajamento adentra nossa vida,
e a esperança invade o nosso coração! Pensar nas glórias
futuras do habitat restaurado traz doce esperança ao cris-
tão, porque sabemos que a glória futura supera em muito a
tribulação momentãnea que temos neste presente habitat.
Portanto, permaneçamos com os olhos voltados para cima,
para o alto, de onde toda a nossa glória virá. Olhemos para
Cristo porque é muito melhor do que olhar para as dificul-
dades. Mantenhamos os olhos fixos na promessa da glória
vindoura. Recordemos as promessas do céu e da nova terra
cada dia de nossa vida. Portanto, estudemos as Escrituras
para que elas ponham a nossa visão na perspectiva corre-
ta. Elas são a lente através da qual podemos olhar o nosso
futuro de maneira correta. Porque Paulo creu na revelação
divina, a sua visão de mundo mudou. Na visão dele, as tribu-
lações sofridas neste presente habitat são coisa pequena em
comparação com a chegada dos tempos dourados do paraíso
restaurado. As lentes das Escrituras fazem toda a diferença!

c) Paulo os encoraja a olhar para as coisas eternas

não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que
se não veem; porque as que se veem são temporais, e as
que se não veem são eternas (2Co 4.18).

63
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O encorajamento no tempo de tribulação só pode vir


quando olhamos para os dias futuros, em que a glória será
comparativamente superior aos tempos de sofrimento.
Nesse caso, os amargores das coisas temporais serão ul-
trapassados pela doçura das coisas eternas.
Se olhamos para as coisas que se veem, o sofrimento
significa mais do que uma leve e momentânea tribulaçâo,
mas um tempo que parece não terminar nunca! Entretanto,
quando olhamos para as coisas que os nossos olhos físicos
não podem ver, então podemos ter esperança de infindá-
veis dias gloriosos!
Penso que uma pessoa com muitos problemas como
Helen Keller, por exemplo, que era cega, surda e, conse-
quentemente, muda, pode ter esperança somente quando
reflete nas coisas eternas, porque nada neste presente ha-
bitat pode consolar tão grande carência. Certamente, ela
tinha os seus olhos espirituais voltados para o porvir. Na
sua comunicação especial com o mundo externo, ela foi
capaz de deixar a seguinte frase:

Por três coisas eu agradeço a Deus cada dia em minha


vida: agradeço que ele me concedeu conhecimento de
suas obras; tenho profunda gratidão porque ele tem
colocado em minhas trevas a lãmpada da fé; agradeço
mui profundamente porque eu tenho uma outra vida pela
qual espero ansiosamente - uma vida jubilosa com luz,
flores e cãntico celestial. 37

Citado por Ted Schroder no artigo The hope of glory, disponível em:
37

<http://www. peopleoffaith.com/Sermons-on-Romans-8-18. htm>, acessado


em: 01/07/2012.

64
OS SOFRIMENTOS DOS REMIDOS NO PRESENTE HABITAT E AS GLÓRIAS FUTURAS

Helen Keller não podia ver nada neste mundo.


Então, o seu único conforto era pensar nas coisas eter-
nas, em que todo sofrimento é retirado, e toda lágrima
é enxugada. Somente a eternidade pode fazer com que
haja vislumbre de gozo, ainda que estejamos deste outro
lado. Todos os cristãos que sofrem podem ser consolados
quando refletem sobre as bênçãos que lhes estão reserva-
das na eternidade com o Pai e seu Filho Jesus Cristo no
paraíso restaurado.

APLICAÇÕES
• Paulo nos encoraJa por causa de sua própria
experiência.
Ele falava com conhecimento de causa. Ele conhecia
tanto o sofrimento quanto a glória, embora esta de modo
parcial (2Co 11.23-28; At 9.16; 2Co 12.4).
• Paulo nos encoraja por meio de uma promessa de
glória futura que transcende este tempo de dureza (2Co
4.17; 1Pe 4.13).
• Paulo nos encoraja a ver a nossa verdadeira natu-
reza como filhos de Deus, que ainda vai ser revelada (Cl
3.3,4; 1Jo 3.2; 1Pe 1.5).
• Paulo nos encoraja a uma deliciosa escatologia:
1) ele nos encoraja pelo lugar que devemos esperar
(Hb 11.10,13-16);
2) ele nos encoraja pela promessa de um novo corpo
(Fp 3.20,21);
3) ele nos encoraja a uma completa filiação (Rm 8.23).

65
CAPÍTULO 2

O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

A ardente expectativa da criação aguarda a revelação


dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à
vaidade, não voluntariamente, mas por causa
daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria
criação será redimida do cativeiro da corrupção,
para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque
sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e
suporta angústias até agora (Rm 8.19-22).

A ideia de sofrimento no tempo presente começa a


ser delineada por Paulo com algo que provavelmente pou-
quíssimos abordariam. A maioria dos escritores trataria
primeiro dos sofrimentos dos homens, mas poucos poriam
em primeiro lugar o sofrimento da criação. Aliás, vemos
atualmente a preocupação com o nosso habitat em ques-
tões ecológicas , mas ninguém falaria, sem o auxílio do
Espírito Santo , em "gemidos da criação".
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Neste capítulo, tentaremos entender o que Paulo quis


dizer com essa expressão. Mas vamos por partes: antes de
entender o gemido da criação, veremos o que Paulo quis
dizer por criação.

1. O SIGNIFICADO DE CRIAÇÃO QUE GEME

A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos


filhos de Deus (Rm 8.19).

Há algumas palavras na Escritura que possuem vá-


rios significados, e o seu entendimento é determinado pelo
contexto no qual estão inseridas. Vejamos o sentido da
palavra "criação" em Romanos 8.19.

1) O SIGNIFICADO DO TERMO CRIAÇÃO


O termo criação (ktisis) em Romanos 8.19 diz respeito
a tudo que existe e que possui uma conformação física.
Todavia, há que se fazer algumas qualificações dessa ex-
pressão para que façamos justiça à totalidade dos versícu-
los de Romanos 8 que estamos estudando.
O que está envolvido na palavra "criação"? Qual é o
entendimento que devemos ter dessa palavra nesse texto?
O significado dessa passagem de Paulo depende, em
grande medida, do sentido desta única palavra: ktisis. O
contexto é que determina o seu sentido. Se "criação" signi-
fica apenas os seres humanos remidos , então não estamos
fazendo justiça ao ensino geral das Escrituras, que dizem
que a totalidade da criação foi amaldiçoada pela queda.
Todavia, se a palavra criação em Romanos 8.19 significa o
mundo físico e irracional, então o entendimento do texto

68
O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

se torna mais claro, já que o próprio Paulo distingue entre


criação e os filhos de Deus.
Albert Barnes diz que essa passagem de Romanos é
uma das mais difíceis de compreender. Alguns entendem
que a palavra grega se refere a criaturas humanas, e ou-
tros, à criação física animada e inanimada, excetuando-se
os seres humanos. Na verdade, na língua grega a palavra
ktisis pode ser traduzida por criatura ou por criação.
Qual, então, é a melhor interpretação dessa palavra
grega em Romanos 8. 19? Quem deve ser visto como fazen-
do parte da criação nesse verso?
Pessoalmente, entendo que algumas coisas estão claras:
1) O significado da palavra grega ktisis deve excluir
os seres espirituais santos, como os anjos, querubins, se-
rafins, seres viventes e outros seres espirituais que não
podem ser percebidos pelos sentidos humanos. Ainda que
sejam criaturas de Deus, eles não passam por nenhum
desapontamento ou sofrimento, não tendo, portanto, ne-
nhum gemido a ser expresso.
2) O significado da palavra grega ktisis deve excluir
também os anjos caídos. Ainda que sejam criaturas de
Deus que caíram, eles não têm nenhuma expectativa de
redenção e, portanto, não podem gemer esperando ser li-
bertos do cativeiro da corrupção. Além disso, a redenção
só é prometida a seres humanos, e não a seres angélicos.
Esses anjos caídos nunca serão restaurados.
3) O significado da palavra grega ktisis também deve
excluir os perdidos da raça humana. Ainda que sejam
parte da criação, não há perdão para eles e, por conse-
guinte, não têm qualquer expectativa de restauração. Se
eles gemem (e certamente o fazem!), nunca é pelo desejo
de ver todas as coisas restauradas. Eles nunca quererão
ser limpos de seus pecados, porque suas disposições ín-
timas serão sempre contra qualquer obra redentora de
Deus.

69
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

4) O significado da palavra grega ktisis deve excluir


também os cristãos, embora eles sejam parte da criação.
Os cristãos devem ser excluídos porque, distintamente da
criação, são chamados de "filhos de Deus" no mesmo ver-
sículo e são tratados separadamente quando o assunto é
a restauração.
Portanto, os seres enquadrados nestes quatro grupos
não devem ser contados como parte da palavra "criação"
nesse texto de Romanos 8.19.
A alternativa que mais faz justiça ao texto é a tese de
que "criação", aqui em Romanos 8, se refere à natureza
fisica animada e inanimada que também foi amaldiçoada
por Deus, conforme o ensino de Gênesis 3, e que geme
para ser liberta do cativeiro da corrupção. Deus amaldi-
çoou o mundo da flora e da fauna, juntamente com os ele-
mentos que nele existem, ou seja, a porção seca, a porção
de água e a parte aérea.

A palavra grega para criação é KTLCJEWS' e pode significar


um ato criador (Rm 1.20) ou a coisa criada (Me 10.6;
13.19; 16.15; Cll.23; Hb 4.13). As interpretações
podem variar: 1) Toda a criação não redimida racional
e irracional; 2) Toda a criação, exceto a humanidade.
O ponto de diferença é a inclusão ou a exclusão da
humanidade. A segunda explicação é preferível; a criação
não racional vista coletivamente, animada e inanimada.
Equivalente a toda a natureza. 38

Esta opinião é a mais corrente entre os evangélicos


de linha conservadora. Barnes diz que "a opinião que é
38Vincent's word studies, disponível em: <http://bible.cc/romans/8-19.htm>,
acessado em: 20/05/2013.

70
O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

talvez mais geralmente adotada desta passagem dificil é


a ideia de que ktisis diz respeito à totalidade da criação
irracional". 39 Portanto, por criação podemos entender, sem
fazer injustiça ao termo, o universo fisico, incluindo as
plantas e os animais. Os seres humanos remidos são tra-
tados separadamente por Paulo quando ele os distingue
da criação e os chama de filhos de Deus.

2) CRIAÇÃO É SINÔNIMO DE PRESENTE HABITAT

A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos


filhos de Deus (Rm 8.19) .

Em Gênesis 1.1, há a afirmação de que No princípio,


criou Deus os céus e a terra. A palavra céu, nesse texto
de Gênesis, indica duas coisas significativas, apontando
para duas realidades diferentes: 1) Deus criou o céu fisico,
a abóbada celeste, o firmamento. O céu fisico é parte da
criação material, onde estão os astros celestes, como as
estrelas e o nosso Sol e luz; 2) Deus criou um lugar que
não sabemos onde fica, que ê parte da esfera fisica, numa
atmosfera santa, um local onde está o trono de Deus, e
onde Jesus e as almas dos redimidos que morreram estão.
Neste caso, é tambêm sinônimo de "terceiro céu" ou "pa-
raíso" (2Co 12.1-3) , um lugar que nunca foi amaldiçoado
por Deus.
A afirmação de Gênesis 1.1 diz também que No prin-
cípio, criou Deus [... ] a terra. Esta afirmação aponta para o
habitat dos homens , o lugar de que o homem foi feito e do
qual ele depende .

39
BARNES, Albert. Barnes' notes on the Bible, disponível em: <http :/ /bible .
cc/romans/8-19.htm>, acessado em: 10/06/2013.

71
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Todos os bilhões (ou mais!) de astros, assim como a


Terra (o nosso habitat) e tudo o que nela existe, compõem
a criação a que se refere o texto de Romanos 8. 19-21. Tudo
o que existe no céu e na terra está descrito resumidamente
em Gênesis 1.
Portanto, quando Paulo fala de criação aqui, ele está se
referindo ao nosso presente habitat, embora com o paraíso
ausente. É o lugar onde vivemos, cercado pelos céus cheios
de astros, dos quais o nosso presente habitat depende.

2. O GEMIDO DO PRESENTE HABITATÉ DESCRITO


PELO USO DA FIGURA DE LINGUAGEM CHAMADA
PROSOPOPEIA

Antes de entender e de trabalhar com a ideia do gemido


da criação, é necessário compreender uma figura de retóri-
ca que Paulo usa para descrever algumas emoções que ele
atribui à criação fisica. Atribuindo-lhe essas emoções, ele a
personaliza. O texto de Romanos 8 é cheio de expressões de
sentimentos que são imputados à criação. Vamos estudá-los
ligeiramente antes de tratar do gemido propriamente dito.
No dicionário, vemos que prosopopeia é uma figura de
linguagem que consiste em dar o dom da palavra a seres
inanimados , a animais ou aos mortos ; é uma personifica-
ção. Ou ainda,

A personificação ou prosopeia (ou prosopopeia,


no Brasil) é uma figura de estilo que consiste em
atribuir a objetos inanimados ou seres irracionais
sentimentos ou ações próprios dos seres humanos. 40

40Disponível em : <http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20100
929161028AAuKQ74>, acessado em : 20/05/2013 .

72
O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

Segundo Barnes,

a passagem apresenta um exemplo muito usado e belo


da figura chamada prosopopeia, pela qual as coisas
inanimadas são investidas de vida e sentimento, uma
figura que é, de fato, muito comum na Escritura e que não
deve nos deixar surpresos por encontrá-la neste lugar. 41

1. O USO DA PROSOPOPEIA NA ESCRITURA


A Escritura é farta de exemplos em que os autores
mostram a criação física fazendo coisas que são próprias
apenas de seres racionais e pessoais. Esse é um procedi-
mento muito comum na Bíblia. Diversos salmos apresen-
tam a criação física louvando a Deus; os profetas também
utilizam uma espécie de personalização da criação.
Há inúmeros exemplos de prosopopeia na Escritura,
em que a natureza e os animais irracionais são referidos
como tendo capacidades de expressar coisas próprias de
uma pessoa. É uma espécie de personificação.

O campo está assolado, e a terra, de luto, porque o cereal


está destruído, a vide se secou, as olivas se murcharam.
[.. .] Também todos os animais do campo bramam
suspirantes por ti; porque os rios se secaram, e o fogo
devorou os pastos do deserto (Jl 1.10,20).

Nesse texto de Joel, tanto o solo quanto os animais


são referidos como tendo sentimentos que são próprios de

41
BARNES, Albert. Barnes' notes on the Bible, disponível em: <http://bible.cc/
romans/8-19.htm>, acessado em: 20/05/2013.

73
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

seres humanos. O solo fica de luto por sua frustração de


não poder mais produzir o cereal pela falta de chuva; como
consequência, as oliveiras não conseguem mais dar seus
frutos. A seca é a razão do luto pelo qual o solo passa.
Os animais também têm suspiros por Deus porque
estão com fome e sede. Não há pastos porque não há água.
Tudo está seco. Então, o profeta diz que eles têm ânsias de
Deus, que é sua única esperança, pois a própria Escritura
afirma que todos os animais esperam somente em Deus
para o seu sustento (Sl 104.11-14). Não é sem razão que
o profeta atribui sentimentos de seres racionais a animais
irracionais usando essa figura de linguagem.
Veja o mesmo quadro descrito por outros dois profe-
tas do Antigo Testamento:

A terra pranteia e se murcha; o mundo enfraquece e se


murcha; enlanguescem os mais altos do povo da terra. [... ]
Pranteia o vinho, enlanguesce a vide, e gemem todos os
que estavam de coração alegre (Is 24.4 ,7).

Até quando estará de luto a terra, e se secará a erva de


todo o campo? Por causa da maldade dos que habitam
nela, perecem os animais e as aves; porquanto dizem: Ele
não verá o nosso fim (J r 12 .4).

Com o uso da prosopopeia, os autores bíblicos não es-


tão dizendo que a criação possui inteligência, mas que , de
alguma forma, ela expressa o presente status quo. É uma
situação de frustração que é chamada de luto, que fala de
pranto e de anelos por Deus. O uso dessa figura de lingua-
gem é perfeitamente próprio e nos ajuda a entender o so-
frimento agônico pelo qual passa o nosso presente habitat.

74
O GEMI DO DO PRESENTE HABITAT

Por isso, a terra anela por libertação desse estado de


maldição em que se encontra.

2. O USO DA PROSOPOPEIA EM ROMANOS 8


Vamos analisar rapidamente alguns exemplos de pro-
sopopeia em Romanos 8, a fim de gastar mais tempo com
a ideia de gemido da criação, que é o assunto em pauta.
Paulo usa essa figura de linguagem para ressaltar na
criação as emoções que são próprias de seres racionais .
Por exemplo, ele diz que a criação tem expectativa (v. 19),
tem vaidade (v. 20), que a criação geme (v. 22) e suporta
angústias (v. 22). Analisemos cada uma delas:

1. PAULO DIZ QUE A CRIAÇÃO TEM EXPECTATIVA ARDENTE EM


RELAÇÃO À RESTAURAÇÃO

A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos


filhos de Deus (Rm 8. 19).

A personificação da criação é mostrada de maneira


clara nesse texto de Romanos através da emoção que é
trazida pela expectativa. Com esse "sentimento" atribuído
à criação, Paulo a personifica.
A criação se porta como uma mãe que, em dores, es-
pera a sua hora chegar, uma espécie de sofrimento que
prenuncia coisas melhores no futuro. Enquanto esse futu-
ro de esperança não chega, a terra se contorce em dores,
como uma parturiente que deseja logo expulsar o filho que
está no ventre .
J. B. Phillips traduziu esse versículo 19 como se a
criação estivesse na ponta dos pés, olhando para o futuro.

75
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

As mesmas palavras ocorrem em Filipenses, onde Paulo


descreve sua visão no tempo de sua prisão em Roma:

segundo a minh a ardente expectativa e esperan ça de que


em nada serei envergonhado; antes, com toda a ousadia,
como sempre, também agora, será Cristo engrandecido no
meu corpo, quer pela vida, quer pela morte (Fp 1.20).

A restauração da criação fisica é precedida por uma


ardente expectativa. A expressão "ardente expectativa" é
a tradução da palavra grega apokaradokia, que significa
uma expectativa persistente; significa vigiar ardentemente
com a cabeça bem levantada; significa esperar constante
e pacientemente por alguma coisa. Paulo está afirmando
que toda a criação fisica espera com grande expectativa
pelo tempo em que os filhos de Deus receberão a plenitude
de sua redenção. Quando isso acontecer, é chegado o tem-
po da restauração da criação.
Quando Paulo fala do cativeiro da corrupção e do ge-
mido da criação , ele não deixa a criação sem esperança.
Na verdade , ele diz que existe uma esperança de libertação
do cativeiro em que ela se encontra desde a queda até o
tempo p r esente.
A criação tem expectativa de redenção. O gemido da
natureza é igual ao gemido de uma parturiente. Por que
uma mãe tem um segundo filho? É por causa da recom-
pensa que logo vem a seguir. Uma mãe suporta as dores
do parto em troca da alegria que é antecipada ao pensar
em ter o filho em seus braços!
Da mesma maneira, a criação suporta angústias e
geme até agora na esperança de ser redimida do cativeiro
da corrupção , aguardando a revelação dos filhos de Deus.

76
O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

A criação tem inutilidade, carece ser o que deveria


ser. Todavia, a despeito de sua inutilidade e corrupção, há
esperança de renovação!

na esperança de que a própria criação será redimida do


cativeiro da corrupção (Rm 8.21}.

Quando os filhos forem revelados, então é a hora de a


criação também ser redimida. A redenção plena dos filhos
de Deus é concomitante com a redenção da criação. Esse
desejo ardente da criação é, em outras palavras, o nosso
próprio desejo de que a nossa redenção seja completada.
Então , Paulo transfere para a criação o mesmo desejo que
nós temos.
Nenhuma mulher quereria experimentar as dores da
gravidez e da expulsão do filho do ventre se não tivesse a
expectativa de, no final, ver seu filho em seus braços. Ela
enfrenta as dores porque sabe que há alguma coisa me-
lhor ainda por vir. Da mesma maneira, a criação de Deus,
que suporta as dores do mundo amaldiçoado pelo pecado,
sabe que vai experimentar a libertação da escravidão no
final. A melhor fase da criação não é a que ela experimenta
agora. O melhor ainda está por vir. E a criação vive nessa
expectativa!
O desejo de liberdade é produzido pelas tristes conse-
quéncias da escravidão. Essa expectativa de libertação da
escravidão para alguma coisa melhor no futuro é ardente
tanto na criação como na própria criatura.
A afirmação da expectativa também nos leva a pensar
que nunca teremos resolvidos todos os nossos problemas
nesta vida. As enfermidades fisicas e emocionais, éticas
e morais, e mesmo os problemas governamentais locais,
assim como os problemas mundiais, não serão resolvidos
plenamente neste mundo. Somente no dia de Cristo é que

77
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

tudo será resolvido. Todos esses problemas envolvem a


criação. E esta anela fortemente para que o dia de Cristo
chegue!

2. PAULO DIZ QUE A CRIAÇÃO TEM VAIDADE ANTES DA SUA


RESTAURAÇÃO

Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente,


mas por causa daquele que a sujeitou (Rm 8.20).

Essa expressão usada por Paulo aponta novamente


para uma personificação da natureza. Paulo coloca um
sentimento humano na natureza para fazer-nos entender
que a criação experimenta uma vaidade, que é própria de
seres racionais.
a) O sentido de mataioteti
O que mataioteti significa? A palavra grega fWTaL ÓTT]TL
(mataiotetr), traduzida por vaidade, pode significar "vazio,
futilidade, transitoriedade, frustração, inutilidade". A Nova
Versão Internacional e a Almeida Século 21 a traduzem por
"inutilidade".
Essa vaidade, "futilidade" ou "senso de inutilidade"
é resultado do pecado que entrou na raça humana. Faz
parte da maldição pronunciada por Deus lá no jardim do
Éden, a qual recaiu sobre a criação fisica. É desse "senso
de inutilidade" que a criação anela escapar, e por isso ela
geme!
A palavra grega mataiotes (relativa a mataiotetis)
é usada somente mais duas vezes no Novo Testamento,
mas em ambas ela se refere a gentios não redimidos ou
incrédulos:

78
O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

Isto, portanto, digo e no Senhor testifico que não mais


andeis como também andam os gentios, na vaidade
(j.WTaL ÓTTJTL) dos seus próprios pensamentos (Ef 4.17) .

porquanto, proferindo palavras jactanciosas de vaidade


(IJ.aTaL ÓTTJTOS" ), engodam com paixões carnais, por suas
libertinagens, aqueles que estavam prestes a fugir dos que
andam no erro (2Pe 2.18) .

Esse termo, mataiotes, pode ser entendido como


"vaidade interior" ou "vazio de mente" e, portanto, deve
se referir ao que não é remido. Nesse caso, por não ser
ainda redimida, a natureza física está sujeita a essa sen-
sação de vazio, de vaidade, de frustração ou mesmo de
inutilidade.
A criação experimenta as mesmas sensações de frus-
tração que nós experimentamos como resultado da queda.
Talvez a sensação de frustração seja melhor entendida do
que a tradução "vaidade". O Universo também está sujei-
to a frustrações nesta presente existência. Ele não exerce
devidamente as suas funções por causa da maldição. Para
um entendimento melhor, vou preferir traduzir mataioteti
por inutilidade.
b) A sujeição à inutilidade é judicial
A sujeição à frustração ou inutilidade é judicial, não
apenas natural. A sujeição frustrante da criação é uma
punição divina, não uma consequência natural de eventos
materiais. Deus decretou a inutilidade, a corrupção e o
gemido da criação em resposta ao pecado. Essa sujeição
à frustração é uma consequência penal/judicial de Deus.
A segunda lei da termodinâmica (entropia), que diz
respeito à decadência do Universo, é uma tendência para a
desordem que é produto não da natureza, mas da justiça.

79
O HABITAT HU MANO - O PARAÍSO AUSENTE

É parte do decreto de Deus. Desde a queda, a futilidade


está posta sobre o Universo.
Como produto de sua ira, Deus impôs uma maldição
sobre a criação. Não foi nossa vontade pessoal viver num
mundo de frustração. Paulo diz que Deus sujeitou o mun-
do à frustração. Foi vontade da justiça divina que a criação
experimentasse a frustração.
Esse estado de sujeição à vaidade não é voluntário,
mas imposto. A violência é imposta externamente. Mas
isso não continuará. Há esperança no coração de que o
mundo sujeito será liberto dessa escravidão.
c) A inutilidade da criação não é voluntária

Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente,


mas por causa daquele que a sujeitou (Rm 8.20).

Embora Paulo use a prosopopeia para descrever os


"sentimentos" da criação, ele desresponsabiliza a criação.
Ela está de baixo de maldição não porque fez alguma coisa,
mas por causa do pecado de Adão (Gn 3.17-19). Porque
Adão escolheu andar em rebelião, contrariando a ordem
de Deus , t oda a criação recebeu o castigo da maldição. A
criação é amaldiçoada simplesmente porque está ligada ao
habitat humano. Porque o homem tem que viver no lugar
em que Deus o criou, então Deus tornou a criação cheia
de inutilidade .
d) A razão da inutilidade da criação
A razão pela qual Deus trouxe inutilidade à criação é
o pecado do homem: maldita é a terra por tua causa (Gn
3.17).
A frustração da criação indica um caminho para a li-
berdade. Deus sujeitou a criação à frustração , na esperança

80
O GEMI DO DO PRESENTE HABITAT

de que ela venha a ser liberta do cativeiro da corrupção. O


desígnio da frustração é apontar para a libertação futura,
uma libertação gloriosa para a criação, um retorno à sua
beleza original!

3. PAULO DIZ QUE A CRIAÇÃO GEME

Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme


e suporta angústias até agora (Rm 8.22) .

A ilustração mais evidente de personificação da natu-


reza é vista na principal afirmação do texto: em virtude do
pecado e da consequente maldição divina sobre o mundo,
Paulo diz que a criação "geme".
É importante que entendamos corretamente o sen-
tido de "gemido" e as ideias que ele contém. O gemido da
cr iação deve ser visto de duas maneiras: 1) como expres-
s ã o do desagrado de Deus com o pecado; 2) como um
p rotesto pelo modo como nós tratamos a natureza. Por
causa da punição judicial de Deus e por causa do nosso
desleixo no cuidado da criação , ela geme e suporta an-
gústias até agora.
1. O significado de "gemido" da criação
Não é muito dificil assimilar o significado de um ge-
m ido quando entendemos que Paulo está usando a figu-
ra de linguagem chamada prosopopeia. O gemido é uma
sen sação de seres humanos que Paulo está transferin-
do para a natureza inanimada. Ela está debaixo da dura
m ã o da justiça divina, ainda que não deva ser responsa-
bilizada, visto que a responsabilidade é do homem devido
ao seu pecado.
Deffinbaugh define o gemido da seguinte forma:

81
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O que é um gemido? Um gemido é uma resposta


profunda ao sofrimento. O gemido é tanto pessoal
como intenso, e a agonia é tão profunda que não pode
ser expressa em palavras. O gemido é uma linguagem
universal. O gemido, um dia, terminará, no tempo da
glória dos filhos de Deus que está por vir. Para o cristão,
o gemido dirige nossa esperança para o céu que ainda
não pode ser visto. 4 2

Romanos 8.21 é uma mensagem específica da dor e


do sofrimento que a criação experimenta, e essas sensações
ruins são comparadas aos trabalhos de parto de uma mulher.
Esse versículo descreve a criação gemendo da mesma
maneira que uma parturiente quando está para dar à luz.
Os gemidos da criação podem ser vistos claramente quan-
do ela se manifesta em dores de parto como terremotos,
espinhos mortais, serpentes e plantas venenosas, morte e
violência na natureza.
2. O gemido da criação é universal

Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme


e suporta angústias até agora (Rm 8.22).

O gemido é uma expressão universal de sofrimento. A


totalidade da criação está sob a ira divina. O gemido é da
totalidade da criação porque toda ela foi amaldiçoada por
Deus em virtude do pecado de Adão. Não há uma só parte
da criação que não esteja sob esse cativeiro da corrupção!

42
DEFFINBAUGH, Bob . From groaning to glory, estudo de Romanos
8.18-27, disponível em: <http://bible.org/seriespage/groaning-glory-
romans-818-27>, acessado em: 20/05/2013.

82
O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

Quando os nossos primeiros pais pecaram, houve


uma série de maldições da parte do santo Criador sobre
os principais personagens envolvidos no grande drama do
paraíso. Gênesis 3 é o relato da maldição divina sobre a
totalidade da criação. Primeiro, veio a maldição sobre a
serpente e sobre Satanás, que usou a serpente (Gn 3.14).
Então veio a maldição sobre a mulher (Gn 3.15,16). A se-
guir, sobre o homem (Gn 3.17 - 19) e a natureza física (Gn
3.17), que inclui também os animais.
Paulo confirma a verdade da maldição divina sobre a
totalidade da criação:

Porque sabemos que toda a criação, a u m só tempo, geme


e suporta angústias até agora (Rm 8.22).

Não escapou um só aspecto da criação que não te-


nha recebido porção da maldição divina. A doutrina refor-
mada da depravação total ensina que a totalidade do ser
humano, ou seja, cada parte dele, foi afetada pela queda.
Não sobrou um só compartimento do ser humano que não
tenha sofrido os efeitos da corrupção. O mesmo podemos
dizer da criação. Por isso Paulo fala que t oda a criação [... ]
geme e suporta angústias até agora.
Quando olhamos para a criação ao nosso redor, po-
demos ver sinais bem característicos da maldição divina
sobre ela, ainda que continue a refletir a glória de Deus
(Sl 19. 1). A erupção dos vulcões mostra os gemidos das
regiões inferiores da terra; os terremotos expõem o descon-
tentamento da natureza, e diques se rompem e causam
ainda maiores estragos em nosso mundo; os maremotos
violentos se evidenciam nos tsunamis que frequentemente
têm atingido vários litorais do mundo.

83
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Que podemos dizer do reino vegetal? O aquecimento


global parece denunciar as angústias que a criação sofre;
as aberturas das camadas de ozônio trazem desgraças de
enfermidades sobre a terra.
Que podemos dizer do reino animal? Espécies vão se
extinguindo uma a uma. Toda a criação geme e suporta an-
gústias. Não há como fugir dessa realidade terrível, que terá
um fim somente quando chegar o tempo da restauração de
todas as coisas!
3. O gemido de toda a criação é simultãneo

Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo , geme


e suporta angústias até agora (Rm 8 .22).

As manifestações dos gemidos da criação podem ser


vistas quase simultaneamente em todos os lugares do
mundo . Sempre haverá lugares onde a terra treme, os
ventos destroem, os maremotos provocam ondas enormes
que afundam navios e arrasam litorais, causando grande
mortandade. Tudo isso ao redor do planeta é um lamento
simultãn eo da natureza sob a maldição divina.
À medida que o tempo do fim se aproxima, mais simul-
taneidade haveremos de perceber, porque em todas as partes
do globo esses gemidos da criação serão "ouvidos". A globa-
lização de informação nos ajudará a ver quanta simultanei-
dade haverá nas manifestações sísmicas por todo o presente
habitat.
4. A angústia da criação é universal

Porque sabemos que toda a criaçã o, a um só tempo, geme


e suporta angústias até agora (Rm 8.22) .

84
O GEMIDO DO PR ESENTE HABITAT

O verbo grego para "suportar angústias" é avvwo(vo


(sunodino) e pode ser também traduzido por "suportar
agonias", já que as dores de uma parturiente provocam
exatamente essa triste sensação. Toda a criação nesse
estado de agonia deve ser comparada a uma parturiente.
Esta não repousa enquanto não dá à luz. A sua sensação
é de profunda agonia de expectativa de dias melhores.
Assim, o presente habitat agoniza até que o tempo da sua
redenção chegue!
5. O tempo do gemido e da angústia da criação

Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme


e suporta angústias até agora (Rm 8 .22) .

Paulo nos informa não a respeito de um gemido que


acontecerá no futuro , mas de um gemido que existe desde
a queda e que perdura até agora.
O que significa a expressão até agora? Estritamente
falando , o até agora refere-se ao tempo em que Paulo es-
creveu. De um modo mais lato, significa que desde aquela
época continua a mesma situação, a qual durará até que
o Senhor venha. Esse gemido persistirá enquanto a terra
estiver debaixo de maldição e até que ela seja revestida
novamente de glória, o que se dará no futuro.
Nada mudou desde a queda em termos de gemido,
exceto que ele é ouvido com intensidade cada vez maior.
Desde a queda até o tempo presente, a criação geme e su-
porta angústias . O sofrimento do universo fisico (assim
como do universo das criaturas animadas e racionais) tem
um ponto de término. A corrupção, a escravidão, o gemi-
do e a angústia do Universo não durarão para sempre,
mas apenas enquanto a volta de Cristo não acontecer-
pois em sua vinda e na consumação de todas as coisas ,

85
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

a natureza nunca mais vai gemer, porque terá chegado o


tempo da sua redenção!
6. O gemido e a agonia são indicativos de glória
à vista
O presente sofrimento do mundo parece contradizer
a promessa de glória futura. No entanto, Paulo crê que
o sofrimento não é apenas importante para entendermos
a glória futura, mas é também pequeno em comparação
com a glória futura. O grau de sofrimento, não importa
quão severo seja, não se pode comparar com o gozo a ser
experimentado.
As duas expressões, gemido e agonia, são conducen-
tes a um estado glorioso. Todas as mães têm a sensação do
gemido e da agonia à medida que as contrações aparecem
e recrudescem. Quanto mais intensas são as contrações,
mais elas gemem e têm agonias. Todavia, quando as do-
res aumentam em frequência e em intensidade, as mães
sabem que o tempo de expulsar o filho é chegado. E isso
significa esperança de glória à vista.
Tão logo uma criança é expulsa do ventre, a mãe sor-
ri porque a sua glória chegou: a glória de ter o filho nos
braços, e não há mais gemido nem agonia. Estes apenas
indicavam que o fim da maldição estava próximo.
Da mesma forma, a natureza geme e suporta angús-
tias esperando ser redimida do cativeiro da corrupção.
As dores e os sofrimentos apontam para um tempo real
de gozo que chega quando a renovação da terra e do céu
acontece. Toda a criação está sofrendo até agora, e o so-
frimento vai se intensificar, mas esses sofrimentos, como
já havia afirmado Paulo, não podem ser comparados com
a glória a ser revelada (Rm 8.18). A natureza também
experimentará a glória da sua restauração paradisíaca.
Quanto mais a dor aumenta, mais próximo está o tempo
de glória!

86
O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

3. O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT SOB


MALDIÇÃO TEM UMA RAZÃO MORAL

maldita é a terra por tua causa (Gn 3.17).

A maldição do solo por causa do homem parece ser


algo injusto da parte de Deus. A responsabilidade da que-
da é do homem. Porém, não podemos perder de vista que
a matéria é inanimada, mas é parte da vida do homem. Na
verdade, a maldição sobre o solo é uma maneira indireta
de atingir o homem, que é o responsável perante Deus,
porque o solo não somente é parte da vida humana, mas
parte integrante do próprio homem. Este foi formado do
solo: tu és pó (Gn 3.19). Toda a matéria orgãnica que com-
põe o homem sofre a maldição também.
O solo pode ser profundamente "amaldiçoado" por
causa da própria maldade do homem. Em nossa geração,
temos visto crimes contra o solo, quando lençóis freáticos
são envenenados por causa da imprudência ou mesmo do
pecado de ganãncia de grandes indústrias que lançam de-
tritos contaminados no solo. Esses são males naturais ou
mesmo castigos positivos. Ou seja, se os homens semeiam
vento, colhem tempestade. Se os homens não cuidam da
natureza criada, sofrem as consequências de seus pecados,
tendo de comer e beber alimentos e água contaminados.
No entanto, a maldição sobre o solo registrada no
Éden não é um castigo natural, mas possui uma total co-
notação judicial. O homem desobedeceu à justiça, e a terra
sofre as consequências penais dos pecados dos homens.
A maldição do solo não ê uma experiência única e
isolada de Gênesis 3.17. Em outros lugares da Escritura,
podemos perceber como Deus sempre amaldiçoou o solo
por causa do pecado dos homens (cf. Is 24.1-13).

87
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Por que Deus amaldiçoaria o solo? Porque tudo o que


temos provém do solo. Ele é a fonte de nossa subsistência.
Quando o solo é amaldiçoado, a maldição atinge tudo o
que procede dele.

1. A CRIAÇÃO GEME POR CAUSA DA MALDIÇÃO


DIVINA
Quando o pecado entrou no mundo, ele causou efeitos
cósmicos. A totalidade da criação foi colocada numa situa-
ção de desequilíbrio quando o homem pecou. Isso é claro
em Gênesis:

E a Adão disse: Visto que atendeste a voz de tua mulher e


comeste da árvore que eu te ordenara não comesses, maldita
é a terra por tua causa; em fadigas obterás dela o sustento
durante os dias de tua vida. Ela produzirá também cardos e
abrolhos, e tu comerás a erva do campo (Gn 3 .17,18).

Por causa do pecado de Adão, todo o solo foi amal-


diçoado ;43 espinhos vieram sobre a terra, e a harmonia
antes existente deixou de existir. A beleza e o resplendor
da perfeita criação de Deus foram manchados. Após a
queda, Deus não mais poderia dizer de sua criação: "Ela
é muito boa!".

2. A CRIAÇÃO GEME POR CAUSA DA CORRUPÇÃO EM


QUE SE ENCONTRA
A maldição vinda de Deus por causa do pecado do ho-
mem desfigurou a beleza do presente habitat. Essa terrível

43 Para um estudo mais apurado da maldição do solo, veja o meu livro O


habitat humano - O paraíso perdido, p. 243.

88
O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

maldição, mesmo depois de milênios, ainda permanece so-


bre a criação física. Esta não reflete mais sua beleza origi-
nal (ainda que presentemente manifeste a glória de Deus
- Sl 19.1). Deus já não pode dizer dela: Eis que tudo é
muito bom, porque ele próprio colocou a criação fisica sob
o tacão do seu desagrado.

na esperança de que a própria criação será redimida do


cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos
filhos de Deus (Rm 8. 21).

A) 0 SIGNIFICADO DE CORRUPÇÃO

A corrupção da criação fica evidente no fato de que


a natureza está num estado de decadência, de ruína, de
deterioração. Vê-se claramente que há muita coisa fora
de ordem.
A palavra grega para "corrupção" é <P8opâs- (phthoras).
Eticamente, a palavra phthoras significa que a criação está
num estado de oposição à salvação . Essa palavra descre-
ve "um estado de ruína ou destruição com a ideia de de-
terioração, dissolução, desintegração, ruína, perecimento,
decadência ou apodrecimento como matéria orgânica". 44

B) A CORRUPÇÃO COMEÇA COM UM ATO

A corrupção da criação fisica se 1n1c10u quando a


vida de Deus foi tirada do homem. Assim, o homem mor-
reu. O castigo de morte que veio sobre o homem foi o pro-
cesso inicial da decadência do universo fisico. Da mesma
forma que, quando o homem morre, começa a corrupção
(ou a decomposição) do corpo , assim o Universo, que é o

44
Comentário on-line de Romanos 8.21, disponível em: <http://
preceptaustin.org/romans_820-21.htm#8:21>, acessado em : 20/05/2013.

89
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

habitat do homem, passou a sofrer as consequências da


morte do homem. Após a maldição vinda sobre o homem,
veio a maldição sobre o seu habitat. Vine comenta que
phthora "é o resultado da retirada da vida (que unicamen-
te mantém o organismo físico como ser efetivo) que causa
a dissolução do corpo". 45 Quando Deus tirou a vida de
Adão (a sua comunhão relaciona! com Deus), ele também
trouxe a maldição da corrupção (decomposição) sobre o
universo físico.

c) A CORRUPÇÃO CONTINUA COMO UM PROCESSO

A morte do homem deu início à corrupção, mas esta


não deve ser entendida como algo concluído, repentino ou
definitivo. A corrupção é um processo iniciado por uma
decadência interna. É como a decomposição paulatina da
carne que acontece logo após a morte do animal. Se não
for preservada com sal (ou outro conservante), a tendência
é a decomposição. A ausência da vida produz a paulatina
decomposição.
Os elementos da natureza estão sendo corrompidos
paulatinamente. Os astros que iluminam a Terra têm a
tendência de diminuir a sua luz. Os astros em geral ten-
dem ao processo da lei da entropia, que diz respeito à de-
cadência e diminuição de força e glória. A segunda lei da
termodinãmica aponta para essa verdade da corrupção a
que a criação está sujeita.
Tudo na natureza física está sujeito a essa corrupção,
inclusive os homens em sua imoralidade. Pedro assinala
que esses efeitos da corrupção atingem os falsos mestres.
Ele usa o substantivo "corrupção" e o verbo "corromper".

45VINE, W. Collected writings ofw. e. vine. Nashville: Thomas Nelson.


Disponível em : <http://preceptaustin.org/romans_820-21.htm#8 :21>,
acessado em: 20/05/2013.

90
O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

Esses, todavia, como brutos irracionais, naturalmente Jeitos


para presa e destruição [<j>8opáv], falando mal daquilo em
que são ignorantes, na sua destruição [<j>8opq] também hão
de ser destruídos [KaTa<j>8ap~aovTm ] (2Pe 2.12).

Na verdade, esses homens estão sendo corrompidos


à medida que pregam coisas errôneas. A corrupção é cres-
cente e processual, até que seja completa.

3. A CRIAÇÃO GEME POR CAUSA DO CATIVEIRO DA


CORRUPÇÃO EM QUE SE ENCONTRA
A palavra grega usada para "cativeiro" é 8ouÀdas (dou-
leias - "escravidão") e significa que a criação não pode
fazer nada por si mesma. Ela está num estado de impotén-
cia. Isso significa que ela não pode sair dessa situação, a
não ser que aquele que a amaldiçoou retire de sobre ela tal
maldição. Somente o amaldiçoador pode afastar a maldi-
ção, porque nenhum cativo tem poder em si mesmo de sair
da condição em que se encontra.
Funciona assim também com o pecador. Ele não pode
sair do estado de corrupção em que se encontra, a menos
que Deus (o amaldiçoador) retire de sobre ele a maldição,
regenerando-o, tomando-o vivo para poder crer nas verda-
des do evangelho. Tanto a criatura (os seres humanos) como
a criação (o universo fisico) são impotentes para fazer algo
por si mesmos. Por isso, o texto diz que a criação é escrava
da corrupção! Ela não pode fazer nada para reverter a de-
sorganização em que se encontra. John MacArthur diz que

A teoria da evolução não é verdadeira porque ela é oposta


à verdade: o Universo não tem a tendência de se elevar,
mas de se inclinar para baixo. Ele está se movendo

91
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

de uma perfeição absoluta para um desastre total.


Tudo terminará num holocausto devastador produzido
por Deus. Você não precisa ter medo de uma guerra
nuclear total porque a Bíblia não diz que a Rússia ou
outra nação vai explodir o mundo inteiro. A terra ainda
estará mantida na segunda vinda de Cristo. Ele mesmo
a recriará. O mundo virá a um fim somente quando o
Senhor fizer isso. 46

A corrupção a que a criação está sujeita só pode ser


resolvida por uma ação poderosa e sobrenatural da parte
daquele que criou o Universo e que, por causa da sua ira
contra o pecado, o amaldiçoou. É prerrogativa e poder di-
vinos tornar o Universo livre da corrupção.

4. O GEMIDO DO PRESENTE HABITATÉ UMA


IMPOSIÇÃO JUDICIAL DE DEUS

Há consequências naturais que os pecados produzem


em nossa vida. Por exemplo, se mentimos, trazemos con-
sequências naturais de nossa mentira para nós próprios
e para outras pessoas. Se nos embriagamos, produzimos
consequências naturais para os nossos filhos quando os
tratamos violentamente, pois o álcool nos torna violentos,
e podemos perder o controle; além disso, podemos levar os
nossos filhos à fome quando o dinheiro para o pão é gasto
na bebida. Se somos infiéis no casamento, causamos mui-
tas dores à nossa esposa e à família toda. Para continuar
na infidelidade, temos que enganar os filhos, temos que

46MACARTHUR, John, em seu sermão sobre o texto de Romanos 8.21,


disponível em: <http://www.biblebb.com/files/MAC/sg45-61.htm>,
acessado em: 20/05/2013.

92
O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

enganar as pessoas que vivem ao nosso redor; há uma


série de consequências naturais trazidas pela infidelidade
conjugal. Se entramos pelas vias da fornicação ou mesmo
da homossexualidade, adquirimos doenças sexualmente
transmissíveis, que são extremamente indesejáveis, e as-
sim por diante. Aqui vale a máxima da Escritura: aquilo
que o homem semear, isso também ceifará (Gl 6. 7). Essas
são consequências naturais de nossos pecados. Todavia,
o que aconteceu no Éden não diz respeito a consequências
naturais do pecado, mas a consequências judiciais, pro-
dutos da manifestação da justiça divina pela transgressão
de sua lei. Essas maldições são a penalidade judicial de
Deus sobre a sua criação por causa do pecado de Adão.
Nesse caso, o atributo da justiça divina manifesta-se pela
primeira vez na criação.
Assim, o paraíso de Deus foi perdido quando Adão
pecou, e a totalidade da porção seca, chamada Éden, rece-
beu a maldição. Adão não perdeu o paraíso somente para
ele, mas para toda a sua descendência. Além disso, ele foi
morar no Éden, que já não possuía a mesma beleza e a
mesma capacidade de antes da queda. A perda da beleza
e das delícias do paraíso e as amarguras encontradas na
terra amaldiçoada são vistas claramente nas maldições di-
vinas, que serão analisadas nos capítulos subsequentes.

5. O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT É ALIVIADO


TEMPORARIAMENTE

Após a queda, Deus enviou maldições , mas ele não


deixou o presente habitat completamente abandonado.
A sua graça permeou tanto o habitat quanto os seus
habitantes. Deus fez com que sua graça comum viesse
sobre o mundo que ele próprio amaldiçoou. O presen-
te habitat é, portanto, um misto de tristezas e alegrias,

93
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

sofrimentos e gozo, miséria e fartura. As graças divinas


são alívios temporários visando especialmente o bem dos
eleitos de Deus. Todos os habitantes e o habitat desfru-
tam dessa graça, mas sua finalidade última é aliviar as
maldições no mundo para o bem-estar daqueles a quem
ele decidiu remir.
O texto a seguir é apenas um exemplo das muitas
passagens em que a Escritura aponta para os alívios que
Deus enviou ao nosso presente habitat.

Porque a terra que absorve a chuva que frequentemente


cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é
também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas,
se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da
maldição; e o seu .fim é ser queimada (Hb 6 .7 ,8).

Citando um rabino de nome Eliezer, John Gill dis-


se que ele "era de opinião que, se não tivesse havido ne-
nhuma bênção sobre a terra, ela não teria produzido nada
mais, como alguma coisa que é rejeitada e que está perto
da maldição (Hb 6.8)". 47
Sem as bênçãos posteriores de Deus, a continuação
da vida e o sustento do pão para os patriarcas antediluvia-
nos seriam muito dificeis. Entretanto, no tempo do dilú-
vio , Deus fez uma afirmação extremamente aliviadora para
aqueles que continuariam a viver neste mundo, que estava
para ser povoado novamente:

47GILL, John, em seu comentário sobre Gênesis 3, disponível em: <http:/I


www.studylight.org/com/geb/view.cgi?book=ge&chapter=003&verse=Ol8>,
acessado em: 20/05/2013.

94
O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

Eo S ENH OR aspirou o suave cheiro e disse consigo


mesmo: Não tornarei a amaldiçoar a terra por cau sa
do homem, porque é mau o desígnio íntimo do homem
desde a sua mocidade; nem tornarei a ferir todo vivente,
como fiz. Enquanto durar a terra, não deixará de haver
sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e
noite (Gn 8.21,22).

Por uma segunda vez na história do mundo, Deus


trouxe o castigo ao homem, eliminando a raça humana,
exceto a família de Noé , por causa do pecado. No entanto ,
falando consigo mesmo, Deus promete não mais amaldi-
çoar o mundo como acabara de fazer no dilúvio, nem des-
truir toda a raça novamente, ainda que o coração do ho-
mem continuasse mau. Ele anuncia uma espécie de alívio
do seu juízo sobre a raça humana.
A maldição divina inicial não permaneceu no mesmo
patamar de rigidez . Deus flexibilizou sua rigidez, ainda
que em pequeno grau, para o bem-estar do homem, a fim
de que ele vivesse com menos dureza. Ela foi parcialmen-
te removida depois do dilúvio , por causa da bondade de
Deus para com os pecadores rebeldes. Não é sem razão
que o pacto que Deus fez com No é foi um pacto de trazer
de volta algumas coisas da criação perdidas no dilúvio.
É um pacto que forma base para a dou trina da graça
comum .

APLICAÇÕES

Desde a queda, o homem deixou de tratar da terra


como devia. Todavia, Deus deu ordens para que a terra
fosse devidamente tratada.

95
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

A) TRATE BEM O SOLO


Ele deu leis para serem obedecidas. Leis como esta:

Então, a terra fo lgará nos seu s sáb a d os, todos os dias da


sua assolação, e vós estareis na terra dos vossos inimigos;
nesse tempo, a terra descansará e folgará nos seu s
sábados . Todos os dias da assolação descansará, porque
não descansou nos vossos sábados, quando habitáveis
nela (Lv 26.34,35) .

A terra deveria ser preservada, e não usada de ma-


siadamente, sem descanso. A terra, como toda a criação,
tem limites em sua capacidade de produzir. Ela precisa de
descanso, e o Criador bem sabe disso. Por essa razão deu
essa ordem.
A ordem do descanso da terra é dada de maneira
inequívoca:

Seis anos semearás a tua terra e recolherás os seus


frutos; porém, no sétimo ano, a deixarás descansar e não
a cultivarás, para que os pobres do teu povo achem o que
comer, e do sobejo comam os animais do campo. Assim
farás com a tua vinha e com o teu olival (Êx 23. 1 O, 11; cf.
Lv 25 .2-7).

Hoje , no entanto, são muitos os fazendeiros que pen-


sam nos seus lucros, mas não na saúde da terra. Aqueles
que não cuidam da terra perecerão e serão consumidos
pela própria terra, que os abandonará (Lv 26.38).

96
O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

A mordomia da terra é um dever sobremodo impor-


tante porque nós dependemos da terra. Recebemos a or-
dem de povoar a terra e dominá-la (Gn 1.28), mas a do-
minação tem que ser feita de acordo com o que somos em
relação a Deus. Somos criados à imagem de Deus e, por-
tanto, devemos nos portar como Deus se portaria ao ter
preocupação com a terra. "Ser criado à imagem de Deus é
um dom que traz consigo a responsabilidade de cuidar da
criação de Deus." 48
A ideia de "sujeitar" a terra (Gn 1.28) não significa que
devemos escravizá-la para a satisfação de nossos desejos
de lucros, dando vazão a uma exploração ilimitada de seus
recursos. O domínio e a autoridade plenos sobre a terra
pertencem a Deus, não ao homem. A autoridade do homem
é fazer a terra produzir por meio do seu cultivo. Portanto,
aqueles que trabalham com a terra devem tratá-la de ma-
neira que mostre a apreciação pelo dom que Deus lhes deu.
Os que não trabalham especificamente no campo devem
tratar a terra com carinho, tendo preocupação ecológica
pelo simples fato de ela ser o dom de Deus para nós.
Deus é o dono absoluto da terra e ele exige que nós,
seus mordomos , a tratemos devidamente. Deus exige de
nós responsabilidade no uso da terra por amor do seu
nome. É por causa do dono da terra que devemos cuidar
bem dela. Afinal de contas, Deus é o inspetor moral de
tudo o que fazemos com o que lhe pertence.
Deus se ira contra aqueles que não tratam devida-
mente nosso meio ambiente, ou seja, a terra. A sua ira é
muito forte. Veja o que Jesus revelou a João:

48
BIRCH, Bruce. Petrie, do artigo Theology of the /and- Foundational
principies, disponível em : <http://www.search-document.com/doc/3/1/
principles-of-healing.html>, acessado em: 17/06/2013.

97
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Na verdade, as nações se enfureceram; chegou, porém,


a tua ira, e o tempo determinado para serem julgados
os mortos, para se dar o galardão aos teus servos, os
profetas, aos santos e aos que temem o teu nome, tanto
aos pequenos como aos grandes, e para destruíres os que
destroem a terra (Ap 11.18).

Deus quer que preservemos a criação, que é a sua


propriedade. Como mordomos de Deus, cuidemos bem da-
quilo que ele deu para o nosso deleite .

B) TRATE BEM AS ÁRVORES


Veja o que Deus diz sobre o modo como devemos tra-
tar as árvores:

Quando sitiares uma cidade por muito tempo, pelejando


contra ela para a tomar, não destruirás o seu arvoredo,
metendo nele o machado, porque dele comerás ; pelo que
não o cortarás, pois será a árvore do campo algum homem,
para que fosse sitiada por ti? (Dt 20.19) .

O versículo trata das árvores num contexto de guer-


ra, em que a ética dos homens muda, e as coisas que têm
valor podem vir a perdê-lo. No entanto, o ensino de Deus
é que mesmo os que conquistam a terra devem cuidar das
árvores (ou florestas) , porque elas são fundamentais para
a existência da raça humana. Dependemos das árvores em
todos os sentidos. Por isso, devemos tratá-las devidamen-
te. Se n ã o o fazemos , todo o meio ambiente sofre.

98
O GEMIDO DO PRESENTE HABITAT

C) TRATE BEM A ÁGUA


O mesmo pode ser dito a respeito da água, em virtude
da sujeira que temos visto ser lançada nos córregos, rios,
lagos e represas. A água é o elemento mais fundamental
para a vida humana. É um dom divino para a nossa total
subsistência.
A terra deve ser uma preocupação constante de todos
nós, pois vivemos dela, vivemos nela e dela dependemos.
Os textos mostrados são, evidentemente, leis específicas
para a nação de Israel no Antigo Testamento, mas os prin-
cípios gerais são os mesmos para todos os povos e ainda
são aplicáveis, especialmente para os cristãos, que devem
cuidar da terra por causa do seu Criador. Todos os seres
humanos são responsáveis perante Deus pelo modo como
tratam a terra. Afinal, houve um pacto da criação, e os
homens devem ser corregentes da terra. Esse pacto tem
aplicação universal, não unicamente aos crentes.

99
CAPÍTULO 3

O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA


NO PRESENTE HABITAT

E não somente ela, mas também nós, que temos


as primícias do Espírito, igualmente gememos em
nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a
redenção do nosso corpo (Rm 8 .23) .

Já tratamos do gemido da criação, que é uma refe-


rência ao universo físico que Deus criou e amaldiçoou, o
qual inclui a Terra e os astros dos quais principalmente
ela depende. Essa criação geme e tem angústias até agora.
A criatura, por sua vez, diz respeito aos habitantes
remidos que estão vivendo no presente habitat.
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

E não somente ela [a criação], mas também nós [as criaturas


remidas], que temos as primicias do Espírito (Rm 8.23a).

A criatura humana é constituída de duas naturezas:


uma material (corpo) e uma imaterial (alma ou espírito). O
processo de redenção da criatura neste presente habitat
começa com sua parte imaterial. Por essa razão, iniciamos
este capítulo com a redenção que Deus começa dentro de
nós. A redenção da natureza material da criatura é a últi-
ma coisa que Deus vai fazer nela. Por essa razão , Paulo a
deixa por último no capítulo 8 de Romanos.
No entanto, antes que a redenção humana se comple-
te , Paulo trata do gemido que as criaturas remidas expres-
sam neste presente habitat.

1. A CRIATURA REMIDA GEME A DESPEITO DAS


PRIMÍCIAS DO ESPÍRITO NO PRESENTE HABITAT

As primícias nos lembram aspectos cerimoniais da re-


ligião judaica que tinham a ver com a festa das colheitas. 49
Esses primeiros frutos eram entregues a Deus como oferta
por sua bondade providencial. Através dessa observãncia
religiosa, os judeus deveriam reconhecer que todo produ-
to da terra era parte da provisão divina para eles. Esses
primeiros frutos são simbólicos e ilustrativos de bênçãos
espirituais que haveriam de existir no mundo novo.

1. O SIGNIFICADO DE "PRIMÍCIAS DO ESPÍRITO"


Não deve haver nenhuma dúvida de que as primícias
do Espírito devem ser vistas como as primeiras obras do
Espírito Santo em nós . Eu não teria nenhum temor em
49
Cf. Êx 23 .16,19; Dt 18.4; Ne 10.35; Pv 3.9.

102
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

afirmar que estas dizem respeito à regeneração, ao novo


nascimento, aos dons espirituais, à habitação do Espírito
e à obra santificadora que ele já está fazendo em nós.
A tarefa precípua do Espírito Santo é tomar as bên-
çãos merecidas por Jesus Cristo e aplicá-las ao nosso
coração. Isto ele já está fazendo! Todas as coisas que ele
fez, está fazendo e ainda fará em nós são as primícias do
Espírito. A ideia de "primícias" indica que há outras coisas
que serão feitas em nós na glória do mundo por vir.

2. OS BENEFICIÁRIOS DAS "PRIMÍCIAS DO


ESPÍRITO"
A criatura que geme é a criatura que Deus propôs
remir. Na verdade, o "nós" é uma alusão aos crentes, pois
Paulo se inclui entre eles, dizendo: "também nós". Esses
crentes do tempo de Paulo já eram um número bem maior
do que os 120 que receberam o Espírito no Pentecostes.
Portanto, os crentes daquela época e de todas as épocas
estão debaixo de sofrimentos que nos fazem gemer por-
que temos somente as primícias do Espírito, ou seja, a
redenção ainda não está completa em nós. É justamente
a presença do Espírito em nós que nos faz gemer; ele nos
faz enxergar o que não conhecemos a nosso respeito, isto
é, os nossos pecados, e provoca a ânsia de sermos libertos
deles.
Há cristãos que defendem a ideia de que, quando
temos as primícias do Espírito Santo, não mais podemos
sofrer, não mais podemos ter tristezas, pobreza ou
enfermidades. Tudo neles cheira a ideia de prosperidade,
sem levar em conta que a obra de Deus em nós apenas
começou. E, enquanto ela não termina, todas essas coisas
podem acontecer até em grande medida em nossa vida
neste presente habitat. É inegável que aquele em quem
Deus começa a trabalhar padece em muitas áreas da vida,
inclusive na esfera espiritual.

103
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Ao mesmo tempo em que é gostoso perceber a ação


do Espírito em nós , 50 é triste perceber quanto pecado
ainda temos que precisa ser retirado de nós. Por essa e
outras razões que veremos a seguir, os que recebem as
primícias do Espírito têm uma existência de constantes
gemidos até que a sua redenção se complete. As primícias
do Espírito garantem que um dia não mais t eremos ge-
midos , mas não garantem que não os teremos enquanto
vivermos nesta carne.
As primícias do Espírito não asseguram que a vida
neste presente habitat é feita simplesmente de coisas ju-
bilosas. Não podemos desconsiderar os gemidos de que
Paulo trata em Romanos 8.23.
Os primeiros frutos são indicativos de que um dia ex-
perimentaremos a plenitude dos frutos do Espírito, mas ,
enquanto isso não acontece, os cristãos vão gemer.

3. VERDADES SOBRE "AS PRIMÍCIAS DO ESPÍRITO"


Há algumas verdades que não podem ser deixadas
de lado quando estudamos o assunto das primícias do
Espírito na vida dos remidos neste presente habitat.

1) As PRIMÍCIAS DO ESPÍRITO INDICAM QUE O TRABALHO DA


REDENÇÃO APENAS COMEÇOU

Paulo menciona as primícias do Espírito. Isto se re-


fere à habitação do Espírito e ao que ele tem feito em nós.
Quando Deus nos salva, ele move seu Espírito em nós (1Co
12.13; Rm 8.9).
As primícias no Antigo Testamento diziam respeito
aos primeiros frutos da colheita que os filhos de Israel da-
vam a Deus como reconhecimento de que todas as boas

50A ação do Espírito Santo em nós causa júbilo, regozijo e constantes


expressões de louvor.

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O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

coisas vinham de Deus. Então, davam os primeiros frutos


como oferta ao Senhor. As primícias eram algo que vinha
de baixo para cima, que o homem oferecia a Deus.
Diferentemente, no ensino de Paulo, as primícias do
Espírito têm a ver com as coisas que vêm de cima para bai-
xo. Elas caminham na direção inversa. É Deus quem nos dá
as coisas primeiras que recebemos e de que precisamos de-
sesperadamente. Somente aqueles que Deus escolhe para
pertencerem a ele é que recebem as primícias do Espírito.
Esses frutos são um antegosto de coisas muito maiores que
Deus ainda vai trazer ao seu povo, a quem ele redime.
Quando olhamos para dentro de nós com o auxílio
da luz que a Escritura nos dá, gememos por ver quantas
coisas o Espírito Santo ainda tem de fazer em nós. Deus
apenas começou um trabalho em nós e ainda tem muita
coisa a fazer para nos limpar da imundície que habita em
nós. Portanto, quando o remido vê o pecado que está em
seu interior, geme de tristeza porque aprende a ver a si
mesmo como Deus o vê. Quanto mais trabalhados pela
graça divina, mais percebem os a profundeza com que o pe-
cado penetrou em nós. Em outras palavras, gememos pelo
pecado que está ao nosso redor e, principalmente, dentro
de nós quando ficamos sensíveis a ele.

2) As PRIMÍCIAS DO ESPÍRITO INDICAM QUE AINDA HÁ MUITO


POR SER FEITO NOS REMIDOS NESTE PRESENTE HABITAT

As primícias, que apontam para as primeiras coisas,


apenas nos fazem perceber o grande volume do que ainda
está por ser feito. Poucos cristãos percebem a grandeza
da obra que ainda precisa ser feita em nós, porque a obra
redentora fora de nós já foi completada. Por isso, Jesus
disse: Está consumado! (Jo 19.30). Não obstante, as ope-
ra intra nos (obras dentro de nós) precisam ser feitas e
são muito grandes. Por isso, ainda gememos em nosso
interior.

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O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

A redenção humana é, em geral, um processo longo


que Deus opera na vida daquele que ele começa a r e di-
mir. A salvação, portanto, é algo que Deus já fez, ain-
da está fazendo e que ele terminará somente na volta de
Jesus Cristo.

3) As PRIMÍCIAS DO ESPÍRITO NÃO SÃO SUFICIENTES PARA LI-


VRAR OS REMIDOS DOS SEUS GEMIDOS NO PRESENTE HABITAT

No versículo 23, Paulo fala tanto do gemido da criação


como do gemido da criatura remida. O gemido é a tônica
de todos os cristãos enquanto eles vivem no presente habi-
tat. Não há como fugir dessa sensação desagradável.
O som de um gemido não é agradável. Quando você
ouve um gemido, presume que alguma coisa dolorida está
acontecendo. Os sofrimentos causam o gemido, mas há
um sentido em que o gemido é prenúncio de alguma coi-
sa boa que está para acontecer. Nesse sentido, o gemido
é sinal de esperança. Especialmente se você pertence a
Jesus Cristo, você é parte do coro que geme, e o seu ge-
mido é sinal de que algo maravilhoso está para acontecer
a você.
O verbo grego traduzido por "gememos" é stenazo, e o
substantivo é stenagmos. Esse verbo significa o sentimen-
to de alguém que está numa situação indesejável que não
tem alívio. Ele expressa desejos de um destino melhor, de
um lugar melhor.
O substantivo é usado em Atos 7.34, quando Estêvão
recorda a história do povo no deserto. Deus ouviu os gemi-
dos do povo porque eles estavam numa situação indesejá-
vel da qual queriam ser libertos.

depois, erguendo os olhos ao céu, suspirou [E:aTÉvahv] e


disse: Efatá!, que quer dizer: Abre-te!" (Me 7.34).

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O GEMIDO DA CR IATURA REM IDA NO PRESENTE HABITAT

A situação do homem surdo e gago trouxe tristeza a


Jesus, que gemeu (suspirou) ao trazer alívio àquele ho-
mem impondo sobre ele as suas mãos. O gemido de Jesus
foi por causa da situação indesejável daquele homem.

Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com


eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar
contas, para que façam isto com alegria e não gem endo
[aTEvá(ovTEs]; porque isto não aproveita a vós outros (Hb
13.17).

A obediência dos cristãos aos líderes deve existir por-


que a tarefa destes é muito pesada. Os cristãos devem obe-
decer aos líderes porque eles velam por sua alma. Se eles
não obedecem, a tarefa dos ministros se torna muito pesa-
da, e eles vão gemer em seu trabalho de liderança.
Portanto, os cristãos nesta época gemem porque não
podem sair agora da situação em que se encontram. É
muito indesejável a situação do cristão no tempo presente.
Os sofrimentos e desapontamentos nesta vida são co-
muns e normais na condição de maldição em que o mundo
se encontra. Nesta presente existência, não há como esca-
par dos terríveis resultados da queda.

2. A CRIATURA REMIDA GEME EM SEU ÍNTIMO NO


PRESENTE HABITAT

E não somente ela, mas também nós, que temos as


primícias do Espírito, igualmente gememos em noss o
íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do
nosso corpo (Rm 8.23) .

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O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O sofrimento do cristão neste presente habitat, em


última instância, se deve ao pecado. Se Adão não tivesse
pecado , não haveria sofrimento no mundo. Mas porque ele
caiu, o sofrimento entrou em nossa existência. Todavia, o
sofrimento não é simplesmente do corpo, como as conse-
quências do nosso envelhecimento, que nos impedem de
fazer as coisas que fazíamos antes, gerando a decrepitu-
de; nem é apenas o sofrimento com as enfermidades, com
os desastres naturais, com as guerras, com a fome, com
as perseguições. Ele atinge fortemente o nosso interior.
Temos sofrimentos mentais (como a depressão , por exem-
plo) , emocionais (como os desapontamentos) e espirituais
(como a tristeza pelos pecados) . Esses sofrimentos afetam
o corpo, mas têm sua força em nosso ser interior.
Esses gemidos não são ouvidos pelos que estão ao
nosso redor. É verdade que , algumas vezes, emitimos ge-
midos audíveis, choramos em voz alta, mas a ênfase de
Paulo é que os cristãos têm gemidos internos, que somente
o Senhor ouve. Barnes disse que a expressão gememos em
nosso íntimo significa que

Nós su spiramos por libertação. A expressão denota forte


desejo interno; a profunda angústia de espírito quando
o coração está oprimido pela angústia e sinceramente
deseja socorro Y

As agonias internas da alma, às vezes, são indizíveis.


O salmista, depois de analisar os seus próprios pecados e
a condição de miséria de sua alma, disse:

51BARNES, Albert, em seu comentário sobre Romanos 8.23,


disponível em: <http://www.studylight.org/com/bnn/view.
cgi?book=ro&chapter=8&verse=l, acessado em: 20/05/2013 .

108
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

Na tua presença, Senhor, estão os meus desejos todos,


e a minha ansiedade não te é oculta. Bate-me excitado o
coração, faltam-me as forças, e a luz dos meus olhos, essa
mesmajá não está comigo (8138.9,10) .

Enquanto estamos habitando nesta tenda, que é o


nosso corpo sob corrupção, havemos de gemer intimamen-
te esperando que o que é mortal se revista de imortalidade
e seja absorvido pela vida (2Co 5.4). No entanto, só Deus
conhece a profundeza de nossos gemidos interiores. As
coisas que são feitas na interioridade são percebidas so-
mente pelo Senhor, que conhece as dores mais profundas
de nossa alma. Os seres humanos geralmente percebem
as dores do corpo, mas somente Deus penetra as nossas
dores mais internas. Por isso, gememos perante o Senhor,
não necessariamente perante os homens.
Os cristãos sofrem, e esse sofrimento geralmente não
é percebido pelos ímpios porque se passa em lugar bem
escondido. O motivo dos gemidos só é compreendido por
aqueles que têm os mesmos gemidos. Eles nos fazem sofrer
porque vivemos aprisionados a este mundo, sem poderes-
capar. Por causa da ãnsia em que vivemos para ser libertos
deste lugar e deste tempo de sofrimento é que gememos.
Primordialmente, os nossos gemidos não têm nada
a ver com doenças, desastres naturais, guerras ou fome,
nem mesmo com perseguições. É verdade que essas coisas
doem, mas nosso gemido interior é por querermos ficar
livres do sofrimento que o estado de maldição deste pre-
sente habitat nos impõe.
Deus está executando dentro de nós o processo da
santificação da nossa alma. Não gememos porque Deus
nos está santificando, mas porque sofremos as angústias
da prisão (não do corpo) em que nos encontramos en-
quanto vivemos neste presente habitat. Temos infelicidade

109
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

porque não vivemos ainda a plena libertação da alma e por


todas as desordens (quer físicas quer espirituais) a que
estamos sujeitos neste presente habitat. Por isso gememos
em nosso interior!

3. A CRIATURA REMIDA GEME POR VÁRIAS


RAZÕES NO PRESENTE HABITAT

E não somente ela, mas também nós, que temos as


primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso
íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do
nosso corpo (Rm 8.23).

Não existe uma razão única que faz os cristãos ge-


merem neste mundo. Há várias. Nesta parte do capítulo,
vamos analisar rapidamente algumas dessas razões:

1. OS REMIDOS GEMEM POR CAUSA DAS PRIMÍCIAS


DO ESPÍRITO
As primícias do Espírito são apenas o início da longa
caminhada cristã neste presente habitat. As primícias do
Espírito são apenas o princípio da alegria que nos espera
no futuro. Neste presente habitat, temos uma santifica-
ção parcial e, como consequência, uma alegria limitada.
Por essa razão , podemos dizer que, se não temos a alegria
completa, uma boa parte de nossa existência aqui é cheia
de dores que nos fazem gemer.

A razão pela qual os cristãos gemem é que eles não são


ainda plenamente conformados à imagem de Cristo.

110
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

Enquanto eles estão no corpo, este será o caso. Quando


deixarem o corpo e forem para o céu, eles serão, no que
concerne à alma, tornados perfeitos em santidade; não
obstante, eles ainda estão carentes da perfeição total
porque seus corpos não estão ainda glorificados. 52

Na verdade, em última instância, os gemidos de sofri-


mento dos cristãos acontecem justamente por causa dos
pecados e do aparecimento das primícias do Espírito. Não
haveria nenhum sofrimento para o homem não fora a obra
do Espírito Santo nele. Quando os ímpios gemem, é por
causa simplesmente do pecado, mas este não é o caso dos
remidos.

Mas nós devemos distinguir a emoção aqui descrita [... ].


É o gemido daqueles que têm as "primícias do Espírito" -
consequentemente, é a emoção de uma alma vivificada.
Em um caso, o gemido é o palpitar e o espasmo da morte;
no outro caso, é a evidência do sopro da vida. 53

Mais que isso: nesse sentido, sem a ação das primí-


cias do Espírito, nenhum ser humano é capaz de gemer.
Por quê? Porque as primícias do Espírito nos fazem ver
como realmente somos por dentro e nos ajudam a perce-
ber o pecado que estâ fora e dentro de nós.

52
Citação de Malcolm Maclean, disponível em : <http://greyfriarssermons.
blogspot.com/2010/02/expectant-groanings-of-sons-of-god-rom .html>,
acessado em: 01/05/2012.
53
lbid.

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O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

1) GEMEMOS PORQUE AS PRIMÍCIAS DO EsPÍRITO NOS FAZEM


VER O PECADO DENTRO DE NÓS

Há um princípio pecaminoso dentro de nós que é na-


tural no sentido de que nascemos com ele. Essa inclina-
ção pecaminosa não é parte essencial da natureza huma-
na, mas está conosco desde que fomos concebidos. Ela
não morre mesmo quando somos regenerados e nascidos
de novo. Permanece teimosamente dentro de nós , e geme-
mos interiormente enquanto a nossa redenção não termi-
na. Esse é o pecado que habita em nós. Ele nos faz gemer
justamente pelo fato de termos as primícias do Espírito .
Se não as tivéssemos, não sentiríamos dor pelo pecado
que habita em nós. Os gemidos são a consequência de
um bendito incômodo naqueles que têm as primícias do
Espírito.
Essa descoberta sobre nós próprios e sobre o que
nos rodeia, à luz das primícias do Espírito, causa dor
nos cristãos. Aqueles que não têm o Espírito Santo não
conseguem perceber o seu pecado. No entanto, os que
têm o Espírito Santo sofrem essas dores que os fazem
gemer. Bendito o seu gemido, porque é o sinal de que eles
pertencem ao Senhor!

2) GEMEMOS PORQUE AS PRIMÍCIAS DO ESPÍRITO NOS FAZEM


VER O PECADO FORA DE NÓS

Os que não têm as primícias do Espírito também não


percebem a impiedade que está ao seu redor. Eles não sentem
as dores advindas da ação santa do Espírito. São insensíveis,
espiritualmente falando , porque não recebem a ação sensi-
bilizadora do Espírito Santo. Eles veem os pecados que estão
ao seu redor, mas tal procedimento se torna "a norma" para
eles. Não têm a cosmovisão cristã, que os leva a enxergar
corretamente o que se passa à sua volta.
Os cristãos, todavia, gemem quando veem a pecami-
nosidade que campeia ao seu redor. Eles sofrem por verem

112
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

as leis de Deus sendo infringidas e também porque não


podem fazer muita coisa para sanar a pecaminosidade que
se espalha à sua volta.
Somos afligidos pelos pecados que cometemos e pelos
pecados que outros cometem. Se o pecado não o incomoda,
você certamente tem um grande problema espiritual! Se o
pecado não o afeta, alguma coisa está errada dentro do seu
coração!

3) GEMEMOS PORQUE AS PRIMÍCIAS DO ESPÍRITO NOS FAZEM


VER A CORRUPÇÃO DENTRO E FORA DE NÓS

O gemido dos remidos se deve à presente corrupção e


futilidade que vêm de dentro e de fora deles. O pecado, ha-
bitando neles e no mundo caído, os faz gemer. O contraste
entre o que presentemente são e o que serão um dia como
filhos adotados intensifica o seu gemido. Num tempo futu-
ro, eles serão completamente redimidos. O que hoje está
sujeito ao pecado, um dia não mais estará (1Co 15.35-38;
2Co 5.1-4; Rm 7.18 ,24; 8.13; Sl 38.4,5,9, 10). A libertação
se dará somente quando sua adoção for completada no dia
da ressurreição.
Todos os genuínos cristãos anelam ser despidos des-
t a habitação pecaminosa, dos pecados que são aninhados
em nossa humanidade. Nossa inclinação pecaminosa nos
torna aflitos e sofredores. Por isso, queremos ser libertos;
en quanto isso não acontece, nós , os filhos de Deus, ge-
m emos em nosso íntimo aspirando a ser libertos de nossa
pecaminosidade!
O pecado, habitando em nós e no mundo caído, nos
faz gemer. Somos afligidos pelos pecados que cometemos e
que outros cometem, pelos pecados que estão dentro de nós
e pelos que estão fora de nós. Quando olhamos o pecado
dentro de nós , percebemos que morremos dia a dia, porque
o nosso corpo se corrompe, e isso também nos faz gemer.

113
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Nosso sofrimento é intensificado pelo simples fato de


sermos cristãos. Mais do que os ímpios, sofremos porque
temos consciência de que o pecado é contra Deus, por-
que ele habita em nós. A presença do Espírito Santo no
cristão é a fonte não somente de gemido, mas também de
conforto. Gememos porque o Espírito de Deus nos sensi-
biliza diante do pecado que está em nós e ao nosso redor.
Se vocé é cristão, tem desejos de ser livre da corrup-
ção que ainda é parte de vocé. Assim como a criação fí-
sica geme por ser liberta do cativeiro da corrupção (Rm
8.21,22), assim os seres humanos em quem Deus está
operando a redenção têm ánsias de serem libertos comple-
tamente da corrupção que ainda os faz gemer.
Gememos porque o pecado habita em nós. Em Romanos
7, Paulo mostra o seu gemido, dizendo: "Desventurado ho-
mem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?"
(Rm 7.24). Se você não tem gemidos por causa da corrup-
ção que há em seu coração, você tem que rever o assunto
do seu relacionamento com Deus. Em um sermão sobre
esse texto, John MacArthur sugeriu:

Escreva uma lista de fraquezas que você sabe que estão


presentes em sua vida (por exemplo: fácil irritação ,
padrões de pensamentos luxuriosos, tendência para
fofoca etc.) . Por cada item em sua lista, levante para
si mesmo esta pergunta: "Eu gemo por causa dessas
fraquezas?" Ao perguntar isso , você descobrirá como
realmente se sente a respeito dos pecados em sua
vida. Comece a cultivar um ódio genuíno pelos pecados
em sua vida e uma prontidão de tratar com eles
biblicamente.54

54MACARTHUR, John Jr., sermão, disponível em : <http://www.gty.org/


resources/sermons>, acessado em : 21/05/2013 .

114
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

2. OS REMIDOS GEMEM PORQUE O SEU CORPO VAI


SE DEGRADANDO

Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que


o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso
homem interior se renova de dia em dia (2Co 4.16).

Gememos por causa da limitação que o nosso corpo


nos impõe. O nosso físico se corrompe dia a dia.

1) Qs REMIDOS VÃO SE DEGRADANDO FISICAMENTE

Algo doloroso que o pecado faz em nossa vida é o en-


velhecimento. O pecado tem consequências físicas que
apontam para as nossas impotências.
Quanto mais vivemos, mais envelhecemos, mais fracos
ficamos em todos os aspectos de nossa existência. As limi-
tações físicas vão tomando conta do nosso ser, e gememos
extema e intimamente por causa delas. Alguns de nós esta-
mos descobrindo coisas que não mais podemos fazer e que
antes eram tão fáceis de fazer. As limitações do nosso corpo
nos causam desconforto porque são sinal de que as nossas
forças estão se esvaindo, de que não somos mais como cos-
tumávamos ser. O envelhecimento é efeito da queda.

E, por isso, neste tabernáculo, gememos, aspirando por


sermos revestidos da nossa habitação celestial; se, todavia,
formos encontrados vestidos e não nus. Pois, na verdade,
os que estamos neste tabernáculo gememos angustiados,
não por querermos ser despidos, mas revestidos, para que o
mortal seja absorvido pela vida (2Co 5 .2-4).

115
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Todo sofrimento é efeito da queda. Se não houvesse o


pecado, se Adão não tivesse caído, não haveria sofrimento.
Porque ele pecou, há muito sofrimento fisico neste mundo.
Sofremos com enfermidades e fraquezas.
Daí a nossa ãnsia de não estar maís neste corpo.
Aspiramos a ser revestidos de outro corpo, que Paulo chama
de habitação celestial, ou seja, habitação sem corrupção.

2) Os REMIDOS VÃO SE DEGRADANDO EMOCIONALMENTE

Somos atacados constantemente pelas nossas afei-


ções desgovernadas. Muitas dessas emoções têm origem
nas disfunções do nosso corpo , que envelhece. A inter-re-
lação entre corpo e alma é muito maior do que pensamos.
Os efeitos das disfunções fisicas na alma são enormes .
À medida que os anos passam, temos desgastes emocio-
nais em decorrência das disfunções fisicas. Quando os
componentes químicos do nosso corpo estão em dese-
quilíbrio, percebemos seus efeitos em nossas emoções.
Não conseguimos mais suportar barulho de crianças; não
toleramos sons fortes; quando provocados , reagimos ne-
gativamente. Somos atacados com mais frequência pelas
depressões e pela solidão. Por isso gememos neste pre-
sente habitat.

3) Os REMIDOS VÃO SE DEGRADANDO MORALMENTE

Nossa existência neste corpo nos faz gemer. É nes-


te corpo que gememos por causa do pecado. Pecamos
com os olhos (quando vemos o que não deveríamos ver),
com a língua (quando dizemos o que não deveríamos
dizer) , com as mãos (quando tocamos o que não pode-
r íamos t ocar) , com os pés (quando pisamos nos outros) ,
com os nossos ouvidos (quando ouvimos o que não deve-
ríamos ouvir) e com os demais órgãos. Todos os pecados
que cometemos contra outra pessoa envolvem, em algum

116
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

sentido, parte do nosso corpo, porque o nosso homem


exterior se corrompe.
Somos vencidos pelas tentações através de todos os
nossos sentidos. As tentações sempre nos alcançam pelos
sentidos fisicos. A concupiscência dos olhos é uma causa
comum de pecado. Enquanto estamos neste corpo, esta-
mos sujeitos aos pecados fisicos. Por essa razão, gememos
por ser livres deste corpo e ser refeitos completamente à
imagem de Cristo.

3. OS REMIDOS GEMEM POR CAUSA DO


SOFRIMENTO DOS OUTROS
Gememos quando vemos pessoas dotadas espiritual-
mente que não fazem uso dos seus dons espirituais. Elas
estão desperdiçando sua vida amando coisas além do que
deveriam amar.
Gememos quando vemos pessoas que antes canta-
vam e oravam conosco, mas que agora estão no pecado e
afastadas do gozo de Deus.
Gememos quando vemos pessoas incrédulas de nos-
sa raça que não querem nada com o evangelho de Cristo.
Paulo derramava lágrimas por elas!
Jesus tinha essa sensação em relação aos sofrimen-
tos e pecados de outros: ele chorou quando viu o sofrimen-
to e o choro de Maria por causa da morte de Lázaro. Jesus
se agitou em seu espírito e gemeu porque viu o resultado
último do pecado, que é a morte na família (Jo 11). Jesus
gemeu mesmo sabendo que haveria de ressuscitar Lázaro
dentre os mortos.
Jesus gemeu por causa da incredulidade do seu povo,
quando lamentou diante de Jerusalém (Mt 23.37).
Somos afligidos pelos pecados que cometemos e pelos
pecados que outros cometem. Se o pecado e o sofrimento

117
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

dos outros não o incomodam, você certamente tem um


grande problema espiritual! Se o pecado não o afeta, algu-
ma coisa está errada dentro do seu coração!

4. OS REMIDOS GEMEM PORQUE SÃO


ESTRANGEIROS E PEREGRINOS NESTE PRESENTE
HABITAT

Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós


outros, me odiou a mim (Jo 15.18).

Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo


Jesus serão perseguidos (2Tm 3 . 12).

O presente habitat nos é hostil. E o nosso sofrimento


é intensificado pelo simples fato de sermos cristãos. Mais
do que os ímpios, nós, cristãos, sofremos porque temos
consciência de que o pecado é contra Deus, porque Deus
habita em nós. A presença do Espírito Santo no cristão é
a fonte não somente de gemido, mas também de conforto.
No entanto, não há como escapar do sofrimento se
pertencemos a Jesus Cristo.

para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a


comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele
na sua morte (Fp 3 . 10).

1) Qs REMIDOS GEMEM PORQUE, COMO FORASTEIROS, SÃO PER-


SEGUIDOS POR CAUSA DO NOME DE CRISTO

Os remidos são forasteiros e peregrinos neste mundo


da forma como ele se encontra hoje. O mundo atual não

118
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

é como o habitat original. Agora, com o paraíso ausente,


tudo que está aqui é contra nós! Somos estranhos neste
mundo amaldiçoado, e todos os homens (que não são cris-
tãos) nos odeiam pelo fato de pertencermos a Cristo.

Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio


de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa
extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário,
alegrai-vos na medida em que sois coparticipantes dos
sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação
de sua glória, vos alegreis exultando. Se, pelo nome de
Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque
sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus . Não
sofra, porém, nenhum de vós como assassino, ou ladrão,
ou malfeitor, ou como quem se intromete em negócios de
outrem; mas, se sofrer como cristão, não se envergonhe
disso; antes, glorifique a Deus com esse nome. Porque a
ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada;
ora, se primeiro vem por nós, qual será o fim daqueles
que não obedecem ao evangelho de Deus? E, se é com
dificuldade que o justo é salvo, onde vai comparecer o
ímpio, sim, o pecador? Por isso, também os que sofrem
segundo a vontade de Deus encomendem a sua alma ao
fiel Criador, na prática do bem (1Pe 4.12-19).

No texto transcrito podemos ver muito claramente


que os cristãos sofrem pelo fato de estarem vinculados a
Jesus Cristo. Pedro encoraja esses forasteiros e sofredo-
res a não terem vergonha de sofrer pelo nome de Cristo e
a considerarem o sofrimento uma bem-aventurança. Ele
próprio sofreu e, posteriormente, foi morto por causa do

119
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

testemunho de Jesus. Ele gemeu e encorajou os outros a


gemerem, porque é uma glória para o cristão sofrer afron-
tas pelo nome de Jesus Cristo!

2) Os REMIDOS GEMEM PORQUE, COMO FORASTEIROS, SÃO PER-


SEGUIDOS POR CAUSA DA SUA ÉTICA CRISTÃ

Pois que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados por


isso, o suportais com paciência? Se, entretanto, quando
praticais o bem, sois igualmente afligidos e o suportais
com paciência, isto é grato a Deus. Porquanto para isto
mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu
em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os
seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum
se achou em sua boca (lPe 2.20-22) .

A ética cristã, que está baseada no conhecimento da


pessoa e da palavra de Cristo, diz respeito ao comporta-
mento do cristão neste mundo. Em muitos recantos do
cristianismo, há uma grande distância entre o que os cris-
tãos professam crer e a forma como eles vivem. Essa incon-
sistência causa um grande mal-estar para o cristianismo,
dando a parecer que os crentes têm uma espécie de esqui-
zofrenia espiritual. No entanto, quando existe na vida do
cristão neste presente habitat a consistência entre a teolo-
gia e a ética, o comportamento do cristão causa um grande
impacto, chegando a incomodar os ímpios. Quando estes
se sentem incomodados, começam a perseguir os cristãos
consistentes. Essa perseguição faz os cristãos gemerem,
ansiando ser libertos desse tipo de sofrimento.

120
O GEMIDO DA CRIATU RA REMI DA NO PRESENTE HABITAT

3) Os REMIDOS GEMEM PORQUE, COMO FORASTEIROS, SÃO PER-


SEGUIDOS POR CAUSA DA FÉ QUE SUSTENTAM

A fé da ortodoxia cristã incomoda muita gente den-


tro do próprio cristianismo no presente habitat. Os dias
de hoje são dias de intolerância à verdade absoluta. Tudo
está sendo relativizado, especialmente a verdade . Ela se
t omou privatizada, e todos possuem a verdade, embora
cada um a apresente de uma maneira oposta ao outro. Os
cristãos que sustentam a verdade de Deus como algo imu-
tável sofrem perseguição tanto de cristãos não ortodoxos
como de ímpios.
Este mundo é hostil a Cristo e, por consequência, aos
irmãos de Cristo Jesus que são fiéis à sua verdade.

S. OS REMIDOS GEMEM NESTE PRESENTE HABITAT


ATÉ O COMPLETAMENTO DA SUA REDENÇÃO

E, por isso, neste tabernáculo, gememos, aspirando


por sermos revestidos da nossa habitação celestial; se,
toda via, formos encontrados vestidos e não nus. Pois,
na verdade, os que estamos neste tabernáculo gememos
angustiados, não por querermos ser despidos, mas
re vestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida
(2Co 5.2-4).

Paulo usa duas vezes a expressão "gememos",


expressando o sofrimento agonizante daqueles que têm as
primícias do Espírito na expectativa de verem o seu corpo
e alma sofridos ser libertos desta habitação pecaminosa e
revestidos de uma habitação santa.
Todos os genuínos cristãos anelam ser despidos desta
habitação pecaminosa, dos pecados que são aninhados em

121
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

nossa humanidade. A nossa inclinação pecaminosa nos


torna aflitos e sofredores. Por isso, queremos ser libertos;
enquanto isso não acontece, gememos em nosso íntimo,
aspirando a ser libertos de nossa pecaminosidade!
O contraste entre o que somos presentemente e o
que seremos no futuro, como filhos adotados, intensifica
o nosso gemido até que chegue o tempo em que seremos
completamente redimidos. Perceba que os nossos gemidos
estão conectados com a obra das primícias do Espírito em
nós. Anelamos ter vitória final por causa da esperança que
o Espírito produz em nós. Paulo fez essa conexão:

E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como


por espelho, a glória do Senhor, somos transformados,
de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo
Senhor, o Espírito (2Co 3 . 18).

Imagino que os cristãos gemem contando os dias ,


um após outro , não vendo chegar a hora em que serão to-
tal e cabalmente transformados. A agonia se torna maior
quanto maior é a expectativa da redenção final , até que a
imagem de Deus seja completamente restaurada em nós .
À medida que olhamos fixamente para o dia final da
chegada do Redentor, aumenta a nossa expectativa de pas-
sar de um nível de glória para outro. Por isso o texto fala
"de glória em glória" . Há diversos graus ou níveis de glória
que nos aguardam ainda neste presente habitat; pouco a
pouco, vamos passando de um nível para outro, mas o ge-
mido continua até que os últimos retoques da restauração
à perfeição da imagem de Deus em nós aconteçam. Quando
Jesus Cristo, o noivo, chegar, então ele dará os retoques
finais na sua noiva, que é a igreja. Enquanto isso não acon-
tece, a noiva fica cheia de angústias e gemidos. Somente a
plenitude de glória porá um fim aos seus gemidos!

122
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

4. A CRIATURA REMIDA GEME NO PRESENTE


HABITAT, MAS É UM GEMIDO CHEIO DE ESPERANÇA

E não somente ela, mas também nós, que temos as


primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso
íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do
nosso corpo (Rm 8.23).

Essa esperança não vem a todos. Somente os cristãos


têm esperança em meio aos sofrimentos. Somente os que
confiam em Cristo Jesus desfrutam dela.
Há muitos que gemem de dor, de agonia neste mun-
do, mas é um gemido sem esperança. Eles não têm espe-
rança alguma de uma vida de gozo após a morte. Não têm
onde se segurar em seu gemido. Apenas esperam que o
sofrimento acabe com a morte porque, para eles, a morte
é o fim de tudo.
A agonia e o gemido dos cristãos não diferem do ge-
mido e da agonia dos incrédulos. A diferença está na es-
perança que os cristãos têm de o sofrimento terminar. A
morte não é o fim de tudo para eles , mas o começo de um
período de glória!

1. O GEMIDO DOS CRISTÃOS É CHEIO DE


ESPERANÇA PORQUE ELES JÁ TÊM AS PRIMÍCIAS
DO ESPÍRITO

E não somente ela, mas também nós, que temos as


primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso
íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do
nosso corpo (Rm 8.23).

123
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

As primícias do Espírito significam que não temos ain-


da a completa herança de filhos de Deus, emborajá tenha-
mos recebido as primeiras coisas. As primeiras obras de
Deus em nós são indicativas de que ele levará a cabo tudo
o que tem de fazer em nós para completar o que começou.
Por isso o coração dos remidos se enche de esperança!
Poderíamos dizer que as primícias do Espírito são
a entrada ou a primeira prestação de uma série de ou-
tras bênçãos que Deus nos dará, as quais culminarão no
completamento de nossa redenção para que desfrutemos
de um Universo glorificado. As primícias do Espírito em
nós, portanto, são apenas um antegosto de glórias maio-
res e plenas do mundo por vir. Essa atividade primeira do
Espírito é a garantia de que outras bênçãos virão. Daí a
esperança que invade o nosso coração!
Portanto, nesse caso, o nosso gemido não é de deses-
pero, mas de esperança, porque já recebemos o pagamento
inicial de nossa redenção, que é a ação do Espírito em nós.

2. O GEMIDO DOS CRISTÃOS É CHEIO DE ESPERANÇA


PORQUE ELES TÊM O MELHOR AINDA POR VIR

E não somente ela, mas também nós, que temos as


primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso
íntimo, aguardando a adoção de filhos , a redenção do
nosso corpo (Rrn 8.23).

As prim1c1as do Espírito Santo são o prenúncio de


que outras coisas ainda melhores virão. Para Israel, os pri-
meiros frutos da colheita eram a garantia de mais frutos
pela frente. Da mesma forma, para o cristão, a presença do
Espírito Santo nesta vida garante a vida de glória que está
por vir (E f 1. 13, 14).

124
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

Já fomos adotados por Deus em sua família (Rm 8.15-


17), mas ainda não conhecemos as implicações plenas de
nossa adoção porque elas incluem a redenção de nosso cor-
po. Já somos redimidos, mas ainda não completamente.
Nossa glória será completada na redenção do nosso corpo.

Nossa esperança não é simplesmente que podemos obter


novos corpos de forma que possamos ser aliviados do
que não gostamos a respeito de nossa presente situação;
nossa esperança é que nossos corpos redimidos nos
capacitarão a cumprir os propósitos de Deus para nós na
nova criação. A grandeza de nossa esperança, tornada
evidente a nós pelo Espírito Santo, inspira tanto a
paciência como o anseio diante do sofrimento. 55

Nosso corpo não será extinto, mas ressuscitado. Ele


terá similaridades e dissimilaridades com o que agora te-
mos . Nosso corpo será animado e adaptado para viver em
uma nova era e em um novo lugar (1Co 15.45-49).

1) 0 MELHOR AINDA POR VIR TEM A VER COM A ADOÇÃO

aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo


(Rm 8.23) .

A Escritura ensina duas fases do que ela chama de ado-


ção. Quando somos redimidos, as duas partes da nossa cons-
tituição (material e imaterial) são vistas como sendo adotadas.
55
GRANT, Scott, no artigo Groaning for glory, disponível em: <http:/f
www.pbc.org/files/messages/17782/22817_ 4960.pdf>, acessado em:
21/05/2013.

125
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Ao mesmo tempo que vemos a adoção como um ato


forense, que acontece fora de nós, por causa e pelos méri-
tos de Jesus Cristo, há um sentido no qual Deus nos põe
na sua família, e a adoção pode ser vista como algo que
acontece conosco pessoalmente.
a) Fomos adotados quando cremos

Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de


serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu
nome (Jo 1.12).

Esse é um ensino claro de Jesus. Técnica e juridica-


mente, já somos filhos de Deus em razão de nossa fé. A
filiação é um direito que adquirimos quando chegamos ao
conhecimento salvador de Jesus Cristo. Nesse sentido, já
fomos adotados. Essa é uma experiência que ficou no nos-
so passado, mas que ainda tem ecos no tempo presente,
pois Deus ainda nos trata como a filhos.
No entanto, essa adoção diz respeito especificamente
à nossa alma. Quando recebemos as primícias do Espírito,
somos capacitados a crer no nome de Jesus. Isso significa
que o processo da adoção já começou, quando Deus nos
concedeu o poder de sermos seus filhos. Essa parte da
adoção já aconteceu na vida dos cristãos. Nesse mesmo
capítulo 8 de Romanos, Paulo afirma que já "somos filhos
de Deus" por meio de uma testificação do Espírito de Deus
com o nosso espírito (Rm 8.16).
b) Seremos adotados plenamente na redenção do
corpo

.. .aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso


corpo (Rm 8.23) .

126
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

Já fomos adotados, mas ainda seremos adotados.


Praticamente todas as esferas de nossa redenção têm um
"já" e um "ainda não", ou seja, coisas redentoras que já fo-
ram feitas e coisas que ainda estão por ser feitas. Estamos
caminhando em gemidos até que sejamos completamen-
te redimidos, na manifestação plena de nossa adoção.
Enquanto a primeira fase dizia respeito à adoção de nossa
alma, esta segunda diz respeito à adoção do nosso corpo.
João disse uma verdade semelhante a respeito de
nossa filiação passada e de algo melhor que ainda haverá
de nos acontecer, a ressurreição do corpo:
ANÁLISE DE TEXTO

Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto


de sermos chamados filhos d e Deus; e, de fato, som os
filhos de Deus. Por essa razão, o mundo não nos conhece,
porquanto não o conheceu a ele mesmo. Amados, agora,
somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o
que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se
manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos
de vê-lo como ele é (lJo 3.1 ,2) .

João deixa bem claro o "já" e o "ainda não" de nos-


sa adoração. Veja a classificação sugerida pelo próprio
apóstolo:
1. Nós J Á SOMOS ADOTADOS COMO FILHOS DE DEUS

Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de


sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos
de Deus.

127
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Já somos filhos de Deus (com respeito à nossa alma)


porque ele nos chama de filhos. João é consistente com a
sua afirmação no evangelho (Jo 1.12), reforçando a reali-
dade da nossa filiação, já acontecida quando no princípio
cremos. É incontestável o fato de sermos filhos de Deus.
Em sã consciência, nenhuma pessoa que creu em Cristo
Jesus pode dizer que espera ser filha de Deus. No mo-
mento em que ela creu, deve considerar a si mesma filha
de Deus. Não há como questionar tal verdade explicitada
nesse versículo. Na verdade, é o próprio Deus quem nos
chama de "seus filhos".
2. NOSSA ADOÇÃO É PRODUTO DO AMOR DE DEUS

Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto


de sermos chamados filhos de Deus

A causa da nossa filiação está vinculada ao amor de


Deus por nós. Jamais seríamos parte da família divina
neste presente habitat não fora o amor do Pai por nós.
À parte do amor do Pai, permaneceríamos para sempre
sob o domínio de Satanás em nossa presente existência.
Somente o amor divino transfere do reino das trevas para
o reino do Filho do seu amor (Cl 1.13).
3. NOSSA ADOÇÃO É UM PROBLEMA PARA OS ÍMPIOS

Por essa razão, o mundo não nos conhece, porquanto não


o conheceu a ele mesmo.

A expressão "Por essa razão" diz respeito ao fato de


"sermos chamados filhos de Deus". Esse fato maravilho-
so incomoda muito os ímpios. O texto diz que "Por essa
razão, o mundo não nos conhece". É importante lembrar

128
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

que João, que tinha a mente de um hebreu, está usando


um recurso de linguagem chamado hebraismo, ou seja,
ele está usando a palavra "conhecer" com o seu sentido
hebraico, que é "amar". O mundo não nos ama pelo fato
de sermos filhos de Deus. O verbo "conhecer", aqui, não
pode ser entendido com o sentido ocidentalizado de "saber
alguma coisa a respeito de", mas com o sentido de envolvi-
mento de amor. É justamente porque o mundo sabe tudo
a nosso respeito - em que nós cremos, em quem nós cre-
mos, por que nós cremos- que ele não nos conhece, ou
seja, ele não nos ama e, como consequência, nos persegue.
Portanto, a nossa adoção é a causa do desamor do mundo
por nós neste presente habitat.
4. NOSSA ADOÇÃO AINDA ESTÁ POR ACONTECER

... e ainda não se manifestou o que haveremos de ser.

Enquanto estamos neste corpo, vivemos no aguar-


do de que melhores coisas aconteçam em nós. Esse tem-
po de doce expectativa também nos causa inquietação.
Enquanto as coisas melhores não acontecem, esse é o
tempo do gemido da criatura em quem Deus já começou
a redenção. Cada dia que passa, aumenta a expectativa
doce e aumenta o gemido porque, quanto mais Deus ope-
ra em nós, mais vemos quanto ainda falta para ele com-
pletar em nós.
Ainda que já sejamos filhos pela fé em Cristo, 1?.-á algo
muito importante a ser feito em nós. Ainda que este seja
um tempo de gemidos, à medida que esses dias de gemido
passam, diz Paulo: E digo isto a vós outros que conheceis
o tempo: já é hora de vos despertardes do sono; porque a
nossa salvação está, agora, mais perto do que quando no
princípio cremos (Rm 13.11). Esta é uma alusão de Paulo
à expectativa da nossa redenção plena.

129
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

5. NOSSA ADOÇÃO NOS FARÁ SEMELHANTES A CRISTO

Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos


semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é.

A expressão sem itálicos é uma referência ao comple-


tamento de nossa restauração, a salvação do nosso corpo.
Sabedores de que já somos filhos de Deus, ainda esperamos
a redenção do corpo, que é o que nos toma semelhantes a
Cristo Jesus. Somente então a nossa adoção será completa.
Como dissemos anteriormente, há uma fase da adoção
que ainda está por acontecer. Técnica e legalmente, já somos
filhos de Deus, todavia não entramos na posse da plena ma-
nifestação da nossa filiação. Embora já creiamos em Cristo,
o mundo não nos vê como filhos de Deus, porque temos as
mesmas deficiências fisicas que os ímpios têm, sofremos das
mesmas doenças que eles sofrem, padecemos das mesmas
dores que eles padecem. Em nossa parte aparente, que é o
corpo, não diferimos deles. Ainda que sejamos amados de
Deus, a nossa natureza fisica é a última coisa em que Deus
vai mexer. Em tudo, fisicamente, somos o que eles são, por-
que ainda não se manifestou o que haveremos de ser.
João toma o corpo de Cristo como modelo da nossa
adoção final, porque fala que seremos semelhantes a ele.
Seremos semelhantes a ele no que respeita à sua huma-
nidade, nunca no que se refere à sua divindade. Teremos
alma e corpo semelhantes a Cristo. Paulo ombreia com
João na afirmação dessa verdade:

Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também


aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual
transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual

130
O GEMIDO DA CRIATU RA REMIDA NO PR ESENTE HABITAT

ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele


tem de até subordinara si todas as coisas (Fp 3.20,21) .

Seremos inusitadamente "semelhantes a Cristo" na


sua glória! Além de virmos a ser como ele é , João disse que
teremos o prazer de "vê-lo como ele é" . Vamos ser confron-
tados face a face com aquele que é o molde pelo qual Deus
nos faz completamente adotados .

2) 0 MELHOR AINDA POR VIR TEM A VER COM A REDENÇÃO DO


CORPO

E não somente ela, mas também nós, que temos as


primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso
íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do
nosso corpo (Rm 8.23).

A expressão "redenção do corpo" é explicativa da ex-


pressão "adoção de filhos" . Ser adotado , aqui no texto de
Paulo, significa o mesmo que ter o corpo redimido. Paulo
descreve a glória do corpo redimido (que é o corpo ressus-
citado ou transformado) como sendo a nossa adoção futu-
ra com respeito à nossa natureza material.
Não podemos nos esquecer de que a redenção huma-
na tem a ver com a totalidade do homem, sua alma e seu
corpo. Diferentemente do que estamos afirmando , muitos
cristãos no p r esente não enfatizam o corpo como objeto
da redenção divina, talvez por causa da influência do pen-
sarnento grego na teologia cristã. A concentração do seu
ensino é na salvação da alma, nada mais. O corpo parece
ser um a cessório que o homem usa por algum tempo aqui,
mas que não ocupa parte essencial da nossa humanidade.

131
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

No entanto, a Escritura diz que o corpo humano também é


parte da obra redentora de Jesus Cristo.
Haverá uma mudança espantosa em nossa natureza
material!
a) A redenção do corpo tem a ver diretamente com
dois eventos distintos
O dia de Cristo Jesus, que é o dia do completamento
da nossa redenção, diz respeito a dois eventos distintos: 1)
O primeiro evento é a redenção do corpo dos que já tiverem
morrido àquela altura, neste presente habitat; eles mor-
reram neste mundo esperando ser remidos em sua esfera
material, pois ao morrer já tiveram a sua alma santificada.
2) O segundo evento é o completamento da redenção da
alma e do corpo daqueles que estiverem vivos no dia da
sua vinda. Aqueles que vivem ainda neste mundo já tém
as primícias do Espírito, já foram adotados como filhos de
Deus (com respeito à sua alma), mas ainda esperam ser
adotados (com respeito ao corpo).
As primícias do Espírito, em ambos os eventos, são
uma espécie de garantia de que todas as coisas subse-
quentes haverão de acontecer. Elas são o penhor de uma
glória futura. A última coisa que as primícias do Espírito
garantem é a redenção do corpo, que é o término do resga-
te da propriedade (E f 1. 14).
Nós já somos novas criaturas, mas ainda não se ma-
nifestou tudo o que haveremos de ser. Enquanto o queres-
ta para ser feito nos cristãos não se manifesta, eles ainda
gemem neste presente habitat.
Ainda que a redenção já tenha começado em nós, ela
precisa ser completada, porque ainda estamos presos a
este corpo de corrupção que nos faz sofrer. O nosso corpo
é a expressão mais palpável da corrupção que ainda existe
em nós . Tudo nele tende a se deteriorar até que, um dia,
morramos pela múltipla falência dos nossos órgãos.

132
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

A redenção do corpo se dará no dia da vinda de


Cristo, ao ressoar da última trombeta, para os que estive-
rem vivos e para os que estiverem mortos. Para os vivos,
será a chamada "transformação" e , para os mortos, será a
"ressurreição".
b) A redenção do corpo aparece em dois eventos
separados temporalmente
Embora os dois eventos aconteçam no mesmo dia, o
dia de Cristo, eles não sucederão simultaneamente. Paulo
fala que a ressurreição dos mortos se dará primeiro. Depois,
então, os que estiverem vivos serão transformados.

Ora, ainda vos declaramos, por palavra do Senhor, isto:


nós, os vivos, os que ficarmos até à vinda do Senhor, de
modo algum precederemos os que dormem. Porquanto
o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida
a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus,
descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão
primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos
arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o
encontro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para
sempre com o Senhor (1Ts 4 . 15-1 7) .

A glória primeira será daqueles que estiveram em


Cristo primeiro e que morreram neste presente habitat
antes de sua vinda. A honra primeira vem aos que tomba-
ram antes. Esses terão precedência na redenção do seu
corpo. Paulo afirma categoricamente que de m odo a lgum
precederemos os que dormem (v.lSb). Por essa razão, ele
completa, é que os mortos em Cristo ressuscitarão pri-
meiro (v.16b). A ordem do texto mostra que Paulo tinha
esperança na volta de Cristo ainda na sua geração. Por

133
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

isso, ele diz que depois, nós, os vivos, os que ficarmos


(v.17a), seremos transformados e arrebatados. Portanto ,
depois da ressurreição dos que estiverem mortos é que os
vivos serão transformados . Os que forem preservados na
última geração serão transformados e seguirão os ressus-
citados. Somente quando se der a mudança do corpo de
ambos os grupos é que , juntos, serão arrebatados para
estarem para sempre com o Senhor!
c) A natureza do corpo depois da redenção
(A) S ERÁ O MESMO CORPO DOS QUE MORRERAM

Algumas pessoas pensam que o corpo, depois dares -


surreição, terá uma natureza etérea ou uma conformação
holográfica, deixando esvaziada a ideia de matéria, como
se esta tivesse uma natureza mais baixa, como é próprio
das teologias sob a influência do pensamento grego.
Todavia, temos que eliminar da teologia cristã essa
ideia da filosofia grega. A matéria é criação de Deus. É
verdade que ela foi amaldiçoada, mas também a esfera
imaterial recebeu a maldição divina. Portanto, temos que
crer que é importantíssima a ideia de corpo para o ho-
mem . O corpo é parte essencial dele. Não podemos consi-
derar o corpo (a matéria) como uma parte inferior.
Todas as partes do nosso corpo serão trazidas de
volta na ressurreição. A ressurreição será daquele que
morreu. O corpo será daquele que morreu. Na ressur-
reição haverá a junção da alma e do corpo daquele que
morreu . Teremos os mesmos olhos , os mesmos ouvidos,
as mesmas pernas etc. No entanto, todos os nossos ór-
gãos serão livres de toda imperfeição que agora eles têm.
A ressurreição é a vivificação do homem com relação a si
mesmo .
Se não for o mesmo corpo , então não será ressurrei-
ção! É importante que enfatizemos que o que morreu é
que ressuscitará.

134
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

(B) SERÁ UM CORPO INCORRUPTÍVEL

Paulo descreve, de forma extraordinária, a incor-


ruptibilidade do corpo humano na ressurreição. Ele será
um corpo glorioso adaptado à alma gloriosa que vem
do céu com Jesus Cristo. Corpo e alma serão unidos
incorruptíveis.
Tratando especificamente da ressurreição em lCorin-
tios 15, Paulo fala da incorruptibilidade do corpo ressurreto
em contraste com a corruptibilidade do corpo antes da res-
surreição. Veja o contraste que ele faz:

lCORÍNTIOS 15.42-49
Quando morre Quando ressuscita

(v. 42) Corpo de corrupção Corpo de incorrupção

(v. 42) Corpo de desonra Corpo de glória

(v. 43) Corpo de fraqueza Corpo de poder

(v. 44) Corpo natural Corpo espiritual

(v. 45) Corpo de alma vivente Corpo de espírito vivificante

(v. 4 7) Corpo de homem Corpo de homem celestial


terreno

(v. 48) Corpos de homens Corpos de homens celestiais


terrenos

(v. 49) Imagem de homem Imagem de homem celestial


terreno

135
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

É importante verificar que todas as classificações da


natureza fisica mencionadas estão subordinadas à noção
de corrupção e incorrupção.
O nosso corpo, enquanto neste presente habitat, é
corrupto, cheio de desonra e fraqueza porque é corpo na-
tural, vindo de Adão, a alma vivente, o homem terreno,
que gera homens terrenos. No entanto, quando houver
a ressurreição, o nosso corpo será incorrupto, cheio de
glória e poder porque será corpo espiritual, à semelhan-
ça do segundo Adão, o espírito vivificante, o homem ce-
lestial, que produz homens celestiais. Perceba ainda que
as expressões "terreno", "natural", "fraqueza" e "desonra"
estão para corrupção assim como "celestial", "espiritual",
"poder" e "glória" estão para incorrupção.
O corpo dos remidos terá propriedade fisica porque
será de carne e ossos, como o corpo de Jesus Cristo (cf.
Lc 24.39), mas será corpo celestial, espiritual, cheio de
poder e glória, ou seja, será incorrupto (1Co 15.42-49).
O dia de Cristo Jesus é o dia do completamente da
nossa redenção, que diz respeito unicamente ao corpo
no caso dos que já morreram. Os cristãos morrem neste
mundo esperando, um dia, ser remidos em sua materia-
lidade, pois, quando morrem aqui, sua alma é completa-
mente santificada. Deus já iniciou maravilhosamente o
processo de salvação de nossa alma, mas a salvação do
corpo não é um processo, e sim um ato. Deus demora
anos para limpar a nossa alma, mas ele limpa o nosso
corpo num abrir e fechar de olhos na transformação dos
vivos ou na ressurreição dos mortos. Este ponto sobre a
redenção do corpo é um elemento importante, que nos faz
entender de maneira muito clara a escatologia de Paulo.
Ele revela a novidade sobre a transformação da alma e
do corpo daqueles que estiverem vivos na vinda de Cristo
(1Co 15) e enfatizao ensino já conhecido sobre a ressur-
reição. A restauração é, ao mesmo tempo, um "já" e um
"ainda não". Deus já fez, mas ainda não fez tudo. Paulo

136
O GEMIDO DA CRIATU RA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

deixa muito claro que esse é o modus operandi de Deus


na nossa redenção!
Em Romanos 8.23, Paulo está descrevendo a nossa
redenção física, que ele chama de adoção, quando ha-
veremos de ser transformados em nosso corpo (se esti-
vermos vivos quando o Senhor voltar) ou ressuscitados
(se estivermos mortos quando o Senhor voltar). Então, o
completamente da nossa redenção será uma indescritível
realidade!
A nossa alma já pertence a Deus, e ele está efetu-
ando nela a redenção. Ele já nos regenerou, ele plantou
o seu Espírito em nós, ele está nos santificando, mas ele
ainda nos deixa na expectativa da redenção do nosso
corpo. No entanto, podemos ter toda a convicção de que
aquele que começou boa obra em [nós} há de completá-la
até ao Dia de Cristo Jesus (Fp 1.6). Você, que geme em
seu corpo que se deteriora, tenha os olhos levantados
para o céu, porque no dia de Cristo você será completa-
mente remido, não somente em sua alma, mas também
em seu corpo!

3) A REDENÇÃO DO CORPO É UM ATO, NÃO UM PROCESSO

Deus já iniciou maravilhosamente a salvação em nós


no nosso passado pessoal. A salvação de nossa alma é
um processo que começa tão logo a regeneração 56 acon-
tece. Após nos dar vida, Deus desencadeia em nós o pro-
cesso de salvação de nossa alma, santificando-a dia após
dia. Por motivos que desconhecemos, Deus não opera a
salvação de uma só vez.

56
A regeneração é o ato direto e instantâneo pelo qual Deus implanta a vida
no homem que está morto em seus delitos e pecados. A regeneração é a
primeira obra que Deus faz no pecador a fim de iniciar o processo de limpeza
de sua alma, que chamamos de santificação ou salvação em processo.

137
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

4) 0 TEMPO DA REDENÇÃO DA NOSSA ALMA E DO NOSSO CORPO

1. A redenção de nossa alma começa e termina


neste presente habitat
A) A REDENÇÃO DA ALMA DOS QUE MORREM NESTE PRESENTE HA-
BITAT COMEÇA E TERMINA AQUI

A redenção da alma daqueles que Deus propôs salvar


começa efetivamente com as "primícias do Espírito" (nas
bênçãos mencionadas anteriormente) e termina neste pre-
sente habitat, porque no céu não pode entrar nenhum ser
humano com corrupção. Paulo fala que a carne e o sangue
não podem herdar o reino de Deus (1Co 15.50).
A expressão "carne e sangue" é uma referência à
corrupção ainda existente naqueles em quem as primí-
cias do Espírito já aconteceram. Eles precisam ser limpos
completamente de seus pecados. Então, no momento da
sua morte, antes que eles adentrem os portais eternos (e
essa entrada é imediata após a morte), Deus opera a san-
tificação plena da sua alma. Enquanto eles vivem neste
presente habitat, mesmo em meio aos gemidos pelas vá-
rias razões já mencionadas, por sua bondade graciosa,
Deus lhes dá uma espécie de antegosto da glória!
B) A REDENÇÃO DA ALMA DOS QUE ESTIVEREM VIVOS NA VOLTA DO
SENHOR COMEÇA E TERMINA AQUI

O processo da redenção da alma é o mesmo para


aqueles que estiverem vivos na vinda do Senhor. A re-
denção da alma inicia e termina neste presente habitat.
Quando o Senhor voltar, ele vai, "num abrir e fechar de
olhos", transformar aqueles que estiverem vivos (1 Co
15.52). Essa transformação não é somente do corpo, mas
também do que resta a ser feito na natureza imaterial, ou
seja, na alma. A última geração de cristãos terá a trans-
formação completa de sua alma antes da restauração do
presente habitat.

138
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

2. A redenção de nosso corpo é feita completa-


mente aqui, neste presente habitat
Este é um ponto extremamente curioso, do qual a
maioria dos teólogos não se dá conta, porque não vemos
nada dessa matéria em seus escritos. A redenção do cor-
po, que é a ressurreição dentre os mortos, acontece neste
presente habitat. A Escritura diz que o Senhor Jesus vai
trazer as almas daqueles que estão consigo no céu para
que elas se encontrem com os corpos que estão sepulta-
dos nos túmulos aqui neste presente habitat. Da mesma
forma, podemos dizer que o equivalente acontecerá nos
corpos daqueles que estiverem vivos na vinda do Senhor.
A redenção da totalidade do ser humano, produzida
pelo Deus trino, começa e termina aqui, antes de Deus
produzir novos céus e nova terra.

CONCLUSÃO

Há música nesses gemidos do cristão! Às vezes, a mú-


sica parece ser tocada em tom menor porque transparece
uma tonalidade de tristeza. Essa tristeza tem a ver com a
atual situação de nossos pecados. Esses são gemidos desa-
gradáveis porque apontam para as nossas ingratidões. As
primícias do Espírito em nós nos mostram quão pecamino-
sos ainda somos e nos provocam dor em relação a Deus.
No entanto, outras vezes a música parece ser tocada
em tom maior, ou seja, em tons mais alegres. Esses gemi-
dos são mais alegres porque são cheios de esperança na
futura restauração nossa e da natureza onde haveremos
de viver. As mesmas primícias do Espírito nos fazem ver
que a nossa redenção vai continuar e terminar em triun-
fante música! Chegará o dia em que toda a criação e todas
as criaturas remidas entoarão louvores ao Deus trino pela
completa redenção daquilo que foi amaldiçoado!
Malcolm Maclean disse que "o caminho da tristeza é
o caminho para a glória, e o 'pão e a água da aflição' são a

139
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

comida de todos os 'prisioneiros da esperança'." 57 Seja qual


for o tempo dos gemidos, de dor pelos pecados ou de espe-
rança de redenção, ambos são causados em nós pelas "pri-
mícias do Espírito". Deus toca os dois tipos de música em
nosso interior: a música em tom menor e a música em tom
maior. Uma produz em nós tristeza, e a outra, esperança!

3. O GEMIDO DOS CRISTÃOS É CHEIO DE


ESPERANÇA PORQUE A ESPERANÇA É A MOTIVAÇÃO
DA SUA SALVAÇÃO

Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança


que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como
o espera? Mas, se esperamos o que não vemos, com
paciência o aguardamos (Rm 8.24,25).
Não podemos separar a salvação da esperança. Esta
é um elemento fundamental de nossa salvação. Todos os
cristãos que aqui vivem esperam a sua redenção se com-
pletar. Seria um sofrimento muito grande não ter esperan-
ça neste presente habitat amaldiçoado. Viver sem esperan-
ça é viver em constante gemido de dor, porque a esperança
é que nos alivia enquanto vivemos na expectativa do com-
pletamento da nossa redenção.
1) A ESPERANÇA É A MOLA PROPULSORA DA SALVAÇÃO

Porque, na esperança, fomos salvos (Rm 8.24a).

57MACLEAN, Malcolm, em seu sermão The expectant graanings of the sons


of God (Rom. 8:23-25}, disponível em: <http://greyfriarssermons.blogspot.
com .br/2010/02/expectant-groanings-of-sons-of-god-rom.html>, acessado
em: 01/05/2012.

140
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

A esperança da fé cristã, segundo o autor de Hebreus,


é a âncora da alma (Hb 6.18, 19). Quem não tem esperança
neste mundo está sem qualquer firmeza. A ãncora serve
para firmar o barco no meio do mar tempestuoso. E se
você não tem ãncora, vive ao sabor das ondas, sem ter
onde segurar. Mas o cristão tem segurança na esperança,
porque Jesus Cristo é a esperança da glória (Cl 1.27)! A
esperança não está baseada em mera suposição de salva-
ção, mas numa pessoa fiel no que promete e poderosa para
cumprir o que promete.
Não dá para viver sem a esperança em Cristo neste
mundo! A nossa vida está calcada na esperança. Sem ela,
a vida vira um beco sem saída. Estar sem Cristo é estar
sem esperança, sem saída!
Um dos grandes componentes da nossa salvação é a
esperança do que Deus vaí fazer em nós no futuro. Essa
esperança não pode abandonar você. Se nós, ministros da
Palavra de Deus, não pregamos essas coisas à igreja, va-
mos deixando a igreja sem esperança, e igreja sem espe-
rança é igreja tendente a fenecer!
A esperança é inseparável do processo salvador de
Deus, porque a salvação é certa. Todos os que estão em
Cristo se acham seguros, porque Cristo não perde nenhum
daqueles que o Pai lhe entrega. Portanto, a esperança que
você pode ter é firme e segura. Não somente estamos sen-
do salvos em nossa alma, mas a nossa esperança se esten-
de a uma salvação futura do nosso corpo.
Há muitos cristãos que não têm segurança alguma
porque a salvação que eles dizem possuir não está conec-
tada à esperança. Eles têm um conceito inadequado de
salvação. O evangelho do tempo presente tem sido bara-
teado, o padrão de salvação tem sido rebaixado, e muitos
chamados professas não têm esperança alguma de salva-
ção. É lamentável uma religião sem esperança!

141
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Por essa razão, os fiéis ministros da Palavra deveriam


pregar uma salvação que tem a esperança como uma mola
propulsora. Os crentes têm que estar cheios de esperança
para poderem desfrutar da salvação neste mundo. Uma reli-
gião sem a doce esperança não aponta para salvação alguma!
Se você diz ter a experiência da salvação, deve eviden-
ciá-la na sua forte esperança naquele que é a esperança
da glória, porque você é salvo nessa esperança!

2) A ESPERANÇA É UMA REALIDADE QUE NÃO PODE SER VISTA

Ora, esperança que se vê não ê esperança; pois o que


alguêm vê, como o espera? (Rm 8.24b).

Paulo nos ensina nesse versículo que a esperança não


pode estar baseada em coisas que vemos. Se as vemos, não
existe esperança. Se você consegue ver, então não tem pelo
que esperar. Se pode contemplar aquilo que espera, então
você está enganado com respeito ao que esperança significa.
Ter esperança significa sempre vislumbrar na mente
o que não se pode ver. Abraão não tinha nenhuma ideia
do que o esperava, mas ele creu. Bem-aventurado é aquele
que espera sem poder ver o que espera.
Embora a esperança não permita que você veja as
coisas pelas quais espera, ela é ainda uma realidade.
Suponha que você tem um objeto na mão; você não pode
dizer: "Eu tenho esperança de ver isto". Se você consegue
ver o objeto, não pode esperar por ele.
Por exemplo: você não pode ver como o seu corpo será
na glória terreal. Então, por esse corpo glorificado você
pode esperar. É disso que Paulo fala em Romanos 8.23.

142
O GEMI DO DA CRIATURA REMI DA NO PRESENTE HABITAT

1) A esperança mantém você firme até que o pro-


metido por ela se cumpra
Quando você espera por algo que ainda não ocorreu,
persevera até que o esperado surja. Até que o almeja-
do apareça, você espera ansiosamente . A esperança faz
perseverar!
O elemento invisível da esperança não significa um
mero desejo de que algo aconteça; não é alguma coisa que
você simplesmente anela. É algo em que você confia. Deus
já deu prova de que cumpre o que diz. Então, quando você
ouve sobre o futuro , deve ter esperança no que Deus diz,
porque ele já mostrou no passado que é fiel à sua palavra.
Portanto, você pode ter uma esperança segura nele, ainda
que não consiga ver o que o espera do outro lado.
Mesmo não vendo o que vai acontecer no futuro, nós
não somos pessimistas , porque vivemos cheios de espe-
rança na redenção do nosso corpo.
2) A esperança da salvação está preservada nos
céus, mas você não a vê

por causa da esperança que vos está preservada nos


céus, da qual antes ouvistes pela palavra da verdade do
evangelho (Cl 1.5) .
O esperado , que eu não posso ver, já está entesou-
rado no céu! Está prometido , na verdade do evangelho.
Ainda que não possamos vê-lo agora, temos uma espe-
rança cheia de confiança de que aquele que começou boa
obra em nós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus
(Fp 1.6). Temos que esperar totalmente na graça de Deus
(lPe 1.13). Temos que viver na constante expectativa do
que irá nos acontecer na vinda de Cristo em glória!
Quando eu me vejo envelhecendo, minhas forças
diminuem, meus órgãos físicos começam a falhar, e a

143
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

minha mente não é mais a mesma. Tudo tende a fene-


cer em mim. Então, se não tenho esperança, sou capaz
de caminhar para o buraco do pessimismo. Mas eu não
posso ir por esse caminho. Então, pela graça divina, eu
anelo, cheio de esperança, o dia em que o Senhor vai
redimir o meu corpo. Essa esperança acende o meu co-
ração e não me deixa desanimar. Nunca entra em de-
pressão aquele que tem a esperança da salvação! A es-
perança numa salvação futura nos faz permanecer de
pé, firmes, até que o Senhor venha ou nos leve para si.
Os crentes de Tessalônica eram operosos em sua
fé, abnegados em seu amor, mas tinham alguma coisa
a mais que os movia neste mundo cheio de desaponta-
mentos: a firmeza da esperança (1 Ts 1.3). A grande ver-
dade desse versículo de 1Tessalonicenses é que nunca
podemos ter operosidade na fé ou abnegação no amor se
não estivermos firmados numa esperança de salvação
no futuro. A fé e o amor ficam sem sentido se você não
é movido por sua esperança em realizações de Deus em
sua vida no futuro! Por essa razão, o cristão não pode
ser nunca um pessimista nem um fatalista. Ele está
cheio de esperança e espera o tempo da concretização
das promessas salvadoras de Deus.

3) A ESPERANÇA É ALIMENTADA PELA PACIÊNCIA

Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o


aguardamos (Rm 8.25}.

Não podemos dissociar a esperança da paciência. A


esperança corre o perigo de logo se desfazer se não é ali-
mentada pela paciência. Por essa razão, a paciência tem

144
O GEMI DO DA CRIATURA REMI DA NO PRESENTE HABITAT

que permear a esperança, a fim de evitar alguns dissabo-


res para a nossa própria vida.
1) A paciência é um antídoto para a ansiedade
Paulo menciona que um elemento fundamental para
desfrutarmos a glória futura é a virtude da paciência.

aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória


do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus (Tt 2.13).

É até difícil imaginar aguardar a bendita esperança e


a manifestação da glória de Cristo sem paciência. A falta
de paciência torna muito sofrida a nossa vida cristã neste
presente habitat. Sem a paciência enquanto esperamos ,
ficamos ansiosos ou mesmo desesperados. Tudo o que de-
mora nos causa desconforto, mas, quando cultivamos a
paciência, esperamos calma e silenciosamente.
A paciência da qual a Escritura trata permite aos
crentes sofrer maus-tratos porque eles sabem que Deus
terá a última palavra, que Deus é tardio para se irar quan-
do provocado , que Deus tolera as faltas das pessoas , e, por
isso, eles sabem que Deus vai responder às suas orações .
A impaciência vem quando não temos promessas em que
esperar, mas os cristãos têm promessas de sobejo para
sempre manter a esperança.
A paciência é o grande remédio que Deus nos dá para
superar a ansiedade de não vermos as coisas pelas quais
esperamos.

2) A paciência é uma grande virtude para se com-


provar a soberania divina
Jeny Bridges , no capítulo sobre a paciência do seu li-
vro The Practice of Godliness [A prática da piedade], diz que

145
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

"a paciência bíblica permite que os crentes sofram maus-


-tratos porque eles sabem que Deus terá a última palavra,
para se tornarem lentos para se irar quando provocados". 58
Os genuínos cristãos aprendem com Deus sobre a paciên-
cia porque eles sabem como Deus reage diante das provoca-
ções que eles próprios fazem. Deus é provocado constante-
mente, mas ele se toma paciente a ponto de ser longãnimo
diante das provocações dos crentes e dos ímpios. A paciên-
cia é uma virtude a ser cultivada porque ela nos ensina que,
em última instãncia, o que vai valer é a promessa divina de
libertação plena dos sofrimentos deste presente habitat. A
paciência nos ensina que Deus é soberano tanto ao desig-
nar os sofrimentos para nós como para nos fazer suportá-
los e reagir de modo correto a eles. A paciência nos ensina
que devemos esperar confiantemente pelo Senhor quando
lhe enviamos o nosso clamor (Sl 40.1).
3) A paciência é a grande virtude que desemboca
necessariamente na perseverança
Paulo diz que a paciência no meio do sofrimento pro-
duz perseverança (Rm 5.3). Somente quem é treinado no
caminho da tribulação é que aprende a perseverar. Não
pode haver perseverança sem a paciência no aguardo das
coisas que estão por vir. A paciência, juntamente com o
sofrimento, é o trilho do treinamento para se alcançar a
perseverança. Nossa alma já foi salva, não simplesmen-
te para experimentar as delícias do perdão dos pecados,
mas também para nos fazer perseverar até que a espe-
rança do completamento da nossa salvação se realize. A
esperança nos faz entender que Deus ainda não terminou
o seu serviço em nós! Enquanto isso, vamos perseveran-
do nesta vida com aquilo que já temos da salvação.

58BRIDGES, Jerry, citado por MACLEAN, Malcolm em seu sermão The


expectant groanings of the sons of God (Rom 8:23-25), disponível em:
<http :/I greyfria rssermons. bl ogspot.com/2010/02/expecta nt-groa n i ngs-of-
sons-of-god-rom.html>, acessado em: 01/03/2012.

146
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

Por isso, Deus, quando quis mostrar mais firmemente


aos herdeiros da promessa a imutabilidade do
seu propósito, se interpôs com juramento, para
que, mediante duas coisas imutáveis, nas quais é
impossível que Deus minta, forte alento tenhamos
nós que já corremos para o refúgio, a fim de lançar
mão da esperança proposta; a qual temos por âncora
da alma, segura e firme e que penetra além do véu,
onde Jesus, como precursor, entrou por nós, tendo-
se tomado sumo sacerdote para sempre, segundo a
ordem de Melquisedeque (Hb 6.17-20).

A esperança é a âncora da nossa alma. Não há nada


em que nos podemos firmar neste mundo, a não ser a espe-
rança das coisas que Deus prometeu. Não há refúgio algum
em que podemos nos abrigar, a não ser a expectativa de
nossa redenção. Nessa esperança temos "forte alento", pois
ela está fundada na imutabilidade de Deus, que prometeu a
nossa redenção completa. A esperança nos segura firmes na
perseverança até o dia final. Por enquanto, as coisas pelas
quais esperamos estão no céu, onde Jesus está. Entretanto,
quando ele se manifestar, então vamos tomar posse das coi-
sas que esperamos neste tempo de perseverança.
4) A paciência é a grande virtude que nos ajuda a
não pensar na perda da salvação
Quando não cultivamos a paciência, somos tenta-
dos fortemente a pensar que, se a vinda de Cristo demo-
rar muito, não aguentaremos passar pelo que passamos.
A paciência não nos deixa perder a esperança da salva-
ção certa. A salvação é certa por causa da obra de Deus,
não por causa da nossa paciência, mas sem a paciência
corremos o risco de pensar que Deus nos abandonou. A

147
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

fraqueza nessa matéria ainda é parte de nossa presente


existência.
Se não temos paciência, não podemos vislumbrar
nada da esperança. O abatimento bate à porta da nossa
esperança se esta não está alimentada pela paciência. Não
se esqueça de que a esperança está relacionada a algo que
não vemos. E, frequentemente, se não vemos, perdemos
a esperança. Temos a tendência de querer coisas palpá-
veis em nossa esperança. No entanto, é pela paciência que
aguardamos firmes pelo cumprimento da promessa que foi
feita pelo Deus fiel.
Um cristão que vive sem a convicção de que será com-
pletamente salvo ainda é um crente, mas a sua vida se tor-
na miserável com o pensamento de poder perder o que já
tem. Se você não quer ser assaltado por esse temor, cultive
a paciência, porque ela mantém sempre a sua esperança
acesa. Por essa razão, ela é um grande antídoto para lutar
contra o medo da perda da salvação.
Por favor, não entenda que você tem que fazer algu-
ma coisa para não perder a salvação. Longe de você esteja
esse pensamento! A salvação vem de Deus do começo ao
fim. O que estou enfatizando é que, para que a sua vida
não seja cheia de infelicidade proveniente do temor, exer-
cite a paciência. Ela alimenta fortemente a sua esperança
na certeza da sua salvação, ainda que esta demore até se
completar.
Você e eu devemos viver neste presente habitat com
os lombos cingidos, ou seja, prontos para o que der e vier,
aprontados no nosso entendimento para a batalha. Ainda
mais, Pedro nos diz que devemos ser sóbrios, esperando
inteiramente na graça que [nos] está sendo trazida na reve-
lação de Jesus Cristo (1Pe 1.13). A paciência não nos deixa
desviar da esperança na realização das promessas divinas.
Nela esperamos, porque sabemos que a salvação é uma obra
graciosa e certa que será trazida na manifestação de Cristo.

148
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

4) A PACIÊNCIA É UMA GRANDE VIRTUDE NA QUAL PRECISAMOS


SER TREINADOS

A paciência não é uma virtude natural em nós. É pro-


duto de uma ação divina no coração do crente. No entan-
to, Deus quer que sejamos treinados para que cresçamos
nela. Precisamos aprender, em alguma medida, a ser como
Deus, que tem o nome de "Deus da paciência" (Rm 15.5). A
paciência cresce com o exercício. O Salvador desenvolveu
algumas virtudes divinas porque também foi treinado ne-
las. Ele aprendeu na escola da obediência pelas coisas que
sofreu (Hb 5.8). Se o Salvador foi treinado para desenvol-
ver os seus dons, muito mais nós precisamos ser treinados
nessa grande virtude da paciência. Frequentemente, Deus
nos põe à prova para testar o nosso aprendizado. Ele nos
coloca em situações dentro de nossa própria família a fim
de nos educar para coisas maiores, como aguardar are-
denção em meio ao sofrimento.
Vivemos numa época de imediatismo. Somos muito
impacientes para esperar as coisas acontecerem no tempo
devido. A nossa sociedade só pensa no aqui e agora, e não
no porvir. Todavia, os cristãos devem ser treinados nes-
sa virtude divina a fim de esperarem com tranquilidade
as coisas gloriosas prometidas que estão por vir. Deus é
paciente porque a paciência é um dos seus atributos (Rm
15.5). A paciência é parte do fruto do Espírito. Por essa
razão, precisamos ser treinados nela para que reflitamos
esse fruto na vida diária. Portanto, se quisermos refletir
o caráter de Deus, em alguma medida, temos que apren-
der a paciência na escola da obediência. A paciência não
é uma virtude nata em nós. Ela precisa ser aprendida e
desenvolvida, e isso não é conseguido da noite para o dia.
Envolve longo esforço e a negação de nossas paixões e de
nossos desejos imediatistas.
Somente os que têm as primícias do Espírito é que
gemem. Até que você seja crescido na paciência, continue
a gemer, porque o seu gemido é sinal de que você pertence

149
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

a Deus. Você gemerá até que chegue à terra sem gemido,


no tempo da sua glória.
A paciência é um dos ingredientes do fruto do Espírito
Santo em nós, pelo fato de estarmos unidos a Cristo Jesus,
que deve ser desenvolvido. Desenvolvamos a paciência por
meio da comunhão com o nosso Redentor. Temos que ca-
minhar longamente nessa vereda da paciência até que o
Redentor apareça nas nuvens com poder e glória, no dia
da consumação da nossa libertação e do início da plenitu-
de da nossa glória!
O ditado que diz que "a esperança é a última que mor-
re" não é válido no que concerne à esperança cristã. A
esperança cristã não morre nunca porque ela vem fortale-
cida pela paciência e acompanhada de uma convicção: a
esperança em Cristo nunca desaponta, nunca acaba! Ela
só deixa de ser esperança quando o que se espera se reali-
za. Então, isso significa que a glória já chegou!

CONCLUSÕES
1. 0 GEMIDO DOS CRISTÃOS É NATURAL NESTE MUNDO AMALDIÇOADO

O gemido não é somente comum, mas também natu-


ral neste mundo caído. Não devíamos nos espantar com o
aparecimento dos gemidos mesmo entre os cristãos.
Mesmo em lugares bonitos e agradáveis para se viver,
podemos experimentar os sofrimentos de forma extraor-
dinária. A Flórida, um estado procurado por todos para
a diversão e o repouso, é um lugar frequentemente sujei-
to a furacões devastadores. Por que as coisas são assim?
Porque qualquer lugar na terra amaldiçoada por Deus é
sujeito aos gemidos da natureza e, por conseguinte, dos
homens, especialmente dos cristãos.
Os gemidos dos filhos de Deus são constantes, e seu
sofrimento não deveria nos espantar. O que acontece com
eles não deveria acontecer num mundo remido, mas, como

150
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

o mundo ainda está sob maldição, então o sofrimento é


natural.

2. 0 GEMIDO DOS CRISTÃOS NÃO NOS DEVE FAZER DESANIMAR

O gemido por causa do sofrimento não deveria nos


deixar desanimados, porque não há nada melhor do que ter
esperança com base em promessas reais. Nossa esperança
não é uma quimera, mas a certeza de coisas que estão
por vir. Ela está ancorada na convicção da veracidade
das promessas de Deus. Não se trata da esperança de
ter sorte no futuro, mas de uma convicção inabalável de
que a redenção deste mundo e nossa está para chegar.
Esperamos em Cristo porque ele ressuscitou dos mortos, e
a sua ressurreição é a garantia da nossa.
Em meio aos gemidos, não seria melhor se pensás-
semos um pouco mais no céu? Não seria melhor pensar-
mos na ressurreição ou na nossa transformação? Quando
atacados pelo sofrimento, não seria melhor invocarmos a
esperança de dias melhores com base nas promessas de
Deus? Quando atingidos pelo sofrimento, não seria melhor
pensarmos no novo céu e na nova terra, onde não mais ha-
verá desastres naturais nem as outras aflições presentes
neste mundo?
Há alguns pontos conclusivos que não podemos es-
quecer de mencionar a esta altura do estudo:
1. O destino da criação está atrelado ao destino do
homem remido
Esta verdade pode ser vista desde o começo do mun-
do: Quando Deus criou o homem, ele também criou o jar-
dim no Éden para que o homem desfrutasse dele. De igual
modo, quando houve a maldição de Adão por causa de sua
queda, a maldição também veio para a criação em que o
homem viveria. Todavia, quando Deus terminar de remir
o homem, ele também remirá o lugar da sua habitação.

151
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Nunca os homens remidos estarão separados do seu habi-


tat original, que é a terra.
No entanto, há uma exceção que não podemos deixar
de levar em conta: por causa da ira final de Deus- em
minha opinião-, os ímpios não poderão viver na terra que
Deus fez para o deleite dos homens. A ausência deles do
habitat original do homem, que é a terra, será parte do tor-
mento que haverão de enfrentar, pois não há coisa pior do
que estar num lugar estranho, que não é o lugar original
de sua habitação.
2. A deterioração da criação está atrelada à dete-
rioração dos seres humanos remidos e ímpios
Desde a queda, existe o sofrimento da criação, que
está atrelado ao sofrimento do homem. Esse sofrimento
da criação tem a ver com a deterioração da natureza, que
caminha a passos largos. Nos dias que antecederem ime-
diatamente a vinda de Jesus Cristo, muitas coisas neste
planeta já estarão muito deterioradas, obedecendo à se-
gunda lei da termodinâmica. É verdade que Deus é quem
sustém o planeta, mas a sua providência mantenedora
não será usada para evitar que algumas deteriorações
aconteçam.
Essa deterioração não acontece instantaneamente.
É um processo longo que vem ocorrendo há muito. Porre-
velação divina na Escritura, sabemos que, à medida que o
tempo do fim se aproxima, vários eventos apontarão para
uma deterioração mais rápida, apressando e indicando
a chegada do Senhor. Os céus serão chacoalhados e en-
trarão em colapso, as estrelas se moverão fortemente no
firmamento, o Sol e a Lua não mais darão a sua claridade
(Ap 21.23), afetando enormemente a vida dos homens,
da fauna e da flora aqui na Terra. Haverá destruição e
morte por toda parte. Tudo aquilo que tem vida e cresce
receberá a maldição numa proporção nunca antes vista.

152
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

A profecia de Joel aponta para essa realidade de maneira


inquestionável.
Juntamente com a deterioração do planeta, acon-
tece a deterioração da vida dos homens. Ela é parte da
maldição divina que nos faz envelhecer. Todos nós, seres
humanos, remidos ou não, envelhecemos à medida que
o planeta fica velho. O envelhecimento da Terra é mais
lento do que o nosso, mas envelhecemos juntos. Não há
como ocorrer a deterioração de um sem que aconteça o
mesmo ao outro, porque a vida dos seres humanos, nesta
presente existência, está indissoluvelmente atrelada ao
seu habitat. Por essa razão, no tempo que antecede ime-
diatamente a volta do Senhor, muitas doenças estranhas
irão aparecer, as pestes devastarão a terra, os litorais se-
rão invadidos por águas violentas, a terra será sacudida
fortemente por terremotos e coisas semelhantes a essas.
A destruição dos ímpios será praticamente concomitante
com a destruição do seu presente habitat. O sistema atu-
al entrará em colapso porque o atrelamento do homem ao
seu habitat é uma realidade muito forte. Por essa razão,
não pode haver penalidade sobre um que não venha so-
bre o outro .
3. A destruição do presente habitat está atrelada
à destruição dos seres humanos ímpios
O presente habitat, da forma como se encontra agora,
será destruído. A atual situação de descuido com a terra
piorará à medida que o tempo do fim se aproxima. Até que
Cristo volte, não se fará nada para a recuperação do pre-
sente habitat. Todos os homens ímpios serão banidos dele,
porque não haverá lugar para eles quando este habitat for
renovado.
Quando Deus trouxe a maldição ao homem, ele a es-
tendeu à criação, de forma que a criação toda se tornou
vítima da ira divina. Por causa dessa maldição, o homem
remido geme , e a criação também. Não há como separar o

153
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

que acontece com o homem do que acontece com a cria-


ção. O que o homem fez teve reflexo na criação. Mesmo
depois da queda no Éden, essas maldições continuam bem
vivas. Isaías disse que

a terra está contaminada por causa dos seus moradores,


porquanto transgridem as leis, violam os estatutos e
quebram a aliança eterna. Por isso, a maldição consome a
terra, e os que habitam nela se tomam culpados; por isso,
serão queimados os moradores da terra, e poucos homens
restarão (ls 24.5,6).

Podemos ver Jeremias exalando a mesma tristeza


pelo atrelamento do pecado do homem ao que acontece
com a natureza: Até quando estará de luto a terra, e se
secará a erva de todo o campo? Por causa da maldade dos
que habitam nela, perecem os animais e as aves (Jr 12.4).
Por esse atrelamento indissolúvel, a redenção da cria-
tura tem que ser seguida da redenção da criação. Criaturas
remidas não podem viver numa terra não remida. A reden-
ção do presente habitat é necessária para o beneficio e o
deleite dos homens , exatamente como aconteceu no habi-
tat original.
4. A restauração do presente habitat está atrelada
à restauração do povo de Deus
O gemido da criação é concomitante ao gemido da criatu-
ra remida; assim também, a restauração da criatura se dará
juntamente com a restauração da criação, embora a primei-
ra venha um pouquinho antes da segunda, mas no mesmo
dia de Cristo. Deus restaurará primeiro o seu povo e não po-
derá deixá-lo viver neste habitat cheio de destruição e misé-
ria. Por essa razão, Deus purificará com fogo o presente ha-
bitat, tornando-o um lugar adaptado à criatura restaurada.

154
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

Jesus Cristo já foi para o céu preparar-nos esse lugar, a nova


Jerusalém, para que os seus habitantes desfrutem dela por
toda a eternidade, depois que ela descer do céu para o deleite
da criatura remida e para a exibição da glória divina!

APLICAÇÕES

1. FIQUE FIRME ATÉ O FINAL


Depois de sofrer muito tempo, temos a tendência de
desistir da vida. Até ficamos pedindo a Deus para morrer
a fim de nos livrar do sofrimento. Semelhantemente à mu-
lher de Jó, vem-nos o pensamento de amaldiçoar Deus e
morrer (Jó 2.9). Geralmente, isso acontece porque perde-
mos a esperança de que alguma coisa muito boa aconteça.
Li uma história a respeito de testes feitos com ratos nos
portos noruegueses. Os ratos viviam nas regiões ao longo do
cais do porto. Um grupo de ratos foi colocado num grande
contêiner de água, no escuro, sem lugar para descansar; eles
tinham que ficar nadando o tempo todo. Todos se afogaram
em quinze minutos. O segundo grupo foi colocado num
contêiner similar; todavia, a cada dez minutos, o técnico do
laboratório abria o contêiner, retirava os ratos, dava uma
folguinha de alguns segundos e os colocava de volta na água.
Eles não tinham tempo para descansar, mas recebiam um
pouco de encorajamento. Esses ratos continuaram a nadar
por mais doze horas (ou perto disso).
Esse segundo grupo teve o que o primeiro não teve:
"esperança" de viver um pouco mais. Eles ficavam espe-
rando o técnico do laboratório abrir o contêiner para lhes
dar folga e encorajamento. 59
59
Ilustração de McKNIGHT, Scot. The Jesus creed. Paraclete Press, 2004, p.
65-66, disponível em : (estudo de Romanos 8.17-25, sem menção de autor)
<http://www.calvaryfullerton.org/Bstudy/45%20Rom/2008/45%20Rom%20
08c.htm>, acessado em: 01/05/2012.

155
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Todos nós, que vivemos debaixo de tribulações, precisa-


mos de uma folga a fim de que tenhamos alento e fiquemos
firmes até que as promessas sejam realizadas. Quando olha-
mos para as promessas futuras, o nosso coração se enche de
esperança, e adquirimos mais fõlego para caminhar por mais
tempo. Tentando confortar os crentes que sofriam, Paulo
lhes disse: depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos
arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o en-
contro do Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre
com o Senhor. Então, ele termina com o ponto fundamental:
Consolai-vos, pois, uns aos outros com estas palavras (1Ts
4.17, 18). O estudo das promessas divinas nos traz conforto
no meio da tribulação e esperança no meio do sofrimento. As
promessas escatológicas são um grande estimulo de conforto
para os que andam gemendo neste presente habitat. Por essa
razão, devemos trazer conforto aos que sofrem, ensinando-
-lhes sobre as grandes esperanças que os cristãos devem ter
neste habitat a respeito das glórias futuras!

2. MUNA-SE DE GRANDES EXPECTATIVAS


ESCATOLÓGICAS
Você não pode fazer nada para alterar o que certa-
mente vai acontecer no tempo da restauração de todas as
coisas. Nem mesmo pode alterar o curso da história até
que ele chegue a esse clímax.
Todavia, há algo que você pode fazer porque Deus co-
locou ao seu alcance. Você tem as Escrituras Sagradas.
Estude-as para se apossar dessas grandes expectativas
escatológicas. Veja algumas expectativas de que você pode
se encher agora:
Não se esqueça de que Deus predestinou você para
ser conforme à imagem do seu Filho (Rm 8.29). Não se es-
queça de que essa conformação à imagem de Cristo, que
é o passo final de nossa redenção, significa a glória que
vamos desfrutar (Rm 8.30). Lembre-se de que ninguém

156
O GEMIDO DA CRIATURA REMIDA NO PRESENTE HABITAT

por quem Cristo morreu se perderá (Jo 6.39). Além disso,


enquanto Deus vai conformando você paulatinamente à
imagem de Jesus Cristo, pense que você nunca mais terá
qualquer enfermidade em seu corpo, e a velhice nunca o
alcançará. Você nunca mais terá qualquer pensamento
impuro em seu coração. Será limpo na totalidade do seu
ser. Será transformado ou ressuscitado e verá Jesus face
a face! Há glória só em pensar nessas coisas!
Certamente Deus levará a bom termo todo o seu pro-
jeto de redenção, porque aquele que começou boa obra em
[nós] há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus (Fp 1.6).
O alvo da nossa redenção é a glória do céu, mas esta é so-
mente uma parte desse alvo; o alvo final é a nova terra pela
qual esperamos ansiosamente.
Procure conhecer na Escritura as grandes promessas
escatológicas e seja cheio das mais ricas esperanças, as
quais nenhum incrédulo tem neste mundo. No estudo da
redenção gloriosa, antegoze neste presente habitat as delí-
cias do habitat futuro!

3. ESPERE ANSIOSAMENTE PELA RESTAURAÇÃO


Num passado longínquo, os nossos primeiros pais
foram criados cheios de glória, refletindo perfeitamente a
imagem do seu Criador (Gn 1.26). Eles não tinham pecado,
nem mancha, eram seres humanos absolutamente louvá-
veis e respeitáveis. Irradiavam o caráter divino. Todavia,
por causa do seu pecado, a glória deles se foi. Eles perde-
ram toda a manifestação gloriosa da santidade com a qual
haviam sido criados. Agora, no presente habitat, os seres
humanos estão destituídos da glória de Deus (Rm 3.23,
NVI), carecendo desesperadamente dela.
Vocês, em quem o Espírito Santo já comunicou suas
primícias, não estão esvaziados da glória divina, mas é difi-
cil ver essa glória no ambiente pecaminoso onde habitam, e
também por causa da pecaminosidade que ainda habita em

157
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

vocês. Mas essa situação vai mudar drasticamente, porque


Deus prometeu a restauração da glória humana original
para os seus. Se você está entre os que pertencem a Deus,
espere o tempo em que Deus fará em você algo inimaginável!
Não dá nem para conceber o que Deus vai fazer em nós e
no habitat em que vamos viver. Nunca perca essa esperança
de dias indizivelmente melhores! Não somente os seus dias
serão melhores, mas você será incomparavelmente melhor.
Tenha a esperança que o salmista tinha quando disse:

Eu, porém, na justiça contemplarei a tua face; quando


acordar, eu me satisfarei com a tua semelhança (Sl 17. 15).

Ele tinha a esperança não somente de ver Deus, mas


de refletir a semelhança de Deus. Isso significa a volta ao
paraiso. Por isso o paraiso será restaurado. Mas, antes
disso, Deus vai restaurar você. Você vai vê-lo como ele é e
será semelhante a ele. Quer glória maior do que essa?

158
CAPÍTULO 4

VERDADES SOBRE A CRIAÇÃO A


SER RESTAURADA

A ardente expectativa da criação aguarda a


revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está
sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por
causa daquele que a sujeitou, na esperança de
que a própria criação será redimida do cativeiro da
corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de
Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um
só tempo, geme e suporta angústias até agora. E
não somente ela, mas também nós, que temos as
primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso
íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção
do nosso corpo (Rm 8.19-23).

1. A RESTAURAÇÃO DA CRIAÇÃO FÍSICA SERÁ


PRECEDIDA PELA REVELAÇÃO DOS FILHOS DE
DEUS

A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos


filhos de Deus (Rm 8.19) .
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

A nossa glória futura será tão grande que mesmo a


criação pode ser vista como esperando que essa glória se
manifeste. A revelação dos filhos de Deus tem a ver com o
completamento da imagem de Deus em nós. A glória futu-
ra envolve "a revelação dos filhos de Deus".
A criação será liberta e glorificada quando nós formos
glorificados. Quando houver a ressurreição dos cristãos
mortos e a transformação dos que estiverem vivos na vol-
ta do Senhor, a redenção da criação será iminente; a re-
denção dos filhos de Deus precede a redenção da criação.
Quando esta acontecer, já teremos sido completamente re-
dimidos , pois Deus colocará os remidos num lugar remido!
A redenção da criação é o corolário da redenção do
povo de Deus. A criação nunca será redimida até que nós
sejamos redimidos, e Deus nunca criará novos céus e nova
terra até que ele nos redima completamente!
Portanto, a revelação dos filhos de Deus é o prenúncio
de que chegou a hora de a criação ser redimida.

1) O SIGNIFICADO DE REVELAÇÃO DOS FILHOS DE


DEUS
A revelação dos filhos de Deus diz respeito ao com-
pletamento da sua redenção no dia de Cristo. Nesse dia,
acontecerão dois fenômenos na vida dos cristãos: a res-
surreição dos que estiverem mortos e a transformação dos
que estiverem vivos.
A revelação dos filhos de Deus mostra que a promessa
de Gênesis 3.15 se realizou na vinda do Filho de Deus, que
nos trouxe paz com Deus e destruiu as obras de Satanás
em nós. Éramos filhos de Satanás porque estávamos de-
baixo do seu poder, mas, pela obra de Cristo, ele nos tor-
na filhos de Deus. Jesus Cristo nos reconcilia com Deus
e nos torna inculpáveis perante ele, porque Jesus levou
a pena de nossos pecados. Não temos mais dívidas com

160
VERDADES SOBRE A CRIAÇÃO A SER RESTAURADA

Deus. Somos, portanto, colocados na posição de filhos. A


revelação desses filhos significará que o tempo do fim de
todas as coisas nesta presente dispensação é chegado.

2) O TEMPO DA REVELAÇÃO DOS FILHOS DE DEUS


A redenção da criação não acontecerá até a revela-
ção dos filhos de Deus. Pode-se dizer que a revelação dos
filhos de Deus, em certo sentido, já começou, mas a vida
dele está oculta juntamente com Cristo, em Deus (Cl 3.3).
Somente eles sabem que são filhos. No entanto, a suare-
velação plena se dará no futuro, no último dia, pois o texto
de Colossenses diz que Quando Cristo, que é a nossa vida,
se manifestar, então, vós também sereis manifestados com
ele, em glória (Cl 3.4).
Até que a nossa redenção se complete, a criação geme,
e nós também gememos. Não é sem razão que, ensinando
sobre a ceia, Paulo disse: até que ele [o Senhor] venha (1Co
11.26). Temos expectativa de redenção em meio a dores
até a volta do Senhor. Então será o tempo da restauração
de todas as coisas.
E o Senhor voltará a este mundo somente quando
chegar o dia da revelação dos filhos de Deus.

ao qual é necessário que o céu receba até aos tem-


pos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou
por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade (At
3.21).

A revelação dos filhos de Deus se dará na vinda do


Senhor Jesus Cristo. A revelação dos filhos de Deus tem o
seu clímax na vinda do Redentor, mas já se iniciou na vida
pessoal do pecador. A nossa redenção é um processo que
já começou, mas que ainda está por terminar. Já fomos

161
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

salvos, estamos sendo salvos e seremos salvos. É somente


desta última fase que o texto de Romanos fala. A reden-
ção dos filhos de Deus já é uma realidade, mas será uma
realidade ainda mais perfeita na vinda do Senhor, com a
redenção completa do nosso corpo e da nossa alma .
.. . aquele que começou boa obra em [nós] há de com-
pletá-la até ao Dia de Cristo Jesus (Fp 1.6). Já fomos feitos
filhos de Deus, mas ainda seremos filhos de Deus. Are-
denção é uma realidade que ainda espera a sua consuma-
ção! Já temos as primícias do Espírito, mas não recebemos
ainda a plenitude do que está para ser revelado em nós!
Então, seremos plena e perfeitamente conhecidos como fi-
lhos de Deus!

2. A RESTAURAÇÃO DA CRIAÇÃO FÍSICA TEM UM


PROPÓSITO NOBILÍSSIMO

na esperança de que a própria criação será redimida do


cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos
filhos de Deus (Rm 8 .21).

1) A LIBERDADE GLORIOSA DOS FILHOS DE DEUS É


O GRANDE PROPÓSITO DA REDENÇÃO DA CRIAÇÃO
Assim como a criação, as criaturas remidas também
gemem. Portanto, a libertação da criação visa a liberdade
gloriosa dos filhos de Deus.
Não há propósito mais nobre do que esse! A criação
foi feita e será refeita para o desfrute dos filhos de Deus.
Assim como na criação original Deus fez o jardim para
o beneficio dos seres humanos santos, assim também
na recriação da terra Deus tem em vista o bem -estar das
suas criaturas remidas. Da mesma forma como o presente

162
VERDADES SOBRE A CRIAÇÃO A SER RESTAURADA

habitat geme para ser liberto da corrupção, o que tam-


bém causa o gemido das criaturas remidas , assim também
Deus, com a libertação da criação, visa a liberdade glorio-
sa dos seus filhos.
Originalmente Deus fez o jardim para o desfrute do
homem. Deus fez tudo para trazer alegria ao homem. Não
será diferente na nova criação. Além de sua própria glória,
o fim principal de Deus ao recriar a terra é que os seus
remidos desfrutem de uma liberdade nunca antes desfru-
tada! Deus fez o primeiro e o segundo paraísos para a li-
berdade da glória de seus filhos!

2) A LIBERDADE GLORIOSA DOS FILHOS DE DEUS


É UM PROCESSO QUE CULMINA NO HABITAT
REDIMIDO
A liberdade não é um ato , mas um processo que co-
meça neste mundo e termina no mundo por vir. A liber-
dade começa quando Deus nos livra de muitas coisas de
que somos escravos neste presente habitat. Só depois ela
poderá ser chamada de liberdade gloriosa!
O texto de Romanos 8.21 pode começar a ser enten-
dido quando examinamos as coisas de que Deus nos liber-
ta, mencionadas desde o início do capítulo. Paulo começa
dizendo que já nenhuma condenação há para os que estão
em Cristo Jesus (Rm 8 . 1). A liberdade começa aí e é ga-
rantida para sempre pela mesma obra de Cristo. Paulo se
tornou convencido de que nada nos poderia separar do
amor de Deus, que está em Cristo Jesus (Rm 8 .39). Esta é a
garantia de que a liberdade gloriosa será conquistada pela
obra redentora do Deus trino .
Há dois ingredientes que não podem ser dispensados
se quisermos entender a liberdade gloriosa dos filhos de
Deus: 1) a verdade de não mais haver condenação e 2) a
verdade do amor de Deus através de Cristo, que não mais
torna necessária a condenação pessoal do pecador.

163
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Dessa forma, diz John McKenna,

a gloriosa liberdade dos filhos de Deus é cristalizada


num contexto em que nenhuma condenação pode ser
encontrada para o povo de Deus, e em que o amor de
Deus nunca falhará com sua criação. Um entendimento
sólido desta liberdade não pode ser apreendido sem a
pessoa do Senhor Jesus Cristo. [.. . ] A liberdade surgida
desses dois elementos transcende toda coisa criada e
repousa sobre o amor de Cristo por seu Pai e o amor do
Pai pelo Filho. Por essa razão , podemos dizer que sem a
condenação e por causa do amor de Deus nós vivemos
além da vaidade da criação. 60

Deus nos libertou da escravidão. Não seremos mais


condenados, o que mostra o amor do Deus trino por nós,
que tem o seu ápice judicial na cruz. Todavia, a obra judi-
cial de Deus foi feita extra nos (fora de nós). No tempo de-
vido, Deus nos chamou das trevas para a luz, dando-nos
vida, e então iniciou um processo intra nos (dentro de nós),
de desinfecção de nossa alma. Quando ele voltar, termina-
rá o processo tanto da alma quanto do corpo.
Já possuímos a liberdade da graça enquanto vivemos
neste presente habitat. No entanto, ainda esperamos pela
liberdade da glória, que será consumada neste habitat,
mas desfrutada somente no habitat restaurado!

60McKENNA, John. The glorious freedom, disponível em: <http://www.gci.


org/romans/rom818>, acessado em: 01/04/2012.

164
VERDADES SOBRE A CRIAÇÃO A SER RESTAURADA

3) A LIBERDADE GLORIOSA DOS FILHOS DE DEUS


SERÁ PLENA
Neste presente habitat o cristão geme sob uma espé-
cie de prisão que ainda o faz sofrer. No entanto, quando
essa liberdade acontecer, ela abrangerá todos os aspectos
da vida humana.
• Quando os filhos de Deus receberem essa liberdade,
eles serão livres da corrupção do pecado. Deus já os tirou
da lama, mas agora está tirando a lama deles. Enquanto a
redenção não terminar, eles ainda terão que conviver com
a corrupção do pecado. Mas chegará o dia em que nunca
mais verão qualquer nódoa do pecado em sua vida, porque
esse será o dia da sua gloriosa liberdade.
• Quando os filhos de Deus receberem essa liberdade,
eles serão livres dos desejos impuros. Nunca mais o cora-
ção deles desejará coisas impuras. Quando Deus terminar
de limpar a fonte de onde os pensamentos, afeições e voli-
ções surgem, eles nunca mais pensarão, sentirão ou farão
coisas imperfeitas e impuras. Os desejos do coração deles
serão perfeitos.
• Quando os filhos de Deus receberem essa liberdade,
eles serão livres da presença do pecado. A despeito da santi-
ficação que Deus já está operando em nós, ainda não pode-
mos fugir da presença do pecado, que sempre nos assedia.
Os impulsos para o pecado vêm de fora e de dentro de nós.
Não há como escapar, neste presente habitat, da presença do
pecado, porque tudo o que nos rodeia está afetado por ele.
• Quando os filhos de Deus receberem essa liberdade,
eles serão livres das maldições que se evidenciam em de-
sastres e outras calamidades a que este presente habitat
está sujeito. Onde quer que eles vivam, estão sujeitos a
enfermidades. Mesmo os crentes morrem de enfermidades
porque as maldições sobre este habitat ainda não foram
retiradas. No entanto, quando a redenção se completar, a
liberdade desses infortúnios será maravilhosa!

165
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

• Quando os filhos de Deus receberem essa liberdade,


eles serão livres da morte. No dia em que houver a ple-
na libertação, eles nunca mais morrerão com respeito a si
mesmos nem morrerão com respeito a Deus. Nunca mais,
portanto, eles ficarão separados de si mesmos (morte fisi-
ca) ou de Deus (morte espiritual).
Essa liberdade é a mais alta forma de liberdade que
pode existir no Universo que Deus criou! Nenhuma liber-
dade supera essa porque ela diz respeito unicamente à
prática do bem, das coisas que trazem alegria aos remidos
e ao Remidor!
Não será uma liberdade absoluta porque os remidos
ainda permanecerão com o santo e alegre dever de serem
servos de Deus. Deus os livra da escravidão de coisas ruins
e os coloca debaixo de sua servidão para fazerem coisas
boas. A grande diferença é que eles vão servir a um Deus
santo, amoroso, bondoso, fiel, um Deus a quem servirão
de maneira plena, como nunca serviram até então.

4) A LIBERDADE GLORIOSA DOS FILHOS DE DEUS


SERÁ A MAIS ALTA FORMA DE LIBERDADE
A mais alta forma de liberdade da criação na nova
terra será a mesma liberdade que os remidos que já morre-
ram desfrutam no céu, na presença gloriosa de Deus! Será
uma liberdade na presença da Majestade do Universo!
Será uma liberdade coroada de esplendor! Será uma liber-
dade num "estado de glória", sob o governo absoluto do
Soberano. Ali, os remidos fazem somente aquilo que agra-
da ao seu Soberano. Essa é a liberdade espiritual que só os
cristãos têm, é a mais alta forma de liberdade!
Essa liberdade tem a ver com a plena comunhão com
Deus! Aqui neste presente habitat secularizado e invadi-
do por filosofias que conduzem ao desespero (porque não
oferecem respostas aos mais profundos anseios da alma
humana), os seres humanos remidos ainda têm problemas

166
VERDADES SOBRE A CRIAÇÃO A SER RESTAURADA

em sua comunhão com Deus porque neles ainda se veem


traços da velha inclinação pecaminosa. No entanto, quan-
do a comunhão com Deus se tornar plena, os cristãos te-
rão a mais alta forma de liberdade porque conseguirão
obedecer perfeitamente aos preceitos que ele lhes estabe-
lece. Nessa comunhão perfeita, eles agradarão totalmente
aquele que os libertou!

5) A LIBERDADE GLORIOSA DOS FILHOS DE DEUS


SERÁ DESFRUTADA SOMENTE NO HABITAT REDIMIDO

1) A LIBERDADE DA GRAÇA DOS FILHOS DE DEUS JÁ É DESFRU-


TADA NO PRESENTE HABITAT

É um engano pensar que os filhos de Deus no presen-


te não têm liberdade. Além da liberdade natural, 61 os filhos
de Deus já têm uma liberdade espiritual5 2 que os habilita a
fazer coisas que agradam a Deus. Todavia, há limites nes-
sa liberdade em virtude da presença do pecado em nossa
atual existência.
A liberdade da graça, já desfrutamos neste presente
habitat. Pela libertação produzida pelo sangue de Jesus
Cristo, não mais Deus é estranho a nós; não mais sofre-
mos a penalidade de nossos pecados; não mais estamos
sob a escravidão de cumprir a totalidade da lei para ter-
mos vida; não mais somos obrigados a rituais religiosos;
não mais temos os temores da morte; não mais os nossos
pecados nos condenam; não mais temos temor dos juízos
de Deus; não mais a ausência de paz é uma constante em
61
A liberdade natural é a capacidade que os seres racionais (homens, anjos
e Deus) têm de fazer qualquer coisa que esteja em consonância com as
inclinações dominantes do seu ser interior. Essa liberdade é essencial a
todos os seres racionais, ou seja, não existe ser racional sem essa liberdade.
62
A liberdade espiritua l é a capacidade dada aos cristãos de fazer coisas
que agradam a Deus, coisas que Deus aceita. Ela é essencial aos cristãos, ou
seja, não existe cristão sem essa liberdade.

167
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

nós; não mais ficamos sem assistência salvífica do Senhor.


Esta é uma liberdade graciosa!
É verdade que não temos ainda uma liberdade glorio-
sa, mas a liberdade que presentemente possuímos é uma
realidade. Que o digam aqueles que foram lavados no san-
gue do Cordeiro!
Neste presente habitat temos acesso pela fé a essa
graça da liberdade, mas ela não pode ser comparada com
a liberdade a ser desfrutada no futuro. Neste habitat a
nossa liberdade é cheia de esperança de que a liberdade
gloriosa aconteça. Por essa razão, Paulo diz que gloriamo-
-nos na esperança da glória de Deus (Rm 5.2).
Tudo o que fazemos neste habitat deve ser para a
glória de Deus, mesmo as coisas mais corriqueiras (1Co
1O. 31), mas ainda não temos a liberdade gloriosa.
Neste presente habitat podemos até ver traços da glória
da primeira criação, porque esta, mesmo caída, proclama a
glória de Deus (Sl 19.1). Contudo, a liberdade da glória na
nova criação excederá em muito a glória que podemos ver
na criação caída. Neste habitat anelamos ser revestidos da
liberdade gloriosa, que é própria de uma criação gloriosa!

2) A LIBERDADE DA GLÓRIA DOS FILHOS DE DEUS SERÁ


DESFRUTADA NO HABITAT REDIMIDO

A liberdade futura, embora seja um produto da graça


divina em nós, será cheia de glória como a atual liberdade
não é. A liberdade gloriosa futura excederá em muito a
liberdade que temos agora. Esta aponta com traços bem
anuviados para a liberdade gloriosa que teremos na ma-
nhã gloriosa de nossa ressurreição.
Alguns cristãos tiveram vislumbres da liberdade
gloriosa, como Saulo no caminho de Damasco ou como
Pedro, Tiago e João no monte da transfiguração, mas esses

168
VERDADES SOBRE A CRIAÇÃO A SER RESTAURADA

vislumbres são passageiros , são apenas antegosto muito


fugaz de uma liberdade gloriosa que será eterna!
É possível que você já tenha experimentado momen-
tos gloriosos , nos quais foi levado a trazer glória a Deus
nas coisas que você quis fazer , mas esses vislumbres du-
ram muito pouco. Deus , às vezes , nos dá lampejos fugazes
dessa glória, na qual teremos unicamente a vontade de
fazer o que lhe é agradável!
Jesus Cristo orou ao seu Pai celestial para que pu-
desse ter os seus consigo, a fim de que eles vissem a sua
glória (Jo 17 .24).
a) Neste habitat ainda não remido, o cristão não
pode desfrutar da liberdade gloriosa por causa do seu
estado de fraqueza
Por "estado de fraqueza" devemos entender a condi-
ção na qual ainda estamos sujeitos às tentações e que-
das , bem como às dores do corpo e às aflições da alma. O
presente estado de fraqueza dos crentes não permite que
desfrutem de uma liberdade gloriosa porque o seu espírito
não está ainda santificado , e o corpo, por estar sob cor-
rupção , não pode participar dela. Três dos discípulos de
Jesus não puderam sequer contemplar e desfrutar de um
vislumbre da glória de Cristo no monte da transfiguração.
Eles caíram por terra quando apenas contemplaram o ros-
to fulgurante de nosso Senhor. Enquanto vivermos neste
corpo, não poderemos sequer ter vislumbres dessa glória!
No entanto , porque estavam ao menos com o seu espírito
plenamente glorificado, Moisés e Elias puderam participar
daquele evento glorioso e tinham uma liberdade plena na
presença de Cristo.
Não obstante não poderem contemplar nesta presen-
te existência vislumbres da glória, como foi o caso no mon-
te da transfiguração , todos os reais discípulos de Jesus
Cristo haverão de ter o seu corpo transformado aqui nesta
terra, antes da criação dos novos céus e da nova terra.

169
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Desfrutaremos somente de alguns deliciosos instantes, em


que o Redentor haverá de destruir os ímpios e estabelecer
as coisas eternas. Nesse tempo, não somente o nosso espí-
rito será plenamente transformado, mas também o nosso
corpo, num abrir e fechar de olhos.
Todavia, enquanto vivemos neste habitat, sem a pre-
sença gloriosa de Jesus Cristo, não podemos desfrutar
de uma liberdade gloriosa em razão de nossa fraqueza.
Aflições ainda rondam a nossa alma, e dores afetam o nos-
so corpo. Lágrimas e tristezas ainda fazem parte da tota-
lidade do nosso ser. Por essa razão, gememos neste corpo
do pecado para sermos libertos daquilo que nos impede
de ver coisas gloriosas! Foi esta a sensação que Paulo teve
quando escreveu aos coríntios: E, por isso, neste taberná-
culo, gememos, aspirando por sermos revestidos da nossa
habitação celestial (2Co 5.2). Por habitação celestial, cer-
tamente Paulo está se referindo a um corpo sem qualquer
traço de corrupção. Já temos as primícias do Espírito (Rm
8.23), mas ainda não temos a completa limpeza causa-
da pelo mesmo Espírito. Enquanto vivermos em fraqueza,
nunca poderemos desfrutar da liberdade gloriosa. Por isso,
esperamos ansiosamente ser revestidos de uma habitação
que nos qualifique a desfrutar de uma liberdade cheia de
glória na presença de Jesus Cristo!
b) Neste habitat ainda não remido, o cristão não
pode desfrutar da liberdade gloriosa porque o seu co-
nhecimento de Deus ainda é imperfeito
Só poderemos desfrutar da liberdade gloriosa quan-
do tivermos um conhecimento maior e mais completo de
Deus. É importante ter em mente que nunca poderemos
ter um conhecimento exaustivo de Deus porque é uma im-
possibilidade para seres finitos. No entanto, por conheci-
mento perfeito quero dizer um conhecimento que corres-
panda à plena realidade de Deus. Neste habitat, por causa
das fraquezas a que estamos sujeitos, não conseguimos

170
VERDADES SOBRE A CR IAÇÃO A SER RESTAURADA

sequer entender de maneira correta a revelação que Deus


nos deu de si mesmo na natureza e na sua Palavra.
Devido ao estado de fraqueza em que vivemos e aos
efeitos do pecado sobre a mente, conhecemos as coisas
divinas apenas parcialmente e, ainda assim, de forma
imperfeita.
Paulo menciona o conhecimento imperfeito que ainda
temos do Deus que se revelou:

porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos.


Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em
parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava
como menino, sentia como menino, pensava como menino;
quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias
de menino. Porque, agora, vemos como em espelho,
obscuramente; então, veremos face a face. Agora,
conheço em parte; então, conhecerei como também sou
conhecido (1Co 13.9-12).

Neste presente habitat, com a condição de fraque-


za em que vivemos, não conseguimos enxergar as coisas
como elas realmente são. Há uma espécie de névoa que
nos impede de ver claramente. Por isso, o texto diz que
vemos as coisas obscuramente e mesmo enigmaticamente.
As coisas espirituais ainda não são completamente claras.
Precisamos de mais luz para vê-las como realmente são.
Ainda estamos na meninice espiritual e não temos
respostas para muitas coisas que já aconteceram e que
estão por acontecer. Aguardamos ser revestidos de incor-
rupção para que possamos ver claramente, como homens
espiritual e plenamente maduros. Quando chegarmos à
estatura e varonilidade (maturidade) de Cristo (Ef 4.13),

171
O HABITAT HU MANO - O PARAÍSO AUSENTE

então haveremos de ver as coisas "face a face", de maneira


que nenhuma dúvida pairará em nosso coração. Então,
os remidos partirão para o conhecimento perfeito (ainda
que não exaustivo) de Deus e de sua obra redentora. Na
nova terr a, Deus nos dará a conhecer coisas que o nosso
ouvido não pode ouvir, os nossos olhos não podem ver
agora, nem o nosso coração pode crer. Nessa época, co-
nheceremos como também somos conhecidos. Não simples-
mente veremos o Senhor face a face (Ap 22.4), mas todas
as coisas que agora estão escondidas ou anuviadas se-
rão vistas e conhecidas sem qualquer impedimento. Por
enquanto, contudo, temos de nos contentar em desfrutar
parcialmente do conhecimento porque essa é a porção que
Deus nos deu neste presente habitat sob sua maldição. Já
somos livres, mas não gloriosamente livres!
c) Neste habitat ainda não remido, o cristão não
pode desfrutar da liberdade gloriosa porque o seu amor
por Deus ainda não é refinado
Assim como a nossa fé é pequena e tem de ser aumen-
tada, o nosso amor por Deus ainda é imperfeito. Amamos
a Deus, mas precisamos da ajuda dele para o amarmos de
todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e
com toda a força. O mandamento de Jesus sobre esse tipo
de amor ainda não foi realizado em nós. Falta refinamento
ao nosso amor. Nosso amor por ele ainda é misturado com
pecaminosidade. Somos interesseiros no amor; somos ego-
ístas no amor; somos afetados pela queda, que nos impede
de amar a Deus da maneira desejada por ele.
No entanto, quando tivermos a liberdade gloriosa, en-
tão Deus encontrará um refinado amor por ele em nossa
alma. Então, o nosso amor será puro, sem a mistura da
pecaminosidade, e seremos capazes de contemplar a bele-
za da sua glória sem ter de cair por terra como os discípu-
los no monte da transfiguração. O pecado não será mais
empecilho para o nosso amor por ele. Naquele tempo, nos
aproximaremos de Jesus e veremos a sua glória (Jo 17.24).

172
VERDADES SOBRE A CRIAÇÃO A SER RESTAURADA

Então, não haverá mais distãncia, não haverá mais sepa-


ração, não haverá mais frieza com relação aos irmãos e ao
nosso Senhor. Não teremos nenhum impedimento na de-
monstração de nosso amor ao Senhor. Deus fará brilhar a
sua glória em nós. Será um grande contraste com o tempo
que se chama "hoje". No dia de Cristo, refletiremos o ca-
ráter de Deus em nosso amor cheio de refinamento. Esse
será o tempo de uma liberdade gloriosa!
d) Neste habitat ainda não remido, o cristão não
pode desfrutar da liberdade gloriosa porque os seus pe-
cados não foram removidos
A penalidade dos nossos pecados já foi paga. Tudo o
que tinha de ser feito para a redenção dos pecados já foi
feito historicamente na obediência ativa e passiva de Jesus
Cristo. Toda a obra extra nos já foi feita, mas ainda falta
o completamento das opera intra nos. Historicamente, os
nossos pecados já foram removidos da vista de Deus pe-
las obras de Cristo, porque esses pecados não mais nos
condenam, mas eles ainda não foram removidos de dentro
de nós. Deus já nos tirou da lama do pecado, mas, por
motivos que desconhecemos, ainda não retirou a lama de
nossos pecados de dentro do nosso ser.
Enquanto essa limpeza não for concluída, não desfru-
taremos de uma liberdade gloriosa. As riquezas da graça
de Cristo já estão sobre nós, todavia não ainda a "riqueza
de sua glória". Já temos a liberdade da graça, mas ainda
não temos a liberdade da glória como filhos de Deus. Já
somos capazes de obedecer e agradar a Deus, mas não
completamente. Temos o "já" da liberdade graciosa, mas o
"ainda não" da liberdade gloriosa, até que haja a libertação
completa de nossos pecados no dia de Cristo Jesus. A
esperança da glória nós temos, mas não ainda a glória que
essa esperança nutre!
Levantemos os nossos olhos para o céu, esperando
a vinda do Senhor, para que, com a limpeza completa de

173
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

nossos pecados, possamos ter livre acesso às manifesta-


ções gloriosas a que os seres humanos, vivendo neste pre-
sente habitat, jamais tiveram!
Paulo, como um grande agraciado de Deus com mais
do que a salvação, teve vislumbres do Cristo cheio de gló-
ria quando da sua transformação. O Senhor apareceu a
ele de uma maneira única. Ele testemunhou ao rei Agripa
que, enquanto perseguia os cristãos, Ao meio-dia, ó rei,
indo eu caminho fora, vi uma luz no céu, mais resplande-
cente que o sol, que brilhou ao redor de mim e dos que iam
comigo (At 26.13). Ele viu o Senhor e a glória que o en-
volvia. Deus lhe deu essa grande experiência que vamos
ter em medida ainda maior. Provavelmente, essa experi-
ência aconteceu a Paulo para que ele pudesse nos escre-
ver sobre a liberdade gloriosa que os cristãos receberão
no seu confrontamento com Jesus Cristo no seu dia. Na
consumação da redenção, nós veremos todas as coisas
gloriosas que o Senhor fez por nós, em nós e em nosso
lugar, retirando todos os resquícios de pecado que ainda
estiverem em nosso corpo e em nossa alma. Então, vere-
mos a glória da sua criação como a plenitude da glória
de sua redenção! Esta é a liberdade gloriosa que todos os
genuínos cristãos anelam!
e) Neste habitat ainda não remido, o cristão não
pode desfrutar da liberdade gloriosa porque ainda não foi
conformado à imagem de Cristo
Com a queda, tivemos a imagem de Deus desfigurada
em nós. Perdemos a retidão, a santidade e o conhecimento
de Deus - a chamada justiça original.
No entanto, temos uma grande esperança, poderosa
em nossa alma - porque somos salvos nessa esperan-
ça (Rm 8.24) -, de ter a imagem divina restaurada em
nós. Nada derruba essa esperança porque ela é certa e
segura, a esperança da glória! O completamento de nossa
redenção na conformação plena à imagem de Cristo não

174
VERDADES SOBRE A CRIAÇÃO A SER RESTAURADA

vai falhar, porque é promessa daquele que nos fez à sua


imagem e semelhança.
• A esperança de sermos conformados à imagem de
Cristo não falha nunca porque é uma afirmação feita na
eternidade:

Porquanto aos que de antemão conheceu, também os


predestinou para serem conformes à imagem de seu
Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos
irmãos (Rm 8 .29).

A maravilha desse versículo de Paulo é que somos


destinados de antemão por Deus para sermos parecidos
com Jesus Cristo. Ele é o nosso irmão mais velho, o pri-
mogênito, e a sua obra por nós e em nós nos tornará como
ele em sua humanidade. Seremos, portanto, conformados
à sua imagem! Quando essa conformação terminar, então
seremos cheios da liberdade gloriosa! Todavia, não antes.
A liberdade da graça que ora desfrutamos não nos dá aces-
so às manifestações gloriosas a que os remidos têm direito
pela obra de Cristo. Isso só acontecerá no Dia de Deus.
Mas temos a garantia, pela afirmação da Palavra de Deus,
de que estamos destinados de antemão para essa confor-
mação à imagem do Filho de Deus!
• A esperança de sermos conformados à imagem de
Cristo não falha porque esse processo já se iniciou em nós:

Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do
velho homem com os seus Jeitos, e vos revestistes do novo
homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo
a imagem daquele que o criou (Cl3.9,10) .

175
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Nenhum dos filhos de Deus ficará desapontado nessa


esperança porque cada um deles experimenta essa trans-
formação dia a dia, paulatinamente. Deus está operando
em nós essa conformação à imagem do seu Filho. Esse
processo é doloroso (porque implica a autonegação), mas é
um processo maravilhoso que aponta para o dia da liber-
dade gloriosa.

E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como


por espelho, a glória do Senhor, somos transformados
de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo
Senhor, o Espírito (2Co 3.18).

Esse processo iniciado por Deus em nós certamente


atingirá o seu clímax no dia em que Cristo chegar. É uma
transformação processual, paulatina, longa, mas certa!
Um dia refletiremos perfeitamente a imagem de Cristo!
A promessa de ter a imagem completamente restau-
rada é confirmada pelo apóstolo João:

Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se


manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando
ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque
havemos de vê-lo como ele é. E a si mesmo se purifica
todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro
(lJo 3 .2 ,3) .

Por essa razão, devemos ter os olhos fitos na


chegada desse grande dia do completamento da nossa
redenção, no qual adentraremos os portais da liberdade
gloriosa. Você já imaginou ser igual a Jesus, segundo

176
VERDADES SOBRE A CRIAÇÃO A SER RESTAURADA

a sua humanidade? Já pensou refletir perfeitamente a


sua imagem? Você deve criar o hábito de pensar nessas
coisas. Tal hábito tornará a sua vida de sofrimento muito
mais leve de carregar. A meditação nas coisas que Deus
vai fazer em nós nos acalenta nos tempos de tribulação
em que vivemos hoje e que enfrentaremos muito mais
duramente em dias futuros. Reflita sobre esse dia
glorioso! O dia de Cristo será o tempo da libertação da
criação que geme e do cristão que geme. Esse será o
tempo da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Mas, por
ora, apenas aguardamos, cheios de esperança, que esse
dia chegue. Até lá, desfrutemos da liberdade da graça,
vivendo em obediência a Deus. É isso que nos cabe fazer,
e peçamos a Deus a graça de sermos vitoriosos nisso!

APLICAÇÕES
• É meu desejo que os olhos do seu coração sejam ilu-
minados a fim de que você possa vislumbrar uma liberda-
de muito maior do que a que tem hoje, e que você conheça
a gloriosa herança de que somente o povo de Deus pode
partilhar (cf. Ef 1.16-23).
• É desejo do meu coração que, ao vislumbrar a li-
berdade gloriosa que o espera, você tenha o seu coração
invadido agora por uma santa alegria que só os remidos
podem experimentar (cf. Is 60.1-5).
• É desejo do meu coração que você seja cheio da es-
perança da glória (Cl 1.27), a fim de que possa desfrutar
da liberdade gloriosa que lhe está prometida.
• É desejo do meu coração que você seja encorajado a
praticar a liberdade espiritual aqui mesmo neste mundo, a
fim de que esteja bem preparado e habilitado para desen-
volver de modo pleno a sua liberdade gloriosa no mundo
por vir, porque ali você terá, de maneira completa e pere-
ne, a luz da vida (Jo 8.12).

177
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

• É meu desejo que no habitat futuro você contemple


a glória do Senhor e jamais seja envergonhado (Sl 34.5)
por exercitar a liberdade gloriosa!
• É meu desejo que você creia no Senhor da glória
hoje a fim de que desfrute da liberdade gloriosa amanhã!

3. A RESTAURAÇÃO DA CRIAÇÃO FÍSICA SERÁ


PRECEDIDA PELA RESTAURAÇÃO DOS FILHOS DE
DEUS

E não somente ela [a criação] , mas também nós, que temos


as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso
íntimo, aguardando a adoção de filhos , a redenção do
nosso corpo (Rm 8.23) .

A redenção da criação física não acontecerá até que


Deus termine a redenção dos seus filhos. Nossa reden-
ção é um processo que começa e termina neste presente
habitat.

1) A RESTAURAÇÃO DOS FILHOS COMEÇA EM NOSSA


ALMA AQUI NESTE HABITAT

... mas também nós, que ternos as primícias do Espírito


(Rrn 8 .23b).

Essa restauração diz respeito à nossa alma, e não ao


nosso corpo. A redenção dos homens começa quando a
obra regeneradora acontece. A partir dessa obra do Espírito
Santo naqueles que estão para se tornar filhos de Deus ,

178
VERDADES SO BRE A CRI AÇÃO A SER RESTAU RADA

esse mesmo Espírito é chamado de "primícias" em nossa


vida, os primeiros frutos da redenção divina em nós. Essa
obra do Espírito Santo começa na nossa interioridade .
Deus, implantando vida em nós , inicia um processo de
limpeza, de despoluição de nossa alma. A inclinação
adãmica vai morrendo à medida que a inclinação santa
vai tomando o seu lugar. O novo homem interior é obra de
Deus em nós. O velho homem vai desaparecendo, e nós
somos paulatinamente transformados em novo homem.

2) A RESTAURAÇÃO DOS FILHOS DE DEUS TERMINA


AQUI NESTE HABITAT

aguardando a adoção de filhos , a redenção do nosso


corpo (Rm 8.23c).

Essa restauração diz respeito ao corpo, e não à alma.


A redenção do corpo acontecerá de uma vez, em um só ato
do Senhor, diferentemente da alma, cuja restauração é um
processo. Enquanto houver alguma coisa antiga, as coisas
novas não estarão completas. Só teremos o completamen-
to da redenção de nossa alma quando a última impureza
for tirada de nosso coração.
Nesse processo , Deus nos liberta de nossa inclinação
pecaminosa e nos enche de santa inclinação, que se com-
pleta no final de nossa existência neste mundo antigo, ou
na vinda de Cristo , mas ainda neste mundo velho .
Todo esse processo de redenção de nossa alma, do
início ao fim , se dá neste mundo, ainda sob queda. As
coisas antigas se tornam novas, mas paulatinamente.
Somente as transformações do último dia- a redenção
do corpo - é que serão repentinas.

179
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

3) O DESFRUTE DA RESTAURAÇÃO DOS FILHOS DE


DEUS SERÁ NO NOVO HABITAT
Embora a redenção final se dê neste mundo antigo,
ainda sob o efeito da queda, o desfrute da redenção não
será aqui, mas no mundo em que a totalidade da criação
será redimida. Criaturas redimidas só podem desfrutar
a plenitude da vida em Cristo, contemplando a glória de
Cristo, num mundo redimido.

4. A RESTAURAÇÃO DA CRIAÇÃO FÍSICA ESTÁ


CONECTADA À SEGUNDA VINDA DE CRISTO

ao qual [Jesus] é necessário que o céu receba até aos


tempos da restauração de todas as coisas, de que
Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a
antiguidade (At 3. 21).

Na plenitude dos tempos haverá a restauração de to-


das as coisas, a qual está vinculada diretamente à obra de
Jesus Cristo. Tudo está amarrado à sua obra redentora,
porque esta tem efeitos cósmicos.

de Jazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos


tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra
(Ef 1.10).

Deus tornou possível a restauração de todas as coi-


sas pela obra de Jesus Cristo. O objeto principal da reden-
ção é o ser humano, mas este não pode habitar um lugar
deteriorado e corrompido pela queda. Por isso, Cristo veio

180
VERDADES SOBRE A CRI AÇÃO A SER RESTAURADA

também para redimir o lugar onde os redimidos habitarão


para sempre.
Todas as coisas (exceto Satanás, seus anjos e os não
eleitos) serão restauradas no tempo da vinda de Cristo. Ele
só descerá dos céus nesse tempo, pois essa é a mensagem
dos profetas.
A redenção do nosso habitat é a restauração à sua
forma pura, original. O homem reinava ali no Éden, sendo
um corregente do Criador. Depois da queda, ele perdeu o
domínio perfeito do habitat e passou a usá-lo para seus
propósitos ímpios e egoístas, não tratando a terra como
deveria. Mas Deus , por sua graça, restaurará o homem e o
porá no habitat restaurado para que ele venha a ter nova-
mente o governo do mundo material. Esse é o sentido da
redenção humana e da redenção do universo fisico.

181
Parte 2

A DESTRUIÇÃO DO
PRESENTE HABITAT

ANÁLISE DE 2PEDRO 3. 1-1 o


CAPÍTULO 5

A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE
HABITAT PRECISA SER LEMBRADA
PELOS DESTINATÁRIOS DE PEDRO

Amados, esta é, agora, a segunda epístola que


vos escrevo; em ambas, procuro despertar com
lembranças a vossa mente esclarecida, para que
vos recordeis das palavras que, anteriormente,
foram ditas pelos santos profetas, bem como do
mandamento do Senhor e Salvador, ensinado pelos
vossos apóstolos (2Pe 3.1,2).

Pedro havia tido a revelação de Jesus Cristo de que


estava para morrer. Então, ele se empenhou para deixar
claras, na mente de seus leitores, as coisas que haviam
acontecido no passado (cf. 2Pe 1.12-15). Pedro queria que
eles se lembrassem das profecias e dos fatos históricos,
a fim de que a verdade de Deus fosse preservada. Nessa
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

carta, Pedro adverte contra os falsos mestres e profetas.


Por essa razão, ele quer deixar bem fresco na memória de-
les o que já havia sido dito pelos santos profetas, por Jesus
Cristo e pelos apóstolos.

1. QUEM SÃO OS DESTINATÁRIOS?

1. OS DESTINATÁRIOS SÃO GENTE AMADA

Amados, esta é, agora, a segunda epístola que vos escrevo


(2Pe 3.1a).

Pedro usa quatro vezes, nesse capítulo, a pala-


vra "amados" ao dirigir-se aos seus destinatários (2Pe
3.1 ,8, 14, 17). A palavra usada por Pedro é agapao (relativa
a agape, amor). Os destinatários de Pedro:
1) São amados de Deus Pai (razão pela qual são seus
eleitos [1Pe 1.1], regenerados por seu Espírito [1Pe 1.2]).
2) São amados de Deus Filho (porque foram redimi-
dos por ele, não com ouro ou prata, mas pelo seu precioso
sangue [1Pe 1.18, 19]).
3) São amados por Pedro (1Pe 2.11; 2Pe 3.1,8, 14, 17),
pelas razões acima, relativas ao amor do Pai, do Filho e do
Espírito, e porque tinham a mesma fé que ele.
Pedro mostra o seu amor pelos crentes dispersos por
muitos cantos do mundo conhecido de então (1Pe 1.1). Há
ternura em Pedro quando chama seus irmãos de "ama-
dos". Ele estava escrevendo a respeito de coisas duras con-
tra os falsos mestres, mas a sua atitude para com seus
destinatários era de amor cheio de ternura, pois ele queria
vê-los longe dos erros doutrinários que tanto mal causam
à igreja de Deus.

186
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT PRECISA SER LEMBRADA PELOS DESTINATÁRIOS DE PEDRO

2. OS DESTINATÁRIOS SÃO GENTE DE MENTE PURA

Amados, esta é, agora, a segunda epístola que vos


escrevo; em ambas, procuro despertar com lembranças a
vossa mente esclarecida (2Pe 3.1).

Os destinatários de Pedro não eram pessoas ignorantes


espiritualmente. Ao contrário, os peregrinos e forasteiros eram
certamente pessoas bem formadas, com mente esclarecida.
Contudo, as palavras gregas ELÀLKpLVTJ oLávowv (eilikrine
dianoian), traduzidas por "mente esclarecida", podem ser me-
lhor traduzidas por "mente pura", "mente sincera" ou "mente
imaculada". Por causa dessa tradução, não devemos pensar
que a mente dos amados de Deus não é contaminada pelo
pecado. Pedro tem alguns propósitos ao chamar os forastei-
ros de "mente pura". Tom Ferrei enumera três:

1) O termo "mente pura" explica que a maioria, embora


abalada pela situação, ainda anda na verdade em
termos de aderência à fé apostólica. Eles ainda criam
no evangelho. A mente deles não tinha sido entregue à
concupiscência e às heresias que giravam ao seu redor.
2) Pedro escolheu essa expressão para encorajar esses
crentes a permanecerem leais ao evangelho e àqueles que
o tinham ensinado a eles. 3) Este termo é também uma
evidência das misericórdias preservadoras de Deus. A
preservação na verdadeira fé é sempre um testemunho da
graça, do poder e da fidelidade de Deus. 63

63
Tom Ferrei, A growth that endures, p. 3, disponível em: <http://www.
a pcweb. org/1 mages/Sermons/second peter/2 Peter3 _1-4_734. pdf>,
acessado em: 01/02/2012.

187
O HABITAT HU MANO - O PARAÍSO AUSENTE

Os leitores de Pedro não poderiam ter mente impura,


ou seja, predisposta aos erros que ele estava condenando em
sua carta. A mente deles deveria ser escoimada de qualquer
semente de impureza doutrinária. John Gill diz que Pedro

Chama a mente dele de pura; não que ela o seja


naturalmente, porque a mente e a consciência dos
homens são universalmente manchadas pelo pecado;
nem é a mente de todos os homens pura de modo que
o pareça ser aos seus próprios olhos ou aos olhos dos
outros; nem pode qualquer homem, por seu próprio poder
ou obras , fazer-se a si mesmo puro de pecado; somente
o sangue de Cristo purifica e limpa; e uma mente pura
é uma mente aspergida com esse sangue e que recebe a
verdade como ela está em Jesus, em seu poder e pureza,
e que mantém o mistério da fé numa consciência pura. 64

A mente pura, portanto, no entendimento de Pedro, tem


a ver com a mente que não absorve as impurezas da doutrina
dos falsos mestres, preservando firmemente a palavra da vida.

2 . DE QUE PEDRO LEMBRA OS DESTINATÁRIOS?

.. . para que vos recordeis das palavras que, anteriormente,


foram ditas pelos santos profetas, bem como do
mandamento do Senhor e Salvador, ensinado pelos vossos
apóstolos (2Pe 3.2).
64GILL, John, comentário de 2Pedro 3.1, disponível em : <http://www.
studylight.org/com/geb/view.cgi?book=2pe&chapter=003&verse=001>,
acessado em 01/02/2012.

188
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT PRECISA SER LEMBRADA PELOS DESTINATÁRIOS DE PEDRO
----

O objetivo de Pedro é trazer à lembrança dos seus lei-


tores o que foi dito sobre a destruição do presente habitat
humano no Dia de Deus.

1. OS DESTINATÁRIOS SÃO LEMBRADOS DAS


PALAVRAS DE DEUS DITAS PELOS PROFETAS E
APÓSTOLOS
Tanto os profetas do Antigo Testamento quanto os
apóstolos do Novo foram expositores das verdades recebi-
das de Deus, comunicando-as ao povo. Eles são mencio-
nados aqui porque falavam movidos pelo Espírito Santo,
sendo porta-vozes normativos para os cristãos em toda
parte e em todas as épocas. Suas palavras deveriam ser
lembradas pelos destinatários de Pedro. O fundamento da
igreja está nos escritos dos profetas e dos apóstolos. Os
profetas do AT e os apóstolos do NT eram figuras com fun-
ções semelhantes em períodos diferentes.
• As coisas relativas ao fim desta terra foram pro-
fetizadas no Antigo Testamento, especialmente pelo
profeta Isaías, com algumas pequenas sugestões no
profeta Ezequiel. As palavras dos profetas não poderiam
ser ignoradas pelos cristãos forasteiros, destinatários de
Pedro. Elas tinham que ser guardadas em sua memória.
• As coisas relativas ao fim desta era também fo-
ram vaticinadas pelos apóstolos do Novo Testamento.
Praticamente todos os apóstolos que escreveram, especial-
mente Mateus, Paulo, Pedro e João, têm um material ra-
zoavelmente abundante sobre o fim desta terra e sobre o
estabelecimento da nova terra.
Profetas e apóstolos apresentavam a mensagem do
Messias ao povo de Deus, alertando-o acerca de uma vida
de retidão nesta terra, aprontando-o para o encontro com
Jesus Cristo na sua segunda vinda. Os profetas, especial-
mente, vaticinavam as verdades, e os apóstolos interpre-
tavam essas verdades, mas com a mesma autoridade, pois

189
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

o mesmo Espírito Santo trabalhava neles enquanto eram


porta-vozes da verdade divina.

2. OS DESTINATÁRIOS SÃO LEMBRADOS DAS


PALAVRAS DE DEUS DITAS POR JESUS CRISTO
Referindo-se à mensagem de Jesus Cristo que pre-
cisava ser lembrada, Pedro usa o termo "mandamento",
apontando para o caráter inquestionável da ordenação
divina.
Os ensinos de Jesus Cristo aparecem de forma extra-
ordinariamente clara em Mateus 24 e 25 , bem como em
outros evangelhos. Em Apocalipse, Jesus apresenta uma
visão maravilhosa das coisas do fim, com discursos pun-
gentes e pertinentes sobre o destino final da terra, dos ím-
pios e dos remidos.
As parábolas de Jesus têm uma forte tonalidade esca-
tológica e não poderiam ser esquecidas. Tudo o que Pedro
chama de "mandamento" de Jesus tem de ser lembrado, a
fim de que os cristãos não sejam influenciados pela incre-
dulidade dos falsos profetas.
O mandamento de Jesus Cristo é o coração do evan-
gelho. Os apóstolos também foram intérpretes das pala-
vras de Jesus registradas nos evangelhos. Muitas coisas
sobre o fim do presente habitat foram ditas por eles com
base nos ensinos de Cristo sobre o julgamento da terra e
dos ímpios, os novos céus e a nova terra.
A estratégia dos falsos profetas e mestres era desacre-
ditar as palavras dos profetas do AT, dos apóstolos do NT e
o próprio mandamento de Jesus Cristo. Eles lançavam ata-
ques sobre a doutrina de Cristo. Daí a ordem de Pedro para
que os forasteiros se lembrassem do que eles haviam dito.

190
CAPÍTULO 6

A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE
HABITAT É MOTIVO DE ESCÁRNIO
PARA OS ÍMPIOS

tendo em conta, antes de tudo, que, nos últimos


dias, virão escamecedores com os seus escárnios,
andando segundo as próprias paixões e dizendo:
Onde está a promessa da sua vinda? Porque, desde
que os pais dormiram, todas as coisas permanecem
como desde o princípio da criação (2Pe 3.3,4).

Como apóstolo que é e com a autoridade que lhe foi


dada, Pedro tem a capacidade dada por Deus de vaticinar
a vinda de pessoas ou de eventos que haveriam de aconte-
cer em tempos futuros.
O termo "escarnecedores" (EIJ.TTaL KTat) aparece so-
mente mais uma vez no Novo Testamento, em Judas 18.
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Significa o mesmo que "zombadores". Simon Kistemaker


nos adverte de que a palavra "escarnecedores não deve ser
confundida com zombeteiros ou galhofeiros. Esses termos
descrevem frivolidade, mas escarnecedor é um pecado
que é deliberado. O escarnecer ocorre quando os homens
mostram um desprezo proposital em relação a Deus e seu
Filho". 65

1) O TEMPO DA CHEGADA DOS ESCARNECEDORES

O texto de Pedro fala claramente do tempo da chega-


da dos escarnecedores, que seria nos últimos dias .

... tendo em conta, antes de tudo, que, nos últimos dias,


virão escamecedores com os seus escárnios (2Pe 3.3).

Esses escarnecedores sempre existiram na vida do


povo de Deus, desde o Antigo Testamento, mas a ideia é
que "nos últimos dias", que se iniciaram ainda no tempo
de Pedro, eles se multiplicariam. Quanto mais próxima a
vinda de Cristo, mais a igreja de Deus deparará com esses
escarnecedores. Nos últimos dias, todas as coisas boas e
ruins se precipitam, e tudo recrudesce à medida que o Dia
de Deus se aproxima.
A expressão "últimos dias" é típica da escatologia do
Antigo Testamento, que esperava vários eventos do começo
do fim , incluindo a vinda do Messias. Michael Green nos
diz que "com o advento de Jesus, o último capítulo da his-
tória humana tinha sido aberto, embora não completado.

65
KISTEMAKER, Simon J. Peter and Jude. New Testament commentary series.
Grand Rapids: Baker Book House, 1987, p. 194.

192
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT É MOTIVO DE ESCÁRNIO PARA OS ÍMPIOS

O intervalo entre os dois adventos abarca o último tempo,


o tempo da graça, o tempo, também, de oposição". 66
A expressão "últimos dias" é encontrada em outros
lugares da Escritura67 e é equivalente a expressões como:
"plenitude do tempo" (Gl 4.4), "últimos tempos" (Is 9.1;
1Tm 4.1), "último tempo" (1Pe 1.5; Jd 18), "tempo do fim"
(Dn 8.17,19), "tempos cumpridos" (1Co 10.11), "última
hora" (1Jo 2.18), "fim dos tempos" (1Pe 1.19,20), "fim dos
séculos" (1Co 10.11).
Embora algumas passagens do Antigo Testamento
(como Dn 2, por exemplo) possam se referir a um hori-
zonte profético de cumprimento próximo, é melhor olhá-
-las como se referindo a dias bem distantes, num futuro
longínquo dos dias do escritor. Há, portanto, certa elasti-
cidade na extensão desses "últimos dias". Os últimos dias
sempre apontam para o futuro na perspectiva do AT, to-
davia o cumprimento e a expansão desse futuro não são
sempre os mesmos. O leitor atento das Escrituras sempre
terá que levar em conta o assunto da perspectiva profética,
que pode ter cumprimento próximo ou remoto.
No que diz respeito a essa expressão no Novo
Testamento, havia uma consciência clara entre os escrito-
res de que eles estavam vivendo os últimos dias.
2) O COMPORTAMENTO DOS ESCARNECEDORES
Pedro deixa claro qual seria o procedimento dos es-
carnecedores nos últimos dias:

andando segundo as próprias paixões (2Pe 3 .3b).

66
GREEN, Michael. 2Peter and Jude. Grand Rapids: William B. Eerdmans
Publishing Company, 1987, revised edition, p. 126,137.
67
Dt 4.30; 31.29; Jr 23 .20; 48.47; 49.39; Dn 2.28; Os 3.5; Mq 4.1,2; At 2.17;
2Tm 3.1; Hb 1.2; Tg 5.3.

193
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Esses "últimos dias" serão caracterizados pela pre-


sença dos escarnecedores, que não somente haverão de
negar verdades escatológicas, mas também viver dissolu-
tamente, seguindo suas próprias paixões pecaminosas. A
presença cada vez mais recrudescente desses escarnece-
dores aponta para a proximidade do Dia do Juízo que virá
sobre os homens ímpios. À medida que o fim se aproxima,
e o tempo da segunda vinda de Cristo chega, podemos ver
como esses escarnecedores procedem loucamente.
As "ímpias paixões" dos escarnecedores já podiam ser
vistas na descrição que o salmista fez deles:

Os olhos saltam-lhes da gordura; do coração brotam-lhes


fantasias . Motejam e falam maliciosamente; da opressão
falam com altivez. Contra os céus desandam a boca, e
a sua língua percorre a terra. Por isso, o seu povo se
volta para eles e os tem por fonte de que bebe a largos
sorvos. E diz: Como sabe Deus? Acaso, há conhecimento
no Altíssimo? Eis que são estes os ímpios; e, sempre
tranquilos, aumentam suas riquezas (Sl 73.7-12) .

O que o salmista ensina aqui é que , quando as pes-


soas duvidam da palavra de Deus, passam a desacreditar
o próprio Deus. O resultado é que se voltam contra ele ,
escarnecendo do que é dito a seu respeito e do que ele faz.
Quando as pessoas perdem o respeito pela doutrina de
Deus, certamente perdem o respeito pelo próprio Deus, fa-
lando maliciosamente contra ele e desandando a boca con-
tra os céus. O resultado prático de "suas próprias paixões"
é que , por sua zombaria, acabam atraindo outras pessoas
que têm a mesma potencialidade para zombar. O escarne-
cimento começa no ensino falso , que leva ao desrespeito
pela doutrina de Deus. Por isso, o salmista diz que , pelo

194
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HA BITAT É MOTIVO DE ESCÁRNIO PARA OS ÍMPIOS

ensino falso desses homens ímpios, o "povo se volta para


eles e os tem por fonte de que bebe a largos sorvos".
Nesse texto, Pedro ensina sobre o comportamento dos
escarnecedores, sobre a vida pessoal deles. Pedro não está
preocupado somente com o ensino errôneo, mas também
com o modo como viviam, para não serem uma influência
negativa na vida de seus leitores.
Em nossa sociedade podemos, hoje, encontrar muitas
pessoas blasfemas e arrogantes, que levantam a sua boca
contra o céu, em impropérios e escárnios de toda espécie
contra o Senhor dos céus. Ademais, elas escarnecem pu-
blicamente, expondo a maldade de suas palavras e atos,
dizendo que Deus não existe ou que ele não está preocu-
pado com este mundo.
Os escarnecedores, tanto do passado quanto do pre-
sente, seguem o caminho da negação da vinda de Cristo
para poderem continuar em suas ímpias paixões. Se
eles admitem a vinda de Cristo, não mais podem viver
dissolutamente .

Eles sabem que admitir o retorno de Cristo e continuar


seguindo suas próprias paixões ímpias é reconhecer
a futilidade do caminho que estão buscando. Como
podem eles viver no caminho em que estão e crer num
julgamento vindouro por causa dos pecados que, de
coração, estão praticando? Assim, a negação do retorno
de Cristo, na forma de escárnio, lhes permite continuar
em seu próprio caminho sem sentimento de culpa.68

68
MEUNIER, David. Sermão sobre The de/ay of Christ's return 2 Peter 3:1-9,
disponível em : <http://www.plainvillebaptist.org/Sermons/2Pe3_01_09.htm>,
acessado em 01/02/2012.

195
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

3) OS ESCÁRNIOS DOS ESCARNECEDORES

A) OS ESCARNECEDORES ZOMBARIAM DA VINDA DO


SENHOR

... dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? (2Pe 3.4).

É interessante observar que a linguagem dos escar-


necedores é uma linguagem, de certa forma, piedosa. Eles
n ã o negam a religião nem a tradição, pois afirmam a mor-
te dos pais, falam da promessa de Deus, da criação do
mundo e da morte (v. 3 ,4). No entanto, negam verdades
fundamentais da Escritura com sua linguagem "piedosa".
Deffinbaugh diz que "eles usam uma terminologia ortodo-
xa , mas têm criado uma teologia herética". 69
Os escarnecedores sempre zombaram das coisas fi-
nais: 1) Eles escarneceram da ressurreição (1Co 15.32).
Alguns afirmavam que a ressurreição já havia aconteci-
do (2Tm 2.18). 2) Eles escarneceram de um futuro dia do
Senhor, julgando que esse dia já havia passado (2Ts 2.1 ,2).
Todavia, o ponto importante para Pedro é que eles escar-
neciam da promessa da vinda de Jesus.
O meio mais eficaz de influenciar a igreja cristã desa-
visada é minando a autoridade da palavra de Deus. "Onde
está a promessa da sua vinda?" Os ouvintes desses fal-
sos profetas não tinham muito o que responder se não
tivessem convicção da veracidade do que havia sido dito
no passado pelos profetas, apóstolos e pelo próprio Jesus
Cristo. Quando os falsos profetas fazem perguntas como
essa, estão injetando veneno para desautorizar a palavra

59
DEFFINBAUGH, Bob, Scoffers, the second coming, and Scripture (2 Peter
3:1-13 ), disponível em : <http ://bible.org/seriespage/scoffers-second-
coming-and-scripture-2-peter-31-13>, acessado em: 01/02/2012.

196
A DESTRU IÇÃO DO PRESENTE HABITAT É MOTIVO DE ESCÁRNIO PARA OS ÍM PIOS

divina. Eles não querem que os cristãos ouçam da simpli-


cidade e da clareza das Escrituras . Quando os cristãos ou-
vem a Escritura dessa forma, creem nela inapelavelmente.
Então , os falsos profetas procuram desacreditar a au-
toridade da palavra. "Onde está a promessa da sua vinda?"
Essa é uma pergunta sarcástica em virtude de afir-
mações err ôneas de cristãos imprudentes. Muitos hoje
zombam da ideia da vinda de Cristo por causa da péssima
teologia escatológica vigente entre evangélicos. Zomba-se
da palavra de Deus porque pessoas a têm usado indevida-
mente, dando interpretações desastrosas que trazem ver-
gonha à verdade de Deus.
Esses cristãos infelizes costumam marcar o tempo da
vinda do Senhor, e nada acontece. Movimentos de gran-
de envergadura da igreja evangélica americana e brasileira
anunciaram que o Senhor voltaria na década de 1980, por
meio de publicações de livros de Hal Lindsay, como A ago-
nia do planeta Terra, vendidos aos milhões, e nada acon-
teceu. Edgar C. Whisenant escreveu um livreto intitulado
Eighty-eight Reasons Why the Lord Will Retum in 1988 [88
Razões por que o Senhor retornará em 1988], vendendo
muitos exemplares nos Estados Unidos, e nada aconteceu.
Essas publicações colocam lenha na fogueira da-
queles que duvidam da veracidade das afirmações das
Escrituras . Os falsos mestres se apegam às falsas afirma-
ções de famosos escritores cristãos e zombam da verdade
de Deus. Eles negam a atividade interventora de Deus no
mundo. Para eles, Deus não está se importando com o que
acontece na história.
Em razão desses desapontamentos, caiu muito o in-
teresse pelo estudo sobre a volta do Senhor, mesmo em
alguns círculos cristãos. Muita munição foi dada para os
falsos mestres, que zombam da vinda do Senhor. Até que
chegue o tempo da volta de Jesus, os homens ímpios es-
carnecerão da sua parousia.

197
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

B) OS ESCARNECEDORES ZOMBARIAM DO JUÍZO DE


DEUS
Há um outro problema consequente que o texto não
menciona, mas que está implícito: A negação da segunda
vinda de Cristo acarreta a negação do juízo de Deus, já que
Cristo é o executor desse juízo, o qual não poderá ocorrer
sem a presença dele neste mundo.
É como se os escarnecedores dissessem: "Deus não
vai intervir com julgamento neste mundo, como vocês,
cristãos, dizem. Ele não vai julgar o mundo. Afinal de
contas , é um Deus de amor. Não há limite para o seu
amor. Ele não vai despejar ira contra aqueles a quem
ama. Ele é misericordioso com todos, e não há limite em
sua misericórdia. A igreja não pode pregar essa mensa-
gem de horror".
Os homens zombam do juízo de Deus porque que-
rem continuar em seus pecados. Se a segunda vinda não
ocorrer, o juízo também não acontecerá. O que eles estão
dizendo é que, se Deus existe, ele nunca intervirá no curso
dos eventos neste mundo.
Os que zombam do juízo de Deus desprezam o ensino
da Escritura ou a interpretam falsamente. Eles minam a
palavra de Deus quando zombam da vinda do Senhor e do
seu juízo.
Eles escarnecem dessas coisas porque desejam con-
tinuar em seus próprios pecados e não querem que nin-
guém venha ameaçá-los com qualquer juízo futuro. Não
querem prestar contas a Deus do que fazem neste presen-
te habitat. Deffinbaugh diz que

esses zombadores foram compelidos a negar a segunda


vinda de Cristo, não pelo peso da evidência, mas devido à
culpa e ao engano produzidos por seus pecados. Eles são

198
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT É MOTIVO DE ESCÁRNIO PARA OS ÍMPIOS

levados por suas concupiscências impuras, não pela pura


lógica.70

Os escarnecedores do passado deixaram muitos dis-


cípulos no presente. Estes são incrédulos com respeito ao
que Deus vai fazer no futuro. Eles dão ouvidos à escatologia
dos maias (de que o mundo terminaria no ano de 2012), de
Nostradamus etc., mas não ouvem o que a Escritura diz.
Se dessem ouvidos a ela, temeriam ao Senhor. Também os
modernos escarnecedores estão cegados por seus pecados
e pela impureza de sua consciência.

C) OS ESCARNECEDORES NÃO TINHAM UMA VISÃO


CORRETA DA HISTÓRIA

Porque, desde que os pais dormiram, todas as coisas


permanecem como desde o princípio da criação (2Pe 3.4b).

Essa parte do versículo 4 nos leva a ouvir o que os es-


carnecedores parecem dizer: "Vocês, cristãos, anunciaram
a vinda do Senhor, e nada aconteceu. Na verdade, desde
que o mundo é mundo, nada mudou. Tudo continua sem-
pre igual. Desde o princípio as coisas estão como sempre
foram- sem alteração alguma" .
Porque os escarnecedores suprimiram o conhecimen-
to que tinham das ações divinas no passado, eles passa-
r am a ter uma filosofia diferente da história. Sua cosmovi-
são se tornou completamente humanista. Eles passaram a
ver a história independente dos atos de Deus, porque não
viam mais nenhuma ação divina nela. Eliminaram Deus

70
DEFFINBAUGH , Bob, disponível em : <http://bible.org/seriespage/scoffers-
second-coming-and-scripture-2-peter-31-13>, acessado em: 24/05/2013.

199
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

da história e passaram a vê-la unicamente como o palco


das ações humanas.
No decorrer dos séculos, os escarnecedores passaram
a seguir uma filosofia da história conhecida como uni-
formitarianismo, ou seja, a ideia de que todos os eventos
são iguais, sem a intervenção divina. Meunier disse que o
uniformitarianismo

é a crença de que tudo o que vemos no mundo natural


e tudo o que descobrimos, sejam fósseis, estruturas
geológicas ou lençóis de combustível, é derivado de
processos naturais que têm ocorrido por milhões
e milhões de anos. Eles não procuram explicações
sobrenaturais, como a criação e um dilúvio de caráter
mundial, porque isso exigiria deles admitir que um
Criador está vivo e ativo no Universo.71

Quando os homens negam o envolvimento de Deus


na história, eles removem Deus do cenário de sua própria
vida. Acabam ficando confusos em sua mente e invertem
as coisas, colocando a mentira no lugar da verdade. Não
percebem que estão andando exatamente de forma contrá-
ria à regra estabelecida por Deus. A eliminação de Deus
do cenário da vida humana libera os homens para viverem
licenciosamente, (é o que realmente fazem), pois o texto diz
que esses homens andam "segundo as próprias paixões".
Esses escarnecedores não olham a história do mun-
do de uma perspectiva correta. Eles até preferem igno-
rar os atos divinos na história. Aliás, acabam negando a

71
MEUNIER, David, em seu sermão sobre 2Pedro 3.1-9, The delay of
Christ's return, disponível em: <http :/ /www.plainvillebaptist.org/
Sermons/2Pe3_01_09.htm>, acessado em: 01/02/2012.

200
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT É MOTIVO DE ESCÁRNIO PARA OS ÍMPIOS
---

intervenção de Deus, porque isso lhes convém. O pensa-


mento dos escarnecedores é o seguinte: "Se é que há Deus,
ele não tem nada a ver com a história. Ele nunca interveio
nos eventos que acontecem aqui". Eles são deístas, elimi-
nando o Senhor do mundo que ele próprio criou.
É muito importante termos uma boa filosofia da
história, pois somente quando vemos a história teocen-
tricamente é que vemos os eventos de uma perspectiva
correta.
O raciocínio dos escarnecedores que tém uma filoso-
fia da história com tons uniformitarianistas pode ser ex-
presso da seguinte maneira:

Se todas as coisas podem ocorrer sem a interferência


divina, somente através de processos naturais, então
podemos concluir que não mais precisamos de Deus. Se
não precisamos de Deus, não temos ninguém a quem
devemos prestar contas. Portanto, podemos agir seguindo
as nossas próprias paixões, e nada nos acontecerã.

A resposta de Pedro a esse raciocm10 e a essa pers-


pectiva errônea da história, nos versículos 5 a 7, é pronta
e contundente. Ele ataca fortemente as razôes dos escar-
necedores, apontando para o seu grande problema: eles
ignoraram deliberadamente a Palavra de Deus.

Todos os três versículos sustentam a ênfase: é pela


palavra de Deus que a criação veio a existir. É pela
palavra de Deus que o dilúvio nos dias de Noé aconteceu;

201
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

é pela palavra de Deus que o juízo final deste mundo por


fogo acontecerá. 72

Portanto, a incredulidade na palavra de Deus faz com


que os escarnecedores deliberadamente se esqueçam dela.

72HUGH, Gil I, em seu sermão A reminder and warning to believers, baseado


em 2Pedro 3.1-7, disponível em: <http://www.biblebb.com/files/gr961.
htm>, acessado em: 01/02/2012.

202
CAPÍTULO 7

OS ESCARNECEDORES SE
ESQUECERAM DELIBERADAMENTE
DAS COISAS PASSADAS

Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo


tempo, houve céus bem como terra, a qual surgiu da
água e através da água pela palavra de Deus, pela
qual veio a perecer o mundo daquele tempo, afogado
em água (2Pe 3.5,6).

Os escarnecedores fazem o seu trabalho de zombaria


de um modo deliberado . Eles não são ignorantes quanto
ao que aconteceu no passado. Eles sabem tudo porque
já leram tudo o que foi dito pelos escritores da Bíblia e
pelos comentadores dos textos bíblicos. Têm consciência
muito clara do juízo de Deus que veio sobre os ímpios que
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

desprezaram o anúncio de Noé, o "pregoeiro da justiça".


Sabem tudo a respeito do retorno de Jesus e do seu juízo
final. Portanto, o seu esquecimento não é por falta de me-
mória, mas é um esquecimento deliberado que mostra que
as coisas que Deus faz devem ser ignoradas porque não
têm importãncia para eles. Por essa razão, eles continuam
a viver como sempre viveram: ignorando as promessas e as
ameaças de Deus.

1) O PECADO DO ESQUECIMENTO DELIBERADO

Os versículos 5 e 6 merecem ser analisados porque


nos levam ao coração da atitude incrédula dos escarne-
cedores . A atitude de seu coração ímpio os levou a supri-
mir os fatos da história de um modo deliberado. O "esque-
cimento deliberado" é o mesmo processo mental de que
Paulo fala em Romanos 1.18, quando diz que os homens
"detêm a verdade pela injustiça".
Meunier menciona um exemplo moderno de supres-
são da verdade:

no Texas , um paleontólogo descobriu pegadas humanas


dentro das pistas de dinossauros. Assim, o que fez
esse imparcial buscador da verdade quando encontrou
evidência de dinossauros coexistindo com seres
humanos? Ele começou a destruir as pegadas! Isto ê
supressão da verdade, e está acontecendo o tempo todo .73

73MEUNIER, David, em seu sermão sobre 2Pedro 3.1-9, The de/ay of


Chríst's return, disponível em: <http://www.plainvillebaptist.org/
Sermons/2Pe3 01 09 .htm>, acessado em: 01/02/2012 (grifo acrescido).

204
OS ESCARN ECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

Os homens , pela experiência do estudo sério, aca-


bam descobrindo verdades de Deus, mas são verdades
de que eles não gostam. Então, o que fazem? Suprimem
as verdades das provas físicas e apagam voluntariamen-
te de sua mente aquilo que descobrem, para não se ve-
rem em dificuldades com as suas próprias pressuposi-
ções contra Deus .
Os zombadores que Pedro menciona também su-
primiram propositadamente o conhecimento dos atos de
Deus , banindo-os de sua mente. Eles negaram a revelação
geral de Deus nos atos da história.
Geralmente os nossos esquecimentos não são delibe-
rados. O esquecimento de algum fato por uma falha men-
tal é perfeitamente compreensível a seres humanos, pois
nossa mente é falível. Mas o esquecimento deliberado é
muito sério. O esquecimento dos escarnecedores é propo-
sital, deliberado! A negligência da evidência da Escritura
não é um pecado de ignorãncia, mas um ato deliberado de
desprezar o que Deus diz na Escritura, da qual a evidência
deriva. Eles ignoraram a verdade de Deus, eliminando-a
propositadamente de sua mente . Negaram o que era óbvio
e, por isso, são indesculpáveis.
Um esquecimento deliberado do que Deus fez no pas-
sado é um pecado muito sério. Os falsos mestres, contra
os quais Pedro adverte , pecam tendo consciência de tudo
o que Deus fez. Simplesmente, eles procuram apagar da
mente as coisas que já ouviram que Deus fez. Esse é um
pecado intencional, premeditado, que viola qualquer rela-
cionamento com o Senhor.
A Escritura do AT faz uma distinção muito clara en-
tre os pecados não intencionais e os intencionais (ou de-
liberados). Os primeiros são aqueles produzidos pelo en-
gano do nosso coração e cometidos por ignorância. Esses
pecados enganam as pessoas , mas não são deliberados.
As pessoas são culpadas por cometê-los, mas existe uma
provisão para elas na lei divina (Lv 4.27).

205
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Os últimos, todavia, são deliberados, premedita-


dos, feitos consciente e propositadamente. Quando os
pecados são deliberados, parece não haver provisão di-
vina para eles. Na lei do AT não existe nenhuma pro-
vidência de expiação para aquele que peca deliberada-
mente. A pessoa que conhecia as prescrições divinas e
as violava era morta e eliminada do meio do povo. Ela
não foi enganada nem surpreendida numa falta. Não foi
levada por impulsos descontrolados. Ela apenas decidiu
ignorar o que Deus havia dito sobre o dia de sábado
e pecou deliberadamente contra o Senhor (cf. Nm
15.32-35). Quando as pessoas pecam deliberadamente,
são passíveis de punição muito mais severa, sem os
beneficios da reparação espiritual, porque são pecados
de rebelião declarada contra Deus.
O pecado dos falsos mestres, mencionado na carta
de Pedro, ê absolutamente intencional. Não se trata de
omissão de alguma coisa correta da qual eles se esquece-
ram, mas da prática de algo que eles sabem ser errôneo.
Deliberadamente eles se esquecem das obras de Deus
para poderem implantar a sua própria doutrina errônea.

2) A CAUSA DO PECADO DO ESQUECIMENTO


DELIBERADO

O esquecimento deliberado pode ser visto de dois


ãngulos:

1) O ESQUECIMENTO DELIBERADO É PRODUTO DA


INIMIZADE CONTRA DEUS
Eles amam a si mesmos mais do que a Deus e que-
rem satisfazer os seus desejos mais do que os desejos de
Deus. Ignoram tudo o que vem da parte de Deus porque

206
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

ele nunca entra nos seus cálculos. São insolentes em re-


lação ao Senhor e repelem qualquer coisa neste Universo
que seja atribuída ao poder de Deus.
No tempo de Pedro, os escarnecedores zombavam de
qualquer palavra de Deus- seja uma promessa de vida,
seja uma ameaça de morte. Seu ódio era visceral con-
tra Deus. Assim como os homens no tempo de Noé não
deram importância às advertências da parte de Deus -
pois comiam e bebiam, casavam-se e se davam em casa-
mento-, assim os homens viviam nos tempos de Pedro.
Expressavam constantemente a sua zombaria porque
eram inimigos figadais de Deus.
Em nossa geração não é diferente. Os homens da aca-
demia, mais especificamente os da ciência, os artistas e
todos os outros que estão em evidência, em regra geral
contribuem para aumentar no povo o ódio contra a palavra
de Deus. Eles continuam a viver na sua falsa expectativa
de um mundo onde existam a paz, a harmonia e o amor
entre os homens. Isso não é possível sem a ação divina
neles. Mas eles repelem qualquer coisa que possa vir da
parte de Deus!

2) O ESQUECIMENTO DELIBERADO OCORRE PORQUE


ELES ESTÃO DESPROVIDOS DO ESPÍRITO DE DEUS
Obviamente, os zombadores esquecem deliberada-
mente o que aconteceu no passado porque são incrédu-
los em relação às verdades reveladas da Palavra de Deus.
Eles são incrédulos, em última instância, porque são des-
providos do Espírito de Deus (Jd 18, 19). Alguns desses
zombadores, que podem ser falsos profetas, são despro-
vidos de fé salvadora, embora possam até estar entre os
confessantes do povo de Deus (2Pe 2.1).
Os zombadores do texto de Pedro não têm fé na
confiável palavra de Deus. Por essa razão, eles não creem
nas profecias. Se eles tivessem fé, não seriam guiados pela

207
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

vista, mas pela palavra de Deus. Os genuínos cristãos são


guiados pelas afirmações da Escritura Sagrada. Por essa
razão, o escritor aos Hebreus disse com todas as letras:
Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela
palavra de Deus (Hb 11.3).

Os cristãos não se atrevem a dar explicações cien-


tíficas para a origem do Universo porque esse assunto é
matéria de fé, não de pesquisa. É uma impossibilidade a
pesquisa porque não houve nenhuma testemunha ocular
da criação do Universo e também porque não há nenhum
modo de nos reportarmos àquela "época", em que o tempo
também foi criado.
Os ímpios, no entanto, não têm fé porque carecem
de conhecimento experiencial. Eles agem somente pelos
impulsos ou instintos porque são "brutos irracionais" (2Pe
2.12). No mundo acadêmico, é muito comum encontrar-
mos professores e pesquisadores que não têm fé porque
não entendem as coisas de Deus, que são loucura para
eles. São guiados apenas por um método científico que
escolhem, sem que necessariamente passe pelo crivo da
investigação científica. Na verdade, o que esses pesquisa-
dores e professores fazem é escolher um modo de pensar
que favoreça a natural incredulidade que os acompanha
em toda a sua trajetória acadêmica.
Nós, cristãos, não podemos nos opor ao que é verda-
deiramente científico, porque a verdadeira ciência tem que
estar sob alguns paràmetros de sensatez.
Bob Deffinbaugh disse:

Eu não me oponho ao método científico, conquanto ele


seja aplicado à investigação científica, mas eu me oponho
ao método científico como a base da vida espiritual de

208
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

alguém. A vida do cristão está baseada somente no que


Deus disse em sua palavra. O método científico olha
somente para o que pode ser visto, analisado e testado. É
indesejável tomar qualquer coisa com fé. 74

Fé e ciência podem andar juntas quando a pesqui-


sa científica admite a sua impotência em explicar as
origens do Universo. A fé ajuda a ciência, mas, no caso
dos escarnecedores, a ciência deles despreza o elemen-
to pístico. 75

3) O CONTEÚDO DO PECADO DO ESQUECIMENTO


DELIBERADO

Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo tempo,


houve céus bem como terra, a qual surgiu da água e
através da água pela palavra de Deus (2Pe 3.5).

Os escarnecedores manifestam duas formas do peca-


do do esquecimento deliberado: a primeira tem a ver com
a obra criadora, e a segunda, com o juízo de Deus, ambos
no passado.

( 1) OS ESCARNECEDORES ESQUECERAM-SE
DELIBERADAMENTE DA OBRA CRIADORA DIVINA NO
PASSADO

74
DEFFINBAUGH, Bob, Scoffers, The second coming, and Scripture (2 Peter
3:1-13), disponível em: <hrtp://bible.org/seriespage/scoffers-second-
coming-and-scripture-2-peter-31-13>, acessado em 27/05/2013.
75
O termo pístico é relativo à fé .

209
O HABITAT HU MANO - O PARAÍSO AUSENTE

Para responder ao ensino dos falsos mestres sobre


as coisas esquecidas deliberadamente, Pedro vai ao único
lugar de informação das origens do Universo- o livro de
Gênesis. Propositadamente, Gênesis é o mais desprezado
de todos os livros da Bíblia, justamente por causa das ori-
gens do Universo. Simplesmente esse livro é descartado
nos vários segmentos da nossa sociedade. No mínimo, é
dito que o livro de Gênesis não pode ser entendido literal-
mente ou como registro de fatos históricos, mas somente
de modo figurativo ou poético. Com esse tipo de herme-
nêutica como ponto de partida, os maiores desatinos são
cometidos contra a doutrina de Deus.
Os falsos mestres e escarnecedores do tempo de Pedro
não deixaram de existir. Seu número cresce cada vez mais,
à medida que os últimos dias se aproximam. Eles estão no
mundo científico e em círculos cristãos.

A) 0 LIVRO DE GÊNESIS Ê ZOMBADO NA ACADEMIA

Tanto na academia como em círculos eclesiásticos, os


escarnecedores não se preocupam com os evangelhos ou
com as cartas quando eles tratam da redenção, mas com o
livro de Gênesis, por uma simples razão: quando negamos as
verdades dos primeiros capítulos de Gênesis, nós negamos,
consequentemente, a queda no pecado e a necessidade de
redenção. A negação das origens do Universo e do homem
é fundamental para a negação de tudo o que delas decorre.
Nesses círculos chamados científicos, o livro de Gênesis
é zombado, e não se leva a sério o que Deus disse. Na verdade,
eles procuram se esquecer deliberadamente de tudo quanto
Deus fez no passado, porque as obras de Deus, registradas
em Gênesis, incomodam o seu modo de pensar. Por essa ra-
zão, nunca o livro de Gênesis é estudado na universidade.
Por essas atitudes deliberadas na academia, devemos
duvidar da seriedade de muitos cientistas que têm, por de-
trás de suas afirmações, o fundamento de seus preconceitos

210
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

e indisposições espirituais contra Deus. Supostamente, a


ciência deveria tratar com aquilo que é demonstrável e ob-
servável, mas não houve nenhuma testemunha humana
presente na criação. Não há como trazer provas científi-
cas das origens do Universo e mesmo dos seres humanos.
No entanto, a ciência tem tentado se imiscuir nessa esfe-
ra sem fazer qualquer referência a Deus. Ao escantearem
Deus, eles têm que apelar para a teoria da evolução e o
fazem sem qualquer evidência comprovável.
Henry Morris escreve que

É notável que o evolucionismo (darwinismo), que é


presentemente a teoria dominante sobre a origem e o
significado da vida, não esteja baseado em, absolutamente,
nenhuma evidência verificável. Não há simplesmente
nenhuma evidência científica ou histórica de que a evolução
tenha acontecido. Na verdade, as leis mais básicas da ciência
(leis da probabilidade e termodinãmica) provam que uma
genuína macroevolução não poderia acontecer de forma
alguma. Como Pedro profetizou, esta crença estaria baseada
no "esquecimento deliberado"[ ... ], que é a razão pela qual
Paulo categoricamente afirmou que tais supressores da
verdade (os dois principais eventos cataclísmicos causados
por Deus- criação e dilúvio) são indesculpáveis. 76
Não é sem razão que cresce o número de cientistas, até
mesmo ímpios, mas que são consistentes em seu pensamento
científico, que têm se bandeado para o lado criacionista,
ainda que não saibam que foi Deus que deu origem a todas
as coisas. Eles passaram a entender que, para o Big Bang
ter acontecido, eram necessárias duas coisas: um material
76
Disponível em: <http://www.preceptaustin.org/2_peter_31-7.htm#3:5>,
acessado em: 01/05/2012.

211
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

preexistente para a explosão e alguém que o fez explodir. Só


esse raciocínio já nos impede de crer na teoria evolucionista.
Mesmo as crianças já são alvo do ataque dos zombadores
da criação do Universo. Quando entramos nas escolas públi-
cas ou privadas dos nossos pequeninos, podemos ver indis-
posições da orientação pedagógica com respeito à origem
do Universo atribuída a Deus. Os professores entram para
a aula com a cabeça feita pelos livros e pelas orientações
do Ministério da Educação, expressando uma religião de
incredulidade. Quando um aluno cristão surge com a ideia de
que o mundo foi criado por Deus, a zombaria e o desprezo se
iniciam pela orquestração de todo um processo já mentalizado
pelos professores e absorvido por muitos alunos.

B) 0 LIVRO DE GÊNESIS Ê ZOMBADO NA IGREJA

O livro de Génesis é desprezado mesmo em alguns


círculos cristãos que são adeptos de uma espécie de evo-
lucionismo teísta. Na verdade, eles querem adaptar a ver-
dade de Deus aos modernos padrões científicos, mas a
adaptação é muito defeituosa e não responde às perguntas
mais importantes sobre a origem das coisas.
Eles veem o texto de Gênesis não como narrativa de
fatos, mas como uma descrição poética de ações desenvol-
vidas naturalmente numa enorme quantia de anos. Para
alguns desses cristãos, Deus realmente falou e trouxe à
existência alguma coisa; o restante, porém, foi feito pelo
processo natural de evolução. Daí a necessidade não de
seis dias literais, mas de seis longas eras, cada uma delas
durando muitos milhões de anos para que tal teoria possa
fazer sentido. A longa duração das eras é necessária para
o processo evolutivo.
Os que abordam o livro de Gênesis com essa filosofia
religiosa presumem que o seu conteúdo não pode ser enten-
dido literalmente, nem como o registro de fatos históricos.

212
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

Assim, escarnecem da Palavra de Deus como registro fiel


do que realmente aconteceu. Por essa razão, Gill Hugh diz:

Os crentes estão sempre debaixo da pressão de unir as


Escrituras às ideias do homem caído a fim de se tornarem
aceitáveis e de serem reconhecidos como eruditos,
porque o homem caído não compra para si as afirmações
claras e evidentes das Escrituras. Os crentes querem
reivindicar que são científicos como os incrédulos. Os
incrédulos dizem que tudo começou com o Big Bang. Os
evolucionistas teístas diriam que tudo começou com o Big
God. 77

Esses teístas evolucionistas lutam desesperadamente


para combinar o texto das Escrituras com os pressupos-
tos humanistas dos cientistas. Parece que os pressupostos
humanistas são a referência à qual a Escritura tem de se
adaptar, e não o contrário. A regra de fé é a "ciência", não
a verdade de Deus.
Quando os cientistas fora e dentro do cristianismo su-
primem a verdade ou a interpretam humanisticamente, o
resultado é a derrocada moral da sociedade. Se não existe
um Criador de caráter pessoal (ou melhor, "tripessoal"!) in-
teligente, poderoso, amoroso e santo, não pode haver pa-
drão moral para aqueles que ele criou. Se esse Deus não
criou nem mantém o Universo, não há ninguém a quem
os homens devam prestar contas, e a amoralidade campeia
na sociedade. Se esse Deus da Escritura não existe ou não
governa o mundo, os homens criam as suas regras, privati-
zando qualquer coisa que seja da esfera moral ou religiosa.
77
HUGH, Gill, em seu sermão A reminder and warning to believers, baseado
em 2Pedro 3.1-7, disponível em: <http://www.biblebb.com/files/gr961.
htm>, acessado em: 01/02/2012.

213
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Nossa sociedade está refletindo de maneira ainda


mais global aquilo que os contemporâneos de Pedro já fa-
ziam: eles esquecem deliberadamente que Deus criou o
Universo, que ele o mantém e que vai pôr um fim nele
na forma em que se encontra presentemente. Fazem tudo
para suprimir a verdade de Deus na mente do povo.
Veja como funciona a lógica dos escarnecedores:
a) Eles se esqueceram de que o mundo foi criado

... esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como


terra (2Pe 3.5b).

A Escritura tem como primeira afirmação contundente:


No princípio, criou Deus os céus e a terra (Gn 1.1). Essa é uma
afirmação que não requer explicação. Essa matéria não é um
problema que tem de ser analisado pela ciência. Esta é inca-
paz de dar resposta às grandes perguntas sobre as origens
sem levar Deus em conta. O problema tem a ver com onde
você coloca a sua fé. Se você coloca a sua fé na ciência, não
encontrará nenhuma resposta evidente. No entanto, quando
você coloca a sua fé no Deus verdadeiro, então essa é uma
matéria de fé para os cristãos (Hb 11.3) e é ponto fundamen-
tal para a totalidade do ensino cristão. Pela fé, os cristãos
aceitam Deus como o Criador porque creem na confiabilida-
de das afirmações da Escritura sobre as origens do Universo.
Para eles, a Escritura é a palavra normativa e confiável de
Deus. Esta é a grande diferença entre crentes e descrentes.
A doutrina da criação dos céus e da terra é, em meu
entendimento, a mais importante da Escritura, porque
tudo o que aconteceu posteriormente foi para que o mundo
amaldiçoado por Deus venha a ser restaurado. A criação
vai ser trazida de volta, no mínimo, nos moldes originais.
Daí a ideia de restauração, não de criação de algo absolu-
tamente diferente.

214
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

O grande problema da igreja nestes dias é que ela não


mais tem prestado atenção à doutrina da criação. Esse as-
sunto é esquecido deliberadamente tanto pelos descrentes
como pelos cristãos adeptos do evolucionismo teísta, que
se esquecem propositadamente de que todas as coisas, as
visíveis e as invisíveis, vieram a existir pelo poder criador
de Deus. Os adeptos do evolucionismo teísta não negam
totalmente as Escrituras, mas as interpretam de um modo
a acomodá-las à moderna ciência. Cristãos menos madu-
ros estão sendo influenciados por esse pensamento evolu-
cionista dentro do cristianismo. O fermento do erro está
penetrando diversos segmentos do cristianismo contem-
porâneo. Hugh diz que o que está acontecendo é que um
pouco de fermento está levedando toda a massa (lCo 5.6).
Então, Hugh pergunta:

O que acontece quando você toma uma laranja podre e


a coloca numa cesta com laranjas boas? Quando você
percebe, dias depois, você vê as boas laranjas expulsando
a laranja podre? Se é isso o que acontece, você compra
laranjas diferentes das que eu compro. Eu acabo ficando
com todas as laranjas podres. O que acontece? A
podridão se espalha. Isso é o que a corrupção faz. 78

Essa ilustração serve para mostrar que o fermento do


engano leveda toda a massa. Os evolucionistas teístas di-
zem: "Não queremos rejeitar a Escritura; queremos apenas
interpretá-la de um modo que se encaixe em nosso enten-
dimento hoje". Quando "nós aceitamos a mistura das ideias

78
HUGH, Gill, em seu sermão A reminder and warning to be/ievers, baseado
em 2Pedro 3.1-7, disponível em : <http ://www.biblebb.com/files/gr961.
htm>, acessado em: 01/05/2012.

215
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

do homem e das ideias de Deus", 79 acabamos por assimilar


a podridão da laranja. Quando, na igreja de Deus, pesso-
as começam a juntar o ensino dos homens e a verdade de
Deus, logo os ensinos dos homens sobre a criação começam
a levedar os que aprenderam sobre a verdade de Deus. O
ensino podre apenas joga gasolina nas brasas da corrupção
que está latente em todos os seres humanos, acendendo
fortemente o fogo do erro. Isso é o que a corrupção faz em
nós: ela se espalha.

esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como


terra (2Pe 3 .5b).

A terra tem milênios de existência. Não sabemos quão


antiga ela é , mas desde há muito Deus a trouxe à existên-
cia. Houve um "tempo" quando ainda não havia tempo,
em que a terra não existia. A matéria não é eterna, como
alguns a julgam. Se não é eterna, ela é, portanto, tempo-
ral. Juntamente com o Universo, Deus criou a noção de
tempo, que é própria dos seres criados. Assim, a terra e
o tempo vieram à existência. E tinha que haver alguém
poderoso para criá -los do nada. Por isso, Pedro diz que de
longo tempo, houve céus e terra.
O problema é que os incrédulos deliberadamente se es-
quecem da verdade da criação dos céus e da terra porque ela
não combina com os seus pressupostos filosóficos e científicos.
b) Eles se esqueceram de que a terra surgiu da água

a qual surgiu da água e através da água pela palavra de


Deus (2Pe 3.5c).
79HUGH, Gil I, em seu sermão A reminder and warning to believers, baseado
em 2Pedro 3.1-7, disponível em: <http ://www.biblebb .com/files/gr961.
htm>, acessado em: 01/05/2012.

216
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

É curioso que nos grandes eventos catastróficos de


mudança do nosso planeta, Deus use dois elementos como
meios para sua poderosa ação: a água e o fogo. Na primei-
ra grande catástrofe, que foi o dilúvio, para dar uma nova
conformação à terra original, separando a grande porção
seca em diversos continentes, Deus usou o elemento água.
Na segunda e última grande catástrofe que Deus trará so-
bre o nosso planeta, restaurando a face da terra para o
deleite do homem remido, ele usará o elemento fogo.
Deus criou originalmente a matéria e, nos dias subse-
quentes, foi colocando em ordem e distribuindo as coisas
dentro da criação. Houve a ordenação de tudo. A terra veio
a existir da água, ou seja, quando Deus criou a terra, era
tudo água. Todas as águas estavam juntas e, obviamente,
firmadas sobre um solo consistente. Então Deus fez a por-
ção consistente emergir da água, e ela se tornou porção
seca, que ele chamou de terra. As águas ficaram separa-
das da porção seca. Barnes diz que

O pensamento em mente [a de Pedro] parece ser o de que


a água entrou materialmente na formação da terra, e de
que, na sua origem, existiam os meios pelos quais ela
seria posteriormente destruída. [... ] O significado é que
a criação da terra foi o resultado da ação divina sobre a
massa dos elementos que , em Gênesis , são chamados de
águas (Gn 1.2,6-8). A princípio, havia um vasto fluido,
uma imensa coleção informe de materiais, chamada de
águas , e foi dela que a terra surgiu. 80

80
BARNES, Albert, em seu comentário sobre 2Pedro 3.5, disponível em:
<http :/ /www.studylight.org/com/bnn/view.cgi?book=2pe&chapter=3>,
acessado em: 01/05/2012.

217
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

A expressão de Pedro dizendo que a terra "su rgiu da


água" refere-se à origem da terra, ou seja, a porção seca,
que foi formada do grande volume de materiais chamado
de "águas" no texto de Gênesis.
É muitíssimo curioso que um filósofo pré-cristão,
Tales de Mileto (cerca de 636-546 a.C.), tenha crido em
algo parecido com essa afirmação de Pedro, que viveu cen-
tenas de anos depois. Não sabemos se ele teve acesso ao
livro de Gênesis, mas J ohn Gill diz que "Tales de Mileto
asseverou que a água foi o princípio de todas as coisas". 81
Ainda que sem a luz do Novo Testamento, ele percebeu a
verdade de que a terra surgiu da água. O que ele não sabia
ê que esse ato criador se deu pela palavra de Deus! Bem,
isso ê matéria de revelação especial, que ele certamente
não chegou a ter.
Por sua palavra, Deus usou o poder da água para criar
a porção seca, para ali fazer nascer árvores e plantar pesso-
almente um jardim para o deleite da sua criação principal,
o homem. Por isso, pode-se dizer que a terra veio da água.
Vieram, então, a queda, a corrupção dos seres hu-
manos e o juízo de Deus sobre a criação e a criatura no
dilúvio.
No versículo 6 , Pedro começa a tratar sobre o juízo de
Deus no dilúvio. No final do versículo 5, ele diz que a terra
surgiu "da água e através da água pela palavra de Deus".
Esta cláusula se refere

não somente à existência dos céus desde longo tempo,


mas ao surgimento, manutenção e subsistência da terra,
que é aqui particularmente descrita em razão do dilúvio. O

GILL, John, em seu comentário sobre 2Pedro 2.5, disponível em: <http:/ I
81

www.pbministries.org/Landmark_Baptist/Seminary/Bible_Study_
Courses/2Peter/2_peter_gill03.htm>, acessado em: 01/05/2012.

218
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

apóstolo posteriormente menciona que ela "veio da água"


ou "procede da água", ou que parte dela consiste de água;
o globo terrestre é terráqueo, ou seja, parcialmente terra
e parcialmente água; e mesmo a terra seca em si tem seu
surgimento da água; a primeira matéria que foi criada
foi chamada de abismo, as águas nas quais estavam as
trevas, sobre as quais o Espírito se movia (Gn 1.2). 82

Tanto na criação original como na "recriação" após


o dilúvio, a terra surgiu da água, ou seja, ela surgiu dos
componentes materiais que havia na água; além disso,
apareceu de dentro da água, formando os continentes e
todo o seu relevo.
c) Eles se esqueceram de que tudo veio a existir
pelo poder da palavra

e através da água pela palavra de Deus (2Pe 3.5d).

Como o autor de Hebreus afirmou, todos os cristãos


assimilam incontestavelmente que foi o Universo formado
pela palavra de Deus (Hb 11.3). De que palavra os autores
bíblicos estão falando?
A expressão "palavra de Deus" nesse texto pode ser
entendida de duas maneiras que se completam. Na criação
do Universo há duas palavras em pauta:
1) O Filho eterno de Deus, que é a Palavra (Lagos,
Verbo), que existia antes de haver mundo, foi o instru-
mento por meio do qual Deus fez o Universo vir à exis-
tência. Ele é o agente da criação! Não é sem razão que o
82
GJLL, John, em seu comentário sobre 2Pedro 2.5, disponível em: <http://
www.pbministries.org/Landmark_Baptist/Seminary/Bible_Study_
Courses/2Peter/2_peter_gill03.htm>, acessado em: 01/05/2012.

219
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

escritor sacro diz: No princípio era o Verbo, e o Verbo esta-


va com Deus, e o Verbo era Deus. [... ] Todas as coisas fo-
ram feitas por intermédio dele, e, sem ele , nada do que foi
feito se fez" (Jo 1.1,3). Nesse sentido, o Filho é a Palavra
criadora de Deus!
Portanto, a criação do Universo em geral e do nosso
planeta em particular é, em última instância, o produto da
Palavra poderosa de Deus. A Palavra criadora de Deus é ma-
ravilhosamente poderosa! Na verdade, ela é o Verbo de Deus
agindo antes da criação do mundo para trazer o mundo à
existência. Ou nós cremos nisto ou ficamos nos debatendo
"cientificamente", procurando as origens do Universo, que
nunca serão encontradas pela pesquisa porque remontam a
tempos imemoriais em que os homens ainda não existiam.
Portanto, está fora de questão a comprovação histórica de
um evento que trouxe a própria história à existência.
2) O Verbo divino, a Palavra de Deus, que é o agente
criador de Deus, emitiu palavras criadoras. Elas não têm
nada a ver com as Escrituras, mas as palavras poderosas
que ele pronunciou "no princípio" foram palavras com o
poder de trazer à existência coisas que não existiam. Por
exemplo, o autor de Gênesis registrou que foi dito: Haja
luz; e houve luz (Gn 1.3). E disse Deus: Haja .firmamento no
meio das águas e separação entre águas e águas (Gn 1.6).
Disse também Deus: Ajuntem-se as águas debaixo dos céus
num só lugar, e apareça a porção seca. E assim se fez (Gn
1.9). Nos versículos seguintes, as palavras de Deus são
pronunciadas, e mais coisas vêm à existência por seu po-
der criador e distribuidor (Gn 1.11,14,20,24). Houve, por-
tanto, a emissão de palavras pelo Verbo divino. A Palavra
divina (ou o Verbo divino) emite palavras criadoras divi-
nas. A Escritura menciona isso:

Pois ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a


existir (Sl 33.9).

220
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

Tudo veio à existência pela Palavra (Verbo de Deus),


que emitiu palavras criadoras. Essa é a palavra de Deus que
criou o Universo.
Para nós, portanto, a origem do Universo é uma
questão de fé na confiabilidade da Escritura, portanto,
não é uma questão de comprovação científica. A ciência
é incapaz de provar qualquer movimento divino para dar
origem a tudo que veio à existência. A Escritura diz que
Deus fez o Universo por sua palavra, e nós cremos nisso
de todo o coração, mas os escarnecedores propositada-
mente se esquecem disso!
No tempo de Pedro, os zombadores desprezavam o en-
sino sobre a criação porque ela lhes lembrava a demons-
tração do poder da palavra de Deus.

(2) OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DOS


JUÍZOS DE DEUS NO PASSADO
O mundo dos homens pode ser dividido em três perío-
dos distintos: o período do habitat antigo (que é o mundo
criado até o tempo do dilúvio); o período do presente ha-
bitat (que é o mundo pós-dilúvio); e o período do habitat
restaurado (que são os novos céus e a nova terra).
No entanto, os escarnecedores do tempo de Pedro pro-
curavam se esquecer do que aconteceu na história humana.
Eles não somente se esqueceram da obra criadora de Deus,
mas também do juízo divino ocorrido no passado. Eles sem-
pre tiveram aversão à palavra de Deus, pela qual tudo veio à
existência e pela qual tudo deixaria de existir no julgamen-
to divino. A questão da palavra é crucial em 2Pedro 3.5-7.
Todos esses versículos tratam da obra poderosa de Deus
por meio da sua palavra, que os escarnecedores tratavam
de esquecer de modo deliberado, proposital.

221
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

pela qual [pela palavra] veio a perecer o mundo daquele


tempo, afogado em água (2Pe 3.6).

Os escarnecedores do tempo de Pedro propositada-


mente não queriam saber de nada relacionado à história
dos juízos antigos de Deus. Deliberadamente eles se es-
queceram dos fatos da criação e do juízo de Deus que veio
sobre o mundo no tempo de Noé. Deliberadamente ignora-
ram um fato histórico que é mencionado mesmo em cultu-
ras muito antigas, o dilúvio.
Desde há muito os homens ímpios vêm crendo que o
mundo começou sem Deus e que continua a existir sem a
intervenção divina. Eles não creem na origem de todas as
coisas pela "palavra de Deus" nem no julgamento do mun-
do pela mesma palavra.

1. A CAUSA DO JUÍZO DIVINO PELO DILÚVIO

A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de


violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida;
porque todo ser vivente havia corrompido o seu caminho
na terra (Gn 6 . 11 , 12).
Os homens do tempo de Pedro deliberadamente se
esqueceram dos juízos de Deus no passado pelas mesmas
razões que fizeram Deus destruir a terra pela primeira vez.
Os contemporâneos de Pedro apresentavam, como é pró-
prio de todos os rebeldes contra Deus, os mesmos pecados
de corrupção e violência.
a) A terra estava corrompida
A rebeldia contra Deus se manifesta com os mesmos
pecados porque faz com que os homens vivam sem a lei
de Deus, que os cerceia. Vendo-se livres da lei divina, eles

222
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

praticam tudo o que combina com a sua inclinação ímpia.


A primeira manifestação ímpia dos homens contra os pró-
prios homens é a corrupção. Os corruptos exploram os
seus conterrãneos por meio de comportamentos ilícitos e
envolvem todos os que estão ao seu redor para que fiquem
comprometidos e não tenham condições de denunciar a
corrupção.
Para nós, que vivemos no século 21, não é dificil
entender esse assunto. A corrupção campeia por toda
parte. Quanto mais a lei de Deus é esquecida, mais a
corrupção corre solta! Nosso pais tem se mostrado cada
vez mais corrupto porque a cada dia se torna mais rejeita-
dor das leis divinas. O abandono dos preceitos de Deus faz
com que os homens sejam corruptos e aumentem as suas
riquezas e o seu poder nas malhas da corrupção. Esta é
tão difundida que se toma uma rede cada vez maior dentro
de nossa sociedade, um mal tão difundido que acaba se
tornando quase uma norma.
Por causa dessa corrupção Deus resolveu destruir o
mundo antigo (pré-diluviano) e pela mesma razão haverá
de destruir o presente habitat.
b) A terra estava cheia de violência
A corrupção certamente dá lugar a outro pecado
motivador do juízo divino - a violência. Nos tempos de
Noé, a violência era a companheira inseparável da cor-
rupção. Não existe o segundo pecado se não houver o
primeiro.
Onde podemos encontrar uma situação em que a
corrupção não gere violência? A violência acontece inclusive
entre as próprias facções bandidas que tentam dominar
determinado território. Todavia, sua violência se estende
sobre aqueles que se opõem à corrupção. Os homens
sérios e sobretudo os cristãos são vítimas da violência dos
homens corruptos. Todos os inimigos da corrupção sofrem
violência em nossa geração. É só observar, por exemplo, um

223
O HA BITAT HU MANO - O PARAÍSO AUSENTE

juiz honesto que sistematicamente pune a corrupção. Não


demora muito para que ele seja brutalmente assassinado.
Se um parlamentar comprometido com a ética cristã tenta
lutar contra a corrupção dentro do governo, logo ele é
assassinado, ao menos moralmente.

Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne,


porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que
os farei perecer juntamente com a terra (Gn 6.13).

E como resultado desses pecados da humanidade,


não somente os seres humanos receberam a paga, mas
todo o seu habitat sofreu as consequências .

2. 0 INSTRUMENTO DO JUÍZO DE DEUS NO DILÚVIO

... pela qual veio aperecero mundo (2Pe 3.6a).

A expressão "pela qual" se refere à mesma palavra de


Deus que trouxe todas as coisas à existência. A palavra
de Deus é tão importante que volta ao cenário nos versí-
culos 6 e 7.
A palavra criadora também é a palavra destruidora.
Deus faz com que todas as coisas surjam por sua palavra
e sejam punidas pela mesma palavra. Deus falou às fontes
do abismo , e todas elas se romperam e derramaram água
do céu; também por sua palavra Deus fez arrebentar as
fontes das profundezas da terra.
As águas do dilúvio vieram como expressão do desa-
grado de Deus contra os homens ímpios. Pedro já havia
dito na mesma carta que Deus

224
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

não poupou o mundo antigo, mas preservou a Noé,


pregador da justiça, e mais sete pessoas, quando fez vir o
dilúvio sobre o mundo de ímpios (2Pe 2.5).

Os dois eventos de proporções mundiais são mencio-


nados por Pedro: a criação do mundo (que era composto de
céus e terra) e a sua destruição no tempo de Noé.
Os escarnecedores do tempo de Pedro não poderiam
alegar ignorância da história do dilúvio. Tudo levava a
crer nos juízos de Deus no passado. Deus havia intervin-
do catastroficamente neste mundo por causa da malda-
de dos homens ímpios. Não obstante, os escarnecedores
propositadamente suprimiram de sua mente a verdade
histórica sobre o juízo de Deus no passado. Eles se porta-
ram exatamente como os contemporâneos de Noé. Não se
importaram com as ameaças divinas na época.

3. 0 RESULTADO DO JUÍZO DE DEUS NO DILÚVIO

veio a perecer o mundo (2Pe 3 .6b) .

Pedro tem dois grandes eventos em mente nos versí-


culos 5 e 6. Depois da criação, ele passa a tratar do segun-
do grande evento, que foi também o segundo juízo sobre
a criação e a criatura (já que o primeiro juízo aconteceu
no próprio paraíso). No primeiro julgamento, Deus amaldi-
çoou a terra, expulsando os homens do paraíso, mas eles
continuaram a existir; no segundo julgamento, ele des-
truiu a terra na forma como ela existia antes. Deus sepa-
rou a porção seca em grandes partes e separou os mares,
criando os continentes , numa nova geografia que existe
até hoje. Além disso , ele fez com que tudo perecesse: to-
dos os homens (exceto a família de Noé) , todos os animais

225
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

(exceto os que ele colocou na arca) e toda a flora. Esse


juízo mais severo não aconteceu no primeiro julgamento,
em que houve a maldição sobre a terra. Mas no segundo
juízo houve a destruição de tudo o que existia na terra e
dos próprios homens .

4. 0 OBJETO DO JUÍZO DE DEUS

o mundo daquele tempo (2Pe 3.6c).

O mundo daquele tempo é o mundo pré-diluviano, o


mundo que vivia em pecado e toda sorte de desobediência.
Veja como o autor de Gênesis descreve a razão pela qual
Deus fez perecer o mundo daquele tempo.
a) O "m undo daquele tempo" tem a ver com os
homens ímpios
Para propósitos de preservação da raça, Deus poupou
Noé , o pregador da justiça, bem como a sua família. Ao
todo, oito pessoas foram preservadas. Em paciência, Deus
esperou 120 anos sem manifestar a sua ira, até que Noé
construísse a arca. Então, ele fez vir o seu juízo, mas não
poupou ninguém mais. Não sobrou ninguém do mundo
pré-diluviano.
Em sua segunda carta, Pedro usa três expressões
equivalentes para o mundo que Deus destruiu: o mundo
daquele tempo (2Pe 3.6c), o mundo antigo e o mundo de
ímpios (2Pe 2.5). Veja o texto transcrito a seguir:

[Deus] não poupou o mundo antigo, mas preservou a Noé,


pregador da justiça, e mais sete pessoas, quando fez vir o
dilúvio sobre o mundo de ímpios (2Pe 2.5) .

226
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

Deus não poupou o mundo antigo, que ele mesmo


chamou de mundo de ímpios. Exceto Noé, que era homem
justo, não havia mais ninguém que fizesse jus a essa de-
signação. O mundo era composto somente de seres huma-
nos violentos, corruptos e corruptores. Esta é a afirmação
de Gênesis sobre os homens da época:

A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de


violência. Viu Deus a terra, e eis que estava corrompida;
porque todo ser vivente havia corrompido o seu caminho
na terra. Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de
toda carne, porque a terra está cheia da violência dos
homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra
(Gn 6.11-13) .

Exceto Noé e sua família, todos os membros da raça


humana foram destruídos. Deus não poupou nenhum
dos que viviam em corrupção e violência. A terceira ex-
pressão, "mundo de ímpios" (2Pe 2.5), é elucidativa da
expressão "o mundo daquele tempo". Ela exclui do juízo
de Deus os justos, que são Noé e sua família. De toda
a população da terra àquela altura, somente oito pesso-
as escaparam do juízo divino, sendo providencialmente
preservadas por meio da arca que Deus ordenou a No é
que construísse.

Pereceu toda carne que se movia sobre a terra, tanto de


ave como de animais domésticos e animais selváticos, e de
todos os enxames de criaturas que povoam a terra, e todo
homem (Gn 7.21).

227
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Exceto Noé e sua família, todos os demais habitantes


da terra foram destruídos. A expressão "e todo homem"
aponta para essa realidade forte do juízo de Deus. Não
sobrou ninguém mais para contar a história dos juízos
divinos.
b) O "mundo daquele tempo" tem a ver com o solo

Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne,


porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que
os farei perecer juntamente com a terra (Gn 6.13).

A afirmação "eis que os farei perecer juntamente"


com a terra aponta para o nosso habitat. O solo é o lu-
gar onde construímos as nossas casas e onde planta-
mos, tirando dele todo o nosso sustento. Deus não se
contentou em fazer perecer os homens, mas fez perecer
também o seu habitat, inundando-o com muitos metros
de água. Todas as plantas que nascem da terra foram
destruídas pelo dilúvio, a fim de que a totalidade da con-
formação da terra fosse mudada. Essa foi a primeira e
a penúltima vez que Deus fez perecer a totalidade do
habitat humano.

c) O "mundo daquele tempo" tem a ver com os


animais

Pereceu toda carne que se movia sobre a terra, tanto de


ave como de animais domésticos e animais selváticos, e de
todos os enxames de criaturas que povoam a terra, e todo
homem. Tudo o que tinha fôlego de vida em suas narinas,
tudo o que havia em terra seca, morreu. Assim, foram

228
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

exterminados todos os seres que havia sobre a face da


terra; o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus
foram extintos da terra; ficou somente Noé e os que com ele
estavam na arca (Gn 7.21-23).

Não somente o homem e a terra, mas também os ani-


mais pereceram. Tudo aquilo de que o homem dependia
e com o que o homem convivia foi destruído. Os animais
eram parte integrante da vida humana desde a criação.
Exceto os animais que foram colocados na arca com Noé,
o restante pereceu. Tudo o que havia na terra seca mor-
reu, todo fôlego de vida. As únicas coisas que restaram das
plantas e dos animais foram os

depósitos fósseis que têm sido preservados nas rochas


sedimentares da crosta da terra. Esses depósitos
têm sido erroneamente interpretados pelos cientistas
evolucionistas como um registro da evolução da vida
durante muitas eras (a despeito da ubíqua ausência
de quaisquer formas transicionais nesses bilhões de
fósseis). O que eles realmente representam é a destruição
cataclísmica da vida em uma ocasião, no tempo do
grande dilúvio. Ambos, as rochas sedimentares e os
sedimentos endurecidos, têm, na sua maioria, sido
depositados sob a água e agora cobrem a maioria da
superfície seca da terra, assim como a superfície do
fundo do oceano. 83

83
Comentário do lnstitute for creation research sobre 2Pedro 3.6, disponível
em: <http://www.icr.org/bible/2Peter/3/6/>, acessado em: 01/05/2012.

229
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Em sua santa ira, Deus exterminou da face da ter-


ra todos os seres vivos que respiravam: todo animal, todo
réptil e toda ave. Tudo o que esteve em contato com a pe-
caminosidade humana pereceu.
Exceto os exemplares de animais terráqueos e alados,
selváticos ou domésticos, que Noé levou para a arca, todos
os outros foram destruídos. É bem provável que os grandes
e violentos animais que existiam sobre a terra, como os di-
nossauros e todas as suas variações, tenham desaparecido,
na sua esmagadora maioria, pelo juízo de Deus, sob a água.
Por essa razão, são encontrados grandes depósitos fósseis
de animais e plantas em todos os lugares do mundo, inclu-
sive nas profundezas dos mares, onde estão depositadas
grandes quantidades de petróleo que são o seu produto.
d) O "mundo daquele tempo" tem a ver com as
obras humanas
Não sobrou nada do que havia da cultura pré-diluviana.
Você pode ir a um museu e não encontrará nenhuma obra
humana daquela época em exposição, nenhuma escultura,
nenhuma pintura, nenhum azulejo. Não existem museus de
obras humanas antediluvianas. Deus fez desaparecer toda
a cultura daquela época. Não temos resquícios de nada.
Todas as obras dos homens foram destruídas e perdidas
debaixo do grande volume de águas.
5. 0 MODO DE MANIFESTAÇÃO DO JUÍZO DE DEUS

afogado em água (2Pe 3.6d).

Deus é amoroso, paciente e longãnimo. Todavia, ele


pode deixar de manifestar esses atributos e fazer valer
o atributo da sua justiça. Por muitos anos os antedilu-
vianos se mostraram extremamente corruptos. Deus ma-
nifestou paciência enviando-lhes o pregoeiro da justiça,
Noé, mas eles permaneceram na sua incredulidade.

230
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

Em razão da maldade humana, Deus advertiu que


traria grande juízo sobre a terra (Gn 6. 11-13), mas os ho-
mens do tempo de Noé se fizeram surdos às ameaças divi-
nas. Deus não costuma brincar com tais ameaças porque
é verdadeiro no que diz. O que ele promete fazer, cumpre.
Tudo haveria de perecer no mundo pós-queda. Portanto,
tudo o que havia no mundo amaldiçoado em Gênesis 3
veio a perecer pelas águas do juízo de Deus, conforme re-
gistra o mesmo autor no capítulo 7. Neste caso, as águas
matam, não purificam.
Deus fez com que as comportas celestes fossem aber-
tas e fez irromperem também as águas que estavam de-
baixo da terra. Nunca o mundo viu tanta água ajuntada
de maneira tão violenta para sacudir os fundamentos da
terra, mudando a sua conformação! As águas de cima caí-
ram, e as águas de baixo irromperam! E houve o único
dilúvio sobre toda a terra, e todo ser vivo pereceu afogado
em água (Gn 7.21-23).
Pedro, então, recorda a seus leitores o evento do dilú-
vio, que é a expressão do juízo de Deus, ensino esse que os
zombadores desprezam deliberadamente. Como Deus não
poupou os homens ímpios do tempo de Noé, fazendo-os
perecer afogados em água, também Deus não poupará a
geração final, na volta de Cristo, só que dessa vez não será
com água, mas com fogo.
No entanto, os ímpios preferem esquecer essas verda-
des históricas sobre o destino da raça humana no passado.
Preferem suprimir de sua mente a verdade sobre a interven-
ção catastrófica de Deus no mundo do tempo de Noé.

APLICAÇÃO
Não se esqueça de uma coisa: os zombadores não de-
sapareceram com o dilúvio. O dilúvio não lavou a terra.
Ele mostrou apenas a ira divina, não sua compaixão. A

231
.--- - - - - - - - - - - -

O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

descendência de Noé se multiplicou no mundo, e o número


de zombadores vem crescendo cada vez mais, aumentando
sua incredulidade. Há muitos zombadores em nossa gera-
ção. Eles duvidam do caráter universal do dilúvio, que está
fortemente afirmado nas Escrituras:

Prevaleceram as águas excessivamente sobre a terra e


cobriram todos os altos montes que havia debaixo do céu.
Quinze côvados acima deles prevaleceram as águas; e os
montes foram cobertos (Gn 7.19,20).

Os zombadores ensinam que houve um dilúvio local e


que morreram apenas os que estavam naquela localidade.
O mais triste é que vários segmentos da igreja cristã têm
sido fortemente influenciados pelo ensino de falsos mes-
tres. Eles tomam o texto de Gênesis e o consideram poéti-
co, desacreditando o texto como narrativa de verdadeiros
fatos históricos.
Esses zombadores, hoje ainda, deliberadamente se
esquecem daqueles dias distantes, negando o dilúvio de
caráter universal, desacreditando a narrativa bíblica. Além
disso, como veremos adiante, eles preferem esquecer as
ameaças divinas sobre o futuro do nosso habitat.
Você, cristão, não tema crer nas Escrituras. Deus
já provou várias vezes que é verdadeiro no que fala.
Não se intimide com as críticas e zombarias dos ímpios.
Eles sempre negarão a verdade de Deus até que a vejam
comprovada. Quando isso acontecer, será tarde demais,
como no caso do dilúvio, em que eles não puderam fazer
nada por si mesmos. Eles não tiveram onde se refugiar do
juízo de Deus. Não tema as ameaças zombeteiras. Você
verá, novamente, a veracidade das afirmações divinas.
Este habitat será destruído pela última vez. Só que dessa
vez não será com água, mas com fogo. Não sei se será

232
OS ESCARNECEDORES SE ESQUECERAM DELIBERADAMENTE DAS COISAS PASSADAS

pior, mas o certo é que a destruição desses homens será


definitiva, e eles nunca mais ouvirão qualquer boa-nova de
salvação , eternamente!

233
---------
CAPÍTULO 8

OS ESCARNECEDORES DESPREZAM
O QUE VAI ACONTECER NO FUTURO

Ora, os céus que agora existem e a terra, pela


mesma palavra, têm sido entesourados para fogo,
estando reservados para o Dia do Juízo e destruição
dos homens ímpios (2Pe 3. 7).

Os homens da presente geração, assim como os da


geração de Pedro, não têm nenhum tipo de preocupação
com o que acontecerá com o mundo em que vivem. Eles
pensam que o mundo não vai terminar, que eles podem
viver do modo ímpio como vivem sem que sejam incomo-
dados pela ideia do juízo divino.
O HA BITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Afinal de contas, como pensavam os contemporâneos


de Pedro, tudo está como desde o princípio. Nada de novo
tem acontecido. Essa é a avaliação dos ímpios. Eles pre-
ferem deliberadamente se esquecer das coisas passadas.
Os homens de hoje também se esquecem deliberada-
mente das coisas passadas . Os homens da presente gera-
ção são iguais aos da geração de Pedro . As coisas passadas
que Pedro menciona (a criação do mundo e sua destruição
pelo dilúvio) não são aceitas pelo mundo acadêmico nem
por alguns setores da igreja chamada cristã.
Então, Pedro adverte que virá um juízo ainda mais
severo sobre o presente habitat. No entanto, os homens
desprezam o que vai acontecer neste mundo. Eles até en-
tendem que um dia o mundo vai acabar, seja pela ação
violenta de uma tecnologia do próprio homem, seja pelo
cumprimento de alguma profecia dos maias (segundo os
quais o mundo acabaria no final do ano de 20 12), mas eles
não aceitam a profecia feita por homens inspirados por
Deus, como Pedro, por exemplo. Eles simplesmente igno-
ram a palavra profética sobre o fim do mundo.
Vejamos a análise desse versículo de Pedro:

1. PEDRO ESTÁ FALANDO DO PRESENTE HABITAT

Ora, os céus que agora existem e a terra (2Pe 3. 7 a).

Este é o mundo pós-diluviano, o presente habitat.


Pedro está falando do lugar onde vivemos hoje, o nosso
planeta, e da abóboda celeste que o circunda. O presente
habitat é diferente do habitat primitivo dos homens, o mun-
do criado por Deus "no p rincípio", porque ele não possui a
mesma conformação geológica e geográfica. Pedro está fa-
lando do "segundo mundo", ou seja, do mundo pós-dilúvio,

236
OS ESCARNECEDORES DESPREZAM O QUE VAI ACONTECER NO FUTU RO

com sua nova conformação geográfica. É nesse mundo que


vivemos, os céus que agora existem e a terra.

2. PEDRO ESTÁ FALANDO DO MESMO


INSTRUMENTO DE JUÍZO DO PRESENTE HABITAT

... pela mesma palavra, têm sido entesourados para fogo


(2Pe 3 .7b).

É impressionante a importãncia da palavra de Deus


tanto na criação do habitat original como na destruição do
presente habitat! A palavra tem ambas as propriedades: a
de ser criadora e a de ser destruidora. Somente um Deus
com uma palavra criadora pode ser um Deus destruidor
pela mesma palavra. Não nos esqueçamos de que a Palavra
(o Verbo) criadora de Deus emitiu palavras criadoras que
trouxeram à existência todas as coisas. Essa mesma
Palavra vai fazer com que essas coisas sejam destruídas.
As origens da criação, deliberadamente esquecidas
pelos escarnecedores, apontam para uma demonstração
do poder das palavras emitidas pela Palavra (o Verbo).
Quando as palavras foram ditas, tudo veio à existência.
Por sua palavra, o Verbo de Deus trouxe à existência a
matéria e, então, pela mesma palavra criadora, ele colocou
em ordem a massa vazia que já havia sido criada.
A destruição da criação original, por meio do dilúvio,
veio pelo poder da palavra administradora e julgadora de
Deus no tempo de Noé (2Pe 3.6). Agora, a mesma palavra
vai exercer juízo sobre o presente habitat, que é o mundo
pós-diluviano (2Pe 3.7). A mesma palavra poderosa que
trouxe tudo à existência também poderosamente haverá
de destruir este habitat.

237
O HA BITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Contudo, os escarnecedores (do tempo de Pedro e de


agora) deliberadamente se esquecem da obra de Deus no
passado através da palavra e não acreditam em sua obra
futura através da mesma palavra. Não há como crer na
criação e na destruição do mundo sem crer no poder des-
sa palavra divina! Se eles negam a palavra na criação e no
dilúvio , certamente ignoram o poder da "mesma palavra"
no dia final.

3. PEDRO ESTÁ FALANDO DO JUÍZO DOS HOMENS


DO PRE SENTE HABITAT

Não somente o presente habitat será destruído, mas


os homens ímpios que habitam nele. Na verdade, a des-
truição do habitat virá depois da destruição dos ímpios.
Esse juízo sobre o habitat se deve ao pecado dos habitan-
tes. Deus não pode poupar os habitantes porque eles são
a causa da destruição do habitat. Os habitantes ímpios so-
frerão o castigo da justiça divina porque vivem da mesma
forma como viveram os ímpios do tempo de Noé. Não é sem
razão que Jesus disse que o tempo do fim será como nos
dias de Noé. No passado, eles desprezaram a palavra do
pregoeiro dajustiça (2Pe 2.5), e agora desprezam a mesma
palavra profética de Pedro. O problema desses homens
não é falta de conhecimento da palavra profética de Deus,
mas indisposição contra as intervenções de Deus no mun-
do. O p roblema deles é ético , moral e espiritual. Eles são
contra Deus e sua palavra. Têm uma cegueira espiritual
e uma perversidade enorme no coração. Por essa razão,
serão destruídos antes que o seu habitat seja destruído.
Não nos esqueçamos de que o juízo de Deus sempre
vem por causa da maldade dos homens. Deus não julga
porque é soberano, mas porque é justo juiz!

238
CAPÍTULO 9

VERDADES QUE OS DESTINATÁRIOS


NÃO PODIAM ESQUECER

Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis es-


quecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos,
e mil anos, como um dia. Não retarda o Senhor a sua
promessa, como alguns a julgam demorada; pelo
contrário, ele é longãnimo para convosco, não que-
rendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem
ao arrependimento (2Pe 3.8,9).

Há algumas verdades importantíssimas que não


poderiam estar fora do pensamento teológico dos destina-
tários de Pedro. Elas precisam ser analisadas e compre-
endidas devidamente para um melhor entendimento das
verdades abordadas nos versículos seguintes de Pedro.
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

1. OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM SE ESQUECER


DA DIFERENTE NOÇÃO DE TEMPO PARA DEUS

Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer:


que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos,
como um dia (2Pe 3.8).

Esta passagem de Pedro nos ensina algumas coisas


sobre a diferente noção temporal de Deus.

1) DEUS AGE NO TEMPO


A despeito de sua eternidade, Deus está envolvido di-
retamente com as coisas que acontecem no tempo. Deus
intervém na história humana. O episódio catastrófico do
dilúvio nos tempos de Noé, mencionado fartamente em
2Pedro 3 , é uma amostra do envolvimento de Deus nos
afazeres temporais dos homens, no nosso aqui e agora.
Esse envolvimento divino aponta para o fato de Deus es-
tar no controle da história julgando o mundo, que é o
palco de tudo o que acontece, incluindo os afazeres dos
homens.
Esse capítulo de Pedro também aponta para o fato
de Deus se envolver na história dos homens de maneira
extraordinária, em sua última forma catastrófica de julga-
mento do mundo.

2) DEUS NÃO É LIMITADO PELO TEMPO


A relação de Deus com o tempo é muito diferente
da nossa relação. Deus não está preso ou limitado pelo
tempo como nós estamos. Embora Deus esteja envolvi-
do com os afazeres temporais dos homens, ele não está
encerrado pelo tempo, ainda que, às vezes, a linguagem

240
VERDADES QUE OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM ESQUECER

bíblica pareça indicar o contrário, porque a linguagem é


adaptada à compreensão de seres temporais como nós.
O fato de Deus não estar encerrado pelo tempo é visto
claramente na afirmação de que para o Senhor, um dia é
como mil anos, e mil anos , como um dia. Isso não pode ser
dito de nós porque nascemos no tempo e somos presos a
ele, mas pode ser dito de Deus .
Uma amostra muito clara de que somos governados
pelo tempo é o fato de acharmos que Deus é tardio em
irar-se ou que Deus é longânimo, ou seja, que ele espera
demais para exercer vingança sobre o mundo mau. Nós
ficamos contando o tempo para Deus agir. Não temos a pa-
ciência necessária, e, por isso, o tempo demora a passar.
O tempo é um fator limitante para nós justamente porque
somos finitos e, portanto, temporais.

Um aspecto do nosso pensamento é que ele é


necessariamente cronológico. Deus nos fez sujeitos
ao tempo em tal grau que o nosso pensamento e
atividades estão atrelados ao tempo e à história
como uma sequéncia de eventos que afetam eventos
su bsequentes. 84

A Bíblia diz que Deus é paciente, longânimo, mas isso


não significa que está sendo governado pelo tempo, como
nós. Rushdoony ainda diz que "não devemos limitar Deus
ao escopo da visão humana porque a nossa vista é limitada

84
RUSHDOONY, R. Mark. The error of limiting God to time and history,
disponível em : <http://chalcedon.ed u/resea rch/a rticles/the-error-of-
limiting-god-to-time-and-history/>, acessado em: 01/04/2012 .

241
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

pelo fato de sermos criaturas. O nosso entendimento de


história tende a ser naturalista e cronológico". 85

3) DEUS SEMPRE EXISTIU SEM O TEMPO


Deus existe independentemente do tempo. O tempo
é parte da criação divina. Deus está além da noção tem-
poral. Por essa razão, Pedro diz que, para Deus, um dia
é como mil anos, e mil anos, como um dia. Não existe a
noção de espera para Deus, como se ele estivesse debaixo
da categoria temporal.
Deus é eterno. Ele está além e sobre o tempo, não
pensa em termos de tempo, não calcula com o tempo, mas
está colocado acima e fora do tempo. Ele não pode ser vis-
to em termos de princípio e fim porque não está inserido
nessas categorias:

O Antigo de dias não é uma criatura sobre a qual o


tempo deveria ter qualquer efeito ou controle. Uma bela
implicação do nome Jeová é que Deus nunca diz "eu
era", porque isso implicaria mudança para melhor ou
pior, nem ele diz "eu serei", o que implicaria uma espécie
de mudança; eternamente Deus diz EU SOU. Nunca o
Perfeito passa pelo processo de se tornar. 86
85
RUSHDOONY, Mark R. The error of limiting God to time and history,
disponível em: <http://chalcedon.edu/research/articles/the-error-of-limiting-
god-to-time-and-history/>, acessado em 01/04/2012. Segundo Rushdoony,
"Uma visão naturalista da história vê as forças determinantes da história
como estando inteiramente dentro da história. Ela vê a história como o
estudo dos homens em relação à sociedade, ao clima, à geografia e aos seus
recursos em sua relação com grupos similarmente afetados. A biologia, o
pensamento e as ações dos homens são vistos como controlando a história".
86
KUIPER, D. H. The eternity of God, disponível em: <http://www.
reformedwitness.org/pm ph ltlst/Attributes/Eternity.html>, acessado em :
01/04/2012.

242
VERDADES QUE OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM ESQUECER

É muito difícil falar filosoficamente da eternidade por-


que ela está além da nossa compreensão, pelo fato de ser-
mos finitos e temporais. Somos medidos por essas catego-
rias e delas não podemos escapar. Mas Deus é incriado, e
sua existência independe da noção temporal. Kuiper diz que

A eternidade de Deus pertence àqueles atributos que


são designados pelas palavras infinidade ou imensidão.
A infinidade aplicada ao espaço é onipresença; Deus é
onipresente no sentido de que ele é exaltado acima das
limitações do espaço. A infinidade aplicada ao tempo
é eternidade; Deus é eterno no sentido de que ele é
exaltado acima das limitações do tempo. A eternidade de
Deus está relacionada a diversos outros atributos seus.
Somente o Deus eterno pode ser independente e livre.
Somente o Deus eterno pode ser soberano sobre todas as
coisas. Somente o Deus eterno pode ser imutável, sem
qualquer mudança. 87

Por sua imensidão, Deus está acima do espaço; por


sua eternidade, ele está acima e fora do tempo, porque
eternidade é o que faz contraste com o que é temporal.
Por ser eterno, Deus controla todos os eventos natu-
rais da história, porque a natureza está sob o seu controle
absoluto, e ele domina sobre os processos naturais. Mais
que isso, Deus controla todos os atos praticados pelos ho-
mens porque tem domínio sobre o coração dos homens,
mudando suas intenções e seus desígnios.
Como cristãos, não podemos ver a história sob um
prisma naturalista.

87
lbid.

243
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O significado de história, seja passada, presente


ou futura , transcende o momento e aquelas coisas
terreais que a cercam. A história é mais do que uma
série de eventos naturalistas ou uma sequência de
eventos casuais. Ela toda tem um propósito porque é
toda governada por um Deus de significado total. 88

A história é ordenada por Deus, e o tempo é parte da


criação chamada à existência. Deus criou o tempo, mas o
antecede; está envolvido no tempo, mas não circundado
por ele.

Porque Deus transcende o tempo e a natureza, tanto as


profecias como as promessas são possíveis . A profecia
cumprida é para nos dar fé em quem Deus realmente
é e o que suas promessas significam. [... ]Um Deus
que transcende o tempo e a história é um Deus que
determina o tempo e a história. 89

Pedro diz que a noção temporal dos homens não tem


importãncia nenhuma para Deus. Não significa nada para
ele porque ele sempre existiu e está fora e acima do tempo.
Por essa razão, para Deus, "um dia é com o mil anos, e mil
anos, como um dia ".

88 RUSHDOONY, Mark R. The error of limiting God to time and history.


89
lbid

244
VERDADES QUE OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM ESQUECER

2. OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM SE


ESQUECER DA ETERNIDADE DE DEUS

Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer:


que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos,
como um dia (2Pe 3.8).

Como vimos anteriormente, Deus não é regido por


dias, meses e anos, como nós o somos. Deus é um ser
eterno, e a noção temporal, para ele, não tem o mesmo
significado que tem para nós. A noção temporal está na es-
fera das coisas finitas. Deus é infinito e não está confinado
ao tempo. Por isso, para ele, um dia é como mil anos, e mil
anos, como um dia. O tempo não se refere a Deus, mas
ao homem. Somente as coisas criadas estão relacionadas
ao tempo, não Deus. É isso que Pedro está ensinando aos
forasteiros. A brevidade dos nossos dias não pode ser com-
parada aos "dias de Deus".
Pedro acalma o coração inquieto de seus leitores
quando lembra o que Davi já havia dito:

Dá-me a conhecer, SENHOR, o meu fim e qual a soma dos


meus dias, para que eu reconheça a minha fragilidade.
Deste aos meus dias o comprimento de alguns palmos; à
tua presença, o prazo da minha vida é nada. Na verdade,
todo homem, por mais firme que esteja, é pura vaidade.
Com efeito, passa o homem como uma sombra; em vão
se inquieta; amontoa tesouros e não sabe quem os levará
(Sl 39.4-6).

245
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O homem não passa muito dos 80 anos. Deus impôs


sobre ele uma grande finitude. Mas Deus é totalmente di-
ferente. Ele não é limitado nem amarrado aos anos. É infi-
nito e, portanto, eterno.
Então, para consolar os seus leitores, Pedro apela
para o que Moisés já havia entendido milênios antes. Ele
disse num dos salmos:

Pois mil anos, aos teus olhos, são comó oclia de ontem
que se foi e como a vigília da noite. Tu os arrastas na
torrente, são como um sono, como a relva que floresce de
madrugada; de madrugada, viceja e floresce; à tarde,
murcha e seca (Sl 90.4-6).

A perspectiva de tempo de Deus não é igual à nossa.


Mil anos, para os seres humanos, demoram a passar por-
que são 365 dias vezes mil. Todavia, essa medida não é
comparável à de Deus.
Tente comparar sua maneira de pensar com a de seu
filho pequeno. A perspectiva de tempo do adulto é dife-
rente da perspectiva de uma criança. Você diz para o seu
filho numa viagem: "Vamos viajar dez horas até chegar à
casa da vovô, ok?" "Ok", responde o filho. Cinco minutos
depois, ele pergunta: "Pai, tá chegando?". Com certeza, a
noção temporal dele é diferente da sua!
Se existe uma perspectiva de tempo diferente entre
seres humanos mais maduros e menos maduros, você
pode imaginar, então, quão maior é a diferença entre a
perspectiva temporal humana e a divina! É isso que Pedro
está ensinando, porque, mesmo entre alguns crentes, a
vinda do Senhor parece "demorada".
Embora Deus esteja fora e além da noção temporal,
ele se envolve com o tempo e o usa para sua honra e glória.

246
VERDADES QUE OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM ESQUECER

Deus é infinito e eterno, e nós somos finitos e temporais.


Por isso, a noção mais completa de Deus escapa de nossa
capacidade de vê-lo como ele é em sua plenitude.

3. OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM SE


ESQUECER DA PROMESSA DA VINDA DO SENHOR

Deus designou de antemão todo o calendário da


história do mundo. Ele não falha na sua programação
e realização da história humana, nem mesmo em seus
detalhes. O calendário é de Deus, não nosso. Já vimos
que Deus não está preso ao tempo, embora atue nele.
Deus prometeu um filho a Abraão e demorou 25 anos
para cumprir a sua promessa; Deus prometeu libertar
o povo do cativeiro e levou 430 anos para cumprir a sua
promessa. Por que Deus se demora tanto em cumprir as
suas promessas? Por que ele se demora em responder aos
nossos apelos? Por que ele retarda em cumprir as coisas
importantes que prometeu sobre este mundo, como a
volta de seu Filho, por exemplo?
Munier nos sugere uma boa resposta a essas pergun-
tas: "Eu creio que a razão repousa no fato de que Deus
quer que tenhamos uma perspectiva eterna da vida. Se
sempre focamos o aqui e agora, nós começamos a perder o
valor de entesourar o que é eterno, que é Deus". 90
Essas situações de "demora" de Deus nos perturbam
muito. Então Pedro acaba, de vez, com as nossas ideias de
que Deus retarda ou se demora em cumprir suas promes-
sas, dizendo:

90
MEUNIER, David, em seu sermão sobre 2Pedro 3.1-10, The folly of mocking
God's delay exposed, disponível em : <http://www.plainvillebaptist.org/
Sermons/2Pe3_01_09.htm>, acessado em: 01/05/2012.

247
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a


julgam demorada (2Pe 3 .9) .

Vamos analisar rapidamente a maneira de Deus ver


as coisas e a nossa maneira de vê-las.

1) DO PONTO DE VISTA DE DEUS, A PROMESSA DA


VINDA DO SENHOR NÃO RETARDA

Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a


julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para
convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que
todos cheguem ao arrependimento (2Pe 3.9).

Nós pensamos que Deus está se atrasando muito nos


seus afazeres. Deus parece tardar aos nossos olhos, mas
ele semp re cumpre os seus planos infalivelmente e no tem-
po apropriado.

O S ENHOR me respondeu e disse: Escreve a visão, grava-a


sobre tábuas, para que a possa ler até quem passa
correndo. Porque a visão ainda está para cumprir-se no
tempo determinado, mas se apressa para o fim e não
falhará; se tardar [na visão humana], espera-o, porque,
certamente, virá, não tardará [na visão divina) (Hc 2.2 ,3) .

Pedro está ensinando aos forasteiros, como estuda-


mos anteriormente , que a perspectiva de Deus com rela-
ção ao tempo é muito diferente da nossa. O que para nós
parece demorado, para Deus não é, porque a noção dele

248
VERDADES QUE OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM ESQUECER

é diferente da nossa. Ele sempre opera de acordo com um


plano que estabeleceu desde "os tempos eternos" e certa-
mente cumprirá tudo o que diz. Todas as coisas de Deus
vêm no tempo exato, sem tardar, porque os seus planos se
cumprem perfeitamente e no tempo apropriado.
Portanto, quando você conhece uma profecia divina,
deve orar para que a palavra profética se cumpra. Jeremias
profetizou que Judá seria levado cativo para a Babilônia e
que o cativeiro duraria setenta anos. Sabedor da profecia
de Jeremias, quando o tempo estava para expirar, Daniel
orou a Deus para que libertasse o povo do cativeiro (Dn
9.1-3). Deus não tardou nem faltou. Ele libertou o povo
exatamente quando o período de setenta anos de cativeiro
se completou. Deus nunca se atrasa nos compromissos
que assume com a história humana.
Deus estabeleceu um esquema de horários que não
falha. O ditado popular diz que "Deus tarda, mas não fa-
lha". Na verdade, Deus não tarda nem falha! Esta é a boa
teologia. Porque ele não é governado pelo tempo, como nós
o somos, Deus sempre está em dia e nunca retarda uma
promessa sua. Ele pode tardar aos nossos olhos, mas não
na sua própria perspectiva.

2) DO PONTO DE VISTA DO HOMEM, A PROMESSA DA


VINDA DO SENHOR É DEMORADA

Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a


julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para
convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que
todos cheguem ao arrependimento (2Pe 3.9).

Não somente os escarnecedores zombam da vin-


da do Senhor, dizendo: "Onde está a promessa da sua

249
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

vind a ?" (v. 4). Nós próprios , pela falta de entendimen-


to sobre quem Deus é, sofremos pela "demora" de Deus.
Acabamos sendo influenciados pelos escarnecedores, que
dizem: Porque, desde que os pais dormiram, todas as coi-
sas permanecem como desde o princípio da criação (v. 4).
Com a ideia de que Deus está demorando muito, caímos
em desânimo, porque as provações aumentam, e nâo ve-
mos o Senhor chegar.

A) PoR QUE PENSAMOS QUE A VINDA DO SENHOR É DEMORADA?

Pensamos que a vinda do Senhor é demorada porque


julgamos que Deus está preso à nossa estrutura de tempo.
Por pensarmos dessa maneira é que temos desapontamen-
tos e achamos que Deus falha em seus propósitos ou nâo
se preocupa conosco nem se importa com as nossas deses-
peradas expectativas que nâo se realizam.
Meunier conta uma história muito interessante que
ilustra o que estamos ensinando. Ele diz:

Ouvi uma história de um homem conversando com


Deus . Ele perguntou: "Senhor, quanto é um milhão de
anos para ti?". Deus respondeu ao homem: "Igual a um
segundo". Então, o homem fez outra pergunta: "Senhor,
quanto é um milhão de dólares para ti?" . Deus lhe
replicou: "Igual a um centavo". Então , o homem inquiriu
mais uma vez: "Então o Senhor me dá um centavo?", e
Deus respondeu: "Espere um segundo". 91

MEUNIER, David, em seu sermão sobre 2Pe 3.1-10, Thefolly of mocking


91

God's delay exposed, disponível em: <http://www.plainvillebaptist.org/


Sermons/2Pe3_01_09.htm>, acessado em: 01/05/2012.

250
VERDADES QUE OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM ESQUECER

Precisamos aprender a não pôr Deus na categoria do


nosso tempo. Quando fazemos isso, nós próprios ficamos
frustrados porque Deus se demora em fazer aquilo que
disse que levaria um segundo. Nossa estrutura temporal
não é a mesma de Deus. Por isso, pensamos que Deus se
demora. Não podemos pensar dessa maneira. Deus não
está preso à estrutura temporal que ele próprio estabele-
ceu para os homens.

B) As RAZÕES DA SUPOSTA DEMORA DA VOLTA DE JESUS

• A demora de Jesus é aparente porque ele não quer


que os seus pereçam em pecado. Ele quer que eles se vol-
tem de seus pecados, que se arrependam. Jesus tem pa-
ciência com aqueles que têm de se arrepender, que são os
rebeldes do meio do seu próprio povo. Ele não quer que
nenhum deles pereça, mas que todos cheguem ao arrepen-
dimento (v. 9).
• A demora de Jesus é aparente porque ele quer que
o evangelho seja espalhado por todas as nações. Ele está
demorando porque ainda não se cumpriu o mandado da
evangelização de todas as nações (M t 24. 14) para que che-
gue o fim. Ele só voltará quando todas as nações ouvirem
a pregação do evangelho.
• A demora de Jesus é aparente porque ele tem lon-
ganimidade com os ímpios. A longanimidade com os do
seu povo é para que eles se arrependam, e a longanimi-
dade com os ímpios é simplesmente um retardamento da
execução da sua justiça. A longanimidade de Deus com os
ímpios não dura para sempre. Tempo haverá em que Deus
deixará de manifestar longanimidade e passará a manifes-
tar justiça. Então será o tempo da ira, o tempo da vingança
de Deus contra os escarnecedores que Pedro menciona.
Jesus não está atrasado em sua vinda. Ele está exa-
tamente no horário, no tempo certo de Deus, não no nosso,
no calendário de Deus, não no nosso.

251
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

4. OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM SE ESQUECER


DA LONGANIMIDADE DE DEUS PARA COM ELES

Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a


julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para
convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que
todos cheguem ao arrependimento (2Pe 3.9).

O ensino sobre a longanimidade de Deus é muito lin-


do e começa no Antigo Testamento. Quando o Senhor se
manifestou teofanicamente a Moisés numa nuvem, este
reconheceu esse atributo no Senhor, dizendo-lhe:

SENHOR, SENHOR Deus compassivo, clemente e longânimo


e grande em misericórdia efidelidade (Êx 34.6).

Na prática, a longanimidade de Deus já havia sido


mostrada em tempos bem mais antigos. Deus foi paciente
nos tempos de Noé. Pedro fez referência a essa paciên-
cia divina em sua primeira carta (lPe 3.20). Deus esperou
pacientemente 120 anos , com Noé sendo o pregoeiro da
justiça, para então fazer vir a sua ira, contida desde que
anunciara o dilúvio.
Esse período foi de muita paciência com os pecadores
impenitentes. Deus demorou para manifestar sobre eles a
sua ira, mas o tempo da ira chegou, quando as comportas
do céu e das profundezas da terra se abriram e aconteceu
o dilúvio , fazendo o mundo perecer em água.

1. O SIGNIFICADO DE LONGANIMIDADE
Longanimidade é sinônimo de uma paciência prolon-
gada. A paciência é um atributo que envolve o poder. Se

252
VERDADES QUE OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM ESQUECER

Deus não fosse Todo-poderoso, ele não poderia ser pacien-


te. Por quê? Veja a definição de paciência:

Uma boa definição da paciência de Deus é o fato de


ele ter domínio sobre si mesmo a fim de não destruir
imediatamente todos os filhos dos homens por causa de
seus pecados, manifestando a sua ira santa e justa. Se
Deus não exercesse poder sobre si mesmo , você e eu já
estaríamos debaixo da ira divina no lago de fogo.

Por que frequentemente você perde a paciência?


Porque você não tem poder sobre si mesmo. Todavia, Deus
nunca perde a paciência porque ele é Todo-poderoso e tem
domínio total sobre si. Ele não dá vazão à sua ira por-
que não aguenta mais. Ele suporta as ofensas dos homens
quanto tempo quer porque, fazendo isso, demonstra o seu
grande poder.
Deus não apenas mostra a sua justiça, mas, antes de
manifestá-la, ele quer que os homens saibam a respeito da
sua paciência. Isso quer dizer que Deus retarda a mani-
festação da sua ira por motivos que ele não menciona nes-
te texto. Ele resolve não destruir os homens tão logo eles
mostram a sua rebeldia. Deus os suporta pacientemente.
Ele tem o direito de destruir imediatamente todos os vio-
ladores da sua lei, mas ele suporta "com m u ita longanim i-
dad e os vasos d e ira" (Rm 9.22).
A Bíblia não se cansa em dizer que Deus é longâni-
mo (paciente) por causa da sua benignidade para com os
homens. Deus é paciente com os homens, não querendo
puni-los. Ele não tem prazer na morte do ímpio, por isso é
paciente. Todavia, embora não tenha prazer na morte do
ímpio, Deus derrama a sua ira sobre ele.

253
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

2. OS OBJETOS DA LONGANIMIDADE

pelo contrário, ele é longânimo para convosco (2Pe 3.9).

De quem Pedro está falando quando diz "convosco"?


Certamente, está falando de seus leitores, que ele chama
de forasteiros e peregrinos.
Deus é longânimo, em medidas diferentes, com todos
os seres humanos: os ímpios, os que estão para se tornar
crentes e os crentes. Primordialmente, no entanto, o texto
se refere à longanimidade de Deus para com os crentes,
que são aqueles com quem Pedro está tratando quando diz
"convosco".

A) A LONGANIMIDADE DE DEUS COM OS QUE JÁ ERAM CRENTES

Há alguns entre nós com quem Deus foi muito longâ-


nimo. Por longo tempo Deus tolerou alguns de nós muito
pacientemente. Se ele não fosse longânimo, muitos de nós
já teríamos sido destruídos!
Deus é longânimo conosco porque nos elegeu e espe-
rou o tempo próprio de nos dar vida, arrependimento e fé.

Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e


longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te
conduz ao arrependimento? (Rm 2.4).

Mais do que ninguém, nós, cristãos, nunca podemos


desprezar a bondade de Deus e sua tolerância e paciência,
porque Deus tinha santos e benignos propósitos em nos fa-
zer arrependidos. Ele não age assim com todos os homens,
mas com aqueles em quem põe o coração, a quem ama

254
VERDADES QUE OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM ESQUECER

salvificamente. Ele nos tem tolerado e nos deixado impu-


nes por muitos pecados que cometemos. Deus tem agido
muito pacientemente conosco porque ele próprio lançou a
penalidade dos nossos pecados em Jesus Cristo. A obra de
Cristo é a razão pela qual Deus nos trata longanimamente,
até que nos dê a graça salvadora do arrependimento e da
fé no Salvador.
Há uma observação importante: a longanimidade de
Deus para conosco não é por causa da nossa fé, mas por
causa da obra de Cristo, que nos leva à fé e ao arrepen-
dimento, por meio dos quais nos apossamos da redenção
que há nele.
Pedro, referindo-se a Paulo, diz que a nossa salvação
tem a ver com a longanimidade de Deus (2Pe 3.9, 15). Deus
espera pacientemente algumas pessoas até que se arre-
pendam de seus pecados. Deus deseja que aconteça isso a
todos os que ele chama de forasteiros e peregrinos, a quem
amou sobremaneira.
Todos nós poderíamos testemunhar sobre quão pa-
ciente Deus foi conosco até que, um dia, fomos atingidos
pela graça renovadora do Espírito Santo!

B) A LONGANIMIDADE DE DEUS COM OS QUE HAVERIAM DE SE


TORNAR CRENTES

Já vimos que Deus é longânimo com os cristãos, mas


a sua longanimidade é exibida de maneira extraordinária
para com aqueles que ainda não são cristãos, mas que
Deus decidiu que vão se tornar cristãos. Deus é extrema-
mente paciente com eles!

Se Deus suportou com muita paciência aqueles que ele sabia


que nunca seriam salvos, nós deveriamos ter ao menos uma
pequena paciência com pessoas que, embora talvez não

255
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

convertidas ainda, podem, pela graça de Deus, experimentar


uma mudança fundamental e uma conversão genuína. 92

Com muitos de nós Deus teve paciência por anos


a fio, até que chegasse o tempo da regeneração miracu-
losa e, consequentemente, da fé e do arrependimento.
Deveríamos aprender a ter paciência com pessoas que não
têm a mesma cosmovisão cristã que nós, pois até pessoas
muito incrédulas podem ser convertidas a Cristo Jesus de
maneira extraordinária. Deus é paciente em extremo com
aqueles que decidiu salvar.
Deus é lento apenas para uma coisa (e isto aos meus
olhos): ele é tardio em irar-se (81145.8). Essa é uma manei-
ra diferente de dizer que Deus é longãnimo, ou seja, ele de-
mora a mostrar a sua ira porque é extremamente paciente
conosco. No final das contas, a ira dele não cai sobre nós,
somente a sua misericórdia, porque a sua ira já caiu sobre
o Redentor, Jesus Cristo. Bendito seja ele por essa lenti-
dão em se irar com aqueles que estão para se tornar seus
filhos. Se Deus fosse apressado para isso, não sobraria um
só pecador para contar a história.
"Ele é longãnimo para convosco" - Esta é uma ex-
pressão não de indiferença nem de desinteresse, mas de
bondade. Porque Deus é bom, ele mostra uma paciência
muito prolongada em relação aos que quer salvar e certa-
mente vai salvar.

c) A LONGANIMIDADE DE DEUS PARA COM OS ÍMPIOS

Embora Pedro não esteja falando da misericórdia de


Deus para com os ímpios no texto em estudo, é importan-
te lembrar que há um sentido em que Deus é realmente
92GOETTSCHE, Bruce, God's patience and mercy- Romans 9:22-33, disponível
em: <http :/ jwww. u n ionchurch .com/a rchive/012305. htm 1>, acessado em:
01/05/2012.

256
VERDADES QUE OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM ESQUECER

longânimo, mas de um modo diferente da longanimidade


em relação aos cristãos ou aos que estão para se tornar
cristãos. A longanimidade de Deus com os ímpios tem um
propósito bem diferente.
As pessoas ímpias a que me refiro são aquelas que não
vão nunca se arrepender de seus pecados. Elas permanecem
sempre em oposição a Deus. Até nem gostamos quando
Deus é longânimo com elas porque pensamos da seguinte
maneira: "Até quando Deus vai deixar de vingar os pecados
delas? Deus está demorando demais!". Esperaríamos que
Deus as destruísse logo e limpasse a terra desse tipo de
pessoas, mas não é isso o que frequentemente acontece.
Esse pensamento não é ilícito, pois mesmo os cristãos que
já estão no céu têm o mesmo senso de justiça que nós já
temos de forma principiante (cf. Ap 6.9-11).
No caso dos ímpios, a longanimidade de Deus apenas
retarda a manifestação da sua ira. Esse é o sentido do tex-
to de Paulo em Romanos 9.22. Quando Deus é longânimo
para com os ímpios, manifesta a eles o seu poder. Deus se
controla, exercendo grande poder sobre si mesmo! Ele tem
todo direito de eliminá-los imediatamente após os seus pe-
cados, mas dá a conhecer o seu poder aos ímpios pela ma-
nifestação da sua longanimidade!
Deus fez assim com o faraó: ele poderia ter destruído
o faraó tão logo este se mostrou desobediente, não deixan-
do o povo sair do Egito, mas Deus lhe deu corda, Deus o
entregou a si mesmo e o deixou praticar os seus atos maus
por muito tempo, até que deu cabo dele. Deus foi longâ-
nimo com o faraó; poderia tê-lo destruído, mas quis lhe
mostrar o seu poder, não somente na imposição das pra-
gas, mas na sua capacidade de não punir imediatamente,
exercendo poder sobre si próprio . É preciso grande poder
para ser longânimo!
Desde há muito Deus poderia ter destruído os ímpios
deste mundo. Por motivos que estão escondidos de nós,

257
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Deus não faz assim. Ele tem uma paciência prolongada, não
os destruindo de imediato. O castigo dos ímpios raramente
vem a cavalo. Ou seja, Deus é longãnimo para com eles.
Muitos homens são longãnimos com os ímpios, su-
portando-os com muita paciência, porque não podem fazer
nada para mudar a situação. No entanto, Deus tem todas
as coisas em suas mãos para punir os ímpios, mas resolve
ser longamente paciente com eles. Deus tem todo o po-
der possível para lançá-los imediatamente na condenação,
mas não o faz. Para Deus, não é uma questão de poder,
mas de querer. Ele decide ser paciente até que resolva ma-
nifestar sua justiça.
Quanto mais os ímpios pecam, maior será a sua culpa
e a ira de Deus contra eles. Quanto mais Deus é longãni-
mo com eles, mais forte se torna a sua ira depois. Quando
essa ira é derramada sobre eles, Deus é louvado e glorifi-
cado por manifestá-la!
Veja a distinção entre a longanimidade mostrada aos
crentes e a longanimidade mostrada aos ímpios: a pri-
meira acaba em misericórdia salvadora, e a segunda, em
juízo. Com os contemporãneos de Noé, a longanimidade
terminou no dilúvio; com a família de Noé, terminou em
salvamento. No primeiro caso , foi longanimidade sem mi-
sericórdia; no segundo , longanimidade com misericórdia.
Deus sempre tem mostrado ser muito paciente com os
homens em geral, retardando a sua ira contra eles, mas a sua
paciência prolongada aqui no texto de 2Pedro 3.7 tem em mira
especialmente aqueles a quem ele já salvou e os que está para
salvar, porque não quer que nenhum deles se perca.

3. O NOSSO DEVER DE LONGANIMIDADE


Longanimidade significa uma paciência prolongada.
Essa é uma virtude que eu preciso aprender a desenvolver.

258
VERDADES QUE OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM ESQUECER

Por que, às vezes, você perde a paciência? Porque


você não tem domínio sobre si mesmo. Todavia, não é as-
sim com Deus.
Já mencionei anteriormente que é necessário um
grande poder em Deus para mostrar misericórdia quando
ele teria todo o direito de mostrar ira. Mas o texto me ajuda
ainda mais a compreender essa verdade: a fim de não des-
truir o pecador tão logo ele peque, Deus exerce sobre si um
poder muito grande. É verdade que, às vezes, ele destrói o
pecador imediatamente após o pecado. Ele fez assim com
Ananias e Safira.
Mas Deus consegue se manter um bom tempo sem
mostrar ira ao pecador. Esses pecadores vivem muitos
anos e não recebem nesta vida o castigo que gostaríamos
que recebessem. Nós nos espantamos de como Deus su-
porta com muita paciência pecadores que se opõem sis-
tematicamente a ele. Se dependesse de nós, Deus já teria
destruído muita gente do nosso meio!
Em geral, não gostamos de esperar quando algo de-
mora demasiadamente. Não temos paciência em esperar
coisas, mesmo as mais corriqueiras da vida, como comida
e viagens, por exemplo. Não gostamos de atraso. Somos
sobremaneira apressados em tudo o que esperamos.
No entanto, aprendemos da Escritura que os grandes
homens e mulheres de Deus tiveram paciência para a che-
gada do tempo próprio das promessas de Deus, embora
alguns tenham pecado ao longo da espera: Noé esperou
cerca de cem anos pelo dilúvio que Deus havia anuncia-
do (cf. Gn 5.32; 6.10; 7.6); Abraão e Sara esperaram 25
anos pelo nascimento do filho da promessa (cf. Gn 12.4;
21.5); o mesmo Abraão esperou e até morreu antes que a
promessa da terra fosse cumprida, o que demorou ainda
quatrocentos anos até que seus descendentes tomassem
posse dela (cf. Gn 12.1-3; 15.12-16). Mesmo os que já es-
tão na glória celestial esperam ansiosamente pelas coisas

259
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

que estão para acontecer, revelando certa expectativa e até


impaciência por quererem ver a justiça de Deus ser feita
neste mundo (cf. Ap 6.9-11).
Muitas das promessas de Deus demoram longo tempo
para ser cumpridas. A vinda do reino foi muito aguardada
até que Cristo chegou. A consumação do reino também foi
prometida em dias antigos. Quando Pedro escreve sobre
elas, ele o faz para consolar o povo, que estava em compas-
so de espera pelo cumprimento dessas promessas.

5. OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM SE


ESQUECER DE QUE DEUS QUERIA O
ARREPENDIMENTO DE TODOS ELES

Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a


julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para
convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que
todos cheguem ao arrependimento (2Pe 3.9).

Esta parte do ensino sobre a palavra "todos" nos aju-


da a entender a quem Pedro se refere quando escreve a
sua carta. A palavra "todos" tem os mesmos referentes de
"convosco".

1. DE QUEM PEDRO ESTÁ FALANDO NESSE


CAPÍTULO?
Pedro está falando de duas classes de pessoas: 1) ele
está falando dos escarnecedores; 2) ele está falando com os
destinatários de sua carta, a quem chama de amados, elei-
tos etc. Tratar desse assunto é muito importante porque a
suposição arminiana (e a de muitos reformados incautos)

260
VERDADES QUE OS DESTINATÁRIOS NÃO PODIAM ESQUECER

é a de que Deus está dando uma grande oportunidade de


arrependimento a cada pessoa, sem exceção, que está no
presente habitat.

2. A QUEM PEDRO SE REFERE ESPECIFICAMENTE


QUANDO USA A PALAVRA "TODOS"?
A resposta mais comum é: a palavra "todos" signifi-
ca "todos", ou seja, sem exceção. Todavia, não é sempre
assim. Na verdade, não podemos nos esquecer de que é
o contexto que determina o significado da palavra "todos"
em determinado versículo. Por exemplo, se eu entro na
sala de aula e pergunto: "Estão todos aqui?", a palavra
"todos" está sendo limitada aos matriculados naquela dis-
ciplina, mas não pode ser entendida como se referindo a
cada pessoa que existe no mundo.
Os comentaristas que têm uma linha libertária enten-
dem que o "todos" de Pedro se refere a todos os seres hu-
manos, sem exceção, mas os reformados preferem ver- e
com justeza - que o "todos" se refere aos destinatários de
Pedro. Portanto, quando olhamos para o verso 9, podemos
ver imediatamente uma clara limitação: Pedro equalizao
"todos" ao pronome "convosco", que são os seus destinatá-
rios. Deus os chama de "eleitos" na primeira carta e tam-
bém na segunda (1Pe 1.1; 2Pe 3.1,8,9). Portanto, o próprio
texto determina a quem o "todos" se refere. Deus não queria
que nenhum desses, a quem Pedro escreve, se perdesse,
mas queria que todos eles chegassem ao arrependimento.
Os destinatários de Pedro não podiam se esquecer da
longanimidade de Deus para com eles. Deus queria todos
reconciliados com ele! Por essa razão, a sua paciência era
prolongada com eles. A volta de Cristo está vinculada ao
arrependimento de todos eles, por isso eles não precisavam
pensar que o Senhor estava demorando ou retardando a
sua promessa. Deus apenas estava esperando a ocasião
apropriada, segundo ele, para cumprir as suas promessas.

261
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

A mesma palavra pode ser dita aos crentes que leem


essa carta de Pedro. Essa palavra é para nós também, para
que nos arrependamos de nossos pecados a fim de que, da
presença do Senhor, venham tempos de refrigério; e para
que ele nos envie o Cristo, que os céus seguram até que
chegue o tempo da restauração de todas as coisas (cf. At
3.19-21). Deus espera pacientemente até que o tempo que
ele designou para a volta do seu Filho chegue. A essa al-
tura, o seu povo todo terá se arrependido de todos os seus
pecados. Por essa razão, Deus tem sido longãnimo para
conosco, e não podemos nos esquecer disso!

262
CAPÍTULO 10

A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE
HABITATTEM CONEXÃO COM UM
DIA ESPECIAL

Pedro usa três expressões diferentes, no mesmo capí-


tulo, para designar um único dia especial, apontando para
o tempo da destruição da antiga terra. Ele chama o dia da
destruição de:
Dia do Juízo (v. 7)
Dia do Senhor (v. lO)
Dia de Deus (v.12)
O HA BITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Analisemos cada uma dessas expressões pela ordem


em que aparecem no texto de Pedro.

1. A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT SE


DARÁ NO DIA DO JUÍZO

Ora, os céus que agora existem e a terra, pela mesma


palavra, tém sido entesourados para fogo, estando
reservados para o Dia do Juízo e destruição dos homens
ímpios (2Pe 3. 7).

O versículo 7 trata da destruição de duas coisas: do


presente habitat e de seus habitantes. Vejamos pela ordem.

1) NO DIA DO JUÍZO HAVERÁ A DESTRUIÇÃO DO


PRESENTE HABITAT
O presente habitat será destruído no Dia do Juízo
porque foi amaldiçoado por Deus em Gênesis 3, devido
ao pecado de Adão. De lá para cá, podemos ver constan-
temente a maldição de Deus sobre o solo e sobre todos
os outros elementos da terra. Eles serão queimados , mas
não aniquilados. Deus porá fogo sobre a terra, mas, para
a purificação dela, não para o seu desaparecimento. O que
desaparecerá será a maldição, não a terra que o próprio
Deus criou.

2) NO DIA DO JUÍZO HAVERÁ A DESTRUIÇÃO DOS


HABITANTES ÍMPIOS DO PRESENTE HABITAT
Não somente o presente habitat será objeto da destrui-
ção divina, mas também os homens ímpios. Esse dia tem
uma significação especial para eles , não para os cristãos.

264
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

Esse dia não foi reservado para os cristãos, que já terão


sido retirados desta terra. O arrebatamento dos cristãos
vivos se dará imediatamente antes do início do juízo final
sobre os ímpios. Os cristãos não poderão estar presentes
nesse dia porque é o dia da manifestação da ira daquele
que está assentado no trono e do Cordeiro.
O substantivo "destruição" não significa o mesmo que
aniquilação. Quando Deus destruiu o mundo no tempo do
dilúvio , ele não aniquilou o mundo, mas puniu os homens
ímpios. Da mesma forma, no Dia do Juízo, os ímpios serão
destruídos, ou seja, serão banidos desta terra, mas con-
tinuarão a existir, sob punição divina, no lugar que está
reservado para eles. Uma vez que seres humanos vêm à
existência, eles nunca mais deixam de existir. Nesse Dia
do Juízo, a destruição deles significa a sua punição defini-
tiva. Eles serão julgados de um modo final, mas não serão
aniquilados.

Pois eis que vem o dia e arde como fornalha; todos os


soberbos e todos os que cometem perversidade serão como
o restolho; o dia que vem os abrasará, diz o SENHOR dos
Exércitos, de sorte que não lhes deixará nem raiz nem
ramo (Ml 4.1).

Esse dia de ardente destruição será somente para os


ímpios. Estes serão banidos deste mundo, de sorte que
[Deus] não lhes deixará nem raiz nem ramo . Não haverá
lugar para eles neste mundo, que será renovado para a
glória dos remidos de Deus.
Esse dia de juízo, no entanto, não está reservado para
os crentes. Deus tem outro destino para eles. O mesmo
profeta Malaquias fala do destino dos remidos de Deus:

265
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Mas para vós outros que temeis o meu nome nascerá o


sol dajustiça, trazendo salvação nas suas asas; saireis e
saltareis como bezerros soltos da estrebaria. Pisareis os
perversos, porque se farão cinzas debaixo das plantas de
vossos pés, naquele dia que prepararei, diz o SENHOR dos
Exércitos (Ml 4.2,3).

O mesmo dia será de juízo para uns e de salvação


para outros! Uns se morderão de dor, e outros saltarão de
alegria! Nesse dia, os últimos pisarão os primeiros, rego-
zijando-se pela vitória de Deus e sua sobre os maus deste
mundo. Os que pisarão os ímpios são os filhos do dia, não
da noite; são os filhos esclarecidos pela graça que não an-
daram em trevas (lTs 5.5-8).

ADVERTÊNCIA DIVINA

Deus nunca manda um juízo sem antes advertir os


homens dos seus maus caminhos. Ele nunca pune an-
tes de chamar os homens ao arrependimento. Por isso,
Paulo chama os seus contemporâneos ao arrependimento
de seus pecados tendo em vista o dia do julgamento divino
através de Jesus Cristo:

Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorãncia;


agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda
parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia
em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de
um varão que destinou e acreditou diante de todos,
ressuscitando-o dentre os mortos (At 17.30,31).

266
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

Esse dia de juízo será administrado por Jesus Cristo.


Portanto, todos os pecadores são chamados ao arrependi-
mento, a fim de que, da presença do Senhor, venham tem-
pos de refrigério. Se o pecador quer escapar da ira divina,
é seu dever se arrepender e confessar os seus pecados a
quem de direito.
A segunda expressão usada por Pedro referente à des-
truição do presente habitat é "Dia do Senhor":

2. A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT SE


DARÁ NO DIA DO SENHOR

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os


céus passarão com estrepitoso estrondo (2Pe 3.10).

A expressão "Dia do Senhor" se refere a um tempo


futuro que começa na vinda do Senhor. Pedro chama o Dia
do Juízo (v. 7) de Dia do Senhor, que é uma terminologia
muito usada no Antigo Testamento para descrever o dia da
destruição dramática e intensa deste habitat.

1) O DIA DO SENHOR É UM DIA ABSOLUTAMENTE


CERTO

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor (2Pe 3.10a).

Pedro diz que esse dia será infalível porque o Senhor


é infalível no que promete. Pedro não fala da possibilidade
da vinda do Dia do Senhor, mas da sua certeza. Por essa
razão, ele coloca o verbo num tempo de futuro certo, di-
zendo que ele virá. A vinda do Senhor é tão certa quanto

267
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

o ar que respiramos, independentemente da descrença da


maioria das pessoas. Não deve haver na mente dos cris-
tãos nenhuma dúvida sobre a certeza da vinda do Dia do
Senhor.
Certamente você tem um encontro marcado com
Deus, que pode acontecer de duas maneiras:
(1) A primeira maneira de esse encontro com o Senhor
acontecer é com a sua morte. Esta é uma certeza porque
a Escritura diz que aos homens está ordenado morrerem
uma só vez, vindo, depois disto, o juízo (Hb 9.27), ainda
que a morte do cristão não seja uma necessidade absoluta,
pois a morte do cristão como pagamento de pecados já se
deu em Cristo Jesus. Todavia, o cristão morre porque ain-
da está neste habitat sob os efeitos da maldição.
Depois da morte não existe a reencarnação, como
creem muitos em nosso meio; depois da morte não há o
purgatório, que seria o local pré-céu onde os pecados são
purgados, doutrina tão propalada em círculos da Igreja
Católica Romana. Não existirá um encontro de segunda
oportunidade, mas somente um encontro de juízo com o
Senhor. Portanto, quando você morrer, tenha como certo
o seu encontro com Deus. Como você está para esse en-
contro? A Bíblia pronuncia um "ai" sobre você se você não
está em Cristo.
(2) A segunda maneira de você se encontrar com o
Senhor será no retorno dele. Àquela altura, também não
haverá uma segunda oportunidade. Será um encontro de-
cisivo, um infeliz encontro para aqueles que duvidam da
sua vinda. Esse será um dia absolutamente certo. Será um
dia inescapável! Nenhum dos seres vivos naquela época
escapará de ver o Senhor naquele dia! Em sua pregação
aos gregos de Atenas, Paulo os adverte:

268
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CON EXÃO COM UM DIA ESPECIAL

Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorãncia;


agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda
parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia
em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de
um varão que destinou e acreditou diante de todos,
ressuscitando-o dentre os mortos (At 17 .30,31).

Deus determinou fixamente esse dia, e será um dia


inevitável, em que você vai se encontrar com o Senhor! Se
ele voltasse agora, como você estaria para esse encontro?

2) O DIA DO SENHOR SERÁ UM DIA REPENTINO

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor (2Pe 3 .1Oa).

A ideia da vinda do Senhor como algo repentino é re-


petida várias vezes na Escritura.
Paulo tem exatamente o mesmo ensino de Pedro, pois
ambos receberam a luz do mesmo Deus para a compreen-
são dessa verdade. Veja o que Paulo diz:

Irmãos, relativamente aos tempos e às épocas, não há


necessidade de que eu vos escreva; pois vós mesmos
estais inteirados com precisão de que o Dia do Senhor
vem como ladrão de noite (1Ts 5.1 ,2).

A característica do ladrão é chegar sem aviso, quando


as pessoas estão dormindo ou ausentes de casa, repen-
tinamente. Ele nunca manda uma comunicação de que

269
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

está chegando. A tática do ladrão é ser inesperado em sua


chegada. Ele anseia pegar as pessoas desprevenidas. Se as
pessoas soubessem o dia ou a hora da chegada do ladrão,
elas se aprontariam e se preparariam. Mas, como ignoram
a vinda do Senhor e até zombam dela, nunca estarão pre-
paradas para a chegada do Senhor.
O próprio Senhor Jesus disse que a sua vinda teria
esse caráter repentino:

Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia vem o


vosso Senhor. Mas considerai isto: se o pai de família
soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria e não deixaria
que fosse arrombada a sua casa. Por isso, ficai também
vós apercebidos; porque, à hora em que não cuidais, o
Filho do Homem virá (Mt 24.42-44).

A) A VINDA REPENTINA DO SENHOR EXIGE A VIGILÂNCIA

Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso


Senhor (Mt 24.42).

Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora (Mt 25.13).

A ideia de vigilância está sempre presente no ensino


de Jesus Cristo. Várias vezes ele exortou a seus discípulos
esse estado de mente.

Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito,


na verdade, está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26.41).

270
A DESTRUIÇÃO DO PRES ENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

O cristão deve vigiar e orar para não cair em tentação.


Satanás sempre procurará atacar um cristão quando ele
estiver desatento. A desatenção é um dos maiores perigos
para o cristão.
Um crente é como um soldado: ele sempre tem que
estar alerta porque não sabe a hora em que o inimigo vai
atacar o seu exército .

B) A VINDA REPENTINA DO SENHOR EXIGE O APERCEBIMENTO

Por isso, ficai também vós apercebidos; porque, à hora em


que não cuidais, o Filho do Homem virá (Mt 24.44).

Temos de ter cuidado para não cair nas armadilhas


dos falsos mestres e falsos profetas. Eles tentarão nos en-
ganar dizendo que são o Cristo, mas devemos nos aperce-
ber dessas coisas! Por isso, Jesus disse:

E ele lhes respondeu: Vede que ninguém vos engane.


Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o
Cristo, e enganarão a muitos (Mt 24.4) .

A Escritura nos chama constantemente à prontidão


para o caso de o Senhor aparecer repentinamente. Essa
prontidão é algo constante e continuado, não simplesmen-
te pontual.
Aqueles que estão apercebidos quanto à vinda do
Senhor certamente participarão da chegada do noivo e se
assentarão com ele para as bodas. Veja o que Jesus diz na
parábola das dez virgens:

271
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

E, saindo elas [as virgens imprudentes] para comprar


[o azeite], chegou o noivo, e as que estavam apercebid as
entraram com ele para as bodas; e fechou-se a porta (Mt
25.10).

Estar de prontidão é uma atitude de alma, não um


posicionamento casual. Podemos estar mentalmente cons-
cientes de que Jesus vai voltar, mas isso é diferente de estar
em guarda cada dia, para que ele não nos apanhe de sur-
presa e sejamos pegos em nossos pecados.

c) A VINDA REPENTINA DO SENHOR EXIGE CONSTANTE ADVERTÊNCIA


Os ministros do evangelho não podem se furtar de ad-
vertir seus ouvintes sobre a vinda do Senhor. Embora ela
seja prenunciada pelos chamados "sinais da sua vinda", es-
tes não indicam com clareza o dia da sua vinda. Todos nós
sabemos que num dia qualquer um ladrão pode entrar em
nossa casa, mas nenhum de nós pode saber qual será esse
dia. Por essa razão , temos o dever de nos advertir mutua-
mente sobre o dia da chegada do Senhor. Ela será repentina
como a vinda do ladrão.

3) O DIA DO SENHOR SERÁ UM DIA DE SURPRESA

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor (2Pe 3 .10a).

O caráter repentino do Dia do Senhor nos conduz à


ideia de que aquele será um dia de surpresa. Por surpresa,
entenda-se um dia inesperado. Os cristãos esperam ansio-
samente esse dia, mas, por causa da sua incredulidade, os
ímpios não imaginam que ele vai chegar. Será uma terrível

272
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

surpresa para eles a vinda do Senhor! Será surpresa porque


eles estarão despreparados. O preparo das pessoas tem a ver
com a salvação que o próprio Deus providenciou para que
elas escapem da sua ira. A salvação é a salvação da ira de
Deus, porque Jesus é que livra as pessoas do juízo vindouro
de Deus.

A) Os ÍMPIOS SERÃO PEGOS TOTALMENTE DE SURPRESA

Veja a continuação do raciocínio de Paulo quando trata


da surpresa que Cristo vai causar aos ímpios na sua vinda:

Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que


lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores
de parto à que está para dar à luz; e de nenhum modo
escaparão (lTs 5.3) .

Os ímpios serão realmente pegos de surpresa e sofre-


rão uma destruição repentina, ou seja, uma destruição da
qual, definitivamente, não poderão escapar. Não há como
se preparar para essa vinda repentina.
John Gill sugere que, assim como a primeira vinda se
deu numa noite em Belém, assim também, de modo figu-
rativo, a segunda vinda será numa noite escura, em que
os ímpios não saberão discernir o Senhor. Ele virá como
ladrão na noite e será indiscernível. Virá repentinamente,
não sendo esperado, e operará a surpreendente destruição
dos homens ímpios, especialmente dos escarnecedores de
sua vinda. 93

93
GILL, John, em seu comentário sobre 2Pedro 3.12, disponível em: <http://
www.studylight.org/com/geb/view.cgi?book=2pe&chapter=003&ver
se=010>, acessado em: 01/02/2012.

273
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

B) Os CRENTES PODERÃO SER PEGOS DE SURPRESA

Não somente os ímpios serão pegos de surpresa, mas


também muitos cristãos desavisados, cristãos que não es-
tudam com afinco as profecias que dizem respeito à vinda
do Senhor.
a) Por isso, os cristãos precisam vigiar

Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso


Senhor. Mas considerai isto: se o pai de família soubesse
a que hora viria o ladrão, vigiaria e não deixaria que fosse
arrombada a sua casa (Mt 24.42,43) .

Semelhantemente aos ímpios, os cristãos também


não conhecem o dia da vinda do Senhor. A diferença entre
eles é que o cristão crê que ele vai voltar um dia, e os ím-
pios não. Por não saberem o dia exato da volta do Senhor,
os cristãos precisam ficar vigiando, assim como um pai de
família vigia durante a noite , que é a ocasião em que geral-
mente os ladrões entram.
A necessidade da vigilância é constante, ainda que já
saibamos que um dia Jesus virá. Temos que olhar os sinais
e ficar sempre alertas para a possibilidade de ele voltar.
b) Por isso, os cristãos precisam ficar apercebidos

Por is s o, ficai também vós apercebidos; porque, à hora em


que não cuidais, o Filho do Homem virá (Mt 24.44) .

Se os cristãos não se aperceberem das profecias com


respeito à vinda do Senhor, poderão ser pegos de surpre-
sa, porque , à hora em que não cuidais, o Filho do Homem
virá. Há muitos cristãos que brincam com o pecado , com

274
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

as coisas espirituais , e não têm grandes expectativas so-


bre a vinda de Cristo. Eles vivem despreocupados. Esse
tipo de cristão pode ser pego de surpresa por ignorar o
que a Escritura diz a respeito da vinda do Senhor.
c) Por isso, os cristãos genuínos devem saber
sobre a vinda do Senhor
Diferentemente dos ladrões, Jesus Cristo avisou vá-
rias vezes sobre sua segunda vinda e exortou os cristãos
a vigiarem porque o dia dele está chegando. Ainda que o
Senhor venha repentinamente, sem avisar exatamente o
dia, os cristãos que estudam a Escritura sabem discernir
o tempo (não o dia específico) da vinda do Senhor. Nesse
sentido, ela nunca nos pegará de surpresa porque já es-
tamos preparados pela própria obra que o Deus trino está
fazendo em nós. Portanto, ainda que não saibamos o dia
da vinda do Senhor, ele não virá para nós como ladrão,
porque sabemos que ele vem e porque ele aponta sinais
de sua vinda, preparando-nos para aquele dia.

4) O DIA DO SENHOR TEM CARACTERÍSTICAS


ESPECÍFICAS
Será um dia com características especiais que os dias
comuns nunca tiveram. Veremos apenas algumas delas.

1) 0 DIA DO SENHOR SERÁ UM DIA SINGULAR

O Dia do Senhor terá conotações muito diferentes dos


outros dias da história, que o tornam um dia inusitado.
Veja o que diz o profeta Zacarias:

Acontecerá, naquele dia, que não haverá luz, mas frio e gelo.
Mas será um dia singular conhecido do SENHoR; não será nem
dia nem noite, mas haverá luz à tarde (Zc 14.6,7).

275
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Nenhum outro dia na história do mundo será como


aquele derradeiro, no final da história. Não há como com-
parar aquele com os dias antecedentes. Será um dia singu-
lar, não sendo dia nem noite, porque não mais será regido
pelo Sol e pela Lua. Todavia, a luz brilhará sobre o povo de
Deus, a luz de Deus, assim como, ao mesmo tempo, havia
trevas no acampamento dos egípcios e luz no acampamen-
to dos hebreus na terra de Gósen.
O último dia será de natureza diferente dos dias nor-
mais da história do mundo.
a) A singularidade é vista porque será um dia
sem a regência normal dos astros
Jesus Cristo virá no último dia da história humana,
que é o dia da ressurreição. No chamado "dia da sua vin-
da", algumas mudanças cósmicas acontecerão, de tal for-
ma que um dia normal de 24 horas não terá lugar, porque
os astros que regem o dia e a noite, assim como os outros
astros do firmamento , sofrerão grandes mudanças.
Jesus disse que:

Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol


escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas
cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão
abalados (Mt 24.29) .

Essa profecia de Jesus indica que no último dia, no


qual o sangue dos mártires correrá por toda parte, como
um protesto da criação, os astros regentes deixarão de
funcionar normalmente . É óbvio que a linguagem usada
pelos escritores bíblicos não é técnica, isto é, uma lingua-
gem que expresse com exatidão um fenômeno cataclísmico
na abóbada celeste, mas certamente é verdadeira em tudo
o que diz.

276
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

Quanto ao escurecimento do Sol, os cientistas mo-


dernos só poderiam falar num eclipse ou no acúmulo de
gases ao redor da Terra que impede que o Sol possa ser
visto, mas parece que essa não é a ideia dada por Jesus
e registrada pelos evangelistas. É um fenômeno cataclís-
mico que acompanhará o juízo de Deus no dia da vinda
de Jesus Cristo. Esse é o começo da desintegração do
Universo, que terá o seu lugar pleno no último dos even-
tos do grande dia.

Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; sobre a terra,


angústia entre as nações em perplexidade por causa
do bramido do mar e das ondas; haverá homens que
desmaiarão de terror e pela expectativa das coisas que
sobrevirão ao mundo; pois os poderes dos céu s serão
abalados (Lc 21.25 ,26).

Lucas fornece uma abordagem um pouco diferente,


mas tão enfática como a de Mateus. Ele assevera que os
sinais cataclísmicos no céu e na terra serão tão grandes
a ponto de haver angústia e perplexidade nas nações. Os
sinais n o s ol, na lu a e n a s estrelas que Lucas descreve
são expressões também encontradas no AT (Is 12.9-13; Ez
32.7,8; Am 8.9; Jl 2.10,30,31; 3.15), geralmente em tex-
tos que tratam do juízo de Deus sobre Israel, que é típico
do juízo sobre o mundo ímpio. Os sinais na terra estão
relacionados com o mar revolto. Provavelmente, o brami-
do das grandes águas tem a ver com os sinais do céu. As
alterações do céu geram respostas imediatas na terra. Por
causa desses sinais, especialmente os dos céus, esse dia
será inusitado. Nada funcionará com sempre funcionou.
Tudo será revertido - os astros não mais governarão a
terra naquele dia. O Sol não dará a sua claridade, e a Lua
não aparecerá como sempre.

277
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Escrevendo no livro do Apocalipse, João dá uma ideia


semelhante da desordem celestial na vinda do Filho de
Deus com ira:

Vi quando o Cordeiro abriu o sexto selo, e sobreveio grande


terremoto. O sol se tornou negro como saco de crina, a
lua toda, como sangue, as estrelas do céu caíram pela
terra, como a figueira, quando abalada por vento forte,
deixa cair os seus figos verdes, e o céu recolheu-se como
um pergaminho quando se enrola. Então, todos os montes
e ilhas foram movidos do seu lugar (Ap 6.12-14).

Tudo se tornará caótico. Até as próprias estrelas sairão


de sua órbita, e o firmamento experimentará a sua maior
transformação desde o dia em que foi criado. É por isso que
o texto sagrado diz que os poderes dos céus serão abalados.
Nesse último dia, não haverá mais a regência normal
dos astros que controlam as horas do dia e da noite. Todo
o Univer so entrará numa situação ao mesmo tempo caó-
tica e de extrema expectativa. Tudo estará esperando a
intervenção gloriosa de Jesus Cristo para dar um jeito no
caos. Nessa altura, o caos será moral, religioso e, também,
cósmico. Esses sinais cósmicos no Sol, na Lua e nas estre-
las são indicativos de que o Dia de Cristo começou. Nesse
dia, ninguém será capaz de contar as horas, porque não
fará mais sentido sem os medidores essenciais, e porque
muitos homens desmaiarão de terror e pela expectativa
das coisas CJNe sobrevirão ao mundo; pois os poderes dos
céus serão abalados (Lc 21.26). Essas alterações cósmicas
farão uma enorme diferença naquele dia. Nesse "grande
Dia do Senhor", por causa das alterações cósmicas, have-
rá escuridão e negrume, dia de nuvens e densas trevas (Sf
1.14,15).

278
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

b) A singularidade é vista porque será um dia


mais longo
A consequência primeira dessa mudança cósmica
será a duração desse último dia. Ele será "temporalmente"
mais longo do que os outros. Será um dia singular não
somente pelos acontecimentos, mas também pela falta da
regência normal dos astros.
Não somente por sua importãncia, mas também
por sua duração, esse dia é chamado de o grande Dia do
Senhor (Sf 1.14-18; Jd 6). Portanto, o Dia do Senhor é um
período de tempo maior do que o dos dias precedentes.
Nesse dia, os homens não terão descanso. Eles des-
maiarão de terror por causa das coisas que estarão por
acontecer. Uma situação caótica como essa não permitirá
que os homens repousem. Por isso, Jesus disse que have-
rá homens que desmaiarão de terror e pela expectativa das
coisas que sobrevirão ao mundo (Lc 21.26). A palavra grega
traduzida como "desmaiarão" é aTio4JuÇôvTwv e realmente
indica que os homens "expirarão". Haverá muitos "enfar-
tados" nesse dia por causa da angústia causada pelos fe-
nômenos na terra e nos céus. Eles morrerão de pavor pela
expectativa terrível que virá sobre eles. Essa averiguação
indica que esse "dia" durará mais do que 24 horas.
Contudo, essa expectativa de terror é somente para os
ímpios. De modo absolutamente contrário, os justificados,
ao contemplarem os sinais na terra e nos céus, terão gozo.
Para confortar os seus discípulos a respeito daquele último
dia e na expectativa daqueles acontecimentos, Jesus disse:
Ora, ao começarem estas coisas a suceder, exultai e erguei
a vossa cabeça; porque a vossa redenção se aproxima (Lc
21.28). A vinda do Senhor Jesus no último dia é precedida
e acompanhada desses sinais no céu, que indicam que esse
dia será bem mais longo que os dias comuns.
Também os eventos narrados no próximo ponto indi-
cam que a duração desse dia será maior.

279
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

c) A singularidade é vista porque será um dia de


muitos eventos
A duração prolongada desse dia permitirá que vários
eventos de natureza soteriológica e condenatória aconte-
çam. Esses eventos tomarão lugar num só dia, segundo
o ensino geral das Escrituras. Esse é o último e grande
Dia do Senhor, o dia final para todas as coisas no estado
presente.
Em capítulos posteriores trataremos dos eventos do
"último dia", numa tentativa de ordená-los cronológica e
logicamente, seguindo o ensino geral da Escritura:
1) Vinda de Cristo; 2) ressurreição dos justos; 3)
transformação dos justos que ficarem até a vinda de
Cristo; 4) arrebatamento; 5) destruição do homem da ini-
quidade; 6) morte de todos os ímpios; 7) ressurreição fi-
nal dos ímpios; 8) juízo final sobre os seres racionais,
homens e anjos, e sobre o universo físico; 9) estabeleci-
mento da ordem eterna.
Em toda a história do mundo, nunca houve um dia
tão longo e com tantos eventos altamente significativos!
Por isso esse dia será singular!

2) 0 DIA DO SENHOR SERÁ UM DIA DE CONTRASTES

a) Será um dia de graça e de vingança


O profeta Malaquias, falando desse Dia do Senhor,
diz que será um dia de salvação e de condenação. Salvação
para os que pertencem a Deus e condenação para os que
não lhe pertencem.
Eis o que ele diz do dia terrível para os ímpios:

Pois eis que vem o dia e arde como fornalha; todos os


soberbos e todos os que cometem perversidade serão como

280
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

o restolho; o dia que vem os abrasará, diz o SENHOR dos


Exércitos, de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo
(M14.1).

Nesse mesmo texto, falando do mesmo dia, o profeta


diz com respeito aos justos:

Mas para vós outros que temeis o meu nome nascerá o


sol da justiça, trazendo salvação nas suas asas; sai reis e
saltareis como bezerros soltos da estrebaria. Pisareis os
perversos, porque se farão cinzas debaixo das plantas de
vossos pés, naquele dia que prepararei, diz o SENHOR dos
Exércitos (Ml4.2,3).

Ao mesmo tempo que, para o ímpio, o último dia é


um dia de condenação, para o cristão tem um sentido
totalmente diferente. Será um dia de glória, de vitória so-
bre os seus inimigos, e no qual o Senhor lhe trará plena
salvação.
Não há dois dias, um chamado Dia de Cristo e outro
chamado Dia do Senhor. Há somente um longo e grande
dia: o dia da condenação de uns e da salvação de outros.
b) Será um dia de mel e de fel
Em outras palavras, o dia final será doce para alguns
e extremamente amargo para outros. O raciocínio sobre
este ponto é simples: esse dia terá dois sabores diferentes.
O sabor depende de quem o prova. Para os que esperam
ansiosamente o Dia do Senhor, ele será doce, porque será
o dia da sua redenção; para aqueles que não o esperam,
será um dia amargo como o fel, porque é o dia do seu juízo,
em que receberão a sentença de condenação.

281
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

c) Será um dia de luz e de trevas

Ai de vós que desejais o Dia do SENHOR! Para que desejais


vós o Dia do SENHOR? É dia de trevas e não de luz. [... ]
Não será, pois, o Dia do SENHOR trevas e não luz? Não
será completa escuridão, sem nenhuma claridade? (Am
5.18,20).

Os ímpios desconhecem a natureza do Dia do Senhor.


Até o desejam porque pensam que será um dia de vitória
para eles, mas o profeta deixa claro que esse dia não é de-
sejável para os ímpios, porque será um dia não apenas de
escuridão, mas de completa escuridão, que é sinônimo do
juízo do Altíssimo. Por essa razão, o profeta emite um "ai"
para aqueles que desejam esse dia.
Como pode o mesmo dia ser de luz e de trevas si-
multaneamente? A resposta parece simples se tomarmos
o exemplo do Antigo Testamento para ilustrar o que acon-
tecerá no último dia. Você se lembra do que ocorreu um
pouco antes da partida dos hebreus da terra do Egito?
Ali havia trevas e luz simultaneamente para os dois povos
distintos. Enquanto os egípcios estavam sob a praga das
trevas, os hebreus tinham o seu lugar iluminado. Dia e
noite ao mesmo tempo. Se foi possível isso na mesma re-
gião, certamente podemos crer que o Dia do Senhor será
de trevas e escuridão para uns e, ao mesmo tempo, de dia
e luz para outros.

3) 0 DIA DO SENHOR SERÁ UM DIA DE GRANDE JUÍZO

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os


céus passarão com estrepitoso estrondo (2Pe 3.10a).

282
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

Como vimos anteriormente, a expressão Dia do


Senhor é muito usada no Antigo Testamento, 94 e Pedro a
retira dos profetas. O Dia do Senhor é um tema predileto
dos profetas Joel e Isaías, além de outros.
Neste estudo vamos dar uma pincelada em apenas
um dos textos do Antigo Testamento que tratam do Dia do
Senhor de uma maneira detalhada, ainda que gastemos
poucas linhas em cada detalhe.

ANÁLISE DE TEXTO

Ui vai, pois está perto o Dia do SENHoR; vem do Todo-


poderoso como assolação. Pelo que todos os braços
se tomarão frouxos, e o coração de todos os homens
se derreterá. Assombrar-se-ão, e apoderar-se-ão deles
dores e ais, e terão contorções como a mulher parturiente;
olharão atõnitos uns para os outros; o seu rosto se tomará
rosto flamejante . Eis que vem o Dia do SENHOR, dia
cruel, com ira e ardente furor, para converter a terra em
assolação e dela destruir os pecadores. Porque as estrelas
e constelações dos céus não darão a sua luz; o sol, logo
ao nascer, se escurecerá, e a lua não fará resplandecer a
sua luz. Castigarei o mundo por causa da sua maldade
e os perversos, por causa da sua iniquidade; farei cessar
a arrogância dos atrevidos e abaterei a soberba dos
violentos (ls 13.6- 11) .

94
A expressão o Diodo Senhor é usada 19 vezes no AT (ls 2.12; 13.6,9; Ez
13.5; 30.3; Jl1.15; 2.1,11,31; 3.14; Am 5.18 [duas vezes],20; Ob 15; Sf 1.7,14
[duas vezes] ; Zc 14.1; Ml4.5) e três vezes no NT (At 2.20; 2Ts 2.2; 2Pe 3.10).
Há referência a ela também em outras passagens, como Ap 6.17 e 16.14.

283
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Essa profecia de Isaías mostra a Babilônia95 como um


tipo de como será o mundo no tempo do fim. Merril Tenney
diz que a Babilônia é o berço da civilização que expressou
uma espécie de hostilidade organizada contra Deus. Guzik
diz que "para aqueles que estão familiarizados com o Antigo
Testamento, o nome Babilônia está associado a uma idola-
tria organizada, blasfêmia e perseguição ao povo de Deus". 96
Para os judeus, a Babilônia era a essência de todo mal, a in-
corporação da crueldade, o inimigo do povo de Deus, o tipo
duradouro de pecado, carnalidade, luxúria e voracidade. 97
Essa profecia trata do julgamento da Babilônia, apon-
tando para o julgamento de toda a terra. Isaías combinou
profeticamente a visão do julgamento da Babilônia com
o julgamento da totalidade do mundo mau. A Babilônia
era o protótipo local de uma maldade que terá proporções
mundiais no Dia do Senhor. Então, Isaías trata com ma-
estria sobre o juízo de Deus na Babilônia da sua época e
neste mundo no tempo do fim.
Veja as várias características relacionadas ao Dia do
Senhor que Isaías apresenta em seu texto:
a) O Dia do Senhor está próximo

Uivai, pois está perto o Dia do SENHOR (Is 13.6a).

95A Babilônia é mencionada 287 vezes na Escritura, mais do que qualquer


outra cidade do mundo, exceto Jerusalém.
96 GUZIK, David, em seu artigo The fali of religious babylon, disponível em:
<http://www.blueletterbible.org/commentaries/comm_view.cfm?Author
ID=2&content1D=8119&commlnfo=31&topic=Revelation>, acessado em:
04/06/2013.
97 ldeias expressas por TENNEY, Merril C. em seu livro lnterpreting revelation

(Hendrickson Publishers, 1957), citado por David Guzik no artigo The fali
of religious babylon, disponível em: <http://www.blueletterbible.org/
commentaries/comm_view.cfm?AuthoriD=2&contentiD=8119&commlnfo=
31&topic=Revelation>, acessado em: 04/06/2013.

284
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

É provável que o profeta Isaías esteja tratando com


o texto em duas perspectivas: uma de cumprimento pró-
ximo e outra de cumprimento remoto. Hoekema chama
isso de "perspectiva profética". 98 Primeiramente, ele tem
em vista o juízo de Deus sobre a Babilônia, que haveria
de conquistar Judá e, depois, sofreria o juízo divino pelas
mãos do rei da Pérsia. Quando a Babilônia foi destruída,
o que lhe aconteceu se parece tremendamente com o juízo
do Senhor prescrito aqui no texto. Deus se serviu de um
outro império pagão, o medo-persa, para vingar seus ini-
migos. A Babilônia foi varrida da face da terra para nunca
mais ressurgir (Is 13.20-22).
Em segundo lugar, esse juízo tem um caráter mais re-
moto, ou seja, um juízo que haverá de acontecer no tempo
final do mundo. Todavia, a Escritura sempre chama esse
juízo final de "próximo". Todas as geraçôes de cristãos pen-
sam que a vinda do juízo de Deus se dará na sua época.
Portanto, nesse sentido, o Dia do Senhor está sempre perto.
b) O Dia do Senhor é de tremendo sofrimento

Uivai, pois está perto o Dia do SENHaEI' (Is 13.6a).

A expressão inicial do versículo 6, Uivai, é muito sig-


nificativa, pois aponta para a grande dor que a Babilônia e
o mundo todo vão experimentar no Dia do Senhor.
A palavra hebraica traduzida por Uivai significa la-
mento ou grande clamor de tristeza, um grito agudo de dor.
Essa expressão será ouvida somente por aqueles que
são ímpios impenitentes. Embora o povo de Deus do AT
tenha experimentado, em alguma medida, as dores da ira
divina em várias fases da sua existência, a tônica desse
98
HOEKEMA, Anthony. The Bible and the future. Grand Rapids: Eerdmans,
1982, p.9.

285
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

uivo recai sobre os ímpios soberbos que são 1mmigos de


Deus . Portanto, a grande boa notícia é que essa expressão
de profunda dor não será experimentada pelos cristãos.
Esses uivos ou urros serão ouvidos por toda parte ,
como no tempo em que Deus julgou o faraó na morte dos
primogênitos. Esses uivos serão ouvidos em todas as na-
ções , por parte de todos os inimigos de Deus , em razão dos
seus severos juízos.
• S OFRIMENTO D E NATUREZA FÍSICA

Pelo que todos os braços se tornarão frouxos , e o coração


de todos os homens se derreterá (ls 13.7).

Os braços dos homens outrora fortes e orgulhosos


da sua força, diante dos flagelos que lhes serão impos-
tos nesse Dia do Senhor, perderão totalmente a sua for-
ça. Eles ficarão frágeis em reação, tornando-se frouxos.
Os homens nem sequer suportarão o peso de seus bra-
ços porque a surpresa que Deus lhes causará naquele dia
será muito grande. Eles não terão força alguma para lutar
contra o Altíssimo, que virá contra eles com todo o vigor.
Não conseguirão sequer segurar suas armas e não terão
disposição alguma de enfrentar inimigo tão poderoso, um
inimigo que jamais viram! Nem ao menos quererão resistir
à força do Senhor, tão grande será o seu sofrimento.
• SOFRIMENTO D E NATUREZA EMOCIONAL

Pelo que todos os braços se tornarão frouxos, e o coração


de todos os homens se derreterá (ls 13. 7).

A ideia de que os braços se tornarão frouxos é reflexo


de eles estarem sob grande choque emocional paralisante.

286
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

Os seus músculos não respondem aos estímulos dos acon-


tecimentos. Os seus corações ficam derretidos, falhando
em responder, não sendo capazes de esboçar nenhuma
reação que outrora era forte neles.
• SOFRIMENTO DE NATUREZA PSICOSSOMÁTICA

Assombrar-se-ão, e apoderar-se-ão deles dores e ais,


e terão contorções como a mulher parturiente; olharão
atônitos uns para outros; o seu rosto se tomará rosto
flamejante (Is 13.8).

As ações do juízo divino sobre a alma têm efeitos for-


tes no corpo dos homens. São sofrimentos psicossomáti-
cos. A visão do céu se desfigurando e da terra sendo asso-
lada causará grande assombro nos homens, de modo que
ficarão atônitos, olhando uns para os outros sem saber o
que realmente está acontecendo. Eles nunca creram na
manifestação do juízo divino e, agora, estão totalmente im-
potentes e confusos diante dele. Essas emoções fortes lhes
causarão dor física; eles desmaiarão de terror, terão con-
torções como as de parturientes. Nesse dia, os escarnece-
dores não conseguirão oferecer nenhuma resistência ao
que Deus estiver fazendo, porque estarão abalados física e
emocionalmente! A crise do corpo e da alma os paralisará
no Dia do Senhor, e a soberba não os fará suportar a ira
do Senhor naquele dia.
c) O Dia do Senhor é cruel
Eis que vem o Dia do SENHOR, dia cruel (Is 13.9a).

John Gill afirma que "seja a palavra 'cruel' referente


ao Senhor ou ao dia, o sentido é o mesmo; do dia, pode-
-se dizer que é cruel, cheio de ira e fúria, por causa da

287
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

severidade e ferocidade da ira do Senhor, exercida sobre


os babilônios". 99 Eu penso de modo ligeiramente diferente.
Em meu entendimento, o texto não está dizendo que Deus
é cruel, mas que o Dia do Senhor se mostrará cruel para
as pessoas que vivem confortavelmente e que experimen-
tarão o que nunca imaginariam experimentar da justa ira
divina.
O Dia de Jeová será tremendamente cruel para os ím-
pios. Será um dia de exibição da ira divina, que é manifes-
tação da sua justiça. A crueldade será experimentada pe-
los inimigos de Deus, mas uma crueldade que não é falha
do caráter divino, e sim uma exibição da sua justiça. Essa
crueldade permanece em oposição à misericórdia. Nesse
Dia do Senhor, ele não será misericordioso, mas vingativo
contra os seus adversários. Deus não vai poupá-los, assim
como não poupou os habitantes da antiga Babilônia.
d) O Dia do Senhor é de ardente furor

com ira e ardente furor (Is 13.9b).

A expressão ira e ardente furor (cf. Nm 25.4; 32.14;


1Sm 28.18) denota a mais ardente manifestação da in-
dignação divina. A manifestação da ira e do furor arden-
te de Deus não tem nada a ver com o seu humor. Deus
não é governado por humores na expressão do seu amor
ou da sua ira. A ira e o furor divinos estão diretamente
ligados à sua santidade e justiça. A ira divina é forense,
não produto de sua soberania. O seu princípio essencial
de justiça é que governa a sua ira. Esta é muitíssimo
apropriada porque a sua santidade o obriga a manifestar
ira. Deus não pode ficar impassível diante da provocação
dos pecados dos homens. Se ele fizesse isso , negaria a si

99GILL's, John, Exposition of the entire Bible, dispon ível em : <http :/ /bible.cc/
isaiah/13-9.htm>, acessado em : 01/02/2012.

288
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

mesmo, negando a sua santidade e a sua justiça, que são


atributos essenciais nele.
A ira é muito apropriada em Deus. Assim como é
apropriado as autoridades punirem os que quebram as re-
gras da sociedade, também é muitíssimo apropriado que
Deus puna os infratores da sua lei. Ter ira não é um de-
feito moral ou do caráter de Deus. Ao contrário, por ser
eminentemente moral, Deus tem que punir a violação das
suas leis. Por isso, ele ardentemente derramará a sua ira
final sobre os ímpios.
e) O Dia do Senhor é de assolação da terra

para converter a terra em assolação (ls 13.9c).

A expressão terra nesse texto tem duas aplicações:


primariamente se aplica à Babilõnia, a grande inimiga de
Israel, que recebeu o juízo de Deus pelo Império Medo-
Persa. Os juízos de Deus vieram fortemente sobre essa ter-
ra cheia de soberba.
Essa é a visão da profecia com um cumprimento pró-
ximo. A terra da Babilõnia ficou assolada, e tudo o que
havia nela foi destruído, a ponto de a civilização babilõnica
nunca mais ser refeita (cf. Is 13.19,20). Até hoje, a região
da Babilõnia, que corresponde à parte do moderno Iraque,
é uma região desértica, desabitada, porque a terra foi to-
talmente assolada.
No entanto, esta profecia deve ser entendida também
com um cumprimento remoto, para dias mais distantes, no
tempo e no dia do fim. Os pecados de arrogância (Is 11.13;
14.11; 47.7,8), crueldade, adoração a outros deuses (Jr
50.38) e perseguição do povo de Deus (Is 47.6), praticados
pela Babilõnia, serão característicos e típicos da geração
de ímpios no tempo da segunda vinda do Redentor. Nesse

289
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

tempo, a terra toda andará pecando à semelhança dos ba-


bilônios e, portanto, ela será assolada como foi assolada a
totalidade da Babilônia pela ira do Senhor.
O Dia do Senhor será um tempo de destruição catas-
trófica. Enquanto o mundo imagina que está em paz e se-
gurança, sem os temores de um terrorismo mundial, virá
da parte de Deus uma destruição repentina de todas as
coisas (cf. 1Ts 5.3). Nada escapará dessa assolação: nem a
água, nem a vegetação, nem as ilhas, nem as montanhas,
nem os lagos, nem as obras dos homens, etc. A terra será
de todo assolada pela ira do Todo-poderoso (cf. Jl 1.15).
f) O Dia do Senhor é dia de destruição dos
pecadores

e dela destruir os pecadores (ls 13.9d).

Assim como Deus visitou os pecadores da Babilônia


por causa dos seus pecados, ele também visitará toda a
terra e destruirá os pecadores. Será uma cena de horror,
porque não sobrará nenhum pecador que não seja punido.
Todos enfrentarão o juízo de Deus e receberão a sua pena.
Em Apocalipse, um anjo de Deus exorta os cristãos
da época a que não se misturem com os pecadores identi-
ficados como Babilônia. O anjo diz:

Retirai-vos dela, povo meu, para não serdes cúmplices


em seus pecados e para não participardes dos seus
flagelos; porque os seus pecados se acumularam até ao
céu, e Deus se lembrou dos atos iníquos que ela praticou.
Dai-lhe em retribuição como também ela retribuiu, pagai-
lhe em dobro segundo as suas obras e, no cálice em

290
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

que ela misturou bebidas, misturai dobrado para ela.


O quanto a si mesma se glorificou e viveu em luxúria,
dai-lhe em igual medida tormento e pranto, porque diz
consigo mesma: Estou sentada como rainha. Viúva, não
sou. Pranto, nunca hei de ver! Por isso, em um só dia,
sobrevirão os seus flagelos: morte, pranto e fome; e será
consumida no fogo, porque poderoso é o Senhor Deus,
que ajulgou (Ap 18.4-8).

Ninguém e nada poderá livrar os pecadores da des-


truição. Não importa se os homens são ricos, cultos ou
cheios de poder. Deus virá com a plenitude da sua ira para
extirpar da terra os pecadores, levando-os ajuízo. Nenhum
deles escapará porque aos homens está ordenado morre-
rem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo (Hb 9.27). Não
haverá resgate para eles por causa do grande dia da ira do
Senhor. O que nos espanta é que ainda não conhecemos
o poder da sua ira. Ela será maior do que imaginamos, e
Deus destruirá da terra os homens.
g) O Dia do Senhor é dia de manifestações
cósmicas

Porque as estrelas e constelações dos céus não darão a


sua luz; o sol, logo ao nascer, se escurecerá, e a lua não
fará resplandecer a sua luz (Is 13.10) .

Todos os confortos que a luz solar traz e a beleza da


Lua produzem serão eliminados. Os astros mais distantes
e maiores também falharão em suas funções de lumina-
res, e tudo se transformará em trevas. Essas expressões
de Isaías são ecoadas em vários lugares da Escritura, tan-
to no Antigo como no Novo Testamentos.

291
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O profeta Isaías fala aqui de manifestações cósmicas


que se darão no dia que cerca e que acompanha o retorno
de Jesus Cristo. É provável que Jesus tenha feito uso des-
se texto para sua afirmação sobre esses distúrbios cósmi-
cos registrada em Mateus:

Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol


escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas
cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão
abalados (Mt 24.29) .

Isaías é pródigo no ensino dessas verdades do abalo


dos céus e da terra:

Portanto, farei estremecer os céus; e a terra será sacudida


do seu lugar, por causa da ira do S ENH OR dos Exércitos e por
causa do dia do seu ardente furor (ls 13.13).

Todo o exército dos céus se dissolverá, e os céus se


enrolarão como um pergaminho; todo o seu exército cairá,
como cai a folha da vide e afolha dafigueira (Is 34.4) .

Outros textos tanto do Antigo (Ag 2.6) quanto do


Novo Testamentos (Jo 2.10; Hb 12.25-27; Ap 6.12-14)
ecoam o pensamento encontrado em Isaías. Nesses tex-
tos é dito que Deus faz chacoalhar os céus e a terra,
mostrando o seu desagrado ao pecado humano. Os ho-
mens pecaram, e o seu habitat também recebe o castigo.
Sempre foi assim: no Gênesis o homem pecou, e Deus
amaldiçoou o seu habitat. Agora, no final de todas as

292
A DESTRUIÇÃO DO PR ESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

cmsas, os velhos céus e terra serão desfeitos pela ira


divina. O imutável torna todas as coisas mudadas , es-
tremecidas e sacudidas , trazendo destruição com mani-
festações cósmicas.
h) O Dia do Senhor é dia de castigo do mundo

Castigarei o mundo por causa da sua maldade e os


perversos, por causa da sua iniquidade (Is 13.11a}.

A referência de Isaías agora é muito maís clara com


respeito ao futuro do nosso planeta. Ele não se fixa sim-
plesmente na Babilônia do Antigo Testamento, mas na to-
talidade das nações e do nosso planeta. A razão pela qual
o castigo vem novamente é a maldade dos homens. Todo
o mundo físico sofre as consequências dos pecados dos
homens. No entanto , a ênfase do castigo (literalmente, vi-
sitação) é sobre os seres humanos , e a palavra "mundo"
deve ser entendida como sinônimo de "perversos" . Uma
das mais tristes maneiras de punir os pecadores é mexer
no habitat deles, que é o seu conforto.
i) O Dia do Senhor é contra os soberbos

farei cessar a arrogância dos atrevidos e abaterei a


soberba dos violentos (Is 13.11 b} .

O reino da Babilônia é exemplo de arrogãncia, atre-


vimento, soberba e violência. Esses quatro pecados resu-
mem muito bem quem eram os babilônios. Esses pecados
foram vistos muito claramente quando eles cercaram os
habitantes de Judá no período da invasão.
A ira de Deus contra os babilônios o levou a pôr um fim
nesses pecados da soberba. A arrogãncia e o atrevimento

293
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

são um corolário direto da soberba e acabam desembocan-


do na violência.
• A soberba da Babilônia ê vista no comportamento
do seu líder. Deus acabou com a soberba (Is 14.11).
• A arrogância é fruto de um coração soberbo. Deus
acabou com a arrogância (ls 14.12-15).
• O atrevimento também é produto da soberba, mas
Deus acabou com o atrevimento babilônico (Is 13.19,20). A
nação atrevida, que invadia todos os reinos e os despojava,
matando a população, agora é humilhada como Sodoma e
Gomorra, quando Deus as transtornou (Is 13.19).
• A violência é o resultado final da soberba, mas Deus
fez cessar a violência (Is 14.4-6). Ele deu descanso aos
oprimidos porque destruiu os homens violentos (Is 14. 7).
Os pecadores dos dias finais deste mundo manifestarão
pecados semelhantes. A Escritura sempre ensinou que
Deus é contra os que procedem soberbamente, porque a
soberba é mãe de outros pecados que culminam na violência.
Por isso, Deus resiste aos soberbos, contudo, aos humildes
concede a sua graça (1Pe 5.5). Quando o Redentor chegar,
porá um fim na soberba, na arrogância, no atrevimento
e na violência do homem da iniquidade, matando-o com
o sopro da sua boca (2Ts 2.8). Punirá com a morte todos
aqueles que são seguidores dele. A essa altura, todos os
que não forem genuinamente cristãos serão seguidores e
discípulos do homem da iniquidade, a besta que surge do
mar, cujo antítipo foi o rei da Babilônia.
Os versículos subsequentes (Is 13.12-22) mostram, de
maneira muito clara, como Deus fez cessar os pecados da
Babilônia e , por dedução, o que ele fará com os soberbos
que estiverem vivendo na última geração, quando da volta
de Cristo. Um dia de vingança: assim será o Dia do Senhor!
A terceira expressão que Pedro usa no mesmo capítu-
lo é Dia de Deus.

294
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM OIA ESPECIAL

3. A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT SE


DARÁ NO DIA DE DEUS

esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por


causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os
elementos abrasados se derreterão (2Pe 3.12).

Pedro usou duas expressões anteriormente, Dia do


Juízo (v.7) e Dia do Senhor (v. lO), e agora usa a terceira ex-
pressão, Dia de Deus (v.12), para denotar um dia específico
de tempo no qual se dará a destruição do presente habitat.
Geralmente escritores de tendência dispensacionalis-
ta tendem a distinguir o Dia de Deus do Dia do Senhor.
Eles os veem como dias distintos:

O "Dia do Senhor" não é o mesmo que o "Dia de Deus",


que se refere ao estado eterno, imediatamente precedido,
no horário de Deus, pela purificação dos velhos céus e
terra e pelo aparecimento dos novos céus e terra. [... )
Para reiterar, o Dia de Deus se refere ao estado eterno
que segue a fase final do Dia do Senhor, quando os
céus e a terra serão destruídos. O Dia de Deus é o dia
completo de Deus e o triunfo final e, por esta razão, ele é
um dia que deveríamos esperar e anelar. 100

100
Confira essa citação, sem menção de autor, disponível em: <http://www.
preceptaustin.org/2_peter_38-13.htm#3:12>, acessado em: 01/02/2012
(grifas meus).

295
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Contudo, no ensino de Pedro, não há a noção de três


dias distintos. São apenas três designações diferentes,
com nuanças diferentes, que se referem ao mesmo dia.

APLICAÇÕES
A destruição do presente habitat se dará num dia espe-
cial, que é designado por três nomes em 2Pedro 3.7,10,12:
Dia do Juízo, Dia do Senhor e Dia de Deus. Precisamos
pregar à nossa geração sobre os eventos que se darão nes-
se dia tão importante.
Por que devemos pregar sobre esse dia especial?
1. Devemos pregar porque esse ensino é muito proe-
minente na Escritura.
A Escritura é farta em menções ao grande Dia do
Juízo de Deus sobre a terra e seus habitantes. A pregação
relativa a esse dia faz parte do anúncio da totalidade do
conselho de Deus.
Vimos , ainda que de modo rápido , com apenas um
exemplo retirado de Isaías 13, que o Dia do Juízo (Dia do
Senhor e Dia de Deus) é anunciado proeminentemente na
Escritura. Os profetas Isaías, Jeremias, Joel, Habacuque,
Ageu e outros trataram desse dia terrível do juízo de Deus ,
além dos evangelhos e das cartas.
2. Devemos pregar porque ele é parte da agenda divina.
Quando Deus escreveu a história nos seus decretos , o
Dia do Juízo fazia parte dela. Deus fixou o Dia do Senhor em
sua agenda antes da fundação do mundo, e Jesus Cristo é o
grande agente do cumprimento de sua agenda. A manifes-
tação da sua justiça é parte desse proeminente dia.

porquanto [Deus] estabeleceu um dia em que há de julgar


o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou

296
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os


mortos (At 17.31).

Quando Deus escreveu a história do mundo nos seus


decretos, ele pós em sua agenda um dia especial para o
julgamento de todos os homens. Esse dia de juízo está or-
denado (decretado).

E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma


só vez, vindo, depois disto, o juízo (Hb 9 .27).

Os ministros da Palavra de Deus, sejam eles orde-


nados ou não, devem pregar sobre esse dia de juízo para
alertar os que estão ouvindo regularmente a pregação do
evangelho, advertindo-os sobre a ira de Deus. Os que es-
tão conhecendo, de algum modo, a verdade de Deus não
podem nem devem viver deliberadamente em pecado.
Nenhum pregador, em sã consciência, pode desprezar a
pregação sobre esse dia especialíssimo para a sua congre-
gação. Por isso, o escritor aos Hebreus diz:

Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois


de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já
não resta sacrificio pelos pecados; pelo contrário, certa
expectação horrível de juízo e Jogo vingador prestes a
consumir os adversários (Hb 10.26,27).

Mesmo entre os cristãos da presente geração há certo


ceticismo e desconsideração com respeito ao tempo do juí-
zo. Nas liturgias do culto cristão atual não temos hinos ou
cânticos que tratem desse dia. Piper conta o seguinte:

297
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Enquanto eu estava me preparando para o nosso culto


de hoje, procurei nos hinários um hino que celebrasse a
glória da justiça de Deus no julgamento e nos convocasse
ao temor devido, e não pude encontrar um só hino.
Este é um péssimo sinal da teologia deficiente e de um
relacionamento raquítico com Deus. Deveríamos cantar
louvores sobre tudo o que Deus é, em vez de sugerir,
pelo nosso silêncio, que, se ele julga, ele não é totalmente
admirável. 101

Se o Dia do Juízo é parte da agenda divina, a igreja de


Deus hoje deve se preocupar em melhorar a sua teologia,
cantando sobre a glória do juízo de Deus. Deus não é glo-
rificado somente quando manifesta o seu amor, bondade,
paciência e graça, mas também quando manifesta a sua
justiça. Por essa razão, os pregadores devem pregar sobre
o Deus da vingança, porque ele tem sido desafiado pelo
atrevimento dos homens, e estes têm que ouvir do seu juí-
zo não somente na pregação falada, mas também na pre-
gação cantada.
Devemos, portanto, pregar intensamente sobre o juí-
zo de Deus, a tempo e fora de tempo, na fala e no canto,
porque o juízo de Deus faz parte de sua agenda!
3. Devemos pregar sobre esse dia porque é uma im-
portante advertência para os ímpios do nosso tempo.
É minha crença que estamos entrando num período
crítico da história do mundo, bem próximo do tempo fi-
nal, ainda que eu não saiba quando o fim chegará. A pe-
caminosidade de nossa geração revela essa proximidade,
porque Deus está entregando essa geração aos mais vis
101
PIPER, John, em seu sermão sobre o texto em estudo, disponível em:
<http://www.soundofgrace.com/piper80/083180m.htm>, acessado em:
01/02/2012.

298
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

sentimentos, como o fez com a geração de Paulo, mencio-


nada em Romanos 1.
Todavia, diferentemente daquela geração, a pecami-
nosidade atual tem proporções mundiais em virtude do
crescimento espantoso dos meios de comunicação, que
conduzem à proliferação desenfreada da imundícia, da
soberba, do atrevimento contra Deus e da violência com
que os cristãos começam a ser tratados em toda a face da
terra.
Os cristãos não podem ter temor de homens numa
hora como esta. Alêm de pregar contra a êtica e o pro-
cedimento antideus desta geração, temos que anunciar a
esses homens ímpios o Dia do Juízo de Deus. É parte da
tarefa dos pregadores o anúncio da vingança divina con-
tra os homens maus, alêm da pregação da redenção que
há em Cristo somente. Tempo virá em que não mais esta
mensagem será ouvida, porque Deus retirará dos homens
qualquer possibilidade de arrependimento e de crença na
verdade. Nesse tempo, quando os juízos parciais de Deus
começarem a acontecer, imediatamente antes da volta de
Cristo, os homens buscarão arrependimento e não mais o
acharão. As portas da graça se fecharão antes que venha
o Senhor.
Jesus Cristo disse que não podemos temer os que ma-
tam o corpo. Os homens nos perseguirão cada vez mais,
mas devemos temer aquele que tem autoridade para lan-
çar os homens na condenação. Esse, sim, devemos temer
(Lc 12.4,5). Portanto, os pregadores devem urgentemente
anunciar a salvação de Cristo aos pecadores, antes que
venha o grande Dia do Juízo!
4. Devemos pregar sobre esse dia especial porque re-
vela o caráter de Deus.
Os pregadores devem anunciar o Dia do Juízo por-
que o juízo ê parte integrante e fundamental do cará-
ter de Deus. Os homens da presente geração não estão

299
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

acostumados com a ideia de um julgamento divino. Essa


mensagem lhes é estranha porque eles têm aprendido
que o juízo é uma espécie de falha no caráter de Deus, e
um Deus de amor não pode lançar os homens na conde-
nação para sempre.
John Piper diz:

Se o ouvir a respeito do juízo de Deus torna mais difícil


para nós amar a Deus, então, provavelmente, o Deus que
amamos é uma invenção de nossa imaginação, e não o
Deus verdadeiro e real. Se amamos o Deus verdadeiro,
nós conhecemos o verdadeiro Deus . Há alguma coisa
errada com a nossa fé se não podemos cantar louvores a
Deus não somente como nosso Pai amoroso, mas também
como o justo Juiz de toda a terra. 102

Devemos pregar aquele que é amoroso com os seus,


mas que exerce justiça para com todas as pessoas do
mundo, inclusive os seus. Os ímpios impenitentes rece-
bem pessoalmente a manifestação da justiça divina; os
pecadores arrependidos recebem vicariamente a penali-
dade de seus pecados, por meio da obra de Cristo. Não
podemos abrir mão da pregação da ira divina em resposta
ao pecado. O caráter santo de Deus exige que a sua justi-
ça seja manifesta neste mundo, pessoalmente ou vicaria-
mente. A justiça vicáriajá foi manifesta na primeira vinda
de Cristo; a justiça de Deus em relação aos pecadores
acontecerá na segunda vinda de Cristo, quando ele lhes
mostrará a sua ira. Se Deus não é um Deus de justiça, ele
nega a si mesmo porque despreza a sua santidade. E os
102
PIPER, John, em seu sermão sobre o texto em estudo, disponível em :
<http://www.soundofgrace.com/piper80/083180m.htm>, acessado em:
01/02/2012.

300
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT TEM CONEXÃO COM UM DIA ESPECIAL

pecadores impenitentes desta geração precisam conhecer


o caráter santo e vingador de Deus.

301
CAPÍTULO 11

O MODO DE DESTRUIÇÃO DO
PRESENTE HABITAT
Ora, os céus que agora existem e a terra, pela
mesma palavra, têm sido entesourados para fogo,
estando reservados para o Dia do Juízo e destruição
dos homens ímpios (2Pe 3.7).
esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por
causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e
os elementos abrasados se derreterão (2Pe 3.12).

Esses dois versículos do mesmo capítulo de 2Pedro


apontam claramente o modo pelo qual os céus e a terra
serão destruídos.
Já estudamos que Pedro queria que os destinatá-
rios de sua carta estivessem prontos para responder aos
ataques doutrinários dos escarnecedores. Estes ensina-
vam que Jesus Cristo não iria voltar para julgar o mundo
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

porque as coisas sempre estiveram do mesmo jeito desde o


princípio da criação (2Pe 3.4).
No decorrer da história do cristianismo tem havido
erros muito grandes com respeito ao tempo do fim, pro-
duzidos por pessoas que não têm uma compreensão justa
dos textos da Escritura que tratam dessa matéria.
Alguns teólogos de linha liberal tendem a pensar que
este mundo não caminha para um fim. Geralmente eles
são evolucionistas, pois declaram que este mundo foi ori-
ginado há milhões de anos e continuará indefinidamente.
Também para os ateístas, a matéria é eterna e continuará
para sempre do jeito como está. Se os evolucionistas ne-
gam a veracidade literal da criação, negam a veracidade
histórica da queda, da redenção e do juízo. Não existe um
dia de juízo se não houve criação.
Alguns teólogos reformados, por incrível que pareça,
creem que está havendo um progresso constante no mun-
do e que um grande desenvolvimento em todas as áreas
está em curso. Esses cristãos, de tendência pós-milenaris-
ta, não têm observado a Escritura com propriedade e têm
produzido literatura que afirma que a situação do mundo
vai melhorar à medida que o tempo do fim chega. Eles
creem que a terra ficará cada vez melhor e que a história
culminará com a salvação de muita gente no mundo in-
teiro, porque o avanço do reino (entenda-se o avanço da
evangelização) será uma constante. Todavia, parece que
esse não é o ensino das Escrituras.
Jesus não ensina que há uma possibilidade de os
céus e a terra serem destruídos, mas ele afirma com toda a
certeza: Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras
não passarão (Mt 24.35). Esse é um vaticínio claro que
João viu consumado na sua visão das coisas definitivas
(Ap 21.1).
No texto em estudo, podemos perceber com toda a
clareza que Pedro pensa de modo bem diferente. Ele quer

304
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

que os seus destinatários tenham uma forte convicção da


vinda do Senhor, que é para o juízo dos homens ímpios e
para a restauração da terra. Portanto, ele os adverte con-
tra o ensino dos falsos profetas. Aliás, esse conselho não
começou com Pedro. Paulo também advertiu sobre os dias
maus que viriam antes da volta de Jesus. Os profetas do
Antigo Testamento e os apóstolos do Novo Testamento
sempre advertiram contra o ensino dos falsos profetas.
Jesus já tinha predito que muitos falsos profetas se
levantariam e enganariam a muitos (Mt 24.11), afirman-
do constantemente que o dia está próximo. Jesus também
deixou claro que a condição moral da sociedade declina-
ria, ficando cada vez pior (Mt 24.12). Paulo advertiu so-
bre o aparecimento da apostasia e a revelação do homem
da iniquidade (2Ts 2.1-4) imediatamente antes da volta do
Senhor para exercer juízo sobre os ímpios.
É entendimento meu da Escritura que, à medida que o
tempo do fim chega, a verdadeira igreja melhorará qualita-
tivamente, e a igreja apenas confessante diminuirá quan-
titativamente, caminhando para uma crescente apostasia.
Juntamente com o caos moral que atingirá proporções ino-
mináveis, haverá também uma corrupção da própria natu-
reza, que já está no caminho da decadência. Haverá uma
destruição total, mas antes vamos perceber a deterioração
de tudo, inclusive da fisicalidade da natureza. A corrupção
moral dos homens andará de mãos dadas com a corrupção
da natureza física do Universo. Por mais que os ambienta-
listas façam de tudo para preservar o nosso planeta, "não
há meio de parar a decadência. Não há como reverter as
leis da entropia que fazem tudo se deteriorar". 103 A desinte-
gração é consistente com a deterioração irreversível. Tudo
o que está deteriorado vai ser destruído para que todas as
coisas sejam renovadas.
103
MACARTHUR, John, em seu sermão sobre Romanos 8, disponível em:
<http://www.gty.org/resources/sermons/45-61/creations-groans-for-glory>,
acessado em: 01/04/2012.

305
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Certamente o mundo fisico e o moral não serão me-


lhores à medida que o tempo passa. Este nosso habitat
não se deteriorou completamente por causa da ação man-
tenedora do Filho de Deus, que sustenta todas as coisas
pela palavra do seu poder (Hb 1.3). Mas vai chegar o dia
em que este nosso habitat sofrerá uma destruição em rela-
ção ao que existe no presente.

1. A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT SERÁ


COM FOGO
Os versículos 7 e 1O são designativos da maior catás-
trofe que haverá neste habitat. O dilúvio foi uma manifes-
tação de juízo, mas não de juízo definitivo, embora tenha
sido violento e destrutivo. Todavia, o dilúvio só trouxe mu-
danças na distribuição da porção seca; não trouxe lava-
gem ou purificação à terra. A destruição que virá a seguir,
na vinda do Senhor, produzirá consequências drásticas e
duradouras na vida do planeta e de seus habitantes, pois
estabelecerá o fim da presente era e o início da era futura,
na qual o habitat humano terá características de pureza
de matéria, sem a maldição, e os habitantes terão uma
pureza moral que os habitantes de hoje não têm, mesmo
os crentes.

1. OS PRESENTES CÉUS E TERRA ESTÃO


ENTESOURADOSPARAFOGO

Ora, os céus que agora existem e a terra, pela mesma palavra,


têm sido entesourados para fogo, estando reseroados para o
Dia do Juízo e destruição dos homens ímpios (2Pe 3.7).
Existem duas grandes forças na natureza, e Deus se
serve delas para fazer suas grandes obras de juízo: a água e

306
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

o fogo. Pedro menciona essas duas forças para lembrar aos


seus leitores o uso que Deus faz delas para julgar o mundo.

1) 0 PRESENTE HABITAT É OBJETO DO JUÍZO DO FOGO DIVINO

Ora, os céus que agora existem e a terra (2Pe 3.7a).

Os céus e a terra que agora existem significam o espaço


cósmico que cerca o nosso planeta, o solo de nosso planeta
e tudo o que ele contém, assim como as águas do mar e
tudo o que elas contêm. Toda essa esfera fisica, que foi cria-
da originalmente e amaldiçoada, será nesse dia destruída.
O solo onde você pisa, as obras que estão nele, os ele-
mentos que compõem a presente terra e a abóbada celeste
que nos circunda são as coisas em vista por Pedro .

2) 0 PRESENTE HABITAT ESTÁ ENTESOURADO PARA FOGO

Ora, os céus que agora existem e a terra, pela mesma


palavra, têm sido entesourados para fogo (2Pe 3.7) .

Nos dias de Noé, Deus se serviu da primeira grande


força, que foram as águas das comportas celestes e das
fontes de debaixo da terra, para inundar o mundo criado
e amaldiçoado. Foi o grande cataclismo do tempo de Noé
sobre todo o mundo antediluviano. Aliás, Pedro usa a pa-
lavra grega kataclysmo em 2Pedro 3.6 (verbo KaTaKÀ.uCJ8EtS )
para designar o dilúvio. A primeira terra existente foi des-
truída com água.
No texto em estudo, Pedro está tratando da segunda
terra, ou seja, da terra pós-dilúvio, que agora está destinada

307
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

para a destruição. No versículo 7, Pedro diz que a segunda


grande força, que é o fogo, será usada para cumprir o de-
sígnio de Deus sobre o fim do segundo mundo, que é este
habitat. No primeiro habitat não houve destruição, apenas
devastação da vida e das coisas existentes pela força das
águas. No entanto, a terra permaneceu a mesma. A vida
continuou a ser o que sempre foi antes do dilúvio: cheia de
pecadores e ofensores de Deus.
No segundo habitat não haverá uma devastação, mas
a destruição de tudo o que existe com a perspectiva de
uma nova criação, que não sofrerá mais a maldição divina
e na qual não haverá mais pecadores.
Não é estranho, pois, que o próprio Senhor Jesus te-
nha juntado esses dois elementos- água e fogo- para
tratar das duas grandes manifestações cataclísmicas,
ou seja, grandes conflagrações de caráter mundial: o ca-
taclismo do dilúvio (com água) e o cataclismo que se
dará na sua segunda vinda (com fogo), que é tipificado
na destruição com fogo e enxofre das cidades da planície,
Sodoma e Gomorra. Veja a ligação que Jesus faz dos dois
cataclismos:

Assim como foi nos dias de Noé, será também nos dias do
Filho do Homem: comiam, bebiam, casavam e davam-se
em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e
veio o dilúvio e destruiu a todos (Lc 17.26,27).

Os dias de Noé se referem ao modo de vida dos ho-


mens e à consequente manifestação da ira divina destruin-
do o mundo com água.
Então, logo a seguir, Jesus diz:

308
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

O mesmo aconteceu nos dias de Ló: comiam, bebiam,


compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas, no
dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu do céu fogo e
enxofre e destruiu a todos. Assim será no dia em que o
Filho do Homem se manifestar (Lc 17.28-30).

As duas grandes manifestações catastróficas causa-


das pela ação divina são operadas pelos dois elementos
cataclísmicos destruidores, água e fogo, lembrados por
Pedro e por Jesus .
Pedro nos ensina, portanto, que os céus que envol-
vem o nosso planeta e o presente habitat humano estão
"entesourados para fogo" . O verbo grego usado é 9rwaup[(w
(thesaurizo) , que significa acumulado, guardado, entesou-
rado. Essa palavra grega dá origem à nossa palavra tesou-
ro , que significa alguma coisa que está guardada, reserva-
da, acumulada, pronta para ser tomada.
Esse versículo mostra que o nosso habitat já está
preparado, já está pronto para receber o fogo que procede
de Deus. Tão logo os sinais da vinda de Cristo cheguem
ao ápice , o fogo de Deus virá sobre o nosso habitat. Em
outras palavras, Pedro está dizendo que o fogo já está pronto
para a sua função purificadora, pois a terra está guardada
para essa grande manifestação ao mesmo tempo de juízo e
de transformação! O fogo já está às portas!

3) 0 PRESENTE HABITAT RECEBERÁ O FOGO DA PALAVRA DE DEUS

Ora, os céus que agora existem e a terra, pela mesma


palavra, têm sido entesourados para fogo (2Pe 3.7).

309
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O fogo que virá sobre o presente habitat será produzi-


do pelo mesmo instrumento que agiu na criação do mun-
do, a palavra. Deus sempre é glorificado nas manifesta-
ções poderosas de sua palavra, seja ela a pessoa de Cristo
- o Verbo divino-, seja a palavra que o Verbo emite em
suas obras. Deus vai usar a sua poderosa palavra, que é
criadora, para ser a poderosa palavra que é destruidora.
O fogo acontecerá no momento em que Deus abrir a sua
boca e emitir a sua palavra de ordem.
Os efeitos da palavra são diferentes - a criação e a
destruição -, mas a palavra divina é a mesma!
É curioso que Deus sempre usa a sua palavra para
proferir juízo. Tanto Enoque (Jd 14,15) quanto Noé (2Pe
2.5) proclamaram a vinda do juízo divino. Os homens do
tempo de Noé não deram ouvidos ao "pregoeiro dajustiça"
porque eles não conheciam o poder da palavra de Deus, da
qual Noé foi portador. Ainda hoje, os homens fecham seus
ouvidos à palavra pregada, mas não sabem que essa é a
palavra que os julgará. A palavra de Deus sempre tem o
poder de ser o instrumento de juízo tanto do habitat como
dos habitantes. Ela é responsável pela destruição do pre-
sente habitat. Ela é o instrumento poderoso de Deus para
criar e para põr fim ao que criou.

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os


céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se
desfarão abrasados ; também a terra e as obras que nela
existem serão atingidas (2Pe 3.10).

A destruição do mundo antigo através da água pela


palavra de Deus deixa evidente que o raciocínio dos escar-
necedores era falso. O dilúvio não era o fim, mas um fim
através do qual Deus apontava para a destruição final por
meio de Cristo, a Palavra de Deus. Da mesma forma, a

310
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

destruição com fogo não é o fim de tudo , mas um fim atra-


vés do qual Deus renova todas as coisas! Quando o texto
diz que "os elementos se desfarão abrasados", não signi-
fica que esses elementos serão extintos , mas que serão
purificados pelo fogo para que a terra não mais contenha
qualquer elemento de maldição.

4) 0 PRESENTE HABITAT VERÁ A DESTRUIÇÃO DOS HOMENS ÍMPIOS

estando reservados para o Dia do Juízo e destruição dos


homens ímpios (2Pe 3.7c).

A destruição dos homens ímpios através do fogo


aponta para o julgamento final de Deus sobre eles.
Semelhantemente ao habitat, os ímpios serão destruídos
pelo fogo; mas, diferentemente dos elementos da terra, os
homens ímpios não serão renovados ou purificados . Para
eles, o fogo tem um caráter de maldição final. Eles serão
banidos da face da terra renovada, porque homens ímpios
não poderão habitá-la, visto que nessa nova terra habitará
somente a justiça. A destruição dos ímpios significa que
eles receberão o fogo da ira divina, mas não serão extintos.
Continuarão a existir porque ressurgirão nesse mesmo dia
após experimentarem a morte. Quando ressurgirem, rece-
berão a sentença final , que é o banimento do seu habitat
natural. Viver fora do seu habitat natural provavelmente
será parte do juízo de Deus sobre eles.
Eles continuarão a viver para sempre , mas a sua exis-
tência será de plena miséria. O juízo de Deus é o fogo, mas
a punição deles apenas começa com a sua destruição. A
punição dura para sempre e, em parte, é o fato de serem
banidos do seu habitat natural. Será que temos noção de
quão doloroso é estar longe do lugar que originalmente
Deus fez para os homens? Este é apenas um dos modos de

311
O HABITAT HU MANO - O PARAÍSO AUSENTE

Deus lhes causar dor e miséria em sua existência futura,


como parte do plano geral de punição do lago de fogo, ou
seja, da segunda morte.

2. OS VELHOS CÉUS E A VELHA TERRA SERÃO


LITERALMENTE INCENDIADOS

esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por


causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os
elementos abrasados se derreterão (2Pe 3 . 12).

Antes de afirmar o que creio ser a verdade sobre esta


matéria, tenho de eliminar os conceitos populares, mas
errôneos, que vigem mesmo em círculos cristãos com
respeito ao fogo que acontecerá no dia de juízo.

1) 0 INCÊNDIO NÃO ACONTECERÁ POR ARMAS NUCLEARES

Hoje, numa aparente calmaria após o término da guer-


ra fria, não se fala tanto de uma guerra nuclear de propor-
ções mundiais, mas o grande temor de alguns anos atrás
era o perigo do incêndio do mundo pela explosão dessas
armas letais. A destruição por fogo não será algo acidental
causado pela maldade de homens que apertam botões para
produzir uma explosão nuclear, provocando uma reação em
cadeia em que o nosso planeta será dissolvido num holo-
causto nuclear. Alguns cineastas ainda fazem filmes apon-
tando para essa ideia. Ainda hoje restam temores de isso
acontecer, mas, se vier a acontecer, não será o fim deste
mundo, por uma razão muito simples, de caráter teológico:
a prerrogativa de destruir o mundo é do Criador!
Se o mundo fosse destruído por fogo como produto
dos apetrechos nucleares feitos por homens, então estes

312
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

teriam poder de pôr um fim nas coisas que Deus criou.


Eles assumiriam a função divina de destruir o mundo com
o aperto de alguns botôes, mas Deus ficaria esvaziado de
sua função de governador e juiz do Universo. O mundo
não seria destruído por causa da ira divina, mas por causa
da ambição e imprudência dos homens.
Todavia, podemos admitir que o mundo será destruí-
do atomicamente, mas com um sentido muito diferente.
John MacArthur diz:

Eu realmente creio que a destruição será atômica. Mas


eu não creio que será atômica como conhecemos as
pequenas bombas atômicas . Creio que será atômica no
sentido de que Deus desintegrará os átomos do Universo,
o que provocará uma reação em cadeia que estará muito
além da capacidade de alguém até mesmo conceber. 104

Nosso planeta é composto de matéria. Os grandes blo-


cos físicos de nosso planeta foram criados e se compôem
de partículas muito pequenas, na verdade as menores par-
tículas completas da matéria, chamadas átomos. Todas as
coisas do universo físico são atômicas, ou seja, formadas
por partículas mínimas que não podem ser partidas, mas
que, quando partidas, geram uma energia espantosa! Com
pequenas bombas atômicas lançadas sobre as duas cida-
des japonesas, muita energia foi liberada, e ambas as cida-
des foram terrivelmente destruídas, juntamente com seus
habitantes. Não podemos sequer imaginar quão atômica
será a destruição vinda da parte de Deus no Dia do Juízo
dos homens ímpios!

104
MACARTHUR, John, em seu sermão sobre Romanos 8.19-22, disponível
em: <http://www.gty.org/resources/sermons/45-61/creations-groans-for-
glory>, acessado em: 01/04/2012.

313
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O presente habitat será destruído atomicamente, mas


não com as armas destrutivas que os homens criaram. A des-
truição será produto da ira divina, não da maldade humana!

2) 0 INCÊNDIO NÃO ACONTECERÁ POR CAUSAS NATURAIS

Outros ainda pensam que o mundo terá um fim por


causas naturais, como, por exemplo, por explosões violen-
tas de vulcões, que espalhariam fogo por toda parte.
A destruição de nosso planeta por fogo é uma crença
muito antiga, já de filósofos antigos, mas todos eles, quase
como regra, assumem causas naturalistas para o fogo.
A ciência moderna tem pesquisado a Lua, os aste-
roides, meteoros e cometas que giram em torno do nosso
planeta, além de astros mais distantes. Eles não fazem
parte do nosso planeta, mas podem ter papel fundamental
na sua destruição. Estudiosos creem que suas órbitas po-
dem ser alteradas repentinamente e que outras transfor-
mações no espaço estão preparando caminho para futuros
choques com a Terra, o que ocasionaria um incêndio de
proporções totais. Em outras palavras, a natureza está se
preparando para uma grande catástrofe, para a queima
deste mundo.
Além dos perigos naturais externos ao nosso planeta,
há os perigos que estão em seu interior. A ciência moder-
na, que tem se desenvolvido muito no estudo da região do
magma da Terra, afirma que um dia o planeta será destru-
ído pelo rompimento da crosta que isola a superficie do seu
interior. A parte interior da Terra é composta de material
derretido pelas temperaturas altíssimas ali existentes. Esse
material derretido surgiria das profundezas através dos vul-
cões em atividade e dos vulcões inativos, que voltariam a
funcionar. A pressão enorme do interior da Terra ocasio-
naria a abertura da crosta em todas as partes do planeta,
trazendo para a superficie todo o material em combustão,
causando um grande incêndio, além de terríveis terremotos

314
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

provocados pelo rompimento ou movimento das placas tec-


tônicas, que sacudiriam a totalidade da Terra.
Ainda como resultado do pensamento filosófico do
materialismo dos séculos 19 e 20, o mundo atual tende
a pensar naturalisticamente. Não se acredita numa inter-
venção divina no mundo em que vivemos. Tudo o que vier
a acontecer à Terra tem de ter causas naturais. Nada de
fora interfere neste mundo. Ele é uma caixa fechada sem
a invasão do divino.
Se o incêndio do mundo for produzido por causas na-
turais, isso significa que o mundo destruiu a si mesmo.
Não há ninguém, além do próprio mundo, que seja respon-
sável por sua destruição. Novamente, a prerrogativa divina
de destruir o mundo que ele criou é descartada. Afinal de
contas, observam os estudiosos, nas outras galáxias há
estrelas que explodem e desaparecem do Universo. Se as
estrelas podem se autodestruir, por que a Terra não pode
ser incendiada por sua própria matéria incandescente?
Pensando assim, os homens incrédulos até admitem
a destruição do mundo por causas naturais, mas jamais
por causas sobrenaturais. As ações do juízo divino estão
fora das cogitações humanas. Na opinião desses incrédu-
los, o naturalismo não pode ser derrotado pelo sobrena-
turalismo. Mas o naturalismo deve ser descartado pelos
genuínos cristãos. Veja a procedência do fogo de juízo: ele
será causado pela "mesma palavra" de Deus.

3) 0 INCÊNDIO ACONTECERÁ POR FOGO VINDO DE DEUS

Ora, os céus que agora existem e a terra, pela mesma


palavra, têm sido entesourados para fogo (2Pe 3.7).

315
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por


causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os
elementos abrasados se derreterão (2Pe 3.12).

O incêndio destrutivo de Sodoma e Gomorra é típico


do incêndio final como obra extraordinária e sobrenatural
de Deus, apontando para a sua ira contra este mundo por
causa do pecado de Adão. O fogo que destruiu as cidades
ímpias de Sodoma e Gomorra veio pelo poder da palavra
de um Deus desgostoso e irado. Um fogo vindo das alturas
trouxe destruição para aquelas cidades de pecado e para
os pecadores. Não será diferente o modo como Deus des-
truirá os presentes céus e terra.
O fogo é instrumento usado por Deus para várias fun-
ções, mas vamos nos deter em apenas duas delas: o fogo
é usado para juízo dos homens ímpios e para purificação.
a) Veja o fogo como instrumento de juízo

Porque eis que o SENHOR virá em fogo, e os seus carros,


como um torvelinho, para tornar a sua ira em furor e a sua
repreensão, em chamas de fogo, porque comfogo e com a
sua espada entrará o S ENH OR em juízo com toda a carne; e
serão muitos os mortos da parte do SENHOR (Is 66.15,16).

Porque, se vivermos deliberadamente em pecado, depois


de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já
não resta sacri.ficio pelos pecados; pelo contrário, certa
expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a
consumir os adversários (Hb 10.26,27).

316
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

Pois eis que vem o dia e arde como fornalha; todos os


soberbos e todos os que cometem perversidade serão como
o restolho; o dia que vem os abrasará, diz o SENHOR dos
Exércitos, de sorte que não lhes deixará nem raiz nem ramo
(Ml4.1).

O fogo como instrumento de juízo deve ser visto como


vindo unicamente para eliminar deste mundo os incrédu-
los. Esta é a porção que lhes cabe no dia final. O fogo espe-
tacular e poderoso de Deus não deixará que nenhum dos
ímpios sobreviva porque está destinado a eles morrer uma
vez e, então, enfrentar o juízo de Deus (Hb 9.27), que os
leva para o lugar mais temível, chamado na Escritura de
"lago de fogo", onde estarão os ímpios com as autoridades
malignas (Ap 20.10).
b) Veja o fogo como instrumento de prova e
purificação
O fogo como instrumento de purificação virá sobre a
natureza física, pois uma de suas funções é retirar dela
tudo o que é impuro. Esse é um uso muito comum na
metalurgia, que tem uma aplicação metafórica para a pu-
rificação dos homens e da natureza física. O verbo pyroo
(queimar com fogo) pode significar o ato de aquecer metais
a fim de purificá-los. Esta é a ideia expressa pelo salmista:

Pois tu, ó Deus, nos provaste; acrisolaste-nos como se


acrisola a prata (Sl 66. 1O).

Em toda a terra, diz o S ENH OR, dois terços dela serão


eliminados e perecerão; mas a terceira parte restará nela.
Farei passar a terceira parte pelo fogo, e a purificarei
como se purifica a prata, e a provarei como se prova o

317
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

ouro; ela invocará o meu nome, e eu a ouvirei; direi: é meu


povo, e ela dirá: O SENHOR é meu Deus (Zc 13.8,9).

Nesses versículos, Zacarias fala de duas partes do


mundo que serão eliminadas por causa de sua pecami-
nosidade, vindo a perecer, mas uma terceira parte, que
é composta de cristãos, será purificada da mesma forma
como a prata é purificada ou o ouro é provado- com fogo.
Certamente o fogo aqui tem um sentido metafórico.

Portanto, diz o Senhor, o SENHOR dos Exércitos, o Poderoso


de Israel: Ah! Tomarei satisfações aos meus adversários e
vingar-me-ei dos meus inimigos. Voltarei contra ti a minha
mão, purificar-te-ei como com potassa das tuas escórias
e tirarei de ti todo metal impuro (Is 1.24,25).

Mas quem poderá suportar o dia da sua vinda? E quem


poderá subsistir quando ele aparecer? Porque ele é como
o fogo do ourives e como a potassa dos lavandeiros.
Assentar-se-á como derretedor e purificador de prata;
purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e como
prata; eles trarão ao SENHOR justas ofertas (Ml 3.2,3) .

Nos textos citados acima, o fogo é usado para purifi-


car os filhos de Deus , aqueles que lhe prestam culto, pois
especialmente no tempo do profeta Malaquias o culto es-
tava tr emendamente corrompido. Então, o fogo é usado
metaforicamente para purificar a vida daqueles que ofe-
recem sacrifícios. Deus usa a ideia de fogo para trazer
limpeza ao seu povo. Por isso , com a sabedoria que lhe foi

318
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

dada, Salomão disse: O crisol prova a prata, e o forno, o


ouro; mas aos corações prova o SENHOR (Pv 17.3).
Todavia, quando Pedro está falando de fogo, não está
falando de um fogo metafórico, mas de um fogo real que
vem de Deus, produto da ativação de material comburente
que faz derreter os elementos, destruindo as impurezas e
tornando o presente habitat semelhante ao habitat original
em sua pureza.
A extensão desse fogo no dia final será, de fato, mui-
to mais abrangente, e certamente sua intensidade e seu
propósito serão diferentes. No caso de Sodoma, o fogo foi
localizado, não universal, como será o fogo final; no caso
de Sodoma, o fogo não teve a mesma intensidade que terá
o fogo final; no caso de Sodoma, o fogo foi somente de des-
truição, mas não purificou, como vai acontecer com o fogo
final ; segundo Pedro, o fogo final será tanto para destrui-
ção dos homens ímpios como para purificação do habitat
humano.
O incêndio do presente habitat acontecerá "pela
mesma palavra" que trouxe todas as coisas à existência.
O poder da palavra divina serve tanto para trazer à exis-
tência como para purificar o que trouxe à existência. A
destruição por fogo será provocada pela mesma palavra
cheia de autoridade daquele que, no princípio, criou to-
das as coisas , daquele que eliminou a grande maioria dos
habitantes da terra no tempo de Noé e daquele que, no
dia final , proferirá juízo sobre o nosso habitat. É a sobe-
rana e poderosa palavra de Deus que fará com que o fogo
sobrenatural venha sobre este habitat, dando um fim às
coisas na forma em que elas estão.
Deus não abrirá mão da sua prerrogativa de justiça
neste mundo. Ele não permitirá que os homens o destru-
am, nem que a própria natureza se autodestrua. Somente
o Criador do mundo pode destruir a sua criação para fazê-
-la nova!

319
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

2. A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITATTERÁ


MANIFESTAÇÕES CÓSMICAS ESTRONDOSAS

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os


céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos
se desfarão abrasados; também a terra e as obras que
nela existem serão atingidas (2Pe 3 . 10) .

Quando pequeno, eu gostava de fazer fogueira, espe-


cialmente com gravetos que encontrava no mato. No tempo
da estiagem, eles ficavam secos . Quando o fogo começava
a queimá-los, todos crepitavam, fazendo um ruído próprio
de pedacinhos de madeira sendo consumidos. Se um pe-
quenino fogo faz barulho, quando uma casa pega fogo o
barulho aumenta, e assim por diante. Com base no ruído
d esses incêndios de pequenas proporções, você é capaz de
imaginar o estrepitoso estrondo que se dará no incêndio
do Dia do Senhor?

1) QUAIS SERÃO OS CÉUS QUE PASSARÃO COM


ESTREPITOSO ESTRONDO?
A Escritura menciona três tipos diferentes de céu: Há o
terceiro céu, que é o lugar onde Deus habita gloriosamente .
O céu que passará com estrepitoso estrondo certamente
não é o terceiro céu, o lugar da habitação de Deus , onde
os santos anjos e os remidos que já morreram em Cristo
estão. Esse céu é intocável, porque ali habita gloriosamente
o Criador, Redentor e Juiz de todos os homens. Esse é um
lugar santo e glorioso que ficará imune à ira divina.
Há o segundo céu, que é a esfera onde estão todos
os astros criados por Deus , as constelações e as grandes
galáxias dos espaços siderais.

320
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

Há o primeiro céu, que é o lugar de onde as chuvas


vêm, onde os pássaros voam, onde os aviões voam em cru-
zeiro, onde as nuvens se acumulam pelos vapores vindos
do solo e do mar, o céu que está acima de nós.
Pedro diz que os céus passarão com estrepitoso es-
trondo. A qual céu ele se refere? Essa afirmação de Pedro é
uma referência ao que podemos ver quando olhamos para
a abóboda celeste. Inclui a nossa atmosfera, a estratosfe-
ra, as regiões gasosas que envolvem o planeta, assim como
os astros dos quais ele depende para a luz e o calor, para
a influência das marés, plantações, crias dos animais etc.,
para a nossa orientação noturna, ou seja, o Sol, a Lua e
as estrelas.
Não é necessário pensarmos que o fogo destruidor
afetará a imensidão total do Universo. Não creio que a
quantidade enorme de galáxias e outros imensos siste-
mas sejam atingidos pelo fogo vindo de Deus. Em meu
entendimento, os céus a serem atingidos são os céus com
os quais o planeta Terra está ligado mais proximamente,
os lugares tocados pelo homem e os lugares dos quais o
habitat e o habitante dependem. Esses serão o lócus da
demonstração poderosa da ira divina com fogo, pois eles
já estão amaldiçoados devido à queda do homem. Eles
serão abalados em sua estrutura, e alguns desses astros
desaparecerão para sempre (como é o caso do Sol e da
Lua), enquanto outros até poderão ter novas funções em
relação à Terra. O estrepitoso estrondo virá da afetação do
fogo divino sobre eles.

2) POR QUE HAVERÁ UM ESTREPITOSO ESTRONDO?

os céus passarão com estrepitoso estrondo (2Pe 3.10).

321
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

A grande explosão que vai causar um enorme ruído


foi comparada a uma "explosão catastrófica, igual a uma
gigante bomba de hidrogênio aumentada muitos milhões
de vezes" .105
Não sabemos se a comparação é justa, mas podemos
imaginar uma grande explosão em virtude dos gases que
envolvem todo o nosso planeta.
O estrepitoso estrondo decorrerá das coisas acontecen-
do nos céus e na terra. Os elementos aqui se desfarão abra-
sados, e os céus incendiados produzirão um ruído jamais
ouvido por homens. Não temos ideia do cataclismo que está
por vir, tamanha a sua violência sobre a terra e os céus!
A energia liberada na explosão atõmica daquele gran-
de dia é inimaginável. Toda explosão é ruidosa, especial-
mente uma do tamanho da explosão final! Por explosão
atõmica não entenda explosão de uma enorme bomba atõ-
mica construída pelos homens, mas uma explosão de for-
ça descomunal causada pelo fato de o Senhor atear fogo
na terra e nos céus.
Pedro usa uma palavra muito vívida para descrever
o ruído dessa explosão: roizedon, que é traduzida por es-
trepitoso estrondo. Essa palavra é usada geralmente para
descrever uma revoada de pássaros que batem as asas
ruidosamente ou o ruído de uma floresta seca em fogo.
O estrepitoso estrondo é perfeitamente compreensí-
vel se soubermos um pouquinho do desenvolvimento da
bomba atõmica. Os cientistas, no final da Segunda Guerra
Mundial, bombardearam o núcleo do átomo com nêutrons
e foram capazes de dividi-lo, liberando uma tremenda
energia armazenada nele.

Comparação feita por W. A. Criswell em seu estudo sobre o texto de


105

Pedro, disponível em: <http://www.wacriswell.com/index.cfm/FuseAction/


Search.Transcripts/sermon/1480.cfm>, acessado em : 01/06/2012 .

322
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

Imagine todos os átomos do Universo que Deus fez


sendo vistos pelos olhos dos leitores de Pedro! O grande
problema dos cientistas é conhecer o mistério de os áto-
mos permanecerem juntos. A Escritura, no entanto, nos
ensina que Jesus Cristo, o Criador, sustenta todos os áto-
mos juntos porque nele, tudo subsiste (Cl 1.17), ou seja,
tudo existe junto. 106 Um dia, ele vai fazer com que haja
uma grande explosão dos átomos para que o fogo destrua
os céus e a terra e tudo o que neles existe, a fim de que a
matéria seja purificada.
A ação explosiva não será natural, mas por ação do
Senhor sobre a matéria criada.
Albert Barnes diz que

se uma conflagração acontecesse, abarcando a terra


e sua atmosfera circundante, todos os fenômenos que
estão aqui descritos ocorreriam; se isto vai ser assim,
então isto é tudo que pode ser mostrado pela passagem.
Tal destruição dos elementos não poderia ocorrer sem um
"estrepitoso estrondo".107

Não é dificil, em termos proporcionais , tentar imagi-


nar a grandeza do estrepitoso estrondo no dia da confla-
gração das grandes explosões no céu e na terra.
Não se esqueça de que o fogo se dará quando a pala-
vra de Deus for emitida; então, os elementos que existem
106
Comentário feito por Chuck Smith em seu sermão sobre 2Pedro 3.10,
How shou/d we then líve?, disponível em : <http ://www.blueletterbible.org/
commentaries/Chuck_Smith/sn/sermon.cfm?contentiD=5404>, acessado
em: 01/05/2012 .
107
BARNES,Albert, em seu comentário on-line sobre 2Pedro 3.10, disponível
em : <http :/ /www.studylight.org/com/bn n/view.cgi?book=2pe&chapter=3>,
acessado em : 01/04/2012 .

323
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

arderão abrasados. O grande estrondo acontecerá por-


que este habitat, assim como os astros que o cercam, é
composto de átomos que terão sua energia liberada nesse
cataclismo.
De muitas formas a ciência nos ajuda a entender a
profundidade e a riqueza da criação divina. Toda essa cria-
ção material será explodida pela ação sobrenatural de Deus.
Nada explodirá violentamente sem uma ação especial de
Deus. O grande ruído dessa explosão é inimaginável devido
às suas proporções e ao material disponível para provocar
o estrepitoso estrondo de que Pedro fala. Jesus fará desen-
cadear toda a energia do sistema físico de nosso habitat de
modo que ele se dissolverá. O que existe presentemente de-
saparecerá e se derreterá numa explosão acompanhada de
um som inigualável! Toda a energia se reunirá numa explo-
são ruidosa que, ao mesmo tempo, retira toda a maldição
do presente habitat e o renova para a habitação dos remidos
de Deus. Um fogo que destrói e que purifica!
O estrepitoso estrondo será o resultado da combustão
que acontecerá em três níveis físicos:

A) 0 ESTREPITOSO ESTRONDO VIRÁ DA DESTRUIÇÃO DE CORPOS


CELESTES

O fogo que virá sobre a Terra provavelmente terá o


seu início nos corpos celestes que a circundam e dos quais
ela depende para a sua subsistência. Deus fará com que
haja grandes explosões solares que afetarão a Terra.
O profeta Isaías passa a mesma ideia apresentada
pelo profeta Joel:

Eis que vem o Dia do SENHOR, dia cruel, com ira e ardente
furor, para converter a terra em assolação e dela destruir
os pecadores. Porque as estrelas e constelações dos céus

324
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

não darão a sua luz; o sol, logo ao nascer, se escurecerá,


e a lua não fará resplandecer a sua luz. Castigarei o
mundo por causa da sua maldade e os perversos, por
causa da sua iniquidade; farei cessar a arrogância dos
atrevidos e abaterei a soberba dos violentos (Is 13.9-11).

O quadro apresentado pelos profetas mostra os movi-


mentos dos astros celestes que acabarão culminando nos
grandes desastres na Terra. Através desses elementos ,
muitos dos que vivem sobre a Terra já experimentarão um
juízo parcial de Deus , porque morrerão por causa de seus
pecados. Essas manifestações imediatas antes da volta de
Cristo são castigos para o mundo ímpio. Deus fará com
que eles parem de ser orgulhosos e arrogantes. É o começo
dos julgamentos, que culminarão na destruição do próprio
habitat.
a) Veja o que acontecerá com o Sol
O profeta mostra que, um pouco antes do dia da
grande explosão causada pelo fogo que o Senhor ateará
sobrenaturalmente nos elementos gasosos aqui da Terra,
haverá indícios dessas coisas no céu. Serão dias terríveis
de grandes distúrbios no céu que causarão enormes de-
sastres na Terra. Os eventos do céu terão grande influên-
cia sobre a Terra.

Mostrarei prodígios no céu e na terra: sangue, fogo e


colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua,
em sangue, antes que venha o grande e terrível Dia do
S ENHOR {Jl 2.30,31) .

Por que o Sol se converterá em trevas? Porque Deus


fará com que grandes explosões venham a exaurir a sua

325
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

capacidade de combustão. Ele perderá a capacidade de


iluminar. Em suas visões sobre o tempo do fim , João viu
algo importante sobre o Sol:

Vi quando o Cordeiro abriu o sexto selo, e sobreveio grande


terremoto. O sol se tornou negro como saco de crina, a
lua toda, como sangue (Ap 6.12) .

b) Veja o que acontecerá com a Lua

Mostrarei prodígios no céu e na terra: sangue, fogo e


colunas de fumaça . O sol se converterá em trevas, e a lua,
em sangue, antes que venha o grande e terrível Dia do
S ENHOR (Jl 2 .30,31).

Por que a Lua se converterá em sangue? Por que ela


virá a ter a cor avermelhada como o sangue? É porque,
naqueles dias , ela estará refletindo o grande fogo do Sol
e , consequentemente, da Terra. As colunas de fogo que de
alguma forma estarão pelo espaço e as colunas de fumaça
apontam para o grande incêndio nas regiões celestes da
abóboda que os leitores de Joel e de Pedro tinham à vista.
Todas essas manifestações cataclísmicas da abóboda ce-
leste são parte da gigantesca conflagração que culminará
na atmosfera da Terra e na própria Terra.
c) Veja o que acontecerá com outros corpos celestes
Observe que esse texto de Apocalipse continua sua
narrativa da visão de João mostrando que haverá uma
grande revolução de corpos celestes que influenciam a
Terra, usando uma linguagem que não combina muito

326
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

com a cosmologia moderna, mas que expressa o entendi-


mento do autor do texto diante do que ele realmente via:

as estrelas do céu caíram p ela terra, como a figueira,


quando abalada por vento forte, deixa cair os seus figos
verdes, e o céu recolheu-se como um pergaminho quando
se enrola. Então, todos os montes e ilhas foram movidos
do seu lugar {Ap 6.13, 14).

Houve uma desordem celeste, pois os astros não mais


estavam obedecendo ao curso normal de sua órbita re-
gular, mas oscilando por sobre o firmamento , abalando
toda a estrutura onde se encontra o nosso habitat. Essa vi-
são de João descreve um grande incêndio que afeta toda a
Terra; este produz um grande terremoto, removendo ilhas
de seu lugar.
Mas essas manifestações são apenas vislumbres do
que acontecerá no grande e terrível Dia do Senhon O fogo
causado pelo Senhor não terá testemunhas desta terra,
porque não sobrará ninguém para ver o que acontecerá,
exceto os cristãos, que , a essa altura, terão subido aos
ares juntamente com Cristo , o grande incendiário de Deus.
Jesus é o agente não somente da criação, mas também do
julgamento final.

B) 0 ESTREPITOSO ESTRONDO VIRÁ DA EXPLOSÃO DA COMPOSI-


ÇÃO QUÍMICA DA ATMOSFERA

A região que chamamos de atmosfera, que circun-


da todo o nosso habitat, é composta principalmente de
dois elementos , o oxigênio e o nitrogênio. O oxigênio é
um elemento sem o qual não pode haver nenhuma com-
bustão. Quando alguma coisa entra em comburência, é
pela simples união de oxigênio com outro elemento, com

327
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

a consequente liberação de luz, calor e energia. O fogo e


a comburência são exatamente a união do oxigênio com
algum outro elemento. 108
Além do oxigênio, o outro elemento que está à dispo-
sição de Deus para causar o grande fogo destruidor deste
nosso habitat é o nitrogênio. Criswell pergunta:

Não é uma coisa estranha o fato de que os dois elementos


mais explosivos nesta terra estão exatamente acima de
nós? O nitrogênio- em qualquer espécie de manufatura
destes explosivos: dinamite, TNT, nitroglicerina, nitrato ,
o nitrogênio é uma parte componente vital. E o nitrogênio
nesta atmosfera acima de nós , somente o Senhor sabe
quanto está à sua disposição. 109

c) 0 ESTREPITOSO ESTRONDO VIRÁ DA DESTRUIÇÃO DOS ELE-


MENTOS DO NOSSO HABITAT

Além dos elementos explosivos que estão acima de


nós , o oxigênio e o nitrogênio, não podemos nos esquecer
do que está abaixo de nós , ou contido em grande medida
nos elementos da Terra, que são altamente explosivos. Os
grandes oceanos, que ocupam três quartos da Terra, são
compostos de oxigênio e hidrogênio.
Na primeira terça parte do século 20, os pioneiros da
aviação usaram o hidrogênio para fazer os dirigíveis vo-
arem. Mas, devido à sua grande capacidade explosiva, o
hidrogênio não mais foi usado. Passaram a usar o hélio.
O hidrogênio é um dos gases mais explosivos do mundo,

108 CRISWELL,
W. A., em seu estudo sobre o texto de Pedro, disponível em:
<http://www.wacriswell.com/index.cfm/FuseAction/Search.Transcripts/
sermon/1480.cfm>, acessado em: 01/06/2012.
109
lbid.

328
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

e tudo isso está à disposição do Todo-poderoso Deus, e do


seu Cristo para fazerem a grande obra de destruição e de
purificação do nosso habitat. Deus tem muito elemento
de que pode fazer uso para atear fogo neste nosso habitat,
incluindo os astros celestes que nos cercam mais proxima-
mente. Por causa desses gases em combustão, será gran-
de o estampido no dia de Cristo!
Uma ilustração pode nos ajudar a fazer projeções so-
bre esse grande ruído: Jogue uma gota de água numa va-
silha quente ou sobre um ferro em brasa. A batida da gota
faz um grande barulho se você considerar o tamanho da
gota. Você pode imaginar o estrepitoso estrondo quando o
fogo provocado pela ação divina tocar a água dos oceanos
ou se espalhar pelos ares? Você pode imaginar os grandes
trovões e os raios que correrão os céus e a terra? Foge da
nossa compreensão a enormidade dos estampidos vindos
da grande explosão de fogo! 110
Além dos elementos explosivos que existem sobre a
terra, há ainda os elementos que já estão em combustão
dentro da terra.
A casca de um ovo cobre e protege o elemento semilí-
quido que está ali dentro. Se a casca quebra, todo o elemen-
to semilíquido salta para fora. Esse ovo com casca ilustra
a fragilidade e o perigo em que o nosso planeta vive. O solo
que pisamos é como uma casca de ovo. Pisamos numa ca-
mada que é fina e que, a qualquer momento, pode explodir.
A grande possibilidade de uma explosão se deve ao
fato de que nosso planeta está se derretendo por dentro
em razão do fervente calor ali instalado. Num dia determi-
nado, haverá um "levante" do magma da Terra, que virá
à tona. De vez em quando, um vulcão dá uma amostra
do que está dentro da terra. Todavia, a grande explosão

°
11
CLA.RKE, Adam, em seu comentário sobre 2Pedro 3.10, disponível em:
<http ://www.studyl ight. org/com/acc/vi ew.cgi?boo k=2 pe&cha pter=003>,
acessado em: 01/05/2012.

329
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

acontecerá somente por uma ação sobrenatural que vai


levar os movimentos da Terra a cumprirem os propósitos
divinos .
A explosão dessa casca (crosta da Terra) depende de
uma ação sobrenatural de Deus, que vai movimentar to-
dos os vulcões que estão inativos e as placas tectõnicas
que estão, na sua grande maioria, sob as águas do mar.
Dentro da chamada crosta terrestre há muitos elementos
em ebulição. Se a crosta for aberta suficientemente, tudo
o que está acima dela entrará em combustão também.
Portanto, Deus tem todos os elementos prontos para de-
sencadear o processo de explodir em fogo o nosso habitat.
Além dos elementos externos ao solo, há os elementos in-
ternos. Todavia, nada acontecerá sem que seja no Dia do
Senhor, ou Dia do Juízo, ou Dia de Deus!

3. A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT POR


INCÊNDIO CULMINARÁ NA DESTRUIÇÃO DOS
ELEMENTOS

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no


qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os
elementos se desfarão abrasados; também a terra e as
obras que nela existem serão atingidas (2Pe 3.10) .

1. O QUE SÃO OS ELEMENTOS?


A palavra grega traduzida por elementos é O"TOLXELa
(stoicheia) , que tem significados diferentes no pensamento
de Paulo, do autor de Hebreus e de Pedro.

330
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

1) 0 USO QUE PAULO FAZ DE STOICHEIA

Quando Paulo e o autor de Hebreus mencionam stoi-


cheia, eles têm em vista os princípios elementares do an-
tigo pacto. 11 1

Assim, também nós, quando éramos menores, estávamos


servilmente sujeitos aos rudimentos (stoicheia) do mundo;
[... ] mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo
conhecidos por Deus, como estais voltando, outra vez, aos
rudimentos (stoicheia) fracos e pobres, aos quais, de novo,
quereis ainda escravizar-vos? (Gl 4.3 ,9).

O que stoicheia significa nesses versículos de Gálatas?


Paulo está falando aqui de escravidão aos elementos do
mundo que dizem respeito aos dias religiosos judaicos,
que ele chama de fracos e pobres, como os dias, e meses,
e tempos, e anos (v. lO). Entre esses dias estão as luas no-
vas, o sábado anual, etc. Os gálatas não poderiam mais
ser escravos desses rudimentos ou elementos.

Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia


e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os
rudimentos do mundo e não segundo Cristo; [... ] porque tudo
isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o
corpo é de Cristo. Ninguém se faça árbitro contra vós outros,
pretextando humildade e culto dos anjos, baseando-se em
visões, enfatuado, sem motivo algum, na sua mente carnal,
e não retendo a cabeça, da qual todo o corpo, suprido e bem

111
Normalmente, nos textos de Paulo, a palavra stoicheia tem sido traduzida
por rudimentos (GI 4.3,9; Cl 2.8,20) .

331
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

vinculado por suas juntas e ligamentos, cresce o crescimento


que procede de Deus. Se morrestes com Cristo para os
rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo,
vos sujeitais a ordenanças: não manuseies isto, não proves
aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas
dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se
destroem. Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria,
como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor
ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade
(Cl2.8,17-23).

Nesses versículos de Colossenses , Paulo fala nova-


mente de rudimentos (ou elementos). Qual é o sentido
deles? Praticamente o mesmo mencionado em Gálatas.
Pode-se incluir a circuncisão entre as ordenanças que são
mencionadas no versículo 21. Os rudimentos, portanto,
têm a ver com preceitos religiosos a que os cristãos não
mais deviam se sujeitar, pois constituíam um sistema reli-
gioso ultrapassado e sem poder algum para mudar a vida
das pessoas, transformando-as em cristãos maduros.
Há, entretanto, alguns autores cristãos que querem
que Pedro seja interpretado necessariamente à luz do con-
ceito de stoicheia de Paulo. Depois de expor os usos da
palavra stoicheia por Paulo, o autor de um artigo tenta
encorajar seus leitores a verem uma só interpretação para
stoicheia: o sentido dado por Paulo. Ele diz:

Quero que meus amigos cristãos saibam que, quando eles


leem 2Pedro 3.12, o texto não está falando a respeito de um
final literal do mundo ou final da Terra como a conhecemos.
Ele está falando a respeito do final do antigo sistema

332
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

religioso/ elementos, em que os céus foram dissolvidos, e os


elementos e rudimentos, derretidos com o fervente calor. 112

Para justificar a sua posição, o articulista diz:

Eu tento enfatizar nos meus escritos que nós


assimilamos a ideia de que todos os escritores da
Bíblia eram h e breus em sua cosmovisão. Eles eram
orientais. Não eram gregos em sua cosmovisão. Se não
compreendemos ou honramos essa realidade, estamos
condenados a não entender a Bíblia corretamente. Esta
é a razão por que a maioria dos cristãos nunca terá um
verdadeiro significado bíblico de 2Pedro 3 . 12 . 113

Pessoalmente, não creio que essa maneira de interpretar


a palavra stoicheia seja correta. Precisamos entender que a
palavra stoicheia pode ter significados diferentes, para que
não façamos violência ao texto sagrado.

2) 0 USO QUE O AUTOR DE HEBREUS FAZ DE STOICHEIA

O autor de Hebreus, que tinha a mesma mentalidade


teológica de Paulo, não usou a palavra stoicheia no mesmo
sentido em que Paulo a usou.

Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao


tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém
112
The language of the word: ELEMENTS (2PETER 3:12}, sem menção de autor
(grifas do próprio articulista}, disponível em: <http://www.otisministries.
faithweb.com/catalog_4.html>, acessado em : 01/02/2012.
113
lbid .

333
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares


[aTOLXEí.a] dos oráculos de Deus; assim, vos tornastes como
necessitados de leite e não de alimento sólido" (Hb 5.12).

Veja que, quando o autor de Hebreus menciona stoi-


cheia, ele está se referindo aos "princípios elementares" da
fé cristã, ou seja, as doutrinas a respeito do batismo e do ar-
rependimento, por exemplo, que são como o leite, o alimen-
to para quem é espiritualmente criança. Esses princípios
elementares não eram parte dos rituais religiosos judaicos
ultrapassados, mas elementos fundamentais da fé cristã.
No entanto, o autor de Hebreus diz que seus leitores deviam
ser pessoas maduras para trabalhar com outros assuntos
que mostram maturidade espiritual.

3) 0 USO QUE PEDRO FAZ DE STOICHEIA

Quando Pedro menciona stoicheia, ele trabalha de


uma perspectiva diferente. Ele usa duas vezes esta pala-
vra (2Pe 3.10, 12) que , na Versão Revista e Atualizada, é
traduzida por elementos.
Qual é o significado de stoicheia (elementos) em
Pedro? Ele trabalha com um significado diferente do de
Paulo e do autor de Hebreus. Pedro está se referindo a
substâncias físicas do Universo, que são as substâncias
elementares das quais cada coisa é feita. Ele se refere aos
"constituintes fundamentais" da criação física. Stoicheia
significa cada parte atômica que compôe o universo físico
de Deus , especialmente o nosso planeta.

A tota lidade do universo material é feita de átonios ,


que t ê m no seu núcleo prótons (ou cargas negativas) e
n êutrons , que são eletricamente neutros. O número de
prótons no núcleo determina o elemento .

334
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

Os prótons no núcleo de um átomo têm um número


igual de elétrons ou cargas negativas se revolvendo ao
redor do núcleo em velocidades incríveis! Eles são tão
rápidos que dão aos átomos uma sensação de serem
sólidos [... ]. A maior parte da massa de um átomo está
no próton, mas isso é tão pequeno que, se colocados
lado a lado, seriam necessários 25 milhões deles para
alcançar o comprimento de uma polegada. Os elétrons
são muito menores do que os prótons. Posicionando os
elétrons lado a lado, seriam necessários 2.5 quintilhões
para dar o tamanho de uma polegada.

O mistério do átomo é como os prótons permanecem


aglomerados no núcleo. De acordo com a lei da
eletricidade, as cargas iguais se repelem, e as cargas
opostas se atraem. Os magnetos são exemplos dessa lei
da física .

O que segura as cargas positivas juntas no núcleo de


um átomo? Não sabemos . Os cientistas bombardeiam o
núcleo do átomo com lentos nêutrons que se movem, e
eles são capazes de dividir o átomo, liberando tremenda
energia estocada nele.

O real mistério é: o que sustenta os átomos juntos? A


Bíblia nos dá uma resposta. Ela nos diz que Jesus é
não somente o Criador, mas o objeto da criação, e por
ele todas as coisas subsistem (Cl 1.16, 17) . Ele é o Criador
e o mantenedor de todas as coisas . 114
114
Todas essas notas são retiradas de Chuck Smith, em seu sermão
How should we then live?, sobre 1Pedro 3.10, disponível em: <http ://
www.blueletterbible.org/commentaries/Chuck_Smith/sn/sermon .
cfm?content1D=5404>, acessado em : 01/02/2012.

335
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Basicamente, um dia Jesus vai usar o seu poder para


fazer essa massa física se desvanecer, fazendo-a passar,
como Pedro descreve em seu texto: os céus e a terra pas-
sarão com grande estrondo. Toda essa matéria composta
de um infindável número de átomos será desfeita pelo
Senhor pelo mesmo poder que ele usou para trazê-la à
existência.
Essas observações de natureza científica são apenas
para mostrar que o que Pedro chama de elementos (stoi-
cheia) se refere ao material de que o Universo é composto.
Os costumes judaicos ou mesmo os preceitos de Deus não
podem ser queimados ou dissolvidos nem podem passar,
como o texto de Pedro afirma. Portanto, a palavra stoi-
cheia tem significados diferentes na Escritura, e Pedro
a usa no sentido de elementos atõmicos que compõem o
Universo.

2. QUAIS SÃO OS ELEMENTOS?


Classicamente falando, há quatro elementos no univer-
so fisico: o ar, a terra, a água e o fogo. Vamos nos ater somen-
te aos três primeiros, que serão os objetos do nosso estudo.

1) 0 FIRMAMENTO

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os


céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se
desfarão abrasados (2Pe 3.10a) .
A expressão "céus" pode ser entendida como firma-
mento. Esse firmamento pode ter duas conotações distin-
tas, ainda que tenham continuidade espacial entre si.
a) O firmamento diz respeito à atmosfera que cir-
cunda a Terra

336
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

Parece-nos que é o firmamento que Pedro menciona


quando fala dos céus nessa passagem. Ele tem em mente
aquilo que é visível aos olhos, ou seja, a atmosfera (ou o ar)
que circunda todo o nosso planeta, onde estão as nuvens
e outros gases.

Os céus nesse texto provavelmente se referem aos céus


atmosféricos , cujos elementos (hidrogênio, oxigênio,
nitrogênio etc.) devem também ser "dissolvidos" , visto
que eles também estão presentemente sob a "escravidão
da corrupção" (Rm 8.20-22) e devem ser purificados e
renovados como elementos da terra.115

b) O firmamento diz respeito ao espaço sideral


Pessoalmente, creio que firmamento tem uma conota-
ção mais ampla do que simplesmente a camada atmosférica
que envolve o nosso planeta. Esse firmamento, que tam-
bém é visto pelos nossos olhos, parece incluir o Sol, a Lua
e as estrelas. A vinda de juízo do Senhor vai mexer em todo
o firmamento que os olhos dos leitores de Pedro podiam
contemplar. Necessariamente você não precisa pensar que
esse firmamento inclui aquela parte que somente os mo-
demos telescópios podem enxergar. Basta pensar nos as-
tros dos quais o presente habitat depende. Imediatamente
antes da vinda do Senhor, ocorrerão mudanças sérias no
firmamento.
As maldições divinas vindas no tempo do dilúvio atin-
giram somente a Terra, com os homens , a fauna e a flora.
Tudo ficou sob a água por um longo período de tempo.
Já o castigo divino final atingirá a totalidade da Terra, a
115
Comentário on-line de 2Pedro 2.12 do lnstitute of Christian Research,
disponível em: <http://www.icr.org/bible/2Peter/3/10-13/>, acessado em:
01/02/2012.

337
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

envoltura atmosférica e os astros que a rodeiam, no míni-


mo. Estes são os céus a que Pedro se refere.

2) 0 SOLO

Os céus (firmamento), a terra (solo) e a água (mar) são


os elementos afetados pela maldição divina e serão os obje-
tos da recriação divina. O solo está se degradando paulati-
namente, como todas as outras coisas nesta presente exis-
tência, mas ainda não foi consumido porque Jesus Cristo
continua sustentando todas as coisas pela palavra do seu
poder (Hb 1.3).
Todavia, virá o dia em que ele não será mais preser-
vado pela ação de Cristo. Esse mesmo Cristo, no seu dia,
trará violenta, repentina e sobrenaturalmente o seu fogo
destruidor sobre o solo e sobre as obras que estiverem aci-
ma do solo. O solo foi amaldiçoado por Deus (Gn 2. 7; 3.17)
e , então, passará por uma mudança purificadora na vinda
do Senhor.

3) A ÁGUA

A água, que foi o instrumento de destruição no tempo


de Noé , também desaparecerá na forma em que se encon-
tra agora. Referindo-se às coisas inusitadas da nova terra,
João diz que o mar já não existe (Ap 21.1). O mar, que é a
fonte de grande parte de nossa vida, não existirá mais. Do
mar obtemos o sódio, o clorino em quantidade razoável.
O oxigênio , o dióxido de carbono e uma série de elemen-
tos importantes também estão presentes no mar, além dos
peixes e de outros produtos comestíveis que retiramos dele
para a nossa subsistência.l16 Esse elemento também será

Ver essas informações facilmente em enciclopédias on-line, como a


116

Wikipedia, disponível em : <http ://wiki.answers.com/Q/What_are_the_


most_important_dissolved_elements_in_ocean_water#ixzz1ntmeoCOB>,
acessado em : 01/02/2012 .

338
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

extirpado da terra pela ação poderosa do fogo sobrenatural


vindo do Senhor.

3. O QUE ACONTECERÁ COM OS ELEMENTOS?


1) A EscRITURA DIZ QUE os cÉus PASSARÃO

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os


céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se
desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela
existem serão atingidas (2Pe 3.10) .

João usa a mesma linguagem quando descreve os no-


vos céus e a nova terra. Em Apocalipse 21, ele começa
dizendo: Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a
primeira terra passaram, e o mar já não existe (Ap 21. 1). O
verbo "passaram" diz respeito a alguma coisa que havia de
determinada forma e que já não existirá da mesma forma.
O modo antigo de a Terra existir não mais terá lugar. A
abóboda celeste que agora vemos não será vista da mesma
maneira, porque o que vemos hoje terá uma nova forma no
tempo da restauração de todas as coisas. Não se esqueça
de que não haverá mais Sol nem Lua, que são elementos
fundamentais naquilo que chamamos de "céu".

2) A EsCRITURA DIZ QUE OS CÉUS SE DESFARÃO

Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas


(2Pe 3.11a).
O mesmo verbo é usado e significa que tudo vai ser
decomposto, separado, mas não aniquilado. O propó-
sito divino certamente não é o de aniquilar as partícu-
las elementares da criação que o próprio Deus trouxe à

339
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

existência. Ao menos, a Escritura não deixa qualquer no-


ção de que os elementos serão aniquilados. Todavia, pela
Escritura, "fica claro que Deus pretende que o Universo
atravesse importantes mudanças". 117 Essas mudanças
são necessárias para os propósitos recriadores de Deus.
Todos os elementos da terra que forem desfeitos serão
usados para a composição do novo sistema que vai ser
criado por Deus, "um novo sistema [que] deve ser forma-
do de seus materiais. Há uma propriedade filosófica ma-
ravilhosa nas palavras do apóstolo ao descrever esse mui
tremendo evento" .118

esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por


causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os
elementos abrasados se derreterão (2Pe 3.12).

Essas duas expressões não significam que os céus


deixarão de existir ou que serão aniquilados. Significam,
outrossim, que eles cessarão de existir na forma em que
existem agora. Esses céus passarão e serão desfeitos para
também serem renovados para o desfrute dos remidos
de Deus. A ideia de serão desfeitos é similar à ideia de
passarão.

3) A ESCRITURA DIZ QUE OS CÉUS SE ENROLARÃO

Isaías e João dizem a mesma coisa que Pedro numa


linguagem diferente.

117 BARNES, Albert, em seu comentário on-line sobre 2Pedro 3, disponível


em : <http :/ /www.studylight.org/com/bnn/view.cgi?book=2pe&chapter=3>,
acessado em : 01/04/2012 .
118 Coment ário de Adam Clarke, disponível em : <http://www.studylight.org/

com/acc/view.cgi?book=2pe&chapter=003>, acessado em : 01/02/2012.

340
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

Todo o exército dos céus se dissolverá, e os céus se


enrolarão como um pergaminho; todo o seu ex ército cairá,
como cai a folha da vide e afolha da .figueira (Is 34.4).

Literalmente , o texto diz que o exército dos céus se


dissolverá. Na verdade, o exército dos céus , nesse texto ,
diz respeito aos astros que circundam a Terra e estão en-
volvidos com ela, além dos astros mais distantes que po-
dem ser vistos pelos olhos. Esse exército do céu é observá-
vel pelo homem.
Nesse versículo, o profeta Isaías soa semelhante à
profecia de Pedro quanto ao juízo de Deus sobre o firma-
mento no Dia do Senhor. Esta catástrofe será a primeira e
única que envolve o firmamento.
Sempre há estrelas que explodem, mas nesse caso os
astros serão removidos do presente firmamento porque a
maldição divina caiu sobre eles em decorrência do pecado do
homem. É provável que nada do universo fisico tenha esca-
pado da maldição divina. Esses astros também terão que ser
dissolvidos para serem tomados novos, refeitos, purificados.

e o céu recolheu-se como um pergaminho quando se


enrola. Então, todos os montes e ilhas foram movidos do
seu lugar (Ap 6.14) .

A linguagem usada pelo profeta em Isaías 34.4 e por


João em Apocalipse 6 . 14 combina com a ideia do passa-
mento dos céus pelo fogo e da sua dissolução. A ideia de os
céus serem "enrolados como um pergaminho" é tomada de
um fenômeno simples que ocorre quando colocamos fogo
em algo altamente comburente como é o papel. No tempo
dos escritores bíblicos , o pergaminho era equivalente em
comburência ao papel feito de madeira. Os céus que agora

341
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

existem, tanto em sua forma de atmosfera como as partes


acima e além da atmosfera, serão queimados, e a sua apa-
rência será semelhante à do pergaminho quando se quei-
ma. Eles serão desfeitos em relação ao que são agora.

4) A ESCRITURA DIZ QUE OS ELEMENTOS SE DESFARÃO ABRASADOS

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os


céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos
se desfarão abrasados; também a terra e as obras que
nela existem serão atingidas (2Pe 3.10).

A palavra traduzida por abrasados é Kavaov (kauson),


de onde vem a palavra portuguesa cáustica ou soda cáus-
tica. A ideia é que os elementos , seja da atmosfera, seja do
solo, seja do mar, se derreterão por um calor fervente . Será
tão ardente o fogo provocado por Deus que não haverá um
só elemento que não seja derretido. Nenhum deles per-
manecerá na condição em que hoje existe. Para que haja
a purificação da maldição estabelecida por Deus, tem que
haver a queima de tudo o que há nos elementos.

Nosso mundo é feito com cerca de 96 ou 97 elementos


- oxigênio, hidrogênio , nitrogênio , sódio, ferro, zinco ,
chumbo, ouro , prata, alumínio, cálcio- todos esses
elementos podem ser liquefeitos, e cada um deles,
qualquer que seja, pode ser derretido . E eles podem se
derreter com o calor fervente. 119

119 CRISWELL, W. A., em seu estudo sobre o texto de Pedro, disponível em :

<http :ffwww. wa criswell .com/i ndex.cfm/F useActi on/Sea rch .Tra nscri pts/
sermon/1480.cfm>, acessado em: 01/06/2012.

342
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

Pedro está falando de algo perfeitamente compreen-


sível e factível na estrutura do nosso habitat. Ainda que
o fenômeno do atear fogo seja sobrenatural, os elementos
em combustão são naturais, produto da criação divina!
Não podemos nos esquecer de que, quando a Escritura
usa a palavra "destruição", isso não significa o mesmo que
aniquilação. A Versão Revista e Atualizada fala que os "ele-
mentos se desfarão abrasados". Barnes diz que o verbo
desfazer é usado de modo ...

. .. intensivo, significando que eles sofrerão uma mudança


que o fogo vai produzir; não significa, necessariamente,
que a matéria que os compõe será aniquilada. Se
a matéria que compõe a Terra deve ser destruída
totalmente, ela o será pelo poder imediato de Deus,
porque somente aquele que criou pode destruir. Não
há a menor evidência de que uma partícula de matéria
originalmente feita tenha sido aniquilada desde que o
mundo começou; e não há fogo tão intenso nem poderes
químicos tão poderosos que causem a cessação total da
existência de uma partícula da matéria. 120

Somente Deus tem o poder de fazer com que os ele-


mentos deixem de existir, porque foi ele que os trouxe à
existência. Mas não é propósito divino eliminar os elemen-
tos da criação, e sim renová-los para compor os novos céus
e a nova terra.
Os elementos , portanto, não serão aniquilados, mas
terão todas as suas propriedades restauradas por meio
120
Albert Barnes, em seu comentário on-line sobre o texto em
estudo, disponível em: <http :/ /www.studylight.org/com/bnn/view.
cgi?book=2pe&chapter=3>, acessado em : 01/02/2012 .

343
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

da purificação causada pelo fogo. Na Escritura, uma das


importantes funções do fogo é purificar, escoimar de im-
purezas. É exatamente essa função que o fogo vindo do
céu exercerá com relação aos elementos.

4. A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT POR


INCÊNDIO AFETARÁ AS OBRAS DO HOMEM
EXISTENTES NA TERRA

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os


céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se
desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela
existem serão atingidas (2Pe 3.10) .

Tudo o que na primeira criação foi chamado à exis-


tência por Deus sofrerá destruição. Nada escapou da mal-
dição original e nada escapará da destruição final. Tanto
as o bras que Deus fez como as o bras que os homens fa-
zem receberão a ação purificadora divina através do fogo.
Esse é um lembrete solene que Deus nos dá. Em
outras palavras, Deus diz: "Tudo o que eu fiz e que você
tocou eu destruirei porque está maculado pela impure-
za dos seus pecados. Vou mandar tudo para o fogo, ou,
melhor dizendo, vou mandar o fogo para tudo! Eu não
deixarei uma só obra minha e uma só obra humana que
não seja atingida".
Todo o planeta Terra, o que o circunda e todas as
manufaturas e construções dos homens estarão debaixo
do fogo divino.

344
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

1. AS COISAS HOJE DURÁVEIS SERÃO DESTRUÍDAS


O ouro, o diamante e as outras pedras preciosas não
mais serão usados para o que servem hoje. Deus fará coi-
sas muito mais preciosas com as pedras preciosas que ele
mesmo fez. Elas serão purificadas para um melhor uso
na terra futura. Essas coisas são bens duráveis hoje, mas
elas também serão atingidas e não mais servirão para os
propósitos atuais.
É o caso das propriedades que você tem na cidade
ou as fazendas na zona rural. Todas elas, que são chama-
das de bens duráveis, se perderão, e ninguém as possuirá.
Elas desaparecerão com o fogo. Serão renovadas para que
os habitantes definitivos as assumam na nova terra.

2. AS COISAS VOLÁTEIS SERÃO DESTRUÍDAS


A sua conta bancária, os seus títulos bancários, os
bens que você guardou, os tesouros que acumulou, tudo
será destruído e não servirá para o que serve no tempo
presente. Se houver riquezas, e haverá, elas serão santa-
mente adquiridas e administradas.
Na verdade, tudo o que temos hoje é volátil. Tudo de-
saparecerá e será destruído pelo fogo. Nem os cristãos nem
os ímpios levarão nada desta existência para a outra, seja
para a nova terra, seja para o lago de fogo.
O mundo não presta atenção ao lembrete divino. Ele
não quer perder os bens, sejam eles duráveis ou voláteis.
Ele se apega às coisas deste século, que não têm valor
eterno, e rejeita as ameaças divinas, não ouvindo as pro-
messas de Deus aos que creem. Os cristãos genuínos cre-
em nessas coisas, mas os ímpios não têm nenhuma sim-
patia por elas. Gostando ou não de Deus e dos seus filhos,
os ímpios verão a destruição divina, que começa com eles
e termina com o habitat em que vivem.

345
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Deus destruirá não somente o firmamento, o solo


e o mar, que são as suas obras originais, mas também
as obras dos homens. Nada do que o homem fez escapa-
rá da destruição. Vejamos exemplos de obras que serão
destruídas:
• Os templos serão destruídos. Isso significa que as
religiões serão apagadas desta terra e não mais existirão
na nova terra. Nem mesmo os templos cristãos sobrarão
sobre a terra. Tudo o que diz respeito à adoração pagã e
mesmo à adoração cristã localizada será destruído. Note
que os templos (edifícios) serão destruídos, não a igreja de
Deus.
• Os palácios serão destruídos. Isso significa que a
realeza não mais terá a sua opulência. Ela não mais ex-
plorará os seus súditos, porque tudo o que pertence às
realezas será queimado.
• As torres serão destruídas. Assim como a grande
torre de Babel foi destruída pela ira divina, também as
megaconstruções dos homens virão abaixo e serão quei-
madas a fogo. Os arranha-céus que assombram os visi-
tantes das megalópoles virão todos abaixo, ou pelos ter-
remotos que assolarão a terra nos dias que precedem e
acompanham a vinda de Cristo ou, no caso dos que resis-
tirem, pelo fogo.
• As pontes serão destruídas. Estas são verdadeiras
obras de engenharia que encantam os usuários e os pró-
prios construtores. Elas também não passarão incólumes
pelas manifestações da ira divina. Elas colapsarão.
• As estradas serão destruídas. Há muitos países
com uma malha rodoferroviária espantosa, mas todas as
rodovias serão atingidas totalmente. O orgulho e a soberba
dos homens com suas construções serão banidos. Deus
não deixará escapar nada das obras dos homens.
• As cidades serão destruídas. Nunca o nosso mundo
foi tão urbano como no presente. A tendência será cada

346
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

vez mais a ênfase nas grandes metrópoles, mas delas não


ficará pedra sobre pedra. As cidades dos homens se derre-
terão para dar lugar somente à cidade de Deus.
• As obras de arte serão destruídas. Nada da cultu-
ra humana será preservado. Grandes galerias e museus
serão queimados pelo fogo. Todas as obras de arte huma-
nas, por mais belas e famosas que sejam, são carregadas
de motivações impuras. Coisas impuras não entrarão na
nova terra. É uma triste realidade, mas Deus não precisa-
rá das o bras dos homens na nova terra para tornar felizes
os remidos.
• Os livros serão destruídos. Nem os escritos dos ho-
mens sobrarão na nova terra. Em geral, muitos livros foram
muito mais maléficos do que benéficos porque desviaram
os homens de Deus. Os únicos livros que sobreviverão ao
grande incêndio são os livros de Deus, ou seja, o livro da
vida, o livro dos atos dos homens e, certamente, o registro
da revelação divina. Tudo o mais que os homens escreve-
ram desaparecerá pelo fogo.

5. A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT


ACONTECERÁ APÓS A DESTRUIÇÃO DOS
HOMENS ÍMPIOS

Na criação, Deus criou o homem primeiro, depois


criou o jardim que seria o centro do seu habitat original.
O princípio é o mesmo aqui: Deus vai restaurar primeiro o
homem para depois restaurar o seu habitat. Tanto na cria-
ção como na restauração, na maneira de Deus organizar
as coisas, ele sempre trata dos homens primeiro e, depois,
do habitat. Essa maneira de administrar também é vista
no fim deste mundo: primeiramente os homens serão des-
truídos; depois, o seu habitat.

347
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

É importante que o conhecimento da escatologia do


Antigo Testamento seja levado em conta na avaliação da
escatologia do Novo Testamento. Por isso, com todos esses
elementos informativos do Antigo Testamento em mãos ,
Pedro fala com propriedade do fogo que causará estrepito-
so estrondo na sua função destruidora e purificadora.

APLICAÇÃO
Muitas pessoas de todas as gerações , mas especial-
mente das gerações que precederem imediatamente a vinda
do Senhor, não crerão nessas verdades tratadas por Pedro.
Gill Hugh diz que

tudo aqui- tudo o que você vê e toca- irá para o fogo.


Pedro usa isso como uma exortação aos crentes nos
versículos seguintes[ ... ] para moldar o modo de vida se você
crê no evangelho. O impacto do evangelho tem sido perdido
em grande medida em nossa sociedade porque muitos dos
que professam ser crentes vivem como os mundanos. 121

Você realmente crê que essas coisas mencionadas por


Pedro sobre o grande incêndio do nosso planeta acontece-
rão? Você realmente crê no ensino das Escrituras sobre
as coisas do fim e do novo começo? Crê que tudo o que
você tem será derretido, que tudo o que você possui não
lhe garante nada, porque tudo passará? Mesmo as coisas
aparentemente duráveis, como o ouro e o diamante, desa-
parecerão. Tudo será derretido e desfeito.

HUGH, Gil I, em seu comentário sobre 2Pedro, disponível em: <http:/I


121

www.biblebb.com/files/gr961.htm>, acessado em: 01/02/2012.

348
O MODO DE DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT

Somente uma vida, e ela logo passará, e somente o que


é feito por Cristo durará ... O único valor das coisas é se
elas são usadas para o Senhor na realização dos seus
propósitos naqueles dias .122

Esta é a verdade ensinada por Pedro nessa passa-


gem, e você não pode deixar de crer nela, para o seu bem
e para o crédito da verdade de Deus. De qualquer forma,
a verdade dele continua, a despeito de sua incredulidade,
e você vai perceber, no final de tudo , que Deus é verda-
deiro no que fala. Portanto, creia hoje para que você não
constate pela experiência própria que Deus é justo no seu
julgamento.
E, se você crê nessas verdades, proclame-as, para
que outras pessoas venham a conhecer as verdades que
se tornarão realidades amanhã.
Se você crê nessas verdades ensinadas por Pedro,
você desfrutará da bênção reservada para os genuínos
cristãos. Não se esqueça de que a sua existência gloriosa
com o Senhor amanhã depende, em alguma medida, do
modo como você trata as verdades dele hoje.

122
lbid.

349
Parte 3

OS DEVERES DO CRISTÃO
ANTES DA DESTRUIÇÃO
DO PRESENTE HABITAT

ANÁLISE DE 2PEDRO 3 . 11-18


CAPÍTULO 12

A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE
HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A
UMA VIDA DE SANTIDADE

Visto que todas essas coisas hão de ser assim


desfeitas, deveis ser tais como os que vivem
em santo procedimento e pied a d e , esperando e
apressando a vinda do Dia de Deus, por causa do
qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os
elementos abrasados se derreterão. Nós, porém,
segundo a sua promessa, esperamos novos céus e
nova terra, nos quais habita justiça. Por essa razão,
pois, amados, esperando estas coisas, empenhai-vos
por serdes achados por ele em paz, sem mácula e
irrepreensíveis, e tende por salvação a longanimidade
de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado
irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que
lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como,
de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas,
nas quais há certas coisas difíceis de entender, que
os ignorantes e instáveis deturpam, como também
deturpam as demais Escrituras, para a própria
destruição deles . Vós, pois, amados, prevenidos como
estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que,
arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais
da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e
no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia
eterno (2Pe 3.11-18).
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O que você imagina que Pedro pensaria se vivesse em


nossa sociedade, onde Deus é desprezado e excluído dos
pensamentos dos homens? A presente sociedade é cheia
de promiscuidade, perversidade e permissividade. Tudo
nela faz com que os pequeninos filhos cresçam com a ideia
de que "não há Deus".
No entanto, Pedro distingue os cristãos genuínos, que
ele chama de forasteiros e peregrinos (cf. 1Pe 1.1; 2. 11),
dos outros homens deste mundo. Eles são tementes a
Deus, embora continuem a ser pecadores. Por essa razão,
Pedro os encoraja a um procedimento digno de filhos de
Deus. Eles têm deveres a cumprir.

1. ESSES DEVERES ESTÃO LIGADOS AO TEMPO


DA DESTRUIÇÃO

Visto que todas essas coisas hão de ser assim


desfeitas (1Pe 3.11a).

Essa frase do versículo 11 nos faz retornar o pensa-


mento aos versículos 7 e 10. Neles, Pedro avisa aos seus
destinatários sobre a destruição do presente habitat com o
intenso calor do fogo ateado pela ação da palavra de Deus
usando os próprios elementos da criação.
A velha maneira de viver não é compatível com o cris-
tianismo de todas as épocas, mas principalmente quando
se tem conhecimento da destruição, que era iminente para
os pregadores do primeiro século. Os cristãos tinham que
viver com o pensamento na realidade da eternidade. Eles
estavam às portas dela e não podiam ter os pecados pró-
prios de cristãos ainda não amadurecidos. Por essa razão,
no último versículo do capítulo, Pedro os exorta a cresce-
rem na graça e no conhecimento de Jesus!

354
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A UMA VIDA DE SANTIDADE

2. ESSES DEVERES ESTÃO LIGADOS À IDEIA DE


NECESSIDADE

deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e


piedade (2Pe 3.11b).

O verbo usado por Pedro é 8E ~ (dez) e se refere a uma


necessidade que aponta para a ideia de obrigação. Temos
de viver do modo como preceitua a Escritura com um sen-
so do débito que temos com Deus .
Enquanto não tivermos senso de dívida, nunca nos
moveremos para uma real obediência. Paulo nos lembra
essa verdade quando diz: A ninguém fiqueis devendo coisa
alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros
(Rm 13.8). Paulo disse: sou devedor tanto a gregos como a
bárbaros (Rm 1.14- 16) . Paulo não iria pregar o evangelho a
judeus e gentios se ele não se sentisse devedor, porque so-
bre ele pesava essa obrigação. Temos uma dívida de amor
para com aqueles que nos rodeiam por causa daquilo que
recebemos de Deus . Mas , acima de tudo , a maior dívida
que temos é com Deus , ainda que nunca consigamos pa-
gá-la, mas o senso de débito nos deveria fazer correr para
a obediência.
Você tem esse senso de dever para com Deus? Você
entende a necessidade de viver aqui neste habitat com
uma perspectiva das coisas eternas no habitat futuro? Se
você não tem esse sentimento, deveria tê-lo! Ninguém pode
viver a vida cristã neste mundo sem esse senso de dívida
para com Deus que o mova a uma vida conformada à pa-
lavra de Deus! Todo cristão deve ter o desejo de uma vida
que reflita o caráter de Cristo aqui neste mundo. Não é
uma questão de opção , mas uma necessidade. Por isso,
Pedro fala que deveis ser tais ...

355
O HABITAT HU MANO - O PARAÍSO AUSENTE

Afinal de contas, se você é forasteiro e peregrino, você


"deve". Você não é cidadão daqui debaixo, mas pertence às
coisas de cima! Temos o dever de esperar pela cidade ce-
lestial que vai descer para a nova terra. Por isso, temos que
viver de modo digno dos habitantes dessa cidade! Temos o
dever de viver na perspectiva iminente da implantação ple-
na do reino de Deus no habitat futuro , tão logo o presente
habitat seja destruído!

3. ESSES DEVERES SÃO PRÓPRIOS DE GENTE


REMIDA

deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento


e piedade {2Pe 3.11b).

Olhando para o argumento dos versículos anteriores,


Pedro diz aos seus leitores que eles deveriam ser gente
de categoria diferente das pessoas comuns deste mundo.
Afinal de contas, eles estavam para entrar no aspecto defi-
nitivo e eterno do reino de Deus, na nova terra. Eles have-
riam de se apossar dos tesouros mais desejados em toda a
história humana: a presença gloriosa de Deus manifesta-
da na glória do Cordeiro.
Para usufruir de tais privilégios, esses crentes deve-
riam ter um procedimento tal como têm os verdadeiros
santos de Deus.
A expressão deveis ser tais é a tradução da palavra
grega rroTmrous- (potapous), que aponta para a ideia de se
ter uma excelência de vida! Para desfrutar a vida sobrema-
neira excelente, os leitores de Pedro tinham que obedecer

356
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A UMA VIDA DE SANTIDADE

a certos deveres ainda neste habitat. A eterna glória exige


homens assim!

Se Jesus está vindo para recompensar você; se Jesus


está vindo para levá-lo com ele; se Jesus está vindo para
libertá-lo do juízo e para introduzi-lo no grande e etemo
Dia de Deus; se Jesus está vindo para levar você ao reino
de justiça eterna, isso deveria impactar sua vida. Em
outras palavras, se você foi feito para isso, criado para
isso, redimido para isso, santificado para isso, então você
deveria começar a viver à luz disso. Isso é o que Pedro
está dizendo. 123

Que tipo de cristianismo você vive hoje? Você tem sen-


so de urgência de uma vida de santo temor a Deus? Parece
que não! Muitos de nós vivemos como se o presente habitat
não fosse acabar; vivemos como se tudo o que Pedro disse
estivesse absolutamente distante no tempo. Essa noção de
distãncia temporal faz com que nos acomodemos ao status
quo atual. Vivemos relaxadamente, como se o Senhor não
estivesse às portas! Quando não há senso de urgência, não
há senso de se querer viver como aqueles que procedem
em santa piedade.
Muitos chamados cristãos parecem que vivem como
cidadãos deste mundo. Parece que eles são parte deste
mundo e que estão adaptados a ele. Não dão demonstra-
ção de que são forasteiros e peregrinos. Eles amam o mun-
do e as coisas que há no mundo (lJo 2.15).

123
MACARTHUR, John, em seu sermão sobre o texto em estudo, disponível
em: <http://www.gty.org/resources/sermons/61-26/living-in-anticipation-
of-christs-return-part-1>, acessado em: 01/06/2012.

357
O HA BITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Os genuínos cristãos são forasteiros e peregrinos e


não podem, moral e espiritualmente, ser cidadãos deste
mundo, não podem amar o sistema deste mundo. Esse
sistema de maldade não é o nosso mundo. Os genuínos
cristãos aspiram a coisas santas, uma cidade celestial; por
celestial, entenda incorruptível, mas também uma cidade
que vem literalmente do céu, que é a nova Jerusalém. Os
genuínos cristãos aspiram a coisas superiores que refle-
tem o caráter de Jesus Cristo. Com essa ideia em mente,
Pedro diz aos seus leitores: Vocés devem ser tais como os
que vivem em santo procedimento e piedade (2Pe 3.11 b).
A maneira como vocé vive agora, em termos gerais,
aponta para o tipo de vida que vocé vai ter no futuro. Se vi-
vemos em desobediência, certamente colheremos os seus
frutos; se, todavia, vivemos de acordo com os padrões es-
tabelecidos por Deus, haveremos também de desfrutar dos
seus beneficios. A santidade aqui aponta para uma santi-
dade ainda maior no futuro. E Pedro exorta seus leitores a
serem a espécie de cristão que eles deveriam ser, porque o
texto aponta para um dever.

4. ESSES DEVERES ESTÃO LIGADOS À


PERSPECTIVA DA ETERNIDADE

O estudo e a percepção da realidade da eternida-


de com Deus fazem toda a diferença na maneira como
gastamos o nosso tempo neste presente habitat. Você já
pensou que a ineficácia de sua vida cristã tem a ver, em
alguma medida, com a falta de pensamento nas coisas
futuras? Você ainda não percebeu que as coisas futu-
ras podem alterar enormemente o modo como vivemos
hoje? Não percebeu que, quando não pensamos nas coi-
sas eternas, o pecado se torna mais atraente? Ainda não
notou que a ausência da perspectiva da eternidade faz

358
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A UMA VIDA DE SANTIDADE

você perder o rumo nesta vida, desprezando o seu senso


de responsabilidade cristã?
A igreja cristã tem vivido mais mundanamente por-
que tem deixado de pensar nas coisas do outro lado desta
existência. C. S. Lewis disse que "visto que os cristãos têm
basicamente cessado de pensar no outro mundo é que eles
têm se tornado ineficazes neste". 124 A simples "contempla-
ção" das coisas santas, ainda que temporárias do céu, e
das coisas definitivas da nova terra nos leva a ter uma
vida mais concentrada nas coisas do reino, o que tempera
melhor a sociedade onde vivemos.
O simples pensamento de viver para todo o sempre ao
lado de Deus nos leva obrigatoriamente à busca da san-
tidade. A reflexão sobre o céu ou sobre a nova terra nos
conduz a um preparo para entrar no lugar santo.
Randy Alcorn afirmou:

O céu deveria afetar as nossas atividades e ambições,


nossa recreação e amizades, e o modo como gastamos
nosso dinheiro e tempo. Se eu creio que vou gastar a
eternidade num mundo infindável de beleza e ventura,
me contentarei em gastar todas as minhas noites
assistindo a shows, jogos de futebol e comédias de
TV? Mesmo que eu mantivesse meus olhos fora das
impurezas, quanto tempo eu quereria investir naquilo
que não tem muita importáncia?125

124
Citado em sermão sem autoria explícita, disponível em: <http://storage.
cloversites.com/firstbaptistchurchvilonia/documents/08_Living%201n%20
the%20Light%20of%20Eternity.pdf>, acessado em: 06/06/2013.
125
ALCORN, Randy. Heaven. Carol Stream, lllinois: Tyndale, 2004, p.455.

359
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O pensamento sobre o nosso destino eterno e nos-


sa companhia com Cristo depois da destruição do presen-
te habitat deveria afetar a maneira como gastamos nosso
tempo aqui e agora.
É verdadeiro dizer que, para termos uma vida santa
aqui, é necessário que tenhamos uma expectativa de exis-
tência futura. Um ministro da Palavra de Chicago escreveu:

Quando começamos a crer na realidade do outro lado


da existência, então começamos a nos conduzir de
modo diferente deste lado da existência. Isso é o que
direcionava os discípulos no mundo deles - eles tinham
visto de primeira mão a realidade do outro lado. 126

Portanto, enquanto não tivermos o outro lado em


vista, não nos preocuparemos com o modo como vivemos
aqui e agora, neste lado da existência.
Reflita sobre os seus deveres espirituais antes que a
destruição deste habitat aconteça:

Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas,


deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento
e piedade (2Pe 3.11).

Uma vez que os cristãos percebem com clareza o que


vai acontecer com o presente habitat, as implicações desse
conhecimento são profundas. A convicção do juízo iminen-
te de Deus neste mundo deve levar os cristãos a procede-
rem de modo digno daquele que [os] chamou das trevas
126 STOWELL, Joseph M . , pastor da Moody Church, em Chicago. A glimpse at

the other side. Moody Magazine. April/1994, p. 24.

360
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A UMA VIDA DE SANTIDADE

para a sua maravilhosa luz (lPe 2.9). A vida que reflete o


modo digno do evangelho de Jesus está resumida nesse
dever anunciado por Pedro: o de viver em santo procedi-
mento e piedade, porque o Dia de Deus se aproxima.
Quando vivemos, portanto, na perspectiva da eterni-
dade, os resultados logo aparecem:
O primeiro resultado de se viver na perspectiva da
eternidade é o comportamento santo. João diz que a si
mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, as-
sim como ele é puro (lJo 3.3). Quem vive na esperança de
encontrar-se com Cristo não fica sem ser purificado. A pu-
rificação é uma consequência inexorável!
O segundo resultado concomitante de se viver na
perspectiva da eternidade é a piedade. A palavra piedade
aponta para uma vida dedicada a agradar a Deus, não só
no dia e no ato de adoração (como no domingo), mas em
todas as esferas.

1) A DISTINÇÃO ENTRE SANTO PROCEDIMENTO E


PIEDADE
Esses dois aspectos da mesma qualidade da santi-
dade têm nuanças muito difíceis de distinguir, e os estu-
diosos penam para estabelecer as diferenças entre ambos.
Veja a ideia de dois autores:

O santo procedimento tem a ver com a nossa ação; a


santa piedade tem a ver com a nossa atitude. Em atitude
e ação devemos ser separados do pecado, santos e
piedosos .127

127
MACARTHUR, John, em seu sermão sobre o texto em estudo, disponível
em: <http://www.gty.org/resources/sermons/61-26/living-in-anticipation-
of-christs-return-part-1>, acessado em: 01/06/2012.

361
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O procedimento santo se refere ao modo como vivo a


minha vida neste tempo presente; a piedade se refere
ao espírito de reverência dentro de mim pelo qual eu
vivo a minha vida. O santo procedimento se refere
àquilo que governa minha conduta; e a piedade se
refere àquilo que regra o meu coração. E, assim, ele
está falando sobre que espécie de pessoa você deveria
ser no coração e na conduta, no motivo e na ação, na
atitude e no dever. 128

Você percebeu a dificuldade de fazer distinções claras


entre eles? Eles se interpenetram e se confundem às vezes.

2) A INSEPARABILIDADE ENTRE SANTO


PROCEDIMENTO E PIEDADE
A dificuldade em distinguir significados diferentes
desses dois aspectos da santidade aponta para uma reali-
dade importantíssima que não deve ser perdida de vista: a
sua inseparabilidade.
Não há como escapar desses dois aspectos do mesmo
dever de obediência: não dá para separar santo procedi-
mento de santa piedade. Eles se interpenetram e, por isso,
são inseparáveis. "Santo procedimento e piedade" não po-
dem vir apartados porque são como irmãos siameses. Há
muitos casos em que irmãos siameses têm o mesmo e úni-
co órgão que sustenta a ambos. Se a medicina os separa,
um deles perde a vida, porque alguns órgãos pertencem

128First Baptist Church of Vilonia, Arizona, no sermão Living in the light


of eternity, baseado em 2Pedro 3.11-14, disponível em : <http://storage.
cloversites.com/firstbaptistchurchvilonia/documents/08_Living%201n%20
the%20Light%20of%20Eternity.pdf>, acessado em : 06/06/2013 .

362
A DESTRU IÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A UMA VIDA DE SANTIDADE

aos dois. Não se pode mexer neles sem que um dos irmãos,
ao menos , seja profundamente afetado.

3) OS EFEITOS DETERMINANTES DO SANTO


PROCEDIMENTO E PIEDADE
Esse primeiro dever de santo procedimento e piedade ,
analisado no versículo 11 , é determinante para a execução
dos deveres subsequentes dos versículos 12 a 18. É im-
possível viver santamente sem que cumpramos todos os
outros deveres de maneira correta.
A santidade é determinante para o exercício de todos
os outros atributos, mesmo em Deus . O atributo da santi-
dade divina qualifica suas outras virtudes. Por essa razão,
o seu amor é santo, a sua justiça é santa, a sua vontade é
santa e assim por diante.
Quando temos santo procedimento e piedade, os
nossos outros deveres também são qualificados por essa
santidade.
• Não há como viver em santidade sem ter a expecta-
tiva da chegada do Dia de Deus (2Pe 3.12a).
• Não há como viver em santidade sem ter a expecta-
tiva da criação da nova terra (2Pe 3.13).
• Não há como viver em santidade sem ter desejos
de viver pacificamente, sem mácula e irrepreensivelmente
(2Pe 3.14).
• Não há como viver em santidade sem refletir sobre a
longanimidade de Jesus, que ocasionou a nossa salvação
(2Pe 3.15).
• Não há como viver em santidade sem pensar na pre-
servação da verdade de Deus (2Pe 3.16, 17).
• Não há como viver em santidade sem crescer na gra-
ça e no conhecimento de Jesus Cristo (2Pe 3.18).

363
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Nossa santidade vai permear e, portanto, influenciar


todas as áreas da nossa vida. Ela é penetrante em todos os
departamentos de nosso ser e afeta tudo o que pensamos,
imaginamos ou fazemos.
Quando o cristão vive no presente habitat buscan-
do as coisas lá do alto, onde Cristo vive (Cl 3.1), e não as
coisas cá de baixo, ele mostra com toda a certeza a sua
verdadeira cidadania, que não é deste presente sistema de
maldade- o mundo. A nossa cidadania é do céu e tem o
gosto das coisas que pertencem a Deus. Quando o cristão
tem santo procedimento e piedade, ele vive neste mundo à
luz da glória divina, aprontando-se para cuidar de todos os
outros deveres cristãos até que a justiça de Deus se mani-
feste, e o término da sua redenção aconteça. A prática do
santo procedimento e da piedade tem um efeito penetrante
no cumprimento dos outros deveres que serão estudados
a seguir.
Aqueles que mostram santo procedimento obrigato-
riamente mostram piedade. É esse tipo de ação (santo pro-
cedimento) e de atitude (piedade) que os cristãos do tempo
presente precisam ter, porque ambas as coisas afetam a
totalidade da vida!

364
CAPÍTULO 13

A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE
HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A
UMA EXPECTATIVA COM RELAÇÃO
AO DIA DE DEUS

esperando e apressando a vinda do Dia de Deus,


por causa do qual os céus, incendiados, serão
desfeitos, e os elementos abrasados se derreterão.
Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos
novos céus e nova terra, nos quais habita justiça
(2Pe 3.12, 13) .

O senso de expectativa, que é produto da santidade


prática, é uma sensação angustiante e , ao mesmo tempo,
gostosa. É tão bom ter expectativas de coisas grandiosas e
belas; de coisas relacionadas àjustiça divina e à salvação.
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

À medida que o tempo passa, mais ansiosa a nossa alma


vai ficando pela expectativa das coisas que estão por vir.
Quanto mais pensamos nas coisas eternas, mais santos
nos tornamos, e quanto mais nos tornamos santos, mais
esperança e expectativas temos.
O verbo "esperar" (que aparece duas vezes nesses ver-
sículos) tem a ideia de expectativa, que significa estar aler-
ta para a chegada do Senhor ao mesmo tempo que anela
por ela. Em vez de ter qualquer temor do futuro, o cristão
tem profundas ânsias de esse dia chegar! Não é â toa que
a verdadeira igreja, sob perseguição, clama ardentemente:
Maranata! Vem, Senhor Jesus! (1Co 16.22; Ap 22.20). Essa
é a sua grande expectativa!

1. O CRISTÃO DEVE ESPERAR PELO DIA DE DEUS

.. .esperando e apressando a vinda do Dia de Deus (2Pe


3 . 12a) .

Por três vezes Pedro usa nesse capítulo o verbo "espe-


rar" (v. 12, 13 e 14). A chegada do Dia de Deus deve ser an-
siosamente esperada por todos os cristãos que estiverem
vivos naquele tempo. John Gill diz que esperar esse dia
tem a ver com a fé, com a expectativa de que o Dia de Deus

certamente virá, visto que os patriarcas, os profetas,


o próprio Cristo, os anjos do céu e os apóstolos do
Cordeiro, todos eles têm declarado e asseverado a vinda
desse dia; e eles anelam por ele, e o amam, como tendo

366
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A UMA EXPECTATIVA COM RELAÇÃO AO DIA DE DEUS

a mais forte afeição por ele, o mais veemente desejo dele,


visto que, então, eles aparecerão com Cristo em glória; e
eles deveriam olhar para fora e estar esperando por ele
como algo que acontecerá rapidamente; e embora não
seja tão logo quanto eles desejam e esperam, todavia, eles
deveriam esperar atentamente por ele, com paciência e
alegria.129

Esse Dia de Deus, que é o dia da vinda de Cristo, deve


ser esperado porque é um dia amado por todos os cristãos
(2Tm 4.8). Esse amor está relacionado ao amor da noiva
que está ansiosa pela chegada do noivo, com quem vaies-
tar para sempre.
A chegada do Dia de Deus causa em nós a manifes-
tação de dois sabores: um amargo e outro doce. O amargo
tem a ver com a manifestação da sua justiça para com os
ímpios e seu habitat; o doce tem a ver com a graça gloriosa
dos remidos e de seu habitat.

1) DEVEMOS ESPERAR PELO DIA DE DEUS PORQUE


É UM DIA DE JUSTIÇA

A) A JUSTIÇA DE DEUS COM RELAÇÃO AOS ÍMPIOS

Ora, os céus que agora existem e a terra, pela mesma


palavra, têm sido entesourados para fogo, estando
reservados para o Dia do Juízo e destruição dos homens
ímpios (2Pe 3.7).
129
GILL, John, comentário sobre Isaías 13, disponível em : <http://www.
studylight.org/com/geb/view.cgi?book=2pe&chapter=003&verse=007>,
acessado em : 01/02/2012 .

367
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Os ímpios são os escarnecedores de quem Pedro fala


no capítulo 3. O tempo todo eles ignoram Deus e lançam
blasfêmias contra o Criador de todas as coisas. Porque eles
negam abertamente a criação, acabam negando a queda e,
em consequência, a redenção.
Devemos esperar ansiosamente o Dia de Deus, em
que os ímpios receberão a paga de seus pecados. Esse dia
é dia de vingança do Criador-Redentor-Rei. Nesse dia, os
homens verão a consequência do esquecimento deliberado
das coisas que Deus fez.
Devemos esperar que o Dia de Deus chegue para que
possamos ver a vingança de Deus sobre aqueles que são es-
carnecedores do seu nome, da sua Palavra e dos seus feitos!
Nesse dia, haverá o regozijo não somente dos que estive-
rem vivos, que estarão sendo perseguidos por causa da justi-
ça, mas mesmo dos remidos mortos, que haverão de celebrar
porque esse será o dia da resposta divina às suas constantes
orações no céu por vingança. Afinal de contas, eles têm todo
o direito de pedir ao Justo a vinda daqueles que foram trata-
dos tão injustamente neste mundo (cf. Ap 6.9-11).

B) A JUSTIÇA DE DEUS COM RELAÇÃO AO HABITAT DOS ÍMPIOS

esperando e apressando a vinda do Dia de Deus, por


causa do qual os céus, incendiados, serão desfeitos, e os
elementos abrasados se derreterão (2Pe 3.12).

Não se esqueça de que o pecado do homem trouxe a


maldição sobre os céus e a terra. O habitat receberá a retri-
buição do pecado de seu habitante. Em última instância, a
maldição sobre céus e terra é castigo para os pecadores que
vivem neste habitat, pois são coisas deliciosas aos olhos deles.
Querendo ferir os homens, Deus feriu o seu habitat, porque

368
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A UMA EXPECTATIVA COM RELAÇÃO AO DIA DE DEUS

poucas coisas são tão amadas dos homens como o lugar


onde eles vivem e do qual dependem para a sua subsistência.

2) DEVEMOS ESPERAR PELO DIA DE DEUS PORQUE


É UM DIA DE REDENÇÃO DA GLORIOSA GRAÇA

A) A REDENÇÃO GRACIOSA DOS PECADORES AMADOS

O Dia de Deus é o dia do completamente da nossa


redenção. Todos nós gememos, juntamente com a criação,
para que chegue esse dia de plenitude de nossa redenção.
Agonizamos até que as consequências de nossos pecados
sejam final e completamente retiradas de nós! Nesse dia
de redenção gloriosa, os que estiverem vivos serão trans-
formados num abrir e fechar de olhos. Nesse dia, os que
já estiverem mortos serão ressuscitados. Todos subiremos
juntos e , então, após a redenção do nosso habitat, desce-
remos novamente para estar para sempre com o Senhor.

B) A REDENÇÃO GRACIOSA DO HABITAT DOS PECADORES AMADOS

É curioso que o habitat humano recebe ao mesmo


tempo a destruição e a purificação. O mesmo fogo que
destrói purifica! No entanto, a expectativa da redenção do
nosso habitat é uma experiência que poucos têm experi-
mentado porque poucos conhecem a doutrina da criação
do novo habitat. Muitos cristãos pensam no céu como o lu-
gar onde ficaremos eternamente e perdem de vista a beleza
da recriação do habitat humano! É uma pena que a igreja
cristã tenha, no decorrer da história, se alegrado tão pouco
com a redenção do habitat. Ela apenas se contenta com
a redenção dos crentes , mas desconhece a redenção do
habitat que Deus fez para o nosso deleite. Os crentes que
estudam seriamente a Escritura têm muito mais prazer ao
contemplar as coisas eternas porque nelas está contida a
redenção do habitat, não somente a sua redenção!

369
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

2. O CRISTÃO DEVE APRESSAR O DIA DE DEUS

esperando e apressando a vinda do Dia de Deus (2Pe 3.12a).

O Dia de Deus não pode somente ser esperado, mas


também deve ser apressado. Parece estranha essa afir-
mação de Pedro de "apressar" o Dia de Deus. É possível
que Pedro esteja apenas reforçando a expressão ante-
rior, de "esperar o Dia de Deus" . 130 Todavia, parece que
há algo mais do que simplesmente um reforço da ideia
anterior.

A) O QUE SIGNIFICA APRESSAR O DIA DE DEUS?


Apressar o Dia de Deus não tem nada a ver com mu-
dar o decreto de Deus sobre a chegada desse dia. John Gill
diz que esse dia

está fixado para a vinda de Cristo, não pode ser alterado,


como sua vinda não pode se demorar demais nem pode
ser tão cedo. Todavia, ele faz com que os santos orem
sinceramente por esse dia, para que ele seja rápido, e para
o cumprimento de todas as coisas que devem acontecer
antes dele, que preparam esse dia e que conduzem a ele. 131
O decreto divino é imutável. No entanto, aos nossos
olhos, esse dia pode ser apressado no sentido de cumprir-
mos a nossa parte. Se fizermos o que nos cabe fazer, em
obediência ao mandamento do Senhor, aos nossos olhos
°
13KELLY, J. N. D. A commentary on the epist/es of Peter and Jude. Grand
Rapids: Baker Book House, 1969, p. 367.
131GILL, John, comentário sobre Isaías 13, disponível em: <http://www.
studylight.org/com/geb/view.cgi?book=2pe&chapter=003&verse=007>,
acessado em: 01/02/2012 (grifas acrescentados).

370
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A UMA EXPECTATIVA COM RELAÇÃO AO D IA DE D EUS

esse dia se apressa. Se não fazemos o que temos de fazer ,


a vinda desse dia se alonga, a sua chegada demora.
O apressamento desse dia tem a ver com a nossa
perspectiva do tempo histórico , mas não altera o dia pre-
viamente estabelecido por Deus . Na perspectiva de Deus,
não s e apressa um acontecimento. É apenas uma maneira
humana d e ver as coisas.

B) COMO PODEMOS APRESSAR O DIA DE DEUS?


O que podemos fazer para apressar esse dia? Assim
como a primeira vinda do Senhor foi preparada por ho-
mens pela orientação divina (é o caso de João Batista,
que preparou o caminho do Senhor- cf. Me 1.2-4), as -
sim também a segunda vinda do Senhor tem que ser
apressada ou acelerada. É possível que Pedro tivesse em
mente uma ideia judaica antiga, ou que ele estivesse "se
referindo à crença judaica de que os pecados dos homens
impediam o aparecimento do Messias" .132 Pessoalmente,
não creio que Pedro, a essa altura, tivesse essas ideias
judaicas em sua mente, nem que o pecado dos homens
possa impedir qualquer coisa que Deus decide fazer.
1) Podemos e devemos orar constantemente a Deus
pela consumação do seu reino , dizendo venha o teu reino
(Mt 6.10).
2) Não apenas podemos orar, mas devemos também
viver santamente nestes dias presentes (cf. 2Pe 3.14, 15),
o que nos torna preparados para a vinda do Dia de Deus.
3) Podemos e devemos nos arrepender de nossos pe-
cados. Pedro pregou o arrependimento que está conectado

132
Cf. lnternational critica/ commentary, 2Peter 3:12, disponível em : <http ://
www.archive.org/stream/lnternationaiCriticaiCommentaryHolyScripturesOid
NewTestamentsCecEd/ 17.1CCHS.NT.Brg.Drv.Pim.CritExegCom .EptstlesStPeter
StJ ude.Bigg.NY.Scrib.1909.#page/n316/mode/1up>, acessado em :
01/02/2012.

371
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

ao tempo da vinda do Senhor, que é o tempo da restau-


ração de todas as coisas. Jesus iria ficar no céu até que
chegasse o tempo da restauração de todas as coisas (At
3. 19-21). Parece-me que, à luz dos versículos do contexto
imediato em 2Pedro 3.8,9, a vinda do Dia de Deus está con-
dicionada ao arrependimento dos destinatários de Pedro.
Apressar a vinda do Senhor significa o povo de Deus andar
em arrependimento dos seus pecados.
4) Podemos e devemos pregar o evangelho a tempo
e fora de tempo. Jesus pregou que "o fim" virá, ou que
a vinda do Senhor acontecerá quando todas as nações
ouvirem a pregação do evangelho (Mt 24.14). Apressar a
vinda do Senhor, portanto, pode significar o esforço para
que todas as nações ouçam o evangelho.
O próprio Senhor estabeleceu algumas coisas para
que o seu Filho pudesse voltar à terra. Portanto, o terreno
já está sendo preparado para a volta do Filho encarnado.
Quanto mais o quebra-cabeça se completa, mais se apres-
sa esse dia!

372
CAPÍTULO 14

A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE
HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO
A UMA EXPECTATIVA DOS NOVOS
CÉUS E DA NOVA TERRA

Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos


novos céus e nova terra, nos quais habita justiça
(2Pe 3.13) .

Pedro está se dirigindo aos seus leitores , a quem ele


chama de mente esclarecida (3.1) , para confortá-los ares-
peito de um tempo que ainda viria: o fim deste mundo e o
início do novo mundo, que ele chama de novos céus e nova
terra.
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O SIGNIFICADO DO VERBO "ESPERAR"


O verbo grego traduzido por "esperamos" é Tipoa 8oKWjl.EV
(prosdokomen) , que está no presente do indicativo, apon-
tando para uma esperança continuada. O cristão genuíno
e que pensa nas coisas eternas não deixa nunca de viver
nessa expectativa. A expectativa é uma espécie de estilo de
vida que se torna um antegozo das coisas que estão por
vir. Os genuínos santos de Deus não conseguem se des-
prender dessa expectativa. Ela está atada a eles e se torna
parte de sua vida.

1. A ESPERANÇA DOS NOVOS CÉUS E DA NOVA


TERRA ESTÁ BASEADA NUMA PROMESSA DIVINA

Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos


céus e nova terra, nos quais habitajustiça (2Pe 3.13) .

Os escritores do Novo Testamento nunca duvidaram


da confiabilidade das palavras proféticas que estão regis-
tradas no Antigo Testamento. Essas palavras são a fon-
te da fé inabalável que os cristãos do Novo Testamento
tinham. Existe confiabilidade em todas as palavras ditas
por Deus. No entanto, é necessário que os crentes tenham
paciência até que a esperança se concretize.

A) A ESPERANÇA DOS NOVOS CÉUS E DA NOVA


TERRA ESTÁ BASEADA NUMA PROMESSA QUE EXIGE
PACIÊNCIA
Muitas das promessas de Deus demoram mui-
to tempo para serem cumpridas. A profecia do cativei-
ro na Babilônia demorou séculos para ser cumprida (Dt
28.36,37); Jeremias profetizou que os israelitas ficariam

374
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABfTAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A UMA EXPECTATIVA DOS N<NOS CÉUS E DA NCNA TERRA

setenta anos no cativeiro (Jr 25.11,12). Sabedores das


profecias, quando o tempo estava para se cumprir, eles
oraram para que Deus os libertasse (Dn 9.1-3). Eles
aprenderam a esperar pacientemente pelo cumprimento
das promessas do Senhor. A vinda do reino messiânico foi
prometida no Antigo Testamento, e demorou muito tempo
até que Cristo chegou. A consumação do reino também foi
prometida em dias antigos.
Quando Pedro escreve sobre essas promessas, ele o
faz para consolar o povo que estava em compasso de espe-
ra pelo seu cumprimento. Ainda que, em nossa perspecti-
va, as promessas de Deus pareçam demoradas, na verdade
elas nunca se atrasam! Nunca Deus se manifesta tardia-
mente em relação às suas promessas (cf. Êx 12.40,41). Ele
não falha no que diz que vai fazer! Deus sempre age no
tempo devido do seu relógio, que funciona num esquema
diferente do nosso, pois ele não é regido pelas mesmas re-
gras temporais que nós.
Na verdade, as promessas demoram muito, mas po-
demos dizer com toda a segurança que Deus nunca chega
atrasado; ele sempre chega na hora. Os zombadores de
Deus não pensam assim; eles não creem nas promessas
divinas, mas os cristãos, diferentemente dos escarnece-
dores, creem na segunda vinda do Senhor e esperam com
paciência por ela.
A fé e a esperança sempre estão baseadas em fatos
futuros que são produto de uma promessa divina. Não se
pode ter esperança sem que haja alguém que nos dê es-
perança, e a esperança está fundada numa palavra con-
fiável. Nesse sentido, ela não pode ser desligada da fé. A
esperança cristã é mais do que mera expectativa; ela tem
uma forte tonalidade de certeza porque vem acompanhada
de fé numa promessa de um Deus que é verdadeiro no que
diz. Portanto, as irmãs gêmeas do cristianismo- fé e es-
perança - estão firmadas na promessa divina.

375
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

B) A ESPERANÇA DOS NOVOS CÉUS E DA NOVA


TERRA ESTÁ BASEADA NUMA PROMESSA
REGISTRADA
O Deus da Escritura é um Deus que fala, mas que
também assina o que fala. Ele deixa as suas promessas re-
gistradas no livro que não se apaga nunca. Ele quer que a
sua promessa seja vista por seus filhos, para que estes se
sintam seguros de que ele é verdadeiro no que diz porque
escreve o que diz.
A promessa de Deus sobre os novos céus e a nova
terra é bem antiga e repetida várias vezes. A promessa
que Pedro menciona está registrada no texto do Antigo
Testamento:

Em tempos remotos, lançaste os fundamentos da terra;


e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas
tu permaneces; todos eles envelhecerão como uma veste,
como roupa os mudarás, e serão mudados (Sl 102.25,26) .

A expressão novos céus e nova terra não aparece


nesse salmo, mas a ideia do envelhecimento dos céus e
da terra (e sua consequente destruição) precede a ideia
da sua transformação, porque o texto diz que como r ou-
pa os mudarás, e serão mudados . Haverá uma grande
transformação do que existe agora. O presente habitat vai
ser sucedido pelo habitat restaurado. Essa afirmação do
salmista é, provavelmente, o gérmen de onde Isaías fez as
suas afirmações mais contundentes. O salmista fez uma
afirmação clara a respeito dos "novos céus e da nova ter-
ra", ainda que muitos não consigam, até hoje, enxergá-la,
porque seus olhos estão tapados à promessa divina!
Na profecia emitida por Isaías, Deus foi muito mais
explícito do que no texto do salmista.

376
A DESTRUIÇÃO DO PRESEME HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A UMA EXPECTAlNA OOS N(M)S CÉUS E DA NQ\/A TERRA

Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá
lembrança das coisas passadas, jamais haverá memória
delas (Is 65.1 7) .

Deus prometeu inequivocamente a criação dos novos


céus e da nova terra para que hoje nós creiamos nele, por-
que, ainda que os céus e a terra passem, a palavra dele
não passará (Mt 24.35). A palavra do Deus eterno sempre
se cumprirá, e Deus quer que creiamos no que ele diz.
A nova terra prometida será tão maravilhosa e glorio-
sa que as velhas coisas não serão lembradas!

Porque, como os novos céus e a nova terra, que hei de


fazer, estarão diante de mim, diz o SENHOR, assim há de
estar a vossaposteridade e o vosso nome (Is 66.22).

Podemos confiar nessa antiga promessa porque Deus


disse que tudo o que ele fará estará na presença dele. Ele
estará envolvido com essa terra de tal modo que nunca a
sua criação sofrerá qualquer ausência. Não somente Deus
estará presente gloriosamente, mas nós e a nossa posteri-
dade estaremos perante Deus, desfrutando do gozo da sua
presença e de nossa habitação nele.

2. A ESPERANÇA DOS NOVOS CÉUS E DA NOVA


TERRA ESTÁ BASEADA NA QUALIDADE DELES

Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos


céus e nova terra, nos quais habita justiça (2Pe 3.13).

377
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

A qualidade dos novos céus e da nova terra apontada


por Pedro é a presença da justiça. A justiça vai habitar a nova
terra. O verbo grego usado por Pedro é katoikeo, que pode ser
traduzido por um lugar de retidão, onde existe conforto e re-
pouso. A palavra grega oikeo significa estar em casa. Quando
se acrescenta uma preposição ao verbo (katoikeo), intensifica-
-se o sentido do verbo. Portanto, esse lugar que o Senhor pre-
parou é um lugar de quem permanece para sempre na volta
para casa; a ideia é a de uma residência confortável. 133 Estar
na nova terra é estar num lugar onde a retidão é parte inte-
grante, onde não mais os homens transgredirão a lei moral de
Deus, um lugar de existência definitiva e confortável!

1) A QUALIDADE DE JUSTIÇA ESTÁ VINCULADA A


JESUS CRISTO
Não devemos pensar primordialmente na justiça que
repousa sobre os habitantes, mas na justiça da nova terra
que está em Cristo. Parece-me que Pedro não está tratando
aqui da justiça dos crentes, porque essa justiça eles já têm,
visto que lhes foi imputada e é produto da obra de Cristo.
Pedro está falando da justiça do habitat. A obra de
Cristo teve alcance não somente na justiça dos cristãos,
mas também na justiça do seu habitat. E a justiça do ha-
bitat está mais vinculada a Jesus Cristo, que tem a pri-
mazia de toda a sua obra. Ele é o principal e o primeiro
a desfrutar do novo habitat, onde ele próprio vai morar
para sempre conosco. Ele é a justiça em pessoa, e a sua
justiça se reflete no seu lugar de morada. Jamais, como
glorificado, ele poderia habitar num ambiente de injustiça.
Ele o fez no seu estado de humilhação, mas não pode ficar
para sempre num lugar de injustiça. Então, a sua justiça
teve reflexos altamente purificadores no habitat humano.

133
MACARTHUR, John, em seu sermão sobre o texto em estudo, disponível
em: <http://www.gty.org/resources/sermons/61-26/living-in-anticipation-
of-christs-return-part-1>, acessado em: 01/07/2012.

378
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A UMA EXPECTATIVA DOS NOVOS CÉUS E DA NavA lERRA

Portanto, a justiça do habitat está vinculada à justiça do


seu habitante, que é essencialmente justo!

2) A QUALIDADE DE JUSTIÇA SE DEVE À PRESENÇA


DE DEUS NA NOVA TERRA
A nova terra será de justiça porque ali vai ser o lugar
da morada do Deus trino. O Pai será a luz perpétua do
novo habitat, e Jesus Cristo será a sua lâmpada. Os remi-
dos verão a Deus vendo Jesus . Ali, a justiça nunca será
alguma coisa estranha. Ela é estranha neste mundo, mas
jamais o será lá por causa da presença gloriosa de Deus.

Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o


tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com
eles. Eles s erão povos de Deus, e Deus mesmo estará com
eles (Ap 2 1.3).

A justiça pertencerá ao novo habitat porque ele será o


lugar da habitação de Deus , como nunca ele habitou nes-
te mundo. Deus está em toda parte , mas a sua habitação
gloriosa e definitiva neste mundo só se dará na nova terra,
e essa habitação gloriosa ocasionará a justiça do habitat.
Este será para sempre o lugar da habitação de Deus , e
Deus será a sua luz eterna!

3) A QUALIDADE DE JUSTIÇA ESTÁ LIGADA AOS


HABITANTES

Todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão


a terra; s erão renovos por mim plantados, obra das
minhas mãos, para que eu seja glorificado (ls 60.21) .

379
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O lugar preparado por Jesus Cristo é um lugar per-


feito, onde só podem residir habitantes aperfeiçoados pela
obra dele. A justiça não é essencial a eles (como é essencial
a Jesus Cristo), mas é uma justiça derivada, porque lhes é
imputada por Cristo. A justiça não pertence a eles, mas é
colocada sobre eles.
O texto de Isaías diz que Deus os torna justos porque
eles são plantados pelo Senhor, eles são obra das mãos do
Senhor; por isso, trarão glória ao Senhor. Não haverá um
só injusto nessa terra.
A nova terra é a residência unicamente dos que foram
justificados pelo sangue de Cristo e, como consequência,
andaram em retidão aqui neste mundo, ainda que não te-
nha sido uma retidão absoluta. Todavia, na nova terra, eles
serão perfeitamente retos. Não se achará neles nenhuma
mancha; a igreja de Cristo não terá nenhuma ruga, mas
será santa e sem defeito. O pecado não mais será parte da
vida dos remidos. Aqui e agora eles ainda pecam, porque a
sua inclinação pecaminosa não foi extirpada, mas na nova
terra a justiça vai habitar porque eles serão completamen-
te limpos de sua pecaminosidade.

4) A QUALIDADE DE JUSTIÇA É POSSÍVEL PORQUE


NA NOVA TERRA NÃO HAVERÁ ÍMPIOS
A injustiça é produto das obras dos ímpios. Ela cam-
peia em todos os rincões deste mundo porque os ímpios
estão em toda parte. Os ímpios, na Escritura, são os mal-
ditos de Deus que não chegam ao arrependimento.

Nela [na nova terra], nunca jamais penetrará coisa


alguma contaminada, nem o que pratica abominação e
mentira, mas somente os inscritos no Livro da Vida do
Cordeiro (Ap 21.27).

380
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A UMA EXPECTATNA DOS NOVOS CÉUS E DA NOVA TERRA

Os ímpios ficarão absolutamente ausentes do paraíso


de Deus:

Fora ficam os cães, os feiticeiros, os impuros, os


assassinos, os idólatras e todo aquele que ama e pratica a
mentira (Ap 22.15).

Entre esses se encontram os escarnecedores, os que


zombam do evangelho de Jesus Cristo e rejeitam a pedra an-
gular que Deus enviou. Esses ficarão fora do habitat redimido.

5) A QUALIDADE DE JUSTIÇA É POSSÍVEL PORQUE


NA NOVA TERRA A MALDIÇÃO NÃO MAIS EXISTIRÁ
O Éden que Deus criou originalmente foi amaldiçoa-
do por causa do pecado de Adão. Assim, todos os lugares
onde os homens passaram a viver na porção seca, que é
o Éden, tiveram a tintura da maldição divina. Não é fácil
viver num lugar maldito, onde a própria criação geme até
ser redimida do cativeiro da corrupção. Tudo neste mundo
amaldiçoado geme, inclusive os seus habitantes.

Nunca mais haverá qualquer maldição (Ap 22.3).

Todavia, na nova terra, a maldição não mais existirá. Deus


retirará tudo o que foi produto da sua ira por causa do pecado.

6) A QUALIDADE DE JUSTIÇA É POSSÍVEL PORQUE


NA NOVA TERRA O TENTADOR NÃO MAIS ESTARÁ
PRESENTE
A nova terra será um lugar de justiça porque o ten-
tador, àquela altura, não mais estará sobre a terra como

381
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

leão que ruge procurando alguém para devorar (lPe 5.8).


Àquela altura, ele terá sido lançado no lago de fogo, onde
será atormentado pelos séculos dos séculos. Estará sob a
poderosa mão de Deus, o justo Juiz, em meio a tormentos
eternos (Ap 20.10). Portanto, com a ausência de Satanás,
a terra voltará a ser o paraíso.
Que mundo maravilhoso será o mundo de justiça que
Deus tem reservado para nós!

CONCLUSÕES

A) 0 AMBIENTE DE RETIDÃO FUTURA DEVE SER A NOSSA ESPE-


RANÇA NO PRESENTE

Essas palavras de Pedro são notáveis! Elas nos tocam


profundamente, especialmente porque vivemos em tempos
tão difíceis, em que a maldade está entremeada em todas
as coisas que tocamos. Pedro nos encoraja a pensar numa
retidão futura, e a única força que nos move em meio ao
sofrimento é a esperança do cumprimento da promessa
divina. Precisamos ser encorajados a passar pelas tribu-
lações causadas pelos ímpios e pelos sofrimentos que os
próprios pecados nos trazem, tendo esperança de novos
céus e nova terra. Só essa esperança nos faz sobreviver
em meio a tanta injustiça. Devemos esperar ansiosamente
pela vinda do Dia do Senhor para que a justiça se estabe-
leça na terra.
Não se deixe vencer pelo desãnimo. Se você e eu de-
sanimarmos, seremos combalidos pela injustiça também.
Portanto, tem que haver uma constante esperança de um
mundo melhor, não pela mudança de hábitos dos homens,
mas por uma operação regeneradora na natureza física e
na natureza humana, santificando-as, uma operação so-
brenatural, divina, livrando a terra e seus habitantes das
maldições antigas. A nossa doce esperança é a de que tudo

382
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A UMA EXPECTATIVA DOS NCM)S CÉUS E DA NOJA TERRA

o que nos faz chorar termine; tudo o que nos faz gemer se
acabe; tudo o que nos desanima saia de nós! A esperança
é a última que morre - esse é o ditado, mas, porque a
nossa esperança está em Deus, essa nunca morre, mas se
realizará plenamente! O nosso coração se enche de grande
esperança pelo Dia do Senhor, e gritamos em nossa alma:
"Vem, Senhor Jesus!"
A virtude da esperança só pode ser exercida quando
não vemos nada de justiça neste mundo, quando tudo indi-
ca miséria, e as nuvens são negras. A virtude da esperança
é para quem vive em sofrimento e anela a restauração de
todas as coisas. Portanto, esperemos confiadamente o que
Deus vai fazer de glorioso com o nosso habitat e conosco!
Doce esperança!

B) 0 AMBIENTE DE RETIDÃO FUTURA ESTÁ EM CONTRASTE COM


O QUE ACONTECE NO PRESENTE

Deus não somente promete n ovos céus e n ova terra,


mas afirma a qualidade das coisas que ele refaz. Ele diz
que o habitat futuro dos homens será um lugar onde a
retidão habita. Este ponto é fundamental para encher os
cristãos de esperança. É gostoso ter esperança a respeito
de alguma coisa que não temos neste presente habitat. A
falta de retidão é a tônica desta geração. Da cabeça aos pés
a injustiça é parte de todos os homens. Não há nada sadio
na humanidade. Tudo o que temos está poluído pelo peca-
do . Portanto, para confortar seus leitores, Pedro afirma a
sua esperança em dias incomparavelmente melhores, dias
numa terra onde habita a justiça.
Tudo neste mundo aponta para a falta de retidão.
A promessa de Deus está em nítido contraste com o que
tem ocorrido neste mundo. Não seria exagero dizer que a
história desta terra é a história do pecado, dos seus de-
senvolvimentos e dos seus resultados. Neste mundo, ex-
ceto as manifestações graciosas de Deus, tudo é pecado,

383
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

corrupção, miséria e injustiça. Exceto o Senhor da glória


e alguns santos anjos que estiveram ocasionalmente entre
nós, nenhum outro santo pisou este mundo. Esta terra
tem sido o palco da exibição da maldade angélica e da mal-
dade humana.
Mesmo as instituições conhecidas como cristãs não
são caracterizadas por plena justiça. A impiedade ainda
campeia dentro de escolas cristãs, igrejas locais, denomi-
nações e famílias cristãs. Não conhecemos um periodo da
história do cristianismo no qual a justiça tenha sido pre-
dominante. Tudo nesta terra tem sido maculado pelo peca-
do , sofrendo as consequências da maldição divina. Nunca
houve um lugar cheio de retidão.
No entanto, a promessa de Deus aponta para uma
retidão que está em contraste com tudo o que vemos hoje!
A presente ordem de injustiça terá um fim.

C) 0 AMBIENTE DE RETIDÃO FUTURA É UM SONHO DE TODOS DO


PASSADO E DO PRESENTE

Para os escarnecedores do texto e para os nossos con-


temporâneos, essa promessa divina de retidão absoluta
é risível porque soa totalmente irreal e impossível de ser
atingida. Os pecadores deste mundo não pensam sequer
nessa possibilidade porque os seus olhos não estão aber-
tos para o cumprimento dessa promessa. O que é sonho
ainda não realizado para os crentes é uma impossibilidade
para os incrédulos. Os ímpios desta terra riem da promes-
sa de Deus porque se esquecem de que Deus é verdadeiro
no que fala.
a) Os profetas do Antigo Testamento sonharam
com a implantação da justiça
Levantarei sobre elas pastores que as apascentem, e
elas jamais temerão, nem se espantarão; nem uma delas

384
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISfÃO A UMA EXPECTATIVA DOS N(M)S CÉUS E DA NOVA TERRA

faltará, diz o SENHOR. Eis que vêm dias, diz o SENHOR,


em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é,
reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça
na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará
seguro; será este o seu nome, com que será chamado:
SENHOR, Justiça Nossa. Portanto, eis que vêm dias, diz o
SENHOR, em que nunca mais dirão: Tão certo como vive
o SENHOR, que fez subir os filhos de Israel da terra do
Egito; mas: Tão certo como vive o SENHOR, que fez subir,
que trouxe a descendência da casa de Israel da terra do
Norte e de todas as terras para onde os tinha arrojado; e
habitarão na sua terra (Jr 23.4-8).

Naqueles dias e naquele tempo, farei brotar a Davi um


Renovo de justiça; ele executará juízo e justiça na terra.
Naqueles dias, Judá será salvo e Jerusalém habitará
seguramente; ela será chamada SENHOR, Justiça Nossa"
(Jr 33.15, 16).

Setenta semanas estão determinadas sobre o teu


povo e sobre a tua santa cidade, para fazer cessar a
transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a
iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão
e a profecia e para ungir o Santo dos Santos (Dn 9 . 24) .

b) Os apóstolos do Novo Testamento sonharam


com a implantação da justiça
Em dois versículos de Apocalipse 21, João fala so-
mente de pessoas justas e retas habitando na nova terra
(Ap 21.8,27).

385
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Hoje, não podemos extirpar os pecadores, mas ama-


nhã o Senhor os extirpará da nova terra. Então, a justiça
campeará na terra que o Senhor cria para o seu povo.
Esse sonho atravessou os séculos! Cristãos de todas
as gerações anelaram não morrer para que pudessem con-
templar a redenção completa trazida pelo Redentor Jesus
no dia de sua volta. Por isso, cristãos de todas as gerações
esperaram a volta de Cristo em sua época. O sonho de
todos eles foi ver Jesus triunfar sobre o mal e implantar
a justiça em toda a terra. O sonho de todos tem sido ex-
perimentar não a felicidade pessoal (porque esta já existe
em nós, e, ainda que morramos, estaremos felizes com o
Senhor), mas a harmonia da retidão plena no nosso habi-
tat. Nunca, nenhum dos filhos de Adão experimentou um
tempo de retidão! Até que esse sonho de retidão e pureza
se realize, temos de viver em esperança. Quando esse so-
nho se realizar, todavia, então seremos todos plenamente
realizados no lugar original que Deus criou para que vivês-
semos - a terra ... agora nova!

386
CAPÍTULO 15

A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE
HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A
VIVER COM EMPENHO

Por essa razão, pois, amados, esperando estas


coisas, empenhai-vos por serdes achados por ele em
paz, sem mácula e irrepreensíveis (2Pe 3.14).

Quando fixamos os nossos olhos no que vai acontecer


no futuro, a nossa vida no presente passa a ter mais senti-
do. Então nos esforçamos para que algumas coisas impor-
tantes aconteçam em nossa vida aqui e agora. MacArthur
diz que
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

a vinda de Cristo e a doutrina do céu proporcionam


algumas das motivações mais fortes para o desfrute da
vida cristã que jamais você vai encontrar. O que você crê
a respeito do futuro determina como você vive hoje. O
futuro é como uma âncora que tem sido lançada adiante
de nós e nos está puxando para o futuro. 134

As palavras do versículo 13 apontam para uma rea-


lidade futura, e as palavras do versículo 14 descrevem o
que deveria acontecer aqui e agora na vida dos cristãos.
No versículo 13, Pedro encoraja os cristãos que vivem
num mundo de injustiça apontando para uma justiça
(retidão) absoluta no término da redenção do habitat que
hoje existe. No versículo 14, Pedro também encoraja as
pessoas a se portarem de um modo que venha a ser um
tipo da retidão que deve acontecer no futuro.
a) O empenho dos cristãos é motivado por sua
esperança

Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas,


empenhai-vos (2Pe 3.14) .

O verbo "empenhai-vos " (cmou8áaaTE - spoudasate),


que pode ser traduzido por "esforçai-vos" ou "diligenciai",
está no imperativo aoristo. Ele diz respeito a uma or-
dem firme, resoluta. Todos os redimidos por Jesus Cristo

134MACARTHUR, John Jr., em seu sermão sobre o texto em estudo, disponível


em: <http :/ /www.gty.org/resources/sermons/61-27/living-in-anticipation-of-
christs-return-part-2>, acessado em: 01/06/2012. MacArthur deveria falar que
a doutrina da nova terra {não simplesmente a do céu) afeta profundamente
a maneira como nos comportamos aqui e agora. É uma pena que, no
pensamento da grande maioria dos pregadores, a doutrina do céu seja o nosso
futuro definitivo, não a doutrina da nova terra.

388
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A VIVER COM EMPENHO

possuem a capacitação de lutar para alcançar objetivos


piedosos. Eles têm o dever de ser diligentes e esforçados.
Esse esforço por ser santo deve caracterizar a vida do
cristão. O dever de se esforçar é do cristão, embora a ca-
pacitação para isso venha de Deus, pois dele vem toda a
suficiência.
Os cristãos a quem Pedro se dirige eram "forasteiros
e peregrinos" precisando de grande incentivo para não
desanimar no meio da luta contra o pecado. Pedro lembra
que eles não podiam pensar apenas no "aqui e agora",
mas deviam pensar um pouco mais além, num tempo em
que a injustiça seria banida de sobre a terra, e em que
a retidão campearia por toda parte da nova criação divi-
na. Eles precisavam ser encorajados a pensar nas gló-
rias do futuro. Todos nós precisamos de incentivo dessa
natureza!
A esperança de que essas coisas venham a acontecer
é a mola propulsora do esforço dos cristãos. Quanto mais
esperançosos das coisas que estão por acontecer, maior
o esforço por parte dos cristãos para agradar a Deus! O
empenho em agradar ao seu Senhor é a linha divisória
entre os crentes e os incrédulos, entre os que são salvos
e os que não o são. Os cristãos se esforçam para que a
salvação de Cristo Jesus fique evidente neles.
A cultura do tempo de Pedro era cheia de pecamino-
sidade, não muito diferente da nossa. A diferença hoje é
apenas a globalização de toda a pecaminosidade de forma
crescente à medida que chega o tempo do fim. Por isso,
Pedro encoraja seus leitores sobre a esperança da volta
de Cristo, da destruição do presente habitat e da cria-
ção do habitat redimido. Sem a esperança dessas coisas,
nunca haverá o esforço. Cristãos sem esperança nunca
moverão uma palha para melhorar a sua qualidade de
vida espiritual neste mundo.

389
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

b) O empenho dos cristãos tem a motivação da che-


gada de Cristo

Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas,


empenhai-vos por serdes achados por ele ... (2Pe 3.14).

Quando o Redentor voltar, não será uma volta ge-


nérica, simplesmente abarcando a totalidade dos seres
humanos. Não será apenas assim. Será uma volta mais
específica para os cristãos, e estes serão tratados indi-
vidualmente nessa volta. Você será encontrado pessoal-
mente por Jesus!
Nada passará despercebido por ele. Ninguém pode-
rá esconder nada dele. Até os pensamentos e imaginações
mais secretos estarão claros para a mente de Cristo, por-
que a sua mente alumiará todas as coisas, mesmo as mais
escondidas. Portanto, ele saberá exatamente as condições
em que você vai ser encontrado naquele dia.
O dia da vinda do Senhor é o dia em que ele vai nos
encontrar. Eu sei que você, cristão, está em Cristo, mas
de que jeito você vai ser achado por Cristo na sua vinda?
Com qual disposição de alma você estará àquela altu-
ra? Jesus vai achar você cheio de esperança que motiva
a obediência? Em outras palavras: como você vai estar
quando ele voltar?
Essas são perguntas que você não deve deixar de fa-
zer a si mesmo.
Pedro diz que, quando Jesus vier, você deve ser achado
em paz; ser achado sem mácula e ser achado irrepreensível.
Enquanto esperam chegar o tempo definitivo da plena
retidão, os cristãos devem ter atitudes muito positivas em
direção ao futuro.

390
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A VIVER COM EMPENHO

1. O CRISTÃO DEVE SE EMPENHAR POR SER


ACHADO EM PAZ

Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas,


empenhai-vos por serdes achados por ele em paz, sem
mácula e irrepreensíveis (2Pe 3.14).

O que Pedro quis dizer com isso? Estava ele se refe-


rindo a qual tipo de paz?

1) SERIA A PAZ COM DEUS?


É possível que ele tivesse isso em mente, porque é im-
portante estar em paz com Deus , o que está conectado com
a justificação. Todos os cristãos que tiveram os seus peca-
dos pagos por Jesus Cristo podem ter paz com Deus, por-
que a dívida foi paga, e eles não precisam mais temer o que
Deus lhes possa fazer. Eles têm, portanto, paz com Deus
porque não há mais nada que os separe de Deus . Sem a paz
com Deus que vem através da morte de Cristo e de nossa
apropriação dela pela fé (Rm 5. 1,9) , os outros tipos de paz
não são possíveis. Todos os cristãos precisam ter essa paz.
Todavia, esse não deve ter sido o sentido primário de Pedro,
mas secundário.

2) SERIA A PAZ COM OS IRMÃOS?


Essa paz é necessária e ordenada. Não podemos viver
em desarmonia com eles. Quando o Senhor voltar, ele quer
achar os seus irmãos mais novos em paz nas mais varia-
das relações horizontais. Somos chamados a viver em paz
com os irmãos na fé ; com a nossa família; com aqueles com
quem convivemos. Se não vivemos em paz com eles, não
testificamos exemplarmente a paz com Deus que alegamos

391
O HABITAT HU MANO - O PARAÍSO AUSENTE

ter. Pela falta de paz nos relacionamentos humanos, a igre-


ja não tem sido forte. Ao contrário, os ímpios não têm per-
cebido a verdadeira paz que deveria caracterizar todas as
relações dos cristãos, que é o que agrada a Deus.
Quando o Senhor voltar, ele vai nos achar amando
os irmãos e os que nos rodeiam? Esperamos que ele nos
encontre cheios de amor pelos semelhantes, mas não creio
que seJa a esse tipo de paz que primariamente Pedro se
refira.

3) SERIA A PAZ DE DEUS?


A Escritura diz que a paz de Deus, que exced e t odo o
entendimento, guardará o [nosso] coração e a [nossa] men-
te em Cristo Jesus (Fp 4. 7) . Essa paz diz respeito ao coração
calmo e tranquilo que não se exaspera, uma paz de mente
que nos faz descansados mesmo em meio a grandes tribu-
lações. Antes da volta de Cristo, os cristãos terão razões
mil para ficar exasperados. Eles serão perseguidos, e isso
os fará propensos a viver com ansiedade. Quando Cristo
voltar, ele vai nos encontrar desesperados, com medo e
cheios de ansiedade, ou vai nos encontrar calmos, serenos
e tranquilos, repousando na sua soberania, esperando o
fechamento da cortina? John MacArthur diz que

Essa espécie de paz nos deixa livres das preocupações com


respeito ao futuro. Essa espécie de paz não tem nenhum
temor com respeito ao dia do Senhor, ao julgamento de
Cristo, às condições do mundo ou a qualquer outra coisa,
porque nós desfrutamos da paz de Deus. 135

MACARTHUR, John, em seu sermão sobre 2Pedro 3.14, disponível em :


135

<http ://www.gty.org/resources/sermons/61-2 7/living-in-a nticipation-of-


christs-return-part-2>, acessado em: 01/05/2012.

392
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A VIVER COM EMPENHO

Esse é o tipo de paz que não teme o que pode acontecer


no futuro, ainda que ele se pinte negro à nossa frente. Por
isso, a Escritura diz que essa paz excede toda compreen-
são! Uma paz que faz com que repousemos em pleno mar
tempestuoso, sabendo que, no momento próprio, o capitão
da nossa salvação nos levará consigo para sempre. Essa
paz não vem pela observância da melhora do tempo, nem
por coisas externas, mas pela confiança de que Deus está
no trono e de que seus planos redentores são perfeitos e se
realizarão na vida deste mundo e dos habitantes que ele de-
cidiu remir. Se você é um desses remidos, tem que aprender
a ter a paz do descanso e do repouso nas providências finais
divinas, na vinda do Senhor.
Quando os cristãos têm esse tipo de paz, então vivem
sem temor dos homens e do que eles lhes podem fazer;
quando têm esse tipo de paz, vivem sem ansiedade, por-
que o aparecimento de Cristo significa o completamento
da sua salvação; quando têm esse tipo de paz, eles não
têm medo do próprio Deus em seu julgamento, porque já
estão seguros de seu amor através de Cristo Jesus!
Talvez seja primariamente esse tipo de paz que Pedro
exorta seus leitores a terem quando da chegada do Rei.
Então, eles estarão calmos, serenos e tranquilos, esperan-
do confortavelmente que as coisas do fim se desenrolem!
MacArthur diz que esse tipo de paz "é a paz da segurança
e a paz da tranquilidade daquele que sabe que tudo está
bem com Deus e não tem nenhum temor ou vergonha no
aparecimento de Cristo". 136 Essa é a paz de Deus que guar-
da o nosso coração e a nossa mente seguros nos braços de
Cristo.

136
MACARTHUR, John, em seu sermão sobre 2Pedro 3.14, disponível em:
<http://www.gty.org/resources/sermons/61-27/living-i n-anticipation-of-
christs-return-part-2>, acessado em: 01/05/2012.

393
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

2 . O CRISTÃO DEVE SE EMPENHAR POR SER


ACHADO SEM MÁCULA

Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas,


empenhai-vos por serdes achados por ele em paz, sem
mácula e irrepreensíveis (2Pe 3.14).

Semelhantemente às ideias de santo procedimento e


piedade (v.11) , as ideias de sem mácula e irrepreensíveis
são também inseparáveis e gêmeos siameses . A vida ima-
culada é uma vida irrepreensível. Não se esqueça de que
Pedro faz um contraste entre os falsos profetas e seus leito-
res. Os falsos mestres eram cheios de pecados e manchas.
Em contrapartida, os cristãos deveriam ser sem mácula e
irrepreensíveis, que são termos indicativos de santidade. Os
cristãos devem primar por seu caráter e por sua reputação.
O caráter tem a ver com o que somos, e a reputação tem a
ver com o que os outros pensam que somos. As duas coisas
têm de andar juntas- o seu caráter e a sua reputação. Isso
tem a ver com como Deus o vê e como os homens o veem. Se
você é sem mácula, certamente vai ser irrepreensível.
No entanto, apenas para fins didáticos, vamos sepa-
rar as duas ideias.
Pedro encoraja os seus leitores a viverem de tal forma
que o Senhor Jesus os encontre sem mácula. Os irmãos
mais novos do Cordeiro de Deus têm que ser parecidos
com o Cordeiro ainda neste mundo. Pedro já havia dito
que o Cordeiro era sem mácula (1Pe 1. 19), pois Deus não
aceitaria ninguém que fosse menos do que sem mácula.
Um cordeiro impuro não seria aceito por Deus. Pedro, en-
tão, encoraja os irmãos de Jesus Cristo a serem como ele.
Eles devem ser encontrados aqui, na volta de Cristo, como
pessoas imaculadas. Por isso , ele diz aos seus leitores:

394
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A VIVER COM EMPENHO
--------------------

Como filhos da obediência, não vos amoldeis às paixões


que tínheis anteriormente na vossa ignorância; pelo
contrário, segundo é santo aquele que vos chamou,
tornai-vos santos também vós mesmos em todo o vosso
procedimento, porque escrito está: Sede santos, porque eu
sou santo (1Pe 1.14-16).

Os seus leitores não podiam se portar como filhos da


desobediência (como os falsos mestres), mas como filhos
da obediência, vivendo sem mácula, ou seja, santos em
seu procedimento, para que, quando ele se manifestar, te-
nhamos confiança e dele não nos afastemos envergonha-
dos na sua vinda (lJo 2.28).
Você e eu devemos levar muito a sério a ideia de viver
sem mácula neste mundo, para que ninguém tenha indig-
nidade alguma a dizer contra nós.

3. O CRISTÃO DEVE SE EMPENHAR POR SER


ACHADO IRREPREENSÍVEL

Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas,


empenhai-vos por serdes achados por ele em paz, sem
mácula e irrepreensíveis (2Pe 3.14) .

Viver sem mácula é praticamente smon1mo de viver


irrepreensivelmente. Não existe distância alguma entre es-
ses dois conceitos bíblicos. Ser encontrado sem mácula e
ser encontrado irrepreensível não significam impecabilida-
de nem perfeição absoluta. Significam que não devemos
nos portar de tal modo que demos munição ao inimigo.

395
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Ser irrepreensível enfatiza a ideia de viver de tal manei-


ra que ninguém possa levantar o dedo de acusação contra
nós. Isso tem a ver com reputação. Significa calar a boca dos
adversários que nos querem mal pela vida limpa que temos.
Quando um cristão se torna repreensível em seu
comportamento, ele se torna alvo de acusações justas por
parte dos ímpios e traz vergonha ao evangelho de Cristo.
Afinal de contas, a Escritura diz que Deus nos predesti-
nou para sermos santos e irrepreensíveis perante ele (Ef 1. 4).
Portanto, em vista disso, temos o dever de confirmar a [nossa]
vocação e eleição (2Pe 1.1 O). É esse tipo de irrepreensibilidade
que devemos ter quando o Senhor nos encontrar. O ambiente
em que vivemos é corrupto, e ainda temos a inclinação peca-
minosa. Mas somos exortados a fazer todo o esforço para que
nos tornemos irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus incul-
páveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual
resplandece[mos] como luzeiros no mundo (Fp 2.15) .
Como é que você estará quando o Senhor voltar? Em
paz? Sem mácula? Irrepreensível? Peça a graça de Deus
para isso e , segundo a graça que lhe for dada, empenhe-
-se para ser encontrado assim, a fim de que você não seja
envergonhado no último dia!

PONTOS A SEREM PONDERADOS


John MacArthur estabelece um contraste interessan-
te entre o comportamento dos falsos profetas do tempo
de Pedro (capítulo 2) e os crentes a quem ele se dirige
(capítulo 3). Então, ele toma os dois termos, sem mácula e
irrepreensíveis, e estabelece uma relação entre eles. Esses
termos falam de duas coisas: caráter e reputação. Eles fa-
lam daquilo que nós somos na realidade (caráter) e do que
as pessoas pensam que somos (reputação).

396
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A VIVER COM EMPENHO

A expressão "sem mácula" significa o meu caráter, o


que realmente eu sou. Não há mancha, não há nódoa
em minha vida. A expressão "irrepreensíveis" significa a
minha reputação. O que as pessoas pensam que eu sou.
[...] assim é como o Senhor quer nos encontrar: puros na
realidade, puros na reputação; sem mácula quanto ao
caráter e irrepreensíveis quanto à nossa reputação. 137

QUATRO POSSIBILIDADES DE ENTENDIMENTO


MacArthur levanta quatro possibilidades relaciona-
das ao uso dessas palavras a nosso respeito:
1. "É possível que você seja sem mácula, mas, ao me-
nos em um sentido, não irrepreensível. O que quero dizer
com isso? É possível que esteja vivendo uma vida pura,
piedosa e virtuosa, mas aos olhos do mundo você não é
irrepreensível. "138
Essa possibilidade pode perfeitamente acontecer
quando as pessoas não têm o conjunto dos fatos so-
bre a nossa vida. Aqueles de nós que, no passado, ti-
veram manchas que foram vistas pelos homens podem
ser considerados como tendo má reputação. Eles foram
repreensíveis no passado, e os homens do mundo os jul-
gam pelo que fizeram de errado no passado. Os nossos
pecados mancham a nossa reputação, ainda que hoje,
pela graça de Deus, andemos sem mácula. Portanto, é
possível que você seja sem mancha, mas os homens não
o vejam assim.

137
MACARTHUR, John, em seu sermão Living in anticipation of Christ's return,
part 2, com base no texto de 2Pedro 3.14-18, disponível em: <http://www.
gty.org/ resou rces/serm ons/61-27/I ivi ng-i n-a ntici pation-of-ch rists-retu rn-
part-2>, acessado em: 01/05/2012.
138
lbid ..

397
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Todavia, até chegar o dia do Senhor voltar, você deve


andar sem mácula e irrepreensível, ainda que os homens
não tenham uma leitura abrangente da totalidade da sua
existência como cristão neste mundo.
2. "É possível ser irrepreensível, mas não sem má-
cula. É possível que as pessoas não saibam a verdade
sobre você. É possível que, embora as pessoas pensem
de você como sem mácula, você não seja; que, enquan-
to as pessoas pensam que você é irrepreensível, e sua
reputação parece ser sem defeito, a verdade é que você
não é sem mácula." 139
É curioso que o nosso comportamento pode ser visto de
maneira diferente pelos homens. Eles podem pensar de nós
o que, na realidade, não somos. Podem pensar que somos ir-
repreensíveis porque conhecem somente os nossos atos, mas
não as nossas intenções. Eles nos veem como irrepreensíveis
porque olham somente o que é extemo. As motivações inter-
nas do coração, eles não conseguem ver. Mas são elas que
dizem respeito ao nosso real caráter, e isso só Deus conhece.
Por essa razão, é possível que as pessoas nos vejam como ir-
repreensíveis, mas não sejamos sem mácula. No caso de ser
irrepreensível aos olhos dos homens, mas não sem mácula,
você pode ser tachado de hipócrita.
3. "Há uma terceira possibilidade. Quando Jesus vol-
tar, você estará sem mancha, mostrando o seu caráter
através da graça dele em você, e você foi irrepreensível em
sua reputação. [... ]tanto sua vida como sua reputação se-
rão imaculadas. Nunca haverá uma mácula que tenha a
capacidade de permanecer em sua vida." 140

139 MACARTHUR, John, em seu sermão Living in anticipation of Christ's return,


part 2, com base no texto de 2Pedro 3.14-18, disponível em: <http://www.gty.
org/resou rces/sermons/61-27 /I ivi ng-i n-a ntici pation-of-ch rists-retu rn-pa rt- 2>,
acessado em: 01/05/2012 .
140
lbid.

398
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A VIVER COM EMPENHO

Quando essa realidade vier a acontecer, você poderá


ser chamado de "santo".
4. "É possível que você não seja nem sem mácula
nem irrepreensível. O que eu quero dizer é que você tem
manchas e tem sido repreensível. Você pode ser ambos,
sem mácula e irrepreensível, ou maculado e repreensível.
E neste caso, ambos, sua vida e sua reputação, são man-
chadas e desfiguradas." 141
Isso significa que, enquanto você vive neste mundo
como cristão imaturo, age de modo que os ímpios não po-
dem ver em você nem uma coisa nem outra. Você tropeça
frequentemente e deslustra o cristianismo em que trope-
ça. Você já tem os seus pecados pagos por Cristo, mas as
pessoas não conseguem ver o caráter de Cristo em você, e
o que elas lembram sempre está ligado aos seus pecados.
Você já está perdoado por Cristo, mas ainda não aprendeu,
de maneira devida, o caminho da obediência. Logo, você
não é visto pelos olhos mais simples como alguém que é
sem mácula e irrepreensível. Essa falha é muito dura para
o crédito do cristianismo.
Nesse caso, de não ser nem irrepreensível aos olhos
dos homens nem sem mácula, você pode ser tachado de
pecaminoso.
Essas quatro possibilidades podem acontecer na vida
dos chamados cristãos por causa da falha dos homens em
penetrar a interioridade dos cristãos. No entanto, as duas
virtudes - sem mácula e irrepreensíveis - nunca vêm
separadas à vista de Deus, mas podem vir separadas na
avaliação dos homens.
Como Jesus vai encontrar você quando ele voltar?
Sem mácula e irrepreensível? O alvo supremo do cristão
141
MACARTHUR, John, em seu sermão Living in anticipation of Christ's return_
part 2, com base no texto de 2Pedro 3.14-18, disponível em: <http://www.
gty.org/ resou rces/serm ons/61-27/I ivi ng-i n-a ntici pation-of-ch rists-retu rn-
part-2>, acessado em: 01/05/2012.

399
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

é ser en contrado por Cristo, não pelos homens , com es-


sas duas virtudes indispensáveis para aqueles que querem
desfrutar dos novos céus e da nova terra!

400
CAPÍTULO 16

A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE
HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO
A CONSIDERAR A LONGANIMIDADE
DO SENHOR

e tende por salvação a longanimidade de nosso


Senhor, como igualmente o nosso amado irmão
Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi
dada (2Pe 3.15).

Quando Deus é longânimo com os ímpios, significa


que ele apenas retarda a manifestação da sua ira para com
eles. No entanto, quando Deus é longânimo com aqueles
que são seu povo, ou com aqueles que estão para se tornar
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

parte da sua igreja, sua longanimidade é para que a sal-


vação deles aconteça. A longanimidade é a mesma, mas o
seu propósito é diferente nas duas classes de pessoas.
A ideia de longanimidade apresentada anteriormente
(em 2Pe 3.9) é repetida aqui pelo apóstolo Pedro. A palavra
grega que Pedro usa é j.lGKpo8uj.l(a (macrothumia), que pode
ser traduzida por "paciência", "tolerãncia", "constância" e
"indulgência". Todas essas traduções são possíveis nesse
versículo. Quando Deus quer mostrar essa macrothumia
aos que ele decide salvar, ele é paciente com eles, é to-
lerante com eles, é constante nos seus sentimentos em
relação a eles, é indulgente com eles. Em outras palavras,
Deus é longãnimo, tardio em irar-se e grande em benigni-
dade para com eles.

1. A LONGANIMIDADE DO SENHOR É A CAUSA DA


SALVAÇÃO

Você, que experimentou por anos uma vida de rebel-


dia à pregação da Palavra; você, que sempre rejeitou vi-
ver de acordo com os princípios de Deus; você, que pecou
deliberadamente por anos; você, que desafiou Deus por
vezes sem conta, é capaz de perceber a veracidade da lon-
ganimidade divina. Ele foi tolerante com você, ele nunca
deixou de colocar em você o seu coração (constante), ele foi
indulgente com você, tendo uma paciência extremamente
prolongada. Ele não o puniu, apenas se portou com muita
paciência, exercendo um grande poder e domínio sobre si
mesmo para não punir você. Aliás, a definição de paciência
inclui a ideia de Deus exercer um poder sobre si mesmo
para não irromper em ira imediatamente após o cometi-
mento do pecado. Pink define a paciência de Deus "como o
poder de controle que Deus exerce sobre si mesmo, fazen-
do com que ele próprio seja indulgente com o ímpio e que

402
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CONSIDERAR A LONGANIMIDADE DO SENHOR

se detenha por algum tempo em castigá-lo". 142 Você era ím-


pio, e Deus suportou os seus desaforos por muito tempo.
Deus suportou todas as coisas porque ele enviou o
seu Filho para pagar a pena de seus pecados. Foi por isso
que ele foi longãnimo com você, atê que, num dia determi-
nado, colocou vida sobre você, regenerando-o, dispondo-o
para uma vida de arrependimento e fé. Portanto, não se
esqueça da longanimidade de Deus quando você for testi-
ficar da sua salvação.

Na verdade, a paciência de Deus com os seus filhos deve


ser chamada preferencialmente de misericórdia, porque
acaba por suspender definitivamente a punição. Deus é
tão paciente com eles que nunca mais põe a sua punição
sobre eles. É por isso que Pedro atribui a nossa salvação
à paciência de Deus .143

Posso dizer com toda a convicção que Deus continua


sendo paciente com você, cristão. A despeito de você ser
remido por Cristo, não está remido completamente. Você
ainda peca, e não poucas vezes! E como Deus o tem tra-
tado? Como Deus o trata nas suas fraquezas? Como Deus
o trata em seus fracassos? Deus é longãnimo com você
porque ele o trata com menos rigor do que os seus pecados
merecem. Foi esta a sensação que Esdras, o sacerdote de
Deus, teve quando disse: tu, ó nosso Deus, nos tens cas-
tigado menos do que merecem as nossas iniquidades (Ed
9.13b).

142
PINK, Arthur W. Los atributos de Dias. Lima: EI Estandarte de La Verdade,
1971, p. 77.
143
CAMPOS, Heber Carlos de . O ser de Deus e seus atributos. São Paulo:
Cultura Cristã, 2002, p. 279.

403
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

2. A CONSIDERAÇÃO DA LONGANIMIDADE É UM
MANDAMENTO APOSTÓLICO

e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor,


como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu,
segundo a sabedoria que lhe foi dada (2Pe 3.15).

Assim como, no ensino de Paulo, a bondade de Deus


nos conduz ao arrependimento (Rm 2.4), assim também,
segundo Pedro, a longanimidade de Deus nos conduz à
salvação mediante o mesmo arrependimento. Pedro está
recordando aqui o seu ensino alguns versículos antes ,
quando diz que Deus é longânimo para convosco, nâo que-
rendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao ar-
rependimento (2Pe 3.9). Pedro está enfatizando o ensino
de Paulo em Romanos 2.4. Pedro toma o ensino de Paulo
como uma espécie de mandamento. Os dois grandes pila-
res da igreja cristã ensinam que a longanimidade de Deus
é a razão pela qual as pessoas recebem a capacidade de
se arrepender de seus pecados e, pela fé, se apossam da
salvação que está em Cristo Jesus.
Para dar força ao seu ensino, Pedro vai para a auto-
ridade apostólica de Paulo. Ele mostra que existe concor-
dância entre esses dois líderes - o apóstolo aos gentios e
o apóstolo aos judeus.
Essa atitude de Pedro com relação ao ensino de Paulo,
segundo Barnes, aponta para algumas coisas:

1) que Pedro estava familiarizado com os escritos de


Paulo; 2) que Pedro supunha que aqueles a quem ele
escreveu também estavam familiarizados com eles;
3) que Pedro considerava Paulo como um "irmão

404
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CONSI DERAR A LONGANIMIDADE DO SENHOR

amado", não obstante a solene repreensão que Paulo


lhe havia administrado (Gl 2.2 e seguintes); 4) que
Pedro considerava Paulo como autoridade inculcando
as doutrinas e os deveres da religião; 5) que Pedro
considerava Paulo como um homem inspirado, e seus
escritos, como uma parte da verdade divina. 144

Essas observações feitas por Barnes nos ajudam a


entender a força da autoridade apostólica, pois eles viviam
em harmonia com respeito à doutrina de Deus e aos seus
mandamentos para os homens . Ambos possuíam uma
grande autoridade apostólica quando tratavam com os ir-
mãos a quem escreviam. E os leitores de Pedro não pode-
riam deixar de levar em conta a grande importância da
longanimidade divina no processo da salvação.

3. A CONSIDERAÇÃO DA LONGANIMIDADE É
PRODUTO DA SABEDORIA APOSTÓLICA

e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor,


como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu,
segundo a sabedoria que lhe foi dada (2Pe 3.15).

Pedro entendeu algo que muitos demoram a entender


quando se fala a respeito de outras pessoas. Não gosta-
mos muito de elogiar os outros se o elogio a eles nos di-
minui. Não gostamos quando outros tomam a primazia, e
nós ficamos relegados a segundo plano. No entanto, não

144
BARNES, Albert, em seu comentário on-line sobre o texto em
estudo, disponível em : <http://www.studylight.org/com/bnn/view.
cgi?book=2pe&chapter=3>, acessado em: 01/07/2012 .

405
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

foi assim que Pedro se portou. Ele reconheceu a sabedo-


ria divina num irmão mais novo na fé que ele, que chegou
ao conhecimento de Cristo bem depois dele . Além disso ,
Pedro o tratou com imensa consideração.

1) PEDRO CONSIDERA PAULO UM IRMÃO AMADO

como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu


{2Pe 3 . 15b) .

É bonito ver com que carinho Pedro fala da outra


coluna do colégio apostólico , que é Paulo , ainda que Paulo
considerasse a si mesmo como um nascido fora de tempo
(1Co 15.8). Paulo não era um dos doze apóstolos , mas
nunca os do colégio apostólico realmente duvidaram do
seu apostolado. Ele foi bem recebido pelos irmãos quando
lhes foi apresentado. Pedro chama Paulo de amado irmão .
Parece não ter havido ciúme entre eles, ao menos depois
de Pedro conhecer a experiência importante de Paulo en-
tre os gentios. Quanto mais amadurecidos são os irmãos,
mais eles se amam. Era o que acontecia entre esses dois
expoentes do cristianismo do primeiro século. Eles estive-
ram juntos no primeiro concílio de Jerusalém (At 15}145 e se
amavam realmente como irmãos por causa da obra do seu
irmão mais velho, Jesus Cristo!
Além disso, é admirável que Pedro o consideras-
se como irmão amado a despeito de ter sido repreendi-
do publicamente por Paulo (Gl 2.11-21). Isso mostra que
Pedro aceitou humildemente a repreensão. No seu coração
não havia nenhuma animosidade contra Paulo. Ele não
Ambos, Pedro e Paulo, compartilharam o mesmo ajudante e escriba: Si las
145

(ou Silvano- cf. 1Pe 5.12 e At 15.40). Isso aponta para a harmonia entre
ambos, ainda que Paulo tenha repreendido Pedro quando este se tornou
repreensível (cf. Gl 2.11-14) .

406
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CONSIDERAR A LONGANIMIDADE DO SENHOR

guardou nenhuma amargura por ter sido repreendido.


Infelizmente, muitos até abandonam a comunhão dos ir-
mãos por não aceitarem repreensão alguma, muito me-
nos publicamente. Os melindres são tão grandes que a
animosidade entre famílias permanece por anos pela não
aceitação da disciplina. É admirável que Pedro não tenha
guardado nenhum sentimento de amargura contra Paulo
e que, publicamente e de forma escrita, o tenha chamado
de amado irmão.

2) PEDRO TECE PALAVRAS ELOGIOSAS A PAULO

segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca


destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as
suas epístolas (2Pe 3.15c, 16).

A) PEDRO RECONHECE A SABEDORIA DIVINA EM PAULO

segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca


destes assuntos (2Pe 3.15, 16).

Pedro, que foi o mais destacado e o mais intrépido dos


apóstolos do colégio apostólico, entendeu que Paulo havia
recebido sabedoria de Deus para tratar dos grandes e pro-
fundos assuntos da fé cristã.
É maravilhoso que os ministros de Deus respeitem
e admirem os seus companheiros de trabalho no reino!
Não deve haver nenhum tipo de desconfiança ou de ciúme
entre eles!
A sabedoria de Paulo não era aprendida nos bancos
escolares, nem mesmo com Gamaliel (At 22.3). É verdade

407
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

que Paulo era versado na sabedoria humana, mas asa-


bedoria a que Pedro se refere era comunicada por Deus.
Tiago menciona que esse tipo de sabedoria lá do alto, que
contrasta com a sabedoria humana, é, primeiramente,
pura; depois, pacífica, indulgente, tratável, plena de mi-
sericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento (Tg
3.17).
A sabedoria de Paulo, reconhecida por Pedro, era uma
dádiva divina. O Senhor Jesus havia aparecido a Paulo, e
tudo o que ele escreveu reflete a sabedoria celeste. Essa
sabedoria o capacitava a ver e a enfatizar não somente as
implicações teológicas, mas também as implicações morais
para que seus leitores tivessem uma vida santa.

B) PEDRO RECONHECE A SABEDORIA DIVINA DE PAULO NAS


GRANDES DOUTRINAS

segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca


destes assuntos (2Pe 3.15, 16) .

Paulo escreveu a muitas igrejas gentílicas e, em todas


as suas cartas, ele se mostrou sábio na elaboração dos
grandes assuntos sobre os quais nós nos debruçamos até
hoje para entender o que Deus lhe revelou. Os assuntos a
que Pedro se refere dizem respeito à totalidade do conselho
de Deus que Paulo costumava ensinar. Barnes fala que
"esses assuntos" se referem às
grandes doutrinas da cruz; à depravação do homem; aos
propósitos divinos; ao novo nascimento; à consumação
de todas as coisas; ao retorno do Salvador para julgar
o mundo e para receber o seu povo para si mesmo;
ao dever de uma vida séria, devota e cheia de oração;

408
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CONSIDERAR A LONGANIMIDADE DO SENHOR

à preparação para o mundo celestial. Essas coisas


são constantemente tratadas por Paulo, e para sua
autoridade nesses assuntos Pedro poderia apelar com
extrema confiança. 146

c) PEDRO RECONHECE A SABEDORIA DIVINA EM TODOS OS ES-


CRITOS DE PAULO

segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca


destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as
suas epístolas (2Pe 3.15,16).

A sabedoria que Paulo havia recebido de Deus não se


limitava a um texto específico de uma carta, mas estava
evidente na totalidade de suas cartas, que tratavam sobre
muitos assuntos difíceis. Paulo escreveu ao menos dezes-
seis cartas, sendo que três delas estão perdidas. 147 Sem dú-
vida, Pedro estava altamente familiarizado com as cartas
de seu companheiro de apostolado, já tinha lido todas elas
e reconhecia sua profundidade teológica e prática! Ele não
demonstra nenhum constrangimento em falar bem do seu
companheiro de apostolado.

APLICAÇÃO
Pedro e Paulo eram duas das maiores colunas do colé-
gio apostólico. Eles tinham dons semelhantes, como o dom
do ensino, da pregação, do pastoreio e da obra missionária,
146
BARNES, Albert, em seu comentário on-line sobre o texto em
estudo, disponível em: <http://www.studylight.org/com/bnn/view.
cgi?book=2pe&chapter=3>, acessado em: 01/07/2012.
147
Ao menos duas cartas à igreja de Corinto foram perdidas, além de uma
carta à igreja de Laodiceia (CI 4.16).

409
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

embora seus ministérios se destinassem a pessoas de ra-


ças diferentes: Pedro era apóstolo aos judeus, e Paulo, aos
gentios. E eles viveram em paz e servindo no reino de Deus.
O ciúme não deve fazer parte da vida de cristãos que
exercem ministérios similares. Ao contrário, todos os cris-
tãos devem se alegrar pela riqueza de dons que Deus deu a
outros irmãos. O corpo de Cristo cresce quando nos alegra-
mos com os grandes talentos e com as vitórias dos outros!

410
CAPÍTULO 17

A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE
HABITATDEVE LEVAR O CRISTÃO
A SE ACAUTELAR DOS ERROS
TEOLÓGICOS

ao falar acerca destes assuntos, como, de fato,


costuma fazer em todas as suas epístolas, nas
quais há certas coisas di.ficeis de entender, que
os ignorantes e instáveis deturpam, como também
deturpam as demais Escrituras, para a própria
destruição deles. Vós, pois, amados, prevenidos
como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda
que, arrastados pelo erro desses insubordinados,
descaiais da vossa própria firmeza (2Pe 3 . 16, 17).

Depois de falar palavras elogiosas sobre Paulo e de


reconhecer a sabedoria divina nele , Pedro começa a tratar
dos erros teológicos advindos da falsa interpretação que
alguns davam ao ensino de Paulo.
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

1. PEDRO ADMITE COISAS DIFÍCEIS DE


ENTENDER NO ENSINO DE PAULO

nas quais há certas coisas dificeis de entender (2Pe 3.16).

Paulo trata em suas cartas de assuntos antropoló-


gicos, teontológicos, cristológicos, soteriológicos e esca-
tológicos muito difíceis. Trata da depravação humana,
dos decretos divinos, da predestinação, da preterição,
da condenação, do Dia do Senhor, do retorno de Cristo,
das glórias do céu e do estado eterno. É possível que
algumas coisas que Pedro ensinou ele as tenha apren-
dido do próprio Paulo. Pedro reconhece a dificuldade de
entender tudo o que Paulo ensinou. Portanto, quando
você estiver estudando Paulo e achar difícil o ensino
dele, você estará em boa companhia. Não se envergonhe
de ter dificuldade em compreender todas as coisas que
Paulo ensinou.
Pedro não está dizendo que não entendeu a mensa-
gem de Paulo, mas que achou os ensinos dele difíceis. Por
exemplo, algumas coisas relacionadas ao futuro do nosso
planeta são difíceis de entender. O verbo entender usado
por Pedro pode ser traduzido como interpretar.
Pedro não está dizendo que o ensino de Paulo sobre
as últimas coisas é impossível de interpretar, mas dificil.
Muitas passagens particulares da revelação divina atra-
vés de Paulo não estão absolutamente claras para nós.
Paulo trata das últimas coisas em várias de suas cartas,
e essas coisas têm que ser devidamente compreendidas;
para que isso aconteça, elas têm que ser estudadas, com-
paradas, cotejadas, vistas à luz da totalidade do ensino
das Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos. Algumas
passagens podem ser interpretadas literalmente, e outras
não. Precisamos de sabedoria para perceber com qual tipo

412
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A SE ACAUTELAR DOS ERROS TEOLÓGICOS

de literatura estamos lidando. Cada tipo de literatura ne-


cessita de uma abordagem hermenêutica diferente. Alguns
podem ser interpretados literalmente, e outros, figurati-
vamente. Portanto, os ensinos de Paulo trazem bastante
dificuldade para serem entendidos. É desse tipo de dificul-
dade que Pedro está falando.
Pedro não está dizendo que os textos de Paulo não po-
dem ser entendidos pelas pessoas comuns, mas que eles
são difíceis de interpretar.
• A dificuldade de interpretação vem pela grandeza
e profundidade dos assuntos tratados por Paulo. Poucos
autores bíblicos mergulharam em águas tão profundas
como Paulo. Há tanta majestade misteriosa em alguns
textos que eles apresentam uma real dificuldade, que não
jaz simplesmente na mente das pessoas, mas no coração
delas.
• A dificuldade de interpretação vem pela incompre-
ensibilidade de alguns desses assuntos; realmente há al-
gumas coisas que os crentes, mesmo os mais estudiosos e
iluminados por Deus, não conseguem entender porque a
compreensão dessas coisas está acima da mente humana
sob os efeitos do pecado. Elas são sobremodo elevadas (ou
sobremodo profundas!) e estão além do alcance da mente
humana neste presente estado de coisas.
• A dificuldade de interpretação vem pelo fato de al-
guns desses assuntos não serempalatáveis porque a men-
te humana tem preconceito contra o modus operandi de
Deus. Os homens não têm desejos reais de receber a dou-
trina de Deus. Muitos entendem racionalmente o raciocí-
nio de Paulo, mas não aceitam com o coração a revelação
divina. Dá para entender quando os homens não compre-
endem porque são ignorantes ou mesmo porque são instá-
veis, mas a razão mais triste é que eles não compreendem
os textos da Escritura porque têm preconceito contra os

413
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

ensinos teocêntricos de Paulo. Essas pessoas não têm dis-


posição para concordar com Deus em vários assuntos.
Todavia, Pedro não está dizendo que todo o conteúdo
dos escritos de Paulo é dificil de ser entendido, ou que nada
é claro. Mas está dizendo que há alguns deles que, por sua
profundidade, são dificeis de ser corretamente interpretados.
Por essa razão, todos nós que somos estudiosos da
Escritura devemos vasculhar a totalidade dela a fim de que
tenhamos uma visão de conjunto do seu conteúdo. Temos
que nos aproximar da Escritura com o coração ensinável
e disposto a aprender de Deus, porque a Escritura é lâm-
pada para os nossos pés e luz para os nossos caminhos
(81 119.105). Todos os que se aproximam da Escritura
para aprender dela certamente receberão luz do céu para
interpretá-la corretamente, porque somente "as sagradas
letras" podem nos tornar sábios para a salvação, pois Toda
a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para
a repreensão, para a correção, para a educação na justiça,
a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente
habilitado para toda boa obra (2Tm 3.15-17).

2. PEDRO ADVERTE SOBRE AS FALSAS


INTERPRETAÇÕES DO ENSINO DE PAULO

que os ignorantes e instáveis deturpam, como também


deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição
deles (2Pe 3.16).

Quando Pedro escreveu sobre o fim dos tempos e sobre


como os cristãos deveriam viver, os escritos de Paulo já

414
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A SE ACAUTELAR DOS ERROS TEOLÓGICOS

corriam as igrejas cristãs, e alguns irmãos com tendência


herética deturpavam o ensino de Paulo. O ensino sobre a
destruição do mundo e sobre o modo como os cristãos devem
viver neste mundo, antes que o Senhor volte, era comum
aos apóstolos. Todos eles estavam coesos nessa matéria,
mas havia pessoas que deturpavam o ensino apostólico.

1) OS FALSOS MESTRES DETURPAM AS ESCRITURAS

que os ignorantes e instáveis deturpam, como também


deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição
deles (2Pe 3.16) .

Pedro usa o verbo grego cJTp E ~À.ow (strebloo), que pode


ser traduzido por "distorcer", "deturpar" ou "perverter".
Esse verbo não ocorre em nenhum outro lugar do Novo
Testamento. Pedro está afirmando que os falsos mes-
tres mudam o sentido do texto, aplicando os textos da
Escritura para um propósito para o qual eles nunca fo-
ram pretendidos. Os homens podem perverter qualquer
coisa que seja boa. 148
Mesmo na igreja contemporânea não têm faltado mi-
nistros da Palavra que pervertem os ensinos de Paulo de-
vido à sua complexidade. Esses ministros são govemados
por suas próprias pressuposições humanistasjlibertárias
e torcem o sentido dos textos. Eles forçam o texto, fazendo
com que diga o que eles querem que diga, e trazem des-
graça para a igreja de Cristo, que continua, em muitos dos
seus segmentos , sem entender o real sentido dos vários
ensinos de Paulo.

148
BARNES, Albert, em seu comentário on-line sobre o texto em
estudo, disponível em : <http://www.studylight.org/com/bnn/view.
cgi?book=2pe&chapter=3>, acessado em : 01/07/2012 .

415
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Os falsos mestres não somente deturpavam os en-


sinos de Paulo, como também deturpam as demais
Escrituras. Esta afirmação clássica de Pedro é um reco-
nhecimento de que ele (e a igreja da época) considerava
os escritos de Paulo como Escritura (isto é, ensino cheio
de autoridade!). Pedro igualou os escritos de Paulo às de-
mais Escrituras (uma referência às Escrituras do ATe a
alguns evangelhos que, a essa altura, eram mais conhe-
cidos). Em outras palavras, para Pedro, os escritos de
Paulo eram inspirados, ou seja, eram fonte de autoridade
para os cristãos da época, mas não eram devidamente
interpretados pelos falsos mestres. Estes deturpavam o
ensino de Paulo.
A perversão do texto acontece por duas razões , se-
gundo o pensamento de Pedro. Ele aponta para dois tipos
de pessoas que são facilmente enganáveis e frequentemen-
te enganam outras: ignorantes e instáveis.

2) OS FALSOS MESTRES DETURPAM O ENSINO DE


PAULO POR IGNORÂNCIA
Certamente havia muitos falsos mestres ao redor
do mundo cristão da época que não tinham o devido co-
nhecimento dos ensinos de Paulo. Provavelmente o que
eles ensinavam era o que ouviam de outros, mas não
diretamente dos escritos de Paulo. Naquela época, não
era todo mundo que possuía os textos da Escritura. Hoje
nós temos esse grande privilégio, mas no tempo de Pedro
era muito raro alguém possuir um manuscrito original,
ou mesmo uma cópia dele. Eram tempos difíceis aque-
les, o que aumentava enormemente a possibilidade de
haver mestres ignorantes .
Quando os mestres são ignorantes, eles acabam de-
turpando aquilo que ouvem. É conhecido o ditado de que
"quem conta um conto aumenta um ponto". Pois naquela
época, sem as cópias dos escritos de Paulo, a possibilidade

416
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A SE ACAUTELAR DOS ERROS TEOLÓG ICOS

de ser ignorante quanto a eles era muito grande e au-


mentava a margem de deturpação. Além disso, a exorta-
ção de Pedro parece indicar que eles eram deturpadores
até mesmo das "demais Escrituras" (uma indicação das
Escrituras do Antigo Testamento e de outros escritores do
Novo Testamento) , que já eram conhecidas. Eles se ser-
viam da própria ignorância para tomar os desavisados e
lhes ensinar a sua própria doutrina.
Os leitores de Pedro não podiam cair na malha do en-
sino dos ignorantes. Por isso, Pedro lembra uma porção de
coisas sobre o que haverá de acontecer ao presente habitat.
Ele não queria que eles fossem ignorantes sobre a matéria!
O que fazer com os que são ignorantes? Qual é o meio
de sanar esse grande mal presente ainda hoje na igreja
cristã? Barnes responde que

A maneira apropriada de corrigir este mal e remover


este perigo não é manter as pessoas na ignorância,
ou designar alguém para ser um intérprete infalível;
é remover a própria ignorância por iluminar o povo e
fazer com que seja melhor qualificado para entender
os oráculos sagrados. O modo de remover o erro não é
perpetuar a ignorância, mas iluminar a mente, de modo
que ela possa ser qualificada para apreciar a verdade. 149

Por essa razão, devemos nos esforçar para aumentar


a quantidade e , especialmente, a qualidade de nossas es-
colas teológicas e melhorar o ensino nas igrejas locais.

149
BARNES, Albert, em seu comentário sobre o texto em estudo, disponível
em: <http://www.studylight.org/com/bnn/view.cgi?book=2pe&chapter=3>,
acessado em: 01/07/2012 .

417
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

3) OS FALSOS MESTRES DETURPAM O ENSINO DE


PAULO POR INSTABILIDADE
Uma pessoa teologicamente instável é aquela que não
tem firmeza nos ensinos da palavra de Deus. Um mestre
instável ora ensina uma coisa, ora ensina outra. Ele não
está seguro do que crê. Pensando em termos contemporâ-
neos, uma pessoa instável espiritualmente pode ser vista
como aquela que ensina do púlpito aquilo que aprende du-
rante a semana.
Conheci um pregador cujo sermão de domingo era o
que ele lia no meio da semana, e a sua igreja era instável
teológica e emocionalmente. Ele vivia sempre debaixo do
controle de seus sentimentos e emoções adquiridos duran-
te a semana. Num domingo ele tinha uma opinião; no outro,
uma opinião diametralmente oposta. Costumeiramente,
ele lia livros dos mais variados matizes teológicos. Em sua
igreja, havia diferentes correntes teológicas, produto da
instabilidade de seus ensinos. Por essa razão, várias pes-
soas na igreja tinham a tendência de ser profetas, vários
homens eram governados por suas mulheres, e a igreja,
como um todo, padecia pela instabilidade refletida no púl-
pito. O que achava bonito, ele pregava e ensinava aos ir-
mãos. Não tinha um referencial teológico correto. A sua
hermenêutica não era segura. Ele era levado facilmente
por qualquer vento de doutrina. Tendo uma hermenêutica
insegura, ele torcia o texto e torturava a verdade, levando
pessoas à mesma instabilidade teológica.
A instabilidade teológica surge na mente dos falsos
mestres em razão de sua hermenêutica. Não há parâme-
tros teológicos seguros porque não há regras seguras de
interpretação. Barnes diz que "eles não têm nenhuma es-
tabilidade em seu caráter, e, naturalmente, nada pode ser

418
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A SE ACAUTELAR DOS ERROS TEOLÓGICOS

considerado como estabelecido em seus métodos de inter-


pretar a Bíblia". 150
Os ensinos de Paulo, para serem devidamente bem
entendidos, requerem uma boa e sadia hermenêutica.
Está crescendo nas igrejas evangélicas contempo-
râneas a instabilidade teológica, porque os membros co-
muns da igreja recebem o tempo todo uma mensagem pre-
gada que é produto de uma péssima hermenêutica e que,
ao mesmo tempo, os deixa na ignorância da verdade e os
escraviza à instabilidade moral e teológica. Por isso, a teo-
logia deles é ruim, e a sua ética, péssima!
Recorde-se de que em 2Pedro 3.3,4 Pedro menciona
que esses falsos mestres estavam deturpando o ensino
sobre a vinda do Senhor Jesus simplesmente porque
eles estavam andando segundo as suas ímpias paixões.
Frequentemente, aqueles que interpretam erroneamente
os textos da Escritura têm a tendência de viver impiamente,
porque procuram justificar os seus próprios pecados.
Porque eles distorcem os ensinos da Escritura, pensam
que ela não tem nada a ver com o seu comportamento. É
certa a ideia de que uma teologia errada pode levar a uma
ética errada. Uma má teologia conduz a uma ética má.
E os leitores de Pedro não poderiam cair nessa esparrela
criada pelos falsos mestres!
O temor de Pedro era o de que pessoas teologicamente
instáveis e ignorantes interpretassem de forma incorreta
os ensinos de Paulo e começassem a ensinar erroneamen-
te as suas próprias interpretações.
A verdadeira igreja de Cristo tem que ser muito cui-
dadosa com respeito à verdade. Ela tem que primar pela
pregação da verdade e por sua apreensão. Por isso, deve se
preocupar muito com o conteúdo do que se crê. Ela precisa
150
BARNES, Albert, em seu comentário sobre o texto em estudo, disponível
em: <http://www.studylight.org/com/bnn/view.cgi?book=2pe&chapter=3>,
acessado em: 01/07/2012.

419
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

ter pregadores e mestres que não deturpem as Escrituras ,


mas as encaminhem pelas veredas da justiça!

4) OS FALSOS MESTRES RECEBEM A PUNIÇÃO PELA


DETURPAÇÃO DAS ESCRITURAS

que os ignorantes e instáveis deturpam, como também


deturpam as d emais Escrituras, para a própria destruição
deles (2Pe 3 . 16).

Esses falsos mestres haverão de acertar contas com


Deus por interpretar erroneamente não só os escritos de
Paulo , mas os ensinos das demais Escrituras!
Os falsos mestres sempre fizeram parte da igreja vi-
s ível de nosso Senhor, mas sempre houve uma palavra
de condenação sobre eles . Veja o que Pedro já havia dito
deles:

Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas,


assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais
introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras,
até o ponto de renegarem o Soberano Senhor que os
resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição
(2Pe 2 . 1) .

Não nos esqueçamos de que, à medida que o tem-


po do fim se aproximar, aumentará o número de falsos
mestres e de falsos profetas. Eles sempre ensinarão here-
sias destruidoras, que fazem muito mal às congregações
de Deus. No entanto, esse falsos mestres e profetas não

420
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A SE ACAUTELAR DOS ERROS TEOLÓGICOS

ficarão impunes para sempre. Vem a hora em que eles re-


ceberão a paga pelo mal que fazem ao povo de Deus. O
erro destrói a alma, e Deus leva muito a sério quando os
mestres torcem a sua verdade e apresentam o erro. Por
isso, eles sempre serão objeto da condenação divina. Deus
entrará de sola neles! Pedro também os chama de homens
ímpios (2Pe 3 .7); Judas os chama de brutos sem razão (Jd
10) e de estrelas errantes (Jd 13). Então, Judas diz que a
eles tem sido guardada a negridão das trevas, para sempre
(Jd 13) pelo fato de ensinarem heresias destruidoras na
igreja de Deus. Ainda mais, Cristo haverá de exercer juízo
contra todos (Jd 15). Certamente o Dia do Juízo virá sobre
eles todos, sem exceção!
Não podemos nos esquecer de que as distorções da
Escritura são um grande e especial motivo que Deus tem
para trazer condenação eterna aos que estão na igreja,
mas que aprendem e ensinam heresias!

3. PEDRO ADVERTE SOBRE O CUIDADO QUE SE


DEVE TER COM OS ERROS

Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão,


acau telai-vos ; não suceda que, arrastados pelo erro
desses insubordinados, descaiais da vossa própria
firmeza (2Pe 3 . 17).

Então Pedro exorta os forasteiros e peregrinos a se


livrarem dos erros doutrinários que estavam começando a
se espalhar pela igreja cristã de então.
Esses últimos versículos de Pedro servem para deixar
seus leitores antecipadamente prevenidos contra o erro
ensinado pelos falsos mestres que distorciam a Escritura,

421
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

trazendo sobre si mesmos condenação. Os forasteiros e


peregrinos não tinham a desculpa de não terem sido ensi-
nados. Portanto, sabedores da verdade e prevenidos con-
tra o erro, Pedro lhes diz: acautelai-vos.
A palavra acautelai-vos significa "tenham cuidado",
"guardem-se", "protejam-se". Pedro está advertindo seus
leitores contra o erro. O erro teológico é um problema mui-
to sério no seio da igreja cristã.
Por que os cristãos precisavam se acautelar ou se
proteger? Não pense que um cristão sincero, pelo simples
fato de ser cristão, está imune aos ensinos dos falsos pro-
fetas e falsos mestres. Veja o que Pedro ensina:

1) UM CRENTE SINCERO PODE SER ARRASTADO


PELO ERRO

não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordina-


dos (2Pe 3.17).

Pedro ordena que seus leitores fiquem atentos com


relação aos falsos ensinos na igreja. Os ensinos dos falsos
profetas são cativantes. Se não o fossem , eles mesmos não
teriam dado ouvidos a eles. Mesmo gente boa, se não se
cuidar, pode ser levada pela dissimulação de outras pesso-
as. Barnabé foi um exemplo disso (cf. Gl 2.13). Um ensino
errôneo, assim como um comportamento de dissimulação,
tem um grande poder de influenciar pessoas. Os falsos
mestres têm o poder de arrastar atrás de si pessoas ig-
norantes ou instáveis. E há muitas delas não só na igreja
apostólica, mas especialmente no seio da igreja contempo-
rãnea. Talvez nunca tenha havido uma igreja tão carente
de boa doutrina como a da nossa geração. A igreja cresceu
numericamente de maneira espantosa, mas permaneceu

422
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A SE ACAUTELAR DOS ERROS TEOLÓGICOS

debaixo de péssimo ensino por décadas e hoje é prato cheio


para os falsos profetas. O terreno está muito fértil para a
disseminação do erro, e esses falsos profetas e mestres,
que Pedro chama de insubordinados, têm arrastado muita
gente atrás de si. Essas pessoas têm recebido um "outro
evangelho", ou seja, um evangelho diferente do evangelho
de Jesus Cristo. Não podemos fechar os olhos ao fato de
que a distorção da Escritura está patente na igreja evangé-
lica brasileira. Não se esqueça de que as vítimas, com fre-
quência, são pessoas ignorantes da Escritura e, portanto,
instáveis teologicamente.
Portanto, veja que você não seja arrastado por qual-
quer vento de doutrina em razão de sua ignorãncia ou ins-
tabilidade. Pela mesma razão Paulo adverte seus leitores:
para que não mais sejamos como meninos, agitados de um
lado para outro e levados ao redor por todo vento de dou-
trina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que
induzem ao erro (E f 4. 14). Você pode ser piedoso, mas a
piedade não o livra de cair em falsa doutrina. Entenda que
piedade aqui, no sentido popular, indica simplesmente a
ideia de ir aos cultos, participar das reuniões e do louvor,
fazer orações etc. Perceba que muitos chamados piedosos
em círculos evangélicos absorvem o ensino distorcido de
seus ministros e são os que primeiro abraçam o erro, sen-
do arrastados por ele. Não esteja entre esses: acautele-se!

2) UM CRENTE SINCERO PODE DESCAIR DE SUA


FIRMEZA

não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados,


descaiais da vossa própria firmeza (2Pe 3.17).

Não podemos brincar com o erro. Ele pode criar dú-


vida em nosso coração e nos levar à queda. A firmeza não

423
O HA BITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

é algo constante e interminável. Se não continuamos a es-


tudar e a pedir a graça de Deus para o entendimento da
sua verdade, corremos o risco de perder a firmeza. Há al-
guns ditados populares que dizem: "Se você não quer se
queimar, não brinque com fogo" e "se você não quer se
enroscar, não brinque perto da cerca de arame farpado".
Da mesma forma, se você não quer perder a sua firmeza,
não fique ouvindo as tolices teológicas dos falsos mestres.
Eles podem lançar veneno sobre sua fé e fazer germinar
a dúvida. Esse é o sentido de "descair da vossa própria
firmeza" .
A palavra "firmeza" é exatamente o oposto de insta-
bilidade. Pedro certamente conhecia exemplos de pessoas
que brincaram com o erro e o acabaram abraçando. Há
exemplos na Escritura de pessoas que caíram de sua fir-
meza. Paulo nos lembra casos de pessoas que se desvia-
ram da doutrina ou da fé , apartando-se da boa consciência
e da fé sem hipocrisia. Desviando-se algumas pessoas des-
tas coisas, perderam-se em loquacidade frívola, pretenden-
do passar por mestres da lei, não compreendendo, todavia,
nem o que dizem, nem os assuntos sobre os quais fazem
ousadas asseverações (lTm 1.5-7). Ele ainda nos lembra
de Himeneu e Alexandre, que abandonaram a verdadeira
fé, descaindo da sua firmeza.

Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo,


segundo as profecias de que antecipadamente foste
objeto: combate, firmado nelas, o bom combate, mantendo
fé e boa consciência, porquanto alguns , tendo rejeitado
a boa consciência, vieram a naufragar na fé . E dentre
esses se contam Himeneu e Alexandre, os quais entreguei
a Satanás, para serem castigados, a fim de não mais
blasfemarem (1 Tm 1.18-20).

424
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A SE ACAUTELAR DOS ERROS TEOLÓGICOS

Os leitores de Paulo, assim como os de Pedro, tinham


que combater o ensino errôneo firmados nas profecias
(que são a palavra de Deus!). Esse é o bom combate para
que os cristãos não sejam arrastados pelo falso ensino. A
expressão naufragar na fé pode ser considerada sinôni-
mo de "descair da firmeza". Por desprezarem essas coisas,
Himeneu e Alexandre foram severamente castigados, por-
que é blasfêmia contra o Senhor crer em ensinos errôneos.
Portanto, cristão, não confie no seu cristianismo
nem na sua igreja, mas debruce sua mente no estudo da
Palavra de Deus a fim de que você não venha a naufragar
na fé. Também não despreze a boa consciência, ou seja,
tenha uma boa doutrina e uma boa ética; uma boa teoria
e uma boa prática.
Conheço pessoas que um dia foram firmes na sã dou-
trina, mas brincaram de ler e de ouvir alguns falsos pro-
fetas e acabaram, ainda que temporariamente, caindo no
erro teológico. Lembre-se de que os ensinos deles são uma
"heresia destrutiva". Ela destrói a firmeza na fé. Hoje essas
pessoas caíram de sua firmeza e estão dentro da esfera do
falso ensino.

425
----------------------------------------------~~
CAPÍTULO 18

A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE
HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A
CRESCER ESPIRITUALMENTE

antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso


Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória,
tanto agora como no dia eterno (2Pe 3.18).

No tempo que precede a destruição deste velho habi-


tat, somos exortados a crescer espiritualmente. Pedro usa
duas expressões distintas, mas ao mesmo tempo seme-
lhantes, nessa exortação. Não há como separá-las total-
mente, porque uma está inclusa na outra. Não há como
crescer na graça sem crescer no conhecimento de Jesus.
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

1. O CRESCIMENTO TEM A VER COM A GRAÇA DE


JESUS CRISTO

Os cristãos não podem continuar crianças o tempo todo


em sua vida. No começo da vida cristã, eles têm que desejar
ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno lei-
te espiritual, para que, por ele, [lhes] seja dado crescimento
para salvação (lPe 2.2). Todavia, eles não podem ficar para
sempre crianças nem podem continuar a beber apenas leite.
Paulo disse aos crentes de Éfeso que eles não mais fossem
como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao
redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens,
pela astúcia com que induzem ao erro (Ef 4.14).
Quando nós nos guardamos contra o erro, sendo for-
talecidos pela palavra de Deus, então crescemos em graça.

1) CRESCER NA GRAÇA SIGNIFICA CRESCER NO


RELACIONAMENTO COM JESUS CRISTO
Tudo o que diz respeito a esse relacionamento com
Cristo é graça para nós. Não há graça em nós à parte de
nosso relacionamento com ele. Para que cresçamos na gra-
ça é necessário que estejamos em Cristo e permaneçamos
nele. A graça é impossível sem Cristo!
Portanto, quanto mais e melhor nos relacionamos
com Cristo, mais cheia de graça é a nossa vida aqui neste
habitat, antes que ele seja destruído.
A graça é exatamente o oposto da autossuficiência,
o esforço humano para ter acesso a Deus e obter as bên-
çãos junto a ele. Estamos acostumados com o sistema de
mérito que vigora em todas as esferas de nossa vida. Se
você tira boas notas no ensino médio, então pode ir para
a faculdade; se você estuda bastante, pode conseguir um
bom emprego; se você trabalha bem no seu emprego, re-
cebe uma promoção. Tudo neste mundo funciona na base

428
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

do mérito. Então, os homens pensam que nas coisas espi-


rituais o funcionamento é o mesmo: você consegue tudo o
que merece.
É por isso que todos os sistemas religiosos que exis-
tem no mundo operam simplesmente através da teologia
do mérito, porque essa teologia recompensa as nossas rea-
lizações e alimenta o espírito soberbo que existe em nosso
coração. O mérito está no cerne da teologia dos homens. É
impossível pensar de maneira diferente à parte da graça.
O ser interior dos homens está impregnado dessa maneira
de pensar. Mesmo entre nós, cristãos, há segmentos que,
sem perceber, dão margem à teologia do mérito, quando
ensinam que a salvação é uma questão de decisão nossa,
com base em nossa fé , nosso arrependimento etc. , deixan-
do de lado a bondosa graça de Deus. Temos que vigiar
para que não entremos na teologia do mérito, porque essa
teologia combina com a nossa inclinação pecaminosa, que
é oposta ao modo como Deus pensa.
Quando chegamos à esfera espiritual, Deus nos mos-
tra que nada funciona na base do mérito. A graça é exa-
tamente oposta ao sistema de mérito. As bênçãos espiri-
tuais nos são dadas independentemente do que fazemos.
Se há uma coisa que realmente merecemos é o juízo de
Deus, mas as suas bênçãos não vêm com esse sistema. A
graça opera de maneira diametralmente oposta com res-
peito aos que a recebem. Ela é merecida por Jesus Cristo,
mas é concedida a nós sem que a mereçamos. Por isso, a
Escritura diz que pela graça sois salvos (Ef 2.8). Deus nos
dá livremente os seus favores, e nós recebemos alegremen-
te esse maravilhoso dom de Deus . Paulo deixa essa verda-
de muito clara aos crentes de Roma:

Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como


favor, e sim como dívida. Mas, ao que não trabalha, porém
crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída

429
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

como justiça. E é assim também que Davi declara ser


bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça,
independentemente de obras: Bem-aventurados aqueles
cujas iniquidades são perdoadas, e cujos pecados são
cobertos; bem-aventurado o homem a quem o Senhor
jamais imputará pecado (Rm 4.4-8).

A nossa redenção não é um pagamento que Deus


nos dá por nossas obras ou por nosso mérito, mas um fa-
vor imerecido. Deus não é devedor nosso, nem nós somos
seus credores. Somos simplesmente bem-aventurados
pelo perdão que Deus nos dá em virtude do que Cristo
fez por nós. Esta é a graça na qual vivemos e, meditan-
do nela, devemos crescer em nosso relacionamento com
Jesus Cristo.
A graça, diferentemente das obras, é alguma coisa
que nos atinge sem que façamos jus a ela. Ela nos é dada
justamente por estarmos vinculados a Cristo Jesus na
cruz, e essa vinculação relaciona! é desenvolvida por meio
da fé nele.
Quando desenvolvemos o nosso relacionamento com
Jesus Cristo por meio do estudo da Palavra de Deus, da
oração e da obediência aos seus preceitos, então a ideia
de graça se torna ainda mais abundante em nós. Crescer
nesse relacionamento é crescer na sua graça.

2) CRESCER NA GRAÇA SIGNIFICA CRESCER NA


VIDA DE HUMILDADE
Não existe crescimento na graça de Cristo quando vi-
vemos soberbamente, quando pensamos que Deus nos
abençoa pelas qualidades que temos, que a graça é produ-
to de nossas virtudes. Quando agimos soberbamente, re-
cebemos a oposição de nosso Senhor, porque Deus resiste

430
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

aos soberbos (lPe 5.5). No entanto, o mesmo versículo diz


que aos humildes [Deus] concede a sua graça. Então, você
me pergunta: É a nossa humildade a fonte da graça divina
em nós? Isso significa que , para crescer na graça, eu tenho
que ser humilde? Significa que a humildade é o mérito para
o recebimento da graça? Certamente não! A palavra graça
nesse versículo tem o sentido geral de "bênção", não de fa-
vor imerecido. Aqui, Pedro fala da bênção da exaltação dos
que são humildes (lPe 5.6). A humildade em nós já é produ-
to da bondade de Deus para conosco. Ninguém é humilde
por natureza! A soberba está profundamente enraizada em
nós, não a humildade. Quando vemos alguém realmente
humilde, é sinal de que essa pessoa já foi objeto da graça
divina. Quanto mais conhecemos Jesus, mais a humildade
vai tomando conta de nós, e quanto mais humildes, mais
cheios da graça divina somos.
Viver humildemente significa viver na dependência de
Cristo para o próprio crescimento nele.

2. O CRESCIMENTO TEM A VER COM O


CONHECIMENTO DE JESUS CRISTO

antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor


e Salvador Jesus Cristo (2Pe 3 . 18).

Crescer na graça significa crescer no entendimento de


quem o Senhor é. É muito comum vermos pessoas na igreja
de Deus que mal conhecem Jesus Cristo. Por graça bondosa
elas conhecem pessoalmente Jesus Cristo, mas não conhe-
cem quase nada a respeito de Jesus Cristo. Green diz que
"o conhecimento de Cristo e o conhecimento a respeito de
Cristo são, se eles se mantêm juntos, a salvaguarda contra
a heresia e a apostasia e também os meios de crescimento

431
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

em graça". 151 No entanto, esses dois tipos de conhecimento


não seguem juntos na vida de muitos crentes porque eles
não estudam com seriedade a Escritura e, frequentemente,
nas pregações, ouvem pouca coisa significativa a respeito de
quem Jesus é. Em muitas congregações não há estudo sério
sobre a pessoa e obra de Jesus Cristo. Esses crentes sabem
que ele é Salvador, porque é a tõnica de muitas pregações,
mas não conhecem as duas naturezas (divina e humana)
unidas numa só pessoa. Não conhecem quase nada sobre
aquele em quem creem. Por essa razão, não crescem na gra-
ça, porque não há como crescer na graça sem crescer no
conhecimento da pessoa de Jesus Cristo. Tal conhecimento
mantém os crentes longe do erro dos falsos profetas e falsos
mestres que negam a divindade de Jesus.
Como crescer no conhecimento de Jesus? Devemos
estudar a Escritura para investigar a verdade a respeito
de Jesus, desde sua concepção miraculosa até sua morte
e ressurreição.
Na carta aos Filipenses, Paulo dá quatro sugestões so-
bre como deve ser o seu conhecimento em relação a Cristo:

1. CRESÇA NO CONHECIMENTO DA DIVINDADE DE


JESUS

pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como


usurpação o ser igual a Deus (Fp 2.6).

Paulo usa uma expressão muito significativa a respeito


do Filho de Deus encarnado. Ele diz que Jesus tinha flOP<PD 8Eou
(morphe theou), que literalmente significa "forma de Deus".

151 GREEN, Michael. The second epistle of Peter and the epistle of Jude. Eerdmans,
p.lSl.

432
A DESTRUI ÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

Assim, em Filipenses 2.6, morphe significa que nosso


Senhor, em seu estado pré-encarnado, tinha a divinda-
de essencial. Antes da encarnação, o Verbo (ou o Filho)
tinha todas as qualificações do ser divino. Todos os atri-
butos da divindade pertenciam essencialmente ao Filho .
Essa é a sua "subsistência em forma de Deus". No entanto,
não podemos nos esquecer de que a palavra forma, nes-
te caso, não pode ser entendida literalmente, como coisas
que podem ser vistas, contempladas ou apalpadas pelos
homens, devido à natureza puramente espiritual da divin-
dade. A forma de Deus deve ser melhor entendida como se
referindo a atributos divinos gloriosos que não podiam ser
detectados pelos olhos dos homens , mas que podiam ser
percebidos em sua manifestação bondosa, graciosa, mi-
sericordiosa no seu tratamen to com os homens. No AT,
Deus ainda não havia tomado a forma humana e, no en-
tanto, já mos trava os atributos acima mencionados, que
apontam para a sua existência. A expressão grega morphe
theou descreve a existência etema e essencial da deidade
do Verbo. Devemos entender essa expressão como se tra-
tando da sua divindade essencial ou substancial. 152
Todavia, a despeito de sua divindade essencial, ele
resolveu assumir a nossa humanidade no estado de que-
da. A morphe theou do Redentor não impediu a sua en-
carnação. Moisés Silva diz que "o Cristo divino e preexis-
tente não considerou a vantagem de sua divindade como
base para evitar a encarnação; ao contrário, ele estava
desejoso de considerar-se a si mesmo como nada por to-
mar a forma humana". 153
Kenneth Wuest disse que

152
Verifique com mais detalhes esta parte do capítulo no meu livro A
humilhação do Redentor: sua encarnação e sofrimento. São Paulo: Cultura
Cristã, 2008, p. 37-39.
153
SILVA, Moisés. Philippians. Grand Rapids, Ml : Baker Book House, 1992,
p.113 .

433
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

nesse estado de existência pré-encarnada, Paulo diz que


nosso Senhor não tomou como usurpação o ser igual a
Deus. Igualdade com Deus aqui não significa igualdade com
a outra pessoa da divindade, mas igualdade com a deidade
como tal. A palavra Deus é novamente sem artigo. E esta
igualdade aqui não é igualdade na posse da essência divina,
mas em sua expressão, como o contexto indica. Contudo, a
expressão pressupõe a posse dessa essência. 154

O Verbo divino sempre existiu como Deus e nunca o


deixou de ser, mesmo quando encarnou. Portanto, crescer
no conhecimento de Jesus tem a ver com conhecer a sua
divindade .
• Crescer na graça tem a ver com o entendimento da
santidade essencial do Filho segundo a sua divindade. Ele
é imutavelmente santo como seu Pai, porque ambos são
da mesma essência.
• Crescer na graça tem a ver com o entendimento da
soberania de Jesus Cristo. Ele é quem governa este mun-
do , pois reina sobre as nações, sobre os reis e sobre todos
os habitantes da terra. Todas as coisas que acontecem por
aqui, embora muitas contrariem a sua vontade preceptiva,
são o cumprimento dos seus planos soberanos. Tudo o
que está acontecendo é a realização da vontade do Senhor
para a consecução dos desígnios divinos.
• Crescer na graça tem a ver com o entendimento da
justiça de Cristo. Essa justiça tem duas manifestações di-
ferentes: uma relacionada aos cristãos, e a outra, aos ím-
pios. A justiça que Cristo apresentou na cruz satisfez a ira
divina com relação aos cristãos. Eles não devem mais nada
a Deus , pois sua conta foi paga por Jesus . A justiça divina

154
WUEST, Kenneth . When Jesus emptied himself, Bibliotheca Sacra, volum
BSAC 115:458, Apr 1958.

434
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE
----------

se manifestará através de Cristo no final, dia em que ele


haverá de punir os ímpios por causa dos seus pecados.
O conhecimento de quem é Jesus Cristo nos leva a
um senso de pequenez que, por sua vez, gera humildade.
A soberba vem pelo fato de pensarmos que somos bons,
mas, quando olhamos para Cristo, vemos que somos mui-
to pequenos e fracos, que não podemos fazer nada por nós
próprios. Não fora a riqueza de Cristo, jamais sairíamos de
nossa miséria.
Quanto mais olhamos para Jesus, mais vemos a rebe-
lião e o orgulho que há em nós e quanto dependemos dele
para que nos torne humildes. A contemplação de Jesus na
cruz mostra a nossa indignidade perante Deus e também
quanto Deus nos ama em sua graça salvadora através de
Cristo.
Spurgeon, o grande pregador inglês do século 19, dis-
se certa vez numa de suas esplêndidas pregações:

Se você, caro amigo, quiser ser verdadeiramente humilde,


deve olhar para o seu Salvador, porque, então, você dirá[ ... ]
"Ele dedicou sua vida por um verme como eu?" Você nunca
se sentirá tal verme senão quando, pela fé, puder ver o seu
Salvador morrendo em seu favor; você nunca conhecerá
a sua própria insignificância tão bem senão quando vir a
grandeza do Salvador. Quando você crescer na graça e no
conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo,
estará certo de crescer na graça. 155

155
SPURGEON, C. H. Metropo/itan tabernacle pulpit. Pilgrim Publications, vol.
46, p. 539-540.

435
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Quanto mais conhecermos os atributos de Jesus


Cristo e sua grande devoção a nós, mais humildes seremos
e mais cresceremos na graça. Lloyd -J ones disse que
Pessoalmente eu posso estar certo de que estou
crescendo na graça se tenho um crescente senso de
minha própria pecaminosidade e de minha própria
indignidade; se eu vejo mais e mais o negror de meu
próprio coração. 156

Quanto mais olhamos para Cristo, mais amamos a


Cristo e menos estima temos por nós próprios!I 57 Quanto
mais conhecemos os atributos do nosso Redentor, mais
crescemos espiritualmente. Quanto mais o admiramos,
mais somos induzidos a ser parecidos com ele!

2. CRESÇA NO CONHECIMENTO DA HUMANIDADE DE


JESUS

antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma


de servo, tornando-se em semelhança de homens; e,
reconhecido em figura humana (Fp 2. 7) .

Paulo mostra um segundo aspecto em que podemos


conhecer o Filho de Deus. O versículo 7 nos diz que Jesus
Cristo, mesmo sendo Deus, subsistindo como Deus, teve
uma maneira de existir muito próxima de nós. O Filho de

156 LLOYD-JONES, Martyn. Expository sermons on 2 Peter. Banner of truth, p.


251.
COLE, Steven J., em seu sermão Guarding, growing, g/orifying, disponível
157

em: <http ://www.fcfonline.org/content/1/sermons/050210M.pdf>,


accessado em: 07/06/2013.

436
A DESTRU IÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

Deus teve que encarnar, ou seja, teve que assumir a nos-


sa humanidade. Foi um grande salto passar da divindade
para a humanidade, mas sem nunca deixar de ser Deus.
Sendo Senhor, por amor de nós, ele assumiu a f!Op<j)~v
8oÚÀ.ou ( morphen doulou), que literalmente significa forma
de servo .
É maravilhoso ver como o Filho de Deus se portou na
encarnação, quando ele teve que assumir a forma de ser-
vo de duas maneiras: ele veio a serviço de seu Pai e para
fazer a vontade de seu Pai e, ao mesmo tempo, veio servir
a homens.

A) CRESÇA NO CONHECIMENTO DE JESUS COMO SERVO DE DEUS

A Escritura apresenta Jesus Cristo como um servo


de Deus. Em Isaías 52.13 ele é chamado por Deus de meu
Servo, expressão que aparece novamente em outros luga-
res (Is 53.11; Zc 3.8). Como servo do Senhor, Jesus Cristo
teve que vir ao mundo para fazer todas as coisas ordena-
das por seu Pai. Ele é servo de Deus no sentido de ser obe-
diente a ele , cumprindo todas as suas determinações para
a redenção do pecador.
Como um servo de Deus, o Filho encarnado tomou
algumas atitudes admiráveis e dignas de serem imitadas
por seus irmãos mais novos.
1. Como servo, ele pôs de lado a sua posição
Quando encarnou, o Verbo não perdeu a sua realeza.
Na encarnação, o Filho de Deus desceu de sua posição di-
vina, mas não deixou de ser Deus. Em vez de assumir a sua
posição de Legislador do Universo, ele se colocou debaixo
da lei para obedecer a todos os preceitos dela. Ele deixou
de lado a sua posição de Legislador, não fazendo uso das
suas prerrogativas de Legislador. Em vez de assumir a po-
sição de Rei e governador do Universo, ele se colocou na
posição de servo humilde. Ele tinha todas as prerrogativas

437
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

de sua realeza, mas não fez uso delas. Ele abriu mão de
usá-las enquanto em seu estado de humilhação. Ele não
fez uso de suas posições honrosas; antes, submeteu-se à
lei, sendo servo de Deus para executar a obra de redenção
conforme determinada desde a eternidade.
Tentando entender esse assunto nas nossas relações,
podemos ilustrar da seguinte maneira. Certa vez eu assu-
mi a posição de diretor de uma escola, uma posição que
era superior à de outras pessoas que trabalharam comigo.
Uma posição de autoridade. Essa era a posição que Cristo
tinha- a de plena autoridade.
Em determinado dia, essa posição foi tirada de mim.
Eu nunca deixei de ser o que sempre fui, um homem. Não
perdi os meus atributos, apenas a autoridade que tempo-
rariamente me fora confiada, e não mais a exerci. A grande
diferença entre Jesus e a minha situação é que, no meu
caso, a autoridade me foi dada por outros e também tirada
por eles. No caso de Jesus Cristo, ninguém tirou a autori-
dade dele. Ele abriu mão dela voluntariamente, para estar
na posição de servo.
É importante que se destaque que o Filho encarnado
não abriu mão de seus atributos divinos. Ele continuou
a ser o que sempre foi, mas abriu mão do uso de alguns
deles enquanto no estado de humilhação. É essa a ideia
de esvaziamento que Paulo menciona em Filipenses 2.6,7.
2. Como servo, ele pôs de lado os seus privilégios
Quando pôs de lado a sua posição, Jesus também abriu
mão de seus privilégios. Um servo não tem privilégios, mas
deveres. Nas relações entre um senhor e seu servo, pode-
mos perceber essas diferenças. Numa casa, o senhor come
primeiro, o servo come depois; o senhor come do melhor, o
servo come do que sobra; o senhor entra por uma porta, o
servo, por outra; o senhor sobe por um elevador, o servo,
por outro; o senhor mora num lugar especial, o servo, no

438
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

quarto dos fundos; o senhor é livre para fazer o que quiser,


e o servo só faz o que o senhor manda; e assim por diante.
De modo semelhante, Jesus Cristo poderia reivindi-
car todos os privilégios porque tinha esse direito, mas ele
abriu mão dos privilégios justamente porque veio para ser
servo, renunciando à sua posição.
Enquanto alguns de seus discípulos procuravam os pri-
vilégios da posição, ou seja, a autoridade e o prestígio, nosso
Senhor ensinou uma lição muito preciosa que todos os ser-
vos deveriam aprender (veja Me 10.42-45). Nunca exigiu de
seus discípulos algo que ele mesmo não tenha feito.
3. Como servo, ele pôs de lado as suas posses
O apóstolo Paulo ensinou aos seus companheiros de
fé da igreja de Corinto o exemplo de humildade de Jesus
Cristo, que deveria ser imitado por todos os cristãos. Ele
ensinou sobre abrir mão de nossas posses.
Análise de texto

pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que,


sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela
sua pobreza, vos tornásseis ricos (2Co 8.9).

1. OBSERVE A POBREZA DO FILHO ENCARNADO

sendo rico , se fez pobre

Sendo rico, dono e possuidor de toda a terra, nosso


Senhor pôs de lado o seu direito de posse sobre todas as coi-
sas. Nada do que ele teve aqui, enquanto estava neste mundo,
lhe pertencia. Ele viveu como se fosse um pobre. O lugar em
que nasceu não lhe pertencia. Emprestaram-lhe uma manje-
doura num estábulo; ele cavalgou para entrar triunfalmente

439
O HA BITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

em Jerusalém, mas montado num jumento emprestado; ele


foi julgado com um manto real que alguém lhe emprestou; ele
morreu e foi colocado numa sepultura emprestada; sua vida
toda viveu sem teto, pois não tinha onde reclinar a cabeça.
Ele se fez pobre, mais pobre até que muitos chamados pobres
hoje, mesmo sendo Senhor do Universo e dono de tudo!
Ele abriu mão de suas posses, pois havia aberto mão
de seus direitos, porque havia aberto mão de sua posição.
2. O BSERVE O MOTIVO DA POBREZA D O FILHO ENCARNAD O

sendo rico , se fez pobre por amor de vós

É importante que se entenda no texto original a expres-


são que , em nossa língua, se traduz como por amor de vós.
A expressão não tem nada a ver com "o amor de Deus", seja
através do verbo ayaTiaw (amar) ou <j:> LÀ.Ew (amar). Na verda-
de , a expressão grega é 8w Vilas , que significa simplesmente
"por causa de vós". Embora admitamos que Deus ama o pe-
cador e, por causa disso, enviou o seu Filho, não podemos
bater o pé em cima deste texto para provar o ponto. O que
moveu Jesus Cristo a abrir mão de suas posses, fazendo-se
pobre, foi a sua preocupação por aqueles no lugar de quem
estava sendo humilhado. Não somente tornou-se homem
por nós , mas tornou-se pobre por causa de nós. Foi uma
preocupação que levou Jesus a ser o nosso substituto, to-
mando a nossa pobreza e transferindo-a para si.
3. O BSERVE O ALVO FINAL DA POBREZA DO FILHO ENCARNAD O

...para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos .

O texto fala que ele era rico em sua glória celestial


preexistente (lCo 8.6; Cll.lS-17). Como Deus que era, ele
estava no domínio de todas as coisas. Tudo lhe pertencia.

440
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

Ele era igual em poder e glória a seu Pai. Ele possuía todas
as riquezas celestiais e vivia adorado pelas hostes celestes.
Mas ele abandonou essa riqueza para assumir a nossa hu-
manidade com pobreza, viveu a vida em pobreza e morreu
em pobreza, para nos colocar numa posição que nunca
tivemos.
Quando o Verbo encarnou, ele se tornou pobre, e fez
isso para que vos tornásseis ricos. De um estado de po-
breza, Deus nos colocou num estado de honra, dando-nos
bênçãos celestiais (Ef 1.3). Além disso, ele ainda nos fez
assentar em lugares celestiais, por meio de Cristo (Ef 2.6).
Isso significa que ele nos tornou ricos como nunca fomos
nas coisas deste mundo. A riqueza aqui tem uma conota-
ção bem mais profunda do que simplesmente a posse de
bens materiais. Ela significa a posse das riquezas indizí-
veis que pertencem aos filhos de Deus, que são co-herdei-
ros com o Filho Unigênito. Ele nos colocou numa posição
de bem-aventurados, de cidadãos do reino.
4. ÜBSERVE A FONTE ÚLTIMA DE SUA ATITUDE DE POBREZA

pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo

Os crentes de Corinto já haviam experimentado a graça


de Deus em sua vida. Era a graça de Deus a fonte última da
atitude de Jesus Cristo de assumir a pobreza para tomar os
crentes de Corinto ricos. Lembre-se de que a igreja de Corinto
era cheia de problemas morais e divisões. No entanto, Deus
foi bondoso para com ela, ensinando-lhe que tudo o que os
crentes recebem é produto da graça de Deus, demonstrada na
preocupação amorosa de Jesus Cristo por eles.
Paulo está querendo dizer que não fazemos jus a nada
do que acontece de bom em nossa vida. Tudo o que rece-
bemos é produto da manifestação bondosa de Deus em
Cristo. Este é o motivo supremo do qual todas as coisas

441
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

dependem. Paulo acabara de ensinar que as atitudes bon-


dosas dos crentes da Macedônia para com as necessidades
dos santos eram produto da atividade graciosa de Deus
(2Co 8.1,4). O que Paulo estava pedindo aos crentes de
Corinto é que eles aprendessem a manifestar essa graça
de maneira abundante (2Co 8.7). Todavia, isso não era um
mandamento para os crentes de Corinto, mas uma manei-
ra de testar a sinceridade do amor deles (2Co 8.8). Então,
para ilustrar o que estava ensinando, ele se refere à graça
de Cristo, que se fez pobre para tornar outras pessoas ri-
cas. Essa é a atitude graciosa que devemos aprender a ter,
imitando o nosso Redentor no serviço aos santos.

B) CRESÇA NO CONHECIMENTO DE JESUS COMO SERVO DOS HOMENS

O próprio Senhor Jesus afirmou claramente o seu


propósito de ser servo dos homens.
1. Observe a missão do Filho encarnado como ser-
vo dos homens

Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido,


mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos (Me
10.45).

Nesse versículo, o Redentor mostra que tinha direitos ,


embora estivesse no estado de humilhação, pois ainda era
Senhor. O Filho do Homem não veio para ser servido. Isso
implica que ele poderia requerer diante dos homens os seus
direitos de ser servido, porque era Senhor do Universo. Ele
tinha o direito de exigir adoração deles, mas não exigiu; ele
era melhor do que todos os homens, mas nunca disse isso;
ele tinha o direito de ser honrado, mas não o requereu; ele
tinha o direito de ser servido, pois era Senhor e Rei, mas

442
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALM ENTE

não o exigiu. Simplesmente ele abriu mão de seus direitos,


privilégios e posses para poder ser servo dos homens.

2. Observe a ilustração do Filho encarnado como


servo dos homens
De uma maneira semelhante ao que já foi referido,
Jesus se colocou na posição de servo dos homens, mesmo
sendo Senhor! Veja o que ele, sendo Senhor, fez como ser-
vo dos homens:

Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque


eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei
os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros .
Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz,
façais vós também (J o 13 . 13-15).

Ele lavou os pés dos seus discípulos. Esta é a ilus-


tração mais impressionante da atitude de servo dos
homens que Jesus tomou. Nunca os discípulos poderiam
imaginar que Jesus fosse fazer uma coisa dessa, que era
sinônimo de servidão e humilhação. Por isso é que Pedro
relutou em deixar Jesus lavar os seus pés (Jo 13.8). Isso
era próprio dos escravos em relação aos seus senhores.
No entanto, Jesus lhes lavou os pés porque ele veio numa
posição de servo.

c) CRESÇA NO CONHECIMENTO DE JESUS COMO UM HOMEM REAL

... antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma


de servo, tornando-se em semelhança de homens; e,
reconhecido em figura humana (Fp 2. 7).

443
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

O esvaziamento humilhante foi algo real na vida do


Redentor, não apenas uma aparência. Ele não agiu como
se tivesse personalizado um ser humilhado, nem agiu
como se fosse um servo, mas ele foi realmente um servo e
de fato se humilhou, perante os homens e perante Deus.
Como servo, ele assumiu a forma de homem, pois somente
um ser criado pode ser servo.
Há duas expressões que apresentam um hebraísmo
na versão de Paulo: "tornando-se em semelhança de ho-
mens" e "reconhecido em figura humana". Além de ter a
"forma de servo", o texto diz que ele tinha uma morphe an-
thropou, ou seja, a "forma de homem", sendo "reconhecido
em figura humana". Ele se fez igual a nós para poder levar
sobre si a penalidade de nossos pecados. Se não tivesse
alma como a nossa e corpo como o nosso, ele não poderia
ser castigado em nosso lugar. É muito importante ter essa
visão da humanidade do Redentor. Sem a sua humanida-
de, o Filho de Deus não poderia ser o nosso Redentor.
Essas duas expressões apontam para o fato de o
Redentor ser real e verdadeiramente homem. Embora a
natureza humana tenha sido honrada pelos privilégios de
estar unida à divindade do Redentor, a condição em que o
Verbo assumiu a nossa humanidade era de humilhação.
Ele a assumiu com todas as características resultantes de
nossa pecaminosidade. O seu sofrimento e as suas dores
não foram fictícios, mas reais, porque a sua humanidade
era real. Ainda que, segundo a sua divindade, o Redentor
não pudesse ser contido pelo Universo, pois sua divindade
é semelhante à daquele que está acima e além do Universo,
não obstante, quando ele encarnou, passou a fazer parte
da criação, sendo um homem como todos nós, tendo to-
das as propriedades que nós temos, inclusive tomando a
nossa forma física. Ele não era um fantasma, com apenas
uma aparência de homem, mas era de fato um ser huma-
no como todos os outros que vieram da família de Adão,
embora não tenha sido contado como culpado.

444
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

Ao assumir a nossa humanidade ou, para ser um pou-


co mais específico, a nossa corporeidade, ele foi visto, ouvi-
do, contemplado, apalpado (lJo 1.1), 158 o Filho encarnado
se apresentou como um homem real. Sua humanidade não
difere da nossa, exceto na questão do pecado. Apenas sua
santidade diferencia a sua humanidade da nossa. Todas as
demais propriedades ele teve. Ele comeu, bebeu, dormiu,
sofreu, suou, suportou dores e teve alegria como os homens
têm. Quem via Jesus Cristo, via-o primordialmente como
um homem. A sua divindade foi percebida por seus atos,
e crença na divindade veio àqueles que tiveram seus olhos
abertos. Todavia, mesmo o incrédulo em Jesus Cristo per-
cebia que ele podia ser reconhecido em figura humana, à
semelhança de todos os outros homens.

D) CRESÇA NO CONHECIMENTO DE JESUS, QUE VOLUNTARIAMEN-


TE SE ESVAZIOU DA SUA GLÓRIA PARA SER SERVO

antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo aforma


de servo, tomando-se em semelhança de homens; e,
reconhecido em figura humana (Fp 2. 7).

Não é dito na Escritura que alguém o esvaziou ou que


ele foi esvaziado de forma absolutamente passiva, mas o
texto diz que o Verbo a si mesmo se esvaziou. Foi uma ação
voluntária dele. Embora fosse Deus, tivesse todas as pro-
priedades divinas, o Verbo resolveu assumir a forma de ser-
vo no conselho trinitário 159 • Mesmo no pacto da redenção 160 ,
ele se tomou voluntário para a obra de esvaziamento.
158
Para ter uma noção maior do combate de João ao gnosticismo de sua
época, leia o meu livro As duas naturezas do Redentor. São Paulo: Cultura
Cristã, 2004, p. 349-357.
159
Veja sobre este assunto no meu livro As duas naturezas do Redentor, p. 27-47.
160
lbid, p. 51-98.

445
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Por amor daqueles que seriam seus irmãos, o Verbo


resolveu se esvaziar, assumindo um estado desonroso e
inglório. Essa voluntariedade do esvaziamento é um dos
fatores por que Deus o aceitou como representante de pe-
cadores e aponta para o seu amor por nós. Ele decidiu de
maneira voluntária assumir uma condição humilhante
de esvaziamento para que pudesse exercer sua obra sacer-
dotal para a nossa redenção.

3. CRESÇA NO CONHECIMENTO DE JESUS COMO


SALVADOR

a si mesmo se humilhou, tomando-se obediente até à


morte e morte de cruz (Fp 2.8).

1) CRESÇA NO CONHECIMENTO DO FILHO DE DEUS, QUE ASSU·


MIU A FUNÇÃO DE SALVADOR VOLUNTARIAMENTE

.. .a si mesmo se humilhou, tomando-se obediente até à


morte e morte de cruz (Fp 2.8).

Jesus Cristo não veio a este mundo para sofrer como


s e fosse empurrado para uma obra que ele relutava em fa-
zer. A obediência humilhante a que se submeteu foi volun-
tária. Ele se colocou sob a lei desejosamente, sem nenhum
constrangimento, nem mesmo de seu Pai.
A vida de nosso Redentor não foi violentamente ar-
rancada deste mundo. Na verdade, ele não foi vencido
pela morte ou pela sanha maligna de seus opositores, mas
se entregou ao sofrimento humilhante, que culminou na
morte, de maneira voluntária. Se ele tivesse sido assas-
sinado, tendo sua vontade contrariada, nunca se poderia

446
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

dizer que ele foi obediente até à morte e morte de cruz.


Se ele tivesse sido assassinado, tendo sua vida arrancada
violentamente, de maneira a contrariar sua vontade, como
poderíamos entender que ele se entregou a si mesmo para
ser morto? A morte de Jesus Cristo é produto de uma en-
trega voluntária de sua obediência passiva. Ele se ofereceu
voluntariamente para, obedecendo, sofrer e morrer pelos
pecados de muitos.
Se a morte de Jesus fosse involuntária, não se poderia
dizer que ele entregou a si mesmo, ou que ele foi obediente.
Na verdade, ele tinha domínio sobre a situação, pois era po-
deroso. Ele disse perante os que o prendiam que poderia pe-
dir a seu Pai para mandar legiões de anjos e derrotar todos os
seus inimigos (Mt 26.53). Quando a corja inimiga apareceu
para prendê-lo, ele não fugiu espavorido. Apenas se entregou
voluntariamente a eles (Jo 18.3-8), não porque era impoten-
te para uma reação violenta, mas porque sabia que tinha de
cumprir as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder
(Mt 26.54). Ele era o Redentor divino, não apenas humano.
O seu poder foi sobrepujado por seu próprio ato de obediên-
cia passiva. Em vez de reagir com a violência do seu poder,
ele se entregou voluntariamente à morte para poder redimir
pecadores. Ele se deixou sofrer e morrer voluntariamente em
beneficio e a favor de todo o seu povo.
No Antigo Testamento é dito que o Servo Sofredor foi
voluntariamente para o matadouro, sem abrir a sua boca
(Is 53.7). Não questionou a vontade divina que vinha so-
bre ele, a despeito da maldade dos seus executores, de
fazer com que a iniquidade de todos caísse sobre ele. Essa
voluntariedade do Redentor em sua obediência passiva é
algo inefável para nós. Não há nada neste mundo que se
compare a uma oferta de si mesmo tão maravilhosa!
Um dos grandes méritos da obediência passiva de
Jesus Cristo é a sua voluntariedade. Ele se dispõs a sofrer
a consequência dos nossos pecados a ponto de ser dito que
ele, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou

447
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à


destra do trono de Deus (Hb 12.2). A dignidade do sofre-
dor obediente e a voluntariedade do seu sacrificio como
um ato de obediência à vontade de Deus são coisas que
tornam Cristo merecedor da redenção de todos os irmãos
que lhe foram entregues pelo Pai. 161 Se não houvesse avo-
luntariedade de Jesus Cristo em sua obediência passiva,
não haveria nenhum mérito em seus sofrimentos e morte.
O ápice dessa voluntariedade é encontrado no evange-
lho de João, onde Jesus diz que a sua morte é uma entrega
voluntária de si mesmo. Ninguém tem o poder de tirar a
vida dele. Ao contrário, ele daria sua vida espontaneamen-
te, assim como espontaneamente poderia tê-la de volta (Jo
10.17, 18). A voluntariedade desse ato de Jesus Cristo é algo
extremamente admirável e deveria despertar em nós não
somente um senso de admiração, mas de gratidão e reco-
nhecimento de sua santa bondade para conosco.
Veja o que ele diz de si mesmo:

Então, eu disse: Eis aqui estou (no rolo do livro está


escrito a meu respeito), para fazer, ó Deus, a tua vontade
(Hb 10.7).

Aliás, fazer a vontade de seu Pai era a sua comida.


Quando o Filho encarnou, ou entrou no mundo, ele o fez
com d isposição. Ele se apresentou e disse: eis aqui estou.
Essas palavras são sacadas do Antigo Testamento (8140.6-
8) e colocadas na boca do Messias.
Ele se antecipou a qualquer coisa, mostrando-se vo-
luntário para uma tarefa humilhante e dificil, para ser o

Esta ideia está patente no artigo-sermão de Philpot, Meditations on


161

sacred humanity- The redeemer's humiliation, disponível em: <http:/I


www.truegospel.net/Philpot/057.htm>, acessado em: 01/12/2005.

448
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

Salvador. Era humilhante para Jesus ter de obedecer, por-


que ele era o Legislador e, agora, estava sob a lei, mas ele
abriu mão da "vergonha" da humilhação, enfrentando ga-
lharda e voluntariamente a sua tarefa.
Não houve nenhuma compulsão externa, somente
uma compulsão interna produzida pelo amor que ele tinha
por aqueles que foram chamados seus "irmãos". Assim
como o amor de Cristo nos constrange (2Co 5.14) a não vi-
vermos para nós próprios, mas para aquele que morreu e
ressuscitou por nós, assim também, em certo sentido, po-
demos dizer que ele foi constrangido pelo próprio amor que
tinha pelos seus. O Filho encarnou, obedeceu e morreu
por seus irmãos. Essa compulsão interna de amor é que o
levou a se voluntariar para essa missão redentora. Afinal
de contas, o Filho encarnado se ofereceu porque os filhos
de Deus lhe foram dados, pois ele era o herdeiro de todas
as coisas (Hb 1.2). Coube ao Filho a herança de Deus, que
são os seus filhos. Ele tinha de fazer alguma coisa por eles.
Eles eram sua propriedade, porque está escrito que a por-
ção do SENHOR é o seu povo (Dt 32.9; cf. Jo 17.6,10). O Filho
não os poderia deixar entregues a si mesmos, pois eles
não seriam capazes de fazer nada para a sua redenção.
Então, ele veio ao mundo voluntariamente para obedecer
humilhantemente no lugar deles. Além de chamar os que
o Pai lhe tinha dado de "irmãos" (Hb 2. 11), essas mesmas
pessoas são consideradas por ele como sua "noiva". Então,
ele se voluntariou alegremente para fazer algo em favor da
eleita do seu coração. Dessa sua esposa (ou do seu povo),
ele diz: Com amor eterno eu te amei; por isso, com benigni-
dade te atraí (Jr 31.3; cf. Os 2.19,20).
Essa decisão voluntária de sofrer e morrer no lugar
do seu povo, que é incapaz de obedecer por si mesmo, se
deu nos tempos eternos, quando nada havia ainda além de
Deus. Não havia terra, nem os campos, nem parte alguma
do Universo. Nesse "tempo sem tempo", ele se apresentou ao
conselho trinitário, ou mesmo quando se estabeleceu o pacto

449
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

da redenção, e alegremente se propôs a fazer uma grande


obra de obediência em lugar da sua amada, o seu povo.
A queda colocou o povo de Deus numa condição de-
plorável, cheia de morte e poluição. O seu povo estava sem
Deus e sem esperança no mundo. A imagem de Deus, ou-
trora perfeita, agora estava desfigurada, o relacionamento
da criação com Deus havia sido perdido na queda. Os ho-
mens estavam sob a ira divina e eram merecedores dela.
Mas a graça interveio sobre eles porque o Filho se volunta-
riou para obedecer no lugar dos desobedientes.

2) CRESÇA NO CONHECIMENTO DO FILHO DE DEUS, QUE ASSU-


MIU A FUNÇÃO DE SALVADOR ATRAVÉS DA OBEDIÊNCIA

a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à


morte e morte de cruz (Fp 2 .8).

Tanto a obediência ativa como a obediência passiva


estão presentes nesse versículo. Jesus não poderia obe-
decer passivamente se não tivesse obedecido ativamente.
Porque ele era impoluto na obediência vicária ativa a todas
as prescriçôes divinas, foi aceito para tomar o lugar dos
pecadores no sofrimento e na morte vicários.
A obediência de Jesus Cristo à lei de Deus foi subs-
titutiva. Os pecadores a quem ele amou não teriam qual-
quer chance de cumprir todas as exigências da lei para
terem vida. Afinal de contas, a vida eterna vem pelo conhe-
cimento da lei. Então, o Filho voluntariamente se coloca
no lugar da sua amada, do seu povo, dos seus, e obedece
por eles. Essa obra do vicariato é mencionada várias vezes
na Escritura, porque Jesus Cristo é considerado nela o
representante de pecadores. Estes, por causa de seus pe-
cados , caíram e se tornaram devedores de obediência à lei

450
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

de Deus e não tinham nenhuma condição de satisfazer as


exigências dele para obedecer ativamente, nem para sofrer
o castigo das penalidades que os pecados merecem. Não
tinham esperança se quisessem contar consigo mesmos.
Todavia, o Filho, conhecedor de todas as coisas mesmo
antes de acontecerem, se apresentou voluntária e vica-
riamente para obedecer em lugar deles. Esta obediência
acontece da seguinte maneira: Se Jesus Cristo é o repre-
sentante, ou vigário, do seu povo, ele toma o lugar do povo
e obedece, de forma que a obediência de um só é conside-
rada a obediência de todos aqueles que ele veio remir.
Veja o que Paulo diz:

Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos


se tomaram pecadores, assim tambêm, por meio da
obediência de um só, muitos se tomarão justos (Rrn 5.19).

Assim como todos os seres humanos representados por


Adão se tornaram pecadores por causa da desobediência de
um só, assim também, por causa da obediência substitutiva
de um só, muitos desses pecadores se tornam justos. Em
ambos os casos há representantes. O primeiro Adão é repre-
sentante da velha humanidade, e o segundo Adão é repre-
sentante da nova humanidade. O que um faz é considerado
o ato de todos os que ele representa. Portanto, a obediência
de Cristo é considerada a nossa obediência porque é vicária.
Então, Deus aceitou a obediência ativa e vicária de seu
Filho em favor do seu povo porque é a obediência de alguém
que é puro e santo, satisfazendo assim as exigências da
santidade punitiva de Deus. Aquele que não conheceu peca-
do, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos
justiça de Deus (2Co 5.21). Todas as coisas que Cristo fez
por nós ele o fez vicariamente, incluindo a obediência ativa
à lei e passiva no sofrimento das penalidades da lei.

451
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Jesus foi constrangido por seu próprio amor a vir ao


mundo, sujeitando-se à obediência (Ef 5.25-27). Não ha-
veria a vivificação de pecadores se o Filho de Deus não
obedecesse voluntária e ativamente às leis divinas e passi-
vamente aos castigos impostos pela justiça divina.
Através de um ato puramente voluntário, obede-
cendo a um trato feito na eternidade com a divindade,
o Filho deu -se a si mesmo em favor de sua noiva, seu
povo, seus irmãos. O texto de Ezequiel 16 mostra como
o Senhor se compadeceu voluntariamente daquela que
era filha abandonada, suja, desgrenhada e desprezada.
Ninguém havia feito nada por ela, nem lhe dava atenção.
Ela estava numa situação calamitosa. Então, o profeta
diz que Deus a amou, limpando-a, dando-lhe roupa fina
para vestir, enfeites para os cabelos, as orelhas e o nariz.
O Senhor a tornou bela como nunca havia sido antes.
Esse texto de Ezequiel aponta para o gesto voluntário
de amor de Cristo por sua noiva, colocando-se no lugar
dela, obedecendo por ela e, através disso, santificando-a
e purificando-a (Ef 5.25-27).
Ativa e voluntariamente Jesus Cristo obedeceu a todos
os preceitos da lei movido por amor, para que a sua amada
não tivesse o trabalho (impossível para ela) de obedecer, já
que havia caído em pecado e desesperança. Jesus ativamen-
te obedeceu movido por seu grande e gracioso amor por ela!

3) CRESÇA NO CONHECIMENTO DO FILHO DE DEUS, QUE ASSU-


MIU A FUNÇÃO DE SALVADOR ATÉ AS ÚLTIMAS CONSEQUÉNCIAS

a si mesmo se humilhou, tomando-se obediente até à


morte e morte de cruz (Fp 2.8).

452
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

Jesus Cristo não mediu esforços para exercer a sua


função de Salvador. Ele trilhou até o final o caminho da
humilhação, sofrendo o que os pecadores deveriam pesso-
almente sofrer. A ira divina exige a morte como pagamento
de pecado. Jesus não titubeou em chegar ao limite máximo
do seu amor por aqueles por quem veio a este mundo.
A morte , em si mesma, já é uma grande punição . E
essa punição se torna ainda mais cruenta e sangrenta
quando pensamos na morte de cruz. Esta era uma morte
maldita, digna somente dos homens mais vis e inimigos
do império . Os romanos nunca permitiriam que um ci-
dadão romano sofresse esse tipo de morte , tão grandes
eram a dor e a agonia que causava. Jesus sofreu o tipo
mais dolorido de morte porque foi pendurado em sua car-
ne no madeiro.
Deus considerava maldito todo aquele que fosse pen-
durado no madeiro. Jesus foi o maldito de Deus . Veja o
que a Escritura diz:

Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio


maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo
aquele que for pendurado em madeiro), para que a bênção de
Abraão chegasse aos gentios, em Jesus Cristo, a fim de que
recebêssemos, pela fé, o Espírito prometido (Gl 3.13, 14).

Porque Jesus, o maldito de Deus, sofreu a morte de


cruz, hoje nós, os gentios , temos a bênção de Abraão sobre
nós. Como consequência, recebemos o Espírito Santo que
havia sido prometido em tempos antigos.
Jesus Cristo foi até as últimas consequências por
causa de seu amor por nós. Precisamos, neste tempo pre-
sente, crescer no conhecimento de Jesus como Salvador,
antes que ele volte para destruir o presente habitat.

453
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

4. CRESÇA NO CONHECIMENTO DE JESUS COMO


SENHOR

Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o


nome que está acima de todo nome, para que ao nome de
Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo
da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor,
para glória de Deus Pai (Fp 2. 9-11).

É significativo que Pedro enfatize várias vezes a ex-


pressão nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2Pe 1. 11;
2.20; 3 . 18). Pedro foca seu pensamento numa pessoa que
não somente é o Salvador, mas que também é Senhor. Não
há como separar essas duas qualidades essenciais do Filho
de Deus encarnado em sua missão neste mundo. Quando
você confia em Jesus como Salvador, imediatamente você
se confia a Jesus como Senhor. Estas são duas facetas im-
prescindíveis em Cristo para o seu crescimento nele.
O texto de Filipenses apresenta outra faceta de Jesus
Cristo que você e eu não podemos ignorar. Ao contrário ,
precisamos crescer no conhecimento da exaltação e do se-
nhorio de Jesus Cristo , que o texto em estudo mostra com
grande majestade!
A) 0 FILHO DE DEUS FOI EXALTADO SINGULARMENTE PELO PAI

Pelo que também Deus o ex altou sobremaneira (Fp 2 .9).

O senhorio de Jesus Cristo é visto na sua exalta-


ção gloriosa, que é singular! Como recompensa pelo sofri-
mento vicário em sua obediência, Deus Pai contemplou o
Filho encarnado com uma glória soberana! Ser exaltado
significa ser colocado nas maiores alturas , numa posição

454
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

superior. Ele foi exaltado como nenhum outro foi ou será.


Nunca ninguém superará Jesus Cristo em exaltação por-
que ele foi incomparável em sua humilhação!
Quando pensamos em Jesus Cristo exaltado o má-
ximo possível, ainda não conseguimos entender a majes-
tade da sua exaltação. Por essa razão, sem poder expli-
car a exaltação de Jesus com simples palavras, Paulo diz
que Deus o exaltou sobremaneira, ou seja, além de toda
medida.

B) 0 FILHO DE DEUS FOI EXALTADO PELO PAI COM UM NOME


SUPREMO

Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o


nome que está acima de todo nome (Fp 2.9}.

O Redentor teve muitíssimos nomes que apontam


para suas características, seus atributos, suas funções,
seus títulos etc., 162 mas nenhum outro nome é mais signi-
ficativo do que o nome Jesus.
Conheço algumas pessoas que têm o nome Jesus,
mas nenhuma delas se aproxima em beleza, em for-
mosura de caráter, em poder e glória de Jesus Cristo.
Só há um Jesus que foi honrado por seu Pai de modo

162
Jesus Cristo é conhecido por muitos nomes. Alguns deles são os seguintes:
Redentor, Salvador, Segundo Adão, Ungido, Apóstolo, Autor e consumador da
fé, Alfa e Ômega, Primogênito de toda a criação, Amado, Pão, Noivo, Estrela
da Manhã, Bispo de nossas almas, Capitão da salvação, Pedra, Maravilhoso
Conselheiro, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz, Eleito, Libertador, Porta,
Desejado das Nações, Emanuel, Amigo, Marido, Primícias, Fiel Testemunha,
Cabeça da Igreja, Semente de Davi, Sacerdote, Nossa Páscoa, Profeta, Rei, Justo,
Mestre, Raiz de Davi, Verdade, Vida, Caminho, Testemunha Fiel, Sabedoria de
Deus, Pastor, Filho de Deus, Filho do Homem, Rosa de Saram, Nazareno, Rei de
Israel, Rei dos reis e Senhor dos senhores, Filho Amado etc.

455
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

supremamente elevado: o próprio Filho encarnado que


assumiu a forma de servo e veio a ser chamado Jesus!
Somente ele é, ao mesmo tempo , Filho de Deus e Filho
do Homem! Somente ele pode fazer uma obra redentora
como fez! Somente ele pode descer ao inferno e ressusci-
tar em glória pelo seu próprio poder, reconciliando Deus
com os homens e estes com Deus. Não existe nenhum
Jesus igual a esse!
Por esse nome, Jesus é amado ou odiado. Os que são
salvos por ele o amam, mas os que não são objeto do seu
amor o odeiam. Para os cristãos, nenhum nome é tão pre-
cioso, doce ou mesmo majestoso como o nome Jesus. No
meu entendimento, esse é o nome que está acima de todo
nome! Nenhum dos nomes ou títulos atribuídos a ele na
Escritura se equipara a esse nome!
Ao menos por duas razões posso dizer que o nome
Jesus supera todos os outros nomes:

a) O nome supremo, que está acima de todo nome,


foi dado por Deus
Quando os nossos filhos nascem, nós lhes damos o
nome que achamos melhor. Mas não foram Maria e José
que deram o nome ao filho que lhes nasceu na estrebaria,
em Belém da Judeia. O nome foi dado por Deus. Por ordem
divina, o anjo disse a José:

Ela dará à luz um .filho e lhe porás o nome de J esu s,


porque ele salvará o seu povo dos pecados deles (Mt 1.21) .

Deus não permitiu que ninguém o nomeasse, mas ele


mesmo escolheu esse nome para o Redentor de pecadores.
É verdade que Deus deu nomes a outras pessoas no Antigo
Testamento, mas nenhum tem tanta importãncia como o

456
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

nome de Jesus! Esse nome é especialíssimo, porque diz res-


peito ao doador do nome e à função daquele que o recebeu!
O Pai eterno escolheu esse nome para dar ao Filho
eterno no seu estado de humilhação. Embora tal estado te-
nha terminado, ele ainda tem esse nome, e nunca mais os
remidos o esquecerão por serem os grandes beneficiários
da obra para a qual o nome aponta!
Foi pensando nesse nome supremo, acima de todo
nome, que o poeta escreveu:

Santo nome, incomparável, tem Jesus , o amado teu! Rei


dos reis, Senhor eterno, Deus na terra, Deus nos céus.
Nome bom, doce à fé , a esperança do porvir. 163

Esse nome supremamente majestoso aponta para um


Deus-homem que ainda é vivo! A esperança do cristão é
num Salvador que não foi vencido pela morte, mas que res-
suscitou pelo seu próprio poder! Deus lhe deu esse nome
quando ele ainda estava humilhado, mas esse nome majes-
toso não o deixou permanecer na morte nem permitiu que
ele sofresse corrupção. Ele não somente venceu as potesta-
des malignas, a morte, mas venceu tudo para que obtivés-
semos a redenção. Por isso, Deus o exaltou sobremaneira!
Por sua qualidade suprema, esse nome causa profun-
das impressões na vida do cristão. Henry Maxwell Wright,
um poeta cristão, escreveu:

Quão doce soa ao coração do pobre pecador o nome que


lhe traz perdão: Jesus, o Salvador! Jesus, Jesus, divino
amor, Jesus meu Rei, meu Salvador.

163
Hino 164, encontrado no Novo cântico (L. Baxter- B. R. Duarte).

457
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

Jesus, o só em ti pensar minha aflição desfaz. Quanto


melhor ver-te será e descansar em paz! Jesus, Jesus,
divino amor, Jesus meu Rei, meu Salvador. 16 4

b) O nome supremo, que está acima de todo nome,


nos remete ao Pai
Basicamente, e por definição, o nome Jesus significa
salvação. Entendendo-o mais estritamente, podemos di-
zer que significa "Jehovah é salvação ". Jesus é a tradu-
ção do nome hebraico Yeshua, que é a forma abreviada de
{(Yahweh é salvação". Essa é a significação do nome Jesus
no primeiro século a.C. Daí a explicação que Mateus dá ao
nome, que significa "salvador do povo" (Mt 1.21). O nome
Jesus é muito apropriado porque indica quem ele é o que
ele faz.
Jesus, portanto, nos remete a Jehovah, que é o nome
supremo de Deus, o nome que ele revelou ao seu povo
apontando para a grandeza do seu caráter salvador. Por
essa razão, o apóstolo disse que não há salvação em ne-
nhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro
nome, dado entre os homens, pelo qual importa que seja-
mos salvos (At 4.12).
Jesus é o nome humano que Deus deu ao Redentor,
mas esse nome nos remete ao Pai, mostrando a grande
identidade que existe entre o Pai e o Filho no propósito de
salvar pecadores!
O nome Jesus lhe diz alguma coisa? Vocé já experi-
mentou no seu coração o poder que existe nesse que se
chama Jesus? Vocé ama o dono desse nome? Você já foi
remido por ele? Se você já foi objeto do amor de Jesus,
então se enternece quando fala dele! Esse nome lhe é ma-
jestoso e muito precioso!

164 Esse hino é encontrado numa tradução modificada no Novo cântico, 168.

458
A DESTRUIÇÃO DO PRESENTE HABITAT DEVE LEVAR O CRISTÃO A CRESCER ESPIRITUALMENTE

C) 0 FILHO DE DEUS RECEBEU A ADORAÇÃO DE TODOS

para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus,


na terra e debaixo da terra (Fp 2.10).

A prostração "de joelhos" é um sinal inequívoco de


humildade e reverência da parte daqueles que adoram.
Mesmo enquanto viveu neste mundo, no estado de humi-
lhação, Jesus já recebeu adoração de pequenos e grandes.
Quanto mais ele receberá quando se manifestar em majes-
tade e glória na sua segunda vinda!
A exaltação do Filho de Deus o leva a ser adorado pe-
los mais diferentes níveis de seres:

a) Jesus é exaltado em adoração nos céus

... para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos


céus, na terra e debaixo da terra (Fp 2.10).

A adoração de Jesus nas regiões celestiais é feita por


todos os seres racionais que existem agora no céu:
• A adoração no céu é da parte de anjos
Quando o nome de Jesus é pronunciado nos céus, todos
os seres celestiais prorrompem em cãnticos de louvor. Embora
os anjos eleitos não sejam objeto de redenção, pois são santos,
eles se rejubilam pela salvação que há entre pecadores que se
arrependem. Eles sabem que a salvação é produto da ação
daquele que tem o nome acima de todo nome.
A natureza humana do Redentor não somente participou
da adoração que os homens lhe prestaram, mas também

459
O HABITAT HUMANO - O PARAÍSO AUSENTE

da adoração que os anjos lhe prestam. É preciso lembrar


que, por causa da humilhação dos dias "da sua carne",
Jesus foi feito "por um pouco, menor que os anjos" (Hb
2 .7). O seu estado de humilhação fê-lo parecer menor
do que as criaturas gloriosas de Deus, que são os seres
angélicos , mas ainda assim os anjos não são maiores do
que ele. Mesmo no estado de humilhação, quando o seu
esplendor ficou eclipsado, é dito que os anjos o serviam,
lhe prestavam