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TOC

em mim!
Aproximação
Livro I
Tânia Gonzales
TOC em mim!

Aproximação - Livro I

E-ISBN

978-85-910249-2-6

Edição digital
Direitos autorais do texto original

Copyright © 2014 Tânia Gonzales

Todos os direitos reservados


São Paulo, Brasil.
“ As feridas da alma são
curadas com carinho, atenção e
paz.”

Machado de Assis
Mais um para as minhas duas
princesas:

Juliana e Caroline
E para você que perdeu um ente
querido...
Índice
Prólogo

Capítulo 1 – Demissão

Capítulo 2 – Ele pode mudar?

Capítulo 3 – Dois pedidos

Capítulo 4 – Kits

Capítulo 5 – Carona

Capítulo 6 – Jantar

Capítulo 7 – Bolhas e balões

Capítulo 8 – “O Pequeno Príncipe“


Capítulo 9 – “ Três Ésses ”

Capítulo 10 – Livros, festa e jantar

Capítulo 11 – Cativar

Capítulo 12 – Café especial

Capítulo 13 – Desabafo

Capítulo 14 – Interrogações

Capítulo 15 – 7 de setembro

Capítulo 16 – Tocando na ferida

Capítulo 17 – Ele precisa de você

Capítulo 18 – Uma ideia


Capítulo 19 – Convite inesperado

Capítulo 20 – Campos do Jordão

Capítulo 21 – Quebra-cabeças

Capítulo 22 – Yakissoba

Capítulo 23 – Olhares

Capítulo 24 – Quer me fazer feliz?

Capítulo 25 – Namoro?

Capítulo 26 – Não preciso de você!

Capítulo 27 – Onde ela está?

Capítulo 28 – Perguntas e respostas


Capítulo 29 – Oração e resposta

Capítulo 30 – E-mail

Apêndice

Agradecimentos

A Autora
Prólogo

Adriel abriu a torneira, molhou as


mãos e derramou uma quantidade
generosa de sabonete líquido nelas,
esfregou-as várias vezes, enxaguou-as e
fechou a torneira. Enxugou as mãos em
uma toalha e em seguida jogou-a em um
cesto. Olhou para a porta por alguns
segundos, deu alguns passos em direção
à ela, mas retornou e abriu a torneira
novamente.
Não irei. Ele tomaria a mesma
decisão. Comparecer a um enterro?
Papai jamais faria isso.
Capítulo 1 –
Demissão

Quatro anos depois...

Lá fora estava frio, muito frio. Era


uma sexta-feira de julho. Dentro da sala
do presidente da ALT & Filhos estava
quente, muito quente. Lívia se
considerava uma pessoa bem paciente,
mas para tudo havia um limite.

– Chega! Irei embora agora mesmo –


disse a secretária de Adriel sem
disfarçar a irritação.

– Maravilha. Cheguei até a pensar


que não concordaria – Adriel levantou-
se de sua cadeira e dirigia-se ao lavabo
quando as palavras da secretária o
deteve.

– Não concordo e é por isso que irei


embora. Já aguentei muita coisa, não dá
mais!

Lívia trabalhava na empresa da


família Alvarez há anos. Era muito
jovem quando entrara como
recepcionista e logo se tornara
secretária do presidente. Trabalhara
com Alberto Alvarez, o patriarca da
família, até o dia em que um infarto
afastou-o do cargo que agora era
ocupado por Adriel.

– Lí vi a, não estou entendendo –


disse ele meneando a cabeça.

– Está sim, você só é esquisito, mas


é muito inteligente.

– Esquisito? – franziu as
sobrancelhas.
– E não adianta me ligar porque
nada e nem ninguém me fará voltar –
disse Lívia decidida.

– Que radical!

– Paciência tem limite, Adriel! –


Lívia aproximou-se da mesa do patrão,
tirou o fone do gancho e apertou um
único botão. Adriel a olhava
inconformado.

– Tati, venha até a sala do Adriel,


por favor, é urgente! – recolocou o fone
no gancho – Não me olhe assim. Sei o
quanto você detesta que toquem em suas
coisas, mas não estou nem aí – deu de
ombros.
Tatiana, a irmã de Adriel deu duas
batidas à porta e entrou em seguida.

– Estou pedindo demissão –


informou Lívia.

– Demissão? O que você fez? – a


segunda pergunta foi dirigida ao irmão.

– Só quis ajudar e...

– Ajudar? Ah, não me faça rir –


Lívia fechou a porta para evitar a
especulação de Camile e Marisa, as
duas funcionárias da recepção.

– Rir eu sei que hoje você não


conseguirá. O seu humor está péssimo,
mas tudo bem, eu a perdoo por isso.
– Alguém poderia me dizer o que
aconteceu? – perguntou Tatiana olhando
para os dois.

– Hoje tive a certeza que nunca


entenderei as mulheres. Dei uma folga
para a Lívia e ela ficou uma fera
comigo. Qualquer pessoa adoraria
ganhar folga em uma sexta-feira!

– Folga? – Tatiana continuava sem


entender.

– Ele quer é me ver bem longe daqui


– respondeu Lívia com indignação.

– Por que, Dri? – a irmã era a única


que o chamava assim.
– Ela precisa descansar. Está
naqueles dias – as duas últimas palavras
saíram em um tom mais baixo. Tatiana
revirou os olhos ao ouvir a explicação
do irmão.

– Eu aguento tudo! Tenho que lavar


muito bem as minhas mãos para mexer
nos papéis. Não uso o telefone dele,
limpo a maçaneta da porta com álcool e
isso nem é serviço meu! Sou uma
secretária competente e o que eu
recebo? “Aquela cara de nojo”! – Lívia
o encarava enquanto as palavras eram
ditas com indignação.

– Cara de nojo? – perguntou Adriel.

– Você não sabe do que eu estou


falando?

– Só quis ser gentil, Lívia – disse


após menear a cabeça – Ouvi o seu
comentário com aquelas duas meninas.
Você disse que estava com... cólica – a
última palavra saiu em um murmúrio.

– Tati, ele fez “aquela cara de nojo”


e disse: “ Lívia, darei um dia de folga
para você. Pode ir agora mesmo”.

– E qual é o problema? – não


compreendia a reação de sua secretária.

– Sei muito bem o motivo e eu não


mereço isso. Quando as pessoas falam
mal, sempre arrumo desculpas para as
suas atitudes – Lívia estava
inconformada com a situação.

– Nunca pedi isso.

– Ingrato.

– L í v i a , esquecerei o seu
atrevimento porque sei que você não
está bem. São os hormônios...

– Dri, colabora. Hoje temos tanta


coisa para fazer e você apronta isso? – o
comportamento do irmão irritou Tatiana.

– Não pode defendê-la! Você é


minha irmã.

– Sou uma mulher e entendo


perfeitamente o que está acontecendo
aqui.

– Parece que não. A Lívia está com


TPM e sobra para mim. Preciso lavar as
minhas mãos – Adriel andou em direção
ao lavabo, as palavras da secretária o
deteve novamente.

– Você não tem coração, é isso.


Hoje o Niki estava com febre e eu o
deixei com a minha irmã. Estou com uma
cólica insuportável, mas vim porque
tínhamos muito trabalho e olha o que eu
recebo em troca – disse ela gesticulando
muito.

– Dá para falar sem mexer as mãos?


Você me deixa nervoso.
– Você é inacreditável!

– Não sabia que o seu filho estava


doente e dei uma folga. Outro motivo
para você me agradecer – foi a lógica de
Adriel.

– Tati, depois conversaremos


melhor, mas não aqui. E escute bem,
senhor manias esquisitas, nunca mais
colocarei os meus pés aqui e espero que
a sua nova secretária... tire caca do nariz
e limpe na roupa. Ah... na sua roupa – ao
dizer isso Lívia apontou o dedo
indicador para ele.

Adriel fez “aquela cara de nojo” e


Lívia saiu.
– Não estou acreditando – disse
Tatiana meneando a cabeça.

– Nem eu. Vocês, mulheres, quando


estão com TPM...

– Você foi muito insensível!

– Dei uma folga para ela – Adriel


tentava se justificar.

– Queria vê-la bem longe daqui, isso


sim. Dri, você bem que podia se
controlar...

– Não dá. Não consigo ficar perto de


alguém que está... sangrando – Adriel
sussurrou a última palavra.
– É a coisa mais natural do mundo.

– Não para mim. Eu... Eu preciso


lavar as minhas mãos– disse ele
esfregando-as freneticamente.

– Ah, não, Dri, espere um pouco...

– O que foi?– perguntou impaciente.

– Ontem seria o aniversário de


casamento da Lívia e do Elias. Fariam
12 anos! Você foi tão insensível...

– Co mo saberia? Só você mesmo


para guardar as datas...

– A Lívia comentou comigo há


alguns dias. Você precisa falar com ela.
Acho que se você correr ainda a
encontrará no elevador... Vá atrás dela,
Dri, por favor – pediu a irmã caçula.

– Eu? Não mesmo.

– Dri...

– Tati, não me peça isso. Vá até a


casa dela e...

– Você é quem precisa fazer isso.

Adriel só meneou a cabeça.

– Então lamento informar que ficará


sem a sua secretária.

– Segunda-feira ela estará aqui –


afirmou com convicção.

– Você precisa de ajuda. Conversar


com alguém só fará bem. Se não
consegue se abrir comigo, com o Abner
ou a mãe... Quem sabe se fosse com
alguém que não tem nada a ver com
você? Um profissional – falou com um
certo receio pois sabia que o irmão
detestava a ideia.

– Não vejo sentido em conversar


com alguém que eu nem conheço.

– Às vezes é mais fácil se abrir com


alguém assim.

– Tati, você sabe que já tentei. Fiz


isso só porque a mamãe insistiu muito.
Ela implorou e até chorou! Só fui por
causa dela e me arrependi muito. Aquele
psicólogo não fez nada. Não adiantou
nada – meneava a cabeça sem parar – E
nem era psicólogo... Psiquiatra, era um
psiquiatra!

– Quem conseguiria algum resultado


com alguém que nem abriu a boca?

– É isso o que eles querem. Que


você fale, fale, fale e eles fazem o quê?

– O trabalho deles. Nosso pai


conversava com o doutor Ramos. Ele
não é um estranho. Marque uma hora –
Tatiana sabia muito bem que a mãe já
fizera várias tentativas para o irmão ir
ao consultório do amigo de infância de
Alberto e Adriel sempre se esquivava,
mas mesmo assim achou que valia a
pena insistir – Ah, e ele é psicólogo!

– Ele usará algumas palavras bonitas


que para mim não passam de filosofia
barata e...

– Dri, desabafar faz bem. Você


precisa falar sobre suas perdas. A Elisa
e a ...

– Não fale sobre elas – recomeçou a


esfregar as mãos.

– Você perdeu as duas e depois o


nosso pai também...

– Agor a preciso mesmo lavar as


minhas mãos.

– Está fugindo. É só isso o que você


faz. Não... Estou errada, você também
fica irritado e desconta em quem não
tem nada a ver com isso. A Lívia é o seu
braço direito e...

Agora Adriel estava esfregando as


mãos com força.

– Dri, fale com o pastor. Ele já


tentou visitá-lo muitas vezes e você não
foi nada agradável.

– Não pedi nenhuma visita. Tenho


mesmo que lavar as minhas mãos – disse
ele esfregando-as sem parar.
– Tudo bem. Vá conversar com a
torneira. Acho que você se entende
melhor com ela – constatou Tatiana
tristemente.

Alberto e Tereza tiveram três filhos:


os gêmeos Adriel e Abner e a caçula
Tatiana. A ALT & Filhos Cosméticos
fora administrada pelo patriarca da
família durante muitos anos, mas sempre
com a ajuda dos filhos que após sua
morte assumiram tudo. Ainda contavam
com a grande ajuda de Joel, o marido de
Tatiana. Alberto fora um excelente
administrador apesar de ser portador de
TOC (Transtorno Obsessivo
Compulsivo). Os rituais de limpeza
atrapalharam a convivência dele com as
pessoas e muitas vezes até
impossibilitaram a sua participação em
eventos, mas não impediram o sucesso
da empresa que tinha duas fábricas no
interior do estado de São Paulo e sua
sede localizada na capital. Adriel
herdara a capacidade administrativa do
pai, e, após a sua morte, algumas
manias.

Em um salão de beleza a poucos


quilômetros da sede da ALT & Filhos,
Michelle aproximou-se de sua irmã e
discretamente avisou-a que havia
alguém esperando por ela.

– Deu para perceber que ela está


muito brava, Mari.

– Comigo?– perguntou Mariana sem


entender.

– Também achei estranho. Ela disse


que você não deveria se intrometer nos
assuntos entre mãe e filha.
– Você é a Mariana? – perguntou
uma ruiva em um tom nada agradável.

– Sou eu mesma, a senhora é...

– Sou a mãe da Laila. Posso fazer


uma pergunta?

– É claro, dona... Neide, acertei?


Converso muito com a Laila e...

– Isso mesmo, mas me chame só de


Neide. Você não tem nada importante
para fazer? – perguntou apontando o
dedo de maneira ameaçadora.

– A senhora deve imaginar como é a


rotina de um salão...
– Então por que mexeu no cabelo da
minha filha?– fez a pergunta em um tom
ríspido.

– A Laila estava triste, ela tinha uma


fe s ta na escola e queria arrumar o
cabelo. A sua filha ficou linda e feliz...
O que é mais importante. Ela saiu daqui
com um sorriso enorme – o tom da voz
de Mariana era exatamente o oposto ao
daquela mulher.

– Nunca mais toque nos cabelos da


minha filha, entendeu? – Neide usou um
tom mais ameaçador.

– Não entendi, dona Neide, a Laila


estava chorando. Ela disse que os
meninos da sala dela viviam
debochando e...

– Isso não é da sua conta e não me


chame de dona Neide. A filha é minha e
e u devo cuidar dos cabelos dela e de
qualquer coisa que...

– Tentei falar com a senhora antes


de fazer a progressiva, mas não consegui
e como a festa era hoje...

– Ela não foi à festa e não me chame


de senhora, não gosto que me chamem
assim!

– Ela não foi? A Laila estava tão


animada...

– Não dei permissão e a culpa é toda


sua!

– Eu só quis ajudar – Mariana ainda


tentava se explicar.

– Você só atrapalhou. Agora preciso


ir. Espero que você tenha entendido.

– Não entendi. Não quer que a sua


filha seja feliz?

Neide não respondeu a pergunta.


Mariana observou a mãe de Laila sair e
ficou sem compreender o motivo
daquela reação tão negativa.

– E aí? – perguntou Michelle com


curiosidade.
– Estou pasma. Fiz alguma coisa
errada? Desde quando arrumar os
cabelos de uma garota de 15 anos é
errado? Responda, Mi!

– Acho que ela não gostou porque a


filha ficou mais bonita do que ela– disse
Michelle dando um sorriso de
cumplicidade.

– Faz sentido. Ela não deixou a Laila


ir à escola hoje. Que pena, mas tudo
bem – deu de ombros – Faria novamente
só para ver aquele rostinho todo
sorridente.

Neste momento, Lívia entrou toda


apressada. Desde que o marido, que era
taxista, fora assassinado em uma
tentativa de assalto, ela morava com o
filho Nicolas em uma edícula no quintal
da irmã mais velha, Ivone, a mãe de
Michelle e Mariana. O salão de beleza
das sobrinhas, o Mimãs, era localizado
na lateral da casa.

– Meninas, tentei falar com a Ivone


mas não consegui. O Niki piorou?

– Calma, tia, ele está bem. A febre


não voltou – disse Mariana
tranquilizando-a.

– Ah, que bom! – respondeu


aliviada.
–Conseguiu uma folga? – perguntou
Michelle estranhando a presença da tia
naquele horário.

– Não, Mi, pedi demissão.

– Tia, o que aconteceu? – Mariana


estava curiosa.

– Cansei daquele esquisito.

– Já vi esse filme antes – foi o


comentário de Michelle.

– Agora é pra valer, Mi.

– O que ele fez ? Deve ser algo


grave para você ter tomado uma decisão
tão radical – constatou Michelle.
– Ele é insensível, egoísta e sempre
faz “aquela cara de nojo”.

– Que ele é todo esquisito nós já


sabemos, agora conte uma novidade –
pediu Michelle.

– Mi, não precisa falar assim! –


Mariana estava inconformada com a
irmã.

– Mari, acho que você deveria


esquecer a sua profissão e trabalhar com
o Adriel! O que você acha, tia Lívia?

– Coitada da Mari, ninguém merece.


E nem ela com toda a doçura e meiguice
daria um jeito nele. Meninas, agora
preciso ver o meu lindo – disse Lívia e
em seguida saiu do salão das sobrinhas.

Assim que a tia se afastou...

– Mari, você sabe que dia foi ontem,


não é? – Michelle perguntou em um tom
baixo para ter certeza que a tia não
ouviria.

– Eu sei, Mi. Ontem a tia Lívia


estava muito triste. Eu a peguei
folheando o álbum de casamento.

– E hoje aquele insensível aprontou


com ela – disse Michelle inconformada
com a atitude de Adriel.

– Mi, você deveria defendê-lo afinal


namora o irmão dele! Se pretende fazer
parte da família Alvarez...

– Defendê-lo? Domingo almoçarei


na casa do Abner, mas acho pouco
provável que o Adriel apareça por lá.
Ele só almoça com a mãe dele! Evita
contato com as pessoas. O que eu posso
fazer?

– Tente se aproximar dele.

– Eu? Não mesmo. Se ele maltrata a


tia Lívia que trabalha com ele há anos, o
que fará comigo? – revirou os olhos.

– Maltrata? Que exagero! Ele tem


algumas manias, mas quem não tem? Ele
pode, às vezes, ser um pouco chato, mas
quem não é?– argumentou Mariana.
– O próprio irmão quase nem fala
com ele. Tratam só de assuntos
profissionais.

– O Abner deveria ser mais


maleável.

– O Abner? Qual foi a última vez


que você viu o Adriel? –

– Fui ao enterro do pai dele...

_Mas o Adriel não foi. Antes do pai


dele morrer ele quase não frequentava
os cultos, depois... simplesmente sumiu!
–Michelle revirou os olhos castanhos
mais uma vez.

– Ele precisa de ajuda.


– Aquele não tem jeito, Mari.

– Não acredito que você disse isso –


meneou a cabeça inconformada com as
palavras da irmã.

– Baixinha, ele acha que é normal.


Não aceita nenhum tipo de ajuda.

– Mas ele precisa e ultimamente


sinto-me incomodada com isso –
confessou.

– Ah, Mari, esqueça, você só vai se


machucar.

– Semana passada, antes do ensaio


do grupo de coreografia, a Marisa
estava conversando com as outras
meninas. Elas queriam s a b e r mais
informações sobre o Adriel.

– Ela deveria ser mais discreta.


Trabalha na ALT & Filhos há poucos
meses. O Adriel só concordou que ela e
a Camile trabalhassem lá por insistência
da tia Lívia, na verdade ele só contratou
a Camile porque gosta muito do trabalho
da Janete. Se ele fica sabendo que as
funcionárias...

– Janete? O que tem a ver? –


Mariana estranhou a irmã ter
mencionado o nome da mãe de Camile.

– Você não sabe? A Janete trabalha


para a mãe do Adriel e para ele também.
É ela quem faz a limpeza do apartamento
dele e até faz compras. Vai lá três vezes
por semana – Michelle jogou uma mecha
dos cabelos castanho-claros para trás
antes de concluir – Quando ele cisma,
ela precisa ir todos os dias.

– Sabia que a Janete trabalhava para


a família Alvarez, mas não para o
Adriel... Mi, quando surgiu a conversa a
Camile não estava lá. A Marisa elogiou
o seu namorado, disse q ue o Abner é
muito simpático e divertido, assim como
é na igreja e que o Adriel é
insuportável. Ela acha que ele é maluco
e tem medo dele.

– Mari, muitos não entendem o


problema do Adriel. Depois que o pai
morreu ele mudou muito. A tia Lívia
sempre dizia que ele era o único filho
que estava sempre com o pai porque o
Abner e a Tati morriam de vergonha por
causa das manias... E agora o Adriel
está se tornando pior do que o pai.
Esqueça, Mari, ele não tem jeito.

– Que absurdo! Você não crê em


milagres? Canta tanto e não crê? E … “
O meu Deus é um Deus de milagres, não
há limites para o seu poder agir...”¹,
hein?

– Mari, é outra coisa. Não tem nada


a ver...

– O Adriel precisa de um milagre –


disse com convicção.
– Diz isso para ele. Vai rir na sua
cara.

– Viver sem se relacionar com as


pessoas e enfrentar aqueles rituais todos
os dias deve ser um peso enorme. Ele
necessita urgente de alívio. Precisa ser
feliz.

– Irmãzinha linda, você é tão


sonhadora – Michelle mexeu nos
cabelos negros da irmã.

– Tenho certeza que a vida do


Adriel vai mudar.

– E tão otimista! Ah, minha baixinha!

– Mi, irei ajudá-lo. A vida dele


mudará, escreva isso.

– Mari, o Abner já comentou comigo


que o irmão não acredita em milagres.
Quando o Adriel perdeu a esposa e a
filha ele ficou arrasado...

– E quem não ficaria? Perdeu a


esposa no parto e alguns dias depois a
filhinha também morreu. Foi muito triste.

– Sofreu muito, mas não ficou com


todas aquelas manias. Elas começaram
após a morte do pai dele – foi a
constatação de Michelle.

– Eles eram muito próximos, é


natural. Só sei que preciso fazer alguma
coisa para ajudá-lo.
– Esteja preparada para uma grande
decepção.

– P a r a uma grande vitória –


afirmou convicta.

Ivone e Hílton, tiveram duas


meninas. Michelle, a filha de
cabelos castanho-claros e olhos
também castanhos, que completou
27 anos há poucos meses e
Mariana, a caçula de cabelos
negros e olhos cor de mel.
Michelle, além de ser quase três
anos mais velha, também sempre
foi a mais alta. Com 1,75m se
considera uma gigante por ser
quinze centímetros mais alta do que
a irmã caçula (Mariana bate o pé
que são s ó treze centímetros!). Há
três anos são sócias do salão de
beleza Mimãs e isso é motivo de
muito orgulho para a família
Fernandes.
Capítulo 2 – Ele
pode mudar?

– Que dia longo! Estou exausto –


disse Adriel relaxando os ombros.

– E quem é o culpado? – Tatiana


apontou o dedo indicador para o irmão.

– Tati, chega. Você repetiu isso o


dia inteiro. Segunda-feira tudo voltará a
mais perfeita normalidade – disse
confiante.
– Será? Dri, se você não conversar
com a Lívia e pedir desculpas...

– Não farei isso.

– Então sinto informá-lo que segunda


eu não estarei aqui. A Sofia tem pediatra
e vacina. Ela sempre fica chatinha, por
isso ficarei com ela o dia inteiro –
i nformou Tatiana deixando o irmão
inconformado.

– Tati!

– Não me olhe assim.

– Não posso ficar sem você aqui –


começou a esfregar as mãos.
– Fale com a Lívia e peça desculpas.

– Não. Ela refletirá e segunda, com


certeza, aparecerá aqui para trabalhar. A
Lívia tem um ótimo salário e...

– E um patrão muito chato, enjoado,


exigente...

– Valeu pela força. E o Abner? Nem


apareceu por aqui hoje.

– Você sabe muito bem que ele tinha


alguns compromissos. Compromissos da
empresa – Tatiana fez questão de
destacar a última informação.

– Não precisava ficar o dia inteiro


fora.
– Dri, domingo a Michelle vai
almoçar na casa da mãe e...Você estará
lá, né?

– É claro que não!

– A mãe está muito preocupada com


você.

– Nem sairei do meu apartamento


neste final de semana.

– Ontem ela até chorou e...

– Tati, não comece, por favor! Ou


não recomece?

– Ela está pedindo muita saúde a


Deus para poder cuidar de você.
– Já tenho 31 anos! – levantou os
braços, em seguida abaixou-os e uniu as
mãos.

– E nem deixou a sua família


comemorar isso. A mamãe preparou
tudo com tanto carinho e você nem
apareceu!

– Nunca gostei de festas e vocês


sabem muito bem...

– Você estragou tudo.

– Que drama! O outro aniversariante


não faltou. Pelo menos encontrei uma
vantagem em ter um irmão gêmeo – ele
sorriu, o que era raro. A irmã caçula
revirou os olhos.
– Você passou o dia do seu
aniversário sozinho!

– Foi um ótimo dia.

– Sozinho dentro de um
apartamento? Você até desligou o
celular! Ficou incomunicável!

– O dia perfeito, pena que só durou


um dia. Pouco tempo depois olha só o
que eu recebo! A Lívia não podia fazer
isso comigo...

– Você foi injusto com ela e precisa


pedir desculpas.

– Segunda ela estará aqui. A Lívia


trabalha conosco há muitos anos...
– Por isso mesmo que você deveria
ter mais consideração. Isso nunca
aconteceu quando ela era secretária do
nosso pai.

– Acabei de pensar uma coisa... É


muito estranho...

– O que é estranho?

– A mamãe marcar um almoço e...


Agora é que eu não irei mesmo!

– O que foi?

– Ela ainda quer comemorar o meu


aniversário! Não cairei nessa...

– Que paranoia! Ela sabe muito bem


que você não quer. Dri, sei que você não
gosta desse tipo de assunto, mas... a mãe
gostaria que você se interessasse por
alguém – Tatiana continuou mesmo
sabendo o quanto o assunto era
delicado– Ela quer que você tenha uma
pessoa para estar sempre ao seu lado.
Para cuidar de você assim como ela
cuidou do nosso pai.

– Papai teve sorte, muita sorte. Não


existe ninguém como a mamãe – Adriel
era o único que sempre tratara os pais
como mamãe e papai e isso não mudou
após atingir a idade adulta – Não quero
uma pessoa ao meu lado. Prefiro mil
vezes ficar sozinho – contornou o
relógio de pulso que pertencera ao pai.
– Dri, você não sente falta de ter
alguém para...

– Não quero e nem preciso de


ninguém.

– Isso é tão triste!

– Estou bem assim. Triste é ter


alguém e...

Adriel não completou e nem


precisava, a irmã sabia muito bem o
final daquela frase.

Salão de beleza Mimãs...


– Mari, o Abner ligou... A dona
Tereza quer que você almoce conosco
domingo – Michelle deu a informação
para a irmã no início da noite de sexta-
feira.

– Que estranho! É alguma


comemoração por um ano de namoro?

– Completamos um ano no mês


passado e foi uma comemoração só
entre nós dois! Quem comemora
aniversário de namoro com a mãe do
namorado? – Fez uma careta – E Mari,
não tem nada de estranho a dona Tereza
convidá-la. Você é minha irmã.
– Tudo bem. Eu irei. Será uma ótima
oportunidade...

– Oportunidade para quê?

– Falar com o Adriel.

– Ele não vai deixar você se


aproximar, baixinha! Isso se o Adriel
participar do almoço. Acho pouco
provável e...

–Veremos, gigante, veremos!

Na casa da família Alvarez...


– Querido, como é bom vê-lo aqui!
Fiquei sabendo da Lívia – disse Tereza
assim que Adriel entrou na sala de estar.

O desejo de Tereza era abraçá-lo e


beijá-lo assim como fazia com Abner e
Tatiana, mas Adriel, que nunca gostara
de demonstrações de carinho e sempre
dava um jeito de esquivar-se, após a
morte do pai proibiu qualquer
aproximação. No dia em que Alberto
morreu, Tereza foi ao encontro de seu
filho para consolá-lo e ficou
decepcionada ao vê-lo afastar-se. No
mesmo dia fez uma nova tentativa e
Adriel aproveitou que a irmã e o irmão
também estavam por perto para deixar
claro que desejava a distância de todos.
Usou palavras duras para assegurar-se
de que mais ninguém teria coragem de
aproximar-se dele.

– Oi, mamãe, quem contou? Ah, só


pode ser a Tati!

– Não. Foi o Abner.

– Nossa, como as notícias correm,


ele nem esteve na empresa hoje, mas
alguém já abriu a boca...

– E agora?

– Ela voltará.

– Espero que sim. Querido, você


sabe que domingo...
– Já sei e não virei.

– Mas...

– Mamãe, não insista. Detesto esse


tipo de coisa. Almoçar com uma pessoa
estranha...

–Estranha? Ela é namorada do seu


irmão. E nós conhecemos a família dela
há muitos anos.

– Para mim ela é uma estranha. Não


vejo ninguém da família do Hílton há
muito tempo e nem quero ver. Bom...
além da Lívia, é claro.

– Isso é porque você não participa


dos cultos desde que...
– Só vim aqui para vê-la, agora
preciso ir.

– Já? Jante comigo.

–Não. Estou de péssimo humor. Já


não sou uma boa companhia e hoje
então...

– Pois para mim não existe


companhia melhor.

– Ouvi isso, mãe – disse Abner ao


entrar na sala de estar.

– Oi, filho, você sabe muito bem o


que eu quis dizer.

– Sei muito bem e não gosto disso.


Corro o risco de crescer complexado –
brincou Abner dando um beijo em sua
mãe – E aí, meu irmão, como foi o seu
dia hoje sem a Lívia?– fez questão de
provocar o irmão gêmeo.

– Já estou de saída.

– Só por que eu cheguei? Preciso


dizer uma coisa, meu irmão, se você
quer a sua secretária de volta sugiro que
deixe o seu orgulho e algumas manias de
lado e a procure, porque...

– Abner, pode deixar que eu sei


como resolver isso– respondeu Adriel
afastando-se.

– Espere um pouco... Não esqueça


que domingo teremos um almoço
especial. Contamos com você.

– Especial para você. E não esperem


por mim. Mamãe, segunda apareço por
aqui.

Gêmeos idênticos. Olhos e cabelos


c a s t a n h o - e s c u r o s . Gênios
completamente diferentes. Adriel,
nascera cinco minutos antes do que o
irmão, sempre fora mais sério. Gostava
de ficar sozinho, sempre afastado das
pessoas. Dono de um sorriso raro. Já
Abner era o oposto. Alegre, simpático e
brincalhão. Sempre com um sorriso no
rosto. Foram rechonchudos durante a
infância. Hoje os dois irmãos têm porte
atlético. Adriel ganha por cinco
centímetros na altura. São 1,90m contra
1,85m. Adriel sempre se apresenta com
os cabelos bem cortados, barba bem
feita e roupa social impecável. Já o
irmão não se importa em deixar os
cabelos crescerem um pouco e aparece
muitas vezes com a barba por fazer.
Prefere uma maneira mais descontraída
de se vestir, mas sem dispensar a
elegância. Tatiana, a caçula, chegara
três anos depois dos gêmeos. Ela
também herdou a cor castanho nos olhos
e em seus cabelos, mas como não
dispensa uma visita ao salão das amigas,
atualmente os lindos cabelos estão
loiros.
Na casa da família Fernandes...

Após fechar o salão com a irmã,


Mariana foi até a casa dos fundos para
conversar com a tia. Tinha um pedido
especial para fazer.

– Ah, Mari, me desculpe, mas não


vai dar. Fale com a Tati. Não falarei
com “aquele cara de nojo” tão cedo.

– Tia, as meninas ficariam tão


felizes! – Mariana tentava convencê-la.
– Se você falar com a Tati tenho
certeza que conseguirá alguns kits.
Temos produtos maravilhosos! Quero
dizer, eles têm e lançarão uma nova
linha de perfumes...

– Você precisa ceder, tia!

– Não mesmo. Mari, é tão lindo o


trabalho que você faz com aquelas
meninas da comunidade! Fale com a
Tati, ela é sensível como você. É muito
melhor falar com ela do que com aquele
egoísta. É bem provável que ele coloque
um monte de obstáculos... Ah, já entendi,
você quer é que eu me reaproxime dele
– cutucou a sobrinha.

– Preciso mesmo dos kits, tia!


– Olá! O jantar está pronto – Ivone
entrou na sala da irmã para avisar – O
Niki está com tanta fome que já está
esperando...

– Vou lá encher o prato do meu


filhinho lindo – disse Lívia afastando-
se.

– O pai já chegou?

– Não, Mari. Ele ligou e disse que


só chegará depois das nove. Seremos só
nós quatro hoje porque a Michelle saiu
com o namorado.

– Por que o pai sairá tão tarde?

– O outro padeiro faltou hoje.


– O seu José? Ele nunca falta.

– Não, Mari, o seu José está de


licença médica. Não sei o nome do
substituto dele, só sei que ele faltou dois
dias nesta semana e aí sobra para o seu
pai – lamentou Ivone.

Hílton trabalha há vários anos na


Pan Leon, uma padaria próxima a ALT
& Filhos. Alberto Alvarez fora
frequentador assíduo. O filho Adriel o
acompanhara várias vezes.

– Legal a sua mãe ter convidado a


Mari – disse Michelle ao namorado.

– Não sei, estive pensando...Acho


que aí tem coisa. Minha mãe anda muito
preocupada com o Adriel. Outro dia ela
comentou que gostaria que ele
namorasse. Ela está com medo de
morrer e deixá-lo aqui sem ninguém
para cuidar dele.

– E o que a minha irmã tem a ver


com isso? – encarou-o.

– Ela fez algumas perguntas sobre a


Mari. Não me olhe assim...

– Quais? Fale!

– Idade, se tem namorado, se ela é


uma pessoa compreensiva...

– Não estou gostando disso, Abner.


O que a sua mãe está pensando? Além
de todas as manias que ele tem, a
diferença de idade é grande e...

– Grande? O que são sete anos para


o amor? Mi amore, você sabe que o
amor não tem idade! Estou brincando –
disse ao ver a seriedade da namorada –
Minha linda, não se preocupe, mesmo
que a minha mãe esteja tramando alguma
coisa... para alguém ter coragem de se
aproximar do meu irmão...

– S e i que ele nunca foi muito


sociável, mas isso porque estava sempre
com seu pai. Só que antes ele
participava dos cultos e até conversava
com o pessoal, mesmo depois da morte
da Elisa e da bebê.

– Meu pai só saía com o Adriel. Eu


e a Tati, por mais que tentássemos...

– É, você já disse isso. Vocês


morriam de vergonha das manias dele.

– Manias? Obsessões. Não adianta


inventar nomes. Meu pai tinha “TOC” , e
o Adriel sempre o apoiou. Até o imitava
só para ele sentir-se melhor. A verdade
é que meu irmão, após a morte do meu
pai... herdou as obsessões dele! Ele só
vai ao mesmo restaurante que meu pai ia
– Abner revirou os olhos – e corta o
cabelo com a mesma pessoa. Só come se
a minha mãe cozinhar ou ele mesmo! E
eu não posso negar, ele cozinha muito
bem.

– Estou imaginando o seu irmão em


uma cozinha. Deve demorar uma
eternidade para a comida ficar pronta...

– Com certeza, pena que ele não


goste de convidados... Só sei que
quando ele termina nem parece que
alguém cozinhou. A cozinha fica
impecável. Sei disso porque a minha
mãe comenta. Só tive a honra de
experimentar algo que ele preparou uma
vez, só uma! E isso aconteceu porque eu
cheguei de surpresa. – deu um sorriso
maroto – Fiz que tinha um compromisso,
mas voltei logo.– piscou para a
namorada – Você precisava ver a cara
que ele fez! Era strogonoff, hum, de
lamber os beiços... Pouco tempo depois
mudou-se para o apartamento...

– Acho que vou mudar de irmão –


brincou ela.

– É mesmo? Pense bem... Tenho um


ótimo senso de humor, sou simpático,
bonitão, tudo bem, isso ele também é,
não dá para negar – Abner sorriu.

– Não mesmo. São gêmeos


idênticos! Se o Adriel não cortasse o
cabelo tão curto e não estivesse sempre
com a barba muito bem feita... daria até
para confundir – aproximou-se.
– Jamais! Ele nunca deixaria você se
aproximar e acariciar os cabelos dele
como você está fazendo agora com os
meus e eu estou adorando. E tem algo
muito importante: amo você.

– Que fofo! Acho que agora terei que


beijá-lo.

– Concordo plenamente.

Adriel pegou o telefone e ficou com


o fone no ouvido por alguns minutos.
Estava pensando se deveria ligar para
Lívia. Após balançar a cabeça como se
estivesse dizendo não para si mesmo,
recolocou o fone no gancho. Ligou o CD
player, em poucos segundos uma
sinfonia de Bach encheu o ambiente.
Aproximou-se novamente do telefone,
observou o aparelho por cerca de dez
minutos enquanto esfregava uma mão na
outra. Depois pegou o celular que estava
em cima de sua poltrona favorita. Olhou
para o visor por um momento e o
recolocou no mesmo lugar, enfim foi ao
lavabo. Pensou em um número. O
número 55 veio imediatamente em sua
mente. Era sempre assim: pensava em
um número e lavava as mãos contando
até chegar ao determinado número.
Invariavelmente o ritual era realizado
com trilha sonora clássica. Geralmente a
contagem era feita mentalmente.

Quando estava no numero 34, o


telefone tocou. Adriel olhou para a
porta, mas continuou lavando as mãos. O
telefone tocou mais algumas vezes e
parou.

Mariana estava na sala de estar da


casa de sua tia. Conversavam há alguns
minutos e o nome de Adriel não fora
mencionado ainda. A sobrinha resolveu
tocar na ferida.
– Tia, você não vai mesmo trabalhar
segunda-feira?

– Mari, estou cansada de aguentar


todas aquelas manias. Você pensa que é
fácil? Ele chama por mim o tempo todo.
Até para levar café. Não aceita que
nenhuma das meninas que trabalham no
escritório se aproxime da sala dele – ela
fez uma careta – Tenho que resolver
tudo. Não posso usar o telefone da sala
dele! – revirou os olhos – Tenho que
levar a minha cadeira quando preciso
me sentar lá. Na sala do “cara de nojo”
só tem uma cadeira! Você acredita?

– Deve ser muito difícil para ele.

– Hã? Mari, de que lado você está?–


perguntou fingindo indignação.

– Ah, deve ser tão cansativo agir


assim! Você precisa concordar comigo
que ele não é uma pessoa má – agora
Mariana observava atentamente sua tia.

Não posso negar que o Adriel tem


muitas qualidades. Ele é justo. A
ALT & Filhos paga os salários
mais altos do ramo. Dá até 14°
salário! Ele não é daqueles patrões
que viram uma fera quando uma
mulher fica grávida. E olha que as
mulheres são maioria lá! – Lívia
acomodou-se melhor em seu sofá.
O filho Nicolas estava na casa de
um amiguinho. Quase todos os
finais de semana era assim:
Nicolas dormia na casa do amigo e
vice-versa.

– Viu só? O único problema é que


ele tem algumas manias – constatou
Mariana.

– Semana passada levei o café da


tarde para ele, você já sabe que ele só
aceita se for da Pan Leon, né?

– Ele está certo. Os pães de lá são


deliciosos. Principalmente quando o
meu pai faz – falou com orgulho.

– Naquele dia o seu pai saiu mais


c e d o . Mari, quando ele olhou para
aquele croissant falou bem assim: “Se
você quiser pode comer. Eu não
comerei”. Perguntei o motivo, ele olhou
para mim e disse: “ Você pensa que me
engana? Não foi o Hílton”. Você
acredita nisso? Não sei como ele
consegue.

– Que interessante!

– Interessante para você que não


precisou aguentar o mau humor dele a
tarde inteira. Ele é terrível, mas que
homem bonito! As meninas se derretem
e ao mesmo tempo morrem de medo
dele.

– A Marisa vive dizendo isso lá na


igreja. Ela diz que ele está sempre muito
bem vestido.
– Mari, ele troca de roupa durante o
expediente. Na sala do Adriel tem um
banheiro enorme com chuveiro e closet!
E ainda tem um lavabo separado! Era a
sala do pai dele.

– Que chique! Tia, ele sentiu a morte


do pai mais do que a Tati e o Abner, não
é?

– É verdade. Acho que ele sentiu


tanto quanto a mãe. A Tereza amava
muito o Alberto. Era dedicação total. O
Adriel era muito ligado ao pai. Um fazia
companhia ao outro. Depois que o
Adriel perdeu a esposa e a filha, eles
ficaram ainda mais unidos – Lívia
levantou-se – Mari, vou preparar chá
para nós, o que você acha? – perguntou
encaminhando-se para a cozinha.

– Acho ótimo – Mariana sorriu –


mas só se você continuar falando sobre
o seu amado patrão.

– Curiosa! Siga-me e contarei tudo


sobre “aquele cara de nojo”– Lívia
revirou os olhos, Mariana a seguiu até a
cozinha –Na mesa dele havia um porta-
retrato e ninguém podia colocar a mão.
Uma certa vez a funcionária da limpeza
o mudou de lugar, nossa... ele ficou uma
fera! Quase a demitiu – Lívia pegou uma
chaleira e colocou água para ferver – Só
não fez isso porque eu disse que ela era
viúva e tinha dois filhos, mas ela foi
proibida de entrar na sala dele e pouco
tempo depois ele mesmo guardou o
porta-retrato na gaveta. Deve estar lá até
hoje .

– Era uma foto do pai dele?

– Sim. Ele o pai juntos na chácara


em Campos do Jordão. Os dois estavam
sorrindo.

– O Adriel precisa de ajuda. Eu


farei isso. Irei ajudá-lo – disse decidida.

– Mari, esqueça isso, você vai sair


muito magoada desta história. O Adriel
não tem jeito. Uma vez ele começou a
esfregar as mãos, o que não é nenhuma
novidade, foi ao lavabo, mas pediu que
eu o esperasse e só retornou depois de
trinta minutos! – Lívia abriu o armário e
pegou duas xícaras – E agora com todas
essas notícias sobre epidemia de gripe?
Dá para imaginar, não é?

– Trinta minutos só para lavar as


mãos?

– É isso mesmo. As mãos dele


estavam vermelhas. Depois disso eu
nunca mais esperei. Vou para minha sala
e retorno à sala dele alguns minutos
depois. Algumas vezes ele já está lá me
esperando todo nervosinho. Camomila,
erva-doce ou hortelã? – perguntou ao
mostrar as caixinhas.

– Erva-doce. Tia, só de pensar em


todos os rituais dele eu já fico cansada.
– Quando você tinha 13 anos e
descobriu que o Adriel e a Renata
estavam namorando...

Lívia referia-se à irmã de Renan, o


líder de jovens que é apaixonado por
Mariana. Renata chegou ao mundo cinco
anos antes do que o irmão.

– Ai, tia, nada a ver, eu era tão


novinha! Só achava que ele havia
escolhido muito mal. A Renata era tão
esnobe... Eu disse era? – revirou os
olhos.

– Foi um namoro relâmpago. Durou


o quê? Uns quatro meses e após um ano
ele já estava com o casamento marcado.
Ele e a Elisa se conheciam desde
crianças mas foi tudo muito rápido.
Pensa que esqueci? Encontrei-a
chorando no dia do casamento dele – a
sobrinha desviou o olhar – Mari, olhe
para mim! Pensei que fosse uma
“paixonite”, você era tão novinha! Não
vai me dizer que isso dura até hoje? –
Lívia encarava a sobrinha.

– Não, tia! Para mim ele sempre foi


o rapaz mais bonito da igreja, mas
totalmente inacessível. O Adriel nem
olhava para mim! Também não podia ser
diferente, eu era muito nova! E não era
loira – Mariana riu do próprio
comentário – Ele prefere as loiras... A
Renata, a Elisa...

– Você sabe muito bem o que fazer


para ficar loira – Lívia riu – Mas gosto
tanto dos seus cabelos negros! Herdou-
os do seu pai e a Michelle herdou o
castanho-claro da família da Ivone –
Lívia sorriu – Ou seja da minha família!
Como vocês dizem... Dã!

Mariana riu ao ouvir o comentário


óbvio de sua tia.

– Nunca pensei em mudá-los,


também gosto dos meus cabelos assim...
Voltando ao assunto... Tia, só gostaria
que ele fosse feliz – disse com
sinceridade.

– Minha linda sobrinha, conviver


com o Adriel é muito difícil. Eu saía
daquele escritório exausta. Você é um
doce e ele...

– Ele vai mudar – as palavras


saíram com convicção.

– Não vai – Lívia colocou um sachê


em cada xícara e derramou água quente
neles.

– Admiro a fé que você tem! –


Mariana foi sarcástica – Quer dizer que
Deus pode tudo, menos fazer um milagre
na vida do Adriel? Não aceito isso.
Tenho certeza que ele sofre.

– Mari, creio em milagres, mas...

– Mas não na vida do Adriel, não é?


– Ele não acha que precisa de um
milagre, então...

– Jesus encontrou-se com pessoas


que nem sequer pediram para serem
curadas e ele as curou. Aquela mulher
que andava encurvada, lembra? Ela não
pediu nada e Jesus a curou¹!

– Admiro a sua fé e força de


vontade, mas não perca seu tempo com o
Adriel. Ele não acredita em milagres.

– Ele mudará, tia – disse ao adoçar


o seu chá.

– Cuidado, Mari, ele pode magoá-la


muito.
– Deixe comigo. O Adriel precisa
muito de alguém que acredite em um
milagre na vida dele e eu acredito!
Capítulo 3 – Dois
pedidos

Sábado, Michelle e Mariana tiveram


um dia muito movimentado no salão, o
que não era nenhuma novidade. À noite
foram ao culto de jovens. Renan, o líder,
conhecia Mariana desde que eram
crianças. Eram grandes amigos, mas
todos sabiam que ele queria ser muito
mais do que um amigo. Só não havia se
declarado ainda porque tinha receio de
perder a amizade dela. Desejava saber
quais os sentimentos de Mariana em
relação a ele. Com 25 anos, 1,80m de
altura, cabelo castanho claríssimo,
formado em Ciência da Computação,
trabalha em uma multinacional. Ama os
olhos cor de mel de Mariana e também
admi r a muito a dedicação dela aos
compromissos da igreja. A amiga, além
de sempre ajudá-lo com as atividades
do grupo de jovens, também lidera o
grupo de coreografia GEAD ( Gestos de
adoração).

Após o grupo de louvor se


apresentar Renan anunciou Mariana,
pois ela havia pedido uma oportunidade
para falar.
– Há alguns dias pedi oração por
uma garota chamada Melissa. Ela queria
muito participar do curso que realizo na
comunidade onde ela mora e os pais não
permitiam. Nesta semana ela pôde
frequentar o curso e agora ela quer nos
visitar e também sonha em fazer parte do
GEAD. Os pais não concordam, mas
continuem orando, tenho certeza que em
breve ela estará aqui. Quero cantar para
agradecer ao nosso Deus por tudo.
Cantem comigo: “...O meu Deus nunca
falhará, eu sei que chegará minha vez,
minha sorte ele mudará, diante dos meus
olhos...”¹
Em um apartamento a poucos
quilômetros dali...

Há muitos anos que não a vejo


pessoalmente. Ela cresceu... só um
pouco, mas continua a mesma
garotinha risonha e ingênua.
Sonhadora, é isso o que ela é.

Adriel assistiu ao culto pela internet


por mais dez minutos, depois desligou o
notebook. Ligou o CD player. Era a vez
de Mozart. Foi até o lavabo para lavar
as mãos. Lavou-as até chegar ao número
72. Após enxugá-las cuidadosamente,
voltou à sala de estar, pegou o celular e
ficou com ele nas mãos por vinte
minutos. Queria ligar para Lívia, mas
não tinha certeza se ela também estaria
no culto e também não queria dar o
braço a torcer. Por fim decidiu não
ligar.

Segunda-feira ela estará na


empresa. Tenho certeza disso – pensou
otimista.

Domingo...
Michelle chegou com a irmã à casa
do namorado às 11h40 porque sabia
muito bem que o almoço seria servido
às 12h em ponto. Abner fora até o
aeroporto buscar o cunhado Joel que
havia viajado para resolver alguns
assuntos da empresa. Tatiana preferiu
ficar com a mãe para receber as visitas.

– A Sofia está tão esperta!– disse


Michelle ao brincar com o bebê de 7
meses – E cada dia mais linda.

– Concordo – disse Tati sorrindo.

– Espero que o Abner não se atrase.


Faltam dez minutos! – disse Tereza
olhando para o relógio da sala de estar.

– Calma, mãe. Se o almoço for


servido alguns minutos depois do
horário não tem nenhum problema, o
Adriel não está aqui mesmo!

– Ele é sempre pontual? – perguntou


Mariana.

– Sempre, por incrível que pareça! –


respondeu Tatiana.

– Tatiana, precisa falar assim? O


que elas vão pensar? – Tereza
repreendeu a filha. A preocupação dela
era com o que Mariana poderia pensar.

– Mãe, a Michelle e a Mariana já


sabem como o meu irmão é. A tia delas
trabalha com ele, lembra? Ou melhor,
trabalhou. O Adriel tem todos aqueles
rituais e era de se esperar que ele se
atrasasse para tudo, não é? Mas não. Ele
começa a se arrumar horas antes do
compromisso.Chega todos os dias às 7h
na empresa. É difícil ele se atrasar! E se
isso acontece fica irritadíssimo.

– Então ele deve acordar bem cedo,


não é? – perguntou Mariana com
interesse.

– Antes das 5h! Do apartamento dele


até a empresa são vinte minutos de carro
– explicou Tatiana.

– Meu Alberto também era pontual.


Coitado, aprendeu da pior maneira
possível. O pai dele era assim. Se você
se atrasasse para qualquer compromisso
com o meu sogro, tinha que se preparar
para um sermão! – Tereza revirou os
olhos – Na hora ele falava duramente e
depois passava dias te ignorando.
Aquele sabia guardar rancor.

– No s s a , Tereza, ele era bem


radical! – foi o comentário de Michelle.

– Com certeza. Meu sogro era muito


exigente. Dá para imaginar como ele era
com o único filho dele, não é? O meu
Alberto sofreu muito, mas graças a Deus
não descontou isso em nossos filhos –
Tereza uniu as mãos e as balançou.
– Conseguimos – disse Abner ao
entrar à sala de estar faltando dois
minutos para meio-dia.

– Que bom, filho. Joel, fez boa


viagem? – perguntou Tereza abraçando
o genro.

– Ótima, minha sogrinha! Deu tudo


certo. O Adriel vai gostar. Deixa eu ver
as minhas meninas... Nossa, como elas
cresceram! – brincou Joel.

– Eu também cresci? – perguntou


Tatiana – Não, é melhor você não
responder.

– É... Acho que foi só a Sofia – Joel


olhou para a esposa e para a filha como
se estivesse examinando-as.

– Ainda bem, porque agora só


cresço dos lados e isso é péssimo –
constatou Tati dando uma piscada para
Mariana e para Michelle.

Joel cumprimentou as duas


convidadas e depois todos foram
almoçar.

– Pensei que o Adriel estaria aqui.


Ele estava ansioso para saber o
resultado da minha viagem. Não
consegui falar com ele pelo celular. Já
estou sabendo da Lívia. Ai, até imagino
como aquele escritório está... Vocês têm
uma boa notícia para nós? – perguntou
Joel olhando para as duas irmãs.
– A minha tia diz que não voltará
mais – foi a resposta de Michelle.

– Acho que ela voltará sim – disse


Mariana com otimismo.

– Tomara que você esteja certa,


Mari, porque só a sua tia aguenta o meu
irmão – disse Abner.

– Abner, isso é jeito de falar? –


Tereza não queria que Mariana saísse
com uma péssima impressão de seu
filho.

– Elas sabem que é verdade.

– Mariana, o Adriel é só um pouco


sistemático, assim como o pai dele era,
mas é um ótimo filho.

Durante todo o almoço, Tereza fez


questão de falar sobre as qualidades do
filho, principalmente para Mariana.

Mais tarde, na casa da família


Fernandes...

– Abner, você percebeu o quanto a


sua mãe conversou com a Mari sobre o
Adriel? – perguntou Michelle assim que
ficou sozinha com o namorado.
– Percebi. Acho que ela quer
arrumar uma namorada para ele – sorriu,
ma s ficou sério após ver a expressão
nada satisfeita da namorada.

– Não fale isso nem por brincadeira!


Minha mãe ficaria muito preocupada. E
a Mari já tem a pessoa certa para ela.

– O Renan. Nunca vi alguém tão


indeciso! – Abner acariciou os cabelos
da namorada – Acho que preciso dar
umas aulas para o meu amigo...

– Não é indecisão, o Renan tem


receio da resposta dela.

– O que a Mari fala sobre ele?


– Que ele é um bom amigo.

– Só isso? – franziu as sobrancelhas.

– A Mari sempre tem alguma garota


que é perfeita para ele – Michelle
aconchegou-se ao peito do namorado.

– Ótimo, é só o Renan dizer que ela


é perfeita para ele – Abner acariciou o
rosto dela.

– Não é assim tão simples, meu


amor.

– É tem razão, mi amore, e agora a


minha mãe...

– Abner, você precisa ter uma


conversa muito séria com a sua mãe. Já
imaginou se ela diz alguma coisa para o
Adriel e ele cisma com a Mari?–
perguntou Michelle preocupada.

– Pode ficar tranquila, isso não vai


acontecer – contornou os lábios dela
com o dedo.

– Hum... Pare com isso... Não sei. E


se ele ficar obcecado e começar a
persegui-la?

– Nossa, você assiste muitos filmes


e reportagens sensacionalistas! Quer
mesmo que eu pare? – perguntou ainda
contornando os lábios dela com o dedo,
ela balançou a cabeça negando.
– Acontece cada coisa...

– Calma, mi amore, está tudo sob


controle. Mesmo que a minha mãe tenha
o objetivo de aproximá-los...

– O problema é que a Mari quer


ajudá-lo. Não sei como ela não falou
nada para a sua mãe.

– Ajudá-lo?

– É. Ela acha que ele precisa de um


milagre – revirou os olhos.

– Se a Mari falar isso, aí é que o


Adriel ficará bem longe dela. Ele diz
que milagres não existem. Que é
imaginação das pessoas, que só
acontecia na época de Jesus e dos
apóstolos. Porque se fosse para os dias
atuaiso nosso pai ainda estaria vivo –
explicou Abner.

– E o que a sua mãe diz sobre isso?

– Que Deus fez o que meu pai pediu.


Meu pai sempre dizia que não queria
ficar aqui sofrendo com alguma doença.
O que ele mais temia era ficar inválido.
Ele falava assim: “Preciso tomar os
meus banhos e lavar as minhas mãos
quantas vezes eu quiser. Não posso
depender dos outros. Seria uma tortura
para mim.”

– É, mas o seu irmão não pensa


assim.
– Meu pai morreu com 49 anos e o
Adriel não se conforma.

– Ele nunca mais apareceu na igreja.

– Assiste aos cultos pela internet.


Diz que assim não corre o risco de
algum desavisado querer apertar a mão
dele e que é melhor estar longe para não
escandalizar ninguém. Amore, se meu
irmão não concorda com alguma coisa
ele simplesmente desliga o computador.

– Será que isso acontece com muita


frequência?

– É só alguém falar em milagres.

– Então não tem jeito – Michelle


sorriu.

– É, mas quer saber de uma coisa?


Nós só estamos falando dos outros.
Daqui a pouco irei embora e você nem
me deu um beijo...

– Ah, não precisa falar novamente...

Logo após o culto de domingo...

– Tia, mudou de ideia?


– Não. Mari, não adianta, já decidi!
A Tereza falou umas coisas para você,
não é?

– Está muito preocupada com o


filho. Ela sabe o quanto ele precisa de
você.

– Ele não precisa de ninguém.

– Tia, não fale assim. Você


trabalhou tantos anos para o pai dele!

– O seu Alberto não era grosseiro.


Tinha muitas manias, mas era gentil. Fui
secretária dele por quase 10 anos! –
Lívia gesticulou.

– Por isso mesmo que você deve


tentar novamente. Converse com ele.
São muitos anos em uma mesma
empresa.

– Não posso. Cansei, Mari. Por que


você não se candidata à minha vaga? Já
que está tão preocupada com o Adriel!–
provocou.

– Eu? Meu negócio é arrumar


cabelos.

– Ah... Isso ele não vai deixar você


fazer. Ninguém mexe naqueles cabelos.
S ó o Silas. Ele já sabe o que pode ou
não fazer.

– Quem é Silas?
– O cabeleireiro do Adriel. Ele
cortava os cabelos do seu Alberto. Você
acredita que o meu patrão, quero dizer,
ex-patrão, só corta os cabelos quando o
salão está fechado? É uma exigência
dele – Lívia fez uma careta – Vai
sempre antes do salão abrir para não
encontrar-se com nenhum cliente e é
claro que para ter a certeza de que tudo
estará completamente limpo – meneou a
cabeça.

– Posso fazer isso também se ele


quiser mudar de salão...

– Mari, você me ama?

– É claro, tia.
– Então pare de falar naquele “cara
de nojo”.

Eram 11h de segunda-feira, Adriel


acabara uma reunião com Joel há poucos
minutos. Ficara muito satisfeito com o
resultado da viagem do cunhado. A ALT
& Filhos fecharia negócio com mais
duas redes de drogaria e perfumaria.
Olhou para o relógio e decidiu almoçar
com a mãe. Ligou para ela em seguida.
Precisava respirar um pouco. A
ausência de Lívia já o estava irritando.
– Querido, foi uma pena você não ter
participado do almoço ontem – disse
Tereza assim que o filho chegou.

– Não mesmo. Mamãe, a namorada é


do Abner, não entendo por que eu
deveria estar aqui – meneou a cabeça
com irritação.

– Porque o Abner é o seu irmão. As


famílias se reúnem...

– Que coisa chata.

– Não fale assim, querido. Você


perdeu uma excelente oportunidade de
conversar com a Mariana. Ela é uma
moça tão inteligente, linda e...
– Mamãe, por favor, conheço a filha
do Hílton!

– Mas faz muitos anos que não a vê.

– Está enganada, sábado eu vi a


Mariana.

– Verdade?– Tereza encarou o filho


com curiosidade – Ela não mencionou
nada.

– Deve ser porque foi bem


desagradável, não me olhe assim, estou
brincando – disse Adriel ao ver a
expressão séria de sua mãe.

– Brincando? Isso é bom.


– Sábado assisti ao culto on-line e
ela participou ativamente.

– Ah, mas não é a mesma coisa.


Nada como olhar nos olhos e ver a
reação da pessoa.

– Mamãe, podemos almoçar? Estou


cheio de serviço graças à ingrata da
Lívia.

Adriel voltou ao escritório às 14h e


notou que a porta de sua sala estava
entreaberta.

Ela voltou, eu sabia! – pensou ele.


– O que você está fazendo aqui? –
perguntou ao entrar e deparar-se com
Camile.

– Eu só es-ta-va co-lo-can-do al-


guns...

– Agora é hora da aula de separar as


sílabas? – perguntou irritado – Garota,
você não tem autorização para entrar em
minha sala, entendeu?

– En-ten-di.

– Então saia daqui, agora! Espere, o


que você fez?

– Só... é... eu só – Camile respirou


fundo e continuou – coloquei alguns
papéis que precisam da assinatura do
senhor.

– Você tocou neles?

– Sim, como eu poderia ...

– Garota, leve-os de volta e rasgue-


os. Não assinarei nada hoje.

– Mas...

– Você não ouviu o que eu disse?

– Ouvi, mas é que a Tati disse...

– Tati? Tatiana! Que intimidade!


Depois conversarei com a minha irmã.
Pegue os papéis e saia agora – gritou.
– Grosseiro, estúpido... Aula de
separar as sílabas? Sem graça!

– O que aconteceu, Camile?–


perguntou Marisa ao notar que a amiga
estava tremendo.

– Ele gritou comigo. Ai, que raiva!


Nem consegui falar direito de tão
nervosa que eu estava.

– Calma. Ele está assim por causa


da Lívia. Nossa, ele saiu do elevador e
nem olhou para mim... Até parece que
sou invisível! Estava ao telefone com o
Fernando do Almoxarifado e... –
explicou Marisa.

– Não tenho culpa se ela pediu


demissão. Ele é o culpado.

– Camile, acalme-se. Respire fundo


e...

– Dá vontade de voltar lá e dizer...

– Tome um pouco de água. Você é


sempre tão tranquila...

– Não suporto a cara que ele faz.

– A “cara de nojo”?

– A Lívia tem toda razão. Ele é o


homem mais insuportável do universo.
Acha que temos alguma doença
contagiosa. Falou para eu rasgar os
papéis só porque coloquei as mãos
neles! – Camile meneava a cabeça
inconformada – Eu também sei o quanto
é importante lavar as mãos...

– Ele é o patrão.

– E por isso temos que suportar


tudo? Todo mundo tem problemas e
passa por situações tristes na vida e nem
por isso ficam como ele. Na minha casa
por exemplo...

– Você está com algum problema,


Camile?
– Ah... é que... Esqueça. Espero que
a Tati chegue logo...

– Acho que ela não vai aparecer por


aqui hoje. Camile, você quer desabafar
comigo?

– Marisa, já disse para você


esquecer. Nem a Tati aguenta! Você
acredita que ele não gostou que eu
chamei a irmã dele de Tati? Se ela
mesma...– Camile parou de falar
imediatamente ao ouvir o barulho da
porta.

Adriel deu uma rápida olhada para


as duas e saiu sem dizer nada. Andou em
direção ao corredor com a intenção de ir
até a sala da irmã.

– Isso mesmo, vá embora, seu...–


novamente Camile parou de falar ao
ouvir passos se aproximando.

Adriel olhou para as duas e voltou


para a sala.

– O que ele está fazendo?

– Você pergunta para mim, Marisa?


Ele é maluco – disse quase sussurrando
– Não sei como a minha mãe aguenta
trabalhar para ele. Bom... pelo menos
agora ela só vai três vezes por semana
ao apartamento dele. No início ela tinha
que ir todos os dias, você acredita?

– Nossa! Ela fazia limpeza todos os


dias? Ele mora sozinho como pode ter
tanto para limpar? Ele é tão
desorganizado que...

– Não é isso. Ele é muito


organizado, só que tem mania de
limpeza!
– Tati, você está chegando? –
perguntou Adriel ao ligar para a irmã.

– Não espere por mim. Não irei à


empresa...

– Por favor, não posso trabalhar


assim!

– Dri, deixe o orgulho de lado e


procure a Lívia.

– Tati... Tati... Ela desligou. Não


acredito! Nem o Abner apareceu hoje.
Eles estão fazendo de propósito, mas
isso não funcionará. Tenho que... Eu
preciso... lavar as minhas mãos.
– Camile, são quase quatro horas!

– E... – Camile tirou os olhos do


monitor e encarou a amiga.

– Você sabe que a Lívia sempre


busca o cappuccino para ele.

– Você acha que vou fazer isso?


Nem pensar. Não vou correr o risco de
receber café na cara. Ou melhor,
cappuccino na cara!

– Você prefere cappuccino na cara?


– Marisa brincou com a amiga – Camile,
daqui a pouco ele vai...
– Marisa, já que você está tão
preocupada por que não vai buscar?

– Eu? Bom... está certo. É só chegar


na Pan Leon e perguntar o que o
poderoso senhor Adriel come hoje. É
fácil.

Marisa voltou quando faltavam


cinco minutos para as quatro horas.

– Prontinho. Hoje ele come pão de


queijo e pão doce de massa folhada.
Ah... e um cappuccino, é claro!

– Já fez sua oração?


– Camile, pare de me assustar.

– Estou falando sério. Ore.

– Ah, trouxe isso para nós – disse


Marisa mostrando um pacotinho de
papel.

Marisa se aproximou da porta e deu


uma leve batida. Como não obteve
resposta, resolveu bater com um pouco
mais de força. Bateu mais três vezes e
nada. Resolveu entrar bem devagar.

– Com licença, senhor Adriel, eu


bati mas...

Ele não estava. Marisa ouviu


barulho de chuveiro.

E agora? Será que coloco em cima


da mesa ou espero por ele? Acho
melhor deixar aqui e sair. Ele deve
demorar.

– E então? Parece que foi bem


tranquilo – perguntou Camile ao ver a
amiga se aproximar.

– Ele estava tomando banho.


– E você deixou tudo lá?

– É claro.

– O que será que ele vai achar


disso?

– O que você queria que eu fizesse?


Não podia ficar esperando...

– Tudo bem, vamos lanchar antes


que ele apareça.

Trinta minutos depois, a porta da


sala de Adriel se abriu.

– Quem colocou isto em minha


mesa? – perguntou mostrando o copo
com cappuccino em uma mão e um prato
de isopor com tampa na outra mão, é
claro que as mãos estavam protegidas
com luvas descartáveis.

– E u– respondeu Marisa
timidamente.

– Pedi alguma coisa para você,


garota? – as palavras saíram com
rispidez.

– É que a Lívia sempre...

– O seu nome é Lívia? Responda.

– Não – Marisa não conseguia


encará-lo.

– Você acha que beberei um


cappuccino gelado? E que comerei algo
que você trouxe?

– Comprei na Pan Leon. Perguntei o


que o senhor...

– Chega, garota. Como estou


perdendo tempo hoje! Só vim aqui para
perder meu precioso tempo...

– O senhor quer que eu busque


outro? – arrependeu-se assim que fez a
pergunta.

– Você tem algum problema? Será


que é tão difícil entender? Só tem
pessoas incompetentes aqui. Pago um
ótimo salário para isso? – olhou para as
duas, colocou o copo com o cappuccino
e a embalagem de isopor em cima da
mesa de Marisa. Saiu sem dizer mais
nada.

– Você está chorando? – Camile


perguntou ao notar algumas lágrimas no
rosto da amiga.

– Ele gritou comigo.

– Não fique assim, você sabe como


ele é.

– Ele me chamou de incompetente.

– Só você?
– Acha que é superior só porque tem
dinheiro.

– Calma, vamos comer o pão de


queijo dele?

– Ai, Camile, você consegue brincar


porque agora foi comigo que ele brigou,
né?

– Enxugue as lágrimas. Espero que


ele não volte mais hoje.

–Também espero. Depois do lanche


vou precisar de um chocolate!
Na casa da família Fernandes...

– Mãe, está certo?– perguntou


Nicolas ao terminar a lição de casa.

– Preciso ver... Muito bem, está


certo. Aqui você precisa melhorar. É
melhor apagar e escrever ovelha
novamente. Parece que é orelha!

– Depois posso jogar videogame? –


o garoto de 7 anos estava ansioso para
fazer o que mais gostava.

– Só depois que eu conferir tudo.

– Está todo feliz, não é, Niki? A sua


mãe está aqui o dia inteiro com você.
Até jogaram bola juntos – disse Mariana
ao entrar na cozinha da tia.

– Seria bom se fosse sempre assim –


disse o garoto.

– É, mas preciso trabalhar. Não se


ganha dinheiro jogando bola com o
filho, mas é claro que receber um lindo
sorriso é maravilhoso.

– Mãe, dá para ganhar dinheiro


jogando bola!

– Eu? Não mesmo – disse Lívia


sorrindo – Mari, o café está quentinho.
Quer?
– Obrigada, tia, quero sim.

– Fiz bolo de cenoura.

– Hum, adoro bolo de cenoura com


cobertura de chocolate.

– E eu também, tia Mari – Nicolas


tratava as duas primas como tias, não
tinha como mudar isso – Mãe, posso
comer? Já terminei a lição.

– Pode. Vamos tomar café juntos. E


a Michelle?

– Saiu para comprar alguns


produtos.

– Mari, depois ligarei para a Tati


para comentar sobre os kits...

– Tudo bem, tia.

– Mãe, o seu celular está tocando...

– Vou atender. Não acredito... É


“aquele cara de nojo”!

– Tia, não fale assim, o Niki vai


acabar chamando o Adriel da mesma
maneira.

– Ai, Mari... vou atendê-lo, mas


serei bem seca. Sim? Quem está
falando? Você? Quem é você? Ah...
Adriel! Oi, é que já faz tanto tempo...
Para mim faz sim! – provocou-o –
Depois de tanto tempo sofrendo naquele
escritório com você... Aqui? Sério? Não
sei se quero vê-lo... Você está pedindo
por favor? Não dá para acreditar! Tudo
bem – disse Lívia e logo em seguida
desligou o celular.

– Ele está aqui? – perguntou


Mariana.

– Está estacionado bem em frente ao


salão.

– Fala para ele entrar, mãe – pediu


Nicolas.

– O Adriel entrar aqui? Niki, não


mesmo. Ele não entra na casa de
ninguém. Vou até lá.
– Tia...

– Não se preocupe, Mari. Sei muito


bem como tratar aquele “cara de nojo”.

Adriel olhava para todos os lados.


Detestava ficar parado dentro do carro.

O que estou fazendo aqui? É


melhor eu ir para casa.

Lívia bateu levemente no vidro.


Adriel fez sinal para ela entrar no carro.

Posso mesmo entrar?

O quê? – Adriel abriu o vidro e


Lívia repetiu a pergunta – É claro,
mas sente-se atrás, por favor.

– É lógico... Você não quer ninguém


sentado ao seu lado... Com licença. Ah,
tomei banho há mais ou menos uma hora.

– Pare com isso. Lívia, você quer


mesmo acabar comigo, não é? Está me
castigando.

– É mesmo? Como foi o seu dia


hoje? Acho que foi bem produtivo
porque ainda são cinco horas e você já
saiu do escritório!

– Não mesmo. Não fiz nada hoje.


Foi um dia completamente perdido.
Lívia, você precisa ir amanhã.
– Não – disse simplesmente.

– Aquelas garotas não sabem fazer


nada direito.

– Elas são bem esforçadas e...

– São incompetentes.

– Não fale assim delas.

– Desculpe-me por magoá-la. Não


tive a intenção de...

– Teve sim.

– Aquele escritório precisa de você


– observou a reação da secretária pelo
retrovisor.
– E você?

– Eu... também – as palavras saíram


em um sussurro.

– Então diga alto e bom som.

– Ah, Lívia, você quer me humilhar,


não é?

– Diga.

– Preciso... do seu trabalho – ele


olhava para todos os lados menos para a
secretária.

– Até que não foi tão difícil.

– Amanhã posso contar com você,


certo? Agora preciso ir.

– Não, espere um momento, não


disse que voltaria.

– Nem meus irmãos apareceram


hoje, é um complô contra mim.

– Coitadinho!

– Lívia, o que você quer que eu


faça? – perguntou olhando-a pelo
retrovisor.

– Uau! Tenho dois pedidos.

– Cuidado, não me peça nada muito


complicado.
– Quando recebi a sua ligação
estava participando de um café com o
meu filho e a minha sobrinha e você nos
interrompeu. Meu primeiro pedido é que
você entre comigo e participe do café –
ela o observava atentamente, era
divertido ver a expressão dele.

– Peça algo mais simples.

– Você é inacreditável.

– Você sabe muito bem que não


entrarei em sua casa.

– Adriel, fiz bolo de cenoura.

– Peça outra coisa.


– Quero que você visite a sua
sobrinha e a pegue no colo.

– Lívia, você só pode estar


brincando comigo – meneou a cabeça.

– A Sofia pode crescer traumatizada


porque o tio não chega perto dela.

– Pare com isso. O Abner cumpre


muito bem o papel de tio por nós dois. E
para ela não faz a menor diferença.

– É tão difícil assim?

– Para mim é. Peça outra coisa, mas


seja rápida, não gosto de ficar aqui
parado...
– Você precisa me pedir para voltar.
Implorar – acrescentou com prazer.

– Certo. Lívia, por favor, volte – ele


falou rapidamente.

– Só isso?

– Você é insuportável.

– Sou mesmo? Então...

– Não, desculpe-me. Lívia, preciso


de você naquele escritório. Por favor!

– Tudo bem.

– Ótimo, então amanhã...


– Espere. Tenho mais um pedido,
lembra?

– Ai, ai, ai... Certo, fale – ele estava


impaciente.

– A minha sobrinha Mari...

– Por favor, não me peça para sair


com ela.

– Você nem imagina o que está


perdendo, mas não é isso. Você acha
que eu desejaria o mal para a minha
sobrinha? Amo a Mari.

– Não precisa falar assim.

– Ela tem um trabalho muito legal


com algumas jovens de uma comunidade
e está precisando de alguns kits...

– Perfeito. Pode pegar o que quiser.


Monte o kit como ela desejar, está bem?

– Ela ficará feliz.

– A sua sobrinha é tão... sonhadora.


Ela acha que pode mudar o mundo
com...

– Pequenos gestos valem muito.

– Tudo bem, não vamos discutir.


Você estará na ALT & Filhos amanhã
bem cedo e é isso o que importa –
começou a esfregar as mãos. Desejava
sair dali imediatamente.
– Adriel, se você me tratar daquele
jeito novamente...

– Prometo que me esforçarei para


não falar ou fazer nada que a ofenda.

– Ótimo. Até amanhã.

– Até amanhã.

– Se quiser entrar para aquele bolo


de cenoura...

– Não, obrigado.
Lívia contou para a sobrinha sobre
os pedidos que fizera ao patrão.

– Sério, tia? Como você o provoca,


mas valeu! As meninas nem vão
acreditar – disse Mariana na maior
animação.

– Ah, mãe, então amanhã você não


vai ficar aqui comigo – constatou
Nicolas com tristeza.

– Filho, preciso trabalhar, mas


depois podemos ir ao shopping, o que
você acha?

– Oba! Posso jogar agora?

– Pode.
– O Adriel deve estar aliviado –
comentou Mariana após Nicolas sair da
cozinha.

– Gostaria que ele mudasse, como


gostaria!

– Isso pode acontecer, tia.

– Ah, Mari, também gostaria de ter a


sua fé.
Capítulo 4 – Kits

Terça-feira o céu estava encoberto,


a probabilidade de chuva era enorme.
Às 11h Laila entrou apressada no
Mimãs. Logo avistou Mariana.

– Mari, preciso falar com você – ela


estava ofegante.

– Oi, Laila, você está bem? Parece


cansada.

– Vim correndo.
– Então sente-se, quer água?

– Não, você precisa me ajudar.

– O que aconteceu? – perguntou


preocupada.

– O Armando quer me bater. Ele


falou que se eu voltar para casa hoje...

– Calma. Conte tudo – Mariana


notou que os olhos de Laila estavam
marejados.

– Vi o Armando pegando dinheiro da


minha mãe e disse para ele devolver.

– Ah, Laila...
– Aí ele disse que eu estava
mentindo e que por isso ia apanhar. Não
posso voltar, a minha mãe vai pensar
que eu roubei. Ela sempre prefere
acreditar naquele homem. Estou com
medo, Mari! – dizia Laila assustada.

– Ah, minha lindinha, não sei como,


mas preciso ajudá-la.

– Você pode me levar para a casa da


minha vó.

– A sua mãe precisa saber...

– Ela não vai deixar.

– Faremos assim: Eu a levarei até a


casa da dona Angela e depois ela
conversa com a sua mãe. Espere só um
pouco... Preciso avisar a minha irmã.

Michelle estava com o celular em


sua mão quando a irmã se aproximou.

– A tia Lívia ligou e disse para você


buscar os kits. Pediu para você não ir
muito tarde porque ela acha melhor você
mesma escolher os produtos.

– Legal. Mi, preciso sair agora. A


Laila está com um problema sério. Vou
levá-la até a casa da dona Angela, é a
avó dela.
– Mari, você não aprende mesmo,
não é? Se a mãe dela ficou uma fera só
porque você fez progressiva na menina...

– Eu sei, Mi, mas não posso virar as


costas para ela. Falo tanto sobre
amizade e companheirismo durante os
ensaios e quando ela precisa de mim...

– Você sempre quer resolver os


problemas das pessoas.

– Passarei na ALT & Filhos


depois...
ALT & Filhos, logo após o almoço...

– Hoje ele está bem melhor. Lívia,


nunca mais peça demissão.

– Não garanto nada, Camile.

– Precisava ver a cara que ele fez só


porque eu estava perto da mesa dele.

– Você sabe muito bem que ele não


gosta que mexam nas coisas dele.

– Só levei os documentos!

– Eu sei, Camile. Preciso preparar


alguns relatórios; ele deve chegar daqui
a pouco. Foi almoçar no apartamento...

Neste momento Marisa entrou na


recepção da diretoria com uma
novidade.

– A Mari está lá embaixo esperando


por você, Lívia.

– Que bom! Vou levá-la para


escolher alguns produtos.

– Não demore. A fera deve chegar a


qualquer momento e você disse que
precisava fazer alguns relatórios... –
recordou Camile.

– Voltarei logo, mas podem ficar


sossegadas porque hoje ele está uma
seda.

Mariana deixou Laila na casa da avó


paterna com a promessa de que ela
ligaria para a nora. O pai de Laila havia
morrido e, desde a morte do filho, o
desejo de dona Angela era ficar com a
neta porque sabia muito bem que Neide
não cuidava da menina como deveria.

– Oi, tia, se estiver muito ocupada


posso voltar em outra hora.
– Tudo bem, o meu amado patrão
está almoçando. E você, já almoçou?

– A dona Angela não me deixou sair


sem almoçar.

– Ótimo, então vamos lá ver aqueles


produtos maravilhosos.

Após alguns minutos, Mariana havia


escolhido tudo o que queria. Formaria
kits que qualquer mulher ficaria
encantada. Escolheu shampoo,
condicionador, creme de pentear,
defrizante, reparador de pontas,
hidratante, óleo corporal, uma caixinha
com três pequenos sabonetes em formato
de coração, três tipos de esmalte e um
delicado estojo de maquiagem.

– Ficará lindo... Será que o Adriel já


chegou? Preciso agradecê-lo...

– Mari, nem pense em falar com ele.

– Tia, eu tenho que agradecer –


insistiu Mariana.

– Pode deixar que eu mesma


agradeço. Digo que você ficou
encantada...

– Quero fazer isso pessoalmente.

– Mari, ele não vai gostar.


– Serei sucinta, não posso demorar,
preciso voltar para o salão.

– Você não vai mudar de ideia, não


é?

Mariana sorriu.

– Tudo bem, mas estou torcendo


para que ele não esteja lá.

Adriel já estava impaciente. Havia


chegado há alguns minutos. Estranhou a
ausência de sua secretária, mas não
questionou as meninas. Camile e Marisa
respiraram aliviadas quando ele entrou
direto para a sua sala.
Mariana saiu do elevador junto com
sua tia e cumprimentou Camile porque já
encontrara com Marisa na portaria.

– Digam que ele não está, por favor


– pediu Lívia com as mãos unidas como
em uma prece.

– Chegou faz um tempinho, mas nem


perguntou por você – informou Camile.

– Mari, tem certeza que quer


mesmo...

– É claro.

– Então entrarei primeiro para não


pegá-lo de surpresa...

Camile e Marisa olhavam para


Mariana com curiosidade.

Após duas batidas à porta, Lívia


entrou.

– Até que enfim, pensei que a minha


secretária havia me abandonado
novamente...

– Minha sobrinha escolheu os


produtos.
– Sua sobrinha? – franziu as
sobrancelhas.

– Os kits para as meninas da


comunidade...Minha sobrinha dá aula
uma vez por semana...

– Ah, certo.– Lívia, os relatórios


estão prontos?

– Você os terá em uma hora.

– Uma hora? Lívia... Tudo bem –


estava se esforçando para não
demonstrar impaciência.

– Adriel, tem uma pessoa lá fora que


gostaria de falar com você.
– Resolva por mim, Lívia, estou
muito ocupado.

– Ela quer falar com você.

– Ela?

– A minha sobrinha.

– Sua sobrinha? Você só pode estar


brincando. Não tenho nada para falar
com ela – agora foi impossível disfarçar
a irritação e a impaciência.

– Será só um minuto...

– Preciso daqueles relatórios...

– Vou prepará-los, enquanto isso


você conversa com ela.

– Não quero conversar com a sua


sobrinha, não tenho nada para falar com
ela! – Adriel levantou-se e sem dizer
mais nada foi até o lavabo.

– Eu tentei. Agora preciso terminar


alguns relatórios...

– Tudo bem, tia.

– Mari, por que você está se


aproximando da porta?

– Vou falar com ele.


– Você não pode entrar na sala dele!
Ele ficará muito bravo e...

– Não se preocupe. Só vou


agradecer.

– Me ajudem – pediu para as duas


meninas que olhavam com curiosidade
para tia e sobrinha.

– Mari, a sua tia tem razão, ontem


ele gritou comigo e ficou uma fera com a
Marisa só porque ela levou...

Mariana nem ligou para os


argumentos de Camile. Aproximou-se da
porta e deu três batidas.

– Não quero nem ver – disse Marisa


– Vou até o almoxarifado...

Mariana bateu novamente e como


não obteve resposta, resolveu entrar.

– Com licença, eu bati, mas...– ela


ouviu a música suave que preenchia o
ambiente, olhou em volta e percebeu que
ele não estava. Aproximou-se da mesa e
admirou a organização.

Agora ele estava no número 78,


faltava pouco para chegar ao número
que insistentemente veio em sua mente
após a saída de Lívia. Enquanto contava,
Adriel esfregava as mãos com o
sabonete líquido e depois as enxaguava.
O ritual era repetido até chegar ao
número desejado. Estava satisfeito com
a nova torneira automática com sensor
de movimento que fora instalada há
alguns dias. Quando a irmã comentou
sobre a mudança, Adriel fora totalmente
contra. Não queria substituir as torneiras
que foram usadas por seu pai, mas tinha
que admitir que as novas eram práticas e
higiênicas. O secador de mãos fora
instalado há mais tempo, mas mesmo
assim o suporte com as toalhas de papel
não foi retirado. Quando a impaciência
falava mais alto, o secador era
facilmente substituído. Em seu
apartamento, as torneiras dos dois
lavatórios e da suíte também eram
automáticas e as toalhas felpudas foram
substituídas por métodos mais práticos e
higiênicos para secar as mãos, o que
para Janete era uma grande vantagem.
Anteriormente, ela lavava um volume
muito maior de roupas porque Adriel
usava uma toalha cada vez que
higienizava as mãos.

Mariana não percebeu a


aproximação dele porque naquele
momento estava verificando os seus e-
mails pelo celular. Adriel olhou para
aqueles cabelos longos e negros sem
entender o que eles faziam ali na sala
dele. Ao sentir um delicioso perfume no
ar, ela levantou a cabeça e olhou para
ele.

Foram alguns segundos de silêncio


antes da explosão.

– O que você está fazendo aqui,


garota? – perguntou com um tom de voz
alto demais.

– Não precisa gritar comigo – disse


calmamente.

– Você entrou em minha sala sem


permissão, então posso gritar sim!

– Não pode. Bati várias vezes. Pedi


licença. Tenho educação – disse ela
agora um pouco assustada com a reação
dele.

– Então demonstre isso saindo


agora.

– Não quero incomodá-lo, só


preciso de poucos segundos para...

– Está me incomodando e muito.

– Não tinha intenção de...

– A sua tia não disse que eu...

– Só quero agradecer. As meninas...

– Não fiz por você e muito menos


por causa das... meninas. Só fiz porque
foi um pedido de sua tia. Ou melhor, foi
uma condição para ela voltar... Mas o
q u e estou fazendo? Não devo
explicações para...– meneou a cabeça.

– Não importa o motivo. Quero


agradecer assim mesmo – sorriu.

– Garota, saia daqui!

– Obrigada. Montarei kits


maravilhosos!

– Não me interessa.

– Se não fosse carrancudo...

– Carrancudo?
– Sim. Ainda não vi o seu sorriso.
Se sorrisse seria mais bonito do que o
seu irmão... Você é mais...alinhado.
Tenho uma cliente que adora usar esta
palavra – Mariana falava naturalmente
sem se importar com o semblante sério
dele – Gosto do jeito que corta o cabelo.
Se um dia precisar de um corte, é só me
procurar.

Adriel não estava acreditando no


atrevimento daquela garota.

– Boa tarde, Adriel – disse ela ao


sair.
– Por que estão me olhando assim?–
perguntou Mariana ao aproximar-se das
mesas de sua tia e das meninas.

– Está tudo bem?– foi a pergunta de


Camile.

– Ele ouviu o que você tinha para


dizer? – foi a vez de Lívia.

– Está tudo bem. Ele ouviu sim.


Agora preciso ir. – Disse ela com um
belo sorriso. – Não sei por que vocês
estavam tão preocupadas! Tchau,
preciso voltar para o salão...”Oh, não,
nunca me deixou, na tempestade ou na
paz...”¹ – Cantava Mariana ao entrar no
elevador.
– Lívia, como ela conseguiu domar a
fera? – perguntou Camile após Mariana
sair.

– Ele deve ter se encantado com


aquele rostinho lindo.

– Encantado? Duvido. Marisa, sua


covarde, agora que você aparece?–
per guntou Camile antes da amiga
aproximar-se da mesa.

– Avisei que ia até o almoxarifado.


Pensei em ir até a Pan Leon para
comprar o meu chocolate, mas está
chovendo... E aí, ela conseguiu mesmo
falar com ele? Estou curiosa, o que ela
contou?

– Nada – foi Lívia quem respondeu


– Vou levar os relatórios.

– Lí v i a , tente descobrir alguma


coisa.

– Marisa, você acha mesmo que ele


vai comentar comigo?

Adriel olhava para o notebook sem


conseguir se concentrar. Ouviu algumas
batidas à porta.

– Só pode entrar se for a Lívia.

– Aqui estão os relatórios.

– Preciso analisá-los agora.

– Adriel?

– Sim?– ele já estava com os olhos


fixos nos papéis que a secretária
acabara de entregar.

– Está tudo bem? – perguntou com


um certo receio.

– Com você aqui está tudo ótimo –


ele observou a secretária por alguns
segundos antes de fixar os olhos nos
papéis novamente – Nada como ter
alguém competente por perto. As coisas
fluem.

– As meninas não têm culpa. Já estou


acostumada com o seu jeito de trabalhar.
Pausa para o café?

– Daqui a trinta minutos.

– Algum pedido especial?

– Quero pão de queijo e aquele pão


de massa folhada. Ontem não deu nada
certo.

– Cappuccino?
– Exatamente.

– Adriel?

– O quê?

– É...

– Lívia, sei que você quer perguntar


sobre a sua sobrinha – disse ele tirando
os olhos dos relatórios e fixando-os em
sua secretária.

– E você quer responder?

– Ela não deveria ter entrado aqui.


Você falhou.
Lívia foi até a Pan Leon e trouxe o
pedido de Adriel. O final de expediente
foi bem tranquilo, às 19h ela já estava
em sua casa relaxando no sofá, ou
melhor, tentando relaxar...

– Mãe, você prometeu, lembra?

– Estou morrendo de cansaço e está


chovendo... – Lívia olhou para o filho e
viu decepção naqueles olhinhos lindos –
Certo, vamos ao shopping.

– Oba! A tia Ivone perguntou se


pode ir também.

– É claro. Você viu a Mari?


– Ela disse que ia tomar banho, mas
já faz um tempão. Deve estar arrumando
os cabelos.

– Vou falar com ela. Quem sabe ela


também nos acompanha...

– Vai ser bem legal! – disse Nicolas


todo animado.

– “ Rendei graças ao nosso rei, o


Seu amor é pra sempre² “ – cantava
Mariana.

– Mari... Posso entrar? – perguntou


Lívia ao aproximar-se da porta do
quarto.

– Entre, tia e cante comigo: “ Pois


Ele é bom e não há outro igual... O Seu
amor é pra sempre, Te dou louvor...”

– Não tenho uma voz linda como a


sua.

– Tem uma voz maravilhosa. Vamos:


“ Te dou louvor...”

– Depois de um encontro com o


chato do Adriel, você ainda consegue
ficar toda animada?

– Não foi tão mal. Vocês falam tanto


que ele é uma fera, que é insuportável...
– Mari, quero saber o que aconteceu
naquela sala.

– Eu agradeci.

– Ele gritou com você?

– Só um pouquinho. Foi o fator


surpresa.

– Fator chatice. Mari, o que ele


falou?

– Quase nada. Fazia muito tempo


que não o via. Ele se veste tão bem e
que perfume!

– O que você disse para ele?


– Disse para ele sorrir – ela sorriu
ao dizer isso – Ou melhor, falei que se
ele sorrisse ficaria muito mais bonito...

– Não acredito. Ele deve ter ficado


muito bravo.

– Ele é tão alto e tem um jeito....

– Imponente. Mari, não estou


gostando...

– Qual é o problema, tia?

– Esqueça, pelo menos por enquanto.


Vamos ao shopping, quer ir também?

– Legal. Preciso me arrumar...


– Mais?

– Tia!

Que garota atrevida! Entrou em


minha sala sem permissão e se
ofereceu para cortar o meu cabelo. Até
parece. Ela nunca colocará aquelas
mãos em mim, nunca. Garota atrevida!

Eram os pensamentos de Adriel


enquanto lavava as mãos no início
daquela noite de terça-feira.
– Niki, coma mais devagar – pediu
Lívia ao vê-lo devorar o lanche.

– A tia Mari já comeu todas as


batatinhas!

– Menino, de quem são as


batatinhas, hein? – perguntou ela fazendo
cócegas no garoto.

– Pare com isso... Mãe, a tia Mari


está fazendo cosquinha em mim!

– Mari, você é pior do que criança.


E os kits? Vai montar quando?

– Amanhã. Hoje não deu. A Mi vai


me ajudar. Você acredita que a sua
querida irmã também quer um?
– Estou errada, Lívia? – perguntou
Ivone.

– Até eu quero – brincou Lívia.

– A Mi com certeza vai ganhar,


agora a minha mãe querida eu acho que
não...

– É assim?

– Brincadeirinha, mãe, mas não sei


se posso dar kits para vocês...

– Por que, Mari?– perguntou a tia.

– Eu pedi para as meninas. Tia,


pergunte ao Adriel.
– Ah, Mari, acha mesmo que ele vai
responder? Com certeza olhará para
mim com aquela...

– Cara de nojo – completou Nicolas.

– Tia, olha só o que você ensina!


Qualquer dia o Niki irá chamá-lo assim!

– Mari, sabe quando o meu filho terá


a oportunidade de se aproximar do
Adriel? Nunca. Ele detesta crianças –
afirmou Lívia – Ele quer distância até da
sobrinha! A Sofia é tão fofa e o tio nem
quer tê-la por perto.

– Deve ser porque perdeu a filha.


Acho que ele quer evitar contatos para
não se machucar.
– Faz sentido psicóloga Mari. Mas e
aí? Você não contou como terminou a
sua aventura na sala dele – perguntou a
tia com curiosidade.

– Ma r i , nem acreditei quando a


Lívia me disse que você entrou na sala
do patrão dela – Ivone meneou a cabeça.

– Mãe, qual o problema? Fui


agradecer. Até elogiei os cabelos dele!

– Isso você não tinha mencionado –


disse Lívia.

– E me ofereci para cortá-los.

– Não acredito! Mari, já comentei


que só uma pessoa coloca as mãos
naqueles cabelos, além dele mesmo. O
Silas madruga para atendê-lo e tudo
precisa estar impecável.

– Também posso fazer isso.

– E ele corta no mínimo duas vezes


por mês. Quando cisma são três ou
quatro cortes no mesmo mês! – Lívia
revirou os olhos.

– Aquele rapaz é muito esquisito.


Fiquei muito preocupada quando a sua
irmã me falou que estava gostando do
Abner. Peço tanto a Deus que o
problema não seja genético – confessou
Ivone.

– Mãe!
– É verdade. Já imaginou o Abner
com aquelas esquisitices? Deus nos
livre! – agitou a mão direita no ar.

– Ivone, você sabe que o Adriel não


era assim – disse Lívia.

– Será que ele faz isso para manter a


lembrança do pai?

– Isso também faz sentido, doutora


Mari. Eles eram muito ligados.

– Lívia, você deveria aconselhá-lo a


procurar tratamento, isso sim – sugeriu
Ivone.

– Não se pode falar nisso com ele.


– Eu preciso dar um jeito nisso... –
Mariana pensou alto.

– Dar um jeito? Mari, do que você


está falando?

– Nada, mãe. Niki, posso pegar uma


batatinha?

– Tia Mari!

Após o jantar que ele mesmo havia


preparado, Adriel sentou-se para
analisar alguns relatórios da empresa.
Quando não fazia as refeições com a
mãe ou não cozinhava, ia ao único
restaurante que frequentava, o Três
Ésses. Quando resolvia comer algum
lanche, o que era raro, Adriel também ia
à Pan Leon, a padaria onde o pai de
Mariana trabalhava. Eram os mesmos
lugares que o pai frequentara. Examinou
os relatórios por alguns minutos, mas
como não estava conseguindo se
concentrar fez uma pausa.

Garota atrevida! A Lívia deveria tê-


la impedido de entrar em minha sala.
Será que ela pensa que só porque o
meu irmão namora a irmã dela... Só me
faltava essa. Só faltava aquela garota
atrevida achar que é da família. Já me
arrependi de ter doado aqueles
produtos – começou a esfregar uma mão
na outra sem parar. Levantou-se e foi até
o lavabo – Garota atrevida! Espero que
ela nunca mais entre em minha sala.
Espero nunca mais precisar olhar
para... para...aqueles cabelos negros.
Nunca mais. Isso não pode acontecer
mais. Ela precisa ficar bem distante de
mim. Setenta e sete... setenta e sete...”

– Mari, e a Laila, hein? – perguntou


Michelle no final da tarde de quarta-
feira.
– Ai, Mi, seria tão bom se ela
pudesse morar com a dona Angela!
Tenho muito medo que aquele homem a
machuque.

– Mari, vê se para de se intrometer


nos assuntos dos outros, tá?

– Mi, a Laila participa do curso e do


GEAD, como posso ignorá-la? Ai, se
ela morar com a dona Angela não
poderá mais participar... Ah, se for
melhor para ela... tudo bem!

– Pare de se envolver, baixinha!

– Não consigo ficar só na teoria.


Antes dos ensaios sempre converso com
elas por alguns minutos. Ensino sobre o
amor, falo sobre a importância de ajudar
uns aos outros e digo para elas que sou
uma amiga. Mi, como posso virar as
costas quando elas precisam de mim?

– Pense comigo de maneira lógica.


Se a mãe da Laila não gostou que você
arrumou os cabelos da filha dela,
imagine qual será a reação quando
souber que você levou a menina até a
casa da avó? Nem sei como ela permite
que a Laila participe do curso e do
GEAD!

– Mi , vou precisar de ajuda para


montar os kits.

– Você fez que nem me ouviu –


Michelle cutucou a irmã caçula.
– Ai! Mi, não adianta, eu sou assim.
Você me ajuda?

– É claro.

Às 19h30, Michelle atendeu sua


última cliente. Mariana ficou livre
poucos minutos antes e entrou na casa
para buscar as caixas com os produtos.
Michelle sentou-se para descansar um
pouco quando ouviu a campainha. Já
estava próxima ao portão quando
Mariana apareceu com as caixas e
colocou-as no salão. A irmã retornou
segundos depois.

– Mari, eu falei para você... Sabe


quem a espera no portão?

– Um príncipe? – brincou.

– Uma... bruxa! Ai, não é legal falar


assim – tapou a boca com mão.

– Bruxa?

– É a mãe da Laila. Está com uma


cara!

Mariana foi até o portão e a irmã a


seguiu. Neide nem esperou que ela se
aproximasse e começou a gritar:

– Quem você pensa que é? Você não


tem nada para fazer?
– Dona Neide, não precisa gritar.

– Dona é a sua mãe. Odeio pessoas


que se metem na vida dos outros. A
Laila é minha filha, entendeu? Se você
quer ter filhos para cuidar sabe como
fazer. Ou não sabe?

– Olha, eu...

– Por que levou aquela mentirosa


para a casa daquela velha?

– A Laila não é mentirosa.

– Ela é sim. Você pensa que a


conhece, ela sabe enganar direitinho!

– Ela é uma menina que precisa de


mais atenção e...

– Sei muito bem do que ela precisa.


E ontem ela recebeu um pouco.

– O que fez com ela? – perguntou


preocupada.

– Não é da sua conta.

– Não grite com a minha irmã –


Michelle não suportava ver a maneira
que a mulher falava com a irmã.

– Agora tenho que aguentar a outra


também? Olha, o assunto aqui é com a
sua irmã. Se você se preocupa tanto, por
que não dá uns conselhos para ela, hein?
Diz para ela não se intrometer na vida
dos outros! – gritou Neide.

– É melhor você sair daqui. Não


somos obrigadas a ouvir...

– São sim. A sua irmã...

– Calma, Mi, eu resolvo isso. Neide,


como a Laila está? – Mariana
demonstrava tranquilidade ao falar, mas
estava muito preocupada.

– Ela é a minha filha. Isso não é da


sua conta. Fique longe dela!

Neide saiu rapidamente sem dizer


mais nada.

– Ai, Mi, o que será que ela fez com


a Laila?

– Mari, você não ouviu aquela


mulher?

– E se ela torturou a menina?

– Não exagere.

– Estou tão preocupada... Preciso


falar com a Laila.

– Mariana, você não vai procurar a


Laila. Está querendo mais encrenca? Se
você insistir nisso vou contar tudo para
a mãe! – Michelle precisou falar com
mais firmeza.

– Tudo bem, não precisa ficar brava!


Nossa, você me assustou! Quando foi a
última vez que você me chamou de
Mariana? Amanhã levarei os kits e com
certeza a Laila estará na aula. Não
precisa se estressar. Fique tranquila,
maninha! – acariciou os cabelos da
irmã.

– É melhor assim. Não se anime, é


bem provável que a mãe a tenha
proibido de ir.

– Espero que não.

– Ih... Amanhã à tarde você vai


precisar do carro, né? Tenho que ir à
casa da dona Elvira. A filha dela me
ligou. A neta vai chegar da Espanha e
ela quer ficar bem bonita. Você sabe que
ela está muito velhinha e quase não sai
de casa.

–Tudo bem, pode ir com o carro.


Falarei com a tia Lívia. Agora podemos
montar os kits ou será que aparecerá
mais alguém?

– Responda você mesma... Será que


tem mais alguma mãe insatisfeita com
você?

Mariana riu. Ivone chamou as filhas


para jantar e só depois elas puderam se
dedicar à montagem dos kits. Como as
duas irmãs não foram mais
interrompidas, terminaram o trabalho em
uma hora e meia. Estavam muito
satisfeitas com o resultado. Os kits
ficaram maravilhosos.

– Ma r i , adianta ensinar aquelas


meninas? Você acha que elas serão
cabeleireiras?

– São 20 meninas, se uma resolver


seguir a profissão está ótimo. Elas já
aprenderam bastante. Estão felizes por
saberem arrumar os próprios cabelos.
Você precisa ver como algumas
aparecem agora! É gratificante...

Mariana, após tomar o seu belo


banho, foi até a casa dos fundos para
conversar com a tia sobre o carro.

– Posso emprestar o meu carro se


você me levar até a ALT & Filhos bem
cedo – foi a condição de Lívia.

– Sem problemas... E qual é o


horário para buscá-la?

– Não precisa me buscar. Acabei de


ter uma ideia... Farei um teste com
“aquele cara de nojo”!

– Teste?

– É. Pedirei carona para ele. Quero


só ver a reação...
– Como você gosta de provocá-lo!

– Minha querida sobrinha, o Adriel


precisa de alguém que o provoque.

– Ele precisa é de ajuda.

– Não comece!
Capítulo 5 –
Carona

Já passavam das 15h e nada de Laila


aparecer. Mariana começava a sua aula
às 14h30 e Laila sempre chegava antes
do horário. Às 16h ela começou a
entrega dos kits. As meninas ficaram
eufóricas.

– Cléo, hoje você viu a Laila? –


perguntou para uma das meninas.
– Não. Ela não foi para a escola
hoje.

– Estou tão preocupada. Quero muito


falar com ela.

– Posso ir com você até a casa dela.

– Tudo bem, mas vamos avisar a sua


mãe, Cléo – Mariana era muito grata à
mãe daquela garota por ceder a sua
garagem para as aulas.

Na sala do presidente da ALT &


Filhos...
– Daqui a uma hora no máximo, por
quê? – Adriel, que neste momento,
verificava algumas estatísticas em seu
notebook, olhou rapidamente para a
secretária e em seguida para o notebook
novamente.

– Preciso de uma carona – Lívia


respondeu como se falasse sobre a
previsão do tempo.

– Carona? – agora olhou-a


atentamente.

– Emprestei meu carro para minha


sobrinha.
– Lívia, você pode muito bem pegar
um táxi – voltou a olhar para o
notebook.

– Quero que você me dê uma carona


– sorriu.

– Não dou carona para ninguém –


encarou a secretária.

– É por isso mesmo que eu estou


pedindo.

– Você quer arrumar algum motivo


para confusão, isso sim. Quer me
provocar...

– Adriel, é simples. É o seu


caminho. Não vai mudar nada e você
sabe que eu nunca ando de táxi –
respondeu séria.

– Depois eu é que sou o esquisito.

– Você sabe muito bem o motivo.

Desde o assassinato do marido,


Lívia evitava entrar em táxis.

– Eu sei, Lívia, mas peça carona


para outra pessoa...

– Adriel, estou pedindo para você.


Tem coragem de negar um favor para
mim? – perguntou provocando-o.

– Agora será assim? Chantagens?

– Isso é chantagem?

– É sim. Se eu não der a carona você


pedirá demissão, de novo!

– Eu não disse isso.

– Mas pensou.

– Está lendo pensamentos agora?

– Lívia, não brinque comigo –


começou a esfregar as mãos.

– S ó pedi uma carona. Você não


quer que eu entre em seu carro? Sou
muito útil para você, mas não posso
andar em seu lindo carro, não é? Tem
medo de contaminação?

– Pare com isso. Como você é...

– Sou o quê?

– Persistente e... dramática. Tudo


bem, darei a carona, mas... não convide
suas amiguinhas.

– Obrigada, você é um doce... de


boldo – disse ela ao aproximar-se da
porta.

– Eu ouvi isso, Lívia.


– Ótimo.

Em frente à casa de Laila...

– Valeu, Cléo, mas não deve ter


ninguém em casa mesmo. Vou deixar o
kit com você. Queria tanto falar com a
Laila! Tenho que saber o que está
acontecendo – Mariana estava muito
preocupada – Preciso ligar para a dona
Angela..

– Aviso se descobrir alguma coisa.


– Obrigada, linda. Agora tenho que
ir.

Adriel saiu de sua sala às 17h40.

– Lívia, amanhã preciso que você


me substitua em uma reunião. Chegue
alguns minutos mais cedo, sim?

– Alguns minutos?

– Trinta minutos.
– Certo. Não está esquecendo de
nada?– perguntou ao vê-lo se distanciar.

– Não – aproximou-se do elevador.

– Minha carona.

– Ah... Então seja rápida porque


detesto esperar. Estarei no
estacionamento. Lívia, a carona é para
você, só para você! – olhou rapidamente
para Camile e Marisa.

Assim que a porta do elevador se


fechou...

– Lívia, a carona é para você, só


para você... – Marisa fez uma careta –
Até parece que eu quero uma carona
dele. Você quer, Camile?

– Eu? Nem pensar. Dá para imaginar


como seria: “ Não toque aí, não pisque,
não fale nada...

–”Não respire”– completou Marisa.

– Meninas!

– Estamos erradas, Lívia?–


perguntou Camile.

– Estão exagerando um pouquinho,


só um pouquinho.

– Só a parte do “não respire”, não é?


– Marisa piscou para Lívia.

– É – concordou sorrindo – É
melhor eu ir porque ele detesta esperar!

Enquanto isso Mariana estava tendo


problemas com o carro de Lívia...

– Que ótimo... Não pega de jeito


nenhum. E agora? Vou ligar para a tia
Lívia. Não tenho o telefone do
mecânico...
Lívia acomodou-se no banco de trás.
Ela sabia muito bem que sentar-se ao
lado dele era proibido. Adriel
dificilmente levava alguém em seu carro
e ninguém tinha a permissão de sentar-se
ao seu lado. Lívia tinha quase certeza
que o raro “privilégio” só era concedido
à mãe dele.

– O Abner deveria ir à reunião ou a


Tati – sugeriu Lívia.

– Você irá.

– Não entendi o motivo.


– Está familiarizada com todos os
detalhes da negociação. É só ouvir a
proposta e depois me comunicar. E o
Abner viajou para Campinas, só voltará
amanhã à tarde.

– O Wilson não vai gostar nada


disso. Ele quer conversar com você.

– Só conversarei com ele se for


estritamente necessário. Ele insiste em
apertar a minha mão. Aperta tanto que
até parece que não soltará nunca mais! –
revirou os olhos e fez uma careta.

– Ai, Adriel, se ele suspeitar que


você não quer encontrá-lo só por esse
motivo...
– Lívia, dá para atender? –
perguntou impaciente ao ouvir o celular
dela tocar.

– Calma, só tocou duas vezes.

– Que toque irritante!

– Foi meu filho quem escolheu.

– É irritante.

– Alô? Oi, Mari. Ah, que chato! Faz


um tempão que estou para levá-lo ao
mecânico. Tenho o telefone do Guto.
Onde? Estamos perto. Sei... Em cinco
minutos. Beijo.

– Estamos perto?
– Adriel, o meu carro está parado
bem próximo daqui.

– E eu com isso?– perguntou com


desdém.

– Minha sobrinha está com ele.

– Lívia, eu...

– Só me leve até lá que eu darei um


jeito.

– O que a sua sobrinha está fazendo


por aqui, hein?

– Ela dá aulas para um grupo de


meninas...
– A sua sobrinha não sabe que a
região aqui é perigosa?

– Qual lugar não é perigoso?

– Está sozinha, não está?

– Sim, mas a Mari está acostumada.

– O pai dela sabe?

– É claro e acha lindo o trabalho que


ela faz.

– Como pode? – perguntou


inconformado – Onde ela está?
Cinco minutos depois avistaram
Mariana.

– Oi, tia! Oi, Adriel, que bom revê-


lo!

– Lí v i a , tenho que ir – olhou


rapidamente para Mariana mas não falou
com ela.

– Nós vamos ficar bem. Só


precisamos esperar pelo mecânico.
Estou tentando ligar, mas ele não atende.

– Quer que eu chame o guincho? É


por minha conta.

– Não. Prefiro falar com o Guto


primeiro – respondeu Lívia.
– Então tente novamente. Não estou
gostando da ideia de ficar aqui parado –
ele olhava para todos os lados.

– Pode ir, Adriel.

– Não posso deixar duas mulheres


sozinhas aqui, logo vai escurecer e...

– Ai, que fofo! – Mariana não


resistiu.

– Fofo? Garota, você é


irresponsável – olhou rapidamente para
ela.

– Meu nome é Mariana, não é


garota!
– Tanto faz, você é irresponsável do
mesmo jeito.

– Escute bem, garoto, sou muito


responsável, é exatamente por isso que
estou aqui.

– Garoto? Você não pode falar


assim comigo – ele a encarou.

– E você...

– Consegui falar com o Guto,


chegará em 20 minutos – avisou Lívia.

– Vinte minutos? Não podemos ficar


aqui. Deixe o carro e...

– Adriel, pode ir.


– Não acredito nisso, maldita hora
para uma carona!– vociferou.

– Já disse para você ir embora.

– E deixar as duas aqui sozinhas?


Nem pensar.

– Nossa, Adriel, não conhecia o seu


lado protetor.

– Sem gracinhas, Lívia.

– Podemos comer alguma coisa


naquela padaria – sugeriu Mariana.

– Mari, você não vai conseguir


convencê-lo...
– Podemos ir até lá, ficar aqui
parados ou se o Adriel não quiser nos
acompanhar... Ele pode olhar o carro –
provocou-o– Você entende de
mecânica?

– Olhar o carro? Acha mesmo que


colocaria as minhas mãos nisso?

– Sem ofensas, o carro é meu. Não


se compara ao seu, mas está pago.

– Lívia, não mexeria nem em meu


carro, você sabe. Vamos lá na padaria, é
melhor do que ficarmos aqui parados...

Mariana e Lívia pediram café e


misto quente; Adriel esperou-as bem
próximo à entrada do estabelecimento.

– Ele é chatinho, mas ainda pretendo


ajudá-lo – sussurrou Mariana.

– Mari, esqueça isso.

– Não mesmo, tia. Ele não é feliz.


Qual foi a última vez que você viu um
sorriso naquele rosto bonito?

– Um sorriso verdadeiro? Sem


ironias ou desdém? Não lembro.

– Você vai vê-lo sorrir de verdade.

– Mari, você é tão otimista, tenho


medo que fique decepcionada.
– Não se preocupe. Ele vai sorrir
novamente ou meu nome não é Mariana.

– Então vá pensando em outro.

– Nossa, tia, que fé!

– Acho que a chamarei de garota –


brincou Lívia.

– Engraçadinha.

– Mari, você chamando o Adriel de


garoto foi o máximo. Reparou na cara
que ele fez? Uma coisa tenho certeza:
Nunca mais conseguirei uma carona com
ele. Olhe como ele está esfregando as
mãos.
– Não para de fazer isso, até irrita!

– Está nervoso. Na verdade ele está


louco para lavar as mãos.

– Agora ele está fazendo um sinal,


acho que o Guto chegou. Espero que ele
resolva o problema logo porque tenho
uma cliente às 19h.

– Lívia, se não for o seu mecânico


que está perto do carro, é alguém
querendo roubá-lo.

– Ai, Adriel, como você é


desconfiado, é claro que é o Guto.
Vamos.

– Oi, Lívia, demorei?

– É claro que não. E aí? Será que ele


sai andando daqui?

– Veremos. Semana passada eu


avisei para você deixá-lo na oficina.

– Eu sei, mas como ele estava


andando... Sabe como é...

– Sei muito bem. Oi, Mariana, tudo


bem?

– Oi, Guto. Tudo ótimo. Você


conhece o patrão da Lívia? O nome dele
é Adriel.

Para alívio de Adriel, Guto não saiu


do lugar. Abriu o capô do carro e disse:

– Não. Como vai? Vou dar uma


olhada aqui...

– Estou péssimo, graças à minha


querida secretária...

– Não precisa falar assim. Já pode ir


se quiser. Guto, você veio com...

– Minha moto.
– Ah... Que ótimo!

– Posso levá-las, mas só se for


agora – disse Adriel.

– Não posso ir. Quem vai levar o


carro?

– E se demorar? As duas ficarão


aqui?– perguntou irritado.

– Ficarei aqui, mas pode me fazer


um favor de levar a minha sobrinha para
casa?

– O quê? – ele olhou rapidamente


para Mariana.

– Tia, não precisa. Eu espero...


– Mari, você não tem uma cliente às
19h? Faltam quinze minutos – lembrou-
a.

– E aí? Tenho outras coisas para


fazer – disse Adriel sem esconder a
impaciência.

– Mari, vá com ele.

– Tudo bem, tia.

– Banco de trás – disse


rispidamente.
– Não precisa falar assim.

– Coloque o cinto.

– Não sou nenhuma criancinha.

– É pior. Se fosse criança, tudo bem,


mas é uma adulta com atitudes de
criança – Adriel higienizou as mãos com
álcool em gel. Mariana notou mas não
fez nenhum comentário.

– Atitudes de criança? O que eu fiz?

– Ainda pergunta? Veio sozinha em


um bairro perigoso e...

– Eu venho aqui há meses.


– Você não tem juízo mesmo! – deu
a partida no carro.

– Por que está tão irritado comigo?

– Se você não fosse irresponsável eu


já estaria em meu apartamento.

– Me desculpe. Logo você estará em


seu apartamento quentinho e
aconchegante.

– Não vejo a hora. Agora fique


calada. Não quero conversar.

– Nossa, eu...

– Você me ouviu, certo? Não há


nenhuma necessidade de mantermos uma
conversa social.

Mariana mostrou a língua.

– Eu vi isso! – disse olhando-a pelo


retrovisor – É uma criancinha mesmo.

– Você é muito... chato!

– Ótimo.

Após dois ou três minutos, Mariana


começou a cantar:

– “ Louvarei na tempestade,
levantarei minha voz, pois sei quem
você é, não importa onde...” ¹

– Não está chovendo... Será que


você poderia ficar em silêncio? –
perguntou irritado.

– Não posso nem cantar? Você só


falou sobre conversa social...

Adriel ligou o CD player. Nocturne


Op. 9 nº 2 de Frédéric Chopin
preencheu o silêncio constrangedor. Dez
minutos depois, ele parou o carro em
frente à casa de Mariana.

– Obrigada, apesar de toda a


grosseria. Boa noite.

Ela não obteve resposta.


Na casa da família Alvarez...

– Mãe, não chore.

– Tenho tanto medo que ele fique


sozinho!

– O meu irmão não está preocupado


com isso. Ele prefere ficar sozinho.

– Tati, ele não reconhece que


precisa de uma pessoa que o entenda e
que o ame, mas ele precisa muito. Peço
tanto a Deus que prepare alguém para o
meu filho. Ele precisa de uma moça
compreensiva, atenciosa, dedicada...

– Que tenha muita paciência e senso


de humor, mas que não demonstre para
ele, porque isso o deixaria irritado.
Mãe, não é fácil agradá-lo. Ah e ela
precisa ter mania de limpeza.

– Eu e o seu pai vivíamos muito


bem. Você sabe que nunca tive mania de
limpeza, mas sempre gostei das coisas
em ordem e sempre respeitei o jeito
dele.

– Traduzindo: Sempre fez todas as


vontades dele.

– Não.
– Sim. Mãe, você acha mesmo que
exista alguém como a senhora? – Tatiana
acariciou o braço de sua mãe.

– Só quero alguém que o ame assim


como ele é.

– Não posso dizer que é impossível,


mas é muito, muito difícil!

– Ah, meu Deus, meu filho ficará


sozinho e infeliz – Tereza não conseguiu
conter as lágrimas.

– Mãe, pare de chorar. Acalme-se.

– Ontem pensei naquela menina.

– Menina?
– A irmã da Michelle.

– A Mari não é uma menina, mãe,


ela já tem 24 anos!

– É uma menina. Ela parece ser tão


boazinha...

– M ã e , não me diga que está


pensando...

– Pode dar certo.

– A Mari é uma pessoa maravilhosa


e justamente por isso é que o meu
querido irmão nunca se aproximaria
dela.

– Não entendi, Tati.


– Ela é muito simpática, conversa
com todos, é atenciosa...

– A Mariana é perfeita para ele.

– Não tem nada a ver com o Adriel.


Ela se preocupa com as pessoas. Dá
aula para um grupo de meninas de uma
comunidade e se envolve mesmo com
elas. A Mari é do tipo que enfrenta os
problemas...

– Maravilha.

– É melhor esquecer isso. Quando a


Michelle apresentou o Abner como
namorado, a Ivone ficou toda
preocupada e pelo seu olhar você
desconhecia isso, não é?
Tereza não pôde responder porque
Adriel entrou na sala de estar naquele
exato momento.

– Espero que não estejam falando de


mim.

– Filho, que surpresa boa! – Tereza


enxugou discretamente as lágrimas com
o dorso da mão.

– Fui ao posto para aspirar o carro –


o posto de serviços próximo à casa de
sua mãe era o único que ele
frequentava– Oi, Tati. Ficarei para o
jantar, mamãe.

– Oi, Dri. Resolveu aspirar o carro


agora?

– Não suporto a ideia de ter cabelos


espalhados pelo carro.

– Cabelos? – Tatiana estava


surpresa.

– Dei carona para a Lívia e depois


ainda tive que aguentar a sobrinha dela.

– A sobrinha dela?– perguntou


Tereza muito interessada.

– Aquela garota...
– A Mariana?

– Aquela garota é uma


irresponsável.

Ao ouvir a resposta de Adriel,


Tereza piscou para a filha.

– Você não acha que está


exagerando? Precisava aspirar o
carro?– perguntou Tati – E a Mari não é
irresponsável.

– Exagerando? Aquela garota dá


aulas para várias meninas. A roupa dela,
com certeza, estava cheia de diferentes
fios. Ela é irresponsável! Anda sozinha
em um bairro perigoso – meneou a
cabeça.
– Ai, Dri, só você.

– Então você deu carona para a


Mariana...– Tereza ficara
empolgadíssima com a novidade.

– Dei carona para a minha


secretária. A Lívia está se aproveitando,
mas se ela pensa que continuará com o
joguinho por muito tempo...

– Agora tenho que ir. Não posso


jantar com vocês, meu marido e a minha
filhinha linda estão me esperando. Dri,
vê se pega leve com a Lívia, porque se
e l a for embora novamente eu não o
ajudarei – Tatiana beijou sua mãe e
acenou para o irmão.
– Tchau, querida e não se esqueça
daquele assunto.

– Tudo bem, mãe, pensarei sobre...

– Pense só um pouco e depois parta


para a ação.

– Do que as duas estão falando,


hein?

– Você sabe que a sua irmã e o Joel


são conselheiros dos jovens e...

– Não quero nem saber de


problemas, principalmente de jovens.

– Você é tão “velho”, não é,


querido?
– Às vezes sinto como se tivesse o
dobro da minha idade.

– Se você se abrisse mais, fizesse


amizades... Arrumasse uma namorada...

– Mamãe, por favor!


Capítulo 6 – Jantar

Tatiana nem precisou pensar muito


sobre o assunto, recebeu uma ligação de
Mariana e teve uma ideia no mesmo
instante.

– Mari, acho melhor conversarmos aqui


em casa. Venha jantar comigo amanhã.
Juntas podemos encontrar alguma
solução.

Mariana comentou com Tatiana sobre o


problema de Laila. Disse o quanto
estava preocupada. Ficara sabendo há
poucos minutos que nem a avó tinha
notícias da neta.

No dia seguinte, Tereza foi à ALT &


Filhos bem cedo.

– Aconteceu alguma coisa?– perguntou


Adriel ao ver a mãe entrar em sua sala.

– Não, querido, está tudo bem. É que


tenho um convite especial para fazer.

Neste momento, Lívia entrou com uma


cadeira.
– Obrigada, Lívia! Querido, você bem
que podia deixar uma ou duas cadeiras
para as visitas, não é? – sorriu para a
secretária.

Adriel não respondeu. Enquanto a mãe


se acomodava na cadeira ele observava
o notebook só para evitar os olhares das
duas mulheres.

– A senhora aceitaria um café, água...

– Agradeço, Lívia, mas só estou aqui


porque tenho um convite muito especial
para fazer ao meu filho.

– Então... Com licença e boa sorte –


Lívia olhou rapidamente para o patrão e
saiu em seguida.
– Boa sorte? Como a Lívia é... atrevida!
– fechou o notebook e olhou para a mãe
– Convite especial? Não sei se quero
ouvir...

– Filho, não fale assim. Ouça primeiro.


Querido, gostaria que hoje à noite você
me acompanhasse até a casa de sua
irmã. Um jantar...

– Ah... A senhora sabe que detesto


reuniões de família.

– Você detesta qualquer tipo de reunião,


até de negócios.

– É isso aí. A minha querida mãe sabe


muito bem disso, então por que ainda
insiste? Está perdendo o seu precioso
tempo – abriu a primeira gaveta e
fechou-a em seguida.

– Querido, por favor! A nossa família


não pode acabar assim – lamuriou
Tereza – Você em seu apartamento, a
sua irmã com o marido e a filha... Um
dia o Abner casará e eu irei embora
deste mundo... Gostaria que meus filhos
estivessem unidos e...

– Que drama! – abriu novamente a


primeira gaveta e em seguida a fechou.

– É isso mesmo... Estou tão triste! –


Tereza começou a chorar.

– Não chore, por favor – pediu ele.


– Então diga que vai me acompanhar.

– Não faça isso comigo – começou a


esfregar a mãos.

– Nunca peço nada e...

– O Abner e a namorada também foram


convidados?

– Não. Filho, a sua irmã ficaria tão feliz


ao vê-lo na casa dela! Qual foi a última
vez que esteve lá?

– Só fui à casa dela uma vez. Uma


semana antes do casamento... A Tati
errou ao se casar naquele ano... O
mesmo ano em que... – abriu e fechou a
gaveta duas vezes seguidas. Tereza
observava os rituais de seu filho com
tristeza.

– Filho, a Tati casou-se vários meses


após a morte de seu pai.

– Mas foi o mesmo ano. Ela não podia


esperar?

– Adriel, meu filho, você faria isso por


mim?– ela o encarava com os olhos
suplicantes.

– Não me olhe assim.

– Por favor, não sei quanto tempo ainda


tenho, quero ver meus filhos unidos...

– Detesto dramas. Ninguém brigou. Só


não gosto de... sair. A senhora sabe que
passo a maior parte do meu tempo livre
em meu apartamento.

– Então você já resolveu, não é? Não


posso contar com você – levantou-se
abruptamente.

– Tudo bem, eu a acompanharei – disse


com desânimo.

– Ah, querido, estou tão feliz! Faremos o


jantar, por isso passe em casa às 18h,
está bem? Você pode sair mais cedo do
trabalho, é só falar com o patrão –
brincou Tereza – A Tati nem vai
acreditar!

– Nem eu acredito – meneou a cabeça.


Mariana ficou aliviada ao ver Laila
entrar no salão naquela tarde de sexta-
feira.

– Laila! Ah, menina, eu estava tão


preocupada!

– Oi, tia Mari, eu sei, mas não tive como


aparecer por aqui antes.

– Você está bem? O que aconteceu?

– Minha mãe me proibiu de participar


das suas aulas. Não posso nem ir para a
igreja – lamentou a menina.

– Que pena! Mas... ela bateu em você? –


acariciou o rosto da menina.

– Não. Só disse que não posso mais


falar com você. Minha mãe não gostou
quando ficou sabendo quem me levou
até a casa da minha vó. Desculpe, tia,
mas a minha vó acabou falando sem
querer.

– Tudo bem. A Cléo entregou o seu kit?

– Adorei, tem cada coisa legal! Minha


mãe até usou a maquiagem! E ela nem
reclamou...

– Queria fazer alguma coisa por você...


Como posso ajudá-la?

– Você já fez tanto. Amo você.


– Ah, minha linda, também amo você.

Mariana abraçou a menina. Poucos


minutos depois a garota precisou ir
embora. Não podia demorar-se porque a
mãe logo estaria em casa.

– A Laila apareceu? Ótimo, assim você


para de ficar lamentando – disse
Michelle ao saber da visita que a irmã
recebera há poucos minutos.

– Ai, Mi, só que ela não pode mais ir às


aulas. Nem mesmo à igreja.
– Ela é mãe da Laila, o que você pode
fazer?

– Orar para Deus mudar aquele coração


de pedra. Uma mãe que não quer o bem
da filha? Não me conformo.

– Mari, mudando de assunto... Você vai


jantar com a Tati? A mãe acabou de
comentar comigo.

– Esqueci de falar, liguei para ela


ontem. Não sabia o que estava
acontecendo com a Laila e a Tati sempre
tem as palavras certas. A Laila
reapareceu, mas mesmo assim estou um
pouco desanimada.

– Faz bem. A minha cunhadinha é muito


centrada. Vai colocar um pouco de juízo
nessa sua cabecinha – acariciou os
cabelos da irmã.

– Mais?

– Tudo bem, juízo você tem, mas acho


q u e precisa ser mais realista, é isso,
baixinha! A Tati tem os dois pés bem
fincados no chão.

– Mas ela também tem fé. Mi, quem tem


fé pode voar...

– Mari, Mari, você não vai mudar nunca.

– Não quero mudar.

– Até acredita que o Adriel pode mudar!


– Michelle revirou os olhos.

– Acredito mesmo!

– Mesmo depois de ontem? A tia contou


sobre a aventura de vocês.

– Acabou tudo bem – sorriu.

– Ele deve ter ficado muito bravo.

– Só um pouquinho. Ele não é tão


complicado como dizem. Só é chatinho,
mas nada que um pouco de fé e boa
vontade não resolvam...

– Mari, cuidado, você pode se


decepcionar e muito. Fique longe dele.
ALT & Filhos...

– Lívia, o Abner chegará a qualquer


momento. Pelo menos ele disse que viria
direto de Campinas... Verifique os
relatórios com ele. Dê uma atenção
especial às exportações – Adriel
levantou-se – Preciso sair.

– Já? Ainda nem são quatro horas...

–Tenho um compromisso hoje e preciso


me preparar psicologicamente –
começou a esfregar as mãos.

– Compromisso romântico? – Lívia


sabia muito bem que o patrão detestaria
a pergunta, mas não resistiu.

– Lívia, que atrevimento!

– Seria tão bom se fosse um jantar


romântico...

– Não lhe devo explicações, mas para


que você não dê mais asas à sua
imaginação fértil... Não é um jantar
romântico, não mesmo. Que ideia! – foi
até o lavabo. Demorou quinze minutos
para lavar as mãos.
Mais tarde, no Mimãs...

– Mari, você pretende sair qual horário?

– Antes das oito. Você não vai precisar


do carro, né?

– Não. Vou sair com o meu namorado.


Sei que foram só dois dias, mas estou
com muita saudade...

– O amor é lindo! Olha só quem está


chegando... A senhora não marcou hora,
sinto muito – brincou Mariana ao ver a
tia.

– Oi, meninas, estou tão cansada!


– O seu patrão aprontou alguma?–
perguntou Michelle.

– Não. Até saiu mais cedo. Ele tinha um


compromisso.

– Compromisso? Alguma namorada?–


perguntou Mariana com interesse.

– Mari, namorada? Até parece! Qual era


o compromisso, tia?

– A dona Tereza fez uma visitinha para


o Adriel hoje e falou sobre um convite...
Então deve ser isso. Namorada? – Lívia
riu – Ah, Mari, com certeza não tem
nada a ver com namoro.

– Ele também tem o direito de encontrar


alguém e ser feliz – protestou Mariana.

– Todos têm! – foi o comentário de


Jussara, uma vizinha e cliente das
meninas mesmo antes delas montarem o
salão– Estou atrasada, Mari?

– Não, Jú! Você chegou no momento


exato. Repita para as duas...

– O que está acontecendo? Quem não


tem direito de ser feliz, hein, Lívia?

– Jú, estávamos falando sobre o meu


querido patrão... Ele é muito exigente, é
chato, sistemático... E acha que não
precisa de ninguém. – Lívia aproximou-
se da porta lateral – Agora vou tomar
banho, jantar e cair na cama.
– O Niki está elétrico hoje, tia, não faça
tantos planos– avisou-a Michelle.

_Ai, ai, ele já deve ter muitos planos


para hoje...

– Fiquei tão feliz quando a mãe disse


que você viria com ela ! – Tatiana
queria abraçar seu irmão, mas se
conteve. Adriel sempre se esquivava ao
perceber uma aproximação.

–Tudo bem, não precisa exagerar.


– Hoje é um dia histórico.

– Se continuar falando assim irei


embora – disse carrancudo.

– E aí, cunhado? – Joel aproximou-se


com a filha em seus braços – É muito
bom recebê-lo, olha só como a sua
sobrinha está linda. Quer segurá-la?

– Não, Joel. Não sei segurar bebês –


disse Adriel mantendo uma certa
distância.

– O Adriel vai me ajudar com o jantar –


informou Tereza.

– Sogrinha, amo você e a sua comida é


maravilhosa, mas hoje vocês são os
convidados. O Adriel nunca vem aqui
e...

– Amor, já está tudo combinado. A


minha mãe e o meu irmão se entendem
muito bem na cozinha – interferiu
Tatiana.

–Tudo bem, então não se fala mais


nisso.

Adriel e Tereza tomaram conta da


cozinha. Às 19h50 a campainha tocou.

– Pode deixar que eu atendo, amor –


disse Tati ao marido.
Tatiana voltou segundos depois com
Mariana. Tereza saiu da cozinha para
cumprimentá-la.

– Olhem só quem chegou! Convidei a


Mariana para jantar conosco.

– Boa noite, querida, como é bom revê-


la – Tereza a cumprimentou com muito
entusiasmo.

– Dona Tereza, que surpresa! Oi, Joel,


tudo bem? Sofia, como você está fofa...
Que vestidinho mais lindo!

– Quer pegar a minha menina fofa?–


perguntou o pai todo orgulhoso.

– Com certeza. Vem comigo, linda!


Neste momento, Adriel saiu da cozinha e
olhou contrariado para as duas mulheres
da família e em seguida para a
convidada.

– Boa noite, Adriel, tudo bem com


você? – Mariana deu um largo sorriso
para ele.

– Boa noite – respondeu secamente.

– Que cheirinho bom! Você é o


cozinheiro? – perguntou ao vê-lo com
um avental branco.

– Mari, vamos até o quarto da Sofia?


Vou dar uma olhada na fralda, assim
conversamos um pouco enquanto a
minha mãe e o Adriel fazem o jantar.
Assim que elas se afastaram...

– Não posso ficar.

– Como assim, filho?

– Pensei que fosse um jantar em família.


O que aquela garota veio fazer aqui? Até
parece perseguição! É a terceira vez que
a encontro nesta semana – começou a
esfregar as mãos.

– Terceira vez? Ah, filho, ela veio


conversar com a sua irmã.

– Irei embora agora mesmo.


– Adriel, não faça isso, a sua irmã ficará
muito triste – disse Joel.

– Pode deixar que eu mesmo a avisarei.


Quero que aquela garota saiba que irei
embora por culpa dela – tirou o avental
e o deu para a mãe.

– A Laila apareceu! Que ótima notícia,


Mari!

– É Tati, mas ela está proibida de falar


comigo. Nem pode mais participar das
aulas.
– Isso passa, a mãe dela só ficou
chateada porque a filha foi procurar a
avó. Seria melhor se aquele homem
fosse embora. Entendo a sua
preocupação. Se ele mentiu sobre o
dinheiro...

– É... tenho tanto medo que ele a


machuque. Ah, Tati, se eu pudesse
levaria a Laila para minha casa!

–Você tem um coração enorme, Mari!

– O seu irmão me olhou de um jeito...

– Ele só ficou surpreso.

– Eu também. Nem imaginava encontrá-


lo. A tia Lívia sempre diz que ele só
visita a mãe.

– Não se preocupe, Mari. Estou muito


feliz por ele ter vindo aqui hoje. É
verdade da Lívia. O Adriel só visita a
nossa mãe – Tatiana trocou a fralda de
Sofia

– Nossa, como ele se parece com o pai.


O Abner não se parece tanto, mesmo
sendo gêmeos...

– É o corte de cabelo. Meu pai sempre


estava com o cabelo bem curto e a barba
bem feita. O Adriel faz a mesma coisa.

– O seu pai me chamava de “garota


sorriso”– comentou Mariana.
– Você lembra disso?

– Com certeza. O seu pai olhava para


mim e dizia: “Oi, garota sorriso”; aí eu
sorria mais ainda. Eu o achava tão
chique! Ele sempre andava muito bem
vestido. Lembro que ele e meu pai
sempre conversavam – abriu os braços
para a pequena Sofia – Venha aqui,
linda.

– Meu pai era um homem de poucas


amizades –Tatiana deu a filha para
Mariana segurá-la – Ele gostava muito
de seu pai. Dizia que o Hílton era um
homem honesto e que fazia pães
deliciosos...

– Tati, acho que é melhor eu ir embora


para o seu irmão ficar à vontade. Não
quero atrapalhar.

– Nem pense nisso!

Adriel voltou para a cozinha após lavar


as mãos. Recolocou o avental.

– Que bom, querido! Fico feliz que tenha


mudado de ideia.

Tereza ficou muito aliviada. Ela não


tinha a mínima ideia do motivo da
mudança repentina do filho e nem iria
questioná-lo, o que importava era que
ele e Mariana estavam ali e jantariam
juntos.

– Falei para minha mãe que lasanha é o


seu prato favorito e adivinhe... –
comentou Tatiana.

– Dona Tereza, não precisava se


incomodar – disse Mariana meio sem
jeito.

– Quando a Tati disse que você jantaria


conosco e que adorava lasanha...
Adivinhe quem fez? O meu filho! Eu fiz
a carne assada...

– Podemos jantar ou vocês ficarão aí


paradas? – perguntou Adriel irritado.

Durante o jantar todos conversaram


animadamente. Elogiaram a lasanha e a
carne assada. Exceto Adriel que não
abriu a boca uma única vez.

– Vamos para sala? – sugeriu Tatiana


após todos terminarem.

– Podemos ir agora? – perguntou Adriel


para a mãe.

– Eu não o avisei? Ficarei aqui hoje.

– Ótimo, então boa noite para todos.

– Está cedo, querido.

– Eu vou embora, assim você pode ficar


mais um pouco com a sua família,
Adriel – disse Mariana.

– Mari, fique – pediu Tati – Nem


comemos a sobremesa! Dri, fiz pudim de
leite...

– Não quero sobremesa, então... –


Adriel encaminhou-se até a porta. Joel o
seguiu.
– Tati, a culpa é toda minha, ele não
gostou da minha presença aqui.

– Que isso, Mari, já foi um milagre ele


ter participado do jantar!

Durante a hora seguinte, Mariana


recebeu muitas informações sobre
Adriel, embora ela já soubesse a
maioria delas. Mariana, através de sua
tia Lívia, sabia o quanto Adriel e o pai
eram unidos, mas ficou sabendo de mais
detalhes. Tereza fez questão de destacar
as qualidades do filho e deu o currículo
de Adriel. Informou que ele é bacharel e
mestre em Administração de Empresas e
fala fluentemente espanhol. Tatiana
contou sobre a vergonha que Abner e ela
sentiam por causa das manias do pai e
que Adriel sempre dava um jeito de
acompanhá-lo em tudo, até imitava
algumas manias para que o pai não se
sentisse sozinho. Tereza contou, com
lágrimas nos olhos, que ao saber da
morte de Alberto, o filho saiu do
hospital, foi para a empresa, se trancou
no escritório e permaneceu horas
sentado na cadeira preferida de seu pai.

– Meu filho sempre concordou com a


opinião do pai sobre os milagres da
Bíblia. Perder a esposa e a filha e
depois o próprio pai, só ajudou a
reforçar a ideia de que as curas
pertencem ao passado. Ele crê em todos
os milagres da Bíblia, mas não acredita
que possam acontecer hoje – disse
Tereza com tristeza.

– Então ele é um cristão que só acredita


no passado. Jesus realiza tanto em
nossos dias, é triste saber que há
pessoas que não conseguem crer! – foi a
constatação de Mariana.

– Você está certa, Mari, mas a fé de


outros pode contagiar. O Adriel precisa
de alguém que tenha muita fé. E você... –
Tatiana deu um largo sorriso para ela.
– Tati, o que significa o seu sorriso?

– Se você conseguisse se aproximar


dele...

– Tenho pensado nisso... Gostaria de


ajudá-lo.

– Que maravilha! – Tereza nem se


preocupou em esconder a empolgação –
Ah, como gostaria que meu filho tivesse
alguém como você para orientá-lo.

– Dona Tereza, já deu para perceber que


ele não me quer por perto.

– Isso é com todos, mas você é


inteligente, com certeza encontrará uma
maneira de se aproximar dele. Mariana,
estou muito preocupada com ele. Por
favor, me ajude. Meu filho precisa de
alguém como você, mas ele não está
preparado para reconhecer isso.

– Já estava com isso em meu coração e,


depois de tudo o que vocês me disseram
hoje, só posso pensar que Deus está me
guiando. Então, orem por mim.

Adriel não conseguia tirar da cabeça as


palavras que ouvira. Ao se aproximar
do quarto da pequena Sofia, estava certo
que só informaria que iria embora, mas
mudou de ideia ao ouvir parte da
conversa das duas. Descobriu que
Mariana não sabia que ele estaria ali,
mas o que mexeu mesmo com Adriel foi
como ela se referiu ao pai. Algo no tom
dela o agradou tanto que ele até quis
conversar com ela. Queria muito falar
com alguém sobre o seu pai. Alguém que
não fosse da família.

– É sério, mi amore? A Mari foi até a


casa da minha irmã?

– É. Por que ficou tão surpreso?–


perguntou Michelle ao namorado.
– O Adriel também estaria lá hoje. Pelo
menos foi o que minha mãe disse. Liguei
para ela assim que cheguei à empresa.
Precisei ir direto, não tive tempo nem de
passar em casa – explicou.

– Sério? Mas ele não deve ter aparecido


por lá, certo? Você sempre diz que ele
não aceita convite de ninguém...

– A minha mãe pediu para ele


acompanhá-la. O meu irmão tem uma
certa dificuldade em recusar os pedidos
da minha mãe – sorriu – E ela se
aproveita disso.

– A Mari não sabia que ele estaria


presente, mas a Tati, com certeza...
– É um pouco estranho...A Tati arriscou
bastante. Espero que a noite tenha sido
agradável para eles. Depois de tantos
convites recusados, é... ela arriscou
muito. O Adriel não deve ter gostado da
situação.

– Só espero que ele tenha se comportado


bem. A Mari é um doce, ela não merece
ser tratada com grosseria.

– É, só que a Mari não é do tipo que se


intimida facilmente.

– É disso que eu tenho medo. A minha


irmã não está nem aí; é possível que ela
tenha falado pelos cotovelos.

– E é possível que o meu irmão tenha


entrado mudo e saído calado.

– Abner, espero que a sua irmã e a sua


mãe não estejam com planos de...

– Não sei, mas estou planejando algo –


acariciou as bochechas da namorada que
neste momento franzia as sobrancelhas –
Algo delicioso – aproximou-se do
ouvido dela e sussurrou – Planejo fazê-
la perder o fôlego – ela sorriu e ele a
beijou.
Capítulo 7 –
Bolhas e balões

Naquela tarde de domingo, Mariana


iniciou o ensaio do grupo de coreografia
com uma leitura bíblica...

– Meninas, em Mateus 18.3 diz : “Em


verdade vos digo que, se não vos
converterdes e não vos tornardes como
criança, de modo algum entrareis no
reino dos céus”.¹
– Eu não entendo isso, Mari. Precisamos
ser como crianças? – perguntou
Amanda.

– Você entenderá... Dias atrás o Niki


chegou em casa muito chateado por ter
brigado com um amigo da escola. Dizia
que nunca mais falaria com o Paulinho.
No dia seguinte ele levou um amigo para
brincar. Adivinhem quem era? – sorriu
para as meninas – O Paulinho. Eram
novamente os melhores amigos do
mundo. Eles não ficaram dias, semanas,
meses ou até anos sem conversarem,
como muitos adultos fazem – explicou.

– Tenho uma prima que não conversa


com a minha irmã há muito tempo. Só
por causa de namorado – disse Erika.

– E eu tenho uma tia que não fala com a


própria mãe. É muito chato. No ano
passado casou uma prima e todos foram
para o casamento. As duas nem se
olhavam – Amanda manifestou-se
novamente.

– Acho que todas têm alguma


experiência para contar, não é? –
constatou Mariana – As pessoas ficam
magoadas umas com as outras e muitas
têm dificuldades para perdoar ou pedir
perdão. Jesus nos ensinou que o nosso
coração precisa ser sincero, puro e feliz.
A felicidade simples de uma criança.
Precisamos aprender a não guardar
ressentimentos.
– Mari, dá para ter um coração assim?

– Amanda, por nós mesmos é


impossível, mas não estamos sozinhos.
Jesus deixou exemplos maravilhosos e
ele nos ajuda – Mariana andou pela sala
onde realizavam os ensaios do GEAD e
olhou para cada menina com carinho –
Estou muito preocupada porque sei que
vocês não veem a hora de completarem
18 anos. Querem ser adultas...

– Mari, eu já tenho 18 anos! – disse


Marisa.

– Eu sei, minha linda, é que a maioria


tem entre 15 e 17 anos! – explicou
Mariana – Meninas, já tive a idade de
vocês. – acariciou o rosto de uma delas
– Entendo como se sentem, mas não
deixem que o seu lado criança fique
escondido ou morra. É claro que é
necessário agir com responsabilidade,
mas em determinados momentos
precisamos agir como crianças. Pensar
como uma criança. Sorrir ao contemplar
as coisas simples do dia a dia...

– Mari, há tantas coisas tristes neste


mundo – foi o comentário de Erika.

– Sim, mas há muitas razões para nos


alegrarmos também. Outro dia, eu, o
Niki e a tia Lívia, estávamos em um
posto de gasolina. Ele começou a sorrir
e disse para eu fazer o mesmo. Perguntei
o motivo. Ele mostrou a placa do “
Sorria, você está sendo filmado” e disse
bem assim: “ Obedeça, tia Mari!”. Na
hor a até pensei que era uma bobeira,
mas ao ver aquele sorriso lindo... Não
resisti e sorri também – aproximou-se
de Amanda e acariciou os cabelos da
garota – Aí foi a vez da tia Lívia
perguntar o motivo do sorriso dos dois.
Ela não achou nada engraçado porque o
preço do combustível estava mais caro e
ela ficou muito brava!

As meninas riram.

– Olhem para as coisas belas da vida,


aprendam a admirar o pôr do sol, a lua,
as estrelas. As crianças nos ensinam
muito. Tenho outro exemplo do meu
Niki. Quando o carro está em
movimento, ele fica me perguntando se
estou vendo a lua. “ Tia, a lua está aí do
seu lado? Não estou vendo... Agora
estou... Olha tia, como ela está linda!
Está tão grande!”

– Mari, assim vão pensar que somos


malucas – concluiu Marisa.

– Se for por causa das coisas que eu


falei, tudo bem. Queridas, não se
apressem. Tudo tem o seu tempo. Fico
tão triste quando vejo meninas de 14, 15
ou 16 anos com um bebê nos braços.
Muitas morrem de vergonha de serem
vistas com uma boneca, mas de repente
estão com uma boneca viva para cuidar.
Quando deveriam estar pensando em
estudar, em qual profissão gostariam de
seguir... Em coisas próprias da idade,
algumas já estão com uma grande
responsabilidade e não têm estrutura
para isso – lamentou Mariana.

– Mari, tenho uma vizinha que está


grávida. Ela tem 16 anos. Ficou
apavorada quando soube.

– É, Deise, em poucos meses ela


descobrirá o quanto um bebê dá
trabalho.

– Pior é que ela já está descobrindo. Ela


tem enjoo todos os dias.

– Ela precisa de muito apoio. Muitas


ficam tão desesperadas que pensam até
em aborto, mas depois que o bebê está
sendo formado, o único caminho é
seguir com a gravidez. Meninas, aborto
não é solução, é complicação – concluiu
– Meninas, trouxe um presentinho para
vocês...

Mariana começou a fazer bolhas.

– Trouxe para todas. Peguem. Vamos


fazer bolhas.

Rapidamente cada aluna pegou a sua e


logo a sala ficou cheia de bolhas.

– Olhem, que enorme... ah... sumiu.

– Vejam o tamanho...
– Vou estourar...

– Que linda!

As meninas se divertiram muito fazendo


bolhas.

–Viram como podemos nos divertir com


algo simples e barato? Tenho mais uma
surpresa para vocês. Vou sortear 2
exemplares do livro O Pequeno
Príncipe². Alguém já leu? Só a
Amanda? – perguntou ao ver que a
garota foi a única a levantar a mão –
Certo. Vamos ao sorteio.
Deise e Erika foram as ganhadoras.

– Não se preocupem que logo todas


ganharão um exemplar. Certo? Em
nossos próximos ensaios e também no
cur so comentarei algumas partes com
vocês – informou Mariana – Agora
vamos ensaiar. Tive algumas ideias para
o louvor...

À noite, após o culto, Mariana


surpreendeu a sua tia.
– Tia Lívia, pode fazer o favor de
entregar isso ao Adriel?

– O que tem neste pacotinho, Mari? –


perguntou ao segurar o pequeno pacote
dourado.

– É um presente para ele – respondeu


simplesmente.

– Mari...

– Só entregue, tá?

Lívia só entregou o pequeno pacote no


final da tarde de segunda-feira. Bom...
na verdade ela o colocou em cima da
mesa do patrão porque ele não estendeu
a mão para pegá-lo.

– O que é isso, Lívia?

– Não sei. Foi a minha sobrinha quem


mandou para você.

– Sua sobrinha? – franziu as


sobrancelhas.

– É... Agora preciso voltar para a minha


mesa. Já são quase seis horas –
encaminhou-se rapidamente para a
porta.

– Lívia, volte aqui e tire... essa coisa da


minha mesa!

– Não vai nem abrir? Está com medo? –


provocou-o.

– Não seja ridícula! Não vejo razão


para abrir algo que a sua sobrinha
enviou – abriu a primeira gaveta e a
fechou em seguida – Não faz sentido!
Lívia, tire isso daqui. Lívia...

Ela saiu rapidamente da sala.

– Não acredito! Lívia, volte aqui, agora!


– levantou-se e chamou-a bem próximo
à porta.
Lívia retornou após sorrir para a Camile
e Marisa. As duas estavam
curiosíssimas.

– Você precisa abrir isso. Abra agora! –


vociferou Adriel.

– Tudo bem.

Lívia fez o que Adriel ordenou e não


acreditou no que viu.

– O que é?

– Veja você mesmo...

Adriel viu um objeto cilíndrico na cor


verde.
– Para que serve isso, Lívia?

– Você não sabe? Adriel, você nunca foi


criança? Serve para fazer bolhas.
Bolhas de sabão! Tem um bilhete:
“Adriel, divirta-se! Escolhi a cor verde
porque simboliza a esperança. Com
carinho, Mariana.”

– Bolhas? A sua sobrinha deve estar


com algum problema muito sério na
cabeça. Devolva para ela. Bolhas... Era
só o que me faltava! – foi até o lavabo e
permaneceu lá por vinte minutos.
À noite, na casa de Lívia...

– Mari, no que você estava pensando?


Achou mesmo que o Adriel faria
bolhas?

– Ele não fez? Que pena! Perdeu uma


ótima oportunidade de se divertir –
disse ela com a maior naturalidade.

– Você está querendo provocá-lo, é


isso.

–Tia, quero que ele seja feliz.

– Oba! Dá pra mim, mãe, eu quero fazer


bolhas – disse Niki todo animado ao
sair do banho.

– Isso, Niki, vamos fazer bolhas –


respondeu Mariana.

– Vamos, tia! Vou fazer a bolha “mais


grande” que já existiu no mundo – disse
o garoto.

– Maior, Niki, maior ! – corrigiu-o Lívia


– Vocês vão é molhar o tapete, isso sim.
Mari, vá fazer bolhas lá fora. Niki, vá
com a sua tia.

– Vamos, Niki! Não dá para se divertir


com esses adultos...

– Crianças! As “crianças” crescidas são


as piores! – gritou Lívia.
Quinta-feira, Adriel surpreendeu a sua
secretária...

– Lívia, quero que você compre um


carro novo.

– Um carro novo?

– Aquela lata velha não dá mais.

– Adriel, não gosto quando fala...

– Compre um carro novo – insistiu.


– Não pretendo gastar...

– Você não entendeu. Aumentarei o seu


salário – explicou Adriel.

– Está com medo que eu peça outra


carona?

– Exatamente. O seu carro deixou a sua


sobrinha correr um risco desnecessário.
Não quero que aconteça novamente.
Principalmente com você – esclareceu
antes que a secretária pensasse que ele
estava preocupado com Mariana – Já
autorizei o seu aumento. Use o carro
velho como entrada. Acho que você
consegue um valor bem baixo, mas...

– Não vou recusar um aumento de


salário, mas não sei se comprarei um
carro novo.

– Lívia, se você não aparecer aqui com


um carro zero, o aumento estará
automaticamente suspenso – encarou a
secretária.

– Já que você falou com jeitinho...e,


Adriel, sobre a minha sobrinha...

– Não tenho mais nada para falar, pode


sair agora. Vá até o RH para saber o
valor do aumento. Compre um carro de
verdade.
À noite, foi a vez de Lívia surpreender a
sua irmã.

– Você recebeu um aumento? –


perguntou impressionada.

– É isso mesmo, Ivone. Tenho que


comprar um carro, senão perco o
aumento.

– O seu patrão tem cada uma! Pelo


menos desta vez a esquisitice dele foi
interessante para você e bem lucrativa.

– Qual esquisitice foi lucrativa? –


perguntou Mariana ao entrar na cozinha.

– Sua tia ganhou um aumento de salário,


só que ela tem que pagar a mensalidade
de um carro zero, senão perde o aumento
– Ivone estava em frente ao fogão.
Verificou o arroz e ao ver que estava
pronto desligou o botão.

– É mesmo, tia?

– Coisas de Adriel!

– Que legal! É... depois a gente


conversa, agora quero tomar um belo
banho!

– Mar i , sei que você quer perguntar


sobre...

– Fale baixo... Venha até o meu quarto!


– Mariana olhou para sua mãe e ficou
aliviada ao vê-la abrir a geladeira.
No quarto de Mariana...

– Hoje ele não fez nenhum comentário


sobre aquele presente maluco.

– Presente maluco, tia?

– Mari, o que é isso?

– Balões! Não conhece mais? Se


preferir podem ser... bexigas! Precisa
voltar a ser criança, tia.

– Sei que são bexigas, Mari! O que você


está fazendo com elas? É aniversário de
quem?

– Típica pergunta de adulto chato!– deu


de ombros.

– Ai, criança, me desculpe!

– Precisa ser aniversário de alguém para


brincar com balões coloridos? – meneou
a cabeça e soltou um balão no ar.

– Agora você vai brincar com bexigas?

– Vai, tia, pega... Vai, tia...

– Mari!

– Se cair você perde... caiu! – disse ao


ver o balão amarelo no chão.
– Nem posso dizer que você precisa
crescer, né?

– Engraçadinha, vai me chamar de


baixinha também? Tia, preciso que me
faça um favor. Entregue para o Adriel –
Mariana pegou uma dúzia de balões
coloridos que estavam em cima de sua
cama.

– Bexigas?

_É. Seria mais prático levá-las sem


encher, mas não causaria o mesmo
efeito.

Lívia observou os balões coloridos e


encarou a sobrinha.
– Você quer que eu leve bexigas?

– Isso mesmo.

– Mari, ele ficará uma fera! Não estou


entendendo nada. Você disse que queria
ajudá-lo, mas assim?

_É. Tia, leve os balões e também


entregue isso – Mariana deu um cartão
colorido para a tia.

– Posso ler?

– Pode.

– Deixa eu ver... “ Adriel, aprecie as


cores dos balões, solte-os e brinque
com eles. Ah... e depois estoure um por
um. Será divertido. Tenha um ótimo
final de semana. Mariana.”

– Agora tenho que tomar um belo


banho...

– Não vou entregar isso – afirmou Lívia.

– Tia, por favor. Domingo levarei para


o ensaio. Vamos nos divertir muito.

– Para as meninas, tudo bem, mas o


Adriel...

– Confie em mim. Tia, pedi a Deus


estratégias e mesmo que pareça
estranho, sinto que estou no caminho
certo.
– Bolhas, bexigas... O que virá depois?

– Nem eu sei. Tia, leve as bexigas.

– Ele vai explodir de tanta raiva.

– Posso entrar ou as duas estão com


algum segredinho? – perguntou Michelle
ao colocar só o rosto à porta.

– É claro que pode, Mi. Estava falando


sobre o meu próximo ensaio – explicou
Mariana piscando para a tia.

– Bexigas? Vai comemorar o


aniversário de alguém?

– Não, Mi. Faz parte do que estou


ensinando.
– Ah, Mari, o Renan ligou. Ele precisa
conversar com você. Por que você não
sai com ele sábado? Aproveite que não
tem programação na igreja – sugeriu
Michelle.

– É, quem sabe?

– Tia, minha mãe falou sobre o aumento


de salário. Legal!

– É, Mi, agora tenho que comprar um


carro... Urgente!

– Antes que o senhor esquisito mude de


ideia.

– Mi, não fale assim. Ele será o seu


cunhado, esqueceu? – Mariana pegou
uma toalha e um roupão dentro do
guarda-roupa.

– E daí, Mari? Ele continuará sendo


esquisito.

– Tia Lívia, não está esquecendo de


nada? – perguntou Mariana ao ver a tia
aproximar-se da porta.

– Bem que eu gostaria de esquecer.

Michelle nem prestou atenção no


comentário da tia, ao vê-la levar
algumas bexigas pensou que ela
entregaria para Nicolas.

Logo após o banho, Mariana ligou para


Renan, o líder de jovens. Sairiam
sábado.

No dia seguinte, na ALT & Filhos, a


cena era bem hilária. Lívia estava
parada em frente à porta da sala de
Adriel. Segurava uma dúzia de balões
coloridos. Marisa e Camile bem que
tentaram saber o porquê daqueles balões
estarem com a secretária, mas Lívia
conseguiu esquivar-se. Bateu duas vezes
à porta e entrou. Adriel tirou os olhos do
notebook e quase não acreditou na cena.

– Lívia, não autorizei festinhas aqui.


Comemorações só uma vez por mês e lá
no refeitório, você sabe muito bem
disso.
– Eu sei, Adriel. É que... São para você
– disse ela completamente sem jeito.

– Você está brincando comigo?

– Infelizmente não. Leia isso – estendeu


a mão com o cartão enviado por
Mariana.

– Não – respondeu ríspido.

– Então eu mesma leio: “ Adriel,


aprecie as cores dos balões, solte-os e
brinque com eles. Ah... e depois estoure
um por um. Será divertido. Tenha um
ótimo final de semana. Mariana.”
Adriel começou a abrir e a fechar a
primeira gaveta de sua mesa. Lívia sabia
muito bem que ele só fazia isso quando
estava muito nervoso.

– Só podia ser coisa daquela... garota! –


disse ele sem parar de abrir e fechar a
gaveta – Leve isso daqui!

– Tudo bem. Com licença.

– Não, espere...

Adriel abriu a última gaveta e tirou um


par de luvas descartáveis. Levantou-se e
após vesti-las, pegou um lápis e
estourou todos os balões.

– Agora vamos trabalhar. Ah, antes tire


isso daqui – disse ele apontando para os
balões estourados que estavam no chão.

Lívia fez o que ele pediu. Ao sair da


sala do patrão encontrou duas meninas
muito curiosas esperando por ela.

– O que aconteceu? Lívia, por que


você...

– Marisa, sem perguntas! – jogou os


restos mortais dos balões no lixo e
olhou para Camile – E digo o mesmo
para você, sem perguntas!
Mais tarde...

– Nunca mais, está ouvindo, Mari?


Nunca mais me peça para levar
presentinhos.

– Então ele estourou os balões?

– Ele ficou furioso! Tive que suportar o


péssimo humor dele o dia inteiro!

– Ótimo.

– Ótimo? – perguntou Lívia


inconformada – Não foi você que...

– Ele reagiu.

– Reagiu muito mal.


– Ele reagiu e é isso o que importa.
Estou no caminho certo.

Lívia revirou os olhos.

Sábado, Mariana atendeu a última


cliente às 19h e depois ela e Renan
foram à pizzaria.

– Hum... deliciosa! – disse Mariana ao


saborear sua pizza de pepperoni –
Renan, já resolveu onde será a festa de
aniversário do próximo mês? Você disse
que não queria fazer no salão da igreja...

– Aluguei uma chácara. Será no feriado


do dia 7 de setembro.

– Que legal!

– Mari, os adolescentes também irão.

– Que ótima notícia, Renan! – sorriu –


As meninas do grupo vão adorar. Às
vezes elas comentam que o pessoal do
grupo de jovens quer distância delas.
Acho isso chato porque fica aquele
clima esquisito, parece até que são
inimigos.
– É por isso mesmo que sairemos juntos.
Já conversei com a Selma e o Pedro.
Além deles, que são os líderes dos
adolescentes, os professores da EBD
também estarão lá dando uma força e eu
também vou precisar da ajuda de uma
cer ta pessoa que é responsável pelo
grupo de coreografia – sorriu para ela.

– Você sabe muito bem que pode contar


comigo. O feriado será segunda... Você
alugou a chácara para o final de semana
todo?

– Será só o dia mesmo.

– Ótimo, assim não precisamos fechar o


salão... Aos sábados o movimento é uma
loucura!
– Mari – acariciou o braço dela – Você
está tão linda... Gosto tanto dos seus
cabelos assim.

– Obrigada, mas você só gosta quando


eles estão presos? – perguntou ao tocar
o rabo de cavalo.

– Não... Gosto de qualquer jeito.


Quando estão soltos e o vento sopra...
é... eu gosto de vê-la... ajeitando os fios
que...

– Renan, você deveria comer a sua pizza


– ela não estava gostando do novo rumo
da conversa.

– Tem razão. Mari, você... Você está...


– Estou?

– Está gostando de alguém?

– Gostando de alguém?

–Você sabe o que eu quero dizer – fixou


os olhos nela.

– Ah, Renan, no momento não. O meu


coração está bem tranquilo – evitou
encará-lo.

– E você acha isso bom?

– Sim e não.

– Pode explicar?
– É claro que quero me apaixonar, mas
sei lá... também acho bom assim do jeito
que eu estou. Pelo menos por enquanto –
ainda evitava encará-lo.

– Você é uma pessoa tão especial...Não


pode ficar sozinha. Mari, olhe para mim.

– Você também é especial e está sozinho


– olhou para ele, mas desviou o olhar
em seguida – Ou não?

– Estou. É... Você me acha especial?

– Você sabe que sim, Renan. Você é um


grande amigo. É legal, inteligente,
sincero, um líder dedicado...

– Só isso?
– Acha pouco? – agora ela o encarou.

– E... é... eu gostaria de saber...

– Pode falar, Renan. O que você


gostaria de saber?

– O que você... É... Você está gostando


da pizza?

Ela sorriu.

– Você quer me perguntar alguma coisa


e está com receio?

– Acho melhor conversarmos sobre a


chácara – Covarde, covarde, como sou
covarde! – Você poderia fazer uma
competição.... Pense em alguma coisa
para...

– Não quer uma competição de jovens


contra adolescentes, não é?

– Não. Podemos fazer um sorteio. Quero


que eles se unem e uma competição de
jovens contra adolescentes não seria
legal. Mari, eu... Posso?

– Pode?

– Tem um pedacinho de queijo no


cantinho do seu lábio – ele aproximou a
mão, mas ela foi mais rápida.

– Ah... Saiu?– perguntou ao limpar-se


com um guardanapo.
Ele assentiu.

– Então, você quer que eu organize?

– Quero. Podemos nos encontrar assim


que você tiver alguma ideia. Já acertei
os outros detalhes com o pessoal da
diretoria. Alimentação, transporte,
programação de louvor, mas a
competição... Gostaria muito que a ideia
fosse totalmente sua. Você é tão
criativa!

– E você é uma gracinha! – disse ela


acariciando o rosto dele.

– Sou mesmo uma gracinha?

–Você sabe muito bem disso. O que tem


de menina apaixonada por você...

– É mesmo?

– Até parece que você não sabe! – deu


um soco bem de leve no ombro dele.

– Ah, Mari, o bom mesmo é quando


você gosta de alguém e é correspondido.

–Tem razão. E o casamento da Renata,


hein?

– Vai demorar... Como você conseguiu


mudar de assunto...

– Sério? Ela está namorando há uns


cinco anos, não é?
– É isso mesmo. A minha irmã é muito
exigente. Nada está bom pra ela. Tenho
pena do Guilherme. Estão montando o
apartamento, mas ela sempre coloca
algum defeito – revirou os olhos – A
Renata diz que sente falta de uma única
coisa da época em que ela e o Adriel
namoravam...

– O namoro dos dois durou pouco


tempo, não é? – colocou um pedaço de
pizza na boca.

– Nem seis meses. Ela sente falta do


dinheiro dele. Diz que pelo menos não
precisava ficar preocupada com isso.
Que se ele fosse o noivo...

– Que interesseira!
– A minha irmã é assim, infelizmente.

– Vocês são tão diferentes! A Renata


fala muito sobre o ... Adriel? – Mariana
estava muito interessada no assunto.

– Ela agradece todos os dias por ter se


livrado dele na hora certa. Diz que foi
um livramento divino porque ela
poderia estar morta.

– Nossa! Isso é coisa para se falar?

–Também acho um absurdo, mas ela diz


que a Elisa deve ter ficado grávida por
insistência dele.

– Que maldade!
– Você sabe que o Adriel mudou muito
depois da morte do Alberto. Antes ele
era um pouco reservado, mas dava para
conversar com ele, agora...

– Renan, você também acha que ele


nunca mais será o mesmo?

– Ah, Mari, acredito que ele pode


mudar, mas depende dele. Não sei se ele
quer isso. Já tentei conversar com o
Adriel algumas vezes, mas é muito
difícil, ele não coopera. Não dá nem
para se aproximar dele.

– Você sabe como terminou o namoro


entre ele e a sua irmã?

– A Renata só diz que resolveu terminar


porque ele começou com algumas
manias e que ele era exigente demais.
Ela não dá nenhum detalhe. Pouco tempo
depois ele e a Elisa já estavam noivos.

– Eu sei, mas as manias só começaram


depois que o pai dele morreu...

– É complicado... O Abner e a sua irmã


estão bem, não é?

– Estão sim. A Mi está tão apaixonada!


O Abner é um cara legal.

– Ele é sim. É o meu amigão! – Renan


olhou fixamente para Mariana – E você,
quando vai se apaixonar?

– Eu? Ah, Renan, quando aparecer


alguém que...

– Que...

– Quando aparecer alguém.

– Mari, de repente já apareceu e você


nem percebeu.

– Não, Renan. É impossível. Eu saberia.

– Acho que você deveria prestar mais


atenção ao seu redor – disse ele com um
sorriso tímido.

– E eu acho que nós deveríamos ir


embora, já é quase meia-noite – disse ao
ver a hora em seu celular.
– Já? As horas passam tão rápido
quando estou com você...

– Realmente passou muito rápido. Gosto


muito de conversar com você, Renan,
mas agora precisamos ir.

– Mari, eu gostaria...‘

– Eu sei. Pode deixar que logo terei uma


ideia maravilhosa para a competição.
Não se preocupe.

Renan gostaria de ter coragem para se


declarar, mas como o medo de perder a
amizade dela era maior, escondia seus
sentimentos.
Capítulo 8 – “ O
Pequeno Príncipe

Domingo antes de terminar o ensaio do


GEAD...

– Por hoje está ótimo. Vamos até o salão


de festas? Tenho uma surpresa para
vocês.
Mariana enfeitara o salão de festas da
igreja com vários balões coloridos.

– Meninas, vamos brincar?

Os minutos seguintes foram preenchidos


com muita diversão. Mar i ana e as
meninas jogavam as bexigas umas nas
outras e brincavam soltando-as no ar.
Depois saborearam pães e docinhos que
foram preparados pelo pai de Mariana.

Terça-feira, após fechar o salão,


Mariana foi até a casa dos fundos. Tinha
mais um presente para Adriel. Após
poucos minutos de conversa, percebeu
que desta vez a missão de convencer sua
tia não seria nada fácil.

– Mari, não insista! Eu avisei que ...

– Tia, por favor – fez beicinho.

– Não! – Lívia cruzou os braços.

– Se ele ficar bravo não mandarei mais


nada – prometeu.

– Esqueça, Mari.

– É só um livro, tia.
– Não me diga que é a Bíblia? Mari, ele
já tem uma.

– Não é a Bíblia. É só um livro que


usarei com as meninas do GEAD e do
curso. Já fiz o sorteio de dois
exemplares, mas depois comprarei para
todas – explicou.

– Mari, o Adriel não é um adolescente.


Pare com isso!

– Não custa, tia. Não pesa nada.


Segure... – Mariana tentou colocar o
pequeno pacote azul marinho com laço
dourado na mão de sua tia, mas ela
esquivou-se.

– Custa sim e muito. Depois ele ficará


todo nervosinho e eu é quem vou pagar.
Carregarei um peso enorme o dia
inteiro...

– Por favor – fez beicinho novamente.

–Não faça essa carinha, Mari. Nesta


semana, principalmente, tenho que evitar
ao máximo qualquer estresse. Domingo
é dia dos pais. O humor dele que já é
péssimo, fica pior.

– Tia linda, por isso mesmo. É uma


ótima oportunidade para animá-lo –
Mariana resolveu apelar – Sabia é a
minha tia favorita?

Lívia fez que não ouviu.


– Tia, eu imploro!

– Ai, Mari, você é tão persistente –


Lívia sentia raiva de si mesma por não
conseguir dizer não para a sobrinha –
Tudo bem, eu levarei. Amanhã chegarei
mais cedo e colocarei em cima da mesa
dele – pegou o pacote e o colocou
dentro da bolsa.

– Você é maravilhosa – Mariana beijou


e abraçou sua tia.

– Que cena linda! É alguma


comemoração ou tem alguém muito
carente aqui? – perguntou Michelle ao
entrar na sala da casa de sua tia.

– É que temos uma tia maravilhosa! É só


por isso.

– Isso é alguma novidade? – meneou a


cabeça – Mari, você ainda não me
contou como foi o seu encontro com o
Renan...

– Encontro? Mi, você sabe muito bem


que nós somos amigos. Bons amigos.

– Acho que vocês são amigos há muito


tempo. Que tal serem mais do que
amigos, hein? – piscou para a irmã.

– Eu e o Renan? Ah, Mi, nada a ver! –


revirou os olhos.

– Você sabe que ele não quer ser só o


seu amigo. Todos sabem disso.
– Não consigo vê-lo como namorado. O
Renan é como um irmão pra mim.

– Ai, ai, ai, espero que você nunca tenha


falado isso para ele . Tia, me ajude!

– A sua irmã tem razão, Mari. Só você


que não enxerga isso. A Ivone ficaria tão
feliz se vocês namorassem! E a Célia
mais ainda – Lívia referia-se à mãe de
Renan.

– A minha mãe ficaria feliz, a mãe


dele... Todos ficariam felizes, menos eu
– constatou Mariana.

– Ele é um ótimo rapaz.

– Concordo, mas não é “O“, entende?


– “O”? E você vai esperar até quando
pelo “O”?

– Ainda tenho 24 anos! Vocês estão tão


desesperadas!

– Quem é “O”, Mari? – agora foi a vez


de Ivone entrar na sala de estar de sua
irmã.

– Mãe, por enquanto não é ninguém.


Será aquele por quem eu me apaixonar.
E o Niki, hein? – perguntou ao notar a
ausência do garoto.

– Está na casa do Paulinho– explicou


Lívia – Preciso buscá-lo.

– Você saiu com o Renan e não


comentou nada. E aí? – Ivone queria
muito que Mariana e Renan namorassem.

– Mãe, que coisa chata! Vocês não


entendem o que significa amizade? – era
bem humorada e muito paciente, mas
aquela conversa sobre Renan a estava
irritando.

– Filha, ele é um rapaz tão bom!


Trabalhador, honesto, dedicado na
igreja. Você sabe que ele é um ótimo
líder.

– Sei de tudo isso, mãe. Boa noite para


vocês, preciso descansar – aproximou-
se da porta – Amanhã será um dia
daqueles no salão e ainda vou dar aula...
– Amanhã, Mari? Não seria quinta? –
perguntou Michelle.

– Não, Mi! Só alterei semana passada


por causa dos kits – esclareceu –
Beijinhos... Fui!

Assim que Mariana saiu...

– Mi, dê alguns conselhos para sua irmã.


Ela e o Renan juntos seria tão lindo!

– Mãe, não posso abrir o coração dela e


colocar o Renan lá, não é?

–E se nós três aproveitássemos todas as


oportunidades para falar sobre o Renan,
hein? – perguntou olhando para Michelle
e Lívia.

– Mãe, não acho que seria uma boa


ideia.

– É, Ivone, a Mari não vai gostar –


concluiu tia Lívia.

– Vocês duas vão me ajudar. Eu quero a


Mari e o Renan juntos.

Quarta-feira às 7h20, o pacote azul


marinho já estava em cima da mesa de
Adriel. Quando o presidente da ALT &
Filhos chegou à empresa, Lívia já estava
concentrada no trabalho.

– Lívia? Madrugou hoje? Você nunca


chega primeiro do que eu!

– Bom dia, Adriel. Se você ainda não


sabe, é assim que as pessoas civilizadas
se comunicam.

– Está muito cedo para gracinhas. E


aquelas duas? – perguntou ao olhar para
a mesa de Camile e Marisa.

– Ainda faltam vinte minutos.

– Lívia, hoje não quero ser


interrompido, entendeu? Tenho que
decidir sobre o novo produto... Quero
que seja um sucesso total. A nova linha
ser á recorde de vendas neste Natal –
disse ele encaminhando-se para a porta
de sua sala.

– Não permitirei interrupções. Pode


deixar comigo – fez continência, mas ele
não notou.

Adriel entrou em sua sala e foi direto ao


lavabo... Lavou as mãos ao som de
Bach. Saiu após vinte minutos. Ao se
aproximar da mesa, notou o pacote azul
marinho com um laço dourado.

– O que será isso? Lívia, venha até aqui


– disse ele pelo interfone.
Lívia já imaginava o motivo daquela
chamada, por isso fez que não ouviu.
Cumprimentou Camile e Marisa que
chegavam naquele exato momento.

– Bom dia, meninas! Eu vou tomar um


café – disse com a maior naturalidade.

– Ele já chegou?– perguntou Camile.

– Precisa perguntar ?Ele sempre chega


cedo! – disse Marisa.

– Lívia, você vai até a Pan Leon ou o


refeitório?

– Pan Leon, Camile, Pan Leon, só para


demorar mais – sorriu para as duas e
aproximou-se do elevador.
– E se ele chamar?

– Atendam ao interfone e digam que eu


fui tomar café e depois precisei ir até o
RH.

Assim que Lívia saiu, o interfone tocou.

– Ai, ai, ai... Marisa, atenda!

– Eu? Não mesmo – abriu sua bolsa e


pegou uma trufa. Colocou o chocolate
rapidamente na boca.

– Sobrou pra mim – lamentou Camile –


Sim?
– Quem está falando? – perguntou
irritado.

– Camile.

– Quero falar com a Lívia. O quê? Café?


– perguntou a voz ríspida e para alívio
das meninas a voz se calou em seguida.

– Ufa! A Lívia só me apronta!

– Não foi tão ruim.

– Na próxima vez você atende, Marisa.


Adriel olhou para o pacote por alguns
minutos. Só tocou nele após colocar
luvas. Segurou-o por alguns segundos e
depois jogou-o no cestinho de lixo.

Só pode ser coisa daquela maluca das


bolhas e balões!

Tirou as luvas e também jogou-as no


cestinho e em seguida higienizou as
mãos com álcool em gel.
– Ele só chamou uma vez? – perguntou
Lívia ao retornar do RH.

– Graças a Deus. Lívia, por que você


está fugindo dele?

– Não estou fugindo, Camile. Vamos


trabalhar?

Quando faltavam vinte minutos para o


meio-dia, Adriel saiu sem dizer nada.
Lívia foi até a sala dele após ligar para
a portaria para ter certeza que ele havia
saído. Ao aproximar-se da mesa notou
que o presente não estava mais lá, olhou
para o cestinho de lixo e lá estava o
pacote azul com fita dourada.
Sabia que não ia dar certo. Vou falar
para Mari assim ela para de mandar
presentinhos.

Adriel voltou duas horas depois. Não


disse uma palavra para Lívia. Entrou em
sua sala e foi direto para o espaçoso
banheiro com closet. Tomou um banho
relaxante. Passou a tarde analisando o
novo produto, verificou as tendências do
mercado, mas mesmo estando muito
ocupado, olhou diversas vezes para o
pacote no cestinho. Às 17h15 foi até o
lavabo e lavou as mãos várias vezes. Ao
retornar à mesa abriu a última gaveta e
retirou um par de luvas descartáveis.
Assim que as colocou, pegou o pacote
que estava no cesto de lixo.

Isso está me incomodando. O que será


que aquela garota inventou agora?

Adriel abriu o pacote e viu um pequeno


cartão.

“Adriel, leia com os olhos de uma


criança.” Mariana
Ao ler o título do livro os olhos dele
ficaram marejados. Olhou para a capa
por vários segundos e em seguida
colocou-o dentro da pasta que sempre
carregava para o trabalho, retirou as
luvas e voltou ao lavabo.

Lívia bateu três vezes à porta e entrou


em seguida.

– Adriel, está precisando de alguma


coisa? Estou de saída.

Ela olhou para o cestinho e verificou


que o pacote não estava mais lá.

– Já? – perguntou ao sair do lavabo.

– Que horas você pensa que são?


– Ah... É verdade. Lívia, qual é o
número do celular de sua sobrinha? –
perguntou meio sem jeito.

– Adriel, sei que ela está indo longe


demais com essa coisa de enviar
presentes... Pode ficar tranquilo que não
acontecerá mais. Falarei com ela –
garantiu.

– Lívia, você poderia me dar o


número?– insistiu.

– Não discuta com ela, Adriel. A Mari


é...

– Não discutirei com ela – disse


irritado.
– Promete?

– Ah, Lívia! Qual é o número?

–Tudo bem, mas se eu ficar sabendo que


você...

– Já entendi. Não comente com ninguém,


certo?

– Certo. Eu também entendi.

Mimãs...
– Mari, depois que você voltou da aula
está tão calada! Aconteceu alguma
coisa?

– É que a Laila não participou, Mi.

– Semana passada não foi a mesma


coisa?

– Estou pensando em procurar a mãe


dela. A Cléo me contou que a Laila
ainda não foi à escola nesta semana.

– Não faça isso.

– Não é justo! A Laila era a mais


animada. Agora ela não pode participar
nem dos ensaios do GEAD!
– Mari, será que pelo menos uma delas
vai se interessar pela profissão? Acho
que elas só querem é arrumar os cabelos
de graça, isso sim.

– Acho que a Cléo leva o maior jeito e a


Laila também.

– Irmãzinha linda e sonhadora, agora


tenho que ir, meu amor está me
esperando.

– Que lindo! Pode ir, só falta a Maria


Júlia e ela está atrasada! – comentou ao
verificar que já eram 19h10.

Michelle já estava saindo do salão


quando Lívia chegou do trabalho.
– Vou tomar banho. Oi, tia... fui!

– Oi, Mi! Oi, Mari!

– Oi! E então, alguém ficou histérico


hoje?– perguntou assim que teve certeza
que a irmã não ouviria.

– Por incrível que pareça, não. Fiquei


confusa... Primeiro vi o pacote no lixo,
no final da tarde ele não estava mais lá e
por último o Adriel me pediu o seu
celular.

– Você deu o número para ele? –


Mariana ficou surpresa.

– Dei após ele garantir que não vai


brigar com você.
– Ele vai me ligar? Nossa... Já estou
ficando ansiosa!

– Ansiosa, Mari? Não me diga que é


uma recaída do seu tempo de
adolescente – Lívia encarou a sobrinha.

– É claro que não!

– Melhor assim. Qua l é o nome do


livro? – estava curiosa.

– Prefiro não dizer.

– Quanto mistério! Coloco a minha vida


em risco e nem posso saber?

– Dramática! Tia linda, ore por mim, tá?


Agora me deixe trabalhar... Olha só
quem chegou! Maria Júlia, você está
atrasada! – disse ao ver sua cliente
entrar pela porta de vidro.

Na casa da família Alvarez...

– Querido, que surpresa! Você não


avisou que viria.

– Algum problema? Tem algum


convidado? – Adriel olhou para todos
os lados.
– Agora tenho companhia para jantar e
isso é ótimo.

– Olha só quem está aqui! Boa noite,


meu irmão – Abner saíra do banho há
poucos minutos, os cabelos ainda
estavam molhados.

– Boa noite, Abner. Está de saída?

– Com certeza. Tenho um compromisso


com a minha namorada. Falando em
namoradas... E você vai ficar sozinho
até quando? – adorava provocar o
irmão. Era uma maneira de interagir com
ele.

– Para todo o sempre, amém – disse em


voz solene.
– Ai, filho, não fale assim. Não quero
que fique sozinho. Isso é muito triste –
Tereza sempre orou para que seu filho
encontrasse alguém e agora a sua oração
era bem específica. Sempre mencionava
o nome de Mariana.

– É sério, não sei como você aguenta! É


bom ter alguém para compartilhar. A
vida sem amor é tão vazia – Abner
aproveitou a oportunidade para cutucar
ainda mais seu irmão.

– Se eu soubesse que você estava tão


inspirado teria encomendado flores! –
ironizou – Abner, você precisa de uma
namorada e eu não. Não quero ninguém
me incomodando. Namorada para quê?
Para descobrir que ela é falsa,
interesseira e...

– Você não pode generalizar. Se a


Renata foi uma decepção, isso não
significa que todas serão! Você sabe
disso. A Elisa era uma pessoa excelente
e...

– E hoje ela não está mais entre nós. O


amor é mesmo lindo!

– Filho, não gosto que fale assim! Não


soa nada bem...

– É só ironia, mamãe. Abner, não deixe


a sua namorada esperando.

– Mãe, agora é a sua vez. Boa noite para


todos – Abner deu um beijo em sua mãe
e saiu.

– Se continuar com o assunto...

– Vamos falar sobre a empresa. A Tati


me disse que vocês estão com um
produto novo...

Desde que ficou sabendo que Adriel


tinha o número de seu celular, Mariana
não conseguia pensar em outra coisa.

Por que estou assim? Que bobagem!


Será que ele vai ligar? Ah, para com
isso! Estou roendo as unhas? Ai, ai... e
se ele ligar? O que ele vai dizer? E eu?
Ai, que absurdo! Por que estou assim?
Preciso parar de pensar nisso... Será
que ele vai ligar hoje?

Adriel chegou poucos minutos depois


das 21h; após tomar um banho
demorado, sentou-se no sofá da sala.
Por um momento pensou em ligar para
Mariana, mas desistiu porque não sabia
o que dizer para ela.

Naquela noite, Mariana recebeu uma


ligação que a deixou muito preocupada.
Cléo contou que foi até a casa da amiga,
mas ninguém atendeu. Mariana resolveu
ligar para a avó da garota. Dona Angela
garantiu que iria até a casa da neta no
dia seguinte.

Manhã seguinte, na ALT & Filhos...

– Lívia, o que aconteceu? Ele perguntou


por você várias vezes e não é para
menos... Já são quase nove horas!
– Calma, Marisa! E a Camile?

– Foi buscar não sei o que no


almoxarifado e não voltou mais. Ela fez
de propósito... O homem está uma fera!

Lívia deu duas batidas à porta, como


não recebeu nenhuma resposta resolveu
entrar. Encontrou Adriel sentado
cobrindo o rosto com as mãos.

– Oi, eu bati, mas...

– Você só chegou agora?– agora ele


estava com os olhos fixos em sua
secretária.
– Tive problema com o meu... carro –
murmurou a última palavra.

– Ainda não comprou o carro novo?

– Não tive tempo, eu...

– Que desculpa mais... Esqueça, vamos


trabalhar.

–Você está bem?

– Lívia, não pago o seu salário para


você fazer perguntas ridículas e sem
sentido – as palavras saíram com
rispidez.

– Nossa, já deu para perceber que hoje


será um dia daqueles...
– Com certeza e a culpa é toda sua.

– Só porque cheguei atrasada?

– Isso mesmo. Por causa do seu atraso


tive que suportar aquelas duas
incompetentes.

– Adriel, você está sendo injusto, elas


não...

– Chega! Vamos trabalhar.

Mariana ligou para Angela, a avó de


Laila, ficou sabendo que a garota havia
viajado com a mãe. Angela achou tudo
muito estranho e mencionou isso, o que
deixou Mariana muito mais preocupada.
À tarde, foi até a casa de Cléo, mas ela
não tinha nenhuma informação.

ALT & Filhos...

– Final de expediente, aleluia!

–Ainda bem porque a sua caixa de


bombons está quase no fim, Marisa.
– Para aguentar o mau humor de certa
pessoa... Só chocolate, mas você
também comeu, Camile!

– Só comi um! Pode se encher de


chocolate, mas depois não reclame
quando subir na balança, tá?

– A Camile está certa. Marisa, se você


fizer isso todos os dias que o Adriel
estiver de mau humor...

– Ai, Lívia, como você consegue? Eu


fico tão nervosa quando ele fala comigo!

– Ele não é tão assustador assim.


Domingo é o dia dos pais e vocês já
sabem o quanto é difícil para ele.
– Se fosse só nesta data – disse Marisa
ao pegar outro bombom.

Após o jantar, Adriel pegou o presente


enviado por Mariana, foi até a estante
repleta de livros que mantinha no
escritório de seu apartamento e retirou
um que estava em um local de destaque.
Era uma edição antiga de O Pequeno
Príncipe; abriu-o e leu a dedicatória:

“Filho, todos os dias peço a Deus que


você seja um adulto feliz. Aprecie as
coisas lindas da vida... O seu pai nunca
soube apreciar, mas principalmente,
jamais se esqueça que um dia você foi
uma criança.

Filho, nunca se esqueça que um dia


você também foi criança.”

De sua mãe com muito amor.


Capítulo 9 – “ Três
Ésses ”

Mariana fazia mechas no cabelo de uma


cliente quando Laila se aproximou. Era
o final da tarde daquela sexta-feira.

– Laila? Mas... O que …

Ela viu o olho roxo da garota e por


alguns segundos ficou sem palavras.

– Laila, quem fez isso com você?

Michelle percebeu a situação e


substituiu a irmã. Mariana pegou sua
bolsa e saiu rapidamente do salão com a
garota. Levou-a até o carro.

– Vamos agora mesmo para a casa da


sua avó.

– Não posso ir lá assim, Mari! – disse a


menina com voz de choro.

– Quem fez isso com você? Você estava


mesmo viajando?

– Minha mãe me levou para a casa de


uma amiga dela.

– Por quê?

– É... – ela estava muito envergonhada,


nem conseguia encarar Mariana.

– Fale comigo, Laila – acariciou o rosto


da menina – Pode contar tudo, não tenha
medo.

– É que... – Laila começou a chorar.

– Linda, não chore. Foi aquele homem,


não foi?

– Eu... eu pedi para ele tirar as mãos da


minha perna, aí ele ficou muito bravo e
me deu um soco...

– E a sua mãe não fez nada? – Mariana


estava indignada.

– Ela estava trabalhando e quando eu


contei... Ah, Mari... ela não acreditou
em mim. Aquele homem disse que eu
tinha brigado na rua e estava inventando
histórias sobre ele – enxugou as
lágrimas com o dorso da mão – A minha
mãe preferiu acreditar no Armando,
como sempre.

– Ah, querida, eu sinto muito! Ele fez


mais alguma coisa, Laila? Por favor,
conte tudo – segurou o rosto da menina
para que ela não desviasse o olhar.

– Eu já contei tudo.

– Se ele tocou em você... Laila, não


tenha vergonha de mim, por favor! Ele
fez mais alguma coisa? – a menina negou
com um movimento de cabeça – Vamos
para a casa da sua avó. A sua mãe a
levou para a casa da amiga dela para
esconder o que aquele homem fez... Que
absurdo!

– Mari, o que vai acontecer agora?

– Eu só sei que isso não pode ficar


assim.

– O seu celular está tocando.

– Deve ser a minha irmã... – Mariana


atendeu sem olhar para o visor.

– Oi, Mi, eu...

– Mariana?
Ela não reconheceu a voz, mas com
certeza aquela voz grave não era de sua
irmã Michelle, não mesmo.

– Quem está falando?

– Adriel.

Ela ficou muda por alguns segundos.

– Oi... É... Oi. Tudo bem?

– Preciso falar com você. Encontre-me


às 20h em frente à Pan Leon – disse
rapidamente.

– Eu...

– Não se atrase porque detesto esperar.


– Eu...

Ele já havia desligado. Mariana olhou


para o visor do celular e verificou que
eram 17h25.

Que maravilha! Tenho duas horas e


meia para levar a Laila, conversar com
a dona Angela e... encontrar-me com o
Adriel. Ele não tinha uma hora melhor
para ligar?

– Mari? Está tudo bem?

– Está sim, Laila. Vou ligar para a minha


irmã. Preciso avisá-la que não voltarei
tão cedo!
Mariana chegou à casa de dona Angela
às 18h32.

– Que absurdo! Não entendo como que a


Neide não acreditou em você, Laila?
Aquele homem precisa pagar por isso!

Mariana suspirou aliviada ao ouvir a


voz da avó de Laila. Dona Angela, ao
ver o olho roxo de sua neta, ficara sem
fala por alguns segundos.

– Dona Angela, a Laila não pode mais


morar na mesma casa...

– É claro que não, Mariana. Vou ligar


para um advogado que uma amiga me
indicou. A minha neta precisa morar
comigo.
– A Laila faltou a semana inteira na
escola e apareceu com o olho roxo, a
senhora pode acionar o conselho tutelar.

– Mariana, agradeço muito a sua


preocupação com a minha neta...

– Só quero que a Laila seja feliz.

– Você é um amor, Mariana. Tem um


coração enorme...

– Ela tem mesmo, vó. A Mari está


sempre me ajudando.

Mariana deu um abraço na garota.

– Agora preciso ir. Pode me ligar


quando quiser, dona Angela. Estarei
orando para que tudo dê certo.

Mariana despediu-se das duas; ao entrar


no carro, tirou o celular da bolsa para
ver a hora. Já são sete e cinco; não vou
conseguir chegar às oito. Ele não vai
me esperar. O Adriel tinha que ter
ligado justo hoje? Ai, estou tão
curiosa... O que será que ele vai dizer?
Se eu não estiver lá no horário... Ai,
não vai dar tempo. Sem trânsito vou
gastar quase uma hora. Sem trânsito?
Até parece! São Paulo... Sexta-feira! Se
eu tivesse o número dele... Mas é claro
que ele teve o cuidado de deixar no
“privado”. É lógico, só para ajudar!
Tudo bem, Mariana, acalme-se, tudo
vai dar certo.
Às 19h55, Adriel estacionou em frente à
Pan Leon ; olhou ao redor e pensou: “
Ela tem cinco minutos”.

Tomara que ele não seja pontual.


Quero enganar a quem? Eu sei que ele
é, a tia Lívia sempre diz isso. Mas
como ele consegue? Lava as mãos
“trocentas” vezes e ainda consegue ser
pontual? É cheio de pequenos rituais
e... Estou chegando... Ai, já são oito e
cinco!
Ela está atrasada; não esperarei nem
mais um minuto. Não sei por que fui
tão tolerante! Ela está dez minutos
atrasada e eu ainda estou aqui?

Mariana sentiu-se aliviada ao ouvir o


celular tocar.

– Alô?

– N ã o esperarei mais – disse a voz


grave.

– Adriel, estou bem pertinho. Cinco


minutos.

– Não.
– Não seja tão...

Ela não teve oportunidade de completar.

Que ótimo, desligou na minha cara!


Bom... Vou até lá assim mesmo... Quem
sabe aconteça algum milagre.

Adriel olhou para o elegante relógio de


ouro branco que pertencera ao pai e,
sem saber o porquê, desligou o motor do
carro. Mariana estacionou cinco minutos
depois; pensou em sair do carro e
aproximar-se, mas o celular tocou. Ele
deu o nome do único restaurante que
frequentava. Pediu para que ela o
seguisse. Quinze minutos depois, ele
parou o carro. Adriel não deu a chave
ao manobrista. Não suportava a ideia de
outra pessoa dirigir o seu carro.
Mariana já estava quase saindo do carro
quando lembrou-se da aparência. Estou
péssima! Ai, ai... O Adriel está me
esperando e eu estou assim? Ainda bem
que trouxe o suéter preto. Isso... Vou
colocá-lo para pelo menos melhorar
um pouquinho e preciso ajeitar os meus
cabelos. Como iria adivinhar que
sairia com o Adriel? Ainda bem que
tenho u m perfume básico na bolsa...
Certo... Agora preciso ir, senão é bem
capaz dele ir embora.

Ao ver a aparência dele Mariana sentiu-


se horrível. Adriel estava elegantemente
vestido com uma camisa azul marinho,
calça preta de linho e blazer. A barba
bem feita e os cabelos bem cortados
completavam o visual perfeito.

– Oi, desculpe-me pelo atraso, mas eu...

– Vamos até a mesa. Depois você tenta


apresentar-me um bom motivo para o
seu atraso – disse sem olhar para ela.

Mariana sentiu uma vontade imensa de


dizer um milhão de coisas para ele, mas
se conteve. Resolveu apreciar o local
que era muito agradável. Ela nunca
havia entrado ali antes. Enquanto
admirava o lugar, lamentava por não ter
tido a oportunidade de vestir-se
especialmente para o encontro. Foram
conduzidos pelo maître à uma mesa
reservada.

– Agora que estamos acomodados você


pode apresentar as suas desculpas –
disse Adriel em um tom nada agradável
assim que o maître afastou-se.

– Você não precisa usar esse tom


comigo. Não esperava pelo convite.
Estava muito ocupada no momento em
que você ligou.
– Com certeza estava em uma de suas
maluquices ou devo chamar de obras de
caridade?

– Você sabe ser desagradável.

– Aprecio a sua sinceridade – agora o


tom era ameno.

– Fui até a vila Matilde...

– Vila Matilde? Quando liguei você...

– Estava saindo da minha casa.

– Então preciso dizer que você chegou


bem rápido.

– Um elogio?
– Uma observação. Pelo dia, horário e
local você teve sorte de não ficar parada
no trânsito. Posso saber o que você foi
fazer lá?

– Não. Você ficaria entediado. É... Não


tive tempo de... vestir-me
adequadamente. Desculpe-me.

– Tem razão – encarou-a por alguns


segundos.

– Você aprecia mesmo a sinceridade,


hein? Poderia pelo menos ser gentil e...

– Mentir? Não, prefiro dizer a verdade.


Vocês, mulheres, adoram ouvir
coisinhas bonitas, não é? O que eu
deveria dizer? Que está maravilhosa? –
revirou os olhos.

– Não precisava tanto.

– Vamos ao que realmente interessa...


Por que justamente aquele livro?

– Ensino coreografia e também dou um


curso de cabeleireira e algumas meninas
fazem parte dos dois... Resolvi usar o
livro para...

– O que tem a ver? Farão alguma


representação do livro? Um musical?

– Não! – ela riu – Sempre converso com


elas antes e...

–Você não deveria usar a Bíblia? O


pastor Alcidino sabe disso? Antes de
sua resposta... O que vai querer? –
perguntou ao mostrar o cardápio – Já
jantei em casa.

– A sua gentileza me surpreende. Não


jantarei sozinha. Quero só um suco.

– Um suco?

– De maracujá. Estou precisando.


Servem sucos aqui, não é?

– É claro, mas antes você poderia ir ao


toalete? Também irei... Preciso lavar as
mãos – começou a esfregar as mãos –
Depois é melhor você jantar...
Mariana esperou quinze minutos por ele.

– E então, já escolheu?

– Já – ela até pensara em não comer


nada, mas estava realmente com fome e
ao olhar o cardápio não resistiu.

Após ela fazer o pedido...

– Bolhas, balões coloridos, livro... O


que mais?

– Por enquanto só isso mesmo.

– O que pretende? Você não tem nada


para me ensinar – disse com arrogância.

– Orgulhoso! Quem mantém a mente


aberta pode aprender com qualquer
pessoa e com as coisas mais simples da
vida.

– Filosofia barata. O que você


pretende?– insistiu.

– Exatamente o que escrevi nos cartões.

– O pastor sabe dos métodos que você


usa com as... meninas?

– Q ua l é o problema com os meus


métodos?

– Garota, você acha mesmo que fará


alguma diferença na vida daquelas
meninas ao usar bolhas, balões e livros
infantis? Está perdendo o seu tempo e o
delas.

– Você não é nada animador.

– Você já sabia muito bem disso, afinal


a sua tia trabalha comigo e duvido que
ela não comente nada. Garota, aquelas
meninas enfrentam lares divididos,
problemas financeiros e algumas devem
até sofrer violência. São coisas que não
se resolvem com bolhas, balões e
palavras bonitas – disse encarando-a.

– Só que comigo elas têm momentos


especiais. Elas sorriem, são valorizadas
e quando precisam de ajuda estou
disponível. E fique sabendo que não são
todas que convivem com os problemas
que você mencionou. A maioria tem uma
família unida. Do grupo de coreografia
são só três que não têm os pais na igreja.

– Ter os pais na igreja é sinônimo de


união? Caia na real, garota!

– Como você julga as pessoas! E meu


nome é Mariana!

– Como você é ingênua! Hoje você


ajudou alguma menina indefesa?

– Uma delas apareceu com um olho


roxo. O padastro é o culpado, mas a mãe
não acredita, então a levei até a casa da
avó.

– Você está procurando encrenca,


garota.
– Já disse que meu nome é Mariana.

– Hoje você conseguiu ajudar a garota e


ela ficou satisfeita, mas chegará o dia
que não poderá fazer nada e o que você
fez no passado não contará. Você pode
ajudar nove vezes, mas se falhar em
uma... É a vida, garota... Mariana!

– Você é campeão em levantar o ânimo!


Fiquei curiosa... Por que o livro chamou
tanto a sua atenção? Você ficou com ele,
não é?

– Antes de responder a sua outra


pergunta, preciso saber se a minha mãe
já fez algum comentário sobre o livro.

– A sua mãe? Não.


– Acredito em você.. Meu pai ganhou O
Pequeno Príncipe quando tinha 16 anos.
Minha avó deu de presente de
aniversário, só que ele não pôde lê-lo.

– Por quê? – ela ficara interessadíssima.

– O meu avô achava que era um livro


para crianças ou mulheres. Ele proibiu
meu pai de lê-lo – fez uma pausa.
Contornou o relógio de pulso com o
dedo antes de continuar – A minha avó
conseguiu guardá-lo e entregou-o ao meu
pai no dia do casamento dele. Ele tinha
21 anos! Era o livro preferido dele
depois da Bíblia.

– Sua mãe me disse que o seu avô era


muito exigente. Que com ele não havia
diálogo.

– Minha mãe disse isso?

– Mas nã o mencionou o livro – achou


melhor acrescentar – E onde ele está?

– Está comigo. Meu pai me deu um ano


antes de... ir. Ao abrir o presente que
você enviou vieram muitas lembranças...

– Ah, me desculpe, se eu soubesse...


Justo nesta semana... Sinto muito –
lamentou com sinceridade.

– Não precisa desculpar-se, você não


sabia, já entendi isso.

O jantar dela foi servido. Enquanto ela


comia, Adriel contornava o visor do
relógio com um dedo. Mariana respeitou
o silêncio dele. Ele só parou com o
movimento ao perceber que ela havia
terminado.

– Quer sobremesa? Mousse de


maracujá?

Mariana sorriu. Ele tinha senso de


humor. Estava bem escondido em
alguma parte dele, mas ele tinha.

– Não preciso mais de maracujá.


Agradeço, mas estou satisfeita.

– Então... Podemos ir agora.

Ela não queria ir. A vontade dela era de


ficar e conversar mais. Como diria isso
para ele?

– Adriel, qual a sua opinião sobre O


Pequeno Príncipe ?

– Você pode até achar estranho, mas


apesar de todo o valor sentimental, eu
não gosto. Concordo com o meu avô.

– De que é um livro para crianças e


mulheres?

– Sim, mas ele não tinha o direito de


proibir meu pai de lê-lo. Era um
presente da mãe dele! Ninguém tem o
direito de arrancar algo assim,
ninguém...
Mariana ficou impressionada com as
palavras dele e com o olhar distante.
Era como se ele estivesse vendo o
passado.

– Meu pai sempre lia as histórias da


Bíblia para nós e às vezes lia também O
Pequeno Príncipe; o Abner e a Tati
dormiam rápido, mas eu não. Como eu
gostava de ouvir a voz dele...

Mariana continuou em silêncio. Não


queria interromper aquelas doces
lembranças.

– Vamos embora – falou de repente – Já


são quase dez horas! não gosto de
chegar tarde em casa. Você me seguirá.
Quando chegarmos em frente à sua
casa... Esperarei até que entre em sua
garagem.

– Que fofo!

– Isso não tem nada a ver com fofura, é


responsabilidade.

–Tudo bem, você pode usar o nome


enorme, eu prefiro “fofo”.

Naquele domingo Adriel não assistiu ao


culto pela internet porque sabia muito
bem que fariam homenagens aos pais.
Representação de peças, poesias,
louvores e até o sermão teriam o mesmo
tema e ele sempre fugia de tudo isso. Na
semana do dia dos pais ele evitava até
reportagens. Mas não conseguia explicar
porque gostara tanto de conversar com
Mariana. Desde sexta-feira sentia uma
necessidade enorme de falar com ela
novamente, mas se conteve. No final da
tarde de segunda resolveu sondar Lívia.

– Precisa de mais alguma coisa? –


perguntou Lívia ao levar o cappuccino.

– A sua sobrinha dirige o grupo de


coreografia da igreja e dá aulas em uma
comunidade, certo?

– É isso mesmo – respondeu Lívia


estranhando o interesse.

– Você acha que as aulas dela fazem


alguma diferença na vida daquelas
garotas?

– Com certeza – a pergunta dele a


surpreendeu – A Mari faz tudo com
muito amor. Ela se interessa mesmo por
aquelas meninas. Acho que ela até
exagera.

– É mesmo?

– Ela não deveria se envolver tanto.


Deveria se limitar a ensinar os gestos,
falar sobre a Bíblia, fazer bolhas,
arrumar os cabelos, sortear livros... Mas
não, ela se envolve na vida delas e...

– Sortear livros?
– É. Ela vai conversar sobre um
determinado livro com elas. Resolveu
fazer sorteio e...

– Você sabe quantos ela sorteou até


agora?

– Acho que dois ou três... Ela já


prometeu que dará um livro para cada
menina... – o interesse súbito deixou-a
com a pulga atrás da orelha.

– Sei... Lívia, compre a quantidade que


falta e entregue para a sua sobrinha.

Lívia não estava acreditando no que


acabara de ouvir.

– Você quer que eu compre...


– Exatamente. Compre os exemplares
que faltam de O Pequeno Príncipe –
Lívia arregalou os olhos ao ouvir o
nome do livro – Agora você pode ir.
Ah... Não comente com mais ninguém
sobre isso. Só com a … com a sua
sobrinha, é óbvio.

Mimãs...

– Era a Laila? – perguntou Michelle


após Mariana desligar o celular.

– Era. A mãe dela esteve lá. Mi, você


acredita que ela insiste em dizer que é
mentira da Laila?

– Que absurdo! A Laila continua na casa


da avó, não é?

– Só até amanhã. Ela precisa voltar às


aulas.

– Mas...

– A dona Angela contratou um


advogado, só que isso leva tempo. É
tudo muito complicado.

– O padrasto dá um soco na menina e


fica por isso mesmo? Ele pode fazer
coisa pior...

– Eu sei, Mi, estou tão preocupada! A


mãe da Laila disse que acionar o
conselho tutelar não vai adiantar nada.
Ela vai dizer que a Laila está mentindo
porque brigou na rua.

– Então tudo fica na mesma?

– Só vai resolver mesmo se a dona


Angela conseguir a guarda da neta. Ore
por isso, Mi, ore muito.
Na casa da família Alvarez...

– Abner, você recebeu o e-mail sobre a


festa do Renan?– perguntou Tatiana.

– Recebi. Vamos aproveitar a reunião


que ele mesmo marcou...

– Isso mesmo. Ele nem vai desconfiar


porque o aniver dele é quinta-feira!

–Vão comemorar antes? – perguntou


Tereza.

– É, mãe, algum problema? Dá azar?–


brincou Tati.

– É claro que não.


– Se o pastor fizer uma pesquisa sobre
isso na igreja? Será que ele vai se
surpreender? – perguntou Abner.

– Espero que não. Cristão que é cristão


não pode acreditar em azar – afirmou
Tati.

– Azar?

Adriel entrara na sala e só ouvira a


última palavra da irmã.

– Oi, filho! Estávamos conversando


sobre uma festa.

– Boa noite, mamãe. Uma festa? E o que


azar tem a ver com isso?
– Boa noite, Adriel, que legal vê-lo aqui
hoje! Eu estou aqui e a Tati também! –
Abner adorava provocá-lo.

– Estivemos juntos hoje na empresa...

– É diferente. Tati, por que você não


convida o nosso irmão para a festa de
sábado, hein?

– Festa? Vocês sabem o quanto eu


detesto festas.

– Abra uma exceção, filho. Todos os


jovens da igreja estarão lá – Inclusive
Mariana – pensou Tereza.

– D r i , s á b a d o faremos uma festa


surpresa para o Renan – explicou Tati.
– E eu com isso? – deu de ombros.

– Filho, o Renan já tentou entrar em


contato várias vezes e você não foi nada
simpático. Ele é um ótimo rapaz.

– A mãe da Michelle quer que ele seja


genro dela – comentou Abner.

– Nossa, Abner, ela disse isso para


você? – perguntou Adriel provocando-o.

– Não é isso o que você está pensando.


Ela quer que ele seja namorado da Mari.

Adriel não gostou da informação. Não


entendeu o porquê. Tereza também não
gostou, mas sabia muito bem o motivo.
– Abner, que tal você mudar de
assunto?– Tati percebeu que o clima
estava tenso e resolveu intervir, mas não
obteve sucesso.

– Oi? Qual o problema? A minha


namorada também adoraria tê-lo como
cunhado. E o Renan é completamente
apaixonado pela Mariana, todo mundo
sabe disso.

– Eu... Vou embora – disse Adriel.

– Filho, você não veio jantar comigo?

– Hoje não. Boa noite para todos – disse


encaminhando-se para a saída.

– Não estou entendendo nada. Perdi


alguma coisa? – Abner viu o irmão sair
e notou os olhares nada satisfeitos da
irmã e da mãe.

– Filho, cuidado com os seus


comentários... Quero que você a Tati me
ajudem a aproximar os dois...

–Tati, do que a nossa querida mãe está


falando?

–Você sabe que ela acha a Mariana


perfeita para o Adriel.

– Hã? Eles não têm nada a ver um com o


outro. A Mariana é muito simpática, fala
com todos, adora ajudar as pessoas. O
meu irmão... Vocês já sabem – revirou
os olhos– Se a minha futura sogra
imaginar a sua intenção, mãe, posso até
ter problemas com a Michelle e... Posso
até perdê-la!

– Que exagero, Abner. Você vai me


ajudar.

– N ã o mesmo, mãe. Tati, já estou de


saída, converse com a nossa mãe, por
favor. Tire isso da cabeça dela, senão
vai sobrar pra mim. E o meu amigão
Renan é perfeito para a Mari. Todos
sabem disso!

Mariana não comentou com ninguém


sobre o “encontro” dela com Adriel.
Lívia também não comentou nada sobre
a compra dos livros, só sondou Mariana
para saber o número exato, mas foi bem
discreta.

– Lívia, você entregou os livros para a


sua sobrinha? – perguntou Adriel no
final da tarde de terça-feira.

– Comprei pela internet. O prazo para


entrega é de 3 dias úteis.
– Não acredito! Lívia, por que você não
foi em uma livraria?– perguntou irritado.

– Comprei em uma livraria...virtual–


respondeu calmamente.

– Não brinque comigo. Será que tenho


que explicar tudo?

– Acalme-se. Devem chegar sexta-feira.

– Vou embora – disse levantando-se


abruptamente.

– Nós não íamos verificar os novos


contratos com a rede...

– Amanhã.
Após o jantar, Adriel pegou o celular e
localizou o número de Mariana. Olhou
para os números, mas não teve coragem
de fazer a ligação. Todas as vezes que o
visor apagava, ele apertava uma tecla
novamente. Após vinte minutos, jogou o
celular no sofá e foi lavar as mãos.

Aqueles números não saíam da mente


dele, por isso não conseguiu se
concentrar no número que havia pensado
para fazer a contagem enquanto lavava
as mãos. Todos aqueles números faziam
uma confusão em seu cérebro. Estava
esfregando as mãos com tanta força que
até feriu dois dedos. Ele olhou irritado,
mas continuou esfregando sem parar.

Preciso falar com ela... Eu preciso.


Capítulo 10 –
Livros, festa e
jantar

Quarta-feira às 10h, a secretária de


Adriel andava de um lado para o outro.

– Não acredito que ele ainda não


chegou! Ele dificilmente se atrasa...
Aconteceu alguma coisa!

– Calma, Lívia, ele deve estar lavando


as mãos ou tomando um banho bem
demorado.

– Marisa, se ele escuta isso!

– Ela está certa, Lívia. Você não precisa


se preocupar – disse Camile.

– Vou ligar novamente...

Após algumas tentativas...

– Só postal...

– Bom dia! – Tatiana sorriu para as duas


meninas, mas ficou séria ao ver a
expressão de Lívia.

– Tati, você tem notícias do Adriel? Ele


ainda não chegou.

– Já são dez horas, que estranho! Você


já ligou para ele, Lívia?

– Várias vezes. Celular, fixo... Enviei


até um e-mail!

– Então vou até o apartamento dele –


disse Tatiana aproximando-se do
elevador. Neste exato momento a porta
do elevador abriu-se e ela ficou aliviada
ao ver o irmão.

– Você está bem, Dri?


– O que está acontecendo aqui?–
perguntou ríspido ao olhar para as
quatro mulheres que ficaram estáticas ao
vê-lo – Ninguém mais trabalha nesta
empresa?

– Estávamos preocupadas com você.


Você nunca se atrasa– explicou Lívia.

– O que você fez na mão? – perguntou


Tati ao ver um curativo.

– Nada. Vamos trabalhar?

Tatiana sabia muito bem que não


adiantaria questioná-lo, por isso foi para
sua sala. Rapidamente as outras três
mulheres se concentraram no serviço.
Mariana recebeu uma ligação de Renan
no final da tarde. Duas horas depois se
encontraram em uma lanchonete.

– Já estou quase terminando o que você


me pediu, tá?

– Mari, não é por isso que eu a


convidei. Sei muito bem que você é
competente. Nem preciso saber o que
você está preparando.

– Faço questão de mostrar para você.


Daqui a dois dias acho que estará tudo
pronto.

– As meninas estão animadas para


participar do passeio?

– Com certeza.

– Mari, ontem recebi uma ligação da


mãe do Adriel.

– É mesmo? – mordeu o lanche. Mariana


queria muito saber o motivo da ligação,
mas conseguiu disfarçar o interesse.

– É. Ela quer que eu tente me aproximar


dele. Já fiz isso várias vezes e nunca
consegui nada com ele – colocou uma
quantidade generosa de ketchup em seu
hambúrguer – Confesso que já tinha
desistido... Para mim é muito
complicado por causa da Renata.

–Você vai tentar?

– Prometi para ela. A dona Tereza quer


que o filho participe das atividades da
igreja. Se ele não participava de nada
quando era mais novo, você acha que
agora...

– Ele só tem 31 anos, Renan! – pensou


se o amigo acharia estranho por ela
mencionar a idade de Adriel, mas como
a irmã era namorada do irmão gêmeo...

– Mari, vou tentar uma aproximação mas


preciso que você me ajude nisso.
– Eu? – quase engasgou com o suco.

– Não faça essa carinha... Você fica uma


graça quando faz isso.

– Isso o quê?

– Você usa uma expressão de surpresa...


É como se você estivesse surpresa, mas
na verdade...

– Como se estivesse? Você está dizendo


que sou falsa?– perguntou ela sorrindo.

– Amo o seu sorriso. Você sabe o que eu


quis dizer. Mari, tive uma ideia...
Amanhã iremos até a ALT & Filhos.

– Não sei se é uma boa ideia... E você


não vai trabalhar amanhã?

– Banco de horas – explicou – Irei até à


chácara amanhã bem cedo. Você sabe
que gosto de conferir...

– É sempre bom para não ter surpresas.

– A Renata foi quem acertou tudo. A


chácara é de uma amiga dela.

– Só posso ir com você até a ALT se for


logo depois do almoço. Tenho três
clientes após às 16h.

– Ótimo. Às 14h está bom para você?


Acho que não vamos demorar lá...

– Combinado.
– Mari, mudando de assunto...Você...

– O que você quer saber, hein?

– Só quero saber se você está... é...


gostando de alguém.

– Eu gosto de tantas pessoas...

– Você entendeu.

– Ah, Renan, outro dia você já me


perguntou isso – Mariana fixou os olhos
no copo vazio, que de repente ficara
muito interessante.

– Você é espontânea para tudo, menos...

– É isso aí. Não gosto de conversar


sobre a minha vida sentimental.

– Certo. Não precisa desviar o olhar...


Tudo bem, não pergunto mais.

Sala do presidente da ALT & Filhos, no


dia seguinte, logo após o almoço...

– Você já vai embora? Tati, ainda são...

– Meu querido e amado irmão, eu sei


que horas são. Dri, tenho algumas coisas
para resolver.

– Coisas da igreja. Só pode...


– E se for, o que você tem a ver com
isso?

– Como vocês gostam de arrumar


confusão. Os problemas do dia a dia não
são suficientes para vocês? Parece que
não. Precisam se envolver nos
problemas dos outros...

– Você é adepto da filosofia “ema, ema,


ema”? – Tatiana riu ao ver a expressão
de seu irmão – Já imaginou se todos
fossem como você? Se ninguém
estivesse nem aí para os problemas dos
outros?

– Quem não for competente para


resolver os seus problemas que procure
um psicólogo – deu de ombros.
– Nossa, você está tão azedo hoje!
Agora preciso ir.

– Só falta o Abner...

– Ouvi o meu nome – disse Abner ao


entrar na sala do irmão.

– Não se bate mais na porta? O que está


acontecendo, vai embora também?

– É claro que não.

– Abner, dá um jeito nele? – pediu


Tatiana – Ele está insuportável.

– Nenhuma novidade. Você perdeu a


paciência com ele? Isso sim é novidade!
– Só porque ele não se preocupa com
ninguém, não se importa com ninguém e
não está nem aí para o que acontece com
as pessoas, acha que eu também tenho
que ser assim – desabafou a irmã.

– Não exagere. Eu me preocupo com a


nossa mãe, com vocês, com a empresa...

– Se isso fosse verdade você se


esforçaria para mudar.

– Vocês dois estão brigando?

– Ninguém está brigando aqui, Abner,


estamos conversando, ou melhor,
estávamos, agora preciso ir – deu um
beijo no rosto de Abner e acenou para
Adriel.
– Ela vai mesmo! Tanta coisa para
resolver e...

– Está precisando de ajuda?– perguntou


Abner com os olhos fixos na porta que a
irmã acabara de fechar.

–Você também está louco para ir, não é?


Não tira os olhos da porta...

– Não irei embora agora. Estarei em


minha sala, se precisar...

Mariana e Renan chegaram à ALT &


Filhos alguns minutos após a saída de
Tatiana.
– Que surpresa! Vocês dois juntos em
plena tarde de sexta-feira?

– Oi, tia, estou aqui só porque o Renan


me pediu para acompanhá-lo. Ele veio
em uma importante missão – Mariana
deu um beijo em sua tia e Renan fez o
mesmo.

– Missão?

– Lí v i a , preciso conversar com o


Adriel.

– Ai, ai, ai... O que você quer com ele,


Renan?

–Tenho um convite especial para fazer.


– Vou avisar que vocês estão aqui. Nem
vou adiantar nada pelo interfone. É
melhor eu preparar o terreno.

– E as meninas, tia? – perguntou


Mariana estranhando a ausência de
Marisa e Camile.

– Hoje elas estão em outro


departamento. Uma funcionária faltou e
pediram ajuda. O serviço está um pouco
atrasado por isso mandei as duas para
lá. Estão no 4°andar – explicou.

A porta abriu antes de Lívia se


aproximar.

– Lívia, eu...
Ao ver Mariana, Adriel quase sorriu,
mas logo avistou Renan.

– Eles gostariam de falar com você –


informou-o Lívia.

– Boa tarde, Adriel – disse Renan meio


sem jeito.

– Oi, Adriel – Mariana abriu um sorriso


apesar de estar um pouco constrangida.

– Algum problema? – o tom não era


agradável.

– Não, só precisamos de cinco minutos


– explicou Renan.

Adriel olhou para Lívia, ela fez que nem


notou aquele olhar fulminante.

– Tenho muito trabalho e...

– Então serei rápido... Adriel, você é um


empresário bem sucedido e...

– Preci sam de doação para algum


evento?

– Não é isso, ou melhor, é sim, estamos


precisando que você doe um pouquinho
do seu tempo. É que no dia 7 de
setembro iremos à uma chácara com os
jovens e...

– E o que eu tenho a ver com isso?

– Você poderia dar uma palestra sobre o


dia a dia de um empresário e...

– Já sei quem teve a brilhante ideia –


olhou rapidamente para Mariana.

– Não fui eu. Só estou aqui porque o


Renan pediu...

– A Mari só está me acompanhando. A


ideia foi minha – explicou Renan.

– Pensou que na presença dela eu seria...


maleável?

– Não é isso, é que...

– Convidem outra pessoa. O meu irmão,


por exemplo. Ele é bem simpático e
conhece o dia a dia de um empresário.
Tenho certeza que ele...

– O pessoal já conhece o Abner. Seria


mais interessante se...

– Se fosse o esquisito do Adriel, não é?


– perguntou com rispidez.

– Adriel, o Renan só fez um convite, não


precisa falar assim – disse Mariana.

– Vocês dois vieram aqui para perder


tempo e infelizmente não só o de vocês.
Lívia, ofereça um suco ou café para os
visitantes. Com licença – ao dizer isso
retornou para sua sala.
– Vamos tomar um cafezinho? –
perguntou Lívia.

– Pelo menos eu tentei – disse Renan ao


entrar no carro.

– Você já imaginava que seria assim.

– Por que ele pensou que a ideia partiu


de você?

– Por que tenho ideias maravilhosas,


você não acha?
– Concordo plenamente.

– A ideia da palestra foi bem legal,


Renan.

– Ele disse que nós só perdemos tempo,


mas não concordo. Estar com você é
ganhar. Ganhei um tempo precioso ao
seu lado – deu um largo sorriso para ela.

– Ah, isso foi lindo!

– Você é linda! Mari...

– Podemos ir agora? Tenho clientes,


lembra?
Mais tarde...

– Tia, tem um pacote em cima da sua


cama – avisou Mariana assim que ela
retornou do trabalho – Chegou logo após
o Renan me deixar aqui.

– Mari, está ocupada?

– Tenho alguns minutos antes da


próxima cliente, só vim “beliscar”
alguma coisa aqui na cozinha, por quê?

– Sua mãe ainda não voltou do mercado


com o Niki? Ela me ligou para avisar
que iria com ele...
– Ainda não.

– Então, venha! – Lívia puxou a sobrinha


pelo braço.

– O que você comprou, tia?

– Você logo saberá...

Lívia pegou o pacote e o entregou para a


sobrinha.

– Para mim?

– Para as suas alunas. Abra.

– Tia?
– Abra... Eu ajudo. Vamos precisar de
uma tesoura.

Após abrirem o pacote...

– Uau!

– A quantidade que estava faltando,


certo?

– É isso mesmo. Você gastou...

– Não gastei nada. Só fiz o pedido.

– Não estou entendendo – Mariana


segurou um exemplar de O Pequeno
Príncipe e deixou os outros em cima da
cama de sua tia.

– Obedeci uma ordem do meu amado


patrão.

– Como ele soube?

– Você mandou o mesmo livro para ele,


né?

– É, mas...

– Ele começou o assunto e eu acabei


falando sobre os sorteios. Ai, Mari,
quando o Adriel mencionou o nome do
livro...
– Que legal! Tenho que agradecê-lo, ele
foi muito fofo!

– Fofo? Será que estamos falando sobre


a mesma pessoa? Há poucas horas ele
foi bem grosseiro com você e o Renan.
Ah... Adorei vê-los juntos. A sua mãe
vai amar.

–Tia, por favor, eu e o Renan somos


amigos.

– Ele é louco por você.

– Minha tia linda, preciso do número do


celular de uma certa pessoa...

– Não mesmo.
– Por favor, tenho que agradecer.

– Mari, não posso. Não tenho


autorização.

– Tia...

– Vou ligar para ele antes. Se ele


concordar...

– Preciso voltar para o salão; me avise


assim que tiver a resposta, mas seja
discreta. Não comente sobre os livros.

– Nem com a sua mãe?

– Principalmente.
Adriel sentira algo estranho naquela
tarde. Mesmo sem conseguir explicar o
motivo, gostou de rever Mariana, mas
detestou vê-la ao lado de Renan. Estava
pensando nisso quando o celular tocou.

Mariana viu quando a tia entrou no


salão, mas Michelle não parava de falar
com ela. Estava na maior ansiedade
porque queria muito ligar para Adriel. A
atitude dele naquela tarde a entristecera,
mas agora ela estava duplamente feliz.
Todas as meninas teriam o livro e
Adriel reagira de maneira inesperada.

Lívia aproximou-se da ansiosa sobrinha


e bem discretamente colocou um
pequeno pedaço de papel na mão dela.

Mariana só pôde fazer a ligação depois


da última cliente. Já passavam das 21h.

– Adriel, boa noite. Fiquei bem surpresa


ao receber aquele pacote. Obrigada, foi
uma atitude muito bonita.

– Está enganada. Fui egoísta. Não fiz


para ajudar, você já estava fazendo isso.
Não gastei nenhuma fortuna, você sabe.
– O gesto vale muito.

– Não fiz isso por caridade, fiz por


egoísmo.

– Então explique.

– Não – Adriel não confessaria que deu


os livros para que Mariana entrasse em
contato novamente com ele.

– Você é tão mau.

– Agora você está certa. Não mencione


o meu nome, só diga que recebeu uma
doação, certo?

– Certo. Bom... Vou desligar.


– Mariana...

– Sim?

– Gostaria de conversar com você.


Podemos marcar para amanhã? –
surpreendeu a si mesmo ao convidá-la.

– Amanhã?

– Algum problema?

– É que... Nós podemos, mas só se for


às 21h30, tudo bem?

– Tão tarde? – Adriel detestava sair à


noite, mas concordou porque a vontade
de rever Mariana era enorme.
Terei um sábado bem agitado! Várias
clientes durante o dia inteiro, festa
surpresa para o Renan e jantar com o
Adriel... Nossa! Por que eu não disse
que tinha um compromisso? Sei a
resposta: Porque quero sair com ele. E
como quero! Mas como vou sair da
festa tão cedo? Preciso dar um jeito –
pensou Mariana ao colocar o celular na
cama.
– Está tudo certo. O pastor Alcidino já
ligou para o Renan e marcou uma
reunião às 18h. O aniversariante estará
tão ocupado no escritório do pastor que
nem perceberá a movimentação no salão
de festas. O pessoal só precisa chegar
na hora certa porque o Renan marcou
uma reunião com a diretoria às 19h –
explicou Michelle à irmã.

– Já são quatro horas e tenho mais três


clientes. Ainda bem que tem um bom
grupo cuidando de tudo. Preciso
terminar aqui pelo menos às 18h para
me arrumar.

– Só tenho mais uma cliente, mas não


posso ajudá-la porque marquei com o
Abner para buscar o bolo.
– Hoje eu precisava de um dia com 30
horas pelo menos. Precisei dizer não
para três clientes! – lamentou Mariana.

– Como elas abusam! Fazem isso só com


você, Mari. Você é muito boazinha. Já
falamos várias vezes que é necessário
marcar hora, principalmente aos
sábados, mas não tem jeito, sempre
aparece alguma espertinha.

– Uma das espertinhas está se


aproximando – brincou Lívia– Meninas,
quem pode dar um jeito nisso?–
perguntou mostrando os cabelos
levemente ondulados. Ela iria à uma
festa com o filho. Era o aniversário de
um amiguinho de Nicolas.
– Pode deixar comigo, tia espertinha,
porque a Mari está enrolada!

– Amo você!

Tatiana estacionou o carro e suspirou.


Tinha quase certeza que perderia seu
tempo, mas como prometera para a
mãe...

– O que você quer?– perguntou Adriel


ao abrir a porta de seu apartamento para
a irmã.

– É assim que você fala comigo? Só


estou aqui porque a nossa mãe pediu.
Ela quer que eu o convença...

– Sem chance.

– Dá para você escutar? Não tenho


muito tempo. Dri, você sabe que hoje...

– Já sei... a festa surpresa do Renan.


Não acredito que você veio até aqui
só...

– Não acredito também, mas o que não


faço por minha amada mãezinha? Dri,
ela está tão...

– Preocupada comigo – completou em


um tom monótono – Tati, não tem jeito,
as mães são assim – pensou por alguns
segundos antes de revelar – Já tenho um
compromisso.

– Verdade?

– É claro, por que mentiria?

– Posso saber qual é o compromisso? –


perguntou curiosa.

– Não pode.

– Você vai sair com alguém?

– Você também tem um compromisso,


certo? Então...

– Espero que realmente você tenha um


compromisso e que consiga se divertir
um pouco, porque está precisando muito.
Vive estressado...

– Agradeço a preocupação, mas não


perca o seu precioso tempo comigo. O
seu marido e a sua filha estão esperando
por você.

– Não gostaria de ter alguém esperando


por você? – fixou os olhos nele, mas
Adriel desviou o olhar.

– Tati, é melhor você ir.

Na casa da família Fernandes...


– Como estou exausta, ah, se eu pudesse!

– Pudesse o que, Mari?

– Deitar na minha cama e só acordar


amanhã, tia! Você está linda! – elogiou
ao olhá-la dos pés à cabeça. A tia vestia
u m conjunto de saia listrada e blusa
preta. Michelle fizera escova naqueles
cabelos ondulados que estavam à altura
dos ombros – Niki, olhe para sua mãe...
Ela não está maravilhosa?

– Ela é a mãe mais linda do mundo


inteiro.

– Agradeço os elogios, mas confesso


que a Mi fez milagres. Você está com
uma carinha de cansada – acariciou o
rosto da sobrinha – Pena que não vai dar
tempo nem para um cochilo, né?

– Não mesmo, só tenho trinta minutos!


Vou tomar um...

– Belo banho! – Niki e a mãe falaram


juntos.

– Mari, já está pronta?– perguntou Ivone


ao entrar no quarto da filha – Ainda está
assim? Hoje você precisa ficar
maravilhosa! Você é linda, mas está com
uma carinha...

– Preciso de um espelho, urgente! – após


olhar-se no espelho – Nossa, estou
mesmo!

– A Célia está muito animada com a


festa do filho e ficaria feliz se...

– Se o que mãe?

– Se você e o Renan namorassem.

– Tia, converse com a sua amada irmã e


explique para ela que eu e o Renan
somos amigos!

– Ela não quer ser a namorada dele, tia


Ivone – disse Niki.

– E o que você sabe? Ainda é uma


criança.
– Mãe, ele é uma criança e já entendeu
isso.

– Não olhe para mim, Ivone, não falo


nada para ele. Você é quem vive
comentando sobre o Renan. O Niki ouve
muito bem, graças a Deus – disse Lívia
ao notar que a irmã a encarava.

– Só que ele entendeu tudo errado. A


Mari gosta dele e ...

– Como amigo – gritou Mariana antes de


fechar a porta do banheiro.
Pastor Alcidino usou os minutos que
dispunha para conversar com o líder de
jovens sobre alguns projetos. Olhou
para o relógio de pulso e verificou que
chegara a hora de levá-lo até o salão de
festas.

– Renan, preciso que você me


acompanhe até o salão. Tenho que
mostrar algo que foi adquirido
recentemente e que e sei que durará
pouco – disse o pastor dando uma
indireta sobre o bolo e outras delícias
que os aguardavam no salão de festas.

– É mesmo? Ih... pastor, preciso voltar


ao escritório, esqueci a minha agenda.

– Depois Renan, ainda faltam alguns


minutos para o horário que você marcou.
Venha comigo.

O pessoal estava totalmente em silêncio,


o que era um milagre.

– Renan, você poderia acender as


luzes?– pediu o pastor.

– É claro.

Assim que as luzes foram acesas Renan


ouviu:

– Surpresaaaa!!!

Estático, olhou para o salão todo


decorado e lotado de jovens. Cantaram
“Parabéns pra você “ e depois os
lanches, salgadinhos e refrigerantes
foram servidos.

– Desta vez conseguimos fazer surpresa


– disse Mariana ao cumprimentá-lo.

– Conseguiram mesmo.

– Festa surpresa só é legal se for


surpresa! – brincou Michelle.

– Vinte e seis anos, hein, amigo? Está


me alcançando – Abner cumprimentou o
amigo com um forte abraço e vários
tapas em suas costas.
– Isso é impossível, Abner. Você já é
trintão!

– Precisa lembrar disso? Só por seu


comentário sem graça farei um bem
maldoso... Pelo menos já tenho uma gata
e você...

– Abner, você foi bem maldoso mesmo.


O meu irmão tem várias pretendentes,
mas ele só pensa em uma determinada
pessoa. Gente, sinceramente não sei o
que certas meninas estão esperando. O
tempo passa e elas não se decidem –
d i s s e a irmã de Renan encarando
Mariana.

– O problema, Renata, é que certos


rapazes não conseguem tomar a
iniciativa. Ficam enrolando. Até parece
que morrem de medo de ouvir um não! –
foram as palavras de Michelle.

– E quem disse que a iniciativa sempre


precisa ser dos homens, hein? Gostava
do Gui e me aproximei dele. Ele é
tímido; se fosse por ele estaria
esperando até hoje! Só precisei dar uma
pequena indireta e tudo aconteceu.
Depois da decepção que tive com uma
certa pessoa... – Renata não resistiu.
Tinha que mencionar o seu envolvimento
com Adriel.

– Renata, que tal você experimentar um


bolinho de queijo?– Mariana queria
evitar que Renata destilasse o seu
veneno.
– Detesto bolinho de queijo, Mari!
Então, como eu estava dizendo... o Gui é
um amor. Ele é romântico, gentil,
carinhoso... Deus resolveu me
compensar depois de suportar aquele
esquisito – enquanto falava Renata fazia
caras e bocas.

– Renata, acho que você deveria mesmo


comer um bolinho de queijo, já que é
especialista em suportar o que detesta–
alfinetou Mariana.

–Você está brincando, né, Mari? Depois


vou comer um lanchinho. Sabem aquele
ditado: “Antes só do que mal
acompanhada”? Eu concordo.
– Renata que tal mudar de assunto?

– Ai, Renan, estou aqui conversando


com os meus amigos. Gente, Deus foi
tão bom que eu encontrei o Gui –
abraçou o namorado que neste momento
devorava um lanche de carne louca – O
único problema é a conta bancária dele,
mas tudo bem, nós batalhamos juntos.
Melhor do que suportar alguém cheio de
manias. Gente, vocês precisam
concordar comigo que Deus me deu um
livramento. Coitada da Elisa...

– Renata, você percebeu que o Abner


até se afastou?– perguntou Mariana
irritada ao notar a irmã seguir o
namorado.
– Ele sabe melhor do que eu como o
Adriel é.

– Vou pegar um refrigerante, você quer,


Mari?

– Irei com você, Renan.

– A Renata tem cada uma! Você não


gostou nada daqueles comentários, não
é?– perguntou Renan assim que se
afastaram.

– Ah, Renan, a sua irmã não perde a


oportunidade de falar mal do Adriel. Ela
fala com se fosse ontem!

– É, tem razão, mas eu estava me


referindo, é... sobre eu ter muitas
pretendentes e só pensar em...

– Renan, comprei um presente para


você. Vem comigo. Está em uma cadeira
perto da mesa do bolo.

– Mari, espere um pouco... Gostaria de


sair com você no dia do meu
aniversário...

– Depois combinamos isso. Vamos lá


buscar o seu presente.

– Espere... Ainda não tive a


oportunidade de dizer como você está
linda. Na verdade você está
maravilhosa! Até parece que será
madrinha de algum casamento...

– Ai, você acha que eu exagerei?

– Não. Mari, é um elogio!

– Eu sei, mas é que você falou em


madrinha de casamento! Então você
exagerou!

– É que gostei muito.

– Ainda nem dei o presente – brincou


ela.
– Ainda não sabemos. As coisas estão
tão caras! Eu e o Gui estamos
pesquisando. Não é fácil, mas o Gui é
um amor. No momento eu ganho mais do
que ele, mas e daí? O que adianta ter
muito dinheiro e...

Mariana ouviu parte da conversa de


Renata com Paloma, uma garota que
entrara no grupo de jovens há pouco
tempo.

– Aqui está o seu presente.

– Posso abrir?
– Deve.

– O que será? Vou abrir bem devagar...

– Renan, abra logo!

– Calma... Aqui está... Vou desfazer o


laço... pronto. Uau! Usarei amanhã
mesmo – era uma camisa social azul.

– Eu adoro azul. Olhei várias camisas,


mas não teve jeito. Sei que ano passado
eu dei uma camiseta azul.

– Eu também gosto de azul. Você já me


viu várias vezes com a camiseta.

– É verdade. Bom... Pelo menos é


social.
– E é outro tom de azul, é mais escuro...

– Que gracinha! A Mari deu uma camisa


para o Renan. Que bom, pelo menos
agora ele para de usar aquela camiseta
do ano passado. Até parece que ele só
tem aquela no guarda-roupa– disse
Renata quase gritando.

Alguns jovens se aproximaram do líder


com alguns pacotes e Mariana
aproveitou para se afastar.

– Mi, vou embora – sussurrou ao ouvido


da irmã.
– Já? Ainda são nove horas, Mari!

– Tenho um compromisso.

– Mari, não me diga que é algum


problema com a Laila?

– Fique tranquila, não é. Tchau, Mi– deu


um beijo na irmã e afastou-se.

Mariana saiu discretamente, mas mesmo


a s s i m interrompeu o percurso até o
estacionamento duas vezes para
conversar com alguns jovens. Ao entrar
no carro, verificou que já eram 21h15;
teria 15 minutos para chegar ao Três
És s e s . Gostaria de ter mais alguns
minutos. Queria muito surpreender
Adriel ao chegar antes dele, mas seria
impossível.

Vinte minutos depois entregou a chave


ao manobrista.

Que ótimo, estou atrasada!

– Boa noite.– Adriel verificou o relógio


de pulso – São 21h40. Está atrasada.

– Pelo menos você disse boa noite e


acho até que sorriu com os olhos.
– Não mesmo. Podemos jantar?

– Sim. É... Hoje você acha que eu


estou...

– Eu acho que você deveria lavar as


mãos.

Mariana olhou-se no espelho e gostou


do que viu. Desta vez estava vestida
adequadamente. Acertou ao colocar o
vestido azul-marinho. Era discreto e
elegante.
– Por que você aceitou o meu convite,
Mariana?– perguntou assim que o jantar
foi servido.

– Porque precisava provar q ue sei me


vestir... – brincou ela – Você não vai
dizer se eu acertei no traje?

– Está esperando um elogio? – encarou-


a.

– Qual é o problema? Não consegue me


parabenizar pela...

– Eu sei que você já tem quem faça isso.


Ah... e é o Renan quem merece os
parabéns.

– Você sabia!
– Sim. Fui até convidado.

– Adriel, você me convidou para jantar


sabendo que eu tinha um compromisso
hoje? – Mariana meneou a cabeça.

– Você aceitou jantar comigo mesmo


tendo um compromisso. Por quê? –
cortou um pedaço de seu salmão e o
colocou na boca. Por causa do horário
optou por um prato light.

– Porque você me convidou. Disse que


queria conversar. Fiquei curiosa. Você
vai me falar sobre o seu egoísmo? –
Mariana, só pediu uma salada porque
comera dois lanches de carne louca na
festa de Renan.
– Sobre o quê? – franziu as
sobrancelhas.

– O seu egoísmo. Você disse que só me


deu os livros por ser egoísta...

– Não quero falar sobre isso.

– Como é difícil entendê-lo! Semana


passada jantei sozinha, aqui mesmo!
Hoje que está mais tarde...

Adriel olhou para ela mais não disse


nada.

– Então sobre o que você gostaria de


conversar? – perguntou ela – Não acho
nada legal ficar aqui falando sozinha e...
– Sobre a festa. Você ficou pouco tempo
lá, mas mesmo assim deve ter algo
interessante para contar.

– Não comi bolo.

Adriel quase sorriu.

– Isso é fácil de resolver. Não peça


mousse de maracujá hoje, peça bolo.

– Não comi mousse naquele dia. Acho


que você está me confundindo com outra
garota – encarou-o.

– Impossível. Você foi a única que...


Acho que é melhor você comer.

– Continue, fui a única que...


–Você não contou nada sobre a festa.

– Contei sim. Você já sabe que eu não


comi bolo.

– Além desse importante detalhe... O


aniversariante ganhou muitos presentes?

– Não sei, mas pelo menos um ele


ganhou.

– E ele gostou?

– Muito.

– Comprou o presente com muito


carinho? – fixou os olhos nela.

– Com certeza.
– Ele deve ter ficado muito chateado ao
vê-la sair tão cedo da festa.

– Ele nem percebeu, fui bem discreta.

– Deve ter notado a sua ausência pouco


tempo depois.

– Acho que não.

– Você sabe que estou certo.

– Para quem só assiste aos cultos pela


internet você está muito bem informado.
Adriel, você não me fez perder uma
festa...

– Está arrependida?
– Não. Estou aqui porque quero. Já que
você quer saber tanto sobre a festa... A
Renata estava lá.

– Nenhuma novidade. Ela é irmã do


aniversariante.

– Você gostava muito dela? – ela o


encarou e ele desviou o olhar.

– Não dei liberdade para você tocar


nesse assunto.

–Você pode fazer perguntinhas sobre a


minha vida, mas eu não posso...

– Não fui indiscreto.

– Você acha isso.


– Certo. Começaremos novamente. E a
garota com o olho roxo?

– Voltou para a casa da mãe – lamentou


Mariana – Seria tão bom se ela pudesse
morar com a avó!

– Você deve até perder o sono por isso,


não é?

– É normal ficar preocupada. A Laila é


uma menina maravilhosa. Gostaria que
ela tivesse uma vida tranquila.

– Se você não se envolvesse tanto, não


sofreria.

– É a sua filosofia? Não se envolva,


fique longe de todos para não sofrer?
– É bem melhor assim.

– Não mesmo. Quando você se doa a


alguém é claro que os problemas virão,
mas os momentos felizes também...

– Não compensa.

– Compensa sim e muito.

– Ah, garota, você é tão sonhadora!


Daqui a alguns anos quero conversar
sobre isso novamente. Tenho certeza que
a sua filosofia terá mudado.

– Adriel, você é quem precisa mudar.

– Estou muito bem assim.


– Você é feliz?

– Ninguém é feliz. As pessoas ficam


felizes por um tempo.

– E com que frequência você fica feliz?

– Aquela ideia da palestra...

– Não mude de assunto.

– O assunto já foi encerrado.

– Não por mim. Eu fiz uma pergunta,


lembra?

– Assunto encerrado. E a palestra? A


ideia foi sua, não foi?
– Não. A ideia foi do Renan. Ele só
queria a minha companhia.

– Você gosta de estar com ele?

– Você adora fazer perguntas, mas


quando é questionado...

– Está fugindo da pergunta.

– É claro que eu gosto de estar com o


Renan! Ele é agradável, gentil,
charmoso...

– Ele é o máximo! Deve enchê-la de


elogios, não é?

– Hoje, por exemplo, ele disse que estou


maravilhosa.
– E você adorou ouvir isso.

– É claro, qual mulher que não gosta de


elogios?

– Quando entregará os livros?

– Como você muda de assunto... Para as


meninas do GEAD será amanhã e
quarta-feira será a vez das alunas do
curso. Amanhã conversaremos sobre a
minha parte predileta do livro.

– Meu pai também tinha uma parte


favorita – revelou Adriel.

– Qual?

– Primeiro você.
– Antes quero falar sobre a dedicatória.

– A dedicatória?

– É. O autor dedica o livro a um amigo e


pede desculpas por isso. Sente a
necessidade de pedir perdão às crianças
por dedicar o livro a um adulto. E
explica os motivos. Amo! – dizia
Mariana com empolgação.

– Qual é a sua parte favorita?

– A minha parte favorita é a da raposa:


“Que quer dizer cativar?” ¹

Adriel fixou os olhos nela mas não disse


nada.
– Lembra dessa parte?

– Se eu lembro? Era a parte que meu pai


mais gostava.

– E você?

– Já disse que o livro só tem valor para


mim por causa do meu pai.

– Então você quer eu pare de falar?

– Não. Sei que é difícil entender, mas


quero muito que você fale. Quero que
você... Não... Esqueça.

– Pode falar, Adriel.

– Não.
– O que você quer que eu...

– Eu... eu gostaria de ter a oportunidade


de conversar mais sobre isso...– olhou
para o relógio de ouro branco – Está
tarde. Já são onze horas. Você não vai
pedir bolo?

– Não. Quando você me convidar para


jantar novamente...

– Você abre o salão todos os dias?

– De terça à sábado. Às segundas


fazemos uma bela limpeza e também a
reposição dos produtos. Domingo é dia
de escola bíblica, ensaios, culto...

– Podemos marcar... Não, esqueça – fez


um gesto com a mão como se quisesse
afastar a ideia.

– Segunda-feira é complicado para


você? Sempre estou livre depois das
16h. Podemos nos encontrar para
conversar.

– Deve ficar só entre nós – disse após


hesitar por alguns segundos.

–Tudo bem. Só que precisamos nos


encontrar sempre aqui?

– Não. Pode escolher o lugar, o único


detalhe é que você comerá sozinha. A
Pan Leon seria uma opção se não fosse
tão perto da ALT.
– Qual o horário?

– Às 17h está bom para você?

– Perfeito.

Após acertarem o local do próximo


encontro, Adriel informou que a seguiria
e esperaria o carro entrar na garagem.
Mariana ficou com uma vontade imensa
de dizer que adorava aquela atitude
dele, mas não disse nada.

Hílton, o pai de Mariana, tomava um


copo de leite quando ela entrou na
cozinha.

– Oi, pai. Está tomando o seu leitinho aí


sozinho? – beijou-o.

– A sua mãe já está deitada. Acabou a


festa?

– Saí mais cedo. Trabalhou muito hoje?

– Muito. Sabe do que eu estou com


saudade? De conversar com a minha
filha. Tenho trabalhado tanto que está
faltando tempo. Isso não pode acontecer
– abraçou a filha caçula.

– É verdade, pai. Também sinto falta


das nossas conversas.
–Vocês conseguiram fazer surpresa?

– Sim, deu tudo certo. O Renan não


desconfiou de nada.

– Mariana, você e o Renan...

– Ah, pai...

– É que a sua mãe não cansa de dizer o


quanto ela gostaria que vocês
namorassem...

– Nós somos bons amigos.

– Ele nunca fala nada sobre vocês dois...

– Ele tenta.
– E você dá um jeito de mudar de
assunto, certo?

– É melhor assim. Seria muito


complicado dizer um não para ele.

– E dizer um sim, seria mais


complicado?

– Não seria correto. Gosto dele como


amigo. Não consigo vê-lo de outra
forma.

– Gosto muito do Renan. Se vocês dois


namorassem seria ótimo, mas se para
você ele é só um amigo, tudo bem para
mim.

– Obrigada, pai, você sempre me


entende. E a tia Lívia?

– Ela ainda não chegou do aniversário


de um amiguinho do Niki. Não entendo
essas festas. São mais para os adultos
do que para as crianças. Olha a hora...

– É, tem razão.

– Hoje a Tereza esteve na padaria. Ela


pediu para o Leôncio me chamar. Fez
uma encomenda especial.

– Encomenda especial?

– É. Para quinta-feira. Disse que terá


convidados especiais para o café da
tarde.
– Que chique!

– Acho que ela queria me dizer alguma


coisa mas não teve coragem.

– Será?

– Tive essa impressão – passou a mão


pelos cabelos ligeiramente grisalhos –
Acho que ela queria falar alguma coisa
sobre o Adriel. Tenho orado muito por
ele... Se eu estou preocupado com ele,
imagine a mãe!

– Pai, você acha que ele não tem mais


jeito?

– É claro que tem jeito. Acredito em


uma mudança na vida dele. Tenho fé
nisso. Se não fosse assim nem poderia
orar por ele. O que valeria a minha
oração se não cresse em uma mudança?
Nada. Seriam só palavras vazias –
concluiu Hílton.

– É tão bom ouvir isso, pai!

– O Adriel sofre tanto com a morte do


pai que até precisou criar uma maneira
de reviver a presença dele. Para ele as
fotografias e as lembranças não bastam.

– Isso é bem interessante, doutor Hílton.

– Ele precisa aceitar que o Alberto se


foi. O Adriel precisa aprender a viver
sem a presença do pai. Isso é muito
difícil para ele, Mariana, mas creio que
ele vai conseguir.

– Também penso assim.

– Você está trabalhando para que isso


aconteça, não é? – sorriu para a filha.

– Pai! O assunto começou assim de


repente... Na verdade era isso que você
queria perguntar, não é?

– Só perguntei porque a Michelle me


disse que estava preocupada, mas não
brigue com ela– pediu – A sua irmã acha
que você vai se machucar ao tentar
ajudá-lo. E ela mencionou o problema
da Laila.

– É, vocês andam conversando bastante.


Parece que o meu pai só não tem tempo
para mim – fez beicinho.

– Está com ciúme? Entre você e a sua


irmã não existe isso, não é?

– É claro que não, pai. É que a Mi não


precisava preocupá-lo com esse tipo de
coisa. Sempre fui assim. Não consigo
ficar só na teoria. Ensino sobre amizade,
companheirismo e quando elas
precisam...

– Você está pronta para ajudar. Admiro


isso em você, só não quero que exagere.
Mariana, às vezes você não vai
conseguir fazer nada e só peço que não
sofra demais por isso – acariciou uma
mecha dos cabelos negros da filha –
Recentemente você ficou arrasada
porque uma garota saiu do grupo de
coreografia e também parou de estudar
só por causa de um rapaz...

– A Silvinha, pai!

– Você ficou triste porque conversou


muito com ela... Deu conselhos...

– E não adiantou nada. Ela foi morar


com o rapaz. Está grávida. Só tem 17
anos!

– E você ficou muito decepcionada.


Lembro muito bem que você dizia que
falhou com ela. Mariana, que não pode
evitar que as coisas aconteçam. As
pessoas vão errar, sofrer... É a vida.
– Eu sei, pai, mas...

– Algumas vão se perder pelo caminho,


Mariana. Você sabe disso! E a aquela
garota? A que se envolveu com drogas
e..

– Ai, pai, foi tão difícil! Pensei que a


Nayara conseguiria... Pensei que... – os
olhos encheram-se de lágrimas.

– Ah, minha filha, não deveria ter


mencionado... Me perdoe! – Hílton
envolveu a filha em seus braços –
Aconteceu há mais de dois anos, mas até
parece que foi ontem! Doeu muito ver o
seu sofrimento. Quando você chegou do
velório, pensei que ficaria doente de
tanto chorar!
– A Nayara era tão alegre, cheia de
sonhos... Queria ser médica! Por que
algumas pessoas não conseguem?

– Infelizmente muitas garotas e garotos


ainda se perderão pelo caminho...
Apoiar, aconselhar, amar... É essencial,
mas nem sempre teremos um final feliz.

– Ai, pai, não fale assim !

– Lembre-se: “Judas não teve jeito!”

– Já sei, pai: “E ele teve o melhor


professor!”– disse ao afastar-se um
pouco e olhar para seu pai com
admiração.

– É isso aí. Já pensou se Jesus ficasse


lamentando e se culpando por não
conseguir salvar Judas? O que ele fez?

– Cuidou de Pedro – sorriu.

– Você é uma ótima aluna.

– Pai, ouço isso desde que eu era uma


menininha.

– Você ainda é uma menininha. A minha


menininha.

– Uma menininha que acredita em


milagres, pai, e sempre acreditará!

Hílton abraçou a filha com carinho.

– Adivinhe o que eu trouxe para minha


menininha?

– Marshmallows!
Capítulo 11 –
Cativar

– Mari, dá para ficar parada enquanto


falo com você? – perguntou Michelle ao
ver a irmã de um lado para o outro.

– Não dá, Mi, ninguém mandou você


acordar agora. Não quero chegar
atrasada à escola bíblica.

– Você está é fugindo do assunto. Fiquei


com uma pena do Renan! Fez uma
carinha tão triste quando eu disse que
você precisou ir embora!

– Sairei com ele quinta-feira.

– Um consolo?

Mariana jogou seu travesseiro em cima


da irmã.

– Nós combinamos! Agora tenho que ir.


Preciso conversar com uma menina
nova. Quero convidá-la para o ensaio do
GEAD.

– Ainda não entendi por que você saiu


tão cedo da festa! Os comentários da
Renata...

– Ela exagerou! O Abner até saiu de


fininho, pensa que eu não percebi?

– Ela foi bem desagradável! Falando em


namorado... Ainda bem que ele passará
aqui para me buscar, porque a minha
i r m ã não pode esperar nem um
minutinho...

– Minha irmã linda e maravilhosa, sem


drama! A gente se vê na igreja. Amo
você, tá?

Tatiana foi ao toalete após deixar Sofia


com as professoras do berçário. Camile
enxugava o rosto quando ela entrou.
– Oi, Camile, tudo bem?

– Tati... Eu estou...bem – disse


fungando.

– Olhe pra mim, Camile, você estava


chorando?

– Não é nada, eu...

– O que está acontecendo?

– Está tudo bem, Tati.

– Não está nada bem. Camile, você sabe


que estou aqui para ajudar.

– Eu sei, mas não quero incomodar.


–Vamos fazer uma coisa? Vá até a sala
9, aquela que a Mari usa para os
ensaios, podemos conversar lá. Pode
deixar que depois me entendo com a
Nadia – Tatiana referia-se à professora
da EBD da classe de Camile.

Quando Camile estava para abrir a porta


da sala 9, Marisa aproximou-se.

– Oi! Acordei atrasada hoje. Passei na


sua casa ma s você havia acabado de
sair...Está tudo bem? Você... andou
chorando?
– Não, parada mesmo.

– Engraçadinha! Não disfarça, Camile.

– Outra hora eu conto, agora vou ter uma


conversa com a Tati.

– Camile, você precisa falar agora!

– Marisa, depois a gente conversa, tá?


V á para a sala, a professora Nadia já
deve estar lá.

–Tudo bem, mas hoje você não me


escapa. Outro dia você ia falar uma
coisa e depois desconversou. Quer que
eu avise a Nadia?

– Não precisa...
Tatiana chegou quando Marisa já estava
se afastando.

– Oi, Tati. A minha amiga está


precisando muito de você.

– Pode deixar comigo, querida. Boa aula


para você.

Entraram na sala 9. Tatiana fechou a


porta e puxou uma cadeira para Camile,
pegou outra mas antes de sentar-se,
perguntou:

– Por que você estava chorando?

–Tati, não quero preocupá-la. Você já


tem muitas coisas para resolver e
também não quero confundir as coisas.
Trabalho na ALT & Filhos e acho que
não...

– Linda, estou aqui para isso mesmo –


sentou-se ao lado dela – Esqueça a
empresa.

– O problema é com a minha mãe.

– O que está acontecendo com a Janete?

– Você sabia que meu pai esteve lá em


casa semana passada?

Tatiana meneou a cabeça. Fausto, o pai


de Camile, abandonara Janete durante a
gravidez e só retornara três anos após o
nascimento da menina. Queria
oficializar o casamento, mas Janete não
concordara, afinal ele a abandonara
quando ela mais necessitara de apoio e
carinho. Fausto ofereceu ajuda para
criar a filha, mas Janete não queria nada
daquele homem.

– Depois de tantos anos?

– É. Tati, meu pai procurou a minha mãe


quando eu tinha só três anos e ela... não
quis nada com ele – as lágrimas
recomeçaram – Eu não sabia! – Camile
abaixou a cabeça.

– Ah, querida! – Tatiana segurou o rosto


da garota delicadamente e o levantou –
Ei, olhe para mim! Camile, a sua mãe
enfrentou uma gravidez sozinha. Ela
tinha a sua idade. O seu pai a abandonou
e...

– Eu sei, Tati, mas poxa, sempre desejei


ter um pai! Ele quis consertar o erro e
ela não permitiu... Quando eu perguntava
sobre ele a minha mãe dizia que meu pai
a abandonou antes do meu nascimento! –
Camile meneava a cabeça inconformada
– Ela tirou o meu direito de ter um pai!

– Camile, sua mãe a ama, com certeza


ela pensou que seria melhor para você.

– Melhor? Melhor seria ter uma família


de verdade! Poxa, conheci meu pai
semana passada e eu tenho 19 anos!
– Sua mãe sempre trabalhou muito para
cuidar de você! Nunca mediu esforços.
É uma batalhadora! Trabalha para o
Adriel, então ela é uma guerreira!– ao
ouvir isso Camile sorriu – Você sabe
muito bem que meu irmão não é fácil...
Não a julgue. Ela precisa de
compreensão. Sua mãe é uma pessoa tão
querida pelos jovens! Eles até a chamam
carinhosamente de tia Janete. Adoram o
que ela faz na cantina da igreja...

– Ontem tivemos uma discussão feia...


Meu pai queria casar-se com ela quando
eu tinha 3 anos e minha mãe disse não!
Tati, ele ainda deseja casar-se com ela e
… Você poderia conversar com ela?

– É claro, Camile. Irei até a sua casa.


Quando Camile tinha 4 anos, Janete
trabalhava na casa de dona Ilda, uma
senhora idosa que era vizinha da família
Alvarez. Após um AVC, a filha
resolvera levar a mãe para o interior.
Dona Ilda moraria com a filha, o genro e
duas netas. Dispensaram os serviços da
mãe de Camile porque já tinham uma
empregada, mas Tereza a contratou ao
saber que Janete estava sem emprego.

Antes de começar o ensaio do grupo de


coreografia, Marisa tentou falar com
Camile, mas não a encontrou. Estava
muito curiosa para saber sobre a
conversa da amiga com Tatiana.

ALT & Filhos, segunda-feira à tarde...

– Lívia, não voltarei mais hoje. Se


acontecer algum problema não me ligue.

– Tem certeza? Mesmo se a empresa


pegar fogo? – provocou.

– Ligue para os bombeiros. Antes de


s a i r fa r e i uma pergunta e quero a
verdade. Por que você ainda não
comprou o carro?

– Não tive tempo.

– É mesmo? Lívia, darei uma semana


para você resolver, senão o aumento
será retirado. Lembre-se: Não me ligue.
Fale com o Abner ou a Tati.

Mariana e Adriel encontraram-se em


uma conhecida lanchonete. Ela chegou
10 minutos antes do horário marcado.

– Olá! – disse ela na maior animação.


– Boa tarde.

– Não vai dizer nada? Cheguei antes de


você.

–Você sempre quer um elogio. Chegar


antes do horário marcado não merece
nenhum...

–Tudo bem, já entendi. Você vai comer?

– Você já sabe qual é a minha resposta.

– Vou pedir só um suco. Tomei o café


da tarde em casa.

Mariana entrou na fila. Adriel ficou


distante dela e olhava para todos os
lados com impaciência.
– E então, entregou os livros? –
perguntou ao sentarem-se.

– Só entreguei para as meninas que


participam do GEAD. Quarta-feira será
a vez das que só fazem o curso... Foi
muito legal. Nós conversamos sobre a
raposa e...

– Mariana, por que você sorri tanto? –


perguntou interrompendo-a.

– Porque sou feliz. Eu gosto de sorrir.


Incomoda?

– Um pouco.

– Então pode ir se acostumando. Você é


carrancudo e eu sou sorridente. Você
sabia que para sorrir...

– Não me venha com essa besteira sobre


os músculos...

– Como foi o seu dia? – segurou o copo


com o suco e sugou o canudinho.

Adriel deu de ombros.

– Ai, não posso perguntar nada? Nós


estamos aqui para que, afinal?

– Eu faço as perguntas.

– Só você? Isso não é justo. Sábado a


sua mãe esteve na Pan Leon e conversou
com o meu pai – disse Mariana antes
que ele formulasse alguma pergunta.
– É mesmo? – franziu as sobrancelhas –
Minha mãe só sai com a Tati, é muito
difícil ela sair sozinha. Da casa dela até
a Pan Leon são uns quinze minutos de
carro. Depois que meu pai... Depois
que...

– Ela dirige, não é?

– Sim, mas é raro ela sair sozinha com o


carro – olhou-a por alguns segundos
antes de perguntar – Você conversa
muito com o seu pai?

– Interessante você perguntar isso...


Sábado ele c o me n t o u que nós
precisamos conversar mais. Meu pai
trabalha muito...
– Aproveite, Mariana, o tempo passa
muito rápido. Converse o quanto puder
com o seu pai porque um dia ele não
estará mais aqui... – colocou o dedo no
relógio de pulso e começou a contorná-
lo.

– Você está certo. Adriel, você só me


chama de Mariana...

– O seu nome não é Mariana?

– É que geralmente me chamam de Mari.

– Detesto apelidos, abreviações e


principalmente diminutivos. Só permito
que a minha irmã me chame de “Dri”
para não chateá-la. Ela me chama assim
desde... sempre. E eu a chamo de “Tati”
porque ela insistiu muito, por mim...

– Dri? Gostei, Dri! – deu um largo


sorriso.

– Você não pode.

– Não posso? Mas é tão fofo, Dri! –


tomou mais um pouco de seu suco de
laranja.

– Mariana! – o tom era ameaçador.

– O meu pai só me chama de Mariana, já


a minha mãe só de Mari. A não ser que
ela esteja brava! Você acha o meu nome
bonito?

–Você não tem jeito mesmo, não é?


Como gosta de receber elogios! Se
precisa tanto saia mais com o “rapaz
perfeição”!

– Rapaz perfeição?

–Você sabe quem é.

– O Renan? Já combinamos... Nos


encontraremos quinta...

– É mesmo? Você vai cansar de ouvir


elogios.

– O Renan não é nada cansativo. Ele é


muito gentil, inteligente e...

– Não estou aqui para ouvir as


qualidades dele. Já sei que ele tem
muitas, afinal é o “rapaz perfeição” –
disse irritado.

– Não precisa ficar bravo! Desde


quando você o chama assim?

– Você acha que não combina com ele?


Acho que é a cara dele.

– Acho que ouvi alguém dizer que não


gostava de apelidos, diminutivos e
coisas do tipo, ou estou enganada?

– Não é nenhum apelido. É um fato. Ele


é perfeito, concorda?

– Você está meio confuso hoje. Disse


que não queria ouvir sobre as
qualidades dele e...
– Só quero saber se você concorda.

– Perfeito ninguém é, mas o Renan é uma


pessoa muito especial e... Certo, certo,
não precisa me olhar assim. Trouxe o
livro – ao dizer isso ela tirou O
Pequeno Príncipe de sua bolsa – Vou
ler a parte que eu mais gosto:

“... Tu procuras galinhas?

– Não – disse o principezinho. – Eu


procuro amigos. Que quer dizer
“cativar” ?

– É algo quase sempre esquecido –


disse a raposa. Significa “criar
laços”...

– Criar laços?

– Exatamente – disse a raposa. –


Tu não és ainda para mim senão um
garoto inteiramente igual a ...” ¹

– Cativar? Para quê? – perguntou


interrompendo-a.

– Para quê? Adriel, você...

– Esqueça.

– Fale...

– Não quero cativar e nem ser cativado


por ninguém. Isso lembra cativeiro.
Você fica preso a alguém. Fica
dependente e isso é péssimo. Se
acontecer alguma coisa com a pessoa...

– Se todos pensassem assim, ninguém


mais criaria laços com ninguém. É
necessário correr riscos; é a vida.

– Se eu pudesse não teria laços com


ninguém. Infelizmente há alguns que não
se pode evitar...

– Mesmo assim você evita, não é? Você


visita a sua sobrinha? Tem algum
contato com ela?

– É claro que não.

– Ela é a sua sobrinha e você não se


aproxima dela. Qual é o problema? Tem
medo que ela babe em você? – sugou o
suco até o final e fez aquele barulho
característico. Sorriu.

– Pare com isso.

– Me desculpe. Adriel, a Sofia é um


bebê tão lindo e fofo! Um bebê traz
alegria...

– E muitas preocupações. Com certeza


muito mais preocupações do que
alegrias.

– Não mesmo! Eles dão muito trabalho,


mas ao ver aquele sorriso...

–Você quer ser mãe?


– É claro, mas na hora certa.

– Mariana sonhadora... Quer casar com


um príncipe e ter dois filhos, acertei?

– Quase. Podem ser três filhos e não


precisa ser um príncipe, só alguém que
me ame muito e que eu ame também.
Você não pensa em casar-se
novamente?– encarou-o – Adriel
desviou o olhar.

– Não mesmo!

– Por quê?

–Você faz muitas perguntas.

– Está com medo de responder? – como


não obteve respondeu ela continuou –
Não quer casar-se e ter filhos só para
não correr o risco de perdê-los?

– Sozinho poupo algumas pessoas do


sofrimento.

– E se poupa também.

– Exatamente. Você já perdeu alguém


muito próximo?

– Meus avós...

– Mas você tinha contato direto com


eles?

– Não, eles moravam no interior. Perdi


meu tio Elias. Nós sempre íamos à casa
da tia Lívia e eles sempre nos visitavam.

– Você já tentou imaginar a dor de um


pai que perdeu o seu filho? E de alguém
que perdeu o seu cônjuge? Ou um filho
que perdeu seu pai? – perguntou com
amargura – Não quero mais sentir isso –
sussurrou.

– Então você também não sentirá a


alegria de um noivo ao ver a noiva
entrar na igreja, não receberá a notícia
de que a sua esposa está grávida... Não
verá o rostinho de seu filho, não ouvirá
um bebê chamá-lo de “pai”, não...

– Chega, Mariana! – começou a esfregar


as mãos.
– Você não pode ter medo de viver,
Adriel. Não é porque você perdeu...

– Eu vou... Eu vou embora. Preciso ir


agora!– levantou-se e começou a andar.

– Espere por mim...

– Eu tenho que levá-la?– perguntou


surpreso.

– É claro!

–Você veio como?

– Ônibus, mas eu não vou...

– Então você pode muito bem...


– Não seja grosseiro, Adriel. Não estou
acreditando nisso... Que coisa feia! –
disse ela brincando – Nem parece o
mesmo homem que pacientemente espera
até que eu entre com o carro na
garagem...

– Tudo bem, eu a levarei – caminhou


apressadamente até o estacionamento.

– Espera... Não precisa ir assim tão


rápido!

– Entre... Banco de trás – disse ao entrar


no carro.

– Você vai me dar a honra de ser meu


motorista?

– Pare de brincadeira e entre logo.

– Posso fazer uma pergunta? –


acomodou-se no banco de trás.

– Pode, só não garanto a resposta.

– Quem já teve a grande honra de sentar


ao seu lado?

– Dá para contar com os dedos de uma


só mão e ainda sobram 4 dedos, só para
você ter uma ideia! O que foi? –
perguntou ao vê-la rir.

– É que você gosta de complicar! Era só


dizer que uma pessoa sentou-se ao seu
lado. Será que um dia também terei a
honra? – deu um sorriso maroto.

– Não mesmo! – respondeu com


rispidez.

– Nossa! Você bem que podia ser gentil.


Diga que um dia isso pode acontecer...
Nunca se sabe, né? Mas agora fiquei
curiosa... Só pode ser alguma
namorada...

– Namorada? É claro que não! – fez uma


careta – Tenho este carro há... três anos
e só a minha mãe sentou-se ao meu lado
e isso aconteceu porque... Ah, esqueça!
E você quer gentileza? Já sabe com
quem deve sair...
–Tem razão. Se eu estivesse com o
Renan agora...

–Vocês já estariam dividindo o mesmo


banco.

– Não ouvi isso.

Adriel deu partida no carro e Mariana


ficou observando os movimentos dele ao
volante. Após cinco minutos de silêncio
ela abriu a bolsa e resolveu provocá-lo.

–Você aceita um biscoito?

– Um o quê? – olhou-a pelo retrovisor.

– Biscoito de polvilho. Você gosta?


– Você não vai comer biscoito dentro do
meu carro!

– Ah, deixa vai!

– Não mesmo! Você só pode estar


brincando. Biscoito de polvilho... Só
faltava essa!

– E quando a Sofia passear com você?


Ela não vai poder comer um biscoitinho
e...

– Ela nunca sairá comigo.

– Nunca? Não diga isso. Ela é tão fofa!


Adriel, você está perdendo uma fase
maravilhosa. Os bebês crescem muito
rápido e...
– Mariana, dá para você ficar calada?

– Como você é...

– Eu sei. Sou grosseiro, estúpido e


outras coisinhas. Não gosto de
conversar enquanto estou dirigindo.

–Tudo bem, ficarei aqui bem quietinha


só curtindo o meu biscoitinho.

– Mariana! – franziu as sobrancelhas.

– Brincadeirinha! Nossa, tem certeza


que está com este carro há três anos?
Parece que saiu da fábrica ontem! –
disse ao acariciar o banco de couro.

Como não obteve resposta, Mariana só


falou novamente quando Adriel parou o
carro. Ela abriu a porta e antes de sair
disse:

– Adriel, para franzir a testa você utiliza


mais músculos do que para sorrir. Para
dizer uma só palavra você usa muito
mais músculos do que para dar um
sorriso. Entendeu?

– Entendi o quê?

– Que é fácil sorrir!

– Para mim não é nada fácil.

– As mulheres vivem mais do que os


homens e você sabe por quê? Por causa
do sorriso. Ele libera um hormônio
antiestresse. Quanto mais você sorri,
mais hormônio antiestresse é liberado –
saiu do carro.

– Beta endorfina.

– É? Não guardei o nome...Você já sabe


disso, então por que não vejo um
sorriso?

– Deve ser porque eu não quero viver


muito.

– Não fale assim, Adriel. Você


deveria...

– Você deveria entrar agora. Já está


tarde.
– Tem razão. Boa noite. Ah, só mais
uma coisinha... É que fiquei curiosa. A
sua mãe sentou-se ao seu lado porque...

–Você é muito curiosa e atrevida. Entre


logo!

– Ah, fale! Já sei... não quis magoá-la,


mas comigo você não tem esse cuidado,
não é?

– Minha mãe não come biscoito de


polvilho. Entre, Mariana!

E l a deu um belo sorriso e abriu o


portão. Ele só foi embora quando
verificou que ela estava dentro do
quintal da casa e com o portão fechado.
No dia seguinte, durante o horário de
almoço em um restaurante próximo à
empresa...

– Camile, ontem você conseguiu me


enrolar, mas hoje...
– Estou enrolando?
– É claro que está. Desde domingo.
Ontem você trabalhou quase o dia
inteiro calada e hoje eu já perguntei
várias vezes qual era o assunto entre
você e a Tati...
– Como você é curiosa!
– N ã o quer contar? Tudo bem. Nem
parece que somos melhores amigas...
– Não fale assim, Marisa! Ah, tudo bem,
mas não comente com ninguém...
Após ouvir com muita atenção as
palavras da amiga...
–Você acha que a sua mãe vai aceitar
seu pai após tanto tempo?
– Gostaria muito. Sempre tive uma
grande tristeza por não ter um pai. Estou
muito magoada com a minha mãe...
– Que situação! E aí, como ele é?
– É alto, os olhos dele são esverdeados.
Só não gostei da barba... Marisa, quando
ele me chamou de filha quase nem
acreditei. A campainha tocou e como a
minha mãe estava tomando banho...
– Uau! Você foi até lá e ele se
apresentou como seu pai?
– Não. Minha mãe apareceu antes que eu
chegasse até o portão. Ela ficou pálida.
Pensei que fosse desmaiar.
– E aí? Ele falou que era o seu pai? –
Marisa estava roendo as unhas.
– Minha mãe disse para eu entrar e para
ele ir embora... Foi aí que ele disse que
só iria depois de dar um abraço na filha
dele – os olhos de Camile ficaram
marejados.
– Parece cena de filme! Ai, preciso de
uma trufa... – Marisa abriu a bolsa e
pegou uma com recheio de coco – Quer?
– Não. Marisa, quase que eu desmaiei.
Minhas pernas ficaram bambas... Após a
revelação...
– Bombástica...
– Minha mãe deixou que meu pai
entrasse, mas só por poucos minutos...
Ele me abraçou, Marisa! Chorei muito...
Quero que eles fiquem juntos!
– Eu sei, amiga, mas acho que você não
pode fazer nada.
– Sei que o me u pai errou, mas ele
merece uma segunda chance...Olha a
hora, Marisa! Precisamos correr...
– A hora do almoço voou...

Mariana ficou muito surpresa ao receber


um telefonema da mãe de Adriel logo
após o almoço.

– Como é que é? A minha futura sogra


convidou a minha irmã para tomar café?
– É isso aí! Quinta-feira às 17h. Você
me dispensa, patroa?
– Engraçadinha! Pergunte para as suas
clientes – Michelle deu de ombros.
– Não fique com ciúme, Mi!
– Mari! Não estou com ciúme. É que
isso tudo é bem estranho... Estou é com
medo.
– Medo?
– Mari, cuidado, se a Tereza começar a
falar sobre o Adriel você muda de
assunto.
– Por quê?
– Porque sim.
– Isso é resposta? Mi, qual é o
problema? – cercou a irmã que queria
esquivar-se.
– Não quero que você se envolva com o
Adriel.
– Ai, Mi! Por que toda essa
implicância? Ele não é...
– Ele é esquisito, grosseiro, mal-
humorado, tem manias estranhas e...
– Para com isso, Mi!
– Não pode nem pensar em ter alguma
coisa com ele, está me entendendo?
Você já tem a pessoa certa.
– É?
–Você sabe muito bem de quem eu estou
falando. Disfarça muito mal. O Renan só
precisa de um pouquinho de coragem e...
Mariana começou a cantar...
– É assim, né? Não quer ouvir, mas é
verdade – Michelle meneou a cabeça
quando a irmã aumentou o volume da
voz.
ALT & Filhos...

– Lívia, o Adriel ainda não voltou?–


perguntou Tatiana.
– Ainda não, ele ia almoçar com a sua
mãe.
– Ah... Quando ele chegar avise que
precisei sair mais cedo. Íamos
conversar sobre o lançamento da nova
linha de perfumes para o Natal, mas
tenho que resolver um problema.
– Está tudo bem com a Sofia?
–Ela está ótima, obrigada por perguntar.
Até amanhã, Lívia.

Na casa da família Alvarez...


– Mamãe, eu não posso.
– Querido, por favor! Já encomendei
tudo o que você mais gosta da Pan Leon.
– Quinta às 17h30? – perguntou ao
perceber a voz chorosa de sua mãe.
– Isso. Não chegue mais cedo.
– E se eu chegar antes? – perguntou
desconfiado.
– É que... Preciso deixar tudo pronto.
– Tudo bem, estarei aqui às 17h30.
– Obrigada, querido!

Tatiana chegou à casa de Janete às 15h.


Precisava conversar sozinha com a mãe
de Camile.
– Tati, que surpresa!
– Oi, Janete! Não quero atrapalhar nada
– cumprimentou a amiga com um beijo.
– Atrapalhar? Recebê-la aqui em casa é
uma alegria para mim, mas... está tudo
bem com a Camile, não está?
– Ela está bem.
– Ah, que alívio! Sente-se. Vou preparar
um cafezinho e...
– Não se preocupe, Janete, só quero
conversar. Arrisquei... Nem liguei para
a minha mãe. Hoje você trabalha lá, não
é? Ou o meu irmão não a libera mais...
– Estive com a sua mãe sim. Vou ao
apartamento do Adriel três vezes por
semana. Cheguei há poucos minutos. A
sua mãe está tão animada! Venha para a
cozinha comigo, enquanto eu faço o
café...
– Que ótimo saber que ela está animada,
mas você sabe o motivo? – perguntou ao
seguir a amiga até a cozinha.
– Ela marcou um café especial. Será
amanhã à tarde – Janete colocou o filtro
de papel no coador da cafeteira e quatro
medidas de pó de café. Encheu o
reservatório de água e ligou a cafeteira
elétrica.
– É mesmo? – Tatiana sentou-se– Ela
não comentou nada. Café especial? Você
sabe quem ela convi dou?– estava
curiosa.
– Só disse que eram duas pessoas muito
especiais. Tati, ontem o Renan falou
comigo sobre 7 de setembro. Não sei se
é por isso que você está aqui, mas já
estou montando a minha equipe para
trabalhar na cozinha. Ele comentou que
vocês iam contratar um pessoa, mas não
deu certo. Podem contar comigo.
– O assunto que me trouxe aqui não é
esse.
– Não?
– Janete, serei bem direta... É sobre
você e o Fausto.
Janete olhou para a cafeteira por alguns
segundos. O cheiro de café já havia
impregnado a cozinha.
– A Camile contou tudo. Ela está
sofrendo...
– Ah... Tati, eu não quero falar sobre
isso.
– É necessário.
–Você é uma pessoa que eu amo de
coração, mas não quero e nem vou entrar
em um assunto que me machuca muito...
– Por isso mesmo que você precisa falar
sobre...
– Sinto muito que a minha filha esteja
sofrendo, mas o culpado disso é o
Fausto. Por que ele resolveu voltar?
Janete não conseguiu continuar. Tatiana
aproximou-se e colocou a mão no ombro
dela.
– Amiga, deixe que Deus cure as suas
feridas.
– Eu deixo. Estou caminhando...
Continuo sendo a mesma Janete
prestativa, dedicada...
– Mas está triste. Janete, a Camile
deseja que vocês...
– Não quero! – disse com firmeza – Não
pude contar com ele quando eu mais
precisei! O que ele quer agora? Sei que
errei por ter falado com a minha filha
sobre a visita que eles nos fez quando
ela tinha só 3 anos, mas... – Janete pegou
duas xícaras – Sabe o que ele quer?
Quer se transformar em vítima aos olhos
da filha. É isso. A Camile está magoada
comigo!
– A Camile só quer ver a mãe sorrir
novamente.
– O Fausto é pai dela, infelizmente eu
não posso mudar isso, mas gostaria que
ele nunca mais aparecesse. Tome o seu
café, Tati. Não quero mais falar sobre
esse assunto. E a Sofia?
Tatiana foi embora trinta minutos
depois. Não conseguiu voltar ao
delicado assunto.
Capítulo 12 – Café
especial

Mariana ficou aliviada ao ver Laila


entrar na pequena sala naquela tarde de
quarta-feira. O curso já durava três
meses. Sempre se reuniam na casa de
Dalva, mãe de Cléo.

– Já estava com saudades, Mari!


– Eu também, linda! Como você está? –
Mariana abraçou-a e beijou-a com
carinho.
– Agora “tô” bem. O Armando está
viajando. Apareceu um trabalho, bom...
pelo menos é o que ele disse. Acho que
é mentira – deu de ombros – Ele disse
que um amigo caminhoneiro estava
precisando de um ajudante...
–Tomara que seja verdade e que ele
tenha muito trabalho.
– É isso aí, Mari, que ele viaje bastante.
– Vamos começar a aula? Meninas,
recebi uma doação e olhem só... – disse
Mariana ao mostrar os exemplares d e O
Pequeno Príncipe.

ALT & Filhos...

– Preciso ir até a sala da Tati – avisou


Camile.
–Você bem que podia esperar a Lívia
voltar do almoço, né?
– Por quê?
– E se ele precisar de alguma coisa?
– Porque você não diz logo que está com
medo? Ele acabou de chegar do almoço
e sabe que a Lívia saiu mais tarde
porque estava resolvendo algumas
coisinhas para ele mesmo...
– Mesmo assim... Você sempre se sai
melhor nessas situações.
– Não mesmo. Volto rapidinho.

A porta da sala de Adriel abriu-se cinco


minutos depois que Camile saiu. Marisa
estremeceu. Ele olhou para ela por
alguns segundos e saiu sem dizer nada,
mas não foi em direção ao elevador.
Entrou pelo corredor que dá acesso às
salas de Tatiana e Abner.

–Ufa! – soltou Marisa assim que ele


afastou-se.

– A minha mãe não comentou nada sobre


a sua visita, Tati, eu agradeço por você
ter falado com ela.
– Camile, tente compreendê-la. Ela
precisa do seu apoio. Você quer que os
dois voltem, mas é muito complicado.
São muitos anos de...
Ouviram duas batidas à porta e em
seguida Adriel entrou na sala.
– Dri? Eu estou ocupada...
Adriel olhou para Camile e depois para
a irmã.
– Eu... Preciso falar com você, agora.
– Tati, tenho mesmo que voltar ao
trabalho...
–Tudo bem, Camile. Depois precisamos
terminar nossa conversa.
Assim que Camile saiu e fechou a
porta...
– Eu disse que estava ocupada e mesmo
assim você...
– Tati, a mamãe a convidou para um
café amanhã à tarde? – Adriel tirou o
álcool em gel do bolso da calça e
higienizou as mãos.
– Não. Por quê?
– Ela me convidou. Disse que fez uma
encomenda na Pan Leon especialmente
para amanhã. Acho que ela está
tramando alguma coisa...
– Como você é desconfiado!
– Ela estava muito animada...
– Ai, Dri, deixe a nossa mãe ser feliz!
– Tati, você está sabendo de alguma
coisa...
– Acho que vou dar uma passadinha lá
também... Qual é o horário?
– Você vai mesmo?
– Brincadeira... A mãe quer um
momento só com você, é isso... Estou
com ciúme!
– Espero que seja mesmo só um café...
– Dri, se ela fez uma encomenda na Pan
Leon com certeza não será só um café –
brincou Tati.
– Estou falando sério – franziu as
sobrancelhas.
– Isso não é nenhuma novidade...Você
sempre fala sério! Deveria mudar um
pouco e brincar. Sorria, meu irmão,
sorrir faz bem.
–Você também? Até parece que estou
conversando com a ...
– Com quem?
– Ninguém, preciso trabalhar.

Na casa da família Fernandes...

– Amanhã? Mãe, o que...


– Mari, é só um jantar. Já falei com a
Michelle, ela vai convidar o namorado.
– Aí sim... Mas o que tem a ver convidar
o Renan?
– Algum problema?
– Não, tudo bem. Tenho um
compromisso no final da tarde, mas
estarei aqui para o jantar.
– Você e os seus compromissos! Tem
algum problema com aquela menina
novamente?
– Não, mãe, está tudo certo.

Na ALT & Filhos, Adriel queria


assegurar-se de que o café seria só com
a mãe, por isso questionou Abner.

– Café? Não. Acho que o convite foi só


para você. Sempre desconfiei que você
e r a o favorito, mas tudo bem, eu
supero...
– Por que vocês brincam, ironizam tanto,
hein? – perguntou irritado – Será que
ninguém consegue falar com seriedade
nesta empresa?
– Ai, Dri, não precisa falar assim!– para
provocá-lo mencionou o apelido que só
Tatiana usava.
– Você não vai aparecer lá com a sua
namorada, vai? – fez que nem ouviu a
provocação.
– Não. Amanhã jantarei na casa dela.
Pare de se preocupar e de estregar as
mãos. Isso irrita, sabia?
Adriel olhou para o irmão por alguns
segundos e sem dizer mais nada foi até o
lavabo.

No dia seguinte, na casa da família


Fernandes...
– Mi, tem certeza que não comentou
nada com a mãe sobre o café na casa da
Tereza?– perguntou para a irmã
enquanto tomavam o café naquela manhã
de quinta-feira.
– Mari, se eu tivesse falado alguma
coisa você acha mesmo que ela não
comentaria nada? Não a encheria de
perguntas e...
– Que ideia foi essa de convidar o
Renan para jantar?
– Você sabe que ela gostaria que vocês
fossem muito mais do que amigos, mas
isso não é motivo para preocupação. A
minha futura sogra convidar a minha
irmã para um café misterioso, isso é
preocupante! – Michelle encarava a
irmã e meneava a cabeça.
– Ciumenta!
– Não é isso, Mari. Ontem falei com o
Abner só pelo celular e acabei
esquecendo... Que raiva! Não perguntei
sobre o café! Estava com duas clientes
esperando... Mari, Ficar sem você aqui
nas tardes de quarta está bem
complicado. Quando o curso vai
terminar, hein? – pegou a metade de um
pão francês, passou requeijão e deu uma
grande mordida.
– Daqui a duas semanas e foi bom você
ter perguntado. Mi, tem uma menina que
leva o maior jeito. O que você acha de
contratá-la para trabalhar conosco?
– Sei lá... Depois conversamos sobre
isso. Mas... não é a Laila, né?
– Não, Mi, pode ficar sossegada.
– Ótimo. Não quero saber de encrenca.
Já imaginou aguentar a mãe dela fazendo
escândalo?
– Quem vai fazer um escândalo é o meu
patrão... Acordei atrasada hoje... Bom
dia, meninas! – Lívia deu um beijo no
rosto de cada sobrinha– Quase que o
Niki perdeu a van...
– Tia, não vai tomar café?
– Não dá tempo, Mari!
–Tia Lívia, você está sabendo que a
Mari...
– Ai, Mi, depois a gente conversa,
preciso mesmo ir. Beijinhos.

ALT & Filhos...

– E a Lívia? – Adriel estranhou a


ausência da secretária.
– Ela não chegou – respondeu Marisa
com receio.
– Não? Mas já são... – Adriel olhou
para o relógio mas não continuou.
Voltou para sua sala.

Lívia chegou quinze minutos depois e foi


direto para a sala dele.
– Bom dia, Adriel, preciso da sua
assinatura aqui.
– Depois, Lívia. Tenho que ligar para a
minha mãe...
– Tenho que dar andamento...
– Lívia, dá para você esperar? Ninguém
mandou chegar atrasada!

Assim que Lívia saiu de sua sala, Adriel


ligou para a mãe e tentou desmarcar o
café, mas Tereza ameaçou chorar e fez o
filho prometer que estaria na casa dela
pontualmente às 17h30.

– Ele está tão agitado! – Lívia sentou-se


e começou a organizar alguns papéis.
– Que novidade, Lívia.
– Hoje ele está mais agitado ainda,
Camile.
– Acho que é porque você chegou
atrasada, Lívia – deduziu Marisa.
– Obrigada por lembrar, Marisa.
– Falando nele – disse Camile ao ouvir
o interfone.
– Lá vou eu – Lívia pegou a sua agenda
e uma pasta com alguns papéis que
precisavam da assinatura de Adriel –
Marisa, você podia fazer um grande
favor de buscar um café para mim?
– Com certeza. Lívia, já fez a sua
oração? – perguntou quando a secretária
aproximou-se da porta do patrão.
– Marisa!

– Você pode assinar agora?


– Posso, Lívia. Não voltarei após o
almoço, então vamos resolver algumas
pendências agora, mas antes preciso...
Adriel levantou-se e foi até o lavabo.
Pela agitação dele Lívia sabia muito
bem que ele demoraria pelo menos uns
vinte minutos, por isso saiu para tomar o
seu café da manhã.
Mimãs, às 16h30...
– É, Mari, estamos precisando mesmo
de mais uma pessoa para trabalhar aqui.
Além dos seus compromissos com
cursos e outras coisinhas, agora até tem
café especial na casa da minha sogra! –
Michelle revirou os olhos.
– Vou falar para ela convidar a futura
nora para um café também, senão vai
sobrar para o Abner.
– Engraçadinha! Já vai?
– Com certeza. Não quero chegar
atrasada e hoje ainda tenho um jantar,
lembra?
–Temos. Vou aproveitar para ligar para
o meu amor. Quem sabe eu descubro
quais as intenções da mãe dele...
–Você não tem jeito. Tchauzinho.

Michelle conseguiu falar com a


namorado alguns minutos após a saída
da irmã e logo descobriu quem
participaria daquele café especial.

– Eu sabia! Preciso ligar para a Mari.


– Calma, mi amore! Que engraçado, o
Adriel está tão preocupado com o
convite da minha mãe! Ou melhor, ele
está muito desconfiado...
– Avise que a Mari estará lá.
– Não posso. Se ele souber é bem capaz
de nem aparecer.
– A ideia é essa.
– A minha mãe ficaria muito chateada.
– O que ela pretende? Abner, não quero
que a minha irmã se envolva com o seu
irmão.
– Pode ficar tranquila, isso não vai
acontecer. Até parece! Mi amore, sabe o
que vai acontecer quando o meu irmão
encontrar a sua irmã? Ele dará meia-
volta. O Adriel detesta surpresinhas...
–Tomara, mas não vou arriscar. Preciso
ligar para a Mari. Pelo menos ela fica
esperta... Sei lá... Preciso fazer alguma
coisa. Até mais tarde. Um beijão.

Michelle logo descobriu que a irmã


havia esquecido o celular no salão.

Na casa da família Alvarez...


– Você é tão animada, Mariana! É tão
bom conversar com você.
– Obrigada, Tereza. Também gosto de
conversar com a senhora.
– Mariana, você é uma moça que
transmite alegria, paz... Eu gostaria
que...
– Acho que chegou alguém – disse
Mariana ao ouvir um barulho de chaves.
– Ah... Deve ser o meu filho.

Mariana pensou que Tereza estava se


referindo ao Abner. Ficou surpresa ao
ver o outro irmão entrar na espaçosa
sala de estar.

– Mamãe, eu...
Ele parou de falar assim que avistou
Mariana.

– Oi, querido! Só estávamos esperando


por você.
– Não sabia que... É melhor eu ir. Vou
deixá-las à vontade.
– Não faça isso, querido. Você já
conhece a Mariana, então sente-se aqui e
faça companhia para ela enquanto vejo
se está tudo pronto...

Tereza afastou-se rapidamente.

– Decepcionado? – perguntou Mariana


ao vê-lo esfregar as mãos
impacientemente e olhar para todos os
lados, menos para ela.
–Você sabia que...
– Não sabia. Fiquei tão surpresa quanto
você.
– O que a minha mãe está...
– Quando você chegou a chamou de
mamãe... Achei tão fofo!
–Você mencionou que nos encontramos
segunda-feira? – ele fez que nem ouviu o
comentário dela.
– É claro que não.
Agora as mãos eram esfregadas
freneticamente.
– Nossa, se você continuar assim as suas
mãos vão sangrar.
– O quê?
– As suas mãos...
– Eu... Eu tenho que lavar as minhas
mãos – saiu rapidamente da sala.
– Já está tudo pronto – informou Tereza
– E o meu filho?
– Foi lavar as mãos.
– Ah... Bom, é melhor eu ir até lá e...
Mariana, eu não demoro.

Tereza entrou no antigo quarto do filho.


Ela tinha certeza que Adriel estaria ali.
S e mp r e preferia usar a suíte que
pertencera a ele durante anos.
– Querido? Posso entrar?
– Já estou terminando.
– Filho, já estão limpas e está tudo bem.
É só um café.
– Falta pouco...
– Filho, por favor!

Tereza sabia muito bem que não


adiantaria insistir. Adriel só sairia após
chegar ao número que martelava em sua
mente. Ela já havia convivido com isso
durante muitos anos. Presenciou o
marido lavando as mãos inúmeras vezes.

– O meu filho logo nos fará companhia,


mas nós podemos começar a comer, não
é? Com tantas delícias diante de nós...
A mesa da sala de jantar estava repleta
das delícias da Pan Leon: Baguetes
recheadas, croissants, pet fours, torta
mousse de chocolate com marshmallow,
que com certeza foi o que mais chamou a
atenção de Mariana.
– Hum... Concordo plenamente, Tereza!
Antes que ele volte... Não quero ser
indiscreta, mas o Adriel conversa
sobre... o TOC?
– Não gosto de usar o nome mesmo
sabendo que o problema é esse. Ele
também não se sente bem falando sobre
isso.
– Desculpe-me.
– Não, querida, não precisa de
desculpar – Tereza acariciou o braço de
Mariana – O meu Alberto tinha algumas
manias, mas ele não era infeliz. O meu
filho não é feliz – meneou a cabeça com
tristeza – Ele precisa de alguém como
você. Ou melhor, ele precisa de você.
–Tereza, se ele ouvir...
– Oro para que ele reconheça que
precisa de alguém e que perceba o
quanto você é especial e... –Tereza
ouviu alguns passos – Querido, venha
tomar café conosco. Sente-se aqui.
Adriel olhou rapidamente para Mariana
e sentou-se bem distante dela.
– Querido, a Mariana faz um trabalho
muito bonito com algumas meninas... Ela
dá cursos e ainda cuida de um grupo de
coreografia...
– Tereza, o Adriel não quer ouvir sobre
as coisas que eu faço.
– É isso aí. Ouça a sua convidada.
– Filho! Seja gentil com ela. Mariana,
quer um pedaço da torta?
– Não se preocupe, Tereza, está tudo
bem e eu aceito a torta sim, parece
deliciosa!
– A Mariana já sabe como eu sou... é... a
ti a dela sempre tem uma história para
contar sobre o esquisito do patrão dela,
não é verdade? – serviu-se de café.
– Filho, assim você me deixa com
vergonha e a Mariana também. Coma um
croissant de maçã...
– Só tomarei café – olhou para a
convidada de sua mãe – Com vergonha?
Ela? Acho que não.
– É raro, mas acontece – comeu um
p e d a ç o da torta mousse– Hum,
maravilhosa! Você deveria
experimentar...Que tal falarmos sobre a
ALT?– sugeriu Mariana.
– Por quê? Precisa de mais kits?
– Filho, o que é isso?
–Tudo bem, Tereza, é que eu já ganhei
alguns para as minhas alunas...
– Ah, mas mesmo assim. Ela quer saber
sobre os lançamentos. Se vocês terão
alguma novidade para o Natal, por
exemplo. Não é isso, Mariana?
– É isso mesmo.
– Então eu fiz a pergunta certa. Se você
precisar de mais algum produto para as
suas alunas é só falar com a Lívia –
bebericou o café.
– Obrigada, você é tão fofo!
Adriel quase engasgou. Tereza gostou
do que ouviu.
– É melhor ir embora antes que eu fique
mais fofo ainda– disse ele apontando
para a mesa.
– Não, querido! Está cedo e...
– Preciso ir – levantou-se.
– Sente-se, filho, você ainda você não
comeu nada.
– Não quero comer nada. Preciso
mesmo ir...
– Eu também não posso demorar,
Tereza, tenho um compromisso com a
minha família – disse Mariana.
– Ah, que pena!
Neste momento Abner entrou na sala de
jantar.
– Com licença, não queria interromper
nada, mas... e aí cunhadinha? É muito
bom vê-la aqui! Meu irmãozinho
querido, encontrá-lo novamente é uma
alegria para mim. Oi, mãe, só a senhora
mesmo! É uma façanha e tanto! –
cumprimentou Mariana com um beijo e
abraçou a mãe.
– Deveria ter saído antes de você chegar
– disse Adriel ao encaminhar-se para a
porta.
– Assim a Mari vai pensar que você não
ama o seu irmãozinho. Poxa, Dri,
dividimos a mesma placenta durante
meses e agora não podemos dividir a
sala de jantar? – perguntou em um tom
dengoso.
Adriel olhou sério para o irmão e
Mariana riu. Tereza sorriu
discretamente.
– Preciso... Preciso ir.
– Fique, meu irmão. Só vou tomar um
banho. Tenho um jantar na casa da minha
namorada. E você também, né, Mari?
Não vai deixar o Renan esperando, vai?
Tereza não gostou do que ouviu e Adriel
também não. Mariana deu um beijo em
sua anfitriã e esta a acompanhou até o
portão. Adriel seguiu-as de longe.
Quando ela estava para entrar no carro
percebeu a aproximação de Adriel.
– Você ouvirá muitos elogios, não é?
– Elogios?
– Jantará com o “rapaz perfeição”!
– Ah... é, tem razão. Ter a companhia de
um cavalheiro vai ser ótimo!
– Para compensar os minutos de você
conviveu com... o cavalo?
–Você sabe que não penso isso de você.
Até o chamei de fofo!
– Como sempre atrevida.
Mariana entrou no carro, abriu um largo
sorriso e disse:
– Foi muito bom revê-lo hoje, Adriel.

Durante o jantar na casa da família


Fernandes...

– A Célia me falou que você foi


promovido. Ela disse o quanto eles
admiram o seu trabalho e que você é o
melhor funcionário – era a terceira vez
que a mãe de Mariana mencionava isso.
– Isso é exagero da minha mãe – disse
Renan sem jeito.
– Mãe, o Renan já está ficando sem
graça. Nós já sabíamos da promoção
dele...
– Mari, só estou lembrando o quanto o
Renan é um rapaz esforçado. Não
existem muitos por aí com as qualidades
dele.
– Eu agradeço, dona Ivone.
– O meu namorado também é – disse
Michelle acariciando o rosto de Abner.
– Eu sei, mas é diferente. Não fique
chateado comigo, Abner.
– Chateado, eu? Que isso! O jantar está
maravilhoso! Eu adoro carne assada! –
respondeu Abner com bom humor.
– É que no caso de vocês, estou me
referindo a seus irmãos também, foi o
Alberto que começou a empresa.
Quando vocês cresceram já estava tudo
pronto.
– Mãe! – Mariana e Michelle falaram
juntas.
– Não é verdade, Abner?
– A senhora tem razão. Meu pai
construiu a ALT e nós a administramos
com muito cuidado e carinho.
– A ALT está crescendo bastante graças
ao esforço dos três irmãos, certo,
Abner?
– Tem razão, Renan, ela está crescendo
muito, meu pai ficaria orgulhoso.
– Se o seu irmão não tivesse aquelas
manias vocês teriam mais sucesso, não
é?
– Mãe! – agora só Mariana protestou.
– Aí é que a minha sogrinha se engana, o
Adriel é ótimo no que faz. É ele quem
está no comando.
– Você deve estar brincando.
– Não mesmo, dona Ivone. A Lívia já
deve ter comentado e falando nela...
Pensei que ela participaria do jantar
também e o meu sogrinho?
– Ela saiu com o Niki e meu pai ainda
está trabalhando – respondeu Mariana –
Mãe, a tia Lívia sempre diz o quanto o
Adriel é competente.
– Mari, ela sempre diz que ele é
esquisito. A minha irmã chega até a
imitar a cara de nojo que ele faz.
Abner olhou para Michelle e sorriu.
– Mãe, vamos pegar a sobremesa?
– Está cedo, Michelle! Mari, por que
você e o Renan não vão para a sala,
hein? Eu, a sua irmã e o Abner,
ficaremos aqui!
Mariana acompanhou Renan até a sala
de estar.

– Você ficou irritada com a sua mãe, não


foi?
– É que ela foi bem desagradável e
também o deixou sem graça ao falar
várias vezes sobre a promoção –
acomodou-se no sofá de três lugares e
Renan a acompanhou.
–Tudo bem, ela só queria me agradar,
mas isso não é necessário porque
quando você está perto eu me sinto tão
bem, é tudo tão perfeito... – sorriu para
ela.
– Bonitinho!
– Não gostei do bonitinho.
– Por quê?
– Dizem que bonitinho é um feio
arrumadinho.
– Ai, Renan, essa foi boa! – deu um leve
tapa no ombro dele – O bonitinho foi
para o que você disse!
– Eu sei, mas mesmo assim.
– E então, vamos falar sobre a gincana?
Vou buscar a minha agenda. Fiz
algumas...
– Não precisa. É só você levar no dia e
está tudo certo. Agora só quero ficar
aqui com você.
Renan olhou para Mariana e sorriu. Ela
percebeu que ele estava diferente.

– Mari, estive pensando muito sobre...


–Tem algum problema com o passeio?
Se precisar de ajuda...
– Não é sobre o meu trabalho com os
jovens. É sobre nós – fixou os olhos
nela.
– Nós?
– Tenho algo muito importante para
dizer, mas não quero que seja aqui. Nós
podemos marcar alguma coisa?
– Estou com muitas coisas para fazer ...
É que o curso está terminando, sabe? O
curso de cabeleireira e também preciso
fazer a programação do aniversário do
GEAD...Vamos completar 3 anos! Legal,
né?
– Muito legal. Mari, podemos sair...
amanhã?
– Amanhã? Não vai dar. Saí muito
nesses últimos dias e agora tenho que
dar uma assistência maior no salão.
Amanhã é sexta-feira! O salão fica
lotado! – gesticulou com as duas mãos.
–Você não vai passar a noite inteira
trabalhando. Podemos marcar para
depois das 21h, o que você acha?
– Eu estarei exausta, me desculpe.
– Acho que você está fugindo.
–Tenho algum motivo para fugir?
– Passo a pergunta para você – fixou o
olhar nela.
– Renan, como você está diferente hoje!
– Diferente como?
– Diferente. Deveríamos conversar
sobre a programação da próxima semana
e você não está nem aí...
– Confio em seu trabalho. Mari, preciso
mesmo ter uma conversa sobre...
–Vou pegar a sobremesa.
Mariana saiu e retornou poucos minutos
depois com a sobremesa e também com
a irmã e o namorado.
– Um delicioso pavê de chocolate,
Renan!
– Obrigado, Mari, mas não precisava ter
saído com tanta pressa.
– O que aconteceu aqui, Renan? Por que
a minha cunhadinha saiu apressada?
– Amooor, isso é pergunta que se faça?
– perguntou Michelle puxando o
namorado – Que tal deixarmos os dois
sozinhos?
– Mi, não precisa disso. Vamos comer a
sobremesa?
Mariana estava implorando com os
olhos para a irmã não deixar a sala e
Michelle atendeu ao pedido.
Renan foi embora trinta minutos depois
sem conseguir marcar o encontro com
Mariana.

– Você notou alguma coisa estranha


entre o Renan e a Mari? – perguntou
Michelle ao ficar sozinha com o
namorado.
– Por isso que eu perguntei o motivo da
Mari sair apressada. Será que os dois se
beijaram?
– Acho que não. Você ainda não
mencionou nada sobre o café. E aí, o seu
irmão estava lá?
– Estava.
– E...
– Eles foram embora logo depois que eu
cheguei. Minha mãe está uma fera
c o mi g o – mencionou instigando a
curiosidade da namorada.
– Por quê?
– Eu mencionei o jantar.
– Você falou que o Renan estaria aqui?
– É por isso que a minha mãe está uma
fera comigo!
– Ótimo, assim ela esquece a minha
irmã.

Na manhã seguinte...

– Mari, hoje vou sair mais cedo para ver


se compro o carro. Estou quase
perdendo o meu aumento de salário.
Será que você poderia ir comigo?
– Ai, Tia, eu adoraria, mas o meu dia
será cheio no salão.
– Lívia, hoje é a folga do Hílton –
informou Ivone.
– Minha irmãzinha linda, será que eu
posso chamá-lo para ir comigo?
– Que pergunta! É claro que sim.
– Aí, tia, perfeito! Meu pai vai ajudá-la
muito mais do que eu. Não entendo
muito de carros, você sabe. Só sei
dirigir muito bem – disse sem modéstia.
– Isso eu sei. O Hílton ainda não
acordou, não é? – como a irmã assentiu
ela continuou – Mais tarde eu ligarei
para ele, mas você já pode adiantar o
assunto, Ivone.
– Tudo bem. Lívia, o meu futuro genro
esteve aqui ontem.
– Mãe, a tia sabe que o Abner jantou
aqui!
– Não estava me referindo ao Abner,
então eu vou passar para o plural...
Meus futuros genros estiveram aqui
ontem.
– Nossa! Ninguém me avisou... Mari,
por que você não me contou que você e
o Renan...
– Tia, a minha mãe está sonhando ou
está treinando o português dela.
– Mari, sem brincadeiras!
– Só pode ser isso, mãe, porque só um
futuro genro esteve...
– Que papo é esse logo cedo?–
perguntou Michelle ao entrar e se
aproximar da mesa para tomar o café.
– O assunto hoje é sobre genros –
informou Lívia.
– Genros?
– A tia Lívia errou, Mi, é sobre genro!
Singular, entendeu? – d i s s e Mariana
impaciente.
– O assunto aqui é sobre genros, sim!
Tenho que reforçar porque a sua irmã
está fugindo...– disse Ivone ao dar uma
xícara para Michelle.
– É, mãe, está bem forçado e reforçado
mesmo. Essa conversa não tem nada a
ver. Que forçação de barra! – Mariana
tomou o café e quase queimou a língua.
–Tia, posso saber o que está
acontecendo aqui?
– Ih, Mi, nem queira saber... Preciso ir
meninas. Não posso chegar atrasada
hoj e de jeito nenhum. Tenho que sair
mais cedo para comprar o meu carro.
– Senão o sistemático do seu patrão
retira o aumento. Que homem estranho!
– Mãe, a senhora não perde a
oportunidade de criticá-lo!
– E você, Mariana, está sempre o
defendendo. Não estou gostando disso.
O Renan é um rapaz correto, dedicado
na obra de Deus, trabalhador, bom filho
e é normal, está ouvindo? Ele é normal!
– Ivone até aumentou o volume da voz
ao falar a última palavra.
– Beijinhos, mãe, preciso arrumar umas
coisinhas no salão. Espero você lá, Mi!
– Mi, converse com a sua irmã, por
favor. Não quero que ela se aproxime...
– Mãe, calma, eu já sei! O Adriel não
gosta que ninguém se aproxime dele,
pode ficar tranquila.

Logo após o almoço...

– Lí vi a, n ã o acredito que isso está


acontecendo! – disse Marisa roendo as
unhas.
– Calma, Marisa! Você não deveria
reclamar, eu ia direto do almoço,
resolvi ficar mais um pouquinho...
– Você precisa sair mais cedo justo hoje
que a Camile está trabalhando no 3°
andar? – lamentou a garota.
– O pessoal já está abusando. Eu liberei
a Camile só um dia da semana passada
porque uma das meninas faltou e outra
está de licença maternidade...
– Então fale para a Camile voltar. Lívia,
não posso ficar aqui sozinha! Se ele me
chamar? Terei um ataque cardíaco ao
ouvir a voz dele e...
– Que drama, Marisa!
– Eu preciso...
– Lavar as mãos? – sorriu.
– Lívia, sem brincadeiras. Preciso
comprar uma caixa de bombom.
– Está vendo, cada um com a sua mania!
– Preciso de chocolate. Só assim fico
calma.
– E o Adriel se acalma lavando as mãos.
Compre o seu chocolate, eu espero, mas
não demore.
Mais tarde com o cunhado...

– O Niki só fez uma exigência.


– Qual, Lívia?
–“Mãe, tem que ser um carro vermelho,
tá?” – disse Lívia imitando a voz do
filho.
–Vermelho realmente chama a atenção,
mas acho que ele deveria estar aqui para
escolher...
– Você está brincando, Hílton! Sábado
fui com ele em algumas agências e você
precisava vê-lo! Ficou perdido no meio
de tantos carros!
– É, tem razão. E então, já decidiu?
– Já. Ele é vermelho, como o meu filho
pediu e econômico como eu preciso.
Ah... e é bem bonito!
– E até que eles estão pagando um bom
preço pelo seu carro...
– Só na base da troca mesmo, senão...
Alguns minutos depois ficou tudo
acertado, mas Lívia só retiraria o carro
segunda-feira à tarde.
Capítulo 13 –
Desabafo
Mariana e Adriel combinaram o
encontro daquela segunda-feira na
cafeteria estilo europeu localizada ao
lado do restaurante Três Ésses.
– É tão aconchegante! – disse ela após
acomodarem-se – Gostei mais daqui.
– Pertence à mesma família.
– Por que Três Ésses?
– Sérgio, Sônia e Sílvio. São três irmãos
– explicou – O nome foi escolhido pelo
pai, Giovanni. Q u a n d o meu pai
conheceu o Três Ésses eles estavam
apenas começando. Depois resolveram
expandir e hoje...
– Mimãs significa: Michelle e
Mariana... Irmãs – sorriu – Você nem
perguntou, né?
– Foi bom o … esclarecimento, assim
não perco horas de sono ao tentar
imaginar o significado tão...complexo –
respondeu com sarcasmo.
– Magoou, mas eu supero. Continuemos
com os esclarecimentos: ALT & Filhos:
Alberto, Tereza e … os filhos! Dã!
Adriel fez uma careta. O garçom
aproximou-se e eles fizeram os pedidos.
– Como foi o jantar com o “rapaz
perfeição”? – perguntou após o garçom
se retirar.
– Qual o motivo para tanta curiosidade?
– Mariana mexeu nos cabelos negros.
– Só perguntei por perguntar, mas já que
você não quer falar...
– Foi muito bom – disse simplesmente.
Ela não queria entrar em detalhes.
– Recebeu muitos elogios? Dá para
parar de mexer nos cabelos? – perguntou
irritado.
– Por quê? É muita provocação? –
brincou.
– Exatamente.
– Gostei de ouvir isso.
– Não é algo bom.
– Não?
– Não mesmo.
– Agora eu quero saber... – insistiu
encarando-o.
– É melhor não.
– Covarde.
– Já que você quer saber...
Provoca...nojo. É isso. É nojento. Você
não pode mexer nos cabelos quando está
à mesa!
– Nossa! Agora você me deixou sem
graça.
– Você não queria saber?
– Pensei que fosse por outra coisa. O
Renan ama quando eu mexo em meus
cabelos... – provocou-o.
– Com certeza não é só isso que ele ama
em você.
– Vamos parar de falar nele?
– Agora sim fiquei curioso. Qual é o
problema?
– Você. Você é um grande problema.
– Mas você está aqui por livre e
espontânea vontade.
– É verdade... Nem eu entendo isso.
– E o feriado? Conseguiram outra
pessoa para a palestra?
– Mudou de ideia?
– É claro que não.
– Está muito interessado, pensei que
você nem lembrava mais... – mexeu nos
cabelos – Ai, me perdoe, foi automático,
nem pensei... – ele só meneou a cabeça.
– O “rapaz perfeição” deve estar
contando os minutos.
– Para quê?
– Para estar com você o dia inteiro.
– Os passeios que o Renan organiza são
sempre maravilhosos.
– Ele tem um fã clube e já sei quem é a
líder.
O garçom retornou com cappuccino,
suco de acerola, uma cesta com mini
pães de queijo e outra com bolinhos de
bacalhau.
– Está com ciúme?
Adriel olhou para ela por alguns
segundos e sorriu antes de responder...
– Não seja ridícula. Por que eu teria
ciúme? Por quem? É algo que não me
atinge. Garota, é uma das muitas
vantagens de não se envolver.
– Nem ouvi o que você disse ... Só estou
lembrando do seu sorriso.
– Sorriso? Que sorriso?
–Você sorriu para mim.
– Então foi um sorriso irônico –
bebericou o cappuccino após adoçá-lo.
– Tudo bem, o que importa é que você
sorriu – ela mordeu um bolinho de
bacalhau –Adriel, o grupo de
coreografia fará 3 anos...
– Já sei, você quer presentear as
meninas com alguns kits...
– Não é isso. Ai, como você é! Só
queria convidá-lo...
– Prefiro que peça kits. Quantos você
quiser.
– Faremos uma comemoração especial...
Eu ficaria muito feliz se pudesse contar
com você.
– Se for com os kits, tudo bem – deu de
ombros.
– Só se você levar os kits pessoalmente.
Aí sim eu aceito. Adriel, é um convite
especial. Não precisa decidir agora.
Será no próximo mês. Só quero a sua
presença.
– Está pedindo muito – bebericou mais
uma vez o seu cappuccino.
– Que pena! – Mariana sugou o suco de
acerola com o canudinho.
–Tem algum tema?
– O quê?
– A comemoração do grupo – colocou
um mini pão de queijo na boca.
– Acho melhor não falar. Você pode
pensar que é provocação. Hum... Você
deveria experimentar o bolinho...
delicioso! – disse ao morder o bolinho
de bacalhau.
– É mesmo? Agora fiquei curioso.
– Então experimente!
– O quê?
– O bolinho de bacalhau, dã!
– Dã? – f e z uma careta – A minha
curiosidade é sobre o tema e não...
– Ah, me desculpe – sorriu – Mas você
deveria mesmo experimentar o bolinho...
O tema é: “ Adoração ao Deus do
impossível”.
– Ele é o Deus do impossível. Está
correto.
– Hã? Não acredito que ouvi isso de
você!
– Deus fez coisas impossíveis. Eu disse
fez.
– Ah... Era bom demais para ser
verdade. Deus fez e faz! Adriel, para
você Deus simplesmente se aposentou?
É isso?
– Sabe uma coisa que me irrita
profundamente? – encarou-a.
– Ver a Mariana mexer nos cabelos?
– Irrita, mas não profundamente. O que
me deixa muito irritado é saber que a
maioria só está na igreja por interesse.
O fato de Deus ter enviado Jesus ao
mund o não é suficiente. As pessoas
querem receber, receber e receber...
Exigem bençãos e os pastores fazem o
quê? – meneou a cabeça – Alimentam
isso através de seus sermões vibrantes!
– Você está generalizando. Sei que há
pessoas que só estão nas igrejas por
interesse, mas também existem muitas
que são sinceras.
– Eu não disse que são todas.
– Você disse a maioria.
– Se pregassem que Deus não fará mais
nada porque tudo já foi feito, você acha
que ficariam quantos membros nas
igrejas?
– Infelizmente há aqueles que só querem
receber, mas...
– As mensagens que as pessoas mais
gostam são aquelas que falam sobre
vitória, prosperidade.... Elas vibram.
Fale sobre perdão, pecado... Quem
prega sobre essas coisas não é nada
popular – terminou o cappuccino.
– Fique sabendo que eu gosto de ouvir
mensagens sobre perdão, santificação...
– Meu pai dizia que Deus nos deu a vida
e nós devemos cuidar dela, mas as
pessoas abusam e depois vão reclamar
para quem?
– Concordo, Adriel, mas Deus se
importa conosco. Eu não consigo pensar
em Deus como um Ser superior distante
e inacessível, que só nos criou e depois
deixou cada um entregue à sua própria
sorte – pegou outro bolinho e o mordeu
– Você deveria mesmo experimentar um.
– Não, obrigado. Meu pai não aceitava o
fato de alguém falar que ama a Deus e na
primeira dificuldade...
– Infelizmente há os que só querem ser
servidos. Servir a Deus? Deus só serve
para eles enquanto está tudo bem.
– Não sou um exemplo para ninguém,
mas não fico cobrando Deus. Alguém
pode até confundir as coisas e pensar
que eu culpo a Deus por minhas...
perdas – sussurrou a última palavra –
Mariana, você sabe que meu pai ficou
d ua s semanas internado antes de... ir,
mas com certeza você não sabe o que as
pessoas diziam para a minha mãe: “Esta
enfermidade não é para morte, é para a
glória de Deus, o irmão Alberto sairá
daqui em pé e glorificando a Deus e será
grande milagre na vida dele”!
– Adriel, sinto muito. Deve ser muito
difícil se encher de esperanças e
depois...
– Ao ouvir tudo aquilo fiquei cheio de
esperanças sim! Orava todos os dias e
di zi a que acreditava em um milagre.
Ficou surpresa, agora? – perguntou ao
ver os olhos dela arregalados.
Mariana estava impressionada com
todas aquelas palavras e principalmente
com a expressão triste no rosto de
Adriel. Percebeu que os olhos dele
e s ta v a m marejados. Ela ficou em
silêncio para que o momento de
desabafo continuasse.

– Dormia quase todas as noites no


hospital e também passava o dia, só saía
por causa da insistência da minha mãe.
Todos os dias eu pedia um milagre,
todos os dias! – olhou para o relógio de
pulso por alguns segundos antes de
continuar – De s e j e i que meu pai
estivesse errado sobre os milagres
pertencerem ao passado. Como desejei!
Um dia eu havia dormido em casa e
cheguei ao hospital às 7h. Cheguei tarde
demais – sussurrou – Tarde demais – A
minha mãe estava chorando, aproximei-
me dela e ela olhou para mim com
aquele tipo de olhar que diz tudo.

Adriel parou de falar por alguns


segundos, abaixou a cabeça e Mariana
pensou em se aproximar e acariciar os
cabelos dele, mas se conteve. Ele
levantou a cabeça de repente e começou
a a esfregar as mãos.

– Eu... eu não podia acreditar. E todas


aquelas palavras de milagre? Mariana,
tenho até vergonha de confessar, mas
mesmo depois que todos foram ao...
enterro dele, eu esperei por uma ligação.
Ainda acreditava em um milagre. Seria
algo muito mais grandioso do que
simplesmente curá-lo, não é? – meneou
a cabeça – Quando a minha família
chegou do enterro eu pensei: “ Milagres
não existem mais.”
Mariana bem que tentou segurar as
lágrimas, mas foi impossível.
– Depois fiquei revoltado, mas não com
Deus, com algumas pessoas que
visitaram a minha mãe. As mesmas que
falaram que o meu pai seria curado.
Sabe o que elas disseram?
– Que faltou fé?
– Mais ou menos isso. Uma disse que
t e v e uma revelação: Faltou uma
campanha! Falou que a minha mãe
deveria ter realizado uma campanha
especialmente para o meu pai. Se
tivéssemos feito 7 dias de oração
incessante... – disse com revolta.
– Cada uma! Como que alguém pôde
dizer isso para sua mãe que já estava
sofrendo tanto?
– Não foi só isso. Outra mulher disse
que minha mãe não havia entendido que
a cura era espiritual.
– Que absurdo!
– Também achei um absurdo total e
decidi que aquilo precisava parar. Você
sabe que não tenho uma boa fama lá na
igreja e um dos motivos é justamente por
causa disso. – Adriel, por alguns
segundos, pensou em parar com o
desabafo. Não conseguia entender como
as palavras saíram com tanta facilidade
– Eu disse para aquela senhora que seria
mui to melhor se ela confessasse que
falou por ela mesma, que Deus não a
usou. Falei muitas coisas e depois ela
espalhou na igreja que eu era grosseiro e
que não tinha fé.
– Falar em nome de Deus é algo muito
sério, é uma grande responsabilidade.
Não sei como alguém consegue falar por
si mesmo e colocar o nome de Deus.
Mas, Adriel, você precisa acreditar que
milagres ainda acontecem...
– Acreditar em milagres? Nunca mais.
Concordo com o meu pai... Os milagres
pertencem ao passado.
– Já entendi o seu ponto de vista. Adriel,
concordo com muitas coisas que você
falou, mas não precisa ser radical.
– Você deseja mais alguma coisa? Um
bolo...
– J á que você perguntou... Quero um
cupcake de chocolate com cobertura de
marshmallow. Logo que chegamos eu vi
no cardápio e fiquei com água na boca.
Adriel chamou o garçom e ele logo
retornou com o cupcake de Mariana.
– Hum, que tentação! – saboreou o
cupcake e ficou um pouco sem jeito ao
notar que Adriel estava com os olhos
fixos nela – Você quer um pedaço?
– Não, obrigado.
– Então... Eu disse que você não precisa
ser radical...
– Fico muito irritado com pessoas que
acham que Deus é “o faz tudo” delas.
Deus é muito maior do que isso.
– Concordo com você. Ele é maior e por
isso mesmo é que Deus realiza milagres
ainda hoje. Adriel, sei que existe muita
falsidade onde deveria só haver a
verdade, mas não deixo de crer. Não
mesmo – disse com convicção – A
Bíblia nos avisa sobre os falsos
profetas...
– Já que mencionou... Você sabe que eu
e a Renata namoramos. Vo c ê acredita
que um “profeta” quase falou a data do
nosso casamento?
– Não?!
– Sim. Disse até que teríamos dois
filhos. Um casal para ser exato.
– Ainda pode se cumprir.
– Mariana, por favor! Se eu fosse me
casar novamente, o que está fora de
cogitação, não seria com a Renata, não
mesmo! Se existisse uma lista com 100
nomes, ela não estaria nem em último
lugar, só para você ter uma ideia o
quanto a “profecia” é impossível.
– Deus faz o impossível... Ah, me
desculpe, você não acredita nisso.
– Muito engraçado.
– Está se achando, hein? – ela gostaria
de dar um tapa no ombro dele assim com
fazia com Renan, mas se conteve ––
Uma lista com 100 nomes? Poderoso!
Só por curiosidade... Eu entraria em sua
lista? – mordeu o cupcake e aguardou a
resposta, mas Adriel fez que não ouviu a
pergunta.
– Como você é mau, agora isso não vai
sair da minha cabeça. Preciso saber.
Fale, por favor! – Ao dizer isso Mariana
fez beicinho.
– Já falei muito hoje. Exagerei até. Não
sei o que aconteceu comigo... É melhor
irmos embora.
– Adriel, tenho que confessar uma coisa.
– Ih...
– Preciso de uma carona.
– Carona? Como você chegou até aqui?
– Ônibus.
– Novamente? Se você tivesse me
avisado que estava sem o carro...
– Você teria passado em minha casa?
– Não. Teria desmarcado.

Adriel pegou o celular e por um


momento Mariana pensou que ele
chamaria um táxi. Ele guardou o celular
no bolso novamente e começou a
esfregar as mãos.

_Eu... Eu voltarei logo – disse ao


levantar-se.

Retornou 20 minutos depois. Mariana


sabia que deveria culpar as mãos dele
pela demora.

– Podemos ir agora – disse


simplesmente.

Adriel ficou em silêncio todo o percurso


até a casa dela. Mariana respeitou o
silêncio dele porque estava feliz por ele
ter confiado nela.
– Boa noite, Adriel.
– Mariana, acho que não preciso pedir
isso, mas... Eu gostaria que...– começou
a esfregar as mãos.
– Não vou comentar nada. Pode ficar
tranquilo.

Mariana não conseguia dor mi r. Não


parava de pensar no desabafo de Adriel.
Lembr ou que ele nem mencionou a
esposa e a filhinha.
Deve ser muito difícil para ele falar
sobre isso. Eu nem consigo imaginar
tudo o que ele sofreu. Ai, meu Deus,
quero muito ajudá-lo, quero vê-lo
sorrir...

Os pensamentos de Mariana foram


interrompidos pelo toque do celular. Ela
atendeu rapidamente para não acordar a
irmã.
–Alô?
– Eu... Sei que não é hora para ligar,
mas...
–Tudo bem, vou falar bem baixinho para
não acordar a Michelle.
– Vocês dormem no mesmo quarto?
–Sim. Temos só dois quartos aqui em
casa. Você sabe que a minha tia mora
aqui com o Niki, mas é lá nos fundos e...
– Não liguei para comprar a sua casa.
– Como você é impaciente! – sussurrou
ela – Só estava explicando...
– Não preciso que você explique nada.
– São duas horas! Já que você foi bem
atrevido para ligar deveria pelo menos
tentar ser gentil – abaixou a voz ao
perceber que havia se alterado e ao
ouvir a irmã resmungar.
– Mariana, só liguei para pedir que não
comente com ninguém sobre a nossa
conversa.
– Já disse que não vou falar nada.
– Certo, então... Pode dormir agora.
– Obrigada, gentil senhor, por permitir
que uma trabalhadora descanse.
– Você não perde a oportunidade de
brincar, não é? Boa noite.
– Boa noite. Adriel, agora vou conseguir
dormir.
– Agora?
– É que o sono estava fugindo de mim e
isso é raro.
– Sempre acontece comigo.
– Insônia? Isso é triste. Acho que agora
vou dormir rapidinho porque... Ouvi a
sua voz – falou melodicamente.
–Você adora brincar.
– Estou falando sério, acredite!
– Acreditar? Para mim não é nada fácil,
você sabe. Boa noite.
– Boa noite.

O sono de Adriel chegou poucos


minutos após falar com Mariana. Às
cinco horas o alarme tocou, mas ele
desligou e voltou a dormir.

ALT & Filhos...

– Ele ainda não chegou, Tati – informou


Lívia.
– Não? Lívia, você já tentou falar com
ele?
– Ainda não. Quer que eu ligue?
– É melhor. Já são quase nove horas!
Naquele dia ele chegou atrasado e
estava com um curativo...
– Está chamando... Adriel? Você...
Certo, tudo bem.
– O que foi, Lívia?
– Ele está na Pan Leon.
– O quê?
– Foi o que ele disse.
– Ele nunca mais tomou café lá. Sempre
pedi para você...
– É, também achei estranho, mas é um
bom sinal, não é?
– Ótimo sinal, Lívia.
Adriel chegou poucos minutos depois e
trabalhou normalmente. Lívia e Tatiana
não comentaram, mas perceberam que
ele estava bem diferente naquele dia.

– Camile, você está chorando?


– Não, Marisa, foi um cisco no meio
olho...
– Olha pra mim... Acha mesmo que
consegue me enganar? Passou a manhã
inteira calada.
– Estou com muito trabalho.
– Camile, o que ele fez? Gritou com
você?
–Você está falando do Adriel?
– É claro!
– Não fez nada. A Lívia e a Tati
passaram a manhã inteira na sala dele! –
meneou a cabeça.
– É, tem razão. Ele não teve nenhuma
oportunidade. Algum problema com a
sua mãe?
– Ah, Marisa, ontem ela disse que não
quer mais falar sobre meu pai. Que
colocou um ponto final.
– Ah, amiga, nem imagino como...

Marisa não terminou de falar porque a


porta da sala de Adriel abriu-se.

– Pode buscar o seu carro, Lívia, já falei


que você não precisa voltar hoje. Eu vou
almoçar...
– Tudo bem, mas voltarei se resolver
tudo rápido...
– Aí é com você.
Assim que ele saiu...
– Lívia, você conseguiu mais uma folga?
– Ele está tão bonzinho, Marisa!
– Será que ele está doente? Sei lá... de
repente recebeu um diagnóstico
daqueles...
Camile cutucou a amiga ao ver Tatiana
saindo da sala do irmão.
– Aproveitem meninas, hoje é o dia de
pedir aquele aumento de salário –
brincou Tati.
Capítulo 14 –
Interrogações
Adriel relutou, relutou, mas não teve
jeito. Sentia uma necessidade urgente de
ver Mariana. Queria conversar com ela
novamente. Detestava isso, mas tinha
que reconhecer que falar com ela fazia-o
sentir-se bem. Lutou o dia inteiro contra
o desejo de ligar para ela e foi
derrotado.

– Alô? Oi! Já está com saudade?


– Às 19h em frente ao Três Ésses.
Mariana verificou que eram 18h15.
– O quê? Você está me intimando?
– Eu... Eu fiz um convite.
– Sei... Isso lá é jeito? Adriel, faltam 45
minutos para o horário que você falou e
estou trabalhando!
– Então... Pode ser às 20h.
– Não posso sair daqui. Tenho mais
duas clientes!
– Hoje é terça-feira! O que as suas
clientes estão pensando? – perguntou
irritado.
– O que você está pensando?
– Eu só preciso... conversar com você –
sussurrou.
A resposta dele a desarmou.
– Não sei como, mas darei um jeito.
Esteja aqui às 20h.
– Não pode ser na...
– Aqui – exigiu ela.
Agora era só ter uma pequena conversa
com a irmã.
– Hoje? Mari! Problemas com a Laila,
não é?
– Não é com ela.
– Por que você precisa se envolver
tanto? Com quem é o problema, agora?
– Mi, alguém precisa conversar comigo
e...
– Você precisa é de um namorado, isso
sim. Só assim para com isso. Duvido
que o seu namorado...
– Você atende a Marta?
– E a dona Vera?
– Ligarei agora para ela. Estava
marcada para as 20h, só vou adiantar
uma horinha, só isso.
– Só isso! Por que você não atende a
Marta? Ela deve estar para chegar...
–Você sabe que a dona Vera...
– Ah, é verdade, a minha irmã é a
cabeleireira preferida dela! – revirou os
olhos – Tudo bem, mas quero saber
quem é que está precisando tanto de
você. Vai, conta!
– Preciso ligar para a dona Vera. Você
tinha alguma coisa marcada com o
Abner?
– Não. Até estranhei, mas ele disse que
visitaria o irmão!
– Hã?
– Coisas da mãe dele. Ela quer que os
dois irmãos se aproximem mais. O
Abner disse que fará uma surpresa para
o irmão.
– Ih... Isso não vai dar certo.
– Também acho.

Adriel estava quase pronto quando


ouviu o interfone tocar. Era o porteiro.

– Meu irmão? Certo, peça para ele


subir.
O que o Abner quer comigo? Já são
quase sete horas! Não posso me
atrasar!

A cliente de Mariana chegou quando


faltavam cinco minutos para as 19h.

– A senhora é um amor! Agradeço por


ter vindo tão rápido! – deu um abraço na
senhora de 70 anos.
– Que isso, querida! Eu não estava
fazendo nada mesmo... Só assistindo
àquelas reportagens de tragédias! São
tantas coisas ruins que acontecem que dá
até medo de sair de casa – dona Vera
sentou-se.
– Então é melhor não assistir mais.
– É melhor não sair mais – disse dona
Vera sorrindo.
– Isso não tem jeito. Então a senhora
quer um penteado igual ao do casamento
do seu filho? Pelo menos foi isso que a
senhora me disse semana passada!
– É isso mesmo, querida. Estive olhando
algumas fotos e fiz uma comparação.
Fico mais bonita com aquele penteado.
– A senhora é linda. Quero ficar assim
quando tiver a sua idade! – Mariana
tirou os vários grampos que seguraram o
coque de dona Vera.
– Você é um amor! Queria ter um neto
solteiro. Ah, como eu queria!

Apartamento de Adriel...

– Abner, você está falando há uns 15


minutos e até agora não entendi... O que
você quer? – perguntou impaciente sem
tirar os olhos do relógio de pulso.
– Preciso de um motivo? Você é meu
irmão.
– Então não preciso de cerimônia, afinal
somos irmãos: Tenho um compromisso.
– Está me mandando embora? Que coisa
feia! Não precisa inventar uma
desculpa...
– É sério, Abner.
– Compromisso? É verdade?
– Sabe muito bem que eu o dispensaria
sem precisar de uma desculpa.
– Isso é . Mas... e aí? É uma garota? Eu
conheço?
– O tempo está passando – disse ele
esfregando as mãos.
– Certo, certo, não vou atrapalhar, mas
amanhã você terá que revelar o nome
dela!
Adriel ficou aliviado ao fechar a porta
do apartamento para o irmão. Eram
19h20.
– Oi, boa noite! Posso ter a honra de
sentar-me ao seu lado, gentil senhor?
– Banco de trás.
– Retiro o gentil senhor. Estou curiosa
para saber o motivo de tanta urgência
para me ver hoje! E aí?– quis saber
Mariana.
– Não é nada demais, só quero
conversar.
– Bem que você podia fazer um
suspense, né?
– Suspense?
– É. Você podia dizer que tem algo
importante, uma revelação...
– Acho que você não está bem.
Trabalhou muito?
– Sempre. Estou morrendo de fome. Vou
comer o meu biscoito de polvilho. Quer
um?– perguntou ao mexer em sua bolsa.
– Polvilho? Mariana, você não pode
comer aqui dentro!
– Prometo não sujar nada. Coloco
inteiro na boca. É uma bolinha!
– Não!
– Chato! – mostrou a língua.
– Eu vi isso – disse ele ao olhá-la pelo
retrovisor.
– Posso, pelo menos, chupar uma
mexerica?
– Você está me provocando! Até parece
q ue teria uma mexerica dentro de sua
bolsa!
– Não duvide.
–Tem razão, é melhor não duvidar.
Vindo de você posso esperar tudo.
–Tudo não.
– Por exemplo...
– Um beijo. Não espere por um beijo
meu.
Adriel quase soltou uma gargalhada.
– Eu não espero, mesmo!
– Ah, é? Será? Mas... Foi bom eu ter
mencionado o beijo.
– Por quê?
– Porque você riu.
– É que eu achei um absurdo.
– Será? Acho que você até já sonhou
com isso – era divertido provocá-lo.
– Já deu para perceber que hoje você
está com a corda toda.
– Você pode puxar a corda, mas só se
for para que eu fique bem pertinho de
você – disse ela dando um largo sorriso
– Falando nisso... Quando é que terei a
honra de sentar-me ao seu lado?
– Mariana, dá para parar com isso?
– Só fiz uma pergunta.
– Chega de perguntas.
– Estava trabalhando quando você ligou.
Tinha mais duas clientes. Precisei trocar
os horários e passar uma para a minha
irmã e é assim que você me trata?
– Que dramática! Você poderia muito
bem ter recusado. Por que não o fez?
– Porque quis...
– Ah...
– Quis ser gentil com você. É isso. Não
é porque eu queria estar aqui com você.
Entendeu?
– Entendi. Você queria mesmo era sair
com o “rapaz perfeição”, não é?
Mariana não respondeu.
–Uau! Enfim calou-se.
– Saudade da minha voz, querido?
– Atrevida.
– Adriel, vamos ao Três Ésses
novamente?
– Algum problema?
– Podemos ir para outro lugar?
– Você sabe que comerá sozinha...
–Tudo bem. Fazer o quê? Suportarei
aquele local onde fico perdida no meio
de tantos pratos saborosos e me
deslumbro com a beleza de seus
lustres... vitorianos!
– Nossa, como gosta de falar!

Adriel e Mariana conversaram sobre a


ALT até o jantar ser servido. Ele pediu
salada de rúcula com mussarela de
b ú fa l a e champignon, e ela, salada
caprese. Para o prato principal Adriel
optou por ravióli de camarão ao molho
pesto e Mariana por ravióli de queijo ao
sugo.
– Agora você já pode me contar o
motivo para estarmos juntos novamente
– perguntou ela após ficarem alguns
m i n u t o s em silêncio enquanto
saboreavam o jantar.
– Mariana, não é nada demais. Fiz o
convite porque não queria jantar sozinho
– arrependeu-se n o mesmo instante que
as palavras saíram de sua boca.
–Tenho certeza que você não teria
problema algum para conseguir uma
companhia. Sua mãe, sua irmã, seu
irmão...
–Tinha que ser você – fixou os olhos
nela e desviou o olhar em seguida.
Ela estremeceu ao ouvir isso.
– Para continuarmos a conversa de
ontem – sentiu a necessidade de explicar
para não ser mal interpretado.
– O quê?
– Tinha que ser você para continuarmos
a conversa de ontem.
– Ah... entendi. E então? – perguntou um
pouco decepcionada.

Adriel olhou para ela e percebeu que


não sabia o que dizer. Talvez o que ele
quisesse mesmo era só estar ali com ela,
ma s isso ele não diria. Não conseguia
entender o motivo de sentir-se tão bem
com a presença dela. Não dava para
compreender a necessidade de estar
perto dela.
– Está tudo certo para segunda-feira?
– Segunda? Ah... o passeio! Está sim.
Quer que reserve um lugar para você?
Posso dar um jeito nisso.
–Você sabe a minha resposta. O “rapaz
perfeição” deve estar muito ansioso.
– Foi bom você falar nisso... Preciso
ligar para ele. Posso fazer isso agora?
Você se importa?
– É claro que não me importo.
– Então eu vou ligar... Pensando bem...
Ligarei quando chegar em casa.
– Não quer que eu ouça a doçura da sua
voz ao falar com ele?
– Você quer ouvir a minha doce voz?
Posso falar bem pertinho do seu ouvido.
Quer?
–Você sabe que não. Preciso fazer uma
pergunta.
– Faça, você pode... Eu é que quase não
recebo respostas às minhas...
– Se eu, por acaso, fizesse um convite
para você sair comigo segunda-feira, o
dia inteiro, qual seria a sua resposta?
– Infelizmente a minha resposta seria
não, mas gostaria muito de saber o que
nós dois faríamos em um dia inteiro.
– É claro que você não iria perder um
d i a maravilhoso ao lado do “rapaz
perfeição”.
– Não é isso. O compromisso é com as
meninas do grupo de coreografia e com
o grupo de jovens. Não posso faltar.
Mas... mate a minha curiosidade, vai?
– Não.
– Como você é mau! Não faça isso
comigo! O que faríamos juntos em um
dia inteiro, hein?
– Nada que o seu pai reprovaria, disso
você pode ter certeza.
– É claro. Não pensei em nada que...
– Quer pedir a sobremesa?
– Não. Só peço depois que você me
contar.
– Então é melhor irmos embora.
– Como você é...
– Sou mesmo. Sobremesa?
– Vou pedir só para você gastar mais um
pouquinho – brincou ela.
– Mousse de maracujá?
– Chocolate.
– Eu quero de maracujá.
– Está precisando se acalmar?
–Você é a culpada.
– O que eu fiz?
– Está acabando com o meu dinheiro –
Adriel deu um meio sorriso.
O garçom aproximou-se e Adriel pediu
a sobremesa.
– Quer que eu pague a conta? –
perguntou assim que o garçom afastou-
se. Ela não queria perder o momento de
descontração.
– Está bem salgada hoje...
– Eu ou a conta?
– Você é um doce...
– Que fofo!
– Eu não terminei...
– Lá vem, estava muito bom para ser
verdade...
– Doce de boldo – Adriel não conseguia
entender o porquê de sentir-se tão à
vontade com Mariana, mas a verdade
era que sentia-se muito bem quando
estava com ela.
– Hahaha, estou morrendo de rir. Já
sei... alguém já deve ter falado isso
sobre você, não é?
– Não deveria responder, mas você tem
r a z ã o . A Lívia. Descobri que
atrevimento é genético.
Mariana deu uma gargalhada.
– Peço desculpas, não deu para segurar,
mas você está fugindo da minha
pergunta...
– Qual?
– Você sabe. Ah, Adriel, conta, vai!
Aonde você me levaria?
– Ainda nisso? Como você é insistente!
Acho que é melhor irmos embora...
– Já quer se livrar de mim? Não fui eu
quem ligou quase implorando para sair!
– Implorando? – franziu a sobrancelhas
– Não mesmo!
– Orgulhoso.
O garçom trouxe a sobremesa e por
alguns segundos os dois ficaram em
silêncio.
– Hum...Quer experimentar a minha? –
perguntou Mariana.
– Não, obrigado.
– E se eu quiser a sua?
– Não. Se você quiser pedir outra, tudo
bem. Mas seja rápida, quero ir embora.
Vinte minutos depois, Mariana e Adriel
já estavam dentro do carro.

– Você vai mesmo ser tão mau?


– Só tem uma maneira de você saber.
– Qual?
– Você sabe.
– Faltar? Nem pensar. Sou uma pessoa
responsável.
– Então...
– Você está blefando. Não passou nada
pela sua cabeça. Nada.
– É aí que você se engana.
–Você já percebeu o quanto sou curiosa
e está brincando comigo.
– Para mim é ótimo que você pense
assim. Já não estava aguentando mais,
sabia?
– Quem começou?
– Quer saber? Se arrependimento
matasse... Não deveria tê-la convidado
para sair – o coração dele não
concordava com as palavras proferidas.
– Pois eu me arrependi quando entrei no
carro. Você nem deixou que eu comesse
o meu biscoito de polvilho! – falou
como uma garotinha mimada.
Ele olhou para ela como se não
estivesse acreditando no que acabara de
ouvir.
–Você é uma criança.
– E você é aquele adulto chato que
sempre atrapalha as brincadeiras.
– O que você está fazendo?– perguntou
ele ao vê-la abrir a bolsa.
– Pode ficar sossegado, não vou comer
nada! Só estou pegando o meu fone de
ouvido. Cansei de ouvir a sua voz.
– Ótimo, ouça a sua música, porque
também cansei de conversar com você.
Guarde a sua linda voz para segunda-
feira. Tem alguém que está ansioso para
ouvi-la.
– Com certeza.
Mariana só retirou o fone para dar boa
noite.

Ela entrou bem devagar para não


acordar a irmã, por isso assustou-se ao
vê-la sentada na cama.

– Ai, Mi! Você me assustou!


– Não fiz nada.
– O que está fazendo aí sentada no
escuro?
– Estava orando – Michelle deitou-se e
puxou o edredom.
– Ah...
– Mari, por favor, diga que saiu com o
Renan!
– Hã? O que está acontecendo?
– O Abner disse que o Adriel tinha um
compromisso hoje.
– E...
– E você apareceu com um compromisso
assim do nada...
– E...
– O Adriel não é de sair à noite.
– E...
– Mari, pare de falar “e”! Você foi
resolver algum problema da Laila, não
é? Ou o Renan queria acertar os últimos
detalhes do passeio?
– Nenhuma das alternativas – sentou-se
em sua cama e tirou as sandálias.
– Ai. Meu. Deus! Vocês saíram juntos! –
Michelle sentou-se e colocou as duas
mãos à cabeça.
– Mi, por que o desespero?
– Então é verdade. Por que vocês
saíram? Aonde foram? O que vocês
conversaram?

– Quantas perguntas! Até parece aqueles


interrogatórios de filmes policiais...

– Sem brincadeira, Mari, estou


preocupada com você.
– Sem motivo. Está tudo bem. Eu não
disse que queria ajudá-lo? Só
conversamos. Não precisa se preocupar.
Ele é inofensivo.

– Preciso falar com o Abner, urgente!

– Mi, por favor, não fale nada para ele!

– É claro que vou falar. Ele precisa ter


uma conversa muito séria com o irmão.

– Não faça isso. O Adriel não vai gostar


nada. É bem capaz que ele nem fale mais
comigo.

– Perfeito. É isso mesmo que eu quero.

– Mi, ele está se abrindo comigo, por


favor, não estrague tudo. Tenho certeza
que posso ajudá-lo – levantou-se e
sentou-se na cama da irmã.

– Não quero que você se envolva com


ele. Mari, você pode sair muito
machucada. Ele vai magoá-la.

– Fique tranquila. Está tudo sob


controle.

– Não é a primeira vez que vocês saem


juntos, não é?

– Confie em mim. Estou no caminho


certo. Vou conseguir tirá-lo daquela
tristeza.

–Tudo bem, mas se eu perceber que


você está se envolvendo demais...

Mariana demorou para conciliar o sono


naquela noite. Pensava em como o
relacionamento dela com Adriel estava
evoluindo.

Ele está chato como sempre, mas está


mais solto, descontraído... e isso é
incrível. Ah, meu Deus, sei que está me
ajudando nisso. Vou conseguir que ele
acredite novamente. Quero que ele seja
feliz... É isso o que eu quero.
Tatiana estava tão calada naquela manhã
de quarta-feira que até Adriel notou.

– Está com algum problema?

–Você perguntou isso? Saiba que esse


tipo de pergunta faz com que se envolva
na vida dos outros. Tem certeza que
quer isso? – perguntou em um tom nada
amigável.

– Se não quer responder, tudo bem, mas


não precisa falar nesse tom.

– Ah, Dri, me desculpe. Tem razão.


Estou preocupada com uma jovem.
– Só podia ser. Parece uma certa pessoa
que...

– Que pessoa?

– Esqueça. E então, qual é o problema?

– Quer mesmo saber?

Adriel balançou levemente a cabeça


confirmando. Tati contou o problema
que Camile estava enfrentando com a
mãe, mas omitiu os nomes.

– Tati, ela precisa cair na real. A mãe


dela está certa. Aceitá-lo de volta? Para
quê? Cuidou da filha sozinha agora! Ela
n ã o precisa mais dele – Adriel nem
percebeu que falavam sobre Janete.

– Palavras animadoras.

– Fale para a … jovem, que ela deve


agradecer por ter uma mãe que cuida
dela e...

– Sabe... pelo menos tudo isso tem um


lado bom.

– Qual?

– Nós estamos aqui conversando e não é


sobre a empresa.
– Nada de sentimentalismos.

– Dri, quer jantar na minha casa, hoje?

– Tati, não confunda as coisas. Agora é


melhor voltarmos ao trabalho.

–Tudo bem, tudo bem, mas você me


faria muito feliz se aceitasse jantar
conosco.

– Com quem?

– Comigo, o Joel e a Sofia.

– Quem sabe um dia...

– Tem algum compromisso?


– Não. Vamos trabalhar?

– Ah... já ia me esquecendo... Dri,


pensei em doar alguns produtos.
Teremos uma gincana durante o passeio
e...

– Isso é com você. Nem precisa falar


comigo.

Após dar duas batidas à porta, Abner


entrou e cumprimentou com um animado:

– Bom dia!

– Estamos trabalhando, Abner –


informou Adriel, nada animado.

–Também estou aqui para trabalhar. A


L í v i a disse que vocês estavam
resolvendo sobre os lançamentos de
Natal...

– Já que você chegou, Abner, vou até a


minha sala. Tenho outras coisas para
resolver. Dei minha opinião, agora só
falta a sua – informou Tatiana.

Ela já estava próxima à porta quando


ouviu a pergunta de Abner.

– Agora você não vai fugir... Com quem


você saiu ontem?

– Abner, estamos aqui para trabalhar.


Escolha com atenção. As escolhas da
Tati foram perfeitas...
– Agora eu também quero saber – disse
Tati aproximando-se dos irmãos.

– Só faltava essa!

– Tati, ele saiu ontem com alguma


garota. Só que não quer dizer o nome
dela.

– Que ótima notícia! A nossa mãe ficará


tão feliz! Por que você não quer revelar
o nome dela, Dri?

– Não acredito nisso! Dá para vocês


pararem? – começou a esfregar as mãos
– Estamos aqui para trabalhar. Por que a
Lívia está demorando tanto? Ela saiu
para buscar os outros produtos e...
– Não precisa ficar bravo... Só estamos
felizes por você, Dri!

– Abner, quantas vezes eu preciso dizer


que detesto que você me chame assim?

– Magoou, viu? A Tati pode, né? – falou


como um garotinho.

Tatiana não conseguiu segurar o riso.

Lívia deu três batidas à porta antes de


entrar.

– Com licença, trouxe os produtos que


você pediu, Adriel.

– Acho que meu irmão não está muito


interessado no trabalho hoje.
– É tão injusto! Estou feliz por você e é
isso que eu recebo em troca?

Abner fez beicinho. Lívia e Tati


sorriram.

– Só queria saber quem foi a pessoa


maravilhosa que conseguiu tirá-lo de
casa em uma terça-feira à noite. Só isso.
Deve ser alguém muito especial. Lívia,
ele recebeu algum telefonema suspeito?
– Abner perguntou para a secretária.

–O quê? – perguntou Lívia sem entender.

– Chega! Cada um para sua sala. Preciso


trabalhar. – Adriel abriu a porta e
esperou os três saírem.
– Abner, você provocou! – disse Tati já
longe dos olhos do irmão mais velho.

– Ah, Tati, bem que você gostou da


novidade! A nossa missão agora é
descobrir quem é ela. Estou pensando
em uma pessoa, mas espero que não
tenha nada a ver, porque se eu estiver
certo...

– Em quem você... Vamos conversar na


minha sala, é melhor – disse ao notar a
curiosidade das meninas.
– Lívia, o que aconteceu lá dentro?

– Marisa, que tal você se concentrar no


trabalho?

– Ai, Lívia, fiquei curiosa...

– Grande novidade!

Na sala de Tatiana...
– Você acha que ele saiu com a Mari?

– Tenho quase certeza. Eu deveria ter


mencionado o nome dela só para ver a
reação dele. A minha linda namorada
estava preocupada ontem porque a Mari
precisou sair de repente e eu mencionei
que o Adriel tinha um compromisso.

– Seria ótimo.

– Diz isso para minha namorada.

– Tenho que perguntar para a Mari, mas


farei isso só sexta. Bom... Pelo menos
vou tentar me segurar até lá.
Mariana aproveitou para ir ao culto de
oração naquela noite porque não tinha
nenhuma cliente marcada para depois
das 19h.

O culto era dirigido pela irmã Emília, a


esposa do pastor. Todas as quartas-
feiras havia oração.

Quando Mariana chegou o culto já havia


começado. Irmã Emília iniciava às 19h.
O período de oração era até as 20h, logo
após havia a leitura bíblica e uma breve
explanação.

Mariana logo descobriu que Renan faria


a explanação naquela noite. Ele fez a
leitura no capítulo 12 do livro de Atos.

– A Palavra nos diz assim: “ Pedro,


pois, estava guardado no cárcere; mas
havia oração incessante a Deus por
parte da igreja a favor dele”¹; meus
irmãos, o apóstolo Pedro estava preso
por amor ao Evangelho de Jesus. A
igreja estava orando por ele. Deus
enviou um anjo. No versículo 11 nós
encontramos Pedro livre da prisão e
reconhecendo que Deus o livrou. Ele foi
até a casa onde os irmãos estavam
reunidos e quando eles o viram ficaram
atônitos. Eles não estavam acreditando.
Mas como pode? Não esperavam a
resposta da oração? Oraram por Pedro e
mesmo assim ficaram espantados. Você
orou há poucos minutos atrás e com
certeza está esperando uma resposta.
Creia que o mesmo Deus que livrou
Pedro também fará maravilhas em sua
vida. Você está intercedendo por alguém
e quer que um milagre aconteça, então
saia daqui com a certeza de que as suas
orações foram ouvidas. Você não está
clamando em vão. Infelizmente há os que
não conseguem crer, mas se você está
aqui é porque acredita que o mesmo
Deus que realizou milagres no passado
fará coisas grandiosas em sua vida e
também na vida daqueles por quem você
intercede...

– Agradeço ao nosso líder de jovens por


nos trazer uma mensagem de fé. Vamos
orar mais alguns minutos. Os jovens
sairão no próximo feriado e pedem a
oração de todos – foram as palavras da
irmã Emília.

O culto foi encerrado vinte minutos


depois com um louvor ministrado por
Mariana:

“ O nome de Jesus é poderoso, o nome


de Jesus

é sobre todos, nome mais doce,

Nome mais lindo, nome sublime, É o


nome de Jesus...” ²
– Fiquei bem surpreso por vê-la aqui
hoje – disse Renan cumprimentando-a
com um beijo no rosto.

– Hoje eu consegui. Estava precisando.


Fazia um tempão que não aparecia neste
culto. É tão bom! Está tudo certo para
segunda? Está precisando de ajuda?

– O pessoal está trabalhando direitinho.


Está tudo muito bem organizado. Só
quero que você esteja aqui às 6h em
ponto.

– Tão cedo!
– Pretendo sair às 6h30. Mari, você veio
sozinha?

– Sim. A Mi não teve a mesma sorte.


Tinha uma cliente às 20h e a minha mãe
saiu com a tia Lívia e o Niki. Foram em
uma festa no shopping. Aniversário de
um amiguinho dele da escola – explicou
Mariana.

– Ah... Você está com o carro?

– Estou.

– Que pena. É... Mari, ainda são nove


horas... Será que nós...

– Quer sair?
– Quero. Posso buscá-la em sua casa
daqui a pouco? É só o tempo de levar a
minha mãe. Assim você deixa o seu
carro e vamos com o meu.

– Tudo bem.

– Pizza?

– Perfeito. Até mais.

– Vai sair com o Renan? Muito bem.


Vocês dois juntos é o ideal. Dou a maior
força! – disse Michelle ao saber do
compromisso da irmã.
– Ideal? Nossa! A mãe saiu e deixou
uma representante, Mi?

– Mari, quem não torce por vocês?

– Eu – respondeu apontando o dedo para


si mesma.

– Chata! Vocês formam um casal tão


lindo! Ele é o cara perfeito para você.
Ele se interessa pelas pessoas, como
você e sempre procura ajudá-las, como
quem? Você! As duas famílias dão o
maior apoio...

–Tchau, Mi, o Renan já deve estar


chegando.

– Mari, o problema é que você só pensa


nele como um amigo. Olhe para o Renan
de maneira diferente. Veja nele alguém
que a fará feliz. Pense nisso.

– Uau! Acho que vou ligar para o Abner


e dizer o quanto você está inspirada
hoje.

– Engraçadinha! Estou falando sério,


baixinha!

– Beijinhos, muitos beijinhos para minha


irmã linda e gigante! Até mais tarde.
Avise a mãe, tá?

– Ela vai amar.


Na pizzaria...

– As meninas estão muito animadas. Já


avisei que a gincana não será nada
fácil...

– Você sabia que a Tati convidou um


casal para dar uma palestra sobre
namoro?

– Não sabia. Desistiu do executivo de


sucesso?

– É, fazer o que, né? O Palestrante não


cooperou. Mas, sabe de uma coisa? Foi
melhor assim. Palestra sobre namoro
tem tudo a ver.

– Então está tudo encaminhado para o


nosso passeio...

– Ontem eu tive um probleminha, mas já


foi revolvido... Estava tudo certo para a
Janete comandar a cozinha, mas ela me
ligou ontem e avisou que não poderá ir.

– Ah... que pena!

– Mas ela mesma arrumou uma


substituta.

– Ótimo. Então está tudo certo.

– É... mais ou menos. Mari, percebi que


a Camile anda muito triste.

– É uma pena que a Camile não faça


parte do grupo de coreografia. Seria
mais fácil conversar com ela.

– A Tati tem um bom relacionamento


com ela. E com a Janete também. Ela
tem conversado com as duas. Deve ser
algum problema sério.

– Oração, Renan. Muitas vezes não


conseguimos alcançar as pessoas com
nossas palavras ou ações, mas elas estão
ao alcance de Deus.

– Com certeza, linda. Amo... conversar


com você. Queria fazer isso mais vezes.
– Comer pizza?

– Alguém está se esquivando...

– É mesmo? Quem? – perguntou olhando


ao redor.

– Mari, Mari, eu gostaria de ser mais...

– Mais?

– Ousado.

– Ah, Renan, nesses casos ousadia não


resolve. Se a pessoa não quer se abrir
você vai forçar a barra? E se a Tati já
conversou com elas...

– Não estava me referindo à Camile e à


Janete.

– Não? Foi mal!

– Você sabe muito bem sobre quem eu


estava falando – encarou-a.

– Renan, Renan, pare de me olhar assim.

– Assim como?

– Como você está me olhando agora!

– O meu olhar está incomodando?

– Vamos falar sobre o passeio?

– Já falamos.
– Então coma a sua pizza e vamos
embora.

– Alguém está fugindo...

– Ai, Renan, você está muito esquisito...

– Peço desculpas. É por isso que eu


gostaria de ser mais ousado. Mas já que
eu não sou...

– Falta de ousadia? Peça a Deus.

– O versículo diz sabedoria.³

– Mas se você necessita de ousadia...


pode pedir também, tá?

– Você gostaria que eu fosse mais


ousado?

– Renan, coma a sua pizza.

– Que notícia maravilhosa! Minha filha


saiu com o Renan, aleluia! – disse Ivone
ao chegar do shopping com a irmã e o
sobrinho.

– Calma, Ivone, a Michelle só disse que


eles saíram e não que marcaram o
casamento – disse Hílton sentado
confortavelmente em sua poltrona
favorita.
– É assim que tudo começa, Hílton. Nós
dois também éramos amigos e depois...
Espera aí, acho que eles chegaram...

– Ivone, você vai até lá? – perguntou o


marido ao vê-la se aproximar da porta.

– Vou cumprimentar o Renan.

– Lívia, dá um jeito na sua irmã. Ela está


se empolgando demais e...

– Qual o problema? Deixa a minha irmã


ser feliz – Lívia bocejou. Estava
exausta. Festa de aniversário em plena
quarta-feira definitivamente não era uma
boa ideia.

– Meu pai tem razão, tia. Minha mãe não


é nada discreta, né? Nem percebe que
p o d e atrapalhar. Vai que de repente
pinta um clima e rola um beijo...

– Michelle!

– Pai, pode sim pintar um clima e a mãe


nem se tocou que vai atrapalhar...

Cinco minutos depois, Mariana e a mãe


entraram.

– Boa noite a todos! Meu paizinho lindo,


que carinha de cansado! Vou falar com o
Leon, você está trabalhando muito! –
Mariana beijou-o.

– Oi, querida! E aí, o passeio foi bom?

– Só saímos para comer uma pizza. A


mãe chegou lá fora e só faltou dar uma
medalha para o Renan!

– Exagerada! Só cumprimentei o rapaz e


disse que estava feliz por vocês terem
saído, só isso.

– Tia Mari, pintou um clima? Rolou um


beijo?

– Niki! – Mariana encarou a tia.

– Não olhe para mim – disse Lívia – A


culpa é da sua irmã. Ela esqueceu que
havia um garotinho aqui na sala. Pensou
que ele estava dormindo no sofá...
Capítulo 15 – 7 de
setembro

Era a oitava vez que Adriel pegava o


celular e localizava o número de
Mariana. Olhava fixamente para aqueles
números por alguns segundos e depois
recolocava o celular em cima da mesa .
Levantou-se e foi até o lavabo.
Não ligarei. Nem que precise lavar as
minhas mãos milhares de vezes... Não
faz nenhum sentido. Aquela garota
atrevida! Não ligarei para ela, não
ligarei... 79 . É isso, 79!

–Um, dois, três, quatro, cinco–


esfregava as mãos com o sabonete
líquido e depois as enxaguava.
Geralmente não dizia os números em
voz alta, m a s como não estava
conseguindo se concentrar...– Seis, sete,
oito, nove, dez... Não ligarei... dez,
onze...

Saiu do lavabo após lavar as mãos


várias e não ligou para Mariana.
Mimãs...

– Ontem você não respondeu a pergunta


do Niki.

– Mi, você é tão sem graça!

– Conta para sua irmãzinha se pintou um


clima, conta...

– Pintou um clima...

–Ui! Conta logo...

– Um clima muito chato, isso sim. A mãe


chegou lá e parecia uma fã que
encontrou o seu ídolo – revirou os
olhos.

– Que exagero, Mari! Então a mãe


estragou todo o clima de romance...

– Romance?

– É. Quem sabe se ela não tivesse


aparecido um beijo não teria surgido?
Quem sabe?

– Rimou! – sorriu e em seguida ficou


séria novamente – Beijo? Não mesmo!

– Por quê?

– Mi, você beijaria o seu irmão?


– O Renan não é nosso irmão.

– Para mim é como se fosse. Olho para


o Renan e vejo um bom amigo. Nunca
imaginei outro tipo de relacionamento.
Pintar um clima entre nós dois? –
meneou a cabeça – Jamais! E espero que
ele não esteja pensando nisso, apesar
dele estar bem estranho... Eu acho que
não, é... não!

– Ele está estranho como?

– Fi ca olhando de um jeito e falando


umas coisas...

– Então já pode ir se preparando.

– Não brinca com isso, Mi! Se o


Renan... Não, não quero nem pensar
nisso. Não saberia como reagir. Imagine
como ficaria depois? Não. Ele não pode
estragar a nossa amizade – disse
meneando a cabeça sem parar.

ALT & Filhos, sexta-feira...

–Você também irá ao passeio, Lívia?


Pensei que fosse só para os jovens...

– Obrigada, Adriel. A pessoa que está


organizando tudo é muito gentil e me
convidou. Ah... meu filho também vai!

– Crianças também? – franziu as


sobrancelhas – Será ótimo!

– Não é porque você não suporta


crianças...

– Isso não é verdade, só não gosto que


elas se aproximem de mim.

–Só isso? Fique sabendo que meu filho


sabe se comportar muito bem.

– Ele é uma criança, Lívia. Crianças só


se comportam bem quando estão
doentes.

– Você tem cada uma!


– Você sabe que é verdade. As crianças,
quando estão saudáveis, fazem muita
bagunça. Estão certas, afinal são
crianças, mas que façam tudo bem longe
de mim.

– Já tenho pena dos seus futuros filhos,


ah... me desculpe. Não deveria ter dito
isso.

Adriel observou-a em silêncio por


alguns segundos. Lívia repreendia a si
mesma em pensamento.

–Tudo bem, Lívia. Não precisa ter pena


de quem nunca existirá. Filhos? Não
mesmo! Ah.... Você pode sair mais cedo
hoje.... Pode ir embora agora.
– Ainda são três horas! Meu comentário
foi tão desagradável que...

– Ai, Lívia, só você! Qualquer pessoa


sairia no mesmo instante. Pode ir. Ah...
e as duas meninas também.

– Eu agradeço... Tenha um ótimo final


de semana, Adriel.

– Obrigado, Lívia.

–Você está brincando, né?– perguntou


Marisa ao saber da novidade.
– Não, Marisa, estou falando sério, mas
deixem as mesas em ordem.

– Sair agora? Maravilha! Camile,


arrume logo a sua mesa... Mas gente, o
que está acontecendo com o patrão,
hein? – colocou uma mão à testa – Ai,
passou um pensamento aqui... Não, não
tem nada a ver...

– O que passou nessa sua cabecinha,


Marisa?

– Ai, Lívia, e se ele estiver muito


deprimido e... Ai, nem quero dizer! –
agora levou uma mão à boca.

– Marisa, acho que é melhor mesmo


você não dizer nada – falou Camile
encarando a amiga – “ Camile, arrume
logo a mesa”– imitou-a – Eu organizo
minhas coisas e você dá asas à sua
imaginação?

Lívia riu.

– Ai, gente! Ninguém quer saber o que


eu pensei?

– Não! – Lívia e Camile responderam


em uníssono.

Adriel, após a saída de Lívia e as


meninas, pegou o celular por várias
vezes. Fixava o olhar no número de
Mariana e após alguns segundos
recolocava o aparelho em cima da mesa.
Foi ao lavabo três vezes. Lavou as mãos
várias vezes. Já ouvira Bach e um pouco
de Mozart. Tomou dois banhos. Estava
muito ansioso. Só saiu do escritório às
18h. Ao chegar em casa, tomou mais um
banho bem demorado, preparou o jantar
bem lentamente e olhou para o celular
várias vezes, mas não tocou nele. Após
o jantar, pegou o celular e quase ligou
para Mariana.

Segunda ela ficará o dia inteiro com


aquele... com o “rapaz perfeição”!
Qual é o problema? Não tenho nada a
ver com isso... Mas se eu ligar e
convidá-la para sair? Já fiz isso! Eu...
Vou lavar as minhas mãos. É isso! Não
quero ligar para aquela garota...

Adriel passou o final de semana todo


lutando contra si mesmo para não ligar
para Mariana. Domingo, assistiu ao
culto pela internet só até a apresentação
da coreografia. Mariana, quase todas as
vezes, se apresentava junto com as
meninas, mas justamente naquela noite
não foi assim. Por isso Adriel desligou
o notebook contrariado.
O que está acontecendo comigo? Por
que quero ver aquela garota? Não faz
nenhum sentido, mas será que
aconteceu alguma coisa com ela? Será
que está doente? E daí? Por que estou
pensando nisso? Não posso pensar
naquela garota... Não posso. Tenho que
lavar as mãos. Preciso lavar as mãos...

Adriel lavou as mãos por várias vezes,


depois resolveu tomar banho, já era o
oitavo naquela dia. Deitou-se logo após
o banho demorado, eram 21h30, mas não
conseguiu dormir. Uma hora depois,
pegou o celular.
– Alô? Oi! Espera só um pouco –
Mariana despediu-se da tia e foi
rapidamente para o quarto.

– Agora eu posso falar. Estava com a tia


Lívia.

– E agora você está sozinha? E a sua


irmã?

– A Michelle saiu com o Abner depois


do culto.

– Não deveria ligar, mas é que... – ele


não conseguia explicar o que sentiu ao
ouvir a voz dela, só sabia que desejava
ouvir mais, muito mais...

– Pode ligar quando quiser. Está


gostando do seu final de semana
prolongado?

– Detesto feriados. Acho uma total


perda de tempo.

– Um feriadinho é sempre bom, mas...


Você não ligou para reclamar dos
feriados, né?

– É... É que... Gostaria de saber...

– Pode falar.

– Você está... doente? – perguntou meio


sem jeito.

– Doente? – a pergunta dele a


surpreendeu – Por quê?

– Não foi ao culto hoje.

– É claro que eu fui!

– Você não participou da coreografia.

– Então você assistiu ao culto! Está


preocupado comigo? Que fofo! – disse
com meiguice.

– Fofo? Não é nada disso, só fiquei


pensando...

– Pensando em mim! Ai, agora você foi


mais fofo ainda!

– Não! Só pensei... Esqueça. Vou


desligar, já deu para perceber que você
está bem – falou com rispidez.

– Não desligue. Eu estava com câimbra,


você acredita nisso? Alguns segundos
antes do pastor chamar o GEAD me deu
uma câimbra terrível! A perna ficou
dolorida por isso não participei da
coreografia com as meninas.

– Está tomando diurético ou fazendo


muito exercício?

– Diurético? Não. Faço exercício todos


os dias. Uso a bicicleta elétrica da tia
Lívia.
– Então você está exagerando nos
exercícios. E não está repondo líquido.
Você faz alongamento? Precisa fazer,
antes e depois.

– Não estou exagerando. Faço só trinta


minutos por dia. E para ser sincera... Há
dias que nem faço nada. E você faz
exercício?

– Faço esteira todos os dias.

– Seguirei os seus conselhos e também


vou comer mais banana. Pelo menos
dizem que é bom pra câimbra e eu gosto
muito. Adriel, agradeço por ter ligado.
Foi muita gentileza sua.

– Gentileza? Não liguei para ser gentil!


Liguei porque... porque...

– Quer ir conosco amanhã?

– Não, claro que não! Boa noite.

– Boa noite, Adriel. E... Achei o


máximo você me ligar.

– O máximo?

– É. E fofo também, muito fofo. Você se


preocupou comigo. Notou que eu não
estava na coreografia...

Ele desligou o celular.


Feriado de 7 de setembro...

Os dois ônibus saíram da igreja às 6h45.


Renan conseguiu aproximar-se de
Mariana alguns minutos após a saída.
Uma das meninas do grupo de
coreografia estava sentada ao lado dela.

– Amanda, será que posso conversar um


pouquinho com a Mari? Duas poltronas
à frente tem um lugar. Prometo que serei
rápido.

–Tudo bem, Renan, mas pode ficar com


a Mari, se você quiser... – Amanda deu
uma risadinha e afastou-se.

– Quer ver o que preparei para a


gincana? – perguntou Mariana assim que
ele sentou-se.

– Também.

– Também?

– Quero ficar um pouquinho aqui com


você e também ver o que você preparou,
embora nem precise conferir. Tudo o
que você faz é perfeito.

– Obrigada pelo elogio, mas é um


exagero. Aqui está... Fiz “Quem é o
personagem”, preparei uma caça ao
tesouro e... ah, a Tati falou sobre a ideia
que ela teve?

– Falou sim e achei muito legal da parte


dela. O pessoal vai adorar.

– A ideia do vale-presente da ALT &


Filhos é excelente. Serão oito vales no
valor de R$150,00 cada!

– Muito legal, a Tati foi bem generosa!


Mari, você fica tão bem de verde!

– Oi?

– A cor da sua blusa...

– É verde-musgo. É uma blusinha


básica. Amo verde-musgo!
– Fica muito bem em você.

– Obrigada. Você está me deixando sem


graça.

– Impossível. Você é uma graça – sorriu


para ela – Achou brega?

– Ai, Renan! Você é que está uma graça


hoje. Pode parar com isso.

– Por quê?

– Se alguém escuta...

– Qual o problema?

– O que está acontecendo com você?


– Quer mesmo saber? – encarou-a.

– Acho que não. Renan, olha aqui... O


que você acha de...

Mariana conseguiu que o assunto girasse


em torno da gincana.

O ônibus estacionou às 8h40. Após o


café, o pessoal foi liberado para
d e s fr uta r das três piscinas, duas
quadras, do lago para pesca, salão de
jogos e da linda área verde da chácara.
O almoço seria servido às 13h.
– Mari, qual será o horário da gincana?–
perguntou Michelle.

– Logo após a palestra.

– Esclareceu muito! Não sei o horário


da palestra, dã!

– Então você estava bem distraída com


o seu namorado, né? A palestra será às
13h30. Está programada para durar uma
hora. Vamos iniciar logo após. Quer
saber o horário do lanche da tarde?

– Acho que eu consigo adivinhar... Logo


após a gincana?

– Como você conseguiu?


– Hahaha, estou morrendo de rir! Mari,
e a Laila, hein?

– Queria tanto que ela estivesse aqui,


mas a mãe dela a proibiu.

– É uma pena! Ela não aparece nos


ensaios da coreografia há alguns
domingos, né?

– É. Preciso fazer alguma coisa. Estive


pensando em ter uma conversa com a
mãe dela.

– Melhor não. Olha só o Niki!

– Já caiu na água!

– Ele está certo... Vou lá também...


– Ainda bem que o sol está colaborando
apesar de ainda estarmos no inverno.

– Finalzinho do inverno! Vamos cair na


água também, Mari!

– Agora eu não posso. Preciso deixar


tudo pronto para a caça ao tesouro.

O tesouro é uma grande cesta com


muitas guloseimas, especialmente
chocolates. Mariana espalhará várias
pistas com a ajuda de Renan. Todos os
grupos receberão a primeira pista e
depois sairão em busca das outras.
– Precisamos ser discretos. Renan, você
escondeu aquela caixa?

– Escondi e fique tranquila... Ninguém


percebeu nada. Ela foi descarregada
junto com as outras. Você foi muito
esperta... Há quatro caixas iguais.

–Você não confundiu as caixas, né? O


pessoal da cozinha já deve estar
mexendo e...

– É claro que não, Mari! A caixa com a


letra P está na cozinha e...

– Renan!

– Brincadeira... A caixa com a letra P


está no lugar que você pediu. Por que P?
Não seria melhor G de gincana? Ou T de
tesouro?

– P de prêmio, dã!

– Repita.

– O quê?

– Fale novamente!

– P de prêmio?

– Dã!

– Renan! – bateu no ombro dele.

– Fale, vai! Você falou tão bonitinho!


– Dã! – ela fez uma careta e ele sorriu.

Renata, a irmã de Renan, chegou bem no


momento que os dois estavam sorrindo.

– Ai, que cena mais romântica!


Interrompi um momento muito especial,
né?

–Você não deveria estar aqui–


respondeu Mariana.

– Nossa, interrompi mesmo! Peço


perdão, podem continuar, mas estou
curiosa... O que viria após sorrirem tão
docemente? Um beijo?
– Estamos organizando a gincana,
Renata!

– Meu irmãozinho lindo, vocês também


são de carne e osso. Todo mundo sabe
que...

– Renata, é melhor você parar. O


pessoal pode pensar que você está
sendo favorecida... A gincana...

– Ai, Mari, e eu estou interessada em


gincana? Que coisa mais antiga... Vou
procurar o Gui. Mas, aproveitem o
momento e...

–Vamos, Renan, temos pouco tempo –


disse Mariana assim que a irmã de
Renan se afastou.
– Ficou chateada?

– Não, mas estamos atrasados.

– Confessa que ficou chateada.

– Eu sei que ela é sua irmã, mas...

– Mari, olhe para mim.

– O que você quer? – perguntou sem


virar o rosto.

Renan aproximou-se e virou o rosto dela


bem gentilmente.

– O que você está fazendo?

– Só quero que você olhe para mim.


– Estou olhando.

Renan acariciou o rosto dela,


aproximou-se mais e sussurrou:

– Você é linda, Mari, mas quando faz


essa carinha fica irresistível. Seria
perfeito se...

– Se o quê?– perguntou ela sem afastar-


se.

– Se eu estivesse aqui sozinho com


você...

– É mesmo? E o que você faria? –


arrependeu-se por perguntar, mas agora
era tarde demais... Ou não.
– Eu...

Tatiana e Joel apareceram do nada e


deixaram Renan e Mariana
constrangidos por estarem tão próximos
um do outro.

– Renan... é... ai, acho que vocês


estavam ocupados...

– Oi, Tati, não... É que nós estávamos só


resolvendo alguns detalhes da gincana,
é... Vocês precisam falar com o Renan?
Então... é... Nós já resolvemos tudo, não
é, Renan? – perguntou Mariana meio
sem jeito.
– É... quase tudo – Renan conseguiu
disfarçar, mas não gostou da interrupção
– E aí, Joel, Tati, algum problema?

Mariana afastou-se rapidamente.

– O Roger e a Kely querem conversar


com você – informou Tatiana.

– Roger e Kely?

– Nossos amigos que darão a palestra,


lembra?

– Ih, Tati, acho que chegamos em


péssima hora, que mancada a nossa,
hein?

– Não, Joel! Está tudo certo, é que eu


estava pensando na Mari, é, quero dizer,
na gincana. É que a Mari está
organizando e...

– É, nós sabemos que a Mari está


organizando, Renan.

– É, Tati, é isso. Então, vamos lá falar


com...

A palestra foi iniciada pontualmente às


14h30. Roger e Kely contaram algumas
experiências e depois abriram espaço
para as perguntas. Durante o almoço,
uma urna foi colocada para que os
jovens tivessem total liberdade para
fazer perguntas sem se identificarem.

– Há 40 perguntas na urna. É claro que


não teremos tempo para responder
todas, a Kely vai liberar uma para
começarmos e depois selecionará
algumas porque geralmente há
semelhanças– esclareceu Roger – Ok...
Já tenho uma aqui. Vamos lá... A
pergunta é: “Devo esperar que Deus
prepare um namorado para mim?”

Roger precisou esperar alguns segundos


para responder porque houve um
alvoroço entre os jovens.

– Muito bem, muito bem... Agora acho


que já posso responder. Pessoal, sei que
essa pessoa não é a única com esse tipo
de dúvida. O quê? – Kely aproximou-se
do marido e sussurrou-lhe ao ouvido –
Ah... a minha amada esposa acabou de
me informar que já encontrou mais de 15
perguntas assim. Bem... Farei outra
pergunta: “ Deus prepara namorado ou
namorada para alguém?”

– Responda, por favor! E rápido!– pediu


uma das jovens.

– Jovens, a vontade de Deus para a vida


de cada um de vocês é sempre a melhor
e é claro que quando vocês pensam em
alguém para namorar querem uma
pessoa especial. Quando pergunto para
uma jovem como seria o namorado ideal
eu ouço: fiel, bonito, gentil,
compreensivo, que tenha carro...

Após os protestos...

– Não fiquem bravas comigo, meninas –


deu um largo sorriso – Só estou
brincando, ou não – piscou para a
esposa – Continuando... Elas querem
alguém que seja carinhoso, amigo,
inteligente, mas não muito... É sério! Já
ouvi respostas assim. S e for inteligente
demais irrita, fica chato. Pessoal,
preciso de dois voluntários. Um rapaz e
uma moça.

Vários jovens começaram a gritar : “


Mari e Renan”.

– Voluntários, pessoal! Mas... pode ser?


É a vontade do povo. Mari e Renan!

Mariana e Renan se aproximaram do


palestrante.

– Ótimo. Eu agradeço. Deus não vai


pegar o Renan e levar até a Mari e nem
vice-versa. Alguns esperam por isso?
Que Deus use um profeta e diga o nome,
CPF e endereço? – Roger fez uma pausa
porque os jovens riram descontraídos –
Já vi muita confusão por causa disso.
Vocês precisam conhecer pessoas,
conversar e interagir. Você quer o
melhor– disse ele apontando para Renan
– Você também quer o melhor – apontou
para Mari – E Deus? Muito mais. Por
que isso tudo? Porque nós cremos em
um Deus que se importa conosco.
Alguns podem até achar exagero colocar
Deus no meio disso, mas para nós não é.
Onde encontramos mais problemas? Em
relacionamentos. Por isso é de suma
importância deixar que o nosso Pai
celestial nos acompanhe nisso, mas não
espere por uma “revelação”!

– Roger, posso falar?– perguntou um


rapaz.

– É claro, jovem. Qual é a sua dúvida?

– Você falou sobre a escolha certa, mas


é complicado. Muitas vezes nós olhamos
para a aparência...

– Sabemos que o nosso coração é


enganoso, por isso precisamos ter
comunhão com Deus. Pedir orientação é
bem diferente de ficar esperando que
Deus prepare alguém.

– Eu quero falar.
– O seu nome?

– Renata. Vou dar um exemplo: O Renan


e a Mari. São filhos dedicados,
esforçados no trabalho e outras coisas
mais. Não seria um típico exemplo de
casal preparado por Deus?

Alvoroço geral. Renan precisou intervir


para restabelecer a ordem.

– O Roger precisa continuar, pessoal!

– Entendi o que a Renata quis dizer. Há


casais que parecem que foram feitos um
para o outro. Se você encontrar alguém
que tenha os mesmos ideais que você já
é um bom começo. Como nós somos
cristãos devemos tomar muito cuidado.
Uma pessoa que não crê no mesmo que
você, já é o início de um problema. E
essa é mais uma questão que muitos
estão interessados. A Kely me informou
que são mais de 10 perguntas sobre isso.
Antes de responder... Renan e Mari,
agradeço a participação de vocês. A
pergunta é: “ Posso namorar um rapaz
que não é cristão?”

– Que pergunta, hein? Até parece que


ela não sabe a resposta!– gritou um dos
rapazes.

– Pessoal, é muito importante respeitar


as dúvidas dos outros. Alguns acham
que namorar alguém não cristão é uma
excelente oportunidade para ganhar uma
alma para Cristo. Cuidado! Jovens
amados por Deus, o ideal é que seja
alguém que tenha a mesma crença. Já
existem tantas dificuldades para vocês
enfrentarem, para que arranjar mais
uma? Imaginem a confusão para decidir
sobre um lugar para passar o feriado? A
garota chega para o namorado e comenta
sobre o passeio com os jovens: “ Ih!
Programa de igreja? Para com isso!” O
rapaz crê em Jesus como Salvador e a
garota? “Você acredita mesmo nisso?
Então você acredita em papai noel, né?”
O rapaz está se esforçando dia a dia
para se santificar. Ele já decidiu esperar
para ter a primeira relação sexual após
o casamento, mas e ela? Ela acha que
isso não é importante e que a maioria da
amigas dela já perderam a virgindade. E
aí? Como ele vai vencer? Como
resistir? E isso nos leva a mais uma
pergunta: “ Meu namorado quer uma
prova de amor. É aquela prova mesmo!
O que eu faço?” Foi assim que ela
escreveu. Não vão fazer fofocas para
tentar descobrir quem é, certo?

Após a pergunta foi quase impossível


conseguir silêncio.

– Jovens, por favor, o tempo está


passando e preciso responder mais
p e r g u n t a s . Alguém está sendo
pressionado. Prova de amor? Se alguém
precisa disso é porque tem dúvidas do
que você sente ou porque é muito
espertinho. Quase sempre é a segunda
opção – os jovens riram – Se for por
dúvidas mesmo é muito simples de se
resolver. Você diz que vai dar a maior
prova de amor. Sabem qual é? Esperar.
Você espera por ele e ele espera por
você. Simples assim. Mas e se for a
segunda? É mais fácil ainda: É hora de
dar tchau! – Roger acenou– Mas alguém
pode dizer: “ Amo aquele garoto, não
vou conseguir me afastar!” Se você ama
a si mesma e ama a Jesus acima de todas
as coisas, com certeza conseguirá. Será
fácil? Não, mas você pode vencer. O
namoro não existe para você conhecer a
pessoa sexualmente. Vale a pena
esperar, jovens! Mas e se você já
adiantou as coisas? Não se desespere.
Peça perdão e siga em frente. Jovens, o
nosso tempo está acabando. Agora a
Kely vai responder a última pergunta.
Ficaram outras, mas há muitas que são
bem parecidas, então ela escolheu uma
bem diferente. Kely...

– É uma pergunta bem interessante: “ O


que devo fazer se me apaixonar por
alguém? Uma informação importante:
Somos amigos.” Aqui a pessoa foi bem
cuidadosa. Não quer se identificar
mesmo, então... sem especulações –
Kely deu um largo sorriso para os
jovens – Alguém está gostando de uma
amiga ou amigo. Que dúvida cruel:
Deixo como está ou me declaro e corro
o risco de perder um amigo? Isso pode
até acontecer, mas se o sentimento for
recíproco? Você ganha um namorado
que já é um grande amigo e isso é ótimo!
O Roger e eu éramos grande amigos e –
ela sorriu para o marido – deu tudo
certo. Nós conversávamos muito.
Gostávamos mesmo da companhia um
do outro. Dias atrás, conversei com uma
garota de 19 anos. Ela disse que estava
namorando um rapaz de 22 anos. Até aí
tudo bem. Só que ela me contou que eles
quase não conversam. Quando estão
juntos ele só quer beijá-la. Ela o
questionou e ele respondeu: “ Conversar
eu converso com a minha mãe, minha
irmã e meus amigos. Você é minha
namorada! Quero namorar.” Então, para
aquele rapaz, namorar é beijar.
Perguntei para ela se os dois já fizeram
algo mais. Ela disse que não. Mas, até
quando eles vão aguentar? Meninas, se o
rapaz não gosta de conversar com
você... Simplesmente estar junto, então
não vale a pena investir. Se o interesse
for só físico, não vai durar. E o amigo
apaixonado? A minha opinião é que vale
a pena investir em alguém que você se
dá tão bem. Alguém que você considera
como amigo. É claro que é preciso
tomar cuidado, E se ele ou ela não sentir
o mesmo? Será que a amizade vai
continuar? Se você perceber que existe
um fio de esperança, vá em frente, mas
sempre com muito cuidado. Ore... Peça
para Deus dirigir os seus passos.
Sempre gosto de falar sobre Davi, o
grande rei de Israel que conquistou
tanto! Ele tinha problemas com a vida
sentimental. Davi fala sobre tantas
coisas nos Salmos, não é? Batalhas,
perseguições, vitórias... mas e sobre a
vida sentimental? – Kely meneou a
cabeça negativamente – Ele teve vários
problemas porque não consultava a
Deus nessa área. Perguntava sobre
estratégias de guerra, mas quando era
assunto do coração... Davi tomava as
próprias decisões. Nós sabemos o
quanto o coração é enganoso. Jovens,
Deus se importa com a vida sentimental
de vocês. Nunca se esqueçam disso. O
meu querido marido disse que era a
última pergunta, mas posso responder
mais uma, rapidamente? – perguntou
Kely ao olhar esperançosa para Roger.

– Só se for rapidamente – respondeu


Roger sorrindo para a esposa.

– Certo... A pergunta é: “ Como saber se


ele é o rapaz certo?” Só darei três dicas:
Vocês gostam muito de conversar um
com o outro? O seu companheiro precisa
ser alguém com quem você ama
conversar. Segunda dica: Ele precisa ser
alguém que a respeita como pessoa. Se
não existir respeito um pelo outro, não
dá. E última dica que é a mais
importante de todas: Ele deve ser
alguém que ama a Deus sobre todas as
c o i s a s . Estou falando dos rapazes
porque a pergunta foi feita por uma
garota, mas são as mesmas dicas para
todos. É claro que eu poderia falar
outras coisas, mas preciso parar por
aqui. Agradeço a atenção de vocês e a
nossa oração é que vocês tenham
relacionamentos saudáveis e que sejam
felizes.

A gincana foi muito divertida.


Realizaram uma atividade chamada: “
Quem é o personagem”. Alguém se
caracterizava e outro tinha que adivinhar
quem era o personagem representado.
Também tiveram o “ Continue”.
Cantavam uma parte de uma música
gospel e alguém do grupo deveria
continuar. Por último fizeram a caça ao
tesouro. O grupo de Camile encontrou o
tesouro, mas o vencedor da gincana foi o
grupo que Marisa fazia parte.

– Você ganhou essa cesta cheia de


doces! Tem tanto chocolate! Quer
trocar? Eu dou o vale-presente da ALT
– disse Marisa sem tirar os olhos da
cesta da amiga.

– Não quero trocar! Mas pode ficar


sossegada que reservo uns docinhos
para você.

– Valeu, amiga!
Eram 19h quando Renan reuniu todos
para cantar “parabéns” aos
aniversariantes. Enquanto todos
saboreavam o bolo, Renan se aproximou
de Mariana.

– Gostou da palestra? Você fez alguma


pergunta?

– Gostei muito. Não tive tempo para


fazer nenhuma pergunta. Estava
organizando a gincana. E você?

–Também não – respondeu ele. Gostei


do Roger e da Kely.

– Parabéns, tudo ficou perfeito, líder!

–Todos estão de parabéns. A equipe de


organização foi show, incluindo você, é
claro. A gincana foi um sucesso.

– Obrigada, líder!

– E aí? Será que agora vai? – perguntou


Renata aproximando-se deles.

– O quê, Renata?

– Mari, depois de tudo o que foi falado


na palestra todos esperam que …

– Renata, vem comigo.

– Por que, Renan? Solta o meu braço,


estou conversando com a Mari –
desvencilhou-se do irmão.
– Está quase na hora de irmos. Preciso
que você me ajude...

–Ajudar? Tem tanta gente pra isso...

– Então eu vou com você, Renan – disse


Mariana ao segurar o braço dele.

– Já entendi, vocês querem ficar


sozinhos, né?

Quarenta e oito, quarenta e nove,


cinquenta, cinquenta e um... será que
ela já voltou? São mais de nove horas...
Cinquenta e... cinquenta e... e... droga!
Não estou conseguindo me
concentrar... Será que ela conversou
muito com o “rapaz perfeição”?
Cinquenta e... o que me interessa isso?
Se ela conversou ou...se aconteceu algo
mais... Cinquenta... cinquenta e três?
Co me ç a re i novamente... um, dois,
três...

Quando o número 87 chegou, Adriel


parou de lavar as mãos.
Capítulo 16 –
Tocando na ferida

Na casa da família Fernandes, Nicolas


estava muito cansado, bem como todos
os que foram ao passeio, mas isso não o
impediu de conversar com o tio.

– Foi muito legal, tio Hílton! Eu ia para


a piscina toda hora– disse Nicolas com
animação, apesar do cansaço.
– Então foi ótimo! Faz um tempão que
não entro em uma piscina.

– Ah, pai, se o senhor não trabalhasse


tanto! – disse Mariana bocejando.

– Quem sabe da próxima vez, filha. E a


Michelle?

– Está no portão se despedindo do


Abner.

– Portão? Por que ele não entrou? É tão


perigoso!

– Hílton, eles não entram porque aqui


tem uma multidão –explicou Lívia – E a
Ivone?
– Sua irmã já deve estar dormindo. Foi
para o quarto há mais de uma hora.

– É... já é quase meia-noite. Vamos


dormir Niki? Boa noite a todos.

– Antes de vocês chegarem eu estava


aqui sentado só pensando em levantar-
me para tomar um copo de leite, mas a
preguiça venceu! Quer me acompanhar
até a cozinha? – perguntou Hílton para a
filha.

– Quero!

– Então vamos até a cozinha antes que


eu resolva ir até o portão...
– Pai, por favor, seria muito chato.

– A sua irmã sabe o que eu penso sobre


isso. Vai um copinho de leite? – Hílton
abriu a geladeira e pegou a caixa de
leite.

– Com chocolate.

– Não atrapalha o seu sono?

– Chocolate? Não, mas eu acho que hoje


o sono fugirá de qualquer jeito! –
sentou-se em uma cadeira e esperou seu
pai encher um copo com leite e duas
colheres de achocolatado.

– Por que, Mariana?


– Ah, pai! Acho que o Renan vai... se
declarar – disse desanimada.

– E isso é ruim?

– É complicado. Não gostaria que as


coisas mudassem entre nós.

– Não há nenhuma possibilidade dele


receber uma resposta positiva? – Hílton
misturou o achocolatado com o leite e
deu o copo para a filha.

– Valeu, pai – Gosto dele, mas não é do


jeito que... Ah, o que eu faço? Ele vai
falar comigo... – tomou um grande gole
de seu achocolatado.

– Por que você está tão certa disso? –


Hílton colocou leite em um copo e
tomou um gole.

– Ele tem andado muito esquisito...

– Mudou a maneira de se vestir?

– Pai!

– Foi só para você relaxar um pouco.


Mariana, olha só como você está! Está
ansiosa, preocupada...

– Não quero que ele fale. Acho que vou


dizer isso para ele...

– Você deveria esperar. E se você


estiver enganada? Aí sim as coisas vão
s e complicar. E a sua irmã que não
entra, hein?

Naquele exato momento, Michelle e


Abner também falavam sobre Renan e
Mariana.

– Amore, você acha que aquela pergunta


foi feita pelo Renan?

– Só pode, Abner!

– A Mari ficou tão sem graça!

– Nem me fale! – Michelle aconchegou-


se nele.
– Se ele resolver abrir o coração? –
Abner acariciou os cabelos dela.

– E se você conversar com ele? Tente


descobrir se o Renan já se decidiu.

– Isso não é nada legal.

– É, né? Nada legal é você não comentar


nada sobre o seu irmão.

– Meu irmão?

– Você sabe muito bem – Michelle só


estava sondando. Não faria nenhum
comentário sobre Mariana ter saído com
Adriel porque prometera para a irmã.

– Ah... Não descobri nada, mas acho que


nós estamos viajando. O Adriel e a
Mariana saindo? Acho que não. Agora é
melhor você entrar porque está tarde e o
seu pai pode aparecer aqui e isso não
será nada legal.

Adriel não conseguiu conciliar o sono.


Levantou-se, abriu a primeira gaveta do
criado-mudo e retirou um livro de lá.
Era o exemplar de O pequeno príncipe
que Mariana o havia presenteado.
Folheou algumas páginas e pegou o
celular.
E se eu ligar para ela? Motivo?
Preciso de um motivo... Já são quase
duas horas da madrugada! Não posso
ligar. Mas... Por que quero ligar para
aquela garota? Isso é tão... E u não
ligarei! Não ligarei! Tenho que lavar
as minhas mãos...

Terça-feira às 7h30, na casa da família


Fernandes...

– Nossa, Mari! Você está com cara de


quem não dormiu muito bem.
– Não dormi mesmo, Mi – respondeu
Mariana esfregando os olhos.

– Eu dormi como um bebê – Michelle


espreguiçou-se com movimentos lentos.

– Um bebê que ronca! – pegou uma


xícara e quase a encheu de café.

– Não ronco, Mari! – protestou – Qual o


motivo da noite maldormida? – ela nem
esperou pela resposta da irmã – Já sei,
só pode ser por causa do Renan. Ai,
Mari, como você pode se preocupar
tanto com isso?

– Para você é fácil, né? Mi, me diz uma


coisa...
– O que você faz se o Renan declarar
que está completamente apaixonado?

– Não é isso e fale baixo... Se a mãe...

– Ela está costurando. Acho que


madrugou!

– Então aproveite e me conte se você


comentou com o Abner sobre... Você
sabe.

– Não comentei que você saiu com o


irmão problemático dele.

– Mi, não fale assim!

– Falei a verdade. Ele é problemático


mesmo! Se você sair novamente não sei
se vou guardar segredo – ameaçou.

Mariana fez uma careta e mordeu um


pedaço de pão com requeijão.

– A campainha está tocando... Deve ser


alguma cliente da mãe...

Michelle foi até o portão e ficou bem


surpresa ao ver Tatiana.

– Oi, Tati, veio visitar o seu salão


favorito? – perguntou ao cumprimentar a
futura cunhada com um beijo.

–Hoje não, Mi. Preciso ter uma


conversa rápida com a Mari...

–Tati? Aconteceu alguma coisa?–


perguntou Mariana ao vê-la.

– Não, fique tranquila. Só quero


conversar rapidinho com você...

– E a Sofia?

– Está com a minha mãe. Estava


pensando em colocá-la em uma
escolinha, mas a minha mãe quer cuidar
dela.

– Dá uma dó, né? Ela nem fez um aninho


ainda! Se a sua mãe quer cuidar, melhor
assim.

– Sei que ela adora ficar com a netinha,


mas não quero ocupá-la o tempo todo.
Vou conversar com o Adriel sobre meu
horário na empresa. Estou pensando em
trabalhar só na parte da manhã. Depois
posso resolver algumas coisas em casa
mesmo, pelo telefone e internet...

– Com certeza, mas o que será que ele


vai pensar disso?

– Espero que ele seja bem


compreensivo. Mari, falando nele...
Gostaria de fazer uma pergunta...

– Por que vocês duas não vão lá no


salão? – sugeriu Michelle ao perceber
que Tatiana queria privacidade – Assim
vocês não correm o risco de uma certa
senhora aparecer – disse referindo-se à
mãe.
Assim que Mariana acendeu a luz do
salão, Tatiana questionou-a.

– Mari, você e o Adriel estão saindo?

Mariana olhou para a irmã de Adriel


sem saber o que dizer.

– Mari? Fiz uma pergunta.

– É que eu não esperava que você fosse


perguntar isso.

– Pela sua reação...


– Ai, Tati, você está me colocando em
uma situação muito complicada.

–Vocês estão saindo! Ai. Meu. Deus!–


Tatiana não conseguiu esconder a
empolgação – Minha mãe vai ficar tão
feliz!

– Muita calma nessa hora, Tati. Saímos


algumas vezes, mas não é nada disso que
você está pensando.

– Meu irmão não sai com ninguém há


anos, Mari! É um verdadeiro milagre!

– Que ele não ouça. Você sabe o que ele


pensa sobre milagres, né?

– Sei, mas isso que está acontecendo


entre vocês é um milagre.

– Não há nada entre nós. Somos...


Somos... Nem sei dizer. Amigos? Não
posso dizer isso. Viu só como é
complicado?

– Mari, ele se abre com você?

– Não posso falar nada, Tati, não seria


correto. Ele... Como eu posso dizer...
Confia um pouco em mim, entende? Não
dá para explicar direito, mas pedi a
Deus uma oportunidade para ajudar o
seu irmão.

– E você está conseguindo, Mari, pode


ter certeza disso.
– Você não pode comentar com a sua
mãe. Sei que ela ficaria muito feliz, mas
qual seria a reação dele? Nem comente
com seu irmão, por favor!

– Ele está desconfiado. A Mi também


está...

– Agora ela já sabe, mas não comente


isso com o Abner também, tá?

– Não sei como vou fazer isso, mas


pode ficar tranquila. Ai, Mari, já
imaginou você e o Dri namorando?
Seria maravilhoso ter você como
cunhada! – Tatiana deu um largo sorriso.

– Cunhada? Você está delirando. O seu


irmão não quer se envolver com
ninguém.

– Você pode fazê-lo mudar de ideia.

– Ah, tá!

– Pode acontecer um milagre.

– E quem disse que eu quero? Ah, por


favor, Tati! A minha intenção é ajudá-lo,
só isso.

– Sei... A sua boca está dizendo isso,


mas os seus olhos...

Tatiana deixou a amiga poucos minutos


depois. Estava radiante com a novidade,
mas sabia que teria que guardar segredo.
Uma hora depois, Mariana recebeu uma
ligação de Adriel.

– Estou aguardando o motivo – disse ela


após perguntar várias vezes o motivo
daquela ligação.

– Só gostaria de saber se...

– Quer me ver?

– Não... É que... Por que você faz essas


perguntas?

– É tão difícil assim? É só dizer que


quer me ver. Diga.

– Não quero vê-la.

– Então tudo bem. Vou desligar...

– Não desligue. É que ontem foi segunda


e... Não sei se...

– Ah, que fofo! O feriado caiu no meu


dia de folga... Que chato, né? Mas...

– Às quatro horas no estacionamento da


Pan Leon.

– Quatro horas? Em plena terça-feira,


empresário? Quem pode, pode.

– É você quem tem o dia inteiro de folga


às segundas e...

– Eu mereço, afinal trabalho de terça a


sábado. E trabalho muito! Se
dependesse das clientes trabalharia
domingos, feriados... E não é bem um
dia inteiro de folga. Organizo o salão e
faço compras quando necessário. Então,
o senhor Adriel quer me ver... Que
legal! Também quero vê-lo – disse sem
cerimônia.

– Como você gosta de brincar!

– Não estou brincando. Quero mesmo


vê-lo. Tenho tantas coisas para contar!
O passeio foi tão legal e...

– Não sei se quero saber sobre o


passeio.

– Depois você decide.

– Eu... Tenho que desligar. Até mais


tarde, Mariana.

– Adriel?

– O quê?

– Gosto tanto quando você diz o meu


nome! Já comentei o quanto gosto da sua
voz? Ela é tão...

– Preciso desligar agora, garota.

– Só pra contrariar, né? Garoto!


– Garota atrevida.

Adriel foi ao lavabo, sentou-se em sua


cadeira novamente após vinte minutos;
apertou o botão do interfone e chamou a
sua secretária.

– Lívia, hoje só o que for prioridade.


Sairei às 13h e não voltarei mais –
anunciou assim que ela entrou em sua
sala.

– Sério? Só temos coisas importantes


para resolver. Um montão delas!

– Então só resolverei o que for urgente!


Você sabe distinguir.

– Será complicado. Você poderia ter


dito isso antes.

_Antes quando, Lívia? Gostaria de


receber uma ligação minha para estragar
o seu feriado?

– Ninguém merece receber uma ligação


do patrão em pleno feriado! É que já são
quase 10h... Por que não me avisou
assim que eu cheguei?

– Agora você quer controlar os meus


horários?
– Não é isso, Adriel. Eu só...

– Você está perdendo tempo. Por isso


que detesto feriados. As pessoas gastam
muita energia em suas horas de lazer e
depois não sobra nada para o trabalho.

– Não generalize. Farei uma verificação


rápida e voltarei aqui com o que for
ur gente. Não precisa ficar irritado.
Comece a semana com um sorriso e não
com uma carranca.

– Carranca? – franziu as sobrancelhas –


Como você se atreve? Já deu para
perceber que isso vem de família.

– De família? Não mesmo! A sua irmã e


o se irmão são bem simpáticos e
sorridentes. Ah... e a sua mãe é um amor
de pessoa.

– Estava me referindo à sua família!


Sobre o seu atrevimento.... Entendeu
agora? – perguntou irritado.

– Mais ou menos. Não sei como você


pode dizer isso da minha família. Você
acha que eu sou atrevida? E quem mais
ganhou o título em minha família?

– Acho? Você é atrevida. Lívia, vamos


trabalhar?

Ouviram três batidas à porta. Era


Tatiana.
– Bom dia, Lívia, bom dia, Dri! Estou
atrapalhando? Preciso conversar com
você um minutinho, Dri.

– É urgente?

– Por quê?

– Porque estou sem tempo.

– Que jeito de receber a sua maninha!

– Sem dramas, Tati. Lívia...

– Verificarei as urgências de hoje e


voltarei em seguida...
– Tudo bem, Lívia, mas não demore. E
então, Tati, o que você deseja?

– Acho que é melhor deixar para


amanhã.

– Pode falar. Tenho tempo até que a


Lívia entre novamente por aquela porta.

– Preciso que você esteja de bom


humor...

– O que foi? Algum problema?

– Não é um problema, pelo menos para


mim. Espero que para você também não
seja. Dri, a mãe quer continuar cuidando
da Sofia e eu não quero ocupá-la o dia
inteiro...
– Ah, por favor, Tati, não é assunto...

– E também não quero colocar a Sofia


em uma escolinha; ela ainda é tão
pequena! Então... Quero que você
compreenda e concorde que eu trabalhe
aqui só no período da manhã.

– Ah, agora entendi... Tati, preciso que


esteja aqui para... Você sabe que não
gosto de tratar diretamente com certas
pessoas. O Abner cuida da publicidade
e reconheço que ele trabalha bem, mas
ele não tem tato para resolver...

– Eu sei. Estarei aqui quando você


precisar. Se for necessário marcar
alguma reunião, é só me avisar.
– Acho que seria melhor você trabalhar
à tarde. É que às vezes preciso sair mais
cedo e...

– É mesmo? E por quê?

– Por quê?

– Um segredo? Ah... Será que tem a ver


com o que o Abner comentou outro dia?
Ele disse que você tinha um encontro.
Dri, você está apaixonado? – estava
com os olhos fixos nele pois não queria
perder a reação do irmão.

– O quê?

– Apaixonado. Pode se abrir comigo,


Dri.
– Não estou apaixonado e nunca estarei!
Assunto encerrado! – Adriel abriu uma
gaveta e a fechou em seguida sem retirar
ou colocar nada nela.

– Nunca é tempo demais, Dri.

– Nunca é nunca! – abriu e fechou a


gaveta novamente.

– Seria maravilhoso se você encontrasse


alguém e...

Agora Adriel abria e fechava a gaveta


sem parar.

– Não precisa ficar nervoso. Falo isso


porque me preocupo com você. Dri,
viver sem amor é...
– Chega, Tati! E a Lívia? Desse jeito
não farei nada hoje. Preciso lavar as
minhas mãos...

Lívia deu duas batidas à porta e entrou.


Adriel continuou o seu caminho até o
lavabo sem olhar para trás.

– Dri, a Lívia está aqui. Concordo sobre


trabalhar à tarde, tá?

Ele entrou no lavabo e só saiu de lá


trinta minutos depois.

Lívia só voltou à sala dele quando foi


chamada. Trabalharam até as 13h.
– Por hoje é só, Lívia.

– Ficaram tantas pendências...

– Tem algumas que a Tati pode resolver,


as outras ficarão para amanhã. Agora
preciso sair. Tenho que me preparar...

Adriel disse as últimas palavras quase


sussurrando.

– Preparar...

– Não é nada, Lívia. Não estava falando


com você.

– Ah, então... até amanhã.


Marisa, Camile e Lívia saíram juntas
para o almoço.

– É tão bom saber que o patrão não


volta mais hoje! Sinto-me livre!

– É, Marisa, mas temos muito trabalho.

– Eu sei, Lívia, mas só de pensar que


teremos paz e tranquilidade...

– Como você é exagerada, Marisa, ele


não incomoda tanto assim! – disse
Camile.

– Não é claro que não. Só fico uma pilha


de nervos quando ele se aproxima.

– E se enche de chocolate! Bela


desculpa.

– Não é desculpa, Camile. Tem gente


aqui que enche a cara de café, né, Lívia?

– Café? Quem? Eu? – sorriu – Hoje ele


estava tão inconstante...

– Qual é a novidade, Lívia?

– O humor dele estava oscilando muito,


Marisa. Às vezes ele parecia ansioso
por algo e outras vezes temeroso, não
sei se vocês estão entendendo. Ele olhou
para o relógio tantas vezes!

– O que será, hein? Por que ele não


volta mais hoje?

– Ele deve ter um encontro. Está


namorando...

– Posso rir agora, Camile? Que pérola é


essa? O nosso patrão namorando? Quem
seria a louca?

– Ai, Marisa, ele é um homem muito


bonito e...

– Camile! Muito bonito e maluco, né?


Lívia, diz pra ela que ninguém...
– Ela pode ter razão, Marisa – disse
Lívia pensativa.

– Até você, Lívia? Se isso fosse


possível eu teria muita pena da mulher.
Ninguém merece! Imagine só... Ela seria
criticada o tempo todo. Coitada! Já
imaginou aguentar aquele estressado
cheio de manias?

– Meninas, que tal almoçarmos logo? Há


muito trabalho nos esperando – disse
Lívia encerrando o assunto.

Adriel chegou em seu apartamento às


13h25; tomou um banho bem demorado e
almoçou. Pegou o celular e o desligou.
Foi até o quarto, escolheu uma roupa
social e vestiu-se. Ficou se olhando no
espelho por alguns segundos e resolveu
trocar de roupa. Vestiu-se mais duas
vezes e não gostou do resultado. Tomou
outro banho. Verificou o horário: eram
15h25.

Mariana ligou para o celular de Adriel


várias vezes, mas foi em vão. Queria
avisá-lo que se atrasaria, mas respirou
aliviada ao notar que ele estava
entrando no estacionamento da Pan Leon
naquele exato momento. Eram 16h25.
– Oi, você chegou agora, né? –
perguntou ela ao aproximar-se do carro.

– Você está atrasada.

– Você também.

– Eu tive alguns problemas com... Entre


logo no carro.

– Tudo bem. Será que hoje posso ter a


honra de sentar-me ao seu lado?

– É claro que não. Entre logo, Mariana!

– Calma! Nossa... que roupa é essa?


Jeans e camisa polo? É a primeira vez
que o vejo assim! Amei! – disse ela ao
acomodar-se no banco de trás e
observá-lo atentamente.

Adriel vestia jeans escuro e camiseta


polo com listra azuis e brancas.

– Garota, se não tem coisa melhor para


falar...

– É só um elogio! Está com vergonha?


Ai, que bonitinho, ele está com
vergonha!

– Pare com isso.

– Você bem que podia ter me avisado.


Eu poderia ter vindo com um jeans e
uma camiseta básica – Mariana
esbanjava elegância em seu vestido
tubinho rosa, decote canoa e
comprimento médio – Não vamos ao
Três Ésses?

– Hoje não. Decepcionada?

– Não. Curiosa!

– Não precisa ficar, é você quem


escolherá o lugar.

– É mesmo? Não sei se é uma boa ideia.


Você não vai querer comer nada e isso é
muito chato.

– Chato é você chegar sempre atrasada.

– Chegamos juntos. E eu tentei falar com


você. Liguei para o seu celular...

– Desliguei meu celular.

– Não acredito! Não se desliga o celular


quando se tem um compromisso. Por que
você fez isso?

– Não queria que você desmarcasse –


disse ele com os olhos fixos no volante.

O coração de Mariana disparou.


Observava-o sem acreditar no que
acabara de ouvir.

– Porque gosto que cumprem com o


compromisso, é isso – acrescentou antes
que ela fizesse algum comentário.
– Você morre se reconhecer que queria
me ver?

– Dá para você decidir? Aonde vamos?

– Preciso falar... Você está muito fofo


hoje! Chegou atrasado, com calça jeans
e camiseta polo, quer que eu escolha um
lugar e estava ansioso para me ver!

– Ansioso para vê-la? De onde você


tirou isso?

– Você desligou o celular porque não


queria correr o risco de...

– Se você continuar enrolando não


iremos...
– Shopping.

– Não.

– Você disse que eu...

– Ah... Está bem – Adriel respirou


fundo.

– Pelo dia e horário deve estar bem


tranquilo. Quero comer pizza.

– Certo. Esqueci de um detalhe... Você


veio como? O seu carro...

– Liguei para o seu celular justamente


para dizer que você deveria me buscar!

– Ônibus? Você pegou um ônibus


lotado? – Adriel fez “aquela cara de
nojo”.

– Está preocupado agora? Da próxima


vez não desligue o celular – Adriel
gostou de ouvir “próxima vez”, mas não
admitiria – Peguei carona com uma
vizinha, a Jussara, ela é cliente do
Mimãs e às vezes vem até a Pan Leon...
Ela ama os bolos daqui! Até pensei em
vir com o meu carro, mas...

– Tudo bem, já entendi. E então, como


foi o passeio?

– Foi ótimo. Muita diversão para todos


e tivemos uma palestra abençoada. O
vale-presente da ALT foi um sucesso.
– Ideia da Tati. Não tive nada a ver com
isso.

– Ainda bem, porque se fosse ideia sua


eu teria que dar um beijo em você – ela
brincou e ele fez que nem ouviu.

– E o “rapaz perfeição”? Deu para


aprovei tar as horas que passaram
juntos?

– O Renan é o líder de jovens, ele tem


muitas coisas para resolver. Não era um
encontro romântico.

– Mas vocês devem ter conversado um


pouco.

– Curioso! E como foi o seu final de


semana?

_Já comentei que detesto feriados. Meu


final de semana foi péssimo.

– Quem mandou recusar o convite? Você


seria o palestrante!

– Você não respondeu se conversou


com...

– Já que você quer saber... Ele sentou-se


ao meu lado no ônibus. Ah... quando
saio com o Renan não tem isso de sentar
no banco de trás, ouviu?

– É claro... Ele sempre quer ficar bem


pertinho da amada. Quando é que vocês
assumirão o namoro?
– Isso não é da sua conta.

– Ficou brava? Qual é o motivo? Não


quer namorar o “ rapaz perfeição” ?
Seria o namoro perfeito!

– Adriel, você quer que eu dirija? Não


sei que caminho você... Para qual
shopping estamos indo, hein?

– Sabe quando você vai dirigir meu


carro? Nunca! Você disse que queria ir
ao shopping, mas não especificou
nenhum.

– Precisa explicar tudo? Vamos ao...

Mariana deu o nome de três shoppings.


Adriel discordou. Ela mencionou mais
dois e ele concordou com o último nome
citado, mas mesmo assim ainda estava
relutante.

– E a palestra?

– Você não vai querer saber.

– Foi tão ruim assim?

– Foi ótima. É que você não vai gostar


de ouvir sobre namoro, como escolher a
pessoa certa, se vale a pena se declarar
a um amigo e arriscar...

– Falaram sobre essas coisas? Que


chatice! Mas fiquei interessado em
uma...
– É mesmo?

– Sobre se declarar a um amigo. E aí?

– E aí? Não tenho nada para dizer.


Adriel, se você tivesse virado à
esquerda...

– Não dê palpites enquanto dirijo.

– Você está indo pelo caminho mais


longo.

– Não tem problema. Quanto mais


demorar para chegar ao shopping,
melhor. E então? Fale sobre amigos que
declaram o seu amor...

– Não vou falar.


– Deu para perceber que esse assunto
não a agrada. Você não quer que o “
rapaz perfeição “ se declare?

– Já disse que não vou falar sobre isso.


Nossa, você deveria ter entrado...

– Eu faço o caminho que...

– Então tá... faça o caminho que quiser –


deu de ombros.

Adriel estacionou o carro dez minutos


depois.

– Viu só? Chegamos bem rápido. Você


não conhecia esse caminho, não é?
– Não vou responder.

– Orgulhosa.

Mariana saiu do carro e ficou esperando


por ele.

– É pra hoje ou pra amanhã?

– O quê?

– Você não vai sair do carro?

– Eu... eu... acho que sim – Adriel


olhava para todos os lados. Estava
muito ansioso.

– Acha?
– Eu... eu... Não posso.

– Não pode? Como assim? Adriel...

– Não consigo sair – começou a esfregar


as mãos.

– Não consegue? Como não consegue? É


só tirar o cinto, abrir a porta e sair.
Simples assim!

– Não é nada simples. Pelo menos para


mim.

– Ah... E o que posso fazer para ajudá-


lo?

– Entre no carro.
– Tudo bem... – Mariana sentou-se no
banco de trás – E agora?

– Vamos embora daqui.

– Embora? Adriel, você precisa vencer


esse medo. Acho que a melhor maneira é
enfrentá-lo.

– Não posso.

– Pode sim. Diz uma coisa... Como você


faz para comprar as suas... roupas, por
exemplo.

– Roupas?

– É... roupas. Você não vai às compras?


– Não. Ultimamente, não. Minha mãe e a
Tati fazem isso para mim.

– Sério? Isso deve ser complicado...


Você é tão chato!

– Obrigado.

– É verdade. Imagino as duas chegando


com várias sacolas e você fazendo
careta para cada roupa que elas
compraram.

– Aí que você se engana. Elas acertam


quase sempre. Bom... pelo menos agora.
No início era um pouco complicado.

– Um pouco? Explique melhor... Elas


escolhem, levam para você e...
– E se eu não gostar de alguma ou não
servir, elas trocam.

– Ah... agora fiquei mais curiosa. Você é


tão cheio de...

– Cheio de...

– Coisinha – gesticulou com as mãos.

– Coisinha?

– É, para não dizer... deixa pra lá. Você


experimenta as roupas? Elas estão
expostas nas lojas e...

– Só depois de lavá-las.

– Ah, só que depois não dá para trocar


mais.

– Como você é curiosa! Só mando lavar


aquelas que eu gostar. Se mesmo assim
eu descartar alguma peça vai para
doação ou às vezes o Abner...

– Que trabalheira! Você topa fazer uma


coisa? Enfrente o seu medo, desça do
carro e entre comigo no shopping. Hoje
você vai comprar... uma camisa. Que
tal?

– Não.

– Você precisa tentar. Há quanto tempo


você não compra a sua própria roupa?

– Desde... é... desde que...


Adriel recomeçou a esfregar as mãos.

– Desde a morte do seu pai?

Ele assentiu.

– Adriel, tudo bem, vamos sair daqui.


Pode parar de esfregar as mãos.

– Hã?

– Pare de esfregar as mãos. Dirija.

Ele olhou para as próprias mãos e parou


de esfregá-las.

– Quer ir ao Três Ésses? – ela


perguntou.
– Não. Pode ser uma pizzaria.

– Tem uma pizzaria que eu conheço que


não é longe daqui. É um lugar bem legal.
Fui uma vez para comemorar o
aniversário da tia Lívia. Ela sempre
dizia que morria de vontade de comer a
pizza de lá. Então reunimos nossa
família para comemorar.

– A família toda?

– Meus pais, a tia Lívia, o Niki, a Mi e


eu. A minha irmã e o Abner nem
namoravam ainda – explicou Mariana –
A pizza é deliciosa...

– Certo. Podemos ir agora...


– Vou ensinar o caminho.

– Conheço bem a região, é só dizer o


nome...

– Pensei que você só conhecesse o Três


Ésses e a Pan Leon.

Adriel conhecia o lugar.

– Então você e a Renata já estiveram


aqui? Que legal! Vocês inauguraram a
pizzaria!

– Como você é irônica!


Mariana pediu uma pizza brotinho de
lombinho com requeijão cremoso e
refrigerante de limão. Adriel só quis um
suco de uva. Resolveu tomar o suco só
porque era a mesma marca que ele
sempre comprava.

– A pizza está deliciosa! Tem certeza


que não quer?

– Quantas vezes você fará a mesma


pergunta? – perguntou irritado, Mariana
deu de ombros e mordeu mais um
pedaço de sua pizza – E o livro? As
suas... alunas estão gostando?

– Algumas sim outras acham meio


estranho. Dizem que não dá para
entender nada, mas todas gostam da
minha parte favorita.

– Qual?

–Você sabe muito bem.

– Cativar?

– “... se tu me cativas, nós teremos


necessidade um do outro. Serás para
mim único no mundo. E eu serei para ti
única no mundo.”

– Você decorou?

– Li inúmeras vezes. Lembra quando a


raposa fala sobre o horário? Ela diz
para o principezinho visitá-la sempre no
mesmo horário porque assim uma hora
antes ela ficaria na maior ansiedade.
Acho tão lindo quando ela diz: “ se tu
vens a qualquer momento, nunca saberei
a hora de preparar o coração...”

– Que bobagem!

– Não é mesmo. Esperar por alguém é...

– Cansativo, muito cansativo – disse ele


em voz monótona.

– Você não captou nada.

– Nem quero. E a câimbra voltou?

– Não. Foi uma pena não participar da


coreografia ontem. Eu amo o louvor... “
Reina em mim com o seu poder, sobre a
escuridão sobre os sonhos meus, Tu és o
Senhor de tudo o que sou, vem reinar em
mim Senhor...” ¹

– Não vim aqui para ouvi-la cantar.

– Sei que não sou uma excelente cantora,


mas sou afinada, disso eu sei. Adriel,
você não gosta de cantar? Você canta
quando está sozinho?

– É claro que não.

– Não? Como isso é possível? Eu canto.

– Bom para você.


– Bom mesmo! Adriel, louvar faz um
bem enorme. Você deveria
experimentar. Dá um alívio... Traz paz,
alegria...

– Não estou interessado.

– E nós estamos aqui para isso. Fomos


criados para louvar a Deus. Quando
canto de todo o coração: “ Reina em
mim com seu poder”, estou
reconhecendo a grandeza de Deus. Não
são meras palavras. Estou dizendo que
quero que Ele reine sobre a minha vida,
meus objetivos, sonhos... – Mariana
olhou fixamente para ele – Adriel,
precisamos disso para viver. Há tantas
coisas sem sentido, tantos problemas,
injustiças, mas quando me coloco diante
de Deus com o coração sincero e o
louvo, tudo muda e...

– Hoje você resolveu filosofar. Se eu


soubesse disso não teria marcado nada.

– Como você é insensível!

– É isso mesmo, sou insensível e é


melhor assim.

– Na verdade não. Você coloca uma


má s c a r a para ninguém incomodá-lo.
Tem medo de demonstrar a sua
sensibilidade.

– Nossa! Agora você viajou.

– Você tem medo de se envolver com as


pessoas, tem medo até de ter comunhão
com Deus porque sabe que quem se
aproxima mais dele acaba se
aproximando das pessoas também.

– Pare com isso, Mariana!

– Você tem medo de perder, por isso


não quer ganhar a amizade das pessoas,
o carinho, o amor...

– Já falei para você parar – disse ele


esfregando as mãos com força.

– Não aguenta ouvir a verdade? Adriel,


você não pode fugir da vida. Pare de
esfregar as mãos desse jeito! Vai feri-
las assim!
– O quê? Eu... Eu preciso lavar as
minhas mãos. Eu preciso...

Adriel levantou-se e foi ao toalete.

Será que exagerei? Mas é verdade. E


se acontecer alguma coisa? Se ele
passar mal?

Mariana ficou aliviada ao ver Adriel se


aproximar. Estranhou por ele ter
retornado tão rápido. Ela não podia
imaginar que ele só chegou próximo à
porta do toalete, mas não teve coragem
de entrar.

Ele pagou a conta, levantou-se e sem


dizer nada andou em direção à saída.
Mariana o seguiu. Adriel entrou no carro
e ela fez o mesmo. Ele higienizou as
mãos com álcool em gel antes de tocar
no volante. Após saírem do
estacionamento da pizzaria, ela resolveu
quebrar o silêncio.

– Adriel, me desculpe, eu...

– Desculpas não são necessárias, só


peço que não fale mais nada hoje.

Ela só abriu a boca novamente para dar


boa noite.
Capítulo 17 – Ele
precisa de você

No dia seguinte, Mariana entrou na


cozinha arrastando os pés e com os
olhos semiabertos. Lívia estava próxima
à mesa, entrara na casa da irmã para
tomar uma xícara de café enquanto o
filho terminava de se arrumar para ir à
escola.

– Nossa, Mari, que cara é essa?


– Não dormi direito, tia. Você está
atrasada ou é impressão minha?

– Estou! Chamei o Niki tantas vezes!


Pior é que precisei dispensar a van
porque ele ainda estava tomando banho!
Ainda tenho que levá-lo para a escola...

– Se quiser posso levá-lo.

– Você faria isso por mim? – Lívia


pegou uma xícara e colocou uma
quantidade generosa de café.

– É claro, tia!

– Então vou avisar o Niki e depois irei


ao encontro do meu querido patrão.
Espero que ele esteja de bom humor
hoje.

– Não conte com isso.

– Por que você está falando assim? Ai,


Mari, nem perguntei por que você não
dormiu...

– Fiquei pensando muito.

– Em quem? No Renan? A Mi comentou


que você está preocupada. Mari, se ele
falar que está apaixonado é só...

– Tia, é melhor você ir. A probabilidade


do seu patrão estar de péssimo humor é
grande!

– Está sabendo de alguma coisa que eu


não sei?

– Deixa pra lá, tia.

– Ah, Mari! Pensei uma coisa agora...


Você mandou algum presentinho para o
Adriel? – Ai – disse ao tomar um gole
de café.

– Não.Você vai chegar muito atrasada...

– Você está certa, mas não pense que


vou esquecer... À noite quero
explicações – Lívia olhou para a xícara
– Está tão quente! Queimei a língua...
ALT & Filhos...

– Camile, daqui a pouco eu volto! –


Marisa insistia com a amiga há dez
minutos.

– Marisa, não seja covarde!

– E se ele quiser saber o motivo da


Lívia não estar aqui ainda?

– Você diz que não sabe. Simples assim!

– Você acha simples? Então posso dar


uma volta... Preciso comprar um
chocolate...

– Você já ligou para a Lívia?

– Eu não!

– Então ligue.

– Ai, a porta dele... Ai, ele está abrindo


a porta – sussurrou Marisa.

– Não está.

– Está sim. Vou comprar


chocolate...Quer um café? Eu pago.

– Que gentileza! Não quero e você não


vai sair daqui.
– A porta...

– Pare de olhar para aquela porta!

– Preciso me distrair... Converse


comigo.

– Ai, Marisa, você tem cada uma!

– Estou falando sério. Ai, Camile, agora


a porta está ... É ele!

Adriel saiu da sala e foi direto para a


mesa de Marisa.
– O que está acontecendo aqui? Onde
está a Lívia?

– Não sei.

– Ela não chegou, senhor Adriel –


Camile resolveu responder porque
percebeu que a amiga estava tremendo.

– Já são...

Lívia apareceu antes que ele


completasse a frase.

– Bom dia! Peço desculpas pelo atraso.


Tive um probleminha com...

– Não quero saber do seu problema.


Temos vários para resolver aqui. Será
que podemos trabalhar? Mas... o
problema não foi com o seu carro novo,
não é?

– Não. É que...

– Certo, era só isso o que eu precisava


saber. Vamos trabalhar, Lívia.

Michelle estava preocupada com a irmã.


Mariana sempre trabalhava falando sem
parar ou cantando e naquela manhã ela
simplesmente só abria a boca para
responder monossílabos.
– Ma r i , o que está acontecendo? –
perguntou durante o almoço.

– Nada, Mi. Só não estou com vontade


de conversar.

– Você? Ah, Mari, fala logo! Já sei,


você saiu com o Adriel ontem. O que ele
aprontou?

– Nada, Mi. Ele não fez nada. Eu é que


falei umas coisas e ele não gostou.

– Sabia! Eu avisei que isso não ia dar


certo. Você é muito sincera, Mari.

– Então eu deveria ser falsa? – olhou


para os lados para certificar-se que a
mãe ainda estava em sua sala de costura.
– Não é isso, é que tem certas coisas
que não se deve falar. Afaste-se dele,
por favor, antes que você se machuque
pra valer. Não sei como o Adriel sai
com você. Sinceramente eu não entendo.
Vocês são tão diferentes! Minha
irmãzinha linda, não pense que vai
conseguir mudá-lo...

– Valeu – disse desanimada.

– Não quero que aquele esquisito a faça


sofrer.

– Não o chame assim, Mi, por favor.

– Tudo bem, mas pare de sair com ele,


senão eu conto pra mãe! Ela não vai
gostar nada. Ela pensa que você está
saindo com o Renan – abaixou a voz.

– O quê?

– É. Ela comentou comigo e eu fiquei


quieta, mas isso não está certo. Ela acha
que vocês estão quase se entendendo.

– Ai, só faltava essa!

– Dê uma chance ao Renan. Ele é


perfeito para você.

– Até você, Mi? Não existe isso de


perfeito.

– Mari, acho que o nome de vocês está


na lista de Deus – brincou a irmã.
– Que lista? Não acredito que ouvi isso
de você! – meneou a cabeça.

– A lista de futuros pares.

– Futuros pares?

– Futuros pombinhos?

– Só está piorando!– disse Mariana


sorrindo para a irmã.

– Pelo menos você está mais animada


agora – constatou.
Mais tarde na ALT & Filhos...

– Dá para você falar mais devagar? –


pediu Lívia ao seu impaciente patrão.

– Estou quase soletrando!

– Não mesmo! Não peguei aquela parte


sobre cotas e...

– Qual é a parte você pegou então? –


perguntou irritado– Hoje o dia está
improdutivo. Por que saí de casa hoje?
São quase três horas e o que nós
fizemos? Nada.
– Sei que me atrasei um pouco, mas não
é por minha culpa que as coisas não
estão andando por aqui. Você está muito
impaciente hoje, mais do que nos outros
dias. E não está se concentrando no
trabalho. Parece que está bem distante
daqui...

– É mesmo? E o que mais, hein? –


encarou-a – É só aqui que acontece isso!
Não existe secretária mais atrevida do
que você, Lívia!

– E não existe patrão... Esqueça. Vamos


continuar com o trabalho?

– Não vai falar? Perdeu a coragem? As


mulheres da sua família...
– O que tem as mulheres da minha
família?

– Quer mesmo saber? Falam demais, são


atrevidas e...

– Tem mais? Adriel, seja claro. De


quem exatamente você está falando?

– Quer saber? Vou embora.

– Perdeu a coragem? Estava falando


tanto e de repente...

Adriel levantou-se, pegou sua pasta que


estava em cima da mesa e dirigiu-se até
a porta.

– Você vai mesmo?


Lívia não obteve resposta.

Mimãs...

– Laila, estava com tanta saudade! –


Mariana abraçou e beijou a menina.

– Também, Mari! Por incrível que


pareça, a minha mãe deixou que eu
viesse aqui hoje.

– Aleluia! Como você está?


– Estou bem. Adivinha? Vou participar
da sua aula amanhã!

– Que legal, Laila! Como a sua mãe


mudou!

– Depois que aquele homem


desapareceu, ela virou outra pessoa.

– Desapareceu?

– Comentei sobre o trabalho dele...

– Ajudante de caminhoneiro, né?

– É. Há dias que ele não aparece e nem


liga. Acho que ele arrumou outra, mas
não falei isso para minha mãe.
– Não fale mesmo.

– Ela está conversando comigo. Antes


só falava quando era pra dar bronca.

– Que maravilha, Laila! Que aquele cara


não apareça nunca mais. Não desejo o
mal para ele, só espero que ele tenha
arrumado outra, como você mesma
disse.

– Eu também espero. Sábado a minha


mãe até me levou para visitar a minha
vó! Ela só não ficou lá. Voltou para me
buscar domingo à tarde.

– Como isso me deixa feliz! Quer tomar


café da tarde comigo? Estou com uma
fome! A minha mãe fez bolo de cenoura
com cobertura de chocolate!

Na casa da família Alvarez...

– Que surpresa boa, querido!

– Oi, mamãe, já tomou o café da tarde?


Trouxe algumas coisas da Pan Leon...

– Só tomei um cafezinho que … fiz há


poucos minutos. Até parece que estava
adivinhando... Que cheirinho delicioso
de pão fresquinho! – Tereza pegou o
pacote das mãos de seu filho– Saiu mais
cedo da empresa e passou na Pan Leon!

– Por que saí de casa hoje? Foi um dia


totalmente perdido.

– Qual o problema, querido?

– Vou lavar as minhas mãos...

Tereza organizou a mesa enquanto o


filho dedicava alguns minutos a lavar as
mãos.

– E então, querido, o que aconteceu?


Enquanto tomamos o café você vai me
contar tudo. Algum problema na
empresa?
– Sabe aqueles dias em que tudo parece
dar errado? Pois hoje foi um dia que...

– Ah, querido, sabe do que você


precisa?

– Não quero saber.

– Adriel, vou falar mesmo assim. Você


precisa de alguém...

– Não, por favor.

– Precisa sim. Estou orando para que


alguém muito especial entre em sua vida
e...

– Pode parar com as orações.


– Por que já apareceu essa pessoa?

– Não, é claro que não! Não quero que


pareça ninguém.

– Não, não e não! Quantos nãos! Diga


sim, meu filho.

– Tudo bem, pode continuar com as


orações. Não fará a menor diferença
mesmo! Até parece que Deus interfere
nessas coisas...

– Deus se importa com você e Ele sabe


melhor do que qualquer um o quanto
você precisa de alguém que...

– Se a senhora continuar com...


– Já parei. Vamos saborear os
pãezinhos?

Mais tarde, na casa da família


Fernandes...

– Está de saída, Mari? – perguntou Lívia


ao entrar no quarto da sobrinha e vê-la
com uma grande bolsa pendurada no
braço.

–Tenho uma cliente domiciliar às 19h,


tia.
– Que chique! Preciso falar você.

– Depois, tia Lívia...

– Faltam trinta minutos, Mari!

– Vou pegar trânsito e...

– Só quero fazer uma pergunta.

– Pode fazer.

– Você mandou mais algum presentinho


para o Adriel?

– Não.

– Mari!
– É verdade, tia. O livro foi o último.
Por quê?

– Ele estava insuportável hoje.

– Isso é alguma novidade? Você sempre


diz que ele...

– Ontem ele estava ansioso, hoje ele


estava insuportável. Tudo o irritava.
Tive a impressão que ele esperava por
algo e se decepcionou. Você tem alguma
coisa a ver com isso? – olhou fixamente
para a sobrinha.

– Preciso ir.

– Não fuja, Mari!


– Minha cliente dorme cedo, tia. Às 20h
já está na cama. Ela tem 84 anos! Posso
ir agora?

– Ela vai arrumar os cabelos para


dormir?

– Dona Clara gosta muito de conversar.


Acho que ela só me chama para bater um
papinho básico.

– Sei. Você tem uma cliente mesmo,


Mari?

– É claro, tia! Beijo, preciso ir.

– A nossa conversa não terminou...


Tereza ficou muito feliz por passar um
tempo com o filho. Só lamentou por não
conseguir entrar mais no assunto sobre
uma pessoa especial para ele. Tentou
por duas vezes, mas desistiu para não
irritá-lo.

Adriel chegou ao apartamento às 19h30.


Cinco minutos depois pegou o celular e
fez a ligação que desejava fazer desde
que saíra da empresa.

– Oi, Adriel. Estou na casa de uma


cliente.

– Então eu estou... atrapalhando.


– Estou quase terminando e...

– Ligarei depois.

– Dez minutos.

– Era o seu namorado? – perguntou dona


Clarice com interesse.

– Não, ele é um... amigo, eu acho.

– Ah... Entendi. O amor é tão lindo!

– Não. Eu não...

– Apesar da idade eu enxergo bem, viu?


– Hã?

– É isso mesmo. A sua boca disse que


não, mas os seus olhinhos...

– Ah, dona Clarice!

– Quando quiser mentir combine com os


seus olhos antes.

– Eu não menti.

– Então você está confusa.

– Confusa? É... acho que sim.

– Não perca tempo, menina. Ligue para


ele. Para que deixar o moço esperando?
Ele deve estar contando os segundos!
– Não mesmo.

– Que rapaz não estaria contando os


segundos para falar com você? Você é
um doce.

– Acho que ele gosta de sal.

– Ligue logo!

– Depois...

– Ligue agora. Vai deixar para fazer isso


no carro? É perigoso. Se estiver sem
crédito, pode usar o meu telefone.

– Obrigada, dona Clarice, mas tenho


crédito sim. Coloquei ontem. Vou ligar.
– Isso. Enquanto você fala com o seu
amado, vou preparar um suco de acerola
com laranja.

– Não precisa se incomodar e ele não é


o meu amado.

– Ligue logo para o rapaz!

– Oi, pode falar agora.

– Eu... Eu só liguei porque... Nem sei o


que dizer...

– Adriel, peço desculpas por ontem.


Não era minha intenção.
– Não. Eu é que fui...

– Falei demais e...

– Não. É que tem certas coisas que são


difíceis de explicar... Só gostaria de...
vê-la hoje. Preciso vê-la. Mariana, será
que isso é possível?

O coração de Mariana estava acelerado.


Ela não esperava ouvir aquelas
palavras.

– Hoje? Sim. Em... vinte minutos no


estacionamento da Pan Leon?

–Trinta minutos. Preciso tomar um


banho.
– Então... acho que é melhor marcarmos
para daqui a uma hora ou mais...

–Não. Trinta minutos.

– O suco está pronto. E então? Está tudo


certo entre vocês?

– Obrigada, dona Clarice – Mariana


pegou o copo e tomou um gole do suco
de acerola com laranja – Tudo certo
entre nós? É tão complicado!

– Para que complicar as coisas?


– Ele é bem complicado.

– E você?

– Eu não – respondeu, em seguida tomou


mais um pouco de seu suco.

– Então ele precisa de você.

– Simples assim?

– É. Simples assim – sorriu.

Na casa da família Fernandes...


– Renan? Você marcou alguma coisa
com a Mari? – perguntou Ivone ao
atendê-lo no portão.

– Não, dona Ivone. Resolvi arriscar. O


culto de oração terminou mais cedo.
Fariam uma comemoração... O
aniversário de uma das regentes do
grupo das irmãs...

– Então entre. Ela não deve demorar.


Foi à casa de uma cliente. Como vão as
coisas entre vocês?

– Não entendi – entrou pelo corredor e


seguiu a mãe de Mariana.
– Entendeu sim, Renan, mas vou mudar a
pergunta: quando você vai tomar
coragem e se declarar para a minha
filha, hein? – Ivone cansou de dar
indiretas.

– Assim a senhora me deixa com


vergonha.

– Ah, Renan, quem não sabe que você é


apaixonado por ela?

– Ela.

– O que você está esperando?

– Somos amigos. Não posso...

– Pode sim. Sente-se, Renan – disse ao


entrarem na sala de estar – O fato de
vocês serem amigos só ajuda.

– Dona Ivone, a Mari já falou alguma


coisa... Ela já disse se tem algum
sentimento por mim, além da amizade?
Fico sem jeito de conversar sobre isso,
mas já que a senhora começou o
assunto...

– Minha filha é muito extrovertida –


Ivone sentou-se ao lado dele– Conversa
sobre tudo, mas quando é assunto
sentimental... Ela não se abre facilmente,
mas o meu coração de mãe diz que ela
gosta de você sim. Como não gostaria?

– Ela gosta, mas preciso saber o quanto.


E se for só como amigo? Posso acabar
com a nossa amizade se me declarar.

– Coragem, Renan, coragem! Ao se


declarar você vai ganhar é uma
namorada. Tenho certeza disso. Oro
todos os dias por vocês dois. Você é
perfeito para ela. Minha filha sabe
disso.

– Eu agradeço pelo apoio.

– Você sabe que ter o apoio da família


já é meio caminho andado.

– É muito importante. Poxa... Estou mais


confiante. Valeu mesmo, Dona Ivone.
Precisava ouvir isso.

– Você já jantou?
– Já, obrigado. Minha mãe não me
deixou sair sem jantar.

– Então vou preparar um cafezinho...

Estacionamento da Pan Leon...

– Você pode deixar o carro aqui mesmo.

– Que ideia! Adriel, se fosse o seu você


deixaria?

– É claro que não. Você está certa, mas


o que podemos fazer?

– Aonde nós vamos?

–Você pode escolher.

– Tem certeza?

– Só não escolha shopping, por favor.

–Vamos ao seu lugar favorito.

– Você é engraçada, quando é para...

– Desse jeito não sairemos daqui.

– Tudo bem, mas e o seu carro?

– Ele também vai – sorriu.


– Obrigado, dona Ivone, o café está
delicioso.

– Vou ligar para a Mari. Já são nove


horas!

– Ela está com o carro? Senão eu


poderia buscá-la. Já deveria ter pensado
nisso...

– Não se preocupe, ela está com o carro.


Não está atendendo ao celular...
– Pode estar dirigindo.

– É, tem razão, vou esperar mais um


pouco.

No Três Ésses...

– Quer pedir mais um suco? O seu copo


já está quase vazio – observou Adriel.

– Que atencioso! Agora não. Adriel,


sinto muito por ontem.
– Não precisamos falar sobre isso.

– Acho que precisamos sim. Olha, eu


não queria estragar tudo. Sei que às
vezes falo demais.

– Às vezes?

_Não seja mau. Só quero que você saiba


que não tive a intenção de magoá-lo, só
quis ajudar.

– Vamos mudar de assunto? E o curso?


Hoje você não...

– Ah, precisei mudar o dia por causa de


algumas clientes. Amanhã será a última
aula. Na próxima semana faremos uma
festinha.
– Você já está triste por isso.

– Não. Ainda verei algumas meninas na


igreja. Acho que uma delas vai trabalhar
no Mimãs.

– Mimãs?

– Você não sabe que é o nome do meu


salão? Já até expliquei o significado
complexo! – sorriu – Ho j e fiquei tão
fel i z! Não foi porque você ligou –
acrescentou a informação para não haver
mal entendido.

– Não pensei isso.

– Não? Fiquei aliviada por você ter


ligado. Estava com um peso...
– Qual é o motivo para tanta alegria? –
perguntou desejando que a felicidade
dela não tivesse nada a ver com Renan.

– Recebi uma visita especial.

– O “rapaz perfeição” foi fazer as


unhas?

Ela riu.

– Você fazendo piadinhas? Gostei. Não


foi o Renan. Lembra daquela garota que
estava com problemas por causa do
namorado da mãe dela?

– O que aconteceu com ela?

– O namorado sumiu.
– Arrumou outra?

– Provavelmente. O legal é que a mãe da


Laila está diferente agora. Até deixou a
filha ir ao meu salão e a levou para ver
a avó.

– Então agora você vai dormir em paz.

– Se você deixar.

– Eu?

– É, você mesmo. Ontem dormi pouco


por sua culpa.

– A culpa foi sua.

– Tudo bem, vou concordar com você.


Não quero estragar tudo novamente.

– Suas próprias palavras a condenam.


Você pediu desculpas e agora acabou de
dizer que não quer estragar tudo
novamente.

– Já disse que concordo. Dá para parar


de jogar na minha cara?

– Vamos mudar de assunto... Não sabia


que você atendia em domicílio.

– Isso é só para clientes muito especiais.


Posso inclui-lo em minha lista seleta.

– Não, mas agradeço.

– Um dia ainda colocarei as mãos em


seus cabelos.

– N u n c a . Mudando de assunto
novamente... Mariana, como será a festa
que você mencionou?

– Será uma festinha simples, por isso


não vou convidá-lo, tá?

– É que... O que vocês farão?

– Para comer? Bolo, salgados,


docinhos...

– Quem fará tudo?

– Estou estranhando o interesse. Acho


que você quer ser convidado... Vou
comprar um bolo na Pan Leon e cada
menina levará um pratinho de doce ou
salgado.

– Você... Você não precisa se preocupar


com nada. Farei uma encomenda na Pan
Leon. O que você acha?

Mariana ficou olhando para ele sem


acreditar no que estava ouvindo.

– Fiz uma pergunta, Mariana.

– Agora você me deixou de queixo


caído. Nossa... Você se interessou por
uma simples festa...
– Não farei nada. A sua tia cuidará de
tudo.

– É mesmo? E como você vai explicar o


interesse?

– Não preciso explicar nada. E então?

– Não preciso levar nada e nem pedir


para as meninas?

– Exatamente, e um dos motoristas da


empresa entregará tudo. É só você dar o
endereço e o horário.

– Posso dar um abraço em você?

– Não! Você sabe que não – meneou a


cabeça e começou a esfregar as mãos.
– Que pena! Tudo bem, mas preciso
dizer que você me surpreendeu.

– Não é nada...

– Adriel, não estou falando em dinheiro.


Achei incrível você ter a ideia. É muito
legal. É algo fofo. Fofo, fofo, fofo!

– Tudo será entregue no local e na hora


que você quiser. Assunto encerrado. E
as aulas de coreografia?

– Falamos sobre isso ontem, lembra?

– Não podemos falar novamente?

– O que você quer saber?


– Você fala sobre outros assuntos com
elas, ou só usa livros de criança, bolhas,
balões...

– Falo sobre outras coisas também, mas


é um ensaio de coreografia, não é aula
de escola bíblica. Mesmo assim elas
sempre têm alguma pergunta. Uma delas
me perguntou sobre um versículo e no
mesmo instante lembrei de você.

– Agora fiquei curioso.

– Não vou matar a sua curiosidade.

– Não? E por que isso agora?

– Você não vai gostar.


– Pode falar.

– Só se você prometer que não ficará


chateado.

– Farei um grande esforço para não ficar


chateado.

– Não.

– Prometo.

– Depois dizem que as mulheres é que


são curiosas! –Mariana pegou a Bíblia
que estava na bolsa e começou a folheá-
la.

– Você carrega uma Bíblia em sua


bolsa?
– Não entendi porque você ficou tão
surpreso. Achei o versículo... Mateus
15.2. Adriel, o que você acha dessas
palavras de Jesus? Leia aqui...

Adriel olhou para a Bíblia, mas não


disse nada.

– O que foi? Não quer usar a minha


Bíblia? Tudo bem. Eu mesma farei a
leitura. Os fariseus e os escribas fizeram
a seguinte pergunta para Jesus: “ Por que
que transgridem os teus discípulos a
tradição dos anciões? Pois não...

– ” lavam as mãos, quando comem.”


Você é tão atrevida!

– Está mais ou menos certo, porque


Jesus não disse nada sobre
atrevimento...

– O que você quer saber?

– O versículo 3 diz: “Não é o que entra


pela boca o que contamina o homem,
mas o que sai da boca, isto, sim,
contamina o homem.” O que você pensa
sobre isso? – Mariana o encarou.

– Os fariseus gostavam de fazer


perguntas capciosas.

– Por que será que quero saber


justamente a sua opinião, hein? Simples:
Você adora lavar as mãos – por um
momento ela pensou se teria ido longe
demais, mas só por um momento.
– É errado? É um hábito simples que
previne contaminações. Se as pessoas
lavassem mais as mãos muitas doenças
seriam evitadas.Você sabe o que está
acontecendo... Os casos de gripe...

– Lavar as mãos sim, mas sem exagero!


Lavar não é esfolar, tá?

– Não lavo as minhas mãos até... Acho


melhor nós irmos embora – começou a
esfregar uma mão na outra.

– Não precisa ficar bravo só porque


toquei em um assunto delicado, mas é
bom falar, sabia? Faz bem. Você
prometeu que não ficaria chateado. Não
precisa esfregar as mãos assim! E o
versículo?
– Hã? O versículo... Ah, Mariana, até
parece que você precisa de alguma
explicação!

– Quero a sua opinião!

– Jesus sempre colocava as coisas de


maior valor em destaque. Os fariseus
apareciam com as suas perguntinhas e
Jesus tocava no ponto certo porque
conhecia a intenção do coração de cada
um que se aproximava dele. É como se
ele falasse assim: Vocês estão tão
preocupados com a saúde física, mas e o
interior como está? A alma? Está cheia
de maldade e isso sim prejudica. Ele
explica que tudo procede do coração:
Os homicídios, adultérios, a mentira e
outras coisas... E quando Jesus se refere
ao coração, está falando sobre a mente,
o pensamento, a vontade, a razão...

– Por isso que eu gosto de conversar


com você.

– Por isso o quê?

– Porque você é inteligente. É chatinho


também, mas é muito inteligente e...
bonito – sorriu.

– Va m o s embora – disse com


impaciência.

– Você não gosta de ser elogiado?

– Não gosto.
– Tudo bem, então eu paro. Não vamos
brigar hoje.

– Não estamos brigando.

– Vamos mudar de assunto. Acabei de


lembrar que uma certa pessoa falou
sobre um lugar para passar o dia inteiro
e até hoje...

– Esqueça.

– Aonde iríamos? Fale.

– Não insista.

– Sabe o que eu acho? Que você não


pensou em nada. Falou por falar.
– É claro que eu pensei em um lugar.

– Não pensou.

– Pensei sim, Mariana.

– Não pensou!

– Como você é...

– Persistente?

– Chata.

– Se eu sou tão chata porque você me


ligou?

– Porque sou mais do que você.


– Concordo.

Entreolharam-se em silêncio por alguns


segundos.

– E então? – foi Mariana quem quebrou


o silêncio.

– Quer mesmo saber?

– Que pergunta!

– Temos uma chácara em Campos do


Jordão. Eu... Eu a levaria para lá – disse
ele desviando o olhar.

– Campos do Jordão? Adoraria! Eu


quero. Pode marcar. Não... Espere um
pouco... Iria sozinha com você?
– Não marcarei nada, pode ficar
tranquila.

– Você vai sempre lá?

– Nós íamos quase todos os finais de


semana, mas isso mudou depois que o
meu pai... faleceu – sussurrou a última
palavra – Minha mãe e os meus irmãos
ainda vão com uma certa frequência,
mas eu não.

– Qual foi a última vez que você esteve


lá?

– A última vez... A última vez foi


quando meu pai...

– Acho que é melhor mudarmos de


assunto...

– Novamente?

– Adriel, se você quiser posso ir com


você.

– Acho que não é uma boa ideia. Eu


não... Seria muito difícil para mim.
Tenho muitas lembranças. Era o lugar
preferido dele e...

– Um belo motivo para você voltar lá.


Adriel, você precisa... superar isso. Não
dá para fugir a vida inteira. Enfrente os
seus medos e viva de verdade!

Mariana esperou por uma resposta


áspera, mas ela não veio. Ele ficou
olhando para o relógio de pulso sem
dizer nada.

–Talvez você tenha razão. Pensarei


nisso – disse de repente.

– Adriel, agora nós precisamos ir.

– Tudo bem. Posso vê-la segunda?

– A segunda está tão longe...Quero


dizer... Está longe para combinarmos
hoje. É isso o que eu quis dizer.

– Você não precisava explicar. A única


pessoa que conta os dias para me ver é a
minha mãe.

– Se você a visitasse todos os dias, ela


não precisaria contar.

– Estive com ela hoje. Tomei o café da


tarde na casa dela.

– Isso é ótimo. Deveria fazer isso mais


vezes. Podemos ir agora?

Casa da família Fernandes...

– O que foi, Ivone? Por que está tão


agitada?– perguntou Hílton ao chegar do
trabalho.
– O problema é com a Mari.

– Ela está doente?

–Não, Hílton! Ela foi até a casa da dona


Clarice e até agora não voltou. Adivinhe
quem ficou esperando por ela por mais
de uma hora?

– Não tenho a mínima ideia. Você ligou


para o celular dela?

– É claro, Hílton! O Renan...

– Renan? O que o Renan tem a ver


com...

– Ele esteve aqui.


– Ouvi o barulho do portão... Deve ser a
Mariana. Bom... ou a Michelle. Ela está
em casa?

– Saiu com o namorado. Deve ser a


Mari. Preciso saber por que ela deixou
o rapaz esperando.

– Ela combinou alguma coisa com ele?

– Não.

– Agora eu não entendi.

– Não era para ela demorar tanto e... Aí


está você! – disse Ivone assim que a
filha colocou os pés na sala de estar.

– Oiii! Boa noite pai, mãe... Tudo bem?


– beijou os dois.

– Tudo bem? Você sabe que horas são?

– Mãe, ainda nem são onze horas!

– Oi, querida! A sua mãe estava


preocupada... com o Renan – brincou
Hílton.

– Renan?

– É, Mari, ele esteve aqui. Esperou por


mais de uma hora.

– Não marquei nada com ele.

– Eu sei. Ele ficou esperando porque eu


disse que você não demoraria. E o seu
celular?

– Está desligado.

– Desligado? Tentei falar com você.


Quase liguei para a Michelle. Queria o
telefone da dona Clarice...

– Mãe, não podia imaginar que o


Renan...

– Por que não chegou mais cedo? E por


que o seu celular...

– Agora que está tudo bem vou tomar um


banho. Estou tão cansado!

– Isso, pai, um belo banho sempre


relaxa.
Hílton deu um beijo em sua filha e
afastou-se.

– Mari, ligue para o Renan.

– Fique tranquila, mãe...

– Hoje – insistiu Ivone.

– Ligarei agora mesmo. Ficou satisfeita?

– Ficarei quando vocês estiverem


namorando.

– Boa noite, mãe.

– Não esqueça de ligar. Boa noite.


Mariana conversou com Renan por
alguns minutos. Ele aproveitou a
oportunidade para fazer um convite.
Capítulo 18 – Uma
ideia

No dia seguinte, Adriel chegou alguns


minutos atrasado. Aproximou-se da
mesa de Lívia e disse animadamente:

– Bom dia! Lívia, quero resolver todas


as pendências de ontem. Hoje teremos
um dia bem produtivo. Só preciso fazer
uma ligação. Você tem 20 minutos para
um café.
– Já tomei café.

– Tome outro e leve-as também – olhou


rapidamente para Marisa e Camile.

– Não posso deixar aqui sem ninguém.

– Você pode, Lívia. Voltem daqui a


vinte minutos.

– Acho que é o Abner vestido de Adriel


– dizia Marisa – Não posso acreditar!
Ele falou um “bom dia” tão... bom! Acho
até que ele sorriu! Belisca aqui,
Camile... Ai!
– Você pediu, Marisa! Mas é verdade.
Lívia, o que aconteceu? Ontem...

– Ele estava insuportável. Mudou da


água para o vinho. Até nos liberou para
tomarmos café juntas! Eu não autorizaria
i s s o , mas como foi uma ordem do
patrão...

O nome dela estava no visor do celular.


A ideia não saía da mente de Adriel
desde que ele abriu os olhos naquela
manhã de quinta-feira.
Na casa da família Fernandes duas
irmãs conversavam...

– Ela queria falar comigo logo cedo?

– Queria sim, Mari. O que está


acontecendo, hein? A Tia Lívia está
louca para falar com você e a mãe não
para de falar que o Renan ficou plantado
aqui...

– M i , já expliquei que não combinei


nada com ele. Hoje, eu e o Renan vamos
sair. Depois eu converso com a tia
Lívia... Meu celular está tocando. Alô?
Oi! Espera só um pouquinho... Mi, você
já vai para o salão?
– Quer privacidade... Quem é?

– Mi!

– Depois você vai me falar – apontou o


dedo para a irmã e saiu do quarto em
seguida.

– Oi. Pode falar agora.

– É que estive pensando sobre Campos


do Jordão e gostaria de saber se você
pode...

– Já pensou? Foi bem rápido!

– Mariana, você poderia ir comigo?

– Quando?
– Sábado ou domingo. Você escolhe.

– Sábado nem pensar. Não posso deixar


a minha irmã sozinha no salão. Tenho
uma noiva e...

– E domingo?

– Domingo também é complicado.


Ensaio da coreografia e...

– Então esqueça – disse aborrecido.

– Espere. Posso colocar outra pessoa


para ensaiar. Só preciso combinar
direitinho... Hoje vou sair, mas...

– Então... Ligue para mim amanhã.


– S e e u não chegar muito tarde ligarei
hoje mesmo.

– Você está muito ansiosa?

– Ansiosa?

– Hoje é o último dia de aula.

– Ah... Estou sim.

– Outros cursos virão?

– Com certeza, mas só no ano que vem.


Já tenho um contato em outra
comunidade. Lá eles têm um local
próprio para cursos. Uma sala será
liberada em janeiro.
– E será ocupada por você.

– É isso aí.

– O seu pai deveria proibi-la. E... se


você tivesse um local próprio para isso?
As meninas iriam até você e não o
contrário. Seria interessante?

– É uma boa ideia, mas isso significa


gastos. Também não sei se funcionaria.
Teria muitos impedimentos. As meninas
precisariam se deslocar até o local,
algumas mães seriam contra e...

– Foi só uma ideia para você não ficar


andando por aí. Eu poderia resolver a
questão dos gastos com o local, se você
me permitisse.
– Que fofo! Esqueça isso, Adriel, mas
agradeço. Foi muito fofo.

– Só estou sendo prático.

– Fofo!

– Preciso trabalhar agora.

– Bom trabalho. Adriel, adorei falar


com você.

– Bom trabalho para você também.

–Você gostou de falar comigo?

– Preciso desligar.

– Se você não fosse tão chato eu


mandaria um beijo, mas...

– Tchau – disse simplesmente e em


seguida desligou o celular.

Era quase meio-dia. A manhã fora bem


produtiva, mas havia um problema que o
patrão precisava tomar conhecimento.
Lívia não queria estragar o bom humor
dele, mas não daria para adiar. Ela ficou
surpresa com a reação dele.

– Adriel, tivemos um problema com o


carregamento de ontem. Todas as caixas
do produto com a referência 08458
estavam com duas ou mais embalagens
danificadas.

– É só fazer a substituição – disse


calmamente.

– Foram entregues assim. São mais de


20 locais e todos os caminhões estão
com os horários...

– Lívia, envie quem for necessário para


resolver o problema. O que não pode
acontecer é o cliente ficar com um
produto assim. Não sei como isso foi
possível. Nossas embalagens são tão
resistentes! – ele levantou-se – Quero
um relatório. Preciso saber como
aconteceu. Mais alguma coisa? Posso
almoçar?

– O restante pode ficar para depois do


almoço.

– Então ótimo. Almoçarei com a minha


mãe.

Na casa da família Fernandes...

– Mari, você falou com o Renan?


– Falei, mãe, pode ficar tranquila.

– Só isso? Fale mais...

– Ma i s ? Preciso almoçar rapidinho


porque ainda tenho uma cliente antes de
ir para a última aula do curso...

– Mari, quero saber mais sobre o Renan.

– Ele tem uma irmã chamada Renata e a


mãe...

– Não achei graça. Você sabe muito bem


o que eu quero saber.

– Vamos sair hoje – Mariana notou o


sorriso da mãe.
– Agora sim. Você já pode almoçar.
Está tudo quentinho e...

– Por que não me avisou logo que a


senha era essa?

– Senha? Ah, Mari, pare de gracinhas!

Durante o almoço, Lívia, Camile e


Marisa falavam sobre o bom humor do
patrão.

– Ele reagiu assim? Acho que ele tomou


algum calmante, só pode – constatou
Marisa e em seguida colocou uma
batatinha na boca.

– Esperava por uma explosão dele e


fiquei de boca aberta. Ele falou tão
mansinho!

– Não dá para entender.

– Vocês duas deveriam é agradecer a


Deus por essa mudança. Seria tão bom
se ele continuasse assim! Bom para
todos, mas principalmente para ele.

– Principalmente para nós, Camile! –


disse Marisa antes de colocar mais uma
batatinha na boca.

– Ele foi almoçar com a mãe. Imagino o


quanto ela ficará feliz ao vê-lo assim tão
bem. Só estou preocupada com uma
coisa... – disse Lívia pensativa.

– Com o que, Lívia?

– H ã ? Não é nada, Camile. Vamos


terminar o almoço? Preciso comprar um
caderno para o Niki.

– Nem acreditei quando você me ligou,


querido! Esteve aqui ontem!
– Quer que eu vá embora?

– Você sabe que não. Pode vir todos os


dias. Por mim você nunca teria mudado
daqui. Você está tão bem, querido! Está
com um semblante alegre – Tereza fixou
os olhos em seu filho.

– Semblante? Isso é linguagem bíblica,


mamãe! Quem fala semblante hoje em
dia?

– O que importa é que você está ótimo.


Não lembro a última vez que o vi assim.
Agradeço a Deus por isso. Você quer
me contar o motivo...

– Mamãe, mamãe, vamos almoçar? Não


posso demorar.
– Bem que você podia ficar até a Tati
trazer a Sofia..

– Se ela chegar logo... Podemos almoçar


agora?

Mariana iniciou a última aula mais cedo


porque tinha uma cliente marcada para
as 16h.

– Meninas, vocês sabem o endereço do


meu salão e também conhecem a minha
igreja. Se tiverem alguma dúvida é só
entrar em contato comigo. Infelizmente
não posso oferecer vaga para todas, mas
pelo menos quatro de vocês já estão
encaminhadas para trabalhar em salões
aqui na comunidade. Não esqueçam que
na próxima semana teremos a nossa
festinha.

– Precisamos combinar o que cada uma


vai trazer – disse Cléo, o curso era
realizado na casa dela.

– Não será necessário! Uma pessoa


resolveu doar tudo.

– Ah, Mari, assim não vale! Não é justo


que você compre tudo.

– Não vou comprar nada, Laila.


Comentei com uma pessoa sobre a festa
e ela se ofereceu para doar tudo. Será
entregue aqui, Cléo, avise a sua mãe.

– Quem é essa pessoa?– perguntou uma


das garotas.

– Alguém que não quer aparecer.

– Ah, Tati, o seu irmão acabou de sair.


Queria tanto que ele visse a Sofia! Vem
com a vovó, vem – Tereza segurou a
neta em seu colo.
– Atrasei porque precisei trocar a fralda
da minha menininha! Entrei no carro e
adivinha? Senti um cheirinho nada
agradável. Mãe, preciso voar, o Joel
nem saiu do carro. Mas... o Adriel já
esteve aqui hoje?

– Almoçou comigo. Tati, ele está tão


diferente! Ontem ele estava irritado e...

– Grande novidade!

– Hoje ele estava feliz.

– Feliz?

– É. E ele só lavou as mãos uma vez e


nem demorou. Aconteceu alguma coisa
com ele. Você está sabendo de algo?
– É muito bom saber que o Dri está
assim, mãe. Que mudança de um dia
para o outro, hein?

– Ah, Tati, Deus está ouvindo as nossas


orações. Você sabe de alguma coisa, né?

– Mãe, preciso ir, meu marido está me


esperando.

– Tati, não fuja. Se você sabe o


motivo...

– Preciso mesmo ir – Tatiana beijou a


mãe e a pequena Sofia e saiu
rapidamente.
Na sala do presidente da ALT &
Filhos...

– Lívia, quero que você faça uma


encomenda na Pan Leon. É para a
próxima quarta-feira. Converse com a
sua sobrinha sobre a quantidade. O
nosso motorista levará.

– Minha sobrinha? Mas...

– Exatamente. Ela marcou uma festa de


despedida daquele curso... Converse
com ela e acerte todos os detalhes.
Bolo, salgados, docinhos, enfim... coisas
de festa.

– Adriel, não estou entendendo.

– Você só precisa falar com a sua


sobrinha e depois fazer a encomenda. A
A LT deu kits para aquelas garotas e
agora patrocinará a festa de despedida
delas, é só isso.

– O que está acontecendo?

– Assunto encerrado. Vamos trabalhar...

– Adriel, como você sabe que a Mari


vai dar uma festa? – perguntou Lívia
encarando-o.

– Eu... Preciso lavar as minhas mãos


agora.

– Não precisa.

– Lívia! Eu preciso...

– Fiz uma pergunta.

Adriel esfregava as mãos e olhava para


Lívia sem dizer nada.

– Você e a minha sobrinha estiveram


juntos?

– Preciso lavar as minhas mãos agora!


Eu...
– Por que você está tão agitado? Adriel,
não estou gostando disso.

Ele levantou-se, olhou para a secretária


por alguns segundos e foi até o lavabo.
Lívia não disse nada, mas esperou por
ele.

– Ainda está aqui? – perguntou Adriel


após vinte minutos.

– A minha resposta.

– Lívia, acho que você tem o que fazer,


não é?

– Só depois que eu receber uma


explicação.

– Não tenho nada para explicar.

–Tem sim. Quero saber o que está


acontecendo entre você e a minha
sobrinha.

– Não é a primeira vez que a ALT faz


isso...

– Não estou falando da empresa. Você


nunca se interessou pessoalmente por
esse tipo de coisa. Tudo o que se refere
à contribuição você sempre diz para
falar com a Tati. Só mencionei sobre os
kits porque estava chateada com você. E
agora você está se preocupando com
festinhas?
– O que são alguns reais? Não estou
fazendo nada demais. E é você quem
cuidará de tudo.

– Ah, e eu nem mencionei os livros!


Adriel, se você magoar a minha
sobrinha...

– Lívia, chega. Vamos trabalhar.

Renan e Mariana foram ao shopping.


Andaram durante alguns minutos e
depois fizeram os pedidos na praça de
alimentação. Renan preferiu hambúrguer
e Mariana beirute.
– Você bem que podia ter me avisado
que passaria lá em casa ontem – disse
Mariana assim que se acomodaram. Ela
cortou um pedaço de seu beirute e o
saboreou.

– Não tem problema, Mari, s ó arrisquei


e não deu certo, mas hoje estamos aqui e
é isso o que importa. Precisava falar
com você. Segunda as coisas ficaram
meio estranhas entre nós – Renan encheu
o seu lanche de ketchup.

– Não ficaram.

– Você sabe que sim, Mari. Pensei muito


e...– ele olhava fixamente para ela.
– Renan, será que você não precisa
pensar mais um pouquinho? – ela
desviou o olhar.

– Do que você tem medo?

– Não estou gostando do rumo da nossa


conversa.

– Mal comecei a falar – Renan colocou


o lanche em cima da mesa.

– Gosto muito de você. A sua amizade é


muito importante para mim – disse
Mariana enchendo-se de coragem antes
dele.

– A sua amizade é muito importante para


mim – repetiu ele – É só isso que você
tem pra me dizer?

– Você fez alguma pergunta na palestra?


– comeu mais um pedaço de seu beirute.

– Não, mas fizeram por mim.

– É mesmo? Qual?

– Você sabe – ele a encarou.

– Dá para você parar de me olhar


assim? Por que não come o seu
hambúrguer?

– Desde quando a minha maneira de


olhar a incomoda?

– Desde quando você resolveu me olhar


assim.

– Assim como?

– Ah... Sei lá... Diferente, é isso. Você


está muito estranho ultimamente.

– Você está roendo as unhas?–


perguntou ao vê-la com os dedos na
boca.

– Eu? Você está me deixando nervosa! –


tirou a mão da boca e no mesmo instante
pensou em como seria a reação de
Adriel ao vê-la assim.

– Não era a minha intenção. Mari, só


quero conversar claramente com você.
Eu preciso.
– Isso é tão complicado, Renan. É
melhor você parar por aqui. Hum, o meu
beirute está uma delícia, quer um
pedaço?

– Não, obrigado, nem comecei o meu


lanche ainda... Mari, você está com
alguém?

– Hã? O que você quer dizer com isso?

–Você sabe.

– E você sabe que não estou namorando.

– Está gostando de alguém?

– Renan!
– Não pode responder?

– Não quero falar sobre isso. Vamos


falar da próxima programação. O que
você está planejando?

– Quero falar sobre nós dois.

– Como você está insistente hoje! Você


não é assim, Renan.

– Às vezes é bom mudar.

– Estou cansada. Quero ir para casa...

– É como dizem... Para um bom


entendedor meia palavra basta.

– Ai, Renan, você está estranho mesmo.


– Estranho, Mari? Você sabe muito bem
o que está acontecendo aqui – as
palavras saíram ríspidas – Não deveria
ter falado assim.

–Tudo bem. Acho que mereço.

– Não merece. Não posso descontar em


você. É que eu gostaria de ser mais...
incisivo, é isso.

– Renan, você é um grande amigo e


como você mesmo disse... Para um bom
entendedor...

– É... hoje não deveria tê-la convidado


para nada. Péssimo dia – disse com
desânimo.
– Não fale assim. É que nós somos...
Como eu posso dizer? Somos melhores
assim, sabe?

– Assim como, Mari?

– Como amigos.

– É , tem razão – Renan olhou para o


lanche – Acho que não quero mais
comer...

– Não quero que fique magoado comigo.


Era o meu maior medo.

– Está tudo bem.

– Não está.
– Esqueça tudo o que eu disse hoje. Se é
que eu disse alguma coisa. Que
confusão! Acho que falei, falei e não
disse nada. Vamos embora.

Durante o caminho para casa, Mariana


perguntou sobre todos da família de
Renan e depois aproveitou para falar
sobre Laila. Fez de tudo para não
ficarem em um silêncio constrangedor.
Assim que ele estacionou, ela despediu-
se e saiu rapidamente do carro.

Ao entrar, Mariana percebeu que a irmã


estava com o namorado na sala de estar.
Tentou passar despercebida, mas não
conseguiu.

– Oi, Mari! Tudo bem?

– Oi, Abner, estou bem. Não queria


atrapalhar o namoro de vocês. Oi,
irmãzinha!

– Não atrapalhou – respondeu Abner


levantando-se do sofá para
cumprimentar a futura cunhada.

– E aí, como foi com o Renan? Alguma


novidade? – perguntou Michelle.

– Novidade? Por que você perguntou


isso, Mi?

– Será que é porque todos já


perceberam, menos você, que ele está
explodindo de amor?

– Nossa, Mi! Explodindo de amor?

– Minutos antes de você chegar


estávamos comentando sobre vocês dois
e o meu namorado lindo falou que o
Renan está a ponto de explodir. Que ele
não está aguentando mais esconder o
sentimento...

–Vocês não têm nada mais interessante


para conversar?

– Ih, amore, acho que ele já explodiu –


disse Abner gesticulando com as mãos.

– Parem com isso. Boa noite para vocês


– disse ela afastando-se deles para
refugiar-se em seu quarto.

– Ai, será que deveria tê-la alertado que


tem alguém esperando por ela?

– A sua mãe, né?

– Não, a tia Lívia. Mas você tem razão,


o Renan deve ter falado alguma coisa...

– Fala sério, ele demorou demais! Está


apaixonado há trocentos anos e não toma
a iniciativa? Isso cansa. Eu deveria ter
dado umas aulas para ele. Lembra como
cheguei em você, amore?

– Direto demais.

– É mesmo? Deveria ter enrolado um


pouco?

– Um pouco sim. Você foi muito direto.


Falou bem assim: “ Michelle, gosto de
você e quero que seja minha namorada.
Qual é a sua resposta? “

– Você lembra de cada palavra! Mas só


falei assim porque você dava muita
bandeira. Não corri nenhum risco de
levar um não.
– É? Convencido!

–Ti a ? – Mariana estranhou ver Lívia


sentada em sua cama.

– Assustei você? – disse Lívia –


Resolvi esperá-la aqui no seu quarto
porque preciso muito falar com você.

– Algum problema?

– Mari, o que está acontecendo entre


você e o Adriel?

– Por quê? – Mariana sentou-se ao lado


de sua tia e tirou as sandálias.

– Porque o meu querido e amado patrão


me pediu para organizar uma festa.

– Ah!

– Ah? Mari, você e o Adriel estão se


encontrando? Por que ele está tão
solícito?

– Ele perguntou sobre o curso, eu


mencionei que faria uma festinha de
despedida e ele se ofereceu para pagar
tudo. É só isso – respondeu
massageando os dedos dos pés.

– Onde vocês estavam quando ele fez a


pergunta?
– Aí já é invasão de privacidade!

– Sem brincadeira, Mari, estou


preocupada.

– Tia, você sabe que estou empenhada


em ajudá-lo.

– Mari, que tanto vocês conversam?

– Eu disse que ele mudaria, não disse?


Já está acontecendo.

– Terça ele estava ansiosíssimo, quarta


irritadíssimo e hoje amabilíssimo! Você
é culpada por qual dia? – indagou-a
fixando os olhos nela.

– Acho que todos. Nós saímos terça e eu


disse umas coisas que ele não gostou,
mas ontem recebi uma ligação dele e nos
encontramos novamente. Ficou tudo
certo.

– Quantos encontros! Mari, não estou


gostando disso. Você pode sair muito
machucada.

– Não se preocupe, está tudo sob


controle. Deus está no controle. Acabei
de ter uma ideia...– levantou-se e
colocou os chinelos.

– Não me venha com as suas ideias


mirabolantes e...

– Espere só um pouquinho que eu


preciso lavar as minhas mãos – brincou
ela.

– Não tem graça!

– É, você está certa, mas não resisti.


Preciso de sua ajuda...

– Só vou encomendar as coisas da festa.

– Isso foi ordem do seu patrão. Agora é


a sua sobrinha quem precisa de ajuda.

–Não farei mais nada.

– Você sabe que o Adriel nunca mais foi


à chácara que a família tem em Campos
do Jordão?

– Sei, desde a morte do pai. Todos já


voltaram várias vezes, menos ele.

– Ele voltará lá no próximo domingo.

– Como você sabe disso?

Mariana andou por alguns segundos de


um lado para o outro. Não tinha certeza
se seria uma boa ideia envolver a tia,
mas...

– Ele mesmo disse e me convidou para


acompanhá-lo – sentou-se ao lado de
sua tia novamente.

– Isso está ficando perigoso...

– É aí que você entra – piscou para a tia.


–Tchau! – Lívia levantou-se e
aproximou-se da porta.

–Tia, há quanto tempo você não vai para


São Bento de Sapucaí?

– Mari, o que você está planejando?

– Você deveria levar o Niki para visitar


os tios e os avós.

– Fui há pouco tempo – respondeu Lívia


aproximando-se novamente de sua
sobrinha.

– Pouco tempo, tia? Um ano é pouco?

– Não faz um ano, quase um ano. Fui lá


no feriado do dia das crianças.
– Então, tia!

– Segunda eu trabalho e o Niki tem aula.


Esqueceu?

– Retornaremos domingo à noite.

– É mesmo?

– Ainda não pensei direito. A ideia


surgiu de repente. Tenho uma cliente
sábado. É uma noiva. Mas o casamento
será às 11h. Ela chegará no salão às
7h... Isso não é problema porque até 10h
estarei livre...

– E as outras clientes?

– Posso dar um jeito nisso. Peço para a


Cléo ajudar a Mi. Nós vamos contratá-la
mesmo! Acho que dará tudo certo...

– Não irei para São Bento.

– Tia, qual o problema? O meu plano é


perfeito. Vocês só ficarão até a tarde de
domingo. Você mesma diz que não
consegue ficar lá por muito tempo
porque eles falam muito sobre o tio
Elias! Que mostram fotos e mais fotos e
relembram várias histórias – argumentou
para convencer a tia.

– Mesmo assim.

– Seria uma ótima oportunidade. Irei


com vocês e o Adriel me buscará lá. É
uma ótima solução, tia.
– Está fazendo tudo isso para sua mãe
não descobrir que você sairá com o
Adriel! Não está certo, Mari, não posso
participar disso. A minha irmã não
ficaria nada tranquila ao saber que você
e o Adriel...

– Tia, ele nunca mais foi lá. Será uma


oportunidade excelente. Isso pode
ajudá-lo muito. Ele mesmo disse que
sempre ia com o pai. Que passavam
quase todos os finais de semana juntos.

– É verdade. Fui lá uma vez por causa


da insistência do seu Alberto. Era um
feriado. Eu e o Elias fomos para São
Bento e tivemos que passar lá antes de
voltar para São Paulo. É uma chácara
muito bonita. Mas não posso concordar
com isso, Mari. Você e o Adriel
sozinhos e...

–Tem funcionários lá, não tem?

– Um casal que cuida da chácara, mas e


daí? O que muda?

– Tia, não há motivos para se preocupar.


Ele nem se aproxima de mim. Nunca
sequer pegou na minha mão. Você sabe
bem como ele é... Nem posso sentar-me
ao lado dele no carro!

– Por isso mesmo. Ele pode magoá-la


muito.

– Preciso fazer isso e sem a sua ajuda


será quase impossível. Detesto mentir
para minha mãe, mas não seria
exatamente uma mentira, seria uma meia
verdade.

– Mari, esqueça isso. Tem um provérbio


chinês que diz que meia verdade é
sempre uma mentira inteira.

– É por um bom motivo.

– Não posso – Lívia cruzou os braços.

– Por favor! Sei que Deus está agindo na


vida do Adriel.

– Deus não age na mentira, Mari.

–Tia, lembra da história das parteiras no


Egito?¹ – Lívia revirou os olhos e
Mariana continuou com os argumentos –
A ordem era para matar todos os
meninos hebreus que nascessem e elas
os preservavam. Diziam que os bebês
nasciam antes delas chegarem.

– Não tem nada a ver...

– Elas agiram assim para salvar aqueles


bebês. Deus as usou!

– “Os fins justificam os meios”, é?

– Tenho outro exemplo... Raabe.²

– Ai, Mari! – Lívia meneou a cabeça.

– Raabe mentiu sobre os espias. Ela os


escondeu e disse aos guardas que eles
não estavam mais lá.

– Como você é terrível! Mari, Deus não


tem pacto com a mentira. Ele protegeu
os seus escolhidos, mas as pessoas é
que escolheram mentir.

– Tia, preciso acompanhá-lo. Não posso


colocar tudo a perder agora. Ele está
diferente. Por favor, me ajude –
implorou ela.

– Você já está saindo com ele sem que


os seus pais saibam.

– Meu pai sabe... Um pouco.

– E ele concorda?
– Ele tem a mesma opinião que eu sobre
o Adriel. E a Michelle também sabe que
saí com ele algumas vezes.

– A i , Mari, preciso dormir. Pensarei


sobre isso e amanhã darei a resposta.

– Não comente com o Adriel.

Ele esperou até meia-noite por uma


ligação dela. A espera foi em vão.
Capítulo 19 –
Convite inesperado

Sexta-feira, ALT & Filhos...

– Bom dia, meninas! O patrão já


chegou?

– Bom dia, Lívia. Ele já está


trabalhando e parece que chegou bem
cedo. A sua mesa já estava com todo
essa papelada quando chegamos –
Camile apontou para a mesa de Lívia.

– Ai, ai, teremos um dia daqueles.


Quando ele começa assim... Como não
tenho escolha é melhor falar com ele
logo...

– Boa sorte. Que Deus a proteja.

– Valeu, Marisa.

Assim que Lívia entrou na sala de


Adriel, Marisa aproveitou para fazer
uma pergunta à amiga.
– Camile, você não mencionou nada
sobre a sua mãe. Como estão as coisas?

– Meu pai ligou e eu só falei com ele


porque atendi ao telefone, se a minha
mãe tivesse atendido... Ela não quer que
eu fale com ele! Não me conformo!

– Ai, amiga, que coisa chata!

– Ele convidou a minha mãe para jantar


e ela não aceitou.

– E agora?

– Quer saber? Resolvi praticar o que diz


aquele conhecido versículo: “Entrega o
teu caminho ao Senhor, confia nele...”¹

– E tudo será acrescentado.

– Você está confundindo os versículos.


O que você falou é o final de outro
versículo. Aquele que diz “Buscai
primeiro...”²

– É? Mas quer dizer a mesma coisa.

– E não diz “tudo será acrescentado”.


Depois você lê na sua casa, tá?

– Tá! Sabe o que eu vou fazer agora?


Olha só para a minha bolsa...

– Trufas?
– Quer uma? Tem uma com recheio de
coco e outra tradicional.

– Não é hora pra isso, Marisa.

– E tem hora? Hum... Se você não quer,


sobra mais, tá?

– É só isso, Lívia, por que você ainda


está aí parada olhando para mim? Quer
falar alguma coisa?

– Não – ela encaminhou-se para a porta,


colocou a mão na maçaneta, mas mudou
de ideia – Eu quero sim. Não vou
conseguir trabalhar se não fizer uma
pergunta para você.

– Então pergunte logo, porque você não


pode se dar ao luxo de não trabalhar
com tantas coisas que...

– Adriel, o que está acontecendo entre


você e a minha sobrinha?

– Novamente com isso, Lívia? Não


posso gastar alguns reais com uma
festinha?

– Você sabe do que eu estou falando.

– Assunto encerrado. Preciso trabalhar.


– E eu preciso saber...

– Lívia! – e l e abriu e a fechou a


primeira gaveta da mesa– Não tenho que
dar explicações.

– Tem sim! Ela é minha sobrinha. Por


que você está tão bonzinho? Desde
quando se interessa por festinhas?

Agora Adriel abria e fechava a gaveta


sem parar. Lívia sabia muito bem que
quando isso acontecia era porque o grau
de ansiedade estava elevadíssimo, mas
mesmo assim continuou a falar.
– Pode parar com isso. Você não vai
conseguir me intimidar. Não tenho medo
das suas reações. Quero saber o que está
acontecendo entre vocês. O que você
pensa dela? O que você pretende? – as
palavras jorravam da boca de Lívia.

Ele abriu e fechou a gaveta mais duas


vezes e em seguida levantou-se. Olhou
para ela por alguns segundos e foi até o
lavabo.

– É isso mesmo... Vá lavar as mãos, mas


não pense que sairei daqui. Quero uma
resposta.
Noventa e oito... noventa e oito... Um,
dois, três, quatro, cinco, seis, sete,
oito... Por que ela não me ligou ontem?
Oito? Nove, dez, onze, doze... Ela disse
que ligaria. Ela... Treze, catorze,
quinze... Preciso falar com a Mariana.
O que a Lívia sabe? Catorze? Não.
Quinze... dezesseis, é isso. Dezessete,
dezoito...

Continuou a lavar as mãos até chegar ao


número 98. Lívia tinha a intenção de
esperá-lo, mas resolveu conversar mais
tarde porque estava com a mesa cheia de
trabalho.
Mariana, após ligar mais uma vez,
desistiu; tentava falar com Adriel há
vinte minutos.

Adriel, ao sair do lavabo, pegou o


celular e verificou que Mariana havia
ligado várias vezes.

– Oi, você me ligou para...

– Bom dia! Só liguei para avisar que


ainda não tenho a resposta.
– Ligou para isso? Se não tinha nada
para dizer não deveria ter ligado.

– Ai! Doeu, viu? Pensei que seria bom


dar um alô para não deixá-lo esperando.

– Por que não pensou isso ontem?

– Esperou por uma ligação minha?

– Não responderei.

– Esperou. Não liguei porque já estava


tarde.

– Acho que é melhor esquecermos a


viagem. Não dará certo.

– Impaciente. Assim que...


– Por que é tão difícil? É só dizer sim
ou não – concluiu irritado.

– Quero ir com você, mas preciso abrir


o caminho para isso.

– Abrir o caminho? Você tem cada uma!

– Para você é simples, mas tenho que


dar explicações para minha família.

– Não quero que ninguém fique sabendo


sobre...

– Impossível. Pelo menos uma pessoa já


sabe.

– Mariana! Como você é indiscreta!


Pensei que...
– Calma. Só falei com a minha tia.

– Ah, agora entendi! É por isso que ela


está tão esquisita hoje!

– Preciso que ela me ajude. Explicarei


tudo, senhor impaciente.

Mariana falou sobre São Bento do


Sapucaí e despediu-se sem esperar pela
reação dele.

Tatiana entrou no carro, colocou o cinto


de segurança e estava para dar a partida
quando a mãe se aproximou com a neta
em seu colo.

– Tati, ontem fiz uma pergunta sobre o


seu irmão e você não respondeu. Você
sabe de alguma coisa, eu sinto isso. Só
me diga se tem tudo a ver com aquela
menina abençoada, por favor!

– Menina abençoada?

– Você sabe de quem eu estou falando.

– Preciso trabalhar, mãe! Só posso dizer


para a senhora continuar orando.
Satisfeita agora?

– Mais ou menos. Quero detalhes...

– Deus está agindo, mãe, é só isso que


eu tenho a dizer.

– Ah, eu sabia! – Tereza deu um beijo


em sua neta – Ah, Sofia, você vai ganhar
mais uma uma tia!

– Calma, não fique tão empolgada!


Agora preciso trabalhar. Beijos, muitos
beijos para vocês...

– Lívia, você entendeu?– já era a quarta


vez que Adriel fazia a mesma pergunta.
– É claro que sim, Adriel. Você não vai
falar com o Robson nem que a vaca
tussa.

– Não disse isso – franziu as


sobrancelhas.

– Em outras palavras, mas disse.

– Minha irmã conversará com ele.

– Você precisa mudar de atitude. Os


clientes estão reparando que você anda
muito sumido. Nunca está presente nas
negociações.

– Não preciso. A Tati ou o Abner


resolvem tudo muito bem. Não quero
contato. Só quando for realmente
necessário.

– E fechar um contrato com uma mega


rede não entra no que você chama de
“realmente necessário”?

– Não quando o presidente dessa mega


rede adora me convidar para almoçar,
jantar, tomar chá e insiste em dar um
abraço mega forte em mim – fez uma
careta – Não suporto isso. O Robson é
muito... efusivo.

– Como pode? – perguntou Lívia


meneando a cabeça.

– Tem razão. Como o Robson pode ser


assim?
– Estava me referindo a você.

Tatiana bateu duas vezes à porta e


entrou em seguida.

– Olá! Boa tarde, Lívia, boa tarde, Dri!


– cumprimentou-os com animação –
Alguma novidade?

– Explique para ela, Lívia.

– Agora é assim? Por que você não


explica?– perguntou Tatiana.

– Preciso lavar as minhas mãos.


– Lave depois.

– Não. Preciso lavar agora!

– Dri, dá para você esperar um


minutinho.

– Não dá.

– Tente. Se você lutar contra...

– Lutar contra o quê? – perguntou


irritado.

– Você sabe.

– Lavarei as minhas mãos, agora!


Ele foi ao lavabo e permaneceu lá até
lavar as mãos várias vezes. A ansiedade
naquela tarde era grande. Ele queria uma
resposta de Mariana. Sentia uma
necessidade enorme de vê-la. Desejava
falar com ela novamente, mas havia
tomado uma decisão enquanto lavava as
mãos: Não ligaria para ela.

Já falei com ela hoje. Não posso ligar.


Não faz nenhum sentido. Ela não tem
resposta nenhuma. Trinta e nove,
quarenta, quarenta e um, quarenta e
dois... O que está acontecendo comigo?
Quarenta e três...
Às 16h...

– Tati, já conversou com o Robson?


Está tudo certo?– perguntou Adriel.

– Dri, o Robson adquiriu muitas lojas;


será ótimo para a empresa. Já acertei
alguns detalhes com ele, mas...

– Não é para existir nenhum “mas”, Tati.

– Ele concordou com tudo, só fez uma


pequena exigência.

– Nem quero ouvir.

– Ele oferecerá um jantar na mansão


dele e …
– Não.

– Ele quer a sua presença lá.

– Não mesmo – contornou o relógio de


pulso com um dedo.

– Se você não for...

– Ele fez ameaças?– levantou-se da


cadeira.

– Ele não fará mais nenhum negócio


conosco e cancelará o que já temos.
Repetirei as palavras dele: “ Ficarei
muito triste, mas terei que cancelar o
contrato com a empresa de um grande
amigo. Nunca tive problemas com o
Alberto e...”
– Como o Robson é...

– Inteligente, esperto...

– Por que ele não fez o convite para


você?

– Fui à festa de aniversário do Robson e


o Abner também. Quem está devendo é
você – constatou Tatiana.

– Será que ele vai perceber se o Abner


for em meu lugar?

– Não acredito que você fez essa


pergunta. Dri, se você for, ele o deixará
em paz por um bom tempo. Não é tão
difícil assim...
– É muito difícil. Não posso ir.

– Por que você não convida alguém? –


agora Tatiana observava-o atentamente.

– Você só pode estar brincando –


meneou a cabeça.

– Pense em alguém. Ih, eu não falei qual


é a data do jantar, não é? É hoje! –
Tatiana aproximou-se da porta.

– O quê? Hoje? – Adriel esfregava as


mãos freneticamente – Que falta de...
respeito, de consideração... Como o
Robson pôde fazer algo tão...
– Ai, Dri, sem dramas. Agora preciso ir
para minha sala. Tenho algumas coisas
para resolver...

– Tati, se você for o Robson já ficará


satisfeito e...

– Já tenho compromisso. Dois


compromissos.

– Dois? Só pode ser coisa de igreja!

– Como você adivinhou? O Renan


marcou um culto de oração com os
jovens e depois eu e o Joel receberemos
dois convidados para comer pizza.

– Quem são?
– Curioso!

– Por acaso seria o “rapaz perfeição”


e...

– Quem é o “rapaz perfeição”? – franziu


as sobrancelhas.

– Esqueça.

– Nós convidamos o Pedro e a Selma.


Eles são os líderes dos adolescentes...

– Não sei como você aguenta isso!

– Vou para a minha sala. Não falte ao


jantar...– pediu ao aproximar-se da
porta.
– Não irei – disse com convicção.

– Dri, ele é o nosso cliente mais antigo e


você sabe o quanto o nosso pai...

– Eu sei, Tati, sei muito bem. Que


droga! – ficou irritadíssimo ao ouvir a
irmã mencionar o pai. Tatiana sabia
muito bem que o irmão faria de tudo
para não perder o primeiro cliente da
empresa. Robson acreditara no potencial
da ALT & Filhos desde o começo.

– Não precisa ficar nervoso. Convide


alguém. Você pode até se divertir.

– Que piada!
Adriel foi ao lavabo. Lavou as mãos até
chegar ao número 99.

Não quero ir. Não posso ir. Que


absurdo! Um jantar cheio de pessoas
e s t r a n h a s . . . Não irei! Convidar
alguém? A minha irmã tem cada ideia...
Quem eu convidaria? Só se falar com a
mamãe. É, só ela aceitaria um
compromisso assim em cima da hora
e... Mas, e se... Não. Não mesmo!

Ele pegou o celular e relutante fez uma


ligação...

– Oi, como você é impaciente! Não falei


com.... Não é isso?
– Não. Eu... Preciso que você... É...
Preciso...

– Pode falar.

– Preciso de um favor. Tenho um


compromisso, ou melhor, arrumaram um
compromisso para mim. Preciso
comparecer a um jantar – disse meio
sem jeito.

– É mesmo? E você quer que eu o


acompanhe?

– Como você sabe disso?

– É óbvio. Para cortar o seu cabelo é


que não seria, não é? Gostaria que
fosse!
– Cortar o meu cabelo? Você tem cada
uma. E então?

– Quando?

– Hoje – a voz dele quase não saiu.

– Hoje? Nossa, assim é complicado...

– Já tem algum compromisso? Ah... Sei


o que é.

– Sabe?

– Oração na igreja.

– É. O nosso líder comunicou ontem.


Como você sabe?
– Minha irmã. Você pode faltar. Outras
reuniões virão...

– É fácil para você, né? O GEAD vai se


apresentar.

– Não é uma reunião de oração?

– Sim, mas também terá um ou dois


louvores. Eu nem vou participar da
coreografia, mas é que será a primeira
vez...

– Mariana, não quero ir ao jantar, mas


não tenho escolha.

Após Adriel contar sobre Robson


Vilar...
– Entendi. Já sei que vou gostar muito
dele.

– Não duvido.

– Ele é dos bons! Sabe como convencer.

– Sabe é fazer chantagem. E então?

– Adriel, você disse que o jantar será na


mansão dele. Deve ser um ambiente tão
formal e...

– Não se preocupe. É só ir com uma


roupa social. Não tem segredos. Você
sabe arrumar os cabelos e...

– É uma piada?
– Não sou de contar piadas.

– Mas às vezes tenta. Não posso faltar...


J á faltarei domingo e será a primeira
apresentação da Eva...

– Eva?

– Ela é a mais nova integrante do


GEAD.

– Você mencionou que faltará domingo...


Então está tudo certo?

– Não. Ainda dependo de uma resposta.


Qual é o horário do jantar?

– Às 20h, mas podemos chegar mais


tarde...
– Posso ir se você me buscar na igreja.
Peço para o Renan chamar o GEAD
logo e...

– Você pode? Então, tudo bem.


Ficaremos lá uns 15 minutos apenas.

– Nossa!

– Você não pensou que iríamos mesmo


jantar, não é?

– Você foi convidado para jantar, mas


tudo bem, depois você me leva para o
Três Ésses.
Mariana estava tão ansiosa pela
resposta de sua tia que ao vê-la chegar
do trabalho segui-a até a casa dos
fundos.

– Oi, tia linda do meu coração! – disse


antes que Lívia abrisse a portão da
casa– Chegou cedo hoje, hein?

– Não vem que não tem, Mari. Estou


cansada, preciso de um banho...

– Isso, tia linda. Tome um belo banho.


Minha mãe está preparando um jantar
delicioso. Ah... ela fez bolo de milho,
quer um pedaço? Posso buscar e...

– Mari, Mari, sei que você está louca


para fazer uma pergunta...
– Sou paciente, pode tomar o seu belo
banho... Só não tenho muito tempo...

– E o Niki?

– Saiu com o meu pai. Foram comprar


chocolate...

– Chocolate? Vou dar uma bronca


naquele menino! Seu pai chega cansado
e ainda precisa sair?

– Ai, tia, que drama! Meu pai adora sair


com o sobrinho favorito dele. E eles
foram aqui pertinho.

– Fala sério! O meu filho querido bem


que podia ter me ligado e...
– Tia, relaxa.

– E você? Está tão tranquila! E as


clientes? Até estranhei ver o salão
fechado... Ainda são seis e vinte!

– Atendi a última há poucos minutos.


Chega por hoje! A Mi saiu com o Abner.
Foram jantar com um casal de amigos.

– Ah... Vou tomar meu... Niki! – gritou


ao vê-lo entrar pelo corredor – Que
ideia foi essa de tirar o seu tio de casa
para comprar chocolates, hein? –
perguntou assim que ele se aproximou.

– Oi, mãe! Quer um pedaço?– perguntou


o menino dando um beijo em sua mãe.
– Espertinho! Ah, Hílton, você precisa
aprender a dizer não. Está cansado e...

– Lívia, boa noite. Está tudo bem.


Comprei um chocolate para você
também. É o seu favorito...

– Hum... Meu chocolate branco! Amo!


Obrigada, cunhado.

– Mariana, adivinhe o que eu comprei


para você?

– Marshmallow! – respondeu dando um


beijo em seu pai.

– Acertou! Nunca vi ninguém gostar


tanto disso.
– E eu, não ganho nada?–perguntou
Ivone aproximando-se deles – Ouvi um
alvoroço e ...

– Minha amada esposa... Aqui está o seu


chocolate crocante.

– Ah, Hílton, você trabalha o dia inteiro


no meio de um montão de delícias e vai
até uma bomboniere perto de casa para
comprar doces? – perguntou ao marido.

– Estou sentindo um cheirinho delicioso!


Será que é o que eu estou pensando?

– Carne assada na panela – disse Ivone.

– Hum...
– Lívia, depois vá lá em casa com o
Niki para jantar, tá? – Ivone pegou no
braço do marido e os dois afastaram-se.

Mariana entrou na casa de sua tia e


conseguiu a resposta que tanto queria.

– Já disse que amo você, tia?

– Só umas trinta vezes! Mari, já estou


me arrependendo...

– Isso não, tia! Fique tranquila, vai dar


tudo certo. Você está fazendo uma boa
ação. Agora é só você comentar com a
minha mãe.

– Mari, não se apaixone por ele.

– Que ideia, tia! É claro que eu não vou


me apaixonar. Antes que você fique
sabendo preciso contar uma coisa...

– O que foi?

– Recebi um convite para jantar em uma


mansão.

– Uma mansão? Ai, ai, ai, Mari! Você


vai acompanhá-lo ao jantar do Robson
Vilar?

– Fui convidada, o que posso fazer? –


deu de ombros.
– Vocês estão saindo muito. Não estou
gostando nada disso!

– Ele precisa ir, certo?

– Ai, Mari, se a sua mãe imaginar que...

– Tia, seja discreta – deu um beijo em


sua tia – Agora preciso correr... Tenho
dois compromissos!

Às 20h o celular de Mariana vibrou. A


apresentação do GEAD havia terminado
há apenas cinco minutos. Quando já
estava perto da porta lateral sentiu uma
mão em seu ombro.

– Já vai embora?

– Oi, Renan. Eu...

– Mari, gostaria de conversar com você.


Quero esclarecer algumas coisas...

– Hoje eu não posso, mas podemos


marcar...

– Está me evitando?

– É claro que não. É que eu...

– Você está maravilhosa! Até parece


que será madrinha de algum casamento...

– Exagerei?

– Não. Você está linda. Esse vestido


azul ficou muito bem em você. Não
lembro dele.

– Só usei uma vez. Fui ao casamento de


uma amiga. Preciso ir.

– Você tem um compromisso, né?

– Tenho sim, Renan... Agora preciso ir...

– Vai sair com alguém que eu conheça?

– Renan!
– Desculpe-me. Certo, então...

– Ligo para você na segunda.

– E o final de semana?

– Vou viajar com a minha tia.

– Ah, então... Boa viagem.

Mariana entrou discretamente no banco


de trás do carro estacionado a poucos
metros do portão principal da igreja.

– Como você demorou! – reclamou ele.


– Boa noite, Mariana, gostaria de
agradecê-la por me acompanhar...

– Cheguei há 10 minutos.

– Você chegou mais cedo. Esqueci de


perguntar: Você vai de motorista ou
posso...

– Pode ficar exatamente onde está.

– Tudo bem. Não vai me agradecer?

– Obrigado por ceder-me alguns minutos


do seu precioso tempo. Satisfeita agora?
– ele estava irritado, ou melhor
irritadíssimo.

– Não mesmo! Nunca vi ninguém


agradecer em um tom desses! E não
serão alguns minutos. Quero jantar.

– Por que não jantou em sua casa? Eu já


jantei – disse com a maior naturalidade.

– Então é assim? Você não imagina a


correria... Ah, se eu gostar do lugar eu
jantarei sim!

– Nem pense nisso. Ficaremos lá no


máximo... quinze minutos.

– Sei.... Adriel, como você acha que eu


estou?

– O que você quer saber? – olhou-a pelo


retrovisor.
– Se estou bem.

– Você deve responder isso.

– Não disfarça. Você sabe o que eu


quero.

– Quer ser elogiada.

– Alguém já disse que estou


maravilhosa, mas quero a sua opinião.

– Alguém? Será que consigo adivinhar?


O “rapaz perfeição”? – perguntou com
desdém.

– Qual é a sua opinião?

– Mariana, estou dirigindo, não posso


me distrair.

– Quando entrei no carro você deu uma


bela olhada.

– Eu? Não mesmo

– Tudo bem. Vou deixar a sua opinião


para depois. Tenho uma novidade!

– Alugou uma piscina de bolinhas para


as meninas da coreografia?

– Boa ideia, mas não é isso. Gosto


quando você brinca...

– Não brinquei.

– Quer saber qual é a novidade ou não?


– Se quiser contar...

– Vou viajar com a minha tia amanhã.

– Então...

– Domingo você vai me buscar em São


Bento do Sapucaí.

– Acho que não é uma boa ideia.

– Adriel! Consegui convencer a minha


tia e...

– Preciso do trabalho da Lívia. Não


posso correr o risco dela ficar chateada
e sair da empresa. Por que a envolveu
nisso?
– A minha tia se aposentará na ALT &
Filhos. Fique tranquilo.

Às 21h15, Adriel chegou à mansão


situada em um condomínio fechado de
altíssimo padrão em Alphaville.
Mariana ficou admirada com a beleza do
local. O amplo jardim e uma fonte de
água a surpreendeu.

– Nossa, que lindo! Quando você falou


em mansão pensei que seria uma casa
enorme e antiga, mas é uma construção
bem moderna!
– O Robson adquiriu há poucos meses.
Fez questão de ser tudo moderno.
Detesto lugares assim! Não gosto dessa
fachada toda de vidros. É tudo muito
aberto... Sem privacidade.

– Aproveita a luz natural. Gostaria de


vir aqui durante o dia.

– Acho que estou vendo uma miragem –


disse Robson dando uma gargalhada –
Pedi para ser avisado assim que você
chegasse, mas falei por falar. Não
imagina o quanto você alegra o meu
coração. Ah, Adriel! – disse um senhor
de 65 anos com os cabelos ligeiramente
grisalhos. Estava satisfeitíssimo.

– Boa noite, Robson. Só ficarei alguns


minutos. Estou aqui porque...

– Porque eu fiz chantagem. Mas... Quem


é ela? Não sabia que estava namorando!
– Robson observou Mariana com
curiosidade.

– Ela não é minha namorada! –


respondeu sem se preocupar em
disfarçar a rispidez – É a Mariana...

– Mariana! Posso abraçá-la?

– Com certeza.
Robson deu um abraço apertado nela e
um beijo no rosto.

– Minha vontade era dar um forte abraço


em meu amigo, mas me segurei –
confidenciou – Viu, Adriel, como
consigo me controlar? Mas... duvido que
você rejeite os abraços desta linda
mulher!

Adriel quase fulminou o antigo cliente


da ALT & Filhos com o olhar.

– Mariana, para estar aqui com ele você


deve ser muito especial.

– Robson, por favor. Ela é uma... uma...


amiga – disse Adriel totalmente sem
jeito.
– Você não me entendeu mal, não é,
Mariana?

– Não. Está tudo bem.

– É que o nosso amigo é tão... difícil de


agradar!

– Eu sei. Entendi perfeitamente. Que


lugar lindo! – disse ela ao olhar para
todos os lados.

– É o meu lar. Venha, Mariana, quero


apresentá-la para algumas pessoas.

– Robson, ela não...

– Não o quê? Alguma problema,


Mariana? Quer me acompanhar? –
estendeu o braço.

– Com certeza– disse ela ao aceitar o


braço dele.

– Fique tranquilo, Adriel, logo ela


estará ao seu lado novamente. Pietro irá
levá-lo até a sua mesa – fez um sinal
discreto para o funcionário – Reservei
um local bem discreto. Você não será
incomodado. Voltarei daqui a poucos
minutos com a sua Mariana.

– Ela não é...

Após quinze minutos, Robson retornou


com Mariana. Adriel ocupava uma mesa
realmente posicionada em um local
distante dos demais convidados. Havia
uma grande pilastra ocultando-o dos
olhares curiosos.

– Pronto. Gostaria de tê-la ao meu lado


por mais tempo, mas não quero privá-lo
de tão maravilhosa companhia, meu
amigo.

– Já vamos embora.

– Não mesmo. Irão jantar. Adriel, você


não pode reclamar. Reservei o lugar
perfeito para você. Bem distante dos
outros, discreto e...

– Agradeço, Robson, mas já jantei.


– Isso é tão... grosseiro! – Robson riu –
Tenho certeza que a Mariana não fez
isso.

– Eu quero jantar – respondeu ela sem


cerimônia.

– Ótimo.

Adriel fez uma carranca, Mariana fez


que não viu.

– Vou deixá-los à sós. Pietro servirá o


jantar.

– Eu não...

– Tudo bem. Ele servirá só para a doce


Mariana.
Assim que Robson afastou-se...

– Avisei que seriam poucos minutos.


Por que você...

– Estou com fome e quero jantar neste


lugar lindo!

– Parece criança.

– Eu? Quem fez até careta?

– Não fiz.

– Fez de novo. Não adianta... Você


precisa se esforçar mais. É tão bonito
que fica difícil fazer uma cara feia –
sorriu para ele – E eu não tenho medo de
cara feia. Vou jantar e ponto final.
Dez minutos depois o jantar foi servido.

– Seja rápida. Quero deixá-la em casa


antes da meia-noite.

– Está com medo que eu me transforme?

– É uma piada? Não teve graça.

– Se tem uma coisa que admiro em um


homem é o senso de humor.

– Então nunca terei a sua...

– A minha...

– Coma logo, Mariana! Quero sair


daqui! Estou...– começou a esfregar as
mãos.
– Ansioso? Pare de esfregar as mãos.
Você está me deixando nervosa.

– É mesmo? Então coma mais rápido.


Preciso sair daqui.

– Por que você não vai lavar as mãos?

– Evito ir em lugares que não conheço.

– Depois vou até o toalete. Deve ser


lindo!

– Você tem cada uma! – meneou a


cabeça.

– Preciso fazer a minha higiene bucal...


E se você resolver me beijar?– ao dizer
isso ela deu um largo sorriso.
– Não ouvi isso.

– Qual o problema?

– Você não corre nenhum risco.

– Risco?

– É. Você sabe. Não precisa fazer a


higiene se for só por... Você sabe –
Adriel estava envergonhado.

– Não corro nenhum risco de ser beijada


por você? – ela estava adorando
provocá-lo.

– É claro que não. Se as pessoas


pensassem só um pouco, nunca
permitiriam que alguém chegasse tão
perto. Um beijo é algo muito nojento. É
uma troca de bactérias! – disse fazendo
“aquela cara de nojo”.

– É uma troca de carinho. Vai me dizer


que você não beijava a sua esposa?

– Que atrevimento, garota!

– Beijava? – insistiu.

Adriel começou a passar o dedo pelo


relógio de pulso. Mariana ficou
observando por alguns segundos sem
dizer nada, mas não resistiu e fez um
comentário que o desagradou ainda
mais.

– Vai quebrar o relógio desse jeito!


Seria mais fácil responder a minha
pergunta.

– Levante-se. Vamos embora agora!

– Não terminei. E vou comer a


sobremesa também.

– Não vai mesmo.

Adriel levantou-se e começou a andar.

– Calma. Espere. Tudo bem, fico sem a


sobremesa. Adriel...

Robson percebeu que Adriel estava


saindo e aproximou-se dele
rapidamente.

– Não ia se despedir de mim? E você


vai mesmo deixar uma dama para trás?
Isso não é nada gentil – disse ao ver
Mariana quase correndo atrás de Adriel.

– Robson, não estou aqui para ser gentil.


Não invente mais nenhum compromisso
para mim. Convide meus irmãos. Boa
noite.

Mariana conseguiu se aproximar.

– Oi, querida, foi um prazer conhecê-la.


Tenha paciência com ele. É um bom
rapaz. Vocês formam um belo casal.

– O jantar estava delicioso e o senhor é


um amor. Espero vê-lo mais vezes.

– Obrigado, linda Mariana. Também


espero. Se o meu grande amigo Alberto
estivesse entre nós... estaria muito feliz
ao ver o filho tão bem acompanhado.

– Não tenho a noite toda. Se você não


quiser correr atrás do carro, é melhor se
apressar – disse Adriel rispidamente.

– Ele é tão gentil! – piscou para Robson


– Obrigada por tudo, boa noite.

– Boa noite, querida Mariana. Adriel,


você alegrou o coração de um velho.
Obrigado.
– Por que saí de casa? Já são onze
horas!

– Não precisa ficar assim. Logo você


estará no aconchego do seu lar. Não sei
por que reclama tanto! Amanhã você
pode acordar tarde. Eu tenho uma noiva
logo cedo e depois vou viajar.

– Pode esquecer a viagem. Não irei.

– Você acha que é assim? Consegui


convencer a minha tia e...

– Pode ir para São Bento.

– E você vai me buscar lá domingo. Vou


enviar uma SMS com o endereço.
Chegue cedo.

– Não conte com isso.

– Covarde.

– Você é tão atrevida!

– E você é covarde. Precisa superar


isso. Seu pai...

– Não fale mais nada. Não quero ouvir a


sua voz até eu estacionar o carro em
frente à sua casa.

– Como quiser. Vou aproveitar para


tirar uma soneca.
Meia-noite e dez, Adriel parou o carro.

– Mariana, acorde! – disse ao virar-se.

– Só com um beijo – respondeu ela com


os olhos fechados.

– Não estou com paciência para


brincadeiras.

– Novidade! Tudo bem, sem beijo –


disse ao ver o semblante sério dele –
Aguarde a minha mensagem.

– Não irei para Campos do Jordão.

– Boa noite, Adriel!


Capítulo 20 –
Campos do Jordão

No dia seguinte, na casa da família


Fernandes...

– Calma, Mari, sente-se para tomar o


café.

– Não posso, mãe, preciso organizar


algumas coisas antes da noiva chegar.
Faltam poucos minutos para as sete –
disse Mariana com uma xícara de café
em uma mão e a metade de um pão com
requeijão na outra.

– As noivas sempre atrasam. Fez a sua


mala?

– Mala? Mãe, voltaremos amanhã à


noite. Só coloquei algumas coisinhas em
uma bolsa.

– A sua tia resolveu viajar tão de


repente! Se eu soubesse com
antecedência iria com vocês, mas
marcamos uma reunião na casa da
Matilde.

– Matilde?
– Ela mudou-se há poucos dias no bairro
e está frequentando a igreja. É viúva e
só tem uma filha que é casada e mora no
interior.

– Ah, entendi. Isso é muito bom... Agora


preciso cuidar da vida...

– E ontem?

– Ontem?

– Você e o Renan?

– O Renan estava no culto...

– Eu sei. E como foi?

– Foi o quê?
– Depois do culto. Onde vocês foram?

– Hã? Mãe, não quero falar sobre o


Renan.

A noiva chegou às 7h30. Mariana fez um


coque alto e Michelle cuidou da
maquiagem. Cléo, uma das alunas do
curso realizado por Mariana, chegou
cedo e começou o seu primeiro dia
como funcionária do Mimãs.

– Niki, para que tanta coisa? –


perguntava Lívia ao tentar fechar a
mochila do filho que estava cheia de
brinquedos — Depois vocês só acabam
brincando de videogame mesmo!

– Ah, mãe! Será que a tia Mari está


pronta? Quero sair logo!

– Ouvi meu nome! Estou prontinha, Niki!


– Mariana deu um beijo na bochecha do
garoto – Podemos ir, tia. Quem vai
dirigir?

– Eu, né, tia! – disse Niki todo animado.

– Com certeza, Niki!

– Mari, você dirige aqui em São Paulo...

– Queria tanto ir com vocês!– reclamou


Ivone – Minha irmãzinha, vê se da
próxima vez avisa com antecedência, tá?

– Pode deixar, mas você não vai


acreditar se eu disser que foi uma
surpresa até para mim, né?

– Hã? Como assim?

– Esqueça. Precisamos ir.

Lívia só esperou Mariana dar a partida


no carro para indagá-la:

– Mari, ontem a Ivone comentou que


você saiu com o Renan. Por que você
inventou isso?
– Tia, olha o Niki!

– Ele não está prestando atenção.


Jogando no celular e com fone? Ele não
está aqui! – constatou ao olhar
rapidamente para o filho.

– Não inventei nada. Nem mencionei o


Renan. Ela sabia do meu compromisso
na igreja e...

– Como você chegou tarde ela deduziu


que vocês saíram.

– Não posso fazer nada.

– Você se aproveitou da situação.

– Ah, tia!
– Não estou gostando disso. Como foi
ontem?

– O lugar era maravilhoso. Que mansão,


tia! E a comida? Deliciosa. Ah... e o
anfitrião era um amor.

– Aquele cara de nojo jantou também?

– Não fale assim. Não jantou, é óbvio.


Preciso passar uma mensagem para ele,
mas pode ser depois que chegarmos em
São Bento.

– O Robson deve ter ficado bem


surpreso, não é?

– Muito feliz. Deu para perceber o


quanto ele gosta do Adriel.
– Isso é verdade. Pena que o Adriel é
tão insensível.

– Ele não é, tia. Só se afasta das pessoas


para não sofrer.

– Estou com muito medo do seu


interesse – disse Lívia com sinceridade.

– Cuidado com o que fala. Tem alguém


que deve estar bem curioso – disse
Mariana usando o retrovisor para olhar
discretamente para o sobrinho sentado
no banco de trás.

– Ele não está ouvindo nada.

– Vamos falar sobre o pessoal de São


Bento. É mais seguro.
Chegaram em São Bento do Sapucaí às
12h15. Mariana enviou uma mensagem
para Adriel logo após cumprimentos.

– Livinha, não imagina como a visita de


vocês me deixa feliz – disse dona Ester,
durante o almoço.

– É muito bom revê-la, minha sogra!

– Você demora muito para nos visitar,


Livinha! Ontem, eu e o meu velho
olhamos várias fotografias. Tem uma
que eu acho que você vai querer. Você
está em cima de um cavalo e o meu
Elias, ai, que saudade! Ah... ele está
bem ao seu lado com aquele sorriso
lindo que só ele tinha.

– Ah, Ester, lá vem a senhora com as


recordações...

– Recordar momentos felizes faz bem.

– Dói muito, isso sim.

– Meu neto está tão lindo! Está a cada


dia mais parecido com o pai.

– Isso é verdade.
Adriel s ó viu a mensagem de Mariana
no início da noite de sábado.

– Não acredito, ela foi mesmo! Que


garota teimosa! Não irei. Ela que fique
em São Bento – disse ele em voz alta.
Ligou o CD player. A música de
Beethoven encheu o ambiente. Começou
a esfregar as mãos e após alguns
segundos foi até o lavabo. O número 89
veio à mente.

Teimosa... Que garota teimosa! Trinta


e cinco, trinta e seis, trinta e sete...
Não irei, eu não irei mesmo! Trinta e...
trinta e... droga! Trinta e sete, trinta e
oito, trinta e nove, quarenta, quarenta
e um, quarenta e dois, quarenta e três,
quarenta e quatro... Mariana você
ficará em São Bento! Quarenta e...

– Vocês combinaram qual horário? –


perguntou Lívia ao ficar com a sobrinha
no quarto reservado para as duas.

– Ele não respondeu. Pensei em ligar,


mas...
– Mas...

– Estou com medo dele desistir.

– Mari, é melhor ter certeza do que ficar


esperando à toa.

– Não tem problema. Vou esperá-lo aqui


dentro mesmo!

– Tenho certeza que vai acordar bem


cedo, tomar um banho e ficar toda
ansiosa aguardando uma ligação dele.

– Ah, tia!

– Quer que eu ligue?

– Não mesmo! Aí sim ele ficaria


furioso. Está tarde. Vou dormir.

– Nem são duas horas ainda!

– Uma e dezenove, para ser exata. Olha


só quem está falando! Você raramente
fica acordada até tarde! Vou levantar às
sete. Ele deve chegar só depois das
oito.... O Niki ficou todo animado
porque você deixou que ele dormisse na
casa do Edu.

– Ele quase não vê o primo. Ainda nem


devem estar pensando em dormir.

– É claro que não. Querem aproveitar o


máximo.
Tia e sobrinha conversaram até três
horas da madrugada.

Mariana levantou-se alguns minutos


antes das 7h. Estava muito ansiosa. O
celular tocou às 8h10.

Ela saiu assim que ouviu uma voz mal-


humorada dizer que estava em frente à
uma casa de portão rosa.

– Bom dia! – disse ela animadamente.

– Você é tão teimosa! Eu disse que


não...
– Adriel, não seja grosseiro. Dê um
sorriso e diga bom dia!

–Entre logo!

– Não. Estou esperando.

– Esperando o quê?

– O seu sorriso e...

– Por que eu saí de casa hoje? – Adriel


olhava impaciente para todos os lados.

– Porque você quer muito passar


algumas horas agradáveis comigo.

– É hoje! Entre no carro, Mariana!


– Sorriso e...

– Bom dia.

– E o sorriso?

– Está pedindo muito.

– Posso sentar-me ao seu lado?

– Não – respondeu secamente.

–Tudo bem, mas em sinal de protesto


comerei biscoito de polvilho- disse ela
ao entrar no carro.

– O quê?

– Biscoito de polvilho. Quer?


– Você não...

– Calma. Estou brincando, mas preciso


tomar café. Pare em uma padaria.

Dez minutos depois, ele estacionou o


carro. Mariana tomou café com leite,
comeu pão na chapa e um pão de queijo.
Adriel esperou-a impacientemente.

– Como você demorou! A sopa estava


muito quente ou você comeu peixe?

– Olha só o Adriel fazendo piadinhas!


– Piadinhas? Podemos ir agora?

– Não. Preciso fazer uma pergunta:


Adriel, posso sentar-me ao seu lado?

– Você sabe a resposta.

– De que você tem medo? Não entendo.

– Não quero ninguém ao meu lado.

– Se você gosta de ser meu motorista,


tudo bem.

– Você está insuportável hoje!

– Eu?

– Você quer é me provocar, isso sim.


– Não quero, Adriel, me desculpe se
passei essa impressão. É que desde o
primeiro minuto que nos encontramos
você está tão... irritado!

– Eu... eu não quero ir para a chácara.

– Então por que está aqui?

– Por sua culpa.

– Só pensei que seria bom para você,


mas se quiser me deixe no mesmo lugar
e volte para São Paulo.

Ele ligou o carro sem dizer nada.


Minutos depois estavam na estrada em
direção a Campos do Jordão.
– Estou com um soninho! – disse
Mariana quebrando o silêncio – Eu e
minha tia ficamos acordadas até as 3h.
Foi tão bom! Conversamos muito!

– Duas mulheres conversando por


horas? Será que pelo menos eu escapei?

– Escapou?

– Das línguas afiadas!

– Não gostei, mas pode ficar tranquilo...


Só mencionamos o seu nome uma vez.

– Uma vez? – olhou-a rapidamente pelo


retrovisor.

– Uma vez a cada cinco minutos –


respondeu ela rindo muito– Não precisa
se preocupar, é brincadeira. Minha tia
falou muito sobre o meu tio Elias. Fazia
um tempão que ela não falava assim.
Ontem no jantar entendi o motivo dela
não querer visitar a família dele. Foram
muitas recordações! A mãe dele mostrou
várias fotos...

– Que situação chata. A Lívia voltará


péssima para São Paulo.

– Acho que não. Às vezes é bom falar


sobre... as perdas– disse ela receosa.

– Não concordo.

– A dona Ester perguntou para minha tia


se...
– Quem?

– A mãe do meu tio Elias. Ela perguntou


se a minha tia já pensou em casar-se
novamente.

– Ela respondeu que não, certo?

– Ela desconversou. Sei que é uma


escolha dela, mas acho que ela deveria
abrir-se para essa possibilidade. Nunca
se sabe... Vai que aparece alguém e...

– Para quê?

– Para ser feliz.

– Ela sofreu muito quando o seu tio foi


assassinado, para que correr o risco
de...

– Adriel, se todos pensassem assim o


que seria da vida? As tragédias
acontecessem, mas existem momentos
felizes e muitos.

– É mesmo? Mariana, pare de sonhar. A


vida é cinzenta a maior parte do tempo.
O colorido dura pouco, é como... o
arco-íris. Ele aparece de repente e logo
some. Assim são os momentos felizes –
disse melancólico.

– Nossa que poético! Mas achei muito


triste.

– É a vida, Mariana. Você gosta de


balões coloridos e bolhas de sabão, não
é?

– Bolhas de sabão é algo simples, assim


como bexigas ou balões, como você
preferir, mas me encanto com as coisas
simples da vida. Qualquer criança, seja
a mais rica ou a mais pobre, vai se
interessar por uma bexiga ou bolhas de
sabão. Pelo menos é o que eu penso. É
algo mágico. Simples e mágico. São tão
lindas e frágeis... – disse sonhadora.

– Aí eu concordo. Frágeis é isso o que


elas são. Duram pouco, principalmente
as bolhas de sabão. Muitas não chegam
a durar nem um segundo. A vida é assim
também.

– Quando vejo bolhas de sabão e balões


coloridos penso logo em crianças
sorrindo e brincando.

– E eu penso em como a vida é breve.


Notou a diferença? O que você pensa
sobre... a neve?

– Neve? Uma paisagem cheia de neve é


linda! Pena que só vi em filmes.

– Paisagem linda? A neve traz muitos


problemas. Impede as pessoas de
trabalhar, estudar... até de andar.
Pessoas morrem soterradas. Dá para
imaginar uma morte assim? Morrer
congelado?

– Ai, você só pensa no pior! Isso faz


mal, sabia? Adriel, você precisa
acreditar. Sei o que você pensa sobre...
milagres, mas seria maravilhoso se você
mudasse. É possível...

– Você é muito ingênua ou crédula


demais. Talvez as duas coisas. Acho que
você até acreditaria se algum “profeta”
dissesse que fomos feitos um para o
outro, por exemplo – disse ele olhando-
a rapidamente pelo retrovisor.

– Aí você forçou!

– Você não disse que acredita em


milagres?

– Isso não seria um milagre. Seria um


absurdo total.
Ele ficou em silêncio.

– Decepcionado?

– O quê?– perguntou ele como se


estivesse distante dali.

– Perguntei se você ficou decepcionado.


Será que você esperava que eu fosse
dizer que...

– Não esperava nada, garota!

– Garota? Lá vem você com isso...

– Feri os seus sentimentos, Mariana? -


ele deu ênfase ao nome dela.

– Não precisa falar assim. É melhor


você só dirigir.

– Concordo.

Ficaram em silêncio por cerca de dez


minutos. Ao olhar a bela paisagem,
Mariana não resistiu.

– Que lindo! Os meus olhos não cansam


de admirar...

– Os meus ouvidos não cansam de


admirar o silêncio.

– Chato. Se você quiser conversar terá


que implorar!

– Ótimo. Amei ouvir isso – ele olhou


pelo retrovisor e Mariana mostrou a
língua – Que coisa feia!

Às 10h, Adriel chegou à Vila Inglesa.


Mariana continuou em silêncio. Estava
admirando a paisagem.

– Nossa, que lugar maravilhoso!– disse


ela sem se conter mais ao se deparar
com a vista da serra da Mantiqueira.

Adriel parou o carro e resmungou:

– Por que não peguei o controle com a


Tati? Eu sei o motivo... ela faria muitas
perguntas– retirou o celular do bolso da
calça e fez uma ligação.

– Emerson, abra o portão.

Pouco tempo depois o portão automático


foi aberto. Adriel passou pelo portão e
entrou pelo caminho arborizado. Parou
antes da entrada da bela casa em estilo
europeu.

– Uau! Parece tão aconchegante!– disse


Mariana.
Ele desligou o motor, tirou a chave da
ignição e colocou-a no bolso da camisa.
Começou a esfregar as mãos. Mariana,
que ainda estava admirando tudo ao
redor, demorou um pouco para perceber
a ansiedade dele. Adriel olhava para as
mãos que esfregava sem parar.

– Adriel?

Ele não respondeu.

– Adriel? Vamos?

Ela não obteve resposta.

– Você está bem?


– Vamos embora.

– Embora? Nem entramos ainda e...

– Não posso.

– Não pode? Não estou entendendo...

– Não posso entrar!

– Adriel, acalme-se. Pare de esfregar as


mãos.

– Não deveria ter saído de casa. Você é


a culpada.

Mariana percebeu a angústia dele ao


olhar para a casa que estava a poucos
metros, ela viu um homem e uma mulher
parados em frente.

– Você consegue. Precisa vencer isso!

– Não.

– S e não parar de esfregar as mãos


desse jeito vai machucá-las! – disse ela
ao notar que ele esfregava cada vez com
mais força.

– Preciso... Preciso...

– Você precisa sair do carro.

– Não posso. Não consigo.


Ah, Deus, me ajude! Que eu tenha as
palavras certas!– pensou ela.

– Adriel, você chegou até aqui e já foi


um grande passo, mas para...

– Não, Mariana! Será que você não


consegue entender? Ele... Ele... Caiu...

– Caiu? Adriel, o que você está falando?


Quem caiu?

– O meu pai. Ele caiu...

– Onde?

– Na varanda. Nós estávamos de saída.


Minha mãe esqueceu uma bolsa e eu
entrei na casa novamente para buscá-
la...

– Adriel...

– Quando saí da casa... encontrei meu


pai caído e minha mãe abaixada
tentando entender o que havia
acontecido... Eu... Eu... Não posso entrar
... Não posso! – disse angustiado.

– Adriel, o seu pai gostava daqui?

– Muito.

– Se ele pudesse vê-lo agora, ficaria


feliz por você retornar ao lugar que com
certeza tem lindas e preciosas
lembranças...

– E tristes lembranças também. Parece


que foi ontem... A ambulância... Minha
mãe desesperada... A Tati chorando e eu
sem saber o que fazer.

– E o seu irmão?

– O Abner e o Joel estavam em uma


viagem de negócios. O meu cunhado já
trabalhava conosco antes de casar-se
com a Tati.

Mariana sentiu-se um pouco aliviada ao


ver que pelo menos ele não estava mais
esfregando as mãos.
O casal parado em frente à casa estava
curioso.

– Emerson, por que ele parou ali? Quem


será que está com ele?

– Rosa, como eu vou saber?

– É uma mulher... Será que é namorada


dele? Não deve ser. Se ele estivesse
namorando a dona Tereza teria
comentado. Só se for segredo...

– Rosa!

– Será que não é melhor você ir até lá?


– Eu? Nem pensar! Não vou correr o
risco de atrapalhar o… namoro. Se bem
que... ela está no banco de trás e ele no
do motorista... Não dá para namorar
assim – constatou Emerson –Meu celular
está tocando... Deve ser o patrão.

– Emerson, abra o portão.

– É para abrir o portão?

– É isso mesmo, Emerson!

Emerson ouviu uma voz de mulher


dizendo:
– Adriel, espere. Vamos descer do
carro. Tente pelo menos.

– Mariana... Eu não... Emerson, espere


um pouco– disse ele e em seguida
desligou o celular.

– O que ele falou? – perguntou Rosa


curiosa.

– Para eu abrir o portão, mas depois


disse para esperar.

– Nossa... O que está acontecendo? Será


que estão brigando?
– Acho que ele não consegue sair do
carro.

– Hã? Ah, Emerson, por causa do pai!


Coitado. Ontem, quando ele ligou para
avisar que talvez viria aqui hoje, nem
acreditei! Era muito bom para ser
verdade!

– É. Ele não colocou mais os pés aqui


desde a morte do seu Alberto. Deu para
ouvir uma parte da conversa dele com
a…Mariana... Ele a chamou assim –
acrescentou Emerson ao ver a
interrogação nos olhos da esposa – Pelo
jeito ela está tentando convencê-lo a sair
do carro.

– Mariana! Será que eles estão


namorando e a dona Tereza nem sabe
disso? Ela ficaria tão feliz se...

– Rosa, nem pense em ligar para ela!

– Você deve pensar que sou louco, não


é?

– Adriel, penso que você amou muito


seu pai, sofreu muitíssimo ao perdê-lo e
não consegue superar isso. Procure
lembrar-se dos momentos felizes que
vocês passaram aqui. Aproveite a
oportunidade. O seu pai amava este
lugar e pelo pouco que pude ver até
agora ele tinha muitos motivos para isso
– comentou ao olhar para todos os
lados.

– Ele amava muito mesmo, você tem


razão.

– E então? Estou louca para conhecer


tudo, por favor!

Adriel estacionou próximo à entrada da


casa, olhou Mariana pelo retrovisor,
respirou fundo e saiu do carro. Ela
sentiu-se aliviada e agradecida pela
significativa conquista. Mariana pegou a
sua bolsa e também saiu do carro.

– Bom dia, Adriel, é muito bom tê-lo


aqui novamente – disse Emerson.

– Está tudo do jeito que o senhor gosta.


Tudo limpo e organizado– acrescentou
Rosa com um sorriso, depois olhou para
Mariana com curiosidade.

– Ótimo – Adriel olhava com


desconforto para a varanda onde
encontrou o pai caído.

– Bom dia, sou a Mariana, é um prazer


conhecê-los – ao dizer isso aproximou-
se de Rosa e a cumprimentou com um
beijo. Depois estendeu a mão para
Emerson para um aperto de mãos.

– Seja bem-vinda, dona Mariana. Eu sou


a Rosa e este é o meu marido, Emerson
–Se precisar de qualquer coisa é só me
chamar.

– Obrigada, Rosa, mas pode me chamar


de Mariana, esqueça o “dona”!

– Ah... certo, como quiser.

– É como minha esposa disse... se


precisar é só chamar. Adriel? Posso
ajudá-lo?

Adriel continuava parado olhando para


a varanda.
– Adriel?

– O quê? Eu...

– Vai precisar de mim?

– Hã? Ah... não, Emerson.

– Posso fazer o almoço, se o senhor


quiser.

– Almoço? Não será necessário, Rosa.

– Então, Rosa, vamos para casa – disse


Emerson puxando o braço da esposa –
Tenham um bom dia.

– Obrigada – agradeceu Mariana com


um sorriso.
Assim que afastaram-se, ela perguntou:

– Pretende ficar aí a manhã inteira? Não


vai me convidar para conhecer a casa?

Ele continuava em silêncio olhando para


a varanda.

– Adriel? Oiii!

– O que você disse?

– Perguntei se você não vai me convidar


para entrar.

– Ah... é claro. Você pode seguir pela


direita... Irei pela esquerda e nos
encontramos...

Mariana percebeu que ele queria evitar


o lado direito da varanda e logo pensou
que provavelmente Adriel encontrara o
pai caído ali.

– Posso ir com você?

– Sim.

Ele deu uma rápida olhada para o lado


direito e logo após começou a andar em
direção oposta. Mariana o seguiu, mas
deu poucos passos.

– O que foi? Por que você está


voltando?
– Preciso pegar uma bolsa no carro.

– Quer ajuda?

– É só uma bolsa, Mariana!

Adriel voltou com uma grande bolsa


térmica e uma sacola.

– Acho lindo casa com varanda por


todos os lados! É tão acolhedor! –
comentou Mariana.

– Do outro lado havia duas redes, um


balanço e também uma poltrona onde
meu... pai ficava horas lendo um bom
livro. Ele dizia... É... Não sei se
mudaram alguma coisa.

– Ele dizia...

– Dizia que não existia nada melhor do


q u e u m bom livro, uma excelente
poltrona para relaxar e a linda paisagem
daqui. Se não mudaram de lugar você
mesma poderá ver...

Adriel abriu a elegante porta de madeira


escura e deu espaço para Mariana
passar. O Hall era decorado com um
antigo mancebo de madeira e um quadro.
– Nossa, o mancebo deve ser...

– Era da minha avó paterna. Tem mais


de 80 anos! Ela deu de presente para a
minha mãe.

Mariana deu alguns passos e se deparou


com uma espaçosa sala. As paredes
eram brancas e os móveis na cor bege.
Parou encantada diante de uma lareira.

– Que acolhedor! Gostaria de voltar


aqui no inverno – disse ela sem
cerimônia.

– Preciso lavar as minhas mãos...


Poderia levar a bolsa para a cozinha? É
só seguir pelo corredor. Depois eu
coloco tudo na geladeira.
– Também posso fazer isso, se quiser.

– Ótimo. Então tire tudo e coloque na


geladeira, com cuidado. Você gosta de
lasanha quatro queijos?

– Gosto muito! Não sou nem um pouco


enjoada para comer. Acho que só não
gosto de jiló e quiabo – Mariana notou
que Adriel fixou os olhos em uma
estante cheia de porta-retratos.

– Eu... Eu... Preciso lavar as mãos.

– A bolsa...

– O quê?

– A bolsa.
– Ah! Certo.

Adriel entregou a bolsa térmica sem


desviar o olhar da estante, aproximou-se
um pouco mais, colocou a sacola em
cima de uma poltrona e começou a
esfregar as mãos freneticamente. Ela o
fitava sem saber o que dizer. Do lugar
onde estava não dava para ver
claramente, mas imaginou que seriam
fotos da família. Ele chegou bem
próximo, parou de esfregar as mãos,
moveu a mão direita em direção ao
primeiro porta-retrato, mas rapidamente
a recolheu junto ao peito. Ela observava
a cena em silêncio. Ele fechou os olhos,
respirou fundo e afastou-se
abruptamente. Quase esbarrou em
Mariana.

– Eu... Tenho que lavar as minhas mãos


– disse quase sussurrando.

Ela aproximou-se da estante assim que


ele saiu da sala. Havia um menino e um
homem no primeiro porta-retrato.
Estavam sorrindo. O homem segurava
um livro na mão direita e o menino
estava com as mãos estendidas para
pegá-lo. Mariana ainda deu uma olhada
nos outros que estavam cuidadosamente
organizados. Era um porta-retrato mais
bonito do que o outro. Ela gostou muito
de um em que a família estava toda
reunida. Adriel deveria ter mais ou
menos 20 anos. Observou que ele
sempre ficava ao lado do pai.

Que sorriso lindo! Ele era muito feliz.


Está sorrindo em todas as fotos. O pai
dele era tão elegante! Ai, preciso levar
isso para a cozinha antes que ele volte
– pensou e saiu apressadamente.

Adriel retornou dez minutos depois.


Mariana esperou-o na cozinha.

Melhor evitar um novo encontro com


aqueles retratos. Não quero ver aquela
tristeza no olhar dele novamente.
– Já está tudo na geladeira – disse ela.

– Ótimo. Você gostaria de andar um


pouco pela chácara?

– Com certeza.

Saíram da cozinha. Mariana o seguiu por


um corredor que ainda não havia
percorrido. Passaram por duas portas.
De repente Adriel parou e explicou:

– Naquela porta – disse apontando para


a segunda – temos uma pequena
biblioteca e o escritório.
– Ah... Que máximo! Depois você me
mostra?

– Talvez.

– Talvez?

– É isso mesmo.

– Há quantas entradas? Não passamos


por aqui.

– Com a principal são três. Agora


sairemos pelos fundos, mas ainda há
uma porta do outro lado. Lembra que eu
falei que havia redes e... Ah, estou
explicando demais! Venha.
– Não sei como você conseguiu ficar
tanto tempo longe daqui! É um lugar tão
lindo – disse Mariana após andar alguns
minutos ao lado dele em o mais absoluto
silêncio, o que, é claro, foi o maior
sacrifício para ela. Passaram por
algumas árvores frutíferas. Mariana não
resistiu e pegou uma mexerica

– O que você está fazendo? – perguntou


Adriel ao vê-la descascar a fruta.

– Que pergunta! Quer um gomo?

– É claro que não! – fez “aquela cara de


nojo”.
– Por quê? Como você pode resistir?
Hum... está um mel! Tem certeza que
não...

– Já disse que não quero! Agora você


ficará com um cheiro horrível nas mãos!
É melhor lavá-las...

– Para com isso, não tenho a sua neura!

Ele ficou olhando para ela por alguns


segundos. Mariana arrependeu-se por ter
falado daquela maneira.

– Desculpe-me.

– Preciso fazer o almoço.

– Para que a pressa? A lasanha já está


pronta, é só aquecer.

– Tenho que arrumar a mesa, preparar


uma salada e...

– Calma! Ei... relaxe. Posso ajudá-lo,


não temos hora marcada e...

– Tenho que deixá-la em São Bento.

– Adriel, pare com isso. Aproveite o


lugar... Sinta o ar puro... Viva o
momento. Será que isso é pedir muito?

Mariana observou Adriel afastar-se


rapidamente. Resolveu não segui-lo.
Que triste! O que adianta estar em um
lugar tão lindo? Só o corpo dele está
aqui. A mente continua na ansiolândia,
impaciolândia, confusiolândia e outros
lugares semelhantes – ao pensar isso
ela não pôde deixar de rir.

Antes de ir até a cozinha, Adriel entrou


no escritório, mas não permaneceu lá
nem cinco minutos. Saiu assim que olhou
para uma mesa redonda e lembrou o que
havia nela. Foi direto ao lavabo.

Noventa e nove... Noventa e nove...


Ao entrar, Mariana também foi ao
lavabo que ficava ao lado da cozinha.
Vou lavar as minhas mãos antes de
oferecer ajuda. Estava para colocar a
mão na maçaneta quando ouviu a voz de
Adriel.

– Sessenta e três, sessenta e quatro,


sessenta e cinco... Não deveria ter saído
de casa. O que estou fazendo aqui?
Sessenta e cinco... não... sessenta e seis,
sessenta e sete, sessenta e oito, sessenta
e nove... A culpa é daquela garota...
Setenta, setenta e um...– dizia em voz
alta porque não estava conseguindo se
concentrar nos números.
Capítulo 21 –
Quebra-cabeças

Mariana resolveu esperar na sala de


estar, mas antes passou pela cozinha e
notou que ele não havia mexido um
dedo. Instantes depois ela ouviu passos.
Adriel foi direto para a cozinha.

– Quer ajuda? Só vou lavar as minhas


mãos e...
– Esta fala é minha – disse sem
expressão.

Ela riu e olhou para ele na esperança de


ver um sorriso, mas Adriel, como
sempre, estava com o semblante sério.

– E eu não preciso de ajuda –


completou.

– Lavarei as minhas mãos mesmo assim.


Também faço isso, viu? É claro que não
tantas vezes como você, né? Ah... e
também não conto enquanto...–
arrependeu-se no mesmo instante, mas já
era tarde demais.
– Você anda me espionando?

– Espionando? Que jeito de falar! Só


entrei para lavar as minhas mãos e...

– E ficou ouvindo atrás da porta! A sua


mãe não ensinou que isso é muito feio?
Que é falta de educação? – perguntou
ele em um tom ríspido.

– Não precisa falar assim comigo! Não


sabia que você estava lá. Pensei que o
almoço...

– Pode sair daqui agora? Não consigo


fazer nada com você me olhando assim.

– Só vou sair porque você pediu com


jeitinho. Jeitinho grosseiro!
– Quer gentileza? Saia com o “ rapaz
perfeição”.

–Tem razão, ele é muito gentil.

– O que você está fazendo aqui? Por que


não marcou um piquenique com ele?

– É verdade. Pelo menos meu estômago


não estaria roncando!

– Hã? Está com fome?

Mariana gostou da mudança repentina. A


voz dele saiu bem suave.

– Posso esperar. Lavarei as minhas


mãos e depois ficarei bem quietinha na
sala.
Ao entrar na sala de estar ela viu seis
cadeiras que não estavam ali antes. Uma
hora e meia depois, o almoço estava
servido. Mariana não entendeu o motivo
de tanta demora, já que tudo estava
praticamente pronto, mas ficou calada.

Melhor não provocá-lo. Sei lá... De


repente ele também conta enquanto
prepara tudo e lava as mãos trocentas
vezes!

A mesa da sala de jantar estava


impecavelmente organizada. Era uma
grande mesa oval onde havia uma toalha
branca com detalhes florais em relevo,
quatro pratos, talheres, 6 copos, 3 jarras
de cristal, duas travessas de inox, um
delicado porta-guardanapos e somente
duas cadeiras, embora fosse uma mesa
para oito lugares. Mariana lembrou-se
das seis cadeiras que estavam na sala de
estar e ficou intrigada.

O Adriel tirou as cadeiras daqui e as


colocou na sala de estar? Por quê?

– Você sabe arrumar uma mesa, hein?

– Não disse que estava com fome?

– Só estava elogiando. Posso?


– Não é necessário – disse secamente.

– Estou até com medo de sujar a toalha!


É tão branquinha! Você fez isso de
propósito, não é?

– Mariana, acho que você não está com


fome.

– Estou com muita fome!

– Então... Sente-se. Não está esperando


que eu puxe a cadeira, está?

– É para rir agora ou... Ah, Adriel, até


parece que eu...

Mariana segurou o riso quando,


surpreendemente, Adriel puxou a
cadeira para ela.

– Obrigada, foi muito gentil.

– Não foi gentileza... Você precisava de


um incentivo para sentar-se.

– Mesmo assim eu agradeço. Hum...


Deve estar uma delícia!

– É só uma lasanha e salada. Pensei em


preparar uma carne, mas...

– Para que tantos copos e pratos?

– Tantos? Um copo para água e mais


dois para cada sabor de suco. Um prato
para a salada e outro para a lasanha...
– Coloco tudo junto. É... Estou falando
da salada e da lasanha, tá?

– Sério? Pensei que a água e o suco


também... Tudo junto e misturado em um
prato com a lasanha e a salada!

– Nossa, o Adriel está brincando?


Legal! Só que você perdeu a
oportunidade perfeita de falar “dã” para
mim.

Ele fez uma careta.

– Deixa eu ver... É rúcula? – perguntou


Mariana assim que ele tirou a tampa da
travessa de inox.

– Você não gosta?


– Mais ou menos. Prefiro alface, mas
ainda bem que você colocou tomate
cereja, hum, delícia!

– Suco de uva, abacaxi e...

– Água. Adriel, eu conheço água, tá?

– Só ia dizer que tem uma lata de


refrigerante na geladeira, se preferir...

– Não. Está ótimo. Você não se importa


se eu colocar a salada e a lasanha no
mesmo prato, não é?

– Fique à vontade.

Adriel comeu a salada e logo após


trocou o prato para servir-se de lasanha.
–Tem certeza que foi você quem fez a
lasanha?

– Não, foi meu irmão gêmeo!

–Você está cheio de gracinhas hoje. Está


uma delícia... Estou me referindo à
lasanha... – preferiu esclarecer –
Falando sério, nunca comi uma lasanha
tão saborosa.

– Não preciso de elogios.

– Chato. Posso fazer uma pergunta?

– Já fez.

– Outra. Dã!
– Detesto.

– Detesta o quê?

– Essa coisa de “dã”!

– Não seja tão radical! Posso fazer a


pergunta?

– Pergunte, respondo se quiser.

– Sei que vai achar que é uma pergunta


boba, mas...Se tivesse mais cinco
convidados aqui, quantos copos você
colocaria? A mesa ficaria...

– Não acredito nisso! Mariana, tem


razão ao dizer que é uma pergunta boba,
mas... A mesa ficaria do mesmo jeito
porque além de você eu não convidaria
mais ninguém – respondeu com rispidez.

– Estou lisonjeada! – ela o encarou e


sorriu.

– Não é para tanto. Só quis dizer que


não sou de fazer convites – disse ele
desviando o olhar.

– Agora não adianta tentar consertar, já


ouvi e guardei aqui – colocou a mão
direita no lado esquerdo do peito.

– Que tal ficar calada e comer?

– Quem mandou falar uma coisa tão


fofa? Agora aguente!
– Fofa? Eu só... Ah, esqueça!

– Não esqueço.

– Criança!

– Isso para mim é um elogio.

– Não falarei mais nada.

– Não faça isso comigo, gosto tanto de


ouvir a sua voz!

– Mariana!

– E gosto mais ainda quando você diz o


meu nome.
Adriel respirou fundo e começou a
esfregar as mãos.

– Não precisa ficar assim. Adriel, não


posso brincar um pouquinho com você?

– Não pode. Preciso sair um pouco...

–Vai me deixar aqui sozinha? Não


terminei ainda.

– Não para de falar. Só ficarei se você...

– Ficarei calada, mas antes me diga


porque tirou as cadeiras daqui? Elas
estão na...
–Você disse que ficaria calada.

Ela fez uma careta.

Enquanto Mariana saboreava o almoço,


Adriel circulava o visor do relógio de
pulso com um dedo.

–Vai quebrar.

– O quê?

– O relógio.

–Você está falando?

– Não, estou fazendo mímica.

– Não tem graça. Terminou?


– Sim. Tem sobremesa?

– Atrevida.

– Não conheço. Quais os ingredientes?

– Cabelos negros, baixinha, fala demais,


sorri demais...

– E você gosta? – ela abriu um largo


sorriso e piscou para ele.

– Mousse de chocolate.

– Delícia, mas você não respondeu a


minha pergunta.

– Respondi sim – ele deu um meio


sorriso.
– É um enigma?

– Vou buscar a sobremesa.

– Não sou baixinha. Você é que é alto –


disse ela ao vê-lo afastar-se – E eu
adorei ver o seu sorriso! – gritou ela.

– Quanto? Talvez 1,60... no máximo –


respondeu ele enquanto caminhava até a
cozinha – E eu não sorri!

– Errado, 1,62 e você sorriu sim!

Adriel voltou com duas taças de inox em


uma bandeja e duas colheres de
sobremesa.
– Nossa, que taça linda! Parece uma
flor!

– Quer admirar a taça ou …

– Impaciente. Vou experimentar para dar


o veredicto. A lasanha estava deliciosa.
Agora só quero ver se você também
sabe fazer doces!

– Não fiz a sobremesa. Foi a minha mãe.


Ela convidou-me para almoçar e como
eu disse que já tinha um compromisso...

– Você disse que...

– Não disse com quem e muito menos


onde. Ninguém precisa saber disso,
entendeu?
– Não entendi. Quero que você desenhe
– brincou ela.

– Mariana, não gosto desse tipo de...

– Calma! Como você é estressadinho!


Nossa, se eu soubesse que a sua mãe
queria almoçar com você não teria
insistido...

– É mesmo? Ah, se eu soubesse disso!

– Está arrependido?

– Não, mas se você continuar falando


assim...

–Vou saborear minha mousse. Hum,


maravilhosa! Vou dizer uma coisa
mesmo que você não goste... A sua mãe
ficaria muito feliz se soubesse que você
– ela viu Adriel esfregando as mãos,
mas mesmo assim continuou – está
vencendo os seus medos e...

– Pare, Mariana!

– Você não gostaria de vê-la feliz?

– Já disse para você parar! Coma a sua


sobremesa.

–Você pensa que me intimida?

– Parece a sua tia falando!

Mariana sorriu e continuou saboreando a


s u a mousse de chocolate. Adriel
levantou-se pouco tempo depois e disse:

– Vou lavar a louça.

– Posso fazer isso.

– Pode ficar aqui bem quietinha.

–Você lava louça? Pensei que não


movesse um dedo. É que você é tão...

– Tão?

– É... Tão... Você sabe!

– Está intimidada?

– Não. É que não sei bem como dizer


sem...
– Então por que não fica calada?

– Não!É que você lava as mãos


“trocentas” vezes que pensei que não
tocasse em certas coisas como pratos
sujos, por exemplo e...

–Você pensa demais. Se quiser mais


mousse é só pegar na geladeira.

– Posso pelo menos ajudá-lo a levar as


coisas para a cozinha?

– Não pode.

Após terminar a sobremesa, Mariana


levou a taça até a cozinha. Pensou em
oferecer-se para enxugar a louça, mas
mudou de ideia rapidamente. Resolveu
andar um pouco pela chácara. Faltavam
poucos minutos para as 15h.

Ela sentou-se debaixo de uma árvore.


Estava pensando em como era
complicado entender alguém como
Adriel.

Por que não consigo ficar calada? Já


deu para perceber que ele detesta falar
sobre essa coisa de lavar as mãos, mas
mesmo assim eu insisto...

– Quer conhecer a biblioteca? –


perguntou ele ao aproximar- se bem
devagar.

– Ai! Você me assustou!

– Quer conhecer ou não?

– Tudo bem. Prometo que ficarei


quietinha.

– Não prometa algo que com certeza não


conseguirá cumprir.

– Como você pode falar assim?


Magoou– disse ela fazendo beicinho.

– Se você quer mesmo conhecer a


biblioteca é melhor apressar-se.
Sairemos em trinta minutos. Sua tia já
deve estar preocupada. Não quero
aguentar reclamações a semana inteira!

– Ainda nem são quatro horas!

– Vocês ficarão em São Bento hoje? Eu


voltarei para São Paulo.

– Nós também.

– Não quero viajar à noite e acho que a


Lívia também não. Então...

Mariana encontrou seis edições


diferentes do livro “O Pequeno
Príncipe”.
– Pensei que você tivesse só aquela
edição que a sua avó deu de presente ao
seu pai...

– Estas foram compradas por meu pai.


Ele sempre estava atrás de edições mais
antigas.

– Posso pegar?– perguntou ela ao notar


que era uma edição bem antiga.

– Aqui está...Manuseie com cuidado.

– Nossa, é de 1956!

– Esta era a segunda preferida dele. É a


edição mais antiga que ele conseguiu
encontrar.
– Por que você deixa aqui? Deveria
levá-la para seu apartamento. É uma
edição tão especial!

– Ele deixou aqui – disse como se


estivesse bem distante.

– É melhor você colocá-la no lugar.

Mariana aproximou-se de uma mesa que


Adriel estava evitando. Um grande
plástico transparente e grosso cobria a
mesa e ela notou que debaixo dele havia
um grande quebra-cabeças montado. Era
o desenho de uma paisagem rural. Céu
azul, folhagens e terra. Ela notou que
faltavam poucas peças para completar.
– Por que a pessoa não terminou de
montar? Faltava tão pouco! Deve ter
dado um trabalhão! As peças são tão
parecidas!

– Não mexa! – disse ele rispidamente.

– Precisa falar assim? Só queria ver se


as peças estão todas aqui. Posso tirar o
plástico e tentar terminar?

– Não pode! Vamos embora. Está tarde.


Sua tia...

– Adriel, o que aconteceu? Estava tudo


bem e...
– Você é muito curiosa e eu não gosto
disso. Venha – disse ele em tom
imperativo, já próximo à porta.

Mariana continuava no mesmo lugar


observando o quebra-cabeças.

– Eu acrescentaria algumas coisas ao


desenho. Gosto de paisagens, mas falta
um colorido aqui.

– Não falta nada, é perfeita.

– Sabe o que eu colocaria? Um balão


vermelho em formato de coração voando
pelo céu... Ficaria perfeito! Aqui está
tudo tão sério!

– Está perfeito. Foi... Foi meu pai quem


comprou para...

– Desculpe-me, eu não...

– Para montarmos juntos. Ele gostava de


quebra-cabeças com muitas peças –
começou a esfregar as mãos
freneticamente.

– Ah... Acho que é melhor nós irmos...

– No dia em que ele... sentiu-se mal –


disse quase sussurrando – montávamos o
quebra-cabeças e só paramos porque
minha mãe avisou que era hora de
voltarmos para São Paulo. Até parece
que estou vendo tudo acontecer...
Lembro das palavras dele como se fosse
hoje – disse ele fechando os olhos.
– Não adianta, filho. Não vamos
terminar. Não posso deixar a minha
rainha esperando! Sabe o que
parecemos? Nós dois? Crianças.

– Está certo. Podemos terminá-lo no


próximo final de semana. Combinado?

– Combinadíssimo! Agora preciso lavar


as mãos. Você vem comigo?

– Só vou colocar mais algumas peças


e...

– Adriel, venha comigo. Você não vai


lavar as mãos?
– Quero completar esta parte aqui...

– Tudo bem, mas não demore.

Ele abriu os olhos e desviou o olhar de


Mariana porque estava com os olhos
marejados.

– Meu pai saiu e eu ainda coloquei mais


10 ou 12 peças. Ele a chamava de
“minha rainha”... Minha mãe era a
rainha dele! Poucos minutos depois...
ele estava caído na varanda.

– Sinto muito. Mas você tem lembranças


lindas dele. Lindas e preciosas.

– Sim. Preciso lavar as minhas mãos...


Pode esperar-me na sala de estar?

– É claro.

Ela aproximou-se da estante, levantou a


mão para pegar um dos porta-retratos,
mas deteve-se ao ouvir passos. Adriel,
sem dizer nada, pegou a sacola que
havia deixado em uma das poltronas.
Assim que ele afastou-se, Mariana
pegou o porta-retrato que mostrava
Adriel e o pai próximos à piscina da
chácara. Colocou-o no lugar e deu mais
uma olhada em todos. Havia uma foto de
Tatiana com a pequena Sofia e o marido.
A pequena deveria ter só alguns dias de
vida. Sorriu ao ver a irmã e o namorado
em um dos porta-retratos. Não havia
notado antes porque estava com receio
que Adriel aparecesse. Pegou um que a
família estava toda reunida e sentou-se
pensativa.

E a Elisa? Por que não há nenhuma


foto dela?– distraída nem notou a
aproximação dele.

– Já são quatro horas! Precisamos ir


agora senão ficará tarde para voltarem
para São Paulo.

–Você adora chegar de supetão, não é?


– Devo ligar para o seu celular antes de
aparecer?

– Brincando? Que legal!

– Ironizando. Podemos ir agora? –


perguntou olhando com curiosidade para
o porta-retrato na mão dela.

– Se não tem outro jeito... Espera aí...


Você tomou banho?- perguntou ao notar
que ele havia trocado a camisa e que o
cabelo estava molhado.

– Chega de conversa. Também preciso


voltar e não quero pegar a estrada à
noite.

–Gostei de vê-lo assim com o cabelo


molhado. Ficou charmoso.

– Pare com isso.

– Para quem tomou banho até que você


não demorou. Acho que você demora
mais para lavar as mãos do que...

Adriel a encarou sério.

– Tudo bem... Esqueça isso. Ah...Na


próxima vez quero entrar na piscina.
Você sabe nadar?

– Quem disse que haverá próxima vez?


Sei nadar, mas...

– Eu não sei. Você bem que podia me


ensinar, né?
– É uma piada? Só pode ser. Vamos
embora!– disse irritado.

– Pavio curto.

Encaminhou-se rapidamente até a porta


e esperou por ela. Mariana colocou o
porta-retrato no lugar e saiu apressada.
Adriel fechou a porta assim que ela
passou por ele. Mariana começou a
correr feito criança até o carro.

– Está apostando corrida com o vento?

– É tão gostoso. Dá uma sensação de


liberdade! Você deveria experimentar. É
assim... Abra os braços, respire fundo,
solte o ar e corra – ao dizer isso ela
começou a correr de braços abertos. Ele
ficou observando a cena sem acreditar.
Balançou a cabeça várias vezes em sinal
de reprovação e depois entrou no carro.

– Se não quiser voltar para São Bento


correndo é melhor entrar no carro –
gritou ele, em seguida pegou o celular e
ligou para o caseiro.

– Emerson, abra o portão.

Mariana aproximou-se da porta do


motorista, deu um largo sorriso e
perguntou:

– Posso sentar-me ao seu lado?


– Não!

– Tudo bem. Pelo menos eu tentei.

Emerson apareceu com o controle em


uma das mãos.

– Façam uma ótima viagem – disse antes


de apertar o botão.

– Obrigada – respondeu Mariana


acenando.

Adriel olhou rapidamente para o caseiro


e assentiu; ligou o motor e saiu ao
verificar que o portão estava totalmente
aberto.
– Ficarei esperando um novo convite
para voltar aqui.

– Não espere.

– Não preciso esperar porque você fará


o convite mais cedo do que eu imagino?

– É claro que não e... Espero que você


seja discreta. Não quero que ninguém
saiba que estivemos aqui.

– Minha tia sabe.

– Eu sei, Mariana. Peça para ela não


comentar. E o filho dela?
– Ele não sabe. Desde que chegamos o
Niki só ficou com os primos. Até dormiu
na casa de um deles. Deve ter passado o
dia inteiro com eles e..

– Então seja discreta. Não comentem


durante a viagem... O garoto pode ouvir
e...

– Certo, capitão! – fez continência. Ele


viu o gesto pelo retrovisor e meneou a
cabeça reprovando.

– A sua irmã...

– Não sabe.

– Ótimo. Não comente nada com ela. Se


o Abner sonhar que estive aqui...
– Contará para a Tati, que por sua vez
contará para sua mãe, que com certeza
ficará muito feliz. Você não quer ver a
sua mãe feliz?

– Não comente com a sua irmã – insistiu


com impaciência

– Já entendi. Adriel, você deveria


terminar o quebra-cabeças...

– Não. Você poderia ficar calada?

– Fui ao enterro do seu pai – esperou


pela reação dele, mas como ele ficou em
silêncio, Mariana continuou – Um dos
músicos da orquestra tocou “Mais perto
quero estar”¹. Foi lindo. Só um violino...
Alguns segundos de silêncio....

– Era o hino favorito do meu pai. Na


opinião dele, os hinos antigos
expressavam mais o amor ao Doador do
que às dádivas. E o violino era o
instrumento favorito. Ele sempre dizia
que se fosse músico tocaria violino –
disse melancólico.

– Hoje em dia também há hinos que


expressam o amor a Deus, mas concordo
que há muitos que falam sobre receber,
ganhar, receber, ganhar, enfim... Mas
precisamos das coisas, não é? E Deus
sabe disso. É claro que não podemos
nos tornar um bando de interesseiros...
– Você acha que eu errei por não
comparecer ao enterro? – perguntou
quase em um sussurro –Também não fui
ao velório... Eu não podia...

– Você fez o que achou melhor naquele


momento. Cada um tem uma reação
diferente. Há aqueles que precisam ver.
É como um ritual de despedida ou algo
assim – disse com sabedoria – E há os
que só querem ter as boas lembranças.
Não desejam que a última imagem da
pessoa querida seja em um caixão.

– Meu pai não comparecia aos velórios


e enterros – confessou e ficou surpreso
por se abrir com Mariana com tanta
facilidade – Ele dizia: “Não há razão
para despedir-se das pessoas amadas
porque você sempre as leva dentro do
coração”. Meu pai nunca se despedia...

– Lindas palavras. As despedidas são


tristes, mas não tem como fugir delas.
Mesmo que as palavras não sejam ditas
audivelmente, são proferidas pelo
coração, pelo olhar...

Mais alguns segundos de silêncio.

– Por isso é melhor não se envolver –


afirmou Adriel quebrando o silencio –
O u se envolver o mínimo possível. Há
pessoas que não tem jeito...Não dá para
evitar.

– Como a sua família, por exemplo?


Adriel, se você foge das pessoas para
não sofrer também deixa de ser feliz.

– Felicidade? Isso não existe, Mariana.


Existem momentos felizes. Raros
momentos...

– E com a distância que você coloca até


esses momentos você perde, concorda?

– É melhor assim. Chega de conversa.

– Toquei na ferida?

– Mariana!

– É verdade, não é? Adriel, às vezes é


bom mexer na ferida. É necessário
limpar, passar um remédio, para que
depois ela possa cicatrizar. Você não
acha que o seu período de luto está
muito longo? Os que foram ao enterro
também sentem falta dele e... delas –
disse a última palavra em voz baixa –
Mas elas prosseguiram. E você?

– Chega. Não quero conversar mais.


Estou dirigindo.

– Sério? Não tinha notado. Você precisa


curar essa ferida. Eu... Quero ajudá-lo.

– Quer mesmo? Então fique calada até


chegarmos em São Bento.

Foi uma difícil missão, mas ela só abriu


a boca quando ele estacionou em frente
à casa de dona Ester.
– Gostei muito da chácara e de sua
companhia. Faça uma ótima viagem.

– Obrigado. Façam uma boa viagem... E


sejam discretas!

– Fique tranquilo. Adriel, você gostou


da minha companhia? – ela piscou e
sorriu.

– Mariana, apesar de toda a


tagarelice...Até que não foi tão ruim –
ele fixou o olhar nela mas não sorriu.

– Detestei a “tagarelice”...Soou
péssimo. Até parece que não falo nada
que preste.
– Não quis dizer isso. Expressei-me
mal. É que você, às vezes, é um pouco
indiscreta e... atrevida, mas fala coisas
interessantes a maior parte do tempo.

– Agora eu gostei, valeu! Partindo de


você isso é um grandioso elogio.

– Não exagere. Entre, Mariana! Não


demorem para pegar a estrada. Boa
viagem.

– Obrigada, seu fofo!

– É melhor eu ir, você já está


confundindo as coisas.

Ela sorriu e acenou.


Capítulo 22 –
Yakissoba

Mariana tocou a campainha. Lívia abriu


o portão com o celular na mão.

– Até que enfim, Mari, estava


preocupada! Já ia ligar para o seu
celular e …

– Estou aqui, tia. E o Niki?

– Está tomando banho.

– Notou a minha ausência?


– Não mesmo. Ficou na casa do Edu o
dia inteiro. Precisei ir até lá para buscá-
lo. E então, como foi?

– A chácara é linda, a casa é bem


aconchegante e...

– Mari, já estive lá. Quero saber o que


vocês fizeram, sobre o que
conversaram...

– Acho que a dona Ester está


chamando...

– Agora você vai conseguir


desconversar, mas teremos muitos
quilômetros e...

–Tia, é feio deixar a anfitriã esperando.


O que você disse sobre a minha
ausência?

– Disse que você aproveitou para visitar


uma pessoa conhecida. A dona Ester
estava tão animada mostrando as fotos
de quando o Elias era pequeno que nem
fez mais perguntas.

Elas entraram e só conseguiram sair


após o jantar.

– Lívia, prometa que a sua próxima


visita não vai demorar– pediu dona
Ester ao se despedir da nora.
– Vou tentar vir mais uma vez antes do
ano terminar.

– Foi tão bom poder abraçar o meu neto


novamente! Ele é tão parecido com o
pai... Ah, que saudade do meu Elias!

– Tchau, vó!

– Tchau, querido, amo você. Não


esqueça dessa velha.

– Vó, a senhora não é tão velha, nem tem


cabelos brancos! – falou Niki ao dar um
beijo em sua avó.

– É mesmo, né? Benditos produtos! –


dona Ester sorriu – Mariana, foi um
prazer recebê-la.
– A senhora é um amor e o jantar estava
ótimo.

Despediram-se dos outros membros da


família. Saíram de São Bento às 19h40.

– Agora conte-me tudo.

– Tia, não tenho nada para contar. Estou


dirigindo. Não falo enquanto...

– Você? Até parece! Não se preocupe


com o Niki. Ele já está dormindo –
verificou ao olhar para o banco de trás –
Ficou acordado até quatro horas e você
acredita que antes das dez ele e o primo
já estavam brincando?
– É assim mesmo. Eles sempre querem
aproveitar ao máximo.

– Mari, vamos ao que interessa?

– Tia, não comente nada sobre o meu


passeio.

– Ele pediu?

– Pediu discrição total de nós duas.

– Será que você entendeu direito? E se


ele pediu descrição?

– Não tem graça, tia!

–Você sabe que sou discreta e ele


também, caso contrário não trabalharia
como secretária dele.

– Até que conversamos bastante, mesmo


ele sendo tão reservado. Nossa, como
ele ainda sente falta do pai!

– Por isso demorou tanto para voltar à


chácara. São muitas lembranças.

– Muitas. Ah... Ele levou uma lasanha


quatro queijos de lamber os dedos!

– Você não lambeu, né?– brincou Lívia.

– Ele me fulminaria só com o olhar –


disse Mariana sorrindo.

– Com certeza. Mari, estou preocupada


com vocês dois. Como acabará tudo
isso?

– Não há motivos para se preocupar.

– Não? Você está indo longe demais.


Sabe que não pode se apaixonar por ele,
não é?

– Minha intenção é ajudá-lo. Isso não


tem nada a ver com paixão. Nossa...
Para que andar tão rápido? Viu como ele
me ultrapassou? – perguntou ao ser
ultrapassada por um carro esportivo.

– O Niki ia adorar ver um desses...É


uma pena que esteja dormindo. Diria:
Mãe, você sabia que ele pode chegar a
mais de 350 Km/h.
– Aqui não pode. Eles acham que é pista
de corrida? O Adriel falou para não
pegarmos a estrada à noite. Achei tão
fofo!

– A palavra fofo não combina com ele.

– Você é que pensa.

– Mari! Aconteceu alguma coisa entre


vocês dois?

– Tipo o quê?

– Tipo um... Não é claro que não... O


Adriel não se aproximaria tanto assim.

– Um beijo? – Mariana deu uma


gargalhada – Ai, tia, você sabe como ele
é. Como isso pode passar pela sua
cabeça? Ele não deixa que eu me sente
ao dele no carro!

– Melhor assim. Você sofreria muito.


Ele não quer ninguém. Preferi ficar
sozinho.

– Não concordo. Ele tem muito medo de


sofrer. Não quer correr o risco de
perder novamente. Usa o TOC como um
mecanismo de defesa e de fuga – disse
como se fosse especialista no assunto –
Ele quer manter distância para não se
apegar. Ele precisa reaprender a viver.

– Você deveria afastar-se dele. Se a sua


mãe imaginar que...
– Por favor, tia, não comente nada com
ela. A minha intenção é ajudá-lo e estou
conseguindo isso.

– Sabe o que você deveria fazer?


Aproximar-se do Renan. Quer que eu
dirija?

– Não. Só se você estiver louca para


dirigir...

– Então continue dirigindo. Mari, sua


mãe ficaria feliz e você também. O
Adriel vai magoá-la.

– Não tem nada a ver uma coisa com a


outra. Eu e o Renan somos amigos. O
Adriel é uma pessoa que estou ajudando.
É só isso.
– Por que será que não consigo me
convencer disso?

– Pare de imaginar coisas. Você o


conhece muito bem, por isso deveria ser
a última pessoa a pensar na
possibilidade de um envolvimento
romântico entre nós dois.

– Ai, Mari, não se apaixone por ele.

– Fique tranquila, isso não vai


acontecer.

– Sei... Porque já aconteceu. Sinto isso.

– Pare, tia! Não aconteceu. Chega.


Vamos mudar de assunto. Quero saber
como foi o seu domingo...
Às 22h20, Mariana estacionou o carro
na garagem. Ao entrarem na sala de
estar, depararam-se com um casal
apaixonado.

– Olá! Tem menor entrando – avisou


Mariana.

– Menores, não é, Mari? – brincou


Abner após afastar-se um pouco da
namorada.

– Não entendi – disse ao dar um tapa no


braço dele – Oi, minha maninha linda,
tudo bem?
– Oi, Mari, gostou do passeio? –
perguntou Michelle e em seguida deu um
beijo na irmã.

– Foi ótimo.

– Não podia ser diferente, ela viajou


com a tia favorita dela!– disse Lívia
amparando o filho com o braço – Filho,
sente-se no sofá, só vou cumprimentar a
sua tia e...

– Nossa, o Niki está com um sono, hein?


Quer que eu o leve até a sua casa?

– Eu agradeço, Abner, mas será que


você aguenta? Ele não é um bebê,
embora para mim sempre será meu
bebezão! – mesmo sonolento, Niki fez
uma careta.

– Tenho braços fortes, Lívia! Ele está


ficando alto, mas pesa o quê? Trinta
quilos?

– Um pouco mais...

–Ah, parem com isso! Não quero que


ninguém me pegue no colo! Não sou
bebezão, não, mãe!– reclamou Nicolas,
provocando a risada de todos.

– Vocês demoraram muito! –disse Ivone


ao entrar na sala de estar– Estou rindo
de quê?

– O seu sobrinho está protestando. Não


gostou que eu o chamei de bebezão –
Lívia cumprimentou a irmã com um
beijo. Ivone acariciou os cabelos do
sobrinho.

– Mãe linda, é que estava tão bom! –


Mariana abraçou a mãe – E o pai?

– Já está na cama. Chegou tão cansado!

– Trabalhou hoje? Não era folga dele?

– O Leôncio ligou e implorou para ele


ir, mas amanhã isso não vai acontecer,
já falei para o Hílton que ele está
proibido de atender ao telefone.

– É isso aí, mãe, ele precisa descansar e


eu também! Vou tomar um belo banho e
cair na cama. Boa noite para vocês, mas
antes vou beber água...

– Boa noite, filha, durma bem. Como foi


lá, Lívia? Muitas recordações? A dona
Ester falou muito sobre o Elias?

– Já dá para imaginar, né, Ivone? Só


falou nele, mas, tudo bem, se isso a faz
sentir-se melhor...

– E você, está bem?

– Estou sim. O Niki aproveitou bastante.


Prometi ir mais vezes...

Abner seguiu Mariana até a cozinha...


– E então, cunhadinha, arrumou alguém
por lá?

– Não entendi... – Mariana pegou um


copo e encheu-o com água filtrada.

– É que por aqui está difícil!

– É mesmo? – bebeu um pouco de sua


água.

– Por sua culpa, é claro. Tem alguém


muito apaixonado e você nem liga...

– Ai, Abner! – quase engasgou.

– Mari, dê uma chance para o Renan.

– Ele pediu para você falar isso?


– É claro que não. Ele é um cara tão
legal e...

– Abner, a sua namorada está


esperando!

– Posso marcar alguma coisa com o


Renan?

– Fique à vontade. Você pode sair com


ele quando quiser. Só avise a sua
namorada, né? – disse ela como se não
tivesse entendido a intenção dele.

– Pode ser amanhã? Como vocês não


trabalham...

– Isso é com ela.


– E você?

– Eu? Ai, Abner, não! Você...

– Eu e a Michelle. Você e o Renan.


Podemos assistir a um filme e...

– Não.

– Mari, dê uma chance para ele, não


custa tentar – estava firme no propósito
de ajudar ao amigo.

– Pode custar uma amizade.

– É disso que você tem medo? Você


pode é ganhar um namorado que já é seu
amigo. Não seria o máximo?
– O máximo seria tomar um banho e cair
na cama. Boa noite, Abner.

– Pense sobre isso. Amanhã...

–Não combine nada com o Renan. Tenho


um compromisso...

– É mesmo? Com quem?

– Boa noite, Abner.

– Boa noite, Mari, mas não pense que eu


desisti.

Tenho um compromisso... Será? Bem


que eu gostaria... Estivemos juntos
hoje... Então a possibilidade de
sairmos amanhã é... zero. O Abner quer
dar uma de cupido? Só faltava essa! –
eram os pensamentos de Mariana
durante o banho.

O celular dela tocou assim que ela


colocou a camisola. Olhou o visor e
sorriu.

– Alô! Já está com saudade? – brincou


ela.

– Só queria saber se vocês chegaram


bem – respondeu com sua voz grave.

– Ai, que fofo! Fizemos uma ótima


viagem. E você?

– Então... É só isso. Boa noite.

– Não desligue! Por que tanta pressa?

–Você já disse o que eu queria saber.


É...Demoraram para sair de São Bento?

– Não faz nem uma hora que chegamos


aqui.

– Que imprudência! Não deveriam


viajar à noite.

– Que coisa mais fofa! Ele se preocupa,


mas não quer...

– Boa noite.
Desligou! Ele é fofo...Só que não vai
assumir isso nunca.

No dia seguinte, na ALT & Filhos...

– Estou atrasada! Ele já perguntou por


mim? – perguntou Lívia ao sair do
elevador.

– Ainda não, graças a Deus! – suspirou


Marisa – A Camile não veio hoje e você
se atrasou... Estava morrendo de medo
que ele gritasse comigo e...
– O que aconteceu com a Camile?

– Pegou uma gripe muito forte. Estava


até com febre!

– Ela foi ao médico?

– Ontem precisou ir ao pronto socorro.


Foi medicada e está melhorando, só que
ela não estava em condições de
trabalhar hoje – explicou Marisa.

– Tudo bem. É melhor enfrentar a fera


logo – Lívia colocou sua bolsa em cima
da mesa, pegou a agenda e arrastou a sua
cadeira de rodinhas até a sala de Adriel.
Será que deveria ligar? Estive com ela
ontem e... Não sei se... Quero ligar. Por
quê quero tanto?Por quê essa
necessidade tão grande de estar com
ela? Preciso... Preciso lavar as minhas
mãos. Isso... Lavarei as mãos e não
ligarei para ela.

Ele estava tão distraído que nem


percebeu a entrada de Lívia. Ligou o CD
player e foi rapidamente ao lavabo sem
olhar para trás. Logo o som de Chopin
preencheu o ambiente. A secretária de
Adriel até pensou em voltar depois, mas
permaneceu ali até ele retornar.
Posicionou a sua cadeira em frente à
mesa do patrão e aproveitou para
verificar a agenda.

Setenta e nove, oitenta, oitenta e um,


oitenta e dois...Eu não devo ligar.
Oitenta e três, oitenta e quatro, oitenta
e cinco... Não posso! Oitenta e...oitenta
e...o quê? Eu não sei. Oitenta e quatro,
oitenta e cinco, oitenta e seis, oitenta e
sete, oitenta e oito...– as mãos estavam
sendo esfregadas freneticamente
enquanto os pensamentos o deixavam
mais ansioso – Oitenta e nove. Quero
falar com ela. Quero falar com ela
agora! Noventa!
– Chega! Ligarei agora. Agora mesmo!–
disse ele em voz alta.

– Adriel, você falou alguma coisa?

– Quem está aí?– perguntou ele ao abrir


a porta do lavabo.

– Lívia, sua secretária. Lembra-se de


mim?

– Não tem graça. É assim que você entra


em minha sala?

– Bati três vezes e como não...

– Deu para notar que está bem


confortável! – disse ao olhar para a
cadeira dela.

– Bom dia – Lívia levantou-se– Estou


aqui para servi-lo, meu senhor – ao
dizer isso fez uma mesura.

– Hoje é o dia nacional da palhaçada?


Lívia, você está aqui para trabalhar e
não para fazer gracinhas. Entendeu?
Agora pode ir, preciso... fazer uma
ligação.

–Tudo bem. Se precisar de mim é só


chamar... – pegou a agenda e arrastou a
cadeira.
Assim que Lívia fechou a porta, Adriel
pegou o celular.

–Você viu se a sua tia chorou lá em São


Bento? A mãe do Elias fala tanto e...

– Não, mãe, acho que ela reagiu muito


b e m. Meu celular está tocando...Vou
atender em meu quarto.

– Quem é? Por que está correndo, Mari?

– Não estou correndo, é que preciso


atender e... – disse ela andando
rapidamente.
– Não pode ser aqui mesmo? – gritou
Ivone.

– Mãe!

– Depois quero saber com quem você


falou...

Mariana atendeu antes de chegar ao


quarto porque já era o sexto toque.

– Oi! Eu...

– Como você demora para atender! –


disse irritado – Quase desisti...

– Bom dia, Adriel. Sei muito bem


porque não desistiu. A vontade de falar
comigo foi maior do que a sua
impaciência. Isso é fofo.

– Já vai começar? Só gostaria de fazer...


uma pergunta – disse ele com um certo
receio.

– Tudo bem, estou aqui esperando


pacientemente pela sua pergunta.

– Mariana, hoje é segunda-feira...

– Ai... Isso é muito fofo, mas não é uma


pergunta – disse ela interrompendo-o.

– Dá para você parar com isso? Acho


que é melhor eu desligar...
– Não desligue. Pode fazer a pergunta. É
que não deu para resistir. Você disse
que hoje é segunda. E você está certo...

–Você está bem?

– Estou. É que...Sei que você vai


detestar ouvir isso, mas segunda é o
nosso dia.

– Nosso dia?

– É, não é?

–Você está complicando as coisas para


mim. Mariana, você gosta de yakissoba?

Ela segurou-se para não rir. Ela nunca


poderia imaginar que Adriel faria uma
pergunta assim.

– Já disse que sou boa de garfo. Você


vai me levar para comer yakissoba,
hoje?

– Não. Pretendo cozinhar para você.

Ela não acreditou no que ele acabara de


dizer.

– Ai, você não vai gostar, mas... Isso foi


muito, muito, muito fofo mesmo! – disse
Mariana na maior empolgação.

– Você é incorrigível. E então?

– Combinadíssimo. Estacionamento da
Pan Leon.
– Às 17h, mas você vai com o seu
carro?

– Não. A Mi vai usá-lo hoje. Ando de


ônibus, metrô e a Pan Leon não é longe
de casa. Uns 15 minutos de metrô ...

– Você não entrará em um ônibus ou


metrô lotado e não fale a palavra fofo.
Só não quero que entre em meu carro
depois de...

– Já entendi. Pode passar aqui em casa.

Ao desligar o celular, Adriel chamou


Lívia pelo interfone.
– Agora o senhor exige a minha
presença? Aqui estou.

– Lívia, hoje você está tão...

–Tão...

– Esqueça, não tenho tempo para isso.


Ficarei até meio-dia, então só resolverei
o que for realmente necessário.

– Vai almoçar e não...

– Não voltarei mais. Algum problema? –


encarou a secretária.

– Você esqueceu que tem uma reunião


marcada? Será às 15h.

– O Abner pode me substituir ou...

– Mas...

– Lívia, tenho pouco tempo. Vamos


trabalhar?

– Adriel, você não está entendendo...


Você, o Abner e a Tati participarão da
reunião, lembra? É para resolver sobre
a participação da ALT & Filhos na feira
de cosméticos...

– Eles cuidam disso. Nem lembrava de


feira. Detesto esses eventos...

– Você sabe que a ALT & Filhos não


pode ficar fora de um evento tão
importante.

– Certo, meus irmãos cuidarão de cada


detalhe.

Na casa da família Fernandes...

– Mari, não tente me enrolar...

– Mãe, isso é invasão de privacidade.

– Sou sua mãe. Diga que era o Renan,


diga! O Abner disse para a sua irmã que
ligaria para o Renan hoje. Vocês vão
sair todos juntos, não é? – especulou
Ivone.

– Que coisa feia, mãe, a senhora ficou


escutando a conversa deles?

– É claro que não, Mari! Estava com


eles na sala. O Abner e a Mi não
escondem as coisas de mim como uma
certa filha desnaturada.

– Nossa, filha desnaturada? Menos, mãe,


menos.

– Você e o Renan juntos é o meu maior


sonho.
– Está mal de sonhos, hein, mãe?

– Mari! Você e o Renan precisam de


ajuda. Nunca vi casal mais devagar, mas
agora vai dar tudo certo... A sua irmã e
o seu futuro cunhado vão ajudar – disse
Ivone esperançosa.

– Mãe! A senhora pediu isso para eles?

– Eles perceberam que vocês precisam


de ajuda. Sabe o que é engraçado?
Enquanto muitas mães desejam que as
filhas não se envolvam com ninguém,
por serem novas demais, tenho que
implorar para a minha, que já não é tão
nova! – acrescentou – Não dá para
entender – Ivone balançava a cabeça
enquanto lavava a louça do café.
– Não ouvi isso. Não ouvi nada disso.

– Estou confiante. Agora sim as coisas


vão andar.

– É mesmo? Olha só quem acordou...

Michelle sentou-se na cadeira e abriu a


boca para bocejar.

– Oi, bom dia! Estou com tanto sono...

– Ficou namorando até tarde! Nem vi


você entrar no quarto.

– Quando entrei você já estava babando.

– Babando? Não mesmo, Mi! –


protestou Mariana.
– Pelo menos ela não enrolou para
namorar. Gostava do Abner por isso
aceitou o pedido dele no mesmo
momento. Não é como você que...

– Não recebi pedido nenhum – afirmou


Mariana.

– A Mari tem razão, mãe. O Renan é tão


devagar! O meu amor estava interessado
em mim e não perdeu tempo.

– Ele precisa de um empurrãozinho, Mi!


Você e o Abner vão ajudar, não vão?

– Só se a Mari quiser.

– Ela quer, é claro que quer! Ela só não


sabe ainda...
Mariana olhou para a mãe e fez uma
careta.

– Mari!

– Ah, mãe, não sei ainda? É claro que


sei. O Renan é um amigo.

– Um amigo que pode ser seu namorado.


Isso seria maravilhoso!

– Mari, se você quiser sair com o


Renan, eu e o Abner podemos marcar
alguma coisa.

– Mi, depois nós conversamos. Preciso


arrumar o meu quarto... Minhas gavetas
estão uma bagunça! E depois temos que
limpar o salão...
Mariana queria fugir daquela conversa.
Detestava quando a mãe insistia em um
relacionamento dela com Renan. Abriu a
primeira gaveta.

Está precisando mesmo de uma


organização. Como faço para sair com
o Adriel, hoje? Detesto mentir, mas se
a minha mãe souber que estou saindo
com ele, ai, nem quero pensar! Nossa...
Só agora que... Ai, o Adriel fará o
jantar onde? Só pode ser no
apartamento dele e isso significa
que...Ai, ai, ai...Vou ao apartamento
dele? Eu e ele ficaremos sozinhos lá?
– Posso entrar ou você está precisando
ficar sozinha?– perguntou Michelle ao
entrar no quarto que dividia com a irmã.

– Pode não, deve entrar! Agora você não


me escapa! Que história é essa de você
e o Abner bancarem os cupidos, hein?

– Ah, Mari, isso é ideia dele. Ele está


empenhado em ajudar o amigo.

– Só faltava essa! O Renan não precisa


de ajuda.

– Precisa. Ele tem muito medo de perder


a sua amizade.
– Ele está certo.

–”Quem não arrisca, não petisca.”

– Detesto esse ditado.

– Vamos encher o Renan de frases de …


motivação.

– Hã?

– Ideia do meu namorado. Quem sabe


assim ele se encha de coragem. Já
ouviu: “É melhor as lágrimas de ter
perdido, do que o remorso de nunca ter
tentado”? Acho que é isso.

Mariana revirou os olhos.


– Estou ouvindo cada uma, hoje! Mi,
vou pedir uma coisa, mas você não pode
fazer perguntas.

Michelle aproximou-se da irmã que


estava sentada no chão arrumando a
gaveta do guarda-roupa.

– Ih... O que você aprontou? – perguntou


quase sussurrando.

– Aprontei? Nada, Mi! Você pode sair


com o Abner hoje?

– Seria um sacrifício enorme, mas...

– Marque alguma coisa com ele, mas


não entre em detalhes com a mãe.
– Não posso ligar para o Renan, posso?

– Não mesmo!

– Suspeitei desde o princípio. Espero


que não tenha nada a ver com uma certa
pessoa que lava as mãos sem parar.

– Ele não lava as mãos sem parar.

–Você vai sair com o Adriel?

– Fale baixo, Mi! Tenho um


compromisso importante hoje. Você
sabe que estou empenhada em ajudá-lo e
isso está dando muito certo.

– E a nossa mãe não pode saber disso.


– Não pode sequer imaginar. Mi, as
pessoas têm muito medo do
desconhecido. Elas se fecham e perdem
a oportunidade de ver que não há o que
temer.

– Uau, filósofa Mari!

– Ele não é o que a maioria das pessoas


pensam. O Adriel tem problemas sim,
mas ele não é o estranho que muitos
imaginam.

– Mari, cuidado. Nem o Abner consegue


se aproximar do irmão.

– Eu sei, Mi, sei muito bem. Estou


conseguindo grandes avanços, acho que
posso dizer assim, mas preciso que você
me cubra, entende?

– Isso significa mentir para a nossa mãe.

– Mentir, não. Omitir é a palavra certa.


Você sai com o seu namorado. Não
precisa dar nenhum detalhe.

– É? E se ela perguntar se você e o


Renan vão também?

– Desconversa, muda de assunto...

– É fácil, né? Mari, Mari...

– Faça isso. É para o bem dele. É para o


bem da família dele. Você não deseja a
felicidade da dona Tereza? A sua futura
sogra merece! – argumentou Mariana.
– Golpe baixo, Mari! Vou ajudar com
uma condição: Amanhã sairemos todos
juntos.

– Você e o Abner, eu e o Adriel? Acho


que ele não vai concordar.

–Você sabe que o Adriel não se mistura.


Ligue para o Renan e combine.

– Peça para o Abner combinar tudo.


Você ainda vai usar o carro hoje?

– Avisei que tinha uma cliente às 15h,


não avisei?

– Avisou, mas você não deveria marcar


em nosso dia de folga.
– Até parece que você nunca fez isso!

Às 11h, Adriel recebeu uma ligação.


Tereza insistiu para o filho almoçar com
ela.

– Não posso, mamãe, entenda.

– Não entendo. Só estou pedindo para


você almoçar comigo.

– Hoje estou com o dia cheio. Não


posso me atrasar. Almoçarei
rapidamente e depois... Mamãe, entenda!

– Dia cheio! Quando eu morrer não vai


adiantar chorar em meu caixão – disse
Tereza em voz queixosa.

– Não chorarei em seu...caixão. Isso é


chantagem emocional e já digo que não
funcionará comigo.

– Que pena, meu filho ficou tão


insensível! – Tereza começou a chorar.

– Ah, mamãe, não faça isso!

–Tenho esperança que você fique bem,


mas às vezes isso parece quase
impossível.
– Estou bem.

– Não está. Adriel, filho, não quero que


fique sozinho. Você precisa de uma
pessoa...

– Prometo que iremos almoçar ou jantar


algum dia desta semana. Ligarei para a
senhora – tentou disfarçar, mas estava
muito ansioso e desejava que a mãe se
despedisse rapidamente.

– Está me dispensando? Quer que eu


desligue o telefone?

– Preciso trabalhar.

– Certo. Não vou atrapalhar. Tchau,


filho. Amo você e quero muito que seja
feliz.

– Eu sei, mamãe. Tchau.

Também quero ser feliz, mamãe, mas


não sei como. Preciso... Preciso lavar
as minhas mãos.

Tereza aproximou-se da grande estante


de madeira colonial da sala de estar e
pegou um porta-retrato. A família inteira
estava reunida. Era comemoração de sua
Bodas de Prata. Fora um jantar íntimo
porque Alberto não gostava de grandes
eventos. Três anos depois, a família
reuniu-se para despedir-se do patriarca.
O telefone tocou. Ela recolocou o porta-
retrato no lugar.

Será que ele mudou de ideia?

– Ah, Rosa... É você! Estou... bem. Está


tudo bem por aí? Voz triste? Não, eu
estou bem. Tenho certeza. Ah, Rosa,
tenho que falar a verdade... Não estou
nada bem! – Tereza começou a chorar –
Doente? Não, é preocupação. Estou
muito preocupada com o Adriel. Ele não
é feliz. Gostaria tanto que ele
encontrasse alguém e...Ah, Rosa, não sei
como isso seria possível. Ele é tão
fechado! Não permite a aproximação de
ninguém – lamentou Tereza.

Rosa estava lutando consigo mesma.


Detestava ouvir aquela voz triste. Como
era difícil saber que a patroa estava
infeliz. Dona Tereza era uma pessoa
maravilhosa. Não merecia isso. Ela
havia prometido ao marido que não
comentaria nada, mas...

– Você tem um segredo para me contar?


Sobre meu filho? O quê? Ele esteve aí
ontem? – a informação surpreendeu
Tereza – Ele foi acompanhado? Não
pode ser! – agora a mãe de Adriel ficou
realmente surpresa – Você está dizendo
que o meu filho esteve o dia inteiro aí
com uma moça? Quem? Se eu conheço?
Mariana! Meu Deus, isso é tão...Isso é
maravilhoso! – a alegria de Tereza era
tão contagiante que Rosa não sentiu-se
nem um pouquinho culpada por não
cumprir a promessa feita ao marido – É
a melhor notícia que eu poderia receber.
Rosa, obrigada! Você salvou o meu dia.
Meu dia? Minha semana, meu mês, meu
ano...
Capítulo 23 –
Olhares

Ao ouvir o celular tocar, Mariana


respirou aliviada ao perceber que a mãe
a i nd a estava tomando banho. Adriel
acabara de estacionar em frente à casa
dela.

– Oi. Posso sentar-me ao seu lado? –


perguntou ao aproximar–se do carro.
– Você já sabe a resposta.

– Oi, Mariana, tudo bem com você?


Agradeço por ser minha cobaia em meus
experimentos culinários – brincou ela ao
posicionar-se no banco de trás.

– Cobaia? Não farei experiências. Já fiz


yakissoba várias vezes – respondeu ele
irritado.

– Estou brincando. Que falta de senso de


humor! É... Aonde você vai me levar?

– Aonde? Só pode ser para o meu


apartamento!

– É que eu nem tinha pensado nisso


quando você mencionou o jantar.
– Ah... Entendi. Mariana, se quiser
podemos jantar no Três Ésses, mas os
seus temores são totalmente infundados.
Não há a menor possibilidade de...
acontecer algo – as últimas duas
palavras saíram em um sussurro.

– Não estou com medo. Sei que não


acontecerá nada porque também não
quero que aconteça nada, entendeu? –
fez questão de esclarecer.

– Então está tudo certo.

Demoraram vinte minutos para chegar


ao prédio de 10 andares.

– É um apartamento por andar?


– Isso mesmo.

– Qual é o seu andar?

– Cobertura.

– Que legal! Você tem piscina?

– Sim. É pequena. Só para relaxar um


pouco.

Chegaram à portaria. Um senhor de meia


idade os cumprimentou. Mariana
percebeu que ele a olhou com
curiosidade. Sentiu-se um pouco
envergonhada.
– O que será que ele pensou? –
perguntou ela assim que o elevador
fechou.

– Ele quem?

– O porteiro. Deve ter achado bem


estranho...

– Estranho? Ah...Você aqui comigo!

– Como sou boba! De repente ele não


achou tão estranho assim. Estou
pensando o quê? Quem me garante que
você não receba outras...

– Outras? Não recebo ninguém aqui. É


claro que o Lemes achou estranho. Só
minha mãe e meus irmãos vieram aqui.
Mesmo assim é bem raro e...

– Desculpe, não precisa ficar nervoso.


Outras pessoas. Você não me deixou
terminar.

Ficaram em silêncio até o elevador


chegar ao 10°andar.

– Entre e fique à vontade – disse ao


abrir a porta.

Mariana viu uma sala ampla e muito


iluminada: Paredes brancas, piso em
mármore crema marfil, quatro vitrôs
horizontais, cada um com uma persiana
em alumínio na cor prata. Naquele
momento as persianas estavam todas
abertas. Na parede havia um painel com
uma TV 50 polegadas e um discreto
compartimento com o DVD player e
outro com o receptor da TV por
assinatura. Ela sentiu falta de uma
estante ou rack com porta-retratos.
Vasos, quadros ou outro objeto qualquer
não faziam parte da decoração. Um sofá
de dois lugares e chaise na cor marfim,
uma poltrona reclinável e uma esteira
eletrônica era só que havia naquela sala
espaçosa.
– Sua sala é enorme, pena que você não
curta decoração. Daria para fazer tanta
coisa aqui!

– Encher de móveis e objetos sem


utilidade?

– Encher de vida!

– Fui até a Pan Leon. Está com fome?


Antes de buscá-la deixei a mesa
arrumada com tudo o que você gosta.

– Tudo o que eu gosto?

– Seu pai me ajudou – ele a


surpreendeu.
– Meu pai? Você esteve com ele?

– Sim. Pedi para que o Leôncio o


chamasse.

– Nada como ter prestígio! Você disse


exatamente o que ao meu pai? – Mariana
estava curiosa, muito curiosa.

– A verdade.

– Que faria o jantar em seu apartamento?

– Sim. Algum problema?

– Espero que não. Não acredito nisso!

– Era segredo?
– Você é muito engraçado. Exige que eu
seja discreta e...

– Mariana, só falei com o seu pai. É o


correto. Ele precisa saber onde a filha
está.

– É, tem razão. Mas se a minha mãe


souber que estou aqui com você...

– O que ela faria?

– É melhor mudarmos de assunto. O que


será que meu pai pensou?

– Ele não ficou tão surpreso. Agora


fiquei curioso... O que a sua mãe faria?

– Chamaria a polícia.
– Sério?

– Talvez.

– Só porque não sou como o “rapaz


perfeição”? Ela acha que sou perigoso?

– Estou com fome – desconversou.

– Siga-me.

Ao acompanhá-lo até a sala de jantar,


e l a viu uma mesa de vidro com uma
cadeira estofada na cor creme, uma
luminária suspensa e na parede com
textura branca, um quadro. Apreciou o
que havia em cima da mesa: uma cesta
com croissant de chocolate, mini sonhos
recheados com creme, petit four com
goiabada, carolinas com doce de leite,
mini sanduíches com quatro tipos de
recheio, um pacote de marshmallows e
mais algumas delícias. Ainda havia três
sabores de suco para ela escolher.

– Acho que nem precisa preparar o


jantar – concluiu ao ver a mesa farta.

– A cesta é para você levar. Não é para


comer tudo agora.

– Um presente?

– Não. Só pedi para o seu pai colocar


tudo o que você mais gosta e...
– Fofo.

– Só se for o seu pai. Parece que não


tem biscoitos de polvilho em sua cesta...

–Não entendi.

– Você sempre fala em biscoitos de


polvilho...

– Ah, é verdade, mas...

– Mas o quê?

– Nada. Coisas de Mariana – ela não


mencionou que na verdade detesta
biscoito de polvilho e que quando diz
que vai comê-los dentro do carro é só
para provocá-lo mesmo – Hum... Meu
pai não esqueceu os meus
marshmallows!

– Marshmallows? Como você pode


gostar de algo tão sem graça? Não tem
gosto de nada.

–Tem gosto de infância.

– Cada um com seu gosto... Você fica aí


enquanto preparo o jantar.

– Para que a pressa? Sente-se comigo.

– Se quiser jantar hoje preciso começar


agora.

– Adriel, fique aqui comigo.


Ele começou a esfregar as mãos.

– Não precisa ficar ansioso. Só me


acompanhe.

– Quem está ansioso?– perguntou ele


esfregando as mãos freneticamente –
Você quer café? Posso...

– Não quero. Tomarei suco. Estou


curiosa, não fique bravo, mas e as outras
cadeiras? É uma mesa para o quê? Seis
cadeiras, mas só há uma! – disse ela
apontando para a única cadeira ali.

– Não gosto de mesa pequena, mas só


preciso de uma cadeira. Não recebo
visitas. Eventualmente a minha mãe
aparece por aqui sozinha ou com a
Tatiana. Buscarei uma cadeira... Na
verdade tenho mais duas. Uma está em
meu quarto e a outra no escritório. Eram
seis. Pedi para o zelador sumir com as
outras – disse meio sem jeito. Ele não
confessou que cadeira vazia provocava
uma grande tristeza nele. Fazia-o pensar
nas pessoas ausentes.

– Nossa, qual o motivo? Tem problemas


com cadeiras?– não esperou a resposta
ao ver a expressão séria dele. Resolveu
mudar de assunto – O que mais me
chamou a atenção foi o quadro. Adriel,
tinha que ser uma foto da fachada da
ALT & Filhos? – perguntou observando
o quadro na parede.

–Você gostaria que fosse um quadro da


travessia do mar vermelho?

– Gostei do seu senso de humor. Poderia


ser uma paisagem, um desenho abstrato
ou uma foto da família toda reunida. Por
que não?

– Fotos são ilusões... Todos reunidos em


uma foto como nunca mais serão em
vida – disse melancólico.

– Nossa, nunca ouvi ninguém falar


assim.

Adriel, por alguns segundos, fixou o


olhar na foto da fachada da empresa.

–Você já convidou alguém da sua


família para jantar aqui? – perguntou
Mariana para quebrar o silêncio.

– Não. A minha mãe aparece de


surpresa e às vezes ainda traz a minha
irmã.

– Você deveria convidá-las. E o Abner?

– Não sou um bom anfitrião, Mariana

– Depois do jantar eu direi se você é ou


não.

Na portaria...
– Dona Tereza? Como a senhora está?

– Oi, Lemes, estou bem e você?

– Muito bem. É... A senhora veio visitar


o senhor Adriel?

– E quem mais eu visitaria? Você está


bem mesmo? Parece pálido... – disse
Tereza olhando atentamente para o
porteiro.

– Pálido, eu? Não, estou bem, dona


Tereza, é que...

Lemes posicionou-se em frente ao


elevador para impedir a passagem da
mãe de Adriel.
– Com licença, Lemes, preciso ver meu
filho. Sei que ele não voltou mais para a
empresa após o almoço. Falei com a
Lívia. Você acredita que eu o convidei
para almoçar e ele recusou? Fiquei tão
triste na hora, mas depois recebi uma
notícia maravilhosa. Você poderia me
dar licença?

– Acho que não é uma boa ideia.

– Não estou entendendo.

– É melhor a senhora não subir – disse


Lemes totalmente sem jeito.

– O que está acontecendo? Está me


deixando preocupada...
– Ai, dona Tereza, não faça perguntas,
por favor! Não quero problemas com o
seu filho.

– Agora fiquei realmente preocupada,


mas tudo bem... Eu mesma vou verificar
o que está... Lemes, preciso apertar o
botão do elevador.

– A senhora não pode subir – afirmou


Lemes.

– Ai, meu Deus, ele está doente? Ele...

– Acalme-se, ele está bem, acho que


posso dizer que ele está muito
bem...acompanhado.

– Hã? Tem alguém com o meu filho?


Lemes, você está dizendo que meu filho
está com uma pessoa no apartamento
dele?– perguntou incrédula.

– É isso mesmo, dona Tereza. Também


não acreditei quando chegou
acompanhado. Ele mora aqui há quatro
anos e isso nunca aconteceu. Perdoe-me
por falar assim.

Tereza aproximou-se do porteiro e


perguntou quase sussurrando:

– Quem está com ele?

– É...Uma senhorita.

– Oh...Como ela é?
– Ela é... Ah, dona Tereza, não sei dar
esse tipo de informação.

– Não sabe? Vou ajudá-lo. Ela tem


cabelos pretos abaixo dos ombros, é
bem mais baixa do que ele, tem um
sorriso lindo, é simpática e o nome dela
é Mariana? – perguntou Tereza com
empolgação.

– Ela é assim como a senhora


descreveu, mas não sei o nome dela.
Eles entraram bem depressa, mas ela
sorriu ao me cumprimentar.

– Ai. Meu. Deus. Eles estão namorando!


Só pode ser isso! – Tereza quase pulou
de alegria – É tudo o que eu queria.
Obrigada, meu Deus! Parece um sonho.
Ai, Lemes, pensei uma coisa agora...Se
fosse minha filha eu ficaria preocupada
por ela estar sozinha com um homem no
apartamento dele, mas estou tão feliz!
Posso ser egoísta só um pouquinho?

–Não acho que seja egoísmo, dona


Tereza. A senhora quer a felicidade do
seu filho.

– É isso mesmo. O que será que eles


estão fazendo lá em cima?

– A senhora não vai mais subir, não é?

– É claro que não. Já vou embora.


Lemes, não estive aqui – ela piscou para
o porteiro e ele deu um sorriso de
cumplicidade.
– Agora que você já lanchou, posso
fazer o jantar?

– Nossa, se alguém ouvir isso vai achar


que sou uma gulosa.

– Não se preocupe, quando o jantar


estiver pronto você estará com fome.

– Posso vê-lo em ação?

– Melhor não. Quer conhecer a piscina?


– disse apontando para uma porta de
vidro.
– Já que não sou bem-vinda em sua
cozinha...

Assim que ele abriu a porta de vidro,


Mariana viu uma piscina em formato
oval e uma espreguiçadeira. Havia
t a mb é m churrasqueira de alvenaria,
forno, uma pia e uma mesa de mármore.
Adriel pegou um controle remoto e em
alguns segundos o teto retrátil abriu-se.

– Uau, gostei! Mas... Uma


espreguiçadeira... Só uma?

– Só preciso de uma. Para que mais?


Ficaria só de enfeite.
– Agora, por exemplo, ficaríamos aqui
relaxando e conversando sobre a vida...

– Só você mesmo! Fique à vontade.


Enquanto você... medita um pouco,
preparo o nosso jantar.

– Certo. Ficarei aqui pensando em você


– ao dizer isso ela abriu um enorme
sorriso e fixou o olhar nele.

Adriel desviou o olhar e começou a


esfregar as mãos.

– É...Preciso...Preciso lavar as minhas


mãos e...
– Tudo bem. Divirta-se.

Ele saiu rapidamente. Mariana


aproximou-se da churrasqueira.

Nossa, como ele é cuidadoso! Nem


parece que foi usada. Como será que é
viver aqui sozinho? É um apartamento
lindo, mas falta um toque de alegria...

– Mãe? Nossa, que surpresa!– disse


Tatiana ao abrir a porta– Cheguei da
ALT há poucos minutos. Hoje estava
uma correria por lá! Eu e o Abner
tivemos uma reunião demorada. O
Adriel nem apareceu depois do almoço
e sobrou para nós dois – reclamou – Ele
é quem deveria conduzir a reunião e...

– Ele tinha um compromisso muito


importante. Tati, estou tão feliz! –
Tereza beijou a filha e a abraçou.

– A reunião era muito importante


também. Que felicidade é essa? Mãe,
adoro vê-la sorrir, mas aí tem! Mas... a
senhora está dirigindo à noite? – fez a
pergunta porque sabia que a mãe
raramente saia sozinha com o carro.
– Qual é o problema? Sou uma excelente
motorista! Tati, vou contar um
segredo.... – disse em voz baixa –
Prometa que não contará para ninguém.
Nem para o seu marido.

– Nossa, quanto mistério! Prometo.

– Fui até o apartamento do seu irmão e...

Tatiana ouviu em silêncio até a mãe


mencionar o nome de Mariana.

– A Mari no apartamento do Adriel?


Não pode ser.

– Só pode ser ela. Não imagina a minha


felicidade!

– Se ela fosse sua filha a senhora não


estaria assim. Teria entrado na hora.

– Tati, fique feliz também. O seu irmão


precisa dela.

– Estou preocupada. Não faz sentido o


Adriel levá-la até o apartamento...

– O que pode acontecer?

– Ainda pergunta?

– Seria maravilhoso se os dois...

– Mãe! Que estranho... Ele nem nos


recebe lá e...
– Recebe sim, raramente, mas recebe.
Tenho certeza que é ela porque fiquei
sabendo de outra novidade...

– Outra?

– Melhor do que essa. Falei com a Rosa


e adivinhe quem esteve na chácara
ontem?

– Como posso saber?

– O Adriel. E... ele levou a Mariana!


Passaram o dia inteiro juntos...

– O quê? Ele nunca mais esteve na


chácara e...

– Isso não é maravilhoso? Os dois estão


namorando!– disse Tereza empolgada.

– Mãe, não se precipite. Tem alguma


coisa errada...

– Tati, comemore comigo. Estou tão


feliz!

Após permanecer alguns minutos na


espreguiçadeira, Mariana foi até a
cozinha e gostou muito do que viu. Era
espaçosa e muito bem equipada com
armári os planejados na cor branca,
Cooktop 5 bocas, coifa, forno elétrico,
geladeira Side by Side, uma pia enorme
com duas cubas, uma bancada...

– Uau! Aí sim! Nem precisa dizer qual é


o seu lugar favorito...

Adriel estava de costas para a porta,


vestia uma calça jeans e camiseta. Um
avental branco completava o visual. Ao
ouvir a voz dela, ele virou-se
rapidamente.

– O que você está fazendo aqui? Não


falei para...

– Trocou a roupa... Você fica muito bem


assim!
– Mariana, é melhor você esperar...

– Quero ficar aqui.

– Você não pode.

– Ah, por favor!– ela fez beicinho.

– Só se você prender o cabelo.

– Certo. Deve ter algum elástico ou


presilha dentro da minha bolsa. Ela está
na sala... Volto logo.

Ao retornar, Mariana sentou-se em uma


banqueta e ficou observando Adriel.
Agora entendia porque ele demorava
tanto. As mãos eram lavadas
constantemente, bem como cada
utensílio usado e ele não deixava nada
fora do lugar.

– Quer que eu faça alguma coisa?


Posso...

– Pode ficar sentada aí.

–Tudo bem, você manda. O cheirinho


está muito bom...Você bem que podia
me ensinar, né?

– Mariana, não me peça isso. É só pegar


alguma receita pela internet... Não tenho
paciência para ensinar. E nem precisa...
É simples...

– Que contradição! Então me ensine. Se


é tão simples nem precisa de muita
paciência, concorda?

– Não concordo. Você ficaria atrás de


mim, observando tudo e eu não gosto
disso. Já me incomoda bastante a sua
presença aqui – disse com sinceridade.

– Nossa, agora você extrapolou. Não


precisava falar assim! Posso esperar na
sala...

– É... Pode ficar, mas prometa que...

– Ficarei aqui se você me prometer que


será gentil.
– Serei gentil se você prometer que
ficará calada.

– Não prometo, mas fale a receita para


mim, vai? Explique enquanto cozinha,
por favor!

– Só se você ficar sentada aí.

–Tudo bem. Mas do que você tem


medo? Não vou agarrá-lo! Não
colocarei um dedo em você, pode ficar
tranquilo. Que fobia!

– Mariana, se você continuar com esse


tipo de conversa...

– Calma. Mas tenho uma dúvida...


– Já? Nem...

– Não é sobre a receita. Adriel, quando


foi a última vez que...

– Cuidado!

– O que você está pensando? É uma


pergunta simples e nada indiscreta. Qual
foi a última vez que você usou a
churrasqueira?

– Ela nunca foi usada.

– Sério? Como pode?

– Não queria churrasqueira. Fazia parte


do projeto do apartamento.
– Por que você não convida a família
para...

–Você queria saber sobre a receita, se é


para...

– Esqueça. Vamos à receita...

– Já cozinhei os legumes no vapor e...

– Quais? Quero detalhes, Adriel! Posso


chegar perto? Daqui não consigo ver
direito...

– Fique onde está!

– Calma, sem estresse! Não sairei do


lugar, mas assim fica difícil aprender...
– As receitas variam, mas gosto de
brócolis, couve-flor, cenoura,
pimentão... Veja, corto a cenoura em
tiras e...

– É o brócolis...

– Ninja. Gosto de cozinhar os legumes


no vapor, mas preste atenção para não
cozinhá-los muito... porque depois eles
ainda ficarão mais tempo no fogo com
os outros ingredientes... Mas por que
estou falando tanto? Não gosto de falar
enquanto cozinho...

–Você não quer falar, não quer que eu


me aproxime...

–Ah, Mariana, para que você quer


aprender? Até parece que você vai para
a cozinha!

– Precisa falar assim? Você não sabe,


mas faço um bolo de laranja delicioso.

–Você compra aquelas caixinhas e


coloca leite, ovos e bate tudo...

– Não. Faço bolo de laranja com


casca...

– Coloca até as cascas dos ovos?

– Não achei graça! Quer que eu faça


agora?

– Não mesmo. Nunca deixaria você


mexer em minhas coisas.
– Como você é...

– Sou cuidadoso.

– Enjoado, chato, egoísta...

– Agradeço os elogios.

– A h, desculpe-me. É que você... Ah,


poxa! Custa me ensinar?

–Tudo bem, mas fique onde está. Tudo


deve ser cortado com o maior cuidado e
capricho... O prato deve ficar bonito.
Uso três pimentões. Já estão cortados
em tiras... Veja.

– Ah, precisa ser um amarelo, um verde


e vermelho...
– Ficará mais colorido. Uma cebola
média cortada em tiras. Com um pouco
de azeite em uma panela grande... refogo
a cebola e os pimentões... Depois
acrescento os outros legumes que já
foram pré cozidos no vapor. Vou dourar
a carne em uma panela separada.

– Qual é a carne e por que precisa de


outra panela? Não seria melhor cozinhar
tudo junto para pegar mais sabor?

– Uso filé filé-mignon. Deve ser


preparada em outra panela, e ponto final
– disse meio irritado – A carne está
cortada em tiras e temperada com um
pouco de sal e alho triturado. Em outra
panela coloco o filé de frango cortado
em tiras que já está temperado... Precisa
dourar a carne!

– Entendi. Vai lavar as mãos


novamente? Pia com duas cubas caem
como uma luva para você, hein?

– Mariana, não gosto quando você faz


esses comentários.

– Do que você gosta, hein?

– Gosto quando você fica calada.

– Que grosseria! Não sei por que você


me convidou se já sabe que eu gosto de
falar...

– Nem eu sei. Posso continuar com a


receita?
– É claro. Tentarei ficar calada para
agradá-lo, nobre senhor – ao dizer isso
ela levantou-se e fez uma mesura.

– Não tem graça. Agora colocarei o


champignon, cortado em lâminas, e o
molho de soja...

– Onde? Nas carnes ou...

– Nos legumes, é claro! Você não está


prestando atenção!

– Estou muito distante... – disse ela


tentando ver as panelas.

– Como você chora! Aproxime-se, só


um pouco.
– Oh, nobre senhor, a sua bondade me
comove – levantou-se e mudou a
banqueta de lugar.

–Mariana! Já me arrependi de...

–Você não tem senso de humor? Estou


brincando.

– Não gosto de brincadeiras. O filé filé-


mignon está quase bom...

Após 10 minutos...

– Nesta panela o macarrão oriental


está...

– Não pode ser espaguete?

– Não faço substituição. Precisa ser o


oriental.

– Radical.

–Agora que as carnes já estão prontas as


colocarei junto com os legumes. Você
reparou que desliguei o fogo da panela
dos legumes? Fiz isso porque eles não
podem cozinhar muito. Ah... Se quiser
pode comprar um molho próprio para
yakissoba. Prefiro usar só molho de
soja.

–Não faço substituição – Mariana o


imitou.

– Não gosto do... Ah, esqueça! Não


preciso explicar isso.

– Adriel, você frita o macarrão?

– Não gosto.

– Ah, viu como você faz as suas


substituições?

– A receita é minha!

– Tudo bem, não se irrite. Não vai levar


a bola embora, vai?

– O quê? – olhou para ela com as


sobrancelhas franzidas.
– Você sabe... Quando um garotinho
mimado fica bravo durante um jogo
entre amigos e a bola é dele. Ele pega a
bola e acaba com a brincadeira de todo
mundo! – explicou Mariana.

– Sem comentários. O macarrão está


pronto. Agora é só misturá-lo aos outros
ingredientes – Adriel pegou uma grande
travessa de inox onde colocou os
legumes e as carnes, depois,
cuidadosamente, foi incorporando o
macarrão.

– Hum... Deve estar delicioso. Quer que


eu faça alguma coisa?

– Lave bem as mãos enquanto isso


levarei a travessa para a mesa e...

– Posso ajudá-lo?

– Sim. Lave as mãos.

– Isso você já falou. Adriel, não sou


nenhuma criancinha, sei muito bem que
devo lavar as mãos antes de sentar à
mesa! Por que eu ainda insisto? –
meneou a cabeça.

– Insiste em quê? Explique-se.

– Mandão! Não explicarei nada. Não


gostei do tom. Preciso lavar as minhas
mãos – disse ela esfregando as mãos
para imitá-lo.

– Não tem graça, Mariana! Não gostei


disso.

– Novidade...

Ao retornar, Mariana o encontrou na


sala de jantar. A travessa com yakissoba
estava em cima da mesa, havia também
duas jarras de vidro com suco e uma
com água; uma travessa com salada de
alface americana, tomates secos e
palmito.
–Sente-se. Vou lavar as minhas mãos...

–Não demore! Estou com fome e a culpa


é toda sua. Parece delicioso, mas como
você é detalhista! Como...

– Posso ir agora ou você ficará falando


sem parar?

– Pode, nobre e irritado senhor – ela fez


uma mesura.

Adriel voltou 10 minutos depois com um


CD. Foi até a sala de estar e ligou a TV
e o DVD player, logo o som de Chopin
invadiu o ambiente. Ausentou-se por
mais cinco minutos para lavar as mãos
novamente.

– Nobre senhor, como é bom vê-lo, não


sabe a alegria que estou sentindo!

– Pare com isso, Mariana. Não estou


gostando dessa coisa de “nobre senhor”,
será que você ainda não percebeu?

–Tudo bem, é só uma brincadeira. Posso


me servir?

– Fique à vontade.

_Hum, o cheirinho está tão bom! Não


posso exagerar senão você vai pensar
que sou gulosa – disse ela ao servir-se
de yakissoba – Almoço com música
clássica... Que chique!

Adriel serviu-se de salada.

– Quero experimentar o yakissoba


primeiro... Você não se importa, não é?

Ele não respondeu.

– Você deveria convidar a sua mãe


para...

– Gosto de apreciar a música. Você


poderia ficar calada?– disse ao lançar
um olhar de repreensão.
– Oh, deveria ter imaginado isso. Você
mora aqui sozinho... Na minha casa,
quando estamos à mesa, é a maior festa.
Conversamos sobre tudo...

– É por isso que você fala tanto.

– Pelo menos sou feliz, tá? Dou


gargalhadas, estou sempre sorrindo e
você? Qual foi a última vez que deu uma
gargalhada?

– Mariana, amo o silêncio, entendeu?


Amo.

– Certo. Será um sacrifício para mim,


mas ficarei calada.
Na casa de Tatiana...

– Não vim para atrapalhar, Tati.

– Desde quando a senhora faz isso, mãe?


Tê-la aqui para jantar é ótimo. Olhe só a
animação da sua neta!

– É verdade, dona Tereza. A minha


sogrinha é sempre bem-vinda aqui –
disse Joel ao sentar-se à mesa para o
jantar – Peço desculpas por ter
demorado para me juntar a vocês.
Precisava terminar uma planilha. O
Adriel não compareceu à reunião, mas
depois quer saber de tudo.
– A vida dele não pode se limitar à
empresa. Vocês precisam se acostumar
com as ausências dele...

– Concordo que ele trabalhe muito, mas


o que a senhora quer dizer com “vocês
precisam se acostumar”? Alguma
novidade?

– Só desejo que meu filho desfrute a


vida, Joel. Que seja feliz –Tereza piscou
para a filha.
No apartamento de Adriel...

– Hum... Estava delicioso! Você sabe


mesmo cozinhar, hein?

– Não fiz sobremesa. Não gosto de fazer


doces, mas comprei sorvete. É...
Imaginei que você...

– Adoro sorvete! Qual sabor? Quero ver


se você acertou...

– Napolitano.

– Espertinho! Três sabores em um para


não correr riscos. Você é mesmo um
grande empresário. Pensa em tudo.

– Que bobagem, Mariana. Buscarei o


sorvete.

– Fique sentadinho aí. Agora eu irei


servi-lo – disse ela levantando-se antes
dele.

– Nem pensar. Você não vai mexer na


minha cozinha – levantou-se
rapidamente.

– Poxa, não posso fazer nada! Nem pude


levar a louça para a cozinha e muito
menos lavá-la. Fiquei esperando você
limpar a cozinha sozinho e...
– Agora pode esperar pelo sorvete.

– Valeu, Adriel!

Ao abrir a geladeira, ele ouviu passos.

– Você é incorrigível.

– Cansei de ficar lá sentada. Deixa


comigo...

Mariana aproximou-se e retirou o pote


de sorvete.

– Você é tão atrevida!– ele abriu uma


das portas superiores do grande armário
e retirou duas taças de vidro para a
sobremesa.

– Sei onde você guarda os talheres.


Posso pegar as colheres?

– Sabe? Que xereta!

– Xereta? Observadora. Esqueceu que


fiquei aqui enquanto você cozinhava?

– Como poderia esquecer? A sua voz


esteve presente o tempo todo como
música...

– Gostei de ouvir isso.

– Música estridente. Sabe aquele som


insuportável que incomoda os ouvidos?
Que chegam até a dar enxaqueca?–
perguntou levando a mão à testa.

– Magoou. Minha voz é tão irritante


assim?– fez beiço.

– Não. Exagerei – fixou o olhar nela e


sorriu discretamente.

– Que alívio – ela deu um largo sorriso.

Olharam-se fixamente por alguns


segundos.

– É... A sua mão vai congelar – disse


Adriel apontando para o pote de
sorvete.
– Ah... Tem razão. Vamos até a sala de
jantar?

Após a sobremesa, eles foram até a


cobertura, Adriel levou uma banqueta e
a posicionou ao lado da
espreguiçadeira. Ele sentou-se na
banqueta e ela acomodou-se na
espreguiçadeira.

– Já são quase dez horas!– disse


Mariana ao verificar a hora após um
tempo.

– Não está tão tarde – disse ele


desejando que ela ficasse mais tempo.

– Preciso ir, Adriel. Saí de casa às 17h,


lembra? Foi muito bom ficarmos aqui
conversando. Até que você foi
simpático, sabia? Ouviu as minhas
histórias de salão de beleza... – Mariana
levantou-se.

– Até que não foi tão ruim – ele revirou


os olhos e meneou a cabeça.
Acompanhou-a até a sala de estar.

– Bom... Tenho mesmo que ir. Adriel, se


um dia você quiser que eu faça um bolo
de laranja...

– Deixá-la tomar conta da minha


cozinha? Nem pensar.
– Você terá a minha permissão para
lavar a louça – ela pegou a bolsa que
estava em cima do sofá.

– Que ótimo. Você me deu um grande


incentivo. Pensarei no assunto.

– É só me avisar com antecedência – ela


sorriu – Ah, e gostei muito de ouvir
Bach, Chopin... Adriel, sei que o seu
gosto musical é... diferente do meu, mas
posso enviar alguns links de músicas?
Qual é o seu e-mail?

– Mariana, não me venha com músicas


mágicas...

– Músicas mágicas?
– É. Músicas com letras de autoajuda.

– Ai, não posso enviar alguns links para


você?

– Tudo bem, mas não darei o meu e-


mail.

– E se eu descobrir sozinha?

Olharam-se por alguns segundos. Ele


desviou o olhar primeiro. Poucos
minutos depois já estavam dentro do
carro.

– Será que um dia serei promovida?

– Promovida?
– Será que um dia terei a permissão de
sentar-me ao seu lado?

– Quem sabe...

– Melhorou. Prometo que não comerei


biscoito de polvilho.

Adriel estacionou o carro em frente à


casa de Mariana às 22h40.

– O jantar estava delicioso. Obrigada.

– É... Agradeço a … sua companhia.

Ela percebeu o quanto foi difícil para


ele dizer aquelas simples palavras.
– Que isso. Eu gostei... de tudo – sorriu
– Veredicto: Você é um bom anfitrião.

– Boa noite, Mariana.

– Boa noite, Adriel.

Ela ficou parada olhando para ele como


se não quisesse entrar. Ele ficou parado
olhando para ela como se não quisesse
ir embora. Os olhares foram
interrompidos por uma luz que foi acesa
no corredor.

–É... Boa noite – disse ele antes de dar


partida no carro.

– Boa noite.
Capítulo 24 – Quer
me fazer feliz?

Ao entrar, Mariana levou um susto ao


ver a tia atrás da porta da sala de estar.

– Ai, tia, se a intenção era me assustar...

– Consegui? Oi, Mari. Ouvi o barulho


de um carro e percebi que a luz de fora
estava apagada. Não sei como a Ivone
esqueceu. Acho que ela estava cansada
demais – deduziu Lívia.
– Minha mãe já está dormindo?

– Já. E o Renan?

– Renan? – Mariana estranhou a


pergunta.

– Como foi? Ele tomou coragem?

– Não estou entendendo. Ai... a Mi já


chegou? Esqueci completamente...

– Esqueceu o quê? A sua irmã chegou há


mais de uma hora.

– Sério? A minha mãe perguntou alguma


coisa?

– Ela estava eufórica.


– Eufórica? O que aconteceu?

– Você e o Renan estão namorando?

– Não!

– Para a sua mãe vocês estão – informou


Lívia.

– Hã? Não estou entendendo nada. Tia,


o que você está fazendo aqui? E o Niki?

– Chegou minha fatura do cartão, a sua


mãe tinha me avisado, mas acabei
esquecendo... Vim buscá-la. O Niki já
está dormindo. A minha irmã disse que
você e o Renan saíram e...

– Ai... Ela está fazendo uma confusão!


Eu e o Renan somos amigos.

– Coloca isso na cabeça dela.

– Meu pai também já está dormindo?

– Acho que sim. Boa noite, Mari. Irei


para o meu cantinho...

– Boa noite, tia.

Ao entrar em seu quarto, Mariana


encontrou a irmã pronta para dormir.

– Já está deitada?

– Como você demorou!


– E você chegou rápido demais. Mi, o
que aconteceu?

– Meu namorado estava só o pó. Mari,


hoje é segunda-feira! É a nossa folga,
mas quase todo mundo trabalha e...

– Até você trabalhou hoje! A mãe fez


alguma pergunta? Ela viu quando você
chegou?

– É claro que viu. Ela está tão


empolgada!

– O que você falou para ela?

– Eu e meu namorado chegamos aqui às


21h e...
– Tão cedo?

– E ela começou a falar o quanto estava


feliz por você e o Renan...

– Como assim?

– Ela acha que vocês estão namorando


escondido – revelou Michelle.

– Ah, não! Como ela chegou a essa


conclusão?

– Mari, você anda muito misteriosa.

– Eu?

– A mãe disse isso. Viu no que dá andar


de segredinho? E aí, como foi o jantar?
– Foi ótimo. Ele cozinha muito bem...

– Ele conversa com você ou fica calado


a maior parte do tempo?

– É claro que conversa, né, Mi! A mãe


precisa entender que....

– A nossa mãe está pensando que você e


o Renan estão namorando e não querem
falar nada para ninguém... Pelo menos
por enquanto.

– Ai, ai, ai. Mi, você disse o quê?

– Nada. Fiquei só ouvindo. Ela


perguntou para o Abner o que ele achava
de vocês dois juntos...
– E ele?

– Disse que vocês foram feitos um para


o outro.

–Valeu pela força – revirou os olhos.

– Mari, não arrume nenhum


compromisso para amanhã – pediu
Michelle.

– Não sei se vai dar para sair amanhã. O


salão...

– Não comece. Está tudo combinado. O


Abner já ligou para o Renan. Ficará
muito chato se você... Tem alguém
batendo – disse Michelle ao ouvir duas
batidas à porta.
– Posso entrar, meninas? – perguntou
Hílton ao colocar só o rosto entre a
abertura da porta.

– É claro, pai, pensei que já estivesse


dormindo – disse Mariana.

– Mariana, preciso falar com você –


entrou no quarto e beijou a filha caçula –
Vamos até a sala. Depois vocês
continuam a conversa, certo?– agora
Hílton deu um beijo na testa de sua
primogênita.

– Tudo bem. Ela precisa mesmo de


alguns conselhos – disse Michelle.
Pai e filha sentaram-se na poltrona da
sala de estar.

– Como foi o jantar?

– Delicioso. Ele é um ótimo cozinheiro.

– Sua mãe ficaria muito preocupada se


soubesse...

– Preocupada? No mínimo. Pai, o senhor


não ficou preocupado?

– Não. Confio em você.


– E sabe como o Adriel é.

– Como ele está – corrigiu-a – Ele não é


assim. Aquele rapaz está doente e você
é uma ótima terapia para ele. Acho que
posso falar dessa maneira.

–Terapia? É... Conversamos bastante


hoje. Ele estava diferente. É claro que o
Adriel não é fácil, mas gosto de
conversar com ele. Gosto muito.

– Gosta como, filha? – Hílton observou


a filha com atenção.

– Ah, pai, eu gosto...

– Cuidado para não se machucar.


Mariana, não quero que você vá
novamente ao apartamento dele. Não
fica bem, entende? As pessoas falam...

– Entendo, pai. O convite foi bem


inesperado. Na verdade nem pensei
direito. Ele disse que faria um jantar
para mim e nem lembrei que para isso
teria que ir ao apartamento dele. Aceitei
o convite e...

–Tudo bem, Mariana, não preciso de


tantas explicações. E a cesta?

– Ah... esqueci lá. Era para eu trazê-la.


Estava uma delícia! Sobrou tanta coisa...

– Desculpe interromper a conversa de


pai e filha mas o seu celular estava
tocando – informou Michelle ao entrar
na sala de estar – Parou de tocar assim
que peguei-o.

–Valeu, Mi!

– Mari, vê se não entra fazendo barulho,


tá?

– E eu sou barulhenta?

– Não, é claro que não. Só tem a mania


de entrar no quarto cantando nas maiores
alturas!

– Só isso – respondeu Mari sorrindo.

– Vou dormir. Boa noite, minhas filhas –


Hílton abraçou as duas.
Assim que ficou sozinha, Mariana ligou
para Adriel.

– Não precisa se incomodar... Bom, se


você insiste...Não tem problema, eu
espero.

Adriel havia saído do apartamento para


levar a cesta de Mariana. Quinze
minutos depois, ela ouviu uma buzina.
Saiu rapidamente.

– Obrigada, mas não precisava ter todo


esse trabalho.

– Melhor do que ficar com todas essas


calorias para mim. É... Boa noite.

– Boa noite, Adriel e obrigada, mais


uma vez.

– Mariana? Será que...

– Sim?

– É... não, não é nada – meneou a cabeça


como se quisesse expulsar uma ideia.

– Pode falar, Adriel.

– Boa noite – disse simplesmente.


– Agora você me deixou curiosa...

– Não disse nada.

– Por isso mesmo.

– É que eu... É... Se eu quiser vê-la


amanhã? Será que... Não, esqueça.

– Há uma possibilidade de você querer


me ver amanhã? – perguntou fixando o
olhar nele.

– Uma enorme.

Ela sorriu. Ele permaneceu sério.

– Gostei muito de ouvir isso e foi muito


bom eu ter esquecido a cesta.
– E então?

– Ah, você quer saber se...

– Preciso ir, não é bom ficar aqui fora,


está tarde.

– Ligue amanhã se a enorme vontade se


transformar em...

– Não. Esqueça. Boa noite – disse


abruptamente, em seguida deu a partida
e saiu.

Foi difícil para Mariana conciliar o


sono naquela noite.
Hoje ele me surpreendeu várias vezes.
Ele quer me ver novamente. Quer estar
comigo. E eu também quero. Ai, ai, ai,
se eu furar amanhã a Mi ficará uma
fera comigo... Espero que o Adriel não
me ligue. É isso. Não! Quero que ele
ligue, mas espero que ele não ligue.
Acho que é isso. Não! Esperarei o dia
inteiro por uma ligação dele, mas seria
melhor que ele não ligasse. É isso.

Mi, de onde surgiu isso?– perguntou


Ivone naquela manhã ao ver uma linda
cesta da Pan Leon em cima da mesa. O
seu pai não trouxe nada e... Já sei! Como
estou distraída, a Mari ganhou do
Renan! Só pode ser...

– Não sei, mãe. Pergunte para ela. Pelo


som da voz ela está bem perto...– disse
Michelle ao ouvir a irmã cantando:
“Queremos o seu nome engrandecer e
agradecer-te...”

– Nem preciso perguntar...

– Acho que sim.

–”Pois só tu és um Deus eterno...” Bom


dia! – disse Mariana c o m uma alegria
contagiante.
– Que animação, maninha!

Mariana deu um beijo na irmã e abraçou


a mãe.

– Oi, mãe linda!

– O amor é mesmo lindo e trouxe uma


cesta maravilhosa – disse Ivone.

– Hã? Ah! – Mariana apontou para a


cesta – Sabe quem caprichou nesta
cesta? O meu pai.

– É mesmo? Mas foi o seu namorado


que...

– Meu namorado? Mãe, não tenho


namorado.
– Mari, para que esconder? Você e o
Renan estão namorando.

– Não estamos. O pão com massa


folhada está delicioso...

– Vocês estão sim – insistiu Ivone.

– Mãe, por que eu esconderia? Eu e o


Renan somos amigos.

– Mi, por que ela faz isso comigo? –


perguntou Ivone para a filha mais velha.

Michelle só deu de ombros.

– O Renan é um rapaz tão bom. Não


entendo...
– Mãe, linda, prove isso – Mariana
colocou um petit four de goiabada na
boca de sua mãe.

– Mari...

– É feio falar com a boca cheia.

Na ALT & Filhos...

– Estou com medo. Teremos demissão


em massa? – perguntou Marisa.

– Não sei de onde você tirou essa ideia


– disse Lívia ao sentar-se em sua
cadeira após passar q ua s e a manhã
inteira na sala de Adriel.

– Lívia, ela está falando isso desde que


o patrão chegou – informou Camile.

– O humor dele está ótimo. Foi tão


agradável trabalhar com ele! O serviço
rendeu. Resolvemos uma série de
pendências...

– Por isso mesmo. Ele deu um “bom


dia” tão... bom! Não estou gostando
disso. Vai sobrar para nós, Camile. Ele
está todo doce com a Lívia porque vai
nos demitir....

– Marisa, que neura! Fique feliz por ele.


Viver mal humorado não faz bem para
ninguém.

– A Camile tem razão. Essa coisa de


demissão não tem nada a ver.

– Preciso de chocolate. Posso sair um


pouquinho, Lívia?

– Está quase na hora do almoço. O seu


chocolate pode esperar.
Setenta e quatro, setenta e cinco,
setenta e seis, setenta e sete... Não
posso ligar. Estivemos juntos dois dias
seguidos... Setenta e... setenta e … Mas
quero falar com ela. O que está
acontecendo comigo? Não ligarei – As
mãos eram esfregadas cada vez com
mais força – Setenta e... setenta e...Não
consigo me concentrar. Preciso falar
com ela – Respirou fundo enxugou as
mãos e saiu do lavabo – O que aquela
garota está fazendo comigo?

Mimãs...
– Mari, acabei de falar com o Abner.
Eles passarão aqui às 20h. Você ouviu,
né?

– Ouvi, Mi, mas tenho uma cliente às


19h.

– Ligue e mude o horário. Uns trinta


minutos já ajuda...

– Só que ela virá direto do serviço.

– Tudo bem, Mari, não terá problema se


conseguirmos sair antes das 21h.

– Por que essa urgência? Podemos


marcar para outro dia.
– Não. Será hoje – afirmou Michelle.

– Domingo. É isso. Por que não


deixamos para domingo? Um almoço. O
que você acha?

– Não, Mari. Você quer fugir. Será que


você poderia pensar um pouquinho no
Renan? Ele deve estar muito ansioso.

– Resolveu dar uma força para um


amigo e para nossa mãe? E eu? Mi,
gosto dele como amigo. Só isso –
Mariana já estava cansada de repetir
que entre ela e o Renan só existia uma
bonita amizade.

– Isso pode mudar. Ele é uma ótima


pessoa e está completamente apaixonado
por você.

– Não é assim. Vocês que ficam


incentivando.

– Mari, pense na possibilidade. O Renan


é centrado. Ele tem os mesmos ideais
que você, é gentil...

– E o que mais, hein, Mi? Por que será


que estou com a impressão de que você
quer falar mais alguma coisa?

– S o u sua irmã e me preocupo com


você. Mari, o Renan não tem...

– Não tem...

– Manias esquisitas. Ele não lava as


mãos trocentas vezes para tentar
controlar a ansiedade. Pronto. Falei.

– Eu sabia – os olhos dela encheram-se


de lágrimas – Ele não é do jeito que
vocês pensam. Não é.

– Olhe só para você! Está chorando por


causa dele. Mari, não quero que você
sofra.

– Chega. Não quero conversar mais


sobre isso.

Às 11h45, Adriel saiu de sua sala e


aproximou-se da mesa de Lívia.

– Almoçarei com a minha mãe, mas


estarei aqui antes das 14h.

– Bom almoço.

Assim que ele entrou no elevador...

– Que alívio! É assim que eu gosto.

– Do que você está falando, Marisa? –


perguntou Lívia.

– Ele usou aquele tom ameaçador.


– Camile, leve a sua amiga para almoçar
e compre um chocolate para ela.

– Pode deixar, Lívia, ela está


precisando mesmo.

Na casa de Tereza...

– Será que o meu filho me contará as


novidades? – perguntou Tereza para
Janete que naquele momento estava em
frente ao fogão verificando uma panela.
– Novidades, dona Tereza?

– Sei que ele tem algo muito especial


para me contar. Preciso me controlar.. O
strogonoff está pronto?

– Está tudo pronto. A senhora está tão


ansiosa!

– Não posso falar nada, Janete, depois


você ficará sabendo. Ainda bem que
você está aqui para me dar uma
mãozinha... Sei que as roupas do Adriel
ocupam boa parte do seu tempo... A
Catarina tinha consulta médica hoje –
Tereza referia-se à empregada que
trabalhava todos os dias na casa da
família Alvarez – Estou tão feliz que
fico até distraída...
– Que bom, a senhora merece.

Janete cuida das roupas de Adriel na


casa de Tereza. Lava todas e depois só
passa à ferro as que serão levadas ao
escritório. Adriel mantém algumas peças
em seu closet na ALT porque troca de
roupa durante o expediente. As outras
são passadas no dia seguinte quando a
empregada permanece o dia inteiro no
apartamento do patrão.

– É ele – disse ao ouvir uma buzina –


Tomara que ele fale logo, não sei se
conseguirei me segurar por muito tempo.
Mimãs...

– Mari, você não imagina quem acabou


de ligar para desmarcar...

– O Renan – disse esperançosa.

– Não! A sua cliente. Remarcou para


quinta-feira. Agora não há nada que a
impeça de estar pronta às 20h. Tudo
conspira ao nosso favor – Michelle
esfregou uma mão na outra.

– Por que será que tenho a impressão...


– Lá vem você de novo com isso...

– Que perdi algum capítulo? Não dá


para entender o motivo de tanto
alvoroço. Já saí com o Renan várias
vezes. Somos amigos. Só isso. Mi, o seu
namorado não está colocando coisas na
cabeça do Renan, está?– encarou a irmã.

– Estou tão empolgada hoje!

– Você não respondeu a minha pergunta.


Vocês não resolveram bancar os
cupidos, não é?

– Não é uma má ideia.


Tereza e Adriel estavam à mesa. A
ansiedade dela era grande. Desejava
perguntar para o filho sobre Mariana,
mas até aquele momento havia
conseguido se controlar.

– O almoço foi preparado especialmente


para você, querido. Estou tão feliz! Ter
você aqui hoje é tão...

– Mamãe, não exagere, é só um almoço.

– Posso ficar feliz por ter meu filho aqui


comigo?

– Pode. O strogonoff está delicioso.


– E você está diferente – Tereza
resolver sondá-lo.

– Diferente? – olhou para a mãe e


esperou por uma resposta.

– É. Filho, você tem alguma novidade


para me contar?

– Novidade? Não tenho nada para


contar.

– Fale sobre o seu final de semana. O


que você fez de diferente? – fixou o
olhar nele e esperou pela grande
novidade.

– Já disse que não tenho nada para


contar – contornou o relógio de pulso
com o dedo.

– Que pena! Ontem jantei na casa da


Tati. E você?

– Jantei em meu apartamento.

– É? E não aconteceu nada?– insistiu


ela.

– Era para acontecer alguma coisa? –


Adriel observou a mãe por alguns
segundos e em seguida desviou o olhar.

– Aconteceu algo... Estou certa?

– H ã ? Podemos comer em silêncio?–


perguntou irritado.
– Tudo bem, só farei mais uma pergunta:
Você levará as roupas ou pedirá para
um motorista da ALT? As que serão
levadas para a empresa já estão
prontas...

– Mais tarde peço ao Gomes para


buscá-las.

– Isso é tão injusto!– desabafou Tereza


assim que o filho foi embora.

– O que é injusto, dona Tereza? –


perguntou Janete.
– Esconder as coisas de mim. Por que
ele não fala logo? Para que me deixar
nessa ansiedade?

– Os filhos são assim mesmo. Depois


ele conta.

– É algo tão maravilhoso e ele esconde


da própria mãe?

– Acalme-se, não sei o que é, mas pode


ser que ele precise de um tempo.

– Um tempo? Ah... Tudo bem, tentarei


ser paciente, mas Janete, você não notou
nada?

– Acho que ele está diferente.


– É claro que está diferente, ele está
apaixonado, Janete! – Tereza sorriu para
a empregada de muitos anos.

Às 17h o celular de Mariana tocou. Ela


olhou o visor e sorriu. Se alguém quiser
marcar alguma coisa ficarei
encrencada.

– Alô?

– Mariana, eu...
– O que foi? Quer me ver hoje,
também?– ela não acreditou na própria
pergunta.

– Não. Só liguei para dizer que almocei


com a minha mãe – ele também não
acreditou no que acabara de dizer.

– Que legal! A dona Tereza deve ter


ficado feliz, né?

– Feliz demais para o meu gosto.

– Ah, não seja mau. Viu como é simples


fazer alguém feliz?

– E você já fez alguém feliz hoje?


Esqueça, não perguntei isso – O que
está acontecendo comigo?
– Perguntou sim. Quer me fazer feliz? –
Não acredito que fiz esta pergunta.

– O que a faria feliz agora? – Por que


perguntei isso?

– Não seria difícil me fazer feliz. Uma


ótima companhia, um café em uma
padaria que eu gosto muito...

– É um convite?

– Não. Quero ser convidada –


respondeu toda confiante.

– É muita pretensão pensar que eu seria


uma ótima companhia? – Que pergunta!
Como pude...
– Pan Leon em trinta minutos responde a
sua pergunta?

– Sim – disse simplesmente e logo após


desligou o celular.

Mariana sorriu. Sentiu algo difícil de


explicar, mas adorou a sensação.

– Cléo, você viu a Mari?– perguntou


Michelle ao olhar para o salão e não
localizar a irmã.

– Ela saiu, mas disse que não vai


demorar.

– Saiu? Faz tempo?


– Não. Há uns quinze minutos. O celular
dela tocou e...

– Só faltava essa! Se a Mari furar com o


Renan...

– Ai. Meu. Deus. Vocês ouviram o “boa


tarde para vocês e até amanhã”?
Perceberam o tom de voz que ele usou?

– Marisa, que paranoia! O patrão não


pode estar de bem com a vida? –
perguntou Camile.
– Não se o nome do patrão for Adriel.
Ele não está normal. Lívia, o que você
tem a dizer sobre isso? – Marisa queria
muito descobrir o que estava
acontecendo com o patrão.

– Ele saiu tão animadinho, né? Parece


até que estava sorrindo – disse Lívia.

– Notei também. Isso é muito estranho.


Será que ele está com problema de
dupla personalidade? Vocês viram a
roupa dele? Look black! Ele trocou de
roupa...

– Grande novidade, Marisa! Não há um


único dia que ele não troque de roupa
pelo menos uma vez! – disse Lívia.
– Isso me dá medo, sabia? – Marisa
abriu a primeira gaveta de sua mesa e
pegou um bombom – Alguém quer?

Mariana chegou ao estacionamento da


Pan Leon cinco minutos antes de Adriel.

– Está atrasado – disse ela com


satisfação.

– Estou surpreso com a sua


pontualidade.
– Nossa... Como você fica bem assim
todo de preto! – constatou ao vê-lo sair
do carro vestindo uma camisa social e
uma calça de linho ambas na cor preta.

– Não espere por um elogio meu.

– Não espero.

Olharam-se por alguns segundos...

–Você queria um café, não queria?


Então...

Ele apontou para a entrada da padaria e


abriu passagem para ela.

– Obrigada, gentil senhor.


– Não comece...

– Sim, gentil... Ih, não posso dizer gentil


senhor, não é?

– Engraçadinha.

– Por que concordou em tomarmos o


café aqui? Você pode esbarrar em algum
funcionário da ALT.

– Ele seria demitido. Ainda estamos no


horário de expediente...

– Uma pausa para o café!

– O horário de café da ALT já passou e


temos o refeitório. Servimos café e...
P e d i r a m cappuccino. Mariana
cumprimentou três ou quatro
funcionários da Pan Leon. Um deles
olhou com curiosidade para a filha de
Hílton e para o presidente da ALT &
Filhos.

– Não quer comer nada? – perguntou ele


antes de bebericar o cappuccino.

– Não. Comi bolo hoje no café da tarde.


Minutos antes de você ligar...

– A ideia do café foi sua.

– Não estou reclamando. Disse que


queria um café e uma ótima companhia.
– É suficiente para fazê-la feliz? – olhou
para ela, mas desviou o olhar antes de
ouvir a resposta.

– No momento sim – ela sorriu – Fico


feliz com coisas simples.

– É verdade. Bolhas de sabão, balões


coloridos...

– É isso mesmo. Bom... Disse que ficava


feliz com coisas simples, mas você não
é nada simples.

– E não sou uma coisa.

– Você entendeu.

– Então você também gosta de


complicação – fixou o olhar nela.

– Gosto de desafios.

– Sou um desafio para você? É isso? – a


voz saiu um pouco ríspida.

– Não fale nesse tom. Não se irrite.


Você estava tão fofo!

– Fofo? Não tem nada de fofo em mim –


olhou para a xícara de cappuccino.

– É... Nem o seu abdômen.

– Atrevida.

– Isso foi só para descontrair. Já estava


sem esperanças de vê-lo hoje –
confessou ela.

– Queria me ver? – perguntou sem olhar


para ela.

– Não vou responder.

– Mariana, o que está acontecendo? –


agora Adriel fixou o olhar nela – Não
queria vê-la hoje. Não. Não é isso.
Queria vê-la desde que acordei – ela
olhava para ele sem acreditar no que
acabara de ouvir – O que não queria era
sentir isso. Não posso ter essa
necessidade de estar com você, entende?
– desviou o olhar e começou a esfregar
as mãos – Por que estou falando essas
coisas?
– Adriel, eu também queria vê-lo.

Olharam-se por alguns segundos. Ele


desviou o olhar primeiro e continuou a
esfregar as mãos.

– Você deve pensar que sou louco.

– Não penso.

– O que está acontecendo? Por que


preciso estar com você? Ontem, não
queria que você fosse embora do meu
apartamento. Desculpe-me, não tive a
intenção de assustá-la... – disse ao notar
a surpresa no olhar dela.

– Não estou assustada. Você me


surpreendeu.
– Gosto de estar com você. A sua
presença me faz bem – confessou
timidamente.

Mariana pensou que o seu coração sairia


pela boca.

– Adriel, eu...

– O seu cappuccino vai esfriar.

O que eu estou fazendo? Preciso parar


de falar. Se continuar o que virá
depois?– pensava ao contornar o visor
do relógio de pulso com um dedo.

– Terminou? Agora é melhor irmos para


casa... Cada um para sua própria casa –
ele fez questão de esclarecer.

Mariana entrou em seu carro e ficou


observando Adriel se aproximar.

– Você e sua irmã trabalham juntas,


dividem o mesmo carro e o que mais?

– Ela sai com um cara que é a sua cara –


ela sorriu e logo em seguida ficou séria
– Piadinha sem graça, né?

– Concordo. Então... é... Quando você


quiser tomar um café é só... ligar.

– Certo. Ligarei. Tchau, Adriel.


Lívia olhou para a porta fechada e
entrou pela lateral. Quase esbarrou na
sobrinha que se aproximava da porta
naquele exato momento.

– Oi, Mi, tudo bem? Já fecharam o


salão? Ainda nem são 19h!

–Temos um compromisso, mas parece


que uma certa pessoa esqueceu. Como
foi o trabalho? Tranquilo, tia?

– Ri muito com a Marisa hoje. Ela é uma


figura. Estava toda preocupada só por
causa do bom humor do Adriel.

– Bom humor?

– É. Desde ontem que ele está bem


tranquilo. Cumprimenta a todos quase
sorrindo e isso é raro. A Marisa acha
que é um péssimo sinal. Colocou na
cabeça que haverá demissão em massa.
Vê se pode? – meneou a cabeça.

– Tia, estou preocupada. A Mari tem a


ver com isso, não tem?

– Mi, é melhor mudarmos de assunto, se


a sua mãe ouvir... Olha quem chegou!

– ”O meu Deus é um Deus de milagres,


não há limites...” Oi, lindas!

– Até que enfim, Mari! E o nosso


compromisso?

– Minha irmãzinha linda, está cedo.


Tudo bem, tia?

– Tudo ótimo. Estava falando para a sua


irmã o quanto o clima lá na ALT está
tranquilo.

– É mesmo? Que legal – comentou de


maneira casual.

– E eu estava comentando com a nossa


tia se essa mudança de clima tem a ver
com você – Michelle encarou a irmã.
– Comigo? Por que teria? Vou tomar um
belo banho. Beijinhos no coração –
acenou para as duas e afastou-se.
Capítulo 25 –
Namoro?

Abner e Renan chegaram pontualmente


às 20h. Resolveram ir todos juntos no
carro de Abner.

– Achei uma ótima ideia sairmos juntos,


Mari. Estava com muita vontade de sair
com você, mas não sei... Parece que
você tem me evitado.

– Não é isso, Renan. Só não deu certo.


– Achei melhor ainda o Abner dirigir
porque assim posso olhar para você.

– É, né? Hoje sou motorista particular!


Você me deve uma– reclamou Abner.

– Amor, você adora dirigir. E é bom


mesmo porque o Renan e a minha irmã
precisam conversar.

Mariana beliscou a irmã.

– Ai, isso doeu! É uma pena não


estarmos em uma limousine para vocês
ficarem mais à vontade. Mas esqueçam
que estamos aqui. Façam de conta que
tem um vidro nos separando.
– Que brincadeira mais sem graça, Mi!
Quer outro beliscão?

– Não quer mesmo conversar comigo,


né? – perguntou Renan um pouco
chateado.

– Não é isso, Renan. É que a nossa


conversa pode ser ouvida por eles
tranquilamente.

– Você não sabe o que eu pretendo


dizer.

Renan olhou sério para Mariana. Abner


ligou o CD player ao perceber que o
clima estava meio tenso.

– Está chateada comigo?– perguntou


Renan.

– Não. É que parece que querem forçar


um clima entre nós dois e não estou
gostando disso– disse quase
sussurrando.

– Então... Que tal conversarmos sobre o


GEAD. Estão ensaiando o quê?

O clima entre os amigos ficou agradável


novamente. Mantiveram uma animada
conversa até chegarem à pizzaria.

– Co mo gosto de pizza portuguesa –


disse Renan assim que o garçom os
serviu.
– Vocês sabiam que quem namora deve
pensar bem antes de pedir uma pizza?–
perguntou Abner.

– Por que, amigo?

– Não deve pedir pizza que tenha cebola


e nem ovo. Você errou feio, Renan!

– Você tem cada uma, amor! – Michelle


revirou os olhos e deu um leve tapa no
braço do namorado.

– É verdade, mi amore. Já imaginou o


bafo? O que você acha, Mari?

– Sem comentários. Olha só quem


acabou de chegar...
Abner, Michelle e Renan olharam para a
porta.

– Não é que eles vieram mesmo? A


Renata perguntou onde iríamos e eu...–
Renan começou a explicar mas parou ao
ver a expressão nada satisfeita de
Mariana.

– Eles já nos viram – disse Abner.

– Oi, pessoal! Podemos sentar com


vocês? – perguntou Renata ao
aproximar-se.

Após os cumprimentos, Renata e


Guilherme fizeram o pedido ao garçom.
– Mari, quando meu irmão comentou que
sairiam hoje achei o máximo! Só resolvi
aparecer com o Gui porque o Renan
disse que o Abner e a Mi também
viriam, tá? Se fossem só vocês dois...

– Entendi. E aí, já marcou a data do


casamento?

– Ainda não, Mari. Falta tanta coisa, né,


Gui?

– É que você sempre quer mais coisas –


falou Guilherme meio envergonhado.

– Gui, isso é jeito de falar?


– É mentira? Olha, Abner, cuidado
quando a Mi falar em compras para o
casamento. Não tem mais fim –
Guilherme colocou a mão no ombro de
Abner.

– A minha amiga não terá o mesmo


problema que eu. O Abner não vai
precisar fazer inúmeras prestações. Mi,
você tem sorte, muita sorte. Conquistou
o irmão certo – Renata olhou para
Mariana e percebeu que o comentário
não a agradou – O que foi, Mari? Falei a
verdade.

– Abner, aproveitando a oportunidade...


Será que não tem uma vaga para mim lá
na ALT ? – perguntou Guilherme ao
perceber que o clima estava meio tenso.
– Gui? Estamos com amigos em uma
pizzaria. Abner, peço desculpas pelo
Gui. Ele foi inconveniente – disse
Renata inconformada com o namorado.

– Que isso, Renata! Gui, você é um


excelente profissional. Pode marcar com
a Tati.

– Nem pensar! – Renata deu um tapa no


braço no namorado – Abner, esqueça
que o Gui...

– Por que, Renata? A ALT paga muito


bem – disse Michelle, Renan e Mariana
entreolharam-se.

– Por quê? Você ainda pergunta? Não


quero que o Gui seja empregado do
Adriel.

– Amor zi nho, não teria problema


nenhum com isso– Guilherme acariciou
o rosto da namorada.

– Gui, você não sabe o que está falando.


Nem por todo o dinheiro do mundo você
trabalharia para o Adriel.

– Renata, você está exagerando. Meu


irmão é um ótimo empresário. O Gui
seria muito valorizado lá. Ele é fera em
computação e...

– Abner, não precisamos do dinheiro do


seu irmão. Consegui me livrar daquele...
é...
– A sua pizza chegou, Renata!– anunciou
Renan torcendo para mudarem de
assunto.

– Estou com uma fome! Então...Abner,


gosto muito de você, mas não dá para
aguentar o seu irmão. Se só você e a
Tati fossem os donos da ALT, não teria
problema nenhum o meu Gui pensar em
trabalhar lá...

– Gui, já disse e repito: é só marcar com


a Tati.

– Valeu, Abner, mas não quero ter


problemas com o meu amorzinho –
Guilherme acariciou o rosto da
namorada novamente.
– Por isso que amo você, Gui. Mas e
vocês dois? Estão namorando ou não? –
perguntou olhando para o irmão e para
Mariana.

– Renata, o assunto aqui hoje é o seu


casamento. E então? Vai parar de
enrolar o Gui? – Mariana estava se
esforçando para controlar a
impaciência.

– Que bicho mordeu a Mari, hein, Mi?

– Pessoal, a pizza está uma delícia.


Vamos apreciar?– sugeriu Michelle.

– Fiz uma pergunta. Gente, o meu irmão


está sofrendo por amor. Mari, você
ainda não percebeu? Não aguento isso...
– o clima ficou mais tenso.

– Renata, não preciso que ninguém fale


por mim – Renan sentia-se culpado por
ter mencionado o lugar para a irmã e
lamentava por ela ser tão indiscreta.

– Não, Renan? Precisa sim. É


exatamente por isso que o Abner e a Mi
estão aqui.

Tem como ficar mais constrangedor


ainda?– pensou Mariana.

– Amorzinho, a pizza está esfriando.

– Gui, a felicidade do meu irmão é


muito mais importante do que qualquer
pizza. Que esfrie! Tenho que falar. Mari,
cansei. O meu irmão não merece...

– Olha só aquele menininho...–


Guilherme apontou discretamente para
um menino que estava com os pais em
uma mesa próxima – A boquinha está
toda suja de molho. Abner, você já se
imaginou como pai? Eu já!

– Calma, Gui, não se empolgue. Não


quero filhos tão cedo! Só depois de uns
10 anos de casada. E você, Mi? Já está
pensando nisso?

– Que papo é esse, gente?– perguntou


Abner.

– Ainda não, Renata. Quero ser mãe sim,


mas tudo tem seu tempo.
– Acabei de pensar em uma coisa muito
engraçada. Imaginei o Adriel como pai.
Coitado do filho dele... “ Lave as mãos
para comer! Já lavei, pai! Lave
novamente. Pai, já lavei 10 vezes! Mas
não é o suficiente”. Coitado! É
engraçado, não é?

Abner, Michelle, Renan e Guilherme


entreolharam-se sem dizer nada.
Mariana não conseguiu ficar calada.

– Engraçado? Você acha isso


engraçado? Renata, zombar do problema
dos outros não é nada engraçado!

– Gente, foi só uma brincadeirinha.


Vocês não têm senso de humor?

–Temos sim, Renata, o problema é que


você não tem...– Mariana segurou-se
para não ser grosseira.

– Não esquenta, Mari, estou só


brincando, o Abner nem ligou. Deixa eu
ver uma coisa...– Renata pegou o celular
e entrou em uma rede social – Vou
alterar meu status:” Saboreando uma
pizza com meus amigos”, vou marcar
vocês, tá? – perguntou dando uma rápida
olhada em todos – Ai, gente, pensei uma
coisa agora, ai, será que falo? Ah, é bem
legal. Vocês podem imaginar qual seria
o status do Adriel? Eu sim, escutem só:
“ Fui lavar as mãos”. Ai, gente, status
eterno, né?
– Renata, você é inacreditável! Perde os
amigos, mas não perde a piada, né?–
Mariana estava indignada.

– Mari, me acompanha até o toalete? –


perguntou Michelle para tirar a irmã
dali.

– Agora não, Mi.

– Mari!

– Tudo bem, vamos.


– Respire fundo, acalme-se – disse
Michelle ao entrarem no toalete

– Acho que nunca me arrependi tanto de


ter saído.

– Bom... pelo menos acho que não tem


como piorar, né?

– Para completar só faltava o Renan se


declarar.

– Isso seria ruim?

– Ai, Mi, você sabe que gosto dele


como amigo e toda essa situação está me
incomodando muito. Você e o Abner
agora são cupidos, é? E para
completar... A Renata aparece! Como
ela é é desagradável! – disse olhando-se
no espelho – Quero ir embora.

– Idem. Vamos lá dar a ideia.

– Já? Gente, ainda nem são onze horas!


– protestou Renata.

– Renata, amanhã todo mundo trabalha –


constatou Renan que também não via a
hora de sair de lá.

– Gui, podemos ficar mais um


pouquinho, né?
– É claro, amorzinho.

No carro...

– Mari, me desculpe. Que noite terrível!

– A culpa não foi sua, Renan, mas estou


olhando para os culpados... – disse
Mariana olhando para a irmã e em
seguida para Abner.

– Quem? Nós?– perguntou Abner


apontando para ele mesmo e para
Michelle.

– Vocês que inventaram esse programa.

– Quem convidou a Renata?– foi


Michelle quem fez a pergunta retórica.

– A minha irmã fala cada coisa! Ela não


pensa para falar. Abner, peço desculpas
pelas brincadeiras que ela fez usando o
nome do seu irmão.

– Agora você já aprendeu a lição:


Nunca comente sobre os seus encontros
perto da sua irmã – brincou Abner.

– É isso aí. Mari, você nunca mais vai


querer sair comigo, né?
–Você continua sendo um grande amigo.

– Depois do fiasco desta noite tenho que


me contentar com isso – lamentou
Renan.

Quase uma hora mais tarde...

– Nem acredito que estou deitada em


minha cama. Ainda bem que a mãe já
estava dormindo. Para completar a noite
só faltava ela ficar me interrogando
sobre o Renan – Mariana cobriu-se com
o edredom.

– Se prepare que amanhã, com certeza,


ela fará muitas perguntas.

– Que noite, hein?

– Mari, me desculpe, essa coisa de


bancar o cupido não está dando certo.
Maninha, amo você e quero que seja
feliz – Michelle acomodou-se em sua
cama – Gosto muito do Renan e seria
ótimo se vocês se acertassem, mas se
você só gosta dele como amigo, não vou
insistir nisso. Hoje foi um desastre.
Você e o Renan estavam estranhos. E
depois a Renata apareceu e nossa, aí que
a coisa ficou feia...
– Ainda bem que não estou apaixonada
pelo Renan. Já imaginou ter a Renata
como cunhada?

– Ninguém merece – Michelle revirou


os olhos – Ainda bem que o Gui é filho
único.

– É. Maninha, também amo você, tá? E


entendo que só queira a minha
felicidade, mas converse com o Abner e
o convença de que ele é um péssimo
cupido.

– Aonde você vai? – perguntou ao ver a


irmã levantando-se.

– Preciso fazer uma coisa.


– Ah!

– Hã? Que coisa você está pensando?

– Número 2.

– Não! – Mariana jogou o travesseiro


em sua irmã – A minha noite não pode
terminar assim... – disse aproximando-
se da porta.

– Mari, você vai sair?

– Não. Só farei uma ligação – disse ao


mostrar o celular.

– Mari!
Mariana sentou-se na poltrona da sala.
Não acendeu a luz. Após o 5° toque ele
atendeu.

– Oi, estava dormindo? – sussurrou ela.

– Por que está falando assim? Algum


problema?

– Não quero acordar ninguém. Só você –


riu baixinho– Estava dormindo?

– Tentando há mais de uma hora.

– E por que não conseguiu?

– Porque você não deixou .

– Eu? Só liguei agora. Ai, você tinha


acabado de cair no sono, né?

– Não. Simplesmente não consigo


dormir. Você não sai dos meus
pensamentos, Mariana – disse com
sinceridade.

O coração de Mariana disparou.

– Adorei ouvir isso. Salvou a minha


noite.

– O que aconteceu com a sua noite?

– Foi um desastre.

– É mesmo? De quem é a culpa?

– Adriel, não importa quem estragou a


minha noite. O que realmente importa é
que...

– Sim?

– É que você a salvou. E foi tão


simples! Uma frase e tudo ficou lindo
novamente.

– Eu? Tem certeza? Sou chato, tenho


manias esquisitas, péssimo humor e...

– Você mesmo. Foi uma ótima ideia


ligar. Agora dormirei tranquilamente.

– Você é surpreendente, sabia? – nem


ele acreditou no que acabara de dizer –
Quero vê-la amanhã.
– Só amanhã? Sabe que horas são? Meia
noite e vinte.

– Então quero vê-la hoje. Será que...

– Darei um jeito. Nem que seja para


tomar um cappuccino.

– Mariana, o que está acontecendo entre


nós? – a voz saiu quase em um
murmúrio.

–Vamos descobrir juntos. Boa noite,


Adriel.

– Boa noite, Mariana.


Mariana, com um sorriso nos lábios,
ainda permaneceu por alguns minutos
sentada na poltrona da sala de estar.

No dia seguinte, na ALT...

– Bom dia! Você já está aqui, Lívia?


Será que estou atrasado?– perguntou
Adriel bem descontraído.

– Bom dia, Adriel, já são 8h30 e sim,


você está atrasado.
– Compensarei no final da tarde ou não
– brincou ele – Bom dia, Camile,
Marisa...

Assim que ele entrou em sua sala...

– Preciso de um chocolate agora! Gente,


o que foi aquilo? Ele falou o meu nome?
Ele sabe o meu nome? Ele disse “bom
dia”? – Marisa estava boquiaberta.

– É claro que ele sabe o seu nome e o


meu também, Marisa! É muito legal vê-
lo assim. Ele deve estar apaixonado. O
que você acha, Lívia? – perguntou
Camile cheia de curiosidade.

– Tem alguma coisa acontecendo na


vida dele. Algo muito especial. Preciso
ter uma conversa séria com uma certa
pessoa – Lívia pensou alto.

– Com quem? – Marisa e Camile


perguntaram em uníssono.

– Que sincronia meninas! Com ninguém.


Vamos trabalhar? – encerrou o assunto.

Quarenta e cinco, quarenta e seis,


quarenta e sete... Não posso ligar tão
cedo! O que ela pensaria?Pensaria que
estou obcecado. Quarenta e …
quarenta e... Mas seria ótimo ouvir a
voz dela agora. Não! Quarenta e... Não
consigo me concentrar! Cinquenta,
cinquenta e um, cinquenta e dois..–
neste momento a contagem mental era
feita ao som de Vivaldi.

– Por que vocês não comentam nada


sobre a noite anterior? Onde vocês
foram? – Ivone estava curiosa para
saber sobre Renan e Mariana.

– Mãe, fomos em uma pizzaria –


informou Michelle.

– E... Mari, você e o Renan?

– Mãe, por favor, esqueça isso – pediu


Mariana.

– Mi, o que foi? Quero saber de tudo.


Qual o problema com a noite de ontem?

– Não foi uma noite agradável –


informou Mariana sem maiores
explicações.

– É? Agora fiquei preocupada. Vocês


foram assaltadas?

– Não – foi a resposta de Michelle.


– Sim – foi a resposta de Mariana.

– Hã? Contem tudo, agora!– a mãe


ordenou.

– Quem respondeu sim contará tudo, né,


Mari? – Michelle cutucou a irmã.

– Roubaram nosso bom humor. É isso. A


Renata e o Gui apareceram por lá e...

– Nossa, pensei que fosse um encontro


romântico! Mari, Renan e uma multidão?
Mi? – Ivone olhou para a filha mais
velha esperando por uma resposta.

– Mãe linda, eu e a Mari precisamos


trabalhar. Vamos, maninha?
– Está cedo! Voltem aqui...

– O salão está uma bagunça! Beijinhos,


mãe!

As meninas saíram deixando Ivone sem


detalhes.

Tatiana, Abner e Lívia estavam há quase


duas horas na sala de Adriel.
Conversavam sobre os detalhes para a
participação da ALT & Filhos em uma
importante feira de cosméticos.

– Então é isso. Está tudo resolvido –


disse Adriel ansioso para encerrar a
reunião.

– Adriel, após o almoço trarei o novo


contrato da Meu Cher para você assinar.

– Preciso ler com muita atenção, Lívia.


Assim que eu chegar do almoço você...

– Novo contrato? – perguntou Abner.

– O Robson sempre inventa alguma


desculpa para entrar em contato comigo.
Pediu algumas alterações. Só faltava
marcar um jantar – disse Adriel
meneando a cabeça.

– E l e adora você – Tatiana colocou


alguns papéis em uma pasta e levantou-
se da cadeira – Estou com uma fome!
Vou almoçar com a mamãe. Você
também, Abner?

– Com certeza. Ontem almocei com um


cliente. Vocês não acreditam o que eu
comi: hambúrguer – fez uma careta –
Deixei que ele escolhesse. Foi um erro.

– Qual cliente? – foi a pergunta da ir