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Yagate Kimi ni Naru: Sobre Saeki Sayaka

Autor: Iruma Hitoma (入間人間)


Ilustrações: Nakatani Nio (仲谷 鳰)

A pessoa que traduziu esse material não contém o direito autoral da obra e
nem de nada relacionada a essa franquia. Esta é uma tradução não oficial de fã
feito para fãs.
Se este romance for licenciado por um editorial nacional e você tem
dinheiro para adquiri-la, considere fazê-lo. Dessa maneira que você terá uma
tradução de qualidade
profissional e você pode desfrutar de mais uma leitura
Agradável e próximo ao texto original.

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Primeira parte

Isso pode soar arrogante, mas desde que era jovem, eu sempre fui consciente
de que seria uma pessoa “capaz”. O que eu entendo por “capaz”, em primeiro
lugar, é que desde que eu me esforce, os resultados surgirão. Em segundo, eu sei
que eu posso fazer isso de forma constante. Eu acho que entendi o valor, e o
significado por traz dessas duas ideias mais cedo que as crianças da minha idade.
Por isso, nunca fico chateada pelo fato de estar extremamente envolvida em
diversas atividades extracurricular, ainda que isso signifique ficar sem tempo livre
depois da escola.
Lições de Ikeban1, aulas de caligrafia, piano e aulas de reforço¹, e desde
terceira série, aulas de natação. Eu acho que aulas de inglês instrumental será o
próximo da minha lista. Escolhi todas as atividades que podem ser oferecidas a
uma criança, pois penso que o simples fato de poder escolher já é uma bênção.
Mesmo através dos olhos de uma criança, a casa da minha família é maior
do que qualquer outra. Temos um portão negro, com uma porta à esquerda para
os empregados usarem, no jardim de nossa propriedade temos várias árvores. E
os muros externos são grandes o suficiente para impossibilitar a visão de quem
está de fora. Está casa é maior do que todo o bloco de apartamento pintados de
verde em frente a nossa casa.
Os residentes da minha casa consistem em meus pais, eu, meus avós
paternos e dois gatos. Uma casa enorme para tão poucos habitantes. Apesar de
não terem me dito nada, ter nascido e crescido em tal núcleo familiar, me fez

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Arte de arranjo de flores

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acreditar que não podia me dar ao luxo de fazer coisas erradas. É claro, por ter
chegado a essa conclusão por conta própria, fico insegura se essa minha visão está
certa ou errada. Mas eu sei, que contato que eu me esforce e consiga bons
resultados, minha família não irá me desaprovar. Afinal, que pais se sentiriam
desapontados tendo uma criança tão exemplar?
É por isso que hoje, como sempre, voltei para casa e assim que deixei a
minha mochila no seu devido lugar comecei a me preparar para as lições da tarde.
Ambos os meus pais trabalham e por isso a casa está tão silenciosa quanto uma
tumba. Além disso, não há sinal dos empregados, visto que meus avos estão em
casa. Eu sigo para cozinha para beber um copo com água, ainda que curta, a
caminhada entre a escola e a minha casa é suficiente para me deixar com sede.
Apesar do silêncio da minha casa que só era quebrado pelo som dos ventiladores,
eu podia ouvir os sons das cigarras.
Eu saí de casa carregando a bolsa que contém o meu equipamento de
natação, entretanto antes de sair para rua, pego um pequeno caminho existente no
jardim que me leva para a parte anexa da casa onde estão os meus avós. Os gatos
da minha família ficam normalmente lá. Um deles é bicolor, branco com manchas
pretas, e o outro é um tortoiseshell. Eu os encontro no mesmo lugar de sempre.
Apesar de termos adotá-los recentemente, creio que já estão adaptados ao lugar,
pois não fogem para longe quando chego perto deles. Quando estão de bom
humor, se deixam até acariciar. Me pergunto se hoje é um desses dias.
Eu me ajoelho e tento afagar o gato bicolor, porém, esse levanta o rosto com
um olhar cauteloso e rapidamente se afasta, escondendo-se nas sombras junto ao
gato tortoiseshell,

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-Que vergonha.
Eu desviei meu olhar e segui o meu caminho para as aulas de natação. As
aulas ocorrem uma vez por semana, nas quartas-feiras, o que faz com que seja
mais fácil de não esquecer do compromisso2. Eu deslizo pelo portão e vou para
rua.
Enquanto caminhava na rua, escutava os sons das cigarras e percebi, depois
de escutar atentamente, que os barulhos das cigarras do lado direito são diferentes
das do lado esquerdo. Pensei que tal diferença se devesse ao fato de serem
espécies diferentes, então olhei para cada lado, a fim de se comparar as paisagens.
A imutável paisagem da minha vizinhança treme aos meus olhos. Deve ser
o calor do verão, os meus ouvidos não param de zumbir.
Chego à rua principal e atravesso duas passagens para pedestres. Então, eu
continuo em frente por 10 minutos ou mais. As minhas aulas ocorrem em uma
pequena academia de natação localizada no centro da cidade. É um edifício alto,
delgado e com uma sala de recepção no segundo andar. A piscina da aula de
natação fica no subsolo do primeiro andar. E para mim é um mistério sobre o que
tem no primeiro andar, já que não parece haver nenhuma maneira de acessá-lo -
que prédio mais estranho.
Próximo do edifício há um grande estacionamento privado. Os funcionários
da escola de natação nos alertam repetidamente para tomar cuidado com os carros
que entram e saem. Eu vejo dois ônibus estacionados em frente à escola. Olhando
para a calçada onde alguém está sendo ajudado em uma cadeira de rodas, eu subo
a escada estreita na entrada.

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Em japonês, as palavras "natação" (水 泳) e "quarta-feira" (水 曜 日) são escritas usando os mesmos caracteres de"água"(水)

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-Oh, Saeki-san.
Eu viro quando escuto meu nome. É uma garota da minha classe. Parece que
ela veio para as aulas da natação direto da escola, pois sua mochila estava
pendurada em seu ombro. Nós vamos para escolas diferentes então eu não sou
próxima dela. Bem, também não é como se eu fosse amiga de alguma criança da
minha classe de natação. A garota salta os degraus para me acompanhar.
-Olá
A garota me cumprimenta, mas para ser honesta, eu não gosto dela.
-Você não vai para escola, Saeki-san?
-Huh?
Que pergunta estranha. Eu continuei encarando-a enquanto passava na porta
automática do edifício. A recepcionista no balcão nos cumprimenta com um
sorriso, e eu retribuo a gentileza, mostrando para ela o meu cartão. Ela toma o
cartão da minha mão, fazendo o mesmo com a outra garota, a recepcionista nos
entrega as nossas chaves. É uma chave para o armário dos vestiários. Eu estou
secretamente aliviada por ver que o número do armário que eu tinha pego estava
distante da outra garota.
O ar-condicionado está ligado e o meu pescoço está começando a ficar frio.
À área esquerda da recepção possui painéis de vidro com vista para a piscina do
térreo. Algumas vezes, você pode ver alguns visitantes chegando para ver as
lições daqui. As luzes bruxuleantes pintam suavemente as ondas de luz na
superfície da piscina.
Enquanto caminhávamos em direção aos vestiários, eu decidi perguntar à
menina:

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-Do que você está falando agora?
-Me referia a sua pele, que é tão clara.
O mês de julho estava apenas começando, porém ela já tinha a pele
bronzeada. Agora entendo, suponho que eu não seja tão bronzeada quanto ela.
-Pensei que talvez você não saísse de casa.
Seu cabelo estava balançando, cortado na altura dos ombros e tão negro que
parecia quase um com sua pele escura. Ainda, não tínhamos entrado na piscina,
porém, o seu cabelo tinha uma textura sedosa que dava a impressão de estar
úmido. Enquanto eu a observava, eu simplesmente respondi:
-Isso não seria possível, seria?
Uma resposta desinteressada. Embora, tão pouco precisava ser interessada
-É verdade. Apesar de tudo, você é muito responsável.
Mudava de opinião tão rápido quanto às expressões do seu rosto. Era uma
menina ligeiramente menor do que eu, com o rosto bronzeado até a entrada do
seu cabelo. Se tivesse o cabelo um pouco mais curto, pensariam que seria um
menino muito franzino.
- Você leva as aulas com muita seriedade não é, Saeki-san?
Isso começou a me irritar visto que ela insiste em uma conversa quase
unilateral. Pessoas que se comportam com tanta familiaridade não me agradam,
mesmo que não nos conheçamos muito bem. E, além disso, havia outra razão pelo
qual eu antipatizava com ela:
-Você pode estar certa, e você é aquela que não leva à sério.
-Sim.

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O que eu fiz foi apenas destacar um fato, mas pareceu não a afetar. Sua
insolência era maior que qualquer coisa.
Passamos em frente às máquinas de venda automática e entramos nos
vestiários. No interior, os armários estavam dispostos em duas fileiras, uma sobre
a outra, ao longo da parede. Havia também três espelhos de banheiro com suas
respectivas torneiras que, no momento, estavam sendo limpos pela equipe de
limpeza.
Abri o armário, que tinha o mesmo número da chave que haviam me dado,
e coloque a minha bolsa dentro. Eu olhei de lado e a garota que havia entrado
comigo também guardava sua mochila. Ela olhou para mim e nossos olhos se
encontraram.
-O que foi?
-Não é nada.
De fato, não havia nada para falar com ela e tão pouco me interessava ter
algo para conversar.
Me despi e coloquei o meu traje de banho designado pela escola. Dessa vez,
fui eu quem se sentiu sendo observada, assim que olhei em sua direção descobri
que ela ainda estava me olhando, sem tirar as mãos do armário.
- Quê que foi?
Agora quem fez a pergunta fui eu. É um incomodo que te encarem tão
firmemente.
-Nada demais.

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A garota logo desviou o olhar e começou a tirar seu equipamento de natação.
Eu não entendo qual é o problema dela. Eu não fiz nada para parecer amigável
com ela, mas ela fala comigo sempre que tem alguma chance.
Me adiantei e me dirigi a piscina. Não saí pela mesma porta que nós
havíamos entrado, mas sim pela porta de lado oposto que é a nos conduz ao
interior das instalações. Passei sob a luz verde brilhante que marca a saída de
emergência e desci as escadas. A cada passo, podia sentir que a umidade do ar
estava aumentando. Quando o cheiro de cloro atingiu completamente meu nariz,
a piscina já estava bem na frente dos meus olhos.
Ao submergir meus pés no líquido desinfetante da entrada, senti um calafrio
percorrendo as minhas costas.
Ao lado da piscina, alguns colegas já estavam fazendo o alongamento
inicial. Cumprimentei eles e o adulto encarregado de dar as lições. Na minha
opinião, o colete preto e a camisa laranja do instrutor, que é mais alto que meu
pai, dão a ele um ar mais alegre. E durante as lições é fácil ouvir o que ele diz,
porque ele fala com grande entusiasmo.
Depois do banho, pus me gorro de natação e comecei a fazer os
alongamentos junto com as demais crianças. A piscina estava escura e a água
permanecia tão calma que criava a ilusão de que você podia caminhar sobre ela.
É uma piscina de 25 metros com 6 raias. Inclusive, me pego pensando
quantas pessoas, uma atrás da outra, seriam necessárias para cobrir esse
comprimento. Eu estava alongando minhas pernas quando a garota de antes
chegou. Ela também cumprimentou o pessoal e se dirigiu, por algum motivo, para
onde eu estava. Apesar de usar o mesmo maiô que eu, nela a vestimenta deu uma

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impressão completamente diferente, graças à cor de seus braços e pernas
bronzeados. Era um bronzeado tão uniforme que me fez pensar que talvez fosse
intencional. A cor clara de sua pele natural mal aparecia nas bordas do maiô.
-É uma sorte que a piscina esteja no interior, assim não ficaremos
bronzeadas do sol.
-...Pois parece que isso já é um pouco tarde para você.
-Isso eu não posso negar.
Logo, ela se dirige para o chuveiro dizendo: “você tem toda razão, hahaha”.
Não entendo por que ela tenta falar comigo toda vez que aparece alguma
oportunidade. Não pensa que sou sua amiga, certo?
Ao voltar do chuveiro, a menina ficou ao lado da piscina observando a água,
sem ter feito seus alongamentos. Ela é esse tipo de garota.
Como todos os alunos estavam presentes, o instrutor se aproximou de nós.
Por ser um dia da semana, somos apenas 6 pessoas no total. Porém, ouvi dizer
que há muito mais pessoas que frequentam nos fins de semana, embora isso não
seja difícil de imaginar.
Eu olhei de lado para os meninos que estavam ao meu lado e belisquei meu
próprio braço, e de fato sou eu quem tem a pele mais clara. Deve ser porque não
saio para brincar do lado de fora durante o recreio.
O professor nos agrupa de acordo com a classe a que pertencemos.
Atualmente, estou no nível intermediário. O sistema desta escola é dividir os
alunos por níveis, transmitir as lições e subir ao próximo nível para aqueles que
já estão aptos para isso, mas parece que apenas os alunos do ensino médio podem

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passar para o nível avançado. Não há nada que eu possa fazer sobre isso, mas não
gosto como a expressão "nível do meio” soa.
Se vou fazer algo, quero que isso chegue ao nível mais alto.
A idade é única coisa que não se consegue fazer avançar mais depressa, não
importa o que se faça. Você não pode adiantá-la e muito menos mantê-la.
Penso nos gatos da minha casa e nos meus avós.
Enquanto o instrutor falava, depois de reunir todos os alunos, um barulho
de alguém mergulhando na água foi ouvido à distância. Eu direcionei meus olhos
para a piscina e, como eu imaginava, era a mesma garota de antes. Ela nunca
atende às instruções da turma, fazia e nadava quando queria.
No começo, os adultos tentaram corrigi-la, mas acabaram desistindo e agora
a deixavam fazer o que queria. Como a piscina possuía mais canais do que
precisávamos, esse comportamento dela não interferiu no aprendizado de outros
alunos. Mas isso não significava que não havia problema com isso.
Aquela garota sempre levava as coisas com total falta de seriedade. Não
parecia que ele quisesse melhorar sua técnica de natação, ela simplesmente
brincava o quanto queria. Eu não tenho a menor ideia de qual é o seu objetivo ao
frequentar estas aulas. E é por causa dessas atitudes que não simpatizo com ela.
Melhor dizendo, ela me desagrada, ela passa o tempo todo brincando, enquanto
os outros se concentram no treinamento, isso não passa de um estorvo.
Ela parecia tão anima e não se importar com o que estava acontecendo ao
seu redor, que imagino que ela realmente não liga para nada. Essa sua maneira de
parece ser mais fácil de viver assim, mas acho que não aguentaria ser dessa forma.

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As aulas duram aproximadamente uma hora. Primeiro, realizamos
exercícios de aquecimento, caminhando lentamente na água e depois praticamos
nossa técnica de natação. Não conheço o histórico do instrutor, mas acho que ele
ensina muito bem. Ao colocar em prática o que aprendi nas lições dele, pude sentir
bem menos a resistência da água.
Suponho que meus movimentos vêm se tornando mais precisos e observo a
técnica dos outros alunos também vem melhorando.
Depois de receber instruções por cerca de 40 minutos, é hora de cada um ir
para sua raia e testar sua velocidade ao nadar os 25 metros. O estilo de natação a
ser utilizado é o indicado pelo instrutor no momento.
Nesta ocasião o tipo de nado utilizado é o nado peito, o qual eu tenho quase
dominado.
Como há seis raias para seis pessoas podemos nadar todos ao mesmo tempo.
Inclusive a garota que estava apenas brincando o tempo todo, sem escutar as
instruções do professor. Embora não fosse minha intenção, pegamos raias
adjacentes.
Por ter praticado todas as instruções durante a aula, tinha as orelhas quentes.
A outra garota, que nem parecia exausta, me deu um sorriso ingênuo com os
dentes brancos. Antes de tudo, acho que ela não tem nada a ser testado nadando
os 25 metros, considerando que passava o tempo todo brincando.
Talvez esse sorriso fosse apenas de caráter amigável, mas só me fez insistir
ainda mais em não aceitar perder para ela.
Honestamente, não posso dizer que sou muito atlética, mas desde que eu
tenha me esforçado tanto até agora, quero obter resultados satisfatórios que

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reflitam o meu esforço. Se eu perdesse contra alguém que nunca faz nada ou não
se esforça, ficaria muito triste. Por esse motivo, decidi levar isso a sério e dar tudo
de mim.
O instrutor registrou o cronômetro e apitou e indicou o sinal de saída.
O apito soou levemente, dificultando uma resposta imediata. Mergulhei na
água e, enquanto um som da água envolvia meus ouvidos, chutei a parede, estendi
meu corpo completamente para diminuir a resistência da água e me impulsionei
para frente.
Toda a água é azul, a única coisa que se destaca é o nome da academia
escrita com letras brancas ao fundo. Eu avancei o máximo que pude para não
perder o momento inicial e então me preparei para nadar no estilo do peito.
Quando levantei o rosto, pude ver uma figura que saltou para o lado. Ela se
moveu com tanta energia que parecia que eu tinha encontrado um cardume de
peixes.
Na raia ao lado, a garota aumentou a distância a cada segundo. Por um
momento fiquei surpresa, mas não aguentava olhar, por causa do jeito que eu
nadava. Ela fez o seu caminho através da água ao estilo nado crawl. Foi realmente
rápido, mas não pude deixar de me perguntar o que diabos ela estava fazendo.
Era como se nós, que nadávamos lado a lado, avançássemos pelo rastro de
trilha de espuma que se formava graças aos rápidos movimentos verticais das
pernas dela. Não havia nada a perder, nem era uma competição. A garota
mantinha a velocidade constante do começo ao fim, porque nunca levava nada a
sério.

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Cheguei ao outro lado da piscina, logo após à garota que tinha nadado tão
rápido, mas consegui terminar antes das outras crianças. Quando tirei meu rosto
da água, a garota olhou para cima, arqueando as costas e expressando satisfação.
Ela deu um longo suspiro, parecendo mais feliz do que todas as outras
pessoas que estavam presentes. É claro que ela se diverte, se ele faz o que quer,
ao invés de fazer o que o que o instrutor diz. Mas isso não a levará a lugar algum.
Ela é rápida, mas não vai chegar a lugar nenhum desse jeito. Senti que, se
não estivesse me convencido disso, acabaria duvidando de mim mesma.
Depois disso, caminhamos lentamente pela água, fazendo nossos
alongamentos e esse foi o fim da aula. Quando emergi, depois de nadar com tudo
o que tinha, fiquei surpresa com o peso dos meus próprios membros. Era como se
uma mão invisível me pegasse pelo ombro e não me deixasse avançar.
Acho que agora entendo por que os peixes não vão para a areia, é mais
confortável ficar na água.
Eu me virei para a piscina e vi que a garota ainda estava flutuando nela,
sozinha, mesmo com a aula terminada. Parecia que ele tinha esquecido de mexer
as pernas, pois ainda estava olhando diretamente para a luz tênue.
Me pergunto o que ela estava pensando, como temos personalidades
totalmente opostas não consigo nem sequer imaginar o que seja.
-Você foi a mais rápida hoje, Saeki.
Ouvindo o que o instrutor disse permaneci em silêncio, me sentido quase
satisfeita. Mas, uma coisa chamou minha atenção.
-Hoje?
Era necessário dizer dessa maneira?

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-Eu também fui a mais rápida da última vez.
-Ah ... sim, é verdade.
Por alguma razão, o instrutor parecia um pouco estranho quando olhou para
a piscina. Além das pequenas ondas que ainda balançavam a água suavemente, a
única coisa estranha que eu conseguia notar era a garota que flutuava na
superfície.
-... Não havia como uma pessoa que usa nado peito vencer alguém que nada
ao estilo crawl.
Isso me incomodou, mas eu decidi esquecer. Pelo menos, eu fui a mais
rápido hoje. Mas, era isso que eu queria ouvir, então tive que continuar me
esforçando e progredindo para me superar.
Não importa o que seja, se eu vou fazer algo, tenho que ser a melhor nisso.
E é justamente por isso que estou aqui.
Porém, ter alguém que me tome a liderança é algo novo para mim.
************************************************************
O verão começa, está quente, mas mesmo quando não é essa época do ano,
passo o almoço em silêncio na sala de aula. Depois da escola, normalmente passo
o meu tempo tendo aulas extracurriculares, mas quando tenho tempo livre, prefiro
estudar. Meus amigos já pararam de me convidar para sair com eles, mas não me
sinto mal com isso.
Gosto de me divertir com meus amigos, mas também gosto de me superar.
Como gosto das duas coisas igualmente, fica claro qual delas é minha prioridade.
Hoje eu tenho escrito as mesmas palavras no meu caderno de novo e de
novo.

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“Sayaka Saeki"
Meu próprio nome3. Na escola, ainda não aprendemos a escrever nenhum
desses caracteres, por isso não tenho escolha a não ser praticar sozinho. Escrever
sempre em hiragana é muito infantil4. Eu sei que sou apenas uma criança, mas
sinto que estou em desvantagem como o resto das crianças da minha idade. Eles
não são caracteres muito difíceis depois de investigar a ordem de escrita.
No entanto, tive a sensação de que estava desenhando símbolos estranhos e
ainda não consegui me acostumar com a ideia de que esse era meu nome.
Enquanto praticava para me acostumar, o primeiro caractere que aprendi a
escrever com facilidade foi o "eki" de Saeki (伯). O mais difícil de escrever, por
suas proporções, foi o "ka" de Sayaka (香). Se eu não prestar muita atenção, acaba
por ficar muito grande. Decidi que durante minha próxima aula de caligrafia eu
praticaria a escrita do meu nome usando um pincel.
Me pergunto se esse nome esconde algum significado. Eu já conhecia as
formas das letras, mas também queria saber o que elas significavam e me propus
a investigar. Tudo que se aprende leva, consequentemente ao desejo de aprender
outras coisas. Esse é o círculo da minha vida diária. Eu poderia aprender quantas
coisas quisesse.
Hoje à tarde eu tenho aulas de piano. Ao contrário do professor das aulas de
natação o instrutor de piano é um professor particular, que vem até a minha casa
para me ensinar então, não tenho com quem competir. Eu acho que as aulas de
piano é a que mais me beneficia na minha vida diária, porque agora eu consigo

3
“Sayaka Saeki” (佐伯 沙弥 香) é escrito usando caracteres relativamente avançados para uma criança da escola primária.
Especialmente o nome "Sayaka", que neste caso não é escrito da maneira mais comum.
4
Hiragana: um dos sistemas básicos na escrita da língua japonesa. É o primeiro a ser ensinado as crianças por causa de sua
simplicidade,

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ler as partituras durante as aulas de música na escolar. Das lições de ikebana, não
posso dizer que elas sejam úteis para mim, mas é possível que algum dia, em
algum lugar, elas sirvam para alguma coisa.
Venho me preparando muito, para que depois que o ensino fundamental e o
ensino médio passar e eu eventualmente me tornar uma adulta, não sinta
arrependimento sobre nada.
Quando terminei de praticar, fechei meu caderno e ouvi as cigarras que
pareciam cantar em coro. Era possível ouvir elas em uma distância maior do que
as da minha casa, com seu jardim cheio de árvores. Ao prestar mais atenção,
percebi que as vozes dos meninos brincando no pátio eram ouvidas de forma mais
alta. Também o salão estava com bastante ruído, o único que permaneceu em
silêncio fui eu.
Eu acho que estudar não é suficiente para se tornar uma pessoa respeitável,
mas espero estar pelo menos um passo mais perto que o resto das crianças da
minha idade. No meio do tumulto, sussurrei meu próprio nome. Dentro da minha
cabeça, ainda era apenas um nome escrito em hiragana.
************************************************************
Eu estava um pouco atrasada, então comecei a correr no meio do caminho.
O suor escorria pelo meu corpo como chuva no meio do verão. Enquanto corria
até ficar sem fôlego, pensei que o chão estava mais duro que o normal.
Perdi a noção do tempo, pois enquanto colocava meus sapatos na porta da
minha casa, milagrosamente, um dos meus gatos chegou perto de mim e deu
cabeçadinhas na minha perna. Foi tão legal e eu fiquei bastante satisfeita, ao ponto

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de sentir vontade de correr. Quando comecei a suar, já havia perdido metade dessa
satisfação.
Com a sensação desconfortável de suor descendo pelas minhas costas,
cheguei ao prédio onde são ensinadas aulas de natação. Subi as escadas e parei de
repente. Na entrada do prédio estava aquela garota. Ela estava brincando com os
guarda-chuvas, que estavam localizados à direita em dois contêineres, retirando-
os e colocando-os novamente. Hoje ele também trouxe a mochila nas costas.
-Oh, Saeki-san.
Ainda com um guarda-chuva verde ainda na mão, ela levantou o rosto. Eu
levantei a cabeça para verificar se estava chovendo e olhei para ela com uma
expressão confusa.
-O que você está fazendo?
- Eu estava pensando que existem muitos guarda-chuvas, embora seja verão.
-...É verdade.
Foi um bom argumento, porque havia cerca de 10 guarda-chuvas de cores
diferentes. Talvez eles fossem guarda-chuvas esquecido pelos alunos, ou talvez
eles estivessem lá no caso emergência. A menina devolveu o que estava na mão
sua e ficou na minha frente.
-Você está muito suada hoje, correu por que achou que chegaria atrasada?
Ela me perguntou enquanto olhava diretamente para mim.
-Isso mesmo.
-Ei ... hmm.
Ela se aproximou do meu rosto por um instante e depois se afastou para me
observar.

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Eu a encarei, confusa e me sentindo um pouco estranha quando ela disse:
-Eu nunca vi você correr antes, Saeki-san. Eu não posso nem imaginar isso.
-Sério?
-É que você parece uma dama.
Sua impressão provavelmente estava correta, mas não posso evitar de ficar
irritada quando me dizem isso. Não sei o porquê. Talvez, seja pelo fato de eu não
gostar de ser julgada pelas condições em que fui criada, em vez daqueles pelas
quais eu me esforcei para conquistar.
A garota passou para o meu lado naturalmente, estreitou os olhos e olhou
para mim.
-Precisa de algo?
-Não. Eu só queria que fôssemos juntas.
Ela apontou o dedo para um ponto não muito distante da porta automática
que costumamos passar. Senti o ar frio como um golpe no rosto.
Na recepção, como sempre, mostramos nossas identificações para receber
as chaves dos armários. A garota olhou para os números de sua chave e sorriu.
-Meu armário está ao lado do seu.
Em vez de responder, desviei o olhar. Pela janela, a piscina no térreo parecia
mais longe do que o normal.
-Ei? Você não parece muito feliz.
A menina comentou. Eu respondi friamente que “não era nada", e ela
simplesmente respondeu ‘hmm ...” em uma atitude pensativa. Continuamos
andando e, quando estávamos na frente de nossos armários, ela já havia
recuperado sua expressão alegre.

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-Eu já pensei algumas vezes que poderia ser isso.
-Do que você está falando?
-Você não gosta de mim não é, Saeki-san?
Mais uma vez, ela não excitou em me fez uma pergunta direta que eu
preferiria não ter ouvido. Eu acho que para esse tipo de questionamento é melhor
usar intuição do que perguntar. De qualquer forma, a maneira como ela perguntou
demonstrava uma certa insegurança.
-Você quer que eu seja honesta?
A garota sorriu amargamente.
-Basicamente, com essa pergunta, é como se você já tivesse me respondido,
você não acha?
-É verdade.
-Claro que não gosta, por isso perguntei.
-Estou chocada.
Claramente deprimida, a garota encostou a testa no armário. Mas por ela
sempre está brincando e fazendo piada, me pareceu que não estava falando sério.
Eu me pergunto se ela percebe isso.
Sem deixar isso me incomodar, abri meu armário e tirei meu maiô, chapéu
e óculos de natação.
-O que você não gosta em mim?
Sem ter colocado o maiô, a garota me perguntou novamente. Seu olhar era
severo, penetrante, dando à pergunta um tom mais sério do que o habitual. Foi
por esse motivo que eu estava interessada em continuar a conversa.
-Para que você quer saber?

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-Eu apenas pensei ... que isso que te desagrada, fosse algo que talvez...eu
pudesse mudar?
Após isso a garota apenas exibiu um sorriso.
- Você é o tipo de pessoa que não leva as coisas a sério.
-Ah, então é isso.
A menina parou de sorrir.
- É irritante, enquanto todo mundo leva as coisas à sério, você fica apenas
brincando, sabe?
Eu fui sincera com ela, pois a situação permitiu que eu fosse. A princípio,
parecia que meu tom a intimidava, mas seu rosto relaxou rapidamente, como se
ela tivesse entendido o que acabara de ouvir.
-Você pode estar certa.
-Viu? Tenho razão.
-Hmm...normalmente não presto muita atenção nos outros.
Nesse caso, por que ela se importava tanto em saber o que eu penso dela?
Então, ela simplesmente sussurrou: "muito bem" e abriu seu armário.
Não entendi o que aquele "muito bom" significava, mas vesti meu maiô
rapidamente e me direcionei para a saída. Antes de sair totalmente do vestiário a
observei novamente. Ela estava calada, vestindo o seu maiô em total silêncio.
Fui para a piscina, entrei no chuveiro e fiz o alongamento habitual. Fiz tudo
da mesma forma como sempre, mas de tempos em tempos olhava para a porta que
dava para o vestiário. Fiquei um pouco preocupado com aquela garota.

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A menina chegou na piscina. Ele entrou no chuveiro e, ao sair, embora
nunca o fizesse, começou a se alongar. Seu comportamento incomum fez com
que todos os presentes, inclusive eu, murmurassem.
Depois disso, o instrutor mandou formar uma fileira e os seis alunos se
reuniram ... seis? Cinco olhos foram para a extrema direita.
Até agora, ao contrário do que normalmente fazia, a garota estava seguindo
as instruções. Todos ficaram assombrado, o instrutor também ficou surpreso. Ela
continuava como se nada tivesse acontecido, enquanto eu suspeitava do que
realmente estava acontecendo.
Ela seguiu as instruções, assim como o resto de nós. Ela não reclamou, não
perturbou o ambiente da classe, agiu com moderação, assim como eu. No começo
pensei que ela estava apenas agindo por um capricho, mas ela permaneceu séria
nisso.
Eu era a única que tinha uma ideia do motivo dessa mudança de atitude
repentina. Eu era capaz de conectar o que estava acontecendo com a conversa que
tivemos no vestiário. Ele faz isso porque eu disse que não gosto que ela não leve
as coisas a sério?
Eu só poderia me perguntar ... por quê? Essa mudança dramática me deixou
perplexa. Eu realmente acho que ela pensa em mim como uma amiga e está
tentando se aproximar de mim.
Quando mergulhei na água, pensamentos sobre aquela garota flutuaram na
minha cabeça como bolhas. Quando emergi e olhei para o lado, lá estava ela. Ela
não falou comigo, mesmo que nossos olhos se encontrassem, ela apenas fez como
se não me conhecesse e continuou se movendo. Se ela realmente fosse para fazer

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isso, seria melhor se tivesse feito logo no começo. Desta vez, para variar, fui eu,
quem a observou, imaginando o que estava acontecendo em sua cabeça.
A garota se juntou a nós também durante a competição no final da aula. Eu
assumi que desta vez ela nadaria usando o mesmo estilo que o resto de nós.
Se fosse esse o caso, com mais razão, eu tinha que vencê-la, porque não
podia me dar ao luxo de perder contra alguém que mal levava as coisas a sério
pela primeira vez.
Tentei disfarçar a expressão de determinação estampada na minha cara, mas
estava decidida vencer. Por outro lado, eu também estava muito ansiosa.
Com o som do apito, nós duas chutamos a parede e mergulhamos ao mesmo
tempo. Tivemos que nadar no estilo crawl.
O início, exatamente como na última vez, acabou sendo uma premonição do
que estava prestes a acontecer, pois as coisas seguiram o mesmo caminho.
Dessa vez, nosso estilo de natação era o mesmo, mas aos poucos eu estava
ficando para trás. Tentei me recuperar chutando desesperadamente, mas só
consegui aumentar a distância entre ela e eu. Não importa o quanto eu tentasse,
sacudindo a água e empurrando meus ombros para frente, eu não conseguia
alcançá-la. No final, eu só podia ver as solas dos pés dela se afastando.
Eu terminei de nadar os 25 metros, duvidando da minha capacidade e
imaginando qual era a diferença entre nós. Eu emergi formando muitas bolhas
com a boca. E ao sair da superfície, descobri que a garota estava me observando,
com o olhar de boas-vindas.
-Vou levar as coisas a sério a partir de hoje.
E me olhou com os olhos salpicados de água.

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Eu também a olhei sem secar o rosto. Um leve traço de rubor e febre
envolveu minhas bochechas. Foi o efeito de uma emoção semelhante à vergonha.
Eu pensei que não poderia perder se levasse a sério, mas aqui está o resultado.
-E se eu fizer isso, então ... você seria minha amiga?
Embora não fosse comum, sua voz gradualmente se tornou mais fraca e
tímida.
Me pergunto por que ela se importar tanto que eu seja sua amiga. Só nos
vemos uma hora, uma vez por semana. Também não acho que tenhamos
interesses em comum. Mas, acho que ela está certa. Se ela levar as coisas a sério,
não há razão para eu não gostar de dela. Embora houvesse algo dentro de mim
que ainda se opunha, tal como a resistência dos sedimentos no fundo de um rio.
-Sim.
Uma parte de mim não pôde aceitá-la, mas era um sentimento complicado,
então concordei quando ela me perguntou em um tão sério sobre sermos amigas.
Em resposta, minha nova amiga de uma vez por semana, sorria aliviada.
Era um sorriso doce que lembrava a superfície pacífica das águas de uma
piscina.
************************************************************
O único dia em que não tenho aulas é no domingo. E isso significa apenas
que, no momento, não tenho nada a aprender, mas não seria incomum se eu tivesse
aulas nesse dia no futuro próximo. Terminei meu dever de casa e, ouvindo um
miado vindo do corredor, saí do meu quarto.
O gato tortoiseshell caminhava silenciosamente pelo corredor. Atraída pelo
movimento da cauda, tentei me aproximar dele, mas me virei de maneira

26
exagerada. Cumprimentei-o com um "olá" enquanto movia nervosamente os
dedos das duas mãos. Por um momento, o gato olhou para mim de baixo, mas
logo depois desviou os olhos e continuou seu caminho.
Quando o gato de repente começou a correr, fui atrás dele. As pessoas
poderiam me repreender por correr no corredor, mas acho que a sensação de
liberdade depois de terminar as tarefas me deixou um pouco enérgica. O gato se
afastou do corredor com a intenção de escapar para o jardim através de um buraco.
A verdade é que na minha casa não há muito espaço livre para se esquivar, mas
os gatos sabem muitas maneiras de escapar.
Eu corri atrás dele. Coloquei meus sapatos e fui para o jardim, onde o
encontrei imediatamente.
-Ah?
Eu pensei que tinha encontrado, mas desta vez era o gato bicolor. Parecia
que esse havia tomado o lugar do outro sem que eu percebesse, porque ele também
estava correndo rapidamente pelo jardim. Como não tive nenhum problema,
comecei a correr atrás dele. Eu também tive a sensação de me tornar um gato.
Quando entramos nas árvores, vi minha avó. Ela estava sozinha
contemplando o jardim. Quando ela viu o gato, ela se abaixou e abriu os braços
enquanto chamava o bichano. Em resposta, o gato bicolor deslizou
silenciosamente em seus braços. Minha avó se levantou enquanto carregava o
gato e olhou para mim.
Na minha perspectiva, minha avó era uma mulher alta. Provavelmente
porque ela sempre mantinha uma postura corporal perfeita. Seu olhar era um

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pouco severo, como se ele estivesse sempre alerta para manter não manter a
guarda baixa.
-Então, quer dizer que já está gostando.
-Mas ele estava fugindo de mim.
-Quero dizer que você gosta de gatos.
A voz da minha avó era muito forte para uma mulher da idade dela. Você
sempre podia ouvi-la claramente.
Eu acho que é uma maneira de ver isso. Antes de serem trazidos para casa,
eu não estava muito interessada em gatos. É um sentimento que nasceu depois de
vê-los de perto e interagir com eles. Estendi a mão para o gato, mas ele me ignorou
completamente. E pensar que eu estava brincando com ele agora, as emoções dos
gatos mudam com muita facilidade.
-E as suas lições?
-Eu não tenho nenhuma hoje.
Minha avó comentou que isso era incomum. De seus braços, o gato olhou
para mim. Olhei para trás e fiquei assim por alguns momentos.
Ainda que estivéssemos na sombra, eu mentiria se dissesse que é estava o
tempo estava fresco.
O canto das cigarras parecia gotas de chuva caindo entre as árvores. Eles
eram muito barulhentos, mas minha avó parecia não prestar atenção neles, mesmo
que sua audição ainda estivesse intacta. Suas pupilas estavam impregnadas pelo
verde amarelado da folhagem.
-Você não vai sair e brincar com seus amigos?
-Eu estava terminando minha lição de casa.

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-Você é uma garota muito boa."
Ele sorriu gentilmente e algumas rugas se formaram nas laterais do rosto.
-Não é à toa que eles sempre falam sobre o quanto você os orgulha.
-Quem?
-Seu pai e sua mãe.
Ele mencionou o pai levantando a perna direita do gato e a mãe levantando
a perna esquerda.
O gato miou de prazer quando as pernas da frente se moveram.
-Eu nunca os ouvi falar isso.
-Você ficaria envergonhada se eles falassem isso diretamente para você,
certo?
Ela disse isso em um tom levemente desinteressado. Pensei em responder
que não teria vergonha, mas tentei imaginar a situação. Também pensei em como
seria dizer algo assim para alguém. De fato, meu rosto ficaria totalmente vermelho
se eu dissesse a uma garota da minha turma "você é minha melhor amiga" ou algo
assim. Seria embaraçoso para mim, por assim dizer, e para a pessoa que tivesse
que ouvir.
Agora eu entendo.
-É verdade
-... Você entende as coisas muito rápido.
Minha avó murmurou alguma coisa, mas a voz dela se afogou no barulho
semelhante ao de uma cachoeira que era reproduzido pelos barulhos das cigarras,
e eu não pude ouvi-la.

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-Porém, compreender as coisas rapidamente também pode transformá-la em
uma pessoa covarde.
Outra vez ela falou algo. Porém, não consigo entender se ele fala comigo.
Durante os dias da semana, é comum que meus avós cuidem de mim e
cuidem dos gatos. Meu avô é gentil, minha avó é forte. Essa é a impressão que eu
tinha deles em minha mente quando criança. Só que a dureza no caráter de minha
avó não é direcionada para os outros.
Parece que ela dá a impressão de ser perspicaz, afiado, ... para manter
sempre a compostura.
Para mim, isso é ser adulto.
-Você não vai ver seus amigos hoje?
-Você me perguntou isso agora a pouco.
-Você não precisa sair, sabia? Você pode trazê-los aqui ... é que às vezes
começo a perceber que você quase nunca trás amigos para casa.
“E não está é assim?” Minha avó perguntou isso, se dirigindo ao gato. O
gato parecia não se importar, porque estava olhando para algo entre as árvores
com muito cuidado. Talvez estivesse seguindo as cigarras que ocasionalmente
eles moviam suas asas. Gostaria de saber se este gato também tem amigos.
No meu caso, não é que eu não os tenha.
Acho que a preocupação da minha avó se deve ao fato de que geralmente as
crianças costumam brincar uma com as crianças, ou algo parecido. Se não agir
como uma criança eu fizesse me tornar adulta mais cedo, eu não acho que agir
assim seria uma coisa tão ruim.
-É que depois da escola eu estou ocupada com minhas aulas.

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Além disso, não só a escola, mas também tenho amigos nos lugares onde
faço minhas aulas extracurriculares.
Minha mais nova amiga estava emergindo de uma piscina dentro da minha
cabeça. Eu fiz uma careta.
-É verdade que eu te encorajei a tomá-las, mas ... você gosta tanto dessas
lições?"
Quando perguntou, ela olhou para mim com curiosidade. Pensei por um
momento e depois assenti.
-À medida que aprendo a fazer mais coisas, sinto claramente que cresci.
- Hum. Entendo.
De forma incomum, minha avó suspirou e assentiu suavemente.
-Bem, o importante é que você seja uma boa garota.
Foi meio que um elogio.
-No fim das coisas, eu não tenho muita paciência para essas coisas.
-Eh...
-Oh, você está aí.
Meu avô nos encontrou e se aproximou de onde estávamos. Como minha
avó, ele tinha o gato tortoiseshell nos braços.
-Esses gatos são indisciplinados. Só por tê-lo perseguido já sinto que corri
mais do que em um ano inteiro.
Para ser preciso, parece que ele veio aqui porque estava procurando o gato.
Ele devia estar atrás dele há muito tempo, pois se o gato parecia agitado. O gato
tortoiseshell, em seus braços, olhou para mim com uma nova expressão.
-O que você está fazendo?

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- O vi por acaso e acabei o seguindo.
A atitude desinteressada da minha avó o fez rir. Na verdade, eles são os que
cuidam dos gatos. A empregada é responsável por cuidar da casa e ajudar as
pessoas que vivem nela, mas disse que cuidar de gatos não faz parte do seu
trabalho. Mesmo assim, às vezes eu a vi preparando comida, embora certamente
seja verdade que isso não faz parte de seu trabalho.
Vovô tirou o chapéu branco e colocou na minha cabeça.
-É melhor você usar um chapéu quando sair de casa
Eu olhei para ele enquanto segurava gentilmente o chapéu. Ele e o gato me
observavam com seus olhos redondos.
-Não importa se você está dentro da propriedade, os raios do sol
permanecem os mesmos."
-...Está bem.
Foi uma resposta tímida. Em momentos como esse, acabo cedendo e me
tornando mais respeitosa. Acho que essa é a minha reação quando me encontro
na frente dos idosos.
-Bem, do que vocês estavam falando?
Ele perguntou, querendo se infiltrar na conversa. Minha avó e eu nos
entreolhamos e rimos um pouco.
-Eu estava dizendo à nossa neta que ela é uma boa menina.
-Bem, então é o mesmo de sempre.
O avô suspirou silenciosamente. O gato moveu os quadris com uma careta,
como se estivesse reclamando do calor.

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A sinceridade com que ambos conversaram sobre mim me fez sentir muito
envergonhada. Eu olhei para baixo, me sentindo um pouco orgulhosa de mim
mesma.
************************************************************
Segunda-feira, Ikebana. Caligrafia na terça-feira. Quarta-feira, natação.
Naquele dia, ao entrar no prédio, encontrei a garota encostada no vidro
enquanto olhava para a piscina. Seu cabelo preto balançava atrás da cabeça, me
lembrando o fundo do mar. Pensei em ignorá-la passando por ela sem dizer nada,
mas ela reagiu imediatamente dando a volta em si.
- Se não é a minha amiga Saeki-san!
-É necessário que você diga isso?
Pude ver de lado como a garota da recepção ria enquanto olhava para nós e
senti um pouco de pena da garota.
- Não me chame assim de voz alta.
-Mas você não vai me ouvir se eu fizer isso de forma mais discreta, certo?
Eu nunca disse que queria escutá-la. Ela parecia feliz quando se aproximou
de mim com um sorriso enorme.
-Vamos lá ... eu estava tão feliz em te ver que fiz isso sem pensar.
-Você não tem outros amigos?
-Eh ... eu tenho amigos na escola. É só que eu me sinto feliz por você ter se
tornado meu amigo, Saeki-san.
-....Hmm.
Lembrei-me da conversa que tive com minha avó há alguns dias. Ela estava
certa, é embaraçoso ouvir essas coisas tão diretamente. Eu não sabia como reagir.

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Ao contrário dos adultos, as crianças carecem totalmente de consideração pelos
outros.
Depois de passar na frente das máquinas de venda automática, a garota se
virou para eles. Isso chamou minha atenção e eu também olhei nessa direção, mas
só notei o zumbido das máquinas com suas luzes brilhantes. Nada fora do comum.
-Bem, melhor depois. A propósito, Saeki-san, você deve ter muitos amigos,
certo?
-Por que pensas isso?
-Porque você é linda.
Ele disse sem vergonha e eu estava prestes a desviar o olhar. Pareceu que o
conteúdo dos meus pulmões subia à minha cabeça. Eu exalei devagar para que ela
não percebesse.
-Eu não costumo ... passar muito tempo com meus amigos.
Embora sejam chamados simplesmente de "amigos", a verdade é que cada
um deles é mais ou menos importante que os outros.
Existem amigos muito próximos e outros que não são tão próximos. Os
meus são certamente do segundo tipo.
A garota sussurrou "sério?" E então olhou para mim com um sorriso largo,
como se algo tivesse lhe ocorrido.
-Você deve corrigir esse seu defeito.
-Mesmo que seja um defeito, eu estou bem com isso.
Simplesmente eu recorro aos livros e adultos para aprender o que os amigos
não podem me ensinar. É mais importante para mim, só isso. Eu não tenho tempo
suficiente para ambos.

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A garota parecia perplexa e inclinou a cabeça para o lado dizendo "Aaah?"
-Você diz coisas muito complicadas, Saeki-san.
-Suponho que sim.
Eu quero me tornar uma pessoa capaz de falar sobre coisas complicadas,
então acho que está tudo bem.
-Eu aposto que você tira boas notas.
Ele mudou de assunto de repente. Não, na verdade o assunto ainda era sobre
mim. Ela parece querer me conhecer melhor, mas não entendo o porquê. É por
que somos amigas? Essa ordem de prioridades me parece errada.
-Mais ou menos.
Como não sei ao certo em que ponto as classificações são consideradas boas,
respondi vagamente. A menina não fechou a boca, nem mesmo quando entramos
no vestiário. No momento em que cheguei no local, me senti um pouco
desorientada pela iluminação.
-Admiro pessoas inteligentes. Eu sou tão idiota.
Isso é algo muito duro de dizer sobre si.
Abri meu armário. A menina não estava nem perto nem longe, a quatro
números de distância.
... Gostaria de saber se deveria lhe dizer uma coisa.
Peguei meu equipamento de natação enquanto pensava nisso e finalmente
abri minha boca
-Se você se esforçasse, poderia salvar pelo menos os resultados dos testes.
A garota franziu a testa como se não tivesse tanta certeza disso. Então, ela
de repente levantou o rosto.

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-Eu também devo levar isso mais a sério?
-Deve sim.
Eu considerei seu futuro por um momento e afirmei.
Deixei a garota, que estava apenas conversando, e terminei de trocar de
roupa. Ela olhou para mim, sem fazer mais nada. Quando olhei para trás, ela
parecia nervosa e olhou para seu armário. Tenho a sensação de que a mesma coisa
já tinha acontecido antes.
O que há de errado?
Fui para a piscina com uma sensação estranha nos olhos.
-Oh, espere por mim.
-Mas a piscina está logo ali.
-Sim ... isso é verdade, mas ...
Ele se esforçou para tirar a camisa suada. Como não tinha motivos para
esperar por ela, preparei-me para sair.
-Amiga ... espere por mim.
Qualquer vontade de esperar por ela desapareceu.
Quando cheguei à piscina, a umidade subiu repentinamente e permeou todo
o meu corpo. O ar condicionado estava funcionando, mas um calor úmido cobria
as laterais da piscina. Eu andei pela borda e olhei para o enorme vidro instalado
acima da minha cabeça.
Eu observei o lugar em que a garota estava olhando momentos antes.
Eu me pergunto o que ela estava olhando. Apenas algumas ondas flutuavam
na piscina vazia.

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Enquanto eu estava no chuveiro, ela apareceu. Ela estava indo e vindo,
enquanto preparava suas coisas. Eu sei que não deveria ser eu quem diz isso, mas
foi infantil vê-la colocar tanta energia nesse tipo de coisa.
Eu acho que ela está de bom humor.
Eu a observava enquanto ela colocava seu chapéu de natação, quando o
instrutor se aproximou de mim e falou comigo em uma voz baixa.
-Você disse algo a ela, Saeki?
Ele me perguntou enquanto olhava para a garota com curiosidade.
Obviamente ele se perguntava o porquê de ela ter começado a levar as lições
a sério.
-Não, não faço a mínima ideia...
Eu menti para ele. Também não acho que as coisas que eu disse a ela fossem
o suficiente para mudá-la tão bruscamente.
-Eu pensei que você a tinha repreendido, sensei.
Eu disse a ele algo que não era o que eu realmente pensava. Embora, em
primeiro lugar, essa tenha sido a resposta mais óbvia.
O instrutor me respondeu sinceramente dizendo "Eu não disse nada". Isso
me irritou um pouco.
-Ela não deveria ter feito isso?
-Não...mas veja, é porque não temos nada para ensiná-la no curso
intermediário."
-Eh...
-Afinal de contas, ela nada de uma maneira maravilhosa.

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Ele coçou a cabeça como se não houvesse remédio e então ele olhou para
mim e sorriu com um "aaah ...".
-Mas é claro, que quem leva as lições a sério tem uma postura de nado
melhor, sabe?
-Sim ...
Apesar de conversar com uma criança, ele se corrigiu. Nesse momento, eu
pensei que o instrutor era um bom adulto.
Nadar de uma forma maravilhosa. Recebi inúmeros elogios como esse em
minhas outras lições, mas nenhuma vez nas aulas de natação. Acho que isso não
se deve à minha falta de capacidade, mas porque já existe outra pessoa nesse lugar
que me excede em muito nessa habilidade.
Durante as aulas, eu mantive meus olhos em tudo o que ela fazia. Quando
mergulhei para começar a nadar, eu estava lá para olhá-la através dos meus
óculos. Ela provavelmente olhou para mim um pouco desconfiada. Eu a
observava com cuidado enquanto nadávamos lado a lado e quando vínhamos de
direções opostas.
Embora eu passasse o tempo todo observando-a, não entendi claramente o
que era maravilhoso nela. Só que seus braços e pernas eram tão ágeis que ela
parecia não ter nenhuma dificuldade em se mover debaixo d'água, pois avançava
facilmente com o movimento circular de seus ombros. Pode ser essa fluidez que
a faz nadar de uma maneira maravilhosa.
Enquanto a observava, nossos olhos se encontraram muitas vezes. Isso
significa que ela estava me observando também. Toda vez que nossos olhos se
encontravam, ela me cumprimentava com a mão e me dava um sorriso.

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Isso me incomodou muito.
-..........
Submergindo os ombros, cruzei o braço esquerdo na frente do meu corpo.
Eu podia sentir a diferença. Uma grande diferença entre ela e eu.
Quanto terei que trabalhar para alcançar essa capacidade? Eu nem tenho
certeza se posso realmente superar isso. E, mesmo que eu tenha conseguido, existe
a possibilidade de que mais tarde encontraria outra pessoa ainda mais avançada
que ela.
Se eu tiver que repetir esse ciclo repetidas vezes, talvez não haja segurança
em estar no topo.
************************************************************
-Você quer suco, Saeki-san?
Quando saí do vestiário, a garota me seguiu com pressa até ficar ao meu
lado.
-Ei, sua roupa.
Ele usava a camisa levantada do lado direito, revelando uma parte do
abdômen. Não entendo por que você tem que fazer as coisas com tanta pressa. Eu
não poderia deixá-la assim, então eu mesmo ajeitei. A menina arrumou o cabelo,
que ainda estava molhado, grudado ao pescoço.
-Então? Então?
Ele pulou na minha frente com entusiasmo quando apontou a mão para as
máquinas de venda automática no corredor.
-Um suco?
-Qual você quer?

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Ele levou a conversa adiante, ignorando minha pergunta.
-Não tenho vontade ... além disso, não trouxe dinheiro.
Como se estivesse esperando que eu dissesse isso, ela inflou o peito com
orgulho. Ela bateu na máquina de venda automática dizendo que esse problema
já tinha sido resolvido.
-Eu compro um para você.
Por alguma razão, ela parecia estar se vangloriando. Seus olhos brilhavam
tanto quanto as luzes que iluminavam a máquina.
Associei isso ao fato dela sempre trazer sua mochila e senti que a coisa havia
piorado.
-Não é bom levar seu dinheiro para a escola.
-Hã, sério?
Ela olhou para mim com os olhos bem abertos, como se fosse a primeira vez
que lhe dissessem isso. Eu pensei nisso por algum motivo e tinha certeza de que
alguém havia me ensinado, mas é possível que eu estivesse errada.
“Bem, mas esqueça isso”, ela disse, enquanto colocava uma mão no meu
ombro. Ao fazer isso, algumas gotas de água saltaram de seus cabelos e pousaram
no meu rosto. Eu fiquei irritada.
-Não quero.
-Por quê?
-Eu não quero que você me compre o suco.
Não queria que ela me comprasse algo. Não, pelo contrário, eu não queria
nada de ninguém, incluindo ela.

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Além disso, é possível que, se eu começasse a permitir que tais coisas
acontecessem, acabaríamos ficando muito próximas.
-Ah ... bem ... então eu vou te dar um pouco do meu.
Ela pegou a manga da minha camisa para me impedir de andar. Não entendi
o que estava acontecendo com ela, mas parei porque não tinha escolha.
-Ei, me deixa um pouco ...
-Vou deixar tudo se você quiser.
Eu não ia dizer isso.
Eu olhei para ela. Ele tinha o rosto de alguém que implora ou alguém que
dá uma ordem ... ou uma garota mimada.
Eu gostaria que meus gatos agissem dessa maneira.
Eu ouvi na minha cabeça a voz da minha avó ... amigos, hein?
Suspirei profundamente e me sentei em um banco ao lado da máquina de
venda automática.
A garota demorou um pouco para entender que essa ação era minha resposta,
mas depois deu um grande sorriso.
-Você gosta de refrigerantes?
- Claro.
Ela apertou o botão. De relance, notei que o botão estava embaixo de uma
embalagem de papelão vermelha.
- Isso é suco de maçã.
-É sim.
-E o refrigerante?
-Eu só queria saber se você gosta.

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Ela se sentou ao meu lado, colocou o canudo e bebeu um pouco, depois ela
me deu.
-Aqui.
-Obrigada.
Foi a primeira vez que fiz algo assim com alguém de fora da minha família.
Eu não gostei muito.
A embalagem de papelão fria em minhas mãos era agradável. Olhei para o
canudo, com sua linha azul vertical, e depois olhei de lado para a garota. Havia
algo misterioso em seu olhar, mas eu comecei a beber. Logo senti o líquido
agridoce dentro da minha boca. O suco, que era excessivamente doce, estimulou
minha garganta seca por ter saído da piscina há pouco tempo. Mas eu não queria
beber muito, então só bebi um pouco.
Quando devolvi o pacote, decidi perguntar-lhe algo que estava pairando em
minha cabeça.
-Você está nadando há muito tempo?
-Ah?
-Parece que você é boa nisso.
Embora eu não tenha escutado as lições. Ela me respondeu enquanto recebia
o suco.
-Estou aqui há mais ou menos um ano. É que eu gosto de estar na água.
Seus olhos e boca relaxaram com satisfação. Seu cabelo molhado brilhava
e fazia uma boa combinação com a cor escura de sua pele.
-E ultimamente, venho gostando muito mais.

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Ela se recostou no banco e soltou um grande suspiro enquanto olhava para
o céu.
- Hum.
-Você quer mais?
Ele me ofereceu a caixa de suco, então eu aceitei. Eu tomei um pouco e
devolvi. Suspirei quando senti o líquido frio passar pela minha garganta, então
minha mente se limpou um pouco e refleti sobre o que estava fazendo.
-Sua casa é aqui perto, Saeki-san?
-Cerca de 15 minutos, andando.
-Uau, então está muito perto. Aposto que sua casa é grande.
Não achei que essa suposição tivesse algo a ver com o exposto acima, mas
estava certo. Lancei lhe um olhar hesitante, imaginando de onde ele tirou essa
ideia.
-É que você parece uma dama.
-...Isso é o que você acha?
Eu queria perguntar a ela que parte de mim lhe deu essa impressão, mas
talvez ela não estivesse tão errada, afinal.
Lembrei-me do grande portão da minha casa.
Além disso, pelo que ouvi de meus amigos, não é muito comum ter criadas.
-Você já foi a um restaurante familiar?
-Você está tirando sarro de mim, certo ...?
Tentei parecer zangado, mas a verdade é que nunca fui a um. Afinal, minha
família não visita esses lugares.
Claro, pelo menos eu os vi de fora.

43
-As férias de verão estão quase começando. O que você vai fazer, Saeki-
san?
A garota nem bebia mais o suco. Ela estava apenas conversando de forma
bastante animada.
- Tarefas e lições.
-Não é isso que você sempre faz?
-Esqueça isso, você não vai mais beber suco?
A garota olhou para a caixa de suco que segurava nas mãos. Ela o levou à
boca, mas pensou por um momento e o trouxe de volta.
-Você quer?
-Beba você mesmo.
Afinal, ela mesma comprou. No entanto, a menina tinha olhos tristes, como
se algo a preocupasse.
-Ah sim.
Foi uma resposta silenciosa. Ele passou os dedos pelas laterais da caixa de
suco.
-Quando eu terminar o suco, bem ... não é?
- Não é?
Não entendo esse, “não é?”. Ele não acompanhou nenhuma pergunta. Com
uma aparência infeliz, a menina apertou os lábios.
- Quando o suco terminar, você irá para casa, certo?
-Claro, voltarei para minha casa.
Ela se aproximou do meu rosto. O cheiro de cloro atingiu meu nariz
diretamente.

44
-Eu queria conversar sobre muitas coisas com você, Saeki-san. Mas eu só
posso te ver aqui.
Eu podia ver claramente sua língua vermelha contrastando com a cor escura
da sua pele.
Falar......comigo. Não me lembro quando foi a última vez que alguém me
disse isso na escola.
-Eu ...
-Ah, ah ... eu gostaria de ir para a mesma escola que você.
Antes que eu pudesse terminar de falar, ela voltou ao seu lugar e esticou os
braços e as pernas enquanto lamentava. Ir para a mesma escola? Eu poderia
facilmente imaginar, interrompendo meus estudos na hora do almoço e falando
sem parar. Eu acho que sou melhor assim, sozinha. Eu acho que ela não entendeu
o que eu pensava sobre isso, já que ela me mostrou um grande sorriso quando me
olhou no rosto. Foi um sorriso gentil que de alguma forma me lembrou do meu
avô.
Mas o mais importante é que tive a oportunidade de perguntar algo
absolutamente necessário.
-Ei, por que você está tão interessada em mim?
Faz pouco tempo desde que conheci essa garota. Além disso, não tivemos a
oportunidade de nos conhecer bem, porque nunca conversamos tanto quanto hoje.
As únicas coisas que eu sabia sobre ela eram que ela não leva as coisas a
sério e que se comporta com muito apego e familiaridade. Para dizer a verdade,
no começo eu não gostei. Agora não tenho tanta certeza, não pelo menos há uma
semana.

45
Apesar disso, é claro que ela me considera uma amiga.
Fiquei curiosa porque somos completamente opostas.
Ao ouvir minha pergunta, a garota olhou para a palma de uma das mãos,
molhada com as gotas de água que cobriam a caixa de suco.
-Está acontecendo agora.
- O quê?
Ela me olhou. Não tenho certeza se ela estava ciente disso, mas seu rosto
parecia um pouco angustiado.
-Quando olho para você, minhas mãos esquentam. Tem sido assim desde a
primeira vez que te vi. Minhas costas também ficam quentes e começam a suar
sem que eu consiga fazer qualquer coisa para evitar isso. Mas isso só acontece
comigo quando olho para você, Saeki-san. Não quando olho para outras pessoas
ou outras coisas. Por isso todo esse tempo achei que você deveria ter algo especial.
Ela confessou isso para mim como se ele deixasse escapar tudo o que estava
guardando até aquele momento.
Coincidindo com o calor de que ela falara, suas bochechas ficaram com uma
leve cor vermelha. Parecia que elas estavam queimando.
Ela se inclinou para mim como se estivesse esperando por uma resposta.
Eu senti como se estivesse no meio de uma nevasca e meus ombros ficaram
tensos.
O que aconteceu com seu corpo não foi algo que eu havia experimentado
pessoalmente, mas tive uma ideia sobre o que era.
Mas isso não deveria ser possível, porque a pessoa ao meu lado era uma
garota. E eu também sou.

46
-Bem, bem ... o que você acha que é?
Ela me pediu uma resposta enquanto se inclinava para frente até quase cair
para frente. "Não me pergunte", pensei seriamente.
-Não tenho ideia. Não é algo que acontece comigo ... então eu não sei.
Desviei o olhar e fingi ignorância. Eu certamente não me entendo.
-Eu entendo.
Ela riu um pouco.
-Eu pensei que talvez você soubesse, Saeki-san. Desde que você é
inteligente.
-Isso é um absurdo. Há muitas coisas que eu não sei.
Por exemplo, eu não sabia o quão perto de mim havia uma pessoa que
tomasse a liderança. E, para piorar, abriu seu coração com tanta sinceridade que
.... pouco a pouco comecei a temê-la.
-Entendo.
A garota suspirou novamente quando olhou para o céu.
Nenhuma de nós bebeu o suco que ainda estava no papelão.
Depois de colocar o cabelo molhado atrás da orelha, ela disse baixinho.
- Eu gosto de ficar dentro da água....
"Hehehe ..." ela riu.
-É porque quando estou na água não me sinto tão quente quando a vejo,
Saeki-san.
Quando ela disse isso, ela fechou os olhos como se fosse dormir.
Eaa parecia satisfeita por ter dito tudo o que tinha a dizer.

47
Eu me senti igualmente resignada e perplexa com a capacidade dela de fazer
o que ela queria.
-..............
Eu me pergunto se ela está falando sério. Se ela realmente não se dava
conta?
De qualquer forma, eu não conseguia continuar olhando para ela. Incapaz
de ficar ao lado dela, eu desviei meu olhar para o chão. Tive a sensação de que
meu pescoço estava ficando mais quente também. Com medo de algo, um calafrio
percorreu minhas costas e eu me senti fisicamente agitada.
Eu podia ouvir algo que se misturava com o murmúrio da máquina de venda
automática. Algo como um sussurro que eu ouvi por estar ao lado dela.
Não consegui identificá-lo, mas parecia um pouco com o som das ondas se
espalhando ao longo da costa.
Aquele som ininteligível estava tentando me dizer algo sem usar palavras.
Não encontrei resposta sobre o que era, pois se dissolveu no ardente calor.
************************************************************
********************
Como disse à garota, comecei minhas férias de verão fazendo as lições de
casa.
A única coisa que mudou é que tenho mais tempo em que não estou na
escola, mas, além disso, minha vida diária permanece a mesma de sempre. Se me
obrigassem a contar algo a mais, seria que eu via com mais frequência a criada
que vem à minha casa à tarde. Ela continua limpando como em qualquer outro

48
dia. Inclusive no meu quarto, parece que geralmente ela vem quando não estou
lá.
-Se você quiser limpar seu quarto, não hesite em me dizer, ok?
A empregada me disse com um sorriso, esperando que seu trabalho
diminuísse um pouco.
Terminei meu dever de casa e dediquei um tempo para estudar outras coisas.
Quando terminei com isso também e não tinha mais nada para fazer, decidi
procurar os gatos. O gato tortoiseshell quase sempre me escapava, mas acho que
o bicolor finalmente gostou de mim, porque até sobe no meu colo. Quando ele
faz, eu acaricio suas costas sentindo o quanto ele cresceu.
Eu me pergunto o que mais posso fazer durante as férias.
Enquanto eu estava desocupada, comecei a pensar em coisas triviais.
Ocasionalmente, esses pensamentos me direcionavam para aquela garota.
Pensei em como ela era estranha.
Essa era minha única opinião sobre ela, o resto era uma espécie de medo.
Eu tinha a sensação ... de que se continuasse a interagir com ela, coisas que eu
não sabia seriam reveladas para mim. Que eu desse uma olhada no meu lado
desconhecido e afundaria na água até não poder voltar à superfície. Talvez eu
esteja me importando mais do que o necessário.
Essa mudança é algo que eu quero ou é algo que eu quero evitar? Eu ainda
não sei.
Eu me pergunto o quanto suas mãos esquentam.
Dessa forma, chegou à quarta-feira. No momento, o único dia da semana
que não posso ignorar.

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Ao sair de casa, tive a sensação de que iria para me encontrar com ela e não
receber minhas aulas de natação.
Isso me agrada ou desagrada, mas havia algo nesse contraste que me atraía.
Ao longo do caminho, como sempre, as cigarras cantavam, o sol era intenso
e as nuvens eram amplas. No entanto, parecia-me que a luz do sol tinha uma
brancura maior que o normal. As bordas de todas as coisas pareciam embaçadas
e não voltavam ao normal, mesmo que eu esfregasse os olhos.
Ao longo do caminho, como sempre, as cigarras cantavam, o sol era intenso
e as nuvens eram amplas. No entanto, parecia-me que a luz do sol tinha uma
brancura maior que o normal. As bordas de todas as coisas pareciam embaçadas
e não voltaram ao normal, mesmo que eu esfregasse os olhos.
-...Não pode ser.
Toquei as extremidades dos meus olhos.
Gostaria de saber se minha visão foi arruinada um pouco.
"Miopia", pensei ao me lembrar dos cadernos na minha mesa.
Talvez eu forcei tanto meus olhos que eles acabaram se tornando
ferramentas para ver as coisas mais próximas.
Algumas coisas se perdem quando você faz muito esforço para melhorar a
si mesmo.
Imaginei que pressionava com um dedo uma das placas de uma balança.
Cheguei ao prédio das aulas de natação. Antes de entrar, tive a sensação de
que hoje ela também estaria lá.
Parecia que o calor que havia se acumulado na estrada e havia se enredado
nos meus cabelos, então eu o levantei enquanto subia as escadas.

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Não foi por acaso que sempre encontrei aquela garota na entrada. Isso foi
porque ela estava me esperando.
Assim como pensei, encontrei-a novamente encostada no vidro, embora
houvesse uma cadeira ao lado dela, ela não parecia querer se sentar.
Claro, desta vez ela não trouxe a mochila consigo. Por um tempo, eu olhei
para as costas que estavam me esperando bem na minha frente.
-Olá.
Esta deve ser a primeira vez que a cumprimentei primeiro.
Ele se virou imediatamente.
-Ah, Saeki-san.
Ela parecia genuinamente feliz quando caminhou para onde eu estava. Eu
me pergunto se a mão dela está quente enquanto a levanta para me cumprimentar.
Eu me pergunto se as costas dela estão suando. Eu me pergunto se um dia ela
perceberá o que essas coisas significam. Também me pergunto se realmente quero
saber.
Naturalmente, ela se pôs ao meu lado. A garota da recepção olhou para nós
com um sorriso agradável. Tive a sensação de que nós duas parecíamos boas
amigas. Ela estava errada. Pelo menos não éramos tão boas amigas para nos olhar
com aquele sorriso.
-É incrível estar de férias, não é?
-É isso que você acha?
Enquanto caminhávamos para o vestiário, a garota, que esperava que eu
concordasse com ela, olhou para mim intrigada.
-Entenda, é que eu não gosto de escola. E você, Saeki-san?

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-S..Sim.
Na escola, eu sempre tenho algo para fazer, então eu não tenho que me
preocupar com isso. Nesse sentido, eu acho que não desgosto.
Afinal, apesar de tudo, tenho muito tempo livre durante as férias.
Entramos nos provadores. Fiquei na frente do meu armário e senti a mesma
sensação de sempre alguém está me observando.
A garota olhou para mim enquanto eu me trocava.
Dessa vez, percebi seu olhar como se isso significasse algo diferente do que
em ocasiões anteriores e meus braços se moveram sem jeito.
Continuei a trocar de roupa com os olhos sempre à frente, fazendo um
esforço para que não aparecesse no meu rosto que eu estava ciente disso.
Tranquei meu armário e passei pela garota enquanto me dirigia para a
piscina.
Como sempre, ela ainda não tinha mudado e apenas olhou para mim.
-Vou te alcançar em seguida
- Claro.
Eu fui embora deixando ela para trás. Isso é normal. Nem sempre estaremos
juntas.
Embora não estejamos juntas, ela me olha de uma maneira especial.
Pouco tempo depois, quando terminamos de nos preparar, nos encontramos
e a lição começou. Ao contrário do que estava acontecendo no vestiário, enquanto
estávamos na piscina, era eu quem estava de olho nela. Depois de olhá-la e
compará-la por um tempo, entendi por que seu modo de nadar era superior. Eu

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sei que existem pessoas que não aprendem com os outros, mas andam na frente
delas.
É claro que também me senti frustrada, mas a água fria em que eu estava
submerso me confortou e me tranquilizou.
O instrutor nos ordenou a dar a volta na piscina. Movi-me cuidadosamente
para seguir o que aprendemos à risca. Quando entrei na piscina, olhei de lado,
mas não encontrei a garota. Eu pensei que talvez ela tivesse cruzado na direção
oposta enquanto eu não estava prestando atenção. Eu terminei de me virar e,
depois de descansar minhas mãos na parede, eu emergi.
- Waa!
Quando tirei meu rosto da água, lá estava ela. Aparentemente, ela tinha
entrado na minha raia sem que eu percebesse. Seus olhos estavam expostos, com
os óculos na testa. Eles pareciam tão úmidos quanto a pele.
-O...o que você quer?
-Na verdade, como você ficou me olhando, eu pensei que era você quem
queria algo, Saeki-san.
Eu sabia que os olhos de todos os outros alunos estavam voltados para nós.
Me pergunto se está tudo bem que falar com ela dessa maneira.
-Eu só estava pensando que você nada muito bem.
Eu disse o motivo para ela sem rodeios e tentei sair imediatamente. Mas ela
simplesmente aceitou meu elogio sem dar muita importância, dizendo "eh, sério?"
Parece que ele realmente não se importa com os outros. Acho que sou a exceção,
já que tenho o aumento da temperatura.
-Você também nada muito bem, Saeki-san.

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-Obrigada.
-Mas acho que você não tem equilíbrio quando mexe os braços.
-Sério?
- É feito assim ...
Ele tentou pegar meus braços para me ensinar como colocá-los.
No entanto, suas mãos pararam quando ela estava prestes a me tocar. Então
ela se afastou.
Ela ficou um tempo olhando para as próprias mãos.
Sua atitude repentina deu a impressão de que o tempo ao seu redor havia
parado.
-Ei.
Falei baixinho, mas ela ficou em silêncio e voltou ao seu lugar no próximo
canal.
Depois disso, ela não olhou para mim novamente e continuou nadando sem
entusiasmo.
Eu também tentei não olhar para ela. Eu simplesmente tentei prestar atenção
na posição dos meus braços enquanto nadava.
Não senti que me tornei mais rápido.
Quando a aula terminou e fizemos a saudação de despedida, percebi que a
única pessoa que não andava na direção do vestiário era ela.
Eu me virei para ver o que havia de errado, mas ela pulou na piscina vazia.
Ela nem tentou passar despercebido, porque quando caiu na água, levantou ondas
grandes e barulhentas.
O som escandaloso chamou a atenção do instrutor.

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-Ei! O que você está fazendo?!
Após o grito do instrutor, ela veio à tona. Flutuou subindo bem no centro da
piscina. A garota não se mexeu nem prestou atenção ao que o instrutor disse.
Aparentemente, ela tinha tirado a touca e óculos em algum momento, pois ambos
flutuavam em lugares diferentes.
-Bem quando eu pensei que ela havia se tornado obediente.
O instrutor suspirou. O que eu assumi era algo diferente.
Era algo que só eu entendi.
A garota provavelmente sentiu que suas costas estavam ficando mais
quentes e não aguentava mais.
-.........
Eu me pergunto o quão quente ela está agora.
Tanto para ser notado debaixo da água?
-Saeki?
Ouvi o instrutor me chamando pelas minhas costas, mas me afastei dele sem
parar.
Não fui tão barulhenta como ela havia sido um momento antes, mas também
me aproximei da borda da piscina e me joguei na água.
O barulho intenso de bolhas se formando ao meu redor envolveu minha
cabeça. Pensei em arrumar minha touca, que quase caiu, mas lembrando da garota
eu continuava andando com o mesmo impulso inicial. Como ela, tirei meus óculos
e touca, embora soubesse que meu cabelo completamente submerso na água me
faria ganhar peso.

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Chutei a parede da piscina e fui em direção ao central. Minhas pernas e
tornozelos se mexiam debaixo d'água.
Comecei a chutar. Então, a garota afundou em bolhas. Ela mudou de direção
e começou a nadar em minha direção. Porque ambas nadamos, poderíamos nos
encontrar antes de ficarmos sem ar.
Nossos olhos se encontraram debaixo d'água. Não estávamos usando os
óculos, mas como éramos os únicos na piscina, a água estava calma e podíamos
ver o rosto uma da outra com clareza. Mesmo debaixo d'água, suas pupilas
brilhavam quando ele olhava para mim. “Bururu, bururu”, as bolhas se formavam
silenciosamente e subiam à superfície.
De alguma forma, eu ainda não precisava respirar.
Não dissemos nada, nos entreolhamos. O instrutor deve estar furioso lá em
cima. Eu quase podia ouvir os olhos da garota perguntando “por que você veio?’
“Vim ver como você estava”, respondi, formando algumas bolhas.
Suas mãos estavam quentes.
Peguei uma das mãos dela. A garota parecia assustada, porque muitas bolhas
saíram de sua boca. Enquanto balançava as pernas para preservar minha postura,
olhei atentamente para a mão que havia tomado. Mesmo quando comecei a sentir
o desconforto em meus olhos, pude ver claramente os contornos e a cor
contrastante de nossos olhos e peles.
Como ela havia me dito, sua mão estava quente. Quente como se a água não
a tocasse, e eu podia senti-la latejando. Nossos dedos estavam bem cerrados.
Dentro desse mundo privado de ar, ela alternou seu olhar, lentamente, entre meu
rosto e nossas mãos entrelaçadas.

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A garota me mostrou uma expressão suave, que não era exatamente um
sorriso e que só eu podia olhar.
Então, ela pegou minha outra mão. Com as duas mãos juntas, nós as
apertamos com força e entrelaçamos os dedos. Eu acho que meus dedos também
estavam começando a esquentar.
Nós compartilhamos um tempo estranho, que parecia uma bolha
perfeitamente redonda que explodiria se alguém a perfurasse.
Parecia um sonho que poderia durar para sempre. Mas, claro, era realidade.
A necessidade de respirar impedia que o que estava diante dos meus olhos
fosse uma ilusão.
Eventualmente, a falta de ar se tornou mais grave e eu olhei nos olhos dela
para pedir que saíssemos do fundo. Embora ela tivesse liberado um pouco de ar
agora, ela parecia calma. Ela balançou a cabeça suavemente e trouxe o rosto para
mim.
Eu me perguntei o que eu tinha em mente e tentei me colocar em guarda,
mas ela segurou minhas mãos e eu não pude fazer nada.
A garota descansou o rosto na lateral do meu pescoço e eu senti arrepios,
mesmo estando debaixo d'água. Eu senti o contato dos seus lábios contra a minha
pele. Lábios que se moviam lentamente enquanto um redemoinho se formava
dentro minha cabeça.
Algo se formou entre seus lábios e meu pescoço.
Ouvi um som sufocado quando uma trilha de bolhas se formou e subiu.
Tudo estava acontecendo ao meu redor, mas eu ainda entendia o que ela
estava tentando fazer.

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Ela estava tentando me dar ar.
Para que pudéssemos ficar juntas, mesmo que fosse um pouco mais.
As bolhas da garota tocaram minha boca e depois foram para a superfície.
Aceitei essas bolhas e as absorvi
************************************************************
.E foi nesse momento, que meu coração se rasgou.
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Somente dessa maneira eu poderia descrever a dor aguda que senti no meu
peito.
Era a sensação de algo que estava rasgando alto.
Afastei minha mão da garota e me impulsionei em direção à superfície. Eu
me apressei e minha própria respiração perturbada inundou meus ouvidos. Eu
trouxe minha mão ao meu peito. Meus dedos tremiam com a ansiedade de que
algo tivesse quebrado.
O que aconteceu comigo agora?
A dor no meu peito fez com que faíscas aparecessem diante dos meus olhos
e, além deles, eu podia ver alguma coisa.
Não. Foi o contrário?
Meu coração estava rasgado por conter algo.
A garota também saiu correndo da água.
Quase me escapou um pequeno grito quando a vi.
-Saki-san ...
Evitei a mão que a garota estendia em minha direção e escapava para a beira
da piscina. Eu me apoiei na parede e saí. O instrutor começou a me dizer algo,
mas eu o ignorei, passei por ele e subi correndo as escadas. Eu nem sequer
enxuguei bem meus braços, pernas ou cabeça. Tirei minha bolsa do armário, e
rapidamente tirei meu maiô e vesti minhas roupas sem prestar atenção em mais
nada.
Não importa que as roupas grudem na minha pele, ainda molhada, eu corri
para fora do vestiário.

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No caminho, percebi que tinha esquecido meu chapéu e meus óculos na
piscina, mas nem pensei em voltar para buscá-los.
Joguei a chave no armário da recepção e saí do prédio sem esperar que
minha identificação fosse devolvida.
Eu corri para escapar daquele lugar. Eu pensei ter ouvido passos me
perseguindo e fiquei ainda mais assustada.
Nem mesmo o sol do verão parecia me alcançar, dificultada pela umidade
que ainda estava queimando na minha pele. Parecia algo completamente preto que
pesava sobre mim.
O que terá sido o que eu vi? O que eu estava começando a entender e estava
com tanto medo que tive que correr até ficar sem ar? Eu não conseguia arrumar
meus pensamentos.
Eu ainda tinha arrepios. Eu ainda sentia calafrios nas minhas costas. Um frio
de inverno ainda cobria meu corpo. A sensação de seus lábios se agarrou ao meu
pescoço e não foi coberta nem pelas gotas de água que deslizaram pela minha
pele.
Eu parei de chutar o chão com força. Eu me senti tonta e tudo na minha
frente cambaleou de cima para baixo.
O que se seguiu depois de sugar as bolhas daquela garota é algo que eu ainda
não deveria saber.
Meu conhecimento infantil e senso comum limitado não foram suficientes
para entender o que era realmente, mas meus instintos sim.
Essa emoção indescritível foi algo terrível.

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Eu não podia fazer nada além de me agarrar no medo de essa sensação me
produzia e correr.
Tudo só me leva a conclusão que não posso mais ver aquela garota.
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À noite, eu esperava meus pais estarem em casa e conversar com eles.
-Não levo jeito para nadar, então eu quero sair.
Foi a primeira vez que disse a mim mesma que queria desistir de algo.
Eu esperei nervosamente pelos dois. Papai apenas sussurrou "Entendo" e
mamãe disse "Uau, sério?"
-Essas coisas acontecem às vezes.
Eles aceitaram facilmente, sem se opor ou me repreender.
Eu queria sair e eles me deixaram. Talvez fosse apenas uma ideia minha que
eu devesse viver para pertencer a esta casa. Eu não conseguia tirar de mim aquela
sensação delicada que era como se estivesse flutuando na água.
Eu não entendo mais nada.
Enquanto eu caminhava pelo corredor até o meu quarto, toquei minha
própria mão.
Eu estava queimando com um calor que era completamente meu. Não tinha
nada a ver com o verão.
Fiquei assim por um tempo e juntei minhas mãos, esperando que se apagasse
Então, enquanto eu olhava para baixo, algo caiu no meu cabelo. Como se a
gota de água tivesse saído do meu cabelo seco, percorreu minha pele sobre a
estranha sensação que ainda permanecia no meu pescoço.
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Essa história, que aconteceu comigo quando eu estava no ensino
fundamental, é algo que mal me lembro. Acho que já passou tempo suficiente
para esquecê-lo. Mas, mesmo que demore muito para parar de lembrar, há
algumas coisas que não podem ser excluídas. As feridas, o calor, muitas outras
coisas.

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