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PROCESSO Nº TST-ARR-1299-45.2013.5.20.

0011

A C Ó R D Ã O
7ª Turma
CMB/brq  

AGRAVO   DE   INSTRUMENTO   EM   RECURSO   DE


REVISTA   INTERPOSTO  PELA   PARTE   RÉ  EM
FACE DE DECISÃO PUBLICADA NA VIGÊNCIA
DA LEI Nº 13.015/2014.  INCIDÊNCIA DA
INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 40 DO TST.
AÇÃO   CIVIL   PÚBLICA.   TUTELA
INIBITÓRIA. OBRIGAÇÕES DE FAZER E NÃO
FAZER. MULTAS.  AGRAVO DE INSTRUMENTO
DESFUNDAMENTADO. NORMATIZAÇÃO DO
CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015.
PRINCÍPIOS DA DIALETICIDADE E
SIMETRIA. O juízo primeiro de
admissibilidade do recurso de revista
merece prestígio, por servir como
importante filtro para a imensa gama
de apelos que tendem a desvirtuar a
estrutura jurisdicional, desafiando a
organização de funções e competências
estabelecida pelo ordenamento
jurídico. Obstado o seguimento,
mediante decisão fundamentada,
incumbe à parte demonstrar, de forma
específica e pormenorizada, o
desacerto dessa decisão (Princípio da
Dialeticidade). Por outro lado, a
partir da vigência do Código de
Processo Civil de 2015, passou-se a
exigir do julgador maior rigor na
fundamentação de seus atos,
justamente para que a parte seja
capaz de identificar e atacar,
precisamente, os motivos pelos quais
sua pretensão (inicial, defensiva ou
recursal) foi acolhida ou rejeitada.
É o que se conclui, claramente, do
extenso rol de restrições impostas ao
Magistrado pelo artigo 489, § 1º. Por
questão de lógica e razoabilidade,
bem como em razão do Princípio da
Simetria, também não é possível
admitir que a parte, em sede de
recurso especial ou extraordinário,
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se utilize de argumentação vaga e


conceitos genéricos para atacar as
decisões. Desatendido, no presente
caso, o pressuposto extrínseco da
fundamentação do apelo. Agravo   de
instrumento não conhecido.
GRUPO   ECONÔMICO.   CARACTERIZAÇÃO.
INOBSERVÂNCIA DA EXIGÊNCIA CONTIDA NO
ARTIGO 896, § 1º­A, I, DA CLT. Entre
as   alterações   promovidas   à
sistemática   recursal   pela   Lei   nº
13.015/2014 encontra­se a criação de
pressuposto intrínseco do recurso de
revista,   consistente   na   indicação
(transcrição) do fragmento da decisão
recorrida   que   revele   a   resposta   do
Tribunal   de   origem   sobre   a   matéria
objeto   do   apelo.   O   requisito
encontra­se   previsto   no   artigo   896,
§1º­A,   I,   da   CLT,   cujo   teor   dispõe
que:   1º­A.   Sob   pena   de   não
conhecimento,   é   ônus   da   parte:   I   ­
indicar o trecho da decisão recorrida
que consubstancia o prequestionamento
da controvérsia objeto do recurso de
revista.   Logo,   inviável   o
processamento   do   recurso   de   revista
em   que   a   parte   não   indica,   de   modo
específico,   o   trecho   da   decisão
recorrida   que   consubstancia   o
prequestionamento   da   controvérsia
pontuada em seu apelo, ante o  óbice
contido   no   referido   dispositivo
legal,   que   lhe   atribui   tal   ônus.
Agravo de instrumento conhecido e não
provido.
AGRAVO   DE   INSTRUMENTO   EM   RECURSO   DE
REVISTA INTERPOSTO PELO AUTOR EM FACE
DE   DECISÃO   PUBLICADA   NA   VIGÊNCIA   DA
LEI   Nº   13.015/2014.  INCIDÊNCIA DA
INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 40 DO TST.
AUSÊNCIA   DE   INTERESSE   RECURSAL.
Segundo a diretriz do artigo 1º, §1º,
da   Instrução   Normativa   nº   40/2016,
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deste Tribunal Superior do Trabalho,
é necessária a oposição dos embargos
de   declaração   nos   casos   em   que   a
presidência do Tribunal Regional não
tenha   realizado   juízo   específico   de
admissibilidade   sobre   determinada
matéria,   sob   pena   de   se   operar   a
preclusão.   Tal   dispositivo,   foi
inspirado   no   parágrafo   único   do
artigo   1.034   do   CPC/2015   que,   de
maneira   inquestionável,   define   a
amplitude   do   efeito   devolutivo
próprio   dos   recursos   extraordinário
ou   especial   (este   último   análogo   ao
recurso   de   revista),   ao   estabelecer
que,   uma   vez   admitido   por   um
fundamento,   será   devolvido   ao
tribunal   superior   (leia­se   Tribunal
Superior   do   Trabalho)  apenas   o
conhecimento   dos   demais   fundamentos
para   a   solução   daquele   capítulo
impugnado.   Sucede   que,   no   caso,   o
manejo dos aclaratórios e do presente
agravo de instrumento não se mostrava
necessário, pois o recurso de revista
da parte foi integralmente conhecido
(fls.   816/817),   de   modo   que   os
fundamentos   relacionados   com   o
capítulo   impugnado   (configuração   do
dano   moral   coletivo)   ­   e   ao   qual,
repita­se,   foi   dado   seguimento   ­,
ainda que não ponderados no primeiro
Juízo   de   admissibilidade,   serão
devidamente   analisados   quando   da
análise   daquele   apelo.   Nesse
contexto,   tenho   que   carece   ao
agravante interesse recursal, ante a
ausência   de   utilidade   da   medida.
Agravo de instrumento conhecido e não
provido.
RECURSO   DE   REVISTA   INTERPOSTO  PELO
AUTOR EM FACE DE DECISÃO PUBLICADA NA
VIGÊNCIA DA LEI Nº 13.015/2014. DANO
MORAL   COLETIVO.  INOBSERVÂNCIA DA
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NORMA COLETIVA E ATRASO REITERADO NO


PAGAMENTO DOS SALÁRIOS.  A prática
reiterada da empresa em desrespeito
aos direitos trabalhistas não pode
ser opção, tampouco merece ser
tolerada pelo Poder Judiciário,
sobretudo no Estado Democrático de
Direito, em que a dignidade da pessoa
humana e o valor social do trabalho
representam fundamentos da República
(art. 1º, III e IV). No caso, a
caracterização do dano moral coletivo
perpetrado pela empresa dispensa a
prova do efetivo prejuízo financeiro
de todos os empregados ou do dano
psíquico, pois a lesão decorre da
própria conduta ilícita da empresa,
pela incorreção no pagamento dos
salários, desrespeito do prazo para
tanto e inobservância das disposições
firmadas em norma coletiva, em
desrespeito à lei, em especial o
artigo 7º da Constituição Federal, e
à dignidade do trabalhador, que faz
do seu salário a fonte de
subsistência, não raras vezes única,
inclusive de sua própria família.
Caracterizada, assim, a lesão a
direitos e interesses
transindividuais, tem-se por
configurada a ofensa a patrimônio
jurídico da coletividade, que
necessita ser recomposto. Recurso de
revista conhecido e provido.

Vistos, relatados e discutidos estes autos de


Recurso de Revista com Agravo n° TST-ARR-1299-45.2013.5.20.0011, em
que é Agravante e Recorrida FAZENDA DE CANA DE AÇUCAR TAQUARI LTDA.
E OUTRO e Agravado e Recorrente MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO DA
20ª REGIÃO.

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O Tribunal Regional admitiu o processamento apenas


do recurso de revista do parquet, o que ensejou a interposição de
agravo de instrumento pela ré.
Em que pese a admissão do seu apelo, o Ministério
Público do Trabalho apresentou também agravo de instrumento.
Contraminuta e contrarrazões presentes.
É o relatório.

V O T O

AGRAVO DE INSTRUMENTO INTERPOSTO PELA PARTE RÉ


(FAZENDA DE CANA DE AÇUCAR TAQUARI LTDA. E OUTRO)

CONHECIMENTO

AÇÃO CIVIL PÚBLICA - TUTELA INIBITÓRIA –


OBRIGAÇÕES DE FAZER E NÃO FAZER – MULTAS - AGRAVO DE INSTRUMENTO
DESFUNDAMENTADO - NORMATIZAÇÃO DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015 -
PRINCÍPIOS DA DIALETICIDADE E SIMETRIA

Além da tempestividade, do preparo e da


regularidade da representação processual, figura no rol de
pressupostos extrínsecos do agravo de instrumento a fundamentação,
assim compreendida como a impugnação específica da decisão que não
admitiu o recurso de revista.
Em se tratando do apelo típico de competência
desta Corte Superior - cujo papel não é o de servir como terceira
instância para reexame da lide, mas, sim, o de uniformizar a
jurisprudência dos Tribunais Regionais quanto à interpretação das
normas -, a admissibilidade do recurso de revista é naturalmente
restrita e incumbe ao Tribunal a quo realizar sua primeira análise,
a fim de obstar o seguimento daqueles apelos que não atendem às
exigências previstas no artigo 896 da CLT, tanto em relação aos
pressupostos extrínsecos quanto aos intrínsecos, justamente para

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garantir que não haja desvio da finalidade institucional do Tribunal


Superior do Trabalho.
Os números oficiais da Justiça do Trabalho revelam
que, no ano de 2017, esta Corte recebeu 277.270 processos, dos
quais, 28.741 eram recursos de revista (13,9%) e 166.258 eram
agravos de instrumento (80,4%) e o índice de provimento nesta classe
processual foi de apenas 7,2% (Fonte: Relatório Geral da Justiça do
Trabalho 2017. Disponível em
http://www.tst.jus.br/en/web/estatistica/noticias/-/asset_publisher/
bR9D/content/conheca-o-relatorio-geral-da-justica-do-trabalho-2015).
Isso mostra, sem dificuldade alguma, que a grande
maioria dos apelos não se amolda à sua real finalidade – provocar a
uniformização da jurisprudência – e acaba servindo como meio de
protelar a solução definitiva do litígio, comprometendo, gravemente,
a duração razoável do processo, elevada, desde 2004, ao patamar de
garantia constitucional – artigo 5º, LXXVIII, da Constituição
Federal. A constatação não é novidade e já me manifestei a respeito,
por ocasião da análise das mudanças processuais implementadas pela
Lei nº 13.015/2014:

"Decididamente, tenho a nítida convicção de que há processos – a


esmagadora maioria – friso – que não poderiam estar no TST e esses
processos estão tomando o lugar de muitos que deveriam obter o exame
do TST, em virtude da relevância da controvérsia.
O problema é que, para cada litigante, o processo não é um número;
não é um registro imaterial; é o seu processo, ao passo que, para os que
nele atuam, é mais um processo. Com isso, quem perde sempre quer
mais uma chance de tentar reverter o resultado e não se conforma
quando lhe é negada essa possibilidade.
As cortes superiores, como por todos sabido, não são tribunais de
justiça, no sentido de buscar a decisão mais justa à causa. A atuação se
pauta no plano estrita e rigorosamente técnico e esse é o primeiro e maior
dilema vivenciado por aqueles que nelas ingressam e frequentemente se
debatem com o ímpeto de reanalisar em profundidade a decisão – como
fazem os tribunais regionais -, o que não se mostra possível." (BRANDÃO,
Cláudio. Reforma do sistema recursal trabalhista. São Paulo: LTr, 2016. 2ª
ed. p. 25/26)

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Feitas essas considerações, conclui-se que o juízo


primeiro de admissibilidade do recurso de revista merece prestígio,
por servir – repito - como filtro para a imensa gama de apelos que
tendem a desvirtuar a estrutura jurisdicional, desafiando a
organização de funções e competências estabelecida pelo ordenamento
jurídico.
Portanto, obstado o apelo, mediante decisão
fundamentada, incumbe à parte demonstrar, de forma pormenorizada, o
desacerto dessa decisão.
Nessa linha, o agravo de instrumento não se presta
a renovar a insurgência voltada contra o acórdão regional. Ele deve
atacar, precisamente, o teor da decisão que negou seguimento ao
recurso de revista. Essa é a dicção do artigo 1.016, II e III, do
CPC, quando elenca, como requisitos do apelo, "a exposição do fato e do direito"
e "as razões do pedido de reforma ou de invalidação da decisão e o próprio pedido".
Consagrou-se, portanto, o Princípio da
Dialeticidade, segundo o qual cabe ao agravante questionar os
fundamentos da decisão agravada e permitir a impugnação da parte
contrária, o que nada mais é do que a aplicação do Princípio do
Contraditório e da impugnação específica em matéria recursal. Sobre
o tema, Humberto Theodoro Júnior ensina:

"Por dialética entende-se, numa síntese estreita, o sistema de pensar


fundado no diálogo, no debate, de modo que a conclusão seja extraída do
confronto entre argumentações empíricas, quase sempre contraditórias.
Pelo princípio da dialeticidade exige-se, portanto, que todo recurso
seja formulado por meio de petição na qual a parte, não apenas manifeste
sua inconformidade com ato judicial impugnado, mas, também e
necessariamente, indique os motivos de fato e de direito pelos quais requer
o novo julgamento da questão nele cogitada, sujeitando-os ao debate com a
parte contrária.
(...)
Para que se cumpra o contraditório e ampla defesa assegurados
constitucionalmente (CF, art. 5º, LV), as razões do recurso são elemento
indispensável a que a parte recorrida possa responde-lo e a que o Tribunal
ad quem possa apreciar-lhe o mérito. O julgamento do recurso nada mais é
do que um cotejo lógico-argumentativo entre a motivação da decisão
impugnada e a do recurso. Daí por que, não contendo este a fundamentação
necessária, o Tribunal não pode conhece-lo." (THEODORO JR., Humberto.
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Curso de Direito Processual Civil. Rio de Janeiro: Forense, 2018. 51ª ed.,
vol. III, p. 1015).

Por outro lado, a vigência do Código de Processo


Civil de 2015 impôs um novo olhar para o processo, em razão de ter
modificado, significativamente, diversos institutos.
Com o novo Diploma, por exemplo, exigiu-se do
julgador maior rigor na fundamentação de suas decisões, justamente
para que a parte seja capaz de identificar e atacar, precisamente,
os motivos pelos quais sua pretensão (inicial, defensiva ou
recursal) foi acolhida ou rejeitada. É o que se conclui, claramente,
do extenso rol de restrições impostas ao Magistrado pelo artigo 489,
§ 1º:

"Art. 489
(...)
§ 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja
ela interlocutória, sentença ou acórdão, que:
I - se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato
normativo, sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida;
II - empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o
motivo concreto de sua incidência no caso;
III - invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra
decisão;
IV - não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo
capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador;
V - se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem
identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob
julgamento se ajusta àqueles fundamentos;
VI - deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou
precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção
no caso em julgamento ou a superação do entendimento."

Por questão de lógica e razoabilidade, também não


é possível admitir que a parte, em sede de recurso especial ou
extraordinário, se utilize de argumentação vaga e conceitos
genéricos para atacar as decisões. Já tive a oportunidade de me
manifestar doutrinariamente acerca do assunto e assim me posicionei:

"...não se pode exigir do juiz aquilo que a parte não cumpre, se os


deveres se assentam em idênticos alicerces principiológicos. Ao dever de
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fundamentação exauriente imposto ao julgador correlaciona-se a obrigação


atribuída à parte de argumentar especificamente." (BRANDÃO, Cláudio.
Reforma do sistema recursal trabalhista. São Paulo: LTr, 2016. 2ª ed. p.
277)

Desde sua edição, vários autores deram grande


relevo às exigências que o CPC dirigiu ao juiz e passaram a afirmar,
categoricamente, que não se admite fundamentação que se presta a
embasar qualquer decisão. Cito como exemplo:

"Se a fundamentação é redigida de tal maneira que se presta para


justificar qualquer decisão, então se considera que inexiste fundamentação.
É que a fundamentação constitui, antes de qualquer coisa, a resposta
judicial à argumentação formulada pelas partes em torno das razões
existentes para julgar nesse ou naquele sentido determinado caso concreto.
Se a decisão (sic) se presta para justificar qualquer decisão, é porque não se
atém aos fatos concretos que singularizam a causa que a fundamentação
tem justamente por endereço resolver. Vale dizer: não serve para solucionar
o caso concreto para o qual a sentença se encontra pré-ordenada."
(MARINONI, Luiz Guilherme; ARENHART, Sérgio Cruz; MITIDIERO,
Daniel. Novo Código de Processo Civil Comentado. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2017. 3ª ed. rev. atual. e ampl. P. 591)

Ora, como a dialeticidade é o diálogo estabelecido


entre as partes, e também entre estas e o juiz, é correto afirmar,
pelo mesmo raciocínio (Princípio da Simetria), que se o recurso, em
razão da amplitude de suas razões, puder servir a uma extensa gama
de processos e matérias, ele, na verdade, não se amoldará
adequadamente a processo algum.
Dessa forma, voltando ao caso do agravo de
instrumento, é certo que afirmações genéricas, no sentido de que: o
apelo preencheu todos os pressupostos de admissibilidade; os artigos
indicados foram efetivamente violados ou os arestos transcritos são
específicos; não é necessário revolver as provas para se acolher a
tese recursal; não incidem súmulas de conteúdo processual ou
material, dentre outras, não bastam para estabelecer a necessária
dialeticidade entre o apelo e a decisão impugnada.
Nesse contexto, considerando os termos da decisão
que negou seguimento ao recurso de revista, pode ser necessário que
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a parte agravante indique, por exemplo: onde está o registro fático


que ampara sua tese; qual é a distinção capaz de afastar a
jurisprudência já uniformizada por esta Corte, e que serviu de
embasamento à denegação do apelo; em que aspectos os paradigmas
colacionados são específicos, a partir do cotejo com o acórdão
regional; de que forma cumpriu formalidade indispensável que,
segundo a decisão denegatória, não teria sido observada, e assim por
diante.
Ao proceder dessa maneira, atenderia ao Princípio
da Dialeticidade.
No presente caso, por meio da decisão publicada em
21/8/2017, a Presidência do Tribunal Regional negou seguimento ao
recurso de revista, quanto aos temas em epígrafe, sob o fundamento
de que não foi atendida a exigência contida no artigo 896, § 1º-A,
I, da CLT, pois a parte não transcreveu o trecho do acórdão regional
que consubstancia o prequestionamento da controvérsia, além da
inobservância dos demais requisitos previstos no artigo 896 da CLT,
"sobretudo com a nova redação dala pela Lei nº 13.015/2014" (fl. 813).
Contudo, da leitura do agravo de instrumento,
infere-se que a parte se limitou a atacar genericamente a decisão,
reafirmando a tese de fundo e as consequentes violações apontadas.
Mas, onde estão os requisitos formais indicados
como ausentes pelo Juízo de admissibilidade?
Nada disso consta do apelo.
Incide, assim, o óbice previsto na Súmula nº 422,
I, desta Corte Superior:

"SUM-422 RECURSO. FUNDAMENTO AUSENTE OU


DEFICIENTE. NÃO CONHECIMENTO (redação alterada, com inserção
dos itens I, II e III) - Res. 199/2015, DEJT divulgado em 24, 25 e
26.06.2015. Com errata publicada no DEJT divulgado em 01.07.2015
I – Não se conhece de recurso para o Tribunal Superior do
Trabalho se as razões do recorrente não impugnam os fundamentos da
decisão recorrida, nos termos em que proferida."

Tal verbete compatibiliza a norma inserta no


artigo 899 da CLT, que admite a interposição de recurso por simples
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petição, amparada na possibilidade do jus postulandi, com a


realidade do processo, considerando que os apelos de natureza
especial e extraordinária, em razão das formalidades que lhes são
inerentes, demandam conhecimento técnico e requerem diálogo mais
apurado entre as partes e o juiz. Não por outra razão, a Súmula nº
425 do TST veda, expressamente, a atuação pessoal das partes no
âmbito desta Corte.
Ao comentarem a Súmula nº 422 do TST, Élisson
Miessa e Henrique Correia tratam do mencionado artigo e advertem:

"...ao menos quanto aos recursos de natureza extraordinária que


exigem pressupostos específicos como, por exemplo, o prequestionamento
e a demonstração de divergência jurisprudencial, a doutrina não admite a
aplicação do art. 899 da CLT, de modo que, nesses recursos, as partes
devem apresentar detalhadamente os fundamentos que embasam a
pretensão recursal."

Convém registrar, ainda, a diretriz da Súmula n°


283 do Supremo Tribunal Federal:

"É INADMISSÍVEL O RECURSO EXTRAORDINÁRIO,


QUANDO A DECISÃO RECORRIDA ASSENTA EM MAIS DE UM
FUNDAMENTO SUFICIENTE E O RECURSO NÃO ABRANGE
TODOS ELES."

Por todo o exposto, no particular, o agravo de


instrumento nem sequer ultrapassa a barreira do conhecimento.
Esclareço, por fim, que eventual nulidade da
decisão denegatória, por ausência de fundamentação específica, nos
moldes do já citado artigo 489, § 1º, do CPC, deveria ter sido
oportunamente alegada e demonstrada pela parte agravante, o que
também não ocorreu.

Com relação à matéria remanescente, o apelo


preencheu adequadamente o requisito da dialeticidade. Passo ao
exame.

MÉRITO
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GRUPO ECONÔMICO – CARACTERIZAÇÃO – INOBSERVÂNCIA


DA EXIGÊNCIA CONTIDA NO ARTIGO 896, § 1º-A, I, DA CLT

A decisão que denegou seguimento ao recurso de


revista merece ser mantida, ainda que por fundamento diverso.
Vejamos.
Entre as alterações promovidas à sistemática
recursal pela Lei nº 13.015/2014 encontra-se a criação de
pressuposto intrínseco do recurso de revista, no qual a parte deve,
obrigatoriamente, transcrever, ou destacar (sublinhar/negritar), o
fragmento da decisão recorrida que revele a resposta do tribunal de
origem sobre a matéria objeto do apelo; ou seja, o ponto específico
da discussão, contendo as principais premissas fáticas e jurídicas
contidas no acórdão regional acerca do tema invocado no recurso.
Essa é a previsão do artigo 896, § 1º-A, I, da
CLT, no qual "Sob pena de não conhecimento, é ônus da parte: I - indicar o trecho da decisão
recorrida que consubstancia o prequestionamento da controvérsia objeto do recurso de revista".
Contudo, tal requisito não foi atendido no que
tange à questão da formação do grupo econômico (fls. 611/613), o que
obsta o processamento do recurso de revista.
Nesse diapasão, segue julgado da SBDI-1 desta
Corte:

"EMBARGOS EM RECURSO DE REVISTA. DECISÃO


EMBARGADA PUBLICADA NA VIGÊNCIA DA LEI Nº 13.015/2014.
RECURSO DE REVISTA QUE NÃO APRESENTA A TRANSCRIÇÃO
DO TRECHO DO ACÓRDÃO REGIONAL QUE IDENTIFICA O
PREQUESTIONAMENTO DA MATÉRIA OBJETO DO APELO.
REQUISITO LEGAL INSCRITO NO ARTIGO 896, § 1º-A, I, DA CLT.
REDAÇÃO CONFERIDA PELA LEI 13.015/2014. 1 - A e. 7ª Turma não
conheceu do recurso de revista patronal, que versava sobre os temas 'horas
extras', 'intervalo intrajornada', 'horas in itinere' e 'multa por embargos de
declaração protelatórios', ressaltando o não preenchimento do requisito
inscrito no artigo 896, § 1º-A, I, da CLT, uma vez que 'interpôs recurso de
revista sem transcrever o trecho da decisão recorrida que consubstancia o
prequestionamento da controvérsia' (fl. 601); 2 - Efetivamente, não se
sustenta a tese recursal de que, 'ainda que não transcritos literalmente,
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foram devidamente indicados e prequestionados no recurso de revista todos


trechos da decisão recorrida objeto da controvérsia, os quais mereciam o
devido enfrentamento na forma do art. 896, § 1º-A, I, da CLT' (fl. 617); 3 -
Embora o dispositivo em comento utilize o verbo "indicar", referindo-se ao
requisito formal ali inscrito, esta Corte Superior tem exigido a transcrição
do trecho da decisão regional que consubstancia o prequestionamento da
controvérsia objeto do apelo, firme no entendimento de que a alteração
legislativa empreendida pela Lei 13.015/2014, nesse aspecto, constitui
pressuposto de adequação formal de admissibilidade do recurso de revista e
se orienta no sentido de propiciar a identificação precisa da contrariedade a
dispositivo de Lei e a Súmula e do dissenso de teses, afastando-se os
recursos de revista que impugnam de forma genérica a decisão regional e
conduzem sua admissibilidade para um exercício exclusivamente subjetivo
pelo julgador de verificação e adequação formal do apelo. Assim, a
necessidade da transcrição do trecho que consubstancia a violação e as
contrariedades indicadas, e da demonstração analítica da divergência
jurisprudencial, visa a permitir a identificação precisa e objetiva da tese
supostamente ofensiva a lei, à segurança das relações jurídicas e à isonomia
das decisões judiciais, de modo que contribua para a celeridade da
prestação jurisdicional, possibilite a formação de precedentes como
elementos de estabilidade e a decisão do TST contribua para a formação da
jurisprudência nacionalmente unificada. Precedentes. 4 - Recurso de
embargos conhecido e desprovido." (E-ED-RR - 552-07.2013.5.06.0231,
Relator Ministro: Alexandre de Souza Agra Belmonte, Data de Julgamento:
09/06/2016, Subseção I Especializada em Dissídios Individuais, Data de
Publicação: DEJT 17/06/2016).

Nego provimento.

AGRAVO DE INSTRUMENTO INTERPOSTO PELO AUTOR


(MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO DA 20ª REGIÃO)

CONHECIMENTO

Presentes os pressupostos legais de


admissibilidade, conheço do agravo de instrumento.

MÉRITO

AUSÊNCIA DE INTERESSE RECURSAL

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PROCESSO Nº TST-ARR-1299-45.2013.5.20.0011

O agravante se insurge contra a decisão de


admissibilidade do recurso de revista, sob o argumento de que a
conclusão que o conheceu não abrangeu todos os fundamentos
ventilados no apelo principal.
Pois bem.
Segundo a diretriz do artigo 1º, §1º, da Instrução
Normativa nº 40/2016, deste Tribunal Superior do Trabalho, é
necessária a oposição dos embargos de declaração nos casos em que a
presidência do Tribunal Regional não tenha realizado juízo
específico de admissibilidade sobre determinada matéria, sob pena de
se operar a preclusão.
Tal dispositivo, foi inspirado no parágrafo único
do artigo 1.034 do CPC/2015 que, de maneira inquestionável, define a
amplitude do efeito devolutivo próprio dos recursos extraordinário
ou especial (este último análogo ao recurso de revista), ao
estabelecer que, uma vez admitido por um fundamento, será devolvido
ao tribunal superior (leia-se Tribunal Superior do Trabalho) apenas
o conhecimento dos demais fundamentos para a solução daquele
capítulo impugnado.
Sucede que, no caso, o manejo dos aclaratórios e
do presente agravo de instrumento não se mostrava necessário, pois o
recurso de revista da parte foi integralmente conhecido (fls.
816/817), de modo que os fundamentos relacionados com o capítulo
impugnado (configuração do dano moral coletivo) - e ao qual, repita-
se, foi dado seguimento -, ainda que não ponderados no primeiro
Juízo de admissibilidade, serão devidamente analisados quando da
análise daquele apelo.
Nesse contexto, tenho que carece ao agravante
interesse recursal, ante a ausência de utilidade da medida.
Nego provimento.

RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO PELO AUTOR


(MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO DA 20ª REGIÃO)

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PROCESSO Nº TST-ARR-1299-45.2013.5.20.0011

Presentes os pressupostos extrínsecos de


admissibilidade, passo ao exame do apelo.

DANO   MORAL   COLETIVO   ­   INOBSERVÂNCIA   DA   NORMA


COLETIVA E ATRASO REITERADO NO PAGAMENTO DOS SALÁRIOS

CONHECIMENTO

O Ministério Público do Trabalho defende, em


síntese, que a conduta da ré ao descumprir a legislação trabalhista,
tendo em vista o atraso de salários constante, o retardo no
pagamento de verbas rescisórias e desrespeito à norma convencional,
implica dano à coletividade. Pugna, assim, seja deferida a reparação
pleiteada. Aponta violação aos artigos 1º, IV, e 13 da Lei nº
7.347/85, dentre outros. Transcreve jurisprudência.
Eis a decisão recorrida:

"Como visto no tópico anterior, flagrou-se o cometimento de algumas


irregularidades de ordem trabalhista no âmbito da FAZENDA TAQUARI,
tais como a não observância do prazo legal para a quitação dos salários e
das rescisões contratuais, a ausência de pagamento de salário durante o
período do aviso prévio bem como o desrespeito à norma convencional que
dispõe sobre o valor salarial mínimo e a entrega de comprovante acerca da
produção praticada por cada trabalhador.
Data máxima venia, nada obstante a reprovabilidade de situações
como a ora assinalada, entende-se que tais fatos não ostentam
‘exacerbação/projeção’ idônea a causar repúdio a toda essa ‘classe
transindividual’ de pessoas a ponto de ensejar reparabilidade(s) da espécie.
In casu, sem deixar de reconhecer como legítima a insatisfação do
MPT no alusivo a ver direitos trabalhistas não honrados na forma e no
tempo aprazados, o certo é que à luz do que vem prevalecendo na doutrina
e na jurisprudência essa circunstância em princípio não enseja, por si só, o
direito à percepção de ‘aporte restaurativo’ por danos ‘impalpáveis’ porque,
ressalvada qualquer situação peculiar ou especial, dela não decorre direto e
inequívoco estorvo ao patrimônio imaterial do(a) empregado(a), aí se
incluindo a sua imagem e a sua honra.
Isso assim se dá, de mais a mais, porque a legislação trabalhista
prevê, expressamente, as reparações que são cabíveis naquelas situações
nas quais ocorre, por exemplo, atraso no pagamento de verbas devidas em
razão do contrato de emprego.
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PROCESSO Nº TST-ARR-1299-45.2013.5.20.0011

Logo, sob as estritas condições que disciplinam a formação do livre e


racional convencimento motivado não se pode deixar de concluir, permissa
venia, à luz da prova dos autos e do que vem preponderando na doutrina e
na jurisprudência, que as indigitadas ‘tribulações do subjetivismo’ não
restaram demonstradas como aqui afloradas e/ou subsistente(s).
Convalidando a exegese que ora se adota, traz-se a lume julgados do
C. TST e deste e de outros Regionais nos quais, em casos similares,
assentou-se, in litteris, que:
(...)
De fato, o entendimento majoritário desta E. Corte tem se firmado na
convicção de que o só fato de o(a)(s) ex-empregador(a)(s) ter(em)
descumprido, ad argumentandum, determinada(s) normas trabalhistas não
prepondera como apto a, data venia, por si só, necessariamente desencadear
a consumação de agruras de índole moral, em ordem a justificar a
percepção de ‘soma reparadora’ correspondente, máxime quando, como na
espécie, não se visualiza ataque ou vulneração aos valores íntimos ou aos
direitos de personalidade ínsitos ao(à)(s) profissional(is) diretamente
atingidos, ou à coletividade, constitucionalmente garantidos.
À vista disso e por todos esses motivos e fatores justificadores já
largamente aqui expostos conclui-se que o Parquet não conseguiu,
permissa venia, se desvencilhar do ônus probatório que quanto a isso lhe
cabia, devendo a resolução judicial(NCPC, art. 203 §1º) arrostada, destarte,
ser retificada para o fim de se indeferir o ‘contrapeso ressarcitório’ por
‘embaraços de feição moral’." (fls. 491/493 – destaquei)

Pois bem.
Como visto, o Tribunal Regional concluiu que o
descumprimento de normas trabalhista não implica, por si só, dano
moral coletivo.
Noutro giro, os arestos colacionados às fls.
635/637, oriundos do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região,
demonstram teses opostas àquela acima citada, razão pela qual, dou
provimento ao agravo de instrumento para determinar o processamento
do recurso de revista.

MÉRITO

O dano moral coletivo consiste na violação de


direitos de certa coletividade ou na ofensa a valores próprios dela
mesma.

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PROCESSO Nº TST-ARR-1299-45.2013.5.20.0011

Nas lições de Xisto Tiago de Medeiros Neto (in


Dano Moral Coletivo, São Paulo: LTr, 2014, p. 172), pode ser
conceituado:

"dano moral coletivo corresponde à lesão a interesse ou direitos de


natureza transindividual, titularizados pela coletividade, considerada em seu
todo ou em qualquer de suas expressões (grupos, classes ou categorias de
pessoas), em decorrência da violação inescusável do ordenamento jurídico".

Trata-se, assim, de instituto jurídico que


objetiva a tutela de direitos e interesses transindividuais
(difusos, coletivos e individuais homogêneos), os quais, quando
violados, também reclamam responsabilidade civil.
Na presente hipótese, a coletividade encontra-se
representada pelo grupo de empregados da ré, cujos direitos
trabalhistas não estão sendo inteiramente assegurados, na medida em
que constatado o atraso reiterado do pagamento dos salários, além da
inobservância de cláusula normativa que dispõe "sobre o valor salarial mínimo
e a entrega de comprovante acerca da produção praticada por cada trabalhador", em prejuízo
aos trabalhadores.
Ocorre que a constatação de que a empresa não
cumpre a norma estabelecida em Convenção Coletiva de Trabalho, em
inobservância ao reconhecimento constitucional assegurado aos
referidos instrumentos normativos, além do fato de que efetua o
pagamento dos salários após o quinto dia útil subsequente ao
vencido, em prejuízo dos seus empregados, já demonstra o reiterado
descumprimento da legislação trabalhista, a ensejar a condenação ao
pagamento de indenização por danos morais coletivos.
É certo que essa prática não pode ser opção,
tampouco merece ser tolerada pelo Poder Judiciário, sobretudo no
Estado Democrático de Direito, no qual a dignidade da pessoa humana
e o valor social do trabalho representam fundamentos da República
(art. 1º, III e IV).
No caso, a caracterização do dano moral coletivo
perpetrado pela empresa dispensa a prova do efetivo prejuízo
financeiro de todos os empregados ou do dano psíquico dele
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decursivo, pois a lesão decorre da própria conduta ilícita da


empresa, em desrespeito à lei, e à dignidade do trabalhador, que faz
do seu salário a fonte de subsistência, não raras vezes única,
inclusive de sua própria família.
Nesse sentido são os ensinamentos de Leonardo
Roscoe Bessa (in Revista de Direito do Consumidor: "Dano Moral
Coletivo" p. 103-104), também registrados por Xisto Tiago de
Medeiros Neto (in Dano Moral Coletivo, São Paulo: LTr, 2014, p.
171):

"o dano extrapatrimonial, na área de direitos metaindividuais, decorre


da lesão em si a tais interesses, independentemente de afetação paralela de
patrimônio ou de higidez psicofísica. (...) Em outros termos, há que se
perquirir, analisando a conduta lesiva em concreto, se o interesse que se
buscou proteger foi atingido. (...)
(...) A dor psíquica ou, de modo mais genérico, a afetação da
integridade psicofísica da pessoa ou da coletividade não é pressuposto para
caracterização do dano moral coletivo (....). Embora a afetação negativa do
estado anímico (individual ou coletivo) possa ocorrer, em face dos mais
diversos meios de ofensa a direitos difusos e coletivos, a configuração do
denominado dano moral coletivo é absolutamente independente desse
pressupostos. (...).

Caracterizada, assim, a lesão a direitos e


interesses transindividuais, relativa ao correto pagamento dos
salários, ao respeito do prazo para tanto e à observância das
disposições firmadas em norma coletiva, tem-se por configurada a
ofensa a patrimônio jurídico da coletividade, materializado nas
disposições contidas no artigo 7º da Constituição Federal, que
necessita ser recomposto.
Na mesma esteira, cito os seguintes precedentes:

"(...) DANOS MORAIS. NÃO PAGAMENTO MASSIVO DAS


VERBAS RESCISÓRIAS E SALDO SALARIAL. DECISÃO
DENEGATÓRIA. MANUTENÇÃO. A jurisprudência desta Corte entende
ser indevida a reparação civil quando inexiste uma circunstância objetiva
que demonstre a existência de qualquer constrangimento ao trabalhador,
capaz de atingir sua honra, imagem ou intimidade, causando-lhe lesão de
natureza moral. Explique-se: a jurisprudência do TST tem feito a distinção
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PROCESSO Nº TST-ARR-1299-45.2013.5.20.0011

quanto a atrasos salariais e atraso rescisório. Assim, tem considerado


pertinente o pagamento de indenização por dano moral nos casos de atrasos
reiterados nos pagamentos salariais mensais. Porém, não tem aplicado a
mesma conduta quanto ao atraso na quitação de verbas rescisórias, por
existir, na hipótese, apenação específica na CLT (multa do art. 477, § 8º,
CLT), além da possibilidade da incidência de uma segunda apenação legal,
fixada no art. 467 da Consolidação. Desse modo, no caso de atraso
rescisório, para viabilizar a terceira apenação (indenização por dano moral),
seria necessária a evidenciação de constrangimentos específicos surgidos,
aptos a afetar a honra, a imagem ou outro aspecto do patrimônio moral do
trabalhador. Na hipótese, entretanto, conforme consta do acórdão recorrido,
houve um "abrupto rompimento dos contratos de trabalho e concomitante
desaparecimento do empregador, sem a quitação de qualquer direito
rescisório, incluído o saldo salarial, e, também, sem qualquer explicação ou
orientação que pudesse diminuir a aflição dos trabalhadores". Além disso,
os autos tratam de lesão coletiva, envolvendo mais de oitenta trabalhadores,
fato que, por sua hialina amplitude, agrava o malefício provocado à
comunidade trabalhadora envolvida. Note-se que a agressão coletiva
lançada contra uma larga comunidade de pessoas humanas produz
acentuação da baixa estima das vítimas do malefício, transformando o
constrangimento individual sofrido em lesão qualitativamente mais severa e
profunda. O ato ilícito coletivo é fato que se agrega aos atos ilícitos
individuais que o compõem, aprofundando a afronta individual
experimentada. Potencializada a severidade da lesão, que passa de conduta
meramente individual ao status de lesão coletiva generalizada, incide dano
específico ao patrimônio moral dos envolvidos, que tem de ser reparado.
Incidência do art. 5º, V e X, da Constituição da República, combinado com
os demais preceitos constitucionais que tutelam a dignidade da pessoa
humana (art. 1º, III), a valorização do trabalho (art. 1º, IV, ab initio; art. 3º,
I, III e IV; art. 170, caput; art. 193), os direitos individuais e sociais
(Preâmbulo Constitucional; artigos 6º e 7º), a segurança (Preâmbulo
Constitucional; art. 5º, caput; art. 6º), o bem estar individual e social
(Preâmbulo Constitucional; art. 193) e a justiça social (Preâmbulo
Constitucional; art. 1º, II; art. 3º, I e III; art. 170, caput; art. 193). Agravo de
instrumento desprovido." (AIRR - 317-58.2010.5.24.0000, Relator
Ministro: Mauricio Godinho Delgado, 3ª Turma, Data de Publicação: DEJT
25/09/2015);

"AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA EM


FACE DE DECISÃO PUBLICADA ANTES DA VIGÊNCIA DA LEI Nº
13.015/2014. DANO MORAL COLETIVO. INOBSERVÂNCIA DA
NORMA COLETIVA E ATRASO REITERADO NO PAGAMENTO DOS
SALÁRIOS. A prática reiterada da empresa em desrespeito aos direitos
trabalhistas não pode ser opção, tampouco merece ser tolerada pelo Poder
Judiciário, sobretudo no Estado Democrático de Direito, em que a
dignidade da pessoa humana e o valor social do trabalho representam
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fundamentos da República (art. 1º, III e IV). No caso, a caracterização do


dano moral coletivo perpetrado pela empresa dispensa a prova do efetivo
prejuízo financeiro de todos os empregados ou do dano psíquico, pois a
lesão decorre da própria conduta ilícita da empresa, pela inobservância da
norma coletiva em relação à indenização pela redução salarial, e pelo atraso
reiterado no pagamento dos salários, em desrespeito à lei, e à dignidade do
trabalhador, que faz do seu salário a fonte de subsistência, não raras vezes
única, inclusive de sua própria família. Caracterizada, assim, a lesão a
direitos e interesses transindividuais, tem-se por configurada a ofensa a
patrimônio jurídico da coletividade, que necessita ser recomposto. Vale
registrar que, conforme narrado na petição inicial, as tentativas de celebrar
Termo de Ajustamento de Conduta, antes do ajuizamento da presente ação,
foram todas infrutíferas. Agravo de instrumento a que se nega provimento.
(...)." (AIRR - 173-24.2012.5.08.0012, Relator Ministro: Cláudio
Mascarenhas Brandão, 7ª Turma, Data de Publicação: DEJT 02/10/2015);

"RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO PELO MINISTÉRIO


PÚBLICO DO TRABALHO DA 24ª REGIÃO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA.
DANO MORAL COLETIVO. ATRASO NO PAGAMENTO DOS
SALÁRIOS E NO RECOLHIMENTO DO FGTS. 1. A reparação do dano
moral coletivo tem por objetivo prevenir a ocorrência de danos morais
individuais, facilitar o acesso à justiça, à ordem jurídica justa, bem como
assegurar a proteção da moral coletiva e da própria sociedade. 2. Assim,
tem-se que o dano moral coletivo é a ofensa antijurídica de valores
coletivos, pois decorre da violação do patrimônio moral de uma
coletividade em decorrência de fato capaz de lesionar um grupo, classe ou
comunidade de pessoas. 3. In casu, a atitude antijurídica da reclamada
alusiva ao atraso no pagamento dos salários, acrescido ao recolhimento do
FGTS de forma intempestiva, configura desrespeito ao princípio da
proteção do salário (CF, art. 7, X) e violação de direito indisponível dos
trabalhadores, resultando em ofensa aos direitos transindividuais da
coletividade trabalhadora. 4. Com efeito, são inegáveis os constrangimentos
de ordem moral acarretados pela situação financeira que decorre do não
pagamento do salário no prazo legal, pois se trata da própria subsistência do
trabalhador e de sua família, além dos notórios atrasos em relação aos seus
compromissos financeiros. 5. Logo, visando à cessação dessa conduta, tem-
se por devida a indenização por danos morais coletivos, mormente porque a
referida indenização visa evitar a repetição do ato ilícito, servir como meio
sócio-educativo e reparar a lesão à segurança jurídica da sociedade.
Recurso de revista conhecido e provido." (RR - 25097-35.2013.5.24.0072,
Relatora Ministra: Dora Maria da Costa, 8ª Turma, Data de Publicação:
DEJT 22/05/2015).

Nesse contexto, dou provimento ao apelo para


restabelecer a sentença (fl. 436) que condenou a ré no pagamento da
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reparação por danos morais coletivos, nos moldes ali dispostos,


inclusive quanto ao valor arbitrado, por entender que o montante se
mostra proporcional ao dano, considerando a sua extensão, e às
demais peculiaridades do caso, como a natureza das normas
desrespeitadas, a reiteração da conduta da ré e o caráter pedagógico
da medida.

ISTO POSTO

ACORDAM os Ministros da Sétima Turma do Tribunal


Superior do Trabalho, por unanimidade, conhecer parcialmente do
agravo de instrumento da ré e, no mérito, NEGAR-LHE PROVIMENTO.
Ainda, por unanimidade, NEGAR PROVIMENTO ao agravo de instrumento
interposto pela parte autora. Por fim, também à unanimidade,
CONHECER do recurso de revista do autor, por divergência
jurisprudencial, e, no mérito, dar-lhe provimento para restabelecer
a sentença que condenou a ré no pagamento da reparação por danos
morais coletivos, nos moldes ali dispostos, inclusive quanto ao
valor arbitrado, por entender que o montante se mostra proporcional
ao dano, considerando a sua extensão, e às demais peculiaridades do
caso, como a natureza das normas desrespeitadas, a reiteração da
conduta da ré e o caráter pedagógico da medida. Fica mantido o valor
da condenação, para fins processuais.
Brasília, 4 de setembro de 2019.

Firmado por assinatura digital (MP 2.200-2/2001)


CLÁUDIO BRANDÃO
Ministro Relator

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