Você está na página 1de 5

O período referente ao Regime Militar no Brasil vai de 1964 a 1985.

Neste período, em relação a nosso


objetivo de estudo podemos observar duas fases: a) Consolidação do Regime e criação de uma "forma
de cidadão" inspirada em valores da "virtus"(1964-1971); b) Decadência do Regime militar e a utilização
do mito como sistema "polimorfo" de formação do cidadão (1972-1985).

No tocante à primeira etapa, há que destacar dois momentos cujos indicadores/pistas são extraídos de
manuais da época.

O manual de formação de professores do Centro de Estudos se Pessoal do Colégio Nova Friburgo


(CEP/CNF, 1969), disponível no acervo da Associação de Ex-alunos do Colégio Nova Friburgo (AEX, 2019)
traz menções diretas à obra Hesíodo, em especial "Os trabalhos e os dias", de modo a estimular os
alunos a aproveitar o contato com a natureza e também valorizar o trabalho com a terra. Neste material
vemos ainda a indicação de que os professores deveriam suscitar nos alunos reflexões e diretrizes de
reconhecimento ao esforço do trabalhador, seja o trabalhador fabril, seja o trabalhador do Campo (com
maior ênfase no segundo tipo de trabalhador).

A segunda fonte alusiva ao prjeito período do respeito a material produzido à época do início dos
acordos MEC/USAID no ano de 1971 e se trata de um Módulo de instrução programada para o Ensino de
História. Neste módulo, ao indicar como fulcro do trabalho do professor, excertos da Eneida de Virgílio,
encontramos elementos de valorização da nacionalidade, bem como da identificação da coragem e
virilidade como valores a serem reforçados por intermédio de atividades pedagógicas ilustrativas dos
mesmos. Por exemplo, no Caderno de Ensino de História MEC/FTD, p. 182 temos a seguinte proposicão
de atividade: “Professor, após a leitura da primeira parte da Eneida de Virgilio, quando contempla o Mar
e a sua Terra, desenvolva junto aos estudantes uma atividade de redação instando-os a expor
motivospelos quais valeria a pena lutar por sua terra mesmo que em lugares distantes’ (BRASIL, 1971).

É importante salientar que tais informações foram obtidas no arquivo temático sobre os acordos
MEC/USAID presentes no Centro de documentação PROEDES da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(PROEDES, 2019).

Em relação ao segundo período aludido (1972-1985), igualmente trazemos um exemplo haurido junto a
fontes documentais da época. Nestas fontes observamos uma "mutação", tanto no que se refere à
"matéria" quanto no que diz respeito à "forma" dos mitos utilizados como elementos formativos de
professores (e alunos) no Brasil.

No que se refere à matéria dos mitos, a mesma passa da exaltação de valores ligados ao trabalho e à
nação a algo que pode ser chamado de “exaltacão da brasilianidade", ou seja, um fenômeno que não se
circunscreve à pertença territorial ao País mas sim à obediencia a um modus vivendi particular ao povo
brasileiro, tido como pacifico, ordeiro e sem preconceitos.

Em relação à forma dos mitos , estes passam a adotar duas estruturas argumentativo/persuasivas
caracterizadas por padrões alusivos aos dois periodos ja mencionados. É possivel notar a existencia da
“busca por vultos” de personagens históricos do Brasil, os quais seriam exemplos de valores e modos de
proceder a serem seguidos pelos alunos.
Antes de trazer um exemplo de utilização de mito nesses moldes, cabe salientar que à essa epoca foram
implantadas nacionalmente as disciplinas de Moral e Cívica e Organização Social e Politica do Brasil
(OSPB), e nos materiais destas disciplinas os mitos eram utilizados com muita enfase nos materiais
didáticos (para professores e alunos). Vamos então ao exemplo.

O Manual de Ensino de História (Livro do Professor) da Editora Melhoramentos (obrigatório em Escolas


de Educação Basica) escrito por Flavio Gomes (1981), ao referir-se a Tiradentes e ao movimento de
insurreição ocorrido no Brasil do seculo 17 conhecido como inconfidência mineira traz na pagina 68 a
seguinte proposição: “Tiradentes, o Mártir da Inconfidência lutou oela independencia do Brasil,
sacrificando sua vida para que o povo não empobrecesse padecendo sob o jugo Português. Realize junto
aos alunos uma dissertação sobre os valores do sacrificio e do altruísmo no tocante ao amor à Patria”
(GOMES, 1981, p. 68).

Cabe ainda destacar que neste exemplo, há junto à lição uma imagem na qual Tiradentes e retratado
com feições de tristeza, vestes brancas e cabelos compridos andando em direção à forca e com um olhar
resignado, o qual transmitia certo “ar de santidade"' tal como se a figura houvesse sido feita de maneira
a emular representações de Jesus Cristo na via crucis, tal a força persuasiva do mito de heroi nacional
contido no exercício.

Após o ano de 1985 (fim do Regime Militar com eleições indiretas para a Presidência da República), num
periodo que vai de 1986 a 1997 observamos mais uma mutação (material e formal) no que se refere aos
mitos utilizzdos como elemento de formacao da cidadania e veiculados pelos materiais didáticos da
época.

Nesse sentido, deve ser ressaltado que há uma espécie de mutação baseada ma valorização de
particularidades regionais e etnico-raciais (lembrando que o Brasil e um Pais de proporções continentais
e que abarca um grande numero de etnias e manifestações culturais regionalizadas).

De modo a ilustrar como se apresenta nosso objeto de estudo no âmbito deste peripdo destacamos dois
exemplos. O primeiro foi retirado do livro didatico Porangaba, integrante do Programa Nacional do
Livro Didático. Na pagina 118 do Livro do Professor desta obra temos o seguinte trecho de atividades:
“Conforme visto, a familia de Porangaba [a indiazinha] vivia em Ocas [grandes espaços comunitarios nos
quais varias familias dormiam e se alimentavam próximas umas das outras]. Ao mesmo tempo
Porangaba dá uma licão ao homem branco ao mostrar que a felicidade depende da vida em comum.
Desenvolva com seus alunos uma atividade em que eles fale. Da importancia de viver em comunidade e
respeitar os seus vizinhos e amigos. Igualmente lembre-os do quanto a vida em contato com a natureza
como a dos índios é preferivel à agitação das grandes cidades (MAGRI, 1989, p. 118-119)”.

Este exemplo obtido junto ao arquivo escolar do Colegio Estadual Mululo da Veiga e que íntegra o
acervo de diarios de classe de tal colégio traz a ilustração de um personagem mitico mas que guarda
relação com uma valorização idilica da natureza e do modus vivendi indígena. Este argumento
persuasivo encontra eco em uma tendência que se desenvolve ao longo dos anos subsequentes no
sentido de substituir elementos miticos classicos (como os da Antiguidade Greco Romana) por
elementos folclóricos (que possuem a característica de serem mitos “populares) como matrizes
formadoras da nacionalidade brasileira.

Para além deste exemplo presente em um material didático, a referida tendencia ganha corpo e força
político-legislativa, vindo a constar de uma das Politicas Publicas mais importantes do final do periodo
supracitado. Se trata dos Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997), documento produzido pelo
MEC e que possioa como objetivo primário regular (ao menos no aspecto pedagogico) a construção dos
curricula escolares em todo o território nacional. A estrutura deste documento continha instruções
específicas pada o desenvolvimento das atividades referentes a cada materia escolar (como Lingua
Portuguesa e Matemática), além de uma parte denominada “Temas Transversais", concernente a
elementos didatico-pedagogicos que deveriam perpassar todas as disciplinas escolares.

No ambito dos temas transversais, o caderno referente a “Pluralidade Cultural", traz na página 35 a
seguinte orientação: “ Caberá às escolas e sistemas de ensino desenvolver atividades que valorizem a
diversidade cultural, salientando os elementos miticos, fcloricos e tradicionais de cada comunidade e/ou
região do Pais (BRASIL, 1997, p. 35)”.

A partir desta citação somos levados a concluir que a tendência de utilização do mito folclórico regional
brasileiro não somente está presente no que diz respeito à formação de alunos e professores como
também gamha destaque em termos de politica educacional, de modo a ter primazia sobre qualquer
outra possibilidade de associar materiais didaticos, atividades escolares e propostas curricularss a
elementos míticos de firmacao da cidzdania e nacionalidade.

A já referida tendência irá perdurar por toda a primeira década do atual milênio, havendo um “ponto de
virada” a partir de 2014 quando grupos liberais e conservadores passam a assumir posições divergentes
e denunciar o fato de que sob a justificativa de valorização das culturas regionais estaria ocorrendo a
promoção de doutrinação ideologica e político-partidária no que cincerne a “pautas" ligadas a
movimentos sociais de orientação marxista, os quais imiscuiriam nos curricula escolares e em livros
didáticos material propagandista de pautas pretensamente ligadas à diversidade cultural e aos “povos
tradicionais". A seguir trataremos um pouco mais deste momento que vai de 2014 até a atualidade.

De 2015 até os dias atuais foi registrada uma tendência diversa no que diz respeito à relação entre os
mitos e a mitologia “autoctone” no Brasil. Assim, cabe afirmar que especialmente em livros de história
como o Manual de Ensino da Fundação Brasileira de Educação há menção explícita ao cristianismo e às
cruzadas, tal como visto no seguinte trecho:

“Na Europa e sobretudo nós países ibéricos, após as duas Cruzadas houve um período de renascimento
cultural, científico e filosófico mas que não poderia jamais ter ocorrido não fosse o sangue derramado dos
Cavaleiros cujo estandarte da Cruz anunciava que a opressão dos mouros havia terminado (FUBRAE, 2016,
p. 38)”.

Eis um exemplo que ilustra onfati de que na atualidade, tanto os mitos “autoctones” quanto mitos de
resgate das tradições Judaico Cristãs coexistem em materiais didáticos e em projetos de formação
distintos, com especial relevo para a tendência que se observa no que diz respeito à utilização em larga
escala dos primeiros em redes privadas de Ensino.

Considerações Finais

Ao longo deste trabalho procuramos estabelecer um paralelo entre a utilização dos mitos como elemento
formativo, e, as atividades de formação docente e discente veiculadas em materiais didáticos de diversos
períodos da História da Educação Brasileira.

Conforme foi possível constatar, a mitologia, para além do objetivo de formar cidadãos eruditos, esteve
a serviço de várias orientações políticas e projetos de poder que disputavam (e disputam) a hegemonia
no que diz respeito à Educação Brasileira (SANTOS, 2015; 2016).

Por último, mas bem por isso menos importante, cabe salientar que os mitos, enquanto arquétipos
presentes na memória coletiva da humanidade demonstram seu teor transhistorico na medida em que
são associados à Política e à Educação em diferentes épocas e em variadas formas (sem contar o fato de
que no Brasil pudemos observar significativa quantidade de mitos europeus e africanos).

Concluindo diremos: há que ser retomado este trabalho de arqueologia de fontes oriundas da pesquisa
em acervos escolares e de instituições educacionais diversas no tocante à relação entre Mito, Educação e
Política, seja no Brasil, seja em outros países (lusófonos ou não).

Referências Bibliográficas

AROSTEGUI, Júlio. A Pesquisa Histórica. São Paulo, Edufscar: 2005.

BRASIL, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em:


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9394.htm . Consultado em 08/07/2019.

_____. Caderno de Ensino de História para o Primeiro Grau, p. 182. Brasília, MEC/FTD: 1971.

______. Parâmetros curriculares nacionais : terceiro e quarto ciclos: apresentação dos temas transversais /
Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília : MEC/SEF, 1997. 436 p.

_____. Lei 4024/61: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L4024.htm. Consultado em 05/06/2018.

_____. Lei 5692/71: Reforma do Ensino de Primeiro e Segundo Graus. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L5692.htm. Consultado em 16/04/2019.

CARDOSO, Matheus Rovenazzi. Manual de formação de professores do Centro de Estudos de Pessoal do


Colégio Nova Friburgo. Rio de Janeiro, FGV: 1969.

FUBRAE. Manual de Didática para professores. Caderno 7: exercícios de História, Geografia e OSPB. Coleção
Ensinando a Ensinar. Brasília, FUBRAE: 2016.
GOMES, Flávio. Manual do Ensino de História. Rio de Janeiro, Melhoramentos: 1981.

MAGRI, Sônia Lamin. Porangaba. Nova Iguaçu, Editora Xerém: 1989.

PROEDES. Acervo dos acordos MEC-USAID. Série Institucional de Didática e Prática de Ensino. Rio de Janeiro, UFRJ:
2019.

SANTOS, Pablo Silva Machado Bispo dos. Guia Prático da Política Educacional no Brasil: ações, planos, programas e
impactos. São Paulo, CENGAGE: 2015(2a Ed.).

______. As Dimensões do Planejamento Educacional: o que os educadores precisam saber. São Paulo, CENGAGE:
2016.