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ESTUDO DO LIVRO RENÚNCIA

Estudo do Livro Renúncia


Psicografado por Francisco Cândido Xavier,
pelo espírito Emmanuel
Candice Günther
2015

Estudo do Livro Renúncia sob a ótica de sua estrutura literária, sob as luzes do Evangelho de Mateus e
do Evangelho Segundo o Espiritismo.
Índice

Introdução..............................................................3

Parte 1.....................................................................8

Parte 2...................................................................28

Parte 3...................................................................54

Parte 4...................................................................88

Parte 5.................................................................111

Parte 6.................................................................134

Parte 7.................................................................160

Curiosidades.......................................................176

Estrada da Misericórdia ...................................203

1- 88
2- 111
3- 134
4- 160
Curiss – 176
203
Estudo das Lições Evangélicas do livro Renúncia

Introdução

Quando realizamos o estudo do livro Paulo e Estevão, verificamos que seus


capítulos foram escritos de uma forma semelhante e muito comum ao estilo
utilizado em diversas partes da Bíblia, ou seja, imaginem o livro como um grande
pergaminho, ao abri-lo iremos ver a parte central do texto, sabedores de que tal
ocorria, os escritores colocavam nesta parte, a que ficava a vista quando aberto o
pergaminho, a ideia central. Mas não apenas isso, os capítulos, ou partes dos
textos eram dispostos de tal forma que iam guardando relação entre si, como se
fossem espelhos. Assim o que verificamos no livro Paulo e Estevão é que o
capítulo 1 da primeira parte guarda relação de significado com o capítulo 1 da
segunda parte e assim por diante. E os capítulos finais, 10 da primeira parte e 10 da
segunda parte, guardam a mensagem central do livro.

Ao olharmos, então, os outros romances escritos por Emmanuel, verificamos


que todos eles foram divididos em 2 partes, com número igual de capítulos. O que
isso representa? Será que temos o mesmo estilo em todos os romances, será que
seus capítulos são espelhados?

A proposta deste estudo é verificar se isto de fato ocorre, porém, não se trata
apenas disto. Descobrimos com o estudo de Paulo e Estevão que estudar desta
forma nos proporciona a visão de lições maravilhosas, lições evangélicas que nos
ensinam sobre a vida, sobre a dor e, principalmente, nos proporcionam o fio
condutor para o que o romance nos traz como história tenha repercussão em nossas
vidas, hoje, nos ensine, nos eduque.

Buscaremos, também, ao estudar o livro Renuncia auxilio nas letras do


evangelho. Pensemos assim, se um anjo ou um espírito de grande envergadura
moral, como Alcíone, vem a Terra para auxiliar os seus, qual o modelo que
utilizaria para conduzir os seus atos, o seu proceder? Encontraremos nos passos de
Alcione semelhança com o caminhar de Jesus?

O livro Renúncia é dividido em 7 capítulos, em suas duas partes:

VELHAS RECORDAÇÕES

PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO 1 = Sacrifícios do amor
CAPÍTULO 2 = Anseios da mocidade
CAPÍTULO 3 = A caminho da América
CAPÍTULO 4 = A varíola
CAPÍTULO 5 = Na infância de Alcione
CAPÍTULO 6 = Novos rumos
CAPÍTULO 7 = Caminhos de luta

SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO 1 = O padre Carlos
CAPÍTULO 2 = Novamente em Paris
CAPÍTULO 3 = Testemunhos de fé
CAPÍTULO 4 = Reencontro
CAPÍTULO 5 = Provas redentoras
CAPÍTULO 6 = Solidão amarga
CAPÍTULO 7 = A despedida
Antes de iniciar o estudo propriamente dito, olhemos as primeiras linhas,
Velhas Recordações. Há tempos estou em prece por este estudo e certo dia fiquei
pensando se haveria algo que indicasse, como uma dica, de que o livro Renuncia
teria alguma ligação com os escritos da Biblia. Afinal, embrenhar-se em algo sem
saber se é verdadeiro pode ser tarefa perigosa. Por que, afinal, o livro Renuncia
seria escrito de forma semelhante aos escritos antigos? Peguei o livro e folhei a
primeira parte, Velhas Recordações, e quando li o trecho que reproduzo mais
abaixo, tive a vontade de prosseguir, de buscar nos capítulos este pensamento que
inspirou os antigos e, a meu ver, inspirou estes romances de Emmanuel.

São muitas as perguntas e ainda não tenho todas as respostas, mas trabalho
com a possibilidade e ela me ensina. Penso que esta disposição dos capítulos, de
forma espelhada, represente a linha de pensamento do espírito que os organizou.
Emmanuel, no livro Instrumentos do Tempo, nos diz : “Convidados a estudar os
ensinos do Cristo, à luz da Doutrina Espírita, com os instrumentos do tempo,
fomos impulsionados a reconhecer que os instrumentos do tempo são as palavras.”
Se um pintor organizar as tintas e os pinceis num quadro para expressar suas
ideias, reconheceremos os traços semelhantes, correto? Os romances, sendo do
mesmo autor, organizados pelo mesmo espírito, irão refletir a forma como este
espírito pensa e de onde esta inspiração emana. Não será difícil a conclusão de
onde provem a inspiração para estes livros maravilhosos e que muito querem nos
ensinar. O que estou dizendo, e o digo de forma clara e com todas as letras é que
guardo a firme convicção de que a obra psicografada por Francisco Candido
Xavier foi inspirada pelas esferas mais altas onde residem os trabalhadores de
Jesus, sendo ele (Chico) e Emmanuel, participantes deste grupo que trabalha por
nossa evolução.

Avancemos.

Já na primeira parte do Romance, em suas primeiras linhas, vemos a ideia


que aqui defendemos apresentada de uma forma muito sutil. Emmanuel recorda de
uma fala de Alcione, ainda criança.

“— Padre Damiano, quem terá feito as nuvens, que parecem flores grandes e
pesadas, que nunca chegam a cair no chão? Deus minha filha — dizia o sacerdote.
Mas, como se no coração pequenino não devesse existir esquecimento das coisas
simples e humildes, voltava ela a interrogar: E as pedras? — quem teria criado as
pedras que seguram o chão? — Foi Deus também.”
Nuvens que não caem no chão? Pedras que seguram o chão? De onde vem
esse pensamento? Trata-se de um conceito muito antigo e se assemelha com a
forma como os hebreus durante muito tempo entendiam o céu e a terra.
Vejam o conceito de firmamento (Wikipédia) “Firmamento é um nome para
a abóbada celeste, geralmente usada no contexto das religiões baseadas nas escrituras hebraicas
(judaísmo, cristianismo e islamismo). O termo vem do latim clássico firmamentum, usado
na Vulgata, que significa "suporte". O termo original hebraico, raqiya' (‫)רקיע‬, designa uma placa
rígida, ampla e sólida, possuindo uma de certa espessura. O termo deriva-se da raiz raqa' (‫)רקע‬,
designando a ação de expandir (um metal) batendo-o com um martelo, o processo de se fazer uma
placa metálica [1], motivo pelo qual algumas traduções bíblicas usam a palavra "expansão" em vez
de "firmamento". Segundo a cosmologia bíblica, o Universo era repleto de água. O firmamento fora
colocado por Javé para "separar as águas", dando espaço para a atmosfera daTerra.

O firmamento na cosmologica bíblica.

Gênesis 1 (Versão Almeida Atualizada [1967]): 1 No princípio criou Deus os céus e a terra. 2 [...] o
Espírito de Deus pairava sobre a face das águas. [...] 6 E disse Deus: haja um firmamento no meio
das águas, e haja separação entre águas e águas. 7 Fez, pois, Deus o firmamento, e separou as
águas que estavam debaixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento. E assim foi.
8 Chamou Deus ao firmamento céu. E foi a tarde e a manhã, o dia segundo.”

Assim amigos, iniciamos nossos estudos, com este lindo pensamento de


Alcione, que nos remete ao início da Biblia, ao livro de Genesis, sabedores, porém,
que nossa lente busca o aprendizado do sentir. Nas palavras de Emmanuel: “Este é
um livro de sentimento, para quem aprecie a experiência humana através do
coração. Em particular, falará a todos os que se encontrem encarcerados,
sentenciados, esquecidos daquele amor que cobre a multidão dos pecados,
consoante os ensinamentos de Jesus.”
Que Jesus em sua infinita bondade nos conduza com a firme vontade de
aprender, com o discernimento para extrair as lições que nossos corações tanto
necessitam e que, acima de tudo, o livro promova em nosso viver a vontade de
vivenciar este amor que Alcione exemplifica, inspirada no Cristo Jesus.

Emmanuel nos adverte: “A psicologia de Alcione é bem mais complexa do


que se possa imaginar ao primeiro exame.” Assim, levando muito a sério esta
frase, iniciamos este estudo em prece, rogando o auxílio das esferas mais altas a
fim de que tenhamos a condição de aprender ao menos uma pequena parcela das
grandes e imorredouras lições que encontraremos neste livro.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 20/09/2014.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 1a

Muitas são as formas que podemos utilizar para buscar o estudo de um livro
e optaremos por uma das várias possibilidades. Entendemos que este livro não é
apenas um romance para ser lido, mas são histórias de vidas que, quando olhadas
com atenção, podem nos auxiliar em compreender melhor a nossa jornada. Assim,
nesta parte buscaremos um olhar de comparação, o que é comum e o que diverge
nos capítulos de número 1 da primeira e segunda parte.

Aos que estão chegando, explicamos que esta técnica de estudo não é nova
nem fomos nós que a inventamos. A Bíblia está repleta de textos escritos desta
forma, Lucas quando escreveu a Narrativa da Viagem de Jesus a Jerusalém o fez e,
ainda que nos falte a técnica e o conhecimento necessários para este intento,
seguimos rogando o auxílio das esferas mais altas. Como os textos antigos que
eram espelhados e guardavam relação de significado, este romance de Emmanuel
também foi escrito de tal forma que podemos encontrar belíssimas lições, quando
buscamos os capítulos de mesmo número da primeira e segunda parte. Acredito
que para quem nunca tenha lido o livro este estudo seja de difícil compreensão,
assim, leiam primeiramente o livro, como um romance, e depois venham a este
estudo. A visão geral nos auxilia na compreensão.

Compartilho com vossos corações minhas pobres impressões, na certeza de


que este estudo nem de longe irá esgotar as possibilidades de aprendizado do texto.

Vamos aos primeiros capítulos.

Inicia o livro contando-nos de fatos acontecidos no plano espiritual, quando


Pólux preparava-se para reencarnar e roga aos céus pela possibilidade de ver
Alcione antes de partir. Almas entrelaçadas desde a sua criação, buscam-se e se
auxiliam no caminho redentor, mais a frente aprofundaremos um pouco sobre isso.

Pois bem, temos então um primeiro ponto de contato entre os dois capítulos.
Se na primeira parte vemos Polux preparando-se para reencarnar e Alcione lhe
dizendo que irá também estar com ele, para auxiliá-lo em sua trajetória. Será no
capítulo 1 da segunda parte em que encontraremos a narrativa da primeira vez em
que se encontram depois de encarnados.
Antes, porém, de vermos este encontro, Emmanuel dá um perfil destas duas
almas, quando desencarnados e, depois, na parte 2, quando encarnados. Vejamos:

ALCIONE
Espirito (cap 1 – primeira parte) Encarnada (cap. 1 – segunda parte)
entidade amorosa, uma jovem de Delicadeza feminil, aliada a vastos
singular beleza tocou o penitente nos conhecimentos científicos, entregava as
ombros, num gesto de ternura costuras da genitora, com a mesma
encantadora, indizível doçura, entidade humildade dos primeiros tempos,
generosa; sempre pura e devotada modelo de virtude familiar,
companheira afável e carinhosa

POLUX/CARLOS
Espirito (cap 1 – primeira parte) Encarnado (cap. 1 – segunda parte)
Pólux encontrava sempre poderosos jovem seminarista,singularmente
argumentos para convencer os mais acabrunhado, dando-me a impressão de
rebeldes ou consolar os mais tristes. um homem repleto de batalhas
Suas vastas reservas de conhecimento interiores; Alto, magro, de maneiras
conferiam-lhe recursos espirituais que excessivamente simpáticas, pela
os demais não possuiam, naquela hora bondade que evidenciavam, olhos muito
da sua eternidade, sentia-se lúcidos; espírito esclarecido e afetuoso
profundamente só e desventurado;
procedera nobremente até certo ponto,
mas, no instante de coroar a obra para
a vida eterna, caíra miseràvelmente,
como criminoso comum;
incorrigível e cruel.

Temos, nesta comparação, um primeiro ponto a refletir. Facilmente


percebemos que o que estes espíritos eram no mundo espiritual não mudou quando
encarnados. Não obstante o esquecimento que a encarnação nos traz, ele não nos
modifica na essência e não deve ser temido ou utilizado como desculpa para nossos
percalços na estrada de hoje.

Polux, em sua conversa com Menandro, nos explica isso de forma muito
bela: “— Mas, como aprenderias a humildade com as reminiscências ativas do
orgulho? Poderias, acaso, beijar um filho, sentindo nele a presença de um inimigo
figadal? Conseguirias, de pronto, a força precisa para santificar, pelos elos
conjugais, a mulher que manchaste noutros tempos, induzindo-a ao meretrício e às
aventuras infames? Não percebes, no olvido terreno uma das mais poderosas
manifestações da bondade divina para com as criaturas criminosas e transviadas?
Concordo em que a experiencia humana para quem observou, mesmo de longe,
como aconteceu a nós outros, as resplendências da vida espiritual, significa, de
fato, a reparação laboriosa no seio de um sepulcro; mas nós, meu caro Menandro,
estamos desde há muito mumificados no crime. Nossa consciência necessita do
toque das expiações salvadoras. A morte mais terrível é a da queda, mas a Terra
nos oferece a medicação justa, proporcionando-nos a santa possibilidade de nos
reerguermos. Renasceremos em suas formas perecíveis e, em cada dia da
experiência humana, morreremos um pouco, até que tenhamos eliminado, com o
auxílio da poeira do mundo, os monstros infernais que habitam em nós
mesmos...”

Tão consoladores estas palavras de Polux, pensemos um pouco em nossas


vidas, em nossas dores. Quantas vezes a estrada nos parece injusta, quantas vezes
questionamos os motivos de estarmos perto de certas pessoas que nos machucam
ou a quem não somos capazes de amar. A vida na Terra, nas palavras dele, é
medicação. Sim, viver encarnado é um remédio e só toma remédio quem está
doente.

O Livro dos Espíritos, na questão 393, temos, também, um esclarecimento


sobre o assunto: ““Em cada nova existência, o homem dispõe de mais inteligência
e melhor pode distinguir o bem do mal. Onde o seu mérito se se lembrasse de todo
o passado? Quando o Espírito volta a vida anterior (a vida espírita), diante dos
olhos se lhe estende toda a sua vida pretérita. Vê as faltas que cometeu e que
deram causa ao seu sofrer, assim como de que modo as teria evitado. Reconhece
justa a situação em que se acha e busca então uma existência capaz de reparar a
que vem de transcorrer. Escolhe provas análogas as de que não soube aproveitar,
ou as lutas que considere apropriadas ao seu adiantamento e pede a Espíritos
que lhe são superiores que o ajudem na nova empresa que sobre si toma, ciente
de que
o Espírito, que lhe for dado por guia nessa outra existência, se esforçara por leva-
lo a reparar suas faltas, dando-lhe uma espécie de intuição das em que incorreu.
Tendes essa intuição no pensamento, no desejo criminoso que frequentemente vos
assalta e a que instintivamente resistis, atribuindo, as mais das vezes, essa
resistência aos princípios que recebestes de vossos pais, quando e a voz da
consciência que vos fala. Essa voz, que e a lembrança do passado, vos adverte
para não recairdes nas faltas de que já vos fizestes culpados. Na nova existência,
se sofre com coragem aquelas provas e resiste, o Espírito se eleva e ascende na
hierarquia dos Espíritos, ao voltar para o meio deles.”

Reconhecemos as nossas tendências? Vivemos com a consciência de que


somos espíritos imortais em breve estadia na Terra? Depositamos nossa confiança
de que tudo o que nos acontece é processo de aprendizado permitido pelo Pai
Maior? Que possamos refletir sobre esta primeira lição.

Prossigamos.

Após conversar com Pólux, lhe dando conselhos de muito valor e que
certamente servem a nós outros, Alcione decide pedir aos seus irmãos nova
reencarnação, a fim de ajudar não apenas a Polux, mas aos amados do seu coração
que ainda se encontravam na Terra. Recebe uma advertência que gostaria de
considerar em particular: “Já meditaste na tua aproximação de Pólux, investida
num corpo de carne? Sabemos que Pólux parte com deveres de suma importância,
em função de coletividade; e tu te sentes preparada para neutralizar a poderosa
lei da atração das almas? Não o digo no sentido de preocupações subalternas,
mas ponderando a grandeza dos teus sentimentos afetivos, em relação à grandeza
mais sublime das obrigações assumidas para com Deus. Terás ânimo para lhe
ouvir no mundo os rogos amorosos, mantendo-o no seu pôsto, incólume e
sobranceiro à solidão de si mesmo? Sem dúvida, a lei terrestre te encherá de
desejos e te induzirá a considerar a possibilidade de proporcionar-lhe filhos
afetuosos, em obediência aos seus princípios naturais. Além disso, teus afetos de
outras épocas, como, por exemplo, os que te foram pais amorosos, receberão a
palma de lutas ásperas e agudas provações. A senda de quase todos os teus
amigos está semeada de espinhos, que êles próprios plantaram no seu desapêgo à
misericórdia do Todo-Poderoso. Sentes-te bastante forte para assumir tão grave
compromisso? Conheço numerosos irmãos que, depois de pedirem missões
arriscadas como esta, voltaram onerados de mil problemas a resolver, retardando
assim preciosas aquisições.”

Vejamos, então, como foi quando Alcione e Polux se reencontraram, após


encarnados: “Ao ser apresentado, porém, à filha da casa, o sobrinho de Damiano
não conseguiu disfarçar a profunda impressão que ela lhe causara. Ambos
pareciam perturbados. A jovem, sentindo-se sob o magnetismo do seu olhar,
empalidecera de leve.”
Sabemos o quanto esta impressão iria avançar e quão verdadeiras estas
advertências do primeiro capítulo o são, uma vez que Polux e Alcione iriam muito
sofrer em luta quanto aos sentimentos que eclodiam e que não podiam
compreender em sua integralidade. E a nós? E que esta situação no pode ensinar?

Ter o entendimento das vidas sucessivas e de que aqui reencontramos afetos


e desafetos de outrora poderá nos ser uma bússula quando atravessarmos situações
semelhantes. Quantos e quantos se reencontram na estrada e são levados pelos
sentimentos de afeição, buscando a felicidade imediata, esquecendo, porém, os
compromissos assumidos outrora. E se estivéssemos no lugar de Polux/Carlos e
Alcione, como nos portaríamos? Somos capazes de reconhecer a lei natural da
Terra agindo em nós e que estamos sempre buscando nos aproximar de pessoas a
quem amamos desde tempos remotos? Sabemos reconhecer nossos sentimentos
decorrentes desta aproximação e, ainda sim, nos mantermos firmes na estrada
evolutiva que escolhemos? Alcione jamais negou seus sentimentos, porém, a sua
moralidade e confiança no Cristo lhe foram um norte seguro para permanecer
firme ante as numerosas provas que enfrentou. Quais são as nossas provas? Quais
situações pedem de nós maior coragem e confiança em Jesus? Sondemos nossas
vidas, aprendemos com este anjo de Deus.

O estudo nos dá novas lentes, e nos amplia a perspectiva que da lei da


atração. A questão 386 do LE nos fala sobre essa questão, quando Kardec indagou
sobre espíritos afins que se encontram na Terra: “Reconhecer-se, não. Podem,
porem, sentir-se atraídos um para o outro. E, frequentemente, diversa não é a
causa de intimas ligações fundadas em sincera afeição. Um do outro dois seres se
aproximam devido a circunstancias aparentemente fortuitas, mas que na realidade
resultam da atração de dois Espíritos, que se buscam reciprocamente por entre a
multidão.”

Reconhecer sentimentos é necessário, porém, não sucumbir aos desejos em


detrimento dos deveres que nos cercam é tarefa que nos exige esforço maior.
Alcione personificou isso de forma belíssima e nos ensina na prática o quanto
muitas vezes temos que abdicar pelo bem maior e por amor. É certo que, dada a
nossa condição, teremos também em nossa estrada a situação inversa, aqueles
desafetos de outrora também virão a nossa estrada, seja na família, no trabalho, ou
num grupo que participamos, encontraremos novas oportunidades de refazer os
laços equivocados de outrora. Porém, se estivermos com o pensamento e o coração
presos apenas no hoje e no agora, facilmente erraremos novamente. Aproveitemos
a linda lição e o rico exemplo para nos deixarmos inspirar em nossa jornada.
Há uma postura de Alcione que gostaria de registrar, ao ser procurada por
Padre Damiano, que lhe pede para auxiliar Carlos, vejam a humilde resposta: “—
Não creio possa ter alguma coisa de mim mesma para auxiliá-lo, mas estou certa
de que Jesus não nos faltará com o pábulo do seu amor inesgotável.” Vejam que
lá no primeiro capítulo, ainda no plano espiritual, sua fala e seu sentir não eram
diferentes: “— Conheço a gravidade da minha decisão —esclareceu a jovem com
muita humildade — mas, sabendo-me fraca pelo muito que amo, espero que o
Senhor me fortaleça nos dias de sombra e aflição. Pela cruz que sua
magnanimidade aceitou em nosso benefício na Terra, rendo-me à sua augusta
vontade, mantendo, contudo, minha sincera rogativa!...”

A humildade, característica dos espíritos mais elevados, estava presente no


coração de Alcione a todo momento e se muito foi capaz de amar foi por sempre
colocar-se nesta posição, aos pés de Jesus, como discípula que quer lhe aprender e
apreender as lições. Saibamos nós outros, rogarmos o auxílio divino em nossa
estrada e não nos acharmos fortes ou autossuficientes para as tarefas que a vida
nos apresenta.

E ao nos colocarmos nestas esferas sublimes e inspiradas, permitindo que o


amor de Jesus nos alcance, saberemos vivenciar o que este parágrafo, tão
belamente nos explica: “O amor sincero e santo de duas almas tem mistérios
profundos e singulares em suas fontes divinas. Basta, às vêzes, um gesto, uma
palavra, um olhar, para contentá-lo e transfigurar a ansiedade em esperança
sublime.

Há ainda um último ponto que os dois capítulos tratam, que gostaria de


comentar nesta etapa. Mais adiante no capítulo 1 da segunda parte que Carlos se
declara amorosamente para Alcione, que também lhe retribuía o afeto e amor
sincero. Porém, suas posturas e visão de mundo eram diversas. Afinal, somos
capazes de entender porque Alcione não poderia se casar com Carlos nesta
encarnação? Talvez muitos pensemos que teria sido mais fácil, viveriam juntos,
casados. Qual a razão disto não ter acontecido?

Lembremos que Antênio advertiu Alcione que este desejo aconteceria e seria
muito forte para ambos: “Terás ânimo para lhe ouvir no mundo os rogos
amorosos, mantendo-o no seu posto, incólume e sobranceiro à solidão de si
mesmo? Sem dúvida, a lei terrestre te encherá de desejos e te induzirá a
considerar a possibilidade de proporcionar-lhe filhos afetuosos, em obediência
aos seus princípios naturais.” Podemos refletir, então, quanto a um primeiro
motivo, os compromissos assumidos na espiritualidade por Carlos a fim de que sua
alma progredisse e expiasse as faltas de outrora. Mas Alcione vai muito além que
esta primeira impressão e nos dá no cap. 1 da segunda parte uma lição que vale
muitas reflexões: “É justo que um passageiro dessa ou daquela embarcação
troque de navio em pleno mar, ou que se deixe ficar à tôa em pôrto diferente,
acreditando abreviar a viagem; mas, que dizer de um comandante que assim
procedesse com os que nêle confiam? Não será melhor permanecer, tanto nas
rotas perigosas como nas ondas mansas? E que é nossa vida neste mundo senão
uma viagem para esferas mais altas? Dia virá que chegaremos ao pôrto da
verdade e é necessário cumprir o dever até ao fim. Para as almas vulgares, a
existência pode representar um conjunto de possibilidades, de levianas
experiências, mas nós, que já recebemos algum conhecimento das coisas divinas,
não podemos interpretar a passagem pela Terra senão como santa oportunidade
de trabalho e purificação!”

É certo que todos queremos ser felizes, a questão é que se deve levar em
conta é a que preço a felicidade de hoje retardará nosso crescimento amanhã. Raros
são os que estão prontos para a vivência que Alcione instrui Carlos e que pode
falar também aos nossos corações. Se tivermos a perspectiva de que somos
espíritos imortais em processo de aprendizado tudo fica mais leve e fácil, porém,
enquanto fincarmos os pés e a visão apenas nesta vida e nas realizações que ela
possa nos dar, reviveremos situações como as que este livro exemplifica.

Não se trata de viver para sofrer, muito longe disso, mas de sabermos que
nenhuma ação que tivermos para buscar a nossa felicidade que trouxer sofrimento
a quem quer que seja, poderá prosperar. Será sempre uma macula em nossa
consciência a nos impedir de avançar. É certo que todos estamos aqui nesta vida
com o profundo desejo de sermos felizes, o convite que Jesus nos dirige é que
sejamos capazes de encontrar a felicidade em servir, em trabalhar com amor e
muitas vezes renúncia pelos que estão a nossa volta. E é claro que falharemos
muitas vezes, então, por misericórdia divina, retornaremos e tentaremos mais uma
vezes.

Assim, encerramos este primeiro olhar em que buscamos pontos de encontro


entre os capítulos de número 1, primeira e segunda parte, do livro Renúncia,
reconhecendo através deles lições para a nossa vida.

Na próxima etapa, buscaremos alguns trechos do livro e do Evangelho,


afinal, será que um anjo que venha a Terra em auxilio dos seus terá um caminhar
parecido com o de Jesus? É ele nosso roteiro? Nosso caminho, verdade e vida?
Até a próxima semana, que Jesus os guarde em sua doce paz.

Campo Grande – MS, 24.09.2014.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 1b

Nesta etapa buscaremos um olhar sobre alguns trechos, sua mensagem


evangélica e o seu significado para nossas vidas. Pensemos um pouco, Kardec
perguntou aos espíritos qual o modelo mais perfeito que poderíamos encontrar na
Terra e lhe foi respondido, “vede Jesus” (Livro dos Espíritos, questão 625). Assim,
quando um espírito elevado, um anjo talvez, vem até a Terra para auxiliar seus
afetos de outrora, qual caminho que ele opta? Qual o modelo que ele escolhe para
que sua ajuda seja eficaz? Podemos encontrar semelhança no agir de Alcione com
os passos de Jesus? Penso que sim.

A primeira fala do livro de Alcione a Polux já nos é um indicativo, vejam o


verbo utilizado: “— Levanta-te para o testemunho de amor ao Altíssimo — disse
ela com angélica ternura —; não te julgues abandonado nos caminhos da
regeneração..”

Depois que escrevi este trecho, fiquei alguns dias refletindo sobre o sentido
desta palavra em minha vida, relembrando momentos idos e também atenta ao
convite de hoje: Levanta-te!! Esta foi a primeira palavra de Alcione a Polux, a
primeira palavra que ela diz no livro. Ouçamos.

Quantas vezes nesta existência cometi equívocos, disse palavras que não
deveria, agi de forma incorreta, magoei pessoas, fui omissa quando deveria agir, e
como é duro quanto percebemos a nossa condição ainda tão inferior que avança a
passos lentos no caminho do bem e do amor. E se eu lembrasse as vidas passadas,
os erros de outrora, mais ainda teria a lamentar. Mas de que me valeriam os
lamentos? O que eles fariam por mim hoje? O que eu posso fazer com minhas
quedas reiteradas?

Palavra forte esta, levanta-te!!! Ressoa em meus ouvidos, em minha alma.


Observo também o que acontece a minha volta, quanta queda, quantas pessoas em
caminho equivocado, em estradas perigosas, em postura de desesperança. Será que
eles também ouvem: levanta-te?

Passeei alguns dias pela vida, refletindo. Passeei também pela Bíblia,
buscando momentos em que a palavra “levanta” foi utilizada. Quantas e quantas
vezes, desde Caim, Moises, David e tantos outros a ouvem, ouvem
incessantemente. Parei alguns momentos em Provérbios 18:14: “O espírito do
homem pode aguentar a doença, mas o espírito abatido, quem o levantará?” E
retornei ao livro e aos sentimentos de Pólux, prestes a reencarnar, sentindo-se com
medo roga a Jesus pela alma que tanto ama, pede a graça de ver Alcíone. E ela
também, eleva-se em prece para que se faça visível ao amado do seu coração,
espírito abatido tal qual nos fala o versículo de Provérbios. Quem o levantará?

Olhemos, então, para o caminhar de Jesus, quantas e quantas vezes ao curar


cegos, leprosos, crianças, enfermos de toda espécie, ele usou este verbo,
motivando-os a seguir em frente, a buscar nova vida, a renovar o seu viver.
Também aos seus discípulos alertou no Monte das Oliveiras: “Por que estais
dormindo? Levantai-vos e orai, para que não entreis em tentação” (Lucas 22:46 –
Bíblia de Jerusalém).

Também a Paulo, na estrada de Damasco, em resposta à célebre pergunta:


“Senhor, que querer que eu faça?” Jesus lhe responde: “Mas levanta-te e entra na
cidade, (lá) te será dito o que é necessário fazer” (Atos 9:6 – Tradução Haroldo D.
Dias).

Eis, então, o convite, para que nos levantemos. Não apenas no sentido de
quem está caído e precisa ficar em pé, mas no sentido de quem está parado e
precisa mover-se, seguir adiante, ir em frente. Mas para que? Para onde? Qual o
rumo, qual a direção? Se temos caído reiteradamente, talvez seja a hora de
refletirmos sobre a direção e o caminho. E Alcione completa a frase: “Levanta-te
para o testemunho de amor ao Altíssimo — disse ela com angélica ternura —; não
te julgues abandonado nos caminhos da regeneração.” Então, a lição nos dá um
motivo: para o testemunho de amor ao Altíssimo e também nos aponta uma
direção: caminhos da regeneração.

Quando experimentamos este amor que nos levanta, nos tornamos


testemunhas dele. Tal qual a testemunha que presencia um crime e vai ao tribunal
relatar ao juiz, o convite é para que nós testemunhemos sobre este amor que nos
levantou e nos permitiu seguir em frente. E por já termos experimentado este amor,
estaremos em condições de jamais nos sentirmos abandonados nos caminhos que
trilhamos, nos caminhos regeneradores.

Emmanuel, no livro Caminho Verdade e Vida, na lição 79, nos traz


ensinamentos valiosos para a reflexão que ora intentamos realizar: “De modo
geral, quando encarnados no mundo físico, apenas enxergamos os aleijados do
corpo, os que perderam o equilíbrio corporal, os que se arrastam penosamente no
solo, suportando escabrosos defeitos. Não possuímos suficiente visão para
identificar os doentes do espírito, os coxos do pensamento, os aniquilados de
coração. Onde existissem somente cegos, acabaria a criatura perdendo o interesse
e a lembrança do aparelho visual; pela mesma razão, na Crosta da Terra, onde
esmagadora maioria de pessoas se constituem de almas paralíticas, no que se
refere à virtude, raros homens conhecem a desarmonia de saúde espiritual que
lhes diz respeito, conscientes de suas necessidades incontestes.”

O convite que Polux recebeu todos nós também o recebemos. E nossa


estrada ainda será longa, purificaremos nossas almas em novas vidas, num
caminho evolutivo. A questão é a escolha de como iremos fazer toda essa travessia.
Somos seres imperfeitos e certamente iremos errar, a questão, então, nunca é a
ausência de erros, mas sim a capacidade de levantar-se e seguir em frente,
renovando-se em entendimento, aprendendo e corrigindo equívocos inerentes a
nossa condição evolutiva, a questão é sabermos e sentirmos que não estamos
sozinhos ou abandonados, que temos um Deus amoroso que nos auxilia na jornada.
Tal qual a criança que está aprendendo a andar, podemos cair e levantar com um
lindo sorriso, prosseguindo, ou então, ficarmos sentados no chão chorando e
chorando. Serão sempre escolhas.

A lição que Emmanuel nos traz prossegue em mais algumas linhas que trago
aqui para nossa reflexão: “Infere-se, pois, que a missão do Evangelho é muito mais
bela e mais extensa que possamos imaginar. Jesus continua derramando bênçãos
todos os dias. E os prodígios ocultos, operados no silêncio de seu amor infinito,
são maiores que os verificados em Jerusalém e na Galiléia, porquanto os cegos e
leprosos curados, segundo as narrativas apostólicas, voltaram mais tarde a
enfermar e morrer. A cura de nossos espíritos doentes e paralíticos é mais
importante, porquanto se efetua com vistas à eternidade. É indispensável que não
nos percamos em conclusões ilusórias. Agucemos os ouvidos, guardando a
palavra do apóstolo aos gentios. Imprescindível é que nos levantemos,
individualmente, sobre os próprios pés, pois há muita gente esperando as asas de
anjo que lhe não pertencem.”

Que tenhamos a coragem e a força para nos erguermos, como diz o versículo
da reflexão acima: “Levanta-te direito sobre os teus pés.” Paulo (ATOS, 14: 10).
Paulo ouviu e aprendeu, sigamos nós também, levantemo-nos!! Temos o auxílio de
um Mestre amoroso e espíritos benevolentes a nos amparar e auxiliar.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 28.09.2014.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 1c

Ainda no primeiro capítulo, quando Alcione conversa com Polux, um trecho


me chamou atenção e me detive nele, em reflexão, por alguns dias: “Não temos
sêde de enganosas satisfações. Temos sêde de Deus, Pólux! O infinito amor que
nos transfunde as almas tem sua origem sagrada em sua misericórdia paternal.”

O que significa ter sede? Quais ações, pensamentos, sentimentos identificam


hoje qual a minha sede? Tenho sede de Deus? Olhei também para meu passado,
minhas pequenas experiências nesta vida, buscando alguns momentos em que tive
sede, sede de Deus.

Passeei pela vida e também pelas escrituras, e com emoção li o Salmo de


David, 42/43: “2Como a corça bramindo por águas correntes, assim minha alma
está bramindo por ti, ó meu Deus! 3Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo;
quando voltarei a ver a face de Deus?” Alcione nos lembra que Deus é nosso Pai,
um Pai misericordioso, assim também o salmista o sentia e o buscava. E eu, o que
tenho buscado? Quando tive sede de Deus?

Avancei um pouco nestas reflexões e fui buscar no Evangelho os momentos


em que Jesus nos fala sobre isso, em muitos momentos ele falará da sede, da sede
de Deus. E lá no evangelho de João, no trecho em que narra a história da mulher da
Samaria, encontrei uma referência que me pareceu encaixar-se a este trecho em
que Alcione conversa com Polux. Eis um trecho: “13Jesus lhe respondeu: "Aquele
que bebe desta água terá sede novamente; 14mas quem beber da água que eu lhe
darei, nunca mais terá sede. Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma
fonte de água jorrando para a vida eterna". (Evangelho de João 4:13-14, Biblia de Jerusalém).
Aos poucos vai clareando a reflexão, ter sede não é apenas um momento de
nossas vidas, mas um postura que devemos adotar para viver. Aquele que caminha
sedento de Deus, busca em seu caminhar o amor, a justiça, a misericórdia, a paz.
Mas há duas situações que nos afastam deste modo de viver, uma é quando nos
portamos como pessoas saciadas, aqueles que tudo sabem, que são auto-
suficientes, que estão tão cheios de si mesmos, ou das fantasias que criam que não
tem sede, ao menos caminham na ilusão de que não a tem. E a outra, mais comum
e perigosa, é quando temos sede, mas não temos sede de Deus, caminhamos
sedentos de coisas materiais, realizações passageiras, aplausos, poder, temos sede,
e bebemos desta águas que não saciam.
Comecei, então, a observar minha conduta e meus pensamentos, buscando a
perspectiva de alguém que tem sede de Deus, sede de amor, paz, justiça,
misericórdia. E quando pensava e agia, um discernimento diferente foi se fazendo
presente. Imaginemos uma situação simples, de alguém que lhe dirige uma palavra
ríspida, em tom de discórdia. Se estou cheia de mim, da minha vaidade, estas
palavras irão me ferir, me incomodar, mas se estou com sede de Deus, o amor
falará mais alto, e saberei olhar além das palavras para ver que quem as diz sofre,
do contrário não faria o que faz. Quando acontecer algo em sua vida, antes de agir,
pense também, como eu agiria ou pensaria se neste momento estivesse com sede
de Deus.

No livro Luz Imperecível há um trecho que nos auxilia nesta reflexão: “Os
que tem “fome e sede”de justiça são, portanto, todos esses, infelizes nas vivências
reencarnatórias que, cansados e saturados, levantam-se, famintos e sedentos dos
valores que possam, clareando o seu entendimento, posicionarem seus espíritos
na direção de metas mais seguras e consoladoras.”
Interessante os verbos que ele utiliza ao final: clarear e posicionar. Eis a
grande mudança que ocorre em nossas vidas quando caminhamos como pessoas
sedentas de Deus, do seu amor, nosso caminho vai clareando e conseguimos nos
posicionar ante a vida de uma forma diferente. Este comentário do Sr. Honório de
Abreu é uma referência as bem-aventuranças, trecho magnífico dito por Jesus e
citado nos evangelhos.

E por assemelhar-se com os dizeres de Alcione no livro, retornei a ele com o


seguinte pensamento. O que mais este anjo de Deus teria dito sobre ter sede? Hoje
em dia com estas ferramentas tecnológicas, podemos passear pelos livros, vamos e
voltamos, a assim o fiz, colocando na busca a palavra “sede”. Pois bem, ela
aparece 10 vezes no livro e em cada trecho em que aparece nos fala e nos explica
quando temos sede e quando esta sede não é sede de Deus. E o que fui percebendo
ao longo destas 10 aparições da palavra, é que as situações cotidianas são por vezes
de uma sutilidade de nos passa desapercebido, lembrei das notas de Emmanuel: “A
psicologia de Alcione é bem mais complexa do que se possa imaginar ao primeiro
exame.”
Vejamos os trechos em que a palavra SEDE aparece.
1 – “Não temos sede de enganosas satisfações.” Ainda no mundo espiritual,
Alcione conversa com Polux, lhe advertindo sobre os desenganos do caminho. E a
nós, o que esta fala traz? Temos sede de que? Quando fomos atrás de enganosas
satisfações?
2 - “Temos sede de Deus, Pólux!” Eis na segunda aparição da palavra sede
o trecho que nos motivou a este estudo – ter sede de Deus. Temos sede de Deus?
Certamente não a temos sempre, mas já estamos aptos a reconhecê-la e a buscá-la.

3 – “Experimentarás, igualmente, o olvido transitório e, embora não tanto


agravados em virtude das tuas conquistas, sentirás o mesmo desejo de
compreensão e a mesma sede de afeto que palpitam nos outros mortais.” (Antenio
conversando com Alcione) Estas lições de Antenio são muito importantes para
entendermos que, uma vez na Terra, estamos sujeitos as suas leis, e para Alcione
não foi diferente, sentiria aqui o mesmo que nós outros sentimos em nosso dia a
dia, porém, ante a sua elevada condição moral, tratou-se de uma prova que a
elevou ainda mais, saiu-se vencedora, viveu com humildade e pautando suas ações
nas elevadas lições do Evangelho de Jesus. Certamente ainda estamos distantes,
mas conhecê-la é oportunidade de buscar inspiração e força para as lutas nossas de
cada dia.

4 – “— Tenho sede inexplicável do mundo novo que nos acena a distância.


Nossas grandes cidades, corrompidas, consternam e sufocam! Granada, Ávila,
Madrid e Paris não diferem o bastante umas das outras. Em todas vejo os homens
como loucos, disputando realizações que lhes agravam os padecimentos
espirituais. Tenho sonhado sempre com as enormes florestas escuras, com os rios
caudalosos, com as campinas verdes e sem fim...” (Madalena em conversa com
Cirilo, sobre os sonhos de morar na América) Quem de nós nunca sonhou como
sonha Madalena? Que mal há em almejar um vida melhor, em lugar distante?
Certamente nenhum mal, nosso querer nos conduz. Mas podemos refletir o quanto
de nossas esperanças de felicidade e paz depositamos nestes sonhos. Muitos deles
não se realizam, e a medida em que estivermos sedentos deles isto pode nos levar a
dores e desenganos. Onde estamos depositando nossas esperanças de felicidade e
paz? Temos sede? Qual a nossa sede?

5 – “Recordou que seus ideais eram idênticos aos da espôsa, relativamente


à América distante. Madalena também tinha sede daqueles horizontes largos,
daquela terra fecunda e perfumada. Sentindo que podia falar igualmente em seu
nome naquela assembléia familiar, assumiu o compromisso de transferir-se
definitivamente para o Novo Mundo.” (Cirilo sobre o trecho citado anteriormente)
É interessante a sutileza que esta caminhada nos permite perceber, porque muitas
vezes ao sonharmos, levamos nossos amados junto, e isso, digo novamente, é
normal e acontece rotineiramente. Sonhamos com lugares, casas novas, novos
empregos, cidades, pessoas, estas coisas fazem parte de nossa vida e acontecem o
tempo todo. A questão é a mesma da reflexão anterior, o quanto de nossas
esperanças depositamos, neste caso, em uma pessoa ou relacionamento.
Saciaremos nossa sede desta forma? Será esta a água que Jesus falou, que
beberemos e depois não mais teremos sede?

– “D. Inácio fazia ao genro as suas alegres e derradeiras recomendações,


Madalena contemplava angustiadamente o esposo, desejando repetir-lhe as
observações do amor infinito. Tinha sede de redizer-lhe no ouvido os mil
pequeninos cuidados do coração;” Tão linda esta referência do amor que
Madalena depositava e dirigia ao seu esposo. Mas quanta dor e sofrimento quando
lhe veio a notícia (falsa) do seu desencarne. As pessoas passam pela nossa vida, e
seja aqui ou no além, sempre estaremos saudosos ou de alguém que partiu ou de
alguém que ficou, a saudade será uma constante nos corações que já aprenderam a
amar. Eis, então, um difícil aprendizado, de sabermos amar, deixando também que
o partir não seja tão duro, mas apenas uma etapa das varias estações que seremos
convidados a embarcar e desembarcar, concebendo a vida como uma grande
viagem que fazemos ora juntos, ora separados. A questão está na medida, não no
remédio, a dose certa nos cura, mas o exagero nos prejudica. Se depositamos
nossas vidas e esperanças em um relacionamento, perdemos o rumo e a vontade de
viver quando esta pessoa não está mais ao nosso lado. Isso aconteceu com
Madalena, e nos permite refletir e direcionar melhor o nosso querer, a nossa sede.
Sondemos nossos corações, a reflexão é importante.

7 – “O doente não conseguia acalmar a sede abrasadora. Em vão recorrera


a calmantes e tisanas outras, próprias da época. A manhã surgiu com alarmantes
perspectivas.” (D. Inácio apresentando os primeiros sintomas da peste que lhe
ceifaria a vida) A escola da dor nos visita, não há quem passe por esta escola-
planeta que não sinta ou sofra uma dor que seja. Algumas pessoas, porém,
conseguem manter uma mansidão, mesmo diante das mais duras perspectivas, qual
será a sede delas? Ante a dor e o sofrimento, nosso ou de alguém que amamos
profundamente, estamos aptos a confiar nos desígnios de Deus? Temos sede e
fome de justiça e em nosso coração reside a certeza de que seremos saciados?
Como nossa sede passa? Com a cura do corpo ou do espírito?

- “— Mamãe, onde é que a chuva trabalha? — No seio da terra, filhinha. A


água que desce do alto alimenta a raiz das árvores, lava as estradas por onde
caminhamos, renova as fontes para que não soframos sede e, em todos os lugares
por onde passa, espalha e entretém a vida. — E quando tem chuva nos olhos? —
continuou perguntando com sincera atenção.”(Alcione ainda criança em conversa
com sua mãe) Confesso que choveu nos meus olhos quando li este trecho. E
reconheço que muitas destas lágrimas irão “renovar as fontes, irão espalhar e
entreter a vida”. Ao longo dos tempos evoluímos muito no entendimento do nosso
mundo material, já aquela época, Madalena soube descrever com precisão o
caminho e a utilidade das chuvas. Mas e as lágrimas, que expressam nossos mais
íntimos sentimentos? Conhecemos as estradas que percorrem, sabemos de onde
brotam e para onde vai esse sentir? Conhecer o mundo que nos cerca já não é
problema ou dificuldade, mas ainda não aprendemos a conhecer o nosso mundo
íntimo.

9 - “A princípio, tinha fome e sede, mas, aos poucos, tais sensações cediam
a padecimentos mais atrozes. As últimas impressões da morte trágica subsistiam e
até se requintavam, esmagando-o, qual catadupa de indefiníveis angústias.
Terrifico silêncio envolvia-o, uniforme, invariável.”(Antero padecendo após a sua
desencarnação). E quando partirmos, como será? Antero sofreu muito, trilhou um
caminho duríssimo, que eu mal consigo imaginar, deixar de sentir fome e sede para
ceder a outros padecimentos mais atrozes, como será isso? Quanta dor!! É difícil
conceber o que é isso, maravilhoso e bendito o esquecimento da encarnação. Se
não me lembro, não significa que já não passei por algo semelhante. Esquecemos a
dor de outrora, mas também esquecemos dos compromissos assumidos. Ficam as
impressões em nosso espírito, que apenas uma alma sedenta de Deus, do seu amor
e da sua justiça, estará aptos a relembrar.

10 – “Jesus é a fonte do conforto e da doçura supremos. Isso é inegável. No


entanto, reconhecemos que uma criança, que somente receba consolações e mimos
paternos, arrisca-se a envenenar o coração para sempre, na sede insaciável dos
caprichos. Não; não devemos acreditar que o Cristo só haja trazido ao mundo a
palavra revigoradora e afetuosa, senão também um roteiro de trabalho, que é
preciso conhecer e seguir, em que pesem às maiores dificuldades. Para isso, é
indispensável tomar os nossos sentimentos e raciocínios como campo de
observação e experiência, trabalhando diàriamente com Jesus na construção da
arca íntima da nossa fé.” É Alcione que encerra nossa estrada, que completa
nosso aprendizado e nos convida e termos sede de Deus. Não ouso comentar,
apenas lhes digo que muito aprendi e que este estudo me trouxe novas e mais
amplas lentes para ver a vida. Encerro com um profundo sentimento de gratidão.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 04 de outubro de 2014.


Candice Günther
Estudo do livro Renúncia

Parte 1d

“— Quem sabe, meu filho, esqueceste de rezar o “Pai Nosso” pela manhã?
Robbie limpou os olhos ingênuos e fez um sinal de quem se havia esquecido, ao
que a viúva Davenport obtemperou: — Pois, então, reza agora. A prece sempre
alivia o coração.” Trecho do primeiro capítulo da segunda parte.

Tão verdadeira esta assertiva do livro Renúncia, a prece sempre alivia o


coração, mas tal qual Robbie, quantas e quantas vezes nos esquecemos de nos
colocarmos em prece. Nos esquecemos, nos envergonhamos, nos esquivamos, são
tantos os verbos que podemos utilizar para motivar o que nos leva a não orarmos,
buscando o auxílio, o entendimento, a sintonia com as esferas mais elevadas.

No Evangelho de Mateus 7:7 encontramos o seguinte texto: “Pedi e vos será


dado; buscai e encontrareis; batei e será aberto para vós.” Como, porém,
interpretar este versículo, sem ser como Robbie o faria, ainda criança, iniciando
seu despertar para as verdades do Evangelho? Já somos capazes de ter uma postura
adulta e amadurecida ante a lição que encontramos neste versículo? Como
encontraremos as respostas do Pai aos nossos pedidos? Como encontrar o que
temos buscado? Como ver a porta se abrindo quando nela batemos?

Avancemos um pouco no livro, seguindo o caminho de Alcione e Robbie


nesta conversa: “— Estas palavras, meu filho, são um legado de Jesus. Não
reparaste na rogativa “perdoai as nossas dívidas, assim como perdoamos aos
nossos devedores”? Trata-se de um pedido que o Salvador nos prescreveu, e, se
não perdoas aos teus coleguinhas malcriados, como poderás viver, mais tarde,
enfrentando as dificuldades do mundo? Entretanto, como acontece a muita gente
adulta, que repete as expressões verbais, amorosas e sublimes, nas orações mais
significativas, sem lhes penetrar o sentido, conservando intactos a mágoa da
ofensa e o impulso de revide, o pequenino acrescentou: — Mas os meninos da
escola, mamãe, chamaram-me moleque.”

A questão que Robbie enfrentava era perdoar aos que lhe tinham ofendido.
Na oração que Jesus ensinou dizemos: perdoa as nossas ofensas como temos
perdoado a quem nos tem ofendido. Eis, então, uma chave que somos convidados a
experimentar. Aquilo que conseguirmos oferecer, seremos capazes de receber.
Queremos perdão, perdoemos. Queremos amor, amemos. Queremos compreensão,
saibamos compreender. Não é esta também a lição da belíssima oração de
Francisco de Assis? “Amar que ser amado, pois é dando que recebe, é perdoando
que se é perdoado...” É o orgulho que exige primeiro ser amado para depois amar,
é o egoísmo que exige que primeiro seja perdoado para depois perdoar, mas a lição
do Cristo é convite diferente e ainda muito difícil para nossos espíritos tão
arraigados nestes sentimentos de orgulho e egoísmo.

Emmanuel, no livro da Esperança, ao comentar o versículo 7 do cap. 7 de


Mateus, nos traz uma reflexão importante: “Não adquiriremos equilíbrio e
entendimento, abnegação e fé, unicamente desejando semelhantes aquisições.”

Olhemos um pouco para os verbos destes versículos: PEDI, BUSCAI,


BATEI. São ações, não são apenas desejos. Robbie esqueceu-se de orar, e quando
orou o fez de forma mecânica, quantas vezes nós o temos feito também. Pedir
auxílio é também momento de humildade, de quem se reconhece carecedor de
força moral para seguir a jornada e enfrentar as lutas cotidianas. Mas é preciso
reconhecer-se carecedor de auxílio, fazer esta viagem interior e assim, com o
coração sincero, apresentar-se ao Pai. Talvez Robbie pudesse ter dito em sua
oração, auxilia-me a perdoar porque está muito difícil, estou magoado, está doendo
estas ofensas...se não reconhecemos nossa dificuldade como poderemos ser
auxiliados em superá-la?

Emmanuel prossegue na lição: “Entretanto, se aplicarmos em nós as regras


em eu a eficácia acreditamos, sofreando impulsos inferiores, cinco, duzentas,
oitocentas, duas mil, dez mil ou cinquenta mil vezes, praticando humildade e
paciência, pela obtenção dos pequeninos triunfos do mundo íntimo, que somente
nós próprios conseguimos avaliar, conquistaremos o burilamento do espírito,
encontrando a palavra certa e a conduta exata, nas mais diversas situais variados
problemas. Tudo é questão de início e o êxito depende da lealdade à consciência,
porquanto exclusivamente aqueles que cultivam fidelidade à própria consciência
é que se dispõem a prosseguir e perseverar.”

Este último trecho – o êxito depende da lealdade à consciência – é


importante e merece nossa atenção. Lembremos que os espíritos nos ensinam que a
lei divina não está em papel ou palavras, mas gravada em nossas consciências.
Então, ao pedirmos, buscarmos, batermos, estamos na realidade entrando neste
mundo interior, acessando a lei divina que está gravada em nós, permitindo que
desperte em nossas vidas e, aos poucos, vá se plenificando em nossos viver.
(Questão 621 do LE: “621. Onde está escrita a Lei de Deus? “Na consciência.”
a) Visto que o homem traz em sua consciência a Lei de Deus, que necessidade
havia de lhe ser ela revelada? “Ele a esquecera e desprezara. Quis então Deus lhe
fosse lembrada.”)

Ainda buscando o amparo das lições de Emmanuel, agora no livro Segue-


me, em que também comenta este versículo de Mateus, encontramos a reflexão que
este pequeno trecho do livro Renúncia nos remete e nos convida a meditar: “Em
linguagem de todos os tempos isto quer dizer: desejai ardentemente e as
oportunidades aparecerão; empenhai-vos a encontrar o objeto de vossos anseios e
tê-lo-eis à vista; todavia é preciso combater o bom combate, trabalhar, agir e
servir para que se vos descerrem os horizontes e as realizações que demandais.
Semelhantes princípios regem as leis da prece. A oração ampara sempre; no
entanto se o interessado em proteção e socorro não lhe prestigia a influência,
ajudando-lhe a ação, a benefício dos seus próprios efeitos, de certo que não
funciona.”

Sabemos que a encarnação de Robbie é nova oportunidade de vida ao


espírito de Antero de Oviedo, que depois de um desencarne de muito sofrimento e
dor, retorna a vida na Terra para oportunidade de redenção. Assim, também nós
outros, estamos aqui em nova oportunidade, não lamentemos nossas limitações,
mas ergamo-nos em prece elevada de gratidão pelas oportunidades que nos são
concedidas. Não nos percamos em sentimentos de auto-piedade, uma vez que ainda
diante de nossas limitações e dificuldades temos a mão amorosa do Pai redentor a
nos auxiliar. Saibamos, enfim, encontrar na prece o alívio, conscientes porém, que
atraímos a todo instante o que nos acontece. Queiramos o amor, queiramos tanto,
mas tanto, que sejamos capazes de oferecê-los a todos que se encontram a nossa
volta.

Que a doce paz de Jesus nos envolva hoje e sempre.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 12.10.2014


Candice Günther
Estudo Renúncia Parte 2a

Emmanuel escreveu o livro dividindo-o em duas partes, cada qual com 7


capítulos. Tal qual os antigos faziam, cremos que estes livros, os romances, foram
escritos de tal forma que ao olharmos as lições dos capítulos da primeira parte com
os respectivos capítulos da segunda parte, encontraremos uma visão interpretativa
diferente, e as lições irão se ampliar, clarear. Fizemos este estudo com Paulo e
Estevão e ficou bastante claro e evidente que o livro foi escrito desta forma,
capítulo a capítulo, encontramos pontos de ligação e aprendemos muito com estas
ligações. Eis, então, que faremos isto, também, com o livro Renúncia, nesta etapa,
buscaremos o que os capítulos de número 2, da primeira e da segunda parte,
possuem em comum. A propósito, existe um nome para tal técnica de escrita e se
chama paralelismo, a Bíblia está repleta de paralelismos.

Ao lermos os capítulos de número 2 do livro Renúncia, encontramos alguns


aspectos interessantes, Paris é um ponto comum, na segunda parte do livro,
Madalena Vilamil retorna a Paris, agora com sua filha Alcione já crescida e
relembra os primeiros tempos de sua vida ao lado de Cirilo. E boa parte destas
lembranças estão narradas justamente na primeira parte do livro, no capítulo 2. É
como se o que ela estivesse relembrando de forma tão saudosa e nós estivéssemos
relembrando juntamente com ela, ao olharmos para o capítulo 2 na primeira parte
do livro.

Passei, então, a refletir um pouco sobre o assunto “lembranças” e convido os


amigos a seguirem comigo, com o auxílio de Alcione, Emmanuel e Kardec.

Um trecho do livro, Cap. 2 da segunda parte: “Para distrair Alcione e


Robbie, o velho amigo descrevia a beleza dos sítios mais atraentes da capital
francesa, falando com entusiasmo da suntuosidade dos templos e dos passeios
pitorescos pelas águas do Sena. Madalena ouvia-o atenta, identificando os sítios
de suas venturosas excursões em companhia do marido e parecia perder-se num
abismo insondável de saudades ansiosas e lindas recordações.

O que são nossas lembranças? Todos nós as temos, boas e ruins, fazem parte
de nossa história e da construção de quem somos hoje. Madalena lembrava-se de
Cirilo, que acreditava estar morto, em razão das mentiras contadas por Antero e
Suzana. E lembrava também de sua mocidade, dos sonhos, das esperanças e dos
caminhos que sua vida tomou, tantas e tantas vezes totalmente alheio a sua
vontade.

No livro Céu e Inferno, Kardec nos traz uma reflexão sobre nossas
lembranças: “A lembrança dos que nos são caros repousa sobre alguma coisa de
real. Não se nos apresentam mais como chamas fugitivas que nada falam ao
pensamento, porém sob uma forma concreta que antes no-los mostra como seres
viventes. Além disso, em vez de perdidos nas profundezas do Espaço, estão ao
redor de nós; o mundo corporal e o mundo espiritual identificam-se em perpétuas
relações, assistindo-se mutuamente.” Ainda que Cirilo tivesse realmente
desencarnado, não cessaria a troca e busca de pensamento entre os dois o que me
leva a um próximo raciocínio e reflexão: o quanto de nossas lembranças é vida
presente?

Pensamos sempre que lembrar é algo que nos remete ao passado, mas e se
não for? E se lembrar também for uma forma de materializar o que somos e
vivemos hoje? O que quero dizer é que a forma como trago esta lembrança, este
fato ocorrido no meu passado, para a minha vida hoje o materializa em meu viver,
o faz real no meu dia hoje, na minha forma de sentir e ver a vida. Cirilo é uma
realidade na vida de Madalena quando ela estava andando pelas ruas em Paris,
decorridos 20 anos, ele era seu amado, a pessoa em quem depositou todas as
esperanças de ventura e de quem sentia imensas saudades. Mas Cirilo também era
muitas outras coisas, era a sua experiência de amor, era o pai de sua filha, era um
homem de bem que lhe cruzou a jornada.

E conosco? Quais as nossas lembranças? Como as trazemos para o nosso


presente? Somos capazes de guardar os aspectos positivos, entendendo que a vida
é feita de brevidades, principalmente quando se trata de pessoas que amamos?
Meu irmão desencarnou aos 18 anos, quando eu tinha 14. E hoje, lhes asseguro,
apesar de toda saudade, de toda a dor que a família atravessou, eu passaria por tudo
novamente, se esta fosse a condição para estar ao lado dele e conviver com este
espírito amado, ainda que por breves 14 anos. E trago ele comigo, hoje, como uma
lembrança viva, como algo que me ajuda a construir uma pessoa melhor.

Lembranças!!! O que são em nossas vidas? Como as estamos carregando ao


longo de nossa jornada? E, como estamos construindo no futuro o que iremos
lembrar dos tempos atuais?
Ao iniciar estas reflexões, lembrei muito do livro Céu e Inferno de Kardec,
dos espíritos desencarnados que retornam para nos dar noticias de sua passagem. E
o livro nos mostra dos felizes aos infelizes, todos porém, falam-nos de suas
lembranças, do que aqui fizeram, viveram ou deixaram de fazer e viver. Vejam
este trecho: “Uma vida sem proveito, extinguindo-se, lega ao Espírito, que
encarnou, o mesmo que ao papel pode legar o fogo quando o consome — fagulhas,
que lembram às cinzas ainda compactas a sua proveniência, a causa do seu
nascimento, ou, se o quiseres, da destruição do papel. Essas fagulhas são a
lembrança dos laços terrestres que vinculam o Espírito, até que este disperse as
cinzas do seu corpo. Então, e só então, tem ele, eterizada essência, o
conhecimento de si mesmo, desejando o progresso.

“Conhecimento de si mesmo, desejando o progresso”, podemos começar


hoje? Quando Emmanuel disse que a psicologia de Alcione era muito mais
profunda do que as primeiras impressões nos levavam a crer, eu fiquei um tanto
curiosa em verificar o que esta jornada de estudos do livro iria trazer para a minha
vida. Eu nunca achei fácil esta viagem interior, esta busca de auto-conhecimento,
temos sempre perguntas difíceis a serem feitas. Mas é também um caminho
fascinante, se o fazemos amparados na mensagem de amor e perdão do Evangelho,
temos esta jornada suavizada, sim, porque precisamos de muito amor e perdão por
nós mesmos e por aqueles que nos cercam para fazer esta jornada.

Emmanuel, na questão 118 do livro o Consolador, nos amplia o significado


das lembranças: “Como se registram as experiências do Espírito em uma
encarnação, para servirem de patrimônio evolutivo nas encarnações
subseqüentes? -É no próprio patrimônio íntimo que a alma registra as suas
experiências, no aprendizado das lutas da vida, acerca das quais guardará sempre
uma lembrança inata nos trabalhos purificadores do porvir.”

Interessante esta perspectiva – patrimônio evolutivo – não apenas para esta


vida, mas para as vindouras. Nossas lembranças nos auxiliaram em nossa estrada,
precisamos, porém, aprender a guardá-las como um tesouro e não como um fardo.

Uma última questão que fiquei refletindo durante esta semana. Pensemos
juntos, Deus nos dá a benção da reencarnação e do esquecimento. Não lembramos
nitidamente do que fomos ou do que fizemos em vidas passadas, apenas
reconhecemos quem fomos ao vermos nossas tendências na presente encarnação.
Pois bem, pensemos, então, o que estamos levando desta vida que necessitaria de
esquecimento para o êxito em uma próxima vida? Bem-aventurada será aquele que
disser que de nada necessita esquecer. Haverá dia em que não precisaremos mais
esquecer, haverá dias que lembrar será verificar a construção de um homem de
bem. Trabalhemos por isso, hoje, na presente vida!!

Eis o convite, a lição e minha reflexão para este trecho. Perdoem as falhas,
os erros ortográficos que apesar das revisões de leitura, sempre me escapam aos
olhos. Compartilho com vossos corações minhas singelas impressões deste jeito de
estudar, capítulos espelhados, lições que se agigantam e nos fazem refletir.

Ainda buscaremos mais relações entre os dois capítulos, esta foi a que
primeiro nos chamou para a reflexão – lembranças!

Como o tema é delicado, deixo aqui a reflexão de Emmanuel do livro Palavra da


Vida Eterna:
“RECOMECEMOS
" Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho " - Jesus. (Mateus, 9 : 16.)
Não conserves lembranças amargas. Viste o sonho desfeito. Escutaste a resposta
de fel. Suportaste a deserção dos que mais amas. Fracassaste no empreendimento.
Colheste abandono. Padeceste desilusão. Entretanto, recomeçar é benção na Lei
de Deus. A possibilidade da espiga ressurge na sementeira. A água, feita vapor,
regressa da nuvem para a riqueza da fonte. Torna o calor da primavera, na
primavera seguinte. Inflama-se o horizonte, cada manhã, com o fulgor do Sol,
reformando o valor do dia. Janeiro a Janeiro, renova-se o ano, oferecendo novo
ciclo ao trabalho. É como se tudo estivesse a dizer: "Se quiseres, podes
recomeçar". Disse, porém, o Divino Amigo que ninguém aproveita remendo novo
em pano velho. Desse modo, desfaze-te do imprestável. Desvencilha-te do inútil.
Esquece os enganos que te assaltaram. Deita fora as aflições improfícuas.
Recomecemos, pois, qualquer esforço com firmeza, lembrando-nos, todavia, de
que tudo volta, menos a oportunidade esquecida, que será sempre uma perda
real.”

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 18.10.2014.


Candice Günther

Estudo do livro Renúncia


Parte 2b
Continuaremos nesta etapa a estudar os capítulos de número 2 da primeira e
segunda parte, buscando os pontos em comum e que nos possam trazer novos
aprendizados, lições evangélicas para nossas vidas, ainda tão imperfeitas.

Quando li este livro, uma das perguntas que me ocorreu foi o que motivou a
queda de Carlos, Suzane, Antero, olhando também para a minha vida e buscando o
que motiva os nossos erros e fracassos em cada existência. Com certeza não há
aqui uma resposta única, são muitos os caminhos que optamos e que nos levam a
estradas de dor e sofrimento, muitas vezes provocados por nós mesmos. Porém, ao
confrontar estes capítulos, uma questão mostrou-se reiterada nas afirmativas dos
partícipes da história, e é a incapacidade de renunciar. Alcione, pelo seu exemplo
amoroso de renúncia do seu próprio bem-estar a favor de muitos, deu título ao
livro, porém, ele agora ecoa muito mais alto, pois a ausência da capacidade de
renunciar nos remete a consequências desastrosas, como poderemos verificar no
decorrer da história. Estes são trechos iniciais, aquele momento em que temos duas
estradas para escolher, e não raro, optamos por um caminho tortuoso. Vejam
alguns trechos.

Cap. 2 – primeira parte – Suzane refletindo sobre o seu relacionamento


com Cirilo
“ Não era Cirilo o seu ideal? Que poderosa atração a retinha
encarcerada no seu sonho de ventura, sem energias para renunciar a
favor da outra que lhe ocupava o coração sincero? Sentiu que forte
emoção lhe afetava as fibras mais íntimas e com dificuldade afogava o
pranto no peito opresso, receando chorar diante do primo engolfado em
graves pensamentos.”
Mesmo sabendo que Cirilo tinha profunda afeição por Madalena, ela não
consegue renunciar ao seu desejo de infância de casar-se com Cirilo, e este
primeiro sentimento irá evoluir para ações desastrosas em sua vida. Se
refletirmos, veremos que há uma atitude egoísta que lhe impõe esta
incapacidade de renunciar. Temos no livro dos espíritos uma questão que
nos auxilia neste entendimento:
487. Dentre os nossos males, de que natureza são os de que mais se
afligem os Espíritos por nossa causa? Serão os males físicos ou os
morais?“O vosso egoísmo e a dureza dos vossos corações. Daí decorre
tudo o mais.”
Cap. 2 – primeira parte – Madalena, ante a possibilidade de não casar-se
com Cirilo e sim com Antero, em razão do compromisso assumido pelos
pais.
“Lembrava as lutas domésticas, os enormes débitos do genitor para com
Antero de Oviedo, as combinações de ambos para o futuro matrimônio,
com sacrifício dos seus ideais, e não conseguia dissimular a imensa dor
que lhe avassalava o coração sensível, ante a possibilidade de perder
Cirilo, compelida pelas humanas convenções a renunciar à sua união com
o jovem em cujo espírito adivinhava a fonte de todas as sublimes
compreensões de que sua alma necessitava para ser feliz.”
Primeiramente, é importante dizer que não estamos aqui fazendo juízo de
valor, não estamos buscando atitudes certas ou erradas, apenas observando
que determinadas possibilidades de renúncia nos encaminham para
vivências de resgate que por vezes não estamos prontos ou não
conseguimos. É certo que Madalena tinha profunda ligação com Antero,
fato este confirmado mais a frente com a reencarnação dele como Robbie,
adotado como filho por Madalena. Esta perspectiva nos leva a um alcance
maior do quando ainda carecemos de auxílio e fortalecimento moral para
que sejamos capazes de amar, ainda que através da renúncia de nossa
felicidade.

Cap. 2 – primeira parte – Antero, ante a recusa de Madalena em efetivar o


compromisso anteriormente assumido.
“Ante aquelas manifestações carinhosas, Antero pareceu lavar o coração,
expulsando para longe do espírito as mágoas mais fortes; contudo, no
recesso do ser guardava rancor indefinível e profundo, que lhe arruinaria
a existência. Sentia-se sem forças para alijar a figura da prima do quadro
das idealizações mais íntimas. Conformar-se-ia com o inevitável, mas não
renunciaria aos seus desejos.”
A vida é de Antero, mas a lição é para nós outros. Saibamos sondar nossos
sentimentos e entendê-los com profundidade, Antero conformou-se, mas
em seu íntimo permaneceu o desejo que iria, mais a frente, tentar
satisfazer. O conhecimento das várias encarnações nos é fonte de um
entendimento que não podemos desperdiçar, a fim de que nos acalme e nos
console quando nesta vida não pudermos vivenciar o que acreditaríamos
ser fonte de nossa total felicidade. São enganosos esses caminhos, quando
trilhados apenas por um sentimento, apenas pela busca da satisfação
pessoal. Queremos ser felizes? Saibamos fazer a quem está ao nosso lado
feliz, é o primeiro passo.

Cap. 2 da segunda parte - Madalena, no sonho de visitar a América e estar


com os familiares de Cirilo.
“Desejava, sinceramente, poder um dia abraçar os Davenport. Nunca
renunciara ao propósito de ouvir algum sobrevivente do naufrágio em
que, segundo a carta de Blois, perdera o esposo amado.”
Relutei um pouco em colocar este trecho, porque ele é bem mais brando
que os outros, porém, se refletirmos um pouco além veremos que mesmo
este gesto de Madalena lhe trazia um pouco de dor, que a ninguém
prejudicava senão a ela mesma. Nossa dificuldade em seguir adiante
depois das tempestades vividas é fato, com Madalena não foi diferente.
Que saibamos encontrar em Jesus o depositório das nossas mais íntimas
esperanças, do contrário, ainda naufragaremos muitas vezes.

Cap. 2 da segunda parte – sobre Carlos e sua afeição por Alcione,


primeiramente na visão do Padre Damiano e o outro trecho num
comentário do próprio autor do livro (Emmanuel).
“Por outro lado, pressinto em meu sobrinho manifesta incapacidade de
renúncia. A meu ver, ele deu tréguas ao problema, sem o quitar no
coração. Quando menos esperarmos, voltará ao assunto com argumentos
novos.”
“(...) Clenaghan, no entanto, mantinha-se em atitude reservada, O tutor
lhe confiara a igreja de São Vicente com severas recomendações. Fizera-
lhe sentir maiormente o quadro de responsabilidades que o cercavam e
induzia-o a manter o espírito de renúncia e sacrifício no coração, qual
fogo sagrado da sua tarefa. Carlos, porém, parecia alheio aos exercícios
religiosos. Alcione era sua preocupação máxima.”
Pólux/Carlos estava cheio de planos quando desencarnado, mas como ele,
nós nos esquecemos facilmente dos compromissos assumidos. Eis o tão
necessário autoconhecimento, o sondar constantemente nossas
consciências a fim de que busquemos sempre o caminho do bem e do
amor. A prece, a sintonia com os bons espíritos são um meio eficaz de nos
mantermos vigilantes e termos as nossas forças renovadas para as tarefas
árduas que se nos apresentam.
Cap. 2 da segunda parte - Postura de Alcione, após descobrir que o homem que lhe
auxiliara na praça, era seu pai e que trabalharia na casa dele como serviçal,
ocultando sua condição de filha: “— Não podemos fugir. Não seria Deus que me
conduziu à casa paterna para que eu aprendesse alguma virtude das que se ligam
à divina humildade? Não creio que meus parentes precisem de mim para alguma
coisa, mas, sinto que necessito deles para acendrar meu coração. O velho
sacerdote acolhia, profundamente comovido, aquela preciosa lição de renúncia.”

Ao confrontar estes trechos, fica nítida a causa que levou a tantas dores e
sofrimento no decorrer desta sublime história. Tivesse Alcione também falhado,
quantas tragédias mais não haveriam. Onde estamos? Como anda a nossa
capacidade de renunciar, de olvidarmos do nosso bem estar em benefício dos que
nos cercam? Eis o convite de reflexão deste trecho.

André Luiz, no livro Mensageiros, ouvindo as instruções de Narcisa, é


chamado a refletir: “Quando crescemos para o Senhor, seus ensinos crescem
igualmente aos nossos olhos. Vamos fazer o bem, meu caro! Encha seu cálice com
o bálsamo do amor divino. Já que você pressente os raios da alvorada nova,
caminhe confiante para o dia!...” Nosso coração precisa aprender a alegria que é
servir, Deus nosso Pai nos serve a todo instante através de sua magnífica criação, e,
criados a sua imagem e semelhança, apenas o caminho no bem e no amor será
capaz de encher as taças vazias de nossos corações.

Todos estes trechos que deixaram com algumas perguntas, que compartilho
também. Há em minha vida alguma situação em que estou sendo convidada a
renunciar em favor de outrem? Estou atenta a este convite evolutivo? Em meu
passado, já tomei decisões em desacordo com esta lição? Quais as consequências?
Onde, ainda, reside a minha incapacidade de renunciar?

Encerro com um trecho do livro Boa Nova em que Jesus fala a Pedro sobre
renunciar, completando com chave de ouro nossa singela reflexão, imbuídos
sempre no espírito de aprendizes do evangelho: “Jesus pôs nele o olhar lúcido e
respondeu:
Pedro, o amor verdadeiro e sincero nunca espera recompensas. A renúncia é o
seu ponto de apoio, como o ato de dar é a essência de sua vida. A capacidade de
sentir grandes afeições já é em si mesma um tesouro. A compreensão de um amigo
deve ser para nós a maior recompensa. Todavia, quando a luz do entendimento
tardar no espírito daqueles a quem amamos, deveremos lembrar-nos de que temos
a sagrada compreensão de Deus, que nos conhece os propósitos mais puros. Ainda
que todos os nossos amigos do mundo se convertessem, um dia, em nossos
adversários, ou mesmo em nossos algozes, jamais nos poderiam privar da alegria
infinita de lhes haver dado alguma coisa!...”

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 25.10.2014.


Candice Günther
Estudo Renúncia Parte 2c

“(...) acalma-te. A irritação impede qualquer entendimento


mútuo.”

Susana Duchesne – Cap. 2 – primeira parte

A frase traz um conteúdo verdadeiro e nos remete a reflexão, porém, o que


me chamou a atenção e me levou a alguns questionamentos é quem pronuncia a
frase: Susana! Certamente quem já leu o livro sabe que o fim de Susana não foi de
alguém de conseguia vivenciar a calma ou isentar-se da irritação, então, gostaria de
refletir um pouco sobre isso. Poderíamos afirmar que quem disse a frase ainda não
aprendeu a vivenciá-la?

Sabemos, como Susana o sabia, a importância de nos mantermos calmos, de


evitarmos irritações, contendas, porém, raros são os que conseguem manter-se em
equilíbrio ante as tribulações da vida ou, ainda que a situação não seja tão crítica
ou grave, é comum nos deixarmos levar pela irritação. Qual a razão? Por que
sabemos a teoria e não a vivenciamos? E o que, ainda, nos é apenas teoria? Creio
que só descobrimos que ainda é mera teoria dentro de nós o conhecimento que
aprendemos quando somos defrontados na vida por situações em que agimos em
desacordo com o que acreditamos ou pregamos.

No Evangelho de Mateus, na passagem que nos conta a prisão de Jesus,


temos um episódio que, creio, nos auxiliará nesta reflexão. No cap. 26:51-53
(Tradução Haroldo D. Dias) encontramos: “E eis que um dos que (estavam) com Jesus,
estendendo a mão, puxou a espada e, ferindo o servo do sumo sacerdote, tirou-lhe
a orelha. Então, Jesus lhe disse: Retorna a tua espada para o lugar dela, pois
todos os que tomam a espada, morrem pela espada, ou pensas que não posso
chamar meu Pai, e ele (não) colocaria ao meu dispor, agora, mais de doze legiões
de anjos?” Sabemos, hoje, pela psicografia de Humberto de Campos, no livro Boa
Nova que quem levantou a espada foi Pedro. E, então, novamente somos levados a
questionar quais as razões que nos levam agir em desacordo com o que
aparentemente acreditamos. Pedro conviveu ativamente com Jesus, conhecia sem
exemplo de amor, perdão e, principalmente, sua conduta pacifista. Mas na hora de
prisão, mesmo Jesus estando tranquilo, Pedro e muitos que o cercavam,
abandonaram a calma.

Vejamos um trecho do livro Boa Nova: “Pedro não quis acreditar nas
afirmações do Messias e tão logo se verificara a sua prisão, no pressuposto de
demonstrar o seu desassombro e boa disposição para a defesa do Evangelho do
Reino, atacou com a espada um dos servos do sumo sacerdote de Jerusalém,
compelindo o Mestre a mais severas observações.” E no parágrafo imediatamente
anterior, em que Jesus já sentia o animo dos seus discípulos ante o que se
aproximava: “Não, Pedro adiantou o Mestre, com doçura —, não te suponho
ingrato ou indiferente aos meus ensinos. Mas vais aprender, ainda hoje, que o
homem do mundo é mais frágil do que perverso.”

Voltemos, então, à Susana, seria ela mais frágil que perversa? E as pessoas
que nos cercam, seriam elas mais frágeis que perversas? E, ainda, nós outros, ante
a infinidade de equívocos que cometemos, percebemos nossa fragilidade? No livro
Paulo e Estevão há uma frase que nos auxilia: “Toda planta é frágil quando
começa a crescer.” Eis a nossa condição, plantas frágeis em crescimento, e
cresceremos, cada um no seu tempo, na sua estação.

Por hora, cuidemos da terra que nos cerca, adubando-a com boas ações,
permaneçamos vigilantes para que a seiva que corre dentro de nós seja rica em
nutrientes, esforcemo-nos com esperança, mas com a consciência da nossa
fragilidade, do contrário ficaremos parados no tempo, presos na culpa do que não
fizemos ou do que, ainda, não somos. A culpa paralisa, o arrependimento nos move
para ações reparadoras.

Pensemos amigos, fomos criados simples e ignorantes. Deus não pede de


nós a perfeição, ele não nos criou perfeitos, sabe que estamos em caminho de erros
e acertos. O que Ele nos pede é que o deixemos participar de nossa estrada, e
quando deixamos, é o amor que surge, o mais doce e sublime amor.

Certa feita eu li uma história sobre árvores e que, em resumo, dizia que
apenas aquela de passou por intempéries quando estava crescendo criou raízes
profundas capazes de suportar a tempestade, quando esta chegou. Assim,
terminamos estas breves reflexões com o pensamento de que ainda somos frágeis e
é exatamente por isso que passamos por dificuldades, Emmanuel, no livro Justiça
Divina, corrobora o que ora vos afirmo: “Afirmas-te frágil, quando precisamente
por isso é que as tribulações nos sitiam a estrada, a fim de que saibamos
conquistar o apoio da fortaleza.”

Que Jesus nos auxilie na jornada.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 01.11.2014.


Candice Günther
Estudo Renúncia Parte 2d

“No ninho, vivíamos de amor e paz; na casa, a existência obedeceu às


imposições dos cuidados numerosos pelas muitas convenções sociais.
Não quero dizer com isso que as casas sejam organizações
dispensáveis, e sim que devem ser ninhos simples e acolhedores,
onde cada membro da família experimente a tranquilidade devida.”
Jaques Duchesne – Cap. 2 (primeira parte)

Tão boa a sensação de encontrar paz e tranquilidade no lugar que chamamos


de lar. Porém, quantos de nós encontramos no lar um ninho simples e acolhedor,
em que todos experimentam a tranquilidade? Será que já paramos para refletir
sobre isso? Será que nos empenhamos para vivermos assim? Ou já fomos
absorvidos pela ideia de consumismo e riqueza que vigora em nossa sociedade?

E se nossos lares não são “ninhos simples e acolhedores”, será isso um


reflexo de quem somos e de como estamos optando por viver? Ou, ainda, se somos
templos divinos, casas em construção, nosso ser também poderá ser “simples e
acolhedor”?

Vejamos o que nos diz o Evangelho de Mateus 6:19-21 e 26: “Não


entesoureis para vós tesouros sobre a terra, onde a traça e a corrosão consomem,
e onde os ladrões arrombam e roubam. Entesourai para vós tesouros no céu, onde
nem a traça nem a corrosão consomem, e onde os ladrões não arrombam nem
roubam. Pois, onde está o teu tesouro, ali estará também o teu coração. (...) Olhai
as aves do céu, que não cemeiam, nem recolhem em celeiros, e vosso Pai
celestial as alimenta. Não valeis muito mais do que elas?” (Tradução Haroldo D. Dias)

Eis o tema em que gostaria de refletir convosco: simplicidade. A figura de


aves no céu, que não cemeiam, nem recolhem em celeitos nos dá esta visão, de
algo simples e que está adequado às leis divinas. Antes, porém, lhes digo de
antemão que quando nos propomos a estudar, em geral somos o aluno mais
necessitado. Bastou alguns dias refletindo e pesquisando sobre o tema para
constatar que estou longe, bem longe de ser a pessoa simples que achava ser.
Então, compartilho apenas o estudo que fiz, tentando aprender e entender. Não sou
alguém que lhes vem ensinar, mas uma pessoa que está buscando aprender. Trilhei
um caminho de pesquisa e reflexão por alguns dias, e a primeira pergunta que fiz a
mim mesma: sou uma pessoa simples?

O vernáculo nos aponta o caminho, mas não resolve a questão, vejamos o


conceito de simplicidade: “s.f. Qualidade daquilo que é simples; característica do
que não é complexo; desprovido de complicação; que não é composto; modo de se
comportar espontâneo; falta de pretensão; de natureza autêntica; que não se
altera por componentes exteriores; modo autêntico e espontâneo de se expressar
(falar ou escrever); elegância; característica, particularidade ou natureza da
pessoa sincera; franqueza; falta de luxo; sem sofisticação.” (Dicionário On line de
Português).

Voltando um pouco ao texto do livro Renúncia, é interessante pensar em


quem está pronunciando estas palavras e o quanto elas são verdadeiras em sua
vida, afinal, Jaques Duchesne tentou viver de forma simples, não obstante sua
família ter ido por caminhos diversos, e neste dizer que grifamos no início, ele
aconselhava Cirilo para que também assim procedesse em sua vida conjugal.
Sabemos, através dos livros Sementeiras de Luz e Colheitas no Bem, que Jaques
Duschene é o mesmo espírito que Cneio Lucios do livro 50 anos depois, bem como
Arthur Joviano, que morreu em 1934. Foi pai de Rômulo Joviano, chefe de Chico
Xavier na Fazenda Modelo da Inspetoria Regional do Serviço de Fomento da
Produção Animal, na cidade de Pedro Leopoldo. Assim, se quem nos diz viveu o
que apregoa, será de bom alvitre ouvirmos o conselho.

O conselho é para que se viva com simplicidade. E se lermos com atenção a


definição de simplicidade, veremos que nem de longe ela se refere apenas a
questões materiais. E é justamente aí que as coisas vão se complicando, quando
olhamos o nosso sentir, o nosso pensar, o nosso falar e em última instância, o
nosso viver.

Kardec foi chamado de “a simplicidade encarnada” (Revista Espírita de 1869), e,


também ao falar, escrever e pensar, mantinha esta característica, vejamos, por
exemplo, na Revista Espírita de 1858, quando fala sobre as mesas girantes:
“Narramos o fato em toda a sua simplicidade, sem restrição nem exagero.”
Perdoem amigos, mas este estudo será farto de perguntas, até mesmo porque se não
sou simples, pouco tenho a ensinar sobre a simplicidade, mas podemos pensar
juntos e, quiçá, melhorarmos um pouquinho. Eis então, a observação de quem olha
o outro e imediatamente volta para si: como anda o meu falar? Simples, sem
restrição ou exagero?

Sigamos em frente, ainda nos socorrendo nos tesouros contidos das Revistas
Espíritas, ainda na de 1858, ao falar sobre Daniel Dunglas Home: “É um rapaz de
estatura mediana, louro, cuja fisionomia melancólica nada tem de excêntrica; é de
compleição muito delicada, de maneiras simples e suaves, de caráter afável e
benevolente, sobre o qual o contato com os poderosos não lançou arrogância nem
ostentação. Dotado de excessiva modéstia, jamais faz alarde de sua maravilhosa
faculdade, nunca fala de si mesmo e se, numa expansão de intimidade, conta
coisas pessoais, é com simplicidade que o faz e jamais com a ênfase própria das
pessoas com as quais a malevolência procura compará-lo. Diversos fatos íntimos,
de nosso conhecimento pessoal, provam seus sentimentos nobres e uma grande
elevação de alma.” É interessante que ao olharmos o uso das palavras, vamos
alcançando o seu significado e ampliando o nosso olhar, o conceito de
simplicidade, assim, vai ganhando novos ares, vamos atribuindo a pessoas, e que
pessoas!! Cheias de virtudes que tanto almejamos e que muitas vezes
reconhecemos em outros. Mas vejam, se a simplicidade é característica de espíritos
elevados, tenhamos o senso de observação aguçado para perceber que muitos
aparentam sabedoria, conhecimento, elevação, mas seria possível tudo isso, sem
simplicidade?

Característica dos espíritos elevados, a simplicidade, que não faz alarde de si


mesma, e acompanha outras virtudes, que sem ela não poderiam existir: “Modéstia
sem simplicidade é falsa modéstia. Sinceridade sem simplicidade é exibicionismo
ou cálculo. A simplicidade é a verdade das virtudes: cada virtude só é ela mesma
se livre da preocupação de parecer, e mesmo da preocupação de ser (sim: livre de
si!), se, pois, for sem rebuscamento, sem artifício, sem pretensão. Aquele que só é
corajoso em público, generoso em público, virtuoso em público não é
verdadeiramente corajoso, nem verdadeiramente generoso, nem verdadeiramente
virtuoso. E aquele que só é simples em público (isso acontece: alguns tratam de
“você” o primeiro que aparece, mas tratam a si mesmos de “senhor” diante do
espelho) é simplesmente amaneirado. “A simplicidade afetada”, dizia La
Rochefoucauld, “é uma impostura delicada.” Qualquer virtude, sem a
simplicidade, é pois pervertida, como que esvaziada de si mesma, como que cheia
de si mesma.”(Pequeno tratado das grandes virtudes)
Chegamos, então, num ponto crucial, simples é diferente de composto e se o
conceito serve para as coisas materiais, também serve para a nossa capacidade de
sermos muitos. Somos gentis com os desconhecidos, mas e em nosso lar? Somos
benevolentes na teoria, mas e no trânsito? Somos fraternos no templo religioso,
mas o no trabalho? Ser simples é ser um só, autêntico, desprovido do “parecer ser”.

“O simples é aquele que não simula, que não presta atenção (em si, na sua
imagem, na sua reputação), que não calcula, que não tem artimanhas nem
segredos, que não tem segundas intenções, programa, projeto… Virtude de
infância? Não creio muito. É antes a infância como virtude, mas uma infância
reencontrada, reconquistada, como que libertada de si mesma, da imitação dos
adultos, da impaciência de crescer, da grande seriedade de viver, do grande
segredo de ser si mesmo… A simplicidade só se aprende pouco a pouco.” (Pequeno
tratado das grandes virtudes)

Verdades são simples, e é pouco a pouco que as aprenderemos. A questão é


que para aprender leva tempo, vidas, e, atenção, lucidez, para que não fiquemos
com a impressão de termos algo, ou sermos algo que ainda não alcançamos.

Retornemos, então ao evangelho, ao dizer do Cristo: “Olhai as aves do céu,


que não cemeiam, nem recolhem em celeiros, e vosso Pai celestial as alimenta.”
Confiemos na ação divina em nosso viver e sigamos em frente, nas palavras de
André Luiz, cultivando a simplicidade.

Eu prefiro ter a dimensão de quem eu sou do que prosseguir com a ilusão.


Fazer este estudo me trouxe um novo olhar sobre diversas coisas em minha vida,
aspectos que precisarei trabalhar por muito tempo e o farei, com a ajuda do nosso
Pai Criador. Só seremos capazes de trabalharmos o nosso autoconhecimento se
tivermos a coragem de olharmos quem somos verdadeiramente.

E se nos reconhecemos distantes do ideal de simplicidade, temos a presença


do Cristo entre nós como um norte, um exemplo de alguém que desde o
nascimento viveu na mais pura simplicidade. Se já aceitamos que a simplicidade é
característica de espíritos de grande elevação moral, fácil será reconhecer em Jesus
a simplicidade em sua melhor versão. Assim, encerro estas reflexões com a
mensagem de André Luiz no livro Seara da Fé, intitulada Simplicidade:

“Era ele tão simples que nasceu sem a proteção das paredes domésticas. Não
encontrou senão alguns homens iletrados e rudes que lhe apoiaram o trabalho
na construção da obra imensa. Ensinava as revelações do Céu, nas praias e nos
campos, quando não estivesse em casas e barcos emprestados. Conversou com
mulheres anônimas e algumas crianças esquecidas. Todos os infelizes se lhe
fizeram a grande família. Valorizava a amizade, com tal devotamento, que
chorou por um amigo morto. Alimentou os que tinham fome. Restaurou os
doentes e defendeu todos aqueles que se vissem humilhados pela injustiça.
Aconselhou o respeito para com as autoridades do mundo e a obediência
perante as leis de Deus. Pregou sempre o amor e a concórdia, a solidariedade e
o perdão, a paciência e a alegria. Mas, porque se abstivesse de partilhar o
carro das vantagens terrestres, foi conduzido à cruz e a morte dele passou como
sendo a de um malfeitor. Entretanto, desde o extremo sacrifício, transformou-se
no símbolo de paz e renovação para o mundo inteiro. Esse herói da
simplicidade tem o nome de Jesus Cristo. Seu poder cresce com os séculos e a
sua mensagem, ainda hoje quanto sempre, é a esperança dos povos e a luz das
nações.”

Que a doce paz de Jesus nos envolva, hoje e sempre.

Campo Grande – MS, 08.11.2014.

Candice Günther

Estudo do livro Renúncia


Parte 2e

“Compreendia a inutilidade de se entregar a lamentações estéreis.


Certo, Deus não lhe havia concedido as claridades divinas da fé para
as horas tranquilas da existência. Seu coração detinha o depósito
sagrado, a fim de aprender a nortear-se para o mais alto, ainda que
desabassem as mais violentas tempestades. Esse pensamento
tranquilizou-a. Não acreditava em Jesus como Salvador distante, sim
como Mestre amado, presente em espírito às lições dos discípulos
entre os sofrimentos e experiências do mundo. Sentia-se em momentos
de testemunho. O Senhor não a esqueceria. Da sua inesgotável
bondade viriam recursos inesperados. Prosseguiria esforçando-se e
estava certa de que a mão de Jesus viria em seu socorro.” Trecho do Cap.
2 da segunda parte

Este estudo que estamos realizando do livro Renúncia, será realizado em 7


etapas, cada uma delas subdividida em trechos que ora buscam as relações entre os
capítulos espelhados, por exemplo, capítulo 1 da primeira parte com capítulo 1 da
segunda parte, ora buscam trechos do livro sob as luzes do evangelho do Cristo.
Estamos, nesta etapa, nos debruçando sobre o capítulo 2 da segunda parte,
buscando lições evangélicas para nossos corações tão necessitados.

Temos, neste trecho, um momento de reflexão pessoal de Alcione, em que


convidada ao desânimo e ao desalento ante as duras lutas da vida, busca nas
claridades da fé que já existia em seu coração a força para prosseguir. E neste
trecho fiz uma pausa, para refletir alguns dias sobre a fé, sobre as claridades da fé.

Alcione, em sua jornada entre nós, atravessou momentos de muita dor,


provas duríssimas que seu espírito iluminado enfrentou e que Emmanuel nos traz
como lição, como inspiração. Entendemos a fé de Alcione? Podemos aprender com
ela e construirmos em nós estas claridades? Como é a nossa fé? Ela tem sido fonte
de consolo e amparo quando a vida se torna difícil?

No evangelho de Mateus, cap. 17, nos relata os fatos quando Jesus curou um
epilético, que seus discípulos não foram capazes de curar, há momento em que diz
a frase “Que geração incrédula e perversa! Até quando terei de estar convosco e
aguentar-vos” após este dizer, questionado pelos discípulos que não entendiam as
razões pelas quais não conseguiram curar o menino, prossegue no versículo 20 e
nos traz preciosa lição: “— Por vossa pouca fé. Eu vos asseguro:se tivésseis fé
como um grão de mostarda, diríeis aquele monte que se deslocasse dali, e ele se
deslocaria. E nada seria impossível para vós.” Na Revista O Reformador de 1957,
Emmanuel nos traz valiosa reflexão sobre este trecho:

“É importante indagar porque não teria o Mestre recorrido a outros


símbolos. Jesus poderia ter destacado a grandeza da fé, buscando quadros mais
sugestivos. A beleza do Hermon… A poesia do lago de Genesaré…O esplendor do
firmamento galileu…A riqueza do Templo de Jerusalém…
Todos esses primores da paisagem que o circundava ofereciam temas vivos para a
exaltação da sublime virtude. Entretanto, o Benfeitor Celeste toma a semente
minúscula da mostarda, como a dizer-nos que sem o reconhecimento de nossa
própria pequenez à frente do Eterno Amor e da Eterna Sabedoria não
conseguiremos amealhar o tesouro do entendimento e da confiança que a fé
consubstancia em si mesma. A semente microscópica desaparece, em verdade, no
seio da Terra, qual se fora inútil ou desprezível, todavia, não se abandona à
inércia, por sentir-se relegada ao abandono aparente. Confia-se às leis que nos
regem e, na dinâmica da obediência construtiva, desvencilha-se dos envoltórios
inferiores que a encarceram; germina, vitoriosa, e cresce para produzir, não para
si mesma, mas, para benefício dos outros, num eloquente espetáculo de bondade
espontânea, ante a majestade da natureza.
Possa o nosso coração, no solo das experiências humanas, copiar-lhe o impulso
de simplicidade e serviço e a nossa existência será testemunho insofismável da
magnificência divina cuja sublimidade passaremos então a refletir. Assim, pois,
cessemos nossas indagações descabidas e busquemos na Criação o justo lugar que
nos compete. Nem com o brilho do diamante, nem com a cintilação do ouro, nem
com a sedução da prata, nem com a aristocracia do mármore, em que tantas vezes
temos procurado simplesmente a ilusão do poder que a morte arrebata e modifica,
mas, sim com a humildade viva do grão de mostarda que, arrojado à solidão da
Terra, sabe vencer, desabrochar, florir e cooperar na extensão da glória de
Deus.”

Vejam, que ao descrever a semente da mostarda, podemos visualizar a doce


Alcione, como se neste trecho Emmanuel estivesse a descrevendo: “Confia-se às
leis que nos regem e, na dinâmica da obediência construtiva, desvencilha-se dos
envoltórios inferiores que a encarceram; germina, vitoriosa, e cresce para
produzir, não para si mesma, mas, para benefício dos outros, num eloquente
espetáculo de bondade espontânea, ante a majestade da natureza.”
Tantas virtudes em tão poucas palavras, cabe-nos aqui a tarefa da reflexão
sem pressa, do olhar corajoso que volta para si e pergunta, quem eu sou, ante estas
lições? Confiamos? Obedecemos? Desvencilhamo-nos das inferioridades?
Beneficiamos os outros com nosso crescimento? Somos bons? Não sei quanto ao
leitor, mas eu que vos escrevo, compartilhando minhas reflexões, não sou capaz de
responder a estas questões com um bom e estrondoso “sim”. Mas não desisto,
como um estudante que tem o desejo sincero de aprender e melhorar não deve
abaixar a cabeça em tom derrotista, deve ir além, perguntar, olhar-se com coragem,
amadurecer seus sentimentos, sigamos nós outros, mais um pouco, então, em
nossas reflexões.

No Capítulo XIX do Evangelho Segundo o Espiritismo, encontramos um


trecho vem em nosso auxílio:

“(...) A fé é humana ou divina, conforme o homem aplica suas faculdades à


satisfação das necessidades terrenas, ou das suas aspirações celestiais e futuras.
O homem de gênio, que se lança à realização de algum grande empreendimento,
triunfa, se tem fé, porque sente em si que pode e há de chegar ao fim colimado,
certeza que lhe faculta imensa força. O homem de bem que, crente em seu futuro
celeste, deseja encher de belas e nobres ações a sua existência, haure na sua fé, na
certeza da felicidade que o espera, a força necessária, e ainda aí se operam
milagres de caridade, de devotamento e de abnegação. Enfim, com a fé, não há
maus pendores que se não chegue a vencer. O Magnetismo é uma das maiores
provas do poder da fé posta em ação. É pela fé que ele cura e produz esses
fenômenos singulares, qualificados outrora de milagres. Repito: a fé é humana e
divina. Se todos os encarnados se achassem bem persuadidos da força que em si
trazem, e se quisessem por a vontade a serviço dessa força, seriam capazes de
realizar o a que, até hoje, eles chamaram prodígios e que, no entanto, não passa
de um desenvolvimento das faculdades humanas. – Um Espírito Protetor. (Paris,
1863.)”

A fé é humana e é divina!! Como este entendimento nos trás novas


possibilidades e luzes. Porque ora acreditamos apenas em nós mesmos, ora
depositamos todas as esperanças na ação divina e permanecemos inertes. Eis
chegada a ora de unirmos, como nos ensina o evangelho e nos exemplifica
Alcione. Saber-se com faculdades que nos possibilitam agir e acreditar que o Pai
Maior rege nossas vidas. Vejam o quanto o Evangelho do Cristo se coaduna com o
pensamento de Alcione, no trecho que selecionamos: “Da sua inesgotável bondade
viriam recursos inesperados. Prosseguiria esforçando-se e estava certa de que a
mão de Jesus viria em seu socorro.” Esperava em Deus, mas prosseguia
esforçando-se.

Saibamos, também, cultivarmos a fé que edifica, a fé raciocinada, que


aprende com os erros e não fica paralisada na culpa. Temos em nosso socorro um
Pai amoroso, soberanamente justo e bom, temos um irmão que veio até nós para
vivenciar nossas dores e nos mostrar o caminho a seguir, fazendo-se Mestre pelo
muito que amou, nosso irmão Jesus, temos, ainda, os benfeitores espirituais que
não se cansam de nos intuir e auxiliar na jornada e temos a nós mesmos,
capacitados pelo Pai Maior e triunfarmos das lutas e dores da travessia. Sigamos,
então, confiantes, lembrando das palavras de Paulo, de que todas as coisas
cooperam para o bem daqueles que amam ao Senhor. E, por fim, lembremos das
palavras de Emmanuel, no texto acima citado, e que seja esta a nossa prece: “Possa
o nosso coração, no solo das experiências humanas, copiar-lhe (do grão de
mostarde/de Alcione) o impulso de simplicidade e serviço e a nossa existência será
testemunho insofismável da magnificência divina cuja sublimidade passaremos
então a refletir.”

Que as luzes divinas do evangelho nos alcancem e promovam em nós as


mudanças que tanto necessitamos.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 15.11.2014.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 2f

“— Cinjo-me às próprias lições que me destes desde a infância. Será


que Jesus peregrinou pela Terra somente para que o admirássemos?
Teria sido escrito o Evangelho apenas para que os homens
encontrassem nas suas páginas motivos de apologias brilhantes? Sua
palavra, padre, não me inculcou, sempre, que permanecemos no
mundo com o santo objetivo de purificar o coração? Deus quer que
nos amemos uns aos outros. (...) Estou muito longe de compreender
verdadeiramente o Cristo, mas, não obstante, certa de não ter vindo a
este mundo para descanso e gozo fictícios. Aliás, nosso raciocínio
deve ser claro: se o Salvador veio à Terra provar os testemunhos
mais ásperos, vertendo sangue e lágrimas, por que darmos tanta
importância a algumas gotas de suor, vertidas em benefício
próprio?” Trecho do Cap. 2 da segunda parte

O trecho acima está localizado na parte em que Alcione conversa com Padre
Damiano sobre as descobertas de que o homem que lhe auxiliara na praça e
também para cuja família ela foi trabalhar, é na verdade seu pai, Cirillo Davenport.
Descortinam a trama criada por Suzana e Antero, em tempos remotos.
Imaginemos, apenas por alguns instantes, a dor que sentiríamos se isso nos
acontecesse. Pois foi pensando na dor, nas adversidades da vida que parei alguns
dias para refletir sobre o assunto. Afinal, por que sofremos? Por que necessito da
escola dor em minha vida? E, olhando para o que já aconteceu, para dores já
vividas, posso abstrair a verdade irrefutável de que a dor me melhora? Ou será
mero desperdício de energia e tempo?

Sabemos todos da condição do nosso planeta, que é lugar de provas e


expiações, tendo como consequência lógica que nós outros, que aqui estamos,
passamos por etapa evolutiva que burila nossas imperfeições. Em simples palavras,
não há um só ser vivente neste planeta azul que não tenha em algum momento de
sua vida passado por alguma dor ou infortúnio. E se é fato, talvez fosse de boa
inteligência, aceitar o conselho trazido pela benfeitora Meimei, no livro Relicário
de Luz: “se aceitamos as bençãos do seu apostolado sublime, converte-se, a
estranha companheira dos nossos destinos, em suave benfeitora, preparando-nos
para a vitória divina, de vez que só ela é bastante forte e bastante serena para
sustentar-nos até o ingresso feliz, no Reino Celestial.” O convite a resignação é
evidente e cada um de nós o conhece e o experimenta diariamente.

Olhando um pouco para a vida de Alcione e para a vida de Jesus, tenho para
mim que, enquanto estiveram encarnados, estes já não passaram por dores, tal qual
nós a entendemos, por estarem nos braços amorosos do Pai em comunhão bendita
e constante, a suposta dor que passaram ficaria mais bem revestida se lhe déssemos
o nome de renúncia. Sofreram pelo muito que amaram, mas consolados e
resignados, seguiram sempre confiantes de que tudo estava nas mãos do Pai
Celestial.

Nós outros, porém, eu principalmente, que não estamos em tal patamar


evolutivo, podemos sim vestir os trajes desta “amiga forte e serena” que nos
corrige a rota e nos remete a olharmos para nosso íntimo, a nos conhecermos e a
enfrentarmos nossa condição de seres imperfeitos a fim de que nos melhoremos.

Buscando, então, seus significados, encontramos nas palavras de Emmanuel,


no livro Ceifa de Luz, um norte para melhor entendê-la: “Incansável na marcha,
cria e destrói, para reconstruir ante as metas do bem eterno, usando aflição e
desgosto, desencanto e amargura, para que a paz e a esperança, a alegria e a
vitória nos felicitem mais tarde, no santuário da experiência. Semelhante gênio
invariável e amigo é a dor benemérita, cujo precioso poder sana todos os
desequilíbrios e problemas do mal.”

Poderemos ler, ouvir, estudar sobre o assunto, e ainda sim estaremos apenas
em sua superfície. Estes dias em que meditei sobre o assunto, a pergunta mais
difícil que fiz a mim mesma, e que compartilho, é se as dores e dificuldades que já
atravessei estão me trazendo novas lentes para olhar o mundo. Afinal, estou
melhor?

Quando Jesus estava preparando seus discípulos para sua partida, disse algo
que nos remete ao que ora tentamos aprender e apreender. Em João 16:20-21:
“Vos digo que vós chorareis e entoareis lamentações; o mundo se alegrará, vós
estareis entristecidos, mas a vossa tristeza se tornará alegria. A mulher, quando
(está prestes a) dar a luz, tem tristeza porque sua hora chegou; quando, porém, a
criancinha é gerada não mais se lembra da provação por causa da alegria...”
Tradução Haroldo D. Dias

Perdoem, então, mas vou adentrar em terreno íntimo como alguém que faz
um exercício de expor a si mesmo e fim de compartilhar não apenas uma teoria,
mas uma convicção alicerçada no tempo. A dor me fez uma pessoa melhor, me
deu um jeito diferente de olhar a vida e a fé em Deus, na imortalidade da
alma, foram o combustível para seguir em frente.

Quando eu tinha 14 anos, meu irmão que contava com 18 desencarnou. Num
lugar de infinita beleza, no interior do Mato Grosso do Sul, mesmo estando em
águas rasas, não percebeu que ali havia um poço e seu espírito despediu-se do
corpo físico naquele balneário, na cidade de Rio Verde. Éramos um casal de
irmãos, então, ver meu irmão partir, também significou despedir-me um pouco de
quem meus pais eram, ante a imensa dor que eles sentiram e sentem.

Já se vão 25 anos, e escolhi esta dor, esta profunda dor para a pergunta
objeto do estudo. O que o desencarne do meu irmão trouxe para a minha vida,
como meu espírito foi lapidado e melhorado? Certamente, a fé na vida futura é um
imenso lenitivo e apenas nela encontramos uma razão para seguir em frente com a
esperança do reencontro, porém, algo que foi impactante para mim, em tenra idade,
foi a percepção de que as coisas materiais são nada neste mundo. Meu irmão tinha
03 seguros de vida e não me perguntem o porquê de um jovem de 18 anos se
preocupar com isso, talvez por trabalhar num banco, ou talvez porque seu espírito
pressentia que estava prestes a partir. O que sei é que nossa condição material que
era escassa, com a sua partida, melhorou muito, tínhamos dinheiro e não o
queríamos.

Um outro aspecto que me renova e me conduz nesta caminhada foi que,


apesar da saudade imensa que sinto, saudade de ouvi-lo cantar ao violão, de ouvir
sua risada e suas piadas de alemão, de receber sempre um versículo bíblico para
representar as lições que eu ou algum amigo precisava entender e ver, Deus nunca
permitiu que eu ficasse só. Fecha-se uma porta, abrem-se janelas. Foram sempre os
queridos amigos a auxiliar na jornada e a aplacar esta saudade imensa, a família se
expande quando Deus nos quer consolar, tenho muitos irmãos do coração, pessoas
imprescindíveis, sem as quais a vida ficaria muito dura.
Ainda há muito que eu poderia lhes dizer desta escola que foi e é a ausência
(apenas material) deste imenso amor em minha vida, porém, compartilho convosco
apenas no intuito de que façam também este caminho, olhem para trás e verifiquem
o quanto as dificuldades do caminho promoveram um novo olhar e um crescimento
de vossos espíritos.

Gostaria, ainda, de compartilhar um episódio que aconteceu meses após o


desencarne do Luciano. O quarto dele ficou intacto por muito tempo e eu tinha o
costume de ir até lá, meio escondida, para sentir o cheiro dele e tentar aplacar um
pouco a saudade. Depois de um tempo percebi que o cheiro daquele cobertor azul
estava acabando, o último resquício físico dele estava desaparecendo e isso era
difícil. Na época eu não era espírita e, hoje sei, como este conhecimento bendito
nos auxilia num momento como este. Pois bem, ao constatar que a lembrança física
estava acabando, lembrei que havia uma caixa, estas caixas de camisa, em que ele
guardava suas fotos. Fui olhando, lembrando, chorando, e lá no fundo da caixa
tinham duas folhas dobradas, duas músicas. Uma delas é o Condor cantada por
Oswaldo Montenegro, a outra era uma música chamada Os Cardeais, de César
Passarinho. Deixo-vos a letra desta última música, como uma mensagem de
esperança. Dia haverá em que estaremos livres, redimidos, voaremos longe...

“Não chora, menina, não chora por que foram-se os cardeais


Se cantavam, na prisão campo a fora cantam mais
Tanta gente, anda vagando sem saber onde pousar
Mas as aves, só voando é que podem se encontrar
Você ainda não sabe o que cabe nesta paz
Quando a gente, abre as asas nunca mais, nunca mais

Era tão triste menina não tinha aceno este cais


Na despedida eram dois depois, depois serão mais
A gaiola abriu as asas por que até a prisão se trai
E o campo se fez casa para o canto dos cardeais.”

Rogo a Jesus que sua doce paz nos encontre e nos auxilie a um melhor viver,
que tenhamos na dor um auxílio e uma oportunidade bendita de melhoramento.
Encerro com um texto de Emmanuel, do livro Caminho, Verdade e Vida:
“Através de séculos, viu-se no Evangelho um conjunto de notícias dolorosas — um
Salvador abnegado e puro conduzido ao madeiro destinado aos infames,
discípulos debandados, perseguições sem conta, martírios e lágrimas para
todos os seguidores… No entanto, essa pesada bagagem de sofrimentos
constitui os alicerces de uma vida superior, repleta de paz e alegria. Essas
dores representam auxílio de Deus à terra estéril dos corações
humanos. Chegam como adubo divino aos sentimentos das criaturas terrestres,
para que de pântanos desprezados nasçam lírios de esperança.Os inquietos
salvadores da política e da ciência, na Crosta Planetária, receitam repouso e
prazer a fim de que o espírito chore depois, por tempo indeterminado, atirado
aos desvãos sombrios da consciência ferida pelas atitudes criminosas. Cristo,
porém, evidenciando suprema sabedoria, ensinou a ordem natural para a
aquisição das alegrias eternas, demonstrando que fornecer caprichos
satisfeitos, sem advertência e medida, às criaturas do mundo, no presente
estado evolutivo, é depor substâncias perigosas em mãos infantis. Por esse
motivo, reservou trabalhos e sacrifícios aos companheiros amados, para que se
não perdessem na ilusão e chegassem à vida real com valioso patrimônio de
estáveis edificações. Eis por que a alegria cristã não consta de prazeres da
inconsciência, mas da sublime certeza de que todas as dores são caminhos
para júbilos imortais.” Ou, ainda, nas palavras de Alcione: “se o Salvador veio
à Terra provar os testemunhos mais ásperos, vertendo sangue e lágrimas, por
que darmos tanta importância a algumas gotas de suor, vertidas em benefício
próprio?”

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 22.11.2014

Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 3a.

Iniciaremos o estudo dos capítulos de número “3” do livro Renúncia,


psicografia de Chico Xavier, ditado pelo espírito Emmanuel. Continuaremos a
utilizar a perspectiva de capítulos espelhados, buscando fatos e lições que se
complementem e nos ensinem lições evangélicas, que nos ensinem e nos remetam
a um melhor viver.

No capítulo 3 da primeira parte do livro, nossos personagens estão na


Irlanda, Suzana visita a família, seus tios e pais de Cirilo, e verifica o estado
lastimável de pobreza e restrição em que se encontram. A riqueza de outrora,
transformada em diminuto patrimônio que mal supria as necessidades básicas.
Suzana os auxilia, usa dos seus recursos e decidem todos que seguirão para nova
vida na América. Renovam-se as esperanças, recomeçar em terras estrangeiras,
novos ares...

Para um primeiro olhar, esta perspectiva, apenas da narrativa exterior dos


fatos ocorridos, facilmente olhará Suzana como alguém que tem atitudes altruístas,
como alguém que está agindo em esquecimento de si mesmo e de suas
necessidades para estender a mão a quem tanto dela necessita.

Será, porém, esta a verdade? Primeiramente, é fato que a ajuda aconteceu,


mas o que a motivou? Emmanuel nos permite sondar o interior da Suzana, vemos
que bem pouco aproveitamento teve seu espírito com sua ação, vejamos um trecho:

“A seu ver, a partida para a colônia era idéia aproveitável. Buscaria envolver
Cirilo no projeto. Não seria interessante vingar-se de Madalena Vilamil,
obrigando o marido a partir para regiões tão distantes? Se pudesse, compeliria o
primo a partir só, sem a companheira. Detestava a filha de D. Inácio, que lhe
arrebatara o sonho da juventude. Ainda, porém, que não conseguisse o principal
objetivo com a ausência só do primo, de qualquer modo gozaria vendo-os partir
como exilados da Europa, deixando-a livre da visão de sua felicidade. Obcecada
pela recordação de Cirilo, de quem não conseguia esquecer-se, ponderou com
atenção no socorro indispensável aos tios de Belfast, concluindo mentalmente que
seria fácil ir a Londres e obter as providências políticas para que se lhes fizesse
justiça na própria terra que os vira nascer; mas, segundo suas convicções
íntimas, não encontraria oportunidade mais adequada para vingar-se. Madalena
conheceria o peso da sua força cruel.”

Quais as consequências deste mundo interior de Suzana? Onde todos estes


planos a levariam? E a nós outros, quantas e quantas vezes olhamos alguém
realizando determinadas tarefas e o enaltecemos como grande altruísta, sem
sabermos do que se passa em seu interior? E por fim, uma pergunta de grande
importância, quando agimos em favor de alguém, o fazemos
desinteressadamente? Saibamos que para responder esta pergunta, é necessária
uma honestidade e um mergulho íntimo, porque há o risco de vermos em nós
falhas, defeitos, equívocos e nem sempre isso é fácil, a reforma íntima costuma ser
dolorida. Agir sem nenhum interesse próprio é possibilidade que apenas os
espíritos elevados já possuem, assim, saibamos como vai nosso mundo íntimo para
que possamos corrigir a rota e sempre buscar auxílio no alto a fim de que nossas
ações estejam em sintonia com a do Pai Maior.

Prossigamos ainda com fatos do capítulo 3 da primeira parte. Os planos de


Suzana prosseguiram com êxito, a família partiu acompanhada por Cirilo, que
deixou Madalena em Paris cuidando de sua mãe, um tanto adoecida. Ao ver a
embarcação partir, Suzana os contempla e Emmanuel nos dá o que se passava em
seu íntimo: “Estou satisfeita, a vitória me pertence.” Ao deixar-se conduzir por
seus sentimentos, Suzana foi ficando cega, via apenas o que lhe interessava e agia
apenas em prol dos seus interesses. Veremos nos capítulos posteriores que estes
sentimentos evoluíram e, juntamente com Antero de Oviedo, os levaram a mentir
sobre a morte de Cirilo a Madalena, e, também a noticiar o falecimento de
Madalena para Cirilo. Decorridos alguns anos, Suzana finalmente seria a esposa de
Cirilo. Semeou, buscou com toda a sua energia e alcançou o que, a seu ver, era sua
única possibilidade de ventura.

Avancemos, então, para o capítulo 3 da segunda parte. Decorridos mais de


20 anos, ficou alguma marca no coração de Suzana? Estas ações ficaram
esquecidas no tempo e ela conseguiu construir uma família com Cirilo e sua filha,
Beatriz? Emmanuel nos traz um mapa de seu mundo interior:

“No íntimo, a prima de Cirilo sentia-se qual ré, que, não obstante resguardada da
justiça humana, resgatava duramente o crime praticado. Não encontrara a
felicidade esperada em seu criminoso sonho. Os momentos raros de alegria
conjugal eram pagos multiplicadamente em angústias martirizantes, pelo que
costumava comparar sua ventura a uma gota de vinho numa taça de fel. Além do
mais, os remorsos perseguiam-na, implacáveis. Se encontrava um doente,
recordava-se de Madalena; se entrava num cemitério, surgia-lhe o espectro da
vitima. Quando alguém se referia a júbilos domésticos, ela sentia o amargor das
suas experiências; se as amigas comentavam as esperanças da prole, lembrava a
filha de D. Inácio e sentia mais vivo o aguilhão da consciência.”

Não obstante toda a dedicação ao marido, Suzana nunca conseguiu incutir-


lhe o amor tão sonhado, não foi capaz de despertar nele o amor que achava que
sentia. E por que isto aconteceu? Por que o tempo não foi capaz de apagar ou diluir
as lembranças do erro cometido? O que podemos aprender com este quadro
psicológico apresentado pelo benfeitor Emmanuel?

Há num Salmo uma assertiva que nos elucida as dificuldades de Suzana e


também as nossas em levar adiante certos anseios e projetos. Salmo 127:1: “Se
Iahweh não constrói a casa, em vão labutam os seus construtores; se Iahweh não
guarda a cidade, em vão vigiam os guardas.” (Bíblia de Jerusalém) A casa que Suzana
tencionava construir estava alicerçada em seus desejos egoístas e no sofrimento das
pessoas que prejudicou, não foi algo edificado conforme as leis divinas, assim,
seus sonhos estavam fadados a não prosperar.

É certo que não estamos aqui na posição de acusadores, eis que a maioria de
nós, eu principalmente, ainda temos atitudes, sonhos, esperanças alicerçadas em
motivos egoístas, que visam o nosso proveito. Isto é inerente a nossa condição
evolutiva. A questão é o desengano, é o desconhecimento de si mesmo em iludir-se
e vestir roupas de santos que não nos cabem. Saibamos quem somos, tenhamos a
coragem de olhar para nossos desejos mais íntimos e colocá-los diante do Pai,
rogando o seu auxílio para que direcionemos nosso viver na direção do bem
comum e do amor fraterno. A lição da vida de Suzana é argumento forte para que
olhemos para o nosso caminhar e sondemos nossos sentimentos.

É também por este motivo, o de que uma casa só pode prosperar em sua
edificação/crescimento se estiver em comunhão com as leis divinas que Jesus nos
é tão essencial. Apenas ele teve uma vivência em constante comunhão com Deus,
colocando-se em harmonia com o alto. Olhar sua vida e tentar aprender com ela,
deixando que ela molde nossa conduta e nosso mundo íntimo é o caminho de
redenção. Somos todos templos divinos em construção, assim, lembremos sempre
da lição: Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam.

Este foi um primeiro contato que encontramos entre os dois capítulos de


número 3 do livro Renúncia, na próxima semana sondaremos mais um ponto de
encontro e suas lições evangélicas.
Encerramos com esta reflexão de Emmanuel, do livro Justiça Divina, que
trata do tema e nos remete a mais amplos horizontes:

“Queres realizar os melhores sonhos, aspiras ao estudo edificante do Universo,


anseias atingir as culminâncias da Ciência e da Arte, atormentas-te pela aquisição
da felicidade e choras pela integração da própria alma no amor supremo...
Entretanto, quase sempre tens ainda o coração preso à dívida, à feição do
diamante engastado ao seixo. Há problemas que solicitam toda uma existência de
renúncia constante, para que o fio do destino se a limpe e desembarace. À vista
disso, não desertes da prova que te segrega, temporariamente, na grande
tribulação. O lar pejado de sacrifícios, a família consanguínea a configurar-se por
forja ardente, a viuvez expressando exílio, a obrigação qual golilha atada ao
pescoço, o compromisso de forma de algema e a moléstia semelhando espinho na
própria carne constituem liquidações de longo prazo ou ajuste de contas a
prestações, para que a liberdade nos felicite. Resgata, pois, sem revolta, o próprio
caminho. Enquanto há inquietação na consciência, há resto a pagar. Agradece,
assim, as dificuldades e as dores que te rodeiam. Cada existência, no plano
físico, pode ser um passo adiante, que te projete na vanguarda de luz.
Misericórdia na Justiça Divina, consolações inefáveis, braços amigos, diretrizes
renovadores e auxílio constante não te faltam, em tempo algum; contudo, está em
ti mesmo aceitar, adiar, reduzir, facilitar ou agravar o preço da tua libertação.”

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 28.11.2014.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 3b

Continuando a busca por lições evangélicas nos romances de Emmanuel, por


perspectivas de vida que nos ensinem, iremos neste trecho sondar alguns aspectos
da vida de Cirilo, personagem do livro Renúncia. Estamos nos capítulos de número
3, e novamente percebemos que ao olharmos o que contem no cap. 3 da primeira
parte com a perspectiva do cap. 3 da segunda parte, verificaremos sutilezas no
mundo interior dos personagens e, ante elas, seremos convidados ao aprendizado, a
um olhar para nossas vidas.

Lembremos que o cap. 3 da primeira parte trata de ida da família Davenport


para a América. Plano ardilosamente tecido por Susana a questão que observamos
agora é o envolvimento de Cirilo nos projetos futuros. Vejamos, então, passo a
passo como se deu a sua ida para a América.

As primeiras impressões – preocupação com família e trabalho intelectual


“— Entretanto — murmurou Cirilo um tanto esquivo, dado o seu problema de
natureza sentimental, refletindo na esposa e nas suas fadigas domésticas —,
ignoro se poderei partir na época prevista.”
“— Não me furto ao que constitui para mim um grato dever, más, como sabem,
meus serviços intelectuais, em Paris, são bastante expressivos e não sei se me
permitirão uma ausência prolongada.”
Após uma forte argumentação de um amigo da família, seu ambiente interior vai
mudando.
“Cirilo, ouvindo as palavras ardentes do velho amigo, sentia-se transformado.
Começava a admitir que, por certo, sua felicidade residia do outro lado do grande
mar. Num minuto, chegava a esquecer os livros, os pergaminhos, as controvérsias
infindáveis dos filósofos do tempo, os princípios expostos pelos teólogos da
universidade.”
Os sentimentos de Madalena, sua esposa, e de seu tio, Jaques.
“os planos traçados na Irlanda causaram a Madalena certa estranheza, sem que
ela mesma pudesse explicar o motivo das dolorosas angústias que lhe assaltavam
o Coração.”
“Jaques escutava-o admirado, disfarçando a custo a impressão de estranheza.
Concordava com a ida do sobrinho para o novo continente, mesmo porque Cirilo
estava muito moço e à sua frente desdobrava-se radioso porvir; mas não podia
aplaudir-lhe a atitude centralizando todos os interesses em problemas de absoluta
feição material.”
O mundo íntimo de Cirilo estava transformado
“Cirilo, porém, dominado pela visão dos interesses imediatos, não pode perceber
a sutileza do aviso e passou a fundamentar os motivos de sua resolução”

Deixemos, então, o amigo tempo nos auxiliar, e olhemos para o coração de


Cirilo, mas adiante, como este mundo íntimo voltado para as coisas materiais, para
os “interesses imediatos” repercutiram em sua vida. Sabemos que os planos de
Susana tiveram êxito e ela conseguir casar-se com Cirilo, uma casamento infeliz,
eis que, como vimos no estudo anterior, seu alicerce estava distante do amor, mas
plantado em sentimentos egoístas de Susana. Vejamos, então, como andava Cirilo.

Os sonhos materiais estavam realizados


“Dada a sua constante aplicação ao trabalho, conseguira angariar fortuna sólida
e invejável situação na colônia”
Seu mundo íntimo
“intraduzível tristeza lhe pairava invariavelmente no semblante”
As primeiras reflexões de Cirilo, ao ouvir as lições do Evangelho, ditas por
Alcione
“— Sem dúvida — replicou Cirilo, impressionado — as tuas explicações, Alcione,
falam profundamente à alma. Os negócios materiais da minha vida sempre me
criaram certa atmosfera de incompreensão para as lições do Cristo. Sempre
considerei o lar fortaleza da nossa felicidade na Terra, mas nunca como base para
enriquecimento de dons espirituais.”
“Cirilo não podia disfarçar a admiração. Agora, sentia descortinar-se aos olhos
d’alma um mundo deslumbrante, que até então não conseguira surpreender. As
palavras da jovem modificavam-lhe, num minuto, todas as presunções exegéticas.
Começava a sentir que a vida, sob qualquer de seus aspectos, revestia-se da mais
profunda significação. No seu conceito, o homem deixava de ser um exilado em
míseras trevas, que se encontraria mais tarde com Deus, ou com a punição eterna.
A Terra figurava-se-lhe escola, onde cada homem recebia uma divina
oportunidade, entre milhões de possibilidades sublimes e infinitas.”
O estudo do evangelho lhe traz novas e mais profundas luzes
“Agora, sim! Encontrei um modo prático de compreender o tesouro evangélico,
interpretado desta maneira, dá idéia de preciosa mina de valores espirituais.
Quanto mais nos aprofundamos em meditação, esforço e boa vontade, mais filões
auríferos irão surgindo aos nossos olhos.”

Olhar para o coração de Cirilo nos traz alguns questionamentos em relação a


vida material. Qual a sua importância? Se é fato que precisamos nos dedicar a ela,
qual o limite, existe um limite? Por que nos esquecemos das coisas espirituais com
tanta facilidade?

A questão 27 do Livro dos Espíritos nos fala que “há então dois elementos
gerais do Universo: a matéria e o espírito” ao que os espíritos complementam e
dizem: “Sim e acima de tudo Deus, o Criador, o Pai de todas as coisas.” Há,
então, matéria, espírito e Deus, qual a razão que nos faz, não raro, nos entretermos
com a matéria, esquecendo-nos da nossa essência espiritual e afastando Deus de
nossas vidas?

Separamos, porém, nas letras, nas perguntas, mas a resposta ao que ora
tentamos refletir e que fica nítida ao olharmos para a vida de Cirilo é que a vida
material é inseparável da vida espiritual. (???) Concordam? Não? Vejamos um
trecho de Emmanuel, para avançarmos nesta reflexão.

“A matéria não organiza, é organizada. E não representa senão uma


modalidade da energia esparsa no Universo. Os seus elementos não fazem outra
coisa senão submeter-se às injunções do Espírito; e é a soberana influência deste
último que elucida todos os problemas intrincados dos seres e dos destinos. É ao
seu apelo, cedendo aos seus desejos, que todas as matérias brutas se vêm
rarefazendo, oferecendo aspectos novos e delicados.” Emmanuel

Antecipando o que a física quântica hoje demonstra reiteradamente, a


matéria é apenas fruto da nossa consciência, nós a organizamos, ela não se
organiza. E assim como seus elementos de submetem à vontade do espírito, os que
vivem uma vida dita material, nada mais fazem do que reproduzir na matéria o que
se passa no seu íntimo, no seu mundo espiritual.
Cirilo trabalhou muito, angariou fortuna. Que mal há nisso? Por que isso lhe
trazia um mundo íntimo de tristeza? A questão não é o que se faz, mas os motivos
pelos quais fazemos. Percebem o sentido da frase “a matéria não se organiza, é
organizada”? Por traz destes anos de trabalho árduo, de dedicação há um espírito
que sofre e que não consegue encontrar um caminho que lhe dê a paz que tanto
necessita, então, ele acumula, acumula, mas não encontra. Erra o alvo, procura a
paz, a alegria, a esperança, mas, se a matéria nada organiza, como poderá nos
oferecer estes nobres sentimentos? Somos nós que organizamos nosso mundo
material, e o moldamos conforme nossos anseios e alegrias, dores e angustias,
vitórias e conquistas. Enfim, é reflexo do espírito e não algo independente dele.
Ou, no melhor português de Emmanuel: “Em todos os Planos existe a matéria,
como expressão para a vida espiritual.”, ou ainda, o Livro dos Espíritos: “A
matéria é o laço que prende o Espírito é o instrumento de que este se serve e sobre
o qual, ao mesmo tempo, exerce sua ação.” (questão 22)

Ouço muito as pessoas relatando o quanto ainda são ligadas a matéria, e fico
pensando, após estas reflexões, o quanto é enganosa esta percepção, ou melhor
dizendo, superficial. A forma como nos relacionamos com as coisas materiais é
apenas o nosso espírito se expressando. Cirilo sofria muito, a saudade, a
desesperança, a ausência de um lar amoroso, e buscava saciar, suprir esta ânsia
espiritual. Mas bebeu de uma água que não dá saciedade, por que era expressão
dele mesmo. Alcione nos dá o caminho e é com suas palavras que encerramos estas
singelas reflexões:

“As mais das vezes, temos a certeza de que devemos, em grande parte, o pão
material ao próprio esforço, mas o mesmo não se dá com relação ao alimento
espiritual. Este nos vem sempre de Deus, do seu paterno coração, que nos cumula
de infinitos recursos. Temos na Terra a lei da necessidade, mas o Senhor
tem a do suprimento. Agradeçamos a sua misericórdia e apliquemos as
dádivas recebidas, porque novos elementos fluirão, para nossa alma, dos seus
inexauríveis celeiros de sabedoria e abundância.” Alcione

Que Jesus nos auxilie para que olhemos nossas vidas, sondemos nossas
necessidades e sejamos capazes de encontrar em nosso mundo íntimo as razões
para nosso agir. E que busquemos em Deus, fonte de amor e paz, os tesouros
imorredouros para a nossa alma imortal.

Abraços fraternos.

Campo Grande-MS, 06.12.2014.

Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 3c

Prosseguindo nossos estudos, pincelando pérolas nas ricas lições do livro


Renúncia, veremos nesta etapa mais um trecho do capítulo 3 da primeira parte que
guarda relação de significado com um trecho do capítulo 3 da segunda parte. Um
novo olhar que lançamos ao ler este livro, buscando a perspectiva de capítulos
espelhados, tem nos permitido extrair valorosos aprendizados, experiências que se
ampliam e que sob luz do Evangelho de Jesus nos remetem a um novo e melhor
saber, daquele que promove em nós a reforma íntima, da qual tanto carecemos.

Estavam, Cirilo e seus familiares, reunidos em casa, falando sobre as lutas


na Irlanda, as disputas religiosas que matavam e ainda matam muitos. E em meio a
este diálogo, Abraão Gordon nos traz uma interessante reflexão:

“— Meu filho — exclamou Abraão, convicto —, não guardes ilusão sobre


pretensas realizações intelectuais dos nossos tempos. Isso é um miserável engano,
Cirilo. Os espíritos vulgares alardeiam conquistas mentirosas, enquanto escondem
a consciência vestida de andrajos. Semelhantes fantasias vão conduzindo os
homens mais sábios à confusão e à ruína total. As lutas religiosas, que nos
expulsam do berço, não serão resultantes da desordem do pensamento? Por que
motivo os protestantes, e mesmo os católicos eminentes, se empenham em lutas de
morte? Será porque trabalharam com as mãos, ou porque se desviaram do
caminho de Deus pelo abuso de raciocínios?

As mãos não se equilibram sem o impulso orientador das idéias, como


as idéias não se materializam sem o concurso das mãos; no entanto,
suponho que os homens vão esquecendo o dom do serviço pelos
excessos do pensamento em desvario.”

Ao ler este trecho me vieram muitas perguntas, questionamentos sobre quais


os motivos que levaram e levam as pessoas ao confronto e a tentativas de
imposição de suas idéias em desrespeito às que se lhes opõem. E Gordon nos dá
uma pista em seu discurso sobre o nosso ânimo interior e usa o termo “abuso de
raciocínios”. Como saber, porém, quando se ultrapassou a medida? E,
principalmente, como nos precavermos para que não nos aconteça (novamente)
este desvirtuamento do foco principal da mensagem do Cristo? Será Alcione, no
cap. 3 da segunda parte que nos irá dar uma luz sobre estas perguntas, antes,
porém, gostaria de refletir um pouco sobre a expressão “abuso de raciocínios”.

Andre Luiz, no livro Agenda Cristã diz: “Raciocínio claro é virtude.


Entretanto é imperioso observar em que zona mental está você raciocinando.”
Assim, é justamente este questionamento que busca verificar em qual zona mental
estamos raciocinando que nos permitirá inferir se estamos transitando na virtude ou
no abuso. Os discípulos arguiram Jesus, como iriam reconhecer a verdade e ele
respondeu de forma simples e completa: é pelos frutos que se reconhece a boa
árvore!! Mas como o saber, não em letras, mas em nossas vidas? Como eu que vos
escrevo posso olhar para a minha vida e identificar em que zona mental estou?

No cap. 3 da segunda parte, Alcione inicia os trabalhos como serviçal da


casa de Cirilo. Não obstante ter sido contratada para acompanhar Beatriz,
rapidamente é acolhida por alguns de forma amorosa e receptiva e inicia a
evangelização daqueles que lhes são afetos da alma, espíritos por quem veio
trabalhar e auxiliar e o faz da maneira mais difícil e bela, através de seu exemplo.
Há, porém, um incidente que nos auxiliará a entender o que buscamos nesta lição.
Alcione é convocada para realizar tarefas em substituição a uma empregada que
faltara e ante a reação de Beatriz que entendia que era errado Alcione realizar
aquele serviço, diz algo de muito valor:

“— E não erras, pensando assim, mas essa verdade não impede o dever de
ampliarmos nossas experiências em todo e qualquer trabalho honesto. Não
estimas tanto as lições de Jesus? Pois no Cristo encontramos o verdadeiro ânimo
de trabalho, o Mestre Divino nunca se ausentou do lugar sublime que lhe compete
na Criação e, no entanto, carpintejou na modesta oficina de Nazaré; exegeta da
Lei, perante os doutores de Jerusalém, serviu o vinho da amizade nas bodas de
Caná; médico da sogra de São Pedro, enfermeiro dos paralíticos, guia dos cegos,
amigo das crianças, mas também lacaio dos discípulos, quando lhes lavou os pés,
no cenáculo. E nada obstante o contraste e a diversidade de tantas tarefas, Jesus
não deixou de ser o nosso Salvador, em todos os momentos.”

Se retornarmos a idéia de Gordon acima: “As mãos não se equilibram sem


o impulso orientador das idéias, como as idéias não se materializam sem o
concurso das mãos”, veremos que é exatamente isto que Alcione está
exemplificando à família ao desempenhar a atividade que estava fora do âmbito
para a qual fora contratada, e não apenas isso, lembremos que Alcione é filha de
Cirilo, mas não entrou na casa deles requerendo os direitos que lhe eram devidos.
Seria justo que o fizesse, boa parte de nós, o faríamos. Mas seu coração já estava
acima das “vãs considerações humanas”, transitava em esferas mais elevadas,
daqueles espíritos que já são capazes de renunciar por amor.

Há um trecho do livro Boa Nova de Humberto de Campos que também nos


auxilia para o entendimento desta lição. Maria, reconhecendo a ampla capacidade
de seu filho, queria que Jesus passasse a frequentar a escola dos fariseus. Vejamos
um trecho do livro: “Tenho cuidado por ti, meu filho! Reconheço que necessitas de
um preparo melhor para a vida... Mas, como se estivesse em pleno conhecimento
do que se passava em meu íntimo, ponderou ele: “Mãe, toda preparação útil e
generosa no mundo é preciosa; entretanto, eu já estou com Deus. Meu Pai, porém,
deseja de nós toda a exemplificação que seja boa e eu escolherei, desse modo, a
escola melhor. No mesmo dia, embora soubesse das belas promessas que os
doutores do templo fizeram na sua presença a seu respeito, Jesus aproximou-se de
José e lhe pediu, com humildade, o admitisse em seus trabalhos. Desde então,
como se nos quisesse ensinar que a melhor escola para Deus é a do lar e a do
esforço próprio concluiu a palavra materna com singeleza —, ele aperfeiçoa as
madeiras da oficina, empunha o martelo e a enxó, enchendo a casa de ânimo, com
a sua doce alegria!” Jesus exemplificou, Alcione, espírito elevado, veio até nós e
exemplificou da mesma forma, seu intuito era auxiliar os amados do seu coração e
este foi o caminho escolhido.

Certa feita, ao terminar uma palestra, o orador foi interpelado por uma
mulher que muito lhe agradeceu por todo o ensinamento, dizendo-lhe que ele devia
ser uma pessoa maravilhosa, cheio de virtudes. O palestrante, com humildade, lhe
disse que tinha a convicção de que aquilo não era verdade e que o sabia por que
não era esta a opinião de sua esposa, que bem o conhecia.

É certo que todos nos esforçamos e que há muitos trabalhos a serem


realizados e que são importantes. Mas a lição exemplificada por Jesus nos dá a
dimensão de nossa pequena estatura espiritual. Queremos saber o quanto já somos
evoluídos, ou em melhores palavras, queremos saber o quanto a proposta de amor e
perdão de Jesus já faz parte de nossas vidas? Tenhamos a coragem de consultar em
nossos lares e verificar o quanto estamos “enchendo a casa de ânimo, com a sua
doce alegria”, lembrando sempre do sublime exemplo do Mestre Jesus.

E, ainda, recordemos do prefácio e da belíssima descrição que Emmanuel


faz de Alcione: “Jamais a vi preocupada com a felicidade pessoal; entretanto,
interessava-se com ardor pela paz e pelo bem de todos. Demonstrava cuidado
singular em subtrair, aos olhos alheios, seus gestos de perfeição espiritual, porém
queria sempre revelar as idéias nobres de quantos a rodeavam, a fim de os ver
amados, otimistas, felizes.”

Quero encerrar estas singelas reflexões com os dizeres de Tobias, no livro


Os Mensageiros de André Luiz, rogando ao Mestre Jesus que nos auxilie a fim de
que a nossa vida possa ser um lenitivo aos que nos cercam, não sejamos fardo, mas
um reduto de fé e esperança:

“Nossa visão, na Terra, costuma viciar-se no círculo dos cultos externos, na


atividade religiosa. Cremos, por lá, resolver todos os problemas pela atitude
suplicante. Entretanto, a genuflexão não soluciona questões fundamentais do
espírito, nem a mera adoração à Divindade constitui a máxima edificação. Em
verdade, todo ato de humildade e amor é respeitável e santo, e,
incontestavelmente, o Senhor nos concederá suas bênçãos; no entanto, é
imprescindível considerar que a manutenção e limpeza do vaso, para recolhê-las,
é dever que nos assiste. Não preparamos, pois, neste Centro, simples postalistas,
mas espíritos que se transformem em cartas vivas de Jesus para a Humanidade
encarnada.”

Abraços fraternos!!

Campo Grande – MS, 13.12.2014.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 3d

Quando ouvimos uma música pela primeira vez, ainda que a achemos bela,
dificilmente seremos capazes de perceber e absorver toda a sua beleza, as vezes há
uma corda escondida ou um sopro que aparecerá sutilmente, ou mesmo um
caminho único que o autor escolheu para arranjar aquelas notas iguais que nos
surpreenderá. Mas se a ouvirmos várias vezes, de vários modos, prestando atenção
nos detalhes, nos instrumentos, nas vozes, aos poucos ela se revelará e também
todo o sentimento de quem a criou irá nos tocar, nos fará sentir. E neste instante,
não será mais a música falando, mas o sentimento de quem a fez que alcançará
quem a houve. Quando Alcione falava, era como uma música sublime, inspirada
nas esferas mais altas, ler uma vez apenas ou de forma desatenta é deixar de
absorver toda a beleza e sabedoria que este espírito de luz nos trouxe.

Assim, este texto será lido de várias formas, com atenção, quem sabe nosso
intuito seja atendido e deixe de ser um texto para ser o sentimento de Alcione
falando aos nossos corações. Eis o contexto...a família Davenport fala sobre o
evangelho, como estudá-lo, como aprender. Eis, então, a opinião de nossa querida
Alcione:

1. Tenho a convicção de que, em toda parte, estamos na casa de Nosso Pai e


estou certa de que virá o dia em que tomaremos por templo de Deus o mundo
inteiro.
2. Mas, em nossa atual condição, não nos custa reconhecer o proveito das
igrejas e o caráter sagrado do culto doméstico, no que concerne aos ensinos de
Jesus.
3. Também no conforto de nossas casas há sempre ótima disposição para
atender aos nossos familiares enfermos, mas isso não proscreve a necessidade dos
hospitais.
4. Os pais amorosos ensinam sempre os filhinhos; mas nem por isso deixam de
ser úteis as escolas.
5. Em matéria de fé, nossa estranheza radica na viciação dos deveres
religiosos.
6. Costumamos atribuir ao sacerdote o que nos compete realizar. Um padre
poderá funcionar como excelente preceptor, indicando os caminhos retos, mas nós
transitamos para Deus e é imprescindível não parar.
7. O ministro da fé atenderá ao conjunto, mas, para que as alegrias cristãs
vibrem perfeitamente em nossa alma, não há que olvidar a necessidade de
estabelecer o culto do Senhor, dentro de nós mesmos.

A primeira parte do texto, Alcione começa com uma perspectiva ampla, “em
toda parte estamos na casa de Nosso Pai” e acrescenta que chegará um dia em
que o mundo inteiro será visto como templo de Deus, não apenas as igrejas ou
templos religiosos, mas todo lugar, nossa casa, nosso trabalho, o transito, o
mercado, o local de lazer, todos os lugares, em todo o tempo. Ela segue, então,
explicando este raciocínio e nos fala de dois grandes templos que já
conhecemos, a igreja e nosso lar.

1. Assim entrevisto, o lar é o templo mais nobre, porque oferece oportunidade


diária de esforço e adoração.
2. Cada criatura de nossa convivência, sob o mesmo teto, representa um altar
para o culto da bondade, do carinho, da compreensão.
3. Cada borrasca doméstica é um ensejo para a distribuição de esperança e fé.
4. Cada dia afanoso enseja possibilidades de testemunhar confiança em Deus.
5. Enquanto isso ocorre na intimidade, as instituições religiosas podem
funcionar como hospitais dos espíritos combalidos, como celeiros de esfomeados,
como fontes de informações sublimes aos ignorantes.
6. Qualquer doente esperará a volta da saúde, mas colimando reintegrar-se no
plano de esforço diuturno; o faminto se alimentará de modo a prosseguir no seu
caminho; e o ignorante será instruído para que se habilite a aplicar o que
aprendeu. Por esse prisma, podemos aquilatar o valor das pequenas realizações
domésticas.
7. Acredito que o lar seja o ninho onde o espírito humano cria em si mesmo,
com o auxílio do Pai Celestial, as asas da sabedoria e do amor, com que há de
conhecer, mais tarde, as sendas divinas do Universo.

Neste outro trecho, Alcione continua tratando do mesmo assunto, que é a


forma como nos relacionamos com Deus, porém, traz o raciocínio anterior para
uma perspectiva menor. Se no primeiro trecho ela inicia pelo mundo para
chegar ao lar, no segundo trecho ela inicia pelo lar para chegar ao espírito
humano, lembrando-nos das asas que nos permitirão vislumbrar mundos mais
elevados, a sabedoria e o amor.

Vejam que há um movimento, uma cadência de idéias, que ela realiza para
trazer esclarecimento aos amados do seu coração. Tudo isto está sendo dito para
a família Davenport, que acompanha seus raciocínios com grande perplexidade,
tamanha a profundidade.

Olhemos o texto em seus aspectos principais, selecionando as palavras


chaves:

Primeira Parte Segunda Parte


- estamos na casa de Nosso Pai - - o lar é o templo mais nobre-
tomaremos por templo de Deus o mundo oportunidade diária de esforço e
inteiro. adoração.
- cada criatura - representa um
- proveito das igrejas e o caráter sagrado altar para o culto da bondade, do
do culto doméstico. carinho, da compreensão.
borrasca doméstica - distribuição
- atender aos nossos familiares enfermos - de esperança e fé.
necessidade dos hospitais.
- cada dia - possibilidades de
- Os pais ensinam os filhinhos; ser úteis testemunhar confiança em Deus.
as escolas.
- instituições religiosas - hospitais
- matéria de fé - viciação dos deveres dos espíritos combalidos, como
religiosos. celeiros de esfomeados, como
fontes de informações sublimes
aos ignorantes.

- reintegrar-se no plano de esforço


- atribuir ao sacerdote o que nos compete diuturno; o faminto se alimentará;
realizar - nós transitamos para Deus e é e o ignorante será instruído -
imprescindível não parar. valor das pequenas realizações
domésticas.

- o espírito humano cria em si


- necessidade de estabelecer o culto do mesmo, com o auxílio do Pai
Senhor, dentro de nós mesmos. Celestial, as asas da sabedoria e
do amor
Palavras que se repetem e que nos remetem a um significado e entendimento
maior e melhor. Como Alcione aprendeu a ensinar assim? A quem ela buscaria
como fonte de inspiração, como modelo e guia para o seu intuito de inspirar e
ensinar sobre o profundo amor de Deus, nosso Pai? Sabemos que Alcione era
um espírito de luz, que não necessitava mais reencarnar ante o seu adiantamento
moral. Isto significa que seu coração já estava alinhado com o evangelho de
Jesus. Vemos em seu falar uma sabedoria inspiradora que falou aos seus
familiares e nos fala, ainda hoje, nos dando um novo e mais amplo norte.

Afinal, do que trata este texto? Qual a mensagem que Alcione está querendo
transmitir aos amados do seu coração? A família Davenport estava acostumada
ao culto exterior, a adorar um Deus que, em sua visão equivocada, habitava
apenas a Igreja. Nos tempos em que Jesus esteve entre nós, isto também
acontecia com parte do povo judeu e há uma mensagem de Jesus em que ele
adverte os fariseus que nos auxiliará a entender e aprofundar este belíssimo
trecho do livro.

Vejamos um trecho do evangelho de Mateus, Cap. 23:13-32, que trata das 7


maldições contra os fariseus (fonte Biblia de Jerusalém):

13Aide vós, escribas e fariseus,hipócritas, Tenho a convicção de que, em toda


porque bloqueais o Reino dos Céus diante parte, estamos na casa de Nosso Pai e
dos homens! Pois vós mesmos não entrais,
estou certa de que virá o dia em que
nem deixais entrar os que querem fazê-lo!
tomaremos por templo de Deus o
mundo inteiro
15Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, Mas, em nossa atual condição, não
que percorreis o mar e a terra para fazer um nos custa reconhecer o proveito das
prosélito, mas, quando conseguis conquistá-
igrejas e o caráter sagrado do culto
lo, vós o tornais duas vezes mais digno da
geena do que vós! doméstico, no que concerne aos
ensinos de Jesus
16Ai de vós, condutores cegos, que dizeis: 'Se Também no conforto de nossas casas
alguém jurar pelo santuário, o seu juramento há sempre ótima disposição para
não o obriga, mas se jurar pelo ouro do
atender aos nossos familiares
santuário, o seu juramento o obriga'.
Insensatos e cegos! Que é maior, o ouro ou enfermos, mas isso não proscreve a
o santuário que santifica o ouro? 18Dizeis necessidade dos hospitais.
mais: 'Se alguém jurar pelo altar, não é nada,
mas se jurar pela oferta que está sobre o altar, Nota (O lar é importante, assim como os
fica obrigado'. 19Cegos! Que é maior, a hospitais o são, a questão é quando
oferta ou o altar que santifica a oferta? passamos a olhá-los de forma equivocada,
20Pois aquele que jura pelo altar, jura por ele atribuindo-lhes funções que são nossas.
e por tudo o que nele está. 21E aquele que Atribuir a um templo religioso a função de
jura pelo santuário, jura por ele e por aquele nos aproximar de Deus é como dar maior
que nele habita. 22E, por fim, aquele que jura valor ao ouro que ao santuário)
pelo céu, jura pelo trono de Deus e por
aquele que nele está sentado.
23Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, Os pais amorosos ensinam sempre os
que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do filhinhos; mas nem por isso deixam de
cominho, mas omitis as coisas mais
ser úteis as escolas
importantes da lei: a justiça, a misericórdia e
a fidelidade. Importava praticar estas
coisas, mas sem omitir aquelas.
24Condutores cegos, que coais o mosquito e
tragais o camelo!
25Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, Em matéria de fé, nossa estranheza
que limpais o exterior do copo e do prato, radica na viciação dos deveres
mas por dentro estais cheios de rapina e de
intemperança! 26Fariseu cego, limpa
religiosos
primeiro o interior do copo para que
também o exterior fique limpo!
27Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Costumamos atribuir ao sacerdote o
Sois semelhantes a sepulcros caiados, que que nos compete realizar. Um padre
por fora parecem bonitos, mas por dentro
poderá funcionar como excelente
estão cheios de ossos de mortos e de toda
podridão. 28Assim também vós: por fora preceptor, indicando os caminhos
pareceis justos aos homens, mas por retos, mas nós transitamos para Deus
dentro estais cheios de hipocrisia e de e é imprescindível não parar
iniqüidade.
29Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, O ministro da fé atenderá ao conjunto,
que edificais os túmulos dos profetas e mas, para que as alegrias cristãs
enfeitais os sepulcros dos justos 30e dizeis:
vibrem perfeitamente em nossa alma,
'Se
estivéssemos vivos nos dias dos nossos pais, não há que olvidar a necessidade de
não teríamos sido cúmplices seus no estabelecer o culto do Senhor, dentro
derramar o sangue dos profetas'. 31Com isso de nós mesmos
testificais, contra vós, que sois filhos
daqueles que mataram os profetas.
32Completai, pois, a medida dos vossos
pais!

Não obstante o nosso diminuto entendimento do judaísmo e de todo o


significado que este texto do evangelho de Mateus possui, é certo que ao
colocarmos ambos os textos, lado a lado, verificamos primeiramente um
movimento semelhante, as idéias de Alcione parecem ajustar-se ao que Jesus
falava aos fariseus. Percebe-se claramente que se Jesus é nosso modelo e guia,
Alcione, espírito de luz, ao buscar a evangelização dos seus, irá fazer discurso
que se adéqua, que se encaixa nas palavras de Jesus. As intenções se unem e
entrelaçam, uma vez que provêm de uma fonte superior que as inspira. O texto
reflete um alerta, tanto Alcione como Jesus estão nos dizendo para que olhemos
para o que realmente importa, para que deixemos os vícios e desenganos
milenares e, de forma definitiva, adentremos no Reino do Céus, que é a paz
habitando em nós e o amor falando através de nossas vidas.

E se nesta altura do texto somos tentados a olhar para o lado e apontar as


imperfeições alheias, peço que retornem os pensamentos e juntos olhemos para
nosso interior. Temos vivido afastados destes ensinos por tempo demais,
sondemos nossas atitudes que ainda necessitam de correção de rumo. Tenhamos
a coragem de reconhecer onde ainda está o nosso equívoco que nos impede de
avançar.

Vejam este trecho de um texto que comenta os versículos iniciais do


Cap. 23 de Mateus: “O primeiro contraste apontado por Jesus é o acúmulo de
observâncias exigidas do povo que não fazem parte do cerne da fé. E tais práticas
não são de todo desconhecidas para nós. Vemos muitas vezes fiéis que se impõem
“pesados fardos” como necessários para chegar a Deus. Esse tipo de conduta
retrata uma visão deturpada de Deus. Ele não quer de nós observâncias externas,
mas apenas o nosso coração. E é dever nosso, sejamos líderes ou não, ajudar essas
pessoas a encontrar o núcleo na fé cristã: seguir Jesus.
Outro contraste diz respeito à hipocrisia e ostentação das pessoas que, por estarem
à frente da comunidade, querem ser tratadas com honra e gostam de ser
reconhecidas como “mestres”. Mas Jesus afirma: “um só é vosso mestre”. Dessa
forma, destrói toda pretensão de usurparmos o lugar que não é nosso. Podemos
nos sentar na “cátedra” para ensinar, mas ela não nos pertence.
Jesus nos ensina como deve ser o comportamento do verdadeiro discípulo: deixar
que Cristo seja o único mestre. E a prova da grandeza do discípulo não está no uso
de títulos, mas no serviço humilde ao irmão, pois o mais importante é a
fraternidade. Foi isso o que Jesus, o mestre, nos ensinou com sua vida. Se nos
dedicarmos ao serviço fraterno, com certeza mereceremos nos sentar para ensinar,
pois o mais eloquente discurso que proferimos é nossa própria vida configurada a
Cristo.” [Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj, Vida Pastoral nº 280, Paulus]

Jesus nunca se acomodou aos costumes equivocados do seu tempo, como


Alcione também não o fez. Souberam olhar, discernir, indignaram-se com um
amor indescritível e nos exemplificam e nos recordam que estamos aqui de
passagem, em escola e que não devemos olvidar as lições que realmente
importam as nossas almas imortais.
Encerro estas reflexões com um texto de Emmanuel, do livro Luz no
Caminho, que comenta um dos versículos de Mateus 23:

“Cristo nunca examinou o campo de seu apostolado, cruzando os braços


com ternura doentia. Numerosos crentes preferem a filosofia acomodatícia do
“Deus faz tudo”, olvidando que devemos fazer o que esteja ao nosso alcance. Ser
cristão não é dilatar a tolerância com o mal, a começar de nós mesmos. A
indignação contra os prejuízos da alma deve caracterizar os sinceros discípulos
do Evangelho. Jesus indignou-se contra a hipocrisia de sua época, contra a
insegurança dos companheiros, contra os mercadores do Templo. Como protótipo
da virtude, o Mestre nos ensina a indignarmo-nos. Suas reações nobres verificam-
se sempre, quando estavam em jogo os interesses dos outros, o bem estar e a
clareza de dever dos semelhantes. Quando se tratava de sua personalidade Divina,
que pedia Cristo para si? Que disparou para si mesmo no apostolado? A voz
Divina que se levantou com enérgica majestade no Templo para exortar os
vendilhões era doce e humilde no dia do Calvário.
Para os outros trouxe a salvação, o jubilo e a vida, defendendo-lhes o
interesse sagrado com energia poderosa, para Ele preferiu a cruz e a
coroa de espinhos. Na nossa indignação, desse modo, é sempre útil
saber o que precisamos para nós “e o que desejamos para os outros”.”

Que a doce paz de Jesus nos envolva hoje e sempre.

Campo Grande – MS, 20.12.2014


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 3e

“...as forças que nos encarceram o coração nas grades


de uns tantos problemas temporais, costumam ser
violentas e rudes. Entretanto, Deus não se cansa de nos
atrair aos seus braços misericordiosos. As circunstâncias
mínimas da existência humana induzem a pensar nisso.
Logo que abrimos os olhos neste mundo, encontramos
pais carinhosos que nos encaminham para o bem; nossa
infância, quase sempre, está cercada de sábias
advertências dos preceptores, que nos orientam para a
verdade. Uma idéia lógica surge, fatalmente, em nosso
cérebro: tantos mensageiros de bondade viriam à nossa
estrada, tão só para informar-nos o coração, sem
utilidades práticas para a nossa própria edificação?
Muita gente, nos mais variados credos, depõe nas mãos
de seus ministros o que lhes cumpre fazer, mas isso é um
erro grave. Deus nos chama pela maneira como Jesus
procurou os discípulos. Para realizar a união divina é
preciso marchar, na “terra” de nós mesmos, não
obstante os maus dias e as noites tenebrosas!...” Alcione

Habitando num mundo de provas e expiações, tal qual se encontra o estágio


evolutivo da Terra, certamente encontraremos em nosso caminho muitas
adversidades, que Alcione coloca como “problemas temporais”, que costumam ser
violentos e rudes. Sabemos disso, a vida é cheia de alegrias e satisfações, mas não
há um só ser vivente que não atravesse por momentos de dificuldade.

Temos dois aspectos a serem considerados quanto a estes “problemas


temporais”. O primeiro trata das dificuldades de ordem material e cotidiana,
decorrente de nossas necessidades físicas e que tanto nos auxilia para o
desenvolvimento intelectual. A segunda, que é sobre a qual buscaremos refletir,
trata das nossas dificuldades íntimas, que não raro passam desapercebidas do
mundo que nos cerca e as vezes até mesmo das pessoas que nos rodeiam. São as
dores da alma, as lutas interiores que atravessamos e que nos convidam a olhar o
nosso interior, buscando uma melhoria para o nosso espírito imortal.
Voltando, então, para o texto de Alcione, há um verbo que ela usou que me
chamou a atenção. Vejam na última frase grifada acima: “Para realizar a união
divina é preciso marchar, na “terra” de nós mesmos, não obstante os maus dias
e as noites tenebrosas!” Alcione fala em “marchar”!! Marcha quem está em
guerra, quem vai para a luta!! Como entender este dizer?

Busquemos em Jesus e nos seu evangelho o caminho para que alcancemos o


real significado das palavras de Alcione. Vejamos este trecho de Mateus 10: 34-36:
“Não penseis que vim trazer paz sobre a terra. Não vim trazer paz, mas espada.
Pois eu vim separar o homem do seu pai, a filha da sua mãe e a nora de sua sogra
e os inimigos do homem (serão) os membros da sua casa.” (tradução Haroldo D. Dias).
Muitos olham e entendem este trecho como algo que justifica as lutas e
dissensões que existem dentro do cristianismo e até mesmo fora dele. Sem dúvida
a mensagem do evangelho inaugura nova era planetária, o que por si só já justifica
as ebulições sociais, mas pensar que este dizer trata apenas deste tipo de luta é ficar
em sua superficialidade.

Então, do que se trata o verbo “marchar” usado por Alcione? Jesus também
estava falando destas “lutas temporais” que Alcione comenta e nos chama a
refletir? Afinal, o evangelho nos traz paz, ou quando nos propomos a mergulhar
em seus ensinamentos, buscando a reforma íntima, sentimo-nos rasgados por uma
espada, vindo a tona todas as nossas imperfeições que necessitam de nossa
“marcha”, de nosso empenho, para que sejam finalmente buriladas?

Vejamos como Emmanuel comenta o versículo 34 na lição do livro Caminho


Verdade e Vida, lição 104: “Inúmeros leitores do Evangelho perturbam- se ante
essas afirmativas do Mestre Divino, porquanto o conceito de paz, entre os homens,
desde muitos séculos foi visceralmente viciado. Na expressão comum, ter paz
significa haver atingido garantias exteriores, dentro das quais possa o corpo
vegetar sem cuidados, rodeando-se o homem de servidores, apodrecendo na
ociosidade e ausentando-se dos movimentos da vida. Jesus não poderia endossar
tranquilidade desse jaez, e, em contraposição ao falso princípio estabelecido no
mundo, trouxe consigo a luta regeneradora, a espada simbólica do conhecimento
interior pela revelação divina, a fim de que o homem inicie a batalha do
aperfeiçoamento em si mesmo. O Mestre veio instalar o combate da redenção
sobre a Terra. Desde o seu ensinamento primeiro, foi formada a frente da batalha
sem sangue, destinada à iluminação do caminho humano. E Ele mesmo foi o
primeiro a inaugurar o testemunho pelos sacrifícios supremos. Há quase vinte
séculos vive a Terra sob esses impulsos renovadores, e ai daqueles que dormem,
estranhos ao processo santificante! Buscar a mentirosa paz da ociosidade é
desviar-se da luz, fugindo à vida e precipitando a morte.”

Eis, então, o sentido mais profundo deste dizer de Jesus, tal qual Alcione
noticia aos Davenport, e, hoje, aos nossos corações. A mensagem do evangelho do
Cristo “trouxe consigo a luta regeneradora, a espada simbólica do conhecimento
interior pela revelação divina, a fim de que o homem inicie a batalha do
aperfeiçoamento em si mesmo.” Temos inquietações na vida? A dor nos visita e
nos convida a novas posturas? Tropeçamos em nossos reiterados desvios e
equívocos? Saibamos que estamos marchando e que tudo isto é inerente ao
caminhante.

Ainda Emmanuel, em outro comentário a este mesmo versículo, agora no


livro Mais Perto, nos diz: “Em certa ocasião, disse-nos Jesus: - «Eu não vim
trazer paz à Terra e sim a divisão»; entretanto, em outro lance dos seus
ensinamentos, afirmou-nos, convincente: - A minha paz vos dou, mas não vo-la
dou como o mundo a dá». O Divino Mestre deu-nos claramente a perceber que,
para sermos construtores da paz, é preciso saber doar-lhe o bálsamo vivificante,
em favor dos outros, conservando, bastas vezes, o fogo da luta pelo próprio
burilamento, no fechado recinto do coração.”

Pensemos um pouco sobre esta última frase: “para sermos construtores da


paz, é preciso saber doar-lhe o bálsamo vivificante, em favor dos outros,
conservando, bastas vezes, o fogo da luta pelo próprio burilamento, no fechado
recinto do coração” Não era este o testemunho que Alcione estava dando?
Recebida na casa dos Davenport como criada, mesmo sabendo-se filha de Cirilo,
manteve-se silente, buscando auxiliá-los da melhor e mais amorosa forma,
deixando o próprio sofrimento fechado em seu coração. A vivência do evangelho
requer que façamos sacrifícios amorosos, esquecendo-nos um pouco da nossa paz
para oferecê-la aos corações que nos são caros.

A beleza de se buscar lições evangélicas nos romances de Emmanuel é que


temos um manual prático de conduta espelhado na vida de espíritos de luz que
viveram incógnitos na Terra e que hoje brilham nos céus e que, se deixarmos,
brilharão também nos nossos corações. Tenhamos, assim, a serenidade de aceitar
que se efetivamente nos propomos a marchar, teremos também que lidar com a
espada.
E para que não nos falte exemplo, lembremos de Paulo, que soube
exemplificar a marcha do caminho redentor, como diz na Segunda Carta a
Timóteo, 4:7: ““Combater o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”-
Paulo. E é com esta lição que encerramos estas reflexões, rogando ao Cristo que
nos auxilie em nossas lutas a fim de que saiamos vitoriosos, renovados em paz e
alegria, tesouros imorredouros da alma imortal. Livro Palavras da Vida Eterna,
lição 148:

“Nas lides da evolução, há combate e bom combate.


No combate, visamos aos inimigos externos. Brandimos armas, inventamos ardis,
usamos astúcias, criamos estratégia e, por vezes, saboreamos a derrota de nossos
adversários, entre alegrias falsas, ignorando que estamos dilapidando a nós
mesmos. No bom combate, dispomo-nos a lutar contra nós próprios, assestando
baterias de vigilância em oposição aos sentimentos e qualidades inferiores que nos
deprimem a alma.
O combate chumba-nos o coração à crosta da Terra, em aflitivos processos de
reajuste, na lei de causa e efeito.
O bom combate liberta-nos o espírito para a ascensão aos planos superiores.
Paulo de Tarso, escrevendo a Timóteo, nos últimos dias da experiência terrestre,
forneceu-nos preciosa definição nesse sentido. Ele, que andara em combate até o
encontro pessoal com o Cristo, passou a viver no bom combate, desde a hora de
entrevista com o Mestre. Até o caminho de Damasco, estivera em função de louros
mundanos, ávido de dominações transitórias, mas, desde o instante em que
Ananias o recolheu enceguecido e transtornado, entrou em subalternidade
dolorosa.
Incompreendido, desprezado, apedrejado, perseguido, encarcerado várias vezes,
abatido e doente, jamais deixou de servir à causa do bem que abraçara com Jesus,
olvidando males e achaques, constrangimentos e insultos. Ao término, porém, da
carreira de semeador da verdade, o ex-conselheiro do Sinédrio, aparentemente
arrasado e vencido, saiu da Terra na condição de verdadeiro triunfador.”

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 26.12.2014


Candice Günther
Estudo Renúncia Parte 3f

“O Evangelho é mensagem de salvação, nunca de tormento. Na


realidade, conhecemos a extensão da nossa indigência e o grau
das nossas fraquezas; mas a misericórdia divina restaria imota
sem as nossas quedas e dolorosas necessidades, O Cristianismo
jamais será doutrina de regras implacáveis, mas sim a história
e a exemplificação das almas transformadas com Jesus, para
glória de Deus. Se as lições do Mestre apenas nos oferecessem
motivos de condenação, onde estariam as grandes figuras
evangélicas de Maria Madalena, Paulo de Tarso e tantas
outras? No entanto, a pecadora transformada foi a mensageira
da ressurreição; o inflexível e cruel perseguidor convertido
recebeu de Jesus a missão de iluminar o gentilismo.” Alcione

Em resposta à pergunta de Susana, que dizia sentir-se culpada e pecadora


ante as luzes do Evangelho, Alcione nos oferece mais um trecho de profundo
significado, um convite a reflexão. E em minhas singelas reflexões, surgiram de
pronto alguns questionamentos, me colocando como ouvinte destas palavras de
Alcione, tal qual se eu estivesse naquela sala, junto de Susana e Cirilo. Como me
sinto ante a boa nova apresentada pelo Cristo, é mensagem de salvação ou de
tormento? O Evangelho alcança todos os aspectos da minha vida, ou deixo algo
“guardado”, “escondido” nas profundezas do meu ser? Percebo o alcance da
misericórdia divina em minha vida?

Como nos relata Mateus, cap. 5:5, são “bem-aventurados os aflitos, porque
serão consolados”. Pois é justamente isto que Susana está ouvindo de Alcione e
nós outros estamos ouvindo agora. O Evangelho é mensagem de salvação e não de
tormento. Nossa aflição não vem de Deus, dEle vem o consolo, em razão de sua
infinita misericórdia.

Em algum momento de nossa vida milenar, da nossa vida espiritual, optamos


por nos afastar do Pai e o que temos feito é este caminho de volta, um caminho de
lutas e dificuldades que é amparado por sua misericórdia. Eis, porém, que temos
dificuldade em reconhecer a ação de Deus em nosso dia a dia. Do alto de nossa
turva visão, tal qual Susana, não raro as letras do Evangelho se agigantam como
acusadoras das nossas imperfeições e nos abatemos, cansados destas tentativas de
melhoria.

Pensando, ainda, em como posso aprender com este texto, ouvindo Alcione
como quem quer aprender, constato que quando erro e tenho consciência do meu
erro, não me é muito difícil o caminho do arrependimento. A questão é quando
paro ante a dúvida, a linha tênue que separa algo correto de algo incorreto, de algo
que me afasta e me separa de Deus. Nem sempre discernirmos corretamente,
erramos muitas vezes por causa de nossa visão turva...

Como fazer? Qual o caminho para estas horas de dúvidas?

Olhando para a minha vida, lembrando das dificuldades do caminho,


percebo que todas as vezes que me coloquei em oração, buscando com humildade
o auxílio do Pai, as letras do Evangelho fizeram sentido para minha vida e tiveram
efeito consolador. Lembremos que Jesus a todo instante buscava recolher-se em
oração, muitas vezes separando-se da multidão, para buscar a sintonia com a
vontade de Deus. Assim, pensemos que o caminho para que o Evangelho seja fonte
de alívio e paz é, então, conseguirmos nos conectar com o Pai, só assim seremos
capazes de entender a sua vontade, permitindo que as letras do Evangelho, nas
palavras de Alcione, sejam “mensagem de salvação, nunca de tormento”. Simples,
é fato, nem por isso fácil.

Uma eficaz ferramenta que utilizamos para nos conectarmos com o Pai é a
oração, a prece sincera em que levamos ao Pai o que vai em nosso coração.
Olhemos um trecho do Evangelho de Mateus, cap. 6: 5-6:

“E quando orardes, não sejais como os hipócritas, porque eles gostam de


fazer oração pondo-se em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos
pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa. Tu, porém,
quando orares, entra no teu quarto e, fechando tua porta, ora ao teu Pai que está
lá, no segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará.”

Ao nos colocarmos em prece desta forma, levando a Deus os nossos mais


íntimos anseios, dúvidas e imperfeições, levando a Ele tudo o que se passa em
nosso mundo íntimo, permitimos que Ele adentre em nossas vidas. Se não há um
só lugar na face da Terra e nos confins do mundo onde Deus não se encontre e a
sua misericórdia não alcance, porque temos ocultado dEle o que e quem somos?
Talvez, estejamos tentando ocultar de nós mesmos a nossa imperfeição,
esquecemo-nos, porém, que Deus nunca nos pediu que fossemos perfeitos, mas
sim que nos mantivéssemos fieis a Ele, obedientes (lembremos da queda de Adão e
sua simbologia).

Encontramos do Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XXVII, item 4 a


indicação dos motivos a que somos convidados a orar em segredo e o que isto
significa: “Orai, enfim, com humildade, como o publicano, e não com orgulho,
como o fariseu. Examinai os vossos defeitos, não as vossas qualidades e, se vos
comparardes aos outros, procurai o que há em vós de mau.”

Quando buscamos nos conectar com o Pai através da prece, deixamos de


lado o orgulho que nos diz que somos autossuficientes para adentrar num mundo
que nos permite entendermos e nos sentirmos carecedores da misericórdia divina e
é justamente através da misericórdia divina que conseguimos avançar e fazer este
caminho de volta ao Pai. E é importante que entendamos isto, porque há muita
confusão quanto ao verdadeiro significado da lei de causa e efeito. Muitos alegam
que tudo o que nos ocorre é em decorrência de nosso merecimento ou não,
afastando, porém, deste entendimento o recorrente abrandamento com o qual
somos agraciados, através da misericórdia divina. E, ainda que tentemos, isto não é
algo que se explique e se esgote em palavras, é experiência de vida, é sentimento
que nos diminui as dores de termos transitado para longe do Pai. Acima de tudo é
reflexão pessoal, olhemos para nossa vida e sondemos, quando a misericórdia de
Deus nos alcançou? Quando eu não mereci, eu não fiz por onde, e ainda sim Deus
veio ao meu encontro renovando a oportunidade para que eu me aproximasse
dEle? Alcione nos dá os ricos exemplos de Maria de Madalena e Paulo de Tarso,
lembremos pois, de nossas imperfeições e adequemos a forma como estamos nos
dirigindo ao Pai Maior.

Mas, então, é só a prece? Ela tudo resolverá? Nos socorremos com o


comentário de Emmanuel para avançar na busca por este entendimento, lição 88 do
Livro da Esperança: “quando suplicamos perdão das próprias faltas à Eterna
Justiça,não bastam o pranto de compunção e a postura de reverência. Após o
reconhecimento dos compromissos que nos são debitados no livro do espírito,
continuamos tão aflitos e tão desditosos quanto antes. Contudo, se perseveramos
na prece, com o serviço das boas ações que nos atestam a corrigenda, a breve
trecho, perceberemos que a Lei nos restitui a tranquilidade e a libertação, com o
ensejo de apagar as consequências de nossos erros, reintegrando-nos no respeito
e na estima de todos aqueles que erigimos à condição de credores e adversários.”

Eis, então, o caminho, a prece que nos permite a conexão e o entendimento


da vontade de Deus para as nossas vidas. Entendendo a necessidade do “serviço
das boas ações que nos atestam a corrigenda”. Não são nossas ações que nos
permitem que nos aproximemos do Pai, num sentido equivocado do que seria o
merecimento, mas elas simplesmente atestam que estamos tentando, que estamos
retornando aos braços amorosos e misericordiosos de Deus. E a medida que
tentamos ser pessoas melhores, eis que vamos nos sentindo livres, tranquilamente
livres. Recordando as palavras de Alcione, no início, estaremos assim escrevendo a
nossa “história e a exemplificação das almas transformadas com Jesus, para
glória de Deus”.

E com a alma cheia de gratidão pela oportunidade do estudo e das reflexões


que este livro nos dá, recordo convosco das notas iniciais do livro em que
Emmanuel nos avisa do alcance que as lições imorredouras desta obra nos querem
ofertar: “Este é um livro de sentimento, para quem aprecie a experiência humana
através do coração. Em particular, falará a todos os que se encontrem
encarcerados, sentenciados, esquecidos daquele amor que cobre a multidão dos
pecados, consoante os ensinamentos de Jesus. A maioria dos aprendizes do
Evangelho deixa-se tomar, em sentido absoluto, pelas idéias de resgate escabroso,
de olho por olho, ou, então, pela preocupação de recompensas na Terra ou no
Céu. Aqui, comentam-se reencarnações criminosas; ali, esperam se tão só prantos
amargos; além, existem corações anelantes de remansado e ocioso pousio. A
esperança e a responsabilidade parecem tesouros esquecidos. É razoável que se
não possa negar o caráter incorruptível da Justiça, porém, não se
deverá esquecer o otimismo, a confiança, a dedicação e todas as
energias que o amor procura despertar no âmago das consciências.”

Lembremos, sempre, desta rica palavra, o evangelho não é fonte de


tormento, mas de salvação, pois só assim, com este olhar, fará sentido a
bem-aventurança que nos diz que os aflitos serão consolados, como
melhor nos explica Emmanuel, no livro Esperança:
“Quando vejas alguém submetido aos mais duros entraves, não suponhas que esse
alguém permaneça no olvido, por parte dos benfeitores espirituais que lhe seguem
a marcha.0 amor brilha e paira sobre todas as dificuldades, à maneira do sol que
paira e brilha sobre todas as nuvens. Ao invés de revolta e desalento, oferece paz e
esperança ao companheiro que chora, para que, à frente de todo mal, todo o bem
prevaleça. Isso porque onde existem almas sinceras, à procura do bem, o
sofrimento é sempre o remédio justo da vida para que, junto delas, não suceda o
pior.”

Que a doce paz de Jesus nos envolva, hoje e sempre.

Campo Grande – MS, 02.01.2015.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 3g

“Por infelicidade nossa é, de fato, enorme a bagagem das nossas


fraquezas neste mundo; mas, se o Pai não desanimou e nos oferece,
diariamente, ensejo de nos levantarmos para o seu amor, por que
haveremos de viver em descrença contumaz? Viver sem esperança é
o pior de todos os males. Quando nos preocupamos sinceramente
com a iluminação espiritual, compreendemos a significação de
todas as coisas. A própria miséria humana tem o seu lugar e a sua
expressão educativa. Antes de tudo, é essencial refletirmos na
extensão da bondade do Mestre. Lembremos que Pedro o negou
três vezes, na hora mais cruel; que Tomé duvidou da sua sabedoria
e misericordioso poder, e, nem um nem outro foi jamais expulso da
sua divina presença. O mundo tem inúmeros criminosos,
exploradores, ociosos e devassos, mas tudo isso deve ser
examinado por um prisma diferente. O pecado é moléstia do
espírito. No excesso da alimentação, na falta de higiene, no
desregramento dos sentidos, o corpo sofre desequilíbrios que
podem ser fatais. O mesmo se dá com a alma, quando não sabemos
nortear os desejos, santificar as aspirações, vigiar os pensamentos.
Sempre acreditei que as enfermidades dessa natureza são as mais
perigosas, porque exigem remédio de mais dolorosa aplicação.”

A cada fala de Alcione, cada parágrafo, cada frase, observamos a rica


oportunidade de reflexão, reflexão sem pressa, aquela que nos leva a uma viagem
interior, ao desejo de sondar os próprios sentimentos. Cresce, assim, um querer.
Primeiramente, requer de nós a permissão de que nos deixemos evangelizar por
estas palavras, por este exemplo, e depois, em decorrência desta permissão, nascerá
este querer: a vontade sincera de que este ensino promova em nós a melhoria, a
reforma íntima, da qual tanto necessitamos. Vamos, então, mergulhar no texto,
sondar as palavras, assim como aquela melodia que nos é preferida e que ouvimos
reiteradas vezes, deixemos que estas palavras nos falem de muitas formas...

 1 Por infelicidade nossa é, de fato, enorme a bagagem das nossas fraquezas


neste mundo; mas, se o Pai não desanimou e nos oferece, diariamente,
ensejo de nos levantarmos para o seu amor, por que haveremos de viver em
descrença contumaz?
 2 Viver sem esperança é o pior de todos os males.
 3 Quando nos preocupamos sinceramente com a iluminação espiritual,
compreendemos a significação de todas as coisas.
 4 A própria miséria humana tem o seu lugar e a sua expressão educativa.
 5 Antes de tudo, é essencial refletirmos na extensão da bondade do Mestre.
 6 Lembremos que Pedro o negou três vezes, na hora mais cruel; que Tomé
duvidou da sua sabedoria e misericordioso poder, e, nem um nem outro foi
jamais expulso da sua divina presença.
 5 O mundo tem inúmeros criminosos, exploradores, ociosos e devassos, mas
tudo isso deve ser examinado por um prisma diferente.
 4 O pecado é moléstia do espírito.
 3 No excesso da alimentação, na falta de higiene, no desregramento dos
sentidos, o corpo sofre desequilíbrios que podem ser fatais.
 2 O mesmo se dá com a alma, quando não sabemos nortear os desejos,
santificar as aspirações, vigiar os pensamentos.
 1 Sempre acreditei que as enfermidades dessa natureza são as mais
perigosas, porque exigem remédio de mais dolorosa aplicação.

Com o objetivo de nos aguçar os sentidos para este caminho que Alcione nos
está oferecendo, tentei colocar este texto em outra perspectiva, como se fosse uma
escalada que tem em seu topo a Divina Presença, que é justamente a parte central
do texto e, sem duvido, o alvo que todos queremos alcançar. E o fazemos isso,
inspirados nas palavras de Emmanuel no livro Instrumentos do Tempo:
“Convidados a estudar os ensinos do Cristo, à luz da Doutrina Espírita, com os
instrumentos do tempo, fomos impulsionados a reconhecer que os instrumentos
do tempo são as palavras.” Assim como a Bíblia, segunda revelação, está cheia
destas estruturas, em que o tema do texto aparece justamente no meio, verificamos
esta mesma estrutura nos romances de Emmanuel e em várias lições de seus
inúmeros livros, André Luiz também utilizou-se deste recurso varias vezes. Assim,
estou caminhando para conclusões de que há uma inspiração em comum
organizando estas palavras, tal qual fosse o traço de um célebre pintor que será
sempre reconhecido. Vejamos, então, o que este trecho nos oferece em uma
estrutura diferente.
Usando apenas estas palavras chaves que estão no texto apresentado por
Alcione, podemos o reconstruir, usando esta perspectiva da pirâmide, em que
vamos galgando os degraus inferiores, lado a lado, até chegar ao topo, que é a
divina presente. Vejamos como ficaria, num exercício livre e imperfeito deste
valoroso conhecimento que nos está sendo transmitido: Ao procurarmos um
remédio para as dores de nossas almas, e no momento em que levantarmos para o
seu amor, somos abraçados pela esperança. E ela nos permite nortear os desejos,
santificar as aspirações, vigiar os pensamentos. Ainda são nossos reiterados
desequilíbrios que impedem a nossa iluminação espiritual, porém, não obstante a
nossa miséria humana, moléstia do espírito, somos convidados a olhar o mundo
sob um prisma diferente, com os olhos e o coração voltados para a bondade do
Mestre, assim, finalmente alcançaremos e sentiremos a Divina Presença em
nossos corações. Vemos assim que há um movimento no texto, um ir e vir, que nos
remete e nos convida a resignificar nossas vidas, ações e pensamentos.

Alcione nos ensina que “Evangelho, em sua expressão total, é um vasto


caminho ascensional, cujo fim não poderemos atingir, legitimamente, sem
conhecimento e aplicação de todos os detalhes.” Este tem sido, assim, o nosso
exercício em busca de entender as valiosas lições que este livro nos oferece,
buscando os detalhes ocultos e, bem como reflexão, primeiramente de quem está
subindo um lugar íngreme (vasto caminho ascencional) e depois, olhando e
tentando aprender com quem já alcançou um lugar mais elevado.

Vemos, neste caminho sugerido por Alcione, que começamos como doentes
que necessitam de remédio, como caídos que precisam levantar-se para o amor
divino e percorremos um caminho até chegar à Divina Presença. Percebemos que a
direita, no último degrau da pirâmide, há a expressão “prisma diferente”. Até Jesus
a humanidade tinha um olhar para Deus, mas Jesus inaugura um novo tempo, inicia
o processo que nos levará a um mundo regenerado, onde estejamos em harmonia e
fraternidade ligados ao Pai Maior, nos sentindo amados por sua Divina Presença.

Certamente, subir um caminho nos trará dificuldades, cansaço, percalços.


Tenhamos, porém, a certeza de que o dizer do Cristo de que seu jugo é leve e seu
fardo suave é verdadeiro e que ele nos auxilia neste caminho ascensional. Nos
dizeres de Mateus 11:28-30: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o
peso do vosso fardo e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e
aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis
descanso para vossas almas, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve".” (Bíblia
de Jerusalém) Estamos subindo os degraus, trilhando nosso caminho ascensional,
amparados, porém, pela bondade de Jesus que jamais nos esquece.

Vejamos a rica lição de Emmanuel, ao comentar o versículo 28 do cap. 11


de Mateus no livro Caminho Verdade e Vida, percebendo inclusive, como ele
guarda relação com a fala de Alcione:

“(Jesus) Não amaldiçoou os tristes: convocou-os à consolação.


Muita gente acredita na lágrima sintoma de fraqueza espiritual. No entanto, Maria
soluçou no Calvário; Pedro lastimou-se, depois da negação; Paulo mergulhou-se
em pranto às portas de Damasco; os primeiros cristãos choraram nos circos de
martírio... mas, nenhum deles derramou lágrimas sem esperança. Prantearam e
seguiram o caminho do Senhor, sofreram e anunciaram a Boa Nova da Redenção,
padeceram e morreram leais na confiança suprema.
O cansaço experimentado por amor ao Cristo converte-se em fortaleza, as cadeias
levadas ao seu olhar magnânimo transformam-se em laços divinos de salvação.
Caracterizam-se as lágrimas através de origens específicas. Quando nascem da
dor sincera e construtiva, são filtros de redenção e vida; no entanto, se procedem
do desespero, são venenos mortais.”
Assim, tenhamos estes exemplos em nossa lembrança, reconhecendo que o
Evangelho é sempre palavra de consolação. Nos sentimos assim, consolados? Ou
estamos novamente nos paralisando na culpa que é fruto do nosso orgulho? Somos
imperfeitos e necessitamos do amor, da justiça e da misericórdia de Deus para que
avencemos.

Agradeço a Jesus por mais esta oportunidade de estudo e aprendizado.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 09.01.2015.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 4b

Nesta parte iremos pincelar outros dois trechos, ambos de momentos da vida
de Madalena Vilamil, um no capítulo 4 da primeira parte e outro no capítulo 4 da
segunda parte, e ao fazê-lo, aprenderemos juntos uma linda lição de como
podemos atrair para nossas vidas um abrandamento para nossas lutas e dores.

Recordemos a história, com a partida de Cirilo para a América, a família de


Madalena teve seu problema financeiro agravado, sua mãe adoentada e aflita por
causa da condição em que se encontravam pede a Madalena que peça ajuda a
amigas e lhe indica nomes e endereços. Não obstante sentir-se contrariada,
Madalena atende o pedido da mãe e não consegue ajuda, ao contrário, é humilhada
e precisa retornar para casa sem a ajuda que a mãe tanto queria.

O que acontece, então, é um momento muito especial na vida de Madalena,


com o sentimento de grande tristeza e mágoa, andando pelas ruas carregando
revolta em seu íntimo, é atraída para um lugar de oração. E ao colocar-se em prece,
seu íntimo muda: “Ao dobrar uma esquina, porém, num recanto solitário, deparou-
se-lhe um nicho da tradicional devoção popular, que lhe chamou a atenção.
Inexplicavelmente, sentiu súbita necessidade de orar, de maneira a afugentar
os pensamentos de revolta e amargor. Encaminhou-se ao oratório da fé pública e
viu a imagem de Jesus Crucificado, simples, sem adornos, apenas encimada por
minúsculo teto de madeira, que resguardava a obra de arte das intempéries.
Contemplou, enlevada como nunca, a relíquia do povo e orou, através do véu de
lágrimas, pelas chagas sangrentas e pela coroa de espinhos que pendia da fronte
dilacerada. Como simples criatura anônima, ajoelhou-se no pó da via pública,
invocando a proteção do “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Nesse
momento em que se humilhava, qual jamais fizera em ato de contrição religiosa, a
filha de D. Inácio experimentou uma sensação de consolo que jamais
conhecera, em tempo algum. Dir-se-ia que sua alma sofredora assinalava a
presença de um anjo, invisível aos olhos mortais, a passar-lhe as mãos pela fronte
com suavidade cariciosa. Doces emoções da maternidade elevaram-se-lhe do
coração ao cérebro. A consciência parecia dilatada a uma esfera de compreensão
divina. Ao bafejo da energia desconhecida, chegava a conclusões rápidas e
profundas. A dor não mais a humilhava, antes lhe engrandecia o coração. Sentia
algo semelhante a uma voz falando-lhe no imo da alma, em vibrações de suave
mistério. Teve a impressão indefinível de que alguém lhe tomava o braço com
afagos brandos, convidando-a a erguer-se. Nunca soubera pensar em Cristo como
naquela hora inesquecível. Em poucos momentos, os olhos estavam enxutos. O
profundo e carinhoso nome de mãe ressoava-lhe no peito como incompreensível e
sublime esperança. Quem era o homem da Terra, e quem era Jesus? Essa
pergunta que se lhe apoderara da mente, como se fora sugerida por alguém, de
plano mais alto, proporcionava-lhe infinita consolação à alma ferida. As angústias
do dia se desvaneceram como incidente fugaz. Os algozes do Cristo deviam ter
sido muito mais cruéis que as senhoras de Falguière e Saint-Medard, que não
passavam, aliás, a ajuizar por sua conduta, de duas mulheres ignorantes e
orgulhosas, a abusarem das possibilidades do mundo. E que era a sua mágoa
comparada à do Mestre que se imolara pelos pecadores? Sofria muito naquela hora,
em retribuição aos carinhos e dedicações materiais; mas Jesus aceitara o madeiro
por amor aos bons e aos maus, aos justos e aos injustos. Beijou então,
comovidamente, a pequena cruz e encaminhou-se para casa, sentindo-se
amparada por uma força invisível que jamais conseguiria definir.”

Sentindo-se melhor, retorna ao lar, e é exatamente este trecho, a sua postura


que nos trará uma linda lição. Vejamos: “Abraçando a mãezinha doente, sentiu
que era indispensável mentir para confortar; esconder a verdade dura, de modo a
não abrir chagas mais cruéis.”

Mentir para confortar? Esconder a verdade? Sim, ela omitiu tudo o que lhe
ocorrera, pensando que a verdade em nada acrescentaria a já tão adoentada
mãezinha. Madalena esqueceu sua dor, as humilhações que sofrera, entregou-as
Deus quando orou, amparada pelo exemplo do Cristo. E este ato de bondade ficou
assinalado em sua vida.

Antes de seguirmos para o capítulo 4 da segunda parte, vejamos o que nos


diz o Livro dos Espíritos: “Amai-vos uns aos outros, eis toda a lei, Lei divina,
mediante a qual governa Deus os mundos. O amor é a lei de atração para os seres
vivos e organizados. A atração e a lei de amor para a matéria inorgânica. Não
esqueçais nunca que o Espírito, qualquer que seja o grau de seu adiantamento,
sua situação como reencarnado, ou na erraticidade, está sempre colocado entre
um superior, que o guia e aperfeiçoa, e um inferior, para com o qual tem que
cumprir esses mesmos deveres. Sede, pois, caridosos, praticando, nao só a
caridade que vos faz dar friamente o óbolo que tirais do bolso ao que vo-lo ousa
pedir, mas a que vos leve ao encontro das misérias ocultas. Sede indulgentes com
os defeitos dos vossos semelhantes. Em vez de votardes desprezo a ignorância e ao
vicio, instrui os ignorantes e moralizai os viciados.”
Madalena, ao se colocar em oração, foi auxiliada, inspirada a novos
sentimentos. Não guardou-os para si, ao ocultar de sua mãe a postura equivocada
das amigas de outrora, foi benevolente com os erros alheios. Buscando a sintonia
através da prece, foi capaz de uma conduta moral que muito nos ensina.

Pois bem, se parássemos o estudo por aqui, já teríamos aprendido muito e


teríamos algo a refletir sobre nossa postura ante as agruras da vida, não é mesmo?
Qual de nós faria como o fez Madalena? Temos orado? Somos capazes de esquecer
nossas dores para suavizar o sofrimento alheio? Mas ainda temos lições outras a
refletir...

Sigamos em frente. Avancemos ao capítulo 4 da segunda parte e


encontraremos Madalena já em idade avançada, morando em Paris, cuidada por
Alcione que se desdobrava em cuidados com a mãe querida, eis que convalecia de
problemas físicos gravíssimos e fatais.

Há uma questão que interliga estes capítulos de uma forma muito bonita.
Alcione estava trabalhando na casa de Cirilo e Susana, sem que eles soubessem sua
verdadeira identidade e ocultou esta informação de sua mãe durante todo o tempo,
até a derradeira hora de seu desencarne. E o fez porque sabia que a verdade iria
causar sofrimentos imensos em sua mãe.

É a mesma postura que Madalena teve no momento anterior, com sua mãe,
que agora Alcione, sua filha, está tendo para com ela, porém, em dimensões bem
superiores, eis que o segredo que Alcione guardou com tanto zelo, era gravíssimo.
Susana mentira a Cirilo quanto à morte de Madalena e toda sua vida foi construída
neste alicerce de mentira e dor.

A bondade de Madalena outrora, ocultando de sua mãe as incorretas ações


de sua amigas, bem como uma vida de resignação e oração, atraiu para o seu
espírito um abrandamento no sofrimento que teria ao descobrir em vida tudo o que
realmente aconteceu com Cirilo. Houve um abrandamento em seu sofrer e
reconhecemos que isso se deu em razão de seu merecimento em posturas
anteriores, imperioso, porém, verificarmos que as proporções não se igualam.
Comparando o seu gesto outrora para com sua mãe e o que depois recebe de sua
filha, vemos que Alcione ofereceu-lhe algo muito superior. Então, temos aqui um
caso legítimo de merecimento amparado pela misericórdia Divina, que nos retribui
o bem que fazemos muito além do que aparentemente mereceríamos.
Encontramos no Evangelho de Mateus, cap. 7: 1-2 a lição evangélica que
estas vidas souberam de forma sublime vivenciar e nos ensinar: “Não julgueis
para que não sejais julgados, pois com o juízo com que julgais sereis julgados, e
com a medida com que medis sereis medidos.”

Ao buscar o auxílio da prece em momento de angústia e dor, ainda em sua


juventude, Madalena conseguiu agir em consonância com o evangelho.
Busquemos, assim, nós outros, sermos assim nas pequenas coisas, silenciando o
mal que nos fazem, não espalhando a ouvidos outros a conduta equivocada que
muitas vezes presenciamos. Tenhamos fé e confiança na justiça do Pai Maior que
tudo sabe e vê.

Encerro estas singelas reflexões com as palavras de Emmanuel, no livro


Palavras da Vida Eterna:

“Viste o companheiro em necessidade e comentaste-lhe a posição...


Possuía ele recursos expressivos e, talvez por imprevidência, caiu em penúria
dolorosa...
Usufrui conhecimentos superiores e feriu-te a sensibilidade por arrojar-se em
terríveis despenhadeiros do coração que, às vezes, os últimos dos menos instruídos
conseguem facilmente evitar...
Detinha oportunidades de melhoria, com as quais milhares de criaturas sonham
debalde e procedeu impensadamente, qual se não retivesse as vantagens que lhe
brilham nas mãos...
Desfruta ambiente distinto, capaz de guindá-lo às alturas e prefere desconhecer as
circunstâncias que o favorecem, mergulhando-se na sombra das atitudes
negativas...
Mantinha valiosas possibilidades de elevação espiritual, no levantamento de
apostolados sublimes, e emaranhou-se em tramas obsessivas que lhe exaurem as
forças...
Tudo isso, realmente, podes observar e referir.
Entra, porém, na esfera do próprio entendimento e capacita-te de que te não é
possível a imediata penetração no campo das causas.
Ignoramos qual teria sido o nosso comportamento na trilha do companheiro em
dificuldade, com a soma dos problemas que lhe pesam no espírito.
Não te permitas, assim, pensar ou agir, diante dele, sem que a fraternidade te
comande as definições.
Ainda mesmo no esclarecimento absoluto que, em casos numerosos, reclama
austeridade sobre nós mesmos, é possível propiciar o remédio da fraqueza a
doentes da alma pelo veículo da compaixão, como se administra piedosamente a
cirurgia aos acidentados.
Se conseguimos discernir o bem do mal, é que já conhecemos o mal e o bem, e se
o Senhor nos permite identificar as necessidades alheias, é porque, de um modo
ou de outro, já podemos auxiliar.”

A lição de Emmanuel parece comentar em breves linhas o cenário que


vemos na vida dos personagens do livro...a penúria dolorosa da família de
Madalena, os despenhadeiros do coração a que se submeteu Susana e Inácio, as
atitudes negativas de Cirilo...tudo podemos observar...mais eis que o convite é
outro. O convite é para que permitamos nos governar pela fraternidade, que
saibamos que o remédio da fraqueza dos doentes da alma é ministrado através da
compaixão. Alcione teve compaixão de Susana, nós teríamos? Já conseguimos
discernir o bem do mal? Então, nos ensina Emmanuel e nos convida o Cristo, já
podemos auxiliar.

Que Jesus nos guie hoje e sempre para que prossigamos no estudo que
edifica e que nos remete a um melhor viver.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 23.01.2015


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 4c

Há uma frase de Emmanuel, que está no livro Urgência, de 1980, que parece
definir muito bem a lição de hoje: “A paz depende muito mais do esquecimento
do mal que do propósito de corrigi-lo.” Vejamos o porquê...

Estamos estudando o livro Renúncia, ainda buscando pontos de encontro


entre os capítulos de número 4, primeira e segunda parte, identificando lições
evangélicas que nos tragam ensinamentos.

Ao lermos um romance, em geral, identificamos o vilão ou os vilões da


história, e neste romance não seria diferente. Ao optar por este formato literário
para contar a belíssima história (verídica) de Alcione, eis que encontramos Susana
e Antero como os algozes, como aqueles que se uniram e praticaram atos que em
muito prejudicaram Alcione.

Pois é no capítulo 4 da primeira parte que o desejo, a revolta e a paixão de


Susana e Antero assumem proporções maiores. Se até então tudo acontecia em seu
mundo interior, nesta etapa eles se unem para consolidar um crime que é praticado
em conluio e de comum acordo. Em resumo, o que eles fizeram foi subornar um
padre para que ele emitisse uma certidão de óbito alterando, porém, o nome de
Madalena Vilar para Madalena Vilamil. Susana levaria a certidão à Cirilo como
prova da morte de Madalena. Também Antero levaria a Madalena de que Cirilo
morrera em trágico acidente com o afundamento do navio em que partira.

O plano, aos seus olhos, parecia algo perfeito. Uma vez viúvos, Cirilo e
Madalena estariam livres para procurar novas núpcias e certamente eles, Susana e
Antero, seriam os escolhidos, uma vez que estavam tão próximos e tanto os
“amavam”. Tudo perfeito, não fosse um detalhe que lhes passou despercebido e
que lhes foi definitivo para uma vida de sofrimento: sua consciência.

E será a própria Susana quem nos trará este ensino: “A paixão me levou ao
desvario de comprometer para sempre a paz de minhalma. Realizei o louco
intento, vali-me de todos os recursos, meus e de meus amigos, para esposar Cirilo,
crente de que, aparceirada com Antero, poderia corrigir um erro do destino. Mas
a verdade é que nunca encontrei um ceitil da felicidade ardentemente desejada...
Os criminosos não podem lograr, nunca, a realidade do seu ideal. Aprendi
cruelmente que não pode haver paz fora do dever cumprido; que não há alegria
sem aprovação da consciência tranquila.”

Pois bem, se o crime é narrado no capítulo 4 da primeira parte, será


justamente no capítulo 4 da segunda parte que encontraremos a Família Davenport
adentrando a casa de Alcione, ante a noticia de que sua mãe estava em seus
momentos derradeiros, e descobrindo toda a farsa que persistiu por uma vida
inteira. Cirilo reencontrando Madalena em seu momento derradeiro. E esta, já com
a visão do mundo espiritual, vendo sua mãe e Padre Damiano que lhe vieram
assistir nos momentos derradeiros, vê também Cirilo desta forma, sendo poupada
da imensa dor em seus momentos finais.

Chegamos, então, ao ponto em que a frase de Emmanuel, que citamos no


início nos trará belíssima lição. Se temos, ainda, alguma dúvida da necessidade da
reencarnação e do esquecimento ao reencarnarmos, este trecho traz luzes para
nossa alma e esperança aos nossos corações.

Susana confessa: “A infeliz criatura começou, dificilmente, a revelar,


detalhe por detalhe, a enorme culpa da sua vida. De vez em quando, um soluço
abafado a interrompia. A confissão prolongava-se por mais de uma hora, e, como
se obedecesse a poderosos imperativos da consciência, Susana não omitiu a menor
particularidade. Emocionadíssima, pintava os seus estados dalma na época em
que estudava todas as possibilidades do plano criminoso, para conquistar
definitivamente o homem amado. Minudenciou as atitudes de Antero Oviedo,
descrevendo os antecedentes de suas relações com ele, os passeios que faziam e
nos quais o sobrinho do fidalgo espanhol dava-lhe a conhecer a imensa paixão
pela prima.” Pede o perdão de Cirilo, sem conseguir, muito pelo contrário, Cirilo
num momento de grande dor e raiva atenta contra a vida de Susana, sendo
impedido por Alcione.

E Antero? Onde estava Antero? Já havia a notícia no livro, em capítulos


anteriores, de que havia desencarnado, também assombrado por uma consciência
culpada. Mas ele retornou a vida e estava presente na sala, quando toda esta
tragédia foi revelada!!! Recordemos, Robbie, criado por Madalena como filho, era
o espírito de Antero reencarnado.

E como foi que Cirilo o tratou?

Vejamos o que nos conta Emmanuel na narrativa do cap. 4 da segunda parte,


no quarto de Madalena, mesmo lugar me que Susana acabara de ser execrada: “—
Este, Cirilo — dizia a agonizante, exânime —, é também nosso filho pelo
coração... Criei-o amorosamente desde o dia em que nasceu... Ajudar-me-ás a
pedir por ele aos pés de Jesus! Nunca o deixaremos só!...
E dando a impressão de querer consolar o rapazinho, acrescentava:
— Estás vendo, Robbie? Por que temer os padecimentos do mundo, se temos outra
vida? Não dês importância aos que te escarneçam, meu filho!... Tudo passa na
Terra!... Por que haverás de permanecer em tristeza no mundo, quando sabes que
te esperamos no Céu? Fez uma longa pausa, que ninguém se sentia com coragem
de interromper. Ao cabo de alguns instantes, acentuava com placidez inconcebível,
dirigindo-se ao filho adotivo:
— Toma a benção a teu pai, Robbie!... Pede-a também ao amigo que o
acompanha!...
Então, verificou-se a cena tocante, que provocava novo contingente de lágrimas
copiosas. Com sincera humildade, o pequenote atendeu, beijando a mão dos dois
homens para êle desconhecidos. O filho de Samuel contemplou-o, comovido.
Jamais poderia dizer porque o pequeno descendente de escravos o atraía tão
fortemente. Num gesto espontâneo, abraçou-o com ternura e murmurou:
— Serás também meu filho!...”

Os dois algozes estavam presentes, a um Cirilo quis matar, ao outro


abençoou como filho, criando um laço de amor que abrandaria todo o ódio e
revolta que tinha contra Antero, eis que recebia Robbie como um filho amado de
seu coração. É certo que não temos como afirmar qual a reação de Cirilo ao
desencarnar e descobrir a real identidade de Robbie, porém, fiquemos com o que
vimos e com o que nos é relatado. Naquele momento, na hora derradeira da partida
de Madalena, ele o abraçou como filho amado e só o fez porque a benção da
reencarnação e do esquecimento lho permitiram.

O livro dos Espíritos nos ensina sobre a questão do esquecimento: “392. Por
que perde o Espírito encarnado a lembrança do seu passado? “Nao pode o
homem, nem deve, saber tudo. Deus assim o quer em sua sabedoria. Sem o veu que
lhe oculta certas coisas, ficaria ofuscado, como quem, sem transicao, saisse do
escuro para o claro. Esquecido de seu passado, o homem é mais senhor de si.”

É interessante esta afirmativa de que “esquecido de seu passado, o homem é


mais senhor de si.” Parece, a primeira vista, uma contradição, como esquecer algo
e nos tornarmos mais senhores de nós mesmos?? Mas ao olharmos a postura de
Cirilo, tão diferente diante de Robbie (Antero) e Susana, compreendemos bem o
que isto quer dizer. Nossas mágoas e nossos ódios nos cegam, nos aprisionam e
nos deixam distantes da nossa essência que é o amor. Somos senhores de nós
mesmos quando, e apenas quando, conseguimos amar.

Tenhamos a certeza de que a vivência de Cirilo e Robbie também está


acontecendo neste exato instante em nossa vida. Algozes de outrora retornam aos
nossos lares, ao nosso trabalho, nos familiares de nosso convívio, nas pessoas que
cruzam a nossa jornada. Recordemos que podemos escolher, buscar o auxílio
divino para que finalmente encontremos a paz.

Sabemos, pelas noticias trazidas no livro Sementeiras de Luz, que Madalena


e Cirilo reencarnaram em tempo contemporâneo a Chico Xavier e muito lhe
auxiliaram na confecção destes livros, eram Romulo e Maria Joviano, e também
Robbie lhes foi recebido como filho amado(Roberto), nem mesmo Susana foi
esquecida ou deixada de lado, retornou como irmã de Cirilo, todos reaprendendo o
amor, nos ditames divinos, conforme verificamos no quadro abaixo:

A lição é profunda e merece nossa reflexão. Aproveitemos o conhecimento


que nos amplia a visão para fortalecermos em nós a coragem de amar, de renunciar
e de reconstruir.
Encerramos com um trecho de um texto de Emmanuel, do livro Passos da
Vida, intitulado “Se Procurar Paz”, corroborando a frase que citamos no início do
texto (“A paz depende muito mais do esquecimento do mal que do propósito de
corrigi-lo.”):

“Olvida as desilusões e as mágoas que porventura te assaltem a mente, para que


te fixes na certeza de que a vida encerra os germens da renovação incessante,
em si própria, facultando-nos a conquista da verdadeira felicidade.

Olvida o lado menos feliz dos companheiros de trabalho e de ideal, a fim de que
lhes enxergues tão somente as qualidades enobrecidas e as possibilidades de
elevação.

Olvida as injúrias recebidas, entesourando as bençãos que te rodeiam.


Olvida o azedume e a incompreensão dos adversários e esmera-te a conservar os
amigos e irmãos que te apoiam as tarefas do dia a dia.
Olvida os assuntos que provoquem a mentalização dos erros e tragédias da
Humanidade e rende culto permanente aos feitos edificantes e heroicos em que
os homens hajam exaltado a sua natureza divina.
Olvida os fracassos que já te assediaram a existência e escora-te nas esperanças
e realizações com que te diriges para o futuro.
Olvida as reminiscências amargas e mantém na memória os acontecimentos
felizes que se te erigiram na estrada, alguma vez, por motivos de euforia e
plenitude espiritual.
Olvida as dificuldades que te entravem a marcha e consagra-te ao serviço que já
possas criar ou fazer na seara do amor ao próximo.
Se procuras a paz, olvida todo mal e dedica-te ao bem, porquanto somente o
bem te descerrará caminho para as bênçãos da Luz.”

Que Jesus, em sua infinita bondade, nos guie e nos fortaleça para que sejamos
capazes de alcançar os propósitos e compromissos desta encarnação.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 30.01.2015.

Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 4d

Há um último ponto, nesta quarta etapa do estudo do livro Renúncia, que


queria abordar antes de analisarmos alguns trechos individualmente sob a luz do
evangelho, um ponto de encontro entre os dois capítulos, capítulo 4 da primeira
parte, capítulo 4 da segunda parte...primeiramente achei que deveria tratar da
morte, uma vez que no cap. 4 da primeira parte morre a mãe de Madalena, e no
capítulo 4 da segunda parte é o própria Madalena quem desencarna. Alguns dias
refletindo, sentia que algo me faltava entender e como uma intuição incômoda que
não passava, resolvi fazer uma prece, uma prece breve, pedindo auxílio. Abri o
livro e reconheci imediatamente a presença de algo muito maior unindo este dois
momentos, não mais a morte simplesmente, mas a mensagem que o Cristo nos
trouxe diante dela. Vou lhes contar o que vi...mas vamos com calma.

No cap. 4 da primeira parte, vemos a doença de D. Margarida, mãe de


Madalena, seriamente agravada, encontramos ali a narrativa de seus momentos
derradeiros: “À tarde, sem mais palavra, D. Margarida entregara a alma a Deus,
perfeitamente tranquila. A esposa de Cirilo não saberia definir a própria dor, mas,
amparada na fé, amortalhou o cadáver entre flores e orações tão doridas quão
fervorosas.” Madalena despedia-se da mãe... e sofreria mais ainda, quando Antero
lhe contasse sobre a trágica morte de Cirilo em naufrágio, uma mentira arquitetada
em conluio com Susana. Mais dor e desespero assombram Madalena: “A filha de
D. Inácio sentia-se morrer. Enquanto se debulhava em lágrimas silenciosas,
sinistra idéia se lhe embutiu no cérebro atormentado. Não era preferível morrer?”

Como reagimos ante a partida de um ente querido? Sentimo-nos


enfraquecidos, também querendo que a morte nos encontre? Ou encontramos
amparo na fé e no exemplo de Jesus?

Sigamos adiante um pouco, migremos para o capítulo 4 da segunda parte.

Depois de uma vida de lutas e provas, neste capítulo encontraremos a


própria Madalena em seus momentos derradeiros, e seus afetos de outrora, que
partiram antes para o mundo espiritual a encontram, sendo, então, amparada por
Padre Damiano e por sua saudosa mãe, que lhe assistem em espírito nos momentos
derradeiros: “— Minha mãe veio interpretar, para nós, a leitura evangélica... Sim,
todos nós temos um horto de agonias, que atravessaremos a sós, no
esforço valoroso da fé... todos teremos um caminho doloroso e um
calvário... mas, além de tudo isso... a criatura de Deus encontrará a
ressurreição e a vida eterna...”

Ante a afirmativa: “todos teremos um caminho doloroso e um calvário”,


pensemos: qual o símbolo maior da dor e do calvário entre nós? Qual a figura que
nos remete imediatamente a esta imagem? Seria a cruz? Eis, então o ponto de
encontro destes dois capítulos, não a morte, mas este símbolo bendito que nos
lembra sim de um caminho doloroso e de um calvário, mas também nos faz
recordar de que há muito mais além da morte.

Voltemos ao cap. 4 da primeira parte. Pouco antes de desencarnar, D.


Margarida dá um presente à Madalena: “Mas, agora, minha filha, ouço no intimo a
voz de minha mãe, que me sugere deixar-te nosso velho crucifixo de madeira,
confidente de nossas lágrimas. Apontou para o pequenino oratório e acentuou:
— Guarda-o bem contigo, porque não haverá maior tesouro que o do coração
unido ao Cristo.”

Este mesmo presente ainda lhe faria refletir no cap. 4, quando pensava que
de nada valia viver sem a presença de Cirilo: “Fez um movimento instintivo com os
braços para atender a criancinha, mas a destra que se movia na sombra esbarrou
no crucifixo que lhe fora dado por sua mãe, na véspera de morrer. A pequena
cruz caiu-lhe sobre o coração, como se valesse advertência indireta e profunda.
Pareceu compreender a magnitude do apelo, pensou sinceramente em Jesus tal
como fizera um dia na via pública de Paris, e dispôs-se a confortar a filhinha.
Nesse gesto, porém, aguardava-a uma surpresa ainda mais singular. Alcione tinha
os bracinhos em movimento, como se a buscasse com ânsia, e tão logo se viu
envolvida na sua ternura, agarrou-se lhe ao pescoço comprimindo-o com as
delicadas mãozinhas. A pobre mãe teve a impressão de que a recém-nascida lhe
pedia socorro e buscava um doce refúgio no seu seio de mãe. Compreendeu a
silenciosa mensagem de Deus, no imo do coração. A emoção que lhe timbrava nas
fibras mais íntimas, fê-la dobrar-se em lágrimas e beijos sobre a pequenina. Assim
foi que a filha de D. Inácio, singularmente comovida, murmurou aos ouvidos de
Alcione: — Não chores mais, filhinha! Jesus compadeceu-se da minha alma
atormentada... Ficarei contigo até ao fim!...”

Há um momento em nossas vidas em que Cristo nos convida a um


entendimento maior. O símbolo da cruz calou fundo em Madalena, e cala em
muitos corações que sofrem. Qual a razão?
Lembrar da cruz deu a Madalena força e um novo olhar. Muitos talvez ainda
olhem para a cruz e lembrem da morte, mas este símbolo representa algo muito
maior que isso. A cruz nos remete a Jesus, que sim, nela morreu, mas retornou da
morte para nos dizer: “Alegrai-vos! (...) Não temais; Ide e anunciai aos meus
irmãos a fim de que partam para a Galiléia; e lá me verão.” (Mateus 28:9-10). Veio
nos dar o entendimento de forma definitiva de que a morte não existe, e de que a
vida continua após a hora derradeira.

Assim, meus amigos, o ponto de encontro destes dois capítulos não é a


morte, mas este símbolo bendito, a cruz. Que nos lembra do Cristo, de seu
sacrifício, e do que nos espera depois dela. O que a mensagem do Cristo nos vem
anunciar e a cruz nos lembra como símbolo bendito, é que Ele venceu a morte e
nos trouxe uma nova forma de vivermos a vida, com mais esperança no amanhã e
coragem para as lutas do hoje. Ao olhar para este símbolo oferecido por sua mãe,
Madalena encontrou forças para resistir e prosseguir, e sua mãe ao vir buscá-la
relembrou-lhe: “a criatura de Deus encontrará a ressurreição e a vida eterna...”

Porém, quem tiver um olhar mais atento poderá perguntar, onde a cruz no
cap. 4 da segunda parte? Há alguma referência ao crucifixo de D. Margarida? Não,
não há mais o símbolo materialmente, há apenas a fala do espírito de D. Margarida
a relembrar Madalena do que ele representa: “todos teremos um caminho
doloroso e um calvário... mas, além de tudo isso... a criatura de Deus encontrará
a ressurreição e a vida eterna...” E isto também traz um profundo significado para
nossos corações.

Pensemos em nós, enquanto humanidade, não somos assim também?


Durante nossa infância e juventude espiritual estivemos presos a símbolos,
necessitados de imagens e amuletos que nos remetiam a lembrança de que
mantivéssemos a fé. Porém, após uma vida de lutas e sofrimentos, não se faz mais
necessário o símbolo materialmente constituído, apenas a sua lembrança e o
entendimento do seu real significado, levam nossa alma a planos mais elevados e
consoladores.

Madalena estava em sua hora derradeira e teve sua visão espiritual ampliada,
ante o desligamento iminente do corpo físico. E a nós? Como ter esta visão? Já
estamos maduros para reconhecermos o significado e termos fé? Já somos criaturas
de Deus preparadas para encontrar a ressurreição e a vida eterna (palavras de D.
Margarida)?
E a luz da doutrina espírita, o que esta frase de D. Margarida representa para
nós? Lembremos a palavra do Espírito de Verdade, no Evangelho Segundo o
Espiritismo: “Orai e crede! pois que a morte é a ressurreição, sendo a vida a
prova buscada e durante a qual as virtudes que houverdes cultivado crescerão e se
desenvolverão como o cedro.”

A doutrina espírita veio inaugurar nova era em nossos corações, assim como
aqueles que em outras denominações buscam o entendimento que lhes traga um
novo viver, a paz que vem do alto e que nos fortalece ante as provas da vida.

Olhemos para a cruz, o que ela nos diz? Olhemos para o Cristo, como o ouve
nosso coração?

Encerramos estas reflexões com uma palavra de Emmanuel a nos clarear a


lição, com um trecho do livro Palavras da Vida Eterna: “Jesus não é o mestre
ausente ou símbolo morto. Ainda e sempre, é para nós, os que declaramos aceitar-
lhe a governança, o mentor vigilante e o exemplo vivo. Basta recapitular-lhe as
lições para refleti-lo. E, ao retrata-lo em nós, segundo as nossas acanhadas
concepções, receberemos dele a idéia ou o socorro de que careçamos, a fim de
escolher com acerto e agir com justiça.
Prometeu-nos o Mestre, ao falar aos discípulos:
- “Eis que eu estou convosco, todos os dias, até à consumação dos séculos.”
Como é fácil de perceber, o Senhor está conosco, esperando, porém, que
estejamos com ele.”

Jesus está conosco importa, porém, saber: estamos com Jesus?

Que esta reflexão nos auxilie e nos faça avançar.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 06.02.2015


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 4e

“— E se fosse um de nós o necessitado? — interrogou


subitamente a jovem, num ímpeto de salvar a antiga serva de
sua mãe.” Madalena

A varíola tomava conta das ruas de Paris, muitos estavam partindo a fim de
livrar-se do contágio da doença que se espalhava rapidamente. Diante deste quadro
aterrador, Antero afasta-se em busca de um refúgio para a seus tios e Madalena,
porém, quando retorna, a varíola havia entrada em seu lar, uma de suas servas já
apresentava os primeiros sintomas.

A reação imediata de Antero e do D. Inácio foi de deixar a serva, porém,


Madalena os interroga: “e se fosse um de nós o necessitado?”

Certamente uma pergunta difícil e que nos remete a reflexões maiores.


Pensemos, então, como agiríamos? Saberíamos conter o instinto de sobrevivência
para sobrepor a caridade, o auxilio, a compaixão? Ou não? E se estamos em
dúvida, talvez sim, talvez não, qual a razão de pensarmos assim?

O Livro dos Espíritos traz todo um capítulo tratando da Lei da Conservação,


tão importante este assunto é. Reconhecermos que teremos o desejo de nos
mantermos vivos é importante, porém, já temos condições de verificar os limites
de nossas ações e omissões neste sentido. Questão 703: “Porque todos tem que
concorrer para cumprimento dos desígnios da Providencia. Por isso foi que Deus
lhes deu a necessidade de viver. Acresce que a vida e necessária ao
aperfeiçoamento dos seres. Eles o sentem instintivamente, sem disso se
aperceberem.” O convite, porém, é que possamos ir além, como nos diz este
trecho, também do Livro dos Espíritos: “Que não fará, portanto, o homem pelo
seu bem-estar material, quando souber aproveitar-se de todos os recursos da sua
inteligência e quando, aos cuidados da sua conservação pessoal, souber aliar o
sentimento de verdadeira caridade para com os seus semelhantes?”

Não obstante nosso desejo de nos mantermos vivos e em bom estado,


existem muitas ações que ainda praticamos que não colocamos sob as luzes do
evangelho a fim de discernirmos se estamos agindo corretamente ou não. Se a
situação que nos trás o livro é de uma doença, podemos expandi-la para ir além da
doença física e refletirmos, também, sobre os doentes da alma e se estamos agindo
de forma caridosa para com eles.

Não raro vemos noticias, que podem ser verdadeiras ou não, a respeito de
figuras públicas. Rapidamente se espalham pela mídia, redes sócias e conversas
entre amigos comentando a noticia. Há, porém, uma linha tênue entre denunciar e
denegrir e, a última opção tornou-se quase que corriqueira em nossos dias.
Caberia, então, aqui uma pergunta: “— E se fosse um de nós o necessitado? E se a
pessoa que está sendo exposta de forma publica sendo ridicularizada de diversas
formas fosse a mãe que nos trouxe a vida, nos carregou nos braços, nos
amamentou e nos conduziu ao que somos hoje? Agiríamos da mesma forma? E se
fosse nosso filho, que criamos com tanto carinho e esmero que descambasse para
as teias do crime, da corrupção, da vida fácil, como agiríamos? Se utilizarmos o
crivo do evangelho apenas dentro de nossa casa de oração, estaremos agindo tal
qual alguns fariseus de outrora que observavam a lei, mas não a praticavam.
Estamos prontos para levar o evangelho para a nossa vida de forma integral?

Alguém há de pensar: o que fazer, então? Calar-se ante as injustiças do


mundo? Nem de longe, meus amigos. Apenas, tenhamos atitudes eficazes e que
possam ter algum efeito informativo e que não esteja denegrindo um ser humano,
filho de Deus. São coisas diferentes! Não nos esqueçamos, também, que o
exercício da cidadania requer de nós ações coerentes com as que requeremos de
nossos governantes. Se queremos honestidade, sejamos os primeiros a ter uma
conduta honesta, nas pequenas coisas do nosso dia a dia. Nossa sociedade também
já está organizada de forma que nos possibilite meios legais para enfrentar estas
situações. Estejamos, atentos, então, a eficácia dos atos que praticamos, sempre
sob o crivo – e se fosse um de nós o necessitado?

Há um trecho do Evangelho de Mateus 24:37-44 que nos ensina sobre o


tempo de vigilância. Grifo o versículo 42: “Portanto, vigiai, porque não sabeis em
qual dia vem o nosso Senhor.”

A Bíblia do Peregrino tem uma nota interessante sobre este trecho: “24,37-
43 Os exemplos ilustram a incerteza: quando? a quem caberá? No tempo de Noé
(Gn 6,9-12), a vida continuava quando sobreveio a catástrofe; assim são as
catástrofes naturais. Outras desgraças chegam em plena vida e atividade sem dar
razões. (...) A incerteza e a única certeza.”

Tal qual no livro Renúncia, a catástrofe chegou sem anúncio, pegou-os


desprevenidos e, ainda assim, a vida continuou. De igual forma sucede a nós
outros, temos tempos de paz e alegria e outros tantos de provas, momentos de dor,
vivemos em meio a incerteza do que nos acontecerá, porém, seja na alegria ou na
dor, podemos ter uma postura cristã como nos exemplifica Madalena.

Fácil é ser cristão quando tudo nos vai bem, mas e quando a vida fica dura?
Como agimos? Onde o Cristo em nossas vidas? “Não sabemos quando o Senhor
virá” é um convite a que nos coloquemos em comunhão com o Pai a todo instante,
na alegria porque ela passará, na tristeza porque necessitamos dEle para prosseguir.

Emmanuel comenta o versículo que grifamos no livro Vinha de Luz, lição


132, que abaixo reproduzimos, encerrando nossas reflexões de hoje.

“Ninguém alegue o título de aprendiz de Jesus para furtar-se ao serviço ativo


na luta do bem contra o mal, da luz contra a sombra.
A determinação de vigilância partiu dos próprios lábios do Mestre Divino.
Como é possível preservar algum patrimônio precioso sem vigiá-lo
atentamente? O homem de consciência retilínea, em todas as épocas, será
obrigado a participar do esforço de conservação, dilatação e defesa do bem.
É verdade indiscutível que marchamos todos para a fraternidade universal,
para a realização concreta dos ensinamentos cristãos; todavia, enquanto não
atingirmos a época em que o Evangelho se materializará na Terra, não será justo
entregar ao mal, à desordem ou à perturbação a parte de serviço que nos
compete.
Para defender-se de intempéries, de rigores climáticos, o homem edificou o
lar e vestiu-se, convenientemente.
Semelhante lei de preservação vigora em toda esfera de trabalho no mundo.
As coletividades exigem instituições que lhes garantam o bem-estar e o trabalho
digno, sem aflições de cativeiro. As nações requerem “casas” de princípios
nobilitantes, em que se refugiem contra as tormentas da ignorância ou da
agressividade, do desespero ou da decadência.
E no serviço de construção cristã do mundo futuro, é indispensável vigiar o
campo que nos compete.
O apostolado é de Jesus; a obra pertence-lhe. Ele virá, no momento
oportuno, a todos os departamentos de serviço, orientando as particularidades
do ministério de purificação e sublimação da vida, contudo, ninguém se esqueça
de que o Senhor não prescinde da colaboração de sentinelas.”

Que possamos refletir, e que esta reflexão nos conduza a um novo e melhor
agir. Que o Evangelho de Jesus faça parte de nossa vida cotidiana.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 13.02.2015


Candice Günther
Estudo Renúncia – 4f

Como um último ponto a vermos nesta etapa, na quarta etapa, gostaria de


compartilhar convosco minhas impressões sobre o comportamento reiterado de
Alcione ante as mais diversas situações que são difíceis, duras, mas que ela abraça
de uma forma ímpar e que pode nos trazer valoroso ensinamento. Vejamos alguns
exemplos:

Quando Carlos retorna a Paris e lhe convida para retornar a Espanha,


juntamente com sua mãe, Alcione recusa o convite, alega que necessita cumprir
suas tarefas em Paris. Carlos, sem compreender, vai embora exasperado, triste.
Ante a fala de sua mãe, Madalena, eis que Alcione, mesmo muito triste, responde:

“Jesus há de proporcionar-lhe ao coração aquilo que presentemente não lhe


podemos dar.”

Seguindo um pouco a frente, ante o requerimento de sua mãe de visitar o


túmulo de seu pai e receber a visita de sua patroa, Susana. Alcione sem saber o que
fazer ante a delicada situação, eis que sua mãe desconhecia toda a trama em que
estava envolvida e que Alcione tentava abrandar, vemos novamente nossa
benfeitora, num momento de profunda fé e entrega:

“A moça, no entanto, confiava-se a Jesus em preces fervorosas. Como solucionar


o delicado problema? Não encontrava recursos para atender mentalmente à
questão obscura, mas contava com o socorro do Cristo no momento oportuno.”

E, ainda, quando sua mãe estava prestes a desencarnar, e com a visita


inesperada de Cirillo e Susana a sua casa, sabendo que toda a verdade seria
descoberta:

“Alcione recordou a revelação da véspera e ajoelhou-se. Em preces silenciosas,


rogou a Jesus recebesse a genitora em seu reino de verdade e de amor, que lhe
atenuasse as últimas amarguras.”

E existem mais, muito mais momentos em que Alcione reiteradamente


recorre e confia a Jesus. Entendemos isto? Somos capazes de confiar assim? Se o
fizéssemos, creio eu, já teríamos alcançado, como Alcione, a possibilidade de não
mais reencarnar e de viver um lugares mais elevados como o lugar de onde ela veio
antes de reencarnar. Então, olhando para aprender e perguntando para entender,
reitero: como entregar a Cristo, verdadeiramente, tudo o que nos ocorre? Como
confiar que uma força invisível irá suprir e resolver a nossa realidade de forma
positiva? Isto é real? É verdadeiro?

Primeiramente, não é algo que se entenda ou se faça sem humildade. A


conduta de Alcione é a de um espírito elevado, então, é preciso esquecer um pouco
quem somos, o que fazemos, como vivemos. Quando precisamos aprender algo
novo, que ainda não alcançamos, precisamos silenciar o nosso íntimo e deixar que
a vida do outro nos fale ao coração. É como a história da xícara que está cheia de
chá, para provar novos sabores, é preciso esvaziá-la.

Há nos textos um indicativo muito interessante, que nos remete a uma


postura de auto-conhecimento. Alcione agia, tomava iniciativa, mas sabia quando
parar, sabia quando suas ações não teriam como resolver o problema, e daí, com
humildade entregava de forma integral o problema a Jesus, e o fazia sem lhe dar as
diretrizes, como nós reiteradamente fazemos. Ela simplesmente dizia: “Jesus há de
proporcionar-lhe...”

Então, do primeiro passo que é o reconhecimento de nossa limitação, que


nos permite uma postura humilde, avançamos para a segunda característica na
postura de Alcione, a confiança. Ela confiava a Jesus suas dores, seus temores, sua
vida de uma forma geral.

Como confiaremos em Jesus se mal o conhecemos? E como conhecê-lo,


então?

Uma criança confia em seus pais quando se sente amada por eles. A fórmula
aqui é a mesma, sentir-se amado! E isso decorre da convivência, de experiência
reiteradas que ambos atravessam e que cria este vínculo entre pais e filhos.

Confiar no Cristo, então, decorre de conhecê-lo, mas não apenas através de


estudos e palavras, é a experiência reiterada com ele em nossa vida cotidiana que
nos permite sentir o seu amor. Esta é a razão porque muitas vezes vemos
desesperar pessoas que achávamos ter o evangelho em seu coração. Não basta
sabermos, usarmos as palavras corretas, isto é importante, mas apenas quando
aprendemos a encaixar Jesus em nossa vida diária, em nosso lar, em nosso
ambiente de amizade e trabalho, desde as pequenas coisas que realizamos,
buscando uma postura que seja adequada aos ensinos do evangelho é que vamos
criando experiências reais de integração com o amor de Jesus.

Não é a toa que o regra áurea da humanidade permanece como sendo amar
ao próximo como a ti mesmo. Se não amamos o nosso irmão que vemos, como
amar e confiar em nosso irmão maior, Jesus, que não vemos?

A grande questão é que a postura de Alcione nos chama atenção, e quase


todos, sentimos o desejo de confiar como ela confia, amar como ela ama. Somos
em essência criados para a perfeição parcial, e a todo instante somos atraídos para
ela. Ver um espírito superior agindo sempre nos é fonte de inspiração. A vida de
Alcione alcança nossos mais íntimos desejos de nos sentirmos amados pelo Pai.

Um rápido olhar pelas páginas do Cap. 5 nos faz perceber que os outros
personagens também recorriam a Jesus ante as suas dores, oravam, rogavam, mas o
faziam, muitas vezes, colocando-lhe o seu querer. Vejamos Madalena: “Estou
certa de que Jesus me restituirá a companhia de Cirilo, para sempre.”
Percebemos a diferença entre a postura de Alcione e a de Madalena, tão nossa? O
pedido a Jesus está condicionado a vontade dela, que é justa, digna, mas será que é
esse o melhor caminho?

Quando nos colocamos verdadeiramente com humildade deixamos as nossas


soluções de lado para tentar ouvir a voz do Mestre em nossa vida. Alcione foi
capaz de renuncias que mal compreendemos por ter esta postura, de reconhecer-se
pequena e limitada e buscar a vontade de Deus para sua vida, deixando muitas e
muitas vezes o seu querer em segundo plano.

Acreditar que o amor é a única solução possível para o nosso mundo, nossas
guerras, nossas discórdias é aprender a ter esta postura de humildade, percebendo
que nossos pensamentos muitas vezes estarão ligados ao nosso egoísmo, ao nosso
querer. Silenciar a nossa vontade para ouvir a vontade de Deus para a nossa vida,
eis o grande desafio.

E vale a pena? Vale a pena silenciar o nosso querer? A resposta dependerá


sempre do quanto já nos sentimos amados por Deus. E isso nos faz voltar ao
exemplo da criança que confia em seus pais. Nos sentiremos amados não em
decorrência de um movimento intelectual, mas de reiteradas experiências ao longo
das muitas vidas e das muitas experiências, inclusive e principalmente, as nossas
vivências de dor. Quando o filho cai e chora, não recebe também um amoroso
abraço da mãe zelosa que se pudesse faria a dor parar para ela o sentir? Já nos
sentimos abraçados pelo Pai Maior? Corramos para ele com nossas dores, nossos
tombos na vida e confiemos que Ele terá a melhor solução.

Há uma passagem em Mateus, 14:22-33 que nos relata quando os disc[ipulos


estavam a noite, em auto mar. Vejamos dos versículos 26 a 31: “Na quarta vigília
da noite, ele dirigiu-se a eles, caminhando sobre o mar. Os discípulos, porém,
vendo que caminhava sobre o mar, ficaram atemorizados e diziam: "É um
fantasma!" E gritaram de medo.Mas Jesus lhes disse logo: "Tende confiança, sou
eu, não tenhais medo". Pedro, interpelando-o, disse: "Senhor, se és tu, manda que
eu vá ao teu encontro sobre as águas". E Jesus respondeu: "Vem". Descendo do
barco, Pedro caminhou sobre as águas e foi ao encontro de Jesus. Mas, sentindo o
vento, ficou com medo e, começando a afundar, gritou: "Senhor, salva-me!" Jesus
estendeu a mão prontamente e o segurou, repreendendo-o: "Homem fraco na fé,
por que duvidaste?"

Somos assim como Pedro, estamos tentando, sabemos que podemos contar
com o Mestre, mas nos distraímos com o vento, com nossos medos e, não raro,
duvidamos. E é importante que nos reconheçamos frágeis, não como pessoas que
erram reiteradamente e se afundam na culpa, mas como pessoas que estão
passando por experiências que nos levarão a sermos melhores amanhã do que
somos hoje. Perseverar, procurando sempre acertar o alvo.

Emmanuel nos traz belíssima lição no livro Luz e Vida, sobre o tema deste
estudo, Confia e Caminha:

“A existência na Terra é comparável a uma viagem de aperfeiçoamento, na qual


necessitas seguir adiante, ao lado de nossos companheiros da jornada evolutiva.

Muitos te desconhecem, no entanto, Deus sabe quem és.

Muitos te menosprezam, contudo, Deus não te abandona.

Muitos te hostilizam, mas Deus te apoia.

Muitos te reprovam, em circunstâncias difíceis, no entanto, Deus te abençoa.

Muitos se te afastam da presença, todavia, Deus permanece contigo.

À vista de semelhante realidade, sempre que tropeços e provações te apareçam,


não te acomodes, à beira da estrada, em algum recanto da inércia. Confia em
Deus e caminha.
Que a vida de Alcione, que sempre confiou e caminhou, nos inspire e nos
auxilie a vivenciarmos este imenso amor que brota em nossos corações.

Abraços fraternos.

` Campo Grande – MS, 20.02.2015


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 5a

...“Ninguém que, tendo posto a mão no


arado, olha para trás, é apto para o Reino
de Deus.”. Jesus (Lucas, 9:62).

Iniciamos, então, nova etapa do estudo deste belíssimo livro, Renúncia,


lembrando que estamos utilizando uma perspectiva diferente, onde os capítulos são
colocados de forma paralela, desobedecendo a ordem cronológica, e olhando os
capítulos aos pares, 1 e 1, 2 e 2 e assim por diante, ao estilo do que faziam os
povos antigos, em especial, o povo hebreu em suas belíssimas poesias. Assim, na
etapa de n. 5 iremos analisar os capítulos de n. 5 da primeira e da segunda parte,
buscando correlações que nos ensinem e nos ampliem a visão das valorosas lições
evangélicas que este livro nos apresenta.

Emmanuel escreveu estes romances com uma habilidade magnífica e guardo


a certeza em meu coração que mal começamos a sondar toda riqueza e
grandiosidade que estes livros guardam. Assim, com os olhos de aprendizes e com
o coração humilde, vamos estudando, descobrindo, aprendendo.

Sigamos, assim, com a quinta etapa. Logo ao início do cap. 5 da primeira


parte, temos o relato das novas incursões de Antero de Oviedo: “já estava
convencido das vantagens do tráfico negro, decidido a entrar na empresa com
todos os recursos disponíveis.” O dinheiro fácil, o enriquecimento rápido
desvinculado de qualquer moral, a ambição sem medida entraram novamente na
vida de Antero.

Recordemos o quadro que nos traz o livro Sementeiras de Luz, com a


informação de que Antero era Lólio Úrbico, como nos relata o livro 50 anos
depois, prefeito dos pretorianos, homem rico e com tendências que novamente
reconhecemos aflorar em Antero. O mesmo espírito reincidindo nas mesmas faltas
e equívocos, num intervalo de 1500 anos aproximadamente.
Mas o convite é que olhemos para a frente e busquemos em que momento
este espírito modificou o trajeto de sua jornada, tal qual nos diz o versículo no
início deste texto, nossa alma é terra que precisa ser arada e quando queremos fazê-
lo, quando finalmente começamos a trabalhar pelo nosso crescimento espiritual,
não nos cabe mais olhar para trás como Antero estava olhando, ou seja, não
podemos repetir os erros e equívocos de outrora. É interessante este versículo
bíblico, porque com poucas palavras Jesus nos explica o que acontece com Antero.
Pensemos que quando uma pessoa está manuseando um arado, em especial o que
era usado na época de Jesus, duas coisas podem acontecer se quem estiver
manuseando olhar para trás, a primeira é que o caminho que está sendo trilhado
ficará torto, e a segunda é que ele poderá se machucar. Tal ocorre em nossa jornada
espiritual. Assim, urge reconheçamos as nossas tendências negativas, aquilo que
ainda nos é possível motivo de queda, para lutarmos com coragem moral, no
burilamento dos nossos espíritos imortais, seguindo em frente, reconhecendo que
hoje trabalhamos, mão no arado, cultivando nossos íntimos quintais.

E como é rica esta perspectiva de um espírito e as diversas vidas que


atravessa e que lhe ensinam um melhor viver, dentro de um roteiro amoroso que
não busca punir, mas corrigir a rota, auxiliando-o a acertar o alvo, o rumo, o passo.
Eis, então, que nos dirigimos ao Cap. 5 da segunda parte, vejamos Antero
renascido, Robbie. Nesta nova vida, Robbie era menino negro que foi acolhido por
Madalena, possuía deficiências físicas graves que o faziam sentir-se inferior aos
demais meninos. Sofria com as brincadeiras e depreciações que lhe eram dirigidos.

Vemos, então, em conversa amistosa em Paris, em que Jaques propõe a


Alcione que Robbie deixe o trabalho que realizava e venha morar com eles,
alegando que ele, Robbie, “é muito doente para desdobrar-se em tantas
ocupações.” Certamente as dificuldades eram enormes, e isso era, para seu
espírito, algo muito bom. Alcione o sentia e aconselhava Robbie sempre: “Se
invocas as lembranças de São Marcelo prosseguiu a moça ternamente —, dando-
me a entender tua saudade de mamãe, recorda que ela cumpriu o seu dever até ao
fim, nunca nos pediu uma casa mais confortável, nunca reclamou contra as águas
da chuva que invadiam nosso quarto, conservou-se de agulha na mão enquanto
Deus lhe permitiu a graça de trabalhar, enriquecendo o nosso esforço... Os
aleijões do corpo, Robbie, são melhores que os da alma...”
E seguem o diálogo, resolvendo que o rapaz ficaria mais perto, trabalharia
em outra igreja, ao que Alcione responde: “Não tenho objeção a fazer, desde que
Robbie continue a descobrir, cada dia, a grandeza do espírito de serviço.”

A questão que nos cabe analisar é que não apenas Robbie recebe o convite
de descobrir no trabalho uma ferramenta de crescimento, não obstante todas as
dificuldades. E a nós? Qual o trabalho que estamos realizando e que nos permite
avançarmos como espíritos imortais na seara do bem? Temos, aqui, a oportunidade
de olhar um espírito imortal na perspectiva de três existências, Lólio Úrbico,
Antero de Oviedo, Robbie – onde nos encontramos? É nítido que a luta de Robbie
era imensa, com todas as limitações físicas e sociais, porém, ele prosseguiu. E nós,
reitero, onde estamos? Será que estamos muito doentes e cansados para o trabalho?
Reconhecemos “a grandeza do espírito de serviço”?

Há um trecho no Evangelho de Mateus que nos auxilia a entender o que


significa esta necessidade de pararmos de olhar para trás. Vejamos o trecho
intitulado “Os desafios do discipulado”, cap. 8:18-22: “Jesus, vendo a turba ao seu
redor, ordenou que partissem para o outro lado. Um escriba, aproximando-lhe,
lhe disse: As raposas tem tocas e as aves do céu (tem) ninhos; mas o filho do
homem não tem onde reclinar a cabeça. Outro dos (seus) discípulos lhe disse:
Senhor, permite-se ir primeiro enterrar meu pai. Jesus, porém, lhe diz: Segue-me,
e deixa que os mortos enterrem seus próprios mortos.” (Tradução Haroldo Dutra Dias).

O que aconteceu com Robbie foi uma benção para o seu espírito, que vida
após vida estava transitando pelo caminho do desengano. Eis que chega a hora de
deixar o velho homem para trás e construir em nós um novo caminho, como
discípulos de Jesus. Enterremos o velho homem que ainda habita em nós e
abandonemos as velhas tendências.

Emmanuel comenta o versículo 22 acima transcrito no livro Fonte Viva, vale


a pena a leitura integral desta lição:
“Jesus não recomendou ao aprendiz deixasse aos cadáveres o cuidado de enterrar
os cadáveres, e sim conferisse “aos mortos o cuidado de enterrar os seus mortos.”
Há, em verdade, grande diferença. O cadáver é carne sem vida, enquanto que um
morto é alguém que se ausenta da vida.
Há muita gente que perambula nas sombras da morte sem morrer.
Trânsfugas da evolução, cerram-se entre as paredes da própria mente,
cristalizados no egoísmo ou na vaidade, negando-se a partilhar a experiência
comum. Mergulham-se em sepulcros de ouro, de vício, de amargura e ilusão.
Se vitimados pela tentação da riqueza, moram em túmulos de cifrões; se
derrotados pelos hábitos perniciosos, encarceram-se em grades de sombra; se
prostrados pelo desalento, dormem no pranto da bancarrota moral, e, se
atormentados pelas mentiras com que envolvem a si mesmos, residem sob as
lápides, dificilmente permeáveis, dos enganos fatais.
Aprende a participar da luta coletiva.
Sai, cada dia, de ti mesmo, e busca sentir a dor, do vizinho, a necessidade do
próximo, as angústias de teu Irmão e ajuda quanto possas.
Não te galvanizes na esfera do próprio “eu”.
Desperta e vive com todos, por todos e para todos, porque ninguém respira tão
somente para si. Em qualquer parte do Universo, somos usufrutuários do esforço e
do sacrifício de milhões de existências. Cedamos algo de nós mesmos, em favor
dos outros, pelo muito que os outros fazem por nós. Recordemos, desse modo, o
ensinamento do Cristo. Se encontrares algum cadáver, dá-lhe a bênção da
sepultura, na relação das tuas obras de caridade mas, em se tratando da jornada
espiritual, deixa sempre “aos mortos o cuidado de enterrar os seus mortos.”

Lolio Úrbico e Antero de Oviedo“mergulham-se em sepulcros de ouro, de


vício, de amargura e ilusão.” Robbie “aprende a participar da luta coletiva.” E
nós? Onde estamos? Eis o convite: “Desperta e vive com todos, por todos e para
todos, porque ninguém respira tão somente para si.”

Que Jesus nos auxilie e nos fortaleça no caminho de redenção.

Abraços fraternos,

Campo Grande – MS, 27 de fevereiro de 2015.


Candice Günther

PS: Quando iniciei este estudo, minha filha veio em minha direção com o livro
Agenda Cristã. Pediu-me que o abrisse e marcasse a página sem, no entanto, ler o
conteúdo. Depois que eu encontrasse a ligação nesta quinta etapa, e ela está
acostumada a me ver com lágrimas nos olhos quando isto acontece, eu poderia ler
o que estava escrito. Toques delicados da espiritualidade, que nos permitem ir além
da reflexão da letra, para aprendermos o evangelho sem esquecer que não estamos
sós, que temos o auxílio dos irmãos maiores que nos assistem do plano espiritual.
Assim, neste “post script”, compartilho com vocês o texto, que guarda profunda
relação com a lição acima, no intuito de que sigamos firmes, trabalhando na seara
do bem.

Rogativas
Na oração, pede você um raio de luz, esquecendo, quase sempre, que tem ao seu dispor o Foco
Solar para você cumprir os Sublimes Desígnios.
*
Seu espírito suplica uma réstia de amor e, em torno, a Humanidade aguarda a manifestação da
sua capacidade de amar.
*
Roga você a concessão de encargos que o habilitem a colaborar com a Sabedoria Divina e
olvida que milhões de seres estão à espera de sua disposição de servir, em nome do Pai
Celestial.
*
Seu coração reclama sinais do céu e, enquanto o Sábio dos Sábios manda colorir flores e
horizontes para seus olhos, você procura vãos entretenimentos e nada vê.
*
Você exige justiça para seus casos pessoais e diariamente complica situações e problemas, sem
reparar que a Harmonia Suprema retifica sempre, ao redor de seus pés, por intermédio da dor
e da morte.
*
Você deseja oportunidades de crescimento e ascensão na espiritualidade superior, mas
frequentemente foge aos degraus do esforço laborioso e humilde de cada dia, concedidos a
você pela Infinita Bondade, a título de misericórdia.
*
Se está sempre rogando felicidade eterna, recusando os recursos para adquiri-la, que espera
você para o caminho?
Estudo Renúncia Parte 5b

“A solidariedade, portanto, que é o verdadeiro laço


social, não o é apenas para o presente; estende-se ao
passado e ao futuro, pois que as mesmas
individualidades se reuniram, reúnem e reunirão,
para subir juntas a escala do progresso, auxiliando-
se mutuamente. Eis aí o que o Espiritismo faz
compreensível, por meio da equitativa lei da
reencarnação e da continuidade das relações entre
os mesmos seres.”
Clélia Duplantier – Obras Póstumas

Nossas vidas estão entrelaçadas, ainda que não recordemos, nosso passado
retorna, nos remete a novos sentimentos, nos convida a um novo agir. Madalena
Vilamil, sob a perspectiva do livro Renúncia é uma pessoa simples, que viveu
duras provas, mas e seu espírito? E se ampliarmos e olharmos os outros romances e
livros que tratam de suas outras vidas, o que podemos aprender? Não basta olhar
com curiosidade e nem de longe é esta a minha intenção. Rogamos a Jesus nos
conceda a graça de aprender, com respeito a estas vidas, queremos encontrar as
chaves e os ensinamentos para que hoje sejamos impulsionados a viver melhor que
ontem. E com este anseio vamos viajar no tempo e nas vidas de Madalena, lá no
primeiro século, com Alba Lucínia e mais a frente, como Isabel de Castela.

Olhemos um trecho do quadro que se encontra no livro Sementeira de Luz:

Temos, então, a informação de quatro vidas deste grande espírito que foi e é,
Madalena Vilamil. Iremos unir alguns pontos distanciados pelo tempo, mas que se
comunicam de forma belíssima, porém, fica desde já o convite para a reflexão
pessoal, para que saibamos reconhecer também em nossas vidas as emanações do
passado. Porque também a nós outros acontecem situações semelhantes, olhamos
para lugares e temos sentimentos e impressões, conhecemos pessoas que parecem
já fazerem parte de nossas vidas há muito tempo, enfim, sabemos da reencarnação,
porém, é preciso mais que saber, necessitamos viver com esta perspectiva mais
ampla.

Sigamos um pequeno trecho do Cap. 5 do livro Renúncia, após todas as lutas


e dores em Paris, a morte de seu pai, a falsa noticia do desencarne de Cirilo, o livro
nos apresenta o retorno de Madalena a Espanha:

“A paisagem não era bela. As águas do Adaja vinham fertilizar a terra


empedrada, com minúscula corrente roubada ao leito do rio, e algumas árvores
frutíferas mitigavam a aridez do solo. Não fora uma casa-grande, próxima, em que
o poderoso senhor D. Diego Estigarríbia movimentava grande patrimônio rural, e
o modesto sítio mais se assemelharia a lugar malsinado, em abandono. Antero,
porém, adquirira-o em definitivo, oferecendo-o à prima, que recebera a dádiva
com satisfação justa e sincera. Ao fundo da paisagem repontavam as torres das
velhas muralhas da cidade famosa e os bronzes dos seus templos românticos
enchiam o ambiente com dobres impregnados de dolorosas evocações. Nos
primeiros dias, Madalena Vilamil não saberia explicar a sensação de tristeza que
intimamente a empolgava. Observava o casario a distância, experimentando
impressões indefiníveis. Aquelas muralhas antigas, com as suas oitenta e seis
torres originalíssimas, falavam-lhe à alma sensível. Sentia-se encarcerada, presa
de receios estranhos, num conjunto de sensações amargas que a desolação da
terra empobrecida mais acentuava.”

Qual a origem desta tristeza desconhecida que pairava em seu espírito? O


que Ávila guardava e lhe transmitia?

Ao olharmos o quadro do livro Sementeiras de Luz temos a informação de


que Madalena, em vida anterior foi Isabel de Castela. Pois estas torres que
Madalena avistava eram de seu antigo castelo, hoje conhecido como o Castelo dos
Reis Católicos. E qual a razão da tristeza, por que esta vida anterior lhe remetia a
estes sentimentos?

Vejamos um breve histórica de Isabel de Castela (fonte InfoEscola –


Caroline Faria):

“Isabel nasceu em 22 de abril de 1451 em Madrigal de lãs Altas Torres, na


província de Ávila no centro da Espanha. Filha de Juan II de Castella ela ficou
sob os cuidados de seus dois meio-irmãos, Henrique e Afonso, quando da morte do
pai em 1454. Criada longe da corte ela retorna 10 anos depois ficando sob a
guarda de seu meio-irmão, então rei, Henrique IV. Ele IV é deposto em efígie por
um grupo de nobres que coroam Afonso, então com onze anos de idade. Ocorre
que em uma nova tragédia Afonso morre 3 anos depois, em 1468 (suspeita-se que
envenenado) e Henrique IV novamente assume o poder iniciando-se então uma
disputa entre Isabel e Joana, filha de Henrique IV e nomeada Princesa das
Astúrias quando de seu nascimento em 1462, pelo direito de sucessão. Em 1474,
Isabel é oficialmente coroada rainha de Castela, mas a nobreza resolve apoiar
Joana (apelidada de “Beltraneja”. Isabel sai vencedora em 1479 e Joana é
exilada em Portugal. No mesmo ano Fernando II é coroado rei de Aragão e o
casal inicia a expansão do que viria a ser, mais tarde, a Espanha. Devido aos seus
esforços para consolidar a religião católica, que incluíram a criação da terrível
Inquisição Espanhola, Isabel e Fernando ficaram conhecidos como os “Reis
Católicos”, tendo sido os grandes responsáveis pela expulsão dos últimos
muçulmanos da Península Ibérica que teve na conquista de Granada, último
reduto muçulmano na região, seu episódio culminante. Outro importante feito de
Isabel I de Castela foi o apoio dado ao então desconhecido Cristóvão Colombo
que em 1492 realiza sua primeira viagem que culminaria na descoberta das
Américas. A partir daí iniciou-se o período das excursões marítimas espanholas.
Isabel de Castela e Fernando de Aragão, assinariam ainda o famoso Tratado de
Tordesilhas onde dividiriam as novas terras descobertas com o reino de
Portugal.”

Deste resumo, gostaria de destacar dois aspectos, por sua relevância. O


primeiro é o fato de Isabel ter sido uma das pessoas que apoiaram a viagem de
Colombo, fato de grande relevância para o Brasil e para o mundo tal qual o
conhecemos hoje. Os livros de história reiteram a importância que os dois tiveram
para a descoberta das Américas e para a forma como o mundo hoje se encontra.
Vemos, assim, quão profunda foi a escolha de Emmanuel ao relatar a vida deste
espírito. Ora rainha, ora moça simples. Um outro ponto é sua relação com a
inquisição.

O livro Mulheres na Idade Média, de Melissa e Michael Rank, um capítulo


inteiro é destinado a Isabel de Castela e, para nosso estudo, trouxemos alguns
trechos:

“Ela foi uma política astuta que, para o bem e para o mal, construiu as
instituições culturais e políticas que forjaram o mundo moderno. Ela foi
respeitada por seu caráter e sabedoria perspicaz. Promoveu as artes e conduziu a
Renascença Espanhola; reformou o sistema legal e administrativo. (...) A
influência de longo alcance de Isabel pode ser vista em um exemplo inesperado.
Isabel tornou-se um ícone americano no início do século XX, quando a jovem
nação estava consolidando sua história e reivindicando seus heróis. Com o
comissionamento da viagem de Colombo, a Rainha espanhola tornou-se uma
americana honorária precoce. Como resultado, foi a primeira mulher a aparecer
num selo do Correio dos EUA. Foi também a primeira mulher a aparecer num selo
dos EUA.”

E são muitos os elogios, as honrarias, as conquistas que encontraremos na


literatura sobre Isabel de Castela, porém, o que buscamos é o que o espírito levou
para a encarnação seguinte e fez, Madalena Vilamil sentir o seu passado, sua
última encarnação, e ver naquelas torres motivo de profunda tristeza. Aos olhos do
mundo uma heroína, mas o seu mundo íntimo lhe trazia reminiscências outras,
profundezas de quem andou por caminhos de se distanciam das lições
imorredouras do Cristo.

Seguimos, pesquisando, garimpando e encontramos algo que nos parece uma


boa possibilidade. Vejamos mais um trecho do livro: “Isso não quer dizer que
Isabel e Fernando eram governantes passivos, desinteressados da vida de seus
súditos. Como mostra Irene Plunkett, os dois monarcas deixavam algumas horas
nas sextas-feiras para que os súditos dos seus domínios se aproximassem deles
com reclamações. Isabel estabeleceu um tribunal conhecido como a Sala de
Justiça (Hall da Justiça) para lidar com questões legais. (...) Isabel presidia as
sessões do órgão sentada numa cadeira de espaldar alto coberta com tecido
dourado e colocada numa plataforma elevada. Em meses, ela decidiu tantos casos
e emitiu sentenças tão severas que os sevilhanos ficaram com medo de execução
ou detenção injusta. Mais tarde, Isabel concordou em ser mais misericordiosa,
quando o Bispo de Cádiz a repreendeu.”

Um outro fato digno de nota: “Foi no contexto da unificação política da


Espanha que ocorreram os atos mais infames do reinado de Isabel: a expulsão dos
judeus e o lançamento da Inquisição Espanhola. (...) Fernando e Isabel emitiram
uma ordem de expulsão para os judeus e solicitaram uma bula papal para lançar
a Inquisição Espanhola.”

Com estas informações podemos retornar ao livro Renúncia, levando um


questionamento ao livro. Ter sido uma juíza dura e intransigente e ter praticado
atos que ensejaram na criação da Inquisição Espanhola atraiu algo para a sua vida
posterior? Além da tristeza que lhe causou a primeira impressão, encontramos
alguma repercussão destes atos praticados? Sim, encontraremos!!
Primeiramente é Antero de Oviedo alcançado pela lei de sua época:
“Quando menos se esperava, estalou em Ávila a triste nova: condenado pelo Santo
Ofício à prisão e confisco de todos os bens, Antero de Oviedo aparecera morto, em
Madrid, junto à Porta de Toledo. Falava-se à meia voz que ele havia preferido o
suicídio à ignomínia do cárcere. Noutras rodas, porém, afirmavam que tudo não
passava de mais um crime odioso da família Estigarríbia. O processo, como todas
as peças em exame no tribunal do Santo Oficio, correra os trâmites no mais
rigoroso sigilo. A condenação atingira Antero e companheiros.”

E, mais a frente, a condenação atinge também a vida de Madalena: “—


Senhora — disse amedrontado —, fugi para trazer-lhe graves notícias. Esta noite
ouvi a combinação de D. Diego e do filho, relativamente a esta casa. — Como
assim? — interrogou Madalena muito pálida.
— Sei que o Santo Ofício vai ocupar as propriedades do Sr. de Oviedo e que os
Estigarribias desejam incluir esta chácara no espólio do extinto.(...) — D. Alfonso
— explicou o servo dedicado em palestra confidencial com o pai, ponderou que,
não sendo Alcione filha do finado, pode ser arrolada no patrimônio, como
escrava; e sei que tomou essa atitude, pela atração que a mesma sempre exerceu
sobre ele. — Horrível! — exclamou a viúva tornando-se lívida — não haverá
justiça para semelhantes bandidos?”

Eis a grande ameaça, poderia perder a chácara e a filha, numa condenação


duríssima e injusta imputada pela instituição que ela mesma auxiliara a criar em
vida anterior. E ela vai em busca de auxilio, recorre as freiras, que nada podem
fazer. E, como bem diz a freira que a atende, Jesus não estava pobre em
misericórdia, surge, então, em seu caminho alguém que já lhe havia sido muito
caro em outra(s) vida: Padre Damiano.

Ele não apenas fica indignado com a situação, como vai até a chácara e
impede que os Estigarribia a tomem de Madalena, ou mesmo, que consigam levar
Alcione. “Padre Damiano referiu-se à sua disposição sincera de enfrentar a
ousadia criminosa dos Estigarríbias e prometeu que ali estaria no dia seguinte às
doze horas. E como a viúva quisesse reiterar os agradecimentos, muito comovida,
ele a interrompeu, dizendo: — Não se dê ao trabalho de manifestar gratidão.
Neste mundo, somos devedores uns dos outros e, neste momento, tenho a
impressão de estar resgatando uma dívida.”

Esta última fala de Padre Damiano irá nos remeter a um novo


questionamento. Haverá algum relato em uma vida anterior que corrobore a sua
afirmação? Sim!!
Encontraremos Madalena Vilamil e Padre Damiano em outra belíssima
narrativa, em torno dos anos 130 d. C. no livro 50 anos depois, ela como Alba
Lucínia e, Padre Damiano, como o escravo Nestório (recordando que tratam-se de
vidas de Emmanuel – Padre Damiano e Nestório). Pois bem, o que encontraremos
neste livro pode ser uma possibilidade deste sentimento de “resgate de uma
dívida” a que se referia o Padre Damiano ao auxiliar Madalena. Vejamos um
trecho do livro 50 anos depois, o momento em que Nestório é levado a presença de
Alba Lucínia:

“Alba Lucínia fitou o desconhecido tomada de surpresa e simpatia. Por sua vez, as
duas jovens o contemplavam admiradas. Saindo, contudo, da sua estupefação, a
nobre matrona ponderou refletidamente: - Helvídio, sempre considerei a missão
doméstica como das mais delicadas de nossa vida. Se esse homem deu provas dos
seus conhecimentos, tê-las-ia dado também de suas virtudes para que venhamos a
utilizá-lo, confiadamente, na educação de nossas filhas ? O marido sentiu-se
embaraçado para responder à pergunta tão sensata e oportuna, mas, em seu
auxílio veio a palavra firme de Caio, que esclareceu:
- Eu vo-la dou, minha senhora: se Helvídio pode abonar-lhe a sabedoria, posso eu
testificar as suas nobres qualidades morais.
Alba Lucínia pareceu meditar por momentos, acrescentando, afinal, com um
sorriso satisfeito:
- Está bem, aceitaremos a garantia da sua palavra. Em seguida, a graciosa dama
fitou Nestório com caridade e brandura, compreendendo que, se o seu doloroso
aspecto era, incontestavelmente, o de um escravo, os olhos revelavam uma
serenidade superior, saturada de estranha firmeza.
Depois de um minuto de observação acurada e silenciosa, voltou-se para o marido
dizendo-lhe algumas palavras em voz quase imperceptível, como se pleiteasse a
sua aprovação, antes de dar cumprimento a algum de seus desejos. Helvídio, por
sua vez, sorriu ligeiramente, dando um sinal de aquiescência com a cabeça.
Voltando-se, então, para os demais, a nobre senhora falou comovidamente:
- Caio Fabrícius, eu e meu marido resolvemos que nossas filhas venham a utilizar
a cooperação intelectual de um homem livre. E, tomando de minúscula varinha
que descansava no bojo de um jarrão oriental, a um canto da sala, tocou
levemente a fronte do escravo, obedecendo às cerimônias familiares, com as quais
o senhor libertava os cativos na Roma Imperial, exclamando :
- Nestório, nossa casa te declara livre para sempre ! . .”

Eis, então, o momento de grande importância na vida de Padre


Damiano/Nestório/Emmanuel, que foi feito escravo e tornado livre pelas mãos
generosas de Alba Lucínia/Madalena/Isabel de Castela. E muito, muito tempo
depois tem a oportunidade de devolver a bondade a este espírito que está
entrelaçado. A propriedade foi mantida. A vida prosseguiu.

Esta perspectiva é belíssima e nos provoca profundas emoções, não


fiquemos, porém, na superficialidade do que tudo isto nos quer ensinar. Olhemos
para a nossa vida reconhecendo-nos como espíritos imortais e que já atravessaram
diversas vidas. Estejamos atentos a fazer o bem, a resgatar débitos passados, a
reconhecer sentimentos que estão conosco a milênios.

No livro Justiça Divina, Aprender e Refazer, Emmanuel nos traz uma


reflexão sobre a reencarnação, porém, após conhecermos um pouco mais a fundo a
sua história deixa de ser apenas um texto de valoroso ensinamento para ganhar o
status de narrativa pessoal, de alguém que viveu o que ora diz, e com autoridade
moral de quem sabe que é apenas vivendo que as lições imorredouras do Cristo
vão alcançando os nossos corações.

“Todos os Espíritos desencarnados, que se atrasam em pesadelos da revolta,


acordam, um dia.
Surge-lhes o arrependimento, no âmago do ser, em lágrimas jubilosas, quais se
fossem prisioneiros repentinamente libertos.
Derruída, a masmorra de trevas em que jaziam encadeados, respiram, enfim, a
grande emancipação, junto dos amigos que lhes estendem os braços. Observam,
porém, a sombra que ainda carregam, contrastando com a luz em que se banham,
transfigurados, e que suspiram por merecer; sentem-se, ai, na condição de
pássaros mutilados, a reconhecerem o valor da experiência física em que lhes
cabe refazer as próprias asas, e volvem, ansiosos, à procura do antigo ninho de
serviço e de amor, que os alente e restaure. Quase sempre, contudo, ensejos
passaram, paisagens queridas alteraram-se totalmente, facilidades sumiram e
afetos abandonados evoluíram noutros rumos...
Ainda assim, é necessário lutar na conquista do recomeço.
Personalidades do poder transitório, que abusaram do povo, assistem às
privações das classes humildes, verificando o martírio silencioso dos que se
levantam cada dia, para a contemplação da própria miséria; avarentos que
rolaram no ouro regressam às paredes amoedadas dos descendentes,
acompanhando os mendigos que lhes recorrem à caridade, anotando quanto dói
suplicar migalha a corações petrificados no orgulho ; escritores que se faziam
especialistas da calúnia ou do escândalo tornam à presença dos seus próprios
leitores, examinando os entorpecentes e corrosivos mentais que segregavam,
impunes ; pais e mães displicentes ou desumanos voltam ao reduto doméstico dos
rebentos desorientados, considerando as raízes da viciação ou da crueldade,
plantadas por eles mesmos ; malfeitores, que caíram na delinqüência, socorrem as
vitimas de criminosos vulgares, avaliando os processos de sofrimento com que
supliciavam a carne e a alma dos semelhantes...
Mas isso não basta.
Depois do aprendizado, é preciso retomar o campo de ação, renascer e ressarcir,
progredir e aprimorar, solvendo débito por débito perante a Lei.
***
Companheiro do mundo, se o conhecimento da reencarnação já te felicita, sabes
que a existência na Terra é preciosa bolsa de trabalho e de estudo, com amplos
recursos de pagamento.
Assim pois, seja qual seja a provação que te assinala o caminho, sofre, amando,
e agradece a Deus.”

Que Deus, em sua infinita bondade e misericórdia, nos auxilie para que
entendamos que o que hoje vivemos e colhemos, é consequência do que outrora
semeamos. E, nos dê força e coragem, sabedoria e resignação, para hoje
semearmos o amor, a paz e a esperança.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 06.03.2015.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 5c

Prosseguindo nossos estudos nesta quinta etapa, encontramos um ponto em


comum nos capítulos de número 5, na primeira parte Antero de Oviedo aparece
morto, na segunda parte, Robbie, sofre grave acidente e desencarna. Na perspectiva
paralela, iremos analisar os dois fatos, buscando suas semelhanças, suas diferenças
e acima de tudo, uma lição que nos permita refletir e aprender.

Antes, porém, de analisarmos estas duas vidas de um mesmo espírito,


façamos uma breve reflexão sobre a morte. A Dra. Ana Claudia Quintana de
Arantes realizou uma palestra no espaço TED, compartilhada nas redes sociais e
disponível no youtube (http://youtu.be/ep354ZXKBEs) com o título: A morte é um
dia que vale a pena viver. Ela discorre sobre o trabalho que realiza com pacientes
em estado terminal e do cuidado paleativo que é realizado para cuidar e
proporcionar a estes pacientes uma morte tranquila, menos dolorosa.

Ao discorrer sobre os pacientes doentes, ela fala sobre o sofrimento e o


classifica em 5 classes: físico, emocional, social (familiar), social (sociedade) e
espiritual. Vemos, assim, que a doença vai muito além das fronteiras pessoais, o
sofrimento atinge aos que nos cercam, a família, a sociedade, afeta nosso estado
emocional e físico e a forma como lidamos com este sofrimento está fortemente
relacionada com a nossa espiritualidade.

Pois bem, o momento é oportuno para que lancemos uma pergunta ao livro
Renúncia: Qual a doença de Antero de Oviedo? Rapidamente percebemos que o
seu físico vai bem, mas e sua alma, e seu espírito imortal?

O livro nos permite a visão de duas vidas, duas mortes, de um mesmo


espírito. Antero de Oviedo, mercador de escravos, sequestrador de libertos, homem
rico que gozava dos prazeres da vida fácil, da libertinagem. Um espírito adoecido,
uma alma em sofrimento, aos olhos do mundo um homem rico, mas sob a
perspectiva do espírito, um moribundo, um doente gravíssimo agonizando em
faltas reiteradas contra a Lei Divina.

Eis seu mundo mental: “O destino não correspondera às suas expectativas


de homem do mundo. A mentira sombria apenas espalhara remorsos terríveis no
seu caminho, dos quais buscava evadir-se, pelos desregramentos de toda sorte.(...)
O moço espanhol, no entanto, desejava reparar a falta, com a devida prudência.”

Não houve tempo, a morte lhe alcançou: “Quando menos se esperava,


estalou em Ávila a triste nova: condenado pelo Santo Ofício à prisão e confisco de
todos os bens, Antero de Oviedo aparecera morto, em Madrid, junto à Porta de
Toledo. Falava-se à meia voz que ele havia preferido o suicídio à ignomínia do
cárcere. Noutras rodas, porém, afirmavam que tudo não passava de mais um
crime odioso da família Estigarríbia.”

Quando um doente da alma morre, tal qual um doente físico, percebemos


todas aquelas classes de sofrimento, físico, emocional, social, espiritual. E quanto
mais grave a doença, mais repercussão a sua morte irá operar nos que o cercam, é
como se o sofrimento tivesse a condição de se espalhar, contaminando ambientes,
pessoas, vidas.

As ações delituosas de Antero, suas amizades e inimizades, não ficaram


restritas a sua pessoa, mas atingiram a sua família. Madalena quase perdeu a
chácara e por pouco Alcione não lhe é retirada para ser serva dos Estigarribia. Tal
qual uma doença contagiosa, o espírito que adoece contamina o ambiente em que
se encontra levando sofrimento a muitos corações.

Como anda a nossa saúde? A mais importante, a saúde do nosso espírito? E


se partíssemos amanhã, o que ficaria pendente? Há algo que seria motivo de dor e
sofrimento para os que nos são próximos? Percebemos o legado de Antero e temos
a oportunidade de avaliar o nosso legado, hoje ainda, em vida. E podemos fazer
algo a respeito. A doença moral do seu espírito espalhou dor e sofrimento em vida
e também quando da sua morte.

Mais a frente iremos acompanhar todo o processo de atendimento que


aconteceu no plano espiritual para que retornasse em nova vida, como Robbie. O
que ora analisamos é a morte em si, como a ausência de alguém é sentida e qual a
repercussão que tem em seu meio.

Comparativamente, podemos olhar para Robbie. Sua estada foi breve,


morreu ainda jovem, trabalhava honestamente em uma Igreja, respeitava sua
família e os que o cercavam. É certo que ainda trazia em seu íntimo muitas
imperfeições morais, como todos nós, mas percebemos uma ascensão do espírito
de Antero, principalmente ao compararmos as duas mortes.
O jovem Robbie, era um espírito em tratamento, tal qual a Dra. Ana Claudia
Quintana nos ensina em sua palestra, falando, porém dos pacientes que atende,
podemos expandir o alcance de suas palavras levando-as para o espírito imortal,
que insiste em transitar pelos caminhos da morte e necessita de tratamentos
paleativos para diminuir sua dor e sofrimento.

Ora, o que é a morte para o espírito? Afastar-se de Deus! Quando deixamos


de ter Deus como o centro de nossa existência, como nosso Pai criador, entramos
num estado de aproximação da morte. A diferença é que o corpo físico se entingue,
mas os padecimentos do espírito se prolongam ao longo do tempo, muitas vezes
por séculos. A vida de Robbie foi um tratamento paleativo a um paciente terminal,
Antero de Oviedo. E a mensagem do Evangelho que adentrou na vida dele,
principalmente através do amor e dedicação de Alcione, foi seu grande e efetivo
remédio.

No livro da Esperança, Emmanuel comenta o versículo de Mateus 9:12 em


que Jesus nos diz que “os sãos não tem necessidade de médico, mas os que estão
doentes.” Vejamos um trecho da lição 78:

“... somos espíritos enfermos com ficha especificada nos gabinetes de tratamento,
instalados nas Esferas Superiores, dos quais instrutores e benfeitores da Vida
Maior nos acompanham e analisam ações e reações, mas é preciso considerar que
o facultativo, mesmo sendo Nosso Senhor Jesus Cristo, não pode salvar o doente e
nem auxiliá-lo de todo, se o doente persiste em fugir do remédio.”

A questão que ora enfrentamos é que também nós outros estamos em


tratamento, como Emmanuel bem diz no trecho acima. Olhar a vida de Antero nos
dá uma perspectiva mais ampla, recordando-nos que trazemos em nosso passado
marcas de erros e enganos que necessitam ser reparados. Quando entendermos esta
lição verdadeiramente, as intempéries do caminho terão outro valor, olharemos a
nossa vida com a perspectiva de espíritos imortais. Os sofrimentos de hoje, podem
ser o remédio que tanto necessita o nosso espírito, doente da alma. Tenhamos no
Cristo e no seu evangelho o remédio que tanto necessitamos e que nos auxilia em
nos reaproximarmos do Pai Maior e de seu amor.

Como um complemento da reflexão que tentamos realizar, encerramos com


a lição do livro Benção de Paz que também comenta o versículo do evangelho de
Mateus supracitado:
“Aqui e ali encontramos inúmeros doentes que se candidatam ao auxílio da
ciência médica, mas em toda parte, igualmente, existem aqueles outros, portadores
de moléstias da alma, para os quais há que se fazer o socorro do espírito. E nem
sempre semelhantes necessitados são os viciados e os malfeitores, que se definem
de imediato por enfermos de ordem moral, quando aparecem. Vemos outros
muitos para os quais é preciso descobrir o remédio justo e, às vezes, difícil, de vez
que se intoxicaram no próprio excesso das atitudes respeitáveis em que
desfiguraram os sentimentos, tais como sejam:

os extremistas da corrigenda, tão apaixonados pelos processos punitivos que se


perturbam na dureza de coração pela ausência de misericórdia;

os extremistas da gentileza, tão interessados em agradar que descambam, um dia,


para as deficiências da invigilância;

os extremistas da superioridade, tão agarrados à idéia de altura pessoal que


adquirem a cegueira do orgulho;

os extremistas da independência, tão ciosos da própria emancipação que fogem ao


dever, caindo nos desequilíbrios da licenciosidade;

os extremistas da poupança, tão receosos de perder alguns centavos que acabam


transformando o dinheiro, instrumento do bem e do progresso, na paralisia da
avareza em que se lhes arrasa a alegria de viver.

Há doentes do corpo e doentes da alma.

É forçoso não esquecer isso, porque todos eles são credores de entendimento e
bondade, amparo e restauração.

Diante de quem quer que seja, em posição menos digna perante as leis de
harmonia que governam a Vida e o Universo, recordemos as palavras do Cristo:-
Não são os que gozam saúde que precisam de médico.

Que Jesus, o médico das almas, possa nos conduzir para uma vida
restauradora e edificante, que caminhemos em melhoramento constante e saibamos
aprender com as valorosas lições que nos são oferecidas.
A paz de Jesus habite em nós.

Abraços fraternos.

Campo Grande-MS, 13 de março de 2014.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 5d

“A vida familiar no palacete da Cite tornara-se bem amarga. A viúva Davenport


perambulava pelos aposentos, dementada e combalida. O velho Jaques, dominado
pelos dissabores acerbos, vivia entre o leito da decrepitude e as lágrimas sem
consolação. Beatriz, na sua mocidade cheia de sonhos, ainda não saíra da penosa
estupefação, dando mostras de singular abatimento. Foi aí que Alcione fez valer
as virtudes da sua fé, por maneira a satisfazer plenamente os novos deveres.”
Trecho do Cap. 5 (segunda parte)

A vida é rica e bela, mas também é cheia de dissabores, momentos de dor,


de luta, de espera, de incerteza. Muitos são os que se perguntam o que fazer e
como agir quando a vida não vai bem, onde encontrar a força necessária para as
provas do caminho. Alcione e seus familiares passavam por momentos de grande
dificuldade, porém, nossa benfeitora fez valer as virtudes de sua fé, para bem
cumprir o seu dever. O que significa isso? Virtudes de sua fé? E mais, o fez para
satisfazer plenamente os novos deveres? A vida lhe pedia mais, mais amor,
renúncia, caridade, e onde ela encontrou a força e o alicerce para prosseguir?
Como encontrar em nós mesmos estas virtudes, se já as tivermos? E, não as tendo,
como adquiri-las? Deste pequeno trecho me surgiram muitas perguntas, perguntas
de um espírito que anseia por melhorar-se e entender as liçoes que Jesus nos veio
mostrar.

Vamos, com o auxílio dos filósofos, buscar um caminho, assim,


primeiramente, perguntemos como o escravo Menon perguntou a Platão:

“Podes dizer-me, Sócrates: a virtude é coisa que se ensina? Ou não é coisa que se
ensina mas que se adquire pelo exercício? Ou nem coisa que se adquire pelo
exercício nem coisa que se aprende, mas algo que advém aos homens por natureza
ou por alguma outra maneira?” (Diálogo de Menon com Sócrates, por Platão)

E talvez respondamos como Sócrates respondeu: “(...) estou tão longe de


saber se ela se ensina ou não, que nem sequer o que isso, a virtude, possa ser, me
acontece saber, absolutamente.” Assim, enfrentemos a primeira questão que o
texto de Emmanuel nos impõe, o que é a virtude? E, não tenhamos pressa em
responder, pois é certo que dela, da virtude, decorrem coisas boas, mas se Sócrates
foi cauteloso, sejamos nós também. Sondemos as nossas vidas buscando as
virtudes de nossa alma, o que já é proveitoso em nosso viver? O que nos torna bons
para os que nos cercam? Saber o que é virtude requer que a tenhamos dentro de
nós e que a saibamos dádiva de Deus, eis que de nós, nada temos.

Ensinam os espíritos, na questão 893 do Livro dos Espíritos, que “Há


virtude sempre que há resistência voluntária ao arrastamento dos maus
pendores. A sublimidade da virtude, porém, está no sacrifício do interesse pessoal,
pelo bem do próximo, sem pensamento oculto.” Podemos, facilmente, visualizar a
figura de Alcione dentro desta definição, eis que seu coração estava sempre pronto
ao sacrifício pelo bem do próximo, em um esquecimento de si mesma que mal
conseguimos compreender, quiçá reproduzir.

Eis, então, que meditamos um pouco sobre o que é a virtude, sabendo que se
é difícil defini-la, não é tão difícil percebê-la e senti-la nos corações de bondade
que pairam neste mundo.

Mas esta é só uma etapa da tarefa que temos a cumprir, eis que o trecho do
livro Renúncia nos traz a expressão “valeu-se das virtudes de sua fé”, assim,
sabendo o que é virtude, ainda que superficialmente, estamos aptos a perguntar:
são sinônimos, a virtude e a fé, como muitos o dizem? Pensemos, então, um pouco
sobre a fé.

Jesus nos ensina, sobre a fé, através de uma Parábola, a da Figueira Seca,
que encontramos em Mateus 21:18-22 (tradução Bíblia de Jerusalém):

“De manhã, ao voltar para a cidade, teve fome. E vendo uma figueira à beira do
caminho, foi até ela, mas nada encontrou, senão folhas. E disse à figueira: "Nunca
mais produzas fruto!" E a figueira secou no mesmo instante. Os discípulos, vendo
isso, diziam, espantados: "Como assim, a figueira secou de repente?"Jesus
respondeu: "Em verdade vos digo: se tiverdes fé, sem duvidar, fareis não só o que
fiz com a figueira, mas até mesmo se disserdes a esta montanha: 'Ergue-te e lança-
te ao mar', isso acontecerá. E tudo o que pedirdes com fé, em oração, vós o
recebereis".

Nós outros, espíritos imortais, temos fome e sede de Deus, carecemos da


presença do Pai Maior em nossas vidas, em nosso mundo interior. Algo de bom
que já existe em nós e que nos faz nos assemelharmos, ainda que distantemente, ao
Pai, são nossas virtudes. Porém, é a fé, que nos permite ir mais longe, alcançando
as profundezas interiores para erradicar a árvore que ainda é seca e nada produz
em nosso mundo íntimo, a parábola nos diz, se tivermos fé, lançaremos ao mar as
nossas imperfeições, estas figueiras que não dão frutos.

Recordemos, ainda, que o significado da palavra fé é ser fiel, assim, quando


nos colocamos nesta posição de fidelidade ao Pai, buscando a sua vontade para as
nossas vidas, vamos nos ajustando as Leis Divinas e este movimento que fazemos
em direção ao Pai vai nos conduzindo a uma melhoria constante. E é por isso que
as orações de quem tem a fé legítima e verdadeira são atendidas, como nos diz o
versículo: “tudo o que pedirdes com fé, em oração, vós o recebereis”, porque um
coração ajustado ao amor de Pai pede, acima de tudo, que seja a feita a Vossa
vontade.

E se nas palavras nos é difícil entender este conceito, fácil será se


recordarmos de Alcione, que “fez valer as virtudes da sua fé, por maneira a
satisfazer plenamente os novos deveres”. Ora, qual será o dever de uma árvore,
senão o de produzir muitos frutos? Emmanuel nos ensina no livro Fonte Viva:

“Árvore alguma será conhecida ou amada pelas aparências exteriores, mas sim
pelos frutos, pela utilidade, pela produção. Assim também nosso espírito em plena
jornada...”

Muitos de nós, ao ler as páginas do livro Renúncia, deparando-nos com o


exemplo de Alcione, talvez pensemos que a sua fé é algo inatingível ou distante de
nós, mas eis a lição do livro Vinha de Luz que nos alerta dizendo:

“A maioria das pessoas admite que a fé constitua milagrosa auréola doada a


alguns espíritos privilegiados pelo favor divino. Isso, contudo, é um equívoco de
lamentáveis consequências. A sublime virtude é construção do mundo interior,
em cujo desdobramento cada aprendiz funciona como orientador, engenheiro e
operário de si mesmo.”

Sublime virtude! A fé vai muito além do que nós concebemos como virtude
tão somente, não é uma qualidade qualquer que age no bem, ela é um movimento
que fazemos em direção ao nosso Pai Criador a fim de que, pela sua luz e por seu
amor, nos deixemos inspirar e florescer em nós as virtudes imanentes que ele
soprou em nosso íntimo quando nos criou. Neste sentido, também, as palavras de
Sócrates no livro acima referido, ao dizer que a virtude é uma concessão divina.
Não olvidando, porém, que requer de nós o esforço contínuo para alçarmos os
degraus da ascensão.

Encerramos estas reflexões com o texto da Revista Reformador, de 1940, diz-nos


Emmanuel:

“A fidelidade a Deus e a comunhão com o seu amor são virtudes que se


completam, mas que se singularizam, no quadro de suas legítimas expressões.
Jó foi fiel a Deus quando afirmou no torvelinho do sofrimento: — “Ainda que me
mate n’Ele confiarei”. Jesus comungou de modo perfeito com o amor divino
quando acentuou: “Eu e meu Pai Somos um”. A fidelidade precede a comunhão
verdadeira com a fonte de toda a sabedoria e misericórdia. As lutas do mundo
representam a sagrada oportunidade do homem para que seja perfeitamente fiel
ao Criador. Aos que se mostram leais no pouco é concedido o muito das grandes
tarefas. O Pai reparte os talentos preciosos de sua dedicação com todas as
criaturas. Fidelidade, pois, é compreensão do dever. Comunhão com Deus é
aquisição de direitos sagrados. Não há direitos sem deveres. Não há comunhão
sem fidelidade. Eis a razão pela qual, para que o homem se integre na
recepção da herança divina, não pode dispensar as certidões de trabalho próprio.
Antes de tudo, é imprescindível que o discípulo saiba organizar os seus esforços,
operando no caminho do aperfeiçoamento individual, para a aquisição dos bens
eternos. Existiram muitos homens de vida interior iluminada, que puderam
ser [que podem ter sido] mais ou menos fiéis,todavia, só Jesus pode apresentar ao
mundo o estado de perfeita comunhão com o Pai que está nos Céus. O Mestre veio
trazer-nos a imensa oportunidade de compreender e edificar. E, se nós confiamos
em Jesus é porque, apesar de todas as nossas quedas, nas existências sucessivas, o
Cristo espera dos homens e confia em seu porvir. Sua exemplificação, em todas as
circunstâncias, foi a do Filho de Deus, na posse de todos os direitos divinos. [É]
Justoreconhecer que essa conquista representou a sagrada resultante de sua
fidelidade real. E Cristo se nos apresentou no mundo, em toda a resplendência de
sua glória espiritual para que aprendêssemos com Ele a comungar com o Pai. Sua
palavra é a do convite ao banquete de luz eterna e de amor imortal. Eis porque,
em nosso próprio benefício, conviria sermos [conviria fôssemos] perfeitamente
fiéis a Deus, desde hoje.”
Que a doce paz de Jesus nos alcance hoje e sempre, e que encontremos as virtudes
da fé também em nós, a fim de que cumpramos os nossos deveres e sejamos
árvores frutíferas, construindo e trabalhando por um mundo melhor.

Abraços fraternos!

Campo Grande-MS, 20.03.2015.

Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 6a

Continuando nossos estudos, buscaremos nesta nova etapa as relações e


lições que os capítulos de número 6, lidos paralelamente, podem nos trazer.

Numa rápida leitura, percebemos sem muitos esforços que ambos os


capítulos tratam do estudo do Evangelho, principalmente o que realizamos em
nossos lares.

No capítulo 6 da primeira parte é Padre Damiano quem dá as lições a


Madalena e à pequena Alcione: “O eclesiástico revelava idéias diferentes de sua
época. Embebido nas veneráveis tradições do passado, não podia compreender os
crimes tramados na sombra, em nome de Deus. Apreciava a filosofia antiga,
desprezava os exageros do fanatismo e não concordava com a tirania do Santo
Ofício. Quase diàriamente, à noite, ia à vivenda modesta da viúva Davenport, a
cuja porta a pequenina Alcione se postava para saudar graciosamente o cavalo
paciente e manso, que o servia no pequeno trajeto. As conversações interessantes
desdobravam-se, animadoras. Madalena Vilamil parecia encontrar nas
interpretações do religioso mais duradouras consolações.”

E no capítulo 6 da segunda parte temos Alcione, repassando a forma de


estudar o evangelho que aprendera aos amados do seu coração: “O culto doméstico
do Evangelho foi restaurado. O próprio Henrique de Saint-Pierre associou-se ao
movimento, partilhando das reflexões religiosas com muita satisfação. A
inspiração da filha de Madalena causava-lhe surpresa cariciosa. Sua palavra
penetrava problemas complexos da existência, como se já tivesse vivido numerosos
séculos em contato com os homens. Para Henrique, tais reuniões tinham caráter
providencial. Indiretamente, a irmã de sua noiva, sem qualquer intenção,
preparava-lhe o espírito para as tarefas sagradas do lar, para os benefícios do
casamento. O rapaz começou por abandonar as companhias perigosas que, não
raro, tendiam a comprometer-lhe o nome e a saúde; a vida revelou-lhe profundos
segredos, seu coração parecia agora aberto para o orvalho divino do sentimento
superior. Incansável no trabalho, Alcione estendeu o culto dominical aos serviçais
numerosos. Todos puderam participar das bençãos de Jesus, no vasto salão que
Beatriz mandou preparar jubilosamente.”
“Todos puderam participar das bençãos de Jesus”, certamente, quem já
experimentou as luzes do Evangelho de Jesus pode afirmar, como nos afirma
Emmanuel, que este estudo é tal qual adentrássemos e participássemos das bençãos
do Mestre. Não se trata, apenas, de um esforço intelectual, mas de uma
experiência que acontece em nossas vidas e nos leva a novos entendimentos,
ampliando nossa percepção do mundo e, principalmente, nos levando a um
caminho mais amoroso.

Cabe-nos refletir um pouco sobre como o fazemos e o que vai em nosso


coração quando buscamos a elevação através do estudo. Sentimo-nos assim ao
estudar o evangelho? Ele adentra em nossas casas de forma consoladora, mudando
nossos corações, tal qual com Madalena? Ele promove a mudança de hábitos e a
renovação de nosso mundo íntimo, tal qual com Henrique? Dá novos ânimos, e
promove um ambiente de paz e fraternidade, tal qual no lar dos Davenport? Por
que, ainda, temos tanta dificuldade para vivenciar o evangelho? Talvez, dirão
alguns, se tivéssemos Alcione em nossa sala, em nossa casa, entenderíamos e
finalmente adentraríamos nestas luzes e bençãos do Evangelho. Será?

Temos a série Fonte Viva a nossa disposição, que nos ensina o Evangelho,
recuperando antiga tradição e, creio que esta fala de Alcione é como se fosse uma
descrição do que Emmanuel realizou em nos trazer versículos e trechos de
versículos comentados um a um:

“— Lá na Espanha — explicou a jovem delicadamente — líamos apenas um


versículo de cada vez e esse mesmo, não raro, fornecia cabedal de exame e
iluminação para outras noites de estudo. Chegamos à conclusão de que o
Evangelho, em sua expressão total, é um vasto caminho ascensional,
cujo fim não poderemos atingir, legitimamente, sem conhecimento e
aplicação de todos os detalhes. Muitos estudiosos presumem haver alcançado
o termo da lição do Mestre, com uma simples leitura vagamente raciocinada. Isso,
contudo, é erro grave. A mensagem do Cristo precisa ser conhecida, meditada,
sentida e vivida. Nesta ordem de aquisições, não basta estar informado. Um
preceptor do mundo nos ensinará a ler; o Mestre, porém, nos ensina a proceder,
tornando-se-nos, portanto, indispensável a cada passo da existência. Eis por que,
excetuados os versículos de saudação apostólica, qualquer dos demais conterá
ensinamentos grandiosos e imorredouros, que impende conhecer e empregar, a
benefício próprio.”
Era este o processo pelo qual passavam os que ouviam os estudos de
Alcione, a mensagem era conhecida, meditada, sentida e vivida. Eis um roteiro
seguro para adentrarmos no evangelho.

Recentemente em um estudo realizado por Haroldo Dutra Dias (Aula 2 do


Estudo do livro de Genesis, Velho Testamento) ele fala algo interessante sobre o
estudo do evangelho, ensina que:

“estudo do evangelho mal conduzido vira um teste “Teste de Rorschach”,


ou teste do borrão – em que as pessoas olham uma figura e enxergam coisas
variadas – fazendo livres associações de idéias. O desconhecimento faz com que
as pessoas compartilhem suas dores, ansiedades – como se fosse um estudo do
evangelho - isso não é interpretação do evangelho – se utilizarmos estes textos
para falar de angustias e questões íntimas – estamos rememorando conteúdos
pessoais e não buscando estudar o texto. Observemos que neste caso, o evangelho
descendo até nós. Estudar é um movimento de silenciar as questões
íntimas para que a luz do evangelho venha até nós - extrair a luz do
evangelho – representa que nós estamos nos esforçando para subir e
alcançar o significado do Evangelho do Cristo.

É interessante que Alcione fala exatamente isto, que o evangelho é um


“caminho ascensional” e encontramos na explicação do Haroldo um auxílio para
que comecemos a entender o que significa este estudo que fazemos em nossos
lares, nos lugares religiosos que frequentamos. Por muitos anos e muitas vidas,
temos trazido o evangelho para a nossa vida, mas é chegado o momento de
elevarmos a nossa vida ao evangelho. São movimentos diferentes, como bem nos
explica Haroldo Dias.

Costuma-se dizer que ser espírita não é fácil, e realmente, não o é. Buscar a
reforma íntima, voltar-se para o mundo interior é tarefa que nos pede esforço,
sinceridade, honestidade. Deixar que nossas vidas sejam moldadas pelo evangelho
de Jesus é um grande desafio, uma maravilhoso desafio, mas sem dúvida, um
caminho que requer de nós dedicação, perseverança, disciplina.

No documentário Eu Maior, a Monja Cohen faz uma belíssima análise do


que significa uma pessoa buscando ascender. Relata quanto escalou o Monte Fugi,
no começo era a paisagem linda, cheia de flores, todos felizes, mas a medida que
foi subindo, foi ficando mais íngreme e difícil, compara isto à prática espiritual. A
questão, agora, é termos a coragem de perguntar até onde estamos dispostos a ir
nesta viagem interior, iremos ficar no início da escalada, onde a paisagem é linda,
as flores são muitas, ou queremos ter a visão plena de quem alcança paisagens
mais altas? São opções, cada um fará a sua escolha, e ela precisa ser consciente.
Quando Alcione nos diz que o evangelho é um caminho ascensional, ela nos está
dizendo que devemos subir, e o que precisamos saber é que para nos elevarmos às
lições do Evangelho, precisamos nos esforçar, sabedores que nossa paisagem
interior nem sempre será bela, a medida que formos alcançando as profundezas de
nossos espíritos, permitindo que nossas dores de outrora sejam trazidas a tona para
serem curadas, precisaremos de um esforço a mais, tal qual o alpinista numa
situação de extrema luta para alcançar seu objetivo.
Mas a pergunta que segue, então, é como fazê-lo, como subir a esferas mais
altas na interpretação do Evangelho de Jesus?

Para responder esta questão, nos socorremos do texto que se encontra no


livro Os Mensageiros, em que D. Isabel, inspirada por um espírito amigo,
interpreta ricamente a parábola do grão de mostarda (Evangelho de Mateus, 13).

“A mensagem evangélica desta noite assevera, pela palavra do nosso Divino


Mestre aos discípulos, que o reino dos céus é também “semelhante ao grão de
mostarda que o homem tomou e semeou no seu coração”. Devemos ver, neste
passo, meus filhos, a lição das coisas mínimas. A Esfera carnal onde vivemos está
repleta de irreflexões de toda sorte. Raras criaturas começam a refletir seriamente
na vida e nos deveres, antes do leito da morte física. (...) Há homens e mulheres,
com maiores responsabilidades, em todos os bairros, que evidenciam paixões
nefastas e destruidoras no campo dos sentimentos, dos negócios, das relações
sociais. As mentes desequilibradas pela irreflexão permanecem, neste mundo,
quase por toda a parte. É que nos temos descuidado das coisas pequeninas.
Grande é o oceano, minúscula é a gota, mas o oceano não é senão a massa das
gotas reunidas. Fala-nos o Mestre, em divino simbolismo, da semente de
mostarda. Recordemos que o campo do nosso coração está cheio de ervas
espinhosas, demorando, talvez, há muitos séculos, em terrível esterilidade.
Naturalmente, não deveremos esperar colheitas milagrosas. É indispensável
amanhar a tema e cuidar do plantio. A semente de mostarda, a que se refere
Jesus, constitui o gesto, a palavra, o pensamento da criatura. Há muitas pessoas
que falam bastante em humildade, mas nunca revelam um gesto de obediência.
Jamais realizaremos a bondade, sem começarmos a ser bons. Alguma coisa
pequenina há de ser feita, antes de edificarmos as grandes coisas. O Senhor
ensinou, muitas vezes, que o Reino dos Céus está dentro de nós. Ora, é portanto
em nós mesmos que devemos desenvolver o trabalho máximo de realização divina,
sem o que não passaremos de grandes irrefletidos. A floresta também começou de
sementes minúsculas. E nós, espiritualmente falando, temos vivido em densa
floresta de males, criados por nós mesmos, em razão da invigilância na escolha de
sementes espirituais. A palestra de uma hora, o pensamento de um dia, o
gesto de um momento, podem representar muito em nossas vidas.
Tenhamos cuidado com as coisas pequeninas e selecionemos os grãos de mostarda
do Reino dos Céus. Lembremos que Jesus nada ensinou em vão. Toda vez que
“pegarmos” desses grãos, consoante a Palavra Divina, semeando-os no campo
íntimo, receberemos do Senhor todo o auxílio necessário. Conceder-nos-á a chuva
das bênçãos, o sol do amor eterno, a vitalidade sublime da Esfera superior. Nossa
semeadura crescerá e, em breve tempo, atingiremos elevadas edificações.
Aprendamos, meus filhos, a ciência de começar, lembrando a bondade de Jesus a
cada instante. O Mestre não nos desampara, segue-nos amorosamente, inspira-nos
o coração. Tenhamos, sobretudo, confiança e alegria!”
Temos hoje a oportunidade de construirmos em nós os alicerces do amanhã,
Alcione semeou, foi fiel nas pequenas coisas, cuidou amorosamente de sua família,
não descuidando nunca dos seus, e hoje, das esferas sublimes onde habita, nos
convida através do seu exemplo a também ascendermos.

Não tenhamos tanta pressa, lembremos do ditado popular que nos ensina que
“quem leu todos os livros, não leu nenhum”. Saibamos assim degustar desta fonte
divina, buscando-o com sede de aprendiz, daquele que vê no Evangelho de Jesus a
melhor escola, a que nos levará a uma versão melhor da que somos hoje.

Que o Mestre nos guie, hoje, agora e sempre.

Abraços fraternos.

Campo Grande-MS, 27 de março de 2015.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 6b

“Jesus, porém, respondendo, disse:


Não sabeis o que pedis.”
(MATEUS, 20:22)

Escolhido de forma muito acertada, o título do livro nos dá a exata


perspectiva do que representou a vida de Alcíone entre nós. O estudo do livro,
olhando os capítulos de forma paralela, nos permite um olhar mais aprofundado de
muitas lições que nos passaram desapercebidas com a mera leitura, ainda que
reiterada. Sondemos, assim, nesta etapa o que a fala de Alcione, ainda criança, no
capítulo 6 da primeira parte terá de verdadeiro ao longo de sua jornada espiritual:

“A pequena Alcione encontrava singular encanto nas descrições dos tempos


remotos, em que os cristãos perseguidos se reuniam nas catacumbas
abandonadas. A narrativa das festividades bárbaras da época de Nero marejava-
lhe os olhos, mas, quando ouvia a leitura das respostas firmes dos mártires aos
algozes, exultava de entusiasmo. Denunciando vocação para o sacrifício, certa
vez interrogou:
— Padre Damiano, onde é agora o circo? E as feras? Ainda podemos sofrer para
mostrar a Jesus que não estamos de acordo com os que o crucificaram?
O religioso achou muita graça na lembrança e explicou:
— Sem dúvida, poderemos testemunhar nossa fé a todo tempo, em todas
as circunstâncias.
E observando que a criança aguardava resposta completa, concluiu sorrindo:
- Agora o circo é o mundo e, na maioria dos casos, as feras são os homens.”

Antes de avançarmos ao capítulo 6 da segunda parte, cabe-nos refletir um


pouco sobre este desejo de Alcíone: “Ainda podemos sofrer para mostrar a Jesus
que não estamos de acordo com os que o crucificaram?” É interessante o verbo
que ela usa “sofrer”, poderíamos facilmente trocar o verbo sofrer pelo verbo amar,
e ainda sim o sentido da frase permaneceria, mas o que temos feito? Qual verbo
usamos em nosso dia a dia para mostrar o evangelho de Jesus presente em nossas
vidas, como demonstrar que tiramos o Cristo da cruz para colocá-lo em nossas
vidas, vivo, ressuscitado? Pedir, reclamar, protestar, exaltar, duvidar, e mais uma
infinidade de verbos que representam atitudes, esquecendo a caridade, que ainda
nos pertencem e que raramente paramos para analisar quanto aos seus efeitos no
mundo em que nos encontramos. A começar em mim, este questionamento, de
quantas das minhas atitudes de julgamento, de queixa, de agressividade, ainda
refletem os sentimentos que nos levaram, enquanto humanidade, a levar o maior
amor que a humanidade já presenciou para a cruz e depois, também os seus
seguidores, em mortes cruéis? Se hoje já não temos mais os circos de outrora,
temos a palavra que fere, a atitude que desequilibra, perpetuando o que
condenamos e nem nos apercebemos, repetimos. Por que não raro vemos pessoas
exaltando aqueles que se imolaram para testemunhar o evangelho de Jesus, mas
quem de nós alcança a profundidade deste desejo?

Se atravessarmos as fronteiras do livro Renúncia para buscar vidas outras


destes personagens, veremos Alcione como Célia no livro 50 anos depois, e Carlos
como Ciro, lembrando que este último morreu dando testemunho de sua fé no
Cristo, exatamente no circo a que Alcione fez menção:

“Ao fim da tarde, quando os últimos raios do Sol caíam sobre as colinas do Célio
e do Aventino, entre as quais se ostentava o circo famoso, os vinte e dois
condenados foram conduzidos ao centro da arena. Negros postes ali se erguiam,
aos quais os prisioneiros foram atados com grossas cordas presas por elos de
bronze. Nestório e Ciro confundiam-se naquele pequeno grupo de seres
desfigurados pelos mais duros castigos corporais. Ambos estavam esqueléticos e
quase irreconhecíveis.” Trecho do livro 50 anos depois

Aquele mesmo jovem que outrora tanto lhe ensinara, nesta vida sucumbia
ante as provas mais duras que atravessava. Mas como pode tal coisa ocorrer? Onde
a explicação de que Ciro poderia aparentemente regredir a ponto de tornar-se
Carlos Clenegham, posteriormente um padre dos mais austeros atuando na
inquisição? Eis, assim, novo trecho do livro 50 anos depois que nos permite
meditar com maior profundidade:

“- Filha, entre os mártires do Cristianismo, há os que se desprendem do mundo


em missão sacrossanta e os que morrem para os mais penosos resgates... Ciro é do
número destes últimos... Em séculos anteriores, foi um déspota cruel,
exterminando esperanças e envenenando corações... Mergulhado depois na luta
expiatória, renegou as dores santificantes e enveredou pela senda ignominiosa do
suicídio. É justo, pois, que agora aprecie os benefícios da luta e da vida, na
dificuldade de os readquirir para a sua redenção espiritual, ansiosamente
colimada. As experiências fracassadas hão de valorizar o seu futuro de
realizações e esforços nobilíssimos. Em face da dor e do trabalho, no porvir que se
aproxima, seu coração amará todos os detalhes da luta redentora. Saberá prezar
no trabalho ingente e doloroso os recursos sagrados da sua elevação para Deus,
reconhecendo a grandeza do esforço, da renúncia e do sacrifício!...”

Eis um amor que atravessa milênios, que guarda no coração a essência do


espírito e não apenas a existência passageira de uma vida. Alcione conhecia
Carlos, lembrava-o como o homem que morreu em sacrifício por Jesus, como o
bebê que abraçou como filho, como a alma que estava definitivamente entrelaçada
a sua pelo amor, o único e verdadeiro elo.

Desde tenra idade, as histórias do circo a magnetizavam porque ali estava a


história do amado de seu coração, Ciro/Poluz/Carlos/Frei José do Santíssimo. E,
ainda, no início do século passado, nova vida, ainda em resgate de débitos
passados, como Alexander Seggie, que morreu jovem na guerra, como nos noticia
o livro Sementeiras de Luz.
E as provas redentoras nas várias experiências que temos, continuaram na
vida de Carlos Clenegham, vejamos um trecho do capítulo 6, segunda parte:

“Desde o nosso primeiro encontro, venho arquitetando um meio de enriquecer-te


a alma de idealismo e confiança. Sempre sonhei, para o teu caminho, um mundo
de felicidades nobilitantes. Antigamente, tuas obrigações sacerdotais impuseram-
nos a separação; mesmo assim, porém, vibrava na ansiedade ardente de
embelezar teu roteiro de nobres aspirações. Lutei para que não abandonasses o
que sempre considerei uma sublime tarefa; entretanto, hoje busco harmonizar
minhas idéias com a tua decisão e sinto que a consciência pura é o melhor dote
que te posso trazer para a nossa eterna aliança...
(...) creio que há um casamento de almas, que nada poderá destruir. Este deve
ser o nosso caso. O mundo nos separa, mas o Altíssimo nos reservará a aliança
eterna do céu.”

Já de muito tempo estas almas estavam ligadas, Célia disse algo muito
semelhante ao que Alcione, 1500 anos depois, torna a dizer: “Quem poderá
explicar esse mistério santo da vida ? Dentro desse divino segredo do coração,
basta, às vezes, um gesto, uma palavra, um olhar, para que o espírito se algeme a
outro para sempre...”

Não se trata aqui de verificarmos, com olhos românticos, a história de


ambos, mas de trazermos a lição ao nosso coração a fim de que sejamos capazes de
aprender que existem almas que se ligam a nossa, e estes vínculos se perpetuam
pela vida e pelas muitas vidas. Os espíritos explicam estas ligações a Kardec,
advertindo-o que ainda não a entendemos em sua integralidade:

“388. Os encontros, que costumam dar-se, de algumas pessoas e que comumente


se atribuem ao acaso, não serão efeito de uma certa relação de simpatia?
“Entre os seres pensantes ha ligação que ainda nao conheceis. O magnetismo e o
piloto desta ciência, que mais tarde compreendereis melhor.”

Não compreender, porém, não significa que nossa percepção de uma ligação
profunda não exista, nós a sentimos, apenas não somos capazes de verbalizar.
Agora, pensemos em nossas vidas, com quem temos esta ligação e afinidade, que
vai além do romantismo das telas de TV, muitas vezes é um filho ou filha, um
amigo, um parente, ou mesmo alguém distante que nos remete aos mais belos
sentimentos de amor e fraternidade. E saibamos que cada vida é uma experiência, e
somos a somo delas, ainda passíveis de falhas, erros, equívocos, como Carlos que
tropeçou em um existência que lhe seria uma grande prova, mas que prosseguiu,
ainda prossegue e que tem em sua história a morte pelo Cristo, pelo evangelho que
hoje tanto nos consola.

Tão velozes nós somos para julgar, e eis a reencarnação nos trazendo
maravilhosa lição, nem tudo é o que aparenta ser, o homem que outrora morreu
pelo Cristo(Ciro), retorna e participa da inquisição (Carlos). E isto se dá conosco
também, estamos caminhando, aprendendo, vivenciando, e, principalmente,
fazendo escolhas que nem sempre são boas. Muitos de nós pensamos que os
espíritos que foram martirizados encontram-se em mundos superiores, mas
encontramos nos romances de Emmanuel informações que nos permitem ir muito
além deste primeiro olhar.

Muito bem, retornemos, então, ao Cristo. Quando Deus criou a Terra, nosso
lindo planeta azul, ele, o Cristo, lá estava, participou e auxiliou o Pai em nossa
criação, acompanhou-nos desde os primórdios, por bilhões de anos, preparou-nos
um ambiente onde finalmente pudéssemos desenvolver nossa inteligência e
também, onde pudéssemos aprender a amar. Eis, então, uma alma que nos conhece
e sabe de nós muito mais do que nossa imaginação possa alcançar. Nosso irmão
mais velho, que nos acompanha a bilhões de anos!

Se a conexão entre Alcione e Carlos nos comove e emociona, forçoso é


reconhecer não apenas as relações semelhantes que possuímos, mas a mais
profunda de todas, que é a nossa relação com o Cristo e, através dele, nossa relação
com o Pai Maior.

Estamos aqui, tal qual Alcione/Celia e Carlos/Ciro a experenciarmos o amor,


muitas vezes através da renúncia, da espera, da resignação, como aprendemos
neste livro. É chegada a hora, porém, de reconhecermos no Cristo o nosso amor
maior, reconhecê-lo como a alma que anseia e trabalha ardorosamente pela nossa
ascensão e que é, sem dúvida alguma, o maior amor que já existiu entre nós. E
Jesus é a medida do amor que Deus quer nos ensinar e nós já estamos aptos a
aprender.

O versículo inicial trata do trecho em que a mãe dos filhos de Zebedeu roga
a Jesus que eles se assentem a sua direita e a sua esquerda, em seu trono. E Jesus
lhe diz, que ela não sabe o que está pedindo. Na concepção daquela mãe e daquele
povo, era um reino terreno que seria instaurado, mas o reino que Jesus nos vem
noticiar é o reino de Deus, e assentar-se ao seu lado significaria morrer em
sacrifício, tal qual ocorreu a Tiago, um dos filhos, anos mais tarde. Morrer para o
Cristo é algo impensável para muitos, não obstante vemos que Carlos/Ciro o fez,
como muitos o fizeram. A pergunta, então, queridos amigos, é se estamos aptos a
viver pelo Cristo, este sim, o nosso maior desafio. Alcione é um exemplo vivo de
alguém que buscou isto, viveu pelo Cristo, amando, renunciando, esperando.

Emmanuel comenta o versículo com que iniciamos o este estudo no livro


Caminho Verdade e Vida, lição 65, e é com ele que encerramos o estudo desta
semana.

“A maioria dos crentes dirige-se às casas de oração, no propósito de pedir


alguma coisa.
Raros os que aí comparecem, na verdadeira atitude dos filhos de Deus,
interessados nos sublimes desejos do Senhor, quanto à melhoria de
conhecimentos, à renovação de valores íntimos, ao aproveitamento espiritual das
oportunidades recebidas de Mais Alto.
A rigor, os homens deviam reconhecer nos templos o lugar sagrado do Altíssimo,
onde deveriam aprender a fraternidade, o amor, a cooperação no seu programa
divino. Quase todos, porém, preferem o ato de insistir, de teimar, de se imporem
ao paternal carinho de Deus, no sentido de lhe subornarem o Poder Infinito.
Pedinchões inveterados, abandonam, na maior parte das vezes, o traçado reto de
suas vidas, em virtude da rebeldia suprema nas relações com o Pai. Tanto
reclamam, que lhes é concedida a experiência desejada.
Sobrevêm desastres. Surgem as dores. Em seguida, aparece o tédio, que é sempre
filho da incompreensão dos nossos deveres.
Provocamos certas dádivas no caminho, adiantamo-nos na solicitação da herança
que nos cabe, exigindo prematuras concessões do Pai, à maneira do filho pródigo,
mas o desencanto constitui-se em veneno da imprevidência e da
irresponsabilidade.
O tédio representará sempre o fruto amargo da precipitação de quantos se atiram
a patrimônios que lhes não competem.
Tenhamos, pois, cuidado em pedir, porque, acima de tudo, devemos
solicitar a compreensão da vontade de Jesus a nosso respeito.”

Amigos, agradeço por mais esta oportunidade de refletir sobre as lições


evangélicas deste livro magnífico. Que Jesus nos auxilie para que vivamos em
busca das esferas sublimes e elevadas do seu amor por nós.
Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 02.04.2015.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 6c

No capítulo 6 da primeira parte, Madalena Vilamil e Padre Damiano travam


um riquíssimo diálogo, repleto de lições que nos permitem refletir e aprender.
Discorrem sobre o evangelho, a forma como a igreja trabalha e também sobre cada
um, em seu lar, em sua vida. Porém, em dado momento, Madalena pergunta ao
Padre sobre os momentos em que somos impedidos de prosseguir nossos trabalhos,
no caso, em razão de uma doença. Antes, porém, de ler a resposta do Padre
Damiano olhemos, desde já, este conceito de forma ampliada, não apenas quando a
doença no alcança, mas em todos os momentos em que somos instados a parar ou a
mudar, quando a vida toma rumos que nos fazem sofrer.

Vejamos a fala de Padre Damiano:

“Quando cessam as possibilidades de ação no exterior, há no íntimo da criatura


todo um mundo a desbravar. Chego a refletir que, às vezes, a enfermidade
atormenta a criatura para que ela se volte para dentro de si e aproveite a
oportunidade, no esforço laborioso de sua renovação.”

Quantas e quantas vezes em nossas vidas nos deparamos com momentos de


dor, tristeza, enfermidade, dificuldades, momentos vários que pedem de nós um
recomeço, um novo olhar, um novo ânimo. É certo que ninguém quer sofrer, mas
de igual forma, é certo que a dor é uma escola, que nos proporciona lições e
melhorias inigualáveis. Padre Damiano o sabia e ensinava a Madalena que em
todas as circunstâncias Deus está operando em nossas vidas.

Muito bem, sabedores, então, de que todas as coisas, boas ou más, que nos
acometem estão sob o manto da justiça divina, cabe a nós seguirmos nosso
caminho com bom ânimo. Correto? Não tão simples, eu diria...

Alcemos voo para alcançar uma lição que nos auxilie a melhor entender
estas palavras de Padre Damiano, olhemos no capítulo 6 da segunda parte, um
trecho que fala de Alcione, espírito de grande elevação moral que já não tinha
necessidade de reencarnar e que se encontrava entre nós em missão pelos amados
do seu coração.
“Alcione acompanhou satisfeita todos os trâmites do auspicioso evento, mas, em
seguida, entrou num período de grande abatimento, do qual apenas saía nas
horas rápidas do culto familiar.”

Alcione triste e abatida? Certamente ao nos lembrarmos dela, recordaremos


sua força, sua coragem, sua resignação ante as duras provas que enfrentou, mas
este trecho me chamou atenção e creio ser importante refletirmos sobre ele.

Vivemos em uma cultura em que a tristeza é proibida. Até mesmo dentro das
casas espíritas o estado de tristeza ou abatimento é logo interpretado como más
companhias espirituais ou mesmo invigilância de quem se encontra neste estado.
Será que é assim? Se o é, porque Alcione enfrentou estes sentimentos? Foi um
momento em que fraquejou ou é algo que faz parte de quem somos e de onde
estamos?

Primeiramente, identifiquemos as causas deste abatimento de nossa


benfeitora:

“A filha de Madalena não conseguia furtar-se à saudade dos seus inesquecíveis


ausentes e, simultaneamente, experimentava a falta do trabalho ativo, que se
tornara a incessante religião dos seus braços fraternos.”

O próprio Emmanuel, no livro Amanhece, nos diz sobre a saudade: “quanto


dói o adeus entre aqueles que as dimensões vibratórias separam em campos
diferentes da vida.” Alcione sentia esta dor, nós outros também a sentimos,
também nos abatemos. Cessado algum trabalho que fazíamos com amor, também
nos sentimos perdidos, sem rumo, aguardando nova tarefa que preencha o vazio
que a ausência deixou. Até aqui, somos parecidos com Alcione, não é mesmo? Tão
humano estes sentimentos...mas a postura de vida dela nos ensina algo muito
valioso, avancemos um pouco mais.

A irmã de Alcione, Beatriz, preocupa-se, buscando alguma solução para


tirar-lhe de tão profunda melancolia.

E este termo “melancolia” é preciso que o compreendamos, para que


saibamos identificá-los também em nossos corações, quando ele nos visitar. O
Evangelho Segundo o Espiritismo nos traz um trecho, que reproduzo na íntegra,
tão profundas as palavras e necessárias ao nosso estudo:

“ Sabeis por que, às vezes, uma vaga tristeza se apodera dos vossos corações e vos
leva a considerar amarga a vida? É que vosso Espírito, aspirando à felicidade e a
liberdade, se esgota, jungido ao corpo que lhe serve de prisão, em vãos esforços
para sair dele. Reconhecendo inúteis esses esforços, cai no desânimo e, como o
corpo lhe sofre a influência, toma-vos a lassidão, o abatimento, uma espécie de
apatia, e vos julgais infelizes. Crede-me, resisti com energia a essas impressões
que vos enfraquecem a vontade. 3 São inatas no espírito de todos os homens as
aspirações por uma vida melhor; mas, não as busqueis neste mundo e, agora,
quando Deus vos envia os Espíritos que lhe pertencem, para vos instruírem acerca
da felicidade que Ele vos reserva, aguardai pacientemente o anjo da libertação,
para vos ajudar a romper os liames que vos mantêm cativo o Espírito. 4 Lembrai-
vos de que, durante o vosso degredo na Terra, tendes de desempenhar uma missão
de que não suspeitais, quer dedicando-vos à vossa família, quer cumprindo as
diversas obrigações que Deus vos confiou. 5 Se, no curso desse degredo-provação,
exonerando-vos dos vossos encargos, sobre vós desabarem os cuidados, as
inquietações e tribulações, sede fortes e corajosos para os suportar. Afrontai-os
resolutos. Duram pouco e vos conduzirão à companhia dos amigos por quem
chorais e que, jubilosos por ver-vos de novo entre eles, vos estenderão os braços, a
fim de guiar-vos a uma região inacessível às aflições da Terra.” — (FRANÇOIS
DE GENÈVE. Bordeaux.)

Se até mesmo um espírito com a envergadura moral como o de Alcione


passou por momentos de abatimento, não tenhamos nós a ilusão ou e pretensão de
estarmos sempre alegres e confiantes. Passaremos, também, por tristezas,
dissabores, ausências, melancolias. Mas nos lembraremos de Alcione que venceu,
prosseguiu, reergueu-se. Lembraremos do Padre Damiano, dizendo-nos que são
convites a que nos voltemos ao nosso mundo interior em busca de novos caminhos,
novas formas de ver e interpretar a vida. São, também, momentos de prova, em que
nosso espírito é chamado a testemunhar a confiança no Altíssimo.
Caríssimos, a dor será escola bendita se a olharmos como uma aliada, uma
mensageira que quer algo nos ensinar. Porém, se nos esquivarmos dela, buscando
em químicas medicamentosas as soluções para os problemas que carecem de um
esforço de nosso espírito, estaremos fadados a repetir, repetir, até que um dia
aprendamos.

Urge que conheçamos melhor os nossos sentimentos, que saibamos respeitá-


los e tratá-los. A vida é oportunidade divina, convite a aprendizados. Saibamos que
a tristeza, a angustia fazem parte da atmosfera deste orbe, ainda. A questão é
quantos passos somos capazes de dar, ainda que a tristeza bata em nossa porta,
ainda que nosso coração seja invadido por ela.

Alcemos um voo ainda mais alto e recordemos que o Mestre também


chorou, entristeceu-se, angustiou-se, encontramos isto no Evangelho de Mateus
26:36-39:

“Então, Jesus vai com eles a um lugar chamado Gersêmani e diz aos discípulos:
Sentai-vos aqui, enquanto vou orar ali. E, tendo levado consigo Pedro e os dois
filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Então, lhes
disse: Minha alma está cercada de tristeza até a morte. Permanecei aqui
e vigiai comigo! E, indo um pouco adiante, prosternou-se, orando e dizendo: Meu
Pai, se for possível, passa de mim esta taça; contudo, não seja como eu quero, mas
como tu queres.”

A questão não é e nunca foi sobre ficar triste ou não. Alcione entristeceu-se,
o Cristo também...o que os difere de nós outros, almas que ainda engatinham no
entendimento das verdades divinas? A grande questão que este estudo nos
encaminha a refletir é o que fazemos com nossas tristezas.

Em geral, a ocultamos não apenas do mundo, mas de nós mesmos, buscando


em fugas reiteradas o alívio para a dor que não passa. E, tal qual uma mochila que
carregamos nas costas, vamos ficando pesados, doloridos, fatigados.
Jesus entregou-se ao Pai, sendo submisso à vontade dEle para a sua vida. E
Alcione, que lhe acompanha os passos, também o fez, como vemos neste trecho do
capítulo 6 da segunda parte:

“Deus nos dará coragem nesta fase difícil. A existência na Terra não constitui a
vida em sua expressão de eternidade. (...) A esperança é invencível, Carlos. Toda
inquietação, toda amargura, chegam e passam. A alegria e a confiança no porvir
eterno permanecem. São bens do patrimônio divino no plano universal...”

Jesus nos disse que seu fardo é leve e seu jugo é suave, não necessitamos
andar pelo mundo fatigados e sem forças, deixemo-nos guiar por estes seres
celestiais que nos precedem nos mundos de ventura e paz, levemos ao Pai
Amoroso e Justo tudo o que vai em nosso coração, deixemo-nos guiar por sua luz
bendita. Deus permitiu que Jesus passasse por todas as nossas dores a fim de que
depositássemos nele a nossa confiança, do irmão que nos conhece, que já passou
por situações duríssimas, que mal conseguimos imaginar. Ele, nosso irmão maior,
o Cristo Jesus, é quem hoje nos acolhe, nos acalma, porque conhece das lutas e
dores da Terra.
Mais uma vez, é Emmanuel quem encerra o estudo, com valoroso convite:

“Sofres? Estás fatigado? Tropeças sob os fardos do mundo?


Vem!
Jesus reserva-te os braços abertos.
Vem e atende-o ainda hoje. É verdade que sempre alcançaste ensejos de serviço,
que o Mestre sempre foi abnegado e misericordioso para contigo, mas não te
esqueças de que as circunstâncias se modificam com as horas e de que nem todos
os dias são iguais.”

Que Jesus nos acolha em seus braços amorosos e que doravante sintamos
este profundo amor em nossos corações.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 10.04.2015.

Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 6d

“Somente chega a entender a vida quem


compreende a dor.” André Luiz – Estude e Viva

Continuamos nossa trajetória, buscando as lições evangélicas deste livro


sublime, sondando nos capítulos de número 6, primeira e segunda parte, pontos
que nos levem a meditações e reflexões íntimas, a lições evangélicas, como nas
letras da música que diz “capinando a roçada dos meus íntimos quintais”.

Madalena Vilamil em diálogo com Padre Damiano diz algo interessante:

“— E o sofrimento, Padre Damiano? — perguntou Madalena Vilamil, já tocada


por aqueles altos conceitos. — Que me dizeis do problema do destino e da dor?”

Quem de nós nunca questionou sobre o problema do destino e da dor? Quem


de nós não busca entender porque ainda recalcitra em erros e desenganos? E à
pergunta de Madalena, acrescentaria, é a dor de um tipo apenas? Ou poderíamos
classificá-la, tipificá-la, a fim de melhor a entendermos? Certamente que existem
as dores físicas e as dores da alma, mas é destas últimas que mais necessitamos
entender, alcançando um olhar que nos permita identificar o que acontece em
nosso mundo interior. Geralmente fugimos da dor, mas o convite, hoje, é que a
olhemos com coragem, sabedores de que é algo que nos cerca e nos acomete, vale
a pena refletirmos e eis o que nos propomos a fazer.

No livro As dores da Alma, o espírito Hammed elenca estas vergastas que


atravessam nosso íntimo e nos fazem tombar, são elas: crueldade, orgulho,
irresponsabilidade, crítica, ilusão, medo, preocupação, vício, solidão, culpa,
mágoa, egoísmo, baixa estima, rigidez, ansiedade, perda, insegurança, repressão,
depressão, dependência e, por fim, a inveja. Trata-se de um livro muito
interessante e instrutivo a quem quiser avançar no tema, eis que neste pequeno
espaço iremos apenas iniciar uma reflexão que certamente é muito mais ampla. O
autor, ainda, nos esclarece: “as dores da alma são fases naturais da evolução
terrena, nas quais estagiam todos os seres em crescimento espiritual, aprendendo
a usar convenientemente seus impulsos inatos ou forças interiores.”
Pois bem, se é certo que a dor nos alcança, Deus em sua infinita misericórdia,
também nos oferece meios para que busquemos as soluções das quais carecemos.
Assim, nos esclarece Padre Damiano, ainda no diálogo mencionado:

“A criatura se engrandecerá ou submeter-se-á ao rebaixamento, conforme utilize


as possibilidades recebidas. No caminhar de cada dia, podemos observar os que
ascendem, apesar dos dolorosos testemunhos; os que estacionam em receios
inúteis; os que resgatam e os que contraem novas dívidas.”

Onde estamos? Caminhando? Estacionados? Em provas de resgate? Ou


contraindo novas dívidas? De que natureza são as dores de nossa alma? Temos
consciência de que nos acontece? Ou estamos nesta vida tal qual folha ao vento,
sem rumo, sem norte?

Padre Damiano, nos lembra do nosso norte, do caminho, do Cristo que muito
padeceu:

“Mas se o esforço divino de Jesus foi aureolado no Calvário, quem poderá


pensar na glória celeste sem a coroa de espinhos? As pessoas felizes
costumam não ter história, e, quando a possuem, nem sempre registram episódios
mais dignos. Com essa ideia, não quero dizer que devamos andar no mundo como
aventureiros do sofrimento, em farragem de trapos e lamentos, mas desejo realçar
o valor das lutas incruentas do coração, que temperam o caráter e iluminam a
vida. A maioria dos santos esteve indecisa, até que o testemunho redentor, pela
dilaceração de si mesmos, lhes abriu os horizontes infinitos da Eternidade.
Nascemos e renascemos, até que possamos encontrar asas de sabedoria e de amor
para os voos supremos.”

É interessante, então, passarmos a ver a dor como algo que contribui para o
nosso melhoramento, e como um caminho que nos leva ao Pai Maior. Certamente,
ela requer de nós o esforço, a luta, e sem ela, raramente sairíamos do lugar de
conforto em que estivermos. Assim, estamos aqui neste mundo de provas e
expiações, mas precisamos avançar, tornando-nos espíritos regenerados, que já
entendem a lei divina e a buscam viver.
E como a procurar estas asas de sabedoria e amor, passemos ao capítulo 6
da segunda parte, sondando o que nos falam Alcione e Carlos, sobre a dor e o
destino...

Vencidos os vínculos que a mantinham em Paris, Alcione decide ir ao


encontro de Carlos como lhe houvera prometido. Porém, encontra-o casado, há
mais de dois anos. Travam um diálogo que muito nos pode ensinar sobre o tema
abordado.

Alcione sofre:

“A moça sentiu que o sangue lhe gelava nas veias. Jamais pudera admitir que o
dileto do seu coração fosse capaz de olvidar antigos juramentos. O inopinado da
revelação esmagava-lhe a alma toda. Lágrimas ardentes, arrancadas do
íntimo, afloravam-lhe aos olhos, mas, na meia sombra da noite, buscava
dissimulá-las cuidadosamente.”

E Carlos também:

“O pupilo de Damiano tinha o peito oprimido por indefinível angústia. (...)


Deixas-me em Castela, amargurado para sempre. Creio que jamais poderei
apagar o remorso que tisnará minh’alma doravante. Aprenderei, duramente, a não
atender aos primeiros impulsos do coração. Se fosse menos precipitado no julgar,
poderia oferecer-te, agora, a minha fidelidade perene. Esqueci, porém, a
prudência salvadora e mergulhei num mar de angústias torturantes. Andarei, na
Terra, como náufrago sem porto.”

Interessante, porém, é notar que são dores diferentes. Aguardemos um pouco


quanto a análise do pensamento de Alcione. Sondemos os sentimentos de Carlos,
ainda tão humanos, e, por que não dizer, tão nosso. Ele guarda em sua fala um
sentimento de culpa, de reconhecimento de que poderia ter agido de forma
diferente e que, assim, sua vida seria mais feliz. Sobre a culpa nos ensina Hammed
em trecho do livro supracitado, Dores da Alma:
“Na realidade, criaturas imaturas se consideram profundamente culpáveis,
porque valorizam em excesso o que os outros dizem e pensam, por lhes faltar
independência interior, nem sempre reúnem condições de julgar seu próprio
comportamento, pensamentos e emoções, responsabilizando-se pelas
consequências que tais atos causam sobre elas. Não creem que Deus lhes fala
diretamente; ao contrário, necessitam de homens que se autodenominam
“iluminados”, para conduzi-las, conforme julguem correto e justo. São infelizes.
Quando não se culpam, atribuem culpa aos outros. Não percebem que são elas
mesmas que determinam o seu destino. A culpa não encontraria abrigo em nossa
alma, se tivéssemos uma ampla fé no amor de Deus por nós e acreditássemos que
Ele habita em nosso âmago e sabe que somos tão bons e adequados quanto
permite nosso grau de conhecimento e de entendimento sobre nossa vida interior e
também exterior.”

A culpa nos paralisa, não permite que avancemos. Muitos, talvez, pensem
que Carlos sentia-se assim porque realmente agiu com erro, mas a questão não está
no erro em si, mas na forma como o olhamos e em nossa capacidade de nos
perdoarmos e seguirmos em frente. Recordemos que Saulo (Paulo de Tarso) faliu
imensamente antes de encontrar-se com Jesus, mas é um exemplo de alguém que
soube lidar com os próprios erros, perdoando-se e seguindo em frente. Tornou-se
responsável por seus erros buscando a reparação dos males que havia realizado, e
não ficou paralisado na culpa que é cheia de sentimento de auto piedade e reflete a
imaturidade espiritual como o texto acima nos chama a refletir.

O texto de Hammed nos diz que “a culpa não encontraria abrigo em nossa
alma, se tivéssemos uma ampla fé no amor de Deus”, e é interessante observar
como Alcione vivencia esta fé no amor de Deus descrita pelo texto. Ela vai se
adequando a vida, segue sempre em frente, dá o melhor de si em todas as
situações. Carlos, enquanto sob os conselhos de Padre Damiano, conseguiu
manter-se no caminho. Também recorria a Alcione como alguém que lhe seria o
alicerce, porém, isto tudo é fruto de uma alma imatura, que ainda não se reconhece
como criatura divina apta a crescer e desenvolver-se. Vejamos mais um pequeno
trecho:

“— Pede a Jesus por mim, para que o desespero não me faça mais infeliz.
— Não te percas em semelhantes ideias — exclamou a filha de Madalena,
completamente senhora de si —, estamos neste mundo, de passagem para uma
esfera melhor. Por certo que a nossa felicidade não se resumiria em atender, por
algum tempo, aos nossos desejos, com o olvido das mais nobres obrigações. É
indispensável encarar as dificuldades com ânimo decidido. Luta contra
a indecisão, pela certeza de que Deus é nosso Pai, misericordioso e
justo... Se nos vemos novamente separados, é que há trabalhos convocando-nos a
testemunhos mais decisivos, até que nos possamos reunir nas claridades
eternas.”

Se para Carlos a nova separação era motivo de dor e desespero, Alcione


conseguia ir além, para resignar-se ante as provas de vida e seguir em frente,
tornou-se freira e há muitos seguiu auxiliando e servindo. Cabe a cada um de nós
adentrarmos no nosso mundo interior de forma consciente e corajosa, verificando
as nossas dores, posturas, vivências e, com esforço, nos adequando à lei divina de
amor, justiça e caridade. Alcione a exemplificou, perseverou e seguiu em frente.
Relembrando o evangelho de Mateus: “Mas aquele que perseverar até ao fim será
salvo.” Jesus (Mateus, 24:13), saibamos nós outros perseverarmos também. A
salvação da qual todos necessitamos não se trata em ir para um lugar, seja um céu
ou uma colônia espiritual, é conquistar o reino de Deus dentro de nós a fim de que
onde quer que estivermos, até mesmo nas esferas mais sombrias, estejamos em paz
e em sintonia com o amor do Pai.

Padre Damiano (uma das encarnações de Emmanuel), num dos trechos


supracitados, nos fala que: “Nascemos e renascemos, até que possamos encontrar
asas de sabedoria e de amor para os voos supremos. E ele retoma este tema, como
Emmanuel, no livro Pão Nosso, comentando o versículo supracitado do Evangelho
de Mateus nos dando mais uma prova material de que o estudo que nos trouxe
através dos livros da coleção Fonte Viva, comentando trechos do evangelho, são,
também, momentos de sua vida, em que os acontecimentos cotidianos foram a
escola a ensinar as lições evangélicas que buscamos e necessitamos. Eis a lição 36
do livro Pão Nosso, intitulada Até o Fim, com a qual encerramos as reflexões da
semana:

“Mas aquele que perseverar até ao fim será salvo.” Jesus (Mateus, 24:13)
Aqui não vemos Jesus referir-se a um fim que simbolize término e, sim, à
finalidade, ao alvo, ao objetivo. O Evangelho será pregado aos povos para que as
criaturas compreendam e alcancem os fins superiores da vida. Eis por que apenas
conseguem quebrar o casulo da condição de animalidade aqueles Espíritos
encarnados que sabem perseverar. Quando o Mestre louvou a persistência,
evidenciava a tarefa árdua dos que procuram as excelências do caminho
espiritual. É necessário apagar as falsas noções de favores gratuitos da
Divindade. Ninguém se furtará, impune, à percentagem de esforço que lhe cabe na
obra de aperfeiçoamento próprio. As portas do Céu permanecem abertas. Nunca
foram cerradas. Todavia, para que o homem se eleve até lá, precisa asas de
amor e sabedoria. Para isto, concede o Supremo Senhor extensa cópia do
material de misericórdia a todas as criaturas, conferindo, entretanto, a cada um o
dever de talhá-las. Semelhante tarefa, porém, demanda enorme esforço. A fim de
concluí-la, recruta-se a contribuição dos dias e das existências. Muita gente se
desanima e prefere estacionar, séculos a fio, nos labirintos da inferioridade;
todavia, os bons trabalhadores sabem perseverar, até atingirem as finalidades
divinas do caminho terrestre, continuando em trajetória sublime para a perfeição.

Que Jesus nos conduza no caminho de luz e paz, e que busquemos sempre o
equilíbrio, as asas do amor e da sabedoria a fim de que alcemos voos mais altos,
em esferas elevadas.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 17.04.2015.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 7a

“Tudo na vida pode ser começado de novo para que a lei


do progresso e do aperfeiçoamento se cumpra em todas
as direções.” Emmanuel

Iniciamos a última etapa deste estudo do livro Renúncia buscando suas


lições evangélicas, numa perspectiva diferente da que estamos acostumados,
estudamos os capítulos aos pares, primeira e segunda parte. Assim, neste etapa,
estudaremos as lições e pontos em comum dos capítulos de número 7.

O capítulo 7 da primeira parte, intitulado Caminhos de luta nos informa da


chegada dos irlandeses na América, em especial da família de Cirilo e seus amigos,
conta-nos sobre suas dificuldades e também de seus êxitos. Cirilo, desconsolado
com a informação mentirosa de que Madalena havia desencarnado, mergulha no
trabalho, garante o êxito e a produtividade da fazenda, todos prosperam.

Vale a pena pararmos um pouco para pensarmos e olharmos para nossas


vidas e nos lembrarmos de quantas vezes já fomos chamados a recomeçar. Quantas
vezes nossos sonhos e planos tomaram rumos diversos do nosso querer e, ainda
sim, tivemos que seguir adiante. Muitos irlandeses migraram para a América e isto
teve uma repercussão na forma como o mundo é hoje. Assim, também em nossas
vidas, seguimos por caminhos diversos e para iniciar este estudo é bom que
tenhamos esta lembrança em nossos corações, das vezes em que a vida nos
convidou a recomeçar. Recomeçamos em lugares, com pessoas, em novo trabalho,
em novo estudo, conosco mesmo, retomando velho projeto engavetado,
recomeçamos a academia, a dieta, a meditação...a todo tempo, em diversas
circunstâncias somos instados ao recomeço.

Vez por outra, porém, nós ficamos parados, naquele questionamento nem
sempre produtivo que começa com a pergunta: “e se...?” Olhemos para a vida de
Cirilo. Não fosse a mentira de Susana, talvez Madalena tivesse ido para a América,
juntamente com Alcione, a vida teria sido outra, mais branda e feliz, quem sabe.
Mas o mundo das conjecturas é um mundo dolorido, que merece o nosso olhar e
nossa reflexão, a fim de que busquemos entender o que se passa também em nosso
caminhar, mas não nos pode paralisar, a vida segue.

Quando planejamos nosso retorno ao mundo encarnado, assumimos


compromissos, fazemos planos, projetamos ideais. Certo é que a grande maioria
não chega nem perto de realizar tudo o que sonhou. E isto também se aplica a este
grupo familiar, que ora estudamos neste magnífico livro.

Se avançarmos um pouco, ao capítulo 7 da segunda parte, veremos Alcione


também em novos rumos, todas as portas lhe foram fechadas. A mãe, o pai, o
irmão, todos desencarnados. Beatriz, iniciando a vida matrimonial. Todos
ocupados com suas vidas e ela só no mundo. Será mesmo? Alcione ousou
recomeçar, tornou-se freira e a narrativa do capítulo 7 nos dá um prisma do quanto
sua nova vida auxiliava a vida dos que a cercavam:

“Por sua dedicação e humildade, convertera-se numa orientação viva para as


irmãs de apostolado. Geralmente, não faltavam as intrigas, o esforço ingrato da
inveja e da maledicência, tão comuns nos conventos da época; ela, porém, sem
exorbitar da sua conduta evangélica, desconhecia todas as atividades da sombra,
para cogitar somente da sua tarefa espiritual com o Cristo. Por isso mesmo, sua
exemplificação constituía um símbolo precioso para a comunidade. Ao seu
contato, inúmeras companheiras renovavam as concepções próprias. Sua
dedicação ao serviço contagiava outros corações, que se sentiam seduzidos pela
grandeza dos seus atos e ideais, dentro do Evangelho. Jamais conseguira efetivar
o velho desejo de visitar Beatriz, mas, em compensação, criava, em torno da sua
personalidade simples e poderosa, um verdadeiro colégio de irmãs pelo coração,
que a admiravam e seguiam devotadamente.”

E neste momento precisamos nos aproximar do Evangelho para entender por


que diante de tantas maldades e desventuras brotam lindos trabalhos como o que
Cirilo realizou na fazenda e o que Alcione realizou no convento. E isto está
diretamente relacionado com o verbo recomeçar.

Deus, nosso Pai Criador, rico em misericórdia e justiça, não


está interessado em nossos erros, mas nos busca através de nossas
virtudes. A menor luz que houver dentro de nós, o menor traço de bondade será o
caminho pelo qual eclodirá todo o nosso ser em constante melhoria e progresso.
Assim, se aos nossos olhos, a vida de Cirilo desmoronou-se em razão da
trama montada por sua prima, nosso Pai olha-o com amor e estimula nele a força
necessária para reconstruir sua vida. De forma semelhante, porém em outros
aspectos, aconteceu com Alcione, não nos esqueçamos, porém, que seu espírito já
bem mais adiantado, passou pela vida semeando amor e bondade.

Ambos, Cirilo e Alcione, tinham um sentimento semelhante, não poderiam


desfrutar da presença do ser amado ao seu lado para as lutas cotidianas.

Cirilo:
“O pobre rapaz caiu em situação desesperadora. Espantava-o a tremenda
impossibilidade de qualquer lenitivo. Seu intraduzível sofrimento tinha, ao seu ver,
o cunho de fatalidade irremediável. Prostrado em febre alta, foi forçado a
acamar-se, movimentando toda a “Nova Irlanda” em torno do seu leito. Em vão,
porém, sucediam-se os argumentos consoladores. Seu olhar era quase indiferente
às exortações evangélicas do ancião de Belfast, e reagia, dificilmente, mesmo aos
apelos maternais. Ao seu ver, aquela dor era inacessível ao raciocínio de quantos
o rodeavam. Nenhum dos seus havia conhecido Madalena e ninguém na colônia
podia avaliar sinceramente a sua desgraça irreparável.”

E também Alcione:
“O amor de Carlos, porém, lhe falava mais alto à consciência. Tal como outrora a
genitora, em seus padecimentos, absolutamente presa à lembrança do marido, a
filha de Cirilo sentia-se em perene viuvez de coração. A seu ver, não poderia
seguir para a América, onde seria naturalmente convocada ao espírito de
novidade, quando sabia o eleito de sua alma ligado ao solo de Espanha. Em sua
luminosa compreensão da vida, via em Clenaghan um fraco, não um criminoso; e
no recôndito dalma alimentava a esperança de aproximar-se um dia do seu lar, de
maneira a lhe ser útil.”

Não passaremos pela vida a necessidade de recomeçar, mesmo Alcione,


espírito que já não necessitava reencarnar, em vida missionária dedicada aos afetos
do seu coração, precisou rever caminhos, traçar novas rotas. Nós outros, também,
somos convidados a refazer, a recomeçar.

Busquemos as luzes do Evangelho de Mateus 9:14-17:


“Então aproximavam-se dele os discípulos de João, dizendo: Por que nós e os
fariseus jejuamos, porém os teus discípulos não jejuam. Disse-lhes Jesus: Acaso os
convidados das núpcias podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Mas
dias virão – quando o noivo for tirado deles – e, então, jejuarão. Ninguém coloca
remendo de pano não alvejado sobre veste velha, pois tira a inteireza da veste, e o
rasgo torna-se pior. Nem lançam vinho novo em odres velhos, senão os odres se
rompem, o vinho é derramado e os odres de perdem. Mas lançam vinho novo em
odres novos, e ambos se preservam.”

Apesar do texto do evangelho falar de noivo, precisamos ir além das


palavras para alcançar o significado e a profundidade do ensinamento. Assim,
quando Jesus fala do noivo, está falando da sua presença em nossas vidas. Desta
forma, ao olharmos o livro, não se trataria da viuvez de Cirilo ou Alcione, mas da
ausência de Jesus na vida das pessoas que provocaram estes sofrimentos, no caso,
Susana e Carlos. É a ausência de amor e paz nos corações dos homens que fazem
deste mundo um lugar de provas e expiações e se o queremos como um mundo
regenerado, precisamos avançar em nossa disposição para a vivência cristã.

A nossa dificuldade em seguir adiante está relacionada a nossa proximidade


do Cristo. Vejam que Alcione, mesmo enfrentando tantas provas duríssimas,
resistia e recomeçava, pois o seu espírito estava ligado ao pensamento amoroso de
Jesus e do nosso Pai Celestial. Também nós somos convidados a estarmos com o
noivo, a nos alegrarmos e a vivermos com esperança.

O texto de Mateus segue falando de um remendo novo a ser colocado em


roupa velha, um remendo que ainda não foi alvejado. Imaginem um pedaço de
pano sendo costurado para tapar um rasgo, vai para a lavagem e encolhe. O rasgo
antigo não apenas volta, como aumenta. Mas o que isso tem a ver com as reflexões
que realizamos sobre recomeço? É Emmanuel que nos responde em belíssima lição
que comenta este versículo e intitula-se: Recomecemos.

Recomecemos

“Ninguém põe remendo de pano novo em vestido velho.” — JESUS


(Mateus, 9.16)
Não conserves lembranças amargas. Viste o sonho desfeito. Escutaste a resposta
de fel. Suportaste a deserção dos que mais amas. Fracassaste no
empreendimento. Colheste abandono. Padeceste desilusão. Entretanto, recomeçar
é bênção na Lei de Deus. A possibilidade da espiga ressurge na sementeira. A
água, feita vapor, regressa da nuvem para a riqueza da fonte. Torna o calor da
primavera, na primavera seguinte. Inflama-se o horizonte, cada manhã, com o
fulgor do Sol, reformando o valor do dia. Janeiro a Janeiro, renova-se o ano,
oferecendo novo ciclo ao trabalho. É como se tudo estivesse a dizer: “Se quiseres,
podes recomeçar.” Disse, porém, o Divino Amigo que ninguém aproveita remendo
novo em pano velho. Desse modo, desfaze-te do imprestável. Desvencilha-te do
inútil. Esquece os enganos que te assaltaram. Deita fora as aflições
improfícuas. Recomecemos, pois, qualquer esforço com firmeza, lembrando-nos,
todavia, de que tudo volta, menos a oportunidade esquecida, que será sempre uma
perda real.”

E assim encerramos mais uma reflexão a partir das lições evangélicas deste
livro que prefiro chamar de tesouro.

Abraços fraternos e bons recomeços!!!

Campo Grande – MS, 24.04.2015

Candice Günther
Estudo Renúncia – Parte 7b

“A criança que eu fui, chora na estrada,


deixei-a ali quando vim ser quem sou;
mas hoje, vendo que o que sou é tão pouco,
quero buscar quem fui onde ficou”.

Fernando Pessoa

Iniciamos a parte 7b onde buscaremos mais um elo de ligação entre o


capítulo 7 da primeira parte e o capítulo 7 da segunda parte. É preciso sondar estes
livros, os romances de Emmanuel, com o coração desejoso de aprender, olhar com
estes olhos, cheios de sentimento, nos permite ir onde as palavras que não foram
ditas, mas vividas.

Encontraremos Alcione, na primeira parte, ainda criança. Recordando que o


primo de Madalena, Antero de Oviedo, desencarnara e nesta etapa do livro, conta-
nos Emmanuel, retorna em nova vida, nascendo como filho do casal amigo que
trabalhava na fazenda vizinha, em regime de escravidão. O menino nasceu com
problemas físicos o que faria com que fosse sacrificado pelos donos da fazenda, os
Estigarribia. Seus pais recorrem, então, ao amoroso coração de Alcione e a amiga
Madalena para receberem a criança em seu lar. Eis um trecho:

“- Mandei buscar-te, Alcione, para dizer que o pequenino é teu e de tua mãe!
A menina arregalou os olhos de alegria, entremostrando assombro infantil. Sem
nada dizer, estendeu os bracinhos com sublime expressão de doçura. João de Deus
envolveu o filhinho na camisola rendada que Madalena havia dado e ajudou-a a
segurar a criança. Alcione exultava de alegria. Com enorme cuidado, voltou a
casa, provocando a admiração maternal. (...) — Julgo que a cegonha deixou cair
o pequenino em lugar errado. Deus não o mandou para Dolores, porque ela me
disse que o bebê é meu e da senhora!(...)E como que buscando uma defesa prévia,
aproximou-se mais da mãezinha e continuou a dizer com graciosa expressão: —
Se a senhora o deixar comigo, nunca mais pedirei brinquedos... e carregá-lo-ei ao
colo, para não lhe dar trabalho...”

Quem seria capaz de ceder a tanta doçura em tão tenra idade. Quantas e
quantas crianças vem ao mundo nos ensinando a bondade, a fraternidade, o amor
ao próximo. Quantas crianças com sua humildade e desejo de conhecimento nos
motivam e nos auxiliam a nos tornarmos pessoas melhores a fim de que sejamos
dignos de as recebermos em nossos lares como filhos que o Pai Celestial nos
confia. A infância é repleta de possibilidades.

“A imagem da criança representa a mais poderosa e inelutável ânsia em


cada ser humano, ou seja, a ânsia de realizar a si próprio.” Carl Gustav Jung:
psiquiatra suíço (1875-1961)

Como foi nossa infância? Que criança fomos nós? Quais eram nossas
aptidões? Reconhecemos no adulto que nos tornamos o despertar da criança que
éramos? Ou nos distanciamos de nossa essência nos amoldando ao mundo e ao que
o mundo adulto esperava de nós?

Avancemos um pouco no livro Renúncia e encontraremos Alcione, já adulta,


agora como freira, vivenciando situações semelhantes a de sua infância:

“Era impossível atender à salvação do mundo, afastando-se de suas necessidades.


Por essa razão, vemos o Messias entre fariseus e publicanos, nas festividades
domésticas e nos ajuntamentos da praça pública, dando cumprimento à sua
missão de amor. Como poderemos servir à sua causa divina, inclinando-nos à
preguiça, sob o pretexto de uma falsa adoração? Muitas de nós, religiosas,
deixamos os afetos familiares para consagrar todas as energias ao serviço do
Cristo. Mas, de que natureza serão esses trabalhos? Acreditais, frei Osório, que
Jesus necessite de mulheres ociosas? Não admitais semelhante absurdo. A
atividade do Mestre, a que fomos chamadas, é a de colaboração com o seu
devotamento na causa da paz e da felicidade humana. Em torno de nossos
conventos, há mães que choram sob o guante de necessidades cruéis,
criancinhas abandonadas que requisitam socorros urgentes, velhos
respeitáveis totalmente desamparados. Seria razoável a continuação das atitudes
convencionais de falsa devoção, quando Jesus prossegue, pelos caminhos,
animando e consolando? Por vezes, padre, em nossas missas solenes, quando o
luxo dos altares impressiona os nossos olhos, julgo que o Mestre está às portas do
Templo, confortando as viúvas descalças e rotas, que não puderam penetrar no
santuário, pela deficiência das vestes. Por que manter o rigor das regras humanas,
quando o ensinamento da caridade.”

Reconhecemos aquela mesma criança, ainda o anseio de amar, cuidar, servir


a Jesus. Alcione permaneceu fiel a sua essência que já transparecia desde a
infância, mas não é assim que acontece com a maioria das pessoas. Crianças
alegres e criativas transformam-se em adultos apáticos, que deixam-se levar pelos
vários ventos da vida.

O Dr. Lair Ribeiro, médico cardiologista e palestrante internacional, faz uma


reflexão sobre o tema:

“Muito da nossa essência se manifesta na infância. Com os talentos não é diferente. Nas
brincadeiras infantis, manifestam-se os talentos e as aptidões que acabamos por esquecer com o
passar dos anos, mas que podem transformar e dar novo sentido à vida adulta, se resgatados a
tempo. Você já perguntou para uma criança o que ela quer ser quando crescer? É bom se
preparar para as respostas! Você pode escutar de tudo um pouco: bombeiro, atriz, jogador de
futebol, astronauta... Marcos Pontes, o primeiro astronauta brasileiro a conquistar o espaço,
desde pequeno sonhava alcançar as estrelas... Mas, muitas vezes, nossos talentos ou aptidões
não são tão claros e definidos, ficando mais fácil esquecê-los, perdê-los pelo caminho. Porém,
com calma, paciência e atenção, é possível resgatá-los. Um bom exercício é recordar-se das
atividades que lhe proporcionavam prazer nas brincadeiras dos tempos de infância. Em uma
folha de papel, relacione as brincadeiras e os jogos de que mais gostava, contando
detalhadamente qual era a sua função e que habilidades eram exigidas. Não tenha pressa. Se
não vier tudo à mente, mantenha esse papel com você e vá acrescentando itens, conforme for se
lembrando. Este é um excelente exercício de autoconhecimento e que irá ajudá-lo a redescobrir
seus talentos, além de servir como um guia para potenciais profissões ou trabalhos em que você
Muitas das respostas
conseguiria se sair bem, reunindo prazer, felicidade e realização.
pelas quais buscamos incansavelmente durante a vida estão guardadas
dentro de nós mesmos. Basta ter coragem e determinação para buscá-
las, o que não é tarefa simples. Porém, você pode se surpreender com os resultados!”

Assim, aprender com Alcione requer de nós, principalmente, um olhar para a


sua vida, um detalhe como este pode nos passar desapercebido, e vejam o quão
importante é. A infância é uma fase riquíssima e quando fazemos referência a ela,
não estamos pensando apenas na vida presente, mas na nossa infância espiritual
onde começaram a desabrochar os mais belos ideais e promissores talentos e dos
quais, infelizmente, muitas e muitas vezes nos distanciamos. Certa feita uma amiga
me disse que quando Deus nos criou, sonhou para nós belos sonhos e que nossa
vida é uma busca deste sonho, de encontrar a nossa identidade, o querer do Pai
Celestial.

Há um livro do Chico chamado Filhos do Rei, da Ministra Veneranda (talvez


alguns se lembrem dela dos livros do André Luiz). Pois bem, este livro é
considerado um livro simples e direcionado para as crianças, mas trata-se de uma
obra muito profunda. Vejam um pequeno trecho:

“— Mas os príncipes, para quem o Poderoso Rei criou tão formoso reino escolar,
depois de crescidos sentiram-se seguros em seus uniformes e em seus lares e,
desviando a inteligência, esqueceram o Pai Compassivo e criaram perigosos
monstros, dentro de si mesmos, com os quais passaram a se aconselhar. Os
colaboradores diretos do Grande Rei continuaram ensinando o bem e a verdade, a
paz e o equilíbrio. Entretanto, os aprendizes não quiseram ouvi-los por mais
tempo. Os monstros que eles próprios haviam criado envenenaram-lhes o coração,
dizendo-lhes que a escola era absoluta propriedade deles, que deveriam dominar
em torno de suas residências como verdadeiros e únicos senhores. Em breve, os
filhos do Grande Rei, esquecendo os deveres que lhes cabiam desempenhar,
começaram a humilhar, derrubar e perseguir. Destruíram árvores veneráveis sem
plantar outras que as substituíssem; organizaram caçadas aos animais pacíficos,
matando-os sem necessidade; aprisionaram os pássaros e passaram a fazer o que
é mais doloroso — combateram-se uns aos outros, em guerras de sangue,
deixando misérias e ruínas atrás de seus passos. Para adquirirem supremacia e
poder, honras e autoridade, assassinaram mulheres e crianças, velhos e doentes
incapazes de fazer mal.”

Quantos de nós, convidados a darmos passos independentes, colocando em


prova os ensinamentos da vida, escola divina, não nos equivocamos em vidas
passadas, deixando de lado nossa essência que é o amor, a caridade. Lembremos de
Carlos, que no livro 50 anos depois é Ciro, cristão, pessoa amorosa e
espiritualizada dentro de um ambiente favorável, porém, em terrível queda quando
chamado a provar sua fé, como Carlos Clenegham no livro Renúncia. Quando nos
esquecemos de nossa origem, nos esquecemos da paternidade divina e tentamos
caminhar em desacordo com a lei de amor, tropeçamos. Urge que olhemos para
trás com coragem, resgatando a criança que nos mostrava aptidões e talentos
esquecidos. Deixemo-na despertar novamente.

Quando Jesus disse em Mateus 19:14: “Deixai vir a mim estas criancinhas e
não as impeçais, porque o Reino dos céus é para aqueles que se lhes
assemelham.”, ele nos convida a este movimento de buscarmos em nosso interior a
pureza e a verdade, novamente iremos nos socorrer de um comentário de
Emmanuel sobre este versículo que também se encontra no Evangelho de Lucas,
para com ele encerrar nossa reflexão da semana.

“Surge o progresso da sucessão constante de labores variados em todas as frentes


de atividade humana. Um esforço acompanha outro, um objeto mais aperfeiçoado
modifica os movimentos da criatura. Vida após vida, geração a geração, a
Humanidade caminha recebendo luz e burilamento. Toda a vida futura, no
entanto, depende inevitavelmente da vida presente, como toda colheita próxima se
deriva da sementeira atual. A infância significa, por isso, as vibrações da
esperança nos dias porvindouros, muito embora a fragilidade com que se
caracteriza. A ingenuidade dos pensamentos e a meiguice dos modos dão à
criança os traços da virgindade sentimental necessária ao espírito para galgar os
estágios superiores da evolução. Eis, porque, o Senhor, com muita propriedade;
elegeu na infância o símbolo da pureza indispensável à sustentação do ser na Vida
Maior. No período infantil encontramos as provas irrecusáveis de que as almas
possuem, no âmago de si mesmas, as condições potenciais para a angelitude.
Urge, pois, saibamos viver com a simplicidade dos pequeninos, na rota da
madureza renunciando às expressões inferiores do egoísmo e do orgulho, da
astúcia e da crueldade, que tantas vezes se nos ocultam nos gestos de fidalguia
aparente. No reino de Deus ninguém cresce para a maldade. Sejamos simples,
vivendo o bem espontâneo. Observa, portanto, em ti, os sinais positivos que
conservas da infância, com índice de valores morais para a excursão,
monte acima. Seja criança em relação ao mal que perturba e fere,
realizando a maturação de teus sentimentos na criação do amor puro,
porque somente no amor puro encontraremos acesso à Eterna
Sublimação a que estamos destinados.”

Como disse Fernando Pessoa, no poema citado no início: “A criança que eu


fui, chora na estrada, deixei-a ali quando vim ser quem sou; mas hoje, vendo que
o que sou é tão pouco, quero buscar quem fui onde ficou”. Busquemos, Jesus nos
auxiliará.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 01.05.2015.

Candice Günther
Estudo Renúncia 7d – Encerramento

Com grande alegria, encerramos o estudo do livro Renúncia, certos porém


que a ele retornaremos em momento oportuno, mais amadurecidos e com a vista
mais ampliada para colher de suas belíssimas lições. A perspectiva de capítulos
espelhados, em que o estudo se dá aos pares, unindo primeira e segunda parte,
observando-se em que trecho guardam relações de significado, mostrou-se
verdadeira e possível. Mas fizemos outra pergunta ao livro e ela foi o cerne de todo
este estudo: Quando um espírito de luz vem até a Terra, em auxilio e missão
amorosa, qual o caminho que ele percorre? Trilha os passos deixados por Jesus?
Em outras palavras, ao observarmos Alcione e sua vida, estaremos estudando o
Evangelho de Jesus de forma prática, sendo vivenciado?

Vejamos, então, no caminho percorrido, os estudos realizados e o trecho


evangélico que serviu de amparo e luz para o entendimento das lições evangélicas
que buscávamos com este estudo:
Estudo do livro Renúncia Trecho do Evangelho de Mateus Texto de Emmanuel de apoio (livro/lição)
Parte 1d Mateus 7:7 Livro da Esperança e Segue-me
Parte 2a Mateus 9:16 Palavra da Vida Eterna (Recomecemos)
Parte 2c Mateus 26:51-53 Justiça Divina
Parte 2d Mateus 6:19-21 e 26 Seara da Fé (Simplicidade)
Parte 2e Mateus 17:17-20 Revista O Reformador de 1957
Parte 3d Mateus 23:13-32 Luz no Caminho
Parte 3e Mateus 10: 34-36 Caminho Verdade e Vida
Parte 3f Mateus 6:5-6 Livro da Esperança
Parte 3g Mateus 11:28-30 Caminho Verdade e Vida
Parte 4a Mateus 26: 36-46 Caminho Verdade e Vida
Parte 4b Mateus 7: 1-2 Palavras da Vida Eterna
Parte 4d Mateus 28:9-10 Palavras da Vida Eterna
Parte 4e Mateus 24:37-44 Vinha de Luz
Parte 4f Mateus 14:22-33 Luz e Vida
Parte 5a Mateus 8:18-22 Fonte Viva
Parte 5c Mateus 9:12 Livro da Esperança
Parte 5d Mateus 21:18-22 Revista Reformador, de 1940
Parte 6a Mateus 13:31-32 Mensageiros (André Luiz)
Parte 6b Mateus 20:22 Caminho Verdade e Vida
Parte 6c Mateus 26:36-39 Fonte Viva
Parte 6d Mateus, 24:13 Pão Nosso
Parte 7a Mateus 9:14-17 Palavra da Vida Eterna
Parte 7b Mateus 19:14 Ideal Espírita
Parte 7c Mateus, 10:6-8 Servidores do Além

Como podemos ver, o livro possui uma imensa afinidade com as lições
evangélicas apresentadas no Evangelho de Mateus. Mas qual a razão, qual o
motivo que faz com que o livro Renúncia esteja tão próximo em lições e
significados ao Evangelho que nos conta os passos do Mestre Jesus quando
encarnado? Aguardemos um pouco para buscar uma resposta.

O livro Renúncia também guarda uma profunda relação com a Codificação


apresentada por Kardec, ratificando seus enunciados, mais uma vez de forma
prática, nos ensinando através de suas vidas os significados de diversos pontos
importantes da doutrina espírita. Fizemos um estudo, intitulado Estrada da
Misericórdia, em que relacionamos todas as vezes em que a palavra misericórdia
apareceu no livro Renúncia aos trechos do Cap. V do Evangelho Segundo o
Espiritismo, perfeita harmonia, onde um livro ilumina o outro e nos ensina, nos
amplia a vista.

Podemos deduzir muitas coisas através de um estudo, é certo que este livro
provém das esferas sublimes onde o Evangelho de Jesus já é bem compreendido e
vivenciado, é certo que ainda não começamos a olhar a obra deixada pelas mãos de
Chico Xavier com o devido cuidado e zelo, adentrando em suas profundas
lições...muitas outras conjecturas poderíamos fazer, mas foi num texto de
Humberto de Campos que encontrei a resposta que eu procurava: “O Evangelho,
meus filhos, pode ser comparado a uma árvore divina, produzindo sementes de
vida eterna, sustentada pelo Senhor junto às fontes do tempo…” Árvore divina,
sim, sem dúvida, o evangelho é esta árvore frutífera que nos é oferecida como um
rico alimento, reconhecendo neste magnífico livro, Renúncia, uma semente que
originou-se desta árvore e quer nascer, crescer, frutificar. Humberto de Campos
também nos diz que esta árvore é “sustentada pelo Senhor junto às fontes do
tempo”, ora, caríssimos amigos, o que seriam estas fontes do tempo?

Emmanuel nos responde esta pergunta, no livro Instrumentos do Tempo:


“Convidados a estudar os ensinos do Cristo, à luz da Doutrina Espírita, com os
instrumentos do tempo, fomos impulsionados a reconhecer que os instrumentos do
tempo são as palavras.”
As palavras se organizam e se amoldam conforme o pensamento que as
inspira. Tal qual o pintor que deixa na tela a sua essência, reconhecemos o
pensamento evangélico refletido nas linhas do livro Renúncia. Fizemos este
mesmo trabalho com o livro Paulo e Estevão ao colocá-lo sob as luzes do
Evangelho de Lucas e do Cap. X do Evangelho Segundo o Espiritismo, e a
constatação de concordância foi a mesma.

Estas obras já foram arguidas em seus aspectos históricas e demonstraram


fartamente a sua coerência e veracidade. É chegada a hora, porém, de deixarmos
que elas alcancem também nossos corações, permitindo que suas lições
evangélicas adentrem em nosso viver de forma definitiva.

Se Jesus nos permitir, prosseguiremos nestes estudos que tanto nos


enriquecem, eis que Emmanuel nos apresentou 5 romances tido como históricos.
Creio eu que vão muito além de relatos históricos, quem tem olhos de ver que veja.

Agradeço a imensa paciência de todos os que se dispuseram a ler estas


linhas, peço sincero perdão por não ter muito a lhes oferecer a não ser minhas
singelas impressões. Quem sabe estes tesouros nos enriqueçam em sabedoria e
amor e possamos, em momento futuro, retornar a este livro e ir ainda mais fundo
em suas belíssimas e imorredouras lições.

Despeço-me de coração apertado e lágrimas no olhos. Alcione, anjo de


Deus, receba minha eterna gratidão por todo amor e luz que recebi ao estudar a tua
passagem aqui entre nós. Que das esferas sublimes onde te encontras, Jesus a
envolva em sua doce paz, eis que de minha parte, nada tenho a lhe oferecer, senão
um coração que está sendo curado aos poucos e que já tem guardado um pouco de
amor e gratidão.

Encerro com o texto de Humberto de Campos, acima citado:

A árvore divina

Ante nossa acalorada conversação para definir o Testamento de Jesus-Cristo, o


ancião de olhos lúcidos, complacente e humilde, esclareceu:
— O Evangelho, meus filhos, pode ser comparado a uma árvore divina,
produzindo sementes de vida eterna, sustentada pelo Senhor junto às fontes do
tempo…

Todos os viajores humanos que se abeiraram dela, aproveitaram-lhe os dons de


maneira diferente.

Adorou-a um sacerdote, colheu-lhe preciosa tinta na seiva e escreveu muitas


livros, expondo seus pontos de vista com referência à Soberana Lei, tornando-se,
por isso, poderoso condutor de almas.

Apareceu um filósofo e consagrou-se ao exame de suas menores particularidades,


pondo-se em atitude de interminável indagação.

Visitou-a um geneticista que se revelou fascinado pela ofuscante luz de suas


raízes, mergulhando-se em estudos complexos, sem cogitar das horas.

Procurou-a um pregador de frases corretas e escalou-lhe o tronco, improvisando


nele luminosa tribuna em que passou a ensinar o roteiro do bem aos caminhantes.

Aproximou-se um pastor e retirou-lhe pequeno ramo que transformou em vara


disciplinadora para as ovelhas.

Veio um negociante, recolheu-lhe as folhas curativas e montou vasto empório de


remédios tonificantes, adquirindo imensa fortuna.

Passou um pintor, contemplou-lhe a beleza e compôs maravilhosos painéis,


conseguindo, ao vendê-los, a prosperidade e a fama.

Apareceu um escultor hábil, seccionou-lhe alguns galhos robustos e converteu a


delicada madeira em primorosas estátuas que o encheram de riqueza e renome.

Surgiu um polemista, anotou-lhe a posição no solo e fez minuciosa estatística de


todas as suas possibilidades, de modo a discutir com base sólida as ideias que
pretendia oferecer aos semelhantes.

Apareceu infortunado vagabundo que se lhe ajoelhou à sombra acolhedora e


dormiu satisfeito.
Veio um doente desesperado que lhe fixou as flores perfumosas e arrancou-as,
ansioso, a fim de obter um elixir de consolação.

Cada qual se uniu à árvore preciosa, satisfazendo os propósitos de que se sentiam


possuídos; todavia, embora dessem o máximo de seus esforços à obra do
progresso coletivo, em tarefas respeitáveis, continuavam sempre radicados ao
campo inferior da vida, atormentados pelos interesses que os ligavam entre si.

Eis, porém, que surge um homem diferente. Caracterizado por grande boa-
vontade, não exibe título algum, a não ser indiscutível disposição à fraternidade
real. Admirou com simpatia o sacerdote, o filósofo, o geneticista, o pregador, o
pastor, o negociante, o pintor, o escultor, o polemista, o vagabundo e o doente e,
após longa meditação, abraçou-se respeitosamente à árvore, colheu-lhe os frutos e
comeu-os. Seus olhos iluminaram-se. Fez-se mais sereno, mais forte e mais digno.
E, em silêncio, passou a servir a todos, em nome do Divino Pomicultor. Como
persistisse trabalhando abnegadamente, sem ser catalogado na convenção do
serviço terrestre, determinou o Mestre fosse chamado Discípulo, com vantagens
ocultas no Céu.

O velhinho interrompeu-se, sorriu e rematou:

— Segundo reconhecemos, o Evangelho permanece entre nós. Em derredor de sua


claridade, porém, toma cada aprendiz o título que deseja.

E, antes que pudéssemos interpelá-lo para mais amplo esclarecimento do apólogo,


fez significativo gesto de adeus e seguiu adiante.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 15.05.2015


Renúncia – Curiosidades (01)

Nâo obstante o objeto de estudo deste grupo ser as lições evangélicas dos
romances de Emmanuel, vez por outra encontramos alguns fatores que nos fazem
refletir sobre a grandiosidade destes espíritos que nos acompanham. Pois foi o que
aconteceu neste fim de semana que se passou, um decorrer de fatos que me fizeram
parar para pensar e pesquisar um pouco sobre Sirius e Alcione.

Antes de prosseguir há duas coisas que quero deixar registrado, a primeira é


que buscamos fontes científicas e confiáveis para pautar as ideias que iremos
apresentar, observando que há muito misticismo rodeando o tema, mantemo-nos na
cautela, no bom senso e na concordância com o que a ciência já pode efetivamente
comprovar. A segunda questão é de que fazemos apenas conjecturas,
possibilidades, uma vez que são indícios que unimos e que compartilhamos para
apreciação dos amigos. Deixo, assim, meu pedido para que críticas possam ser
realizadas, para que juntos possamos construir algo bom e alicerçado. E, quanto
aos equívocos que porventura cometo, conto com vossa caridade, deixando-vos o
convite para apontá-las sem nenhum receio, serão bem-vindas.

Prossigamos.

É de conhecimento geral que Alcione veio de Sirius antes de reencarnar na


Terra. Vejamos um trecho do livro, no primeiro capítulo, em que conversa com
Antenio: “— Mas, teus trabalhos no sistema de Sírius? Não estás cooperando
com os benfeitores da Arte terreal?” Um primeiro ponto a observar: o sistema
Sirius colabora com a evolução da Terra.

Muitos povos observaram Sirius, mas os egípcios em especial olharam para


ela e se guiaram por ela, diversos templos foram construídos e hoje historiadores
sérios afirmam que esfinges e deuses estão colocados dentro de templos como
Dendera e Karnak, de tal forma que em determinadas épocas do ano estão olhando
diretamente para Sirius. (Vide documentário de Roel Oostra, O Enigma do Egito,
Philos – GBR). Um pequeno trecho que extraímos da internet e que corrobora o
que este e outros pesquisadores afirmar: “ No antigo Egito a luminosa estrela
Sirius era alvo de veneração, seu aparecimento no céu coincidindo com a cheia do
rio Nilo que trazia fertilidade e prosperidade.” Esta veneração era tão séria que o
calendário egípcio era organizado a partir a aparição de Sirius, era o chamado ciclo
sótico (Sirius – Sothis). Vejam: “Os egípcios inicialmente fizeram um calendário
baseado nos ciclos lunares, mas depois notaram que quando o Sol se aproximava
da "Estrela do Cão" (Sírius), estava próximo do Nilo inundar. Notaram que isso
acontecia em ciclos de 365 dias. Com base nesse conhecimento eles fizeram um
Calendário com um ano de 365 dias, possivelmente inaugurado em 4.236 AC. Essa
é a primeira data registrada na história.” (sobre o ciclo sótico:
www.cdcc.sc.usp.br/cda/.../astronomia-no-antigo-egito-07272002.ppt ) (Obs.Neste slide a autora fala que
a data inicial seria 4.241 a.C.)

Sabemos, hoje, que 01 ano tem 365 dias e ¼, motivo pelo qual temos o ano
bissexto, em que o mês de fevereiro tem 29 dias, para que seja feito este ajuste.
Pois bem, os egípcios não faziam este ajuste e assim o início do ano ia sendo
deslocado pouco a pouco, e, somente depois de decorridos 1460 anos ele
terminaria o ciclo e reiniciaria do ponto de partida. Como diz o trecho acima, a
primeira noticia que se tem deste calendário é de 4.236 a.C. . Esta data me chamou
atenção e fiz as contas, somando a este ano o tempo em que o ciclo se completa
(1460 anos). Temos assim: 4.236 a.C. ; 2.776 a.C; 1.316 a.C.; 144 d.C; 1604 d.C.

***O que significam estas duas datas? 144 d.C. e 1604 d.C? Pois foi
nesta época, em torno destes anos que esteve encarnada entre nós,
primeiramente o espírito de Célia, e depois Alcione. Sabemos, hoje, pelas
informações do próprio Chico Xavier, que trata-se do mesmo espírito. ***

Tem mais algumas informações interessantes que este documentário no


apresenta e que guarda consonância com a doutrina espírita. Para o povo egípcio, o
aparecimento de Sirius representava o renascimento, o voo da Fenix simbolizando
a cheia do Nilo que traria novamente a plantação e a colheita. Vejamos este outro
trecho: “Sírius ficou sendo importante para os egípcios por ser usada para prever
a subida das águas do rio Nilo. A razão disto é que a estrela Sírius se tornava
visível no céu do leste antes do nascer do Sol exatamente na época do ano quando
as colheitas deviam ser plantadas e quando o rio Nilo estava perto de transbordar.
A primeira visibilidade de Sírius no céu da manhã - o "nascer heliacal" de Sírius -
serviu como um marcador para os astrônomos e sacerdotes egípcios e permitiu
que todos soubessem que a primavera havia chegado. Um marcador deste tipo era
importante pelo fato de que a posição geográfica do Egito em relação ao equador
terrestre não permite que seu clima mostre as variações das estações de uma
maneira tão óbvia, como ocorre nas áreas situadas nas regiões temperadas do
nosso planeta, as regiões mais ao norte onde o clima permite que as variações
entre as estações sejam bastante acentuadas. Isto nós sentimos em várias regiões
do Brasil, onde a mudança de estação é marcada apenas pela maior ou menor
presença de chuvas.”

No livro A Caminho da Luz, Emmanuel nos fala um pouco sobre o povo


egípcio: “Levantaram-se, dessa arte, as grandes construções que assombram a
engenharia de todos os tempos. Todavia, não é o colosso de seus milhões de
toneladas de pedra nem o esforço hercúleo do trabalho de sua justaposição o que
mais empolga e impressiona a quantos contemplam esses monumentos. As
pirâmides revelam os mais extraordinários conhecimentos daquele conjunto de
Espíritos estudiosos das verdades da vida. A par desses conhecimentos,
encontram-se ali os roteiros futuros da Humanidade terrestre. Cada medida tem a
sua expressão simbólica, relativamente ao sistema cosmogônico do planeta e à
sua posição no sistema solar. Ali está o meridiano ideal, que atravessa mais
continentes e menos oceanos, e através do qual se pode calcular a extensão das
terras habitáveis pelo homem, a distância aproximada entre o Sol e a Terra, a
longitude percorrida pelo globo terrestre sobre a sua órbita no espaço de um dia,
a precessão dos equinócios, bem como muitas outras conquistas científicas que
somente agora vêm sendo consolidadas pela moderna astronomia. (...) A maioria
regressa, então, ao sistema da Capela, onde os corações se reconfortam nos
sagrados reencontros das suas afeições mais santas e mais puras, mas grande
número desses Espíritos, estudiosos e abnegados, conservaram se nas hostes de
Jesus, obedecendo a sagrados imperativos do sentimento e, ao seu influxo
divino, muitas vezes têm reencarnado na Terra, para desempenho de generosas e
abençoadas missões.” Quem serão estes espíritos abnegados que trabalham pelo
desenvolvimento evolutivo da Terra? Ao que nos parece, Alcione é um deles.

Vejam mais um trecho do livro Renúncia: “Daí a instantes, chegava ao


templo pequena caravana de entidades jubilosas. Era a reduzida expedição que
operava nas esferas de Sírius.”

Bem, para quem gosta do assunto, há muito material na internet e em livros


para estudo e aprofundamento. Para mim, a ideia de Alcione reencarnando na
Terra justamente no término/início do ciclo sótico é deveras interessante e que sei,
perdoem a franqueza e a ignorância, apenas começo a entender. De onde viemos e
para onde estamos indo é uma pergunta que nos acompanha, e nos acompanhará
ainda por algum tempo, até que tenhamos a riqueza moral deste anjo de Deus,
Célia/Alcione, e possamos residir nestes mundos elevados. Gosto de olhar para o
céu e saber que “na casa do meu Pai há muitas moradas”, e me alegra saber que
algumas destas moradas olham e zelam por nós, num intercâmbio infinito de amor
e paz.

Para finalizar, deixo-vos um pequeno trecho da Genese de Kardec, ao que


tudo indica, a Estrela Polar é Sirius, porém, não consegui uma fonte confiável para
lhes afirmar. Ainda, porém, que não seja a mesma, a ideia que Kardec nos
apresenta vai ao encontro do que tentamos demonstrar neste texto, o mundo está
conectado, entrelaçado de uma forma amorosa, que promove trocas visando o
melhoramento evolutivo dos povos.

A Genese: “10. Sob o céu puro da Caldeia, da Índia e do Egito, berço das
mais antigas civilizações, o movimento dos astros foi observado com tanta
exatidão, quanto o permitia a falta de instrumentos especiais. Notou-se,
primeiramente, que certas estrelas tinham movimento próprio, independente da
massa, o que não consentia a suposição de que se achassem presas à abóbada.
Chamaram-lhes estrelas errantes ou planetas, para distingui-las das estrelas fixas.
Calcularam-se-lhes os movimentos e os retornos periódicos. No movimento diurno
da esfera estrelada, foi notada a imobilidade da Estrela Polar, em cujo derredor
as outras descreviam, em vinte e quatro horas, círculos oblíquos paralelos, uns
maiores, outros menores, conforme a distância em que se encontravam da estrela
central. Foi o primeiro passo para o conhecimento da obliquidade do eixo do
mundo. Viagens mais longas deram lugar a que se observasse a diferença dos
aspectos do céu, segundo as latitudes e as estações. A verificação de que a
elevação da Estrela Polar acima do horizonte variava com a latitude, abriu
caminho para a percepção da redondeza da Terra. Foi assim que, pouco a pouco,
chegaram a fazer uma ideia mais exata do sistema do mundo. Pelo ano 600 a.C.,
Tales, de Mileto (Ásia Menor), descobriu a esfericidade da Terra, a obliquidade
da eclíptica e a causa dos eclipses. Um século depois, Pitágoras, de Samos,
descobre o movimento
diurno da Terra, sobre o próprio eixo, seu movimento anual em torno
do Sol e incorpora os planetas e os cometas ao sistema solar. Hiparco, de
Alexandria (Egito), em 160 a.C. inventa o astrolábio, calcula e prediz os eclipses,
observa as manchas do Sol, determina o ano trópico, a duração das revoluções da
Lua. Embora preciosíssimas para o progresso da Ciência, essas descobertas
levaram perto de 2.000 anos a se popularizarem. Não dispondo senão de raros
manuscritos para se propagarem, as ideias novas permaneciam como patrimônio
de alguns filósofos, que as ensinavam a discípulos privilegiados. As massas, que
ninguém cuidava de esclarecer, nenhum proveito tiravam das ideias novas e
continuavam a nutrir-se das velhas crenças.”

Este é o link para o documentário que ensejou estes pensamentos e a


pesquisa: http://philos.tv/video/o-enigma-do-egito/27244/

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 20.10.2014.


Candice Günther

Estudo do Livro Renúncia – Curiosidades (2)


Estamos estudando os capítulos de número 2 do livro Renúncia, primeira e
segunda parte, buscando a perspectiva de capítulos paralelos que olhados juntos
nos dão novas lentes e entendimentos atemporais. O cenário de ambos os capítulos
é a capital da França, Paris, que tem como Rei Luis XIV.

Pois bem, ambos os capítulos trazem o nome de Luis XIV, e em meio a


muitas divagações fizemos uma busca na codificação e encontramos algumas
coisas interessantes.

Primeiramente, vamos a um breve histórico:


“Luís XIV (Saint-Germain-en-Laye, 5 de setembro de 1638 – Versalhes, 1 de
setembro de 1715), também conhecido como Luís, o Grande ou O Rei Sol, foi o Rei da
França e Navarra de 1643 até sua morte. Seu reinado de 72 anos e 110 dias é o mais longo da
história de qualquer monarca europeu na história. A ele é atribuída a famosa frase: "L'État c'est
moi" (em português: O Estado sou eu). (...) O Tesouro estava perto da falência quando Luís XIV
assumiu o poder. As coisas não melhoraram já que ele gastava dinheiro extravagantemente,
despendendo vastas somas de dinheiro financiando a Corte Real. Parte desse dinheiro ele
gastou como patrono das artes, financiando nomes como Moliere, Charles Le Brun e Jean-
Baptiste Lully. Também gastou muito em melhorias no antigo Palácio do Louvre, que acabou
por abandonar em favor da nova fundação de Versalhes, construído sobre um antigo pavilhão
de caça de Luís XIII. (...) Durante o seu longo reinado, que na prática exerceu
de 1661 a 1715 (54 anos), reorganizou e equipou o exército francês, tornando-o o mais
poderoso da Europa.” (Wikipedia)

Certamente, pode um estadista influenciar o seu tempo, a forma como as


pessoas se conduzem e o comportamento de toda uma nação. Durante o reinado de
Luis XIV, tivemos a Inquisição que é uma mancha escura nos registros do
cristianismo, foi por ela que Alcione, então Maria do Jesus Crucificado, foi levada
a prisão e a morte. Um governo permissivo, voltado para valores irreais e cruéis
provoca muitos desastres, isso acontece desde sempre, voltemos na história e
encontraremos inúmeros exemplos. Mas, e à luz da doutrina espírita, como olhar?
Olharemos Luis XIV como um espírito ou como um estadista? Aguardemos, um
pouco, quanto a esta reflexão. Vejamos o que a interessante revelação que a
Revista Espírita nos traz.

Na Revista Espírita de 1859 há a comunicação de Michel de François,


confirmando a existência do Máscara de Ferro, irmão de Luis XIV, aprisionado por
anos (muitos devem ter assistido o filme com Leonardo Di Caprio), certamente um
fato polêmico até os dias atuais, que os espíritos trazem a tona e revelam a
verdade:

“1. Evocação
Resp. – Eis-me aqui.
(...)
5. Lembrai-vos de vossa existência, quando, em 1697, sob o reinado de Luís XIV, éreis
ferrador?
Resp. – Muito confusamente.
6. Lembrais da revelação que íeis fazer ao rei?
Resp. – Lembro-me de que devia fazer-lhe uma revelação.
7. Fizestes tal revelação?
Resp. – Sim.
8. Dissestes que um espectro vos tinha aparecido e ordenado que fôsseis revelar certas
coisas ao rei. Quem era o espectro?
Resp. – Era o seu irmão.
9. Poderíeis identificá-lo?
Resp. – Não; não me compreenderíeis.
10. Era um homem designado pela alcunha de Máscara de Ferro?
Resp. – Sim.
11. Agora que longe nos encontramos daquele tempo, poderíeis dizer-nos qual o objetivo
daquela revelação?
Resp. – Era exatamente informá-lo de sua morte.
12. A morte de quem? De seu irmão?
Resp. – Mas evidentemente!
13. Que impressão causou ao rei essa revelação?
Resp. – Um misto de tristeza e satisfação. Aliás, isto ficou provado pela maneira por que
me tratou.
(...)
17. Qual era o objetivo dessa revelação, desde que o rei estaria necessariamente
informado da morte do irmão, mesmo antes de sabê-la por vosso intermédio?
Resp. – Era para fazê-lo refletir sobre a vida futura e sobre a sorte a que se expunha e
que de fato se expôs. Seu fim foi maculado por ações com as quais julgava garantir um
futuro que aquela revelação poderia tornar melhor.

Luis XIV também fomentou guerras:

“Revista Espirita 1869: A guerra empreendida por Luís XIV contra os calvinistas, ou
Tremedores das Cevenas, é, sem sombra de dúvida, um dos mais tristes e mais
emocionantes episódios da história da França. Talvez ela seja menos notável do ponto de
vista puramente militar, ao repetir as atrocidades muito comuns nas guerras de religião,
do que pelos inumeráveis casos de sonambulismo espontâneo, êxtase, dupla vista,
previsões e outros fenômenos do mesmo gênero, que se produziram durante todo o curso
dessa cruzada infeliz. Esses fatos, que então eram considerados sobrenaturais,
sustentavam a coragem dos calvinistas, acossados nas montanhas, como feras, ao mesmo
tempo que os faziam considerar como possessos do diabo, por uns, e como iluminados,
por outros. Tendo sido uma das causas que provocaram e alimentaram a perseguição,
representam um papel principal e não acessório. Mas, como os historiadores poderiam
apreciá-los, quando então lhes faltavam todos os elementos necessários para se
esclarecerem quanto à natureza de sua realidade? Não puderam senão desnaturá-los e
apresentá-los sob uma luz falsa.”

Permitiu atrocidades contra mulheres e crianças, tal qual o que ocorreu com
Alcione:
“Revista Espirita 1869: Tais procedimentos eram comuns na época de Luís XIV, e
mandar prender uma pobre mulher porque uma força desconhecida a constrangia a
dizer diante de um marechal de França coisas que não lhe agradavam, era uma maneira
de agir que a ninguém revoltava, tanto era simples e natural e estava nos hábitos do
tempo. Hoje, é preciso ter coragem para enfrentar a dificuldade e lhe buscar soluções
menos brutais e mais probantes.”

Certamente poderíamos continuar a enumerar os muitos erros que


aconteceram durante o governo de Luis XIV, mas, pensemos um pouco, por onde
andará este espírito? Será que foi capaz de rever seus atos e mudar o seu rumo? E a
minha resposta, é que não sei. Não sei sobre ele, sua vida, por anda...mas sei que
existe uma Lei de Progresso que a todos, indistintamente atinge, então, creio que
cedo ou tarde, ele e todos nós estaremos em redenção. Porém, sondamos em outras
comunicações o norte para ampliar o entendimento do que representa o poder, as
guerras, os governos.

Um outro grande rei, da ascendência de Luis XIV, nos trás uma reflexão
magnífica na Revista Espírita de 1859: “N. do T.: São Luís [Luís IX, Rei da
França] patrono da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.” Sim, São Luís,
também foi Rei da França, conhecido com o Rei Santo, comandou a última das
cruzadas. Mas, ainda, não é a mensagem dele, enquanto Rei da França, que me
trouxe uma reflexão de muito valor, mas sim a mensagem de Julio Cesar,
afirmando que foram o mesmo espírito:

“Não sobrecarregueis, pois, com vossas maldições, o diplomata que preparou a luta,
nem o capitão que conduziu seus soldados à vitória. Grandes lutas se preparam: lutas do
bem contra o mal, das trevas contra a luz; lutas do Espírito de progresso contra a
ignorância estacionária. Esperai com paciência, porquanto nem as vossas
maldições, nem os vossos louvores poderão modificar a vontade de Deus. Ele
saberá sempre manter ou afastar seus instrumentos do teatro dos
acontecimentos, conforme tenham cumprido a sua missão ou dela abusado, para
servir a seus pontos de vista pessoais, do poder que tiverem adquirido por seu
sucesso. Tendes o exemplo do César moderno e o meu. Por várias existências
miseráveis e obscuras, tive de expiar minhas faltas, tendo vivido pela última vez na
Terra sob o nome de Luís IX.
Júlio César (Revista Espírita de 1859)

Relembremos, Julio Cesar, patrício, líder militar e político romano. “,100


a.C. – 15 de março de 44 a.C. Desempenhou um papel crítico na transformação da República
Romana no Império Romano. As suas conquistas na Gália estenderam o domínio romano até
o oceano Atlântico: um feito de consequências dramáticas na história da Europa.”(Wikipedia)
Foi responsável pela morte de milhares de pessoas, tornou-se ditador e foi
assassinado pelos Senadores de Roma (lembremos da frase “até tu, Brutus”) e
redimiu-se. Avançou no tempo e na conquista de si mesmo, foi o Rei da França,
Luis IX, e participou dos trabalhos da codificação, deixando-nos inúmeras
mensagens de grande valor moral e espiritual.

São Luis – Luis IX – Julio Cesar, o mesmo espírito, penso, então, que Luis
XIV citado por Emmanuel no livro Renúncia, talvez esteja caminhando entre nós,
talvez seja um grande palestrante espírita, ou católico, ou simplesmente uma
pessoa que está trabalhando por sua redenção. Seja quem for, tenho para mim que
é um irmão, que merece meu respeito e não meus infundados julgamentos.

Creio, amigos, sem adentrar em muitas explicações, que a lição é deveras


atual. Constato com certa tristeza, ante o que tenho presenciado nos últimos dias
em que ocorreram as eleições presidenciais, que não obstante nos dizermos
espíritas ou não acreditamos em reencarnação ou, ainda, não entendemos o alcance
deste entendimento, do contrário não haveriam tantas discussões desprovidas de
caridade, seja entre os interlocutores ou dirigidas aos dirigentes e candidatos de
nosso país.

Por fim, antes que se promovam mais defesas e debates, não estou, com este
texto, criticando ninguém, são apenas reflexões que compartilho e que podem lhes
servir ou não. Há um limite tênue em informar algo e criticar, em saber a realidade
e denegrir uma pessoa, mas o discernimento do que se faz e do que se diz, sempre
caberá a cada um. De minha parte, me abstenho de comentar, até mesmo porque
criticar quem critica seria contradizer tudo o que lhes estou tentando mostrar.

Estamos em caminho evolutivo, Julio César já é São Luis, e nós, quem


somos?

Que Jesus nos envolva em sua doce paz, hoje, agora e sempre.
Campo Grande – MS, 28.10.2014.

Candice Günther

Estudo do Livro Renúncia – Curiosidades (3)


Fato conhecido para maioria de nós é que o Padre Damiano foi uma das
encarnações de Emmanuel, o mentor e organizador da obra psicografada por Chico
Xavier. Há uma questão, porém, que tem vindo ao meu encontro nas últimas
semanas, por pessoas diferentes, e que resolvi sondar, buscar relações, significados
e aprender. Muitos tem me falado de Manoel da Nóbrega, um amigo que cita, outro
que encaminha foto, outro que me mostra um trecho de um livro...parece alguém
falando...ei, ei...presta atenção, tem algo ali...

Vamos, então, buscar, pesquisar, sondar, ouvir, lembrando que as intuições


são apenas uma gotinha, e como nos diz T. Edson, somos 1% intuição e 99%
transpiração. De pronto, algumas perguntas para nos dar um norte. O intervalo
entre a reencarnação de Padre Damiano e Manoel da Nóbrega foi curto, apenas 50
anos, podemos, assim, reconhecer traços semelhantes entre ambos? Quais? O que
eles tinham em comum? Reconhecemos o espírito de Emmanuel como um grande
trabalhador na divulgação do Evangelho, e uma clareza e lucidez na sua
interpretação, também nestas outras vidas percebemos isso?

Apenas 50 anos depois de desencarnar como Manoel da Nóbrega,


Emmanuel retorna a mais uma encarnação, agora como Padre Damiano. Vejamos:

“Manuel da Nóbrega (Sanfins do Douro, 18 de outubro de 1517 — Rio de


Janeiro, 18 de outubro de 1570) foi um sacerdote jesuíta português, chefe da
primeira missão jesuítica à América.1 As cartas enviadas a seus superiores são
documentos históricos sobre o Brasil colônia e a ação jesuítica no século XVI.
(Wikipédia)

Padre Damiano, nascido em 1613 na Espanha. Residiu em Ávila, Castela-a-


Velha, onde oficiou na Igreja de São Vicente. Desencarnou em idade avançada
no Presbitério de São Jaques do Passo Alto, no burgo de São Marcelo, em Paris.
Alguns detalhes desta encarnação constam no livro Renúncia, pela psicografia de
Francisco Cândido Xavier. (Wikipédia)”

Alguns fatos interessantes:


“De acordo com Francisco Cândido Xavier, em participação no programa
"Pinga Fogo" da extinta TV Tupi, em 1971,12Emmanuel teria sido, nesta
encarnação, o padre português Manuel da Nóbrega. O deputado Freitas Nobre
teria declarado na noite de 27 de julho de 1971 em programa na mesma rede de
televisão que, ao escrever um livro sobre o padre José de Anchieta, teve
oportunidade de encontrar e fotografar uma assinatura de Manoel da Nóbrega,
como "E. Manuel". De acordo com o seu entendimento, o "E" inicial se deveria à
abreviatura de "Ermano", o que, ainda de acordo com o seu entendimento,
autorizaria a que o nome fosse grafado Emanuel, um "M" apenas e pronunciado
com acentuação oxítona.” (Expoentes da Codificação Espírita. Curitiba: Federação Espírita do Paraná, 2002. p. 41 ISBN
85-86255-11-4)

01 - SÃO VICENTE

Padre Damiano era vigário na Igreja de São Vicente em Ávila na Espanha.


Interessante que Manoel da Nóbrega trabalhou muito na capitania de São Vicente,
lá fundou escolas e a cidade de São Paulo. Vejam um pequeno trecho que ele
encaminha a D. João III, sobre São Vicente, em outubro de 1553 (Fonte: Cartas do Brasil
e mais escritos Por Manuel da Nóbrega,Serafim Leite):

“(...) darei alguma conta desta Capitania de São Vicente, onde a maior
parte da Companhia residimos por ser ela terra mais aparelhada para a
conversão do gentio que nenhuma das outras, porque nunqua tiverão guerra com
os christãos, e hé por aqui a porta e o caminho mais certo e seguro para entrar
nas geraçõis do sertão, de que temos boas informações.”

Pergunta subsequente foi tentarmos verificar quem foi São Vicente e qual a
ligação. Encontramos este texto sobre São Vicente, observando que não se trata de
São Vicente de Paula que participou da codificação, uma vez que este foi
contemporâneo de Manoel da Nóbrega. Vejam, então, um breve relato da história
de São Vicente, que ensejou a construção da Basílica em Avila:

“No inicio do século IV, durante a perseguição de Diocleciano, e por ordem


do pretor Daciano, os irmãos Vicente, Sabina e Cristeta (de Ávila, Espanha)
sofreram o martírio por negarem-se a assinar um documento no qual deviam
reconhecer que tinham oferecido sacrifícios aos deuses romanos, segundo
estabelecia o quarto edito da perseguição. Segundo a tradição, Vicente deixou a
impressão dos seus pés em uma pedra na prisão para mostrar aos guardas quem
era Jesus, e isto foi o suficiente para convertê-los. Alguns livros antigos comentam
esse milagre: os guardas viram os pés de Jesus na rocha e sentiram o odor de
Nosso Senhor. Por um tempo tudo correu bem para Vicente: seus guardas estavam
convertidos e com a ajuda de Sabina e Cristeta ele conseguiu escapar. Mas, ao
chegar a Alba, todos os três foram presos. Eles foram chicoteados, espancados e
esmagados com pedras. E então, em vez de deixar uma impressão na pedra,
Vicente deixou um grande impressão em toda a Espanha. Ele é mostrado com suas
duas irmãs, todos sendo torturados e desmembrados na roda. Seus corpos foram
depositados num buraco de uma rocha. Posteriormente uma igreja em honra
destes mártires foi construída sobre o local (a rocha é a que se pode contemplar
na capela direita da cripta). Na Basílica de São Vicente de Ávila se encontra o
monumento fúnebre erigido em memória dos Santos Mártires, em estilo românico,
cujo autor é o mestre Fruchel (ou Eruchel). Nele consta cenas da perseguição de
Daciano, a prisão de São Vicente, a visita das irmãs na prisão, a fuga dos irmãos
e finalmente sua execução. São Vicente é muito venerado em toda a Espanha
especialmente em Ávila.”

Continuamos pincelando trechos aqui e acolá, deste livro Cartas do Brasil,


que traz diversas cartas escritas por Manoel da Nóbrega, nos permitindo
vislumbrar o seu pensamento, e quão rica foi sua história. Sigamos adiante.

02 – SANTO AGOSTINHO

Santo Agostinho também era um ponto comum entre Padre Damiano e


Manoel da Nóbrega:

“O padre Amâncio Malouzec, da confraria dos Agostinhos e companheiro


dedicado de Damiano, esperava-os solícito. (trecho livro Renúncia)”
“2. S. Agostinho era uma das leituras de Nóbrega (Leite IX 429). Não apenas as
Meditações e os Sermões (Diálogo sobre a Conversão do Gentio, 100); mas
também a Cidade de Deus. Só nesta carta o nome de Cidade aparece quatro vezes.
Índice de determinada cultura e espiritualidade e sua primeira manifestação
histórica no Brasil.” (Fonte: Cartas do Brasil e mais escritos Por Manuel da Nóbrega,Serafim Leite)

03 –MÚSICA
Também a música, como instrumento evangelizador, era igualmente
apreciada por ambos. Padre Damiano auxiliou Robbie a aprender o violino, que
tanto lhe acalmava o espírito e até foi fonte de rendimentos. Alcione cantava,
tocava e levava, através da música sua doce paz. E foi com ao som de uma música,
entoada pela doce Alcione, que Padre Damiano despediu-se da vida e retornou aos
braços do criador:

“— Poderei pedir a padre Amâncio que nos empreste o violino do côro de São
Jaques — exclamou a jovem esforçando-se por conter as lágrimas. — Seria um
grande consôlo! Ouvido um dos três clérigos que se conservavam no quarto,
prontificou-se a buscar o instrumento.
Daí a minutos, a voz cristalina de Alcione enchia o aposento, arrebatando os
ouvintes a um plano de misteriosa luz espiritual. Robbie acompanhava o canto,
com extrema felicidade em cada nota de sublime harmonia. O moribundo parecia
extático. A ladainha, muito antiga, abria-lhe novos horizontes de claridade
maravilhosa. Madalena tinha um lenço colado aos olhos, enquanto o lacaio e os
religiosos choravam comovidos.
Quando terminou, o agonizante chamou a jovem e lhe falou debilmente:
— Alcione, Deus te abençoe por esta alegria... Depois, contemplou a senhora
Vilamil demoradamente, e, trocando com a moça significativos olhares, voltou a
dizer: — Faze pela paz espiritual de tua mãe tudo que possas! E se tiveres, algum
dia, qualquer necessidade mais forte, uma dificuldade mais premente, lembra-te de
Carlos, minha filha! Sei que não te encontras sozinha no mundo, mas não posso
esquecer que acima de tudo devemos considerá-lo teu irmão!... Surgindo a
dispnéia das horas derradeiras, Damiano não mais podia conversar senão por
monossílabos. Após entendimento com a genitora, a jovem Vilamil acercou-se do
moribundo, murmurando: — Padre, levarei mamãe e Robbie de volta a São
Marcelo, mas estarei novamente aqui, dentro em pouco, para ficar convosco!...
— Não te incomodes, nem deixes Madalena... por minha causa...Mas,
acompanhando os seus ao lar, Alcione regressou sem demora, a fim de assistir o
velho amigo, até ao fim. As restantes horas da noite êle as passou em coma,
assistido pelo afeto da filha de Cirilo, que lhe enxugava o suor álgido com extrema
dedicação. Quando a aurora se fazia anunciar em clarões muito rubros, o velho
Damiano verteu a última lágrima e entregou a alma ao Criador.

Vejamos um trecho do livro Cartas do Brasil e mais escritos Por Manuel da


Nóbrega,Serafim Leite):

“(...) quando fundou São Paulo; e o termo estilo, aplicado a Nóbrega é de


Pero Correia, testemunha de vista (Novas Cartas Jesuíticas 17I). Vasconcelos
resume assim a Carta de 1552: Chegou a ser opinião de Nóbrega, que era hum
dos meios, com que podia converter-se a gentilidade do Brasil, a doce harmonia
do canto; e por esta causa ordenou se lhe pusessem em solfa as orações e
documentos de nossa Santa Fé; porque à volta da suavidade do canto entrasse em
suas almas a inteligência do Ceo (Chronica Liv. I n. 118, anno de 1552). Também
o P. Antonio Vieira viu a carta de 1552 e achou na Serra de Ibiapaba o mesmo
estilo de Nóbrega: Mas depois que os Padres lhe ensinaram a cantar os mesmos
mistérios, que compuseram em versos e tons muitos acomodados, viu-se bem com
quanto razão dizia Nóbrega, primeiro Missionário do Brasil, que com música e
harmonia de vozes se atrevia a trazer a si todos os genrios da América. (Relação
da Missão de Ibiapaba em Vozes Saudosas (Lisboa 1736) 37-38; cf. Leite, Artes e
Ofícios 61-62).”

E vejam que Emmanuel não mudou de ideia....questão do livro O


Consolador:
“162 –Todo artista pode ser também um missionário de Deus?
-Os artistas, como os chamados sábios do mundo, podem enveredar, igualmente,
pelas cristalizações do convencionalismo terrestre, quando nos seus corações não
palpite a chama dos ideais divinos, mas, na maioria das vezes, têm sido grandes
missionários das ideias, sob a égide do Senhor, em todos os departamentos da
atividade que lhes é próprios, como a literatura, a música, a pintura, a plástica.
Sempre que a sua arte se desvencilha dos interesses do mundo, transitórios e
perecíveis, para considerar tão somente a luz espiritual que vem do coração
uníssono como cérebro, nas realizações da vida, então o artista é um dos mais
devotados missionários de Deus, porquanto saberá penetrar os corações na paz da
meditação e do silêncio, alcançando o mais alto sentido da evolução de si mesmo e
de seus irmãos em humanidade.”
167 –O grandes músicos, quando compõem peças imortais, podem ser também
influenciados por lembranças de uma existência anterior?
-Essa atuação pode verificar-se no que se refere às possibilidades e às tendências,
mas, no capítulo da composição, os grandes músicos da Terra, com méritos
universais, não obedecem a lembranças do pretérito, e sim a gloriosos impulsos
das forças do Infinito, porquanto a música na Terra é, por excelência, a arte
divina. As óperas imortais não nasceram do lodo terrestre, mas da profunda
harmonia do Universo, cujos cânticos sublimes foram captados parcialmente pelos
compositores do mundo, em momentos de santificada inspiração. Apenas desse
modo podereis compreender a sagrada influência que a música nobre opera nas
almas, arrebatando-as, em quaisquer ocasiões, às ideias indecisas da Terra, para
as vibrações do íntimo com o Infinito.
Este último ponto de referência, entre estas reencarnações de Emmanuel
ressoou em meu coração de forma especial, uma vez que trabalho com música
voltada para a evangelização desde criança, mesmo antes de ser espírita. Assim,
muito mais do que a beleza das ligações que fizemos nestas breves linhas, o que
sou instada a aprender é que devemos ouvir a espiritualidade, seguir as intuições
que nos chegam, fazer da prece o nosso guia para que possamos trilhar caminhos
inspirados, sondando sempre os propósitos que nos chamam ao trabalho edificante.

Certamente haverão muitos outros pontos de ligação entre as reencarnações


de Emmanuel, Padre Damiano, Manoel da Nóbrega, pincelamos apenas alguns que
nos foram fonte de aprendizado, sem a pretensão de esgotar o tema.

Encerro com um texto de Santo Agostinho, no ESE, este espírito que tanto
inspirou o Padre Damiano/Manoel da Nóbrega/Emmanuel, que ele também nos
inspire.

“Vinde, vós que desejais crer. Os Espíritos celestes acorrem a vos anunciar
grandes coisas. Deus, meus filhos, abre os seus tesouros, para vos outorgar todos
os benefícios. Homens incrédulos! Se soubesseis quão grande bem faz a fé ao
coração e como induz a alma ao arrependimento e à prece! A prece! ah! como são
tocantes as palavras que saem da boca daquele que ora! A prece é o orvalho
divino que aplaca o calor excessivo das paixões. Filha primogênita da fé, ela nos
encaminha para a senda que conduz a Deus. No recolhimento e na solidão, estais
com Deus. Para vós, já não há mistérios; eles se vos desvendam. Apóstolos do
pensamento, é para vós a vida. Vossa alma se desprende da matéria e rola por
esses mundos infinitos e etéreos, que os pobres humanos desconhecem.
Avançai, avançai pelas veredas da prece e ouvireis as vozes dos anjos. Que
harmonia! Já não são o ruído confuso e os sons estrídulos da Terra; são as liras
dos arcanjos; são as vozes brandas e suaves dos serafins, mais delicadas do que as
brisas matinais, quando brincam na folhagem dos vossos bosques. Por entre que
delícias não caminhareis! A vossa linguagem não poderá exprimir essa ventura,
tão rápida entra ela por todos os vossos poros, tão vivo e refrigerante é o
manancial em que, orando, se bebe. Dulçurosas vozes, inebriantes perfumes, que a
alma ouve e aspira, quando se lança a essas esferas desconhecidas e habitadas
pela prece! Sem mescla de desejos carnais, são divinas todas as aspirações.
Também vós, orai como o Cristo, levando a sua cruz ao Gólgota, ao Calvário.
Carregai a vossa cruz e sentireis as doces emoções que lhe perpassavam n’alma,
se bem que vergado ao peso de um madeiro infamante. Ele ia morrer, mas para
viver a vida celestial na morada de seu Pai”. – Santo Agostinho. (Paris, 1861.)
Ouçamos, ouçamos as vozes dos céus que nos querem auxiliar, recebamos seus
presentes amorosos que nos acalentam as dores e suavizam a jornada.

Abraços fraternos.

Campo Grande – MS, 11.11.2014.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Curiosidades (04)

O Rouxinol e a Calhandra

No Cap. 2 da segunda parte, Alcione vai para a frente da igreja com Robbie
fazer uma apresentação musical em busca de dinheiro para auxiliar Padre
Damiano, cantam suas canções preferidas, lembranças dos tempos em Ávila.
Atraído pela multidão e pelo som da doce melodia, Cirillo para a carruagem e pede
a Alcione que cante uma antiga canção. Sondaremos, neste singelo estudo,
algumas sutilezas deste trecho que despertaram nossa atenção.

Antes de entrarmos na poesia e divagarmos um pouco sobre os seus


belíssimos significados, vejamos o que Emmanuel, bondosamente, nos informa em
parágrafo imediatamente anterior à poesia: “Obedecendo, talvez, a secretos
impulsos do coração, Alcione imprimia novo encantamento espiritual em cada
acorde. Dir-se-ia o nenioso gorjeio de um pássaro abandonado, na vastidão da
noite.” Um canto triste de alguém abandonado na vastidão da noite...atendendo
secretos impulsos do coração. Alcione estava diante de seu pai, o pai que achava
morto, o pai que nunca conhecera...e o mesmo sem o saber, ainda, nos indica o
escritor, que o espírito sentia.

A cantiga fala de duas aves, a calhandra e o rouxinol...considerando que


Emmanuel diz que Alcione produzia um “nenioso gorjeio de um pássaro
abandonado, na vastidão da noite”, a qual dos dois pássaros poderemos comparar
Alcione, ao rouxinol ou à calhandra?

Infelizmente eu não encontrei a lenda que inspirou esta cantiga, mas na


pesquisa ao buscar por ela, percebi que o rouxinol e a calhandra estiveram na
caneta de célebres escritores:

- Foi o rouxinol, e não a calhandra, / Que inquietou a concha de teu ouvido; / A


noite ela canta na romãzeira. / Acredita, amor, foi o rouxinol". (William
Shakespeare - 1564-1616);

- Canta a calhandra e responde o rouxinol. As flores alcançam seus matizes mais


vivos. As montanhas são mais azuis. A água é mais cristalina. O céu é mais
brilhante. Tudo no mundo parece novo, forte e esplêndido. (Luis Gonzalez
Carvajal);

- La Fontaine escreveu uma fábula belíssima sobre a calhandra e seus filhotes.

- “...tinha gemidos de rouxinol, sussurros de rola, assovios infindáveis de


calhandra e pios estacados iguais à percussão metálica das arapongas. (Carlos
Drumond de Andrade);

- Gil Vicente, Castro Alves, Cecilia Meireles, Machado de Assis, Mario Andrade,
Erico Veríssimo e uma infindável lista, tão grande que quase nos remete ao
pensamento de que para se escrever, e escrever bem, é preciso fazer um verso
sobre o rouxinol e a calhandra...

Mas e Alcione? A quem Emmanuel a compara? A calhandra ou ao rouxinol?


Castro Alves, quando cita Shakespeare, nos dá a pista: “Inda não é manhã. / Foi
o rouxinol, e não a calhandra, / Que inquietou a concha de teu ouvido; / A noite
ela canta na romãzeira. / Acredita, amor, foi o rouxinol." Eis, então a primeira
resposta, o nenioso gorjeio de Alcione, por ser triste e na noite, é comparado ao
canto do rouxinol. Pergunta subsequente, quem é o rouxinol?

“O canto do rouxinol, tem sido descrito como um dos sons mais bonitos na
natureza, inspirando canções, contos de fadas, ópera, livros e uma enorme
quantidade de poesia. O rouxinol canta geralmente de noite, mas também às
vezes durante o dia. O canto é muito alto, com uma impressionante variedade de
assobios, trinados e gorgolejos e é particularmente audível à noite, porque sendo
uma ave tímida, poucas aves estão cantando. É por essa razão que o seu nome
inclui a palavra "noite" em muitos idiomas. (...) Por causa da violência associada
ao mito, o canto do rouxinol foi durante longo tempo associado a um lamento. O
rouxinol também tem sido usado como um símbolo dos poetas ou da sua
poesia. Os poetas escolheram o rouxinol como um símbolo por causa da sua
música criativa e aparentemente espontânea.” Wikipedia

Então, o rouxinol finalmente encontra a calhandra...Alcione encontra Cirillo,


“que errava sem ter um ninho...numa perene agonia...era a imagem da
saudade...no luto da viuvez.” Não é este poema a descrição de Cirillo e de suas
dores? E quanta luz Alcione trouxe ao seu coração naquele momento de saudade e
depois, quando foi trabalhar em sua casa.
Continuando nossas pesquisas, algumas considerações sobre a calhandra:

“Calhandra é o nome comum dado a certas aves européias da família


das alaudídeas, a mesma que a da cotovia. No Brasil também é empregado
regionalmente para designar certas espécies de sabiás. (...) A cotovia, por sua
maneira de elevar-se muito rapidamente no céu ou, ao contrário, deixar-se cair
bruscamente, pode simbolizar a evolução e a involução da manifestação. Voa alto
e faz seu ninho na terra com talinhos de erva seca. O alçar de seu vôo na clara luz
da manhã evoca o ardor de um impulso juvenil, o fervor, a manifesta alegria da
vida. Seu canto, por oposição ao do rouxinol, é um canto de alegria. (...)

Na peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare, os dois amantes, depois de


uma noite de amor, discutem se o pássaro que ouvem lá fora é a cotovia ou o
rouxinol, preferindo este último, que canta durante a noite, enquanto a cotovia
anuncia o dia e, com ele, a separação dos amantes. É uma inversão paradoxal do
papel tradicional da cotovia.

Na obra Les Miserables de Victor Hugo, o autor conta em determinado trecho a


história de uma linda menina (Cosette) que após ser deixada aos cuidados de uma
família má, devido aos maus tratos e trabalhos forçados, adquire um aspecto
doente e fica muito magra, devido a isto as pessoas que a conhecem começam a
chamá-la Cotovia (Alouette).”

É interessante que assim como Shakespeare, o poema no livro Renúncia


parece inverter os papéis do rouxinol que deveria ser triste, mas ao vê-lo a
calhandra que estava triste e sofria, alegra-se, voa alto. O rouxinol a olhava
amorosamente, “que chegava de mansinho, olhos cheios de carinho.”. Sutilezas de
Emmanuel que nos permite ver quão lindo o alcance do amor de Alcione por estas
vidas, que são vidas entrelaçadas, a calhandra que sofria, tal qual Cirillo, pode se
alegrar por que foi amada pelo rouxinol, nossa doce Alcione.

Deixemos, então, a arte, a poesia, falar aos nossos corações... embalemos


nessa linda poesia nosso melhores sentimentos, deixando o som deste lindo
rouxinol, que um dia a Terra recebeu, nos alcance, nos melhore, nos encante.

Aguçadas as nossas sensibilidades, o poema se engrandece, leiamos


novamente:

No manto da noite amiga,


Ouve esta velha cantiga,
Guarda no peito a canção
Da calhandra do caminho,
Que errava sem ter um ninho
Na verdura de Aragão.

A pobrezinha vivia
Numa perene agonia,
Em dolorosa mudez;
Era a Imagem da saudade,
Nos andrajos da orfandade.
No luto da viuvez.

Mas, em certa primavera,


A pobre, que andava à espera,
Reparou, findo o arrebol,
Que chegava de mansinho.
Olhos cheios de carinho.
Seu amado — o rouxinol.

Desde essa hora divina,


A calhandra pequenina,
Que errava de déu em déu,
Enfeitou-se na vitória,
Encheu-se de vida e glória,
Cantando no azul do céu.

Brincava na paz da fonte,


Ia ao longe, no horizonte,
Sob o sol, sob o luar...
Fosse noite, fosse dia,
Transbordava de alegria,
Nas penugens do seu lar!

Mas, um dia, o companheiro


Deu-lhe o olhar derradeiro
Da bolsa de um caçador!...
A calhandra infortunada
Tombou sem vida na estrada,
Na angústia do seu amor.
No manto da noite amiga,
Ouve esta velha cantiga,
Guarda no peito a canção
Da calhandra do caminho,
Que errava, sem ter um ninho,
Na verdura de Aragão.

Aos olhos do mundo, Alcione era tal qual um rouxinol, belo, triste, solitário,
e Cirillo, o homem rico e afortunado, uma calhandra, que corria os céus...mas, ai
de nós, que ainda não temos a vista que vai além das frágeis aparências do mundo
material. O Pai Maior, que também ouvia aquele canto de amor, sabia que lá estava
sua filha amada, despertando nos seus e em nós, as mais belas letras de um novo
viver.

E como a lição que é verdadeiramente bela vai além das palavras e adentra
em nossas vidas em forma de sentimento, estava eu a caminho do trabalho, quando
parei no semáforo e tinha um moço fazendo malabarismo, em sua bicicleta de uma
roda, jogava os pinos para o alto sem os deixar cair, equilibrava uma bola com um
dedo só, o sol a pino, o calor imenso e ele ali, com seu belo sorriso no rosto,
realizava seu trabalho, sua arte. Abri a janela do meu carro bonito com ar
condicionado, para lhe dar uma moeda e pensei...nesta minha vida, quem eu sou,
quem é o rouxinol...quem é a calhandra?

Que a doce paz de Jesus nos alcance, hoje e sempre.

Abraços fraternos.

Campo Grande-MS, 18.11.2014.


Candice Günther
Estudo Renúncia – Curiosidades (05)

No início do livro Renúncia, temos o belíssimo diálogo de Alcione e Polux,


em que este prepara-se para nova encarnação e pede o auxilio da amada Alcione,
que lhe atende e vem em seu socorro das esferas mais elevadas.

Pensemos, porém, que interessante foi a escolha do nome Pólux. Será um


nome verdadeiro do personagem, ou um nome novo, inventado, ou, então, um
nome que já existia há muito tempo e que falaria de maneira subliminar aos nossos
sentimentos mais profundos e cristalizados? Bem, parece-nos que a última
alternativa é a mais correta.

Para quem se interessa um pouco por mitologia grega ou romana, irá


facilmente lembrar que o nome Pólux faz parte de uma lenda que explicaria a
origem da Constelação de Gêmeos. Buscaremos, nestas breves linhas, identificar o
significado por traz desta linda simbologia, num exercício livre de interpretar e
buscar relacionar histórias que se assemelham, se completam e no ensinam,
chamando-nos a mais profundas reflexões.

Num rápido olhar na Wikipédia, encontramos um breve resumo da história


de Pólux, no mito acima citado:

“Castor (em latim: Castōr; em grego: Κάστωρ, Kastōr, lit. "castor") e Pollux (em latim: Pollūx)
ou Polideuces (em grego: Πολυδεύκης,Poludeukēs, "vinho muito doce"1 ) eram dois irmãos
gêmeos da mitologia grega e romana, filhos de Leda com Tíndaro e Zeus, respectivamente,
irmãos de Helena de Troia e Clitemnestra, e meio-irmãos de Timandra, Febe, Héracles e Filónoe.
Eram conhecidos coletivamente em grego como Dióscuros (em grego: Διόσκουροι, Dioskouroi,
"filhos de Zeus"; em latim: Dioscūrī) e em latim como os Gêmeos (Gemini) ou Castores.
No mito, os gêmeos partilham a mesma mãe, porém têm pais diferentes - o que significa que
Pólux, por ser filho de Zeus, era imortal, enquanto Castor não o era. Com a morte deste, Pólux
pediu a seu pai que deixasse seu irmão partilhar da mesma imortalidade, e assim teriam sido
transformados na constelação de Gêmeos. Os dois são tidos como padroeiros dos navegantes,
para quem aparecem na forma do fogo de Santelmo.
Em algumas versões Pólux era mortal, mas sendo filho de Zeus recebeu o dom da divinidade
(imortalidade).”

No livro de Bel-Adar encontramos mais explicações quanto ao mito:


“Gregos e romanos sentiam extrema veneração pelos Dióscuros. Os viajantes
marítimos, nas noites de tempestade, ficavam satisfeitos e se sentiam seguros
quando viam brilhar, na ponta dos mastros, os fogos comumente chamados de
Santelmo; estes eram sinais que prenunciavam uma viagem vitoriosa, pois,
segunda a lenda, durante a travessia do navio Argos, os argonautas sempre viam
luzes semelhantes chamejando sobre as belas cabeças de dois irmãos.
Em Roma era poderoso o culto dos Dióscuros. Os romanos faziam juramentos em
seu nome, que não quebravam sob pretexto algum; as mulheres juravam pelo
nome de Edcastor, Castor, e os homens por Edpol, Polux.
Na Célebre batalha de Maratona, os atenienses viram os dois irmãos combatendo
ao seu lado. Dizia a lenda que Polux era invencível na luta corpo a corpo e Castor
era insuperável na arte de domar e montar os cavalos. Na maioria das imagens,
eles eram representados como dois jovens adolescentes, de extrema beleza, as
vezes montados em cavalos brancos. Na cabeça, frequentemente traziam um
capacete na forma de metade de um ovo, como lembrança de sua origem. Em sua
homenagem, como símbolo de sua juventude e de seu amor fraternal, eram
sacrificados apenas cordeiros imaculadamente alvos.”

Ainda para que entendamos o mito, vejamos o que consta no livro Glossário
Exotérico de Trigueirinho:
“Gêmeos (constelação – vide também zodíaco) – Segundo a Mitologia
grega, Leda (rainha de Esparta) foi seduzida por Júpiter (rei do universo), que
para isso se transformara em um belíssimo cisne. Dessa união surgiram dois ovos,
dos quais nasceram Castor e Pollux. Júpiter reconheceu Pollux xomo filho e a ele
concedeu a imortalidade. No entanto, Castor permaneceu mortal, e era tido como
filho do rei de Esparta, esposo de Leda. Independentemente das diferenças de
paternidade que lhes eram atribuídas. Castor e Pollux cresceram unidos por
profundo amor. Num combate de que ambos participaram, Castor foi morto, e
Pollux, vendo o destino do irmão, rogou a Júpiter que dividisse com ele sua
imortalidade e assim foi feito. A essência da vibração emanada de Gêmeos para a
Terra nesta época está contida neste mito. Aproxima e une o mortal ao imortal;
harmoniza o mundo das formas com o que o alenta. Um vínculo de amor une a
chispa interna a sua projeção no mundo concreto, e é esse vínculo que, fortalecido
pela unicidade de propósito, permite o resgate de consciência material e a
integração de sua energia em níveis superiores, imperecíveis. A união desses
vórtices faz com que o impulso-vida manifestado na matéria descubra a própria
realidade essencial.”
Se ouvimos o nome Polux no livro de forma desapercebida, apenas como um
nome incomum, porém, sem grandes significados, como será que nosso espírito,
que já viveu milênios, ouve? Lá nas profundezas do nosso inconsciente, como este
nome chega?
Somos espíritos milenares, muitos de nós vivemos como romanos, outros
tantos como gregos. Assim, sob esta nova perspectiva, que abraça um tempo maior
e abarca outras vidas, o Pólux, outrora tão imponente, imortal, vem-nos agora
como alguém que carece de auxílio, que quer recomeçar. Aos olhos do mundo, um
deus, mas quando abrimos a visão, eis, então o ser imperfeito.
Vejamos, porém, que se no mito ele salva seu irmão Castor, no livro
Renúncia ele nos é apresentado como alguém imperfeito, necessitado, sofredor.
Observamos, assim, que até o livro Renúncia, poderíamos conhecer Pólux
como ele nos é apresentado no mito, porém, no livro seu papel está invertido.
Alcione que é um espírito já evoluído, que não precisa mais reencarnar vem em seu
auxílio. É interessante que o texto acima do Trigueirinho, numa explicação dos
significados do mito, fala de vínculo de amor. Ora, é exatamente sobre vínculo de
afeto, de amor que vemos no livro Renúncia, na relação de Polux e Alcione,
porém, num nível mais elevado e norteado pela mensagem do Cristo. Uma nova e
verdadeira forma de amar...
Mas supondo que nossa intuição esteja correta e que o nome foi escolhido
em referência a este mito. Qual a razão dele estar invertido? Porque nele Polux é
quem precisa de ajuda? Se existe uma mensagem a ser interpretada pelo grego ou
romano que vive em nosso íntimo e que não acessamos em razão do esquecimento
da encarnação, qual a razão de Polux ser quem recebe auxílio e não mais quem
salva?
Pensemos juntos. Trata-se de um mito grego/romano. Qual era/é a grande
chaga deste povo?
Vejamos um trecho do livro A Caminho da Luz:
“(...) a sua inquietação era por levantar um novo paraíso para si mesmas e
para os homens terrestres, com cujas famílias fraternizaram-se desde o princípio.
Faltaram-lhes os valores espirituais de uma perfeita base religiosa, situação essa
para a qual concorreram, inegavelmente, na utilização do livre-arbítrio; mas o
Cristo, nas dolorosas transições deste século, há de amparar-lhes as expressões
mais dignas e mais puras, espiritualmente falando, e, no momento psicológico das
grandes transformações, o fruto de suas atividades fecundas há de ser
aproveitado, como a semente nova, para a civilização do porvir.”
Poderíamos dizer que o texto acima nos traz uma descrição de Polux, não é
mesmo? Talvez, e digo isso apenas no campo das conjecturas, amparada em fortes
indícios, que ao falar de Polux o livro Renúncia esteja falando de muitos...de
muitos de nós, outrora gregos, outrora romanos, chamados hoje a viver de forma
diferente, invertida do que vivíamos em outros tempos em que nós estávamos no
centro de nossas aspirações. Todos queremos ser felizes, porém, a forma egoísta
como temos trabalhado a nossa felicidade no decorrer dos tempos, já está com os
dias contados, eis que a mensagem do Cristo e do Evangelho Redivivo quer
inaugurar em nós uma nova forma de viver, onde não sejamos mais nós o centro e
sim Deus, nosso Pai Criador.
Enfim, ao ouvirmos o nome Polux, eu, você e muitos, pensam no homem
frágil e suscetível, ainda, as quedas ante o seu estágio evolutivo. Nosso espírito
imortal, porém, vai além, vê uma reconstrução do que entendia, da forma como
viveu/vivemos ao longo de muitos séculos e tem a oportunidade de rever, de
modificar o seu caminho.
E falando em caminho, encerramos estas singelas reflexões com trechos de
um texto de Emmanuel que se encontra no livro Caminho Verdade e Vida, que fala
na Regra Aurea:
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Jesus (MATEUS, 22: 39)
Incontestavelmente, muitos séculos antes da vinda do Cristo já era ensinada no
mundo a Regra Áurea, trazida por embaixadores de sua sabedoria e misericórdia.
Importa esclarecer, todavia, que semelhante princípio era transmitido com maior
ou menor exemplificação de seus expositores.
Diziam os gregos: “Não façais ao próximo o que não desejais receber dele.” (...)
Insistiam os romanos: “A lei gravada nos corações humanos é amar os membros
da sociedade como a si mesmo.”
Na antiguidade, todos os povos receberam a lei de ouro da magnanimidade do
Cristo. Profetas, administradores, juízes e filósofos, porém, procederam como
instrumentos mais ou menos identificados com a inspiração dos planos mais altos
da vida. Suas figuras apagaram-se no recinto dos templos iniciáticos ou
confundiram-se na tela do tempo em vista de seus testemunhos fragmentários.
Com o Mestre, todavia, a Regra Áurea é a novidade divina, porque
Jesus a ensinou e exemplificou, não com virtudes parciais, mas em
plenitude de trabalho, abnegação e amor, à claridade das praças
públicas, revelando-se aos olhos da Humanidade inteira.”

Abraços fraternos.
Campo Grande – MS, 05 de janeiro de 2015. Candice Günther
SEDE DE DEUS

“Temos sede de Deus” “ele te daria água viva” “em ti está o manancial da
vida”
Não temos sêde de enganosas "Jesus lhe respondeu: Quão preciosa é, ó Deus, a
satisfações. Temos sêde de Se conhecesses o dom de tua benignidade! E por isso
Deus, Pólux! O infinito amor Deus e quem é que te pede os filhos dos homens se
que nos transfunde as almas tem de beber, tu pedirias a ele, abrigam à sombra das tuas
sua origem sagrada em sua e ele te daria água viva. asas. Eles se fartarão da
misericórdia paternal. gordura da tua casa, e os
farás beber da corrente
das tuas delícias; porque
em ti está o manancial da
vida; na tua luz veremos a
luz. Estende a tua
benignidade sobre os que
te conhecem, e a tua
justiça sobre os retos de
coração.
Trecho do livro Renúncia Evangelho de João 4:1-42 Salmo 36:7-10
3ª revelação 2ª revelação 1ª revelação

Quando em nossa vida temos sede? Não a sede física, material, mas quando é que temos sede de
Deus, de sua misericórdia e de seu amor?

Nossa resposta deveria ser a todo instante, porém, ainda andamos esquecidos do Pai, eis a razão
de ainda nos encontrarmos no deserto, na caminhada de provas e expiações.

Muitas vezes, ante as adversidades da vida, elevamos nossos pensamentos, e, em prece sincera,
rogamos auxílio do Pai.

E a água divina vem, jorra em abundância em nossos corações ressequidos pelo orgulho e pelo
egoísmo. Somos consolados, recolocados no caminho, convidados a trilhar com rumo, com fé e
confiança. Jesus nos pede nova conduta, e nos oferece o caminho,ele é nosso norte, nossa
direção.

Verdadeira a proposição de Alcione, temos sede de Deus. Já o salmista o sabia, em Deus “está o
manancial da vida”.
LIVRO RENÚNCIA

ESTRADA DA MISERICÓRDIA

Trechos do livro em que aparece a palavra Misericórdia (28) sob a luz do


Cap. V do Evangelho Segundo o Espiritismo - Bem Aventurados os Aflitos

Se um anjo viesse a Terra em busca de seus amados de outrora, para auxiliá-


los, ainda que esta vinda representasse e abarcasse muitos riscos, muito sofrimento
e exigisse resignação, coragem e fé, qual o nome que daríamos para este caminho?
Como entender a trajetória de Alcíone utilizando esta perspectiva?

Nominamos de Estrada da Misericórdia, e numa leitura singela, neste estudo,


percorreremos o livro nos 28 trechos em que a palavra Misericórdia aparece. Mas
não iremos desacompanhados, vem em nosso auxílio o Codificador, qual lanterna
que ilumina e dá melhor visão, o capítulo V irá nos socorrer na apreensão de
significativas lições.

Ressalto que este singelo estudo não esgota o assunto, na verdade o trata
com muita superficialidade, ante os poucos recursos de interpretação e análise que
tenho para lhes oferecer, são linhas que escrevo com o coração, com meus
sentimentos. Rogo a Jesus que estas novas perspectivas e possibilidades de estudo,
ampliem o nosso entendimento destas obras, dos Romances de Emmanuel, e que
suas lições evangélicas iluminem nosso viver.

Passemos, então, ao trechos do livro Renúncia em que a palavra misericórdia


aparece. Logo após, teremos o trecho do evangelho do Cap. V. Faço um breve
comentário no intuito de auxiliar a fazer as ligações entre os trechos do livro e a
mensagem do Evangelho.

01 – Renuncia (Alcione com Pólux): “Temos sêde de Deus, Pólux! O infinito


amor que nos transfunde as almas tem sua origem sagrada em sua misericórdia
paternal. Quero-te eternamente, como sei que a união comigo é a tua sublime
aspiração: entretanto, seria justo encerrar nosso júbilo num círculo egoístico, tão
somente? Amamo-nos para sempre, a eternidade nos santifica os destinos, mas o
Pai está acima de nós.”

ESE, Cap. V - 1. Bem-aventurados os que choram, pois que serão consolados. –


Bem-aventurados os famintos e os sequiosos de justiça, pois que serão saciados. –
Bem-aventurados os que sofrem perseguição pela justiça, pois que é deles o reino
dos céus. (S. MATEUS, 5:4, 6 e 10.)

Comentário: Ainda no plano espiritual, Alcione vai ao encontro de Pólux para


auxiliar nos trabalhos da reencarnação dele. Trava-se um belíssimo diálogo,
corações que se amam e se elevam ao Pai. Inicia-se o nosso caminho.

02 - Renuncia (Alcione com Antenio): “ A senda de quase todos os teus amigos


está semeada de espinhos, que êles próprios plantaram no seu desapêgo à
misericórdia do Todo-Poderoso. Sentes-te bastante forte para assumir tão grave
compromisso? Conheço numerosos irmãos que, depois de pedirem missões
arriscadas como esta, voltaram onerados de mil problemas a resolver, retardando
assim preciosas aquisições.”

ESE, Cap. V - 2. Bem-aventurados vós, que sois pobres, porque vosso é o reino
dos céus. – Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados.
– Ditosos sois, vós que agora chorais, porque rireis. (S. LUCAS, 6:20 e 21.)
Mas, ai de vós, ricos! que tendes no mundo a vossa consolação. – Ai de vós que
estais saciados, porque tereis fome. – Ai de vós que agora rides, porque sereis
constrangidos a gemer e a chorar. (S. LUCAS, 6:24 e 25.)

Comentário – Interessante refletir sobre este diálogo de Alcione com Antenio.


Percebemos que a postura de vida da Alcione encontra correlação com o primeiro
parágrafo do evangelho do item 2. Sabe-se humilde e limitada, tem sede de amor e
justiça e busca no Pai o consolo e proteção. Não se esconde ante a possibilidade de
sofrimento, mas confia nas promessas de Deus.
Mas seus amados, aqueles por quem quer retornar encontram-se tal qual a narrativa
do segundo parágrafo, enganados pelas falsas riquezas do mundo, buscam saciar
sua sede na vida presente, nas alegrias passageiras da Terra, e vivem rodeados de
“espinhos que eles mesmos plantaram”. Lembremos, então, da Parábola do
Semeador, reconhecendo que há solos férteis onde o amor divino frutifica, há
também os solos em que a lei divina não consegue ir além, muitos são os espinhos
que a querem sufocar. Vem, então, a mão misericordiosa de Deus e envia seu anjo
para trabalhar a Terra, permitindo que no futuro se transforme em solo fértil.
03 - Renuncia (Alcione com Antenio): “Que a sua misericórdia te abençoe! —
exclamou o instrutor acariciando-lhe os cabelos. —Seguir-te-ei daqui com as
minhas preces e esperar-te-ei confiante na vitória futura!.”

ESE, Cap. V - 3. Somente na vida futura podem efetivar-se as compensações que


Jesus promete aos aflitos da Terra. Sem a certeza do futuro, estas máximas seriam
um contra-senso; mais ainda: seriam um engodo. Mesmo com essa certeza,
dificilmente se compreende a conveniência de sofrer para ser feliz. É, dizem,
para se ter maior mérito.

Comentário: Muito bonita esta relação entre os dois trechos. Alcione mantém-se
firme no propósito de reencarnar, mesmo ante todos os argumentos de Antenio, ela
segue para a preparação que duraria 10 anos!!! Mas onde este anjo encontra forças
para tamanha renúncia? Eis, então, o evangelho a nos relembrar – a certeza da
compensação no futuro. Mas qual a compensação que ela almeja? Ir para mundos
melhores? Elevar-se na escala espiritual? Não, meus amigos, todo o seu coração
deseja fazer o bem aos que ama profundamente. Creio, então, que fica a lição e a
reflexão a nós outros, quais são os propósitos que movem as nossas ações?

04 – Renuncia (Cirilo em Belfast com sua família – Tramas de Suzane) A noite,


reuniu a família em preces a Deus, agradecendo à Providência os favores da sua
misericórdia e, após as orações comuns, expressou um voto de reconhecimento a
São Patrício, pela feliz chegada do filho, o que, feito em voz alta na
espontaneidade do seu afeto, arrancou muitas lágrimas ao rapaz, que permanecia
igualmente de joelhos, em obediência à tradição familiar.

ESE, Cap. V - 4. De duas espécies são as vicissitudes da vida, ou, se o preferirem,


promanam de duas fontes bem diferentes, que importa distinguir. Umas têm sua
causa na vida presente; outras, fora desta vida. Remontando-se à origem dos
males terrestres, reconhecer-se-á que muitos são consequência natural do caráter
e do proceder dos que os suportam.
Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua
imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição!
Quantos se arruínam por falta de ordem, de perseverança, pelo mau proceder, ou
por não terem sabido limitar seus desejos!
Quantas uniões desgraçadas, porque resultaram de um cálculo de interesse ou
de vaidade e nas quais o coração não tomou parte alguma!
(...)
Interroguem friamente suas consciências todos os que são feridos no coração
pelas vicissitudes e decepções da vida; remontem passo a passo à origem dos
males que os torturam e verifiquem se, as mais das vezes, não poderão dizer: Se
eu houvesse feito, ou deixado de fazer tal coisa,
não estaria em semelhante condição.

Comentário: Ao trilharmos esta estrada, vislumbramos as quedas, as dores, mas


também o toque amoroso que Alcíone dará a estas vidas. Neste trecho, Cirilo
afasta-se de Madalena, por tramas de Suzane, que o queria para si, em nome de um
sentimento egoísta e orgulhoso, que aos seus olhos era amor, constrói a sua relação
com Cirilo em falsos alicerces. Apesar de conseguir afastar Cirilo e Madalena,
apesar de conseguir o casamento tão almejado, nunca foi feliz. Eis o evangelho a
iluminar nosso entendimento, nos chamando a interrogar nossa consciência, eis
onde reside todo o entendimento de nossas dores e vicissitudes, atitudes que temos
e que não estão pautadas nos propósitos de amor a Deus e amor ao próximo.

05 – Renúncia (Madalena Vilamil sofre – a ausência do marido agrava suas dores -


busca auxilio) — Não te desesperes: Jesus não está pobre de misericórdia. Faze o
possível por aliciar algum homem de mérito, que propugne os teus direitos. Estou
certa de que o céu nos oferecerá os meios precisos.

ESE - 5. A lei humana atinge certas faltas e as pune. Pode, então, o condenado
reconhecer que sofre a conseqüência do que fez. Mas a lei não atinge, nem pode
atingir todas as faltas; incide especialmente sobre as que trazem prejuízo à
sociedade e não sobre as que só prejudicam os que as cometem. Deus, porém,
quer que todas as suas criaturas progridam e, portanto, não deixa impune
qualquer desvio do caminho reto. Não há falta alguma, por mais leve que seja,
nenhuma infração da sua lei, que não acarrete forçosas e inevitáveis conseqüências,
mais ou menos deploráveis. Daí se segue que, nas pequenas coisas, como nas
grandes, o homem é
sempre punido por aquilo em que pecou. Os sofrimentos que decorrem do
pecado são-lhe uma advertência de que procedeu mal. Dão-lhe experiência,
fazem-lhe sentir a diferença existente entre o bem e o mal e a necessidade de
se melhorar para, de futuro, evitar o que lhe originou uma fonte de
amarguras; sem o que, motivo não haveria para
que se emendasse. (...) Contudo, assim como para o obreiro o Sol se levanta no
dia seguinte, permitindo-lhe neste reparar o tempo perdido, também para o homem,
após a noite do túmulo, brilhará o Sol de uma nova vida, em que lhe será possível
aproveitar a experiência do passado e suas
boas resoluções para o futuro.

Comentário – Eis um dos espíritos que foi auxiliado por Alcione. Madalena
Vilamil muito sofreu nesta encarnação, mas o entendimento alcançado com o
auxílio da dor e do sofrimento lhe trouxeram uma nova forma de ver a vida. Perdeu
muito aos nossos olhos, enriqueceu-se aos olhos do Pai. Deixemos o evangelho de
Jesus tornar-se as nossas lentes, tenhamos olhos de ver.

06 – (Renuncia – Padre Damiano com Madalena Vilamil e Alcione) — Sim, minha


filha — esclarecia o amigo com a sua madura experiência da vida —, suas
observações são justas. Deus cria a vida, não o cativeiro. Entretanto, êsses
clamorosos desvios são das instituições humanas. Os padres ambiciosos de poder
temporal constituem fileira quase interminável nos tempos atuais, mas não
poderão nunca destruir o Cristianismo na sua essência eterna, divina. A
misericórdia de Deus lhes tolera os insultos, mas há de chegar o tempo de se
restabelecer a verdade. Sou de opinião que tôdas as iniquidades da Terra são
impotentes para aniquilar uma centelha de nossa fé.

06 – ESE - 6. Mas, se há males nesta vida cuja causa primária é o homem, outros
há também aos quais, pelo menos na aparência, ele é completamente estranho e
que parecem atingi-lo como por fatalidade. (...) Todavia, por virtude do axioma
segundo o qual todo efeito tem uma causa, tais misérias são efeitos que hão de ter
uma causa e, desde que se admita um Deus justo, essa causa também há de ser
justa. Ora, ao efeito precedendo sempre a causa, se esta não se encontra na vida
atual, há de ser anterior a essa vida, isto é, há de estar numa existência precedente.
Por outro lado, não podendo Deus punir alguém pelo bem que fez, nem pelo mal
que não fez, se somos punidos, é que fizemos o mal; se esse mal não o fizemos na
presente vida, tê-lo-emos feito noutra. É uma alternativa a que ninguém pode fugir
e em que a lógica decide de que parte se acha a justiça de Deus. O homem, pois,
nem sempre é punido, ou punido completamente, na sua existência atual; mas
não escapa nunca às conseqüências de suas faltas. A prosperidade do mau é
apenas momentânea; se ele não expiar hoje, expiará amanhã, ao passo que aquele
que sofre está expiando o seu passado. O infortúnio que, à primeira vista, parece
imerecido tem sua razão de ser, e aquele que se encontra em sofrimento pode
sempre dizer: “Perdoa-me, Senhor, porque pequei.”

Comentário – Todos os que leram o livro concordarão comigo ao afirmar que


Madalena Vilamil muito sofreu, porém, nada há no livro que relate o que tenha
dado causa, nesta vida, das suas dores. Por que sofremos? Por que a vida nos leva
a circunstâncias que não podemos impedir, e que nos trazem profundos
amargores? Lembremos, então, de olhar o livro e estas vidas sob a luz do
Evangelho e, assim, encontraremos na Lei de Causa e Efeito o caminho do
entendimento das vicissitudes pelas quais atravessamos.

07 - (Renuncia – Madalena Vilamil com Padre Damiano) — Ah! sim? —


murmurou Damiano com um sorriso — quem sabe a nossa permanência em Ávila
constitui uma repetição de circunstâncias do passado ominoso? É possível que
tenhamos tido riqueza e autoridade, exercendo tirania. A casa. de Deus é cheia de
justiça com misericórdia. A viúva Davenport meditou alguns minutos nas
provações sofridas, considerou a razoabilidade dos conceitos expendidos e
concordou: — É verdade. Minha existência parece obedecer a êsse plano de
tributos expiatórios.

ESE - 7. Os sofrimentos devidos a causas anteriores à existência presente,


como os que se originam de culpas atuais, são muitas vezes a consequência da
falta cometida, isto é, o homem, pela ação de uma rigorosa justiça
distributiva, sofre o que fez sofrer aos outros. Se foi duro e desumano, poderá
ser a seu turno tratado duramente e com desumanidade; se foi orgulhoso, poderá
nascer em humilhante condição; se foi avaro, egoísta, ou se fez mau uso de suas
riquezas, poderá ver-se privado do necessário; se foi mau filho, poderá sofrer pelo
procedimento de seus filhos, etc.
Assim se explicam pela pluralidade das existências e pela destinação da Terra,
como mundo expiatório, as anomalias que apresenta a distribuição da ventura e da
desventura entre os bons e os maus neste planeta. Semelhante anomalia, contudo,
só existe na aparência, porque considerada tão só do ponto de vista da vida
presente. Aquele que se elevar, pelo pensamento, de maneira a apreender toda
uma série de existências, verá que a cada um é atribuída a parte que lhe
compete, sem prejuízo da que lhe tocará no mundo dos Espíritos, e verá que a
justiça de Deus nunca se interrompe.
Jamais deve o homem olvidar que se acha num mundo inferior, ao qual somente as
suas imperfeições o conservam preso. A cada vicissitude, cumpre-lhe lembrar-se
de que, se pertencesse a um mundo mais adiantado, isso não se daria e que só de si
depende não voltar a este, trabalhando por se melhorar.

Comentário – Interessante perceber que Madalena, com o auxilio do Padre


Damiano, tem valorosas sementes plantadas em seu coração. A dor e o sofrimento
da estrada a conduzirão a novos rumos. Alcione, quando pede para vir a Terra,
fala expressamente do seu ensejo de auxiliar a mãe. Não veio apenas socorrer
Polux, mas veio ao seio familiar, aos afetos do seu coração, para lhes auxiliar na
aproximação ao Pai Celestial. Espírito elevado, habitante de mundos superiores,
que não precisava mais reencarnar, aceita a dura missão, e ao lermos o livro fica
nítido e claro o quanto eles puderam avançar com este auxílio.

08 – (Renuncia – Antero) — Não blasfemes! Deus é Nosso Pai e nos criou para a
luz eterna. Somos os responsáveis pela queda nos desfiladeiros cruciais. A
Providência nos cerca de todos os carinhos, traça as sendas de amor que devemos
trilhar e, no entanto, meu filho, no círculo da liberdade humana, relativa, a paixão
nos aniquila, o orgulho nos cega, o egoismo nos encarcera em suas prisões
malsãs. Como poderias afiançar que o Senhor te conduziu a êste lugar
tenebroso, se desprezaste o roteiro da sua infinita misericórdia?

ESE - 8. As tribulações podem ser impostas a Espíritos endurecidos, ou


extremamente ignorantes, para levá-los a fazer uma escolha com
conhecimento de causa. Os Espíritos penitentes, porém, desejosos de reparar o
mal que hajam feito e de proceder melhor, esses as escolhem livremente.
Tal o caso de um que, havendo desempenhado mal sua tarefa, pede lha deixem
recomeçar, para não perder o fruto de seu trabalho. As tribulações, portanto, são,
ao mesmo tempo, expiações do passado, que recebe nelas o merecido castigo, e
provas com relação ao futuro, que elas preparam.
Rendamos graças a Deus, que, em sua bondade, faculta ao homem reparar seus
erros e não o condena irrevogavelmente por uma primeira falta.

Comentário – Vejamos quão valorosa esta relação das lições que Antero recebia,
já desencarnado, em sofrimento, e sendo atendido pela mãe, que o resgatava no
mundo espiritual para preparar-lhe nova encarnação. Recomeçar, tentar
novamente, unir a nossa jornada dores e sofrimentos que nos auxiliem a avançar.
Quando tudo vai bem estagnamos, vem, então, a escola dor, por acréscimo de
misericórdia divina, a nos impulsionar, nos fazer avançar!!
09 – (Renuncia – Antero e sua mãe Margarida – no plano espiritual)- — Não seria
mais acertado dizeres que conspiraste contra tudo? Combateste os sentimentos
nobres que te infundi na infância; guerreaste a paz do nosso lar; tramaste contra
os seres nascidos em liberdade. Onde pus, em teu coração, os ensinos do Cristo,
entronaste a indiferença; no caminho de duas almas em união santificada por
Jesus, semeaste a mentira e o sofrimento; nas regiões por Deus destinadas à vida
livre, plantaste os espinhos da escravidão. Não teria sido misericórdia arrancar-te
aos sorvedouros do mal, trazendo-te a esta noite desolada para que pudesses
meditar? Abençoa as dores que te ferem o espírito e estraçalham o coração. Essas
amarguras atrozes obrigam-te a calar, para que a verdade te fale à consciência.
Ainda para os mais broncos criminosos, endurecidos no mal, sempre surge um
momento em que, premidos pela dor, são forçados a ouvir a voz de Deus. O
réprobo soluçava nos braços da interlocutora, qual filho ansioso por desabafar
todas as mágoas no regaço materno. Aquelas palavras deram-lhe grande alento
ao coração delido.

ESE - 9. Não há crer, no entanto, que todo sofrimento suportado neste mundo
denote a existência de uma determinada falta. Muitas vezes são simples provas
buscadas pelo Espírito para concluir a sua depuração e ativar o seu progresso.
Assim, a expiação serve sempre de prova, mas nem sempre a prova é uma
expiação. Provas e expiações, todavia, são sempre sinais de relativa
inferioridade, porquanto o que é perfeito não precisa ser provado. Pode, pois,
um Espírito haver chegado a certo grau de elevação e, nada obstante, desejoso de
adiantar-se mais, solicitar uma missão, uma tarefa a executar, pela qual tanto mais
recompensado será, se sair vitorioso, quanto mais rude haja sido a luta. Tais são,
especialmente, essas pessoas de instintos naturalmente bons, de alma elevada, de
nobres sentimentos inatos, que parece nada de mau haverem trazido de suas
precedentes existências e que sofrem, com resignação toda cristã, as maiores dores,
somente pedindo a Deus que as possam suportar sem murmurar. Pode-se, ao
contrário, considerar como expiações as aflições que provocam queixas e
impelem o homem à revolta contra Deus.
Sem dúvida, o sofrimento que não provoca queixumes pode ser uma expiação;
mas, é indício de que foi buscada voluntariamente, antes que imposta, e constitui
prova de forte resolução, o que é sinal de progresso.

Comentário – O sofrimento de Antero difere em muito do sofrimento de Alcione.


Um decorre da rebeldia e do afastamento do Pai. Porém, Alcione nada fez que
justificasse as dores imensas que atravessou nesta vida, os enviados de Deus
suportam nossas dores, exemplificam, resignam-se ante o mal confiantes no dia de
amanhã, não revidam, não agridem, não buscam a justiça da Terra. Olhemos para
a nossa vida de forma corajosa e sincera, busquemos diferenciar nossas dores e
tenhamos a fé e a confiança no Altíssimo. Busquemos no Cristo o exemplo
inspirador de resignação e fé, ele, espírito puro, viveu nossas dores e fez da sua
experiência o caminho, a verdade e a vida que nós somos convidados a trilhar.

10 – (Renuncia – Antero e sua mãe Margarida – no plano espiritual)— Mas não


bastaria a misericórdia divina a meu favor? — volveu ansioso, por afastar a
perspectiva de humilhações no ambiente humano.

ESE - 10. Os Espíritos não podem aspirar à completa felicidade, enquanto


não se tenham tornado puros: qualquer mácula lhes interdita a entrada nos
mundos ditosos. São como os passageiros de um navio onde há pestosos, aos
quais se veda o acesso à cidade a que aportem, até que se hajam expurgado.
Mediante as diversas existências corpóreas é que os Espíritos se vão
expungindo, pouco a pouco, de suas imperfeições. As provações da vida os
fazem adiantar-se, quando bem suportadas. Como expiações, elas apagam as faltas
e purificam. São o remédio que limpa as chagas e cura o doente. Quanto mais
grave é o mal, tanto mais enérgico deve ser o remédio. Aquele, pois, que muito
sofre deve reconhecer que muito tinha a expiar e deve regozijar-se à idéia da sua
próxima cura. Dele depende, pela resignação, tornar proveitoso o seu sofrimento e
não lhe estragar o fruto com as suas impaciências, visto que, do contrário, terá de
recomeçar.

Comentário: Antero questiona, será preciso o sofrimento, a dor? Não pode a


misericórdia divina tudo perdoar? Eis o evangelho a responder a dúvida que não é
apenas dele, mas tantas vezes a fizemos ou a buscamos em nossas vidas.

11 - (Renuncia – Antero e sua mãe Margarida – no plano espiritual) A


misericórdia jamais falta, em tempo algum; ela permanece na afeição sincera dos
amigos espirituais, que velam por ti, e no próprio remorso que te molga o espírito
desolado. Deus tudo concede, mas não nos isenta das experiências necessárias. O
perdão do Pai, ao lavrador ocioso, está na repetição anual da época do plantio.
Nessa renovação de possibilidades, o semeador indolente encontra os meios de
regenerar-se, ao passo que o trabalhador diligente e ativo defronta condições de
engrandecimento sempre maior. Compreendes, agora, o perdão de Deus?
— Compreendo!

ESE - 11. Em vão se objeta que o esquecimento constitui obstáculo a que se possa
aproveitar da experiência de vidas anteriores.
Havendo Deus entendido de lançar um véu sobre o passado, é que há nisso
vantagem. Com efeito, a lembrança traria gravíssimos inconvenientes. Poderia, em
certos casos, humilhar-nos singularmente, ou, então, exaltar-nos o orgulho e,
assim, entravar o nosso livre-arbítrio. Em todas as circunstâncias, acarretaria
inevitável perturbação nas relações sociais. Freqüentemente, o Espírito renasce
no mesmo meio em que já viveu, estabelecendo de novo relações com as
mesmas pessoas, a fim de reparar o mal que lhes haja feito. Se reconhecesse
nelas as a quem odiara, quiçá o ódio se lhe despertaria outra vez no íntimo. De
todo modo, ele se sentiria humilhado em presença daquelas a quem houvesse
ofendido. Para nos melhorarmos, outorgou-nos Deus, precisamente, o de que
necessitamos e nos basta: a voz da consciência e as tendências instintivas. Priva-
nos do que nos seria prejudicial.
Ao nascer, traz o homem consigo o que adquiriu, nasce qual se fez; em cada
existência, tem um novo ponto de partida. Pouco lhe importa saber o que foi antes:
se se vê punido, é que praticou o mal. Suas atuais tendências más indicam o que
lhe resta a corrigir em si próprio e é nisso que deve concentrar-se toda a sua
atenção, porquanto, daquilo de que se haja corrigido completamente, nenhum traço
mais conservará. As boas resoluções que tomou são a voz da consciência,
advertindo-o do que é bem e do que é mal e dando-lhe forças para resistir às
tentações.

Comentário – Deus, Pai bondoso e cheio de misericórdia, nunca se esquece de


nós. Nos dá a benção das novas encarnações e do esquecimento enquanto
encarnados para que nosso espírito possa retomar, recomeçar, trilhar caminhos
diversos. Antero estava se preparando para nova jornada, Alcione o auxiliaria,
ambos sofreram, mas, novamente ressalto, em muito diferem as dores de Alcione e
Antero.

12 – (Antero reencarna – Alcione o recebe) — Será vosso servo — murmurou o


semiliberto, enxugando uma lágrima.
— Será meu filho — emendou a filha de D. Inácio, voltando incontinenti à sala,
onde a criança choramingava nos braços carinhosos da filha. Tomou-a e
conchegou-a ao coração. Não saberia jamais definir as doces comoções que se lhe
apossaram da alma generosa. Acariciou a mãozinha defeituosa, beijou-a com
ternura. O recém-nascido aquietou-se brandamente. E enquanto João de Deus se
despedia, para atender ao labor diuturno, a espôsa enfermiça de Cirilo Davenport
mergulhava num abismo de profundas interrogações. Por que mistério o filhinho
de Dolores ia reclamar seus carinhos maternais?
Contemplou-lhe detidamente os traços grosseiros, aliados aos defeitos físicos que
lhe haviam assinado tão doloroso destino. Mergulhada num mar de cismas
atrozes, rogou a Deus lhe concedesse fôrças para desempenhar a tarefa maternal
até ao fim. Não ignorava a extensão dos sacrifícios que a decisão lhe impunha nas
lides diárias... No entanto, a criança reclinada ao seio parecia falar-lhe
intimamente de um infinito reconhecimento. Não podia contar com as próprias
fôrças, mas habituara-se a confiar na misericórdia de Deus.

ESE - 12. Por estas palavras: Bem-aventurados os aflitos, pois que serão
consolados, Jesus aponta a compensação que hão de ter os que sofrem e a
resignação que leva o padecente a bendizer do sofrimento, como prelúdio da
cura.
Também podem essas palavras ser traduzidas assim:
Deveis considerar-vos felizes por sofrerdes, visto que as dores deste mundo são o
pagamento da dívida que as vossas passadas faltas vos fizeram contrair; suportadas
pacientemente na Terra, essas dores vos poupam séculos de sofrimentos na vida
futura. Deveis, pois, sentir-vos felizes por reduzir Deus a vossa dívida, permitindo
que a saldeis agora, o que vos garantirá a tranquilidade no porvir.
O homem que sofre assemelha-se a um devedor de avultada soma, a quem o credor
diz: “Se me pagares hoje mesmo a centésima parte do teu débito, quitar-te-ei do
restante e ficarás livre; se o não fizeres, atormentar-te-ei, até que pagues a última
parcela.” Não se sentiria feliz o devedor por suportar toda espécie de privações
para se libertar, pagando apenas a centésima parte do que deve? Em vez de se
queixar do seu credor, não lhe ficará agradecido? Tal o sentido das palavras:
“Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados.” São ditosos, porque se
quitam e porque, depois de se haverem quitado, estarão livres. Se, porém, o
homem, ao quitar-se de um lado, endivida-se de outro, jamais poderá alcançar a
sua libertação.
Ora, cada nova falta aumenta a dívida, porquanto nenhuma há, qualquer que ela
seja, que não acarrete forçosa e inevitavelmente uma punição. Se não for hoje, será
amanhã; se não for na vida atual, será noutra. Entre essas faltas, cumpre se coloque
na primeira fiada a carência de submissão à vontade de Deus. Logo, se
murmurarmos nas aflições, se não as aceitarmos com resignação e como algo que
devemos ter merecido, se acusarmos a Deus de ser injusto, nova dívida contraímos,
que nos faz perder o fruto que devíamos colher do sofrimento. É por isso que
teremos de recomeçar, absolutamente como se, a um credor que nos atormente,
pagássemos uma cota e a tomássemos de novo por empréstimo.
Ao entrar no mundo dos Espíritos, o homem ainda está como o operário que
comparece no dia do pagamento. A uns dirá o Senhor: “Aqui tens a paga dos teus
dias de trabalho”; a outros, aos venturosos da Terra, aos que hajam vivido na
ociosidade, que tiverem feito consistir a sua felicidade nas satisfações do amor-
próprio e nos gozos mundanos: “Nada vos toca, pois que recebestes na Terra o
vosso salário. Ide e recomeçai a tarefa.”

Comentário – Ouçamos a lição do Evangelho ressoar na nova vida de Antero:


“Ide e recomeçai a tarefa.” Quão gratos devemos ser pela escola divina da dor,
que nos permite parcelar nossas culpas e nossas falhas em diminutas prestações, e
nos dá a esperança da quitação dos débitos e dum amanhã de ventura e felicidade,
em mundos onde o bem reina e a luz divina a todos abraça.

13 – (Renuncia – Alcione e Carlos) — Neste mundo não será possível acordar


para os elevados domínios do conhecimento, sem nos voltarmos com atenção para
o problema da dor. Desde cedo, habituei-me a rebuscar comparações. Por que o
leproso, ao lado dos de rosto brilhante? Por que se confundem, na mesma rua, os
felizes e os desventurados? Seria justiça ministrar o pão a alguns e as pedras a
muitos? No quadro da teologia atual, o Criador seria quase cruel. Mas é tão
grande a misericórdia divina que o Pai permite aos filhos a enunciação dos mais
loucos raciocínios, até que se compenetrem da grandeza acolhedora do seu amor
desvelado. Naturalmente, Carlos, somos espíritos integrando a enorme caravana
da Humanidade. Teremos falido inúmeras vezes, fugindo aos desígnios do Senhor
para atender a nossos caprichos misérrimos. No entanto, a Providência nos
acolhe de novo na escola terrestre, dando-nos um corpo diferente e renovando-nos
a oportunidade sacrossanta... O jovem sacerdote tinha a impressão de ouvir um
anjo a esclarecer a essência dos mistérios divinos.

ESE - 13. O homem pode suavizar ou aumentar o amargor de suas provas,


conforme o modo por que encare a vida terrena. Tanto mais sofre ele, quanto mais
longa se lhe afigura a duração do sofrimento. Ora, aquele que a encara pelo prisma
da vida espiritual apanha, num golpe de vista, a vida corpórea. Ele a vê como um
ponto no infinito, compreende-lhe a curteza e reconhece que esse penoso momento
terá presto passado. A certeza de um próximo futuro mais ditoso o sustenta e anima
e, longe de se queixar, agradece ao Céu as dores que o fazem avançar.
Contrariamente, para aquele que apenas vê a vida corpórea, interminável lhe
parece esta, e a dor o oprime com todo o seu peso. Daquela maneira de considerar
a vida, resulta ser diminuída a importância das coisas deste mundo, e sentir-se
compelido o homem a moderar seus desejos, a contentar-se com a sua posição, sem
invejar a dos outros, a receber atenuada a impressão dos reveses e das decepções
que experimente. Daí tira ele uma calma e uma resignação tão úteis à saúde do
corpo quanto à da alma, ao passo que, com a inveja, o ciúme e a ambição,
voluntariamente se condena à tortura e aumenta as misérias e as angústias da sua
curta existência.

Comentário – Dois olhares diferentes para a vida, Alcione e Carlos, almas que se
buscavam desde muitas vidas, percebiam o reencontro de forma diferente. A luz do
Evangelho nos permite a correta percepção da diferença do entendimento de um e
de outro. Saibamos nós colher esta lições para nossas vidas, buscando as lentes do
entendimento elevado para alcançar as lições que esta existência quer nos
oferecer.

14 - (Renuncia – Alcione e Carlos) — Lembremos, Carlos, os antigos apóstolos


da Igreja, quando advertiam que, depois de cumpridos todos os deveres, ainda
nos deveríamos considerar servos inúteis, porque tudo nos vem da misericórdia
divina... O rapaz admirava-lhe a energia afetuosa, caíra novamente em si do
desvario momentâneo que lhe perturbara os sentidos, mas conservava-se inerte,
deixando correr copiosas lágrimas. Profundamente comovida, a jovem acentuou:
— Não posso dar o beijo que pediste, mas posso dar-te o ósculo de minh’alma.

ESE - 14. A calma e a resignação hauridas da maneira de considerar a vida


terrestre e da confiança no futuro dão ao espírito uma serenidade que é o melhor
preservativo contra a loucura e o suicídio. Com efeito, é certo que a maioria dos
casos de loucura se deve à comoção produzida pelas vicissitudes que o homem
não tem a coragem de suportar. Ora, se encarando as coisas deste mundo da
maneira por que o Espiritismo faz que ele as considere, o homem recebe com
indiferença, mesmo com alegria, os reveses e as decepções que o houveram
desesperado noutras circunstâncias, evidente se torna que essa força, que o coloca
acima dos acontecimentos, lhe preserva de abalos a razão, os quais, se não fora
isso, a conturbariam.

Comentário – Alcione, calma, resignada, confiava nos desígnios do Pai,


permitindo-lhe um viver sereno, e deixando-se consolar quando a vida lhe era
dura. Carlos, debateu-se contra os propósitos divinas, para nós, atos
compreensíveis, porém, aos olhos da justiça divina, loucura. Caminhemos
refletindo sobre estas valorosas lições.

15 – (Renúncia – Alcione – Padre Damiano)


“A jovem, notando-lhe a preocupação sincera, procurou esquivar-se ao assunto
que lhe dizia respeito. E vendo-lhe os pés descalços, perguntou: — Onde está o
agasalho de lã? O senhor não pode ficar assim...
Ele sorriu e informou:
— Guardei-o na mala.
— Por quê? — insistiu surpreendida.
— Creio que, para a semana, me recolherei ao pavilhão dos indigentes, na
Misericórdia, ou na casa dos pobres de São Ladres.
— Não pode ser — exclamou a filha de Cirilo, contristada —, não podemos
concordar com o seu recolhimento a casas religiosas, como indigente. Nós ainda
aqui estamos...
Assim falando, a menina Vilamil tinha o aspecto mortificado de uma filha
angustiada.
— Que tem isso, Alcione? — tornou o religioso, serenamente — não devo
sobrecarregar teu coração, que enfrenta agora tantas lutas em silêncio! Além
disso, não será útil o meu internamento nas instituições piedosas? Atualmente não
me poderei ocupar dos ofícios eclesiásticos, mas lá, entre os necessitados, talvez
encontre algum serviço nas prédicas evangélicas aos mais desditosos. A
resignação do velho amigo provocava-lhe pranto copioso.”

ESE - 15. (...) Ora, aquele que está certo de que só é desventurado por um dia e que
melhores serão os dias que hão de vir, enche-se facilmente de paciência. Só se
desespera quando nenhum termo divisa para os seus sofrimentos. E que é a vida
humana, com relação à eternidade, senão bem menos que um dia? Mas, para o que
não crê na eternidade e julga que com a vida tudo se acaba, se os infortúnios e as
aflições o acabrunham, unicamente na morte vê uma solução para as suas
amarguras. Nada esperando, acha muito natural, muito lógico mesmo, abreviar
pelo suicídio as suas misérias.

Comentário – Amigos, em todas as leituras anteriores nunca tinha me apercebido


do imenso resgate que Emmanuel fez nesta vida como Padre Damiano, e, agora,
com as lentes do evangelho, também percebo o quanto Alcione o auxiliou. Juntos,
na seara do Cristo, irmanados nas lições evangélicas. Quem ensinou quem? Difícil
dizer, mas é certo que ambos ampararam-se, ombro a ombro, com os olhos
elevados aos céus divinas, à misericórdia do Pai que lhes abraçava a cada
instante, “Deus não é avaro de misericórdia”.

16 ( Renuncia – Alcione e Padre Damiano)


A resignação do velho amigo provocava-lhe pranto copioso. — O catre da
indigência — continuou Damiano — deve proporcionar meditações sadias. E não
será isso um acréscimo de misericórdia? Basta lembrar que o Mestre não o teve.
Seu derradeiro pouso foi a cruz; seu último caldo um pouco de vinagre; sua última
lembrança do mundo a coroa de espinhos!...

- 16. A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as idéias materialistas,


numa palavra, são os maiores incitantes ao suicídio; ocasionam a covardia
moral. Quando homens de ciência, apoiados na autoridade do seu saber, se
esforçam por provar aos que os ouvem ou lêem que estes nada têm a esperar depois
da morte, não estão de fato levando-os a deduzir que, se são desgraçados, coisa
melhor não lhes resta senão se matarem? Que lhes poderiam dizer para desviá-los
dessa consequência? Que compensação lhes podem oferecer? Que esperança lhes
podem dar? Nenhuma, a não ser o nada. Daí se deve concluir que, se o nada é o
único remédio heróico, a única perspectiva, mais vale buscá-lo imediatamente e
não mais tarde, para sofrer por menos tempo.
A propagação das doutrinas materialistas é, pois, o veneno que inocula a idéia do
suicídio na maioria dos que se suicidam, e os que se constituem apóstolos de
semelhantes doutrinas assumem tremenda responsabilidade.
Com o Espiritismo, tornada impossível a dúvida, muda o aspecto da vida. O crente
sabe que a existência se prolonga indefinidamente para lá do túmulo, mas em
condições muito diversas; donde a paciência e a resignação que o afastam
muito naturalmente de pensar no suicídio; donde, em suma, a coragem moral.

Comentário – Este trecho é fantástico!!! Lembremos do livro Há 2000 anos que


nos relata a vida do senador Publio Lentulus, que diante de Jesus não permitiu
que as ideias de amor e perdão do mestre adentrassem em seu coração. Vejamos,
agora, este mesmo senador, reencarnado, como Padre Damiano. O materialismo,
o orgulho, foram a ruína de outrora do Padre Damiano, porém, nesta vida o
entendimento vivenciado lhe permitiu uma atitude resignada ante as agruras da
vida. Mas a grande questão é percebermos a misericórdia de Deus intervindo na
vida do Padre Damiano, Alcione vem auxiliá-lo, o amor de Deus nos acolhe
através das ações de seus anjos. Pensemos que a reflexão do ESSE é sobre
suicídio, que pode dar-se de muitas formas, nos dias atuais temos a depressão a
colher a tantos, que é, nas palavras de uma amiga, um querer morrer aos poucos,
é um matar-se, é deixar a vontade de viver ir embora. Quantos não desencarnam
como suidades inconscientes!!! E muito sofreríamos, não fossem estes abnegados
trabalhadores do Cristo que nos alcançam e nos resgatam das trevas que criamos
para nós mesmos.
17 – Renúncia (Alcíone e Padre Damiano)
— Não, não é o dinheiro que me preocupa, e sim as suas necessidades...
Não concordo com a sua transferência para a Misericórdia. Se não puder ficar
aqui, ficará em nossa casa. E como o sacerdote experimentasse certa dificuldade
para redargüir, Alcione continuou:
— Perdoe-me, se intervenho ousadamente em tal assunto, mas o que reclamo tem
prerrogativas de direito — o direito da amizade. Sempre o considerei um pai.
Diga-me: quanto pede o reverendo Amâncio pelas suas novas acomodações? De
olhos brilhantes no testemunho de humildade daquela hora de extremas
provações, Damiano respondeu:
— Duzentos francos para a aquisição de utensílios e pagamentos iniciais a um
serviçal.

ESE - 17. O Espiritismo ainda produz, sob esse aspecto, outro resultado igualmente
positivo e talvez mais decisivo. Apresenta-nos os próprios suicidas a informar-nos
da situação desgraçada em que se encontram e a provar que ninguém viola
impunemente a lei de Deus, que proíbe ao homem encurtar a sua vida. Entre os
suicidas, alguns há cujos sofrimentos, nem por serem temporários e não eternos,
não são menos terríveis e de natureza a fazer refletir os que porventura pensam em
daqui sair, antes que Deus o haja ordenado. O espírita tem, assim, vários motivos
a contrapor à idéia do suicídio: a certeza de uma vida futura, em que, sabe-o
ele, será tanto mais ditoso, quanto mais inditoso e resignado haja sido na
Terra: a certeza de que, abreviando seus dias, chega, precisamente, a resultado
oposto ao que esperava; que se liberta de um mal, para incorrer num mal pior,
mais longo e mais terrível; que se engana, imaginando que, com o matar-se, vai
mais depressa para o céu; que o suicídio é um obstáculo a que no outro mundo ele
se reúna aos que foram objeto de suas afeições e aos quais esperava encontrar;
donde a conseqüência de que o suicídio, só lhe trazendo decepções, é contrário aos
seus próprios interesses. Por isso mesmo, considerável já é o número dos que têm
sido, pelo Espiritismo, obstados de suicidar-se, podendo daí concluir-se que,
quando todos os homens forem espíritas, deixará de haver suicídios conscientes.
Comparando-se, então, os resultados que as doutrinas materialistas produzem com
os que decorrem da Doutrina Espírita, somente do ponto de vista do suicídio,
forçoso será reconhecer que, enquanto a lógica das primeiras a ele conduz, a
da outra o evita, fato que a experiência confirma.

Comentário – Atos de resignação ante a dor e o sofrimento nos remetem a um


novo viver. Acomodar-se à vontade divina, entendendo a dor como escola que vem
nos socorrer, nos dar novas lentes para aspectos da vida que desconhecíamos, eis
toda a lição que Damiano experimenta nesta jornada. Se olharmos apenas para a
vida relatada neste livro, teríamos uma visão equivocada, que fez o Padre para
merecer tanto sofrimento no final da jornada? Não se trata de punição, mas de
escola divina, lapidando o diamante que somos.

18 – (Renúncia – Alcione e Padre Damiano) — Sim, mas é preciso guardar


segrêdo. Mamãe sofreria muito se viesse a saber. Se não arranjarmos o dinheiro,
padre Damiano irá parar na Misericórdia e talvez nunca mais o vejamos.
Cantaremos só amanhã, porque depois é possível que eu arranje trabalho para
nós.

ESE - 18. Quando o Cristo disse: “Bem-aventurados os aflitos, o reino dos


céus lhes pertence”, não se referia de modo geral aos que sofrem, visto que
sofrem todos os que se encontram na Terra, quer ocupem tronos, quer jazam
sobre a palha. Mas, ah! poucos sofrem bem; poucos compreendem que
somente as provas bem suportadas podem conduzi-los ao reino de Deus. O
desânimo é uma falta. Deus vos recusa consolações, desde que vos falte coragem.
A prece é um apoio para a alma; contudo, não basta: é preciso tenha por base uma
fé viva na bondade de Deus. Ele já muitas vezes vos disse que não coloca fardos
pesados em ombros fracos.
O fardo é proporcionado às forças, como a recompensa o será à resignação e à
coragem. Mais opulenta será a recompensa, do que penosa a aflição. Cumpre,
porém, merecê-la, e é para isso que a vida se apresenta cheia de tribulações. O
militar que não é mandado para as linhas de fogo fica descontente, porque o
repouso no campo nenhuma ascensão de posto lhe faculta. Sede, pois, como o
militar e não desejeis um repouso em que o vosso corpo se enervaria e se
entorpeceria a vossa alma. Alegrai-vos, quando Deus vos enviar para a luta. Não
consiste esta no fogo da batalha, mas nos amargores da vida, onde, às vezes, de
mais coragem se há mister do que num combate sangrento, porquanto não é raro
que aquele que se mantém firme em presença do inimigo fraqueje nas tenazes de
uma pena moral. Nenhuma recompensa obtém o homem por essa espécie de
coragem; mas, Deus lhe reserva palmas de vitória e uma situação gloriosa. Quando
vos advenha uma causa de sofrimento ou de contrariedade, sobreponde-vos a ela,
e, quando houverdes conseguido dominar os ímpetos da impaciência, da cólera, ou
do desespero, dizei, de vós para convosco, cheio de justa satisfação: “Fui o mais
forte.” Bem-aventurados os aflitos pode então traduzir-se assim: Bem-
aventurados os que têm ocasião de provar sua fé, sua firmeza, sua
perseverança e sua submissão à vontade de Deus, porque terão centuplicada a
alegria que lhes falta na Terra, porque depois do labor virá o repouso. –
Lacordaire. (Havre, 1863.)

Comentário – Interessante reflexão nos remete este trecho, eis que Alcione quer
poupar a mãe, que ainda apresentava aspectos de grande fragilidade, apesar de já
trilhar caminhos de profundo entendimento da lei divina e do amor do Pai.
Estamos todos juntos, mas cada um suporta o seu cadinho de dor, mediante o
momento evolutivo em que se encontra. Alcione foi muito além que qualquer dos
integrantes do livro, contemporâneos dela. Soube resignar-se e foi exemplo eficaz,
árvore frutífera, na vida de seus familiares. Sua missão na Terra foi de
esplendorosa luz, ainda hoje, temos dificuldades para absorver as valorosas
lições, como pode alguém tão bom, tanto sofrer? O maior amor que já pisou neste
planeta foi levado a cruz. A questão é saber se ainda hoje o fazemos. Se o Cristo
nascesse entre nós, o reconheceríamos? Se Alcione estivesse entre nós, o
saberíamos?Já estamos aptos de ver o amor encarnado ou ainda somos cegos
guiando cegos?

19 - (Renúncia – Alcione e Padre Damiano)


— Cinjo-me às próprias lições que me destes desde a infância. Será que Jesus
peregrinou pela Terra sõmente para que o admirássemos? Teria sido escrito o
Evangelho apenas para que os homens encontrassem nas suas páginas motivos de
apologias brilhantes? Sua palavra, padre, não me inculcou, sempre, que
permanecemos no mundo com o santo objetivo de purificar o coração? Deus
quer que nos amemos uns aos outros. Sua misericórdia, de quando em quando,
reúne fortuitamente os próprios inimigos, para verificar se já estão prontos à
tarefa sacrossanta do amor. Se a Providência Divina me conduz agora aos braços
paternos, por que e como contrariar seus insondáveis desígnios?

ESE - 19. Será a Terra um lugar de gozo, um paraíso de delícias? Já não ressoa
mais aos vossos ouvidos a voz do profeta? Não proclamou ele que haveria prantos
e ranger de dentes para os que nascessem nesse vale de dores? Esperai, pois, todos
vós que aí viveis, causticantes lágrimas e amargo sofrer e, por mais agudas e
profundas sejam as vossas dores, volvei o olhar para o Céu e bendizei do Senhor
por ter querido experimentar-vos... Ó homens! dar-se-á não reconheçais o poder do
vosso Senhor, senão quando ele vos haja curado as chagas do corpo e coroado de
beatitude e ventura os vossos dias? Dar-se-á não reconheçais o seu amor, senão
quando vos tenha adornado o corpo de todas as glórias e lhe haja restituído o brilho
e a brancura? Imitai aquele que vos foi dado para exemplo. Tendo chegado ao
último grau da abjeção e da miséria, deitado sobre uma estrumeira, disse ele a
Deus: “Senhor, conheci todos os deleites da opulência e me reduzistes à mais
absoluta miséria; obrigado, obrigado, meu Deus, por haverdes querido
experimentar o vosso servo!” Até quando os vossos olhares se deterão nos
horizontes que a morte limita? Quando, afinal, vossa alma se decidirá a lançar-se
para além dos limites de um túmulo? Houvésseis de chorar e sofrer a vida inteira,
que seria isso, a par da eterna glória reservada ao que tenha sofrido a prova com fé,
amor e resignação? Buscai consolações para os vossos males no porvir que Deus
vos prepara e procurai-lhe a causa no passado. E vós, que mais sofreis, considerai-
vos os afortunados da Terra.
Como desencarnados, quando pairáveis no Espaço, escolhestes as vossas provas,
julgando-vos bastante fortes para as suportar. Por que agora murmurar? Vós, que
pedistes a riqueza e a glória, queríeis sustentar luta com a tentação e vencê-la. Vós,
que pedistes para lutar de corpo e espírito contra o mal moral e físico, sabíeis que
quanto mais forte fosse a prova, tanto mais gloriosa a vitória e que, se triunfásseis,
embora devesse o vosso corpo parar numa estrumeira, dele, ao morrer, se
desprenderia uma alma de rutilante alvura e purificada pelo batismo da expiação e
do sofrimento. Que remédio, então, prescrever aos atacados de obsessões cruéis e
de cruciantes males? Só um é infalível: a fé, o apelo ao Céu. Se, na maior
acerbidade dos vossos sofrimentos, entoardes hinos ao Senhor, o anjo, à vossa
cabeceira, com a mão vos apontará o sinal da salvação e o lugar que um dia
ocupareis... A fé é o remédio seguro do sofrimento; mostra sempre os
horizontes do infinito diante dos quais se esvaem os poucos dias brumosos do
presente. Não nos pergunteis, portanto, qual o remédio para curar tal úlcera ou tal
chaga, para tal tentação ou tal prova. Lembrai-vos de que aquele que crê é forte
pelo remédio da fé e que aquele que duvida um instante da sua eficácia é
imediatamente punido, porque logo sente as pungitivas angústias da aflição. O
Senhor apôs o seu selo em todos os que nele crêem.
O Cristo vos disse que com a fé se transportam montanhas e eu vos digo que
aquele que sofre e tem a fé por amparo ficará sob a sua égide e não mais sofrerá.
Os momentos das mais fortes dores lhe serão as primeiras notas alegres da
eternidade. Sua alma se desprenderá de tal maneira do corpo que, enquanto se
estorcer em convulsões, ela planará nas regiões celestes, entoando, com os anjos,
hinos de reconhecimento e de glória ao Senhor.
Ditosos os que sofrem e choram! Alegres estejam suas almas, porque Deus as
cumulará.

Comentário – Neste trecho do livro, Alcione já sabe que Cirilo é seu pai, sabe dos
enganos e mentiras do passado que tanto fizeram sua mãe sofrer. Mas, novamente,
adentra com infinito amor nesta casa, proporcionando-lhes lição imorredoura,
testemunho vivo de abnegação, renúncia!!! Se nos é difícil assimilar a conduta de
Alcione, reconheçamos que ainda estamos em momento evolutivo muito inferior.
Mas, que fique a lição, e que ela nos inspire. Se queremos auxiliar alguém, seja o
amor nossa bandeira de luz. Estejamos aptos a sofrer com resignação para
alcançarmos os corações que sofrem e choram distantes do Pai.

20 – (Renúncia – Alcíone e Suzana e familia Davenport)


— Tais impressões devem ser passageiras. O Evangelho é mensagem de salvação,
nunca de tormento. Na realidade, conhecemos a extensão da nossa indigência e o
grau das nossas fraquezas; mas a misericórdia divina restaria imota sem as
nossas quedas e dolorosas necessidades, O Cristianismo jamais será doutrina de
regras implacáveis, mas sim a história e a exemplificação das almas
transformadas com Jesus, para glória de Deus. Se as lições do Mestre apenas nos
oferecessem motivos de condenação, onde estariam as grandes figuras evangélicas
de Maria Madalena, Paulo de Tarso e tantas outras? No entanto, a pecadora
transformada foi a mensageira da ressurreição; o inflexível e cruel perseguidor
convertido recebeu de Jesus a missão de iluminar o gentilismo. Susana seguia a
exposição, de olhos muito brilhantes. Nunca sentira tamanha impressão de bem-
estar, no trato das leituras santas. Nas confissões, que nunca chegara a conjugar
com a grande falta da sua vida, nada recebia dos sacerdotes, senão amargas
recriminações. Os padres lhe ministravam penitências, mas nunca lhe ofereciam
roteiro seguro. Sempre dera ao altar valiosas contribuições monetárias, mas
agora chegava à conclusão de que era indispensável cooperar, com todas as
energias espirituais, para o próprio aperfeiçoamento. — Tuas interpretações —
asseverou a senhora Davenport — são altamente consoladoras. De uns tempos
para cá, venho refletindo amargurada na inutilidade de muitos ensinamentos
recebidos na infância. Por que terei aprendido a virtude e não a cultivo a rigor?
E, com tais dúvidas íntimas, passo a analisar as criaturas com profundo
pessimismo, chegando a crer que a humanidade, de modo geral, vive negando
Jesus a cada momento.

ESE - 20. Não sou feliz! A felicidade não foi feita para mim! Exclama geralmente
o homem em todas as posições sociais. Isso, meus caros filhos, prova, melhor do
que todos os raciocínios possíveis, a verdade desta máxima do Eclesiastes: “A
felicidade não é deste mundo.” Com efeito, nem a riqueza, nem o poder, nem
mesmo a florida juventude são condições essenciais à felicidade. Digo mais:
nem mesmo reunidas essas três condições tão desejadas, porquanto
incessantemente se ouvem, no seio das classes mais privilegiadas, pessoas de
todas as idades se queixarem amargamente da situação em que se encontram.
Diante de tal fato, é inconcebível que as classes laboriosas e militantes invejem
com tanta ânsia a posição das que parecem favorecidas da fortuna. Neste mundo,
por mais que faça, cada um tem a sua parte de labor e de miséria, sua cota de
sofrimentos e de decepções, donde facilmente se chega à conclusão de que a Terra
é lugar de provas e de expiações. Assim, pois, os que pregam que ela é a única
morada do homem e que somente nela e numa só existência é que lhe cumpre
alcançar o mais alto grau das felicidades que a sua natureza comporta, iludem-se e
enganam os que os escutam, visto que demonstrado está, por experiência arqui-
secular, que só excepcionalmente este globo apresenta as condições necessárias à
completa felicidade do indivíduo. Em tese geral pode afirmar-se que a felicidade é
uma utopia a cuja conquista as gerações se lançam sucessivamente, sem jamais
lograrem alcançá-la. Se o homem ajuizado é uma raridade neste mundo, o homem
absolutamente feliz jamais foi encontrado.
O em que consiste a felicidade na Terra é coisa tão efêmera para aquele que não
tem a guiá-lo a ponderação, que, por um ano, um mês, uma semana de satisfação
completa, todo o resto da existência é uma série de amarguras e decepções. E notai,
meus caros filhos, que falo dos venturosos da Terra, dos que são invejados pela
multidão.
Conseguintemente, se à morada terrena são peculiares as provas e a expiação,
forçoso é se admita que, algures, moradas há mais favorecidas, onde o Espírito,
conquanto aprisionado ainda numa carne material, possui em toda a plenitude os
gozos inerentes à vida humana. Tal a razão por que Deus semeou, no vosso
turbilhão, esses belos planetas superiores para os quais os vossos esforços e as
vossas tendências vos farão gravitar um dia, quando vos achardes suficientemente
purificados e aperfeiçoados.
Todavia, não deduzais das minhas palavras que a Terra esteja destinada para
sempre a ser uma penitenciária. Não, certamente! Dos progressos já realizados,
podeis facilmente deduzir os progressos futuros e, dos melhoramentos sociais
conseguidos, novos e mais fecundos melhoramentos. Essa a tarefa imensa cuja
execução cabe à nova doutrina que os Espíritos vos revelaram.
Assim, pois, meus queridos filhos, que uma santa emulação vos anime e que cada
um de vós se despoje do homem velho. Deveis todos consagrar-vos à propagação
desse Espiritismo que já deu começo à vossa própria regeneração. Corre-vos o
dever de fazer que os vossos irmãos participem dos raios da sagrada luz.
Mãos, portanto, à obra, meus muito queridos filhos! Que nesta reunião solene
todos os vossos corações aspirem a esse grandioso objetivo de preparar para
as gerações porvindouras um mundo onde já não seja vã a palavra felicidade.
– François- -Nicolas-Madeleine, cardeal Morlot. (Paris, 1863.)
Comentário – Quanta aflição não passou Suzana com suas ações buscando
interesse pessoal em detrimento de vidas, alicerçando sua vida em mentiras
escabrosas. Ante as lições evangélicas que Alcione compartilha com o grupo,
Suzane reflete, questiona-se, sementes que são lançadas em seu coração. Solo
repleto de espinhos, ainda não estava pronta para seguir adiante, mas ninguém se
perderá. Ainda que nesta vida lhe tenha sido a loucura o caminho final, eis os
brotos do arrependimento a nascer em seu coração.

21 (Renúncia – Alcione e família Davenport)


— Certo, a esperança em Cristo será sempre um refúgio indispensável na hora da
partida, mas a advertência apostólica nos convoca a ilações mais graves.
Lembremos os perversos que aceitam Jesus na hora extrema. Muita gente,
portadora de crimes inomináveis, faz ato de fé no leito de morte. Enquanto têm
saúde e mocidade, vivem ao léu, entre caprichos e desregramentos; mas tanto que
o corpo quebrantado lhes dá idéias de morte, alarmam-se e desfazem-se em
rogativas a Deus. Podem, criaturas que tais, esperar de pronto, imediata, a glória
do Cristo? E os que se sacrificam nas aras do dever enquanto lhes resta uma
partícula de fôrças? Claudicaria a justiça, em suma, se afinal a virtude se
confundisse com o crime, a verdade com a mentira, o labor com a ociosidade.
Certo que será sempre útil recorrer à misericórdia do Senhor, ainda que
manchados até aos cabelos, bem como acreditar que, para toda enfermidade,
haverá remédio adequado. Penso, porém, que a assertiva de Paulo não se refere
ao termo da vida corporal, fenômeno natural e apanágio de justos e de injustos, de
piedosos e de impios. Bafejado pela divina inspiração, o amigo do gentilismo
aludiu, por certo, à morte da “criatura velha”, que está dentro de todos nós. E’ a
personalidade egoística e má, que trazemos conosco e precisamos combater a
cada dia, para que possamos viver em Cristo. A existência terrestre é um
aprendizado em que nos consumimos devagarinho, de modo a atingir a plenitude
do Mestre. No plano da própria materialidade, poderemos observar esse
imperativo da lei. A infância, a mocidade e a decrepitude, em seu aspecto de
transitoriedade, não podem representar a vida. São fases de luta, demonstrações
da sagrada oportunidade concedida por Deus para nos expurgarmos da grosseria
dos sentimentos, da crosta de imperfeição. Costuma-se dizer que a velhice é um
ataúde de fantasias mortas, mas isso apenas se verifica com os que não souberam
ou não quiseram “morrer” com o Cristo para alcançar a fonte eterna da sua vida
gloriosa. Quem se valeu da possibilidade divina tão somente para cultivar ilusões
balofas, não poderá encontrar mais que o fantasma dos seus enganos
caprichosos. A criatura, porém, que caminhou de olhos fixos em Jesus, em
todos os pormenores da tarefa, essa, naturalmente, conquistou o segrêdo de viver
triunfante acima de quaisquer circunstâncias adversas. Jesus palpita em seus
atos, palavras e pensamentos. Seu coração, na pobreza ou na abastança, será
como flor de luz, aberta ao sol da vida eterna!...

ESE - 21. Quando a morte ceifa nas vossas famílias, arrebatando, sem restrições,
os mais moços antes dos velhos, costumais dizer: Deus não é justo, pois sacrifica
um que está forte e tem grande futuro e conserva os que já viveram longos anos
cheios de decepções; pois leva os que são úteis e deixa os que para nada mais
servem; pois despedaça o coração de uma mãe, privando-a da inocente criatura que
era toda a sua alegria.
Humanos, é nesse ponto que precisais elevar-vos acima do terra-a-terra da vida,
para compreenderdes que o bem, muitas vezes, está onde julgais ver o mal, a sábia
previdência onde pensais divisar a cega fatalidade do destino.
Por que haveis de avaliar a justiça divina pela vossa? Podeis supor que o Senhor
dos mundos se aplique, por mero capricho, a vos infligir penas cruéis? Nada se faz
sem um fim inteligente e, seja o que for que aconteça, tudo tem a sua razão de ser.
Se perscrutásseis melhor todas as dores que vos advêm, nelas encontraríeis
sempre a razão divina, razão regeneradora, e os vossos miseráveis interesses
se tornariam de tão secundária consideração, que os atiraríeis para o último
plano.
Crede-me, a morte é preferível, numa encarnação de vinte anos, a esses
vergonhosos desregramentos que pungem famílias respeitáveis, dilaceram corações
de mães e fazem que antes do tempo embranqueçam os cabelos dos pais.
Freqüentemente, a morte prematura é um grande benefício que Deus concede
àquele que se vai e que assim se preserva das misérias da vida, ou das seduções
que talvez lhe acarretassem a perda. Não é vítima da fatalidade aquele que morre
na flor dos anos; é que Deus julga não convir que ele permaneça por mais tempo
na Terra.
É uma horrenda desgraça, dizeis, ver cortado o fio de uma vida tão prenhe de
esperanças! De que esperanças falais? Das da Terra, onde o liberto houvera podido
brilhar, abrir caminho e enriquecer? Sempre essa visão estreita, incapaz de elevar-
se acima da matéria. Sabeis qual teria sido a sorte dessa vida, ao vosso parecer tão
cheia de esperanças?
Quem vos diz que ela não seria saturada de amarguras?
Desdenhais então das esperanças da vida futura, ao ponto de lhe preferirdes as da
vida efêmera que arrastais na Terra? Supondes então que mais vale uma posição
elevada entre os homens, do que entre os Espíritos bem-aventurados? Em vez de
vos queixardes, regozijai-vos quando praz a Deus retirar deste vale de misérias um
de seus filhos. Não será egoístico desejardes que ele aí continuasse para sofrer
convosco? Ah! essa dor se concebe naquele que carece de fé e que vê na morte
uma separação eterna. Vós, espíritas, porém, sabeis que a alma vive melhor quando
desembaraçada do seu invólucro corpóreo. Mães, sabei que vossos filhos bem-
amados estão perto de vós; sim, estão muito perto; seus corpos fluídicos vos
envolvem, seus pensamentos vos protegem, a lembrança que deles guardais os
transporta de alegria, mas também as vossas dores desarrazoadas os afligem,
porque denotam falta de fé e exprimem uma revolta contra a vontade de Deus.
Vós, que compreendeis a vida espiritual, escutai as pulsações do vosso coração a
chamar esses entes bem-amados e, se pedirdes a Deus que os abençoe, em vós
sentireis fortes consolações, dessas que secam as lágrimas; sentireis aspirações
grandiosas que vos mostrarão o porvir que o soberano Senhor prometeu. – Sanson,
ex-membro da Sociedade Espírita de Paris. (1863.)

Comentário – As lições de Alcione quando no evangelho na casa da família


Davenport, são dignas de estudo e profunda reflexão, que não nos cabe neste
momento. Queremos apenas estabelecer um vínculo entre o trecho do livro e o
evangelho, cabe ao leitor as reflexões pessoais e o estudo pormenorizado a fim
que estas lições ecoem em seu coração e em sua vida. Esta estrada é individual,
sou como viajante que lhe diz: olhe, fui por este caminho, experimente...
Alcione nos fala dos caminhos de quem vive a existência com os olhos na lições do
Cristo e aqueles que o desconsideram em suas ações cotidianas. Pois bem, o
evangelho nos vem falar da dura prova de perder um ente querido em tenra idade.
Pensemos juntos, lembremos de situações vividas em que presenciamos o
desencarne de um jovem ou uma criança. Como estavam os corações que
permitiram-se consolar pelo alto? Qual o consolo que o materialismo apresenta
neste momento? Qual a riqueza que pode consolar uma mãe que já não tem mais
seu filho? Se as dores são muitas, saibamos que ao nos colocarmos a caminho com
Jesus, a consolação é profunda, inesgotável!!! Estes dois textos, de Alcione e do
Evangelho, nos permitem uma reflexão mais ampla, um clareia o outro, roguemos
ao Pai olhos de ver. Avancemos!!

22 – (Renuncia – Alcione e família Davenport)


— Agora, agradeçamos a Deus o socorro que nos foi enviado através da
inspiração. As mais das vezes, temos a certeza de que devemos, em grande parte, o
pão material ao próprio esforço, mas o mesmo não se dá com relação ao alimento
espiritual. Este nos vem sempre de Deus, do seu paterno coração, que nos cumula
de infinitos recursos. Temos na Terra a lei da necessidade, mas o Senhor tem a
do suprimento. Agradeçamos a sua misericórdia e apliquemos as dádivas
recebidas, porque novos elementos fluirão, para nossa alma, dos seus inexauríveis
celeiros de sabedoria e abundância.

ESE - 22. (...) Ficai sabendo que a verdadeira liberdade, para o Espírito, consiste
no rompimento dos laços que o prendem ao corpo e que, enquanto vos achardes na
Terra, estareis em cativeiro.
Habituai-vos a não censurar o que não podeis compreender e crede que Deus
é justo em todas as coisas. Muitas vezes, o que vos parece um mal é um bem.
Tão limitadas, no entanto, são as vossas faculdades, que o conjunto do grande
todo não o apreendem os vossos sentidos obtusos.
Esforçai-vos por sair, pelo pensamento, da vossa acanhada esfera e, à medida que
vos elevardes, diminuirá para vós a importância da vida material que, nesse
caso, se vos apresentará como simples incidente, no curso infinito da vossa
existência espiritual, única existência verdadeira. –
Fénelon. (Sens, 1861.)

Comentário – Alcione nos faz um convite a resignação, a Terra nos remete a


muitas necessidades, materiais e espirituais. Onde buscamos o suprimento? Onde
está nosso tesouro também ali se encontra o nosso coração!! Onde depositamos as
preciosas 24 horas que recebemos diariamente. Fácil é lermos este livro e
condenarmos as ações de seus personagens, mas eis que é chegada a hora de
reconhecermos em nós o que ainda existe de orgulho e egoísmo para que a vida
nos seja terreno fértil com colheita farta.

23 – (Renuncia – Alcione e família despedindo-se do Padre Damiano)


— Tendes razão, padre! Também eu estou chumbada ao leito para meditações
necessárias. Minhas pernas paralíticas nunca me permitirão tão longa viagem!...
— Não te lastimes, porém, pensando nesses obstáculos, certa de que a
misericórdia do Todo Poderoso nunca andou atrasada. Quando nos parece tarda,
é que algum motivo existe, que não podemos compreender de pronto... A filha de
D. Inácio continuava chorando enternecidamente. Em seguida, o velho sacerdote,
dando a perceber que desejava mudar de assunto, fêz um sinal chamando Robbie à
cabeceira. O menino atendeu, compungido. — Por que não trouxeste o violino? —
indagou com interesse.
ESE 23. Vive o homem incessantemente em busca da felicidade, que também
incessantemente lhe foge, porque felicidade sem mescla não se encontra na Terra.
Entretanto, malgrado às vicissitudes que formam o cortejo inevitável da vida
terrena, poderia ele, pelo menos, gozar de relativa felicidade, se não a
procurasse nas coisas perecíveis e sujeitas às mesmas vicissitudes, isto é, nos
gozos materiais em vez de a procurar nos gozos da alma, que são um prelibar
dos gozos celestes, imperecíveis; em vez de procurar a paz do coração, única
felicidade real neste mundo, ele se mostra ávido de tudo o que o agitará e
turbará, e, coisa singular! O homem, como que de intento, cria para si tormentos
que está nas suas mãos evitar.
Haverá maiores do que os que derivam da inveja e do ciúme? Para o invejoso e o
ciumento, não há repouso; estão perpetuamente febricitantes. O que não têm e os
outros possuem lhes causa insônias. Dão-lhes vertigem os êxitos de seus rivais;
toda a emulação, para eles, se resume em eclipsar os que lhes estão próximos, toda
a alegria em excitar, nos que se lhes assemelham pela insensatez, a raiva do ciúme
que os devora. Pobres insensatos, com efeito, que não imaginam sequer que,
amanhã talvez, terão de largar todas essas frioleiras cuja cobiça lhes envenena a
vida! Não é a eles, decerto, que se aplicam estas palavras: “Bem-aventurados os
aflitos, pois que serão consolados”, visto que as suas preocupações não são aquelas
que têm no céu as compensações merecidas.
Que de tormentos, ao contrário, se poupa aquele que sabe contentar-se com o que
tem, que nota sem inveja o que não possui, que não procura parecer mais do que é.
Esse é sempre rico, porquanto, se olha para baixo de si e não para cima, vê sempre
criaturas que têm menos do que ele. É calmo, porque não cria para si necessidades
quiméricas. E não será uma felicidade a calma, em meio das tempestades da vida?
– Fénelon. (Lião, 1860.)

Comentário – Quais as causas de nossas aflições? Por que nos agastamos tanto no
dia a dia com preocupações e pormenores desnecessários? A calma e a masuetude
que almejamos decorre de onde depositamos nossas esperanças. Se apenas a
conquista dos bens materiais no impulsiona, saibamos que a colheita será
desastrosa.

24 - (Renúncia – Alcione e MadalenaVilamil) Nessa noite, por mais que se


esforçasse, Alcione não conseguiu fazer o comentário. Com maldita dificuldade,
continha as lágrimas que lhe bailavam à flor dos olhos. A enferma interrogou-a
com o olhar muito lúcido, e ela respondeu beijando-a:
— A senhora hoje está fatigada. Minhas palavras poderiam incomodá-la... Além
disso, quero pensar que uma consciência pura é o melhor tesouro do mundo.
Nas melhores posições terrenas o homem será positivamente um desventurado,
sem o refúgio desse santuário interior, onde Deus nos fala, consolando e
esclarecendo, em sua infinita misericórdia!...
A doente pôs-se a meditar nessas verdades sublimes, enquanto a filha,
adivinhando a onda de preocupações acerbas que afogava o ser amado, retirava-
se para orar em silêncio, de modo a diminuir as próprias amarguras.

ESE - 24. Toda a gente fala da desgraça, toda a gente já a sentiu e julga conhecer-
lhe o caráter múltiplo. Venho eu dizer-vos que quase toda a gente se engana e que
a desgraça real não é, absolutamente, o que os homens, isto é, os desgraçados, o
supõem. Eles a vêem na miséria, no fogão sem lume, no credor que ameaça, no
berço de que o anjo sorridente desapareceu,
nas lágrimas, no féretro que se acompanha de cabeça descoberta e com o coração
despedaçado, na angústia da traição, na desnudação do orgulho que desejara
envolver-se em púrpura e mal oculta a sua nudez sob os andrajos da vaidade. A
tudo isso e a muitas coisas mais se dá o nome de desgraça, na linguagem humana.
Sim, é desgraça para os que só vêem o presente; a verdadeira desgraça, porém, está
nas conseqüências de um fato, mais do que no próprio fato. Dizei-me se um
acontecimento, considerado ditoso na ocasião, mas que acarreta consequências
funestas, não é, realmente, mais desgraçado do que outro que a princípio causa
viva contrariedade e acaba produzindo o bem. Dizei-me se a tempestade que vos
arranca as árvores, mas que saneia o ar, dissipando os miasmas insalubres que
causariam a morte, não é antes uma felicidade do que uma infelicidade.
Para julgarmos de qualquer coisa, precisamos ver-lhe as conseqüências. Assim,
para bem apreciarmos o que, em realidade, é ditoso ou inditoso para o
homem, precisamos transportar-nos para além desta vida, porque é lá que as
conseqüências se fazem sentir. Ora, tudo o que se chama infelicidade, segundo as
acanhadas vistas humanas, cessa com a vida corporal e encontra a sua
compensação na vida futura.
Vou revelar-vos a infelicidade sob uma nova forma, sob a forma bela e florida que
acolheis e desejais com todas as veras de vossas almas iludidas. A infelicidade é a
alegria, é o prazer, é o tumulto, é a vã agitação, é a satisfação louca da vaidade, que
fazem calar a consciência, que comprimem a ação do pensamento, que atordoam o
homem com relação ao seu futuro. A infelicidade é o ópio do esquecimento que
ardentemente procurais conseguir.
Esperai, vós que chorais! Tremei, vós que rides, pois que o vosso corpo está
satisfeito! A Deus não se engana; não se foge ao destino; e as provações, credoras
mais impiedosas do que a matilha que a miséria desencadeia, vos espreitam o
repouso ilusório para vos imergir de súbito
na agonia da verdadeira infelicidade, daquela que surpreende a alma amolentada
pela indiferença e pelo egoísmo. Que, pois, o Espiritismo vos esclareça e
recoloque, para vós, sob verdadeiros prismas, a verdade e o erro, tão singularmente
deformados pela vossa cegueira! Agireis então como bravos soldados que, longe
de fugirem ao perigo, preferem as lutas dos combates arriscados à paz que lhes não
pode dar glória, nem promoção! Que importa ao soldado perder na refrega armas,
bagagens e uniforme, desde que saia vencedor e com glória? Que importa ao que
tem fé no futuro deixar no campo de batalha da vida a riqueza e o manto de carne,
contanto que sua alma entre gloriosa no reino celeste? – Delfina de Girardin.
(Paris, 1861.)

Comentário – Uma das grandes dificuldades de todos nós é compreender a dor,


resignar-se quando os propósitos divinos nos chamam a provar a fé que já se
alcançou. Alcione, anjo de Deus, vivenciou duras lições. Para muitos a leitura
destas páginas traz uma inquietação profunda, uma sensação de a justiça divina
mora longe deste planeta, afinal, Alcione era pura, simples, bondosa, porque sofreu
tanto? As luzes do evangelho nesta Estrada da Misericórdia nos remetem a um
melhor entendimento que passa longe da razão, mas requer usemos todos os nossos
sentimentos e solicita que alcemos nossa fé em patamares futuros. As
consequências do que hoje padecemos serão vistas em momento posterior, como
bem observa este trecho do Evangelho. Tenhamos fé no futuro, saibamos que a dor
é escola divina que permitirá que “nossa alma entre gloriosa no reino celeste”.

25 – (Renuncia – Alcione e Madalena Vilamil)


Alcione procurou não trair na face a estranha emoção que experimentava.
Madalena pleiteava duas coisas inadmissíveis. Mas, longe de quebrar o padrão de
tranquilidade da querida enferma, concordou nestes termos:
— Tão logo se encontre mais forte para viajar de carro, iremos ao túmulo de meus
avós, mas, penso que mamãe não deve afligir-se por isso. Que é mamãe, a
sepultura senão um monte de cinzas? Quanto à genitora de Beatriz, hei de trazê-la
a São Marcelo na primeira oportunidade. Espero, porém, que a senhora esteja
descansada na fé em Deus. Repousemos a mente na inesgotável bondade divina. É
certo que temos muitas e grandes necessidades, mas o Altíssimo tem tudo para nos
dar e somente espera saibamos compreender a sua misericórdia.

ESE - 25. Sabeis por que, às vezes, uma vaga tristeza se apodera dos vossos
corações e vos leva a considerar amarga a vida? É que vosso Espírito,
aspirando à felicidade e à liberdade, se esgota, jungido ao corpo que lhe serve
de prisão, em vãos esforços para sair dele. Reconhecendo inúteis esses esforços,
cai no desânimo e, como o corpo lhe sofre a influência, toma-vos a lassidão, o
abatimento, uma espécie de apatia, e vos julgais infelizes.
Crede-me, resisti com energia a essas impressões que vos enfraquecem a vontade.
São inatas no espírito de todos os homens as aspirações por uma vida melhor; mas,
não as busqueis neste mundo e, agora, quando Deus vos envia os Espíritos que lhe
pertencem, para vos instruírem acerca da felicidade que Ele vos reserva, aguardai
pacientemente o anjo da libertação, para vos ajudar a romper os liames que vos
mantêm cativo o Espírito. Lembrai-vos de que, durante o vosso degredo na Terra,
tendes de desempenhar uma missão de que não suspeitais, quer dedicando-vos à
vossa família, quer cumprindo as diversas obrigações que Deus vos confiou. Se, no
curso desse degredo-provação, exonerando-vos dos vossos encargos, sobre vós
desabarem os cuidados, as inquietações e tribulações, sede fortes e corajosos para
os suportar. Afrontai-os resolutos. Duram pouco e vos conduzirão à companhia dos
amigos por quem chorais e que, jubilosos por ver-vos de novo entre eles, vos
estenderão os braços, a fim de guiar-vos a uma região inacessível às aflições da
Terra. – François de Genève. (Bordéus.)

Comentário – Madalena teve uma vida de muitos sofrimentos, reconhecemos nesta


estrada o quão valiosa foi esta encarnação para o seu espírito e como Alcione foi
luz em seu caminho ajudando-a a suportar as agruras e desenganos que atravessou.
Amigos queridos, meditai agora, qual a vossa missão neste planeta? Como a dor
lhe tem ensinado a seguir em frente de uma forma melhor e mais elevada? Qual o
caminho de purificação que Jesus lhe propõe?
Dia virá em que seremos guiados para uma “região inacessível às aflições da
Terra”, saibamos, porém, olhar o exemplo de Alcione que desde muito encontra-se
nas esferas sublimes, onde só o bem existe.

26 – (Renuncia – Alcione e Madalena Vilamil)


Alcione acompanhava-lhe o pranto natural, rogando a Jesus lhes enviasse o
socorro divino da sua misericórdia.
Depois de um minuto, a filha de D. Inácio voltava a dizer:
— Minha mãe veio interpretar, para nós, a leitura evangélica... Sim, todos nós
temos um horto de agonias, que atravessaremos a sós, no esforço valoroso da fé...
todos teremos um caminho doloroso e um calvário... mas, além de tudo isso... a
criatura de Deus encontrará a ressurreição e a vida eterna...

ESE - 26. Perguntais se é lícito ao homem abrandar suas próprias provas. Essa
questão equivale a esta outra: É lícito, àquele que se afoga, cuidar de salvar-se?
Àquele em quem um espinho entrou, retirá-lo? Ao que está doente, chamar o
médico? As provas têm por fim exercitar a inteligência,
tanto quanto a paciência e a resignação. Pode dar-se que um homem nasça em
posição penosa e difícil, precisamente para se ver obrigado a procurar meios de
vencer as dificuldades. O mérito consiste em sofrer, sem murmurar, as
conseqüências dos males que lhe não seja possível evitar, em perseverar na luta,
em se não desesperar, se não é bem-sucedido; nunca,porém, numa negligência, que
seria mais preguiça do que virtude. (...) Vós que deixais os vossos aposentos
perfumados para irdes à mansarda infecta levar a consolação; vós que sujais as
mãos delicadas pensando chagas; vós que vos privais do sono para velar à
cabeceira de um doente que apenas é vosso irmão em Deus; vós, enfim, que
despendeis a vossa saúde na prática das boas obras, tendes em tudo isso o vosso
cilício, verdadeiro e abençoado cilício, visto que os gozos do mundo não vos
secaram o coração, que não adormecestes no seio das volúpias enervantes da
riqueza, antes vos constituístes anjos consoladores dos pobres deserdados.
Vós, porém, que vos retirais do mundo, para lhe evitar as seduções e viver no
insulamento, que utilidade tendes na Terra? Onde a vossa coragem nas provações,
uma vez que fugis à luta e desertais do combate? Se quereis um cilício, aplicai-o às
vossas almas e não aos vossos corpos; mortificai o vosso Espírito e não a vossa
carne; fustigai o vosso orgulho, recebei sem murmurar as humilhações; flagiciai o
vosso amor-próprio; enrijai-vos contra a dor da injúria e da calúnia, mais pungente
do que a dor física. Aí tendes o verdadeiro cilício cujas feridas vos serão contadas,
porque atestarão a vossa coragem e a vossa submissão à vontade de Deus. – Um
anjo guardião. (Paris, 1863.)

Comentário – Nos encaminhamos para os momentos finais, o desencarne de


Madalena, de Robbie (Antero), e Alcione continuando sua estrada solitária e de
grande renúncia, que nos ensina profundas lições. Valeu a pena tanto sofrer? A sua
vida trouxe algum significado para outras vidas? A leitura atenta do livro nos
permitirá ver a transformação moral de muitos e até hoje esta história belíssima
tem levado muito corações a meditar sobre a dor, mas também sobre a misericórdia
divina. Há muita desatenção no mundo por parte dos que se intitulam trabalhadores
do Cristo, e caminhamos para momentos derradeiros em que este planeta se
transformará em mundo regenerado. Tenhamos a coragem de sondar nossas dores,
e eis o evangelho a nos dar conta dos remédios que curam: “fustigai o vosso
orgulho, recebei sem murmurar as humilhações; flagiciai o vosso amor-próprio.”

27 – (Renuncia – Alcione e Carlos)


— Quando os capelães inspetores falam de admoestação, isso significa fome no
cárcere ou suplício nas escuras salas de tormento. É possível que Jesus te poupe o
martírio perante os inquisidores cruéis. Para isso, filha, rogarei incessantemente a
proteção de sua misericórdia, em favor da tua alma generosa, mas não creio que
te possas eximir da prisão infamante. Todavia, morrer ao abandono nas celas
imundas do Santo Ofício é mil vezes melhor que suportar os olhos despudorados
dos maus eclesiásticos que infligem pesadas torturas às mulheres indefesas. Sei de
irmãs nossas que morreram no segundo ou no terceiro grau de tormento, em
completa nudez, por imposição de homens impiedosos.

ESE - 27. (...) Sabeis se a Providência não vos escolheu, não como instrumento de
suplício para agravar os sofrimentos do culpado, mas como o bálsamo da
consolação para fazer cicatrizar as chagas que a sua justiça abrira? Não digais,
pois, quando virdes atingido um dos vossos irmãos: “É a justiça de Deus, importa
que siga o seu curso.” Dizei antes: “Vejamos que meios o Pai misericordioso me
pôs ao alcance para suavizar o sofrimento do meu irmão. Vejamos se as minhas
consolações morais, o meu amparo material ou meus conselhos poderão ajudá-lo a
vencer essa prova com mais energia, paciência e resignação. Vejamos mesmo se
Deus não me pôs nas mãos os meios de fazer que cesse esse sofrimento; se não me
deu a mim, também como prova, como expiação talvez, deter o mal e substituí-lo
pela paz.” Ajudai-vos, pois, sempre, mutuamente, nas vossas respectivas provações
e nunca vos considereis instrumentos de tortura. Contra essa idéia deve revoltar-se
todo homem de coração, principalmente todo espírita, porquanto este, melhor do
que qualquer outro, deve compreender a extensão infinita da bondade de Deus.
Deve o espírita estar compenetrado de que a sua vida toda tem de ser um ato de
amor e de devotamento; que, faça ele o que fizer para se opor às decisões do
Senhor, estas se cumprirão. Pode, portanto, sem receio, empregar todos os esforços
por atenuar o amargor da expiação, certo, porém, de que só a Deus cabe detê-la ou
prolongá-la, conforme julgar conveniente.
Não haveria imenso orgulho, da parte do homem, em se considerar no direito de,
por assim dizer, revirar a arma dentro da ferida? De aumentar a dose do veneno nas
vísceras daquele que está sofrendo, sob o pretexto de que tal é a sua expiação? Oh!
considerai-vos sempre como instrumento para fazê-la cessar. Resumindo: todos
estais na Terra para expiar; mas, todos, sem exceção, deveis esforçar-vos por
abrandar a expiação dos vossos semelhantes, de acordo com a lei de amor e
caridade. – Bernardino, Espírito protetor. (Bordéus, 1863.)

Comentário – Eis os momentos derradeiros, Alcione jogada a uma cela, fruto da


incompreensão dos homens ante o Evangelho de Jesus. Mas ela vem como
bálsamo para suavizar as imensas dores de seus amados. Este trecho do evangelho
nos permite vislumbrar a missão de Alcione entre os seus, e nos convida a
resignificar o entendimento de sua vida entre nós. Para muitos é alguém que muito
sofreu, chega a hora, porém, de entendermos, de termos olhos de ver, a vida de
Alcione é o testemunho de alguém que muito amou!!
28 – (Renuncia – Alcione e Carlos)
— Sinto que perdi, desgraçadamente, o meu sagrado ensejo de união com Deus!
Tanto fizeste por mim, e, no entanto, esqueci os menores deveres de fraternidade,
sem me lembrar de que nas trevas do ódio poderia aniquilar-te também a ti, que
tudo me deste! Que tremenda lição!
— Tranqüiliza-te — disse a agonizante com profunda expressão de ternura —,
confia no Senhor que nos renova as oportunidades de redenção... Sua misericórdia
nos aproximará novamente, seremos felizes na observância do “amai-vos uns aos
outros”! Fortaleçamos o espírito, sem desalento injustificável. Não nos cansemos
de recordar que o Mestre foi à cruz do martírio por amor a nós, e está à nossa
espera de há longos séculos!... É preciso não desanimar no bem...

ESE - 28. Um homem está agonizante, presa de cruéis sofrimentos.Sabe-se que


seu estado é desesperador. Será lícito pouparem-se-lhe alguns instantes de
angústias, apressando-se--lhe o fim?
Quem vos daria o direito de prejulgar os desígnios de Deus? Não pode ele conduzir
o homem até à borda do fosso, para daí o retirar, a fim de fazê-lo voltar a si e
alimentar idéias diversas das que tinha? Ainda que haja chegado ao último extremo
um moribundo, ninguém pode afirmar com
segurança que lhe haja soado a hora derradeira. A Ciência não se terá enganado
nunca em suas previsões?
Sei bem haver casos que se podem, com razão, considerar desesperadores; mas, se
não há nenhuma esperança fundada de um regresso definitivo à vida e à saúde,
existe a possibilidade, atestada por inúmeros exemplos, de o doente, no momento
mesmo de exalar o último suspiro, reanimar-se e recobrar por alguns instantes as
faculdades! Pois bem: essa hora de graça, que lhe é concedida, pode ser-lhe de
grande importância. Desconheceis as reflexões que seu Espírito poderá fazer nas
convulsões da agonia e quantos tormentos lhe pode poupar um relâmpago de
arrependimento.
O materialista, que apenas vê o corpo e em nenhuma conta tem a alma, é inapto a
compreender essas coisas; o espírita, porém, que já sabe o que se passa no além-
túmulo, conhece o valor de um último pensamento. Minorai
os derradeiros sofrimentos, quanto o puderdes; mas, guardai-vos de abreviar a
vida, ainda que de um minuto, porque esse minuto pode evitar muitas lágrimas no
futuro. –
S. Luís. (Paris, 1860.)

Comentário – O que se passou com Carlos após o desencarne de Alcione? Quais as


reflexões que sua alma foi levada a fazer ao ter Alcione partindo em seus braços.
Lembremos do início, que o Carlos inicia o processo de encarnação desta mesma
forma, em imenso sofrimento, jogado nas trevas espirituais que construiu para si
mesmo. Na Terra, invertem-se os papéis, o anjo é feito prisioneiro, o desventurado
emissário de Deus. Qual é a morte verdadeira? Quem agoniza afinal? Saibamos
que a vida do espírito é a vida verdadeira, o corpo, a matéria, são escolas divinas,
hospitais regeneradores e, ainda, prisão educativa, necessária aos corações
ressequidos pelo orgulho e pelo egoísmo.
Encerra-se o livro, mas não o evangelho. Teremos, ainda, 03 mensagens de São
Luis que nos dão um maior entendimento do que representou a vinda de Alcione
ao nosso planeta. Para o espírito, a encarnação é parecida com a morte, vejamos os
pontos principais.

SACRIFÍCIO DA PRÓPRIA VIDA


29 - (...) O verdadeiro devotamento consiste em não temer a morte, quando se trate
de ser útil, em afrontar o perigo, em fazer, de antemão e sem pesar, o sacrifício da
vida, se for necessário.
– S. Luís. (Paris, 1860.)

(Lembremos da conversa inicial de Alcione com Antenio) 30. Se um homem se


expõe a um perigo iminente para salvar a vida a um de seus semelhantes, sabendo
de antemão que sucumbirá, pode o seu ato ser considerado suicídio?
Desde que no ato não entre a intenção de buscar a morte, não há suicídio e,
sim, apenas, devotamento e abnegação, embora também haja a certeza de que
morrerá. Mas, quem pode ter essa certeza? Quem poderá dizer que a
Providência não reserva um inesperado meio de salvação para o momento mais
crítico? Não poderia ela salvar mesmo aquele que se achasse diante da boca de um
canhão? Pode muitas vezes dar-se que ela queira levar ao extremo limite a prova
da resignação e, nesse caso, uma circunstância
inopinada desvia o golpe fatal. – S. Luís. (Paris, 1860.)

PROVEITO DOS SOFRIMENTOS PARA OUTREM


31. Os que aceitam resignados os sofrimentos, por submissão à vontade de Deus e
tendo em vista a felicidade futura, não trabalham somente em seu próprio
benefício? Poderão tornar seus sofrimentos proveitosos a outrem?
Podem esses sofrimentos ser de proveito para outrem, material e moralmente:
materialmente se, pelo trabalho, pelas privações e pelos sacrifícios que tais
criaturas se imponham, contribuem para o bem-estar material de seus semelhantes;
moralmente, pelo exemplo que elas oferecem
de sua submissão à vontade de Deus. Esse exemplo do poder da fé espírita pode
induzir os desgraçados à resignação e salvá-los do desespero e de suas
conseqüências funestas para o futuro. – S. Luís. (Paris, 1860.)

Caríssimos amigos, encerramos aqui a Estrada da Misericórdia, com um pequeno


trecho do livro:
“E ninguém da Terra, naquele compartimento úmido e escuro, poderia contemplar o
quadro celeste a se desenrolar, como tributo de veneração à discípula do Cristo, que
soubera vencer em seu nome tôdas as dificuldades, vicissitudes e penas da vida
humana. (...)
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados
os humildes, porque herdarão a Terra! Bem-aventurados os que sofrem perseguição
por amor à justiça, porque dêles é o Reino dos Céus!..”

Agradeço a Jesus pela oportunidade de estudar este belíssimo livro com as luzes do
evangelho, agradeço a Alcione pelo seu exemplo de amor e resignação. Rogo ao Pai
que minha alma não seja indiferente a estas lições.

Abraços amigos!!

Candice Günther

Campo Grande – MS, 16 de abril de 2014.