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João Andrade Peres

TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


2009
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO i

ÍNDICE

1 Texto, Contexto e Discurso .................................................................................. 1


2 Questões gerais de tipologia semiológica e funcional dos textos ........................ 3
2.1 Diversidade dos textos quanto aos meios (media / “média”): “unimédia” / “multimédia”;
texto oral e texto escrito; monólogo e diálogo; registo. .........................................................3
2.2 Diversidade dos textos quanto à função e a aspectos do conteúdo ........................................4
2.2.1 A tradição clássica dos grandes tipos de texto (os antigos “géneros”) ..................................4
2.2.2 Tipologias de ”padrões textuais” ou de “sequências textuais” (microtextos) ........................5
2.2.3 Sistematização das propostas da literatura e algumas sugestões de inovação
(Peres, roteiro de aulas, ms., 2007) ........................................................................................8
3 Textualidade....................................................................................................... 10
3.1 Textualidade, coerência e coesão textuais ...........................................................................10
3.2 Textualidade e gramaticalidade............................................................................................10
3.3 Interdependências semânticas ..............................................................................................13
4 Cadeias referenciais ........................................................................................... 14
4.1 Subtipos de cadeias referenciais...........................................................................................14
4.2 Pró-formas e elementos nulos ..............................................................................................16
5 Análise de alguns tipos de cadeias referenciais................................................. 18
5.1 Análise de cadeias referenciais normais ..............................................................................18
5.2 Análise de cadeias referenciais problemáticas .....................................................................28
5.2.1 Ausência de pró-forma.........................................................................................................28
5.2.2 Problemas de estrutura argumental ou de caso ....................................................................28
5.2.3 Adição de pró-forma em estruturas tipicamente elípticas....................................................28
5.2.4 Adição de pró-forma com redundância de argumentos .......................................................28
5.2.5 Ausência de antecedente ......................................................................................................29
5.2.6 Incompatibilidade entre os elementos da cadeia referencial ................................................30
5.2.7 Intercalações com pró-formas prospectivas problemáticas..................................................30
6 Referência indeterminada e verbos pronominais ............................................. 31
6.1 A expressão da Referência indeterminada ...........................................................................31
6.1.1 Referência indeterminada por meio de pessoas gramaticais................................................31
6.1.2 Referência indeterminada com expressões nominais vagas.................................................32
6.1.3 Referência indeterminada por meio de elementos nulos......................................................32
6.1.4 Sujeito indeterminado com o pronome pessoal de 3.ª pessoa (se) .......................................33
6.1.5 Construções ditas “apassivantes” (com “partícula apassivante” se) ....................................33
6.1.6 Sujeito indeterminado pronominal versus construções ditas “apassivantes”
(com “partícula apassivante” se)..........................................................................................33
6.2 Breves notas históricas sobre se ‘apassivante’ e se impessoal.............................................34
6.3 Para um conceito de verbo pronominal................................................................................38
6.3.1 Aspectos gerais da combinação de verbos e pronomes pessoais .........................................38
6.3.2 Verbos comuns e verbos pronominais .................................................................................41
6.4 Análise de dados relativos a verbos pronominais e à sua coocorrência com sujeitos
indeterminados pronominais ................................................................................................43
6.4.1 Dados relativos a verbos pronominais .................................................................................43
6.4.2 Dados relativos a sujeitos indeterminados pronominais ......................................................46
BIBLIOGRAFIA........................................................................................................... 49
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1 TEXTO, CONTEXTO E DISCURSO

TEXTO
Produção linguística constituída por uma ou mais frases e que constitui uma unidade
de sentido (dependente, em geral, de uma estrutura – um esquema ou plano do texto e de
uma rede de interdependências).
Pressupõe-se uma definição apropriada de frase bem como o sistema (de princípios e de
regras) que permite construir as frases de uma dada língua, isto é, a gramática dessa língua.
O texto é um objecto linguístico (eventualmente “multimédia”).
O sentido do texto em si é indeterminado, abstracto. um texto só ganha pleno sentido
quando tomado como discurso.

DISCURSO
“Texto em contexto” (van Dijk 1977). O discurso é um objecto de comunicação.

Conceitos adjuvantes
CONTEXTO
Engloba a situação (ou certos traços dela) e também sistemas de conhecimento.
(Cf. Widdowson 2007: 20).

SITUAÇÃO DE ENUNCIAÇÃO
Papel dos dêicticos – pronomes pessoais (eu, tu, ...), advérbios de tempo (agora, hoje,...) e
de lugar (aqui, aí, ali, cá, ...) – como elementos identificadores das situações.

SISTEMAS DE CONHECIMENTO (a que a informação é associada)


Em geral, um texto activa conhecimento prévio:

É muito grave que o preço do petróleo esteja a subir.


[dito por um vendedor de gasolina, pelo ministro das Finanças ou pelo chairman da Fede-
ral Reserve americana...]

CONHECIMENTO PARTILHADO (ou “conhecimento comum” / “base epistémica” / “base


cognitiva”; ingl. commonground):
Conversa ouvida num comboio:
– Achas que tudo vai correr bem?
– Acho. A situação está controlada e tudo deverá correr como previsto. Dentro de umas
duas horas conheceremos o resultado.
“Context is a psychological construct, a conceptual representation of a state of affairs.”
(Widdowson 2007: 20)
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DISCURSO (língua e acção verbal em contexto)

SITUAÇÃO
TEXTO (língua e acção verbal)
E
SOBRETEXTO SISTEMAS
SUBTEXTO1 ... SUBTEXTOn DE CONHECIMENTO
(incluindo
o conhecimento
ACTO LOCUTÓRIO (língua) partilhado)

ACTO ILOCUTÓRIO (acção verbal)


ACTO PERLOCUTÓRIO

PRODUÇÃO + COMPREENSÃO
TEXTO EXPLÍCITO + TEXTO IMPLÍCITO

Acto locutório – o enunciado em si

Acto ilocutório – o enunciado enquanto forma de acção verbal (acto de fala).


actos ilocutórios: ASSERTIVOS, DIRECTIVOS, COMPROMISSIVOS, DECLARATIVOS,
EXPRESSIVOS, DECLARAÇÕES ASSERTIVAS

Acto perlocutório – a intenção comunicativa (communicative purpose) de um acto ilocu-


tório ou os efeitos atingidos, ainda que não pretendidos.
[Cf. Austin 1962 e Searle 1969.]

Comparem-se duas notícias numa estação televisiva:


TV-X: O fogo está controlado, prevendo-se que seja extinto dentro de algumas horas.
TV-Y: A floresta continua a arder, não se sabendo quando o fogo será extinto.
[Diferentes efeitos perlocutórios.]

Numa situação em que alguém abre uma janela, qualquer das frases que se seguem pode
ser uma reacção adequada:
Está frio! / Estás com calor? / Estás com muito calor!
Está-se perante diferentes actos locutórios e ilocutórios e eventualmente perante um único
efeito perlocutório (por hipótese, o de a pessoa que abriu a janela voltar a fechá-la. Vê-se,
uma vez mais, que o texto/enunciado só em contexto ganha sentido completo.
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2 QUESTÕES GERAIS DE TIPOLOGIA SEMIOLÓGICA


E FUNCIONAL DOS TEXTOS

2.1 DIVERSIDADE DOS TEXTOS QUANTO AOS MEIOS


(MEDIA / “MÉDIA”): “UNIMÉDIA” / “MULTIMÉDIA”;
TEXTO ORAL E TEXTO ESCRITO; MONÓLOGO E DIÁLOGO;
REGISTO.

As línguas naturais enquanto sistema semiológico constituído por signos.

Distinção entre signos, ícones, imagens, símbolos e sinais [Cf. Barthes 1964]

VARIAÇÃO DOS TEXTOS QUANTO AOS MEDIA

LÍNGUAS MEIOS MEIOS VISUAIS


NATURAIS AUDITIVOS

(+) expressão expressão visual expressão


sonora corporal
não-verbal estática cinética
(ou dinâmica)

LÍNGUAS
ARTIFICIAIS

MODOS DE REALIZAÇÃO DAS LÍNGUAS NATURAIS

monólogo diálogo

oral lição, discurso, ... conversa, debate, ...


de registo
variação

LÍNGUA NATURAL
escrita diário, memórias, ... carta, SMS, chat, ...
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2.2 DIVERSIDADE DOS TEXTOS QUANTO À FUNÇÃO E A


ASPECTOS DO CONTEÚDO

2.2.1 A tradição clássica dos grandes tipos de texto (os antigos “géneros”)

Na Retórica, Aristóteles disserta sobre o discurso da “persuasão”.


Estabelece “três géneros de discursos retóricos”:

• DELIBERATIVO

• JUDICIAL

• EPIDÍCTICO (cf. p. 104)

Usam-se por vezes os termos “político”, “forense” e “demonstrativo” como sinónimos de


cada um dos referidos termos aristotélicos, respectivamente.

Tipologia dos géneros (literários) que remonta a Platão e a Aristóteles:

• ÉPICO (ou NARRATIVO)


• DRAMÁTICO (ou TEATRAL)
• LÍRICO [nunca foi encontrado o fragmento de Aristóteles sobre o género lírico.]

PISTAS PARA UMA CLASSIFICAÇÃO GERAL


DOS GRANDES TIPOS FUNCIONAIS (OU GÉNEROS) DE TEXTO

TEXTO LITERÁRIO / NÃO LITERÁRIO

• TEXTO LITERÁRIO: POESIA / PROSA / TEATRO (TRAGÉDIA / DRAMA / COMÉDIA)

POESIA: épica, lírica, ...

PROSA: ficção, ensaio (?), oratória (?), memórias (?), ...

• NÃO LITERÁRIO: CIENTÍFICO, JURÍDICO, JORNALÍSTICO, PUBLICITÁRIO, DIDÁCTICO, ...

JORNALÍSTICO: notícia, reportagem, crónica, crítica, ...


...
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2.2.2 Tipologias de ”padrões textuais” ou de “sequências textuais”


(microtextos)

Da consideração apenas de grandes tipos (ou géneros) para a atenção à diversidade de


“sequências textuais” (Adam) – na maioria dos autores: genres (géneros, sem a ampla
acepção clássica) – que podem coexistir num mesmo texto.

Algumas tipologias de sequências textuais (tipologias de genres)

• Werlich 1976: NARRATION, DESCRIPTION, EXPOSITION, ARGUMENTATION.


(Cf. Georgakopoulou e Goutsos 2004: 40.)
• Longacre 1976: NARRATIVE, PROCEDURE, EXPOSITORY, HORTATORY. (Cf. ib.)
• Longacre 1996: NARRATIVE, PROCEDURAL, BEHAVIORAL, EXPOSITORY.
(Cf. Dooley e Levinsohn 2001: 8.)
• Beaugrande e Dressler 1981: NARRATION, DESCRIPTION, ARGUMENTATION
[“Discourse modes» clássicos e mais comuns.]
(Cf. p. 184 e Georgakopoulou e Goutsos 2004: 40.)
• Wodak 1986: NARRATIVE, ARGUMENTATIVE, DESCRIPTIVE, INSTRUCTIVE.
(Cf. Titscher et al. 2000: 23.)
• Adam 1997: NARRATIF, DESCRIPTIF, ARGUMENTATIF, EXPLICATIF, DIALOGAL.
(Cf. Adam 1997 : 44)

LONGACRE 1976

DEEP − projected + projected


SURFACE − prescription + prescription

+ succession + chronological NARRATIVE PROCEDURE


framework

− succession − chronological EXPOSITORY HORTATORY


framework

«Surface-level criteria refer to the appearance or not of a chronological linkage in the text
and the presence of prescription (instructions or injunctions for something to be done). The
corresponding deep-level criteria deal with the succession of elements and the presence of
time as projected (e.g. future plans and wishes) or not projected (e.g. occurring in the past).
These criteria reflect on specific linguistic choices such as the use of pronouns (e.g. notice
the generic ‘you’ in procedural texts), modality, tenses and cohesion.»
(Georgakopoulou e Goutsos 2004: 40)
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LONGACRE 1996

Agent orientation

+ −

Contigent + Narrative Procedural


temporal
succession − Behavioral Expository

«CONTINGENT TEMPORAL SUCCESSION refers to a framework “in which some (often most)
of the events or doings are contingent on previous events or doings” (p. 9). Thus, Little
Red Riding Hood’s arrival at her grandmother’s house is contingent on her setting out
through the woods, and the putting of a cake in the oven (in a recipe) is contingent on hav-
ing first mixed the ingredients. […] AGENT ORIENTATION, refers to whether the discourse
type deals with “events or doings” which are controlled by an agent (one who performs an
action), “with at least a partial identity of agent reference running through the discourse”.
[…] Again, Little Red Riding Hood and the wolf are agents in that story; the hearer is a
(potential) agent in an exhortation, etc.» (Dooley e Levinsohn 2001: 8)

BEAUGRANDE E DRESSLER 1981


Discourse Modes:
• Narration: the telling/writing of a story, consisting of a unique sequence of events that
took place at a specific point in time;
• Description: presentations of how something looks (smells, tastes, etc.);
• Argumentation: the process of supporting or weakening arguments, views, theories
etc.
(cf. Georgakopoulou e Goutsos 2004: 40)

WODAK (1986)
• Narrative text varieties (tales, stories, etc.) rely on temporal ordering principles.
• Argumentative text varieties (explanations, scientific articles, etc.) use contrastive
devices.
• Descriptive text varieties employ predominantly local (that is, spatial or temporal)
elements (as in descriptions, portrayals, etc.).
• Instructive text varieties (such as textbooks) are both argumentative and enumerative.
(apud Titscher et al. 2000: 23)
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ADAM (1997)

“Prototypes de séquences”:

NARRATIF
“En tant qu’unité textuelle, tout récit [texte narratif] correspond certes idéalement à la défi-
nition minimale qu’on peut donner de la textualité : suite de propositions liées progressant
vers une fin” (p. 45)
DESCRIPTIF
“Comme le dit l’article «Description» de l’Encyclopédie: «Une description est
l’énumération des attributs d’une chose.»” (p. 81)
ARGUMENTATIF
“[…] on se demandera si certaines suites de propositions peuvent être marquées comme
des suites réinterprétables en termes de relation Argument(s) → Conclusion, Donnée(s) →
Conclusion (Toulmin 1858 : 97) ou encore Raisons → Conclusion (Apothéloz et al. 1989).
Ces variantes rendent toutes compte d’un même phénomène : un discours argumentatif
vise à intervenir sur les opinions, attitudes ou comportements d’un interlocuteur ou d’un
auditoire en rendant crédible ou acceptable un énoncé (conclusion) appuyé, selon des mo-
dalités diverses, sur un autre (argument/donnée/raisons).” (p. 104)
EXPLICATIF
“Expliquer nous semble constituer une intention particulière qui ne se confond pas avec
informer ; le texte explicatif a sans doute une base informative, mais se caractérise, en plus,
par la volonté de faire comprendre les phénomènes: d’où, implicite ou explicite, l’existence
d’une question comme point de départ, que le texte s’efforcera d’élucider.” (p. 128)
DIALOGAL
“Le dialogue, en tant que forme textuelle, n’est que la manifestation la plus spectaculaire et
la plus évidente d’un mécanisme énonciatif complexe et il convient de distinguer une telle
succession de répliques de la présence de plusieurs voix (énonciateurs) au sein d’une
même intervention (monologale): structure polyphonique qu’on oppose parfois à la struc-
ture diaphonique qui voit le locuteur reprendre et réinterpréter, dans son propre discours −
à l’aide d’un puisque, par exemple, au cœur même de l’activité énonciative, une polypho-
nie et un dialogisme constitutifs.” (p. 147)
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2.2.3 Sistematização das propostas da literatura e algumas sugestões de inovação (Peres, roteiro de aulas, ms., 2007)

– DINÂMICO + DINÂMICO
(SEQUÊNCIA FOCALIZA-
DA
SEQUÊNCIA FOCALIZADA SEQUÊNCIA FOCALIZADA
EM ESTADOS
EM EVENTOS EM EVENTOS
OU EM
(enquanto entidades abs- (enquanto entidades concretas)
OBJECTOS ESTÁTICOS)
tractas)
OU
EM OBJECTOS
PPT = T0 PPT ≠ T0
NÃO ESTÁTICOS

– DIRECTIVO DESCRIÇÃO ESTÁTICA DESCRIÇÃO DINÂMICA NARRAÇÃO DIRECTA NARRAÇÃO DIFERIDA

+ DIRECTIVO IN(ACÇÃO) INSTRUÇÃO

SISTEMAS DE VALORES OU (IN)ACÇÃO EXORTAÇÃO

RACIOCÍNIO ARGUMENTAÇÃO

NOTAS
a. As sequências de um texto não pertencem necessariamente todas a um mesmo tipo. Por isso, faz sentido distinguir entre tipo predominante
(ou principal) e tipo(s) secundário(s) de um texto.
b. Uma sequência textual pode exibir traços de mais de um tipo de sequência. Por isso, faz sentido, considerar que uma sequência textual pode
ser caracterizada por traços predominantes e por traços secundários.
c. O valor positivo no traço [DIRECTIVO] identifica textos que associam à função informativa básica a função de agir sobre um destinatário, seja
(i) determinando a sua ACÇÃO (levante os braços / retire todos os valores da sua viatura) ou a sua INACÇÃO (permaneça imóvel), seja (ii) no
plano psicológico, alterando os seus sistemas de valores (procure colaborar com os outros / seja solidário / em caso de incêndio, nunca entre
em pânico), seja (iii) activando um processo de raciocínio (do que fica dito, pode-se concluir que...).
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Descrição estática1
«Catalão é um município brasileiro do estado de Goiás. Localiza-se à latitude 18º09'57” sul
e à longitude 47º56'47” oeste, estando a cidade à altitude de 835 metros. [A] sua população
estimada em 2006 era de 71 680 habitantes. Possui [uma] área de 3778 km².»
(Wikipédia, excerto do artigo “Catalão, Goiás”)
Descrição dinâmica
«Este tipo de sistema circulatório [aberto ou lacunar] não apresenta capilares nem veias;
um ou mais corações, com 2 a 3 câmaras (aurículas e ventrículos), bombeiam o sangue
(…) por um vaso dorsal. O sangue então dirige-se a cavidades chamadas seios ou lacunas
na massa visceral ou manto, e volta quando o coração relaxa, através de orifícios chamados
ostíolos.» (Wikipédia, excerto do artigo “Sistema circulatório”)
Narração diferida
«Os soldados rebeldes filipinos que ocuparam um hotel em Manila, exigindo a demissão da
Presidente Gloria Arroyo, decidiram render-se, anunciou o seu líder em directo à televisão.
Pouco depois foram detidos pelos militares.» (Público Online, 29-11-2007)
Instrução
«Caso (…) pretenda adicionar um novo serviço de correio ao “Outlook Express”, clique no
menu “Ferramentas”, escolha “Contas...”, clique em “Adicionar” e seleccione “Cor-
reio...”.» (www.Clix.pt)
Exortação
«Desista de uma discussão quando já não tiver o que dizer; ou admita quando os seus argu-
mentos forem baseados em intuição ou gosto.
Durante discussões animadas, frequentemente dizemos coisas das quais nos arrependemos.
Não esconda este sentimento.» (Wikipédia, Normas de conduta) )
Argumentação
«No acórdão (…) lê-se que “ficou provado que A. é portador de HIV e que este vírus exis-
te no sangue, saliva, suor e lágrimas, podendo ser transmitido no caso de haver derrame de
alguns destes fluidos sobre alimentos servidos ou consumidos por quem tenha na boca uma
ferida”. Por essa razão, (…) se continuasse a ser cozinheiro representaria “um perigo para a
saúde pública, nomeadamente dos utentes do restaurante do hotel”.» (Público, 21-11-2007)

«Agora que já temos, pelo menos, quatro canais de televisão, nota-se por vezes a falta de
um segundo televisor. Por outro lado, este é um equipamento que ocupa um certo espaço,
coisa que não abunda em muitas casas. Assim sendo, nada melhor do que um ecrã com
duas imagens; claro que será um pouco difícil alguém concentrar-se numa imagem com
outra logo ao lado, mas isso é outra questão.» (Corpus Natura-Público, par 72939)

1
Os textos ilustrativos foram seleccionados por Rui Ribeiro Marques, a quem agradeço.
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3 TEXTUALIDADE

3.1 TEXTUALIDADE, COERÊNCIA E COESÃO TEXTUAIS


A TEXTUALIDADE consiste no conjunto das propriedades que fazem de uma sequência GRA-
MATICAL de frases um TEXTO. Num plano bastante geral, tem-se considerado que estas pro-
priedades se organizam no quadro de duas macro-propriedades do texto: a COERÊNCIA TEX-
TUAL e a COESÃO TEXTUAL.

A propriedade da coerência textual define-se num plano conceptual e não num plano exclusi-
vamente linguístico. Tem a ver com a articulação de sentidos que permite que um texto seja ele
próprio uma unidade de sentido. O senso comum capta esta noção com alguma clareza quando
identifica certos tipos de discurso (por exemplo, de carácter patológico) como “incoerentes”.
Note-se que uma noção estrita (e estreita) de coerência poderia, indesejavelmente, levar a não
considerar textos algumas formas de expressão verbal estética em que é precisamente a ausên-
cia de nexos triviais de sentido que permite a abertura a sentidos outros, eventualmente profun-
dos e estimulantes para a mente. Dadas as características que identificam um texto, é interes-
sante colocar a questão do contraste entre texto e não-texto. Vejam-se exemplos simples:

Camões escreveu os Lusíadas. Queres ir ao cinema?


O aquecimento global é um problema sério. Vou trocar de carro.
O arquitecto do Pavilhão de Portugal na Expo foi o Siza Vieira! Convido-te para jantar!
Picasso pintou Les Demoiselles d’Avignon. A Torre de Pisa tem uma forte inclinação.
[Só o contexto – no sentido amplo – permite decidir.]
[Questão: um noticiário constitui um texto?]

A coesão textual é a propriedade compósita que permite que um texto seja percepcionado
como um todo estruturado, em função de interdependências semânticas e sintácticas entre os
seus componentes, frásicos ou outros. Assegurada a base de GRAMATICALIDADE (cf. 3.2) em
que um texto assenta, a unidade textual é alcançada por meio dos chamados FACTORES DE
COESÃO TEXTUAL. Como se verá, alguns desses factores são específicos do plano textual,
enquanto outros se podem observar também no plano da frase. Podem organizar-se em dois
grandes domínios: INTERDEPENDÊNCIAS SEMÂNTICAS de vários tipos entre elementos de uma
frase ou de um texto, que podem ser elementos lexicais, pronominais ou nulos, proposicionais
ou não (cf. 3.3, 4 e 5) e CONEXÕES INTERPROPOSICIONAIS, isto é, relações de significado que
se estabelecem entre proposições, com suporte sintáctico variável, envolvendo ou não um
conector interproposicional ou elementos anafóricos (nulos ou não) e que, a partir das proposi-
ções conectadas, geram um valor semântico acrescentado (cf. Peres 2009).

3.2 TEXTUALIDADE E GRAMATICALIDADE


Uma condição prévia para a existência de um texto é a verificação de GRAMATICALIDADE nos
seus diversos níveis, particularmente no da construção das proposições e da articulação entre
estas. Pode-se dizer, genericamente, que sem a gramática o texto não pode ser alcançado ou
que, com uma gramática deficiente (dependendo, obviamente, do grau em que a agramaticali-
dade afecta a expressão de um pensamento coerente), se corre o risco de não ser atingida a uni-
dade de sentido textual. Seguem-se alguns excertos de língua escrita que tornam evidente a
importância da solidez gramatical como suporte da textualidade.
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“A guerra foi também um rito de passagem que os portugueses (homens e mulheres) de uma
geração posterior (felizmente) não irão ter. Resta saber se o facto de, neste preciso momento,
ao serem instiladas a estes últimos doses maciças de informação sobre os episódios ditos “glo-
riosos” da nossa História da época dos Descobrimentos, como se fosse impossível retomar o
orgulho perdido sem sarar as feridas escondidas, resta saber se algum dia se chegará a bom
termo na compreensão de um povo que nunca soube muito bem o que fazer com o que con-
quistou pela “cruz e pela espada” e que soube sempre melhor como chorar pelo que perdia do
que alegrar-se com o que ganhava.” (Público, 27-03-1992, p.11)

“A tese é a seguinte: todos os indivíduos que forem agora submetidos a concurso público para
preenchimento dos cargos, quando terminarem a sua comissão de serviço de três anos, a reno-
vação poderá ser automática e já não é preciso mais concurso nenhum para manter os directo-
res de serviço e os chefes de divisão.” (Público, 18-02-1998, p.6)

“Qualquer livro que se escreva sobre os produtores mais originais que estão espalhados pelo
mundo ou ainda se se assinalar no mapa-mundo onde estão os malucos do vinho, o nome de
Didier Dagueneau e a região francesa do vale do Loire têm entrada assegurada.”
(Expresso, Única, 04-10-2008, p. 126)

“A tão discutida frase do ministro Manuel Pinho na China, a propósito da vantagem competiti-
va da economia portuguesa que lhe adviria dos baixos salários que por cá se praticam, só pecou
por ser dita no local errado: de baixos salários e «dumping» social se compõe a vertiginosa
produtividade da economia chinesa e o seu originalíssimo modelo de ‘socialismo’, em que já
só o PCP parece acreditar. À parte esse erro geoestratégico, o que Manuel Pinho disse reflecte
exactamente o que continua a ser o pensamento dominante em largas camadas do nosso patro-
nato e até dos nossos economistas. Por mais ‘modernização’ invocada, por mais ‘choques tec-
nológicos’ apregoados, por mais verbas públicas gastas em ‘qualificação’ e formação profis-
sional, há coisas que nunca mudam, como essa fé de tantos empresários de que quanto pior
pagarem aos seus trabalhadores, mais próspera será a firma.”
(Expresso, PRIMEIRO CADERNO, 10-03-2007, P.5)

“Uma frase de Vítor Constâncio no Parlamento foi muito reveladora do nosso tempo. O gover-
nador do Banco de Portugal disse que nunca pensou que Oliveira Costa fosse capaz de agir
como agiu. Na verdade, parece inimaginável. Como a acusação de que são alvo os ex-gestores
do BCP, com Jardim Gonçalves à cabeça.
Mas estas revelações - como a que ocorreu com Madoff e com tantos outros em todo o mundo -
só surgem devido à crise. Ao contrário do que muitos têm dito, a crise não se deve à existência
de gestores assim. O movimento é o oposto: descobrimos que há gestores assim, porque esta-
mos em crise. E, por muito que a regulação controlasse as instituições e as pessoas, há sempre
aspectos que escapam, meandros que não se entendem.”
(Expresso, PRIMEIRO CADERNO, 27-06-2009, P. 3)

“Um dia perguntaram-me o que era o 'ar do tempo'. O célebre air du temps de que falam can-
ções e poetas. Pois bem, eis uma questão a que não é fácil responder. Apesar de ser simples
saber o que é o ar e o que é o tempo, o ar do tempo é uma das mais complexas perguntas que
podem ser feitas, mesmo a um homem como eu - sábio!”
Expresso, Revista Única, 04-07-2009, p. 98)

João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 12

“Só em Outubro de 2002, sustentam os acusados, os serviços do banco detectaram que as 17


sociedades tinham um dono formal, embora não fosse conhecido o último beneficiário. A solu-
ção encontrada foi vendê-las ao ABN, que pagou metade em dinheiro e o restante em notes
indexadas à acção BCP. Mas continuava a persistir o problema do último beneficiário dos veí-
culos. É aí que é proposto a três clientes (...) que assumam essa titularidade, nas seguintes con-
dições: o banco reestruturava o crédito às sociedades e fazia um financiamento a dez anos. Se a
acção chegasse aos 6 euros, o titular pagava uma comissão, ficando com o restante; se perdes-
se, o banco encaixava a perda. E assim o BCP não consolidou o prejuízo porque as sociedades
passavam a ter dono e o banco não as assumia como suas; e não constituiu provisões porque o
crédito não estava vencido.
De forma sintéctica [sic], esta é a tese da defesa. A maior debilidade reside em saber quem
mandou constituir as 17 offshores. Alguém dentro do banco? Um cliente que nunca assinou os
papéis? Colaboradores ligados à relação com os investidores, que constituíram os veículos na
convicção de que os iam colocar no mercado? E qual foi o objectivo desse acto? Comprar
acções próprias para fazer subir o preço? É isso que o Ministério Público vai ter de provar. Não
vai ser fácil. Por isso, ou muito me engano ou Jardim Gonçalves vai ser absolvido.”
(Expresso, ECONOMIA, 25-07-2009, P. 5)

836 “Acresce ainda que a prever-se que as obrigações tributárias ou para com a Segurança
Social a partir de 1 de Janeiro de 1994, poderiam beneficiar do regime excepcional de paga-
mento, contido no Decreto-Lei nº 225-1994, conduziria ao apagamento efectivo do ordenamen-
to jurídico das infracções fiscais praticadas a partir de Janeiro de 1994, traduzindo-se, assim,
numa verdadeira amnistia fiscal, que está fora de causa.”
(Comunicado do Ministério das Finanças, Público, 17-11-1994)

837 “A boa disposição manifestada por Jorge Sampaio e Rebelo de Sousa não esconde, por
isso, a oposição do segundo e do seu grupo, o PSD, quanto à gestão dos destinos da cidade por
parte da actual Câmara de Lisboa.” (LEGENDA DE FOTOGRAFIA, DN, 22-01-1991, p. 24)

326 “Devido ao fácil acesso de fotocopiar a cores os selos fez com que, desta vez, a Direcção-
Geral dos Espectáculos optasse por um holograma (...) que torna mais difícil a sua reprodu-
ção.” (Diário de Notícias, 26-12-1990, p.12)

«Talvez um dos motivos por que Uma Paixão Humana... esteve na lista dos «best-sellers»
seja pelo facto de ele comprovar muitas das nossas intuições sobre a música.»
(Expresso, Actual, 29-12-2007, P.14)

“Uma mulher inteira é incómoda e não faz sonhar. Da Dama das Camélias de Dumas à Mãe de
Gorki, andou-se algum caminho, e daí a Virgínia Woolf (lésbica, lésbica não se esqueçam,
dizem, e as outras também: a Mansfield, a Rebecca West, talvez as Brönte, escavem, escavem,
e mais um bocadinho e apanham a George Eliot, com nome de homem, para não falar na Geor-
ge Sand (...) enfim, uma tropa nada recomendável, dizem) mais caminho se andou.” (Clara Fer-
reira Alves, Expresso, Revista, 26-01-2002, p.64)
[NB: Predicação interrompida por longa estrutura parentética, mas bem-formada.]

BIBLIOGRAFIA ESPECÍFICA

Brown e Yule (1976), Beaugrande (2004), Beaugrande e Dressler (1981), Dijk (1977) e
Halliday e Hasan (1976).
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 13

3.3 INTERDEPENDÊNCIAS SEMÂNTICAS

Entre dois ou mais elementos de um texto podem verificar-se diversos tipos de interdepen-
dências semânticas, nomeadamente as que têm a ver com a SENSIBILIDADE AO CONTEXTO de
determinadas realizações linguísticas e as que se materializam em CADEIAS REFERENCIAIS.
Exemplificaremos de seguida o primeiro destes tipos e dedicaremos maior atenção ao segundo
nas secções 4 e 5.
Verifica-se sensibilidade ao contexto quando a ocorrência de uma forma linguística está
dependente de determinados valores semânticos contextuais. Comparem-se os dois textos
seguintes:

(1) a. Talvez o director venha à reunião. Se ele vier, podemos pôr o problema.
b. # O director vem à reunião. Se ele vier, podemos pôr o problema.

O segundo texto é sentido como anómalo em virtude de a oração condicional que aparece no
segundo período não ser compatível com o valor modal de certeza veiculado pela frase o direc-
tor vem à reunião. Porém, é compatível com o valor modal de possibilidade expresso em talvez
o director venha à reunião.

As entidades que são referidas através de cadeias referenciais podem pertencer a diferentes
subdomínios ontológicos, nomeadamente o dos objectos físicos, o das propriedades, o das
situações ou os dos intervalos ou das quantidades de tempo. Por analogia com uma tradição da
Lógica (em relação a domínios de quantificação), podemos falar de cadeias de primeira ordem
quando se trata de referência aos objectos mencionados, de segunda ordem quando são referi-
das propriedades, de terceira ordem quando se trata de situações e, finalmente, simplificando,
de cadeias de ordem alta (tomado o epíteto como equivalente a “superior à terceira ordem”)
quando estão em causa cadeias de valores como, por exemplo, os do domínio temporal. Aqui
vamos concentrar-nos apenas em cadeias de ordens baixas (i.e., da primeira à terceira). De
ordem alta seriam as cadeias de valores temporais ou afins presentes nos seguintes textos:

(2) O Luís esteve cá entre as três e as oito. Durante esse tempo, escreveu dez páginas.
(3) Os documentos chegam amanhã. Depois, podemos discutir o assunto.
(4) Falei com a Ana, que estava muito preocupada. Tinha ouvido dizer que a empresa dela
pode vir a ser encerrada.
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 14

4 CADEIAS REFERENCIAIS

4.1 SUBTIPOS DE CADEIAS REFERENCIAIS

Nos estudos sobre texto, é habitual tratar conjuntamente dois tipos muito diversos de cadeias
de valores semânticos: as cadeias de relações referenciais e as cadeias de dependências
referenciais.

CADEIAS DE RELAÇÕES REFERENCIAIS

Nas cadeias de relações referenciais, as expressões que formam cadeia de significado têm valor
semântico por si próprias, mas os seus valores estão relacionados entre si. Os elos destas
cadeias são sempre constituintes lexicais. Seguem-se exemplos de vários subtipos:

CADEIAS LEXICAIS DE SINONÍMIA

(5) Fernando Pessoa está nos Jerónimos.


Que diria o autor do Guardador de Rebanhos, se pudesse falar?

CADEIAS LEXICAIS DE ANTONÍMIA

(6) Moral de telenovela: os bons são sempre premiados e os maus são sempre punidos.

CADEIAS LEXICAIS DE HIPERONÍMIA

(7) A esperança de vida dos portugueses situa-se acima dos setenta anos.
A dos europeus também.

CADEIAS LEXICAIS DE CADEIAS DE HIPONÍMIA

(8) Hoje em dia, os jovens lêem pouco, mas os estudantes de Letras exageram.

CADEIAS DE DEPENDÊNCIAS REFERENCIAIS

Nas cadeias de dependências referenciais, um ou mais dos elos que formam a cadeia não têm
valor semântico independente, obtendo-o a partir de outros elos colocados antes ou depois
deles. Os elos dependentes destas cadeias podem ser constituintes lexicais, pronomes (ou,
mais geralmente, pró-formas) ou elementos nulos.
Uma forma intuitiva de descrever a relação de dependência em causa consiste em dizer que os
elos dependentes ‘transportam’ o descodificador do texto para outro lugar do próprio texto, o
que levou os gramáticos a subclassificarem as cadeias de dependências usando qualificativos
baseados no verbo grego (e também latino) fero, que significa transportar. Assim, todas as
cadeias de referência podem ser consideradas ‘cadeias fóricas’ (i.e., de ‘transporte’ de signifi-
cado).
Uma cadeia de dependência referencial em que o elemento dependente está depois do que lhe
transmite o seu valor é chamada cadeia anafórica (literalmente, ‘que transporta para trás ou
para cima’; mais transparentemente, cadeia retrospectiva). Se, pelo contrário, o elemento
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 15

dependente está antes do que lhe transmite o seu valor, a cadeia é chamada cadeia catafórica
(literalmente, ‘que transporta para diante ou para baixo’; mais transparentemente, cadeia pros-
pectiva). Segue-se um exemplo de cadeia retrospectiva (ou anafórica) lexical:

(9) Falei ontem o Paulo. Com tanto trabalho, o pobre do rapaz não sabe para onde se virar.

É também deste tipo uma cadeia lexical de reiteração como a que se segue:

(10) A cidade é feia. A cidade é suja. A cidade não tem espaços verdes.
Que fazer com a cidade?
[N.B.: nesta cadeia, em que se repete o sintagma nominal definido a cidade, a sua iden-
tificação terá normalmente sido dada no texto anterior ou é assumida como conheci-
mento partilhado, salvo se se falar das cidades em termos genéricos.]

Dão-se agora exemplos de cadeias retrospectivas e prospectivas contendo pró-formas ou


elementos nulos:

(11) Ontem, o Álvaro comprou um livro para a Ana. [ ] Ofereceu-lho hoje.


cadeias retrospectivas:
1. [Álvaro] − [ ]
2. [um livro] − [o]
3. [a Ana] − [lhe]

(12) Embora isso não lhe agrade, a Cecília tenciona [ ] passar a vir mais cedo.
cadeias prospectivas:
1. [isso] − [ [a Cecília] passar a vir mais cedo]
2. [lhe] − [a Cecília]
cadeia retrospectiva:
3. [a Cecília] − [ ]

(13) Ontem à tarde, encontrei a Rita com um livro do Eça. Disse-me que tinha de o ler para
uma aula desse dia.
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 16

4.2 PRÓ-FORMAS E ELEMENTOS NULOS

É importante a distinção entre pró-formas e elementos nulos.


PRÓ-FORMAS

Importa acentuar que estamos a considerar apenas um tipo de pró-formas, que são os vulgar-
mente chamados pronomes pessoais. Não referiremos, pois, algumas outras subclasses do
pronomes, por várias razões: nuns casos (dos pronomes relativos e os interrogativos), porque
exibem características sintácticas muito distintas das dos pronomes pessoais; noutro caso (o
dos chamados pronomes indefinidos), porque envolvem uma semântica muito própria que não
interessa aqui ter em conta; finalmente, noutros ainda (os demonstrativos e os possessivos),
sobretudo pela simplificação que resulta da restrição do campo de análise.
As pró-formas ditas pessoais podem ocorrer em cadeias referenciais com constituintes de dife-
rentes categorias sintácticas, pelo que são elas próprias de diferentes categorias (daí insistirmos
em não lhes chamar apenas ‘pronomes’). Vejam-se exemplos:

(14) Quando o Luís entrou na sala, ficou espantado. Ele não esperava tanta gente. (PRÓ-SN)
(15) Quando o Luís entrou na sala, a Ana foi abraçá-lo. (PRÓ-SN)
(16) Quando viu o Luís, a Ana abraçou-o. (PRÓ-SN)
(17) Quando viu o Luís, a Ana deu-lhe um abraço. (PRÓ-SN)

(18) A Vera disse que o director estava a ser desonesto; disse-o porque é corajosa. (PRÓ-F)
(19) Penso que o Dinis não vem à reunião, mas isso não impede que trabalhemos. (PRÓ-F)
(20) Se o Dinis é inteligente, a Joana não o é menos. (PRÓ-SA)

Vários autores têm considerado a construção fazer o mesmo como um pró-SV. Sem subscrever
sem mais esta análise, apresentam-se apenas alguns exemplos:

(21) O Luís foi nadar para o lago e o Dinis fez o mesmo.


(22) Se o Filipe ofereceu flores à Ana, porque não o fez à Luísa?
(23) Se o Filipe ofereceu flores à Ana, porque não fez o mesmo {com/?a} a Luísa?
(24) O Filipe ofereceu flores à Ana e o Dinis fez o mesmo à Luísa.

ELEMENTOS NULOS

Tal como as pró-formas, também os elementos nulos podem ocorrer em cadeias referenciais
com constituintes de diferentes categorias:

(25) [SN O Dinis]i comprou um carro, mas [SN ]i não o pagou.


(26) É difícil [F' a Ana conseguir que o Luís venha à reunião]i, mas ela tem de tentar [F' ]i.
(27) A Luísa [SV comprou um carro]i, mas o Manuel não [SV ]i.
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 17

(28) [SN O Filipe]i [V deu]j um livro à Sofia e [SN ]i [V ]j um disco ao Paulo.


(29) [SN O Filipe]i [V deu]j [SN um livro]k à Sofia, mas [SN ]i não [V ]j [SN ]k à Ana.
(30) O Luís foi [SP à praia]i e a Ana também foi [SP ]i.

É importante acentuar que nem sempre é possível interpretar uma pró-forma ou um elemento
nulo como sendo substituível sem mais pelo constituinte lexical com o qual se encontra em
cadeia referencial.

(31) a. [SN O Paulo] viu-se no espelho.


b. [SN O Paulo] viu [SN o Paulo] no espelho.

(32) a. [SN Todos os estudantes] se inscreveram no curso de cinema.


b. [SN Todos os actores] inscreveram [SN todos os actores] no curso de cinema.

(33) a. [SN Alguns atletas] já estão a preparar-se para a prova.


b. [SN Alguns atletas] já estão a preparar [SN alguns atletas] para a prova.

É evidente que no primeiro par – (37a)/(37b) – as frases são equivalentes, mas que não o são
nos restantes.

É ainda de notar que, em muitos casos, o constituinte lexical tem uma interpretação semântica
diferente da que é atribuída à pró-forma ou ao elemento nulo. É o que se passa nos casos
seguintes:

(34) Dois terços dos países da UE combinaram [ ] reduzir os seus impostos.


LEITURA COLECTIVA LEITURA DISTRIBUTIVA

(35) Quase todos os estudantes concordaram em se [ ] encontrarem amanhã


LEITURAS COLECTIVAS
para [ ] assinarem a proposta.
LEITURA DISTRIBUTIVA
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 18

5 ANÁLISE DE ALGUNS TIPOS DE CADEIAS REFERENCIAIS

5.1 ANÁLISE DE CADEIAS REFERENCIAIS NORMAIS

Bibliografia específica
Dooley e Levinsohn 2001: 7-10.
Georgakopoulou e Goutsos 2004: 99 ss.
Koch 2004: 36-39.

A. (Expresso, PRIMEIRO CADERNO, 24-11-2007, p. 44)

Se alguém apostasse, há quatro anos,

que Barroso e Sócrates estariam como ‘Deus com os anjos’,

muito amigos,

a celebrar o terceiro ano de mandato do presidente da CE,

seria considerado insano.

Mas a vida, sobretudo a vida política, dá muitas voltas

e é pródiga em surpresas.

A celebração de hoje

não significa que amanhã

não voltem a ser adversários ferozes.

Por exemplo, numas eleições presidenciais em Portugal.


João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 19

Se [1 alguém 1] apostasse, há quatro anos,

que {4 [2 [3 Barroso 3] e Sócrates 2] estariam

[2 ] como ‘Deus com os anjos’, [2 ] muito amigos,

a celebrar o terceiro ano de mandato d[3 o presidente da CE 3] 4},

[ 1 ]seria considerado insano.

Mas [5 a vida ], sobretudo a vida política, dá muitas voltas

e [5 ] é pródiga em surpresas.

{6 [4 A celebração de hoje 4]

não significa que amanhã

[2 ] não voltem a ser adversários [um do outro] ferozes. 6}

Por exemplo, {6 } numas eleições presidenciais em Portugal.


João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 20

B. FRAGMENTO DE TEXTO SOBRE O CINEASTA WERNER HERZOG2

«Dificilmente se surpreende o bávaro que nasceu durante a guerra e se lembra distinta-

mente do bombardeamento de Rosenheim, em 1945, que fugiu de casa aos 14 anos e

fez, a pé, todo o caminho até à fronteira jugoslavo-albanesa, que aos 17 tentou começar

a filmar (um produtor acolheu favoravelmente um projecto, mas quando viu o miúdo

que lho enviara perguntou-lhe se o jardim de infância já queria fazer filmes) e que, aos

19, quase ia morrendo quando desceu o Sudão para entrar no Congo Belga e assistir à

pós-independência do território para que todo o mundo olhava. Foi depois dessa aventu-

ra que Werner Herzog conseguiu assinar o seu primeiro filme — Herakles (1962) —,

financiado com poupanças de empregos vários, de recurso. E desde logo se tornou o seu

próprio produtor, uma prática que o cineasta advoga consistentemente.»

(Expresso, Actual, 2007-10-20, p. 14)

2
A análise e as notas que vêm nas três páginas seguintes tiveram o contributo de Telmo Móia, a quem
agradeço.
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 21

que [ ] nasceu durante a guerra e [ ] se lembra distintamente do bombardeamento

de Rosenheim, em 1945,

que [ ] fugiu de (2) casa de [ ] aos 14 (3) anos e [ ] fez, a pé, todo o caminho de [ ]

até à fronteira jugoslavo-albanesa,

que aos 17 [ ] [ ] tentou [ ] começar a (4) filmar

((5)um produtor de filmes acolheu favoravelmente

(6) um projecto de filmagem de [ ],

mas quando [ ] viu o miúdo (1′′)que [ ] lho enviara [ ] perguntou-lhe

se (7) o jardim de infância já queria [ ] fazer filmes)

e que, aos 19 [ ], [ ] quase ia morrendo

quando (8) [ ] desceu o Sudão para [ ] entrar n(9)o Congo Belga e [ ] assistir à pós-

-independência do território para (9′′)que todo o mundo olhava [para [ ]] (1) . }


Foi depois dessa aventura que (10) W
Weerrnneerr H
Heerrzzoogg ccoonnsseegguuiiuu [[ ]] aassssiinnaarr (11) oo sseeuu pprrii--

m
meeiirroo ffiillm
mee —
—HHeerraakklleess ((11996622)) —
—,, [[ ]] ffiinnaanncciiaaddoo ppoorr [[ ]] ccoom
m ppoouuppaannççaass ddee eem
mpprreeggooss

ddee [[ ]] vváárriiooss,, ddee rreeccuurrssoo..

E desde llooggoo (12) [ ] se tornou o seu próprio produtor ,

uma prática (12′′)que o cineasta advoga [ ] consistentemente .


João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 22

Dificilmente se surpreende [1 o bávaro

[1 que 1] [1 ] nasceu durante a guerra e [1 ] se lembra distintamente do bombar-

deamento de Rosenheim, em 1945,

[1 que 1] [1 ] fugiu de [2 casa de [1 ] 2] aos 14 [3 anos 3] e [1 ] fez, a pé, todo o

caminho de [2 ] até à fronteira jugoslavo-albanesa,

[1 que 1] aos 17 [3 ] [1 ] tentou [1 ] começar a [4 filmar 4]

([5 um produtor de [4 filmes 4] 5] acolheu favoravelmente

[6 um projecto de [4 filmagem 4] de [1 ] 6],

mas quando [5 ] viu [1 o miúdo [1 que 1] [1 ] [5 lhe 5][6 o 6] enviara 1]

[5 ] perguntou-[1 lhe 1]

se [7 o jardim de infância 7] já queria [7 ] fazer filmes)

e [1 que 1], aos 19 [3 ], [1 ] quase ia morrendo

quando [8 [1 ] desceu o Sudão para [1 ] entrar n[9 o Congo Belga 9]

e [1 ] assistir à pós-independência

d[9 o [ território para [9 que 9] todo o mundo olhava para [9 ] 9] 8] 1].

Foi depois d[8 essa aventura 8]

que [10 [1 Werner Herzog 1] conseguiu [1 ] assinar [11 o [1 seu] primeiro filme 11]

– [11 Herakles 11] (1962) –, [11 ] financiado por [1 ]

com poupanças de empregos de [1 ] vários, de recurso 10].

E desde [10 logo 10] [12 [1 ] se tornou o [1 seu próprio 1] produtor 12],

[12 uma prática [12 que 12] [1 o cineasta 1] advoga [12 ] consistentemente 12].
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 23

NOTAS

1. Colocaram-se em itálico, cortadas por uma linha horizontal, várias preposições não realiza-
das, de modo a facilitar a identificação de expressões elididas: “casa de []”; “caminho de
[]”; “projecto de []”; “financiado por []”; “empregos de []”.

2. Há no texto cadeias retrospectivas (ou anafóricas) de diferentes tipos. Salientam-se as


características especiais de três delas:

• a cadeia (4) envolve dois elementos nulos relacionados com a denotação de filmar, mas
que não são formas verbais; para facilitar a interpretação, colocaram-se em itálico, cor-
tadas por uma linha horizontal, expressões (nominais) que evidenciam essa relação:
“produtor de filmes”; “projecto de filmagem”;

• a cadeia (10) associa a expressão logo ao tempo em que ocorre a situação descrita pela
frase [Werner Herzog conseguiu assinar o seu primeiro filme – Herakles (1962) –,
financiado com poupanças de empregos vários, de recurso] e não à situação em si
mesma;

• a cadeia (12) associa o grupo nominal [uma prática que o cineasta advoga consistente-
mente] não ao valor episódico da frase [se tornou o seu próprio produtor], mas a uma
proposição de valor genérico que pode exprimir-se por [as pessoas tornarem-se os seus
próprios produtores].
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 24

C. Novos dados de estudo sobre alimentação

Os dados do estudo confirmam o que já se sabia: são os mais jovens quem come

mais vezes bolos e bolachas, refrigerantes e sumos e comida rápida com molhos.

Nestes grupos de alimentos a ingestão vai diminuindo com a idade.

Os mais jovens analisados pelo estudo (que começa nos 18 anos) “têm um compor-

tamento alimentar que pode indiciar um risco de agravamento do excesso de peso

quando forem mais velhos”, alerta o nutricionista José Camolas (...). Este tipo de

consumo acontece mesmo em jovens com peso baixo e normal. Mesmo que a inges-

tão de comida hipercalórica não conduza, nesta faixa etária, ao excesso de peso, os

alimentos em causa representam “um comportamento de risco”. É na juventude que

se encontram tendencialmente os valores mais baixos de excesso de peso (19,2 por

cento) e obesidade (4,6 por cento), mas estes tendem a subir com a idade, à medida

que aumenta a probabilidade de hábitos mais sedentários de vida, conclui.

(18.04.2008 – 18h57, publico.pt, ADAPTADO)


João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 25

[1Novos dados de [2 estudo sobre alimentação 2] 1]

[1 Os dados de [2 o estudo 2] 1] confirmam [3 [3 o que 3] já se sabia [3 ] 3]:

[3 são os mais jovens [...] [4 [4 quem 4] [4 ] come mais vezes [5 bolos

e bolachas, refrigerantes e sumos e comida rápida com molhos 5] 4] 3].

N[5 estes grupos de alimentos 5]

a ingestão (de [5 ]) vai diminuindo com a idade (de […]).

[6 Os mais jovens analisados pel[2 o estudo 2] 6] ([2 que 2] [2 ] começa nos 18 anos)

“têm [7 um comportamento alimentar [7 que 7] [7 ] pode indiciar

um risco de agravamento do excesso de peso

quando [6 ] forem mais velhos (do que [...]) 7]”,

alerta [8 o nutricionista José Camolas 8] (...).

[7 Este tipo de consumo 7]

acontece mesmo em [9 jovens 9] com peso baixo e normal.

Mesmo que a ingestão de comida hipercalórica não conduza, n[9 esta faixa etária 9],

ao excesso de peso de […], [5 os alimentos em causa 5]

representam “um comportamento de risco por parte de […]”.

É na juventude que se encontram tendencialmente [10 os valores mais baixos de

excesso de peso (19,2 por cento) e obesidade (4,6 por cento) […] 10],

mas [10 estes 10] tendem a subir com a idade de […], à medida que aumenta

a probabilidade de hábitos mais sedentários de vida, conclui [8 ].


João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 26

TEXTOS PARA TREINO

D. Fernando Madrinha, “No metro de Barcelona”, Expresso, 27-10-2007

«As imagens foram registadas pelas câmaras do Metro de Barcelona e as televisões deram-lhes
a justa e justificadíssima divulgação. Um 'cabeça-rapada' entra numa carruagem falando aos
gritos pelo telemóvel, senta-se pesadamente num banco, atirando os pés para o banco da frente,
como se estivesse em casa e fosse o dono do mundo. Levanta-se de súbito e, sempre ao tele-
móvel, agride repetidamente uma jovem sentada ali perto. Primeiro à bofetada, por fim a pon-
tapé. As câmaras mostram-no depois, saciado o ódio racista, a sair calmamente da carruagem,
sempre ao telemóvel, como se nada se tivesse passado. Como se as agressões que acabava de
cometer contra a rapariga equatoriana fossem gestos naturais em si, mil vezes repetidos impu-
nemente, sem resposta nem consequências.
Indefesa, a rapariga. E só. Tão só que a sua solidão nos impressiona e repugna tanto como a
própria agressão de que estava a ser vítima. Naquela carruagem, não se viu um gesto nem um
protesto, não se ouviu um grito nem um alerta. Todos os passageiros continuaram placidamente
sentados e tranquilos nos seus lugares, sem que aquela agressão parecesse violentar a sua cons-
ciência, ou ofender a sua humanidade. Nenhum deles se sentiu obrigado a intervir, a dizer uma
palavra ou a esboçar um movimento que fosse para travar o canalha, que mais tarde se descul-
pou com a bebedeira e que a polícia acabou por mandar em paz. Assim ficou o crime uma vez
mais sem castigo e se reforçou o sentimento de impunidade dos delinquentes racistas que, aliás,
não são apenas brancos, como sabemos bem.
Cenas como a do Metro de Barcelona nem sempre chegam às televisões, mas são cada vez
mais frequentes nas cidades da velha Europa. 'Cabeças-rapadas' e marginais de várias espécies
mascarados de nacionalistas multiplicam-se e exibem-se com descaramento cada vez maior.
Partidos da extrema-direita racista e xenófoba ganham força um pouco por todo o lado, em
especial no Leste Europeu. E na muito neutral e asséptica Suíça, um desses partidos acaba
mesmo de ganhar as eleições legislativas.
Por medo do 'cabeça-rapada', ou, pior ainda, pela maior das indiferenças quanto ao destino da
jovem equatoriana, os passageiros do Metro de Barcelona deixaram que ela fosse agredida gra-
tuitamente sem levantarem um dedo para a defender. O comodismo, a inércia ou a cobardia
deixaram-nos pregados nos seus lugarzinhos, julgando-se seguros e sem perceberam que a
agressão também era contra si. Em certo sentido, era a Europa inteira - uma Europa gorda e
egoísta, que só conhece a liberdade e a considera adquirida para sempre - quem viajava naquela
carruagem.»
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 27

E. Mário Crespo, “In Memoriam”, Expresso, Única, 04-08-20073

«APAIXONEI-ME por ela logo que a vi. Depois foram anos de ternuras, irritações, grande
paródia e angústias. Era leviana. Um Verão esteve fora de casa um mês. Voltou de noite,
faminta, e a lamuriar-se do que tinha passado. À medida que íamos envelhecendo, eu comecei
a levantar-me mais vezes de noite e ela começou a ter o sono mais leve. Eu acho que era de
propósito que ela me fazia tropeçar nas escadas, na penumbra doméstica de noites em claro em
que se julga que se vê tudo e não se vê nada. Eu praguejava e ela, como sempre, conseguia de
mim indulgência instantânea com os olhos enormes, profundíssimos, numas feições minucio-
sas de uma perfeição que parecia irreal. Era muito bela. Tinha uma tolerância imensa para com
as tropelias que eu lhe fazia. Uma vez tentei atrelar-lhe uma carrocinha de brinquedo. Ficou
imóvel, esfíngica de ultraje, no meio do chão da sala. Soltei-a e, como sempre nestes confron-
tos, ela disparou escada acima num prodígio de velocidade e tornou-se invisível. As represálias
vinham logo a seguir. Num corredor materializava-se como que por artes diabólicas à minha
frente, num ataque fulminante. Depois veio a terrível consciência de que para ela eu, não sendo
Deus, era provavelmente um deus. Era infinitamente maior e viveria uma eternidade mais que
ela. O preço da ilusão de omnipotência era decidir quando é que tinha chegado a altura de parar
de vez com as traquinices, emboscadas, batalhas e carícias. A altura chegou. Em três ou quatro
semanas a aparência sedosa muito brilhante passou a um opaco sujo. A maravilhosa agilidade
suportada por um corpo perfeito e uma musculatura admirável esvaiu-se e ela ficou um embru-
lhinho de pele e osso. Só os grandes olhos, maiores ainda, continuavam a olhar-me com um
milhão de perguntas. Foi tão pouco tempo desde o primeiro instante em que a vi, e no entanto
tínhamos envelhecido os dois. Como deus menor que sou levei tempo demais a decidir. «Para
eles será como adormecer» disseram-me, mas eu exerci o direito divino de mais uma noite de
tentativas porque, por adormecer que fosse, desta vez eu sabia que não haveria acordar, não
haveria o bocejar matinal nem eu a sacudiria de cima do meu lado da cama para receber em
resposta um olhar diabolicamente belo de desdém absoluto. No fim, não tive que decidir. Cha-
mou-nos duas vezes numa voz nova que nunca tínhamos ouvido (que disparate, eles não falam)
e entre ecografias e soro intravenoso disse-nos adeus a todos. Não sei se nos veremos outra
vez, deuses menores não sabem essas coisas. Mas tenho uma certeza. Gostámos um do outro
tanto quanto é possível uma gata gostar de um homem. No nosso caso talvez tenhamos gostado
um bocadinho mais.»

3
Este texto foi seleccionado por Rui Ribeiro Marques, a quem agradeço.
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 28

5.2 ANÁLISE DE CADEIAS REFERENCIAIS PROBLEMÁTICAS

5.2.1 Ausência de pró-forma

764 “Bastante pior que o anterior, este programa segue, todavia, os moldes do anterior.”
(Diário de Lisboa, 06-06-1990, p. 32)

933 “Existe agora uma lista familiar de queixas europeias contra a política americana que
inclui, embora não se limite, a retirada da administração Bush do Protocolo de Kyoto
(…).” (Tradução de texto de Francis Fukuyama, Público, 20-08-2002, p.9)

673 “Diversos deputados (...) referiram que a reacção do ministro foi pouco clara quanto à
defesa do seu secretário de Estado. Mas que, possivelmente, porque não ouvira os ataques
dos populares.” (Público, 11-07-1997, p. 5)

5.2.2 Problemas de estrutura argumental ou de caso

495 “A pouca simpatia que os da situação lhe nutriam impediu-lhe uma carreira clínica
normal e foi assim que ele entrou no mundo dos negócios (...).”
(O Jornal, 02-08-1991, p. 21)

493 “O caso mais insólito que conhecemos é o de um homem de 52 anos que recentemente
encontrou uma carta de um amigo, escrita em 1961, desde então esquecida no fundo de
uma gaveta. E apressou-se a respondê-la, dando-lhe as informações que o amigo pedia,
sobre o paradeiro de algumas namoradas.” (O Jornal Ilustrado, 23-08-1991, p. 20)

126 “Mas em qualquer dos casos, só tem de ligar para lá – se for necessário registo, sê-lo-á
pedido no momento da sua ligação.” (Público, 19-12-1994, p. XVIII)

5.2.3 Adição de pró-forma em estruturas tipicamente elípticas

124 “Finalmente, as jovens de hoje são mais realistas e cínicas do que nós o éramos na
juventude.” (Público, 03-08-2001, p. 9)
127b “Três anos depois, Melancia foi absolvido, como não poderia deixar de sê-lo.”
(Público, 06-08-1993, p. 15)

5.2.4 Adição de pró-forma com redundância de argumentos

«Factura Electrónica / quarta-feira, 20 de Abril de 2005


A PT acaba de lançar o novo Serviço de Factura Electrónica. Um serviço inovador que lhe
permite controlar e analisar as suas contas com toda a comodidade e segurança. Encontrar
novas soluções tecnológicas que lhe facilitem e melhorem a vida dos clientes é e sempre
foi o papel da PT.» (site www.telecom.pt, 23-05-2005)
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 29

1136 «Tanto bastou que o Governo anunciasse o lançamento de alguns grandes projectos
de infra-estruturas para que surgissem, como cogumelos após as primeiras chuvas de
Outono, os artigos de opinião contra aquilo que já se tornou comum apelidar política do
betão.» (Expresso, ECONOMIA, 24-05-2008, p.29)

5.2.5 Ausência de antecedente

5.2.5.1 Elementos de tipo retrospectivo (ou anafórico) sem antecedente

“Nos últimos dias, a irresponsabilidade e a falta de sentido de Estado tomou conta de


vários políticos. Fragilizar o supervisor do sistema financeiro na situação actual é a pior
coisa que se pode fazer. Mas fazê-lo deixando a pairar a ideia de que a culpa é do supervi-
sor e não de quem cometeu actos lesivos é errar completamente o alvo e só pode decorrer
de quem põe a luta política acima dos interesses do Estado ou utiliza o facto para se conti-
nuar a vingar do governador, por supostas afrontas no passado”
(Expresso, Economia, 25-10-2008, p.11)

1146 “Hoje é Dia Mundial da Poupança e se ainda não tem esse hábito deve começar já a
fazê-lo.” (Público, Economia, 31-10-2008, p. 10)

5.2.5.2 Pronominalização de particípio passivo ou de predicativo do sujeito


não realizado

654 “José Afonso Pimentel pensa que trabalho infantil está conotado com «exploração» e
nunca sentiu que o estivesse a ser. Das filmagens só guarda memórias boas.”
(Público, 22-07-1997, p. 37)

772 “É possível que a SIC ou Albarran, ou os dois tenham infringido regras de decência.
Se assim foi, espera-se que corrijam o que deve sê-lo.” (Público, 23-02-1997, p. 9)

354 “Ministro alega segredo de justiça


Tal tese não foi acolhida pelos parlamentares, que consideram estar-se, sim, perante
uma tentativa de sonegar informações aos parlamentares, informações estas que não podem
cair sobre a alçada da figura do segredo de justiça, pois se o fossem também o ministro não
poderia ter acesso a essas.” (Diário de Notícias, 16-05-1991, p. 3)
[NB: problema também com o segundo demonstrativo.]

5.2.5.3 Aposto nominal sem antecedente

245 “O Governo filipino apresentou ontem queixa contra Imelda Marcos, mulher do ex-
ditador Ferdinando Marcos, por fraude fiscal, preparando assim o julgamento da viúva do
falecido presidente para quando esta regressar ao país, autorização que lhe acaba de ser
concedida e que vai ao encontro dos seus reiterados pedido nesse sentido.”
(Público, 02-08-1991, p.21)
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 30

5.2.6 Incompatibilidade entre os elementos da cadeia referencial

5.2.6.1 Antecedente proposicional e pró-forma nominal


616 “A partir de hoje, se é um dos 200 milhões de falantes do português que existem em
todo o mundo, vai poder ter a sua página na WWW sem pagar nada por isso. Quem o ofe-
rece é a Iniciativa Mosaico, do Ministério da Cultura, através do projecto Terràvista (...).”

5.2.6.2 Antecedente proposicional e pró-forma nominal


+ ausência de antecedente
768 “Eis um recado para os PALOP: se quiserem dialogar na língua portuguesa (o que não
existe), urge fazer com que a alfabetização – alargada a toda a população – se torne num
exercício do mesmo (refiro-me ao diálogo), pelo qual a realidade social é descodificada
com o fim de revelar, claramente, o empenhamento da palavra na infra-estrutura do poder
político.” (Público, 29-09-1991, p. 23)

5.2.6.3 Antecedente nominal e pró-forma proposicional


765 “O Governo regional da Madeira apreciou ontem uma proposta de decreto legislativo
regional que possibilita a reforma antecipada aos agentes e funcionários da administração
pública que o pretendam fazer.” (Público, 09-07-1994, p. 24)
1145 “Estas são as questões essenciais a que José Sócrates tem de responder e que, salvo
melhor opinião, ainda não vi que tenha feito satisfatoriamente.”
(Expresso, PRIMEIRO CADERNO, 30-01-2009, p. 33)

5.2.6.4 Antecedente adjectival e pró-forma adverbial


842 “Para o antigo ditador, o assunto era político e assim o tratou, de 1946 a 1958 (...).”
(Público, 09-04-1997, p. 20)

5.2.7 Intercalações com pró-formas prospectivas problemáticas


689 “Um dos fenómenos mais curiosos surgidos nos últimos tempos entre nós é o que diz
respeito ao sucesso. A estratégia montada à sua volta está a imergir-nos, fascinando uns,
inquietando outros. Cavaco Silva tornou-se – e chegou a dar-lhe, na campanha eleitoral,
dimensões de mito – o seu maior profeta; metade dos portugueses, sobretudo os mais
jovens, comungaram-no.” (Público, Fim-de-Semana, 11-10-1991, p. 3)
688 “Existe, contudo, uma pequena elite urbana, uma minoria, bem infiltrada nos meios
políticos, que domina a língua portuguesa. Mas mantém uma certa distância em relação ao
interior rural, embora pretenda (e fá-lo) falar sempre em nome do povo que ela reduz ao
silêncio.” (Público, 29-09-1991, p. 23)
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 31

6 REFERÊNCIA INDETERMINADA E VERBOS PRONOMINAIS


A presente secção visa chamar a atenção para um tipo muito particular de cadeias referen-
ciais, que parecem suscitar especiais dificuldades de construção. Trata-se de cadeias que
envolvem marcadores de referência indeterminada (isto é, expressões ou formas grama-
ticais que permitem que, em vez de se referirem entidades concretas, se mantenham inde-
terminadas – ou incertas – as entidades envolvidas no significado de uma predicação),
especialmente quando nessas cadeias estão envolvidos verbos pronominais.
Para que se possam analisar cadeias referenciais que envolvem referência indeterminada e
verbos pronominais, impõe-se primeiro clarificar os dois conceitos em causa, o que será
feito em 6.1 e 6.2, respectivamente.

6.1 A EXPRESSÃO DA REFERÊNCIA INDETERMINADA


Em geral, as gramáticas apenas mencionam a referência indeterminada associada à função
sintáctica de sujeito. Contudo, os SUJEITOS INDETERMINADOS constituem apenas uma ins-
tância das construções de REFERÊNCIA INDETERMINADA.

6.1.1 Referência indeterminada por meio de pessoas gramaticais


Primeira ou segunda pessoa do singular
SÓ PRIMEIRA PESSOA
(36) A galinha da [ ] vizinha é sempre melhor do que a minha.
(37) [ ] Devagar, que tenho pressa ([ ]).
(38) Antes burro que me leve do que cavalo que me derrube.
SÓ SEGUNDA PESSOA
(39) Chega-te aos bons e serás como eles.
(40) Entre marido e mulher, não metas a colher.
(41) Filho és, pai serás, assim como fizeres [ ], assim acharás [ ].
(42) Guarda o que não presta, terás o que é preciso [ ].
(43) Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.
(44) Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje.
(45) Quem te avisa [ ] teu amigo é.
(46) 1148 “Gosto daquelas canções em que, se estiveres de olhos fechados e minima-
mente concentrado, vês todo o filme desenrolar-se à tua frente.”
(Sean Riley, Público, Ípsilon, 22-05-2009, p. 26)
PRIMEIRA E SEGUNDA PESSOAS
(47) Ajuda-me [ ], que eu te ajudarei [ ].
(48) Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.
Primeira pessoa do plural
(49) Se trabalhamos, merecemos um salário.
(50) Se não pagamos impostos, não temos direito a exigir benefícios.
(51) Se queremos ser respeitados, temos de respeitar.
Terceira pessoa do plural
(52) Dizem para aí que os impostos vão subir.
(53) Contam que em tempos houve aqui um teatro romano.
(54) Tiraram daqui a paragem de autocarro.
(55) Vão fazer aqui uma ponte.
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 32

6.1.2 Referência indeterminada com expressões nominais vagas


Expressões nominais de valor indefinido
(56) Quando alguém precisa, temos de ajudar.
(57) Quando uma pessoa precisa, temos de ajudar.
(58) A gente tem de se habituar às dificuldades da vida.
(59) Para nos sentirmos úteis temos de fazer algo na vida.
(60) A pessoa tem de se habituar às dificuldades da vida. [NB: SN DEF.º, VALOR INDEF.º]

Quantificação nominal (parcialmente) irrestrita (nome nulo)


(61) Casa onde não há pão, todos [ ] ralham, ninguém tem razão.
(62) Cada um [ ] é para o que nasce.
(63) Quando um [ ] não quer, dois [ ] não brigam.
(64) Uns [ ] comem os figos, a outros [ ] rebenta-lhes a boca.
(65) Ninguém nasce ensinado.
(66) O último a rir é o que ri melhor.
(67) Os últimos [ ] serão os primeiros [ ].

Sintagmas nominais com orações relativas sem antecedente expresso


(68) Quem anda à chuva molha-se.
(69) Guarda o que não presta, terás o que é preciso.
(70) O que não tem remédio remediado está.
(71) Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje.
(72) Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.
(73) A quem muito se baixa, o rabo lhe aparece.

6.1.3 Referência indeterminada por meio de elementos nulos


Argumentos nulos em construções infinitivas
(74) [ ] Deitar cedo e cedo [ ] erguer dá saúde [ ] e faz [ ] crescer.
(75) Mais vale [ ] prevenir [ ] do que [ ] remediar [ ].
(76) Nunca é tarde para [ ] amar [ ].
(77) [ ] Viver não custa [ ], o que custa [ ] é [ ] saber [ ] viver.

Argumentos nulos em construções participiais


(78) Antes [ ] invejado que [ ] coitado.
(79) [ ] Perdido [ ] por um, [ ] perdido [ ] por cem.
(80) [ ] Preso por [ ] ter cão e [ ] preso por [ ] não ter.

Argumentos nulos em construções gerundivas


(81) [ ] Comendo pouco, vive-se com mais saúde.
(82) [ ] Conduzindo [ ] defensivamente, evitam-se acidentes.
(83) [ ] Rindo e brincando, leva-se a vida [ ] melhor.

Agentes da passiva nulos


(84) Foram vistos esta noite vários OVNI [ ].
(85) Os impostos vão ser aumentados [ ].
(86) As crianças devem ser acarinhadas [ ].
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 33

Argumentos nulos vários


(87) Deus dá o frio [ ] conforme a roupa [ ].
(88) Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas [ ].
(89) Mais vale [ ] só do que [ ] mal acompanhado.
(90) Muito riso [ ], pouco siso [ ].
(91) Ninguém nasce ensinado [ ] [ ].
(92) No poupar [ ] [ ] é que está o ganho [ ] [ ].
(93) Quanto mais depressa [ ] [ ], mais devagar [ ] [ ].
(94) Quem cala [ ], consente [ ].
(95) Quem com ferro mata [ ], com ferro morre.
(96) Quem dá [ ] [ ] e tira [ ] [ ] ao Inferno vai parar.
(97) Quem espera [ ] sempre alcança [ ].
(98) Quem muito escolhe [ ] pouco acerta [ ].
(99) Quem não arrisca [ ] não petisca [ ].
(100) Quem não está bem [ ] muda-se [ ] [ ].
(101) Quem parte [ ] e reparte [ ] [ ] e não fica com a melhor parte [ ]
ou é tolo ou não tem arte.
(102) Quem quer [ ] vai [ ], quem não quer [ ] manda [ ] [ ].
(103) Quem vai à guerra dá [ ] [ ] e leva [ ] [ ].

6.1.4 Sujeito indeterminado com o pronome pessoal de 3.ª pessoa (se)


(104) Está-se aqui bem.
(105) Vai-se vivendo.
(106) Come-se bem aqui.
(107) Vende-se andares.
(108) Fala-se de um aumento da gasolina.
(109) Devagar se vai ao longe.
(110) Quanto mais alto se sobe, maior o trambolhão.

6.1.5 Construções ditas “apassivantes” (com “partícula apassivante” se)


(111) Gostos não se discutem.
(112) Não é com vinagre que se apanham moscas.
(113) Não se fazem omeletas sem ovos.
(114) “Inquiridores precisam-se” (Expresso, 06-03-1993, p. A22, TÍTULO [394])

6.1.6 Sujeito indeterminado pronominal versus construções


ditas “apassivantes” (com “partícula apassivante” se)
Quando o argumento interno do verbo é singular, qualquer das análises é aplicável:
(115) Apanha-se mais depressa um mentiroso do que um coxo.
[Cf. Os mentirosos apanham-se depressa.]
(116) Amor antigo não enferruja e, se enferrujar, limpa-se.
[Cf. Estas peças limpam-se bem.]
(117) Amor com amor se paga.
[Cf. As dívidas devem pagar-se.]
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 34

6.2 BREVES NOTAS HISTÓRICAS SOBRE SE ‘APASSIVANTE’


E SE IMPESSOAL
Nas línguas que em geral nos são familiares (nomeadamente, as línguas românicas e ger-
mânicas), distinguem-se duas vozes: a voz activa e a voz passiva. A categoria gramatical
voz é um componente do sistema verbal que se realiza ou por flexão do verbo ou por recur-
so a um verbo auxiliar – ser, em português, e seus equivalentes noutras línguas – agregado
a uma forma não finita do verbo principal (o particípio passado). Os valores deste subsis-
tema (da “voz”) têm a ver com interdependências entre, por um lado, as funções sintácti-
cas (em especial, as funções de sujeito, complemento directo e agente da passiva) que cer-
tos constituintes (particularmente nominais) recebem na frase e, por outro, diferentes fun-
ções semânticas que lhes estão associadas (como as funções de ‘agente’, de ‘paciente’, de
‘beneficiário’, de ‘lugar’, etc., as quais designam diferentes modos de intervenção nas
situações por parte das entidades para as quais remetem os constituintes em causa). Em
português, pode-se descrever a variação de voz nestes termos sintéticos: na voz activa, os
sintagmas nominais que remetem para agentes (ou equiparáveis, para o efeito) recebem a
função de sujeito, enquanto os que remetem para ‘pacientes’ (ou equiparáveis, para o efei-
to) assumem a função sintáctica de complemento directo (os estudantes assinaram a car-
ta); diversamente, na voz passiva os denotadores de pacientes assumem a função de sujei-
to, determinando a concordância do verbo, e os denotadores de agentes são introduzidos
pela preposição por, com a função sintáctica tradicionalmente designada ‘agente da passi-
va’ (a carta foi assinada pelos estudantes).
Além das vozes activa e passiva, as línguas do mundo apresentam várias outras vozes (por
exemplo, a média, a antipassiva, a causativa ou a circunstancial). Presume-se que a voz
média existia em proto-indo-europeu e é conhecida de línguas atestadas como o sânscrito,
o islandês e o grego antigo. Nesta última língua, a ocorrência da forma de flexão verbal de
voz média dependia de o sujeito da frase apresentar certas características relativas ao papel
das entidades relevantes na situação descrita. Resumem-se em seguida algumas dessas
características, dando-se, para cada caso, frases portuguesas a que poderiam corresponder
construções médias em grego clássico.
• O sujeito, em vez de obedecer ao molde típico em que corresponde a um ‘agente’ (ou
comparável), é de facto um ‘paciente’ (portanto, um pseudo-agente); a morfologia do
verbo no que respeita à voz não seria nem a voz activa (típica dos sujeitos agentes)
nem a voz passiva (típica dos sujeitos pacientes), mas antes a voz média.
(118) Os livros venderam bem.
(119) A carne assou muito depressa.
(120) Este fato veste muito bem.
(121) Este tecido lava bem.
(122) O branco suja com muita facilidade.
• O sujeito não representa nem propriamente um agente que desencadeia ou controla
uma situação nem propriamente um paciente sobre o qual actua uma entidade exterior,
mas antes uma entidade que, dito metaforicamente, tem um carácter intermédio, está
‘no meio’; segundo alguns autores, seria este carácter distinto das entidades relevantes
em relação tanto a agentes como a pacientes que justificaria o surgimento do epíteto
‘média’ para classificar a morfologia empregue (segundo outros – cf. Ernout e Thomas
1964: 201 – o qualificativo tem antes a ver com a percepção da voz média como
‘intermédia’ entre a voz activa, de que é próxima pelo sentido, e a voz passiva, de que
é próxima pela morfologia).
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 35

(123) Os astros movem-se.


(124) A muralha deslocou-se para Sul.

• O sujeito é beneficiário da situação, por oposição à ausência desse estatuto:


(125) Sacrifiquei um cabrito [por uma razão que não me envolve primariamente].ACT.
(126) Sacrifiquei um cabrito [em meu benefício]. MÉDIA

• A situação não se realiza exteriormente ao sujeito e a partir dele, orientada para outra
entidade, tendo antes a ver com o domínio estrito do próprio sujeito.
(127) Ele puxou da espada.
(128) Lavo as mãos.

O latim não tinha voz média. Assim sendo, as construções gregas médias eram traduzidas
em latim pela voz passiva, com a particularidade de se obterem construções de tipo passi-
vo, mas em que era impossível a expressão de um agente da passiva:

(129) Astra mouentur.


Os astros movem-se.
[SENTIDO PASSIVO: os astros são movidos por alguma entidade não expressa]
[SENTIDO MÉDIO: os astros estão em movimento, sem intervenção de um agente]

Em alternativa à morfologia passiva para exprimir as construções que em grego eram


médias, o latim vai progressivamente admitir a voz activa com pronome reflexo (num pro-
cesso que coincide com a rarefacção da morfologia passiva, substituída pela construção
passiva analítica, com verbo auxiliar da passiva):
(130) Astra mouentur.
(131) Astra se mouent.

Portanto, as primeiras realizações deste tipo, com se, são realizações médias. Os casos de
sujeito-beneficiário podem estar na origem de alguns usos ‘médios’ dos pronomes reflexos
(obtendo-se, por exemplo, algo literalmente traduzível por sacrifiquei-me um cabrito).
Noutros casos, o pronome reflexo pode ter resultado da percepção do sujeito como um
(pseudo-)agente, por exemplo no equivalente de estes livros vendem-se bem. Trata-se de
meras hipóteses.

A construção com se-médio vai dar origem a uma construção de valor passivo, quando o se
passa a ser usado com verbos que não sustentavam a interpretação média, sendo até admi-
tida a expressão do agente da passiva. Esta última possibilidade não se mantém livremente
nos dias de hoje (ver exemplos (2)-(3) em Martins 2003).

Segundo o texto referido, no final do período medieval emerge uma nova estrutura com se,
hoje identificada como construção de “se impessoal”. Isto aconteceu em espanhol, italiano
e português e relaciona-se com o desaparecimento nestas línguas de uma forma de sujeito
indeterminado, de valor pronominal, com origem num substantivo – em português, tratava-
se de ome (ou outra variante gráfica), forma antiga de homem. O francês, por sua vez, man-
teve o pronome com a mesma origem (on, que encontramos em on parle français), não
tendo desenvolvido um se de valor indeterminado.
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 36

Sumariando, é este o sentido da evolução das construções com pronome se não reflexo
(nem recíproco) em português:

I. Como herança directa do latim, estabelecem-se construções de valor médio:

(132) Os astros movem-se.


(133) Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. [Camões; ex. de Martins 2003]
(134) Os problemas resolvem-se.

II. A construção média generaliza-se a verbos transitivos de vários tipos, já sem as


restrições de significação envolvidas nas construções médias do grego, dando
origem a uma construção que tem sido considerada de tipo passivo (com um dito
‘se apassivante’):

(135) As dívidas pagam-se.


(136) Aceitam-se estagiários.
(137) Dão-se referências.
(138) Primeiro, batem-se as claras em castelo.
(139) Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades.
(140) Estes andares não se vendem.
(141) Nestas reuniões, dizem-se muitos disparates.
(142) Ouvem-se aqui coisas que não se compreendem.
(143) Não se fazem perguntas indiscretas.

III. Possivelmente na continuidade do passo anterior, num processo de reanálise sin-


táctica (inconsciente) por parte dos falantes, estabelece-se uma construção em
que o elemento se adquire as características de um sujeito, com o qual o verbo
concorda (no singular, obviamente). A total ausência do conceito caracterizador
das construções passivas manifesta-se, por exemplo, na possibilidade de a cons-
trução se fazer com predicados intransitivos e com verbos de complemento
interno preposicionado.

(144) Sofre-se muito nesta região do mundo.


(145) É preciso que se chegue hoje a alguma conclusão.
(146) Quando se recorre a empréstimos bancários, tem / têm de se tomar precauções.
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 37

LEITURA RECOMENDADA

Sobre a relação entre as CONSTRUÇÕES DE SUJEITO INDETERMINADO PRONOMINAL (i.e., rea-


lizado pelo pronome pessoal de terceira pessoa se) e as CONSTRUÇÕES (ditas) APASSIVAN-
TES (com a tradicionalmente chamada “partícula apassivante” se), leia-se Martins 2003,
onde se sugere que estas últimas construções são, na língua actual, realizações do primeiro
tipo (i.e., de sujeito indeterminado pronominal) com a particularidade de apresentarem uma
concordância excepcional do verbo, isto é, não com o sujeito (que, em tal análise, é o pro-
nome se), mas com o argumento interno. Vejam-se algumas passagens deste texto (onde o
que aqui se designa “sujeito indeterminado pronominal” e a “partícula apassivante” corres-
pondem, respectivamente, a “se impessoal” e “se-passivo”):

“Construções com se com valor reflexo, recíproco (...) podem encontrar-se em


textos latinos de diferentes épocas.” [p. 19]; “Sihler (1995: 374) põe a hipótese
de que no Proto-Indoeuropeu (...) *se tenha sido, primitivamente, um pronome
não reflexivo da terceira pessoa.” [p. 19, n. 1].

“A construção com se médio emerge em latim como resultado da proximidade


semântica entre estruturas activas com se reflexo e as estruturas mediopassivas
correspondentes (...).” [p. 20]

“A ambiguidade semântica de frases (...) que podiam ter uma interpretação


passiva ou média (...) [leva] à emergência já em época românica primitiva da
construção de se-passivo (originado em se-médio).” [p. 20]

“(...) surgem a partir do século XV e tornam-se mais frequentes no século XVI


frases (...) sem concordância entre o verbo e o seu argumento interno, eviden-
ciando a emergência de estruturas activas em que se (...) se encontra associado
à posição de sujeito.”; “(...) a construção com se impessoal (...) [nasce] de um
processo de reanálise da construção com se passivo.” [p. 21]

[Excertos de: Ana Maria Martins: 2003: “Construções com se: mudança e variação no por-
tuguês europeu”, in Ivo Castro e Inês Duarte (orgs.), Razões e Emoção. Miscelânea de
Estudos em Homenagem a Maria Helena Mira Mateus, Vol. II, Lisboa: INCM, pp.19-41.]
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 38

6.3 PARA UM CONCEITO DE VERBO PRONOMINAL

6.3.1 Aspectos gerais da combinação de verbos e pronomes pessoais

Tradicionalmente, os pronomes pessoais dividem-se em pronomes fortes e pronomes


fracos. Os primeiros têm acento próprio, sendo por isso também chamados pronomes
tónicos. Os segundos, por sua vez, são os que não têm acento próprio, pelo que recebem
também a designação de pronomes átonos (ou pronomes clíticos, por poderem agregar-se
ao verbo).

Os termos “tónico”, “átono” e “clítico” são de origem grega. Em sentido literal, sig-
nificam, respectivamente, “com tom”, “sem tom” e “inclinado”.

As formas tónicas estão associadas às funções de sujeito e de complementos outros que


não os acusativos ou dativos e as átonas às funções dos complementos acusativos (ou
directos) e dativos (ou indirectos). O quadro que se segue apresenta as duas classes de pro-
nomes pessoais e a sua correspondência com funções sintácticas.

pronomes tónicos ou fortes pronomes átonos ou fracos


complemento
sujeito complementos complemento complemento
não acusativos e acusativo dativo
não dativos (directo) (indirecto)
1.ª pessoa do singular eu mim, [co]migo me me
2.ª pessoa do singular tu ti, [con]tigo te te
3.ª pessoa do singular ele, ela ele, ela, si, [con]sigo o, a, se lhe, se
1.ª pessoa do plural nós nós, [con]nosco nos nos
2.ª pessoa do plural vós vós, [con]vosco vos vos
3.ª pessoa do plural eles, elas eles, elas, si, [con]sigo os, as, se lhes, se

Quadro 1 – Pronomes pessoais e funções sintácticas em português

No que respeita a valores semânticos, os pronomes fracos podem receber vários valores,
que aqui apenas exemplificaremos com as seguintes frases:

(147) a. O director chamou o novo funcionário e apresentou-o aos colegas.


b. O novo funcionário apresentou-se aos colegas.
c. Os funcionários não se culpam pelas deficiências do serviço.

Na primeira destas frases, (147a), o pronome o é interpretado com um substituto do sin-


tagma nominal o novo funcionário, tendo exactamente o mesmo valor desta expressão
(diz-se que é correferente com ela). O mesmo se passa em (147b), no respeitante ao pro-
nome se e ao mesmo sintagma nominal, com a diferença relevante de a correferência se
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 39

verificar agora entre um sujeito e um complemento directo. Quando o pronome de um


complemento é correferente com o sujeito, diz-se que esse pronome tem valor reflexo. Em
(147c), temos também um exemplo de valor reflexo, mas um pouco mais complexo, uma
vez que a frase é ambígua. De facto, ela pode significar (talvez entre outras possibilidades)
ou (i) que os funcionários (individualmente ou em posição colectiva) não culpam o grupo
que formam ou (ii) que cada funcionário não se culpa a si próprio. No primeiro caso, há
correferência, recebendo o pronome se o mesmo valor de os funcionários e sendo, portanto
a frase equivalente a os funcionários não culpam os funcionários pelas deficiências do ser-
viço. No segundo caso, não há correferência, verificando-se a situação dita ‘de variável
ligada’. As frases de (147) ilustram parte um conjunto de valores dos pronomes reflexos a
que poderíamos chamar valores comuns (entre os quais se inclui o valor reflexo). Vejam-
se outros exemplos de pronomes com valor comum, não reflexo em (148) e reflexo em
(149):

(148) a. A Sara, encontro-a todos os dias na Faculdade.


b. Ao Luís, ofereço-lhe sempre livros.
c. O Luís voltou. A Sara encontrou-o na Faculdade.
d. O Luís fez anos. A Sara ofereceu-lhe um livro.
e. O Luís telefona-nos amanhã.
f. A Sara inscreveu-te na lista de participantes.

(149) a. Cada interessado deverá inscrever-se na lista de candidatos.


b. Eu não costumo elogiar-me, mas vou abrir uma excepção.
c. A criança ficou radiante ao ver-se na televisão.
[N.B. pode haver valor reflexo com pronomes fortes: Eu cuido de mim próprio.]

Deste grupo de valores distingue-se, pelas suas particularidades semânticas, o valor recí-
proco. Vejam-se exemplos:

(150) a. Eu e a minha colega ajudamo-nos muito (uma à outra).


b. Os funcionários culpam-se (uns aos outros) pelas deficiências do serviço.
c. Os dois irmãos encontram-se frequentemente (um com o outro).
d. Os dois cientistas elogiaram-se mutuamente.
[N.B.: pode haver valor recíproco com pronomes fortes: Os dois cientistas conversaram
um com o outro.]
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 40

EXCURSUS: VALORES DE SE EM PORTUGUÊS

1. SE COMO CONJUNÇÃO
• conjunção subordinativa integrante (introduz oração interrogativa indirecta)
(151) Não sei se hei-de trocar de carro ou não.
• conjunção subordinativa condicional
(152) Vou ao cinema se estiver a chover.

2. SE COMO PRONOME PESSOAL


• pronome pessoal reflexo de 3.ª pessoa singular ou plural
[NB: Faz paradigma com me, te, nos, vos.]
(153) O Paulo apresentou-se ao grupo.
(154) As crianças vestiram-se.
• pronome pessoal recíproco (logo, plural) de 3.ª pessoa
[NB: Faz paradigma com nos, vos.]
(155) Reencontrámo-nos ao fim de muitos anos.
(156) Os antigos colegas abraçaram-se efusivamente.
• pronome pessoal de valor indeterminado (sujeito indeterminado pronominal)
(157) Está-se aqui muito bem.
(158) Vai-se vivendo.
• “partícula apassivante” (pronome pessoal de valor nulo
ou, alternativamente, idêntico ao tipo anterior)
(159) Encadernam-se livros.
(160) Puseram-se os quadros mais bonitos ao fundo da sala.
(161) Primeiro, batem-se as claras em castelo.
(162) Não se dizem essas coisas.
• pronome pessoal de valor nulo (dito inergativo ou anticausativo)
(163) As portas abriram-se.
(164) Os copos partiram-se sem ninguém lhes tocar.
• pronome pessoal de valor nulo (intrínseco)
[NB: Faz paradigma com me, te, nos, vos.]
(165) O Pedro arrependeu-se do que disse.
(166) A Rita queixou-se de dores.
(167) A Rita precipitou-se, saindo da Faculdade.
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 41

6.3.2 Verbos comuns e verbos pronominais

No que respeita ao modo de combinação de verbos e pronomes átonos, distinguem-se duas


classes de verbos que aqui são designados verbos comuns (ou verbos não pronominais),
que são os que podem combinar-se ou não com um pronome átono, e verbos pronomi-
nais, que são os que se combinam obrigatoriamente com um pronome átono sem valor
semântico (seja em próclise, seja em ênclise). As duas classes são a seguir ilustradas.

6.3.2.1 Verbos comuns (pronome facultativo, com valor semântico)

Nos dados que se seguem, a primeira frase de cada par contém um verbo comum sem pro-
nome e a segunda apresenta o mesmo verbo acompanhado de pronome:
(168) a. O jornalista entrevistou o candidato.
b. O jornalista entrevistou-o.
(169) a. O pai lavou o bebé.
b. O pai lavou-o.
(170) a. O director promoveu os estagiários.
b. O director promoveu-me.
(171) a. A mãe penteou a criança.
b. A criança penteou-se. [VALOR REFLEXO DO PRONOME]
(172) a. Os candidatos cumprimentaram a entrevistadora.
b. Os candidatos cumprimentaram-se. [VALOR RECÍPROCO DO PRONOME]

6.3.2.2 Verbos pronominais (pronome obrigatório, sem valor semântico)

VALORES PRESENTES NUMA CORRELATOS LEXICAIS


CLASSES EXEMPLOS POSSÍVEL PARÁFRASE COM
COM A MESMA COM
DE DECOMPOSIÇÃO SEMÂNTICA
BASE LEXICAL DIFERENTE
VERBOS BASE
VALOR VALOR ERGATIVA NÃO
LEXICAL
REFLEXO RECÍPROCO ERGATIVA

A despenhar-se4 (1 ARG)
arrepender-se (2 ARG)
B deitar-se (1 ARG) deitar
esquecer-se (2 ARG) esquecer
C mover-se mover
D suicidar-se matar-se a
si próprio
E auto-elogiar-se elogiar-se elogiar
a si mesmo
F entreajudar-se ajudar-se ajudar
um ao outro

Quadro 2 – Subclasses de verbos pronominais

4
Em relação aos verbos desta subclasse e da seguinte, estamos a ter em conta apenas a variante intransitiva, e
não os casos exemplificados por frases como o avião despenhou-se no mar ou ele deitou-se na cama, em que
se poderá considerar que é seleccionado um argumento interno de valor “locativo direccional”.
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 42

OUTROS EXEMPLOS DE VERBOS PRONOMINAIS

Classe A: [UM ARGUMENTO] benzer-se, cansar-se1, constipar-se, finar-se, persignar-se;


[DOIS OU MAIS ARGUMENTOS] aboletar-se, abster-se, apiedar-se, atrever-se,
ausentar-se, aventurar-se, comprazer-se, condoer-se, congratular-se, despedir-
se, escapulir-se, esvair-se, evadir-se, gabar-se, imiscuir-se, intrometer-se,
pisgar-se, queixar-se, vangloriar-se, ufanar-se.

Classe B: [UM ARGUMENTO] baixar-se, cansar-se2, entusiasmar-se, iludir-se, lançar-se,


levantar-se, sentar-se;
[DOIS OU MAIS ARGUMENTOS] desculpar-se, distrair-se, justificar-se, lembrar-
se, recordar-se.

Classe C: afundar-se, derramar-se, derreter-se, entornar-se, estragar-se, evaporar-se,


movimentar-se, romper-se, sujar-se.

Classe E: autocriticar-se, autodestruir-se, autofinanciar-se, autogerir-se, autogovernar-


se, auto-intitular-se, automutilar-se, autoquestionar-se, autonomear-se, auto-
proclamar-se, autopromover-se, auto-regular-se.

Classe F: entreajudar-se, entrechocar-se, entrecruzar-se, entreolhar-se.

Como mostram os dados subsequentes, a ausência de pronome com verbos pronominais


origina agramaticalidade:

(173) a. O avião despenhou-se.


b. *O avião despenhou.
(174) a. Não me arrependo de ter vendido as acções há alguns anos.
b. *Não arrependo de ter vendido as acções há alguns anos.
(175) a. Os alpinistas refugiaram-se numa gruta.
b. *Os alpinistas refugiaram numa gruta.
(176) a. Se ele se auto-intitula coordenador do grupo, tem de trabalhar.
b. *Se ele auto-intitula coordenador do grupo, tem de trabalhar.
(177) a. Os noivos entreolharam-se.
b. *Os noivos entreolharam.
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 43

6.4 ANÁLISE DE DADOS RELATIVOS A VERBOS PRONOMINAIS


E À SUA COOCORRÊNCIA COM SUJEITOS
INDETERMINADOS PRONOMINAIS

6.4.1 Dados relativos a verbos pronominais

6.4.1.1 Questão da realização do pronome obrigatório de verbos pronominais

6.4.1.1.1 Construções que envolvem apenas um verbo


(logo, sem interferência de outros pronomes relevantes)

442 “Cavaco não encontra Savimbi” (TÍTULO)


“Afinal, Cavaco e Savimbi não deverão encontrar-se em Angola (...).”
(O Jornal, 30-08-1991, p.29)

443 “Mandela aceita encontrar De Klerk” (Público, 11-09-1992, p.10, TÍTULO)

856 “Quarta decepção: nem rasto de colegas de profissão ou indício dos «contactos quali-
ficados» a nível da administração norte-americana, que John gabara possuir.”
(Expresso, 28-03-1997, p.8)

1146 “Falta um ano para eleições. Antes que seja tarde, PS já se pôs a mexer.”
(Expresso, PRIMEIRO CADERNO, 13-09-2008)

6.4.1.1.2 Construções que envolvem mais de um verbo


(e mais de um pronome relevante)

441 “(…) KARL WALLENDA


Acrobata funâmbulo que caiu de uma altura de 30 metros, em 1978, quando atravessava
um cabo de aço esticado entre dois hotéis, com 225 metros de comprimento. Wallenda
começou a perder o equilíbrio e os amigos gritaram-lhe da rua, em baixo, «senta-te Poppy,
senta-te». Porém uma rajada de vento arrancou-o ao «arame», fazendo-o despenhar sobre
um táxi que passava.” (Público, Férias II, 07-07-1991)
[ESTRUTURA DE MARCAÇÃO EXCEPCIONAL DE CASO: COM O VERBO CAUSATIVO fazer, O
SUJEITO DA FRASE COMPLEMENTO DESTE VERBO – (ele) despenhar-se – TORNA-SE COMPLE-
MENTO DE FORMA ACUSATIVA (o) DO VERBO CAUSATIVO.]

71 “Solícita, aconselhou-me a dirigir a uma das bilheteiras da estação (...).”


(Notícias Magazine, 19-03-1995, p.10)
[ESTRUTURA DE CONTROLO DE OBJECTO]

719 “Ainda os funcionários se preparavam para sentar às secretárias e começar a trabalhar


quando os quatro inspectores bateram à porta (...).”
(Público, Computadores, 04-2003-2002, p.2)
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 44

629 “Quando José Alberto Carvalho estava a encerrar o debate, Portas apressou-se a levan-
tar e a estender a mão para Durão.” (Público, 23-09-1999, p.11)
266 “É que, ao introduzir um factor de tão forte irracionalidade, vai fazer-se apelo exacta-
mente àquilo de que o mercado tanto se tem esforçado por desembaraçar: a intervenção do
Estado e as suas medidas de regulação.” (Expresso, 26-01-1991, p.38-R)

646 “Como se terá recusado a identificar foi conduzido ao posto, onde, depois de lhe terem
sido lidos os direitos, foi acusado pelo agente Almeida de ter agredido um cabo a murro.”
(Público, 12-02-1996, p.19)

439 “Os alvos, porém, são por vezes muito mais jovens (...). Ou mais velhos, como Peter
Fuchs, o professor que se “atreveu” a pronunciar abertamente contra o extremismo de
direita na cidade (...).” (Público, 29-11-1993, p.22)

44 “Tirando os membros da Abraço, ninguém se atreveu a aproximar.”


(O Independente, 16-12-1994, p.39)

[NOS TEXTOS 719 A 44, TEMOS ESTRUTURAS DE CONTROLO DE SUJEITO; EM TODOS OS CASOS,
O VERBO SUPERIOR É PRONOMINAL – preparar-se, apressar-se, esforçar-se, ...; NOTE-SE,
PORÉM, QUE NÃO PRECISA DE SER PARA SEJA OBRIGATÓRIA A REALIZAÇÃO DO PRONOME DO
VERBO PRONOMINAL ENCAIXADO:

(178)a. Finalmente, o instrutor preparou-se (a si próprio) para se lançar de pára-quedas.


b. O director indicou-se (a si próprio) para se ocupar do assunto.

6.4.1.2 Posição de pronomes clíticos em construções com mais de um verbo

6.4.1.2.1 Com o verbo auxiliar aspectual começar a e verbo pronominal

656 “Foi através deste navio que foi pedido socorro médico para Richard Parish, que
começara a se sentir mal.” (Público, 28-2002-1995, p.43)

6.4.1.2.2 Com verbo de complementação (de controlo) e verbo pronominal

481 “Estados Unidos, Alemanha e França, entre outros países, estão agora prontos a reco-
nhecer a independência dos bálticos, mas Washington sublinha que não se deseja precipitar
(...).” (Público, 24-08-1991, p.7)

483 “«Um Salto no Escuro» começa com imagens arrepiantes de um potencial suicida
pendurado da janela de um prédio de Lisboa e que se ameaça atirar.”
(Público, 08-09-1996, p.40)

487 “Isto acontece em toda a parte e apenas devíamos estar gratos pelo facto de os nossos
governantes se terem decidido debruçar de modo tão absorvente na reorganização do nosso
sector.” (Público, 21-04-1992, p.21)
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 45

480 “«La Divine française» chegou a expulsá-lo de casa porque depois de dois anos de
convivência, ele ainda não se tinha decidido divorciar.” (Público, 20-12-1997, p.23)

EXCURSUS: Com V de complementação (de controlo ou não) e V não pronominal

488 “Cavaco prometeu que nunca voltaríamos a sofrer o penoso «aperto do cinto» e que
ele mesmo nos tencionava arrancar da «cauda da Europa».”
(O Independente, 27-08-1993, p.6)

492 “No fundo, o Presidente declarou que os portugueses viveriam melhor sem Cavaco e
que, se o decidissem despedir, ele mesmo, ou alguém por ele, tomaria conta da casa com
tranquilidade, competência e «moderação».” (O Independente, 12-03-1993, p.6)

6.4.1.2.3 Com verbo auxiliar aspectual ir e gerúndio

486 “Marques Mendes e Carlos Coelho poderão ser capazes, e até profissionais, nos basti-
dores da política – foram, desde a juventude, treinando-se para o efeito –, mas não estão
preparados para enfrentar a primeira linha do combate político.”
(Público, 06-04-1996, p.6)

142 “Então, e acompanhando esse estudo com a observação do real, talvez chegue a enten-
der algo de como vai evoluindo e construindo-se uma Pessoa (...).”
(Público, carta, 13-09-1996, p.12)
[TEXTO GRAMATICAL; O CLÍTICO PODE SER INTERPRETADO COMO REFLEXO]

6.4.1.2.4 Com gerúndio composto

491 “Desde os princípios do século que os limites daquele pequeno povoado (...) desapare-
ceram, tendo a zona residencial expandido-se muito para além dos muros aparentemente
frágeis do século XIII.” (Diário de Notícias, 21-02-1991, p.49)

490 “Paulo Jorge afirma que foi obrigado a entrar no carro, tendo os três dirigido-se a casa
de um seu vizinho.” (Público, 09-10-1996, p.19)

489 “A posição de Óscar Lopes é a seguinte: é a favor de um acordo (...). E lamenta as


condições extremamente precárias e limitadas em que se deu a discussão, tendo a Acade-
mia furtado-se a ela o mais possível (...).” (Expresso, 01-06-1991, p.76-R)
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 46

6.4.2 Dados relativos a sujeitos indeterminados pronominais

6.4.2.1 Pertinência da construção de sujeito indeterminado pronominal

6.4.2.1.1 “Apassivação” em oração superior


em vez de sujeito indeterminado pronominal

40 “Outras vezes ainda, o transbordar público das ideias científicas dá-se por equívoco (...)
sempre que se querem atacar os autores das ideias, as instituições ou os países associados à
criação ou fomento dessas ideias.” ( Público, 24-08-1991, p.22)

484 “A síndroma de Santa Engrácia é a incapacidade de planear a médio e longo prazos.


Pior: é não se conseguirem criar instrumentos de coesão social que sustentem o planea-
mento.” (Já, 04-05-1996, p.20)

6.4.2.1.2 “Apassivação” com sujeito preposicionado


em vez de sujeito indeterminado pronominal

43 “A CCI lamenta que, perante um problema de interesse nacional, se recorram a expe-


dientes deste tipo para, através de falsas informações, criar um sensacionalismo efémero,
que apenas serve para tornar mais difícil o correcto esclarecimento dos cidadãos.”
(Público, 01-06-2000, p.5)

641 “Assim a questão da “falência” financeira da Segurança Social numa data previamente
determinada, em relação ao Regime Geral, só poderia acontecer se não se procedessem aos
necessários ajustamentos estruturais (...).” (Expresso, 01-07-2000, p.23)

62 “Em Portugal, o ministro afirma que existe um estudo, feito há seis anos atrás, em que
se chegam a conclusões semelhantes.” ( Público, 06-03-1997, p.27)

429 “Convém que não se continue a enterrar a cabeça na areia como as avestruzes e se
terminem com os tabus.”(Público, 28-03-1996, p.3)

6.4.2.1.3 Duplo sujeito em construção de foco ou posição do clítico

831 “O que ainda se está por perceber, em toda a sua amplitude, são os sinais cada vez
mais preocupantes, que chegam do Kremlin.” (Diário de Notícias, 19-01-1993, p.2)

6.4.2.2 Sujeito indeterminado com verbo pronominal (sem cadeia)

475 “(…) há uns quinze anos, o Vilalisa não passava mesmo de uma tasca manhosa, onde
quase não havia lugar para sentar e onde só iam meia dúzia de privilegiados com bom gos-
to (...).” (Público, 09-09-2001, p.52)
[NB: COM SUPRESSÃO DO PRONOME]
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 47

[NB: NOS TRÊS TEXTOS SEGUINTES – 36, 47b E 578 –, COM PRESERVAÇÃO DO PRONOME]

36 “Ninguém em França contesta hoje o regime republicano. Apercebe-se, porém, de um


desequilíbrio da sociedade por detrás do saudosismo que tinge o debate, ligado ao clima de
fim de “reino miterrandiano” que se vive em França.” (Público, 21-01-1992, p.24)

47b “Desde Abril passado tornou-se difícil falar de André Malraux sem se referir à biblio-
grafia que o jornalista e escritor Olivier Todd lhe dedicou, «André Malraux, Une
Vie»(...).” (Público, 03-11-2001, p.47)

578 “Em primeiro lugar, há uma traiçoeira armadilha de tradução. Em inglês, as palavras
que designam as duas doenças são as mesmas que em português, mas com o sentido tro-
cado: ou seja, carbúnculo é «anthrax» e antraz é «carbuncle». Superada esta armadilha, é
fácil perder-se com o que dizem os dicionários de português e de português-inglês.”
(Público, 18-10-2001, p.3)

6.4.2.3 Cadeia com sujeito nulo de oração infinitiva, sendo o verbo pronomi-
nal introduzido em estrutura de coordenação

478 “É indiferente ir para o Marquês de Pombal de carro ou de metro – há sempre um


lugar para estacionar ou para sentar, conforme os casos.”
(Diário de Notícias, DNA, 08-09-2001, p.9)

640 “Computadores – De secretária nos escritórios, portátil na sala, permitem trabalhar ou


divertir em qualquer divisão.” (Expresso, Vidas, 01-12-2000, p.23)
[NB: EM AMBOS OS CASOS, HÁ SUPRESSÃO DO PRONOME]

6.4.2.4 Cadeia de se indeterminado (impessoal) com o pronome obrigatório


de um verbo pronominal

37 “É sabido que essas delícias podem causar uma intoxicação alimentar. Queixa-se na
altura, vai-se ao hospital e depois passa.” (Público, 10-11-2000, p.24)

41 “À esquerda, olha-se para os homossexuais e a primeira coisa de que se lembra é que


eles se querem casar, olha-se para as uniões livres e quer-se-lhes impor registo como no
casamento civil.” (Diário de Notícias, 26-06-1997, p.13)

366 “Quando se olha com um pouco mais de atenção para a exuberância editorial do país
vizinho, dá-se de imediato conta daquilo que o público português tem vindo a perder.”
(Público, 22-01-1991, p.38)

614 “O destino, quando se desenha assim, destrói se não se aproxima dele, tanto como des-
trói se se fica prisioneiro dele.” (Expresso, Revista, 28-01-1995, p.16)
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 48

950 “Contudo, o Governo pretende vir a introduzir o princípio da «reforma parcial», um


sistema que permitirá que a partir dos 65 anos se possa optar por se manter activo, mesmo
que em «part-time».” (Expresso, 04-01-2003, p. 12)

957 “É simples. Basta aprender-se a dizer uma palavra: não. A partir desse momento pode-
se dizer não dez vezes por dia e fazer-se respeitar.” (Público, 18-11-2002, p. 14)
1049b “Quando se pretende reduzir o analfabetismo servindo-se da simplificação ortográ-
fica cai-se na divulgação de uma cultura de segunda, que seria pretensamente adequada às
massas (...).” (Jornal de Letras, Artes e Ideias, 26-03-2008, p. 34)

6.4.2.5 Cadeia de se indeterminado com um pronome reflexo

38 “Logo de início há um relambório a servir de introdução, em que se diz que o filme é


apátrida, que as autoridades francesas lhe recusaram a paternidade, que foi filmado semi-
clandestinamente nas Filipinas e que a história é extremamente real. Tudo em tom de quei-
xa. Quer-se criar o condicionamento político para que ninguém estrebuche. Quer-se res-
suscitar a importância do filme de intervenção. Ou simplesmente dar-se a importância de
quem está convencido que intervém.” (O Independente, 24-08-1990, p.33-III)

6.4.2.6 Cadeia de se indeterminado com pronome possessivo

1061b “Chegamos, pois, a uma situação em que pode ser-se suspeito de ilícitos criminais.
Ou, pior, constituído arguido num processo judicial. Pode mesmo ser-se acusado e presente
a julgamento. Ou, inclusive, foragido à Justiça. E continuar a actuar, politicamente, como
se os seus direitos e deveres não tivessem sofrido qualquer abalo ou beliscadura. Deixou de
haver regras de ética, exemplos de salvaguarda da idoneidade pessoal e da credibilidade
das funções. Deixou de haver, simplesmente, vergonha na cara.”
(Expresso, 02-07-2005, p.32)

6.4.2.7 Coocorrência de sujeito indeterminado pronominal e outros clíticos

127 “É também sintomático o facto de os deputados não terem incluído os magistrados na


“lei da transparência”, embora lógica e legalmente se possa presumir – “juris et jure” – que
o crime de corrupção depende do poder de conceder favores e, muito, de se o poder fazer
com total impunidade.” (Público, 12-02-1996, p.127)

482 “Uma vez na posse da amostra, como é que se a manuseia para não haver uma liberta-
ção acidental?” (Público, 07-09-1996, p.24)
João Andrade Peres 2009 TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO 49

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