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Autor: Soboul, Albert

Título:

A Revolução

Francesa.

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A REVOLUÇÃO FRANCESA consigna-se desta maneira um lugar excepcional na história do mundo contemporâneo. Revolução burguesa clássica, ela constitui, para a abolição do regime senhorial e da feudalidade, o ponto de partida da sociedade capitalista e da democracia liberal na história da França. Revolução camponesa e popular, porque antifeudal sem compromisso, tendeu por duas vezes a ultrapassar seus limites burgueses: no ano II, tentativa que, apesar do malogro necessário, conservou por valor profético de exemplo

�.

consciência dos homens do nosso século. Esta lembrança, só por si, é revolucionária: ela ainda nos exalta.

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DIFEL

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ISBN 978-85-

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N.C ham.

BCH

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Á!6-e/v Job-oat

A REVOLUÇÃO FRANCESA

944.04 S659r 9. ed.

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ALBERT SOBOUL

-

AREVOLUÇAO

FRANCESA

9ª EDIÇÃO

Tradução ROLANDO ROQUE DA SILVA

[]

DIFEL

Copyright© by

Presses Universitaires de France, PUF

Título original: La

Révolution Française

Capa: Rodrigo Rodrigues

2007

Impresso no Brasil

Printed in Brazil

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonce

Sindicato Nacional

dos Editores

de

Livros,

RJ.

S659r

Soboul,

Albert,

1914-1982

 

9" ed.

A Revolução Francesa: edição

comemorativa

do

bicentenário da

Revolução

francesa, 1789-1989/Albert

Soboul; tradução

de Rolando

Roque Silva.

-

9" ed.

-

Rio

de

Janeiro:

DIFEL, 2007.

112p.

Tradução de:

La révolution

française

 

Inclui

bibliografia

 

ISBN

978-85-7432-055-7

 

1. França

-

História

-

Revolução, 1789-1799.

I. Título.

 

COO

-

944.04

CDU

- 94

(44)

"1789/1799"

03-1469

Todos os direitos reservados pela:

DIFEL - selo editorial da EDITORA BERTRAND BRASIL LTDA.

Rua Argentina, 171-

10 andar - São Cristóvão

20921-380

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Atendemospelo Reembolso Postal.

INTRODUÇÃO - Das causas

ÍNDICE

da Revolução Francesa e de

seus caracteres

 

7

L Feudalismo

e capitalismo,

8.

-

II.

Estrutura e

conjuntura, 11.

1.

Antagonismos sociais, 11.

- 2.

Flutuações econômicas

e

demográficas,

21.

-

III.

Espontaneidade e organização revolucionárias,

28.

- 1.

A esperança e

o medo, 28. -2.

A prática

po­

lítica,

32 .

CAPÍTULO I

- Noventa e nove. Revolução ou Compro-

 

misso? (1789-1792)

 

39

I.A "abolição" da feudalidade, 41. - O liberalismo

burguês,

44.

- III.

O

impossível compromisso, 48.

CAPÍTULOII

- Noventa e três.

República Burguesa ou

Democracia

Popular? (1792-1795)

 

57

l. O despotismo da liberdade, 58.

-1.

Girondinos

eMontanheses

(1792 -1793), 58.2. -

Montanheses,

Jacobinos e

Sans-Culottes (1793-1794),

60.

- II.

Grandeza e

contradições

da República

do ano

Il,

63. - 1.

Tendências sociais e prática política do mo­

Governo revolucionário

impossível Repú­

- 1. Parada e declínio do mo­

A

mo­

vimento popular, 63.

e ditadura jacobina,

blica igualitária,

vimento

queda do

vimento popular (termidor,

- 2.

66.

- III. A

71.

popular (primavera de

Governo revolucionário

1794),

e o

71.

-

2.

fim do

anoII-prairial,

anoIII),

74.

CAPÍTULO III

- Noventa

e cinco.

Liberalismo ou Dita­

dura?

(1795-1799)

L A

de,

herança termidoriana: propriedade e liberda-

II. A catástrofe monetária e a Conspira-

82.

-

,81

prática

III. A

Igualdade (1795-1797),86. -

ção pela

do liberalismodíretorial ao autoritarismo

política:

91.

consular,

na história do

Francesa

- A Revolução

CONCLUSÃO

99

contemporâneo

mundo

; ··

·

II. Revolução

99.

revolução,

resultado da

O

I.

-

101

burguesas,

e revoluções

Francesa

107

SUMÁRIA

BIBLIOGRAFIA

··

·

.····

.

·······

'.

INTRODUÇÃO

DAS CAUSAS DA REVOLUÇÃO FRANCESA E DE SEUS CARACTERES

A Revolução assinala a elevação da sociedade burguesa e ca­

pitalista na história da França. Sua característica essencial é ter

realizado a unidade nacional do país por meio da destruição do

regime senhorial e das ordens feudais privilegiadas: porque, se­ gundo Tocqueville em L Ancien Régime et la Révolution (livro II,

cap. I), seu "objetivo particular era abolir em toda parte o resto das instituições da Idade Média". O fato de ter chegado, finalmen­ te, ao estabelecimento de uma democracia liberal particulariza ain­

da a sua significação histórica. Deste duplo ponto de vista, e sob

o ângulo da história mundial, ela merece ser considerada o mo­

delo clássico da revolução burguesa.

A história da Revolução Francesa coloca assim duas séries de

problemas. Problemas de ordem geral: os concernentes à lei his­

tórica da transição do feudalismo ao capitalismo moderno. Pro­

blemas de ordem particular: os que se prendem à estrutura espe­

cífica da sociedade no fim do Antigo Regime e levam em consi­ deração os caracteres próprios da Revolução Francesa em relação

aos diversos tipos da "revolução burguesá'. Impõe-se um reparo de vocabulário. Conhecemos as obser­

vações críticas suscitadas pelos termos feudalidade, feudalismo,

aqui empregados; Georges Lefebvre, a propósito de um debate

sobre "a transição do feudalismo ao capitalisrnd: adiantara que eles não eram apropriados. Corno desde então designar o tipo de organização econôrnica e social destruído pela Revolução e que

se caracterizava, não apenas pelas sobrevivências da vassalidade

7

-

--- ����------------------

e do desmembramento

persistência da apropriação direta por parte dos senhores do pro­

duto do sobre-trabalho

as corvéias,

aos quais estes últimos estavam sujeitos? Indubitavelmente, é dar

ao termo

os fundamentos materiais próprios do regime. É neste sentido que

par

ao fracio­

namento do poderio público, que os camponeses que lhe supor­

tavam o peso e os revolucionários que a derrubaram. É neste sen­

tido,

dos, Tocqueville,

(livro I,

ainda, que o entendia esse observador, clarividente entre to­

do

poder

público,

mas igualmente

pela

dos camponeses, como

testemunhavam

os direitos e as obrigações em gêneros e em dinheiro

uma significação mais

ampla,

englobando

menos

taivez

os juristas a

sensíveis

feudalidade

os contemporâneos

o entendiam,

das instituições ou os filósofos

em particular

ao escrever em

r: Ancien Régime etla Révolution

inteiramente

"tu_

cap. V) que esta última tinha destruído

do o que,

ticas e feudais". Portanto,

direito, mas

por determinado tipo de produção histórica fundado na proprie­

dade

ção capitalista. Inútil precisar que a feudalidade neste último sen­

tido apresenta diversos matizes segundo o estádio de sua evolu­

ção, segundo também

da Revolução Francesa foi o de assegurar,

histórico

pela destruição da feu­

na antiga sociedade, derivava das instituições aristocrá­

feudalidade não no sentido restrito do

noção

de história

económica

e social,

definindo-se

da terra, anterior ao capital moderno e ao modo de produ­

os

países e

as regiões. O

papel

dalidade

assim definida, a

transição para a

sociedade capitalis­

ta.(l)

I

- Feudalismo e capitalismo

No fim do

século

XVIII, a estrutura

social da França pérma­

ori-

necia

de essência

aristocrática:

conservava

o caráter

de sua

(1) Sobre a feudalidade,

no sentido estrito, ci.

M. BLOCH,

La société féQdale,

t. I: La formation des liens

de dépendance (Paris, 1939);

R. BOUfRUCHE,

IXe Con­

gres International des Sciences Histonques; I: Rapports

(Paris,

1950);

R. BOUTRU­

CHE,

Seigneurie et féodalité,

ris, 1959).

Sobre o problema

I:

Le premier âge des liens d'homme à homme

da transição do feudalismo ao capitalismo,

ci.

(Pa­

The

Transition from Feudalism

to

Capitalism, A

Symposium por

DOBB,

H. K.

TAKAHASHI,

R. HILlDN,

C. HILL(Londres, 1954); R.

P.

H

.

M. SWEEZY, M.

HILlDN, "Yeut­

.

ii une crise générale de la féodalité?" (Ann"

1951, n?

1);

G.

PROCACO,

G.

LEFEBVRE,

A. SOBOUL,

("Une disc,!ssion l1istorique:

n? 65);

A. SoBOUL, La

Révolu­

(Revue

"histonque,

du féodalisme au

487,

p. 33).

capitalisme" (La

Pensée"; 1956,

tion française et la féodalité. Notes sur le prélevement féodal"

1968, n?

8

gem,

da época em que a terra constituía a única forma de riqueza

social

e conferia,

portanto, aos

seus

possuidores o

poder

sobre

A monarquia dos Capetos, ao preço de gran­

os que a cultivavam.

des

direitos realengos: estes tinham conservado apenas seus privilé­

subli­

nhgvam

seus

esforços, havia

despojado

Os

inteiramente

os senhores

sempre

de

gios sociais e

económicos.

direitos senhoriais

a sujeição dos

camponeses.

ção

O renascimento do comércio e o desenvolvimento da produ­

os séculos X

artesanal

tinham,

não obstante,

criado,' desde

e XI,

uma nova forma de riqueza,

a riqueza mobiliária,

e através

dela,

dado nascimento a

uma nova classe,

a burguesia,

cuja

ad­

a

importância. No quadro da sociedade feudal, ela dera prossegui­

mento

capitalismo, estimulado pelos grandes descobrimentos dos sécu­

los XV e XVI e pela exploração dos mundos coloniais, bem como

pelas

sempre carente

fi­

não só

os quadros administrativos como também os recursos necessários

nanças,

de dinheiro.

desenvolvimento do

missão aos Estados gerais, desde o

ao

seu impulso

ao

século

XIV,

lhe consagrara

próprio ritmo do

de

uma

operações financeiras

No

monarquia

século XVIII,

a burguesia estava

à

testa

das

do comércio,

da indústria; fornecia à monarquia

à marcha do Estado. A aristocracia, cujo papel não tinha cessado

da hierarquia

de

diminuir,

permanecia ainda na primeira escala

social:

porém se

esc1erosava em casta,

no momento mesmo em

que a

burguesia aumentava em

número,

em poder

econômico,

taPlbém em cultura e em consciência.

O progresso das Luzes

80-

.apava os fundamentos ideológicos da ordem estabelecida, ao mes­

mo tempo que se afirmava a consciência de classe da burguesia.

Sua boa consciência: classe em ascensão,

de assu­

so,

classe progressiva, exercia uma triunfan­

mir o encargo da nação;

te atração sobre as massas populares como sobre os setores dissi­

dentes da aristocracia. Contudo, a ambição burguesa, apoiada pela

se chocava com o espírito aristocrá­

tico

realidade social e económica,

a convicção de representar o interesse geral e

acreditando no progres­

tinha

das

leis

e das instituições.

Europa.

Em toda parte a ascensão da burguesia se operara em detrimento

Estes

caracteres

não isolavam

a

França

do resto

da

da aristocracia e nos próprios quadros da sociedade feudal. Mas,

ma­

como

neira bastante desigual no desenvolvimento da economia capita­

tais caracteres afetavam-nos em graus variados, da Holanda

lista,

Economies,

Sodetés,

Civilizations,

os diversos países

europeus tivessem participado de

9

e da Inglaterra que, desde o século XVII, tinha completado a sua revolução burguesa, às grandes monarquias da Europa do Cen­ tro e do Leste, às burquesias pouco numerosas e desprovidas de grande influência.

Na França, na segunda metade do século XVIII, o avanço da economia capitalista, sobre cujos fundamentos se tinha edificado o poderio da burguesia, permanecia frenado pelos quadros feu­

dais da sociedade, pela organização tradicional e regulamentar da propriedade, da produção e das trocas. "Era preciso romper es­ tes grilhões - escrevem os autores do Manifesto -e romperam­ se:' É assim que se coloca o problema da passagem do feudalis­

mo ao capitalismo. Ele não escapou aos mais clarividentes dos homens da época. Longe de ser inspirada por um idealismo abs­ trato, como supunha Taine, a burguesia revolucionária tinha uma consciência esclarecida da realidade econômica que constituía a sua força e lhe determinava a vitória. Barnave foi o primeiro a formular, mais de meio século antes de Marx, a teoria da revolução burguesa. Tendo vivido no Dau­ phiné, no meio dessa intensa atividade industrial que, a acreditar­ se no que escrevia, em 1785, o inspetor das manufaturas Roland,

fazia desta prOVÍncia, pela variedade e pela densidade de suas em­ presas, pela importância de sua produção, uma das primeiras do reino, Barnave vem a conceber aí que a propriedade industrial pro­ voca a ascensão política da classe que a possui. Em sua Introduc­

tion à la Révolution française, escrita em 1792, publicada em 1843,

após haver colocado o princípio de que a proprieclade influi so­ bre as instituições, Barnave constata que as instituições criadas pela aristocracia fundiária contrariam e retardam a ascensão da

. sociedade nova, "O reino da aristocracia dura enquanto a popu­ lação agrícola continuar a ignorar ou a negligenciar as artes, e en­ quanto a propriedade das terras continuar a ser a única riqueza"

'1\ssim que as artes e o comércio conseguem penetrar no povo e criam um novo meio de riqueza em auxílio da classe laboriosa, prepara-se uma revolução nas leis políticas; uma nova distribui­

ção da riqueza prepara uma nova distribuição do poder. Da mes­ ma maneira que a posse das terras elevou a aristocracia, a pro­ priedade industrial eleva o poder do povo; ele adquire a sua li­

O povo: entendamos, na pena de Barnave, a burgue­

sia. Tendo afirmado assim nitidamente a correspondência neces­ sária entre as instituições políticas e o movimento da economia,

berdade"

10

Barnave ajunta-lhe o movimento dos espíritos: medida que as artes, a indústria e o comércio enriquecem a classe laboriosa do povo, empobrecendo os grandes proprietários de terra e reapro­

ximando as classes pela fortuna, os progressos da instrução as reaproximam pelos costumes e tornam a chamar, após um longo esquecimento, as idéias primitivas da igualdade". Do mesmomodo que aigualdade com a aristocracia, era a liber­

dade que a burguesia reclamava: a liberdade políticacertamente, con­ tudo maisainda a liberdade econômica, a do empreendimento e do lucro.O capitalismo exigia a liberdade porque necessitava dela pa­ ra assegurar o seuimpulso, a liberdade sob todas as suas formas: li­ berdade da pessoa, condição do assalariado -liberdade dos bens, condição de sua modalidade -liberdade do espírito, condição da pesquisa e das descobertas científicas e técnicas. Que as causas profundas da revolução devam ser pesquisadas nas sobrevivências feudais e nas contradições da antiga sociedade, obstáculo ao desenvolvimento dos novos meios de produção e de troca, as revoluções neerlandesa, desde o fim do século XVI, e inglesa do século XVII já o tinham demonstrado. Tal aspecto, po­ rém, não explica todos os caracteres da Revolução Francesa. As razões de ela ter constituído o episódio mais explosivo, mesmo

por sua violência, das lutas de classe que levaram ao poder a bur­ guesia, devem ser procuradas nos traços específicos da sociedade francesa do Antigo Regime.

II - Estrutura e conjuntura

1. Antagonismos sociais - A aristocracia (isto é, a nobreza

e o alto clero; a ordem do clero não apresentava nenhuma unidade

social) possuía um duplo problema, social e político. Socialmente, mais que sobre os matizes e as oposições nas fileiras da aristocracia, deve-se insistir sobre a sua unidade pro­ funda e seus traços específicos: mensuramo-los por comparação com a aristocracia inglesa que não conheceu nem o privilégio fiscal nem o prejulgado da perda dos foros de nobreza. É indubitável que a nobreza francesa não era homogênea, pois a evolução histó­ rica tinha introduzido diferenciações no interior da ordem: nobre­ za de espada tradicional e nobreza togada, adquirida na origem

II

- nobreza de corte e nobreza provincial, ambas de sangue, mas opostas por seus gêneros de vida . Sem dúvida, ainda no século XV III, o dinheiro impunha-se à nobreza, como à burguesia, e ten­ dia a dissociar s U éis fileiras. O nobre, mesmo de espada, nada era sendo pobre . Havia que ser rico para adquirir a nobre za, rico ainda para conservar Sua condição. Nas suas camadas superiores, a aris­ tocracia era amputada de uma minoria que o dinheiro, o espírito de empreendime nto, os costumes e as idéias apro ximavam da bur­

gue sia . Entre tanto a massa da nobreza fugia a es ta renova ção, ape­ gada obstinadam�nte aos seus privilégios e à sua mentalidade tra­ dicional. O exclusivisrno nobiliário não data do século XVII I, mas reforçou-se consideravelmente no fim do Antigo Regime: o exérci­

to (a medida mais famosa na matéria é a ordena ção de 1781), a

Igreja (em 1789, t c)dos os bispos são nobres), a al ta administração (findo o reino da "vil burguesiá') fecharam-se aos plebeus. "De um modo ou de Ou tro , escreve Sieyes em sua brochura Qu'est-ce que Je tíers état?, todos os ramos do poder execu tivo caíra m ta m­ bém na casta que fo rnece a Igreja, a Toga e a Es pada. Uma espécie

de espírito de confraternidade faz com que os nobres se dêem pre­

ferência en tre si, e para tudo, em detrimento do resto da nação.

A usurpação é completa; eles reinam verdadeiramente". Entre a

espada, a toga e a finança recém-enriquecida, a solidariedade dos interesses assegu rava uma fusão rápida: a divers id ade das or igens apagav a-se na af irmação do p riv ilégio. O pequeno nobre de pro­ víncia permanecia mais ancorado ainda na sua condição: tratav a­

se de sua própria existência . Renunciar aos direitos senhoriais ou

apenas pa gar o imp osto te ria precipitado sua ruína . O prejul gado

da perda dos fon)s de nobreza confinava os filhos mais novos na miséria, pois o direito de primogenitura reservava o pa trimônio aos herdeiros do nome. Em certas províncias, uma verdadeira "ple­ be nobiliári á', segundo a expre ssão de Alber t Ma thiez, permane­ cia con ge lada na tra di ção, recusando -se a toda concessão. Na na­ ção, "onde col \, car a casta dos nobres?" - inte rroga Sieyes. De todos os Estados, o mais mal organi zado seria aquele em que "toda uma classe de cidad ãos pusesse sua gl ória em permanecer imóvel em meio ao movimento ge ral e soubesse consumir a melhor parte do produ to, sem. haver em nada concorrido para dar-lhe nasci­ mento. Tal classe é certamente es tranha à na ção devido à sua pre­ guiçá'. Quando a ex istência do privilégio entrou em discussão,

,

12

o rei, "primeiro gentil-homem do rein d: poderia resignar-se a aban­

donar "suafiel nobrezá'? A monarquia, assimcomo a aristocracia,

não tiveram outra saída senão a contra-revolução.

Politicamente, a aristocracia, no século XVIII, insurgiu-se con­ tra o absolutismo real e minou-o obstinadamente. Do mesmo mo­ do que em virtude do pro gresso do pensamento burguês e do bri­ lho da fi losofia das Lu zes a época foi marcada por uma contracor­ rente de ideologia aristocrática ilustrada por Boulainvilliers, Mon­ tesquieu, Le Pai ge . A feudalidade foi justificada pela conquista, pois que os nobres eram saídos dos conquistadores germânicos, consti tuídos, pelo direito das armas, sen hores dos ga lo-ro manos reduzidos à servidão. A aristocracia é anterior à monarquia, uma vez que os reis, originalmente, eram eleitos. Abeberando-se neste arsenal ideológico, solidamente acampado nas fortalezas do exclu­

si vismo aristocrático que consti tuíam as Co rtes soberanas, os Esta­

dos provinciais e as Assembléias do Clero, usando e abusando dos direitos dos Pa rla mentos aos assentamentos e às 'a dmoesta­ ções, a aristocracia, tan to a de espada quanto a to ga da, conduziu,

durante todo o curso do século XVIII, o assalto contra a autoridade real . As Co rtes e os Estados, rejeitando to da te nta tiva de reforma fiscal, atribuindo-se o simpático papel de defender o contribuinte, mantinham na realidade os privilégios ao abrigo de qualquer peri­

Luís

go . Em 1771, Maupeou tinha rompido a oli garquia judiciária;

XVI, quando da sua ascensão, restabeleceu-a na plenitude de seus poderes; ela contrib uiu para a queda de Turgo t. A par tir daí, generalizou-se o ataque em nome da liberdade, a da aris tocracia, com a Esp ada e a To ga fazendo causa comum contra o poder cen­ tral, e Parlamentos e Estados provinciais reciprocamente susten­ tando-se. A oposição aristocrática culminou no que Albert Mathiez de­ nominou de "a revolta nob iliáriá' e Georges Lefebvre de "a revo lu­ ção aristocrátic á' (1787-88): "Os pa trícios - es creveu Ch ateaubriand

- co meçaram a revolução; os plebeus a terminaram". Da reunião da Asse mbléia dos Notáveis, em 22 de fevereiro de 1787, à decisão do Parlamentto de Paris, em 23 de setembro de 1788 ( que os Esta­ dos gerais, convocados para I? de maio pelo veredicto do Conse­ lho de 8 de agos to, se cons tituiriam, como em 1614, em três ordens dispondo do mesmo número de representantes e votando separa ­ da mente ), as tentat ivas de refor mas propostas por Ca lonn e, de­ po is do seu sucessor Loménie de Brienne, fora m entra vadas pela

13

resistência da Assembléia dos Notáveis, em seguida pela revolta

da Corte dos Pares e dos Parlamentos Provinciais. Tendo impos­

to, finalmente, sua vontade ao poder real, a aristocracia triunfava.

A expressão parece ambígua. Se

a nobreza (e seus registros de queixas o ilustraram logo após) ad­

mitia um regime constitucional e o voto do imposto pelos Estados

Gerais, se exigia a entrega da administração aos Estados Provin­

ciais Eletivos (Estados Gerais e Estados Provinciais que ela domi­

naria graças à manutenção de sua estrutura aristocrática), se se

mostrava ciosa de liberdade individual, estava longe de admitir

a igualdade fiscal, era unânime quanto à conservação dos direitos

senhoriais. Não pode subsistir nenhuma dúvida: a aristocracia en�

cetou a luta contra o absolutismo para restabelecer sua prepond�­

rância política e salvaguardar privilégios sociais ultrapassados -

"Revolução aristocráticá'?

luta que ela prosseguiu logicamente até à contra-revolução.

A problemática desta "etapa intermediáriá' foi recentemente

retomada e o acento colocado não mais sobre o conteúdo social

do episódio, mas sobre a vontade de reforma da monarquiae):

reforma das imposições proposta por Calonne, representada por

Brienne, mais ainda o vasto conjunto de reformas empreendidas

por Brienne, da administração central das finanças e do comércio

à reforma militar, das assembléias provinciais à reforma judiciária

e ao estado civil dos não-católicos. Loménie de Brienne e seus co­

laboradores tinham empreendido com coragem a renovação do

regime condenado: estaria em suas mãos o poder de lhe mudar

o conteúdo social? A maioria dos privilegiados não se dispunha

a fazer sacrifícios; mesmo limitadas e parciais, as reformas lesa­

vam seus interesses e ameaçavam sua prerrogativas. Se as justiças

senhoriais eram condenadas, não entrava em discussão tocar nos

direitos feudais. A reforma militar respeitava as prerrogativas da

nobreza de corte, sempre recusava aos plebeus o acesso aos graus

do oficialato. Para agradar a aristocracia, o poder dos intendentes

era desmembrado em proveito das assembléias provinciais: mas

a divisão em ordens era aí mantida, a presidência reservada aos

privilegiados. Se a nobreza e o clero perdiam uma parte de seu

privilégio fiscal, conservavam, contudo, sua preeminência social,

o clero sua autonomia administrativa tradicional. As reformas não

(2) JEAN ECRET, La Pré-Révolution française, 1787-1788 (Paris, 1962).

punham em debate a estrutura aristocrática do Antigo Regime:

tratando-se do prefácio a uma revolução burguesa , pode-se conse­

qüentemente falar de "pré-Revoluçãd'? Mais que sobre as tentati-·

vas de reforma, o acento desta "etapa intermediáriá' parece mes­

mo que deve ser mantido sobre a resistência vitoriosa da aristocra­

cia. Porém, minando o poder real, esta não se dava conta de que

arruinava o defensor natural de seus privilégios. A revolta da aris­

tocracia abriu o caminho ao Terceiro Estado.

*

*

*

o Terceiro Estado compreendia, confundidos em suas classes,

todos os plebeus, seja, segundo Sieyes, 96% da nação. Esta entida­

de legal dissimulava elementos sociais diversos cuja ação específi­

ca diversificava o curso da Revolução.

Que a burguesia tenha dirigido a Revolução, é hoje verdade

evidente. Deve-se constatar ainda que ela não constituía, na socie­

dade do século XVIII, uma classe homogênea. Algumas de suas

frações estavam integradas nas estruturas do Antigo Regime, par­

ticipando em variados graus dos privilégios da classe dominante:

quer pela fortuna fundiária e pelos direitos senhoriais, quer por

pertencer ao aparelho estatal, quer pela direção das formas tradi­

cionais das finanças e da economia. Elas suportaram em graus

diversos a Revolução.

No que concerne à grande burguesia mercantil e industrial,

seria necessário avaliar com exatidão seu papel na sociedade do

Antigo Regime e naRevolução. O capitalismo permanecia, ainda,

essencialmente comercial. Dominava um importante setor da pro­

dução, nas cidades e nos campos onde o negociante-fabricante

empregava tarefeiros que trabalhavam a domicílio. Se representa

historicamente uma fase de transição, o capitalismo comercial não

levava essencialmente à revolução do antigo sistema de produção

e de troca no qual estava em parte integrado. Os setores da burgue­

sia ligados a ele bem depressa se afirmaram partidários de um

compromisso. Não seria possível deste ponto de vista sublinhar

certa continuidade lógica que vai dos Monarquianos (*) aos Feuil-

(*) De Monarchiens. Nome dado aos monarquistas liberais, ou constitucio­ nais. Fundaram o Clube dos Imparciais e, posteriormente, o dos Amigos da Con­ tituição Monárquica. (N. do T.)

lants(*), depois aos Giro ndinos? Mo un ier, porta-vo z do s Monar­ q uié!n os, devia escrever ma is tarde que seu desígnio era "seguir as lições da experiência, opor-se às inova ções temerárias e não propor nas formas de go ve rno então existente senão as modifica­ ções necessárias à manu ten ção da liberdade". Quanto aos Giron­ dinos cujas ligações com a burguesia dos portos e com o grande comércio colonial são assaz conhecidas , o exemplo de Isnard ilus­ tra sua posição social e política: deputado do Va r à Co nvenção,

cé le bre por sua apóstrofe con tra Pa ris , em 25 de maio de 1793 ("Den­

tro em breve procurar-se-ia nas margens do Sená' . ), Isnard e ra

um ne go ciante especia lizado em comé rcio atacadista de azeites

e de importação de cereais, p roprietário de uma ma imfa tu ra de

sabão e de uma fia ção de seda. Exemplo significa tivo de uma ativi­ dade indus trial subordinada ao capital com�rcial e que não mo di­ ficava as tràdic io nais re lações de p rodução: do ponto de vista so­ cial, como do pon to de vista econ ôm ico, a indústria pe rmanecia subalterna. A existên cia de um amplo setor de pequena e média burguesia já cons tituía um dos traços essenciais da sociedade francesa. A grande maioria da p rodu ção local con tinuava alimentada por arte­ sãos, produ tores independentes e vendedores diretos. Entretanto, reinava no artesanato uma extrema diversidade quanto à condi­

ção ju ríd ica e ao nível social, Des tes que constituíam a média bur­ gu esia, àgentinha ou àgentalha que trabalhava com suas p róp rias mãos, os mat izes eram numerosos. Certos ofíc ios, como os Six

Corps em Pa ris, eram conside rados e seus membros faziam pa rte dos notáve is. Citou-se amiúde a opinião da mulher do convencio­ nal Lebas, filha do "marce neiro" Duplay (comp reendamos: em­ preite iro de marcena ria ), o hospedeiro de Robespierre: seu pai, cioso de dignidade bu rguesa nunca admitiu à sua mesa um de seus "servidores'� isto é, um de seus ope rários. Me de-se assim a dist ância que separou os Jacob inos dos Sans- Culottes, a peque­ na ou média burguesia das classes populares p rop riamente ditas. Onde se fixavam umas e outras, é difícil de p recisar. Na sociedade de Antigo Regime , de p redo lPín io aris tocrático, as categorias so­

te rmo ge ra l de Te rceiro Estado não estavam

loj is ta

ciais en globadas sob o

claramente contras tadas. A p rodução ar te sanal e o sistema

(*) Nome dado aos meninos da Sociedade dos Amigos da Re volução, instala­ da no m osteiro de Feuillant. (N. do T.)

16

da

s trocas prepa rava insensíveis transições do po vo à burguesia.

O

companhe iro traba lhava e vivia com o pequeno artesão, parti­

lhava da sua mentalidade e das suas cond ições materia is . Do ar te­

são ao empreite iro, os matizes eram múltip los e as passagens le n­ tamente graduadas. No cimo da escala , mudan ças quase impe r­ ceptíveis provocavam uma brusca mutação: nap rimeira fila da classe média e já nas fronteiras da ve rdadeira burguesia, a importância da empresa, uma certa analog ia com as profissões liberais, como também privilégios particulares ou uma regulamentação especial,

iso la vam livrei ros , imp re ssores , boticários, lo cado re s de cavalos,

alguns grandes empreiteiro s que, se olhavam do alto mercadores e companheiros, se i rritavam de ver os burgueses propriamente ditos faze rem o mesmo em relação a eles. Sobre essas categorias sociais in termediárias pesavam as con­ tradições de uma situação ambígua. Al te ando-se das classes po­ pula res por suas condições de existência e amiúde da miséria , os artesãos nem por isso deixavam de possuir a sua loj inha e o seu pequeno equipamento; manter sob a sua disciplina companhei­ ros e aprendizes acentuava sua mentalidade burguesa. Mas seu apego ao sistema da pequena produção e da ve nda direta opunha­

os à bu rguesia mercantil e ao capital comercial: os ar te sãos sen­

ta m-se amea çados pela conco rrência da manufatu ra , recusan­

do acima de tudo trabalhar para o negociante-fabricante e ficar reduzido assim à condição de assala riado. Daí, entre os artesãos

e os loj is tas que forma ram os quadros do mov imento popular, a

existência de aspirações contraditórias. Investiam contra a proprie­

dade concentrada em mãos dos grandes fabricantes, mas eles pró­

p rios eram propriet ários . Reclamavam a taxa ção dos víveres e das

matérias-p rimas, mas exigiam conservar a libe rdade de seu lucro. As re ivindicações destas categorias artesanais e mercadoras sub li­

ma ram-se em que ixa s exa ltadas , em im pulsos de re volta, par­ ticu larmente eficazes na obra de destruição da antiga sociedaae:

nunca puderam p recisar-se um pro grama coerente. Nas categorias populares propriamente ditas falta va o esp íri­ to de 'c lasse, Espalhados em nume rosas pequenas oficinas , nem especializadas em conseqüência do desenvolvimento ainda res­ trito da té cnica, nem concentradas nas grandes empresas ou nos grandes bairros industriais , o mais das vezes mal diferenciados do campes inato, os assalar iados, não mais que os ar te sãos, eram incapazes de conceber para sua miséria remédios eficazes: a de-

17

bilidade das corporações o atestava. O ódio à aristocracia, a opo­

sição irredutível aos "grossos" e aos ricos foram os fermentos de

unidade das massas laboriosas. Quando as más colheitas e a cri­

se econômica que delas resultava as puseram em movimento, elas não se ordenaram como classe distinta, mas como associadas ao

artesanato, atrás da burguesia: foi assim que se aplicaram à anti­ ga sociedade os golpes mais eficazes. Mas esta vitória das massas

populares não poderia ser senão "uma vitória burguesá': a bur­

guesia só aceitou a aliança popular contra a aristocracia porque

as massas a ela se subordinaram. Em caso contrário, a burguesia teria verossimilmente renunciado, como ocorreu no século XIX na Alemanra e, em menor escala, na Itália ao apoio de aliados jul­ gados demasiado perigosos.

Os camponeses desempenharam um papel não menos im­ portante na Revolução Francesa: este foi um de seus traços mais

originais. Em 1789, a grande maioria dos camponeses era desde

muito constituída de homens livres; a servidão apenas subsistia em algumas regiões, Nivernais e Franche-Comté especialmente. As relações feudais de produção continuavam a dominar os cam­

pos, conforme testemunham as obrigações senhoriais e as dízi­

mas eclesiásticas. A dízima, desviada o mais das vezes de seu ob­ jetivo primitivo e que apresentava os inconvenientes de um im­ posto in natura, parecia tanto mais insuportável pelo fato de a al­

ta dos preços haver aumentado o lucro: em tempo de penúria, ela era retirada à custa da nutrição do camponês. O que subsistia

dos direitos senhoriais era mais impopular ainda, se bem que,

certamente, do mesmo modo pesado. Certos historiadores ten­

dem a minimizar o peso da feudalidade no fim do Antigo Regi­

me. Tocqueville lhes respondeu antecipadamente em um capítu­

lo de r: Ancien Régime et la Révolution: "Por que os direitos feu­

dais se tornaram mais odiosos ao povo na França do que em qual­

quer outra parte": se o camponês não possuísse o solo, teria sido

menos sensível aos encargos que o sistema feudal fazia pesar so­

bre a propriedade fundiária.

Sem dúvida, seria preciso distinguir de um estrito ponto de

vista jurídico o que era propriamente feudal e o que era senho­ rial. Os direitos feudais resultavam dos contratos de feudo. A hie­ rarquia dos feudos permanecia, conforme testemunham a cada transf�rência o reconhecimento e o censo, e o pagamento de uma

taxa; lá onde os plebeus se apresentavam compradores de feu-

dos - e o caso não era raro no Midi -, estavam sujeitos a umd obrigação especial denominada de feudo livre. Os direitos senho­ riais encontravam seu princípio na soberania exercida na Idade

Média pelos senhores. Da autoridade senhorial, subsistia uma par­ te da justiça, alta ou baixa, caráter essencial do senhorio - prer­

rogativas honoríficas, símbolo da superioridade social do senhor

-, monopólios, como o direito exclusivo de caça, e as banalida­

des. Dos direitos senhoriais, uns eram pessoais, corvéias e obri­

gações diversas, os outros reais: pesado sobre a terra, não sobre as pessoas, eles traduziam a propriedade eminente do senhor (dizia-se ainda a directe), não tendo o camponês senão a pro p rie­

dade útil. Dos direitos reais, uns eram anuais (seja em dinheiro,

censo ou rendas, seja em natura, champart ou terrage no Norte, agrier no Midi), os outros eventuais (Jaudêmios sobre as transfe­

rências). Tal era, esquematizado (Boncerf avalia em mais de tre­ zentas as diversas espécies de obrigações em sua brochura sobre

os lnconvénients des droits féodaux, 1776), o complexum feuda­

le segundo a expressão dos juristas: a feudalidade no vocabulá­ rio comum do tempo. O fato de as massas camponesas, unâni­

mes em execrá-las, terem aplicado, através delas, um golpe mor­ tal na aristocracia, prova de sobejo que a feudalidade constituía

o traço essencial da sociedade de Antigo Regime. ''A feudalidade

permanecera a maior de todas as nossas instituições civis em dei­

xando de ser uma instituição política, escreveu Tocqueville. As­ sim reduzida, excitava muito mais ódio ainda, e pode-se dizer com

base na verdade que, em destruindo uma parte das instituições da Idade Média, havia se tornado cem vezes mais odioso o que

delas se deixavá'. Face à exploração feudal, a comunidade rural permanecia uni­ da: face ao senhor, face ao coletor da dízima, face ainda ao im­

posto real. Mas atrás deste antagonismo fundamental já se per­

cebiam oposições que traziam em germe as lutas do século XIX, uma vez destruídas a feudalidade e a aristocracia. A desigualda­

de penetrara havia muito na comunidade rural, tendia a disso­ ciá�la. Nas regiões de grande cultura, a aplicação do capital e de seus métodos ao trabalho agrícola, em vista de urna cultura intensiva

e de uma produção para o mercado, tinha provocado evidentes

repercussões sobre a condição camponesa. O grupo social dos grandes cultivadores desenvolveu-se amplamente no fim do An-

sobre a condição camponesa. O grupo social dos grandes cultivadores desenvolveu-se amplamente no fim do An-

tigo Regime, concentrando não a propriedade mas a exploração:

os camponeses das planícies cerealíferas da Bacia parisiense se queixaram em seus registros de reclamações da "reuniãd' das granjas e em vão se obstinaram, até o ano II , em reclamar a divisão

das mesmas. Dest'arte já se afirmava o antagonismo de um capi­ talismo agrícola e de um campesinato em via de proletarização.

Carentes de terra, despojados de seus direitos coletivos à medi­ da que se reforçavam a propriedade privada e a grande explora­

ção, os pequenos camponeses engrossavam as fileiras de um pro­ letariado miserável e instável, pronto a levantar-se igualmente con­ tra as fazendas, bem como contra os castelos. Sem dúvida, não há que exagerar tais traços: às vésperas da Revolução, na maior parte do país permanecia o domínio da pe­

quena cultura tradicional. Mas, mesmo aqui, a desigualdade fora introduzida no seio da comunidade rural. A propriedade dos bens comunais, as coações coletivas sobre a propriedade privada (in­ terdição de cercas, rotação obrigatória), os direitos de uso sobre os campos (pastagem livre, direitos de respigadura e de corte de restolho), sobre os prados (direito de segundo corte) ou sobre os bosques tinham, havia muito, constituído sólidos fundamentos comunitários. Na segunda metade do século XVIll, sob o impul­ so do individualismo agrário e com o apoio do poder real (éditos de cercadura, triagem dos bens comunais), a estrutura comuni­ tária foi abalada: a aristocracia, sobretudo, aproveitou-se disso. Mas,

no seio da comunidade, alguns lavradores proprietários, "galos de aldeiá', dominavam jornaleiros e pequenos camponeses que deles dependiam para suas atrelagens ou seu pão cotidiano; já, mais ou men08, produziam para o mercado, monopolizavam a administração "ldeã e se adaptavam à renovação da agricultura.

Este campesinatn proprietário, tanto quanto a aristocracia que lhe pesava sobre a terra por seus direitos senhoriais, era hostil à co­ munidade rural que a onerava de direitos coletivos e lhe limitava a liberdade de exploração e de lucro: ele aspirava a libertar-se de todas as'restrições. Contrariamente, o campesinato pobre, caren­ te de tena e obrigado, a fim de garantir seu pão, a ir em busca

de um salário miútio em terra alheia ou na indústria rural, aganava-se aos direitos coletivos e aos modos tradicionais de pro­ dução, cum tanto malS afinco quanto mais percebia que estes lhe fugiam: a massa camponesa opunha a regulamentação da cultu­ ra à . liberdade da exploração.

da cultu­ ra à . liberdade da exploração. 20 Concepção de um direito limitado da propriedade,

20

Concepção de um direito limitado da propriedade, ação rei­

vindicadora contra a concentração das explorações ou das empre­ sas: estes traços caracterizavam um ideal social popular na medi­ da das condições econômicas do tempo. Camponeses e artesãos, para disporem livremente de suas pessoas e de seu trabalho, de­ veriam antes de tudo deixar de estar enfeudados a outrem, liga­ dos à terra ou prisioneiros no quadro de uma corporação. Daí seu

ódio contra a aristocracia e o AntigoRegime: as classes populares foram o motor da revolução burguesa. Mas, produtores imedia­ tos ou com ambições para o futuro, camponeses e artesãos fun­

davam a propriedade sobre o trabalho pessoal e sonhavam com uma sociedade de pequenos produtores, cada qual de posse de seu campo, de sua oficina, de sua loja; confusamente, entendiam prevenir a constituição de um monopólio da riqueza, como de um proletariado dependente. Estas aspirações profundas explicam as lutas sociais e políticas durante a Revolução, suas peripécias e sua progressão: de 1789 a 1793, assistiu-se a um aprofundamento da luta da burguesia contra a aristocracia, assinalada pelo crescente papel das camadas médias e das massas populares, não a uma

mudança de natureza das lutas sociais. Neste sentido, pode-se fa­

lar de uma "mudança de frenté' da burguesia após a queda de Robespierre: depois, como antes de 9 de termidor, o inimigo es­

sencial permanece a aristocracia que não se desarma. Prova-o a lei de 9 de frimário, ano VI (29 de novembro de 1797), inspirada por Sieyes, que reduzia os anteriormente nobres e enobrecidos

à condição de estrangeiros. A Revolução Francesa é um ''blocd':

antifeudal e burguesa através de suas diversas peripécias.

Este enraizamento da Revolução na realidade social francesa, esta continuidade e esta unidade, Tocqueville não apenas subli­ nhou-as com sua costumeira lucidez, como assinalou a sua ne­

cessidade. liA Revolução, menos que tudo, não foi um aconteci­ mento fortuito. Colheu, é verdade, o mundo de improviso, e to­ davia ela não era senão o complemento do mais longo trabalho, o término repentino e violénto de uma obra para a qual dez gera­ ções de homens tinham trabalhadd'.

2. Flutuações econômicas e demográficas - Entretanto, pa­ ra além das estruturas sociais e dos antagonismos fundamentais

que explicam as causas profundas da Revolução, convém preci­ sar os diversos fatores explanativos de uma data. A Revolução era

21

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inelutável, no testemunho do próprio Tocqueville: mas por que,

segundo sua expressão, esta súbita explosão, este brusco "esfor­

ço convulsivo e doloroso, sem transição, sem precaução, sem con­

siderações"(3)?

A Revolução de 1789 nasceu numa crise econômica. Jaures,

em seu vasto painel de sua Histoire socialiste (1901-1904), procu­

rara "nas condições econômicas, na forma da produção e da pro­

priedade'� as raízes profundas da Revolução. Mas sua obra peca

talvez. por excesso de simplificação : a Revolução desemola-se qua­ se inteiramente unânime; sua causa reside no poderio econômi­

co e intelectual da burguesia chegada à maturidade, seu resulta­

do foi consagrar na lei o referido poderio. ''Agora, escreveu Jau­ res, a propriedade industrial e mobiliária, isto é, a propriedade

burguesa, está em plena força: a ascensão da democracia burguesa é, pois, inevitável e a Revolução é uma necessidade histórica:'

Esta explanação não se dá conta nem da data da Revolução nem de seu caráter violento devido à resistência da aristocracia e à ir­

rupção das massas populares na cena política. Não teria sido a

Revolução Francesa senão a revolução da prosperidade burguesa?

O século XVIII foi bem um século de prosperidade; seu apo­

geu econômico situa-se no fim dos anos 60 e no começo dos anos 70 : "O esplendor de Luís XV:' Depois de 1778, teve início "o de­

clínio de Luís XVI': período de contração, a seguir de regressão,

coroada em 1787 por uma crise cíclica geradora de miséria e de

distúrbios. Jaures, sem dúvida, não negou a importância da fo­

me no desencadeamento da Revolução, mas só lhe reconhecia um

papel episódico : a crise, pondo dolorosamente à prova as massas populares, mobilizou-as ao serviço da burguesia, mas foi apenas

um acidente. O mal era mais profundo.(4)

As massas populares das cidades e dos campos não foram

postas em movimento, em 1789, pelas intrigas sediciosas da bur­

guesia: é a tese do complô emprestada pelo Abade Barruel em

suas Mé moir es pour servir à l'histoire du jacobinisme, publica­

das em Hamburgo, em 1978, tese em certo sentido retomada por

(3) Sobre o problema em g eral, ver C. E. LABROUSSE, "Comment naissent les

révolutions': Ades do Congres hÍstoriq ue du CentenaÍre de la RévolutÍon de 1848

(Paris, 1948). (4) Sobre este aspecto essencial, ver a obra de C. - E. LABROUSSE, Esquisse du

mou vement desprixet des revenus en France au XVIIIe sÍede (Paris, 1933, 2 vols.) j La crise de J'économie lrançalse a la hn ae UinClen KeglIIle et au début de la Re­

volution (Paris, 1944).

22

Augustin Cochin em sua indagação sobre Les societés de pensée

et la Révolution en Bretagne (1925). Elas não se sublevaram sob

o impulso de seus instintos sanguinários, como o quereria Taine,

em Les origines de la France contemporaine (1875), obra de difa­

mação e de ódio. A fome sublevou-as: verdade evidente, subli­ nhada com vigor por Michelet ("Vinde ver, suplico-vos, este po­

vo estirado no chão, pobre Jó

civil: tem-se fome por ordem do rei"), à qual os trabalhos de c.­

E. Labrousse deram um amplo fundamento científico. A fome populàr aparece como a conseqüência dos caracteres gerais de uma

fase A de alta e de expansão (segundo a terminologia de F. Si­ miand), mas associados aos movimentos cíclicos e estacionais, ma­

tizados pela consideração do salário real, explicados enfim pelos

traços históricos da economia e da demografia da época.

No século XVIII, o movimento dos preços na França se carac­

teriza por uma alta secular de 1733 a 1817, fase A que sucedeu à

fase B de depre ssão que se prolongou da metade do século XVII até cerca de 1730. O impulso de alta e de prosperidade, lento até

por volta de 1758, violento de 175 8 a 1770, estabilizou-se de 1778

a 1787, provocando um mal-estar pré-revolucionário; um novo im­

pulso desencadeou o ciclo revolucionário (1787-91). Designando

o ín dice 100 para o ciclo 1726-41 , a média da alta de longa dura­

ção é de 45% para o ciclo 1771-89; eleva-se a 65% para os anos 1785-89. O aumento, muito desigual conforme os produtos, é mais

importante para os gê neros alimentícios que para os produtos fa­

bricados, mais para os cereais que para a carne: traços caracterís­

ticos de uma economia ainda essencialmente agrí c ola. Os cereais ocupavam um lugar imenso no orçamento popular, sua produ­

ção aumentava pouco, enquanto a população crescia, e a concor­ rência dos cereais estrangeiros não podia intervir. Para o período

1785-89, a alta dos preços é de 66% para o frumento, de 71% para

o centeio, de 67% para a carne; a lenha para a cozinha bate todos

os recordes: 91%. O caso do vinho é particular: 14%; a baixa do

lucro vití c ola foi tanto mais grave porque grande número de vi­

nhateiros não produzia cereais e comprava o pão. Superpóndo­

se as variações cíclicas (ciclos de 1726-41, 1742-57,

vimento de longa duração, o maximum cíclico de 1789 levou a

alta do frumento a 127%, a do centeio a 136%. Quanto aos ce­

reais, as variações estacionais, enfim, insensíveis ou quase em pe­

ríodo de abundância, se ampliavam nos maus anos; do outono

A penúria é um fato de ordem

175 8- 89), ao mo­

23

à entressafra os preços aumentavam então de 5 0 Em zena centeio culminante e mais.

à entressafra os preços aumentavam então de 50

Em

zena

centeio

culminante

e mais.

estação coincidia com a primeira quin­

o aumento

do

julho coincidiu com o ponto

a 100%,

1789,

o maximum da

provocou

de julho:

a 165%.

do frumento

a 150%, o

A jornada de 14 de

dos

preços

no

da alta

século XVIII.

O custo da vida popular foi gravemente afetado pela alta dos

mais que todo o resto, foi o

preços:

povo o 'mais duramente atingido.

pão

alta geral; em

mento

categorias sociais

dos salários agravava ainda

da al­

ta dos preços sobre a sorte das massas populares.

salários

metade

dos casos, ela não atingia

é de 22%; ultrapassa 26% em três generalidades. A alta dos salá­

construção, 18% para o jornaleiro

rios foi

entre

As séries locais

com os cereais aumentando

1789, atingiu 88%:

demais despesas.

abastadas,

À véspera

de 1789,

a parte do

no orçamento popular

O

para as

movimento

tinha alcançado 58%

sobrecarregava

a 17%

por motivo da

restavam apenas 12% do rendi­

A alta

dos preços

o povo.

poupava

a incidência

as

a

alta dos

na

de 1785-89,

constituídas por

o período

C-E. Labrousse levam

base 1726-41 e o de 1771- 89;

11%.

Em relação

porém,

aos anos

variável segundo

as profissões: para

a

mas apenas

12 e 16%

(1771-89) e 24% (1785-89),

agrícola.

fraca em relação à dos preços.

A alta de longa duração dos

Ora,

é, portanto, muito

as variações cíclicas e estacio�

salários

nais

dos

salários aumentavam ainda à

parte,

visto se

encontra­

rem em sentido inverso às dos preços.

No século XVIII,

com efei­

a carestia provocava o desemprego, com a fraqueza da colhei­

ta reduzindo as necessidades do campesinato. A crise agrícola ar­

to,

as necessidades do campesinato. A crise agrícola ar­ to, rastava a crise industrial, a parte considerável

rastava a crise industrial, a parte considerável do pão no orçamento

popular

aquisições. Comparando-se

de vida, constata-se,

demais

do custo

de um

quarto, entre

as condi­

rado

ções de existência da época exigindo que a redução assentasse es­

sencialmente sobre os gêneros de primeira necessidade, o perío­

do

pular. A

XVI II provocou um aumento da miséria po­

tinha

então

por

conseqüência a diminuição

a alta

do

salário

das

nominal à

portanto, que o salário real diminuiu:

-

de mais da metade,

dos

preços.

1726-41 e 1785-89

cíclico e

se conside­

dos

de

pontos

estacionaI

Com

alta do

século

fome mobilizou

o

povo.

O

crescimento

demográfico multiplicou as conseqüências da

Ela se fez notar de maneira mais acentuada pelo

alta dos preços.

24

notar de maneira mais acentuada pelo alta dos preços. 24 fato estagna­ ção. As o século

fato

estagna­

ção. As

o século XVII e. provocaram

pirâmide das idades, deram lugar a crises mais leves e mais rápi­

das. As grandes penúrias anteriores a 1715 tornaram-se,

após 1740,

As classes

verdadeiramente vazias desapareceram,

ram.

certa tendência à redução dos nascimentos manifestando-se, en­

A mortalidade

tretanto,

continuou a oscilar de um ano para outro,

A es­

perança de sobrevivência ao nasccimento elevava-se a cerca de 29

anos

O impulso demográfico aprovei­

tualmente inferior

mas permanecia habi­

de

ter sucedido,

por volta

de

1740, a

um período de

depressões demográficas profundas,

um

que caracterizaram

no flanco da

déficit perceptível

penúrias lavradas; as crises "mortais",

crises "veniais".

os ,efetivos se regulariza­

A natalidade conservou um nível elevado, 40%, com uma

em particular nos meios da aristocracia.

à natalidade,

baixando

a 33%,

às vésperas da Revolução.

em

1778.

tou proporcionalmente

mais

às

cidades que aos

campos: o

sécu­

lo XVI II

foi

um

século

de expansão

urbana.

Se

se classificarem

na categoria "cidades" as aglomerações de mais de 2 mil habitan­

tes,

Sendo a natalidade mais fraca nas cidades,

dade, mais

tuía o principal fator do impulso urbano.

me,

a população urbana elevava-se por volta de 16% do conjunto.

e mais forte a mortali­

a imigração rural consti­ No fim do Antigo Regi­

milhões

século

numerosos os

celibatários,

a população francesa contava aproximadamente

Do ponto de partida,

19

25

de habitantes.

milhões no fim do

XV II,

e levando

em conta ri

crescimento territorial, o

aumento

um terço. Outros Esta­

era

dos se tinham beneficiado de um impulso mais importante: a In­

glaterra,

voado da Europa. Sobretudo, por modesto que tenha sido o cres­

diverso segundo

dei­

cimento demográfico e

xou de provocar importantes conseqüências sociais.

a demanda de produtos agrícolas, contribuiu para a alta dos pre­

ços.

por sua vez, atraía a mão-de-obra dos

campos.

dades e entre as massas populares, as crises de gêneros alimentí­

Sobre esta população acrescida, · e principalmente nas ci­

modesto

:

6

milhões, apenas

mais de

por exemplo.

A França não deixava de ser o país mais po­

as regiões,

ele

não

Aumentando

O ímpeto urbano estimulava a indústria têxtil que via abrirem­

novos mercados

e que,

se

cios, nefastas ainda na primeira metade do século,

graves

econômiças.

caica,

contração

já não tiveram

e

A crise dos víveres desata, nessa economia ainda ar­

subconsumo,

mendicân-

repercussões

demográficas,

se

mas

conseqüências

miséria,

sociais

um processo em que

encadeiam

do mercado da mão-de-obra, subemprego,

25

cia e vagabundagem. O impulso demográfico tende a romper o frágil equilibrio população-gêneros alimentícios,

cia e vagabundagem. O impulso demográfico tende a romper o

frágil equilibrio população-gêneros alimentícios, multiplicando as­

sim as tensões sociais: por aí, ela entra com uma parte não es­

sencial, mas de qualquer modo importante, entre as causas pró­ ximas da Revolução.(5)

*

*

*

As irredutíveis contradições da sociedade do Antigo Regime

tinham posto havia muito a Revolução na ordem do dia. As flu­ tuações econômicas e demográficas, geradoras de tensão e que,

nas condições do tempo, escapavam a toda ação governamental,

criaram uma situação revolucionária. Contra um regime cuja classe

dirigente era importante para defender, levantou-se a imensa maio­

ria da nação, confusa ou conscientemente. Chega-se assim ao pon­

to de ruptura. Em 1788, a crise nacional passou de flor a fruto.

Os

campos já tinham

sido tocados

pela baixa das vendas do

de colhei­

o lucro

de 1781,

vinho cujos preços caíram de metade em conseqüência

tas abundantes; se

a situação melhorou depois

vitícola permaneceu limitado devido às mangas vindimas.

a cultura da vinha era então amplamente difundida,

Como

o destino de

numerosos camponeses foi disto afetado, de vez que o vinho cons­

tituía o único produto comerciável. Em

pela seca.

O mercado rural, essencial

1785,

o gado foi dizimado

des­

à produção industrial,

de então se contraiu, havendo o tratado de comércio anglo-francês

de

1786 contribuído com uma parte (que não deve ser exagerada)

para as dificuldades da indústria. A colheita

sa: a partir de agosto,

até julho

de 1789.

de 1788

foi desastro­

detença

a alta se afirmou e prosseguiu sem

o

A catástrofe agrícola fechou

merc ado rural,

pletóri­

o desemprego multiplicou-se entre uma mão-de-obra já

ca,

a taxa

do salário

baixou. A queda da

produção industrial (e

portanto o desemprego urbano) pode ser avaliada em

taxa do

proporção de

salário de

15 a 20%,

100 a 200%.

A penúria e a

50%,

a

da

enquanto o C1,lsto da vida subia .na

carestia mobilizaram as

(5) Sobre os problemas demográficos da Revolução Francesa, ver essencial­ mente os trabalhos de M. REINHARD, "Etude de la population pendant la Révolu­

tion et I'Empire", no Bu11etin d'Histoire éron omique et sociale de la Révolution

française, 1959-1960 (Gap, 196i); "Premier supplément'� ibid., 1962 (Paris, 1963);

ContributioIlS à l'histoire démographique de la Révolution française (Paris, 1962,

1� série; 1965, 2� série; 1'170, 3� série, sob a direção de M. REINHARD).

-

26

massas rurais e citadinas que, muito naturalmente, imputaram a

responsabilidade de seus males às classes dominantes e às autbri­ dades governamentais. Dizimeiros e senhores que recolhiam o im­

posto das searas, dispondo de grandes quantidades de cereais,

como os negociantes de trigo, os moleiros e os padeiros, eram acu­

sados de açambarcamento. As compras do governo davam crédi­

to à obstinada lenda do "pacto de misériá' lançada contra ·Luís

XV. Se os economistas reclamavam como único remédio a liber­ dade do comércio dos cereais, proveitoso sobretudo aos proprie­

tários e aos negociantes, o povo mantinha-se preso à regulamen­

tação tradicional, reforçada em caso de necessidade pela requisi­

ção e pela taxação. A crise econômica, se não criou, contribuiu

porém para agravar a crise da monarquia: as dificuldades finan­

ceiras deram ensejo à oposição política. A crise financeira remontava à guerra da América, sustenta­

da por Necker a golpes de empréstimos; Calonne recorreu ao mes­

mo processo para consolidar a retaguarda. O Relatório apresen­

tado ao rei em março de 1788 estimava as despesas em 629 mi­

lhões de libras, as receitas em 503: ou seja, um déficit de 20%. Os juros da dívida exigiam 318 milhões, isto é, mais da metade

das despesas. A crise econômica repercutia sobre o recebimento

dos impostos, aumentava os encargos por motivo das compras

de cereais no estrangeiro; atingia o crédito público. Havendo di­

minuído o poder aquisitivo das massas, o imposto, e sobretudo o imposto indireto, não podia render muito. Restava a igualdade

fiscal. Calonne arriscou-se a propor uma "subvenção territorial" que pesaria sobre todos os proprietários fundiários sem exceção.

A Assembléia dos Notáveis, reunida em 22 de fevereiro de 1787,

composta de aristocratas por definição, criticou o projeto e exigiu

comunicação das contas do Tesouro. Luís XVI demitiu Calonne em 8 de abril.

A crise política enxertou-se desde então na crise financeira:

a revolta da aristocracia, malgrado a vontade reformadora de Lo­

ménie de Brienne, chamado ao ministério, malgrado a tentativa

de uma reforma judiciária, em 8 de maio de 1788, que desmem­ brou a força dos Parlamentos, reduziu a monarquia à impotên­

cia. Com o Tesouro vazio e nenhuma possibilidade de obter um

empréstimo, que não seria subscrito em tão perturbadas circuns­ tâncias, Brienne capitulou: em 5 de julho de 1788, decisão confir­

mada pelo veredicto do Conselho de8 de agosto, ele prometeu

27

reunir os Estados Gerais cuja abertura foi fixada para I? de maio

de 1 789.

A burguesia, elemento dirigente do Terceiro, a partir daí em­

punhou as rédeas. Seus fins eram revolucionários: destruir o pri­

vilégio aristocrático, estabelecer a igualdade civil numa socieda­

de sem ordem nem corpos. Não obstante, pretendia conservar-se

dentro de um estrito legalismo. Mas foi em breve empurrada pa­

ra a frente, na ação revolucionária, pelas massas populares, ver�

dadeira força motriz, mantidas em boa disposição por muito tem­

po ainda pela contribuição de suas próprias reivindicações e pela

crise econômica que persistiu até meados de 1790.

III - Espontaneidade e organização revolucionárias

1. A esperança e o medo - A convocação dos Estados Gerais

suscitou no povo uma emoção profunda: desde então, a esperança

e o medo caminharam par a par, ao ritmo da Revolução, deixan­

do transparecer através dos acontecimentos políticos as motivações sociais que constituem sua mola essencial. A mentalidade revo­

lucionária precisou-se, de início, naturalmente, nas consciências

individuais e nas fileiras da burguesia. A mentalidade <kI Tercei­

ro estava longe, sem dúvida, de ser uniforme : camponeses, arte­

sãos e burgueses sofriam diferentemente o Antigo Regime; a pe­

núria tendia a opor pobres e ricos, consumidores e produtores.

Mas as condições gerais da economia e da sociedade, como as

condições políticas, erguiam o conjunto do Terceiro contra a aris­

tocracia e o poder real fiador do privilégio. Pelo jogo da propa­

ganda, sob a influência dos acontecimentos, mais ainda sob o peso

de representações desde há muito ancoradas na consciência co­

letiva e que se impunham ao indivíduo, cristalizou-se, a partir da

primavera de 1 789, uma mentalidade revolucionária que consti­

tuiu um poderoso fator de ação. (6)

(6) Sobre estes aspectos, ver GEORGES LEFEBVRE, La grande peur de 1789 (Pa­ ris, 1932: 2 ed. aumentada, s. d. [1956]; "Foules révolutionnaires", em Annales

historiques de la Révolution française (1934), retomado em Etudes sur la Révolu­

tion française (Paris, 1954; 2? ed., 1963). GEORGES LEFEBVRE forneceu um belo exem­ plo de análise de um fato de vontade punitiva em seu artigo: "Le meurtre du comte de Dampierre (22 juin 1791)", na Revue historique (1941), retomado em Etudes

sur la Révolution fra nçaise.

28

A esperança sublevou as massas, soldou por um momento

os heterogêneos elementos do Terceiro, sustenta longamente ain­

da a energia revolucionária dos mais puros. A reunião dos Esta­

dos Gerais foi acolhida como a "boa noticiá' anunciadora de tem­

pos novos. Abria-se um futuro melhor, respondendo à espera mi­

lenária dos homens. Esta esperança alimentou o idealismo revo­

lucionário, inflamou os voluntários, iluminou a morte trágica dos

"mártires de prairial", como a dos heróis do processo de Vendô­

me. Da velha camponesa encontrada por Arthur Young escalan­

do a costa das Islettes em Argonne, em 12 de julho de 1 789, a Ro­

bespierre, a Babeuf ao pé do cadafalso, o fio da esperança não

se rompe. "Dizem que no presente alguma coisa vai ser feita por

grandes personagens, para nós, gente humilde", mas ela não sa­

bia quem nem como; "m as que Deus nos envie algo melhoI; pois

os direitos e os encargos nos esmagam". A mesma esperança quase

religiosa em Robespierre em sua "relação sobre os princípios de

moral política que devem guiar a Convençãó' (5 de fevereiro de

1794) : "Queremos, em resumo, satisfazer os votos da natureza,

cumprir os destinos da humanidade, manter as promessas da fi­

losofia, absolver a providência do longo reino do crime e da tira­

nia

E que, selando nosso trabalho com o nosso sangue, possa­

mos ao menos ver brilhar a aurora da felicidade universal:'

O medo acompanha a esperança: consentiriam os privilegia­

dos em deixar-se despojar? Na mentalidade camponesa, o senhor

só poderia estar egoisticamente apegado à sua superioridade so­

cial e à sua renda (era um todo) . O burguês pensava o mesmo

do privilégio. O comportamento da aristocracia fortificava esta

crença; sua oposição à duplicação do Terceiro, sua resistência ao

voto por cabeça, arraigaram-na definitivamente. A partir daí, rei­

nou a inquietação. "Os nobres montarão a cavaló'; apelarão às

tropas reais; não hesitarão em buscar recursos no estrangeiro; re­

crutarão mendigos e vagabundos que a penúria e o desemprego

multiplicam ao longo dos caminhos: o medo dos "salteadores"

duplicava o inspirado pelos aristocratas. A crise econômica refor­

çava a inquietação, de vez que o aristocrata era o mais das vezes

o coletor do imposto das searas ou o dizimeiro. A gente do povo,

de todo incapaz de analisar a conjuntura econômica, atribuía a

responsabilidade da penúria, qualificada com freqüência de "fac­

tíciá', à aristocracia e à sua vontade de prejudicar. A desconfian­

ça ganha corpo, toma-se legítima: a Corte e os aristocratas, em

29

-

_�

.

.0-

princípios de julho de 1789, preparam um golpe de força para dis­ solver a Assembléia. A inquietação volta ao medo quando o "com­ plô aristocráticd' se precisa: ela durou tanto quanto a Revolução, nutrida pelos complôs verídicos, pelas intrigas dos emigrados, pela

invasão estrangeira, pela contra-revolução permanente, apaziguan­ do-se por momentos, ampliando-se ao sinal ou à aproximação do perigo, depois da fuga para Varennes ou no verão de 1792, culmi­

nando nos massacres e no Terror. O medo é social, porém seu conteúdo se matiza segundo as circunstâncias. Medo da aristocracia e do que ela socialmente sig­ nifica. Taine, que não pode ser suspeito de benevolência, armou um quadro impressionante do medo e da ira que, à aproximação dos invasores, subleva os camponeses, no verão de 1792. "Eles

sabem, por experiência própria, da sua condição recente e da sua condição presente. Basta-lhes lembrar para reverem na imagina­

:' Mas

o fato de o medo dos "salteadores" ter sido associado ao dos aris­

tocratas, em julho de 1789, sublinha uma outra orientação que se foi afirmando até o golpe de Estado de brumário: o temor aperta os possuidores diante da ameaça das classes perigosas. Sem dú­ vida, a crise econômica, multiplicando os miseráveis, generalizou

uma insegurança que, finalmente, foi levada à conta do complô

aristocrático. O sentido social deste medo dos "salteadores" não

é menos claro. O camponês proprietário teme um atentado aos

seus bens, como o burguês de Paris o receia, quando, em 12 de

julho, com a retirada das tropas reais para além do Sena, para

a Escola Militar e o Campo de Marte, Paris foi como que abando­

nada a si mesma. A formação da milícia burguesa teve então por objetivo a defesa da capital, não apenas contra os excessos do po­ der real e de suas tropas disciplinares, masíambém contra os aten­ tados das categorias sociais julgadas perigosas. Monarquianos,

e Girondinos partilharam em graus diversos estes sen­

timentos: daí, sua vontade de deter a Revolução por meio de um compromisso. O temor da burguesia explica por um lado o 9 de termidor; ele atinge o paroxismo na primavera de 1795, quando das jornadas de prairial; explica a impotência do Diretório que luta em duas frentes; alimenta a campanha revisionista de 1799:

o golpe de Estado de brumário tranqüiliza os notáveis. A reação defensiva flui do medo. Se este, às vezes, degene­

rou em pânico, o mais freqüentemente levou o povo a armar-se

ção a enormidade das taxas reais, eclesiásticas e senhoriais

Fe uillants

para sua própria segurança. Em 12 de julho de 1789, a notícia da readmissão de Necker suscitou um sobressalto de ira e de me­ didas de defesa. O povo saqueou as lojas dos armeiros; a bur­ guesia assumiu o comando do movimento e se esforçou por re­ gularizá-la pela criação da milícia burguesa. fui para armar-se que o povo se dirigiu aos Inválidos, na manhã de 14 de julho, e em seguida à Bastilha. Por mais que o rei capitulasse, aceitasse a 17, na prefeitura, a insígnia tricolor, o medo persistiu, com seu cor­

tejo de distúrbios e violências. O Grande Medo, nos fins de julho de 1789, mobilizou os camponeses; acelerou e generalizou o ar­ mamento popular; forçou, nas menores aldeias, as milícias a reunirem-se. Pela primeira vez, manifestava-se o ardor guerrei­

ro da Revolução. O sentimento de solidariedade do Terceiro

reforçou-se nisto: " É s do Terceiro Estado?'�

de 1789. Esta mobilização geral prefigura os recrutamentos de vo­

era a senha em julho

luntários depois da fuga para Varennes e no decurso do verão de 1792. A reação defensiva suscitada pelo medo explica ainda a exi­

gência popular do recrutamento em massa em agosto de 1793.

A vontade punitiva fazia-se una com a reação defensiva: é pre­

ciso pôr os inimigos do povo em condição de não poderem mais

prejudicar, porém também puni-los e desforrar-se deles. Daí, as perseguições e as prisões, a devastação ou os incêndios dos cas­ telos, os assassínios e os massacres, o Terror enfim. Em 22 de ju­ lho de 1789, Bertier de Sauvigny, intendente de Paris e da I le-de­

France, e seu sogro Foulon de Doué, presos e conduzidos à pre­ feitura, foram arrebatados pela multidão e enforcados no poste mais próximo. A burguesia revolucionária aprovou: "Este sangue, era ele então tão puro?'� perguntou Barnave na Assembléia Cons­

tituinte. Durante todo o curso da Revolução, a vontade punitiva

foi companheira do medo. O Conde de Dampierre foi massacra­ do no dia seguinte a Varennes. Os massacres de setembro de 1792 coroaram o medo suscitado pela invasão, foram contemporâneos

dos recrutamentos de voluntários. Quando o perigo nacional de novo se agravou, em agosto de 1793, ocorreram massacres nos meios distritais parisienses: a Convenção preveniu-os pondo o Ter­

ror na ordem do dia. A vontade punitiva respondia a uma con­

cepção confusa da justiça popular. A burguesia revolucionária, à qual a violência não repugnava, esforçava-se desde 1789 por ca­

nalizar a ira popular e por regularizar a repressão. Em 23 de ju­ lho, Barnave solicitou "uma justiça legal para os crimes contra o

Estado)"; em 28, Du Port obtém da Assembléia a criação de um Co­ mitê de

Estado)"; em 28, Du Port obtém da Assembléia a criação de um Co­ mitê de Averiguações, verdadeiro protótipo do Comitê de Segu­ rança Geral, enquanto a Comuna de Paris, com base na proposta de Brissot, instituía um outro que prefigurou os comitês de vigi­ lância revolucionária. Em 1792, Danton fez criar o Tribunal Extraor­ dinário de 17 de agosto - aliás, em vão. Os massacres populares só findaramquando o governo revolucionário se reforçou e a Con­ venção legalizou a repressão. O medo, com seu cortejo de violên­ cias, não desapareceu senão quando o complô aristocrático e a contra-revolução foram enfim liquidados.

2. A prática política - A espontaneidade revolucionária das massas citadinas e rurais sublevadas pela miséria e pelo "complô aristocráticó' derrubou o Antigo Regime desde os fins de julho de 1789, destruiu sua estrutura administrativa, suspendeu a co­ brança do imposto, municipalizou o país, desenfreou as autono­ mias locais. Perfila-se o espectro de um poder popular e da de­ mocracia direta. Em Paris, enquanto a Assembléia dos Eleitores aos Estados Gerais se apoderava do poder municipal por inter­ médio de seu Comitê permanente, os cidadãos deliberavam e atua­ vam nos sessenta distritos constituídos para as eleições. Logo pre­ tenderam controlar a municipalidade: a soberania não residia no

povo? Enquanto desmoronavam as antigas estruturas em virtude de um movimento de balança inerente a toda revolução, surgiam, simultaneamente, instituições e uma prática política cujo sentido e cujo fim não poderiam escapar: a burguesia, desde julho de 1789, se esforçou por estabilizar a ação revolucionária, controlar e deri­ var em seu proveito o impulso espontâneo das massas. Distritos, depois seções, constituíram, nas cidades, o quadro institucional de base em que se desenrolou a vida política da pri­ mavera de 1789 ao Diretório, adquirindo um conteúdo social no­ vo com os progressos da Revolução ou as tentativas contra­ revolucionárias. Tratando-se de Paris, o regulamento eleitoral de

13 de abril de 1789 dividira a capital em sessenta distritos. Termi­

nadas as eleições, eles continuaram a reunir-se e a deliberar em suas assembléias gerais permanentes. A Assembléia Constituin­

te, tendo organizado as municipalidades do reino pelo decreto de

14 de dezembro de 1789, não podia deixar subsistir em Paris uma

organização particular que favorecia as tendências autonomistas.

-�

32

Seu decreto de 21 de maio-25 de junho de 1790 constitui a carta

constitucional da capital, dividida em quarenta e oito seções, à imagem da organização municipal geral. As seções, mais ou me­ nos numerosas conforme as cidades, formam teoricamente cir­ cunscrições eleitorais. A Assembléia é o órgão supremo da seção:

é o soberano em pé. Nas assembléias primárias, os cidadãos ati­

vos (durante o período censitário) reuniam-se para votar; por so­ licitação de cinqüenta dentre eles, podem reunir-se em assembléia geral para deliberar. As seções formavam ainda as subdivisões ad­ ministrativas das comunas urbanas: a este título, foram dotadas de órgãos executivos, de comitês e de funcionários eleitos pelos cidadãos ativos. À frente de cada seção, um comitê civil, interme­ diário entre a municipalidade, cujas resoluções cabia-lhefazer exe­ cutar, e a assembléia geral da qual emana: posição ambígua que, amiúde, o encafua numa prudente reserva. Enfim, em cada se­ ção, um juiz de paz cercado de assessores e um comissário de polícia, igualmente eleitos. Esta organização aparece como uma conta liquidada por acordo entre a tendência geral à autonomia

e as necessidades de uma administração municipal coerente. Des­

de 1790, ela fornece seus quadros ao movimento revolucionário. Bem depressa, tendeu a transformar-se, inicialmente sob a influên­

cia das aspirações à democracia direta que caracterizavam mes­ mo os beneficiários do regime censitário, depois sob o impulso

das forças populares que exigiam sua parte no poder. Convém precisar ainda a importância dos elementos ativistas. Desde o prin­ cípio da Revolução, salvo em período de paroxismo ou por oca­ sião das grandes jornadas, a participação na vida política secio­ nária constituiu a ação de apenas uma minoria de militantes: 4

a 19%, segundo as seções, dos cidadãos ativos emParis, no curso

do período censitário. Mas, nos períodos de crise, esta minoria arrastava um amplo setor das massas populares. Para a mobilização das massas, os clubes constituem um ele­ mento determinante, indubitavelmente mais eficaz que a organi­ zação secionária que lhes fornece um quadro. Dos grandes clu­ bes parisienses às múltiplas sociedades populares dos bairros da capital e das cidades e aldeias dos departamentos, o protótipo con­

tinua a ser o Clube dos Jacobinos, saído (parece) do clube dos de­ putados bretões, e que, após as jornadas de outubro de 1789, se instalou em Paris, nos conventos dos Jacobinos da rua Saint-Ho­

noré, sob a denominação de Sociedade dos Amigos da Cons-

33

tituição. Os Jacobinos, mais que pela doutrina, que evoluiu ao rit­ mo da Revolução para

tituição. Os Jacobinos, mais que pela doutrina, que evoluiu ao rit­ mo da Revolução para cristalizar-se em 1793-1794, se caracteriza­ ram por um método e uma organização que, canalizando e orien­ tando a energia revolucionária das massas, multiplicaram sua efi­

ciência. Pela filiação e pela correspondência, a sociedade matriz

dava o impulso aos clubes filiados, vasta rede de sociedades que cobriam o país inteiro e agrupavam os patriotas mais conscien­ tes. Por este duplo procedimento, os Jacobinos ence rram o corpo

político em suas malhas ou o conquistam, coordenando a ação do conjunto dos clubes que formam como que a estrutura de um partido. O clube central vota moções, lança petições, imprime pan­ fletos e cartazes; as sociedades filiadas repercutem bem depressa as palavras de ordem. O clube vigia as administrações, convoca aos tribunais os funcionários, denuncia os contra-revolucionários, protege os patriotas. Segundo Camille Desmoulins em Révolu­

tio ns de France et de Brabant de 14 de fevereiro de 1791, o Oube

dos Jacobinos "abarca em sua correspondência com as socieda­

des filiadas todos os cantos e recantos dos 83 departamentos" ; é, simultaneamente, "o grande inquisidor que apavora os aristocra­

tas e o grande requisidor que corrige todos os abusos". O clube é a força viva do movimento revolucionário. A imprensa, sob suas múltiplas formas - jornais e panfle­ tos, brochuras e cartazes -, multiplicava a audição das tendên­ cias em confronto, mas especialmente a dos patriotas, em parti­ cular pela leitura feita em público: quer à tarde nas sociedades populares e nas assembléias secionárias, quer nas ruas e nas pra­

ças públicas (em 1793, ofurioso VarIet desenvolvia sua propagan­ da do alto de uma tribuna rolante, mas bem antes dele um certo Collignon se intitulava "o leitor público dos sans-culottes': quer ainda nos locais de obras, como, em Pa ris, as do Panteão. A im­

prensa popular - r: Ami du peuple, de Marat, desde setembro de 1798, Le Pere Duchesne, de Hébert, a partir de outubro de 1790 - exercia assim a influência de outro modo considerável e que sua tiragem nâo permitia imaginar. A imprensa, como o clube,

repercutia as palavras de ordem revolucionárias nos departamen­ tos e até mesmo nas fileiras do exército. Desde a primavera de 1789, o exército desempenhou papéis diversos.O Primeiramente, na tropa, pela recusa à obediência:

(7) Cf. M. REINHARD, "Obser vatio ns sur le rôle révolutionnaire de l'armée dans la Revol ution fra nçaise'; em Annales historiques de Ia Révolution française, 1962, p. 169.

historiques de Ia Révolution française, 1962, p. 169. conhece-se a importância da defecção dos Guardas

conhece-se a importância da defecção dos Guardas franceses, aquartelados em Paris - feito alca nçado desde o fim de junho.

O homem da tropa tem os reflexos do Terceiro, compartilha seus receios e suas esperanças, sensível (uma parte da tropa aloja-se com os habitantes) à miséria popular de que partilha. A decom­ posição do exército real pela penetração da ideologia revolucio­ nária na tropa, pela imigração de parte considerável do corpo dos oficiais, já suspeitos porque nobres, constituiu um fator essencial

dos progressos da Revolução. Mas não se pode esquecer a ação espontânea dos soldados que revestiu múltiplas modalidades, da presença ativa nos clubes à denúncia, da rixa ao massacre. O pa­ pel revolucionário da Guarda Nacional, força nova da Revolução, é também sensível.

A Guarda Nacional foi essencialmente uma instituição civil que possuía uma organização militar. Nesses dias de julho de 1789,

a Assembléia Geral dos Eleitores parisienses hesitou acerca das

palavras: milícia trazia recordações desagradáveis; preferiu-se guarda, que precisava o adj etivo burguesa, velha expressão tra­ dicional; finalmente, a palavra nacional, proposta por La Fayette,

em 16 de julho, acabou por ser adotada. Mas tanto quanto o po­ der real e os mercenários do exército de linha, milícia burguesa, ou guarda nacional, respondia à ameaça das classes reputadas

perigosas, massa instável de trabalhadores sem domicílio certo e de joões-ninguém. Ela agrupava todos quantos tinham casa pró­

pria, situação estável, bens a proteger. Força regular destinada à defesa dos interesses dos possuidores, impunha a ordem burguesa às massas em efervescência. Organizada em 13 de julho, a milícia parisiense começou seus serviços de patrulhamento logo à tarde,

desarmando "os miseráveis" e conseguindo para "a cidade uma noite tranqüila, que ela já não esperava, desde que um número considerável de particulares começou a andar armadd'. A Assem­ bléia constituinte tomou o porte de armas um privilégio burguês:

somente os cidadãos ativos, isto é, os que pagavam uma contri­ buição direta igual ao valor de três jornadas de trabalho, únicos de posse dos direitos políticos, participaram da Guarda Nacio­

nal. Robespierre ergueu-se em vão, em seu discurso de 27 de abril de 1791, contra a exclusão dos cidadãos passivos. O decreto de 28 de setembro de 1791, que organizava a Guarda Nacional, atribuiu-lhe a tarefa "d e restabelecer a ordem e manter a obediência às leis" : tratava-se de garantir o reino da burguesia vitoriosa. In-

a ordem e manter a obediência às leis" : tratava-se de garantir o reino da burguesia

dubitavelmente, a composição social da Guarda Nacional acabou, enfim, por se tornar mais variada do que os textos legislativos o deixavam crer. Não obstante, não foi senão em julho e agosto de 1792 que a instituição se cumulou de um sentido novo, quando suas fileiras foram invadidas pela massa dos cidadãos passivos. A federação multiplicou a eficácia de uma guarda de início estreitamente municipal: ela se torna naciona1. O jogo das fede­ rações resultou na constituição de uma nação em armas, confun­ dindo os campos e as cidades. A insígnia tricolor torna-se o em­ blema nacional, depois de ter sido o da Guarda Parisiense, em seguida o das Guardas Nacionais do reino. A federação tem por objetivo a fraternização: une todos os cidadãos pelos "laços in­ dissolúveis da fraternidade". Habitantes das cidades e dos cam­ pos confraternizam primeiramente nas federações locais, prometendo-se assistência mútua. Em 29 de novembro de 1789, os Guardas Nacionais do Dauphiné e do Vivarais se confedera­ ram em Valence, os bretões e os angevinos em Pontivy, em 1790:

confederação em Lyon em 30 de maio, em Estrasbur g o e em Lille

O movimento ilustrava o sentido unitário dos patrio­

tas e manifestava a adesão da nação à ordem nova; constituía, nes­ te sentido, face à aristocracia e ao Antigo Regime, um procedi­ mento revolucionário de grande eficiência. A nova unidade na­ cional enco ntrou sua expressão solene em Paris, na Fe deração de 14 de julho de 1790, conforme o afirmou Merlin de Douai a pro­ pósito do caso dos príncipes alemães de posse da Alsácia. Mas deve-se ainda acentuar, por trás do entusiasmo popular incon­ testável, a significação real do acontecimento. No momento em que aumentava nas palavras a h�oria da nação-associação volun­ tária, afirmava-se nos fatos uma realidade social diferente. O pa­ pel eminente representado por La Fayette no curso da Federação destacou seu sentido: ídolo da burguesia, o "herói dos dois mun­ dos'� Júlio César segundo Mirabeau, pretendia ligar a aristocra­ cia à Revolução; ele foi o homem do compromisso; a Guarda Na­ cional, que comandava, era a guarda burguesa, da qual os passi­ vos tinham sido excluídos. O povo se fazia presente, porém me­ nos ator que espectador. Se, no ato de federação, a guarda repre­ sentava a força armada nacional, era por oposição à tropa, que era apenas a força armada re al, e no sentido burguês da ordem nova. Guarda Nacional e federações, clubes e comitês, distritos ou

em junho

36

seções: tantas formas institucionais que só têm sentido por seu conteúdo social. A burguesia revolucionária não podia deixar em estado bruto asforças imensas encerradas nasprofundezas do po­ vo. Virou-as, quanto pôde, no rumo de seus interesses, sob a fal­ sa aparência desta unanimidade nacional de que Noventa e nove ainda permanece como símbolo factício.

37

CAPíTULO I OITENTA E NOVE REVOLUÇÃO OU COMPROMISSO? (1789-1792) Os Estados Gerais abriram-se em 5

CAPíTULO I

OITENTA E NOVE REVOLUÇÃO OU COMPROMISSO?

(1789-1792)

Os Estados Gerais abriram-se em 5 de maio de 1789. No dia subseqüente, a nobreza e o clero reuniram-se nas salas que lhes eram designadas, a fim de proceder a verificação dos poderes e de se constituírem separadamente. O conflito das ordens come­ çava: o Terceiro reclamou a verificação em comum, o que impli­ cava o voto por pessoa e não por ordem. Sua habilidade tática, a divisão do clero, deram-lhe a vitória. Em 17 de junho, o Terceiro tomou o nome de Assembléia Nadonal: o que implicava a afir­ mação da unidade e da soberania nacionais, verdadeira revolu­ ção jurídica sancionada por 491 votos contra 89. Um representan­ te sobre seis aproximadamente se recusava, pois, a transpor a pas­ sagem: a dissociação da burguesia já se delineava. O juramento doJeu de Paume confirmou, em 20 de junho, a vontade reforma­ dora do Terceiro. Em contraposição, o programa governamental apresentado à sessão real de 20 de junho ressaltou a parada do conflito e sublinhou por antecipação o alcance da Revolução: o rei aceitava tornar-se um monarca constitucional, propunha a abo­ lição do privilégio fiscal, mas pretendia conservar a ordem social tradicional, agora expressamente lias dízimas, as rendas e os de­ veres feudais e senhoriais". A firmeza coletiva do Terceiro venceu-o novamente; em 27 de junho, o rei ordenou à minoria do clero e

à maioria da nobreza que se reunissem à Assembléia Nacional que, em 9 de julho de 1789, se proclamou constituinte. A revolução pacífica burguesa abortou, portanto. Tinha ela al­ guma pos sibilidade de triunfo? Havia no seio do Te rceiro Estado uma minoria conservadora; manifestara-se em 17 de junho; com a massa do clero levada à conciliação e com a fração liberal da no­ breza, ela constituía um partido da resistência inclinado ao com­ promisso. Tal tendência reforçou-se a partir dos fins de junho, in­ quieta em razão da agitação popular. Mounier encarnou-a dentro em breve. Mas todo compromisso tropeçava no feudalismo: a bur­ guesia revolucionária e as massas populares não podiam tolerar sua manutenção, nem a aristocracia encarar uma supressão que significava sua perda de poder. O apelo ao soldado para recon­ duzir o Te rceiro à obediência sublinhou, se houvesse necessida­ de disto, o caráter aristocrático do Antigo Regime. Mas significa­ va não contar com as massas populares. A crise econômica já multiplicara as rebeliões. Desde 28 de abril de 1789, os estabelecimentos do salitreiro Henriot e de Ré­ veillon, fabricante de papel para forrar parede, no subúrbio de Saint-Antoine, tinham sido saqueados. Distúrbios nos mercados, pilhagens de comboios de cereais, ataques às alfândegas munici­ pais: as "emoções" populares enervam a tropa e o corpo de cava­ laria mantido de sobreaviso; enfebrecem a atmosfera das cidades. O "complô aristocráticd' consuma a mobilização das massas. Em Paris, arte sãos, loj istas e companheiros, guardas franceses em rup­ tura com a disciplina da caserna logo se revelam tropas de cho­ que da burguesia revolucionária. A readmissão de Necker, conhe­ cida na manhã do domingo de 12 de julho, desencadeou o pâni­ co; contudo, mais ainda, uma rápida reação defensiva. À revolu­ ção parisiense de 14 de julho correspondeu na província, com mo­ dalidades múltiplas, a revolução municipal: as municipalidades antigas desapareceram em algumas semanas, o país foi fechado numa rede de ardorosos comitês a vigiarem os suspeitos, prepa­ rados para desmancharem os conluios aristocráticos. As passa­ gens de tropas de volta às suas guarnições, a primeira emigra­ ção, os rumores de uma intervenção estrangeira, incitavam à vi­ gilância, generalizando inteiramente o medo. O campesinato en­ tra então em cena. Ele, sem dúvida, já se tinha erguido em diver­ sas regiões. Bocage normando, Hainaut, Mâconnais, Franche­ Cómté, Alta Alsácia. No clima de insegurança e de miséria ge-

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rais, incidentes locais deram nascimento a seis correntes de pâni­

pos­

to de parte, o Grande Medo sacudiu o país de 20 de julho a 6 de agosto de 1789. O feudalismo foi definitivamente abalado.

co em cadeia: Bretanha, Alsácia e Lorena, Baixo Languedoc

I - A "abolição" da feudalidade

Os fundamentos da nova ordem assentaram-se, desde o dia subseqüente ao da insurreição dos campos, sobre a força de cuja importância a Assembléia constituinte não podia alimentar ne­ nhuma dúvida: sobrevinda em pleno período de colheita, ela pu­ nha em discussão o levantamento antecipado do quinhão feudal

e a própria existência dos direitos senhoriais e das dízimas.

A burguesia, de início, lhe era hostil. O sistema feudal criava obstáculo à transformação capitalista da agricultura e da econo­ mia em seu conjunto. Essa última exigia a liberdade do indivíduo

e da mão-de-obra, portanto a abolição da servidão; a liberdade

da produção, portanto a supressão das banalidades e dos mono­ pólios senhoriais; a mobilidade da propriedade, portanto a desa­

parição do direito de primogenitura, da remissão feudal e do di­ reito de feudo livre; a unificação do mercado, portanto a destrui­ ção dos pedágios. Se alguns grandes senhores liberais aceitavam

o resgate dos direitos, e mesmo a abolição, sem indenização, dos

mais opressivos, a massa dos pequenos senhores cujas rendas eram em grande parte constituídas destes últimos direitos, opunha-se obstinadamente a isso, não apenas por interesse, mas também por espírito de casta: vivendo "nobremente'� recusavam­ se a levar uma existência plebéia na qual deveriam fazer valer o capital do resgate, que os pona no mesmo pé de igualdade com os camponeses. Esta teimosa recusa conduzia, indubitavelmen­ te, a burguesia, já às voltas com a Corte, a fazer concessões aos camponeses, mas não ao ponto de apoiar todas as suas reivindi­ caçÕes: entre os deputados do Te rceiro, a maior parte, composta de juristas, consideravaos direitossenhoriais como uma proprie­ dade individual legítima que não podia ser suprimida sem pôr em risco a própria ordem burguesa.

O Terceiro hesitou: em 3 de agosto de 1789, instaurou-se o de­ bate sobre um projeto de resolução do Comitê das relações, em

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que se afirmava "que nenhuma razão pode legitimar as suspen­ s