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ÉTICA E TECNOLOGIA

TEMA 1. INTRODUÇÃO

1.1. A vida moral nas sociedades


Podemos considerar como dado certo que todas as sociedades, desde as mais
primitivas até as sociedades mais complexas adotam determinada concepção
moral, e com ela gerem a vida social dos seus membros: com ela julgam o
comportamento próprio e dos outros; por ela se sentem as vezes orgulhosos e
outras vezes não. Ao longo da vida, as pessoas podem adotar uma única
concepção moral ou então uma serie de concepções morais pessoais. Chamamos
“concepção moral” a qualquer sistema mais ou menos coerente de valores,
princípios, normas, preceitos, atitudes etc, que serve de orientação para a vida
e uma pessoa ou de um grupo.

1.2. Porquê e para que a moral? Estamos condenados a ser morais?


A questão aqui colocada nos leva a considerar se os seres humanos estamos
dotados de uma característica própria que seria a moralidade. De acordo com o
filósofo espanhol, José Luís L. Arangurem (1909-1996), a moralidade é uma
condição natural dos seres humanos com a qual nos deparamos
inevitavelmente. É certo que existem muitas acções humanas que não
dependem da nossa vontade, mas sim estão determinadas pela nossa estrutura
biológica. Assim, ninguém pode controlara nem guiar livremente, por exemplo,
os processos químicos da sua digestão ou da sua respiração. Em torno da
estrutura essencial da moralidade humana podemos falar dos condicionamentos
biológicos e externos aos quais a conduta humana está submetida, desde que
nascemos até que morremos. Todos os humanos nascemos com uma dotação
genética concreta que nos predispõe a agir de determinada maneira perante os
estímulos externos. Assim, constatamos que desde tenra idade há crianças mais
agressivas que outras, ou mais hábeis na linguagem ou menos expressivos
emocionalmente. Ou seja, as acções humanas sempre dependem de uma certa
disposição biológica.

Isto significa que existe um determinismo total que anula toda a possibilidade de
escolha? Ou dito de outra forma: somos livres ou estamos condenados a agir de
acordo com a nossa estrutura biológica?

De acordo com Lawrence Kohlberg (1927-1987), os seres humanos vamos


desenvolvendo a nossa estrutura moral de forma evolutiva, segundo as distintas
etapas de desenvolvimento biológico, psíquico e social desde a infância. Neste
desenvolvimento tem muita importância a adquisição da linguagem; as
perguntas que uma criança faz aos pais ou professores já contém em muitas
ocasiões um significado moral, pois começa a questionar-se se pode ou não fazer

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tal coisa. Por exemplo, quando na escola ou creche uma criança agride a outro e
o professor ou cuidador lhe diz que não deve bater aos outros, a criança já
começa a interiorizar de como deve agir e é o início na adquisição da consciência
moral.

As investigações da neuro-ética sobre o funcionamento da consciência moral


vêm afirmando que a ação moral dos seres humanos é uma interação continua
entre o nosso sistema nervoso e o contexto sociocultural no qual estamos
inseridos.

A questão que se pode colocar é: onde fica a nossa liberdade? Estamos


realmente condenados a ser livres e agir moralmente? A resposta é que sim, e
esto nos leva a considerar que o desenvolvimento da consciência moral nos seres
humanos depende da evolução cognitiva e emocional dos indivíduos. Somos
sujeitos livres, mas também responsáveis dos nossos actos na medida que nos
formulamos continuamente a seguinte questão: Que devo fazer? A inteligência,
os sentimentos e as emoções se articulam na moralidade humana de forma
complexa para obrigar-nos a fazer escolhas morais com as quais nos deparamos,
querendo ou não.
Por isso, liberdade, responsabilidade e moralidade formam um triângulo vital
no qual a ação moral dos seres humanos está profundamente entrelaçados.

1.3. Quatro conceitos fundamentais na vida moral


A vida moral de todo ser humano se assenta em quatro aspectos: o vínculo, a
obrigação, o dever e a responsabilidade. Para ter experiencia destes fenômenos
não é necessário estudar ética.Todo ser humano tem na sua vida experiencia dos
vínculos que vai estabelecendo com outras pessoas ou com coisas; tem também
experiencia de que esses vínculos ligam-no e obrigam com maior ou menor
intensidade; e sabe que disso emanam deveres de fazer certas coisas e evitar
outras e, em consequência é responsável das decisões que tome.
I. Vinculo: toda relação estabelecida com alguém ou com
algo em qualquer momento da nossa vida.
II. Obrigação: o vínculo é um laço ou nó que se estabelece
entre duas pessoas, ou entre uma pessoa e certas coisas
que os une. De aí a ideia de “obrigação”. Temos
obrigações com tudo aquilo com que estabelecemos o
vínculo.
III. Dever: A obrigação concretiza-se sempre em forma de
deveres específicos. Se estou obrigado a algo, deverei
fazer certas coisas concretas e não deverei outras. As
obrigações traduzem-se, portanto em deveres. Os
deveres são sempre concretos: fazer tal coisa ou não
fazer tal outra. Não haveria deveres se não existissem
vínculos que nos obrigam em um sentido ou noutro.

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IV. Responsabilidade: as obrigações e os deveres são
elementos inerentes a todo processo humano de tomada
de decisões. Nas nossas mãos está fazer o que devemos
ou o contrário. A consequência disso é que somos
responsáveis das nossas decisões. Assim como a
obrigação e o dever são prévios à decisão e servem para
orientar a decisão num sentido ou noutro, a
responsabilidade é posterior. Sou responsável do que foi
feito, ou seja, do que foi decidido por mim.
Neste sentido, a responsabilidade é a culminação do
processo que começa com o estabelecimento dos
vínculos. O vínculo nos faz responsáveis, de alguma
forma, com quem estamos vinculados. Assim por
exemplo os pais são responsáveis dos seus filhos, porque
têm vínculos muito profundos com eles, o professor
também é responsável dos seus alunos, precisamente
porque a sua condição de professor vincula-o com eles.
Em definitiva, a vida humana é uma constelação de
vínculos que nos relaciona com tudo oque nos rodeia q
eu nos faz responsáveis, em função do tipo de vínculos
que estabelecemos.

1.4. Consciência Moral, que é?


a. A consciência moral não é um acto espontâneo, não nos cai do
céu nem sai de um sorteio. A consciência moral é uma conquista,
a consciência moral forma-se.
b. A consciência Moral é um estado mental através do qual temos a
percepção imediata – conhecimento – da própria existência e da
existência do entrono.
c. É estado mental porque se não temos mente não há consciência.
Mas é um estado mental particular, isto é, a mente está inserido
com uma percepção de um corpo particular através do qual a
mente funciona. O estado mental inclui conhecimento da
existência, dos objetos e acontecimentos à volta. A este estado
mental acrescentamos um processo emocional através do qual o
individuo sente-se a sí mesmo. O estado mental consciente se
experimenta na exclusividade de cada organismo, na primeira
pessoa, uma experiencia que ninguém mais pode observar.
d. Os elementos constitutivos da consciência moral são: informação,
conhecimento e sentimento: compreensão (cognoscitiva e
emocional; conhecimento intelectual e empatia)

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e. A consciência moral tem três funções principais:

i. Apelativa, invoca os valores e as normas ideais da nossa


acção que não devemos renunciar: não matarás, não
roubarás….
ii. Imperativa, nos apresenta as acções como obrigatórias,
ordena a prática de uma acção compatível com valores e
princípios: deves respeitar os teus pais, não deves
abandonar os teus filhos, não deves prejudicar os teus
alunos….
iii. Judicativa, Orienta normativamente as nossas intenções e
julga os actos: ela diz-nos o que devemos fazer e como
devemos ser. Aqui a consciência liga-nos à
responsabilidade: eu tenho a consciência de responder
pelas minhas acções ou omissões.

2. A ética: qual é a sua relação com a moral?


A ética, como disciplina filosófica, de facto, não faz outra coisa que refletir sobre essa
experiência humana que é anterior à ética: a análise da experiência moral é o objeto
da ética: Portanto a ética é uma reflexão sistemática e aprofundada sobre este tipo de
questões relativas à vida quotidiana de qualquer ser capaz de pensar a sua própria
existência e os seus actos.
Os saberes e as ciências, em geral, fornecem informações e conhecimento sobre a
realidade humana e do mundo. Á ética fornece orientação, isto é, instrumentos e
procedimentos de orientação ao comportamento humano. Por esta razão a ética é um
saber prático.

2.1. Porque a Ética é um saber prático?


Para Compreender melhor que tipo de saber constitui a Ética temos de recorrer à
distinção aristotélica entre os saberes tóricos, poiéticos e práticos. Os saberes teóricos
(do grego theorein: ver, contemplar) ocupam-se de informar o que são as coisas, o que
ocorre de facto no mundo e quais as causas objetivas dos acontecimentos. São saberes
descritivos, isto é, mostram-nos o que existe, o que é, o que acontece. As diferentes
ci~encias da natureza (Física, Química, Biologia, Astronomia etc.) são saberes teóricos
na medida em que o que buscam é, simplesmente, mostrar-nos como é o mundo. Para
Aristóteles, os saberes teóricos versam sobre “o que não pode ser de outra maneira”,
ou seja, o que é assim porque assim o encontramos no mundo, não porque assim o
dispõe a nossa vontade: o sol aquece, os animais respiram, a água evapora, as plantas
crescem… tudo isso é assim e não podemos mudá-lo a nosso bel-prazer. Podemos tentar
impedir que uma coisa concreta seja aquecida pelo sol, utilizando quaisquer meios que

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tenhamos a nosso alcance, mas que o sol aqueça ou não aqueça não dpende de nossa
vontade: pertence ao tipo de coisas que “não podem ser de outra maneira”.
Em contrapartida, os saberes poiéticos e práticos versam, segundo Aristóteles sobre “ o
que pode ser de outra maneira”, ou seja, sobre o que podemos controlar à vontade. Os
saberes poiéticos (do grego poien: fazer, fabricar, produzir) são aqueles que nos servem
de guia para elaboração de algum produto, de alguma obra, quer que seja algum tipo
de artefacto útil (como construir uma casa ou tecer um vestido) ou simplesmente um
objeto belo ( como uma escultura, uma pintura, as tecnologias, etc…). As técnicas e as
artes são saberes desse tipo. Os saberes poiéticos, contrariamente dos saberes teóricos,
não descrevem o que existe, mas procuram estabelecer normas, padrões e orientações
sobre somo se deve agir para atingir o fim desejado. Os saberes poiéticos, portanto, são
normativos, porém, não pretendem servir de referência para toda a nossa vida, mas
unicamente para a obtenção de certos resultados que buscamos.
Por sua vez, os saberes práticos (do grego praxis: actividade, tarefa, negócio), que
também são normativos, são aqueles que procuram orientar-nos sobre o que devemos
fazer para conduzir nossa vida de uma maneira boa e justa, como devemos agir, qual
decisão é a mais correta em cada caso concreto para que a própria vida seja boa em
seu conjunto. Tratam do que deve existir, do que deveria ser (embora ainda não seja),
do que seria bom que acontecesse (segundo a concepção do bem humano). Tentam nos
mostrar como agir bem, como nos conduzir adequadamente no conjunto de nossa vida.
Aristóteles agrupou os saberes práticos sob a denominação de “Filosofia Prática” que
abarca:

• A Ética: saber prático destinado a orientar a tomada de decisões prudentes que


nos levam a conseguir uma vida boa;
• A Economia: Saber prático encarregado da boa administração dos bens da casa
e da cidade, o bem comum;
• A política: saber prático que tem por objeto o bom governo da polis, do bem
comum

2.2. O objetivo da ética:


• O objectivo da ética não é conhecer o estado do mundo ou das coisas,
mas saber como viver ou como agir. A ética é um saber prático que tem
como propósito orientar o agir humano.
• A necessidade de orientação faz-se sentir em vários âmbitos da vida. Há
necessidade de orientação na vida pessoal, na relação do sujeito com a
sua própria vida, que se exprime na pergunta Socrática “como viver?”
• Há, por outro lado, uma necessidade de orientação das nossas relações
com os outros em geral, ou seja, na vida comunitária e profissional.
• Mais recentemente, na sequência do desenvolvimento de tecnologias
que marcam profundamente a relação do homem com o meio ambiente

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natural, surgiu uma maior necessidade de orientação na nossa relação
com a natureza, com a vida na terra e com os animais.
“O progresso humano autêntico possui um carácter moral e pressupõe
o pleno respeito pela pessoa humana, mas deve prestar atenção
também ao mundo natural e « ter em conta a natureza de cada ser e as
ligações mútuas entre todos, num sistema ordenado ».8 Assim, a
capacidade do ser humano transformar a realidade deve desenvolver-
se com base na doação originária das coisas por parte de Deus”.
Laudato si, nº. 6)

2.3. O que pode significar “orientação”?


Da mesma maneira que quem se encontra num ponto do espaço se pode deslocar em
várias direções, em cada momento da nossa vida (pessoal, comunitária ou profissional)
temos consciência de ter várias possibilidades de agir, entre as quais teremos de optar.
A bússola diferencia as direcções e indica uma privilegiada. Do mesmo modo, a ética
pretende fornecer instrumentos que nos orientem nas múltiplas opções que somos
obrigados a fazer na vida, ou seja, indica modos privilegiados de optar e de agir.
A ética pretende responder, ou ajudar a responder, à questão “como devo agir”?
É importante salientar que a tarefa da ética não consiste unicamente em uma orientação
mecânica do agir, inclui imediatamente a questão “porquê?” Dai que, qualquer
orientação do agir seja imediatamente seguida da justificação de essa maneira do agir.
Este esforço de justificação de modos de agir é o que faz distinguir-se a ética dos meios
pré-éticos (regras, preceitos culturais, mandamentos…) que todas as sociedades
humanas colocam à disposição dos seus membros para os orientar na vida individual e
social

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3. A ética ao longo da História.
PRIMEIRA FASE:

3.1. Ética Grega e ética cristã


a. “Como devo viver”? Tal é a questão ética formulada por Sócrates. A
interrogação ética de Sócrates nasce do facto de os valores legados pela
tradição estarem, no seu tempo, a ser postos em causa pela sociedade e pela
especulação teórica dos chamados “sofistas”. Na ausência de valores
orientadores é o individuo que tem de encontrar por si próprio resposta à
pergunta central que se coloca a todos os seres humanos a quem é dada uma
vida: “Como devo viver?”. “ Uma vida sem exame, sem justificação do modo
de viver e em que o sujeito não procure critérios de resposta à questão ética,
não vale a pena ser vivida” conclui Sócrates.

b. Posteriormente esta mesma pergunta é reformulada por Aristóteles: Qual


é a melhor maneira de viver? Qual é a melhor maneira de agir? Essa boa
maneira de viver ou agir é o bem humano ou eudaimonia (felicidade), tanto
desde o ponto de vista do bem individual quanto do bem da colectividade,
da polis. Aristóteles considera que a realização do bem individual está
intimamente ligada ao bem da colectividade, pois, sem “amizade política”,
sem uma comunidade, não é possível ser feliz. A polis tem um fim ético. A
ética como disciplina sistemática foi fundada por Aristóteles (384-322

c. A antiguidade se caracteriza por uma ética da interiorização, da


subjetivação. Nesta fase, a mais longa de todas
d. Nesta primeira fase, há várias maneiras de fundamentação da ética. Para
a filosofia grega, a origem da ética radica na natureza humana e esse ser
humano está regido por leis da natureza. Na idade cristã, a origem natural
da ética foi mantida mas com o acréscimo da criação divina do universo
e do homem como obras e criaturas de Deus. A norma ética encontra
plena justificação na sua origem, em Deus. A orientação moral de aquilo
que se deve fazer provém da vontade de Deus. Portanto, a última fonte
da ética não é a natureza, mas a lei eterna.

e. A racionalidade grega e a cultura cristã criaram um paradigma ético que


durou séculos, que se consubstancia na matriz ternária formada pelo: 1)
princípio orientador (gregos) ou princípio criador (cultura cristã); 2) pelo
modelo ético; e 3) pelos seres inteligentes (gregos) ou criaturas humanas
(cultura cristã) que o praticam ou que o cumprem

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II) Ética no contexto da Modernidade (Séc. XVII-XVIII)
O que devo fazer? Tal é a questão ética formulada por Kant (1724-1804)
no contexto:
i. Do Iluminismo (antropocentrismo)
a. Racionalidade autónoma (Liberdade)
b. Conhecimento objetivo dos fenómenos sociais e
humanos
c. Predomínio do conhecimento instrumental
(fragmentação do saber)

ii. Da Revolução Industrial (1760):


a. Que deu lugar à Revolução científica e tecnológica (séc.
XIX – XX)
iii. Da Revolução Francesa (1789):
a. A vida social, fruto dos acordos. A sociedade é fonte de
valores éticos
b. Democracia, pluralismo, tolerância, Justiça… valores
fundamentais
c. A norma positiva (Lei), instrumento principal para a
gestão do bem comum, da vida em sociedade.

iv. Do Capitalismo (em busca de um modelo económico)


a. Adam Smith (1723-1790)
a. A modernidade, rompendo este modelo metafísico e teológico, instaura a
razão como único fundamento da ética; a ética não é heterónoma, isto é, nem a
natureza nem Deus estabelecem normas éticas. De agora em diante ela é
autônoma, isto é, imposta pela própria razão a si mesma. Kant é o grande teórico
desta ruptura e do novo momento originário da ética: a boa vontade e a razão
prática fundam o imperativo categórico, a norma da moralidade: é a máxima
subjetivação da ética. A modernidade, portanto, parte do princípio de que a
norma moral é dada ao homem pelo homem, pela razão que distingue ao
homem como ser racional. O Homem moderno confia exclusivamente na razão
como instância suficiente para encontrar a justificação para os seus actos. Uma
tal ética é uma ética da autonomia. A partir deste momento, a questão ética da
modernidade será “o que devo fazer?” ou seja, qual é o princípio moral que deve
reger os meus comportamentos para com os outros humanos? A função da ética
vai ser, essencialmente, fundamentar esse princípio.
b. Em síntese, nesta primeira fase, os diferentes momentos originários da ética
são princípios cósmicos (gregos), princípios divinos (cultura cristã) e princípios da
liberdade autolegisladora (modernidade). A característica comum aos três
paradigmas, muito diferentes entre si, é a interiorização da ética, a
subjetividade a qual acontece sempre na consciência humana que acolhe a lei

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natural cósmica, acata com fé a lei divina e cumpre a lei moral gerada por ela
mesma. Nesta fase, a ética abrange só o universo humano: universalidade
restrita a uma só espécie de seres (seres racionais).

SEGUNDA FASE:
III) Ética na época contemporânea (séc. XIX – XXI). A RESPONSABILIDADE
Antecedentes
1. Socio-políticos e económicos
b. Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918)
c. A denominada crise da razão:
a. As causas de tamanhã catástrofe?
b. Como proceder a fim de evitar que tano horror
voltasse a repetir-se?
d. Max Weber e a “ética da responsabilidade” (1919)
e. A Grande Depressão, 1929 (Crescimento e consumo sem
limites)
f. Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945)
g. Ética e Direitos Humanos: fundamento ético dos direitos
humanos (1948)

2. Revoluções científicas:
1. Revolução Atômica
a. A medicina nuclear
b. Energia nuclear
c. Radioisótopos (radiações)
d. Projecto Manhattan (1942)
2. Revolução Molecular (1953)
a. Descoberta do DNA
b. Engenharia genética
c. Clonagem
d. As células- tronco
e. A reprodução assistida
f. A biotecnologia
3. Revolução Espacial (Projecto Apolo, 1961-1975)
a. A conquista do espaço (Neil Armstrong, 1969)
4. Revolução das Comunicações (Década dos 60/70)
a. A Internet, redes sociais
b. Computador
c. Telemóveis

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5. Revolução Nanotecnológica (Década dos 80)
a. Construção de robot
b. Processadores de computadores
c. Aparelhos de diagnóstico de doenças

A segunda fase da ética acontece desde final do século XIX até actualidade. A partir
desse momento a origem da ética não é mais a subjetividade, mas a objetividade. O
seja, a ética contemporânea rompe não só com a metafísica e a tradição teológica,
mas separa-se também da hegemonia da razão prática kantiana que instaurou o
solipsismo moral, a ética do individuo que cumpre o dever por dever, sem ter em
conta o contexto ou circunstancias que rodeiam ao individuo.
A ética desta segunda fase pretende ser objetiva, plural e pós metafísica. Aparecem
assim vários paradigmas éticos:
• A ética discursiva e do consenso, que defende que as normas morais são
válidas quando expressam a vontade de todos, sendo assim conformes à lei
universal (princípio da universalização). Portanto, o principio da
universalização moral exige consenso de todos os participantes para que a
norma tenha valor ético.
• A ética da reciprocidade que apela à real relação entre eu-tu. Não nasce na
relação de duas consciência subjetivas ,as de um eu e um tu que se
reconhecem como duas existências de igual valor moral. Lévinas sintetiza esta
tese com a seguinte frase: “ o apelo ético é o rosto do outro que me interpela
exigindo igual respeito”.
• A ética da justiça que se compreende também como uma construção
consensual. A justiça, nesta fase, não é entendida como virtude da pessoa
como nas éticas clássicas. Pelo contrário, “a justiça é a virtude primeira das
instituições sociais, tal como a verdade o é para os sistemas de pensamento”
escreveu John Rawls. Por tanto, a justiça é o princípio fundamental das
estruturas sociais.
• Ética utilitarista, pretende situar-se como uma ética puramente objetiva, o
seu principio básico é produzir o maior bem-estar possível para o maior
número de pessoas; tudo o que beneficia as pessoas é ético e tudo o que as
prejudica não é ético.
A ciência, a física, a biologia, a biomedicina e especialmente a biotecnologia deram
origem ao surgimento da bioética que aborda as questões éticas não só em relação
aos humanos como também em relação ao ambiente e outros seres da criatura.

IV). Década de 60 do século XX: Surgimento das éticas aplicadas:


Todas estas teorias, desde a felicidade grega à ética da utilidade com John Stuart Mill,
são éticas antropocêntricas, ou seja, centradas na vida humana: só o homem é sujeito
de discussão ética.

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Mas, o desenvolvimento da ciência e, em seguida, o da tecnologia – tecnociência – que
apresenta como um dos seus produtos a biotecnologia revolucionou o mundo da vida
biológica, da economia e da comunicação na segunda metade do seculo XX até o
momento presente. Estes enormes avanços nos obrigam a pensar em toda a
amplitude da vida de todos os seres da nossa “casa comum”.
O desenvolvimento actual, portanto, é resultado das cinco grandes revoluções que
foram delineadas com anterioridade. Juntamente com essas cinco revoluções surge,
de acordo com William Saad Hossne e Leo Pessini (2011), uma sexta revolução, que
resulta da confluência das cinco revoluções unidas à incerteza (angustia) do próprio
homem sobre as consequências do seu produto. Estas revoluções científicas, afirmam
os autores - inspirando-se em Van Potter - necessitam de ética.

Perante estes novos problemas morais derivados da actividade cognoscitiva do


homem surge a necessidade de:
1. Uma reflexão ética aplicada aos diferentes domínios sociais específicos (saúde,
ambiente, negócios, relações internacionais, o uso das tecnologias….). Uma
reflexão ética que intervenha no real concreto, que se aplique de modo
efectiva e eficaz, contribuindo para resolver os problemas morais na sociedade.
2. Uma nova dinâmica na resolução dos problemas éticos: As Comissões de éticas,
constituídos pelos especialistas, representantes da sociedade (opinião pública)
e filósofos.
3. Procedimentos eficazes na tomada de decisão: Predomínio de métodos
Deliberativos e casuísticos
Neste cenário que surgem as denominadas éticas aplicadas que passamos a destacar:

I. Bioética: (Ética aplicada às ciências da vida). As questões éticas que aborda

• Tecnologias aplicadas às ciências da vida ou Biotecnologia


o Engenharia genética: a questão da manipulação genética: A ovelha
Doly, clonagem humana, manipulação dos embriões humanos, os
alimentos transgénicos…
o O Genoma humano: para que? com que finalidade?, é lícito?
o Técnicas de suporte vital; situações irreversíveis, terminal; manter ou
não manter? Debate sobre o “encarniçamento terapêutico” (Karem Ann
Quinlan, 1957)
o Investigação biomédica (factos de Nuremberg (1948) e Caso Tuskegee,
Alabama, (1972)

• Questões éticas derivadas da biotecnologia I


1. No Inicio da vida:
• A questão dos anticonceptivos, separando a actividade sexual da
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• Questões sobre a reprodução assistida: Estatuto ético do embrião e do
feto? Existe um direito individual à procriação?
• A questão do aborto, contracepção…?
• Nascer sem pai nem mãe, a clonagem. A possibilidade de produzir um
descendente que seja um clone do progenitor. Uma clara
instrumentalização do descendente pelo progenitor, “criar um ser à sua
imagem, como Deus criou o homem.
• Nascer para curar irmãos?
• A questão da gestação de substituição, “barriga de aluguer”

2. No percurso da vida:
• Selecção genética e a sua aplicabilidade (problemas de justiça). Direitos
à intimidade genética e ignorância da predisposição às doenças
incuráveis?
• Doenças sexualmente transmissíveis: quando o acto sexual causa
doença
3. No final da vida:
• Eutanásia
• Suicídio assistido
• Cuidados paliativos ou continuados
• Interrupção de um tratamento de suporte vital

4. Outras questões éticas derivadas da Biotecnologia


• Modificação genética da línea germinal. É moral “melhorar a natureza
humana e vegetal?
• Questões derivadas da mercantilização da vida (as patentes). Os custos
da atenção médica
• É segura a alimentação que sofre alteração do código genético?

5. Algumas alertas.
• O perigo ecológico (Chernobyl, Ucrânia 2006)
• O perigo Nuclear (Bomba atômica Hiroxima e Nagasaki)
• O crescimento sem limite (Club de Roma, 1972)
• A responsabilidade num mundo tecnológico? (Hans Jonas, 1995)

II. Ética empresarial ou dos negócios.


1. Alguns factos:
o O escândalo de Watergate, (1970)
o A Crise do banco Lehman Brothers ou a crise do subprime (2007)
o A Crise do Banco Espirito Santo (2011)

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o Fuga de capital (os paraísos fiscais).
o Tráfico de armas e seres humanos, etc….
2. Questões éticas derivadas da conduta económica inapropriada
o Favorecimento ilícito
o Corrupção (lucro ilícito)
o Dumping ecológico e social
o A questão da confiança?
o A questão da responsabilidade social?
o A instrumentalização da pessoa humana (Kant, 1785)

III. Ética do ambiente: O que está acontecer à nossa casa comum (Laudato si,
2015, 17-61).

i. A mudança climática. “As mudanças climáticas são um problema


global com graves implicações ambientais, sociais, económicas,
distributivas e políticas, constituindo actualmente um dos
principais desafios para a humanidade” (…). “A falta de reações
diante destes dramas dos nossos irmão e irmãs é um sinal da
perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes,
sobre o qual se funda toda a sociedade”(nº 25).

ii. A questão da água: “ o acesso à agua potável e segura é um


direito humano essencial, fundamental e universal, porque
determina a sobrevivência das pessoas e portanto, é condição
para o exercício dos outros direitos”. Privar aos pobres do acesso
à agua potável é negar-lhes o direito à vida radicado na
dignidade inalienável” (nº 30).

iii. Perda da biodiversidade : “Anualmente, desaparecem milhares


de espécie vegetais e animais, que já não poderemos conhecer,
que os nossos filhos não poderão ver, perdidas para sempre” (nº
33).

iv. Dívida ecológica: No contexto de uma ética das relações


internacionais tomar consciência de que existe “uma verdadeira
dívida ecológica, particularmente entre o Norte e o Sul, ligada
aos desequilíbrios comerciais com consequências no âmbito
ecológico” (nº 52)

v. Desertificação provocada pela actividade minerador

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IV. Ética e cidadania
A cidadania exprime, em termos gerais, o sentido da pertença de um individuo a uma
comunidade, o que lhe confere direitos, supões responsabilidade, e constrói laços de
solidariedade. Assim sendo, uma comunidade será tanto mais coesa quanto mais os seus
membros desenvolverem uma cidadania activa, isto é, quanto mais agirem procurando
não só o seu bem-estar e o daqueles com que interagem, mas também contribuir para
o bem-estar comum, neste caso através da participação efectiva na configuração da
sociedade presente e futura. Considerando estes supostos, a ética cívica:

I. É entendida como uma moral comum, isto é, como experiência moral


partilhada de uma comunidade, uma moral implícita na vivência
quotidiana dos membros de uma mesma comunidade.
II. Exprime-se sobretudo pela enunciação de normativas resultantes
de um processo pública de deliberação. “O tipo de ética cívica que
se constrói depende do tipo de deliberação pública que se promove”
(Patrão Neves, M. C, 2014, parafraseando a Protágoras).
III. Parte dos princípios amplamente reconhecidos como
estruturantes da acção moral, e com o objetivo de intervir ou de
aplicar “às distintas esferas da vida social”.
IV. Entende que o espaço público deve ser gerido através do diálogo
entre os diversos interlocutores na comunicação, no reforço da
intersubjetividade, através da capacidade argumentativa de cada
um dos participantes na defesa dos interesses privados e
colectivos.

V. Ética e tecnologia

• A publicação das obras de Van Reusselear Potter: Bioetics: the science of


survival (1970) e Bioetics: bridge to the future (1971); e posteriormente a
celebre obra de Hans Jonás: O Principio responsabilidade (1995), surge a
seguinte questão: Porque a técnica moderna é um objeto para a ética?
• O mito da neutralidade axiológica;
• As questões éticas ligadas a biotecnologia
• As questões éticas ligas aos algoritmos na ciência da computação, à
inteligência artificial e à robótica.

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Questões éticas a destacar no contexto angolano:

2. Questões éticas derivadas da conduta socio-económica inapropriada


a. Favorecimento ilícito
b. Tendência a atingir metas e objetivos através de
mecanismos ilícitos: Corrupção
c. Dumping ecológico e social que deriva de uma estreita
relação entre pobreza e saúde
d. A questão da confiança?
e. A questão da responsabilidade social
f. A instrumentalização da pessoa humana (Kant, 1785)
g. A própria ineficiência na gestão do bem-comum (ética das
organizações)

3. Questões éticas relativas à vida em comum (ética cívica)


a. Ambiente social em conflito com os valores tradicionais
(Resgate de valores?)
b. Contexto actual de crise de valores socialmente estruturantes,
e uma reflexão normativa e iniciativa regulamentadora que
exija um processo deliberativo de ampla participação.
c. O espaço público carece de discussão entre diferentes
interlocutores na comunicação, no reforço da subjetividade,
através da capacidade argumentativa de cada um dos
participantes em defesa do bem-comum .
d. Problemas na distribuição dos bens da comunidade. A questão
da justiça distributiva

4. Questões éticas relativas ao âmbito das ciências da vida


a. A questão do aborto
b. Problemas inerentes à prestação dos cuidados de saúde (a
Humanização dos serviços sanitários)
c. Problemas com o princípio da gestão de risco nos hospitais
(OMS, 2002)
d. Questões ambientais (Laudato si)

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