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O Corpo na Psicanálise

Segundo Winograd e Mendes (2009) o corpo pode designar toda substância


material que se apresente à percepção como um grupo permanente e estável de
qualidades, independente do sujeito que percebe. Logo, o corpo é objeto, que
necessita de interação com outros objetos para criar uma ligação que dê sentido a
idéia de corpo, como já é compreendido pela ciência clássica, que denomina o
corpo anatômico como matéria orgânica, lugar da objetividade. Entretanto, o
corpo é a forma que podemos nos apresentar como ser existente no
espaço/tempo, como marca histórica de sua evolução através dos séculos. É o
registro de sua modelagem social, de acordo com os arquétipos constituintes de
cada época, contudo, transformado pelo simbólico que permeia singularmente
cada individuo dentro de sua própria história, que se pode derivar num corpo-
sujeito.

A psicanálise freudiana buscou descrever de forma detalhada conceitos


relacionados ao corpo, pois este está presente na base fundamental da teoria
psicanalítica. O corpo emerge em Freud não apenas em estrutura biológica,
fisiológica e orgânica, mas como origem e desígnio da pulsão. Há inúmeros
comentários sobre a metafísica do aparelho psíquico descrito por Freud e a
estreita relação entre corpo e metafísica. Como apontado por Freud:

A relação entre o físico e anímico é recíproca,


mas o outro lado desta relação, o efeito do anímico no
corpo, encontrou pouca aceitação dos médicos em
épocas anteriores. Eles pareciam temerosos de conceder
uma certa autonomia à vida anímica, como se com isso
fossem abandonar o terreno da cientificidade. (FREUD,
1906: 268)

Para Freud, muitas doenças que se manifestavam no corpo, poderiam ser


diagnosticadas como causa de padecimento orgânico, pois os sintomas eram
percebidos no corpo, entretanto, um número significativo desses sintomas
provinha de cunho anímico, e isto, ele já havia observado desde o inicio de suas
pesquisas, quando estudava as manifestações corporais que as histéricas exibiam
em suas crises, e como a noção de corpo foi radicalmente transformada, visto
que, não se tratava apenas de alterações fisiológicas e anatômicas, todavia, de
um corpo que conferia outro significado a estas perspectivas. Freud (1893)
atentou para esta questão: Nas suas paralisias e em outras manifestações, a
histérica se comporta como se a anatomia não existisse, ou como se não tivesse
conhecimento desta. (FREUD, 1893: 240).

E ele vai mais além ao afirmar que, os sintomas somáticos são desenlaçamentos
de traumas psíquicos, e como tal, pode-se operar sobre o sintoma discorrendo
sobre o trauma:

É que verificamos, a principio com grande surpresa, que


cada sintoma histérico individual desapareça, de forma
imediata e permanente, quando conseguíamos trazer a luz
com clareza a lembrança do fato que o havia provocado e
despertar o afeto que o acompanhara, e quando o paciente
havia descrito esse fato com o maior numero de detalhes
possível e traduzido o afeto em palavras. A lembrança
sem afeto quase invariavelmente não produz nenhum
resultado. O processo psíquico originalmente ocorrido
deve ser repetido o mais nitidamente possível, deve ser
levado de volta ao seu status nascendi e então receber
expressão verbal. (FREUD, 1893).

Freud acreditava que os sintomas histéricos não se tratavam de doenças


orgânicas, ou de “encenação”, como era visto por muitos médicos de seu tempo,
e conseuquentemente não empenhavam esforços no tratamento das mulheres que
apresentavam esses sintomas, ao contrário destes, Freud investigou
profundamente o âmago destes sintomas e concluiu que estes ocorriam em
decorrência de traumas psíquicos.

Em 1915 Freud desenvolve um conceito inovador, que abrange a compreensão


das funções psíquicas sobre o corpo, o inconsciente e a sexualidade, no texto
“Pulsões e Destinos da Pulsão”, ele desenvolve o conceito de pulsão, um
conceito que explica como o corpo e o psiquismo estão intrinsecamente
conectados. Em seus estudos sobre o corpo, Freud analisa as particularidades de
cada órgão e seu funcionamento, apoiado em sua experiência como médico, a
principio seguindo a noção que seus contemporâneos médicos tinham sobre a
fisiologia humana, contudo, ele observa por exemplo que “quanto a um órgão
apresentar uma sensibilidade dolorosa sem que tenha ocorrido alteração alguma,
encontraremos o protótipo disto no estado de excitação dos órgãos genitais, que
apresentam tais características sem estarem propriamente enfermos. Os órgãos
genitais recebem um influxo de sangue, incham, ficam umidificados e se
transformam em sítio passível de múltiplas sensações. Poderíamos então
designar como erogeneidade a atividade que emana de uma parte do corpo e
envia estímulos sexualmente excitantes em direção à vida psíquica. Aliás, a
teoria sexual há muito nos familiarizou com a concepção de que certas outras
localizações do corpo – as zonas erógenas – podem substituir os órgãos genitais
e comportar-se de maneira análoga a eles. Agora, basta que arrisquemos apenas
mais um passo: poderemos considerar que a erogeneidade é uma faculdade geral
de todos os órgãos, e, portanto, nos referir a um aumento ou redução de
erogeneidade em determinada parte do corpo.” (FREUD, 1914).

Deste modo, Freud instaura a definição de corpo erógeno, e com esta noção
demonstra que nem todas as enfermidades resultam de transtornos orgânicos,
todavia, poder estar relacionado ao sofrimento psíquico e à sexualidade. Poderia
então a catexia libidinal ser desprazerosa ao Eu?

A psicanálise compreende que este se trata de um problema de montante, pois o


equilíbrio é ameaçado devido a concentração de excessiva energia direcionada
ao Eu, e que seria necessário o encaminhamento destas aos objetos exterior ao
Eu. Esta compreensão é de suma importância para a psicanálise freudiana, daí se
explica a sobra que resta deste processo, pois o corpo não comporta por inteiro
essa descarga libidinal na vida psíquica, apenas parcialmente, como não há
escoamento completo dessa energia pulsional, pois não cessa de se inscrever
numa espécie de loop temporal, que se repete incessantemente, e esta sobra é
sentida como desprazer.

Esse desprazer solicita uma representação simbólica no psiquismo, pois o


excesso de libido causa um desconforto, que pode até mesmo tornar-se
patogênico, contudo, o trabalho psíquico realizado para que haja uma defluência
interna de excitações que não podem ser extirpadas instantaneamente para o
exterior, pois se trata da pulsão, e esta não pode ser refreada devido a nascente
está no fisiológico, daí a necessidade de representação no aparelho, pois
quaisquer que sejam as tentativas de barragem será sempre parcial.

Uma importante observação de Freud em seu texto “O Eu e o Id”, é a que traz a


explicação bastante esclarecedora na teoria das pulsões, que o Eu é, sobretudo
corporal, não é apenas uma entidade superficial, mas ele mesmo a projeção de
uma superfície (FREUD, 1923), e ele continua: “ou seja, o Eu deriva, em ultima
instância, das sensações corporais, principalmente daquelas oriundas da
superfície do corpo. Pode ser visto, assim, como uma projeção mental da
superfície do corpo”.

Conforme Ferreira (201) o corpo tem esse papel fundamental, de ser identificado
com a instância do Eu e, assim, promover unidade ao sujeito. Portanto, é
necessário ressaltar que a perspectiva psicanalítica, compreende que o corpo é
mais que um organismo composto de múltiplos órgãos, e que possui prazo de
validade como uma máquina, todavia, trata-se de um corpo-sujeito, que possui
vestígios históricos impregnado de gerações, culturas, sociedades, adaptação aos
diversos ambientes, impressões que favoreceram a evolução do corpo através
dos tempos. Nesse sentido, é de grande importância a colocação de Winograd
(2006) que não há um corpo, mas vários. São corpos-conceito que talham e
retalham corpos-acontecimento, dando-lhes identidade, subjetivando-os.
(Winograd, 2006: 179).

Referencia

BIRMAN, Joel. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de

subjetivação. 5ª edição. São Paulo: Civilização Brasileira, 2005.

FERREIRA, Lívia Alves. De que corpo se trata em psicanálise?. 2014. 85 f.


Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Universidade Federal de Sergipe, São
Cristóvão, 2014.

LAZZARINI, Eliana Rigotto; VIANA, Terezinha de Camargo. O corpo em


psicanálise. Psic.: Teor. e Pesq., Brasília , v. 22, n. 2, p. 241-249, Aug. 2006 .
Availablefrom<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
37722006000200014&lng=en&nrm=iso>. accesson 05 Sept. 2019.
http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722006000200014.

WINOGRAD, Monah; MENDES, Larissa da Costa. Qual corpo para a


psicanálise: Breve ensaio sobre o problema do corpo na obra de Freud. Psicol.
teor. prat., São Paulo , v. 11, n. 2, p. 211-223, dez. 2009 . Disponível em
<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-
36872009000200015&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 05 set. 2019.