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Direitos

humanos e
cidadania
Direitos humanos e
cidadania

Laura Degaspare Monte Mascaro


Luiz Fernando Conde Bandin
© 2017 por Editora e Distribuidora Educacional S.A.
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Mascaro, Laura Degaspare Monte


M395d Direitos humanos e cidadania / Laura Degaspare Monte
Mascaro, Luiz Fernando Conde Bandini. – Londrina : Editora
e Distribuidora Educacional S.A., 2017.
264 p.

ISBN 978-85-522-0217-2

1. Direitos humanos. 2. Cidadania I. Bandini, Luiz


Fernando Conde. II. Título.

CDD 341.272

2017
Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza
CEP: 86041-100 — Londrina — PR
e-mail: editora.educacional@kroton.com.br
Homepage: http://www.kroton.com.br/
Sumário

Unidade 1 | Introdução aos direitos humanos e fundamentais 7

Seção 1.1 - A proteção dos direitos humanos no plano internacional 10


Seção 1.2 - Direitos fundamentais 29
Seção 1.3 - Direitos econômicos e sociais 52

Unidade 2 | Direito à segurança e direitos políticos 75

Seção 2.1 - Direitos políticos 77


Seção 2.2 - Direito à segurança para garantia de direitos políticos 100
Seção 2.3 - Responsabilidade pessoal em um estado de direito 117

Unidade 3 | Promoção da igualdade e valorização da diversidade:


combate ao preconceito e à discriminação 137

Seção 3.1 - Proteção de grupos vulneráveis 139


Seção 3.2 - Princípio da igualdade e da não discriminação 160
Seção 3.3 - Compreender para julgar 179

Unidade 4 | Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos


humanos 199

Seção 4.1 - Cidadania e participação social na promoção dos direitos


humanos 202
Seção 4.2 - Prevenção e planejamento em segurança e direitos humanos 220
Seção 4.3 - Hierarquia e conflitos de direitos 238
Palavras do autor
Olá!
Seja bem-vindo à disciplina de Direitos Humanos e Cidadania! Esta
disciplina tem como objetivo:
(1) ajudá-lo a tomar decisões em seu âmbito de atuação que
respeitem os direitos humanos; e (2) ajudá-lo a compreender qual
o seu papel e sua responsabilidade na promoção e efetivação dos
direitos humanos enquanto cidadão.
Durante nosso curso, você aprenderá a analisar questões e tomar
decisões em situações concretas envolvendo direitos humanos e
outros direitos relacionados à cidadania, que são tão importantes nos
dias atuais em que é necessário prevenir atos de violência, bem como
saber lidar quando ocorrem. Ao final do curso, você estará capacitado
para aplicar esses conceitos em situações que envolvem diversos
direitos que parecem estar em conflito. Além disso, você aprenderá a
regulamentação dos direitos humanos na esfera internacional e sua
aplicação no direito brasileiro. E, por fim, adquirirá conhecimentos
sobre cidadania, democracia e políticas públicas estatais na área de
segurança.
Por isso, vamos explorar esses conflitos e fornecer-lhe ferramentas
para solucioná-los de forma satisfatória.
Na Unidade 1 − INTRODUÇÃO AOS DIREITOS HUMANOS E
FUNDAMENTAIS – trabalharemos com o histórico e os fundamentos
dos Direitos Humanos, apresentando um panorama geral dos Direitos
Humanos no plano internacional e dos Direitos Fundamentais no
plano nacional. Trataremos ainda de alguns princípios importantes
dos direitos fundamentais, assim como dos direitos civis, dos direitos
econômicos e sociais.
Na Unidade 2 − DIREITO À SEGURANÇA E DIREITOS POLÍTICOS
– exploraremos a relação entre dois grupos de direitos fundamentais:
o direito à segurança e os direitos políticos. Discutiremos qual
a responsabilidade dos cidadãos perante a violação dos direitos
humanos e como proceder e a quem recorrer diante de uma ordem
que viole direitos humanos.
Na Unidade 3 − PROMOÇÃO DA IGUALDADE E VALORIZAÇÃO DA
DIVERSIDADE: COMBATE AO PRECONCEITO E À DISCRIMINAÇÃO
– trataremos dos direitos das minorias e de grupos vulneráveis em
vista do princípio da igualdade e da não discriminação. Falaremos
também sobre como olhar para o diferente a partir da faculdade de
julgar e da teoria do reconhecimento.
Finalmente, na Unidade 4 − CIDADANIA, PREVENÇÃO E
PLANEJAMENTO NA PROMOÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS –
falaremos sobre como olhar para os direitos humanos a partir de
uma perspectiva preventiva e de promoção de direitos. Veremos
também como interpretar os direitos humanos em situações em que
estes estão em conflito e tomar decisões de forma a conciliá-los ou
privilegiar um direito.
Assim, prezado aluno, este é um curso que lhe dará ferramentas
para analisar e responder a situações reais, também lhe possibilitando
que estude e vá além, melhorando sua formação. Seja bem-vindo e
boa sorte!
Unidade 1

Introdução aos direitos


humanos e fundamentais

Convite ao estudo
Caro aluno, nesta Unidade 1, como dissemos, teremos uma
visão introdutória e geral dos direitos humanos e dos direitos
fundamentais que lhe possibilitará conhecer o contexto de
seu surgimento. Você estudará o conceito e o fundamento
dos direitos humanos, assim como o histórico de seu
desenvolvimento no plano internacional. No plano nacional,
do Brasil, você conhecerá alguns princípios importantes que
orientam os direitos em nossa Constituição Federal, como o
princípio da dignidade humana, e conhecerá de forma geral
os direitos fundamentais de nosso país. Por fim, trataremos de
alguns direitos específicos relacionados às dimensões de direitos
civis, e de direitos econômicos e sociais. Ao término, você estará
apto a aplicar todo este conhecimento em situações e casos
práticos.

Com esse panorama introdutório, você poderá começar


a olhar para problemas concretos a partir de uma abordagem
de direitos humanos e de direitos fundamentais, relacionando
aspectos da realidade com esses direitos, seus fundamentos e
seus princípios.

É importante que desde já comecemos a olhar para a


realidade a partir dessa perspectiva. Para tanto trabalharemos ao
longo da unidade com um Contexto de Aprendizagem, uma
situação baseada em fatos e problemas reais. A situação é a
seguinte:

O Governador do Estado do Maranhão acaba de ser eleito


pela primeira vez e estamos no início de seu mandato. Uma
das principais plataformas eleitorais desse governador, quando
candidato, era a segurança, sendo que uma de suas principais
propostas para sanar a crise de segurança do Estado era a
privatização dos presídios.

O Governador decide, portanto, como uma de suas primeiras


ações, transformar um dos presídios mais degradados do Estado
em modelo e referência para todos os outros e contrata uma
empresa privada para geri-lo.

Você, que já trabalha em um presídio privatizado em outro


Estado, e gerenciado por essa mesma empresa, como chefe
de segurança, será transferido para o presídio em questão para
ocupar o cargo ou de Diretor do Presídio, ou de Chefe da Equipe
de Segurança.

É importante que você saiba que esse presídio é conhecido


pela precariedade de condições das instalações e das condições
de encarceramento, que dão ensejo às seguintes situações:

- Superlotação;

- Compartilhamento de celas entre presos já julgados e


ainda sem julgamento;

- Falta de contato dos presos com o defensor público ou


advogado;

- Proibição de visitas de familiares;

- Limitação do banho de sol;

- Falta de proporcionalidade na distribuição do tempo


para trabalho, descanso e recreação;

- Abuso no uso da força, que resulta na morte de internos


e em graves ferimentos;

- Péssimas condições de higiene e alimentação,


prejudicando a saúde dos presos.

Você consegue imaginar quais são os direitos humanos e


fundamentais dos presos que estão sendo violados por essas
péssimas condições de encarceramento?

Será que existem documentos internacionais que


estabelecem os direitos das pessoas em situação de
encarceramento?

E, ainda, você imagina que exista alguma organização


internacional que acompanhe e monitore essa situação, perante
a qual o Estado Brasileiro tem a responsabilidade e o dever de
proteger a dignidade dos presos?

Para respondermos essas perguntas, vamos retomar nossa


metodologia? Nossa unidade é dividida em três seções. Cada
uma dessas seções contêm conteúdos que o auxiliarão a
responder as indagações quanto ao presídio. Será importante
você entender o conceito de direitos humanos e como se dá o
desenvolvimento histórico da proteção no plano internacional.
Após esse panorama geral, partiremos para uma análise do
direito brasileiro em que abordaremos os direitos e princípios
fundamentais, ou seja, previstos em nossa Constituição Federal
de 1988. Trataremos também de um grupo específico de
direitos conhecido como Direitos Civis, no plano internacional
e nacional, explorando alguns tratados internacionais e leis.
E, por último, é importante você aprender, para concluirmos
esta unidade, que há outro grupo de direitos conhecido como
Direitos Econômicos e Sociais, no plano internacional e na
Constituição Federal. Você verá também quais os problemas
do sistema prisional no Brasil e quais seriam algumas penas
alternativas à privação de liberdade e em quais casos se aplicam.

Fica aqui o convite a você, caro aluno, para que se junte a


nós neste estudo e aprenda com esta parte introdutória que será
muito importante para o seu desenvolvimento e aprendizado ao
longo deste material.
Seção 1.1
A proteção dos direitos humanos no plano
internacional
Diálogo aberto

Você trabalha para uma empresa privada que gerencia complexos


prisionais, e acaba de ser transferido, na posição de diretor, para
um dos presídios mais degradados do Estado do Maranhão, em
que ocorrem inúmeras violações de direitos humanos, lembrando
que este presídio será transformado em um presídio modelo para a
reforma dos demais.
Em uma reunião com o novo Secretário de Segurança do
Estado, é apresentado um ofício do Ministério da Justiça que
informa que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos
acaba de outorgar uma medida cautelar exigindo que o Estado
Brasileiro adote as medidas necessárias para evitar novas mortes e
feridos e reduza a superpopulação. Recursos serão realocados pela
Secretaria para a expansão do presídio e presos serão transferidos.
Enquanto isso não acontece, é preciso que você se reúna com o
chefe da segurança e outros funcionários para transmitir a notícia e
explicar (1) a importância do respeito aos direitos humanos que são
estabelecidos internacionalmente, (2) o funcionamento da Comissão
Interamericana de Direitos Humanos, assim como (3) o fundamento
de suas recomendações no Pacto de San José da Costa Rica, para
que este possa tomar as medidas cabíveis no que diz respeito à
segurança dos presos. Para tanto, você deverá elaborar a pauta de
uma reunião, com os principais tópicos que serão nela discutidos, de
modo a orientar seu raciocínio e sua explicação aos participantes do
encontro. Nesse documento, você deve levar em consideração:
• O conceito de direitos humanos e o seu fundamento;
• A história da afirmação desses direitos no plano internacional;
• A importância dos sistemas regionais de direitos humanos,
dentre eles do Sistema Interamericano de proteção aos direitos
humanos.

10 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


A redação deste documento, caro aluno, permitirá a você expor
seu raciocínio sobre a fundamentação dos direitos humanos,
passando por considerações sobre seu conceito, e também acerca de
como os direitos humanos são apresentados no plano internacional
e no continente americano. Então, vamos tentar fazer esta pauta de
reunião?

Não pode faltar


Você sabe o que são os direitos humanos?
Os direitos humanos são direitos aos quais todos os seres humanos
são titulares, independentemente de suas características particulares
– como a cultura, raça, cor, origem, condição social etc. – e de seu
pertencimento a um país específico. São, portanto, universais.
O artigo primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos
estabelece que: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade
e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em
relação umas às outras com espírito de fraternidade" (ORGANIZAÇÃO
DAS NAÇÕES UNIDAS, 2008, p. 19).
Essa concepção de igualdade permite o reconhecimento do
outro como parte da mesma humanidade que nós mesmos e, por
conseguinte, como titular dos direitos humanos. Ainda, a dignidade
concede a qualquer ser humano o caráter de fim em si mesmo e não
de mero meio para outros fins.

Assimile
Segundo Comparato (2001, p. 1), o princípio da dignidade da pessoa
humana:

“É o reconhecimento universal de que, em razão dessa radical igualdade,


ninguém – nenhum indivíduo, gênero, etnia, classe social, grupo religioso
ou nação – pode afirmar-se superior aos demais.”

Um dos principais documentos que reconhece e descreve


os Direitos Humanos hoje é a Declaração Universal dos Direitos
Humanos, de 1948, da qual trataremos com mais profundidade mais
adiante.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 11


Quais os fundamentos dos direitos humanos?
Sempre se questionou qual seria o fundamento dos direitos
humanos, ou seja, por que todos possuem esses direitos? Algumas
das hipóteses de fundamentos que foram levantadas ao longo da
história foram, por exemplo, a natureza humana, a religião e a ideia
de uma construção social e histórica desses direitos. Vamos explicar
melhor cada uma delas. A existência de uma série de direitos de todos
os seres humanos poderia ser fundada:
• Na ideia de uma criação comum, como indicam várias
religiões;
• Na existência de características presentes em todos os
seres humanos, como estabelece a corrente naturalista, na
qual os direitos humanos despontam como direitos naturais;
• Na positivação e na aceitação gradual e histórica, por parte
das mais diferentes culturas, de determinados direitos, como
explicita a corrente historicista, que diz que todo fenômeno
cultural, social ou político é histórico; ou
• No diálogo político que determina a positivação dos direitos
e sua efetivação nas mais diversas culturas.

Vocabulário
O termo positivação significa estabelecer algo em uma norma (regra)
escrita.

A corrente historicista pensa que o direito é uma construção histórica,


como um sistema elaborado à medida que os fatos históricos vão
acontecendo.

Reflita
Se os direitos humanos forem fundamentados nas características
humanas, por exemplo, na razão ou na linguagem, isso significa que
quando uma pessoa possui alguma deficiência mental, ou não consegue
se comunicar propriamente com o mundo, não é titular de direitos
humanos?

12 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


Ou, ainda, se os direitos humanos forem baseados no diálogo político,
isso significa que quem não pertencer a determinado corpo político que
tenha definido certos direitos não poderá ser considerado titular desses
direitos?

Breve histórico dos direitos humanos

Pesquise mais
Confira aqui um vídeo que conta a história dos Direitos Humanos.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=AJAdHxrX_as>.
Acesso em: 27 mar. 2017.

Como é visto no vídeo, os direitos humanos podem ter várias


concepções, seja no senso comum ou no científico. Sua evolução
histórica evidencia a evolução nesse conceito. Vamos tentar
sistematizar esse histórico?

Antes que a Declaração dos Direitos Humanos fosse assinada


em 1948, uma longa história de reconhecimentos e de violações
de direitos humanos, de avanços e retrocessos, se passou. Vamos
contar essa história a partir de alguns momentos históricos-chave.

Entre 1618 e 1648 houve um conflito na Europa que ficou


conhecido como Guerra dos Trinta Anos, envolvendo uma série
de países principalmente na região onde hoje está a Alemanha. O
que motivava a guerra, além de rivalidades religiosas entre católicos
e protestantes, era a disputa da hegemonia na região. Em 1648,
marcando o fim da guerra, foi assinado o Tratado de Westphalia,
período que ficou conhecido como a Paz de Westphalia e que fez
uma nova divisão do mapa da Europa e estabeleceu que o Estado-
Nação da Idade Moderna seria constituído por um único povo,
vivendo em um determinado território, sendo governado por um
poder soberano. Esse poder soberano correspondia, na época, à
figura do Rei, que decidia em última instância, sendo que os súditos
não possuíam qualquer direito, mas somente o dever de obedecer
às ordens do rei.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 13


Nos séculos XVII e XVIII algumas ideias foram se desenvolvendo
e questionavam o poder em última instância de um único
soberano: o conceito de cidadão, que já existia na Grécia antiga,
foi retomado pelos iluministas; o conceito de Direito Natural,
segundo o qual as pessoas seriam titulares de determinados direitos
independentemente de pertencer a qualquer organização política,
por sua própria natureza. No entanto, alguns documentos são
considerados fundamentais para o estudo dos direitos humanos,
pois afirmaram a primazia dos direitos da pessoa humana sobre a
vontade dos governantes:

• Magna Carta, Inglaterra (1215);

• Lei de Habeas Corpus, Inglaterra (1679);

• Bill of Rights (Declaração de Direitos), Inglaterra (1689);

No século XVIII aconteceram duas grandes revoluções que


foram fundamentais para a definição dos Direitos Humanos como
conhecemos hoje: a Revolução Francesa (1789) e a Independência
dos Estados Unidos da América (1776).

Em 1776, os Estados Unidos da América declararam sua


independência em relação à Inglaterra por meio da Declaração da
Independência dos Estados Unidos da América (1776) e puderam,
assim, escrever seus próprios direitos como um povo independente
na Constituição dos Estados Unidos da América (1787).

Em 1789, a Revolução Francesa acabou com o exercício do poder


soberano absolutista na França, abrindo portas para o surgimento
da soberania popular e do Estado de Direito, sendo que o poder,
emanado do povo, passou a ser exercido através da lei. Portanto, os
que antes eram súditos tornaram-se cidadãos e titulares de direitos
a partir da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de
1789. A Revolução Francesa estabeleceu, assim, os conceitos de
soberania popular e Estado de Direito.

Já no século XX duas guerras mundiais viriam a acontecer. A


Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi travada entre duas alianças:
a Tríplice Entente (Grã-Bretanha, França e Império Russo) e a aliança
entre Alemanha e o Império Austro-Húngaro. Naquela época, havia

14 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


uma política de equilíbrio de poder que orientava as relações entre
os países europeus, que estabelecia que um Estado não poderia
acumular forças superiores àquelas de todos os seus rivais coligados
e que, para garantir o equilíbrio, a guerra pode ser utilizada como
meio legítimo de resolução de conflitos. O aumento da tensão
entre os países, a partir desses princípios, é que levou à Primeira
Guerra Mundial. Desse modo, o Tratado de Versalhes (1919), que
colocou fim à Primeira Guerra, criou a Liga ou Sociedade das
Nações. Esta liga visava à promoção da cooperação, da paz e da
segurança internacionais e tratava de questões gerais de direitos
humanos, de direitos das minorias e do direito do trabalho. A Liga
foi posteriormente substituída por outra instituição: a Organização
das Nações Unidas (ONU), fundada pela Carta de São Francisco em
1945.

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) impôs um retrocesso


no processo de afirmação dos direitos humanos como um todo,
uma vez que não só contabilizou um número de mortos até então
nunca visto, entre 35 e 50 milhões de pessoas, como foi palco do
extermínio de milhões de pessoas, que sequer estavam envolvidas
no conflito, em campos de concentração e extermínio, apontando
para uma visão do ser humano como supérfluo. O fim da Guerra foi
simultâneo ao surgimento da era nuclear, marcado pelas bombas
atômicas de Hiroshima e Nagasaki, que mataram 103 mil pessoas
em um milionésimo de segundo.

A Segunda Guerra Mundial representou uma ruptura que foi


seguida por um novo momento na história dos direitos humanos.
A crença de que um sistema internacional dos direitos pudesse
prevenir a repetição de eventos como os ocorridos durante a
Segunda Guerra impulsionou a elaboração de declarações e tratados
internacionais de direitos humanos, assim como a instituição de
órgãos de responsabilização de indivíduos e Estados envolvidos em
violações a esses direitos. As primeiras manifestações do processo
de positivação e internacionalização impulsionado pelo Pós-Guerra
foram:

• A instituição dos Tribunais de Nuremberg e de Tóquio;


• A instituição da Organização das Nações Unidas (ONU)
(1945);

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 15


• A adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos
(1948).
A essas manifestações, seguiu-se a adoção de convenções
específicas de direitos humanos relacionadas ao direito da mulher,
da criança e de outras minorias sociais, assim como a constituição
de tribunais e comitês internacionais de proteção aos direitos.

As dimensões de direitos humanos


A teoria divide os direitos humanos em dimensões, porém,
existem opiniões muito diversas a esse respeito, evidenciando mais
de uma teoria por assim dizer. Para nosso curso e para sua melhor
compreensão, adotaremos a teoria que divide os direitos humanos
em três dimensões:
• A primeira dimensão seria a dos direitos civis e políticos
(por exemplo, o direito de reunião e o direito de expressão).
Estes seriam direitos de cunho liberal, ou seja, que exigem
prestações “negativas” do Estado. Isso significa que o Estado
deve respeitar as liberdades individuais de seus cidadãos
e não interferir no exercício regular desses direitos. Como
vimos, a ideia de colocar limites ao poder do Estado motivou
as Revoluções Francesa e Americana.
• A segunda dimensão compreende os direitos sociais,
econômicos e culturais (por exemplo, o direito à saúde e
à cultura). A ideia desses direitos é de origem socialista, e
estes, para serem realizados, exigem prestações “positivas”
do Estado, ou seja, da ação do Estado. Trata-se, portanto,
de promover a igualdade entre todos os homens de forma
concreta, o que era a ideia central das Revoluções socialistas.
• A terceira dimensão de direitos humanos é um pouco mais
tardia, sendo reconhecida após a Declaração Universal dos
Direitos Humanos. Essa dimensão é composta pelos direitos
de titularidade coletiva ou direitos de “solidariedade” (por
exemplo, o direito a um meio ambiente saudável, o direito
à paz, à assistência humanitária e ao desenvolvimento). Os
países em desenvolvimento conseguiram inserir esses novos
direitos na agenda internacional durante o período da Guerra
Fria.

16 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948)

A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi adotada pela


Assembleia Geral da ONU, com aprovação de 48 Estados-Membros,
em 10 de dezembro de 1948.

O século XX, apesar do desenvolvimento alcançado na razão e


na técnica, foi marcado por alguns eventos de um barbarismo sem
precedentes, como o holocausto, que provocaram um hiato na
compreensão acerca do humano e da ética, colocando abaixo toda
a construção dos direitos humanos existente até então.

A Declaração vem reconstruir o entendimento sobre os direitos


humanos com base em alguns pressupostos, como a universalidade,
que considera todos os homens como titulares de direitos pelo
simples fato de serem humanos, e não por estarem vinculados a
um Estado nacional.

Assimile
Para que você compreenda a característica da universalidade dos
direitos humanos, caro aluno, deve ter em mente que ela está vinculada
à noção de que todos os seres humanos são iguais em seus direitos
e na sua dignidade. Devemos esclarecer a você, no entanto, que o
reconhecimento de que o ser humano é um sujeito de direitos, por ter
justamente a sua condição humana, acabou por flexibilizar o conceito
de soberania do Estado, como já vimos anteriormente. Além disso, tal
situação permitiu também ao ser humano ser também sujeito de direitos
em nível internacional (ALMEIDA; IKAWA; PIOVESAN, 2010, p. 1).

Inclusive, a Declaração não é dirigida primordialmente aos


Estados, mas sim a todos os indivíduos e entidades da sociedade,
rompendo com a divisão estrita entre Estado e sociedade civil criada
na Revolução Francesa. Nesse sentido, a forma de promoção dos
direitos humanos proposta na declaração é a educação, como
formação da personalidade dos indivíduos, devendo os direitos
humanos serem incorporados como uma ética na vida de todos e
não como uma doutrina, que pode ser substituída facilmente por
uma nova doutrina, com novos dogmas. E, por fim, você deverá
observar também que a Declaração Universal dos Direitos Humanos

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 17


tem como um de seus objetivos a construção de um tratado sobre
direitos humanos, que poderá ser visto nos sistemas de proteção de
direitos humanos e que serão abordados a seguir.

Pesquise mais
A Declaração Universal dos Direitos Humanos possui 30 artigos e você
poderá acessá-la neste endereço: <http://www.ohchr.org/EN/UDHR/
Documents/UDHR_Translations/por.pdf>. Acesso em: 27 mar. 2017.

O sistema global de proteção dos direitos humanos − ONU

O sistema de proteção dos direitos humanos pode ser de dois


tipos de mecanismos: (i) o sistema global, vinculado por completo
à Organização das Nações Unidas; e (ii) os sistemas regionais, tais
como o Sistema Africano, o Sistema Árabe, o Sistema Europeu e o
Sistema Interamericano.

Uma das principais diferenças entre o sistema global e os sistemas


regionais de proteção de direitos humanos é que o sistema global
é aberto à adesão de quase todos os países do mundo, enquanto
os sistemas regionais são restritos aos países de cada região ou
continente do globo.

Dessa maneira, para que você compreenda melhor cada um dos


sistemas, trataremos a seguir do sistema global, iniciando com um
breve histórico do surgimento da Organização das Nações Unidas
e sua relação com a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A Organização das Nações Unidas (ONU), fundada em 1945, na


cidade de São Francisco nos Estados Unidos, é uma organização
internacional que surgiu em virtude do término da Segunda Guerra
Mundial a fim de se estabelecer uma nova ordem mundial e evitar
novas experiências de regimes totalitários, como o nazismo e o
fascismo, que dizimaram milhões de seres humanos.

A Carta das Nações Unidas é o documento jurídico que fundou


a ONU, no qual temos a proibição de se utilizar da guerra como
uma maneira legítima de se resolver conflitos entre os países. Os
objetivos da ONU são basicamente três: (i) manutenção da paz e da
segurança internacionais; (ii) promoção dos direitos humanos em

18 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


nível internacional; e (iii) cooperação internacional entre os países
nas áreas social e econômica.

Nota-se que os direitos humanos deixam de ter um aspecto


restrito às fronteiras dos Estados, como se fosse uma matéria que
interessasse apenas, de maneira interna, aos países isoladamente.
Com a fundação da ONU, os direitos humanos passam a ser,
portanto, um tema global.

A ONU possui um Conselho de Direitos Humanos que está


submetido à Assembleia Geral. O seu objetivo é (1) promover os
direitos humanos ao redor do mundo, (2) verificar a atuação dos
países nesse sentido e tomar providências em situações emergenciais
e de violações dos direitos humanos pelos países-membros.

Além do Conselho de Direitos Humanos, há outro órgão,


diretamente ligado à Assembleia Geral, que também atua na
coordenação de todos os órgãos da ONU com a finalidade de
se proteger os direitos humanos. É o Alto Comissariado das
Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). Este órgão
possui diversos especialistas que, dentre outras atribuições, são
responsáveis por monitorar, nos países, o respeito aos tratados
internacionais humanitários

Pesquise mais
Acesse o site da ONU para conhecer mais sobre o seu funcionamento.
Disponível em: <http://www.onu.org.br>. Acesso em: 27 mar. 2017.

E o site do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos


Humanos. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/agencia/acnudh/>.
Acesso em: 27 mar. 2017.

Os sistemas regionais

Como já dissemos há dois tipos de sistema de proteção de


direitos humanos: o global e os sistemas regionais. Os sistemas
regionais são, por exemplo, o Sistema Africano, o Sistema Árabe, o
Sistema Europeu e o Sistema Interamericano.

Para nosso estudo, importará a análise do Sistema Interamericano


por ser o continente em que o Brasil está localizado. É importante

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 19


você lembrar que, da forma como dissemos anteriormente, o
sistema regional de proteção de direitos humanos se difere do
sistema global pelo fato de o primeiro permitir a adesão de países
que estejam localizados na mesma região ou no mesmo continente.

Nesse sentido, vamos iniciar nossa abordagem sobre o Sistema


Interamericano de proteção de direitos humanos (sistema regional).

Os documentos gerais que compõem o Sistema Interamericano


são: (i) a Convenção sobre Direitos Humanos, de 1969; e (ii) a
Declaração Americana sobre Direitos e Deveres do Homem. Os
documentos especiais são: (i) a Convenção Interamericana para
prevenir e punir a tortura, de 1985, (ii) a Convenção Interamericana
para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher, de 1994,
e a (iii) Convenção Interamericana sobre a eliminação de todas as
formas de discriminação contra pessoas portadoras de deficiências,
de 1999.

Para que você compreenda melhor a importância da existência


de um sistema regional de proteção de direitos humanos, deverá
conhecer sobre qual é seu objetivo, o seu fim. A finalidade maior
de existirem sistemas regionais de proteção dos direitos humanos
é a de garantir a máxima proteção desses direitos, ampliando-se,
dessa maneira, a proteção em termos materiais e efetivos, com o
reconhecimento de novos direitos regionalmente estabelecidos,
além da criação de novas cortes (tribunais) e comitês internacionais
para o seu cumprimento e implementação.

Sistema Interamericano de Proteção aos Direitos Humanos

O documento geral que origina e dá forma ao Sistema


Interamericano de Proteção aos Direitos Humanos é a Carta de
Bogotá, de 1948, que funda a Organização dos Estados Americanos
(OEA). Posteriormente, no mesmo ano, houve a elaboração da
Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem.

Comissão Interamericana de Direitos Humanos e Pacto de San


José da Costa Rica

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos é o principal

20 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


órgão da OEA. Ela foi criada em 1959, em uma reunião de
Ministros de Relações Exteriores de países-membros da OEA e é
integrada por sete países-membros da organização. É um órgão
de acompanhamento e de monitoramento dos direitos humanos
nos países-membros da OEA e tem poderes para receber petições
sobre as situações de direitos humanos em âmbito regional e de
se dirigir aos seus membros para obter esclarecimentos e outras
informações que julgar pertinentes.

O Pacto de San José da Costa Rica, cujo nome original é


Convenção Americana de Direitos Humanos, que entrou em vigor
em 1978, atribuiu à Comissão Interamericana de Direitos Humanos
a obrigatoriedade de fiscalizar o cumprimento do Pacto, sem colidir
com as já estabelecidas atribuições da Comissão.
Pesquise mais
Conheça o Pacto de San José da Costa Rica. Disponível em: <http://
www.cidh.oas.org/basicos/portugues/c.convencao_americana.htm>.
Acesso em: 27 mar. 2017.

Corte Interamericana de Direitos Humanos

A Corte Interamericana de Direitos Humanos, ao lado da


Comissão Interamericana de Direitos Humanos, é o outro
órgão que compõe a OEA. Sua função é jurisdicional e tem
como desdobramentos as funções contenciosa e consultiva: na
primeira, os casos somente poderão ser apresentados por meio
da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, bem como
pelos Estados-Membros da organização. Já com relação à função
consultiva, apenas os países-membros da OEA podem pedir
pareceres jurídicos e opiniões legais da Corte Interamericana de
Direitos Humanos.

No Brasil, o reconhecimento da jurisdição da Corte Interamericana


de Direitos Humanos se deu por meio do Decreto de Promulgação
4.463, em 18 de novembro de 2002, pelo Presidente da República
então em exercício.

Concluímos aqui uma explanação sobre o Sistema Interamericano


de proteção de direitos humanos, como um sistema regional de
proteção desses direitos, e explicamos a você a sua importância

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 21


e necessidade de existência. A seguir você poderá conferir um
exemplo bastante prático envolvendo uma situação muito grave e
que afetou nosso país.

Exemplificando
Conheça aqui o exemplo do caso do Complexo Penitenciário de
Pedrinhas que chegou à Corte em 2014:

Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/24/


politica/1487961377_891224.html>. ; <http://www.conectas.org/pt/
acoes/justica/noticia/34896-pedrinhas-o-que-o-brasil-nao-respondeu>.
Acessos em: 27 mar. 2017.

Sem medo de errar

O documento que você elaborará com a pauta da reunião de que


você participará, em sua explicação ao chefe de segurança e outros
funcionários do presídio, sobre a notícia do Ministério da Justiça,
de que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos acaba de
outorgar uma medida cautelar exigindo que o Estado Brasileiro adote
as medidas necessárias para evitar novas mortes e feridos e reduza
a superpopulação, deverá conter uma explanação sobre o fato de
que a Comissão é o principal órgão do Sistema Interamericano de
Proteção aos Direitos Humanos, que é um sistema regional, do qual
o Brasil é Estado-membro.

É importante que você diga, ainda, quais os poderes da Comissão


Interamericana em relação aos países-membros, lembrando que
ela é um órgão de acompanhamento e de monitoramento dos
direitos humanos nos países-membros da Organização dos Estados
Americanos, e enquanto tal tem poderes para receber petições
sobre as situações de direitos humanos em âmbito regional e de
se dirigir aos seus membros para obter esclarecimentos e outras
informações que julgar pertinentes. Caso os esclarecimentos
não sejam satisfatórios, a Comissão pode elaborar conclusões
e recomendações relativas às violações de direitos humanos
específicas do caso.

22 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


No caso em tela, você deve responder à seguintes perguntas:
quais organizações da sociedade civil acionaram a Comissão, que,
por seu turno pediu esclarecimentos ao Estado Brasileiro? Diante
desses esclarecimentos, por que a Comissão considerou as violações
de direitos humanos tão graves o que fez com que ela aprovasse
uma resolução por meio da qual outorgou uma medida cautelar
obrigando o país a agir imediatamente para conter novas violações
no presídio? É preciso explicar, ainda, que caso não se cumpra a
medida, o caso pode ser encaminhado à Corte Interamericana de
Direitos Humanos, que é um órgão da OEA com função jurisdicional.
Uma condenação internacional coloca o Brasil em uma situação de
constrangimento perante os outros países no plano internacional,
sendo tachado como um país violador de direitos humanos, o que
é muito prejudicial para suas relações diplomáticas.

O chefe de segurança pode questionar: − Mas afinal, quais


são os direitos que estariam sendo violados pela situação no
presídio e onde eles estão previstos? Você deve explicar que o
Sistema Interamericano é composto por dois documentos gerais:
a Convenção sobre Direitos Humanos; e a Declaração Americana
sobre Direitos e Deveres do Homem. A Comissão Interamericana
de Direitos Humanos tem a função, justamente, de supervisionar
o cumprimento da Convenção sobre Direitos Humanos, também
conhecida como Pacto de San José da Costa Rica, que entrou em
vigor em 1978.

Neste Pacto estão estabelecidos deveres dos países-membros


da OEA e direitos humanos a serem protegidos por esses países.
Dentre esses direitos estão o direito à vida, à integridade pessoal,
à dignidade, às garantias judiciais, à proteção judicial, direito à
liberdade e segurança pessoal, que determina, por exemplo, que:
“toda pessoa detida ou retida deve ser conduzida, sem demora,
à presença de um juiz ou outra autoridade autorizada pela lei a
exercer funções judiciais e tem direito a ser julgada dentro de um
prazo razoável ou a ser posta em liberdade, sem prejuízo de que
prossiga o processo” (Art. 7o, item 5).

Seria possível fazer uma relação entre as condições da prisão e


os direitos que estão sendo violados:

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 23


- A superlotação, a limitação dos banhos de sol de forma
não razoável e a falta de proporcionalidade na distribuição
do tempo para trabalho, descanso e recreação violam a
integridade física, psíquica e moral e a dignidade pessoal do
preso (Art. 5o, itens 1 e 2);

- O compartilhamento de celas entre presos já julgados e


ainda sem julgamento viola também o direito à integridade
pessoal (Art. 5o, item 4);

- A falta de contato dos presos com o defensor público ou


advogado viola a garantia judicial de ser assistido por um
defensor (Art. 8o, item 2-d) e acaba resultando na violação de
outras garantias judiciais, como a demora em se levar aqueles
detidos provisoriamente diante de um juiz em uma audiência
justa e pública (Art. 8o,itens 1 e 5);

- A proibição de visitas de familiares viola não apenas a


dignidade pessoal dos presos, como a proteção da família
(Art. 17o);

- O abuso no uso da força, que resulta na morte de internos


e em graves ferimentos, viola o direito à vida; a integridade
física, psíquica e moral e a dignidade pessoal do preso (Art. 5o,
itens 1 e 2);

- Por fim, as péssimas condições de higiene e alimentação


que prejudicam a saúde dos presos violam não só o direito
à integridade pessoal como os direitos econômicos e sociais
(Art. 26o) (veremos com mais detalhamento os direitos
econômicos e sociais na Seção 1.3).

Por fim, um dos funcionários poderia lhe perguntar se os


presos continuam sendo titulares desses direitos mesmo quando
presos. A resposta a essa pergunta reside no próprio conceito
de Direitos Humanos que são assim denominados por serem de
titularidade de todos os seres humanos, independentemente
das circunstâncias particulares a que se encontram submetidos
ou de suas características. É importante que se reconheça que
qualquer um pode um dia estar em uma situação semelhante e que
gostaríamos de ter nossos direitos garantidos. Aqueles que foram

24 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


condenados por um crime não perdem sua humanidade, porque os
seres humanos também são passíveis de cometer crimes.

É possível que se evoque, também, a longa história de afirmação


dos direitos humanos, e principalmente dos direitos humanos
após a Segunda Guerra Mundial. Nesta guerra muitas pessoas
foram presas e deportadas por motivos políticos, ou simplesmente
por pertencerem a um determinado povo ou possuírem certas
características físicas. O tratamento dado a essas pessoas nos
campos de concentração visava a desumanizá-las de modo que seu
extermínio fosse justificado, mas mesmo assim sua humanidade era
irredutível.

Avançando na prática
Direitos Humanos dos povos indígenas

Descrição da situação-problema

É sabido que no Brasil nossas populações indígenas foram


dizimadas em larga escala pela colonização, ocupação do interior
do Brasil e pela exploração econômica de suas terras. Você trabalha
como gestor no setor jurídico de uma grande construtora que
foi contratada pelo Governo da União para a construção de uma
barragem em um importante rio da região amazônica. Quando o
engenheiro responsável apresenta o projeto à equipe, percebe-se
que a construção da barragem afetará territórios indígenas. Nesse
sentido, ele lhe pede para que elabore um plano de segurança para
tratar da eventual remoção da população indígena da área em que
será construída a barragem e verificar se há limitações legais nesse
sentido. O que escrever no plano de segurança e fundamentar com
base em quais informações e regulamentações?

Resolução da situação-problema
Ao elaborar o plano de segurança, você deverá ter em mente
que é preciso que se leve em consideração aqui os direitos
internacionais dos povos indígenas. Uma vez que os indígenas
são titulares dos direitos humanos previstos na Declaração
Universal dos Direitos Humanos, foi necessária a criação de

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 25


direitos específicos para essa população, destinados a garantir
e proteger seus direitos humanos, tendo em vista seu status de
minoria, suas especificidades e vulnerabilidades.
Esses direitos foram previstos no âmbito da ONU pela
Declaração das Nações Unidas sobre o Direito dos Povos
Indígenas, de 2007. Essa Declaração prevê em seu artigo 10o
que “Os povos indígenas não serão removidos à força de suas
terras ou territórios”, motivo pelo qual o projeto de construção da
barragem teria de ser revisto ou teria de se conquistar a anuência
da população indígena ocupante do território afetado, sem
prejuízo de uma indenização justa e equitativa.

Faça valer a pena


1. Robert Antelme, que foi deportado político durante a Segunda Guerra
Mundial e esteve internado em campos de concentração na Alemanha,
escreveu um romance para relatar sua experiência intitulado A espécie
humana e publicado em 1947. Leia um trecho do livro:
“Dizer que nos sentíamos então contestados como homens, como
membros da espécie humana, pode parecer um sentimento que
descobrimos em retrospecto, uma explicação posterior. Foi isso, no
entanto, o mais imediato e constantemente sentido e vivido, e foi esse, aliás,
exatamente esse, o desejo dos outros. O questionamento da qualidade de
homem provoca uma reivindicação quase biológica de pertencer à espécie
humana. Serve, em seguida, para meditar acerca dessa espécie, sobre a
distância da “natureza” e sua relação com ela, ou seja, sobre certa solidão
que caracteriza a espécie, e, em última análise, sobretudo para conceber
uma visão clara de sua unidade.”
(ANTELME, 2013, p. 12)
Considerando o texto apresentado, avalie as seguintes asserções e a
relação proposta entre elas:
I. Os direitos humanos não são universais, ou seja, não são de titularidade
de todos os seres humanos,
PORQUE
II. Determinados seres humanos, por serem portadores de deficiências
mentais, não possuem a característica da razão, que é fundamental à
natureza humana e, portanto, não podem ser titulares de direitos humanos.

26 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


a) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa
da I.
b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma
justificativa da I.
c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.

d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.

e) As asserções I e II são proposições falsas.

2. Em um relatório sobre a crise penitenciária no Maranhão, a organização


Human Rights Watch conta que:
“Um programa piloto realizado no Maranhão está ajudando a reduzir o
número de presos provisórios, uma das principais causas da superlotação
das prisões e do recrutamento de novos membros por facções criminosas.
O programa possibilita que novos detidos sejam levados rapidamente à
presença de um juiz para uma ‘audiência de custódia’, que determina se
eles devem ser mantidos presos provisoriamente ou liberados”.
Fonte: HUMAN RIGHTS WATCH. Crise penitenciária impulsiona reforma:
audiências de custódia ajudam a combater a superlotação no maranhão.
2015. p. 3.
A respeito do artigo 10o da Declaração Universal dos Direitos Humanos, um
Manual do Ministério da Justiça diz que:
“[...] o direito de uma pessoa ser ouvida por um tribunal deve ser exercido
pessoalmente. Não se pode considerar audiência justa e pública o
interrogatório feito por meio da rede interligada de computadores, em que
o réu fica do outro lado da linha, num presídio, como tem sido feito por
alguns Juízes no Brasil.”
Fonte: SECRETARIA NACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS DO MINISTÉRIO
DA JUSTIÇA. Direitos humanos no cotidiano: manual. Brasília, DF:
Ministério da Justiça; Secretaria de Estado dos Direitos Humanos, 2001.
p. 119.
Considerando os textos apresentados e utilizando seus conhecimentos
sobre direitos humanos, avalie as afirmações que se seguem:
1) O direito a uma audiência justa e pública por parte de um tribunal está
previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
2) As audiências não têm necessidade de serem realizadas com a presença
de um juiz, mas não precisam ser públicas.
3) As facções criminosas beneficiam-se da demora em realizar audiências
de custódia para recrutar novos membros.
4) O direito a uma audiência justa e pública está previsto na Declaração
Universal dos Direitos Humanos, mas não na Convenção Americana de
Direitos Humanos.
Agora, assinale a alternativa CORRETA:

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 27


a) As afirmativas 1 e 3 estão corretas.
b) As afirmativas 1 e 4 estão corretas.
c) As afirmativas 2 e 4 estão corretas.
d) As afirmativas 1, 2 e 3 estão corretas.
e) As afirmativas 3 e 4 estão corretas.

3. “Reunidos em São Francisco (EUA), 51 Estados aprovaram a Carta em


25 de junho de 1945. A vitória contra o Eixo era iminente e tornava-se
imprescindível institucionalizar as relações internacionais. Os preparativos
datavam de vários anos. Durante a formação da importante coalizão
antinazista, articulada a partir da Segunda Guerra, o Reino Unido e os
Estados Unidos, seus primeiros expoentes, estabeleceram os princípios
que deveriam orientar as relações internacionais após o conflito.”
Fonte: (SEITENFUS, 2005. p. 125).
A partir do texto acima, qual é a alternativa CORRETA sobre a organização
internacional de que ele trata?
a) Trata-se do surgimento da Organização Mundial do Comércio, criada
para regulamentar o comércio internacional e pacificar as nações.
b) É o surgimento da ONU, Organização das Nações Unidas, que tem por
uma de suas principais funções promover e proteger os direitos humanos
ao redor do mundo.
c) O trecho acima diz respeito ao nascimento da Organização Internacional
Postal, pois, com seu surgimento, os meios de comunicação entre os
países envolvidos na Segunda Guerra seriam facilitados e, assim, seriam
evitadas novas experiências nazistas e fascistas nos países do mundo.
d) Fala do nascimento da Corte Internacional de Justiça e da tentativa de
haver um tribunal internacional para julgar crimes de guerra.
e) Diz respeito ao surgimento da Organização das Nações Unidas, a qual
estabelece regulamentações para a devida utilização das formas de guerra
entre todos os países-membros.

28 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


Seção 1.2
Direitos fundamentais
Diálogo aberto

Caro aluno, retornando à situação de nossa primeira seção,


novamente, no presídio do Estado do Maranhão, você está assumindo
a posição do chefe de segurança e neste momento você deve
considerar que trabalha para a empresa privada que gerencia um dos
presídios mais degradados do Estado do Maranhão, em que ocorrem
inúmeras violações de direitos humanos. Em nosso último encontro
você desempenhou o papel de diretor do complexo prisional, mas
desta vez pedimos que você se coloque na posição do chefe de
segurança.
Para garantir que este presídio se torne uma referência no Estado
e interromper o histórico de violações de direitos humanos, decidiu-
se trocar todos os funcionários que atuavam na equipe de segurança.
Você precisa garantir que esses funcionários tratem os internos com
dignidade, de acordo com seus direitos fundamentais, principalmente
respeitando seus direitos civis. Para tanto, na primeira reunião com
os novos funcionários – públicos (responsáveis pela carceragem,
por lidar com os presos diretamente e manter a ordem) e privados
(responsáveis exclusivamente pela gestão e segurança do perímetro
de muralhas e guaritas da prisão) –, você resolve explicar a eles a
importância do respeito a esses direitos no tratamento dos presos.
Convidamos você a elaborar uma carta explicativa aos
funcionários, ressaltando principalmente a proibição da tortura, que
era praticada pela gestão anterior do presídio.
Para auxiliar na elaboração dessa carta, você levará em
consideração alguns dos conteúdos a serem trabalhados em
nossa Seção 1.2. Como você identificaria os direitos fundamentais
na Constituição Federal de 1988? Também, quais os direitos civis
que estão positivados no Pacto Internacional sobre Direitos Civis e
Políticos de 1966? Qual é a dignidade da pessoa humana nestes
documentos? Qual a sua importância e relação com a proibição de
tortura?

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 29


Caro aluno, para que você elabore a carta explicativa, portanto,
deverá utilizar-se dos conhecimentos adquiridos ao longo das seções
anteriores e desta seção. Todos estes itens constam do nosso material
didático. Vamos começar este trabalho? Boa sorte!

Não pode faltar


Direitos Humanos na Constituição Federal de 1988
Hoje vamos começar a tratar de como nossa Constituição Federal
acolheu os direitos humanos. Para isso, é importante refletirmos um
pouco sobre o conceito de soberania. Você sabe o que ele significa?
Esse conceito, que, como vimos, teve como marco original a Paz
de Westphalia (1648), vem sofrendo muitas transformações desde
então. São quatro as características que o definem:
• Autoridade interna: o Estado soberano goza de autoridade
política e do monopólio legítimo da violência em seu território;
• Controle das fronteiras: o Estado soberano pode regular o
movimento de entrada e saída de suas fronteiras;
• Autonomia política: o Estado soberano pode escolher sua
política externa livremente;
• Não intervenção: o Estado soberano deve ter sua soberania
reconhecida pelos outros Estados, estando livre de intervenções
externas.
Considerando essas características, você pode imaginar que o
reconhecimento dos direitos humanos no plano internacional tenha
vindo para transformar o que se entende por soberania! A soberania
encontraria limites externos e internos, os primeiros derivados da
relação entre os Estados e das regras de convivência estabelecidas
por eles, e os segundos da relação entre governantes e governados.
No âmbito externo, você se lembra que após 1945 a soberania foi
limitada pela norma que proibia a guerra como uma forma legítima
de resolução de conflitos estabelecida pela Carta das Nações Unidas,
bem como por outras normas do Direito Internacional dos Direitos
Humanos, que tem como matriz a Declaração Universal dos Direitos
Humanos. O que acontece quando o indivíduo passa a ser um

30 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


sujeito de direito, isto é, titular de direitos, perante a comunidade
internacional? Os Estados não podem mais se valer do argumento da
soberania para justificar condutas que violem direitos humanos!
Além disso, após a Segunda Guerra Mundial, no plano interno,
observamos um movimento de adoção dos direitos humanos pelas
próprias constituições dos Estados. O Brasil, desde a independência,
é regido por Constituições que ao longo da história refletiram as
diferentes dimensões e a evolução do conceito dos direitos humanos.
A Constituição Federal de 1988 é conhecida como a Constituição
Cidadã, sendo um marco simbólico da transição democrática e da
nacionalização dos direitos humanos no Brasil.
Em seu preâmbulo, a Constituição de 1988 institui o Estado
Democrático de Direito destinado a assegurar o exercício dos
direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o
desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de
uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na
harmonia social.

Internalização dos Direitos Humanos


Mas será que a Constituição Federal prevê todos os direitos
humanos possíveis de existir? Como vimos, o processo de
reconhecimento, de afirmação e de positivação dos direitos
humanos é histórico e político, ou seja, a cada momento
novos direitos humanos vão sendo reconhecidos e positivados
internacionalmente, sendo impossível que um único documento
os esgote. É por esse motivo que o artigo 5o, parágrafos 2o e 3o
da Constituição Federal de 1988 apontam para uma abertura para
que novos direitos fundamentais possam ser incorporados no
ordenamento jurídico brasileiro.
A Constituição estabelece, portanto, que os direitos e garantias
nela previstos não excluem outros decorrentes do regime e dos
princípios por ela adotados, ou dos tratados em que o Brasil seja parte.
Mas como um direito é internalizado e passa a fazer parte de nosso
ordenamento? É preciso que o Brasil não apenas assine o tratado
que prevê esse direito, mas também que o ratifique. Para que um
tratado seja ratificado, ele deve antes ser aprovado pela Câmara dos
Deputados e, depois, pelo Senado, que edita o Decreto Legislativo

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 31


que manifesta sua aprovação. Só então o Brasil pode manifestar sua
vontade de obrigar-se, de modo definitivo, no plano internacional.
Essa manifestação é um ato internacional do Presidente da República
e se dá por meio do depósito do instrumento de ratificação junto à
organização ou Estado depositário do tratado. Daí então é promulgado
e publicado um Decreto do Presidente da República que incorpora o
tratado em nosso ordenamento jurídico.
Vocabulário
Internalização: quando uma norma internacional é reconhecida como
válida dentro do território nacional de determinado Estado soberano.

É importante, ainda, notar que as normas internacionais que


versem sobre direitos humanos e que forem incorporadas com
aprovação por um quórum equivalente ao da Emenda Constitucional
em ambas as casas legislativas passam a ter um status equivalente ao
da norma constitucional.

Princípios fundamentais
Os quatro primeiros artigos da Constituição – que estão sob o
“Título I: Dos Princípios Fundamentais” – estabelecem os princípios
fundamentais da República Federativa do Brasil. São princípios
fundamentais de nosso país – formado pela união dos Estados
e municípios e do Distrito Federal –, constituído como um Estado
Democrático de Direito: a soberania; a cidadania; a dignidade da
pessoa humana; os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; o
pluralismo político; e o princípio democrático.

Pesquise mais
Para saber mais sobre cada um desses princípios, recomendamos a
leitura das páginas 45-50 do livro Direitos Humanos de Guilherme Assis
de Almeida e de Silvia Apolinário indicado nas Referências.

Para se profundar ainda mais, recomendamos que consulte a seção


sobre “Princípios Fundamentais” no Curso de Direito Constitucional
Positivo de José Afonso da Silva.

32 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


Princípio da dignidade da pessoa humana
Devemos dar especial destaque ao princípio da Dignidade
Humana, que é considerado como um sobreprincípio. Isso porque
a dignidade da pessoa humana pode ser considerada como o
fundamento último do Estado brasileiro. Ela é o valor-fonte a
determinar a interpretação e a aplicação da Constituição, assim
como a atuação de todos os poderes públicos que compõem a
República Federativa do Brasil.
Em síntese, o Estado brasileiro existe para garantir e promover a
dignidade de todas as pessoas, de forma universal.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) não faz
menção expressa à dignidade, mas esta noção está subjacente em
seu texto, especialmente quando é evocada a proibição a tratamentos
desumanos ou degradantes.
O fundamento dessa dignidade reside no próprio ser humano
como um valor absoluto, independentemente de suas características,
assim como, você deve se lembrar, o fundamento dos direitos
humanos. Como disse o filósofo alemão Kant: “o homem (...) existe
como fim em si, não apenas como meio, do qual esta ou aquela
vontade possa dispor” (KANT, 2017).

Pesquise mais

Para conhecer um pouco do pensamento do filósofo Kant, recomendamos


que assistam ao seguinte vídeo da School of Life (não se esqueçam de
habilitar as legendas em português):

THE SCHOOL of life. Philosophy: Immanuel Kant. Disponível em: <https://


www.youtube.com/watch?v=nsgAsw4XGvU>. Acesso em: 26 mar. 2017.

Encarar o ser humano como um meio para a realização de


um objetivo consiste em uma violência e em uma violação de sua
dignidade. Por essa razão, o Estado deve estar a serviço da realização
da dignidade humana. Seus cidadãos e outras pessoas que estejam
em seu território não podem ser usadas para realizar interesses
econômicos, sociais ou políticos das pessoas que ocupam o poder
neste Estado. Isso é muito importante!

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 33


Assimile
A dignidade da pessoa humana é o fundamento do Estado brasileiro e
deve ser perseguida e respeitada em todas as ações deste Estado.

Mas o que você acha que seria necessário para se ter uma vida
digna, isto é, decente e que propicie a escolha de caminhos e
possibilidades de vida?
A resposta a essa pergunta vai nos mostrar como todos os direitos
humanos decorrem do princípio da dignidade. Para que uma pessoa
possa crescer e desenvolver suas potencialidades de forma mais livre
e autêntica possível, ela precisa ter garantida sua saúde, alimentação,
moradia, afeto, educação, trabalho etc. Mas precisa também de
liberdade para fazer suas escolhas de vida, sejam elas religiosas,
profissionais, afetivas... precisa, ainda, de liberdade para manifestar
suas ideias livremente e para agir politicamente pelos seus ideais e
para exigir com que seus direitos sejam respeitados e garantidos pelo
Estado. Esse conjunto de necessidades e capacidades nada mais é
que o conteúdo dos direitos humanos, reconhecidos, por essa razão,
como princípios e direitos fundamentais na Constituição Brasileira.
É como resultado do princípio da dignidade que a Constituição
de 1988, no seu Título II, “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”,
estabelece uma extensa relação de direitos individuais e coletivos
(Capítulo I, Art. 5o), de direitos sociais (Capítulo II, Art. 6o a 11o), de direitos
de nacionalidade (Capítulo III, Art. 12o e 13o) e de direitos políticos
(Capítulo IV, Art. 14o a 16o). Nesse sentido, você deverá se perguntar:
o que o estudo dos direitos humanos, centrados na dignidade da
pessoa humana, contribuirão para que cada indivíduo tenha uma
vida plena e digna? Estudaremos isso a partir dos próximos tópicos,
especificamente com o reconhecimento dos direitos fundamentais.
Direitos fundamentais
Mas o que seriam os direitos fundamentais? Enquanto a expressão
direitos humanos refere-se aos direitos positivados nas declarações
e convenções internacionais que concretizam as exigências de
dignidade, liberdade e igualdade humanas, os direitos fundamentais
nada mais são do que os direitos humanos que foram reconhecidos e
são garantidos por lei no âmbito interno de um determinado Estado, no

34 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


caso do Brasil em sua Constituição Federal. No entanto, é importante
observar que essas expressões sempre estiveram relacionadas e sua
designação variou ao longo do tempo, o que torna difícil uma definição
precisa. Nesse sentido, atualmente essa exata definição é bastante
complexa que hoje é adotada a de direitos humanos fundamentais,
ultrapassando as concepções internacionalista e nacionalista.
A Constituição Federal de 1988, como vimos, é um marco no
processo de redemocratização do Estado brasileiro: “Ela institucionaliza
a instauração de um regime político democrático e introduz um
avanço indiscutível na consolidação legislativa das garantias e direitos
fundamentais e na proteção dos setores vulneráveis da sociedade
brasileira.” (ALMEIDA; APOLINÁRIO, 2009, p. 44)
Em seu Título II, “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”, a
Constituição estabelece os direitos individuais e coletivos, os direitos
sociais, o direito à nacionalidade, os direitos políticos etc. Em resumo:
• no artigo 5o, os incisos dispõem sobre os direitos civis;
• nos artigos 6o ao 11o, são previstos os direitos sociais (que
são desdobrados nos artigos 193o-217o);
• o artigo 12o trata do direito à nacionalidade; e
• os artigos 14o a 17o dão as bases para o exercício dos direitos
políticos.
É importante saber que os direitos fundamentais não se aplicam
apenas nas relações do cidadão com o Estado, mas também nas
relações entre pessoas físicas e jurídicas privadas, conforme observou
o Supremo Tribunal Federal (2006).
Alguns desses direitos serão retomados com mais vagar ao longo
do curso. Neste momento, é importante que você saiba qual sua
importância e onde eles se encontram na Constituição Federal.

Reflita
O artigo 5o da Constituição Federal diz que os direitos fundamentais se
aplicam aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país. Será que isso
significa que o estrangeiro que está de passagem no país não pode ser
considerado titular dos direitos fundamentais previstos na Constituição
Federal? Pense a respeito.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 35


Direitos Civis – Pacto Internacional sobre Direitos Civis e
Políticos (1966) e Constituição Federal
Vamos começar tratando dos direitos civis. Para isso, é importante
voltarmos um pouco para o plano internacional dos direitos humanos
para depois chegarmos aos direitos civis na Constituição Federal.
O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966 foi
ratificado pelo Brasil em 1992. Este Pacto é um mecanismo jurídico
que tem, como um de seus principais objetivos, fazer com que os
direitos humanos estabelecidos na Declaração Universal dos Direitos
Humanos tornem-se leis vinculantes que sejam incorporadas como
direitos fundamentais no ordenamento de seus países. É importante
saber que este Pacto também é centrado na dignidade da pessoa
humana. Antes de sua ratificação pelo Estado brasileiro, a Constituição
Federal de 1988 já estabelecia e detalhava todos os direitos que o
Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966 previa.

Vocabulário
Vinculante: que cria obrigação jurídica.

Mas você já se perguntou o que são especificamente os direitos


civis?
Os direitos civis são individuais e coletivos e são dirigidos, em
primeiro lugar, ao Estado, pois cabe a ele garantir sua inviolabilidade.
Como vimos na seção passada, no processo de reconhecimento dos
direitos humanos houve um momento em que foi necessário garantir
os direitos e liberdades dos indivíduos ante o poder estatal. Desse
modo, os países passaram e inserir em suas Constituições regras
que impõem ao Estado e à própria sociedade o respeito aos direitos
individuais. Os direitos civis, portanto, limitam os poderes do Estado.
No que diz respeito aos direitos civis individuais, estes são inerentes
ao indivíduo ou pessoa, enquanto os direitos coletivos dizem respeito
a um grupo ou classe de pessoas. Em nossa Constituição Federal, o
Título II é dedicado a esses direitos e se intitula “Dos Direitos e Deveres
Individuais e Coletivos”. Esses direitos podem ser divididos em cinco
grandes grupos: 1. Direito à vida; 2. Direito à liberdade; 3. Direito à
igualdade; 4. Direito à segurança; e 5. Direito à propriedade.

36 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


Nesta seção trataremos dos direitos à vida, à igualdade e à
liberdade, tendo em vista que nas próximas seções vocês terão a
oportunidade de explorar os direitos à segurança e à propriedade.
1. Direito à vida: resumidamente, o direito à vida seria a fonte
original de todos os outros direitos, uma vez que o ser humano
depende dela para usufruir dos direitos à igualdade, liberdade, ao
bem-estar etc. A Constituição Federal de 1988 estabelece em seu
artigo 5o, caput, a inviolabilidade do direito à vida. Mas não estamos
falando aqui em qualquer vida: o fundamento do texto constitucional
é a vida digna, sendo que a própria vida estaria submetida ao
valor da dignidade da pessoa humana. A vida, portanto, não pode
ser considerada exclusivamente em sua dimensão biológica, de
autoatividade funcional, mas em todos os seus aspectos de modo
que se realiza de forma plena e digna.
Desse direito decorre que é vedada a pena de morte (com exceção
se o Brasil estiver envolvido em guerra declarada); é proibida a tortura
e o tratamento desumano ou degradante; é assegurado aos presos
o respeito à integridade física e moral e às presidiárias condições
para que possam permanecer com seus filhos durante o período de
amamentação. Observe que proteção à integridade física e psíquica
do indivíduo traduz a ideia de que agredir o corpo e a mente humanos
é uma forma de agredir a vida, pois esta se realiza naquele corpo.
Além disso, em vista da dignidade que deve vir sempre atrelada à
vida, este direito abarca também valores imateriais e morais, para além
do corpo humano. Sendo a dimensão moral uma das dimensões
estruturais para uma vida digna, o respeito à integridade moral
assume também o caráter de direito fundamental. A Constituição de
1988 destacou o valor e a proteção da moral individual, assegurando
indenização em caso de dano moral (Art. 5o, incisos V e X), visto que a
moral individual sintetiza a honra da pessoa, o bom nome, a boa fama
e a reputação.
2. Direito à liberdade: o direito à liberdade garante a realização
pessoal plena do indivíduo, dentro de uma coletividade. Ele não pode
ser considerado, portanto, apenas no ponto de vista individual e
egoísta, pois todos os seres humanos devem poder usufruir de sua
liberdade e o exercício da liberdade pode se dar de maneira coletiva,
com a política, por exemplo. O artigo 5o trata de liberdades individuais

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 37


e coletivas, como a liberdade de consciência, crença e religião,
liberdade de pensamento, liberdade de locomoção, liberdade de
expressão, de reunião etc.
A liberdade consiste na ausência de toda coação ou opressão
ilegítima. Ou seja, esse direito tem uma íntima relação com a lei, pois
apenas esta pode limitar a liberdade. A lei também limita o arbítrio do
Estado e sua interferência na vida das pessoas e da comunidade. Nesse
sentido, a Constituição Federal estabelece o princípio da legalidade,
que é um dos princípios fundamentais do Estado Democrático de
Direitos no Brasil (Arts. 1o, caput, e 5o, II). Os direitos civis de “liberdade”
estão intimamente ligados também ao direito à igualdade e aos
direitos políticos, que exploraremos na Unidade 2.
3. Direito à igualdade: além de consagrar a igualdade como
um dos princípios fundamentais da organização política do país (Art.
3o, III e IV e Art. 4o, II), a Constituição Federal prevê no caput do artigo
5o que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza". Esse direito estabelece a igualdade de todos perante a lei,
respeitando-se, contudo, suas diferenças. Assim, a aplicação da lei
deve atentar para as diferenças entre as pessoas no caso concreto.
Para citar um exemplo, a Constituição garante direitos específicos
à gestante que não podem ser garantidos aos homens e a pessoas
que não estão nessa situação. Seria por meio do reconhecimento das
necessidades diversas das pessoas que se realizaria esse direito e se
alcançaria uma sociedade mais justa e igualitária.
O direito à igualdade é reafirmado em incisos do Art. 5o da
Constituição e ao longo de todo o documento.
É preciso dizer que os direitos civis não podem existir nem serem
compreendidos isoladamente, pois têm uma estreita relação com os
direitos políticos, sociais e os chamados direitos de terceira geração.
Trataremos, a seguir, de uma situação excepcional para a
qual a Constituição Federal prevê a limitação de alguns direitos
temporariamente, em especial o direito à liberdade de locomoção:
a situação da pessoa condenada à pena restritiva ou privativa de
liberdade.
É importante ter em mente que a sanção penal, de qualquer tipo,
é a forma mais incisiva de manifestação do poder do Estado na vida

38 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


dos indivíduos. Logo, o condenado encontra-se em uma posição de
fragilidade perante o poder estatal. É nesse momento que se deve
garantir ao condenado/internado condições para que, durante o
cumprimento da pena, mantenha uma vida digna enquanto ser
humano e, consequentemente, titular de direitos humanos.

Lei de Execução Penal (Lei nº 7.210/1984)


As garantias da pessoa presa, segundo a Constituição, estão
presentes, em sua maioria, no Art. 5o. No inciso XLVII há a previsão
de que não existirão, no Brasil, penas dos seguintes tipos: a) de
morte, com exceção nos casos de guerra declarada; b) perpétua;
c) de trabalhos forçados; d) de banimento; e e) cruéis. Além dessa
garantia acerca dos tipos de pena no Brasil, que visam a preservação
da dignidade humana, o Art. 5o, XLIX assegura “aos presos o respeito à
integridade física e moral.”
A Lei Federal nº 7.210, de 11 de julho de 1984, trata da execução das
penas dos condenados por algum crime no Brasil. Em resumo, esta
lei estabelece as regras para cumprimento das penas e disciplina as
garantias que os indivíduos têm quando se encontram encarcerados,
momento em que sua liberdade de locomoção é diminuída ou
retirada.
Mas, por que os criminosos devem ser punidos? Isto é, qual
seria a finalidade da pena? A finalidade última da pena, segundo a
Lei de Execução Penal, seria buscar a ressocialização da população
carcerária, por meio das garantias que a Constituição Federal e a
própria lei lhes concede.
Tanto é que o Art. 3o estabelece o seguinte: “Ao condenado e
ao internado serão assegurados todos os direitos não atingidos pela
sentença ou pela lei.” Assim, as restrições que a sentença ou a lei lhe
impuser deverão ser observadas, porém, sem deixar de lhes garantir
condições de dignidade e de preservação de suas vidas enquanto
condenados pela prática de algum crime. O parágrafo único do Art. 3º
veda qualquer tipo de discriminação racial, social, religiosa ou política
para o cumprimento das penas pelos condenados ou internados.
Assim sendo, conclui-se que para a execução das penas no Brasil
existe o princípio da humanidade das penas, que está de acordo

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 39


com o que é estabelecido pelo Pacto Internacional sobre Direitos
Civis e Políticos de 1966 e pela Constituição Federal de 1988. E mais,
você deverá compreender a partir desta leitura que pelo fato de um
indivíduo ser condenado criminalmente e não poder conviver com
sua liberdade em meio à sociedade pelo tempo que durar sua pena,
ele “não perde, com a sua condenação, sua condição humana"
(JUNQUEIRA; FULLER, 2008, p. 28).
A seguir, passaremos a tratar de um crime específico que constitui
uma das maiores afrontas à dignidade da pessoa humana, ao direito
à vida e à integridade física, psíquica e moral dos seres humanos:
o crime de tortura. A tortura é proibida explicitamente no artigo 5o,
III da Constituição Federal, mas é importante que você conheça as
convenções e leis que tratam desse crime no plano internacional e
nacional.

Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou penas


cruéis, desumanas ou degradantes
A Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou penas cruéis,
desumanas ou degradantes (Convenção contra Tortura) foi adotada
pela Organização das Nações Unidas, por meio de sua Assembleia
Geral, no ano de 1984. O Brasil incorporou essa convenção em seu
ordenamento em 1991, por meio do Decreto nº 40.
O conceito de tortura, que se encontra no artigo 1º da Convenção,
é centrado na ideia de se tentar obter de alguma pessoa informações
ou confissões a respeito de determinado fato ou evento, por meio
da utilização de violência física ou psíquica de maneira intencional
(dolosa). Para que se configure a tortura, o emprego das práticas
violentas deve ter por finalidade algum dos seguintes objetivos:
(i) adquirir informação ou a confissão sobre certo fato ou evento;
(ii) impor algum tipo de castigo; (iii) intimidar o torturado para a
obtenção da informação/confissão; (iv) fazer com que o torturado se
sinta coagido ou ameaçado em relação à sua vida; e (v) discriminar
o torturado por meio de distinções em relação à sua cor, etnia,
orientação sexual, religião, classe ou origem sociais, dentre outras
formas de discriminação.
Vale a pena observar que a Convenção contra a Tortura faz
referência apenas às práticas de atos de tortura por funcionários

40 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


públicos (agentes estatais) ou qualquer outra pessoa que exerça
funções públicas. Nesse sentido, a Lei Federal no 9.455/1997, em vigor
no Brasil, foi além e também passou a prever que o crime de tortura
pode ser praticado por particulares, diferenciando-se, assim, da
Convenção contra a Tortura ao regulamentar de forma mais ampla
quem pode ser considerado torturador.
Muito embora a tortura fosse bastante praticada por países que
tinham regimes e formas de governo totalitários (nazismo e fascismo)
ou ditatoriais (ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985), ela ainda
acontece de diversas maneiras, mesmo quando não é legalmente
autorizada.
No Brasil, é sabido que, com o intuito de se obter provas ou mesmo
no tratamento de indivíduos encarcerados, os agentes estatais – ou
privados, agindo em nome do Estado – se valem de sua força e
autoridade legalmente instituídas para obterem confissões fictícias ou
forçadas de investigados ou de pessoas suspeitas de prática de algum
crime, ou para punir presos.

Exemplificando
No ano de 2013, o caso emblemático do pedreiro Amarildo de Souza,
preso, torturado e morto pela Polícia Militar do Rio de Janeiro da Unidade
de Polícia Pacificadora (UPP), da favela da Rocinha, ficou conhecido no
Brasil e no mundo.

A sentença judicial da 35ª Vara Criminal da cidade do Rio de Janeiro


foi bastante conclusiva nesse sentido: "Amarildo morreu. Não resistiu
à tortura que lhe empregaram. Foi assassinado. Vítima de uma cadeia
de enganos. Uma operação policial sem resultados expressivos. Uma
informação falsa. Um grupo sedento por apreensões. Um nacional
vulnerável à ação policial. Negro. Pobre. Dentro de uma comunidade
à margem da sociedade. Cuja esperança de cidadania cedeu espaço
para as arbitrariedades. Quem se insurgiria contra policiais fortemente
armados? Quem defenderia Amarildo? Quem impediria que o desfecho
trágico ocorresse? Naquelas condições, a pergunta não encontra
resposta e nos deparamos com a covardia, a ilegalidade, o desvio
de finalidade e abuso de poder exercidos pelos réus.” (PRADO apud
COELHO, 2016).

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 41


Lei do Crime de Tortura (Lei nº 9.455/1997)
A Lei Federal no 9.455, de 7 de abril de 1997, estabelece, no Brasil,
o crime de tortura. Para este crime, a Lei prevê penas de reclusão de
dois a oito anos.
A definição de crimes de tortura pela legislação brasileira é bastante
similar à presente no Art. 1º da Convenção contra a Tortura da ONU.
A diferença que se pode notar é a seguinte: na legislação brasileira há
a possibilidade de responsabilização dos indivíduos que praticarem
as condutas definidas como crimes de tortura ainda que não sejam
agentes estatais ou funcionários públicos. Também, deve-se observar
que, pela legislação brasileira, o crime de tortura é inafiançável e não
pode ser perdoado pelo Estado brasileiro por meio de graça (ato do
Presidente da República) ou por anistia (ato do Poder Legislativo),
conforme prevê o Art. 5o, XLIII da Constituição Federal e o Art. 6o da
Lei de Crime de Tortura.

Pesquise mais
Para conhecer a realidade brasileira no que tange à prática do crime de
tortura, recomendamos a leitura do relatório elaborado pela organização
Anistia Internacional:

ANISTIA INTERNACIONAL. Tortura e maus-tratos no Brasil. Disponível


em:.<https://anistia.org.br/direitos-humanos/publicacoes/pessoas-
acabam-morrendo-aqui/>. Acesso em: 26 mar. 2017.

Com base nos conhecimentos adquiridos ao longo desta seção e


da anterior, vamos testar seu conhecimento? Para isso, você deverá
realizar a próxima atividade, conforme a solicitação a seguir.

Sem medo de errar


Vamos elaborar a carta explicativa aos funcionários da equipe
de segurança? Nesse documento precisamos que você, enquanto
chefe desta equipe, os convença a respeitar os direitos fundamentais
na relação com os detentos, evitando assim, principalmente, a prática
do crime de tortura.

42 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


Podemos começar nos dirigindo aos funcionários e relembrando
a eles nosso passado autoritário e o quanto é comum a prática da
tortura em nosso país:

Caros colegas,
Sabemos que a prática da tortura, infelizmente, é comum no
Brasil, sendo realizada principalmente pelas autoridades de nosso
país, que deveriam nos proteger. Durante a Ditadura Militar no Brasil
essa prática era a tal ponto “desenvolvida” que chegamos a exportar
técnicas para outros países. No entanto, mesmo depois da ditadura,
essa prática perdura dentre os agentes do governo, embora seja
explicitamente proibida por documentos internacionais e pela nossa
Constituição Federal de 1988.

Em seguida, podemos mencionar a importância do princípio da


dignidade da pessoa humana:
No Brasil, a Constituição Federal de 1988 foi estabelecida também
como uma forma de impedir que nosso passado violento e autoritário
se repetisse, sendo conhecida como Constituição cidadã. Em vista
das violências e do desrespeito dos direitos humanos que foram tão
comuns durante os “anos de chumbo” da ditadura, a Constituição
Federal estabelece como um dos princípios do Estado brasileiro a
dignidade humana. O princípio da dignidade humana é que orienta
toda a ação de nosso Estado. Não podemos nos esquecer de que
mesmo sendo gerido por uma empresa privada, esse presídio presta
um serviço público, de execução penal, e todos os seus funcionários,
públicos e privados, devem agir em conformidade com a Constituição
Federal, em respeito aos princípios e direitos fundamentais.
O princípio da dignidade humana está acima de todos os
princípios e direitos fundamentais e a Constituição Federal e todas
as leis brasileiras devem ser interpretadas à luz desse princípio. Por
isso, quando a própria Constituição prevê, em seu artigo 5o, XLVI,
a privação e restrição de liberdade, e a suspenção e interdição de
direitos como penas, isso não significa de forma alguma a perda da
dignidade humana em seu cumprimento. A prisão deve se dar em
condições que preservem a dignidade do preso.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 43


Mas o que seria a tal dignidade humana? Seu fundamento é a
própria pessoa humana como um valor absoluto, ou seja, como um
valor que deve ser respeitado independentemente das características
diversas dos seres humanos, ou das condições em que estes se
encontrem, como a condição de encarceramento. Em suma, o ser
humano não pode ser utilizado como um meio para a realização de
um fim.
Esse princípio, no caso dos presos, implica a humanidade da pena,
ou seja, a limitação à quantidade e aos tipos de pena possíveis, como
a proibição de penas cruéis, desumanas e degradantes, assim como o
rigor desnecessário e privações indevidas impostas aos condenados.
Desse modo, por exemplo, a integridade física e moral de um
condenado que cometer uma falta disciplinar não podem ser violadas
com a finalidade de dar um exemplo aos outros presos (Lei de
Execução Penal, Art. 45o).
Observe que a Lei de Execução Penal estabelece, em seu artigo
53o, sanções disciplinares que respeitam a dignidade dos presos.

Agora, podemos mencionar também que o preso não perde


seus direitos fundamentais:
Nossa responsabilidade, enquanto administração penitenciária, é
respeitar os direitos fundamentais do recluso de maneira a garantir o
exercício de todos os direitos não atingidos pela sentença ou pela lei.
Se a Constituição prevê penas privativas de liberdade, o intuito final
da pena, segundo a Lei de Execução Penal (Art. 1o), é justamente a
ressocialização, para que o indivíduo volte a gozar de todos os seus
direitos plenamente, sem colocar sua comunidade e outros cidadãos
em risco.
Somente nos casos expressamente previstos pela lei (princípio da
legalidade) os direitos do preso podem ser limitados. A Lei de Execução
Penal é aquela que prevê, em nosso ordenamento, quais são esses
casos dentro de um presídio. Não serão tolerados comportamentos
arbitrários em relação aos presos, por isso recomenda-se o estudo
atento dessa Lei.

44 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


Aos presos é assegurado, pela Constituição Federal e pela Lei de
Execução Penal o direito à vida, à dignidade, à liberdade, à privacidade
etc.

Podemos explicar agora aos funcionários como os direitos civis


aplicam-se aos presos:
Os direitos civis são um grupo dentre os direitos fundamentais e
visam a garantir, justamente, que o Estado – neste caso os funcionários
que desempenham um serviço público e agem em nome do Estado
– não viole os direitos e liberdades individuais das pessoas que estão
sob sua autoridade, inclusive dos presos. Vamos destacar algumas
espécies de direitos civis importantes, previstas no artigo 5o, caput, da
Constituição Federal.
Primeiramente, devemos falar do direito à liberdade que neste
caso é estreitamente ligado ao princípio da legalidade. A legalidade
garantiria ao condenado as liberdades que não foram atingidas por
sua sentença, por exemplo, a liberdade de pensamento, de união
familiar etc.
O direito à igualdade assegura que todos os presos tenham um
tratamento igual, a menos que suas necessidades particulares exijam
um tratamento diferenciado, por exemplo, no caso das mulheres,
que devem ficar presas em estabelecimentos que contemplem
suas condições pessoais, ou seja, que contenham berçários para a
amamentação de seus filhos. Portanto, é proibida a discriminação
dos presos em virtude de sua religião, de sua raça, de sua orientação
político-ideológica etc.
Em terceiro lugar, é preciso destacar o direito à vida. Assim como
todos os outros direitos fundamentais, este deve ser interpretado à luz
da dignidade humana, o que significa que não basta a manutenção da
vida do preso, mas que se garantam a ele todas a condições para que
este usufrua de uma vida digna.
Em virtude do princípio da inviolabilidade da vida, é vedada a
pena de morte; é proibido a tortura e o tratamento desumano ou
degradante; é assegurado aos presos o respeito à integridade física
e moral e é assegurado às presidiárias condições para que possam
permanecer com seus filhos durante o período de amamentação.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 45


A integridade físico-corporal (compreendendo a integridade
psíquica) é, portanto, um bem vital e revela um direito fundamental do
ser humano, cuja violação, em qualquer circunstância, é criminosa. A
integridade moral, por seu turno, é essencial a uma vida digna.

Agora, finalmente, podemos passar a tratar da proibição de


tortura, que consiste em uma violação do direito à integridade
física, psíquica e moral:
Sendo derivada do direito à vida, a integridade física e moral dos
presos deve ser respeitada, sendo prevista na Constituição Federal,
em seu Art. 5o, XLIX. O inciso III do mesmo artigo, também prevê
que ninguém será submetido à tortura, tratamento desumano ou
degradante.
Para reforçar essa proibição, o Brasil incorporou em sua legislação,
em 1991, a Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou penas
cruéis, desumanas ou degradantes da ONU e promulgou, em 1997, a
Lei do crime de tortura (Lei nº 9.455/1997).
Esta última define como crime de tortura as seguintes ações: “I –
constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça,
causando-lhe sofrimento físico ou mental: a) com o fim de obter
informação, declaração ou confissão da vítima ou de terceira pessoa;
b) para provocar ação ou omissão de natureza criminosa; c) em razão
de discriminação racial ou religiosa; II − submeter alguém, sob sua
guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave
ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar
castigo pessoal ou medida de caráter preventivo.”
Ou seja, aqueles que se encontram sob nossa guarda e autoridade
não podem ser submetidos a esse crime hediondo.
O Art. 1o, § 1o da Lei nº 9.455/1997 também remete a este crime,
quando estes atos forem praticados contra pessoa presa ou sujeita
à medida de segurança, por meio de ato não previsto em lei ou não
resultante de medida legal.
No que diz respeito às consequências desse crime previstas
em lei, vale dizer que este é um crime inafiançável, sendo prevista
a pena de reclusão de dois a oito anos. Além disso, como temos
funcionários públicos e privados em nossa equipe, é importante

46 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


esclarecer que agentes particulares de segurança também poderão
ser responsabilizados por crimes de tortura. Além disso, aqueles que
forem agentes estatais, quando condenados por crimes de tortura,
além de terem de cumprir a pena privativa de liberdade, perderão o
cargo, função ou empregos públicos, com a consequente interdição
para exercício daqueles pelo prazo duplicado em relação à pena
efetivamente aplicada. É o que estabelece o Art. 1º, § 5º da Lei
nº 9.455/1997.

Concluindo:
Em conclusão, esperamos de todos da equipe uma conduta
irrepreensível, que respeite a dignidade e os direitos fundamentais
daqueles que estão sob nossa guarda e autoridade temporariamente,
para que a função da pena seja cumprida, ou seja, para que estas
pessoas possam voltar a participar de nossa sociedade e usufruir
plenamente de seus direitos.
Agradecemos a atenção de todos.
Cordialmente,
Chefe de Segurança.

Avançando na prática
Segurança de estádio

Descrição da situação-problema

Você é o agente de segurança de um estádio de futebol. Hoje


o estádio acolherá o clássico embate entre Remo e Paysandu e
você ficou responsável por coordenar os agentes de segurança
responsáveis por garantir a segurança nas entradas do estádio. Você
recebe uma notificação no rádio, dizendo que um dos torcedores
foi flagrado com um sinalizador em sua mochila, tentando entrar no
estádio pela entrada de funcionários. Um dos agentes de segurança
sob sua supervisão detém o torcedor, o imobiliza e coloca em uma
sala no estádio até que a polícia chegue para tomar as providências
necessárias. Ao entrar na sala, você vê que o funcionário ordenou que
o torcedor retirasse a camisa e o agredia verbalmente, xingando-o.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 47


Como você lidaria com essa situação? Como você repreenderia o
funcionário?

Resolução da situação-problema
Primeiramente, é preciso dizer que não havia motivo para que
o agente de segurança retirasse a camisa do torcedor, uma vez
que este já fora revistado e imobilizado. O torcedor encontra-se
neste momento sob a guarda de sua equipe de segurança, o que
significa que esta equipe é responsável por sua integridade física e
moral. A remoção da camisa sem qualquer necessidade constitui
uma violação à sua dignidade e à sua intimidade (princípios e
direitos fundamentais previstos na Constituição Federal). É preciso
repreender o funcionário por ter feito um uso arbitrário, ou seja,
em desrespeito à lei, do poder que detinha naquele momento
sobre o torcedor. Além disso, o xingamento constitui também
uma forma de agressão, desta vez violando integridade moral e a
honra do torcedor. É preciso explicar ao funcionário que essas são
condutas muito graves, que violam direitos fundamentais e que
não podem se repetir. Em vista da gravidade, seria correto relatar
o ocorrido a seu superior para que este tome as providências em
relação ao funcionário, considerando também que a Constituição
Federal assegura, em seu artigo 5o, X, o direito à indenização pelo
dano moral decorrente da violação.

Faça valer a pena


1. “O vocábulo ‘constitucionalismo’ designa o movimento político, jurídico
e social que identifica a necessidade da norma constitucional como
instrumento de limitação do poder. [...] Constitucionalismo é limitação
do poder pelo Direito, tendo como base principal a Constituição Federal.
[...] Na Idade Moderna, os Estados conheceram a limitação do poder por
intermédio das Constituições.
[...] Os Estados Unidos em 1787, e a França, em 1791, organizam-se com
a influência do constitucionalismo em Estados Liberais de Direito. Surgia,
assim, o Estado de Direito. O ponto primordial era a limitação do poder,
constituindo-se como verdadeiras Constituições-garantias”.
(NABAIS DA FURRIELA; MINARDI PAESANI, 2010. p. 1-2.)

48 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


Considerando o sentido do constitucionalismo e os princípios que regem
a República Federativa do Brasil na Constituição Federal da 1988, marque
V para verdadeiro ou F para falso:
(.....) Os direitos humanos romperam com a concepção tradicional de
soberania estatal absoluta devido à sua natureza universal, ou seja, todos
os seres humanos são titulares de todos os direitos humanos.
(.....) A prevalência dos direitos humanos nas relações internacionais ganha
ainda mais importância hoje com o encurtamento das barreiras físicas,
dado o surgimento da internet.
(.....) É do princípio de dignidade da pessoa humana que decorrem todos
os direitos fundamentais.
(.....) A Constituição Brasileira somente garante a defesa dos direitos
humanos dos cidadãos brasileiros, não tendo nada a ver com cidadãos de
outras nacionalidades.
a) V, F, V, F.
b) V, V, F, F.
c) V, F, F, F.
d) F, F, F, F.
e) V, V, V, F.

2. “Os militares que assumiram o poder em 1964 acreditavam que o


regime democrático que vigorara no Brasil desde o fim da Segunda Guerra
Mundial havia se mostrado incapaz de deter a ‘ameaça comunista’. Com
o golpe, deu-se início à implantação de um regime político marcado pelo
‘autoritarismo’, isto é, um regime político que privilegiava a autoridade
do Estado em relação às liberdades individuais, e o Poder Executivo em
detrimento dos poderes Legislativo e Judiciário”.
CASTRO, Celso. O golpe de 1964 e a instauração do regime militar. [S.d.].
Disponível em: <http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/
Golpe1964>. Acesso em: 21 mar. 2017.
Em vista da explicação acima, avalie as seguintes asserções e a relação
proposta entre elas:
A Constituição Federal de 1988 é chamada de Constituição Cidadã.
PORQUE
A Constituição Federal de 1988 foi posterior ao processo de
redemocratização iniciado em 1985, após 21 anos de regime ditatorial,
e promove um avanço no campo dos direitos e garantias fundamentais

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 49


no Brasil, uma vez que os direitos humanos assumem um extraordinário
relevo na ordem constitucional.
A respeito dessas asserções, assinale a opção CORRETA:
a) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa
da I.
b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma
justificativa da I.
c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.
d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.
e) As asserções I e II são proposições falsas.

3. “A Polícia Militar (PM) do Rio de Janeiro afastou de suas funções os 15


policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha acusados de
participar da tortura do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza no dia 14
de julho. Os agentes foram denunciados na terça-feira 22 pelo Ministério
Público (MP), que acredita que Amarildo tenha morrido depois de 40
minutos de tortura nos fundos da sede da UPP. Entre os denunciados, três
tiveram prisão preventiva decretada pela Justiça: os sargentos Reinaldo
Gonçalves e Lourival Moreira e o soldado Vagner Soares do Nascimento.
Além do crime de tortura, eles respondem por ocultação de cadáver e
formação de quadrilha.”
ABDALA, V. PM afasta 15 policiais acusados de participar da tortura de
Amarildo. Carta Capital, Rio de Janeiro, 23 out. 2013. Disponível em: <https://
www.cartacapital.com.br/sociedade/pm-afasta-15-policiais-acusados-de-
participar-da-tortura-de-amarildo-8197.html>. Acesso em: 26 mar. 2017.
Com base no trecho da notícia acima, que trata do caso emblemático de
desaparecimento e tortura do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza no
ano de 2013, e em seus conhecimentos sobre a Lei de Execução Penal
brasileira (Lei Federal nº 7.210/1984), assinale a alternativa CORRETA:
a) No Brasil vigora o princípio da humanidade das penas e, dessa maneira,
os policiais denunciados e que tiveram sua prisão preventiva decretada
pela Justiça no caso Amarildo deverão ser tratados, durante o período em
que estiverem presos, com dignidade humana.
b) Neste caso, por haver a prática do crime de tortura, os policiais
denunciados e com prisão preventiva decretada não poderão ter os
mesmos direitos que os demais presos possuem pelo fato de o crime de
tortura ser inafiançável conforme dispõe a Lei Federal nº 9.455/1997.

50 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


c) A tortura não pode ser considerada no caso Amarildo pelo fato deste
estar em atitude suspeita, o que motivou uma abordagem mais incisiva e
violenta por parte dos policiais denunciados.
d) A eventual condenação dos policiais denunciados não lhes permitirá
progressão de regime de cumprimento da pena, conforme prevê a Lei de
Execução Penal, em virtude de haver a prática de crime de tortura.
e) A dignidade da pessoa humana, fundamento da República Federativa
do Brasil, sempre será relativizada em relação a agentes estatais que são
suspeitos da prática de crimes de tortura.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 51


Seção 1.3

Direitos econômicos e sociais


Diálogo aberto

Caro aluno, nesta situação você atuará como chefe de segurança


de um dos presídios mais degradados do Estado do Maranhão. Esse
estabelecimento prisional será transformado em um presídio modelo
para a reforma dos demais, você já se reuniu com seus funcionários
para explicar a importância de se tratar os presos e seus familiares
com dignidade e respeitar seus direitos civis.
Em vista dessa primeira conversa, que já começa a surtir efeitos,
você recebe um relato de seus funcionários de que muitos dos
detentos estão doentes e grande parte de suas reclamações, que
acabam por gerar conflitos com os funcionários, são ligadas à situação
de insalubridade, péssimas condições de higiene e de alimentação
(alimentos estragados; água contaminada) na prisão. Embora sua
equipe de segurança não seja responsável pela prestação de serviços
de limpeza, alimentação e saúde, esses elementos impactam o
aumento de conflitos entre os presos e funcionários, que podem
se transformar em uma rebelião. Diante desse problema, você
agenda uma reunião com o diretor da unidade, e é preciso que você
elabore um documento de suporte à reunião e que o guiará durante
sua exposição das questões no momento da reunião, devendo listar
os pontos problemáticos, explicando e justificando a necessidade de
melhoria das condições de higiene, saúde e alimentação da prisão,
com base nos direitos humanos dos presos, em especial nos direitos
econômicos e sociais. Para isso, você deve levar em consideração:
• O que são e quais são os direitos econômicos e sociais na
Constituição Federal e no Pacto Internacional sobre Direitos
Econômicos, Sociais e Culturais (1966);
• A garantia do direito à saúde dos presos no Plano Nacional
de Saúde do Sistema Penitenciário e nas regras mínimas para o
tratamento de prisioneiros da ONU (“Regras de Mandela”).

52 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


Assim, você poderá ter uma pauta da reunião com base nesse
documento de apoio que deverá elaborar. Bom trabalho!

Não pode faltar


Direitos sociais
O Pacto Internacional Sobre Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais de 1966.
Como já dissemos nas seções anteriores, os direitos humanos,
para serem melhor compreendidos, podem ser separados em
dimensões. Os direitos previstos pelo Pacto Internacional sobre
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966, adotado pela
Assembleia Geral da ONU naquele ano, correspondem aos direitos
humanos de segunda dimensão.
De uma forma geral, você deve ter em mente que estes direitos
sociais, econômicos e culturais correspondem a ações e políticas
públicas que os Estados, partes deste pacto, têm de tomar para a
proteção e promoção dos direitos humanos de suas populações. Essas
ações estatais são consideradas obrigações de fazer (ou prestações
positivas). Para simplificar nosso estudo, caro aluno, a partir daqui,
adotaremos a nomenclatura “direitos sociais” para corresponder à
ideia de direitos econômicos, sociais e culturais, previstos no Pacto
Internacional sobre Direitos Econômicos e Sociais de 1966 e na
Constituição Federal brasileira de 1988.
Assim, de maneira resumida, os direitos sociais, previstos no Pacto
de 1966, correspondem aos seguintes:
• direito a um trabalho com condições mínimas que permitam
que os cidadãos de cada Estado tenham uma vida digna;
• direito à liberdade de se associar em sindicatos e agremiações
que protejam e lutem pelos direitos dos trabalhadores;
• direito à previdência social e ao seguro social;
• direito à alimentação a todos os cidadãos;
• direito à saúde, tanto física quanto mental;

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 53


• direito à educação digna e de qualidade, garantindo-se a
obrigatoriedade do ensino primário e seu acesso gratuito; e
• direito à participação na vida cultural e nos progressos
científicos de seu país.
Como você pode notar, os direitos sociais dependem de ações e
de políticas públicas de cada Estado, parte do Pacto de 1966, ou seja,
de prestações positivas como dissemos acima.

Pesquise mais
Você pode ler o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais
e Culturais de 1966: Presidência da República. Decreto no 591, de 6 de
julho de 1992. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
decreto/1990-1994/d0591.htm>. Acesso em: 3 abr. 2017.

E também poderá compreender melhor o histórico do surgimento do


Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos e Sociais de 1966 por
meio de uma entrevista no vídeo indicado. Disponível em: <https://
www.youtube.com/watch?v=JoXENsUDjqY>. Acesso em: 3 abr. 2017.

Contudo, é importante que esclareçamos que esta divisão entre


prestações positivas (obrigações de fazer), características dos direitos
sociais (direitos humanos de segunda dimensão), e as prestações
negativas (obrigações de não fazer), típicas dos direitos políticos e
liberdades individuais dos cidadãos (direitos humanos de primeira
dimensão), não pode ser compreendida de forma separada, como se
os direitos de segunda dimensão não dependessem dos direitos de
primeira dimensão e vice-versa.
Segundo essa visão, de interdependência dos direitos humanos
e sua indivisibilidade, os direitos humanos, de todas as dimensões,
e no nosso caso, neste momento, envolvendo os de primeira e de
segunda dimensões, permanecem interligados. Assim, a liberdade e
igualdade dos cidadãos dependerão de ações dos Estados que lhes
deem condições de atingir as primeiras, como o acesso a um sistema
de educação e de saúde de qualidade, o direito a um trabalho com
condições mínimas de dignidade e de remuneração respectiva, além
dos demais como já citamos. Para concluirmos, o Estado, portanto,
passa a ter um visto como um Estado que promove todos os direitos,

54 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


sociais, civis e políticos (Estado promotor), e não apenas como um
Estado interventor ou que se abstém de ingerir na liberdade de seus
cidadãos.
Importante você saber também que o Estado signatário do Pacto
Internacional sobre Direitos Econômicos e Sociais de 1966 deverá
sempre fazer com que os direitos sociais sejam garantidos de modo
a existir um progresso nesses direitos. Assim, as suas ações e políticas
públicas, bem como a sua legislação não podem ser feitas e depois
retiradas em determinado momento de modo a prejudicar os direitos
sociais.

Assimile
As dimensões dos direitos humanos não podem ser consideradas de
forma independente. Uma dimensão depende da outra para se realizar
plenamente. Isso se dá por conta da interdependência e indivisibilidade
dos direitos humanos.

Você também deverá saber que o Pacto Internacional sobre


Direitos Econômicos e Sociais de 1966 prevê a autodeterminação dos
povos. A noção de autodeterminação dos povos prevê a possibilidade
de que cada povo escolha livremente sua forma de governo e busque,
por meio dos direitos sociais, o seu desenvolvimento, seu acesso à
educação, à saúde, à cultura e ao progresso científico.

Reflita
A qual dimensão pertence o direito à autodeterminação dos povos?
Você acha que no Brasil esse direito é realizado para todos os povos que
compõem o “povo brasileiro”?

Os direitos sociais na Constituição Federal de 1988


Após este breve panorama sobre o reconhecimento dos direitos
sociais no plano internacional, iremos estudar como esses direitos
são reconhecidos em nosso país. A partir da leitura do artigo 6º
da Constituição Federal de 1988, você verificará que os seguintes
direitos sociais foram reconhecidos: 1) a educação; 2) a saúde; 3) a
alimentação; 4) o trabalho; 5) a moradia; 6) o lazer; 7) a segurança; 8)
a maternidade e a infância; e 9) a assistência aos desamparados.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 55


Assim, você deverá notar que muitos dos direitos sociais
reconhecidos por nossa Constituição Federal são os mesmos
daqueles previstos pelo Pacto Internacional sobre Direitos
Econômicos e Sociais de 1966, os chamados direitos humanos
de segunda dimensão. Os direitos sociais passaram a ser
reconhecidos mundialmente, em cada país, a partir de movimentos
sociais, principalmente aqueles oriundos da classe trabalhadora,
fundamentados em uma ideologia mais socialista. No Brasil, os
direitos humanos de segunda dimensão (direitos sociais) foram
reconhecidos primeiramente pela Constituição de 1934.
Na Constituição Federal de 1988, como já dissemos anteriormente,
os direitos sociais dependem de uma ação do Estado brasileiro. Essa
ação é realizada por meio da elaboração de leis e de políticas públicas
pelos entes federativos: a União, os Estados, o Distrito Federal e os
Municípios. Nesse sentido, você deverá lembrar que o Estado, por
meio dos entes federativos, passa a ser considerado como um Estado
que promove os direitos sociais e não apenas os reconhecendo. E,
por fim, o artigo 193o de nossa Constituição estabelece que a ordem
social está fundamentada no trabalho e que tem como “objetivo o
bem-estar e a justiça social”. É com base naquele artigo que os direitos
sociais deverão ser programados e realizados pelo Estado brasileiro.
Para nosso curso, abordaremos, com maior detalhamento, o
direito à saúde, especialmente no que se refere este direito em
relação à população que se encontra privada de sua liberdade, ou
seja, as pessoas presas. É importante que você se recorde, como já
dissemos anteriormente, que não é pelo fato de que um indivíduo se
encontra preso que ele perde sua dignidade humana ou que deixará
de ter seus direitos humanos e direitos sociais respeitados.

Direito à saúde − Plano nacional de saúde do sistema


penitenciário
O direito à saúde está previsto no artigo 194o da Constituição
Federal de 1988 como um dos componentes do que se chama
seguridade social, também formada pelos direitos à previdência e à
assistência social. Para tanto, estes direitos dependerão de ações e de
políticas públicas por parte do Poder Público (leia-se União, Estados,
Distrito Federal e Municípios).

56 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


Além disso, você deverá saber que o direito à saúde, assim como os
direitos à previdência social, deverá ser garantido de modo a observar
alguns princípios, conforme preveem os incisos do parágrafo único
do artigo 194o: “I – universalidade da cobertura e do atendimento; II –
uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações
urbanas e rurais; III – seletividade e distributividade na prestação dos
benefícios e dos serviços; [...].”
Agora, para que você tenha uma melhor compreensão do direito
à saúde, analisaremos o artigo 196o de nossa Constituição Federal. Ele
estabelece que o direito à saúde é um direito de todos e um dever
do Estado e que deverá ser garantido por meio de “políticas sociais
e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros
agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua
promoção, proteção e recuperação.”
Dessa maneira, o nosso Supremo Tribunal Federal, em diversas
decisões sobre o direito à saúde e o que está previsto pelo artigo 196o
entendeu que: (1) este direito não pode sofrer quaisquer impedimentos
por autoridades públicas para que ele seja efetivamente realizado; (2)
que o direito à saúde é um direito do qual nenhum indivíduo pode
se recusar a tê-lo (é um direito indisponível); e (3) que é um direito
inerente ao direito à vida e que o Poder Público deve empregar todos
os meios disponíveis para que seja observado.

Pesquise mais

Você poderá ler estes julgamentos realizados pelo STF, fazendo uma
pesquisa de jurisprudência no site. Disponível em: <http://www.stf.
jus.br/portal/jurisprudencia/pesquisarJurisprudencia.asp> Acesso em:
27 jul. 2017, procurando pelos seguintes julgados (que são Recursos
Extraordinários – RE), conforme já foram citados:

1. RE 226.835, Rel. Min. Ilmar Galvão, julgamento: 14/121999,


diário de justiça: 10/03/2000 e RE 207.970, Rel. Min. Moreira
Alves, julgamento: 22/08/2000, diário de justiça: 15/09/2000; e

2. RE 271.286-AgR, Rel, Min. Celso de Mello, julgamento:


12/09/2000, diário de justiça 24/11/2000 e RE 393.175-AgR, Rel.
Min. Celso de Mello, julgamento: 12/12/2006, diário de justiça:
02/02/2007.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 57


Além disso, caro aluno, a nossa Constituição Federal estabeleceu
que o direito à saúde compreenderá um conjunto de ações e de
serviços públicos a ele ligados e que formarão um sistema integrado,
regionalizado e hierarquizado, criando o Sistema Único de Saúde
(SUS), de acordo com o conteúdo do artigo 198o. O mesmo dispositivo
constitucional, em seus incisos, prevê que o SUS deverá ser organizado
de acordo com as seguintes diretrizes: “I – descentralização, com
direção única em cada esfera de governo; II – atendimento integral,
com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos
serviços assistenciais; III – participação da comunidade.”
Portanto, o direito à saúde do indivíduo que se encontra em
estabelecimento prisional não pode ser relativizado quando
comparado ao direito à saúde de um cidadão que não cumpre
pena de prisão. Há limitações, de fato, ao modo como se dará o
atendimento à saúde do preso, pois este tem sua liberdade restringida.
Mas continua sendo dever do Estado garantir a saúde daqueles que se
encontram cumprindo penas restritivas de sua liberdade.
Por esse motivo, foi elaborado, no ano de 2004 pelo Ministério
da Saúde, o Plano de Saúde Nacional do Sistema Penitenciário,
que tem por objetivo incluir os estabelecimentos prisionais como
entidades cadastradas no Sistema Único de Saúde (SUS), para que
recebam recursos financeiros e humanos oriundos deste sistema e
implementados para o atendimento da população carcerária.
Pela primeira vez, a população carcerária brasileira passou a ser
atendida por uma política pública específica para que seja observado
o direito humano e social que possui, qual seja o direito à saúde. Assim,
o Plano Nacional passa a prever a integração do presidiário no SUS, o
que já é garantido pela Constituição Federal de 1988, pela Lei Federal
nº 8.080/1990 (SUS), pela Lei Federal nº 8.142/1990 (participação da
comunidade na gestão do SUS) e pela Lei de Execução Penal (Lei
Federal nº 7.210/1984).
O Plano Nacional reitera a noção de que qualquer pessoa presa,
por qualquer transgressão que tenha cometido e que a tenha
levado a essa situação de privação de sua liberdade, ainda possui
os seus direitos humanos e fundamentais garantidos, como forma
de lhe oferecer a dignidade que todo ser humano merece ter, pela
sua condição humana. Dessa maneira, o Plano Nacional afirma de

58 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


maneira conclusiva que “As pessoas estão privadas de sua liberdade, e
não dos direitos humanos inerentes à sua cidadania.”

Pesquise mais

Para que você saiba mais sobre o Plano Nacional de Saúde do Sistema
Penitenciário, acesse o link a seguir e obtenha mais conhecimentos, a
fim de auxiliá-lo na resolução da situação-problema desta seção:

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Plano Nacional de Saúde no sistema


penitenciário. 2004. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/
publicacoes/cartilha_pnssp.pdf>. Acesso em: 5 abr. 2017.

Situação prisional no Brasil


Entre 1990 e 2014, a população prisional brasileira cresceu 575%,
chegando a ter mais de 607 mil pessoas sob custódia em 2014 (41%
dessa população ainda não havia sido condenada definitivamente).
Desde o início dos anos 1980 percebe-se uma tendência mundial
de crescimento da população carcerária no mundo e o Brasil
acompanha essa tendência.
É importante notar que no Brasil, em virtude dos problemas
econômicos e sociais que nos afligem, “a prisão acaba
transformando-se em instrumento de intervenção” (LEWANDOWSKI,
2016, p. 9) e notamos que essa intervenção tem como principal alvo
populações menos favorecidas do ponto de vista econômico e social.
As políticas públicas de inclusão dos menos favorecidos,
que promoveriam a igualdade material e social, como políticas
habitacionais, educacionais, culturais, e de promoção da saúde, não
são vistas como políticas de segurança.
O alto índice de aprisionamento colabora para a superlotação
das prisões, que agrava ainda mais a situação da precariedade de
condições de nossas prisões e do tratamento das pessoas que estão
sob custódia do Estado. Muitos direitos humanos são violados nas
prisões e o Estado brasileiro tem falhado em cumprir as normas
internacionais que estabelecem padrões e boas práticas que visam
a garantir a dignidade dos presos, por exemplo, o próprio Pacto de
San José da Costa Rica ou as Regras Mínimas para o Tratamento de
Prisioneiros da ONU, que veremos agora.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 59


Exemplificando
Conheça a grave situação do Complexo de Pedrinhas no Maranhão:

CONECTAS DIREITOS HUMANOS. Violação continuada: dois anos


da crise em Pedrinhas. Disponível em: <http://www.conectas.org/pt/
acoes/justica/noticia/41573-violacao-continuada-dois-anos-da-crise-
em-pedrinhas>. Acesso em: 2 abr. 2017.

Regras mínimas para o tratamento de prisioneiros da ONU


(“Regras de Mandela”)
As regras mínimas para o tratamento de prisioneiros, apelidadas
de “Regras de Mandela” em homenagem ao antigo Presidente da
África do Sul, Nelson Mandela, consistem em uma atualização das
regras originais adotadas no primeiro Congresso sobre Prevenção ao
Crime e Justiça Criminal, em Genebra, em 1955. O novo documento
adotado pela Assembleia Geral da ONU em outubro de 2015
estabelece princípios e práticas para o tratamento de presos.
Por 55 anos as “Regras Mínimas para o Tratamento de Presos”
foram utilizadas pelos Estados como um guia para estruturar seus
sistemas penais. Em 2015, essas regras foram submetidas a uma
atualização importante, que amplia o respeito à dignidade dos
prisioneiros, assim como garante o direito à saúde, o direito de
defesa e regulamenta punições disciplinares.
Além disso, a atualização leva em consideração, para que se
promova a dignidade e se efetive a igualdade material daqueles
que estão sob a autoridade do Estado, as necessidades de cuidado
particulares de crianças e adolescentes, de mulheres e de pessoas
com deficiências físicas e mentais. As novas “Regras de Mandela” nos
fornecem orientações precisas e “instruções exatas para enfrentar a
negligência estatal” (LEWANDOWSKI, 2016, p. 10).
Segundo o Ministério da Justiça (2015), o Brasil, como signatário
das “Regras Mínimas” e de outros protocolos internacionais da ONU,
tem as condições de seu sistema prisional fiscalizadas e monitoradas
por mecanismos instituídos no âmbito da ONU.
É importante saber que o Brasil também é signatário das Regras
de Bangkok, de 2010, que versam sobre o tratamento das mulheres

60 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


presas e sobre a aplicação de medidas não privativas de liberdade
para mulheres.
Infelizmente, embora o governo brasileiro tenha participado
ativamente das negociações para a elaboração do novo documento,
até o momento a nova normativa não teve grande repercussão nas
políticas públicas endereçadas aos presos, o que demonstra que
as normas internacionais de direitos humanos poderiam ser mais
valorizadas pela gestão pública.

Assimile
Quem foi Nelson Mandela?

Rolihlahla Mandela nasceu em 1918 no clã Madiba na África do Sul. Ele


recebeu o nome Nelson em seu primeiro dia de escola primária. Nascido
em uma família da nobreza tribal numa pequena aldeia do interior, era
provável que um dia viesse a ocupar um cargo de chefia. No entanto,
aos 23 anos ele fugiu para a capital, Johanesburgo, onde iniciou sua luta
política contra o Apartheid. Em virtude de sua atuação política, em 12
de junho de 1964, ele foi sentenciado à prisão perpétua. Ele passou 27
anos de sua vida em três prisões diferentes e foi solto em 1990 devido a
pressões internacionais, quando a guerra civil em seu país já caminhava
para um fim. Com o fim do Apartheid, em 1994, ele foi empossado
como o primeiro presidente democraticamente eleito da África do Sul.

Ele faleceu em 5 de dezembro de 2013.

Vocabulário
Para que você compreenda melhor a trajetória de vida de Nelson Mandela
e sua influência na elaboração das Regras Mínimas para tratamento de
prisioneiros da ONU, você deverá saber que o Apartheid foi um regime
que se estendeu de 1948 a 1994 na África do Sul, conhecido por praticar
uma política racial de segregação. Nesse regime, a minoria branca
detinha todo o poder econômico e político da região, assim como o
direito ao voto, em detrimento de uma maioria negra. Esta maioria era
oprimida e obrigada a obedecer a uma legislação separatista que os
desfavorecia e segregava.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 61


Alternativas à privação de liberdade
A Constituição Federal, sendo a lei fundamental do Estado de
Direito Brasileiro, possui uma supremacia hierárquica sobre as outras
leis. Ou seja, todas as outras leis devem ser interpretadas à luz da
Constituição e, se contrariarem aquilo que ela estabelece, devem ser
declaradas inconstitucionais.
Como você já sabe, a própria Constituição prevê a pena privativa de
liberdade, que iimplica a restrição a alguns direitos. Você pode observar
que aqui entram em conflito dois direitos fundamentais: o direito à
liberdade daquele que cometeu uma infração e o direito à segurança
por parte da coletividade. Diante deste conflito, a própria Constituição
já decidiu privilegiar o direito à segurança da coletividade, prevendo
em seu artigo 5o, XLVI a pena privativa ou restritiva de liberdade. Isso
porque, mesmo o direito à liberdade sendo um direito fundamental,
entende-se que quando o infrator viola determinadas leis e, portanto,
lesiona determinados bens jurídicos de grande importância, como a
vida, sua liberdade para conviver em sociedade ameaça a liberdade
dos demais membros daquela comunidade.
Por esse motivo, o objetivo da pena privativa de liberdade na
legislação é o de reabilitar o preso a um convívio responsável em
sociedade, para que ele possa voltar a exercer seu direito à liberdade.
No entanto, é importante considerar que as penas de direito penal,
dentre as quais está a pena de prisão, são previstas para os casos
extremos, em que outras instâncias de controle social – como o
controle ético que se manifesta informal e espontaneamente – não
atuaram ou não foram efetivas. A pena privativa de liberdade é a forma
mais extremada de controle penal.
Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, artigo XXIX, 2,
está estabelecido que “no exercício de seus direitos e liberdades, toda
pessoa estará sujeita apenas às limitações determinadas pela lei,
exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento
e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer as
justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de
uma sociedade democrática”.
No entanto, a pena privativa de liberdade deve ser aplicada, como
vimos, sempre em respeito à dignidade humana, da qual a Constituição
Federal não abre mão. Lembramos que a restrição ou violação de
outros direitos fundamentais, para além daqueles que a Constituição
permite pode gerar dúvida em relação à constitucionalidade da pena.
Observamos que em muitos casos em que a dignidade humana do

62 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


infrator está sob ameaça, o Supremo Tribunal Federal decide em seus
julgamentos privilegiar seu direito à liberdade.
Com o movimento de reconhecimento dos direitos humanos a
pena passa a ser vista não apenas como uma consequência inevitável
do cometimento de crimes, a ser tratada pelo Direito Penal para que
se reestabeleça a ordem da sociedade. Passamos a nos perguntar
quais penas são mais eficientes, ou seja, cumprem a função de
evitar o cometimento de novos crimes e ao mesmo tempo são mais
benéficas ao condenado, à sua formação como pessoa. Isso porque
começamos a perceber que a pena privativa de liberdade, que seria
a mais severa em nosso sistema, de fato não cumpre a função de
reabilitar a pessoa para o convívio. Há quem diga que o aprisionamento
é em si uma dupla pena. Principalmente nas condições em que ela
é cumprida no Brasil, em que as condições em celas superlotadas e
o tratamento oferecido nas prisões é desumano e degradante, o que
seria vedado pela Constituição Federal, que veda penas cruéis (Art.
5º, XLVII).
Além da desumanidade de nossas prisões, Shecaira (1999, p.
175) esclarece que “a prisão passa a funcionar como elemento de
criminalização que gera um processo em espiral para a clientela
do sistema penal. A criminalização primária produz rotulação, que
produz criminalizações secundárias (reincidência)”.
A pena privativa de liberdade apenas está de acordo com a
Constituição quando busca ressocializar, reeducar, fortalecendo a
personalidade ética e a responsabilidade do preso, o que culmina
na realização de sua própria dignidade, devolvendo-o ao convívio
em comunidade. Além dos questionamentos à eficiência e à
constitucionalidade da pena privativa de liberdade do Brasil, é preciso
notar que se trata de uma alternativa muito cara. Tendo em vista todas
essas considerações, as “penas alternativas” começam a nos parecer
uma solução atraente.
Uma das tarefas do Estado Democrático de Direito seria a constante
revisão das condutas que devem ou não ser contempladas pelo
direito penal, que é o sistema de controle social que mais intervém e
impacta a vida e os direitos dos infratores e de todos ao seu redor. Mas
como se dá essa revisão? Trata-se do processo de descriminalização
de condutas, que pode se dar tanto pela via legislativa e institucional,
quanto pela via dos costumes.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 63


Reflita
Você consegue pensar em alguma infração que poderia ser
descriminalizada no Brasil? Por quê?

Outro dever do Estado Democrático de Direito seria justamente a


busca por medidas alternativas à privação de liberdade. Mas quais são as
penas alternativas à pena de prisão previstas em nosso sistema legal? A
Constituição Federal, em seu artigo 5o, XLVI, prescreve: “A lei regulará a
individualização da pena e adotará, entre outras, as seguintes: a) privação
ou restrição de liberdade; b) perda de bens; c) multa; d) prestação social
alternativa; e) suspensão ou interdição de direitos".
Observamos que esse dispositivo não esgota os tipos de pena, que
podem ser determinadas pela legislação especial, contanto que esta
respeite os preceitos constitucionais e a humanidade das penas. As
penas restritivas de direito (que são todas aquelas alternativas às penas
privativas de liberdade, com exceção da pena de multa), em especial a de
prestação de serviços à comunidade, representam um grande avanço.
Nas penas alternativas a reprovação da conduta não se dá pelo
sofrimento ao qual o condenado é submetido, mas pelo valor simbólico
da pena. Aí é que a pena de prestação de serviços à comunidade
assume um papel importante. As penas alternativas – especialmente
a de prestação de serviços à comunidade, contemplam a ideia de um
direito penal humano, além de propiciar a reinserção social. Além disso,
elas evitam as desvantagens da pena de prisão, que causa danos à
personalidade do condenado e o retira totalmente do convívio social.
Pense a respeito da importância da liberdade ao ser humano para
que ele tenha uma vida plena, ainda que cometa atos reprováveis pela
sociedade em determinado período ou até mesmo considerados como
crimes. Você já pensou em como seria sua vida se tivesse sua liberdade
de locomoção e outros tipos de liberdade restringidos?

Sem medo de errar


Vamos tentar elaborar o documento de apoio à reunião, conforme
mencionamos anteriormente, e a partir de agora que você já possui
conhecimento sobre a importância e o que são os direitos sociais,
especialmente aqueles relacionados à pessoa presa? Para que você
possa solucionar a situação-problema, o documento que você deve

64 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


elaborar não é um documento oficial, mas apenas um documento de
apoio para ajudá-lo a conversar com o diretor da unidade.
Em primeiro lugar, é preciso começar listando os problemas
relatados por seus funcionários que acabam causando o adoecimento
dos presos e uma insatisfação generalizada. Além da superlotação, que
contribui para o agravamento de todos os problemas, eles descreveram
péssimas condições de higiene, saúde e alimentação, a limitação do
banho de sol e a falta de proporcionalidade na distribuição do tempo
para trabalho, descanso e recreação.
Você pode anotar que a mistura dessas condições leva grande parte
dos presos a adoecer, além de gerar um clima de revolta permanente
entre os detentos. É importante lembrar ao diretor que o direito à saúde
é um direito social que, portanto, depende não de uma limitação do
poder do Estado, mas sim da promoção contínua por meio de ações
estatais.
Mas quais seriam essas ações estatais no caso dos presos?
É importante lembrar o diretor a respeito de sua responsabilidade
como gestor de um equipamento público. Embora seja gerido por uma
empresa privada, esse presídio presta um serviço público, de execução
penal, e todos os seus funcionários, públicos e privados, devem agir em
conformidade com a Constituição Federal, em respeito aos princípios
e direitos fundamentais. E, neste caso, eles precisam contribuir para
garantir as condições de salubridade e o atendimento médico aos
detentos.
Agora vamos refletir a respeito de que tipo de atuação o diretor da
prisão deve ter para a garantia do direito à saúde em sua unidade. Em
uma reunião como essa, é bom sempre levar sugestões.
Em primeiro lugar devemos pensar que o direito à saúde deve ser
garantido, segundo nossa Constituição Federal (artigo 198o), de forma
integral, com prioridade para as atividades preventivas. Ou seja, a
garantia da saúde não depende só de tratamentos paliativos posteriores
ao diagnóstico, mas também de uma ação preventiva.
No caso de nossa prisão, nos parece que muitas doenças poderiam
ser evitadas se as condições dos serviços de alimentação e de higiene
fossem melhorados.
Além disso, a limitação aos banhos de sol e a falta de
proporcionalidade na distribuição do tempo para trabalho, descanso e
recreação também impactam a saúde física e mental do preso.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 65


E nessas condições a administração da prisão pode atuar
diretamente!
Percebemos, portanto, que a plena realização do direito à saúde
depende de outros direitos sociais, como o direito à alimentação, ao
trabalho digno e ao lazer, que são previstos tanto no Pacto Internacional
sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966, como também
no artigo 6o da nossa Constituição Federal.
Além disso, é importante que você mencione ao diretor outras
normas internacionais que versam sobre a garantia aos direitos
humanos e sociais dos presos, como as “Regras de Mandela”, que
estabelecem e seu artigo 18o que “se exigirá dos presos asseio pessoal
e, a tal efeito, se lhes facilitará água e artigos de asseio indispensáveis
para sua saúde e higiene”; “A fim de que os presos possam manter um
aspecto decoroso que lhes permita conservar o respeito de si mesmos,
se lhes facilitarão meios para o cuidado do cabelo e da barba e para
que possam barbear-se com regularidade”.
A própria Lei de Execução Penal prevê em seu artigo 12o, que “a
assistência material ao preso e ao internado consistirá no fornecimento
de alimentação, vestuário e instalações higiênicas”.
Agora, no que diz respeito aos cuidados médicos e de outros
profissionais de saúde especificamente, os presos devem ser incluídos
no Sistema Único de Saúde (SUS).
Como vimos, o Plano Nacional de Saúde do Sistema Penitenciário
tem por objetivo incluir os estabelecimentos prisionais como entidades
cadastradas no SUS, para que recebam recursos financeiros e humanos
oriundos deste sistema e implementados para o atendimento da
população carcerária e possam atender às “Regras de Mandela” e
à Lei de Execução Penal. O Plano Nacional determina que todas as
unidades prisionais devem contar com equipes mínimas, compostas
por médico, enfermeiro, odontólogo, psicólogo, assistente social,
auxiliar de enfermagem e auxiliar de consultório dentário, obedecendo
a uma jornada semanal de 20 horas.
Para que isso se realize, contudo, a unidade prisional deve conter
um mínimo de aparelhos e infraestrutura médicos para o atendimento
da saúde dos presos e seu consequente cadastro no SUS, o que deve
ser providenciado pelo diretor da unidade.
É importante anotar aqui um argumento fundamental a ser
apresentado ao diretor: como a violação ou não garantia dos direitos
sociais, nesse caso o direito à saúde, atinge a dignidade humana dos

66 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


presos, estes acabam por se revoltar para reivindicar o respeito aos
seus direitos. Não podemos nos esquecer de que a própria Declaração
Universal dos Direitos Humanos menciona, em seu Preâmbulo, a
revolta como um último recurso legítimo de garantir o respeito aos
direitos humanos pelo Estado:
“Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos
pelo Estado de Direito, para que o homem não seja compelido, como
último recurso, à rebelião contra a tirania e a opressão”.
Você deve mostrar ao diretor que, como os presos têm seu
direito à liberdade de locomoção limitado, eles ficam praticamente
impossibilitados de atuar politicamente, reivindicando seus direitos.
O Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos
Advogados do Maranhão disse que os próprios presos costumam
chamar as rebeliões de “reivindicações”, o que indica que ao se garantir
os direitos sociais dos internos, se está também prevenindo rebeliões
(CONECTAS DIREITOS HUMANOS, 2017, p. 12). E como chefe de
segurança, você deve pensar não apenas do ponto de vista repressivo,
mas também preventivo, evitando a violência e que maiores violações
aconteçam em um eventual conflito.

Avançando na prática
A importância e a implementação de penas alternativas –
prestação de serviços à comunidade

Descrição da situação-problema

Você trabalha na Secretaria de Segurança Pública do Estado do


Amazonas. Essa Secretaria está agindo em conjunto com o Tribunal de
Justiça e com a Prefeitura de Manaus para implementar um programa
que viabilize a aplicação da pena alternativa de prestação de serviços
à comunidade no âmbito da Prefeitura, em especial na zeladoria de
praças. O próximo passo seria enviar uma carta às organizações da
sociedade civil de Manaus pedindo seu apoio ao projeto.
Você recebe um memorando do Secretário pedindo que redija
uma justificativa, explicando por que a pena alternativa de prestação
de serviços à comunidade tem maiores possibilidades de reabilitar o
condenado para o convívio social e por que o apoio da comunidade
é importante.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 67


Resolução da situação-problema
Você deve explicar que, por não isolar o infrator, mas sim
restabelecer seu contato com a sociedade a partir de uma outra
perspectiva – a pena alternativa de prestação de serviços à
comunidade –, ela proporciona não só a reparação à sociedade
que foi lesionada pelo infrator, como também é mais eficiente
em sua reeducação para o convívio social. Se a comunidade
colaborar, através de seus conselhos, associações e organizações
para a reabilitação desse indivíduo, o sucesso dessa pena tende
a ser maior. O próprio artigo 4o da Lei de Execução Penal
recomenda que o Estado recorra “à cooperação da comunidade
nas atividades de execução da pena e da medida de segurança”.

Faça valer a pena


1. Em seu discurso durante a IV Conferência Nacional de Direitos
Humanos, Antônio Augusto Cançado Trindade, então presidente da Corte
Interamericana de Direitos Humanos, proferiu as seguintes palavras:
"De que vale o direito à vida sem o provimento de condições mínimas
de uma existência digna, se não de sobrevivência (alimentação, moradia,
vestuário)? De que vale o direito à liberdade de locomoção sem o direito à
moradia adequada? De que vale o direito à liberdade de expressão sem o
acesso à instrução e educação básica? De que valem os direitos políticos
sem o direito ao trabalho? De que vale o direito ao trabalho sem um
salário justo, capaz de atender às necessidades humanas básicas? De que
vale o direito à liberdade de associação sem o direito à saúde? [...] Daí a
importância da visão holística ou integral dos direitos humanos, tomados
todos conjuntamente. Todos experimentamos a indivisibilidade dos direitos
humanos no quotidiano de nossas vidas. Todos os direitos humanos para
todos, é este o único caminho seguro para a atuação lúcida no campo
da proteção dos direitos humanos. Voltar as atenções igualmente aos
direitos econômicos, sociais e culturais, face à diversificação das fontes
de violações dos direitos humanos, é o que recomenda a concepção, de
aceitação universal em nossos dias, da interrelação ou indivisibilidade de
todos os direitos humanos."
Fonte:. Disponível em: <http://www.camara.leg.br/Internet/comissao/
index/perm/cdh/Pidesc%20-%20Relat%C3%B3rio%20Final.html>. Acesso
em: 5 abr. 2017.

68 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


Com base no texto acima e nos seus conhecimentos sobre os direitos
econômicos, sociais e culturais previstos pelo Pacto Internacional sobre
Direitos Econômicos e Sociais de 1966, assinale a alternativa correta:
a) O trecho do discurso evidencia que todos os direitos humanos,
independentemente das dimensões ou gerações pelas quais eles sejam
reconhecidos, serão aplicados internamente por cada país que é signatário
do Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos e Sociais de 1966, de
maneira individual e segmentada, como forma de lhes dar maior efetividade.
b) O texto selecionado demonstra que os direitos econômicos, sociais e
culturais são de segunda geração ou dimensão e que, portanto, somente
foram reconhecidos após os direitos civis e políticos, de primeira geração/
dimensão.
c) As palavras acima correspondem à noção de que os direitos humanos
são indivisíveis em sua essência, que a classificação em direitos humanos
de primeira e de segunda dimensão apenas facilita a compreensão da
teoria dos direitos humanos e que ambos são complementares no caso
em tela.
d) Não há qualquer relação entre os direitos humanos de primeira e de
segunda geração, pois como se trata de momentos e tipos de direitos
diferentes, não possuem complementaridade.
e) Há apenas uma relação aparente de complementaridade dos direitos de
primeira e de segunda geração, uma vez que aqueles dependem de uma
não ingerência estatal na vida dos indivíduos e estes demandam ações e
políticas públicas do Estado para que sejam efetivados.

2. “[...] a Corte [Interamericana de Direitos Humanos] toma nota da


preocupação assinalada pelo Estado e pelo MNPCT [Mecanismo
nacional de Prevenção e Combate à Tortura] a respeito da política de
‘superencarceramento’ verificada no Brasil e em Pernambuco. Nesse
sentido, a Corte destaca que o crescimento exponencial da população
carcerária dificulta ou torna inviáveis essas mudanças estruturais,
favorecendo a violação dos direitos das pessoas privadas de liberdade.
Essa política é especialmente grave diante da situação de superlotação
e superpopulação que já se encontra no Complexo de Curado, e torna
ineficazes as medidas que podem ser tomadas a respeito do aumento
de praças nos centros penitenciários, que continuam sendo insuficientes
diante do número de pessoas que neles ingressam”. (Tradução nossa).
CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Medidas
Provisionales Respecto de Brasil Asunto del Complejo Penitenciario de
Curado. 23 nov. 2016. p. 21.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 69


“Embora o direito internacional preveja a obrigação dos Estados de
promoverem essas audiências, elas raramente ocorrem no Brasil, onde
muitos presos esperam por meses até serem levados a um juiz. […] As
audiências de custódia previnem casos de encarceramento arbitrário
e ilegal de suspeitos de crimes não violentos enquanto estes aguardam
julgamento. Elas permitem que os juízes tenham mais informações para
decidir se alguém foi detido legalmente e se estão presentes os elementos
para se determinar a prisão provisória”.
HUMAN RIGHTS WATCH. Crise penitenciária impulsiona reforma:
audiências de custódia ajudam a combater a superlotação no Maranhão.
maio 2015. p. 3.
Considerando a Resolução da Corte Interamericana de Direitos Humanos e
a consideração da Human Rights Watch, avalie as afirmações que seguem:
I. O ‘superencarceramento’ consiste em uma política de Estado que
acredita que esta é uma medida para garantir a segurança da população.
II. A condição de superlotação das prisões brasileiras não tem relação com
as violações de direitos humanos que acontecem nas prisões.
III. A realização de audiências de custódia são um meio legítimo de diminuir
a superlotação nas prisões.
IV. O Brasil desrespeita os direitos humanos por não promover audiências
de custódia em um tempo razoável.
V. O Estado brasileiro pode facilmente aumentar o número de funcionários
ou promover a ampliação dos centros de detenção, atendendo assim a
Recomendação da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Agora, assinale a alternativa CORRETA:
a) As afirmativas I, III e IV estão corretas.
b) As afirmativas II e V estão corretas.
c) As afirmativas II, III e IV estão corretas.
d) As afirmativas I, III e V estão corretas.
e) As afirmativas I e IV estão corretas.

3. “A consolidação do Plano Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário


representa um avanço para o País, na medida em que, pela primeira vez,
a população confinada nas unidades prisionais é objeto de uma política
de saúde específica, que possibilita o acesso a ações e serviços de saúde
que visam a reduzir os agravos e danos provocados pelas atuais condições
de confinamento em que se encontram, além de representar sua inclusão
no SUS. Contribuir para a promoção da saúde das pessoas privadas de

70 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


liberdade, além de ser uma responsabilidade do Estado, representa uma
missão e um desafio para profissionais de saúde e cidadãos que acreditam
numa sociedade sem excluídos.”
BRASIL. Ministério da Saúde. Plano Nacional de Saúde do Sistema
Penitenciário. Brasília, abr. 2004, p. 8. Disponível em: <http://bvsms.saude.
gov.br/bvs/publicacoes/cartilha_pnssp.pdf>. Acesso em: 5 abr. 2017.
Com base no texto acima e no conteúdo das aulas sobre direitos sociais e
direito à saúde da população que se encontra presa em estabelecimentos
prisionais, julgue as afirmativas abaixo como verdadeiras ou falsas e escolha
a alternativa correta:
I. O Plano Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário é uma política
pública estatal brasileira que tem por objetivo central incluir os presidiários
no SUS, com o cadastramento dos estabelecimentos prisionais nesse
sistema, o que possibilitará um atendimento integral da saúde dos presos
e, portanto, a observação do direito à saúde consagrado na Constituição
Federal de 1988.
II. A política pública contida no Plano Nacional de Saúde no Sistema
Penitenciário demonstra o caráter do Estado promotor no Brasil,
característico da implementação dos direitos humanos de segunda
dimensão (direitos econômicos, sociais e culturais).
III. O Plano Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário poderá ser extinto,
sem aviso prévio, pelo Ministério da Saúde sob a justificativa de redução de
custos de seu orçamento, ainda que os resultados estejam sendo benéficos
e efetivos para a preservação da saúde de todos os presidiários no Brasil.
a) São verdadeiras apenas as afirmativas I e III.
b) A única afirmativa verdadeira é a III.
c) As afirmativas II e III são falsas.
d) A afirmativa I é falsa e as afirmativas II e III são verdadeiras.
e) As afirmativas I e II são verdadeiras e a afirmativa III é falsa.

U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 71


Referências
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COELHO, H. Caso Amarildo: entenda o que cada PM condenado fez, segundo
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CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Medidas Provisionales
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72 U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais


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U1 - Introdução aos direitos humanos e fundamentais 73


Unidade 2

Direito à segurança e direitos


políticos

Convite ao estudo
Caro aluno, na Unidade 1, você teve uma visão geral dos
direitos humanos e fundamentais no plano internacional e
nacional e deve ter começado a perceber de forma crítica
como esses direitos se relacionam e dependem uns dos outros
para que sejam protegidos e realizados. Agora, na Unidade 2,
você estudará dois grupos de direitos específicos e as relações
existentes entre eles: o Direito à Segurança e os Direitos Políticos.
Esses direitos em muitos momentos podem parecer conflitantes
e você verá qual a importância de harmonizá-los para a garantia
de um Estado Democrático de Direito.
Ao final da Unidade 2, você entenderá qual o papel do
Estado na realização dos direitos humanos ligados ao exercício
da liberdade política e nos direitos humanos ligados ao direito à
segurança de forma crítica. E compreenderá também qual o seu
papel e sua responsabilidade frente ao Estado e à sociedade na
garantia desses direitos enquanto agente de segurança. Desse
modo, você será capaz de elaborar o produto solicitado nesta
Unidade, qual seja, o ofício à corregedoria de polícia, justificando
sua desobediência legítima a uma ordem ilegal de seu superior
hierárquico, tendo em vista os parâmetros de direitos humanos e
fundamentais cabíveis.
Dessa vez, o contexto de aprendizagem proposto é o seguinte:
Imagine que, recentemente, o Governo do Estado de
Pernambuco decidiu fechar algumas escolas de ensino médio e
transferir seus alunos para outras escolas para cortar gastos da
pasta de Educação. Professores, alunos e familiares de alunos
organizaram uma manifestação pública para o dia seguinte
à publicação do Decreto do Governador no Diário Oficial, às
17h, partindo de uma importante via de Recife, para se oporem
ao fechamento das escolas e exigir melhores condições na
educação estadual. A manifestação se dará em uma região
comercial da cidade, onde encontram-se muitos comércios e
um grande hospital.
Para garantir a segurança na manifestação foi mobilizada uma
Tropa de Choque.
Além disso, os lojistas decidiram fechar seus comércios mais
cedo e mobilizaram mais agentes de Segurança Privada para
garantir a segurança de seu patrimônio. Ocorre que a manifestação
não transcorre calmamente, havendo alguns problemas. Para
apurar as ocorrências, a Corregedoria de Polícia abre um inquérito
para investigar o ocorrido e auferir as responsabilidades.
Você acha que em uma situação como essa encontraremos
direitos que estão em conflito e que não podem ser
harmonizados? Nesse caso, existiriam limites ao direito de
reunião e manifestação dos professores e estudantes? Por quê?
Qual você acha que seria o papel da Tropa de Choque e dos
agentes de segurança privada em uma manifestação como essa?
Para resolver essas questões, na Seção 2.1 desta Unidade
você estudará o que e quais são os direitos políticos e quais os
seus limites, aprendendo também qual o sentido e o conceito da
política e alguns de seus vícios nos dias de hoje.
Na Seção 2.2 você verá qual o papel do direito à segurança na
garantia dos direitos políticos, percebendo como esses direitos se
relacionam com o direito à propriedade, e como a violência pode
descaracterizar e prejudicar o exercício da liberdade política.
Por fim, na Seção 2.3 veremos como o respeito às ordens sem
que se reflita sobre sua legitimidade e ética pode ser prejudicial
aos direitos humanos, estudando o caso do funcionário nazista
Eichmann. Em vista desse problema, veremos como podemos,
em um Estado Democrático de Direito, desobedecer às ordens
ilegais e evitar a responsabilização pessoal.
Seção 2.1
Direitos políticos
Diálogo aberto

Lembre-se que recentemente o Governo do Estado do Pernambuco


decidiu fechar algumas escolas de ensino médio e transferir seus
alunos para outras escolas e que, em vista disso, professores, alunos e
familiares de alunos organizaram uma manifestação pública para o dia
seguinte às 17h, para se oporem ao fechamento das escolas e exigir
melhores condições na educação estadual.
Hoje é o dia da manifestação! Ela ocorrerá em uma importante via
de Recife em que há um hospital. Uma hora antes da manifestação,
você, enquanto OFICIAL DA TROPA DE CHOQUE, foi designado para
conversar com uma das lideranças do movimento dos professores
para negociar um percurso que não passe em frente ao hospital, para
não perturbar os doentes. Para a negociação e propositura de um
percurso conveniente, é preciso que você leve em consideração quais
os direitos dos manifestantes e os limites razoáveis a serem respeitados
no exercício desses direitos.
Você deve descrever, portanto, qual a importância da negociação
para que se evite conflitos e elencar alguns argumentos a serem usados
na negociação, levando em consideração:
• OS DIREITOS POLÍTICOS DOS MANIFESTANTES;
• OS LIMITES A QUE ESSES DIREITOS ESTÃO SUJEITOS
QUANDO EM CONFLITO COM OUTROS DIREITOS.
Para isso, você deverá rever os conceitos aprendidos nas seções da
Unidade 1 e nesta seção. Vamos começar?

Não pode faltar


Direitos Políticos – Pacto Internacional sobre Direitos Civis e
Políticos de 1966 e a Constituição Federal de 1988
Caro aluno, nesta seção trataremos dos direitos políticos positivados
no Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966 e na

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 77


Constituição Federal brasileira de 1988. Você deve se recordar que,
na Unidade 1, Seção 1.2, vimos o conceito de direitos civis, que são
essenciais para a compreensão dos direitos políticos, objeto desta
seção.
Você deve se lembrar também que os direitos civis não podem
ser compreendidos isoladamente dos direitos políticos, sociais e os
chamados direitos humanos de terceira dimensão. Isto posto, vamos
começar a tratar dos direitos políticos nos planos internacional e
nacional.
Na esfera internacional temos o Pacto Internacional sobre os Direitos
Civis e Políticos de 1966, adotado pela XXI Assembleia Geral da ONU
em 16 de dezembro daquele ano. No Brasil, o Pacto foi promulgado
pelo Decreto nº 592, de 6 de julho de 1992.
Como já vimos nas seções anteriores, os direitos civis e políticos
decorrem de uma obrigação de não fazer por parte dos Estados, ou seja,
sob o aspecto negativo de prestação dos Estados, de não ingerência
na vida de seus cidadãos. Além disso, os direitos civis também são
endereçados aos Estados: tratam das liberdades individuais e por isso
as Constituições de cada Estado preveem limites à atuação estatal
nesse sentido. Dessa maneira, os direitos civis são agrupados em
duas categorias, os individuais, inerentes a cada pessoa, e os coletivos,
destinados a uma classe ou grupo de pessoas. Como exemplo desses
direitos, temos o direito à vida, o direito à liberdade, o direito à igualdade,
o direito à segurança e o direito à propriedade.
Ainda, com relação ao Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e
Políticos de 1966, vale a pena você saber quais são os direitos políticos
nele previstos. De uma maneira geral, são os seguintes:
1. Direito à autodeterminação, ou seja, o direito de escolher
livremente o estatuto político de seu país, assim como o seu
tipo de desenvolvimento socioeconômico e cultural (Art. 1o);
2. Direito à igualdade no gozo dos direitos políticos tanto aos
homens quanto às mulheres (Art. 3o);
3. Direito à liberdade e à segurança pessoal e proibição à prisão
arbitrária ou injustificada, exceto nos casos previstos em lei e em
consonância com os procedimentos nela previstos, devendo-
se, nos casos de quando ocorrer a prisão, informar a pessoa

78 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


sobre a infração que cometeu, bem como o direito de recorrer
e ser julgada por autoridade judicial competente (Art. 9o);
4. Direito à livre circulação e fixação de residência dentro do
território de um Estado e direito à livre saída de qualquer ou de
seu país bem como vedação à proibição à entrada de cidadão
nacional em seu próprio país (Art. 12);
5. Direito à liberdade de pensamento e de manifestação de sua
religião (Art. 18);
6. Não se poderá molestar alguém por suas opiniões e suas
liberdades de expressão (Art. 19);
7. Direito de reunião pacífica de pessoas (Art. 21);
8. Direito de livre associação e de constituição de sindicatos
(Art. 22);
9. Direito de participação política, por meio de representantes
escolhidos, ou o direito de ser escolhido como representante,
bem como o de exercer funções públicas no Estado (Art. 25); e
10. Direito à igualdade perante a lei e proibição de qualquer
tipo de discriminação, devendo a lei proteger a todos contra
eventuais discriminações (Art. 26).
Como você pode observar, caro aluno, procuramos resumir,
de uma maneira geral, os principais direitos políticos e relacionados
à liberdade contidos no Pacto Internacional sobre Direitos Civis e
Políticos, que garantam um reconhecimento e uma não ingerência do
Estado na vida privada, pública e política dos cidadãos dos países que
são partes do Pacto, para que a liberdade seja preservada em suas vidas.
Nesse sentido, você deve notar também que os direitos à livre
expressão de pensamento, assim como os direitos de livre associação,
de reunião pacífica, de participação política e de igualdade perante
a lei são os direitos políticos necessários para o exercício do direito
à liberdade, todos eles devendo ser reconhecidos e exercidos com
fundamento no conceito de dignidade da pessoa humana, que é
fundamento dos direitos humanos.
Por fim, observe que os direitos políticos, na listagem acima, foram
marcados em negrito, para que você tenha uma melhor compreensão
de quais são eles, especialmente a partir de agora em que trataremos

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 79


dos direitos políticos no plano nacional, ou seja, no Brasil, previstos pela
Constituição Federal de 1988 (Constituição Cidadã).
A Constituição Federal de 1988 estabelece os direitos políticos em
seus artigos 14 a 16 podendo ser considerados a base de todos os
outros direitos políticos legalmente reconhecidos no Brasil. O artigo
17 da Constituição inicia a regulamentação dos direitos dos partidos
políticos.
Você deve fazer uma leitura atenta destes artigos, mas, deverá
centrar sua compreensão, especialmente, no artigo 14, combinado
com o artigo 1o, parágrafo único, de nossa Constituição Cidadã, que, a
nosso ver, estabelecem os fundamentos dos direitos políticos no Brasil.
O artigo 1o, parágrafo único, estabelece o seguinte: “Todo o poder
emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou
diretamente nos termos desta Constituição.” Assim, podemos extrair a
partir desta leitura a noção de soberania popular, um dos fundamentos
da República Federativa do Brasil (art. 1o, I, Constituição Federal de
1988). A soberania popular é exercida através dos direitos políticos. E
você deve ter em mente que, em um Estado Democrático de Direito,
como o nosso o é, o titular da soberania popular é, logicamente, o povo
brasileiro. Nesse sentido, o conceito de direitos políticos é centrado
no direito que cada cidadão e cidadã possui para formar as decisões
estatais e os negócios políticos no Brasil.

Assimile
O termo Estado de Direito significa o Estado em que todo o poder
estatal é exercido e pautado (limitado) pela ordem jurídica em que nele
estiver vigente. A atuação estatal, com suas funções e demais atuações,
assim como todas as garantias e direitos de seus cidadãos sempre
estarão submetidas ao Direito.

Para você se recordar também, como já dissemos ao longo da Unidade


1, o Estado Democrático de Direito é aquele em que todos os direitos
humanos e fundamentais de seus cidadãos são garantidos por meio do
Direito, dentro de uma democracia.

Você também precisa saber que os termos povo, população, nação e


cidadão são, tecnicamente distintos. Quando dizemos povo, estamos

80 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


nos referindo ao conjunto de indivíduos, pertencentes ao mesmo
território por meio de uma nacionalidade. Assim, os indivíduos que
estão conectados pela nacionalidade (podendo ser nato – natural – ou
naturalizado) possuem vínculo jurídico e político com aquele Estado.
Já a população é um conceito que inclui, além dos cidadãos natos e
naturalizados, cidadãos estrangeiros e apátridas (estes últimos que não
possuem nacionalidade). A nação remete à ideia de grupo de indivíduos
reunidos no mesmo território e que possuem afinidades comuns,
tais como econômicas, culturais, materiais, raciais, dentre outras. No
conceito de povo estão incluídos os brasileiros natos e naturalizados.
A ideia de nação inclui os cidadãos natos e naturalizados. Por fim,
o cidadão é o indivíduo (cada pessoa) que possui e goza de direitos
políticos dentro de determinado Estado. Distingue-se do conceito de
população, pois neste incluem-se, além dos natos e naturalizados, os
estrangeiros e os apátridas. O cidadão, por sua vez, é a pessoa que goza
de direitos políticos.

Ainda, com relação ao conteúdo do artigo 1o, parágrafo único,


de nossa Constituição, o exercício dos direitos políticos se dá: (i)
pela possibilidade de votar nas eleições e de se candidatar aos
cargos políticos eletivos (nos Poderes Executivo e Legislativo), ou
seja, de ser votado; e, ainda, (ii) pela possibilidade de exercer seus
direitos políticos diretamente – por meio de plebiscito, referendo
e iniciativa popular.

Passaremos agora à análise do artigo 14 da Constituição


Federal de 1988. Você sabe o que está escrito nele? Basicamente
é o seguinte: a soberania popular (poder que o povo possui) será
exercida por meio do sufrágio universal e pelo voto direto e
secreto, tendo peso e valor igual para todos e, ainda, nos termos
da lei através do plebiscito, referendo e da iniciativa popular. Você
também deve ter em mente que o voto direto, secreto, universal e
periódico está previsto na Constituição Federal de 1988 como uma
cláusula pétrea. Para que você entenda melhor: a cláusula pétrea
é um artigo da Constituição que não admite alteração ou exclusão
da Carta Magna, sequer por emenda constitucional. Assim, o voto,
conforme previsto na Constituição, será sempre garantido.

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 81


Reflita
Além dessas garantias constitucionais que garantem o voto, você
também deve saber que o voto é obrigatório para todos os cidadãos
maiores de 18 anos, alfabetizados, e facultativo para os maiores de 16 e
menores de 18 anos e aqueles cidadãos que possuem 70 anos ou mais.
Ele também não é obrigatório para os cidadãos analfabetos. O que você
acha disso? Separamos um artigo em que há diversas ponderações para
ajudar a formar sua opinião. Vamos à leitura?

ARIAS, J. Por que no Brasil é obrigatório votar?. 4 ago. 2014.


Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/08/04/
politica/1407162732_889288.html>. Acesso em: 5 jun. 2017.

Assimile
O sufrágio universal é o direito de votar nas eleições e também o
direito de ser votado. Ele é universal porque não possui quaisquer
distinções ou restrições em virtude de origem social, de gênero, de
poder econômico, de ideologia política ou de caráter religioso.

O direito ao sufrágio universal também garante que cada cidadão tenha


direito a um voto nas eleições e que esse voto será secreto e exercido
individualmente pelo cidadão, sendo que todo voto terá o mesmo valor.

E, atenção! Não confunda o sufrágio universal com o voto! O primeiro


é um direito; o voto, por sua vez, é o exercício daquele direito. E a
maneira pela qual o voto é dado se chama escrutínio.

Dessa maneira, você deve ter em mente também que os direitos


políticos não se restringem apenas ao direito de votar e de ser votado.
Conforme dito acima, há outros instrumentos por meio dos quais
os direitos políticos são exercidos; são mecanismos de democracia
direta ou participativa. O plebiscito é o instrumento através do qual
os cidadãos tomam uma decisão em alguma matéria pública de
grande interesse e que obrigará os representantes políticos a agir de
acordo com o que for decidido no plebiscito. O referendo ocorre
quando os cidadãos são consultados sobre determinada ação já
tomada pelo Poder Legislativo, no sentido de aprová-la ou não. E por
fim, a iniciativa popular acontece quando os cidadãos se mobilizam
para fazer com que determinada lei seja aprovada; eles acabam por

82 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


iniciar o processo legislativo por assim dizer, independentemente da
ação de deputados, através da Câmara dos Deputados. Porém, os
deputados podem aprovar ou recusar o projeto de lei apresentado
por meio de iniciativa popular.
Além dos direitos políticos que elencamos acima, como é sabido,
nos estados democráticos de direito existe o direito à liberdade de
expressão e de manifestação do pensamento, que é um direito civil e
político. Juntamente com esses direitos, temos o direito à informação
por parte dos cidadãos para saber quais são os negócios estatais, ou
seja, como o Estado age. O direito à informação é um dos direitos
fundamentais, previsto pelo artigo 5o, XIV e XXXIII, e pelo artigo 220 da
Constituição Federal. A legislação infraconstitucional regulamentou
esse direito por meio da Lei de Acesso à Informação (Lei Federal
no 12.527/2011) que prevê a existência do direito à informação para
todos os cidadãos: eles têm direito de requerer a quaisquer órgãos
públicos informações de seu interesse ou de interesse coletivo, à
exceção daquelas que necessitem ser resguardadas por uma questão
de segurança da sociedade ou do próprio Estado.

Exemplificando
Recentemente, temos um exemplo de plebiscito e outro de referendo
de que você deve se lembrar. Em 1993, cinco anos após a promulgação
da Constituição Federal de 1988, ocorreu um plebiscito para que a
população brasileira escolhesse sua forma de governo (que poderia
ser a república ou a monarquia constitucional) e seu sistema de
governo (poderia optar entre parlamentarismo ou presidencialismo). A
decisão do plebiscito, que vigora até os dias de hoje, foi pela república
presidencialista. Já com relação ao referendo, em 2005, a população
foi consultada acerca de projeto de lei que proibia a comercialização
de armas de fogo e de munições. O resultado foi a rejeição pela ampla
maioria da população desse projeto de lei, continuando-se assim com o
comércio de armas de fogo.

Além de todos estes direitos políticos para participação na vida


política de nosso país, temos também outros mecanismos, tais
como a ação popular (Art. 5o, LXXIII, da Constituição Federal de
1988), que trata de uma ação judicial que qualquer cidadão poderá
propor quando houver ofensa ao patrimônio público, ao meio

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 83


ambiente, à moralidade da Administração Pública ou ao patrimônio
histórico e cultural. Por fim, o artigo 17 da Constituição Cidadã prevê
a possibilidade de qualquer cidadão se organizar e participar de um
partido político.

Reflita
Muito embora estes sejam os direitos políticos centrais reconhecidos
pela Constituição Federal de 1988, o exercício da cidadania se dá a partir
de diversos outros direitos e liberdades que ela também nos assegurou. A
noção do exercício da cidadania está intimamente ligada à necessidade
de participação na vida do Estado, o que ocorre, de grande maneira, pelo
exercício dos direitos políticos, conforme mencionados anteriormente.

Mas será que a vida política e a cidadania somente podem ser exercidas
dessa maneira? Você ainda verá nesta seção que a cidadania e os direitos
políticos também podem ser exercidos por meio de reunião pacífica ou
de livre associação para se manifestar contra atos do governo quando
parcela da população esteja descontente. Mas que, mesmo neste caso,
os direitos humanos têm de ser respeitados, assim como a ordem
pública e o direito à segurança a que todos temos direito...

Antes de iniciarmos o próximo assunto, você deverá saber que


os direitos políticos, em nosso país, estão sujeitos à perda ou à
suspensão. Porém, nossa Constituição Cidadã reconheceu que os
direitos políticos não poderão ser cassados.
Mas, ainda assim, os direitos políticos poderão ser perdidos ou
suspensos em alguns casos: (i) quando houver o cancelamento de
processo de naturalização por sentença judicial com trânsito em
julgado (ou seja, quando não se admite mais recurso e o objeto do
processo torna-se o que se chama de coisa julgada); (ii) incapacidade
civil absoluta (prevista no artigo 3o do Código Civil); (iii) condenação
criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos – é
o caso das pessoas condenadas às penas de prisão, restritivas de
sua liberdade, como já vimos nas seções anteriores da Unidade 1;
(iv) quando o cidadão se recusar a cumprir uma obrigação imposta
a todos ou a uma prestação alternativa; e (v) prática de atos de
improbidade administrativa. Todos estes casos estão previstos no
artigo 15 da Constituição Federal de 1988.

84 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


Vocabulário
Cassação quer dizer o ato de tornar nulo ou sem efeitos.

Você deverá saber, por fim, que a perda de direitos políticos


é diferente da sua suspensão. A perda acontece nas situações dos
casos (i) e (iii) e a suspensão, nos casos (ii) e (v). É importante você
também ter a noção de que a suspensão existe apenas enquanto as
circunstâncias que a determinarem ainda subsistirem. Estando elas
terminadas, o cidadão volta a ter seus direitos políticos novamente e
a poder usufruir destes.
Mas você já parou para pensar que, na história recente de nosso
país, houve um período em que os direitos políticos de alguns
cidadãos foram cassados e também desrespeitados? Você sabe que
período da história é esse? Pois bem, é o que trataremos a seguir
no próximo assunto: a ditadura militar brasileira, que aconteceu no
período de 1964 a 1985.

Ditadura militar no Brasil – herança autoritária


A ditadura militar no Brasil vigorou entre os anos de 1964 e
1985. Durante esse período, os militares enquanto detentores do
poder político no país promoveram diversas perseguições, torturas,
cassações e desrespeito aos direitos políticos dos cidadãos brasileiros,
bem como pessoas tornaram-se desaparecidas e muitas delas foram
mortas pelo fato de possuírem posicionamento político e ideológico
diferente daqueles que estavam no poder.
Dessa maneira, você deve notar que os direitos políticos, bem
como os direitos à liberdade de expressão, de livre associação para
fins pacíficos, de reunião, de manifestação, previstos pelo Pacto
Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966, não foram
respeitados, apesar de os militares se valerem de um discurso dito
“democrático”, mas que, na prática, não respeitava nenhuma das
liberdades e dos direitos políticos.
E a detenção do poder político pelos militares no Brasil durante
aquele período trouxe-nos algumas consequências que podemos
chamar de herança autoritária. Essa herança pode ser vista na

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 85


forma como as polícias estaduais, segundo a Constituição Federal
de 1988, foram estruturadas. Todas as polícias estaduais, ligadas à
parte repressiva do policiamento, são vinculadas às forças armadas,
sendo, portanto, militares. Nesse sentido, as polícias permaneceram,
de alguma forma, intimamente ligadas às forças armadas no Brasil,
militarizadas, portanto.
O maior problema de se manter uma polícia militarizada é que
esta terá toda a formação de seus policiais focada na proteção do
Estado e da ordem tão somente, ligada à noção de obediência estrita
da hierarquia e da ordem, presentes nas forças armadas (Exército),
deixando, na grande maioria das vezes, de proteger a vida do cidadão,
a sua cidadania e os direitos humanos de que todos são titulares. Há,
nesse sentido, uma cultura de combate ao inimigo, uma verdadeira
cultura de guerra, ao invés de se promover uma cultura de paz e de
pacificação social, centrada na proteção das liberdades e dos direitos
humanos, e, por fim, da cidadania de todos.

Pesquise mais
Você sabe o que é justiça de transição? De acordo com o Dicionário
de Direitos Humanos da Escola Superior do Ministério Público da União,
a justiça de transição é: “[...] o conjunto de abordagens, mecanismos
(judiciais e não judiciais) e estratégias para enfrentar o legado de
violência em massa do passado, para atribuir responsabilidades, para
exigir a efetividade do direito à memória e à verdade, para fortalecer as
instituições com valores democráticos e garantir a não repetição das
atrocidades.”

Você pode pesquisar mais ao acessar este link: <http://escola.mpu.


mp.br/dicionario/tiki-index.php?page=Justi%C3%A7a+de+transi%C3%A
7%C3%A3o>. Acesso em: 5 jun. 2017.

O que é a política?
Para tratar desse tema invocaremos uma autora muito importante
no estudo da política, a teórica Hannah Arendt, que foi uma judia
alemã que viveu na Alemanha até a eclosão da Segunda Guerra
Mundial e teve de fugir em virtude da política de perseguição aos
judeus praticada pelo Nazismo. Ela dedicou sua vida a estudar o
totalitarismo e as formas como este regime poderia ser evitado e,
com ele, as barbáries que se seguiram.

86 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


Pesquise mais
Conheça melhor a vida e obra de Hannah Arendt: <https://hannaharendt.
wordpress.com/2013/05/23/cem-anos-de-hannah-arendt/>. Acesso
em: 17 jul. 2017.

Mas como isso poderia acontecer? Como o totalitarismo poderia


ser evitado? Primeiramente, cabe dizer que o totalitarismo é um
regime em que o Estado toma conta de todas as esferas da vida das
pessoas sob o seu domínio, da esfera pública à privada: as artes, a
cultura, a religião, a política, as relações sociais, todos esses domínios
passam a ser controlados pelo Estado. Uma das formas pelas quais
Arendt acreditava que a repetição do totalitarismo e a reedição de
seus mecanismos poderiam ser evitados num tempo futuro seria pelo
cultivo da política. Justamente pelo cultivo de uma política que não se
restringe à política estatal, mas da qual todos participam.
Mas a qual política essa se referia? O que seria a tal política? Em
primeiro lugar cabe dizer que a política não diz respeito ao homem
no plano individual, mas sim à pluralidade dos homens, e se dá na
convivência entre diferentes. Passamos assim do indivíduo ao comum,
ao mundo compartilhado. Para a autora, o mundo seria justamente
o que surge quando os homens se agrupam, ele seria, portanto, um
interespaço onde ocorrem e fazem-se os assuntos humanos, sendo
o resultado do agir e fazer humanos. E o ponto central da política é
justamente a preocupação com o mundo compartilhado e não com
o individual.
Hannah Arendt diz que com o passar do tempo foi se criando
uma desconfiança em relação à política, justamente porque essa
foi se transformando em algo que não era na origem, quando
surgiu na pólis grega. Um dos acontecimentos que levou a esta
desconfiança foi justamente a experiência do totalitarismo, no qual
o que era chamado de política tomou conta de todas as esferas da
vida, contraditoriamente, restringindo e não promovendo a liberdade.

Vocabulário
No mundo grego, a cidade era designada pelo termo pólis.

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 87


Princípio da liberdade na política
Para a autora, o sentido da política seria a própria liberdade, mas
não da forma como a concebemos hoje. A liberdade aqui não deve ser
entendida em sua acepção negativa, como o não ser dominado, mas
sim positivamente. Na antiguidade, a liberdade estava intimamente
ligada à capacidade de agir e de desencadear processos inéditos,
gerar transformações. Para Arendt, essa liberdade de fazer coisas
novas nos é bastante estranha nos dias de hoje, porque tendemos a
identificar a liberdade como a escolha entre coisas dadas.
A ideia de liberdade que temos hoje foi fortalecida pela convicção
de que a liberdade não na política, mas sim na renúncia ao agir e no
recolhimento a si próprio, aos nossos próprios interesses.
A primeira condição para o exercício da liberdade política é a
existência de um espaço em que cada um estivesse entre iguais, em
que todos os participantes desfrutassem da condição de isonomia,
com igual acesso à atividade política. No entanto, no que você
imagina que consistia essa atividade política, a qual esses cidadãos
tinham acesso na pólis? A principal resposta seria: na atividade da
conversa mútua. O começo, a novidade, não ocorria, portanto, por
meio do empreendimento individual, mas principalmente por meio
da fala, do diálogo entre iguais. Aqui também podemos observar a
importância do direito à igualdade para a atividade política.

Vocabulário
Aqui, isonomia não pode ser entendida como a igualdade perante a lei,
como costumeiramente a definimos, mas sim como o igual direito à
atividade política.

Na política da antiguidade, a própria fala era considerada uma


forma de agir, sendo ela própria poderosa. Hoje em dia, podemos
observar de maneira crítica, que o poder independente da palavra não
mais existe, mas somente quando é vinculado ao uso da força e ao
monopólio desse uso, nesse caso, pelo Estado. O resgate do poder da
fala, portanto, seria de fundamental importância para (re)pensarmos
a política hoje. Observamos que a liberdade da fala, que em nossa
Constituição se traduz pela liberdade de manifestação, não pode ser
realizada sem a presença dos outros que ouvem e respondem. Por

88 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


esse motivo, compreendemos que essa liberdade está intimamente
vinculada à liberdade de reunião e associação.
Dessa forma, qualquer ação só seria própria à política quando, (1)
apesar de iniciada por um indivíduo, tem seu desenvolvimento na
coletividade, e quando (2) não abdica do discurso. A ação na esfera
privada, portanto, permanece sendo agir, no entanto, não é político,
assim como determinadas modalidades de fala, que não ocorrem no
espaço político, também não o são.
Uma das questões ressaltadas por Hannah Arendt é que a liberdade
para agir politicamente só se concretiza plenamente quando os
agentes políticos estão livres do domínio da necessidade, ou seja,
têm suas necessidades básicas atendidas. Aqui, novamente, podemos
observar a importância do direito à igualdade para a política, não
apenas da igualdade formal, mas também material, que é realizada
em grande medida por meio da concretização dos direitos sociais.
No entanto, você acha que a garantia dos direitos sociais é suficiente
para a universalização do acesso à política?
Para responder a essa pergunta, devemos mencionar que outro
fator que contribuiu para a mudança no sentido da liberdade e da
política da antiguidade até hoje, está o fato de o Estado e a máquina
estatal terem ocupado praticamente todo o espaço público, detendo
poder para regular, inclusive, como se dará a ocupação desse espaço
por movimentos populares, por manifestações, algumas vezes de
forma um tanto arbitrária e truculenta. Além disso, o espaço da política
foi sendo gradualmente invadido pelos interesses privados, e não
coletivos, o que se dá com o financiamento privado de campanhas
políticas, por exemplo, e pela própria corrupção.
Hoje em dia, em um movimento oposto ao da antiguidade, os
homens querem se libertar dos deveres públicos e da política para
poderem viver a liberdade moderna, que se dá principalmente por
meio da propriedade e do empreendimento privado. Essa moderna
concepção de política, na qual o Estado é visto como necessário
para a liberdade social, tem prevalecido sobre a soberania do povo
inspirada pela liberdade dos antigos. Dentro dessa lógica, o Estado
detém o monopólio da política e da força e garante a segurança para
que os indivíduos possam desenvolver não a fala e ação políticas,
mas seus empreendimentos privados. Nesse sentido, a liberdade

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 89


de agir politicamente continua sendo prerrogativa exclusiva do que
chamamos de “governo” e dos políticos profissionais.
Você acha que essa delegação de nossa liberdade política para os
políticos pode ter contribuído para o preconceito que hoje se nutre
contra a política?
Hoje em dia, discute-se a existência de uma crise da
representatividade, e questiona-se acerca da legitimidade dessa
representação. Por esse motivo, os direitos políticos devem ser
respeitados, para além dos votos, isto é, o direito de reunião e
livre manifestação, para que as pessoas possam exercer sua livre
capacidade de agir diretamente, por si próprias. Algo que está no
cerne da própria Declaração Universal dos Direitos Humanos (artigo
XXVIII) é que o desenvolvimento da personalidade se dará no âmbito
da comunidade, assim como a realização dos direitos ali enunciados.
Em função disso, Celso Lafer coloca como uma das principais
conclusões de Hannah Arendt acerca dos direitos humanos que:

A igualdade em dignidade e direito dos seres humanos


não é um dado. É um construído da convivência coletiva,
que requer o acesso a um espaço público comum. Em
resumo, é esse acesso ao espaço público – o direito de
pertencer a uma comunidade política – que permite a
construção de um mundo comum através do processo
de asserção dos direitos humanos. (LAFER, 1997, p. 58)

Desse modo, a liberdade política é expressa em nossa constituição


por meio dos princípios da cidadania e do pluralismo político (Art. 1o, II
e IV). O sentido moderno de cidadania tem como uma de suas bases
a participação ativa na vida social e política do país, que ultrapassa a
seara dos partidos políticos e é muito mais diversificada e complexa
do que a atividade destes.
O direito à liberdade, com os direitos políticos, passa a abarcar
também essa liberdade positiva e coletiva. Destaca-se a dimensão
coletiva do direito à informação previsto pelo Art. 5o, inciso
XIV; a liberdade de reunião pacífica em lugares públicos, o que
evidentemente não exclui a liberdade de reuniões privadas (Art. 5o,
inciso XVI); e a plena liberdade de associação, vedadas as de caráter
paramilitar.

90 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


Limites ao direito de manifestação
Manifestações nas quais as pessoas saem às ruas para expressar
suas opiniões e sentimentos publicamente, sobre qualquer tema
que considerem importante, são vistos como uma consequência
lógica da democracia e liberdade individual e coletiva. No entanto,
sabemos que confrontações físicas entre manifestantes e a força
policial encarregada da aplicação da lei são constantes. Por isso,
consideramos importante explorar o tema de quais são os limites
legítimos aos direitos políticos que são exercidos em uma passeata.
O direito aos protestos, que engloba diversos direitos humanos,
deve ser garantido e protegido pelo Estado, sem limitação de
lugar, horário ou conteúdo, à exceção daquelas estabelecidas
pela Constituição Federal (Art. 5o, XVI) – isto é, que esse direito
seja exercido de forma pacífica, sem armas e com prévio aviso à
autoridade competente – e pelo Pacto Internacional sobre Direitos
Civis e Políticos. É preciso que fique claro que o “prévio aviso” não
significa que a autoridade deve autorizar a manifestação, mas sim que
ela será informada para que possa tomar as providências para garantir
a segurança de todos e o mínimo de impacto à vida comum, como
o desvio do trânsito, disponibilização de segurança policial etc. Além
disso, a existência de uma reunião pacífica previamente avisada às
autoridades não poderá ser frustrada quando outro tipo de reunião
pacífica vier a ocorrer na mesma localidade ou horário.
Então, além das restrições constitucionais, é importante que você
saiba que podem ser impostas restrições às manifestações desde que
estas sejam legítimas e necessárias para que se respeite o direito à
reputação de outrem, ou para proteção da segurança nacional ou
da ordem pública, ou da saúde pública e moral, conforme os artigos
19.3, 21 e 22.2 do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos.
O elemento da segurança pública também é uma razão legítima para
a restrição do direito à liberdade de reunião e associação pacíficas.
Vemos que o direito ao protesto não é absoluto. Infelizmente não
há, de maneira geral, leis federais restritivas e disciplinadoras desses
direitos, o que faz com que não fiquem muito claras as situações
específicas em que os direitos políticos podem ser restringidos e nas
quais devem ser garantidos, além daquelas previstas na Constituição
Federal. Parte da doutrina considera, por exemplo, que o direito de

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 91


locomoção de outras pessoas também deve ser necessariamente
resguardado. No entanto, organismos internacionais, contudo, já
reconheceram que o direito de manifestação causa sempre, em
alguma medida, distúrbios à vida comum, o que é inerente ao próprio
protesto e à intenção de chamar atenção a uma causa de comum
interesse. Por esse motivo, entende-se que a utilização, comum no
Brasil, do Interdito Proibitório para limitar o direito de protesto, via Poder
Judiciário, é uma prática que desrespeita os padrões internacionais
do direito de protesto e o restringe sem justificativa suficiente.
O Relatório do Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos
estabelece que “a liberdade de realizar e participar de protestos deve
ser considerada a regra e as limitações a isso consideradas uma
exceção. Nesse sentido, a proteção dos direitos e liberdades de outros
não deve ser usada como uma desculpa para limitar o exercício de
protestos pacíficos.”

Sem medo de errar


Para elaborar argumentos a serem apresentados na negociação
com a liderança é preciso, primeiro, reconhecer quais os direitos
políticos envolvidos no caso de uma manifestação.
Como vimos anteriormente, os direitos políticos reconhecidos
pelo Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos de 1966
estão ligados aos direitos de liberdade de pensamento, de livre
associação e de livre reunião para fins pacíficos, assim como de livre
manifestação. Os direitos políticos não se resumem simplesmente
ao direito de votar em representantes e ser votado para serem
representantes de uma sociedade democrática, muito embora, em
um Estado Democrático de Direito, essa condição seja essencial para
a sua existência e manutenção.
Dessa maneira, reiteramos que é preciso reconhecer que o Estado
não é o único âmbito onde a política pode ser exercida, e o voto não
é o único direito político. Muitas vezes, o governo, os representantes
eleitos, desvirtuam-se de seu eleitorado, ou falham em atender
a uma minoria, que também precisa ser ouvida e possui direitos
políticos, embora não consiga uma expressão considerável nas urnas,
suficiente para eleger um representante. O representante do poder

92 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


executivo passa a governar para todas as pessoas e não apenas para
seu eleitorado e deve ouvir suas reivindicações. As vozes discordantes
são o componente essencial de um Estado democrático.
A liberdade política depende do agir conjunto e da manifestação
coletiva, que dependem, por seu turno de um espaço público
que sirva não apenas ao acesso individual aos recursos urbanos,
mas também para o exercício da liberdade política na companhia
de seus iguais. O mundo criado e compartilhado por todos tem
uma dimensão espacial, é um lugar, que deve acolher também o
exercício da liberdade política, não apenas as liberdades individuais,
de locomoção, por exemplo. Na medida do possível, é necessário
conciliar essas liberdades, negociando, desviando o percurso dos
carros, por exemplo. Ao compreender a ação política ficará mais fácil
entender o ponto de vista dos manifestantes e negociar com eles e
evitar qualquer tumulto ou ação violenta.
No caso dessa manifestação específica, no entanto, o direito
político dos manifestantes esbarra no direito à saúde, que é um dos
direitos que o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos
escolhe privilegiar e proteger, quando este entra em conflito com
direitos políticos. Em seus artigos 19, item 3 (b) e 21, o Pacto estabelece
que o direito de expressão e de reunião pacífica serão restritos para
proteger, dentre outras coisas, a saúde pública.
Passemos, portanto, à negociação: um manual do Comitê
Internacional da Cruz Vermelha sobre Direitos Humanos e Direito
Internacional Humanitário para Forças Policiais e de Segurança indica
que eventos de grande escala como protestos requerem preparação
e cada vez mais as organizações responsáveis pela aplicação da
lei, que é o caso da Tropa de Choque devem envolver-se nas fases
preparatórias de forma a aumentar a previsibilidade da manifestação
e diminuir conflitos.
E quais são as vantagens desse envolvimento?
1. Os organizadores do protesto conhecerão os objetivos
e os níveis de tolerância da operação da Tropa de Choque
em relação à manifestação, bem como em relação a suas
responsabilidades para com aqueles que não participam do
evento, que envolve, neste caso, impedir que os manifestantes
perturbem os doentes;

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 93


2. A Tropa de Choque fica familiarizada com os objetivos da
manifestação e busca conhecer o número de participantes,
provável comportamento, horários etc.
3. As partes podem, assim, estabelecer procedimentos claros a
respeito das rotas da manifestação, presença da força policial,
planos de contingência etc.
4. Os pontos de potencial conflito podem ser negociados e
resolvidos antes do evento, de forma que não se transformem
em um problema real no decorrer do protesto.
Outra questão interessante, apontada pelo Manual da Cruz
Vermelha, é que embora as pessoas em uma multidão possam
parecer uma massa e estejam agindo coordenadamente, elas
permanecem indivíduos. Desse modo, além da negociação com a
liderança é possível comunicar-se de maneira mais ampla com uso
de equipamentos de amplificação sonoros, de forma a conduzir as
pessoas da multidão. Assim, é possível também negociar esse ponto
caso a liderança não esteja equipada para conduzir o fluxo de pessoas
de forma a desviar do hospital.
Outra questão apontada pelo manual é a da aparência ameaçadora
que frequentemente assumem as forças policiais, como é o caso
muitas vezes da Tropa de Choque. Por isso, em uma negociação,
é importante colocar-se de forma mais acessível possível, tentando
dissipar a imagem hostil. Assim coloca o manual:

As pessoas acham difícil de acreditar que o encarregado


da aplicação da lei que veem, vestido em uniforme
completo de choque, e com aspecto bem diferente
da imagem que lhes é familiar, na verdade é o mesmo
que conhecem. Não chega a ser uma surpresa que os
encarregados, vestidos e equipados desta forma, tenham
dificuldade de convencer o público de suas intenções
pacíficas. CADERNO 7, [s.d], [s.p]

Desse modo, além de argumentar a respeito do reconhecimento


da legitimidade da manifestação e dos limites impostos pela legislação
de direitos humanos internacional, que já foi incorporada em nosso

94 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


ordenamento por meio do Decreto Presidencial 592/1992 e, portanto,
passa a fazer parte da legislação brasileira, é preciso que se levem
em conta essas outras considerações de colocar ênfase no respeito
aos direitos dos manifestantes e em uma ação preventiva, que é mais
adequada para a garantia desses direitos.

Avançando na prática

O acesso ao direito de informação no Estado de Direito

Descrição da situação-problema

Você trabalha em um departamento da Polícia Militar encarregado


de responder aos pedidos de acesso à informação dirigidos ao órgão
no Estado do Mato Grosso do Sul. Uma organização da sociedade
civil que atua contra a “criminalização da pobreza” realizou um pedido,
solicitando cópia dos Boletins de Ocorrência que indicam mortes por
ação policial no Estado. Como você deve proceder?

Resolução da situação-problema
É importante que você saiba que o direito à liberdade de
expressão e de manifestação do pensamento, que é um direito
civil e político, abrange também, como uma de suas modalidades,
o direito à informação, que é um direito fundamental protegido
pelo Art. 5o, XIV e XXXIII, e pelo artigo 220 da Constituição
Federal. A Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011) vem
regular justamente a garantia de acesso à informação prevista no
artigo 5o, XXXIII, que estabelece que “todos têm direito a receber
dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou
de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da
lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo
seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado.” Nesse
sentido, você deve disponibilizar os boletins solicitados nos
termos e respeitando os procedimentos e prazos da Lei, sendo
os boletins de ocorrência, neste caso, de interesse coletivo e não
estando cobertos por qualquer sigilo em seu Estado.

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 95


Faça valer a pena
1. “O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos foi adotado pela
Resolução no 2.200-A (XXI) da Assembleia Geral das Nações Unidas, em
19 de dezembro de 1966. Logo, é um pacto de amplitude mundial. Entrou
em vigor em 1976, quando foi atingido o número mínimo de adesões (35
Estados).
O Congresso Brasileiro aprovou-o através do Decreto-Legislativo nº
226, de 12 de dezembro de 1991, depositando a Carta de Adesão na
Secretaria Geral da Organização das Nações Unidas em 24 de janeiro de
1992, entrando em vigor em 24 de abril do mesmo ano. Desde então, o
Brasil tornou-se responsável pela implementação e proteção dos direitos
fundamentais previstos no Pacto.
[...]
Em virtude da ditadura militar que governou o país por 21 anos, o governo
brasileiro só ratificou o Pacto quando seus principais aspectos já se
encontravam garantidos na atual Constituição Federal, em seu título II,
denominado ‘Dos Direitos e Garantias Fundamentais’.
[...]
O Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, de fato, consagra
muitos dos direitos fundamentais da pessoa humana, reafirmando a
Declaração Universal. Vários dos princípios previstos mostraram-se
genéricos, tornando-se mais detalhados em outros diplomas internacionais
específicos, como a Convenção Americana de Direitos Humanos, a
Convenção Interamericana para prevenir e punir a tortura, a Convenção
para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher e tantas outras
citadas.
De qualquer forma, o Pacto constitui-se inequivocamente num rico
instrumento para a proteção dos direitos fundamentais da pessoa humana,
que, embora reconhecidos neste e noutros tratados internacionais e, em
grande parte, na própria legislação interna, inclusive constitucional, ainda
carecem de efetiva introjeção na cultura do povo brasileiro, com vistas a
garantir a concretização de um Estado Democrático de Direito.”
Fonte: LEITE, A.; MAXIMIANO, V. Pacto internacional dos direitos civis e políticos. Disponível
em:.<http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/direitos/tratado5.htm>.
Acesso em: 26 abr. 2017.

Após a leitura do texto acima e com seus conhecimentos sobre os direitos


políticos, tanto em nível internacional quanto nacional, julgue as afirmativas
abaixo como verdadeiras (V) ou falsas (F) e assinale a única opção correta:

96 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


I. Os direitos políticos previstos no Pacto Internacional sobre Direitos Civis
e Políticos de 1966 não criam qualquer obrigação aos países signatários do
Pacto em virtude da noção de que a soberania estatal não deve ser limitada
ou cedida no cenário internacional, principalmente após a Segunda Guerra
Mundial.
II. Os direitos políticos não podem ser interpretados isoladamente, sem
qualquer consideração com os direitos civis e os demais direitos humanos,
apesar de haver separadamente dois pactos internacionais: o Pacto
Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional sobre
Direitos Econômicos e Sociais, ambos de 1966.
III. No Brasil, os direitos políticos, desde a Constituição Federal de 1988,
foram também reconhecidos e garantidos com base no Pacto Internacional
sobre Direitos Civis e Políticos de 1966 e são basicamente os seguintes:
direito ao voto (de votar e ser votado), plebiscito, referendo e iniciativa
popular. Porém, os direitos políticos não se esgotam nesses instrumentos
e estão intimamente ligados à liberdade de expressão, de manifestação, de
pensamento, de associação e de reunião pacífica.
a) V-V-F.
b) F-V-F.
c) V-F-F.
d) F-V-V.
e) F-F-V.

2. “Em uma contribuição conjunta para o relatório de janeiro de 2013, do


Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, os Relatores
Especiais para a liberdade de reunião pacífica e associação, para a liberdade
de expressão e opinião, e sobre a situação dos defensores dos direitos
humanos declararam que os Estados devem reconhecer o papel positivo
de protestos pacíficos, como forma de fortalecer os direitos humanos e a
democracia.

O relatório reconhece que os protestos pacíficos são ‘um aspecto
fundamental de uma democracia vibrante’ e que ‘os direitos à liberdade
de reunião pacífica e associação e liberdade de expressão e opinião,
são componentes essenciais à democracia e indispensáveis para o
pleno exercício dos direitos humanos e devem ser garantidos pelo
Estado.’ Ressalta ainda que, em muitas instâncias, esses direitos têm sido
indevidamente restringidos ou negados na totalidade no contexto de
protestos pacíficos.
O Relatório de 2004, da Comissão Interamericana de Direitos Humanos
sobre Manifestações Públicas como um Exercício da Liberdade de

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 97


Expressão e Liberdade de Reunião, enfatizou-se que tais direitos, assim como
o direito dos cidadãos de realizarem manifestações, são pressupostos para o
intercâmbio de ideias e demandas sociais como forma de expressão. Esses
direitos ‘constituem elementos vitais necessários ao funcionamento adequado
de um sistema democrático que inclua todos os setores da sociedade’.”
Fonte: ARTIGO 19. As ruas sob ataque: protestos 2014-2015. Disponível em: <http://artigo19.
org/blog/2015/09/10/as-ruas-sob-ataque-protestos-2014-e-2015/>. Acesso em: 23 abr. 2017.

Em vista dos relatórios citados e do conteúdo aprendido, avalie as


afirmações que seguem:
I. Os encarregados da aplicação da lei devem reprimir protestos pacíficos
de forma violenta quando estes ofendem a reputação de outrem.
II. Os protestos pacíficos fortalecem a democracia, pois permitem que
as pessoas atuem politicamente fora do âmbito do governo, inclusive
contestando o governo.
III. A realização de direitos sociais pelo Estado ajuda a garantir uma
participação política livre dos cidadãos, o que é fundamental para a política.
Agora, assinale a alternativa CORRETA:
a) Todas as afirmativas estão corretas.
b) Apenas as afirmativas I e III estão corretas.
c) Apenas a afirmativa I está correta.
d) Apenas as afirmativas II e III estão corretas.
e) Nenhuma das afirmativas é correta.

3. “[...] o século XX presencia, em nossos dias, não o desaparecimento,


mas sim o crescimento do Estado, cuja sombra encobre o planeta e as
sociedades. Este crescimento do Estado vem se dando no âmbito de uma
burocratização geral da sociedade e num contexto de remonopolização,
tanto do poder econômico quanto do poder ideológico. [...] E
remonopolização do poder ideológico vem se dando, de um lado, através
da ‘indústria cultural’, que nos países capitalistas forma e conforma a opinião
pública, e de outro através dos partidos de massa, que particularmente nos
países comunistas assumem a situação-limite do partido único, que detém
o poder de estipular o certo e o errado, o bem e o mal para a sociedade.”
“[...] a Corte Interamericana de Direitos Humanos entende que a ‘liberdade
de expressão constitui um elemento primário e básico da ordem pública
de uma sociedade democrática, o que não é concebível sem o livre debate
e a possibilidade de vozes dissidentes serem plenamente ouvidas’.”
Fonte: LAFER, C. A reconstrução dos direitos humanos: um diálogo com o pensamento de
Hannah Arendt. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 192. ARTIGO 19. As ruas sob ataque:
protestos 2014-2015. Disponível em: <http://artigo19.org/blog/2015/09/10/as-ruas-sob-
ataque-protestos-2014-e-2015/>. Acesso em: 23 abr. 2017.

98 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


Considerando os textos apresentados, avalie as seguintes asserções e a
relação proposta entre elas:
I. Uma forma de combater a monopolização do poder ideológico pelo
Estado e pelo mercado é ampliando o acesso à cultura e à educação, e
protegendo os direitos políticos, em especial a liberdade de expressão,
para que vozes dissidentes possam ser ouvidas.
PORQUE
II. Dois elementos fundamentais da política são (1) que ela só ocorre
em meio à pluralidade dos homens e (2) que ela deve ser exercida
principalmente por meio da fala, do discurso político.
A respeito dessas asserções, assinale a alternativa CORRETA:
a) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa
da I.
b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma
justificativa da I.
c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.
d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.
e) As asserções I e II são proposições falsas.

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 99


Seção 2.2
Direito à segurança para garantia de direitos
políticos
Diálogo aberto

Lembramos que recentemente o Governo do Estado do


Pernambuco decidiu fechar algumas escolas de ensino médio e
transferir seus alunos para outras escolas, levando professores,
alunos e familiares de alunos às ruas de Recife em protesto contra o
fechamento das escolas. Após a negociação do percurso que seria
seguido pelos manifestantes com a polícia militar, a manifestação
começa de forma pacífica. Algum tempo depois, um pequeno
grupo de manifestantes começou a jogar pedras para quebrar
os vidros das agências bancárias da região – é importante notar
que as agências estão vazias, pois já estão fechadas – e a tropa
de choque começa a reprimi-los com cassetetes, bem como os
manifestantes de forma geral, buscando dispersar a manifestação
com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.
Você é o responsável pela segurança privada de uma grande loja
de departamentos que havia decidido fechar suas portas durante
a manifestação. No entanto, a loja começa a ser invadida pelos
manifestantes que tentam escapar da represália policial e, para
tanto, danificam o portão. É importante notar que a maior parte
desses manifestantes não provocou nem participou do conflito de
nenhuma forma. Você tem uma decisão a tomar: você acolherá
os manifestantes ou bloqueará sua entrada? Além disso, você acha
que a atitude dos policiais militares da tropa de choque foi correta?
Por quê?
Para decidir como proceder diante dessa situação, é preciso que
você compreenda a relação dos direitos de reunião e manifestação
com o direito à propriedade e com o direito à segurança. E é
exatamente sobre isso que trataremos nesta seção. Vamos iniciar
a leitura? Bom trabalho!

100 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


Não pode faltar
Caro aluno, hoje discutiremos alguns direitos fundamentais que se
encontram intimamente relacionados e que são de extrema importância
em seu campo de atividade: os direitos políticos e o direito à segurança.
Além disso, veremos a partir de uma perspectiva crítica como esses
direitos costumam ser historicamente interpretados e aplicados à luz do
direito de propriedade.

Direito à segurança em face dos direitos políticos


Comecemos pela relação entre o direito à liberdade política e à
segurança. A própria Declaração Universal dos Direitos Humanos coloca
o direito à liberdade e à segurança pessoal em um mesmo artigo:
Artigo III: “Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança
pessoal”.
A Constituição Federal brasileira estabelece direitos relativos à
segurança pessoal, que é um dos direitos fundamentais de nosso país.
No seu artigo 5º, a Constituição garante expressamente o direito à
liberdade e à segurança da pessoa.
O direito à segurança pessoal consiste em uma outra faceta do
direito à vida e à integridade pessoal, e é necessário para a garantia
das liberdades individual e coletiva. Assim como a liberdade da pessoa
física, para ter efetividade, precisa de garantias contra a prisão arbitrária,
contra a detenção sem o devido processo legal – que são as garantias
judiciais, como vimos na primeira unidade –, contra os atentados à
pessoa física etc., as pessoas quando exercem o direito à liberdade em
sua modalidade coletiva, ou seja, quando exercem seus direitos políticos,
também precisam ser protegidas contra os mesmos ataques.
Isso porque essas duas dimensões da liberdade – individual e
política – estão intimamente vinculadas. Segundo o jurista Fabio Konder
Comparato (2005, p. 63):

A liberdade política sem as liberdades individuais não


passa de engodo demagógico de Estados autoritários
ou totalitários. E as liberdades individuais, sem efetiva
participação política do povo no governo, mal escondem
a dominação oligárquica dos mais ricos.

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 101


Durante a Guerra Fria (1945-1991), a ideia de que os direitos
humanos e as dimensões de direitos humanos não poderiam ser
mutuamente excludentes, e que os direitos humanos dependiam
uns dos outros para serem efetivados, bem como que uma
dimensão de direitos não poderia ser plenamente realizada sem
a outra, ficou um pouco abalada em vista da divisão das forças
políticas internacionais em um modelo político-econômico liberal,
que privilegiava direitos humanos da primeira dimensão, e no
modelo político-econômico socialista, que privilegiava os direitos
humanos da segunda dimensão.

Assimile
Lembre-se de que os direitos humanos de primeira dimensão
correspondem aos direitos civis e políticos e estão ligados à ideia de
liberdade do indivíduo em relação ao Estado. Nesse caso, correspondem
também à noção de prestações negativas do Estado, ou seja, de não
ingerência na vida privada do indivíduo e respeito à sua liberdade e
garantia dos direitos a ela relacionados.

Os direitos humanos de segunda dimensão, por sua vez, correspondem


aos direitos sociais e econômicos, conforme vimos nas seções
anteriores. Nesse caso, são os direitos que demandam prestações
positivas do Estado, ou seja, ações por meio de políticas públicas. É o
caso dos direitos à educação, à saúde, à moradia, ao emprego, dentre
outros.

No entanto, em 1993, após o fim da Guerra Fria, a


Conferência de Viena reafirmou a universalidade, indivisibilidade
e interdependência dos direitos humanos.
Um dos direitos que melhor compreendem todas as
dimensões dos direitos humanos de forma integrada é o direito ao
desenvolvimento que é definido da seguinte maneira:

O direito ao desenvolvimento é um direito humano


inalienável, em virtude do qual toda pessoa e todos os povos
estão habilitados a participar do desenvolvimento econômico,
social, cultural e político, para ele contribuir e dele desfrutar,
no qual todos os direitos humanos e liberdades fundamentais
possam ser plenamente realizados. (USP, 1986)

102 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD),
criado por uma resolução da ONU em 1965, é responsável por
estabelecer as bases internacionais e por monitorar a realização
desse direito no mundo. O PNUD elaborou um novo conceito de
segurança, a segurança humana, que tem duas facetas. A primeira
seria a segurança material em vista de ameaças crônicas, como
a fome, as doenças e a repressão, que promoveria a “libertação
do querer” (freedom from want); e a segunda seria a proteção em
relação a mudanças abruptas nos padrões de vida das pessoas e das
comunidades que podem ser nocivas, como as guerras, os genocídios
etc., e que promoveriam a “libertação do medo” (freedom from fear).
Para esta organização, o cerne da insegurança humana seria a
vulnerabilidade, que sob o prisma do direito ao desenvolvimento é
uma situação que abrange múltiplos fatores – econômico, social,
político, ambiental etc. – e que, portanto, só pode ser evitada por
um modelo de segurança que atente para todas essas dimensões,
desdobrando-se em:
• Segurança econômica (garantia de um trabalho produtivo e
renumerado);
• Segurança alimentar (acesso aos alimentos básicos);
• Segurança sanitária (proteção contra doenças);
• Segurança ambiental (propiciando um meio ambiente não
prejudicial a ninguém);
• Segurança pessoal (contra violências físicas e psíquicas);
• Segurança comunitária (protegendo os valores, práticas e
identidades culturais e étnicas de qualquer grupo);
• Segurança política (garantia do exercício da cidadania).
Nesta aula, nosso enfoque é a segurança política, que consiste
na proteção ao exercício da liberdade política, na livre ação política
contra a repressão estatal, a tortura, os desaparecimentos, detenções
ilegais etc. Nossa Constituição Federal (artigo 85, III) considera que
é crime de Responsabilidade o ato do Presidente da República que
atentar contra o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais.
Você pode reparar como o conceito de segurança vem se
desenvolvendo para abranger diversos aspectos da liberdade humana

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 103


e dos direitos humanos que extrapolam a liberdade individual. Agora,
vamos explorar uma relação interessante: entre o direito à segurança
e o direito à propriedade, que foi historicamente determinada e
continua a balizar a interpretação do direito à segurança e sua
aplicação.

Interpretação usual dos direitos humanos à luz do direito de


propriedade
O autor que tomaremos como base para essa reflexão é o teórico
Karl Marx, que em 1843 realizou uma crítica aos direitos do homem
da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 (é
importante destacar que essa declaração foi atualizada em 1793, e
Marx se baseia nesta última versão), elaborada, como explicamos na
Unidade 1, após a Revolução Francesa. Essa Declaração constituiu um
importante marco na história dos direitos humanos e influenciou os
documentos posteriores e a interpretação que temos desses direitos
até hoje. Você poderá observar como a crítica de Marx parece atual.

Pesquise mais
Conheça um pouco do pensamento de Marx por meio do seguinte
vídeo:
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=fSQgCy_iIcc>.
Acesso em: 18 jul. 2017.
(não se esqueça de ativar as legendas em português)

Marx (1975, p. 25) identifica os direitos do homem, notadamente


de liberdade, igualdade, segurança e propriedade como os direitos
humanos do homem burguês, concluindo que:

Nenhum dos supostos direitos humanos vai além do homem


egoísta, do homem enquanto membro da sociedade civil;
quer dizer, enquanto indivíduo separado da comunidade,
confinado a si próprio, ao seu interesse privado e ao seu
capricho pessoal. [...] O único laço que os une é a necessidade
natural, a carência e o interesse privado, a preservação da sua
propriedade e das suas pessoas egoístas.

104 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


Vejamos como ele chega a essa conclusão. Em primeiro lugar,
a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão estabelece em
seu artigo 2 que os direitos naturais imprescritíveis são: a igualdade,
a liberdade, a segurança e a propriedade.
Vamos começar pelo direito à liberdade, que é definido pela
Declaração da seguinte forma: “A liberdade é o poder que o
homem tem de fazer tudo o que não prejudique os direitos dos
outros.” Podemos observar que aqui se fala da liberdade em sua
acepção negativa e individual. É a liberdade de um homem isolado,
que age sozinho e individualmente e não em conjunto com
sua comunidade, como na liberdade política. Para Marx, é uma
liberdade que não se funda na relação entre os homens – que,
como vimos, para Hannah Arendt consistiria o mundo –, mas sim
na separação entre eles. Na prática, ele identifica que esse direito
é exercido fundamentalmente a partir da propriedade privada,
que por seu turno é o direito “[...] que pertence a cada cidadão de
desfrutar e de dispor como quiser dos seus bens e rendimentos,
dos frutos do próprio trabalho e diligência.”
É um direito que originalmente se exerce, como você pode
observar, de forma independente da sociedade e da comunidade,
sem atenção aos outros homens. A liberdade individual vista a partir
da propriedade nos levaria a ver em cada ser humano a limitação à
nossa liberdade e não sua realização conjunta.
A igualdade dos direitos humanos da Revolução Francesa,
segundo essa interpretação, também não teria um significado
político ou material, mas apenas formal, de igualdade de todos
perante a lei.
E, finalmente, Marx chega ao direito à segurança que é assim
estabelecido na Declaração: “A segurança consiste na proteção
concedida pela sociedade a cada um dos seus membros
para a preservação da sua pessoa, dos seus direitos e da sua
propriedade.” Sendo os direitos fundamentais da Revolução
Francesa extremamente vinculados à propriedade como meio
pelo qual se realiza a liberdade, o direito à segurança vem para
garantir essencialmente a integridade física e a propriedade, que é
o meio pelo qual o homem se realiza e realiza suas potencialidades
em uma sociedade capitalista. Essa mesma crítica, você deve

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 105


se lembrar, é realizada por Hannah Arendt em vista da liberdade
interpretada exclusivamente como liberdade de empreender de
forma privada, e não como liberdade de ação conjunta política.
Para Marx, os revolucionários de 1789, viam a cidadania e a
comunidade política como um meio para preservar os chamados
direitos do homem egoísta, centrados primordialmente na
propriedade. A realização dos direitos do homem é apartada da
comunidade, focada em empreendimentos privados.
Constatamos, assim, a abolição do caráter político da sociedade
civil, que passa a reivindicar privilégios ao governo por meio da
titularidade dos direitos do homem, em vez de buscar se inserir
politicamente no Estado de Direito. Foi cindida a sociedade,
portanto, na vida civil e individual e na vida política que preserva
os interesses gerais do povo, sem qualquer permeabilidade entre
esses dois mundos.
Os direitos humanos da Revolução Francesa foram, segundo
Michel Villey, um produto da filosofia moderna surgida no século
XVII. Essa filosofia tem como um de seus expoentes Locke, que
em seu Segundo Tratado sobre o Governo Civil inclui um capítulo
intitulado “Of property” (“Da propriedade”). Ali ele concebe a
propriedade como um direito natural basilar, com objetivo
de justificar a proteção da propriedade perante os governos
absolutistas. O direito à propriedade é estabelecido na Declaração
de 1789 como um direito inviolável e sagrado.
No entanto, como vimos, desde 1789, a concepção dos direitos
humanos mudou muito, passando a incluir outras dimensões de
forma interligada e integrada, e colocando a dignidade humana
como princípio a partir do qual os direitos humanos devem
ser interpretados. Até o direito à propriedade passou a sofrer
limitações, em vista, por exemplo, da função social da propriedade
prevista na Constituição Federal brasileira, que visa a um bem
coletivo e não apenas individual. Assim, conclui-se que o direito à
propriedade, na atualidade, não é um direito absoluto, ou seja, ele
pode sofrer limitações além dos direitos inerentes de quem seja o
proprietário (tais como gozar e usufruir da propriedade unicamente
em benefício próprio), como é o caso da noção e do princípio da
função social da propriedade. Isto quer dizer que a propriedade

106 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


pode sofrer limitações e restrições de modo que ela tenha que
cumprir sua função social. Contudo, sabe-se atualmente que a
aplicação do conceito de função social da propriedade é bastante
complexa, pois se trata de um princípio aberto que demanda
interpretação de acordo com cada caso concreto – assim, não
se tem como prever que este princípio será aplicado da mesma
forma todas as vezes, pois dependerá das particularidades de cada
caso.

Reflita
O Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MTST) ocupa as
propriedades improdutivas como forma de acelerar a reforma agrária
e garantir, de fato, que toda pessoa tenha direito à propriedade. Eles
argumentam que a terra é fonte de vida e deve ser utilizada em benefício
de toda a população. O que você pensa a esse respeito?

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 aboliu,


ao menos no plano ideal, a barreira existente entre o Estado – que
seria o espaço exclusivo da atividade política – e a sociedade civil
– que seria, segundo Marx, o espaço de garantia de privilégios
travestidos de direitos dos cidadãos. Nesse sentido, esta Declaração
destina-se não exclusivamente ao Estado, ou à garantia dos direitos
dos cidadãos vinculados a ele, mas sim a todos os povos e todas as
nações, bem como a cada indivíduo e cada órgão da sociedade.
Mas ainda discute-se que os direitos humanos são muitas
vezes interpretados e aplicados de forma a privilegiar o direito à
propriedade, e o direito daqueles que detêm a propriedade, em
detrimento de outros direitos e daqueles que nada possuem.
Muitas vezes a propriedade e os interesses econômicos privados
são colocados diante até mesmo do direito à vida ou da própria
dignidade da pessoa humana. Hoje em dia, por exemplo, há
também a discussão acerca da invasão da esfera estatal pelas
preocupações e interesses privados, sendo que nem mesmo o
governo permanece como um espaço de domínio do interesse
público. Observamos isso, por exemplo, quando o cidadão não é
mais tratado como alguém que participa ativamente da vida pública,
mas como um mero consumidor final dos serviços do governo,
sem ter o direito de opinar. Em segundo lugar observamos uma

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 107


íntima relação de empresas privadas com os governos, empresas
estas que acabam orientando a atuação do Estado em detrimento
dos cidadãos.

Exemplificando
Uma das formas pelas quais os interesses econômicos privados
influenciam nos governos e no Estado é por meio das doações a
campanhas eleitorais. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal
declarou a inconstitucionalidade da doação de empresas a partidos
e candidatos, sob argumento de que as doações podem favorecer a
corrupção, como de fato temos observado, mas isso não agradou os
representantes eleitos, que querem a volta das doações:

GADELHA, I. Parlamentares articulam volta de doação de empresas. O


Estado de S. Paulo, 19 set. 2016. Disponível em <http://politica.estadao.
com.br/noticias/geral,parlamentares-articulam-volta-de-doacao-de-
empresa,10000076824>. Acesso em: 7 maio 2017.

Violência na política
Agora vamos explorar um assunto muito pertinente à política,
que é o significado do poder e qual sua relação com a violência.
Hannah Arendt explica que a palavra poder foi por muito
tempo definida como um instrumento de domínio e sempre teve
uma íntima relação com a violência, uma vez que este domínio
geralmente pressupõe uma relação de forças. Ela escreve que
essas definições derivam de nossas tradições do pensamento
político: da velha noção do poder absoluto que acompanhou o
surgimento do Estado-nação soberano na Europa, e dos termos
usados desde a Antiguidade grega para definir as formas de
governo como domínio do homem pelo homem.
Houve, no entanto, momentos em que poder não significou
uma relação entre dominadores e dominados. Na cidade-Estado
(pólis) ateniense que se denominava uma isonomia, ou na
civitas romana. Nessas ocasiões, o que se tinha em mente era
um conceito de poder e de lei que não repousava na relação
mando-obediência. A república moderna foi baseada nessas
formas de governo. Nela, o domínio da lei, assentado no poder
do povo, poria fim ao domínio do homem sobre o homem.

108 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


Contudo, eles ainda falavam em obediência às leis. Obediência
é a submissão inquestionável, que só pode ser conseguida por
meio da violência, enquanto o apoio seria a palavra mais adequada
para tratar dessa relação dos cidadãos em relação às leis em uma
república. O apoio nunca é inquestionável e é ele que confere às
instituições democráticas seu poder. Para Hannah Arendt: “Todas
as instituições políticas são manifestações e materializações do
poder; elas se petrificam e decaem tão logo o poder vivo do povo
deixa de sustentá-las” (ARENDT, 2011, p. 57).
Em vista de todo o exposto, Hannah Arendt propõe que se
distingam o poder, a força e a violência, que muitas vezes são
interpretados como tendo o mesmo significado. Vejamos o que
essas palavras significam:
A palavra PODER corresponderia à habilidade humana não
apenas para agir, mas também para agir politicamente em conjunto.
O poder nunca pode ser exercido individualmente, uma vez que
ele pertence a um grupo e permanece apenas enquanto o grupo
está unido. Por isso, “quando dizemos que alguém está ‘no poder’,
na realidade nos referimos ao fato de que ele foi empossado por
um certo número de pessoas para agir em seus nome.”
A FORÇA, por seu turno, é frequentemente usada como
sinônimo de violência, não é mesmo? Principalmente quando
nos referimos a uma situação de coerção. Para Arendt, essa
palavra deveria ser reservada às “forças da natureza” ou à “força
das circunstâncias”, ou seja, deveria referir-se somente à energia
liberdade por movimentos físicos ou sociais.
E, por fim, a VIOLÊNCIA distingue-se por seu caráter instrumental.
Ela seria a utilização do vigor (que comumente e erroneamente
denominamos “força”) para alguma finalidade, seja o domínio, a
submissão do outro, seja para se libertar do domínio ou transformar
a realidade, como nas revoluções. Ela não deveria fazer parte do
que chamamos antes de poder. Infelizmente, nada é mais comum
do que a combinação desses dois elementos, mas isso não significa
que sejam a mesma coisa. Uma das distinções entre poder e
violência é que o poder sempre depende do número de pessoas
que se reúnem, enquanto a violência, até certo ponto, pode operar
sem o poder, porque se baseia em implementos, armamentos,
instrumentos de violência que multiplicam o vigor.

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 109


Hannah Arendt mostra, contudo, que no longo prazo o uso da
violência para manutenção da dominação é inútil, uma vez que as
armas – isto é, no caso do governo, as forças do exército ou da
polícia – eventualmente podem mudar de mãos.

Assimile
O poder é independente da violência e não precisa dela para ser exercido.
Ele se caracteriza pela ação política coletiva.

Sem medo de errar


Primeiramente é preciso que você analise a conduta da polícia
militar em relação aos manifestantes. Você deve se preguntar: a
polícia agiu de forma correta?
Por um lado, é verdade que a Constituição Federal preconiza em
seu artigo 5o, inciso XVI que é permitido reunir-se pacificamente e
que o uso de violência não é legítimo. Agora, pensemos na ação dos
manifestantes neste caso. Embora eles tenham usado a violência,
eles ofenderam quais direitos? Estando as agências vazias, o único
direito ofendido, portanto, foi o direito à propriedade.
A ofensa a esse direito justifica que se reprima os manifestantes
de forma indiscriminada e que se disperse o protesto, que por
outro lado constitui o exercício dos direitos políticos dos cidadãos?
Repare que o que está em risco aqui não é a integridade física
de outras pessoas, ou mesmo dos policiais, contra os quais os
manifestantes não atentaram, mas apenas a propriedade.
Vimos nesta seção que o direito à propriedade já foi
considerado, principalmente após as Revoluções burguesas que
entraram em choque com o Estado absolutista, o direito por meio
do qual deveriam realizar-se todos os outros. O direito à liberdade,
então, era considerado apenas do ponto de vista individual e
não coletivo, não abrangendo o direito de agir em conjunto e
os direitos políticos. Até hoje temos observado formas de se
interpretar e proteger os direitos humanos que privilegiam o direito
à propriedade em detrimento de outros, até mesmo do direito à
vida. E aqui podemos observar um desses casos. Embora o direito

110 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


à propriedade deva ser protegido, sendo um direito fundamental
garantido por nossa Constituição, ele deve ser interpretado, como
todos os outros, pelo prisma do princípio da dignidade humana,
que fundamenta nosso Estado Democrático de Direito, assim
como a cidadania e o pluralismo político.
As forças policiais, portanto, tem o papel de proteger não
apenas a propriedade, mas também a segurança dos manifestantes
e outros cidadãos, garantindo assim a segurança pessoal e política
de todos, tendo em vista que a segurança política é uma das
dimensões da segurança humana, segundo o PNUD.
Além disso, é adequado reprimir os manifestantes
indiscriminadamente e dispersar a manifestação em vista de uma
ocorrência isolada? O Comitê Internacional da Cruz Vermelha,
bem como inúmeros procedimentos operacionais no Brasil,
considera que é preciso tentar identificar e isolar os indivíduos que
atiraram a pedra (ou em geral para indivíduos desrespeitando a lei)
e removê-los da área antes que seu comportamento influencie
outras pessoas. Esta ação é bastante dirigida e possui um baixo
impacto no protesto, tendo em vista que não afeta os outros
manifestantes e resguarda a integridade e os direitos políticos dos
demais, que podem continuar a se manifestar.
Observamos que, no caso, os agressores sequer atentavam
contra a tropa de choque ou outros cidadãos, mas apenas contra
estabelecimentos vazios. Segundo o relatório da Organização
Artigo 19:

O uso de armas menos letais – como bala de borracha,


spray de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo e de
efeito moral – continua sendo um dos maiores problemas
nos protestos, já que são usadas de maneira abusiva e
sem procedimentos, causando lesões em manifestantes,
comunicadores e transeuntes. Estas armas podem causar
mutilações, perda de visão e, ao contrário do que se tenta
sugerir, podem causar mortes. (ARTIGO 19, 2015, p. 39)

Infelizmente, é impossível, na maioria das vezes, saber se as


forças policiais agiram de forma arbitrária ou legal no momento
de se tomar uma decisão ainda durante o protesto. Aqui, como

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 111


temos a descrição do caso, você pode tomar essa decisão de
forma mais informada, mas na vida real você se depararia apenas
com uma multidão de manifestantes tentando entrar na loja de
departamentos para se abrigarem dos disparos, bombas e gases,
que afetam, inclusive, os clientes presentes na loja.
É importante que você saiba que você também, enquanto
agente de segurança privada, precisa respeitar os direitos humanos
e fundamentais. Não se esqueça de que a Declaração Universal
dos Direitos Humanos não é dirigida exclusivamente ao Estado,
mas também “a cada indivíduo e cada órgão da sociedade” e
que os direitos fundamentais da Constituição Federal devem ser
respeitados por todos.
A decisão que você enfrenta diante dessa multidão que tenta
entrar na loja é: acolhê-los ou fechar o portão para evitar maiores
danos à propriedade? Algumas considerações importantes são
feitas no Manual do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (2005,
p. 214) Direitos Humanos e Direito Internacional Humanitário para
Forças Policiais e de Segurança, que também servem para sua
situação:

1. as pessoas em multidões não formam uma massa


homogênea, com comportamento mais ou menos
similar;

2. as pessoas em uma multidão não têm necessariamente
maior tendência de usar de violência do que em
circunstâncias diárias;
3. as pessoas em uma multidão não têm necessariamente
uma tendência maior de ter um comportamento
“emocional” ou “irracional” (sem grifos no original).

Assim, você pode tentar comunicar-se com os manifestantes


que entram na loja a fim de mantê-los calmos para que eles
próprios não se machuquem e para que a loja não seja danificada.
Se isso não for possível, é preciso que você pense qual
direito deve ser privilegiado nessa situação, em vista do princípio
da dignidade humana: o direito à propriedade ou o direito à
segurança pessoal daqueles que ingressam no estabelecimento,
por cuja segurança você também é responsável. Lembre-se de

112 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


que a atividade de “vigilância patrimonial” também compreende a
garantia da incolumidade física das pessoas.

Avançando na prática
A propriedade pública e sua proteção pelo Estado versus direito à
segurança de manifestantes

Descrição da situação-problema

Um grupo de indígenas ocupou o prédio da FUNAI para reivindicar


a demarcação de suas terras, tendo em vista que o processo de
demarcação está bastante atrasado. A consequência do atraso na
demarcação é que essa população está tendo muita dificuldade em
garantir a proteção de suas terras contra os madeireiros da região.
Em conflitos recentes com os madeireiros muitos indígenas foram
mortos.
A FUNAI negocia com os manifestantes a desocupação do prédio,
prometendo dar mais celeridade ao processo de demarcação das
terras e intensificar a atividade de fiscalização na região.
Você é um oficial da Polícia Militar Ambiental do Estado onde
residem os indígenas e deve responder a um ofício da FUNAI
solicitando reforços para as atividades de fiscalização das fronteiras
das futuras terras indígenas onde ocorreram os conflitos.

Resolução da situação-problema
Primeiramente, é importante considerar que a demarcação de
terras indígenas contribui para a política de ordenamento fundiário
do Governo Federal e dos Entes Federados e, consequentemente,
para a redução de conflitos pela terra, uma vez que os Estados
e Municípios passam a ter melhores condições de cumprir
com suas atribuições constitucionais de atendimento digno a
seus cidadãos, com atenção para às especificidades dos povos
indígenas.
No entanto, antes mesmo da demarcação, os indígenas
devem ter sua segurança pessoal e humana garantidas. As ações
dos madeireiros ameaçam a segurança pessoal (ou seja, sua

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 113


integridade física e psíquica) e comunitária dos indígenas (ou
seja, os valores, práticas e identidades daquele grupo étnico),
assim como a segurança ambiental da região, que é prejudicada
com o desmatamento e agressão ao meio ambiente de forma
descontrolada e ilegal.
Para responder ao ofício, portanto, é importante considerar
que a demarcação e a atividade de fiscalização visam também
a promover o direito à segurança em todas as suas dimensões,
diminuindo a situação de insegurança e vulnerabilidade dos
povos indígenas.

Faça valer a pena


1. “Apenas o desenvolvimento de soldados-robôs, que [...] eliminaria por
completo o fator humano e, presumivelmente, permitiria a um homem
destruir que quer que desejasse tão somente apertando um botão,
poderia mudar essa ascendência fundamental do poder sobre a violência.”
(ARENDT, 2011, p. 67)
Considerando o texto apresentado, avalie as seguintes asserções e a
relação proposta entre elas:
I. Segundo Hannah Arendt o poder é de fato a essência de todo governo e
independe da violência.
PORQUE
II. A violência é meramente instrumental e para ser exercida ela depende
das pessoas que estejam dispostas a empunhar as armas, pessoas com
opiniões próprias que podem escolher não obedecer a um comando
quando este é esvaziado de poder.
A respeito dessas asserções, assinale a opção CORRETA:
a) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa
da I.

b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma
justificativa da I.
c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.

d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.

e) As asserções I e II são proposições falsas.

114 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


2. “Não haverá vida digna [...] se o ser humano não tiver acesso à segurança
individual e coletiva, fundamental para que outros direitos possam ser
efetivados, inclusive a vida digna. Falamos a respeito da segurança do lar,
mas também da segurança das multidões que fazem protestos nas ruas,
e ainda assim devem ser protegidas em suas manifestações ordeiras. A
segurança das populações civis de, mesmo em tempos de guerra, não serem
atingidas pela irracionalidade das guerras. A segurança da testemunha para
prestar informações à Justiça sem que para tanto seja constrangida ou
ameaçada. A segurança de não ter a lei violada pelo Estado, a quem cabe a
primazia de sua defesa diante de todos, sem distinção.” (BENVENUTO LIMA
JÚNIOR apud MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2001, p. 47)
Complete as lacunas da sentença a seguir:
O texto acima reafirma uma visão do direito à segurança mais abrangente,
baseada no conceito de_______________, que, de acordo com
________, deve abranger as seguintes dimensões: segurança econômica;
segurança alimentar; segurança sanitária; segurança ambiental; segurança
pessoal; segurança comunitária; ___________.
Agora, assinale a alternativa correta:
a) segurança pessoal – o Pacto de San José da Costa Rica – segurança
privada.
b) segurança humana – o PNUD – segurança patrimonial.
c) segurança humana – o PNUD – segurança política.
d) segurança pessoal – a UNESCO – segurança política.
e) segurança integral – a UNESCO – segurança patrimonial.

3. “A Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma a propriedade


como direito de todos, individual ou coletivamente. [...] [A] defesa da
propriedade não se associa à defesa da riqueza. Frequentemente a
acumulação desenfreada é incompatível com o direito à propriedade,
porque a restringe a alguns, solapando o direito à igualdade. [...]
[Um dos aspectos do direito à propriedade é o da propriedade] individual
e coletiva, cujo uso se traduzirá em benefício para a coletividade, por
gerar empregos, produtividade, crescimento econômico traduzindo em
desenvolvimento humano.
[...] O significado da propriedade exige atenção cuidadosa, porque coloca
limites e restrições àquilo que alguém pode deter como seu, e como
pode usá-lo. Esses limites lembram que pode ser legal, dentro da ordem
jurídica, a desapropriação de determinada propriedade. A contribuição do

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 115


Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra traz a afirmação da terra
como fonte de vida e das dificuldades na aplicação da lei no dia a dia.
A Constituição Federal estabelece claramente esses limites [...]. Defende-
se ali a importância da função social da propriedade, em particular a rural.”
(MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2001, p. 190-191)
Analise o texto acima e marque V para verdadeiro e F para falso:
(.....) A Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Constituição Federal
brasileira ampliam a concepção da propriedade estabelecida nos direitos
humanos do “homem isolado e egoísta” do século XVIII criticada por Karl
Marx, uma vez que dão um enfoque ao direito à propriedade não apenas
individual, mas também coletiva, visando a realização da igualdade material.
(.....) A Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Constituição Federal
brasileira privilegiam a propriedade em detrimento de outros direitos, como
o direito à igualdade em seu aspecto material, e até mesmo em detrimento
do princípio da dignidade da pessoa humana.
(.....) Embora a lei brasileira restrinja o direito à propriedade, prevendo que
esta deve cumprir uma função social, a aplicação desses limites na prática
é difícil.
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) V-V-V.
b) V-V-F.
c) F-V-F.
d) V-F-V.
e) F-F-F.

116 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


Seção 2.3
Responsabilidade pessoal em um estado de
direito
Diálogo aberto

Como vimos, o protesto contra o fechamento das escolas,


exigindo melhores condições na educação estadual em Recife não
correu bem. Ele foi marcado pela truculência policial e por violações
dos direitos humanos dos manifestantes, o que teve uma péssima
repercussão na mídia, preocupando o governador do Estado.
Para responder às críticas, o governador acionou a corregedoria
de política para averiguar as violações e punir os culpados.
Uma nova manifestação dos professores deve ocorrer amanhã,
reforçando a anterior e cobrando a responsabilização dos oficiais
da tropa de choque envolvidos nas violações. Você é um oficial
da polícia militar e foi designado para coordenar a operação que
acompanhará esse novo protesto. Você recebe uma ordem verbal
de seu superior hierárquico para que identifique os líderes do
sindicato dos professores participantes e os prenda arbitrariamente,
para desacreditá-los na investigação da corregedoria. Além disso,
o sindicato é liderado atualmente por um grupo que faz oposição
política e eleitoral ao governador do Estado.
Aqui, você deve “parar para pensar” e decidir se acata ou não a
ordem de seu superior tendo em vista sua responsabilidade pessoal
em um Estado Democrático de Direito.
Deve elaborar, como produto, levando em consideração todo o
conteúdo aprendido nesta unidade, um OFÍCIO À CORREGEDORIA
DE POLÍCIA, relatando o ocorrido e caso opte por não acatar a ordem
de seu superior hierárquico, deverá justificar sua desobediência da
ordem recebida, tendo em vista os parâmetros de direitos humanos
e fundamentais cabíveis. Para desenvolver e resolver essa situação,
você encontrará as informações necessárias a partir do texto
localizado no “Não pode faltar”. Vamos começar sua leitura? Bom
trabalho!

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 117


Não pode faltar
Caro aluno, hoje falaremos um pouco sobre o tema da
desobediência a ordens que violam os direitos fundamentais.
Novamente a pensadora Hannah Arendt nos servirá de guia para esse
assunto tão delicado. Veremos porque não obedecer a ordens que
violam os direitos fundamentais é uma conduta legítima do ponto
de vista ético, como também do ponto de vista legal. Sabemos que,
infelizmente, essas ordens são mais comuns do que se pensa e que é
muito difícil afrontar a hierarquia, mas hoje lhe daremos ferramentas
conceituais e institucionais para orientá-lo nesses casos.
Vamos lá! Primeiramente, você deve se lembrar quando, na
primeira seção da Unidade 1, contamos que na Segunda Guerra
Mundial ocorreram eventos terríveis, derivados de “atos bárbaros
que ultrajaram a consciência da humanidade”, como os campos
de concentração e extermínio nazistas ou as bombas atômicas de
Hiroshima e Nagasaki. Como vimos, esses eventos motivaram a
criação da Organização das Nações Unidas e a Declaração Universal
dos Direitos Humanos.

Pesquise mais
O cineasta francês Alain Resnais dedicou-se à temática das tragédias
ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial em dois filmes. Um
deles intitulado Noite e neblina, um documentário que mostra as
terríveis violações de direitos humanos nos campos de concentração
e extermínio alemães; e outro intitulado Hiroshima, meu amor, uma
ficção que traz como pano de fundo a tragédia da bomba atômica de
Hiroshima.

ALPRENDRE, S. 'Hiroshima Meu Amor' é a mais rica expressão do cinema.


Folha de S. Paulo. 12 mar. 2017. Disponível em: <http://www1.folha.uol.
com.br/ilustrada/2017/03/1865531-hiroshima-meu-amor-e-a-mais-rica-
expressao-do-cinema.shtml>. Acesso em: 17 maio 2017.

Nos célebres julgamentos de Nuremberg, assim como no


julgamento de Eichmann que discutiremos em detalhe mais adiante,
foram julgados criminosos nazistas envolvidos com a deportação e
extermínio de milhões de pessoas. A maioria dos envolvidos nesses

118 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


crimes era militar, mas também houve a participação de civis que
trabalhavam no sistema burocrático do governo.
O Tribunal Militar Internacional de Nuremberg foi responsável
por julgar os oficiais nazistas que participaram da deportação
e extermínio de milhões de pessoas durante a Segunda Guerra
Mundial. Os julgamentos foram realizados entre 20 de novembro
de 1945 e 1º de outubro de 1946 na cidade de Nuremberg, na
Alemanha. O Tribunal indiciou os réus por crimes contra a paz,
crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Esse último crime
compreendia "assassinatos, extermínio, escravidão, deportação… ou
perseguições com bases políticas, raciais ou religiosas" (IHL, 1945,
tradução livre dos autores).
Hannah Arendt nota que muitos nos julgamentos desses
criminosos frequentemente alegavam em sua defesa que estavam
apenas cumprindo ordens quando, por exemplo, implantavam
um sistema de execução em câmaras de gás nos campos de
concentração ou organizavam a deportação de milhões de pessoas
para os campos onde sabiam que estas seriam exterminadas.
Este é o caso de Adolf Eichmann, o funcionário responsável pela
perseguição, sequestro e deportação de massas de judeus aos
campos de concentração e extermínio.
Eichmann foi julgado em Israel entre 1961 e 1962 e seu
julgamento foi acompanhado pessoalmente por Hannah Arendt,
que publicou em 1963 o livro Eichmann em Jerusalém: um relato
sobre a banalidade do mal. Em seu julgamento, ele não demonstrava
qualquer arrependimento e alegava apenas estar cumprindo ordens
de seus superiores, não tendo nunca se preocupado em questioná-
las, mesmo conhecendo o destino dos judeus que deportava: a
morte!

Pesquise mais
Recomendamos o filme Hannah Arendt (2012), dirigido por Margarethe
von Trotta, que conta justamente o episódio em que a pensadora vai
assistir ao julgamento e relatá-lo, e os impactos de sua narração naquele
momento.

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 119


É importante que você saiba que o governo nazista era
essencialmente burocrático, ou seja, um sistema no qual a
transferência de responsabilidades é uma questão de rotina diária.
A burocracia seria caracterizada pelo mando de “ninguém”, sendo
um sistema em que é muito difícil definir de quem partiu uma
determinada ordem originalmente e por isso, segundo Arendt, talvez
seja a forma menos humana e mais cruel de governo.

Reflita
Você acha que o governo brasileiro funciona hoje como uma
burocracia? Você acredita que os agentes desse governo podem
ser responsabilizados pessoalmente por seus atos quando cumprem
ordens?

Contudo, Hannah Arendt acreditava que mesmo em uma


burocracia ou em uma organização militar os funcionários e oficiais
deveriam ser responsabilizados pessoalmente por seus atos, não
podendo alegar simplesmente que cumpriam ordens superiores.
Esse também foi o entendimento do Tribunal de Nuremberg e
de Jerusalém, que não concordaram com esse argumento e
condenaram os criminosos nazistas. O entendimento era que a
conduta correta seria descumprir as ordens ou simplesmente não
participar desse governo.

Exemplificando
Confira o documentário que traz o depoimento da secretária de
Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, que integrava a burocracia
totalitária e veja como o sistema burocrático pode contribuir para que
não reconheçamos nossa responsabilidade pessoal diante de nossas
ações em serviço:

Disponível.em:.<http://hojeemdia.com.br/almanaque/document%C3%A1rio-
trazperturbador-depoimento-da-secret%C3%A1ria-de-goebbels-1.460685>
;.<http://www.dw.com/pt-br/entrevista-com-ex-secret%C3%A1ria-de-
goebbels-vira-document%C3%A1rio/av-38789546>. Acesso em: 31 jul. 2017.

120 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


Uma das teorias que os agentes evocavam para se eximir
da culpa era a “teoria do dente da engrenagem”, segundo a qual
os funcionários em uma burocracia não passam de “dentes da
engrenagem” que podem ser facilmente substituídos sem mudar
o sistema e, portanto, se não cumprissem as ordens, ou não
participassem do governo haveria outro em seu lugar que o faria.
Hannah Arendt rebate essa teoria alegando que no limite, se todos
tivessem decidido não desempenhar suas funções, o sistema
totalitário como um todo teria ruído.
Outro argumento utilizado pelos criminosos nazistas é de que
eles haviam permanecido em seus cargos para impedir que coisas
piores acontecessem. Para Arendt, no entanto, o argumento do “mal
menor” é fraco do ponto de vista ético pois aqueles que escolhem
o mal menor esquecem muito rapidamente que escolhem o mal.
Além disso, segundo a autora, esse argumento é frequentemente
usado para condicionar funcionários do governo, e até mesmo a
população, a aceitar o mal em si mesmo.
Por fim você deve entender a diferença entre o consentimento
e a obediência. Segundo Hannah Arendt, um adulto dotado de
consciência jamais obedece, mas apenas consente, apoia. No
momento em que alguém acata uma ordem, esta pessoa está
apoiando essa ordem, pois sempre existem alternativas. Sem
dúvida, frequentemente essas alternativas trazem consequências
profissionais e pessoais para aquele que optou por não cumprir a
ordem, no entanto a pessoa continuará em acordo consigo mesma.
Mas o que leva alguém a obedecer a ordens cegamente?
O que Hannah Arendt percebeu no julgamento de Eichmann
é que ele não havia cometido aqueles crimes, ou seja, obedecido
àquelas ordens porque odiasse os judeus, mas apenas porque não
parou para pensar a respeito do que estava fazendo:

[...] a única característica notória que se podia perceber


tanto em seu comportamento anterior quanto durante
o próprio julgamento e o sumário de culpa que o
antecedeu era algo de inteiramente negativo: não era
estupidez, mas irreflexão. [...] Foi essa ausência de
pensamento – uma experiência tão comum em nossa

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 121


vida cotidiana, em que dificilmente temos tempo e
muito menos desejo de parar e pensar − que despertou
meu interesse (ARENDT, 1992, p. 6, grifo nosso).

As pessoas que não pensam antes de cumprir ordens


são extremamente perigosas. Mas o que seria o pensar para
Hannah Arendt? O pensar nada mais é do que o diálogo interno
que promovemos conosco mesmos. Ela acreditava que, se
promovermos esse diálogo, constataremos que não podemos viver
conosco mesmos depois de ter cometido um mal tão terrível. Ou
seja, a atividade de pensar produz um exame de consciência que
é indispensável para distinguirmos aquilo que consideramos certo
daquilo que consideramos errado, e para que evitemos o mal no
exercício de nossas funções.
Finalmente, é preciso esclarecer que o governo nazista havia
instaurado uma legalidade criminosa na Alemanha, ou seja, as
atitudes criminosas dos burocratas e oficiais eram legais, estavam
de acordo com a lei do Füher, segundo a qual as palavras de Hitler,
seus pronunciamentos orais, eram a lei do mundo. Dentro desse
contexto, toda ordem contrária à palavra falada por Hitler era ilegal.
Por esse motivo, a partir do totalitarismo, a legalidade deixou de ser
o único critério para a responsabilização pessoal dos criminosos,
instaurando-se uma “crise da legalidade”, não sendo mais suficiente
respeitar a lei para não cometer crimes.
No entanto, o regime nazista era totalitarista e, desse modo,
ditatorial e não um Estado democrático de direito. Não havia
meios políticos de se questionar ou alterar as leis, restando apenas
a escolha de desobedecê-las, segundo critérios éticos que eram
determinados justamente pela capacidade de pensar de cada um.
Em um Estado democrático de direito, contudo, se detectamos
que uma lei na realidade é injusta – contraria o princípio da dignidade
humana, por exemplo –, temos meios democráticos de revogá-la.
E também por esse motivo a liberdade política é tão importante e
deve ser preservada e cultivada.
Celso Lafer escreve que “se o legislador pode reivindicar o direito
de ser obedecido, o cidadão pode igualmente reivindicar o direito a

122 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


ser governado sabiamente por leis justas” (LAFER, 1988, p. 188). Em
um regime tirânico, portanto, onde não há essa reciprocidade entre
governantes e governados, é garantido o direito de desobediência e
resistência, previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos:
“Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos
pelo Estado de Direito, para que o homem não seja compelido,
como último recurso à rebelião contra a tirania e a opressão.”
Veremos na próxima unidade com mais detalhamento como
podemos tomar nossas decisões dentro de um contexto em que as
leis são injustas e não podemos nos basear nelas, como é o caso de
um regime ditatorial.
O que fazer se uma lei que sabemos injusta tem o apoio da
maioria? Em um regime democrático, como podemos nos opor às
leis injustas?
Segundo Celso Lafer, “o caráter opressivo de uma lei não é
atenuado, mesmo em uma democracia, pela sua origem majoritária.”
(LAFER, 1988, p. 199-200)

Pesquise mais
Por esse motivo, uma das formas de resistência à lei injustas, que
se contrapõe à resistência baseada em técnicas da violência, é a
desobediência civil. Essa modalidade de resistência remonta ao pensador
norte-americano Henry David Thoreau. Você deve saber também que
quando a desobediência civil é exercida por um grupo de pessoas, ela
gera poder a este grupo.
Conheça melhor sobre a sua vida e seu pensamento assistindo ao vídeo
disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=JJL9S0J8-4k>.
Acesso em: 18 jul. 2017.
(não se esqueça de habilitar as legendas em português)

Desobediência a ordens que violam direitos fundamentais em


um Estado democrático de direito
Você acaba de conhecer o caso do nazista Eichmann e as
questões sobre obedecer a ordens manifestamente contrárias aos
direitos humanos, mas que, no Estado nazista, eram perfeitamente

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 123


legais. Ainda temos casos semelhantes a esse, mesmo em um
Estado democrático de direito, envolvendo principalmente órgãos
militarizados no Brasil, como as Forças Armadas e as Polícias
Militares estaduais.
Nesse sentido, vamos tratar de como se deve proceder em
situações como esta, quando se recebe uma ordem de um superior
hierárquico para cometer atos de tortura contra um investigado
ou pessoa presa, a fim de se obter confissão, por exemplo. Esta
situação é bastante emblemática quando falamos dos torturados e
perseguidos políticos durante a ditadura brasileira nas décadas de
1960 a 1970 ou até mesmo, recentemente e como já vimos, do
caso Amarildo de Souza, quando falamos do crime de tortura.
Durante a ditadura militar brasileira, a prática de tortura era
bastante comum e realizada pelas polícias políticas e pelas Forças
Armadas brasileiras (Destacamento de Operações de Informação
– Centro de Operações de Defesa Interna – DOI-CODI e
Departamento de Ordem Político e Social – DOPS), com o auxílio
de policiais civis e militares estaduais de todo o país. Após o término
da ditadura e com a redemocratização, muitos familiares de vítimas
fatais, de desaparecidos e os sobreviventes dessas perseguições
políticas que acabaram em sessões de torturas, ingressaram com
ações judiciais contra o Estado brasileiro a fim de obter algum tipo
de compensação, principalmente indenizações, tendo em vista o
sofrimento físico e psíquico a que foram submetidos em virtude de
discordarem do regime ditatorial militar à época, manifestamente
por ideologia política diversa da então vigente.
Os militares acusados de prática de tortura, durante os processos
judiciais, comumente alegaram que receberam ordens de superior
hierárquico para promoverem as sessões de tortura. Nesse sentido,
para que não fossem enquadrados nos crimes militares de recusa
de obediência (Art. 163), descumprimento de missão (Art. 196)
e de desobediência (Art. 301), conforme prevê o Código Penal
Militar, afirmaram que agiram daquela forma para que não fossem
penalizados nesse sentido.
Entretanto, esse argumento não é considerado válido do ponto
de vista jurídico. Atualmente, quando funcionário público, um militar
ou policial militar recebe uma ordem de um superior hierárquico que,

124 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


quando confrontada com a legislação, seja de nível federal, estadual
ou municipal, é manifestamente ilegal ele não precisa cumprir a
ordem e, se cumprir, pode ser pessoalmente responsabilizado. Para
que não seja enquadrado naqueles crimes ele poderá demandar de
seu superior hierárquico que formalize a ordem por escrito, a fim de
possuir algum tipo de prova documental caso venha a ser alvo de
investigação ou de processo disciplinar por falta de cumprimento
daquela ordem. Neste caso, o crime de desobediência militar não
pode ser cometido por policiais pertencentes às Polícias Militares
estaduais, por se tratar de uma ordem manifestamente ilegal por
parte de superior hierárquico. Também não há que falar em crime de
desobediência militar por ordem manifestamente ilegal caso o policial
não esteja disponível na caserna (local em que fique o batalhão da
polícia militar). Apenas haverá crime de desobediência se ele não
estiver disponível e a ordem do superior hierárquico for legal. Mas
tenha em mente que os policiais militares, segundo a Constituição
Federal, mantêm relação com as Forças Armadas e, portanto, devem
obediência ao Código Penal Militar (Código Castrense), e estão
sujeitos às penalidades pela prática dos crimes ali previstos.
Além disso, o militar poderá contar com órgãos que fiscalizam e
controlam as corporações militares e que têm por objetivo apurar
medidas e processos disciplinares e a prática de crimes dentro das
corporações – são as ouvidorias e as corregedorias, no caso das
polícias brasileiras.

O papel da Ouvidoria de Polícia e da Corregedoria de Polícia


na proteção dos direitos humanos
Nesta seção você verá o que são e quais são as atribuições da
ouvidoria e da corregedoria de polícia para a proteção dos direitos
humanos. Ambos os órgãos têm em comum o fundamento de
efetivação dos direitos humanos nas atividades policiais. São, de
fato, órgãos de controle e fiscalização das atividades policiais e
que têm por objetivo apurar irregularidades cometidas por seus
agentes e promover as medidas devidas para sua eventual punição
na esfera administrativa, além de objetivarem uma prestação de
serviço público na área da segurança pública com maior qualidade
e efetividade, respeitando os direitos humanos.

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 125


As ouvidorias de polícia são órgãos que não possuem qualquer
vinculação com a Polícia Civil ou com a Polícia Militar, são órgãos
externos em relação a essas instituições. Essa ausência de vinculação
ou de subordinação às polícias pode ser percebida na forma como
o ouvidor é indicado, pois ele é escolhido dentre representantes
da sociedade civil. No Estado de São Paulo, a escolha é feita pelo
governador do Estado a partir de uma lista tríplice, cuja elaboração é
realizada pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa
Humana, órgão que é composto majoritariamente por civis.
As principais atribuições da ouvidoria são: receber, encaminhar e
acompanhar sugestões, elogios, denúncias e outras representações
por parte da população no que concerne às atuações dessas polícias,
principalmente em relação a atos ou ações que violem direitos
individuais ou coletivos. As ouvidorias têm papel importante ao
remeter às corregedorias de polícia as denúncias que recebem para
que sejam investigadas pelas corregedorias, devendo acompanhar
todos os procedimentos e cobrar destas últimas a conclusão das
eventuais denúncias. Você deverá saber também que as ouvidorias
não possuem capacidade investigativa: elas apenas recebem as
denúncias de irregularidades ou de atos arbitrários praticados por
policiais e as encaminham às corregedorias. Nesse sentido, as
ouvidorias são classificadas como órgãos de controle externo.

Pesquise mais
Você poderá saber um pouco mais sobre as ouvidorias de polícia e o
controle externo que elas exercem sobre a atividade policial ao ler a
tese de doutorado de COMPARATO, Bruno Konder. As ouvidorias de
polícia no Brasil: controle e participação. Disponível em: <http://www.
teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8131/tde-25052007-143115/pt-br.php>.
Acesso em: 12 jun. 2017.

As corregedorias de polícia são órgãos pertencentes às


corporações policiais, estando, portanto, a elas vinculadas. Assim
sendo, são classificadas como órgãos de controle interno. As
principais atribuições das corregedorias de polícia podem ser
divididas em dois aspectos: (i) disciplinar – investigação e punição
de atos de desvios de conduta dos policiais durante suas atuações

126 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


e também na parte preventiva de que tais ações ocorram; e (ii)
controle de qualidade – para a realização do trabalho correcional,
de modo a se preservar a qualidade da prestação do serviço policial
pelo agente de segurança pública, com métodos e medidas que
promovam a melhoria do serviço prestado.

Assimile
A Corregedoria de Polícia é um órgão de controle interno e a Ouvidoria
de Polícia é um órgão de controle externo.

Dessa maneira, você deve perceber que a atividade policial é


supervisionada, fiscalizada e controlada por estes órgãos, seja de
maneira interna ou externa. Quaisquer abusos, arbitrariedades,
irregularidades, práticas de corrupção e atos lesivos aos direitos
humanos devem ser comunicados a estas entidades, inclusive se
praticados por superiores hierárquicos das corporações policiais.
Ambos os órgãos são responsáveis pela efetivação e pela real
observação dos direitos humanos no que concerne à segurança
pública em uma sociedade e em um Estado democrático e de
direito.

Sem medo de errar


Primeiramente, é preciso esclarecer que o ofício é uma
correspondência entre autoridades. Neste caso, a autoridade
da corregedoria e você como oficial da polícia militar. É um
documento oficial e tem como principal objetivo oficializar uma
solicitação ou reivindicação. No caso, você está oficializando uma
denúncia de seu superior hierárquico.

Como é um documento oficial, sua padronização é necessária.


O ofício possui sempre partes indispensáveis. São elas:

• Número do ofício, local e data: o número fica à esquerda


enquanto o local e data ficam no centro-direita.

• Assunto: um resumo sobre o que o ofício irá tratar.

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 127


• Vocativo: um vocativo direcionado ao seu destinatário.

• Corpo do texto: aqui onde o remetente expõe o objetivo


do ofício.

• Fecho: uma finalização formal do texto.

• Assinatura: assinatura do remetente para comprovar o seu


compromisso com o documento.

• Identificação do signatário: nome de quem assinou e


algumas informações adicionais sobre ele.

Vamos propor agora uma redação possível do ofício que você


deve escrever

São Paulo, 17 de maio de 2017.

OFÍCIO nº XXXXX/XXXX /2017 (o número do ofício é um número


de série oferecido pela própria repartição pública a qual você
pertence)
Ref.: Relato e esclarecimento acerca de ordem ilegal de prisão
arbitrária não cumprida
Exmo. Sr.
XXXXXXXXX (aqui deve vir a patente e nome do corregedor)
Corregedor Geral da Polícia Militar do Estado de Pernambuco.

Senhor Corregedor,
Venho por meio deste relatar e esclarecer o que segue. Nesta
manhã recebi uma ordem verbal de meu superior hierárquico, o
Oficial XXXXXX referente ao protesto dos professores previsto para
amanhã que tem por objetivo reiterar as reivindicações do protesto
ocorrido no dia XXXXXX. Enquanto oficial designado para coordenar
a operação que acompanhará este protesto, me foi ordenado que
identificasse e prendesse os líderes do sindicato dos professores
participantes no protesto de maneira arbitrária.

128 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


Desse modo, venho esclarecer que não cumprirei a ordem
que me foi dada, tendo em vista que esta ordem viola direitos civis
fundamentais previstos em nossa Constituição, bem como em
documentos internacionais de direitos humanos, além de atrapalhar
a realização dos direitos políticos dos manifestantes de reunião e
manifestação pacíficos. A referida ordem viola manifestamente o
artigo 5º, LXI da Constituição Federal, que resguarda a liberdade
da pessoa física contra o arbítrio do Estado, que neste caso viola
também a segurança pessoal do indivíduo. Os seguintes dispositivos
da legislação internacional também são violados: Art. 9º da
Declaração Universal de Direitos Humanos; Art. 7º da Convenção
Americana sobre Direitos Humanos; Art. 9º do Pacto Internacional
sobre Direitos Civis e Políticos. Além disso, a ordem viola também o
Art. 350º de nosso Código Penal.
Devo observar que não incorro no crime de desobediência
previsto pelo Art. 163º do Código Penal Militar (CPM), que vem ressaltar
a obediência como o maior primado dos deveres do militar, tendo
em vista que são previstas em nosso sistema causas excludentes
de ilicitude penal militar. No que diz respeito à desobediência de
ordens superiores, elas estão previstas no Art. 38º do CPM. Devo
destacar aqui seu parágrafo 2º: “Se a ordem do superior tem por
objeto a prática de ato manifestamente criminoso, ou há excesso
nos atos ou na forma da execução, é punível também o inferior”.
Conclusivamente, sendo a ordem de meu superior
manifestamente ilegal, tendo esta por objeto a prática de ato
criminoso, que viola direitos fundamentais, reitero que não
devo ser responsabilizado pessoalmente ou penalmente pelo
descumprimento da ordem de meu superior.
Sem mais, apresento protestos de estima e consideração

XXXXXXXX (aqui deve vir o nome do signatário do


documento – a assinatura deve ocupar o espaço acima do nome)
XXXXXXXXXX (aqui deve vir o cargo que ocupa o signatário)
XXXXX (por fim, aqui deve vir o nome
do órgão ao qual pertence o signatário)

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 129


Avançando na prática
Observação de conduta ilegal por agente de segurança pública

Descrição da situação-problema

Você trabalha como chefe de segurança em uma agência


bancária. Você presencia o assalto de uma das clientes logo na porta
da agência e consegue capturar o assaltante, que é um garoto menor
de idade. Você chama a polícia militar para conduzir o garoto para
a delegacia, mas quando os policiais chegam você percebe que há
algo errado com a abordagem realizada. Os policiais são violentos e
batem no garoto, que já estava imobilizado. Você tenta intervir, mas
os policiais colocam o garoto na viatura e partem. Como você deve
proceder?

Resolução da situação-problema
Constatada a conduta ilegal por parte dos policiais, que viola
a segurança pessoal, bem como a integridade física do garoto
detido, primeiramente, você deve se preocupar em identificar os
policiais, por sua identificação funcional ou ao menos pela placa
da viatura. Se houver testemunhas, ou outras formas de provas, é
conveniente reuni-las. Isso vai ajudar na condução de um futuro
processo investigativo. A conduta mais adequada seria realizar
uma denúncia, seja diante da Ouvidoria de Polícia de seu Estado,
ou da Corregedoria da Polícia Militar de seu Estado. Por um lado,
a Ouvidoria não tem poder investigativo, por outro, sendo um
órgão externo à polícia, é garantida a realização de um controle
externo de sua denúncia, através de seu acompanhamento pelo
órgão. A Corregedoria, por seu turno, possui poder investigativo,
podendo instaurar um processo administrativo ou um Inquérito
Policial Militar, mas é um órgão essencialmente de controle
interno.

Faça valer a pena


1. A desobediência civil, na justificativa de HENRY DAVID THOREAU,
que considera legítima a recusa de "lealdade ao governo", é válida como
forma de "resistência, quando sua tirania ou sua ineficiência tornam-se

130 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


insuportáveis". Longe da vida civil, os quartéis adotam a desobediência
hierárquica como afronta à ordem militar, sendo certo que o respeito
aos comandos emanados dos superiores pelos subordinados deve ser
atendido de forma quase incondicional, sob pena de colapso do sistema
militar. Noutro passo, a própria Constituição da República determina
serem primados das instituições militares a hierarquia e a disciplina (Art.
42 da CRFB).
Mas não se trata, como se poderia crer em rápida leitura, de atendimento
de qualquer ordem ou comando dado em caráter de subordinação. Com
efeito, devemos delimitar o objeto jurídico do crime de desobediência
militar, previsto no Art. 163 do Código Castrense [*], que dispõe ser ilícito
penal militar "recusar obedecer a ordem do superior sobre assunto ou
matéria de serviço, ou relativamente a dever imposto em lei, se o fato não
constitui crime mais grave."
Na verdade, o ilícito militar somente possui espaço de caracterização
quando analisado dentro do contexto da caserna [**], sendo ilógico se
pensar que toda e qualquer ordem deva ser cegamente obedecida por
quem quer que seja.” (BEZERRA, 2010).

Vocabulário:
[*] Código Castrense – É o Código Penal Militar.
[**] Caserna – Similar à área em que se localiza o quartel militar.

Com base no trecho do texto citado acima, assinale a alternativa correta:


a) O crime de desobediência militar somente pode ser configurado em
relação aos militares das Forças Armadas, uma vez que as Polícias Militares
estaduais, apesar de terem este nome, não mantêm qualquer relação com
as Forças Armadas brasileiras.
b) O crime de desobediência militar pode ser cometido por policiais
pertencentes às Polícias Militares estaduais, pois este tipo de Polícia,
segundo a Constituição Federal, mantém relação com as Forças Armadas.
c) Existe crime de desobediência militar quando o militar obedece à ordem
de seu superior hierárquico, mesmo quando esta ordem seja um ato que
leve o militar a cometer determinado crime.
d) Não há crime de desobediência militar quando o militar ou o policial
militar deixa de obedecer à determinada ordem pelo fato de não estarem
disponíveis naquele dia para determinado serviço na caserna.
e) O crime de desobediência militar pode existir quando o militar cumpre
determinada ordem de seu superior e esta ordem seja manifestamente
contrária aos direitos humanos, como a prática de tortura, por exemplo.

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 131


2. “A desobediência civil tal como formulada por Thoreau pode ser
encarada como direito humano de primeira geração. Ela é individual
quanto ao modo de exercício, quanto ao sujeito passivo do direito e
quanto à titularidade. Aproxima-se da objeção de consciência, mas dela
se diferencia, pois a objeção de consciência obedece a um imperativo
moral, que leva o indivíduo que a afirma, qua indivíduo, à recusa de violar
um imperativo supremo de sua ética e, por via de consequência, ao não
cumprimento da lei positiva. Já a desobediência civil visa demonstrar a
injustiça da lei através de uma ação que almeja inovação e a mudança da
norma através da publicidade do ato de transgressão. Esta transgressão
à norma, na desobediência civil, é vista como cumprimento de um
dever ético do cidadão – dever que não pretende ter validade universal
e absoluta, mas que se coloca como imperativo pessoal numa dada
situação concreta e histórica.
A reflexão de Thoreau influenciou Gandhi [...]. A postura de Gandhi, no
entanto, diferencia-se da de Thoreau, pois para ele a prática da não
violência que liderou com sucesso, no processo de independência da
índia, a desobediência civil tende a ser uma ação coletiva [...]. Nesse
sentido, a desobediência civil tem afinidades com os direitos individuais
exercidos coletivamente – como o direito de greve [...].” (LAFER, 1988, p.
200).
Após ler o texto e considerar os conteúdos já aprendidos nesta unidade,
avalie as seguintes afirmações:
I. A desobediência civil é uma ação política que visa combater uma lei
injusta.
II. A desobediência civil de Thoreau é um meio violento de resistência,
enquanto a de Gandhi é um meio pacífico.
III. A desobediência civil, quando realizada coletivamente, gera poder.
IV. A desobediência civil não é um direito se a maioria dos cidadãos
estiver de acordo com a lei.
Agora, assinale a alternativa correta:
a) As afirmativas I e II estão corretas.
b) As afirmativas I e III estão corretas.
c) As afirmativas I e IV estão corretas.
d) As alternativas II e III estão corretas.
e) As alternativas II e IV estão corretas.

132 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


3. Para Hannah Arendt, ninguém tinha de ser nazista convicto para adaptar-
se e esquecer-se da noite para o dia as convicções morais de outrora:
“A moralidade desmoronou e transformou-se num mero conjunto de
costumes – maneiras, usos, convenções a serem trocados à vontade –
não entre os criminosos, mas entre as pessoas comuns que, desde que os
padrões morais fossem socialmente aceitos, jamais sonhariam em duvidar
daquilo em que tinham sido ensinadas a acreditar.” (ARENDT, 2004, p. 117-
118)
Considerando o contexto apresentado, avalie as seguintes asserções e a
relação proposta entre elas:
I. A aceitação geral de um padrão moral e de uma lei não pode ser
considerada critério para sua obediência.
PORQUE
II. É preciso antes de tudo que estejamos atentos à possível injustiça das
leis para com as minorias, por exemplo, e que reflitamos a respeito de seu
conteúdo no diálogo do eu comigo mesmo.
A respeito dessas asserções assinale a alternativa CORRETA:
a) As duas asserções são proposições verdadeiras, e a segunda é uma
justificativa correta da primeira.
b) As duas asserções são proposições verdadeiras, mas a segunda não é
uma justificativa da primeira.
c) A primeira asserção é uma proposição verdadeira e, a segunda, uma
proposição falsa.
d) A primeira asserção é uma proposição falsa e, a segunda, uma proposição
verdadeira.
e) Tanto a primeira quanto a segunda asserções são proposições falsas.

U2 - Direito à segurança e direitos políticos 133


Referências
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134 U2 - Direito à segurança e direitos políticos


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U2 - Direito à segurança e direitos políticos 135


Unidade 3

Promoção da igualdade e
valorização da diversidade:
combate ao preconceito e à
discriminação
Convite ao estudo
Caro aluno, seja bem-vindo à Unidade 3 do Curso de
Direitos Humanos e Cidadania. Já realizamos a metade de
nosso percurso. Na Unidade 2, estudamos os direitos políticos
e sua interação com os demais direitos, em especial o direito
à propriedade e à segurança. E nesta unidade estudaremos os
direitos especiais das pessoas em situação de vulnerabilidade.
Você aprenderá como tomar decisões em vista desses grupos
específicos, com um olhar compreensivo e inclusivo em relação
ao outro, ao diferente.

Contexto de aprendizagem

Recentemente, no Brasil, observa-se uma inclusão social de


camadas mais pobres da sociedade pela via do consumo, que
consiste em incluir todas as camadas da sociedade no mercado
consumidor. No entanto, isso tem ocorrido negligenciando-
se, em determinada medida, outras formas de inclusão social
e desenvolvimento, como a promoção de direitos sociais e
culturais, principalmente em regiões mais carentes. Nesse
sentido, lugares, como o shopping, acabam servindo de
referência de cultura e lazer para jovens, principalmente para
aqueles que moram em regiões que carecem de equipamentos
públicos de qualidade.

Você é o gestor de segurança privada de um shopping


center localizado em uma região periférica de uma cidade
muito pobre, em certa medida negligenciada pelo Estado e,
por esse motivo, com poucos equipamentos públicos de lazer
e cultura. O shopping consiste, portanto, em uma alternativa
de lazer para os moradores da região, oferecendo, além das
lojas, os serviços de cinema, restaurantes, teatro e espaço de
convivência. Os clientes habituais do shopping possuem um
perfil muito diversificado, compreendendo pessoas da região e
de áreas mais ricas da cidade, tendo em vista que o shopping é
integrado a uma estação de metrô.

Nesta unidade, trabalharemos, a partir desse local de


confluência de diversos grupos sociais, questões envolvendo,
principalmente, a discriminação social. Trabalharemos também
modos de pensar e tomar decisões de maneira a considerar o
diferente e promover a diversidade.

Como você acha que podemos combater a discriminação?


Você acha que determinados grupos de pessoas devem ser
intitulados a direitos especiais? Por quê?

Para responder a essas perguntas e lidar com esse contexto,


veja o que aprenderá nesta unidade:

Na Seção 3.1, estudaremos para quem os direitos humanos


são dirigidos e qual a responsabilidade de cada um de nós em
sua realização. Estudaremos também as minorias, os grupos
vulneráveis e seus direitos específicos.

Na Seção 3.2, estudaremos a promoção da igualdade


e da diversidade por meio do combate ao preconceito e
à discriminação. Tomaremos como exemplo o caso da
diversidade de gênero e de orientação sexual.

E finalmente, na Seção 3.3, estudaremos duas teorias que


vão ajudá-lo a pensar de maneira a compreender e considerar
o outro em suas decisões: a faculdade de julgar de Hannah
Arendt e a teoria do reconhecimento. Veremos também alguns
instrumentos que podem ajudá-lo a promover os direitos
humanos em suas atividades.
Seção 3.1
Proteção de grupos vulneráveis
Diálogo aberto

Situação-problema
Enquanto gestor da equipe de segurança do shopping center, você
é notificado pelo gerente que haverá, no próximo fim de semana, um
encontro (rolezinho) que trará uma grande quantidade de jovens ao
shopping. Você precisa orientar seus funcionários em como garantir
a segurança do shopping e de seus estabelecimentos comerciais
respeitando os direitos humanos dos jovens e outros frequentadores
do estabelecimento. Considerando o perfil diversificado dos jovens
e dos outros frequentadores do shopping, as orientações devem
contemplar alguns grupos vulneráveis:
- Pessoas portadoras de necessidades especiais.
- Crianças e adolescentes.
- Pessoas idosas.
- Mulheres.
Para resolver essa situação que propomos agora, você encontrará
as informações necessárias fazendo a leitura do "Não pode faltar".
Vamos começar?

Não pode faltar


A quem os direitos humanos são dirigidos e quem são seus
titulares?
Caro aluno, primeiramente, devemos lembrar, como vimos
na primeira unidade, que com a assinatura da Carta das Nações
Unidas, em São Francisco, em 1945, a comunidade internacional se
comprometeu com o propósito de promover e encorajar o respeito
aos direitos humanos e as liberdades fundamentais de todos, sem
distinção de raça, sexo, língua ou religião. Foi nesse sentido que a
Comissão dos Direitos Humanos (CDH) recebeu a incumbência de
elaborar uma Carta Internacional de Direitos. A Comissão, assim,

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 139


iniciou seus trabalhos para elaboração do que seria a Declaração
Universal dos Direitos Humanos.
Como já vimos, o século XX trouxe experiências, em particular
o totalitarismo, que tornaram necessário que se repensasse o ser
humano e sua relação com o mundo. A ciência e a técnica haviam
sido utilizadas para a legitimação dos crimes mais brutais e irracionais.
Foi em nome da racionalidade moderna que o terror foi praticado
com base na legalidade, por meio da burocracia e da ideologia
(LAFER, 1988).
A Declaração Universal dos Direitos Humanos seria a primeira
resposta jurídica da comunidade internacional à negação, em larga
escala, do direito de todo ser humano à hospitalidade universal.
Observamos que esse direito foi desrespeitado na Segunda Guerra
pela existência de refugiados, apátridas, deslocados, campos de
concentração e pelo genocídio (ALVES, 1994). Bastava, portanto,
desnacionalizar um cidadão para que ele perdesse a proteção dos
direitos nacionais e pudesse então ser expulso, deportado, internado
em campos de concentração e, no limite, assassinado.

Reflita
Você acredita que hoje em dia o direito à hospitalidade universal
é respeitado? E por quê? Você poderá pensar a respeito disso ao
tomar como exemplo o caso bastante recente e atual da guerra da
Síria e os movimentos migratórios desse país em direção à Europa,
principalmente, formados por refugiados dessa guerra. Você acredita
que exista essa hospitalidade universal pelos países europeus em receber
esses refugiados?

Pesquise mais
Você poderá encontrar mais detalhes sobre o conceito de hospitalidade
universal na obra do filósofo alemão Immanuel Kant, À Paz Perpétua.
Assista a uma breve explicação sobre esse conceito no vídeo a seguir,
que trata do assunto a partir dos conceitos de “posse comunitária da
terra” e “obrigação de convivência de um ser humano para com o outro”.
Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=kGRCkk3xM5w>.
Acesso em: 4 jul. 2017.

140 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


Lembramos, assim, que a Declaração Universal dos Direitos
Humanos definiu, pela primeira vez em nível internacional, como
um “padrão comum de realização para todos os povos e nações”,
os direitos humanos e liberdades fundamentais – noções até então
difusas, tratadas apenas, de maneira não uniforme, em declarações
e legislações nacionais (ALVES, 1994, p. 46). Mas a quem esse
documento é dirigido? Aos Estados? Às pessoas?
A emergência dos direitos humanos nas relações internacionais
após a Segunda Guerra Mundial é tida como uma verdadeira
revolução, visto que teria colocado a pessoa humana no primeiro
plano do direito internacional, sendo que antes esse domínio era
reservado exclusivamente aos Estados. Norberto Bobbio (2004, p.
51) percebe que a Declaração Universal representa o início de um
processo pelo qual os direitos humanos deixam de ser direitos do
cidadão nacional para se tornarem direitos do “cidadão do mundo”.
A Declaração Universal opera uma transformação significativa,
abolindo, no plano ideal, a barreira existente entre o Estado e a
sociedade civil. Nesse sentido, destina-se não exclusivamente ao
Estado, ou à garantia dos direitos dos cidadãos vinculados a ele, mas
sim a todos os povos e todas as nações, bem como a cada indivíduo
e cada órgão da sociedade. Assim, a Declaração Universal e os
direitos humanos de forma geral são dirigidos a todos nós, e todos
temos a responsabilidade de fazer com que estes sejam respeitados
em nosso cotidiano e colaborar para que eles sejam realizados.
Agora, perguntamos: quando a Declaração Universal dos Direitos
Humanos foi redigida, o que se esperava de seus destinatários?
O preâmbulo da Declaração faz questão de lembrar que “o
desrespeito e o desprezo pelos direitos humanos resultaram em atos
bárbaros que ultrajaram a consciência da humanidade”. Isso porque
a principal motivação da ONU e da Declaração é impedir que atos
como aqueles venham a se repetir.
Inicialmente, como diversos momentos do preâmbulo da
Declaração fazem referência ao comprometimento dos Estados em
relação aos direitos humanos estabelecidos na Carta das Nações
Unidas, esperava-se que seu parágrafo pragmático orientasse à ação
legislativa; como se a Declaração constituísse um padrão a ser seguido
nas legislações e codificações por todos os Estados-Membros das
Nações Unidas. No entanto, os redatores perceberam que seria mais

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 141


adequado incorporar princípios relativos aos deveres dos Estados em
um novo documento, mais apropriado. Como vimos, os instrumentos
que cumpriram esse papel foram o Pacto Internacional dos Direitos
Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos,
Sociais e Culturais.
Abandonada a ação legislativa como o principal objetivo explícito
da Declaração, era necessário que os redatores confiassem em seu
propósito educativo como a principal razão para a proclamação do
documento. Pode-se dizer que a Declaração de 1948 é proclamada
como um padrão para os objetivos educacionais explícitos, bem
como para os objetivos legislativos nela implícitos (MORSINK,
1999.) Por esse motivo, a realização dos direitos humanos depende
não apenas da internalização da legislação internacional nos
ordenamentos jurídicos domésticos, mas principalmente, e antes
de tudo, da internalização desses direitos como princípios éticos,
de maneira refletida e crítica. Apenas assim esses direitos passarão a
orientar intimamente nossas vidas e nossas ações.
Minorias e grupos vulneráveis
Como já estudamos, o direito à igualdade – nos documentos
internacionais e na Constituição Federal – não se limita ao postulado
da igualdade formal, ou seja, a igualdade de todos perante a lei, mas
procura absorver a concepção da igualdade material, a igualdade na lei
e a igualdade de proteção da lei, na medida em que se postula uma
ordem social propícia à realização dos direitos do ser humano (Art.
28, da Declaração Universal dos Direitos Humanos). Para a realização
desse direito é preciso, portanto, dar especial atenção às minorias e aos
grupos que se encontram em uma situação de vulnerabilidade. O Pacto
Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (Art. 27) estabelece que

[n]os Estados em que haja minorias étnicas, religiosas ou


linguísticas, as pessoas pertencentes a essas minorias não
poderão ser privadas do direito de ter, conjuntamente com
outros membros de seu grupo, sua própria vida cultural, de
professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua.

Em primeiro lugar, o que seriam minorias?


É importante observar que não há uma definição legal do termo
“minoria”, sendo que cada Estado costuma identificar suas minorias.
No Brasil, a Constituição Federal só garante expressamente a proteção

142 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


aos grupos indígenas e, no aspecto cultural, aos afro-brasileiros. No
entanto, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(PNUD) estabelece alguns critérios para identificar minorias, centrados
principalmente:
1. No compartilhamento de certas características pelo grupo,
como etnia, origem nacional, cultura, língua ou religião.
2. Em seu autorreconhecimento como um grupo e o desejo
de preservar sua identidade enquanto grupo.
3. Em sua dificuldade em acessar instâncias de poder político.
4. Em sua situação de vulnerabilidade social e política.
Os direitos específicos das minorias seriam, em síntese: o direito
à existência, a não discriminação, à proteção de sua identidade e à
participação na vida pública e na tomada de decisões que os afetem.
Esses direitos estão expressos no artigo 27, do Pacto Internacional
sobre Direitos Civis e Políticos, na Convenção para a Eliminação de
Todas as Formas de Discriminação Social e na Declaração sobre os
Direitos das Pessoas Pertencentes a Minorias Nacionais ou Étnicas,
Religiosas e Linguísticas.

Reflita
Assista ao vídeo do professor Gilberto Rodrigues sobre os direitos das
minorias:
RODRIGUES, G. Quais são os direitos das minorias? Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=Y5hoPS-mQsc>. Acesso em: 13
jun. 2017.

Existem, no entanto, grupos ou pessoas que, embora não possam


ser classificados como minorias ou pertencentes a minorias, se
encontram em uma situação de vulnerabilidade particular e devem
ser, portanto, protegidas pelo Estado, pela legislação e por todos.
A vulnerabilidade social, econômica ou política pode tornar os
indivíduos mais sujeitos à exclusão, à discriminação e a terem seus
direitos humanos violados.

Direitos das mulheres (combate à violência de gênero)


Caro aluno, você acaba de ver que os direitos humanos passaram
a ser vistos, na comunidade internacional, como sendo pertencentes

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 143


diretamente aos seres humanos, independentemente da atuação
estatal. Além disso, verifica-se também que existem determinados
grupos de pessoas que, tendo em vista sua condição e especificidade,
requerem proteção especial que lhes seja diretamente direcionada,
por, muitas vezes, estarem em uma situação de vulnerabilidade social.
Assim, trataremos de alguns grupos de pessoas que possuem
condições especiais e que requerem uma maior atenção para a
proteção de seus direitos humanos.
No caso dos direitos das mulheres, existem, no plano internacional,
algumas convenções que começaram a reconhecer tais direitos
específicos no campo dos direitos humanos. Este movimento
consagrou a noção de que os direitos humanos das mulheres
constituem uma parcela indivisível, integral e inalienável de todos os
direitos humanos. Esta noção, por sua vez, passou a ser reconhecida
a partir da Declaração e Programa de Ação de Viena, em 1993. A
herança dessa Declaração possui dois aspectos: (i) a universalidade
e indivisibilidade dos direitos humanos previstas pela Declaração
Universal de Direitos Humanos de 1948; e (ii) atenção especial aos
direitos das mulheres com as especificações de direitos que suas
titulares exigem.
É importante você saber também que recentemente a proteção
internacional dos direitos humanos das mulheres está centrada em
três questões: (i) discriminação contra a mulher; (ii) violência contra
a mulher; e (iii) direitos sexuais e reprodutivos. São exemplos de
documentos internacionais sobre a proteção de direitos nessas três
áreas os seguintes:
- Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
contra a Mulher (1979).
- Declaração e Programa de Ação de Viena (1993).
- Conferência sobre População e Desenvolvimento do Cairo
(1994).
- Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a
Violência contra a Mulher (1994).
- Declaração e a Plataforma de Ação de Pequim (1995).
A Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
contra a Mulher de 1979 (Convenção da Mulher) foi adotada com
alcance global pela Assembleia Geral das Nações Unidas (sistema

144 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


global de proteção de direitos humanos) e definiu, pela primeira
vez, o que é a discriminação contra a mulher: toda ação que tenha
por objetivo distinguir, excluir ou restringir, com fundamento no
sexo ou que tenha por finalidade causar prejuízo ou anulação do
reconhecimento, gozo ou exercício pela mulher, qualquer que seja
seu estado civil, dos direitos humanos e liberdades fundamentais nas
áreas política, econômica, social, cultural, civil ou em qualquer outra
campo.
A Convenção da Mulher possui duas grandes finalidades,
quais sejam: (i) a promoção dos direitos da mulher para se obter a
igualdade de gênero (sem diferenciações entre homens e mulheres)
e a repressão de qualquer tipo de discriminação contra a mulher
nos Estados que são signatários da Convenção. Essa convenção é
considerada como o marco regulatório dos direitos humanos das
mulheres: a partir dela, outros instrumentos internacionais surgiram
e as ações estatais, internamente, passaram a ser realizadas para a
promoção e efetivação desses direitos.
A Convenção também obriga os Estados signatários a adotarem
medidas legais, políticas e programáticas referentes a todos os
aspectos das vidas das mulheres, desde casamento, relações
familiares, discriminação no mercado de trabalho ou pelo próprio
Estado. Essas medidas deverão ser tomadas junto aos três poderes. No
Legislativo, por meio de adoção de legislação que preveja os padrões
de igualdade de gênero previstos por instrumentos internacionais.
No Executivo, através de políticas públicas que efetivem os direitos
das mulheres (ações programáticas e afirmativas nesse sentido). E,
por fim, no Judiciário, a conferência de proteção aos direitos das
mulheres por meio de aplicação nos julgamentos (fundamentação
das decisões judiciais) dos documentos internacionais que protegem
os direitos humanos nesse sentido.
No âmbito do sistema regional, sistema interamericano de
proteção dos direitos humanos, temos a Convenção Interamericana
para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, de 1994
(Convenção de Belém do Pará). Essa convenção trata especificamente
do tema da violência contra a mulher, que é definida, em seu
Art. 1°, como sendo: “qualquer ato ou conduta baseada no gênero,
que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico
à mulher, tanto na esfera pública quanto na esfera privada.” E, ainda,

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 145


também prevê que esse tipo de violência pode ocorrer dentro
da família ou da residência em que a mulher habite junto àquela
ou em qualquer relação interpessoal que a mulher mantenha,
independentemente de o agressor compartilhar ou não da mesma
residência que a mulher agredida, incluindo-se ainda outras formas
de violência, tais como estupro, maus tratos e abuso sexual.
Trata-se do primeiro tratado internacional que reconhece a
proteção dos direitos humanos da mulher em relação à violência por
ela sofrida como sendo um fenômeno global e que pode alcançar
todas as mulheres, independentemente de sua classe social, raça,
religião, idade ou qualquer outro tipo de condição. A Convenção de
Belém do Pará ainda afirma que a violência sofrida pela mulher é de
grande gravidade de violação dos direitos humanos e da dignidade
humana. A Convenção ainda prevê a possibilidade de que sejam
endereçadas petições por indivíduos ou grupos de indivíduos à
Comissão Interamericana de Direitos Humanos, relacionadas à
demora ou omissão dos Estados americanos em relação a práticas
de prevenção, de investigação ou de punição de atos violentos
cometidos contra as mulheres. É importante também que você saiba
que o Estado poderá ser punido em relação a atos de violência contra
a mulher que sejam cometidos tanto por agentes públicos quanto
por particulares.

Exemplificando
Você sabe qual é a origem da Lei Maria da Penha (Lei Federal nº
11.340/2006)? A Lei Maria da Penha foi aprovada no Brasil após solicitação
da Comissão Interamericana de Direitos Humanos para que a justiça
julgasse o caso de diversas tentativas de homicídio à vítima, Maria da
Penha, por seu companheiro. A justiça penal brasileira demorou 15 anos
para dar uma sentença judicial conclusiva ao caso. Foi nesse sentido que
a Comissão Interamericana agiu, pela demora do Estado brasileiro em
tomar providências em uma questão ligada à violência praticada contra
uma mulher brasileira.

No Brasil, a Constituição Federal de 1988 prevê a igualdade


entre homens e mulheres. É a redação do seu Art. 5º, I, que prevê
que tanto os homens quanto as mulheres possuem igualdade
de direitos e de obrigações, e também que essa igualdade é

146 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


extensível ao âmbito familiar, dentro da sociedade conjugal (Art.
226, § 5º). A Constituição Federal também proíbe qualquer tipo de
discriminação no mercado de trabalho entre homens e mulheres
quanto à diferença salarial, ao exercício de funções ou ao critério
de admissão. Além disso, quanto à questão de violência contra a
mulher, a Constituição, em seu Art. 226, § 8º, prevê que o Estado
criará mecanismos para coibir esse tipo de violência praticado no
âmbito familiar. Por fim, a Constituição Federal ainda prevê que o
Estado fornecerá os instrumentos adequados para o planejamento
familiar como algo sendo de livre decisão do casal, devendo, para
tanto, prover recursos educacionais e científicos para este fim,
sendo vedado qualquer tipo de conduta coercitiva neste assunto
por parte de instituições oficiais ou privadas.
Agora, caro aluno, passaremos à análise de duas medidas
legislativas adotadas pelo Brasil, internamente, para tentar
evitar a violência contra a mulher. A primeira é a Lei Federal nº
11.340/2006, muito conhecida pelo nome de Lei Maria da Penha,
em alusão à vítima de violência doméstica, Maria da Penha, que,
como dissemos anteriormente, teve uma longa espera, de 15 anos,
para que seu caso de diversas tentativas de homicídio, praticadas
pelo seu companheiro, fosse finalmente julgado. A Lei Maria da
Penha cria mecanismos de proteção especial à mulher (ao gênero
feminino) nos casos em que possa ser considerada vulnerável
quando estiver em determinadas situações previstas por essa lei,
violência por ela sofrida em: (i) ambiente doméstico; (ii) âmbito
familiar; ou (iii) relação íntima de afeto. É importante que você saiba
que esta lei se trata de uma ação afirmativa do Estado brasileiro, em
que é feita uma discriminação positiva a partir da qual se objetiva
evitar situações de desigualdades entre as pessoas para atingir
a igualdade prevista pela Constituição Federal entre homens e
mulheres. Por essa lei, o agressor poderá ser condenado a até três
anos de prisão, além de poder ser decretada sua prisão preventiva
nos casos de risco à integridade física ou psíquica da mulher. Há
a previsão de quais são os tipos de violência que a mulher poderá
sofrer, além das situações, como dissemos: física, psicológica,
sexual, patrimonial e moral. Além disso, a lei também prevê um
programa especial de proteção à vítima, em caso de risco de morte,
o encaminhamento para atendimento médico especializado, seu
envio para exames de corpo de delito, acompanhamento policial

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 147


para quando necessitar deixar seu lar e recolhimento de pertences
pessoais, além de informação a respeito de seus direitos e dos
tipos de reparação.
E recentemente, em 2015, foi aprovada a Lei Federal nº
13.104/2015, que alterou o Código Penal, assim como a Lei de
Crimes Hediondos, prevendo o crime de feminicídio, ou seja,
homicídio praticado contra a mulher pelo fato de ser do sexo
feminino (trata-se de previsão de homicídio qualificado). A lei
considera como razões para a prática deste crime quando: (i)
há violência praticada no âmbito doméstico e familiar; ou (ii)
menosprezo ou discriminação em relação à mulher.

Pesquise mais
Em uma recente decisão judicial, no Estado do Rio de Janeiro, a Lei Maria
da Penha foi aplicada em um caso envolvendo uma transexual. Sua mãe foi
proibida de se aproximar dela, em um raio de 500 metros, por tê-la internado
forçadamente em uma clínica psiquiátrica, privando-a da convivência com
sua companheira, além de amigos e familiares. Agrediu também a vítima.
A justificativa para a aplicação da lei, segundo o juiz do caso, é que a Lei
Maria da Penha protege a cidadã do gênero feminino contra qualquer ato
violento, ainda que o agressor seja do sexo feminino. Além disso, concluiu
que, em uma sociedade machista, comportamentos violentos e do mesmo
tipo podem e são, muitas vezes, repetidos por mulheres.
O GLOBO. Mãe que internou filha ‘trans’ é proibida de se aproximar dela
pela Lei Maria da Penha. 05/06/2017. Disponível em: <https://oglobo.
globo.com/brasil/mae-que-internou-filha-trans-proibida-de-se-aproximar-
dela-pela-lei-maria-da-penha-21437280#ixzz4jAT9XxS0>. Acesso em: 20
jun. 2017.
Essa discussão permanece bastante atual para tratarmos do assunto sexo
biológico versus identidade de gênero. O primeiro, enquanto dado natural,
não necessariamente corresponderá à identidade de gênero do indivíduo,
pois esta é uma construção social. Além disso, a experiência de cada ser
humano, a forma como ele se identifica, poderá corresponder ou não ao
seu sexo biológico, que somente pode ser feminino ou masculino. Você
poderá ver maiores detalhes sobre o assunto no link da notícia que trata de
caso semelhante sobre a aplicação da Lei Maria da Penha em uma situação
de agressão a uma transexual por seu companheiro: <http://www.migalhas.
com.br/Quentes/17,MI240416,21048-Lei+Maria+da+Penha+pode+ser+ap
licada+em+favor+de+transexual>. Acesso em: 4 jul. 2017.

148 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


E antes de iniciarmos este trecho e de partirmos para o próximo
grupo que necessita de proteção especial e de reconhecimento
de direitos humanos, falaremos sobre o direito ao aleitamento
materno em locais públicos e privados.
Não é raro que mães com bebês recém-nascidos ou muito
pequenos, quando estejam nesses locais, necessitem se despir
parcialmente para alimentar seus filhos, que, mesmo sendo
crianças, são sujeitos de direitos e têm direito à alimentação
desde o seu nascimento. Dessa maneira, não se pode falar em ato
obsceno praticado por mães que estejam nesse estado. A garantia
do direito à alimentação das crianças é fundamental para o seu
desenvolvimento e crescimento.
Dessa maneira, como estímulo e manutenção do direito à
alimentação dessas crianças, o Estado de São Paulo, recentemente,
aprovou a Lei Estadual nº 16.047/2015, que garante à mãe e à criança
a amamentação como sendo ato livre e discricionário existente
entre mãe e filho, independentemente da existência ou não de áreas
segregadas e específicas para tanto. Trata-se de uma lei que incentiva
e promove o direito à amamentação, já previsto no Estatuto da
Criança e do Adolescente, e também como uma das recomendações
da Organização Mundial da Saúde pela amamentação sob livre
demanda (que é aquela que ocorre naturalmente de acordo com as
necessidades da criança no momento).

Assimile
Ainda veremos, na última seção da Unidade 4, a questão de conflitos
de direitos. Mas é bom que você já tenha em mente que, no caso de
aleitamento materno, pela regra da proporcionalidade, e como maneira de
se resolver o conflito entre o direito à alimentação da criança e a proteção
contra atos obscenos em público, privilegia-se o direito à alimentação da
criança neste caso. Isto se deve ao fato de o propósito de se alimentar a
criança ser louvável em relação a uma aparente obscenidade praticada
pela sua mãe, ao ter de despir-se parcialmente em local público para
fazê-lo. Não há a prática de ato obsceno: o propósito da alimentação da
criança desqualifica e invalida essa eventual obscenidade, pois se trata
de um ato que não pode ser enquadrado como ato obsceno, uma vez
que o propósito é alimentar uma criança, e que não há outra alternativa,
portanto, pelo fato de ela necessitar do aleitamento materno.

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 149


Direitos das crianças e dos adolescentes
Ainda com relação aos grupos de proteção especial de direitos
humanos, temos a situação das crianças e dos adolescentes. Até
pouco tempo, no Brasil, eles eram consideradas pela sociedade em
geral como indivíduos em situação de inferioridade tanto de direitos
quanto de dignidade. Porém, essa situação foi modificada após a
promulgação da Constituição Federal de 1988, bem como da Lei
Federal nº 8.069/1990, conhecida como Estatuto da Criança e do
Adolescente, e da ratificação, pelo Brasil, da Convenção sobre os
Direitos da Criança, de 1989 (Decreto Federal nº 99.710/1990).
Foi inserida no nosso ordenamento jurídico a noção de que a
criança é também um sujeito de direito, que necessita de proteção
especial. Segundo nossa legislação, são consideradas crianças as que
possuam até 12 anos incompletos, e adolescentes, entre 12 anos e 18
anos incompletos.
A Constituição Federal, em seu Art. 227, estabelece que se trata de
dever da família, da sociedade e do Estado a garantia a toda criança,
adolescente e jovem, com total prioridade, os direitos: à vida, à saúde,
à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao
respeito, à liberdade e à convivência comunitária e familiar. Além
disso, coloca também que toda criança e adolescente deverão estar
a salvo de qualquer tipo de discriminação, negligência, exploração,
violência, crueldade e opressão.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é uma lei
federal que regulamenta todos esses direitos humanos e garantias
fundamentais conferidos a toda e qualquer criança ou adolescente
brasileiros. Você deverá saber que se aplica aos direitos das crianças
e dos adolescentes o princípio geral do melhor interesse da
criança (Art. 100, parágrafo único, IV, do ECA). Apesar de ser o que
chamamos de cláusula geral (ou aberta), é um princípio que será
aplicado e interpretado de acordo com cada caso, pois se trata de
um princípio voltado à interpretação do Direito (ou, como também
chamamos, hermenêutico). Portanto, todos os direitos das crianças
e dos adolescentes deverão ser interpretados com base no princípio
geral de serem atendidos de acordo com o melhor interesse da
criança, ou o interesse maior da criança. Leia-se: o que melhor lhe
propicie condições de desenvolvimento e de atendimento a uma vida
saudável, equilibrada, plena e feliz.

150 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


Exemplificando
Você sabia que deve evitar utilizar os termos “menor” ou “menor de
idade” para se referir às crianças e aos adolescentes? Eles têm cunho
pejorativo, pois dão a ideia de que são indivíduos que não possuem
capacidade alguma, que estão em uma situação de inferioridade. E isto
não é verdade. Como acabamos de ver, nossa Constituição e o ECA
passaram a considerar tanto a criança quanto o adolescente como
sendo sujeitos de direitos.

Exemplificando
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos recebeu uma
denúncia quando houve o assassinato de oito crianças e adolescentes
nas proximidades da Igreja Candelária, no centro da cidade do Rio de
Janeiro, em 1993. Já a Corte Interamericana de Direitos Humanos foi
acionada no caso, envolvendo o Governo do Distrito Federal, quando
ocorreu a morte de jovens em um centro de internação para o
cumprimento de medidas socioeducativas. O governo foi condenado
por omissão e descaso, sendo obrigado a construir um novo centro de
internação e a fechar o outro por precariedade de suas instalações.

Direitos dos idosos


Agora, caro aluno, veremos outro grupo de indivíduos que
também necessitam de direitos humanos e proteção que lhes
sejam especialmente dirigidos em virtude de sua vulnerabilidade: os
idosos ou pessoas idosas. Nossa Constituição Federal de 1988, em
seu Art. 230, estabelece que é dever da família, da sociedade e do
Estado fornecer todo apoio e amparo às pessoas idosas, de modo
a lhes garantir participação na vida comunitária, preservando-se sua
dignidade, bem-estar e o direito à vida. Além disso, prevê também que
os programas de amparo à população idosa serão, preferencialmente,
realizados em seus lares e que, aos maiores de 65 anos, é garantida a
gratuidade dos transportes coletivos urbanos.
Contudo, você deve se lembrar que, recentemente, no Brasil,
houve a aprovação e promulgação da Lei Federal nº 10.741/2003,
conhecida como Estatuto do Idoso, que regulamentou, em nível
infraconstitucional, aqueles direitos citados anteriormente.

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 151


No Brasil, de acordo com o Estatuto do Idoso, considera-se idosa
toda pessoa com idade igual ou superior a 60 anos. Ele prevê dois
princípios que são norteadores de todos os direitos especiais que estão
ali consubstanciados: (i) a proteção integral; e (ii) absoluta prioridade
do idoso. A proteção integral encerra a noção de que todos os direitos
humanos e fundamentais da pessoa idosa, ou seja, seus direitos civis,
políticos, sociais, econômicos e culturais deverão ser observados
de modo que o idoso tenha liberdade e dignidade. A absoluta
prioridade se refere à obrigatoriedade de a família, a sociedade e o
Estado tratarem com primazia a realização e observação dos direitos
dos idosos à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao
esporte, ao lazer, ao trabalho, à dignidade, à liberdade e à convivência
em família e em comunidade.

Reflita
Como já vimos anteriormente, as crianças e os adolescentes também
estão sujeitos à proteção integral de seus direitos pelo Estado. Você já parou
para pensar, em um caso concreto, se os direitos de uma criança e de um
idoso estivessem sendo questionados, qual ou quais deles prevaleceriam
um em relação ao outro? Como você decidiria a esse respeito e a quem
daria prioridade se tivesse de escolher entre um e outro?

Além disso, a prioridade que o Estatuto do Idoso prevê também


é endereçada ao Estado, que deverá formular políticas públicas que
priorizem o atendimento da população idosa, seja mediante realização
de novas ações ou por meio de destinação de recursos públicos às
já existentes. A prioridade ainda se refere ao tratamento preferencial
e prioritário por todos os órgãos públicos e privados prestadores de
serviços no atendimento à população idosa.
O Estatuto do Idoso passou a tipificar, em âmbito penal (sinônimo de
considerar determinadas condutas como sendo criminosas e passíveis
de pena privativa de liberdade), alguns crimes praticados contra a
pessoa idosa. Alguns exemplos de crimes contra a pessoa idosa:
• discriminação contra a pessoa idosa, por motivo de idade,
e que lhe dificulte o acesso ou a realização de operações
bancárias, ou aos meios de transporte, ou ao direito de
contratar, ou por qualquer outro meio ou instrumento para o
exercício da cidadania;

152 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


• deixar de auxiliar o idoso, quando for possível, sem que haja
risco pessoal, quando estiver em situação de iminente perigo,
ou se recusar, retardar ou dificultar a assistência à saúde do
idoso, sem qualquer justificativa, ou não pedir socorro a uma
autoridade pública;
• abandonar o idoso em hospitais, casas de saúde ou outros
locais de longa permanência ou não fornecer meios para
satisfazer suas necessidades básicas quando obrigado por lei
ou mandado judicial;
• colocar o idoso em situações que fique exposto ao perigo,
tanto de sua saúde quanto de sua integridade física ou psíquica,
em situações desumanas ou degradantes, ou ainda, privá-lo de
alimentos e cuidados necessários quando estiver obrigado a
fazê-lo, ou ainda, sujeitá-lo a trabalho excessivo ou inadequado.
Vale lembrar que todos estes crimes independem de vontade da
vítima para que o agressor ou réu sejam denunciados/acusados (é
o que chamamos de crimes definidos como sendo de ação penal
pública incondicionada, caberá ao Ministério Público realizar a
propositura dessas ações judiciais criminais, por meio de denúncia).

Direitos de portadores de necessidades especiais


Com relação às pessoas portadoras de necessidades especiais, que
possuam algum tipo de incapacidade ou de deficiência, a previsão,
proteção e garantia de direitos humanos e fundamentais que lhes
sejam especialmente destinados não seriam diferentes.
No sistema regional de proteção dos direitos humanos, temos a
Convenção Interamericana sobre a Eliminação de Todas as Formas
de Discriminação contra Pessoas Portadoras de Deficiências, de 1999,
promulgada pelo Brasil por meio do Decreto nº 3.956/2001. Neste
instrumento internacional, os Estados signatários se comprometem a
combater e erradicar toda e qualquer forma de discriminação contra
as pessoas portadores de alguma deficiência por meio de ações
estatais, seja em âmbito legislativo, executivo ou judiciário. Define
como discriminação contra as pessoas portadoras de deficiência “[...]
toda diferenciação, exclusão ou restrição baseada em deficiência,
antecedente de deficiência, consequência de deficiência anterior ou
percepção de deficiência presente ou passada, que tenha o efeito ou

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 153


propósito de impedir ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício
por parte das pessoas portadoras de deficiência de seus direitos
humanos e suas liberdades fundamentais” (Art. 1°, 2, “a”).
Nossa Constituição Federal de 1988 trata dos direitos das pessoas
portadoras de alguma deficiência relacionados à sua educação,
assistência, reabilitação, proibição de discriminação e acessibilidade.
Passamos agora à enumeração de alguns direitos previstos pela
Constituição Federal de 1988 destinados à pessoa portadora de
deficiência:
• é vedado qualquer tipo de discriminação que impeça o
acesso da pessoa com deficiência ao mercado de trabalho (Art.
7º, XXXI);
• caberá à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos
Municípios cuidarem da saúde e da assistência pública daquelas
pessoas que sejam portadoras de algum tipo de deficiência
(Art. 23, II);
• caberá a todos estes entes legislar de maneira concorrente
sobre integração social das pessoas com deficiência (Art. 24,
XIV);
• garantia de percentual especialmente destinado às pessoas
portadoras de alguma deficiência, por meio de lei, para cargos
e empregos públicos (Art. 37, VIII);
• assistência social deverá ser prestada independentemente
de contribuição à seguridade social também às pessoas com
deficiência, de modo a lhe prover habilitação, reabilitação e
integração à vida em comunidade e concessão de um salário
mínimo como benefício mensal ao portador de deficiência
que comprove não ter meios de sustento ou de auxílio pela
família (Art. 203, IV e V).
Além disso, é importante que você saiba que atualmente, no Brasil,
temos uma lei federal de acessibilidade, que garante o direito de acesso
e a supressão de quaisquer obstáculos, em quaisquer construções
nos espaços públicos, mobiliário urbano, reforma e construção de
prédios ou outros tipos de comunicação, pelas pessoas portadoras
de alguma deficiência ou com mobilidade reduzida. Trata-se da Lei
Federal nº 10.098/2000.
Por fim, queremos deixar claro, antes de encerrarmos esta seção,

154 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


que esses direitos, que podem ser considerados especiais em relação
aos demais direitos humanos e fundamentais, não podem ser
considerados como discriminatórios ou que concedam privilégios
ou benefícios a determinadas parcelas da população em detrimento
dos demais. Tenha sempre em mente que todas as pessoas que
pertençam a esses grupos, que possuam certas características e
condições, necessitam dessa proteção especial exatamente porque
se encontram em uma situação de vulnerabilidade em relação aos
demais seres humanos. Não se trata de benesse, favor, benefício
exclusivo, mas sim de reconhecimento das necessidades do outro
que, por possuir determinada condição ou estar inserido em uma
situação diversa, precisa de um atendimento e de reconhecimento
diferenciado.

Sem medo de errar


Em primeiro lugar, é preciso considerar sua responsabilidade,
enquanto gestor de segurança, na proteção e preservação dos
direitos humanos. É preciso esclarecer que a segurança privada não
age baseada no sistema de justiça criminal formal, como é o caso da
polícia, mas segundo um contrato estabelecido com seu empregador,
assim como por leis e regulamentos especiais. A principal lei que
regulamenta a segurança privada no Brasil é de 1983, a Lei nº 7.102, ou
seja, é anterior à Constituição de 1988, que prevê os nossos direitos
fundamentais. No entanto, como vimos nas unidades anteriores e
especialmente nesta seção, os direitos humanos e fundamentais são
dirigidos a todos, não apenas ao Estado, como a todos os agentes
da sociedade, principalmente quando estes exercem uma função
pública, como é o caso da segurança dos cidadãos. Desse modo, as
condutas dos agentes de segurança devem ser pautadas pelos direitos
humanos e fundamentais, e você, como gerente de segurança, deve
garantir que esses direitos sejam respeitados por seus funcionários,
assim como deve promover um controle interno.
Embora não seja previsto de maneira explícita pela Lei nº
7.102/1983 o respeito aos direitos humanos no exercício das atividades
de segurança privada, as normas que regulamentam a formação dos
agentes de segurança privada preveem que estes aprendam sobre
direitos humanos, ou seja, aqui também confia-se na educação e na

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 155


formação da personalidade como meio de promoção dos direitos
humanos, de modo que os direitos humanos sejam incorporados às
práticas cotidianas dos agentes de segurança e à sua ética de maneira
geral.
No entanto, é preciso observar que recentemente, em 2016, foi
aprovado na Câmara dos Deputados um Projeto de lei que propõe
uma nova regulamentação para a segurança privada, o Estatuto
da Segurança Privada, que prevê como um dever dos vigilantes o
respeito à dignidade e à diversidade da pessoa humana.
Desse modo, no caso da situação-problema acima, não apenas
como gestor de segurança, você pode promover medidas educativas
contínuas para reforçar e encorajar o respeito aos direitos humanos
dos funcionários, como é possível que se criem mecanismos de
controle interno das práticas dos agentes de segurança pública em
respeito aos direitos humanos, como sanções internas no caso de
desrespeito aos direitos humanos e premiação, além, é claro, da
garantia da dignidade das condições de trabalho dos vigilantes e de
uma remuneração digna.
No caso específico do mencionado “rolezinho”, seria interessante
que se reforçassem essas medidas continuadas com instruções
pontuais sobre os direitos que protegem as minorias e os grupos
vulneráveis, além de se ter uma conversa a respeito desse recente
fenômeno com os funcionários para que todos compreendessem o
contexto em que isso se dá e pudessem lidar melhor com a situação.

Avançando na prática
Direitos das mulheres: o direito à amamentação

Descrição da situação-problema

Você é agente de segurança de um equipamento público


cultural e recebe a reclamação de um usuário de que há uma mãe
amamentando seu bebê em uma das alas do museu da instituição. O
usuário diz estar ofendido e alega que a amamentação em público
é um atentado ao pudor e à moral, solicitando que você tome uma
providência. Nesse caso, qual seria a providência a ser tomada?

156 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


Resolução da situação-problema
Você deverá explicar ao usuário do museu da instituição que
reclama do ato de amamentação como algo que caracteriza
atentado ao pudor que o direito à amamentação é garantido,
no Brasil, por leis específicas. É o caso do Estatuto da Criança
e do Adolescente, que já prevê o direito à amamentação sob
livre demanda, assim como a Lei do Estado de São Paulo nº
16.047/2015. Além disso, deverá argumentar com o usuário
que fez a reclamação que não há atentado ao pudor quando o
direito à alimentação da criança necessita ser realizado por meio
da amamentação por sua mãe, embora ela necessite se despir
parcialmente.

Faça valer a pena


1. Ao vincular o pleito dos direitos humanos à cidadania, arrisca-se, desse
modo, dificultar ou mesmo impedir sua realização. Esse risco que adquire
concretude principalmente após a Primeira Guerra Mundial, conforme
diagnostica Hannah Arendt, em sua obra As origens do Totalitarismo:

A segunda perda sofrida pelas pessoas destituídas de


seus direitos foi a perda da proteção do governo, e
isso não significava apenas a perda da condição legal
no próprio país, mas em todos os países. Os tratados
de reciprocidade e os acordos internacionais teceram
uma teia em volta da Terra, que possibilita ao cidadão
de qualquer país levar consigo a sua posição legal, para
onde quer que vá [...]. No entanto, quem está fora dessa
teia está fora de toda legalidade. (ARENDT, 2007, p. 327)

Considerando o texto acima, analise as seguintes afirmações e marque V


para verdadeiro e F para falso:
(.....) Os eventos da Segunda Guerra Mundial negaram, em larga escala, o
direito à hospitalidade universal.
(.....) O vínculo de cidadania a um Estado comprovou ser uma garantia
eficaz contra violações de direitos humanos.
(.....) O direito à hospitalidade universal é desrespeitado quando um país
decide não acolher refugiados de conflitos armados.

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 157


(.....) A emergência dos direitos humanos nas relações internacionais após
a Segunda Guerra Mundial alçou os Estados ao primeiro plano do Direito
Internacional.
Agora, assinale a única alternativa CORRETA:
a) V-V-F-F.
b) V-F-V-F.
c) V-V-V-F.
d) F-F-V-V.
e) F-V-F-V.

2.

Os esforços de governos para aprimorar o


desenvolvimento humano sustentável e promover
a inclusão e estabilidade são complementados e
fortalecidos com uma maior atenção à situação das
minorias e com a participação destas em tais esforços.
A marginalização das minorias étnicas, religiosas, e
linguísticas tem um impacto negativo significativo na
redução da pobreza, na governança democrática, na
sustentabilidade ambiental e na prevenção de conflitos.
(PNUD, 2010, tradução livre da autora)

Considerando a importância da proteção das minorias para o


desenvolvimento humano e para a efetivação dos direitos humanos,
o PNUD estabelece critérios para identificá-las. Quais desses itens
correspondem a esses critérios?
1. Compartilhamento de certas características pelo grupo.
2. Autorreconhecimento e desejo de preservar a identidade como grupo.
3. Número de pessoas pertencentes ao grupo.
4. Dificuldade de acessar instâncias de poder político.
5. Vulnerabilidade social e política.
Agora, assinale a única alternativa CORRETA:
a) 1; 2; 4; 5.
b) 3; 4; 5.
c) 1; 2; 5.
d) 1; 3; 4; 5.
e) Todos os itens.

158 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


3. “O Brasil é signatário de todos os acordos internacionais que asseguram
de forma direta ou indireta os direitos humanos das mulheres bem como
a eliminação de todas as formas de discriminação e violência baseadas no
gênero.” (BRASIL, 2006, p. 9)
“A adoção da Convenção da Mulher (CEDAW, sigla em inglês) foi o ápice
de décadas de esforços internacionais, visando a proteção e a promoção
dos direitos das mulheres de todo o mundo.” (BRASIL, 2006, p. 14)
Com base nos trechos acima e sobre os direitos humanos das mulheres,
julgue as afirmativas a seguir como verdadeiras (V) ou falsas (F):
I. Os direitos humanos das mulheres estão amplamente previstos
pela Constituição Federal de 1988 e também regulamentados por leis
infraconstitucionais, tais como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio,
sendo esta última a que passou a prever o homicídio de mulheres, motivado
por ódio, menosprezo ou discriminação contra a mulher, como homicídio
qualificado.
II. Os direitos humanos das mulheres objetivam a proteção das mulheres,
basicamente, em três assuntos: discriminação, violência contra a mulher e
planejamento familiar/direitos sexuais.
III. Os direitos humanos das mulheres não deveriam ser considerados, uma
vez que o direito à igualdade é previsto tanto para homens quanto para
mulheres, não permitindo quaisquer diferenciações.
Agora, assinale a única alternativa CORRETA:
a) V-F-V.
b) V-F-F.
c) F-F-V.
d) F-V-F.
e) V-V-F.

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 159


Seção 3.2
Princípio da igualdade e da não discriminação
Diálogo aberto

Caro aluno, nesta seção, você é o gestor de segurança privada de


um shopping center, localizado em uma região da cidade com poucos
equipamentos públicos de lazer e de cultura. O shopping center é,
portanto, uma alternativa de lazer para os moradores de toda a região
e que oferece, além das lojas, serviços de cinema, restaurantes, teatro
e espaços de convivência. Os frequentadores do shopping pertencem
a um público bastante diversificado (heterogêneo).
Nesse sentido, há pessoas de diferentes classes sociais, idades,
etnias e orientação sexual que frequentam o local diariamente.
Você, como segurança do shopping, enquanto andava pelo local,
assegurando a segurança dos lojistas e demais frequentadores, é
abordado por uma senhora, que está com seu filho de cerca de 5
anos de idade, que reclama da presença de uma travesti no banheiro
feminino. Ela alega que travestis não podem frequentar o banheiro
feminino por se tratarem de “homens travestidos de mulher”, e que
a presença dessas pessoas no recinto pode levar à prática de atos
libidinosos ou até contra o pudor.
Você deve ter em mente que, no ano de 2015, o Supremo
Tribunal Federal discutiu o direito de pessoas transexuais e travestis
usarem o banheiro público de acordo com sua identidade de gênero.
No caso específico que fora discutido, uma mulher transexual foi
impedida de usar o banheiro feminino de um shopping e, por isso,
o estabelecimento foi processado por danos morais. O Ministro
Roberto Barroso, relator do recurso em questão, em seu voto, deu
razão à transexual e manifestou-se favoravelmente ao direito de
utilização do banheiro em conformidade com sua identidade de
gênero, alegando o respeito à dignidade humana. Os outros ministros
– Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Luiz Fux – discordaram da
tese de Barroso. Com isso, não chegaram a uma conclusão e o
julgamento foi suspenso.
Apesar dessa indeterminação, é preciso que você, enquanto
responsável pela segurança do shopping center, oriente seus

160 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


funcionários sobre como agir em uma situação como esta: quando
um cidadão ou cidadã transexual se dirige ao banheiro para utilizar
suas dependências. Deverá levar em conta o princípio e direito à
igualdade e não discriminação, além do respeito à diversidade de
orientação sexual.
Para tanto, você deverá elaborar um breve memorando, em
tópicos, com as instruções que dará à sua equipe sobre como
proceder nessa situação. Um memorando nada mais é do que
um documento com linguagem direta, objetiva, endereçada a
determinados setores (no caso, o de segurança do shopping
em que você trabalha), em que você dirá como a atuação dos
funcionários responsáveis pela segurança deverá ser realizada e
como se dará uma eventual abordagem em um questionamento
por parte dos frequentadores quando uma pessoa transexual tiver
de usar as dependências do banheiro da localidade de acordo com
sua identidade de gênero. Vamos lá?

Não pode faltar


Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate
ao preconceito e à discriminação. Princípio da igualdade e da não
discriminação.
Em seções anteriores, você já viu que o direito à igualdade é um
dos principais direitos previstos tanto pela Declaração Universal dos
Direitos do Homem quanto pela Constituição Federal brasileira de
1988. A Declaração, por sua vez, prevê que todos os seres humanos
nascem livres e iguais, tanto em dignidade quanto em direitos. Já
a nossa Constituição estabelece que todos são iguais perante a lei,
não podendo haver distinção de qualquer tipo (Art. 5°, caput). Assim,
você deve saber que a igualdade constitui um dos cernes do Estado
democrático e de Direito, uma vez que ela não admite distinções
ou diferenciações entre os cidadãos de qualquer tipo de modo
a se garantir ou perpetuar privilégios que lhes sejam concedidos,
quando reunidos em uma classe ou grupo, e em detrimento de um
ao outro, por qualquer critério segregacionista. Além disso, o Art. 3°,
IV, da Constituição Federal de 1988, prevê, como um dos objetivos
da República Federativa do Brasil, a promoção do bem de todos os
seus cidadãos, de modo que não existam distinções fundamentadas

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 161


em preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou qualquer outra
forma de discriminação que possa vir a existir.
A igualdade, tal como prevista em nossa Constituição, assim
como em diversas outras Cartas mundo afora, é apenas no seu
sentido jurídico-formal. Mas o que seria esse sentido jurídico-formal?
Vamos explicar: a igualdade está prevista apenas em relação à lei, ou
seja, todos são iguais perante a lei e esta não pode fazer quaisquer
distinções fundamentadas em gênero, classe social, ideologia, raça,
credo etc., como dissemos anteriormente. Assim, é bom você ter em
mente também que a Constituição Federal de 1988 veda qualquer
tipo de discriminação.
Contudo, é importante esclarecermos que, muito embora todos
os seres humanos tenham de ser considerados como iguais perante
a lei, apesar de pertencerem a mesma espécie, são naturalmente
diversos. A raça humana é marcada pela diversidade. Assim, todos nós
somos iguais por pertencermos à raça humana, mas, na realidade,
nenhum ser humano é igual ao outro, cada um possui a sua identidade
dentro de uma sociedade marcada pela diversidade dessas mesmas
identidades.

Assimile
Para que você não tenha dúvidas sobre os conceitos de igualdade
perante a lei e de diversidade, vamos esclarecer um pouco mais. A
ideia de igualdade perante a lei, como vimos, encerra a noção de não
se garantir direitos ou privilégios a determinados grupos de cidadãos em
prejuízo dos demais, por via legal, em situações em que todos sejam
iguais ou estejam em situação de igualdade. Parafraseando o escritor
George Orwell, que escreveu Revolução dos Bichos, em 1945, um
cidadão não pode ser mais igual do que outro cidadão.

Assim, apesar dessa noção de que todos somos iguais (e nascemos


iguais, como é afirmado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos
de 1948), o ser humano é marcado pela diversidade. A identidade
humana é plural e extremamente diversa. Dessa maneira, o princípio
da igualdade perante a lei (que também leva em conta a noção de
igualdade na lei) não pode ser interpretado de maneira individualista,
em que se deixe de levar em consideração as diferenças existentes nos
grupos sociais que formam uma determinada sociedade. Na verdade,
a lei pode considerar determinados grupos de cidadãos como sendo

162 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


iguais e somente a eles lhes garantir determinados direitos ou deveres.
Não se trata, neste caso, de se institucionalizar privilégios. Mas, você
deverá ter em mente que, um dos conceitos de justiça, que é dar a cada
um o que é seu, não necessariamente signifique tratar todos da mesma
forma. Além disso, como um critério também de justiça, saiba que a
igualdade somente pode ser alcançada quando se dá tratamento igual
aos iguais e tratamento desigual aos desiguais. Trata-se do conceito de
igualdade material.

Assim, com base nessas considerações iniciais sobre o que é a


igualdade dentro de um universo marcado pela diversidade, como o
é em que todos existimos, precisamos, neste momento, adentrar nas
questões que prejudicam a obtenção dessa igualdade, dificultando-a
ou, até mesmo, a impedindo.
E é exatamente sobre isso que queremos falar a você nesta seção:
sobre a igualdade, o que são o preconceito e a discriminação, dentro
do conceito de diversidade, mais especificamente da diversidade
sexual. Entende-se que o preconceito e a discriminação são situações
que separam, causam divergências e exclusão, principalmente do
ponto de vista social e, logicamente, promovem desigualdade.
O preconceito nada mais é do que se ter uma ideia, uma opinião
ou um conceito formados antes mesmo de se conhecer determinada
realidade ou fatos que lhe são inerentes. Muitas vezes, é pelo
preconceito que se pode chegar ao ódio a determinadas pessoas ou
grupos de pessoas que reúnam certas características que, por aquele
que detém o preconceito, são dignas de serem desconsideradas,
descaracterizadas ou até mesmo desprezadas, independentemente
de qualquer circunstância. A discriminação está ligada à ideia do que
é preconceito, pois nada mais é do que estabelecer uma separação,
uma diferenciação, uma segregação de pessoas ou grupos de pessoas
que reúnam determinadas características, se pensarmos em relação
ao preconceito dirigido a seres humanos. Você deve se lembrar que já
tratamos desse assunto sobre a criação de políticas segregacionistas
e discriminatórias contra diversos grupos de indivíduos: citamos os
exemplos das experiências totalitárias vividas nos regimes nazistas e
fascistas, sendo que nos primeiros houve o extermínio de milhões
de judeus nos campos de concentração alemães, durante a Segunda

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 163


Guerra Mundial (Holocausto) e o regime de Apartheid, na África do
Sul.
Nesse sentido, quando há preconceito e discriminação, fundada no
primeiro, não há igualdade, tanto do ponto de vista formal (igualdade
perante a lei) quanto material (genericamente, como igualdade de
oportunidades e de condições, que em nossa Constituição Federal
podem ser traduzidas no Art. 7º, XXX e XXXI).
Mas, agora, vamos deixar uma pergunta para você se questionar
e o auxiliarmos a ter uma resposta, com base no que mencionamos
anteriormente: como é possível haver igualdade em uma sociedade
marcada pela diversidade como a em que vivemos atualmente?
Uma das possíveis respostas está pautada, de maneira central, na
ideia de educação na diversidade, para a diversidade e pela diversidade,
como recentemente o sociólogo Rogério Diniz Junqueira descreveu
em um artigo. A educação na diversidade, para a diversidade e pela
diversidade permitirá que exista aprendizado dentro de uma sociedade
para a convivência social, de maneira cidadã e democrática. Esses três
tipos de educação, relacionados à diversidade, permitem a promoção
de igualdade de oportunidades, além de também incentivarem a
inclusão e a integração social do cidadão nos diferentes espaços em
que ele convive. Assim sendo, a educação na diversidade possibilita o
conhecimento da inclusão do outro (aquele que é diferente de você,
em diversas características, mas que convive com você no mesmo
espaço social). Já a educação para a diversidade é estabelecida a partir
da ideia do novo, ou seja, daquilo que se desconhece, mas que, apesar
de ser diferente, é legítimo e verdadeiro. E, por fim, a educação pela
diversidade ocorre a partir daquilo que a diversidade pode oferecer: o
convívio, pautado no reconhecimento do que é diverso de você e o
que isso pode trazer em termos desse convívio social.
Portanto, a ideia de educação na/para/pela diversidade permite a
educação a partir do reconhecimento do outro, que é diferente do
que sou, e até mesmo de autoconhecimento, sendo que, a partir daí,
embora haja diferenças entre todos os seres humanos, todos estão
incluídos no mesmo lugar de convívio, em que são estabelecidas
as relações sociais, ou seja, a própria sociedade. Assim, a igualdade,
vista a partir da noção de diversidade existente entre todos os seres
humanos, permitirá a verificação, na realidade, do direito de existir
(direito à vida), pautado pela dignidade e autonomia (que aqui deve

164 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


ser entendida como a capacidade de se fazer as próprias escolhas e
tomar as decisões em sua vida).

Respeito à diversidade de orientação sexual


A igualdade e o respeito à orientação sexual de cada ser humano
também estão previstos em nossa Constituição Federal. Apesar de
o texto constitucional não ter sido expresso ao garantir liberdade
a todas as pessoas de exercerem sua sexualidade de acordo com
sua orientação sexual e da forma como melhor lhes aprouver, esta
interpretação é possível a partir da leitura do final do Art. 3º, IV, que
veda distinção oriunda de qualquer tipo ou natureza entre todos os
cidadãos e cidadãs. É válido lembrarmos também que nosso texto
constitucional também assegurou equivalência, entre direitos e
obrigações, tanto de homens quanto mulheres (Art. 3º, IV, e Art. 7º,
XXX), porém, com diferenciações específicas às mulheres que se
encontrarem em determinadas situações (Art. 40, III, e 202).
Mas vamos começar a tratar de algumas questões relacionadas
à igualdade e à liberdade de orientação sexual de todos os seres
humanos e a sua relação com a diversidade, que é inerente à raça
humana, tal qual dissemos acima. Porém, nossa abordagem inicial
se dará a partir do preconceito e da discriminação em relação
àqueles que não possuem orientação sexual heterossexual, ou seja,
dos indivíduos pertencentes à comunidade LGBT (sigla internacional
para designar todos os cidadãos e cidadãs que são lésbicas, gays,
bissexuais, travestis e transexuais).

Vocabulário
Selecionamos aqui alguns termos que você deverá saber diferenciar
quando tratar de temas ligados à diversidade sexual:
Tipos de orientação sexual:
Heterossexual: “Pessoa que se sente atraída afetiva e/ou sexualmente
por pessoas do sexo/gênero oposto.”
Homossexual (gays e lésbicas): “Pessoa que se sente atraída afetiva e/ou
sexualmente por pessoas do mesmo sexo/gênero.”
Bissexual: “Pessoa que se sente atraída afetiva e/ou sexualmente por
pessoas de ambos os sexos/gêneros.”

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 165


Travesti: “Pessoa que nasce com sexo masculino e tem identidade
de gênero feminina, assumindo papéis de gênero diferentes daqueles
impostos pela sociedade.”
Transexual: “Pessoa que possui uma identidade de gênero diferente
do sexo biológico. Homens e mulheres transexuais podem manifestar
a necessidade de realizar modificações corporais por meio de terapias
hormonais e intervenções médico-cirúrgicas, com o intuito de adequar
seus atributos físicos (inclusive genitais – cirurgia de redesignação sexual)
à sua identidade de gênero. Entretanto, nem todas as pessoas transexuais
manifestam este tipo de necessidade.”
Transgênero: “Terminologia normalmente utilizada para descrever
pessoas que transitam entre os gêneros, englobando travestis,
transexuais, crossdressers, drag queens/kings e outros(as). Contudo, há
quem utilize esse termo para se referir apenas àquelas pessoas que não
são nem travestis e nem transexuais, mas que vivenciam os papéis de
gênero de maneira não convencional.”
Gênero: é um conceito social e cultural existente a partir de construção
social. Muito embora a dimensão biológica do sexo seja o masculino ou
o feminino, o gênero, enquanto uma maneira de ser homem ou mulher,
se dá por meio da expressão cultural. “Assim, homens e mulheres são
produtos da realidade social e não decorrência direta da anatomia de
seus corpos. Sexo é biológico, gênero é construção social!”
Observação importante! “Não se utiliza a expressão ‘opção sexual’
por não se tratar de uma escolha.” As pessoas não escolhem sua
sexualidade; elas têm uma orientação sexual que lhes é característica,
podendo exercê-la de inúmeras formas. Também “não se utiliza a
expressão ‘homossexualismo’, pois, neste caso, o sufixo ‘ismo’ denota
doença. A homossexualidade [expressão correta] não é considerada
como patologia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde
1990, quando modificou a Classificação Internacional de Doenças
(CID), declarando que ‘a homossexualidade não constitui doença, nem
distúrbio e nem perversão.’”
Fonte: SÃO PAULO. Governo do Estado. Secretaria da Justiça e da Defesa
da Cidadania. Coordenação de Políticas para a Diversidade Sexual.
Diversidade sexual e cidadania LGBT. São Paulo: SJDC/SP, 2014. p.
10-16. Disponível em: <http://www.justica.sp.gov.br/StaticFiles/SJDC/
ArquivosComuns/ProgramasProjetos/CPDS/Cartilha_Diversidade_
Sexual_ea_Cidadania_LGBT.pdf>. Acesso em: 7 jun. 2017.

166 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


Todos os cidadãos e cidadãs membros da comunidade LGBT são
tão cidadãos quanto aqueles que não pertençam a essa comunidade.
Todos eles têm os mesmos direitos e deveres, muito embora alguns
direitos, em diversos países, ainda não lhes sejam garantidos (tais
como o direito ao casamento civil e igualitário), e até mesmo em
algumas localidades, a homossexualidade seja considerada crime,
podendo ser punida, inclusive, com pena de morte (triste realidade
ainda existente em alguns países de origem muçulmana, com regimes
teocráticos, com leis fundadas em suas respectivas religiões).

Pesquise mais
Sobre a luta da população LGBT para terem reconhecidos seus direitos
civis nos Estados Unidos, movimento iniciado no final da década de
1970, sob liderança do ativista gay Harvey Milk, assista ao filme Milk: A
Voz da Igualdade (Estados Unidos, 2008), do diretor Gus Van Sant. Você
pode conferir o trailer acessando o link a seguir. Disponível em: <https://
www.youtube.com/watch?v=0vX-X259gxA>. Acesso em: 7 jun. 2017.

Como já dissemos anteriormente, o direito à igualdade, previsto


pela Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, é garantido
a todo ser humano, independentemente de qualquer distinção que
possa existir. Além disso, a igualdade está fundamentada na ideia de
dignidade humana, conceito central dos direitos humanos, como
também já vimos nas seções anteriores, especialmente na Unidade
1. E também, como dissemos, nossa Constituição Federal tem como
um de seus principais objetivos promover o bem-estar de todos os
cidadãos sem que haja quaisquer formas de discriminação.
Porém, como é de amplo conhecimento, infelizmente, a
população LGBT ao redor do mundo e em nosso país ainda sofre,
diariamente, com o preconceito e a discriminação. Não é difícil de se
verificar notícias recorrentes de atos de homofobia, praticados contra
essa parcela de nossa população, resultantes, muitas vezes, em
homicídio ou atos atentatórios contra a vida dessas pessoas. Você sabe
o que é homofobia? A homofobia pode ser conceituada como sendo
um conjunto de emoções, negativas em sua essência, que variam
entre a aversão, o desprezo, o ódio, a desconfiança, o desconforto
ou o medo, usualmente reproduzidas ou ligadas ao preconceito e
à discriminação, e que se transformam em atos de violência contra

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 167


pessoas LGBT, as quais não reproduzem comportamentos-padrões
verificados nas sociedades heteronormativas (sinônimo de regras
esperadas dos conceitos de heterossexualidade, relacionamento
entre os sexos e gêneros masculino e feminino).

Reflita
Você já pensou que gays, lésbicas, transexuais e toda a comunidade LGBT
sentem, uns pelos outros, o mesmo amor que os heterossexuais? Assista
ao videoclipe da música Same Love (Mesmo Amor), do artista norte-
americano Macklemore, legendado, e pense a respeito disso! Acesse o
link. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=vrVjBrHJ1Js>.
Acesso em: 7 jun. 2017.

Assim, essa triste realidade é ainda verificada em diversos países,


sendo que o Brasil é um dos países em que há o maior número de
mortes por homofobia. Vale lembrar que a homofobia ainda não
é constituída como tipo penal em nossa legislação, ou seja, não é
considerada como crime, apesar de projeto de lei que tramita no
Senado Federal nesse sentido.

Reflita
Você é a favor ou contra a criminalização da homofobia? Essa é
ainda uma questão bastante controversa na atualidade brasileira. Os
argumentos a favor giram em torno da ideia de que, com a previsão
da homofobia como crime, haveria, por assim dizer, o reconhecimento
das orientações sexuais diversas da heterossexualidade. Explicamos:
o Estado, ao criminalizar a prática da homofobia, protegerá um bem
jurídico, qual seja a vida, a identidade e a orientação sexual do indivíduo
que não seja heterossexual. Além disso, há quem argumente que, com
a previsão de punição específica contra essa prática, sua incidência
diminuiria na realidade. Contudo, há argumentos contrários. Neste
último caso, argumenta-se que a existência de uma pena para punir
a homofobia, caso se torne crime, não levará à solução da verdadeira
causa do problema: o ódio à população LGBT. A pena não protegeria a
pessoa, tampouco seria capaz de prevenir a violência ou de ressocializar
o agressor. Além disso, com a sua existência, ter-se-ia uma sensação
superficial de que o problema já estaria resolvido por haver punição. Esta
corrente ressalta ainda que a prevenção da homofobia se dá por um

168 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


processo de transformação social. Transformação esta que entendemos
que se dá por meio de processo que envolva a educação da sociedade
(como já dissemos sobre o conceito de educação na/para/pela
diversidade, do sociólogo Rogério Diniz Junqueira).

Para você pensar mais a este respeito, acesse os links a seguir com
argumentos contrários à criminalização. Disponível em: <http://www.
sul21.com.br/jornal/homofobia-criminalizar-nao-e-combater/>. Acesso
em: 6 jul. 2017.

E a favor da criminalização da homofobia. Disponível em: <http://


dimitri-sales.ig.com.br/index.php/2014/09/15/porque-criminalizar-a-
homofobia/>. Acesso em: 6 jul. 2017.

Posto isso, como já dissemos, todos os seres humanos são iguais,


não estando excluídos desse rol as pessoas LGBT. Todas elas têm
direitos e deveres enquanto pessoas que o são; não se constituem
como classe ou grupo social capaz de ter privilégios ou, ainda, estar
em posição de superioridade ou inferioridade. Muito embora, como
já dissemos, apesar de termos a igualdade garantida de todos perante
a lei, sem qualquer tipo de discriminação, as pessoas LGBT, por
terem esta condição de orientação sexual diversa da heterossexual,
possam necessitar de legislações e medidas protetivas específicas, a
elas destinadas exclusivamente. Repetimos: não se trata de conceder
benefícios ou regalias a determinado grupo, mas de um princípio de
justiça equitativa, ou seja, dar aos cidadãos e cidadãs que estejam em
pé de igualdade direitos idênticos e àqueles e àquelas que não se
encontrem na mesma posição, direitos distintos e específicos. Como
já dissemos, não podemos considerar os desiguais de maneira igual;
esta é uma das formas de se garantir o direito à igualdade.
Dessa maneira, após todas essas considerações, é importante
que você tenha em mente que o direito à igualdade, portanto, possui
um segundo aspecto: o direito à diferença. O direito à diferença
é verificado especialmente em relação às pessoas LGBT. É a
diferença (o ser diferente) que permitirá a essas pessoas, que estão
em condições diversas, com características culturais e individuais
relacionadas à sua orientação sexual e identidade de gênero, que
tenham seus direitos previstos em lei e efetivamente respeitados.

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 169


Além disso, e é justamente por essa razão, a de ser diferente do que
é costumeiramente aceito (heteronormatividade), que, além da triste
realidade de atos de homofobia praticados contra essa população,
esta ainda sofra preconceito e atos discriminatórios e que as coloca
em situações de vulnerabilidade social.
A vulnerabilidade social sofrida pela população LGBT afeta todos
os aspectos das vidas dessas pessoas: são rompimentos de vínculos
familiares devido à orientação sexual distinta da vida heterossexual,
são exclusões de convívios em determinados grupos sociais
ou religiosos, dentre outras, que podem levar à evasão escolar,
dificuldade ou impedimento de se arranjar um emprego ou acesso a
posições superiores no mercado de trabalho. E isto tudo se verifica,
principalmente, em relação às travestis e aos transgêneros. Portanto,
é para esta população que o Estado deve promover políticas públicas
chamadas de ações afirmativas, a fim de se combater a exclusão
histórica que lhe acomete, além de conter e evitar atos de homofobia
para que se tenha efetivamente a promoção e a realização de uma
cidadania plena da população LGBT.

Exemplificando
O Brasil tem reconhecido diversos direitos civis à população LGBT. Em
uma decisão histórica, no ano de 2011, o Supremo Tribunal Federal
acabou por reconhecer a equivalência dos direitos e deveres dos
casais homossexuais e heterossexuais, o que, na prática, demonstrou,
juridicamente, que casais homossexuais também constituem entidades
familiares. A partir dessa decisão adveio a Resolução nº 175/2013 do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que vedou o não reconhecimento
do casamento civil de homossexuais pelos cartórios. Além disso, temos
o exemplo da Lei nº 10.948/2001, do Estado de São Paulo, aprovada
para punir, administrativamente, práticas discriminatórias contra a
população LGBT. Há também o Decreto nº 55.588/2010, do Estado
de São Paulo, que obriga a tratar as pessoas transexuais e travestis pelo
seu nome social (que é o prenome a partir do qual estas pessoas se
identificam e reconhecem como sendo de sua identidade e também
por sua comunidade). Ainda, com relação ao nome, tem sido intenso
o movimento nos tribunais brasileiros para a retificação de registro
social (do prenome especialmente) de cidadãos e cidadãs transexuais
brasileiros. Apesar de ainda não dispormos de uma lei que determine
essa possibilidade de retificação, os procedimentos para que ocorra

170 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


a mudança do nome de registro necessitam ser na esfera judicial. O
Superior Tribunal de Justiça tem acolhido essa questão e acatado o
pedido da população transexual. E, por fim, recentemente, a Polícia Militar
do Estado de Pernambuco adotou uma cartilha em seu Procedimento
Operacional-Padrão (POP) voltado às revistas e abordagens que
envolverem pessoas LGBT. No caso de revistas e abordagens a travestis
ou transexuais que se identifiquem pelo sexo feminino, poderão requisitar
a presença de policial feminina para que a revista seja feita. Além disso,
os policiais deverão tratar essas pessoas pelo seu nome social e com
adjetivação feminina, se for o caso. Abordagens por demonstrações
de afetividade entre homossexuais e em público também devem ser
evitadas quando não houver prática de atos obscenos, o que, neste
caso, deverá alertar os casais de que tal prática constitui crime (mais
informações sobre o POP você pode encontrar acessando este link:
<http://m.noticias.ne10.uol.com.br/noticia/2016/04/11/cartilha-orienta-
pms-sobre-procedimentos-ao-revistar-publico-lgbt-608039.php>.
Acesso em: 8 jun. 2017.

Sem medo de errar


Após a abordagem da senhora acompanhada de seu filho de 5
anos de idade, comunicando-lhe e manifestando sua indignação
pelo fato de uma travesti utilizar o banheiro feminino, você passa a se
questionar acerca de como fará a abordagem a essa cidadã (a travesti),
caso ainda a encontre nas dependências do shopping center para
o qual você trabalha como chefe da segurança do local. Após este
incidente, uma vez que a mãe frequentadora alegou constrangimento
e a possibilidade de prática de atos libidinosos pela travesti, por ainda
assim ser uma cidadã de sexo biológico masculino, você deverá
comunicar toda sua equipe sobre como se dará abordagens e
respostas a eventuais frequentadores do shopping que venham a fazer
o mesmo questionamento e demonstrar essa indignação, a qual não
é cabível, tendo em vista o direito à igualdade e a não discriminação,
dentro de um universo de cultura de proteção à diversidade sexual.
Em seu memorando, você deverá fazer as seguintes observações:
1. Tratar pessoas transexuais ou travestis pelo nome que elas se
identificam, ou seja, seu nome social, e também adequar sua

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 171


linguagem para o gênero de suas respectivas identidades (se
tratará essa pessoa no masculino ou no feminino).
2. Deverá explicar brevemente aos frequentadores do shopping
que façam esse questionamento acerca da utilização dos
banheiros por pessoas transexuais ou travestis que somente
poderá agir em caso de prática de atos libidinosos ou obscenos
por essas pessoas no interior dos banheiros, ou até mesmo
fora deles, e que teria de fazer o mesmo caso fossem pessoas
heterossexuais.
3. Você também deverá mencionar em seu relatório que
demonstrações de afeto em público entre cidadãos e cidadãs
pertencentes à comunidade LGBT não podem ser repreendidas
– e que, caso presencie alguma cena deste tipo, o segurança
deverá sempre se pautar pelo bom senso, caso seja necessária
uma abordagem ou questionamento a essas pessoas, que
somente poderá ocorrer em último caso, se forem verificados
atos libidinosos, obscenos ou que atentem ao pudor, o que
constitui crime.
Caro aluno, lembre-se de que vivemos em um mundo que
cidadãos e cidadãs LGBT têm, cada vez mais, buscado que seus
direitos civis sejam respeitados, os quais estão englobados pelo
direito à igualdade dentro de uma sociedade ainda marcada pela
heteronormatividade (padrões oriundos de relações heterossexuais)
e pela prática de atos discriminatórios e homofóbicos. Estes tipos de
violência não podem ser perpetuados ou reiterados, principalmente
por aqueles que trabalham diretamente com público e na área de
segurança, seja ela pública ou particular. Lembre-se: a mudança de
cultura se dá por meio do acesso à educação, a qual deve sempre
estar pautada pela noção da diversidade. Bom trabalho!

Avançando na prática
Abordagem policial na população LGBT

Descrição da situação-problema

Caro aluno, neste momento, você é um policial militar do Estado


de Pernambuco, que é destacado para procedimentos de ronda na

172 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


cidade de Olinda, durante o Carnaval. O policial responsável pela
patrulha o designa, junto a outros policiais, para que faça a ronda
em uma região da cidade conhecida pela prostituição de travestis. A
justificativa para essa operação é a de se tentar identificar as travestis
do local, uma vez que essa população é reconhecida pela prática
de crimes, que variam desde tráfico de drogas, atentado violento ao
pudor e até homicídios.
Durante a operação, não são destacadas policiais do sexo feminino
para a realização da ronda e identificação das travestis. É sabido que
vocês deverão revistar as travestis, principalmente para a busca de
entorpecentes em quantidade que possa ser caracterizada como
tráfico de drogas. Recentemente, o Estado de Pernambuco, por
meio da Polícia Militar, estabeleceu uma cartilha de Procedimentos
Operacionais-Padrão (POP), com um capítulo especial destinado à
população LGBT. Você, ciente das regras de conduta dessa cartilha,
deverá aplicá-la na realidade durante a abordagem às travestis de
Olinda. Para tanto, você deverá, antes da realização da ronda, falar
com seus colegas para traçar as estratégias de abordagem com base
no POP. Assim, você deverá elaborar um breve resumo no formato
de tópicos, evidenciando as principais questões e ações que deverá
tomar em cada uma delas. Vamos começar? Boa sorte!

Resolução da situação-problema
O Procedimento de Operação-Padrão da Polícia Militar do
Estado de Pernambuco prevê algumas regras especialmente
designadas para a população LGBT, quando for abordada por
policiais, incluindo-se eventuais procedimentos de revista pessoal.
No caso em tela, ao ter sido destacado para a operação de
identificação das travestis de Olinda, justificada pela prática de
crimes por essa população, que, no caso, são profissionais do sexo,
você deverá abordá-las e revistá-las caso haja suspeita de porte de
drogas que caracterizem tráfico ou porte de armas brancas (facas,
canivetes, tesouras, objetos pontiagudos e perfurantes).
Ao chegar ao local, você deverá:
1. Identificar-se pelo nome que consta em seu uniforme.
2. Esclarecer o motivo de sua abordagem – identificação
das travestis.

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 173


3. Perguntar o nome social das travestis e qual gênero elas
querem ser tratadas.
4. Somente poderá se referir às travestis por meio de seu
nome social.
5. Após isto, comunicar à central da Polícia Militar de
Pernambuco que necessitará de destacamento de policiais
do sexo feminino para a realização da abordagem/revista
das travestis que se identificaram com o gênero feminino.
6. Em caso de flagrante (posse de drogas em quantidade
que caracterize tráfico ou o porte de armas brancas ou
letais sem a devida autorização), encaminhá-las à delegacia
mais próxima para registro da ocorrência.
7. Em momento algum poderá se valer de atos violentos,
vexatórios, intimidatórios que caracterizem abuso de
autoridade e de poder com essa população LGBT. Atos que
exijam o uso de força somente poderão ser utilizados em
caso de flagrância de crime e de resistência por parte da
agressora.
8. Por fim, caso as travestis se recusem a mostrar
documentos de identificação oficiais, pelo fato de
destoarem de sua identidade de gênero, deverá alertá-las
que sempre deverão portar qualquer tipo de documento de
identificação e que você não poderá levá-las à autoridade
policial competente para averiguação de identidade –
prática esta vedada por recente decisão do Supremo
Tribunal Federal (prisão para averiguação).
Caro aluno, lembre-se de que o POP foi elaborado para
colaborar com a cultura de diversidade sexual em que a
comunidade LGBT está inserida, com suas práticas culturais
de demais questões envolvendo identidade de gênero.
Não se esqueça que o direito à igualdade concede a todos,
independentemente de sexo e orientação sexual, o tratamento
igualitário perante a lei, e no que lhe for específico, um tratamento
desigual (aos iguais, tratamento igualitário, e aos desiguais,
tratamento diferenciado – um dos critérios de justiça para se
atingir a equidade). Bom trabalho e boa sorte!

174 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


Faça valer a pena
1.

No Brasil, entre 1963 e 2001, 2.092 pessoas foram assassinadas pela


simples razão de serem homossexuais ou transgêneros. Em 2003
foram registrados 125 assassinatos homofóbicos, contra 169 no
ano seguinte. São dados subestimados, pois faltam informações
sobre alguns estados e muitas mortes de homossexuais não
são divulgadas pela imprensa. A média brasileira fica, assim, em
torno de um assassinato homofóbico registrado a cada três dias.
(JUNQUEIRA, 2008, p. 3, grifos do autor)

O termo homofobia é comumente usado em referência a um


conjunto de emoções negativas (tais como aversão, desprezo,
ódio, desconfiança, desconforto ou medo), que costumam
produzir ou vincular-se a preconceitos e mecanismos de
discriminação e violência contra pessoas homossexuais,
bissexuais e transgêneros (em especial, travestis e transexuais)
e, mais genericamente, contra pessoas cuja expressão de
gênero não se enquadram [sic] nos modelos hegemônicos de
masculinidade e feminilidade. (JUNQUEIRA, 2008, p. 2-3)

A sociedade brasileira vive profundas transformações que não


podem ser ignoradas por nenhuma instituição democrática.
Cresce no país a percepção da importância da educação como
instrumento necessário para enfrentar situações de preconceitos
e discriminação e garantir oportunidades efetivas de participação
de todos nos diferentes espaços sociais. [...] Não por acaso, em
nossas escolas, temos assistido ao crescente interesse em favor
de ações mais abrangentes no enfrentamento da violência, do
preconceito e de discriminação contra lésbicas, gays, bissexuais,
travestis e transexuais. Cada vez mais a homofobia é percebida
como um grave problema social, e a escola é considerada um
espaço decisivo para contribuir na construção de uma consciência
crítica e no desenvolvimento de práticas pautadas pelo respeito à
diversidade e aos direitos humanos. (JUNQUEIRA, 2009, p. 7)

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 também


adota o princípio da dignidade humana, e afirma como objetivo
fundamental, entre outros, ‘promover o bem de todos, sem
preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras
formas de discriminação’. Lésbicas, gays, bissexuais, travestis e
transexuais são cidadãs e cidadãos e têm direitos e deveres como

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 175


todas as pessoas. Contudo, historicamente, esta população tem
sido privada de muitos direitos em decorrência dos preconceitos
existentes em nossa sociedade. (SÃO PAULO, 2014, p. 24)

Com base nos textos acima mencionados, julgue as afirmativas abaixo como
verdadeiras (V) ou falsas (F):
I. O direito à igualdade deve ser respeitado sempre, independentemente da
orientação sexual de cada cidadão, que, pelo direito à liberdade, é livre para
manifestar e viver essa orientação sexual da forma como melhor lhe aprouver.
II. Há quem defenda que, apesar de a homofobia ainda não ser criminalizada no
Brasil, a ocorrência de tantos homicídios de membros da comunidade LGBT
é um dado alarmante que deve influenciar os parlamentares a modificarem
o Código Penal brasileiro nesse sentido, a fim de que se tente diminuir a
prática de tais crimes e não exista impunidade para aqueles que os praticarem,
muito embora existam opiniões contrárias nesse sentido, que afirmam que
a existência de punição estatal não previne a violência, ao contrário, pode
aumentá-la, e que a prevenção da homofobia se dá por uma transformação
social, através de processo social e educacional.
III. O Estado não deve realizar ações de políticas públicas afirmativas para
proteger a população LGBT e lhes conceder direitos civis, tais como o
casamento civil igualitário ou o tratamento pelo nome social em órgãos
públicos de travestis e transgêneros, sob risco de ferir o princípio da igualdade
jurídico-formal, consagrado na Constituição Federal de 1988.
Agora, assinale a única alternativa CORRETA:
a) V-F-F.
b) V-F-V.
c) V-V-F.
d) F-F-V.
e) V-V-V.

2.

A Constituição Federal de 1988 dispõe em seu artigo 5°, caput,


sobre o princípio constitucional da igualdade, perante e lei, nos
seguintes termos:
‘Artigo 5°. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade,
à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes.’
O princípio da igualdade prevê a igualdade de aptidões e de
possibilidades virtuais dos cidadãos de gozar de tratamento

176 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


isonômico pela lei. Por meio desse princípio são vedadas as
diferenciações arbitrárias e absurdas, não justificáveis pelos valores
da Constituição Federal, e tem por finalidade limitar a atuação do
legislador, do intérprete ou autoridade pública e do particular.
(ASSOCIAÇÃO DOS ANALISTAS JUDICIÁRIOS DA UNIÃO, 2011)

Uma posição, dita realista, reconhece que os homens são desiguais


sob múltiplos aspectos, mas também entende ser supremamente
exato descrevê-los como criaturas iguais, pois, em cada um deles, o
mesmo sistema de características inteligíveis proporciona, à realidade
individual, aptidão para existir. Em essência, como seres humanos,
não se vê como deixar de reconhecer igualdade entre os homens.
Não fosse assim, não seriam seres da mesma espécie. A igualdade aqui
se revela na própria identidade de essência dos membros da espécie.
Isso não exclui a possibilidade de inúmeras desigualdades entre eles.
Mas são desigualdades fenomênicas: naturais, físicas, morais, políticas,
sociais etc. (SILVA, 2009, p. 211-212)

A partir dos trechos dos textos acima, assinale a alternativa CORRETA:


a) O direito à igualdade não permite quaisquer distinções entre os seres
humanos, sob pena de descaracterizar aquele direito e princípio.
b) A igualdade, apesar de ser comum a todos os homens, permite
diferenciações, pois nenhum ser humano é igual ao outro, podendo
estar em posições sociais diferenciadas uns em relação aos outros, o que
justifica um tratamento diferenciado.
c) A igualdade tal qual consagrada em nossa Constituição Federal não
permite que se realize qualquer tipo de tratamento diferenciado entre os
cidadãos brasileiros e estrangeiros que estejam no país.
d) Apesar de a diversidade ser inerente à raça humana, o direito e o princípio
de igualdade devem ser observados a todo e qualquer custo, ainda que
pessoas que estejam em situações desiguais sejam tratadas de maneira
igual às demais.
e) A diversidade, característica comum do ser humano, somente pode ser
aplicada em relação ao conceito de diversidade sexual quando se tratar do
direito à igualdade.

3.

Na obra Toque de silêncio, Alves e Barcellos (2002) revelam a


biografia de um dos autores acerca da difícil situação de ser
homossexual e ingressar na carreira militar, neste caso, na Marinha

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 177


brasileira. Como afirmam os próprios autores a respeito das Forças
Armadas, ‘[...] nesta cultura permissiva em relação aos poderes
do macho, sexualidade e moral têm caminhado lado a lado, num
dilema psicológico que vem gerando falsos conceitos e dolorosos
embaraços. (ALVES; BARCELLOS, 2002, p. 26)

Não poderia ser diferente quanto a ser um policial militar e, ao


mesmo tempo, assumir a condição homoafetiva. Distante de
parecer uma tarefa fácil, tal condição leva muitos desses policiais,
de um modo geral, a ocultarem suas condições afetivas, na difícil
decisão de assumirem identidades sociais que soam contraditórias.
Assim, parece-nos que a regra para se garantir uma vaga no honroso
mundo masculino é criar um lugar ‘seguro’, por parte dos policiais
homoafetivos, nutrido por reservas e cuidado com os ‘olhares’,
quando o que dita a normalidade das relações institucionais são
regulamentos ‘formais’ e ‘morais’. (FRANÇA, 2016, p. 155)

Com base no texto selecionado acima, complete o parágrafo a seguir com


as palavras-chave corretas:
A questão da ___________ permeia os mais diversos ambientes
e universos. Apesar de o ambiente militar ainda ser um universo
___________, policiais militares, em virtude do ___________ e dentro
de uma cultura de diversidade, devem pleitear esta igualdade em relação
aos demais membros da corporação, de modo a não sofrerem pressões
psicológicas internas quanto à sua orientação sexual de ___________.
Orientação sexual não define caráter, tampouco qualidade e competência
para o trabalho em uma corporação militar ou qualquer outro ambiente
de trabalho.
Agora, assinale a única alternativa CORRETA:
a) heterossexualidade – machista e poliafetivo – direito à igualdade –
homossexualidade.
b) diversidade sexual – machista e heteronormativo – direito à diferença
– homossexualismo.
c) heterossexualidade – machista e heteronormativo – direito à igualdade
– homossexualidade.
d) diversidade sexual – machista e heteronormativo – direito à igualdade
– homossexualidade.
e) diversidade sexual – machista e poliafetivo – direito à diferença –
homossexualidade.

178 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


Seção 3.3
Compreender para julgar
Diálogo aberto

Em frente ao shopping no qual você atua como gestor de


segurança privada, quase todas as noites abriga-se um homem idoso
em situação de rua. Lá o homem sente-se seguro, principalmente
porque o shopping possui a proteção de uma cobertura externa.
O gerente do shopping chama você para discutir a situação do
homem e decidir como proceder nesse caso, pois muitas vezes o
homem está alcoolizado e é difícil retirá-lo da entrada pela manhã.
Nessa discussão, é preciso levar em conta os direitos humanos que
protegem essa pessoa, assim como julgar a situação a partir de
diferentes pontos de vista. É necessário também que se conheçam as
alternativas oferecidas pelo governo para a proteção e promoção dos
direitos humanos de pessoas em situação de vulnerabilidade.

Não pode faltar


Faculdade de julgar em Hannah Arendt
Como vimos na Unidade 2, o julgamento de Eichmann em
Jerusalém fez com que Hannah Arendt percebesse que a forma de
se evitar o mal extremo, derivado principalmente do cumprimento de
ordens e de leis injustas de maneira irrefletida, fosse parar para pensar
e refletir sobre nossas ações.
Hoje, vamos além da faculdade de pensar e estudaremos a
faculdade de julgar, que é um dos desdobramentos dessa ideia de
Hannah Arendt sobre o mal.
Hannah Arendt percebeu que a faculdade de pensar – que como
vimos consiste no diálogo do eu comigo mesmo – podia nos dizer
o que não podemos fazer, até onde podemos ir, mas dificilmente
poderia nos indicar o que fazer, qual ação tomar. O pensamento nos
alerta qual o limite que não podemos ultrapassar para não incorrermos
no mal, ou seja, nos indica quando devemos nos abster ou recusar a
fazer algo.

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 179


Arendt também percebeu que o diálogo do eu comigo mesmo
dificilmente incluía em suas considerações a perspectiva de
outros, diferentes de nós, e por esse motivo era muito centrado
no indivíduo, no eu.
Assim, ela começou a pensar a respeito de outra faculdade que
não apenas pode nos orientar sobre como agir, como também não
leva em consideração apenas o eu, mas também a comunidade e
o mundo em que vivemos: a faculdade de julgar.
E como funciona essa faculdade? O que devemos fazer para
tomar uma decisão baseada em um julgamento?
É importante ressaltar que, assim como para a faculdade de
pensar, a faculdade de julgar não nos fornece respostas universais,
ou seja, os limites que estabelece e suas orientações podem
mudar consideravelmente de pessoa para pessoa conforme o
lugar ou época em que se apresentam; no entanto, o mal ilimitado
e extremo só é possível quando nos recusamos a pensar e a julgar.
Arendt passa a desenvolver uma teoria sobre a faculdade de
julgar porque, como vimos, em momentos de crise, como era o
caso do regime nazista, ou mesmo em determinados contextos
de normalidade, não é possível confiar em padrões universais, ou
mesmo nas leis. É preciso aprender a julgar e a tomar decisões
por nós mesmos, desconfiando, muitas vezes, das ordens que
recebemos de autoridades ou mesmo de algumas leis que podem
ser injustas.
A faculdade de julgar de Arendt é diferente da faculdade de julgar
determinante de Kant, porque este último consistia na subsunção
de situações particulares a pressupostos universais. No entanto,
como julgar em uma situação de ruptura ou de inversão completa
dos valores que conhecíamos como certos? Não é mais possível
subsumir uma situação particular a “universais” normativos, não é
mesmo? Como julgar sem balizas?
É a isto que a faculdade de julgar de Hannah Arendt procura
responder, e para isso ela vai importar o julgamento de gosto, o
juízo estético de Kant, para o campo da ética. Esse juízo é reflexivo
e não determinante. Ele é reflexivo porque não parte de normas
universais e não determinante porque cada julgamento é particular,
depende de reflexões individuais.

180 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


Uma das habilidades fundamentais que deve ser exercitada para
a faculdade de julgar é a mentalidade alargada, que significa o poder
pensar no lugar de outra pessoa, sair em visita do outro e voltar a nós
mesmos.
Devemos nos perguntar: o que aquela pessoa, que é diferente
de mim, e está em uma situação diferente, pensaria a respeito de
determinado assunto? É evidente que nunca saberemos ao certo o
que aquela pessoa pensa, ou sente, mas podemos imaginar o que
pensaríamos se estivéssemos em seu lugar.

Assimile
É importante destacar que não se trata de empatia, uma vez que não
devemos sentir como o outro sente, mas imaginar como se sentiriam,
pensariam. Deve-se pensar seus próprios pensamentos, mas no lugar de
outra pessoa.

A mentalidade alargada depende, portanto, da faculdade de


imaginação que, por seu turno, torna presente em nossas mentes
o que está de fato ausente. Devemos treinar nossa imaginação para
“sair em visita”. Esse “sair em visita” objetiva conversar com distintas
perspectivas. O exercício da imaginação e da mentalidade alargada
pode se dar quando lemos um livro, vemos um filme, admiramos
uma obra de arte. Tudo isso nos ajuda a treinar a capacidade de
representação de outros pontos de vista a partir de nós mesmos.
Segundo Arendt, “quanto maior for o número das posições de
pessoas que posso tornar presentes no meu pensamento e, assim,
levar em consideração no meu julgamento, mais representativo ele
será” (ARENDT apud LAFER, 2007, p. 300). Não se trata, portanto, de
um juízo universal, mas sim de um juízo representativo, que parte da
complementaridade de diversas perspectivas.
Outra questão importante para a faculdade de julgar é o valor do
exemplo. Em exemplos de condutas − biográficos de personagens
históricos ou fictícios, do presente ou do passado – devemos nos
basear para julgar nossas próprias condutas. Nesse sentido, surge a
questão da companhia que queremos, com quem desejamos estar,
pois é a partir desses exemplos que realizamos essa escolha, que
pauta também nossa conduta, nossas ações. A validade exemplar,

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 181


portanto, revela uma dimensão geral que de outra forma não poderia
ser capturada, nos obrigando a sair de uma visão meramente subjetiva.
O que Hannah Arendt teme é a indiferença em relação a esta
preferência, que ela conecta com o que chama de “recusa de julgar”:

A partir da recusa ou da incapacidade de escolher os


seus exemplos e a sua companhia, e a partir da recusa ou
incapacidade de estabelecer uma relação com os outros
pelo julgamento surgem os skandala reais [...]. Nisso
reside o horror e, ao mesmo tempo, a banalidade do mal.
(ARENDT, 2004, p. 212)

Precisamos, portanto, escolher nossos exemplos entre pessoas


que conhecemos, personagens históricos ou mesmo fictícios e nos
perguntar: o que essa pessoa faria ou pensaria se estivesse em meu
lugar?

Reflita
Você já pensou em quais são os seus exemplos? Eles são pessoas reais,
figuras religiosas, personagens históricos, personagens fictícios? Por que
essa pessoa constitui um exemplo para você? O que a distingue?

E assim, a partir da capacidade de considerar diferentes perspectivas


em nosso pensamento e de eleger nossas companhias e exemplos é
que podemos emitir um julgamento a respeito de determinada situação
ou conduta, ou tomar uma decisão baseada na faculdade de julgar. Essa
faculdade possibilita também que tomemos decisões em casos inéditos
e imprevisíveis, para os quais ainda não há uma regra estabelecida, como
é o caso de diversas situações que envolvem direitos humanos, ou
direitos humanos que estão aparentemente em conflito.
É preciso reconhecer que vivemos em uma sociedade em constante
transformação, em que irrompem fatores que rapidamente tornam
inadequados os modelos tradicionais, entre os quais está o conjunto
de regras e valores transmitidos. Assim sendo, as normas de direitos
humanos devem ser pensadas a partir de uma interpretação constante,
criativa, que atente para as particularidades de cada situação e de cada
comunidade.

182 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


Pesquise mais
Caso você queira aprofundar-se nesse assunto e entender melhor a
faculdade de julgar, recomendamos que leia o texto de Hannah Arendt,
intitulado Pensamento e considerações morais, que está em seu livro
Responsabilidade e Julgamento.

Teoria do Reconhecimento
A teoria e as políticas do reconhecimento partem da tese de
que nossa identidade é formada, em parte, pela existência ou
inexistência do reconhecimento. Assim, uma pessoa ou grupo
pode ser realmente prejudicado se aqueles que o rodeiam, seja
no âmbito familiar ou no social, os desprezarem, por não o
reconhecer pelo que é ou por o considerar inferior. Essa teoria
parte do pressuposto de que nossas identidades são definidas
não apenas por nós mesmos mas também na existência com os
outros, e seu não reconhecimento pode ser prejudicial. No nível
íntimo, é fácil verificar até que ponto uma identidade necessita e
é vulnerável ao reconhecimento concedido, ou não, por aqueles
que são importantes e próximos. Mas isso pode ser transposto para
o plano social: a recusa de reconhecimento pode constituir uma
forma de opressão.
Ocorreram duas mudanças na modernidade de extrema
importância para que se desenvolvesse uma preocupação com
o reconhecimento. A primeira delas foi a noção moderna de
dignidade, que já exploramos na Unidade 1, que como vimos hoje
possui um sentido universalista e igualitário. Antes de a dignidade
humana ser considerada universal, o reconhecimento era associado
exclusivamente à posição social ocupada por uma determinada
pessoa ou grupo na sociedade. Decorrem da concepção moderna
de dignidade a concepção igualitária e universal dos direitos
humanos. O conteúdo de uma política de dignidade universal
visa à igualdade de direitos. O que se deve evitar a todo custo é
a existência de cidadãos de primeira classe e de segunda classe.
A segunda mudança diz respeito ao conceito de autenticidade,
segundo o qual cada ser humano tem um modo singular de existir
e ser no mundo, sendo que devemos reconhecer igualmente
todas as formas particulares de ser. O desenvolvimento da noção

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 183


moderna de identidade deu origem a uma política de diferença.
É claro que essa política também tem uma base universalista,
sendo que todas as pessoas devem ser reconhecidas por suas
identidades únicas. Há, no entanto, uma diferença entre a política
de igual dignidade e a política de diferença:

em relação à política de igual dignidade, aquilo que se


estabelece visa a igualdade universal, um cabaz idêntico
de direitos e imunidades; quanto à política de diferença,
exige-se o reconhecimento da identidade única deste ou
daquele indivíduo ou grupo, do caráter singular de cada
um. (TAYLOR, 1998, p. 58)

O equívoco se comete frequentemente ao implantar políticas


de igual dignidade em detrimento de políticas de diversidade, é que
estas acabam por ignorar a singularidade, sendo esta assimilada
a um padrão, alegadamente universal, mas que na realidade é a
identidade dominante de uma maioria. Por outro lado, a política
de diferença também suscita outro tipo de conflito: enquanto
que a política de dignidade universal lutava por formas de não
discriminação que ignoravam consideravelmente as diferenças
entre as pessoas, a política de diferença redefine frequentemente
a não discriminação como uma exigência que nos leva a fazer
dessas distinções a base do tratamento diferencial.

No entanto, as políticas do reconhecimento buscam encontrar


um equilíbrio. Algumas medidas destinadas a melhorar a situação
das minorias podem ser justificadas com base na dignidade humana.
Algumas políticas de “ação afirmativa” ou de “discriminação positiva”,
por exemplo, possibilitam às pessoas provenientes de grupos
desfavorecidos terem um certo nivelamento competitivo no que
diz respeito a empregos e vagas. Essa prática é justificada pelo fato
de a sociedade herdar uma discriminação histórica que dá origem
a uma condição de desvantagem para os desfavorecidos. Além
disso, elas colaboram para que haja representantes desses grupos
ocupando posições de destaque na sociedade, colaborando para
que, no longo prazo, haja mudanças na forma como essas pessoas
são vistas e, portanto, para que sejam reconhecidas. Há também
outras formas de se buscar o reconhecimento que também
procuram mudar a imagem de determinados grupos para que
estes passem a ser reconhecidos e respeitados pela sociedade.

184 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


Exemplificando
Muitas ações afirmativas já foram implantadas no Brasil. Dentre elas,
podemos citar: aumento da participação dos grupos discriminados em
determinadas áreas de emprego ou no acesso à educação por meio
de cotas; concessão de bolsas de estudo; prioridade em empréstimos
e contratos públicos; distribuição de terras e moradias; medidas de
proteção diferenciada para grupos ameaçados etc.

Instrumentos de apoio à promoção de Direitos Humanos

A promoção dos direitos humanos e da diversidade ocorre,


principalmente, com a utilização da legislação em vigor em defesa dos
direitos, em especial dos segmentos mais vulneráveis e discriminados,
como as crianças e adolescentes, mulheres, homens, deficientes,
idosos(as), negros(as), índios(as), gays, lésbicas, travestis, transexuais e
bissexuais. Nesse sentido, o Brasil, que sempre contou com atuação
intensiva de organizações de defesa de direitos, pode contar com um
arcabouço legal nacional e internacional valioso para a defesa dos
direitos humanos, dos quais destacamos os seguintes:

• Programa Nacional de Direitos Humanos: <http://www.sdh.gov.


br/assuntos/direito-para-todos/programas/programanacional-de-
direitos-humanos-pndh-3>. Acesso em: 17 ago. 2017.
• Ministério dos Direitos Humanos (Secretaria dos Direitos
Humanos): <http://www.sdh.gov.br/>. Acesso: em 17 ago. 2017.
• Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial: <http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2003/d4886.htm>.
Acesso em: 17 ago. 2017.
• Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação Racial: <http://legis.senado.gov.br/
legislacao/ListaTextoIntegral.action?id=94836>. Acesso em: 17
ago. 2017.
• Lei nº 10.678, de 23 de maio de 2003, que cria a Secretaria
Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, da
Presidência da República: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/leis/2003/L10.678.htm>. Acesso em 17 ago. 2017.
• Secretaria de Política para Mulheres (Ministério da Justiça):
<http://www.spm.gov.br/>. Acesso em: 17 ago. 2017.

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 185


• Plano de Ação para o Enfrentamento da Violência contra
o Idoso: <http://www.sdh.gov.br/assuntos/pessoa-idosa/
programas/plano-de-acao-para-o-enfrentamento-daviolencia-
contra-pessoa-idosa>. Acesso em: 17 ago. 2017.
• Plano Nacional para Erradicação do Trabalho Escravo: <http://
www.sdh.gov.br/assuntos/conatrae/direitos-assegurados>.
Acesso em: 17 ago. 2017.
• Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação contra a Mulher: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/decreto/2002/d4377.htm>. Acesso em: 17 ago. 2017.
• Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar
a Violência contra a Mulher: <http://www.pge.sp.gov.br/
centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/belem.htm>.
Acesso em: 17 ago. 2017.
• Declaração Internacional dos Direitos da Criança: <http://
www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Crian%C3%A7a/
declaracao-dos-direitos-da-crianca.html>. Acesso em: 17 ago.
2017.
• Convenção Internacional dos Direitos da Criança: <http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/d99710.
htm>. Acesso em: 17 ago. 2017.
• Estatuto da Criança e do Adolescente: aprovado em 13 de
julho de 1990, o ECA instituiu-se como Lei Federal nº 8.069,
detalhando o artigo 227, da Constituição Federal, adotando
a chamada Doutrina da Proteção Integral, cujo pressuposto
básico afirma que crianças e adolescentes são pessoas em
desenvolvimento, sujeitos de direitos e destinatários de proteção
integral, com prioridade absoluta. O Estatuto, em seus 267
artigos, garante os direitos e deveres de cidadania a crianças e
adolescentes, determinando ainda a responsabilidade dessa
garantia aos setores que compõem a sociedade, sejam estes
a família, o Estado ou a sociedade. Ao longo de seus capítulos
e artigos, o Estatuto discorre sobre as políticas referentes à
saúde, educação, adoção, tutela e questões relacionadas aos
adolescentes autores de atos infracionais. <http://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm>. Acesso em: 17 ago. 2017.

186 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


• Lei nº 8.842, de 4 de janeiro de 1994: dispõe sobre a política
nacional do idoso, cria o Conselho Nacional do Idoso e dá
outras providências: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/
L8842.htm>. Acesso em: 17 ago. 2017.
• Estatuto do Idoso − Lei nº 10.741, de 1° de outubro de 2003:
após sete anos tramitando no Congresso, o Estatuto do
Idoso foi aprovado em setembro de 2003 e sancionado pelo
presidente da República no mês seguinte, ampliando os direitos
dos cidadãos com idade acima de 60 anos. Mais abrangente
que a Política Nacional do Idoso, Lei de 1994 que dava garantias
à terceira idade, o estatuto institui penas severas para quem
desrespeitar ou abandonar cidadãos da terceira idade: <http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.741.htm>. Acesso
em: 17 ago. 2017.
• Lei nº 7.853, de 24 de outubro de 1989: dispõe sobre o apoio
às pessoas portadoras de deficiência, sua integração social,
sobre a Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa
Portadora de Deficiência (CORDE), institui a tutela jurisdicional
de interesses coletivos ou difusos dessas pessoas, disciplina
a atuação do Ministério Público, define crimes e dá outras
providências: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7853.
htm>. Acesso em: 17 ago. 2017.
• Estatuto da Pessoa Portadora de Deficiência, Lei nº 10.098,
aprovada em 19 de dezembro de 2000, é destinado a assegurar
a integração e a inclusão social e o pleno exercício dos direitos
individuais e coletivos das pessoas que apresentam limitação
em suas atividades devido a alguma deficiência: <http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm>.
Acesso em: 17 ago. 2017.
• Estatuto do Índio − Lei nº 6.001, de 19 de dezembro de 1973:
aos índios e comunidades indígenas se estende a proteção
das leis do país, nos mesmos termos em que se aplicam aos
demais brasileiros, resguardados os usos, costumes e tradições
indígenas. <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6001.
htm>. Acesso em: 17 ago. 2017.
• Lei nº 10.714, de 13 de agosto de 2003, que autoriza o
Poder Executivo a disponibilizar, em âmbito nacional, número

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 187


telefônico destinado a atender denúncias de violência contra
a mulher: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/
L10.714.htm>. Acesso em: 17 ago. 2017.
• Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, que cria mecanismos
para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos
termos do § 8o do art. 226, da Constituição Federal, da Convenção
sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra
as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir
e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação
dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher;
altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei
de Execução Penal: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_
ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 17 ago. 2017.
• Lei que institui a Política Nacional para a População em
Situação de Rua e seu Comitê Intersetorial de Acompanhamento
e Monitoramento: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_
ato2007-2010/2009/decreto/d7053.htm> Acesso em: 17 ago.
2017.

Sem medo de errar


Caro aluno!
Em primeiro lugar, é preciso considerar que este homem é
protegido por todos os direitos humanos e fundamentais, além dos
direitos específicos dos idosos, que são consideradas pessoas em
situação de vulnerabilidade, e por isso devem receber um tratamento
especial da lei, que seja adequado às suas necessidades.
Do ponto de vista da teoria do reconhecimento, temos que
considerar que o homem, hoje em dia, tem sua identidade definida,
dentre outros fatores, pelo fato de ele ser idoso e pelo fato de morar
na rua e deve ser reconhecido, inclusive, por essas particularidades.
A rejeição deste homem pode causar, como imaginamos que já tem
causado, grande impacto na definição de sua personalidade, assim
como cria um estigma relacionado aos grupos aos quais pertence:
pessoas em situação de rua e idosos.
Uma política de reconhecimento exigiria, justamente, que este

188 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


homem, ao ser reconhecido em sua condição, pelo que é, fosse
tratado de maneira adequada a essa condição, para que pudesse ter
sua dignidade humana garantida.
Um equívoco do ponto de vista da teoria do reconhecimento
seria a criação de uma política de igual dignidade que, na tentativa
de garantir a dignidade humana do homem, procurasse impor a
ele um determinado estilo de vida. Não sabemos o que levou este
homem a morar na rua, mas ocorre que algumas pessoas em
situação de rua optam por morar na rua. O ideal para uma política
do reconhecimento seria tentar garantir os direitos humanos
daquele homem, respeitando seus desígnios. No entanto, caso a
situação de rua tenha sido imposta a essa pessoa pelo abandono,
pela necessidade ou por algum transtorno mental, uma política do
reconhecimento deveria dar a ele as ferramentas e o auxílio para
sair dessa situação, seja oferecendo tratamento ao seu transtorno
mental, como é o caso do alcoolismo – em atendimento ao direito à
saúde −, seja garantindo uma moradia adequada − em atendimento
ao direito social à moradia.
Você deve ter em mente que os termos “morador de rua” e
“morador em situação de rua” têm significados distintos. O morador
de rua, geralmente, está naquela situação por vontade própria,
por preferir a liberdade que a vivência nas ruas lhe possibilita, uma
convicção sua, interior. Já o morador em situação de rua, como
dissemos, está nessa condição em virtude de algo, geralmente,
alheio à sua vontade, por exemplo, dificuldades financeiras e
econômicas de prover seu sustento. Muito embora exista essa
diferenciação, os direitos humanos tendem a considerar que estes
indivíduos são moradores em situação de rua, pois, pelo princípio da
dignidade humana, nenhum ser humano deseja passar pelas severas
privações que as ruas impõem às vidas dessas pessoas.
Finalmente, é preciso que se utilize a faculdade de julgar na
análise dessa situação. É preciso, primeiramente, que sua mente saia
em visita do próprio homem, tentando imaginar como uma pessoa
em suas condições pensa e sente. O que será que o levou a essa
situação? O que o shopping center oferece como um atrativo para
que ele durma lá quase todas as noites? O que o levaria a beber?
Como sua velhice pode intervir em suas ações? O que você faria se
estivesse em sua situação?

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 189


Uma forma de exercitar a mentalidade alargada para que você
consiga colocar-se no lugar deste homem é procurando referências
sobre a população de rua de maneira geral.
O escritor George Orwell, por exemplo, escreveu um livro
intitulado Na pior em Paris e Londres, no qual conta sua experiência
radical de viver na pobreza extrema em Paris e Londres no final dos
anos 1920.
Uma publicação, por exemplo, que é realizada parcialmente por
pessoas em situação de rua, é a Revista Ocas (<http://www.ocas.org.
br/>. Acesso em: 17 ago. 2017). Ela contém textos e fotos realizados
por pessoas nessa situação. O jornal O Trecheiro (<http://www.
rederua.org.br/o-trecheiro>. Acesso em: 17 ago. 2017) também
é dedicado a retratar a vida dessa população e traz textos e fotos
realizados por eles.
Ainda, o documentário Dia sim, Dia não retrata brevemente a
situação de um catador no Rio de Janeiro (<https://www.youtube.
com/watch?v=VDMowKJk25Q>. Acesso em: 17 ago. 2017).
Esses exemplos mostram como é possível exercitarmos nossa
faculdade de julgar a partir da arte e dos exemplos.
No entanto, como vimos, quanto mais pessoas você conseguir
representar em sua mente, mais representativo será seu julgamento
e ele alcançará uma dimensão mais geral. Então, para isso, é
importante que você tente pensar no lugar também de outras
pessoas, como os clientes do shopping, os funcionários que devem
retirar o homem da porta todas as manhãs, o gerente com quem
você conversará etc.
Além disso, sabemos que o exemplo tem um valor para a
faculdade de julgar que extrapola a representação que fazemos do
outro. Para que não incorramos na “recusa de julgar”, é preciso que
elejamos exemplos de conduta que consideramos adequados. Então
é importante que você eleja aquelas pessoas que você admira e na
companhia das quais você quer estar e pense: como essa pessoa
agiria nessa situação? Isso também pode ajudá-lo a se orientar.
Por fim, é preciso que você busque a legislação pertinente e os
equipamentos públicos que podem ajudá-lo a lidar com a situação.
Um exemplo é o Estatuto do Idoso e a Lei que cria a Política
Nacional do Idoso. Ambos colocam ênfase, por exemplo, na não

190 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


discriminação do idoso e em sua interação com a sociedade. O idoso,
por exemplo, deve ser priorizado no atendimento dos equipamentos
públicos e nas políticas públicas, o que pode facilitar sua inclusão em
algum programa de assistência social. Uma das diretrizes da Política
Nacional do Idoso é especificamente a seguinte: “VIII − priorização
do atendimento ao idoso em órgãos públicos e privados prestadores
de serviços, quando desabrigados e sem família”. Observamos que
os órgãos privados também devem estar atentos à sua situação de
vulnerabilidade, como é o caso do shopping.
Outra legislação que pode ajudar a orientá-lo é a Lei que institui a
Política Nacional para a População em Situação de Rua. Os princípios
dessa política são:
I - respeito à dignidade da pessoa humana.
II - direito à convivência familiar e comunitária.
III - valorização e respeito à vida e à cidadania.
IV - atendimento humanizado e universalizado.
V - respeito às condições sociais e diferenças de origem, raça,
idade, nacionalidade, gênero, orientação sexual e religiosa, com
atenção especial às pessoas com deficiência.
Desse modo, uma resposta possível à questão seria procurar
na região do shopping equipamentos públicos que pudessem
abrigar esse homem, como albergues ou programas das Secretarias
Estadual e Municipal de Assistência Social, de modo a orientá-lo
sobre como usufruir de alguns programas destinados a ele. Outras
secretarias e órgãos públicos e da sociedade civil também podem lhe
fornecer apoio. Além disso, os funcionários podem ser orientados a
estabelecer algumas regras e uma rotina em diálogo com o homem
que possibilitem que ele se abrigue, mas não atrapalhe a rotina do
shopping. Por outro lado, como tanto as políticas de reconhecimento
do idoso como das pessoas em situação de rua orientam para a
integração social, o shopping, sendo parte da sociedade, pode
estabelecer algum tipo de vínculo com essa pessoa que busca
seu abrigo e proteção. O diálogo é uma ferramenta importante de
reconhecimento e inclusão. Caso o homem, por exemplo, queira
exercer alguma atividade que possa contribuir com o shopping, essa
possibilidade deve ser discutida com o gerente.

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 191


Enquanto gestor de segurança, muitas vezes, você e seus
funcionários acabam tendo um contato mais direto com as
pessoas que circulam pelo shopping e também com as situações
potencialmente problemáticas e desafiadoras. Isso não significa que
você deva ser apenas um espectador. Você tem possibilidade de
influir positivamente nessas situações e de propor soluções que só
você pode conceber justamente por ter esse contato mais direto.
É preciso ser criativo para não dar respostas padronizadas aos
problemas, as quais são tradicionalmente imbuídas de preconceito.
O preconceito é um dos principais inimigos do pensar e da faculdade
de julgar.

Avançando na prática
Inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho

Descrição da situação-problema

Você é diretor de uma empresa de segurança que decide


implantar uma política de ação afirmativa para inclusão de pessoas
com deficiência. Dessa forma, alguns funcionários portadores de
deficiência serão contratados para trabalhar no setor administrativo da
empresa. Você deve informar e orientar seus funcionários a respeito
da nova política e da relação com os novos funcionários.

Resolução da situação-problema
É preciso que você explique aos funcionários que a contratação
das pessoas com deficiência faz parte de uma política de ação
afirmativa, que consiste em medidas especiais e temporárias, que
são tomadas espontânea ou compulsoriamente, com o objetivo,
neste caso específico, de compensar perdas provocadas pela
discriminação e marginalização e promover o reconhecimento
desse grupo enquanto pessoas capazes de desempenhar funções
e contribuir para a sociedade. Você pode também apresentar a
eles o Estatuto da Pessoa com Deficiência e a Lei nº 7.853/1989,
que dispõe sobre o apoio à pessoa portadora de deficiência.
Essas duas leis têm um grande enfoque na integração da pessoa
com deficiência à sociedade, uma vez que sua exclusão e

192 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


marginalização podem ser extremamente prejudiciais às pessoas
e ao grupo, assim como à própria sociedade, que passa a se
definir sem a participação de membros que podem dar uma
grande contribuição. A integração ao mercado de trabalho é um
dos eixos dessa integração, e iniciativas como essa devem ser
valorizadas.

Faça valer a pena


1.

A crítica que a primeira faz à segunda consiste na violação que


esta comete do princípio de não discriminação. Inversamente, a
primeira é criticada pelo fato de negar a identidade, forçando as
pessoas a justarem-se a um molde que não lhe é verdadeiro. Já
seria suficientemente mal se se tratasse de um molde neutro [...].
Mas, geralmente, as pessoas [...] queixam-se do fato de o conjunto,
supostamente neutro, de princípios que ignoram a diferença [...] ser,
na verdade, um reflexo de uma cultura hegemônica. Se assim é, então
só a minoria ou as culturas subjugadas são forçadas a alienarem-
se. Consequentemente, a suposta sociedade justa e ignorante das
diferenças é, não só inumana (porque subjuga as identidades),
mas também é ela própria extremamente discriminatória, de uma
maneira sutil e inconsciente. (TAYLOR, 1998, p. 63)

Leia o texto acima atentamente. Considerando o conteúdo aprendido


nesta seção sobre a Teoria do Reconhecimento, o que são a “primeira” e a
“segunda” às quais Charles Taylor se refere? Assinale a alternativa correta:
a) A política de reconhecimento e a política de identidade, respectivamente.
b).A política de não reconhecimento e a política de diferença,
respectivamente.
c) A política de diferença e a política de igual dignidade, respectivamente.
d) A política de igual dignidade a política de diferença, respectivamente.
e).A política de igual dignidade e a política de reconhecimento,
respectivamente.

2.

Com base nessas indicações, pode-se dizer que o juízo, como uma
faculdade distinta do pensar e do querer, no pluralismo do cogito
arendtiano, é a capacidade de lidar com o particular sem perder
o horizonte do seu significado geral. É uma habilidade política

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 193


porque capacita o ator a se orientar no espaço público avaliando o
que nele se passa. […] Requer, à maneira de Kant, um juízo de tipo
reflexivo e não determinante, porque numa época de ruptura não é
possível subsumir o específico a ‘universais’ normativos esgarçados
e fugidios. (LAFER, 2007, p. 299)

Sobre a faculdade de julgar em Hannah Arendt, marque V para verdadeiro


e F para falso:
(.....) A mentalidade alargada depende da faculdade de imaginação, que nos
permite representar os pontos de vista dos outros em nossa mente.
(.....) O juízo da faculdade de julgar de Hannah Arendt é determinante e
universal.
(.....) A validade exemplar revela uma dimensão universal que de outra forma
não poderia ser capturada, nos obrigando a sair de uma visão meramente
subjetiva.
(.....) Essa faculdade possibilita também que tomemos decisões em casos
inéditos e imprevisíveis, para os quais ainda não há uma regra estabelecida.
Agora, assinale a alternativa que contém a sequência correta:
a) V – V – V – V.
b) F – F – F – V.
c) V – F – F – V.
d) V – V – F – F.
e) F – V – V – F.

3.
A novidade reside na formulação explícita que agora é feita da
exigência de reconhecimento. E o que tem contribuído para esse
caráter explícito, da forma que eu indiquei atrás, é a divulgação da
ideia de que o reconhecimento é essencial para a nossa formação. [...]
Um dos autores responsáveis por essa transição é, sem dúvida alguma,
o falecido Frantz Fanon, cuja obra marcante [...] (Os Condenados
da Terra) defendia que a principal arma dos colonizadores era a
imposição da imagem que eles concebiam dos colonizados sobre
os povos subjugados. Estes, para se libertarem, deveriam, primeiro
expurgar-se dessas imagens autodepreciativas. [...] [A] noção de que a
mudança da imagem adotada implica uma luta, que tem lugar dentro
do indivíduo subjugado e contra o dominador, tem conhecido uma
aceitação generalizada. (TAYLOR, 1998, p. 85)

194 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


Todo mundo já sabe: em comerciais de cerveja, estará sempre
muito calor e as mulheres vestirão um biquíni fio dental nos corpos
belíssimos. Corpos esses sem língua, diga-se, porque elas nunca
falam nada. Quer vender detergente, sabão em pó ou qualquer outro
produto de limpeza? Direcione as propagandas para as mulheres,
porque elas ainda não saíram da cozinha.
Vemos isso o tempo todo, tomamos como verdade absoluta, e
nem ligamos muito para a representação da mulher nos comerciais.
Fúteis, vazias, competitivas com outras mulheres, rainhas do lar,
vaidosas em nível tóxico. [...] Nos Estados Unidos há uma iniciativa
chamada The Representation Project, que cuida justamente de
analisar como a mídia mostra as mulheres. Aqui no Brasil não temos
nada parecido, mas grupos feministas online costumam questionar
as empresas quanto aos seus anúncios sexistas e muitas, muitas
vezes misóginos. (LAPA, 2013)

Analise atentamente a reportagem acima da Carta Capital a partir do texto


de Charles Taylor e assinale a alternativa correta:
a) A iniciativa The Representation Project é uma busca em promover o
reconhecimento das mulheres na sociedade a partir da mudança de sua
imagem para elas próprias e para a sociedade.
b) A representação que as propagandas usualmente fazem das mulheres
não é prejudicial para seu reconhecimento e para a formação das mulheres
e da sociedade em geral.
c) A mudança da imagem do papel das mulheres na sociedade não
depende do papel desempenhado pela mídia.
d) As imagens depreciativas adotadas pelos colonizadores em relação
aos povos colonizados não pode ser considerada análoga à imagem que
a sociedade tem das mulheres hoje, pois esta última não constitui uma
forma de opressão.
e) A luta contra a opressão e contra a imagem dominante e depreciativa
que se têm das mulheres não passa por uma luta interna das mulheres
contra a autoimagem que lhes é imposta.

U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 195


Referências
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ALVES, J. A. L. Os direitos humanos como tema global. São Paulo: Perspectiva, 1994.
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______. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
ASSOCIAÇÃO DOS ANALISTAS JUDICIÁRIOS DA UNIÃO. Princípio constitucional da
igualdade. 2011. Disponível em: <https://anajus.jusbrasil.com.br/noticias/2803750/
principio-constitucional-da-igualdade>. Acesso em: 9 jun. 2017.
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militar. Revista Brasileira de Segurança Pública, São Paulo, v. 10, n. 2, p. 154-170, 2016.
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196 U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação


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U3 - Promoção da igualdade e valorização da diversidade: combate ao preconceito e à discriminação 197


Unidade 4

Cidadania, prevenção e
planejamento na promoção
dos direitos humanos
Convite ao estudo
Caro aluno, finalmente chegamos à última unidade de nosso
curso, a Unidade 4. Lembramos que na Unidade 3 você estudou
a promoção do direito à igualdade e da diversidade por meio
do combate ao preconceito e à discriminação, bem como por
meio de leis específicas que contemplam as necessidades de
grupos vulneráveis. Você aprendeu também como se avaliar e
julgar situações em momentos de crise ou inéditas em que não
é possível confiar em padrões universais, ou mesmo nas leis. É
preciso aprender a julgar e a tomar decisões por nós mesmos,
desconfiando, muitas vezes, das ordens que recebemos de
autoridades ou mesmo de algumas leis que podem ser injustas.

Nesta unidade, você aprenderá a interação entre as políticas


públicas de segurança e ações que visam à realização do direito
à segurança e ao exercício da cidadania. Além disso, conhecerá
algumas ferramentas de organização e planejamento que
ajudam a promover essa interação e, por fim, aprenderá como
resolver problemas em que há um conflito entre normas de
direitos humanos quando não for possível conciliá-las, embora
sempre deva ter em mente sua realização integral e integrada.

Para isso, você deve ter em mente o seguinte contexto:

Você é o diretor de segurança de uma escola privada no


Bairro do Morumbi, na cidade de São Paulo, e foi designado pela
escola para participar do Conselho Comunitário de Segurança
(CONSEG) do bairro, enquanto representante da sociedade civil,
uma vez que a diretoria da escola acredita que, para garantir
a segurança dos alunos que circulam livremente no bairro, é
preciso exigir a melhoria da segurança pública.

Cada Conselho é uma entidade de apoio à Polícia Estadual,


ligado ao Distrito e à Cia. da Polícia Militar correspondente à
sua área de atuação, e atua para estabelecer prioridades no
atendimento à população e realizar campanhas educativas que
estimulam a autoproteção comunitária, evitando a ocorrência
de infrações e acidentes. É importante saber que o CONSEG
reúne representantes do governo e dos diversos segmentos da
sociedade e pode atuar para corrigir problemas da região que,
embora não sejam da competência da polícia, trazem reflexo
à atividade policial, onerando seus recursos. Esses problemas
podem ser classificados como sendo dos seguintes tipos:
origem humana, tais como questões envolvendo menores e
moradores em situação de rua, migração desordenada etc., ou
de origem material (como buracos nas ruas e em vias públicas,
ausência de telefones públicos, iluminação pública escassa,
terrenos abandonados, imóveis desocupados e abandonados,
falta de aparato para a proteção contra roubo de agências
bancárias, dentre outros).

A nomenclatura Conselho pode ser utilizada para grupos


e agremiações das mais diversas naturezas, com as mais
diversas caracterizações. Contudo, costuma-se associar essa
denominação aos órgãos colegiados que estão vinculados ao
órgão da Administração Pública mais diretamente ligado aos
seus objetivos.

Você foi eleito enquanto representante da sociedade civil para


um mandato de seis meses e deverá participar das reuniões. Os
conselheiros, sejam eles representantes do Poder Público ou da
sociedade civil, devem sempre atentar para o interesse social e
seguir os princípios que regem a coisa pública. Os conselheiros
possuem, assim, diversos papéis, sendo um deles de grande
importância para a modificação da cultura institucional que
seja centralizadora, autoritária e que possa vir a excluir um novo
modelo de cidadania e de busca de defesa dos interesses de
todos, bem como do que está previsto pela Constituição Federal
de 1988, a qual tem por finalidade a distribuição da riqueza
nacional, além da garantia de acesso a políticas sociais, à justiça
e à equidade. O conselheiro deve ter capacidade de decisão,
de expressão, de negociação, de articulação, de comunicação,
de defender propostas, de ser transparente e de compartilhar
informações.

Você prometeu à associação de pais e alunos da escola que,


ao final de seu mandato, redigirá uma carta ao CONSEG listando
os principais problemas identificados na região de acordo com
sua experiência no conselho e propondo soluções preventivas
e colaborativas à comunidade.

Na Seção 4.1, você aprenderá o que é a cidadania, as


formas de participação e controle social na garantia dos direitos
humanos, o conceito de promoção de direitos e a importância
de se construir redes para promoção dos direitos humanos.

Na Seção 4.2, você estudará os princípios do policiamento


comunitário e como esse sistema pode ajudar na promoção da
segurança de forma integrada aos direitos humanos. Aprenderá,
ainda, sobre o sistema constitucional de segurança pública.

Por fim, na Seção 4.3, trataremos da interdependência dos


direitos humanos e como eles devem ser realizados de forma
transversal nas políticas públicas. Veremos também como pensar
nos problemas que envolvem conflitos de direitos humanos a
partir da distinção entre regras e princípios, com base na teoria
de Robert Alexy.
Seção 4.1
Cidadania e participação social na promoção dos
direitos humanos
Diálogo aberto

Lembrando que você participa como representante da sociedade


civil do Conselho Comunitário de Segurança (CONSEG), do bairro do
Morumbi, na cidade de São Paulo. Tendo em vista que você é o diretor
de segurança de uma escola privada da região, precisa participar
das reuniões e pensar soluções para os problemas que afetam a
segurança da região em conjunto com os outros conselheiros.
Recentemente, alguns jovens que frequentam o ensino médio na
escola em que você trabalha, assim como de outras escolas, foram
flagrados consumindo maconha em um terreno baldio, e os pais estão
preocupados com a segurança dos jovens e com o tráfico de drogas
no entorno da escola. Depois de analisar a situação, você conclui que
a venda de drogas para os alunos da escola possui uma relação com
a evasão escolar e a entrada para o tráfico de novos jovens e jovens
adultos que moram na favela. Você precisa convencer os outros
membros do CONSEG – no qual participam também representantes
das Secretarias de Cultura e Educação, assim como representantes
de ONGs que atuam na região, além, é claro, do Delegado de Polícia
e do Comandante da PM – da importância de se ouvir a comunidade
para formulação de soluções para os problemas de segurança púbica,
da promoção de direitos sociais que impactam na segurança pública
e da constituição de redes para a promoção desses direitos. Vamos
pensar em uma estratégia para atingir essa finalidade após todo o
conteúdo que você já aprendeu? Bom trabalho!

Não pode faltar

Cidadania
O termo cidadania traz a ideia de participação na vida do Estado,
que se exterioriza, principalmente, pelo exercício dos direitos políticos,

202 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


como já estudamos. A partir da Constituição Federal de 1988, passa
a se exigir uma participação maior do povo na vida e nos problemas
do Estado. O cidadão é aquele que participa dos negócios do Estado.
Assim, a cidadania ganha, da mesma forma que os direitos políticos,
um sentido mais amplo que o simples exercício do voto.
A palavra cidadania provém da palavra latina civitate, que significa
cidade, sendo o cidadão aquele que possui ligação com a cidade. Por
esse motivo, são considerados cidadãos apenas aqueles que tenham
alguma ligação com uma comunidade política. Por outro lado,
estando essencialmente ligada ao exercício da política, a cidadania
também carrega a concepção de liberdade em sua origem, uma vez
que ciuis, em latim, é o ser humano livre.
A cidadania é, antes de tudo, a posição política do indivíduo e a
possibilidade do exercício de direitos. A cidadania credencia o cidadão
a atuar na vida efetiva do Estado como partícipe da sociedade política.
A cidadania transforma o indivíduo em elemento integrante do Estado,
na medida em que o legitima como sujeito político, reconhecendo o
exercício de direitos em face do Estado.
É importante que se esclareça que, historicamente, a cidadania
é uma condição exclusiva e excludente, ou seja, não são todos que
possuem o status de cidadãos. Essa realidade não se verifica apenas
na pólis grega ou na ciuitas romana mas também após as revoluções
burguesas, com a cidadania liberal, segundo a qual somente os
cidadãos de determinada camada social eram considerados cidadãos.
Como você viu anteriormente, o totalitarismo evidenciou a
fragilidade da proteção dos direitos humanos que dependiam, em
grande medida, do vínculo efetivo do indivíduo ao Estado, que em geral
é estabelecido por meio da nacionalidade, que permite a proteção
diplomática. A desnacionalização e a criação de uma grande massa
de apátridas constituíram uma grande arma totalitária, uma vez que o
apátrida não encontra seu lugar na família das nações. Disso decorre,
como vimos, o esforço do Direito Internacional dos Direitos Humanos
de tutelar os direitos dos “não cidadãos” no contexto mais amplo do
princípio de proteção internacional. Substitui-se, assim, o princípio de
proteção diplomática, baseado no exercício de competência pessoal
dos Estados, pelo princípio de proteção internacional, que busca
tutelar os direitos dos indivíduos enquanto indivíduos e não enquanto
nacionais de qualquer Estado.

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 203


No entanto, a cidadania e o vínculo político e jurídico com um
Estado continua sendo de extrema importância para a realização dos
direitos humanos, haja vista a situação de extrema vulnerabilidade
em que se encontram as pessoas deslocadas ainda hoje. É por esse
motivo que Hannah Arendt realça que o primeiro direito humano
seria o direito a ter direitos, que significa pertencer, pelo vínculo da
cidadania, a algum tipo de comunidade juridicamente organizada,
não necessariamente o Estado-nação.

Assimile
Os direitos humanos que temos hoje são derivados, em grande medida,
de uma conquista histórica e política, ou seja, foram conquistados por
meio da convivência coletiva dentro de uma comunidade política.
E mesmo atualmente, em que são internacionalmente positivados,
sua promoção e efetivação dependem da atuação em comunidades
políticas, o que é imensamente facilitado pelo vínculo de cidadania.

Celso Lafer (1991, p. 150) escreve que “a igualdade não é um dado,


é um construído, elaborado convencionalmente pela ação conjunta
dos homens através da organização da comunidade política”. E assim
é com todos os direitos humanos, que derivam de conquistas políticas
por meio da ação.
Em seu sentido estrito, a cidadania estaria adstrita ao exercício
dos direitos políticos. Sob esse prisma, a cidadania seria a prerrogativa
para que se exerçam os direitos políticos, sendo o status de cidadão
alcançado com a condição de eleitor. No sentido amplo do termo,
a cidadania seria o exercício de outras prerrogativas constitucionais
que surgiram com o Estado Democrático e Social de Direito. Nesse
sentido, os chamados direitos de cidadania passaram a ser todos
aqueles relativos à dignidade do cidadão, como sujeito de prestações
estatais, e à participação ativa na vida social, política e econômica do
Estado. Atualmente, não se concebe mais a cidadania como o direito
de votar e ser votado, não estando ela vinculada mais estritamente
ao direito ao voto. Até porque, mesmo quando falamos de direitos
políticos, a vida política de um país não se restringe ao aspecto
eleitoral.
T. H. Marshall divide a cidadania em três partes ou elementos
distintos: (a) civil, composto das garantias e liberdades individuais;

204 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


(b) político, referente ao direito de participar no exercício do poder
político; e (c) social, que são as condições mínimas necessárias para
a vida digna. A cidadania plena só se realizaria quando se gozasse de
direitos civis, políticos e sociais (apud SIQUEIRA JÚNIOR; OLIVEIRA,
2009, p. 245).
No entanto, estando a liberdade no coração da concepção de
cidadania, esta é realizada, principalmente, por meio da ação política,
no espaço público. Impedir a integração na vida pública significa
negar a cidadania. O ideal democrático pressupõe cidadãos atentos à
evolução da coisa pública, informados dos acontecimentos políticos,
capazes de escolher entre as diversas alternativas apresentadas pelas
forças políticas e fortemente interessadas em formas diretas ou
indiretas de participação.
No Estado Democrático de Direito, os direitos humanos são
reconhecidos a todos. O cidadão é aquele que participa da dinâmica
estatal, sendo que atua para conquistar, preservar ou proteger seus
direitos. A concretização da democracia ocorre pela cidadania,
ou seja, pela participação política nos destinos do país. Entretanto,
a cidadania plena só se concretiza no exercício dos direitos civis,
políticos e sociais.

Reflita
Você acredita que os imigrantes e refugiados podem ser considerados
cidadãos? Pense a respeito.

Promoção de Direitos Humanos


Como vimos na Unidade 3, a forma de realização dos direitos
humanos pretendida pela Declaração Universal, em sua proposta
formadora de cada indivíduo ou grupo, independentemente do
Estado a que está vinculado, extrapola a imagem simplista de um
Estado como organismo que estabelece as regras do jogo, que
codifica, coage e sanciona. Essas técnicas limitadas dos Estados, que
visam à instituição de obrigações, estão fadadas a atingir objetivos
igualmente limitados.
Dessa forma, a Declaração Universal dos Direitos Humanos
orienta para uma nova forma de controle social, distinta daquelas
ações de controle do Estado liberal clássico: o emprego cada vez

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 205


mais difundido das técnicas de encorajamento em acréscimo, ou em
substituição, às técnicas tradicionais de desencorajamento. O que
nos faz caminhar para o abandono da imagem tradicional do direito
como ordenamento protetor-repressivo.
A aplicação do direito não é meramente declaratória e reprodutiva
de um direito positivo. Essa aplicação seria constitutiva e produtiva de
um direito atualizado, que abarca o fato social e suas atualizações.
O direito positivo contemporâneo deixou de ser um instrumento
de controle social stricto sensu para se tornar um instrumento de
direção social. Trata-se, portanto, de um direito promocional que
almeja estimular comportamentos por meio de medidas diretas ou
indiretas. Considerando também o critério da efetividade, um direito
promocional não pode se restringir ao alcance da validade formal;
procurando-se avaliar também a conduta dos destinatários das
normas.
Nesse ponto, o Estado adquire cada vez mais a função de
promover, em vez de tutelar (ou garantir) coercitivamente os direitos,
criando condições propícias para que o direito possa se efetivar. A
promoção, por conseguinte, realiza-se quase sempre por medidas
positivas, de estímulo ou incentivo.

Construção de redes e garantias para a promoção de direitos


humanos
A origem etimológica da palavra rede é latina e quer dizer teia,
fios que estão entrelaçados e que formam um tipo de tecido, com
fibras interligadas. A palavra rede tem adquirido significados novos no
final do século XX, após o surgimento de novas tecnologias por meio
de melhorias na área de informática e da consolidação da internet.
O significado que adotamos aqui refere-se ao conjunto de pessoas
ou organizações que mantêm contato entre si com um fim comum.
Descrito no manual de Redes Sociais do Centro de Direitos Humanos,
“redes são sistemas organizacionais capazes de reunir indivíduos e
instituições, de forma democrática e participativa, em torno de causas
afins” (OLIVERI apud ALMEIDA; IKAWA; PIOVESAN, 2010, p. 1).
É preciso entender as redes como uma proposta de realização
do trabalho de transformação social coletivamente, a partir de
uma circulação do fluxo de informações. Elas constituem espaços
coletivos por excelência, tendo em vista que não é possível uma rede

206 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


estabelecer-se com propósitos individuais, assim como não se faz
uma rede sozinho. Os pressupostos do trabalho em rede são: 1) a
participação; 2) a cooperação; 3) a horizontalidade; 4) a circulação
de informações; e 5) a articulação. Por isso, é fundamental para uma
rede a circulação de informações, o compartilhamento de saberes,
experiências e objetivos comuns.
A estrutura horizontal de uma rede contribui para romper
com o modelo de organização tradicional de poder hierárquico
e de representação, que é piramidal, centralizador, competitivo,
possibilitando vivenciar nas relações sociais e políticas ideias e
princípios emancipatórios, empoderando pessoas e organizações. As
redes possibilitam uma nova experiência de convívio político, próprio
da horizontalidade, da descentralização e da desconcentração do
poder. Segundo Viviane Amaral (apud ALMEIDA; IKAWA; PIOVESAN,
2010, p. 1):

Participar verdadeiramente de uma rede implica em


aceitar o desafio de rever as formas autoritárias de
comportamento às quais estamos acostumados e que
reproduzimos (como dominadores e como subordinados)
apesar dos discursos e intenções democratizantes.

Reflita
Você pensa que a organização em redes é mais condizente com o
exercício da cidadania do que a estrutura de representação tradicional?

A fim de se garantir a eficácia das redes, elas devem possuir pessoas


que lhes forneçam sustentabilidade e que tenham formação adequada,
a fim de se manter a continuidade de informações, diálogos, debates
e decisões acerca de ações estratégicas da coletividade que tenham
por finalidade atingir os objetivos traçados pelos próprios integrantes
da rede. Essas pessoas são as facilitadoras da rede.
Considerando que redes são processos horizontais, com foco
numa determinada causa ou objetivo, os Conselhos de Direitos
podem usar esse método de trabalho articulado em rede para
potencializar o resultado das ações na perspectiva da garantia dos

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 207


direitos dos segmentos atendidos pelo conselho. Existem diversas
modalidades de organização em rede, com diferentes objetivos. Por
exemplo: redes de proteção, redes de organizações da sociedade
civil, redes governamentais, redes de serviços, redes de defesa dos
direitos, redes de violações de direitos (é preciso conhecê-las para
melhor enfrentar o problema).
Além disso, para se garantir o funcionamento da rede e seus
resultados, faz-se necessário: (i) ter ciência do tema a que a causa
se refira; (ii) fazer um plano estratégico; (iii) estabelecer as prioridades
das ações; (iv) desenvolver e se valer de meios de comunicação;
(v) estabelecer uma agenda de encontros e eventos para os seus
membros; (vi) criar grupos de trabalho que tenham por finalidade
dar atenção aos assuntos que são do interesse dos participantes,
assim como da causa e dos objetivos que se deseja atingir. Assim
sendo, deve-se aproveitar essas situações de colaboração para que
sejam feitas trocas de dados, informações e para que novas ações
sejam articuladas. Dessa forma, as redes devem ter como estratégia
a cooperação e o estabelecimento de solidariedade, de modo que
se complementem e sejam parceiras quando se tratar de locais que
objetivem a promoção, proteção, defesa e o controle social para a
garantia de direitos.

Dicas para a Articulação de Redes


Quando uma rede é articulada, ela pode enfatizar os seguintes
aspectos:

• Incentivos a articulações regionais: estas articulações


podem render bons frutos, pois organizações de uma
mesma região tendem a ter problemas similares e
por estarem geograficamente próximas têm maiores
possibilidades de realizarem reuniões presenciais.
• Encontros presenciais: estes encontros reforçam
os elos de confiança da rede e a torna mais propícia à
comunicação e trabalho conjunto. Embora nem sempre
todos os integrantes de uma rede possam comparecer
a reuniões presenciais, as comunicações aumentam
significativamente após os encontros.
• Construção de um informativo: o objetivo é manter
os participantes atentos às ações da rede. A tônica

208 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


deste tipo de comunicação pode ser bastante informal
e algumas notícias podem ser de caráter corriqueiro e
por vezes jocoso, para fortalecer outros tipos de vínculos
entre os participantes. (ALMEIDA; IKAWA; PIOVESAN,
2010, p. 3)

Participação e controle social na garantia dos direitos humanos


Você viu, ao longo da Seção 4.1, que o termo cidadania significa
participação nos negócios políticos do Estado e que ela não se restringe
unicamente ao direito de votar e de ser votado. Há outras formas de
participação mais direta. É o que trataremos agora em relação aos
conceitos de participação social e controle social, especificamente
para a garantia dos direitos humanos. Tanto a participação como o
controle social são meios de concretização dos direitos relacionados
à cidadania.

Participação
Dessa maneira, essa participação do cidadão nos negócios do
Estado somente pode se dar em regimes de governo democráticos,
em que são garantidos direitos civis, políticos, econômicos e sociais
de todos os indivíduos. Assim, a atuação do cidadão gira em torno
da necessidade de adquirir, preservar e exigir que seus direitos sejam
respeitados, garantidos e cumpridos pelo Estado democrático de
direito. Para que você se lembre também, a filósofa Hannah Arendt
(2009 apud LAFER, 1988, p. 16), ao definir cidadania, afirmou que é o
“direito a ter direitos”. E essa atividade de participação nos negócios
do Estado pelo cidadão se dá, no Estado democrático de direito, por
meio da política, como outrora também já dissemos. É a participação
nos negócios estatais concernentes ao interesse público, o qual
se dá na vida real por meio da formulação e implementação das
políticas públicas. E essa participação também tem um lugar em que
ela acontece: em uma comunidade. Logo, é dentro da comunidade
em que o cidadão está (o município, os estados, o Distrito Federal e a
União, entes federativos brasileiros) que ela se verifica. Nesse sentido,
o cidadão membro da comunidade tem a noção de pertencimento,
por meio do qual poderá exigir seus direitos.
Para sistematizarmos e fazermos com que você compreenda a

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 209


participação social do cidadão nos negócios do Estado, devemos
colocar que ela pode ocorrer de três formas diferentes. A primeira
acontece de maneira mais passiva: é quando o cidadão, por meio de
presença (termo de presença) em reuniões públicas ou expressão
de sua opinião em mensagens políticas, o faz de livre e espontânea
vontade. Ela é passiva porque o cidadão age de modo receptivo, não
colocando uma contribuição pessoal nesse tipo de participação. A
segunda se dá por meio de um termo de ativação (participação ativa),
ou seja, quando o cidadão possui uma atividade, no interior ou não,
de organizações políticas, a qual lhe foi delegada pela Constituição ou
por uma lei infraconstitucional. Exemplos desse tipo de participação
são: envolvimento em campanhas ou em manifestações. Por fim, o
terceiro tipo de participação é aquele em que os cidadãos, enquanto
sujeitos políticos e conscientes de sua atuação como tais, exercem
sua cidadania, de modo a contribuir em processos de mudanças e
de conquistas na vida social e da comunidade em que estão inseridos.
O terceiro tipo de participação é o que passaremos a detalhar
a seguir. Nesse caso, temos também três tipos de participação:
(i) participação comunitária; (ii) participação popular; e (iii)
participação social.
A participação comunitária diz respeito à participação do cidadão,
em sua comunidade, especialmente em questões relacionadas ao
trabalho. No Brasil, surge no século XX, a partir da década de 1950,
após o forte crescimento econômico e início da industrialização
sofridos pelo país. Já em meados dos anos 1960, com a vigência da
ditadura militar no Brasil, e nos 1970, ainda sob esse regime autoritário
e em meio ao crescimento econômico que se denominou “milagre
econômico ou milagre do crescimento”, a participação comunitária
foi utilizada como forma de controle social pelo Estado. Nesse
período, a participação comunitária se resumiu a uma competente
formação técnica e profissional para o mercado de trabalho, que
assim demandava essas exigências, bem como a especialização da
mão de obra.
A participação popular surge no Brasil no final da década de
1960 e se consolida durante os anos de 1970. Como já dissemos,
o período coincidia com a ditadura militar brasileira. A participação
popular consistia numa prática de severa crítica e radicalização em
relação às práticas políticas da época em virtude da verificação, na

210 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


realidade, de grandes desigualdades sociais e econômicas em toda
a população brasileira. Com o advento da ditadura militar no Brasil, a
partir do Golpe de 1964, o Estado era o único ente capaz de exercer
o controle social, e este período ficou conhecido por existirem os
atos de exceção. Mas, como dissemos, foi durante aquele período
em que diversos movimentos sociais surgiram com a finalidade
de obter melhores condições de vida. Dentre esses movimentos,
podemos citar o movimento pela anistia dos presos e exilados por
motivos políticos (pessoas que discordavam do regime militar) e o
movimento de trabalhadores, com os processos de sindicalização na
região metropolitana de São Paulo, no final da década de 1970.
Esses movimentos sociais foram duramente reprimidos pelo
Estado brasileiro na época em que surgiram. Contudo, apesar da
forte repressão, a participação popular, por meio desses movimentos
sociais, auxiliou no processo de abertura política no país em meados
da década de 1980.
Já a participação social remete ao termo de participação da
sociedade nos negócios políticos estatais e foi instituída a partir
da década de 1980 com o processo de reabertura política e de
redemocratização do Estado brasileiro. O expoente da participação
social se deu com o movimento Diretas Já, que clamava por
eleições democráticas diretas para a escolha do novo Presidente da
República naquele período, que contou com uma mobilização de
diversos setores da sociedade civil organizada, colocando em pauta
a abertura para o atendimento de uma diversidade de interesses e
de projetos de cunho social e político, que culminariam com a nova
constituinte e a promulgação da Constituição Federal de 1988. A
partir daí, surgem mecanismos de participação e de representação
que têm poder de criar normas e parâmetros para as novas políticas
públicas do Estado brasileiro em todos os níveis da federação. São
os chamados conselhos, criados em âmbitos municipal, estadual e
federal. Abordaremos o seu surgimento e funcionamento com mais
detalhes quando falarmos de democracia participativa a partir da
Constituição Federal de 1988.

Controle social
O controle social pode ser definido como sendo o
compartilhamento de poder do Estado com a sociedade, a partir

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 211


do qual esta influenciará na elaboração e no direcionamento das
políticas públicas estatais. O controle social atua em cinco frentes:
formulação, deliberação, monitoramento, avaliação e financiamento
das políticas públicas. Já vimos que a Constituição Federal de 1988
trouxe mecanismos de participação na democracia de maneira
indireta, quais sejam o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular,
instituindo assim a democracia participativa. Com ela advieram os
mecanismos de controle social, sendo os conselhos de direitos,
de políticas e de gestão de políticas sociais para os setores da
sociedade. Nesse sentido, o controle social se dá por meio da
existência de conselhos, em que se constrói um espaço de diálogo
e de atuação política da sociedade civil e política. Assim, são lugares
em que se vê efetivamente mecanismos institucionais de participação
social na vida e na coisa pública.

Pesquise mais
Você sabia que além da existência dos conselhos existe outro mecanismo
de controle e participação social muito utilizado no Brasil? São os
orçamentos participativos, por meio dos quais diversos municípios
brasileiros formulam consultas e audiências públicas, em que convocam
a população para que estabeleçam e definam a forma como o dinheiro
público será empregado e gasto diretamente nas políticas públicas
dessas cidades.

De acordo com a Constituição Federal, os conselhos são órgãos


colegiados, de natureza deliberativa ou consultiva, a quem cabe a
formulação, supervisão e avaliação das políticas públicas e efetivação
dos direitos humanos nas esferas federal, estadual e municipal.
Mas é importante que você saiba que os conselhos que
garantem a observação dos direitos humanos no Estado brasileiro
somente passaram a defender e garantir os direitos humanos a
partir da Constituição Federal de 1988, com a retomada do estado
democrático de direito.

Exemplificando
Como exemplo desses conselhos, temos o Conselho de Defesa
dos Direitos da Pessoa Humana e o Conselho Nacional dos Direitos

212 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


da Mulher. Além destes, a Constituição Federal passou a prever os
conselhos de saúde, de assistência social, dos direitos da criança e do
adolescente e do idoso. Você deverá ter em mente que esses conselhos
estão vinculados ao ente federativo que o criou por meio de lei, ou seja,
a União, os estados, o Distrito Federal e os municípios. A lei que o criar
será a responsável por lhe conferir e determinar suas atribuições e a
extensão destas, além de suas prerrogativas e deveres.

A composição dos conselhos deve ser por uma parcela da


sociedade civil e do Poder Público, o que possibilita a gestão
compartilhada das políticas públicas de acordo com a área de
atuação. Ao serem criados por lei, eles passam a integrar a estrutura
institucional do ente federativo em questão. De uma maneira geral,
os conselhos têm as seguintes atribuições: (i) estabelecer guias e
diretrizes para orientar o Estado a formular as políticas públicas; (ii)
fazer o acompanhamento, a fiscalização e avaliação destas; (iii) criar
parâmetros para a aplicação dos recursos públicos para a área em
que atuem, além de fiscalizar essa aplicação, especialmente quando
houver a criação de fundos que receberão o investimento público; (iv)
estabelecer diretrizes e planos de ação de modo a orientar a proposta
orçamentária do ente que o criou; e (v) convocar conferências na sua
área de atuação.
Como você pode ver, os conselhos nada mais são do que
instrumentos de democratização da gestão pública.

A Constituição de 1988 e a democracia participativa


Como já dissemos anteriormente, a Constituição Federal de 1988,
conhecida como Constituição Cidadã, é uma referência em nossa
história social e política, pois foi esta Carta Magna que marcou a
transição para o regime democrático e estabeleceu diversos direitos
humanos e fundamentais.
A partir da leitura de seu preâmbulo, observa-se que a Constituição
de 1988 instituiu o estado democrático de direito, que deverá garantir
os direitos sociais e individuais, bem como a liberdade, a segurança,
o bem-estar, além do desenvolvimento, a igualdade e a justiça para
se ter uma sociedade fraterna e socialmente harmoniosa. Passou a
prever o federalismo e os entes federativos: União, estados, Distrito

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 213


Federal e municípios. Além disso, a partir da leitura de seus artigos
3º e 5º, contamos com seus princípios fundamentais e o projeto de
redução das desigualdades em todo o país, levando-se em conta
as diversidades sexual, de raça, religião, geração e o combate à
discriminação.
Vale lembrar que foi por meio da Constituição Federal de 1988
que se garantiu a democracia participativa. Ela é a previsão dos
direitos políticos tal qual vimos em seções anteriores. Assim, o direito
de votar e de ser votado é um deles, mas não se restringe a isso. Em
seu artigo 14, a Constituição assegura o plebiscito, o referendo e a
iniciativa popular como direitos políticos e que efetivam a democracia
participativa na qual vivemos atualmente.
Não há que se falar em um regime democrático se este não
assegurar a participação política da sociedade em geral. Assim, a
Constituição Federal, ao trazer para o seu interior os direitos humanos
internacionalmente consagrados, garantiu a existência de uma
democracia em nosso país, incentivando a participação de todos os
seus cidadãos.

Sem medo de errar


Primeiramente, é importante que você lembre os demais
conselheiros de que o conselho é um local privilegiado de
participação e exercício da cidadania, tendo em vista que é formados
por membros da sociedade civil e do Poder Público e possibilita a
gestão compartilhada de uma determinada política, no caso, a política
de segurança pública. Além disso, deve esclarecer que sua atuação
enquanto conselheiro visa ao bem público/coletivo, e não individual,
ou mesmo exclusivo dos alunos de sua escola.
O exercício da cidadania se dá com a participação dos cidadãos
na vida do Estado, por isso os conselhos são órgãos importantes que
estreitam a distância entre os cidadãos e o Estado.
Em segundo lugar, você deve compartilhar suas conclusões e
sua reflexão a respeito da situação com os outros conselheiros,
mostrando como o tráfico de drogas da região possui uma relação
com a promoção de outros direitos humanos para além do direito à
segurança. Essa relação também está expressa na teoria dos direitos
humanos e fundamentais, segundo a qual todos os direitos são

214 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


interdependentes (estudaremos mais a fundo essa interdependência
na próxima seção). A promoção de direitos humanos em geral
e, neste caso, de direitos sociais, ajudaria a prevenir violações de
direitos. Desse modo, o Estado deve assumir sua função ao promover
os direitos humanos e criar condições propícias para que todos os
direitos se desenvolvam e a sua repressão ou coerção diminuam.
É preciso que se investiguem as causas profundas da evasão
escolar e da migração dos jovens para o tráfico. Para isso, é preciso
que se ouça a comunidade e se promova sua participação, tendo
em vista que não somente eles também são cidadãos, e como tal
devem ser integrados nos processos decisórios, como conhecem
suas necessidades e problemas melhor do que ninguém. Uma
forma de promover sua participação é por meio das organizações
da sociedade civil que atuam na região, especialmente na favela. Eles
podem convocar os moradores para uma reunião sobre o assunto
promovida pelos conselheiros do CONSEG. Além disso, podem
fornecer informações importantes, de onde se conclui que a situação
só pode ser melhorada caso sejam gerados mais empregos na região,
o que evitaria que os jovens ingressassem no tráfico para ajudar suas
famílias, e caso sejam promovidas atividades para esse público no
período da tarde, no qual os jovens não estão na escola.
Depois de constatados os problemas da comunidade, é possível
sugerir que o CONSEG forme uma rede para solucionar esses
problemas. Algumas organizações, por exemplo, podem realizar
atividades de capacitação e de profissionalização para os jovens
adultos; outras podem promover atividades para os alunos nos
horários em que não estão na escola, e o Poder Público pode
divulgar essas iniciativas no espaço escolar. Agindo em conjunto, de
forma articulada e compartilhando informações, o CONSEG e outras
organizações da região poderiam também pressionar os órgãos
públicos responsáveis pelo direito à educação e ao trabalho para
promoverem projetos direcionados àquela comunidade, assim como
criar projetos que envolvam a comunidade em uma solução.
A rede pode extrapolar as organizações que possuem
representantes no CONSEG, abarcando outras organizações da
região e órgãos do Poder Público. A própria escola onde você atua
pode compor a rede, oferecendo bolsas aos alunos, cursos livres ou
promovendo o voluntariado dos alunos em projetos sociais, de modo

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 215


a se integrar mais à comunidade. É importante que os participantes da
rede se reúnam periodicamente para discutir e planejar suas ações e
que estabeleçam canais de troca de informações.

Avançando na prática
Agindo preventivamente para a promoção de direitos humanos

Descrição da situação-problema

Você atua no Departamento de Direitos Humanos da Diretoria


de Polícia Comunitária e de Direitos Humanos e deve estabelecer
parcerias entre a polícia militar, a prefeitura de seu município e
outras organizações da sociedade civil em benefício da segurança
da comunidade local. Você tem uma reunião com o líder de uma
organização política que luta pelos direitos dos sem-teto para
saber quais são as necessidades dessa população e como a polícia
militar pode agir preventivamente. Ocorre que existe, dentro
dessa organização, uma visão da polícia militar como um órgão
exclusivamente repressor que eles relacionam aos agentes que
promovem as desocupações dos prédios abandonados ocupados
pelo movimento. O que você diria para mudar essa concepção e
poder conversar com o representante?

Resolução da situação-problema
Primeiramente, é preciso que você esclareça que a Polícia
Comunitária atua com enfoque na promoção dos direitos
humanos, e não na repressão, buscando realizar direitos humanos
com ações positivas, e não somente coercitivas e repressoras.
No entanto, para que esse tipo de atuação seja efetiva, é preciso
que se compreendam as necessidades, as motivações e o
comportamento da população a qual são destinadas as normas, e
que se haja sobre essas necessidades. É preciso, portanto, ampliar
a participação dos cidadãos, inclusive daqueles que se encontram
à margem da sociedade, e torná-los agentes políticos e partícipes
do Estado. Essa participação é importante também para o direito
à segurança. O desenvolvimento de ações de encorajamento
e de promoção de direitos humanos será mais efetivo com a

216 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


participação da comunidade, motivo pelo qual o diálogo e a
parceria entre essas organizações são tão importantes. É parte do
modo de ser do policiamento comunitário a aproximação entre
a polícia e a sociedade.

Faça valer a pena

1.
O que [Hannah Arendt] afirma é que os direitos humanos
pressupõem a cidadania não apenas como um fato e um
meio, mas sim como um princípio, pois a privação da
cidadania afeta substantivamente a condição humana,
uma vez que o ser humano privado de suas qualidades
acidentais – o seu estatuto político – vê-se privado de
sua substância. (LAFER, 1991, p. 151)

Considerando o texto apresentado, avalie as seguintes asserções e a


relação proposta entre elas:
I. A cidadania, enquanto vínculo político e jurídico com um Estado, é de
extrema importância para a realização dos direitos humanos.
PORQUE
II. O Direito Internacional dos Direitos Humanos não tutela os direitos
daqueles que não são cidadãos.
A respeito dessas asserções, assinale a alternativa CORRETA:
a) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa
da I.
b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma
justificativa da I.
c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.
d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.
e) As asserções I e II são proposições falsas.

2.
A compreensão da cidadania para o século XXI deve ser
cada vez mais ampla, não podendo se restringir apenas ao
direito do ser humano de atuar apenas no campo político.

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 217


O direito de atuar ativamente e de obter benefícios no
campo econômico, e influir no desenvolvimento da
humanidade no campo cultural, são indicadores do
efetivo grau de exercício da cidadania moldada para um
mundo cada vez mais globalizante e universal. O direito
à informação e à comunicação são peças-chave para o
exercício da cidadania na nova ordem mundial. (SAULE
JÚNIOR, 2001, p. 318)

Complete as lacunas da sentença a seguir:


O texto acima contempla o sentido _______ do termo cidadania, segundo
o qual o cidadão é o sujeito de prestações estatais, bem como aquele que
participa ativamente da vida ______, política e _______ do _______.
Agora, assinale a alternativa que contém a sequência de palavras correta:
a) estrito – privada – econômica – Estado.
b) amplo – social – econômica – Estado.
c) amplo – privada – eleitoral – Estado.
d) nacionalista – social – econômica – Estado.
e) estrito – social − econômica – Estado.

3.

Participação pode ser compreendida como um processo


no qual homens e mulheres se descobrem como sujeitos
políticos, exercendo os direitos políticos, ou seja, uma prática
que está diretamente relacionada à consciência dos cidadãos
e cidadãs, ao exercício de cidadania e às possibilidades de
contribuir com processos de mudanças e conquistas. O
resultado do exercício do direito à participação deve,
portanto, estar relacionado ao poder conquistado, à
consciência adquirida, ao lugar onde se exerce e ao
poder atribuído a esta participação. (ALMEIDA; IKAWA;
PIOVESAN, 2010, [s.p.]− grifos no original)

A partir da leitura do trecho selecionado do texto acima, assinale a única


alternativa CORRETA:
a) A participação social do cidadão nos negócios estatais somente pode
se dar em regimes ditatoriais, por meio do controle social que o Estado
exerce sobre a vida de seus cidadãos.

218 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


b) A participação social do cidadão nos negócios estatais somente pode
ocorrer em regimes democráticos, nos quais o cidadão possa exigir
aqueles direitos garantidos pelo Estado, quais sejam, os direitos humanos,
compreendidos os direitos civis e políticos, econômicos e sociais.
c) A participação social somente pode ocorrer de maneira passiva pelo
cidadão nos regimes democráticos, por meio de expressão livre e
espontânea de suas opiniões políticas.
d) A participação social ocorre de maneira ativa quando o cidadão se faz
presente em reuniões e audiências públicas.
e) Somente há participação social se o controle social for exercido
unicamente pelo Estado, por meio de atos de exceção.

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 219


Seção 4.2
Prevenção e planejamento em segurança e
direitos humanos
Diálogo aberto

Caro aluno, bem-vindo à Seção 4.2!


Lembrando que você participa como representante da sociedade
civil do Conselho Comunitário de Segurança (CONSEG), do bairro
do Morumbi, na cidade de São Paulo, enquanto diretor de segurança
de uma escola privada da região. Um dos membros do conselho
representante de uma ONG que realiza projetos sociais na Favela de
Paraisópolis reporta que, há alguns meses, em virtude do aumento do
tráfico de drogas na região, a polícia militar tem realizado incursões
na favela e tratado os jovens de maneira violenta arbitrariamente.
Em contrapartida, você percebe que houve uma diminuição no
número de bases da Polícia Comunitária em toda região, o que teve
um impacto no número de assaltos aos pais e alunos nos arredores
da escola. Alguns membros do CONSEG acreditam que apenas a
atuação violenta da polícia na favela pode resolver os problemas de
segurança pública. Você precisa convencê-los da importância de
ações preventivas, do policiamento comunitário e do respeito aos
direitos fundamentais nas abordagens policiais.
Como você vai convencê-los? Quais os argumentos a serem
utilizados?

Não pode faltar


Sistema constitucional de segurança pública
A Constituição Federal de 1988 estabelece, em seu artigo 144, que
a segurança pública é dever do Estado e direito e responsabilidade
de todos, sendo exercida para a preservação da ordem pública e da
incolumidade das pessoas e do patrimônio. O direito à segurança
pertence, portanto, ao rol de direitos que dependem da ação do
Estado para sua realização, ações fáticas que podem ser requeridas
pelos cidadãos em face do Estado. Conforme estudamos na Unidade

220 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


2, se levarmos em consideração o conceito de segurança humana,
centrado no combate à vulnerabilidade, a atuação estatal passa a
ser ainda mais importante, garantindo, por meio de diversos direitos
humanos, o direito à segurança. Além disso, é importante observar
que, embora seja um dever do Estado, o direito à segurança também
é de responsabilidade dos cidadãos, os quais devem participar de sua
realização.
Para prestar os serviços de segurança pública, o Estado
brasileiro, por meio da Constituição, criou órgãos especializados
que desempenham a atividade policial, ditando normas relativas à
sua organização, deveres e funções. São eles: polícia federal, polícia
rodoviária federal, polícia ferroviária federal, polícias civis, polícias
militares e corpos de bombeiros militares. Além disso, a Constituição
Federal também autorizou a criação das guardas municipais pelos
municípios brasileiros (art. 144, § 8º). Os estados federados possuem
dois órgãos responsáveis por desempenhar o ciclo da atividade
policial: a polícia civil e a polícia militar. A polícia civil, também
chamada de polícia judiciária, é responsável pela apuração da
existência de eventuais infrações penais. Já a polícia militar, que exerce
a função de polícia ostensiva, tem por atribuição o patrulhamento
para manutenção da ordem pública (também chamada de polícia
repressiva). Existe uma ideia errônea de que a segurança pública seria
um problema exclusivo dos governos estaduais porque esses órgãos
desempenham um papel de maior visibilidade. Lembre-se de que,
atualmente, existe o Estatuto das Guardas Municipais, sancionado
pela Lei Federal nº 13.022/2014, que autoriza a sua criação pelos
municípios e regulamenta a sua atuação.
Como você estudou na Unidade 2, o modelo de segurança
pública estabelecido posteriormente ao recente processo de
redemocratização do país herdou o paradigma de policiamento
vigente durante a ditadura militar, com as polícias ostensivas estaduais
vinculadas às Forças Armadas.
Embora o artigo 144 da Constituição Federal não mencione as
forças armadas como órgão responsável pela segurança pública, há
diversas ocasiões em que estas podem executar ações de segurança
pública. A atuação das Forças Armadas não é compatível com um
conceito de segurança pública que seja adequado a um Estado
Democrático de Direito, que de forma alguma pode ser entendido

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 221


como uma estratégia de guerra, destinada ao combate de inimigos.
A separação entre as instituições responsáveis pela defesa nacional
e aquelas responsáveis pela proteção da segurança interna é de
extrema importância para a ordem democrática.
A proposta de desmilitarização das polícias brasileiras é, portanto,
uma tarefa democrática que deixou de ser cumprida pela Carta Magna
de 1988, em grande medida, em virtude da pressão dos militares
durante a Assembleia Nacional Constituinte: “Os interesses dos
militares se fizeram representar de forma majoritária nas audiências
públicas realizadas pela Subcomissão de Defesa do Estado, da
Sociedade e de sua Segurança” (SILVA; GURGEL, 2016, p. 146).

Pesquise mais
Sobre a desmilitarização das polícias brasileiras, leia os artigos a seguir
para saber um pouco mais e tentar formar uma opinião: <https://
noticias.terra.com.br/brasil/policia/policia-brasileira-mata-e-morre-mais-
do-que-em-outros-paises,9828b860e660a410VgnVCM20000099cce
b0aRCRD.html>; <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2012/05/paises-
da-onu-recomendam-fim-da-policia-militar-no-brasil.html> e <http://
epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/05/precisamos-desmilitarizar-
policias-diz-especialista-europeu.html>. Acesso em: 17 ago. 2017.

Desse modo, o modelo de policiamento preservado em nossa


Constituição não observa as exigências democráticas estabelecidas
na nova ordem constitucional vigente, pois privilegia o interesse do
Estado em detrimento da defesa dos cidadãos e de seus direitos
fundamentais. No plano infraconstitucional, o Decreto nº 88.777, de
1983, atribui ao Comando do Exército o controle e a coordenação
das polícias militares, abrangendo a organização e legislação, efetivo,
disciplina, ensino e instrução, adestramento e material bélico da
corporação continua vigente. Isso demonstra a confusão legislativa
entre assuntos relacionados à defesa nacional e à segurança interna
do país.
Uma das principais críticas à manutenção de uma polícia militarizada
no Brasil é relacionada ao processo de educação e treinamento dos
agentes, que ao operar com a lógica da guerra para salvaguardar a
segurança do Estado, mesmo que em detrimento da cidadania e dos
direitos humanos, contribui para afastar cada vez mais a sociedade
dos agentes responsáveis pela preservação do equilíbrio e da paz

222 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


social. Basta observar que o contato entre o policial e a comunidade
ocorre, principalmente, no patrulhamento ostensivo. Além disso, o
controle civil sobre a atividade militar é dificultado, especialmente,
em face da existência de um foro privilegiado para julgamento dos
policiais.
Como vimos, nesse contexto, surge, necessariamente, a discussão
acerca da necessidade de promover a reforma da organização
da instituição policial no Brasil, apontando-se para propostas de
desmilitarização das polícias estaduais. A desmilitarização favoreceria
a aproximação entre a polícia e a sociedade, promovendo a
democratização das instituições policiais e a criação de programas
governamentais que fomentem uma cultura de promoção dos
direitos humanos e uma cultura de paz.

Policiamento comunitário
Há, contudo, alguns movimentos internos à polícia militar que
visam romper com o paradigma de policiamento essencialmente
repressivo e distante da comunidade que vigia à época da ditadura,
por exemplo, a criação de polícias comunitárias. No entanto, isso
ainda é uma iniciativa particular a cada estado da federação.
A principal premissa do policiamento comunitário seria o
respeito aos direitos humanos, sendo necessária a participação dos
cidadãos, além de entidades públicas e privadas, na identificação e
resolução rápida dos problemas ligados à segurança. O conceito de
policiamento comunitário tem por base a cooperação entre agentes
de segurança e a população, de modo que juntos possam resolver os
problemas de segurança. Para que seja eficiente, é preciso que esses
dois atores sejam parceiros atuantes na resolução dos problemas que
diagnosticarem na localidade onde estão inseridas. O policiamento
comunitário deve se dar localmente, uma vez que cada comunidade
tem as suas particularidades e vai exigir soluções diferentes das outras.
O ideal, portanto, é que o comando seja descentralizado.
O profissional de segurança que atuar no policiamento
comunitário deve ser alguém capaz de mediar conflitos, estabelecer
diálogo e estar próximo da comunidade. A mediação de conflitos - é
importante que se esclareça - não pode ser voltada para a erradicação
imediata do conflito, que frequentemente tem um caráter repressivo,
mas ser capaz de, em coordenação com as partes envolvidas, buscar

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 223


soluções compartilhadas e resultados de médio e longo prazo, porém
duradouros. Isso porque o conflito tem mais chances de ser resolvido
quando as partes estão envolvidas em sua solução.
Desse modo, atribui-se também aos cidadãos a responsabilidade
pela realização do direito à segurança. Os Conselhos Comunitários
de Segurança funcionam com esse intuito, reunindo representantes
da polícia, da comunidade e do Poder Público de forma geral. Há,
contudo, algumas críticas aos CONSEGs que precisam ser observadas
e que giram em torno, basicamente, da falta de participação real da
população, que só estaria presente para legitimar as ações policiais,
mas não para atuar efetivamente na resolução dos problemas. O
ideal seria que se incluísse a população na definição de diretrizes, no
acompanhamento da implementação e na avaliação das ações.
Outra das bases do policiamento comunitário é uma atuação
que privilegie a promoção dos direitos humanos e a prevenção da
violência, e não sua repressão.

Ação preventiva
Sob a perspectiva das ações preventivas de segurança, esta deve
ser reconhecida como um direito, cujas dimensões e impactos são
muito mais amplos do que apenas a esfera penal ou a atividade policial.
Nesse sentido, novamente, o conceito de segurança humana parece
muito adequado a essa perspectiva. Assim, a segurança pública deixa
de ser de responsabilidade apenas dos sistemas de polícia e justiça,
mas envolve uma série de outros atores e poderes para além das forças
policiais e de segurança. Não é possível, portanto, responsabilizar
apenas as polícias estaduais pela ineficiência do Estado brasileiro no
enfrentamento à violência.
Além disso, quando tratamos de ações preventivas e policiamento
comunitário, é importante que tenhamos em mente uma perspectiva
local. Assim, os poderes locais, por exemplo, municípios, subprefeituras
e entidades da sociedade civil que atuam localmente, passam a ser
de extrema importância. Além disso, essas ações, frequentemente,
devem ser promovidas em interseção com o desenvolvimento urbano
local. Nesse sentido, uma legislação que promove essa interseção é o
Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001), que enfatiza o planejamento
participativo como um dos pilares das boas práticas de governança
territorial e de prevenção.

224 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


Assim, para se promover ações que contrariem o paradigma
repressivo tradicional das políticas de segurança e atuem
preventivamente, é importante que se monitorem e avaliem as
políticas públicas implementadas, envolvendo os cidadãos no
planejamento e na construção de uma agenda propositiva para
enfrentamento da violência. É preciso, portanto, escapar à lógica
do confronto. O termo “cultura de paz” designa ações que visam
desenvolver e fortalecer valores e atitudes que contribuam para a
resolução de problemas e conflitos por meio da negociação e do
diálogo.
Tradicionalmente, no que diz respeito à segurança, os gestores
têm privilegiado práticas de maior impacto eleitoral, como
aumento do efetivo das instituições de segurança e aquisição
de equipamentos. Contudo, frente ao fato de que os modelos
tradicionais de enfrentamento da violência não têm obtido
resultados satisfatórios, é preciso que se pense em alternativas
que fujam dos modelos tradicionais repressivos. As políticas com
enfoque preventivo, muitas vezes, só dão frutos perceptíveis em
médio e longo prazo, extrapolando os ciclos eleitorais. No entanto,
a prática de ações preventivas pode proporcionar benefícios
duradouros.
As ações preventivas dão início a processos e se consolidam ao
longo do tempo. Mas para isso é importante que haja a participação
ativa dos cidadãos e a ação integrada entre os diversos poderes
públicos. Partimos aqui de uma concepção de “poder público” que
leva em consideração o conceito de poder de Hannah Arendt,
ou seja, que é baseado no agir conjunto em prol de um objetivo
comum:

As instituições não governamentais também são poderes


públicos, todavia com uma lógica diferenciada [...].
Somente por esse novo delineamento do poder público
já se está reorganizando as relações de poder, já se
está “derrubando barreiras”, conceito muito recorrente
quando se trata de migração e de convivência com o
outro. (TAMBELLINI; MASCARO; SILVA apud SILVEIRA;
CARNEIRO JÚNIOR; MARSIGLIA, 2009, p. 156)

No combate à violência, devemos considerar três tipos de projetos


de prevenção: situacional, policial e social.

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 225


• Prevenção situacional: as ações devem ser voltadas para a
diminuição de situações que possibilitem a prática de crimes,
por exemplo, a iluminação de áreas com maior incidência
criminal, instalação de câmeras de monitoramento, montagem
de centrais de monitoramento etc.
• Prevenção policial: ações preventivas de rotina, como
patrulhamento de áreas com altos índices de criminalidade.
• Prevenção social: pode ser dividida em três níveis:
o Prevenção primária: é dirigida à população em geral, por
exemplo, os programas de atenção universal.
o Prevenção secundária: é dirigida aos grupos que correm
mais risco de sofrer ou cometer crimes.
o Prevenção terciária: cujo objetivo é aliviar o sofrimento
das vítimas de violência ou ajudar os autores de crimes a se
reinserirem na comunidade.
Uma das formas de prevenir a violência é por meio de políticas
que se empenham em criar e manter espaços urbanos seguros, os
quais seriam:

Ambientes públicos, planejados, projetados e


administrados de forma participativa, com vistas a reduzir a
incidência de delitos e da violência e aumentar a sensação
de segurança das pessoas que o utilizam, bem como a
sua permanência no local e a apropriação da comunidade
para atividades de convivência, melhorando, assim, a
qualidade de vida da população. (FÓRUM BRASILEIRO DE
SEGURANÇA PÚBLICA, 2016, p. 14)

Em outras palavras, são iniciativas que visam a aumentar a


participação popular no espaço público, transformando áreas
marcadas pela segregação e pela insegurança.

Diagnóstico por meio de indicadores de direitos humanos


Para ações preventivas de segurança, de maneira geral, é preciso
que se desenvolvam instrumentos de planejamento, avaliação e
monitoramento das ações processadas. Um primeiro passo seria,
portanto, a elaboração de diagnósticos que considerem a segurança
de forma clara. É preciso verificar quais locais possuem maior

226 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


incidência de determinados crimes a partir de consulta à população,
mapear a utilização de espaços e equipamentos públicos etc.
No entanto, em ações preventivas, é preciso que se atente
não apenas para indicadores de segurança em sentido estrito mas
também para indicadores de direitos humanos que impactam direta
ou indiretamente na segurança. Embora muitas das questões que
surgem nos CONSEGs sejam relativas a conflitos entre cidadãos no
espaço público – por exemplo, o incômodo e medo causado pela
presença de pessoas em situação de rua, perturbação do sossego por
bailes funk e bares em geral, moradias irregulares etc. –, esses conflitos
mostram que há outras demandas por trás dessas questões, como
moradia, lazer, saúde e bem-estar, que envolvem direitos humanos.
Para a resolução dessas questões, não há alternativa senão pensar
na articulação intersetorial com os demais setores do poder público.
Uma política de segurança efetiva para uma comunidade demanda a
elaboração de um plano de segurança local, que seria um guia de ação:
• A primeira etapa é de diagnóstico, que consiste
na identificação dos problemas de criminalidade e
violência daquela região, na verificação dos indicadores
socioeconômicos, no mapeamento dos equipamentos
sociais disponíveis e na verificação das políticas e ações que
já estão em curso.
• A segunda etapa consiste na participação, que demanda o
envolvimento da sociedade civil, dos grupos mais vulneráveis
– deve-se dedicar atenção especial aos setores da população
tradicionalmente expostos à violência, como jovens, mulheres
e idosos – e dos gestores de diferentes áreas na elaboração de
um projeto comum. Para isso, pode-se convocar a população
da comunidade para audiências públicas, ouvir associações e
conselhos comunitários em encontros individuais ou coletivos,
promover pesquisas profissionais de opinião etc.
• A terceira etapa é a ação propriamente dita, que consiste na
implementação do plano e que envolve ações preventivas e,
quando necessário, repressivas – pode-se colocar em prática
ações de repressão qualificada que atuem de forma mais direta
e inteligente sobre a incidência de crimes. O plano deve ser
preferencialmente executado em parceria com outros órgãos
e com a sociedade civil.

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 227


O guia de ação não é apenas um documento mas também um
processo pautado pelos direitos humanos em todas as etapas, da
elaboração à execução.
Relativamente à etapa de diagnóstico, os indicadores de
direitos humanos podem ser uma ferramenta útil para mensurar a
realização de direitos ou determinar estratégias para sua realização,
assim como para acompanhar o impacto das ações ao longo
do tempo e as transformações por elas geradas. No entanto, é
preciso que se façam algumas ressalvas à sua utilização: em
primeiro lugar, é preciso ter em mente que as estatísticas podem
não ser a principal ou única fonte de informação no diagnóstico
e monitoramento. Isso porque sobre os indicadores deve incidir
uma interpretação política e social de acordo com o contexto em
que esses dados foram produzidos para se determinar o sentido
da informação. Em segundo lugar, é preciso que você esteja
atento ao mau uso político dos indicadores, quando não se dá,
por exemplo, publicidade adequada aos dados que são prejudiciais
para determinados representantes políticos. Desse modo, é
possível manipular a informação de modo a mascarar a realidade,
prejudicando o diagnóstico ou monitoramento.
Mas o que são indicadores de direitos humanos e como utilizá-
los?
Indicadores de direitos humanos são informações específicas
– um sinalizador, um dado, uma informação, um valor ou
descrição – que retratam uma situação, um estado de coisas que
pode ser relacionado a padrões ou normas de direitos humanos.
Eles estão relacionados ou refletem preocupações relativas aos
direitos humanos e são usados para avaliação e monitoramento
de sua promoção e proteção. Eles também são úteis, quando
públicos, para informar a sociedade, permitindo o controle e o
direcionamento das atividades do Poder Público. Por exemplo:
indicadores de pré-natal e mortalidade infantil podem remeter à
avaliação da situação da saúde em uma determinada comunidade.
Há alguns indicadores que são exclusivamente relacionados a
normas de direitos humanos, por exemplo, o número de decisões
extrajudiciais ou execuções arbitrárias, ou o número de vítimas
de tortura por agentes estatais etc. No entanto, existe um grande
número de indicadores, como estatísticas socioeconômicas, de

228 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


maneira geral, que podem ser considerados também indicadores
de direitos humanos.
Indicadores podem ser quantitativos ou qualitativos. Os indicadores
quantitativos são indicadores em sentido estrito e são sinônimos de
“estatísticas”. Eles podem ser considerados qualquer indicador que
é ou pode ser expresso em unidade de medidas, como números,
percentuais ou índices. Já os indicadores qualitativos partem de
uma definição mais ampla de indicadores que considera qualquer
informação relevante para a observação de um direito específico
como um indicador. Eles expressam dimensões não exclusivamente
numéricas. Considerando a complexidade dos direitos humanos,
como você vem percebendo ao longo deste curso, qualquer
informação relevante, tanto qualitativa quanto quantitativa, pode vir
a ser útil.
Exemplos de indicadores quantitativos: taxas de matrículas
escolares por grupos de diferentes faixas etárias de crianças,
indicadores que medem a ratificação de tratados, proporção de
assentos preenchidos por mulheres no parlamento nacional e
número reportado de desaparecimentos forçados.
Indicadores qualitativos podem facilitar avaliações qualitativas,
indicando a importância e o efeito subjetivo produzido por determinado
problema ou por determinado projeto. A “sensação de insegurança”,
por exemplo, pode ser medida com indicadores qualitativos que
não darão origem a uma unidade de medida, mas podem transmitir
essa impressão. Eles também servem para auxiliar a interpretação
de indicadores quantitativos, atribuindo a eles significado a partir das
narrativas dos envolvidos. Quando se realiza uma pesquisa baseada
em entrevistas com respostas em aberto – não predeterminadas – os
indicadores obtidos são, em geral, qualitativos.
Indicadores de direitos humanos podem ser utilizados para
diagnóstico, formulação de projetos, implementação de ações e,
finalmente, avaliação do impacto das ações.
Podemos enumerar algumas fontes de informações úteis, como
censos, pesquisas amostrais, registros administrativos, relatórios e sites
de indicadores sociais. No entanto, é preciso que você procure os
locais específicos que disponibilizam indicadores de violência, saúde,
educação, demografia, habitação, assim como outros indicadores
sociais, em sua própria região, uma vez que a especificidade territorial

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 229


dos dados é muito importante. Mesmo os dados do censo produzidos
pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
podem ser desagregados em indicadores específicos para unidades
territoriais menores, como municípios.

Exemplificando
A Prefeitura de São Paulo construiu um sistema de indicadores de
direitos humanos denominado Sistema Intraurbano de Monitoramento
dos Direitos Humanos, o qual monitorava indicadores quantitativos
de direitos humanos e os relacionava a partir da base territorial das
subprefeituras, respeitando sua interdependência e indivisibilidade.

O sistema coletou indicadores até o ano de 2010. O encorajamos a


consultar o sistema e explorar as possibilidades de diagnóstico que ele
permite. Disponível em: <http://www.simdh.seade.gov.br/apres/index.
php>. Acesso em: 17 jul. 2017.

Reflita
Embora esse tipo de sistema exemplificado acima não exista em muitos
locais, esse exemplo nos mostra como é possível olhar para os dados a
partir da perspectiva dos direitos humanos e extrair deles informações
valiosas para se pensar os problemas das comunidades. É possível, por
exemplo, correlacionar o indicador síntese da dimensão “violência” com
o indicador síntese da dimensão “criança e adolescente”. Faça esse
exercício e reflita: o que essa correlação mostra?

Assimile
Recapitulando, no planejamento e na gestão de segurança, os
indicadores, como vimos, podem servir de subsídio a atividades de
planejamento e formulação de políticas públicas nas diferentes esferas
de governo e em conjunto com a sociedade civil. Podem, ainda, ajudar
no monitoramento das condições de vida e bem-estar da população.
Sua utilização pode, finalmente, ser definida pelos objetivos específicos
do projeto elaborado.

230 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


Sem medo de errar
Primeiramente, é preciso que você saiba que é muito comum
que os cidadãos participantes dos CONSEGs demandem ações
repressivas para a resolução de problemas e conflitos no espaço
público, como prender, internar, proibir e expulsar. No entanto, o
que não se percebe é que esses conflitos revelam que há outras
demandas embutidas nessas questões, especialmente demandas de
direitos humanos, como moradia, lazer, saúde e bem-estar, que são,
segundo nossa Constituição, prerrogativas do Estado. É isso que você
precisa mostrar aos seus colegas, porque com a questão do tráfico
de drogas não é diferente.
Uma forma de mostrar a deficiência na garantia dos direitos
humanos que está por trás de problemas sociais como esse é por
meio de dados concretos, indicadores. Podemos observar, por
exemplo, por meio do Sistema Intraurbano de Monitoramento dos
Direitos Humanos, que a região do Campo Limpo possuía, em 2010,
o indicador síntese da dimensão “violência” como insatisfatório (como
não temos dados mais recentes, nos basearemos nos dados de 2010
para esse exercício).
Figura 4.1 | Indicador síntese na dimensão da violência

Indicador Síntese na Dimensão Violência - Classificação


Município de São Paulo Campo Limpo
2004-2010
0,9

0,85

0,81

0,77

0,73

0,68

0,63
2004 2006 2008 2010

Fonte: SIMDH (2010).

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 231


Se observarmos, contudo, os demais indicadores síntese (criança
e adolescente, mulher, negro, população idosa), percebemos que
apenas a situação da população idosa é insatisfatória, sendo a situação
das demais populações vulneráveis boa, relativamente à cidade de
São Paulo em geral. Contudo, se observarmos os indicadores da
situação socioeconômica que não compõem os indicadores síntese,
percebemos que muitos deles indicam uma situação socioeconômica
precária em relação ao restante da cidade. Mas como interpretar isso?
Figura 4.2 | Indicador síntese da situação socioeconômica

Fonte: SIMDH (2010).

Apenas por meio dos indicadores quantitativos é difícil tirar


alguma conclusão, mas pela observação do território percebemos
que, provavelmente, a situação mostrada pelos indicadores
socioeconômicos é devida à desigualdade existente da região, que
reúne áreas extremamente ricas e extremamente pobres em um
mesmo território. O abismo social é uma das grandes causas de
violência e uma forma de atuar preventivamente seria diminuindo
esse abismo. É isso que deve ser argumentado.

Mas, por meio de quais ações? Bem, em primeiro lugar, os


indicadores nos mostram quais problemas sociais são mais
pungentes nessa região, por exemplo, a questão da baixa
escolaridade, a qual, provavelmente, impacta na renda per capita.
Se considerarmos que grande parte dessa região é composta por
lares de alta renda, podemos imaginar que a renda dos lares na
favela de Paraisópolis, por exemplo, é ainda menor do que os
indicadores mostram, tendo em vista que, para compor os dados,
foram contabilizados todos os lares, e não apenas os lares da
população mais pobre.

232 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


Outra importante fonte de informação seriam os próprios
moradores da região, com enfoque para a população vulnerável.
Para conhecer seus problemas e elaborar um projeto de segurança
comum para todos é preciso ouvir a população. Como vimos,
pode-se convocar a população da comunidade para audiências
públicas, ouvir associações e conselhos comunitários em encontros
individuais ou coletivos, promover pesquisas profissionais de
opinião etc.

Caso se confirme que um dos problemas que repousa por


trás da questão da violência na região seja a baixa escolaridade
e a baixa renda, para além, é claro, da questão das condições de
moradia, é preciso que se promova uma articulação intersetorial
com as secretarias municipais, com a sociedade civil e com os
demais entes federativos para potencializar o efeito das políticas
públicas de educação, trabalho e habitação da região.

É preciso que você explique também que ações preventivas


tendem a iniciar processos que produzirão resultados de médio
e longo prazo, porém com efeitos mais duradouros. Além disso,
isso não impede que haja ações de prevenção policial, como o
patrulhamento de áreas com altos índices de criminalidade ou
mesmo ações repressivas, mas essas ações devem ser realizadas
a partir de diagnósticos inteligentes, com respeito aos direitos
humanos e apenas quando necessário, sem que se excluam as
ações de prevenção situacional e social.

Por fim, é preciso que você tente conscientizar seus colegas


de conselho a respeito da importância de se romper com o
paradigma repressivo tradicional e com a lógica do combate
ao inimigo que foi herdada da ditadura, que não tem produzido
resultados satisfatórios de longo prazo, e que iniciativas, como o
policiamento comunitário, tentam superar, aproximando as forças
de segurança pública da população e promovendo a cultura de
paz.

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 233


Avançando na prática

O fomento da atividade policial

Descrição da situação-problema

Você trabalha na Assistência Militar, da Prefeitura do Município de


Teresina. O coordenador que acaba de assumir o órgão entende que
a segurança pública é um assunto de polícia e que a melhor forma
de desenvolver políticas públicas de segurança no âmbito municipal
é fortalecendo a guarda civil metropolitana. Em uma reunião sobre
a estratégia de segurança pública do município, na qual estarão
presentes o coordenador e o prefeito, você terá a oportunidade de
discutir a proposta do coordenador. O que você diria?

Resolução da situação-problema
Em primeiro lugar, é preciso frisar que há muito mais que
os municípios podem fazer na área da segurança que não
envolve, necessariamente, guardas municipais. Reconhecer a
responsabilidade das cidades na garantia da segurança pública
significa aceitar a ideia de que a segurança não é apenas uma
questão de polícia, que não são as únicas responsáveis pela
ineficiência do Estado em combater a violência. Os municípios
podem adotar práticas de segurança como política pública
que extrapolam a lógica do confronto, adotando o caminho
da prevenção. Embora os gestores políticos prefiram, muitas
vezes, comprometer-se com práticas de maior impacto eleitoral,
ações cujo impacto é facilmente mensurável, como compra
de equipamentos ou aumento do efetivo das instituições de
segurança stricto sensu, as políticas públicas que focam na
prevenção são mais efetivas a longo prazo.

Faça valer a pena


1. Os gráficos a seguir trazem os indicadores síntese das dimensões
“violência” e “criança e adolescente” da região da Capela do Socorro da
cidade de São Paulo entre 2004 e 2010:

234 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


Fonte: SIMDH (2010).

Nesse contexto, avalie as informações que seguem:


I. A partir da análise dos indicadores síntese é possível concluir que
existe uma correlação entre a situação dos direitos das crianças e dos
adolescentes e a situação da violência na região de Capela do Socorro.
II. Os gráficos mostram indicadores qualitativos porque mostram uma
evolução em qualidade ao longo do tempo.
III. Pode-se concluir, a partir dos indicadores, que a causa da violência na
região de Capela do Socorro é, exclusivamente, a situação das crianças e
dos adolescentes.
IV. Os indicadores mostrados podem nos auxiliar a realizar um planejamento
de segurança para toda a cidade de São Paulo.
Agora, assinale a alternativa CORRETA:
a) As afirmativas I e III estão corretas.
b) As afirmativas I e IV estão corretas.
c) As afirmativas II e III estão corretas.
d) Apenas a afirmativa I é correta.
e) Nenhuma das afirmativas é correta.

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 235


2.

Destarte, a política constitucional brasileira, que deveria


priorizar a garantia dos direitos humanos, a defesa da
cidadania e a valorização da vida, almejando implementar
no país uma cultura de paz, permaneceu, na prática,
utilizando-se do discurso da defesa da lei e da ordem para
promover a guerra contra um velho inimigo, pertencente
a classes historicamente vulneráveis de nossa sociedade.
(SILVA; GURGEL, 2016, p. 149)

No que diz respeito ao Sistema Constitucional de Segurança Pública,


analise as seguintes asserções:
I. O modelo de policiamento preservado deixou de observar as exigências
democráticas estabelecidas pela nova ordem constitucional vigente.
PORQUE
II. Privilegiou a proteção do cidadão e de seus direitos fundamentais, em
detrimento da defesa dos interesses do Estado.
Acerca dessas asserções, assinale a alternativa CORRETA:
a) As duas asserções são proposições verdadeiras, e a segunda é uma
justificativa correta da primeira.
b) As duas asserções são proposições verdadeiras, mas a segunda não é
uma justificativa da primeira.
c) A primeira asserção é uma proposição verdadeira, e a segunda, uma
proposição falsa.
d) A primeira asserção é uma proposição falsa, e a segunda, uma proposição
verdadeira.
e) Tanto a primeira quanto a segunda asserções são proposições falsas.

3.

Partindo da concepção de ‘território vivo’, inspirada pelo


geógrafo Milton Santos e outros teóricos, São Bernardo
do Campo, cidade da região metropolitana de São Paulo,
vem trabalhando desde 2009 em diversos territórios
da cidade no intuito de criar novos mecanismos para a
gestão de segurança, envolvendo atores sociais distintos
na produção de um espaço público dialógico e de ação
coletiva. (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA,
2016, p. 25)

236 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


Sobre a iniciativa de São Bernardo do Campo, podemos afirmar que:
I. Privilegia práticas de maior impacto eleitoral.
II. Está de acordo com a ideia de que ações preventivas de segurança
devem ser produzidas junto ao desenvolvimento urbano local.
III. Contraria o paradigma repressivo tradicional das políticas de segurança.
IV. Trata-se de uma política que se empenha em criar e manter espaços
urbanos seguros que reduzem a incidência de delitos e da violência e
aumentam a sensação de segurança das pessoas.
Agora, assinale a alternativa correta:
a) As afirmativas I e II estão corretas.
b) As afirmativas I, II e III estão corretas.
c) As afirmativas II, III e IV estão corretas.
d) Todas as afirmativas estão corretas.
e) Nenhuma das afirmativas está correta.

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 237


Seção 4.3
Hierarquia e conflitos de direitos
Diálogo aberto

Caro aluno, lembramos que você participa como representante da


sociedade civil do Conselho Comunitário de Segurança (CONSEG),
do bairro do Morumbi, na cidade de São Paulo, como diretor de
segurança de uma escola privada da região.
Nas últimas semanas, têm se promovido bailes funk na região,
conhecidos como “pancadão”. Observou-se também, por meio
de câmeras de segurança, que nas noites em que ocorrem os
bailes, a depredação dos equipamentos públicos da região (como
equipamentos de parques, lixeiras etc.), assim como de propriedades
privadas (janelas são quebradas, muros são pichados e grafitados),
aumenta consideravelmente. Assim, foi agendada uma reunião do
CONSEG com representantes da sociedade civil e do poder público
para discutir se se deve ou não exigir a proibição dos bailes na região.
Percebe-se que, neste caso, estamos diante de direitos humanos
conflitantes e de difícil conciliação. É preciso que se identifiquem
os direitos envolvidos nesse caso e se decida qual direito deve ser
priorizado, caso não seja possível conciliá-los. Vamos começar? Boa
sorte e bom trabalho!

Não pode faltar


Interdependência e transversalidade dos direitos humanos
Prezado aluno, ao longo de nosso curso, você estudou a
teoria geral dos direitos humanos e quais são esses direitos, e
especificamente, as questões envolvendo o direito à segurança. Você
também analisou e estudou como esses direitos estão previstos em
tratados internacionais e na nossa Constituição Federal de 1988. Nesse
momento, estudaremos como os direitos humanos se relacionam
e como fazer para aplicá-los em casos de aparente ou real conflito

238 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


desses direitos, quando um se contrapõe ao outro, e como fazer
para que, eventualmente, um prevaleça em relação ao outro e se é
possível decidir-se dessa maneira.
Retomando um pouco o que vimos, especialmente na Unidade
1, sobre o conceito de direitos humanos, temos a seguinte definição,
utilizada por Dalmo de Abreu Dallari, em sua obra Direitos humanos e
cidadania (DALLARI, 2004, p. 12-13):

A expressão direitos humanos é uma forma abreviada de


mencionar os direitos fundamentais da pessoa humana.
Esses direitos são considerados fundamentais porque
sem eles a pessoa humana não consegue existir ou não
é capaz de se desenvolver e de participar plenamente da
vida. Todos os seres humanos devem ter asseguradas,
desde o nascimento, as condições mínimas necessárias
para se tornarem úteis à humanidade, como também
devem ter a possibilidade de receber os benefícios que a
vida em sociedade pode proporcionar. Esse conjunto de
condições e de possibilidades associa as características
naturais dos seres humanos, a capacidade natural de
cada pessoa e os meios de que a pessoa pode valer-se
como resultado da organização social. É a esse conjunto
que se dá o nome de direitos humanos (grifos no original).

Assim, os direitos humanos, considerados como um conjunto de


direitos fundamentais de cada pessoa, estão atrelados ao direito à
vida e à existência, que devem ser garantidos de modo a se conceder
uma vida com dignidade a cada ser humano. Nesse sentido, os
direitos humanos possuem algumas características, quais sejam:
universalidade, interdependência ou transversalidade, indivisibilidade,
inalienabilidade e irrenunciabilidade.

Reflita
O direito à vida é um direito absoluto ou ele permite limitações? O que
você pensa sobre essas limitações, caso existam e estejam previstas por
algum ordenamento jurídico, nos casos de eutanásia e de aborto? E
nos casos da pessoa presa, em que seu direito à liberdade é restringido,
como fica o seu direito à vida? Assista aos seguintes vídeos, em que há
uma introdução à restrição do direito à vida no ordenamento jurídico

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 239


brasileiro e outro em que o sociólogo Sergio Adorno é entrevistado;
tente chegar a alguma conclusão. Disponível em: <https://www.
youtube.com/watch?v=jytBu7GSs6M>; e <https://www.youtube.com/
watch?v=R5dsc2ZJKaI>. Acessos em: 3 ago. 2017.

Quanto à universalidade, temos que os direitos humanos são


universais pelo fato de que todos os seres humanos são seus titulares,
sem qualquer tipo de diferenciação. A indivisibilidade, por sua vez,
trata de reconhecer a mesma proteção jurídica a todos os direitos
humanos.
Neste momento, analisaremos as características da
inalienabilidade, da irrenunciabilidade para, depois, chegarmos aos
temas centrais desta seção: a interdependência ou transversalidade.
Quanto à inalienabilidade dos direitos humanos, pode-se dizer
que são direitos que não podem ser cedidos ou transferidos de
uma pessoa a outra, seja essa transferência de maneira gratuita, sem
qualquer ônus àquele que os pretende transferir e ao que os receberia,
ou de maneira onerosa, ou seja, com algum tipo de gravame ao
pretenso cedente ou ao cessionário. Com isso, nenhuma pessoa
pode transferir para outrem um direito humano de que é titular,
pelo fato de que os direitos humanos são inalienáveis (não sujeito à
alienação, à transferência).
Com relação à irrenunciabilidade, os direitos humanos são
irrenunciáveis, ou seja, não podem ser renunciados por qualquer
pessoa, assim, nenhum ser humano pode negar e dizer que não quer
ser titular de qualquer dos direitos humanos.
O caso emblemático do “arremesso de anão”, levado ao Comitê
de Direitos Humanos, demonstra essa questão da inalienabilidade
e da irrenunciabilidade dos direitos humanos. O senhor Manuel
Wackenheim, um anão que era arremessado para divertimento de
frequentadores de uma casa noturna nos arredores de Paris, fora
proibido de exercer esse tipo de trabalho pela prefeitura de sua cidade,
em virtude de ofensa à dignidade da pessoa humana. O Comitê
acabou por arquivar o caso pelo fato de esse tipo de trabalho ofender
o conceito de dignidade da pessoa humana, limitando a autonomia
da vontade de Manuel Wackenheim, ou seja, ele não poderia exercer
um trabalho em que fosse reduzido à condição de objeto. Verificou-

240 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


se, nesse caso, o conflito entre o direito ao trabalho e de liberdade
profissional e a dignidade humana.
Nesse sentido, a partir dessa visão de que os direitos humanos
são irrenunciáveis e inalienáveis, você pode pensar: mas, e o direito
à liberdade, como fica no caso de alguém querer dispor da própria
vida? Para resolver essa questão, deixaremos para você uma pergunta:
não seria o direito à vida com dignidade o direito humano central e
necessário para a consecução de todos os direitos humanos? Enfim,
tentaremos resolver essa e outras questões, em que direitos estejam
em conflito a partir da regra da proporcionalidade.
Como você pode verificar a partir de nosso exemplo, o direito à
vida e o direito à liberdade mantêm uma relação inextricável. Assim,
passamos à característica dos direitos humanos que é objeto desta
nossa última aula: a interdependência ou a transversalidade. Ela
pode ser conceituada como sendo a inter-relação que existe entre
um ou diversos direitos humanos, partindo-se dessa noção de que
há uma interação e complementaridade entre si, e até mesmo uma
vinculação de um direito em relação ao outro, ou seja, um direito
só pode realizar-se junto aos demais, caso contrário sua realização
é incompleta. Some-se a isso o conceito de que não há hierarquia
entre os direitos humanos: todos eles estão no mesmo nível, não
se podendo dizer que um direito humano seja superior ou inferior
aos demais pelo fato de todos serem exigíveis e importantes para a
obtenção da dignidade humana.

Exemplificando
A transversalidade ou a interdependência dos direitos humanos pode
ser observada em relação ao direito à vida e a todos os outros direitos
humanos. Afinal, sem a vida não é possível que a pessoa humana possa
existir e ser titular dos demais direitos humanos. Nesse caso, além da
inter-relação, da complementaridade, há uma vinculação do direito
à vida aos demais direitos humanos. Porém, apesar dessa vinculação
do direito à vida a todos os outros direitos humanos, como dissemos
acima, não há hierarquia (superioridade ou inferioridade) entre os direitos
humanos: todos eles estão no mesmo nível.

Mas você também pode relacionar o direito à liberdade de expressão


com o direito à liberdade de informação e com o direito à privacidade.

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 241


Nesse caso, como exemplo, pense em relação a um processo judicial
que esteja sob segredo de justiça de modo a preservar e manter a vida
do autor desse processo. Aqui, não há que se falar em liberdade de
expressão ou de informação, pois um bem maior, o direito à vida de
uma pessoa, está sendo protegido.

Ilustrando também essa situação de tensão entre o direito à liberdade


de expressão e à informação versus o direito à privacidade, o Supremo
Tribunal Federal decidiu, em 2015, que não há necessidade de
autorização prévia de pessoas que tenham livros com sua biografia
publicados. O direito à liberdade de expressão, tal como previsto pela
Constituição Federal, deve prevalecer sem qualquer tipo de censura
ou de autorização nesse caso. Se houver desrespeito à intimidade ou
violação de privacidade, o biógrafo poderá requerê-la judicialmente
posteriormente. Você pode verificar como cada um dos ministros votou
acessando o link. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/
verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=293336>. Acesso em: 28 ago. 2017.

Como também há outro exemplo, colocado pelo autor Alexandre de


Moraes, em que o direito à liberdade de locomoção está profundamente
conectado à garantia constitucional do habeas corpus, além da
possibilidade de prisão somente no caso de delito flagrante ou por
determinação de autoridade judicial competente (MORAES, 2003).

Princípios e regras nos direitos fundamentais


Muito se discute na doutrina jurídica sobre as distinções entre
princípios e regras na teoria geral do direito. Embora não seja objetivo
de nosso curso realizar uma investigação acerca dessas distinções,
explicaremos a você quais são as diferenças básicas entre princípios
e regras, porque isso terá um impacto no momento de suas decisões
cotidianas.
É importante que você saiba que tanto os princípios quanto as
regras são normas jurídicas. Há diversas classificações, categorizações
e, nas palavras do jurista Virgílio Afonso da Silva, não há que se falar
em boa ou má classificação; não se deve utilizar essa preceituação
(SILVA, 2010, p. 44-45).
Basicamente, as distinções entre ambos se dão na forma da
estruturação dos direitos que princípios e regras preveem. Enquanto
os princípios possuem normas que garantirão a existência de direitos,

242 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


as regras possuem, em seu interior, normas que efetivamente
preveem direitos e deveres.
Explicaremos melhor: as regras são normas que estabelecem
direitos ou impõem deveres de modo a serem realizados
completamente se forem aplicáveis ao caso concreto, à realidade
dos fatos (SILVA, 2010). Porém, quando tratamos dos princípios, não
podemos afirmar definitivamente que as normas que os contêm
realizem plenamente o direito ou o dever na realidade. Assim sendo,
os princípios podem ser observados ou não de maneira plena na
realidade, o que dificilmente ocorre (SILVA, 2010). Segundo Robert
Alexy (2008, p. 588), “princípios são normas que ordenam que algo
seja realizado na maior medida possível dentro das possibilidades
jurídicas e fáticas existentes”. Desse modo, as circunstâncias fáticas e
jurídicas podem limitar sua realização plena.
Além disso, há quem afirme que os princípios são ordenações que
visam orientar todo o sistema de normas, possuindo valores e bens
de modo a guiar as normas jurídicas, tanto sua elaboração quanto sua
aplicação, e que poderão constar do direito positivado (SILVA, 2003).
Assim, para concluirmos, você deve ter em mente que: princípios
possuem um caráter mais abstrato; já as regras têm um conteúdo
mais concreto.

Assimile
Quais são os princípios que a Constituição Federal de 1988
estabelece? São diversos, mas a título exemplificativo temos os
princípios fundamentais do Estado brasileiro: soberania, cidadania,
dignidade da pessoa humana, valores sociais concernentes ao
trabalho e à livre iniciativa e pluralismo político. Outro exemplo
são os princípios que regem as relações internacionais do Estado
brasileiro. São eles: independência nacional, prevalência dos
direitos humanos, autodeterminação dos povos, não intervenção,
igualdade entre os Estados, defesa da paz, solução pacífica de
conflitos, repúdio ao terrorismo e ao racismo, cooperação entre
os povos para o progresso da humanidade e concessão de asilo
político.

Esses princípios são encontrados nos artigos 1º e 4º da Constituição

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 243


Federal de 1988. Há muitos outros: com relação aos princípios que
regem a Administração Pública no Brasil, temos os princípios da
legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade e da
eficiência (art. 37).

Observe que são normas que contêm valores e bens, a fim de orientar
a aplicação e interpretação de outras normas, de regras, tanto na sua
fase de elaboração quanto de aplicação na realidade.

Resolução de conflitos de direitos com base na regra da


proporcionalidade de Robert Alexy
Caro aluno, antes de iniciarmos nossa abordagem sobre a
maneira de se resolver conflitos de direitos com base na regra da
proporcionalidade do jurista alemão, Robert Alexy, precisamos falar
que esses conflitos são chamados também de conflitos normativos.
Assim, podem existir: conflitos entre regras ou colisões entre
princípios, bem como colisões entre princípios e regras. Adotaremos
as explanações do jurista brasileiro, Virgílio Afonso da Silva, que se
baseia na obra de Robert Alexy, a partir de agora (SILVA, 2010).
Esses conflitos normativos ocorrem quando há a possibilidade
de aplicação de uma ou mais normas, de modo que, se aplicarmos
uma em detrimento da outra, poderá ocorrer incompatibilidade
na realidade, de maneira total ou parcial. É o caso quando falamos
anteriormente sobre o direito à vida e o direito à liberdade em situações
de aborto ou de eutanásia; do direito à liberdade de expressão e a
proteção do direito à privacidade, por exemplo, podendo-se ainda
questionar o direito à liberdade de informação.
Com relação aos conflitos entre regras, deve-se adotar o comando
do mandamento “tudo ou nada”. Esse mandamento é aplicado da
seguinte forma: se duas regras preveem direitos definitivos e com
consequências diferentes para o mesmo fato ou ato jurídico, uma
delas será necessariamente inválida total ou parcialmente. A resolução
do conflito de regras se encontra no plano da validade das normas
jurídicas; dessa maneira, sempre que houver um conflito entre regras,
seja ele parcial ou total, a sua resolução se dará no plano da validade.
Portanto, uma regra será declarada válida em relação ao ato ou fato
jurídico e a outra, não. Porém, você deverá saber que o conflito pode
ser parcial ou total. No caso de o conflito ser parcial, geralmente,

244 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


as regras possuem uma cláusula de exceção, a qual orientará a
aplicação de uma regra em detrimento da outra. Portanto, a forma de
declaração de uma regra válida e, logo, aplicável em relação ao ato
ou fato jurídico, e a outra como sendo inválida, no caso de conflito
entre regras, se dá pelo método da subsunção.

Assimile
Subsunção quer dizer o ato de subsumir. E subsumir, por sua vez, significa
levar em consideração um fato ou ato jurídico para a aplicação de uma
lei ou até de uma decisão judicial àqueles. Logo, subsunção nada mais é
do que se verificar o enquadramento da regra em relação ao ato ou fato
jurídico, ou seja, à realidade.

Quanto às colisões entre princípios, elas não poderão ser


solucionadas a partir de uma declaração de invalidade ou de cláusula
de exceção, aplicáveis, como vimos, quando há conflitos entre
regras. Lembre-se de que princípios são normas que preveem a
existência e a garantia de direitos ou de deveres (as regras são normas
que estabelecem os direitos e deveres explicitamente). Assim, no
caso de colisões entre princípios, ambos continuarão a existir, serão
ainda válidos, mas, quando aplicados no caso real, um será afirmado
em detrimento do outro. Mas lembre-se: não é porque um princípio
foi escolhido para ser aplicado na realidade que o outro, que está
em conflito com este naquele caso específico, deixará de existir ou
será declarado como inválido (como ocorre nos casos de conflitos
de regras). Além disso, a prevalência de um princípio em relação ao
outro sempre ocorrerá de acordo com o que se tem na realidade,
ao caso concreto. E, assim, um princípio será aplicado em detrimento
do outro, sendo que este último continua a existir pelo método do
sopesamento ou ponderação.

Assimile
Sopesamento significa o ato de sopesar, ou seja, contrabalançar,
equilibrar. No caso de sopesamento de princípios, quando houver
conflito entre estes, contrabalanceia-se um em relação ao outro, de
modo a haver um equilíbrio no final, ainda que um seja aplicável em
detrimento do outro. O equilíbrio se dará justamente pelo fato de ambos
continuarem a existir. Não cabe falar em desequilíbrio entre os princípios,

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 245


no caso de sopesamento e de aplicação de um em relação ao outro,
porque os dois princípios continuam existindo.

Robert Alexy (2008, p. 593) estabelece da seguinte forma a “lei do


sopesamento”: “Quanto maior for o grau de não satisfação ou de
afetação de um princípio, tanto maior terá que ser a importância da
satisfação do outro.”

Dadas essas considerações iniciais sobre conflitos entre regras e


colisões entre princípios, passaremos, agora, ao método engendrado
pela regra da proporcionalidade, segundo a teoria de Robert Alexy.
Não se desanime ou se assuste em relação a toda essa discussão que
pareceu bastante abstrata até o momento! A partir de agora, você
conseguirá, após a leitura deste trecho, verificar na prática como se
resolver conflitos entre direitos fundamentais! Vamos lá?
Primeiramente, é preciso esclarecer que a tese central de Robert
Alexy é que os direitos fundamentais, independentemente de como
são formulados, de maneira mais ou menos precisa, seriam princípios
e, como tal, mandamentos de otimização, ou seja, que podem ser
satisfeitos em graus diversos conforme as possibilidades fáticas e
jurídicas.
A otimização da realização dos princípios dependerá da regra da
proporcionalidade (que Robert Alexy denomina como máxima de
proporcionalidade), que por seu turno compreende três máximas
parciais, quais sejam: (i) adequação; (ii) necessidade (meio menos
gravoso); e (iii) proporcionalidade em sentido estrito (sopesamento
em sentido estrito). Quando houver um conflito de direitos
humanos (direitos fundamentais), você deverá aplicar a regra da
proporcionalidade de acordo com esse “passo a passo”.
É importante destacar que as máximas de adequação e
necessidade expressam a exigência de uma máxima realização dos
direitos fundamentais, enquanto princípios, no plano da realidade
de fato, de acordo com as possibilidades fáticas. Já a máxima da
proporcionalidade em sentido estrito diz respeito às possibilidades
jurídicas de realização desses direitos.
A primeira máxima, a da adequação, requer uma análise sobre a
conformidade dos direitos conflitantes em relação ao caso concreto.
Deve-se, neste primeiro instante, verificar se os direitos em conflito

246 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


estão aptos a alcançar o resultado que se pretende atingir. Alexy cita
o exemplo da proibição de instalação de uma máquina de venda
automática de cigarros em um salão de cabelereiro, tendo em vista
que o farmacêutico não teria prova de sua competência comercial
– segundo a legislação alemã –, que teria por objetivo proteger o
consumidor contra prejuízos contra a sua saúde ou econômicos.
Nesse caso, estão em jogo dois direitos fundamentais: a liberdade
profissional e a proteção ao consumidor. No entanto, podemos
constatar que exigência de uma prova de competência comercial,
no caso, de uma máquina automática para vender cigarros, não é
sequer adequada para a proteção do consumidor. Por esse motivo,
a exigência de demonstração da competência comercial violaria
o direito à liberdade fundamental sem sequer realizar o direito à
proteção do consumidor.
Essa máxima, portanto, tem a natureza de um critério negativo, ou
seja, ela apenas exclui os meios não adequados.
Em segundo lugar, devemos analisar a situação de acordo com a
máxima da necessidade. A pergunta que você deverá fazer, quando
ocorrer o conflito entre dois direitos humanos, será a seguinte: qual
dos direitos humanos, ou medida que envolve sua aplicação no caso
concreto, é menos gravoso, oneroso, prejudicial ao indivíduo (ou seja,
qual direito é mais benigno, benéfico ao indivíduo)? Assim, a máxima da
necessidade exige que, na comparação entre dois meios igualmente
adequados para proteção de um direito fundamental, seja escolhido
aquele que intervenha de modo menos intenso. Robert Alexy cita o
exemplo de um caso em que se proibiu a comercialização de doces
que, embora contivessem chocolate, eram feitos majoritariamente
de flocos de arroz e, portanto, não era genuinamente chocolate.
Novamente, os direitos aqui envolvidos são a liberdade comercial
e a proteção do consumidor. Sob o ponto de vista da máxima da
adequação, tal medida seria absolutamente adequada para proteger
o consumidor, no entanto, ela é necessária? Será que não haveria
uma medida que protegesse igualmente o consumidor, mas não
afetasse tanto a liberdade comercial? Um dever de identificação
no rótulo poderia combater o perigo de confusões e equívocos de
maneira igualmente eficaz e de forma menos invasiva.
No entanto, nem sempre se pode chegar a uma solução de
conflitos recorrendo às duas primeiras máximas descritas, seja porque

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 247


há um terceiro princípio envolvido, seja porque o que está em causa
não são questões fáticas, mas a questão de qual princípio deve ser
privilegiado em detrimento do outro. Nesse caso, estamos diante
das possibilidades jurídicas de realização dos direitos fundamentais.
Cumpridas as máximas de adequação e necessidade, ainda assim pode
existir um conflito no campo jurídico entre os direitos fundamentais.
Nesse caso, deve-se partir para a terceira etapa, da máxima da
proporcionalidade em sentido estrito (o sopesamento em sentido
estrito). O conflito aqui é entre princípios, portanto deve-se recorrer à
lei do sopesamento de modo a atingir um equilíbrio ou ponderação.
A lei do sopesamento, que já vimos acima, mostra que este pode ser
dividido em três partes: primeiramente, deve-se avaliar qual o grau de
não satisfação ou afetação de um dos princípios no caso concreto.
Depois, avalia-se a importância da satisfação do princípio colidente.
Por fim, é preciso avaliar se a importância de satisfação do princípio
colidente justifica a afetação ou a não satisfação do outro princípio.
Podemos estabelecer uma escala para determinar o grau de
afetação ou não satisfação, assim como para determinar o grau da
importância do princípio colidente.
No que diz respeito ao grau de afetação, a escala pode variar
entre: “leve”, “moderado” e “sério”. A imposição aos fabricantes
de produtos derivados do tabaco de imprimir em seus produtos
informações sobre o risco do fumo, por exemplo, é uma intervenção
leve na liberdade profissional. Já a proibição total de comercialização
desses produtos poderia ser classificada como séria.
No que diz respeito ao grau de importância de satisfação do
princípio colidente, este também poderia ser classificado em três
níveis: baixo, médio e alto. A proteção da população contra os riscos
à saúde pode ser considerada de alta importância.
Por isso, quando comparamos a intensidade da intervenção, que
no caso é leve, com o grau de importância do princípio que motiva
a intervenção, que no caso é alto, a resposta sobre o que deve
predominar é clara: a forte razão para intervenção justifica a leve
intervenção.
É importante notar que o sopesamento não conduz a um resultado
único e inequívoco, tendo em vista que ele depende de um juízo, ou
seja, que se julgue com base em parâmetros que não estão contidos
na própria lei do sopesamento. Lembre-se de que, na Unidade 3,

248 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


estudamos a faculdade de julgar, que se faz útil justamente em
momentos como esses.

Exemplificando
O jurista André de Carvalho Ramos cita diversos casos em que há
conflitos de direitos humanos fundamentais. Por exemplo, o conflito
entre a liberdade de expressão e o direito à privacidade, à intimidade;
também pode haver conflito entre o direito à vida, o direito à liberdade
religiosa e o próprio direito à liberdade nos casos de aborto, eutanásia
ou de transfusão de sangue de pessoas cuja religião não permita esse
procedimento, porém a pessoa esteja sob risco de morte (como é o
caso das Testemunhas de Jeová). Além disso, temos ainda a questão
da liberdade de locomoção e o direito de greve: imagine um protesto
por melhores condições e salários no ensino público, na principal via
de uma grande cidade, na hora do rush – o direito à greve é justamente
causar transtornos e chamar a atenção para o problema que os grevistas
enfrentam. Mas como ficaria o transporte de pacientes por ambulância
que necessitem passar por essa região, ou até mesmo o transporte de
pessoas presas que necessitam ser transferidas de um presídio ao outro,
dada a periculosidade de seu comportamento?

Para todos esses casos, você deverá aplicar a regra da proporcionalidade,


seguindo cada um dos três passos, questionando-se em cada etapa e
fazendo a devida justificação (argumentação jurídica) (RAMOS, 2016).

Pesquise mais
Você poderá conferir o jurista alemão Robert Alexy falar sobre a
regra da proporcionalidade em evento realizado em 2016 para
comemorar os 70 anos do Tribunal Superior do Trabalho e os 75
anos da Justiça do Trabalho, em Brasília, acessando os seguintes
links: <https://www.youtube.com/watch?v=QH9aQ9taj5Y>; <https://
www.youtube.com/watch?v=il3fd6wh938>; <https://www.youtube.
com/watch?v=Q6WYQ-xXX6o>; e <https://www.youtube.com/
watch?v=PUADSNBTJmU>. Acessos em: 14 ago. 2017.

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 249


Sem medo de errar
Para resolver esta situação-problema, inicialmente, você deverá
identificar quais os direitos que estão em conflito sobre a eventual
proibição ou não dos bailes funk (“pancadão”) no bairro do Morumbi,
em São Paulo. Enquanto membro do CONSEG, você deverá
identificar que, de um lado, por parte dos participantes do evento
“pancadão”, estes são titulares do direito à liberdade, à liberdade de
expressão e ao lazer. Ao passo que os membros da comunidade em
que esse evento ocorre têm o direito à segurança, à manutenção
da ordem pública, ao silêncio e à preservação da propriedade.
Além disso, todos os envolvidos devem observar a preservação da
propriedade estatal, presente nos equipamentos públicos urbanos
que compõem a localidade.
Neste caso, você deverá aplicar a regra da proporcionalidade
tanto para os direitos dos participantes do “pancadão” quanto para
os direitos dos membros da comunidade e os do Estado, que estão
em conflito.
Primeiramente, observando-se as três máximas parciais da regra
da proporcionalidade no caso dos direitos em conflito, tanto dos
participantes do “pancadão” quanto dos membros da comunidade
em que ocorrem e do Estado, você deverá verificar a adequação em
relação à aplicação desses direitos, ou seja, a proibição dos bailes
é a medida mais adequada para atender aos direitos à segurança,
à propriedade privada e à manutenção da ordem pública e da
propriedade estatal? Além disso, no caso de proibição, configurar-
se-ia como a medida mais adequada para a observação do direito
à liberdade de expressão e do direito ao lazer dos participantes do
baile? Em segundo lugar, você deverá verificar se a realização do
“pancadão” traz ônus/prejuízos aos participantes desses bailes ou
aos membros da comunidade e do Estado (necessidade). Pelo que
se verifica na situação, a sua realização traz prejuízos aos membros
da comunidade em que se realizam os bailes, pois há violação da
propriedade privada, desrespeito ao direito ao silêncio e esbulho
da propriedade estatal (vandalismo com os equipamentos públicos
da localidade), logo, a soma dessas violações demonstra a não
manutenção da ordem pública. Por último, deverá fazer a análise
da proporcionalidade em sentido estrito, ou seja, qual o grau
de prejuízo que os direitos aplicados trazem para os participantes

250 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


do baile e os membros da comunidade? A resposta seria que a
manutenção do direito à liberdade de expressão e do lazer dos
participantes do baile afeta e causa prejuízos severos aos direitos
de propriedade particular, ao silêncio, à preservação da propriedade
estatal e da ordem pública.
Dessa maneira, os bailes devem ser proibidos ou fiscalizados
pelas autoridades públicas, após a análise do conflito de direitos
de acordo com as três máximas parciais da proporcionalidade da
teoria de Alexy. Os bailes funk realizados da forma como foram
descritos nessa situação-problema trazem diversas consequências à
comunidade em que são realizados. Porém, os participantes desse
evento estão exercendo o seu direito ao lazer por meio da realização
desse tipo de baile.
No entanto, os direitos ao lazer, à liberdade de expressão e à
liberdade, em último caso, cujos titulares são os participantes
dos bailes funk, têm trazido mais malefícios, gravames e ônus
aos moradores da região. Além disso, a observação e garantia do
direito à segurança, da manutenção da ordem e da preservação
da propriedade particular e pública geram menos prejuízo do que
a continuidade dos bailes, cuja regra é a não observação desses
direitos. Por fim, o direito ao lazer e à liberdade de expressão não
está sendo exercido de maneira adequada, de modo a se garantir os
demais direitos dos moradores da comunidade, pois esses direitos
não têm sido respeitados.
Portanto, em um primeiro momento, você, enquanto
representante da sociedade civil no CONSEG, deveria requerer
ao Poder Público a interdição dos locais em que esses bailes são
realizados e a sua proibição, tendo em vista que o direito ao lazer
de seus participantes, da maneira como está sendo exercido, tem
gerado prejuízos e malefícios aos direitos dos moradores da região.
Entretanto, sob a ótica do sopesamento de direitos, de modo a se
atingir um equilíbrio entre direitos, você poderá sugerir também aos
representantes do Poder Público o seguinte, para a manutenção
dos bailes (preservação do direito ao lazer dos participantes e de sua
liberdade) e a preservação da ordem e da propriedade particular e
estatal:
- Presença de policiamento na região durante a realização desses

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 251


eventos, para que sejam observadas a segurança e a preservação
dos patrimônios público e particular.
- Horário de término do evento compatível com a observação do
direito ao silêncio (que por lei deve ser garantido no período entre
22h e 6h).
- Presença de pais ou responsáveis no caso de o baile ser
frequentado por menores de idade.
- Obrigatoriedade de assistência ao evento por ambulâncias
(serviços médicos), corpo de bombeiros e segurança particular
dentro da realização do evento.

Avançando na prática

O direito à vida, à saúde, à integridade da pessoa presa e à


manifestação

Descrição da situação-problema

Agora você é um policial militar responsável pela condução e


escolta de presos que serão transferidos de um presídio na capital
do estado de São Paulo para uma unidade prisional de segurança
máxima, localizada no Município de Tremembé, no interior do estado.
Os presos são colocados dentro do veículo que os transferirá, no qual
você é o condutor, às 7h.
Sabe-se que esses veículos, apesar de possuírem ventilação, são
bastante fechados, de modo a impossibilitar a comunicação dos
presos com o ambiente externo. Portanto, de maneira a se preservar
a integridade e as condições de dignidade dos presos transferidos, a
viagem deverá ser feita com a maior brevidade possível e da forma
mais segura à manutenção da vida de todos os envolvidos, incluindo-
se os policiais da escolta.
Inicia-se o trajeto, o qual deverá, obrigatoriamente, passar pelas
duas principais vias expressas de São Paulo: as Marginais Tietê e
Pinheiros. Neste mesmo dia, moradores de uma favela localizada à
beira de uma das marginais resolvem realizar um protesto, bloqueando
todas as faixas das vias expressas, montando barricadas e queimando
pneus e lixo. O protesto deles é pelo direito à habitação, uma vez que

252 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


há cerca de cinco anos a Prefeitura de São Paulo iniciou o processo
de desocupação da área para a construção de unidades habitacionais
e até o momento não as concluiu.
No meio do caminho, você, como condutor do veículo e
escoltando também os presos transferidos, se depara com essa
situação. Como você deverá agir, sendo que os presos que estão
sob sua responsabilidade possuem antecedentes criminais bastante
severos e mau comportamento durante o cumprimento de suas
penas, representando alta periculosidade? Caberá a você analisar
a situação, verificando os direitos envolvidos e qual deles deverá
prevalecer. Como você fará para realizar a transferência dos presos,
preservando a integridade da vida de todos os envolvidos, observando
o direito à saúde dos presos, no caso, e a manutenção do legítimo
direito de manifestação dos moradores da favela em questão? Vamos
começar? Bom trabalho!

Resolução da situação-problema
Ao se deparar com o protesto na marginal, liderado pelos
moradores de favela próxima, por melhores condições de
habitação, e encontrando a marginal bloqueada para a livre
circulação dos veículos, você deverá parar o veículo que conduz
e conversar com o representante ou líder da manifestação,
após identificá-lo. Deverá explicar que, muito embora o direito
à manifestação seja legítimo e que possa ser realizado por
meio do bloqueio parcial de vias de circulação, ele não poderá
ser absoluto. O direito à saúde dos presos que você transporta
deverá ser privilegiado, no caso, pelo fato de o direito à vida estar
entrelaçado a ele, de maneira mais intensa naquele momento,
dada a condição temporária do transporte dos presos, e que você
necessita continuar seu trajeto.
Essa análise deverá ser feita a partir da utilização das três
máximas parciais da regra da proporcionalidade: adequação,
necessidade e proporcionalidade em sentido estrito. A adequação:
a observação do direito à saúde dos presos é a medida mais
adequada em relação ao direito à manifestação dos moradores da
favela, em virtude de se atentar para a preservação da vida desses
indivíduos que se encontram em situação de encarceramento. A

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 253


necessidade advém da ideia de que o direito à saúde dos presos
deve ser preservado em relação ao direito à manifestação, pelo fato
de que eles estão em situação de encarceramento mais agravada,
devido à sua transferência de presídios, o que exige maior cuidado
e atenção para a preservação de suas vidas e das dos demais
policiais envolvidos no seu transporte. A proporcionalidade em
sentido estrito será observada a partir do sopesamento entre o
direito à saúde dos presos e o direito à manifestação por melhores
condições de habitação dos moradores da favela. O direito à
saúde deverá prevalecer porque, uma vez cumprido, trará menos
ônus e prejuízos aos presos, devido ao grau de prejuízos que sua
aplicação trará: se desrespeitado ou se se privilegiar o direito à
manifestação dos moradores da favela, poder-se-á colocar em
risco a vida dos presos e dos policiais que os escoltam.
Após fazer todo esse raciocínio, você deverá conversar com
o líder da manifestação e requerer a liberação de sua passagem
para continuidade da transferência dos presos, deixando claro
que, apesar de o direito de manifestação ser legítimo, ele não
é absoluto, requer restrições que, neste caso, se devem à
preservação da vida e da saúde dos presos transferidos.

Faça valer a pena


1.

Um dos pontos mais importantes da teoria de Alexy


(2008, p. 85) é a distinção entre princípios e regras
utilizadas para analisar a estrutura das normas de direitos
fundamentais. Segundo o autor, essa distinção é a base
da teoria da fundamentação no âmbito desses direitos e a
chave para a solução de problemas centrais da dogmática
dos direitos fundamentais. Sem essa distinção não pode
haver nem uma teoria adequada sobre as restrições e as
colisões entre esses direitos, nem uma teoria suficiente
sobre o papel dos direitos fundamentais no sistema
jurídico. Por isso, Alexy afirma que essa distinção é uma
das 'colunas-mestras' do edifício da teoria dos direitos
fundamentais.

254 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


O autor faz uma distinção precisa entre regras e
princípios e uma utilização sistemática dessa diferença
em sua teoria. O método adotado não é em relação
ao grau de generalidade ou abstração das normas,
como é usualmente descrito pela doutrina tradicional.
(GORZONI, 2009, p. 1)

Após a leitura do texto selecionado, julgue as assertivas a seguir como


sendo verdadeiras (V) ou falsas (F) e assinale a única alternativa CORRETA:
I. As regras não possuem direitos e deveres em seu conteúdo, pois são
particularidades dos princípios.
II. Os princípios são normas jurídicas que podem orientar a formulação,
aplicação e interpretação das regras.
III. A principal diferença entre regras e princípios é que, enquanto as regras
possuem direitos e deveres explícitos, os princípios têm conteúdo mais
abstrato, informados por bens e valores a orientar um sistema jurídico.
a) F – V – F.
b) F – F − V.
c) V – V – F.
d) V – F – F.
e) F – V − V.

2.

O conceito de conflitos normativos é algo sobre o


qual pairam diversas polêmicas. Sobretudo sua relação
com outros conceitos afins, às vezes tomados como
sinônimos, às vezes tomados como coisa distinta – como
é o caso das colisões entre normas e das contradições
normativas −, é algo sobre o qual há poucos pontos
pacíficos no debate jurídico. [...] Nesse sentido, um
conflito normativo nada mais é do que a possibilidade
de aplicação, a um mesmo caso concreto, de duas ou
mais normas cujas consequências jurídicas se mostrem,
pelo menos para aquele caso, total ou parcialmente
incompatíveis. (SILVA, 2010, p. 47, grifos no original)

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 255


Com base no trecho do texto anterior, complete as lacunas da sentença
a seguir:
A característica da ____________ dos direitos humanos demonstra a
possibilidade de haver conflitos entre regras, colisões entre princípios ou
colisões entre princípios e regras. Para que se possa resolver essas situações,
uma alternativa é a utilização da ____________, que prevê a aplicação das
seguintes etapas: ____________, ____________ e ____________.
Agora, assinale a única alternativa CORRETA que contenha as palavras-
chave adequadas:
a) transversalidade – regra da proporcionalidade – necessidade −
proporcionalidade em sentido estrito − adequação.
b) transversalidade – regra da impessoalidade – necessidade – igualdade
perante a lei – adequação.
c) universalidade – regra da proporcionalidade – motivação –
proporcionalidade em sentido estrito – necessidade.
d) transversalidade – regra da moralidade – necessidade – proporcionalidade
em sentido estrito – urgência.
e) universalidade – regra da proporcionalidade – adequação –
proporcionalidade em sentido estrito – motivação.

3.
O direito à vida tem um conteúdo de proteção positiva que
impede configurá-lo como um direito de liberdade que
inclua o direito à própria morte. O Estado, principalmente
por situações fáticas, não pode prever e impedir que
alguém disponha de seu direito à vida, suicidando-se ou
praticando eutanásia. Isso, porém, não coloca a vida como
direito disponível, nem a morte como direito subjetivo do
indivíduo.
[...]
O ordenamento jurídico-constitucional não autoriza,
portanto, nenhuma das espécies da eutanásia, quais sejam, a
ativa ou passiva (ortotanásia). Enquanto a primeira configura
o direito subjetivo de exigir-se de terceiros, inclusive do
próprio Estado, a provocação de morte para atenuar
sofrimentos (morte doce ou homicídio por piedade), a
segunda é o direito de opor-se ao prolongamento artificial
da própria vida, por meio de artifícios médicos, seja em caso
de doenças incuráveis e terríveis, seja em caso de acidentes
gravíssimos (o chamado direito à morte digna). (MORAES,
2003, p. 91-92)

256 U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos


Com fundamento na leitura do trecho anterior, assinale a única alternativa
CORRETA:
a) As características dos direitos humanos da indisponibilidade e da
irrenunciabilidade não são aplicáveis no direito à vida quando um ser
humano possuir uma doença grave e que lhe implique sofrimento.
b) O direito à vida é um dos direitos humanos marcado pela
indisponibilidade, irrenunciabilidade e transversalidade, sendo esta última
característica determinante para que se mantenha uma estreita vinculação
com os demais direitos pela necessidade de se existir, para que seja titular
dos demais direitos.
c) O direito à liberdade deverá sempre prevalecer em relação ao direito à
vida, pois cada ser humano tem o direito de vivê-la da forma como melhor
lhe aprouver.
d) A transversalidade dos direitos humanos impede que se aplique a regra
da proporcionalidade quando houver conflito entre esses direitos na
realidade.
e) A irrenunciabilidade e a indisponibilidade, características dos direitos
humanos, não são aplicáveis ao direito à vida quando o ser humano esteja
em situação de grave sofrimento.

U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 257


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U4 - Cidadania, prevenção e planejamento na promoção dos direitos humanos 259


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