Você está na página 1de 3

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTITUTO DE PSICOLOGIA

PROGRAMA DE GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA

4ª CARTA DE MOTIVAÇÃO E PROCESSOS AFETIVOS

Segundo o texto “Ser Afetado” de​ Jeanne Favret-Saada

Novembro de 2018

Niterói
O texto abordado buscou reformular o afeto, baseando - se em um trabalho realizado

pela etnóloga francesa Jeanne Favret-Saada. O texto em questão, busca discernir sobre

feitiçaria em um Bocage francês onde busca - se conhecer mais sobre o campo central dos

modos de ser afetado, para a partir daí criar uma antropologia das terapias que repense a

antropologia.

Saada, em suas descrições, destaca um paradoxo na antropologia no que diz respeito

aos afetos, onde por meio de sua fala, ela diz que os autores antropólogos desconsideram ou

contestam o lugar deles na experiência humana. E quando admitem a participação, utilizam -

se dessa experiência como base para afirmarem os afetos enquanto uma criação de uma

elaboração cultural ou para julgar o afeto como uma ausência. Cabe aqui a reflexão do porquê

os antropólogos julgavam praticamente como inadmissível a participação dos afetos em suas

pesquisas e o porque isso os fazia sentir tão mais frágeis e fracos. Os afetos seriam então uma

fraqueza?

Em sua viagem, em 1968, observou um largo número de livros etnográficos sobre

feitiçaria que se dividiam em duas coleções que não dialogavam. Uma, composta por textos

folcloristas europeus que se intitulavam por “etnólogos” , onde estes, não possuíam um

vínculo direto com a feitiçaria rural, pois, dispensavam a observação e a participação. Já a

outra, é composta por antropólogos anglo-saxões que em sua maioria eram africanistas e

funcionalistas que, ao contrário dos folcloristas europeus, observavam e participavam. Já

neste ponto observa-se o quão discordantes e discrepantes são os modos de pesquisas

apresentados e cabe a reflexão do porquê tão diferentes modos de pensar ainda persistem em

seus paradigmas arcaicos.

Saada desenvolveu a sua investigação no Bocage lendo texto anglo-saxã, onde, este,

negava a viabilidade de uma feitiçaria rural na Europa. Tal afirmação é posta como falsa, no
momento em que a pesquisadora afirma estar em um local da Europa em que a feitiçaria

ainda é presente e que, segundo folcloristas europeus, há outras regiões onde também se

difundi essas ideias.

Para montar esse trabalho, foi necessário por parte da autora desprender - se de

determinados paradigmas, e assim adentrar na feitiçaria para deixar - se ser afetada. No

início, quando chegava em casa escrevia relatos de sua experiência naquele dia, para que

futuramente tivesse material para trabalhar, porém chegou a um momento que em que decidiu

não mais se prender as escritas e a adentrar de fato da experiência, deixando-se submergir nas

sessões de enfeitiçamento e assim fazer com que os afetos e o sensível tomem conta da

situação.

Saada em seu texto buscou discutir acerca da questão da separação técnico-sensível,

destacando a importância da pesquisa dentro do campo do conhecimento sem

necessariamente se desprender dos afetos. Pois, segundo ela, este contribui para novas

possibilidades de um novo olhar para o espaço ali formulado. E assim, a crítica proposta pela

autora é justamente no fato dos antropólogos renegarem esses afetos que surgem. E o

questionamento que fica é: porque é tão “ruim” deixar-se ser levado pelos afetos no campo de

pesquisa? É necessário pensar que nós somos construídos por meio de afetos e que dar voz

somente a razão diz muito pouco sobre a percepção do sujeito em meio ao campo de pesquisa

e é por conta disso que se faz necessária a reformulação desses processos aplicados a

pesquisas, para que assim, novos saberes possam emergir por meio da sensibilidade dos olhos

de quem é afetado.