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Otto Rahn

Cruzada
contra
o Graal

Grandeza e queda dos Albigenses


Aos meus amigos
dos dois lados da fronteira.
Prefácio
OTTO RAHN, PORTADOR DE LUZ

Uma espécie de fatalidade determinou que as obras que mais


contribuíram para fazer sair o pensamento occitano da sua letargia
secular foram objecto, não de sábias dissertações históricas, mas de
verdadeiras epopeias em prosa capazes de levarem a imaginação a
horizontes fabulosos.
René Nelli1

A verdade histórica não é forçosamente a verdade da Alma.


Christiane Roy2

No fim da primavera de 1933, quando saía na Alemanha Kreuzzug gegen den Gral (Cruzada contra o Graal),
Otto Rahn ignorava — excepto, talvez, em algum sonho mais ousado — que o livro iria ser uma obra mítica
maior, um livro-culto. De facto, no início teve apenas o sucesso da crítica, não do público, e as primeiras
edições em francês e em alemão não ultrapassaram cinco mil exemplares. Vai ser necessário esperar pelos
anos 60 (70 na França) para se ver reeditado o texto fundamental de Rahn. No entanto, atraiu em 1933 as
atenções sobre a pessoa do seu jovem autor de 29 anos... para o melhor e para o pior.
Se há quem critique as teses do fervoroso occitanista, muitos aceitam-nas com paixão. Todavia, pode
perguntar-se se os acusadores ou os admiradores leram verdadeiramente Rahn. Em geral, é a sua lenda que se
julga.

Otto Rahn, os seus juízes, os seus públicos

Sobre Otto Rahn escreveu-se muito. Rahn suscitou inúmeros comentários paradoxais cujos juízos mais
rudes, afinal, tornam esses comentários simpáticos, isto é, mais cheios de ternura. A tal destino foi votada essa
personagem de sombra e luz, buscador de centelhas de espiritualidade nos rincões mais ocultos da alma.
Neste prefácio, não me coloco na perspectiva de julgar a fundo as teses de Otto Rahn. Deixo ao leitor o
cuidado de descobrir esse texto rico, inspirado, e espero que o saiba completar com leituras adequadas e em
função de investigações próprias. O risco de Rahn, o julgamento da sua obra, está ao nível dos seus leitores,
justamente, dos públicos a que chegou, a que chega e a que chegará.
“Há muito que tomei a resolução de me dedicar ao estudo das relações entre a poesia occitana e a mística e
as suas repercussões na espiritualidade da Alemanha medieval”, escreve Rahn na introdução da Cruzada ao
expor os fins da obra. Espera, acrescenta mais adiante, que a esse livro se siga rapidamente um segundo texto
que o complete, relativo ao grande inquisidor alemão Konrad de Marburg. Situa-se na perspectiva do estudo
da espiritualidade europeia em geral e da germânica em particular, tendo como pano de fundo constante as
heresias e a luta contra Roma. Ora, a respeito do catarismo e do catarismo exclusivamente, é que foi julgado e
condenado em questões de pormenor.
A este propósito, pode responder-se de duas maneiras:
1ª) Qual o autor, mesmo o mais destacado, que não revê os seus textos (a fortiori, os primeiros) a fim de os
corrigir, mais a mais aos 29 anos (não esqueçamos que Rahn morreu — ou, pelo menos, desapareceu — aos
35 anos sem ter revisto o seu trabalho)?
2ª) As perspectivas de Rahn — e, portanto, o seu público — ultrapassam largamente o terreno dos estudos
cátaros. Ao apaixonar-se pela Occitânia e pela sua espiritualidade, pelo Graal, pela Alquimia, pela civilização
medieval e, particularmente, pela arte cortês dos trovadores e trobères, pelo paganismo em todas as suas
formas, o escritor alemão congrega leitores à volta da sua obra...
Na verdade, lemos — devíamos ler — Rahn como lemos o trabalho de um erudito, sem a preocupação de
saber se é ou não erudito e limitando-nos à perspectiva dos seus livros? A Cruzada contra o Graal e o seu
segundo livro, A Corte de Lucifer3, tornaram-se obras-cultos, já o dissemos, e, a esse título, participam
grandemente de um fenómeno irracional4.
Otto Rahn e a sua obra devem ser decifrados em três dimensões ligadas entre si: a do pesquisador, a do
sonhador e a do animador. O autor não pretende ter atingido o fim da sua demanda (que provavelmente
considerava sem fim, desesperadamente sem fim, a ponto de lhe ter imposto um termo brutal... talvez). Atrai
o leitor na sua peugada e convida-o a seguir a mesma via. Ao fim e ao cabo, o próprio Rahn explica como o
livro, cuja “intenção condicionou a forma: diário de uma viagem efectuada através de montanhas, castelos e
grutas e, mais ou menos, em alfarrábios amarelecidos”5, deve ser lido. Antes de mais, Cruzada contra o Graal
deve ser lido como um guia das grutas (grutas-refúgios e grutas de iniciação), à luz dos castelos-templos, na
primeira fila dos quais está Montségur.

Rahn, o último herege

Era alto, magro, de rosto juvenil, com pupilas claras de um vendedor de


sonhos sob um capacete de cabelos castanhos penteados para trás,
simultaneamente muito velho a julgar pelo vestuário: camisa engelhada,
pesadas botas de aldeão montanhês e (...) calções “knickerbockers”...
Saint-Loup6

De certo modo, Otto Rahn foi o último herege — como se pode dizer que Yukio Mishima foi o último
samurai —, portador de um sonho antigo que já não tem lugar neste mundo... mas que, ao mesmo tempo, lhe
permitiu, como à Fénix, renascer com uma força arrebatadora7.
É inegável que o jovem autor alemão voltou a despertar neste século a admiração pelo catarismo e pela
Occitânia... mesmo se, para tal, teve de se inspirar nas vias de um catarismo utópico, obscuro avatar do
druidismo e do catarismo maniqueu autêntico.
Curioso itinerário à primeira vista: é através de Wagner, em especial das óperas Tannhäuser e Parsifal, que
Rahn chega a Parzival de Wolfram von Eschenbach (que o compositor alemão trata como herói em
Tannhäuser), aos trovadores e à Occitânia. Dessas associações, da conexão entre o imaginário germânico dos
trobères e a Occitânia cortês dos trovadores, vão nascer as grandes ideias de Otto Rahn. Desenvolve-as na sua
tese de doutoramento intitulada Em busca de Mestre Kyot de Wolfram von Eschenbach.
O jovem alemão podia limitar-se à simples literatura, mas estava escrito que a sua vida aventurosa devia
passar pelo sul da França “para dar forma nos próprios lugares à questão que me conquistou verdadeiramente
até à alma”8.
Rahn fará duas estadias na região de Ariège9: a primeira, breve, em 1930, e, mais tarde, a segunda, de vários
meses, de finais de 1931 ao fim da primavera de 1932. Esta última acabará mal: tendo assumido a gerência de
um hotel em Ussat-les-Bains declarado em falência, teve de regressar precipitadamente à Alemanha e nunca
mais voltou à Occitânia10.
“Graças a circunstâncias tão inesperadas como favoráveis, foi-me dada a possibilidade de empreender uma
viagem aos Pirinéus, com Montségur como objectivo”, escreve Otto Rahn no seu prefácio da Cruzada.
“Circunstâncias tão inesperadas como favoráveis”... Este conjunto de palavras, escrito como que
inadvertidamente (embora não tendo sido assim, certamente), irá fazer correr muita tinta.

As influências

Quais foram essas circunstâncias? Era esperado? Mandatado? O que hoje se tem como certo é que o
jovem alemão enamorado do occitanismo, nascido na floresta pagã de Odenwald, o Bosque de Odin (verá a luz
em 1904, em Michelstadt, no Hesse), frequentou círculos esotéricos ou, pelo menos, membros desses círculos
(por exemplo, a Sociedade Teosófica ou os fantasmáticos — leia-se estranhos — Polares11). Basta ver a lista
das pessoas que o acolheram e o guiaram na Occitânia (à maioria dos quais se mostrará agradecido na Cruzada
contra o Graal). Pense-se em Déodat Roché, renovador do catarismo no século XX, fundador da Sociedade de
Estudos Cátaros, membro da sociedade antroposófica de Rudolf Steiner mas, principalmente, em Maurice
Magre (que Rahn trata como “amigo” na Cruzada), poeta “iniciado”, primeiro presidente da Sociedade dos
Amigos de Montségur12, membro da misteriosa fraternidade dos Polares, que se encontrou com Rahn em
Paris. Magre fará recomendações ao jovem desconhecido e abrir-lhe-á muitas portas. Apresenta-o à condessa
Pujol Murat (membro dos Polares e descendente, parece, da legendária Esclarmonde de Foix e de Hughes de
Payens, fundador da Ordem dos Templários) mas, sobretudo, ao espeleólogo e pré-historiador Antonin
Gadal (professor erudito e presidente da repartição de Turismo de Ussat-les-Bains, que finalmente o associa à
sua via, o Lectorium Rosicrucianum, Rosa + Cruz de Ouro, grupo rosacruciano holandês). “Se Gadal não me
desse a ler Sur le Chemin du Saint-Graal13, escreve Rahn, ter-me-ia contentado em continuar a minha tese sobre
os trovadores”. Gadal fá-lo descobrir o maciço do Sabarthès, que Rahn olha como “um grande livro, o mais
belo livro do mundo”.
A relação que o jovem alemão mantém com o amigo mais velho (Gadal tem então 50 anos) é uma relação
mestre-discípulo. Rahn vê nele o seu Trevrizent (o eremita iniciador de Parzival)14. O ariegense convence o
aluno de que a demanda do Graal restabelece a essência do catarismo, que é o reflexo da iniciação cátara, tese
que desenvolverá em Cruzada contra o Graal (Otto Rahn completa a sua visão das coisas em A Corte de Lucifer
ao propor a demanda polar, luminosa, tendo como objectivo a Ultima Thule, que ele não esperará).
Chantre das pátrias carnais, da “mais alta espiritualidade europeia”15, Rahn devia ter os encontros certos
para poder conduzir bem as suas pesquisas, mas, sobretudo, ver, sentir os lugares. “A minha Cruzada contra o
Graal é o resultado dessa ambiance, dessa atmosfera que respirei na terre sauvage do Thabor pirenaico”16.

Destino francês de Cruzada contra o Graal

Em 1934, um ano depois da edição original alemã, surgia na França Cruzada contra o Graal. No entanto, a
tradução francesa (da responsabilidade do erudito Robert Pitrou, professor na universidade de Bordéus e
amigo de Rahn) pode ser considerada uma edição original, já que, em vários pontos, se afasta da edição alemã:
há passagens que estão completas, mas outras foram abreviadas17, e a própria ordem do livro sofreu
alterações. É possível que a tradução tenha sido validada pelo autor, que era um francófono perfeito. Talvez18.
Em todo o caso, foi largamente amputada, especialmente nas notas. Em 1974, apareceu nova edição francesa
e parte dessas notas foi recuperada. Mas faltam outras — aliás muito interessantes — sobre o Graal19.
Terá Rahn aceitado a tradução francesa por ser consciente de não poder dizer certas coisas ao público
hexagonal (diz-se que em 1934 não foi autorizado a ir à França)? Porque reservava certas observações aos
seus compatriotas?
O certo é que a edição francesa do segundo e último livro, A Corte de Lucifer, teve destino idêntico. A
primeira tradução, aparecida em 1974 e devida a René Nelli, encerra algumas subtilezas: certas passagens —
aliás notáveis, por vezes — sobre o catarismo devidas à pluma do tradutor, grande especialista dos cátaros,
não constam do livro original de Rahn; certos comentários sobre o Norte presentes em Rahn mas
interessando manifestamente menos o tradutor, pouco a par das tradições nórdicas, foram suprimidas na
versão francesa...
Além de Kreuzzug gegen den Gral em 1933 e Luzifers Hofgesind em 1937, nada mais, nem um só título que
pudesse completar a bibliografia de Otto Rahn. Apenas uns artigos, umas crónicas na rádio, uns projectos
inacabados...
Em 13 de Março de 1939, Rahn desaparecia. O mito começava.

Cruzada contra o Graal: sonhos de um viajante solitário?

O grupo de visitantes chegou junto da torre mutilada e ficou


completamente imóvel. Que atitude adoptar face à ameaça sugerida pelo
homem solitário surgido das profundezas da ruína onde quase ninguém
se aventurava há sete séculos que caminhava lentamente para eles?
Saint-Loup20

Embora, como já dissemos, a primeira edição de Cruzada contra o Graal não tivesse conhecido mais que o
sucesso da crítica, foi muito lido no sul da França, que Rahn já tinha marcado com a sua impressão. Caiu
como um raio no pequeno cenário occitano, que não tardou a reagir. Antes mesmo da sua saída efectiva na
França, surgiram artigos (em especial em La Dépêche de Toulouse) de reputadas plumas do meio occitano (como
Robert Pitrou, Alex Coutet, Joseph Mandement...), umas para incensar, outras para condenar Rahn.
Condenar? Na verdade, a crítica é subtil. Os censores occitanos sentem bem que a obra de Rahn traz em
germe a centelha do sonho cátaro, a exaltação de um sentimento de identidade sumido nos vários séculos de
repressão francesa. Criticam as teses sem as atacar verdadeiramente, já que, afinal de contas, não estão
fundamentalmente em desacordo com elas. Então, as alfinetadas são para o próprio Rahn. Que diabo, pode
admitir-se que um “teutónico”, um “boche”, monopolize as belas tradições occitanas (para se entender a
situação, há que situar a estadia e a obra de Rahn no contexto de entre duas guerras; a I Guerra Mundial não
está afastada das recordações, os sucessos do momento — o crescimento do hitlerismo na Alemanha — são
motivo de inquietação e, entre a estadia em Ariège do jovem alemão e o aparecimento da Cruzada, intervém
um facto importante: a subida ao poder de Adolf Hitler). Joseph Mandement dizia azedamente: “Antonin
Gadal não publicou o que quer que seja, a não ser, obviamente, a Cruzada contra o Graal, com o pseudónimo
de Otto Rahn”21. Mais moderado, René Nelli notava: “Não quero saber se os eruditos meridionais — os
Gadal, Caussou, Roché e outros — que inspiraram Otto Rahn na nova interpretação do Graal tinham razão
ou estavam iludidos: seguro é serem eles os verdadeiros autores”22.
Quaisquer que fossem as razões, os velhos occitanos não suportavam que o livro-mestre tivesse sido
escrito por um alemão, a fortiori um alemão que vestia o mau uniforme...
É talvez Jean Blum que melhor define a obra de Rahn: “produto da comunhão entre o génio visionário do
jovem alemão e a sabedoria entusiasta do homem de Oc”23. Finalmente, escrevia René Nelli: “A despeito de
vários erros de pormenor e por vezes até de meias-verdades surpreendentes, embora sempre muito poéticas,
ninguém caracterizou a grandes traços e de forma tão adequada o espírito da civilização occitana do século
XIII e a velha cultura d’Oc, tão devotada ao espírito, tão grandemente humana, tão oposta ao fanatismo
romano e aos seus valores centrados no amor e no culto da mulher...”24.
A Occitânia acabava de recuperar o seu rapsodo, o seu sonhador25.

As teses de Cruzada contra o Graal

Sim, só a fortaleza cátara de Montségur nos Pirinéus pode ter sido o


templo inviolável do Graal.
Otto Rahn26

“Ao longo de trezentas páginas, a Cruzada contra o Graal é um grito de paixão à civilização occitana e à
pureza dos iniciados cátaros”, notava Jean Blum27, antes de acrescentar: “Segundo René Nelli, o encanto
luciferino da obra, o seu romantismo, a paixão exacerbada, não podiam deixar de suscitar repercussões, de
reavivar o patriotismo languedociano e, certamente também, de trazer às portas do consciente recordações de
outrora, de um bem anterior ao nosso século”28.
Em Cruzada contra o Graal, Otto Rahn procura demonstrar que o Graal de Wolfram von Eschenbach —
portanto, o seu Parzival — é de origem occitana. Em apoio dessa tese, traz à luz parentescos onomásticos
perturbadores. Para ele, Montségur e Mountsalvatsche (o castelo do Graal) são apenas um. Parzival (que
significa etimologicamente perce bien, corta bem ou parte bem) seria o visconde de Carcassonne, Trencavel
(que, dito de outra maneira, é tranche bien)29, a quem Wolfram quis render homenagem, etc. De acordo com o
que René Nelli exprimiu, “não seria necessário dizer que, historicamente falando, tudo isso é contestável. Que
devemos reter, então? Apenas a orientação geral do propósito. Otto Rahn está talvez menos longe da verdade
do que se crê ao sublinhar que o Parzival de Wolfram von Eschenbach — tão diferente do de Chrétien de
Troyes, mesmo quando nele se inspira30 e o continua e tão diferente também do de Wagner — sofreu, aliás
como a obra Titurel de Albrecht von Scharfenberg, influências meridionais: a marca é irrecusável”31.
No momento em que o jovem alemão efectuava as suas pesquisas, um austríaco, o professor Friedrich von
Suhtscheck, aprofundava no domínio iraniano e afirmava que o Parzival de Wolfram era a versão em verso de
uma velha epopeia iraniana, a Pârsîwalnâmä. Estabelecia grandes convergências entre os nomes dos heróis, os
lugares da saga do Graal e o texto oriental. Rahn, que só tardiamente teve conhecimento dessa teoria, não lhe
fez mais que breves menções por considerar que as duas teses são perfeitamente coerentes, ou seja, que a
hipótese de Suhtscheck só vem reforçar a sua, uma vez que o catarismo teve origem no maniqueísmo
zoroastro-médio-oriental e que a Pârsîwalnâmä podia perfeitamente ter chegado à Occitânia por essa via32.
Ao mesmo tempo tratado iniciático e erudito, é bem possível que a Cruzada contra o Graal tenha muitos
segredos por revelar, de tal maneira Rahn se compraz no trobar clus occitano, na arte de duplo sentido, na
“linguagem dos pássaros”.
Quando, em Parzival, o jovem herói epónimo é iniciado por Trevrizent, o velho eremita revela-lhe que o
Graal era guardado outrora por anjos neutrais, nem bons, nem maus: “anjos que não tomaram partido na luta
entre Lucifer e a Trindade, foram constrangidos a descer à terra para guardarem essa pedra pura e sem
mancha” (Parzival, 471).
Mais tarde, o iniciador declara a Parzival que lhe mentiu nesse ponto. É um dos grandes ensinamentos do
relato iniciático: o iniciador mistura o verdadeiro e o falso, cabendo ao suplicante, se é suficientemente digno,
distinguir a verdade da mentira.
Não será assim que devemos decifrar a obra de Otto Rahn? Qualquer que seja a apreciação que possa
fazer-se sobre o erudito alemão, não é esse papel de iniciador que endossa a si mesmo ao casar mentiras e
fragmentos graálicos de verdade, deixando livre o buscador de encontrar a via, a sua via?
Se apontámos a dedo algumas das audazes teses de Rahn, é por nos parecer certo que, do alto das suas 29
primaveras, identificou e exprimiu inúmeras teorias precisas e justas. Intuição?... Revelação?...
Dia após dia, é maior a influência do jovem erudito alemão. É incontestável que relançou e estimulou o
turismo nesse rincão perdido do Ariège. No dia seguinte à II Guerra Mundial, o castelo de Montségur ainda
estava invadido de silvas, mas o demandante sonhador deu impulso a uma demanda, à Demanda permanente,
intemporal, infinita, à demanda da verdade e da sabedoria em redor desse símbolo do conhecimento absoluto
que é o Graal.
Como anunciava a lenda cátaro-occitana33, ao fim de setecentos anos o loureiro reverdeceu (al cap des set
cens ans, verdigeo le laurel). É tempo agora de empreendermos a demanda luminosa do Despertar, seguindo Otto
Rahn na via dos trovadores e das suas leis de Amor.

Que eu possa tornar-me um portador de luz!34


Otto Rahn

Arnaud d’Apremont
Paisagens pirenaicas do mito do Graal: a região de Sabarthès (desenho da edição alemã de Kreuzzug gegen den
Gral, Verlag für ganzheitliche Forschung und Kultur, Struckum, 1985, pág. 231).

— Gravura —

Cidades: Grutas:
1. Foix 11. Las Gleysos (As Igrejas)
2. Tarascon-sur-Ariège 12. A Catedral de Lombrives
3. Castelo Verdun (Castellum Verdunum) 13. Gruta do Eremita
4. Ax-les-Thermes 14. Gruta de Fontanet
15. Spulga (gruta fortificada) de Ornolac
Castelos: 16. Spulga de Bouan
5. Montségur 17. Pico de Saint-Barthélémy
6. Miramont 18. Floresta de Serralunga
7. Calamès 18. Lago das Trutas (dos Druídas)
8. Soudour
9. Saint Pierre
10. Lordat

NOTAS:
1) Prefácio a Cruzada contra o Graal, Stock, Paris, 1974, pág. 9.
2) Introdução a Cruzada contra o Graal, Paris, 1974, pág. 24.
3) Editado na Alemanha em 1937, depois na França (Paris) em 1974 e, de novo, em 1994.
4) Para os textos de fundo sobre os assuntos abrangidos pelos trabalhos de Rahn, pode orientar-se o leitor para diferentes obras.
Sobre o catarismo, as obras de Fernand Niel, de René Nelli, do velho Karl Schmidt de 1849, Histoire et Doctrine des Cathares
(reeditado por Curutchet, Bayonne, França, 1983), de Déodat Roché (“papa” cátaro do século XX), Le Catharisme (2 vol., Societé
d’Études Cathares, Narbonne, 1957), os livros de Jean Blum e, em especial, Les Cathares, Mystères et Initiation, Le Léopard d’Or, Paris,
1985, e Mystère et Message des Cathares, Le Rocher, Paris, 1989. Sobre o Graal e sobre a literatura cortesã, as obras são numerosas, mas
há um texto notável de Pierre Dujols, ainda que menos conhecido: La Chevalerie Amoureuse: Troubadours, Félibres et Rose-Croix, texto
apresentado e comentado por J. F. Gilbert, La Table d’Emeraude, Paris, 1991. Sobre o Graal, recomendamos Emma Jung & Marie
Luise von Franz, La Légende du Graal, Sciences et Symboles, Albin Michel, Paris, 1988. Quanto ao paganismo de Rahn e à sua fé
herética, poderá ser completado através de Sigrid Hunke, La Vraie Religion de l’Europe: la Foi des Hérétiques, Le Labyrinthe, Paris,
1985.
5) Cruzada contra o Graal.
6) Nouveaux Cathares pour Montségur, Presses de la Cité, Paris, 1969, pág. 17.
7) Chega a encontrar-se Otto Rahn como herói de romance. Em géneros tão edificantes como diferentes, citamos Saint-Loup,
Nouveaux Cathares por Montségur (em que Rahn desempenha o seu próprio papel para lançar jovens occitanos à demanda do Graal
nas montanhas ariegenses), Philippe Kerr, La Pâle Figure, Le Masque, Paris, 1994 (em que Rahn aparece na companhia de Karl
Willigut-Weisthor como.... sórdido assassino de adolescentes (sic!), Jimmy Guieu, Les Brumes de l’Effroi, Vauvenargues, Paris, 1998
(episódio de uma série em que Rahn, perdido numa fenda temporal, ajuda os heróis a pôr a mão no Graal pirenaico), até ao inefável
Pendule de Foucault de Umberto Eco (Paris, 1990), que o menciona (pág. 150)...
8) Cf. Cruzada contra o Graal.
9) Para os leitores menos familiarizados com a geografia local, o rio que corre nessa região chama-se também Ariège (N.T.)
10) Para mais elementos sobre a vida de Otto Rahn e os seus mistérios, remeto os leitores interessados ao prefácio de Otto Rahn
em La Cour de Lucifer, Pardès, Puiseaux, 1994.
11) Sobre os Polares, veja-se principalmente Zam Botiva, Asia Mysteriosa (prefácio de Arnaud d’Apremont sobre a história desse
grupo), Éd. Janvier, Combronde, 1995.
12) Cuja estela comemorativa se encontra abaixo do castelo, no flanco do pog (nome este que designa o promontório rochoso de
Montségur).
13) Que aparecerá em 1960 com o mesmo título, Ed. Rozekruis (edição do Lectorium Rosicrucianum), Haarlem.
14) Cruzada contra o Graal.
15) Veja-se o subtítulo de La Cour de Lucifer apresentado como o diário de viagem da sua Demanda: Voyage au cœur de la plus haute
spiritualité européenne.
16) Cruzada contra o Graal.
17) O próprio tradutor reconhece ter abreviado certos desenvolvimentos que considerava fastidiosos mas que, entretanto, não
careciam de interesse.
18) Rahn escreve em conclusão dessa versão francesa: “Confio a minha Cruzada contra o Graal ao povo francês, que guarda nos
limites da sua grande pátria o antigo castelo-fortaleza do Graal”.
19) Também não figuram na presente edição, que reproduz o texto de 1974.
20) Nouveaux Cathares pour Montségur, ibid.
21) Citado em Christian Bernadac, Le Mystère Otto Rahn, France-Empire, Paris, 1978, pág. 75.
22) Prefácio de Croisade contre le Graal, 1974, pág. 15.
23) Les Cathares: Mystère et Initiation, pag. 191.
24) Prefácio de Croisade contre le Graal, 1974, págs. 15-16.
25) Recentemente, quando nos aventurávamos à volta de Montségur e nas grutas de Ussat-Ornolac na outra vertente do Sabarthès,
ao interrogarmos os velhos ariegenses sobre Rahn, era quase sistemático ouvi-los rejeitar imediatamente o “alemão”, o “boche”, o
“mistificador”. Mas depois do pôr do sol, quando as hordas de turistas se iam e só ficavam à mesa os verdadeiros apaixonados dos
Pirinéus e da sua história, os mesmos occitanos recordavam com nostalgia o “erudito”, o “sábio”, o “valoroso jovem”, o “bom
doutor Rahn”... Falam do bem que fez ao turismo ariegense. E também vos mostrarão o quarto que ocupava na pensão Coquet, os
lugares que frequentava...
26) Cruzada contra o Graal.
27) Op. cit., pág. 194.
28) Ibid.
29) É difícil traduzir claramente a ideia e o significado contidos neste jogo de palavras, já que, a exemplo do que sucedeu com todas
as línguas, a ortografia e a semântica da época sofreram profundas alterações com a passagem dos séculos. Por outro lado, a palavra
francesa bien pode ser substituída em muitos casos por bel. Assim, a expressão “tranche bien” poderia ser “tranche bel”, o que a
aproxima ainda mais de Trencavel ao assemelharem-se foneticamente (N.T.)
30) Para Wolfram e à diferença de Chrétien, o Graal, a esmeralda caída da cabeça de Lucifer, ficou na Occitânia, mas o verdadeiro
Graal está no céu.
31) Prefácio de Croisade contre le Graal, 1974, pág. 13.
32) Sobre o Graal no Oriente, veja-se Pierre Ponsoye, L’Islam et le Graal, Arché, Milão, 1976.
33) Monségur caíu em 1244 sob os assaltos de Roma.
34) La Cour de Lucifer.
Advertência de Otto Rahn
Há muito que tomei a resolução de me dedicar ao estudo das relações existentes entre a poesia occitana e a
mística e das suas repercussões na espiritualidade da Alemanha medieval. Uma vez que me foi dado encetar
essa tese na própria Occitânia, apercebi-me do laço directo, da via que vai de Montségur, templo occitano do
Amor Supremo, passando por Wildenberg bei Amorbach, ao castelo do maior dos poetas corteses: Wolfram
von Eschenbach. Reconheci imediatamente que o mundo do amor cortês alemão ou occitano, ao mesmo
tempo tão remoto e tão próximo, só podia ser apreendido na sua sublime beleza através do estudo da mística
de amor nascida e desenvolvida na terra de origem dos celtas e germanos.
O catarismo foi em toda a Europa um vasto movimento dualista. Para não ultrapassar os limites desta
obra, não irei evocar a maneira como as seitas cátaras organizaram em bases idênticas as suas forças desde os
Balcãs até Colónia, passando por Toulouse, para poderem resistir a Roma e a Paris nesse longo combate cujo
final era verdadeiramente ameaçador.
Também não tenho muito em conta a opinião corrente segundo a qual o catarismo — e o albigeísmo,
obviamente — é um ramo do bogomilismo e das heresias eslavas. Embora essa opinião não esteja de modo
algum estabelecida, está presente em todas as obras que tratam do catarismo, especialmente nas de Schmidt e
de Döllinger, e pode ser comparada com os meus próprios dados. Achei que devia ir mais longe, pondo em
primeiro plano esse Momento autóctone que é o albigeísmo, uma vez que queria trazer à luz factos aos quais
não se deu até agora a menor atenção e destacar as presumíveis relações com o catarismo leste-europeu.
Era necessário que esta questão fosse formalmente explicada. Esta obra não pretende esgotar um assunto
tão inesgotável, mas tem a intenção de aproximar domínios que até aos nossos dias eram considerados
estranhos entre si. Essa intenção também condicionou a forma: diário de uma viagem efectuada através de
montanhas, castelos e grutas e, mais ou menos, em alfarrábios amarelecidos. Entretanto, desde que um ou
outro assunto o exijam, a fórmula não exclui que algumas páginas o examinem mais profundamente e lhe
dêm mais relevo.
Espero que a esta obra se siga em tempos próximos uma segunda que a complete: Konrad de Marburg,
inquisidor alemão.
Queria ainda fazer uma apreciação das influências, prolongadas até aos tempos modernos, da mística
germânica, do catarismo alemão, que na minha pátria de Hesse e nas margens do Reno, de Basileia a Colónia,
teve milhares de partidários (Novalis). Sobre o assunto, algo irá sobressair quase espontaneamente das linhas
da presente obra.
Ao meu mestre de Giessen, barão Von Gall, devo os primeiros passos que me levaram a compor uma
obra deste género, consagrada à pesquisa sobre os hereges. Os anos passaram, mas, graças a circunstâncias
tão inesperadas como favoráveis, foi-me dada a possibilidade de empreender uma viagem aos Pirinéus, com
Montségur como objectivo. Durante um périplo de várias semanas pelos castelos em ruínas, deixei-me guiar
pela lenda das grutas de Ariège, onde dormem sepultados os últimos cátaros, até Ornolac, no Sabarthès, onde
fixei residência. Aí, tive a felicidade de encontrar o Trevrizent que nunca imaginara descobrir e que foi, para
mim, a bondade e a competência em pessoa: o pré-historiador Antonin Gadal, que explorou todas as grutas
do Sabarthès, excepto as de Niaux e Bedeilhac, e que, em dez anos de penosas investigações, cumpriu uma
imensa tarefa. Gadal não só me proporcionou, a mim, estrangeiro, a possibilidade de levar tranquilamente a
cabo os trabalhos em grutas abaixo de obras fortificadas, como pôs à minha disposição, sem restrições, a sua
importante biblioteca e o seu museu privado. Segundo me disse recentemente, o senhor Gadal pensa publicar
os resultados dessas investigações. Apesar de constituírem principalmente um trabalho de espeleologia e de
pré-história, numa ou noutra matéria não deixará de se apoiar nos meus próprios dados e de os ampliar. É
com grande satisfação que agradeço ao senhor Gadal a ajuda que me prestou e os conselhos desinteressados
que me deu. Seria ingratidão não exprimir reconhecimento ao amigo pirenaico que protegeu e encorajou por
todos os meios ao seu alcance o nascimento do meu livro. A condessa de Pujol-Murat, cujos avós ofereceram
a vida à pátria invadida pelo inimigo a defender Montségur, tornou-me familiar o passado do burgo heróico,
de Hugues de Payen, fundador da Ordem do Templo, e, sobretudo, da grande Esclarmonde, ambos seus
antepassados.
Não podia encerrar o círculo dos meus amigos occitanos sem mencionar os senhores de Belissen: Roché,
Palauqui, Meslin e Maupomé, que apoiaram os meus trabalhos com entusiasmo.
Também não queria passar em silêncio os sacrifícios que os mestres da Biblioteca Nacional de Paris e da
biblioteca universitária de Freiburg fizeram para me ajudar, o que agradeço muito vivamente.
Se Maistre Chrestien de Troyes
Com esta lenda foi injusto, Kyot1 se queixa com razão
Pois transmitiu-nos a verdadeira.
Da Provença a país alemão,
Nos foi a lenda autêntica enviada,
E a aventura terminou em bom porto.
Eu, Wolfram von Eschenbach,
Só quero falar agora
Do que o Mestre me revelou.

Wolfram von Eschenbach2 diz-nos que “Messire Kyot, mestre bem conhecido, enviou da Provença ao
país alemão a narração verídica do Graal e que Chrétien de Troyes (autor de Perceval le Gallois e de Conte du
Graal) terá desnaturado a lenda. A falar verdade, não se conhece a epopeia do Graal da qual Kyot é autor, mas
sabe-se que o poeta francês Guyot de Provins visitou no fim do século XII as cortes mais reputadas do norte
e do Midi francês e, entre os seus poemas, está uma Bíblia onde caricaturou os seus contemporâneos. Atribui-
se a Guiot (e também o fazemos, mas por razões que virão mais tarde) uma versão hoje perdida de Parzival.
Influenciada por Perceval le Gallois, a primeira parte do Parzival de Wolfram ficou inacabada e segue-o de perto,
mas, a partir do nono livro, Wolfram von Eschenbach dá uma interpretação completamente nova da lenda do
Graal. Se Guyot foi o segundo modelo seguido por Wolfram, a sua influência não pode ser considerada na
primeira parte, a mais importante no que respeita ao Graal.
Como e por que razões desapareceu a versão original de Guyot? Foram avançadas muitas hipóteses, mas a
mais verosímil, em minha opinião, não foi formulada. Esqueceu-se sistematicamente que a seguir às cruzadas
de 1209 a 1229 que tiveram por palco a Provença e o Languedoc, foi destruída uma parte enorme da literatura
provençal, principalmente depois da ofensiva levada a cabo pela Inquisição no Midi da França. As medidas de
exclusão pronunciadas e aplicadas pelos actores da cruzada contra os albigenses e pela Inquisição, deram os
seus frutos. Todos os livros suspeitos de heresia foram lançados ao fogo e só as folhas que voaram intactas
para o céu foram tidas por não heréticas. Destas, só um número ínfimo chegou até nós.

* * *

Walter Map, clérigo da corte de Henrique II da Inglaterra e possível autor do Grão Santo Graal, escrito por
volta de 1189, informa-nos que na Bretanha não há vestígios de hereges, que, pelo contrário, são numerosos
em Anjou (a Anschauwe de Wolfram) e inúmeros na Burgúndia e na Aquitânia (portanto, na Provença e no
Languedoc). Cæsar von Heisterbach diz que o “erro albigense” provocou tais estragos, que já na sua época
contava com adeptos num milhar de cidades e que acabaria por envenenar toda a Europa se não fosse
exterminado pela espada e pelo fogo. Como os judeus, pagãos, maometanos e imperadores da Alemanha, um
historiador pertencente aos Minorites cita-o como um dos cinco principais adversários de Roma...
Quanto à sua doutrina, os albigenses, nome que procede da cidade de Albi, representavam duas heresias
distintas. A mais conhecida era a valdense, do nome do lionês Pierre Waldo, que, num tempo incrivelmente
curto, se difundiu no Ocidente. A segunda era a dos cátaros (do grego katharos, puros, em alemão Ketzer), a
quem se podem chamar os Mahatma Gandi ocidentais da Idade Média. Curvados sobre os teares,
perguntavam a si mesmos se “não era o Espírito da Terra que realmente tecia no bastidor sussurrante do
Tempo a veste viva da Divindade”3.
Também lhes chamavam “tecedores”...

* * *

Como este livro não se propõe tratar da história das seitas, só mencionarei os valdenses na medida em que
entrarem no quadro das minhas pesquisas. Este livro foi escrito para os cátaros...
Sabemos muito pouco sobre eles, toda a sua literatura foi destruída. Não nos alargaremos sobre o valor a
dar às confissões que a Inquisição arrancou a certos cátaros nas câmaras de tortura. Salvo algumas obras
especiais de história e de teologia, cuja maior parte está muito longe da verdade, não temos, por assim dizer,
nenhum escrito sobre o assunto. Além disso, por razões que irão surgindo ao longo do meu trabalho, fez-se
silêncio sobre a sua pureza e sobre a prodigiosa coragem com que proclamaram a sua fé.
* * *

Maurice Magre, o amável divulgador da sabedoria hindu — gostaria de lhe agradecer as recomendações
que me deu para a sua terra natal no Midi — dedicou no seu livro Magiciens et Illuminés alguns capítulos ao
mistério dos albigenses. A tese de que os cátaros teriam sido na Idade Média os budistas do Ocidente tem
numerosos partidários e foi adoptada por historiadores sérios, por exemplo, por Guiraud no seu Cartulaire de
Notre-Dame de Prouille. Todavia, a opinião de Magre de que as doutrinas hindus sobre a migração das almas e a
teoria do Nirvana foram trazidas por um sábio do Tibete para essa França meridional de vida fácil, não resiste,
apesar dos seus atractivos, à crítica mais benevolente.
A minha longa permanência numa das partes mais belas, mais selvagens e inospitaleiras dos Pirinéus não
teve por objectivo — como alguns jornalistas franceses afirmaram peremptoriamente — verificar no terreno
as teses do meu amigo Maurice Magre, mas dar forma nos próprios lugares à questão que me conquistou
verdadeiramente até à alma.
Chegado à Biblioteca Nacional de Paris a fim de seleccionar e verificar os resultados das minhas buscas, li
uma brochura de Péladan em que o escritor descobre relações secretas entre os trovadores cátaros e os
Templários do Graal, entre Mountsalvatsche e as ruínas do castelo de Montségur, último refúgio dos cátaros
na cruzada contra os albigenses: De Parzival à D. Quixotte (Le Secret des Troubadours).
Antes, porém, tive oportunidade de descobrir nas grutas pirenaicas as marcas de certas estações
desconhecidas no calvário dos hereges: ligadas às lendas locais, essas marcas dissiparam-me todas as dúvidas
quanto à relação mais que etimológica entre Mountsalvatsche (Mons Salvatus) e Montségur (Mons Securus).
O catarismo foi uma heresia: por si só, a sua teologia fornece a chave de uma mística repleta de enigmas.
No que respeita à eclosão e declínio da civilização occitana, só o historiador das civilizações estará à altura de
os expor dignamente. Entre as epopeias do rei Artus, de Perceval, de Galaad e de Titurel, só o historiador da
literatura é capaz de se orientar. As grutas — que são os meus mais importantes, embora mais difíceis e mais
perigosos “documentos” — exigem o espeleólogo e o pré-historiador. Finalmente, o “abre-te Sésamo” que
permite entrar na ronda mítica e mística do Graal, só se revela ao artista.
Peço a maior indulgência se alguma dessas condições não foi aqui preenchida, mas só tive um desejo: levar
os meus contemporâneos à terra nova que tornei acessível com trabalho assíduo, munido de cordas e de
lanterna de mineiro, e contar aos homens de hoje o que foi o martírio sofrido pelos heréticos Templários do
Graal.

NOTAS:
1) Kyot (forma germanizada de Guyot), personagem em que Wolfram se inspira (N.T.)
2) Como se verá mais adiante, Otto Rahn adopta a tese moderna, isto é, considera a afirmação de Wolfram a única autêntica, ou
seja, que o Graal não é o cálice da última Ceia, mas uma pedra. Cf. segunda pág. do epílogo aditado pelo autor (N.T.)
3) Citação de Fausto, I, 509-510 (N.T.)
Primeira parte

Parzival
Orgulhosamente, Parzival respondeu:
Se é verdade que a Cavalaria
À vida pode dar um preço
E à alma o Paraíso,
Para os alcançar por Virtude,
Pela Lança e pelo Escudo
Da Cavalaria serei Eleito.
És verdadeiramente Parzival,
Que quer dizer partido pela metade1.
1.
Os que cantam a primavera e a Minne
Ninguém poderia separar da paisagem provençal ou languedociana, onde a regra é o sol e um céu sempre
azul, essas cores luminosas que ofuscam os olhares habituados à luz setentrional. Céu azul, mar ainda mais
azul, costas de rochedos púrpura, mimosas douradas, pinheiros negros, loureiro verde e cumes de montanhas
dos quais a neve nunca se retira.
Quando a noite meridional desce, cintilam e resplandecem estrelas incrivelmente grandes, tão próximas
que quase se podem alcançar com a mão. A lua meridional também não é a lua do Norte. É a sua irmã gémea,
mais magnífica e misteriosa...
Sol e lua do Midi, geradores de amor e de cantares. Ao refulgir o sol, afloram espontâneos os cantos que a
insípida bruma mantinha cativos e, já despertos, elevam-se no azul atrás das cotovias. Ao erguer-se no mar, a
lua lança ao vento esses cantos rivais dos rouxinóis, que procuram o favor das damas formosas.

* * *

Entre os glaciares dos Alpes e os Pirinéus ensolarados, das margens do Loire plantadas de vinhas aos
paradisíacos jardins em socalcos da Côte d’Azur e da Côte Vermeille, desabrochou no início do nosso milénio
uma civilização brilhante, amável, espiritual, onde a poesia e o amor, a Minne2, ditavam leis. Diz-se que essas
leis, as leys d’amors, foram dadas ao primeiro trovador por um falcão pousado no ramo de um carvalho
dourado.
As leys d’amors continham trinta e uma prescrições. Facto singular, dispunham como princípio supremo que
a Minne excluía toda a ideia de amor carnal ou de casamento. A Minne representa a união de almas e corações,
o casamento, a união de corpos. O casamento significa a morte da Minne e da poesia. O amor, simples paixão,
esvai-se depois do prazer sensual. Com a verdadeira Minne no coração, não se deseja o corpo da bem-amada,
mas o seu coração. A verdadeira Minne é pura e imaterial. A Minne não é o amor, como Eros não é o sexo.
“Os amantes devem ser de coração puro, não pensarem senão na Minne. A Minne não é pecado, é uma
virtude que torna bons os maus e os bons ainda melhores. E d’amor mou castitaz (e do amor vem a castidade)”.
Assim falava Guillaume Montanhagol, trovador3 de Toulouse.
Foram os trovadores que impuseram as leys d’amors. Nas chamadas “cortes de amor”, os cavaleiros e
rapsodos culpados de infringir as leis da Minne eram julgados pelas damas.
O Minnedienst, serviço de amor, homenagem rendida à graça e à beleza, era designado pelos trovadores
pelo termo domnei (de domina, senhora). O domnei concedia ao domnejaire, servidor da Minne, a joy d’amor, anelo
amoroso do poeta. Era honrado o que compunha as Minnelieder mais belas, e, uma vez homenageada a sua
dama, o cantor tornava-se seu vassalo e tributário, ficava ao seu dispor como um servo. Ajoelhado aos seus
pés, o trovador jurava fidelidade eterna, como ao senhor suserano. Como prenda de amor, a dama oferecia ao
seu paladino-poeta um anel de ouro, pedia-lhe que se levantasse e beijava-o na fronte. Era o primeiro beijo,
em geral, o único... chamado Consolament. E d’amor mou castitaz. Alguns padres provençais chegaram a benzer
essa união mística e a pô-la sob a protecção da Virgem Maria.
No norte da França, mais ainda na Itália e principalmente na Alemanha, o cavaleiro não conhecia outra
pátria que a sala de armas, a justa e o campo de batalha. Não se concebia cavalaria sem nobreza. Só era nobre
o cavaleiro que partia para a guerra no seu corcel e com os seus homens de armas montados. Nas terras
occitanas, o burguês ou o paisano podiam aceder à cavalaria se eram bravos e leais e capazes de comporem
rimas. Os atributos do cavaleiro occitano eram a espada, a palavra e a harpa, acessíveis a todos. O plebeu com
dom de palavra podia enobrecido, o operário poeta podia ser armado cavaleiro.
“O homem bem nascido deve mostrar-se bom guerreiro e anfitrião generoso, dar a maior importância a
uma bela armadura, ser elegante e polido. Quanto mais virtudes tiver o nobre, mais perfeito cavaleiro será. Os
burgueses também podem ter virtudes cavaleirescas. Mesmo não-nobres de nascença, podem sê-lo no
sentimento. Há uma virtude, porém, que deve ser comum a todos, nobres e burgueses: a fidelidade. O pobre
pode suprir as suas carências com o discurso cortês e com a delicadeza. O que, pelo contrário, não sabe ser
nem dizer, não terá a minha consideração, não é digno dos meus versos”, diz o trovador Arnaud de Mareuil,
ele próprio filho de pais pobres e humildes, que começou como copista e chegou a poeta na corte do
visconde de Carcassonne e Béziers.
Vemos, pois, que, grande ou pequeno, qualquer um se podia tornar cavaleiro se era valente e honesto, e,
inclusivamente, servidor da Minne e poeta. Os cobardes e grosseiros são indignos da cavalaria, não merecem
corcel, têm a mula.
“Afastai-vos dos tontos e fugi dos discursos malévolos. Se quereis fazer o vosso caminho no mundo, sede
magnânimos, francos, corajosos, estai sempre prontos a falar de coisas corteses. Se não tendes dinheiro para
vestir bem, cuidai ao menos que tudo esteja limpo, em especial os vossos sapatos, o vosso cinto e o vosso
punhal. Nada agrada mais, nada confere melhor aparência. O que pretende chegar a alguma coisa ao serviço
das damas, deve ser hábil em tudo, de tal modo que a sua dama nunca lhe descubra defeitos. Esforçai-vos em
agradar aos amigos e conhecidos da vossa senhora, para que ela só ouça dizer bem de vós. Isso exerce uma
influência muito especial nos corações. Quando a vossa dama vos receber, não hesiteis em dizer-lhe que
conquistou o vosso coração. Se vos conceder o que lhe pedis, que ninguém saiba. Pelo contrário, lamentai-
vos perante todos de nada terdes conseguido, as mulheres não suportam tagarelas e idiotas. Agora, já sabeis
como abrir o caminho neste mundo e como agradar às damas...”, ensina-nos o trovador Amanieu des Escas.
Os trovadores eram homens alegres. Fora do serviço dedicado à sua dama, que importava, afinal, se pelo
caminho se enamoravam de uma cara bonita e não chegavam à noite ao castelo onde deviam cear e dormir?
O céu do Midi é aprazível; basta estender a mão para se colherem frutos e a água das fontes é, para o que a
bebe, tão agradável como o vinho de Roussillon.
As leys d’amors prescreviam que a Minne devia ser pura como uma oração. Nas veias dos homens do sul
corre sangue quente; antes de envelhecerem, os trovadores eram jovens, e as mulheres idosas não procuravam
paladinos.

* * *

A poesia era a voz melodiosa da cavalaria. A sua língua amável, o provençal, primogénito dos idiomas neo-
latinos, era matizada de retalhos iberos, gregos, latinos, celtas, góticos e árabes como a trama de um tapete
multicolor. Da França, da Itália, da Catalunha, de Aragão, de Portugal, os trovadores iam a Montpellier, a
Toulouse, a Carcassonne e a Foix aprender rimas novas e a medirem-se com reis e príncipes poetas, Ricardo
Coração de Leão, Afonso de Aragão, Raymond de Toulouse.
Quem não conhece o inteligente e lutador Bertrand de Born, que Dante vê decapitado nos infernos, e
Arnaud Daniel, eterno amoroso que no Purgatório “canta a chorar e olha com desolação a loucura passada”,
suplicando ao grande florentino que pense sempre nele? Ou os seus pares, cada qual mais louco e dotado que
os outros, Bernard de Ventadour, Gaucelm Faidit, Peire Vidal, Raymond de Miraval, o melancólico Arnaud
de Mareuil, discípulo favorito de Arnaud Daniel e desditado paladino da condessa de Carcassonne?...
Michel de La Tour, que viu e conheceu os trovadores occitanos, conta-nos a como eram a sua vida, os
seus amores, os seus risos e lamentos. Sobre os “rimadores”, sabia mais que ninguém. Ouçamo-lo4.
Em primeiro lugar, Giraut de Borneil, nascido na região de Excideuil (Dordogne). De origem modesta
mas inteligente, era chamado pelos seus admiradores, masculinos e femininos, maestro dels trobadors. Passava os
invernos na escola a instruir-se em ciências e, no verão, ia de castelo em castelo com dois cantores que
acompanhavam com harpa as suas trovas. Nunca chegou a casar-se; todos os seus ganhos iam para parentes
necessitados e para a Igreja.
Messire Raymond de Miraval era um cavaleiro pobre dos arredores de Carcassonne, mas a beleza dos seus
versos, a experiência na Minne e o serviço às damas grangearam-lhe estima, honras e presentes da parte do
conde de Toulouse, de quem era vassalo, do rei Pedro de Aragão, do visconde de Béziers, de Messire Bertrand
de Saissac e de outros nobres, protagonistas no campo herético da cruzada dos albigenses. A história diz que,
apesar dos seus sucessos junto das damas, nunca recebeu delas qualquer “bem” (gostaria de traduzir a palavra
ben em toda a sua saborosa discrição)5.
Como o próprio nome indica, Peire d’Auvergne era natural da região de Clermont-Ferrand. Bom poeta e
bom cantor, foi o primeiro trovador realmente notável do país até ao dia em que Giraut de Borneil entrou em
cena. Um dos seus poemas alude ao castelo de Poivert (ou Puivert), residência de verão da condessa Adelaide
de Carcassonne. Segundo uma passagem — aliás truncada — de Michel de La Tour, nossa fonte aqui,
tornou-se herege e fez penitência.
Guillem de Cabestaing era natural de Roussillon. Aí vivia uma dama nobre, Donna Soremonda, esposa de
Messire Raymond de Roussillon, senhor poderoso, mau e impulsivo, rico e orgulhoso. Guillem, enamorado de
Donna Seremonda, dedicou muitos poemas à jovem e formosa mulher, que lhe queria, digamos, “mais bem”
(ben maior) que a alguém no mundo. O caso chegou aos ouvidos de Messire Raymond. Ciumento e irascível,
mandou espiar a esposa. Um dia, encontrando o poeta na estrada, matou-o, arrancou-lhe o coração do peito e
cortou-lhe a cabeça. Pior ainda: mandou assar o coração, temperá-lo com molho de sal e pimenta e ofereceu a
iguaria a sua mulher. Terminada a ceia, perguntou-lhe: “Sabeis o que acabastes de comer?” — “Não,
respondeu a dama, mas era muito bom e suculento”. Então, revelou-lhe que tinha comido o coração de
Guillem de Cabestaing e, como prova, ordenou que trouxessem a cabeça do infeliz. Ao vê-la, Donna
Soremonda caiu sem sentidos. Quando voltou a si, disse ao marido: “Messire, haveis-me oferecido um manjar
tão saboroso, que não voltarei a provar outro”. E correndo à varanda, precipitou-se no vazio6.
A morte lamentável de Messire Guillem de Cabestaing e de Donna Soremonda causou grande alvoroço na
região. Em toda a parte se vestiu luto pesado. O rei de Aragão, suserano de Messire Raymond de Roussillon e
também, portanto, de Guillem de Cabestaing, fez ouvir o seu lamento. Cavalgou a galope até Perpignan, fez
comparecer diante de si Messire Raymond, mandou-o prender, despojou-o de todos os bens e precipitou-o no
fundo de uma masmorra. Os corpos de Guillem e da dama foram levados para Perpignan e sepultados no
átrio da igreja. No epitáfio, lia-se como tinha sido o seu fim. A partir de então, os cavaleiros e damas do
condado de Roussillon iam todos os anos em peregrinação a Perpignan prestar honras fúnebres aos dois
defuntos.
Ao contrário do que possa supor-se, esse drama de ciúmes não foi caso único. Bernard de Ventadour,
filho de um humilde ajudante de padeiro do castelo de Ventadour en Corrèze, provocou a ira do seu senhor e
mestre, o visconde de Ventadour. Os seus poemas, as suas fervorosas homenagens, tinham fascinado a bela
viscondessa. Conseguiu acalmar o furor do marido, obtendo permissão de Messire Bernard tomar o caminho
do exílio. Bernard foi para a corte da Normandia. Aí, celebrou a duquesa, que lhe deu bom acolhimento, mas
encontrou um rival feliz na pessoa do rei da Inglaterra, que desposou a duquesa e a levou para os seus
Estados. Só e inconsolável, o trovador emigrou para a Casa de Raymond, conde de Toulouse. Ficou na corte
até à morte do nobre Sire, que lhe morreu nos braços. Mais tarde, como Bertran de Born, ingressou no
mosteiro de Dalon, onde morreu. Michel de La Tour, que narra a sua vida, diz ter ouvido o relato do próprio
filho da viscondessa de Ventadour.
Segundo La Tour, o mais dotado dos trovadores era Peire Vidal de Toulouse, mas faltava uma qualidade a
esse mestre da rima: a medida das coisas. Quer se tratasse de armas ou de amor, era capaz de proferir os
maiores dislates e da sua pluma caluniosa saíram os versos mais pérfidos. “Não minto, escreve La Tour,
dizendo que um cavaleiro de Saint-Gilles lhe cortou a língua por andar a contar em toda a parte que tinha
possuído a sua mulher”. Hughes de Baux prestou-lhe cuidados médicos e tratou-o. Pouco mais tarde, Peire
Vidal atravessou o mar e desposou em Chipre uma grega, sobrinha do imperador de Constantinopla, o que
foi acrescentar direitos à coroa grega. Entusiasmado, o bom poeta fez-se tratar por imperador, equipou uma
frota, vivia à grande e levava o trono consigo para toda a parte. Imaginava as mulheres todas enamoradas de
si, quando, afinal, era para elas motivo de troça.
Quem não conhece a aventura de Jaufre (Geoffroy) Rudel, príncipe de Blaye?7 Empolgado com os relatos
sobre Melissinde, condessa de Tripoli, contados pelos peregrinos vindos de Antióquia, enamorou-se tanto
dela, que não percebia que ir para junto de si era carregar uma cruz. O “peregrino de amor” adoeceu no navio
que o levava à “princesa longínqua” e chegou agonizante a Tripoli. Melissinde, que ouvira contar a aventura,
acorreu à sua cabeceira. Graças aos cuidados que lhe prestou, Rudel recuperou a vista e o olfacto e deu graças
a Deus por lhe ter permitido ver a bem-amada antes de morrer. Depois, expirou nos braços da condessa.
Melissinde sepultou-o com honras no templo de Tripoli e, no mesmo dia, professou votos...
Ouvi agora a história de Raymond Jordain8, visconde de Saint-Antoine, diocese de Cahors. Amava uma
dama nobre, esposa do senhor de Pena, da região albigense, senhora formosa, de grandes qualidades, muito
estimada e honrada. Ele, por seu turno, era culto e amável, generoso, cortês, destro nas armas e bom poeta.
Amavam-se ardentemente, desejavam somente o bem recíproco. Numa batalha, o visconde foi gravemente
ferido e os inimigos deram-no por morto. Inconsolável, a jovem dama entrou na “ordem herética”. Mas quis
Deus que o visconde sobrevivesse aos ferimentos. Ninguém teve coragem de lhe dizer que a viscondessa
tinha passado à heresia. Depois de curado, regressou a Saint-Antoine e aí soube a verdade. Perdeu o riso e a
alegria e vestiu luto pesado. Deixou de cavalgar e passou a evitar as pessoas. Assim viveu mais de um ano. As
almas caritativas que o rodeavam estavam em grande aflição e uma dama, Alix de Montfort, bela, jovem e
encantadora, mandou pedir-lhe que, em compensação da desgraça sofrida, aceitasse o amor que lhe oferecia.
Dizia de modo gentil: “Peço e imploro a graça de vindes ver-me”. Ao receber tal honra, o visconde sentiu o
coração inundado de doçura. Voltou a mostrar-se alegre e a conviver, a vestir com elegância, ele e quem o
acompanhava. Um dia, ataviou-se cuidadosamente, montou a cavalo e foi ver a dama Alix de Montfort, que o
recebeu no meio da alegria geral. Encantada com a sua bondade e virtudes, não se arrependeu da promessa de
amor. Ele soube conquistá-la ao dizer que a tinha gravado para sempre no coração. A dama tomou-o ao seu
serviço como cavaleiro, recebeu as suas homenagens, abraçou-o e beijou-o. Como penhor e garantia,
ofereceu-lhe o anel que trazia no dedo. Radiante e feliz, o visconde Raymond despediu-se da dama, voltou ao
canto e à jovialidade e compôs o famoso poema Diante de vós me inclino suplicante / Diante de vós, a quem amo...
Guillem de La Tour, jogral (joglar), tinha o hábito singular de introduzir uma espécie de prelúdio, quase
sempre mais extenso que o poema, antes de declamar as suas obras. Conquistou o coração de uma formosa
milanesa, esposa de um barbeiro da cidade, e levou-a consigo para Como, onde morreu. O desgosto foi tão
dilacerante, que Guillem perdeu a razão. Supondo que se fingia morta para o abandonar, pô-la num caixão
aberto durante dez dias. Ia vê-la todas as tardes, erguia-a, olhava o seu rosto sem vida, abraçava-a, beijava-a e
pedia-lhe que falasse, que dissesse se estava morta ou viva. Se ainda vivia, suplicava-lhe que voltasse para ele.
Se tinha morrido, que se dignasse contar-lhe as penas que sofria no inferno, porque, nesse caso, mandaria
rezar as missas que fossem necessárias para a libertar. Por toda a parte procurava videntes para saber se a
bem-amada voltaria a viver. Um comediante qualquer fez-lhe crer que talvez sim se, durante um ano, lesse
todas as tardes o saltério completo antes de jantar e recitasse cento e cinquenta Pater. A resposta devolveu-lhe
a alegria; durante um ano, sem falhar um só dia, executou à letra o prescrito. Finalmente, ao ver que de nada
servia tudo isso, deixou-se morrer de desespero.
A originalidade de Peire Cardinal, o bom poeta de Puy, são, sobretudo, as suas sirventes, palavra relacionada
com servir, peças satíricas dedicadas ao protector que o tinha ao seu “serviço”. Mas, quanto mais satíricas,
mais tomam o carácter de diatribes violentas. Peire Cardinal repele com horror a demência do mundo e acusa
os eclesiásticos, “criminosos vestidos de santos”. Morreu em idade avançada, “no limiar dos cem anos”, diz
La Tour.
2.
Cavaleiros sem medo e sem mancha
Depois de evocarmos com Michel de La Tour os principais dessa pléiade de trovadores um tanto loucos
mas tão amáveis, ressuscitemos outras personagens, coroadas ou não. Entre as várias dinastias occitanas que
reinaram a norte e a sul da cadeia dos Pirinéus, merecem destaque duas casas reais.
Do lado espanhol, a Casa de Aragão, cuja origem se perde na noite da história basca. Loup, o príncipe que,
segundo consta, venceu Rolando em Roncevaux, parece ser o antepassado mais antigo dessa família. Em
1118, Afonso I (1104-1134) arrebatou Saragoça ao domínio mouro e fez dela a capital de Aragão. Seu irmão,
Ramiro II, casou em 1137 sua filha Petronilla com o conde catalão Ramón-Beranger de Barcelona, cujo filho
mais velho, Afonso II, cognominado o Casto (1162-1196) reuniu no seu ceptro a Catalunha e Aragão. O seu
poder ia de Aragão e da Catalunha a Valência, ao grupo das Baleares, à Provença a sul de Durance, aos
condados de Urgel e de Cerdagna, limítrofes de Andorra, e ao Roussillon, entre o Mediterrâneo e o condado
de Toulouse.
Afonso o Casto foi para o Gai Savoir (arte nobre, poesia) um mecenas eminente; ele próprio se conta entre
os trovadores que rimavam em língua provençal. O poeta Guyot de Provins, natural do norte da França,
refere-se ao “rei de Aragão” como seu protector magnânimo e celebra com admiração os seus dons poéticos
e as virtudes cavaleirescas. Afonso o Casto rivalizava com o trovador Arnaud de Mareuil para obter os
favores de Adelaide de Burlat, filha de Raymond V, conde de Toulouse, e esposa de Roger-Taillefer, visconde
de Carcassonne...

* * *

A norte dos Pirinéus, reinavam os poderosos condes de Toulouse. O seu antepassado mais remoto era
Hursio, príncipe dos godos. Quando em 507 Alarico, rei dos visigodos, perdeu a sua residência de Toulouse,
conquistada por Clovis, rei dos francos, Hursio, crê-se, terá continuado como “marquês” de Toulouse. Pouco
a pouco, os “filhos de Hursio” tornaram-se senhores do território que vai dos Alpes, Durance, Dordogne e
os Pirinéus até à Gasconha.
Na sua primeira cruzada (1096-1099), Raymond de Saint-Gilles, quarto descendente de Hursio, levou à
Terra Santa um exército occitano considerável e, depois de uma tentativa frustrada de disputar a Godefroi de
Bouillon a coroa real de Jerusalém, fundou o principado de Tripoli, no Líbano. As cidades sírias de Tripoli,
Arados, Porphirion, Sidon e Tiro tornaram-se as Toulouse, as Carcassonne, as Albi, as Lavaur e as Foix da
Ásia Menor. Tripoli, a capital, estava coberta por uma floresta de palmeiras, laranjeiras e romãzeiras, em cujas
folhagens o vento tangia os mesmos cantos que nos cedros de Salomão, na neve de Sannim e nos templos de
Baalbek. O conde de Toulouse não sentia saudades da pátria natal, suspirava por esse paraíso do Oriente.
Melissinde de Tripoli era bisneta de Raymond. A sua beleza, por um lado, o feérico reino, por outro,
exerceram tal atracção sobre Rudel, o infortunado trovador, que “ao remo e à vela, se foi para a morte”,
como canta Petrarca em Trionfo d’Amore.
Os filhos de Raymond de Saint-Gilles dividiram entre si a herança paterna. Bertran, nascido em Toulouse,
reinou em Tripoli. Alphonse, nascido em Tripoli, foi para Toulouse. Tinha os títulos de conde de Toulouse,
marquês da Provença e duque de Narbonne e era suserano reconhecido pelos poderosos condes e viscondes
de Carcassonne, Béziers, Montpellier, Narbonne e Foix. Alphonse tinha quarenta e cinco anos na altura em
que Bernard, abade de Clairvaux, pregava a segunda Cruzada (1147-1148). Em Vézelay, recebeu a cruz na
presença de Luis VII, rei da França. Foi envenenado pouco depois de desembarcar em Cesareia e acusou-se
da sua morte Balduíno III, rei de Jerusalém, que teria receado pela coroa.
India, infanta de Toulouse, que acompanhara o pai à Terra Santa, sepultou-o no Monte dos Peregrinos,
entre o Líbano e o mar, ao lado de Raymond Saint-Gilles e de Elvira de Castille, seus familiares. Durante a
cruzada, India foi feita prisioneira pelos infiéis e levada como escrava a Alep, ao harém do sultão Nureddin.
India veio a ser sultana e, depois da morte de Nureddin, governou o império dos selúcidas.
Na altura em que Alphonse embarcou para a Palestina, o seu filho, Raymond, tinha apenas dez anos. Os
reis da França, da Inglaterra e de Aragão, vizinhos poderosos, disputaram-lhe a herança. Luis VII, rei da
França, supôs que, como descendente de Clovis e de Carlos Magno, podia reivindicar pretensões a Toulouse.
Henrique II, rei de Inglaterra, casado com Eléonore de Poitiers, parente próxima da Casa de Toulouse,
julgou-se também autorizado a fazer valer direitos. O rei de Aragão, por sua vez, reclamava-se sucessor de
Loup, o legendário príncipe basco. Raymond enveredou pela única via possível: aliou-se a um dos príncipes
contra os outros dois e “prestou homenagem” ao rei de França desposando sua irmã Constance, viúva do
conde de Boulogne.
Mas o casamento teve consequências desastrosas. Constance era uma mulher fria e conflituosa e, para
cúmulo, mais velha que o marido. Como esposa, parece não ter sido muito fiel, mas Raymond, é forçoso
confessá-lo, comportava-se de modo semelhante. Por outro lado, a acreditar no monje historiógrafo Pierre de
Vaux-Cernay, tinha uma certa propensão para a homossexualidade. Seja como for, o palácio dos condes de
Toulouse, Castel Narbonnais, ressentia-se dessas querelas.
Antes de partir para a guerra contra o rei de Aragão, que lhe disputava a supremacia na Provença,
Raymond fechou a mulher numa torre, mas Constance conseguiu fugir para Paris, para casa do irmão. Ao que
parece, este não estava muito convencido das razões da irmã, pois nunca rompeu com o cunhado.

* * *

Com o rei Henrique II, filho de Geoffroy d’Anjou e da princesa inglesa Mathilde, a Casa de Anjou, cujo
sobrenome, Plantagenet, se deve ao ramo de giesta9 que ornamentava o seu armorial, reinava na Inglaterra
desde 1154. A Inglaterra, Anjou, a Touraine e, a partir de 1106, a Normandia, pertenciam ao ceptro de
Henrique II; por outro lado, o seu casamento com Eléonore de Poitiers (1152) grangeou-lhe a Aquitânia, o
Périgord e o Limousin, ou seja, um quarto da França, ou quase.
Henrique II, cognominado Courtmantle (“manto curto”, por ter introduzido na Inglaterra a moda dos
mantos curtos) lançou-se numa expedição contra o conde de Toulouse, mas o rei de França irrompeu nos
territórios da Aquitânia, de Poitou, de Périgord e de Limousin e obrigou-o a retroceder. Henrique Courtmantle
fechou a sua mulher Eléonore numa torre, o que serviu de pretexto a Raymond para replicar à incursão dos
ingleses. Também a paz da Casa Anjou-Plantagenet foi perturbada por dissenções entre os esposos. Eléonore
tinha razão para ser ciumenta do marido. Uma dama de grande beleza e de nome ainda mais belo,
Rosemonde, tinha conquistado o coração do rei. Eléonore decidiu envenenar a rival e incitar o herdeiro do
trono, Henrique, a revoltar-se contra o pai. Foi isso que lhe valeu ser encarcerada na torre.
Em 1173, com o apoio do rei de França e de Raymond de Toulouse, o infante Henrique lançou uma
campanha contra o pai. O “apelo” à guerra foi composto pelo trovador Bertran de Born.

* * *

Bertran de Born era, nem mais nem menos, o visconde de Hautefort, perto de Périgueux. Um manuscrito
do tempo com uma miniatura do belicoso rimador mostra-o de armadura resplandecente, montado num
corcel negro com gualdrapa carmesim e sela verde, galopando no encalço de um cavaleiro adversário.

Amo o alegre tempo da Páscoa


que faz brotar folhas e flores;
gosto também do chilrear das aves
e dos seus trinados no bosque.
Gosto de ver prados com tendas e pavilhões,
sinto uma grande alegria ao ver alinhados na planície
cavaleiros e cavalos armados...
Digo-vos que é menos saboroso comer, beber e dormir
que ouvir gritar “A eles!” e ouvir relinchar cavalos sem cavaleiro
e gritos de “Socorro! Socorro!”,
ver cair na erva chefes e soldados à beira dos fossos
e ver os mortos com os flancos atravessados
por pedaços de lança e flâmulas.
Barões, submetei castelos, vilas e cidades
antes que os outros vos façam a guerra.

Numa sirvente, Bertran chama “Papiol” ao príncipe inglês Ricardo Coração de Leão, qualquer coisa como
“pateta”:
E vós, Papiol, escolhei: ou sim, ou não.
Acordai! Não vos punhais a dormir!
É tempo de escolher sim ou não!

Papiol escolheu sim!


Noutra sirvente, Bertran de Born cita os príncipes que participaram na expedição contra a Inglaterra, os
condes de Toulouse, de Béarn, de Barcelona (rei de Aragão, por conseguinte), de Périgord e de Limoges, e
todos os viscondes, barões e cônsules do Rhône ao oceano.
Os aliados teriam talvez triunfado sobre o rei de Inglaterra se o rei de Aragão não os traísse com a sua
marcha para Toulouse. No último momento, Raymond repeliu o intruso e este aliou-se ao rei de Inglaterra.
Bertran de Born compôs uma sirvente indignada contra o que tão vergonhosamente tinha abandonado a causa
da Occitânia. Chamava-lhe filho de servo da baixa ralé e não descendente de Loup, herói dos Pirinéus.
“Aragão, Catalunha e Urgel coram de vergonha por causa desse rei cobarde, que se glorifica a si mesmo nos
cantos e põe o dinheiro acima da honra!”
Inesperadamente, Ricardo Coração de Leão diz não! e reconcilia-se com o pai. Logo depois, seu irmão
Henrique, herdeiro do trono inglês, morria no castelo de Martel em Limousin. Bertran de Born, que lhe
chamava nas canções “lo rei joven”, ficou muito abalado com a morte súbita do seu herói favorito e, numa
planh (pranto, elegia), chora o jovem príncipe...
Bertran teria visto com alegria o prolongamento das hostilidades mas, infelizmente para ele, os barões
aquitanos uniram-se sob o pavilhão de Henrique de Inglaterra, seu suserano, e foram com ele sitiar o próprio
castelo do poeta, Hautefort. De facto, Henrique tinha jurado vingar-se de Bertran. Quando, pouco depois,
Afonso de Aragão, o inimigo mais irreconciliável de Bertran, se juntou às tropas sitiantes, a situação começou
a tornar-se crítica. Mas não perdeu a coragem. Para escarnecer do rei de Aragão e mostrar que no seu castelo
havia muitos víveres de reserva, enviou um boi ao rei, pedindo-lhe que apaziguasse a ira do rei de Inglaterra.
Entretanto, o castelo de Hautefort não resistiu ao ataque dos assaltantes. Bertran foi feito prisioneiro e levado
ao rei Henrique.
“Bertran, gabas-te de não necessitares de mais de metade do teu espírito, mas receio que as duas metades
não cheguem para te salvar”.
“Sim, Sire, respondeu Bertran com toda a serenidade, falei assim e disse a verdade”.
“Bertran, alguma vez tiveste espírito?”
“Sim, Sire, mas perdi-o quando o vosso filho Henrique morreu”.
Então, Bertran cantou a sua planh em honra de Henrique, o jovem rei. O velho rei chorou amargamente e
disse:
“En10 Bertran, o meu filho queria-te mais que a ninguém no mundo. Por amor do meu filho, concedo-te a
vida, o teu domínio e o castelo. Compensarei os danos que sofreste com estes quinhentos marcos de prata.
Bertran, Bertran...”

Senti passar por mim o sopro do teu espírito


Uhland11

Bertran caiu aos pés do soberano, mas levantou-se mais triunfante que nunca.
Pouco depois, em 1186, o rei Henrique morreu e subiu ao trono Ricardo Coração de Leão. Bertran, ainda
não refeito do “sim” e “não” real, sublevou contra ele o seu irmão, Godefroi. Vencido, Godefroi refugiou-se
na corte do rei de França, onde veio a morrer num torneio, debaixo dos cascos do cavalo.
Três anos depois, começou a terceira cruzada. O sultão Saladino tinha tomado Jerusalém pouco antes e
substituído no Santo Sepulcro a cruz pelo crescente. Aos cristãos de Jerusalém deu a escolher ficarem dentro
dos muros da cidade sem serem inquietados ou retirarem-se para uma das cidades da costa, Tiro, Tripoli ou S.
João de Acre. Parece certo que India, a infanta de Toulouse, contribuiu para essa atitude generosa de
Saladino, uma vez que este a desposara, já viúva de Nureddin, para se tornar imperador dos selúcidas. Seja
como for, Saladino não sujou de sangue a terra santa de Jerusalém...
A vitória de Saladino semeou pânico e furor em todo o Ocidente. Roma mandou preparar uma nova
cruzada. As prédicas dos sacerdotes foram acompanhadas pela harpa dos trovadores. Os poetas mais
reputados lançaram apelos à guerra santa: Bertran de Born, Peire Vidal, Giraut de Borneil, Peire Cardinal.
Mais que nostalgia da Palestina, o desejo que animava os trovadores era visitar países longínquos e cantar às
damas, desoladas por terem de ficar em casa, as suas aventuras em forma de baladas ou de sirventes. Muitas
lágrimas femininas terão sido vertidas quando os rapsodos e cavaleiros deixaram a sua terra natal com a cruz
na armadura e no escudo!
“Feliz por ver flores brancas e ouvir o cântico habitual da chegada da primavera, encontrei na fonte do
vergel, sentada num tapete de erva verde à sombra de uma árvore de frutos, sozinha, sem companhia, aquela
que se recusa a falar comigo... Perto da fonte, deixava correr as lágrimas e suspirava do fundo do coração.
‘Jesus, rei do mundo, dizia ela, é por vós que sofro tão grande dor. A infâmia que sofreis entristece-me, mas é
vossa vontade que os melhores partam para vos servir... Para vós foi o meu amigo, o belo, o gentil, o
esforçado, o nobre; só me resta saudade, aflição e lágrimas...’ Ao vê-la tão desesperada, aproximei-me do
regato cristalino: ‘Bela dama, as lágrimas desbotam e mancham a formosura. Não desespereis, porque o que
dá as folhas às árvores pode dar-vos muita alegria’. ‘Senhor, disse ela, acredito que Deus tenha misericórdia de
mim e de outros pecadores na outra vida, mas levou-me aquele que me dava a maior alegria. A sua clemência
não me serve de consolo porque o meu amigo está longe de mim”12.
Assim falava o trovador gascão Marcabrun. Para o poeta Peirol, foi particularmente duro ter de separar-se
de Donna Sail de Claustra, sua chorosa e inconsolável dama: “Peirol, a vossa partida para a cruzada não vai
libertar a cidade de David dos árabes e turcos que a ocupam. Ouvi o meu conselho, que é bom: amai, cantai e
deixai a cruzada...” Ao que o poeta respondeu: “Desta vez, sou forçado a negar-vos obediência. A cruzada já
esperou demais e há tempos que devia ter sido dada ajuda ao piedoso marquês de Montferrat”.
O marquês de Montferrat era Conrad, príncipe de Tiro. Cercado de perto por Saladino, pedia socorro ao
Ocidente. Bertran de Born respondeu-lhe: “Messire Conrad, contentai-vos com a protecção divina! Há muito
que estaria aí convosco se as tergiversações de condes, príncipes e reis não me tivessem induzido a proceder
igual. Depois, para cúmulo, desde que voltei a ver a minha encantadora dama de cabelo louro, perdi a vontade
de ir!”
Bertran de Born, de início um dos mais entusiastas arautos da cruzada, continuava a amar, a fazer versos e
a tronitroar: “Permita Deus que Filipe da França e Ricardo de Inglaterra, caiam nas mãos de Saladino!” O que
o alegraria acima de tudo era que o rei de Aragão tivesse tomado também a cruz e que nenhum regressasse.
Frederico Barbarroxa e os alemães foram os primeiros a deixar a pátria. No caminho, teve de quebrar a
resistência do suspeitoso imperador grego Isaac l’Ange, pois só a ocupação de Andrinópolis lhe permitia
passar e embarcar para a Ásia Menor. Um ano mais tarde, Filipe-Augusto embarcava em Marselha e Ricardo
Coração de Leão em Génova. Como ponto de encontro das frotas, escolheram o porto de Messina, onde
aguardariam a chegada da primavera.

* * *

Nesse tempo, vivia na Sicília um eremita célebre chamado Joachim de Flore, a quem se atribuía o dom da
profecia. Com base no modelo dos mosteiros de Monte Athos, Líbano e Sinai, fundou mosteiros nos montes
da Calábria ao longo do estreito de Messina e nas ilhas Lipari. Era tido pelos seus contemporâneos como o
melhor comentador do Apocalipse de S. João. Ricardo Coração de Leão foi ver o ilustre cenobita e pediu-lhe
que explicasse o capítulo doze da Revelação:
“A mulher vestida de sol com a lua aos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça, é a Igreja. O dragão de
sete cabeças e sete cornos, é o diabo. As sete cabeças são os sete principais perseguidores do Evangelho:
Herodes, Nero, Constâncio (que delapidou os tesouros da Igreja de Roma), Maomé, Melsemut (?), Saladino e
o Anticristo. Cinco, já morreram. Saladino está vivo e reina. O Anticristo não tardará a aparecer. Saladino está
vitorioso, mas perderá Jerusalém e a Terra Santa”.
“Quando?”, perguntou Ricardo Coração de Leão.
“Sete anos depois da tomada de Jerusalém”.
“Chegamos, então, cedo demais?”
“A vossa vinda é necessária, rei Ricardo. Deus vos dará a vitória sobre o inimigo e fará o vosso nome
glorioso. Quanto ao Anticristo, já vive neste momento e em breve se sentará na cadeira de S. Pedro”.
Ricardo Coração de Leão não libertou Jerusalém, Saladino continuou vitorioso durante muito tempo e,
quanto ao Anticristo... pode pretender-se que o papa Inocêncio III era o Anticristo?

* * *

Na primavera, Filipe e Ricardo deixaram a Sicília. Em Chipre, Ricardo casou o seu trovador favorito, Peire
Vidal, com uma cativa grega de alta linhagem. Pelo seu biógrafo Michel de La Tour, sabe-se a repercussão que
esse casamento teve na vida de Peire Vidal.
A cruzada foi um fracasso. Frederico Barbarroxa morreu no Cydnus, no mesmo rio em que Alexandre
Magno esteve na iminência de perder a vida. É certo que em Julho de 1191, depois de um cerco que durou
quase dois anos, Filipe-Augusto e Ricardo Coração de Leão tomaram S. João de Acre, mas as dissenções a
propósito do espólio, os ciúmes que tinha de Ricardo, mais popular que ele, e uma suposta doença induziram
o rei da França a regressar ao Ocidente pouco depois da queda de S. João de Acre. Os peregrinos que ficaram
no Oriente viram no reembarque uma deserção. As coplas satíricas dos trovadores acompanharam-no até ao
outro lado do mar.

* * *

No ano seguinte, Ricardo foi informado da pretensão de Filipe de anexar a Normandia e Anjou e de seu
irmão, João, pretender a coroa de Inglaterra. Sem perder tempo, Ricardo decidiu negociar com Saladino para
poder regressar quanto antes ao seu país. Acertou o casamento entre sua irmã e o emir Malek-Adel, irmão de
Saladino, que reinariam, juntamente com este, em Jerusalém e na Terra Santa. Os prelados romanos, porém,
fizeram fracassar o projecto, que teria posto fim ao derramamento de sangue em toda a terra palestiniana.
Apenas foi possível assinar uma trégua de três anos, três meses e três dias. Saladino e Ricardo organizaram
festas magníficas. Os dois monarcas e as suas tropas entraram em liça em torneios pacíficos com a lança e
com a harpa.
Saladino também trouxera consigo o poeta da corte, visto que, do Bósforo ao golfo Pérsico, os ruwahs
árabes compunham “tantos versos como as areias do deserto e tantos ghasels13 como gazelas”. Os trovadores
cantavam a morte por amor de Rudel e Melissinde, os ruwahs a não menos triste história de Hinda e Abdallah.
Ouçamos a elegia:
Abdallah, filho de uma família ilustre e rica, tinha desposado Hinda, a rosa da tribo. Como a união se
mantinha estéril, Abdallah, embriagado, repudiou a pobre Hinda, que fugiu para a tenda do pai. Algum tempo
depois, casou com um homem da tribo amiride. Abdallah cantava na harpa o seu amor infeliz e a felicidade
perdida. Abandonou a tribo e foi em busca de Hinda. Encontrou-a a chorar na borda de um poço. A alegria
do reencontro partiu o coração a ambos...
Terminadas as festas, Ricardo deixou a Terra Santa. Não será necessário contar aqui como foi aprisionado
pouco depois no castelo de Durrenstein pelo duque da Áustria, Leopoldo VI, ofendido mortalmente em S.
João de Acre, como foi encarcerado pelo imperador Henrique VI em Prifiels e como recuperou a liberdade.

* * *

Há muito que Ricardo Coração de Leão era o herói favorito do mundo mediterrânico, da Aquitânia e da
Inglaterra. No Oriente, os ruwahs celebravam Melek-Rik, os trovadores da Occitânia e da Aquitânia cantavam
as suas gloriosas façanhas. O jogral Blondel cantava a sua romanesca libertação e glorificava-o como Rei
Artus14, mestre da heróica Távola Redonda.
Ao chegar a Inglaterra (1194), soube da aliança concluída entre seu irmão João e Filipe-Augusto para o
destronar. Expulsou João, que fugiu para Paris, e reconquistou as províncias da Normandia e de Anjou,
usurpadas pela França. Depois de quatro anos de ausência, voltou a Toulouse.
“Bertran de Born ficou muitíssimo contente”, diz o seu cronista. Vendo o rei Filipe-Augusto regressar à
pressa e precipitadamente da Terra Santa, Bertran suspeitou da sua intenção sobre as possessões de Ricardo
na Aquitânia e não duvidou que tentaria alargar até aos Pirinéus as fronteiras do seu reino. Antes adversário
de Ricardo, era abertamente a seu favor agora. Conseguiu persuadir Pedro de Aragão, recentemente coroado
rei, e o conde Raymond de Toulouse, a esquecerem as suas querelas seculares e levou o infante de Toulouse,
em sinal da reconciliação das famílias, a pedir a Ricardo a mão de sua irmã Joana. Assim se sanou o longo
conflito que separava a Aquitânia do Languedoc, tendo a Aquitânia recuperado a imagem que tivera no século
X, quando os condes Cabeça-de-Estopa e Raymond-Pons de Toulouse reinavam fraternalmente, lado a lado,
desde o oceano até ao Ródano.
De Toulouse, Ricardo foi a Carcassonne, a cidade mais elegante do Languedoc, visitar a mulher mais
notável da Occitânia, Adelaide de Burlats, filha de Raymond V de Toulouse e de Constance de França. Viúva,
governava os territórios da Casa Trencavel enquanto seu filho, Raymond-Roger, não atingia a maioridade. De
Carcassonne, dirigiu-se a Beaucaire, no Rhône, residência de verão do conde de Toulouse, onde acorriam
todos os príncipes e senhores da Provença, do Languedoc, da Aquitânia, dos Pirinéus (de Perpignan a
Bayonne) e de Aragão, os cônsules das cidades livres do Midi e os trovadores e jograis da Occitânia, que
saudaram a reconciliação dos três monarcas e as núpcias de Raymond de Toulouse e de Joana Plantagenet.
Um cronista, o prior de Vigeois, fez uma descrição de como se sabia festejar em Beaucaire:
“Dez mil cavaleiros afluíram a Beaucaire. O conde Raymond ordenou ao senescal Agoût que distribuísse
mil peças de ouro entre os cavaleiros pobres. Mandou lavrar o local dos torneios por doze juntas de bois e
semear trinta mil peças de ouro e prata, para que, depois dos torneios, o povo também participasse na alegria
geral. Um barão que albergava quatrocentos cavaleiros no seu castelo, mandou assar cabras e bois em chamas
de archotes15. Uma condessa da Casa de Provença pôs na cabeça do jogral Iveta, aclamado rei dos trovadores,
uma coroa feita com quarenta mil moedas de ouro e prata”.
Um cavaleiro mandou assar numa fogueira gigante os seus trinta cavalos de armas para festejar o fim da
guerra fratricida entre a Aquitânia, o Languedoc e Aragão. Duas décadas depois, a Occitânia iria ver outras
fogueiras, essas ateadas por ordem do papa Inocêncio III...
Depois das festas de Beaucaire, o conde de Toulouse declarou a guerra à França, mas a morte de Ricardo
Coração de Leão impôs um fim brusco e prematuro à campanha. O restabelecimento da paz entre os Estados
occitanos, o casamento de Raymond e Joana, a declaração de guerra de Toulouse a Paris, tudo foi, diz-se,
obra de Bertran de Born.

* * *

Entretanto, Saladino chegava ao fim dos seus dias. Antes de exalar o último suspiro, ordenou que a sua
toalha mortuária tecida de ouro e púrpura fosse mostrada nas ruas de Jerusalém e que um arauto proclamasse:
“Eis tudo o que leva consigo o senhor do mundo, Youssuf Manzor Saladin!”
Depois da morte de Saladino, o imenso império muçulmano foi dividido entre os seus dezassete filhos e
seu irmão, o emir Malek-Adel. O papa Inocêncio III, eleito em 22 de Fevereiro de 1198, achou que o
momento era oportuno para uma nova cruzada na Palestina. Encarregou Foulques de Neuilly de recrutar
campeões para a guerra santa. Ricardo Coração de Leão foi o primeiro monarca visitado por Foulques.
Mas Ricardo tinha aprendido a dizer não. Conhecia a Grécia e o Oriente, e Saladino tinha sido seu amigo.
Quis dar sua irmã em casamento a Malek-Adel e, assim, fundar o reino cristão-muçulmano de Jerusalém.
Tinha tomado a cruz por Roma ao lado do rei da França, mas agora era adversário de Roma e inimigo jurado
do rei da França. Não queria saber de cruzadas. Então, Foulques irritou-se: “Sire, em nome de Deus todo-
poderoso, ordeno-vos que caseis o mais depressa possível as vossas três filhas corruptas se quereis escapar à
condenação!”
“Mentiroso! Não tenho filhas!”, gritou o rei.
“Tendes três! Chamam-se Soberba, Cobiça e Luxúria!”
“Muito bem! Dou Soberba em casamento aos Templários, Cobiça aos frades cistercienses e Luxúria aos
prelados da Igreja romana”.
A Cúria romana excomungou o rei de Inglaterra...
Bertran tinha enterrado e esquecido há muito a sua cólera contra Ricardo por ter dito “sim e não” em lugar
de “sim ou não”. Uma amizade íntima unia o soberano da Inglaterra e da Aquitânia ao poeta provençal de
Guerre me plai. Bertran era, incontestavelmente, o primeiro trovador da Occitânia. A acção que exerciam os
sons da harpa e os seus cantos lembram as fábulas contadas por certos poetas da antiguidade. Certa vez,
Ricardo e as tropas encontravam-se na planície arenosa e desértica de Poitou, não longe de Sables-d’Olonne.
A fome dizimava homens e animais. Não havia pão para os soldados nem erva para os cavalos. Então,
Bertran pegou na harpa e cantou uma ária dedicada à princesa Laina Plantagenet, irmã de Ricardo, mais tarde
duquesa da Saxónia. Conta-se que os barões e cavaleiros esqueceram a fome, o frio e a tempestade de granizo
com que o mar os açoitava.

* * *

Em 1199, Ricardo assediou o castelo de Chalus pertencente ao seu vassalo, visconde Améric de Limoges.
Dentro das muralhas, Chalus guardava um tesouro cuja posse Ricardo pretendia em razão da sua qualidade de
suserano. Tentou juntar o útil ao agradável. Améric de Limoges tinha abraçado o partido da França e o rei da
Inglaterra esperava obter ao mesmo tempo o ouro e a punição do vassalo infiel. No momento, porém, em
que mostrava aos seus soldados o local por onde deviam escalar as muralhas, uma flecha lançada por um
arqueiro atingiu-o em pleno coração. Ricardo, ferido de morte, caiu nos braços de Bertran de Born. O castelo
foi tomado pelos assaltantes em fúria, a guarnição degolada e o hábil arqueiro, que não era senão o castelão
em pessoa, massacrado. O tesouro do castelo de Chalus serviu para pagar os funerais de Ricardo Coração de
Leão.
O rei-poeta, o rei dos poetas, foi escoltado por todos os seus vassalos e trovadores até Fontevrault, local
em que se situava o mausoléu dos Plantagenet e onde esse eterno irrequieto encontrou o repouso supremo.
Ricardo Coração de Leão desceu ao túmulo sem orações, sem água benta, sem as bênçãos da Igreja. O rei da
Inglaterra, Irlanda, Anjou, Arles e Chipre foi para sempre excluído da comunidade da Igreja cristã...
Do norte ao sul, todas as harpas choraram a perda desse “Alexandre”, desse “Carlos Magno”, desse “rei
Artus”. Não houve troubère que não entoasse uma planh por Ricardo. Quem verteu as lágrimas mais amargas
foi Gaucelm Faidit, que tinha acompanhado o soberano à Terra Santa16. Só um não suspirou elegias: Bertran
de Born. Sabia odiar, mas também sabia amar. A dor pela perda do amigo foi demasiado forte. O seu canto
emudeceu de todo. Um dia, bateu à porta do mosteiro de Grammont, que se fechou para sempre nas suas
costas.
Uma vez ainda, voltamos a encontrar-nos com Bertran de Born. Dante Alighieri, o grande florentino, viu-
o nos infernos. Por ter separado o que estava unido, Bertran foi condenado a ficar com a cabeça separada do
tronco. Decapitado, o trovador de Hautefort leva na frente a própria cabeça para iluminar os caminhos que
atravessam as regiões infernais. O maior poeta da Itália precipitou na Gehena o maior trovador da Occitânia,
simbolizando com isso, talvez involuntariamente, a Occitânia amaldiçoada pelo mundo e transformada em
inferno. Uma lenda occitana que sobreviveu na memória popular conta que Bertran de Born, desesperado
com a maldição lançada sobre o seu país natal, está dentro de um bloco de gelo do glaciar da serra Maladeta.

* * *

Ricardo Coração de Leão e Bertran de Born fizeram-nos esquecer outro herói occitano de não menor
envergadura. Raymond V, conde de Toulouse, não era apenas o mais poderoso monarca do mundo occitano
e um dos chefes de Estado do Ocidente, a sua capital, Toulouse, era também a metrópole da civilização e da
cultura occitanas. As possessões desse descendente de Hursio — o maior entre todos — eram mais extensas
que as da coroa francesa, da qual era o mais importante e quase independente vassalo. Além do condado de
Toulouse, pertenciam-lhe ainda o ducado de Narbonne, cuja propriedade lhe conferia a dignidade de primeiro
par laico da França. Era senhor feudal de quarenta condes, seus homens-lígios. Os trovadores equiparavam-
no a um imperador:

Car il val tan qu’en la soa valor


Auri’assatz ad un emperador.

Também lhe chamavam “bom conde Raymond” por estar sempre pronto a resolver as suas preocupações
e dificuldades. Não era trobère como eles?
Facto singular: Raymond de Toulouse nunca teve vontade de ir à Terra Santa, ou, no mínimo, a Tripoli,
filha de Toulouse. Entre todos os grandes príncipes cristãos do século XII, foi o único que não tomou parte
em cruzadas. Teria adivinhado que a Occitânia se ia converter depois da sua morte (1194) no palco da mais
terrível das cruzadas? Raymond não sentia o menor desejo de ver o Santo Sepulcro ou o Gólgota. Previa que
com o seu sucessor, Raymond VI, a Occitânia iria ser o seu Gólgota e Santo-Sepulcro? Raymond V prestou
notáveis serviços à civilização occitana com o Gai Savoir, o espírito cavaleiresco e uma política irrepreensível,
mas falhou num ponto: manter-se afastado do catarismo, doutrina pura a que o mundo chamava heresia. No
entanto, o Evangelho do Paracleto Consolador necessitava do seu apoio. Como veremos mais adiante, o seu genro
e o neto, pertencentes à linhagem dos Trencavel de Carcassonne, foram os guardiães nesses lugares da Távola
Redonda mística, cujo “desejo do Paraíso” era o vínculo comum.

Sobre seda verde-esmeralda


Do Paraíso tinha a promessa
Era o objecto chamado Graal.
Wolfram von Eschenbach
3.
Os filhos de Belissena

Numa sirvente, o trovador Raymond de Miraval indica aos seus amigos poetas quem são os protectores da
nobre arte e em casa de quem podem contar com bom acolhimento, oferendas e respeito:
“Ide primeiro a Carcassonne, diz-lhes, cujos barões não cito porque, para tanto, necessitaria de quarenta
sirventes. Aceitai as suas dádivas e parti. Claro que não sei em que direcção ides cavalgar, mas rogo-vos que
saudeis da minha parte Messire Raymond Drut que, com toda a certeza, não vos deixará sair do castelo sem
cavalo se chegardes a pé. A seguir, ide a casa de Messire Peire-Roger de Mirepoix. No caso de não vos oferecer
bons presentes, comprometo-me a recompensar-vos com o dobro do que ele vos der. Cantai sirventes a Messire
Bertran de Saissac, ou, melhor ainda, canzone. Mesmo que Messire Bertran não esteja de bom humor, nada vos
recusará. Cavalgai depois até à casa de Messire Améric de Montréal. Tratará de todas as vossas dificuldades e
dar-vos-á cavalos, arneses e uma capa”.
Sigamos, pois, o conselho de Raymond de Miraval e acompanhemos os pobres rimayres a Carcassonne, a
Foix, aos Pirinéus que sobem ao céu e às alturas sombrias, hoje desarborizadas, da montanha Negra.
Em tempos muito recuados, na colina rochosa onde se ergue a cidade de Carcassonne, vêm-se carvalhos
— as árvores sagradas dos druídas —. Com efeito, o nome primitivo da cidade era Roc aux Chênes (Ker =
rocha, casser = carvalho). Alarico, rei dos visigodos, mandou rodear a cidade de uma cintura tão forte de torres
e muralhas que Clovis, rei dos francos, e Carlos Magno a assediaram sem êxito. O imperador Carlos só lá
entrou quando a cidade lhe abriu voluntariamente as portas.
Na parte oeste da cidade, onde a colina cai a pique sobre o Aude, erguia-se majestoso o castelo dos
viscondes de Carcassonne e Béziers, os Trencavel. Estendiam o seu domínio de Carcassonne às ricas cidades
de Albi, Castres e Béziers e eram senhores de todas as terras entre o Tarn e o Mediterrâneo e dos Pirinéus
orientais. Eram aparentados às mais nobres casas reais do Ocidente: Capeto da França, Plantagenet da
Inglaterra e de Anjou, Hohenstaufen da Suábia, Aragão, na Catalunha, e aos dois descendentes de Hursio de
Toulouse.
O visconde Raymond Trencavel, tio do rei Afonso de Aragão, instigado por este e pelo rei de Inglaterra,
participou na guerra contra o jovem Raymond V, conde de Toulouse. Os seus súbditos revoltaram-se contra
a guerra fratricida que lhes era imposta. No curso das hostilidades, um burguês de Béziers agrediu um
cavaleiro. Os barões pediram a Raymond Trencavel que o burguês lhes fosse entregue e conseguiram-no. O
burguês sofreu um castigo infamante, embora não se saiba em que consistiu. Terminada a guerra, os
burgueses de Béziers exigiram reparações ao visconde. Trencavel fez-lhes saber que se submetia à arbitragem
dos barões e notáveis. Na data combinada, 15 de Outubro de 1167, Trencavel compareceu na igreja Sainte-
Madeleine de Béziers acompanhado do bispo e dos barões. Os burgueses já o esperavam, mas debaixo das
roupas traziam cotas de malha e punhais. O que tinha provocado a altercação avançou de rosto sombrio para
o visconde:
“Senhor, sou um desgraçado que não suporta o opróbio. Querereis dar uma satisfação aos burgueses de
Béziers pela afronta que sofri?”
“Estou disposto a submeter-me à arbitragem dos barões e notáveis, respondeu o príncipe”.
“Isso não é dar uma satisfação. A nossa honra só pode ser lavada no vosso sangue!”
A estas palavras, os conjurados puxaram pelos punhais. O visconde, o seu filho mais novo, os barões e o
bispo foram assassinados junto do altar.
Quarenta anos mais tarde, aproximadamente, a igreja Sainte-Madeleine e o seu altar-mor testemunharam
um massacre mais terrível ainda. O templo de Deus explodiu como um vulcão, sepultando nos escombros os
cadáveres calcinados dos burgueses de Béziers...
Os cônsules ficaram senhores da cidade. Durante dois anos, nem sequer quiseram ouvir falar do bispo e
do visconde. Troçavam do furor da nobreza e da excomunhão do Vaticano, tão orgulhoso e indómito era o
sentido de independência dessas cidades-repúblicas occitanas!

* * *

Essa orgulhosa independência faz pensar nos feudalismos góticos, nos cônsules romanos e nos patriarcas
iberos, de quem decorre historicamente.
Cerca de 1050, Toulouse, Barcelona, Saragoça, Narbonne, Béziers, Carcassonne, Montpellier, Nîmes,
Avignon, Arles, Marselha e Nice eram repúblicas quase independentes. Todas tinham um Capitulum (capítulo,
conselho) eleito pelos cidadãos, ficticiamente presidido por um conde um por um visconde, mas, de facto,
sob a direcção dos cônsules, encarregados de velar pelos destinos da cidade. Os aragoneses, por exemplo,
tinham para a coroação do rei uma fórmula de eleição que se tornou célebre:
“Nós, que somos tanto como vós e até mais poderosos que vós, escolhemos-vos como rei se estiverdes
disposto a proteger os nossos foros. Se assim não for, negamo-nos!”
Em Narbonne, o arcebispo, o visconde e o burguês governavam conjuntamente. Em Marselha, cada poder
tinha uma circunscrição própria dentro da cidade. Em Nice, Arles e Avignon, os burgueses governavam sós.
Cidadãos ricos e orgulhosos, possuíam pallazi guarnecidos de torres e defendiam os direitos municipais com a
lança e a espada. Se o desejavam, podiam ser armados cavaleiros e medirem-se em torneios com os barões.
Sem nada perderem da sua dignidade, esses burgueses enobrecidos dedicavam-se, como nas cidades gregas, a
transacções comerciais no ultramar.
O instinto de altiva independência que caracterizava as cidades occitanas assentava na consciência firme
dos direitos hereditários e no legítimo orgulho das riquezas obtidas com o trabalho. A agricultura, o melhor
fundamento de qualquer comunidade e Estado, era florescente. A terra oferecia abundantes colheitas de
cereais e de milho (trazido da Ásia no tempo das cruzadas). O azeite e o vinho corriam em caudal. Tratados
comerciais uniam as cidades occitanas desde o litoral até Génova, Pisa, Florença, Nápoles e Sicília. Nas portas
de Marselha entravam e saíam navios gregos, italianos, levantinos, mouros e normandos.
Correctores judeus serviam de intermediários entre a Occitânia e as praças comerciais do Mediterrâneo.
Na Occitânia, os judeus viviam e trabalhavam sem serem molestados e usufruíam de direitos iguais aos dos
outros cidadãos. Era-lhes permitido ocupar funções públicas e ensinar em universidades. A própria nobreza
occitana os protegia e encorajava. Os Trencavel de Carcassonne tinham judeus encarregados da economia e
da fazenda: Nathan, Samuel e Moisés Caravita. Alguns professores israelitas das universidades occitanas
tornaram-se conhecidos no Ocidente e no Oriente. Muitos estudantes vinham a Vauvert, perto de Nîmes,
ouvir o rabino Abraham. Em Narbonne, ensinava o rabino Calonimo, “filho do patriarca e rabino Teodoro,
da casa de David”. Essa dinastia de rabinos era conhecida como a “família dos reis israelitas de Narbonne” e
dizia ser um ramo da casa de David. Os seus bens, imensos, estavam sob protecção especial dos senhores de
Narbonne.
Raymond Trencavel caíu aos pés do altar-mor da igreja Sainte-Madeleine de Béziers vítima da paixão de
independência que animava as cidades livres da Provença. O infante de Carcassonne, Roger Taillefer — que
ainda não completara vinte anos — quis vingar a morte do pai e pediu ajuda ao seu parente, o rei Afonso de
Aragão. Acompanhado de barões e fidalgos catalães, marchou contra Béziers. A cidade rendeu-se ao fim de
dois anos. Roger Taillefer perdoou aos assassinos do pai.
Um dia, um barão descontente acusou-o: “Senhor, vendestes o sangue de vosso pai!”
Tais palavras atingiram-no no coração. Uma noite, com os habitantes de Béziers mergulhados num sono
tranquilo, as tropas aragonesas apoderaram-se da cidade e, por ordem do jovem Trencavel, passaram a fio de
espada todos os habitantes do sexo masculino. Só as mulheres e os judeus foram poupados. No dia seguinte,
o visconde e o bispo Bernard obrigaram as filhas e as viúvas dos burgueses mortos a desposarem aragoneses,
assassinos daqueles, e exigiram-lhes um tributo anual de três libras de pimenta.
Sem pretender atenuar a responsabilidade do jovem Trencavel, que depois governou indulgentemente,
com tolerância e cavalheirismo, temos de dizer que, acima de tudo, a culpa recai no bispo Bernard e no rei de
Aragão. A nobreza incitou-o à sangrenta vingança com vista apenas em vantagens pessoais. O bispo não
soube conter o impulsivo jovem e Afonso II pretendia ter em Béziers uma base de apoio entre o condado de
Roussillon e as suas possessões da Provença, além de que a cidade era um excelente posto avançado face a
Toulouse e Carcassonne. Roger Taillefer depressa o percebeu, mas soube conjurar o perigo que ele próprio
tinha suscitado concluindo uma aliança com o conde de Toulouse e pedindo-lhe a mão de sua filha Adelaide.
A corte de Carcassonne era um centro de poesia e de cortesia cavaleiresca, “a mais casta e mais cheia de
graça, visto que o ceptro estava nas mãos de Adelaide” (Arnaut de Mareuil).

* * *

Os trovadores chamavam a Raymond Roger, infante de Foix, primo de Roger Taillefer de Carcassonne,
Raymond Drut, ou seja, “Raymond amoroso”.
O castelo do conde de Foix situava-se no vale selvagem do Ariège, rio que desce das montanhas nevadas
de Andorra, bordeja os grandes maciços de Montcalm e o pico de Saint-Barthélémy e corre para o Garonne.
Pensa-se que no rochedo onde foi edificado o castelo havia outrora um santuário dedicado ao deus ibero do
sol, Abellio. Outra tradição diz que Foix era uma fundação fócia, a Fócida gasconha. Durante a guerra da
Gália, Foix era a estaca (lugar de reunião) dos sotiates, que no ano 76 a.C. tomaram partido por Sertório contra
Pompeu, vencidos vinte anos depois perto de Vicus Sotiatum (hoje, burgo de Vicdessos) pelo lugar-tenente de
César, Publius Crassus. A partir de então, Foix passou a ser um dos numerosos castella romanos que vigiavam
os desfiladeiros dos Pirinéus e garantiam passagem livre. Durante o domínio dos visigodos (414-507), os
bispos católicos, descontentes com a hegemonia dos reis godos ligados ao arianismo, pediram ajuda ao rei dos
francos, Clovis. Um desses bispos, Volusian, suspeito, não sem razão, de abrir aos francos as portas de Tours,
foi aprisionado pelos visigodos e condenado à morte em Foix. Depois da batalha de Vouillé, Clovis mandou
recolher os restos de Volusian. O clero francês proclamou-o santo e mártir. Perto do túmulo de Volusian foi
fundado um mosteiro e, à volta do mosteiro, sobre as ruínas da colónia romana, um burgo, que Carlos Magno
fortificou, e que foi um ponto de apoio importante contra os aquitanos, ao norte, e os mouros, ao sul.

* * *

No castelo rochoso de Foix, os bardos, hóspedes de Arcantua, chefe dos sotiates, cantavam outrora
poemas heróicos celtas e iberos acompanhados de liras de modelo grego. No século XII, os trovadores
acabrunhados com problemas de dinheiro ou de amor, recebiam aí o melhor acolhimento.
Roger-Bernard I, conde de Foix (falecido em 1188), e sua esposa Cécile de Carcassonne, tiveram quatro
filhos: um filho varão, Raymond Roger (o Raymond Drut dos trovadores), e três filhas, duas das quais só
conhecemos pelos primeiros nomes: Esclarmonde e Cécile.
Depois da ida à Terra Santa com Filipe-Augusto da França e Ricardo Coração de Leão, Raymond Roger
recebeu a herança do pai, morto pouco antes do início da cruzada. Os seus domínios abrangiam toda a
planície das fronteiras do condado de Toulouse até aos Pirinéus, as gargantas do Hers e do Lasset, o Ariège
de cascatas ensurdecedoras e as pastagens solitárias dos Pirinéus, só acessíveis a pastores e a rebanhos ágeis.
Quase todos os vassalos dos condes de Foix se denominavam a si mesmos “filhos da Lua” ou “filhos de
Belissena”. Diziam-se descendentes da deusa da lua, Belissena, a Astarté celtibera. Nas suas armas figuravam
o peixe, a lua e a torre, emblemas da deusa lunar, do deus do Sol e do poder cavaleiresco.
Peire Roger era também um filho de Belissena. O seu castelo situava-se em Mirepoix (Mira Piscem). Da sua
“torre” (tal era o nome do castelo), via o “peixe” correr nas águas cristalinas do Hers, que nasce no majestoso
pico de Saint-Barthélémy, e a “lua crescente” erguer-se acima da floresta de Belena. Antes do cristianismo, a
cidade chamava-se Beli Cartha (cidade da Lua), fundada, talvez, pelos fenícios que procuravam ouro e prata
nos Pirinéus.
Havia no condado de Foix uma praça forte cujo proprietário não era um filho de Belissena. Aí reinavam
os barões de Verdun, cujos domínios sob a montanha quase igualavam em extensão e até ultrapassavam em
beleza os que se estendiam à superfície terrestre. Durante quilómetros, as soberbas grutas de Ornolac e de
Verdun, há setecentos anos pertencentes aos Sires de Verdun, afundam-se nas montanhas de Ariège.
Sabarthès (denominação que provém da igreja de Sabart, onde a mãe de Deus teria predito a Carlos Magno a
vitória sobre os sarracenos), assim se chama esta parte do vale de Ariège. O Sabarthès era dominado por duas
cidades dependentes dos condes de Foix: Tarascon, que durante muito tempo serviu aos mouros de ponto de
apoio contra as tropas de Carlos Magno, e Ax, cujas fontes de águas termais curaram muitos males a
mercadores fenícios e a colonos gregos e romanos. A posse do Sabarthès era partilhada pelos barões de
Lordat, Arnave e Rabat e pelos Sires de Verdun, vassalos da Casa de Foix. As suas fortalezas erguiam-se
imponentes sobre os rochedos de Lordat, Calamès e Miramont, verdadeiros ninhos de águias a mais de mil
metros de altura.
Na face norte do maciço de Saint-Barthélémy, em Olmès (vale de Ormes), os Peyrotta e os Perelha viviam
nos seus solares de Montségur, Perelha e Rocafissada. Raymond de Perelha era, com os condes de Foix,
senhor de Montségur. Foi nessa fortaleza que trovadores, damas e cavaleiros, viram horrorizados aproximar-
se uma cruzada que enviou para a fogueira e emparedou em masmorras subterrâneas centenas de milhares de
irmãos seus que não puderam refugiar-se na montanha, então ainda segura. Montségur significa “monte
seguro”...

Nenhuma morada foi melhor para o defender


Que Mountsalvatsche...
Wolfram von Eschenbach
NOTA DE OTTO RAHN
Trobar Clus

Munsalväche ou Mountsalvatsche, nomes que Wolfram dá ao castelo do Graal (Wildenberg em alemão) e


traduzidos como Mont Salvaige ou Mounsalbatgè, foi a designação escolhida para o castelo de Wildenberg que
lhe deu em feudo a condessa de Wertheim. A forma mais corrente e original, na linguagem de hoje Montsalvat
ou Mountsalbat, significa monte da Salvação, uma vez que Salvatge e Salvat vêm do latim Salvatus. No cimo de
uma montanha selvagem (Wild) está-se em segurança, está-se a salvo (em latim, securus). Por outro lado,
Mountsalvatsche é ao mesmo tempo Montsalvat e Montségur. A mesma etimologia se aplica à terra de Salväsche
e à fonte Salvasche de Wolfram.
Segundo o prefácio de Panniers na sua tradução de Parzival, o castelo de Mountsalvatsche situava-se, na
ideia de Wolfram, nos Pirinéus17.
Referirei apenas isto: Montségur significa também mont Sec ou monte Escalvado (comparável a Ségala, região
seca e árida do Midi francês, e a dois verbos alemães: sicheln, ceifar, e schneiden, cortar (há que abandonar, que
despir, para chegar ao Cume, à vida eterna).
Note-se que Jesus foi crucificado no Gólgota (monte do crâneo, monte escalvado por excelência), que
pregou as bem-aventuranças numa montanha, que se transfigurou no Tabor e que o Graal resplandecia no
Pog coroado de Montségur, no Thabor occitano. Assim, temos em quatro montanhas os cumes da vida de
Jesus: os ensinamentos, a transfiguração temporária diante dos discípulos, a crucifixão, a transfiguração
eterna, o Graal vivo, Jesus como mediador entre o homem e Deus.
O nome Parzival é um produto desse método de escrita. Parzival, o louco puro, segundo a suposta tradição
iraniana do Pâsîwalnâmä, também o louco de Deus, talvez, como o entendem os sufis Abu Yazid, Al Hallaj, o
mártir (os sufis sofreram a mesma sorte dos cátaros) e Omar Khayyam, o poeta do Vinho e da Copa mística,
é também Perce-Val, o que desfaz os encantamentos do Vale sem Retorno.
A título de exemplo, ser-me-á permitido criar outra variação a partir desse princípio e de fazer o mesmo
jogo? Então, Parzival seria Pur si fol18. As modulações são infinitas e demonstram mais uma vez o dinamismo
da Palavra.
(Fim da nota)

Os filhos de Belissena não se fixaram apenas no condado de Foix. Havia-os em todo o Languedoc como
vassalos e parentes dos condes de Toulouse e dos viscondes de Carcassonne: em Castres, Termès, Fanjeaux,
Montréal, Saissac e no Hautpoul. Os castelos dos senhores de Saissac, Cab-Aret e Hautpoul, eram rodeados
de florestas quase impenetráveis da montanha Negra, do alto da qual podiam ver as cinquenta torres da
cidade de Carcassonne.
Ermengarde de Saissac (“a bela albigense”, como lhe chamavam os trovadores), Brunissende de Cab-Aret
e Stéphanie “La Loba” estavam entre as damas mais festejadas do Languedoc. Três barões e dois trovadores
cantavam e cortejavam as três mulheres, cada qual mais bela que as outras. Raymond Drut, o infante de Foix,
Peire Roger de Mirepoix e Améric de Montréal eram esses nobres, tão hábeis a manejar a lança como a harpa.
Os trovadores eram Peire Vidal, futuro “imperador de Constantinopla”, e Raymond de Miraval.
Peire Vidal, que “pedia o amor de todas as damas”, não resistiu à tentação junto de “La Loba”, mas, desta
vez, apaixonou-se loucamente pela sua dulcineia. No entanto, a pregaire (oração, súplica) nunca chegou à tão
anelada entendeire. “La Loba” não ouvia os propósitos corteses e as serenatas do trobère. Os seus magníficos
cavalos, as armas luxuosas, o trono imperial, o leito de campanha, nada disso lhe causava impressão. Então,
Peire Vidal tentou atrair de outra maneira a atenção de Donna Loba. Começou a usar uma cabeça de lobo na
cota de armas e ia passear diante do seu castelo. Mas também isso não surtiu efeito. O amor aguça o engenho.
Já que a cabeça de lobo não era suficiente, o trovador vestiu uma pele de lobo autêntica e todas as noites ia
aterrorizar os pastores e o gado de Donna Loba. Uma noite, os pastores acompanhados de cães agarraram-no.
Há muito que davam caça ao lobo feroz. Os cães, de dentes em riste, caíram sobre o falso Isengrin.
Espantados ao ouvirem um lobo gritar por socorro, os pastores só a muito custo conseguiram salvar o
trovador, a sangrar de numerosos ferimentos, e levaram-no ao castelo de “La Loba”. Era o que o manhoso
trovador queria, era a maneira de ser tratado e curado em Cab-Aret. Michel de La Tour, seu biógrafo, não
mente quando diz que todas as mulheres o enganavam. “La Loba” enganava-o com Raymond Drut, o infante
de Foix...

* * *

Améric, “que resolvia os problemas dos trovadores com um bom cavalo, arreios e uma capa”, era senhor
de Montréal, pequena cidade a meia distância de Carcassonne e de Foix. Era também filho da Lua. Tinha uma
irmã, Geralda, a celebrada castelã de Lavaur. Não houve trovador ou mendicante que saisse do seu castelo
sem ter recebido uma hospitalidade reconfortante e alguma moeda como viático. “Geralda era a mais nobre e
a mais generosa das damas occitanas”, diz-nos um cronista. E no entanto, na altura da cruzada contra a sua
pátria, iria sofrer uma morte horrorosa. Acusada de heresia e de fanatismo, foi atirada a um poço e coberta de
pedras.

No grande pátio do castelo de Lavaur


A erva não ceifada
Era a tranquila e solitária mortalha
Do corpo deixado sem sepultura.
As aves de rapina exumaram-no um dia
E traçaram no ar círculos de silêncio
Acima das velhas paredes enegrecidas pelas chamas.
E o céu escuro parecia vestido de luto e de tristeza.
Testemunha dos bons tempos de outrora,
A tília permanece muda junto da fonte.
Deixa que o sopro do outono
Lhe embale docemente as folhas.
As sarças guerreiam à beira do poço
O cardo eriçado inclina-se
Sobre o bordo de mármore
Como se quisesse olhar para o fundo.
Junto do poço profundo, um cantor
Deixa com lágrimas a última canção a Geralda,
Apagadas as suas alegrias, dorme coberta de pedras,
Imersa nas delícias eternas.
Lenau, Les Albigeois.
4.
O “Parzival” occitano

Mais de uma vez os nomes que citámos se encontram na vida e obra de outro poeta da Minne, poeta que
não nasceu no Midi ensolarado, mas na austera e brumosa bacia do Sena. Guyot de Provins, trouvère do norte
da França, vagueou muito pelo mundo e visitou as cortes mais célebres da França, da Alemanha, da Aquitânia
e da Occitânia. No Pentecostes de 1184, está em Mainz, numa festa cavaleiresca organizada por Frederico
Barbarroxa. Já idoso, compõe no limiar do século XIII a sua Bíblia, sátira das diversas classes que constituíam
a sociedade do seu tempo. Nesse poema, Guyot diz quem são os seus protectores:
O imperador Frederico Barbarroxa, Empereres Ferris;
Luís VII, rei da França, li rois Loeis de France;
Henrique II, rei da Inglaterra, li riches rois Henris;
Ricardo Coração de Leão, li rois Richarz;
Henrique, o “jovem rei” da Inglaterra, li jones rois;
Afonso II de Aragão, li rois d’Arragon;
Raymond V, conde Toulouse, li cuens Remons de Toulouse.
Guyot de Provins acompanha o fluxo dos trovadores para Toulouse. Para ir desse círculo de poesia cortês
à residência do seu protector Afonso de Aragão, dispunha de dois percursos: de Toulouse, podia subir o
Ariège por Foix, residência do infante Raymond Drut, atravessar o Sabarthès e atingir a fronteira de Aragão
pelo desfiladeiro de Puymorens. Ou então — era o mais fácil — passando por Carcassonne e Perpignan e
percorrendo a costa até Barcelona ou Saragoça. Aliás, é possível que fosse por um e regressasse pelo outro.
Em Carcassonne, como em Foix, os trovadores estavam em casa.
Em Foix, ao lado de Raymond Drut, conheceu sua irmã, Esclarmonde, e celebrou a beleza da nobre dama.
Em Carcassonne, reinava a tia de Esclarmonde, Adelaide, filha de Raymond V de Toulouse e de Constance
da França. Depois da morte de Roger Taillefer, seu esposo (1193), os territórios dos Trencavel ficaram sob o
seu ceptro indulgente.

* * *

Kyot, assim se chamava o valoroso cantor


Que sem descanso se dedicou à arte;
Obrigava-se a cantar e narrar
Para levar alegria aos homens.
Messire Kyot, o provençal,
Encontrou a lenda de Parzival
Narrada num livro pagão.
Assim como a transcreveu em francês,
Assim a cantarei eu em língua alemã
Se a tanto chegar o meu engenho.
Wolfram von Eschenbach

Já dissemos (ver Advertência de Otto Rahn) o que pensar sobre a influência exercida em Wolfram por Guyot
de Provins. Quando nasceu e quando morreu o poeta de Eschenbach? Uma vez que o seu Parzival data da
primeira década do século XIII, é de supor que tenha nascido no terceiro quarto do século XII. Quanto à sua
morte, Püterich de Reichertshausen (1400-1469), autor do poema cavaleiresco intitulado A Carta de Honra,
confessa não ter sido capaz de decifrar a data gravada na sua lápide “na igreja de Nossa Senhora do burgo de
Eschenbach”.
Wolfram era pobre e ia “de corte em corte” como cavaleiro e cantor ambulante. Não sabia ler nem
escrever:
Não conheço uma única letra...
Do que nos livros está escrito,
Sou ignorante19.

Então, devem ter-lhe lido o Parzival de Guyot de Provins, se realmente esse poema foi escrito alguma vez.
Wolfram aprendeu francês com os poetas ocidentais da Minne. Mostra-se orgulhoso disso, já que em Parzival,
se vangloria do conhecimento da língua francesa. Todavia, cometeu alguns erros, em particular ao desfigurar
nomes de lugares ou de pessoas cuja forma original é conhecida através de epopeias francesas sobre o Graal e
sobre Parzival. Entretanto, os defeitos na transposição verbal não deverão surpreender-nos, se admitirmos
que Wolfram dominava os procedimentos da tradição oral, tão impregnada de sentidos figurados.
Será que Wolfram e Guyot se conheceram nas festas organizadas em Mainz por Frederico Barbarroxa, ou
em Wartburg, na corte do landgrave Hermann da Turíngia?20 Sabe-se que Wartburg era a corte da Alemanha
mais frequentada pelos Minnesänger, e Wolfram esteve lá por volta de 1203.
De facto, havia relações estreitas entre os Minnesänger da Alemanha, da França e da Occitânia. Bertran de
Born, por exemplo, que cantou com o nome Sembelis a princesa Laina de Plantagenet, irmã de Ricardo
Coração de Leão, continuou a relacionar-se com a sua domina, agora duquesa da Saxónia, como provam os
poemas que lhe dedicou em língua provençal descobertos na Alemanha. Admite-se que Frederico Barbarroxa,
senhor do reino de Arles desde 1178, também compôs poemas em provençal para honrar a corte do barão de
Castellane, pequena cidade da Provença nas margens do rio Verdon. Seja como for, aquele exemplo ilustra
bastante as conexões entre os Minnedichter do norte e do sul que se inspiravam mutuamente.
Terá Wolfram confundido Provins e Provença no nome de Guyot? É explicável e perdoável. Como era de
uso nesse tempo, é possível que Guyot de Provins seja em Parzival, que não chegou até nós, o seu mecenas
Raymond de Toulouse, sua filha Adelaide de Carcassonne, Esclarmonde de Foix, sua sobrinha, e o rei Afonso
de Aragão, primo de Roger Taillefer, marido de Adelaide.
De facto, assim é.
Afonso II de Aragão, cognominado o Casto pelos franceses, em Wolfram é Kastis, noivo de Herzeloïde.
De acordo com Wolfram e com a sua “fonte” Guyot de Provins, Herzeloïde, mãe de Parzival, é a viscondessa
Adelaide de Carcassonne, a domina de Afonso o Casto.
O filho de Adelaide era um Trencavel, que, como vimos, significa “corta bem”. Ora, Wolfram traduz o
nome Perceval por Schneid mitten durch (que corta pela metade).

NOTA DE OTTO RAHN


Parzival: poema em chave

Sobre o nome de Parzival, Wolfram baseia-se na seguinte etimologia: Perce, imperativo de percer (schneiden-
bohren). Pode também ser traduzido para Schneidgut (corta bem). O sentido original de Parzival é Spring ins Tal
(Peritia-Vallem, de perícia = experiência, conhecimento, e valles = vale), tema sobre o qual não nos alongaremos
aqui. Springinsfeld em alemão moderno significa louco e equivale, verosimilmente, a “louco puro” = Pârsival
(ver a nota Trobar Clus). A etimologia dada por Wolfram é, sem dúvida, uma homenagem espiritual ao
príncipe occitano.
No que concerne ao enunciado da árvore genealógica dos reis do Graal, temos de admitir que Wolfram
tinha uma imaginação muito pessoal. Enquanto o estilo de Chrétien consiste em não citar nomes, ou citar
muito poucos, a arte de Wolfram, diametralmente oposta, dá nomes característicos à personagem mais
insignificante. São criações de Wolfram atribuídos a personagens em alguma outra obra? Na hipótese de já
existirem noutro poema, por exemplo no de Guyot, deviam ter deixado traços nas obras escritas em francês
antigo dedicadas ao Graal. Nenhum autor fica indiferente às obras de predecessores seus que trataram o
mesmo assunto. Será possível que os autores que utilizaram os dados de outros poetas e os assimilaram aos
seus próprios se uniram para fazer pesar o silêncio sobre Guyot e a sua obra?
Considero que a ausência total desses nomes nos poemas escritos em velho francês é a prova formal de
que foram inventados por Wolfram, visto não estar demonstrado se os inventou livremente ou se atribuiu
nomes já conhecidos aos seus heróis21.
Quanto à história de Parzival, àparte a lenda do Graal que examinaremos mais tarde, volto ao ponto do
meu texto onde escrevi que os trovadores, mediante um tema conhecido mas apresentado de maneira nova e
pessoal, louvavam os seus protectores, fosse por vontade própria ou não. Aqui, remeto-me à história da
literatura e faço notar que, na ocorrência, Guyot era o chantre da Casa Trencavel. Neste meu livro, procuro
menos a identificação das personagens de Wolfram que a prova da simelhança entre o Graal de Guyot-
Wolfram e a Mani Cathare. Entretanto, não devo negligenciar algumas relações particularmente notáveis entre
as personagens da Corte occitana e as de Parzival de Wolfram como pontos de apoio para uma pesquisa
histórico-literária. Para Wolfram, Artus é rei da Bretanha e campeão universal da cavalaria. A capital do seu
reino é Nantes. Artus tem uma irmã, Sangive, mãe de Gawan, de Beakurs, de Kundry e de Suramur, cujo
esposo é Alexandre, o imperador grego.
No rei Artus, Guyot, e, com ele, Wolfram von Eschenbach, celebram indubitavelmente o rei da Grã-
Bretanha, Ricardo Coração de Leão, chorado pelo trovador Gaucelm Faidit. É provável que Guyot tivesse
conhecido Gaucelm Faidit na Terra Santa, a não ser que o tenha encontrado numa corte occitana. Ricardo
Coração de Leão também residia em Nantes. A irmã de Ricardo Coração de Leão desposou Raymond VII em
Beaucaire (Rochedo Belo, Rocha Bela = Schönfels). Há um parentesco próximo entre esse nome e o nome do
castelo de Wolfram, Bearosche. Aliás, Wolfram costuma transpor nomes com designações geográficas e vice-
versa.
Beakurs não seria originariamente a cidade de Beaucaire, onde decorriam festas tão extraordinárias que
causavam a admiração do Ocidente? Sangive não desposou o rei Lot de Beaucaire? Não será Gawan a
personificação da Casa de Toulouse e, nesse caso, o livro segundo do Parzival de Wolfram não será o poema
dedicado à glória dos combates da Inglaterra e da aliança occitana?
Em minha opinião, Guyot não só celebrou em Parzival, em Gawan, e também em Anfortas, os chefes das
grandes casas reais do seu tempo, como personificou neles o conjunto de cada família.
Na mesma ordem de ideias, tornam-se inteligíveis as relações entre a Casa de Foix e de Comminges, já
apontadas como exemplo no nosso texto. Quase todos os chefes de linhagem e quase todas as famílias de
nobres e príncipes tinham por antepassados Wolf ou Asnar e estavam ligadas há séculos por laços de sangue.
A árvore genealógica que juntei a estas notas esclarecerá as relações de parentesco um tanto complexas
entre as Casas de Toulouse, de Anjou, dos Plantagenet, de Carcassonne, de Aragão e de Comminges do
século XII. A genealogia completa daria para encher livros como alguns dos quinze tomos da história geral do
Languedoc de Vic-Vayssette.
Examinando os dados de Wolfram, segundo os quais a Casa de Anschauwe se mostrou digna da cavalaria
do Graal graças a Parzival, passemos em revista os laços de parentesco entre Anjou, Toulouse, Carcassonne e
Foix.
Gawan é reconhecível sob os traços de Raymond VII da Casa de Toulouse. Alexandre, a menos que seja
Nureddin, Saladino ou até Malek-Adel, irmão de Saladino, não será Raymond de Saint-Gilles, senhor do
Líbano? Guyot foi à Terra Santa no tempo da terceira cruzada, talvez. O facto da Casa de Toulouse reinar em
Tiro e em Tripoli, era-lhe conhecido. Wolfram von Eschenbach cita Alexandre e Herakles separadamente.
Em tempos primitivos, havia em Tiro um templo dedicado a Herakles Melkart.
Sacrocateno é o nome da célebre esmeralda genovesa procurada em 1806 por ordem de Napoleão e
reconhecível pela sua cor azeitonada. O relatório de Guilherme de Tiro do século XII informa de fonte
segura que caíu nas mãos dos genoveses depois da tomada de Cesareia. Nada nos diz da sua história ou da sua
origem. A lenda refere que estava guardada no templo de Herakles, em Tiro22. Seria deveras interessante levar
mais longe todas estas aproximações.
Graças a diversas fontes que não será necessário referir aqui, também identificámos Esclarmonde com
Repanse de Schoye. Os irmãos de Repanse são Anfortas e Trevrizent. Na eventualidade de Esclarmonde e
Repanse serem a mesma pessoa, Anfortas será Raymond-Roger de Foix, o Raymond Drut dos trovadores. É
bem possível que a paixão interdita de Raymond Drut seja uma alusão à sua vida amorosa, nem sempre
irrepreensível, ou às suas relações ilegítimas com Ermengarde de Teil, mãe de Wolf de Foix e de Esclarmonde
d’Alion23. Ou à sua conduta algo ambígua relativamente ao catarismo, ao qual nunca deixou de pertencer
interiormente? A este respeito, não se pode esquecer que os condes de Foix eram os senhores de Montségur e
que o Thabor occitano e as grutas de Ornolac se situavam no seu território. Atrás de Trevrizent esconde-se
Guilhabert de Castres, ou, o que me parece muito menos aceitável, o patriarca herético Gauceli citado por
Guyot. Os outros poemas dedicados ao Graal referem claramente um eremita de quem Parzival recebe a
iniciação secreta. Só em Wolfram o vemos com esse nome. Os seus votos e a sua fé são heréticos. Já dissertei
bastante sobre as relações etimológicas existentes entre Fontane la Salvasche e as grutas de Fontanet. E
também chamei a atenção para o facto de existirem nessas grutas um altar de pedra resultante da petrificação
do calcáreo das águas. Guilhabert de Castres celebrava o culto cátaro numa spulga de Ornolac próxima da
gruta de Fontanet, e é Fanjeaux que S. Domingos escolhe para residência. Guilhabert de Castres era um filho
de Belissena, parente próximo das Casas de Foix e de Carcassonne. Assim se compreende como, segundo
Wolfram, Trevrizent é irmão de Herzeloïde, de Repanse de Schoye e do rei do Graal, Anfortas. Irei mais
longe, recordando que os cátaros, homens e mulheres, se chamavam entre si irmãos e irmãs, o que pode ser
levado à conta das relações de parentesco existentes entre as personagens de Guyot-Wolfram.
Wolfram estabelece uma diferença nítida entre os cavaleiros do Templo e o eremita Trevrizent, que tinha
sido familiar do Graal. Eis o segundo aspecto desse universo occitano do amor supremo: Crentes, Cavaleiros
e Perfeitos. Os cavaleiros correspondiam aos Templários, os “Trevrizent” aos cátaros. É mais um pormenor
nesta soma já longa de comprovações.
Os filhos de Belissena representavam os cavaleiros occitanos adeptos do catarismo que receberam do
conde Foix o castelo de Montségur. Ocupavam o domínio do Thabor e constituíam o clero herético, com os
seus patriarcas e diáconos. Na canção de Esclarmonde e em certas interpolações do Ciclo de Huon, um dos
temas do poema é o Tesouro Crescente. Fui buscar essas relações aos armoriais dos filhos de Belissena. A
cidade de Tarascon supõe também relações idênticas. Na variante Huon et Calisse, é apresentada assim: Segneurs
celle chité Terrascone a non24.
Uma das filhas mais jovens do Graal chamava-se Florie de Lunel. Lunel é uma cidade muito conhecida do
Midi francês, antes herética. À Terra de Labur de Klingsor, corresponde a Terre de Lavaur. Orilus de Lalande
pode considerar-se natural do território a sul da região de Garonne.
Sobre os nomes que Wolfram retirou de Chrétien de Troyes, de Hartmann von Aue e de outros, veja-se
San Marte: Les Noms Propres dans le Parzival et le Titurel de Wolfram.
Raymond-Roger Trencavel foi, pois, o modelo que serviu a Wolfram-Guyot para o seu Parzival!
(Fim da nota)

É o que resulta sem esforço das observações seguintes:


A “corte de amor” da viscondessa de Carcassonne gozava da maior celebridade em toda a Occitânia. De
Barcelona a Florença e a Paris, não havia dama mais festejada. A sua corte era uma sede de heroísmo, de
poesia e de cortesia cavaleiresca e não esqueçamos que Arnaut de Mareuil lhe chamava “a mais casta e a mais
cheia de graça”.
Esse trobère, já aqui mencionado, era um pobre clérigo dos arredores de Périgueux. Um belo dia, lançou o
hábito às urtigas e começou a ir de castelo em castelo declamar as suas canções, até então confinadas aos
muros do mosteiro. Assim chegou a Carcassonne, onde viu Adelaide, a quem entregou o coração. A alta
posição da viscondessa, infanta de Toulouse e neta dos reis da França, não deixava de intimidar o pobre
poeta. Proclamava nos seus cantos que “o amor iguala todas as condições” e convidava a bela dama a imitar o
igualitarismo da Divindade, pois tinha em Afonso o Casto um rival sério.
O que o rei de Aragão e da Catalunha pedia à “dama dos seus pensamentos” não era a Minne, o amor ideal,
as suas homenagens e ambições eram de carácter mais prosaico. Suserano, ao mesmo tempo que o conde de
Toulouse, do viscondado de Carcassonne e Béziers, contava que ao desposar Adelaide, viúva desde 1193 de
Roger Taillefer, seu primo, garantiria, senão a possessão exclusiva, pelo menos a supremacia nos domínios de
Adelaide. A Afonso o “Casto” não interessava minimamente a Minne, que exige castidade e é incompatível
com o casamento. Fazia parte do universo platónico, não podia pertencer senão ao mundo dos cavaleiros
profanos que mendigam uma coroa ou um leito nupcial. Não era um cavaleiro dessas leys d’amors trazidas do
céu por um falcão.
Arnaut de Mareuil, por seu turno, iria tornar-se indigno do reino do Amor puro. Tendo um dia recebido
um beijo de Adelaide, revelou em dois poemas o favor recebido, traição que constituía uma falta grave e
infrigia pesadamente as leis da Minne occitana. Para cúmulo, os beijos despertaram-lhe sentimentos que nada
tinham a ver com a pureza da Minne e levaram-no a evocar os “mornos eflúvios” de Maio que unem “pássaro
e fêmea sob os lilases perlados de orvalho”. A viscondessa despediu-o e o pobre trovador teve de retirar-se
para a corte de Guillaume VIII de Montpellier (a quem Guyot chama o seu protector Guillaumes).
Aí chegado, não deixou de glorificar Adelaide. Tinham-na afastado dele, cantava, mas não cortariam o laço
que o ligava indissoluvelmente a ela. O mal de amor era mortal para os trovadores, o seu único remédio era o
Consolament, o casto pudor do amante. Arnaut de Mareuil morreu de nostalgia pela bem-amada, perdida para
sempre.

* * *

Durante o tempo que Adelaide residiu no castelo de Puivert abrigado nas esplêndidas florestas pirenaicas,
não deixaram de afluir constantemente príncipes e trovadores. Eram submetidos ao seu julgamento os mais
delicados problemas de amor. Quando Ricardo Coração de Leão, Afonso de Aragão ou Raymond Drut de
Foix tinham a consciência pesada por crimes de lesa-amor, era Adelaide a encarregada de decidir o caso. O
seu veredicto era irrevogável e todos se submetiam por ser a dama mais nobre, mais casta e mais cheia de
graça da Occitânia...
Enquanto em Puivert os trovadores, como Peire d’Auvergne, faziam honras ao vinho de Roussillon e
“cantavam alegres refrões à luz dos archotes”, ou ecoavam pelos prados e bosques o som de trompas, risos e
cantos, ela rezava solitária nos seus aposentos...
Adelaide era uma mulher piedosa, mas o Deus a quem rezava não era o nosso Deus. O seu “Cristo” não
tinha morrido na cruz. O deus ameaçador de Israel era, para ela, Lucifer. Adelaide era herege!
Não era a única razão que a levava a recusar as propostas de amor dos trovadores e príncipes. Ser herege e
entender os trovadores eram realidades que não se excluíam necessariamente. Os trovadores eram hereges na
sua maior parte, os cátaros eram trovadores e quase todas as damas da Occitânia passavam à heresia quando
os primeiros sinais da idade começavam a aflorar-lhes o rosto. Não, não era isso que mantinha a viscondessa
afastada do movimento mundano da sua corte de Puivert.
Adelaide teve muitas amarguras na vida25. Para mais, com as represálias sangrentas contra os burgueses de
Béziers, o seu esposo Trencavel endossou-lhe uma pesada dívida pela qual tinha agora de responder perante
Deus. Os Trencavel eram gente empreendedora e cavalheiresca, mas impulsiva, e ela receava novas loucuras
do seu filho único, Raymond-Roger. Dirigia a sua educação com a ajuda do herege Bertran de Saissac, que seu
marido, Roger Taillefer, designara no testamento tutor do herdeiro dos Trencavel. O seu filho não iria ser um
cavaleiro mundano, nem mesmo cavaleiro da Minne, mas cavaleiro da suprema Minne. Havia de ser digno da
Távola Redonda que em Montségur, o castelo pirenaico erguido na rocha escarpada e inacessível, guardava a
doutrina pura do Paracleto consolador.

Na verdade, o teu nome é Parzival,


Que significa partido pela metade.
O grande amor cavou sulcos profundos,
Por lealdade, no coração de tua mãe.
Teu pai só lhe deixou dor.
Wolfram von Eschenbach

Parzival iria ser digno da cavalaria do Graal!


Segunda parte

O Graal

O império do amor está aberto


A Fábula desenrola o seu fio.
Novalis

Dois homens cavalgam à cabeça do exército:


Arnaud, o abade, enviado pelo papa,
E Simon, o conde, eleito pela cavalaria
Chefe da Cruzada.
Golpe terrível! Um, frio e avisado,
O outro, vivo como um turbilhão de chamas.
Assim cavalgavam Arnaud e Simon
Unidos em pensamento e acção.
Por onde passaram as suas montadas,
E a horda impetuosa dos cavaleiros,
Os prados do Languedoc murcharam
E, com eles, para sempre secaram
Todas as sementes de alegria.
Lenau, Les Albigeois

Esse símbolo do Graal, cálice sagrado na tradição cristo-céltica, parece saído de observações muito simples
e naturais que, pela sua própria simplicidade, não chamou, talvez, demasiada atenção. Não podemos esqueçer
que os primitivos povos arianos eram pastores que viviam ao ritmo das estações e se ligavam às belezas da
Natureza. A flor de lótus ainda hoje simboliza a espiritualidade indiana.
O Lótus mergulha as raízes na Terra, o seu caule eleva-se no elemento líquido, abre-se sobre as Águas que
tingem de esmeralda as suas folhas (porque o Espírito de Deus paira sobre as Águas, quer seja no Genesis ou
nos Vedas), mas também no Ar, a corola em forma de copa se oferece ao Sol, imagem visível de Agni, o Fogo
divino purificador, como o Paracleto. É o símbolo do Espírito Iluminado, chegado à união suprema com o
Absoluto. É o Graal, flor por excelência, cuja inefável beleza irradia através dos quatro elementos. Buda, o
libertado vivo, reside no seu coração como numa barca, é a Luz do Mundo (no Lótus Supremo, é o Supremo
Shiva e a Suprema Shakti, Mãe dos três Mundos, a Sophia eterna). É a sede da Beatitude26. Como terá essa
flor maravilhosa servido de modelo aos que talharam a copa com que o sacerdote oferecia o Soma, a erva da
embriaguês, o alimento reverenciado como um Deus?27
Depois de uma longa viagem pelo espaço, pelo tempo e pela imaginação dos homens, como foi essa taça
degradada à forma de caldeirão onde se preparam beberagens mágicas até ser transmutada pelo cristianismo
num receptáculo de alimento celeste que uma virgem sustenta nas mãos? Só o processo das longas migrações
humanas e das longas marchas da consciência poderão dar conta desse mistério, se algum dia o pudermos
compreender.
1.
O Thabor dos Pirinéus
Sobre seda verde-esmeralda
Do Paraíso trazia a promessa
Era raíz e rebento
Era o objecto chamado Graal
Do mundo, supremo Ideal.
Wolfram von Eschenbach

Sobre o reino da Minne occitana, o invisível Amor-Eros estendia uma mão protectora. Não se tratava já do
menino alado das representações antigas, mas do adulto, do homem. O trovador Peire Vidal dizia tê-lo visto
um dia em carne e osso quando se dirigia de Castelnaudary a Muret à corte de Raymond V de Toulouse:
“Foi na primavera, quando brotam flores nos prados, quando as plantas ganham botões e as aves trinam
de alegria. Nisto, vejo vir na minha direcção um cavaleiro esbelto e forte... O cabelo louro caía-lhe sobre o
rosto trigueiro, os olhos resplandeciam. A boca sorridente deixava ver uns dentes de nácar. Num pé, levava
uma bota adornada de safiras e esmeraldas, o outro pé ia nu. O cavaleiro trazia uma capa bordada de violetas
e rosas e uma coroa de calêndulas na cabeça. De um lado, o cavalo era negro como a noite, do outro, branco
como o marfim. O peitoral era de jaspe, os estribos de ágata. No arnês brilhavam dois diamantes tão belos e
preciosos como nem o rei Dario teve algum dia. Na brida, faiscava um carbúnculo brilhante como o sol... Ao
lado do cavaleiro ia uma dama mil vezes mais bela que ele. A sua pela era branca como a neve, as faces
rosadas da cor de pétalas de rosa, o cabelo cintilava como ouro. Atrás da dama vinham um paladino e uma
donzela. O paladino levava um arco de marfim e três flechas à cintura, uma de ouro, uma de aço e outra de
chumbo. Da donzela, só vi uma coisa: os seus cabelos caíam sobre a sela, sobre a gualdrapa e sobre a cabeça
do cavalo. O cavaleiro e a dama cantavam uma canção nova, que as aves logo repetiam.
— Paremos na fonte de um prado rodeado de bosques, disse a dama, não gosto de castelos... —
— Gentil senhora, respondi-lhe, há ali um lugar aprazível debaixo de um loureiro e uma fonte cristalina
que brota das pedras.
— Peire Vidal, disse-me o cavaleiro, sabei que sou Amor, que esta dama se chama Graça e que a donzela e
o paladino se chamam Pudor e Lealdade”.

Wolfram von Eschenbach precede Parzival de um longo preâmbulo sobre lealdade e deslealdade. Quis
provar que a dúvida sobre Deus ameaça a saúde da alma, mas que o espírito cavaleiresco, “honra do homem
valoroso” pode trazer a salvação. O que se deixa dominar pela deslealdade e por ideias inconstantes está
votado ao Inferno:

Quando a dúvida se insinua no coração


Haverá de nascer amargura na alma.
Vemos unidos, como as cores branca e negra da pega,
A Honra e a Vergonha,
E a glória do guerreiro intrépido
A par de sentimentos desviados.
Um homem assim pode estar contente,
O céu e o inferno estão abertos para ele
Quando deixar este mundo.
O que se associa à Deslealdade
Está manchado de negro
E acaba nas negras cores das trevas.
Mas atinge a claridade da cor branca,
O que é fiel a Deus e aos homens.
Às damas também fixo aqui uma meta:
Suplico a Deus que as mulheres honradas
Sigam sempre a justa medida.
O pudor é a coroa de todas as virtudes
E não peço para elas maior felicidade.
Se quisesse descrever-vos aqui, como podia fazê-lo,
O homem e a mulher,
O tempo havia de parecer-vos longo.

Wolfram von Eschenbach não necessitava de explicar aos Minnesänger do seu século a missão que o
homem e a mulher deviam cumprir no mundo da Minne. Sabe-se que o mundo alemão da Minne acompanhou
o da Occitânia. Nunca reconheceu o dogma mosaico do Genesis segundo o qual Yahvé criou primeiro o Adão
andrógino para depois fazer dele o pai e a mãe de Eva. Segundo o mito occitano, Adão e Eva eram dois anjos
caídos, precipitados de estrela em estrela no exílio terrestre. Igual em direitos a Adão no céu, Eva goza-os
também na terra. Não é a fêmea de Adão, mas a sua domina, visto que os occitanos, aliás como os seus
antepassados iberos e celtas, viam na mulher um ser profético e divino. A Eva judaica está tão subordinada ao
homem, que primeiro leva o nome do pai e depois o nome do marido, sem ser digna de um nome próprio.
No Languedoc, principalmente nos Pirinéus, onde a tradição ibera e celta manteve o máximo de pureza, as
velhas famílias locais tinham o nome de antepassados seus. Dizia-se: filhos de Belissena, de Impéria, de
Olivéria. Os seus atributos não eram a roca de fiar ou o berço, mas a pluma e o ceptro.
Os trovadores eram poetas. Todos os poetas sofrem de implacável nostalgia. Se não encontram satisfação
na Minne, conhecem o caminho que os leva à Távola Redonda da nostalgia, onde está o Consolador, que Cristo
anunciou por S. João Evangelista...
Os trovadores eram poetas num país onde o sol era mais luminoso que o nosso, onde os astros estavam
mais próximos da terra e onde era fácil orar. Esses poetas que oravam não tinham o espírito tresmalhado,
eram puros, cátaros, e, como iremos ver mais adiante, souberam transpor as leys d’amors para o mundo do
espírito. Em lugar do favor das damas, procuravam a redenção em Deus, na Minne, procuravam o Consolador
e, no Consolament da sua dama, o Espírito Santo, que é Deus.
Orar e versejar era o mesmo. Na Occitânia, os dons da poesia e da profecia, a que hoje chamamos intuição
e inspiração, eram idênticos. A oração dos cátaros, trovadores orantes, era uma estrofe do hino à luminosa
Divindade que em cada dia percebiam no retinir da sinfonia de cores e sons que é a sua pátria. De facto, não
eram poetas? A exemplo de todos os poetas, sentiam-se estrangeiros na terra, aspiravam a um Além melhor,
onde, segundo a sua mitologia, o homem era um anjo e onde se situava a sua verdadeira pátria: a Casa dos
Cantares, como se chamava nos primeiros tempos da história dos babilónios ao reino luminoso de Ahura-
Mazda. Os cátaros estavam tão seguros de um Além melhor, que recusavam esta vida na sua totalidade.
Consideravam-na um período de preparação para a vida real que sabiam existir além das estrelas.
Poetas e sacerdotes, amaram sempre as montanhas, os cumes lançados para o céu e as grutas perdidas na
noite eterna da terra. Na montanha está-se mais perto de Deus, o canto e a oração afloram instintivamente.
Todos os grandes mitos falam da divinização do Herói numa montanha. Foi no monte Oeta que Hércules se
tornou Olímpico, foi no Thabor que Cristo se transfigurou. Os trovadores sabiam-no. No seu tempo, ainda
não tinha sido abatida a ponte que ligava o Ocidente ao Oriente sobre o Mediterrâneo e cujo primeiro arco se
estendia dos cumes gigantescos da Ásia ao sagrado Parnaso dos gregos, unidos pelo segundo arco aos
Pirinéus, onde a Hélade situava o Jardim das Hespérides, a terra luminosa das almas.
A humanidade veio do Oriente. Também do Oriente vieram os grandes mitos, o último dos quais foi a Boa
Nova. Do Oriente vem o sol...
Quando o sol abandona os homens atrás do cimbre de núvens douradas, em muitos de nós desperta o
desejo nostálgico de nos lançarmos em sua perseguição. Mas... para onde? O homem, diz-se, é um deus caído
que sente a nostalgia do céu. Talvez que a nostalgia do poeta não seja senão a saudade do Paraíso perdido,
onde o homem era feito à imagem da Divindade e não a sua caricatura!
Quando o sol da Provença e do Languedoc nos abandona, a abóbada de núvens douradas encurva-se e os
Pirinéus elevam-se no azul orgulhosos e nobres. Quando o plaino provençal mergulha na noite, continuam a
ser abençoados e transfigurados durante muito tempo pelos raios do sol que desaparece. Os provençais ainda
hoje chamam monte da Transfiguração, Thabor, ao pico de Saint-Barthélémy, uma das mais belas montanhas
dos Pirinéus.
O Thabor pirenaico situa-se entre Olmès, o vale de Ormes, e Sabarthès, o vale de Sabart, onde a mãe de
Deus, dizem, prometeu a Carlos Magno a vitória sobre os sarracenos.
Um caminho solitário e pedregoso conduz do idílico Olmès às gargantas e cavernas do Sabhartès: é a Rota
dos Cátaros, a rota dos Puros.
No meio da solidão desértica do Thabor ergue-se um rochedo selvagem que escapa a toda a descrição, tão
alto que quase chega à ogiva de núvens de ouro. As suas paredes elevam-se a pique até às muralhas de um
burgo chamado Montségur. Um dia que subia pela rota dos cátaros ao cimo do Thabor, encontrei um velho
pastor que me contou uma lenda:
“No tempo em que as muralhas de Montségur ainda estavam de pé, os cátaros, os Puros, guardavam lá o
Santo Graal. Montségur estava em perigo, os exércitos de Lucifer cercavam-lhe os muros. Queriam apoderar-
se do Graal para o reincrustarem no diadema do seu príncipe, de onde caíu à terra depois da queda dos anjos.
Então, no momento mais crítico, desceu do céu uma pomba branca que abriu com o bico uma fenda no
Thabor. Esclarmonde, a guardiã do Graal, colocou a jóia sagrada dentro da montanha. A montanha voltou a
fechar-se e assim se salvou o Graal. Quando os demónios irromperam no castelo, era demasiado tarde.
Furiosos, enviaram os Puros para a fogueira, não longe do rochedo do castelo, no Camp dels Cremats, o campo
da pira...”

Uma multidão de almas deixou-o na terra


E de novo voou para as Estrelas
Às mansões puras que os chamavam.
Wolfram von Eschenbach

A rota dos Puros parte de Olmès, bordeja Montségur, franqueia o cume do Thabor e chega às cavernas do
Sabarthès. Era lá que viviam os cátaros. Longe do mundo e voltados para si mesmos, meditavam sobre a
suprema Minne.

Sim, recebestes a Graça


De realizar o verdadeiro Amor
Por isso, hoje e em cada dia,
Exigi a Adoração mais perfeita.
Wolfram von Eschenbach

Os cátaros só deixavam o ermitério no mais profundo das montanhas para levar aos moribundos a “última
consolação” ou para contarem mitos antigos a nobres damas e cavaleiros na grande sala de um castelo. Com
longas vestes negras e tiara persa na cabeça, pareciam brâmanes ou sacerdotes de Zoroastro. Ao terminarem,
tiravam do estojo de couro que traziam ao peito o Evangelho segundo S. João e liam em voz alta:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus. Deus é espírito e os que o
adoram devem adorá-lo em espírito. É bom que eu morra, pois, se não morro, o Consolador não irá até vós.
Quando vier o Consolador que vou enviar-vos...”
“Diaus vos benesiga. Deus vos abençoe!”
Os cátaros voltavam às suas cavernas, à Catedral, às Gleysos (igrejas)28, à Gruta do Eremita, à gruta de
Fontanet...
Por Fontaine la Salväsche se vai
A essa cela na rocha perdida
Que Trevrizent escolheu para morada
É ali que vai Parzival
Ser iniciado no Graal
A uma gruta o conduz o Mestre.
Wolfram von Eschenbach

As grutas do Sabarthès são tão numerosas, que têm espaço para albergar uma cidade inteira. Ao lado das
grandes cavernas que penetram léguas e léguas na montanha29, há inúmeros nichos e galerias formados por
rochas salientes. Nas paredes dessas galerias e nichos ainda se vêm nitidamente os pontos onde as traves do
arcaboiço encastravam na rocha e ermitérios perfeitamente adaptados. É verdade que o fogo e os séculos só
deixaram muralhas enegrecidas pelo incêndio e restos carbonizados, mas, em certos lugares onde não houve
tanta devastação, podem ver-se desenhos e inscrições:
Uma árvore, a Árvore do Mundo ou Árvore da Vida que se dizia existir no centro do paraíso e que os
helenos já conheciam. As Hespérides velavam pelas suas maçãs de ouro.
Uma barca, cuja vela é o sol.
Um peixe, símbolo da Divindade luminosa.
Uma pomba, emblema do Deus-Espírito.
Monogramas de Cristo em letras gregas ou romanas.
A palavra Gethsemani.
A assinatura G. T. S. artisticamente entrelaçada, talvez para resumir a palavra Gethsemani, o jardim
onde Cristo foi vendido.
Fragmentos de frases onde só se conseguem ler as palavras Santa Gleysa.
Dois desses ermitérios mantiveram o nome: “gruta de Jesus Cristo” e “gruta do Homem Morto”. Diante
da primeira, há vestígios de um jardim e de um pequeno pátio, onde é provável que meditasse o eremita que
aí vivia:

Desgraçado mundo, que fazes?


Dás aflição e sofrimento
Trazes tormentos e angústia,
Muito mais que alegrias.
Wolfram von Eschenbach

Os cátaros sentiam que a terra não era a sua pátria. Comparavam-na a uma prisão construída por um mau
arquitecto com materiais de baixa qualidade. Sabiam que a pátria verdadeira ficava para lá das estrelas. Esse
“Lá em cima”, diziam, foi construído pelo Espírito que é Amor, que não é ódio nem guerra, mas Vida, não
doença ou morte... mas Deus! No começo, era o Espírito e nele estava o Verbo e eles eram Deus.
Assim como dentro de nós há dois mundos que se combatem, o espírito vivo e a carne fraca, do mesmo
modo há no universo dois princípios em acção: o Sim e o Não, o Bem e o Mal. O Bem é Deus, o Mal é
Satanás, o eterno espírito da negação30.
O Verbo é o criador do mundo, desse mundo que se prolonga além do arco de núvens de ouro, para lá
das estrelas. O mundo daqui é obra de Satanás. O Verbo é criador, Satanás é um epígono, um modelador
inepto.
Nós, humanos, anjos caídos, correspondemos a esses dois princípios, dos quais somos a emanação. Do
ponto de vista espiritual, o homem, isto é, a alma, é obra do Verbo divino. No seu aspecto material, é obra de
Satanás. A nossa alma é divina, eterna, o nosso corpo nada tem de divino e é perecível. A alma, criação de
Deus, que é espírito, exilada na terra por se ter revoltado contra o espírito, deve ficar na terra até reconhecer a
vaidade da vida terrena e pedir para se unir de novo ao espírito. Já nesta terra podemos começar a tornar-nos
divinos, a regressar ao espírito. Depois, as almas terão de ir de estrela em estrela e desmaterializarem-se até ao
momento em que se abre a porta da sua verdadeira pátria.

As estrelas não são


A morada do Espírito iluminado.
Como aqui impera o Vício,
Ali reina a Virtude.
Haller31

Kant diz na sua História Natural do Céu: “Quem tem a ousadia de responder à questão de saber se o pecado
também impôs o seu domínio nas outras esferas do universo ou se é a virtude que lá predomina? Para se ter o
desgraçado poder de pecar, não é necessário um estado intermédio entre a sabedoria e a insensatez? Quem
sabe se os habitantes daqueles planetas são demasiado sublimes e sábios para descerem à alienação que há no
fundo do pecado, ou então, demasiado presos à matéria e de aptidões intelectuais tão fracas, que não podem
ser responsabilizados num tribunal de justiça pelos actos que cometem?”
Para os cátaros, a terra é o inferno. Viver no meio do pecado e da mentira parece-lhes uma punição mais
cruel que ser atormentado, picado e torturado por diabos de rabo e de cornos num lago de gelo ou num
forno. “A terra é o Inferno”, diziam...
A morte não era para eles senão o abandono de roupas sujas de que tinham de desembaraçar-se, como a
borboleta despe a crisálida para se perder na primavera palpitante. Psyché (borboleta) era o nome que os
gregos davam à alma.
Que sucede às almas que “não se esforçaram”, que, sumidas na matéria, se sentem como em casa? Como
pai, Deus não fica surdo às orações dos filhos. Na medida em que o entenda, essas almas poderão continuar
na terra a emigrar de um corpo para outro até ao momento em que também aspirem às estrelas.
* * *

Lombrives é a maior caverna do Sabarthès. Desde tempos imemoriais, numa época em que a noite só
tenuamente começava a ser iluminada pela ciência histórica, servia de templo ao deus ibero Ilhomber, deus do
sol. Os pastores e aldeões da aldeia de Ornolac, não longe dali, ainda lhe chamam “a Catedral”.
A aldeia insinua-se no vale lateral, através do qual a rota dos cátaros serpenteia até ao cimo do Thabor. Em
Ornolac há uma pequena e encantadora igreja românica, na frente da qual uma mãe de Deus esculpida por
mãos artesanais com o menino Jesus nos braços e uma espiga de trigo na mão vigia os campos e as vinhas.
Entre dois menires, um dos quais foi derrubado, o abrupto caminho chega ao gigantesco vestíbulo da
catedral de Lombrives. Eis a entrada de um reino de feérie subterrânea onde a história e a fábula se puseram
ao abrigo de um mundo tornado tão prosaico. Por entre estalactites de calcáreo branco, paredes de mármore
castanho escuro e cristal brilhante de rocha, a vereda conduz às profundezas da montanha.
Uma sala de oitenta metros de altura servia de catedral aos hereges. A terra, esse fiasco de Satanás, teve de
lhes entregar a sua mais bela morada para poderem pressentir a beleza que o verdadeiro artista criou além das
estrelas. Para não esquecerem o sol, o disco prateado da lua e as estrelas, as únicas “revelações” de Deus, que
é Luz e Amor, uma mão herética pintou-as na parede de mármore. Da abóbada que se perde na noite eterna,
a água goteja continuamente no solo, sem interrupção. E continua a formar bancos de igreja com estalagmites
para os que quiserem parar neste mundo de maravilhas.
Quando se desencadeia a tempestade no vale de Ariège, toda a montanha ressoa com o estrépito atroador
das cataratas que tentam abrir caminho através do calcáreo poroso. Se o deus da tempestade e da morte abate
sobre o mundo o seu martelo de relâmpagos, os alicerces da montanha estremecem.
Uma escada de pedra conduz à segunda metade da caverna de Lombrives, exactamente ao ponto em que o
pé humano, depois de caminhar várias horas, estaca arrepiado diante de um abismo hiante de centenas de
metros de profundidade. Há aí um gigantesco bloco de rocha no qual a água que cai gota a gota esculpiu uma
magnífica estalagmite em forma de clava e que os naturais de Ornolac chamam “o túmulo de Hércules”.
2.
Hércules e o Tosão de Ouro
Eraclius ou Ercules,
Depois, o grego Alexandre,
Que ambos conhecem as pedras...
Wolfram von Eschenbach

Silius Italicus, poeta e historiador romano do século I a.C., transmitiu-nos em hexâmetros solidamente
construídos a lenda segundo a qual o gigantesco bloco rochoso adornado com uma clava de estalagmite que
se vê na caverna de Lombrives é a pedra sepulcral de Hércules.
Depois de roubar os bois de Gerion na ilha de Eritreia, foi hóspede dos bebrices na “selvagem morada”
de Bebryx. Seduziu a sua filha, Pirene, e partiu. Receosa da cólera paterna e desejando ardentemente rever o
bem-amado, Pirene lançou-se no mundo. Os animais ferozes caíram sobre a desventurada. Em grandes
gritos, chamou Hércules em seu auxílio. Hércules acorreu, mas era demasiado tarde e encontrou-a já morta.
As montanhas estremeceram com os seus soluços, todas as rochas e cavernas repetiam como um eco o nome
de Pirene que chamava no meio de dolorosos queixumes. Sepultou a bem-amada. O nome de Pirene jamais
perecerá: as montanhas conservam-no e hão-de guardá-lo para sempre.
Na margem do misterioso lago da caverna de Lombrives, há três grupos soberbos de estalagmites: são o
trono do rei Bebryx, o seu túmulo e o túmulo de Pirene. A água corre permanentemente sobre o túmulo de
Pirene, como se a montanha chorasse lágrimas eternas pela infortunada princesa. Da parede e da abóbada
pendem os seus vestidos preferidos, os que usava em vida.
Tal é a lenda de Heracles, de Bebryx e de Pirene.
Alguns autores latinos (entre os quais Plínio) referem que os primeiros habitantes da Espanha eram persas
e iberos e que os iberos da Espanha descendiam dos iberos do Cáucaso. O historiador grego Dion Cassius diz
que os habitantes dos Pirinéus orientais eram bebrices, e o gramático grego Stephanos de Bizâncio distingue
dois povos bebrices, um fixado na orla do Mar Negro e o outro nos Pirinéus, não longe do mar de Bebrice,
nome primitivo do golfo de Lyon, segundo o escritor bizantino Zonaras. Dausqueis, comentador de Silius
Italicus, sustenta que a palavra Bebryx é adjectivo, que o rei dos bebrices se chamava Amykos e que seria ele
que desafiava e matava os estrangeiros que iam ao seu país até que Polux, o Argonauta, o matou. A mesma
opinião é sustentada pelo historiador romano Festus Avienus.
Reunamos estes dados e completemo-los. No século III, os iberos, fenícios, persas, medos, gétulos — os
actuais berberes da África setentrional — emigrados do Cáucaso para o Ocidente, descobriram na península
“ibérica” uma nova pátria. Os bebrices eram um desses povos. Habitavam a região do pico de Montcalm e do
pico de Saint-Barthélémy, zona dos Pirinéus que pertenceu durante o domínio romano à Gália Narbonensis.
Graças a Estrabão, geógrafo grego, sabemos que no país dos iberos da Espanha e dos iberos da Ásia havia
minas de ouro. Os fenícios exploraram as minas de ouro dos bebrices até 1.200 a.C. e os fócios até 600 a.C.
No início do século III a.C., durante a chamada migração semita, os fenícios estabeleceram-se na Síria. De
Tiro, a capital, faziam comércio com os habitantes do litoral espanhol, ou chegaram lá com os iberos por via
terrestre? Ignora-se, mas há razões para crer que traficaram por mar desde a Ásia Menor até essas regiões do
Mediterrâneo e que transportaram em navios para a Síria as riquezas naturais dos Pirinéus.
Sabemos por Heródoto que havia em Tiro um templo de Melkart (o rei da cidade) e que Melkart era o
Hércules fenício, deus protector da navegação e das colónias ocidentais nos limites do mundo. O Antigo
Testamento chama Baal (Senhor) ao deus da cidade de Tiro.
Baal era o nome primitivo do deus que se imaginava habitar certo lugar e sobre o qual exercia a sua acção.
Ao contrário de outros deuses, um dos seus atributos era um significado local. Havia ainda um Baal-Libanon
(Líbano), um Baal-Chermon, etc. Pouco a pouco, o Baal-Melkart da cidade torna-se o Deus-Senhor da
Fenícia e do país de Canaan, o todo-poderoso, o princípio masculino, gerador, incarnado no disco do sol. O
seu complemento (a esposa, diz a mitologia) é Astarté, princípio feminino, receptivo, materializado na lua e
cujo atributo é parir.
Melkart, pois, na origem, era o deus local da cidade de Tiro, o Hércules fenício. Uma inscrição descoberta
em Malta dá-lhe o título de “guia mais antigo”. Sabe-se que o culto dos antepassados e a mitologia têm quase
sempre o mesmo ponto de partida. Assim, somos levados a crer que foi um príncipe fenício que serviu de
modelo a Melkart. Hércules-Melkart levou o seu povo do Cáucaso para Tiro ou continuou para Ocidente? É
impossível saber, o que aliás tem pouca importância. O facto a considerar é que os iberos conheciam também
um Hércules-Melkart que era o seu “guia mais antigo” ou o deus-herói de quem receberam a tradição através
dos colonos tírios.
A caverna de Lombrives, onde, segundo a lenda, está o túmulo de Hércules, era na noite dos tempos um
lugar consagrado a Ilhomber, o Hércules ibero. Deus local dos iberos, ou, mais exactamente, dos bebrices,
também chamado Bel (Baal), tornou-se Abellio (Apolo) por influência dos colonos gregos.
A Fócida era uma colónia grega do litoral jónico da Ásia Menor. Os seus habitantes iniciaram relações
comerciais na Ibéria com fócios, gregos do interior, focenses da Fócida e cidadãos de Argos. Segundo parece,
por volta de 600 a.C. conseguiram impor-se à preponderância colonial dos fenícios e assumiram a exploração
das minas dos Pirinéus. Quando, em 546, a Fócida sofreu a opressão do tirano persa Harpagos, os fócios
abandonaram a sua terra, a Ásia Menor, e fugiram em navios para as colónias do oeste, principalmente para
Massilia (Marselha), Portus Veneris (Port-Vendres), Kerberos (Cervera, na fronteira espanhola) e para o
actual Mónaco, onde havia um templo consagrado a Herakles Monoikos.
Sabe-se que Hércules foi um dos Argonautas. A lenda dos Argonautas é a mais antiga gesta grega de
viagens. Não só é a mais antiga em data de todas as que chegaram até nós que amalgama a colonização
primitiva dos gregos e o culto helénico dos antepassados — Homero supõe-na universalmente conhecida —
como fornece informações preciosas sobre as concepções geográficas da Grécia arcaica.
Quinze chefes partiram de Argos a bordo da nau Argos de cinquenta remadores e fizeram-se ao mar em
busca do Tosão de Ouro. Hércules, Orfeu, Castor, Polux e Jasão são os mais célebres. Depois de muitos
“enganos” e aventuras (uma das quais foi o combate com o rei dos bebrices, Amykos), chegaram finalmente à
Cólquida e aí, com a ajuda de Medeia, vidente e mágica, tiraram o Velo de Ouro do ramo do carvalho sagrado
de onde pendia (como as leys d’amors dos trovadores).
Assim, além dos bebrices da Ásia Menor, os autores antigos conheciam os dos Pirinéus e estabeleceram
uma relação entre estes últimos e a expedição dos Argonautas. Que significado tinha a conquista do Tosão de
Ouro, objectivo da empresa?
Recuemos uns séculos e vamos à Idade Média, época em que as civilizações primitivas do Mediterrâneo já
tinham desaparecido e cujo centro de gravidade, sobretudo intelectual, emigrara para o Norte. Quando os
inúmeros alquimistas vertiam misteriosos ingredientes nas retortas e tentavam através de conjurações místicas
concluir a Grande Obra, que buscavam? A Pedra Filosofal, ou, como também lhe chamavam, o Tosão de
Ouro! Que buscava no Graal o herói Parzival de Wolfram von Eschenbach? Uma pedra32, o Lapsit Exillis
(Lapis ex Cœlis), o “Desejo do Paraíso”!
Para uns, as alegrias paradisíacas consistem na possessão de tudo o que o mundo dá de belo e precioso.
Para outros, o paraíso está além das estrelas. Uns alquimistas procuravam a pedra filosofal para transmutarem
em ouro metais de pouco valor33, outros, pelo contrário, os autênticos e grandes alquimistas, elevavam as suas
fórmulas secretas ao plano espiritual. Os metais inferiores representavam para eles as paixões humanas, cuja
superação era o objectivo. Era Deus, não o ouro, que esperavam encontrar.
Na lenda dos Argonautas de Nonnos34, os navegadores viram uma “copa” planar acima da “Montanha do
Mundo com a Árvore das Luzes”.
Os Argonautas encontraram o Tosão de Ouro. A sua posse elevou-os às estrelas como semi-deuses. Entre
Lira e Coroa, Hércules preparou-se para ser definitivamente um deus. Castor e Polux esperam que Cocheiro
os leve às supremas alturas celestes. E Argo, a nau que levou além do mar a preciosa relíquia, foi transportada
como por encanto à Via Láctea, ao hemisfério boreal do céu, onde, com a Cruz, o Triângulo e o Altar, afirma
de modo irrefutável a natureza luminosa do Deus eterno. O Triângulo simboliza a Trindade divina, a Cruz, o
divino sacrifício de amor. A mesa da Ceia sobre a qual foi depositado o cálice da Ressurreição na Sexta-feira
santa, é o Altar. “Na verdade vos digo: o de vós que não renascer, não verá o Reino de Deus”35.
Houve “alquimistas” a procurar ouro, “o grande rei”, outros alquimistas procuraram Deus. Astrólogos
perguntavam às estrelas a ciência do amanhã, e foram três astrólogos que a Estrela conduziu a Belém, à gruta
onde o Verbo divino se fez homem. Um astrólogo pagão também terá lido nas estrelas o segredo do Santo
Graal:

Flegetanis, o pagão, viu


O que só a tremer confiou,
No curso dos astros e na sua luz
Esse profundo segredo que revelou:
Há uma coisa chamada Graal
Assim falou, quando descobriu esse nome
Claramente escrito nas estrelas.
Wolfram von Eschenbach

A abóbada celeste gira do levante até ao poente. De levante a poente movem-se de noite a lua e as estrelas
e move-se o sol, o astro de Helios-Apolo.
Apolo era o deus da luz solar pura que na primavera liberta a terra das garras do inverno, razão porque é
chamado o Salvador (Soter) que purifica o pecador morto e o leva à redenção, ao país luminoso das almas. É o
deus da expiação, que traz auxílio e bênção. Num carro puxado por cisnes, chega à terra dos hiperbóreos. Os
cisnes, as núvens, cantam como a chuva que cai. O murmúrio da chuva é o canto da Natureza. Apolo era o
arconte das Musas, os seus atributos são a lira e o loureiro, com cujos ramos se entrançam as coroas dos
poetas.
Quando os raios de sol aquecem a terra, a humidade evapora-se para o céu. Desde sempre, os vapores e
nevoeiros foram portadores de oráculos, já que a sua subida e descida pressagiam o tempo que vai fazer. Por
isso, Apolo é também o deus do dom profético, da adivinhação. Fazer versos e profetizar é a mesma coisa.
Era a ele que Alkaios de Mitilene, contemporâneo de Safo, cantava: “Quando Apolo veio ao mundo, Zeus
deu-lhe uma mitra de ouro e uma lira, um carro puxado por cisnes e enviou-o a Delfos e à fonte de Castália
levar a justiça aos gregos. Mas Apolo dirigiu o carro ao país dos hiperbóreos. Quando os habitantes de Delfos
souberam, escreveram uma pean, puseram coros de crianças em redor do tripé e suplicaram ao deus que
regressasse”.
Os hiperbóreos eram o povo eleito de Apolo. Viviam felizes, em paz, eram piedosos e tinham costumes
puros. Habitavam os bosques do seu país temperado, ensolarado e fértil, alimentavam-se de frutos, não
matavam animais, não conheciam a guerra nem as disputas. Quando se sentiam cansados da vida, procuravam
a libertação nas vagas incansáveis do mar36. Apolo era o seu deus supremo. Num cálice de ouro “semelhante a
uma estrela, cujo resplendor chega ao céu, o Radiante vem até eles”. Apolo amou os hiperbóreos desde o dia
em que as ondas do mar levaram à sua costa hospitaleira a arca onde sua mãe, Semele, o deitou. Volta ano
após ano, “transportado de onda em onda pela barca maravilhosamente entalhada que Hefaistos construiu
em ouro precioso que o leva adormecido à superfície das águas...”
Na Cista Mystica, vaso onde se guardavam os objectos do culto de Apolo (descoberto há duzentos anos na
Palestina, nas montanhas de Sabina), está gravada uma cena do combate entre os Argonautas e o rei dos
bebrices, Amykos. Uma vez mais, o laço que liga os Argonautas, Apolo, o Tosão de Ouro, o bebrice Amykos
e a taça sacramental.
3.
A taça de Gwion37
Pitágoras
Que lia signos nos céus
E que incontestavelmente possuía
Uma ciência tal que, depois de Adão,
Nenhum homem o igualou em sabedoria,
Poderia dizer-vos a riqueza das pedras
Wolfram von Eschenbach

Os habitantes de Crotone, cidade fundada pelos aqueus na costa oriental da Itália onde Pitágoras viveu e
ensinou, acreditavam que o sábio era Apolo em pessoa, vindo do país dos hiperbóreos para anunciar aos
homens uma nova doutrina de salvação. Diz-se que morreu martirizado. Outros viam nele o filho de Apolo e
da virgem Pythais, cujo esposo, o artesão Mnesarco, era pai putativo de Pitágoras.
Pitágoras ensinava que a alma é imortal, que foi desterrada no interior do corpo e que é forçada a emigrar
de corpo em corpo, inclusivamente de animais, antes de se tornar divina para sempre. Cícero diz saber de
fonte segura que Pitágoras conhecia a teoria da imortalidade e da migração das almas através dos druídas, os
filósofos da Gália.
O druidismo, que não é uma religião propriamente dita, mas uma doutrina filosófica, abarcava teologia,
astronomia, ciências naturais, medicina e direito. Aquilo a que César chamava “a disciplina” dos druídas, era a
síntese dogmática desses distintos ramos da ciência, síntese cujas afinidades com a filosofia pitagórica e com
as sábias teogonias hindus e babilónicas são surpreendentes.
Os druídas ensinavam que a terra e tudo o que esta encobre e contém foi criado por Dispater, deus da
morte. Segundo eles, a alma é de essência divina, imortal, mas obrigada a migrar de corpo em corpo até se
purificar da matéria e poder entrar noutro mundo, o do espírito. O seu deus supremo era Belenus ou Belis,
como lhe chama o historiador grego Herodiano. Belenus é Apolo-Abellio, deus da Luz38. Dispater é o nome
latino do deus dos infernos, Plutão, soberano das almas pálidas, dos mortos e dos tesouros subterrâneos.
Para os druídas, as riquezas terrestres eram simples bagatelas. Foi por ordem sua que o ouro de Toulouse e
o tesouro do templo de Delfos foi precipitado num lago dos Pirinéus.
A rota dos Puros vai de Montségur ao Thabor e, daqui, às grutas de Ornolac. Entre Montségur e o cimo
do Thabor, há um lago de montanha de águas sombrias no meio de falésias abruptas. Lac des Truites (lago das
Trutas) ou estang Mal (lago dos pecados), tal é o seu nome entre os habitantes da aldeia de Montségur, cujas
casas se agarram como ninhos de abelhas à falésia que domina a garganta do Lasset.
“Principalmente, não atireis pedras para lá, pois é aí que nasce o trovão! Se atirais uma pedra, desencadeia-
se a tempestade e o raio fulmina-vos. O Maligno habita nesse lago. Por isso, não tem peixes...”
“Então, porque se chama lago das Trutas?”, perguntei aos meus amigos.
“De facto, devíamos chamar-lhe lago dos Druídas (lac des Druides) 39. Os druídas atiraram para lá ouro, prata
e pedras preciosas numa época em que Nosso Senhor ainda não tinha nascido. As pessoas morriam em massa
de uma doença inexplicável. Um homem saudável pela manhã, podia estar morto à tarde. Nunca semelhante
doença tinha grassado nas nossas montanhas. Então, os druídas, que sabiam tudo, aconselharam as pessoas
angustiadas a lançarem ao lago o ouro e a prata que possuíssem como tributo às divindades subterrâneas,
donas da vida e da morte. Transportaram todas as riquezas em carros de rodas de pedra e atiraram-nas às
águas insondáveis do lago. Depois, os druídas traçaram um círculo mágico à volta do estang. Todos os peixes
que lá viviam morreram, e o lago, antes de cor verde, é agora negro. A partir desse momento, as pessoas
curaram-se daquela doença terrível. O ouro e a prata pertencem ao que for capaz de romper o círculo mágico,
mas, mal toque no tesouro, morrerá da mesma doença que fulminava as pessoas antes de o atirarem ao fundo
do lago”.

* * *

Ptolomeu de Alexandria refere que os bebrices dos Pirinéus se contavam entre os volques tectosagos40.
Recuemos um pouco na história. No dobrar do século VI a.C., durante o reinado de Tarquínio o Velho, a
Céltia, como Heródoto, Aristóteles e Hiparco chamavam à região da Gália entre a Garonne, o Mediterrâneo,
os Alpes e o mar, era habitada pelos celtiberos, povo saído da fusão de celtas e iberos autóctones. Um desses
povos celtiberos era constituído pelos volques tectosagos, a sua capital era Tolosa (Toulouse) e a cidade
marítima Narbo (Narbonne). No ano 163 depois da fundação de Roma, ou seja, em 590 a.C., uma parte dos
volques tectosagos emigrou para a floresta Hercínia, de nove dias de marcha de largura e mais de seis de
comprimento. Estendia-se da zona avançada dos Alpes até aos Sudetas e aos Cárpatos, e da Floresta Negra e
Odenwald até Spessart e ao Ródano. Foi no plaino danubiano que esse ramo dos volques se fixou. Durante
muito tempo, mantiveram-se bárbaros. Os irmãos, pelo contrário, que usufruiam do sol da Céltia fértil, de
vida civilizada e de relações permanentes com os colonos gregos do litoral, tornaram-se cada vez mais gregos.
Os massilianos41 ensinaram aos volques as técnicas da agricultura, mostraram-lhes como se fortificam cidades,
como se plantam vinhas e oliveiras, em suma, puseram-nos em contacto com a civilização grega. A sua
influência foi tal, que o grego passou a ser a língua oficial nas províncias celtiberas, e isso até muito entrado o
século III a.C. Os volques adoptaram os costumes gregos e entoaram peans em honra de Abellio.
Navegantes gregos levaram para o Ocidente a notícia da existência de tesouros fabulosos no templo de
Delfos. Semi-bárbaros como eram, os volques decidiram apoderar-se do ouro de Apolo e oferecê-lo a
Abellio. Em 279 a.C., cerca de duzentos mil guerreiros a pé e a cavalo partiram da Céltia sob o comando de
Brennus. A sua irrupção na Grécia provocou o pânico. Os helenos deixaram os bárbaros avançar até ao rio
Sperchios e ocuparam as Termópilas, porta de acesso à sua pátria. Os gauleses tentaram construir uma ponte
sobre o Sperchios, mas foram obrigados a desistir do intento. Uma noite, porém, dez mil volques escolhidos
por Brennus passaram o rio a nado em cima dos escudos. Os gregos que defendiam o Sperchios tiveram de
retirar para as Termópilas. Cem anos antes, em 480 a.C., as mesmas Termópilas aureoladas de glória pelo
patriotismo grego, tinham visto Leónidas e os seus trezentos espartanos enfrentarem uma invasão bárbara. A
vaga voltava a rolar. Brennus tentou forçar várias vezes a passagem do desfiladeiro, mas nada fazia ceder a
falange grega. Então, os volques descobriram um caminho que ia de Heracleia às ruínas da cidade de Trachine
e franquearam o Oeta, mas, uma vez mais, a heróica resistência do grupo grego conteve os gauleses.
O insucesso não fez esmorecer o ânimo de Brennus. Esperando que os etolianos que havia entre os
defensores das Termópilas fossem em socorro da pátria, deu ordem a quarenta mil soldados de infantaria e a
oitocentos cavaleiros para arrasarem a Etólia. Não se enganou. Perante as notícias terríveis da devastação dos
volques, abandonaram as posições e Brennus abriu passagem nas Termópilas. Os gregos fugiram para o porto
de Lamia e fizeram-se ao largo em naves atenienses. Brennus partiu com o exército ao assalto do Parnaso.
No momento em que os gauleses atacavam Delfos, desencadeou-se uma tempestade de violência inaudita.
Segundo os relatos de Justino e Pausânias, a terra começou a tremer e do alto das montanhas rolaram blocos
gigantescos de rocha que esmagaram muitos assaltantes. Na noite seguinte, o Parnaso voltou a tremer e veio
um frio glacial com rajadas de neve e granizo. Os assaltantes pereceram em massa. Os habitantes de Delfos
recobraram a confiança. Um oráculo predizia que Apolo não os deixaria desamparados, promessa que viram
confirmada na tempestade. Cheios de coragem e valentia, tentaram uma audaciosa surtida.
A partir daí, os relatos dos historiadores divergem. Segundo uns, os assaltantes foram obrigados a retirar.
Antes, porém, mataram todos aqueles cujos ferimentos ou esgotamento impediam o movimento de retirada.
O próprio Brennus, gravemente ferido, não quis ser excepção e suicidou-se. Segundo outros, os celtas
apoderaram-se da cidade e do santuário de Delfos, saquearam os tesouros e levaram-nos para Tolosa. Aí,
foram atingidos por uma doença contagiosa. Pelo voo das aves, os druídas viram que o povo só podia curar-
se depois de lançar ao lago o ouro e a prata roubados.
Justino, historiador romano, diz que o ouro foi roubado pelo cônsul Cipião.
Era o ano 684 da fundação de Roma, cerca do ano 70 da era cristã. Toulouse, sempre capital dos volques
tectosagos, há um século centro de comércio na Europa ocidental, excitava mais que nunca o apetite e a
inveja de Roma. O procônsul Cipião tomou a cidade de surpresa e entregou-a à pilhagem das tropas. Teria
sido então que se apoderaram de uma parte dos tesouros de Delfos, mas há fortes presunções de Cipião não
ter entrado no santuário nacional dos celtiberos que, até bem entrada a Idade Média, se situava no maciço do
pico de Saint-Barthélémy. Os volques tectosagos tinham o hábito de consagrar ao deus Abellio todo o ouro
extraído das montanhas e, de facto, havia em Tolosa um templo dedicado a Abellio-Apolo. Como o templo
foi pilhado pelas tropas romanas, é de supor que só esse ouro lhes caíu nas mãos. Entretanto, sabe-se que
Cipião mandou transportar 150.000 talentos42 para Massilia, aliada de Roma. No caminho, os encarregados do
transporte foram atacados e o ouro nunca chegou. Cipião e os seus pretensos cúmplices foram acusados por
Roma. Tiveram, ao que parece, um fim miserável, e o próprio Cipião foi perseguido pelo infortúnio até ao
fim dos seus dias. A má sorte do ex-procônsul tornou-se legendária em Roma. Dizia-se: habet aurum Tolosanum
(tem o ouro de Tolosa) quando se queria designar um homem perseguido pela má sorte.
O misterioso lago dos Pirinéus e Brumbane, o lago do Graal de Wolfram von Eschenbach, serão o mesmo
lago? É possível...

* * *

Ao contrário do que pode parecer, os celtas não encontraram nos iberos um povo selvagem e inculto.
Com efeito, estes últimos eram parentes de persas e medos, povos muito evoluídos, e, nos seus mil anos de
domínio, civilizaram completamente a nova pátria. Eles próprios, iberos, os primeiros a entrar na história do
país, tinham encontrado restos de uma civilização muito antiga.
As pinturas pré-históricas que se vêm nas paredes das cavernas do Sabarthès, em especial na de Niaux,
datam, segundo a estimativa dos pré-historiadores, em cerca de vinte mil anos. Os homens que pintaram as
hordas errantes de caçadores de mamutes e renas dão prova de uma fidelidade à natureza que supõe uma
inteligência desenvolvida e uma fina observação. Ao falarmos da religião dos druídas e da filosofia dos celtas,
não devemos perder de vista que estes assimilaram as concepções religiosas, talvez do mesmo género, dos
ocupantes autóctones. De facto, a teogonia celtibera demonstra-o: o deus celta Belis, latinizado para Belenus-
Apolo, é o deus ibero Ilhomber-Abellio.
A teogonia celtibera parece ter sido dualista, a teogonia celta era dualista43. Só foi politeísta com o domínio
romano. É possível que tivesse mantido durante séculos a sua forma original em vales selvagens e inacessíveis
e nas alturas dos Pirinéus. Como já dissemos, os druídas celtiberos viam em Dispater-Plutão — o Zeus
Ctónico greco-latino, deus da morte, da tempestade e do fogo — o criador do mundo terrestre. Com o
martelo do trovão empunhado, reina nas profundezas da terra ou atravessa os ares no seu carro puxado por
carneiros, semeando a morte e a desolação. Assemelha-se a Wotan e a Thor, mas, apesar do seu nome greco-
latino e do parentesco com as divindades nórdicas, é a variante celtibera do Arihman dos iranianos, medos e
partos.

* * *

Segundo a doutrina do mazdeísmo iraniano, há dois princípios que se combatem eternamente: o princípio
vida-fecundidade e o princípio morte-destruição. O primeiro tem o sol como símbolo, a radiação de luz
espiritual, de verdade e de beleza, venerada em Ahura-Mazda (Ormuzd), o deus omnisciente. O segundo,
simbolizado pelas trevas e pela noite, contém o erro, a maldade e a mentira e incarna em Arhiman, o
destruidor.
Ahura-Mazda criou o céu e a terra, mas a criação ficou incompleta devido à intervenção de Arhiman. O
homem tem o dever moral de lutar pelo bem contra o mal, pela verdade contra a mentira. Na natureza, pode
destruir plantas e animais daninhos, sobretudo a serpente, “inimiga de Deus”, mas deve encorajar e proteger
o crescimento e a reprodução das criaturas úteis.
As almas dos mortos vão para a ponte de Tchinvat. Os justos atravessam-na e chegam a Garodemana, a
Casa dos Cantares, onde reina Ahura-Mazda. Os pecadores ficam na terra, o Drudjodemana (Casa da Mentira),
até à chegada de Saosyat, o Salvador, que indica a todos os homens o caminho para Ahura-Mazda.
A luta entre Deus e o adversário deve durar mil e duzentos anos, mas, no final, Arhiman será vencido pela
intervenção do Salvador Saosyat. É o dia do Juízo Final. Arhiman cairá aos pés de Ormuzd e entoará um hino
eterno em honra do Deus supremo, do verdadeiro Deus.
O Salvador Saosyat, nascido de uma virgem, despertará os mortos, separará os bons dos maus e julgá-los-
á. Os pitagóricos chamavam-lhe Rhadamantys, juíz dos mortos.
O Juízo Final não votará os maus à danação eterna: convertidos pela bondade e pela justiça de Ahura-
Mazda, irão reconhecê-lo e adorá-lo como o único Deus. A partir do Último Julgamento, haverá apenas luz,
amor e música das Esferas.
A incontestável beleza da teogonia mazdeísta foi desfigurada, há que dizê-lo, por toda uma série de juízos
pedantes e malévolos. O próprio Voltaire dizia do Zend-Avesta (a Sagrada Escritura do mazdeísmo) que não é
possível ler duas páginas desse amontoado atribuído ao horrível Zoroastro sem sentir piedade pela natureza
humana. Voltaire gostava muito de exagerar...

* * *

Na França, não há muito tempo, foi descoberta numa câmara funerária do primeiro milénio a.C. uma
cabeça de Buda. É muito provável que se trate do Abellio ibero ou celtibero, que, como Buda, era geralmente
representado de pernas cruzadas. Permitam-nos também referir que em todas as estátuas e altares pirenaicos
está presente a Swastika (cruz gamada), outro símbolo religioso dos budistas, como se sabe. Ainda hoje os
montantes de portas de casas bascas antigas ostentam cruzes gamadas do mesmo estilo para afastarem da casa
e dos seus moradores a influência do Maligno.
O facto do Dispater-Arhiman celtibero-iraniano ser em sânscrito Dyaus-Pitar, em grego Zeus Pater e em
latim Júpiter, lança luz sobre a riqueza e a proximidade das relações que havia entre o mundo mediterrânico
ariano e o domínio oriental da civilização hindu, sua vizinha. Na origem, as castas pontificais dos arianos
primitivos conheciam sob a forma de mistério esotérico o dualismo professado pelos celtiberos e iranianos.
Há que o ter em conta quando, em conclusão das nossas considerações, falarmos do maniqueísmo dualista
e da sua variante ocidental, o catarismo. Não é certo que os cátaros eram druídas convertidos ao cristianismo
por missionários maniqueus?
No sentido restrito do termo, os Druídas ocupavam-se de problemas teológicos, filosóficos, jurídicos e
pedagógicos. O superior de cada casta local era o “bon père”. Como na Irlanda, o druidismo manteve-se
muito tempo nos Pirinéus apesar dos progressos do cristianismo. As regiões de pouco tráfico eram difíceis de
penetrar e, além disso, os naturais defendiam obstinadamente as suas tradições por influência dos sacerdotes.
Os Vates eram astrólogos, videntes e médicos. Tinham extensos conhecimentos de astrologia já na sua
época e contavam-se maravilhas das suas curas.
Os Bardos, enfim, eram os poetas, os cantores. Também se chamavam Privairds (em provençal trobère,
inventor). Nos ofícios religiosos e nas festas palacianas acompanhavam com a chrotta, espécie de harpa, os
cantos em honra dos deuses e heróis. Nas concepções druídicas sobre a salvação, tinham muito com que
alimentar as epopeias mitológicas.
Os druídas, pois, não eram apenas guardiães de mistérios dualistas, mistérios que só podemos imaginar,
visto que eram transmitidos oralmente de mestre a discípulo. Ao lado da oligarquia dos príncipes e nobres,
constituíam uma hierarquia fechada que compreendia também os Vates e os Bardos.
Deram-se três explicações da palavra druída. Segundo a primeira, significaria “pensador vidente”, Tro-hid.
De acordo com a segunda, sábio ou mago. A terceira, a mais difundida e mais exacta, talvez, fá-la derivar do
grego drys ou do gaulês drou, ambas com o sentido de “árvore”.
Do setentrião até ao Índico, o carvalho era a árvore sagrada. Sempre esteve ligado estreitamente a todos os
mitos e cultos próximos da natureza. Sobretudo, era venerado em Dodona, na Grécia do norte. Do sussurro
da folhagem e do murmúrio da fonte sagrada que brotava na sua base, deduzia-se a vontade do deus. Quando
os Argonautas partiram em campanha à busca do Tosão de Ouro, puseram na proa da nau um pedaço de
madeira da árvore sagrada de Dodona.
Falou-se com tanta insistência no carvalho dos druídas, no visco sagrado que os druídas colhiam no curso
de várias cerimónias, que teremos de voltar ao assunto.

Como nasceu o bardo Taliesin


Um dia que o anão Gwion velava o santo cálice que continha a preciosa “água de regeneração”, caíram-lhe
na mão três gotas escaldantes como fogo. Logo que levou a mão à boca, foram-lhe revelados os mistérios do
futuro do mundo. A deusa guardiã da água tentou tirar-lhe a vida, mas o anão, graças a uma virtude mágica
dessa água, conseguiu transformar-se em lebre, em peixe e, a seguir, em gavião. Para o poder perseguir, a
deusa teve de tomar sucessivamente a forma de lebre, de lontra e de gavião. Finalmente, Gwion transformou-
se em grão de trigo e escondeu-se num montículo. Então, a deusa transformou-se em galinha negra e engoliu
o grão. Foi fecundada pelo grão e, ao fim de nove meses, deu à luz o bardo Taliesin...

A lenda do bardo Cervorix


Na margem do Saône, num bosque consagrado a Belenus, o bardo Cervorix estava sentado numa rocha a
ensinar os discípulos. Com uma lira de marfim e ouro que uma das nove druídas da ilha de Sena (Sein) lhe
tinha dado de presente, cantava as maravilhas do Universo e o curso eterno e regular das estrelas. De repente,
o horizonte escureceu, o céu cobriu-se de núvens sombrias, um vendaval começou a fustigar as árvores e aves
nocturnas foram voar à volta da cabeça do bardo. Finalmente, desencadeou-se uma tempestade violenta e os
lobos uivaram nas montanhas. Cervorix disse em voz alta:
“O homem é matéria. O invólucro corporal impede o voo da alma e reprime o anseio de deixar a terra e
passar a um mundo mais feliz. Que é a vida? Nada! Filhos da Céltia, vivei em paz, pensai na eternidade e dizei
a todos que vistes e conhecestes o bardo Cervorix”.
Depois de falar, partiu a lira em pedaços e deu um salto da pedra para as ondas. Desde então, a rocha tem
o nome do bardo.
No dia seguinte, os druídas amontoaram lenha, colocaram em cima o cadáver do bardo e cobriram-no de
flores e ervas aromáticas. Cerca da meia-noite, quando as sete estrelas da Ursa Maior se reflectiam na água
dos sete furos do altar druídico, atearam fogo à lenha. Dois druídas, uma druída, uma donzela e um bardo
rodearam o fogo. Um dos druídas lançou às chamas uma taça de âmbar, o outro, uma lira de marfim, a druída
lançou o véu, a donzela uma mecha de cabelos louros e o bardo a sua capa, branca como os lírios. As cinzas
do bardo foram recolhidas e colocadas numa urna de vidro e os druídas gravaram uma inscrição: “Mortal, não
esqueças de onde vens e para onde vais! Olha este pó! Foi o que tu és, tu serás o que ele é.”

* * *

Uma vez por ano, Apolo vai ao país dos hiperbóreos44. Uma vez por ano, “encontra-se com os homens
que mais ama”, dizia Holderlin.
Num cálice puxado por cisnes que Hefaisto construiu em ouro precioso, adormecido debaixo da Árvore
do Mundo, cujos braços se estendem sobre o universo e em cuja folhagem o sol, a lua e as estrelas brilham
como frutos de ouro, assim atravessa o mar. Também na terra dos hiperbóreos está o Jardim das Hespérides,
estância dos bem-aventurados. De lá, sempre no cálice sagrado, símbolo eterno de renascimento, o deus parte
para o Oriente, para a Alva.
Dizia-se que Pitágoras era Apolo incarnado e que tinha vindo do país dos hiperbóreos ensinar aos homens
uma nova doutrina de salvação. Como vimos, certos autores da antiguidade afirmam que os pitagóricos eram
druídas gregos. Teriam sido hiperbóreos os druídas celtiberos? Podemos responder pela afirmativa. É no país
dos hiperbóreos que deve ser procurado o Jardim das Hespérides. Não é certo que os antigos chamavam
Hespéria à península ibérica? O deus supremo dos druídas e dos hiperbóreos era Apolo, ambos viviam nos
bosques de uma terra de clima temperado e cheia de sol. Os hiperbóreos alimentavam-se exclusivamente de
frutos e não matavam animais. Os druídas acreditavam que os corpos dos animais encerram almas humanas e,
por isso, abstinham-se de comer carne. Como estavam isentos do serviço das armas, nunca tomavam parte
em guerras. Os hiperbóreos buscavam a libertação da vida terrena atirando-se voluntariamente às ondas. Já
vimos como morreu o bardo Cervorix...
4.
Os Puros e a sua doutrina
Astiroth e Belcimon
Como Belet e Radamante45
E outros, cujos nomes encontrei
Foram nobres criaturas do Céu
Pela inveja e pela cólera
Foram precipitados nos Infernos.
Wolfram von Eschenbach

“Esses doze enviou Jesus com estas instruções: não tomeis o caminho
dos pagãos nem entreis nas cidades dos samaritanos, ide para as ovelhas
tresmalhadas da casa de Israel”.
Mateus X, 6; X, 24.

Jesus de Nazaré não veio pregar uma nova religião, veio, simplesmente, cumprir a promessa messiânica do
povo de Israel. Com o que contava, o que esperava da sua missão e que supunha realizar-se em breve, era a
intervenção de Deus nos destinos do mundo, a construção de um novo Israel sobre as ruínas do antigo.
Jesus não foi o fundador da religião cristã, que nada tem a ver com o messianismo de que foi mártir. A
Igreja cristã só nasceu depois da sua morte e inumação. Até à crucifixão, Jesus e os seus discípulos seguem
totalmente o espírito do judaísmo messiânico e o seu julgamento e condenação pelos judeus não é mais que
um erro destes. A religião cristã só começou a crescer depois de Cristo e a sua razão de ser como religião
universal deve-se unicamente ao conceito Cristo, redentor dos pecados do mundo, que não era o galileu que
pregava na Palestina. A religião cristã descobriu o meio dos crentes participarem na Salvação, mas, concebido
como foi na origem, o Evangelho não podia deixar de sofrer fatalmente um processo de auto-destruição. Por
outro lado, o fim ignominioso do Nazareno na cruz marcou o fim da sua doutrina. Como Jesus anunciava
que entre a morte e o seu regresso mediaria um lapso de tempo curto, os discípulos anteciparam o reino de
Deus na terra e pregaram a ressurreição de um Jesus sentado à direita de Deus pronto a ganhar novos
adeptos. A fé intensa encontra sempre ouvidos atentos entre o povo facilmente influenciável. No entanto, a
doutrina de Jesus era uma heresia judaica: os seus partidários iam ao Templo, mas partiam o pão em casa.
Paulo, apóstolo do profeta galileu, profeta que anuncia o reino de Deus mas pretende ser rei de Israel e a
seguir soberano do reino celeste, foi o primeiro a falar de um juíz imparcial que pune os judeus e os gentios
segundo as suas obras. “Sois todos filhos de Deus em Jesus Cristo. Não há gregos nem judeus, ou Deus só é
Deus dos judeus? Não é também Deus dos gentios?”
Tal interpretação implica negar o judaísmo, o que está em desacordo com os evangelistas, uma vez que as
esperanças messiânicas e terrenas dos judeus são postas em último plano. O Cristo judeu está morto. Os que
crêm no Cristo verdadeiro e espiritual não são deste mundo, mas de outro muito diferente. Paulo faz uma
distinção nítida entre esse mundo e o outro, entre o corpo físico e o espiritual, e distingue o primeiro homem,
Adão, do outro homem que é o Senhor do Céu. No entanto, os dois homens coexistiram desde o princípio.
Através do primeiro, Adão, o pecado desceu à terra e, com o pecado, a morte. A lei judaica nada podia
mudar. A morte do outro homem, o Salvador, trazia a liberdade e a salvação.
Ao escrever no Evangelho que “...estávamos reunidos para partir o pão no primeiro dia da semana”, Lucas
diz que o dia consagrado a Deus não é o Sabath, mas o seguinte, o primeiro da semana. Como nas religiões
solares orientais, aliás, para as quais o dia do Sol é o dia do Senhor.
Caso fosse uma divindade solar, Jesus Cristo teria de ressuscitar ao nascer do sol. “E vieram ao túmulo no
primeiro dia da semana, muito cedo, ao nascer do sol”. Sim, mas no dia do Sol, o túmulo estava vazio...
A que se assemelha no Apocalipse a palavra Deus, de quem ninguém conhece o nome, do que monta um
corcel branco de olhos em chama de cuja boca sai uma espada afiada e que leva uma coroa e um manto
tingido de sangue? Há uma imagem de Mitra que se parece em todos os pormenores à visão de João em
Patmos. No manto de Deus está escrito o seu nome e, nos flancos, “Rei dos Reis, Senhor dos Senhores”.
Segundo Paulo, Cristo, o Deus solar vindo a este mundo para ser crucificado pela humanidade, veio
indistintamente para judeus e pagãos, para indo-europeus e semitas...
“As primeiras intuições religiosas da raça indo-europeia eram essencialmente naturalistas. Mas tratava-se
de um naturalismo profundo e moral, de um amplexo amoroso dado pelo homem à natureza, de poesia
deliciosa e plena de sentido do Infinito, do princípio, enfim, de tudo o que é génio germânico e celta, como
Shakespeare e Goethe exprimiram mais tarde. Não era religião ou moral reflectida, mas melancolia, ternura,
imaginação. Principalmente, era tudo muito sério, condição essencial da moral e da religião. Mas não foi daí
que veio a fé da humanidade, já que os velhos cultos não se desprenderam do politeísmo nem chegaram a
símbolos muito claros... A glória de criar a religião da humanidade cabe à raça semita”46.
Mas... a essa religião da humanidade criada pela raça semita e dogmatizada por Roma, não cabe também a
glória de perseguir os que quiseram restabelecer a justiça? Passaremos em silêncio os primeiros quatro séculos
da era cristã, durante os quais os cristãos enviaram muito mais cristãos ao martírio que os pagãos. No que diz
respeito a crueldades e a ausência total de espírito cristão, os perseguidores de herejes estão muito à frente
dos perseguidores pagãos. Com uma agravante: vinham em nome Daquele que dizia haver muitas moradas na
casa do Pai! Que não se devia matar, mas amar o próximo como a si mesmo!
No ano 400, as terras provençais já estavam cristianizadas. Construiram-se em toda a parte conventos e
basílicas sobre as ruínas dos templos pagãos e utilizaram-se as suas pedras e colunas. Dentro, depositaram-se
relíquias dos mártires da nova fé e fez-se deles santos para os aproximar dos pagani habituados a deuses e a
semi-deuses. Só os druídas dos Pirinéus mantinham o culto da divindade da Luz, Abellio. Não foi a divindade
que criou este mundo nem os seres humanos que o habitam... Tal como pregavam os cristólogos judaico-
romanos, o cristianismo só podia encontrar oposição cerrada nesses ascetas. Um Cristo saído do rei David,
assassino e adúltero, era para eles uma contradição fatal. O Cristo morto na cruz não podia ser uma divindade
da Luz. Um deus não morre nem pede que se matem em seu nome os que pensam de maneira diferente.
Perseguidos e malditos, os druídas passavam as noites nos cimos mais inacessíveis e na obscuridade mais
profunda das cavernas. Aí, “adoravam o Pai universal segundo o antigo costume”.

O homem do povo:
Como podeis agir tão temerariamente?
Não vedes que correis para a morte?
Não conheceis as leis
Desses cruéis vencedores?
Em toda a parte estenderam redes
Contra os pagãos, os pecadores.
Massacram contra as paredes
As nossas mulheres, as nossas crianças
E todos nós
Estamos perto de uma catástrofe certa.

O druída:
Estamos reduzidos
A cantar-te pela noite,
E em segredo, Pai universal!
Mas de dia, podemos
Entregar-te um coração puro.
Hoje e durante muito tempo,
Poderás consentir
Muito ao inimigo.
Mas, como a chama pura se destaca do fumo,
Purifica assim a nossa fé!
E mesmo que nos arrebatem os velhos ritos,
Quem poderá destruir a tua Luz?
Goethe, Noite de Walpurgis.

Apesar de tudo, vieram cristãos para os Pirinéus, cristãos perseguidos pelos seus irmãos, cristãos que nos
concílios de Saragoça (381) e Bordéus (384) foram declarados hereges e cujo mestre, Prisciliano, foi supliciado
e executado em Trèves, em 385, com seis dos seus mais notáveis adeptos pelo bispo Itacius e pelo imperador
romano Máximo, convertido ao cristianismo. Os priscilianos, como eram conhecidos os membros dessa
corrente gnóstico-maniqueísta, foram recebidos hospitaleiramente pelos druídas e fixaram-se na floresta de
Serralunga, entre Sabarthès e Olmès, no maciço de Saint-Barthélémy. Acabaram por converter os druídas ao
cristianismo.
Acaso o bosque dos Priscilianos, perto de Montségur, é a floresta de Briziljan que, segundo Wolfram von
Eschenbach, rodeia o castelo do Graal com um círculo protector? É prematuro afirmá-lo. O caminho para a
luminosa montanha do Graal nunca foi fácil.
Então, os druídas e os vates tornaram-se cátaros. Os bardos fizeram-se trovadores...

* * *

Para expormos sem ambiguidades a doutrina filosófica e religiosa dos cátaros occitanos, necessitávamos da
ajuda da sua literatura, aliás riquíssima, mas essa literatura foi destruída pela Inquisição como “fonte impura
de uma execrável heresia”. Não chegou até nós um único livro cátaro. Restam os registos da Inquisição, que
tentaremos completar com a ajuda de doutrinas afins, gnóstica, maniqueia e prisciliana.

NOTA DE OTTO RAHN


O Albigeísmo, momento occitano do Catarismo

No que respeita à doutrina cátara, tenho de limitar-me ao indispensável. Para completar o que disse sobre
o assunto, recomendo as obras de Schmidt, Döllinger, Peyrat e Guirot, de pesquisa sobre o catarismo. Com
excepção de alguns artigos esporádicos e da brochura de Péladan citada no meu prefácio, nunca foi feito o
paralelo entre o catarismo e os poemas consagrados ao Graal. Como também apontei, desdenhou-se o facto
desse momento do catarismo ter sido não apenas celta, mas também dualista e, enfim, autóctone. Partindo
dessa base, dediquei ao dualismo da época pagã, património do Midi da França desde tempos primitivos, um
quadro de conjunto, embora um tanto parcial, talvez. As relações têm de ser examinadas num contexto que
não esteja em contradição com Wolfram von Eschenbach. Em Parzival há um grande número de personagens
pagãs, muitos lugares que não podem ser dissociados da pré-história do Graal, mesmo que na interpretação
exclusivamente pagã do seu segredo possa não ser muito notório. O cantor alemão do castelo de Wildenberg
da Francónia conhecia perfeitamente Hiberbortikon, a terra dos hiperbóreos, como conhecia Zaratustra, o
grande legislador do mazdeísmo47.
No que respeita ao catarismo, não há dúvida que houve relações activas entre as seitas cátaras exteriores à
Occitânia e o Albigeísmo. A opinião dominante segundo a qual o catarismo occitano foi trazido no ano 1000
por missionários heréticos vindos do Leste, não tem razão de ser. O momento dualista era um facto essencial
na teogonia ibérica aparentada à dos persas e iranianos, de quem os iberos eram descendentes, e considerado
clássico nos tempos pré-cristãos. Àcerca de Dispater, o Lucifer celta, e das mutações e intercâmbios entre
druidismo, orfismo e pitagorismo, nada há a acrescentar. Para se sentir dualista, a França meridional tinha
alguma necessidade de uma doutrina pregada por uma mulher vinda da Itália, por homens de Périgord ou
pelo papa Niketas? Teriam os albigenses necessidade de um Mestre desconhecido ou da sabedoria tibetana,
digamos, para considerarem este mundo um vale de lágrimas e o Nirvana a única meta a atingir? Sabemos que
os druídas celtiberos, pelo menos nos Pirinéus, chegaram ao cristianismo através dos maniqueus. A realidade
do maniqueísmo vem directamente do facto de ter existido e de se ter enraizado no mazdeísmo-mitraísmo,
no cristianismo e, inclusivamente, no budismo. Isto chega para tornar supérflua a vinda de um Mestre
misterioso a ensinar aos gauleses do sul a reincarnação, a beatitude do não-ser como doutrina sagrada. Se os
albigenses se reconheceram parte integrante do movimento cátaro ocidental, como reconheceram o sínodo
convocado em Saint-Félix-de-Caraman pelo papa herético Niketas, que estabeleceu as directivas, é porque os
preparativos de Roma com vista à perseguição geral contra a heresia constrangeram as Igrejas joaninas (assim
chamadas pelos seus fiéis, na aparência semelhantes mas não totalmente unificadas na doutrina), a coligarem-
se.
O paralelo que os dois historiadores ortodoxos Guiraud e Mallat traçam entre o cristianismo primitivo e o
albigeísmo é bastante justo. Mallat diz no seu prefácio ao manual do inquisidor Bernard Gui: “Bernard Gui
descreveu os sacramentos cátaros sob a forma de contrafacções e momices. Ora, temos de reconhecer com
Guiraud (Cartulaire de Prouille) que eles conheciam a forma original da liturgia do cristianismo primitivo. O
desprezo de Bernard de Gui só se explica pela sua ignorância e pela ignorância das pessoas do seu tempo
àcerca do cristianismo primitivo. É impressionante a aproximação que Guiraud faz entre os ritos cátaros e os
ritos cristãos das primeiras idades”48.
Nos primeiros séculos pós-cristãos, os judeus e os pagãos cristianizados tinham o direito de se afirmarem
da verdadeira fé, mas Roma começou a alargar o seu poder à Igreja da Síria e a dogmatizar os seus
ensinamentos, que aquela proclamava como os únicos cristãos. O maniqueísmo, como as outras correntes
gnósticas, era uma dessas Igrejas cristãs primitivas. Uma vez que o druidismo cristianizado, isto é, a Igreja da
Gália cristo-pagã, tem de ser reconhecida forçosamente como uma delas, não é necessário demonstrar a sua
essência cristã.
Ao fim e ao cabo, devemos ter presente que, em época mais tardia, o ascetismo ortodoxo se aproximou
perigosamente do ascetismo maniqueu ao identificar a carne com o adversário jurado do espírito. Assim o
disse S. Francisco de Assis. “Muita gente censura o inimigo ou o vizinho se comete uma falta ou cai doente.
Não vêm que todos têm um inimigo dentro de si mesmos, em especial no corpo, com o qual pecam. Louvai o
que subjuga esse inimigo e luta contra ele porque, se o conseguir, não terá nenhum outro adversário”. E
noutra passagem: “Chama ao corpo o pior inimigo, o adversário mais temível entregue ao Demónio”. Para o
dominicano Tauler, mestre da mística alemã do século XIV, o homem é em si e para si mesmo um objecto de
impureza, um ser saído do Maligno e da Matéria corrupta que só pode inspirar horror. Os seus adeptos, ainda
que fortemente imbuídos de amor e misericórdia, partilhavam totalmente dessa maneira de pensar.
Na página 66 do primeiro tomo da sua história da Inquisição, escreveu ainda: “Quando esses hereges e o
seu destino cheio de vicissitudes nos passam pela frente, não devíamos esquecer que o conhecimento que
temos deles nos chegou através dos escritos dos seus adeversários e perseguidores. Com excepção de alguns
tratados valdenses e de uma colectânea cátara, a literatura dos hereges desapareceu totalmente. Além do que
consta nos escritos em que se procurou refutar a sua doutrina ou incitar o ódio do povo, nada resta dos seus
ensinamentos. Tudo o que conhecemos da sua luta e do seu destino, chegou através dos seus impiedosos
adversários. Não direi uma só palavra a seu favor que não se baseie em confissões ou nas acusações dos seus
inimigos e, se refiro algumas acusações feitas por difamadores enraivecidos, é porque os exageros controláveis
ou incontroláveis são tão evidentes, que lhes retiram todo e qualquer valor histórico. Em geral e a priori,
devemos conceder-lhes a nossa simpatia, porque estavam prontos a sofrer a perseguição e a olhar a morte de
frente pelo que consideravam a verdade”. A julgar pela corrupção que grassava nessa época no seio da Igreja,
era necessário a alguém romper com ela para se entregar a paixões desordenadas? A bica de uma fonte verte
água doce e água salgada ao mesmo tempo?49
(Fim da nota)

Os cátaros occitanos ensinavam que Deus é Espírito! Para toda a eternidade é Amor absoluto, perfeito em
si mesmo, imutável, eterno e justo. Nada de mau ou transitório pode haver nele ou vir dele. Portanto, as suas
obras só podem ser perfeitas, imutáveis, eternas, justas e boas, tão puras, pois, como a fonte de onde brotam.
Ora, se olharmos o mundo daqui, a imperfeição, a caducidade e a instabilidade são evidentes. A matéria de
que é feito é perecível e causa de males e sofrimentos sem nome. A matéria contém o princípio da morte à
qual criatura alguma poderá escapar.
Da antinomia entre a matéria imperfeita e um Deus perfeito, entre um mundo cheio de miséria e um Deus
que é em si mesmo amor, entre seres que nascem simplesmente para morrer e um Deus que é vida eterna,
concluíram da incompatibilidade total entre o que é perfeito e o que não é. O imperfeito nunca poderia
emanar do perfeito. A própria filosofia não coloca o mesmo princípio, de que tem de haver alguma analogia
entre causa e efeito? Se a causa é imutável, os efeitos devem ser igualmente imutáveis. Logo, o mundo terreno
e as criaturas terrenas foram criados por um ser de natureza contraditória.
Se a criação provém de um Deus bom, porque não a fez boa como ele próprio? Se desejou fazê-la perfeita
e não conseguiu, então não é todo-poderoso nem perfeito. Se a pôde criar perfeita e não quis, uma tal recusa
é inconciliável com o Amor perfeito. Logo, não foi Deus quem criou o mundo terreno!

Pode chamar-se Deus a um doente


Que constrói um mundo a arder em febre
E depois o aniquila ao gelar com arrepios?
O destino do mundo é feito só de febre e arrepios?

Então, foi a um filho dos deuses


A quem caiu em sorte este mundo,
Brinquedo multicolor
Que tão depressa o diverte como logo maltrata
Sem mais poder que balbuciar desejos.
Lenau, Les Albigeois

Há imensos acontecimentos neste mundo que nada têm a ver com a Providência ou com a vontade divina,
pois, como poderia Deus permitir tanto descalabro e tanta desordem? Como acreditar que as criaturas que só
servem para incomodar e atormentar o homem provenham de um criador cheio de bondade para com os
homens? Como atribuir a Deus as inundações que arrasam os campos e matam seres humanos ou o fogo que
destrói a cabana do pobre e com o qual os nossos inimigos nos exterminam, a nós que só desejamos e
buscamos a verdade? Assim falavam os cátaros albigenses. Qual a razão de um Deus perfeito dar ao homem
um corpo que vai morrer depois de torturado por toda a espécie de sofrimentos?
Os cátaros viam demasiadas intenções na criação visível para não as atribuírem a uma causa inteligível. Do
princípio da analogia entre causa e efeito, deduziam que os maus efeitos derivam de más causas e que o
mundo, que não pode ter sido criado por um Deus bom, não pode ter por criador senão um princípio mau.
Esse princípio dualista que encontramos no mazdeísmo, no druidismo e na filosofia pitagórica, baseia-se na
antinomia fundamental que separa o Bem do Mal.
A opinião dos doutrinadores da Igreja segundo a qual o Mal é, inegavelmente, o contrário do Bem, mas
que não tem de ser atribuído a um princípio especial uma vez que não representa a negação ou a ausência do
bem, era refutada pelos cátaros através do Novo Testamento: quando o Tentador disse a Cristo “Far-te-ei
dono de tudo isto se te prostenares e me adorares”, como podia oferecer-lhe o que não lhe pertencia? Se não
tinha sido ele o criador, como podia pertencer-lhe “tudo isso”? Quando Cristo fala de plantas que o Pai não
plantou no Céu, é porque outro as plantou. Quando João Evangelista diz que os filhos de Deus não nascem
da carne nem da vontade do sangue, de quem nascem os homens saídos da carne e do sangue? De quem são
filhos, senão de outro criador, senão filhos do diabo, que, a julgar pelas palavras de Cristo, é “seu pai”?

“O pai, o vosso pai, é o demónio. Desde começo foi homicida e não ficou
na verdade, porque a verdade não está nele. É mentiroso e pai da
mentira. O que é de Deus, ouve as palavras de Deus. Assim vós não
as ouvis porque não sois de Deus”.
João, VIII, 44, 47

As passagens do Novo Testamento que falam do demónio, da luta entre a carne e o espírito, do homem
velho do qual devemos despojar-nos, do mundo imerso no pecado e nas trevas, provam suficientemente o
contraste existente entre Deus, cujo reino não é deste mundo, e o Príncipe deste mundo.
O Reino de Deus é o mundo invisível, absolutamente bom e perfeito, o mundo da Luz e da Eternidade: a
Cidade Eterna.
Deus é o Criador de todas as coisas, já que criar significa produzir alguma coisa que não existia. Também
criou a matéria, anteriormente inexistente. Criou-a do nada, mas apenas como princípio. O que “deu forma” à
matéria, foi esse princípio, Lucifer, ele mesmo criatura de Deus.

Qual é a origem do mundo? Podes resolver essa questão?


Os espíritos são de Deus, os corpos são do demónio.
Lenau, Les Albigeois

Lucifer, a quem os cátaros albigenses chamavam também Lucibel, foi quem criou, supunham, tudo o que é
visível, material e perecível. Não se limitou a criar o conjunto das coisas terrestres, governa-as e esforça-se em
mantê-las.
Sim, mas o Antigo Testamento diz que Jeohvá criou o céu, a terra e tudo quanto há nela. É exacto, diziam
os cátaros, inclusivamente criou o ser humano, o homem e a mulher.

NOTA DE OTTO RAHN


Os cátaros e o Antigo Testamento

Cerca do ano 150 da nossa era, Marcion tentou extirpar completamente o judaísmo do cristianismo. O
repúdio dos maniqueus pela tradição judaica deve-se às comunidades marcionitas. Döllinger vai ainda mais
longe na contradição entre o Antigo e o Novo Testamento, contradição que, para os cátaros, era a prova da
identidade entre Jeohvá e o Maligno: “Por aqui se percebe a oposição entre os dois, a saber, que um prega a
união dos sexos e a procriação50, enquanto o outro considera bem-aventurados os que se mantêm castos por
amor de Cristo e os que desviam os olhos da nudez da mulher, que um promete a Terra e o outro o Céu. O
Deus maligno convidou os judeus a abusarem dos egípcios e a despojarem-nos. Foi ele o inventor desse
mandamento de maldição: ama o teu próximo e odeia o teu inimigo, palavras que Jesus repete: Sabeis o que
foi dito aos vossos antepassados: ama o teu próximo e odeia o teu inimigo51. O primeiro ordena sob pena de
morte a circuncisão, o outro interdita-a pelos apóstolos sob pena do repúdio de Cristo52. Um, através dos seus
legisladores, promete aos judeus o domínio dos povos53, o outro proibe os seus de dominarem seja quem
for54. Um, autoriza aos judeus a prática da usura55, o outro interdita-a56. Um, declara que os pecados são
remidos com oferendas e sacrifício de animais, o outro garante que é impossível apagar o pecado com sangue
de touros ou de carneiros. Este, promete vir dissimulado na obscuridade das núvens57, aquele habita na luz
inacessível58. Este, não quer aproximações e pune com a morte o que leva a Arca59. O outro, pelo contrário,
diz: Aproxima-te de Deus e ele se aproximará de ti60.
O Deus da antiga aliança amaldiçoa o que for suspenso no madeiro, por isso, lançou uma maldição sobre
Cristo”61.
O ritual cátaro já mencionado e publicado por Cunitz mostra pelo exemplo de Isaías e de Salomão que os
albigenses não rejeitavam totalmente o Antigo Testamento. Reconheciam o livro dos Profetas, de Job, os
Salmos, os escritos de Salomão e o livro da Sabedoria, os livros proféticos aceitáveis, digamos, por serem a
parte do Antigo Testamento escrita sob inspiração do Pai da Justiça. Em especial, concediam certa autoridade
à visão apócrifa de Isaías.
(Fim da nota)

No Novo Testamento, lê-se que “não há aqui homem ou mulher, porque todos são um em Cristo Jesus” e
que “Deus reconcilia todos através dele, assim na terra como no Céu”. Jeohvá disse: “Porei a inimizade entre
ti e a mulher”.
Como conciliar isto? Jeohvá amaldiçoa, Deus abençoa. Todos os “filhos de Deus” do Antigo Testamento
pecaram, no Novo Testamento diz-se que “quem nasce de Deus não comete pecados”. Não há aqui uma
contradição total?
Os cátaros remetiam-se expressamente às passagens do Antigo Testamento que falam das vinganças e da
cólera de Jeohvá. Tinham a certeza que o Jeohvá que enviou o dilúvio, que destruiu Sodoma e Gomorra e que
tantas vezes repetiu o desejo de exterminar os inimigos e fazer recair sobre os filhos os pecados dos pais até à
terceira ou quarta geração, não é Deus e, portanto, não é o Amor absoluto. Jeohvá proibiu Adão de comer o
fruto da árvore do Conhecimento. Das duas, uma: ou sabia que o ia comer, ou não sabia. Se sabia, induziu-o à
tentação e levou-o ao pecado para mais facilmente o levar à perdição.
Os hereges albigenses invocavam frequentemente o sétimo capítulo da Epístola aos Romanos, na qual
Paulo chama à lei mosaica “lei de morte e de pecado”. Lot cometeu incesto com as filhas, Abraão mentiu e
cometeu adultério com a serva, David foi toda a vida um assassino e um adúltero e os outros de que fala o
Antigo Testamento não valem mais, diziam os cátaros. A lei que Jeohvá anunciou aos judeus por Moisés era
de inspiração satânica. Se continha algumas coisas boas, como, por exemplo, o sétimo mandamento, era para
induzir ao mal as almas mais bem temperadas.
Um deus que se revela a um homem, Moisés, no meio de uma sarça ardente, não é Deus. Deus é espírito,
não se revela a homens de carne62. Jeohvá não é Deus, é o Anticristo!

Quando Lucifer desapareceu nos infernos


Com os seus exércitos, nasceu o ser humano.
Wolfram von Eschenbach

NOTA DE OTTO RAHN


Os cátaros, percursores do evolucionismo

Quanto aos mitos cátaros que evocam as grandes lendas da cosmogonia oriental sobre a queda de Lucifer,
a formação da terra, o devir do homem e a epifania do Eon Jesus, recorri às fontes citadas por Schmidt,
Döllinger e outros contemporâneos seus.
Segundo a interpretação dos cátaros ocidentais e dos bogomilos, os primeiros homens foram gigantes63. O
combate entre S. Miguel e Lucifer descrito no Apocalipse era bem conhecido dos cátaros. Satanás foi vencido
e as vítimas da sua maldade precipitadas com ele do Céu, de onde, como também diz o Apocalipse, o
Demónio, a Velha Serpente, arrastou a terça parte das estrelas, isto é, dos Anjos64. Döllinger expõe um
aspecto popular da queda do Anjo como surge na França meridional. Mais adiante, o pensamento filosófico
que decorre dessas especulações e que se antecipa notavelmente ao moderno racionalismo65. Daí, a Natureza
pode ser considerada o próprio Satanás. Depois de criar o mundo, Deus entregou-o à Natureza, à qual deu o
poder de criar e ordenar as coisas. A continuidade na Criação não se faz segundo a visão da divina
Providência, compete à Natureza, em linguagem moderna é a tarefa da evolução, do desenvolvimento (esses
naturalistas, como gostam de se chamar a si mesmos, negam os milagres e tentam explicar os do Evangelho a
partir de uma exegese tão complexa como a dos ortodoxos).
Por exemplo, consideravam inútil pedir bom tempo a Deus, pois é a Natureza que rege os elementos.
Escreviam muito. Um contraditor católico, Lucas Tudensis, referia que os seus textos eram atraentes, em
especial o Perpendiculum Scientiarum, e que a roupagem filosófica e a feliz escolha dos assuntos provocava
impressões profundas nos leitores. Este fragmento de um poema americano contemporâneo mostra como a
Matéria mantém nos tempos modernos um significado pessimista:

A vida é feita de terrores,


É uma longa agonia.
Da nascença até à morte,
Deus é um assassino,
A vida é morte.
Eugen O’Neill, Lazare Riait, 1930
(Fim da nota)

Vejamos agora o revestimento mitológico com que os cátaros representavam e concebiam a queda de
Lucifer, a génese da terra e o nascimento do homem.
Sete céus, todos mais puros e brilhantes que os outros, constituíam o Reino de Deus e dos Espíritos
celestes. Cada céu tinha os seus anjos superiores, cujos hinos de louvor subiam ao trono de Deus, no sétimo
céu. Abaixo das regiões celestes, havia outros elementos, imóveis e sem forma, ainda que separados uns dos
outros. Abaixo do céu, ar com núvens e, mais abaixo, o oceano que faz rolar as vagas. Ainda mais abaixo, a
terra, e, no interior desta, o fogo. Ar, água, terra e fogo, os quatro elementos, a cada um dos quais é atribuído
um anjo.
Acima das coortes celestes, estava Lucifer. Deus tinha-lhe confiado o governo do céu. Percorreu o imenso
domínio do mundo celeste e, depois, o abismo mais profundo até ao trono do invisível Eterno. Situação tão
privilegiada, porém, despertou-lhe ideias de revolta e quis igualar-se ao seu criador e mestre. Começou por
seduzir os quatro anjos dos elementos e, mais tarde, um terço das falanges celestes. Então, Deus baniu-o do
Reino do Céu. A luz, até então doce e pura, foi-lhe arrebatada e substituída por um clarão avermelhado
semelhante a ferro incandescente. Os anjos seduzidos por Lucifer foram despojados das suas coroas e vestes
e expulsos do céu. Lucifer fugiu com eles para o extremo do firmamento. Atormentado pelo remorso, disse a
Deus: “Tem paciência comigo, hei-de restituir-te tudo”.
Apiedado do filho querido, Deus permitiu-lhe fazer tudo o que lhe parecesse bom durante sete dias — que
são sete séculos —. Então, Lucifer instala-se no firmamento e ordena aos seis anjos que o seguiram que
configurem a terra. Com metade da coroa (partida quando foi expulso do reino celeste), fez o sol e, com a
outra metade, a lua. Fez as estrelas com pedras preciosas. A lama original serviu-lhe para formar as criaturas
terrestres, animais e plantas.
Os anjos encarregados do segundo e terceiro céus quiseram ter uma quota parte no poder de Lucifer e
pediram a Deus que os deixasse descer à terra, prometendo voltar em breve. Deus leu-lhes o pensamento,
mas não se opôs ao pedido. Queria puni-los pela mentira, mas aconselhou-os a não adormecerem na viagem
sob pena de esquecerem o caminho de regresso ao céu. Caso adormecessem, só voltaria a chamá-los sete mil
anos depois. Os anjos empreenderam o voo, mas Lucifer fê-los mergulhar em sono profundo e encerrou-os
em corpos que tinha formado com a lama original. Quando acordaram, eram seres humanos: Adão e Eva.
Para esquecerem o céu, Lucifer criou o Paraíso terrestre mas decidiu estender-lhes nova armadilha, levá-los
a pecar e torná-los eternamente seus escravos. Levou-os ao Paraíso, aguçou-lhes a curiosidade proibindo-os
de comer os frutos da árvore da Ciência, depois transformou-se em serpente, seduziu Eva e Eva, por sua vez,
arrastou Adão ao pecado.
Lucifer sabia que Deus também teria proibido ao primeiro casal comer o fruto fatídico, pois, como ia
desejar a multiplicação da natureza de Lucifer? Agiu como se fosse ele próprio a interditar o consumo do
fruto proibido, estratagema que o levou a triunfar mais seguramente.
A maçã da árvore da Ciência era para os cátaros o símbolo do pecado original, a união sexual do homem e
da mulher. Com o pecado da carne, Adão e Eva cometeram o pecado da desobediência, mas o pecado contra
a carne era e ficaria a ser o mais grave por ser voluntário e representar a revolta consciente da alma contra
Deus.
Com a proliferação do género humano, Lucifer tinha necessidade de novas almas. Nos novos corpos
engendrados por Adão e Eva, encerrou, como já tinha feito anteriormente, os anjos que saíram consigo das
regiões celestes.
Pouco depois, com o crime fratricida de Caim, a morte fez a sua entrada no mundo!
Deus compadeceu-se dos anjos caídos exilados do céu e reduzidos a homens. Decidiu revelar-se e enviou
à terra a sua criatura mais perfeita, Cristo, o primeiro dos anjos, que tomou um corpo de aparência humana.
Veio para mostrar aos anjos caídos como podiam regressar ao Céu, ao eterno Reino da Luz.

NOTA DE OTTO RAHN


O aspecto Tempo na doutrina dos Eons

Kittel escreveu a propósito do Eon Jesus: “No helenismo, a ideia de Salvação e de Salvador estava ligada à
do Deus da Luz e prendia-se, digamos, à duração do dia e ao seu crescimento renovado. Como a relação
entre o nascimento da Luz e a mudança de ano era naturalmente concebível, o advento de uma luz nova, ou,
se se prefere, o nascimento de um Deus da Luz ligado ao aparecimento de uma era nova tornava-se
compreensível: essa idade era o Aion. Se o nascimento do Deus da Luz estava em correlação com o
calendário, também estava com o novo Aion. À partida, o Aion é, pois, uma abstracção ou uma semi-
abstracção, mas se, com o seu aparecimento, essa era se torna um caso de solenidade, também nascerá do
Deus Sol, que em cada ano nasce também. Desta maneira se afirma como pessoa concreta e é directamente
concebida como divindade”.
Kerinthus, contemporâneo de S. João e do primeiro cristão gnóstico a quem os adversários da teoria dos
ciclos (doutrina dos ciclos de mil anos) atribuíam a redação do Apocalipse, ensinava que o Eon Jesus se uniu
ao homem Jesus no baptismo e que o abandonou antes da crucifixão (cf. Renan). Segundo os ensinamentos
maniqueus, a crucifixão foi apenas uma aparência (Reinach, Orphée).
Uma obra cátara dizia que Cristo deixou crucificar um demónio em seu lugar, demónio a que tinha dado o
seu aspecto (Moneta, Döllinger).
Eis o hino das Almas, o conhecido poema gnóstico, posto de maneira interessante em paralelo com o mito
albigense:

E por sua causa revestiu uma forma fugitiva


Atormentada pela agitação, dominada pela Morte.

Tão depressa tem poder para ver a luz,


Como geme ferida pelo desespero.
Tão depressa é chorada e se alegra
Como logo chora e é julgada.
Depois, condenam-na e morre
E não achando meio de sair do Mal,
Erra aflita nos meandros do Labirinto.

Então, falou Jesus: Vê, Pai,


Essa corrida ao Mal sobre a Terra.
Afasta-a do teu Espírito!
Ela tenta fugir ao Caos
Mas não sabe como fazer.
Assim, Pai, envia-me
Com os selos nas mãos, quero descer
Tomar a aparência dos Deuses
Abrir todos os mistérios
E dar a conhecer a vida santa e oculta da Gnose.
Leisegang, A Gnose.
(Fim da nota)

“Vim como luz a este mundo para que o que crê em mim não fique nas
trevas. Tende fé na luz que está entre vós e sereis filhos da luz”.
S. João, XII, 36, 46

Cristo não se fez homem, não se fez criatura, tomou a aparência de homem. Dava a impressão de comer,
de beber, de ensinar, de sofrer e de morrer, nada mais. Só mostrou aos homens uma espécie de sombra do
seu corpo. Por isso, caminhou na água e se transfigurou no Thabor, onde revelou aos discípulos a verdadeira
substância do seu “corpo”. Depois da queda de Lucifer, Jesus Cristo é o primeiro dos anjos, justamente por
isso é chamado Filho de Deus.
Jesus dizia não ser deste mundo, mas do alto. Os cátaros aplicavam essa passagem do Novo Testamento
não apenas à natureza espiritual do Salvador, mas também ao seu corpo. Foi com esse corpo etéreo que o
Cristo eterno entrou no corpo de Maria e, na sua qualidade de Verbo de Deus, pelo ouvido. Deixou-a tão
pura como antes de entrar nela e não lhe tomou o que quer que seja de material. Eis a razão pela qual nunca
lhe chamou mãe e porque um dia lhe disse: “Mulher, que posso fazer contigo?”
Os cátaros não admitiam realidade nos milagres de Jesus. Como era capaz de curar sofrimentos do corpo,
se considerava o corpo um obstáculo à redenção da alma? Quando curava cegos, curava homens que eram
cegos ao pecado e dava-lhes a visão da verdade. O pão que distribuiu a cinco mil pessoas, é o Verbo que dá a
vida verdadeira, o pão da alma. A tempestade que amainou é a tempestade das paixões desencadeadas por
Satanás. Aqui se aplica a palavra de Cristo: a letra mata, o espírito vivifica.
Uma vez que o corpo de Cristo não era de natureza terrena, a sua crucifixão foi só aparente, única razão
que torna possível a sua Ascensão. Uma ascensão com corpo de carne e osso era absurda para os cátaros. Um
corpo humano não pode ir ao céu, um ser eterno não morre. Para os hereges occitanos, a paixão de Cristo
representa somente o mito grandioso do “Sacrifício de amor” que diviniza.

O Cristo integral não veio à terra


A sua imagem humana e divina tem de ser completada.
Um dia, virá a salvação do mundo, chegará a Redenção
Quando Deus e o homem se penetrarem vivos no Espírito.
Quando a imagem de Jesus, reflexo dos sentidos,
Oscilar e se apagar no fluxo contínuo do tempo
E todos os testemunhos de Jesus desaparecerem,
O Deus-Homem é o centro, o coração luminoso de todos os mundos.
Lenau, Les Albigeois

O catarismo occitano era ao mesmo tempo filosofia, religião, metafísica e culto. Como filosofia, resultava
da especulação sobre as relações entre Deus e o mundo, entre o Bem e o Mal. Desse sistema, os trovadores
cátaros iriam construir uma verdadeira mitologia.
No dualismo albigense, a antinomia entre Bem e Mal não é eterna. Haverá um último julgamento, a partir
do qual se consumará a vitória de Deus sobre Lucifer, do espírito sobre a matéria. Então, arrependido como
o filho pródigo, Lucibel voltará ao seu criador e pai. As almas humanas tornar-se-ão anjos, a ordem será
restabelecida como antes da queda dos anjos. Como no Reino de Deus, a beatitude será eterna. Dado que as
almas voltam a entrar em Deus, não há danação eterna, que é inconciliável com o Amor absoluto de Deus.

NOTA DE OTTO RAHN


Wolfram e a doutrina; tentativa de universalismo religioso

“O filho do Homem não veio perder almas, mas guardá-las”.


Lucas, IX, 56

“As almas dos anjos caídos voltarão a subir ao Céu, ninguém sobe ao
céu antes de ter descido”.
João, III, 13

Em Parzival, encontramos uma interpretação parecida:

Porque ninguém pode empreender a Demanda do Graal


Se não a conheceu no Céu.

Segundo o ensinamento cátaro, não foram criadas almas novas depois da queda dos anjos. Nos tempos
anteriores a Cristo, não era possível a beatitude celeste. Para se obter a salvação, havia que incarnar uma vez
mais depois da passagem de Cristo na terra.

Do Pai Adão beatitude


Em conjunto com dor rude
Coube-nos em herança,
Por isso lhe estamos ligados.
Quando o Anjo Senhor soube
Que connosco tinha parentesco
Aos homens deixou em herança
A dura pena do Pecado.
Emudecido de compaixão
Do mundo o Mestre Supremo
Que a Piedade sempre acompanha
Fez-se homem, por nós sofreu
E contra a infidelidade
Fielmente lançou a campanha.

Aqui, Wolfram inspira-se na fé ortodoxa segundo a qual Cristo se fez homem e se deixou crucificar, mas
não está de acordo com o dogma ao falar das revoltas que o Senhor deixou no Inferno.

Platão, o sábio e santo profeta


Predisse antecipadamente,
E Sibila, a profetisa,
Para que se dissipe o erro.
Sabiam há muito
Do Salvador que nos seria dado
Que carregaria os nossos males.
Ao perigo do Inferno
O Senhor então desceu
E cheio de amor nos guiou
Para nos fazer sair de lá
Deixou ficar os Revoltados.

Convém realçar, aliás, que Wolfram não presta a menor atenção às profecias do Antigo Testamento. Pelo
contrário, como o exemplo prova, invoca filósofos pagãos e profetisas como percursores e anunciadores de
Cristo. Feirefiz, o muçulmano, é admitido na contemplação do Graal!
Vemos, pois, que o dualismo cátaro se relaciona com os mistérios metafísicos e religiosos pitagóricos,
órficos e mazdeístas. No entanto, os hereges cátaros afirmaram-se cristãos em todas as ocasiões. Eram-no
também, de facto, já que seguiam o mais alto mandamento de Cristo: “Ordeno que vos ameis uns aos outros.
Cada qual reconhecerá que é meu discípulo no amor que tiverdes uns aos outros” (João, XV e XIII, 35).

Na verdade, era considerável o abismo que separava o catarismo do cristianismo de Roma, de Wittenberg
e de Genève. Sem ser expressamente diteísta, também não era monoteísta. Das chamadas Sagradas Escrituras,
rejeitavam, como vimos, o Antigo Testamento. Jesus Cristo não era o Jesus judeu de Nazaré e de Belém, mas
o herói de uma mitologia transfigurada por uma auréola divina.
Por mais pura e estricta que fosse a moral cátara, nada tinha a ver com a do cristianismo, que não pede a
mortificação do que é corporal, o desprezo pela criação terrena e a dissolução dos laços mundanos. Os
cátaros desejavam alcançar na terra a perfeição universal com a ajuda da imaginação e da vontade e, para não
caírem no materialismo da Igreja romana, espiritualizavam tudo: religião, culto e vida.
Por isso, é ainda mais surpreendente que a sua doutrina, sem dúvida a mais tolerante e a mais intolerante
das doutrinas cristãs, se tivesse difundido com uma força quase sem exemplo. A razão principal foi a vida
exemplar de pureza e de piedade dos cátaros, em contraste visível com o género de vida do clero ortodoxo. O
catarismo propagou-se sobretudo na França do sul em razão do seu carácter autóctone e porque os occitanos
sentiam mais próximos de si os mitos e as alegorias dos Puros que as prédicas dos padres ortodoxos, muitas
vezes ignóbeis e frequentemente indignas.
Não esqueçamos também que o dualismo cátaro representava uma diversão benfazeja em relação à crença
do diabo propagada pela Igreja medieval. É bastante conhecida a influência deprimente que o medo do diabo
exerceu na atitude intelectual da época. Na Igreja occitana, o Anticristo é o adversário de Deus: tem o seu
inferno, os seus exércitos e poder satânico sobre os espíritos. Comparada com a crença católica do diabo, que
confere a todo o milénio o estigma da desolação, a ideia dos cátaros sobre Lucibel é quase reconfortante. Para
eles, Lucifer era apenas um anjo insubmisso, não sobrenatural, a incarnação do mundo, como é e como será
sempre. Se a humanidade descobrir por si mesma a via sobrenatural, o poder do Príncipe deste mundo
rompe-se, afirmavam os cátaros. Nada mais lhe resta que submeter-se contricto e penitente ao Espírito.
Retiremos à doutrina cátara todos os acessórios mitológicos. Que fica? A famosa quádrupla decomposição
de Kant:
Primeira: coexistência entre o homem de bom e mau princípio.
Segunda: Luta entre o bom e o mau princípio pelo domínio do homem.
Terceira: vitória do Bem sobre o Mal, começo do Reino de Deus.
Quarta: diferenciação do verdadeiro e do falso sob a direcção do princípio bom.
Vemos, pois, que na terra occitana a poesia e a filosofia eram, verdadeiramente, um todo indissolúvel.
A Igreja de Amor (Minne) occitana era composta de Perfeiros (Perfecti) e de fiéis (credentes ou imperfecti). Os
fiéis não eram constrangidos às regras severas observadas pelos Perfeitos na sua qualidade de Puros. O seu
número, aliás, era extraordinariamente restrito. Na época mais florescente, não foi além de seiscentos ou
setecentos.

Os Perfeitos
(Permanência de uma ascese)

O número de Perfecti heréticos era extremamente reduzido. Rondava seiscentos ou setecentos no tempo da
primeira cruzada, período de grande crescimento do catarismo. Numa doutrina que recusava os vínculos
terrenos e recomendava exercícios ascéticos que requeriam toda a robustez física, não é de surpreender66.
(Fim da nota)

Em contrapartida, os credentes, geralmente chamados “cristãos”, eram numerosos. Com os valdenses, eram
muito superiores em número aos ortodoxos. Aos imperfecti era permitido agir como lhes aprouvesse, podiam
casar, tratar de negócios ou de lieder de amor, ir à guerra, enfim, viver como se vivia então na Occitânia. O
nome cátaro era reservado aos que, depois de um tempo de preparação rigorosa e mediante determinada
função sacramental (o Consolamentum, consolação, de que falaremos mais à frente), tinham sido iniciados nos
mistérios esotéricos da Igreja de Amor.
Como os druídas, os cátaros viviam em florestas e grutas, e era lá, quase exclusivamente, que cumpriam as
cerimónias do seu culto. Uma mesa coberta com uma toalha branca servia de altar e, sobre esta, era colocado
o Novo Testamento em língua provençal, aberto no primeiro capítulo do Evangelho segundo S. João: “No
princípio era o Verbo e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus...”
O serviço divino era também bastante simples67. Começava pelo comentário de uma passagem do Novo
Testamento. Em seguida, vinha a bênção. Os fiéis presentes no ofício juntavam as mãos, ajoelhavam-se e
prosternavam-se três vezes dizendo aos Perfeitos: “Abençoai-nos”.
À terceira vez, acrescentavam: “Orai a Deus por nós, pecadores, para que faça de nós bons cristãos e nos
conduza a bom fim”.
Os Perfeitos levantavam as mãos a abençoar e respondiam: “Diaus vos benesiga” (que Deus vos abençoe).
“Que Deus faça de vós bons cristãos e vos conduza a bom fim!”
Na Alemanha, onde também havia cátaros, os fiéis imploravam a benção em prosa ritmada: “Nimmer müsse
ich ersterben, ich müsse um euch erwerben, dass mein end gut werde” (por nada do mundo quero morrer sem conseguir
de vós que o meu fim seja bom).
Os Perfeitos respondiam: “Que sejas um homem bom” (und werdest ein gut mann).
Depois da bênção, os assistentes rezavam o Pater Noster, a única oração admitida pela Igreja de Amor. Só
que, em lugar de dizerem “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”, diziam “dai-nos em cada dia o nosso pão
supraterreno”, visto que, segundo o seu parecer, o pão terreno não merecia uma oração. Apesar do pedido de
pão supraterreno estar em conformidade com a Vulgata romana que diz em Mateus, cap. VI, vers. 2 “Panem
nostrum supersubstantialem da nobis hodie”, Roma acusou-os de terem falsificado essa passagem.
Antes de cada refeição, na qual estava sempre presente um Perfectus, tinha lugar a partilha solene do pão.
No momento de se sentarem à mesa, rezava-se o Pater Noster, pedia-se e recebia-se a bênção do cátaro. Este,
ou, se estavam vários, o mais velho tomava o pão, benzia-o e distribuía-o com estas palavras: “Que a graça de
Nosso Senhor esteja convosco”.
Esses ágapes, que lembram os primeiros tempos do cristianismo, simbolizavam a comunidade espiritual
dos Perfeitos e fiéis da Igreja de Amor e não, como entre os cristãos, a participação beata de graças, fruto do
sacramento. Nas épocas de perseguição, quando os cátaros eram obrigados a esconder-se e não podiam
visitar regularmente os crentes, o pão abençoado era levado por mensageiros a cidades e aldeias.
Os cátaros não aceitavam a Eucaristia dos católicos. Não podiam acreditar que o pão material sofresse
uma metamorfose sobrenatural com a consagração e, por conseguinte, que pudesse tornar-se no corpo de
Cristo, etéreo e radioso. A Igreja repeliu e amaldiçoou esse conceito herético, apesar de ela própria não ter
convertido em dogma a doutrina da transubstanciação. Os cátaros admitiam a palavra do Senhor que diz que
“quem comer a minha carne e beber o meu sangue, terá vida eterna”, mas acrescentavam que “só o espírito
vivifica, que as suas palavras são espírito de Vida, mas que a carne não serve de nada”. O pão celeste que
concede a vida eterna não é o pão dos Perfeitos, é o Verbo de Deus, pois o corpo de Cristo não está no altar
nem nas mãos do sacerdote. É a comunidade dos que cultivam a Minne suprema: a Igreja de Amor.

Passa a era de Cristo que velou Deus


A Nova Aliança cai aos pedaços
Assim concebemos Deus como Espírito
Assim será consagrada a Aliança Eterna
O Espírito é Deus! Que estas palavras soem com força,
Como um trovão de alegria na noite da Primavera.
Lenau, Les Albigeois

NOTA DE OTTO RAHN


Paracleto e Mani

Os cátaros não viam o Paracleto no Espírito Santo. Chamavam-lhe normalmente Spiritus Principalis (como
no Salmo I, 14), que é adorado com o Pai e o Filho, que, como o Filho, é uma criação do Pai, mas muito
acima de qualquer outro espírito e de uma beleza tão indizível, que os anjos o contemplam com inveja68. Os
espíritos que, segundo o ensinamento cátaro, tinham sido dados por Deus como guardas das almas (a cada
corpo corresponde uma alma, anima, e a cada alma um espírito, spiritus) eram também considerados por
muitos cátaros espíritos santos. Em primeiro lugar, por serem uma emanação de Deus, logo, eternos. Em
segundo lugar, porque não tinham optado no Céu pela causa de Lucifer e porque, dada a sua natureza
perfeita, Lucifer não conseguira trato com eles. Esses espíritos formavam com o corpo e com a alma a tripla
personalidade do homem, mas encontravam-se no exterior do corpo humano a governar e conduzir a alma. A
propósito desses espíritos, remetiam-se às palavras do apóstolo Paulo: “Pois que vós desejais com ardor os
dons espirituais, procurai tê-los em abundância”69. Durante o tempo que o espírito não foi devolvido ao
homem, esteve espiritualmente morto.
Entre o Spiritus Principalis e os espíritos que guardam e governam as almas, distinguem-se sete espíritos que,
segundo o Apocalipse (João, I, 4) estão diante do trono de Deus. Para os cátaros, um deles era o Paracleto
(Döllinger).
A crença predominante e conforme ao Evangelho de João admitia a identidade entre o Paracleto e o
Espírito Santo70. Àcerca da famosa Manisola ou Malisola dos cátaros, consulte-se Peyrat, ainda que os seus
dados sejam escassos, e Schmidt. Segundo Eckbert de Colónia, irmão de santa Isabel, e segundo Ducange71, a
Manisola chamava-se realmente Malisola. Eckbert faz derivar a palavra de Malus, o Maligno, e não de Mani. A
palavra Mani encontra-se também nas célebres inscrições dos templos hindus e em paredes de grutas: Om
Mani padme Om. Ao que parece, a Mani era uma esmeralda chamada Pedra da sabedoria e Pedra da castidade72.
Os cátaros não acreditavam em Maria, a mãe terrena de Cristo, para eles, era apenas um símbolo. Maria era
Mani, Espírito divino e Amor, o Paracleto73. À sua igreja, os cátaros chamavam Igreja do Paracleto.
Era corrente na Idade Média comparar a verdade da fé a uma pedra preciosa. Penso nesse extraordinário
romance espiritual de Barlaam e Josaphat, que nada mais é que a forma cristã da tradição hindu da vida de
Buda. Na sua forma primitiva, é possível que tenha vindo do Irão e, através de uma versão grega, transmitido
ao Ocidente. Nesse romance, o monje cristão Barlaam chega à Índia disfarçado de mercador com o propósito
de converter o príncipe Josaphat (aliás, Joasaph = Buda) ao cristianismo e apresenta-se com o pretexto de lhe
mostrar uma pedra preciosa que tem o poder de devolver a vista aos cegos e o ouvido aos surdos, mas que só
o ser casto e puro de coração pode olhar sem perigo. O príncipe arde em desejos de ver a pedra maravilhosa,
mas Barlaam diz-lhe que só lha poderá mostrar depois de comprovar a sua sabedoria. Através de uma série de
comparações, Barlaam explica a Josaphat as excelências da fé cristã.
Na parábola da pedra preciosa, o monje compara a fé cristã a uma jóia que só pode ser desvelada ao puro
de coração. Na parábola do jovem rico e da cristã pobre, o pai da noiva só concede a mão da filha àquele a
quem tiver experimentado o coração e feito herdeiro de um tesouro: o que fugir da opulência do mundo (o
noivo rico) e escolher a pobreza da vida cristã (desposando a cristã pobre) receberá esse belo tesouro, que é o
Paraíso. A correlação com Parzival de Wolfram não é, porém, suficiente. Considere-se agora a passagem em
que, instigado pelo mágico Theudas, Josaphat é seduzido por jovens encantadoras. Há razões para supor que
foi com intenção e não por mal-entendido que Wolfram designou como pedra preciosa o desejo do Paracleto.
O texto provençal do romance de Barlaam e Josaphat, muito considerado pelos cátaros, dá um resumo
rico de esclarecimentos sobre o sentido de dados gregos e latinos anteriores. Assim, entre outras coisas, foram
largamente expostas as palavras de Barlaam sobre as questões espirituais, em especial a loucura da idolatria, a
grandeza de Deus e a magnificência da criação.
A mitologia hindu conhecia uma “mesa de esmolas” de Buda que renova continuamente as vitualhas com
que está coberta e uma pedra que simbolizava a aspiração ao ideal: Tschinta-Mani, àcerca da qual Kampers
escreveu na sua obra Lichtland der Seelen and der Heilige Gral: “Muitas passagens das lendas hindus sobre a
Tschinta-Mani lembram as nossas lendas do Graal. A lenda da pedra que dia e noite dispensa luz e dá alimento
e bebida, a pedra que o filho do rei Gedon guarda no castelo das quinhentas deusas, é a prefiguração do
nosso Parzival. Os cátaros viam no Espírito Santo o Espírito principal, a Mani ou o Paracleto (em brâmane,
Shakti), uma espécie de contrapartida de Deus, um princípio feminino, a Mãe do Logos”.
(Fim da nota)

Nos capítulos XIV e XV do Evangelho de João, Jesus promete aos discípulos que pedirá ao Pai que lhes
envie outro “consolador” (em grego, parakletos, em provençal consort), o Espírito da Verdade, que o mundo
não pode receber porque não o vê nem reconhece.
Além do Nadal (Natal), Pascos (Páscoa) e Pentecosta (Pentecostes), a festa principal dos cátaros era a
Manisola, a festa do Paracleto (a Mani hindu, a Ideia platónica, a Mens latina).
O símbolo do Espírito que é Deus — tomado do budismo pelos cátaros — era a Mani, pedra preciosa
fulgurante que ilumina o mundo e faz esquecer os desejos terrenos. Mani é o emblema da Lei búdica que
dissipa a noite do erro. No Nepal e no Tibete é considerada o símbolo da Dhyanibodhisattva Avalokitecvara ou
Padmapani, o amor do próximo. A mitologia hindu contém uma “mesa de esmolas” que sem cessar se cobre
de vitualhas, e uma pedra maravilhosa, a Tschinta-Mani, que ilumina noite e dia, dispensando a todos manjares
e bebidas. Como Wolfram von Eschenbach, podemos igualmente afirmar:

E essa pedra
Também se chamava Graal!

No começo, era Deus, o Eterno, o Insondável, o que tem milhares de nomes mas que é o que é: Deus!
No começo estava perto de Deus o Verbo, o Logos. O seu pai é Deus e sua mãe é o Espírito, que é Deus.
O Verbo é Deus.
No começo, estava também o Espírito. É o Amor com que Deus pronunciou a Palavra que se fez Vida e
Luz. O Espírito é Amor. O Espírito é Deus. O Amor é Deus. O Amor é mais brilhante que o sol, mais
cintilante que a melhor pedra preciosa...
Não se conhece o mistério da Manisola cátara. Os torcionários da Inquisição não conseguiram arrancar aos
cátaros a ciência do Amor consolador, a Minne suprema, e o segredo ficou sepultado com os últimos hereges
nas cavernas de Ornolac! Os registos da Inquisição falam apenas do Consolamentum Spiritus Sancti, a função
sacramental mais solene do catarismo exotérico. Os crentes podiam assistir e foram crentes que falaram
durante as torturas. Os cátaros rejeitavam o baptismo da água e substituíram-no pelo baptismo do Espírito, o
Consolamentum.

NOTA DE OTTO RAHN


As vestes dos Eleitos, as metamorfoses do Graal

O Consolamentum e o mistério órfico tinham idêntica finalidade: impedir que a alma transmigrasse para
outro corpo depois da ruptura do laço vital. Em relação com a crença cátara sobre a transmigração das almas,
tinham especial relevância as palavras de Pedro quando insistia que a alma estava no interior do corpo como
numa prisão e que era a elas que Cristo se dirigira no tempo de Noé, quando ainda sofriam de cegueira.
No ofício divino dos hereges, havia um Perfeito especialmente consagrado e três ministros: o bispo, o filius
major e o filius minor. Cada um era assistido por um diácono. A direcção geral da Igreja herética estava entregue
a um Patriarca.
Tudo indica que hábito herético foi copiado da kosti e da saddarah dos mazdeístas, veste e camisa sagradas
que os crentes vestiam. O seu uso entre os zend e os brâmanes indica que a sua origem remonta a tempos
pré-históricos anteriores à dispersão dos povos arianos. No tempo dos cátaros, os que usavam a túnica e o
hábito eram considerados pelos inquisidores haeriticus indutus ou vestitus, iniciados nos mistérios da heresia.
Numa interpolação da Lettre du Presbytère, sem dúvida uma combinação de Parzival e do Rei Sacerdote,
traduzida do latim por Oswald l’Ecrivain, são-nos apresentados oficiantes de extraordinária pureza a servirem
num santuário cujas dimensões podem alterar à vontade. Antes de celebrarem o sacrifício, despem os hábitos
que trazem e vestem outros tão brilhantes como o sol. Não se sabe quem os confeccionou.
Não se trata de qualquer fantasia da imaginação. Esse poema revive a lenda gnóstica da Ascensão da Pistis
Sophia. O umbral do santuário é o limite do Cosmos. É aí que o oficiante deixa as vestes corporais e é lá que
recebe as vestes de glória e de luz. Na tradição judaica, Rabbi Perachja é despojado do hábito e só então pode
ver o Paraíso em toda a sua magnificência. A tradição mandeia ensina como a carapaça de carne e de sangue
pode ser transmutada em manto de luz. Há numerosas tradições semelhantes.
A velha concepção gnóstica segundo a qual os eleitos recebem no Céu um manto de glória, está na origem
das histórias relacionadas com vestimentas celestes. A fábula na qual Apolónio sobe as escadas do Paraíso, é
outra ilustração. Esta constante significa, indubitavelmente, que o santuário é uma variante do Palácio celeste
do Rei Sacerdote e, a seu modo, a materialização do reino das almas em contínua expansão.
Nos mitos e lendas do Oriente, a mesa dispensa alimento e bebida. Na lenda do Rei Sacerdote, opera
maravilhas. Esta, ou a arca, que é o seu equivalente, é exaltada em toda a tradição árabe-hispânica. O
santuário cujas dimensões se ampliam à vontade, é uma imagem do sagrado. Irei mais longe ainda: a arca que
se dilata até ao tamanho de um santuário, representa o trono divino materializado neste mundo, a alta mansão
dos Eleitos. É o Graal, simplesmente. O Graal é, pois, o reino da beatitude e o palácio do eterno repouso a
que Anfortas aspira.
Esta explicação está de acordo com a interpretação da palavra Graal, equivalente de Alegria Santa, em uso
na poesia alemã mais tardia.
Kampers diz que “o Graal é o reino das almas bem-aventuradas que viraram as costas ao mundo, e que a
Pedra é o símbolo desse reino”. Com as ideias desenvolvidas no meu texto e nas notas que o completam,
temos os dados nos que permitem concluir que, na Idade Média, o Graal foi a Igreja do Amor supremo e o
seu símbolo74.
Para o catarismo, o mundo era uma ilusão e os seres humanos viviam aí uma vida semelhante à morte. Só
quem tinha recebido o Consolamentum da Igreja do Amor Supremo e cuja alma era una com o Espírito, vivia
realmente, pois já tinha dado em expiação na floresta de Briziljan, a que defende o castelo do Graal, o que
vulgarmente se chama a vida. No sentido terreno, os cátaros, os Perfeitos do Amor Supremo, tinham morrido
para o mundo. Viviam no reino dos libertados e experimentavam antecipadamente a alegria paradisíaca da
Transfiguração, como diziam os gnósticos quando falavam da salvação. No começo, o homem, que tinha
vindo do céu, foi colocado no Paraíso terrestre e, daí, expulso para este mundo. Os Puros retornavam ao
Paraíso aberto pelo Evangelho de Cristo e deixavam este mundo, fora do qual acreditavam alcançar o céu, o
reino do Espírito, pela ruptura definitiva entre corpo e alma. Viam simbolizada em Maria a sua Igreja do
Amor Supremo, a Santa Gleysa, princípio feminino da Divindade (como a Shakti hindu). Maria era para eles
— conceito que é, entenda-se, o mais alto ponto herético — a Maya crística (para os pagãos que o ignoram,
não a mãe de Deus, mas a mãe dos Deuses) e também Mani, o amor fecundo ao próximo, o princípio
dispensador do maná celeste venerado nos tempos pagãos com o nome de Diana em Éfeso, sob a forma de
um meteorito chamado Cibele em Angdistis, na Frígia, e com o nome de Ishtar na Babilónia. Ishtar era, como
se sabe, Lucifer-Vénus, a estrela matutina e vespertina, a que os helenos também chamavam Hesperus. Assim
se fecha o círculo no qual se inscrevem o Jardim das Hespérides e a copa do renascimento, o diadema de
Lucifer, o Dragão da Babilónia e a montanha pecaminosa de Venusberg.
(Fim da nota)

Em sua opinião, a água, sendo matéria, não podia exercer qualquer acção expiatória ou divinizadora.
Recusavam-se a acreditar que Deus fizesse uso de uma criação do Adversário para subtrair as almas ao jugo
de Satanás. Diziam que, das duas, uma: a pessoa a ser baptizada fez penitência, ou não fez. No primeiro caso,
de que serve o baptismo se essa pessoa já foi remida pela afirmação da sua fé e da sua penitência? No
segundo caso, o baptismo é inútil, pois nem o deseja nem o merece. De resto, S. João Baptista dizia que tinha
baptizado com água, mas que Cristo baptizaria com o Espírito Santo.
O Consolamentum era o fim a que aspiravam e tendiam os fiéis da Igreja de Amor. Devia proporcionar-lhes
um bom final e salvar-lhes a alma75. Se um fiel morria sem receber o Consolamentum, acreditavam que a sua
alma emigrava para outro corpo, mesmo para o corpo de um animal (no caso dos grandes pecadores), até que
mais tarde, numa vida posterior, expiados os pecados e tornando-se digna do Consolamentum, se pudesse
aproximar de estrela em estrela do Trono de Deus. Por isso mesmo, o Consolamentum era celebrado com uma
solenidade que contrastava singularmente com a simplicidade do culto cátaro.
Após um longo e difícil período de provas preparatórias, o neófito era levado ao lugar onde iria receber o
Consolamentum. A maior parte das vezes era numa caverna dos Pirinéus ou da montanha Negra. Nas paredes
eram fixados archotes e no meio da sala estava o altar, sobre o qual se abria o Novo Testamento. Antes do
início da cerimónia, todos, Perfeitos e crentes, lavavam as mãos para não profanarem com alguma impureza a
santidade do lugar, depois, formavam um círculo e observavam o mais rigoroso silêncio. O neófito estava no
centro, perto do altar. O Perfectus que oficiava como sacerdote abria a função sacramental, convidava-o a
confirmar a sua fé na doutrina cátara, recordava-lhe os votos a pronunciar e avisava-o dos perigos que podia
correr no caso de perseguição.
Se o recipiendário era casado, perguntava-se à mulher se estava disposta a romper os laços conjugais para
oferecer o marido a Deus e ao Evangelho. Se era a mulher a receber o Consolamentum, a questão era posta ao
marido.
Depois, o sacerdote perguntava ao fiel: “Irmão, queres abraçar a nossa fé?”
“Sim, Messire”.
A seguir ajoelhava, tocava a terra com as mãos e dizia: “Dai-me a bênção”.
“Deus te abençoe!”
Isto, por três vezes. Em cada vez, o fiel aproximava-se mais do sacerdote e à terceira acrescentava:
“Messire, pedi a Deus que me conduza a bom final”.
“Que Deus te abençoe, faça de ti um bom cristão e te conduza a bom final”.
Finalmente, sempre ajoelhado, o novo irmão prestava juramento:
“Juro consagrar-me a Deus e ao Evangelho, não mentir nem praguejar, não ter contacto com mulheres,
não matar animais, não comer carne e alimentar-me apenas de frutos. Não viajar, não viver e não comer sem
a companhia de um irmão e, no caso de cair nas mãos dos nossos inimigos ou de ser separado do meu irmão,
abster-me durante três dias de alimento. Qualquer que seja a morte que me espere, juro nunca trair a minha
fé”.
Pedia novamente a bênção por três vezes e toda a assistência caía de joelhos. O sacerdote aproximava-se,
dava-lhe a Bíblia a beijar e pousava-lha na cabeça. Então, os Perfeitos avançavam para ele. Uns punham-lhe a
mão direita na cabeça, os outros, no ombro. Os presentes diziam: “Oremos ao Pai, ao Filho e ao Espírito
Santo”.
O oficiante suplicava a Deus se dignasse fazer descer sobre o novo irmão o santo e consolador Espírito. A
assembleia rezava o Pater Noster e o sacerdote lia os primeiros dezassete versículos do Evangelho de S. João.
O irmão “consolado” era cingido com uma corda entrançada que nunca devia abandonar. Era o seu “hábito”
simbólico.
Finalmente, os Perfeitos davam ao novo Puro o beijo da paz. Este, por sua vez, ao irmão mais próximo e
este ao seguinte, até se completar a volta. Se o Consolamentum era conferido a um crente, o sacerdote tocava-
lhe o ombro com a Bíblia e oferecia-lhe o braço. Sob essa forma simbólica, o cátaro dava o beijo da paz ao
seu vizinho e assim sucessivamente.
Finda a cerimónia, o neófito devia retirar-se para a solidão e viver durante quarenta dias apenas de pão e
água (mesmo tendo feito antes períodos de jejum não menos longos e não menos severos). Chamava-se
Endura ao jejum feito antes e depois da recepção do Consolamentum.
Quando conferido a fiéis moribundos, dois cátaros e alguns crentes iam ao seu quarto. O mais idoso
perguntava ao doente se desejava consagrar-se a Deus e ao Evangelho. Seguia-se a cerimónia tradicional, com
a diferença que era posto um lençol branco no peito do neófito. Um dos cátaros ficava à cabeceira, o outro,
aos pés.
Depois do Consolamentum e durante o Endura, houve muitos cátaros se deram voluntariamente a morte. A
sua doutrina, como a doutrina dos druídas, permitia o suicídio. Mas exigia que não fosse praticado por tédio,
por medo ou por sofrimento, mas em estado de completo desprendimento da matéria.
Esse tipo de Endura era permitido se se realizava durante uma visão momentânea e mística da Beleza e da
Bondade divinas. O que se suicidava por medo, por aflição ou desgostoso da vida, continuaria, segundo a
doutrina cátara, a arrastar a alma no mesmo estado de medo, de sofrimento e de fadiga. Os hereges sustinham
que a única vida real era a que vinha depois da morte, mas ensinavam que só havia o direito de pôr fim à vida
desde que fosse para “viver”.
Do jejum ao suicídio, não ia mais de um passo. O jejum exige coragem, o último acto de morte da carne
pede heroísmo. Apesar de tudo, o trânsito não é tão cruel como pode parecer.
Observemos a máscara mortuária da Desconhecida do Sena. Que lemos ali? Medo da morte, do purgatório e
do inferno, do Juízo Final e da vingança divina? Boa cristã não era, uma vez que o dogma cristão proscreve o
suicídio. Dilacerada pela angústia também não, não tem o aspecto de mulher angustiada. Não. Era uma jovem
a quem o Além atraía mais que o mundo que a cercava, que teve a coragem de matar o corpo para ser apenas
alma. O seu corpo morreu na água suja do Sena, o seu sorriso bem-aventurado sobreviveu.
A morte de Fausto foi, no fundo, uma morte voluntária. Se no instante em que disse “Fica, és muito belo!”
não tivesse violado o pacto com Mefistófeles, ninguém teria impedido que continuasse a viver na terra. É um
episódio que encerra uma lição profunda: o suicídio só deve ter lugar num momento de alegria suprema —
quanta mais alta é a alegria, menos terrena é — quando, liberto da angústia e da mentira, soberanas deste
mundo, puder dizer com toda a tranquilidade da alma: “Não vivi em vão!”76
Na doutrina herética, que significa “não viver em vão”? Primeiro, amar o próximo como a si mesmo, ou
seja, não deixar um irmão sofrer se é possível prestar-lhe auxílio e conforto. Segundo, não fazer mal ao
próximo e, acima de tudo, não o matar. Terceiro: espiritualizar-se, divinizar-se de tal maneira, que na hora da
morte o corpo abandone o mundo sem o lamentar. De contrário, a alma não terá repouso. Se, humanamente
falando, não se viveu em vão, se se fez apenas o bem e se o próprio se tornou bom, então, dizem os cátaros,
ganha-se o direito, por se ser “perfeito”, de dar o passo decisivo.
O Endura era sempre praticado a dois, em geral com o irmão ao lado do qual o cátaro tinha passado anos
de esforços contínuos e de espiritualização intensiva em sublime amizade e com o qual queria comparticipar a
outra vida, a vida verdadeira, as belezas vislumbradas no Além e a revelação das leis divinas que movem os
mundos. Mas havia outra razão: a dor de se ver obrigado a abandonar o irmão. No instante da morte, a alma
não deve experimentar sofrimento, de outra maneira continuará a sofrer no Além. Quando se ama o próximo
como a si mesmo, não há o direito de infligir ao próximo a dor da separação e, além disso, a dor infligida a
outro tem de ser expiada: nesse caso, a divinização de estrela em estrela, de degrau em degrau na montanha
da Purificação, como diz Dante77, é retardada de tal modo que, mesmo apercebendo a Divindade, a separação
é muito mais dolorosa.

NOTA DE OTTO RAHN


Dante e o gnosticismo
Comentando o Purgatório de Dante, Kampers diz o seguinte: “A concepção que lembra o mito hindu da
montanha celeste e inacessível no sopé ou no cume da qual está situado o Jardim do Eden, foi uma constante
em toda a Idade Média. Efraim, o Sírio, cantava a montanha Paraíso que cresce em magnificência em cada
socalco e sabia que a preciosa Pedra que está no Paraíso envolve os homens e as mulheres em auras de luz”.
Para Rudolf von Ems, o Paraíso terrestre, o mais alto lugar da terra, inacessível aos que a ignorância cegou,
rodeia os que conhecem a sua claridade78.
“Diante dos olhos de Dante, o poeta, desenrolam-se — embora não saibamos o que está na origem dessas
passagens — todos os grandiosos frescos que a Gnose retirou dos mitos e da Bíblia. A montanha de socalcos
é o Purgatório. A alma deve passar sete portas. Depois da última e flamejante porta, impera a graça e é aí que
se celebram os esponsais da Sophia gnóstica e do Cristo solar. O poema de Dante termina com as núpcias de
Beatriz à sombra da Árvore do Mundo no cimo da montanha do Paraíso terrestre. A Bem-Amada do Amor
Primordial, a Servidora de Luz, como Dante a denomina, em tudo semelhante à Sophia (e à Shakti hindu
unida a Shiva) é totalmente pintada com cores gnósticas. A descrição das bodas de Beatriz junto da Árvore
não é mais que uma variante tardia do tema da santa Fecundidade simbolizada na união secreta do Deus
celeste e da Deusa terrestre no cimo da montanha dos Deuses, onde cresce a árvore que cobre o mundo com
a sua folhagem79.
Havia cinco géneros de morte voluntária entre os cátaros: com veneno, de inanição, abrindo as veias dos
pulsos, lançando-se de um precipício ou, no inverno, deitarem-se depois de um banho quente em cima de
gelo para provocarem uma congestão pulmonar. A congestão era sempre mortal, pois nem o melhor médico
saberia salvar pessoas que querem morrer.
O cátaro considerava este mundo um inferno e tinha diante de si o espectro da morte na fogueira. Como,
para todos os efeitos, tinha morrido para esse mundo ao receber o Consolamentum, podia perfeitamente
“deixar-se morrer”, como se dizia então, e escapar a esse inferno e às fogueiras que se acendiam para ele.
Se Deus é melhor e mais generoso que os homens, não devia reservar aos hereges a posse no Além
daquilo a que aspiravam, do que queriam ao alcançarem as mais difíceis vitórias sobre si mesmos, e isso com a
vontade mais inflexível e mais forte e, como iremos ver, graças a um heroísmo sem igual? Procuravam a
divinização no Espírito. A vontade do homem é o seu reino do céu, portanto, vida depois da morte!
Os que recebiam o Consolamentum eram, a partir de então, Perfeitos. Só eles tinham direito ao nome de
cátaros. Também lhes chamavam “homens bons”, “tecedores” e “consoladores”. A sua vida solitária,
monótona e severa, só se interrompia quando se punham a caminho para pregar pelo país, para receber o
juramento dos fiéis ou dar o Consolamentum aos que o pediam e eram dignos de o receber. Repudiavam a
posse de bens materiais, não pertenciam a si mesmos, estavam votados de corpo e alma à Igreja de Amor. Os
bens e doações que esta recebia eram administrados e utilizados ao serviço da caridade. A via cátara era uma
sucessão de privações e de renúncias. Não renunciavam só aos laços de família e de amizade, sujeitavam-se
três vezes por ano a quarenta dias de jejum e a pão e água três dias por semana.
“Levamos, disseram uma vez, uma vida dura e agitada. Fugimos de cidade em cidade como ovelhas no
meio de lobos, sofremos perseguições como os apóstolos e os mártires e, no entanto, nada mais pedimos que
viver uma vida de piedade, de rigor e de abstinência, de oração e de trabalho. Tudo isso, entretanto, importa-
nos pouco, já não somos deste mundo”.

O que despreza a vida neste mundo


Guarda-a para a vida eterna
S. João, XII, 25

Não matavam um único animal, nem sequer um verme. A doutrina cátara de migração das almas proibia-
o. Tão-pouco tinham o direito de tomar parte numa guerra. Quando se abriu a época das perseguições na
Occitânia, eram vistos de noite a errar nos campos de batalha, mas para tratar os feridos e dar o Consolamentum
aos moribundos. Eram médicos exímios e tinham a reputação de astrólogos infalíveis. Os inquisidores diziam
que tinham o poder de dirigir os ventos, de acalmar marés e de afugentar tempestades.
Vestiam longos trajes negros, símbolo do luto da alma, condenada a uma estadia infernal no baixo mundo.
Usavam uma tiara persa na cabeça (parecida com a barreta dos bascos actuais) e traziam ao peito um estojo de
couro com o Evangelho de S. João. Ao contrário dos frades barbudos e tonsurados, não usavam barba e
deixavam o cabelo crescer até aos ombros.
5.
Terra do Graal, depositários do Graal
Vimos como os cátaros tinham ermitérios e templos nas grutas de Sabarthès e conhecemos a fábula de
Herakles, de Pirene e de Bebryx, enrolada como uma hera à volta de quatro estalagmites na catedral herética
de Lombrives. A partir de romances espanhóis, iremos ver como a “caverna encantada de Herakles” ocultava
uma chave que abria o segredo do Graal. Mas antes, entremos noutras grutas não menos misteriosas do
Sabarthès para subirmos depois a Montségur. Wolfram von Eschenbach mostra-nos o caminho.
Antes de chegar ao castelo do Graal, Mountsalvatsche, Parzival vai a Fontane la Salvatge visitar o piedoso
anacoreta Trevrizent. Trevrizent é herege, não come “alimentos sangrantes, carne ou peixe”. Os cristãos dos
séculos XII e XIII que se abstinham de carne eram suspeitos de terem caído no erro cátaro. Há inúmeros
exemplos de legados do papa encarregados de exterminar a heresia e os hereges terem posto aos suspeitos a
alternativa de comerem carne ou irem para a fogueira.

Combatia o poder do diabo,


Sofrendo as penas do jejum.
Deus deu-lhe tais sentimentos,
Que só vivia para preparar
O dia de voar para o céu.
Wolfram von Eschenbach

Trevrizent não era cátaro80 ao querer vencer pelo jejum o poder diabólico contido na carne e considerando
a sua vida o período de preparação para regressar ao céu, onde a sua alma já tinha estado antes?
Como ele, quando alguém “sofre as penas do jejum”, fica com o mesmo ar de asceta: magro e pálido. No
século IV e até ao fim do século XII, a Igreja romana olhou a palidez como uma das características da heresia.
Os próprios ortodoxos macerados por jejuns e macerações tiveram de prestar contas e muitos bons católicos
foram levados à morte na ideia de que os cristãos de faces pálidas eram fatalmente hereges.
O eremita Trevrizent habitava numa gruta ao lado de Fontane la Salvatge. Levou o jovem Parzival a uma
outra, onde estava o altar. Em frente da catedral de Lombrives, há uma gruta chamada Gruta do Eremita e uma
segunda, não longe desta, que é a Gruta de Fontanet. Na sua sala mais recuada, há uma estalagmite branca como
neve: é o Altar. Daqui se depreende que Wolfram von Eschenbach estava muito bem informado sobre a terra
do Graal e sobre os seus mistérios, mesmo os que se escondem nas profundezas das montanhas.
Há uns trinta anos, entraram quatro jovens nessa gruta: nunca mais foram vistos. É quase certo que
encontraram o repouso eterno num dos hipogeus fenícios ou fócios. Ou teriam descoberto o caminho para o
cimo do Thabor e para Montségur? Na parede à entrada da gruta, há uma questão posta em letras enormes:
Why did I not?... É possível que tenha sido um deles...
Há muitas questões que afloram ao espírito nas grutas do Sabarthès, mas não há resposta para elas. Várias
vezes, quando a minha lanterna fazia sair magicamente das trevas o Altar da gruta de Fontanet, perguntei a
mim mesmo como seria o “escrínio” que estava no altar da gruta de Trevrizent quando Parzival recebeu o
conhecimento do Graal.

Ali se erguia também segundo o uso do dia


O altar descoberto e, no meio,
Estava o escrínio
Wolfram von Eschenbach

Acaso fazia parte do “tesouro de Salomão” que o rei dos visigodos, Alarico, transportou em 410 de Roma
para Carcassonne e que, a acreditar em Procópio, se compunha de objectos pertencentes a Salomão, rei dos
hebreus, levados de Jerusalém pelos romanos? A maior parte desse tesouro foi transportada mais tarde por
Teodorico para Ravena e, de lá, para Bizâncio, por Belisario, o célebre general do imperador grego Justiniano.
Uma parte, ficou em Carcassonne, onde, segundo numerosos escritos árabes, teria sido encontrada a Mesa de
Salomão.
Salomão, cujo túmulo a lenda situa entre o Altai e Hindukusch, conhecia o Graal?
Um pagão (de nome Flegetanis),
A quem se atribuía grande saber,
Eleito de entre a raça de Salomão,
Saído do tronco de Israel,
Oferece o primeiro rasto do Graal.
Wolfram von Eschenbach

Na batalha de Jerez de la Frontera (711) que durou sete dias, os visigodos foram vencidos pelos árabes. O
tesouro de Salomão caiu nas mãos dos infiéis em Toledo. Ao que consta, a Mesa de Salomão não estava lá.

No alfarrábio obscuro de um pagão


Em Toledo, entre a poeira,
Kyot, o Mestre valoroso,
Encontrou a fábula que leva
À origem da lenda.
Wolfram von Eschenbach

O “Escrínio” e a “Lenda do Graal”, ambos inseparáveis, ao que parece, estavam guardados na gruta de
Trevrizent. O escrínio e a “fonte primeira das lendas” encontravam-se nesse tesouro e foram postos em lugar
seguro ao abrigo dos infiéis?
Certos romances espanhóis afirmam que a Mesa de Salomão, também chamada “escrínio”, foi guardada na
“gruta mágica de Hércules”. O rei dos godos, Roderic, terá penetrado nessa gruta e descoberto esse escrínio
num canto escuro e, no escrínio, três cálices...
Esses romances conheciam a gruta de Lombrives que esconde em abismos o túmulo de Hércules?
Antes de levar o jovem Parzival à gruta onde estava o escrínio e o iniciar no Mistério do Graal, Trevrizent
entregou-lhe um “hábito”.

A uma gruta, a sua morada,


Onde só chegam os suspiros da brisa,
Aí o levou o anfitrião.
Ali estava uma túnica com que o vestiu
Para o conduzir a uma cela próxima
Wolfram von Eschenbach

Não é só em Wolfram von Eschenbach que a túnica ou o manto, o peixe, a ponte e a barca, permitem
contemplar a santa relíquia. Em todos os mitos e epopeias aparentadas à lenda do Graal se encontram essas
imagens. Deixemos o grande Minnedichter alemão contar como Parzival chegou ao castelo de Mountsalvatsche
onde era guardado o Graal:

Pela tarde, chegou Parzival


A um lago onde uns pescadores
Guardas e senhores das águas,
Estavam numa barca.
Com eles estava um homem
Vestido com roupas ricas.

Alegremente, Parzival
Fez trotar o corcel,
Subiu o caminho direito que leva aos fossos
E encontrou a ponte içada.

E Parzival assim falou:


“O Pescador pediu-me
Que seguisse o caminho do castelo”.
— Sede bem-vindo, Senhor,
A estes lugares que o Pescador
Vos prometeu.

E o camarareiro disse sábias palavras:


— Repanse de Schoye é a Raínha.
Ela vestiu essa túnica
Que deverá pela minha senhora
Ser a vós agora emprestada.
Wolfram von Eschenbach

Em todos esses mitos e lendas, há sempre uma grande extensão de água e uma montanha mágica. Na
Visão de Gregório o Grande, há prados magníficos onde se chega por uma ponte que só os justos podem passar.
Recordam o Garodemana e a ponte de Tschinvat da mitologia mazdeísta. Para se chegar à montanha mágica,
deve entrar-se numa barca que, muitas vezes — sobretudo na mitologia mais antiga — é um cálice, e
atravessar as águas em cima de um peixe ou por uma ponte. Uma vez chegado, encontra um campo soberbo:
o Campo dos asphodelos dos gregos. Ou o vale de Avalon dos celtas, no qual, segundo o poema de Robert de
Borron, foi enterrado José de Arimateia, o primeiro guarda do Graal, o bosque sagrado e o carvalho do qual
pende o Tosão de Ouro, o Jardim das Hespérides que vela pela copa da ressurreição, a floresta maravilhosa
de Oberon que rodeia e protege o castelo de Montmur, a floresta de Briziljan que separa o templo do Graal,
Mountsalvatsche, do resto do mundo.
É na nau Argos que os Argonautas chegam ao país do Tosão de Ouro. Apolo é levado num cálice à terra
dos hiperbóreos e ao Jardim dos Bem-Aventurados, Hespéria. Segundo os gregos, são navios que levam as
almas dos defuntos à Terra da Luz. Por isso se vêm tão frequentemente reproduções de navios nos túmulos
gregos. Descobrem-se os mesmos elementos nas catacumbas cristãs. Muitas vezes, o navio é substituído por
um peixe, principalmente pelo golfinho. Já Homero falava do pescador Orfeu que persegue o peixe sagrado.
Era também o peixe que servia aos primeiros cristãos de emblema do salvador Jesus Cristo que acompanha
os homens ao céu. Os cátaros utilizavam a figura de uma canoa que transporta os defuntos pela via celeste, a
Nave dos Mortos, cuja vela é o sol, símbolo do luminoso Salvador. Também aos seus olhos o peixe era —
como para os primeiros cristãos — o símbolo emblemático de Jesus Cristo, filho de Deus Salvador (Iesous
Christos Theou Uios Soter cujas iniciais ICHTUS significam peixe).
Nas epopeias do Graal, o rei do Graal, Amfortas, é o Rei Pescador. Chrétien de Troyes chama-lhe Roi
Pescière, denominação cuja origem deve estar nas palavras de Cristo: “Farei de vós pescadores de homens”.
No poema em antigo francês de Oberon, Huon de Bordeaux, de que falaremos mais à frente, o “manto” de
um “monje maravilhoso” e, noutra versão, o pescador Mallabron transformado em golfinho, leva Huon e
Esclarmonde ao universo encantado de Oberon.
É oportuno recordar que a túnica e o manto simbolizavam na Igreja de Amor occitana o “hábito” que
depois do Consolamentum era entregue ao neófito em substituição do velho Adão, isto é, das intrigas de Lucifer
e do cativeiro da alma.
A gruta de Trevrizent era salvage (selvagem) mas também salvat (salva). Nas grutas selvagens do Sabarthès,
os irmãos do asceta estavam salvos e em lugar seguro. Já depois dos inquisidores serem donos da catedral de
Lombrives e da gruta do Eremita, os hereges continuaram a resistir nas spulgas até ao século XIV (por spulga
designa-se a caverna fortificada, em latim spelunca, diminutivo de spelum, caverna).
As spulgas do Sabarthès — há duas — eram formidáveis fortalezas subterrâneas. Infelizmente, só se
conhece uma parte pequena das suas inextricáveis galerias e salas. Em toda a parte, as muralhas transformadas
em verdadeiras falésias pela transpiração milenária das águas calcáreas, ocultam o segredo que dorme atrás da
sua espessura.
Até ao presente, a ciência passou sem parar nas spulgas do Sabarthès. Mas, depois de deixarmos a pequena
estância termal de Ornolac-Ussat-les-Bains e ao aproximarmo-nos do desfiladeiro de Puymorens na estrada
de Toulouse para Barcelona, não podemos deixar de ver na falésia a pique, a meia altura à direita, imponentes
entradas de grutas fechadas por paredes coroadas de ameias. É aí que se situa a spulga mais bem conservada, a
caverna fortificada de Bouan. Ainda se vê tudo o que compunha o conjunto de um castelo feudal: torre de
menagem, cisterna, escadas, casamatas, torres de vigia. A spulga de Bouan distingue-se de outros castelos por
ser constituída quase exclusivamente de galerias subterrâneas.
Na outra margem do Ariège, entre as grutas do Eremita e de Fontanet, não longe dos balneários semi-
arruinados de Ussat em cujas águas termais pululam cobras às centenas, vê-se a spulga de Ornolac. Depois de
uma subida penosa em cima de pedras que rolam, chega-se a um emaranhado de figueiras e silvados quase
impenetrável atrás do qual jazem as ruínas de uma enorme porta de castelo. O caminho bordeja as falésias
rochosas e chega às ruínas da spulga sobre a qual a rocha pende como uma “vigia de neve”81. Era por aí que se
acedia às profundezas da montanha? Ignora-se. O acesso desapareceu debaixo dos escombros quando o
burgo herético se tornou pasto das chamas, mas percebe-se a imensidade das suas proporções pelos três furos
feitos nos dois lados da falésia onde assentavam as vigas que suportavam os quatro pisos, se não mais.
As spulgas de Bouan e Ornolac foram testemunhas de uma época agitada. Primeiro, serviram de refúgio aos
celtiberos, esmagados aqui pelas legiões romanas depois da queda da sua capital, Vicus Sotiatum, e, mais tarde,
convertidas pelos romanos em castella inexpugnáveis. Setecentos anos depois, os mouros vitoriosos lançaram
a ofensiva ao norte e alojaram-se ali até 719, ano em que os exércitos de Carlos Magno os derrotaram no
campo de Lombard, entre Tarascon e Ornolac. Trezentos anos depois, era o último refúgio dos cátaros.
Um documento do registo inquisitorial de Carcassonne diz que foi na spulga de Ornolac que Loup de Foix
passou à heresia (Lupus heræticavit in spulga Ornolaco). Loup era filho de Raymond Drut, conde de Foix. Como
todos os filhos de família no Languedoc, foi iniciado na crença herética pelo patriarca da Igreja de Amor
Guilhabert de Castres. Guilhabert, filho de Belissena, pertencia à casa dos Castres da região de Albi, vizinho e
vassalo dos Trencavel de Carcassonne. Ainda que os documentos contemporâneos não o refiram, é de supor
que Raymond-Roger Trencavel foi recebido por Guilhabert de Castres na spulga de Ornolac como crente da
Igreja de Amor. Na altura em que os inquisidores começaram a redigir os seus famosos registos, Trencavel
tinha morrido há muito. Envenenado.
O outro hæreticatio do patriarca Guilhabert causou enorme sensação em todo o mundo cristão. Em 1204,
Guilhabert de Castres administrou o Consolamentum a Esclarmonde de Foix.
Esclarmonde era irmã do conde Raymond Drut e prima do jovem Raymond-Roger de Carcassonne. Da
torre de menagem do castelo paterno de Foix via os cumes nevados do Thabor, as gargantas do Sabarthès e
as pastagens de Olmès. Ainda criança, os pais consagraram-na ao Paracleto. É possível que esteja aí a origem
do seu nome, que aparece com o catarismo e desaparece com ele. Pode ser traduzido como “Luz do mundo”
ou “Luz pura”. O nome de Esclarmonde é também o símbolo da sua vida. De facto, foi a luz do mundo
occitano, a luz pura que a Igreja de Amor fez raiar nas trevas da Idade Média.
Viveu durante muitos anos na corte da viscondessa Adelaide, ao lado da qual presidia a Corte de amor de
Puivert, e casou com o visconde Jordain de Lille et Gimoez. Jordain era descendente de uma velha família da
nobreza ibera. Pelo lado materno, era familiar da Casa de Comminges que, juntamente com Foix e
Carcassonne, dominava os Pirinéus.
Há muito pouca informação sobre a vida de Esclarmonde depois do seu hæreticatio. Pode ser que a entrada
de uma gruta pirenaica se abra um dia para nos esclarecer sobre a mulher que do alto de um rochedo abrupto
dos Pirinéus desafiou os dois maiores poderes do Ocidente da Idade Média: o Louvre e o Vaticano.
Os ortodoxos do século XIII consideravam-na a “Papisa dos hereges”. A Occitânia cátara chamava-lhe
Esclarmunda...

N’Esclarmunda, vostre noms signifia


Que vos donatz clardat al mon per ver
Et etz monda, que nos fes mon dever:
Aitals etz plan com al ric nom tamhia82.
Guillaume de Montanhagol

Esclarmonde pertence simultaneamente à história, à poesia e à lenda. A poesia fez de Esclarmonde a


raínha das fadas do castelo de Montmur. Uma vez que subia de Montségur ao Thabor pela rota dos cátaros,
um velho pastor das montanhas contou-me uma lenda que faz dela a Senhora do Graal. Então, Esclarmonde
seria ao mesmo tempo Titania e Repanse de Schoye.
A Esclarmonde histórica era a suserana do Thabor e de Montségur.
Montségur era Mountsalvatsche e Montmur!

NOTA DE OTTO RAHN


O Graal e o ciclo de Huon

Montmur Oberon, o castelo das Fadas.


Tanto quanto sei, as relações entre o ciclo de Huon e os poemas dedicados ao Graal passaram quase
despercebidas. No quadro desta obra não poderei fazer mais que uns comentários breves a seu respeito, mas
gostava de realçar o que me parece mais significativo.
Já referi antes que os cátaros davam a Satanás o nome de Lucibel. Há aí uma reminiscência de Baal ou de
Abellio. Lucifer é, como se sabe, a tradução latina do grego Phosphoros (portador de Luz), nome dado à estrela
da manhã e da tarde. Para os antigos, Hesperus era também uma denominação corrente. Os Padres da Igreja
medieval entendiam que as palavras de Isaías (XIV, 12) “Como caíste do céu, Tu, bela Estrela da Manhã”
eram dirigidas ao Príncipe das Trevas, pois, para Isaías, a Estrela da Manhã representava o rei destronado da
Babilónia e nada mais.
Na Lenda de Ortnit, o rei dos gnomos, Alberic, príncipe dos Elfos, recorda o papel de Oberon83 na lenda
francesa tornada famosa pelas epopeias românticas de Wieland, na qual Huon, ajudado por Oberon, rapta a
filha do sultão. O inflexível pai da noiva chama-se Machorel, nome que se deve a Malek-al-Adel, irmão de
Saladino, e os combates travados pela jovem noiva têm lugar perto de Montabûr, Mons Thabor, fortaleza
sarracena edificada em 1212, sitiada pelos cruzados em 1217 e desmantelada pelos filhos de Malek-al-Adel em
1218.
Tão estreitas relações entre Monsalväsche, Montmur e Montségur devem ser atribuídas, em meu entender,
às discutidas interpolações da obra de Schäfer. Não deixarei de mencionar que o monte Thabor pirenaico se
situa no país de Sault, domínio e pátria de Esclarmonde d’Alion. Sault procede do latim saltus e significa zona
montanhosa.

Je ne veulz plux au ciecle demourer,


Il me coviet en paraidis aller;
Car nostre Sire le m’ait ainsi mandei...
En cez grant crotte qui sont d’antiquiteit,
Que fee firet, m’lt ait loing tempz paissei.
Se sont repuis, saichiez de veriteit
Pot en voit on ne venir ne aller.
Hüe si est a Momur demourez,
Auberon est en paraidis allez.
Schäfer, págs. 85-86

Na obra de Schäfer intitulada La Comtesse Esclarmonde qui depuis devint Fée, o reino de Esclarmonde é um
lugar intermédio entre a floresta encantada e protectora e o Paraíso. Os próprios nomes utilizados (Eden,
Chastia de Joie, Chastiax des Armes) dão uma imagem desse lugar bendito e cheio de mistério. Para se chegar
a essa terra sagrada, há que atravessar uma extensão de água. Então, chegará às magníficas pradarias dos
asphodelos, tão caras aos antigos. Ali crescem preciosas macieiras, imagem que recorda a antiga representação
do Jardim das Hespérides e o reino celta de Avalon com macieiras e extensos campos de flores de ouro.

Havia nessa fortaleza um caldeiro


De onde brotava ouro e prata.
Que esplêndida descoberta!
O caldeiro foi-nos dado
Pela filha do Rei.
Extracto de um poema irlandês
citado por J. Markale (La Forteresse des Ombres)

Em todas as narrativas do Graal encontramos um Paraíso primordial tão vivo na crença da humanidade,
que nos sentimos impelidos a aceitar a correlação entre o castelo maravilhoso e os mitos dos povos.
Em Huon de Bordeaux, velho poema francês sobre Oberon cujos pontos de contacto com a epopeia de
Wolfram e com as lendas alemãs de Ortnit e Wolfdietrich são numerosos, Esclarmonde é a esposa do rei
Huon de Bordéus que, auxiliado por Oberon, rei das fadas, na luta contra os irmãos rebeldes, lhe promete
pôr-se a caminho num prazo de três anos para o castelo de Montmur. Findo o prazo, Huon e Esclarmonde, “a
condessa que depois se tornou fada”, embarcam numa galera e rogam ao Salvador que os faça chegar sãos e
salvos a Montmur. Depois de errarem longamente através do pays de Comans e da terre de Foy, chegam ao bocaige
Auberon, ao bosque de Oberon.
Aí, descobrem o Castelo dos monjes estranhos, onde os espera num salão sumptuoso uma mesa ricamente
servida . Olham à volta, mas não há ninguém a servir.
Na manhã seguinte, Huon e Esclarmonde dirigem-se à igreja para assistir à missa matinal, mas não há altar
nem crucifixo. Subitamente, como que surgidos da terra, aparecem cem monjes. Esclarmonde fica inquieta.
Então, Huon lembra-se que Oberon o tinha aconselhado a levar uma estola. Com a ajuda da estola captura
um monje enorme e horrível e obriga-o a contar a verdade sobre o castelo. O monje aconselha-o a seguir
caminho sem perda de tempo, pois todos os monjes são espíritos. Irritado com Lucifer, Deus tinha-os banido
para ali, de onde esperam ser libertados no dia do Juízo Final.
Finalmente, o monje transporta Huon e Esclarmonde a Montmur em cima de um tapete mágico.
Noutra variante da canção de Huon, o pescador Mallabron transformado em golfinho leva-os através de
uma grande extensão de água ao castelo de Oberon. Em Montmur, Oberon espera a morte, mas não pode
morrer sem Huon ser coroado rei dos Elfos. Saúda efusivamente Huon e Esclarmonde e oferece um festim,
durante o qual um hanapo mágico serve vinho a todos os convivas. Depois do banquete, Oberon manda
trazer “a coroa e a lança”, insígnias de soberania no império das fadas. Huon e Esclarmonde são coroados.
No dia seguinte, Huon experimenta os novos poderes e, servindo-se de artes mágicas, reúne todas as fadas e
barões do reino. Oberon declara à assembleia:

Je ne veulz plux au ciecle demourer,


Il me coviet en paraidis aller;
Car nostre Sire le m’ait ainsi mandei...
En cez grant crotte qui sont d’antiquiteit,
Que fee firet, m’lt ait loing tempz paissei.
Se sont repuis, saichiez de veriteit
Pot en voit on ne venir ne aller.
Canção de Huon

A seguir, despede-se das fadas e morre. O corpo embalsamado é colocado num luxuoso féretro sustentado
no ar por ímans. Em baixo, os Elfos dançam rondas. Finalmente, os restos mortais são sepultados numa
grande caverna.
Das numerosas relações entre a Canção de Esclarmonde do ciclo de Huon e os poemas do Graal, em especial
na versão de Guyot e Wolfram, não sublinharemos senão as mais importantes e manifestas. A coroa e a lança
são análogas ao Graal e à lança. O hanapo mágico desempenha o lugar do Graal, que dá alimento. O bocaige
Auberon assemelha-se à floresta de Briziljan84. Mais surpreendente ainda, é a semelhança entre os monjes
estranhos que esperam a libertação e os anjos de Parzival:

Os anjos, que naquela batalha de outrora


Não queriam combater em nenhum dos lados
Quando Lucifer estava na luta
Com Deus, o Senhor, ficaram àparte.
Sim, esses caros exércitos de anjos
Deus os fez descer à terra...
Não sei os repudiou de vez
Ou se usou de clemência.
Wolfram von Eschenbach

Especialmente notáveis são as analogias entre o pescador Amfortas nas margens do lago de Brumbane e o
pescador Mallabron na orla da vasta extensão de água além da qual se situa o feérico reino de Oberon.
Amfortas está em grande sofrimento, como Oberon. Um e outro esperam a salvação com a chegada do
sucessor. A Canção de Esclarmonde diz que o castelo das Fadas fica próximo do país de Commans e da terra de Foy.
Ora, com o casamento de Esclarmonde e de Jordain, o país de Comminges não foi unido à terra de Foix?85 Terra
de Foix, berço da fé (em francês arcaico foy) cátara?...86

* * *

Um castelo solitário se ergue


Suprema recompensa do desejo terreno.
Quem com prudência e zelo
O tentar descobrir, jamais o encontrará!
E, no entanto, muitos a ele aspiram
Ainda desconhecido para vós é, Senhor,
Mountsalvatsche é o seu nome
Wolfram von Eschenbach

Era em Mountsalvatsche que os Templários velavam sobre a preciosa relíquia, o Graal. O símbolo desses
“cavaleiros do Templo” era a lança, signo de preparação para o combate.

Tão bela prova e forte guarda


Dão os cavaleiros deste lugar.
Nem com manhas e enganos
Se atravessa a floresta.
Wolfram von Eschenbach

No século XV, o cronista holandês Veldenaer escrevia que o Cavaleiro do Cisne vinha do Graal (dat Greal),
nome antigo do Paraíso terrestre. Entretanto, prossegue, não havia aí Paraíso, mas um lugar de pecado. Mais
ou menos na mesma época, a crónica saxónica de Halbertstadt dizia de Lohengrin: “Os cronistas presumem
que esse adolescente, o Cavaleiro do Cisne, veio da montanha onde Vénus está no Graal”.
Então, a montanha do Graal (Graalsberg) era Venusberg (o monte de Vénus)? Não está isso em contradição
com o preceito de castidade do círculo do Graal?

Também os cavaleiros que ali o guardam


À castidade sem mancha devem votar-se.
Quem deseja pertencer ao Graal
Deve renunciar totalmente
Ao amor das mulheres.
Wolfram von Eschenbach

Para se entender a contradição, temos de voltar ao poema de Peire Vidal em que o poeta diz ter
encontrado o deus Amor em pessoa. Ao lado do deus Amor cavalgava uma dama. Vénus? Não, a Graça! As
leys d’amors interditam o amor.
Os trovadores buscavam a consolação no amor da dama, os cátaros aspiravam à Mani consoladora, ao
Paracleto prometido por Cristo.

Deus é homem e o Verbo do Pai


É Pai e Filho ao mesmo tempo
O seu Espírito é rico no grande auxílio.
Wolfram von Eschenbach

Quando falava aos discípulos, Cristo chamava Paracleto ao Espírito (auxílio). Princípio feminino, por
consequência...
Os cronistas que acabámos de citar tinham razão quando viam na montanha do Graal um Venusberg, asilo
de pecado e heresia.
Em tempos recuados, Montségur foi um santuário da deusa Belissena, a Artemísia-Astarté-Diana celtibera.
Astarté era Paredra de Baal na teogonia fenícia, Artemísia, irmã de Apolo, na teogonia helénica, e Belissena,
esposa de Abellio, na teogonia celtibera.
Em Delfos e Didimo, santuário dos gémeos Castor e Polux, como aliás em todos os lugares importantes
onde se celebrava o culto de Apolo, havia templos de Artemísia. Os seus sacerdotes e sacerdotisas tinham de
fazer voto de castidade. Um grupo de ninfas acompanhava sempre a inacessível deusa nas caçadas através dos
bosques. O seu símbolo era o crescente lunar.
Em todos os lugares consagrados a Abellio, os druídas tinham também os seus santuários dedicados a
Belissena. Não longe de Mirepoix, cujos senhores — filhos de Belissena87 — ostentavam nas armas o peixe, a
torre e o crescente lunar, situava-se o bosque sagrado de Belena. Na actual Belesta, a poucas horas de
Montségur, havia um santuário de Belissena. Em Lavelanet, no sopé do pog de Montségur, onde reinava
Raymond de Perelha, filho de Belissena, havia um templo dedicado a Abellio, e, ao lado, outro dedicado a
Belissena.
Na mitologia grega, Artemísia era muitas vezes identificada com Dafne (loureiro), a primeira Sibila délfica
da lenda. Era em folhas de loureiro que as Sibilas escreviam os oráculos. O loureiro era a árvore sagrada de
poetas e profetisas. Peire Vidal, o trobère, sabia bem por que razão convidou a dama Graça a parar debaixo de
um loureiro.
A pomba era a ave de Artemísia. Chamava-se “pombas” às sacerdotisas de Artemísia de Dodona, onde se
encontrava o carvalho sagrado mais venerado de toda a Grécia e em cujo bosque os Argonautas talharam a
quilha da nau Argos antes de irem ver a profetisa Medeia que os ajudou a conquistar o Velo de Ouro.
O emblema dos cátaros que designava Deus-Espírito era — como no Evangelho — a pomba. Um cátaro
esculpiu uma pomba na parede rochosa de uma gruta do Sabarthès e nas ruínas de Montségur encontraram-se
pombas de argila. Também figurava nas armaduras dos cavaleiros do Graal. Na Sexta-feira Santa, dia do
Amor supremo, da Minne, uma pomba vinha depositar uma hóstia no Graal. Uma lenda que ouvi contar a um
pastor pirenaico dizia que o monte Thabor tinha sido aberto em dois por uma pomba e que Esclarmonde se
tinha metamorfoseado no emblema do Espírito Santo. Estas concordâncias têm uma só interpretação...

* * *

A criação de Lucifer traz consigo a morte, que só pode ser combatida pela renúncia da propagação da
espécie humana. Quando não houver homens, também não haverá morte. Por isso, os cátaros recusavam o
amor carnal e substituiam-no por Mani, a Minne celeste. Por outras palavras, só reconheciam o Amor divino
no seu carácter primitivo. “Bem-amada do Amor primeiro”, assim chamava Dante à sua raínha de amor,
Beatriz. O Amor original nada tem a ver com o amor terrestre que engendra seres.

Quem assim termina a vida,


E cuja alma por nenhum pecado
Do corpo se subtraiu a Deus
Pode dizer que viveu
Em riqueza e plenitude
Wolfram von Eschenbach

A castidade era uma obrigação em Mountsalvatsche, Montmur e Montségur. Na Canção de Esclarmonde,


Oberon diz o seguinte: “Guarda-te, Huon, de ter negócios íntimos com mulheres. Mantém-te fiel à bela
Esclarmonde que te espera e recusa todos os pretendentes”. No Parzival de Wolfram, os cavaleiros devem ser
de uma pureza imaculada, e o rei do Graal, Amfortas, não pode viver nem morrer:

Porque com a alma desenfreada


Aspirou a esse amor interdito,
É transportado de tal dor.
Wolfram von Eschenbach

NOTA DE OTTO RAHN


Os Trovadores e o Amor Supremo

Um poema de Peire Cardinal diz qual a opinião que os rimadores occitanos, os filhos de Vénus, tinham do
Deus Amor, mesmo quando não se reconheciam abertamente cátaros. Voszler diz àcerca desse poema: “Na
verdade, vejo em Cardinal o que até agora não tinha sido observado por ninguém, o modo realmente místico
de entender o amor. Infelizmente, não consegui descobrir a origem dessa concepção”.

Em belo lugar vive Caritas


Sempre rodeada de Compaixão
A Justiça e a Verdade visitam-na e honram-na.
Nesse lugar de alegria mora a Graça,
A Força protege-a,
A Sabedoria é sua amiga
E o Bem, é o seu abrigo.
Em cima, nas alturas, o Espírito vivificado,
Purificado pela fé,
Revela-se em Deus Amor.

Tal como o vê Peire Cardinal, Deus Amor é o Paracleto. Para o contemplar, os olhos (espirituais) do
crente devem abrir-se, o seu espírito fortificar-se pelo Consolamentum e, então, o Deus do Amor Supremo vem
rodeado da sua corte: amor ao próximo, compaixão, verdade, graça. A força da cavalaria protege Caritas, a
mais alta virtude da Igreja da Minne. A sua amiga é a Sabedoria e não a fraqueza de espírito ou a estupidez.
Penso que Peire Vidal esteve muito mais perto dos Puros de Montségur do que se supõe, mas como declarar-
se amigo de hereges proscritos e malditos? Não estava disposto a deixar-se sepultar vivo numa masmorra
sombria e lôbrega. O seu Deus Amor não era o irmão gémeo de Cupido, era irmão de Ágape e de Eros, que o
mundo identifica quase sempre com o amor afrodisíaco.
Para Chrétien de Troyes, o bosque de Briziljan é Broceliande, a floresta bretã, onde se desenrolaram
muitas epopeias arturianas.

Repanse de Schoye era a virgem


Que trazia o Graal
Wolfram von Eschenbach
(Fim da nota)

“No tempo em que as muralhas de Montségur ainda estavam de pé, os cátaros, os Puros, guardavam lá o
Santo Graal. Montségur estava em perigo, os exércitos de Lucifer cercavam-lhe os muros. Queriam apoderar-
se do Graal para o reincrustarem no diadema do seu príncipe, de onde caíu à terra depois da queda dos anjos.
Então, no momento mais crítico, desceu do céu uma pomba branca que abriu com o bico uma fenda no
Thabor. Esclarmonde, a guardiã do Graal, colocou a jóia sagrada dentro da montanha. A montanha voltou a
fechar-se e assim se salvou o Graal. Quando os demónios irromperam no castelo, era demasiado tarde.
Furiosos, enviaram os Puros para a fogueira, não longe do rochedo do castelo, no Camp dels Cremats, o campo
da pira...
Mas não contei o fim da lenda: “Todos os Puros pereceram no fogo, excepto Esclarmonde. Quando o
Graal já estava em lugar seguro, subiu ao Thabor88, transformou-se numa pomba e voou para as montanhas
da Ásia. Esclarmonde não morreu. Vive no Paraíso terrestre”.

Onde, do Paraíso terrestre,


as águas do Tigre se lançam
...no país de Ethnise.
Wolfram von Eschenbach

O meu pastor do Thabor fez ouvir a voz da sabedoria imemorial. Não era nos Pirinéus que os Elfos se
divertiam nas noites de luar à volta das fontes cristalinas da montanha? Os carvalhos do Thabor não falam
aos pastores que vivem nesses lugares retirados do mundo, num mundo onde Deus se revela no sussurro das
folhas? Uma história que um nonagenário de Ornolac me contou e garantiu ser autêntica, prova que muitos
netos de druídas e bardos, de cátaros e trovadores, continuam a ser místicos e poetas. Diz ter visto no Thabor
uma serpente que mordia a cauda e se lançava como um círculo móvel dos precipícios do Sabarthès para o
cume nevado do pico de Montcalm89.
Hoje ainda, os naturais dos Pirinéus cercam de uma auréola mágica e transfiguram, espiritualizam, o
universo que os rodeia. Os cátaros e os trovadores estão mortos há muito, mas... será possível extirpar algum
dia da alma humana a nostalgia de Deus e do Paraíso? Três vezes o Thabor foi maldito, por três vezes esteve
em chamas, mas, setecentos anos mais tarde, um camponês da aldeia de Ornolac jura ter visto o símbolo da
Eternidade: a serpente que morde a cauda.
Esclarmonde não morreu, disse-me um pastor na rota dos cátaros. Está viva...
* * *

Em Wolfram von Eschenbach, a raínha do Graal, Repanse de Schoye, é tia de Parzival. Esclarmonde de
Foix era prima do jovem Trencavel de Carcassonne. Repanse de Schoye desposa Feirefiz, meio-irmão de
Parzival. Escarmonde desposa o visconde Jordain de Lille et Gimoez90 que é, de certo modo, meio-irmão de
Trencavel, uma vez que as casas de Carcassonne e Comminges se uniram no século XII no ceptro de Asnar,
príncipe cantábrico. Os armoriais de Carcassonne e de Comminges eram os mesmos.
Depois da morte de Jordain (cerca de 1204), Esclarmonde renunciou à herança, dividiu-a pelos seis filhos,
já adultos, e regressou às montanhas paternas. Depois de receber o Consolamentum das mãos do filho de
Belissena, Guilhabert de Castres, fixou-se no castellar de Pamiers doado por seu irmão Raymond-Roger, o
Raymond Drut dos trovadores. Ali, administrava os seus domínios do Thabor. Com Raymond de Perelha,
filho de Belissena, como vassalo, era a suserana do castelo de Montségur.

El Pog de Mont Segur fo per aital bastitz


Qu’el les pogues defendre...
Wolfram von Eschenbach91

Castrum Montis Securi. Foi este nome que os romanos deram a Montségur, o mais inecessível, o mais seguro
bastião dos Pirinéus.
Montségur era também a praça mais forte da Occitânia, inexpugnável e dominando orgulhosamente as
planícies da Provença: primeiro degrau para as estrelas, às quais aspiravam os Puros. No cimo do pog de três
mil pés de altura, só era ultrapassado pelas cristas nevadas do Thabor e pelo céu constelado de estrelas.
De Lavelanet, pequena cidade a duas horas de caminho de Montségur, a rota dos Puros serpenteia através
das gargantas do Lectouire até dar o assalto à montanha. Cascatas efervescentes, paredes abruptas de rocha,
pinheiros golpeados pelas rajadas e casarios agarrados às paredes da montanha cujos nomes recordam a
ocupação sarracena: é a porta do Thabor.
Quando subia pela primeira vez o rochedo de Montségur, as núvens de vapor espesso não abandonavam
as gargantas e a borrasca rugia nos olmos e pinheiros. Aproximava-me do precipício (abbès) donde parte o
único acesso que permite atingir por um caminho vertiginoso as ruínas da fortaleza herética, quando, de
repente, as núvens se abriram e se ergueu na minha frente uma gigantesca pirâmide rochosa, cinzenta e nua,
dourada pelo sol. Nunca tinha visto nada mais selvagem e inacessível. O mar de núvens ondeava em toda a
volta como uma voluta de incenso.
Com Lavelanet (Juxta Castrum Montis Securi), Montségur guardava a entrada do Thabor e as grutas de
Ornolac do outro lado do Thabor protegidas pelo castelo de Foix, pela cidade fortificada de Tarascon e pelos
castelos dos filhos de Belissena: Miramont, Calamès e Arnave. Em Mirepoix, Montréal, Carcassonne,
Rocafissada, Belesta e Quéribus, em todas as cidades e castelos cujos nomes jamais esquecerei, os filhos de
Belissena vigiavam as vias de acesso ao Thabor.
Em Montségur, os cavaleiros mais dignos montavam guarda à Igreja de Amor occitana. As montanhas à
volta das quais se entreteceu no decurso dos milénios a grinalda do mito e da fábula, as cavernas nos
labirintos onde continuava viva a recordação dos antepassados e das mais antigas civilizações, os bosques e as
fontes onde buscavam inspiração para cantos e orações, eram sagrados aos olhos dos occitanos! O Thabor
era o seu maior santuário nacional.
A cada passo se encontram vestígios dessa civilização grandiosa. Além de vasos gregos, objectos de vidro
fenícios e adornos de bronze celtiberos, o subsolo das grutas de Sabarthès está cheio de esqueletos fósseis,
ossos de mamute e utensílios da Idade da Pedra que revelam a presença ali do homem pré-histórico. Nas
paredes brancas e rochosas vêm-se desenhos pré-históricos e runas misteriosas esperam quem as saiba
decifrar. Nos cumes montanhosos, os silvados e espinheiros ocultam os restos de imponentes templos e
cidades.
Nos séculos XII e XIII, já não eram os druídas que velavam o Parnaso da Occitânia. Os cátaros e os
trovadores substituíram-nos. No século IV, os priscilianos rebaptizaram-no com o nome de Thabor e
dedicaram-no ao apóstolo da Índia e da Pérsia, S. Bartolomeu. A montanha sagrada de Abellio passou a ser o
Thabor da divina Trindade. Os picos de Saint-Barthélémy e de Soularac e o pog de Montségur simbolizavam
agora o Agnostos, o Demiurgo e o Paracleto, a divina Trindade.
Enquanto caminhavam pelas margens do lago dos Druídas, os cátaros contavam aos neófitos a história do
monte de ouro que os seus antepassados, espiritualistas como eles, tinham lançado à profundidade das águas.
À sombra de um menir ou sentados num cromlech, falavam-lhes do Graal:

Anelo profundo e Paraíso,


Assim era o Graal (diante do qual o
esplendor terreno nada é).
A Pedra de Luz.
Wolfram von Eschenbach

Naturalmente, os Puros não deixariam de contar aos seus discípulos religiosamente atentos a lenda ainda
hoje conhecida na Provença e no Languedoc segundo a qual Lázaro, Marta, Maria Magdalena e Dionísio o
Areopagita teriam levado o Graal para Marselha92 e que Maria Magdalena o teria guardado até à morte numa
gruta próxima de Tarascon93.
A Minne suprema faz dos homens poetas e, dos poetas, filhos de Deus — filhos das Musas, cujo patrono é
Apolo, irmão de Artemísia —. Orar, é fazer obra poética. Não são o céu e os deuses invenção da nostalgia do
Paraíso que dorme no ser humano?
Os trovadores, cavaleiros e damas que subiam a Montségur para receberem o “beijo de Deus” — a que o
Talmude chama foice da morte — viviam num imenso mosteiro cujas portas eram guardadas por castelos
fortes e invioláveis: as paredes eram as escarpas rochosas do Thabor, o tecto era o azul do céu, os corredores,
as grutas, e a “igreja abacial”, a catedral de Lombrives.
Não é fácil chegar a Mountsalvatsche, Montmur ou Montségur. As florestas de Oberon, de Briziljan e de
Serralunga que rodeiam Montségur com um círculo protector e onde os priscilianos se refugiaram dos
esbirros de Roma, são espessas e sombrias.

Num país longínquo, inacessível aos passos,


Ergue-se um burgo chamado Montsalvat.
Richard Wagner

Em razão das suas concepções dualistas, o catarismo foi considerado pelos doutores da Igreja romana e
pelos inquisidores uma espécie de neo-maniqueísmo94. De facto, como a heresia de Manes (238-277 ?), era
um maniqueísmo adaptado à mentalidade ocidental. Mani, símbolo da crença budista, tinha o seu “par” no
Paracleto. A exemplo da Mani hindu, a “Pura doutrina”, que é a tradução rigorosa do termo catarismo, era
simbolizada por uma pedra caída do céu, uma Lapsis ex Cœlis (em Wolfram von Eschenbach, por erro, Lapsit
exillis, leitura que não faz sentido), que ilumina e dá consolação ao mundo95.
Esclarmonde, “Luz do mundo”, guardava em Montségur o emblema da crença cátara, o “tesouro dos
hereges”, que, no momento mais crítico, foi levado para as grutas de Ornolac por quatro corajosos cátaros
depois de uma descida perigosa e cheia de riscos. Se o Graal é o “tesouro dos hereges”, como os inquisidores
chamavam à relíquia cátara, a verdade é que descobrimos muitas provas que assim o confirmam. Mesmo para
o leitor superficial, salta à vista que o Graal de Chrétien de Troyes ou de Guyot-Wolfram não tem relação
com a Ceia nem com qualquer relíquia cristã.
O Graal é um símbolo herético. Amaldiçoado pelos adoradores da cruz de Cristo, lançaram contra ele uma
cruzada, a “guerra santa” da Cruz contra o Graal...
A adoração da cruz cristã era para os cátaros um ultraje à natureza divina de Cristo. Citando um exemplo
entre mil, a sua repulsa por esse símbolo era tal, que um filho de Belissena gritava: “Espero nunca vir a ser
salvo por esse signo!”
Terceira parte

A cruzada

Mountsalvatge, ô but de misère,


Las, personne ne te veut consoler.
Wolfram von Eschenbach
1.
Infeliz Occitânia!
Que terá levado o alegre trovador Foulques
A pôr-se às ordens de padres,
A ser cão de caça e polícia da Igreja
E a farejar incansavelmente todos os passos dos hereges?
Lenau, Les Albigeois

Foulques era filho de um mercador genovês rico de Marselha e foi um mau trovador. Em fanatismo e
rapacidade, nem aos mais encarniçados inimigos dos hereges pode ser comparado.
Nas suas canções, Foulques celebrou durante muito tempo a mulher do visconde Barral de Marselha que,
embora aceitando a homenagem, não lhe correspondia com afectos. Acabou por despedi-lo porque reclamava
impulsivamente plaisir d’amour96. Toda a sua existência foi uma corrida ao dinheiro e à fama. Abandonado por
todos os protectores em razão da sua vida dissoluta, envergou a sotaina, meio de percorrer mais rapidamente
o seu caminho neste mundo. As esperanças não foram vãs. Pouco depois de entrar na Ordem cisterciense foi
nomeado prior do convento de Floreja e, cinco anos mais tarde, era bispo de Toulouse.
Ao saber da eleição do trovador para o bispado de Toulouse, o núncio apostólico chegado à Provença
com a missão de destruir a heresia exclamava eufórico: “Tudo está salvo se Deus presenteou a Igreja com
esse homem!”
As receitas do bispado não eram suficientes para satisfazer as pretensões do trovador de sotaina. Estava
crivado de dívidas. Os credores desprezavam tanto o indigno sacerdote, que o perseguiam com insultos e
injúrias quando saía à rua. Conta-se que, um dia, num dos seus sermões, comparou os hereges a lobos e os
ortodoxos a cordeiros. A essas palavras, um herege a quem Simon de Montfort, o devastador da Occitânia,
tinha mandado vazar os olhos e cortar o nariz e os lábios, levantou-se e perguntou apontando para si mesmo:
“Alguma vez um cordeiro mordeu assim um lobo?”
Foulques retorquiu cinicamente que Montfort era um excelente cão de pastor...
O conde de Foix, irmão de Esclarmonde, acusou esse bispo ao papa Inocêncio III de ser o causador da
morte de mais de quinhentas mil pessoas97.
Por uma lei fatal, a Occitânia e o Thabor foram inundados de ódio e de maldição. Por uma lei fatal, os
poderosos deste mundo responderam ao Amor supremo dos cátaros com ódio cego e violento!

Eram os que também conheciam o Pai.


Onde se encontram, então? Foram queimados vivos!
Goethe

Na segunda metade do século XII, a Pura doutrina efectuava através das províncias occitanas da França
meridional uma verdadeira marcha triunfal. Cavaleiros, burgueses e muitos clérigos viam nos Bons hommes os
propagadores do verdadeiro Evangelho e pouco faltou para o poderio de Roma ser varrido definitivamente
da Provença, do Languedoc e da Gasconha.
País algum pode orgulhar-se tanto de independência intelectual e de tolerância religiosa como a Occitânia.
As opiniões manifestavam-se livremente, as confissões religiosas eram tratadas em pé de igualdade e, na
prática, as lutas de classes não existiam. Já sabemos em que condições se podia ser armado cavaleiro...
A via cavaleiresca florescia como em nenhum outro lado e os cavaleiros da Occitânia tanto estavam “em
casa” na Terra Santa, na Tripolitânia, então província occitana, como no Roussillon ou em Toulouse. Se iam
para o Oriente, era mais por gosto da aventura que por entusiasmo religioso e, ao virem de lá, quase todos
traziam, não piedosas edificações, mas a recordação inolvidável do luxo, da mística e da vida no Oriente.
Acrescia que a Igreja exigia dependência espiritual e material, o que, para os occitanos, era incompatível com a
sua honra e orgulho de homens livres. Quase todos os barões e cavaleiros eram crentes cátaros, recebiam
respeitosamente os Perfeitos nos seus castelos, serviam-nos à mesa e confiavam-lhes a educação dos filhos98.
Quanto à situação das cidades occitanas, os burgueses tinham conquistado autonomia e liberdade depois
de longa e encarniçada luta contra o feudalismo. Orgulhosos do comércio com os portos do Oriente,
defendiam com êxito crescente os seus privilégios municipais. Imitavam os costumes dos nobres, rivalizavam
com eles em cortesia e bravura, eram poetas como eles e, desde que o desejassem, podiam ser cavaleiros.
Ciosos da sua independência, subtraíam-se à influência do clero e do poder laico, embora partilhando com
este a mesma aversão à Igreja e aos padres.

* * *

Um dia, o bispo de Albi foi chamado ao leito de morte de um familiar seu. Perguntou ao moribundo em
que mosteiro gostaria de ser sepultado. “Não se preocupe com isso. Quero morrer junto dos Bons hommes99 e
ser sepultado por eles”. O bispo retorquiu que não permitiria semelhante coisa. “Por mais que tente reter-me,
disse o agonizante, arrasto-me de mãos e pés até os encontrar”. De algum modo, assim foi. Os Bons hommes
trataram, confortaram e enterraram o parente do bispo de Albi.
Não há dúvida que a decadência moral da Igreja contribuiu decisivamente para a formação do movimento
Los von Rom! (anti-católico) occitano. Muitos bispos só visitavam as dioceses para arrecadarem os impostos
arbitrariamente instituídos e, para tal, mantinham um verdadeiro exército de cobradores-salteadores. A
desordem entre os clérigos era indescritível, lutavam abertamente uns contra os outros e excomungavam-se
reciprocamente. Para não serem reconhecidos, escondiam a tonsura e vestiam roupa laica. Se em muitos casos
conseguiam escapar aos olhares e aos insultos da gente da rua, não calavam os trovadores e as suas canções
cáusticas:

Estamos próximos do tempo


De um mundo virado do avesso
O padre a ir ao torneio
E a mulher a fazer o sermão.
Peire Cardinal

Quando um herege pregava, o povo acorria em massa e ouvia-o com entusiasmo. Se era um padre católico
a usar a palavra, perguntavam-lhe ironicamente como se atrevia a anunciar a palavra de Deus...
A Igreja verificava que os progressos da heresia eram favorecidos pela depravação do clero e pela falta de
cumprimento dos deveres que lhe competiam. O papa Inocêncio III declarava que “a responsabilidade da
corrupção popular era sobretudo do clero, fonte dos males da cristandade...” Para ter êxito na luta contra as
seitas, era necessário que os eclesiásticos merecessem consideração e confiança, e há muito tempo que tinham
deixado de a merecer.
S. Bernardo de Clairvaux disse um dia dos cátaros: “Não há, de facto, sermões mais cristãos que os deles e
os seus costumes são puros”. Será de estranhar que o catarismo — há longos anos identificado com a
civilização occitana — se expandisse tanto e fosse considerado a santa Gleysa, a Igreja santa da Occitânia?
Houve conventos inteiros passados em bloco para o catarismo e bispos doentes tratados e “consolados”
pelos Bons hommes.

* * *

Cerca de 1170, um negociante abastado de Lyon, Pierre Waldo, mandou traduzir o Novo Testamento na
sua língua materna para ele mesmo ler. Depressa verificou que a vida apostólica que Cristo e os discípulos
tinham ensinado não existia em parte alguma e, a partir daí, começou ele próprio a pregar o Evangelho tal
como o concebia. Não tardou a reunir à sua volta numerosos discípulos que enviou como missionários pelo
mundo, embora só tendo encontrado crentes nas classes baixas. Só com raras excepções os nobres aderiram à
seita valdense. Os pregadores propagavam a nova doutrina — a nobla leyczon, como lhe chamava um trovador
— de preferência em ruas e praças. Houve muitas discussões entre valdenses e cátaros, mas reinou sempre
uma convivência perfeita entre as duas heresias. Roma, que confundia frequentemente os valdenses do Midi
francês com os cátaros, catalogou ambos com a denominação de “albigenses”. Na realidade, as duas heresias
eram totalmente diferentes uma da outra e independentes entre si. Só tinham um ponto comum: o Vaticano
tinha jurado a sua perda.
O inquisidor Bernard Gui resumiu no Manuel de l’Inquisition a doutrina valdense: “O erro principal dos
valdenses foi desconhecerem o poder eclesiástico, o que lhes valeu serem excomungados e entregues a
Satanás”...

* * *
Enquanto o clero da Occitânia, por negligência ou por medo dos poderosos protectores das seitas, se
mantinha mais ou menos inactivo, os progressos dos “hereges de Toulouse e Albi” inspiravam as maiores
inquietações aos prelados do norte da França. A instâncias suas, o papa Alexandre II convocou em 1163 o
concílio de Tours. O papa, dezassete cardeais, cento e oitenta e quatro bispos e mais de quatrocentos abades
editaram a resolução seguinte:
“Uma heresia execrável tomou assento no país tolosano e contaminou a Gasconha e as outras províncias
do Midi. Por consequência, ordenamos a todos os bispos e clérigos que impeçam, sob pena de excomunhão,
que os hereges recebam acolhimento, que lhes vendam e lhes comprem”.
Dois anos mais tarde, o clero da Occitânia tentou deter o movimento crescente, mas sentia-se demasiado
fraco para empreender perseguições. A única solução que descobriram foi convidar os chefes cátaros para um
debate público. Para tal, o bispo de Albi convocou a Lombers os hereges mais ilustres. A convite destes,
compareceram também Constance, irmã do rei da França, Luis VII, e mulher de Raymond V, conde de
Toulouse, Raymond Trencavel, visconde de Albi, Béziers e Carcassonne, e quase todos os vassalos do conde
de Toulouse. Os cátaros convocados recusaram energicamente ser interrogados pelos prelados e exigiram um
debate aberto. Não houve outro remédio senão aceitar. Discutiu-se um pouco de tudo, e, a certa altura, os
cátaros exclamaram que não havia uma só passagem do Novo Testamento que permitisse aos clérigos
viverem mais sumptuosamente que príncipes, usarem roupas luxuosas, jóias e arneses... O superior da abadia
de Albi lançou a excomunhão aos cátaros, mas estes gritaram-lhe: “Hereges sois vós, podemos prová-lo com
o Novo Testamento e com as Epístolas!”
Como lhes fora prometido um salvo-conduto, os cátaros puderam chegar às florestas e cavernas sem
serem inquietados. O clero, entretanto, comprovava uma vez mais como tinha diminuído o seu poder nessas
províncias e até que ponto era alvo do desprezo geral.

* * *

Toulouse era a cidadela da heresia. Os frades cistercienses faziam tudo por converter os renegados, mas,
em lugar de conversões, recebiam desprezo e injúrias. Então, a “comissão de conversão” achou que podia
limpar pela força esse “estábulo de Augias” e, para assustar, intimou Pierre Morand (Peyré Maouran), o mais
ilustre burguês da cidade, com mais de 62 anos, a comparecer. “Preste João”, assim chamavam os tolosanos a
esse cátaro...
“Pierre Morand, sois suspeito de arrianismo”, começou o cardeal Pierre de Saint Chrysogone.
“Não”, respondeu Morand (não mentia, realmente não era arriano).
“Podeis afirmá-lo sob juramento?”
“A minha palavra basta. Sou cavaleiro e cristão...”
Durante muito tempo, Pierre Morand manteve-se inabalável, mas quando o ameaçaram de lhe confiscar os
bens, arrasar o palazzo e os castelos, a resistência quebrou e desdisse-se no juramento...
Foi levado nu pelas ruas de Toulouse até à igreja de Saint-Étienne. Aí, o cardeal mandou açoitá-lo diante
do altar e prometeu-lhe a absolvição dos pecados se no prazo máximo de quinze dias partisse como peregrino
para a Terra Santa onde, durante três anos, devia servir “os pobres de Jerusalém”. Até ao dia da partida, foi
açoitado diariamente nas ruas de Toulouse. Confiscaram-lhe os bens com a promessa de lhos restituirem no
regresso da Palestina.
A dureza dos missionários deu o efeito desejado. Uma multidão de tolosanos apressou-se a fazer as pazes
com a Igreja. Conversões nada sinceras, já que, depois de regressar da Palestina, Pierre Morand foi eleito por
três vezes capitoul (regedor).
O castigo de Pierre Morand não passou de um prelúdio na via das perseguições e, para começar, o cardeal
de Saint Chrysogone decidiu excomungar todos os cátaros de Toulouse, que partiram para Carcassonne,
junto de Roger Taillefer e de Adelaide. O visconde de Carcassonne era muito tolerante em matéria de religião.
Nos seus domínios, católicos, cátaros e judeus conviviam pacificamente e tinham direitos idênticos. O seu
tesoureiro era o judeu Caravita, sucessor do ministro Bertran de Saissac. Quando os missionários pediram a
Roger Taillefer a extradição dos fugitivos, Adelaide retirou-se com os proscritos para Castres.
Os senhores de Castres eram vassalos do visconde de Carcassonne. Pertenciam à família dos filhos da Lua.
Ermengarde, Isarn e Orbria eram os castelães de Castres e o irmão destes patriarca herético da Occitânia. A
sua igreja situava-se numa gruta de Ornolac... Os cistercienses bem tentaram persuadir Adelaide e os barões a
entregarem-lhes os hereges, mas, quando saíram de Castres, iam de mãos vazias.
Entretanto, o terceiro concílio de Latrão (1179) convocado pelo papa Alexandre III, ditou medidas severas
contra os hereges da Gasconha, Toulouse e Albi. Os condes de Toulouse e de Foix, o visconde de Béziers e a
maior parte dos barões da Occitânia foram excomungados.
O papa Alexandre, a quem os missionários e os prelados romanos falavam em termos indignados da
audácia e do poder crescente da seita, julgou oportuno enviar às províncias heréticas um núncio especial que
garantisse a execução estrita das decisões tomadas no concílio de Latrão. Pela segunda vez, confiou a missão
aos cistercienses do abade Henri de Clairvaux. Para dar à delegação uma importância que não tinha, Henri de
Clairvaux, que o concílio de Latrão nomeara cardeal-bispo de Albano, mandou pregar a “cruzada contra os
albigenses”. Era a primeira vez que a Igreja utilizava esse meio de coacção contra cristãos...
O cardeal-bispo de Albano começou por lançar soldados-peregrinos contra Lavaur, uma das cidadelas
mais fortes do visconde de Carcassonne. Como Roger Taillefer estava em guerra com o conde de Toulouse,
não pôde enviar reforços à cidade ameaçada. Adelaide assumiu a defesa, mas Lavaur não resistiu aos assaltos
do exército católico e a viscondessa foi obrigada a abrir-lhes as portas.
A queda de Lavaur obrigou Roger Taillefer a pedir a paz e a abjurar da heresia. Não há que dar demasiada
importância a esse gesto seu, pois, o que que quis, foi poupar novas desgraças à região, que a cruzada tinha
transformado num montão de ruínas. Não se enganou ao pensar que a diplomacia beneficiava a sua causa e a
causa dos hereges. Graças a tal acto de submissão, o país viu-se livre durante algum tempo dos missionários
enviados por Roma.

No armorial de Lothaire Conti, a águia que lança um raio viria a ser o símbolo do domínio urbi et orbi. Com
o nome de Inocêncio III, constituiu-se lugar-tenente de Deus, não do Deus dos cátaros ou, pelo menos, do
Deus cujos anjos cantam em coro na noite de Natal mensagens de felicidade, mas do Deus da tormenta que
tem sempre o raio pronto no Sinai para os que desdenham da sua majestade. Quando em 22 de Fevereiro de
1198, dia da coroação, Lothaire Conti proferia a habitual alocução, definiu sem a menor hesitação os poderes
que pretendia ter recebido do céu: “Deus pôs-me acima dos povos e dos reinos para extirpar e aniquilar, mas
também para construir e semear. Foi a mim que dirigiu estas palavras: dou-te as chaves do Reino celeste, e o
que ligares na terra será ligado no Céu. Entre Deus e os homens, sou mais pequeno que Deus, mas maior que
os homens...”
Rubro de cólera, via a extensão do erro cátaro e o perigo que corria a Igreja fora da qual não há salvação.
Para ele, o catarismo era bastante ameaçador para ser arrancado de raíz e lançado ao fogo.
Dois meses depois da coroação, escreveu cartas a todos os prelados e príncipes, aos nobres e à população
do Midi francês dando ordens de queimar e despojar de todos os bens os hereges que recusassem regressar à
verdadeira fé. Seis meses depois, deu plenos poderes ao núncio Rainier para reformar radicalmente a Igreja,
restabalecer na Occitânia a disciplina eclesiástica e eliminar de vez a “fonte do mal”. O clero occitano viu com
maus olhos as tentativas reformadoras de Rainier. Tentou entravar por todos os meios a sua missão e esteve a
ponto de fazer causa comum com a heresia contra a Santa Sé.
Tendo adoecido no verão de 1202, o núncio Rainier foi substituído por Pierre e Raoul, dois frades da
abadia cisterciense de Fontfroide, nas cercanias de Narbonne.
Pierre e Raoul começaram por Toulouse. Raymond VI acabava justamente de suceder ao seu ilustre pai,
mecenas dos trovadores. Dois anos depois do início do reinado, foi excomungado pelo papa Celestino III
“dadas as suas violências contra as igrejas e mosteiros”. Inocêncio III levantou a excomunhão em 1198...
Raymond VI tinha contactos estreitos com a seita cátara. Nas suas viagens e expedições guerreiras fazia
sempre acompanhar-se de Perfeitos e trazia consigo — atitude que a Igreja não lhe perdoou — um exemplar
do Novo Testamento para receber o Consolamentum em caso de doença ou de ferimentos mortais. Assistia
regularmente às reuniões heréticas, às quais cedia as melhores salas do castelo. Como todos os outros crentes,
ajoelhava-se quando os Perfeitos rezavam as orações, pedia-lhes a bênção e o beijo da paz. Aconselhava
vassalos e trovadores a seguirem o mesmo exemplo e não receava afirmar publicamente a sua aversão por
Roma e simpatia pelo catarismo.
Os legados pontifícios não chegavam a qualquer resultado. Inocêncio III concluía que “era necessário um
novo dilúvio para purgar o país do pecado e preparar a nova geração”. Assim, decidiu pôr em prática toda a
dureza de que a Igreja dispunha...
À frente dos dois desmoralizados frades de Fontfroide, que tinham pedido a exoneração de funções, pôs o
“abade dos abades” Arnaud de Cîtiaux, cabeça suprema da Ordem cisterciense, sujeito sombrio, intolerante,
devorado de zelo pela causa da Igreja. No final de Maio de 1204, Inocêncio III formou a nova comissão
integrada por Arnaud e pelos seus frades de Cîtiaux, e por Pierre de Castelnau e os dois frades de Fontfroide
e dotou-a de plenos poderes. No entanto, o aparato com que o núncio e respectivo cortejo se apresentavam,
não era de molde a garantir grande êxito. Percorriam o país montados em magníficos cavalos, seguidos de um
batalhão de servidores. É fácil imaginar o efeito que causavam, mais a mais tendo em conta que a principal
censura feita pelos hereges occitanos ao clero romano eram o seu luxo e riquezas. “Olhai, gritava o povo, essa
gente que quer pregar a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, que era pobre e andava descalço”. Sempre que os
frades cistercienses começavam com tentativas de conversão, os assistentes davam meia volta, levantavam os
ombros e sorriam desdenhosamente. Os legados acabaram por compreender que os seus esforços eram vãos.
Desmoralizados de todo, estavam mais dispostos que nunca a pedir a exoneração ao papa.
O acaso quis que encontrassem em Montpellier Diego de Azevedo, bispo de Osma, e o capelão Domingo
de Guzmán, chegados de Roma, onde o papa lhes tinha negado autorização de abandonarem o bispado de
Osma para se dedicarem à conversão de hereges. Quando Diego percebeu que os legados queriam abandonar
o que tinham começado, aconselhou-os a renunciar a cortejos sumptuosos e a pompas mundanas e a
misturarem-se, descalços e pobres como os apóstolos, no meio do povo. Talvez assim tivessem mais êxito. A
sugestão foi tão inesperada, que os emissários do papa hesitaram. Mas quando Diego de Azevedo se declarou
disposto a dar o exemplo e a secundá-los na tarefa, aceitaram o conselho. Então, descalços e vestidos com
hábitos de crina, Pierre de Castelnau, Arnaud de Cîtiaux, Diego de Azevedo, Domingo Guzmán e os frades
de Fontfroide e de Cîtiaux deixaram Montpellier e foram peregrinar na Occitânia infiel e pregar o verdadeiro
Evangelho da Igreja romana. Pretendiam-se sucessores autênticos de Cristo. Pobres como ele, pregavam o
Evangelho fora do qual não há salvação.

Em verdade vos digo:


Bem-aventurados os que sofrem
A perseguição da justiça
Porque é deles o reino dos céus...

Dois a dois ou três a três, os legados de Roma percorriam a pé as províncias meridionais, mas, como os
resultados deixavam a desejar, viram-se forçados a aceitar o desafio dos cátaros, que queriam demonstrar em
debates públicos qual dos partidos estava mais próximo do Evangelho. Houve vários, o mais importante dos
quais teve lugar em Pamiers em 1207.
Pamiers, pequena cidade nas margens do Ariège, na zona setentrional do condado de Foix, era a residência
de Esclarmonde, infanta de Foix e viscondessa depois de 1204...
Como sabemos, Esclarmonde tinha casado com o visconde Jourdain da ilustre casa de Comminges e Selio.
Depois da morte do marido, renunciou às cláusulas mais favoráveis do testamento e deixou a Gasconha para
se fixar no castelo de Pamiers, doado por seu irmão Raymond-Roger. Com Esclarmonde, Pamiers passou a
ser a metrópole da Occitânia mística, o braço cátaro da Toulouse cavaleiresca. Das grutas do Sabarthès e da
montanha Negra, os filósofos heréticos iam ao castelo decifrar com Esclarmonde os enigmas da sabedoria
platónica e do evangelista João. Com permissão do irmão, Esclarmonde convidou os núncios apostólicos e os
cátaros mais esclarecidos a comparecerem. Conhecem-se poucos pormenores dessa conferência, mas há um
que mostra a que ponto os legados de Roma chegaram. Quando Esclarmonde criticou a sangrenta cruzada de
Albano, um monje saltou na cadeira e gritou-lhe: “Senhora, ficai com a vossa roca de fiar. Nada tendes a fazer
numa reunião como esta!”
Na conferência de Pamiers estiveram presentes, por parte de Roma, o bispo de Osma e Domingo, seu
capelão. Nenhum documento nos diz se Domingo — o futuro S. Domingos — interveio na discussão.
Uma vez mais, a conferência de Pamiers mostrava aos cátaros a extrema gravidade da situação. Já um ano
antes, Gauceli, patriarca da Aquitânia herética, tinha congregado centenas de Perfeitos e inúmeros crentes na
Torre de Pierre-Roger de Mirepoix. Suspeitava-se que, na impossibilidade de esmagar a heresia com missões e
conferências, a Igreja não deixaria de recorrer à violência. Assim, tomou-se a decisão de pedir o castelo de
Montségur a Esclarmonde e ao seu vassalo Raymond de Perelha para refúgio nos dias de emergência. Em
primeiro lugar, o patriarca foi com uma escolta de bispos hereges, diáconos e cavaleiros a casa de Raymond
de Perelha, depois ao castelo de Pamiers, residência de Esclarmonde, uma vez que o domínio que recebera
em doação incluía o maciço do Thabor. Raymond, um dos filhos da Lua mais devotados ao catarismo,
declarou-se pronto a fazer reparações no castelo de Montségur e a reforçá-lo com obras avançadas. Com a
sua aquiescência, Esclarmonde atendia um voto íntimo, garantia a segurança do castelo do Paracleto e a
segurança do Thabor.
Assim, Montségur, “templo de Abellio”, Castellum Montis Securi, cidadela da montanha sagrada do Thabor,
Parnaso da Occitânia, foi fortificado e organizado. Como uma arca, arrostou durante meio século a vaga de
sangue e de crimes que em breve ia irromper na Occitânia e aniquilar a sua cultura e civilização.
Domingo de Guzmán foi viver para Fanjeaux, de onde podia vigiar Montségur. Foi também em Fanjeaux
que “convenceu a Virgem Maria a exterminar a heresia, graças à invenção do rosário”. A partir de Fanjeaux, a
Inquisição iria expandir-se e martirizar o mundo durante séculos com um horrível pesadelo.
Entretanto, Pierre de Castelnau fulmina com a excomunhão o conde de Toulouse, põe as suas terras sob
interdição e, em 29 de Maio de 1207, o papa confirma a sentença do núncio e anuncia ao conde de Toulouse
o castigo de Deus que terá nesta vida e na outra, acrescentando que ele mesmo se encarregará de exortar os
príncipes cristãos a expulsá-lo de Toulouse e a dar-lhes plenos poderes para dividirem entre si o condado, de
modo que este fique para sempre livre da heresia. O memorando é do seguinte teor:
“Ao nobre conde Toulouse.
Que orgulho se apossou do teu coração, leproso! Estás sempre em guerra com os teus vizinhos, desprezas
as leis de Deus e alias-te aos inimigos da verdadeira Fé. Treme, ímpio, que vais ser castigado! Como podes
proteger hereges, tirano cruel e bárbaro? Como ousas pretender que a fé herege é melhor que a católica?
E cometeste outros crimes contra Deus: não queres a paz, fazes a guerra ao domingo e espolias conventos.
Para vergonha da cristandade, não dás cargos públicos a judeus.
Os nossos legados excomungaram-te. Confirmámos a sentença, mas, como nos incumbe converter os que
pecam, ordenamos-te que faças penitência para mereceres a nossa santa absolvição. Como não podemos
deixar impunes as ofensas feitas à Igreja e a Deus, confiscamos os teus bens e amotinaremos os príncipes
contra ti como inimigo de Jesus Cristo. Mas a ira do Senhor não ficará por aí. O Senhor te esmagará!”
Caminhava-se para a catástrofe. Em vão tentou Raymond inclinar os prelados à benevolência, declarando-
se pronto a aceitar as condições da Igreja. Os legados mantiveram-se surdos à adjuração e, como retribuição,
trataram-no como “cobarde e perjuro”.
Com as coisas neste ponto, Pierre de Castelnau foi assassinado por um cavaleiro desconhecido. O enviado
do lugar-tenente de Deus na terra, Pierre de Castelnau, assassinado! Roma saberia vingar essa morte100...
2.
A Cruz contra o Graal
O papa Inocêncio III excomungou Raymond, os assassinos e respectivos cúmplices. Todos os domingos
nas igrejas se proclamaram “com sino, livro e vela” as excomunhões lançadas, os lugares contaminados com a
sua presença foram marcados com a interdição e os vassalos de Raymond desligados do juramento de
fidelidade. Raymond poderá implorar perdão depois de mostrar arrependimento e de expulsar os hereges do
país.
O papa faz um apelo às armas a toda a cristandade e ordena aos bispos que preguem a cruzada contra o
inimigo irreconciliável da Igreja e contra os seus súbditos apóstatas, “piores que os sarracenos”. Envia cartas
ao rei e aos barões da França incitando-os a não perderem tempo e a invadirem quanto antes o condado de
Toulouse, a expulsarem o conde, a exterminarem os seus súbditos e a substitui-los por católicos. Pede ao rei
da Inglaterra que faça as pazes com a França e se alie a Filipe II contra Toulouse.
Arnaud, abade de Cîtiaux, convoca apressadamente o capítulo geral da Ordem cisterciense, que decide por
unanimidade pregar energicamente a nova cruzada. Depois, acompanhado de frades, percorre a França a
pregar contra as províncias heréticas do Midi. Bispos e padres juntam-se aos fanáticos cistercienses. Em todas
as igrejas voltam a retumbar as prédicas convidando o povo católico a pegar em armas para defender a causa
de Deus: “Todos os homens, incluindo os maiores pecadores, podem evitar os tormentos do inferno se
combaterem os hereges”.
Para facilitar o recrutamento de campeões para essa guerra santa, o papa promete a mesma indulgência
concedida aos que combateram nas cruzadas da Palestina: os que tomarem parte na luta contra os albigenses,
têm garantida a beatitude eterna...
O Vaticano lança um apelo aos fiéis: “Avante, valentes soldados de Jesus Cristo! Combatei os percursores
do Anticristo! Até agora, combatestes pela glória mundana, combatei agora pela glória celeste! Chamo-vos a
servir Deus, não por recompensas terrenas, mas para que possais ganhar o reino dos céus. Prometo-vos essa
recompensa com a consciência tranquila e em toda a convicção!”
A iminência da tormenta faz tremer o conde de Toulouse, que implora a absolvição ao abade de Cîtiaux. A
pretexto de não poder levantar a excomunhão, Arnaud remete-o ao papa. O sobrinho de Raymond, o jovem
Raymond-Roger Trencavel, aconselha-o a preparar a resistência, mas Raymond tinha perdido toda a coragem.
Envia emissários ao Vaticano informando que se submete à decisão soberana da Igreja. Inocêncio exige-lhe
que primeiro manifeste boa-vontade, que entregue as fortalezas mais importantes e, então, poderá ouvi-lo e
levantar a excomunhão se, entretanto, o acusado provar que está inocente. Raymond aceita as condições. Não
suspeita que o papa o vai tratar com falsas benevolências até chegar o momento de o esmagar.
Entrega as sete praças mais fortes ao núncio do papa, Milon, que, por sua vez, as confia à guarda de
abades e bispos, e promete submeter-se ao papa e aos seus legados. Nu até à cintura, jura no átrio da igreja de
Saint-Gilles voltar ao serviço da Igreja, exterminar a heresia e participar pessoalmente na cruzada. É açoitado
com varas nas costas, o núncio leva o penitente ao altar e, em nome do papa, levanta-lhe a excomunhão. E,
assim, o conde de Toulouse pega na cruz contra os próprios vassalos...
Em Julho de 1209, Inocêncio III escreve uma carta a Raymond em que o felicita pela submissão e pela
penitência e deixa-lhe entrever a salvação neste mundo e na eternidade. Ao mesmo tempo, chega outra para o
núncio Milon com a ordem de manter a maior intransigência com o conde.
“Como, entretanto, não exterminou os hereges”, dois meses mais tarde o conde de Toulouse é de novo
excomungado e os bens interditados. Só o seu aniquilamento completo podia satisfazer a vingança de Roma.
Em Lyon começam os preparativos de uma cruzada como o mundo nunca tinha visto. A garantia da Igreja
de que os cruzados ganhariam a vida eterna no combate e regressariam ao fim de quarenta dias carregados de
despojos, tinha produzido o seu efeito.
Em Lille, um ladrão tomou a cruz para escapar à prisão que o ameaça, mas é detido no último momento.
Vendo nessa detenção um atentado à imunidade dos cruzados, o arcebispo de Reims excomunga a condessa
Mathilde de Flandres e interdita os seus domínios para forçar a liberdade do peregrino, que parte contra os
albigenses.
Sem cessar, de todos os lugares do Ocidente, Ile-de-France, Borgonha, Lorena, Renânia, Áustria, Frísia,
Hungria e Eslavónia, chegam a Lyon novos recrutas. O Ocidente inteiro, a cristandade inteira, marcha contra
a Provença e contra o Languedoc a suprimir definitivamente um mal cuja extirpação resiste há três gerações a
todos os esforços da Igreja.
Em 24 de Junho de 1209, os cruzados deixam Lyon e descem o Ródano até à Occitânia: vinte mil
cavaleiros, mais de duzentos mil cidadãos, sem contar o clero e a burguesia.
Mas que pandemónio nesse exército de Jesus Cristo!...
À frente, o lúgubre e sombrio abade de Cîtiaux, “chefe das forças cristãs contra os hereges albigenses”.
Qual cavaleiro do Apocalipse, galopa de cógula ao vento através do país que não adora Deus da mesma
maneira que ele. A seguir, o exército de arcebispos, bispos, abades, padres e monjes. Ao lado dos príncipes da
Igreja, vão príncipes laicos de brilhantes armaduras de aço, prata e ouro. Depois, facínoras feitos cavaleiros
em simulacros de armaduras: Robert-sans-Avoir, Gui-qui-ne-boit-pas-d’eau (que não bebe água)... Deus sabe
os seus nomes! Por fim, os cidadãos e camponeses seguidos de milhares e milhares de canalhas de toda a
Europa: devassos, rufiões e, nos templos de Vénus de quatro rodas, rameiras de todos os países possíveis...
Juntamente com os cronistas Guillaume de Tudèle e Pierre de Vaux-Cernay, partidários entusiastas da
cruzada, acompanhemos os soldados de Cristo à Occitânia, ao fundo dos vales mais selvagens dos Pirinéus e
às grutas mais obscuras, onde só a morte parece reinar.
Antes, porém, esclareçamos alguns aspectos: em primeiro lugar, não obstante os pretextos religiosos e
apesar de desencadeada pelo Vaticano, a cruzada contra os albigenses teve o carácter de uma guerra entre a
França do norte e a França do Midi. Os franceses do norte ansiavam terminar a conquista iniciada setecentos
anos antes por Clovis e os meridionais, católicos e hereges, unanimemente decididos a resistir à invasão,
apesar das numerosas cauções dadas pela nobreza e pelas cidades. Entre os católicos do Midi e os hereges
não havia ódio religioso e, até então, uns e outros (não me refiro aos clérigos, obviamente) coexistiam
pacificamente. Embora só em casos raros se faça referência a ajudas dadas aos cruzados pelos habitantes
ortodoxos da Occitânia (também aqui se trata de laicos), podia pensar-se que os cruzados eram benvindos
para eles, como se viessem libertá-los do domínio e da tirania de uma crença antipática e detestada. Para os
occitanos, a tolerância era um hábito e o amor da pátria natal muito mais forte que as oposições em matéria
religiosa...

* * *

O jovem Raymond-Roger da Casa de Trencavel, visconde de Béziers e Carcassonne, cavalga ao encontro


dos cruzados. Tenta evitar a desgraça das duas cidades, mas regressa sem ter conseguido o seu propósito. Em
Béziers, é cercado pelos súbditos:
“Há alguma esperança?”
“Combatei até à morte! Que Deus esteja convosco!”
E continua em grande galope para Carcassonne...
Béziers espera a cruzada. O dragão aproxima-se rastejante a cuspir fogo e morte...
Um clérigo idoso pede para entrar na cidade. É Réginald de Montpeyroux, o bispo que aderira à cruzada.
Os sinos chamam os fiéis à catedral de estilo românico construída por Mestre Gervais.
“Os cruzados aproximam-se, diz o velho prior, entregai-nos os hereges ou morremos todos”.
“Trair os nossos irmãos? Preferimos que nos atirem ao fundo do mar!”
Montado na mula, o bispo sai da cidade. A inesperada resposta provoca no grão-prior de Cîtiaux uma tal
ira, que jura exterminar hereges e católicos pelo ferro e pelo fogo e não deixar na cidade pedra sobre pedra.
Na tarde de 21 de Julho, os cruzados estão à vista. Bandidos e truões, impacientes por começar o saque,
correm por iniciativa própria para a cidade. Os outros peregrinos não têm outro remédio senão segui-los. As
portas cedem. Aterrorizados com a irrupção, os habitantes ortodoxos e hereges de Béziers refugiam-se nas
igrejas. Um dos barões pergunta ao grão-prior como distinguir os hereges. O abade respondeu:
“Matai-os a todos! Deus reconhecerá os seus!” 101
Nos templos, onde os sacerdotes rezam a missa de defuntos, todos são assassinados, homens, mulheres e
crianças (“vinte mil”, escreve Arnaud de Cîtiaux ao papa). Ninguém escapa. Os próprios padres são imolados
no altar. O crucifixo e a custódia que mostram aos invasores são atirados ao chão...

Nada poderá salvá-los, nem cruz, nem altar, nem crucifixo.


Facínoras dementes e ladrões degolam padres, mulheres e crianças.
Penso que ninguém escapou.
Deus os acolha no Paraíso!
Guillaume de Tudèle
A cidade é posta a saque. Enquanto os cruzados estão ocupados a trabalhar como carrascos nas igrejas, os
rufiões vão à caça de despojos. O produto da rapina tem de ser arrancado aos saqueadores a golpes de espada
e de bastão, nenhum deles quer renunciar ao espólio prometido...
A cidade começa a arder. O fumo obscurece o sol daquele medonho dia de Julho, o sol que se prepara
para desaparecer do cimo do Thabor...
“Deus está connosco!, gritam os cruzados. É milagre! Nem os abutres nem os corvos querem saber desta
Gomorra!”
Os sinos fundem nos campanários, os cadáveres ardem em grandes chamas, a catedral ribomba como um
vulcão. O sangue corre, os mortos ardem, a cidade abrasa-se, as paredes desmoronam-se, os frades cantam,
os cruzados matam, os vagabundos pilham... Assim morreu Béziers, assim começou a cruzada contra o Graal.

À falta de abutres e de corvos, Béziers é abandonada aos cães e aos lobos. O seu final espantoso semeia o
pânico nas cidades do Languedoc. Não se esperava semelhante coisa. Que a cruzada era uma guerra, sabia-se
há muito, não se contava é que o Louvre e o Vaticano pudessem rivalizar em crueldade na chacina da
Occitânia. Começou a ver-se claro, mas era tarde demais: a cruzada com os seus trezentos mil peregrinos
estava no meio do país e... o conde de Toulouse, que participava directamente no combate, tinha jogado
todos os trunfos, que era o mais grave!
As muralhas de Carcassonne construídas pelos reis godos e pelos valorosos Trencavel regorgitavam de
refugiados. Vinicultores de Lauraguais, pastores da montanha Negra e dos primeiros contrafortes dos
Pirinéus tentavam pôr-se a salvo, eles, os animais e o escassos haveres que possuíam, do furacão que chegava
com a velocidade do raio.
Na tarde de 1 de Agosto, terça-feira, os vigias da torre mais alta do castelo anunciaram a aproximação dos
cruzados. Na quinta-feira de madrugada, o acampamento dos cruzados, na outra margem do Aude, fervilha
de vida.
Veni creator spiritus... o hino dos cruzados102 ecoa na manhã. É o sinal de assalto. Os peregrinos passam o
rio e assaltam o arrabalde de Graveillaude. Depois de um combate de duas horas, as tropas do visconde
cedem ao número e abandonam-no ao inimigo. Graveillaude é completamente arrasada. Na sexta-feira, os
cruzados esperam apoderar-se de Saint-Vincent. Atravessam as ruínas fumegantes de Graveillaud e atacam as
muralhas de Saint-Vincent. Mas essas são mais sólidas e mais bem defendidas e o assalto fracassa.

Com a notícia do massacre de Béziers, o rei de Aragão, cunhado de Raymond-Roger, atravessa os Pirinéus.
Com a sua intervenção, espera poder poupar Carcassonne à mesma sorte. Entra no campo dos cruzados com
uma escolta de cem cavaleiros aragoneses e catalães. Depois de uma pausa na tenda do conde de Toulouse,
dirige-se desarmado à cidade sitiada acompanhado de três cavaleiros. Grande alegria em Carcassonne: “O rei
vem em nossa ajuda, não somos seus vassalos e amigos?”
“Visconde, diz o rei de Aragão ao cunhado, em nome de Jesus Nosso Senhor, não vos aconselhei várias
vezes a expulsar da cidade os hereges e essa doutrina de loucos? Agora, sinto grande preocupação ao ver-vos
e ao ver a vossa cidade em tamanho perigo. A única solução é chegardes a acordo com os barões da França.
O exército dos cruzados é tão poderoso, que sou obrigado a duvidar do sucesso da vossa causa. Bem vejo
que a vossa cidade é forte, mas alberga demasiadas mulheres e crianças. Permitis-me entabular negociações?”
“Sire, responde o visconde depois de consultar os barões, fazei o que vos parecer melhor. Tendes a nossa
confiança”.
O rei regressa ao campo. Os princípes e barões franceses estão de acordo, mas nada prometem sem o
assentimento do núncio. O rei de Aragão encontra-se com o abade Cîtiaux e expõe-lhe o caso. Este escuta-o
em silêncio e diz depois:
“Tendo em conta a nossa grande estima pelo rei de Aragão, autorizamos o seu cunhado, visconde de
Carcassonne, a deixar a cidade com doze companheiros à sua escolha. A cidade e tudo o que alberga pertence
aos cruzados”.
Desolado, o rei volta a subir à cidade.
“Sire, exclama Raymond-Roger, julgais-me capaz de trair o menor dos meus súbditos? Preferia matar-me!
Rogo-vos que volteis para vossa casa. Hei-de saber defender-me, a mim e à minha cidade”.
Aflito, o rei abraça o cunhado e empreende o regresso a casa. Atravessa o condado de Foix e passa pelas
grutas de Sabarthès e por Montségur, cujas muralhas acabam de ser reparadas e reforçadas.
Os cruzados renovam o assalto. Desta vez, porém, são acolhidos com uma saraivada de flechas, pedras,
água a ferver e fogo grego. São obrigados a recuar...
“O Senhor é connosco, soldados de Cristo!, grita o abade de Cîtiaux. Vede outro milagre: Deus ordenou
aos elementos que nos dêm assistência. O Aude é nosso, portanto temos água, mas lá em cima, no ninho
herético, as fontes secam porque o Senhor proibiu às núvens que dêm de beber aos pecadores!”
Na cidade sitiada desenrolam-se cenas atrozes. A concentração de homens e animais, o cheiro pestilento
dos animais mortos, as núvens de mosquitos e a sede horrível que grassa provocam uma epidemia. Pelas ruas
da cidade correm mulheres e crianças a gemer e a chorar... Certo dia, um cruzado a cavalo apresenta-se na
porta oriental da cidade como parlamentar. Quer falar ao visconde, diz vir da parte do rei da França e pede-
lhe que o acompanhe ao campo dos cruzados para entabular conversações. Que lhe será garantido um salvo-
conduto.
“Jurai!”, diz Raymond-Roger.
“Juro por Deus todo-poderoso...”
Depois de uma curta deliberação com os barões e cônsules, Raymond-Roger vai ao campo dos cruzados.
Apresenta-se à porta da tenda do abade de Cîtiaux na companhia de cem cavaleiros. Os barões franceses
olham com curiosa admiração o mais ilustre e valoroso cavaleiro da Occitânia. O visconde dirige-se ao abade
cisterciense:
“Vossa Eminência deseja?...”
“Prendei-o! A ele e a todos os cavaleiros!”, grita o grão-prior Arnaud.
É assim que, por um acto de traição, o visconde de Carcassone e os seus companheiros são reduzidos à
impotência. Deixam-se escapar alguns cavaleiros para anunciarem na cidade a prisão do visconde. Ao
conhecer a perda do chefe, Carcassonne sabia que a sua sorte estava traçada, que ia sofrer a mesma morte
horrorosa de Béziers. Os cônsules e barões reuniram em conselho. A noite aproximava-se...
Na manhã seguinte, os cruzados esperam a rendição de Carcassonne, mas as pontes levadiças não baixam
e as portas continuam fechadas. Não há vigias no lago nem na atalaia mourisca. A cidade está silenciosa como
uma necrópole. Os cruzados suspeitam de um estratagema, aproximam-se desconfiados das muralhas e põe-
se à escuta: silêncio. A porta oriental é derrubada...
A cidade está vazia. A própria cidadela foi evacuada...
Com a notícia da queda de Carcassonne, acorrem núncio, barões, prelados e monjes. A primeira coisa que
fazem é lançar o visconde à masmorra mais profunda do seu próprio castelo. A seguir, instalam-se como se
estivessem em casa. Finalmente, mandam arrancar a cidade à pilhagem dos soldados.
Mas paira um enigma. Não há uma alma na cidade! Os passos dos intrusos ecoam de maneira estranha nas
ruas vazias... Da varanda do castelo condal, o “chefe do exército cristão”, o grão-prior Arnaud de Cîtiaux,
arenga às tropas:
“Barões e soldados, ouvi-me! Como vedes, nada nos resiste. O Deus do trovão faz milagres. Proibo em
seu nome a pilhagem sob pena de excomunhão e maldição. Vamos entregar o espólio a um digno barão que
irá manter o país na graça de Deus...”
O exército aplaude-o freneticamente.
Estupefactos, os chefes perguntam como puderam desaparecer de Carcassonne milhares de pessoas como
se a terra as tivesse engolido.
De facto, a terra engoliu-os. Na última noite, os sitiados escaparam-se por um corredor substerrâneo para
a montanha Negra, para as florestas de Corbières e para as ravinas do Thabor. Nos subterrâneos, foram
encontrados uns quinhentos velhos, mulheres e crianças para quem a fuga oferecia demasiadas dificuldades.
Uns cem, abjuraram da heresia. Foram despojados das roupas e obrigados a correr como vieram ao mundo
“vestidos com os seus pecados”. Os restantes quatrocentos mantiveram-se fiéis à sua crença: uns, foram
enforcados, os outros, queimados vivos.
Na catedral de Saint-Nazaire, os cruzados agradecem ao céu a ajuda prestada. O Te Deum é acompanhado
dos gemidos das vítimas e o incenso mistura-se ao fumo das fogueiras. Arnaud de Cîtiaux celebra a missa do
Espírito Santo e prega sobre o nascimento de Cristo.

Messa lor a cantada de Sante Esperit,


E si lor preziquet cum Jhesu Crist nasquit...
Guillaume de Tudèle

Eis o que se passou em 15 de Agosto no ano do Senhor de 1209, dia da Assunção de Maria, padroeira da
cruzada...
Carcassonne caíu. Antes, Carlos Magno tinha-a sitiado em vão durante sete anos. Só ao fim desse tempo
se entregou voluntariamente ao imperador. Foi assim que a cidade cavaleiresca pagou tributo ao primeiro
“cavaleiro sem medo e sem mancha”. Agora, Carcassonne caía por força da traição. A mais bela, a mais nobre
cidade da Occitânia, a cidade de cem torres onde os reis godos e os sultões tinham tido as suas cortes, onde
Adelaide recebia reis e trovadores, de onde os Trencavel dirigiam o olhar vigilante para a Terra Salvatge, a terra
do Graal, caíu mercê de uma traição. Na torre mais alta de Carcassonne, os cruzados vitoriosos ergueram o
símbolo do seu triunfo: a Cruz.
O Graal estava em perigo!...
Depois da acção de graças na igreja de Saint-Nazaire, o abade de Cîtiaux convocou todos os prelados e
barões. Parecia-lhe chegado o momento de dar um novo senhor ao país conquistado. O duque de Borgonha,
os condes de Nevers e de Saint-Paul, a quem Arnaud ofereceu em primeiro lugar o viscondado de Béziers e
Carcassonne, recusaram brutalmente. São cruzados, dizem, para castigar os hereges, não para se apossarem de
territórios sobre os quais não têm qualquer direito. Constitui-se um comité para nomear o novo senhor
temporal. Arnaud de Cîtiaux, dois bispos e quatro cavaleiros elegem “sob a influência visível do Espírito
Santo”, como diz o cronista, Simon de Montfort e o conde de Leicester.
Simon de Montfort participou em 1201 na cruzada do rei Balduíno da Flandres. Quando os cavaleiros
franceses, que não tinham o dinheiro necessário para uma cruzada na Palestina, venderam os seus serviços
aos venezianos que queriam reconquistar a cidade de Zara na Dalmácia, anexada pelos húngaros em 1118,
Simon de Montfort declarou que, na sua qualidade de barão francês, tinha vindo para combater os infiéis e
não para fazer a guerra por Veneza contra os húngaros. E abandonou a cruzada. Quando foi pregada a guerra
santa contra os albigenses, um abade cisterciense foi dirigiu-se ao castelo de Rochefort para o convencer a
tomar parte na nova cruzada. Montfort começou por recusar. Momentos depois pegou no saltério, abriu-o ao
acaso e pediu ao abade que lhe traduzisse o salmo da página aberta:
“Pois ele ordenou aos anjos que te protejam em todos os caminhos, que te levem nos braços para que os
teus pés não tropecem em pedras. Marcharás e pisarás cachorros de leão e dragões. Se me deseja, quero
ajudá-lo, se conhece o meu nome, quero protegê-lo. Vou tirá-lo de embaraços e honrá-lo”. Tal era o teor do
salmo em que Simon tinha o dedo, o salmo 91 do Antigo Testamento.
Em 10 de Novembro de 1209, Raymond-Roger, o nobre Trencavel, morreu subitamente103.
“Foi envenenado”, gemeram os occitanos.
“Malditos sejam os que dizem isso!”, gritaram os peregrinos da cruzada contra os albigenses. E no entanto,
o papa Inocêncio III teve a coragem de escrever numa carta que o jovem visconde de Carcassonne e Béziers
tinha sido miserabiliter infectus, miseravelmente envenenado.
Chegado Simon de Montfort, era mister que Trencavel-Parzival acabasse os seus dias no mais fundo de
uma masmorra do seu próprio castelo. Como Sócrates, o mais nobre pensador da Grécia, o mais nobre
cavaleiro da Occitânia teve de esvaziar a taça de veneno.

Deixa-te enterrar, cavalaria,


E que nenhuma palavra te proclame mais!
Foste escarnecida, estás sem honra,
E tão fraca como um morto
Amordaçam-te e clericalizam-te,
O rei nega a tua herança
Todo o teu reino é engodo e plágio
Por isso, és suprimida!
Peire Cardinal
3.
Infeliz Mountsalvatsche!
O conde de Nevers e os seus vassalos são os primeiros a abandonar a cruzada. O exemplo é seguido pelo
duque da Borgonha e por todos os barões franceses, um após outro. Estavam cumpridos os quarenta dias de
“serviço” necessários à salvação das suas almas. Os dignitários da Igreja tentam convencer os cavaleiros de
que a causa de Deus continua a reclamar a sua presença, mas em vão. Os ladrões e salteadores também se
vão. Sentem-se satisfeitos com o espólio conquistado e querem regressar a casa.
Montfort fica e, com ele, todos os arcebispos, bispos, abades, sacerdotes e frades, mas só trinta cavaleiros
e cerca de quatro mil e quinhentos peregrinos, a maior parte borgonheses e alemães, aos quais é obrigado a
pagar soldo dobrado. A sua situação é extremamente precária. No apogeu do sucesso, os legados convocaram
um concílio em Avignon e obrigaram os cavaleiros, nobres e magistrados municipais dos territórios
conquistados a jurar que contribuiriam com todo o seu poder para o extermínio da heresia. Mas pouco tinha
valido isso, uma vez que os juramentos não passavam de mero formalismo e a homenagem prestada a Simon
pelos seus novos vassalos não era sincera por ter sido obtida pela força.
Pouco a pouco, o país vai-se refazendo do terror. Entretanto, começa uma série de guerrilhas enfadonhas
que comprometem cada vez mais a situação de Montfort, um daqueles momentos em que o seu poder não
vai além da ponta da lança. Uma vez mesmo, em Carcassonne, com grande pesar seu, não pôde impedir as
tropas de empreenderam a fuga. Quando ia sitiar Termès, foi-lhe quase impossível encontrar um cavaleiro
disposto a assumir o comando da guarnição de Carcassonne. A despeito das dificuldades, porém, conseguiu
apoderar-se de algumas fortalezas e chegou a pôr o pé no condado de Foix. Na primavera de 1210, a situação
melhorou com a chegada de novos contingentes de peregrinos.

* * *

No final de 1209, Raymond VI foi visitar o papa e queixou-se da atitude não cristã de Simon de Montfort.
Esperava mais indulgência do papa, uma vez que o rei da França e os seus vassalos mais poderosos também
lhe tinham exprimido abertamente a maior indignação pelas atrocidades de Simon e pelo comportamento
falso e vergonhoso dos legados. Raymond tentou demonstrar ao papa a injustiça com que ele e os súbditos
eram perseguidos pelos legados, garantiu ter preenchido as condições impostas em Saint-Gilles pelo núncio
Milon e pediu a Inocêncio que o absolvesse definitivamente da acusação que pesa sobre si, de ter assassinado
Pierre Castelnau. O Santo Padre recebeu-o com toda a cordialidade, ofereceu-lhe presentes e mostrou-lhe
relíquias célebres nas quais lhe deixou tocar. Tratou-o por “meu querido filho” e ordenou formalmente aos
legados que convocassem um concílio no prazo máximo de três meses a fim de dar ao conde de Toulouse a
possibilidade de se defender.
Não teria sido mais correcto da parte de Inocêncio ouvir ali mesmo as justificações de Raymond? Sim, mas
isso importava-lhe pouco, pelo contrário, tinha a intenção de não se desviar da linha de conduta que traçara
ao núncio e a si próprio de esmagar Raymond. Abatido por pressentimentos funestos, Raymond apressou-se
a deixar a cidade eterna “com medo de ficar doente”.

* * *

Em lugar de prepararem o concílio, os núncios apostólicos começam a arengar à população de Toulouse


numa tentativa de a sublevar contra o soberano. Uma confraria religiosa instituída “para a conversão dos
hereges” confronta-se diariamente nas ruas de Toulouse com os cidadãos fiéis ao conde. Então, “Deus abriu-
lhes uma via e deu-lhes o meio de impedir que o conde se justifique”, diz Pierre de Vaux-Cernay, monje
historiógrafo, biógrafo oficial de Simon de Montfort. O meio inspirado aos legados por Deus é voltar a exigir
a Raymond que expulse do país todos os hereges sem excepção.
Por seu lado, Simon de Montfort vai contribuindo também para humilhar Raymond. Percorre o condado
de Toulouse com os seus peregrinos e põe tudo a fogo e a sangue104. No momento em que vai cercar
Minerve, o abade de Cîtiaux envia-lhe tropas frescas. Guillaume, senhor de Minerve, consente em entregar a
cidade aos cristãos na condição de pouparem as vidas dos súbditos. Arnaud deseja ardentemente a morte dos
hereges, mas não vê como conciliar a sua dignidade sacerdotal com a ordem de assassinar todos os sitiados.
Assim, decide deixar com vida os católicos e os hereges que reneguem a suas crenças. Os cavaleiros de
Montfort protestam: “Viemos para exterminar os hereges e não para os agraciar!”. O abade Arnaud
tranquiliza-os: “Conheço-os bem, nenhum deles se converte”.
Na verdade, conhecia-os bem. Com excepção de três mulheres, todos os outros recusaram comprar a vida
renunciando à crença. E pouparam aos carrascos o trabalho de os empurrar para as chamas da fogueira: eles
próprios se lançaram no braseiro.

* * *

Agora, tratava-se de arrasar Termès...


Fortaleza inexpugnável, cidade admiravelmente fortificada, periferia cercada de fortes muralhas, o
conjunto rodeado por um rio que corre impetuosamente num leito talhado no granito: eis Termès.
Raymond, o velho castelão, filho de Belissena, está pronto para a defesa. O “exército de Deus” não se faz
esperar, mas a situação só começa a tornar-se séria com a chegada de um reforço de bretões, franceses e
alemães. Um especialista comprovado dirige as operações: Guilhem, grão-prior de Paris e perito em artilharia
de assédio. Prega, repreende, distribui ordens a carpinteiros e ferreiros, inflama os soldados, em suma, sabe
do ofício. Manda dispor a toda a volta da cidade as catapultas e os arietes mais aperfeiçoados.
Os meses passam. Os sitiados troçam dos assaltantes e dos seus esforços vãos: “A cidade é forte, perdeis
tempo e... temos mais de comer que vós!...”
Com efeito, os sitiados sabem que a fome grassa no campo dos cruzados. O pão, inexistente, é substituído
por folhas de erva. Mas Deus não deixa desamparados os seus peregrinos em armas e proíbe as núvens de dar
de beber aos hereges. As fontes da cidade cercada secam. Mata-se a sede com vinho, mas também o vinho
escasseia cada vez mais. A fome é terrível, a sede é mais terrível ainda.
“Entregamo-nos amanhã”, anuncia Raymond aos cruzados.
No dia seguinte, tenta ganhar tempo. Do campanário do castelo, olha para os lados de Corbières: acima do
Bougaratsch, flutua uma nuvenzinha pálida. Mas ele sabe o que isso significa...
A núvem engrossa, escurece cada vez mais e acaba por cobrir todo o céu. Desencadeia-se um dilúvio.
Quase mortos de sede, os infelizes bebem o divino líquido aos baldes cheios, mas a imprudência vai perdê-
los: a desinteria irrompe na cidade e começa a ceifar vidas. Presas de pânico, os defensores de Termès tentam
escapar à morte que os ameaça de todos os lados. Um cruzado apercebe-se de uma tentativa de fuga nocturna
e dá o alarme ao campo adormecido.
E voltam a acender-se as fogueiras...
Triunfante, Monfort regressa a Carcassonne. Raymond de Termès é encarcerado numa masmorra. Muito
mais tarde, o filho foi resgatar o pai finalmente agraciado e... encontrou os ossos do seu esqueleto.
Entretanto, satisfazendo o desejo do papa, os legados convocam um concílio em Saint-Gilles em Setembro
de 1210. Frios e impassíveis, acusam o conde de Toulouse de não manter o juramento visto não ter expulsado
todos os hereges. Logo, não lhes é possível absolver um perjuro da acusação de assassinato. Não querem ouvir
a sua defesa e voltam a excomungá-lo. Ao aperceber-se de tão miserável logro, um homem de carácter mais
enérgico teria mostrado uma fúria sagrada, mas Raymond, abatido ao ver ruirem todas as suas esperanças,
rompeu em lágrimas. Para os juízes, aquela emoção foi mais uma prova da sua “maldade inata”.

* * *

A instâncias do papa, os legados convocam nova conferência, a conferência de Arles, em Janeiro de 1211.
Enquanto obrigam Raymond a esperar à porta “com muito frio e vento”, elaboram novas condições sabendo
de antemão que vão ser recusadas pelo conde:
“O conde deverá licenciar todas as suas tropas. Deverá entregar ao clero todas as pessoas que lhe forem
apontadas como hereges. A partir de agora, serão autorizados apenas dois tipos de carne no condado de
Toulouse. Todos os habitantes, nobres e plebeus, não poderão usar roupas à moda, devem vestir túnicas
castanhas de tecido grosso. As fortificações das cidades e castelos deverão ser totalmente demolidas. Os
nobres residentes na cidade terão de habitar no campo como os camponeses. Os chefes de família deverão
pagar anualmente aos legados quatro escudos de prata. Simon de Montfort terá direito de passagem em todos
os Estados de Raymond e ser-lhe-á permitido apropriar-se do que entender. O visconde de Toulouse deverá
servir na Palestina com os Templários ou com os cavaleiros de S. João, podendo regressar quando os legados
lho permitirem. Os seus bens passam a pertencer ao abade de Cîtiaux e a Simon de Montfort durante tanto
tempo quando os ditos senhores o entendam”.
A infame humilhação desperta em Raymond a coragem adormecida. Na impossibilidade de negociar com
semelhantes adversários, manda afixar em todos os Estados as condições dos legados. O efeito que produzem
é mais forte que um apelo às armas. “Preferimos abandonar o país na companhia do conde que submeter-nos
a padres ou a franceses”, gritavam os vassalos de Raymond. Os habitantes de Toulouse, os condes de Foix e
de Comminges e todos os filhos de Belissena prometem apoio a Raymond. Os próprios prelados católicos que
desaprovam a “cruzada ímpia” alinham resolutamente ao lado do infortunado conde.
Com zelo redobrado, os legados pregam a cruzada em todo o Ocidente e recrutam tropas na Alemanha e
na Lombardia. Simon tem necessidade de reforços, vai apoderar-se de Lavaur.

* * *

Em nome do Filho de Deus morto na cruz, os cruzados juraram a si mesmos exercer em Lavaur uma
vingança sangrenta. O suserano de Lavaur, filho de Belissena, tinha dito certa vez ao olhar para uma cruz:
“Espero nunca vir a ser salvo por esse signo!”
Lavaur é uma das mais fortes cidades da Occitânia, mas quem vai dirigir a defesa? O senhor do castelo
caíu em Carcassonne. Geralda, sua mulher, é uma pessoa frágil. A cidade está cheia de trovadores em fuga, de
cavaleiros proscritos e de cátaros escapados às fogueiras.
Améric, irmão de Geralda, é informado que Simon de Montfort ameaça a cidade. Cavalga à rédea solta e
acorre em socorro da irmã, do povo e do país. Só com muitas dificuldades consegue entrar na cidade. Os
cruzados já tinham começado o cerco.
Montfort começa por tratar das tropas. Espera a chegada de cruzados alemães vindos de Carcassonne, em
marcha para ali. Os alemães, porém, não irão chegar: são dizimados numa floresta pelo conde de Foix. Dois
terços jazem no solo, mortos ou feridos. Os outros são perseguidos através da floresta pelas tropas do conde
de Foix. Um deles, foge para uma capela. O infante de Foix vai-lhe no encalço.
“Quem és tu?”, pergunta o jovem conde.
“Sou peregrino e sacerdote!”
“Prova-o!”
O alemão baixa o capuz e mostra a tonsura. O jovem infante abre-lhe a cabeça com uma cutilada.
Monfort manda construir duas torres de assédio móveis e no cimo de uma delas coloca um crucifixo à
guisa de talismã. Uma pedra lançada por uma catapulta dos sitiados arranca um braço ao crucificado.
“E esses cães, escreve o cronista, põem-se a rir e a cantar como se tivessem tido uma grande vitória. O
Crucificado há-de vingar-se com um milagre, no ‘dia da Invenção da Santa Cruz’ os castigará”.
As torres móveis não podem aproximar-se suficientemente das muralhas por causa do fosso profundo que
rodeia a cidade. Assim, os cruzados lançam para lá todas as estacas, troncos e ramos que encontram. Depois,
as torres avançam, mas os sitiados pescam com arpões de ferro os assaltantes nas torres e precipitam-nos no
fosso. Qaundo a situação na cidade se torna mais crítica, os sitiados cavam túneis debaixo dos muros e puxam
para dentro os troncos de madeira. As torres caem. Durante a noite, os mais corajosos tentam incendiar as
máquinas de assalto, mas dois condes alemães e os seus homens fazem fracassar a tentativa.
Montfort e os legados começam a desanimar. Tudo o que atiram para dentro do fosso desaparece durante
a noite. Por fim, um cruzado ladino propõe que se tape o corredor subterrâneo com lenha e ramos húmidos e
se incendeie tudo para encher a galeria de fumo. A ideia é aprovada. As torres já podem avançar outra vez,
mas os assaltantes são recebidos com uma chuva de pedras enquanto das ameias da cidade se vertem potes de
pez ardente, azeite a ferver e chumbo fundido sobre os que estão em baixo.
Então, dá-se novo “milagre”: os legados e os bispos de Carcassonne, Toulouse e Paris começam a entoar
o hino da cruzada Veni creator spiritus e, pouco depois, uma muralha cede ao esforço de uma balista.
Petrificados pelo canto dos peregrinos, os defensores de Lavaur permitem a entrada o inimigo e deixam-se
prender sem oporem resistência!
De acordo com as predições do cronista, Lavaur é tomada no dia da Invenção da Cruz, em 3 de Maio de
1211. Durante dois meses, a cidade fez frente a quinze mil cruzados. Simon de Montfort, nobres franceses e
alemães, bispos, abades, monjes, burgueses, aldeões, lansquenetes, ciganos, todo o exército de Cristo faz a sua
entrada na cidade conquistada. Sem distinção de confissão, idade ou sexo, os habitantes são passados a fio de
espada.
Ao descobrir um numeroso grupo de mulheres e crianças escondido numa cave, um cavaleiro cruzado
pede a Simon de Montfort que conceda graça aos infelizes. O pedido é satisfeito. Nem os cronistas, nem o
monje historiógrafo de Vaux-Cernay, nem o trovador-historiador Guillaume de Tudèle, acharam importante
transmitirem-nos o nome desse cavaleiro, o único homem decente da cruzada contra o Graal.
Condenado à morte, Améric de Montréal, irmão da suserana, é conduzido ao local da execução com mais
oitenta cavaleiros, nobres e trovadores. As forcas já estão erguidas. Améric é o primeiro a ser enforcado. O
gigantesco patíbulo que devia suportar o peso de oitenta cavaleiros, parte-se com o peso de uma única vítima.
Os carpinteiros trabalharam mal. Montfort não está disposto a esperar e manda retalhar os condenados a
golpes de espada.
De pé, ao lado dos chefes da cruzada, está uma mulher acorrentada: é Donna Geralda, a castelã de Lavaur:

Atiraram Donna Geralda a um poço.


De pedras (os cruzados) a cobriram,
Do que houve lamentação e pecado,
Pois pessoa alguma, sabe-se bem,
Saiu de sua casa sem receber hospitalidade.
Guillaume de Tudèle

Donna Geralda de Lavaur é atirada a um poço e lapidada até deixarem de se ouvir gemidos. Morreu duas
vezes, trazia no seio uma criança.
Depois, vem o fogo do regozijo. Como se deitou a mão a quatrocentos cátaros, os que não foram capazes
de recitar a Avé Maria são enviados para a fogueira “com a maior alegria”. Só que, ao escaparem desse
inferno, os mártires experimentam uma alegria maior que os carrascos que os supliciam. Trocam o beijo da
paz e precipitam-se nas chamas a gritar “Deus é Amor!”. As mães tapam os olhos dos filhos com as mãos até
que o fogo os envolve para sempre e lhes desvela o paraíso.
A oeste, impoluto, acima da núvem de sangue, das fogueiras e das cidades fumegantes, Montségur ergue-se
no seu altivo e esplêndido rochedo como um dedo acusador levantado para o céu. Dedo que acusa mas que
mostra, ao mesmo tempo, o caminho do lugar onde só há Luz, Amor e Justiça.
“Senhor, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem. Digo-vos: hão-de levar-nos à morte e acreditarão
fazer uma obra agradável a Deus. Sede fiéis até à morte e tereis a coroa da vida eterna. Diaus vos benesiga...”,
assim falava Guilhabert de Castres aos angustiados cátaros na fortaleza santa que domina as gargantas do
Thabor.

* * *

Depois da queda de Lavaur, os cruzados pensam em novas carnificinas. Ao passarem a floresta onde
pouco antes tinham sido dizimados seis mil peregrinos alemães, Foulques, bispo de Toulouse, o ex-trovador
que Dante transporta ao Paraíso, julga ver uma auréola e comunica ao papa Inocêncio III o novo milagre.
Mas o papa tinha compreendido há muito que os seus lugares-tenentes, cegos de fanatismo e de ambição,
foram demasiado longe. O papa Inocêncio III compreendeu...

Diante da imagem de Cristo, na noite silenciosa,


Se ajoelha Inocêncio e reza em voz alta;
Sentirá horror do silêncio
Que fez reinar neste mundo?

Levanta os olhos para a imagem de Deus...


O amor e a doçura assustam-no
Ao pensar no que fez
E na via de sangue a que levou o mundo.

Fixa o Senhor e pesquisa-lhe a face,


Mas uma falena tira-lhe a luz:
Tudo cai na obscuridade
E no silêncio. E já não ousa perguntar.

Depressa vai ver outras luzes que sobem


Outras cruzes que não se escondem.
Marcaram-nas as chamas da Provença
No peito dos seus soldados.

As ruínas desmoronam-se, as armas retinem


E no feroz crepitar do fogo
Ouve maldizer o seu nome.
Quando a medonha visão o assalta,
Aperta a consciência no punho
E murmura impassível Amen, Amén!
Lenau, Les Albigeois

* * *

Por muito tempo ainda, a cruzada contra os albigenses continuou a sua orgia de horrores e violências, mas
só vou narrá-la até ao momento em que estamos. Descrevia-a tão fielmente quanto me foi permitido pelo
meu modesto quadro. Raymond-Roger de Carcassonne, Améric de Montréal, Donna Geralda de Lavaur são
apenas três das centenas de milhares de mártires do Languedoc...
Pedro de Aragão, Raymond de Toulouse e Simon de Montfort continuam vivos105. As muralhas de
Montségur ainda estão de pé e Esclarmonde vela pelo Graal.
Pedro de Aragão gozava dos favores do Vaticano mas tomou publicamente partido por Toulouse. Na sua
qualidade de monarca occitano, não podia assistir impassível à espoliação de que era vítima Raymond. Por
outro lado, os seus interesses estavam seriamente comprometidos pelo poder sempre crescente de Simon de
Montfort. Simon outorgou os feudos conquistados apenas a franceses e organizou à francesa as províncias
submetidas. A notícia do fim horrível de Raymond-Roger também deve ter determinado Pedro a assumir essa
posição. Com efeito, Pedro de Aragão era suserano de Béziers e estava ligado ao jovem visconde por laços
familiares e de amizade.
Pedro tinha a reputação de cavaleiro sem medo e sem mancha. Em 1212, na batalha de Navas de Tolosa,
que acabou com o domínio mouro na Espanha, conquistou mais glória que todos os outros reis e nobres e
obteve o cognome de èl Catolico.
Em 1204, deu provas de ardente zelo religioso: fez-se à vela para Roma acompanhado de um pomposo
séquito a fim de prestar homenagem a Inocêncio. Foi cingido com uma coroa de pão sem levedura, recebeu
das mãos do papa o ceptro, o manto e outras insígnias reais, que depositou com grande veneração no altar de
S. Pedro e ofereceu a este o seu reino, o que lhe valeu receber uma espada e o título de primeiro alferez (porta-
estandarte) da Igreja.
Fazendo fé nas suas boas relações com o Vaticano, Pedro enviou uma embaixada a Inocêncio a queixar-se
dos procedimentos dos núncios, que considerava arbitrários, injustos e contrários aos verdadeiros interesses
da religião. Acto seguido, dirigiu-se a Toulouse com a intenção de intervir a favor de Raymond, que tinha sido
destituído. Os seus embaixadores induziram Inocêncio a ordenar a Montfort a restituição dos territórios que
não tinham sido subtraídos aos hereges e a exortar Arnaud a não impedir a cruzada que a cúria romana
preparava contra os sarracenos prolongando as hostilidades no condado de Toulouse, cruzada que terminou
vitoriosamente com a batalha de Navas de Tolosa.
A iniciativa do papa e a enérgica intervenção de Pedro causaram profunda impressão nos legados e toda a
hierarquia do Languedoc foi mobilizada para superar a crise.
Em Janeiro de 1213, o rei de Aragão enviou uma petição aos legados pontifícios implorando que fosse
concedida mais graça que justiça aos nobres despojados de bens, petição que deu lugar a um acto de renúncia
assinado por Raymond e confirmado pela cidade de Toulouse e às “abdicações” dos condes de Foix e de
Comminges, fazendo entrega a Pedro de Aragão dos seus domínios e direitos. Reconheciam-lhe o direito de
agir como entendesse no caso de se mostrarem rebeldes às determinações do papa e dos seus direitos serem
restabelecidos depois de darem à Igreja as justificações requeridas. Submissão alguma, garantia alguma era
mais susceptível de resolver a situação, mas as garantias oferecidas na petição de Pedro nem sequer foram
consideradas pelos legados entregues ao fanatismo, à ambição e ao ódio. Arnaud de Cîtiaux chegou mesmo a
escrever uma carta violenta ao rei de Aragão em que o ameaçava de excomunhão caso não rompesse de vez
com os hereges excomungados e com os acusados de heresia.
Entretanto, as duas partes tomavam iniciativas sem esperar as decisões de Roma. Na França, pregava-se de
novo a cruzada e o próprio Luis, o delfim, filho de Filipe-Augusto, tomou a cruz com vários outros barões.
No outro campo, o rei Pedro de Aragão estreitava relações com Raymond e com os nobres excomungados.
Em Setembro de 1213, travou-se em Muret, não longe de Toulouse, a batalha decisiva entre os cruzados e
a coligação occitana. Venceram os cruzados. Tinham os milagres do seu lado, o incenso e as orações pesavam
mais que o patriotismo e a mística dos occitanos? Segundo os cronistas, o milagre que desta vez deu a vitória
a Simon de Montfort foi este: para ganharem o favor de Pedro, os nobres albigenses entregaram-lhe ou
abandonaram-lhe as suas mulheres e filhas. Assim, na manhã da batalha, Pedro estava tão esgotado que não
se segurava de pé durante a celebração da missa e, com mais razão, não conseguiu participar na batalha como
correspondia a um rei. Durante o combate, Pedro de Aragão perdeu a vida às mãos de dois cavaleiros
franceses, Alain de Roucy e Florent de Ville.

* * *

Simon de Monfort morreu em 1218. Tinha cortado relações com Arnaud de Cîtiaux, nomeado bispo de
Narbonne, e este excomungou-o. Terá sido isso que determinou o fim da sua fortuna. Toulouse, anexada às
suas possessões depois da vitória de Muret, revoltou-se. No dia de S. João de 1218, quando se preparava para
a reconquistar, foi morto por uma pedra que, segundo consta, foi lançada por mão de mulher. Grande foi a
dor dos fiéis do Ocidente ao espalhar-se a notícia de que o “glorioso campeão de Cristo”, o “novo Macabeu”,
o “bastião da fé”, tombara mártir da religião.
Seis anos mais tarde, morria Raymond VI, conde de Toulouse, duque de Narbonne, marquês da Provença,
o mais infeliz e o mais pobre dos monarcas do Ocidente. Tinha perdido o uso da fala quando o abade de
Saint-Sernin lhe administrou a extrema-unção. Um hospitalário presente no quarto tirou o manto ornado com
a cruz e cobriu o conde. Queria entregar o funeral à sua Ordem, que o conde honrava no testamento com um
legado, mas o abade de Saint-Sernin puxou bruscamente o manto e reivindicou o funeral em altos brados
uma vez que o conde morrera na sua paróquia. O inquérito ordenado em 1247 por Inocêncio IV, estabeleceu
pelo testemunho de cento e vinte pessoas que Raymond tinha sido “o mais piedoso e mais misericordioso
dos homens e o mais obediente servidor da Igreja”. Mas nada disso alterou uma cruel realidade: os restos
mortais do conde ficaram sem sepultura e tornaram-se pasto dos ratos no convento dos hospitalários. No
final do século XVII, mostrava-se a sua caveira a título de “curiosidade”.

* * *

Paris e Roma continuaram a pregar contra os albigenses até 1229, altura em que foram entabuladas em
Meaux negociações entre Raymond VII de Toulouse e S. Luis da França e cujos tratados foram ratificados
solenemente em Paris em 12 de Abril de 1229.
Raymond, vestido com roupas de penitente, teve de ajoelhar na praça de Notre-Dame na frente do legado
do papa e suplicar que lhe permitisse entrar na catedral. No átrio, foi despojado de roupas e sapatos e levado
em camisa ao altar-mor, onde aquele lhe levantou a excomunhão. Foi obrigado a jurar observar as condições
de paz e, de seguida, retido como prisioneiro no Louvre até ao dia do casamento, imposto pelo tratado, de
sua filha Jeanne e do irmão de S. Luís, criança de nove anos de idade.
As condições de paz eram as seguintes: Raymond devia jurar fidelidade ao rei e à Igreja, comprometer-se a
destruir o ninho herético de Montségur e a instituir uma recompensa de dois marcos de prata a quem lhe
entregasse um herege vivo ou morto. A pagar às igrejas e mosteiros da Occitânia uma indemnização de dez
mil marcos e fazer uma doação de quatro mil marcos para a fundação de uma faculdade católica em
Toulouse. Foi intimado a tratar como amigos todos os que tinham combatido contra si durante as cruzadas.
As muralhas de Toulouse e de mais trinta cidades e praças fortes deviam ser demolidas, devendo entregar ao
rei da França cinco castelos durante dez anos como penhor. Afirmava-se de maneira implícita que o conde
tinha merecido perder todas as possessões. Por especial graça, S. Luis deixava-lhe os domínios situados no
antigo bispado de Toulouse, na condição de passarem depois da sua morte para as mãos da filha e esposo, o
irmão de S. Luis, e, portanto, a pertencerem irrevogavelmente à casa real da França. Sem mais, o rei reservava
para si territórios como o ducado de Narbonne e os condados de Velay, Gévaudan, Viviers e Lodève, e
entregava à Igreja como feudo o marquesado da Provença a oeste do Ródano. Raymond perdia assim dois
terços do seu território.
Em todas as outras grandes cidades occitanas, outrora vassalas mas, na prática, independentes do conde de
Toulouse, foram instituídos senescais do rei.
Finalmente, Raymond devia tomar medidas enérgicas forçando todos os vassalos insubmissos, em especial
o conde de Foix, a reconhecerem o domínio francês. Aliás, a bem ou a mal, este último teve de assinar uma
paz humilhante no ano seguinte.
Com tais medidas, a hegemonia da coroa francesa estava garantida em todo o Midi da França. O Louvre
era vencedor! Roma, por outro lado, achava que ainda não era o momento de depor as armas.

Ai, Toulouse e Provença!


E a terra de Agen!
Béziers e Carcassonne!
Como vos vi! E como vos vejo!
Bernard Sicard de Marvejols
Quarta parte

A apoteose do Graal

Há na floresta uma gruta profunda


E silenciosa.
Nenhum raio de sol lá entra, nenhum vento sopra.
Para lá se vai o animal selvagem
Cansado da idade, a morrer oculto no escuro.

Talvez haja mais a aprender


Da agonia de um animal
Que das estrelas.
Lenau, Les Albigeois
1.
Domini Canes
Roma reivindicou para si própria o monopólio da ortodoxia e do milagre. Por isso mesmo — como os
cronistas escrevem unanimemente— a cruzada contra os albigenses terminou em vitória graças aos milagres
que o “Deus do trovão” operou a favor dos seus combatentes.
Numa noite de 1170, Juana de Aza, dama espanhola, teve um sonho estranho: pariu um cão que trazia na
boca um brandão aceso com o qual lançou fogo ao universo. Juana deu à luz um rapaz são e bem constituído,
baptizou-o com o nome de Domingo e a sua madrinha teve uma visão singular: viu na testa de Domingo uma
estrela móvel que iluminava toda a terra.
Já vimos S. Domingos em Montpellier, em 1206, a animar os desesperados legados do papa e a impedi-los
de abandonar a empresa iniciada, a conversão dos hereges. Também o encontrámos no concílio de Pamiers
ao lado do frade que gritava à arqui-herege Esclarmonde para ficar na roca e não se meter em discussões
teológicas. Por último, vemo-lo fundar nas cercanias de Montségur a abadia de Notre-Dame de Prouille e a
procurar neófitos entre os albigenses. Só não dissemos que estava ligado a Simon de Montfort por uma
“piedosa amizade” e que certo dia rezou missa em Lagrasse, perto de Carcassonne, em cima de um estrado
improvisado ao mesmo tempo que ardiam fogueiras nos quatro cantos para queimar os infelizes hereges.
Não vamos investigar os “milagres” de que Domingos se serviu para encher de frades o convento de
Prouille, como obteve autorização do papa para fundar a ordem dominicana e como soube que a devoção do
rosário era indispensável ao extermínio da heresia. Contentemo-nos em referir, como já outros fizeram, que ia
quase todos os dias aos cárceres anunciar aos hereges o Evangelho da salvação, que o povo o venerava como
santo e lhe rasgava o hábito para levar uma tira de pano como relíquia, e que, como testemunha o historiador
dominicano Malvenda, cabe ao fundador da ordem dominicana a honra de ter dado corpo à Inquisição.
Oficialmente, a Inquisição parece ter-se constituído em 20 de Abril de 1233, data em que o papa Gregório
IX editou duas bulas e confiou aos frades dominicanos o cuidado de perseguir hereges. O duplo documento
pontifício mostra claramente que o Soberano Pontífice não fazia a mais pequena ideia das consequências que
a inovação iria acarretar.
Na primeira bula, o papa insiste na necessidade de destruir a heresia por quaisquer meios e de apoiar,
também por quaisquer meios, a ordem de S. Domingos. Depois, dirigindo-se aos bispos: “Vemo-nos imersos
em toda uma série de dificuldades e quase sem poder respirar, oprimidos por problemas que nos angustiam.
Assim, achando que devemos ajudar-vos a carregar o fardo, enviámos frades para pregar contra os hereges da
França e das províncias vizinhas. Pelo que pedimos, avisamos, exortamos e ordenamos que lhes deis bom
acolhimento, que os trateis bem, que os favoreçais, que os aconselheis e ajudeis para que possam cumprir o
seu ofício”.
A segunda bula era dirigida aos priores e frades da ordem dos Irmãos Pregadores, na qual faz alusão aos
filhos perdidos que continuam a defender os hereges. E prossegue: “Por consequência, em toda a parte onde
fordes pregar, tendes plenos poderes para privar de prebendas os clérigos que fizerem caso omisso das vossas
advertências e recusarem renunciar à defesa da heresia, de os castigar sem tardança, e, sendo necessário, de
chamar em vossa ajuda o braço secular”.
Quando a ordem dos dominicanos recebeu da Santa Sé a incumbência de combater os hereges no Midi da
França, viu-se perante uma tarefa quase sobre-humana. A heresia tinha-se instalado há tantas gerações sem
ser inquietada e contagiado de tal maneira as classes sociais, que era necessário reeducar metodicamente a
Occitânia na verdadeira fé.
A missão do inquisidor não era impressionar as pessoas com belas encenações, mas paralisá-las pelo medo.
As vestes sumptuosas, as procissões pomposas, as escoltas de servidores, eram para os prelados. O inquisidor
trazia sempre o hábito da Ordem a que pertencia. Nas deslocações, fazia acompanhar-se somente de alguns
cavaleiros que o protegiam e cumpriam ordens. Antes de visitar uma cidade ou aldeia, avisava as autoridades
da sua chegada e pedia-lhes que juntassem a população a determinada hora na praça do mercado. Prometia-se
uma indulgência a quem obedecia à ordem e a excomunhão a quem desobedecia.
Reunida a população, o inquisidor fazia uma prédica sobre a verdadeira fé que, dizia, era necessário
propagar a todo o custo. Depois, convocava os habitantes a comparecerem na sua presença no prazo máximo
de doze dias e a contarem-lhe tudo o que sabiam ou tinham ouvido dizer deste ou daquele, quem era suspeito
de heresia e porquê. O que, por alguma razão, não comparecia à chamada, era ipso facto excomungado. Os que
obedeciam, eram recompensados com uma indulgência de três anos.
Imagine-se o pavor que se espalhava na paróquia quando o inquisidor aparecia bruscamente e lançava a
proclamação. Ninguém sabia das histórias que corriam a seu respeito. “Finalmente, os pais eram incitados a
trair os filhos, os filhos a trair os pais, os maridos, as mulheres, e as mulheres, os maridos”, como disse um
dia o papa Gregório IX.
Além do inquisidor e do “réu”, havia nos interrogatórios um secretário para escrever o processo verbal
que o inquisidor ditava “de modo a exprimir o melhor possível a verdade”. A título de interrogatório-modelo,
vejamos um que nos foi transmitido pelo inquisidor Bernard Gui, incluindo os comentários pertinentes em
cada caso:
“Quando um herege comparecia pela primeira vez, assumia normalmente um ar de segurança, como se
estivesse certo da sua inocência. Para começar, pergunto-lhe por que razão, em seu entender, terá sido citado
a comparecer.
O acusado — Teria o maior prazer, messire, em saber isso por vós mesmo.
Eu — És acusado de ser herege e de acreditar e ensinar coisas diferentes do que ensina a santa Igreja.
O acusado (que, perante a questão, levanta os olhos ao céu e assume ar piedoso) — Meu Senhor e meu
Deus, sabeis que sou inocente, que nunca professei outra fé que não fosse o verdadeiro cristianismo.
Eu — Chamais cristianismo à vossa fé porque tendes a nossa por falsa e herética. Por isso te pergunto se
alguma vez tiveste outra crença que a considerada verdadeira pela Igreja romana.
O acusado — Creio na verdadeira fé, tal como a ensina a Igreja romana.
Eu — É possível que alguns dos teus correlegionários vivam em Roma. A isso, chamas Igreja romana.
Quando faço uma prédica, pode acontecer que fale de coisas comuns à tua crença e à minha, que Deus existe,
por exemplo. Daí, que acredites em alguma coisa que eu digo. No entanto, podes ser herege porque acreditas
em coisas diferentes daquelas em que devias acreditar.
O acusado — Creio em tudo aquilo em que um cristão deve crer.
Eu — Conheço as vossas manhas. O que a tua seita crê é, na tua opinião, o que um cristão deve crer.
Estamos a perder tempo com jogos de palavras. Diz-me concretamente: acreditas em Deus, no Filho e no
Espírito Santo?
O acusado — Sim!
Eu — Acreditas em Jesus Cristo nascido da Virgem Maria, que sofreu, ressuscitou e subiu aos céus?
O acusado — Sim!
Eu — Acreditas que na missa celebrada por um sacerdote o pão e o vinho são transformados pela virtude
divina no corpo e no sangue de Jesus Cristo?
O acusado — Como não iria acreditar?
Eu — Não pergunto se não acreditas, pergunto: acreditas?
O acusado — Acredito em tudo o que vós e outros bons doutores me ordenam que acredite.
Eu — Esses bons doutores são os mestres da tua seita. Se a minha crença concordasse com a deles,
também acreditarias em mim.
O acusado — Desde que me ensinem o que é bom para mim, acredito como vós.
Eu — Achais boa qualquer coisa que eu ensino se a tua doutrina ensinar o mesmo. Diz-me então:
acreditas que o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo está no altar?
O acusado (rapidamente) — Sim!
Eu — Sabes que todos os corpos provêm de Nosso Senhor, por isso te pergunto: o corpo que está no
altar é o corpo do Senhor que nasceu da Virgem Maria, que morreu na cruz, que ressuscitou dos mortos e
subiu ao céu?
O acusado — E vós, senhor, não acreditais?
Eu — Claro que acredito.
O acusado — Também acredito.
Eu — Acreditas que eu acredito, mas não foi isso que te perguntei. Perguntei se tu acreditas.
O acusado — Se tergiversais as minhas palavras, não sei o que devo responder-vos. Sou um homem simples
e ignorante. Peço-vos, messire, que não punhais armadilhas nas minhas próprias palavras.
Eu — Se és um homem simples, então responde com simplicidade e sem subterfúgios.
O acusado — Com todo o gosto.
Eu — Queres jurar que nunca aprendeste nada que contrarie a fé que temos por verdadeira?
O acusado (empalidecendo) — Se é necessário jurar, jurarei.
Eu — Não te pergunto se é necessário que jures, pergunto se queres jurar.
O acusado — Se me ordenais jurar, jurarei.
Eu — Não posso obrigar-te a jurar. Como consideras o juramento um pecado, irias imputar-me esse
pecado se te obrigasse a jurar. Mas, se queres jurar, consinto em receber o teu juramento.
O acusado — Porque iria jurar se não mo ordenais?
Eu — Porquê? Ora, para desviar de ti a suspeita de heresia.
O acusado — Não sei como jurar, a menos que me ensineis.
Eu — Se fosse eu a prestar juramento, levantaria os dedos no ar e diria: ‘Nunca tive relação com a heresia
e nunca acreditei em nada contrário à fé, que Deus me ajude!’
O acusado começa a gaguejar para não proferir um juramento em regra mas, entretanto, quer fazer supor
que jurou. Muitos acusados desfiguram de tal maneira as palavras, que nem parece estarem a prestar
juramento. Ou então, transformam o juramento em oração, como, por exemplo: ‘Deus me ajude, não sou
herege!’ Se se pedir ao acusado que jure, responderá: ‘Então não me ouvistes jurar?’ Se se insiste, pede
infalivelmente a piedade do juíz: ‘Messire, se cometi algum mal, estou pronto a expiá-lo, mas ajudai a livrar-me
da acusação que pesa sobre mim e da qual não sou culpado’.
O inquisidor enérgico não deve deixar-se influenciar por esse modo de proceder. Pelo contrário, deve agir
com decisão até as pessoas confessarem e abjurarem publicamente do erro para que, no caso de se descobrir
que são perjuros, possam ser entregues sem mais interrogatórios ao braço secular. Quando alguém está
prestes a jurar que não é herege, costumo dizer-lhe: ‘Se queres prestar juramento só para escapar à fogueira,
nem dez, nem cem, nem mil juramentos chegam, visto que todos vos considerais não comprometidos com
juramentos obtidos pela força. Como tenho nas mãos provas inequívocas dos teus sentimentos hereges,
nenhum juramento te salvará da morte na fogueira. Ficarás com a consciência mais pesada e não conseguirás
salvar a vida. Se, pelo contrário, confessares o teu erro, é possível que obtenhas a nossa graça”.
Vi pessoas que acabaram por confessar ao serem pressionadas assim.
Um juramento prestado por um tal Jean Teisseire, de Toulouse, chegou até nós: “Não sou herege porque
tenho mulher e durmo com ela, tenho filhos e como carne, minto, praguejo e sou um cristão cheio de fé, que
Deus me ajude!”

* * *

Se os hereges “crentes” se deixavam converter, abjuravam da heresia e prometiam dizer toda a verdade e
denunciavam os seus correlegionários, as penas eram relativamente leves: flagelação, peregrinações ou multas
em espécie.
A flagelação consistia no seguinte: todos os domingos, entre a epístola e o evangelho, o penitente devia
apresentar-se nu da cinta para cima e munido de um bastão ao padre que rezava a missa e este espancava-o na
presença dos fiéis. No primeiro domingo de cada mês depois da missa, o herege tinha de visitar cada uma das
casas onde se encontrou com outro herege e era de novo espancado pelo padre. Nas procissões, era agraciado
com um espancamento em cada estação.
Havia peregrinações grandes e pequenas. As primeiras tinham como metas obrigatórias Roma, Santiago de
Compostela, Saint-Thomas of Canterbury e os Reis Magos de Colónia. Como tinham de ser feitas a pé,
demoravam anos. Chegou a suceder que anciãos nonagenários fossem obrigados a peregrinar a Santiago de
Compostela só porque em certa ocasião tinham trocado umas palavras com um herege. As peregrinações
pequenas eram a Montpellier, Saint-Gilles, Tarascon-sur-Rhône, Bordéus e Paris. No regresso, o peregrino
devia apresentar na Inquisição um atestado a comprovar que cumprira a peregrinação segundo as prescrições
estabelecidas.
Quando as confissões e a abjuração não eram espontâneas, o acusado era punido com uma das pœnæ
confusibiles, a mais usual das quais, e também a mais infamante, era a cruz amarela de duas polegadas de largura
e dez de altura que o herege tinha de trazer no peito e nas costas. Se o convertido incorria em perjúrio
durante o processo, acrescentava-se às cruzes um braço transversal na parte superior. Exposto às injúrias de
toda a gente, eram-lhe criadas em toda a parte dificuldades na sua luta por subsistir. Um certo Arnaud Isarn
queixava-se de não poder viver em paz apesar de já não trazer as cruzes há mais de um ano. Quase sempre, a
condenação das cruzes era para toda a vida.
Imediatamente depois de presos e encarcerados, os “crentes” eram exortados à conversão e submetidos a
interrogatório na presença de duas testemunhas. Não se mostrando dispostos a confessar e a denunciar
irmãos na heresia, eram entregues aos torturadores106.
Antes da tortura, os inquisidores mostravam ao delinquente os instrumentos de suplício, o cavalete, a
estrapada107, os carvões ardentes, as chamadas “botas espanholas”, admoestando-os a fazer confissões
completas. E se o herege se recusava? Era completamente despido pelos esbirros e intimado pela segunda vez
a falar. Se a segunda intimação também não dava efeito, então aplicava-se a tortura. Por regra, o acusado não
podia sofrer a tortura mais de uma vez, mas os inquisidores interpretavam a prescrição à sua maneira, ou seja,
usavam a tortura “uma vez em cada tipo de acusação”.
As confissões feitas na câmara de suplício deviam ser confirmadas posteriormente. O acusado lia a
confissão e era-lhe perguntado se a reconhecia como autêntica. O silêncio equivalia a uma afirmativa, mas, se
se retratava, era remetido de novo aos torcionários para “continuar a tortura”, como se dizia expressamente
— não para a “repetir” — pois era evidente que não tinha sido “suficientemente” torturado. Com métodos
desse tipo, os inquisidores podiam condenar quem quisessem.
Quando um herege mostrava arrependimento depois da condenação ou tinha abjurado, tratando-se de um
“Perfeito”, era-lhe infligido o suplício da parede: o murus largus ou o murus strictus. Em qualquer dos casos, pão
e água como único alimento, a que os inquisidores chamavam “pão da dor e água da aflição”.
O murus largus representava uma pena de prisão relativamente leve, mas o murus strictus tinha tudo o que a
crueldade humana é capaz de imaginar. O preso era encarcerado numa cela minúscula sem janela e sem luz e
acorrentado de pés e mãos à parede. A comida era-lhe passada por um orifício próprio. Na realidade, o murus
strictus era um túmulo, a que se chamava cinicamente vade in pacem, vai em paz...
As decisões pontifícias estipulavam que as enxovias fossem tão pequenas e tão escuras quanto possível,
prescrição observada pontualmente pelos inquisidores. E inventaram uma pena de prisão mais horrível ainda
a que chamavam murus strictissimus. Os tormentos que as vítimas devem ter sofrido aí foram silenciados nos
registos da Inquisição, como se pode imaginar. Ainda bem que assim foi...
Se um herege Perfeito se obstinava na crença, era entregue sem mais delongas ao braço secular, simples
eufemismo para designar a morte na fogueira. Se as autoridades laicas tardavam em executar a sentença de
morte contra um herege, a Igreja servia-se desavergonhadamente de todos os meios violentos que tinha à
disposição para as obrigar a obedecer.
Segundo a opinião do inquisidor de Toulouse, Bernard Gui, eis os princípios que deviam inspirar os seus
colegas no exercício da piedosa missão: “O objectivo da Inquisição é exterminar a heresia, mas a heresia não
pode ser exterminada se os hereges não forem exterminados e os hereges não podem ser exterminados se não
foram exterminados os que os protegem ou favorecem. Há duas maneiras de proceder: converter os hereges à
verdadeira fé católica ou entregá-los ao braço secular para sofrerem no corpo o suplício do fogo”108.
Os inquisidores sempre admitiram que a entrega de um herege ao braço secular equivalia à pena de morte.
Para não profanarem as igrejas, afixavam as sentenças nas praças públicas e não nas suas paredes interiores.
Também aí que se acendiam as fogueiras e se cremavam as vítimas109.
A Igreja considerava o suplício do fogo infligido aos hereges um acto de piedade tão insigne, que concedia
indulgência plenária a todos os que levassem lenha para as fogueiras. Por outro lado, gravava no espírito dos
cristãos que ajudar a exterminar os hereges era para eles uma obrigação suprema, que lhes incumbia denunciá-
los às autoridades eclesiásticas sem terem em conta considerações humanas ou divinas. Nenhum laço de
parentesco podia servir de desculpa: o pai devia denunciar o filho, o marido incorria em falta grave se não
entregava à morte a mulher herege!
“Os nomes dos hereges não estão inscritos no livro da vida. Os seus corpos são queimados aqui e as almas
supliciadas no Inferno”, escrevia alegremente um cronista ortodoxo.
A Igreja não se contentou em fazer sentir o seu poder apenas aos vivos. Também não poupou os mortos.
O próprio papa Estêvão VII deu o exemplo em 897 ao condenar hereges depois da morte. O vigário de Deus
mandou exumar o corpo do seu predecessor, o papa Formosus, cortou-lhe dois dedos da mão esquerda
(tinha-o condenado como herege) e atirar o corpo ao Tibre. Pessoas piedosas conseguiram repescar o corpo
do papa herege e devolveram-no à terra. No ano seguinte, o papa João IX declarou o processo nulo e não
existente e estabeleceu num sínodo que ninguém podia ser condenado depois de morto, uma vez que os
acusados deviam ter o direito de se defenderem. No entanto, tal disposição não impediu o papa Sérgio III de
exumar em 905 o cadáver do papa Formosus, de o vestir com os paramentos pontificais, de o sentar num
trono, de o condenar solenemente, de lhe cortar três dedos, de o decapitar e de o mandar atirar ao Tibre. Os
restos do infortunado defunto foram recolhidos no rio por pescadores. Conta-se que as estátuas dos santos se
inclinaram e os saudaram com veneração quando foram levados à igreja de S. Pedro110.
Entre os decretos da Cúria, aliás contraditórios entre si, os inquisidores escolheram o que prescrevia ou
permitia desenterrar os mortos cuja heresia fosse descoberta só depois do falecimento e de os tratar como se
estivessem vivos. Assim, queimaram-se os seus cadáveres e espalharam-se as cinzas aos quatro ventos. Se as
autoridades laicas se mostravam mais reticentes na exumação de hereges, eram ameaçadas com a exclusão da
Igreja, com a privação de sacramentos e com processos por heresia.

Um dos primeiros actos oficiais do papa Inocêncio III foi decretar o seguinte:
“Nos países submetidos à nossa jurisdição, os bens dos hereges devem ser confiscados. Relativamente aos
outros países, ordenamos aos príncipes e potentados laicos que tomem medidas análogas se não querem ser
constrangidos pelas disposições de censura da Igreja. Contamos igualmente que os bens não sejam restituídos
aos hereges que abjuraram, a não ser que lhes seja concedida compaixão. Da mesma maneira que na legislação
laica o crime de lesa-majestade é punido com a morte e com a confiscação dos bens e se deixam com vida os
filhos dos culpados apenas por graça e misericórdia, os que se afastam da Fé e blasfemam contra o Filho de
Deus devem ser separados de Cristo e despojados de bens terrenos. Com efeito, não é crime mais gravoso
atacar a Majestade espiritual que a Majestade laica?”
O édito pontifício foi incorporado no direito canónico. À semelhança da lei romana sobre o crime de lesa-
majestade, os bens dos hereges eram considerados como não lhes pertencendo. Seja como for, a ânsia pela
posse dos bens das vítimas era mais repugnante por ser ordenada pela Igreja. Nunca antes na história tinha
aparecido de forma tão repelente o afã de alguém se aproveitar da desgraça do próximo como nesses abutres
da Inquisição, cebados na miséria que eles próprios ocasionavam.
Acrescidos de confiscações desse tipo, as receitas do bispado de Toulouse atingiram tais proporções, que
em 1317 o papa João XXII fundou com as receitas seis novos bispados111. A estatística dos trabalhos
realizados entre 1308 e 1322 pelo inquisidor de Toulouse, Bernard Gui, fará perceber como a perseguição dos
hereges absorvia somas tão exorbitantes:

Entregues ao braço secular e condenados ao suplício do fogo .................................................. 40 pessoas


Restos mortais desenterrados e queimados .................................................................................... 67 “
Encarcerados ....................................................................................................................................... 300 “
Exumação de cadáveres de pessoas anteriormente encarceradas ............................................... 21 “
Condenados ao uso de cruzes ........................................................................................................... 138 “
Condenados a peregrinações ............................................................................................................. 16 “
Exilados na Terra Santa ...................................................................................................................... 1 “
Em fuga ................................................................................................................................................. 36 “
Total ....................................................................................................................................................... 619 “

Com o papa João XII que acabámos de mencionar, cujo sucessor, Benedito XIII — a quem vamos referir-
nos — limpou de hereges as cavernas de Sabarthès, utilizou-se um procedimento que logo foi imitado pelos
inquisidores. João XII, filho de um pequeno artesão de Cahors, alimentava, por razões que se desconhecem,
um ódio cego contra Hughes Gérold, bispo da sua cidade natal. Chegado à cadeira de S. Pedro, não tardou a
fazer sentir o seu poder ao adversário. Depôs solenemente em Avignon o infeliz prelado das suas funções e
condenou-o a prisão perpétua. Mas não ficou satisfeito, o Santo Padre. Acusado de conspirar contra a vida do
papa, Hughes Gérold foi esfolado vivo e atirado a uma fogueira.
O papa Urbano VI, por seu lado, agiu ainda menos cristãmente. Em 1385, acusou seis cardeais de
conspirarem contra si. Mandou-os prender e precipitar num fosso e aplicar aos desgraçados os métodos em
uso na Inquisição: abandoná-los ao frio, à fome e aos vermes. Depois, arrancou-se na câmara de torturas uma
confissão ao cardeal-bispo de Aquilea que envolvia cinco cardeais. Como estes não cessassem de proclamar a
sua inocência, foram também torturados. Tudo o que se conseguiu obter deles foi a desesperada acusação de
que sofriam o justo castigo pelas maldades que, por ordem do papa Urbano, tinham infligido a bispos e prelados.
Quando chegou a vez do cardeal de Veneza, o papa Urbano encomendou a aplicação da tortura a um antigo
pirata, nomeado prior da ordem siciliana dos Cavaleiros de S. João, e ordenou-lhe que o torturasse de maneira
que ele, papa, ouvisse os gritos da vítima. O martírio durou desde a madrugada até meio da tarde.
Entretanto, em todo esse tempo, o Santo Padre passeava debaixo da janela da câmara de torturas e lia o
breviário em voz alta para lembrar ao torcionário o que lhe recomendara. Não foi possível extorquir ao velho
e doente cardeal de Veneza mais que uma exclamação: “Cristo sofreu por nós”. Os acusados foram
guardados à vista numa masmorra indigna e desumana até ao dia em que Carlo de Durazzo, senhor de
Nápoles e da Hungria, acorreu a libertar o cardeal. O papa Urbano empreendeu rapidamente a fuga e levou as
vítimas consigo. No caminho, o bispo de Aquilea, enfraquecido pelo suplício, não pôde aguentar o ritmo da
marcha. Então, o papa matou-o, deixando o cadáver na borda do caminho, sem sepultura. Os outros cardeais
foram arrastados até Génova e, aí chegados, atirados em estado lamentável a uma masmorra repugnante, a tal
ponto, que as autoridades da cidade, tomadas de compaixão, pediram medidas de graça para os presos. Mas o
papa não se comoveu. Se é certo que, com a enérgica intervenção de Ricardo II de Inglaterra, foi forçado a
libertar o cardeal inglês Adam Aston, dos outros cinco presos nunca mais se ouviu falar.
Tais eram os exemplos que os mais cristãos dos cristãos, os que se sentavam na cadeira de Pedro, davam
às suas ovelhas. É de estranhar que os cátaros repudiassem com horror a doutrina ortodoxa e aplicassem a
Roma o capítulo dezassete do Apocalipse de João?

“E vi uma mulher sentada numa Besta escarlate coberta de nomes


blasfemos e a Besta tinha sete cabeças e dez cornos. E a mulher estava
vestida de púrpura escarlate e toda brilhante de ouro, de pedras
preciosas e de pérolas e tinha na mão uma taça de ouro cheia das
abominações e imundícies da sua prostituição. E tinha escrito na testa
um nome secreto: Grande Babilónia, mãe da luxúria e das
abominações da terra. E vi que a mulher se embriagava com o sangue
dos santos e das testemunhas de Jesus. E o anjo disse-me: a mulher que
viste é a Grande Cidade, a que reina sobre os reis da terra”.
Apocalipse de S. João, XVII, 3-7, 18
2.
O “tesouro” cátaro
Na noite da Ascensão de 1242, espalhou-se a notícia de que tinham sido assassinados onze inquisidores
em Avignonet, pequena cidade vizinha de Toulouse.
Há muito tempo que o exaspero da população contra o Santo Ofício atingira o auge. Em 1233, os
habitantes de Cordes mataram dois dominicanos. No ano seguinte, estalou uma revolta em Albi quando o
inquisidor Arnaud Catala mandou exumar os restos mortais de um herege que tinha condenado. Como os
encarregados do trabalho se recusassem a perpetrar a monstruosa tarefa, ele próprio começou a escavar com
a pá. Indignados, os habitantes de Albi caíram sobre o inquisidor aos gritos de “Matai-o! Não tem o direito de
viver!”
No mesmo ano, desencadeou-se o furor entre a população de Toulouse. O bispo e os frades dominicanos
tinham celebrado solenemente a canonização de S. Domingos. No momento em que o bispo saía da igreja
para se dirigir ao banquete servido no refeitório do convento dos dominicanos, foram dizer-lhe que acabava
de ser administrado o Consolamentum a uma mulher. Acompanhado do prior dos dominicanos e de vários
frades, dirigiram-se a casa da herege. Os amigos da moribunda só puderam sussurrar-lhe ao ouvido: “Vem aí
o bispo!” Supondo tratar-se do bispo herege, a doente disse ao prelado que era herege e ouviu-o murmurar
qualquer coisa. O bispo mandou levantar a moribunda da cama e levá-la para a fogueira, onde pereceu pelo
fogo. Depois, encaminhou-se tranquilamente para o refeitório ao lado do prior e dos monjes.
Na primavera de 1242, depois de semear o terror em muitas regiões e de quase as ter despovoado, chegou
a Avignonet um tribunal ambulante da Inquisição. Compreendia dois inquisidores, dois frades dominicanos e
um franciscano, um prior beneditino, um arquidiácono (ex-trovador, de quem apenas sobreviveu uma canção
obscena), um adjunto, um notário e dois meirinhos. Quando anunciaram a chegada próxima dos inquisidores,
o senhor local, conde Raymond d’Alfar, enviou um expresso a Montségur a pedir ajuda aos filhos de
Belissena. Um grupo de cavaleiros armados deixou a fortaleza herética sob o comando de Pierre-Roger de
Mirepoix, emboscou-se numa floresta não longe de Avignonet e esperou a noite.
Os inquisidores foram recebidos e albergados por Raymond d’Alfar, neto do conde reinante de Toulouse.
Na manhã seguinte, iam começar a sua obra de justiceiros contra os assustados habitantes de Avignonet.
Depois de bem entrada a noite, os cavaleiros de Montségur — doze homens armados até aos dentes —
saíram da floresta e deslizaram até à grande porta do castelo. Um, que tinha partido como batedor, anunciou:
“Neste momento, estão a beber”...
“Neste momento, vão para a cama. Não, estão a barricar a porta!”
Os inquisidores quiseram ficar no salão do castelo e, de facto, barricaram-se, como se tivessem pressentido
o perigo que os ameaçava. Os cavaleiros de Montségur, aos quais se juntou entretanto o conde de Alfar, vinte
e cinco habitantes de Avignonet e um criado dos inquisidores, começaram a impacientar-se. Fizeram saltar as
portas, irromperam no salão e mataram os inquisidores.
No regresso a Montségur, foram acolhidos no castelo de Saint-Félix por um padre católico que não
ignorava a espécie de sangue que fora vertido. A notícia do assassinato dos inquisidores chegou a Roma e o
colégio de cardeais declarou-os mártires da causa de Cristo. Foram canonizados em 1866 pelo papa Pio IX,
pois tinham mostrado a sua santidade através de vários milagres.

Para os últimos cavaleiros independentes, para as damas cantadas pelos trovadores e para os cátaros
escapados à morte na fogueira, o pog112 de Montségur foi simultaneamente um Mount Salbatgè e um Mount
Salbat. Há quarenta anos que o soberbo rochedo pirenaico coroado pelo Templo do Supremo Amor arrostava
a ferocidade dos intrusos franceses e dos peregrinos católicos. Em 1209, Gui, irmão de Simon de Montfort,
quis arrasar a fortaleza santa da Occitânia, mas, à vista dessa montanha que chega às núvens, desistiu do
intento. Mais tarde, Raymond VII, conde de Toulouse, obrigado a jurar em Notre-Dame de Paris que
destruiria esse ninho de hereges, começou a montar o cerco ao castelo, mas não queria que o último reduto
de liberdade da sua Occitânia natal caísse nas mãos de estrangeiros. Permitiu até aos oficiais que subissem ao
castelo para assistir às prédicas dos Bons hommes. Inviolada e livre, a cidadela sagrada da Occitânia continuava a
dominar os plainos provençais onde os peregrinos vitoriosos cantavam entre os escombros fumegantes das
cidades o Veni creator spiritus e onde os camponeses das planícies começavam a falar a língua d’oil, a dos novos
senhores, em vez da língua d’oc. Só em Montségur e no solo do Thabor que aquele protegia viviam ainda os
últimos detentores de uma civilização que tinha os helenos, os iberos e os celtas por antepassados, de uma
civilização que ofuscava o Ocidente cristão e que este condenara à morte.
O mito e a lenda teceram uma trama à volta desses magníficos rochedos fortificados e instalaram-se no
Thabor desde tempos imemoriais. Uma tradição occitana conta que Montségur foi construído pelos filhos de
Geryon, a quem Hércules roubou os rebanhos antes de ir ao Jardim das Hespérides e ao Hades. No Jardim das
Hespérides, o favorito dos deuses apropriou-se das maçãs de ouro que brilhavam entre a folhagem da árvore
da Vida. No Hades, Alcides, da raça do sol, domou e sequestrou Cerberos, guardião dos infernos, pois nem a
morte nem o inferno atemorizavam o “mais antigo dos chefes”. Terá sido Herakles o primeiro a trazer aos
filhos de Geryon, em quem os occitanos viam os seus antepassados iberos, a boa nova de que a morte não é
assustadora e que o Inferno não é um pesadelo pior que a vida?
Ao olharem para o lado do mar, que podiam adivinhar a leste atrás dos vapores da planície, os cavaleiros e
Puros desterrados em Montségur recordavam talvez a descida de Herakles aos infernos, porque, lá em baixo,
estava Cerbero no mar bebrício. Quando os cavaleiros, damas, trovadores, cátaros e cátaras, entre os quais se
achavam muitos heróis e damas — com quem nos encontrámos no encantador mundo da Minne — olhavam
de Montségur para leste na direcção do mar, sabiam que estava ali Port-Vendres, o porto de Vénus, onde a
Argo, a nave dos Argonautas, tinha aparelhado e em cuja heróica tripulação estava Hércules.
Vénus não é Artemísia, o Sexo não é Eros. Não era Vénus quem reinava na Occitânia, mas Artemísia, o
Amor casto, que torna bons os maus e melhores os bons. Montségur não era uma montanha de pecado onde
Vénus estivesse “dentro do Graal”. Era a montanha occitana do Paracleto, do Amor Supremo. Os que
recebiam o Consolamentum tinham dado o primeiro passo no caminho para o país de Luz das almas. Tinham
morrido para o mundo terreno, no qual viam o inferno, que, de facto, era o inferno para eles. Não ardiam
fogueiras em toda a parte? O “beijo de Deus”, eis o que esperavam os hereges em Montségur, seu único
santuário debaixo do sol. Montségur e os Puros iriam receber o beijo de Deus.

Mountsalvatge, ô but de misère,


Las, personne ne te veut consoler.
Wolfram von Eschenbach

Esclarmonde de Foix e Guilhabert de Castres tinham morrido. Quando morreram? Ignora-se, esse dado
não chegou até nós. Do que não há dúvida, é que não assistiram à queda de Montségur. O pastor que na rota
dos cátaros me contou a lenda de Montségur, de Esclarmonde, dos exércitos de Lucifer e do Graal, sabia que
a Esclarmonde morta na fogueira era a filha de Raymond, castelão de Perelha, filha de Belissena, e não a
“grande Esclarmonde”, como ainda hoje é chamada nas montanhas do Thabor.
Esclarmonde velava sobre a Mani occitana, o Graal luminoso, ao mesmo tempo que em baixo, na planície,
os exércitos de Roma, que tinham jurado a perda da fortaleza herética, subiam para Montségur.
Depois da morte dos inquisidores em Avignonet, Hugues d’Arcis, senescal de Carcassonne, Pierre Amélii,
arcebispo de Narbonne, e Durand, bispo de Albi, decidiram liquidar de vez a fortaleza pirenaica que, nas
mãos de desesperados, era um perigo para o novo regime e para a verdadeira fé. Instituíram uma
“fraternidade armada” com a finalidade de levar a cabo uma cruzada contra Montségur. Nos preparativos,
previa-se um assédio de vários anos.
Os hereges não ficaram inactivos. De todos os cantos da Occitânia cavaleiros e trovadores dirigiram-se ao
castelo ameaçado. Com permissão do conde de Toulouse, o bailio Bertran Roqua enviou a Montségur um
construtor de máquinas de guerra, Bertran de Bacalaira, talvez o mesmo que tinha fortificado antes as suas
muralhas. De toda a parte chegavam ajudas em dinheiro, víveres, armas e munições de guerra. Os Perfeitos
vinham em grupo encorajar os sitiados e pôr à disposição dos defensores os seus conhecimentos médicos.
O assédio começou na primavera de 1243. O exército católico montou o acampamento na crista a oeste
do rochedo do castelo, crista que ainda hoje se chama Campis. O pog foi totalmente cercado pelos sitiantes.
Ninguém podia entrar ou sair do castelo. No entanto, parece que os sitiados conseguiam comunicar com os
seus amigos da planície. Alguns historiadores falaram da existência de galerias subterrâneas, grutas naturais,
provavelmente. Seja como for, uma coisa é certa: Esclarmonde d’Alion, sobrinha de Esclarmonde de Foix,
fez passar para a fortaleza um fidalgo catalão com dinheiro e soldados. Noutra ocasião, o filho do trovador
Peire Vidal conseguiu transmitir aos sitiados uma comunicação do conde de Toulouse. O conde anunciava-
lhes que Frederico II chegaria brevemente com socorros: “Resisti mais uma semana!...”, dizia.
Na proximidade de Montségur, o filho de Peire Vidal diz ter visto um cavaleiro fantástico com manto
púrpura e luvas de safira e interpretou a visão como um presságio de bom augúrio, mas enganou-se ao
interpretá-lo como bom augúrio: na primeira saída em que participou com os exilados que tinha reconfortado
com a sua mensagem, encontrou a morte.
A ajuda prometida pelo imperador Frederico II iria chegar demasiado tarde. Na noite de 1 para 2 de
Março de 1244 — domingo de Ramos, parece — os católicos chegaram ao cimo. Os peregrinos habituados à
montanha tiveram conhecimento através de pastores da existência de um caminho, invisível do castelo, por
onde subiram a garganta do Lasset até uma das obras avançadas. Escolheram a noite para não sofrerem os
efeitos da vertigem. Uma hora depois, a fortaleza estava rodeada por todos os lados.
Os sitiados tiveram de capitular. A fim de evitarem um derramamento inútil de sangue, os dois castelães,
Raymond de Perelha e Pierre-Roger de Mirepoix, declararam-se dispostos a entregar incondicionalmente a
fortaleza e os cátaros refugiados ao amanhecer, pedindo que fossem respeitadas as vidas dos cavaleiros. Pierre
Amélii aceitou a proposta.
Sabendo a sorte que os esperava a todos, o velho bispo herege Bertran d’En Marti, sucessor de Guilhabert
de Castres, administrou-lhes o Consolamentum antes da capitulação, e admitiu-os na comunidade da Igreja de
Amor. Ninguém pensou em fugir, ninguém recorreu ao Endura (morte voluntária), como se quisessem
mostrar ao mundo como se morre pela pátria e pela fé. Na tentativa de a censurar, comparou-se muitas vezes
a doutrina cátara ao pessimismo de Schopenhauer e de Nietzsche. Estranho pessimismo, que dava lugar a
inigualáveis actos de coragem e de heroísmo na história da humanidade, só comparáveis aos dos primeiros
mártires cristãos. O catarismo não era mais pessimista que o cristianismo primitivo que tentava imitar.
Ao despontar o dia, o castelo rendeu-se à “fraternidade armada”. O arcebispo de Narbonne exigiu aos
Perfeitos que abjurassem do seu erro. Duzentos e cinquenta homens e mulheres — entre os quais Bertran
d’En Marti e Esclarmonde de Perelha — preferiram morrer na fogueira que Pierre Amélii mandou preparar
no lugar hoje chamado Camp dels Cremats (campo dos cremados).
Carregados de grilhões, os cavaleiros foram levados para Carcassonne e atirados aos calabouços da torre
onde, trinta anos antes, foi envenenado Raymond-Roger Trencavel e onde pereceu miseravelmente Raymond
de Termès. Só várias décadas depois o monje franciscano Bernard Délicieux libertou os últimos sobreviventes
da torre da Inquisição, onde estavam sepultados vivos.
Àparte o mestre de engenhos e o médico, Pierre-Roger de Mirepoix foi o único que pôde abandonar o
castelo e levar o ouro e prata que lá havia. Dirigiu-se a Sault, a casa de Esclarmonde d’Alion, a sobrinha da
grande Esclarmonde, e, daí, ao castelo de Montgaillard nas Corbières, onde morreu em idade avançada. Até
ao último dia de vida, protegeu secretamente os cavaleiros occitanos exilados que encontraram nas grutas de
Ornolac o último refúgio e a morte.

Na noite da queda de Montségur, viu-se um fogo aceso no cimo nevado do Bidorta. Não era o fogo de
uma pira de cremação, era um fogo de alegria! Quatro cátaros, de quem se sabe o nome de três, Amiel Aicart,
Poitevin e Hugues, informavam os Perfeitos de Montségur preparados para morrer que a Mani estava salva.
Consta nos documentos da Inquisição de Carcassonne que, vestidos com mantos de lã, os quatro Puros
desceram com a ajuda de cordas do cimo do pog ao fundo da garganta do Lasset e que entregaram ao filho de
Belissena Pons-Arnaud de Castellum Verdunum, Sabarthès, o “tesouro dos hereges”...
O tesouro dos hereges? Pierre-Roger de Mirepoix foi autorizado a levar todo o ouro e prata guardados na
fortaleza. Portanto, não foi ouro e prata que os quatro cátaros salvaram e fizeram desaparecer nas grutas de
Sabarthès pertencentes aos senhores de Castellum Verdunum. Amiel Aicart, Poitevin, Hugues e o outro cátaro
cujo nome se desconhece, eram descendentes dos sábios celtiberos que noutros tempos atiraram o tesouro de
Delfos ao fundo do lago do Thabor. Cátaros como eram, teriam preferido tomar o caminho das estrelas nas
fogueiras do Camp dels Cremats ao lado dos irmãos. Não era ouro e prata que salvavam ao passarem ao longo
do lago dos Druídas e subirem a rota escarpada dos cátaros que leva ao Thabor e ao Bidorta e vendo flamejar
a norte os fogos das fogueiras acesas em Montségur. Salvavam o “Desejo do Paraíso” simbolizado pela pedra
luminosa que é Graal!
Os inquisidores sabiam perfeitamente por que razão chamavam tesouro dos hereges ao santuário cátaro e
porque quaimavam tudo o que pudesse ser um testemunho para a posteridade. Queimaram tudo... até os
livros, cuja vida é mais prolongada que a vida dos homens.
Os habitantes da aldeia de Montségur, dessa aldeia suspensa como um ninho de abelhas sobre a garganta
do Lasset no sopé das rochas onde assenta o castelo, contam que no domingo de Ramos, quando o padre diz
a missa, o Thabor se abre em dois num local escondido no mais espesso da floeresta. É lá, dizem, que está
escondido o tesouro dos hereges. Ai de quem não abandone a montanha antes do padre dizer Ite missa est! A
essas palavras, a montanha fecha-se de novo e o que procurava o tesouro morre das mordeduras das
serpentes que o guardam.
Os naturais do Thabor nunca esqueceram esse tesouro, que só pode ser encontrado quando todos estão
na igreja113. Apesar do seu poder e da sua ferocidade, a Inquisição não conseguiu apagar a recordação do que
essas montanhas contemplam há setecentos anos.
3.
A necrópole do Sabarthès
Assim se salvou o Graal, a Mani occitana, protegido e abrigado nas grutas de Ornolac. Nenhuma árvore
cresce aí, nenhuma flor brilha, nenhuma ave voa para o sol. Entre as paredes da caverna reinam a noite e a
morte. Antes da sua viagem ao país luminoso das almas, os últimos sacerdotes da Igreja de Amor, os últimos
Puros, tiveram de descer ao inferno de uma realidade atroz. Quantas vezes os cátaros terão sido presas nas
grutas do Sabarthès da dolorosa nostalgia das estrelas. Talvez que as peregrinações a Montségur nas noites de
luar não fossem mais que uma forma de Endura. Para se chegar às estrelas, é preciso morrer primeiro, e, em
Montségur, a morte esperava-os, inexorável. O novo castelão, Gui de Lévis, camarada de armas e amigo de
Simon de Montfort, deixou em Montségur uma guarda armada e uma matilha de cães para despedaçar
hereges.
Nas noites de luar, os Puros, magros e de faces pálidas, sobem orgulhosa e silenciosamente através da
floresta de Serralunga. Vão sempre mais alto, onde ao eco do pio das aves nocturnas se substitui o vento que
sussurra nas gargantas do Thabor como numa gigantesca harpa eólica. Nas clareiras banhadas de luar,
pousam a tiara, tiram do estojo de couro que trazem ao peito o Evangelho do discípulo amado do Senhor,
beijam o pergaminho, ajoelham-se de frente para a lua e oram. “O pão supraterreno nos daí hoje... e livrai-nos
do mal...”
Depois, continuam para a morte. Quando os cães de fauces espumantes saltam sobre eles e os esbirros os
agarram e espancam, olham para baixo, para Montségur, e para cima, para as estrelas, onde sabem que estão
os irmãos. Depois, abandonam-se também ao suplício do fogo.

Depois da queda de Montségur, os proscritos — os faydits, como lhes chamavam — tinham apenas como
refúgio os bosques e as grutas. As anfractuosidades da montanha e as sebes de arbustos espinhosos ofereciam
asilo seguro. Para lhes deitar a mão, os inquisidores tentaram arrancar as moitas de silvas e azevinhos e
encarregaram desse trabalho um tal Bernard, conhecido pela alcunha de Espinasser, cortador de espinhos. A
lenda diz que foi enforcado...
Para darem mais facilmente com os esconderijos dos hereges, os dominicanos utilizavam cães amestrados,
de maneira que nada mais restou aos faydits acossados como feras selvagens nas montanhas da sua terra natal
que a fuga para o estrangeiro ou, nos casos de quererem morrer em casa, as paredes inatacáveis das spulgas.
Os cátaros foram coerentes consigo mesmos numa medida que pode dizer-se sobre-humana. Viam a
pátria a morrer, mas não recorreram à espada. A morte esperava-os na fogueira ou no murus strictus. Em lugar
de abjurarem da crença do Paracleto que o mundo lançara à pior das proscrições, aceitavam de alma tranquila
um fim horrível. Tinham a certeza que a sua aspiração ao Paraíso seria satisfeita!
Como os cátaros, os últimos cavaleiros occitanos que recusaram reconhecer o domínio francês esperavam
também a última hora. Apesar de entrincheirados atrás das sólidas paredes das spulgas, sabiam que não havia
saída possível. Combateram até ao último sopro de vida.

* * *

O papa Bonifácio VIII morreu em 12 de Outubro de 1303. Na sua bula Unam Sanctam declarou os
sucessores de Pedro únicos detentores do poder soberano temporal e espiritual e fez saber que, no interesse
da sua própria salvação, as criaturas humanas lhes devem submissão. Interditou com outras duas bulas a
cobrança de impostos ao clero francês e atribuiu a si mesmo jurisdição sobre o monarca francês, o que levou
Filipe o Belo a tornar-se seu inimigo irreconciliável. Filipe tinha tentado remediar os embaraços económicos
com confiscações e extorsões de toda a ordem, mas agora que esse caminho também lhe estava vedado, o
ódio ao papa não tinha limites. Depois da morte de Bonifácio, ajudado pelo papa Clemente V, eleito por
influência sua, e apoiado ao mesmo tempo pela Inquisição, recorreu a todos os meios para acusar de heresia o
defunto pontífice. Conseguiu reunir um grande número de testemunhas — clérigos de grande destaque —
que declararam sob juramento que o falecido papa não acreditava na imortalidade da alma nem na incarnação
de Jesus e se entregava a práticas vergonhosas e contra natura. Uma pequena parte dessas acusações seria
suficiente para enviar qualquer outro acusado para a fogueira, mas desta vez, só desta vez, a Inquisição usou
de benevolência e declarou o papa inocente.
O papa Clemente V tinha sido bispo de Comminges e arcebispo de Bordéus. Eleito em Lyon a instâncias
do rei francês, acedeu ao seu pedido de ficar na França. Nunca pôs o pé em terra italiana! Com o seu reinado,
começou em Avignon o famoso “cativeiro da Babilónia” e, durante o mesmo pontificado, foi aniquilada a
Ordem dos altivos Templários, um de cujos fundadores foi cátaro, segundo parece. Um nobre e um burguês,
ambos de Béziers, denunciaram as suas riquezas a Filipe, que este ambicionava. Mais poderosos e ricos que o
imperador e todos os outros reis, tiveram de ver na tristemente célebre noite de 13 de Outubro de 1307 como
se derrubava o seu majestoso Templo, Templo no qual eram acusados de adorar, não o crucificado, mas a
cabeça satânica de Baphomet114. É possível que também se tenham refugiado nas cavernas pirenaicas. Muitos
indícios sérios provam que as capas brancas dos Templários, nas quais figurava a cruz vermelha octogonal, se
acham, juntamente com as vestes negras e as cruzes amarelas dos cátaros, algures nas grutas tenebrosas do
Sabarthès. As spulgas de Bouan e de Ornalac ainda não revelaram todos os segredos...
À entrada do grandioso deserto pirenaico de Gavarnie, na igreja fortificada dos Templários de Luz-Saint-
Sauveur, há esta legenda gravada numa pedra: na cripta há nove caveiras de Templários. Nos dias 13 de
Outubro, ouve-se à noite uma voz na igreja, uma voz que murmura como uma brisa e pergunta: “Já chegou o
dia da libertação do Santo Sepulcro?” As nove caveiras respondem: “Ainda não...”
Antes de ser queimado numa ilha do Sena em 11 de Março de 1314 por ordem de Filipe, o grão-mestre da
Ordem, Jacques de Molay, gritou: “Papa Clemente, juíz injusto, em quarenta dias hás-de comparecer no
tribunal de Deus. E tu, Filipe, rei injusto, dentro de um ano!” Quarenta dias depois, o papa Clemente morria
e, oito meses mais tarde, Filipe o Belo morria também.
O rancor provocado pela obra sangrenta do Vaticano e do Louvre manteve-se vivo até ao final do século
XVIII. Quando a maré da revolução em Paris rolava pela rua Saint-Antoine em direcção ao Louvre e Notre-
Dame, um homem vestido de túnica negra encarniçava-se contra os padres. Cada vez que atingia um com
uma estocada, gritava: “Esta é pelos albigenses, esta pelos Templários!” Quando a cabeça de Luis XVI rolou
na guilhotina, diz-se que o mesmo homem subiu ao patíbulo, molhou os dedos no sangue do infeliz rei e
gritou: “Povo da França, baptizo-te em nome de Jacques de Molay e da liberdade!”115
Depois de Clemente V, a cadeira de Pedro em Avignon foi ocupada por João XXII. O sucessor de João
foi Benedito XII que, antes da eleição papal, se chamava Jacques Fournier.
Fournier, filho de um padeiro, era natural de Saverdun, pequena cidade da região de Ariège, condado de
Foix, a norte de Pamiers. Ainda jovem, entrou no mosteiro cisterciense de Boulbonne, onde se encontrava o
mausoléu dos condes de Foix. Todos os filhos e filhas da Casa de Foix foram aí enterrados. Excepto
Esclarmonde, que voou para o Paraíso sob a forma de uma pomba.
Por ordem do tio, o abade do mosteiro de Fontfroide, Jacques Fournier foi estudar teologia para Paris e,
em 1311, ele próprio era abade desse mosteiro. Dezasseis anos mais tarde, o papa João XXII nomeou-o bispo
de Pamiers, cidade onde cem anos antes Esclarmonde tinha convidado ao seu castellar os sábios do Sabarthès
para discutirem as doutrinas de Platão e de João Evangelista. Como bispo de Pamiers, Jacques Fournier
conseguiu os mais belos êxitos a perseguir hereges, o que viria a valer-lhe um dia a tiara pontifical e o anel de
Pescador de homens. Mas, antes de começar o extermínio de hereges no Sabarthès, vamos vê-lo sentado em
Carcassonne, no tribunal que julgou Bernard Délicieux.
Bernard Délicieux era um dos leitores do convento franciscano de Narbonne. Tinha relações estreitas com
os espíritos mais marcantes da época, como Raymondd Lulle, o “original reformador do mundo”, e Arnaud
de Villeneuve, o célebre médico particular e buscador infatigável do Aurum potabile. Era um digno discípulo de
S. Francisco. Tão franciscano, que teve de partilhar a mesma sorte dos cátaros, de quem se constituíra seu
advogado. Bernard é uma das figuras mais polémicas, e também mais simpáticas, do século XIV. Levava tão
longe a sua abnegação, que vendia livros e contraía dívidas para poder dar esmolas aos pobres. A sua Ordem
que — esclareça-se — era hostil à Inquisição dominicana, apoiou-o fielmente. Nos seus conventos, Bernard
pregava sermões contra os filhos de S. Domingos. Um dia, o inquisidor Foulques de Saint-Georges, que ia a
passar com vinte e cinco cavaleiros diante da abadia onde justamente se alojava Bernard, exigiu que este lhe
fosse entregue: os irmãos franciscanos barraram-lhe a entrada, tocaram os sinos a rebate e, de cima dos muros
do convento, crivaram os dominicanos com uma chuva de pedras. Ao ouvir os sinos, a multidão começou a
afluir de todos os lados. O inquisidor escapou vivo por pouco.
A eloquência arrebatadora de Bernard levou os habitantes de Carcassonne a libertarem os presos da torre
da Inquisição, entre os quais se encontravam os últimos cavaleiros ainda vivos de Montségur, e a queimarem
os registos do tribunal da Inquisição.
Encorajadas pela audaz iniciativa do monje franciscano, sublevaram-se abertamente contra os inquisidores
outras cidades da Occitânia. Quando o dominicano Godefroi d’Abluses, indivíduo cruel e sem escrúpulos, se
preparava para começar as actividades de inquisidor, os habitantes de Toulouse dirigiram uma súplica ao rei
da França. Com receio de perder as províncias meridionais que acabava de adquirir, Filipe o Belo enviou ao
Midi o titular de Amiens e o arquidiácono de Lisieux com a missão de ouvirem as queixas da população e de
refrearem os abusos dos inquisidores. O titular mandou abrir as masmorras da Inquisição, libertar todos os
cativos e, a título de prevenção, prendeu vários agentes do Santo Ofício. Ao mesmo tempo que o povo
acolhia essas medidas com entusiasmo, abriu-se uma verdadeira caça aos inquisidores. Finalmente, as
desordens obrigaram Filipe o Belo a ir pessoalmente a Toulouse e, em 1304, publicou um édito que exigia a
revisão de todos processos abertos pela Inquisição. Recebeu em audiência o monje franciscano Bernard, que
teve a coragem de sustentar que até S. Pedro e S. Paulo seriam acusados de heresia se fossem interrogados
com os métodos dos inquisidores.
Filipe não estava inclinado a suspender completamente a Inquisição nessas províncias, uma vez que era
um apoio precioso do seu poder temporal. Desiludido e revoltado, Bernard Délicieux começou a ir de cidade
em cidade a clamar contra a inacção do rei. Ao ver que a população de Carcassonne se dispunha seriamente a
separar-se da França e a colocar-se sob a protecção de Ferdinand de Mallorca, Filipe o Belo achou melhor
revogar o édito e conferir novos poderes aos dominicanos. Assim, ordenou que os hereges fossem trancados
como animais selvagens e ferozes, e aos senescais e oficiais que prendessem todas as pessoas denunciadas
pelos dominicanos.
O terror voltou a espalhar-se em todo o país. Os inquisidores tratavam os hereges, reais ou imaginários,
com a maior crueldade e, se as testemunhas declaravam a favor dos culpados, não hesitavam em falsificar os
registos. Os cônsules de Carcassonne foram condenados à morte. Reconduzido às suas funções, o inquisidor
Godefroi d’Abluses pôs-se em busca dos descendentes vivos de todos os que tinham sido condenados, pois,
em sua opinião, o castigo do crime devia recair não apenas em quem o cometera, mas também nos filhos. O
titular de Amiens teve de fugir. Foi ver o papa, mas este expulsou-o como herege. Morreu excomungado na
Itália. Dois anos depois de falecer, foi-lhe levantada a excomunhão.
Bernard Délicieux pertencia ao ramo da Ordem dos “espirituais”. Mas voltemos um pouco atrás...
À arrogância e à crueldade da sua época, S. Francisco de Assis116 opunha a paciência e a humildade. A
plena alegria da alma, ensinava, não consiste em fazer milagres, em curar doenças, em exorcisar demónios, em
ressuscitar mortos ou converter o mundo inteiro, mas suportar e ajudar a suportar com toda a paciência os
sofrimentos, as ofensas, as injustiças e as humilhações. Como os cátaros e os valdenses, pregava a pobreza
apostólica. Jesus e os discípulos nada possuíam, dizia, nem ele nem os discípulos. Por conseguinte, o cristão
verdadeiro deve renunciar aos bens terrenos. Em 1322, o papa João XXII considerou herética a pretensão
dos fransciscanos segundo a qual Cristo e os apóstolos nada tinham de seu. Os franciscanos que seguiam à
letra as doutrinas de S. Francisco, passaram a ser designados com o nome de “espirituais”. A par da doutrina
da Ordem, adoptaram as doutrinas apocalípticas de Joachim de Flore, com quem Ricardo Coração de Leão
comentou o Apocalipse de S. João antes de embarcar para a cruzada. O papa João XXII tentou por todos os
meios convencer os “espirituais” a seguirem menos rigorosamente a doutrina franciscana de pobreza e
humildade. Para tal, fez comparecer diante de si os “espirituais” de Béziers e de Narbonne, cujo advogado era
Bernard Délicieux. Ao começar a defender a causa dos “espirituais”, Bernard foi acusado de causar entraves à
Inquisição e preso imediatamente. Por outro lado, era acusado de ter provocado com malefícios a morte do
papa Benedito XI e incitado os habitantes de Carcassonne à rebelião.
O tribunal, presidido pelo arcebispo de Toulouse e por Jacques Fournier, bispo de Pamiers, reuniu em
1319, ou seja, dois anos depois da detenção de Bernard. Os antigos companheiros de Bernard foram citados
como testemunhas, mas, para salvarem a vida, não hesitaram com as suas declarações ajuramentadas em
enviar o amigo para a morte. Apesar da idade e de esgotado pelo encarceramento preventivo, foi submetido
durante dois meses ao cavalete e a tortura levada aos últimos refinamentos. A pretexto da necessidade de lhe
salvarem a alma, recordavam-lhe que era herege à face da lei inquisitorial e que só confissões completas lhe
podiam evitar a fogueira. Por duas vezes, foi submetido à tortura. A primeira vez, por alta traição, a segunda,
por necromancia. Vê-se nos registos da Inquisição de Carcassonne que, apesar das torturas — o menor grito
de dor era registado cuidadosamente pelo escrivão — não lhe arrancaram qualquer confissão. Mas no final,
enfraquecido pela idade e pelo sofrimento e completamente extenuado pela tortura, o infeliz enredou-se em
contradições. Pôs-se à mercê do tribunal e pediu humildemente a absolvição.
O veredicto inocentou-o do atentado contra a vida do papa, mas reconheceu-o culpado nos outros itens
da acusação, culpabilidade ainda agravada por setenta falsos testemunhos — setenta, nem mais nem menos!
— recolhidos ao longo do processo. Bernard foi condenado a carcere duro perpétuo, agrilhoado, posto a pão e
água (no murus strictus, portanto) e “emparedado” na torre da Inquisição de Carcassonne, de onde tinha
libertado pouco antes os últimos cavaleiros de Montségur. Uma morte suave libertou ao fim de alguns meses
o homem que tinha tido a coragem de enfrentar abertamente a Inquisição.

* * *

Jacques Fournier considerava heréticas a pobreza, o jejum e a castidade. Mantinha relações amorosas com
a irmã de Petrarca e, muito frequentemente, estava “embriagado com vinho e emporcalhado pela bebida que
faz dormir”. Alguns cronistas dizem que era “um odre pançudo de vinho”.
O inquisidor Bernard Gui, seu confrade, tinha feito no Sabarthès um bom trabalho ao lançar em 1309 a
seguinte proclamação:
“Eu, irmão Bernard Guidonis, dominicano e inquisidor de Toulouse, desejo a todos os crentes em Cristo a
recompensa e a coroa da vida eterna. Uni-vos, filhos de Deus, erguei-vos comigo, campeões de Cristo, contra
os inimigos da Cruz, contra os corruptores da verdade e da pureza da doutrina católica, contra Pierre Autier,
arqui-herege, e contra os seus partidários e cúmplices. Ordeno-vos em nome de Deus perseguir e deter, onde
quer que os encontreis, os que andam escondidos e que erram nas trevas. Prometo a recompensa eterna e um
prémio em dinheiro a quem prender e me trouxer o que nomeei acima. Velai, pastores, para que os lobos não
comam as vossas ovelhas. Agi com valentia, fiéis zeladores de Deus, para que os adversários da Fé não
possam fugir nem escapar-vos!”
Pierre Autier, notário de Ax-en-Sabarthès, era o chefe dos últimos hereges occitanos. Na juventude, não
fez vida de cátaro e teve uma druda, uma amante. Com a idade, porém, veio a ser um partidário ardente da
doutrina herética e chefe dos proscritos refugiados nas grutas do Sabarthès. Dali, partia em viagens de missão
para o Languedoc e, em certa ocasião, em 1295, só a fuga para a Lombardia o pôs a salvo das perseguições da
Inquisição. Três anos depois regressou ao Sabarthès, mas teve de se esconder durante onze anos.
Certo dia, um tal Guillaume Jean foi oferecer-se a Jacques Fournier para lhe entregar o arqui-herege. Dois
cátaros atraíram o traidor a uma ponte perto de Alliat, agarraram-no, amordaçaram-no e levaram-no para a
montanha. Aí, obrigaram-no a confessar e lançaram-no de cabeça para o abismo.
Um dia, Pierre Autier deixou o esconderijo para ir a Castelnaudary e foi capturado. Um ano mais tarde, em
1310, foi queimado em Toulouse. Fizeram o impossível para lhe arrancar os nomes e a indicação dos refúgios
dos seus companheiros. Arrancar-lhe uma confissão por heresia era supérfluo, pois, não só não tentava
dissimular as suas crenças, como as confessava abertamente. Tudo indica, porém, que o inquisidor Bernard
Gui conseguiu saber por ele o segredo das grutas do Sabarthès e que o transmitiu a Jacques Fournier, em cuja
diocese se situavam as montanhas de Ariège. Em julgamentos posteriores aludiu-se com tanta frequência às
informações dadas por Pierre Autier, que temos de admitir que revelou aos torturadores o segredo dos
últimos cátaros.
À entrada do Sabarthès, em frente das portas da cidade de Tarascon, há um solar que ainda conserva o
nome de Jacques Fournier. Foi lá que o bispo de Pamiers conduziu a guerra contra os trogloditas heréticos.
Enquanto as grutas de Ornolac não fossem desembaraçadas deles, a vitória da Cruz não seria completa.
O solar de Jacques Fournier ergue-se no cone rochoso de onde sobressaíam como ninhos de águia as
fortalezas dos filhos de Belissena, Calamès e Miramont. Como cavaleiros leais, mantiveram-se fiéis ao catarismo
até à morte. Eram já muito poucos os filhos de Belissena. Uns, sucumbiram na defesa de Montségur, outros,
mais numerosos, entregaram a alma na torre da Inquisição de Carcassonne, outros, finalmente, foram
obrigados a partir em peregrinação com a cruz amarela no peito e nas costas, signo de infâmia, através do país
devastado. Os que resistiram mais tempo foram os senhores de Rabat e de Castellum Verdunum, pobres
sobreviventes da Igreja de Amor antes tão poderosa.
Jacques Fournier mostrou pessoalmente aos irmãos em armas onde deviam instalar os arietes para forçar a
entrada nas spulgas.
Durante mais de um século, os cátaros tinham habitado o selvagem vale pirenaico sem serem molestados.
Tinham as suas cabanas nas encostas da montanha, entre pinheiros, figueiras e acácias. Em caso de perigo
iminente, acendiam-se fogueiras de aviso no Soudour, pico gigantesco próximo de Tarascon que domina todo
o vale. Então, os hereges abrigavam-se em cavernas que são fatais para quem não as conhece. Quando os
esbirros penetravam na caverna de Sacany, por exemplo, viam seis caminhos diante de si. Cinco iam em
ziguezague até um precipício, abismo onde ninguém se aventurou até hoje. É bem possível que estejam lá os
ossos de muitos torcionários que corriam demasiado encarniçadamente em perseguição de cátaros. Enquanto
os inquisidores davam com o verdadeiro caminho para a gruta, o ninho de herejes ficava vazio.
A partir do momento em que Jacques Fournier se mudou para o solar no sopé do Soudour, os fogos de
alarme do cimo desapareceram. Um dia, as spulgas foram incendiadas e queimados todos os cátaros que não
conseguiram fugir. Agora, Jacques Fournier já podia ser papa.

* * *

Um documento de 1329 refere que Pons-Arnaud, co-senhor de Castellum Verdunum, durante muito tempo
posto a definhar nas masmorras da Inquisição, obteve a liberdade na condição de trazer sempre as cruzes
amarelas. Mas voltou a cair na apostasia, foi capturado pelos facínoras da Inquisição e emparedado117, até que
morreu ab intestato.
Com a morte desse filho de Belissena, as cavernas do Sabarthès, incluindo as mais afastadas e inacessíveis,
já não eram um abrigo seguro para os hereges. Se as paredes da gruta fortificada de Bouan, a mais forte do
Sabarthès, pertencente aos senhores de Château-Verdun, tivessem resistido até então, depois da morte de
Pons-Arnaud não deixariam de ceder aos golpes das catapultas. Os cátaros que ficaram nas “chaminés”, só
deles conhecidas, devem ter fugido para as montanhas, de onde podiam emigrar para terras mais hospitaleiras
onde o sol brilhava mais puro por não ser obscurecido com o fumo das fogueiras, onde as estrelas, as estrelas
a que aspiravam, estivessem mais próximas. Antes de abandonar definitivamente as grutas que durante tanto
tempo tinha dado asilo aos faydits livres, um deles deixou nas paredes alguns desenhos e inscrições:

Uma árvore da Vida.


Uma pomba, emblema de Deus-Espírito.
Um peixe, símbolo da Luz Divina.
Dois monogramas de Cristo em letras gregas ou romanas.
A palavra “Gethsemani”.

Por toda a parte onde a galeria serpenteia através da rocha calcárea para os cumes inundados de sol, muitas
vezes em recantos quase impossíveis de encontrar, desenhou com artísticos floreados a assinatura GTS,
abreviatura da palavra Gethsemani, talvez, o jardim onde Cristo foi atraiçoado e entregue aos algozes...
Se se tentar subir por uma dessas chaminés às alturas onde a atracção da liberdade exercia o seu fascínio
sobre os cátaros, a ascensão é cortada subitamente por paredes ou imponentes estalactites que a água calcárea
e a transpiração contínua transformaram em blocos de rocha infranqueáveis. Aí, os perseguidos punham-se a
salvo da perseguição dos inquisidores e dos seus cães amestrados. Nunca se conseguiu descobrir o mistério
oculto atrás dessas barreiras de estalactites. Uma lenda pirenaica diz que os dominicanos, furiosos por não
poderem capturá-los nesses redutos inacessíveis, emparedaram lá os últimos cátaros. Até agora, as montanhas
do Sabarthès continuam a guardar o segredo.

* * *

O desaparecimento total de um movimento tão considerável como o catarismo é de tal modo inverosímil,
que frequentemente se vê nos cagots, tribo de “boémios” que vivia segregada nos Pirinéus e que a Navarra
francesa só reconheceu como cidadãos iguais aos outros em 1709, e a Navarra espanhola em 1818,
descendentes dos cátaros. Os próprios cagots estão persuadidos disso. Numa súplica dirigida em 1517 ao papa
Leão X, imploravam ao Santo Padre que os reintegrasse na sociedade humana, uma vez que os erros dos seus
avós tinham sido expiados há muito.
No ano da graça de 1807, um grupo de caçadores vindos de Suc, aldeia do Sabarthès, viu nas alturas
desertas do pico de Montcalm, um dos mais altos dos Pirinéus, coberto de neve todo o ano, uma mulher nua.
Em lugar de irem caçar o urso, os caçadores foram à caça da mulher nua, mas ela saltava como uma camurça
por cima das falésias mais assustadoras e corria ao longo de precipícios terríveis sem sentir a menor vertigem.
Não conseguiram agarrá-la.
No dia seguinte, acompanhados de pastores de Montcalm, os caçadores retomaram a perseguição,
montaram uma armadilha e capturaram-na. Ofereceram-lhe roupas como as das camponesas da montanha,
mas ela rasgou-as em pedaços. Acabaram por conseguir amarrar-lhe as mãos, vestiram-na à força e levaram-
na ao presbitério de Suc. Aí chegada, acalmou um pouco, olhou para as roupas, caíu de joelhos e rompeu
num choro convulsivo.
Apesar do rosto macilento e pálido, via-se que tinha sido muito bela. A sua alta estatura e os gestos cheios
de dignidade provavam que era de origem aristocrática. Ofereceram-lhe um quarto para passar a noite, mas,
no dia seguinte, tinha desaparecido e deixado as roupas.
Dias depois, foi descoberta num dos cumes nevados do pico de Bassiès. Estava-se no inverno...
Chegada a primavera, o juiz de paz de Vicdessos fez-se acompanhar de agentes da polícia e subiu às alturas
de Montcalm. À custa de muitas dificuldades, conseguiu deitar a mão à fugitiva. Voltaram a vesti-la, deram-
lhe de comer e tentaram arrancar-lhe o segredo daquela estranha existência, mas sem sucesso. Um dia, o juíz
de paz perguntou-lhe como fazia para não ser devorada pelos ursos. Então, respondeu no dialecto daqueles
vales:
“Os ursos? São meus amigos. Aquecem-me!”
Um dia, caiu doente. Levaram-na ao hospital de Foix, mas evadiu-se em 20 de Julho. Em 2 de Agosto
voltaram a prendê-la nos arredores de Tarascon antes de começar a subir para o Montcalm. Levaram-na para
Foix e fecharam-na na prisão do castelo, mas morreu em 29 de Outubro de 1808 à uma hora da manhã. As
saudades da montanha tinham-na matado...
O enigma da “Louca de Montcalm” nunca chegou a ser desvendado. Os naturais daqueles vales remotos
deram-me a entender que se tratava da última descendente dos hereges...118
O catarismo morreu há seiscentos anos. Morreu nas cavernas de Ornolac, nas mesmas que há milhares de
anos eram o seu berço. O Thabor, outrora o Parnaso da Occitânia, transformou-se numa formidável
necrópole, túmulo de uma das civilizações mais nobres que já existiram. É possível que a água calcárea das
fontes do Sabarthès tenham fechado a gruta onde foi celebrado pela última vez o mistério cátaro da Manisola.
Pode ser aí o sepulcro dos últimos cátaros mortos por Endura que defenderam o Tesouro dos hereges, cuja
contemplação deu a todos os seus irmãos a coragem de caminharem sorridentes para a morte e de gritarem
“Deus é Amor!” no momento de morrerem, quando as chamas da fogueira já os consumiam.
Se Deus é melhor e mais compreensivo que os homens, não devia conceder a esses hereges a posse no
Além daquilo a que aspiravam tão ardentemente, que desejavam com a mais heróica abnegação, com a
vontade mais inflexível e com o maior dos heroísmos? Queriam a divinização no Espírito... A apoteose! A
vontade do homem é o céu, portanto, a sua vida depois da morte!
Que terá acontecido com o Graal, a Mani occitana? A acreditar numa lenda pirenaica, o Graal afasta-se
cada vez mais deste mundo, eleva-se tanto mais para o céu quanto mais a humanidade é indigna de si. Talvez
os Puros da Occitânia guardem o Graal numa das estrelas que rodeiam como uma auréola Montségur, o
Gólgota da Occitânia.

Conserva a marca da tua dignidade


Firmemente! Como as Estrelas brilantes,
Faz-te parte da Natureza
Através do espaço infinito.
Goethe

Estive muito tempo nas montanhas do Thabor. Percorri com emoção as grutas cristalinas e as criptas de
mármore onde os hereges tinham o seu reduto. Afastei com as mãos as ossadas dos Puros e dos cavaleiros
caídos no combate pelo Espírito para não os calcar com os pés. Parei muitas vezes quando o solo das
cavernas soava oco debaixo dos meus passos e pus-me à escuta à espera de ouvir um trovador entoar um
canto na montanha — a canção da Minne suprema, que faz dos homens deuses...
Entre signos, desenhos e nomes sem conta — Henrique IV, rei da França, neto de Esclarmonde de Foix,
gravou o seu nome numa parede da catedral de Lombrives durante a guerra dos huguenotes — descobri uma
poesia escrita em 1850 por mão desconhecida. Como conclusão do martirológio dos Templários heréticos de
Montségur e das cavernas de Ornolac, gostaria de reproduzir os seus versos:

Que é Deus?
Antes de decidir sobre esse ser supremo,
Guardemos ao adorá-lo um silêncio profundo.
O mistério é imenso, o espírito confunde-se;
Para dizer o que é, tem de se ser Ele mesmo.
NOTAS:
1) Não é possível traduzir claramente o conceito da expressão original. O significado literal seria “corta pela metade” ou “cortado
(partido, fendido) pela metade”, mas, de facto, subsistem problemas de interpretação dado o conteúdo eminentemente simbólico
do nome (N.T.)
2) Minne significa amor ideal.
3) Trovador vem de trobador, acusativo da palavra provençal trobère ou trobaire (descobridor, inventor). É de crer que o vocábulo
trovador designasse apenas o poeta lírico. A maioria dos trovadores cantava as suas próprias canções e acompanhava-as com um
instrumento musical. Os que não sabiam tocar tinham ao seu serviço um joglar (músico e funâmbulo, simultaneamente). É
espantoso o número de trovadores que compunham as suas próprias obras, mais a mais tendo em conta que não sabiam escrever e
que eram forçados a ditar os poemas. Por isso, fazer versos era muitas vezes sinónimo de ditar. Na estação boa, o trovador ia por
montes e vales ou — se os meios lho permitiam — acompanhado de joglars. De castelo em castelo, visitava os antigos mecenas ou
procurava outros. Quando o inverno chegava, entrava na sua terra e vivia do dinheiro ganho ou, se a colecta tinha sido magra,
ganhava a vida de outra maneira. Durante o inverno, compunha novos versos e preparava-se para a próxima digressão primaveril...
4) Abreviaremos toda esta parte da obra (N.T.)
5) Adelaide de Boissenon, Ermangarde de Saissac, irmã do “patriarca herético” Guilbert de Castres, e Stéphanie, chamada “La
Loba”, todas hereges notórias, foram-lhe sempre inconstantes.
6) Segundo Peyrat (I, págs. 155 e segtes.), Donna Soremonda era natural de Tarascon, pequena cidade do Sabarthès. Bocaccio
incluiu em Decameron (4.9) a biografia de Guillem de Cabestaing e, com base na mesma, Uhland compôs a sua célebre Balada.
Petrarca menciona o trovador em Trionfo d’Amore.
7) Aventura que viria a inspirar Heine na sua obra literária Romancero e Rostand em La Princesse Lointaine (N.T.)
8) Na sua Histoire des Albigeois (tomo II, pág. 153), Peyrat conta que Raymond e Aladonis viveram como eremitas cátaros nas grutas
dos Pirinéus, não longe de Montségur, onde se teriam encontrado pela primeira vez.
9) Planta geneta (N.T.)
10) En, abreviatura de Sen = senhor.
11) Verso retirado da balada de Uhland, Bertrand de Born (N.T.)
12) Cf. Anglade, Anthologie des Troubadours, págs. 22-24 (N.T.)
13) Assim se chamam também (árabe ghazal = tecido) certos poemas do género idílico de rimas sabiamente entrecruzadas (N.T.)
14) Historicamente, Artur era rei dos cimérios do norte (País de Gales), tendo combatido contra os anglo-saxões no final do século
V e no princípio do VI antes da nossa era. Nos séculos seguintes e a partir da época feudal, a sua figura lendária passou a simbolizar
o rei dotado de todas as virtudes cavaleirescas.
15) Deve tratar-se de uma espécie de braseiro alto, fixado a um pé, que se acendia geralmente em sinal de regozijo público (N.T.)
16) Gaucelm Faidit (1180-1215), natural de Uzerche, deixou setenta composições líricas de inspiração variada. A elegia da morte de
Ricardo data de 1199 (N.T.)
22) Cf. Kampers, pág. 85, Weschler, pág. 129, Hertz, págs. 456-457 e Birsch-Hirschfeld, pág. 223.
17) Otto Rahn foi acusado várias vezes de torturar etimologias, mas nada mais fez que se situar na óptica de Eschenbach, de usar o
seu método e de jogar com associações de ideias cuja riqueza Wolfram sabia utilizar perfeitamente (N. T.)
18) É o mesmo conceito de louco puro que Rahn refere (N.T.)
19) Não parece verosímil o analfabetismo de Wolfram e, de facto, a questão já foi amplamente discutida. A expressão em alto
alemão ine kan decheinen buochstap foi tomada na sua versão literal (“não conheço uma única letra”). Assim e ao contrário do que
também supõe Otto Rahn, tudo leva a crer que Wolfram era senhor de uma cultura notável, mais a mais tendo em conta a sua
época. Dominava perfeitamente o francês e também, talvez, o latim. Conhecia as obras de Heinrich von Veldeke, de Hartmann von
Aue e de Walther von der Vogelweide, que cita continuamente, e não podia deixar de conhecer a Kaiserchronik, o Strasburger
Alexander, o Tristrant de Eilhart von Oberg, o Nibelungen Lied e a poesia de Reimar. Por outro lado, na composição de Parzival, utiliza
as obras de Chrétien de Troyes Perceval le Gallois, Erec et Enide, Lancelot, Cligès e outras não menos importantes da literatura francesa
medieval. Além de Parzival, a sua obra maior, em que demonstra vastos conhecimentos de teologia, direito, geografia, história,
astronomia, magia, botânica, mineralogia, etc., escreveu duas obras épicas em verso, uma delas intitulada Willehalm e Titurel a outra.
Enfim, Wolfram demonstra ser tão caprichoso como irónico e, em certos casos, não deve ser tomado à letra. Parzival é uma prova
disso (N.T.)
20) O mesmo que conhecemos na Tannhäuser de Wagner (N.T.)
21) Birch-Hirschfeld, págs. 280-381.
23) Peyrat, II, pág. 362, e Vic-Vayssette, pág. 564.
24) Schäfer, CLXXXII, II, págs. 7 e 41.
25) Talvez por essa razão, à mãe do herói do Graal Wolfram chamou Herzeloïde (= dor de coração).
26) Comentário dos Tantra, Puissance du Serpent, pág. 144.
27) Soma, hino védico de Avatsara.
28) Em latim, ecclesia (N.T.)
29) Otto Rahn diz numa nota que percorreu a gruta de Lombrives numa distância de doze quilómetros (N.T.)
30) Evocação do Fausto de Goethe (N.T.)
31) Autor suiço de um poema dos Alpes (1729) (N.T.)
32) “Para Wolfram, essa pedra de abundância e fecundidade era também um símbolo de pureza e castidade”, escrevia M. Tonnelat
(N.T.)
33) Em A Tradição Hermética, Julius Evola chama-lhes “sopradores de carvão” (N.T.)
34) Poeta grego nascido em Panópolis (Egipto) no século V a.C. Autor de um poema pagão, Dionisíaca, e de uma paráfrase em
verso do Evangelho de S. João.
35) João, III, 3.
36) Note-se a perfeita analogia entre hiperbóreos e cátaros (N.T.)
37) Divindade druídica também chamada Ogmi ou Albion. Corresponde ao Hércules fenício e desempenha um grande papel nos
mistérios bárdicos como “guardião da Copa”.
38) É de voltar a realçar a analogia com as doutrinas cátaras (N.T.)
39) Como quer que seja, sabe-se que as trutas não vivem em lagos (N.T.)
40) Difundida a seguir entre as populações romanizadas, a denominação de volques encontra-se em termos como wallon, Wales
(Gales) e Welches (N.T.)
41) Marselheses (N.T.)
42) Equivalente a dezoito triliões de escudos (N.T.)
43) O autor tenta demonstrar aqui as origens possíveis do dualismo cátaro (N.T.)
44) Wolfram von Eschenbach chama Hiberbortikon ao país dos hiperbóreos.
45) Astiroth = Astarté, Belcimon = Baal-Schemenn ou Samin (divindade satírica), Belet = Baal caldaico, Radamante, o juíz dos
infernos.
46) Ernest Renan, Vie de Jésus, pág. 87.
47) Cf. Parzival, verso 770.
48) Manuel de l’Inquisiteur Bernard Gui et Mallat, págs. 12-13, nota 1.
49) João III, 11.
50) Genesis I, 23.
51) Mateus, V, 43.
52) Gálatas, V, 2.
53) Moisés, XV, 9.
54) Mateus, XX, 25.
55) Moisés, XV, 6.
56) Lucas, VI, 35.
57) Moisés, XIX, 9.
58) Tim., VI, 16.
59) Moisés, III, 5 e Samuel VI, 6.
60) João, IV, 8.
61) Este texto é extremamente importante. Aponta uma das razões principais que levaram católicos e cátaros a manterem as suas
posições relativas (N.T.)
62) Note-se que Wolfram nunca designa os profetas do Antigo Testamento como percursores e proclamadores do mistério do
Graal, mas sempre e exclusivamente filósofos e videntes pagãos.
63) Genesis, VI, 4.
64) Apocalipse, XII, 7-9 e XIV, 20; v. Döllinger, tomo I, pág. 137.
65) Arno Brost, Les Cathares.
66) Um exemplo notável é o de Rama Krishna. Considerado na Índia um Avatara (incarnação divina), é um dos expoentes mais
extraordinários do pensamento hindu do último século, entrelaçado de componentes budistas, cristãs e islâmicas. Rama Krishna foi
iniciado no Vedanta, doutrina terrível de renúncia a si mesmo e ao mundo. No seu livro Vie de Rama Krishna, Romain Rolland diz
que “...a condição primeira foi renunciar a todos os privilégios e insígnias... a esperanças, a afectos, às ilusões da vida, ao seu Deus
pessoal, a recompensas pelo seu amor e sacrifícios aqui em baixo e algures, agora e para sempre. Simbolicamente, deve cumprir, nu
como a terra, o seu próprio serviço funerário e enterrar os últimos restos do seu eu...” E isto, a sete séculos de distância e em duas
terras tão diferentes entre si (N.T.)
67) Recordemos que, segundo Guiraud (Cartulaire de Prouille, tomo I, pág. 180), os sacramentos cátaros reproduziam sem
modificações a liturgia do cristianismo primitivo.
68) Pedro, I, 12.
69) Coríntios, VIV, 12.
70) João, XIV, 16 e 26; XV, 26; XVI, 13.
71) Glossarium Mediæ et Infimæ Latinatatis, 1840.
72) Há semelhanças flagrantes entre a ascese cátara, a Tradição hermético-alquímica e o Yoga rúnico (disciplina considerada por
alguns autores como própria e adequada à maneira de ser e às antigas tradições nórdico-ocidentais), cujos desenvolvimentos são
marcados pelas diferentes etapas da Demanda do Graal e da Ars Magna, respectivamente, e certas modalidades da via búdica,
bramânica e yóguica, como a ascese tântrica. O neófito deve despojar-se do seu Eu personalizado e egoísta e, como os cavaleiros na
floresta de Briziljan, perseguir e derrotar os apetites materiais, as reacções e os sentimentos egoístas e grosseiros, sem o que não
poderá chegar à contemplação de Deus (N.T.)
73) Corresponde ao conceito de Maya e Maïa das teogonias pré-cristãs. Maya é a mãe de Buda Gautama e deusa do mundo visível,
e Maïa a mãe do mensageiro dos deuses, Hermes-Mercúrio. Era uma virgem celeste simbolizada pela lua. A divindade escandinava
da lua é Manni (moon, Mân, em norueguês moderno), figuração nórdica da deusa oriental (N.T.)
74) Na sua qualidade de cristal puro, cor da iluminação da alma universal, a pedra de esmeralda concentra num ponto do seu coração
a Luz vinda do infinito e refracta-a. O ponto que dá acesso ao Infinito, familiar aos que praticam meditação profunda, corresponde
ao mesmo conceito ou, melhor ainda, é esse ponto (N.T.)
75) O objectivo do Consolamentum era análogo ao dos mistérios órficos.
76) Como no Fausto de Goethe. O exemplo mais extraordinário e mais recente que nos remete a esse ideal é o de Yukio Mishima, o
“último Samurai”. Não foi em estado depressivo e mórbido que Mishima marcou encontro com a morte através do Sepuku
(modalidade aristocrática do suicídio ritual entre os japoneses), mas na sua plenitude intelectual, física, moral e espiritual (N.T.)
77) Já se ouviram vozes autorizadas sobre o Dante gnóstico e sobre as suas relações com as heresias da Idade Média, especialmente
com o catarismo.
78) É o caso da montanha Qâf das lendas e tradições iranianas, feita de uma só esmeralda (N.T.)
79) Em O Mistério do Graal, Julius Evola expõe a questão de maneira particularizada, mais “actualizada”, digamos, e, em certos
pontos, afasta-se bastante da defendida Kampers, menos específica e mais geral e, portanto, mais primordial, aspecto que parece
evidente no contexto geral da sua obra. Nos Fedele d’Amore (e, naturalmente, em Beatriz), Evola vê a Igreja e os conflitos que
opuseram guelfos e gibelinos no tempo de Dante. As criações desta ordem dão sempre origem a interpretações diferentes segundo
os espíritos que as julgam, mas não se pode dizer que sejam criticáveis, já que, a bem dizer, enriquecem o conjunto da obra original
ou, no mínimo, podem revelar aspectos ocultos ou dissimulados, conscientemente ou não, no discurso literal do autor (N.T.)
80) Wolfram distingue Trevrizent dos Templários. Assim, entre os cátaros, crentes e Perfeitos.
81) Expressão utilizada no alpinismo suiço (N.T.)
82) Dama Esclarmonde, o vosso nome significa / que, na verdade, dais claridade ao mundo / E que vós, pura, sabeis cumprir o
vosso dever / Sois digna de tão belo nome.
83) Equivalente francês do nome alemão.
84) Chrétien de Troyes chama-lhe Floresta de Broceliande, que corresponde à floresta de Clohars-Carnoët da Bretanha. Também
neste ponto, Chrétien diverge de Wolfram.
85) A pequena cidade de Tarascon (Ariège), a pouca distância de Foix, também era conhecida do autor da Canção de Huon. Nessa
canção pode ler-se o seguinte: “Segneurs, celle chité Tarrascone a non”. Também é possível que a terra de Sault tenha servido de
modelo ao bocaige Auberon.
86) Há aqui um jogo de palavras. Fé em francês é foi. Por outro lado, foi e Foix têm exactamente a mesma pronúncia, circunstância
que permitiu a Otto Rahn a diversão (N.T.)
87) Os filhos de Belissena eram os cavaleiros occitanos mais devotados ao catarismo. Vassalos dos condes de Foix relativamente ao
castelo de Montségur, compartilhavam os domínios do Thabor e eram os patriarcas, diáconos e ministros do clero cátaro.
88) O pico de Saint-Barthélémy tem 2.500 metros de altura, o pog de Montségur atinge 1.200 metros (N.T.)
89) O pico de Montcalm tem 2.300 metros de altura (N.T.)
90) Segundo Wolfram, Repanse de Schoye também foi para a Ásia.
91) O pog de Montségur foi fortificado com o único fim de defender os pogs.
92) Diz-se que Magdalena se fez ao largo num barco sem vela e sem leme e que assim chegou a Marselha com o Graal. Também se
diz que Marta esteve em Marselha a pregar e que mais tarde foi para a região de Aix (Provença) onde um dragão terrível (tarasca)
semeava o pânico. Marta aspergiu-o com água benta e o dragão amansou. Então, prendeu-o com o cinto, momento em que
apareceram uns homens que o mataram. Foi nesse local que mais tarde veio a erguer-se a cidade de Tarascon. Também se conta
que o Graal chegou a Santiago de Compostela num barco sem governo com o cadáver do apóstolo Tiago o Maior (assim chamado
para se distinguir do outro apóstolo Tiago chamado “o menor”). Alguns discípulos puseram-no nesse barco, encomendaram-no à
divina Providência e um anjo de Deus fez encalhar o barco numa ria da Galiza, no local chamado Iria Flavia, hoje Padrón, no rio
Ulla (cf. Louis Charpentier, Santiago de Compostela, Enigma e Tradição). Outras versões, garantem que foi José de Arimateia que trouxe
o Graal para a Europa, para uma das ilhas britânicas. Todas estas histórias não são mais que tentativas do cristianismo de identificar
o Graal com a taça da última Ceia e de confiscar a lenda em seu proveito (N.T.)
93) Deve haver confusão entre as duas Tarascon na lenda de santa Marta vitoriosa da tarasca, uma vez que os tarasconienses também
conheciam esse totem no Ariège. O mais certo é ter havido uma fusão das duas lendas.
94) Certos eruditos sustentam que o nome e a designação de maniqueus significa “que possui a Mani” (Mani + a palavra grega echein
= ter).
95) Recorde-se aqui que, segundo nós e outros autores, a concepção do Graal e do maniqueísmo, humus em que virá a florir o mito
graálico, procede do Irão, onde Gohral significa Pedra sagrada.
96) Em francês no texto (N.T.)
97) Cf. Lea, tomo I, pág. 149; Vic-Vaissette, tomo VI, pág. 471; Palauqui, Albigéisme, pág. 10. Só na cidade de Toulouse foram
executados por ordem de Foulques dez mil presumíveis hereges (cf. Palauqui, op. cit.; Schmidt, tomo I, págs. 66, 68 e 96 e Lea, tomo
I, pág. 129 e sgtes.)
98) Desde a época de S. Bernardo de Clairvaux, toda a cavalaria templária — fere omnes milites — era cátara!
99) Em francês no texto (N.T.)
100) Esse cavaleiro nunca chegou a ser identificado.
101) Cæsar von Heisterbach, De Miraculis et Visionibus sui Temporis seu Dialogus Miraculorum, 1850, livro V, cap. 21.
102) Hino oficial da cruzada contra os albigenses.
103) Segundo Vic-Vayssette, Raymond-Roger nasceu em 1185 e não tinha completado trinta anos quando morreu. A sua mãe tinha
morrido em 1199.
104) Em Lea, tomo I, pág. 181, consta o seguinte: “Por vezes de maneira exorbitante, foi manifesto o fervor bárbaro dos peregrinos
— como sucedeu com os monjes de Boulbonne (abadia cisterciense e necrópole dos condes de Foix), a quem queimaram os olhos,
cortaram o nariz e as orelhas, de modo que já nada tinham de rostos propriamente humanos — temos de pensar que semelhantes
bestialidades se deveram, por um lado, aos estratos sociais onde a Igreja procurava os seus recrutas e, por outro, à impunidade
concedida aos cruzados nesta vida e na outra”.
105) Sobre a morte de Simon de Montfort, veja-se Peyrat, tomo II, págs. 68 e 410; Schmidt, tomo I, pág. 270; Lea, tomo I, pág.
208; Puylaurens, cap. XXVIII-XXX; Vaux-Cernay, capts. LXXXIII e segtes. O continuador anónimo da Chanson de la Croisade (v.
8681 e segtes.) descreve assim o seu último adeus: “Levaram-no precisamente a Carcassonne para lhe dar sepultura e celebrar a
missa de funeral na catedral de Saint-Nazaire. Quem souber ler, verá que na sua lápide está gravado que é santo e mártir, que
ressuscitará para participar na herança do céu, para gozar da incomparável beatitude, para receber a coroa e sentar-se no trono do
reino de Deus. Ouvi dizer que assassinou homens e derramou sangue, fez que se extraviassem almas, consentiu em acções
criminosas, seguiu conselhos perversos, avivou a paixão das fogueiras, aniquilou barões, desonrou nobres, usurpou bens usando de
violência, fez triunfar a arrogância, atiçou o fogo do mal e apagou o do bem, matou mulheres e estrangulou crianças. Mas porque
lutou por Jesus Cristo, será coroado neste mundo e resplandecerá nos céus”.
106) O papa Clemente V declarou em 1306 que em Carcassonne se tinha conseguido que os presos confessassem, não somente
privando-os de sono e comida, mas aplicando-lhes a tortura. Como os cânones da Igreja proibiam que os clérigos a utilizassem (e a
presenciassem), o papa Alexandre IV obviou a dificuldade e concedeu aos inquisidores a faculdade de se absolverem mutuamente
da transgressão.
107) Suplício que consistia em deslocar os braços por suspensão, seguida de queda violenta (N.T.)
108) Antes de os entregarem ao braço secular, os inquisidores pediam que os castigos fossem aplicados em consonância com as leis
canónicas, isto é, que não implicassem perigo de vida para o condenado. Semelhante “petição” não é mais que uma hipocrisia cínica
dos cânones romanos, como o próprio Tomás de Aquino confirma: “A pretexto algum se pode ser indulgente com os hereges. A
compaixão cheia de amor da Igreja permite certamente que sejam admoestados, mas, no caso de serem obstinados, têm de ser
entregues ao braço secular para que a morte os tire deste mundo. Não é isto uma prova do amor infinito da Igreja? Por isso, o
herege arrependido é sempre admitido à penitência e respeitada a sua vida. Se é relapso, pode aceder à penitência para bem da sua
alma, mas não se livra da pena de morte”.
109) Lea (tomo I, pág. 249), diz o seguinte: “O herege era atado a um madeiro sufientemente alto que sobressaísse acima do
material que ia ser queimado. Os crentes deviam ter a possibilidade seguir até final todos os actos da cruel tragédia. Até ao último
momento, permaneciam junto dele servidores da Igreja a fim de — se possível fosse — arrancar a sua alma das garras do demónio.
Se não era relapso, podia salvar a vida no instante seguinte. Até neste último serviço podemos ver a singular inconsequência de uma
Igreja que imaginava poder iludir a responsabilidade de enviar para a morte uma criatura humana. Os clérigos que acompanhavam a
vítima tinham ordens rigorosas de não a exortarem de modo algum, como, por exemplo, contemplar impassíveis a morte, subir
corajosamente a escada que levava ao montão de lenha, ou entregar-se de coração resoluto nas mãos dos carrascos, pois, segundo o
seu comportamento, podiam acelerar o final do justiçado e, portanto, incorrerem em ‘irregularidade’. Subtil observação feita a gente
que cometia assassinatos legais!”
110) O historiador católico Gustav Schnürer (Kirche und Kultur, II, 116) qualifica como “horroroso” esse julgamento póstumo e
refere esse período como “o mais triste do Papado” (N.T.)
111) Segundo os cronistas da época, esse papa deixou depois da morte uma fortuna pessoal de vinte e cinco milhões de florins de
ouro.
112) Pog (igualmente puy ou pech), do latim podium (N.T.)
113) Ainda hoje se chama Val de l’Incant (vale encantado) à garganta do Lasset.
114) Segundo informações mais recentes, Baphomet era um dos numerosos “mitologismos” de Deus-Espírito Santo.
115) Cf. Maurice Magre, Magos e Iluminados.
116) Sobre as supostas relações entre S. Francisco e os cátaros, veja-se Salomon Reinach, Mythes et Religions.
117) Contrariamente à impressão deixada pelo famoso quadro de Jean-Paul Laurens, M. Guiraud afirma que “emparedado” era
sinónimo de prisioneiro, e “parede”, de prisão. Cf. murus strictus (N.T.)
118) Rahn cita uma extensa bibliografia sobre a “Louca de Montcalm”. Entre as obras e os artigos mais citados, destacamos:
Isabelle Sandy, L’Homme et la Sauvageonne; Revue Hebdomadaire de 26 de Abril de 1924; L’Inconnue de Saint-Béat e dois artigos de G.
Lenôtre (Temps de 5 de Julho e 15 de Agosto de 1922) (N.T.)
Epílogo
Aconselhado e encorajado pelos meus amigos de um e outro lado da fronteira, comecei a redigir a minha
Demanda do Graal no momento em que o erudito austríaco de Graz, Friedrich von Suhtscheck, publicava
também em dois artigos breves mas simultaneamente ricos em substância o resultado da sua “demanda do
Graal”1. Com muita pena minha, só tomei conhecimento desses artigos depois da saída do meu livro (edição
alemã). Antes de entregar ao impressor a versão francesa da minha obra, tentei durante muito tempo tomar
uma posição relativamente a essa tese sem ter de avolumar o texto. Nada mais posso fazer que remeter à sua
consulta, pois que completa a minha. Renunciei a essa tomada de posição por considerar que a minha Cruzada
contra o Graal é o produto indubitável dessa ambiance2, dessa atmosfera que me foi dado respirar na terre sauvage3
do Thabor pirenaico. Em todo o caso, achei indispensável redigir este pequeno apêndice.
Talvez porque não conhecesse o meu livro, Herr von Suhtscheck descobriu que o Parzival de Wolfram von
Eschenbach tem pontos de contacto surpreendentes com o poema iraniano, obra do herege Manes, talvez, o
Pârsîwalnâmä, que pode ser considerado a “Lenda Dourada” do maniqueísmo. Assim se explicaria também
que a doutrina maniqueísta da pedra sagrada (em persa antigo, gohr = pedra preciosa, al = brilho) e do
buscador dessa pedra, Parzival (em persa antigo, louco puro), chegasse a Wolfram, permitindo-lhe incorporá-
la na sua epopeia, mesmo sem compreender sempre muito bem os conceitos e as designações geográficas da
Alta-Ásia. Por exemplo, o pai de Parzival, Gamureth, não seria outro que o homem primitivo do Irão, Gaja
martan, e Klinschor corresponde certamente ao chefe budista Chindschil Zor, natural da cidade de Kapischa,
a que Wolfram chama Kaps. No presente quadro não posso fazer mais que alusões breves a essas
surpreendentes descobertas, mas a aproximação que Herr von Suhtscheck estabelece entre a pedra
maravilhosa dos budistas e a mesa miraculosa não pode ser tratada com ligeireza. Tschintamani, por um lado,
pedra sagrada do Graal, pelo outro, pois, àparte a nossa tese comum sobre o maniqueísmo e sobre o
catarismo, essa aproximação prova que as nossas ideias têm pontos comuns. No que respeita ao inspirador de
Wolfram, Kyot, o meu erudito “antagonista”, crê-se realmente autorizado a ver nele um arménio (Giut), mas,
infelizmente, não dá as premissas dessa conclusão.
Se o que me levou à Occitânia foi a indicação muito clara de Wolfram de que a verdadeira lenda do Graal
chegou à Alemanha da Provença, nada impede supor que os cátaros do Midi da França, que eram maniqueus,
conhecessem tão bem como os iranianos maniqueus o poema do Pârsîwalnâmä e que, entretanto, esse poema
tivesse chegado ao conhecimento de Wolfram graças a Guyot de Provins. Em suma, foi tudo isto que expus...

Um reparo, ainda. Quem conhece alguma coisa dos mitos do Graal, especialmente o Parzival de Wolfram,
não ignora que a lenda do sacerdote hindu Johannes acabou por se fundir com a do Graal. Esta asserção é
confirmada de maneira interessante e completada por uma lenda pirenaica — a que fiz referência — que é
esta: Esclarmonde, a guardiã do Graal, teria voado sob a forma de pomba para as montanhas da Ásia, logo,
para a pátria do Graal e do rei-pontífice Johannes. Segundo Wolfram, Repanse de Schoye, raínha do Graal,
que identifiquei a Esclarmonde, também emigrou para a Ásia, como se sabe. No rei Johannes, Herr von
Suhtscheck crê — mal ou bem — ver a glorificação de Zaratustra ou de Manes.
O que é certo é que os poemas da Idade Média estavam a par de uma cruzada conduzida contra uma Terra
do Graal no Oriente. Sem isso, como podia um poema afim ao mito do Graal falar de uma “Occitânia
deserta” abandonada pelo rei e pelos habitantes, que teriam descoberto nas terras do rei-pontífice Johannes
uma pátria melhor? Reportemo-nos à transcrição poética da carta de um ancião da Igreja de um manuscrito
muniquense do fim do século XIV, que, aliás, parece ser mais antigo. Esse poema conta as aventuras de um
rei da Occitânia que tendo ouvido falar do imortal Johannes hindu, quis entrar ao seu serviço. Um dia, chega
com todo o seu povo junto do rei-pontífice oriental e é recebido em sua casa, no palácio da Imortalidade. O
soberano do Ocidente fixa-se com os seus no maravilhoso país do Oriente e o país que deixou no Ocidente
passa a chamar-se “Occitânia deserta”!

* * *

Com tudo isto, confio a minha Cruzada contra o Graal ao povo francês que guarda nos limites da sua grande
pátria a antiga fortaleza do Graal. Sim, só a fortaleza cátara de Montségur nos Pirinéus pode ter sido o templo
inviolável do Graal e não, como faz crer uma piedosa lenda, o mosteiro beneditino de Montserrat, perto de
Barcelona, em território espanhol, onde Inácio de Loyola compôs os seus Exercícios Espirituais depois de
renunciar definitivamente ao mundo e ao amor da sua dama, Germaine de Foix, descendente da grande
Esclarmonde, para se votar ao Amor divino como o concebia.

Heidelberg, ano de 1934, no dia de S. João.

O. R.

NOTAS:
1) Friedrich von Suhtscheck, tradução do Pârsîwalnâmä por Wolfram von Eschenbach (in Forschungen und Fortschritte, ano VII, nº 10,
Berlim, 1931). Do mesmo autor: adaptação rimada do Pâsîwalnâmä por Wolfram von Eschenbach (in Klio, Contribuição para a
História Antiga, tomo XXV, Leipzig, 1932).
2) Em francês no texto (N.T.)
3) Em francês no texto (N.T.)
ÍNDICE BIBLIOGRÁFICO

Bibliografia geral
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Lenau: Werke (ed. Bibliogr. Instituts, Leipzig).
Magre: Magiciens et Illuminés, 1930.
Petrarca: Trionfi (edição crítica de Von Appel, Die Triumphe Petrarcas), 1901-1902.
Peyrat: Histoire des Albigeois. Vol. I: Civilisation Romane. Vol. II: La Croisade, 1880. Vol. I-III: Les Albigeois et l’Inquisition, 1870.
Reinach: Orpheus, Paris, 1905.
Wechssler: Die Sage vom heiligen Gral in ihrer Entwicklung bis auf Richard Wagners Parsifal, 1898.
Wolfram von Eschenbach: Parzival (ed. A. Leitzmann, Altdeutsche Textbibliotek XII), 1902. Parzival (trad. alto-alemão moderno de
Pannier), Reclam, Leipzig.

Nascimento da cultura occitana


Bérard: La Mediterranée Phénicienne (Annales de Géographie), 1895-1896.
Bertrand: Archéologie Celtique et Gauloise, 1889.
Bosch Gimpera: Los Antiguos Iberos y su Orígen (conferência de 22.3.1927 publicada em Conferencias dadas en el Centro de Intercambio
Intelectual Germano-Español), 1928.
Bouché de Cluny: Les Bardes, 1844.
Cartailhac: L’Or Gaulois (Revue d’Anthropologie), 1899.
Clerc: Histoire de Marseille dans l’Antiquité, 1900.
Doms Vic & Vayssette: Histoire Générale de Languedoc (ed. Privat, Toulouse), 1872-1905.
Garrigou: Ibérie et Ibères, 1884.
Herzog: Gallia Narbonensis Historia, 1864.
Humboldt (W. von): Prüfung der Untersuchungen über die Urbewohner Hispaniens vermittels der vaskischen Sprache, 1821.
Jones-Williams-Owen: Myvyrian Archaiologie of Wales, 1862.
Jung: Die romanischen Landschaften des römischen Reiches, 1881.
Lavisse: Histoire de France, 1911.
Movers: Die Phönizier, 1840-1856.
Napoleão III: Histoire de Jules Cesar, 1866.
Peyrat: Histoire des Albigeois. Vol. I: Civilisation Romane, 1880.
Phillips: Die Wohnsitze der Kelten auf der pyrenäischen Halbinsel, 1872.
Thierry: Histoire des Gaulois, 1877.
Wilke: Kulturbeziehungen zwischen Indien, Orient und Europa, 1923.

Druidismo e teogonias afins até ao Maniqueísmo


Anrich: Das antike Mysterien wesen, 1894-1904.
D’Arbois: Les Druides, 1906.
Aubé: Histoire des Persécutions, 1875-1885.
Babut: Priscillien et le Priscillianisme, 1909.
Bachofen: Der Mythus von Orient und Occident e Urreligion und antike Symbole.
Bardenheyer: Geschichte der altchristlichen Literatur, 1903.
Barth: Uber die Druiden der Kelten, 1826.
Baur: Das manichäische Religionssystem, 1831.
Beausobre: Histoire Critique de Manichée et du Manichéisme, 1734.
Beauvais: L’Elysée Transatlantique et l’Eden Occidental (Revue de l’Histoire des Religions), 1883.
Bertrand: La Religion des Gaulois, 1897.
Boissier: La Fin du Paganisme, 1891.
Boltz: Der Apollomythus, 1894.
Bosc: Belisama, 1910.
Bouché-Leclercq: L’Intolérance Religieuse et la Politique, 1911.
Bühler: The Laws of Manou, 1886.
Cumont: Cosmogonie Manichéenne, 1908.
Cumont-Gehrich: Die orientalischen Religionen, 1910.
Darmesteter: Ormuzd und Ahriman, 1876.
Decharme: Mythologie de la Grèce Antique, 1879, 1929.
Déchelette: Manuel d’Archéologie Préhistorique et Celtique, 1908.
Delitzsch: Das babyl. Weltschöpfungsepos., 1896.
Dobschütz: Die urchristlichen Gemeinden, 1902.
Dom Martin: Le Religion des Gaulois, 1727.
Doms Vic & Vayssette: Histoire Générale de Languedoc (ed. Privat, Toulouse), 1872-1905.
Duchesne: Origines du Culte Chrétien, 1925.
Flügel: Mani, seine Lehren und seine Schriften, 1862.
Grimm: Deutsche Mythologie, 1875-1878.
Gruppe: Griechische Culte und Mythen, 1887 e Griechische Mythologie, 1906.
Hahn: Mythologische Parallelen, 1859.
Harnack: Lehrbuch der Dogmengeschichte, 1910 e Die Mission und Ausbreitung des Chritentums in den ersten drei Jahrhunderten, 1902.
Hauck-Herzog: Realenzyklopädie für protestantische Theologie und Kirche, 1877.
Hirt: Die Indogermanen, 1905.
Huggler: Mithologie der altchristland, 1929.
Kessler: Mani. Forschungen über die manichäische Religion, 1889.
Kittel: Die hellenistische Mysterienreligion und das Alte Testament, 1924.
Lavisse: Histoire de France, 1911.
Le Blant: Les Persécuteurs et les Martyrs, 1893.
Leisegang: Gnosis, 1924.
Loisy: Les Mystères Païens, 1930.
Martigny: Dictionnaire des Antiquités Chrétiennes, 1865.
Maury: La Magie et l’Astrologie dans l’Antiquité et au Moyen Age, 1860.
Menzel: Vorchristlich Unsterblichkeitslehre, 1870.
Milloué: Métempsychose et Ascétisme, 1901.
Mogk: Germanische Mythologie, 1906.
Paul: Das Druidentum (Jahrbücher für klass. Philologie), 1892.
Peyrat: Histoire des Albigeois, 1880.
Platon: Studies in the Fairy Mythologie of Arthurian Romance, 1903.
Pokorny: Der Ursprung des Druidentums (Mittelungen der Wiener anthropol. Gesellschaft), 1908.
Reclus: L’Homme et la Terre, 1905.
Reinach: Cultes, Mythes et Religions, 1904-1912.
Reitzenstein: Hellenistische Mysterienreligionen, 1904, 1910 e Die Vorgeschichte der christland, Taufe, 1929.
Renan: La Vie de Jésus.
Réville: Vigilance, 1902.
Reynaud: L’Esprit de la Gaule, 1866.
Rochat: Essai sur Mani et sa Doctrine, 1897.
Rohdes: Psyche, 1903.
Roscher: Ausführliches Lexikon der griech. und röm. Mythologie, 1884.
Sili Italici Punica (ed. Bauer), 1840.
Söderblom: La Vie Future d’après le Mazdéisme, 1901.
Steffen: Mani. Uber sein Leben und seine Lehre.
Steiner: Wendepunkte des Geisteslebens, 1927.
Stender: De Argonautorum expeditione, 1874.
Steuding: Griechische und römische Mythologie, 1905.
Stoll: Die Götter und Heroen des griechischen Altertums, 1885.
Stoop: La Diffusion du Manichéisme dans l’Empire Romain, 1909.
Vater: Der Argonautenzug, 1848.
Volkmann: Leben, Schriften und Philosophie des Plutarch, 1873.
Wilamowitz-Möllendorf: Der Glaube der Hellenen, 1931.

Poesia dos Trovadores


Anglade: Histoire Sommaire de la Littérature au Moyen Age, 1921, Les Troubadours, 1924 e Anthologie des Troubadours, 1927.
Bartsch: Chretomathie Provençale, 1904.
Baudler: Guiot von Provins, 1902.
Birch-Hirschfeld: Epische Stoffe.
Brinkmaier: Troubadours.
Coulet: Le Troubadour Guilhem de Montanhagol, 1898.
Diez: Die Poesie der Troubadours, 1883 e Leben und Werke der Troubadours, 1882.
Doms Vic & Vayssette: Histoire Générale de Languedoc (ed. Privat, Toulouse), 1872-1905.
Fauriel: Histoire Littéraire des Troubadours, 1802.
Gautier: La Chevalerie, 1895.
Kannegiesser: Gedichte der Troubadours im Versmass der Urschrift übersetzt, 1852.
Lavisse: Histoire de France, 1911.
Mahn: Gedichte der Troubadours in provenzalischer Sprache, 1864 e Biographien der Troubadours in provenzalischer Sprache, 1883.
Nostradamus: Les Vies des plus Célèbres Poètes Provençaux, 1575.
Meyer, F.: Die Stände, ihr Leben und Treiben, dargestellt nach den altfranz. Artus und Abenteuerromanen, 1892.
Michelet: Les Poètes Gascons du Gers, 1904.
Millot: Histoire Littéraire des Troubadours, 1802.
Peyrat: Histoire des Albigeois, 1880.
Suchier: Geschichte der französischen Literatur, 1900.
Villemain: Tableau de la Littérature au Moyen Age, 1840.
Vossler: Peire Cardinal, ein Satiriker aus d. Zeitalter der Albigenserkriege, 1916.
Wechssler: Gral.
Witthoeft: Sirventes joglaresc. Ein Blick auf das altfranzösische Spielmannsleben, 1891.

Os Albigenses e a sua Doutrina


Benoist: Histoire des Albigeois, 1691.
Clédat: Le Nouveau Testament Traduit au XIII Siècle en Langue Provençale, suivi d’un rituel cathare, 1887.
Döllinger: Beiträge zur Sektengeschichte des Mittelalters, 1890.
Doms Vic & Vayssette: Histoire Générale de Languedoc (ed. Privat, Toulouse), 1872-1905.
Douais: Les Albigeois, leur Origine, 1879.
Dulaurier: Les Albigeois ou les Cathares du Midi de France, 1880.
Füszlin: Kirchen und Ketzerhistorie der mittleren Zeit, 1772.
Gieseler: Lehrbuch der Kirchengeschichte, 1844.
Guiraud: Cartulaire de Notre-Dame de Prouille, 1907.
Hahn: Geschichte der neu-manichäischen Ketzer, 1845.
Jas: Disputatio Academica de Valdensium Secta ab Albigensibus bene Distinguenda, 1834.
Lavisse: Histoire de France, 1911.
Lea: Geschichte der Inquisition im Mittelalter, 1905.
Magre: Magiciens et Illuminés, 1930.
Maitland: Facts and Documents Illustrative of the History, Doctrine and Rites of the Ancient Albigenses and Waldenses, 1838.
Manuel de l’Inquisiteur Bernard Gui (ed. Mollat), 1926.
Molinier: L’Endura, costume religieuse des derniers sectaires albigeois (anais da Faculdade de Letras de Bordéus III), 1881.
Moneta: Adversus Catharos et Waldenses, libri V, 1743.
Palauqui: La Vérité de l’Albigéisme, 1932.
Peyrat: Histoire des Albigeois, 1880.
Schmidt: Histoire et Doctrine de la Secte des Cathares ou Albigeois, 1849.
Vidal: Doctrine et Morale des Derniers Ministres Albigeois (Revue des Questions Historiques, LXXXV), 1909.
Walch: Entwurf einer vollständigen Ketzergeschichte, 1766.

Parsifal e o Graal
Baist: Parzival und der Gral, 1909.
Bartsch: Die Eigennamen in Wolframs Parzival und Titurel, 1875.
Baudler: Guiot von Provins, 1902.
Benziger: Parzival, 1914.
Beslais: La Légende de Perceval le Gallois, 1904.
Biese: Literaturgeschichte.
Birch-Hirschfeld: Die Sage vom Gral und ihre Entwicklung und dichterische Ausbildung in Frankreich und Deutschland im 12, und 13
Jahrhundert, 1877.
Dom Morin: Saint-Lazare et Saint-Maximin (Mémoires de la Societé des Antiquaires de France), 1897.
Duchesne: La Légende de Sainte Marie-Madeleine (Annales du Midi), 1892-1893.
Fisher: The Mystic Vision in the Grail Legend and the Divine Comedy, 1917.
Golther: Parsifal und der Gral in deutscher Sage des Mittelalters und der Neuzeit, 1908.
Griffith: Sir Perceval of Galles, 1911.
Hagen: Der Gral, 1900.
Heinrich: Le Parcival de Wolfram d’Eschenbach et la Légende du Saint-Graal, 1855.
Heinzel: Über Wolframs von Eschenbach Parzival, 1893 e Über die französischen Gralromane, 1892.
Hertz: Parzival, 1898.
Historia dos Cavalleiros do Santo Graall, 1887.
Hoffman: Die Quellen des Perceval, 1905.
Iselin: Der morgenländische Ursprung der Grallegende, 1909.
Kampers: Das Lichtland der Seelen und der heilige Gral, 1916.
Karpeles: Geschichte der Literatur.
Küpp: Die unmittelbaren Quellen des Parzival Wolframs von Eschenbach, 1885.
Lang: Die Sage vom heiligen Gral, 1862.
Manteyer: Les Légendes Saintes de Provence, 1897.
Martigny: Dictionnaire des Antiquités Christiennes, 1865.
Martin: Zur Gralsage, 1880.
Palgen: Der Stein der Weisen (estudos sobre as origens de Parsifal), 1922.
Paris: Perceval et la Légende du Saint-Graal, 1883.
San Marte: Leben und Dichten Wolframs von Eschenbach, 1887, Über die Eigennamen im Parzival des Wolfram von Eschenbach, 1887,
Parzivalstudien I-III, 1861-1862 e Sein oder Nichtsein des Guiot von Provence, 1883.
Sterzenbach: Ursprung und Entwicklung der Sage vom heiligen Gral, 1908.
Strucks: Der junge Parzival, 1910.
Sühling: Die Taubeals religiöses Symbol im christl. Altertum, 1930.
Wechssler: Die Sage vom heiligen Gral in ihrer Entwicklung bis auf Richard Wagners Parsifal, 1898.
Weston: The Legend of Sir Perceval. Studies upon its Origin, 1909.

Huon de Bordeaux
Graf: I Complimenti della Chanson d’Huon de Bordeaux, 1878.
Guessard-Grandmaison: Les Anciens Poètes de la France, 1860.
Schäfer: Uber die Pariser Hss. 1451 und 22555 der Huon de Bordeaux-Sage, 1892.
Voretzsech: Die Kompositionen des Huon von Bordeaux, 1900.

Esclarmonde e Montségur
Goulet: Le Troubadour Montanhagol, 1898.
Gaussen: Montségur, Roche Tragique, 1905.
Palauqui: Esclarmonde de Foix, 1911.
Peladan: Le Secret des Troubadours, 1906.

Sabarthès
Castillon (d’Aspect): Histoire du Comté de Foix, 1852.
Gadal: Ussat-les-Bains.
Garrigou: Études sur l’Ancien Pays de Foix, 1846 e Sabar, 1849.
Vidal: Tribunal d’Inquisition de Pamiers, 1906 e Doctrine et Morale des Derniers Ministres Albigeois (Revue des Questions Historiques
LXXXV), 1909.

A cruzada contra os albigenses


Barreau-Darragon: Histoire des Croisades contre les Albigeois, 1843.
Cæsar von Heisterbach: De Miraculis et Visionibus sui Temporis seu Dialogus Miraculorum, 1850.
Chanson de la Croisade contre les Albigeois (começada por Guillaume de Tudèle e continuada por um poeta anónimo, ed. Paul Meyer),
1875.
Doms Vic & Vayssette: Histoire Générale de Languedoc (ed. Privat, Toulouse), 1872-1905.
Guilelmus de Podio Laurentii Chronica super Historia Negotii Francorum adversus Albigenses, 1649.
Julia: Histoire de Béziers, 1845.
Langlois: Histoire des Croisades contre les Albigeois, 1703.
Lavisse: Histoire de France, 1911.
Lea: Geschichte der Inquisition im Mittelalter, 1905.
Luchaire: Innocent III, tomo II: la Croisade des Albigeois, 1905.
Magre: Magiciens et Illuminés, 1930.
Marturé: Histoire des Comtes de Toulouse, 1827.
Petri Vallium Sarnaii Monachi Albigensis (ed. Guèbin-Lyon), 1926.
Peyrat: Histoire des Albigeois, 1880.
Schmidt: Histoire et Doctrine de la Secte des Cathares ou Albigeois, 1849.
Sismondi: Die Kreuzzüge gegen die Albigenser, 1829.
Vossler: Peire Cardinal.
Walch: Entwurf einer vollständigen Ketzergeschichte, 1766.

A Inquisição
Cauzons: Histoire de l’Inquisition en France, 1909.
Comba: Histoire des Vaudois, 1901.
David von Augsburg: Tratactus de Inquisitione Hæreticorum, 1876.
Doat: Copies des Registres de l’Inquisition d’Albi, Carcassonne, Toulouse, Narbonne, etc. (Biblioteca Nacional de Paris).
Doms Vic & Vayssette: Histoire Générale de Languedoc (ed. Privat, Toulouse), 1872-1905.
Douais: Documents pour servir à l’Histoire de l’Inquisition dans le Languedoc, 1900 e L’Inquisition, ses Origines, sa Procedure, 1906.
Gui: Manuel de l’Inquisiteur (ed. Mollat), 1926.
Guiraud: Saint Dominique, 1923 e Cartulaire de Notre-Dame de Prouille, 1907.
Haller: Papsttum und Kirchenreform, I, 1903.
Hauréau: Bernard Délicieux et l’Inquisition dans le Languedoc, 1877.
Havel: L’Hérésie et le Bras Séculier au Moyen Age jusqu’au XIII Siècle, 1880.
Jakob: Studien über Papst Benedikt XII, 1910.
Lacordaire: Vie de Saint Dominique, 1840.
Lea: Geschichte der Inquisition im Mittelalter, 1905.
Limborch: Historia Inquisitionis cui subjungitur Liber Sententiarum Inquisitionis Tholosanæ ab anno 1307 ad annum 1324, 1692.
Michelet: Procès des Templiers (collection des documents inédits sur l’histoire de France), 1841.
Molinier: L’Inquisition dans le Midi de France, 1880 e L’Hérésie et la Persécution au XI Siècle (Revue des Pyrénées VI), 1894.
Mollat: Les Papes d’Avignon, 1924.
Müller, K.: Die Waldenser und ihre einzelnen Gruppen, 1886.
Peyrat: Histoire des Albigeois, 1880.
Schmidt: Histoire et Doctrine de la Secte des Cathares ou Albigeois, 1849.
Tanon: Histoire des Tribunaux de l’Inquisition dans le Languedoc, 1893.
Tuberville: Mediæval Heresy and the Inquisition, 1920.
Verlaque: Jean XXII, as Vie et ses Oeuvres, 1883.
Vidal: Le Tribunal de l’Inquisition de Pamiers, 1906 e Bullaire de l’Inquisition Française au XIV Siècle et jusqu’à la fin du Gran Schisme, 1913.
Vossler: Peire Cardinal.