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os historiadores enfrenraram,
vomo Jtia de Queirós Matioso. o de­
safio de U cr hbrória regional no Brasil,
de forma abrangente, partindo de (otn.es
nrimárias e buscando dàdos quantitati­
vos coerentes, capazes de montai series
históricas. Nascida naG récià, baiana por
idoção, Katia Mattoso se dedicou a este
trabalho durante mais de 20 anos, ajuda­
da por gerações de alunos. Junto$/ eles
examinaram cerca de 40 m il documen­
te;- para esrabelecer séries de preços e sa­
lários; leram c resumiram quase 3.500
testamentos e mais de mil inventários;
transcreveram e analisaram mais de 16
inií cartas de alforria. Atas das câmaras
m urd-.pjis, recenseamentos, documen­
tos contábeis, crônicas, arquivos dc con­
ventos, registros portuários, discursos de
autoridades da época — além, é claro, de
uma exaustiva consulta à bibliografia já
disponível — permitiram a rpóntagem
deste minucioso painel sobrê a Bahia.no
século XXX, pioneiro na hiltorio^rafia
brasileira. i í
O esforço foi duplamente recom-
p>ensado. Vários centros universitários
do Brasil seguiram as perspectivas aber­
tas por Katia Mattoso a partir da uti­
lização sistemática de inventários post
mortem da Bahia, inclusive de escravos e
forros. No exterior, o trabalho da autora
também foi reconhecido. Apresentado
na França como tese dc Doutorado de
Estado e entusiasticamente aprovado, es­
te texto propiciou a criação da cátedra de
História do Brasil na Universidade de
Paris IV - Sorbonne, cabendo a Katia
Mattoso ocupar sua primeira regência
como titular. " '1
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Partindo dos “dadoí Éseiveis da geo­
grafia”, a autor^apresenta a capital c sua
região, analisando ivpapel dosVíos e das
vias de comunicação, cenário magnífico
e inóspito, conquistado, ocupado e repo­
voado por recém-chegados que, passo a
^ passo, construíram uma sociedade. De-
Q ot tensa* da pesquisa se abrem em
-...íim***. a demografu c a família, as reli-
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K atia M. de Queirós Mattoso

B ah ia , S éculo X IX
Ü ma P r o v ín c ia no I m pério


EDITORA
NOVA
FRONTEIRA
© 1992, by Katia M. de Queirós Mattoso

D ireitos de edição da obra cm lín gua po rtuguesa ad q u irid o s pela


E d it o r a N ova F r o n t e ir a S.A.
Rua B am bina, 25 —C E P 22251
Botafogo - T cl. 2 8 6 -7 3 2 2
Endereço telegráfico: N E O FR O N T
Telex: 3 4 6 9 5 ENFS BR
R io de ja n e iro , RJ

Tradução
Yedda de Macedo Soares

Edição de texto
César Benjamin

ISBN 85-209-0397-0

Em
ü " " « P— ' - *■ H » o ™ , lm m la m Q i
Para m eus n etos brasileiros — M ariana, M arcos Filho, Tomás,
Tiago e P edro — e m eus netos greco -b ra sileiro s — M ichalis e Alexandros —,
p a ra q u e co n h eça m e a m em um a B ahia q u e é deles.
S u m á r io

P re fác io .....................................................................................................................

A p re s e n ta ç ã o .........................................................................................................

In tro d u ç ã o ..............................................................................................................
A história do Brasil que me foi co n tad a...........................................
Como escrever uma história da B a h ia ?..............................................

L iv r o I - O s D o ns e as A r m a d il h a s d a N atureza

C a p ítu lo 1 - A B a h ia ......................................................................................
A cid ad e...........................................................................................................
A p ro vín cia..................................... *..............................................................

C a p ítu lo 2 - S a lv a d o r....................................................................................
M orfologia do sítio .....................................................................................
Solos e águas...........................................................................................
A baía e o p o rto ..........................................................................................

C a p ítu lo 3 - 0 R e c ô n c a v o ........................................................................
Esboço de definição.............................................................................**•■■■
Dados estáveis da geografia........................ -..........................................
Ventos, chuvas c solos.................................................................... *........

C ap ítu lo 4 —V ias de co m u n ic a ç ã o ........................................................


Caminhos fluviais: o Recôncavo e o lito ra l.............................*
Caminhos terrestres: o Agreste e o S ertão .......................................
Caminhos marítimos: o S u l ..................................................................
—- ■ — y ---- ------------
L i v r o II - O P e s o d o s H o m e n s ...............................................

Capítulo 5 —0 papel da h istória.................................-......... .....


A conquista do interio r.................................*................................ ..
Bahia, S é cu lo XIX

U m a metrópole co lo n ial?...................................................................................................................
78
Salvador, metrópole do Novo M u n d o ......................................... *.................*............................
C a p ítu lo 6 — P opulações d a P ro v ín cia d a B a h ia ..................................................................... 82
Panorama geral (1780—1 8 9 0 ).............................*..................................................................... *...... ^
Um século de avaliações imprecisas: 1 7 8 0 -1 8 7 2 .................. *................................................ 82
Os recenseamentos de 1872 e 1890 .............................. 87
Faixas etárias e distribuição por sexo na população b a ia n a ................................................. 94
Matizes raciais e origens da população b a ian a ..............................................*............ 97

C a p ítu lo 7 - A cid ad e de S a lv a d o r ...................................................................................................... 100


Antes de 1872: Recenseamentos p a rc iais................................................................. ................... 104
Antes de 1872: A valiações.................................................................................................................. 108
Dois recenseamentos oficiais: 1872 e 1 8 9 0 .......................... *.................................................... 110
Ensaio de avaliação para o século X IX.......................................................................................... 112

C a p ítu lo 8 - P o p u lação flu tu a n te e p o p u lação m e s tiç a ...................................................... 115


Sangues misturados: mitos e rea lid a d es.............................................................. ........................ 119

L iv r o III - A F a m í l i a B a i a n a ..................................................................................................... 127

C a p ítu lo 9 - U m pouco de h is t ó r ia ............................... ............................................................... 129


Regimes m atrim oniais............................................................................................................................ 130
Regimes matrimoniais e regimes de b e n s ..... ............................................................... 131
D ivórcio.,.,........................................................................... 133
F iliação ..................................................................................................................................................... 133
Filhos adotivos ...................................................................... 135
Direitos de sucessão e regime sucessório..................................................................................... 136
H erdeiros......................................................... 138
Sucessão por testam ento................................................................................................................... 139
Uma legislação bem adap tada....................... 140
C ap ítu lo 10 - T ip o lo g ia da fam ília b a ia n a .................................................... 142
Família legal e consensual.............. 144
, A família consensual............................................................................................................................... 149
UniÔcs livres.....................................................................................................
A família segundo o estatuto legal de seus membros ................................................ IÓ0
Família dc libertos.................................................................................................... jg
A família escrava................................................................... ..............
Grupos domésticos: terceiro csrudo tipológico......................................
C ap ítu lo 11 - Sistem as dc parentesco c alianças m a trim o n ia is 172
Sistemas dc parentesco.................................................................................................. ^
Parentesco por escolha ......................................................................
n , 1 174
ra re n te u .................................................................................................................. ^
Alianças matrimoniais: exogamia e endogamia............................ *

Estratégias matrimoniais dos baianos alforriados


SlMARIO ^

Raptos e estupros (ou como tentar se libertar


de regras impostas peta igreja c a fa m ília)..................................................... íg .

C a p ítu lo 12 - A fam ília b aian a e as relações s o c ia is .......................................... 200


fam ília, eixo das relações sociais...................................................
A qualidade das relações so c iais.......................................
...... . íri /

L iv r o IV - O E s t a d o : O r g a n iz a ç ã o e E x e r c íc io d o s P o d e r e s 221

C a p ítu lo 13 - A h eran ça: o rgan ização do Estado


no fim do p erío d o c o lo n ia l................................................................................. 2^3
Justiça e fin an ças.......................................................................................................................... 223
O Exército ............... .......... ......................................................................................................... 224
O governo lo c a l................................................................................. ............................................. 228

C a p ítu lo 1 4 - 0 regim e m o n árq u ico b rasileiro (1 8 2 2 -1 8 8 9 ) ............................. 231


A construção do Estado (1 8 2 2 -1 8 5 0 )..................................................................................... 233
A consolidação (1 8 5 0 -1 8 7 0 ) ............................................................ .......................................... 235
A desagregação (1 8 7 0 -1 8 8 9 )....................................... ............................................................... 236
Os poderes centrais (1 8 2 2 -1 8 8 9 ).............................................................................................. 237
A instalação de poderes novos.,..................................................................................................238
Os poderes do E xército.................................................................................................................. 241
Organização das forças param íliiares: a Guarda Nacional eaPolícia........................... 243

C a p ítu lo 15 - Os poderes lo c a is ................. 248


A instituição do governo provincial.......................................................................................... 248
O poder m u n icip al......................... - ......................................................... *....... 249
C ap ítu lo 16 - A elite b a ian a e a form ação do Estado n a c io n a l................................. 252
A elite política b aian a.................................. -............................ 254
A municipalidade de Salvador e seus conselheiros............................................................. 255
A Assembléia Provincial: presidente e vice-presidente.............................. -...................... 258
Os deputados à Assembléia Provincial........................... ........................................................
C ap ítu lo 17 — Os b aian os no governo central: origem social e fo rm ação 271
Os senadores........................................................................................................................... ......... ■)JJg
Ministros c presidentes do Conselho........................*......................................*..................... *

L i v r o V - A I g r e j a .................................................................................................................... 293

C ap ítu lo 18 - In tro d u ção ............................................................................................................. 293


C ap ítu lo 19 - H ierarquia eclesiástica e poder político
no século XIX (1 8 2 2 -1 8 9 0 ) .............................................................................................. 302
Reformas na Igreja, reformas pelo Estado (1822 -18 40 )........................ .......................
Que reformas para o clero brasileiro? ................................................................................
O cpiscopado brasileiro c o Estado: da aparente submissão
à revolta aberta (1840-1890)............. *.........................................................
X Bahia, S é cu lo XIX

* sob tu te la .......................................................................... *.................... *........................ 316


Um a Igreja
Práticas religiosas e políticas da elite le ig a .................................................................................. 317
Questão religiosa ou questão dos bispos..................................................................................... 321
A Igreja e a escravidão......................................................................................................................... 327

C a p ítu lo 2 0 - C ô n ego s e pároco s: u m a v erd ad e ira riq u exa em h o m e n s ................ 333


O alto clero: o cap ítulo -catedral..................................................................................................... 334
O alto clero: o tribunal eclesiástico ................... 334
O baixo clero: curas e cap elães........................................................................................................ 336
O clero baiano diante das refo rm as............................................................................................... 341
O uso da b atin a..............................................................................................................................*....... 343
O celib ato .................................................................................................................................................. 345
As conferências eclesiásticas ............................................................................................................... 349
Formação do c le ro .................................................................................................................................. 350
O recrutamento do clero ..................................................................................................................... 356
As rendas do c le ro ................................................................................ *........... *................................... 359
Dois modelos para a mesma m issão...................................................................... ........................ 369

C a p ítu lo 21 - As orden s r e lig io s a s ................................................................................................... 373


Ordens e congregações recém-chegadas: os cap u ch in h o s.................................................... 383
Ordens e congregações recém-chegadas: as irm ãs de São V icente de P au la................ 384
Ordens e congregações recém-cchegadas: os padres da M issã o ......................................... 386

C a p ítu lo 2 2 - C ateq u ese do povo de D e u s ................................................................ .............. 389


Religião oficial e religião do povo................................................................................................. 390
As devoções aos san to s .............................. 391
Uma religião no co tid ian o .................................. ............................................................................. 395
A festa religiosa: negócio dos leig o s................................................................................... ........ 397
Confrarias: irmandades e ordens terceiras................................................................................. 397
A pastoral e seus agen tes................................................................................................................... 404
O padre e a pastoral........................................................................................................................... 407
Missões e pastoral........................................................................................................................ ....... 408
As mulheres e a pastoral................................................................................................................... 410

C ap ítu lo 23 - T em plos, m esquitas e terreiros: religiõ es c o n c o rre n te s? .................. 415


O protestantismo na B ah ia ......................................................................... 417
O catolicismo dos africanos.................................................... 421
O Islã na B a h ía ....................................... 424
A herança africana: os terreiros....................................... 42g

L iv r o V I — O C o i id i a n o d o s H o m e n s que P r o d u z ia m
e T r o c a v a m ..........................................................
433
C ap ítu lo 24 —Salvador: a cidade no século X IX ....................... ^
A cidade à beira-m ar.................................... . y
A ddade a lta ................................................................... ................................................................
.................................. *...................... 439
S u m a r io xí

As casas: proximidade c reserva................................................................................................... 443


Revoltas e m o tin s............................................................................ 451

C ap ítu lo 25 - As atividades produtivas: condições e d esen v o lv im en to ................. 455


Geografia da produção........................................................................................................ 453
A pecuária............................................................................................................................................ 454
Produtos da atividade extrativa................................................................................................... 4^
Minas e m in erais............................................................................................................................. . 466
C ap ítu lo 26 - R elações c co m u n ica çõ es................................................................................... 468
Estradas................................................................................................................................................. 468
Ferrovias................................................... .................................................. ....................................... 469
Transportes marítimos de longo curso .................................................................................... 473
Transportes marítimos: cabotagem ............................................................................................ 479
Do porto natural ao porto m oderno...,.................................................................................... 482

C ap ítu lo 27 - Salvad o r, praça c o m e rc ia l.................................................................................. 487


Os com erciantes................................................................................................................................ 490
A organização com ercial................................................................................................................ 495
As trocas entre os grandes ........... ..................................................................................... 496
Outras trocas....................................................................................................................................... 500
Meios de pagam ento........................................................................................................................ 504
Meios comerciais de pagamento ................................................................................................. 509
A moeda e sua circulação............................................................................................................... 510
Dados sobre o movimento com ercial........................................................................................ 514
Principais produtos de exportação.................................................................. .......................... 517
Exportações para o exterior........................................................................................................... 521
O comércio da Bahia com o estrangeiro e as outras províncias..................... 522

L ivro V I I - O D in h e ir o d o s B a i a n o s ..................................................................... 525

C apítulo 28 — 0 m ercado de tr a b a lh o .......................... 527


A dupla estrutura do trabalho urbano: mão-de-obra livre, mão-de-obra escrava .... 530
A oferta dc em prego.......................................................................................................................
O mercado de trabalho para homens livres.......................................................................... ^ 5
su
Os escravos c o mercado dc trabalho.................................................... .................. ............
C ap ítu lo 29 —Salários c p re ç o s........................................... -.........*.............*...........................
Os salários.......................................................................................................................................
Preços c necessidades alimcntarc.s ...... ..................................................................................... £“3Á
Os salários c o preço da farinha nossa dc cada d ia ................................................
C apítulo 30 — H ierarquias sociais ............................................. *............
Slí4
o modelo português de sociedade............................................... *.........................................
O modelo baiano de sociedade...............................................................................................
, . . .
As estruturas sociais rurais......................................................................................................... J
Estratificaçáo social em Salvador ............... 596
Comparações.................................... *........................ 599
xn Bahia, S é c u lo XIX

C apítulo 31 —A fortuna dos Baianos


Classificação das fo rtun as ....... .
Q uem possuía? ...................... ....................
Quem possuía o q u ê ? ..............................
Riquezas e pobrezas..................................
C o n clu são ......................................................

N o tas...........................................................

B ibliografia................................................ .
P r e f á c io

M a ria Y edda L inhares


Professora Catcdrárica de História Moderna e Contemporânea
Professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro

A tese de K atia M . de Q u eiró s M a tto so sobre S alv ad o r não nasceu de um m ero in te ­


resse aca d êm ico . C o m o b em diz a h isto ria d o ra lo go no in íc io , ela resulto u de um
enco ntro p ro vo can te: o de u m a m u lh e r g reg a de p ro fu n d as raízes européias e helênicas
com a B ah ia de T o d o s os S an to s e de m ú ltip lo s co lo rid o s. O m u n d o p lu rim íscig en ad o ,
pleno d e a la rid o s e ritm o s, c aó tic o n a deso rd em de suas estratificaçõ es sociais, diver­
sificado e rico nas suas su b c u ltu ra s p o p u lares, ao m esm o tem p o aleg re e triste, violento
e p acífico , c o n tra d itó rio , su b m isso e arred ío , todo esse m u n d o estranho revelou-se, à
jovem g reg a egressa de u m a g u erra eu ro p é ia , logo seg u id a de u m a estú p id a guerra
civ il, com o a p o ssib ilid a d e de u m a nova p átria..
A ssim , a h istó ria d esta g ra n d io sa tese não d eix a de ser a síntese de u m a trajetó ria
— a form ação e ev o lu ção de u m a h isto ria d o ra co n stru in d o o seu tem a, vivendo a
exp eriên cia de ex p licá-lo a si m esm a e aos alu n o s q ue ela soube form ar, dadivosa ao
p artilh ar o co n h ecim en to q ue ia a cu m u lan d o , lu ta n d o po r renovar a pesquisa histórica
no B rasil, por a m p liar as p o ssib ilid ad es de avanço in te le c tu al e cien tífico para um sem -
núm ero de jovens b rasileiro s cujo s talen to s ela soube revelar e in cen tivar. A í estão seus
d iscíp ulo s e am igos, m estres, dou torando s e doutores, testem unhos da trajetória de
trabalho, co m p etên cia c seried ad e profissio nal de q uem chegou um belo dia em São
P aulo, co n stitu iu fam ília nestas bandas de cá, optou por ser b rasileira e abriu com
afinco e um m ín im o dc apoio in stitu cio n al o espaço que hoje ocupa na p rim eira linh a
da in telectu alid ad e da nossa terra.
O rigin ariam en tc tese dc Estado, apresen tada cm 1986 à U niversidade de Paris IV
— Sorbonne, este texto teve a op o rtu n idade de ser an alisado por um a banca na qual
constavam algun s dos m ais ilustres historiadores da França, com o Pierre C haunu,
E m m anuel Le R oy L aduríc, Jean -M arie M ayeu r e François C rouzet, este últim o ten-

1
B a h ia , S é c u lo XIX

do-se destacado como orientador. C oube-m e, em bora m odestam ente, a honra de


participar dessa com issão, algo im portante no m eu cu rrículo por me ter perm itido um
contato m ais estreito com a grande obra então subm etida a aprovação daquela U niver­
sidade. E aqui presto o meu depoim ento: a tese de K atia M atto so foi m inuciosam ente
exam inada, duran te cinco boras, e aclam ada, por u n an im id ad e, com o um trabalho
m agistral, dado o seu raro nível de excelência.
Com o corolário, e num a dem onstração de que cabe à U n iversidade absorver os
valores exponenciais que a ela se revelam , foi criada a cátedra de H istó ria do Brasil em
Paris IV - Sorbonne, cabendo a K atia de Q ueirós M atto so ocu par a sua prim eira
regência com o T itu lar. E, m ais um a vez, sem pre b atalh ado ra, coube-lh e, já em Paris,
organizar e presidir um C o ló q uio , em jan eiro de 1990, reunindo especialistas franceses
e brasileiros sobre diferentes experiências republicanas n a H istó ria eu ro p éia e am erica­
na, inclusive no Brasil.
V iver hoje na França e ser detento ra de um a C a d eira em Paris é, sem dúvida, a
recom pensa de um prolongado trabalho. M as, para K atia, viver no B rasil foi o seu
m ais em ocionante aprendizado no desbravar co tid ian o de u m a realid ad e social e cu l­
tural exótica, com plexa, bem diversa daq u ela que n u trira seus prim eiro s saberes e suas
prim eiras certezas. No fundo, foi o longo e indispen sável estágio de preparação da
historiadora: o contato com a vida que se revela, aos poucos, através d a sensibilidade
da observadora e participante. Ao desbravar o novo m undo , é indisfarçável o abrasi-
leiram ento através de um a certa baian idade que en riq u ece a h isto riad o ra, na m edida
em que os falares, a cu lin ária, os ruídos e a doce m an eira de ser b aian a se tornaram
parte^ integrantes de sua própria m aneira de ser grega e européia. Foi esta a simbiose
fundam ental na vida de K atia, pois, não tenho m ais dúvidas — agora que tam bém
conheço um pouco a G récia — , foi a partir desse en ten d im en to do Brasil via Bahia
que ela reencontrou a sua G récia ancestral.
Parece-m e inegável que esse reencontro explica a lucidez dos q uatro capítulos com
os quais ela abre a apresentação de sua cidade e de sua região, pela utilização exem plar
da geografia. Entrosam -se aí o urbano e o recôncavo, o papel dos rios e das vias de
com unicação, cenário m agnífico e inóspito a aguardar a chegada dos novos homens
que íriam conquistar, ocupar, repovoar a terra, cu ltivar e transportar os seus produtos.
t o peso dos homens e o papel da H istória, para se chegar, passo a passo, á construção
de uma sociedade, A partir desse m om ento, Katia abre em leque os seus m últiplos
temas de pesquisas pessoais cm arquivos da Bahia e do Rto dc Jan eiro : a fam ília baiana,
a Igreja, a organizaçao da vida econonúca, os preços, os salários, as hierarquias sociais.
A leitura dos diferentes capítulos que se seguem à apresentação do m eio físico e da
dem ografia nos informa sobre o m inucioso trajeto feito pela historiadora ao longo de
anos de pesquisas exaustivas c, em grande parte, absolutam ente pioneiras em termos
brasileiros, sobretudo baianos. Na alentada Introdução, a historiadora conduz o leitor
a seguir os passos que deu c suas motivações, apontando os cam inhos que a levaram
no prim eiro momento à história econômica e, paulatinam ente, á história social e das
P riífácio 3

m entalidades coletivas, bem com o às preocupações teóricas e m etodológicas c à busca


das fontes, com seus inegáveis lim ites. Em cada m om ento, é fundam ental destacar a
erudição historiográfica que ostenta.
O ra, há 25 anos, q uando prim eiro encontrei K atia M attoso num a pequena reu­
nião de historiadores em N ova Friburgo (R J), confesso que fiquei fascinada com o
extenso levantam ento de preços que então ocupava todo o seu tempo. T ratava-se de
um a pesquisa inédita no Brasi! de então. Ao m esm o tem po, ela nos falou da história
dem ográfica feita a p artir de levantam entos de registros paroquiais, tarefa que coube
a Jo h ild o L. de A tayde desenvolver para o século XIX no tocante a Salvador. Em pouco
tem po, com um grupo de jovens colegas do R io, elaboram os um projeto de pesquisa,
inspirado e em colaboração com nossa am iga baiana, abrangendo um variado levan­
tam ento de fontes suscetíveis de q u an tificação , referentes à cidade do Rio de Janeiro,
trabalho esse q ue foi p arcialm en te co n clu íd o , em fases posteriores, por Euláüa M aria
Lahm eyer Lobo, M a ria B árbara Levy e po r m im m esm a. A m etodologia vinha sendo
testada de longa data n a E uropa, sobretudo na França, mas para nos era um universo
que se abria. M ais tarde, ain d a segu in d o esse exem plo, c desdobrando-o, desenvolvi
um projeto bastante sign ificativ o de h istó ria agrária, em âm bito de pós-graduação. O
que im porta assinalar é q ue o encontro com K atia M attoso em meados da dccada de
1960 foi estim u lan te e decisivo no novo rum o tom ado por grupos de historiadores no
R io de Jan eiro , hoje já para m ais de trin ta m estres e doutores, na Universidade Federal
F lum inense e na U n iv ersid ad e Federal do R io de Jan eiro .
Da m esm a form a, a u tilização sistem ática que K atia fez de inventários p o st m ortem
da B ahia, inclusive de escravos e forros, abriu novas perspectivas de estudos em histó­
ria social (com o se é rico, com o se é pobre), exem plo que tam bém foi amplamente
seguido em vários centros universitário s do Brasil. O cuidado com os conceitos, a
relatividade do vocabulário, o perigo do anacronism o, são algum as das advertências
prelim inares, incorporadas ao próprio corpo teórico das investigações. Importa, pois,
ressaltar a orientação m etodológica, dentro de novas preocupações teóricas, como uma
ponderável contribuição à reform ulação de tem áticas e reorientação dos conhecimen­
tos. Ao longo de trin ta anos, K atia conduziu sem inários com seus alunos em seu
apartam ento dc Salvador, tendo sido sem pre um a infatigável orientadora de pesquisa,
aberta às indagações e generosa no acesso que concedia a seus dados c conclusões. No
Brasil e, agora, na França, Katia M attoso m arcou e marca sua presença como profes­
sora, pesquisadora c chcfc dc equipe. A final, sem a persistenre pesquisa arquívisrica,
associada à preocupação constante de form ular c reíonnul.tr problemáticas e hipóteses
dc trabalho, não há U niversidade que sc preze, nem existe possibilidade de construção
e reconstrução de conhecim ento.
Aí reside o principal mérito do saber que a Universidade propicia: o saber nunca
rançoso e que sempre se renova. Tam bém nisso Katia dá o exemplo. Da história
quantitativa e serial dos preços, feita com afinco e correção de método, e da demograha
histórica tradicional da velha escola francesa, à atual preocupação com uma história
■ tt da para os fatos do co tid ian o , cen trad a nas men-
social menos estrutural e mais volta i u m h é tn sé r}os os recuos. Se, por um lado, a
talidades, foram grandes os avanços, ^ |ei tores pouco ou m ais intelectualizados,
H istória se tornou mais popu lar e pa atavc ^ ^ caráter explicativo . Katia
por outro, ela perdeu cm su s" " CI‘l in im iz ar a h istó ria eco n ô m ica serial que
M attoso soube dar um^salto de um a h istó ria dos grupos sociais,
vigorou are os anos para ava perder nos m eros relatos historizantes de
voltada para as m entalidades, mas sem se p erac.
n o L analistas da chamada vida política do passado mats rem oto. É assrm que seu
livro se abre para a história bastante sugesttva da Igreja, apontando, dessa forma, para
nm dos pilares daquela sociedade. Sei que suas investigações nesse campo continuam.
Esperemos, para breve, a im portante obra que certam en te v irá p reen ch er um a lacuna
na historiografia brasileira.
Suas conclusões são sim ples mas instigadoras de novos co n h ecim en to s. Ao refletir
sobre o tem a, m oveu-a a preocupação de explicar po r q u e a B ah ia q ue fora capital
da C olônia e a “m ais p o liciada” das cidades do E stado do B rasil, no d izer do professor
de grego do século XVIII soteropolitano, Luís dos San to s V ilh e n a — chegou à situa­
ção de letargia, m uito palpável ain d a no in ício d a segu n d a m etad e do século XX.
Recuar no tem po e procurar um a explicação p lausível, eis a lin h a q u e K atia traçou. E
form ulou suas perguntas: a esclerose da econ om ia b aian a, a lia d a às resistências de
relações sociais enraizadas na história d a C o lô n ia e d a escrav id ão , terá a explicação
profunda na letargia que se apossa da Província/E stado a p a rtir do m ead o do Império?
Existirá, de fato, um a relação de causa e efeito en tre o eco n ô m ico e o social? E, ainda,
a partir de que m om ento e de que indícios se pressente a m u d an ça do preservar e do
m anter para o gosto do inovar e do desenvolver?
Com essas questões em m ente, K atia pen etra na alm a b a ian a, nos seus m itos e em
algumas de suas falácias: a majestade do “ser senhor de engenho”, a democracia racial que
camufla o conflito (já tema de um livro importante, S er escra vo no B rasil , editado origi­
nalmente cm francês), o equívoco de se acreditar sempre na infinira fertilidade das ter­
ras inesgotáveis, o peso do comerciante sobre o prestígio social do grande proprietário
rural, o gosto assoc.auvo dos baianos, o imenso papel da fé, das práticas religiosas e da
organizaçao da Igrcja, o scr rico no século XIX, o ter sido escravo sinônimo d e V pobre.

1860 n t i a P,o°í
1B(>U nossa ’ foi
Província à 'l° lcn'am' ntc' c scm «Piores choques, a *partir dos anos
r dcsaoremlrn/lr, .
posta, pelo mundo que a cercava " S c g u u d o V r '7 econômicas ,m-
na sua maneira própria dc preservar n es, * ^ rciaçõeS SOC‘aiS’
herdado da escravidão, maquinar ‘° dc d o m in a çã o ,
jugos e das submissões seculares. ' evivencia e de escam oteaçao dos
Tenho certeza dc que o leitor encontrará ne,r-, I, l, , ■ , . . .
e muitos outros temas dc reflexão e de et 1 ■ história social da Bahia esses
a complexidade do presente com o qi^rnos^deF 11116" 110 m tclectu al- p erceberã melhor
o conhecimento apressado de um a histór' 1 ^ rontanios e> a**ida, o quanto é ilusório
‘a qUC se P°ssa au to -in ritu lar definitiva. Ao
P refá cio 5

trazer a p ú b lico a sua obra B ahia, sécu lo XIX — U ma p r o v ín c ia no Im p ério , K atia M . de


Q u eirós M atto so nos dá u m a lição de d ig n id ad e profissio nal e de grandeza acadêm ica,
afirm an d o , ao term in ar, com h u m ild ad e, q ue apenas “com eça a com preender essa
sociedade, onde os h u m ild es e os p o b res d e esp írito são tantos que suas vozes deveriam
abafar a dos gloriosos e dos e lo q ü en tes”.
É gostoso p en etrar no m u n d o b aian o p ela m ão de K atia M atto so , a grega de
fabulosa tradição civ iliz ató ria, q ue se fez b rasileira na in te lig ê n c ia e no coração.
A p r e se n t a ç ã o

Este livro nasceu de um a tese defendida em outubro de 1986 na Universidade de


P aris-S o rb o n n e. Para um professor brasileiro, como eu, o desafio era audacioso;
apresentar um a tese cu ja m o n u m en talíd ad c respondesse às exigências do Doutorado
de Estado, a “grande tese”, que a França de hoje acaba dc suprim ir pela urgente
necessidade de acelerar o acesso dc jovens professores ao m agistério superior.
Para esta edição, o texto o rigin al foi todo revisado, de modo a perm itir uma leitura
m ais ágil. Para tanto, foram sup rim idas num erosas tabelas, longas listas, gráficos e
anexos por dem ais técnicos.
Seria im possível nom ear todos os que, na trajetória de um trabalho de fôlego feito
ao longo de u m a vida de m uitas andanças, ajudaram -m c pela presença encorajadora ou
pelas sugestivas e proveitosas discussões: antigos alunos das universidades de Salvador,
colegas professores, funcionários dos m uitos arquivos públicos e privados, amigos
mais jovens ou m ais experientes e o povo da B ahia de Todos os Santos, que, em mais
de trinta anos de convivência in in terru p ta, ensinou-m e a am ar e fez tanto por mim.
Todavia, sem o apoio e a am izade de François Crouzet e sem o incentivo de Pierre
C haunu esta obra jam ais teria sido apresentada da m aneira prestigiosa como me foi
perm itido fazê-lo na Sorbonne.
Devo também expressar todo o m eu reconhecim ento à generosidade, à abertura de
espírito c à fidelidade às raízes baianas dem onstradas pelos editores da Nova Fronteira.
Sem a tenacidade de M aria C lara M arian í, do seu filho Carlos Augusto e da equipe
dirigida por César B enjam in, este livro, tão volumoso para os padrões brasileiros, não
seria editado em meu país.
A M aria C lara M arianí e a seus colaboradores, o mérito de terem acreditado que as
contribuições por mim trazidas ao conhecimento de certos aspectos do rico passado da
nossa Bahia ajudariam a com preender os vários mundos baianos dos tempos de hoje.

Katia M. d e Queirós Mattoso


Paris, 7 de dezembro de 1991

7
In t r o d u ç ã o

D eixem -m e confessar: este trab alh o resulta de trin ta anos de am or por um a cidade,
Salvador, e por u m a região, a B ahia. U m am or im previsível, decorrente de um itinerário
im previsível; provo can te, nascido de u m encontro provocante entre um povo que veio
de todas as partes e u m a m u lh er grega, com fortes raízes européias e helênicas.
Q ue feiticeiro m alicio so teria feito um a jovem vo lio ta — de Volos, pequeno e
im po rtan te porto o rien tal d a G récia — com p letar n a séria Lausanne seus estudos
secundários, perturbados por nove longos anos de guerra, seguidos de um a guerra
civil igu alm en te cruel? A boa cid ad e su íça oferecia então sólidas escolas universitárias
a um a p eq u en a elite em q u e os estrangeiros — sobretudo, as estrangeiras — eram
pouco num erosos. P ela p rim eira vez exp erim en tei o choque, a adaptação e o enrique­
cim ento in terio r, facilitad o s, é verdade, por u m a in fân cia e um a adolescência nas
quais a in flu ên cia francesa fora m arcan te. T ive a sorte de pertencer a um a fam ília
aberta e interessada nos outros. A lém disso, apesar de ter passado longos meses sem
escola por causa das atribulaçÕ es d a gu erra, m estres excelentes, com o Sim one M arxer,
H éíène C h alivop ou lou e C o n stan tin L adoyannis ajudaram -m e a despertar para a vida,
deixando com o h eran ça u m sen tim en to de gratid ão que até hoje anim a e alegra mi­
nha vontade de ‘fazer h istó ria’.
Em 1956, com 25 anos de id ad e, aco stum ada às populações homogêneas da
G récia e da Su íça, tive em São Paulo m eu prim eiro contatq com o Brasil. T udo parecia
febril, dinâm ico, em expansão, até m esm o arrogante, nessa cidade de aparência européia,
habitada porém por pessoas de nacion alidades e cores as mais diferentes. M as só no
ano seguinte descobri, em Salvador, o Brasil que pouco a pouco se tornaria meu.
A B ahia me foi im posta por acaso: descobrira-se petróleo na região do Recôncavo,
h interlãndia da capital, e para lá seguiu meu m arido, geólogo, encarregado de fundar
a prim eira escola brasileira especializada no assunto. Salvador tinha então meio milhão
dc habitantes, mas — cm contraste com a São Paulo de 3,5 milhões era uma bela
adorm ecida’, aparentem ente estagnada no tempo. Sua população parecia dez vezes
menor que a real, escondida em pequenos vales que separavam colinas furta-cores,
cercadas pelo m at c por praias acolhedoras. Os baianos rezavam em igrejas e conventos

9
10 B a h ia , S é c u l o XIX

ricam ente adornados com ouro e com deliciosas estátuas barrocas, mas m oravam em
casebres ou mansões deterioradas, testem unhas de um esplendor decadente. Desde
quando a opulenta capital do Brasil colonial se tornara um a cidade em que riqueza e
glória eram coisa do passado?
São Paulo enriquecia com orgulho. Salvador gritava sua decadência. Faltavam , à
cidade, prédios m odernos e im ponentes; os bondes circulavam por ruas e avenidas
estreitas, onde poucos autom óveis se viam ; os ricos e rem ediados haviam em igrado
para bairros m ais arejados. O Brasil de São Paulo era o m esm o da Bahia? H averia
vários Brasis? Até a p red o m in ân cia européia, que pude sentir no prim eiro contato
com o país, dava lu gar agora à m arcante in flu ên cia africana, in fin itam en te variada
pelas m estiçagens. Os rostos de ricos e pobres tinh am traços negróides, para m im
nítidos e im pressionantes, porém pouco perceptíveis — pude constatar — para os
habitantes do lugar.
A vida cotidiana m e fez ‘aprender a B ah ia’. A lugam os um apartam ento num
prédio de três andares de um bairro considerado excelente; m as a lad eira, recém-
construída, virava lam açal a cada pancada de chuva. N a v izin h an ça, casas de taip a com
chão de terra b atid a abrigavam sob folhas de b an an eira u m a população m uito pobre.
Todas as noites, duran te horas, vin h am d a li estranhos ritm os e cantos religiosos, cujo
m istério não se desfazia a cada m anhã.
A daptar-m e significava renascer. Era preciso ap ren der —- com a in telig ên cia e o
coração — os pressupostos de um m undo novo. Isso dem an dava tem po. O português
que eu falava era correto, mas in su ficien te para a relação d iária com a população.
A inda teria que m e acostum ar à fala doce e ao sotaque baianos e, sobretudo, às mil e
um a sutilezas im plícitas nas palavras, de sentido quase sem pre itin eran te, variando
conforme quem fala e a quem se dirige. Os baianos têm sensib ilidade à flor da pele.
Um gesto inábil cria abism os entre as pessoas. T ratar, por exem plo, um branco de nego
— ou de m eu nego — é sinal de afeição; mas, se o interlo cuto r é negro ou m ulato, isso
pode indicar desprezo, ou ser entendido assim .
O vocabulário local contém expressões típicas da opinião dos baianos sobre o
m undo. ‘Se Deus quiser’ indica, ao mesmo tem po, resignação e fé, com conoração
supersticiosa. Em Salvador, essa prudente assertiva acom panha a expressão de qual­
quer desejo ou esperança, mesmo banais, como retornar no dia seguinte ao mesmo
lugar, Mas há um a compensação para tal insegurança: o ‘jeito ’, vigente — é verdade —
em todo o Brasil, mas especialm ente na Bahia, terra das coisas feitas com arte e astúcia.
A existência do jeito antecede o próprio problem a específico a ser enfrentado: o tra­
balhador dá um jeito dc efetuar um conserto impossível; o m arinheiro faz o mesmo
para enfrentar ventos, barras e escolhos; o jovem, ‘com jeito ’, encontra o emprego ne­
cessário. Com a ajuda de Deus e do ‘jeito ’, com plem entares entre si, o senhor de
engenho e o pequeno lavrador esperam, a cada ano, um a colheita melhor.
Tive também que aprender o português erudito dos baianos cultos, que não
usavam o palavreado e a sintaxe popular sim plificados. Falavam quase uma outra
I n t r ü d i ç Ao 11

lín g u a, igu alm en te indispensável para com preender um m undo em que a faia era m ais
im po rtan te do q u e a escrita, em que as tradições eram transm itidas pela fam ília (sem
intervenção da escola) e por lin guagen s, usos e costum es bem codificados. Esses códi­
gos variavam segundo os grupos sociais, tornando-se m uito diversificados em um a
sociedade em que não apenas a cor, mas tam bém as tradições religiosas e culturais
eram m iscigenadas. Os grupos haviam levantado barreiras que os tornavam pouco
acolhedores d ian te de ‘estran geiro s’ , in clu in d o -se nestes os brasileiros oriundos de
ourros estados. P ernam bucanos, sergipanos, paulistas, cariocas ou m ineiros, todos
eram im ed iatam en te reconhecidos c colocados em seu lu gar: fora!
M eu m arido e eu tín h am o s poderosos trunfos: form ávam os um casal de raça
branca, com sobrenom e con hecido c in stru ção u n iv ersitária. A ssim , integrávam os, de
saída, o grupo d o m in an te, a elite in telectu al. H avia um a an tig a tradição universitária
e era grande o p restígio social dos senhores de engenho, que em outras épocas tinham
feito da p ro vín cia b aian a um sím bolo da riqueza açu careira. U m Q ueirós M attoso
podia ser ‘estran g eiro ’ , m as, p ara certa casta, era um estrangeiro fraterno, descendente
de um a nobre fam ília de senhores de engenh o do Rio de Jan eiro , detentora de títulos
outorgados no século XIX em reco n h ecim en to aos serviços prestados ao im perador.
Além disso, os b aian os letrados n u triam um culto sincero à Europa e ao acervo da
civilização grega. A ssim , por causa d a nossa origem ou pelo trad icio n al nom e da nossa
fam ília, portas se ab riram .
Fom os reconhecidos social e p ro fissio n alm en te. M ais do que isso: fomos rapida­
m ente acolhidos, protegido s, am ados, pela figu ra q ue v iria a ser — é até hoje —
m inha o rien tad o ra em m atéria de m en talid ad es baianas: A dalgisa M oniz de Aragão,
filha e neta de senhores de engenh o, descendente de um a fam ília que se instalara na
Bahia nos idos do século X V I. Ela nos ensino u as regras de conduta que regem as
relações entre os diversos grupos sociais de Salvador. O rgulhosa herdeira de riquezas
perdidas (até d ilap id ad as), don a-de-casa de coração aberto, com pletam ente baiana,
A dalgisa m c fez com preender as hierarq uias sociais da região, im pregnadas dc desi­
gualdades, que tornavam q u alq u er branco um hom em rico e qualqu er prero, ou qua­
se preto, um pobre. A brancura era m ais im po rtan te (e m ais durável) que a riqueza,
que podia desaparecer. Era o verdadeiro sinal de herança nobre, testem unho de um
passado a ser preservado.
M inh a am iga me fez ver que decadência algum a d im in u ía o prestígio dos senhores
de engenho. A lem brança dc grandezas passadas era hclm cntc conservada por meio de
um a tradição oral que rem em orava — naturalm ente, cmbelczando-os com estórias
novas — os faustos de outrora, tornados assim quase palpáveis. Essa antiga elite
formava um grupo fechado, cujos membros com partilhavam um orgulho, um a sober­
ba, que podia tornar-se arrogância. Os ‘novos ricos’, brasileiros ou estrangeiros, eram
considerados com um desdém que mal dissim ulava cerro ciúme. Por outro lado, as
alianças m atrim oniais com fam ílias tradicionais — mesmo empobrecidas, às vezes
m uito — perm aneciam um sonho para qualquer ‘enriquecido’. A uns, tais alianças
. . ,, . a nutros in gressar nesse m eio fechado,
perm itiam dourar novam ente seus brasões , a >
■ &
suprem o sinal de êxito. . , ,
Fonte de poder e de relativo segurança, o serviço público era com tderado por essas
fam ílias tradicio n ais com o a ú n ica ativ id ad e co m p atív el com sua co n d ição e seu desejo
de m ando. D epois dc estudar en g en h aria, d ireito ou m e d ic in a , a b n a -se n atu ralm en te,
aos filhos dessa elite, um a carreira q u alq u er de fu n cio n ário . O s ‘co n cu rso s’ selecio na­
vam regularm ente os in tegran tes de fam ílias co n h ecid as. F eita a n o m eação , o jogo se
perpetuava: o descendente de antigo s p ro p rietário s (de terras, a çú car ou gado) ou de
grandes negociantes co n tin u av a favorecendo seus pares nas pro m o çõ es.
Isso não im p ed ia, no en tan to , que se p erp etuasse a v elh a p ra tic a de p restar favores
a am igos m ais m odestos, form ando assim u m a c lie n te la fie l, c u ja ex istên cia era um
im prescindível sin al da posição social do fu n cio n ário . A fin a l, fo rtu n as d im in u íam e
até desapareciam , m as o p restígio das fam ílias precisava ser ren o vad o , reavivado e
fortalecido por m eio desse sem -n ú m ero de afilh ad o s. A lém de ser u m a h o n ra e uma
fonte de rem uneração segu ra, servir ao E stado trazia p restíg io , g a ra n tia o desem penho
do papel de protetor e renovava a in flu ên cia, real ou su p o sta, d e q u em geria um a
parcela do poder.
A pesar do em po brecim en to e até m esm o d e falên cias estro n do sas, essas fam ílias
geralm ente conservavam vestígios d a riq ueza d e a n tan h o : p ra ta ria esp lên d id a, jóias
raras, bibelôs antigo s, tapetes im p o rtad o s, oratório s com estatu etas po licrom ad as e
m óveis im p o n en tes, fabricados com m ad eiras p recio sas. O s em p reg ad o s tinh am
obrigações específicas: h avia a babá, a go vern an ta, a co z in h eira, a c riad a de quarto,
a lavadeira, a passadeira e assim por d ian te, sem pre em n ú m ero in v ersam en te pro­
porcional às rendas ou à q u an tid ad e de pessoas a serem aten d id as. N ão eram rem u­
nerados, pois servir a essas fam ílias era u m a h o n ra. A lém disso, q u an d o crianças,
haviam brincado com a don a-de-casa, ou eram afilh ado s de sua filh a, ou descen­
diam de antigos escravos, de am igos ou de parentes pobres, aco lh id o s no passado e
m antidos pela fam ília. Sua dedicação garan tia-lh es casa, co m id a e roupas e renovava
esperanças de ascensão social. G lórias e ho nrarias, recom endações e perm utas, no­
vos apadrinham entos, proxim idade com o p riv ilégio — tudo isso v alia m ais que
dinheiro.
Estabelecidos na cidade, os antigos proprietários viviam num vaivém que lhes
perm itia cultivar relações com os que habitavam suas terras. F orm alidades ad m in istra­
tivas, consultas m édicas ou sim ples vontade de rever parentes e am igos traziam a
Salvador para temporadas mais ou menos longas, grande núm ero de fam iliares, em
busca talvez da velha tutela exercida pelos senhores de engenho. Essa necessidade de
segurança era ainda mais profunda nos agregados que com partilhavam a in tim id ad e da
fam ília. Q uando meus amigos reconheciam num criado qualidades de gente d ireita’,
subentendia-se que d c passara a scr um a pessoa sem defeitos, liberada da tara social de
não ser m nguém , separada finalm ente da massa anônim a que vivia à mercê de uma
vida sem rumo c sem referências.
In t r o d u ç ã o
13

Senhores e em pregados se u n iam para m anter vivo um passado que em todos


despertava saudades. A m em ó ria coletiva era cu ltiv ad a com h ab ilid ad e pelos que t i­
nham interesse em reviver o an tigo poder fa m iliar, fonte de um prestígio auto-
referenciado e proveitoso. Fechava-se o círculo : agregados e parentes serviam ao n ú ­
cleo herdeiro do velho poder e form avam , eles m esm os, u m a clientela que reafirm ava
esse poder no m om ento presente. Para o senhor, m an ter os laços de dependência era
portanto um a necessidade. Para os parentes, idem , já q ue os verdadeiros senhores eram
sem pre bons e ju sto s, prontos a reconhecer sua gen te e a designar, para ela, lugares e
papéis precisos, capaz.es de evid en ciar suas q u alid ad es e capacidades.
A fam iliarid ad e sin gela que v ig ia en tre servidores não co n seguia dissim u lar total­
m ente as regras im p erativas presentes nas relações, baseadas no profundo respeito
daqueles q ue se sen tiam inferiores p ara com os q u e se sen tiam superiores. O ‘inferior
respeitoso’ co n h ecia seu lu g ar: não tom ava a in ic ia tiv a de estender a m ão, não sentava
sem perm issão, não ria m esm o d ian te de situaçõ es risíveis, não se p erm itia ares de
im p o rtân cia. M a is: respeitava nao só seu p atrão , m as todos os que m ereciam respeito,
com o esse padre, aq u ela pessoa idosa, o am igo certo e até um outro servidor. Assim,
todos os freq ü en tado res d a casa en co n travam q uem os respeitasse e tinh am direito à
sua parcela de co n sideração . N a so ciedade b a ian a d a época, ser hom em ou m ulher ‘de
respeito1 sig n ificav a ter sido recon hecido , com o ig u al, por um superior; era ter sido
alvo da h o m en agem — m esm o con descen denre — de receber tratam ento idêntico aos
que ocu p avam o topo d a h ie ra rq u ia social.
R espeito m ú tu o e respeito aos superiores se entrelaçavam , tornando possíveis
adaptações e m in im iz an d o co n stran gim en to s. “M e resp eite”, com andava o superior,
lem brando com en ergia os lim ites q u e não p o diam ser ultrapassados, sob pena de
desclassificação e de p erd a de ‘reco n h ecim en to ’, único títu lo realm ente capaz de
posicionar alguém n a escala social. “M e resp eite”, sup licava um dependente, procu­
rando afirm ar-se com o in teg ran te de u m a sociedade cujas hierarquias conferiam , a
cada um , seu q u in h ão de seguran ça.
A pesar de tão bem organizado, esse ritu al não conseguia enganar ninguém . O
senhor conhecia suas lim itaçõ es e procurava evitar conflitos. Sabia que as relações de
dependência tin h am um lado ilusório , pois escondiam um a interdependência. Além
disso, no quadro da v id a urbana, tornava-se cada vez m ais difícil conquistar uma
clientela. O cam po, o engenho, a fazenda — onde estava viva a lem brança do poder
fam iliar — perm aneciam o lu gar em que se recrutavam essas fidelidades.
Os servidores tam bém conheciam seus lim ites, participando de um jogo em que
obediência e m ando, serviço e proteção, resultavam de cálculos feitos em im plícita
parceria. C hegava-se assim a acordos tácitos que podiam ser rompidos por ambas as
partes. Nesse caso, cessavam a ‘fidelidade’, o ‘respeito’ e o reconhecim ento s o c ia l,
surgia o que os patrões cham avam ‘in gratid ão ’ e os servidores, indiferença . Este
últim o sentim ento era adm iravelm ente ilustrado por um a frase simples não dá
m ais bola para m im ” — que expressa a idéia de um jogo em que se recebe e se entrega,
14 Bahia, S écllo XIX

se tom a e se dá, num a situação de certa igualdade. A restrição: m esm o rom pendo o
acordo (pela não-realização de um desejo do servidor, por exem plo) o patrao nao
podia ser considerado ‘in grato ’ , pois essa categoria só cab ia a quem rejeitava um
passado em que recebera proteção. Só o servidor podia com eter um ato de m grattdao,
aliás imperdoável, pois todo o que se h avia tornado na vida, cudo o que obtivera,
decorria do apoio recebido, e não de suas q ualid ad es pessoais.
Nesse jogo, favores, recom endações ou benefícios eram cu id ad o sam en te d iv u lg a­
dos e evocados. Todos se situavam em função das suas relações. N in g u ém podia
ignorar ou desprezar constrangim entos sociais enraizados, p reten d en d o coiocar-se in ­
dividualm en te em evidência. Seria hipocrisia? Até hoje, não sei, A so ciedade baiana,
alegre e expansiva, de aparência aberta e am ável, parecia d esco n fiar p ro fu n d am en te de
tudo o que pudesse v ir a alterar esses sutis in tercâm b io s. A u to ritá ria m as flexível, ela
se esm erava em apertar as tram as vertical e h o rizo n tal de u m tecid o social no qual a
riqueza, em bora im p o rtan te, não desem penhava o papel p rin cip a l.
Eu não era nem atora, nem autora, desse verdadeiro esp etácu lo . As relações sociais
m e in trigaram , mas logo aprendi a conhecer o d u p lo co m p o rtam en to , característico
do m eio onde estava. Pude assim ocupar um lu g ar no seio de u m a fa m ília trad icio n al,
fazendo-m e com preender pelos outros m em bros desse grup o e por todos os baianos.
N as inúm eras reuniões sociais, entre as m ulheres p rev aleciam conversas cheias de
lugares-com uns sobre os m aridos, as crianças c os criado s, assun tos ob rigatório s em
aniversários, casam entos e até enterros. As cerim ôn ias religio sas eram transform adas
em reuniões m undanas. O prim eiro aniversário de um filho, as bodas de prata de um
casal, tudo era m otivo para docinhos e presentes. D a m esm a form a, o lan çam en to de
um livro, mesmo m odesto, era pretexto para discursos e enco ntro s.
Conheci na B ahia alguns europeus e um gran de grupo de n o rte-am erican o s com
quem passei a d iscu tir o que se podia e o que não se podia fazer, com p arando expe­
riências, corrigindo com portam entos e desenvolvendo pontos de referência indispen­
sáveis a um a adaptação bem -sucedida. No entanto , o contato com os m ais hum ildes
foi a dura escola que me ensinou o sa voir-fa ire indispensável para viver na Bahia, onde
a pechincha reina sobre todos os preços. U m sotaque estrangeiro, por m enor que
seja, deixa qualquer um cm desvantagem diante de vendedores dc bens ou prestadores
dc serviços. Q uantas vc/,cs inventei, para m otoristas de táxis, um a suposta origem
gaúcha, na esperança dç que os ‘estrangeiros1 do Brasil fossem m enos roubados do
que os da Europa!
Os contatos com artesãos, pequenos funcionários, camclfls e comerciantes modes­
tos que formam as camada» intermediária* da sociedade — tamhdin sã.) refridos por
um cerimonial especifico, fi eomplera lalla de dirigi,-se » cies .im p lem en te pelo
nome sem u.d.aar senhor ou 'senhora-. Analogamente, o» q„e p„ss„em , ftulos uni­
versitários devem
. scr
. tratados dc .'doutor’. São uLinonstrações
d e m o n s tr a v a do respeiro
, ■ •indispensá­
j- ^
,
vel para quec o .interlocutor, nao cata
. - no anonim ato de U
um sim o l^ prenom e, insuficien­
JT1 snnpics ■ c ■
te para conferir o prestígio social esperado.
In t r o d u ç ã o n

Todos os indivíduos idosos ou socialm ente superiores devem ser tratados na ter­
ceira pessoa. Nas conversas com os m ais hum ildes, depois de transcorrido o devido
tempo de conhecim ento m útuo, é preciso saber qual o m om ento mais adequado para
que o tratam ento cerim onioso ceda a vez ao ‘você’ , que perm anecerá unilateral. Só os
criados são cham ados pelo prenom e. t conveniente tam bém tratá-los dc você’ e não
utilizar as expressões ‘por favor’ ou ob rigado’, talvez para que não se de impressão de
fraqueza. Nos com andos, é preciso em pregar um tom seco ao qual nunca me adaptei.
T am bém nas refeições não fui capaz de seguir a tradição, que m anda dar aos
empregados apenas feijão, carne-de-so l, arroz e farinh a de m andioca. Ao oferecer-lhes
pratos com plem entares, sab ia que não abririam mão desses ingredientes, considerados
indispensáveis. A lém disso, aceitei o desafio de arcar com enorm e desperdício, pois os
hábitos alim entares na cozinh a faziam com que m u ita com ida fosse lançada no lixo.
Para m inhas am igas, era um absurdo que o café da m anhã das em pregadas incluísse
m anteiga, q ueijo, frutas ou geléias, e era sim plesm ente espantoso que elas controlas­
sem a ad m inistração da despensa e das reservas da casa, situação que favorecia a
ocorrência de roubos, Era esta, no entanto, m in h a m aneira — européia, com certeza
— de evitar que as em pregadas fossem obrigadas a pedir ajuda para suas famílias
num erosas. Logo ap ren d i que essa atitu d e exigia um com plem ento: a demonstração de
que eu sabia por que os sacos de açúcar e de arroz se esvaziavam com rapidez. A relação
com as em pregadas me m ostrou a im po rtân cia do papel desem penhado pelas famílias
junto às classes populares na B ahia. N ão obstante existirem algum as nuances, repro­
duziam -se os esquem as observados ju n to aos descendentes dos senhores de engenho.
Nos m eios populares as uniões consensuais tinham duração m uito variável; algu­
mas podiam valer para a v id a in teira, mas a m aioria não passava de alguns meses ou,
no m áxim o, poucos anos. As m ulheres tem iam ter dois ou três filhos, pois eram elas
que assum iam todas as responsabilidades quando os homens se retiravam . Era fre­
qüente a existência de vários irm ãos apenas por parte de mãe, que reconheciam o
esforço desta e não dem onstravam nenhum a rivalidade entre si. No máximo, notava-
se um a ponta de decepção com a eventual m á sorte de ter irmãos mais escuros. Isso
não quer dizer que a organização fam iliar fosse do tipo m atriarcal, pois essas caracte­
rísticas decorriam da pura e sim ples fuga dos homens, que mesmo assim permaneciam
como um a reíerência im portante. Seu papel reprodutor causava admiração e sorrisos.
M as os laços afetivos com a fam ília m aterna eram mais fortes, até porque as avós
paternas se recusavam a educar crianças cujas avós maternas fossem conhecidas. As
mães, chamadas pelo nome, cabia trabalhar fora para trazer a comida, e às avós mater­
nas, chamadas ‘m am ãe’, cabia cuidar das crianças,
Embora vivessem no lim ite da indigência, eram famílias abertas, que acolhiam
sem hesitar os sobrinhos e as pessoas idosas, desempregadas ou órfãs. Esse espimo
solidário constituía a base de uma ética peculiar, que se estendia para mais além.
Padrinhos escolhidos fora do círculo familiar ajudavam a manter e educar as crianças,
assumindo obrigações mais materiais que espirituais. Tornavam-se responsáveis não
16 B a h ia , S é c u l o XIX

apenas pelo afilhado, mas por toda a fam ília deste, repassando aos próprios o ts
obrigações que assum iam . _
A sexualidade era encarada como um a necessidade n atu ral, e o Pe^a ° era n °Çao
difusa e longínqua. Apesar de freqüente, o aborto era censurado com ênfase, já que a
criança representava um a dádiva do C éu: o hom em fazia o m al e, fatalm en te, vín ha
um filho que Deus aju d aria a criar. O con cub inato era outra fatalid ad e, situ ad a acim a
de qualqu er crítica: os pobres — pensava-se — não tin h am condições de casar legal­
m ente e subir na escala social. Entre as pessoas m ais h u m ild es, a união com alguem de
pele m ais clara era m ais bem -vista, por causa d a exp ectativa de b ran q u eam en to da
descendência.
Em com pensação, em grupos que já p erten ciam a um nível social m ais elevado —
como artesãos, pequenos funcio nários ou feirantes — a u n ião consensual dc u m a filha,
mesmo quando tolerada, era tida com o regressão, a m enos q ue o parceiro pertencesse
a um a categoria m uito superior e pudesse vir a ser um p ro teto r d a fam ília. N esse caso,
se o casam ento fosse im possível, na m aior p arte das vezes o filho n a tu ra l te ria educação
garantida, podendo até ser m im ado .
M ulheres vítim as e responsáveis, hom ens v iris e irresponsáveis, carid ad e e co n fian ­
ça na P rovidência revelavam tam bém com p ortam ento s religiosos q ue m e deixavam
perplexa. N a B ahía, o catolicism o estava presente em toda parte: nas fam ílias reunidas
para orações, nos freqüentes sin ais-da-cru z, em esperançosos pedido s dc bênçãos, em
novenas e trezenas, em festas, missas e procissões. M as, nas igrejas, h avia p o uca reza e
m uita conversa; as coletas de d in h eiro quase n ad a o b tin h am ; e os hom ens ficavam
todos do lado de fora, no adro. As celebrações do N atal, d a Páscoa, de N ossa Senhora
d a C onceição, do Senhor do B onfim , do D ivin o, de San to A n tô n io e de São João
congregavam — é verdade — m u ita gente, m as eram as únicas com essa característica,
e as pessoas com pareciam m ais por curiosidade que por fé.
A Igreja C ató lica exercera o m onopólio da catequese po r séculos a fio. Q ue dizia
diante de tanta fé dispersa e tão pouco fervor? T eria ela sabido realm en te cristianizar
o povo? Ela se m ostrava in fin itam en te tolerante d ian te de certos com portam entos,
como as uniões livres, atribuídas, não sem razão, à extrem a pobreza e à falta de
instrução. A própria Igreja só instruía, nos colégios e m esm o nas fam ílias, aqueles que
podiam pagar. Eram escassas as bolsas de estudo e quase inexistente a instrução reli­
giosa das crianças m atriculadas.
Apesar de freqüentados por pessoas batizadas, os cultos anim istas pareciam ser
ignorados pela Igreja C atólica, que aparentem ente falhara na sua pregação aos pobres,
junto aos quais as correntes protestantes davam a im pressão de ter obtido sucesso.
M as, sc isso era verdade, sc a Igreja não cum prira sua missão espiritual e não fora capaz
de dissem inar sua doutrina moral, como se podia explicar seu indiscutível prestígio e
seu am bíguo papel na coesão das famílias e da sociedade? Seriam eles decorrentes de
um consenso sempre renovado ou, como no caso dos senhores de engenho, de um
hábil culto ao passado? ’
In t r o d u ç ã o í?

As cam adas superiores da sociedade e as auto rid ad es governam entais precisavam ,


é certo, do aval eclesiástico para ju stifica r alguns com portam entos. A m iséria intelec­
tu al e a in digên cia m aterial im pedem as pessoas de se erguer para além da fé do
carvoeiro, mas ao mesm o tem po freiam certas indignações capazes de destruir eq u iíí-
brios sociais.
A elite da cidade ap aren tem en te se com p ortava conform e as regras da Igreja, mas
esta instituição não despertava u m a v erd ad eira busca esp iritu al. Era decrescente o
núm ero de vocações sacerdotais. P raticam en te nen hum sem inarisra inscrito na U n i­
versidade C ató lica a tin g ia a ordenação. O s m istérios d a existên cia de D eus não pare­
ciam interessar sobrem aneira hom ens ou m u lheres de talen to , e um a v id a espiritual
digna do nom e só existia em algu n s m o steiros, onde estavam reclusos monges ou
m onjas. O m esm o tip o de ig n o rân cia e p atern alism o existente no clero e entre os fiéis
tin h a sido, outrora, d iscu tid o por m im com jesu ítas, b en editin o s e bispos, conscientes
dos anacronism os e das lacu n as de sua Igreja, incapaz de desem penhar seu papel,
congregar o povo de D eus, en sin ar-lh e os m istérios d a fé — e tam bém incapaz de lu tar
contra certos arbítrios d a au to rid ad e civil. A Igreja b aian a criava outros problem as à
m ín h a fé, na esfera das relações sociais. Era an gu stian te não conseguir encontrar
respostas à altu ra. Levei m u ito tem po para co m p reen d er que m in h a reação era a de
um a o cid en tal, u m a estu d an te aco stu m ad a a cam in h ar p ara a frente, construindo um
presente em função de um fu tu ro , e não de um passado. Só depois de dez anos no
Brasil retorn ei à m in h a G récia n a tal, q ue fora ap agad a d a m em ó ria por um a vontade
tenaz de varrer as lem branças dos anos de gu erra. D e repente, ela m e pareceu in fin i­
tam ente próxim a da B ah ia que me ad o tara.
S en tin d o -m e exp atriad a, exp erim en tan d o u m a adaptação tão d ifícil, vivera na
verdade um retorno, u m cu lto ao passado, im ersa em um am biente social cheio de
sem elhanças com m in h a v ivên cia in fan til. M in h a essência grega tin h a inconsciente­
m ente aju d ad o no esforço de to rn ar-m e u m a v erd ad eira b aian a, de um a Bahia
envelhecida, inerte, im óvel, len tam en te adorm ecida, p risio n eira de um passado que
não parecia poder ir em bora. As ladeiras da m in h a Soterópolis davam -m e agora a
im pressão dc um a cidade bom bardeada pelo passado: mansões de dois ou tres andares,
terrenos baldios invadidos por um a vegetação lu xurian te que no entanto mal escondia
as feridas de paredes rachadas, q u e tinh am pertencido — quando? como? — a baianos
abastados. Ao lado, um a casa térrea podia estar m uito bem conservada.
Os ‘sinais* transm itidos por ruelas e praças m ultiplicavam -se em cada descober­
ta de igrejas e conventos abandonados, palácios na C idade A lta, favelas penduradas
em ladeiras íngrem es ou edificadas sobre pílotis no lodo nauseabundo de algum a
enseada do m ar onipresente. Os transeuntes — negros ou menos negros passavam
lentos, indolentes, encarando-m e com olhos penetrantes e interrogativos que m e
causavam m al-estar, A cidade só ficava lúgubre quando, ao chegarem as fortes chu­
vas de inverno, literalm en te afundava na lam a, por horas ou dias. M as, com o sol,
cra bela como uma rainha destronada que não corresse atrás de riquezas perdidas e
IS B a h i a , S f.c u L O XIX

conservasse o porte altivo. O s num erosos bairros residen ciais h ab itad o s por p o p u la
ção abastada — V itó ria, C an ela, G raça ou B atta — não p o d iam co m p arar-se as
m agníficas casas da A venida P aulista ou do Ja rd im E uropa, q ue eu esco rira c
São" Paulo. A qui, quase nada era novo ou realm en te m oderno. P or q ue a fo rtun a
aban don ara essa cid ad e tão orgulhosa?

A H istó ria d o B rasil q u e M e F o i C o n t a d a

Estava d ecid id a a m e in tegrar p ro fu n d am en te e ten tar co m p reen d er sem p reco n ceito s.


M as precisava en co n trar outros pontos de apoio , alem d a in tu iç ã o e do in stin to .
B usquei interlo cuto res baianos, a titu d e n atu ral, porém co n tu n d en te: m in h as p e rg u n ­
tas revelaram -se in d iscretas. As respostas, q u an d o v in h am , eram vagas, in sp iravam -se
no passado c não podiam explicar o presente, tratad o q uase co m o u m ‘a c id e n te ’ e
condenado ao silêncio. A um en to u en tão m in h a cu rio sid ad e, já q uase o b stin ação , a li­
m entada adem ais por u m a form ação em ciên cias p o líticas, eco n o m ia e so cio lo gia.
M ergulhei na h istó ria e reenco ntrei um a vocação q u e sem pre tive.
P ara com preender a B ah ia, estudei h istó ria do B rasil (m ais tard e, en sin an d o -a,
aprenderia m ais). M in h a am iga A dalgisa M o n iz de A ragão era p rim a dc Pedro C alm o n ,
historiador de origem b aian a, que fizera carreira no R io de Ja n e iro . S u a H istória do
B rasil , em cinco volum es, trazia u m a boa síntese do tem a, escrita em estilo elegan te,
às vezes precioso. Foi o com eço de um a v erd ad eira b u lím ía de leitu ras. C alm o n ,
como H élio V ian n a, que 25 anos depois dele ten to u no va síntese n a sua própria
H istória do Brasil, procurava, antes de tudo, fixar o aco n tecim en to , segu in d o assim
um m étodo ‘po sitivista1, caro aos historiadores franceses h erd eiro s dos dois C harles:
C harles-V ictor Langlois e C harles Seignobos. E scrita em 1 9 3 3 , V h istoire sin cère d e la
nation fra n ça ise , de Seignobos, ain d a era, na década de 1950 e no in íc io d a de 1960,
a b íb lia dc alguns historiadores acadêm icos brasileiros, q ue tam bém u tilizavam bas­
tante V in trodu cü on aux étu d es historiq u es , de 1897, escrita por Langlois c Seignobos.
felizm ente, essas obras foram substituídas, em 1 9 6 3 , pela excelente In trod u çã o aos
estudos históricos , dc je an G lénisson, cuja passagem pela U n iversidade de São Paulo
com pletou a dc Pcrnand Braudel e de Emtle Léonard,
Ao colocarem em evidência os acontecim entos e a liderança de atores v is ív e is __
governantes, políticos, classes produtivas ou intelectuais — , essas sínteses são a histó­
ria dc grupos m inoritários, cuja ação e influência aparecem superestim adas. A m u lti­
dão anônim a só adquire existência própria ao agir pró ou contra essas m ino rias
atuantes, em movimentos insurrecionais, ou ao servir de exem plo para que se de­
monstre, de m aneira bem geral, aspectos como a divisão da sociedade brasileira entre
homens livres c escravos. O empenho em fornecer o m aior núm ero possível d c deta­
lhes (rigorosos e corretos) leva a que se apresentem as referência bibliográficas e do­
cum entais de forma fantasiosa c acrítica. Em compensação, aquela história do Brasil
Introdução 19

evidenciava o papel econôm ico e político de certas províncias, como Bahia, Pernam ­
buco, M inas Gerais, Rio dc Jan eiro , São Paulo e Rio G rande do Sul, cujos represen­
tantes — e só clcs —- ocuparam a direção dos negócios de Estado. D urante os períodos
colonial e im perial, as outras províncias só ganhavam expressão própria quando
sediavam acontecim entos m uito precisos (a conquista da A m azônia pelas expedições
paulistas no princípio do século XVII, o estatuto particular das capitanias do Maranhão
e do Grão-Pará nos séculos XVII e XVIII, o papel desem penhado por Goiás na
descoberta e exploração do ouro no século XVIII, os movimentos insurrecionais como,
por exemplo, a C abanada no G rão-Pará e a B alaiada no M aranhão). De resto, tudo
se passava como se a história fosse, nesses locais esquecidos, apenas um pálido reflexo
do que acontecia nas províncias m ais im portantes. É o caso, por exemplo, da Revolu­
ção de Pernam buco, que, em 1824, exerceu influência na Paraíba, Rio Grande do
Norte, C eará c Alagoas. Estas províncias só reaparecem quando perturbam a ordem
pública e am eaçam a u n id ad e n acion al, centrada no Rio de Janeiro. São voluntaria­
m ente apagadas as especificidades regionais, que, de fato, propiciaram a real unidade
nacional, construída na diversidade.
Cronologias, listas de acontecim entos, nom es de personagens importantes —- eis
m inha prim eira colheita, num in ício de aprendizado que se esforçava por ultrapassar,
tão rápido quanto possível, a condição am adora. Novas perspectivas se abriram quan­
do descobri a F orm ação do B rasil con tem p orâ n eo, do pau lista Caio Prado Júnior, publi­
cada em 1942. U m m isto de satisfação e curiosidade nasceu da leitura do austero
prefácio da obra. Não havía ali um a proposta de explicação do presente pelo passado?
Este últim o fincava raízes no século XVIII. M esm o afirm ando que a Independência
tinha sido um m om ento decisivo na evolução social, política e econômica do Brasil,
Caio Prado considerava que a prim eira fase do século XIX só tinha sido importante na
medida em que representara um balanço final da obra realizada por três séculos de
colonização, esta sim apresentada como um a “chave preciosa e insubstituível para se
acompanhar e interpretar o processo histórico posterior e a resultante dele que é o
Brasíl de hoje”. 1 Ao subestim ar deliberadam ente as contribuições da M onarquia
(1822—1889), que criara as bases da unidade e do Estado nacionais, o autor contraria­
va a orientação da m aioria dos historiadores brasileiros da prim eira metade do nosso
século. A época colonial aparecia como o ponto de partida de um processo histórico
cheio de vaivéns. Assim, o Brasil contem porâneo resuhava do “passado colonial, que
se balanceia e encerra com o século XVIII, mais as transformações que se sucederam
no correr do ccnrênio posterior a esse e no atu al”.2
Uma contradição nic intrigou: para ele, as profundas transformações iniciadas
com a Independência não estavam terminadas, mas continuavam até nossos dias.
Afirmava reiteradamente que estávamos diante de um processo inacabado, marcado
por uma dependência econômica dc tipo colonial em relação ao exterior. Era um
desafio, lançado no âmbito da teoria marxista. Que novidades traria para a com­
preensão do Brasil?
* o tornara-se m oda. C ô m o d a m oda: permitia
Lendo teses, descobri que o m ar*^™°as £ at{i d e n tis ta s p o lítico s escapassem de
que historiadores, sociologos, ccon°^? ^ sim ples rein terp retação de dados btbliográ-
aborrecidas pesquisas em arquivos, pois ^ o rig in a l, com características de
ficos já conhecidos perm itia criar urna • accjtação m ais ou m enos garantida
seriedade, solide,, modem,dade e obrettrfo de fa[c>, quase Serapre,

r" “ " * - - * > ,« * - .


E l i S ' r f - ” ” l “ - ' “ *■ N ° “ " ’ • ’ " " " f™ * -
Z a s esboçadas, sem 'forma correrem delineada; lá, apareçam transformações cons-
r L d a s por elementos novos, que apontavam para o progresso. Eu traduz,a aqu, por
Salvador e ‘lá’ por São Paulo, embora reconhecesse, com o autor, que tambem na
poderosa capital do Sul se firzia sentir “a presença de uma realidade m uito antiga que
é um passado colonial”, ^ ^
Outro aspecto sedutor na análise econom ica de C a io P rado era a ênfase na ausên­
cia de uma organização do trabalho e de um m ercado in tern o estru tu rad o s de forma
sólida. N a parte propriam ente social, ele ressaltava o arcaísm o das relações sociais e as
diferenças fundam entais entre as sociedades rural e u rb a n a .3 E stavam presentes ele­
mentos capazes de estim ular m inha im aginação : p o vo am en to , v id a m aterial e vida
social. A bibliografia, não obstante um a apresentação b izarra, m o strava um equilíbrio
satisfatório entre publicações e docum entos de arquivo , em b o ra estes ú ltim o s tivessem
sido com pilados unicam ente na R evista do In stitu to H istórico , G eo grá fico e Etnográfico
Brasileiro e nos Anais da B iblioteca N acional.4
O estudo da obra revelou-se m enos estim u lan te do q ue o Lco n vite à viagem
contido no prefácio. O btive inform ações interessantes na p rim eira p arte, consagrada
ao povoamento, mas nas partes seguintes — v id a m aterial e o rgan ização social — não
encontrei novidade. Pam mim, aliás, a novidade não estava nas posições marxistas do
autor, mas em sua ideologia de aristocrata paulista bem-nascido e sua condição de
mrelecrual brasileiro. Apareciam detalhes - filigranas - que indicavam um profun­
do desprezo por aquela importante parcela do povo brasileiro que não tinha origem
européia ou tinha sancue m esdado r w * • , ■ •
cão corid hrW.l • j ■ * p ágin as co n sagrad as organiza-
çao social brasileira, cerca dc vin te analisavam c <■ * a j . * ■,
_____________ , analIsavam a sociedade escravocrata e sua influência

* «■ *
escravocrata se tornava o insrri.m ' r P,°S'ÇJ° illo só flca teó rica, a estruturi
leira. Aparecia então uma espécie dcTa ^ dc cxPÜeação da sociedade brasi-
sociedade que lamenta J ^ " T " ^
longa, porém necessária, citação- "A e o m r lT ' C mU' ata mi c *lc Bat*a - Desculpem a
formação brasileira é, além daquela e n e r ^ '' UIÇa? d° cscravtl prero ou índio para a
concorrer, e muito, para a no.ssa ‘eulrur^’ 3 cluasc nula. N ão que deixasse de
emprega a expressão; mas é antes uma contr l^ am plo em que a antropologia
da presença dele e da considerável difusão V " '1*™ Passiva- resultante do simples fato
u sangue, que unia intervenção ativa
In trodução 21

e construtora. O cabedal de cu ltu ra que traz consigo da selva am ericana ou africana,


e que não quero subestim ar, é abafado c, senão an iqu ilad o , deturpa-se pelo estatuto
social, m aterial e m oral que se vè reduzido seu portador. E aponta, por isso, apenas
m uito tim idam en te, aqui e acolá. Age m aís com o ferm ento corruptor da outra cultura,
a do senhor branco, que se lhe sobrepõe.” U m a nota com pletava essas afirm ações: “Isto
é, entre outros, p articu larm en te o caso do sincretism o religioso que resultou da
am álgam a de catolicism o e p aganism o em doses várias, que form ava o fundo religioso
de boa parte do B rasil. R eligião neo -african a, m ais do que q ualqu er outra coisa, e que
se perdeu a grandeza e elevação do cristian ism o , tam bém não conservou a espontanei­
dade e a riqueza de colo rido das crenças negras em seu estado n ativo .”5
A lgum as posições d e C a io Prado provocavam m al-estar. M as sua ênfase em dois
fatores — a sociedade escravocrata e a depen dência de tipo colonial — era com parti­
lhada pela q u ase-to talid ad e das obras consagradas ao Brasil. N ão desejo rebaixar a
im po rtân cia desses aspectos, m as destacar que a form a de tratá-los conduzia a um a
interpretação m u ito pobre sobre o futuro do país. A pareciam am bos no contexto de
um m esm o esquem a sim p lificad o r: a C o lô n ia d ep en d ia da M etrópole, o Esrado bra­
sileiro depen dia da E uropa (sobretudo da In glaterra), os negros dependiam dos bran­
cos, os escravos dos senhores, as m ulheres dos hom ens, os senhores de engenho dos
com erciantes, os com erciantes brasileiros do gran de com ércio internacional — tudo
num m oto -con tínuo. É verdade: aq u i e a li as aparências eram levadas em conta,
destacando-se a form a assum id a por certas relações econôm icas ou até hum anas, mas
o conteúdo das análises p erm an ecia frio, im preciso, esvaziado das nuances que, afi­
nal, são a própria essência d a v id a. N en h u m a explicação havia para a perpetuação
dessas inúm eras d ep en dên cias, cujas lam en táveis conseqüências apareciam com tanta
clareza. Q ue jogos as m an tin h am e favoreciam ? A que preço? Q ue vantagens auferiam
as partes envolvidas?
M as a historiografia b rasileira de então não pode ser reduzida a essas duas abor­
dagens {história dos acontecim entos e obras de tese). Em 1960, Sérgio Buarque de
H olanda, tam bém pau lista, abriu novas perspectivas com a H istória g e r a l da civiliza­
ção brasileira, obra coletiva em num erosos volum es, inspirada na H istória g e r a l das
civilizações, dirigid a por M au rice C rouzet. Nossos períodos colonial e monárquico
(1 5 0 0 -1 8 8 9 ) fora m tratados em nada menos do que sete volum es, com divisões
tem áticas que já indicavam grande esforço para renovar profundam ente as formas
de abordar os assuntos.
Com o diz o título geral da obra, ela nao se propôs a ser um a história do Brasil, mas
uma história da civilização brasileira. Apelou, por isso, para disciplinas como antropo­
logia e ciência política e tratou de temas como religião, literatura, idéias, educação e
m edicina, para ficar cm alguns dos mais im portantes. A redação foi confiada a espe­
cialistas quase sempre recrutados no m undo universitário do Rio de Janeiro e de São
Paulo. Reservou-se am plo espaço às fontes prim árias e adotou-se um a visão crítica e
seletiva do m aterial utilizado. O resultado não apresentou grandes vôos teóricos, mas
22 B a h ia , S é c u l o XIX

foi bastante satisfatório. A contecim entos e personagens foram colocados em seus jus­
tos lugares, seguindo um a cronologia bem clara. A pareceu tam bém o contexto inter­
nacional, com destaque para as relações do Brasil com seus p rin cipais parceiros com er­
ciais (P ortugal, Inglaterra, A lem anha, Estados U nidos e França).
A coletânea evidenciava a diversidade do B rasíí, conferindo a cada província um a
especificidade, um a existência própria, pelo menos no período situado entre a chegada
da C orte portuguesa (1 8 0 8 ) e a década de 1850. D epois, prevalecia o esquem a, sólido
e tenaz, do Brasil u n itário . O próprio títu lo do volum e — ‘D ispersão e u n id ad e’ —
sugeria que o estudo in d ivid ualizad o das províncias só fazia sentido duran te o agitado
período de consolidação d a u n id ad e e de organização do Estado nacionais.
Nos países da A m érica espanhola, os processos de in d ep en d ên cia foram incom pa­
ravelm ente m ais dolorosos do que o ocorrido no B rasil, iVIesmo assim , era necessário
evocar aqu i as tentativas às vezes sangrentas de in d ep en d ên cia de certas províncias,
como a Bahia (onde sc travaram batalhas em 1822 e 1 82 3), as revoluções separatistas
do N ordeste (que ocorreram n a época da abdicação de dom Pedro I) e as numerosas
agitações sociais e revoltas de escravos (d u ran te a R egên cia e o in ício do reinado de
dom Pedro II). Ao descrever as am eaças ao Im pério entre 1820 e 1850, os autores
ressaltavam reiteradam ente que o N orte, o N ordeste e o S u l tin h am n ítid a consciência
de sua diferença em relação ao resto do país.
T udo se norm alizou em 1850, mas a u n id ad e nacion al não apagou as diversidades
e particularidades. A in d a hoje, o reconhecim ento m ú tu o entre dois brasileiros ainda
passa por um a pergunta-chave: “de onde você é?” O estado de origem do interlo­
cutor sinaliza, em prin cípio , algum as qualidades e defeitos que se podem esperar dele.
O Brasil é efetivam ente um a federação, e a id en tid ad e de cada um está relacionada
mais a seu estado de origem do que à nação com o um todo.
Os autores da coletânea organizada por Sérgio B uarque de H olanda tiveram o
im enso m érito de não repetir cam inhos am plam ente percorridos, mas seus trabalhos
não provocaram efeitos explosivos e duráveis, sem elhantes aos das teses de C aio Prado
Jú n io r’ c outros autores m arxistas/ O utro grande livro de rese tinha aparecido em
1933: C asa-grande e senzala-, em que G ilberto Freyrefi abordou o sistema patriarcal
brasileiro oriundo das plantações de cana-de-açúcar do Nordeste, fornecendo uma
imagem idílica das relações sociais nele im perantes, particularm ente daquelas que se
estabeleceram entre senhores e escravos. Essa posição suscitou, naturalm ente, polêmi­
cas, interrogações c pesquisas.
Esses temas interessaram a muitos acadêm icos, como os antropólogos Charles
W aglcy (da Universidade dc C olum bia), M elvilte J. Herskovits (da Universidade de
Northwestern) e Rogçr Bastidc, radicado cm São Paulo/ Mestres e discípulos pesqui­
savam o Nordeste, bascando-sc na História econ ôm ica do Brasil, de Roberto Simonsen,
a prim eira síntese sobre a economia colonial. Como Gilberto Freyre e Caio Prado, este
autor também criaria um a escola, graças aos excelentes trabalhos de Alice Canabrava,
Celso Furtado c M ircea Bucscu. 10 Assim, graças à influência de três pesquisadores
lN T R O nU Ç Á O l i

desvinculados do sistem a u n iversitário , o m undo acadêm ico com eçou a abandonar os


vastos esforços de síntese, trocando-os por trabalhos de aparência mais m odesta e
preparação m ais árd u a, trutos de pesquisas m ais sistem áticas, com m anuseio detalhado
de arquivos e crítica de tonres p rim árias c secundárias. As hipóteses precisas, as pesqui­
sas o rigin ais c os m étodos m ais afinados não tardaram a prevalecer sobre o gosto pelas
generalidades, M as, na m aio r parte das vezes, as m onografias perm aneceram prisionei­
ras de um m esm o arcabouço teórico: um esquem a de dependência que lim itava os
temas a serem estudados e em p o b recia as conclusões.
Fato curioso: apesar de bem in fo rm ado s sobre o que se publicava em outros países,
os historiadores brasileiro s não p areciam interessar-se, por exem plo, pelas novas pers­
pectivas abertas por estudos franceses de h istó ria econôm ica, dem ografia e, m ais tarde,
história social e u rb an a. M u ito s co n h eciam as obras de H enri H auser, M arc Bloch e
Lucien Febvre. Eram a in d a m ais num erosos os que se proclam avam alunos de Fernand
B raudel. M as poucos tin h am lid o , por exem plo , Le P o rtu ga l e t 1’A tlantique, de Frédéric
M auro , a in d a in é d ita em p o rtu g u ês, apesar de sua im p o rtân cia e sua relação direta
com o B rasil.
S eja com o for, assistiu -se na década de 1950 u m a efervescência entre historiadores
do Rio de Ja n e iro e de São P aulo. Q u e se passava, na época, em Salvador, cidade
desejosa de ser reco n h ecid a com o cap ital in telectu al do N ordeste?

C omo E sc r e v e r uma H is t ó r ia d a B a h ia ?

Só a produção do cacau e a nascen te in d ú stria do petróleo apresentavam algum dina­


m ism o no p an o ram a eco n ô m ico d a B ah ia. A pesar disso, a vida cultural era m uito
ativa, cen trad a n u m a jovem u n iversid ad e federal, fu n d ad a em 1950. Seu prim eiro
reitor, Edgar S an to s, professor d a F acu ld ad e de M ed icin a, tin h a um espírito aberto e
em preendedor. 11 D u ran te seu rein ad o — sim , tratava-se de um reinado absoluto
foram criados cursos de geo lo gia, b ib lio teco n o m ia, enferm agem , m úsica, artes plásti­
cas e artes cênicas, além de in stitu to s especializados que se tornaram verdadeiros
centros de pesquisa e ensino , com o os de geografia, ciências sociais, lingüística e
estudos afro-o rientais. N um erosos professores foram contratados nos Estados Unidos
e na A lem anha. N ego ciado r arguto, Edgar Santos fez da U niversidade Federal da
Bahia um centro cu ltu ral cujo dinam ism o contagiou e fez reviver algum as velhas
senhoras’, havia m uito adorm ecidas c satisfeitas consigo mesmas, como a Academ ia
Bahiana de Letras, o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e o Instituto Genealógico
da Bahia. Os m em bros dessas casas ilustres eram escolhidos entre médicos, sacerdotes,
advogados, ju ristas, políticos c jornalistas que formavam a intelectualidade local. En­
trar no Instituto G eográfico, por exem plo, representava m eío cam inho andado para a
A cadem ia, num contexto que estim ulava os mestres da bajulação. Não eram, porém,
os únicos personagens presentes nesse cenário; havia tam bém os jovens membros da
u B a h ia , S écu lo X iX

m esm a elite, q u e se com praziam em críticas m ordazes, freq ü en tem en te in ju stas, recu­
sando q u alq u er pro xim id ad e com in stitu içõ es nas q u ais — era claro — ingressariam
m ais tarde. O sonho de todo in telectu al b aian o , honesto ou nâo, co n fo rm ista ou não,
é tornar-se, ele m esm o, u m a in stitu ição . H á um tem po para irreverên cias, m as elas são
erros da ju ven tu d e, necessários e perdoáveis.
A proveitando o clim a estim u lan te criad o p ela ‘F ed eral’ , su rg iu em 1 9 5 6 a U n iv er­
sidade C ató lica da B ahia. O arcebispo local, p rim az do B rasil, passo u a ser o grande
chanceler dessa in stitu ição , cab endo a p rim e ira reito ria ao m o n sen h o r E ugênio de
A ndrade V eiga, dou tor em d ireito can ô n ico pela U n iv ersid ad e G rego rian a de R om a.
Escola privada, m an tid a por ordens e congregações religio sas e por leigos (em grande
parte integrados ao corpo d o cen te), passou a fu n cio n ar à n o ite, p ara propo rcion ar
op ortunidade de educação sup erio r e prom oção social a pessoas já in tegrad as no
m ercado de trabalho. C o b rava an u id ad es m ó d icas, m as, m esm o assim , pesadas p ara os
orçam entos dos m ais pobres.
Estávamos d ian te de u m p aradoxo: ativ id ad es c u ltu ra is florescentes em um a ci­
dade aparentem ente adorm ecida, S eria o p ren u n cio de u m a renovação geral e d u rá­
vel? Em que m edida os historiadores seriam b en eficiad o s em seu ofício específico?
Esta não era p ergun ta sem fu n d am en to : gran d es co n tad o res de estó rias sobre si
mesmos e os dem ais, os baianos têm alm a de h isto riad o res, em b o ra quase n u n ca o
percebam . Esse traço se m ostra, no en tan to , em conversas co tid ian as e em d ocu ­
mentos com uns de arquivo, escritos em prosa en can tad o ra e p ro lixa. Nos alvarás de
libertação de escravos, por exem plo, os senhores co n tam a p ró p ria vida, inclusive
fam iliar, com profusão de detalhes in discreto s, in ú teis do po nto de vista legal. T es­
tam entos e Inventários são verdadeiras estórias de vida, ad m irav elm en te resum idas,
que desfiam problem as e am ores de fam ílias in teiras. T u d o se passa com o se a re­
dação — própria ou, na m aio ria dos casos, feita por terceiros — de um docum ento
legal desse vazão a um desejo de perp etuar a m em ó ria fam iliar e coletiva, conquis­
tando na sociedade, depois da m orte, um lu g ar freq ü en tem en te inacessível em vida.
O u então como sc os testam entos cum prissem o papel de confissões, ajudando o
testador a com preender e ser com preendido, ligando presente e passado, forjando
um a ascendência m ítica, fosse ela portuguesa (para os que faziam questão da raça
branca) ou africana dc sangue real (para os alforriados que reivindicavam origens
nobres). Assim, o ato dc contar para si a própria estória rornava-se ato criador dessa
mesma estória, agora escrita c, portanto, certa.
Às vezes ingênuos, escritos para a fam ília c os am igos, destinados em princípio à
poeira dos tabeliães, esses docum entos legais são verdadeiras peças literárias que ex­
pressam sentimentos profundos. Com pensam parcialm ente a falta de um a literatura
autobiográfica, pois, entre os sóculos XVI c XIX, os que teriam sido capazes de escrever
suas memórias não o fizeram.
I or que faltaram à Bahia escritores desejosos de contar suas vidas? Seriam tama*
n as sua importância, sua evidência, sua fama, que tal iniciativa lhes parecesse indtilí
In t r o d u ç ã o 25

T alvez soasse penosa, para alguns, a necessária evocação de antepassados de pouco


prestígio e o registro de riquezas m uito recentes. Para outros, poderia parecer ocioso
ostentar várias gerações bem estabelecidas e suficien tem ente conhecidas. Resultado: as
antigas elites só com eçaram a registrar sua m em ória fam iliar quando tom aram cons­
ciência da própria decad ên cia. Na década de 1940, estudos genealógicos entraram na
m oda. Pouco a pouco, os baianos aprofun daram a diferença existente entre o que a
riquíssim a lín g u a p o rtuguesa cham a de h istória , baseada em docum entos, e de estória
exposição rom anceada de episódios.
Os novos h isto riado res baianos podem gabar-se de ter predecessores ilustres: a
história do B rasil com eçou a ser escrita na B ah ia, onde Pero Vaz de C am inh a iniciou
com sua carta, a in d a em 1500, um a lon ga lin h ag em . V ieram , em seguida, escrever em
terras baianas os po rtugueses G ab riel Soares de Souza (século XV I), frei V icente de
Salvador e Fernão C ard im (século X V II) e, enfim , A n to n il, Sebastião da Rocha Pita,
J.A . C ald as e Luiz dos Santos V ilh en a (século X V III). No século XIX apareceram
verdadeiros b aian o s, com o Ignácio A ccio li e N in a R odrigues. O utros, em grande
núm ero, escreveram sobre a cap ital, com o F .M . de Goes C alm on , Francisco Borges de
Barros, Braz do A m aral, T heodo ro S am p aio , Frederico E deiweis, C arlos O tt, Affonso
R uy, Luiz V ian n a F ilho, W a n d erlcy de P in h o , Pedro C alm o n e T hales de Azevedo. Os
três ú ltim o s gozam de reputação n acio n al e in tern acio n al. Os institutos de história e
de gen ealo gia reú n em , por sua vez, algum as dezenas de ‘am igos da h istó ria’ e publicam
revistas que trazem co n trib u içõ es essenciais — indispensáveis, m esm o — a um a ‘his­
tória dos aco n tecim en to s’.
C om raras exceções, a história escrita na B ahia está ligada aos acontecimentos.
N ão poderia ser de o u tra form a. O im enso m ovim ento intelectual observado no
fim da década de 1950 entre os historiadores baianos guardou distância de todas as
preo cup açõ es teó ricas e co n c e itu a is im p reg n ad as de ‘so cio lo gism o am ericano ,
‘w eberism o’ e m odism os em geral. O s baianos contem plaram de longe, curiosos e
até desdenhosos, a agitação dos colegas do Rio de Janeiro e de São Paulo, mais
abertos às influências estrangeiras. Sem pre tiveram , é cerro, um a adm iração deli­
rante pela cu ltu ra francesa, mas suas referências eram historiadores como F. Guizot,
A. T hierry, M. Paine c A lphotisc A ulard, cuja H istoire p o litiq u e d e ia R évoíution
Française ainda causava deslum bram entos. E nquanto isso, nas bibliotecas universitá­
rias da ‘ Federal’ c da ‘C ató lica’ adorm eciam , sem nunca terem sido consultadas, a
H istoire génóraie des â vilisa tiom , dirigida por M. Cm uzet, e a R évolution Française, de
Georgc Lcfèbvre!
Os historiadores baianos, como sua cidade, estavam parados no tempo. Com
orgulho, prcparavam-sc para celebrar o IV Centenário da fundação de Salvador, pu­
blicando monografias cheias dc erudição e dc análises minuciosas, à maneira dos
historiadores alemães do século passado.12 A bem da verdade, essas pesquisas eram
verdadeiros tesouros, pois faziam de Salvador a única cidade brasileira a ter uma
história que começava a ser conhecida.
26 B a h ia , S é cu lo XIX

Era uma história m uito ‘colonial’, em que o principal papel cabia ao século XVI.
Mas era solidamente alicerçada em um real esforço de síntese. Às m onografias susci­
tadas pelas comemorações acrescentavam-se numerosas teses, artigos e obras sobre a
história factual do século XVII. O período menos conhecido era entre 1600 e 1750,
ano a partir do qual os arquivos se tornaram mais ricos e os acontecim entos, mais
estim ulantes. Houve publicações sobre a Revolução dos A lfaiates, m ovim ento revolu­
cionário ocorrido em 1798; sobre as guerras de 1822 e 1823, cham adas Guerras de
Independência da Bahia; sobre a Revolta dos M alês, insurreição negra de 1 835; e sobre
a Sabinada, movimento federalista e descentralizador que contestou o governo im pe­
rial em 1837. Obras e artigos eram m uito descritivos e^ em geral, não correspondiam
às promessas contidas nos respectivos títulos. Estavam neste caso, por exemplo,
A p rim eira revolução social brasileira, livro de Afonso R uy de Souza consagrado à
Revolução de 1798, e M alês, a insu rreição da senzala, de Pedro C alm on.
Mesmo quando os historiadores baianos revelavam um a ideologia análoga à das
elites pensantes locais, faltava em seus trabalhos um aparato teórico. Isso m e trazia
vantagens, pois alargava a possibilidade de escolha do m eu próprio cam inho. Nessas
‘histórias dos acontecim entos’, tin h a diante de m im fontes ricas em dados brutos,
aprisionados no entanto por estilos grandiloqüentes ou panegíricos. Talvez aquelas
realidades pudessem ser interpretadas de outra m aneira, mas ísso não tirava o mérito
das narrativas já feitas, excelentes pontos de partida. Era interessante comentá-las
com seus autores, inclusive para garantir o acesso às fontes e ao m aterial histórico,
praticamente vedado a quem não fosse reconhecido como integrante do ‘meio aca­
dêmico’ da Bahia.
M eu encontro com Thales de Azevedo, em 1961, foi decisivo. Professor da Facul­
dade de Letras da Universidade Federal da Bahia, o ‘doutor T hales’ era a figura de proa
das ciências sociais em Salvador, M édico de formação, começou como pesquisador em
antropologia física e sociocultural e colaborou intim am ente com sociólogos da U ni­
versidade de Colum bia (EUA) e com Roger Bastide. Em 1949, publicou Povoam ento
da cidade do Salvador, ensaio que colocou problemas novos, fora dos esquemas factuais,
procurando interpretar a evolução da cidade durante um período bastante longo, entre
os séculos XVI e XIX. Foí dele o prim eiro convite que recebi para fazer uma série de
conferências no Instituto de Ciências Sociais, que ele dirigia, versando sobre... os
regimes totalitários europeus do século XX! Em seguida, foi ele que me recomendou
para um lugar de docente na rccém-críada Faculdade dc Letras da Universidade Ca­
tólica. I oi ele, enfim, que orientou meus primeiros passos e encorajou minhas primei­
ras opções. Nossa amizade, hoje antiga, inuito mc enriqueceu.
A partir de 1963, lecionei história geral conremporânea. Por sorte, ingressei no
magistério superior num momento propício, em que se iniciava uma mudança de
trajetória, decorrente da fundação das duas universidades, que se estimulavam mu­
tuamente, c da democratização do ensino, que crescia junto com o próprio con­
tingente estudantil. Novas escolas aumentavam a necessidade de formar professores.
In t r o d u ç ã o

E os jovens can didato s desejavam conhecer m elhor a ‘realidade social' em senrido


am plo, que englobava o passado e o presente do m undo em que viviam e iriam
trabalhar,
A ‘realidade b rasileira' ocupava um a posição central 110 discurso das elites e nos
escritos eruditos, retorçando a necessidade de se aperfeiçoar o conhecim ento do pas­
sado. O ra. na B ahia, a realidade b rasileira era baiana. Esse m ovim ento descem rali-
zador foi fortalecido pela criação de in stituiçõ es governam entais de caráter regional
& *
como a Su p erin ten d ên cia de D esenvolvim ento do N ordeste (Suden e), e pelo senti­
m ento, entre a ju ven tu d e, de que se fazia uecessária um a ‘descolonização cu ltu ral’
em relação ao Rio de ja n e iro e a São Paulo. E studantes e professores jovens acom ­
panhavam m inhas preocupações, co m p artilh ad as por Jo h ild o Lopes de A thayde (um
baiano que acabara de passar doís anos na França) e István Jancso, paulista de o ri­
gem húngara, trazido da U n iversidade de São P aulo. Os três estávam os influen cia­
dos pela produção da h isto rio grafia francesa nos trin ta anos precedentes, mas tính a­
mos consciência de que essas co n trib u içõ es deviam ser apreendidas no que dizia
respeito aos aspectos m etodológicos e técnicos dc pesquisa. Os pontos de partida e
a definição de problem áticas não podiam ser os m esm os para os dois países. T raba­
lhando juntos, abrindo cam in h o para num erosos estudantes, em preendem os um a
longa e paciente trajetó ria.
A historiografia baiana era m u ito carente e não podia responder às questões que
colocávam os. Exceções: a H istória d e um en gen h o d o R ecôncavo, 1552-1944, publica­
da nesse últim o ano por W a n d erlcy de Pinho e por m uito tem po a m elhor m onogra­
fia brasileira sobre a v id a econôm ica e social de um a plantação açucareira ao longo de
um período de vários séculos; 1-5 e P ovoa m en to d a cid a d e do S alvador, de Thales de
Azevedo. De resto, apesar de u m a profusão de detalhes, os historiadores baianos nos
traziam de volta im agens estáticas de um ‘ novo m u n d o ’ curiosam ente condenado a
um frio im obilism o, a um a v id a socioeconôm ica que parecia seguir sem pre o mesmo
rum o —- e isso não correspondia ao nosso desejo dc construir um a visão dinâm ica do
passado local.
Não éram os nós, historiadores, os únicos preocupados com esse tipo dc problema:
em 1951, o econom ista baiano Róm ulo A lm eida publicara um opúsculo que, reto­
mando informações dadas por (lo c s C alm on num livro já a n tig o ,1^ ressaltava traços
estruturais da econom ia c insistia cm certos aspectos da m entalidade baiana, sugerindo
a existência dos seguintes ciclos econôm icos: cm auge no início do século XIX, em
baixa entre 1 8 2 0 -1 8 4 0 , cm recuperação na década dc 1840, cm ligeira reanimação no
início da década dc 1860, em baixa novam ente até princípios de 1890 e em auge até
o início dos anos 20 do nosso século. M odestam ente, o autor confessava que só quisera
esboçar alguns ‘ traços* da história das crises da Província, tendo em visra chamar a
atenção para a imperiosa necessidade dc em preender uma análise metodologicamente
m ais rigorosa, que perm itisse entender o ‘enigm a baiano’: 15 a Província ‘encolhera no
tem po’, 16 adormecera.
28 B a h ia , S é c u l o XIX

O desafio não era pequeno. Se eu quisesse explicar as descontinuidades e rupturas


apontadas por Rômulo Alm eida, teria que seguir várias pistas e aprofundar as pesquisas.
Era preciso estudar a geografia c o clim a, pois, segundo a literatu ra histórica tradicio­
nal, as crises estiveram ligadas aos ciclos recorrentes da seca e das epidemias, apresentadas
como fatalidades; era preciso que, nos recenseamentos, se calculasse o núm ero de pessoas
e sua divisão por sexo, idade e raça; era preciso tratar da estrutura econôm ica e do
papel, peso e duração das flutuações observadas; era preciso, enfim , conhecer m elhor a
organização social. Tudo isso era preciso, mas não suficiente. A escolha de quatro grandes
temas de pesquisa não excluía a necessidade de estabelecer um a cronologia, pois a
tentativa de com preender tudo ao mesmo tem po tenderia a resultar em generalidades.
Inevitavelmente, o trabalho do historiador é lim itado pelas fontes de inform ação
a que tem acesso. Eu buscava períodos longos. Parecía-m e indispensável quantificar
grandes séries. A docum entação existente em Salvador para o período colonial —
que a tradição situa entre 1549 e 1822 — deveria ser en riq u ecid a por consultas aos
acervos do Arquivo N acional e da B iblioteca N acional, ambos situados no Rio de
Janeiro, e dos arquivos portugueses. M as não havia verbas. T ive que esperar até 1976
para deslocar-me até o Rio, onde pude m anusear a correspondência trocada entre os
presidentes das províncias e o M inistério do Interior, os interessantíssim os dossiês
individuais que precediam a concessão, pelo im perador, de títulos, honrarias e con­
decorações e os acervos referentes à G uarda N acional e às eleições.
Os arquivos de Salvador tinham sido pouco utilizados até então, até porque nosso
trabalho não estava fixado no problem a das ‘origens’ . Ao m esm o tem po em que os
historiadores baianos adquiriam gosto e interesse pela pesquisa, a cidade foi invadida
por um pacífico exército de historiadores norte-am ericanos e ingleses, interessados
sobretudo no período colonial. Eles produziram estudos sérios e úteis sobre a ‘vida
baiana dos habitantes de Salvador e do Recôncavo, áreas que — sediando plantações
de cana-de-açúcar, fazendas produtoras de alim entos e atividades com erciais —
estruturaram a vida econôm ica de regiões do tam anho da França.
Num primeiro momento, decidi fazer pesquisas sobre Salvador e adjacências, cujo
papel fora preponderante em quatro séculos de história da Bahia. D ispunha de fontes
impressas e de acervos datados de 1750 em diante, mas no início não conhecia o
potencial desse material. Foi preciso me fam iliarizar com ele para começar a perceber
a importância dc estudar o século XIX, época em que, a meu ver, a Bahia perdeu a
capacidade dc adaptar-se e crescer. Não se tratava, é claro, de definir limites cronoló­
gicos rigorosos: na verdade, o meu ‘século XIX’ retrocedia a 1750 e chegava à década
de 1930.
De um modo geral, as fon tes impressas (que começam a aparecer na década de
1850) são bastante medíocres. Pude idcnrificar cinco grandes coleções:
- 1. A %falas ou discursos pronunciados pelos presidentes da Província a cada aber­
tura de sessão da Assembléia Legislativa. Fazem um balanço da gestão precedente,
assinalam problemas não solucionados, fornecem estatísticas úteis sobre economia,
Introdução 29

finanças, educação e assistência p ú b lica, mas contêm lacunas im portantes, que


inviabilizam o estabelecim ento de séries.
2. Os jornais. Só o D iário da Bahia foi publicado sem interrupção entre 1833 e
1958- Sua coleção, dispersa em trcs diferentes instituições (a Biblioteca Pública, o
Instituto G eográfica e H istórico e os Arquivos do Estado da Bahia), está cheia de
lacunas, sobretudo no que diz respeito ao século XIX. Entre 1870 e 1900, por exemplo,
faltam dezessete anos. Por isso, tam bém não pude construir séries coerentes a partir
das estatísticas publicadas sobre exportações, tarifas bancárias, câm bio e cotações das
m ercadorias em Salvado r e no exterior (Londres, Liverpool, Lisboa, Le Havre, H am ­
burgo, B rem en, G ênova).
3. A coleção do Banco da B ahia. C o n sultei os relatórios anuais dessa instituição,
fundada em 1858, além de m anuscritos em que estão registradas a correspondência, as
inscrições dos acio nistas, as transferências de ações e as atas dos conselhos de adm i­
nistração, dos conselhos fiscais e das assem bléias gerais. M as, tam bém aí, o século XIX
está m uito in co m p leto .17
4. A coleção da Associação C o m ercial da B ahia. F undada em 1842, só em 1908
a entidade passou a p u b licar regu larm en te relatórios anuais e boletins. Sua documen­
tação geralm ente reproduz dados publicados em outros órgãos, e as estatísticas referen­
tes ao século XIX são relativ am en te escassas.
5. Os relatórios das diversas secretarias de governo da Bahia. N ada resta sobre o
século XIX, com exceção do m aterial do T esouro da Província para os anos 1855,
1856, 1858, 1882, 1884 e 1888, Nos acervos dos A rquivos do Estado da Bahia há
relatórios m anuscritos provenientes de diferentes setores da adm inistração da Provín­
cia (após 1890, E stado). M as essa docum entação não está classificada e não conheço
ainda o período a que se refere.
Exíste um a sexta coleção, pu blicada no R io de Janeiro. Trata-se das Propostas e
relatórios apresentados à A ssem bléia G eral L egislativa p elo s m inistros e secretários dos
negócios da Fazenda, que contêm estatísticas relativas às atividades econômicas do
país a partir da segunda m etade do século XIX. O C entro de Pesquisas da Secre­
taria de Planejam ento, C iên cia e T ecnologia do Estado da Bahia conseguiu reunir
esses dados em quatro volum es, intitulados A inserção da Bahia na evolução nacio­
nal. 1* etapa: 1850-1889.
D iante desse quadro — coleções incom pletas, dados insuficientes tive que
abandonar o sonho de estabelecer um a verdadeira contabilidade regional retrospecti­
va, Apesar da relativa regularidade na publicação dc dados a partir de 1850, as lacu­
nas são numerosas. Há informações sobre os produtos exportados, tanto para o exte­
rior como para outras províncias brasileiras; mas quase não há sobre os produtos
importados, Há alguma coisa sobre o movimento do porto dc Salvador (navegação
de longo curso c cabotagem) c a construção dc redes ferroviárias; mas falram indica­
ções importantes sobre a agricultura e a pecuária, a produção industrial (que já con­
tava com fábricas de sabão, tabaco, cigarros, tecidos e outras), os fluxos comerciais
B ah ia , S éculo X IX
30

dentro da Província e os preços das m ercadorias ven d id as à população de Salvador.


N ada consta sobre a circulação m o n etária, o créd ito , as m o vim en taçõ es de cap itai e
outros pagam entos.
T am pouco obtive resultados do estudo das leis o rçam en tárias, p u b licad as regular­
m ente a partir de 1835 na coleção Leis e resolu ções d a P ro v ín cia d a B ahia (depois de
1889, Estado da B ah ia), pois os orçam ento s estão sem pre eq u ilib rad o s, graças a su-
perestim ação arb itrária das receitas e previsão su b estim ad a das despesas. Q u an d o estu­
dei algum as ‘falas’ de presidentes da P ro vín cia da d écad a de 1 8 7 0 , em q ue apareciam
sim ultaneam ente as despesas previstas e as efetiv am en te realizad as, esse tru qu e ficou
claro. Ele con tinuou a ser usado no século XX. Em 1 9 2 4 , por exem p lo , em discurso
à Assem bléia do Estado d a B ah ia, o go vern ado r Francisco M arq u es de Goes C alm on
declarou que o orçam ento era u m a ficção, pois “se d ista n c ia v a co m p letam en te das
regras da ciência das fin an ças”! 18
Im possibilitada de av aliar essas contas e fazer u m b alan ço , lim ite i-m e a estudar a
evolução econôm ica da B ah ia segundo as estatísticas referentes à sua b alan ça com er­
cial. T am bém desse m odo enfrentava p roblem as: além de in co m p leto s, os dados não
podiam ser considerados precisos, pois os valores co n sign ad o s eram inferiores aos
reais, artifício usado para d im in u ir o p agam en to de im po sto s e tax as, 19
Apesar de tudo, u tilizadas com m u ita cau tela, essas fontes im pressas p erm itiam
obter ordens de grandeza e cap tar co n tin u id ad es e d esco n tin u id ad es. Era preciso
com pletá-las através da consulta a fontes m an u scritas, q u e se to m aram abundantes a
partir de fins do século XVII. O nde en co n trá-las na B ahia? Q u al seu valor para os
objetivos que me propunh a a atin gir?
Em torno de 1965, o A rquivo do Estado da B ah ia era o m ais im p o rtan te. M as era
apenas um depósito, nada m ais do q u e isso (até hoje é m ais um abrigo de arquivos do
que um local de pesquisa: não há guias ou catálogos q u e o rien tem o pesquisador). Ali,
só os volum es encadernados foram classificados. O resto d a docum entação estava
em brulhada em papel pardo cu idadosam en te am arrad o , com título s que freqüente­
mente discordavam do conteúdo. Por exem plo, os cham ados ‘recenseam entos’ conti­
nham exclusivam ente a correspondência trocada entre os agentes dos recenseamentos
do século XIX; o pouco que sobra do recenseam ento de 1855 estava arquivado sob o
título geral de qualificação dos eleitores’, onde tam bém apareciam listas eleitorais e
correspondências diversas.
A seção d ita h istó rica’ estava m ais bem organ izad a, graças ao esforço de historía-
ores que haviam trab alh ad o com certas séries, co m o aquelas que co n têm as cartas
régias, a correspondência dos antigos g overn ad ores e presid en tes da P ro vín cia ou as
referências aos tu m u ltos c revoltas baianas en tre o fim d o século X V U I e 1 8 4 0 . Nas
seções judiciária e ad m in istrativa reinava gran d e d esordem , com exceção de um a pe­
quena série, a do p rim eiro recenseam ento das terras agrícolas da Bahia, realizado entre
1 8 5 2 e 1 8 6 0 e u tilizado até h oje para estabelecer algum as escrituras e resolver p en d ên­
cias em to rn o de títu los con testad os.20
In t r o d u ç ã o 31

D=Po ,S de consu tar cenrenaa de em brulhos e maços de papéis, re sin e i-m e a


concentrar meu trabalho em séries um pouco m ais organizadas, como a dos inventá-
r,os post mortem (guardados na form a de m aços), a dos testam entos (que formam 64
espessos volum es) e a das noras e escrituras (m inutas cartoriais). Além de im ediata­
mente acessíveis, as três series perm itiam docum entar um período bastante longo,
apresentando lacunas menos im portantes do que os recenseamentos e as listas eleito­
rais, Elas não com eçavam , no entanto, no mesmo m om ento. Os livros de notas e
escrituras contêm um a rica serie de 1.100 volum es, produzidos regularm ente entre
1664 e 1914, registrando em ordem cronológica um am ontoado de atos sobre im ó­
veis, hipotecas, aluguéis de todos os tipos (de im óveis, de m ão-de-obra escrava, de
propriedades rurais etc.), doações, cessões e transferências de bens, certidões de ado­
ção e de reconhecim ento de paternidade, contratos nupciais, cartas de alforria e as­
sim por dian te.
Ricas pela diversidade de sua docum entação, essas m inutas cartoriais nem sempre
apresentam dados hom ogêneos e passíveis de quantificação, a não ser nos casos das
cartas dc alforria. D ois exem plos — os contratos de venda ou locação de imóveis e os
contratos nupciais — bastam para dem onstrá-lo. Os prim eiros às vezes fornecem a
superfície ocupada pelo im óvel, às vezes apenas os nomes das casas vizinhas. O núm e­
ro de andares dos sobrados quase nunca está indicado, dificultando a avaliação do
valor da transação efetuada; a idade e a qualificação dos contratantes nunca são men­
cionadas. No outro caso, trata-se de certidões — verdadeiros contratos legais — que
atestam o recebim ento, por um a m ulher, de um dote de sua fam ília ou de seu futuro
esposo e estabelecem o regim e de bens e as regras de sucessão no caso de falecimento
de um cônjuge. E m bora não possam ser quantificados, os dados contidos nesse tipo de
docum ento não deixam de ter algum interesse, pois deixam entrever a trama de rela­
ções sociais e num erosas facetas do com portam ento e da m entalidade dos baianos.
Os livros de tabeliães cobrem um período de mais de duzentos anos, mas as séries
de testam entos e inventários só se tornam estatisticam enre interessantes no século
XIX. Seus dados tam bém não são quantificáveis e o penodo contemplado acaba por
reduzir-se a 1 8 0 0 -1 8 9 0 , fora do qual não encontrei nenhum a contribuição importan­
te nos Arquivos do Estado da Bahia. Examinei m etodicam ente três acervos ali guarda­
dos: o Registro d e testam entos da con tadoria da Caixa P rovin cia l (21 volumes, 183/ —
1891), onde aparecem apenas cláusulas testam entárias concernentes aos herdeiros que
pagavam impostos de sucessão; a série Guarda N acional, instituição param ílitar fun
dada cm 1831; c a Q ualificação d e votantes , que, enrre outros documentos de caráter
adm inistrativo, contém listas eleitorais.
No Registro aparecem informações complcmentarcs àquelas fornecidas pelas series
dos testamentos e inventários post mortem. Nos outros casos, tem-se informação farta,
preciosa c rara sobre a população livre (nomes, prenomes, idades, profissões e rendas
anuais, reaís ou presumidas). Essas duas últimas séries teriam dado importante contri­
buição à história econômica e social se contivessem documentos referentes à cidade de
32 B a h ia , S é c u l o XIX

Salvador. M as, para m inha decepção, isso ocorre de modo esporádico e, mesmo assim,
apenas nas listas eleitorais. Só na Q tialificação d e votantes encontrei restos do recen-
seamenro de 1855, concernente à capital.
Também consultei outros acervos, mas sua enum eração seria entediante. Fica o
leitor convidado a consultar as referências que se encontram no final deste livro.
Apenas duas séries apresentaram as condições necessárias para servir de base à quan­
tificação estatística: os inventários p o st m ortem (1 8 0 0 -1 8 9 9 ), que perm itiram um
estudo sobre as fortunas, e as cartas de alforria (1 7 4 9 -1 8 8 8 ), que possibilitaram le­
vantar a que preço, no sentido próprio e no figurado, os escravos conquistavam a
liberdade. No âm bito dessa pesquisa, no entanto, não valorizei apenas os dados que
podiam ser quantificados. A leitura de centenas dc inventários p o st m ortem , milhares
de testamentos e outras tantas cartas de alforria me esclareceu comportam entos de­
term inantes das relações sociais, acim a das divisões devidas às diferenças de raça,
cor e fortuna. Apareceram os principais traços da m entalidade dos baianos. Justa­
mente porque não pôde ser quantificada, essa parte da história — que não deixa de
ser um a história dos acontecim entos — enriqueceu singularm ente m inha compre­
ensão do passado.
É cruel a ausência de guias e catálogos nos A rquivos M unicipais de Salvador e no
Arquivo do Estado da Bahia, cujos acervos são m uito ricos mas, com exceção dos
volumes encadernados, não estão catalogados. Até 1969, a m unicipalidade de Salva­
dor publicou numerosos docum entos, referentes apenas ao período colonial, agrupa­
dos sob o título geral de D ocum entos históricos do A rquivo M unicipal. A série mais
importante é a das Atas da C âm ara, m inutas das reuniões do Conselho M unicipal,
publicadas em sete volumes que saíram entre 1941 e 1969, cobrindo um período que
vai até 1710. Faltou verba para prosseguir o trabalho. Embora a coleção manuscrita
dessas atas esteja com pleta, não a utilizei,
Toda a documentação referente à vida econôm ica e social da cidade — que, como
pude constatar, cobre o período de fins do século XVIII a fins do século XIX — estava
amontoada no chão de um depósito que visitei em 1979. Não sei dizer se já recebeu
destino melhor. Na ocasião, desisti de utilizá-la, pois qualquer tentativa nesse sentido
demandaria esforço insano; um a prim eira classificação exigiria vários anos de trabalho.
Mas reservei a série Escrituras de escravos (1847—1887), organizada em forma de vo­
lumes e formada por documentos relativos à locação de serviços da mão-de-obra
escrava. Além disso, alguns aspectos da vida com unitária de Salvador ficaram mais
claros depois da consulta a um volume manuscrito — o único que pude localizar —*
da coleção intitulada Livro d e posturas m unicipais (1829—1859).
Os arquivos da Santa Casa da M isericórdia, bem conservados, apresentavam dois
acervos principais: documentos referentes à administração geral dessa instituição e
documentos contábeis. Estes últimos me interessavam muito, pois essa confraria leiga
possuía um hospital desde a época de sua fundação (1550), cuidara por muito tempo
de crianças abandonadas e, no início do século XVIII, criara um asilo para mulheres.
Introdução

Pegue, im ediatam enre os L.vros d e receita e despesa, cuja série começa no fim do século
m“ . l0gO ':er; rKl UCÍ su“ informações eram muiro gerais, limitando-se às
somas totais recebidas c gastas pela instituição. Referências constantes a maços' insi­
nuavam que essas contas sc baseavam em documentos que não constavam do resumido
catalogo manuscrito que eu consultara, nem tampouco estavam na sala dos arquivos.
Só os encontrei no sótão dc um belo casarão do século XVII. Eram milhares de
páginas, com prim idas um as às outras e am arradas com barbantes. Para retirá-las dc iá,
tive que u tilizar um a escada de pintor e, para consultá-los, foi preciso lim par uma
poeira, literalm en te, de séculos. V aleu a pena. Excetuando-se a década de 1830, cujos
dados não pude encontrar, esses docum entos forneceram regularm ente, para um pe­
ríodo de duzentos anos (1 7 5 0 a 1950), os preços mensais dos gêneros consumidos no
hospital e no asilo e as diárias cobradas pelos diversos artesãos encarregados da manu­
tenção ou de obras. A ssim , pude finalm ente estabelecer séries de preços (que cobrem
180 anos) e de salários (até 1829).
Para co n tro lar esses dados, recorri em seguida ao arquivo do Colégio dos Órfãos
de São Jo aq u im , fundado em 1826. Sua docum entação só se tom a realm ente sistemá­
tica a partir de 1840, form ando um a série m enor que a anterior. Mesmo assim, pude
perceber que os preços dos produtos alim entícios tinham , nos dois casos, a mesma
ordem de grandeza. Para o período posterior a 1840 tom ei como base os dados obtidos
com o estudo dos salários de algum as categorias de artesãos.
M inh as pesquisas nos arquivos baianos se encerraram aqui. Aliás, só puderam ser
realizadas graças à cu m p licid ad e dos diretores dessas instituições, aos esforços de diver­
sas categorias de funcionários e, sobretudo, a dezenas de estudantes voluntários, que
me ajudaram a lim p ar a poeira, classificar e copiar textos, chorando junto comigo a
destruição in vo lu n tária de alguns. Parcialm ente devorados por insetos, danificados
por tintas m uito ácidas, feitos com papel concentrador de um idade, vários documen­
tos se tornavam inutilizáveis depois da prim eira m anipulação.
Exam inam os cerca de quarenta m il docum entos para estabelecer nossas séries de
preços e salários; temos e resumimos 3.468 testamentos e 1.115 inventários j>ost mortem*
transcrevemos m ais dc dezesseis m il cartas de alforria. Não é preciso mencionar todos
os outros docum entos consultados sem resultados. Foram incalculáveis as horas gastas
nos arquivos citados e em outros, como os dos conventos do Desterro, do Carmo, de
São Francisco e de São Bento, que nada acrescentaram à nossa pesquisa.
Agora, com distanciam ento, que balanço posso fazer desse trabalho que, entre
1965 e 1980, consumiu milhares de horas em bibliotecas e arquivos? Consegui atingir
minhas metas? São perguntas que exigem uma avaliação de conjunto. Não tra ei
sozinha. Colegas meus, historiadores, concentraram-se em períodos diferentes e utili­
zaram outros acervos. Geógrafos, sociólogos c economistas conjugaram esforços, que
resultaram em certo número de teses c estudos, disponíveis desde fins da década de
1970, O que foi possível descobrir sobre as condições demográficas, econômicas e
sociais de Salvador e do Recôncavo?
B ahia , S éculo X IX
34

A pesquisa em dem ografia h istó rica resultou n u m a tese de terceiro ciclo , defen di­
da por Jo h ild o Lopes de A thayde em Paris. Ele analisou as onze p aróquias existentes
em Salvador no século XIX (1 8 0 0 -1 8 8 9 ), p artin d o de registros — tam bém inco m ple­
to s guardados nos arquivos da C ú ria M etro p o litan a. Pôde eviden ciar as três variáveis
já clássicas — nascim entos, casam entos e m ortes — segundo a m etodo logia proposta
por Louis H enry. A pesar de seu caráter um pouco geral, esse estudo con tém algum as
análises interessantes, centradas na p aróquia da Sé, a p rin cip al da cidade. As informações
disponíveis p erm itiram que o auto r analisasse o celib ato , a fecu n d id ad e e os problem as
ligados aos filhos ilegítim o s e às num erosas ep id em ias q u e assolaram a cidade em
m eados do século. É um trabalh o de gran d e m érito. M as não com p orta nenhum a
distinção no que diz respeito às condições legais (hom ens livres e escravos), à cor
(brancos, negros, m ulatos, índio s, caboclos), ao sexo ou à id ad e das pessoas. L am en­
tavelm ente, outros jovens historiadores n lo co n tin u aram essas pesquisas,21 A ssim , apesar
da nova visão que essa obra forneceu sobre certos aspectos demográficos da cidade de
Salvador, ain d a tivem os que usar an tigas avaliações sobre a p o pulação b aian a (até
1870 ) e esm iuçar os recenseam entos oficiais realizados a p artir de 1872.
Já é quase certo que a falta de fontes p rim árias im p o ssib ilitará grandes estudos
m acroeconôm icos e pesquisas m icroeco nô m icas precisas sobre a B ah ia do século XIX.
Os proprietários agrícolas — senhores de engenho ou sim p lesm en te fazendeiros — ,
as casas com erciais, as in dú strias e os bancos não conservaram seus papéis. N ão exis­
tem mais os livros de razão, as contas e a correspo ndên cia datados de antes de 1870.
Os posteriores, se escaparam às destruiçoes (sistem áticas ou inconscientes), perm anecem
cuidadosa e volun tariam ente escondidos.
Da m esm a form a, parece que será im possível m o n tar novas séries im portantes,
relativas à produção total, aos intercâm bios com erciais (realizados dentro da Província
ou com outras províncias), aos custos da produção, aos preços de bens de consum o
e de serviços, às emissões e à circulação m onetárias, aos m ovim entos de capital etc.
A reduzida docum entação estatística — que p erm itiu m o n tar séries incom pletas e com
poucas variáveis — foi pacientem ente reu n id a e p u b licad a pelo C entro de Pesquisas da
Secretaria de Planejam ento do Estado da B ah ia.22 A parte m ais antiga dessa docu­
mentação data da decada de 1850. Para os períodos anteriores, precisam os nos conten­
tar com dados m uito restritos, relacionados ao com ércio e à navegação. Nesse âm bito,
a tese da historiadora norte-am ericana C atherin e Lugar dá um a boa contribuição do
ponto de vista estatístico.25
Consegui enriquecer as séries referentes às variáveis econôm icas, agregando a elas
cinco outras séries: a dos preços de alguns gêneros alim entícios no m ercado de Salva­
dor ao longo de quase dois séculos ( 1750—1930); a dos preços da m ão-de-obra escrava
(1819-1888); a dos salários de algum as categorias de artesãos (1 8 0 0 -1 8 8 9 ); e a das
fortunas dos habitantes de Salvador (1 8 0 0 -1 8 8 9 ).24 Pobre diversidade de dados no
campo econômico, que só perm ite demonstrações lim itadas a ordens de grandeza e
aseadas em fontes freqüentemente restritas; e que induz o historiador a trocar a
In t r o d u ç ã o

hisrória econôm ica em sentido estriro por uma história mais social que econôm ica. Foi
este o meu caso, sem elhante ao de numerosos colegas que trabalham com a Bahia.
Se a escassez, de fontes justihea um certo desinteresse pela história econôm ica, não
se pode dizer o mesmo no que diz respeito á dem ografia histórica, tema fundam ental
em m atéria de hisrória social. 1 cria sido necessário fazer um esforço para estudar, pelo
menos, uma paróquia, registrando as curvas de nascim entos, casamentos e mortes,
analisando o celibato e a íecundidadc, aprendendo, cm sum a, métodos e técnicas que,
por hdta de um a formação correta, não chegaram a inreressar aos jovens historiadores
batanos. Esres preferiram tem as que pudessem ser pesquisados cm documentação
menos árida e mais acessível e que apresentassem resultados mais sugestivos, mais
im ediatos e m ais espetacu lares. O desenvolvim ento de um a história social não
demográfica tam bém correspondia a necessidades im ediatas. U m a curiosidade im pelia
os pesquisadores a tentar com preender m elhor a organização social de Salvador, seus
conflitos e acom odações, dentro de um a problem ática que, m uitas vezes, desembocava
em hipóteses de trabalho cujos pressupostos teóricos — como, por exemplo, a luta de
classes, mesmo sem con sciên cia de classe — podem trazer um a preciosa contribuição
à historiografia.
D istanciados das grandes preocupações teóricas, concentrados sobretudo no pe­
ríodo colonial, os historiadores ingleses e norte-am ericanos continuavam suas pes­
quisas, m etodologicam ente sólidas e extensam ente docum entadas, que tinham como
eixo a história social de Salvador e do Recôncavo. M in h a história social do século
XIX encontrava, assim , suas bases no tem po. N a verdade, várias vertentes enrique­
ceram m eu conhecim ento: a indispensável historiografia tradicional, a nova produ­
ção histórica baiana, a con tribuição norte-am ericana e inglesa e os numerosos estu­
dos consagrados à B ahia pelos franceses Roger Bastide e Pierre Verger. Mas meu
trabalho não é a som a destes. De um lado, dediquei-m e a um a problem ática resul­
tante de m inhas próprias perplexidades e de trin ta anos consagrados a observar Sal­
vador, que passou rapidam ente, dian te de meus olhos, de sciscentos md a dois m i­
lhões de habitantes e do im obilism o à m odernidade; de outro, fiz pesquisas próprias.
A abordagem que apresento aqui é, inclusive, diferente da que aparece cm minhas
publicações precedentes.25
M inha pergunta básica há alguns anos se resumia em algo bastante simples: por
que e como a orgulhosa capital da opulenta Bahia do fim do século XVIII, dominada
pelos ricos senhores dc engenho do Recôncavo, conhecidos até na longínqua Europa,
transformou-se lentam ente, até se tornar, ccm anos depois, numa simples cidade de
negociantes? Note-se que a transferência da capital do Brasil, em 1763, de Salvador
para o Rio dc Janeiro, nao correspondeu a um a tomada de consciência do progresso
do Sul ou dc uma decadência qualquer do Nordeste. Tal medida foi imposta unica­
mente por necessidades im ediatas: aproximar o centro de comando e os exércitos que
lutavam no Sul conrra os espanhóis e vigiar melhor o porto do Rio, por onde passavam
as exportações de ouro dc M inas Gerais, Mato Grosso e Goiás.
36 B a h ia , S é c u l o XIX

Ao examinar aquela transformação desde um ponto de vista que privilegiava o


fator econômico sobre o social, encontrei respostas que me abriram novos horizontes,
pois apareceram problemas básicos que não consegui solucionar. C oncluí então que,
primeiro, era preciso desvendar a tram a social da Bahia, resultante de encontros de
homens e de etnias, de tradições e de crenças, de costumes e de m entalidades comple­
tamente opostos na aparência. Respondi algum as dessas perguntas, mostrando o papel
desempenhado pela fam ília e as confrarias religiosas que restringiam as relações sociais
e, no entanto, eram centros de solidariedade. M as essas pesquisas repousavam em
bases frágeis, e o solo sob meus pés nao era firm e o bastante para que eu pudesse
avançar com segurança em direção a um a boa explicação.
Era preciso encontrar respostas e aprofundar m inhas análises, de modo a fazer
sobressair mais claram ente as estruturas e hierarquias, o papel das elites, dos ricos, dos
pobres, dos livres e dos escravos, o lugar da Igreja e o peso da explosão demográfica.
Relações sociais aparentem ente tão pouco conflitantes e solidariedades que, de fora,
pareciam tão harmoniosas e sólidas revelariam suas falhas e sombras? O u estas falhas
e sombras tinham encontrado um equilíbrio estável, am arrado a ponto de não deixar
espaço para nenhum a evolução verdadeiram ente construtiva?
Admitamos que se demonstrasse correta a hipótese da im agem associativa da
sociedade baiana — um a sociedade na qual uns dependem dos outros e cada grupo se
integra conforme pertença ao m undo dos livres ou dos escravos, ou ao m undo dos
brancos, dos negros ou mulatos. Nesse caso, a qualidade dessas relações sociais poderia
ser reveladora de estruturas mentais em que os preconceitos e a m em ória coletiva de
todos teriam desempenhado um papel conservador? Essas características das m entali­
dades poderiam ter funcionado como freio ao surgim ento de novas elites, como aque­
las que, nos diversos patamares da escala social, im pulsionaram a Europa O cidental e
a América do Norte? Em outros termos, essas solidariedades tutelares e benfazejas, que
produziram as dependências, teriam sido um obstáculo ao aparecim ento de elites mais
empreendedoras? Poderíamos explicar a decadência da Bahia pela profusão de ‘mimos’
herdados da tradição portuguesa, ou então por uma contribuição africana esclerosada
pelo sistema escravocrata, que a teria impedido de explorar sua força e suas riquezas?
O Estado e a Igreja teriam contribuído para reforçar esses laços de dependência,
asfixiando as ações individuais e a dinâm ica social?
Questões essenciais, que não deviam ser colocadas no âmbito da história de uma
cidade, ou de uma cidade e sua hinterlândia, mas no da hisrória de toda uma imensa
Província. Aliás, se os homens da capital e do Recôncavo se voltam para o oceano sem
fim, eles também contam com os vastos recursos do Agreste e do Sertão, regiões cujo
desenvolvimento histórico foi ainda menos estudado do que o das terras litorâneas.
Aínda na década dc 1950, os baianos estavam convencidos de que o solo do interior
era constituído por massapês fartos e férteis, embora não fossem nem tão fartos como
íziam os antigos proprietários de plantações de cana-de-açúcar, nem tão férteis quan­
to esejava o imaginário local, que transforma os sertões em reservas de miragens.
IS*T R 0D I'Ç \0 57

Na medida do possível, tentei ligar o mundo urbano ao mundo rural, relacionar


Salvador — porco e cidadc-jardim — ao interior, próximo ou longínquo, vasta reser­
va, jamais esquecida, percorrida para l i c para cá por homens, anim ais e mercadorias.
O estudo geográfico d ‘ Or dons e as arm adilhas da naturezit {Livro I), assim como a
tenrativa de captar O p eso dos hom em na demografia regional e na estrutura e vida
d 'd fam ilia ha ia na (Livros II c III), atendem a esse imperativo, Da mesma forma, nos
Livros I\ e \ , m inhas descrições d O hstado: organização e exercício dos poderes e das
expectativas d A Igreja, através do clero e dos fiéis, adotam alternativamente o ponto
dc vista do provincial e do ciradino. Q uando abordo O cotidiano dos hom ens que
produziam e trocavam ou estudo O dinh eiro dos baianos , meu trabalho fica mais cenrrado
em realidades que o grande porto-capital e seus habitantes conhecem melhor. Mas,
sempre que possível, enveredei pelo cam inho das plantações e realizei sobrevòos, para
tentar mostrar as diferenças entre terras do litoral e do interior,
Apesar de alguns títulos enganadores de trabalhos que constam da bibliografia,
não há nenhum a história de cidade brasileira. Neste livro, espero que seja possível
descobrir a história de Salvador, núcleo forte em torno do qual se desenvolveu toda
uma Província. Um a história que tem lim ites cronológicos precisos entre os anos de
1800 e 1889 (Proclam ação da R epública), mas que perm anece profundamente enrai­
zada no passado colonial dos séculos XVI, XVII e XVIII. Para compreender o Império,
tentei captar a herança colonial com ida nas leis, na formação das elites, na Igreja.
Tam bém pude seguir as trajetórias pessoais de uns seiscentos personagens (altos
funcionários, integrantes do alto clero, negociantes e senhores de engenho). Consegui,
sobretudo, contar m uitas histórias de vidas hum ildes. Q uantifiquei o que foi possível,
propus gráficos, mas, pela variedade das situações retratadas, quase todos os casos são
exemplares, no sentido qualitativo do termo. Registro, aliás, que muitos dados que
forneço resultam de elaborações sim ples, que não contêm generalizações, nem consti­
tuem tentativas de estabelecer modelos alicerçados sobre as bases frágeis de uma docu­
mentação que, como disse antes, apresenta lacunas.
No estudo dos preços praticados em Salvador, evoquei estudos equivalentes, rea­
lizados no Rio de Janeiro. Foi exceção. No m ais, não quis ultrapassar os limites da
Bahia, para aprofundar m elhor o m aterial de que dispunha e não comparar pesquisas
quase sempre incom pletas e em preendidas de maneira desigual. Os estudos demográ­
ficos, por exemplo, estão m uito mais adiantados cm estados do Sul do que na Bahia,
para a. qual só consegui elucidar algum as questões. Ein contrapartida, até hoje a Igreja
é tão mal estudada ali quanto nas outras regiões do Brasil. Tentei não eludir nenhum
aspecto dos graves problemas encontrados por populações de origens tão diversas e por
um clero tão dividido entre, dc um lado, as exigências da hierarquia ou do Estado e,
de outro, ovelhas cuja fé vibrante talvez não compensasse seu analfabetismo. Uma
parte desse clero está tão próxima dc seu povo, enquanto outra parte é tão diferente
dele! Como poderia orientar-se uma Igreja prisioneira de modelos europeus? Sua linha
pastoral saberia corresponder ás expectativas de seu rebanho?
B ah ia , S éculo X I X
38

Perguntas, entre centenas de outras. T odas as m inhas interrogações m e im peli­


ram, finalm ente, para o estudo do dinheiro dos baianos, tem a que pude aprofundar
graças à m oderna inform ática. O nde podem os encontrar esse d in h eiro, indispensável
para a sobrevivência? Foi ele a base das estratificações sociais? A evolução das fortunas
de Salvador perm itiria m elhor form ulação de nossas perguntas iniciais, revelando uma
pobreza tranqüila, que se deixava em balar p or uma riqueza solidária?
No início, meu objetivo era am bicioso. M u ito am bicioso. Espero que não se
tenha revelado pretensioso. O xalá tenha conseguido, antes de mais nada, fazer reviver
essa população anônim a e cativante, cujos filhos e netos me acolheram na Bahia
dos anos 50.
LIVRO I

Os D ons e as A r m a d il h a s
da N atureza
CAPÍ TULO 1

A B a h ia

Bahia? A cidade ou a Província? É im possível escapar dessa am bigüidade. C om efeito,


quando A m érico V espúcio deu o nom e de São Salvador da B ahia de Todos os Santos
à baía que acabara de descobrir, tin h a sim plesm ente a intenção de hom enagear o dia .
de Todos os Santos de 1503 e de agradecer a C risto a feliz travessia e a descoberta de
um porto m agnífico onde poderia, ao abrigo dos ventos e das vagas, descansar e
reabastecer-se de água.
Desde então, a C a p ita n ia — que se tornou Província com a prim eira C onstitui­
ção brasileira (1 8 2 4 ) e depois Estado com a R epública (18 89 ) — sempre se chamou
Bahia. M as, até o fim do século passado, sua cap ital teve, sim ultaneam ente, sete
denom inações, resultantes de com binações das oito palavras contidas em seu nome
de batism o: São Salvador, Salvador, Salvador da B ahia, B ahia, Bahia de Todos os
Santos e, enfim , São Salvador da B ahia de Todos os Santos. H oje, as adm inistrações
"V
sim plificadoras decidiram que a cidade se cham a Salvador. M as seus habitantes nun­
ca deixaram de cham á-la B ahia. A ^
Salvador se ergue com arrogância sobre um a costa rochosa, verdadeiro prom ont ó - . C .,
rioxom setenta metros dc altura, que fecha e dom ina um a am pla baía semeada de ilhas j
c ilhotas. N o início do século passado, era a vitrine das riquezas e misérias de u m ) í
imenso Interior ainda mal conhecido. Lisboa tentava im prim ir seu ritmo a Salvador, 'y ; Ç
mas a cidade perm anecia, essencialm ente, a voz c os olhos de uma região tão vasta ) ^
quanto a França. O crescim ento da cidade foi fruto de uma tríplice bênção: um local ?
protegido em uma baía segura, larga e profunda; umajhinrerlândia próxima, o Recôncavo :
que envolve a cidade c que foi por cia gerado; enfim , as imensas possibilidades das ^
terras tropicais situadas enrre 1 0 o c 18° de latitude sul. É mister descrever os espaços j
físicos, os climas e as vegetações naturais da região, para tentar compreender que
riquezas ela foi capaz dc prometer, que vida pôde oferecer c a que preço.
A época das trilhas c dos atalhos, em que as distâncias eram calculadas em dias de .
marcha, perm itiu que se conhecessem as formas e paisagens. A rapidez dos transportes

41
42 B a h ia , SC c u l o X I X

ferroviários ou do automóvel poderia ter suscitado e favorecido pesquisas realmente


novas. Mas, ate data relativamente recente, não se fez nenhum esforço profundo no
, sentido de compreender a geografia dos sítios. O que se ignorava em 1930 era seme-
; lhante ao que se ignorava em 1830, época cm que só se conheciam as terras percorridas
;o u ocupadas. O mistério começava onde acabavam a via férrea, as terras cultivadas, o
pasto e o horizonte que o homem descortinava de um a colina. O baiano do século
passado tinha total consciência desse desconhecimento, porque vivia preso à terra, ao
ritmo das estações e a uma perpétua tentativa dc se adaptar àquela gleba, da qual era
preciso retirar alimento e vida.
Hoje, graças ao radar, a Bahia está sendo explorada do alto dos céus, em busca
das riquezas minerais que encerra e de explicações para suas formações geológicas.
Seus solos, já analisados, são pobres em sais m inerais e em cálcio. Esses estudos
demonstraram os abismos de nossa ignorância no que diz respeito à história morfo-
lógica da região e a insuficiência de nossos conhecimentos em relação às mil e uma
facetas de seus climas. As riquezas de sua flora já foram descritas há m uito tempo,
mas o porquê e o como do êxito de tal ou qual cultura ainda são objeto de estudos
em laboratório. É com o apoio dessas novas pesquisas que se tentará descrever e
compreender as terras do interior, que perm itiram o desenvolvimento e o cresci­
mento da cidade de Salvador.
A Salvador dos séculos passados não foí a aranha que teceu a teia de sua Província.
Foi, antes, boca e desembocadouro, base e refúgio. Da cidade — mais precisamente,
dela e de seu Recôncavo -— partiam os principais caminhos e as ordens dos poderosos,
funcionários ou grandes comerciantes. Unidas, im bricadas, as duas áreas sempre for­
maram um todo, enfrentando juntas quaisquer circunstâncias. Como o Recôncavo
está voltado para o mar, sua orla e seus rios foram a própria vida da Província. Daí, o
grande peso que lhe deve ser atribuído ao descrever-se a Bahia como um rodo; daí,
também, sua importância na descrição do meio natural da região.

A C idade

Scntineia avançada da Bahia de Todos os Santos, entende-se por Cidade da Bahia,


/ neste trabalho, aquela que se situa dentro dos limites do atual município de Salvador.5
j A leste, esses limites partem da praía oceânica de Ipitanga; ao norte, atingem o fundo
da baía de Aratu. A seguir, prolongam-se pela orla norte do canal de Cotejipe, incor-
; porando todas as praias costeiras até a ponta do Passé. A partir daí, os limites muni-
ctpais vão, cm linha reta, por mar, dc nordeste a sudoeste, até dois quilômetros ao
largo de Bom Despacho, em Itaparica, onde a profundidade atinge quarenta metros,
e de lá, finalmente, à ponta dc Santo Antônio. O município dc Salvador compreende,
assim, ao norte, a grande ilha da Maré e suas ilhotas. Abrange igualmente vasta
extensão de mar interior que, onde é mais largo, chega a quinze quilômetros, entre
Ln r o l - Os D o n s e as A r m a d il h a s d a N atvreza
43

Plataform a, no continente, e o extremo leste do m unicípio, ao largo de Bom Despa­


cho. Esse m ar m unicipal parece o tridente de N etuno, entre cujos dentes emergiram
as elevações da ilha da M aré e as penínsulas de Aratu e M atoim .

A P ro víncia ,

Desde a fundação de Salvador, em 1549, até os nossos dias, a Bahia teve três denom i­
nações diferentes. C om o C ap itan ia Geral da Bahia de Todos os Santos, foi sede do
governo colonial português até a transferência deste para o Rio de Janeiro em 1763.
£m 1815, com a transform ação do Brasil em Reino U nido a Portugal e Algarves,
passou, como todas as dez capitanias gerais antes existentes (e sem que houvesse
_ qualquer legislação específica a respeito), a ser cham ada, indiferentem ente, decap ita-
nia ou província. Em 1824, com a prom ulgação da prim eira Constituição brasileira,
?r-? . tornou-se oficialm ente P rovíncia da B ahia, um a das dezenove províncias do Império.
' ^ [Vi," Em 1889, com a Proclam ação da R epública, foi o JEstado da Bahia^um dos vinte
■ ç estados federados dos Estados U nidos do B rasil,2
Sob essas denom inações encobrem -se realidades diferentes, herdadas de uma
história que é relativam en te sim ples. N a origem estão cinco capitanias hereditárias,
concedidas pelos reis de Portugal entre 1534 e 1566: dom João III concedeu a
. Francisco Pereira C o u tin h o , em 5 de abril de 1534, a .Capitania da Bahia, depois
, ú cedida à C oroa e transform ada em sede do governo geral a partir de 1549; a Pero
1do Cam po T o u rin h o , concedeu a C ap itan ia de Porto Seguroy em 27 de maio de
1 1534; a Jorge de Figueiredo C orreia, a ,Cap_kama de Ilhé_us jem 26 de julho de 1534;
^ e a A ntônio de A taíde, C onde de C astanheiras, a,C apÍtania das Ilhas de Itaparica e
I T am arandiva em 15 de m arço de 1556. Dom Sebastião concedeu a Ç apitania do
| Paraguaçu, ou do Recôncavo, a Álvaro da Costa em 29 de março de 1566.^ As duas
' últim as eram antigas sesm arias da C ap itan ia da Bahia.
Na segunda m etade do século XVIII, as capitanias de Paraguaçu, Itaparica, Porto
i Seguro e Ilhéus foram incorporadas à C apitania Geral da Bahia que, no início do
,/r, século XIX, estava dividida em seis comarcas: .a da capital .(que compreendia a cidade
j de Salvador e seu Recôncavo), . g d e l jhéus(va de Porto Seguro,' a de Jacobina,(que
I cobria a m aior parte do Sertão),m de Sergipe dei R ei,eva do Espírito Santo (as duas
últim as eram capitanias subalternas). Cada comarca (divisão administrativa de caráter
C. judiciário, colocada sob a jurisdição de um ouvidor, substituído depois da Indepen
dêncla por juizes dc direito) podia abranger vários municípios.
/ Na terceira década tio século XIX, houve alguns remanejainentos administrativos:
f i cm 8 de julho dc 1820, a pequena comarca dc Sergipe, com seus 21.994 km , tornou
| j se capitania autônoma. São Cristóvão, sua antiga e indolente capital colonial, fundada
: | em 1590, mostrou-se incapaz dc vencer uma letargia secular e foi substituída pelo
\ porto de Aracaju, de características mais dinâmicas. Depois, em 1822, durante a
44 B ah ia , S éculo X IX

G uerra da Independência, a povoação de São M ateu s, situ ad a no extrem o sul do litoral


da Província da B ahia, optou por fazer parte da P ro víncia do E spírito San to, que
tam bém se tornara autônom a. M as, em 1827, foi inco rpo rada à P ro víncia da B ahia a
com arca do São Francisco, 1 20 ,0 0 0 k m 2 de terras situ ad as além do rio São Francisco,
retiradas da Província de Pernam buco, red u zid a a pouco m ais da m etade dc seu antigo
território com o conseqüência da sua p articip ação no m o vim ento separatista que ficou
conhecido com o C onfederação do E quador. A pesar d a perda de Sergip e dei R ei e de
São M ateus, a B ahia saiu gan h an d o nessas trocas, já q ue sua sup erfície passou de
4 6 5 .0 0 0 k m 2 a pouco m ais de 5 6 3 .0 0 0 k m 2.
D efinidos esses lim ites, não houve m ais n en h u m a m o dificação de v u lto . Todavia,
só entre 1919 e 1926, já no período rep u b lican o , o E stado d a B ah ia assinou os acordos
com os estados de M in as G erais, E spírito San to , G oiás, P iau í, P ernam buco e Sergipe,
pondo fim a m ais de um século de contestações sobre lim ite s .5
S alvador

M o r f o l o g ia d o S ít io

A história geológica m arca profundam ente o sítio em que está Salvador. Todo um
sistema de falhas num h orst (com partim ento de solos duros, elevados entre falhas)
cristalino fez com que os trajetos dos rios apresentassem cotovelos em ângulo reto.
0 fundo da baía é form ado, em sua totalidade, por rochas sedím entárias. Só se encon­
tram rochas cristalinas no con tinen te e no m ar aberto.
( A ponta sul da pen ínsula em que se ergue a cidade tem a forma de um losango,
l cuja orla oeste corre, exatam ente, ao longo de um a falha im ensa que se chama fa lh a
' d e Salvador. Seguindo a direção sudoeste-nordeste, ela separa o cristalino antigo e a
í bacia sedim entária jurássico-cretácea. É um horst cujo gra b en (fosso tectônico) é a baía.
. O outro lábio dessa im ensa falha deve sex ^procurado no lado oposto d_a baía, no lim ite
sudoeste do Recôncavo. ^ K-
O abrupto prom ontório em que‘ se ancorou a C idade A lta corresponde aos 60 a
1.10 metros superiores, ain d a visíveis, dos rebordos desse enorme escarpamento da
falha, ao longo do qual o m ar, por seus avanços e recuos, abandonou uma enseada
J submersa, u m au iíi, Com o a parte fronteira da falha de Salvador costeia a orla, restou
à Cidade Baixa apenas um a praia estreita, que vai da Conceição da Praia ató São
^Joaquim. Só mais adiante, com Itapajípe, Plataform a, Peripcri e Paripe, subindo no-
■vamente para Aratu c o norte da baía, ó que os terrenos sedim entários emersos formam
1 pequenas planícies costeiras ao pá do escarpamento da falha principal.
Em seu conjunto, o horst cristalino apresenta uma mesma inclinação geral, com
suave declive na direção do sudoeste, rumo ao Atlântico. Para o mar aberto correm
seus rios, mesmo nos casos em que as nascentes destes se encontram a pouca distância
do mar interior. Os rios das terras scdqhentárias do noroeste, por sua vez, são curtos
e correm para a baía. Por conseguinte,/a rede hidrográfica e a topografia são comple­
xas. A inclinação do horst para o Atlân :iico é ocultada por um relevo cheio de detalhes
46 B a h ia , S é c u l o X I X

acidentados, com vales, várzeas e curvas de nível que variam entre trinta e sessenta
metros, com pontos máximos de 90 ou 110 metros e declives de até 45 .
De superfície desarticulada e acidentada, o horst term ina, ao aproximar-se do
( Atlântico, cm um cinturão de dunas recentes, formadas por areias originadas da de­
' composição de seus-quartzos. Brancas colinas, deslum brantes à luz do sol, com vinte
1 a trinta metros da altura, essas dunas, por causa da variação dos ventos dc alto-mar,
: não têm qualquer orientação preferencial e costeiam toda a orla oceânica até o norte
do rio Joanes, m uito além dos lim ites m unicipais. M al encobertas por uma vegetação
rasa e pobre, lembram uma paisagem de neve, bastante inesperada para o viajante cujo
avião vai aterrissar no aeroporto vizinho: de um lado, palm eiras ondulam com a brisa
do mar; de outro, um a brancura de neve. bogo ao chegar, tem-se assim um a boa idéia
dos contrastes dessa terra rude e forte.

S olos e Á guas

Pode um sítio desse tipo oferecer boa acolhida a um a cidade de colinas e várzeas? Um
porto protegido por enorme baía, situação privilegiada deste lado do Atlântico, é
importante trunfo para o desenvolvimento de um a capital. Mas qual será o valor dos
solos dessa cidade-jardim que, até o século XIX, produzia, ela mesma, um a parte das
frutas e das leguminosas que consumia?
Á Abaixo de oitenta metros de altitude, os solos do horst surgiram da alteração
das rochas cristalinas: são, sobretudo, argilosos (caulinizados), mas firmes, Se horí-
$ ""j zontais, têm um a certa estabilidade, mas, nos declives m ais inclinados, ocorrem fre­
J
qüentes deslizamentos de terreno após chuvas fortes. A inda hoje, algum as ruas sao
i:conhecidas pela instabilidade. Acima de oitenta metros encontra-se uma camada quase
Xv horizontal de sedimentos idênticos àqueles da região baixa, também qurássico-cretácea,
que vai do fundo da baía ao noroeste da cidade. Essas argilas margosas, escorrega-
.,-4 dias, são ruins para os alicerces das casas, mas excelentes para as culturas, A rocha
^ matriz do horst possui todos os elementos nutritivos necessários às plantas, inciu-
J sivc o cálcio, mas os solos de decomposição antiga são lavados pela erosão, cabendo
■às raízes profundas distribuir internam ente a alim entação necessária ao vegetal,
p As chuvas c o vento marinho trazem o iodo e o potássio. Sol e chuva nunca faltam.
_0 subsolo é um verdadeiro reservatório de água para uma vegetação tropical úmida
epuxuriantci
Assim e esta é uma das armadilhas da natureza — as terras onde foi edificada
a cidade de Salvador são boas para hortas e pomares, mas não são recomendáveis para
construção. Até o declive mais íngreme, o do reverso da falha, desce em pequenos
egraus para a praia ou dirigc-sc para o norte, alcançando os terrenos sedimentários e
o erecendo, aos bananais c às culturas dc árvores frutíferas, uma exposição magnífica
ao sol nascente.
Ln- R o I - Q s D o n s e as A r m a d il h a s d a N atureza

M as o principal é que — esta a imensa riqueza da Cidade Alta — há água em toda


parte Com efeito, o solo cristalino do horst é impermeável, mas a espessa camada
oriunda de sua decomposição é extremamente porosa, servindo de reservatório a águas
sempre renovadas nesse clim a úmido. A porosidade do solo é de cerca de 20% (cada
.metro cúbico é capaz de conter duzentos litros de água) e sua espessura média é de
vinte metros (freqüentem ente atinge mais de trinta metros). É fácil imaginar o enorme
reservatório representado pelo solo da Cidade Alta: é só cavar para ter um poço. Basta
um afloram ento, ao contato com a rocha matriz e com seu solo em decomposição, %
para ver jorrar um a nascente. Os m ananciais e as fontes estão em toda parte em Ça ' ^
Salvador, na base do horst como nas trilhas da menor fratura, do menor deslocamento
de terreno, do m ais insignificante vaie. São águas cristalinas, filtradas naturalmente,
ricas em sais m inerais.1 Rios com vales estreitos favorecem os reservatórios naturais ou
artificiais, como o Pituaçu e o Ipitanga.
Salvador é a cidade das m il fontes. U m a cidade úm ida, onde o grau higrométrico
do ar pode subir até quase 100% , mas onde o mar onipresente e a orientação di- t -V ,
versificada dos vales favorecem ventos fracos mais refrescantes, verdadeiras correntes ;
de ar naturais que tendem a descer pelas colinas, a soprar de ou para o alto-mar. Sítio \
em que a ecologia natural favoreceu a fixação de colonos, Salvador é verdadeiramente J
a cidade de Todos os Santos, que lhe deram bênção e proteção.

A B a Ia e o P orto .

As conquistas da arte da navegação, a utilização de barcos a vapor para as longas


travessias e, em 1808, a abertura dos portos brasileiros às nações amigas modificaram, . ^ “'■*'
sem dúvida, o panoram a das navegações transatlânticas.2 Mas foram transformações ( pA(vVoe- -
Jentas. No século XIX, os navegadores já acumulavam um bom conhecimento do
regime dos ventos e das correntes em todos os mares do mundo e, além disso, dispu- &
nham dos itinerários do T enente M aury, aconselhados aos numerosos veleiros que
ainda -singravam;os mares.3 Esses itinerários, aliás, quase não diferiam daqueles dos
séculos XVII e XVI1J. O cronômetro m arítim o, ínstrumenro que permitia a determi­
nação da longitude em alto-m ar, criado e aperfeiçoado no decorrer do século XVIIfi ^
só passou a scr utilizado pelos navios mercantes na prim eira metade do século XIX. >
Mas, de modo geral, os conhecimentos geográficos haviam progredido, tornando mais
segura a navegação oceânica.
Com a m ultiplicação de contatos, o porto de Salvador passou a receber cada vez
mais navios que vinham descarregar mercadorias, carregar produtos locais e «abaste- jU
cer-se de água e de víveres. Eluxos e refluxos eram constantes, condiciona os pe a ^
situação dos mercados loeal, regionafie internacional, que alimentavam numerosa j ^
frota, de grandes e pequenas embarcações. Em 1868, por exemplo, entraram no porto
de Salvador 1.398 navios de alto-mail, dos quais 1.361 eram mercantes e 32 de guerra;
* V o
B ahia , S éculo X IX
48

« 6 0 u -( em 1871, ano de crise econôm ica, o núm ero caiu para 461 navios.5 Reabastecer navios
* ' b ] e tripulações tornou-se, por conseguinte, um a das funções de Salvador. Nos séculos
CJt' XVII e XVIII, os navios perm aneciam freqüentem ente três meses no porto para repa-
/ ros, para reabastecim ento, para esperar pela partida de um a frota ou por ventos favo­
ráveis. No século XIX, os navios já não aportavam m ais de duas ou três sem anas.6
A água doce, excelente e de fácil acesso, brota, com o vim os, em toda parte, de
> [(v/ modo que quase todas as casas têm seu poço. O com andante M ouchez, um francês a
~vlí? t. ^ q Uem devemos uma descrição m inuciosa do porto de Salvado r,7 explicou como era
° CÇvV) feito o reabastecim ento nas fontes da G am boa ou na de Á gua de M eninos, ao norte do
■*' / Arsenal, mas se queixou da falta de carne de v itela e de carneiro, bem como da má
qualidade da carne de boi e de frango. Em con trap artida, peixes, legum es e frutas —
. ; mangas, bananas, laranjas, abacaxis — eram excelentes. O utro viajante, Avé-Lallement,
rC° ^chegando do Rio de Janeiro em 1859 a bordo do navio P araná , descreveu assim o
■ m
,C m. . #
porto de Salvador, cham ando a atenção para a existência do banco de Santo Antônio:
^ BA entrada [da baía] é fácil e segura. A ajuda de um piloto ou de balizas não é ne­
cessária para indicar o trajeto a ser seguido. E ntretanto, logo ao sul da entrada, no
meio de um vasto espaço de águ a navegável, ergue-se um banco de areia [trata-se do
banco de Santo A ntônio] com apenas quinze pés de profundidade nas partes mais
elevadas, que as em barcações de grande calado devem ev itar.”8
Se os navios a vapor do século XIX entravam facilm ente na baía sem a ajuda de
^ pilotos locais, o mesmo não acontecia com os veleiros, de reações m ais lentas e muito
j mais dependentes dos ventos. Por essa razão, desde os prim eiros tempos da coíoníza-
^ Ção, navegadores exím ios eram enviados ao m orro de São Paulo, na ilha de Tinharé —
pequena colina que, em bora distante, dom ina a ‘barra falsa1, ao sul da entrada da baía
c\ y ' com o objetivo de vigiar o m ar e aguardar as frotas vindas do O riente para orientá-
■ na direção nordeste, rum o à verdadeira entrada da baía, que se podia atravessar com
^ relativa facilidade, indicada pelo farol de Santo A ntônio da B arra.9 Uma vez passada
a barra, a baía em si já parece um porto, o m aior do m undo. Os viajantes estrangeiros
chegavam a afirm ar que ele poderia conter todos os navios da T erra. 10
Na verdade, a baía é só um prim eiro abrigo. Ela não é o porto propriamente dito.
Este sc reduz a uma pequena enseada situada ao pé do horst onde se ergue a cidade.
\\ /^ a^or^agtm desse conjunto baía-porto não é tão fácil quanto parece. Antes e depois
Passa&cm da barra que guarda a baía, encalhes ou naufrágios podem ameaçar os
* í nav’í,s de grande calado que não tomarem cuidado com recifes e bancos de areia. Não
descreverei aqui, como o faz pormenorizadamente Mouchez, a maneira de evitar os
recifes dc Paraparingas, o banco dc areia de Santo Antônio, a pedra da Gamboa, o
banco da Panela, o recife c os bancos da Penha ou a carcaça do France, que se
incendiou e afundou cm 26 dc setembro dc 1856 e jaz a oito metros de profun­
didade. 11 Os testemunhos dos viajantes e navegadores do século XIX insistem na
generosidade da baía de Salvador, que oferece aos veleiros ou aos vapores a varie a
amistosa de seus ventos c a proteção de suas ilhas. .
L ^ 0* ^ D o v s £ Aí A r n l a d íl h a í PA N*ATVK.EZ.\

\ encidos rebites c bancos de areia, existem excelentes pontos de ancoragem, reser­


vados aos navios dc guerra: a sudoeste, o mais perto possível do Arsenal da M arinha,
aos navios de guerra brasileiros; um pouco mais longe, aos estrangeiros. Os navios
mercantes podem abrigar-se de todos os ventos perto do cais (se não tiverem medo de
m isturar sua aiu o ra u m i a do vizinho) ou um pouco mai.s ao largo (se não temerem
as dificuldades para carregar c descarregar). Nunca falta lugar, e não há razão para
recear mau tempo. Navios grandes e pequenos, em segurança uma vez transposta a
barra, estão ao abrigo de tempestades.
O navio que ficou m uito ao largo só é castigado pelo mar na hora da mudança da ^ -
mare. da lua nova ou cheia, ou quando os temporais de sudoeste coincidem com as ~ .
grandes marés. E preciso então esperar que lem anjá acalme as águas. Para maior
facilidade, convém aproveitar a brisa m atinal, regular na direção norte-nordeste. Com*
a maré descendente, ela traz rapidam ente as embarcações até o sul do banco de Santo
Antônio. Há, em seguida, algum as horas de calm aria, mas, lá pelas 10:00 ou ll:0 0 h
da m anha, com eça a soprar a brisa de lesre-sudeste, que dura até o pôr-do-sol — um
Sol que, nessa latitude, tem seu ocaso, o ano todo, entre 17:00 e 18:00h — e conduz
suavemente ao porto os navios que o dem andam . Depois, os ventos acalmam-se no- . .
vãmente; nesse caso, para alcançar o porto, o veleiro imprevidente deverá esperar as
21:0 Qh e as brisas noturnas.
A baía de Todos os Santos é um mar interior para as pequenas embarcações. Elas
não se aventuram aíém da barra que separa a baía e o oceano sem limites. Podem { ,v^.
ignorá-la fragatas, bergantins, grandes veleiros, grandes vapores vindos de além-ilhas. 1 '■
Mas são os hom ens do m ar do Recôncavo e da cidade de Salvador que garantem, com
seus barcos, as trocas cotidianas. M arinheiros das ilhas, das praias e das enseadas,
marinheiros de inúmeros cursos d ’água que penetram nas terras, pescadores, transpor-
radores — eles conhecem as riquezas de sua baía, mas conhecem também as traições' •
sempre possíveis de suas águas e ventos. São irmãos do lavrador, que planta a mandio- i ( ,
ca de que sc alim entam ou o fumo que transportam, além do algodão e do café.
Na baía de Todos os Santos, águas e terras entremeadas guardavam, consertavam,
reabasteciam, carregavam e descarregavam mais de mil embarcações dc todo tipo.1*
Dcscrcvê-las todas seria impossível: barcos rudimentares, canoas c botes; barcos de
tamanhos variados, que sc lançavam corajosamente ao mar, tendo a bordo um, dois ou ,, ( t
tfes homens; saveiros para transporte ou pesca, barcaças, tabuas, balcões, tanoeiros, j y
lanchas, sumacas c, principalm ente, jangadas de quatro troncos. Aguas, salgadas c m. ■> *■
doces, eram os caminhos percorridos por homens e mercadorias.
No século XIX, as vias terrestres eram precárias c insuficientes, mas havia água por s ’ 1 - '
■* l II I I t l 1tMl Ü á
toda parte. Os velhos saveiros, hoje transformados cm barcos dc lazer, Icmnram-sc ^
ainda dovpériplos de amanho, dos peixes espalhados c escolhidos na areia, dos fardos
descarregados em ancoradouros ou diretamente na praia, Km meados do século, a ç ^
pequena cabotagem começou a enfrentar a concorrência oficial de companhias de ^
navegação com sede cm Londres, que se beneficiavam dc privilégios para organizar f ^
W ' ■ '-t
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v j .o ^ A ' - ' <■' A(i rl'i* . .‘
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l i n h a s r cgu lar cs , s e r v i n d o às p r i n c i p a i s c i d a d e s da bafa c a os o u t r o s po rto s <Ja P ro v ín ­
c i a . 13 E n t r e t a n t o , a p e s a r d a c o n c o r r ê n c i a e x e r c i d a p elo s g r a n d e s n a v io s a vapor da
\ C o m p a n h i a B a i a n a d e N avega ção * a c a b o t a g e m das m í l p e q u e n a s e m b a r c a ç õ e s que
t r a b a l h a v a m sob e n c o m e n d a c m to d a s as á g u a s d a b a í a c o n t i n u o u sc d e s e n v o lv e n d o
d e n s a e flexível, c a p a z dc sc a d a p t a r a t o d a s as n e c e s s i d a d e s c d e s li z a r so bre os c a m i ­
n h o s m a r í t i m o s c flu via is , a o sa b o r d a s b r is a s q u e os m a r i n h e i r o s d o Recô ncavo
c o n h e c i a m tã o b e m .
CAPÍTULO 3

O R ecôncavo

CT,}.'■*■
( CP Ac
A 'v , \ "
E sb o ç o de D e f in iç ã c t C - C ' : J’

Recôncavo significa fundo de baía. M as o Recôncavo baiano abrange todas as terras


adjacentes, ilhas e ilho tas, bem para além das praias, vales, várzeas e planaltos próxi­
mos ao m ar: u m a orla de quase trezentos quilôm etros torna bastante fácil a circulação,
ainda m ais porque num erosos rios se lançam na baía por am plos braços navegáveis.
Longas praias, cortadas às vezes por um cabo rochoso, um a enseada pantanosa ou até
algum as colinas de baixa altitu d e, oferecem , quando a m aré está baixa, um a espécie de
cam inho quase con tínuo, suave ao pisar do viajan te. C am inho de ronda que se insinua
em todas as enseadas, costeia todas as ilhas e perm ite arrastar um barco até um a praia
ao abrigo do vento.
O clím a e, por conseguinte, a vegetação dão unidade ao Recôncavo, tão próxim o.
do oceano. Longe da in fluên cia deste, o Sertão, im enso e severo, é árido ou semí-árido.
O mar e os ventos carregados de um idade penetram em todo o Recôncavo, mas hâ~^
nele numerosos m icroclím as, pois seu relevo é variado. Por toda parte, os ventos ■
alísios, vindos do m ar, depositam sua um idade em forma de chuva assim que encon- - v-ín-'*-
tram o obstáculo das colinas ou são esfriados pelo solo. Os vales são verdadeiros
corredores abertos às benéficas influências atlânticas. ,-,0 ° ^ ’ .
A capitai não pode ser dissociada da baía, da qual éciósa,guardiã, mas também não D ^
o pode ser de sua hin tcrlândia, esse Recôncavo celeiro dc açúcar e de farinha. O gado \
r* / y
pode vir dc longe, já que sc locomove, M ais que qualquer outra cidade, a da Bahia esta '■
ligada à sua im ediata hintcrlândia agrícola, pois é seu mercado e seu elo com o mundo
exterior. Não há uma só família da cidade que não tenha laços com uma família do
interior; não há tempestade na hafa que não faça subir as águas dos rios do Reconcavo, ^ ^
não há má colheita lá que não cause pobreza aqui. Ontem, cotno hoje, Salvador não R ^ ^
era somente um porto que sc estendia ao longo da Cidade Baixa. Era uma cidade em V -,
/ que os lim ites adm inistrativos quase não contavamÇ As paróquias urbanas nunca > -

51
52 B a h ia , S é c u l o XIX

esqueciam suas irmãs do interior, e a população hum ana permanecia densa até dezenas
de quilômetros longe do mar. É impossível compreender a Cidade da Bahia sem
compreender seu Recôncavo.
Surgem logo quesrões: além das condições econômicas do cultivo, as condições
climáticas e pedológicas também são necessárias ao estudo da produção agrícola dirigida
ao consumo ou à exportação nos séculos XVIII e XIX? Estudar os solos do século XX
eqüivale a estudar os do século XIX? Não foram esses solos transformados e gastos?
É verdade que o agricultor brasileiro, colono de outrora, produtor rural de hoje, nunca
teve, em relação à terra, um a m entalidade de usufrutuário zeloso: nunca foi o laboureur
do francês La Fontaine.2 Como se, apesar de seu apego ao solo da nova pátria, o
espírito de aventura dos primeiros colonizadores, vindos para ‘explorar o Novo M un­
do, nunca se houvesse transformado; como se o sentido de propriedade se tivesse
dissociado do empenho em cuidar da terra, conservando-a. Prevaleceram o desejo e a
necessidade de uma exploração im ediata, com uso e abuso das riquezas disponíveis,
como que ofertadas. Inconsciência, decerto; urgência, m uitas vezes; e também com
fiança, dada a imensidão das terras,por explorar. M as as dádivas da natureza foram
desperdiçadas.
É preciso que se fale aqui da ‘exploração m ineradora’ dos solos. Os solos do
Recôncavo foram — e ainda o são com freqüência — ‘m inas’ de cana-de-açúcar, de
fumo, de mandioca ou de batata-doce. Um a vez a m ina explorada, o solo fica quase
inutilizável, apenas capaz de produzir um a floresta pobre ou magras colheitas. Até
recentemente, o agricultor do Recôncavo recebia m al os vendedores de adubos que lhe
vinham dar conselhos. E, diante da transformação do solo pelo empobrecimento
, resultante de práticas culturais inconseqüentes, sempre preferiu desistir da luta. De-
7 correm daí as dificuldades encontradas pelo historiador, obrigado a im aginar para a
Bahia um meio geográfico que não é exatamente o de hoje, quando trata dos solos e
de suas possibilidades agrícolas. ^
~ Ora, quem pensa na Bahia dos séculos XVIII c XIX pensa imediatamente na
Bahia capital do açúcar, na opulenta cidade dos senhores de engenho e de seus escra­
vos, na cidade dos ricos negociantes. M aurice Le Lannou qualifica os plantadores de
cana do litoral nordeste de “sedentários em panturrados”.3 Ele assinala que o desgaste
i do solo nunca foi compensado, mas sua afirmação traz à baila um duplo problema:
por que o agricultor brasileiro tem essa mentalidade de ‘proprietário de m ina’? Não
. basta constatá-lo; é preciso compreender por que o massapê — essa rica rerra argilosa
| do Recôncavo, que cola nos sapatos de todos os baianos e é seu orgulho e sua riqueza
■ * Por que esse generoso massapê sc revelou tantas vezes terra cheia de armadilhas,
mal amada e mal explorada?
Poderíamos talvez encontrar respostas cm um cadastranicnto dos solos da região,
organizado pelo órgão de desenvolvimento agrícola do Recôncavo na década de 1970.3
Foram classificados mais dc sctcccntos mil hectares de rerras abertas sobre a imensa
baía de Todos os Santos. Os pedólogos dc hoje, ao explicarem as riquezas eas limitações
L rv R o I - O s D o n s e a s A r m a d il h a s d a N a t u r e z a 53

dos solos do Recôncavo expostos aos imponderáveis de um clim a tropical, ajudam a


c o m p r e e n d e r de que modo uma cidade como Salvador, com terras agrícolas tão ricas
em sua hinrerlândia. foi atingida pelos choques econômicos, pelas variações das con­
junturas políticas e pelos mil imprevistos trazidos pelos ventos e chuvas oceânicos.
/ —

■■- 7 r -r -C ^O*£

D a d o s E st á v e is da G e o g r a fia

A hinteriàndia de Salvador, o Recôncavo, é uma região essencialmente costeira, uma


espécie de retângulo na direção nordesce-sudeste. Situado entre os meridianos 37 e 39
a oeste de Greenwich e no lim ite dos paralelos 12 e 13 ao sul do Equador, o Recôncavo
baiano, com seus pouco mais de 10.000 km 2 de terras emersas, üm ita-se a leste com
0 Atlântico, ao sul com os m unicípios de São iMiguel das M atas, Laje e Valença, a oeste
com os m unicípios de A ntônio Cardoso, Santo Estêvão e Castro Alves e, enfim, ao
norte, com Eeira de Santana, Coração de M aria, Pedrão, Alagoínhas e Entre Rios.
Com exceção da região de Cruz das Almas, a oeste, as terras, ricas em água doce,
são de modo geral baixas e abertas para o mar. Em grande parte essa hinrerlândia é
composta de um a fossa, de um a ria e da m aior baía do litoral brasileiro, com seus
cerca de 1.000 km 2 de águas salgadas e trezentos quilômetros de costa. Uma baía
articulada, aberta para o oceano, barrada apenas pela ilha de Itaparica, longa e estrei­
ta, tão verdejante quanto o continente, do qual se separa a sudoeste por um pequeno
corredor m arinho, a barra falsa ou canal de Itaparica, que vai da Ponra do Garcez,
em terra firme, à ilh a de M atarandiba. Se, em sua m aior dimensão interior — sul-
norte — , a baía de Salvador atinge cinqüenta quilômetros, há menos de um quilô­
metro entre o continente e o ponto mais próximo da costa oeste de Itaparica. Nesse
corredor estreito e pouco profundo, a travessia é dura e perigosa, e a ela ninguém se
arrisca. A verdadeira entrada da baía, mais acolhedora, acha-se a nordeste, enrre o
Farol da Barra, na ponta extrema do promontório sobre o qual se encontra edificada
Salvador, e a costa leste de Itaparica. A li a barra é fácil de ser transposta. Entrada
'majestosa dc uma baía majestosa, tem quase dez quilôm etros de largura e pode ser
' vista desde o longínquo forte de Caixa-Pregos, na extremidade sul de Itaparica (no
falar popular do Brasil inteiro, “chegar de Caixa Prego” significa chegar do fim do
mundo). Transposta a barra, com Itaparica a bombordo, os navios deparam-se, a
„ estibordo, com a íngreme encosta recoberta da vegetação tropical que enfeita os mor­
ros sobre os quais sc ergueu a Cidade Alta. “
r Montserrat é um encantador fortim dc retaguarda, construído na ponra de uma
, harmoniosa curva da costa que abriga o porto da cidade. As linhas arquitetônicas
muito puras desse fortim todo branco destacam-se atualmente contra o fundo de uma r
1 delicada fileira de palmeiras-reais {Ortodoxa oleracea), hoje cão características da pai­
sagem de todo o Recôncavo. Como os coquciros-da-baía {Cocos nucifera ), elas datam
da época colonial. A palmeira nativa da vegetação baiana — palmeira-licuri {Syàgrus
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B a h ia , S é c u l o XIX

coronata ) é fibrosa, c sua altura não ultrapassa a das outras árvores da m ata o rig in al
, Não é mais im ponente do que a vulgar bananeira (M usa paradisíaca).
^ j\ No interior da baía de Todos os Santos, inúm eras ilhas c ilhotas protegem três
baías menores: a prim eira entre a costa oeste de Itaparica e o continente, a segunda
" abrigada entre a península de Saubara-Iguapc e o arquipélago form ado pelas ilhas
L Bimbarras, das Fontes, de M aria G uarda, de M adre de Deus, das Vacas, de Bom Jesus
^ dos Passos, de Santo A ntônio e dos Frades, c a terceira, a m aior delas, entre essas ilhas,
Itaparica e Salvador. Esse m ar interio r de todas as ilhas, de todas as praias, é um
verdadeiro mundo colorido e variado. Suas fúrias são menos violentas que as do
oceano, mas são as de um im previsível m ar, cheio dc recifes. São relativam ente pouco
numerosos os abrigos efetivam ente capazes dc proteger as pequenas embarcações sur-
f preendidas pelos fortes ventos nordeste ou sudoeste a grande d istância dos ancoradou-
^ ros ou perto dem ais das em bocaduras dos rios. C om esses ventos, as praias são facil-
' ■ ( m ente invadidas pelas vagas tem pestuosas das grandes m arés.
No Recôncavo, até os rios estão sujeitos às marés: o m ajestoso Paraguaçu, navega-
7 do por embarcações leves até C achoeira, mas que não é bastante profundo para navios
^ u i ^ d e grande calado; o A çu (ou Açupe) e o Sergi do C onde, de m enor volum e d ’água; o
-^ ú j^ / jagu arip e, ao sul, que já não é considerado um rio da baía, assim com o, ao norte, o
* 1 -rrPojuca, o rio mais im portante da região, cuja bacia tem 3 .0 0 0 k m 2; e ainda os grandes
' . fornecedores de água para o abastecim ento de Salvador, o Joanes, que desemboca em
t Ch *
f! vV^hiar aberto ao norte da capital, e seu afluente, o Ipitanga, O Recôncavo é, assim, antes
^ de tudo, um a terra oceânica: suas áreas agrícolas encontram -se em estreita dependên­
cia das águas salgadas e dos rios m arinhos.
M as, da mesma forma que na cidade de Salvador, há água doce por toda parte,
em lençóis freáticos extrem am ente abundantes. As reservas ficam a m aior ou me­
nor distância da superfície: aprofundas, enriquecem o solo com seus sais minerais,
como no nordeste do Recôncavo; ysuperficiais, como na região de Dias d ’ÁviIa e de
C am açari, são filtradas por um solo argilo-arenoso que as empobrece. Às vezes,
fluando as areias funcionam como filtros naturais excessivamente eficazes, a água
^ doce é tão pobre em sais m inerais que não perm ite um a vegetação luxuriante; ou­
tras vezes, essa água se m istura de tal modo a águas salgadas que dá origem a
manguezais.
j! ^ paisagem do Recôncavo é sempre verde e m uito suave. V ariada, também. Terras
t f relativamente baixas junto às costas, onde elevações amenas se confundem com as do
| litoral, no qual os sedimentos do quaternário deixam aflorar algumas rochas mais
^antigas caulínizadas, produzindo solos vermelhos dominados pcia brancura de neve de
dunas que podem atingir até cinqüenta metros de altura. Terras mais altas, onde os
tabuleiros e as colinas ondulam suavemente numa altitude média de duzentos metros
com vales abruptos. Os rios, sempre muito ativos, cavaram suas margens, formando
terraços como ocorre, por exemplo, com o Paraguaçu e seus afluentes. As vilas, atuais
cidades, deCachcwira e dc São Félix^foram edificadas sobre altos terraços desse tipo.
L i\ n o 1- O s D o n s e a> A r m a d i l h a s d a N a t u r e z a 55

Essa saricdade de paisagens, o Recôncavo a deve a sua geologia; ao contraste entre o


embasamento cristalino — reverso de uma falha imensa, que corresponde a 4.300 km:
dos 10.400 km- da região como um todo, situado sobretudo a leste e a o este c as •X*'
áreas sedimentares do griibvu, que vão do sul da ilha de Itaparica ao norte de Entre VA*
Rios e dc Alagoinhas. Falha de Salvador a leste, falha de M aragojipe a oeste, sao esses
os limites dessas regiões argilosas ou argilo-arenosas.
Uma floresta fluvial, análoga àquela que ainda resiste no extremo sul do Estado da
Bahia, estendia-se, no século XVI, por todo o Recôncavo. Quatro séculos de explora- X
ção, avizinhando-se com freqüência do esbanjamento das dádivas da natureza, provo- '
caram transformações sucessivas e criaram novas paisagens, correspondentes aos dife- "c~
rentes produtos que foram, cada um por sua vez, esperança e desespero dos proprietários
de terras: m adeira, cana-de-açúcar, fumo, dendê e bananas.
A tualm ente inexiste no Recôncavo qualquer das espécies tropicais atlânticas origi­
nais. Com o regim e das chuvas e a ação hum ana atuando simultânea e sucessivamente
(um a vez desmatado, o solo torna-se cada vez mais sensível às influências climáticas),
três tipos fundam entais de vegetação se firmaram, caracterizados a um só tempo pela
distância a que se encontram do oceano e pela qualidade dos solos sobre os quais se ^
desenvolvem: a da M ata, a do Agreste e, única das três a corresponder a uma zona ; &e
contínua, a vegetação do Litoral. ~/ t X-
A M ata gosta das terras de argila profunda — massapês — e dos tabuleiros.
Nela predominavam outrora as palmeiras narivas já mencionadas (os ücuris, que for- L
necem cera e fibras para o artesanato), os cocos-vagem (cujo tronco é horizontal e
subrerrâneo, só deixando aparecer folhas na superfície) e as madeiras preciosas, como ' ^
o jacarandá, o cedro-rosa e o pau-m arfim , esplêndidas matérias-primas para a fabri­
cação de móveis austeros na época colonial e no século XIX, Essa floresta clara se
desenvolvia, nos prim eiros tempos da colonização, sobre uma zona extensa, mais ou
menos paralela à costa, passando pelos m unicípios de Conceição de jacuípe, São
Gonçalo dos Campos e Conceição da Feira. É a região onde a cana-de-açúcar pro­
duzida em plantation predominou depois, quase como monocultura (seria preciso
ver até quando e como). Os agricultores da segunda metade do século XIX ali tam­
bém cultivavam, em menor escala, o fumo, a mandioca, o dendê e o cacau. Hoje,
da mata am iga, restam rnríssimos exemplares.
/ O Agreste representa uma zona muito reduzida do Reconcavo, que vai de Concei­
ção dc Jacuípe até o sul dc Feira de Santana. Estcnde-se para o norte, sobretudo na q
direção do Itapicuru.'5 É uma zona de transição entre o litoral úmido e o sertão semi- .
árido. Dc sua primitiva flora, invadida por cactáccas c bromcliáceas — plantas xcrófilas J
relativamente altas c pouco densas — , subsistem apenas os juazeiros e os marmeleiros.
■- Enfim, o Litoral. Faixa dc terra dc aproximadamente dez quilômetros de pro- . .
fundidade, cie apresenta grande variedade de associações vegetais naturais, com um j
hábitat diferente para cada uma delas. Dois tipos principais de vegetação cobrem J
essa região: a vegetação sublitorânea — iqs rnanguczaQ— , que depende unicamente
^ B a h ia , S é c u l o XIX

do solo, e a vegetação do litoral arenoso, que depende do solo e, em bora em menor


proporção, do clim a.
Ç Associados a solos argilosos m uito salgados e hidrom orfos, originados dos
. sedimentos finos dos estuários e dos fundos de baía, os m anguezais encontram-se
sempre em zonas submetidas à influencia das marés. N a origem , essa formação se de-
L senvolve graças ao -{nangue, planta pioneira que cresce em am biente salino de solo
instável e pode ser reconhecida por suas numerosas raízes adventícias.6 N a medida
em que o solo se torna mais firm e, observam-se novas associações, em que prevale­
cem os mangues brancos ou os >.siriúbas* que podem atin gir até quinze metros de
altura. Esses solos só são cobertos pelas marés de equinócio. A li, as árvores têm de
cinco a oito metros de altura e constituem , ao longo das costas não arenosas, como
que um a coroa vegetal entre terra e m ar. O solo dos m anguezais fornecia toda a
argila necessária para as olarias e para purgar o açúcar nas fôrm as.7 O nde o litoral é
arenoso, a vegetação das dunas é de plantas rasteiras, arbustos e palm eiras, inclinados
para o interior, pois sofrem a ação constante dos ventos do m ar. De um modo geral
as palmeiras não ultrapassam cínco metros de altura. As m ais com uns são os coquei-
ros-da-baía — adventícios — , freqüentem ente agrupados em pequenos bosques mais
ou menos densos.

V en to s , C h u vas e S o lo s

Que trazem os ventos e as nuvens aos dados estáveis da geografia? No Recôncavo, as


variações clim áticas dependem essencialm ente de ventos e chuvas, vez que as tempe­
raturas são relativam ente estáveis. Os ventos — terror das embarcações demasiada­
mente leves que se aventuram longe de um abrigo — podem vir dos quatro pontos
cardeais ao mesmo tempo e, às vezes, lutam entre si para predom inar. Como em
torneios gigantescos, viram os ventos como vira a m aré, e nuvens negras galopam.
Das quatro massas de ar que disputam os céus.do Recôncavo, as duas que geral­
mente prevalecem são os ventos ^alísios de sudeste, vindos das altas pressões quentes e
úmidas do Atlântico Sul, e\ps de nordeste* que vêm do centro das baixas pressões
continentais em direção às altas pressões dos Açores. Pode ser o nordeste das tempes­
tades, mas pode ser o amigo que im pele as velas no rumo do porto, segundo seu humor
e sua força. Alísios de retorno nordeste e noroeste sopram também sobre o Recôncavo.
P A *
or m, o que mais se vc é brincarem , sobre a baía, ventos instáveis, que resultam de
movimentos ondulatórios e chegam sem prevenir, com a velocidade de um cavalo em
disparada. São a voz irada dc lem anjá, exigente amiga do povo do mar baiano. Nascem
quando a frente polar atlântica dc ar frio encontra o ar quente que vem das regiões do
norte equatorial. No Recôncavo, as máximas pluviométricas de abril a junho freqüen­
temente coincidem com essas frentes de instabilidade decorrentes da luta entre o
anticiclone atlântico e a massa equatorial continental.
L iv r o I - O s D o n s e as A rm a d ilh a s d a N a o jr e z a 57

TABELA 1
C huvas e T em peraturas M é d ia s n o R e c ô n c a v o B a ia n o , 1 9 4 5 -1 9 7 0
M édias M eses M eses M u s F.S M CHUVA
eses de T f.mpf.r a tu r a s
MFNSArS SECOS CHUVOSOS MUITO CHUVOSOS TORRENCIAI. m édias

mm/ano < 100 mm 100-200 mm 200-300 mm 300—600 mm


79 Setembro
23*8

84 Outubro
25*0
156 Novembro 25*9
117 Dezembro 26*4

85 Janeiro 26°7

185 Fevereiro

151 ■ M arço 26*6


235 Abril 25*8
339 Maio 24*5

191 Junho 23°5

189 Julho 22*9

123 Agosto 22*9

Fonter Estudos básicos pa ra o p ro jeto a grop ecu á rio d o R ecôncavo, p. 142.

D om inam , p o rtan to , ventos de sudeste: os bem -vindos alísios dos meses de julho
e agosto, enfrentados com m aio r ou m enor sucesso, em novem bro e dezem bro, pelos
ventos do nordeste. A estação fria, de ju n h o a setem bro, é a ünica na quaJ alguns
períodos de calm aria podem im p ed ir os veleiros de transportar sua carga das ilhas para
a baía, de porto a porto. M as ju n h o é tam bém o mès das m aiores tem pestades, aquelas
em que os ventos em lu ta zom bam dos veleiros im prudentes que ousam desafiar barras
e recifes. O c lim a no R ecôncavo é, p o rtan to , freqüentem ente im previsível.
D eixar-se-á a terra d o m esticar e explorar m ais facilm ente que as aguas pouco
confiáveis da baía? Para estudar os solos do Recôncavo e suas antigas culturas, temos
que partir do p rin cíp io de q ue o clim a de outrora era m ais ou menos idêntico, na
sua própria in stab ilid ad e, ao do século XX.8 Lem brem os tam bém a regra de ouro
dos agrônom os, segundo a qual todo solo contém certos elem entos mais importantes,
cujo lim iar de necessidade, u m a vez atin gid o , define o lim ite a partir do qual os
dem ais elem entos não reagem m ais.9 E ngenheiros-agrônom os que trabalharam na
Á frica habituaram -se a d istin g u ir três etapas de desgaste de solos semelhantes aos
dos tabuleiros h aian o t cujas substâncias nutritivas são devoradas por plantas exigentes
e pela falta de aAtthn** a p artir do segundo ano de uso, o rendim ento de um a terra
recém -plantada ifím in u i em 50% ; o patam ar seguinte situa-se no décim o segundo
ano, c o solo m o sn *-sc defin itivam ente em pobrecido depois de 3 0 a 3 2 anos de
cultivo.
58 B a h ia , S é c u l o X I X

T e rra d e c o le ta de m a d e ir a e d e p ro d u to s Ha flo re sta n a tu r a l n o s p rim e iro s anos


d e c o lo n iz aç ã o , o lito r a l b a ia n o , já v im o s , lo g o se tra n s fo rm o u e m te rra d e ‘ exp lo ra­
ção m in e r a d o ra ’ d a riq u e z a de seus so lo s. A m a n d io c a , p la n ta d é b il, sem som b ra,
q u e q u a se n ão p ro te g e a te rra d o d e sg a ste c a u s a d o p ela s c h u v a s, é e x a ta m e n te o
tip o d e c u ltu r a a q u e n e n h u m so lo re siste . A b a n a n e ir a , o c a c a u e so b retu d o a cana-
d e -a ç ú c a r — c u jo s re sto lh o s são r e u tiliz a d o s e m g r a n d e p a rte in loco , co b rin d o , por
assim d iz er, b em o so lo — são , e n tre as c u ltu r a s d a re g iã o , as p la n ta s q u e m ais
p ro te g e m o p recio so h ú m u s .
Q u a is são os so lo s d esse R e c ô n c a v o ? T o d a u m a lit e r a t u r a a p la u d iu , no d ecorrer
dos sécu lo s X V II, X V III, X IX e a té d o s é c u lo X X , a m a r a v ilh o s a fe r tilid a d e do
m assap ê d o R ecô n cav o . M a ss a p ê , p a la v r a m ila g r o s a , p a la v ra -c h a v e ! S o lo argilo so e
p esad o , m a is o u m en o s v e rm e lh o -e s c u ro e q u e c o la n o p é . D e e s tr u tu r a c rista lin a , é
q u im ic a m e n te rico . C o m p o sto d e u m a c a m a d a d e a lu m in a e n tre d u a s cam ad as de
s ilíc io , seus c rista is m o stra m -se fo rte m e n te e n tre la ç a d o s . Q u a n d o ú m id o , sofre forte
exp an são . S eco , re tra i-se . Isto p ro d u z u m so lo fo lh a d o e c o n sis te n te e m p erío d o seco
e e x tre m a m e n te p esad o e p lá stic o e m p e río d o s de c h u v a : a tra ç ã o a n im a l torn a-se
en tão im p o ssív el o u q u a se im p o s s ív e l.10 O s d iv e rso s g ra u s d e im p e rm e a b ilid a d e do
solo a c a rre ta m p ro b le m a s p a ra a c u ltu r a d a c a n a -d e -a ç ú c a r. P ro b le m a s ta n to m ais
graves q u a n to os so lo s d e m a ssa p ê e n c o n tra m -s e p r a tic a m e n te to d o s em regiõ es de
terras m ais a rg ilo -a re n o sa s d o q u e u n ic a m e n te a rg ilo s a s : os silõ es o u salões são ter­
ras q ue têm fre q ü e n te m e n te a m e s m a c o r v e m e lh a q u e o m a ssap ê , em b o ra sejam
m u ito p erm eáv eis. M a ssap ês e silõ es tê m , a m b o s, u m a b o a f e r tilid a d e q u ím ic a , mas
são as ch u vas, e só elas, q u e v ão d e te r m in a r a d ife re n ç a , re s u lta n d o u m a b o a ou m á
c o lh eita d e can a, seg u n d o os lo c a is e os a n o s, sem q u e os c u ltiv a d o re s d e a n tig a ­
m en te ten h am co n seg u id o se d a r c o n ta das razõ es d e su as v itó ria s e de suas derro­
tas. A liás, é co m u m v er cu ltiv ad o res — e a té geó grafo s — u tiliz arem o term o m assapê
p ara d esig n ar terras q u e são , n a re a lid a d e , s ilõ e s .11
. CAPÍTULO 4 ,

V ias d e C o m u n ic a ç ã o

C a m in h o s F l u v ia is: o R e c ô n c a v o e o L it o r a l

A história da cidade de Salvador está ligada à de sua hintcrlândia, à de suas terras


interiores, mais ou menos distantes. Desde a época colonial, os m arinheiros da Bahia
subiam os m uitos rios parcialm ente navegáveis. Foram os prim eiros a abrir caminhos,
logo seguidos por outros pioneiros, os condutores de boiadas. Alternativam ente, m a­
rinheiros e b oí a de iros, foram .o s._gran d es viajantes da Província. _
Mesmo nas regiões do Recôncavo mais próximas de Salvador, pontes e estradas
eram raras no século XIX. Antigos cam inhos partiam de Cachoeira para o norte, via
Jacobina, descendo em seguida na direção de M aracás, de Caetité e do rio das Velhas,
situado na Província de M inas Gerais. Esses caminhos da época colonial eram trilha­
dos por carros de bo i, por anim ais albardados e carregados e também por boiadas. A
criação de gado foi em purrada para o Sertão à m edida que se desenvolviam as culturas
de fumo e cana-de-açúcar, voltadas para exportação,
A prim eira estrada pavim entada pelo sistem a de M ac Adam data de 1851. Ela
saía de Santo Amaro e m edia 150 braças, aproxim adam ente 330 metros. No século
cavalos e burros eram indispensáveis aos transportes. Todos montavam a ca­
valo ou em dorso de mula para fazer uma visita a um amigo ou levar recados e
mercadorias, A prim eira linha ferroviária, que partia de Salvador em direção ao rio
Joanes, data de 1860 e, depois de seus 18,5 quilôm etros iniciais, foi interrompida
em Aratu, no fundo da baía. Esse novo meio de transporte suscitou muitas esperan­
ças, mas seu desenvolvimento não foi rápido, 1 Durante a maior parte do século XIX,
Salvador continuou a ligar-sc às vilas e arraiais de sua Província peios métodos tra­
dicionais, ou seja, as vias marítimas e fluviais e os animais de carga (o primeiro
plano para a construção de estradas de rodagem no Estado da Bahia data de 1917
lei n° 1.227 — c a primeira grande estrada construída ligou Salvador a Feira de
Santana).

59
B a h ia , S é c u l o X I X
60

O m aior dos rios do Recôncavo, o Paraguaçu, a oeste da baía, com um a extensão


de 664 quilôm etros, poderia ter sido um a via de com unicação ideal com o centro da
Província, caso seu curso não fosse interrom pido por grandes cachoeiras. M as ele é
navegável nos 33 quilôm etros que separam sua em bocadura e C achoeira, e por ali
transitaram o fumo e o açúcar produzidos nas cercanias. C achoeira era um a cidade tão
importante que foi a prim eira a m erecer um a ponte sobre seu rio, ponte esta tanto
mais útil quanto o Paraguaçu, já vim os, como m uitos rios do Recôncavo, corre entre
margens bastante escarpadas e íngrem es. Desde 1819, um vapor deixava Salvador,
atravessava a b a ía e subia o Paraguaçu, ligando a cap ital a C ach o eira.2 Era o Vapor de
Cachoeira, Com sua fabulosa m áquina inglesa, seus cobres rutilantes e sua fumaça
cinzenta, foi, durante m uito tem po, u m a das m aravilhas do Recôncavo, nutrindo em
torno de si um folclore bem sugestivo. Espécie de T orre Eíffel lon gín qu a, mas também
bicho-papão, para os vaqueiros-trovadores do Sertão que gostavam , nos momentos de>
descanso, de im provisar cantigas ao som da viola.
O Paraguaçu é o m ais im portante, mas não o único rio do Recôncavo. Numerosos
cursos d ’água, sempre orientados, m ais ou m enos, de oeste para leste, facilitam a
penetração para o interior. No fundo d a baía, a noroeste de Salvador, por exemplo, o
Sergi do Conde era, nos seus 26 quilôm etros, a via de com unicação predileta com
Santo Amaro, principal centro açucareiro da região: a p a rtir de 1847, percorriam-no,
todos os dias, barcos a vela e até pequenos navios a vapor. Se o Paraguaçu fez a fortuna
de Cachoeira e o Sergi do C onde a de Santo A m aro, o Jagu arip e, a sudoeste, com seus
72 quilôm etros de extensão, fez a de outras grandes povoações do Recôncavo, como
Nazaré e Jaguaripe. Embarcações de m édio porte podiam subi-lo e descê-lo, conti­
nuando até Salvador, e nele a navegação a vapor data de 1852/3
No lim ite do Recôncavo, naquilo que alguns cham am de Recôncavo Sul, corre um
belo rio, o U na, que banha V alença e se lan ça em um braço de m ar que separa a ilha
de 1 inharé e o continente. N a ilha está o m orro de São Paulo, aquele em que os
pilotos iam esperar os navios vindos do O riente para ajudá-los a transpor a barra. Por
esse braço, ao sul, chegava-se à vila de C airu , na m aré alta, até com embarcações de
grande tonelagem. C ontinuando na m esm a direção, alcançava-se T aperoá e o pequeno
arraia! dc Jequié, à margem do rio do mesmo nom e.
Enumerar os nomes das principais povoações do Recôncavo quase eqüivale a dizer
que rio navegável as fez nascer, sempre que não estejam situadas num fundo de baía
ou dc enseada. A ajuda mais preciosa para o desenvolvim ento de todos esses portos foi
trazida pela criação dc um imposto dito de transporte terrestre, imposto suplementar
sobre todas as caixas de açúcar transportadas por terra!'1 Assim, a mesma caixa vinda de
um engenho afastado dc Salvador, mas próximo a um porto de embarque, pagava
menos imposto que aquela transportada por terra, de m uito perto da cidade:s para o
açúcar, a via fluvial-m arítim a cra mais rápida e sempre mais econômica. Aliás, no
Recôncavo, quase todos os transportes de mercadorias pesadas se faziam por barco.
Os contemporâneos atribuem, em média, quatro embarcações a cada engenho. A partir
Lí\-ro 1 - Os D o n s i: a s A r m a d u r a s d a N a t u r e z a 61

do m om ento em que o local não em mais acessível por via fluvial e se fazia necessário
andar m uito para atin gi-lo , o hom em do Recôncavo sentia-se hom em do Sertão: o
Recôncavo era, antes de m ais nada, terra de navegação, onde cada um tinha seu barco
e onde nunca se estava a m ais de um dia de m archa de algum a via navegável ou da orla
m arítim a.
Ao sul do rio U na. a vila da Barra do Rio de C ontas deveu sua fundação ao rio que
tem o mesmo nom e. M as, com o esse longo rio só é navegável por dois quilôm etros e
em barcos de pequeno porte, B arra do Rio de C ontas não se tornou um a cidade
im portante. A inda m ais ao sul. Ilhéus existe graças ao rio C achoeira, que tem cinqüen­
ta quilôm etros navegáveis, mas só por em barcações leves. T am bém deveriam ser pe­
quenas as em barcações q ue desejassem subir ou descer o rio Pardo: de C anavieiras,
pode-se sub ir 112 de seus 6 6 0 q uilôm etro s na direção de M inas G erais; pelo canal de
Poassu, é possível passar do Pardo ao Jeq u itin h o n h a, na em bocadura do qual se
encontra a cid ad e de B elm onte. C o m 1 .0 8 2 quilôm etros, o Jeq u itin h o n h a era um a
boa via de co m u n icação en tre a B ah ia e M in as G erais, pois seus 135 quilôm etros
navegáveis atin g iam as duas provín cias. A d ian te, um a série de cursos d ’água, sempre
orientados no sentido oeste-leste, acolheram em suas em bocaduras alguns núcleos de
povoam ento: o B uranh ém , Porto Seguro; o Ju cu ru çu , Prado; o Itanhcntinga, Alcobaça;
o C aravelas, o porto do m esm o nom e; o Peruípe, V içosa; e, finalm ente, o M ucuri,
navegável por 99 q uilô m etro s a p artir do litoral, deu origem à V ila de São José de
Porto A legre.
A p artir de Salvado r, segu in d o a costa na direção sul, à procura dos principais
ancoradouros das em barcações de cabotagem , nasciam cidades e povoados sempre que
um rio navegável to rn ava possível transportes do e para o interio r e oferecia o abrigo
de sua foz para um porto. T o m an d o o sentido oposto e acom panhando a orla m arí­
tim a de Salvador rum o ao norte, chegam os à foz do Inham bupe, rio interm itente e
pouco profundo que desce da região de Serrinh a e banha a cidade de Entre Rios. M ais
adiante, o Itap icuru, o grande rio do Agreste baiano, nasce m uito no interior, na
chapada D iam an tin a, perto de C am po Formoso, e se lança no m ar na altura de
Conde, navegável apenas em sua parte baixa, perto do litoral, por pequenas embarca­
ções. M ais favorável à navegação e com um a extensão de 2 64 quilôm etros, o rto Real
tem sua nascente perto da cidade de C ícero D antas e chega ao mar em Abadia, no
lim íte entre Bahia e Sergipe. No século XIX, era percorrido por veleiros de médio
porte que transportavam viajantes e m ercadorias das duas províncias. Encontramos,
finalm ente, a foz do São Francisco, o rio mais im portante da Província {embora nasça
em M ínas G erais), com seus 2 ,7 1 2 quilôm etros e sua orientação inicialm ente sul-norte
e, depois de Rem anso, oeste-leste, banhando Juazeiro e Paulo Afonso. No século XIX,
1.270 quilôm etros do São Francisco eram navegáveis, dos quais 1.009 na Província da
Bahia. Seus principais portos eram C arinhanha, U rubu, Lapa, Barra, Remanso, Pilão
Arcado, Sento Sé e Juazeiro. A navegação era livre e fácil entre Pirapora, em M inas
Gerais, e C achoeira de Sobradinho, quase na fronteira de Pernambuco. A partir dali
62 B a h ia , S é c u l o X I X

as cachoeiras de Itaparica c Paulo Afonso tornavam o rio im praticável. Adiante, em


Piranhas, o rio, largo e profundo, volta a ser navegável até desem bocar no Atlântico,
entre Sergipe e Alagoas. O São Francisco só recebeu seu prim eiro vapor em 1870, o
famoso P residente Dantas, que percorria o rio entre Pirapora e Juazeiro.

C a m in h o s T e r r e st r e s: o A g r e st e e o S e r t ã o

Para os que não se puderam estabelecer perto de um curso d ’água ou no Recôncavo


banhado de influências m arinhas, restaram os grandes espaços do in terio r da Provín­
cia. Quem os percorria a cavalo, em dorso de m ula ou m esm o a pé, seguia forçosamen­
te os cam inhos abertos pelas boiadas que, duran te os séculos XVII c XVIII, embre­
nharam -se para o interior, cada vez m ais longe das costas, à procura de novos espaços.
A prim eira região encontrada pelos colonizadores e pelos boiadeiros foi um a zona
de tabuleiros cuja vegetação não é tão exuberante quanto a do Recôncavo, mas não
tem ainda a aridez do Sertão. O Agreste é essencialm ente um a zona de transição que
recebe entre setecentos e m il m ilím etro s de chuva por ano. M u ito reduzido na
hintcrlândia de Salvador, estende-se m ais am plam ente ao norte, na direção do São
Francisco e da Província de Sergipe. C orresponde a um a região menos seca que a dos
sertões interiores da Província, em bora menos ú m id a que as regiões costeiras. Sua
vegetação natural é form ada por árvores e arbustos densos e verdes. M ais ao suí, na
direção de Jequié, onde o clim a é seco, torna-se um a verdadeira savana onde, em certos
lugares, proliferam cupinzeiros, alguns com três m etros de altu ra e quatro de diâm e­
tro, separados uns dos outros por 20 a 25 m etros de d istân cia.7 O Agreste é um a região
de recursos tão variados como os solos de seus tabuleiros argílo-arenosos. Com altitude
em geral pouco elevada, entre cem e seiscentos m etros, eles freqüentem ente apresen­
tam em sua fronte um aspecto típico de cuesta. A um idade do Agreste é dada por sua
distância do mar e por precipitações pluviais suficientes. Nos numerosos vales que
cortam esses tabuleiros, a um idade e a acum ulação de sais m inerais conferem aos solos
boa fertilidade.
À conquista das regiões litorâneas seguiu-se a ocupação do Agreste por missíoná-
nos, criadores dc gado e lavradores. As concentrações populacionais fizeram-se primei­
ro cm torno dc aldcamcntos dc índios, criados por jesuítas e franciscanos. f al é a
origem das povoações de Itapícuru, Jcrcm oabo, Pombal, Sourc c Tucano. Os estabe­
lecimentos sedentários m ultiplicaram -se rapidam ente, c os rebanhos que subutiliza-
vam solos cultivávcis foram expulsos para o interior, para o vasto Sertão, que começa
onde acabam as terras dc fáceis acesso c cultivo. ■
O Sertão é diversificado, mas distante e seco. Onde começa? A dois ou três dias
de caminhada do mar? O nde chovc menos dc seiscentos milímetros por ano? Os
boiadeiros tocam o gado para o Sertão, atravessando taludes e colinas, vastas exten­
sões dc terras a centenas de metros de altitude, imensas superfícies andulantes, cs-
L iv r o I - Os D o n s e a s A r m a d il h a s d a N a t u r e z a 63

culpidas por ventos circulares e secos. Falar de sertão no N ordeste brasileiro eqüiva­
le a pensar em im ensas e con tin u as terras secas, com inúm eros arbustos espinhosos,
especialm ente cactáceas e brom eliáceas.
A palavra sertão tem um sign ificad o tão vago que os dicionários a definem como
um nom e dado a q u alq u er região afastada das terras cultivadas e das costas, coberta de
vegetação áspera. P arece q ue sua etim o lo g ia vem da palavra deserto, através do
aum entarivo ‘desertão ’. N ão vam os en trar aq u i nas controvérsias dos especialistas que
opõem sertão e caatin g a. Esta ú ltim a , ‘m ata b ran ca3 na lín g u a guaran i, teria um a
vegetação de m im o sáceas, cesalpin áceas, euforbiáceas e herbáceas que precisariam de
um pouco m aís de ág u a q u e as brom eliáceas do verdadeiro sertão. Prazer de classificar,
com o q u al, em todo caso, no século XIX, a sab edo ria po pular pouco se ocupava. Os
boiadeiros ch am am in d iferen tem en te de caatin g a ou de sertão todas as regiões áridas
cobertas de arbustos, cu ja a ltu ra não u ltrapassa sete m etros de altu ra e cujas folhas
espinhosas são p ro tegid as por u m a espécie de cera e orientadas de m aneira a d im in u ir
a in cid ên cia dos raios solares. M u itas vezes, as próprias folhas desses arbustos não
passam de um g ran d e esp in h o . A ssim , o m elho r é vestir-se de couro, das botas ao
chapéu, p ara p erco rrer o Sertão . E ntre os arbustos, brotam algum as m oitas com folhas
caducas que sobrevivem graças ao orvalho provocado pelas grandes diferenças de
tem peratura en tre o d ia e a no ite. H á um a p lan ta euforbiácea cham ada favela ou
faveleiro — C in id o scu lu sp h y lla cã n tu s — que, esfriando à n o ite m u ito m ais rapidam en­
te que o ar, provoca breves p recip itaçõ es de orvalho. Suas folhas, verdadeiras placas
incandescentes d u ran te o d ia , ao sol, q u eim am a m ão que as to ca.fi
U m a das poucas árvores que, às vezes, consegue crescer m ais um pouco é o
um buzeiro — S pon dias p u rp u r ea , d a fam ília das anacordiáceas — , árvore sagrada do
Sertão. Seu fruto, o u m b u , é co n su m id o cru ou cozido, peneirado e m isturado com
leite e açúcar, na fo rm a de u m a b eb ida cham ada u m b u z a d a ? Os pequenos bosques de
um buzeiros são as paradas preferidas dos boiadeiros, que, vasculhando raízes profun­
das, encontram boas reservas de água, econom izada duran te os períodos beneficos.
Seus galhos, bem curvos, parecem feitos de propósito para suspender as redes que
propiciam um sono reparador; seus frutos são deliciosos e os próprios anim ais cobiçam
a extrem idade acid u lad a de suas folhas.
D urante os oito mcscs de seca rotal, o solo entre as árvores e os arbustos do
Sertão fica in teiram en te despido de q ualqu er cobertura vegetal, o que dá à paisa­
gem um triste ar dc deserto, m onocrôm ico, acinzentado e desolado. Às vezes, a seca
dura o ano inteiro. M as, quando caem as raras chuvas de inverno, a paisagem se
transform a: em três dias, o im enso deserto m uda de cor, as árvores e os arbustos se
cobrem de folhas que têm todos os tons dc verde e o solo nu desaparece debaixo
das gram íneas rasteiras que florescem em cachos de todas as cores. M as são bem
raros esses períodos abençoados. Dc modo geral, os solos do Sertão permanecem
mal protegidos contra as chuvas, poucas e excessivamente violentas, e contra a grande
variação das tem peraturas diurna e noturna. A vegetação adaptou-sc aos rigores do
B a h ia , S é c u l o X I X
64

clim a e à laterizaçao dos solos superficiais. Assim, o Sertão fica duran te longos me­
ses, todos os anos, imerso em tonalidades cinza e rosa. V egetação acinzentada ou
prateada sobre o solo rosa ou averm elhado, sob um céu im piedoso, sempre azul: eis
a rude paisagem costum eira do Sertão.
Os geógrafos costum am descrever a Bahia com o um a sucessão de três paisagens
diferentes que. do Litoral, sobe para o Sertão, passando pelos tabuleiros do Agreste.
Na realidade, há tão pouca u nidad e efetiva no Sertão quanto no A greste. O clim a é o
único fator de unidade ou diferenciação. M as, n atu ralm en te, os m icroclim as não
faltam num a terra tão vasta e com relevos tão variados. Q uan to mais distante o
oceano, m aiores as áreas clim áticas, É a vegetação que caracteriza as paisagens. Além
disso, os vales dos rios são verdadeiros corredores abertos para o m ar. Eles tornam
possível que o clim a m ais úm ido das costas possa lu ta r, com m aio r ou m enor êxito,
contra a aridez do Sertão.
Essa “zona in grata” — na expressão de E uclides da C u n h a — , im ensa como o
mar, foi dom inada e dom esticada por hom ens austeros e sólidos, os vaqueiros, pastores
de grandes rebanhos itinerantes, sem pre à busca de pastos escassam ente distribuídos.
Essas boiadas abriram verdadeiras trilhas no Sertão. Seus condutores sabiam orientar-
se segundo as constelações ou a posição dos tab uleiro s. N em os rios conseguiam deter
a m archa sem fim. Para atravessar um rio, era só fazer a bo iada segu ir um hom em que
nadava à sua frente com um a carcaça de boi na cab eça. 10
Os cam inhos do Sertão eram tão p recário s11 que, até m eados do século XIX,
Salvador continuava a im portar, do N o rte ou do S u l, por via m arítim a, quase toda a
sua carne-seca e a exportar, tam bém por via m arítim a, rodos os produtos agrícolas
com erciais originários do Recôncavo. N a segunda m etade do século XIX, a Bahia
começou a romar consciência dos graves problem as colocados pelas suas comunicações
internas. A navegação fluvial já não aten d ia, havia m u ito tem po, todas as necessidades
dos centros agrícolas, criados e suscitados pelos vaqueiros e suas boiadas lá onde
tinham descoberto algum vale úm ido capaz de abrigar culturas fornecedoras de v iv e-'
res, de início para um consum o local e, depois, pouco a pouco, para a venda às regiões
costeiras mais populosas, cuja prioridade era o cultivo dc produtos de exportação:
açúcar, fumo, cacau, algodão e café.
Como transportar legum inosas e farinhas?12 Entre 1860 e 1923, fez-se um esforço
para desenvolver as ligações entre litoral e interior, já evocamos a navegação fluvial e
também a via férrea, recebida como o meio ideal c privilegiado para todos os tipos de
transporte. Mas ela permaneceu insuficicm e para cobrir os vastos espaços interiores. ^
Os discursos c relatórios dos presidentes da Província descrevem os graves problemas
que a administração não conseguia resolver c os belos projetos jam ais realizados. Em
1855, por exemplo, foi elaborado um m agnífico program a de rede ferroviária que
deveria ligar Salvador aos extremos sul e norte de sua Província.
O Recôncavo e o Agreste foram sempre mais bem-servidos de vias de com uni­
cação que o longínquo Sertão. Durante m uito tempo, os caminhos pioneiros, mar-
Li\ K o I - Os D o n s e a í A rm a d ilh a s d a N a tu r e z a 65

cados pelas trilhas das boiadas e das tropas de mulas, permaneceram as únicas vias
de ligação entre a cap ital e os sertões afastados dos rios. A febre do ouro e dos
diam antes, que levou exploradores à chapada D iam antina, durou pouco, mas pro­
vocou o surgim ento de cidades como A ndaraí ou Livram ento e tornou possível o
estabelecim ento de um a econom ia de subsistência no Sertão. As mercadorias, no
entanto, continuaram a ser carregadas em lombo de burro ou em carro de boi'; foi
preciso continuar a seguir as trilhas, a percorrer — matas, savanas ou caatingas aden­
tro os cam inhos abertos pelas boiadas. As paróquias que conseguiram fixar po­
pulações nos sertões nasceram da pecuária e do seu com ércio, da mineração e de
uma econom ia de subsistência cujos produtos circulavam nos mercados locais.
N ão há dúvidas de que os Sertões das boiadas é o lugar das contradições descritas
pelo escritor-poeta E uclides da C u n h a por volta de 1900: “barbaram ente estéreis,
m aravilhosam ente exuberantes (...), é um vale fértil, um pom ar vastíssimo sem dono”.14
' ■ ■ ■' js,

C a m in h o s M a r ít im o s : o S u l

O grande problem a que a B ah ia foi obrigada a enfrentar durante todo o século XIX,
principalm ente depois da década de 1 8 7 0 , foi o de seu desenvolvim ento agrícola, com
a im plantação de cu ltu ras diversificadas em regiões que, até então, tinham permane­
cido m arginalizadas, fosse porque os m eios de com unicação entre Salvador e sua
jh in terlân d ia eram de m á q u alid ad e, fosse porque a seca e as distâncias do Sertão
intim idaram d u ran te m u ito tem po os novos colonizadores, a não ser quando se tratava
de instalar currais para boiadas ou, entre 1840 e 1860, encontrar filões de ouro ou
diam antes. Restava o extrem o sul da Província, até o vale do M ucuri, um a espécie de
haste que faz fronteira com o E spírito Santo, estendendo-se ao longo do litoral, com
profundidade que não ultrapassa 150 quilôm etros. Rica em água e florestas, fértil,
ligada a Salvador por via m arítim a, testem unha, ainda hoje, a corrida às úteis terras
costeiras, característica dos prim órdios da colonização do Brasil. T ornar essa região
um novo Recôncavo parecia ser sonho possível. M as era preciso descobrir qual o
melhor produto a ser alí cultivado. Desde fins do século XVIII, Baltazar da Silva
Lisboa, ouvidor (cargo correspondente ao atual juiz de direito) da comarca de Ilhéus,
demonstrava incansavelm ente as possibilidades de exploração agrícola da região. Dois
notáveis da colônia, os irm ãos M anuel Ferreira da Câm ara Bittencourt e Sá e José de
Sá Bittencourt e A ccioli, publicaram trabalhos sobre seu desenvolvimento econômico.
A Coroa com partilhava o entusiasm o deles, sobretudo após a expulsão dos jesuítas,
principais senhores da região até 1 7 6 0 .1"’
Era necessário, entretanto, vencer inúmeros obstáculos. Depois da bacia do Ama­
zonas, a costa sul da Bahia é a região mais úm ida do Brasil. A umidade excessiva
dificultava o cultivo de cana-dc-açúcar. Ali teinava, endemica, a m alária. E, sobretu­
do, a costa estava isolada de suas terras interiores por um a vasta faixa de florestas
66 B a h ia , S é c u l o XIX
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tro p ic a is co m v ário s q u ilô m e tro s d e p r o fu n d id a d e , v e r d a d e ira se lv a , b a rre ira tão im ­
p e n e trá v e l q u e os novos p o v o a m e n to s d o in te rio r a n te s lig a v a m -se às c id a d e s lo n g ín ­
q u as d o S e rtã o d o n o rte, p re fe rin d o -a s a u m p o rto q u a lq u e r , m esm o m u ito m ais
p ró x im o . F oi esse o caso , p o r e x e m p lo , d e V itó r ia d a C o n q u is ta , q u e fazia p a rte da
c o m a rc a d e J a c o b in a , a p e sa r d e Ilh éu s e s ta r q u a tro v ezes m a is p e rto . O s reb an h o s do
rio d e C o n ta s d ir ig ia m -s e aos m a ta d o u ro s de S a lv a d o r, o q u e n ã o im p e d ia os h a b i­
tan te s d a co sta s u l d e se re m o b rig a d o s a im p o r ta r , p o r v ia m a r ítim a , a carn e-seca
p ro v e n ie n te d o lo n g ín q u o P ia u í. J á sab em o s q u e n ão era p o ssív el s u b ir os rios dessa
reg ião a lé m d a z o n a d e flo re sta d e n sa ; só o J e q u it in h o n h a , co m seu s cem q u ilô m e tro s
n av eg áv eis, p e r m itia a lc a n ç a r as reg iõ es in te rio re s d e v e g e ta ç ã o m e n o s c e rra d a , m as
su a foz e ra c h e ia de lo d o e p e rig o . A lé m d isso , n o m a r, c o rre m q u a se de fo rm a
c o n tín u a , p a r a le la m e n te à c o sta s u l d a P ro v ín c ia , recifes d e c o ra l p e rig o so s p ara
n av eg an tes in e x p e r ie n te s .16 T o d a s essas d ific u ld a d e s e a a u s ê n c ia q u a s e to ta l de co lo ­
nos tin h a m p e r m itid o a n u m e ro sa s trib o s in d íg e n a s — p a r tic u la r m e n te a fam osa
trib o dos A im o ré s o u B o to c u d o s — p re se rv a re m s u a in d e p e n d ê n c ia n as flo restas, o
q u e to rn av a a p e n e tra ç ã o p a r a o in te rio r a in d a m a is d if íc il.
P a ra d esen v o lv er a reg ião era, p o rta n to , n e c e ssá rio p a c ific a r os ín d io s e a p rim o rar
as co m u n ic a ç õ e s. M a s os p rim e iro s esfo rço s n esse s e n tid o fo ram lo g o p o sto s de lado.
U m a e strad a e n tre C a m a m u e o S e rtã o , m a l c o m e ç a d a , fo i a b a n d o n a d a . Pontes
p ro jetad as em 1 7 9 0 n u n c a fo ram c o n s tr u íd a s .17 T e m p e s ta d e s, recifes, em b o cad u ras de
rios ch eias d e lo d o , ao q u e p a re c e , n ão im p e d ir a m q u e as ro tas co steiras fossem
p referid as aos c a m in h o s terrestres. Jo ã o C a p is tr a n o d e A b re u c o n ta de q u e m o d o , em
1 8 0 8 , o d e sem b arg ad o r (ju iz d e tr ib u n a l d e se g u n d a in s tâ n c ia )18 T o m ás N avarro
v ia jo u por v ia terrestre e n tre a B a h ia e o R io d e J a n e ir o p a ra e s tu d a r u m a nova ro ta
para os C o rreio s: “Seu itin e rá rio a c o m p a n h o u sem p re a co sta, m en o s o n d e escarpas
m u ito ab ru p tas o o b rig av am a fazer d esvio s. O s rios — sem p o n tes e sem barqueiros
— eram sub id os até o p rim e iro v a u .”19 D o p o n to d e v is ta a g ríco la , o su l d a P ro víncia
só com eço u a desen vo lver-se rea lm e n te nos ú ltim o s anos do século XIX .
N a P ro vín cia d a B ah ia, a n atu rez a foi e x trem a m en te p ró d iga em suas dádivas.
Salvad o r, seu porto e sua h in te rlâ n d ia p ró x im a parecem ter sid o m ais bem aq u in h o a ­
dos. M as, desde o século XV III , os b aian o s m ais c lariv id en tes já co n h eciam as riquezas
inexp loradas d a P ro víncia. Por q ue não foram elas d ev id am en te ap roveitadas? F alta d e
cap itais e escassez de hom ens? F.m S alv ad o r e em seu R ecôncavo devem ser en co n tra­
das m u itas respostas a tais pergun tas.
LIVRO II

O P e so dos H omens
C A P Í T U L O 5

O P apel da H ist ó r ia

Q uais os hom ens ad equado s para povoar essa cap itan ia com tan tas regiões severas e
inóspitas? D ecerto hom ens fortes, d ecid id o s, dispostos a não m ed ir esforços, p rin ­
cipalm ente quando se estab eleciam a centen as, às vezes m ilhares, de quilôm etros da
costa bem m ais acolhedora, b an h ad a pelo oceano que aproxim a o em igrado da pátrla-
mãe e é prom essa constante de u m possível retorno. Instalado perto do litoral, se o
hom em se cansar de viver exilad o — seja p o rq ue o exílio não cu m p riu suas promessas,
seja porque, tendo prosperado, ele deseja acabar seus dias com a fam ília e em sua
aldeia, que m uitas vezes o viram u m a e o u tra p artir adolescente — o cam inho está lá,
ao seu alcance. M as o ho m em q ue se fixo u no A greste ou no Sertão interpôs entre ele
e os seus um a travessia su p lem en tar que, m u itas vezes, d ificu lta a realização do sonho
de um pronto retorno.
Q uantos foram esses hom ens in trép id o s que, d u ran te quase três séculos, ocupa­
ram e povoaram o vasto territó rio que form ava, no século XIX, a Província da Bahia?
A resposta a essa p ergun ta pressupõe o con hecim ento da evolução das formas de
ocupação da terra e a análise das precárias fontes disponíveis para o estudo das popu­
lações baianas. -
O atual Estado da B ahia nasceu paralelam ente à conquista do Brasil pelos portu­
gueses no século XVI. Os índios encontrados no lito ral eram T up is, que ali se haviam
estabelecido dois séculos antes, vindos, segundo se supõe, do A lto X ingu. Teriam
conseguido expulsar para o interio r as tribos Jês, conhecidas m ais tarde pelo nome de
1 apuias. Vivendo na faixa litorânea, os T up is — T upinam bás e T up iniqu ins — foram
os prim eiros a entrar em contato com os europeus, o que explica o fato de cies serem
mais bem conhecidos por nós do que os Jês ou os C ariris. Os T upis ocupavam as
regiões costeiras, os Jês o interior e os C ariris o Nordeste. '
Até 1534, os portugueses não sc interessaram por aquela terra recém-descober-
ta, pois estavam empenhados na consolidação de suas conquistas no Extremo Oriente.
Nessa perspectiva, o Brasil representava apenas um episódio em sua marcha para

69
70 B a h ia , S é c u lo X I X

o Leste- Desse prim eiro período, a história reteve o nom e de um cam ponês do
A lentejo, Diogo Álvares, dito o C aram u ru , 1 que chegou aproxim adam ente em 1511.
A dotado pelos indígenas, ele se tornou o p atriarca dc um a lon ga linhagem de
m am elucos, mestiços de branco e índio . Personagem m uito controvertido entre os
historiadores brasileiros — que, por vezes, o consideram um traidor da causa por­
tuguesa e, por outras, o prom otor das boas relações entre os europeus e os indí­
gen as no co m ércio do p a u -b ra sil e dos v ív eres in d isp e n sá v e is ao reab asteci­
m ento dos navios — , o fato é que D iogo Álvares ali estava, pronto a oferecer seus
serviços, quando, nos anos 1530, m udou a p o lítica portuguesa em relação ao Brasil.
A presença co n tín u a, na costa b ra sile ira , de navio s estran g eiro s — sobretudo
franceses — to rn ara-se u m a am eaça p alp áv el p ara a q u e la in acab ad a conquista
am ericana.
A fixação de povoadores dc origem européia em regiões em que a população
autóctone era pouco num erosa e nôm ade só se fez com a criação de núcleos urba­
nos. U m prim eiro passo dessa nova po lítica fora dado quando, em 1531, M artim
Afonso de Sousa fundou em São V icente, no atual Estado de São Paulo, um pri­
meiro núcleo de povoam ento estável. T rês anos depois, em 1534, dom João III de­
cidiu oficialm ente colonizar o Brasil, in stituin d o o sistem a de capitanias hereditá­
rias que tin h a dado bons resultados nas ilhas do A tlântico um século antes. Assim,
o Brasil foi dividido em quinze cap itan ias, cabendo a da B ah ia de Todos os Santos
a Francisco Pereira C outinho,
N ão temos o propósito de d iscu tir aqui as vicissitudes dessa breve tentativa de
colonização, destinada ao fracasso por causa da falta de hom ens e de capital, das
desavenças internas entre colonizadores ou entre estes e os indígenas, ou da escolha
de locais inadequados para as prim eiras povoações. O fracasso foi quase geral, pois
só as capitanias de Pernam buco e de São V icente conseguiram prosperar.2
D ecidida a instalação de um governo geral, em 1549 o capitão-m or Tomé de
Sousa desembarcou na baía de Todos os Santos para fundar a capital do Brasil, quase
cinqüenta anos dcpoís da passagem dc Am érico V espúcio pelo local. Encontrou ali
não mais do que os restos incendiados de um a pequena aldeia, que ficou conhecida
como V ila Velha, c uns cinqüenta habitantes de origem européia que viviam sob a
proteção dc Caram uru c seus fiéis am igos índios.^ Seguindo ordem expressa de dom
João III, I omé de Sousa escolheu um novo local, “mais para dentro da baía”, para
instalar os homens que o acompanhavam. No R egim ento que estabelecia direitos e
deveres do capitão-mor, o rcí determ inava fossem construídas “uma íortaleza e uma
povoação grande c forte, cm loca! conveniente, para. a partir dali, ajudar os outros
povoamentos e adm inistrar justiça”. Iim dois meses foram levantados os armazéns da
Cídade Baixa e, na Cidade Alta, o palácio do governador, a Câm ara M unicipal, o
bispado e uma primeira igreja, a dc Nossa Senhora da Ajuda. Tratava-se, evidente­
mente, dc frágeis construções dc taipa. Dois anos mais tarde as chuvas de inverno
destruíram uma parte da muralha que as cercava.
SSvíp>>,..
L iv r o II - O P e so d o s H o m e n s 71

O que im pressiona nessa B rasília do século XVI é seu traçado regular, apesar do
terreno acidentado que já conhecem os.4 Os habitantes c as autoridades tentaram
conservar esse mesmo traçado quando, no fim do século XVI, a cidade ultrapassou
seus lim ites prim itivos, espalhando-se sobre os morros e os vales das cercanias. No
recinto da cidade ton ificada, protegido por numerosas torres, o espaço era repartido
por sete ruas: quatro lon gitudinais em relação à costa c três transversais. Elas desem­
bocavam em duas praças: a da A juda, diante da igreja de Nossa Senhora da Ajuda, e
a do Palácio, cercada por edifícios adm inistrativos. T inha-se acesso à cidade por duas
portas: a de San ta Luzia, ao sul, que ligava Salvador ao prim itivo povoado de V ila
Velha e à sua paróquia de Nossa Senhora das V itórias; e a de Santa C atarina, que se
abria para o norte. A lgum as décadas m ais tarde, essas portas tom ariam o nome dos
conventos que foram construídos nas suas proxim idades: a do sul passou a ser cham a­
da porra de São Bento e a do norte, porta do C arm o.
É inútil tentar avaliar a população desse prim eiro núcleo urbano, que reunia
os hom ens chegados com o fu n d ad o r, in d íg en as utilizado s como m ão-de-obra,
alguns em igran tes p o rtugueses e um co n tin g en te de m arin h eiro s em trânsito.
Só sabemos que, já em 1552, duas paróquias — a da Sé, dentro do recinto fortifi­
cado, e a de Nossa Senhora das V itórias (V itória), na velha aldeia de Diogo Álvares
— repartiam entre si os fiéis da cidade, o que dem onstra que os sobreviventes da
prim eira tentativa de povoam ento não se haviam unido aos homens de Tomé de
Sousa dentro da área pro tegida.5 A existência de um a paróquia além -m uros prefigu-
rava a vocação din âm ica do prim itivo núcleo oficial. R apidam ente, a cidade ultra­
passou seus exíguos lim ites, estabelecendo-se um jogo perm anente entre uma sede
urbana que tinh a seus próprios pomares e hortas e o campo vizinho, urbanizado,
que se sentia parte da cidade-capital. A partir da década de 1560, as portas do re­
cinto fortificado p erm aneceram abertas, e a m u ralh a foi deixada praticam ente
destruída. '
A cidade e seus novos prolongam entos além -m uros, Palma e Desterro, temiam tão
pouco ataques inim igos que, sem efetiva proteção, foram conquistadas facilmente
pelos holandeses — é verdade que por pouco tempo — em 1624/’ Na época, âs
ladeiras da Conceição c da Preguiça — esta últim a assim chainada porque se podia
percorrê-la de carroça, cm pequenas carruagens ou em cadeirinhas de arruar , que
ligavam a C idade Alta à C idade Baixa, tinham sido acrescentados dois novos ca­
minhos, as ladeiras do Tabnao c da M isericórdia, que levavam, como as primeiras, a
cinco pontos de desembarque: o arsenal, o da pesca, o do desembargador Baltasar
berra/,, o das amarras e, finalm ente, o dos padres, que pertencia aos jesuítas. A Cidade
Baixa, qnc algumas décadas antes não passava de um depósito, transformara-se num
ativo mercado, local de troca entre as mercadorias vindas da Europa ou do Oriente e
os produtos da terra, trazidos pelos agricultores da região: produtos de subsistência
como farinha dc mandioca, feijão dc diversos tipos e milho — e também de exporta­
ção, como pau-brasi), algodão c açúcar, no século XVI; açúcar, algodão, fumo c pau-
72 B a h ia , S éc u lo XIX

brasil, no século XVII e, no século X V III, açúcar, fum o, algodão, m adeiras diversas,
couros, álcool de cana e ouro.
O açúcar foi o produto -rei, a verdadeira riq ueza de Salvado r du ran te todo esse
período.7 Fixou o negociante à b eira-m ar, perto dos arm azéns, e fez com que estabe­
lecesse ali seu d o m icílio . T an to assim que a estreita faixa de terra que acom panha o
lito ral e m orre ao pé da encosta em q ue ia sendo co n stru íd a a C id ad e A lta tornou-se
paróquia em 1623, sob a proteção de N ossa Sen h o ra da C o n ceição da Praia. As três
paróquias o rigin ais — a Sé, a V itó ria e a C o n ceição d a P raia — testem unham , cada
um a à sua m aneira, o en raizam en to de u m a colonização vito rio sa e d in âm ica. Com o
desenvolvim ento de Salvador, foram criadas sete novas paróquias: Santo Antônio
A lém do C arm o em 1638, S en h o ra de San fiA n a em 1 6 7 3 , São Pedro o V elho em
1676, S an tíssim o Sacram ento d a R u a do Paço em 1 7 1 8 , N ossa Senh ora de Brotas e
Nossa Senhora do P ilar em 1718 e, fin alm en te, N ossa Sen h o ra d a Penha em 1760.
A que crescim ento p o p u lacio n al correspo ndeu essa m u ltip licação de paróquias?
A que m u ltip licação de ho m ens, sem os q u ais nadjt p'ode ser feito e que, todos os
días, lu tam para sobreviver ou p ara en riq u ecer? N os lim ite s d e u m a dem ografia pou­
co conhecida, tentarem os elu cid ar esse-problem a no c ap ítu lo q ue se segue. Lembre­
mos, apenas, que o m ilh a r de "habitantes dos anos 1 55 0 estava m u ltip licado por
cinq üen ta no fim do período co lo n ial, sem levar em co n ta a h in terlân d ia vizinha,
nem a m ais afastada, onde se estabeleceram de bom grado povoadores novos ou
nativos d a cidade, con quistadores de u m espaço v irgem , m odelado à custa do pró­
prio suor. U m espaço de dim ensões h u m an as, q u an d o se trata do Recôncavo; mas
afastado, lo n gín qu o e severo, q u an d o se trata do A greste e do Sertão, que juntos têm
o tam anho da França.

A C o n q u is t a d o I n t e r io r

A ocupação do in terio r baiano realizou-se por um du plo processo: a conquista da terra


e seu posterior povoam ento. A ntes de colonizar, foi preciso vencer os obstáculos
naturais que já descrevem os, assim com o a resistência dos T up is, Jês e Cariris que
habitavam aquelas regiões. A população das 4 7 aldeias de índios exisrenres no Recôn­
cavo foi rapidam ente dizim ada, e a expansão dos colonos tom ou a direção da penín­
sula dc Iguape, dc Itapíra c do rio V erm elho. Foram verdadeiras guerras de extermínio,
durante os governos de T om é de Sousa (1 5 4 9 -1 5 5 3 ), D uarte da Costa (1 5 5 3 -1 5 5 7 )
e M em de Sá (1 5 5 8 -1 572). F,ste últim o com andou cm pessoa a expedição decisiva em
1559 e m andou construir na região de São Francisco do Conde um engenho, chamado
Sergipe do Conde, que — doado depois aos jesuítas — se tornou célebre, por ter sido
o unico a deixar docum entação escrita sobre sua exploração.8 Um a vez vencidos os
índios e destruída a vida tribal, os colonos chegavam para plantar algodão, mandioca
e, sobretudo, cana-de-açúcar. Esta era cultivada em grandes plantações (anexas a um
L tv ro 1 1 - 0 P eso d o s H om ens 73

engenho) ou por lavradores {livres ou 'obrigados' a moer sua cana em determ ina'
do engenho), Nos tempos que se seguiram , um a única am eaça pairou sobre os esta­
belecim entos agrícolas do Recôncavo: o risco dc um a invasão dos holandeses. Esres, já
vimos, estiveram na Bahia em U>24 e novam ente cru 1638, quando um a resistência
bem organizada frustrou seus objetivos e debelou o perigo.
Acom panhados por fam ílias, agregados, escravos negros e lavradores livres ou
'obrigados', os senhores de engenho fixaram -se no Recôncavo em grande número: São
Francisco da Barra do Rio de Sergipe do C onde foi o prim eiro dos vários núcleos
populacionais que então se form aram em torno de capelas pequenas, isoladas e hum il­
des. Em 1659, o povoado contava com 325 fogos e 2 .7 2 4 alm as, e catorze engenhos
tinham se desenvolvido nos seus arredores. São Francisco do C onde recebeu seu foro
em 1693, ju n to com a vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto de C achoeira, que
prosperara na m argem esquerda do Paraguaçu, por onde passava o cam inho que ligava
Salvador ao Sertão do São Francisco e que servia com o centro com ercial para os
engenhos de açúcar do ígu ap e e para as plantações de fumo da região de São Gonçalo
dos Cam pos.
Duas novas vilas foram criadas no Recôncavo no século XVIII, ambas em 1724:
Santo Am aro de Nossa Senh ora da Purificação (no cenrro da região açucareira) e São
Bartolomeu de M arago jip e que, em 1759, tinha cerca de 4 .5 0 0 habitantes. M aragojipe,
Jaguaripe e Nazaré eram as principais regiões produtoras de farinha de m andioca no
Recôncavo. Assim , no fim desse século, a região contava com quatro vilas: São Fran­
cisco do C onde, C acho eira, Santo A m aro e M aragojipe, além de um a quantidade de
pequenos povoados surgidos em torno das capelas das propriedades agrícolas mais
im porrantes, com o nas já citadas regiões de Jagu arip e e Nazaré.
No século XIX, o Recôncavo estava repartido em oito m unicípios: Candeias,
■São Francisco do C onde, Sanro A m aro, C achoeira, M aragojipe, Jaguaripe, Nazaré
das Farinhas c A ratuípc. A h in teríân d ía próxim a dc Salvador havia sido conquista­
da, de m aneira rápida c estável, por um a população de agricultores que tentaremos
estimar com os poucos recursos que 110^ facultam ,os dados dem ográficos disponí­
veis, m uito im precisos, v. f
Mas nem todos os colonos se estabeleceram no Recôncavo, à distância de um ou
dois dias de marcha da costa. O vasto Sertão não tardou a atrair os mais pobres ou
mais corajosos. Já m encionam os como o avanço das boiadas para o interior deu vida
à região. Missões religiosas, que buscavam converter os índios, tam bém ocuparam o
Nordeste baiano. B ficaram conhecidas como Filtradas as expedições que partiam de
vários pontos do litoral, subindo os rios para conquistar novas terras, fazeriguerra^aos
índios Cariris, Anaiós, Caiapós, Acroiás c Poiás ou descobrir metais e pedras preciosas.
Foram estas as três maneiras dc tomar posse do Sertão baiano, c cada uma delas “
desempenhou um papel mais ou menos im portante, segundo as regiões. O rei conce- ^
dia aos chcfcs dessas expedições as sesmarias, propriedades grandes» ;\s vezes equivalen- o
tcs a vários m unicípios. Freqüentem ente, esses chefes pediam e obtinham as sesmarias
74 B a h ia , S é c u l o XIX

antes mesmo dc haverem empreendido a conquista: “Basta ter tinta e papel para fazer
as petições de concessões , dizia Capistrano de Abreu.
As principais missões religiosas, que pertenciam aos padres da Com panhia de
Jesus, aos frades capuchinhos e aos franciscanos, reuniam índios catequizados, com os
quais os religiosos construíam capelas e organizavam plantações e currais para o gado.
Os jesuítas fundaram as missões de Nossa Senhora do Socorro, C anabrava, Saco dos
Morcegos, Naruba e M anguinhos; os capuchinhos estabeleceram aideamentos em
*■Aramuru, Rodelas, Pambu, Poxim, P a c a r u b a j:n a ilha de U rucapé; os franciscanos
tinham missão na ilha dos Guanhãs. Essas missões foram violentam ente combatidas
pelos grandes sesmeiros, que quase sempre preferiam , ao convívio, m atar ou expulsar
os índios para tomar suas terras. D urante o século XVII, as duas grandes famílias de
sesmeiros — os Ávila da Casa da Torre e os Guedes de Brito da Casa da Ponte —
conseguiram expulsar de suas terras todas as missões religiosas.
De modo geral, o desenvolvimento das povoações sertanejas e das grandes pro­
priedades interioranas, tão afastadas da sede do governo, nao seguiu o modelo do
Recôncavo. No longínquo Sertão, os núcleos de povoam ento perm aneceram , durante
m uito tempo, verdadeiros mundos perdidos, isolados, com um a população rarefeita e
itinerante. Sabemos, por exemplo, que, íá pelo ano de 1759, Jerem oabo era um mi­
serável agrupam ento de 32 casebres e 252 habitantes, e que, num a região'que se esten­
dia por milhares de quilôm etros quadrados — a do Itapicuru e do Vaza-Barris —,
contavam-se, no mesmo ano, 4 .8 9 3 casas e 3 8 .5 1 4 habitantes, o que representa uma
densidade de menos de um habitante por quilôm etro quadrado. A descoberta de filões
auríferos na serra de Jacobina no início do século XVIII representara um incentivo
passageiro para o povoamento do Nordeste baiano. A busca de metais preciosos, de
diamantes ou de pedras semipreciosas não se distinguiu, como forma de ocupação das
terras sertanejas, da guerra m ovida contra os índios ou mesmo do ruído dos chocalhos
que retiniam nos pescoços do gado que cruzava o Sertão.
Vejamos alguns exemplos. A inda no século XVI o prim eiro dos grandes proprie­
tários de gado, Garcia d’Ávila, transferiu seus imensos rebanhos da península de
Itapajipe, ao norte da baía de Todos os Santos, para a ponta de ^Itapoã.» ninVhém
situada ao norte da cidade, mas à beira do A tlântico. A li, ele erigiu sua fortaleza — a
Casa da Torre,; e dali, combatendo os índios, avançando cada vez mais para o
interior, Garcia d’Ávila e seus descendentes conquistaram imensas terras do Sertão,
chegando ao São Francisco e ao M aranhão.
Em 1671, um bandeirante veio de São Paulo para lutar contra os índios Cariris c
Jes, sob as ordens dc Alexandre Sousa Freire, capitão-mor da Bahia. Ocupou o Alto
Paraguaçu e participou da destruição do famoso quilombo dos Palmares, desmantela­
do em 1675. Seu filho, Manuel Parente, estendeu as conquistas do pai até o rio São
Francisco, apossando-sc dc imensas sesmarias, que iam até a região de Itaberaba e a
serra do Cristal. Seu nome ficou ligado á abertura da estrada que permitiu a comuni­
cação entre Cachoeira e o São Francisco.
L iv r o II - O P e so d o s H o m e n s 75

Um rerceiro exemplo é demonstrativo de como a atividade mineradora podia abrir


uma região à colonização. Partindo de Salvador em 169 6 -16 97 , o baiano Pedro
Barbosa Leal explorou a serra dc Jacobina, ali encontrando salitrc e ametistas. Nomea­
do governador da fábrica de salitre em Curaçá, foi também o primeiro a explorar as
minas dc ouro descobertas pouco mais tarde na região. Já velho, financiou a constru­
ção, em Salvador, do convento das ursulinas (Mercês) . ' 1
A busca do ouro, da prata e de pedras preciosas, as expedições militares para
exterminar índios e a condução do gado em imensas boiadas que exigiam novas
pastagens, todas essas incursões foram, de algum modo, responsáveis pela ocupação do
inrerior baiano, No fim do século XVII, a C apitania da Bahia já tinha sido percorrida
em todos os sentidos. Era terra conhecida, mas pouco povoada. Sua ocupação efetiva
iria depender do dinam ism o da capital, a Cidade da Bahia.

U ma M etró po le C o l o n ia l ?

De certa maneira, Salvador caracterizou-se pelo fato de ter sido fundada ex-nibilo. As
populações indígenas encontradas pelos portugueses eram nômades ou seminômades,
dotadas de um a organização econôm ica que se lim itava a coleta, caça e pesca. As tribos
combatiam entre si. Segundo os critérios europeus da época, elas eram pouco ‘evoluí­
das’ do ponto de vista socioculturaí. 12 Não existia no Brasil nenhum a daquelas cultu- .
ras indígenas ‘adiantadas’, como as que os espanhóis encontraram no M éxico, Peru,
Bolívia e Guatemala. Não havia, por conseguinte, qualquer riqueza acum ulada que
pudesse ser conquistada. É certo que o precioso pau-brasil havia tornado rentáveis as
viagens entre o V elho M undo e o Brasil mas, a longo prazo, essa única fonte de lucros
não justificava um esforço verdadeiro de colonização e povoamento. M as a determ ina-^ ©
' ção dos portugueses criou, na C olônia, um centro produtor de açúcar, cuja expansão
exigiu a conquista de novas extensões de terra e o estabelecimento de bases financeiras A..:.-—
próprias. Ali, poderiam ser utilizadas as técnicas já experimentadas nas ilhas do A tlâ n -^ ^ J V* «
tico e a mão-de-obra negra disponível nas costas africanas. J l* ^
Na Europa, crescia cada vez mais o consumo de açúcar, que estava destinado a ser
a .principal riqueza do Brasil. Foi este produto que fixou os colonizadores, tornando
possível a ocupação permanente das terras conquistadas. Na Bahia, a experiência
colonizadora de Francisco Pereira Courinho resultou na implantação de canaviais e na
construção de três engenhos. Assim, aos imperativos polícico-administrativos que
motivaram a fundação da cidade dc Salvador em 1549, somou-se o imperativo econô­
mico. A colonização criou, na Bahia, uma economia agrícola de monocultura, comple­
mentar à economia portuguesa. A produção maciça de um único bem e a atrofia quase
total de manufaturas originaram , por sua vez, uma situação de dependência econômi­
ca. Excluídos os panos grosseiros feitos por tecelões locais e destinados a um consumo
restrito em engenhos e fazendas, a metrópole sempre aplicou com rigor uma legislação

\a- t" *
76 B ah ia , S éculo XIX

que im pedia qualquer rentativa de desenvolvimento do Brasil colonial. Este não foi o
caso, por exemplo, da América Espanhola; no M éxico, cidades como Puebla e Oaxaca
devem sua prosperidade no século XVII à instalação de m anufaturas de tecidos.
Salvador foi um a metrópole colonial? Até que ponto esse tipo de relação de domí­
nio entre Portugal e seus postos avançados no Novo M undo autoriza qualificar como
metrópole um a cidade colonial, mesmo quando ela preside os destinos de uma vasta
região? Que é uma metrópole? Pode-se falar de m etrópole colonial?
Há m uito tempo a definição de m etrópole não m ais se baseia no fato de uma
cidade ter pelo menos cem m il e no m áxim o setecentos m il habitantes. Atualmente
predominam critérios relativos ã função exercida: “É m etrópole qualquer cidade que
não dependa de outra cidade, que se situe no topo da organização urbana, podendo
assim colocar-se em pé de igualdade, sem qualquer dependência, com as outras cidades
que se encontram na mesma situação.”13 Para ser dign a desse nom e, um a metrópole
tem o dever de urbanizar as regiões que lhe são próxim as e de m oldar as atividades do
campo vizinho de acordo com suas próprias necessidades.
Essa definição se aplica m al, é claro, ao m odelo de m etrópole colonial, pois esta
deriva sua existência das necessidades e da vontade de outro centro, que exerce o
dom ínio, em geral situando-se geograficam ente m uito longe da colônia, como Lis­
boa, Londres, Am sterdã ou Sevilha. O riginariam ente, m etrópole é, por conseguinte,
“um Estado ou um a cidade considerada em relação a suas colônias, a seus territó­
rios exteriores”.14 É esta, certam ente, a definição prim eira. Só por extensão é que se
passou a usar esse termo para designar a cidade m ais im portante de uma região ou
de um país.
Pierre George define dois tipos de m etrópole. O prim eiro deve possuir “organis­
mos completos, característicos do conjunto dos m ecanism os econômicos do mundo
capitalista”. O segundo é representado por cidades fundadas com objetivos comerciais
por populações em igradas durante o período colonial, tendo som ente dois setores de
atividade: o setor prim ário regional e o setor terciário .15 Em geral, as metrópoles
coloniais correspondem a essa segunda categoria. Estava neste caso Salvador, cidade
portuária, em inentem ente com ercial e cuja atividade principal era, sem dúvida, o
encaminhamento, para o exterior, dos bens de consumo produzidos em sua hinrerlândia.
As metrópoles coloniais eram fortem ente marcadas pela influência do mundo
rural a que estavam ligadas. Como regra geral, não passavam de simples pontas-de-
lança do mundo voraz das nações colonizadoras e não podiam exercer o papel metro­
politano que, cm circunstâncias diferentes, sua massa e seu peso humano lhe poderiam
ter conferido. Por outro lado, as metrópoles coloniais crescem c prosperam em detri­
mento da região em que se situam . As pequenas cidades fundadas para estender sua
influência ao campo nunca conseguem seguir seu ritmo de crescimento e, muito
menos, superá-la em importância e vigor e c o n ô m ic o ,E sse crescimento macrocéfalo
das metrópoles herdadas dos tempos coloniais ainda pode ser constatado em quase
todos os países do Novo Mundo.
L iv ro II - O P eso d o s H om ens
77

Sabemos que a org^rfízação política, adm inistrativa e econômica instalada e m l


Salvador criou estruturás sociais que determ inaram todo o desenvolvimento da cidade. (
Entre 1534 e 1889/diferentes tipos de organização foram sucessivamente impostas àV
Bahia e sua hinteríândia. Descrevê-los, mesmo de m aneira breve, pode ajudar a com- \
preender como e por que alguns núcleos de povoamento se desenvolveram melhor do j
que outros. /
Nas prim eiras décadas do século XVI houve um a exploração muito grosseira dos
recursos naturais brasileiros, com pouca ou nenhum a preocupação de domínio efetivo
sobre as terras recém -descobertas, bem como total ausência de organização econômica
ou adm inistrativa. U m a segunda fase se iniciou com a necessidade de proteger a
conquista contra incursões de navios estrangeiros. Foi essa, como vimos, a época das
capitanias hereditárias: o Estado centralizador conferiu amplos direitos a particulares
que, em contrapartida, deviam organizar econom icam ente as imensas extensões de
terra que lhes eram atribuídas, estabelecendo nelas formas rudimentares de organiza­
ção m ilitar e ad m in istrativ a.1'' M esm o depoís de 1549 e da instauração de um governo
geral diretam ente ligado à Coroa portuguesa, o Estado perm aneceu ausente, deixando
aos particulares — senhores de engenho na m aior parte dos casos — grande parte dos
poderes políticos, da organização econôm ica e até da adm inistração. O Estado lim i­
tou-se a estim ular as iniciativas particulares ou a coordenar as estruturas militares e
adm inistrativas. Os senhores de engenho tinham em suas mãos o poder local nos"^1'*^ *
conselhos m unicipais, e sua política podia até opor-se à da metrópole colonizadora. 18
Tudo se passava relativam ente bem enquanto os objetivos do segmento dom inante da
população brasileira — a que produzia e com ercializava o açúcar — coincidiam com
os da m etrópole.
Em meados do século XVII, todavia, a adm inistração real m odificou sua postura
de tolerância benevolente para com os senhores de engenho, agindo assim sob influên­
cia de um a nova classe de m ercadores, geralm ente de origem portuguesa, que passou
a monopolizar a com ercialização da produção agrícola. Até então, as estruturas sociais
eram relativam ente pouco diferenciadas. 19 Pouco a pouco criaram-se, porém, grupos
interm ediários, quase todos ligados a atividades m ercantis, cujos objetivos coincidiam
com os de Portugal. Fortalecida pelo apoio que encontrava entre esses mercadores, a
metrópole m odificou sua política de urbanização, tendo em vista dom inar o espaço
agrícola, os serviços e a m anufatura, até porque a população urbana crescia sem cessar.
Esboçou então um plano de urbanização e passou a controlar a fundação de vijas e_
povoados.20 A nova política se m anteria por dois séculos, do fim do século XVII ao
fim do XIX. Representou a criação, pela adm inistração — real e, em seguida, imperial
— , de um controle efetivo sobre todas as populações do país.
Salvador, n o e n ta n t o , continuava como um caso particular. Desde sua funda
ção, a cidade fora objeto de atenções especiais, pois era cidade-capital, cidade real.
Nós a vimos, ainda nos seus primórdios, dotada de uma estrutura urbana herdada
de experiências adquiridas nas índias.21 Vimos, em seguida, nascerem novas vilas,
78 B a h ia , S é c u l o X I X

novas paróquias, novos povoados/Teria a criação desses núcleos contestado de al-


y -g u m modo a hegem onia excludentc exercida por Salvador sobre a imensa capitania
0' / baiana? Ainda não podemos responder. É certo que Salvador exercia um a domina-
^ A ção delegada por outro centro m aior, outra m etrópole, a distante Lisboa, que a con-
^ /trolava, im pondo-lhe ritmos segundo um a conjuntura que era, sem dúvida, mais
• ( européia do que brasileira. M as isso não im pediu que a C idade da Bahia fosse um
t centro a um só tempo exportador e im portador, verdadeira praça m ercantil de múl­
tiplas funções. ^ T-,

Salvador, M etró po le d o N ovo M u n d o

Porto de exportação de pau-brasil, açúcar, algodão e fum o, Salvador era também um


im portante porto de im portação, um em pório para os produtos m anufaturados vindos
de Portugal e do Extremo O riente22 e o m aior m ercado de escravos trazidos da África.
A partir do últim o quarto do século XVII, cresceram as trocas entre Salvador e os
vastos territórios que procurava povoar e desenvolver, A descoberta do ouro na vizinha
M inas Gerais provocou, nas três prim eiras décadas do século XVIII, um significativo
deslocam ento populacional para as terras interiores. Não se sabe qual foi a contribui­
ção da Bahia para esse m ovim ento, mas não resta dúvida de que os que iam em busca
de m etais preciosos dependiam , para alim en tar-se, da agricu ltu ra e da pecuária.
O principal alim ento era a carne bovina, e assim as fazendas de gado se m ultiplicaram
por toda a região do São Francisco. Os mascates que saíam de Salvador estabeleceram
correntes perm anentes de troca, que inclu íam produtos alim entícios, manufaturados
e escravos: tudo podia ser trocado pelo precioso ouro.23 Após inúm eros dias de marcha
pelo Sertão, seguindo as trilhas por onde o gado passava, chegava-se ao vale do São
Francisco, a grande via de com unicação entre o Nordeste e o Centro da Colônia, entre
as regiões de produção e im portação e as novas regiões de consumo. Era, poís, essencial
o papel de Salvador na distribuição de produtos m anufaturados, no reabastecimento
de gêneros alim entícios e no fornecim ento de m ão-de-obra escrava, sem a qua! ne­
nhum empreendimento se tornava viável. Através dessas práticas, Salvador dominava
os outros centros econômicos da C olônia.2^
O ouro descoberto no território da C apitania da Bahia em torno da vila de
Jacobina e na região dos tabuleiros, conhecida como chapada D iam antina, não corres­
pondeu à expectativa dos exploradores, mas incentivou o povoamento dessas regiões
e, conseqüentemente, a movimentação de pessoas e mercadorias, necessária à sua
sobrevivência. Salvador afirmou-se como praça mercantil, abastecendo-se a si própria
e a um vasto território que ia do Piauí, a noroeste, Sergipe e Pernambuco, ao norte,
Minas Gerais, a sudoeste, e São Paulo, ao sul, exportando açúcar, fumo, algodão e,
agora, Com isso, a Cidade da Bahia tornou-se uma metrópole, capitaneando
uma região muito mais vasta que sua hintcrlândia im ediata.25
L iv ro II - O P eso d o s H om ens
79

Os progressos de Salvador como m etrópole regional suscitaram ciúm es. N a déca­


da de 1720, foi proibida de negociar com M inas G erais, sobretudo para im pedir o
contrabando de enorm es q uantidades do precioso m etal. O poder real controlava com
m aior facilidade os cam inhos existentes entre M inas Gerais e as capitanias de São
Paulo e do Rio de Jan eiro . Pouco a pouco, aliás, M inas foi desenvolvendo áreas
agrícolas e aum en tan d o a pecuária, que fin alm en te lhe conferiram certa independência
em relação à B ahia, sua an tig a provedo ra.26 Em 1763, a sede do governo da C olônia
foi transferida para o R io de Jan eiro , e Salvador perdeu seu título de capital. Por essa
época, a queda d a produção au rífera em M in as G erais privou de sua principal riqueza
os m ineradores, que se v o ltaram para atividades agrícolas ou pecuárias, ou então,
aproveitando u m novo im pulso na produção açucareira, tom aram o cam inho de volta
e instaíaram -se perto do lito ral.
Salvador se ad ap to u sem m u ita d ificu ld ad e a essa nova situ ação .27 As vilas e
povoados do in terio r — que, em 1 8 0 0 , eram A brantes, B onfim , Santo A ntônio do
Pam bu, Itap icu ru , Ja co b in a, Jerem o ab o , N . S. do Livram ento do Rio de Janeiro,
M onte A lto , M o rro de C h ap éu , P ilão A rcado, Pom bal, Á gua Fria (m ais tarde, Purifi­
cação), San to A n tô n io das Q u eim ad as, Sento -Sé, Soure, T rancoso, T ucano e U rubu
— co n tin u aram a d esem p en h ar o papel de traço de união entre a ddade-p orto e o
m undo ru ral. U m a v aried ad e de lavouras de sub sistência e a criação de gado assegura­
vam a Salvado r u m a vasta zo n a de in flu ên cia n u m a região de econom ia quase fechada,
na qual lhe cab ia d istrib u ir as m ercadorias de além -m ar. Em m eados do século XIX,
conscientes d a im p o rtân cia regio n al do porto, os dirigentes políticos da Província e os
representantes dos com erciantes d a cap ital tentaram aprim orar as vias de com unica­
ção, co n stru in do ferrovias e m elho ran do as condições de navegabilidade dos rios.
P retendiam , com esse p lan o , criar sub-regiões capazes de dinam izar o interior. M as,
por um a série de razões de ordem geográfica, p o lítica ou adm inistrativa, as ambições
c os interesses econôm icos se con jugaram de tal m odo que todas essas tentativas de
im plantação de cap itais regionais au m en taram m ais ain d a a influência de Salvador no
meio rural: as capirais do in terio r lim itaram -se a centralizar a produção agrícola e
encam inhá-la para a C id ad e da B ah ia, que a consum ia ou vendia para o exterioiverru
um tipo de organização espacial que fortaleceu a dependência da im ensa hm tefíandia
com relação a Salvador. A ssim , a cidade acabou por concentrar os recunmsTinanceiros,
econôm icos, sociais e políticos de coda a Província. M acrocéfala, a urbe atraía popu­
lações rurais, dc tal forma que estas, sobretudo depois de 1850, habítuaram -se a refluir
em massa para a capital por ocasião das grandes secas que devastavam , e ainda devas­
tam , periodicam ente o Sertão.28
À prim eira vista, Salvador parecia um centro dinâm ico capaz de adaptar-se aos
im perativos ditados por um a conjuntura freqüentem ente m utável. Na realidade, atrás
dessa fachada escondia-sc um a fraqueza decisiva: o comércio, atividade essencialmente
interm ediária, im pediu o desenvolvim ento de um setor produtivo ligado a atividades
industriais que fossem independentes do setor açucareiro. Fraqueza que era ao mesmo
80 B a h ia , S éculo X I X

tempo conseqüência de uma estrutura econômica incompleta e produto de atitudes


mentais de dirigentes, em sua maioria incapazes de compreender a nova conjuntura
econômica.29 No meio do século XIX, alguns esforços no sentido de criar na Província
uma indústria têxtil não conseguiram criar um fluxo contínuo de investimento, pro­
dução e lucros. A Bahia, como aliás o resto do Brasil, continuou a consumir produtos
manufaturados no exterior, e assim a Salvador do século XIX nunca perdeu suas
caractcrísricas de metrópole colonial, de cidade interm ediária, de simples depósito de
mercadorias vindas do exterior ou, nas últim as décadas do século, do Sul do Brasil,
^ f onde Rio de Janeiro e São Paulo já experimentavam um desenvolvimento industrial.30
L Essa ausência de desenvolvimento industrial se refletia no baixo nível de vida da
^ ^ 7 população, ainda dedicada ao pequeno comércio ou ocupada em serviços temporários.
iaíT IL A administração pública, por sua vez, absorvia um excedente crônico de mão-de-obra.
■ A influência de Salvador como m etrópole colonial regional dim inuiu progressi­
vamente a partir do final do século XIX e, sobretudo, da terceira década do século
XX, quando a cidade entrou num a nova fase de refluxo econômico que restringiu
consideravelmente sua área de influência, que antes atin gia o comércio de toda a
Província e de grandes regiões das províncias vizinhas. Com o os dirigentes políticos e
as elites econômicas não foram capazes de desenvolver vias rápidas de comunica­
ção,31 pouco a pouco se foram tecendo laços com erciais entre os núcleos de povoa­
mento dos vastos tabuleiros do Oeste baiano e cidades de Goiás ou dc Minas. Para se
abastecer de gêneros alim entícios e produtos m anufaturados, a região do São Francis­
co estabeleceu vínculos diretos com cidades m ineiras, como Belo Horizonte, Pirapora,
Montes Claros ou Jan u ária.32 A única região da Bahia que experimentou um novo
dinamismo foi o Litoral Sul, no seu eixo Uhéus-Itabuna, que, graças à cultura do
cacau, sobrepujou o Recôncavo açucareiro, cujos métodos de produção eram quase
( idênticos àqueles utilizados no século XVI.33 Com o pólo dinâm ico da economia
•jvstí \ baiana se deslocando para a região do cacau, Salvador tornou-se entreposto e centro
í s v j r ara a comercialização e exportação da nova riqueza. M as essa cultura não produziu
uma acumulação de capital na cidade.3^ Grande parte dos capitais excedentes foi
reinvestida em outros lugares, sobretudo no Rio de Janeiro. Além disso, o Sul da
Bahia não se reabastecia mais em Salvador, mas diretam ente em V itória, no Rio dc
Janeiro ou em M inas Gerais. 4' ^ V ZX
Finalmente, é preciso m encionar que a influência de Salvador se exerceu com mais
facilidade na direção nordeste do que na direção sul. De fato, Juazeiro, principal
cidade do Médio São Francisco, prolongava a influência da capital baiana até Sergipe
e Pernambuco, apesar da concorrência do porto de Recife, capaz de fornecer alguns
produtos às populações do Agreste e do Sertão Norte e Noroeste, a preços mais
competitivos que aqueles dc Salvador.39
No entanto, neste século, durante mais de cinqüenta anos a cidade ainda conse­
guiu viver do brilho dc glórias passadas, graças ao seu antigo prestígio de metrópole
comercial e de centro administrativo e religioso. Quando ainda era a primeira, seus
L i v r o II - O P e s o d o s H o m e n s 81

sucessos haviam escondido de seus h ab itan tes as pesadas lim itaçõ es estruturais que
deveriam ter sido vencidas em tem po h ábil. A B ahia, que sem pre soubera adaptar-se
aos ritm os co n ju n tu rais da época co lo n ial, perdeu toda a sua capacidade de integração,
no m om ento preciso em que, com a In dep en dên cia, nova era se abria para o país.
T in h a chegado a hora dc ten tar investir em in d ú strias locais e de tirar partido de
riquezas não agríco las. Era o m o m ento de ten tar libertar-se do ju go e das influências
das cu ltu ras p o rtuguesa, francesa ou in glesa, para criar, com a experiência de dois
séculos de v id a co m u m de branco s, negros e ín d io s, u m a co m u n id ad e aberta e d in â ­
m ica. M as, em vez disso, os b aian os — orgulh osos de seus sucessos passados, que
desejavam preservar — recu saram crescen tem en te o que fora a sua força: um a ex­
traord inária facu ld ad e de a d ap tação à v id a do d ia-a -d ia, u m a flexib ilid ad e dian te de
constrangim entos de to d a espécie.
N ossa p rin cip al tarefa será, p recisam en te, a de propo r algum as explicações para
essa in ad ap tação de S alv ad o r d ia n te dos in ú m ero s desafios lançados pela Independên­
cia recém -p ro clam ad a a h o m en s q ue se ju lg av am preparados p ara recebê-la. M as, antes
de tentar co n h ecer a q u a lid a d e dos h o m en s q u e fizeram a B ah ia do século XIX,
precisam os co n h ecer o seu n ú m e ro , assim com o as e stm tu~ r '
ad m in istrativas q u e os en q u ad rav am .

Ta í (t i '
CAPÍTULO 6

P opulações da P r o v ín c ia da B a h ia
Pan o ram a G eral ( 1780- 1890)

As in fo rm açõ es d isp o n ív e is so b re e s tr u tu ra d e m o g rá fic a e ev o lu ção d a p o p u lação baiana


não são s a tis fa tó ria s .1 Só no sécu lo X V III c o m e ç a ra m a a p a re c e r n ú m ero s glo b ais, que
aliás d ev em ser u tiliz a d o s co m g ra n d e p r u d ê n c ia , p o is re su lta m de sim p les avaliações
o u d e ‘re c e n se a m e n to s’ n ão c o n tro lá v e is . O p r im e iro recen seam en to o ficial brasileiro
d a ta d e 1 8 7 2 . N o caso d a B a h ia , a d e s c o b e rta d e u m a série m ais ou m enos com pleta
d e registro s p a ro q u ia is do sé cu lo X IX p e r m itiu o in íc io de u m estu d o sobre a popula­
ção d e S a lv a d o r, m as seus re su lta d o s são a in d a m u ito g e ra is p a ra q u e se possa utilizá-
los d e m a n e ira v e rd a d e ira m e n te p r o v e ito s a .2 S e rá fo rço so , p o rta n to , trab alh ar com
o rd en s d e g ra n d e z a , q u e q u a se n ao n o s p e rm ite m c o n h e c e r a d in â m ic a in te rn a de um a
p o p u lação m a tiz a d a , fo rm a d a p o r b ra n c o s, n eg ro s, ín d io s e m estiço s.
O estu d o das p o p u laç õ e s d a B a h ia e n fr e n ta u m p r o b le m a su p lem en tar, já que os
lim ite s d a C a p ita n ia — q u e se to rn o u p ro v ín c ia e, m a is tard e, estad o — m udaram
m u ito no d e c o rre r d o te m p o , d ific u lta n d o as te n ta tiv a s de c o m p a ra ç ã o .3 A lém disso,
so b retu d o no sé cu lo X IX , as d iv isõ e s a d m in is tra tiv a s d a p ró p ria P ro v ín cia m odifica­
ram -se sem cessar, ta n to p o r d e sm e m b ra m e n to s q u a n to p o r efeito d a criação de novos
m u n ic íp io s. P or isso , v am o s p rim e iro a v a lía r a p o p u la ç ã o b a ia n a do ponto de vista
q u a n tita tiv o e em relação ao te rritó rio co m o u m to d o e n tre 1 7 8 0 e 1890. Depois
estu d arem o s a p o p u lação de S a lv a d o r.

Um S é c u l o d l A v a l ia ç õ e s I m p r e c is a s : 1780-1872

R ealizad o em 1759 a m an d o do 6 o C o n d e dos A rcos, vice-rei e cap itão -geral, o


p r im e ir o ‘ recen seam en to ' registro u , em to d a a C a p ita n ia , 2 5 0 .1 4 2 h a b ita n te s e 2 8 .6 1 2
fogos (ou lares), sem in c lu ir as crian ças dc m enos de sete anos de id ad e, os índios que
v iv iam em a ld e ia s a d m in istra d a s por padres e m issio n ário s, os m onges e outros

82
L i v r o II - O P e s o d o s H o m e n s 83

integrantes de ordens religiosas. A cidade de Salvador e seu Recôncavo concentravam


103.096 alm as (41.2% do total) em 15.097 fogos (5 2 ,8 % ).4 Em 1775, outro gover­
nador. M anuel da C unha Menezes, enviou a Lisboa os resultados de um novo ‘recen­
seamento', que abrangia “todas as freguesias que pertencem ao arcebispado da Bahia,
sujeitos os seus habiranres no tem poral ao governo da mesma B ahia”. Apontaram-se
então 2 21 .7 56 pessoas, repartidas por 3 1 .8 4 4 fogos.5
M as, apenas três anos depois, levantam ento enviado a Lisboa pelo arcebispo da
Bahia registrou 2 7 0 .3 5 6 habitantes na C apitania. Em instrução ao M arquês de Valença,
novo capitao-geral, o m inistro português M artinho de M elo e Castro ponderou, entre
espanrado e irônico: “esta grande diferença entre as relações, principalm ente as duas
últim as, não m edeando m ais que três anos de tem po entre um a e outra, mostra bem
a pouca exatidão com que foram tirad as”.6 T in h a razão o m inistro: os dados indica­
vam uma regressão po pulacional de cerca de 11,4% entre 1759 e 1775 e um brusco
aumento de 18% entre 1775 e 1778. N ada ju stificava essas variações. N enhum a epi­
demia ou situação de escassez aguda atin gira os baianos no prim eiro desses períodos;
tampouco houvera, no segundo, um fluxo de população de outras regiões do Brasil ou
de além -m ar em direção à B ahia.
Em seu recenseam ento de 1779 — freqüentem ente datado de 17807 — , o M ar­
quês de V alença elevou o núm ero dos habitantes da C ap itan ia para 2 77 .0 25 alm as,
muito próxim o do que fora proposto no ano anterior. O cabeçalho do M apa que
resume esse levantam ento traz um texto que suscita com entários: “M apa da enum e­
ração da gente e povo desta C ap itan ia da B ahia, pelas freguesias das suas comarcas
com a distinção em quatro classes das idades, pueril, ju ven il, varonil e avançada, em
cada sexo, com o núm ero dos velhos de m ais de noventa anos, dos nascidos, dos
mortos, dos fogos, conform e o perm itiram as listas que se tiraram do ano pretérito,
no que é de notar que aqu i se incluem onze freguesias das M inas e Sertão Sul que
passaram à jurisdição secular da B ah ia.” O bserve-se como é vago o critério de distin­
ção entre as quatro categorias de idades, tornando im possível um a boa análise. Aliás,
na transcrição que Braz do A m aral fez do docum ento, essa distinção sequer foi levada
em conta, c o mesmo ocorreu com o sexo e com o núm ero de pessoas de mais de
noventa anos. Em com pensação, a transcrição apresenta o núm ero de nascimentos e
de óbitos por comarca.
No que diz respeito á data da realização desse recenseamento, o documento é
claro: está escrito que as listas “se tiraram do ano pretérito”, ou seja, 1779 (o Mapa é
datado dc 5 de dezembro de 1780). Finalm ente, é preciso notar que faltam os dados
sobre as “onze freguesias das M inas c do Sertão S u l”, provavelmente paróquias surgidas
a partir de aldeam entos indígenas organizados pelos jesuítas e transferidos para a
administração civil depois da expulsão destes (1759). Q uanto aos dados sobre a C api­
tania do Espírito Santo — m ilitar mas não judicialm ente dependente da Bahia — , não
foi indicado com exatidão se eles eram relativos ao conjunto dessa C apitania ou apenas
se referiam à cidade de São M ateus que, na época, estava integrada à Baiiia.
84 B a h ia , S écu lo XIX

Esses com entários levam a pensar q u e o recenseam ento de 1 7 7 9 , ou o que dele nos
resta, não é m ais confiável que os outros, co n trarian d o a o p inião do historiador inglês
F .W .O . M orton, que afirm a tratar-se de “th e m ostdefensableX V IIIth cen tu ry popu lation
c o u n f .8 Dos 2 7 7 ,0 2 5 h abitantes recenseados em 8 7 paró q u ias, 5 7 ,3 % estavam na
com arca da B ahia (que in clu ía a cap ital, o R ecôncavo e parte do A greste), 8,7% na de
Jacobina, 6 , 1% na de Ilhéus, 3% na de Porto Segu ro , 1 9 ,4 % na de Sergipe dei Rei ç
5,5% na do E spírito Santo.

T A B E L A 2

C o m a r c a s, P o pulação e P a r ó q u ia s da C a p it a n ia da B a h ia , 1779
C om arcas P o p u l a ç Ao P a r ó q u ia s

Bahia 158.671 48

Jacobina 24.103 6

Ilhéus 16.313 7

Porto Seguro 8.333 11

Sergipe <iel Rei 54.005 11 ' .

Espírito Santo 15.600 4

Total 277.025 87
Fonte: Recenseamento de 1779. Adaptado de Ignácio de Cerqueira e Silva Accioli, M em ória s históricas
e p o lítica s da P rovín cia d a Bahia, v. 3, nota 12, p. 83.

Seja com o for, o recenseam ento de 1779 foi o ú ltim o do século, pois nas duas
décadas seguintes só foram feitas avaliações. Em 1781, José d a Silva Lisboa, futuro
V isconde de C airu , estim ou a p o pulação d a B ah ia em 2 4 0 m il alm as.9 Os números
fornecidos por V ilh cn a em 1800 tam bém não in sp iram gran de confiança, pois são
contraditórios — ora o auto r m en cio n a 2 1 0 m il, ora 3 4 7 m il alm as, para o conjunto
da C a p ita n ia 10 — , mas seus dados m erecem ser analisado s, p rin cip alm en te quando se
referem às paróquias urbanas e rurais de Salvado r e a outras paróquias da Capitania,
V erificam -se, portanto, disparidades, que podem ser explicadas de duas manei­
ras: ou os recenseam entos não passavam de sim ples estim ativas, ou então alguns de­
les não levavam em conta um a parte da população, sem que isso fosse explicitam en­
te indicado. M esm o assim , eles fornecem alg u m as ordens de grandeaa, para *
Província c para o país. O historiador norte-am ericano D auril A lden, que estudou
o recenseamento de 1776, estim ou que, na época, o Brasil abrigava 1,5 milhão de
pessoas, assim distribuídas: M inas Gerais, 2 0 ,5% ; Bahia, 18,5% ; Pernambuco, 15,4%;
Rio de Janeiro, 13,8% ; São Paulo, 7 ,5 % . Todas as outras capitanias tinham menos
de 4% da população.”
Em 1805, um recenseamento eclesiástico contou 3,1 m ilhões dc habitantes no
Brasil, 535 mil dos quais (17,2% ) na Bahia. C om parado ao de 1779, esse número
indica um crescim ento populacional dc 91,3% . Embora pareça exagerado, ele é coc-
L i v r o II - O P e so d o s H o m e n s 85

rente com o que teria ocorrido em todo o país, pois a população brasileira teria mais
do que dobrado nesse período (1 7 7 6 -1 8 0 5 ). A distribuição dos habitantes pelas capi­
tanias era sem elhante à apresentada acim a, com pequena perda relativa por parte das
mais povoadas. 12
Pesquisando os papéis do A rquivo da C idade de C achoeira, a historiadora norte-
am ericana C atherin e Lugar descobriu outro recenseam ento, que data de 1808 e apre­
senta um quadro m ais coerente: o côm puto da população foi efetuado por com arca, a
população livre foi separada da escrava e, em cada um a dessas categorias, os habitantes
foram indicados segundo a cor de sua pele, em bora sem distinções de sexo ou idade.
Das 411.141 pessoas recenseadas, 2 1,6% foram consideradas brancas, 1,4% índias,
43,0% negras e m ulatas livres e 3 3 ,9 % negras e m ulatas escravas. 13
Levando-se em conta esses núm eros, entre 1779 e 1808 teria havido um cresci­
mento po pulacional de 4 8 ,4 % . E lim in an do-se do recenseam ento de 1779 os dados
referentes à com arca de Sergip e dei R ei (5 4 .0 0 5 habitantes) e à C ap itan ia do Espí­
rito Santo (1 5 .6 0 0 h ab itan tes) e do censo de 1808 o$ dados relativos à C ap itan ia
de Sergipe dei R ei, obtém -se um a progressão da ordem de 6 2% para a população da
C ap itan ia da B ah ia p ro p ria m e n te d ita . É preciso não esquecer que, às perdas
de territórios que a B ahia sofreu na década de 1820 (Espírito Santo e Sergipe), acres­
centaram-se ganhos na região do São Francisco, até então subordinada a Pernambuco,
M as tudo in d ica que a perda em hom ens não foi com pensada, pois havia pouca
gente nas terras então incorporadas.
Entre 1814 e 1 8 1 7 , outro ‘recenseam en to’ (que serviu de base a um relatório
apresentado à C oroa por V eloso de O liv eira) avalio u a população baiana em 5 92.908
habitantes, o que parece exagerado. N este caso, provavelm ente foi aplicado um coefi­
ciente arbitrário de 2 5% sobre os dados do censo eclesiástico de 1 8 0 5 .14 M ais adiante
no século XIX, d u ran te m u ito s anos, só encontram os estim ativas: em 1824, Adrien
Balbi calculou a população da B ah ia (inclusive Sergipe) em 8 58 m il habitantes, mais
do dobro do total apontado pelo recenseam ento de dezesseis anos antes, com a seguin­
te distribuição: brancos, 2 2 ,2 % ; índios, 1,4% ; negros e m ulatos livres, 15,0% ; negros
e mulatos escravos, 6 1 ,4 % .13
Em 1845, M illet de Sain t A dolphe avaliou a população da Província em 650 m il
habitantes, núm ero m ais razoável, em bora relativam ente baixo, sobretudo se com pa­
rado ao do censo de 1872, que será analisado adiante. F inalm ente, na época da Guerra
do Paraguai (1 8 6 5 —1870), Sebastião Ferreira Soares estim ou que a Bahia tinha 1,45
milhão de habitantes, dos quais 1,17 m ilhão livres, 280 m il escravos e 20 m il índios
sem dom icílio fixo, mas já parcialm ente civilizados. Esses números parecem exagera­
dos, quando com parados aos do censo mais confiável, realizado em 1872 (1 .3 7 9 .6 1 6
habitantes).
Todas essas inform ações deixam a desejar, inclusive porque faltam estudos basea­
dos nos registros paroquiais. Não obstante, é possível fazer algum as observações de
ordem geral.
B ahla. S é c u lo X I X

- A população aum entou de forma constante e rápida, distribuindo-se porém dç


forma muito desigual. O peso dc Salvador e de sua hinrerlândia só aumentou.
A região abrigava 41% da população total em 1759; vinte anos depois, mais da
metade dessa população estava na com arca da capital, proporção que ultrapas­
sou os 60% em 1808.
- Livres ou escravos, negros e mulatos representavam mais de 2/3 da população
total. Todas as informações fixam o percentual dc brancos em cerca de 1/3 dos
habitantes no século XVIII. O recenseam ento de 1775 coincide, nesse aspecto,
com os do nosso próprio século, que estim am a existência de 36% brancos e
64% negros e m ulatos. Todavia, no início do século XIX o percentual de
brancos teria baixado para menos de 1/4 (21,6% em 1808 e 22,4% em 1824).
O numero de índios sempre foi reduzido; 1,4% em 1808 e 1,5% em 1824.
- No que diz respeito às relações entre população livre e escrava, a análise dos
dados de 1808 e de 1824 perm ite com entários interessantes. Em números
absolutos, a população total teria passado de 411 m il para 858 mil, com forte
aumento relativo na participação de escravos. Brancos e índios aumentaram de
272 mil para 334 m il, enquanto m ulatos e negros livres dim inuíam de 177 mil
para 129 m il, O núm ero de negros e m ulatos escravos teria aumentado de
139 m il para 524 m il. ,

T A B E 1.A 3

P o p u l a ç ã o d a B a h i a í-;m 1808* e 1824


P o pu l a ç ã o Livre P o pu l a ç ã o E sc r a v a T otal
G eral
B r a n co s Í n dios N egros f. M u lato s T o tal N eciros e M ulato s

18081 89.004 5.663 177.133 271.800 139.391 411.191

18241 192.000 13.000 129.000 334.000 524.000 858.000

variação (%) (116) 030) (-27,2) (23) (276) (108)


O) Inclui Sergipe dei Rei.
Frjnrcí: (1) Cadastra da população da Província da Bahia coordenada no an o d e 1808, Arquivo Municipal de Cachoeira; (2)
Aorícn lialbi, tirado por 1 lialcs dc Azevedo, P ovoam ento da cid a d e do Salvador.

Em 1.808 não se disnnguiram os mulatos e os negros (livres ou escravos). Entre as


duas datas, observa-sc que a porcentagem de escravos no conjunto quase dobrou,
enquanto a dos homens livres dim inuiu significativam ente. Apesar disso, o percentual
de brancos se manteve, o que certamente se explica pela chegada à Bahia dc uma leva
de novos imigrantes, oriundos principalmente do M inho e Douro, no Norte de Portu­
gal, O número desses imigrantes tornou-se maior quando a Corte portuguesa se insta­
lou no Brasil em 1808. Mas, segundo J.J. Reis, as estimativas dc Balbi são “muito
duvidosas quando ele avalía a participação das populações africanas (negros) e afro-
baianas (mulatos) no conjunto da população livre da C apitania”. 1C Com razão, esse
autor chama a atenção para o fato dc que todos os estudos feitos sobre o Brasil no
L ivro II - O P eso d o s H omens 37

século X IX mostram que a população de negros e m ulatos aum entou mais rapidam ente
que a população branca. M as, se Balbi subestim ou o peso dos negros e mulatos, em
compensação cie superestim ou consideravelm ente o núm ero de escravos existentes na
Bahia e em Sergtpc. Esta população aum entou m uito durante os trinta prim eiros anos
do século XIX, pois os africanos foram trazidos em grandes massas, geralm ente da África
O cidental — Sudão, às vezes A ngola — para acom panhar o verdadeiro boom açucarei-
ro do fim do século X V II1 e do Início do século X IX. 17 Se nos basearmos, porém, nos
números de 1808, maís seguros, e acrescentarm os um a m édia de sete m il escravos
importados por an o ,18 chegarem os a 2 5 1 .3 9 1 escravos — isto é, menos da metade do
número apresentado por Balbi — , o que nos dá um a participação de 4 3,54% de
escravos na população total da B ahia, percentual com parável ao de 1808 (33,9% ).
Em resumo, o que se pode dizer, analisando-se os dados anteriores ao censo de
1872, é que a população da B ahia sc caracterizou por um crescim ento contínuo e bem
marcado, por causa da im igração de populações brancas e da im portação de negros
africanos, cuja chegada acelerou-se no fim do século XVIII e no início do século XIX.
Não se conhece o peso do crescim ento vegetativo. C om o a taxa de reprodução dos
escravos era m uito baixa e a de m o rtalid ad e m uito elevada, 19 pode-se concluir que a
taxa de natalidade entre os brancos {e possivelm ente tam bém entre negros e mulatos
livres) era m uito m ais elevada.20 M as tais afirm ações, infelizm ente, não se baseiam em
estudos num éricos bem fundam entados.

Os R ecen seam en to s de 1872 e 1890 •

A contagem da população b rasileira entrou na era da estatística m oderna no últim o


quarto do século XIX. O prim eiro levantam ento devidam ente controlado, de I o de
agosto de 1872, baseou-se em critérios estabelecidos após um recenseamento experi­
mental em preendido em 1870 no M u n icíp io N eutro da C orte (cidade do^Rio de
Janeiro). Giorglo M orrara afirm ou que, dentro dos lim ites dos erros normais nesse
tjpo de investigação, o censo dc 1872 pode ser considerado como um dos melhores
que o país já teve.21 O Império do Brasil contava então com 10.11 2.00 0 habitantes,
e a Província da Bahia (que ocupa 6 ,6 % da superfície do país) com 1.379.616, ou seja,
13,6% da população total. Salvador e seu termo tinham 129.109 habitantes, dos quais
108.138 moravam nos lim ites das paróquias da cidade.
Esses números, no entanto, foram contestados. Em 1 898, Sá O liveira afirmou
que, nos distritos onde acom panhara os recenseamentos de 1872 e de 1890, a orga­
nização estatística foi das piores ’.22 Para os técnicos do Instituto Brasileiro de Geogra­
fia e Estatística (IBGE), o trabalho de 1872 foi realizado com m uito boa vontade “mas
com controles inadequados”.2‘* Aliás, esse censo traz muitos resultados parciais que
não concordam com os totais, evidenciando somas erradas. Não espanta que o presi­
dente interino da Bahia tenha apresentado, em seu relatório anual de 1876, o total de
B ahia , S éculo X IX

1,45 m ilhão de habitantes para a Província. V icente V iana, tam bém presidente da
Província, m encionou 1,38 m ilhão em sua M em ória sobre o Estado da Bahia , de 1893.
Apesar de todas essas restrições, consideram os m erecedor de crédito e relativamente
rigoroso o recenseamento de 1872. Q uanto ao de 1890, passa-se o contrário: seus
métodos e resultados são quase unanim em ente contestados, de modo que faremos um
uso apenas parcial dos dados que apresenta.24
De qualquer forma, pode-se afirm ar que só na segunda m etade do século XIX a
Bahia tomou posse de seu território. Por volta de 1800, a Província contava com 71
aglomerações — povoações, lugarejos, paróquias, arraiais ou vilas, algum as com deze­
nas de habitantes — , das quais 36 no Litoral ou nos dois recôncavos. Em dezesseis
casos, tratava-se de antigos aldeam entos indígenas, quase todos adm inistrados pelos
jesuítas até a expulsão destes em 1759. Em 1872, com prováveis 1 .3 79 .6 16 habitantes,
a ocupação do território continuava m uito dispersa, e os lim ites dos 72 m unicípios —
todos com sedes da adm inistração local e pontos de confluência dos m oradores, na sua
m aioria agricultores — eram extrem am ente vagos. M as em 1890 já havia 110 sedes de
m unicípio, das quais som ente 46 estavam no lito ral ou nos dois recôncavos. A criação
de novos m unicípios correspondia a um crescim ento dem ográfico ou a um a distribui­
ção diferente dos habitantes pelo território?

TABELA 4

R e p a r t iç ã o da P o p u l a ç ã o B a ia n a entre 1779 e 1890


C o m a rc a s 17791 18081 18723 1S901

B a h ia 1 5 8 .6 7 1 2 4 9 .3 1 4 7 6 7 .4 2 6 l . 0 5 2 .0 2 0

ja c o b in a 2 4 .1 0 3 5 3 -8 5 4 4 9 8 .9 6 7 7 2 8 .9 7 9

Ilh é u s 1 6 .3 1 3 2 3 .7 8 0 8 8 ,8 9 4 9 7 .5 3 2

Porto Seguro 8 .3 3 3 9 .1 2 4 2 4 .8 9 9 2 4 .9 1 1

Total 2 0 7 .4 2 0 3 3 6 .0 7 2 1 .3 8 0 .1 8 6 1 .9 0 3 .4 4 2

Fontes. (1) Recenseamento do Marquês dc Valença, in Ign íd o de C erqucira e Silva Accioli, M em órias históricas ep olítica s da
/ roLíncia íZj Bahia , v, 2, nota 12, p. 83; (2) Cadastro da população da P rovín cia da Bahia coordenado no ano d e iSOS, Arquivo
M uniripal de Cachoeira, (3) Bahia, Sergipe, ParanÁ, Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro (Livros Raros), p. 506-6! t; (4)
hynopse do recenseam ento d e 31 d e dezem bro de !8 lJO, p. 151-157.

Embora feita com restrições, a comparação dos números recolhidos em 1779,


1808, 1872 c 1890 permite que sc observe um a progressão demográfica constante,
com crescimento, entre o prim eiro c o últim o ano, de 819% (de 207.420 para
1 .9 0 3 .4 4 2 ) .O destaque ficou com a imensa comarca dc Jacobina, que compreen­
dia o Agreste c o Sertão, atravessando o rio São Francisco, A população local experi­
mentou crescimento dc 2.933% , enquanto na comarca da Bahia ele foi de 566%, na
dc Ilhéus de 506% e na dc Porto Seguro de 200% . Nao è possível que esse fenômeno
tenha decorrido apenas do crescimento natural da população de Jacobina. Por outro
lado, nada autoriza imaginar-se que, nessa comarca, as condições de vida tenham
L ivro II - O P eso d os H omens 89

sido m elhores do que nas proxim idades da capital ou no Litoral Sul, particularm ente
quando se levam em conta as severas variações clim áticas que castigaram as regiões
sem i-áridas, ora sob forma de seca, ora de um a pluviosidade excessiva, destruindo as
culturas de subsistência e trazendo duros períodos de fome (entre 1809 e 1889, in ­
term itentem ente, foram registrados 25 anos de secas e onze de pluviosidade excessi­
va) .26 É verdade que o Agreste e o Sertão não foram atingidos pela epidem ia de
cóíera-m orbo que devastou Salvador e seu Recôncavo em 1855, mas a grande seca
dos anos 1 8 5 7 -1 8 6 0 e a pluviosidade anorm al dos anos 1 8 6 1 -1 8 6 2 foram certam en­
te tão nefastas para as zonas sem i-áridas e áridas quanto o cólera-m orbo para Salva­
dor e seu Recôncavo.
Entre 1800 e 1890 o núm ero de paróquias na região de Jacobina passou de treze
para 56 (crescim ento de 3 3 0 % ). Isso é significativo, pois no século XIX as paróquias
eram a unidade de base ad m in istrativ a, já que o Estado m odelava suas estruturas pelas
da Igreja. No m esm o perío do, o núm ero de paróquias passou de sete para oito na
comarca de Porto Seguro, de catorze para 22 (57% ) na de Ilhéus e de 36 para 110
(205% ) na da B ahia, onde estavam Salvador e seus arredores.27
O forte crescim ento do in terio r da Província b aian a no século XIX é confirm ado
pelos núm eros, incom pletos e subestim ados, fornecidos para o ano de 1800 por Luiz
dos Santos V ilh e n a .2S Esse auto r — que se refere a apenas 177*787 habitantes em toda
a C ap itan ia — trab alh o u com u m docum ento eclesiástico em que só figuravam as
aglomerações co n stitu íd as em paróquias. No entanto , na época, existiam núcleos (às
vezes com forte densidade po pu lacio nal) a que não havia sido conferida essa condição,
Detendo o m onopólio das nom eações para os curatos e os benefícios, m as, em contra­
partida, sendo obrigado a prover sua subsistência, o rei de Portugal não tinha pressa
em criar novas p aró q u ias.2"1 A lém disso, as aldeias indígenas, mesmo depois de colo­
cadas sob adm inistração leiga, nao eram autom aticam en te transform adas em paróquias.
V ilhcna oferece o que ele m esm o cham a de “m apa de todas as freguesias que
pertencem ao arcebíspado da B ah ia”, seguido de outro que contém não vulgares
notícias de m uitas aldeias de índios que por ordem régia hoje são vilas . Das 36 aldeias
citadas, 27 pertenciam à C ap itan ia da B ahia. Elevadas à condição de vilas depois da
expulsão dos jesuítas, elas receberam vigários nom eados pela adm inistração real. Mas
os dezessete aldeam entos restantes ain d a eram adm inistrados por capuchinhos italia­
nos, franciscanos e frades da O rdem do C arm o (carm elitas).30 São vagas as inform a­
ções sobre a população dessas aldeias indígenas: o rccenseamenro era feito por lugare­
jos, mas ignoram os a com posição dos mesmos. Entretanto, apesar das restrições que
podem ser feitas aos núm eros fornecidos por V ilhcna, eles nos pareceram utilizáveis
para um a com paração dc ordens dc grandeza (nada, aliás, nos prova que os recensea
mentos oficiais de 1872 e 1890 tenham realm ente conseguido levantar a totalidade da
população baiana).
A comparação dos dados fornecidos por V ilhena com os dos recenseamentos de
1872 c de 1890 perm ite reforçar a idéia de que um a im ensa revolução se produziu
90 B a h ia , S éculo X IX

no povoamento da Bahia entre 1800 e 1890. Em 1800, viviam no interior apenas


2 0 ,6 % da população recenseada, mas em 1872 essa proporção já se elevara para
56% e em 1890 atin gia 58,2% . O u seja, m ais da m etade da população da Provín­
cia não se encontrava mais nas áreas de colonização antiga, situadas perto do litoral.
No interior, o núm ero de paróquias tam bém aum entou bastante, evoluindo de 20%
do total ein 1800 para quase a m etade (49 ,5 % ) em 1 8 9 0 . T odo esse crescimento se
produziu em detrim ento da população de Salvador e de sua hinterlândia, assim como
da do Litoral Sul: já em 1872, a cidade de Salvador e os arredores sob jurisdição
desta concentravam 35,7% da população da Província, e a população do Litoral Sul
— inclusive o Recôncavo Sul — estagnara.
Embora considerem os pouco provável que esse aum en to populacional se tenha
devido unicam ente ao crescim ento vegetativo, devem os reconhecer que faltam estudos
específicos, capazes de dem onstrar a ocorrência de fortes m ovim entos migratórios
internos. Pode-se, todavia, supor que certas oportunidades econôm icas criadas em
regiões do interior hajam provocado, entre 1800 c 1 8 7 2 , transferências de populações
oriundas de áreas ménos dinâm icas. Precisam os, portanto, tratar da situação econômi­
ca da C ap itan ia e depois Província da B ahia entre 1800 e 1872, período em que
ocorreu grande m utação na distribuição da população por regiões.
A análise segue o corte da B ahia em três grandes zonas. A prim eira (Zona A}
com preendia Salvador, a cidade e seu term o (ou seja, dezoito paróquias, das quais onze
eram urbanas e sete rurais), m ais quatro paróquias existentes desde o século XVI ao
norte e nordeste da cidade e, enfim , o Recôncavo. A li, o povoam ento era antigo. Os
492.732 habitantes recenseados em 1872 representavam 3 5,7% da população da Pro­
víncia, contra 71,4% em 1800. Apenas 15% eram escravos, tanto na cidade como no
Reconcavo, este essencialm ente voltado para a cu ltu ra da cana-de-açúcar.^1 Nesse ano,
estavam concentrados em Salvador 2 6,2% dos habitantes dessa prim eira zona (contra
40,2% em 1800).
Após 1808, a região perdeu mais de m etade de sua m ão-de-obra escrava, o que sc
deveu essencialmente a proibição da im portação de africanos, im posta aos brasileiros
por tratados celebrados com a Inglaterra em 1830, mas aplicados efetivamente a partir
de 1850. M encione-se que a econom ia açucareira esteve em crise desde a época da
Independência, quando a guerra (1 8 2 2 -1 8 2 3 ) contribuiu para desorganizar a produ­
ção baiana. Técnicas agrícolas e industriais não renovadas, assim como a concorrência
de outros produtores de açúcar, acarretaram uma decadência irrem ediável.32 Muitos
escravos foram vendidos para as plantações de café do Centro-Sul do Brasil. Só entre
1864 e 1874, a Bahia foi desfalcada de 5 5 , 1% de sua população escrava, enquanto as
províncias do Oeste, do Su! ou do Centro-Sul do Brasil registravam crescimentos que
variam entre 14,9% (Centro-Sul) e 48,2% (Oeste e Sul).33
A segunda zona (B) — parte sul do Recôncavo e do Litoral, áreas de povoamento
também muito antigo — se ligava à capital basicamente por via m arítim a. Por causa
da hostilidade da população indígena e da densa floresta que as recobria, durante o
L ivro II - O P eso dos H omens 91

TABELA 5
P opulação de S alvador e do R ecôncavo em 1872

PoruiAÇAo Livre PopuiaçAo Escrava T otal


Homens M ui.hekes Homens M ulheres

Salvador 5 9 .8 1 9 5 2 .8 2 2 8 .2 0 1 8 .2 6 7 1 2 9 .1 0 9

R ec ô n ca v o * 1 6 0 .6 7 8 1 4 4 .4 9 7 3 2 .5 0 6 2 5 .9 4 2 3 6 3 .6 2 3

Torai 2 2 0 .4 9 7 1 9 7 .3 1 9 4 0 ,7 0 7 3 4 .2 0 9 4 9 2 .7 3 2

(’ ) Corresponde aos municípios de Abrantes, Maca de São João, Conde, Abadia, Cachoeira, Maragojipe, Tapera, Santo
.Amaro. São Francisco, Nazaré, Jaguahpe e Itaparica,
Fonte: Adaptado do recenseamento de 1872.

período colonial essas regiões tiveram um desenvolvim ento m edíocre. Apesar disso,
durante m uito tem po as povoações e vilas que nasceram ali, nas em bocaduras dos rios
ou nas baías protegidas da força do m ar, íoram apreciáveis fornecedoras de víveres e de
m adeira para a capital, que solicitava farinb a de m andioca, arroz, m ilho, peixe salgado
e m adeira para os arsenais reais. D urante boa parte do século XIX, a estagnação dessa
que cham am os Zona B deveu-se à perda de sua posição de principal fornecedora de
alim entos à capital. A ab ertura de vías de com unicação fez com que o Agreste ocupasse
esse lugar.
Não faltaram , contudo, iniciativas para diversificar a produção agrícola e criar
novas oportunidades no sul do Recôncavo. Em C am am u e V alcnça, por exemplo, um
café considerado de excelente q u alid ad e34 foi cultivado na década de 1820, em bora
essa cultura não atingisse ali desenvolvim ento sem elhante ao que teve no Sudeste (no
Brasil, o café foi plantado pela p rim eira vez em V içosa, M in as G erais, no fim do século
XVIII). A produção de cacau perm aneceu insignificante. T am bém houve tentativas de
estabelecer m anufaturas têxteis, aproveitando a energia das quedas d ’água ali existen­
tes. A construção da terceira m anu fatu ra da Província da B ahia (as duas prim eiras
datam de 1834 e foram im plantadas na capital) teve início em 1844, fruto da associa­
ção de três grandes com erciantes da cidade de Salvador: A ntônio Francisco de Lacerda,
Antonio Pedroso de A lbuquerque e o norte-am ericano Jo hn Sm ith Gülmer. Eles
investiram a enorm e q uan tia de 200 m il contos de réis e contaram com a colaboração
do engenheiro norte-am ericano João M onteiro Carson, proprietário de um a fazenda
na região. Pretendiam aproveitar as quedas do U na e a m atéria-prim a produzida na
região do río das Contas para produzir panos grosseiros, próprios à confecção dos
sacos utilizados para os produtos agrícolas de exportação, das roupas dos escravos e das
pessoas pobres da Província.
Inaugurada em 1 847, a Todos os Santos enfrentou, desde o início, muitos proble­
mas: sua capacidade de produção cra pouco aproveitada — pois tinha enorme dificul­
dade para se abastecer da m atéria-prim a de que precisava, sendo obrigada a fazer vir o
algodão das províncias de Sergipe e de Alagoas — , sua rentabilidade era baixa e seu
mercado era lim itado. Em 1851, a sociedade foi dissolvida. Pedroso de Albuquerque
92 B a h ia , S é c u l o XIX

ficou sendo o único proprietário até 1876, ano em que a fábrica foi fechada, quando
em pregava 260 operários, recrutados entre a população livre, e trabalhava com 176
fiadeiras e 4 .1 6 0 fusos, produzindo 1,1 m ilhão de m etros de tecido por ano.
Nesse período, B ernardino de Sena M ad u reira havia fundado na região uma se­
gund a m anufatura, a N ossa Senhora do A m paro, que não teve destino mais feliz
V en d id a em 1869 à fam ília Lacerda, em 1887 passou às mãos d a V alença Indus­
trial, fundada pelos com erciantes Jo sé Pinto d a Silva M o reira e D om ingos Gonçal­
ves de O liveira, transform ada em sociedade an ô n im a em 1899, N a década de 1850
foram criadas um a fábrica de vidro (1 8 5 4 ), u m a fundição de ferro e bronze (1857)
e um a serralheria, mas todas m u ito pequenas. As experiências industriais da região
pararam por a í.35
Às m argens do rio P eruíbe, no m u n icíp io de C aravelas, no L ito ral Sul, desde 1818
o café era p lan tad o na colô nia su íço -alem a de L eo po ldina, a ú n ica a u tilizar mao-de-
obra escrava. Su a produção foi de 6 .6 1 0 sacos de sessenta quilos em 1836 e de 24.384
sacos em 1853. A co lô n ia com o ta l desapareceu em 1861, mas os colonos se estabele­
ceram no local à frente de prósperas fazendas de café. D epois da A bolição da Escrava­
tura, em 1888, os escravos foram em b o ra das plantações e a falta de mão-de-obra
arru in o u os proprietários, que tam bém d eix aram a região, ficando ao abandono a terra
exuberante, n a au sên cia de braços para colh er seus frutos,36
A h o stilid ad e do m eio físico e h u m an o e a fa lta de co n tin u id ad e das empresas
agrícolas e in d u striais explicam a estagnação dessa gran de zona, cujo ritm o de cresci­
m ento po p u lacio n al foi o m ais fraco d a P ro víncia: em 1872, ali se concentravam 8,3%
d a população, p ercen tual q ue caiu p ara 6 ,4 % em 1890. Só na ú ltim a década do século
se generalizou a cu ltu ra do cacau, q ue se to rn o u o p rin cip al produto de exportação do
Estado d a B ahia e co n trib u iu sign ificativ am en te para povoar Ilhéus, Canavieiras e
B elm onte, que receberam num erosos m igran tes, vindos sobretudo de Sergipe, do
Recôncavo e do sul de M in as G erais.37
A terceira zona (C ) englobava todo o resto d a Província, m as essas imensidões
podem ser divididas em três subzonas. A p rim eira delas é o Agreste, região situada ao
norte da cidade de Salvador (com lim ites entre A b adia e Jerem oabo) e que se estende,
a oeste, por todo um território em torno de F eira de Santana, im portante mercado
para o gado do Sertão. A li o povoam ento é antigo : várias das atuais sedes de m unicí­
pios nasceram de aldeias indígenas. A região produzia cana-de-açúcar, fumo e cereais
e sua pecuária era m uito desenvolvida, exceto nos m unicípios atingidos pelas secas,
como Santo A ntônio da G lória. O escoam ento da produção se fazia pelas precárias vias
tradicionais, fluviais c terrestres, mas, a partir de J 863, um a linha ferroviária ent^
A lagoinhas a Salvador tornou possível um transporte m ais rápido de mercadorias.
Em 1875 outros 48 quilôm etros de ferrovias estabeleceram um a ligação durável entre
Feira de Santana e C achoeira, no Recôncavo. Desta últim a cidade era possível chegar
a Salvador por via m arítim a num a viagem de sete horas. Assim , os habitantes de Fetra
passaram a fazer ida e volta em 24 horas, enquanto por terra eram necessários três dias
L m to II - O P eso d os H om en s 93

dc deslocam entos.39 Em 1SS6, a cidade tam bém foi ligada por ferrovia a São Gonçato
dos C am pos, im portante centro produtor de fumo, mas não conseguiu ligar-se nem às
regiões de M undo Novo e ju azeiro , nem a Salvador. A construção da ponte entre
C achoeira e São Félix, inaugurada em l 88*5, colocou Feira diretam ente em contato
com o C entro-O este da Província, especialm ente com a região da C hapada D iam antina,
que tinha ligação ferroviária com C ach o eira.40
A região do C en tro-O este é vasta: vai da cidade de Orobó, que fica no pé da
chapada D iam an tin a, até o Sudoeste, onde encontra M inas G erais. Deve um a certa
concentração populacional a suas m ú ltip las atividades agrícolas e m ineradoras, que
se desenvolveram sobretudo em meados do século XIX. Povoada a partir da década
de 1720, quando foram descobertos alguns filões de ouro, recebeu novo fluxo po­
pulacional depois de 1845, com a exploração das m inas de diam antes, conhecidas
desde o século XVIII e redescobertas em 1842. Elas atraíram grandes contingentes
que se foram estabelecer em Lençóis, A ndaraí e São João do Paraguaçu, no contex­
to de um lrush m in erad o r’ que não d u ro u m u ito , pois a partir de 1867 os diam an­
tes do Cabo (África do Sul) com eçaram a fazer concorrência aos diam antes baianos.41
A depressão na região foi grave, apesar das tentativas de desenvolvim ento das cultu­
ras de café, algodão, fum o, m an d io ca e cereais, que não podiam prosperar diante da
falta de m eios de com unicação com o lito ral.42 Apesar de todos esses problemas, a
população do C en tro-O este — que, segundo V ilh ena, era de 6 .2 3 3 habitantes em
1800 (núm ero, sem dúvida, subestim ado) — passou a 191-257 em 1872 e a 303.438
em 1890, evidenciando a atração que a aventura m ineradora ainda exercia. Nessa
região, estavam 12,8% do total de escravos da Província, em sua grande m aioria
empregados na m ineração.
Finalm ente, a terceira subzona do que cham am os Zona C com preendia as regiões
que sc estendem ao extrem o Sudoeste, ao extrem o O este, ao norte de Jacobina e mais
longe ainda, englobando o rio São Francisco. É ali que se atingem as profundezas da
Província da B ahia, com seus sertanejos que vivem na dependência dos caprichos do
clim a. As principais vilas tiveram sua origem nos currais — pontos de parada durante
as longas viagens das boiadas para o m ar ou para M inas Gerais — e também nas
atividades que foram surgindo pouco a pouco e se desenvolveram graças ao comércio
do gado bovino. Logo no início da segunda m etade do século XVIII, porém, a econo­
mia dessa região foi ferida m ortalm ente pela decadência das atividades mineradoras
cm M inas G erais, pelo estabelecim ento de novas áreas de pecuária nessa capitania e,
principalm ente, pela criação dc fazendas de gado mais próximas dc Salvador, sobretu­
do nas regiões do Agreste, Isolado, o vale do São Francisco começou a produzir apenas
para consumo próprio, cm um sistema dc econom ia fechada.
O São Francisco cra navegável cm boa parte do seu curso, mas a utilização dessa
via levava a mercados situados íora dos lim ites da Bahia, o que dificultava a integra­
ção, principalm ente com Salvador. O sertanejo não se deixava abater e procurava,
por todos os meios, estabelecer contatos com as províncias vizinhas. Casa Nova, por
94 B a h ia , S éculo X IX

exemplo, tornou-se no século XIX um a vila m uito dinâm ica, graças ao seu comércio
com o Piauí. O P residen te D antas , prim eiro navio colocado em serviço no São Fran­
cisco, começou a navegar em 1873, mas um verdadeiro serviço de comunicação flu­
vial só foi efetivado em 1886. A estrada de ferro só chegou a Juazeiro em 1896.
No entanto, de um modo geral a região m ostrou-se fértil, sempre que as condições
clim áticas o perm itiram : havia criação de gado, produção de cereais e plantação de
algodão, mas quase tudo era consum ido in loco. N a década de 1890, no extremo Sul
e extrem o Sudoeste, vilas com o M acaúbas, Brotas de M acaúbas e C arinhanha entra­
ram em decadência, apesar da pecuária. M as o m orador dessa vasta região se agarrava
à sua terra e ao seu horizonte lim itado . Estamos longe dos grandes êxodos de popula­
ções, m ais tarde atraídas pela perspectiva de um a vida m elhor nos estados do Centro-
Sul do Brasil. D urante todo o século XIX essa subzona parece ter conseguido reter sua
população, que, entre 1872 e 1890, evoluiu de 3 0 7 .7 1 0 para 425.541 habitantes.
Ao térm ino dessa longa análise, alguns com entários se im põem . A população da
B ahia aum entou durante todo o período estudado, experim entando um crescimento
particularm ente vigoroso nas regiões que apresentavam fraca densidade populacional.
Isso fica evidenciado pela criação de novas sedes de m unicípio s e paróquias, bem como
pela elevação de vilas à categoria de cidades, como foi o caso de Alagoinhas (1863),
Am argosa (18 91 ), A ndaraí (1 8 9 1 ), A ratuípe (1 8 9 1 ), A reia (1 8 9 1 ), C ondeuba (1889),
V itó ria da C onquista (1 8 9 1 ), Feira de San tan a (1 8 7 3 ), Lençóis (1864), Serrinha
(1891) e São João do Paraguaçu (1 8 9 0 ).43 Apesar disso, a atração exercida pela capi­
tal e sua hinrerlândia perm aneceu m uito grande. N ão surgiu nenhum a outra capital
regional, e Salvador conservou o privilégio de urbs prin ceps, em bora controlasse mal
sua im ensa hinterlândia.
O utra constatação im portante: a população livre aum entou consideravelmente em
comparação à escrava. A proporção entre escravos e nao-escravos, que em 1808 era de
6 6 % a 34% , em 1824 passou a ser de 39% a 6 1% , praticam ente se invertendo. Em
1872, nenhum a região possuía m ais de 15% de escravos, o que mostra que a Abolição
tão-som ente ratificou, em 1888, um processo que se iniciara havia m uito tempo.44
Finalm ente, essa população se fixou sobretudo em regiões que lhe ofereceram, em
certo momento, algum a oportunidade de enriquecim ento, embora em pouco tempo a
tenham desapontado. M as, agarrando-se aos novos h ib itats, os homens criaram am­
bientes que lhes perm itiram suprir as necessidades essenciais de sua existência.

F a ix a s E tA ria s e D is tr ib u iç ã o p o r S e x o n a P o p u la ç ã o B a ia n a

É possível conhecer a composição por idade, sexo, cor e origem da população baiana
de então? Só o recenseamento dc 1872 perm ite esse tipo dc desagregação, que mesmo
neste caso deve ser encarada com m uita desconfiança, por causa dos erros que apare­
cem nas tabelas originais. Mas, com cias, é possível chegar a algumas ordens de gran­
Ln,~Ro II - O P eso d o s H om ens 95

deza interessantes. O recenseamento dc 1890 dá informações referentes à repartição


por idade, mas não faculta distinções por sexo, cor e origem. Por isso, escolhi trabalhar
somente com o censo dc 1872.
Um a prim eira série de dados de 1872 diz respeito a repartição da população da
Bahia por idade, sexo e cor. Não são seguidos os critérios adotados atualm ente nos
estudos dem ográficos, de modo que aparecem discrim inadas faixas etárias mais num e­
rosas: rnuiro detalhadas durante os cinco prim eiros anos de vida, tornam-se qüinqüenais
a partir da idade de seis anos e decenais a partir de 31 anos, sem que se saiba como e
p o rq u e esses critérios foram adotados. Além disso, essa série não fornece informações
sobre os escravos de menos de onze meses, pois a Lei do V entre Livre, de 28 de
serembro de 1871, dera a liberdade a todas as crianças nascidas de escravas a partir
dessa data. De qualqu er modo, o grosso dos efetivos populacionais concentrava-se nas
faixas etárias que vão de seis a quarenta anos.
A dm itindo-se as hipóteses de que se com eça a trabalhar na idade de dez anos (em
certas cam adas sociais num ericam en te m ajoritárias) e de que a faixa dos sessenta anos
é a idade-Iim ite da v id a ativa m édia, m ais de 2/3 dos baianos integravam , em 1872,
uma população ativa capaz de sustentar seus jovens e velhos. Esses percentuais são de
64,8% para os hom ens livres, 6 4 ,7 % para as m ulheres livres, 69,5% para os homens
escravos e 7 0,2% para as m ulheres escravas. Por outro lado, a entrada no mundo do
trabalho em tenra idade não deve surpreender. Por exem plo, os filhos de escravos
começavam a trabalhar aos sete ou oito anos e não eram os únicos nessa situação.
Numerosos foram os portugueses que em igraram para a Bahía para trabalhar em casas
de comércio aos oito, nove ou dez anos. Entre 1852 e 1889, 34,6% dos portugueses
emigrados tính am entre sete e catorze anos.45
Q ual era a relação entre as populações de menos de dez anos e de mais de
sessenta anos? U tilizem os, para essa análise, a repartição por sexo, cor e condição
jurídica.
A população infantil eqüivalia a pouco m ais de 25% da população total, encon-
trando-sc o percentual mais elevado entre os brancos livres, seguidos dos mulatos (nos
dois casos as crianças chegavam perto de 30% do total). Entre os escravos negros se
encontrava o menor percentual dc crianças, o que é coerente com tudo o que se sabe
sobre a fraca taxa de reprodução desse grupo. M esmo assim, o percentual de crianças
escravas parece surpreendentem ente elevado. Fica a pergunta: até que ponto isso de­
corria do fato de os m ulatos serem, em geral, escravos nascidos no país? Esses mesmos
dados levam a um novo paradoxo: entre a população dc cor, livre ou cativa, encontra­
mos os percentuais mais elevados de pessoas idosas (6,9% a 9,6% ), enquanto os mais
baixos estavam entre a população branca (5,8% ), Mas isso talvez não seja espantoso,
pois evidentemente era m uito difícil saber a idade dos alforriados e dos escravos,
sobretudo daqueles que tinham sido importados da África, bem como a dos caboclos,
dos índios puros e dos mestiços.
Encontraremos esse mesmo perfil entre a população feminina?
96 B ahia , S éculo X I X

TABELA 6

P o p u la ç ã o M a s c u lin a d a B a h ia p o r C or, 1 8 7 2
H o m e n s L ivres H o m e n s E scravos

B ran co s M ulato s N egros C abo clo s M ulatos Negros

0 - 1 0 anos 52.689 83.233 36.015 7.427 9.345 10.073


(29.5) (29,0) (26,1) (27,5) (25,0) (19,5)

10-60 an o s 115.609 183.944 91.774 17.623 25.370 36.721


(64.7) (64,1) (66,7) (65,1) ( 6 8 ,0 ) (70,9)

+ 61 anos 10.307 19.954 9-785 1.993 2.582 5.003


(5,8) (6,9) (7,1) (7,4) (7,0) (9,6)

Total 178.605 287.131 137.57 427.043 37.297 51.797


Fonte: A d ap tad o do recen seam en to d e 1 8 7 2 .

TABELA 7

P opulação F f.minina da B ahia por C o r , 1 8 7 2

M ulh e res L ivres M u lh e res E scravas

B rancas M u latas N fg ras C a b o cla s M u latas N egras

0-10 anos 49.331 76.701 32.467 5,777 7.000 9.655


(32,3) (27,6) (25,5) (25,4) (24,9) (19,0)

10 -60 anos 94.939 180.879 85.161 15.694 19.055 37.092


(62,1) (65,0) (70,0) (68,7) (67,9) (73,2)

+ 61 anos 8.604 20.993 9.525 1.368 2.016 3.912


(5,6) (7,4) (7,5) (5,9) (7,2) (7,8)

Total 152.874 278.573 127.153 22.839 28.071 50.659


Fonte: Adaptado do recenseamento de 1872.

Em linhas gerais, o perfil fem inino era quase idêntico ao masculino, embora
com um percentual mais elevado para as m eninas de raça branca. Aqui, como na
tabela precedente, o maior núm ero de pessoas idosas se encontrava entre a popula­
ção de cor, fosse livre ou cativa. O percentual de mulheres caboclas idosas era prati­
camente igual ao de mulheres brancas. O número de pessoas idosas era, de modo
geral, elevado, sobretudo levando-se em conra o fato de que essas populações eram
mal nutridas, mal atendidas em termos de saúde e periodicamente atingidas por epi­
demias mortais. Apesar de todas as reservas enunciadas, parece mesmo assim pa*3'
doxal que entre os escravos, alquebrados pelo trabalho, houvesse maior número de
velhos que entre os homens livres. Isso talvez reforce a idéia de que homens livres
pobres às vezes vivessem em piores condições que os escravos.
O número de homens cra significativamente superior ao de mulheres, e essa
diferença era muito sensível no caso de pessoas brancas em idade de casar (entre
dezesseis e quarenta anos). Entre os negros e mulatos, ela era menor.
L ivro II - O P eso d os H om en s 97

TABEL A 8

H o m e n s e M u l h e r e s e m I d a d e de C a s a r . B a h ia , 1872
P u p u l a ç Ao L lvrf P o pu l a ç Ao E sc r a v a

B ran co s M ui a t o s N eg ro s C abo clo s M u ia t o s N ecros

Mulheres 4 9 .9 1 4 1 1 0 .5 2 8 4 5 .8 7 4 1 0 .3 6 0 1 2 .2 6 7 2 3 .5 0 9
(1 6 —4 0 a n o s )

Homens 7 0 .0 7 7 1 1 1 -7 3 6 5 9 .0 8 9 1 0 .7 7 0 15,302 2 2 .7 8 4
( 2 1 - 5 0 anos)

Fonte: Adaptado do ictcnscam enro de 1872.

M atizes R a c ia is e O r ig e n s da P o p u l a ç ã o B a ia n a .

A com paração da repartição por cor captada nos recenseam entos de 1808 e 1872 deve
levar em conta que o prim eiro d istin g u iu as categorias branco, índio, negro e m ulato,
enquanto o segundo trocou ‘ín d io ’ por ‘caboclo’, termos que não são equivalentes.
Caboclo designa o m estiço de índio e branco, que norm alm ente vive no interior, como
lavrador ou criador de gado. N a linguagem corrente, a expressão é usada tam bém com
o significado de ‘hom em rude, pouco civilizado’ . Não sabemos se os recenseadores
pretenderam designar dessa form a o índio puro ou o m estiço, ou se consideraram que
o índio só existia em 1872 sob form a de caboclo.

TABELA 9

D is t r ib u iç ã o da P o p u l a ç ã o B a ia n a po r C or

P o p u l a ç ã o L ív r e P o pu l a ç ã o E sc r a v a T otal
G er a l
B ran co s Ín d io s e N egros e T otal N egro s e
C abo clo s M ulato s M ulato s

18081 68.504 4.273 144.549 217.331 118.741 336.072

1872a 33 1.47 9 49,882 830.431 1.2 11,75 2 167.824 1.379.576

Fcwffv, (1) Rtccnscamcmo dc 1808, excluída a comarea de Sergipe dei Rei; (2) Àdapcado de População considerada cm
re la to às idade*", p. 514 do recenseamento de 1872.

A proporção da população branca pouco progrediu em relação aos caboclos (que


triplicaram sua participação relativa) e sobretudo em relação aos negros e mulatos
üvres, que passaram de 43 a 60,2% do total. O u seja: de modo geral, a população era
mestiça e o elemento branco, m inoritário.
O documento original do recenseamento de 1872 intitula-sc População em relação
à nacionalidade brasileira c só fornccc informações sobre as pessoas que nasceram no
Brasil. Aparece uma diferença, para menus, dc 23.417 pessoas, que poderiam ser de
origem européia ou africana. Note-se que houve um trabalho específico para apresen­
tar os dados de modo muiro completo: a população aparece repartida por sexo, con­
dição jurídica, estado civil, cor e, finalmente, pela província de origem. Nenhuma
98 B ah ia, S é c u lo XIX

rubrica “origem ignorada” figura no documento. Assim, graças aos dados referentes a0
estado civil, deveria ser possível descobrir a taxa de celibato dessa população, mas isto
não acontece. Para começar, o núm ero de escravos (homens e mulheres) é inferior em
11.250 ao fornecido pelas tabelas anteriores, e não sabemos sequer se essas pessoas
fazem parte do grupo dos 23.417 que faltam na serie sobre a origem . Esse não chega
a ser um grave problema; se somarmos o núm ero de homens e mulheres — livres e
escravos -—■que consram das quatro categorias referentes a cor, e se compararmos esses
dados com as rabelas anteriores, obtemos dados com pletam ente coerentes para a po­
pulação escrava.
A situação se com plica quando se observam os núm eros referentes à população
livre. Há contradições nas categorias de cor, sobretudo entre brancos, mulatos e ne­
gros. Só se retom a a coerência quando, depois de diversas comparações de tabelas, se
percebe que 9.989 negros, 56 caboclos e 1.347 brancos — todos livres — foram
‘reconvertidos’ à condição de m ulatos, o que, no prim eiro caso, num ericam ente mais
expressivo, representava sem duvida um a prom oção.
Os dados sobre as m ulheres causam um a surpresa im ediata. Elas não eram
‘reconvertidas’em m ulatas, mas ao contrário: 2 49 m ulheres passaram com sucesso no
crivo que lhes perm itiu sentirem -se brancas sem restrições. Em bora, nesse caso, as
contas não dêem resultados com pletam ente coerentes — fica faltando o destino de
4.654 mulheres — , pode-se perceber que as negras foram prom ovidas a mulatas nas
mesmas proporções que os negros. T alvez elas pudessem passar com mais facilidade
ainda pelas m alhas da triagem relativa à cor.
Seria possível fazer um estudo sobre o celibato? A parentem ente sim , mas nunca se
repetirá bastante o quanto é preciso ter cautela em relação aos dados com os quais se
trabalha. Tomemos um exemplo: no docum ento sobre a origem , 20,8% das mulatas
escravas e 17,0% das negras escravas figuram como casadas, mas isso contradiz todos
os estudos feitos até hoje com base em outros tipos de docum entos —- como, por
exemplo, os inventários p o st m ortem — que dem onstram que menos de 1% dos
escravos eram casados. Aliás, tam bém o percentual dos m ulatos e negros casados é
diferente: aqui, os m ulatos correspondem a 18,7% , enquanto os negros chegam a
23,5% ! Haveria m ulatas casadas com negros? Essa questão levanta problemas, pois as
práticas m atrim oniais na Bahia são relativam ente bem conhecidas, e um a das chaves
para o êxito social é o processo que leva a em branquecer a p ele.^ Pode ser que os
recenseadores dc 1872 tenham contabilizado na rubrica ‘casam ento’ as uniões livres,
que eram muito numerosas. Este exemplo dem onstra o quanto é aleatório e perigoso
apoiar-sc nessas informações para análises mais aprofundadas.
Supondo-se que os dados sobre a origem estivessem corretos, observamos que
eram de origem baiana 98% dessa população. As outras províncias não mandavam
Homens à Bahia, exceto as limítrofes ou muito próximas (Pernambuco, Alagoas, Sergipe
e M inas Gerais), das quais alguns mulatos livres, dos dois sexos, safam com facilidade.
O numero de mulatos que vinham de outros lugares ultrapassava o da população
L iv r o II - O P eso d o s H o m en s 99

branca que deixava a B ahia. Eram todos, na certa, gente pobre, que partia em busca
de fortuna. Os m ulatos vinham até de províncias longínquas, como Paraná, Santa
C atarina e Rio G rande do S u l. M as o núm ero de m ulatas que chegavam era inferior
ao das que partiam .
Alguns com entários se im põem ao térm ino dessa segunda análise. A população da
Província era jovem , vigorosa e m uito m iscigenada. O ligeiro desequilíbrio entre
homens e m ulheres não parece ter sido capaz dc desregular o processo de reprodução.
Essa população desigualm ente d istrib u íd a,47 concentrada sobretudo em Salvador e nas
terras interiores próxim as à cap ital, vivia em torno de centros agrícolas situados a
vários dias de m archa uns dos outros, ou em torno de centros de m ineração. Para o
habirante do Sertão, a cap ital tin h a um a existência quase m ítica. O sertanejo vivia tão
longe de tudo, tão isolado, que só de vez cm quando era atin gido pelas decisões de uma
metrópole, cujas m otivações desconhecia e cu ja opulência ingenuam ente superestimava.
Em 1872, a população b aian a eq ü iv alia a 13,9% da brasileira; em 1890, essa
percentagem caiu para 13,4% . Sua taxa de crescim ento nesse período era de 1,96% ao
ano, contra 1,83% para a população total do país. Ju n tam en te com a da Província de
M inas G erais, a população baiana era a que apresentava as m aiores concentrações
populacionais do Brasil. Sua densidade era a m aior do país: 3,2 em 1872 e 4,5 em
1890, contra 1,1 e 1,6 para a m édia geral. Com o se vê, a evidente perda dc poder
econômico não im p ediu que a Província da B ahia continuasse a ser um a das mais
dinâmicas do país. N ova contradição — e não è a últim a de um a província que
parece esbanjar m uitos de seus recursos, até mesmo o m ais precioso: sua riqueza em
homens. Será que o mesm o aconteceu em Salvador, sua cap ital?48
C A P Í T U L O 7

A C id a d e d e Salvador

É p reciso d iz er e re p e tir: S a lv a d o r e as á reas ru ra is de seu e n to rn o fo rm avam um todo.


O n d e, e n tão , a ca b a v a a c id a d e e c o m e ç a v a o cam p o ? F u n d a d a p o r decisão real, em
1 5 4 9 , p a ra to rn a r-se sed e do g o v e rn o d a n o v a C o lô n ia , S alv ad o r, com o todas as
p a ró q u ias e v ilas d o im p é rio p o rtu g u ê s , re c e b e u u m ‘ te rm o ’ (área sobre a qual se
e x erc ia a a u to rid a d e m u n ic ip a l) de a p ro x im a d a m e n te 3 6 k m 2 e u m ‘ro ssío ’ (área de
ex p an são , q u e ta m b é m se rv ia d e p a sto p a r a os a n im a is p erte n c e n te s aos habitantes
u rb an o s e g a ra n tia o fo rn e c im e n to de m a d e ir a , p r in c ip a l c o m b u stív e l dom éstico). A
T o m é d e S o u sa, o fu n d a d o r d a c id a d e , fo ra m d a d as in stru çõ e s m u ito claras, no que
d iz ia resp eito à d e m a rc aç ão d o T e rm o : “EI R e y he q u e a d ita p o vo ação seja tal como
atras fica d e c lara d o e y p o r b em q u e e la te n h a u m te rm o e lim ite seis íegoas para cada
p arte e sen d o caso q u e p o r a ílg u a p a rte n ã o a ja as d ita s seis Íegoas p o r não haver tanta
terra, c h eg ara o d ito te rm o a te o n d e c h e g a re m as terras d a d ita c a p ita n ia , o qual termo
m a n d a reis d e m a rq u a r d e m a n e ira q u e e m to d o tem p o se p o ssa sab er onde parte.711
T o d as as fo ntes in d ic a m q u e os lim ite s desse T e rm o , d e fin id o no século XVI, não
foram m o d ificad o s a té o sé cu lo X IX , te n d o in c lu íd o ao lo n g o d e todo esse tem po sete
p aró q u ias ru rais, h a b ita d a s b a s ic a m e n te p o r a g ric u lto re s d isp erso s: N ossa Senhora da
C o n ceição d e Itap o ã, S ão B a rto lo m e u d e P ira já , S ão M ig u e l de C o tejíp e, Nossa Se­
n h ora do ó de P arip e, N o ssa S e n h o ra d a P ie d a d e de M a tu im , S a n tA n n a da Ilha de
M aré e N ossa S en h o ra d a E n carn ação d e Passé, A estas sete p aró q u ias, m u ito próximas
d a cid ad e, deve-se acrescen tar, p o r u m lad o , as de S ão B en to do M o n te G ordo e do
D ivin o E spírito S an to (q u e fo rm aram , no fim do sécu lo X V III, o povoado de Abrantes)
e as de São Pedro do A çu d a T o rre e do S e n h o r do B o n fim da M a ta (que, na mesma
época, form aram o povoado da M a ta de São Jo ã o ). A té a época da Independencia,
esses dois povoados e suas p aró q u ias faziam p arte do T erm o de Salvador, e o mesmo
aco ntecia com as duas p aró q u ias d a ilh a de Itap arica: S an ta V era C ruz e Santo Amaro.
T estam entos e in v en tário s p o st m o rtem descrevem as casas m odestas — com duas ou
três peças, térreas, raram en te com p rim eiro an d ar, co n stru íd as com taip a m as freqüen­

100
L i\-ro II - O P eso d o s H omens 101

temente cobertas de telhas, abertas para um pequeno jardim com hortas plantadas —
que, aqui e ali, sempre em torno de igrejas, formavam os núcleos de povoação, despro­
vidos de estrutura adm in istrativa.2
A C âm ara M unicipal podia conceder, a particulares, terrenos e até pequenas
sesmarias, cobrando um a taxa (foro) perpétua sobre terrenos não construídos.3 T otal­
mente sem m uralhas desde o século XVII, Salvador era protegida por pequenos fortes
instalados na costa (Santo A ntônio da Barra, Santa M aria, São Diogo, São M arcelo,
M ontserrat) ou nos planaltos m ais elevados do horst {São Pedro, Santo A ntônio Além
do Carm o, Barbalho). Em fins do século XVIII já havia dez paróquias, o dobro do
número observado cem anos antes.4 No século XIX foi criada apenas um a nova paró­
quia, a de M ares, datada de 1871.
Em 1757, 1800 e 1829, fizeram -se três descrições m ais ou menos precisas das
paróquias ditas urbanas. A m ais an tiga dessas descrições é um a obra coletiva, feita
pelos nove párocos locais — eram então nove as paróquias, pois a da Penha foi criada
em 1760 — a pedido de Su a M ajestad e, que desejava inform ações sobre os habitantes
de cada jurisd ição eclesiástica. O pedido não foi acom panhado de nenhum a orienta­
ção precisa e, por isso, obteve respostas desiguais: alguns, como Gonçalo de Sousa
Falcão, vigário da Sé, deram o núm ero de fogos e de alm as de sua paróquia, estabele­
cendo até um a distinção entre “alm as de com unhão” (crianças com até sete anos) e
“almas de confissão” (pessoas com m ais de sete anos); outros deram informações bem
sucintas: “nesta p aró q u ia”, disse secam ente o vigário de Nossa Senhora da Conceição
da Praia, na C idade B aixa, “há quatro m il alm as de com unhão”.5 M as, de um a forma
ou outra, todos responderam ao questionário real.
C onsultando esse m aterial, m in h a atenção recaiu particularm ente sobre as res­
postas dos vigários de N ossa Senhora de Brotas, onde m oravam apenas 45 pessoas, e
de Nossa Senhora da V itó ria, onde m oravam 1.500. O correra nesta últim a o desem­
barque dos prim eiros colonizadores de Salvador e, em 1551, ela era um a das duas
paróquias da cidade (a título de com paração, a outra paróquia, a da Sé, a maís popu­
losa da cidade, tinha 8 .4 4 2 alm as e o Paço, a menos povoada, 2 .0 1 8 ). Produtoras de
mandioca e de frutas, N. S. de Brotas e N. S. da V itó ria eram verdadeiras roças quase
vazias, onde um a população rural tirava proveito das riquezas do solo e da abundân­
cia das águas. Na prim eira, alguns pescadores praticavam a pesca da baleia, pois seu
território incluía várias praias situadas no litoral norte da baía dc Salvador, onde se
encontravam dois abrigos para a pesca, ou armações: a Armação de Saraiva e a de
Grcgória. Não podiam ser qualificadas de centros urbanos, até porque inexistiam
serviços já im plantados nas outras paróquias (arm am ento, transportes, iluminação
norurna). Por que não eram consideradas ‘paróquias rurais ? Informações ulteriores
talvez respondam a essa pergunta, M as, desde já, fica claro que vinte anos depois do
censo de 3757, feiro pelos vigários, as paróquias de Brotas e da Vitória continuavam
muito pouco povoadas, guardando maís semelhança com as suburbanas que com as
demais paróquias urbanas. A paróquia da Penha, criada em 1760 como resultado de
um desm em bram ento da paróquia de Santo A ntônio Além do Carm o, tinha mai
alm as que Brotas.
M in h a segunda fonte de inform ação foram os textos escritos por volta de Isoq
por Luiz dos Santos V ilh en a, um professor de grego que provavelm ente utilizou os
dados do recenseam ento de I o de jan eiro de 1775, ordenado pelo governador Manuel
da C unh a M enezes com fins m ilitares.6 Ele tam bém d istin gu iu paróquias urbanas (Sé
C onceição da Praia, PÍIar, Sanro A ntôn io A lém do C arm o, Penha, S an t’Anna, Brotas
São Pedro, Passo e V itó ria), onde se encontrava um a m aio ria de negros e mulatos
cativos, e suburbanas (São B artolom eu de P irajá, N. S. do Ó de Paripc, São M iguel de
C otejipe, N . S. da Piedade do M ato im , Santo A m aro do Ipitana, São Pedro no Sauípe
da T orre, Senhor do Bonfim da M ata, San ta V era C ruz de Itaparica, Santo Amaro de
Itaparica e N. S. d a E ncarnação de Passé). O prim eiro grupo concentrava 7.080 fogos
e 4 0 .9 2 2 pessoas (entre as q uais, 1 .4 1 2 hom ens recrutáveis para o serviço m ilitar), e o
segundo 2.091 fogos e 1 6.093 pessoas (4 1 7 recrutáveis). É V ilh en a quem diz, sobre as
paróquias urbanas: “Das cinco partes de fogos encontradas, quatro são para os cléri­
gos, as viúvas, os negros e m ülatos alforriados etc. N a q u in ta parte restante de fogos,
a dos pais de fam ília, decid iu-se que, sem recorrer a m étodos opressivos, seria possível
recrutar 1.412 hom ens para o E xército. Os hom ens restantes serviriam nas m ilícias.”
M ais adiante, acrescenta: “H o je há m ais fogos e alm as, m as é impossível recrutar a
m etade desse n ú m ero .”
Paróquias urbanas? P aróquias rurais? A defin ição , im precisa nesse início do século
XIX, torna-se ain d a m ais co m p licad a q uando en tra em cena um inform ante de 1829.
T rata-se de D om ingos Jo sé A ntônio R ebello, que descreveu Salvador em sua Corografia
ou a b revia d a história g eo g rá fica d o Im p ério do Brasil. N este trabalho, duas paróquias
sem pre classificadas com o ‘u rbanas’ — N . S. de Brotas e N . S. da Penha de Itapajipe
— foram in clu ídas na lista das paróquias ‘sub urb an as’! Reinava, portanto, grande
confusão sobre os lim ites entre a cidade e o cam po. As próprias autoridades adminis­
trativas não sabiam m uito bem onde eles estavam . Em 1831, todas as portarias refe­
rentes à construção de prédios ou casas se aplicavam tanto à cidade quanto ao seu
rossio (a de n° 3 0, por exem plo, obrigava os m oradores de toda a cidade a limpar e
sanear pântanos e riachos, que po luíam sobretudo os subúrbios; a de n° 39 proibia
construir ou m odificar um a casa sem a perm issão da M unicipalidade, sob pena de dez
m il réis de m ulta ou cinco dias de prisão e da dem olição da construção).7 fiara os ve
readorcs do século XIX, a cidade e seu distrito formavam um todo. A vida nas paróquias
suburbanas era um prolongam ento da vida nas da cidade, e a Câm ara M unicipal na
via razão para d elim itar os contornos da urbe propriam ente dita. ^_
A n e c essid ad e d essa d e lim it a ç ã o s u rg iu de rep en te, em m aio d e 1857, quan ^
re g u la m e n ta d o m ais rig o ro sa m e n te o an tig o im p o sto , estab elecido em 1811, so
im óveis u rbanos. O go vern o n o m e o u e n tão dois peritos — Francisco Pereira de Agu
e n g e n h e iro in d ic a d o pelo go vern o d a P ro v ín cia, e Francisco A n tô n io Filgueira, vere
dor in d ic a d o p e la M u n ic ip a lid a d e — para fixar co m m aio r precisão os limites
L ivr o II - O P eso d o s H o m e n s 103

dos quais esse im posto seria cobrado. Eis o resultado do trabalho: “A com issão encar­
regada de fixar os lim ites da cidade para o im posto sobre os im óveis urbanos pôs-se de
acordo sobre a segu in te dem arcação para fixar os ditos lim ites. N a faixa litorânea, o
lim ite será d eterm in ad o pela lin h a desse m esm o lito ral, entre a co lin a do Farol da
Barra e a po nta de N. S. da Penha, co n tin u an d o sem interrupção pelo mesm o lito ral,
ultrapassando a baía d ita da R ib eira de Itap ajip e e atin gin d o o Forte de T ainh eiros até
o alam bique dos Fiaes, onde se term in ará o lim ite em lin h a reta para a E strada das
Boiadas. D a porta de en trad a do alam b iq u e de Fiaes, a lin h a lim ítro fe descerá para a
reserva de água da C o n ceição , de onde ela su b irá p ela m esm a estrada até a Praça da
Lapinha, de onde descerá n o vam ente p ara reu n ir-se à Fonte do Q ueim ado , de onde
subirá novam ente p ela E strada d a C ru z do C o sm e e, segu in d o -a até a Praça da Cruz,
descerá novam ente p ela la d e ira q ue passa d ian te do im óvel da Q u in ta dos Lázaros,
para em seguida sub ir de novo p ela R u a do V alia, chegando à Fonte das Pedras. Da
Fonte das Pedras, a lin h a passará p ela R u a do S an grad o u ro até chegar ao M atatu e, do
M atatu , ela c o n tin u ará nas im ed iaçõ es da p ropriedade de Jo aq u im Jo sé de O liveira e,
dessa propriedade, segu in d o a E strada de B rotas, a lin h a lim ítro fe irá até a casa d ita de
Boa V ista. D e Boa V ista, ela seg u irá a estrada q ue leva ao D iq u e, chegando em seguida
à grande casa do G arcia e, depois, segu irá pela estrada do rio de Sao Pedro até o bairro
da G raça. D a G raça, a lin h a de dem arcação passará d ian te d a igreja e convento do
mesmo nom e q u e p erten cem aos B en ed itin o s e, após passar d ian te da casa que perten­
ceu ao finado C h rista d ’O u ro , ch egará d ian te d a casa de F rédéric H o ldem an , situada
na colina da B arra, de on de ch egará ao Farol d a B arra q ue foi seu ponto de partida.
Serão sujeitos a im postos todos os im óveís com p reendido s nesses lim ite s...”8 .
Percebe-se a d ificu ld ad e dos con tem po rân eos q u an d o foram cham ados a d efin ir os
espaços c u ja d en sid ad e d e m o g rá fic a era b aixa. A área d e lim ita d a pelos peritos
correspondia, em p rin cíp io , à sup erfície o cu p ada pelas dez paróquias urbanas.9 M as
excluía boa parte d a p aró q u ia de N . S. de Brotas (terras que iam até a Pituba) e de
N. S. da V itó ria (o R io V erm elh o ). N estes casos, os lim ites da cidade não corres­
ponderam aos das paróquias d itas ‘u rb an as’. M as in clu íram a totalidade das terras que
pertenciam às paróquias realm en te urbanizadas.
Os habitantes das paróquias afastadas eram forçados a vir à cidade para todos os
atos oficiais, com o o registro de testam entos ou de certidões de com pra e venda e o
reconhecim ento de filhos ilegítim o s. O m esm o acontecia com num erosos habitantes
do Recôncavo, que escolhiam os tabeliães da cap ital para lavrar os registros de seus
docum entos, em bora todas as vilas do Recôncavo tivessem seus próprios tabeliães.
Assim, o T erm o acabava por englobar todo o Recôncavo, realizando um a simbiose
perfeitam ente natural entre a cidade e o cam po.
Em pleno século XIX o legislador não conseguia d elim itar a urbe com certeza e
precisão: usos, costum es, perícias e regulam entos nem sempre eram coerentes entre
si. Com o pode o historiador, obrigado a definir seu objeto, precisar então a parte do
território que deseja estudar? O prim eiro cam inho — porta estreita — considera
104 B ah ia , S éculo X IX

'urbano’ todo território coberto por um a rede de imóveis contínua e densa, onde já
estava instalada a rede dc serviços essenciais de um a cidade (ilum inação, água, esgo­
tos, saúde pública, transportes); ou a área cujos habitantes tinham acesso a setores
secundário e terciário bem desenvolvidos; ou ainda a área sistem aticam ente conside­
rada pelos habitantes c pelos viajantes estrangeiros como pertencente à cidade pro­
priam ente dita. O ra, a centena de viajantes que passaram por Salvador no século XIX
quase sempre só m encionaram as paróquias do C entro. V itória teve o privilégio de
figurar em várias descrições, mas foi porque, após a Independência, residiam ali mui­
tos estrangeiros.
O segundo cam inho — solução 'aberta* — passa pela adoção de critérios mais
hum anos e menos rígidos, que perm itam integrar à cidade um a área mais extensa. Em
vez de considerar o grau de urbanização, pode-se levar em conta a infinita complexi­
dade dos gestos cotidianos, das relações sociais fundam entais, da tram a da vida urbana
que estabelece ligações entre com unidades m ais ou menos próxim as. Esta solução__
que, como regra geral, adotei — perm ite com preender m elhor a razão da enorme
disparidade existente nos dados dem ográficos anteriores a 1872 e dim inui o peso dos
erros de avaliação com etidos pelos contem porâneos.
Independentem ente da solução escolhida, os dados dem ográficos disponíveis per­
m anecem m uito im precisos. T entarei analisá-los com o mesmo corte feito para o
conjunto da Província, distin guindo dois períodos: antes e depois de 1872.

A n t e s d e 1 8 7 2 : R e c e n s e a m e n t o s P a r c ia i s

Dou crédito lim itado a recenseam entos que não são dignos desse nome, a contagens
cujos m ecanism os não ficam claros, a avaliações que não passam de estimativas, às
vezes resultantes da sim ples aplicação de um coeficiente fantasioso sobre números
anteriores. T entei extrair delas o m áxim o de inform ações, mas estou consciente de que
fornecem apenas ordens de grandeza e não perm item com preender a real estrutura da
população de Salvador. 10
O prim eiro recenseamento de que se tem notícia data de 1706 e foi feito pela
Igreja. No ano seguinte, seguindo a legislação canônica em vígor em Portugal, o
sínodo do arcebispado da Bahia decidiu que uma vez por ano, entre os domingos da
Septuagésima e da Q üinquagésim a, os vigários deveriam recensear seus paroquianos e
os respectivos bens, indo dc casa em casa, anotando nomes, prenomes e endereços.
Deviam, além disso, indicar as pessoas que não tinham ainda atingido a puberdade
(catorze anos para o.s meninos c doze para as meninas) e os maiores de idade, obrigados
a confessar e comungar. É claro que, além de útil para a Igreja, esse recenseamento
podia servir aos interesses fiscais c m ilitares do Estado, Em 1708, o governador Luís
César de Menezes pediu aos padres que lhe fornecessem anualmente a lista dos chefes
dc família e dos filhos do sexo masculino (com as idades), bem como o número de
L iv r o II - O P eso d o s H o m e n s 105

fogos. 11 Não consegui encontrar nenhum desses censos. Só tenho os dados globais de
1706 (que apontam , para Salvado r, 21.601 habitantes repartidos em 4 .2 9 6 fogos) e de
três outros recenseam entos realizados até 1759.
Sem m encionar sua fonte, Afonso R uy afirm a que em 1718 a cidade contava com
3 9 .2 0 9 habitantes e 6 .6 1 7 fogos, restando ain d a 2 .6 7 6 pessoas nas paróquias rurais.
Rocha Pira escreveu em 1724 que antes dessa data havia em Salvador seis m il fogos,
com cerca de trin ta m il pessoas, d iv id id as entre a nobreza — leia-se ‘senhores de
engenho’ — , trabalhadores e escravos, “além daqueles que não são capazes dc receber
os sacram entos”. 12 O utras fontes põem em d ú vid a esses cálculos. Em relatório datado
de 1840, o arcebispo da B ah ia, dom R o m uald o de Seixas, dá inform ações sobre o ano
de 1755, m as tam bém não in d ic a sua fonte (seria esrabelecida a p artir das listas
nom inativas?). Segu ndo ele, S alvad o r tin h a então, em m eados do século, 3 7 .54 3
habitantes, d istrib uído s em 6 .7 1 9 fogos. O recenseam ento de 1757 indico u que as
nove paróquias d a cid ad e abrigavam 3 4 .4 2 2 h ab itan tes púberes e 4 .8 1 4 fogos, núm e­
ros m enores do que os indicados por A fonso R u y para m uitos anos antes. N ada
ocorreu na história da cidade q u e justificasse um a d im in u ição da população e, sobre­
tudo, da q u an tid ad e de fogos entre 1718 e 1757. M esm o ad m itin d o a hipótese de os
núm eros de 1718 in clu írem crian ças im púberes, perm anece inexplicável a queda no
núm ero de fogos. 13
O últim o recenseam ento desse período, realizado em 1759 por ordem do 7o
Conde dos Arcos (governador e cap itão -geral), foi m ais bem controlado. Nós o conhe­
cemos graças às instruções dadas pelo m in istro português M artin h o de M elo e Castro
ao M arquês de V alença (governador e cap itão -geral em 1779). C ontaram -se então, na
cidade, 6 .7 8 2 fogos e 4 0 .2 6 3 h ab itan tes, excluin do desse total crianças de menos de
sete anos, índios que viviam em aldeias adm inistradas por religiosos e membros ou
servidores das ordens religio sas.1^ M as os resultados dos recenseam entos de 1757 e de
1759 tam bém não são coerentes, pois, segundo eles, em dois anos a população da
cídade teria aum entado em 17% e os fogos em 4 0% , o que parece im possível. 15
No que diz respeito aos recenseam entos realizados no últim o quarto do século
XVIII, as opiniões sc dividem . T hales de Azevedo considera que eles produziram as
únicas estatísticas realm ente com pletas e detalhadas, pois classificaram a população
por grupos de idade, cor c estado civil, avaliando o núm ero de nascimentos e óbitos.
Sua opinião tão favorável se baseia num único desses censos, o de 20 de junho de
1775, que ele analisa sem todavia fornecer os dados básicos sobre os quais trabalhou,
f, completamente diferente a opinião do historiador inglês Russel-W ood, que se recu­
sa a tirar conclusões dc um levantam ento que considera malfeito e incompleto. 16
Inclino-me a concordar com este últim o. Vejamos do que sc trata exatamente.
Ocorreram dois recenseamentos no ano de 1775: além do de 20 de junho, men­
cionado por Thales de Azevedo, foi realizado outro, meses antes, em janeiro, por
ordem do governador M anuel da Cunha Menezes, que enviou a Lisboa um levanta­
mento dc “todas as pessoas que pertencem ao arcebispado da Bahia e cujos habitantes
B a h ia , S é c u l o XIX
106

são subordinados ao governo tem poral dessa m esm a B ahia, com distinção das comarcas
e vilas às quais pertencem , com o núm ero de fogos e alm as, para saber que pessoas
podem ser cham adas ao serviço de Sua M ajestad e sem que os povos sejam oprim idos.”
T ratava-se, portanto, de um recenseam ento para fins m ilitares e era bem conhecida
a falta de entusiasm o dos baianos em relação ao serviço m ilita r. V ilh en a percebeu isso:
“Fazer um m apa desta natureza neste país não é fácil com o talvez se sup un ha, porqUe
os pais de fam ílias, receosos de que lhes peçam os filhos para soldados, não só ocultam
m uitos, como nem dão os nom es nos róis da confissão, e o m esm o praticam com os
escravos, receosos de algum a cap itação ou trib u to s, segu n d o o n ú m ero de escravos que
constar possuem. ”17
Os recenseam entos apresentavam sub -registros de crian ças com menos de sete
anos de idade, de m odo que o m esm o pode ter ocorrido com a população adulta
m asculina. Esse censo de jan eiro de 1775 ap o n to u p ara a cid ad e de Salvador uma
população de 4 0 .9 2 2 alm as, repartidas em 7 .0 8 0 fogos, e para as p aróquias suburbanas
16.093 alm as e 2,091 fogos. C o m parado s aos núm ero s do recenseam ento de 1759, os
resultados parecem m edíocres: a po pulação d a cid ad e teria p erm an ecid o estacionária
durante 16 anos.
Essa constatação pessim ista perm ite duas hipóteses: pode ser que os números de
1759 tenham in clu íd o tam bém a população su b u rb an a, para a qual não disponho de
informações separadas, induzin do assim a u m a sup erestim ação dos habitantes da cida­
de propriam ente dita. Por outro lado, essa d im in u ição pode ter sido real, causada pelo
êxodo de hom ens para o Sertão baiano ou p ara o Rio de Jan eiro , on de se incorporavam
ao Exército que lutava contra a Espanha no Sul. M as, sem d ú v id a, a explicação do
padre A velino de Jesus da C o sta é a m ais con vin cente. Para ele, o trabalh o de Manuel
da C unh a M enezes u tilizara dados de u m recenseam ento in co m p leto , realizado em
1768, fornecendo por isso núm eros sub estim ados. 18
Q ue dizer dos núm eros do recenseam ento de ju n h o de 1775? M esm o conside­
rado como um dos m ais com pletos, apresentando “um a análise detalh ada da popu­
lação da cidade por sexo, idade e estado c iv il”, ele tam bém é passível de críticas.
Com efeito, o núm ero de fogos apontado por esse docum ento é ligeiram ente supe­
rior àquele de janeiro do mesmo ano (7-345 contra 7 .0 8 0 ), m as, contraditoriam en-
tc, a população é estim ada em 3 3 .6 3 5 , ou seja, sete m il habitantes a menos! Além
disso, como apontou T hales de Azevedo com m u ita acuidade, o núm ero de pessoas
casadas de um e outro sexo é exatam ente o mesmo para cada grupo étnico. Por
exemplo, para 1.697 homens brancos casados, há o mesmo núm ero de mulheres
brancas na mesma situação. Com o o mesmo se verifica com m ulatos e negros, fica
im plícita a mensagem dc que os casamentos só se efetuavam dentro do mesmo gru­
po de cor. Sabemos que isso é falso: casamentos inter-raciais ocorriam em todas as
camadas, Além disso, a soma dos subgrupos não corresponde ao total apresentado:
12.720 brancos, 4.207 m ulatos livres, 3 .6 3 0 negros livres e 14.696 negros e mula­
tos escravos, o que nos dá uma população de 3 6.253 pessoas e não as 33.635 pe*'
L tvro II - O P eso tx \s H o m e n s 10?

sois anunciadas. Portanto, é dihcil adm itir quç cssc ccnso seja mais seguro que
outros, anteriores ou contemporâneos.
Para term inar o secido \\ II1, (alta uma referência ao recenseamento dc 1779,
sobre o qual ja fiz com entários. Os resultados nele apresenrados provocam tanta
contusão quanto os dem ais. A tabela abaixo mostra que os números referentes à
população t O .JO 1) pessoas) e aos fogos (6.617) são idênticos àqueles fornecidos por
Afonso Ruy para o ano de 171S. Te ria este autor confundido as datas? É provável,
inclusoe porque não rcscla sua io n tt. Alias, não nve condtçoes de comprovar se—
quer a existência de um censo em 1718, de modo que fui levada a clim iná-lo de
minhas análises. Alem disso, enquanto o número de pessoas aum entou em relação
às indicações do ccnso de 1775, o contrário ocorreu com o número de fogos, ape­
sar dc não haver nenhum a m enção sobre m udança nos critérios utilizados para
uesisni-los nessa data.

TABELA 10 , .

P o p u la ç A o d e S a l v a d o r , s e g u n d o o s R e c e n s e a m e n t o s d e 1706 a 1807
Focos P fsso a s

ClOAO F. S c b C r b io s CtUADF. S u BCKRIOS

17061 4.296 - 21.601 -

I7IS- 6.617 - 39.209 2.676

1755J 6.719 - 37.543 -

1757+ 4.814 - 34.442 -

1759' 6.782 - 40.263 -

17756 7.080 2.091 40.922 16.093

17757 7.345 - 33.635 -

1779* 6.617 3.689 39.209 26.076

18051 - - 45.600 -

Í807lfl - - 51.112 -

f f 1 j A fq iiivrw t)n A rccb ísp ad o * rf/w i/Thíilçs d c A zeved o , P & voitnten to d a t i d ^ d t d o S a lva d or^ jv 1H5; (2) A fonso R u y
dc H t u 6r i 4 p f i í f t i c a f f i d m h ü i t t r t t i i w drf à d f t d t d o Sãh>iidor< p. 3 1 5 ; (3 ) D om R o m u d ld o Scj*d\h 1 Í4 0 , a p u d T h ales
dc A wv-dr/, o p f i t h p . 1R8; (4) Fira* do Ar/nrral. R r t r v r d t i ç ô n hiitòricm < p> 2 5 6 ; {*>) R c tc n s c a in c n to lo iro a n u n d ü J a C o n d e
d^>s A rcos, # p u d r h a lt s d r A /cvcdo, w/j. f i t . . p 19ÍJ: (iS) U rotíiisoaiH cm n fc ilo a m an d o do g o v ern ad o r M an n c i da
M rn r/ r* ^^r>^irr» dc 1 7 7 5 ), t f p f t d \ halos d r A/.ovcdn, np. r t l . Y p, 191 (7 ) Rcirttisoam rnrs* d e 20 de ju n h o t e
I 7 7 r/p t t p v d '1 h A\ri dc A /rvr<\<it np. ç i f ., p. 1 9 3 - 1 9 4 ; ÍK) R ct cn -sean u m o rc ali/ ad a d m an d o tio g o v ern ad o r M arqu es de
V a lrrv rj. * p H4 f h J c i dc A / c w d ij, ap. < tí.t p. 1 % 197; (9 ) ílcc c ru ca m c ritn a p u d T lia lc * de A w c d o , op.
P* 2 IA ; f|í> ) R frfn w ü m ^ n iú fo iío a m and o do C tm d e da P o m c i a p u d 3 halo* dc A iovcdo* (>/>. o / ,, p* 2 1 K

Tendo a considerar plausível o numero dc 59,209 habitantes para 1779, pois


continuavam o cxrido populacional cm direção ao Sertão c o envio dc homens para o
hxércúo que combatia no Sul, Além disso, excetuando-se curtos períodos de recupe­
ração, desde meados do século XVIII a cidade permanecia vitimada pelo marasmo. A
economia baiana só retomou seu dinamism o a partir de 17893° O recenseamento
108 Bahia, SEgito XDC

eclesiástico de 1805 apontou 4 5 .6 0 0 habitantes, núm ero que, dois anos depois, subiu
para 51-112, segundo novo censo, atribuído à iniciativa do Conde da Ponte Em
1855, M aurício W anderley, presidente da Província e futuro Barão de Cotejipe, orde
nou trabalho sem elhante, mas dele só pude encontrar resultados referentes a bairros de
algum as paróquias da cidade, Esse recenseam ento coincidiu com a epidem ia de cólera
morbo, o que explica seu caráter parcial. U tilizei largam ente seus resultados no Livro III
consagrado à fam ília, pois traz inform ações q u e, em bora fragm entárias, são dé
prim eiríssim a ordem .
Finalm ente, um últim o recenseam ento forneceu, para 1870, o número de 77 686
habitantes para a cidade e 3 6 .2 0 6 para sua área rural. U tilizei todos esses dados com
m uitas restrições, pois, além dos censos, possuo tam bém algum as avaliações de outro
tipo, cujo valor será discutido agora.

A n tes de 1 8 7 2 : A v a l ia ç õ e s

As prim eiras avaliações sobre a população de Salvador foram fornecidas no fim do


século XVI por portugueses em igrados para a nova colônia, a serviço da Igreja ou do
rei. Para inform ar seus contem porâneos, esses prim eiros historiadores do Brasil escre­
veram ‘tratados descritivos’ que louvavam as qualidades e as riquezas da terra, fazendo
assim um a propaganda útil à C o roa, que tenrava atrair colonos para povoar o territó­
rio. O prim eiro deles foi o jesu íta Fernão C ard im , que em 1584 avaliou em cerca de
catorze m il os habitantes de Salvador, assim distribuídos: três m il portugueses, oito
mil índios assim ilados e convertidos ao cristianism o e três m il a quarro m il escravos
oriundos da G u iné.21 T rês anos m ais tarde, G abriel Soares de Sousa escreveu que
Salvador contava com oitocentos fogos, mas não especificou se se referia apenas às
habitações da população branca ou se in clu ía nesse cálculo as da já numerosa popula­
ção mestiça. Seja com o for, se considerarm os um a m édia de cinco pessoas por mora­
dia, haveria apenas quatro m il habitantes, m uito menos do que os números fornecidos
pelo padre C ardim . T em os que ad m itir, portanto, que Gabriel Soares simplesmente
ignorou a população índia e negra da cidade.22
O últim o desses ‘tratados descritivos’ produzidos por portugueses no século XVII
é dc autoria do franciscano V icente do Salvador, chegado à Bahia na época da conquis­
ta holandesa. Porém, sua H istória do Brasil, 1 5 0 0 -1 6 2 7 não dá nenhuma informação
num érica sobre a população dc Salvador.2*1 A linha de tratados descritivos foi retoma
da por viajantes estrangeiros que passavam dias ou meses na Bahia. Curiosamente,
mesmo quando descreviam m inuciosam ente as riquezas da cidade, a opulência de suas
construções, a im portância dc seu comércio, os usos c costumes da multidão co on a
que ali habitava, não pareciam preocupados em avaliar o tamanho da população oca .
Foi este o caso, por exemplo, do francês Pyrard de Lavai, que passou dois meses na
Bahia depois de uma longa estadia cm Goa (ín dia), ou do aventureiro inglês William
L ivro II - O P eso dos H omens 109

Dampier, que, em 1699, lim itou-se a escrever que Salvador era "the m ost com iderab le
Toxvn in B razil w h eth tr in respect o f th e Beauty o f its Buildings, its Bulk, or its Trade a n d
R eventti' (“a cidade mais im portante do Brasil, seja no que diz respeito à beleza de suas
construções, ao seu tam anho ou ao seu com ércio e rendas”) . 24 Afora essas, não
conheço nenhum a descrição de viajantes do século XVIII sobre a Bahia c sua capital.
Enconrrei, no enranto, um a avaliação populacional — além das de V ilhena e dc Rocha
P ita — feita por José da Silva Lisboa, funcionário real e futuro Visconde de C airu, que
chegou à Bahia em 1 7 7 9 e no ano seguinte estim ou em cinqüenta m il habitantes a
população da cidade. C o nsciente de ter utilizado métodos ultrapassados para descrever
as paróquias da B ahia e sua população, V ilh ena estim ou em sessenta m il os moradores
de Salvador em 1 7 9 9 .
As avaliações feitas no século XIX foram fantasiosas. H avia tendência a superes­
timar o núm ero de habitantes, talvez porque os viajantes e cronistas visitassem sobre­
tudo os bairros m ais populosos de um a cidade barulhenta e anim ada, que dava impres­
são de forte dinam ism o. As densas zonas do porto e do C entro ofuscavam os bairros
inteira ou parcialm ente rurais, onde o povoam ento era m aís disperso. Entre 1800 e
1820, os estrangeiros registravam setenta m il a 115 m il habitantes, números que
correspondiam ao dobro dos fornecidos pelos censos de 1805 e de 1807!
As inform ações se tornaram m ais coerentes a partir do m eio do século. Os via­
jantes dessa época (1 8 5 0 a 1870) falavam em 140 m il a 185 m il habitantes, d im i­
nuindo assim a diferença entre as estim ativas m ais baixa e mais alta. M as ainda aí
havia superestim ação, resultante de im agens deform adas, m iragens produzidas por
uma cidade orgulhosa e arrogante que, do alto, dom inava um porto onde ancora­
vam mil navios e prosperavam m il com ércios. Os habitantes viviam m uito nas ruas,
onde fervilhava a presença de crianças ao lado de suas mães e de jovens que ofere­
ciam serviços.
Chegamos ao fim de um a longa, porém necessária, exposição. Precisamos agora
fazer uma escolha, com parando os núm eros dos recenseamentos e das avaliações,
todos igualm ente arbitrários. Precisamos ser cautelosos. Os dados não sustenram aná­
lises muito precisas, mas perm item deduzir ordens de grandeza. O número de 21.601
habitantes, fornecido cm 1706 para a cidade de Salvador, me parece plausível. Com
efeito, no começo do século XVIII a m aior parte da população da Capitania ocupava
as terras do Recôncavo, onde sc desenvolvia a cultura da cana-de-açúcar, principal
atividade econômica regional. A observação dc Sebastião da Rocha Pita segundo o
qual em 1724 o Recôncavo abrigava três vezes mais genre do que a capital pode
ser aplicada ao ano dc 1706. Penso também que o número de 37-543 habitantes para
o ano dc 1755 concorda bastante bem com as demais informações disponíveis sobre o
deslocamento de pessoas para n interior, sobretudo cm direção às minas de ouro de
Minas Gerais ou da própria Bahia, descobertas (estas últimas) em 1720. Para o ano
de 1775, considero, pelas razões já explicadas, os números do recenseamento de 1° de
janeiro (40.922 habitantes) mais razoáveis que os do de julho.
110 B a h ia , S éculo X I X

Dos censos do começo do século XIX, privilegio o de 1805, que apontou 45.600
habitantes. Q uanto às avaliações, os núm eros indicados são tão exorbitantes que re­
nuncio a utilizá-los. C aindo na arm ad ilh a de fazer m in h a própria estim ativa, inclino-
me a dizer — com prudência e ad m itin d o grande im precisão — que entre 1810 e
1870 a população de Salvador cresceu de cinq üen ta m il para cem m il habitantes, apenas
um pouco m ais do que tin h a, na época, o velho porto francês de N antes, por exemplo.

Dois R e c e n se a m e n t o s O f ic ia is: 1872 e 1890

Com ecem os pelos grandes núm eros. Em 1 8 7 2 , pelo censo, o B rasil tin h a 10.112.000
habitantes, dos quais 3 8 0 .1 8 6 m oradores na P rovíncia d a B ah ia e 1 08.138 nas onze
paróquias de Salvador. Em 1 8 9 0 , o país tin h a 1 4 .3 5 3 .9 1 5 h abitantes, a Província
1 .9 03 .4 42 e as onze p aróquias 1 4 4 .9 5 9 .
O censo de 1872 — o prim eiro com pleto — conservou as an tigas divisões ecle­
siásticas que repartiam a cidade em paróquias, o que, aliás, não deve causar surpresa:
as estruturas adm in istrativas do Estado se apoiavam nessas círcun scriçõ es.25 Como
m ostra a tabela 11, os resultados co n firm aram o que h avia sido sugerido pela tradição
e pelos recenseam entos feitos no século preceden te: as paróquias m ais povoadas eram
as do coração da C id ad e A lta — Sé, São Pedro, S an tW n n a e San to A ntônio Além do
C arm o — e a d a C o nceição da P raia (n a C id ad e B aixa, com preendendo o porto e
todas as instalações que dele d ep en dem ). Esta ú ltim a era o centro d a vida comercial e
financeira local no século X V III, ab rigan d o 2 1 ,9 % da população urbana, M as, em
1872, não passava de 5% . T o m an do com o referência o ano de 1755, a população das
paróquias sem i-rurais de Brotas e de V itó ria p ro gred iu rap idam en te, passando, respec­
tivam ente, de 1.063 para 5-900 e de 1.582 para 1 1 .6 6 6 pessoas. Esta últim a transfor­
m ou-se assim em um a das p aróquias m ais populosas da cidade, passando a abrigar
10,8 % dos habitantes.
A com posição da população por sexo in d icava um a lig eira vantagem dos homens,
mas não a ponto de apontar-se um d eseq u ilíb rio , levando-se em conta que se tratava
de um a cldadc cheia de im igrantes e organizada em torno de um a estrutura social
escravista. Infelizm ente, no que díz respeito a Salvador, não tenho a repartição por
faixa etária, que consegui obter para a Província. Os escravos concentravam-se sobretudo
nas paróquias com erciais, com o C onceição da Praia e Pilar, ou habitadas pela parte
maís abastada da população, com o Sé, São Pedro, V itó ria, Sanro A ntônio Além do
Carm o e Penha. Esta, aliás, era um a paróquia de vilegiatura ou de residências de verão.
O recenseamento de 1890, o prim eiro da R epública, não renovou a distinção
entre homens livres c escravos, pois dois anos antes íora abolida a escravidão. Em re
lação a 1872, a população total aum entou 34% , e a participação de cada paróquia
nesse total perm aneceu praticam ente a mesma, provavelm ente porque, depois da
Abolição, os escravos não m udaram seus dom icílios. Na relação entre sexos, no entanto,
L rv iio II - O P eso d o s H o m e n s lll

TABELA 11

P o pulação das Paró q u ias de S al v a d o r , 1 8 7 2

P a ró q u ias P ü p u i a ç Ao L iv r e P o p u l a ç Ao E sc r a v a T o tal

H omens M u lheres H omens M u lh e r e s

Sé 5.874 7.139 1.105 993 15.111


São P e d ro 5.989 6.408 1 .1 2 1 1.225 14.743
Sant'Anna 9.447 8.047 296 164 17.954
Conceição da Praia 3.330 1.010 415 735 5.490

Vitória 5.493 3.935 989 1,249 1 1 .6 6 6

Passo 1.602 1.596 210 228 3.636

Pilar 3.868 3.569 490 419 8.346

Santo Antônio Além do Carmo 7.257 8.246 515 595 16,613

Brotas 3.490 1.006 317 277 5.090

Mares 1.828 1,750 84 60 3.722

PeiiKa 2.341 2.412 543 471 5.767

Total 50.519 45.118 6.085 6.416 108.138


Fonte: Recenseamento de 1872, p. 508-514.

TABELA 12
P o pu l a ç ã o das P a r ó q u ias de S a l v a d o r , 1 8 9 0

P aró q u ias H omens M ulheres T otal

Sé 9.941 11.059 20.550

São Pedro 9.669 10.381 20.050

Sant’Anna 10.940 13.927 24.417

Conceição da Praia 4.262 3.204 7.466

Vitória 7.180 8.685 15.865

Passo 2.186 2.833 5,019

Pilar 5.927 5.423 11.350

Santo Antônio Além do Carmo 10.570 12.023 22.593

Brotai 2.841 3.126 5.967

Mares 2.055 2.208 4.263

Penha 3.167 4.252 , 7.149

Total 67.838 77.121 . ' 144,959

Fonte: Katia M. de Queirós M iuaio, Bahia: a cid ad e do Salvador t ttu m ercado rto i/cala XIX, p. 135, •
B a h ia * S écu lo X I X
112

apareceu um a m udança de tendência, para m im inexplicável: o núm ero de mulheres


passou a ser 12% superior ao de hom ens.
A análise do recenseam ento de 1890 dá m argem a algum as dúvidas. Em relação
aos números de 1872* o percentual de crescim ento populacional teria sido muito
desigual para quatro das onze paróquias da cidade: 38% em Passo, 24% na Penha
17,2% em Brotas e 14,5% em M ares. M as nas sete paróquias restan tes Sé, S j0
Pedro, S an fA n n a, C onceição da P raia, Pilar, Santo A ntôn io A lém do Carm o e Vitória
— , justam ente as m ais im po rtan tes, o aum ento relativo captado foi exatamente igüaJ
(3 6 % ), Proponho três hipóteses para explicar essa unifo rm idade: não foi realizado
recenseamento algum nessas sete paróquias, mas sim a m era aplicação de um percentual
ideal sobre núm eros já conhecidos; foi realizado um levantam ento ruim e inudlizáve!
levando os recenseadores a usar o expediente acim a apontado; ou não foram levados
em conta os lim ites de cada p aró q u ia, de m odo q u e o total encontrado teve que ser
repartido de form a propo rcion al entre cada um a, já que todas aparentavam ter o
mesmo ritm o de crescim ento.
V ê-se, m ais um a vez, que avaliações e recenseam entos de épocas distintas não
perm item u m a reconstituição isenta de dúvidas sobre a evolução dem ográfica de Sal­
vador. M esm o assim , usando esses dados im precisos, cenrei chegar a ordens de gran­
deza e eviden ciar adaptações que tornaram possível a convivência de pessoas com
origens e estatutos legais tão diferentes.

E n sa io d e A v a lia ç ã o pa ra o S é c u l o X I X

N um a prim eira etapa, tentei id en tificar o crescim ento anual da população de Salvador
entre 1805 e 1872 para, em seguida, form ular algum as hipóteses sobre o dinamismo
dessa população entre 1800 e 1890. Parti das seguintes prem issas: os dados u tiliz a d o s
estão corretos; o percentual de aum ento da população se m anteve estável; o impacto
das epidem ias, guerras e tum ultos sociais foi uniform e durante o período em questão.
Os números de habitantes de Salvador em 1805 (4 6 ,4 4 0 ) e em 1872 ( 108. 138)
foram, respectivam ente, meus pontos de partida e de chegada, que definiram um
crescimento dem ográfico total de 5 7 ,8 %, equivalente 3 pouco mais de 1% ao ano.
C.,omo vimos, as avaliações feitas no século XIX pelos visitantes estrangeiros se afasta­
vam muito desses números, oscilando, por exemplo, dc setenta mil a 115 mil habitan­
tes entre 1812 c 1820, quando não houve guerras, epidem ias ou tum ultos sociais. As
evidencias não referendam essas estim ativas, indicando que, na época, a população
local estava entre 49 mil c 55 mil habítatues.
Sabc-sc q u e n e n h u m c o n tin g e n te p o p u lacio n al cresce ou decresce de maneira
u niform e d u ran te um lo ngo período. O scilações de preços, guerras, pestes, secas,
condições sanitárias c outros fatores in flu en ciam a dem o grafia de u m a cidade, cuja
evolução é form ada de saltos, regressões e períodos de estabilização. Para aprofundar
L í\"ro II - O P eso d o s H omens 113

essa dinâm ica no lim ite dos dados disponíveis, parti dos números referentes à m orta­
lidade, registrados nas onze paróquias de Salvador ao longo de todo o século XIX.26
Calculei as m édias anuais de óbitos, por períodos de dez anos, a partir de três hipóte­
ses: os dados são corretos, o núm ero de óbitos é proporcional ao de habitantes, e o
efeito das endem ias e epidem ias não varia de um a para outra década.

T A B E I A l A

M é d ia s A n u a is de M o rte s em C ada D écada (E s t i m a t i v a s )

I8 00-1S 09 1.391 I8 3 ü - 1839 1.911 18 6 0 -18 6 9 2.484


1S K M S 19 1.775 1 8 4 0 -1 8 4 9 1.921 . 19 7 0 -18 7 9 2.650
IS 20-1S 29 1.778 1 8 5 0 -1 8 5 9 2.756 1 8 8 0 -1 8 8 9 2.664
fonte; Júhjldo Lopes de Athayde, La ville de Salvador au ATAr siicle, p, 363.

Note-se que nas dccadas de 1810 e 1850 o núm ero de óbitos aum entou brusca­
mente. Sugerim os duas possibilidades. A prim eira se refere a um possível aum ento
populacional, que traria consigo m ais mortes. N a década de 1810 teriam chegado
numerosos im igrantes europeus, sobretudo portugueses, depois que os exércitos fran­
ceses deixaram Portugal? Q uantos escravos africanos a mais ou a menos aportaram
então? T eria havido m igrações, para a cidade, de cam poneses cujas atividades agrícolas
estavam em crise, em função da con jun tura ou dc condições clim áticas desfavoráveis?27
Para a outra década, as m esm as explicações podem scr tentadas, com um a diferença.
Prevista e an u n ciada com antecedência, a abolição do tráfico em 1850 foi precedida de
forte im portação de escravos africanos.
Houve queda nas atividades agrícolas e deslocam ento de população para a capital,
seja pelo m arasmo da cu ltu ra açucareira, seja pela ocorrência de uma das mais longas
secas da história da Bahia entre 1857 e 1860. Essa não foi a única provação. A década
foi marcada tam bém por duas epidem ias difíceis de debelar: febre am arela em 1850
(trazida pelo brique Brasil, proveniente de Nova O rleans) e cólera-morbo em 1855
(trazido do Pará pelo navio Im peratriz). Na verdade, o prim eiro surto dc febre amarela
na Bahia m anifcstou-sc em 18d9. Debelado som ente no ano seguinte, ressurgiu com
força total cm 1856, ano cm que o cólcra-tnorbo tam bém grassou. A partir de 1858,
cia tornou-se endêm ica, com m anifestações que atingiam sobretudo os marinheiros
ern 1861, 1862, IH6 Ú, 1873, 1875 e 1 8 7 6 -1 8 7 9 . A epidem ia não sc lim itou à cidade
dc Salvador: sc alastrou por todo o Recôncavo e até uma parte do Agreste, pois
dizimou as populações dc (crcrnoabo c Feira dc Santana. Só foram poupadas as regiões
do Sertão c do Litoral S u l7 H
A segunda possibilidade para csplicar aquele aum ento da m ortalidade é a de que,
nesses dois períodos, as condições sanitárias tenham piorado muito, Não me parece o
caso, até porque, na época das epidem ias, houve mais precauções c esforços higteniza-
dores para prevenir os contágios.
B a.hia, S é c u l o X IX
114

P o n d o d e la d o essas d u a s v a ria ç õ e s b r u s c a s , n o p e r ío d o 1 8 2 0 - 1 8 4 0 o c o rre u um


d e c ré sc im o re la tiv o d a p o p u la ç ã o , c o m p a r a tiv a m e n te a o p e r ío d o 1 8 5 0 - 1 8 9 0 , no q ual,
ap e sar das d u a s e p id e m ia s m o rtíf e r a s , a p o p u la ç ã o se m a n te v e e s tá v e l e a té ex p e rim e n ­
to u le n ta p ro g re ssão . V ê -se , a s s im , c o m o a r e c o n s titu iç ã o lin e a r d e u m c o n tin g e n te
p o p u la c io n a l p o d e ser p e rig o s a q u a n d o os d a d o s n ã o são rig o ro so s. N esses casos, é
m e lh o r c o n te n ta r-s e co m a v a lia ç õ e s . C o n t in u a r e i s im p le s m e n te a e s tim a r q u e , entre
1 8 1 0 e 1 8 7 0 , a p o p u la ç ã o d a c id a d e o s c ilo u e n tr e c in q ü e n t a m il e c e m m il h ab itan tes.
A p esar d e su as e v id e n te s la c u n a s , os re c e n s e a m e n to s o f ic ia is d e 1 8 7 2 e 1 8 9 0 co n ti­
n u a m co m o m e u ú n ic o p o n to d e r e fe r ê n c ia p a r a a e v o lu ç ã o d a p o p u la ç ã o d e Salvad o r
n o ú ltim o terço d esse s é c u lo . E m 1 8 7 2 , a c id a d e te r ia c e r c a d e 1 0 8 .1 3 8 h a b ita n te s e,
em 1 8 9 0 , c erc a de 1 4 4 .9 5 9 . E m b o ra esse c r e s c im e n to n ã o te n h a s id o lin e a r — sofreu
as c o n se q ü ê n c ias d as c rises, d o e n ç a s , rig o re s c lim á tic o s — c o n t in u o u a e x istir, em
p a ra le lo ao a u m e n to p o p u la c io n a l d a p r ó p r ia P r o v ín c ia .
C A P Í T U L O 8

P o pu lação F lutuante
e P o p u l a ç ã o M e s t iç a

Resta saber que contingentes não eram registrados por essas contagens de população.
Quem eram , e qual seu número?
Em prim eiro lugar, cxcluíam -se os ‘ inocentes*, ‘párvulos* ou ‘ pagãos’, 011 seja,
crianças que ainda não tinham atin gido sete anos, a idade da confissão. Depois, os
‘agregados’ e suas fam ílias, que habitavam nos lares de seus senhores c, nas cidades,
eram muitas vezes assim ilados aos em pregados dom ésticos, em bora goíassem de um
status superior.' Por fim, os recenseam entos excluíam os m igrantes, que às vezes resi­
diam na cidade durante alguns meses, retornando cm seguida para a região de origem.
F.m com pensação, moradores de Salvador em viagem tam bém não eram levados cm
conta. F\is aí um problem a: não havia motivo para adm itir a p r io r i que os dois grupos
se compensassem num ericam ente.
íucio leva a crcr que a população flutuante cra m uito im portante. Chegava-sc à
capital por via m arítim a (a bordo dc navios ou de embarcações dc pequeno porte) ou
terrestre (a partir do Recôncavo, próxim o ou distante, e do Sertão). Funcionava cm
Salvador o maior mercado dc escravos do Nordeste brasileiro, c os negros para ali
trazidos, oficial ou clandestinam ente, às vcz.cs perm aneciam m uito tempo antes de
serem vendidos/ Podemos tentar avaliar uma parte dessas populações?
Os dados sobre m arinheiros e navegantes são escassos. Praticam ente todos os
registros do porto de Salvador no século XIX (oram destruídos, c os que restam não
são hom ogêneos,' I ambém nesse caso, meus melhores informantes foram os viajantes
estrangeiros, tojos relatos puderam , às vc/çs, scr confrontados com dados oficiais. No
inicio do século XIX o inglês Tliom as Lindlcg calculou que, por dia, oitoccnras em ­
barcações —oriundas desde Porrn Seguro, no Litoral Sul, até Rio Real, no Norte —
aportavam cm Salvador para vender produtos/ Seu testemunho coincide com o de
uma tentena dc outros viajantes, havendo aqueles que, mais para o fim do século,
estimaram cm mais dc mil o número dc embarcações de cabotagem que aportavam

115
116
B ah ia , S éculo XIX

todos os dias na cap ital.5 Se cada em barcação trouxesse dois ou três m arinheiros, cerca
de dois mil homens c h e g aria m todos os dias por essa via. Encontrei os seguintcs
números para as entradas e saídas de pequenas em barcações entre 1851 e 1854, que
resultam em médias anuais de 1.021 entradas de em barcações em Salvador, com 8.703
tripulantes.

TABF.I.A 14

N avegação de C abotagem

E n tradas e S a íd a s de Em barcaçõ es do P orto de S alvad o r (1 8 5 1 -1 8 5 4 )


A nos Entradas Tonelagem T ripulação Saídas T onelagem T ripulação
18 5 1-1 8 5 2 1.153 109.121 8.505 933 93.603 8.157

1852-1853 1.068 131-032 10 .120 986 104.355 9.347

18 53-1854 842 98.750 7.485 804 87.036 7.090


Fonte: A inserção da Bahia, na evolução nacional, p, 201, Para o período posterior a 1854 as entradas e saídas são dadas apenas
em tonelagem, impedindo avaliação semelhante. Cf. Livro VI.

Um a parte m uito significativa do tráfego provavelm ente ilu d ia a administração


portuária, de modo a escapar das taxas que incidiam sobre as m ercadorias transporta­
das. Além disso, a coleta desses dados não levava em conta a duração da estadia, nem
a distância do ponto de ancoragem ao porto. N a cidade ou em suas cercanias, era
muito fácil puxar um barco até a areia — m uitos pescadores o fazem até hoje — em
algtim ponto de praias, cabos e enseadas que somam dezenas de quilômetros.
Para a navegação de longo curso que ligava Salvador a outros portos, brasileiros ou
não, só obtive números referentes à tonelagem , com exceção dos relativos a 1868,
1869 e ao primeiro semestre de 1870, para os quais foi possível quantificar as embar­
cações que usavam bandeira estrangeira.6 Em 1868 e 1869, entraram no porto de
Salvador 464 navios, com 9.365 tripulantes, e saíram 4 3 0 navios, com 8.973 tripulan­
tes. Estamos longe dos números fornecidos pelo alm irante M ouchez, para quem 46.516
marinheiros teriam entrado em Salvador em 1873 e 1874.7
Creio que um a média de dois m il a 2.200 m arinheiros vinham diariamente a
Salvador trabalhar, buscar alimentos ou sim plesm ente passear, aproveitando a anima­
ção dessa cidade alegre, amada por Iemanjá, que oferecia rantas igrejas e capelas onde
se podia invocar a Virgem, protetora dos homens do m ar.8 Mas é preciso não esquecer
que o número c o tipo de embarcações variaram no decorrer do século, sobretudo no
tocante aos navios de longo curso. Eles traziam verdadeiras tropas de marinheiros e
oficiais que, às vezes, no caso dos grandes veleiros que dominaram os mares até 1860,
ali permaneciam durante semanas ou meses. Esse povo do mar se alimentava e fada
provisões no mercado local. Ademais, utilizava os serviços de saúde pública, sobretudo
durante epidemias, às vezes imroduzádas na cidade pelos próprios navios, que, além de
homens, traziam ratos, como aliás é dito com freqüência, e com todas as letras, nas
Falas anuais dos presidentes da Província perante as Assembléias Legislativas.9
L ivro II - O P eso d o s H omens 117

A lem dos m arinheiros, havia, os m igrantes que, vindos do interior, chegavam a


Salvador por terra. Coloca-se a m esm a questão: qual seu número? N a prim eira me­
tade do século, quando as vias de com unicação eram m ais precárias, poucos podiam
refugiar-se na capital durante períodos de secas prolongadas ou de chuvas excessi­
vas.10 Por isso, não são sequer m encionados na docum entação que possuo, essen­
cialm ente os relatórios anuais dos presidentes da Província enviados à Assembléia
Provincial, regularm ente publicados a partir de 1848- M as, a partir do fim da déca­
da de 1860, cada vez m ais os deserdados do Sertão tom aram o rumo da capital. Os
relatórios dos presidentes da Província fornecem inform ações abundantes sobre es­
ses retiran tes,11 que chegavam despossuídos e enfraquecidos, trazendo problemas a
Salvador. Q uando as secas atin giam regiões próxim as do lito ral — o Agreste e até
algum as partes do Recôncavo — , os agricultores não hesitavam em refugiar-se na
cidade, acolhidos por parentes, à espera de dias melhores. M as não só eles: em 1878,
por exem plo, 7 8 0 retirantes cearenses foram abrigados no Arsenal de M arinha. A
partir de então, as inform ações sobre esse fenôm eno se m u ltip licaram , mas os docu­
mentos oficiais deixaram de p u b licar dados precisos. Pode-se avaliar, mesmo assim,
que o núm ero desses refugiados nunca tenha ultrapassado algum as centenas num
mesmo ano, m as sua presença in flu ía na vida da cidade, inclusive no que dizia res­
peito ao preço dos alim entos.
Avaliem os agora outro grupo de hom ens e m ulheres que escapava totalm ente
dos recenseam entos: os ‘escravos de passagem ’, que em certos anos foram m uito nu­
merosos. Subalim entados nos navios negreiros, esses negros em trânsito, que ainda
não tinham senhor no B rasil, precisavam receber boa nutrição para que fossem co­
locados à venda com aparên cia ad eq u ad a.12 H avia ainda os em pregados domésticos
que acom panhavam o deslocam ento dos senhores de engenho quando estes vinham
até a cidade com prar novos escravos. Nos períodos em que a produção agrícola era
menos intensa, os rendeiros tam bém afluíam à capital, acom panhados de seus pou­
cos escravos, procurando então ocupar-se de pequenos ofícios lucrativos, como a
construção de im óveis. ■ '
O núm ero desses escravos de passagem , que vinham a Salvador trabalhar ou servir
a seus senhores, tam bém não passava de algum as centenas. M as o mercado local de
trabalho não cra m uito grande. Assim, essa m ão-de-obra concorria com a livre, cada
vez mais num erosa no século XIX. Além disso, os escravos continuaram chegando da
África cm grande núm ero até a abolição oficial do tráfico, em 1850, e mesmo depois
dela, cm desem barques clandestinos.1-1 lí impossível calcular com precisão o número
de escravos im portados para a Bahia ao longo do século XIX, mas é possível fazer
avaliações interessantes. Identifico três períodos. O primeiro é o do tráfico legal e
irrestrito (1 8 0 0 -1 8 1 5 ), para o qual temos dados — ás vezes anuais, às vezes mais
espaçados — que permitem construir m édias.14 Entre 1800 e 1810, por exemplo,
pode-se chegar a uma média anual de 7-500 a 7.700 escravos;15 entre 1811 e 1814,
essa média caiu para 5.577 a 5 .7 0 0 .16
118 B a h ia , S é c u l o X IX

N o segundo período (1 8 1 5 -1 8 3 0 ), o tráfico ain d a era legal, mas estava lim ita d o
ao sul do E quador. Para m o ntar a tabela abaixo, usei fontes diferentes, devidamente
d iscrim in adas.
As fontes que possuo se com pletam e se co n tro lam m u tuam en te. Segundo Goes
C alm on , nesse período a m édia an u al de im portação foi de 7 .0 2 3 africanos; segundo
Pierre V erger (que u tiliza dados coletados no Foreign O ffice de Londres, onde faltam
registros de cinco anos) foi de 6 .1 9 6 .17 Esses núm eros devem estar bem perto da
realidade. As im portações caíram entre 1823 e 1829 — anos de lu ta pela independên­
cia da B ahia, m arcados por tu m u lto s sociais e p ela desorganização do co m ércio mas
subiram m uito às vésperas das novas restrições im postas pelos ingleses a essa atividade.
N o terceiro período (1 8 3 1 -1 8 5 1 ) o tráfico foi sem iclan d estin o , isto é, autorizado
pelo Brasil mas p ro ib id o pelos ingleses e seus aliados. N ão tem os dados relativos à
década de 1830. P ierre V erger e Leslie B ethel estim am que ocorreu um lento (mas
constante) crescim ento das im po rtaçõ es no p rim eiro quarto do século XIX, seguido
por um a aceleração nos anos 1 8 2 7 -1 8 2 9 e u m a estabilização até 1835. Em seguida,
elas cresceram de form a n ítid a , até a tin g ir o ponto m áxim o en tre 1846 e 1849.
Se excluirm os os nove anos (1 8 3 1 -1 8 3 9 ) para os quais não encontram os nenhum
dado e utilizarm os para o período 1 8 0 1 -1 8 1 5 os núm eros já apresentados, registramos
a entrada de 2 7 7 .6 8 1 africanos no porto de Salvad o r d u ran te a p rim eira metade do
século XIX. C o m o vim os, eles nao eram postos à ven da im ediatam en te, pois sua
aparência e saúde tin h am m u ita im p o rtân cia na hora de regatear o preço. O cativo era
lavado, tratado e colocado em regim e de engorda, recebendo carne-seca, peixe seco,
farinha de m andioca, bananas e laran jas. A duração dessa etap a dependia da demanda
e das condições de saúde dos negros, m as era freq ü en te q ue eles passassem váríos meses
nos entrepostos construídos pelos com erciantes para esse fim .18 C onstituía-se assim

TABELA 15

N ú m e r o de A f r ic a n o s C hegados à Ba h ia , 1 8 1 5 -1 8 3 0
Ano (D (2) (3) A no (D (2J (3)

1815 6.907 6,750 _ 1823 2.302 2,672 2.744

1816 4.139 5.376 - 1824 2.994 7.137 2.44 9

1817 5.802 6.070 - 1825 4.259 3.840 __


1818 8.706 - - 1826 7.858 4.090

1819 7.033 - - 1827 10.186 2.941 ~ ___


1820 7.722 - - 1828 B.127 - ___ _____.
1821 6.689 - - 1829 12.808 14.623 _____
1822 8.418 7.656 8.825 1830 8.425 7.008 __
F om ei: (1 ) F ran c ilto Marques G oei Calmon, I _
£ publicado em I V com dado, eairafdr» de M1iguel i^urt Calmon du Fm Pin ec Almeida (M arques dc Arrarucs,1, cm aivs
(Marquís Kjníos
d r e (ú (a r, dc 1814. (2J e (3 ) Pierre Verger, H u x t t ftfíu x d tla tr a itr d n n it m tn tr * U g o lfi du B Itsin r r B ahia d t Iodas si
d u X V ir a u X IX ttá tle , p. 66 5 .
L ívro II - O P eso d o s H om en s 119

TABELA 16

N ú m e ro de A f r ic a n o s C hegados à B a h ia , 1 8 4 0 -1 8 5 0
Ano (Ú (2) A no (1) (2) A no ít) (2)
1840 1.675 1.413 1844 6.201 6.501 1848 7.393 7.299
1841 1.4 10 1.470 1845 5.582 5.582 1849 8.401 8.081
1842 2.360 2.520 1846 7.824 7.354 1850 9.102 9.451
1843 3.004 3 .1 1 1 1847 11.769 10.064 1851 785 -
Fontes: (1} Leslie Bethell, A a b oliçã o do trá fico d e escravos no Brasil, p. 369. (2 )Pierre Verger, Flux et refiux d e la traite des nigres
en tre le g o lfe d u B énin e t B ahia d e Todos os Santos d u XVIT au XIXI siicle, p. 666.

um a população m argin al, n u trid a pelo m ercado da cidade, com o as outras populações
de passagem : m arinheiro s, navegantes, refugiados e viajantes de todo tipo.

S a n g u e s M is t u r a d o s : M it o s e R e a l id a d e s

Em todas as cam adas sociais de Salvador encontram -se evidentes traços de m iscigena­
ção. No fim do século XVI, com o vim os, o jesu íta Fernao C ardim calculou a popu­
lação local em três m il portugueses, quatro m il negros e oito m il índios catequizados.
Não estim ou a população m estiça, form ada por m am elucos, m ulatos cafuzos e m ulatas
que lá viviam . N ão nos esqueçam os de que o 'glorioso antepassado’ Diogo Álvares, o
C aram uru, prim eiro h ab itan te português da B ahia, tivera um a prole m uito numerosa
de filhos m am elucos legítim o s e bastardos, form ada já em 1549, quando chegara o
prim eiro governador.19 A pedido do jesu íta M anoel da N óbrega, a Coroa fizera uma
tentativa para m oralizar a vida devassa que seus súditos levavam na Bahia, enviando
para Salvador dezoito jovens órfãs, protegidas d a rainha. M as a experiência terminara
em 1558.20 D urante todo o período colonial, a im igração portuguesa foi essencial­
mente m asculina, contribuindo para difundir a m iscigenação.
São escassos os dados que consegui coletar sobre a composição racial de Salvador
no século XIX. No que diz respeito à repartição por cor, é possível com parar os dados
do recenseamento dc 1808 com os de 1872.

TABELA 17
R e p a r t iç Ao d a P o p u la ç Ao B a ia n a po r C o r , 1808 t 1872 (%) _______ ^
P o p u ia ç Ao Livnti P o ia jla ç Ao E s c r a v a

B ran co s Í n d io s k C a b o c lo s N ec. ros f. M u l a t o s N egros e M u la to s

1808 20.4 1,3 4 3 . 0 ________________ 35,3________


1872 2 4 ,0 3,6 60,2 12,2_________
Fontes: ReceniumcntcM de 1808 < de 1872.
120 B ahla , S é c l l o XIX

Apesar dos esforços de ‘branqueam enro’ , o contingente branco progrediu pouco


em relação ao de caboclos (cujo núm ero triplico u) c, sobretudo, ao de negros e niula
tos livres, que passaram de 4 3% para 60% do total dc habitantes. A populaçã0 da
Província era m estiça, com presença m in o ritária do elem ento branco.
São escassos os dados disponíveis sobre a distrib uição racial dos habitantes de
Salvador. Por não ter encontrado o docum ento que apresenta os resultados da c h a m a ­
da Indagação do C onde da Ponte, não adotei seus núm eros — citados por diversos
historiadores — em m inhas análise. Segundo esse recenseam ento, encomendado em
1807 por João de Saldanh a d a G am a M ello e T orres, 6 o C onde da Ponte e nono
governador e capitão-geral da B ahia, havia ali 28% de m ulatos e 52% de negros em
um a população de 51-112 pessoas.21
O percentual de m ulatos me parece pequeno em relação àquele atribuído ao
conjunto da C ap itan ia em 1808 (43% , só entre os hom ens livres). A capital teria
menos m estiços? N ão é m uito verossím il, ain d a m ais que a cidade abrigava uma
grande concentração de população alforriada, com seus descendentes. Não houve
distinção entre livres e escravos, proporcionalm ente um pouco m ais numerosos na
cidade que no resto da C ap itan ia (2 0 ,4 % ). O recenseam ento de 1872 registrou uma
população de 108.138 habitantes, assim d ivid id a: 3 0 ,9 % de brancos, 43% de mulatos,
23,5% de negros e 2% de caboclos. Levando-se em conta apenas a população livre
(9 5 .6 3 7 habitantes), então os percentuais eram os seguintes: 35,2% de brancos, 44,4%
de m ulatos, 18,2% de negros e 2,2% de caboclos. Nos dois casos, os brancos represen­
tavam 1/3 da população da cidade. O iten ta e sete anos depois, em 1951, entre os
quatrocentos m il habitantes da cidade, 33% eram brancos, 47% mestiços e 20%
negros,22 apesar da im igração se ter tornado totalm ente branca.
J á vim os como essa população se repartia pelas onze paróquias locais. O percentual
de escravos era pequeno (1 1 ,6 % ). Embora fossem encontrados em toda parte —
inclusive num a paróquia com o a de M ares, recém -criada — , eles se concentravam nas
paróquias mais antigas, situadas no coração da cidade e m ais povoadas: Sé, São Pedro,
Sant’Anna e Santo A ntônio A lém do C arm o. H avia duas exceções: a paróquia da
Conceição da Praia, um a das mais antigas da cidade, mas de função eminentemente
com ercial; c a da V itória, dc povoamento m uito recente — subúrbio da cidade ate o
fim do século XVIII — , que sc tornara o bairro residencial das altas camadas da
sociedade c ocupava o quinto lugar entre as onze paróquias da cidade. Nota-se, em
qualquer caso, um certo equilíbrio entre os sexos, com os homens prevalecendo ligei­
ramente entre a população livre (52,8% ) e as mulheres entre os escravos (51,3%)*
Evidentemente, o equilíbrio global entre os dois sexos não im plica que essa relação
fosse a mesma cm iodas as faixas etárias.
A proporção típica encontrada entre os escravos nas plantações (dois homens para
cada mulher) não sc reproduzia na cidade, onde as escravas eram utilizadas para todo
tipo de serviço (inclusive como auxiliares nas construções), com exceção do de trans­
portes e de alguns ofícios artesanais. Havia preferência pelo trabalho da mulher, que
L iv r o II - O P eso d o s H o m e n s 121

podia fazer sem problemas serviços domésticos e serviços 'de ganhos’; os homens eram,
em geral, menos versáteis, incapazes dc alternar, por exemplo, um serviço rude como
o de transportes e um serviço dom éstico mais requintado. M as, além dessa explicação,
é preciso levar em conta que estava em curso um período de desm antelam ento da força
de trabalho escrava m asculina, pois eram preferencialm ente homens — e, entre eles,
preferencialmente os detentores de um ofício — os escravos colocados à venda para as
plantações de café do C entro-Sul do Brasil.
O recenseamento de 1872 fornece o núm ero de casas da cidade: 15.257, das quais
95,9% estavam habitadas e 4,1% não habitadas. Não sabemos se estas últim as eram
edifícios públicos ou residências fechadas/abandonadas, mas constatamos que os regis­
tros consideravam freqüentes os casos de residências parcialm ente arruinadas. As pos­
turas m unicipais determ inavam que “ninguém poderá ter, dentro da cidade, terreno
desocupado ou no qual haja casa não habitada, sem que estas sejam m antidas fechadas
e bem lim pas”.23 A análise que se segue leva em conta apenas as casas habitadas.

TABELA 18

R e p a r t iç ã o da P o pu lação de Salvad o r po r P a r ó q u ia s e R e s id ê n c ia s , 1 8 7 2

P aróquias T o t a l de R esid ê n c ia s H A R IT ANTES H abita n tes % E sc ravo s


RESIDÊNCIAS HABITADAS POR PAROQUIA ItíR CASA POR PARÓQUIA

Sé 2.112 2.048 15.II I 7,4 (16.8)

São Pedro 1.841 1.687 14.743 8,7 (18,8)

SanéAnna 2.445 2.366 17.954 7,6 (3,7)

Conceição da Praia 647 640 5.490 8.6 (9,2)

Vitória 1.181 1.174 11.666 9,9 (17,9)

Passo 799 734 3.636 4,9 (3,5)

Pilar 1.307 1.271 8.346 6,6 (7,3)

Santo Antônio Além do Carmo 2.512 2.487 16.613 6,7 (8,8)

Brotas 833 830 5.090 6,1 (4,7)

Mares 583 494 3.722 7,5 0 ,2 )

Penha 997 900 5.767 6,4 (8,1)

Total 15.257 14.631 108.138 7.4 -

Fonte: Rcccnscamcmo de 1872.

O número de casas era proporcional ao número de habitantes e à densidade


populacional de cada paróquia, com exceção da do Passo, onde aparentemente as
pessoas tinham maís espaço disponível (4,9 habitantes por casa). Nota-se, também,
que onde os escravos eram mais numerosos, a média dc habitantes em cada casa era
mais elevada. M as existiam exceções, como a da paróquia de Sant Anna, uma das mais
antigas e a mais populosa e densa, cujas casas apresentavam a quarta maíor taxa de
B ah ia , S é c lto XIX

ocupação da cidade, porém com pequeno percentual dc escravos. Residiam ali grupos
sociais mais modestos, lado a lado com vários quartéis m ilitares. Estava na mesma
situação a paróquia dc M ares, criada cm 1871 pelo desm em bram ento de três outras
(Pilar. Penha e Santo Antônio Além do C arm o ), igualm ente ocupada por população
hum ilde c por um quartel de cavalaria. Explica-se assim o fato de que, ali, o percentual
de escravos era o mais baixo da cidade: 1,2%.
Era elevado o índice de ocupação das casas, em geral sobrados com um ou dois
andares, cujo ramanho variava conform e os bairros. Os prédios dc vários andares eram
pouco numerosos e se concentravam sobretudo nas paróquias da Conceição da Praia
(com ercial), da Sé e de São Pedro (onde residiam cam adas de m aior poder aquisitivo),
além de alguns bairros localizados em Santo A ntônio A lem do C arm o e em Sant’Anna,
próximos do Centro. Na Penha e na V itó ria existiam grandes casas senhoriais. As
fontes que me perm itiram form ular essas com parações apresentam dados do recensea­
mento de 1855, referentes a dois bairros que podem os considerar significativos. Em
duas circuncrições da Sé foram encontradas taxas m édias de ocupação de 5,9 e 7,4 por
residência; em São Pedro, 7,2 e 4 ,9 ; em Santo A ntônio 9 ,9 ; e em Pilar, 10,7. É preciso,
pois, indagar se esses números — que dão um a m édia de 6,5 pessoas por residência —
estão corretos.
Essa m édia registrada em 1855 era bastante próxim a da que consta no recensea­
mento de 1872 (7 ,4 ). Este prim eiro recenseam ento de 1855 — menos abrangente,
mas maís detalhado que o segundo — clarifica um pouco as coisas. T rinta c sete das
quarenta casas da 11a circunscrição de São Pedro eram térreas, com três ou quatro
cômodos e de frente para as ruas. V iviam nelas 160 pessoas, o que dava uma média de
4,3 por casa. Nos três sobrados do bairro, que geralm ente tinham dois ou três andares,
viviam 37 pessoas (18,9% da população total), o que significa 12,3 pessoas por casa.
É possível que as casas vazias registradas no recenseam ento de 1872 estivessem real­
mente fechadas ou em ruínas. N a 10a circunscrição do Pilar (na C idade Baixa, vjzinha
da Conceição da Praia), a situação era inversa: existiam quinze sobrados (onde viviam
92% da população) e sete casas térreas, que abrigavam apenas dezenove habitantes. A
atividade comercial da cidade se concentrava nas paróquias de Pilar e de Conceição da
Praia, onde havia sobrados magníficos e espaçosos. N um deles, de dois andares além
do térreo, viviam 45 pessoas, distribuídas por duas famílias, seus escravos e um gniP°
no qual se misturavam africanos livres e agregados.
O recenseamento dc 1872 nos fornece um a idéia da repartição, por cor, dos
habitantes dc cada paróquia. Haveria áreas ‘mais negras’ que outras? Os mulatos eram
numerosos entre a população escrava? Onde sc encontrava maior número dc caboclos,
que a tradiçao geralmente relega para o interior das terras da Província? Para o estran­
geiro que andasse pelas ruas da Bahia nos idos dc 1872, a resposta seria evidente: havia
uma maioria negra. Mas, entre as pessoas de cor, era difícil distinguir trabalhadores
livres e escravos. Entre cslcs últimos, que incluíam crianças, o número de mulatos era
relativamente alto, apesar da constante renovação do estoque africano (pelo menos até
I-ARO lí - o PrsO [Xis Hd V í NS 123

ISH ) í. O» nativos na África representavam .Ux''% dc uma população escrava estimada


cm i 2->01 pessoas. Proporcionalmente, as mulatas (.W,5%) eram mais n u m e r o s a s que
os mulatos Í_AV~%1 entre os escravos. Esses pereetmiais. embora altos, estavam bastan­
te longe doN encontrados entre a populaçao livre.

n iu n i ■>
RvrxísUxÁt1 nv Poitiaçao Km uava ih; S alvador por C or , 1872
Miamnis T otw
\( ->•:!, Ntv.rsOs 1 oi U M t l.U A S Nf.CRAS T oTAI tiFAAl

2.0' : aOào (vlljts 2.S33 3.8HO 6.413 lí.Stl]


(51.3) (100.0)
Fo*:;. R.-.ff-tíjmentt? iic 1S~2.

A maior concentração de escravos m ulatos (homens) estava nas paróquias do Pilar,


de Mares e da Penha, todas na C idade Baixa, vizinhas entre si, nessa ordem. Não há
surpresa. M uitos ‘escravos de ganho’ viviam separados de seus senhores e moravam
nessas ireas, onde os aluguéis eram mais baixos (Pilar) ou havia terrenos baldios, aptos
a serem ocupados com casas dc taipa (M ares e Penha). Os mulatos também eram
numerosos nas paróquias da Sc, São Pedro, V itória e Passo, áreas em que residiam
camadas maís abastadas.
Pelas mesmas razões, as m ulatas se concentravam sobretudo nas paróquias do
Passo, V itória, São Pedro c Conceição da Praia, servindo de empregadas domésticas.
Mas sua presença também era significativa cm Pilar, Mares c Penha; ali, as ‘ganhadeiras’
faziam concorrência aos ‘ganhadores1. M orar longe da vista do senhor dava uma
impressão de liberdade, c nas regiões maís afastadas se podia planrar um a horta,
dim inuindo as despesas com a sobrevivência.
Não há dúvida de que, na cidade, a população de cor era maís numerosa que a
branca, com cxccção das paróquias da Conceição da Praia e de Brotas, Na primeira,
situada a beira-m ar e centro da vida com ercial da cidade, os homens brancos represen­
tavam quase 62% do total. A população branca como um todo correspondia a 57%
nessa área, onde negociantes atacadistas moravam e realizavam suas grandes transa­
ções. Na Vitória, bairro mais arejado, viviam sobretudo estrangeiros. Encontrava-se ali
o menor percentual de mulatos: 12,5% entre os homens e 22,8% entre as mulheres.
Apesar de sua natureza industrio.sa e empreendedora, marcada pelo forre desejo de
ascensão social, os mulatos não tinham conquistado espaço no âmbito do grande
comércio. A maioria dos balconistas c empregados das casas comerciais cra formada de
brancos, de origem portuguesa, que fa/.iam parte do lar do patrão c moravam no
próprio local de trabalho, mesmo quando o cliclc tinha emigrado para locais mais
agradáveis.
Em Brotas também se podia constatar uma elevada presença dc brancos (50,9%
do total), sobretudo homens (5/í,8% ), mas por outras razões: tratava-se de uma paró­
124 B a h ia , S éc u lo X IX

quia sem i-rural, com baixa densidade populacional, que abrigava, em 'sítios’ dispersos
4,7% da população da cidade. M u ito s desses sítios eram casas de campo dos ricos qU(!
arrendavam algum a terra a cultivadores livres ou alforriados, interessados em plantar
hortas ou criar gado leiteiro. A paróquia m aís ‘m u lata’ era a da Penha, situada na zona
rural, longe do coração da cidade. A li, os m ulatos representavam 52,5% e as mulatas
61,9% da população. Os m ulatos livres tam bém eram num erosos na densa e popular
paróquia de Santo A ntônio A lém do C arm o, onde constituíam 49,3% da população
livre, e na aristocrática paróquia da Sé (49 % ).
O relativo eq uilíb rio num érico que se observa entre hom ens e mulheres de cor
seja na população livre, seja na escrava, não se repete entre os brancos. Aparece um déficit
de m ulheres, que representavam apenas 4 1 ,8 % da população branca, vista como um
todo. Essa relação podia variar segundo as faixas etárias da população, fazendo apare­
cer alguns desequilíbrios não aparentes aqui. N o caso dos hom ens, esse déficit era
compensado pela p rática de casam entos ou uniões livres com m ulatas e negras. Com
raras exceções, as paróquias apresentavam alto ín dice de m iscigenação. Agrupando
todos os tipos m isturados e negros, e colocando-os em contraposição aos considerados
brancos, podem os ver, com m aior precisão, com o estes ficam ínfenorizados.
Os dados dispensam com entários. Pessoas de cor se infiltravam por toda parte e
viviam em sim biose com um a população branca q ue in clu ía europeus e ‘brancos da
terra3, cuja pele era apenas um pouco m ais clara que a de alguns m ulatos. Graças a
apoios de fam ília, eles conseguiam ultrapassar a barreira que separava homens livres e
escravos. O m ais em baraçoso não era ter pele escura, mas ter antepassados escravos,
N a paróquia sem i-rural de Brotas as caboclas chegaram a ser 20,6% da popula­
ção fem inina e os caboclos, 6 ,6 % da m asculina. D e onde teriam vindo? Descenden­
tes dos índios que outrora povoavam a região, gente o riu n d a das altas terras do Ser­
tão (fugitiva das secas), m oradores de antigas aldeias indígenas do Agreste — todas

TABELA 20

R epartição da P o pulação M asculina L ivre de S alvad o r por C or , 18 7 2


B ran co s M u lato s N eg ro s C abo clo s T otal

19.608 21.101 8.702 ■ 1.108 50.519


(38.8) (41,8) (17,2) (2,1) (100,0)
Fonte: Recemcímcruo de 1872.

TABELA 21
R e p a r t iç ã o da P o p u i a ç ã o F e m in in a L iv r e de S alvad o r por C or, 1872
B rancas M u ia t a s N egras C ah ix iías T otal

14.064 21.332 8.720 1.002 45.118


(31.2) (47,3) (19,3) (2,2) ( 1 0 0 ,0 ) ^ _ _ _
Fonte: Rccelutamcnto de 1872,
L i v r o II - O P e s o d o s H o m e n s

TABELA 22

R e p a r t iç ã o da P o p u ia ç ã o de S alvad o r entre B rancos e N ão B ra n c o s, 1872

P a r Oq c l u B ran co s n a o b ran co s

Sé 4.611 (30,5) 10.500 (69,5)


São Pedro 3.422 (25,2) 11.021 (74.8)
SantAnna 6.819 (38,0) 11.135 (62,0)
Conceição da Praia 2.470 (45,0) 3,020 (55,0)
Vitória 3.096 (26,5) 8.570 (73.5)
Passo 549 (15,0) 3.087 (85,0)
Pilar 2.916 (34,9) 5.430 (65,1)
Sinto Antônio Além do Carmo 4.494 (27,0) 12.119 (73,0)
Brotas 2.291 (45,0) 2.799 (55,0)

Mares 1.295 (34,8) 2.427 (65,2)

Penha 1.409 (24,4) 4.328 (75,6)

Total 33.672 (31,1) 74.466 (68,9)


Fonte: Recenseamento de 1872,

essas pessoas poderiam ter procurado trabalho nos sítios dos arredores da cidade.
M as não apenas elas. Em num erosos docum entos m encionam -se caboclos oriundos
das costas de Ilhéus, Porto Seguro e outras regiões do sul da Província, o que ajuda
a explicar sua concentração relativa nas paróquias da Conceição da Praia e de M a­
res, na C id ade B aixa. Seu peso na população da cidade ainda era insignificante por
volta de 1870.
T ais eram os com ponentes da população de Salvador, cidade colorida e m isturada
e, por isso, cheia de vida! O processo de ‘em branquecim ento’ favoreceu o elo obriga­
tório, representado pela população m estiça. N a Bahia, o ‘branco fino — ou seja, o
português branco — tornou-se cada vez m ais um a lem brança h istó rica;^ no im aginá­
rio o modelo perm aneceu europeu, mas a realidade foi m arcada por uma miscigenação
ainda mais forte do que a sugerida pelas estatísticas. Embora não haja dados precisos,
pode-sc concluir que a im igração européia para a Bahia foi m uito fraca durante o
século XIX, com parada à im portação de negros.
N ão possuo nenhum a fonte referente a essa im igração na prim eira metade do
século XIX. Para a segunda metade, existe uma série dc cem livros de registros de
passageiros estrangeiros que entraram c saíram da Bahia entre 1855 e 1864. Mas eles
têm sérias lacunas do ponto de vista cronológico. Além disso, os dados não são homo­
gêneos e sua triagem é m uito difícil. Uma sondagem apontou a entrada de 4.456
estrangeiros em nove anos. Mas ignoro totalmente se eles se estabeleceram em Salva­
dor ou no interior da Província, ou ainda se tornaram a partir. Esses quinhentos e
poucos — exatam ente 495, cm média, por ano — europeus que entravam todos os
B a h ia , S é c u l o X I X
126

anos em Salvador eram m u ito poucos em relaçao aos 6 .6 7 3 africanos que entraram no
porto cada ano du ran te os ú ltim o s anos do tráfico de escravos.25
Os especialistas em questões sociais da B ahia co n sideram brancas as pessoas que
apresentam características d o m in an tes dessa raça, m esm o q u e h aja m istura de sangue
negro ou índio. N ão im po rta a origem racial. A lém disso , q uem tiver certo prestígio
social será considerado branco, m esm o q ue seja m estiço claro ou m ulato escuro.
Segundo Pierson, na B ahia, ser negro é po ssuir “traços negróides m u ito s visíveis” ou
ter um a “situação social in ferio r”. P ara ele, os term os ‘ n eg ro ’ e ‘b ran co ’ são m uito mais
“categorias baseadas na ap arên cia física q u e na ra ç a ” e se referem à posição na socie­
dade, de m odo que a ascensão social pode ‘lib e rta r’ um in d iv íd u o de sua cor original.26
A ssim , a im ensa varied ad e de m estiços — p ara os q u ais os brasileiros inventaram
diversas palavras, com o m u lato s, cabras, pardos, sararás, cabos-verdes etc. — são
d etlarad o s ‘brancos’ se forem so cialm en te aceitos e ‘m u lato s’ em caso contrário.
Essa am b igü id ad e no uso atu al dos term os q u e se referem à origem racial e social
dos habitantes de Salvado r reforça a necessidade de q u estio n ar os historiadores do
século XIX. Q u al era, na época, o sig n ificad o exato desses m esm os termos? Que
m o bilidade a sociedade oferecia aos alfo rriad o s, q ue v iv iam a co n dição de escravos em
um passado m u ito próxim o? Seus descen den tes tin h am as m esm as chances que os
im igrantes brancos? A sociedade b aian a, escravista até 1 8 8 8 , freou a ascensão social
dos m ais h u m ildes, fossem livres o u escravos? O u, ao co n trário , foi m ais aberta, mas
perm issiva, após a A bolição?
U m a afirm ação m u ito repetida e pouco q u estio n ad a é a de q ue a sociedade baiana
estava d ivid id a, até 1888, em brancos senhores e negros escravos, passando em seguida
a dividir-se entre brancos ricos e negros pobres. N ão h averia a í u m a rejeição incons­
ciente à m iscigenação? N ão fica esquecido que o branco de hoje era o m ulato e o negro
de outrora? A supervalorizaçao desse m odelo branco, ao qual aspira a sociedade baiana,
não apagou valores sociais de outro tipo , já que todo um grupo social — os negros
foi inserido nela sem poder preservar sua p rópria cu ltu ra?27
M eu problem a fundam ental é o seguin te: a dicoto m ía ‘branco rico’ e negro
pobre é uma característica da ‘raça’ negra — reduzida à escravidão, espoliada, explo­
rada ou decorre da estrutura econôm ica escravocrata, d irigid a do exterior segundo
o tradicional esquem a da dependência? O term o escravo se refere a uma categoria
social, e não a uma raça, pois a cor da pele e a origem não passam de acidentes
históricos numa cidade de m estiços como Salvador. Já está, portanto, na hora de
percorrer as ruas c entrar nas casas para tentar com preender como se formou a estru­
tura fam iliar e como os homens e as m ulheres da Bahia aprenderam a viver juntos, no
meio dc m il antagonism os, m il contradições.
LIVRO

A F a m íl ia B a ia n a
C A P ÍT U L O 9

U m Pouco de H ist ó r ia

Os c o n q u ista d o res p o rtu g u e se s tiv e ra m as m ão s liv res p ara e d ific â r n o B rasil u m a v id a


eco n ô m ica b a se a d a em g ran d e s u n id a d e s de p ro d u çã o a g ríc o la e u m a v id a social
o rg an izad a em to rn o d a fa m ília . C o m o em to d as as so cied ad es, a fa m ília se torn ou,
tam b ém a q u i, a b ase d a o rg a n iz a ç ã o so c ia l. Q u e fa m ília?
C o m o e x te rm ín io p ro g ressiv o d o s povos in d íg e n a s, d u as c u ltu ra s — a branca
eu ro p éia e a n e g ra a fric a n a — in flu e n c ia ra m a e s tr u tu ra fa m ilia r b rasile ira . Por m o ti­
vos ev id en te s, à p r im e ir a c o u b e u m p a p e l p re p o n d e ra n te , m as de fo rm a a lg u m a ex clu ­
sivo. A c o n v iv ê n c ia co m escrav o s afric an o s n ão era u m a situ a çã o to ta lm e n te nova p ara
P o rtu gal, o n d e a e sc ra v id ã o fo ra in tr o d u z id a — o u re in tro d u z id a — d esd e a época das
p rim eiras c o n q u ista s c o lo n ia is .1 M a s , ao q u e p arece, o n ú m ero de escravos nu nca
u ltrap asso u 1 0% d a p o p u la ç ã o d a M e tró p o le .
N a B a h ia m e stiç a , o p eso d o siste m a escrav o crata era b em m aio r, m arcan d o a
so cied ad e lo c al e im p o n d o so lu çõ es n o vas ao m o d elo d e fa m ília d ^ é m - m a r . No
século XIX , os p ro b le m a s c o tid ia n o s a d v in h a m d e co n d içõ es v ariad as e o rigin ais, que
ex igiam g ran d e fle x ib ilid a d e p o r p a rte das estru tu ras fa m ilia is . E las se adap taram ,
preservando o c alo r h u m a n o e p ro te g e n d o as crian ças. P ara co n h ecer esse processo,
estu d arem os em p rim e iro lu g a r a m o ld u ra le g a l q u e cerco u a evo lução da in stitu ição
fam iliar de o rig em p o rtu g u e sa; p a rtin d o d essa a n álise , ten tarem o s estabelecer um a
tip o lo g ia d a fa m ília b a ia n a ; d isc u tire m o s d ep o is o q u ad ro e stru tu ral criad o por esses
novos tip o s d e fa m ília , cu jo s m em b ro s tin h am d iferen tes o rigen s, cores e estatutos
ju ríd ico s.
O E stado p o rtu g u ês sem p re esteve p reo cu p ad o em fo rm alizar as leis. No in icio do
século X V , dom A fonso IV en carrego u Jo ão M en d es, em in en te ju rista e m agistrado,
de re u n ir c o e ren tem en te as leis do reino. N asceu d aí o p rim eiro código português,
d en o m in ad o A lfo n sin o c p u b licad o em 1492. V in te e um anos m aís tarde, ele foi
su b stitu íd o pelo C ó d ig o M a n u e lin o , p u b licad o d u ran te o reinado de dom M an u el
m as d estin ad o a ter v id a cu rta. D om Sebastião, q u e reino u entre 1555 e 1571, in sti­

129
130 B a h ia , S é c u l o XIX

tuiu um terceiro código, incluindo, pela prim eira vez, as leis ditas extravagantes, qUe
até então não haviam sido codificadas, perm anecendo fora do corpus juris. Finalmente,
em 1603, durante o reinado de Filipe III da Espanha (1 5 9 8 -1 6 2 1 ), veio à lu2 Um
duradouro código, que serviria de base legal inclusive para a formação do Estado
brasileiro, vigindo aqui durante todo o prim eiro século posterior â Independência
(a parte civil das Ordenações Filipinas só foi sub stituída no Brasil em 1917).
As Ordenações estabelecem um a distinção clara e reiterada entre ‘ nobres’ c ‘peões'.
M as, em qualquer desses casos, a fam ília portuguesa ou brasileira foi definida como
nuclear, formada por um casal e seus filhos. Para traçar a evolução legal dessa família
entre 1800 e 1890, interessam os especialm ente o pen últim o dos cinco livros, qUe trata
do direito civil e com ercial.2 T entarem os, prim eiro , saber com o se estabeleciam os
direitos pessoais no âm bito das relações famiÜais stn cto e lato sensu. Depois, numa
segunda etapa, definirem os os direitos e deveres decorrentes dessas relações.

R e g im es M a t r im o n ia is

No Brasil, a grande m aioria dos casam entos era efetu ad a em regim e de comunhão de
bens, tam bém conhecido com o de ‘carta de m etad e’. Se os futuros nubentes quises­
sem assinar um pacto nupcial — situação pouco freq ü en te ■ — , deveriam ser maiores
de idade, livres de qualqu er em pecilh o e considerados capazes, do ponto de vista
civil. Até o século XIX, a m aio rid ad e legal era de catorze anos para os rapazes e de
doze anos para as moças, lim ites abaixo dos quais tornava-se necessário obrer autori­
zação paterna ou ju d ic ia l para casar. A lguns desses contratos m atrim oniais — na
verdade, raros — sim plesm ente exclu íam ou, ao co n trário , form alizavam a comu­
nhão legal.3 O utros tin h am objetivos d iferen tes, com o a d efin ição do regime dos
bens (próprios ou doados pelos pais) incorporados ao p atrim ô n io ou do montante
de doações feitas, no presente ou no fu tu ro , pelos nubentes entre si (poderiam ser
feitas inclusive depois da morre de um deles). A ssim , m arido ou m ulher podiam
oferecer dotes ao cônjuge. N a sociedade b aian a de então, viúvos abastados e com
descendência costum avam dar um dote ou u m a renda para o novo cônjuge ou as
filhas, como forma de lhes assegurar um p atrim ô n io próprio. T ratava-se, neste caso,
de um pacto dotal, que não deve ser confundido com um contrato dotal. O pacto
utilizado sobretudo por filhos de fam ílias nobres — destinava, à m ulher, rendas
próprias para suas pequenas despesas. Essa lei foi abolida em 8 de outubro de 1835,
junto com o m orgadio. Em caso de falecim ento, o dote ficava com o cônjuge viúvo,
enquanto o resto da herança era distrib uído entre os outros herdeiros legítimos-
N aturalm ente, os pactos que estabeleciam um a renda ou um dote anulavam o regi
me de comunhão legal de bens, como está registrado na série in titu lad a Livros de
Notas e Escrituras. O mesmo acontecia com o terceiro tipo de pacto, que estabelecia
a separação de bens entre os cônjuges.
L i v r o III - A F a m ília B a ia n a 131

Para que fossem válidos, esses três tipos de contratos deviam ser legalizados em
cartório, estipulando-se o nom e dos futuros cônjuges e de seus pais, bem como sua
nacionalidade, religião, data de batizado, idade, dom icílio e, se fosse o caso, grau de
p a r e n te s c o .S e o casam ento não fosse feito em com unhão legal, era indispensável
fornecer um a descrição detalh ad a dos bens de cada parte. Os contratos que encontrei
raramente obedeciam a essas regras. O m ais das vezes registravam apenas os nomes dos
futuros cônjuges, o local, a d ata e o m o n tan te do dote (só o dote da futura esposa era
estipulado). A lgum as vezes os nom es dos pais eram citados.
Eram, portan to, três os regim es m atrim o n iais em vigor no Brasil no século XIX:
com unhão legal, regim e de dote, e separação de bens. E studando testam entos e inven­
tários p o st m ortem p u d e v erificar que, n a B ah ia, 9 0% dos casam entos eram celebrados
segundo o ‘costum e do rein o ’, isto é, a com unh ão legal. D efinam os m elhor cada um a
dessas três form as de associação m atrim o n ial.

R e g im e s M a t r im o n ia is e R e g im e s de B en s

Os regim es de bens eram fu n d am en tais para d istin g u ir os regim es m atrim oniais entre
si. C onsiderava-se q ue h a v ia co m u n h ão legal em quatro casos: o contrato nupcial
definira esse regim e, os futuros côn juges haviam declarado que seus bens passavam a
ser com uns, o casam ento fora celebrado sem contrato específico ou o contrato (assina­
do antes do casam ento) fora con siderado nulo po r aten tar contra as leis da natureza,
do casam ento e dos bons co stu m es.5 A p aren tem en te, eram m u ito raras as contendas
entre cônjuges ou en tre herdeiro s em torno deste últim o caso. >
No B rasil, com o em todos os países regidos pelo d ireito rom ano, o casam ento em
regime de com unhão de bens era considerado u m a associação de tipo universal, na
qual o passivo e o ativo de cada côn juge, no presente e no futuro, pertenciam a ambos
em partes iguais. A co m u n h ão , que colocava os bens da fam ília sob adm inistração do
m arido, só era ad m itid a se o casam ento fosse celebrado “dian te da Igreja , se fosse
consum ado e sc nenhum dos cônjuges fosse escravo. O concubinato, por sua vez,
nunca deu d ireito à com unhão de bens pois, desde o C o n cilio de T rento (15 45 ­
1563), a coabitaçao era co n trária aos princípios m orais e religiosos. T am bém estavam
excluídos da com unhão os bens recebidos sob a form a de doação, antes ou depois do
casam ento, ou atribuídos por testam ento com cláusula expressa nesse sentido.
O regim e de com unhão com portava riscos — altos riscos, pode-se dizer , pois
tornava os esposos solidários entre si, no contexto de nm a sociedade cuja econom ia era
m uito especulativa. As fortunas se faziam e se desfaziam em uma mesma geração, o
que, aliás, explica o uso dos dois outros regim es m atrim oniais. A separação de bens era
adotada em diversas situações:
- quando havia opção explícita por este regim e; quando os futuros cônjuges
declaravam não querer contrair m atrim ônio segundo o ‘costum e do reino ;
132 B a h ia , S é c u l o XIX

- quando, no contrato, havia um a cláusula incom patível com o regim e de


comunhão (exemplo: a com unhão reduzia-se explicitam ente aos bens adquhj
dos, ou os cônjuges se declaravam solidários nas dívidas porventura contraí<jas
no futuro, ou se previa a reversão da fortuna às respectivas famílias em caso de
morte sem descendência);
- finalm ente, quando o m arido concedia, à m ulher, um dote, oferecendo-lhe
bens (ou seu usufruto) sob a forma de rendas ou sob qualquer outra denomi­
nação. O dote que o m arido dava a sua m ulher era um a espécie de seguro sobre
o dote que ele recebia dos pais de sua m ulher. Esse ato podia ser comparado às
doações p ro p ter nuptias dos romanos. As O rdenações estipulavam que as rendas
não podiam exceder o terço do dote, mas esse regim e era raro no Brasil.
O dote era constituído por todos os bens que a noiva trazia, ou por aqueles
prometidos pelo noivo em ato cartorial. T am bém faziam parte do dote todos os
bens que a m ulher adquiria depois do casam ento por doação, herança ou legado, se
esses bens não fossem gravados com um a cláusula que estipulasse que a mulher ti­
nha o direito de adm inistrá-los, gozando de seu usufruto exclusivo. A não ser que
existisse uma cláusula específica definindo outra m aneira, o regime de separação tam­
bém conferia ao m arido a adm inistração dos bens, inclusive dotes e rendas, se exis­
tissem .6 M as os imóveis só podiam ser vendidos ou hipotecados com o consenti­
mento dos dois cônjuges. Só bens móveis (exceto apólices da dívida pública) podiam
ser alienados pela esposa sem o consentim ento do m arido ou de um a autoridade
judiciária. As restrições eram m aiores nos casos em que a separação de bens se con­
jugava com a oferta de dotes: nem mesmo os dois cônjuges, agindo de comum acor­
do, podiam vender ou hipotecar seus próprios bens, dependendo para isso de auto­
rização ju d icial, concedida em casos ‘m u ito esp eciais’, com o dotar as crianças,
comprovar extrema pobreza, saldar dívidas contraídas pela esposa, consertar outro
imóvel dotal, sofrer expropriação pelo Estado ou com pensar afastamento do domi­
cílio conjugal.7
O regime de separação de bens era, portanto, m ais favorável à mulher do que o de
comunhão. Mas, nos dois casos, o m arido conservava o poder de administrar os bens
familiais. Além disso, com a com placência de um juiz pouco escrupuloso, os casos
especiais’ acima citados possibilitavam toda espécie de abusos. No caso de separaçao
simples (sem dotes), os maridos tinham a possibilidade de exercer todo tipo de pressão
para obrigar as mulheres a ‘aprovar’ as vendas por eles desejadas. A consulta a testa
mentos c inventários post m ortem mostra a freqüência desses falsos ‘consentimentos ,
extorquidos sobretudo quando havia separação legal entre os cônjuges, após um casa
mento rompido.
Vê-se que a legislação do século XIX colocava a mulher numa posição muito
dependente da vontade do marido. Mas é preciso tentar sab er até que ponto esse
quadro jurídico bastante estrito convivia, na prática, com diversos ‘jeitos que libera
vam muitas mulheres do estrito controle do esposo.
L iv ro III —A F a m ília B a ia n a

D iv ó r c io

O C ódigo C iv il brasileiro só ad m itiu o que atu alm en te se entende por d iv óircio


i_____
em
1977. Até então, obedecia-se ao d ireito canônico, que só adm ite a dissolução do
casam ento por sua an u lação d itad a pela Igreja cm casos de erro de pessoa, condição
legal d iferen te de um dos cônjuges (exem plo: um era escravo e o outro, livre), cogna-
çáo (n atu ral, esp iritu al ou legal), crim e, religião diferente, casam ento forçado, biga­
m ia, im p o tên cia, rapto, au sên cia de padre e de testem unh as, recebim ento de ordens
sacras pela esposa ou p ro stitu ição d esta.8 M as, no século XIX, cham ava-se ‘divórcio7 a
separação de corpos dos cô n juges, au to rizad a em quatro situações bem definidas: se,
nos doze prim eiro s m eses de v id a co m u m , os cônjuges optassem por entrar num
convento; se tivesse h avid o , por p arte de um dos cônjuges, “fornicação espiritual por
heresia e ap o stasia”; se ocorressem sevícias graves; enfim , sc fosse com provado adulté­
rio p raticad o por u m dos esposos (se os dois com etessem ad u ltério , a Igreja não
ad m itia a separação, p o is u m caso com pensava o o u tro ).9
N a sociedade b a ian a de então, o ad u ltério era p rática corriqueira. A ssim , sem que
o laço m atrim o n ial fosse ro m p id o , a separação dos cônjuges tin h a com o conseqüência
a separação de seus bens e a posterior reorganização d a v id a de cada um , em concubinato.
Conform e o caso, os d ivo rciad o s eram m ais ou m enos aceitos na sociedade, com
maiores facilidad es — com o sem pre, em casos de transgressão de norm as sociais —
para os hom ens. É v erd ad e q ue a m u lh er aban don ada por causa de adultério do
m arido recuperava sua au to n o m ia e sua in d ep en d ên cia m aterial, mas essa era, o m ais
das vezes, fictícia. G eralm en te, restava à m u lh er retornar à situação de dependência no
seio de sua fa m ília de o rigem , sobretudo nas cam adas m ais elevadas da sociedade.

F il ia ç ã o

O direito português — e, portan to, o brasileiro — reconhece três tipos de filiação:


legítim a, legitim ad a e natural. E prevê a filiação por adoção.
Além das crianças nascidas de casam entos celebrados pela Igreja, eram considera­
dos legítim os os filhos póstum os, ou seja, nascidos até dez meses depois da dissolução
de um desses casam entos, fosse por m orte do pai, losse por outras razões. O marido era
considerado pai dc todos os filhos gerados durante o casam ento, a menos que houvesse
julgam ento afirm ando o contrário. Portanto, para provar a ilegitim idade de um filho
adulterino, cra preciso recorrer à Justiça. M as a lei reconhecia como legítimos os filhos
cujos pais, falecidos, tivessem vivido publicam ente em estado m atrim onial. Abria se
assim o cam inho às uniões livres, forma dc associação conjugal m uito comum na
sociedade baiana, como veremos adiante.
Chefe da fam ília, o pai exercia o pátrio poder sobre os filhos menores de 21 anos
ou não em ancipados, cham ados ‘filhos-fam ília’. A emancipação podia ser feira a partir
154 B a h ia , S é c u l o X I X

dos dezoito anos, por ato cartorial, O casam ento tam bém em ancipava o filho m enor
mas a idade m ínim a legai para con traí-lo era de doze anos para as m eninas e de catorzé
para os m eninos. O pai devia prover alim en tação e educação para os filhos, recebendo
destes, em con trap artida, sem recom pensa, serviços correspondentes às suas idades. Se
o pai estivesse passando necessidades, os filhos deveriam sustentá-lo. Sancionava-se
assim, por lei, a solidariedade do núcleo fam iliar.
O pai ram bém tinha direitos e obrigações para com os bens dos filhos, que podiam
ser ‘bens ordin ário s’ (resultantes de herança recebida da m ãe que falecera ou de outros
legados, doações ou heranças, vindos de um parente ou de o u tra pessoa qualquer) ou
extraordinários’, cu ja lista era bastante longa. Eram extraordinários os bens herdados,
legados ou recebidos em doação m as cu ja ad m in istração fora con fiada a terceiros; os
bens adquiridos pelo trabalho do filh o -fam ília, m esm o q ue o cap ital tivesse sido em­
prestado pelo pai; os bens ad q u irid o s no serviço civ il, m ilita r ou eclesiástico, sob forma
de salários ou em olum entos; os bens ad q u irid o s fo rtu itam en te pelo jogo, apostas ou
formas afins; os bens herdados pela in cap acid ad e do pai em herdar. C om exceção de
situações que exigissem a ad m in istração por terceiros, o pai tin h a com petência para
gerir os bens de seus filhos. A lém disso, era sucessor de um filho falecido, a menos que
este tivesse deixado descendentes ou cô n ju g e viúvo. C aso co n trário , mesmo que hou­
vesse testam ento, o pai recebia pelo m enos 2/3 d a herança, desde que não tivesse sido
deserdado pelo filho por um m otivo previsto em lei.
M as havía lim itaçõ es ao poder paterno. Sem autorização do ju iz, o pai não podia
alienar, hipotecar ou trocar os bens de seus filhos; não podia com prar esses bens, nem
mesmo em leilões ou através de terceiros; não podia ob rigar um filho a servir de fiador;
não podia repartir ‘am igav elm en te’, sem a intervenção de um ju iz , a herança deixada,
para o filho, pela m ie ou por terceiros.
A mãe tam bém tin h a direitos e deveres para com os filhos, inclusive no que dizia
respeito aos bens destes. Em condições norm ais, d iv id ia o encargo de criá-los e educa-
los. Substituía o m arido ausente, não podendo dar um tutor aos filhos até que fosse
declarado o ‘óbito presuntivo’ do pai (podia, ela m esm a, exercer essa função). Em caso
de dissolução do casam ento, era obrigada a am am en tar as crianças até a idade de tres
anos ou dar-lhes am as-de-leíte, pelo m enos enquanto não contraísse novas núpcias.
Em seguida, devia zelar pela educação dos filhos, sobretudo se a fortuna do pai fosse
insuficiente.
Filhos naturais só podiam ser legitim ados depois do casam ento dos pais, adqui
rindo então os mesmos direitos c deveres dos filhos legítim os, como se tivesse ocorri
do um novo nascimento. M as os filhos nascidos de um casam ento anterior deviam
gozar do direito dc prim ogenitura, mesmo se tivessem nascido após o filho legitim a
do, e os filhos adultcrinos c aqueles cujos pais houvessem recebido ordens religi°saS
(chamados filhos sacrílegos) estavam excluídos d essa possibilidade.
Com exceção dos filhos nascidos desses ‘coitos danados’ (adultério, incesto ou
praticado por integrantes de ordens religiosas), qualquer criança nascida fora dos
L m t o III - A F amília B aian a 135

casamentos podia ser reconhecida pelo pai ou pela mãe, ou pelos dois conjuntam ente.
Desde que oferecessem prova de seu estado civil, viúvos dos dois sexos podiam reco­
nhecer um a criança, m esm o que já tivessem outros filhos legítim os, legitim ados, na­
turais, reconhecidos ou adotivos.
A idade dos filhos em vias de reconhecim ento não tinha im portância. Os dispo­
sitivos se aplicavam inclusive aos não-nascidos, apenas concebidos. Tam bém era pos­
sível reconhecer filhos naturais falecidos, sc estes tivessem deixado descendentes. Em­
bora isso fosse proibido por lei, os reconhecim entos de paternidade traziam quase
sempre o nom e do p arceiro .10 Isso pode ser explicado pelo fato de que, freqüentem en­
te, reconheciam -se, num m esm o ato, crianças nascidas de mães diferentes, de modo
que as inform ações sobre a m ãe provavelm ente eram ditadas por excesso de zelo em
m atéria de precisão!
O reconhecim ento de um filho n atu ral era feito em cartório, produzindo um tipo
de ato legal relativam en te num eroso nos livros dos tabeliães baianos e praticado por
todas as cam adas sociais d a população livre: ricos com erciantes portugueses, senhores
de engenho, advogados, m édicos ou sim ples africanos alforriados. A criança não podia
recusar a p atern idade ou m atern id ad e reconhecida. No entanto, mesmo depois de
validado, o ato carto rial podia ser contestado por declarações que demonstrassem sua
nulidade (por exem plo, pela com provação de que a paternidade ou m aternidade reco­
nhecida era im possível) ou pelo reconhecim ento, por parte da m ãe, de que o pai era
o u tro .11
D epois de reconhecidos, os filhos n aturais passavam a gozar dos mesmos direitos
e deveres dos filhos legítim o s, in clu siv e no que dizia respeito à herança. A liás, os filhos
naturais não reconhecidos por seus pais tam bém podiam herdar um a parcela da parte
disponível (terça). E xistia p o ssib ilidade inclusive de reconhecim ento ju d icial de um
filho que requeresse a sim ples o u to rga de alim en tos ou tivesse sido concebido por
estupro ou rapto de u m a m u lh er.

F il h o s A d o t iv o s

A adoção estava prevista em lei, podendo ser solicitada, cm princípio, por qualquer
pessoa que tivesse m enos de cin q üen ta anos e, no m ínim o , mais catorze anos que a
criança. Sc fosse casado, o so licitan te precisava obter o consentim ento do cônjuge, se
vivesse cm união livre, não podia sequer solicitar um a adoção. Os tutores só podiam
adotar seu pupilo quando tivessem liquidado as contas de tutela. Não podia ser ado
tada um a pessoa que já tivesse descendentes legítim os ou legitim ados, nascidos ou
apenas concebidos.
R egistrada em cartório, a adoção não podia ser revogada, garantindo à criança o
mesmo estatuto de um fiiho natural reconhecido. M as, na Bahia do século XIX, as
raras adoções — encontrei apenas dez casos em 42 livros de tabeliães, que cobrem o
136
B a h ia , S é c u l o X IX

período d e 1800 a 1891 — eram asadas com o artifício para reconhecer filhos naturais
T ratava-se de um a m en tira social co m p letam en te in ú til, pois, nesses casos, as leis e oj
costum es facilitavam o recon hecim en to. Sob esse aspecto, a sociedade baiana não era
com plexada, nem h ip ó crita. O co n cu b in ato estava tão enraizado que ninguém se
preocupava em escondê-lo, m esm o nas cam adas m ais abastadas. U m exemplo entre
m il: um dos senhores de engenh o m ais poderosos d a B ah ia, Francisco Sodré Pereira
Barão de A lago inh as, não h esito u em p ro clam ar sua o rigem b astard a (era filho natural
de um a grande dam a do R ecôncavo, M a ria n a R ita de M en ezes B ran dão , que teve esse
filho im ediatam en te após sua viuvez, assim com o , aliá s, outros filhos de pais diferen­
tes) ao p edir, em 1886, o títu lo de fid algo (que não lh e foi co n ced id o ), o único título
de nobreza tran sm itid o de form a h ered itária.
Os laços co n ju gais criav am , sem d ú v id a, ob rigaçõ es m ú tu as en tre os cônjuges e
entre estes e seus filhos, m as a legislação em v ig o r era to leran te p ara com as situações
m arginais. Procurava, sobretudo, p ro teger as crian ças, fossem legítim as, legitimadas,
naturais ou adotivas, todas elas q uase igu ais p eran te a lei. ,

D ir e it o s d e S u c e s s ã o e R e g i m e S u c e s s ó r i o

Até o in ício do século XIX, com o falecim en to do titu la r a p ro p ried ad e civil dos bens
passava aos herdeiros inscritos ou legitim ad o s, até o d écim o grau de parentesco. Se
fossem inco ndicio nais e dissessem respeito a u m a coisa in fu n g ív el, os legados podiam
ser transm itidos a q u alq u er categoria de le g a tá rio .12 O cô n ju g e sobrevivente guardava
a propriedade dos bens en q u an to a p a rtilh a não estivesse term in ad a, a menos que se
tratasse de bens próprios do falecido. Se não houvesse cô n juge ou se os bens fossem
incom unicáveis, a propriedade civil devia ser tra n sm itid a a pessoas “notoriamente
conhecidas com o irm ãos, irm ãs, tios, tios ou prim os do falecido, segundo o Alvará de
1754, Se a sucessão fosse de ordem testam en tária, essa propriedade poderia pertencer
ao cônjuge sobrevivente, ao descendente, ao ascendente ou ao executor testam entário
e herdeiro inscrito. Os legatários só entravam de posse de seus legados depois do ato
de partilha.
H avia um prazo de trin ta dias (contados a partir da abertura do processo sucessó­
rio) para que se apresentasse um a descrição detalhada de todos os bens deixados pel°
falecido, mas isso era pouco respeitado. N a m aioria dos casos, fazia-se apenas uma
descrição sum ária, que 'esquecia’ um a parte dos bens, sobretudo daqueles que estives­
sem fora da Província. Às vezes essa prática ocasionava processos. Geralmente, porém>
os herdeiros preferiam se entender e resolver am istosam ente as questões. O inventário
era redigido sob controle de um juiz com petente, que fazia com parecer os credores e
os legatários, para que seguissem o desenrolar do processo.13
N o século X ÍX eram m uito raros os que morriam em Salvador deixando bens
declarados, e ainda mais raros os que faziam um testam ento.1^ M as a lei reconhecia
Li\n.o III - A F a m ília B a ia n a 137

dois tipos dc sucessão: a testam cn tária e a a b in testa to (ou legítim a, que tratava dos
casos em que o falecido não d eixara testam en to ). N esse ú ltim o caso, o côn juge torn a­
va-se o h erdeiro , segu in d o -se os descen dentes, ascendentes e colaterais.
Previam -se diversos casos de pessoas con sideradas incapazes de suceder: os in te­
grantes dc ordens religio sas; os autores ou cú m p lices de crim es praticados contra o
falecido, in clu in d o -se a í os crim es co n tra a ho nra, v io lên cias e fraudes; o cônjuge
sobrevivente que, ten do filh os, não tivesse m an d ad o fazer um inventário em seguida
ao falecim ento ou q u e, em caso de lo u cu ra do falecido, não o tivesse ajudad o a
recuperar a razão; a ‘filh a -fa m ília ’ q u e se tivesse desonrado; e, até 1824, os estrangei­
ros, os brasileiros p riv ad o s d a n a c io n alid a d e , os proscritos, os heréticos, os apóstatas,
os escravos, os bastardos e os ‘ m ortos c iv is’. A C o n stitu içã o de 1824 (que, m odificada
pelo Ato A d icio n al em 1 8 3 4 , p erm an eceu em v ig o r até 1 88 9) m anteve essa interdição
no caso dos escravos, dos b astard o s e dos ‘m ortos c iv is’.
Se o casam ento tivesse sido feito em regim e de com unh ão de bens, o cônjuge
sobrevivente receb ia a m etad e da h eran ça to tal depois de feitos o inventário e a avalia­
ção. A ou tra m etad e cab ia aos d em ais herdeiro s. A ordem de sucessão da m etade
disponível era a segu in te: d escen d en tes, ascenden tes, cô n juge e, fin alm en te, o Estado,
Se não houvesse ascen d en tes, descen d en tes ou colaterais até o décim o grau, o cônjuge
sobrevivente era h erd eiro ú n ico , M as, nos séculos X V II e XVIII e no prim eiro terço do
século XIX, esse esq u em a p o d ia v ariar u m pouco q uando entravam em cena duas
interessantes in stitu içõ es — o m o rgad io e a c a p e la — que, abolidas em 1835, influen­
ciaram as transferências de bens e de propriedades de certas cam adas sociais na Bahia.
Bens de m orgadio ou de cap ela estavam sujeito s a lim itaçõ es no d ireito de propriedade
e deviam perm anecer p erp etu am en te com a m esm a fam ília, não podendo ser p artilh a­
dos ou alienados.
O m orgadio — q u e parece ter sido usado apenas u m a dezena de vezes na Bahia
durante o período colo nial — visava proteger as fortunas de fam ília, tendo sido ado­
tado sobretudo por portugueses de ascendên cia nobre. Podia in clu ir bens situados no
Brasil c em P o rtu g a l.15 Essa in stitu ição trazia consigo certas obrigações, pois os
adm inistradores (ou seja, os herdeiros) deveriam gastar com obras ‘piedosas’ mais ou
menos a centésim a parte das rendas das propriedades. A capela — mais comum era
uma instituição de caráter religioso, feita para expressar a piedade dc seus fundadores,
que destinavam as rendas de certa área territorial para a construção e conservação de
um tem plo. Nem sem pre essa prática correspondia às intenções proclamadas. Com
efeíto, através desse m ecanism o a propriedade em questão se tornava inalienável c não
podia ser hipotecada. Num país cm que as terras m udavam freqüentem ente de mãos
e nem mesmo poderosos senhores de engenho escapavam ao risco de empobrecimento
rápido, era tentador im pedir que os herdeiros alienassem ou hipotecassem certas pro­
priedades, m antendo aberta apenas a possibilidade de que fossem alugadas para saldar
dívidas eventuais.16 Assim, o proprietário original criava, para seus descendentes, um
escudo contra os reveses da fortuna.
B a h ia , S é c u l o XIX

A ordem de sucessão para m orgadios e capelas era a seguinte: como primeira


opção, era herdeiro o filho m ais velho. Se este m orresse sem descendência, era substi­
tuído pelo irm ão im ediato ou, cm u ltim o caso, pelos prim os, desde que do lado
paterno. A té 1770, se não houvesse irm ãos e prim os hom ens, as m ulheres entravam na
lin h a de transm issão. Em nenhum caso in clu íam -se os filhos ilegítim o s. Se o morgadio
fosse paterno, os irm ãos por parte de m ãe não podiam herdá-lo; m as, se fosse m ate rn o ,
irm ãos e prim os-irm ãos podiam can d id atar-se à sucessão, A reu n ião de dois morgadios
graças a um casam ento foi p ro ib id a em 1769. A ntes desse ano, para im pedir tal
concentração de p rivilégio , a lei obrigava a doar o m o rgad io m ais rico ao primogênito
e o outro ao segundo filho. Se tal divisão fosse im possível d u ran te duas gerações (caso
não houvesse herdeiro do sexo m ascu lin o ) um dos m o rgadio s desaparecia automatica­
m ente.
Segundo C lóvis B eviláq u a, p erm aneceram algun s vestígios do m orgadio mesmo
após sua abolição em 1835. Foi o caso, por exem plo , do arrendam ento vitalício
(ien fiteu se ), que durou até o fim do século. Ao en fiteu ta sucediam os descendentes
legítim os, ordenados por idade e sexo (os hom ens antes das m u lh eres). Se não houves­
se filhos legítim o s, apareciam os filhos n atu rais, os ascendentes e os colaterais até o
quarto grau.

H erd e iro s

No século XIX, havia, na B ahia, três categorias de descendentes: legítim os, legitim a­
dos e ilegítim os (naturais). Os direitos das duas prim eiras eram iguais, sem distinção
de sexo, leito ou idade (o costum e de favorecer o m ais velho ou o segundo dos filhos
hom ens nunca existiu em Portugal nem no B rasil). Se não houvesse filhos vivos, a
sucessão passava para os netos, e assim sucessivam ente, até a extinção da descendência.
Por direito de representação, os descendentes de um grau inferior podiam concorrer
com os de grau superior, recebendo um a parte equivalente da herança. Exemplo: se
um herdeiro morresse antes de seus pais, mas deixasse descendentes, estes recebiam a
herança, em pé de igualdade com seus tios e tias. Resultava disso tudo um grande
parcelam ento das propriedades, sobretudo agrícolas.
Embora os filhos ilegítim os tam bém fossem m uito protegidos pela lei, havia nesses
casos regras particulares (que, aliás, se aplicavam aos filhos adotivos). Segundo o
antigo direito português, os filhos naturais dos plebeus tinham direito à sucessão com
direitos iguais aos dos filhos legítim os. No Brasil, o decreto n° 4463, de 2 de outubro
de 1847, estendeu esse tratam ento aos filhos naturais das fam ílias nobres. Em qual­
quer caso, porém, era necessário o reconhecim ento cartorial ou testamentário da pa­
ternidade ou m aternidade. Um filho natural reconhecido por uma pessoa casada só
recebia a metade daquilo a que teria direito, caso fosse legítim o. Alé disso, os filhos
legítimos c legitim ados não pagavam nenhum direiro de sucessão. Até serem assimila-
L iv ro III - A F a m ília B a ia n a
139

dos aos filhos legítim o s (1 8 6 1 ), os filhos n atu rais reconhecidos pagavam um a taxa de
10% e os filhos recon hecido s d u ran te o casam ento pagavam 20% (decretos de 1809
e 1835 e regu lam en to s de 1861 c 1 877).
É fácil a v a lia r as co n seq üên cias sociais de um a legislação desse tipo na tolerante
Salvador: todos os filhos tin h am d ireito a u m a p arte das heranças, de modo que se
criavam fortunas — alg u m as delas, a in d a atu ais — a p artir de situações m arginais. Os
atos de reco n h ecim en to de p atern id ad e se to rn aram cada vez m ais num erosos no
correr do século X IX . C o n te i u m a dezen a desses atos por ano entre 1800 e 1820 mas
esse núm ero passou a cerca de trin ta po r ano no m eio do século.
C lóvis B ev iláq u a a firm a q u e o código filip in o “gu ard a um silêncio en igm ático ”
sobre os d ireito s sucessórios dos filh os adotivo s. É que, na época, se recorria ao direito
rom ano, in terp retad o pelo uso m o derno. A pessoa ad o tad a sucedia a seus pais adoti­
vos, sem perder seus d ireito s à sucessão dos bens de sua fam ília n atu ral. M as não tinha
direito a u m a parte le g a l, pois não era con siderado herdeiro necessário. Logo, sua
situação era m enos favo recid a do que a do filho n atu ral reconhecido, o que, aliás,
ajuda a ex p licar o p eq u en o n ú m ero de adoções enco ntradas na B ahia do século XIX.
Os bastardos — filh os a d u lterin o s ou incestuosos — não estavam afastados das
sucessões. N ão h erd avam d e suas m ães, m as estas não tin h am direitos à herança dos
próprios pais. P reo cu p ad a em não ex clu ir a crian ça, a legislação previa que se pulasse
um a geração, fazendo o b astard o h erd ar d iretam en te de seus avós. As crianças nascidas
de uniões ilíc ita s en tre m u lh eres so lteiras e hom ens casados entravam na lin h a de
sucessão pelo lado m atern o , m as não pelo paterno.

S u ce ssã o po r T e sta m e n to

A ordem de sucessão era a m esm a, tan to em casos testam entários com o em casos úb
intestato. M as a p o ssib ilid ad e de red ig ir um testam ento suavizava os rigores da Jei,
perm itindo que o testador dispusesse livrem en te da terça parte de sua fortuna a
terça’ — em favor de q uem escolhesse, ou ain d a em favor de um a instituição, religiosa
ou leiga. T odas as pessoas podiam fazer testam entos, corri exceção dos menores (de
catorze anos para os m eninos e de doze para as m eninas, como no caso dos casam en­
tos), dos ‘filhos-fam ília’, dos loucos, dos heréticos, dos apóstatas, dos religiosos professos,
dos condenados à m orte, dos surdos-m udos (que, na época, não aprendiam a ler e a
escrever) e dos escravos. M as, em toda a B ahia, havia poucas pessoas alfabetizadas,
capazes de redigir. Por isso, os testam entos podiam ser 'p ú b lic o s, ditos também
abertos’, ou privados.17
Em Salvador, os testam entos serviam freqüentem ente para reconhecer paternida­
de, alforriar ou favorecer escravos, esclarecer a m aneira como se desejava ser enterrado,
indicar a quantia que se desejava distribuir na forma de esmolas, solicitar a celebraçao
de missas, legar bens ou dinheiro para instituições. Por isso, os testamentos são uma
140 B ah ia , S é c u l o X IX

inesgotável fonte de inform ações sobre todas as cam adas sociais de Salvador. Nuj^
leito de m orte, a sinceridade torna-se praxe. Ricos e pobres m ostram então traç0s
m uito parecidos, entre os quais a vontade de sobreviver na lem brança dos seus.

U m a L e g isl a ç ã o B e m A d a p t a d a

A lguns traços o rigin ais aparecem nessa análise das bases legais da fam ília. A forma de
associação con jugal m ais com um era a com u nh ão legal de bens. Q ue podia significar
essa solidariedade, q uando os cônjuges nada possuíam ? M ais do que parece. Numa
sociedade em que a riq ueza era m u ito co n cen trada, o regim e m atrim onial era impor­
tante m esm o en tre os que nada possuíam , pois criav a um a solidariedade profunda
entre os dois parceiros. A liás, m esm o no caso de separação de bens, quase todos os
contratantes estabeleciam dotes ou rendas. A té on de pu de ver, todos os que optavam
pelo regim e de separação de bens p erten ciam às cam adas abastadas (comerciantes,
m em bros de profissões lib erais, m ilitares, fu n cio n ário s). N o período de 1801 a 1809,
encontrei tam bém sete contratos desse tip o feitos po r escravos alforriados, mas foram
exceção. O regim e da com unh ão p o d ia ser m o dificado no decorrer da vida conjugal,
por exem plo q uando um dos cônjuges recebesse u m a doação incom unicável.
A solidariedade era um dos traços d o m in an tes d a sociedade baiana no século XIX.
A adoção quase auto m ática da com u nh ão de bens nos casam entos reforçava legalmen­
te essas características n aturais, m u ito im po rtan tes para hom ens e m ulheres. As socie­
dades ocidentais eram , no m esm o perío do, m ais in div id u alistas que a baiana.18
O superpoder dos m aridos era baseado n u m regim e de bens que — com exceção
de casos excepcionais, previstos em contratos ou im p lícito s em determ inadas cláusulas
dos legados , heranças e doações recebidas no decorrer da vida conjugal — lhes atri­
buía a adm inistração dos bens do casal. A m u lher era dependente da vontade do
m arido, devendo pedir sua autorização até para certas despesas do dia-a-día. Se ela
quisesse exercer um a atividade com ercial separada do m arido, necessitava de uma
autorização especial deste últim o , registrada em cartó rio .19 Apesar disso, a separação
legal de corpos podia, em certos casos, afrouxar essa cadeia de dependência, sobretudo
nas classes m édias e nas menos favorecidas. Essa separação, bem como a separação de
bens, não era com um nas cam adas m ais abastadas, onde os desentendimentos conju
gais geralm ente term inavam com o afastam ento do m arido, que ia constituir ura*
fam ília m arginal. As mulheres dessa cam ada social raram ente transgrediam as inter ■
ções fundadas na moral religiosa.
O casal solidário — legal ou não —~ Linha direitos e deveres para com sua descen
dência. Através dc algum a das diversas fórmulas legais disponíveis, deveria reconhece
os filhos nascidos fora dos laços m atrim oniais, prática comum a todas as cama
sociais. É difícil avaliar com precisão a proporção de filhos ilegítimos r e c o n h e c i d o s ,
pois, em geral, isso não era feito por ocasião dos nascimentos, mas por testamento
L iv ro III - A F a m ília B a ia n a

O s p ró p rio s p ad res não h e sitav am em ap resen tar-se aos tab eliães para confessar,
co n trito s, o n ú m ero d e filh o s n ascid o s de su a “m iséria e frag ilid ad e h u m an as”.20
L e g ítim as ou le g itim a d a s , reco n h ecid as o u por recon hecer, adotivas ou (no pior
dos casos) n a tu ra is sem esp eran ças de reco n h ecim en to , todas as crian ças eram m u ito
pro tegid as p elo le g isla d o r, m as su b m e tid a s ao p o d er do pai ou, n a au sên cia deste, da
m ae ou d e u m tu to r, a té a m a io rid a d e . A sucessão n ão co m p o rtav a n en h u m d ireito de
p rim o g e n itu ra , m en o s nos casos, m u ito raros, de m o rg a d io ou de cap ela,21 restritos às
cam adas m ais a b astad a s. A le i c o n fe ria u m a ex istê n c ia real à fa m ília n atu ral. U m casal
q ue vivesse em u n iã o liv re era in c ita d o a c u m p rir seus deveres e a regu larizar sua
situ ação , n em q u e fosse no le ito de m o rte, d e m o d o a ev ita r co n trad ição flagrante com
a m oral cristã.
V ejam o s ag o ra co m o h o m en s e m u lh e re s de S alv ad o r co m p reen d iam essa m ensa­
gem e com o tira v a m p ro v e ito d e to d as as a b ertu ras, to d as as p o ssib ilid ad es oferecidas
por u m a le g isla ç ã o re la tiv a m e n te flex ív el.
C A P ÍT U L O 1 0

T ip o l o g ia d a F a m íl ia B a ia n a

D estacan d o ap en as a f a m ília em seu s e n tid o m a is a m p lo , d it a p a tria rc a l, a historio­


grafia b ra s ile ira n ão fo rn ece m u ito s d a d o s so b re os n ú c le o s fa m ilia re s q ue existiam
n a ép o ca c o lo n ia l e n o sé c u lo X IX . C o m p re e n d e -s e : as d e scriçõ es ressaltam a exis­
tê n c ia d e u m a so cie d ad e d iv id id a em d o is g ra n d e s g ru p o s , o dos senho res e o dos
escravos. O s en g en h o s d e a ç ú c a r u tiliz a v a m m ã o -d e -o b ra p ro v e n ie n te d a Á frica, en­
g en d ran d o p o rtan to , a p a rtir d a co r d a p ele, u m a p r im e ir a estratifica ção so c ial.1 Apli­
cado aos p rim eiro s e s ta b e le c im e n to s c o lo n ia is, esse m o d elo fo i esten d id o às estrutu­
ras o riu n d as de o u tras ex p eriên cias p ro d u tiv as — a m in e ra ç ã o , p o r exem p lo — , como
se n ad a tivesse m u d ad o ao lo n g o de sécu lo s. A lé m d isso , co n sid eran d o -se o Brasil
com o u m p aís e sse n c ia lm e n te a g ríc o la , e m g e ra l n e n h u m a d is tin ç ã o se fazia entre os
m eios u rb an o e ru ra l. A e s tru tu ra a g ríc o la e a g rá ria h e rd a d a d a C o lô n ia , fundada na
m o n o cu ltu ra, nos latifú n d io s e n a escrav id ão , c o n s titu ía “p rem issa fu n d am en tal” para
a análise d a so ciedade b ra sile ira do sécu lo X IX .2 A ssim , o g ru p o econ ôm ico era quase
co m p letam en te id e n tific a d o com o g ru p o d e p a re n te la , a m p lia d o p ela presença de
d epen dentes e escravos, cu jo c o n ju n to fo rm av a a im e n sa c lie n te la da fam ília pa­
triarcal. A “g ran d e fa m ília ”, h ip e rtro fia d a e m u ltifu n c io n a l, en g lo b av a todos numa
m esm a u n id ad e eco n ô m ica, “cen tro e n ú cleo d a v id a s o c ia l”, “força social que se
desdobrava em força p o lític a ”, v erd ad eira “a risto c ra c ia r u r a l”.3 Essa im agem era tal­
vez ad eq u ad a à fa m ília existen te nas p lan taçõ es de c an a-d e -a ç ú c a r ou de café. Mas.
que se passava nas regiões em q ue im p eravam as ativ id ad es de extração? O u naquela
em que se fazia um a a g ric u ltu ra de su b sistên cia, através do cu ltiv o de pedaços de
terra relativam en te pequenos?
N ao é só. A descrição acim a supõe q ue a fam ília p atriarcal — com seus aparenta
os, nem sem pre ligados entre si por laços dc san gu e — tenh a sido nucleada ape113
por casais brancos, nunca m estiços ou m isturados. Essa id éia não é correta, s o b r e t u 0
quando se trata do m eio urbano, helizm ente, algu n s (raros) trabalhos de demograf
istóríca propõem novos esquem as m etodológicos. É o caso, po r exem plo, do estu

• 142
L iv ro III - A F a m ília B a ia n a
143

pioneiro, de M a ria L uiza M a rc ílio , sobre a população de São Paulo entre 1750 e
1850/ que retom a a d efin ição clássica de fam ília e a estende aos numerosos pais e
mães celibatário s então ex isten tes/ A crescenta ain d a a noção de ‘d o m icílio ’,6 local
onde viviam co m u n id ad es co n stitu íd as p rin cip alm en te por mem bros de um a fam ília
— ascendentes, netos e outros parentes, além de em pregados c hóspedes — que
com partilhavam o m esm o teto do chefe. Pode-se associar esse conceito ao de ‘fogos’,
usado nos antigo s recenseam en tos brasileiros. D e acordo com a ausência ou a presença
de um ou m ais chefes de fam ília, M a ria Luiza M arcílio distin gu e, entre a população
livre, três tipos de d o m icílio s — com apenas um chefe, com vários chefes e sem chefes
— por sua vez su b d iv id id o s em diversos tipos de associações fam iliares.7
E studando o caso de V ila R ica (M in as G erais), Iraci dei N ero da C osta8 propôs
outra classificação, m u ito ú til, sobretudo q u an d o se trata de d eterm in ar o tam anho e
a estrutura dos grup os do m éstico s. Ela parte de duplo critério; o institucio nal {família
livre ou escrava) e o ligad o aos costum es (fam ília in d ep en d en te ou dependente). Neste
últim o caso ap areciam os agregad o s — parentes ou am igos pobres, ou então escravos
alforriados — que existiam em todas as regiões do B rasil, tanto no cam po como na
cidade. E m bora livres, m an tin h am laços dc d ep en d ên cia e subordinação em relação ao
chefe das fam ílias q ue os h aviam recebido . É eviden te q ue essa classificação é ú til para
determ inar o tam an h o e a estru tu ra dos grupos dom ésticos.
Seria interessante ten tar u m a classificação que pudesse servir para várias regiões
brasileiras, de m odo a p e rm itir com parações entre as estruturas fam ilíais. Além disso,
é essencial d istin g u ir fam ílias form adas por pessoas livres, alforriadas ou escravas, para
que se possam cap tar as m o b ilid ad es sociais e afastar a idéia de um a sociedade bloquea­
da, dual, que o p u n h a, sem nuances, senhores brancos e escravos negros.
A dotei um m étodo d iferen te, q ue m e pareceu útil para estudar prim eiro a fam í­
lia nuclear, elem entar, b io ló gica, base de toda associação fam iliaf/ No Brasil, essa
fam ília era legítim a {ou seja, abençoada pela Igreja) ou natural. Sobre esta ultim a
— que podia scr form ada por um chefe m asculino, um a m ulher agregada e seus
filhos, se existissem — há poucos docum entos. A crescentei ainda os casais sem fi­
lhos (que criam problem as dc classificação, pois dizem respeito a três casos diferen­
tes: casal constituído cm idade tardia, casal sem filhos sobreviventes, e casal que
ainda não teve filhos) c as mães ou pais solteiros (não necessariamente a procriação
exigia coahitação prolongada; os atos cartoriais dc reconhecim ento de filhos natu­
rais mostram que era com um que homens c mulheres tivessem vários filhos com
pessoas diferentes). , _
Para encontrar todos os tipos de a sso c ia ç õ e s que não fossem do tipo da família
simples, enfoquei depois os grupos domésticos, ou seja, conjuntos de pessoas que
compartilham o mesmo espaço dc v id a".111 M eu csrudo, que cobre o período 1800—
1890, se baseia essencialm ente cm duas séries de documentos; o recenseamento reali­
zado cm 1855 na cidade de Salvador e 1.101 inventários p ost m ortem ( 7 15 de homens
c 386 dc m ulheres), feitos por pessoas, livres ou alforriadas, de todas as camadas sociais
144 B a h ia . S é c u l o XIX

d e Salvador. Aparecem tam bém inform ações sobre as fam ílias dos escravos q Ue pert
ctam aos tesradores.
Q uase rodos os docum entos do ccnso dc 1835 foram destruídos ou dçsaparec
ram . Restaram dados sobre cinco quarteirões, localizados cm quarro das onze par^_
quias da cidade: Sé, San to A ntônio A lém do C arm o , São Pedro e P ilar.11 Trabalh ‘
com apenas três delas — 21-* e 2 2 a da Sé c 10a do P ilar, q ue abrigavam ao todo \\\
fa m ílias— pois só nesses casos pude estabelecer os graus de parentesco dos integrantes
dos grupos dom ésticos. Para o estudo sobre a fam ília alfo rriada, utilizei uma terceira
série, form ada por 482 testam entos de escravos alforriados na Bahia no século XIX

F a m íl ia L egal e C o n s e n s u a l l

Jo h ild o Lopes de A thayde escreveu um pio n eiro estudo dem ográfico sobre a cidade de
Salvador no século XIX, recenseando as três grandes variáveis — batism os, casamentos
e óbitos. M as não prosseguiu em direção a u m a an álise aprofun dada da família baiana.
N ão obstante, encontrei nesse trabalh o inform ações m u ito úteis, como a média anual
de casam entos em períodos de dez anos. Enrre 1800 e 1839 essa m édia oscilou entre
198,7 e 2 0 4 ,7 ; na década de 1840, caiu para 182 ,5 ; entre 1850 e 1889 houve progres­
são contínua: 2 7 1 ,3 (1 8 5 0 -1 8 5 9 ), 2 9 2 ,7 (1 8 6 0 -1 8 6 9 ), 3 5 8 ,7 (1 8 7 0 -1 8 7 9 ) e 401,6
(1 8 8 0 —1 8 8 9 ).12 O forte aum en to observado na passagem da década de 1840-1849
para a de 1 8 5 0 -1 8 5 9 (4 8 ,6 ) perm ite duas explicações, com plem entares entre si: as
epidem ias de febre am arela e de cólera tornaram m ais forte o medo da morte, levando
m aior núm ero de casais a regularizar suas situações, ou a Igreja aum entou sua influen­
cia, tornando-se m ais rom ana e, portanto, m ais severa em m atéria de moral. Seja como
for, o núm ero de casam entos dobrou ao longo o século XIX.
C om o disse, para estudar a situação ju ríd ica da fam ília baiana, recorri a informa­
ções dos 1.101 inventários p o st m ortem já m encionados e do recenseamento de 1855-
Os prim eiros possibilitaram a identificação de 772 fam ílias e o segundo de 11L entre
146 grupos dom ésticos.
N o u n iv erso re tratad o nas d u a s séries d e d o c u m e n to s , a so m a dos casais e das
pessoas viúvas q u e tin h a m filhos vivos ch e g av a a 8 2 % do total. P recisam os tentar saber
se os 18% restantes tin h a m filhos falecido s, N o re c e n se a m e n to nad a se diz sobre is>n.
em b ora apareça a id ade dos dois parceiros; nos in ven tário s o c o n trário se dá: fornecem -
se a idade e o n ú m ero dc filhos falecidos, m as ra ram e n te sc diz a idade dos cônjuges.
I rês dos cinco casais sem filhos citados no recen seam ento dc 1855 haviam ultra
passado a idade dc procriação. C asa m e n to s tardios e ram então bastante freqüentes,
fosse para legalizar an tig as u n iõ es livres, fosse para u n ir u m a pessoa viúva a outra.
Doações feitas a um dos esposos m uitas vezes explicitavam a situação, hntre 1806®
1 861 , por exem plo, foram celebrados 8 2 2 casam entos na paróquia do Paço, vizín a
à da Sé, localizada no centro d a C id a d e Alta; 2 1 ,6 % dos ho m ens e 11,9% das
U v ro III - A F a m ília B a ia n a
145

m u lh eres n eles en v o lv id o s tin h a m m ais d e q u a re n ta a n o s .13 N a m a io ria desses ca­


sos, tratav a-se d e pessoas a lfo rria d a s, o q u e não i estran h o : a alfo rria era m ais fre­
qüen tem en te co n seg u id a em id a d e relativ am en te avançada. H avia tam bém portugueses
pobres q u e se casavam tard e p o rq u e , d u ra n te m u ito tem p o , v iv iam a exp ectativa de
fezer fo rtu n a e re to rn a r à p á tria . Em q u a lq u e r caso, os casais recém -legalizado s eram
m uiro aco lh ed o res em re laç ã o aos filh o s n a tu rais já existen tes. D os 58 viúvos ou
viúvas reg istrad o s em nosso q u a d ro , n o ve tiveram filh o s que faleceram sem d eixar
d escen d ên cia e nove e ra m e stra n g e iro s (q u a tro african o s alfo rriad o s, três p o rtu g u e­
ses, um e sp an h o l e u m fran c ê s).

TABELA 23

F a m ília s L e g a is (1 8 0 0 -1 8 8 9 )

F a m Ilia L e g a l R ecen seam ento de 1855 I n v e n t Aíu o s T otal

Casais com filhos 31 (5 0 ,0 ) 464 (60 ,0) 495 (59,5)

Casais sem filhos 5 (8,3 ) 85 (10 ,9 ) 90 (10 ,8)

Viúvos com filhos 5 (8,3 ) 94 (12 ,2 ) 100 (12 ,0 )

Viúvas com filhos 19 (3 1,6 ) 71 (9,2 ) 90 (10 ,8 )

Viúvos sem filhos I (1,7 ) 16 (2,0 ) 17 (2,0)

Viúvas sem filhos 1 (1 .7 ) 42 (5,4 ) 43 (5 .D

Toral 62 (10 0 ,0 ) 772 (100 ,0) 835 (100,0)

Entre as 6 2 fa m ília s leg a is recen seadas em 1 8 5 5 , q u aren ta eram brancas, dezesseis


m ulatas e so m en te seis n egras, d istrib u iç ã o q u e não co rresp o n dia de jeiro nenhum ao
peso de cad a e tn ia n a p o p u lação b a ian a, fo rm ad a por cerca de 5 0% de negros, 20% de
m estiços e 3 0 % de b ranco s. A ssim , pode-se d izer que, em p rim eiro lugar, as pessoas
livres e, depo is, os b ran co s eram p ro p o rcio n alm en te os q u e m ais se apresentavam para
obter a bênção m a trim o n ia l. M as, q u an d o repartim os os chefes de fam ília por cor e
profissão, v erificam o s q ue o casam en to legal representava um a espécie de ascensão
social para o casal m estiço ou negro, q ue dessa form a assim ilava os valores do grupo
branco d o m in an te. U m a u n ião legal con feria, a um negro ou m estiço, a respeitabili­
dade necessária a um a assim ilação , que facilitava a conquista de um a posição social
m e lh o r p a ra os filh o s .
Só encontrei q u atro casam entos legais envolvendo pessoas brancas e de cor. Em
dois deles, hom ens m ulatos — professores, profissão m uito prestigiada se casaram
com m ulheres brancas; no outro, não aparece a profissão do m arido (tam bém m ulato),
que, no entanto, possuindo três escravos, com certeza tinha uma situação financeira
aceitável. N o q uarto caso, um português, dono de arm azém , casou-se com um a m ulata.
Com que idade as pessoas sc casavam na Bahia? Os números apresentados por
Johiido A thayde para as paróquias do Paço (1 8 0 6 -1 8 6 1 ) e da Conceição da Praia
146 B a h ia , S é c u l o XIX

(1 8 5 5 -1 8 6 5 ) perm item algum as co n clusõ es.14 A p rim eira, como vimos fí


C id ad e A lta, perto da C ated ral, em pleno coração do d istrito residencial, enquan ^
segunda estava na C id ad e B aixa, no d istrito com ercial da cidade. Nas duas paró ° a
a m édia de idade dos hom ens ao casar (29 anos) era sensivelm ente superior
m ulheres (24). A m aio ria destas se casava entre 15 e 24 anos e os homens, entre 20
34 anos. Ignoro com o essas m édias se repartiam dentro das diversas camadas socia ?
especialm ente no que d izia respeito a pessoas livres, alforriadas e escravas.

TABELA 24

C o r e S ituação P ro fissio n a l dos C hefes d e F amília


segundo o R ecen seam ento df. 1855

P r o f issã o B ranco M u lãto N egro

Magistrado I - -

Escrivão 3 ■ - ■ -

Procurador de Justiça I - -

Escrevente - 1 -

Servidor público 8 I -

Advogado 1 - . -
Médico 1 - - _
Mestre - I -

Proprietário 1 - -

Comerciante 5 - -

Empregado no comércio 2 - -

Marítimo 1 - -

Ourives - - I

Correeiro 1 - -

Artista 1 -

Pedreiro - 1 I

Marceneiro - 1 -

Pintor dc paredes - 2 -

Chapeleiro - 1 -

Tanceiro - - 3

Euniiciro - I -

Açougueiro _ 1 1

Sem profissão 2 3 1

Total 28 13 5
__ ____ _________ L iv ro III - A Família B aiana 14 7

h'. •
$:= ■ ■

. TABF.LA 2 5

. R e pa r t iç ão d o s C a sa m e n t o s s e g u n d o a Idade
n a s P a r ó q u i a s d o P a ç o ( 1 8 0 6 - 1 8 6 1 ) e C o n c e i ç ã o d a P raia ( 1 8 5 5 - 1 8 6 5 )

C o n c eiçã o lia P raia

I dade ao C asar H omens M ulh eres H o m fn s M l’[ HERE5


até 15 anos - . - 12 (2.9) - - 11 (4,6)
de 15 a 19 21 15,1) 126 (30,7) 7 (2,9) 70 (29,1)
de 20 a 24 88 (21,4) 94 (22,9) 53 (22,2) 62 (25.8)
de 25 a 29 115 (27,9) 65 (15,9) 61 (25,5) 30 (12.5)
de 30 a 34 60 (14,6) 40 (9,8) 37 (15,5) 15 (6,3)
de 35 a 39 39 (9,4) 24 (5,9) 19 (7,9) 11 (4.6)

de 40 a 44 43 (10,4) 30 (7,3) 22 (9,2) 17 (7,1)

de 45 a 49 11 (2,7) 7 (1.7) 10 (4,2) 8 (3,3)

50 ou mais 53 (8,5) 12 (2.9) 30 (12,6) 16 (6.7)


410 (100,0) O
O
O
Total 430* (100,0) 239 240 (100,0)
(*} Este total é falso. Com efeito, se somarmos o número de cônjuges da paróquia do Taço, apresentado pelo próprio autor
na tabela publicada na p. 323 de seu trabalho, encontramos 822, ou seja, 411 pessoas de cada sexo. O mesmo pode ser
constatado para o caso da paróquia de Conceição da Praia.
Fonte; Johildo Lopes de Athavde, La Ville d e S alvador au À7AT sih le. Aspects dim ogretpbitpiei UVaprh lei registres paroustJtLx),
p. 325 e 329. '

O tam anho das fam ílias legais tam bém é um dado que perm anece vago quando se
consultam inventários e o recenseam ento de 1855. Nos melhores casos, obtêm-se fo­
tografias’, que captam um instante preciso- A busca de uma sucessão de imagens da
mesma fam ília constrói o m ais das vezes um a história irregular e hesitante. Na tabela
abaixo, incluí casais ou pessoas viúvas com filhos; depois, contei todas as crianças, mesmo
as falecidas, deixando de fora só os filhos naturais que náo moravam com os pais.

TABELA 2 6
T amanho da Fa m í l i a L e g a l , 1 8 0 0 - 1 8 9 0

T otai de TO I AI DE
N ° DF. HLHOS R l CRNSFAMENTO I n v e n t á r io s
PAMll IAS FILHOS
Dl. 1 8 5 5 po st SiORlPM

126 ( 1 8 ,5 ) 126 (5 ,0 )
1 14 112
127 ( 1 8 .6 ) 254 (1 0 ,2 )
2 13 114

11 8 ( 1 7 .3 ) 354 (| 4 ,2 )
3 11 107

11 2 ( 1 6 ,4 ) 448 ( 1 8 ,0 )
4 5 107

63 (9 ,2 ) 315 ( U ,6)
5 4 59
54 ( 7 .9 ) 324 ( 1 3 ,0 )
6 3 51
81 (1 1 ,9 ) 669 (2 6 ,8 )
7 o u m ais 2 79
681 ( 100, 0) 2 ,4 9 0 (1 0 0 ,0 )
T o ta l 52 629
B a h ia , S é c u l o X IX
148

Fica claro que a fam ília legal na S alvad o r do século X I X era de tam anho m édi0-
70% delas tinham entre um e quatro filhos, e apenas 12% podiam ser consideradas
num erosas. Estas concentravam -se entre as cam adas m ais abastadas, pois, em 90% d0s
casos, tinh am com o chefe um profissional lib eral, um alto funcionário ou um grancje
com erciante. Para o con jun to da cidade, a m éd ia era de 3 ,7 filhos por família.
A tabela seguinte leva em conta, de um lado, casais casados e pessoas viúvas sem
filhos; de outro, casais e viúvos com filhos vivos, d e m enos de 20 anos e que viviam
com os pais. O recenseam ento fornece a id ad e dos cônjuges e de seus filhos, mas os
inventários, nem sem pre. N eles, com o v im o s, o m itia-se a p ró p ria idade do falecido.
Para um a m aior aproxim ação com a realid ad e, u tiliz ei apenas os inventários que
forneciam as idades dos filhos. D eve-se registrar, porém , que, em Salvador, os estudos
de reconstituição de fam ília sao esp ecialm en te d ifíceis, pois o costum e perm itia que,
depois de casadas, as m ulheres conservassem o no m e de so lteira. M u itas vezes, elas
utilizavam apenas o prenom e ou davam aos filhos (do m esm o p ai) nomes de outra
fam ília. Os filhos de sexo m ascu lin o p o d iam receber o nom e da fa m ília de um parente
ou am igo que se desejava h o m en agear.

TABELA 27

Fam ílias sem F ilh o s e c o m F ilh o s V iv o s de M enos de 20 A nos

N° DE FILHOS R e ce n sea m e n to I n v e n t á r io s T otal de


de 1855 POSTMORTEM FILHOS

0 7 (17,0) 155 (36,8) - -

I 10 (24,3) 66 (15,7) 76 (8,5)

2 6 (14,6) 65 (15,4) 142 (15,9)

3 7 (17,0) 50 (11.8) 171 (19,1)

4 2 (4,9) 36 (8,5) 152 (17,0)

5 5 (12,2) 23 (5.6) 140 (15.7)

6 2 (4,9) 11 (2,6) 78 (8,7)

7 ou maís 2 (4,9) 15 (3,6) 134 (15,0)

Total 41 (100,0) 421 (100.0) 893 (100,0)

Tanto no recenseam ento com o nos inventários, era grande a presença de casais e
dc pessoas viúvas sem filhos: 3 6 ,8 % , em m édia, percentual m aior do que aquele
relativo aos casam entos tardios. Seriam casais 'velhos’? Não me parece. Em S a lv a d o r,
a morte atingia jovens dc todas as ídades e condições sociais. Não se pode considerar
certo que os viúvos acim a citados nunca tenham tido filhos, pois estes podeni ter
morrido antes dos próprios país. Por outro lado, a repartição de filhos por família é a
mesma que a da tabela precedente, mas houve um a dim inuição im portante das farní'
lias numerosas, em clara correspondência com os elevados índices de mortalidade do
século XIX, repleto dc epidem ias. São, aliás, abundantes as informações sobre os luto*
L iv r o III - A F am ília B aian a
149

nas fam ílias baianas, 60% das quais perdiam a m etade de seus filhos antes da m orte de
um dos pais. U m exem plo entre m il: Francisco Adães V ilas Boas, rico com erciante
português falecido em 1885, declarou em seu testam ento ter tido doze filhos, dos
quais seis m ortos em tenra idade. ’
As fam ílias de Salvador tinh am , em m édia, 1,9 filho (núm ero que subiria para três
se excluíssemos os casais e as pessoas viúvas sem filhos). Eram, portanto, pouco num e­
rosas, por causa da gran de m o rtalidade in fan til e ju ven il, da idade relativam ente
avançada dos nubentes e dos segundos casam entos (note-se que a m édia encontrada
em São Paulo por M a ria Luiza M arcílio está m uito próxim a da m inha: 1,8 filho por
fam ília em 1 7 6 5 ).15 C o m o explicar então o aum ento da população da cidade e seus
grandes índices de crescim ento? A resposta se encontra na proporção, m uito elevada,
de filhos ilegítim o s nascidos em Salvador. À fam ília legal, acrescentava-se a consensual,
que vamos analisar agora. /

A F a m íl ia C o n se n su a l . ’

Fundada apenas no con sen tim ento m útuo dos parceiros, a fam ília consensual não era
reconhecida nem pela Igreja nem pelas leis, mas era encarada sem maiores problemas
pela sociedade baiana desde o in ício da colonização. Influenciados por essa forte cor­
rente de tolerância e preocupados em proteger as crianças, os legisladores contribuí­
ram para dar a essas uniões algum a existência legal, graças ao estatuto oferecido aos
filhos reconhecidos.
Johildo A thayde m ostrou que, entre 1856 e 1865, na paróquia da Sé, 45,7% dos
homens e 51,5% das m ulheres — portanto, quase a m etade da população — perma­
neciam definitivam ente celib atário s.16 O estado civil dos nossos recenseados confirma
esses dados?

TABELA 28

E sta d o C iv il d o s C h efes de F a m íl ia , se u s C ô n ju g e s e s e u s A gregados

E stauo C r vh . R e c e n se a m e n to de 1855 I n v e n t á r io s r o s r m o u te m T o tal G eral

MlJt.Hf.llES H o m f .ns M ulheres H omens

121 203 488 ( 3 5 .9 )


CcliLatírio* 110 54

Casados 148 40 1 62 1 (4 5 .7 )
36 36

Viúvos 113 110 249 (1 8 .3 )


6 20
Total 3B 2 714 1 .3 5 8 (1 0 0 ,0 )
152 110

Baseada no recenseamento dc 1855, esta tabela inclui os solteiros adultos que não
viviam em concubinato c não tinham filhos. Quase 36% dos recenseados estavam
nessa condição! Se fossem utilizados apenas os dados fornecidos pelos inventários post
B a h ia , Sécu lo X IX

m ortem , o percentual cairia para 2 9 ,6 % , m uito m enor que o obtido por Johildo
A thayde (que não distin gu e escravos e livres). iMas os inventários só diziam respeito a
um núm ero restrito de baianos, ou seja, aqueles que legavam heranças. Tomemos
como exem plo a década dc 1850, para a qual apurei p raticam en te todos os inventários
p o st m ortem . Segundo o estudo de A thayde, nessa época a m éd ia anual de óbitos em
Salvador — cidade com cerca de o iten ta m il h ab itan tes — era de 2.755,5 pessoa
considerando-se todas as condições ju ríd icas. Era um período de epidem ias, e o ín­
dice bruto de m o rtalidade atin g ia 3 4 ,4 % (Jo h ild o A thayde fornece, para 1805, um
índice de m ortalidade de 3 0 ,2 % . Para 1872, de 2 4 ,7 % ). H avia na cidade aproxima­
dam ente 1 0.870 escravos, um ‘esto qu e’ que, o ficialm en te, parara de se renovar desde
a abolição do tráfico, em 1 8 5 0 .17 Pode-se ad m itir que o ín d ice de m ortalidade dos
escravos era, pelo m enos, o dobro do existente entre a população livre; afinal, mal
nutridos, m al tratados, fazendo econom ias para poder com prar sua liberdade, eles
enfrentavam condições de v id a m u ito du ras, apesar de serem m ais independentes que
os escravos rurais. A m o rtalidade in fan til representava cerca de 30% dos óbitos. Res­
tam então, para os adultos livres, cerca de 6 4 2 ,3 óbitos an u ais em m édia. Ora, traba­
lhando apenas com falecim entos ocorridos na década de 1850, disponho de uma
m édia de 3 1,4 inventários por ano, feitos entre u m a cam ad a social que representava
apenas 4 ,9 % da população ad u lta. É pouco,
D isponho de outro recurso para m in h a pesquisa sobre os celibatários definitivos:
as raras listas eleitorais ain d a existentes. T om em os, por exem plo, a lista feita em 1857
na paróquia de São Pedro, situada na C id ad e A lta e v izin h a da Sé. Com o esta, era uma
paróquia residencial, habitada sobretudo por funcionários, pessoas que exerciam pro­
fissões liberais ou ofícios artesanais. Entre os 2 0 6 eleitores que já haviam ultrapassado
os cinqüenta anos, 1 5 2 eram viúvos ou casados ( 7 3 , 8 % ) e 5 4 eram solteiros ( 2 ó ,2 % ),
São números mais próximos do resultado de m inhas contas do que daquele apresen­
tado por Johildo A thayde. Não há dúvida de que as listas eleitorais privilegiavam
certas classes, pois o sistem a era censítário. M as o patam ar de rendas solicitado era tão
baixo (200.000 réis anuais) que figuram nesses docum entos pessoas humildes, como
pescadores, remadores e vendedores. É provável que um percentual situado entre os
4 5 % de Athayde e os meus 3 0 % corresponda à realidade baiana. Em qualquer caso,
fica claro que o celibato era um fenômeno im portante em Salvador.

U n i õ e s L iv r e s

C onvicção, escolha ou coação in d uziam as pessoas ao celibato ? Q u e relação tinha esse


fenômeno com a form ação de fam ílias consensuais? Seria tudo isso um traço caract£
rístico das sociedades escravocratas?
C o m um núm ero bem m enor de escravos, tanto em term os relativos como abso
lutos, Portugal experim en tara u m a verdadeira “crise de po p u lação ”, agravada p d 3
L ivr o III - A F amília B aiana 151

expansão colonial, a ponto de a Igreja e o Estado passarem a adm itir uniões extralegaisJ^
U m a sim ples declaração de vida com um resolvia a questão, exim indo-se os mais
hum ildes da grande despesa representada pela convocação de um padre. O casamento
religioso só se tornara obrigatório em Portugal no scculo XVI, o que, evidentem ente,
não im pedira a existência dos am ores clandestinos que resultavam em ‘casamentos a
furto’ e ‘casam entos de p ú b lica fam a’ .
Essas práticas foram acentuadas no B rasil, com o afluxo de homens e a falta de
m ulheres de raça b ranca. U m a trad ição de celibatos e de form ação de fam ílias
consensuais nasceu e crio u profundas raízes na sociedade baiana. T an to os hum ildes,
às vezes pobres dem ais para assum ir as despesas de um a cerim ônia religiosa, quanto os
mais abastados recuavam d ian te das im posições do casam ento legal, como por exem­
plo a educação dos filhos e a obrigação de sustentá-los. A tabela abaixo ajuda a avaliar
a proporção de fam ílias consensuais na Salvador do século XIX.

TABELA 29

F a m íl ja L e g a l e F a m íl ia C o n se n su a l n a B a h ia

F a m íl ia L e g a l F a m íl ia C o n s e n s u a l

R e c . de I n v e n t á r io s T otal R ec. de I n v e n t á r io s T o ta l
1855 (1800-1899) 1855 (180 0-18 89 )

Casai com filho 35 464 499 17 - 17

Casal sem filho 5 85 90 18 - 18

Viúvo com filho 5 94 99 - - -

Viúva com filho 19 71 90 - - -

Viúvo sem filho 1 16 17 - - -

Viúva sem filho 1 42 43 _ - -

Mãe celibatária - - - 32 41 73

Pai celibatário* - - - 3 312 315

Total 66 772 838 70 153 223

C) Excluídos os celibatários sem filhos.

Segundo o recenseam ento de 1855, 52,2% dos casais viviam em união livre. Mas,
segundo os inventários p o st m ortem , esse índice seria de apenas 16,5% . A grande
diferença se explica: esta últim a fonte não inform a com precisão sobre a eventual
coabitação de um a pessoa solteira com alguém do sexo oposto, O recenseamento
parece tratar a questão de form a mais precisa, de modo que se pode dizer que a fam ília
consensual era, na B ahia, m ais dissem inada que a legal.
Casais com filhos e pais ou mães solteiros eram , por sua vez, m uito mais freqüen­
tes do que rasais sem filhos. N a série dos inventários, os homens representavam 73,2%
das pessoas celibatárias com filhos; no recenseamento a relação se invertia: eram m u­
lheres 89,2% dos solrciros com filhos. Podemos resolver essa contradição atentando
152 B a h ia , S éc u lo XIX

para a p ró p ria natureza dos dois docum entos. Às vésperas da m orte, os pais r e c o n h
ciam seus filhos, para que estes pudessem herdar; até então, na m aior parte das veze
a prole ficava in teiram en te aos encargos da m ãe. ’
N a década de 1850, os inventários p o st m ortem registraram 121 mulheres e 203
hom ens celib atário s. N o recenseam ento de 1855 só apareceram 110 homens e 54
m ulheres nessa condição. N en h u m desses hom ens era português ou alforriado e só
um a m u lher figurava com o alfo rriada. M as a form a de elaboração do recenseamento
não perm ite u m a resposta precisa ao problem a que m e interessa aqui. Raramente os
inventários indicavam a id ad e e a cor do falecido, a não ser quando ele fosse filho
natural ou escravo alfo rriad o . E ntre as q u aren ta m ães celib atárias cujo testamento
consultei, cinco eram african as alfo rriadas e seis eram filhas naturais. Não se deve
esquecer que, na Á frica, o casam ento não era celebrado segundo as mesmas regras do
Brasil ‘lu sitan izad o ’ e católico, A gran d e m aio ria das m ulheres celibatárias era, sem
dú vid a, b aian a. Os hom ens, não; eram de o rigem européia 3 0 % e africana (alforria­
dos) 12% dos 112 celib atário s cujos in ven tário s co n su ltei. A ssim , os recém-chegados
perpetuavam , em Salvado r, o costum e da u n ião livre.
Seria possível d efin ir a cor e o estatuto profissional desses pais e mães desacom­
panhados de cônjuge? O recenseam ento de 1855 forneceu inform ações úteis, mas
o m itiu as profissões das m ães de fam ília. Sabem os, no en tan to , que quase todas as
integrantes de cam adas urbanas m enos favorecidas exerciam ofícios variados. Vendedoras
am bulantes, lavadeiras, costureiras, passadeiras, am as-d e-leite, bordadeiras e rendeiras
form avam um a população d ilig en te e ativa, que percorria as ruas de Salvador, freqüen­
tem ente acom panhada d a filh arada b aru lh en ta e alegre, que anim ava uma cidade
atravancada, ativa e tagarela.

TABELA 30

O r ig e m d e P a is e M A e s C e l i b a t á r i o s ,
s e g u n d o I n v e n tá r io s , 1 8 0 0 -1 8 9 9

B r a sil e ir o s E u ro peus A p r ic a n o s

Pais 57 43 12

Mães 37 - 4

Q u ase se m p re os in v e n tá rio s p o s t m o r tem d iz ia m resp eito a pessoas que deixavam


bens. Por isso, fo rnecem m u ito s d ad o s sobre o e statu to profissional dc homens e
m u lh e re s cujos bens estavam sen d o in v en tariad o s, m as — a não ser q u a n d o se tratava
d c estrangeiros ou d e africano s alforriad os — não m e n c io n am a cor ou o país de
origem do falecido. A d m iti q u e , nesses casos, tratava-se dc brasileiros, que totalizaram
94 dos 153 casos estu d ados. C h a m a a aten ção o faro d e q u e 3 9 % das rendas das 37
m ães celibatárias p ro vin h am da locação dc escravos, u m a fonte d e renda m uito impor
tante até a d écad a de 1 8 6 0 , sobretudo para as cam adas sociais mais humildes da
L eyro III - A F amília B aiana 153

sociedade baiana. O utra fonte, que contribuía com 34,1% das rendas das mães celiba­
tárias, eram os aluguéis de casas próprias ou tidas em usufruto, de ações bancárias, de
apólices da dívida pública e de em préstim os concedidos a terceiros.19
Q uantas mães celibatárias não tinham recursos para educar os filhos sem ajuda?
No levantam ento que realizei, apareceram sete mulheres m uito pobres, para as quais

TABELA 31
S i t u a ç ã o P r o f i s s i o n a l e P a í s d e O r i g e m d e P a is e M ã e s S o l t e i r a s ,
s e g u n d o I n v e n t á r i o s p o s t m o r t e m , 1 8 8 0 -1 8 8 9 ’
P r o fu são P ais S o l t e ir o s M ães S o lt e ir a s T o tal

B r a sile iro s E uro pfajs A f r ic a n o s BHASILErRAS EUROPÉIAS AFRICANAS

Senhor de engenho 1 - - - - - 1
Negociante - 4 - - - . - 4
Proprietário - 2 - - - - 2

Padre 7 - - - - - 7

Mestre 1 - - - - - 1
Funcionário público I - - - - - 1

Comerciário 1 22 - - - 3
Militar 5 2 - - - - 7

Dono de barco 1 2 I - - - 4

Comerciante 4 20 - - - 2 26

Rentisu 12 4 2 14 - - 32

Alugador de escravos 7 2 2 1 4 - 2 27

Fazendeiro 2 - - - - - 2

Agricultor 4 2 - 2 - - 3

Músico - - 1 - - - 1

Barbeiro - - 4 - - - 4

f sneeiro I - - - - - I

Sapateiro 1 - - - - - 1

Caldeirei ro - - 1 - - - I

Carpinteiro 1 _ - - 2
I -

Funileiro - - - - 1
I -

Padeiro - - ‘ 2
1 t -

Pescador - _ _ - 1
1 -

- _ - - 1
Chapeleiro 1 -

7 - “ 13
Nío declarada 4 2 -

Total 12 37 - 4 153
57 43
B a h ia , S é c u lo XIX

houve inventário, mas não o q ue in v en tariar; ao m orrer, deixaram enum erados vesti
dos surrados, baús, cadeiras, cam as c mesas. Q u an to aos hom ens, seis eram pratica
m ente indigentes. Q uase todos exerciam u m a profissão q u e lhes perm itia suprir as
necessidades, e a m aior parte dos 9 ,8 % q ue “v iviam de suas rendas" eram antigos
com erciantes de pequeno porte, artesãos ou Iocadores de escravos. A grande maioria
dos pais celibatário s trabalhava no pequeno com ércio , na produção de artesanato ou
no cultivo de terra alh eia; 3 8 ,4 % deles eram de origem européia.
As uniões livres eram pois p raticadas sobretudo nas cam adas sociais inferiores e
entre im igrantes europeus. Os dados do recenseam en to de 1855, relativos ao estatuto
profissional das pessoas pesquisadas, co n firm am o q ue consta nos inventários post
m ortem : os pais celibatário s e os chefes de ‘fa m ília co n sen su al’ exerciam ofícios ou
em pregos que os situavam nas cam adas inferiores d a população urbana; 70,2% eram
hom ens de cor, o q u e corresponde à com posição racial d a cidade. Os mesmos dados
sugerem que as uniões extralegais eram p raticad as tan to entre negros como entre
brancos e m ulatos, e q u e os pais celib atário s eram raros nas cam adas sociais mais
abastadas. Essa d u p la afirm ação m e parece coerente com o que sabem os sobre a vida
e os costum es dos baianos. E ntre as 3 2 m ães solteiras registradas no recenseamento de
1855, havia quin ze m u latas, q uatro negras e treze brancas. Este ú ltim o número não
deve espantar: tratava-se de m ulheres h u m ild es, pois apenas quatro delas possuíam
escravos (duas das m ulatas tam bém os p o ssuíam ). V iviam sós ou, algum as vezes, com
a mãe ou um a agregada.
Casais de todas as cores de pele viviam livrem en te unidos, m as em geral os dois
parceiros tinham a m esm a cor. M esm o assim , as uniões livres entre pessoas de cores
diferentes eram m ais freqüentes que os casam entos nessas m esm as condições. Só encon­
trei três casam entos mistos no recenseam ento de 1855. Eis o levantam ento completo
dos casais concubinos, com a referência d a cor dos dois parceiros; sete brancos com
brancas; três brancos com m ulatas; dois brancos com negras; oito m ulatos com mula­
tas; dois m ulatos com brancas; quatro m ulatos com negras; nove negros com negras;
nenhum negro com m ulata ou branca. Entre os nove ‘casais’ negros, seis eram de
parceiros africanos. Dos três restantes, um era form ado por duas pessoas negras nasci­
das no Brasil e dois outros por negros brasileiros unidos a africanas. Em contrapartida,
os brancos c m ulatos que viviam com negras as escolhiam entre as nascidas no B ra s il.
Voltaremos a essa questão quando tentarm os com preender como, na Bahia, ocorriam
a ascensão social c o processo dc ‘em branquccim enco’, ou seja, a passagem da categoria
de ‘m ulata’ para 'branca’.
P artin d o do re cen seam en to de 1 8 5 5 , a tabela 3 2 nos fornccc o n ú m ero de filhos
vívos nas fam ílias legais e nas co n sensuais. ,
O percentual dc casats sem filhos era mais elevado no caso d; ts fam ílias consensuais,
o que nad a tem de espantoso: 1/3 dos casais d c co n cu b in o s sem filhos era íorm ado p ° r
africanos alforriados com m aís dc q u a re n ta anos; outra terça parte também havi
ultrapassado a m esm a faixa etária. Pode-se c o n c lu ir q u e as u n iõ es livres se formavrlt1
L ^ -r o III - A F a m íl ia B a ia n a

t a b e l a 32
C o r e S itu a ç ã o P r o f i s s i o n a l d o s C h e f e s d e F a m ília
C o n s e n s u a l s e g u n d o o R e c e n se a m e n t o de 1 8 5 5 *

S i t u a ç Ao P r o f i s s io n a l R rancos M ulato s N FOROS T otal

Escrivão 1 - -
1
C opista 1 I - 2
Policial - 1 - 1
C om erciante 3 - - 3

C om erciârio 1 - - 1
G a n h ad o r" - - 6 6
M arinheiro ’ - 1 - 1

Pescador 1 - - 1

A çougueiro - - 1 I

C arp in teiro - 1 - 1

Sapateiro - 2 - 2

M arceneiro 1 1 - 2

Pedreiro - - 1 1

T aneeiro 1 - - 1

Funileiro 1 1 - 2

T in tureíro 1 - - 1

A lfaiate - 3 - 3

M úsico - I - 1

Sem profissão - 4 2 6

T otal 11 16 10 37

(*) Não estão computadas as mães solteiras. (**) Termo empregado para carregadores de ca­
deiras, vendedores ambulantes c assemelhados.

tardiam ente ou evitavam resultar em filhos? T alvez, Pelos testam entos e os atos cartoriais
que registravam doações, vc-se q ue vários desses casais se form avam em idade mais
avançada, m ovidos m ais po r busca de co m p an h eirism o e fuga à solidão do que pe
expectativa de form ar u m a fam ília.
A fa m ília co n sen su al era responsável por 4 9 .0 % do total de f.lhos, apesar de
r e p r e s e n ta r 6 2 , 7 % d o c o n j u n t o d a s fa m ília s . M e s m o as sim , a c o n ta r pe a m u n a
filh o s ile g ít im o s , p o d c - s c j u l g a r q u e a m a io r ia d os h a b ita n te s d e S a lv a d o r não estava
m u it o p r e o c u p a d a e m l i m i t a r o u e v ita r n a s c im e n to s . C r ia n ç a s , n a B a h ia , sem p re o
ram c o n s id e r a d a s c o m o d á d iv a s d e D eu s.
As famílias legais tinham , em média, 2,5 filhos e as consensuars 1,4 (a drferença
em relação ao núm ero de 1,9 que apresentei anteriormente se deve à nao-meorpora-
m B a h ia , S é c u l o X I X

TABELA 33

F am ílias L egais e C o n sen su ais sem F ilhos


o u c o m F ilhos V ivo s de M enos de 2 0 an o s

N° F il h o s F a m íl ia T o t a l de F a m Ilia
de T o ta l de
L egal F l LHOS C o n se n su a l Filhos

0 7 (1 7 ,1 ) - 18 (2 6 ,1 )

1 10 ( 2 4 ,4 ) 10 22 (3 1 ,9 ) 2Z ~ ’ ~

2 6 ( 1 4 ,6 ) 12 16 (2 3 ,2 ) 32

3 7 ( 1 7 ,0 ) 21 7 ( 10 , 1 ) 21

4 2 ( 4 , 9) 8 6 ( 8 ,7 ) 24
-
5 5 ( 12 , 2 ) 25 - -

6 2 ( 4 ,9 ) 12 - - -

7 o u m a is 2 ( 4 ,9 ) 15 - - - . ■
T o ta J 41 ( 1 0 0 ,0 ) 103 69 ( 100 , 0 ) 99

ção dos inventários p o s t m ortem ). Fato curioso: n en h u m a destas últim as tinha mais
de quatro filhos e 1/3 delas tin h a apenas um . C o m o o m aio r núm ero de casais estava
nessa situação, m ais u m a vez aparece o p ro b lem a dos nascim en tos ilegítim os — estu­
dados por Jo h ild o A thayde — , q ue tan to preo cup ava os parlam en tares brasileiros de
então. A tribuía-se à escravidão o gran de n ú m ero de crian ças nessa situação, e havia
tolerância em relação a elas: “N o B rasil, as crian ças ilegítim as são m ais numerosas
que em todas as nações européias. T rata-se de um a con seqüên cia inevitável do siste­
m a escravocrata estabelecido entre nós, co n seq üên cia ló gica de u m a situação em que
um a raça é proprietária de ou tra raça, com o se esta fosse um a coisa e não uma pes­
soa. 20 Não era raro que u m a viú va m isturasse, aos seus próprios filhos, os filhos
naturais do falecido m arido. M as o destin o social dessas crianças dependia, antes de
m ais nada, de que fossem reconhecidas pelo p ai ou p ela m ãe, ou então colocadas, pot
laços de apadrinham ento, sob a proteção de u m a fam ília in flu en te.21
Q u a l era o ín d ic e d e n a s c im e n t o s ile g ít im o s e m re la ç ã o ao c o n ju n to d e nascimen­
tos em S alvador? O e stu d o d e J o h il d o A t h a y d e c o b r e os 1 4 .9 8 2 registros de batismo
feitos n a p a ró q u ia d a S é no p e río d o d e 1 8 3 0 a 1 8 7 4 . A p ro p o rçã o encontrada foi
e n o rm e : 7 3 ,3 % dos registro s d iz ia m resp eito a c ria n ç a s ile g ítim a s , sen d o 12,5% enjei
tadas (a M ise ric ó rd ia , in s titu iç ã o q u e a c o lh ia c ria n ç a s a b a n d o n a d a s em roda Salvador,
en contrava-se n a p a ró q u ia d a S é ) .22
Pensei en c o n trar ín d ices dc ile g itim id a d e m u ito elevados en tre a população escrava,
m as constatei q u e 2/3 das c rian ç as livres nasciam fo r a d e laços legais de m atrim ô n io -
Eis aí um traço c aracterístico da so cied a d e b aian a, ch eio d c im plicações. Entre
destaca-se a au sê n c ia do pai, o que, p ara T h ale s de A zevedo, teria privado as crianças
baianas de u m ideal in te rio r” c de ag re ssiv id a d e.21 S u b m e tid a s à tu tela d a mãe, da av
ou d a m a d rin h a , elas teriam desen vo lvid o traços de caráter que aju d am a explicar 0
L ivr o III - A F amília B aiana 157

chamado enigma baiano1, ou seja, a incapacidade de a cidade produzir os frutos


prom etidos.
Entre a população livre, qual era a relação entre a cor das crianças e a proporção
de ilegitim idade?

T AB E LA 3 4 '

L e g it im id a d e e I l e g it im id a d e s e g u n d o a C o r das C r ia n ç a s
P a r ó q u i a d a Sé, 1 8 3 0 -1 8 7 4 *

C o n d iç Ao B ran co s M ulato s N egros


Legítimos 2 .3 0 6 ( 6 6 ,5 ) 677 ( 1 8 ,7 ) 200 ( 1 3 ,7 )
Ilegítimos 1 .1 6 3 (3 3 ,5 ) 2 .9 4 9 ( 8 1 ,3 ) 1.261 ( 8 6 ,3 )

Total 3 .4 6 9 ( 1 0 0 ,0 ) 3 .6 2 6 ( 1 0 0 ,0 ) 1 .4 6 1 (1 0 0 ,0 )
{*) E jcclu sivãm en te e n tre a p o p u la ç ã o liv re .

U m terço das crianças brancas e 4/5 das m ulatas e negras eram ilegítim as. Assim,
os registros de batism o con firm am os dados do recenseam ento de 1855 e dos inven­
tários p o st m ortem d a década de 1850. Sobretudo nas cam adas populares, as pessoas se
casavam pouco, porque a cerim ô n ia custava caro e não havia reprovação grave em
relação às uniões livres. E ntre 1850 e 1875, só 12,3% dos casamentos celebrados na
paróquia da Só envolviam cônjuges de cor.2^ Nas certidões de batismo era m uito co­
mum aparecer apenas o nom e da mae.
Os pais de filhos naturais não gostavam de dar o próprio nome no dia do batizado
da criança, pois isso poderia ser utilizado para um reconhecim ento de paternidade
exigido pela m ãe ou, m ais tarde, pelo próprio filho ou sua descendência. Apenas a mãe
— nunca o hom em ou o casal — declarava na pia batism al um filho que nascera
escravo.25
As autoridades m unicipais sem pre intervieram para salvar crianças abandonadas,
ditas ‘expostas’ , custeando sua educação, durante três anos, no seio de famílias que as
recebiam. Não se sabe o que acontecia com as crianças que completavam três anos,
aliás idade-lim ite da am am entação obrigatória pela própria mãe ou por uma ama-de-
lehe por cia contratada. Com o crescim ento da cidade, o número de crianças abando­
nadas aum entou de tal m aneira que a Câm ara M unicipal acatando uma proposta
real — passou a confiá-las a um instituto especializado, a M isericórdia, que obteve
para esse fim, em 1734, um subsídio de 4 0 0 .0 0 0 réis. M as, rapidam ente, a capacidade
de absorção sc revelou insuficiente, de modo que a M unicipalidade voltou a colocar as
crianças abandonadas em casas dc particulares, para evitar que servissem de pasto aos
anim ais domésticos que circulavam livremente pela cidade.-6 Apesar de existirem pes­
soas de boa vontade, todo esse sistema funcionava mal: no fim do século XVIIT, Luiz
dos Santos V ilhena denunciou o abandono em que se encontrava o asilo da Misericórdia,
que funcionava mais como hospital.27 Numa única e imensa sala ficavam amontoados
doentes, am as-de-leite e crianças. A decisão de separar os primeiros só foi tomada em
1$8 B a h ia , S écu lo XIX

1844, q uando se con stru iu um anexo para as crianças. M al ventilada, sombria


ú m id a, com alcovas e berços com p rim idos uns aos ourros, a nova sala term inou por 5 ^
um verdadeiro tú m ulo para os rccém -nascidos que lá esperariam um a mãe de criação
Era enorm e, estarreccdora, a m o rtalid ad e das crian ças abandonadas! Dois terço
delas m orriam em tenra idade. Em 1862, con tan do com a generosidade de seus
m em bros, a Irm andade da M isericó rd ia com prou um bonito prédio situado cm
SandA nna, paróquia v izin h a, para onde transferiu o asilo dessas crianças. Houve — {
certo — considerável m elh o ria nas instalações, m as a m o rtalidade continuou muito
a lta .28 O m esm o, aliás, ocorria com as frágeis crian ças confiadas a mães de criação, qUe
às vezes não utilizavam com elas o d in h eiro que recebiam ou não cuidavam delas de
m aneira ap ro p riad a.29
A tabela 3 6 apresenta in d icaçõ es sobre a proporção de batism os de crianças aban­
donadas, em relação ao total de batism os. A m éd ia se situ a em 2 ,5 % . Os dois anos que
ultrapassam este ín d ice (1 8 5 4 e 1 8 5 5 ) correspondem ao ápice das epidem ias de febre
am arela e de cólera-m orbo. T rata-se de aproxim ações, já que o universo do abandono
não se restringia às crian ças resgatadas p ela M isericó rd ia, incapaz de salvá-las todasTJ
N a série dos testam ento s, en co n trei algum as confissões q ue revelam a variedade de
origens sociais das crian ças ab an d o n ad as. U m a m oça o riu n d a de um a fam ília abastada,
por exem plo, confessou q ue sua h erd eira era a m en in in h a que havia sido 'exposta’ na
porta de sua p rópria casa e criad a com o crian ça ab an d o n ad a, em circunstâncias que da
descreveu com p recisão.31 É u m a estó ria q u e con corda perfeitam en te com a tradição
oral, segundo a q u al m u itas fam ílias, legalm en te co n stitu íd as porém em dificuldades,
abandonavam as crian ças q u e se sen tiam incapazes de educar. Assim , segundo seu

TABELA 35

T axa de M o r t a l id a d e d e C r ia n ç a s A b a n d o n a d a s
na C id a d e d e S a l v a d o r , 1 8 0 5 -1 8 5 4

P eríodos C rianças A bandonadas M ortes de C rianças A b ando nadas

1805-1809 481 301 (62 ,6) __ _

1810-1814 476 295 (62,0)

1815-1819 528 368 (69,7) ______


1820-1824 414 317 (76.6) _ ___ _
1825-1829 454 269 (59.3)

1830-1834 363 230 (63.4) _ _ _ _ _ _

1835-1839 357 283 (79.3) _____


1840-1844 442 267 (60,4) _ _ _ _ _ _

1845-1849 313 176 (56,2) _ _ _ _

1850-1854 350 237 (67,7) _ _ _ _ _


Total 4.178 2.743 (65.7)
L iv ro III - A F a m I lia B a i a n a 159

TABELA 36

B atism o s de C rianças A bandonadas na C idade de S alvador ,, 1 8 5 2 - 1 8 6 1


A nos T otal de Batismos Batismos of. C rianças A bandonadas
1852 1.907 52 (2,7)
1853 1.937 44 (2,3)
1854 2.107 76 (3,6)
1855 2.338 73 (3,1)
1856 2.207 54 (2,4)
1857 2.035 51 (2,5)
1858 2,038 48 (2,3)
1859 1.901 41 (2,1)
1860 2.049 22 (1,1)
1861 2.135 48 (2,2)
Total 20.654 509 (2,5)

TABELA 37

C o r das C ria n ças A bandonadas em S alvado r , 1 8 3 0 - 1 8 5 9


B ranca M e s t iç a N egra T otal

805 909 88 1.802

(44,7) (50,4) (4,9) (100,0)

ponto de vista, davam a elas um a oportunidade de sobrevivência. As certidões de


batismo nos inform am sobre a cor dessas crianças abandonadas.32
Parece e sp a n to so q u e 4 4 , 7 % dessas c ria n ç a s fossem brancas, m as a in fo rm ação é
coerente c o m as e v id ê n c ia s do re c e n s e a m e n to d e 18 5 5 ) q u e reg istro u , n a m esm a
situação, treze m ã e s b ra n c a s , q u in z e m u la ta s e q u a tro negras. R esta ex p licar a a m p li­
tude do fe n ô m e n o . Q u e razões le v a v a m ta n ta s m u lh e re s brancas a m a n te r esse tipo de
relação ilíc ita n u m a so c ie d a d e e m q u e — d iz e m — a cor d a pele d esem p en h av a um
papel tão im p o rta n te nas h ie r a rq u ia s so ciais? O desespero c a m iséria, com o afirm o u
o m éd ico F ran cisco A lves d c L im a F ilh o ?33 A te n ta tiv a d e salvar a h o n ra fam iliar,
ab an d o n an d o o fruto d e u m a sed u ção? Q u a n ta s fam ílias assu m iam m aternidad es sol­
teiras e co n c u b in a to s? T ra ta v a -sc , talvez, de m u lh e re s brancas ‘d a v id a ’? N este caso, o
percentual seria estarre ce d o r, so b re tu d u sc levarm os em conra q u e a tolerância d a
sociedade cm relação âs u n iõ es cx tralcg ais tin h a com o c o n trap a rtid a u m a forte in to le­
rância em relação à p ro stitu iç ão . Penso q u e se tratava de pessoas (de todas as cam adas
sociais e d c todas as etn ias) q u e viviam livrem ente sua sexualid ade e nao se deixavam
influenciar por p reconceitos m orais rigorosos.3'1 Por isso, vou em p reen der um segun­
do estudo tip o ló g ico d a fa m ília b aian a, através d a condição legal de seus m em bros.
B a h ia , S é c u l o X I X

A F a m íl ia S e g u n d o o E st a t u t o L eg a l d e S e u s M e m b r o s

Até a q u i, esta parte de m eu estudo esteve cen trad a nas fam íiias oriundas da populaCg0
livre de Salvador. P ara que nos aproxim em os m ais d a realid ad e b aian a, é indispensável
id en tificar as sem elh an ças e d iferen ças q u e existiam en tre fam ílias formadas por pes„
soas livres, alforriadas e escravas.
As prim eiras eram as m ais num ero sas e as m ais diversas, com o constatamos ante­
riorm ente. A p artir de que critério s elas p o d em ser co m p aradas com as duas outras5
C om o co n seq üên cia de u m ín d ice de celib ato q u e ch egava a 4 0% (m aior entre as
m ulheres), a fa m ília con sen su al rep resen tava 5 3% das u niões livres. A m ulher pobre
tin h a m u ita d ificu ld ad e em a rran jar casam en to , co n statação con firm ada pelo grande
num ero de agregadas aos grupos do m éstico s. R aras m u lh eres solteiras sem filhos che­
fiavam um desses grup os. O celib ato ap arecia m ais com o co n seq üên cia da pobreza do
q u e com o resultado de u m a escolha.
A fam ília con sen su al era m ais freq ü en te e n tre pessoas de cor, mas estava em
toda parte. As pessoas v iv iam ju n ta s, de p referên cia com gen te da mesma cor da
pele. Desejosas de ascensão so cial, m u lh eres brancas e m u íaras optavam por filhos
aín d a m ais claros, d escartan do u n iõ es com h o m en s de cor m ais escura. O ‘negro’
lem brava a Á frica e a escravidão. O ‘e m b ran q u ecim en tcf dos baianos se fez através
das m ulheres.
R ecordem os algu m as inform ações. Esses casais tin h a m , em m édia, 1,4 a 2,5 filhos,
e quase n u n ca ultrap assavam q u atro filh os; 6 2 ,3 % das crian ças batizadas eram ilegíti­
mas e 20% dessas eram b ran cas. E xam in an d o os m esm os dados sob outro ângulo:
33,5% dos batism os de crian ças brancas en vo lviam filhos ilegítim o s. Em 85,9% dos
casos, eram as mães que levavam seus filhos à p ia batism al; logo, eram elas as declarantes,
cabendo-lhes a resp o n sab ilidade legal p ela criação d a prole. Só 2 ,5 % desses filhos ile­
gítim os eram abandonados, percen tagem m ais elevada q ue a de abandonos de filhos
por mães solteiras (casais legais tam bém abandonavam filhos). Q uase a metade (44,7 A)
das crianças abandonadas eram brancas, m as isso se explica: as m ulheres brancas eram
m ais freqüentem ente forçadas por seu m eio social a ‘salvar a h o n ra’ da respectiva
fam ília, abrindo mão dc seu papel de m ãe. A lgum as grandes fam ílias guardavam na
lem brança verdadeiras tragédias: a filha de um senhor de engenho das m argens
Paraguaçu, altiva c bela, am ava com ternura um não m enos altivo e belo rtlU^ t^
escravo da plantação, Para evitar a fuga e o escândalo, a m ocinha grávida foi tranc.
em seu quarto, onde deu à luz um m enino, atirado nas águas do rio. O fitn da esto
foi o suicídio da moça, que cortou as veias com cacos dc vidro. ,. .
N e m todos os am o res ileg ais te rm in a v a m tr a g ic a m e n te . Ao contrário.
, , . ^ , c A l£ te ja
dad e e b astard ia e ra m traços característico s d a B a h ia d c I odos os Santos. ^
te n ta v a m o raliz ar os co stu m es, m as não o b tin h a êxito, até po rq ue ela mesma nao ^
o ex em p lo . E ntre 1801 e 1850, d e clara ra m ter filhos 18% dos padres baianos fale
em Salvador. Entre 1851 e 1 8 8 7 essa p ro p o rção su b iu para 5 1 % - ^
L iv r o III - A F am ília B aian a 161

Em Salvado r, era sobretudo a população livre (de todas as cores, mas com nítida
predom inância branca) que co n stitu ía fam ílias legais (6 4 ,5 % ). Som ente 9 ,7 % dos
negros se casavam dessa form a. O m atrim ô n io era privilégio dos brancos, m inoritários
mas detentores do prestígio social. O s baianos sc casavam pouco e relativam ente tarde,
esperando ate o m om ento em que consideravam ter os m eios m ateriais para criar e
educar as crian ças. Nesses casos, a m iscigenação era rara (8 ,4 % dos casos) e nunca
envolvia negros, com os quais as pessoas brancas viviam apenas uniões livres.
Na cidade, p raticam en te não existiam fam ílias num erosas, encontrando-se, em
m édia, de dois a três filhos em cada caso. As exceções ficavam por conta das cam adas
mais altas, nas quais reap areciam as características das fam ílias de senhores de enge­
nho, tão freqüentem ente descritas. M esm o q uando tin h am m ais de vinte anos e esta-
vam inseridos no m ercado de trab alh o , os filhos viviam na casa paterna, às vezes sendo
sustentados, às vezes co lab o ran d o nas despesas.
A fam ília legal e a con sen su al dialo gavam entre si através de suas diferenças e,
sobretudo, de suas sem elh an ças, T in h a m , antes de m ais nada, forte em penho em
educar seus filhos e desejavam aju d á-lo s a su b ir na escala social. V ejam os agora se esse
esquem a d uplo se rep ro d u zia nas fam ílias alforriadas e escravas.

F a m íl ia d e L ib e r t o s

Até a A bolição, a alfo rria era u m a etap a o b rigató ria para q u alq u er escravo cuja descen­
dência viesse a sc in teg rar às cam adas livres da população. D uran te toda a sua vida, o
antigo escravo co n tin u av a a ser um ‘alfo rriad o ’. O uto rgad a com m u ita largueza desde
as prim eiras décadas de fu n cio n am en to do sistem a escravocrata, a m edida não bene­
ficiava apenas ao escravo.37 Em m ais de 2/3 dos casos, as cartas eram vendidas aos
escravos, por q u an tias geralm en te id ên ticas às que haviam sido gastas para comprá-los.
Para os senhores, que haviam explorado o trabalh o do negro por m uito tem po, trata­
va-se de um a fonte su p lem en tar de ganhos; para os escravos, um passo no sentido da
liberdade perdida, sonh ada, ardorosam ente desejada. N a época da Independência
(1819), todos os anos cerca de 2 ,7 5 % da população escrava de Salvador recebia sua
carta de alforria. Em 1 8 3 9 -1 8 4 0 , essa proporção já chegara a 4,04% , subindo depois
para 6,62% em 1 8 6 9 -1 8 7 0 . A aceleração do ritm o de alforrias decorreu, ao mesmo
tempo, da situação econôm ica da Bahia e da desintegração do sistema escravocrata.
Q ue escravos conseguiam a carta de alforria? A resposta é sim ples: os que podiam
pagar, sem distinção entre africanos, m ulatos ou negros nascidos no Brasil. Os prim ei­
ros, aliás, eram m ais num erosos na cidade que os nascidos aqui. Um escravo, na
cidade, podia ju n tar um pequeno pecülío.
Perm anentem ente im portados para assegurar a renovação do contingente, os afri­
canos — cm sua m aioria, homens — representavam cerca de 2/3 da mão-de-obra
escrava. As m ulheres e crianças capturadas pelos negociantes internacionais eram ven-
162 B a h ia , S éculo X I X

TABELA 38
O rigem e S exo d a PoruLAÇÁo E sc rava de S a lv ad o r (1 8 1 1 -1 8 6 0 )

O rigem H omens M u lh e r e s T otal % H omens % O rigem

Brasil 1.237 1.339 2.576 (31,8) (37 2)

África 2.657 1.669 4.356 (68,2) (tT T T

Toral 3.S94 3.008 6.932 (100,0) 7lÕÕ,o7"


Fonte: J.J- Reis, SUi‘* R ebellion in B razil: The A jrican M ustim U pruing in B ahia. J835, p. 10.

didas preferencialm ente na própria Á frica, onde valiam m ais do que os homens.39 Na
Bahia, a m aior parte das m ulheres escravas devia executar o mesmo trabalho dos
hom ens, sobretudo nas plantações de can a-de-açúcar, onde havia a média de uma
escrava para dois escravos.
Das 1.141 cartas outorgadas em Salvado r entre 1869 e 1870, 6 40 fornecem indi­
cações sobre a idade e o sexo dos negros beneficiados, m ostrando que as mulheres
eram m ais alforriadas que os hom ens.

TABF.IA 39

Idade e S exo dos A l f o r r ia d o s (1 8 6 9 -1 8 7 0 )


I dade M ulheres H omens % de M ulheres T otal

0 a 11 anos 136 107 (56,0) 243 (38,0)

12 a 35 anos 129 61 (67,9) 190 (29,6)

35 a 50 anos 91 46 (66,4) 137 (21,4)

51 a 60 anos 27 18 (60,0) 45 (7,0)

mais de 60 anos 13 12 (52,0) 25 (3.9)

Total 396 244 (61,9) 640 {100.0}

Fonte: Katia M. dc Queirós Mattoso, “A Carta dc Alforria como fonte complementar pata o estudo da rentabilidade da mio
de-obra «crava urbana (1819-1888)", p. 159-160,

N a faixa etária em que ocorrem as uniões entre os sexos, as mulheres alforriadas


representavam o dobro do núm ero de hom ens, fazendo crer que m uitas delas tivessem
dificuldade em conseguir, entre estes, um m arido ou com panheiro. Quando isso
acontecia, quais eram as características da fam ília resultante? Os testamentos e imtm
táríos post m ortem perm item um a prim eira análise. Para m elhorar a amostra, elimine
os testam entos para os quais dispunha de inventário, o que me deixou 482 testamento
e 47 inventários para o período dc 1 880—1890. E, para facilitar a análise, montei o
períodos: 1 8 0 0 -1 8 5 0 c 1 8 5 1 -1 8 9 0 . , ?
P rim e ira p e rg u n ta: q ual a o rigem é tn ic a dos testadores c dos inventariados baian
A o c o n trá rio d o q u e se p o d eria pensar, a a s s im ila ç ã o dos negros a lfo r r ia d o s n a sc
no B rasil n ão parece ter sido m ais fácil q u e a dos negros o riginário s da África,
negros brasileiro s só re p resen tav am 1 5 % d os testadores e inventariados do prim
L iv r o III - A F a m Ilia B a ian a 163

período (1 8 0 0 * 1 8 5 0 ) e 2,4% do segundo (1 8 5 1 * 1 8 9 0 ), percentagens que subiriam


para 19,7% e 7 ,7 /o se incluíssem os nessa categoria todos aqueles considerados de
origem desconhecida’. Os dem ais eram africanos, aliás, como vim os, m ajoritários
entre a população escrava da cidade. Só há um a explicação para isso: considerados
estrangeiros, os africanos tinh am m aior cuidado em proteger os direitos de suas com ­
panheiras e de seus descendentes, tendendo a redigir testam entos com mais freqüên­
cia. Essa hipótese é fortalecida pela declaração do chefe de Polícia de Salvador em
1835: os africanos alforriados eram “estrangeiros indesejáveis (...). N enhum deles goza
dos direitos de cidadão ou dos direitos do estran geiro ”. Isso contrariava a fórm ula que
figura em todas as cartas de alfo rria: “a p artir desta data e para sempre [o alforriado]
será respeitado e gozará dos m esm os direitos dos que nasceram livres, como se ele
próprio tivesse nascido liv re”.40
De onde vin h am esses africanos? As inform ações fornecidas pelos testam entos e
inventários eram m u ito gerais e im precisas: ‘costa da Á frica’ ou ‘costa do Leste’, por
exemplo. M as não h á d ú v id a de que, na B ahia, eram m ais numerosos os africanos
capturados ao n o rte do E quador do q ue os provenientes da C osta S u l, que hoje
corresponde ao C o n go e a A ngo la. H av ia m ais ‘sudaneses’ , e os ‘bantos’ representavam
apenas cerca de 1/4 d a p o pulação escrava.41
A etn ia de origem desem penh ava im p o rtan te papel na v id a social, religiosa e
mesmo p o lítica dos africanos trazidos para a B ah ia no século XIX. Os trabalhadores —
libertos ou escravos — se agru p avam em certas esquinas da cidade, conform e o ofício
que exerciam e a etn ia a q ue p erten ciam . D e certa form a, esses agrupam entos regula­
vam o m ercado de trab alh o , pois neles as tarefas eram d istrib uíd as e repartidas, e as
pessoas conversavam e se aju d avam m u tu am en te. A etn ia tam bém estava presente
quando os escravos se organizavam nas ‘ju n tas de alfo rria’, tendo em vista conseguir a
liberdade. Nesse con texto, era n atu ral que o m esm o fator influenciasse a escolha dos
parceiros e parceiras, m esm o porque, na relação m ais ín tim a, o africano tentava recriar
em terra alheia um am b ien te sem elhante ao d a sua terra naral. Não por acaso, os
africanos cham avam de ‘parentes’ as pessoas do m esm o grupo étnico, estabelecendo
com elas um a vin culação essencial à redefinição das solidariedades de linhagem e das
normas que com andam as relações sociais.
U tilizei até aqu i um conceito ocidental para definir a fam ília. M as é preciso
lembrar que essa fam ília nuclear, m esm o extensiva, não correspondia à experiência
dos africanos, oriundos dc culturas polígam as, fratrílineares e parrilocais. Nelas, la­
ços fam iliares m uito distendidos eram parte essencial da organização social, cujas
regras não podiam ter sido fielm ente reproduzidas na Bahia. Ao contrário. Houve
transform ações bem conhecidas. A m ulher africana, por exem plo, conquistou na
Bahia um a independência c um a precm m cncia que não possuía no âm bito do pa-
triarcado tradicional existente em sua terra natal. Sendo m inoritária no Brasil, ela
ocupava posição privilegiada na sociedade escrava de então, desem penhando, na
Bahía, im portante papel. Sozinha na criação dos filhos, sem fam ília consangüínea,
B a h ia , S é c u l o XIX

ccrcada por gente de várias etnias c forçada a viver segundo um código social Vjçj
d en ta!’, a m u lher africana procurou — c achou — em sua etnia novos laços (jc ^
dariedade. T al hipótese é corroborada pela m aneira com o essa solidariedade inflUcn
ciou a estrutu ra da fam ília dos alforriados.

T A li J-; I. A 4 0

Es t a d o C ivil de T e stad o re s e I n ve n tariad o s

E stado Crvit. 1 8 0 1 - -1850 18 5 1--18 9 0

H omkns M ur. HF.RFS H omf .ns Muj. ■HWA

C as a d o s 64 (5 2 ,5 ) 36 (22,5) 40 (28,2) 28 (26,6)

V iúvos 25 (20,5) 56 (35.0) 18 (12 ,7 ) 18 (17.5)

C d i b a t i ri os 33 (27 ,0) 62 (38 ,8) 84 (59 ,1) 51 (48,6 i

N ão dedarado - - ■ 6 (3,7 ) ■ - - 8 (7,6)


Total 122 (10 0 ,0 ) 160 ÍIOO.O) 142 (100,0) 105 (1 0 0 ,0 ;

Fonte: M .l. CArtcs Oliveira, O lib erto: a seu m u n d o e os ou tros (S alvador, 17 9 0 -1 8 9 0 ), p. 12f>-127. A autora com para os Tes­
tamentos da população masculina livre e os testamentos dos alforriados nos mesmos períodos.

O celibato, característica d a so ciedade b aian a do século XIX, era com um entre os


alforriados, sobretudo en tre os ho m ens e n a seg u n d a m etad e do século. Entre a popu­
lação livre, o núm ero de celib atário s passo u de 3 6 ,7 % a 4 5 % . Entre os libertos, de
27% a 59,1% .
N a m edida em que o século passava, os alfo rriad o s experim en tavam uma mutação
de ordem cu ltu ral. A ssim ilavam o m odelo eu ro p eu ‘liv re ’ e rejeitavam o paradigma
m atrim onial im posto pelo m esm o m o delo eu ropeu cristão. A ntes de 1850, nenhum
pai solteiro declarava v iv er com u m a co n cu b in a. M as, na segunda m etade do século,
38 deles, num total de 5 1, m en cio n aram o nom e da p arceira. Africanos unidos a
africanas som aram 27 casos; sete não declararam as características da parceira; apenas
dois viviam com u m a negra n ascid a no B rasil. Era, p o rtan to , incontestável a predomi­
nância de uniões livres entre os africanos, q u e não adotavam o casam ento legal como
modo de vida, A desagregação do sistem a escravocrata provocou o surgim ento de uma
atitu d e nova, ao m esm o tem po reação contra a cu ltu ra dom inante e tentatòa de
afirm ação dc um a id en tid ad e cu ltu ral própria, diferen te do m odelo branco: os culto
de orígem africana se m u ltip licaram e as confrarias cristãs, criadas para monitorar ess
novos cristãos, atraíram cada vez m enos a d e s õ e s ,T o r n o u - s e m uito difundid
prática da endogam ía entre esses ‘estrangeiros’ que não eram nem compIetarncn
brasileiros, nem com pletam ente africanos. Em ambos os períodos, eram majoritá
as uniões entre dois parceiros de mesma origem . „ _
úis claro
í . . • - i ■
que o term o genérico ‘africano’ esconde uniões inreretnicas,_ qu nu*- ficafl1
* _ r
mais explícitas quando se estuda o recenseam ento de 1855, Nesse período, Joaoj-
pôde identificar a origem étnica dc dezesseis uniões: treze delas ocorreram dentr0
L iv r o ÍII — A F a m Ilia B aian a 165

TABELA 41
C a sa m e n t o s e U n iõ e s s e g u n d o a O r ig e m d o s P a r c e ir o s

M ulheres H om ens ~ H omens '

A N M T ~ ^ T A N~~ M B ND "
Africana 62 2 2 2 43 88 ' - "" i T~ 1

Negra brasileira 3 3 - 2 6 2 - - I "

Mul a» _ _ _ _ _

Branca _ _ _ _

Náo declarada .2 9 12 - — _ 21 2 — _ _

A * africano; N = Negro brasileiro; M = mulato; B = branco; ND = náo declarado ~

mesmo grup o , sendo nove en tre os nagôs, dois entre jejes, u m entre haussás e um entre
bornus; as uniões m istas aco n teceram en tre nagôs e nujes e en tre haussás e bornus.43
Apesar de pouco a b ran g en te, este exem plo co n firm a os dados que aparecem nas tabe­
las precedentes. R a ram e n te os african os se u n iam a negras brasileiras ou a m ulatas. As
rivalidades en tre as diferen tes nações d a Á frica foram devidam ente exportadas para o
Brasil, onde os b ranco s se esm eravam em a lim en tá-las, tendo em vista d ificu ltar revol­
tas de escravos.44 A e n d o g a m ia e a u n ião livre eram m u ito freqüentes entre os africanos
libertos, sobretudo após 185 0.
Apenas cerca de 1/3 das pessoas viúvas tin h am filhos: com o vim os, freqüentem en­
te os casam entos tard io s eram m ais voltados para a construção de um a vida com um do
que para a form ação de u m a prole. N a p rim eira m etade do século, em m édia, os casais
legais tin h am apenas 1,7 filh o (m u ito s pais tiveram filhos antes de casar ou depois de
enviuvar). Em com p ensação, fam ílias co n stitu íd as por pessoas solteiras parecem ter
sido m aís num erosas, com u m a m éd ia de 2 ,3 filhos.
A m édia de filhos se elevo u um pouco nas fam ílias legais do período 1851—1890,
atingindo 2 ,1 . M as os pais solteiros to rn aram -se cada vez m ais num erosos, am pliando-
se o costum e de dar, à crian ça, tam bém o nom e da com panheira. O ra, essas famílias
tinham , em m édia, 2,5 filhos, enquanro as mães solteiras tinham 1,9. Assim, a famíha
consensual não parcial parece su p lan tar a parcial (chefiada por um a m ulher sozinha)
na segunda m etade do século X IX . M u lh er nenhum a dava o n o m e de seu concubino.
Dc qualqu er m aneira, o m odelo fam iliar no grupo dos alforriados era duplo, assim
como entre os livres: fam ília legal e fam ília consensual. M as, a partir da segunda
metade do século, a fam ília nuclear dc tipo consensual passou a suplantar a fam ília
legal entre os alforriados de Salvador. O significativo índice de endogam ia que ca ^
teriza esse grupo perm ite pensar que o fim do tráfico negreiro, o aum ento na quantt
dade de cartas de alforria, a depressão econôm ica — enfun, todos os sinais qiue pire­
nunciavam a irrem ediável desarticulação do sistema escrav o crata-- ajudaram a redefinir
os valores próprios desse grupo de antigos escravos. A fam ília, célula e motor da nova
estrutura, desem penhou nessa evolução um papel predom inante.
B a h ia , S éc u lo XIX
166

TABELA 42

N úm ero e C o n d iç ã o d a s C r ia n ç a s s e g u n d o o E st a d o C iv il e o S exo dos P^,is

N úmero de Filhos
1801-1850
IN IL 2N 2L 3N 3L 4N 4L 5N 5L +5N +5L
Homens casados 7 10 1 4 I 1 - l> - l2 - 7

Mulheres casadas 2 3 - 33 1 - - - - - -

Homens viúvos 2 2 I 1 - 1 - - - -

Mulheres viúvas - 5 3 2* 1 - - - - -

Homens celibatários 4 - 3 - 3 - - - - - -

Mulheres celibatárias 9 - 6 - 6 - 5 _ - - - i

1851-1890 NCmf.ro de Filhos

IN 1L 2N 2L 3N 3L 4N 4L 5N 5L +5N +5L
Homens casados 3 2 - 2 1 3 - - - 2 - -

Mulheres casadas 2 3 1 1 1 - - 1 - _
- -
Homens viúvos 1 2 3 I 1 - - 1 - - - -
Mulheres viúvas 1 3 1 - 1 - - - - - 1 -
Homens celibatários 17 - 13 - 9 - 7 - 1 - 4 -
Mulheres celibatárias 7 - 5 - 2 - I - 1 - - -
(1) 1 natural e 3 legítimos; (2) 2 naturais e 3 legítimos; (3) e (4) uma testadora tem 1 filho legítimo e 1 natural,

A F a m íl ia E s c r a v a

Fam ília escrava eqüivale a dizer, essencialm ente, fam ília parcial. Os inventários post
m ortem nada revelam sobre o estado civil dos escravos recenseados, embora sejam
prolixos em outros dados, como a descrição de suas aptidões, de seus eventuais defeitos
físicos, de sua idade aproxim ada e de seu país de origem . Casam entos entre escravos
existiam , mas eram tão raros que escaparam a toda docum entação que pude consultar
Os 323 inventários p ost m ortem da década de 1850 relacionam ao todo 1-759 escravos,
sendo 983 homens e 776 mulheres, 109 das quais eram mães solteiras. A origem étnica
desses escravos é interessante.
À prim eira vista, a tabela 43 cria um problem a: por que a m aioria desses escravos
era de origem brasileira? As mulheres nascidas no Brasil eram 59,8% ! M as a expüc^í^0
é fácil. Os dados foram coletados depois da abolição do tráfico, num período em £Jue
era intenso o comércio interprovincial de escravos, com o envío de muitos africanas
para o Sul do país. Além disso, a maior parte dos recenseados, sobretudo as mulheres,
trabalhava no serviço doméstico,46 situação em que os escravos nascidos no Brasi
L ivro III - A F a m ília B aian a 167

TABELA 43

S exo e O r ig e m dos E s c r a v o s I n v e n t a r ia d o s , 1 8 5 1 -1 8 6 0
O rigem ________ H om ens M u lh e r e s T o ta l

Negros brasileiros 379 (38,5) 367 (47,3) 746 (42,4)


Mulatos 70 (7,1) 97 (12.5) 167 (9,5)
‘Africanos’ 289 (29,4) 151 (19.4) 440 (25,0)
Nagô 172 (17,5) 114 (14,7) 286 (16,3)
Haussá 15 (1,5) 1 (0,1) 16 (0,9)
Mina 7 (0,7) 5 (0,6) 12 (0,7)
Benim 4 (0,4) 1 (0,1) 5 (0,3)
Gege (Ewe) 8 (0,8) 15 (1,9) 23 (1,3)
Mondubi 1 (0,1) 1 (0,1) 2 (0,1)
Catocori 1 (0,1) - - 1 (0,05)
Bornu 2 (0,2) - - 2 (0,1)
Barba 2 (0,2) - - 2 (0,1)
Tapa 5 (0,5) 3 (0,3) 8 (0,4)

Calabar 3 (0,3) - - 3 (0,1)

Congo 2 (0,2) 3 (0,3) 5 (0,3)

Cabinda 5 (0,5) 2 (0,2) 7 (0,4)

Angola 16 (1,6) 14 (1.8) 30 (L 7)

São Tomé I (0,1) - - 1 (0,05)

Moçambique 1 (0,1) 2 (0,2) 3 (0,1)

Total 983 (100,0) 776 (100,0) 1,759 (100,0)

eram preferidos. N ão esqueçam os, ain d a, q ue a cólera e a febre am arela matavam m ais
recém-chegados que filhos da terra, m ais bem protegidos.
O fim do tráfico desencorajava a com pra de escravos e a m ão-de-obra livre, forma­
da por alforriados e im igrantes pobres chegados da Europa, era cada vez m ais abun­
dante. Os que viviam do alu gu el de escravos foram obrigados a buscar outras fontes de
lucro, investindo por exem plo em ações bancárias ou em apólices do Estado.
N a tabela 43 aparecem 4 8 % de africanos — dos quais os nagôs eram os mais
numerosos — , entre os quais sc encontrava a m aior parte dos jovens chegados depois
da abolição oficial do tráfico, quando os navios negreiros tinham que fugir do controle
exercido, no m ar, por ingleses c franceses. Só para as crianças os inventários forneciam
idades precisas. As faixas etárias apareciam da seguinte forma: moleque , moço ,
‘ainda m oço’ e velh o'. M as havia exceções. Alguns inventários e cartas de alforria
davam, sim ultaneam ente, as duas informações, o que tornou possível traduzir em
números quatro categorias: m oleque (até 13 anos), moço (de 14 a 39 anos), ainda
B a h ia , S éculo X IX
168

moço (de 40 a 50 anos) e velho (50 anos e m ais). C in q ü en ta e seis por cento d0s
escravos tinham entre 14 e 50 anos e 4 4 ,4 % tinh am entre 14 e 35 anos. As crianças
representavam 2 2,1% .
Poucos escravos eram originários das costas sul ou leste da África, e o número de
m ulatos não era negligenciável. Entre negros e m ulatos brasileiros, havia 97 homens
para cada cem m ulheres, proporção coerente com a de outras análises. M as, para 0s
africanos, essa proporção se desequilib rava: para 171 hom ens, só havia cem mulheres
Entre as mães solteiras, 6 4 ,2 % tin h am apenas um filho e 3 8 ,5 % haviam nascido tio
Brasil. A etnia m ais bem representada, a dos nagôs, tin h a o m aior núm ero de crianças
pois 1/3 das 114 m ulheres tiveram filhos. Lem brem os: em m édia, na Bahia as mães
solteiras alforriadas tinh am 1,9 filho, en q u an to as mães solteiras livres tinham 1,7
Q uanto às m ulheres nagôs, sua m éd ia era de 1,6 filho. As brasileiras e as africanas
tinham , respectivam ente, 1 e 1,5. N ão há d ú v id a de q ue os escravos brasileiros se
reproduziam pouco.
Vim os que, no co n ju n to da população b aian a (in clu in d o libertos e brancos das
cam adas superiores), era forte a en d o gam ia lig a d a à etn ia ou à cor dos parceiros. Que
se passava, a esse respeito, entre os escravos? Q u e grau de m estiçagem podemos detec­
tar entre eles? A m u lher escrava esco lhia seu próprio parceiro ou se encontrava exposta
ao arbítrio do senhor e a relações fo rtuitas q u e engendravam m estiços?
N a m aio ria dos casos, as m ães solteiras escravas tin h am filhos d a sua própria cor,
especialm ente as negras — logo, as african as. Só 10% delas tinham relações com
hom ens de pele m ais clara, não necessariam ente senhores brancos (disponho de exem­
plos de m ulatos que tam bém eram escravos). Em com pensação, 3 0 % das negras bra­
sileiras tin h am filhos m estiços. Eram m ais abertas, m ais preparadas para a miscigena­
ção, que suas irm ãs africanas.
Assim , reencontram os aqu i o esquem a endo gâm ico já observado entre os libertos.
M esm o que não encontrasse um com p an heiro de sua etn ia, um a escrava podia preser­
var sua origem africana buscando outro negro para ser o pai de seus filhos. Mais do
que a negra brasileira, a m u lher african a resistia ao processo de ‘em branquecim ento,
em bora este representasse um cam inho de assim ilação m aís seguro do que a alforria e
a liberdade.
Alguns traços sobressaem nessa segunda análise tipológica da fam ília nuclear sim'
pies na Salvador do século XIX. Em prim eiro lu gar, as uniões livres eram mais fte
qüentes que as legais, e as causas desse traço particularm ente característico da socieda­
de baiana devem ser procuradas em razões de ordem institucional, econômica ou
psicológica, que tentam os descobrir com m aior precisão. Um segundo traço caracte­
rístico dessa sociedade era sua forte endogam ia, quase perfeita nos dois extremos da
estrutura social. Os brancos — dom inadores e freqüentem ente afortunados, exerceu
do o poder e os meios de controle da sociedade que eles próprios haviam organizado
reagiam exatam ente da mesma m aneira que seus escravos dom inados e oprimidos-
Eram dois mundos separados em tudo, mas com as mesmas reações de autodefesa.
L ivro III - A F amília B aiana
169

Entre esses dois extremos da escala social havia um a numerosa população livre
parcialm ente m estiça, form ada por um a m ultidão de homens e mulheres de comporta­
mento m uito menos ríg.do. Elos interm ediários dessa corrente, eles humanizavam as
relações sociais, aproxim ando os extremos e tornando os costumes mais flexíveis
Exerciam um difícil papel interm ediário, que exigia sacrifícios e concessões, a fim de
manter equilíbrios precários entre essas duas estruturas — branca e negra — opostas
em tudo. Essas cam adas interm ediárias da população baiana faziam os brancos se
desprender de algum as de suas tradições européias e, ao mesmo tempo, tornavam
menos africana a estrutura social negra. Graças a um terceiro estudo tipológico — o
dos grupos dom ésticos, bem m ais extensos que as fam ílias de tipo nuclear, das alianças
matrim oniais c dos sistemas de parentesco — poderemos verificar com maior precisão o
importante papel desem penhado pelas camadas intermediárias da população de Salvador.

G r u p o s D o m é s t i c o s : T e r c e ir o E s t u d o T i p o l ó g ic o

A análise dos grupos dom ésticos de Salvador no século XIX é dificultada por dois
fatores: a grande diversidade de situações que induziam as pessoas a com partilhar do
mesmo teto e a presença de escravos e agregados, categorias ausentes da Europa Oci­
dental. Com ecem os pelo ú ltim o fator.
‘Ser escravo’ era m ais am bíguo do que parece. Sabe-se o que isso representava do
ponto de vista ju ríd ico . M as, qual o lugar ocupado pelo escravo no lar do senhor? Que
diferenças havia, a esse respeito, nos m eios urbano e rural? Em Salvador, o escravo era,
antes de m ais nada, um em pregado dom éstico, que cum pria — melhor — o papel dos
seus numerosos congêneres existentes nas sociedades ocidentais no século XIX.47 Nos
148 grupos dom ésticos que pesquisei, apenas quatro libertas apareceram citadas como
criadas, trabalhando da m esm a m aneira como o faziam quando eram escravas. Como
regra, o escravo era um servidor não assalariado e um a fonte de renda para seu proprie­
tário, que o alugava a terceiros para fazer serviços externos, freqüentemente muito
penosos. M as tam bém havia os que dom inavam um ou mais ofícios (artesão, barbeiro,
músico, alfaiate, sapateiro, pedreiro ou pintor). O uso dessas aptidões era flexível e se
adaptava às dem andas m om entâneas do mercado de trabalho, tornando difícil distin
guir, numa mesma casa, qual escravo era exclusivamente doméstico e qual era ganha
dor . O escravo só perm anecia continuam ente no mesmo trabalho se fosse a única
fonte de renda de seu senhor — o que era um a situação freqüente. ^
Tendo sob sua responsabilidade manter a família do senhor e a sua própria,
escravo era o verdadeiro esteio da organização familiar. Criavam-se, assim, aços e
interdependência entre ‘dom inador’ c ‘dom inado’, abrindo a possibilidade de que a
dependência revertesse em favor do escravo.4ft
E o papel dos agregados nos grupos domésticos? Diversas realidades se escondiam
atrás da palavra ‘agregado’, que designava genericamente os que viviam com a família
170 B a h ia , S e cu lo X I X

com o pessoa da casa”.49 N o m eio urbano, eram pessoas que não tinh am conseguido
outro lu gar, por falta de m eios, ou tinham sido convidadas por parente ou amigo a
alu gar um côm odo na residência deste. Entre os exem plos de que disponho, o de
A ntôn io José de Souza M atto s é típico. B ranco, 51 anos, gu ard a na alfândega, casado
com dona M aria V itó ria de Souza M atto s (30 anos, tam bém branca), era pai de cinco
filhos, cujas idades variavam de um mês a onze anos. T odos viviam agregados à fam ília
de G erm ano M endes B arreto, branco, 61 anos, escrivão do T rib u n al, casado com
dona T eresa (branca, 55 anos), com quem tin h a dois filhos. Ignoro se havia parentesco
entre os dois casais (as duas esposas po deriam ter adotado o nom e dos m aridos,50 ou
então com partilhavam o teto paterno ). O grupo dom éstico contava ain d a com duas
velhas m ulatas e um m u lato de quin ze anos, além de três escravos africanos: Gustavo
(60 anos), Esperança (50 anos) e E ugênia (35 anos). C o n sid erad a com o agregada, a
fam ília Souza M atto s d ep en d ia d a o u tra, em bo ra os dois chefes fossem funcionários e
exercessem cargos p raticam en te eq uivalen tes, tan to do ponto de vista do salário como
do prestígio social. Logo, o agregado p o d ia pertencer à m esm a categoria social do
chefe do grupo dom éstico.
Irm ãos e irm as, afilhados, parentes afastados, viúvas, m ães solteiras e seus filhos
eram cham ados, com freq ü ên cia, de agregados. V iviam à custa do chefe da fam ília, a
quem prestavam serviços, ou então d isp u n h am de fo rtun a pessoal, participando nesses
casos das depesas da casa. T am b ém podiam estar nessa condição os filhos de um antigo
escravo alforriado que tivesse perm anecido na casa de seu ex-senhor. Se a fam ília não
possuísse escravos, esses negros ou m ulatos tornavam -se em pregados; caso contrário,
ocupavam um a posição in term ed iária, com andando e v igian d o a criadagem . De qual­
quer m aneira, o agregado era m uito considerado no grupo. As crianças o tratavam com
respeito, cham avam -no afetuosam ente por um d im in u tivo e o escolhiam como padri­
nho ou m adrinha de crism a.51 Freqüentem ente o agregado desem penhava o papel que,
no teatro clássico, cabe ao confidente, p rin cip alm en te dos jovens e dos senhores. Em
caso de necessidade, ele podia se encarregar de cu id ar da casa, fazendo guloseim as e
transform ando-se em vendedor am bulante.
Em todas as cam adas sociais da população livre — fosse ela branca, m ulata ou
negra — encontravam -se agregados, cu ja dependência em relação à fam ília da casa era,
às vezes, apenas aparente. Além disso, quando essa subordinação existia, não era obri­
gatoriam ente dc um negro ou um m estiço em relação a um branco. Encontrei, por
exem plo, o caso cm que um a negra liberta (M aria Jo aq uin a dos Passos), nascida no
Brasil, solteira, dc 36 anos, tinha, como agregada, uma branca (D. Senhorinha M elânia
de C erquelra), mãe solteira dc dois filhos pequenos, com 34 anos dc idade.52 Viviam
com as crianças, mas sem escravos. Com o tinham praticam ente a mesma idade, inferi
que haviam crescido juntas; a 'Senhorinha' dera um 'm au passo’ c fora expulsa de casa,
recebendo dos país, no entanto, uma com panheira na pessoa da alforriada. Esta ‘irmã
crioula’ , provavelmente um pouco scrviçal, em todo o caso fiel e responsável, não seria
o chefe da família?
L iv r o III - A F a m ília B aian a 171

Os escravos e os agregados desem penhavam papéis variados nos grupos dom ésti­
cos a que p erten ciam . Seria necessário m u ltip licar exem plos para que se tivesse um a
im agem m ais n ítid a dos laços que existiam entre esses dependentes e os chefes dos
respectivos grup os. A té as m ulheres que viviam com um hom em eram cham adas de
agregadas — n u n ca de con cub inas — e, se tivessem filhos, o pai não era citado.
R ecolhi dados sobre 147 grupos dom ésticos, que representavam um contingente
de 7 4 2 pessoas, no q u al se m istu ravam , de form a exuberante, livres, libertos e escra­
v o s . A frente das fam ílias m aiores, encontravam -se em geral viúvos, viúvas ou casais,
m ajo ritariam en te brancos. O s casais casados tin h am , em m édia, um a fam ília de dez
pessoas, ao passo que as fam ílias dos solteiros tin h am , tam bém em m édia, 3,2 pessoas.
O tam anh o das fam ílias dos casais casados brancos (1 1 ,7 pessoas) era bem m aior que
aquelas dos casais casados de cor (seis pessoas). Os solitários e os grupos sem estruturas
fam iliais não tin h am escravos e, entre os 41 grupos dessas duas categorias — m ajori-
tariam ente form ados por liberto s e por m estiços — só cinco possuíam agregados.
Desses grupos dom ésticos, 2 8 ,6 % possuíam escravos, m as, em compensação, 35,3%
tinh am agregados e 5 ,5 % (oito, no total) tin h am agregados m as não escravos. D eve­
mos con cluir que os agregados eram anexados a grupos dom ésticos que unham os
meios m ateriais para sustentá-los? Seriam eles adicionados aos escravos, com o sím bolo
da riqueza de u m a fam ília?
Em 4 2 ,2 % dos casos os grupos dom ésricos eram chefiados po r m ulheres, 71% das
quais eram solteiras, m u itas com filhos. A pesar da aparência m asculina da sociedade,
em todas as cam adas de Salvado r era freqüente que a m u lh er assum isse sozinha o seu
destino e o dos seus filhos, desem penhando assim um papel im portante. A m édia de
idade dessas m ulheres era de 40 anos, o que não im pediu que eu encontrasse dois
grupos chefiados, respectivam ente, por m ulatas — um a de 19, outra de 90 anos —
com pletam ente fora dessa faixa etária. A jovem m ulata de 19 anos era mãe de um
filho. Sua pouca idade dem onstra o quanto é ilusório utilizar critérios inspirados pelas
sociedades ocidentais para analisar um a sociedade na qual as uniões livres são mais
numerosas que os casam entos. No que dizia respeito aos homens, a média era a
mesma, mas o mais novo chefe de fam ília tinha 25 anos e o m ais velho era um
português de 77 anos.
O s gru p o s d o m é stic o s sim p le s c sem e stru tu ra s fa m ilia is (in c lu in d o neles os 'soli­
tário s’) representavam 8 5 ,1 % do to tal, o q u e m e leva a receber com p ru d ê n c ia a
afirm ação dc q u e g ru p o s ‘ex ten siv o s’ ou co m plexos eram caraccerísticos da o rgan iz a­
ção fam iliar dos baia mis. Eles ex istiam , m as co m o exceção. O m odelo patriarcal,
característico d a vida rural b rasileira, foi su b stitu íd o aq u i por form as de organização
fam ilial m ais sim p les, m ais flexíveis, m ais adap tad as i c id ad e. M as, co m o m ostra a
presença dos agregados, não sc ro m p e assim com práticas sociais herdadas da fam ília
de tipo patriarcal... Fssa fam ília baian a apresentava traços ‘m o d e rn o s’ em suas estru ­
turas e ‘arcaicos’ em seus fu n d am en to s e atitud es. É o q u e tentarei d efinir agora m ais
claram en te.
CAPÍTULO 11

S is t e m a s d e P a r e n t e s c o
e A l i a n ç a s M a t r im o n ia is

V im o s q u e as f a m ília s le g ít im a e c o n s e n s u a l c o m p a r t ilh a v a m , n a B a h ia , os m esm os


tra ç o s f u n d a m e n ta is . A m b a s e r a m e s s e n c ia is p a r a a c o e s ã o d a s o c ie d a d e lo c a i no sécu­
lo X IX , A f a m ília c o n s e n s u a l e r a a c e ita e n t r e as c la sse s h u m ild e s e la b o rio sa s d a p o p u ­
la ç ã o e n ã o to ta lm e n te r e je it a d a p e la s m a is f a v o r e c id a s . N ã o ra ro , a liá s , o m esm o
h o m e m s u s te n ta v a d u a s f a m ília s a o m e s m o te m p o . ■
E m S a lv a d o r , as re la ç õ e s s o c ia is d e s c o n h e c ia m q u a lq u e r fo r m a lis m o . Em algun s
caso s, o p a r e n te s c o a b r ia e s p a ç o s p a r a q u e p e sso a s n a s c id a s p o b re s fo ssem in tegrad as
e m c a m a d a s m a is a b a s ta d a s . F ilh o s n a tu r a is — b r a n c o s , m u la to s o u n eg ro s — podiam
n u t r ir e s p e ra n ç a d e a sc e n s ã o s o c ia l, É esse o s is te m a t r a d ic io n a lm e n t e q u a lific a d o de
‘ p a t r ia r c a l’ . A s o c ie d a d e n a q u a l se in s e r ia , le g a lm e n t e d iv id id a e m ‘s e n h o re s’ e ‘escra­
v o s’ , se c o m p o rta v a c o m o se as d iv is õ e s s o c ia is p u d e s s e m se r u ltra p a s s a d a s co m fa c ili­
d a d e , P o r trás d e u m a r ig id e z a p a r e n te , s is te m a s d e p a re n te s c o e de a lia n ç a eram
v e íc u lo s p a ra to d o tip o d e p r o m o ç ã o , g ra ç a s a s o lid a r ie d a d e s o r ig in a is q u e , esco ndidas
a trá s d e a p a r ê n c ia s e n g a n a d o r a s , p r e c is a m se r d e te c ta d a s . O p e q u e n o m u n d o de S al­
v a d o r , fle x ív e l e c h e io d e v id a , s o lid á r io e c h e io d e im a g in a ç ã o , a in d a não con hecia
rig id e z e im o b ilis m o .

S is t e m a s de P a r e n t e sc o

E xpressões co m o ‘ p a re n te ’ , ‘ p a re n te s c o ’, nos re m e te m a laço s b io ló g ico s q u e unem ,


n u m a fa m ília , u m h o m em e u m a m u lh e r a seus filh o s, e estes en tre si. Segundo
M a rtin e S egafen , a asso ciação h o m e m -m u lh e r já é u m a ‘asso ciação so cial , pois, em
p rin c íp io , líg a d u as pessoas o riu n d a s de fa m ília s d iferen tes. P o rtan to , o parentesco é
fu n d ad o , ao m esm o tem p o , cm laços b io ló g ico s e so ciais, d esig n a n d o ranto as pessoas
q u e são efetiv am en te p aren tes — p elo san g u e o u p o r a lia n ç a — q u an to lim a das

172
L i v r o 111 - A F a m í l i a B a i a n a

instituições que regem o fu n cio n am en to da v id a social nos setores econôm ico, político
e relig io so .1
M as, em certas sociedades, com o a brasileira, a noção de parentesco ultrapassa
m uito esses lim ites, graças a associações baseadas em laços esp irituais ou vin culad as a
um a etnia. N o tecido social de Salvado r, esses tipos eram tão im portantes quanto o
parentesco de tipo clássico, o que, aliás, fica claro na própria term ino logia de uso
com um . É háb ito , por exem plo , frisar a d iferen ça que existe entre os tios e tias ‘de
sangue' e os ‘por a lia n ç a ’; pai e m ãe não são term os usados apenas para designar os pais
biológicos, mas tam b ém sogra e sogro. T odos m erecem o tratam ento de ‘senhor’ ou
‘senhora’, m as se o sogro tiver um d ip lo m a é cham ado de ‘d o u to r’ (todos os diplom ados
por escolas superiores sao do u to res; m as a m u lh er, m esm o que seja ‘do u to ra’, con tinu a
a ser tratad a por ‘d o n a ’ por seus genros e no ras). Para os filhos do prim eiro leito, o
segundo m arid o d a m ãe é ‘p ad rasto ’. A liás, ‘p ad rasto ’ e ‘sogro’ são term os que trazem
em si um a tênue id éia de exclusão, de fro n teira en tre parentes n aturais e parentes por
alian ça.2 Os antepassados tam b ém recebem defin ições precisas, com o, por exem plo,
‘tio-avô’ e ‘tia-a v ó ’. Ao m u ltip lic a r os avós, m u ltip licam -se tam bém as responsabilida­
des e consolida-se a m em ó ria fam iliar.
A term in o lo g ia do parentesco se a rtic u la no B rasil sobretudo em torno dos m o­
dos de filiação e de alian ça, p rin cíp io s essenciais do tecido parental. A filiação, que
estudam os no p rim eiro cap ítu lo , é d efin id a segundo seus aspectos ju ríd ico s: trata-se
do reconhecim ento dos laços de u n ião entre in d iv íd u o s que descendem biologica­
m ente uns dos outros — ‘d escen d en tes’, p ara a filiação de cim a para baixo, ou ‘as­
cendentes’ , para aq u ela q ue vai d e baixo para cim a. Em q u alq u er situação, a filiação
pode existir em lin h a d ireta ou co lateral. Em po rtuguês, cada caso tem um a designa­
ção própria, e neste ponto as gen ealo gias fam iliais s lo precisas. Existe, pois, um a
m em ória gen ealó gica m u ito p ro fu n d a nessa sociedade de em igrados, que faz questão
de rem ontar a antepassados de duas, três ou m ais gerações, sobretudo quando se trata
de afirm ar a ascendência de um co lateral prestigioso, cu ja atuação confere brilho à
fam ília cm questão, T odos os ram os da fam ília C alm o n du Pin e A lm eida, por exem ­
plo, reivindicam até hoje, com o antepassado, um hom em de Estado do início do
século XIX, o M arquês de A brantes, que não teve filhos. Essa corrida ao ascendente
ilustre não é, aliás, um a característica exclusiva dos descendentes de portugueses.
Reencontramos a m esm a preocupação entre os africanos, que conservaram , por tradi­
ção oral, os nomes de antepassados livres e de sangue real. Eles desem penham papel
particularm ente im portante no seio dc um a população que descende de antigos es­
cravos; o dado social, aqui, é mais im portante que o dado propriam ente biológico.
Ainda hoje, certas fam ílias negras que têm um m em bro em funções elevadas na hie­
rarquia religiosa dos candom blés dizem que podem rem ontar a um a ascendência real
de um a etnia africana qualquer.
As filiações na fam ília baiana são indiferenciadas ou cognáticas. Nao é através de
um dos sexos que se define se um a pessoa pertence a um grupo de parentesco. Todos
174 B a h ia , S t e c i o \ L \

os descendentes dc um in divíduo fazem parte de seu grupo de parentesco. Por sua ve2
o indivíduo é m em bro de tantas linh agens quantos ascendentes for capaz de identifi­
car. O filho guarda o nom e do pai c da m ãe, form ando assim uni novo patroním ico
que indica, claram ente, sua dupla origem fam ilial. Q uando casa, a m ulher substitui o
patroním ico m aterno pelo de seu m arido, sem que isso in d iq ue um sistema dc filiação
patrilinear. O esposo conserva seu patron ím ico duplo original. G eralm ente, os filhos
naturais têm um único p atro n ím ico , do pai ou da mãe. Q uan to aos escravos, após a
alforria conservavam geralm en te o nom e da fam ília de seu antigo senhor.

P a ren tesco po r E sc o lh a

Existe ou tra m aneira de expressar um parentesco ou um a filiação na B ahia. Os termos


pai, mãe, irm ão, irm ã, prim o , tia e tio são utilizado s para designar pessoas com as quais
não exíste nenhum laço con sangüín eo ou de alian ça, mas apenas de escolha, tão forte
e tão sólido quanto os prim eiros. Se alguém é escolhido para desem penhar o papel de
paí ou m ãe, tio ou tia , irm ão ou irm ã, é im possível escapar. C riam -se assim novas
relações, que se tornam tão fortes q u an to as de parentesco consangüíneo. É o que os
baianos cham am de ‘parentesco por consideração’ , que não deve ser confundido com
o parentesco por alian ça. Um parente por consideração é parente na acepção plena da
palavra, com tudo o que essa noção im plica dc m ais estrito e profundo. Assim , cada
qual pode escolher tios e tias, m u ltip licad o s sem lim itações. T am bém é freqüente que
esse tipo de adoção salte um a geração: um neto pode decidir ‘ad o tar’ sua avó como
‘ mãe’ , transferindo para ela seu am or filial e deixando a mãe biológica à distância.
A liás, esse papel m aternal pode ser desem penhado por qualquer outro membro da
fam ília (tia, irm ã m ais velha, prim a etc.), caso em que a m ãe verdadeira passará para
o mesmo plano do filho, que com eça a cham á-la pelo prenom e e a considerá-la como
um a irm ã m ais velha. Prom ovida a ‘m ãe’, a avó ou tia será tratada como tal por todos
os que a cercam .
N um a sociedade em que predom inavam a aliança natural do casal parental e a
ilegitim idade dos nascim entos, não devem causar surpresa essas transferências, essas
escolhas de novas fam ílias. M as é fácil constatar o grande im pacto afetivo dessas
situações, bem como sua influência sobre as organizações fam iliares. A relativa anomia
da sociedade baiana seria reforçada por tais fatores ou, ao contrário, eles atenuariam os
choques em uma sociedade mareada pela escravidão?
A todos esses parentes 'po r e sc o lh a’ , é preciso acrescentar o ‘ parentesco espiritu al .
Ele existe em outros lugares mas, na B ahia, sua im p o rtân cia é ta m a n h a que e! preciso
colocá-lo no inesm o nível do parentesco c o n sa n g ü ín e o . Existem três tipos d c p a d ri­
nhos espirituais: o de batism o, o q u e consagra a criança a Nossa Senhora e o de crisma.
O prim eiro é o m ais im p o rtan te (nem os negros africanos conseguiam evitá-lo, para si
e seus filhos). C a d a criança tem , o b rig ato riam en te, um p ad rin h o e u m a m ad rin h a de
L i v r o III - A F a m ília B a ia n a 175

batism o . N a zona ru ral, on de freq ü en tem en te a co m u n id ad e tem m ais hom ens que
m ulheres, as vezes esta ú ltim a é su b stitu íd a pela própria N ossa Senhora. De q ualqu er
m an eira, o b atism o n u n ca e celebrado logo após o n ascim en to , sendo freqüente batizar
crianças q u e já co m eçaram a an d ar. A cerim ô n ia é segu id a da consagração da crian ça
a N ossa S en h o ra.
Em g eral, p ad rin h o s e m ad rin h as p erten ciam à m esm a catego ria social dos pais da
criança. N o e n ta n to , raram en te um escravo era escolhido para esse papel, e nas cam a­
das sociais in ferio res — escravos e lib erto s — a preferên cia recaía sobre pessoas que
gozavam d e certo p restíg io na co m u n id a d e, m enos pela fo rtu n a e m ais pela persona­
lid ad e e as relações estab elecid as. N u m a so ciedade em q ue as posições depen diam da
ajud a de terceiro s, a esco lh a de p a d rin h o e m a d rin h a bem -relacio n ado s integrava um a
estratégia de ascensão so cial o u , pelo m enos, de preservação de u m a condição já
alcançada. A ssim , co n so lid av am -se e esten d iam -se os laços de so lid aried ad e. Pais abas­
tados esco lh iam com freq ü ên cia um m em b ro de fa m ília -ir m ã — ■um irm ão, tio ou avô
— , o que reforçava as ten d ên cias en d ó gam as das fam ílias baian as m ais im portantes.
Ao co n trário do q ue se passa ho je, no século X IX a respon sabilidade assum ida por
padrinhos e m a d rin h a s não se lim ita v a ao q ue estava escrito na certidão. Eles podiam
ser encarregados d a ed u cação , d a o rien tação pro fissio n al e do em prego do afilhado,
m esm o q u e os p ais deste fossem vivos. E, se falhassem , h avia a ‘reserva’, representada
pelo p ad rin h o ou m a d rin h a de crism a ou de consagração a Nossa Senhora, A ssim ,
desde o n ascim en to a crian ça era cercada por u m a rede protetora, m u ito im portante
num a sociedade em q u e a o rgan ização fa m iliar era instável, h avia grande num ero de
nascim entos ileg ítim o s e “crian ças, hom ens e m ulheres circulavam , construindo e
destruindo in can sav elm en te, ao lon go de u m a m esm a vida, formas dom ésticas precá­
rias”.3 A im p o rtân cia do a p ad rin h am en to era tão gran d e que, com o nos casos das
ligações de parentesco, tam b ém h av ia p adrin h o s e m ad rin h as ‘de consideração’. Até
hoje, aliás, são tratadas assim as pessoas que, ao longo da vida, ajudam alguém .
E xistia u m t e r c e ir o e im p o r t a n t e m o d o d e f ilia ç ã o n ã o b io ló g ic a : a filiação étn ica,
e n c o n tr a d a s o b r e tu d o e n tr e os a f r ic a n o s e seus d e s c e n d e n te s . E m S a lv a d o r, escravos e
libertos d a m e s m a e t n ia se e n c o n t r a v a m c o m m a is f a c ilid a d e q u e nas p lan ta çõ es de
c a n a -d c -a ç ú c a r, o n d e os se n h o re s se e m p e n h a v a m em m is tu r a r african o s de todas as
origens, a fim d e e v ita r c o n ju r a ç õ e s e re v o ltas.4 N a c id a d e rein ava u m a relativa lib e r­
d ade de m o v im e n to , po is a p r ó p r ia n a tu re z a das tarefas ex ig ia o c o n ta to c o n tín u o dos
trabalhadores e n tr e si. L ivres para g a n h a r a v id a c o m o q u isessem (c o n ta n to q u e d iv i­
dissem os lucros c o m os se n h o re s, dos q u a is e ra m m u ita s vezes a ü n ic a fonte de ren d a),
era raro que os escravo s sc ap resen tassem in d iv id u a lm e n te no m erca d o de trabalho.
C ad a etn ia tin h a seus p o n to s fixos de e n c o n tro , em e n c ru z ilh ad as c h am ad a s de cantos .
A in d a por vo lta d e 1 8 9 8 , cerca de q u in h e n to s velhos africano s d a B ahia co n tin u av a m
a form ar esses ‘c a n to s ’ , p refe rin d o con viver c o m os co m p atrio ta s — g u ru n ces, haussas,
nagôs, jejes e a lg u n s m in a s — , m esm o q u e estes fossem po uco estim ad o s pelos negros
nascidos no B rasil.5 N essa época, os tapas, bo rnu s, congos e angolas já h aviam desa-
17 6 B ah ia , S éculo XIX

parecido.6 C ada ‘canto’ tinha seu ‘capitão’, prestigiado por seus cam aradas e respon­
sável pelo grupo diante das autoridades da cidade.
A associação de natureza étnica não era utilizada som ente para a organização do
trabalho. Escravos e libertos se encontravam por etnia tam bém nas ‘juntas de alforria
(associações que angariavam fundos para pagar cartas de alforria) e, sobretudo, nas
confrarias religiosas instaladas na B ahia desde o fim do século XVII. Já expliquei como
o fato de pertencer a um a etnia podia influen ciar até a escolha de um parceiro sexual.
Não era, portanto, casual que a m aior parte dos africanos alforriados escolhesse seus
próprios escravos — quando conseguiam com prá-los — dentro da sua etnia. Esses
escravos eram freqüentem ente libertados, sem pagam ento, por ocasião da morte do
senhor; às vezes, herdavam os bens do senhor que não tivesse herdeiros legítim os.
Com preende-se por que a palavra parente podia designar qualquer pessoa que
pertencesse à m esm a etnia, criando-se assim m ais um tipo de filiação capaz de conso­
lidar laços tão necessários aos baianos m ais pobres. Os candom blés da B ahia são, ainda
hoje, herdeiros desse sistem a de filiação: seus m em bros afirm am pertencer à mesma
fam ília, um a ‘fam ília de san to ’, que ocupa o lu gar da lin h agem desaparecida. Fator de
redefinição dos valores africanos, a filiação étn ica faz referência a um antepassado
comum e desem penha um papel tão im p o rtan te quanto a filiação bio lógica.7

P a re n te la

N um grupo de pessoas aparentadas, todos se situ am em relação a um ou vários ante­


passados com uns. Em com pensação, a p arentela coloca o in divíduo (seja ele quem for)
no centro e reconhece seus parentes, pelo sangue ou por aliança, até exaurir os laços
genealógicos que a m em ória possa alcan çar.8 Se o indivíduo assim o decidir, chegam-
se a incluir ascendentes e descendentes cujo parentesco é apenas espiritual.
Nessa sociedade em que os filhos naturais eram tão num erosos, existia um a vasta
parentela ilegítim a. Ao contrário do que se passava com a parte legítim a e reconhecida
da fam ília, os chamados ‘parentes de mão torta’ (gerados por uniões livres) podiam ser
reconhecidos ou não. A ú ltim a hipótese ocorria sobretudo entre as cam adas superiores
da sociedade, especialm ente quando se tratava de parentes de cor. Às vezes não se
reconheciam sequer os descendentes de um casam ento desigual, mesmo que legitimo
do ponto de vista jurídico .9 E,sses parentes, freqüentem ente escamoteados, só apare­
ciam nas únicas cerim ônias fam iliares realm ente abertas: os enterros. A morte era
publica e sagrada, e as pessoas tinham o dever de prestar a últim a homenagem ao
defunto. M as, term inada a cerim ônia fúnebre, todos se separavam novamente.
A parentela era, pois, uma associação de solidariedade fam iliar m uito flexível e
m ultifuncional. Como o apadrinham ento, era uma via de m ultiplicação das solida­
riedades, um fator de coesão do grupo, um motor para todas as promoções. Verda­
deira clientela, freqüentemenre constituída de afilhados, filhos de afilhados, agrega-
L i v r o III - A F a m ília B a ia n a 177

dos, alforriados e parentes distan tes, a parentela podia, inclusive, ter um aspecto
u n ilateral: u m a pessoa podia considerar-se parente de outra, mesmo que esta negasse.
O recon hecim en to da condição de parente im plicava a aceitação de deveres c obriga­
ções recíprocos. Q u an to m ais prestigio sa fosse a posição ocupada por alguém , m aio­
res eram suas respon sabilidades d ian te de um parente de sangue, de aliança ou espiri­
tual. Essa respon sabilidade era, aliás, tran sm itid a de geração a geração, mesmo quando
novas parentelas e clien telas fossem acrescentadas às já existentes.
A ssim , nas velh as fam ílias baian as, a sustentação das posiçoes dos antepassados
não exigia apenas a cap acid ad e de m an ter c educar a p rópria fam ília, mas tam bém de
ocupar-se de toda u m a h eran ça dc fiéis clientes, que acreditavam firm em ente no poder
do parente p rotetor, m esm o q u an d o esse poder não existia m ais. T ratava-se, às ve7.es,
de herança b astan te p esada, sobretudo q uando a p arentela e a clientela eram pobres ou
m iseráveis. A té a d écad a de 1 9 6 0 , nu nca se recusava esse tipo de proteção, que repre­
sentava a força e a fraqueza dessa sociedade fraterna, em que os laços criados pela ajuda
m útua p o d iam tran sfo rm ar-se em nós górdios. As estratégias estabelecidas em torno de'
alianças m atrim o n iais co m p letav am e tornavam m ais com plicados esses sistemas.

A l ia n ç a s M a t r im o n ia is : E x o g a m ia e E n d o g a m ia

Estabelecidas em dois níveis e dotadas de duplo aspecto, a exogam ia e a endogam ia


coexistiam em Salvad o r no século X IX , m as a p rim eira era m uito m ais difundida que
a segunda. C om o já se v iu , a ten d ên cia à en d o gam ia se concentrava nas duas situações
sociais extrem as: fam ílias dos senhores de engenho e dos africanos alforriados.
O corre exogam ia q uando a alian ça m atrim o n ial é praticada fora do grupo domés­
tico, E m m anuel T o d d afirm a, em um texto am bíguo, que se trata de um a escolha
m atrim onial liv re ,10 mas essa definição nao parece adequada para situações em que os
pais impõem sua própria escolha aos filhos. A palavra exogam ia tam bém tem outro
sentido: corresponde a um “tipo de casam ento fora do grupo social de origem que
perm ite estabelecer relação com outros grupos de filiação. Essa definição am pla tem a
vantagem dc evidenciar as m obilidades sociais. A regra exogâm ica, obviam ente, proíbe
o incesto.
A endogam ia, ao contrário, im põe às pessoas a obrigação de contrair m am m onio
dentro do grupo dom éstico a que pertencem . Os casamentos preferenciais entre pn-
mos-irmãos, por exem plo, expressam um a espécie de hipertrofia do sentimento de
fraternidade.1- Na Bahia, esse gcncro de casamento era encorajado, mas não obrigató­
rio, coexistindo com os casam entos exógamos.
O termo endogam ia’ pode ser utilizado com um sentido mais amplo, de modo a
definir uma estratégia m atrim onial dentro do grupo social de origem. Usei essa acepçao
quando tratei do com portam ento sexual dos africanos e dos alforriados baianos, um-
dos por fazerem parte da mesma etnia. Sem dúvida, o conceito de etnia é muiro mais
17» B a h ia , S é c u l o X I X

am plo que o de grupo dom éstico. Por isso, é m elhor caracterizar esse tipo de endogamia,
unicam en te, por um a espécie de interdição, extensiva aos dois sexos, mas não de forma
absoluta: o cônjuge não pode ser escolhido fora do grupo dc origem , seja ele social ou
étnico. O ra, na B ahia, o m odelo social era essencialm ente branco, pois a riqueza era o
critério fundam ental para q u alq u er ascensão. A ssim , a m aioria dos baianos tendeu a
p raticar a exogam ia, sobretudo porque as estruturas da sociedade só eram rígidas na
aparência. N a realidade, os com portam entos não se deixavam tolher pelas regras.
j á m encionei o papel regu lado r que brancos e africanos desem penhavam nos dois
extrem os da sociedade, im po ndo lim ites firm es porém incapazes de enquadrar total­
m ente a vida social. A cor, o d in h eiro e as restrições d a Igreja em m atéria de afinidade
espiritual ou de co n san güin id ad e não eram suficientes para im p ed ir algum as relações
sexuais e até casam entos. Os estupros e raptos dem on stram a força das paixões dos
que, com ou sem êxito, nao acatavam as regras im postas pela Igreja e as fam ílias. Só
um a análise q ue contabilizasse dispensas de casam ento po r razão de consangüinidade,
associada a um estudo d iferen cial dos casam entos, p erm itiria d eterm in ar a influência
desses com portam entos d iv erg en tes.13 E ntretan to, é possível in d icar com exatidão
algum as estratégias m atrim o n iais de dois grupos sociais bem diferentes: os 113 baianos
que, no século XIX, receberam títu lo s de nobreza e os escravos alforriados de Salvador.
Q uanto aos estupros e raptos, descobri alg u m a coisa em relatórios policiais e discursos
que solicitavam a criação de casas para m oças abandonadas ou expostas a esses perigos.

E st r a t é g ia s M a t r im o n ia is d o s B a ia n o s N o b il it a d o s

Foi m uito recente a form ação de u m a nobreza brasileira. D urante o período colo­
n ial, os portugueses (e seus descendentes) que se tornassem poderosos senhores de
engenho no Brasil podiam p ed ir ao rei a condição h ered itária de fidalgo. Depois da
Independência, a jovem M o n arq u ia brasileira criou título s de nobreza para recom­
pensar os que prestavam serviços ao país. Os dez conselheiros de Estado do im pera­
dor dom Pedro I, que elaboraram a C o n stituição de 1824, foram os prim eiros: re­
conhecidos como viscondes e depois elevados a m arqueses. Num erosos participantes
das lutas pela Independência na B ahia tam bém receberam esses títulos. Durante o
reinado de dom Pedro II, eles foram outorgados aos que gozavam de grande prestí­
gio político e econ ôm ico ,1'* Entre as 986 pessoas tornadas nobres pelo Império, 113
nasceram na Bahia.
M as a nobreza brasileira cra dc ordem pessoal, isto é, não se transm itia aos descen­
dentes. Só o título de 'fid algo ’ continuou hereditário, como no tempo da monarquia
portuguesa. Aliás, nem rodos os nobres eram fidalgos, e estes não recebiam forçosa­
mente um título de nobreza, como mostra o caso de Francisco Pereira Sodre. Tornado
Barão de A lagoinhas em 1879, solicitou por duas vezes, a dom Pedro II, a condição de
fidalgo, hereditária em sua fam ília havia duas gerações. Em vão. Explica-se: ele tivera
L i v r o III - A F am ília B a ia n a 179

a infelicidade de nascer bastardo. O insistente apoio de seu m eio-irm ão Jerônim o,


solteiro, e de suas duas m cio-irm ãs não foi suficiente para sensibilizar o im perador. Em
com pensação, em outra fam ília, João José de A lm eida C outo, fidalgo e Barão de
Desterro, obteve a m esm a condição de fidalgo para seu genro — que não era n o b re__
alegando sim plesm ente que não tinha herdeiro do sexo m asculino em sua própria
fam ília. Se um filho de pai tornado nobre quisesse ser nobre tam bém , teria que provar
o seu valor antes de fazer a solicitação.
Os baianos nobilitados form aram dois grandes grupos: os que seguiram carreira e
fizeram suas alianças m atrim oniais fora da Província e os que perm aneceram nela até
morrer. C ham arei de ‘cariocas’ os 39 (dc um total de 113) que se fixaram no Rio de
Janeiro, capital do Im p ério .15 Só dois deles contraíram casam entos endógamos. O
prim eiro foi José C arlos de A lm eid a T orres (1 7 7 9 -1 8 5 6 ), V isconde de M acaé, alto
m agistrado, deputado, senador, m inistro e prim eiro-m inistro. Era filho de José Carlos
Pereira, juiz do T rib u n al de R elação de Salvador, c de A na R ita Zeferina de A lm eida
Torres. Aos 25 anos, quando era ouvidor da com arca de Porto Seguro, José Carlos
Júnior se casou com sua p rim a-irm ã, M aria Eudóxia E ngracia B ernardina de Alm eida
Torres, filha de seu tio m aterno B ernardino M arques de A lm eida Torres, senhor de
engenho, e de Jo an a A ngélica de M enezes D oria, tam bém oriunda de um a distinta
fam ília do Recôncavo.
O outro ‘carioca’ endogâm ico foi Carlos C arneiro de Cam pos (1 8 0 5 -1 8 7 8 ), V is­
conde de Caravelas, m em bro da poderosa fam ília política dos Carneiro de Campos.
Era sobrinho do M arquês de Caravelas (17 70 —1836), alto funcionário do prim eiro
Im pério, principal redator da C onstituição dc 1824, senador, várias vezes ministro,
membro do Conselho da R egência entre 1835 e 1836. O utro tio seu era Francisco
Carneiro de Cam pos (1 7 7 6 -1 8 4 2 ), m agistrado de nível m uito elevado, senador e
m inistro de dom Pedro I. A esses dois tios, que perm aneceram solteiros, Carlos Car­
neiro de Campos deveu sua carreira de alto funcionário, deputado, presidente de
província e m inistro. Casou-se, em prim eiras núpcias, aos dezoito anos, antes de
term inar seu curso de direito em Paris, com Fabrícia Ferreira França, que tínha quinze
anos c cra filha dc seu tio m aterno, o doutor Antônio Ferreira França, e de dona Ana
da Costa Barradas, que morreu cm 1848. Q uinze anos depois, tendo enviuvado e se
tornado presidente da Província dc M inas Gerais, contraiu novas nüpcias com uma
moça da terra, Barbara G aldina, 25 anos mais moça que ele, nascida no poderosíssimo
clã dos O liveira. Mas, nessa época, ele já era um homem de posição muito elevada. Era
doutor em direito pela Universidade clc Paris, o que, na época, era bastante raro. Os
jovens baianos, nascidos no fim do século XVI11 ou nos primeiros anos do século XIX,
continuavam fazer estudos superiores cm C oim bra.lf>
Esses dois baianos que se casaram dentro das respectivas famílias tiveram sólidos
apoios familiares desde o início de suas vidas. O Visconde de Macaé começou sua
. carreira seguindo a trajetória dc seu pai, desembargador do Tribunal da Relação da
Bahia. Mas é interessante notar que cie adotou o nome — mais prestigioso — de sua
180 B ah ia , S éculo X I X

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$ mãe, que era filha e irmã de senhores de engenho do Recôncavo. Sua integração à
i■ fam ília m aterna foi de tal ordem, que ele acabou casando com a filha do irmão de sua
mãe, fazendo desaparecer de seu nome todo e qualquer vestígio do patroním ico Pereira.
O prestígio do proprietário de terras suplantava o do m agistrado, por m ais elevado que
fosse o grau atingido na m agistratura.
No que diz respeito a Carlos C arneiro de C am pos, as coisas são mais simples
ainda: aqui, o lado paterno era m ais im portante, graças aos dois tios solteiros, que
haviam feito carreiras brilhantes. É possível que o casam ento tão precoce com sua
prim a-irm ã tenha sido conseqüência de um desses ‘acidentes’ tão freqüentes, numa
época em que era comum a coabitação de prim os sob o mesmo teto. Seja como for, ao
casar Carlos somou as endogam ias fam iliar e de classe.
Essa endogam ia de classe caracterizava os outros 37 ‘cariocas’, exógamos do ponto
de vista fam iliar. Entre eles, só um utilizo u sua alian ça m atrim onial para reforçar uma
posição conquistada por m érito próprio. Foi A ngelo M oniz da Silva Ferraz, Barão de
U ruguaiana, filho de um proprietário rural do sul do Recôncavo, detentor de poucas
posses. Em prim eiras núpcias, A ngelo se casou com M aria Rosa de O liveira Junqueira,
que pertencia a um a grande fam ília de senhores de engenho e de altos m agistrados do
Recôncavo, T endo enviuvado duas vezes, o Barão de U ru gu aian a, deputado, senador,
presidente de província, m inistro e presidente do C onselho dos M inistros, casou-se
: sucessivamente com duas m oças, originárias do Rio de Janeiro.
A tabela 44 in d ica claram ente que a escolha m atrim o n ial dos ‘cariocas’ recaía
sobre moças do seu nível social. M as os pais recenseados não exerciam um a única

TABELA 44

A t iv i d a d e d o s P a is d e N o b r e s B a ia n o s F ix a d o s
no Rio de J a n e ir o e d o s P a i s d e s u a s M u l h e r e s *

A t iv id a d e P ai dos M a r id o s P ai d as M u lh e r e s

Senhor de engenho 8 7

Proprietário rural 3 2
Comerciante 4 -
Desembargador 2 4

Alto funcionário - 1
Militar 6 3

M&lico 1 -
Advogado 2 3

Outras 2 I
Sem informarão 8 15

Total 36 36

(*} Considcrima, apenat a principal atividade de cada um. Não foram incluídos trés nobres
que permaneceram solteiros.
L ivro III - A F amília B aiana 181

atividade principal; magistrados e médicos podiam ser também senhores de engenho


ou comerciantes. Além disso, não se deve esquecer que as mães do marido e da mulher
também desempenhavam um papel essencial nessa avaliação social que tento fazer.
Treze ‘cariocas’ casaram com baianas, catorze com brasileiras não baianas, seis
com portuguesas, um com alem ã e um com francesa. Em um caso ignoro a origem da
esposa. Portanto, 2/3 casaram com mulheres não baianas. Em geral, eles começaram
suas carreiras na m agistratura ou eram funcionários que haviam iniciado suas ativida­
des fora da Província da Bahia. As seis portuguesas casaram-se com baianos que
estudaram direito em C oim bra e obtiveram em Portugal, antes da Independência do
Brasil, suas prim eiras nomeações. A liás, 29 detentores de títulos de nobreza morreram
no Rio, sem retornar à Bahia. Seus descendentes seguiram carreira na capital do
Império. Os baianos que, tornados nobres, perm aneceram na província natal repre­
sentam a m aioria do grupo de 113: foram 74 pessoas, das quais dez permaneceram
solteiros. A tabela 45 tam bém é um belo exemplo da endogam ia de classe.

T A B E LA 4 5

A t iv id a d e d o s P a is d e N o b r e s B a ia n o s F ix a d o s
n a B a h ia e d o s P a is d e s u a s M u l h e r e s *

A t iv id a d e P a i d o s M a r id o s P a i das M u lh e r e s

Senhor de engenho 37 38

Proprietário rural 11 10

Comerciante 1 5

Alto magistrado 2 1

Alto funcionário 5 -

Militar 2 2

Médico - 1

Advogado I -

Outras -

Sem informação 5 7

Total 64 64

(#) C^cíhsulcraíTiojf npena.5 a principal atividade de cada um. Nao foram incluídos dez nobres
que permaneceram solteiros.

A m aioria, com efeito, era formada por filhos de proprietários de terras ou


pelos próprios — que se casaram com filhas de proprietários de terras. Sua estratégia
matrimonial tinha como objetivo conservar e aumentar os bens que possuíam. A
legislação referente à herança favorecia por igual os filhos dos dois sexos. Produzia,
portanto, a partilha das propriedades, mas essa tendência era corrigida pela endogamia
de classe. Com efeito, numa exploração de tipo agroindustrial, como a da cana-de-
açúcar, é difícil repartir em partes iguais as terras de cultivo, as matas, os pastos, as
182 B a h ia , S é c u lo X I X

terras nao cu ltiv ad as e até a m ão -d e-o b ra escrava, sem com p rom eter o funcionam ento
d a em presa lig ad a ao engenh o. C o m p rar as partes dos outros herdeiros era quase
im possível, sobretudo po rq ue, no século XIX, o engenh o de açúcar era quase sempre
d eficitário , fazendo com q ue os senhores estivessem freq ü en tem en te en d iv id ad o s,17 Só
restavam d u as soluções: v en der a p ro p ried ad e e rep artir o d in h eiro , ou perm anecer
num sistem a q ue garan tisse a produção u n itária. A p rim eira solução nao era atraente:
desfazer-se da terra sign ificav a u m a im e d iata perda de prestígio e um a inevitável
decad ên cia so cial; além disso, h avia poucas p o ssib ilid ad es de in vestim en to interessan­
tes. A in d ívisão era a m elh o r so lu ção . Para con servar p restígio e fo rtu n a, era preciso,
além disso, ter várias p ro p ried ad es. E n ten d e-se, assim , que cinco dos detentores de
títu lo s d e nobreza q ue fig u ram n a tab ela 45 ten h am casado com filhas de grandes
com erciantes, que d o m in av am a v id a eco n ô m ica d a cíd ad e. Essa determ inação de
conservar na m esm a classe social o p atrim ô n io te rrito ria l torn a-se ain d a m ais evidente
q u an d o se an alisam os v in te casam entos en dó gam o s, en tre os 6 4 recenseados aqui. Um
bom terço dos b aian os en o b recido s esco lh eu , com o esposas, p rim as-irm ãs, prim as
‘cruzadas’ e, em q u atro casos, so b rin h as.
A an álise das estratégias m a trim o n ia is de duas gran d es fam ílias do Recôncavo, os
A raújo G óis e os C o sta P in to , p erm ite co m p reen d er m elh o r esse sistem a enraizado nas
m en talid ad es b aian as. A fa m ília A raú jo G óis era u m a das m ais an tigas d a província. O
fu nd ad or p o rtuguês, G aspar de A raú jo , o rig in á rio d a v ila de Arcos de V al-de-V az, no
M in h o , e sua m u lh er, d o n a C a ta rin a de G óis, o rig in á ria d a v ila de A len q u er, perto de
Lisboa, chegaram em 1561 a São Jo rg e dos Ilhéu s, sede do d istrito d a nova C apitania
de Porto Segu ro . Esse casal p o rtuguês teve seis filhos nascido s no B ra sil.18 D epois da
m orte de sua m u lh er, G aspar se in stalo u em Salv ad o r, sendo recebido com o irmão
leigo num convento jesu íta, onde veio a m o rrer.
Desses seis filhos, dois deixaram nu m ero sa descendência: a filha m ais velha, Anrônia
de P ádua de A raújo G óis, casada com D o m ingos d a Fonseca Saraiva, português nas­
cido em V iseu (B eira A lta) e estabelecido em C a iru (B ah ia), e seu irm ão Sim eão de
A raújo Góis, que se casou com a filh a de um a de suas irm ãs e se tornou senhor de
engenho no Recôncavo.
A descendência dc A n tô n ia de P ádua foi in terro m p id a no fim do século XVII,
após quatro gerações em lin h a direta, ao passo q ue a de Sim eão chegou a nossos dias.
N a prim eira década do século XIX, os descendentes de am bos ingressaram na vida
política e econôm ica dc Salvador e do Recôncavo. Por isso, foram objeto de estudos
genealógicos m ais precisos, que incluíram tam bém a genealogia dos ramos familiares
aliados.17 Interessam -m e aqui quatro dessas genealogias: a de A ntônia de Pádua de
Araújo Góis (1561 —1700?). a dc Sim eão de A raújo Góis (1 563?—18 6 7 ), a de Inocêndo
M arques de Araújo Góis, Barão de A raújo Góis (1 8 0 9 -1 8 7 8 ), e a de A ntônio Calmon
de Araújo Góis, Barão de C am açari (1 8 2 8 - 1 9 12).20
Apesar do cuidado e da exatidão típicos dos genealogistas, freqüentem ente faltam
dados sobre os anos de nascim ento e as idades na época dos casamentos. Isso vale tanto
L ivr o III - A F am ília B aiana
183

para os períodos recentes quanto para os antigos. A lém disso, m uitas crianças natim ortas
ou que m orreram em tenra idade nem foram assinaladas. Enfim, por causa da enorme
liberdade — que já assinalei — em u tilizar patroním icos diferentes no seio da mesma
fam ília, nem todos os casam entos endogâm icos puderam ser registrados. Entre 1561
e os prim eiros trin ta anos do século XX, os descendentes conhecidos de Gaspar de
A raújo e de C atarin a de G óis, em nove gerações, form avam um grupo de 375 pessoas;
entre elas, 2 1 7 se casaram , m as, segundo essas genealogias, som ente 93 deixaram
descendentes. O u seja: 124 desses 2 1 7 casam entos não teriam gerado herdeiros.21
Por outro lado , 6 0 hom ens e 43 m ulheres, integrantes desse universo de 375
descendentes, m orreram ad ulto s, m as na condição de celibatários. T om ando como
exem plo a lin h ag em de Sim eão de A raú jo G óis, que é a m ais longa e mais bem
docum entada, é possível co n statar que a p rática do celibato variou segundo o sexo e
o período. E ntre 1561 c 1800, o celibato dos hom ens (5 2 ,8 % do total) foi mais
freqüente q u e o das m ulheres (2 4 ,1 % ), ao passo que entre 1801 e 1920 a situação se
inverteu: 2 9 ,7 % dos ho m ens e 4 4 ,8 % das m ulheres perm aneceram nessa situação. H á
um a explicação p lausível. P o deria ser m ais fácil casar as m oças no período em que era
m aior a im igração de jovens portugueses que chegavam ao N ovo M u n do em busca de
fortuna, co n seguiam en riq u ecer no com ércio e, em seguida, tentavam receber a con­
sagração social casando com u m a b aian a, filh a de senhor de engenho.
Por outro lado , com o já foi m en cio n ad o , 4 4 dos 2 1 7 casam entos celebrados
perm aneceram estéreis. Se acrescentarm os essas 4 4 pessoas às 2 3 que ficaram celiba­
tárias, o p ercen tual de pessoas adultas sem descendência passa para 4 5,0% (48 das
375 pessoas recenseadas eram crianças que m orreram em ten ra idade). O ra, 88,5%
dos 193 casam entos dessa fa m ília foram exógam os, repartidos de m aneira bastante
igual ao longo dos três séculos e m eio. N ão há dúvida de que os casamentos entre
prim os lon gín qu o s eram freqüentes (ain d a hoje, os descendentes dessas fam ílias se
tratam de ‘p rim o ’ e ‘p rim a ’), m as esses parentescos devem ser considerados laços
m uito m ais de classe que de sangue. D e m odo geral, o antepassado comum se perde
na noite dos tem pos. As fam ílias do Recôncavo se m isturaram diversas vezes, mas na
m aior parte do tem po os laços sangüíneos foram bastante constantes. 5ó há registros
de doze segundos casam entos, oito dos quais contraídos por homens.
T am bém na fam ília A raújo Góis aparecia o m odelo endógam o de toda a nobreza
baiana, apresentando inclusive um a certa anom ia: todas as combinações eram possí­
veis, exceto o casam ento entre irmãos e irm ãs. No decorrer do século XIX, entre os
descendentes de Inocèncio M arques de Araújo Góis (17 84 —1860), que se casou em
1803 com M aria jo a n a C alm on de Aragão, houve 52 casamentos e segundos casamen­
tos, dos quais só dez foram endógam os.
V oltarem os a esses tipos de uniões após analisar os casamentos endógamos dos
C osta Pinto, outra dessas grandes famílias baianas.22 Ao contrário da fam ília Araújo
Góis, fundada no século XVI, o iniciador dos Costa Pinto chegou a Salvador no fim
do século XVIII. C o nstituiu, pois, uma fam ília brasileira recente, mas de ascensão
184 B a h ia , S éculo X I X

social m uiro rápida: já no m eio do século XIX, seu prestígio era igual ao dos Araújo
Góis, chegando a ultrapassá-lo no fim do século. Em 1880, os Costa Pinto fundaram a
usina de Bom Jard im , prim eira usina central de açúcar da B ahia e a segunda do Brasil,
e foram pioneiros na introdução de técnicas agrícolas m odernas. Os A raújo Góis, por
sua vez, eram típicos representantes dos senhores dc engenho com m entalidade arcaica.
O trem endo poder político e econôm ico dos C o sta Pinto tornava desnecessário
buscar origens m íticas para tentar enaltecer a fam ília. S u a gen ealo gia era extrem am en­
te sim ples: A ntônio da C osta P into, o fundador, era o rigin ário da Província d’ Entre-
Douro e M inho. C om o m uitos com patriotas, chegou à B ahia para fazer com ércio e,
depois, se estabeleceu no Recôncavo com o proprietário rural. Em 1799, já possuía
várias propriedades em Santo A m aro, C ach o eira e Á gua Fria. Foi o ú ltim o adm inistra­
dor da ‘capela in stitu íd a em 1726 por B ento Sim ões. S u a esposa, M arian a Joaquina
de Jesus, a ‘lá G rande’, descendia dos Lopes e dos F erreira de M o ura, duas fam ílias
im portantes do Recôncavo. Graças a esse casam ento, que gerou catorze filhos (sete dos
quais mortos na p rim eira in fân cia), A ntônio ingressou na fechada casta dos senhores
de engenho.
Os dados genealógicos de que disponho cobrem três gerações dessa fam ília. Cinco
filhos de A ntônio casaram -se e tiveram filhos, um casou-se m as não teve filhos, e
Francisco, apelidado ‘X ix i’, perm aneceu celib atário , tendo no entanto vários filhos
naturais, entre os quais o célebre engenheiro, geógrafo e historiador Theodoro Sam paio,
que nunca foi oficialm ente reconhecido pelo pai. N essa p rim eira geração, apenas
M anuel Lopes da C osta P into, V isconde de A ram aré, foi tão prolífico quanto seus
pais, tendo catorze filhos legítim os (com u m a sobrinha) e outros tantos naturais! Só
quatro filhos sobreviveram até o casam ento. D ois, casados com prim os-irm ãos, não
tiveram descendentes legítim os: Elias (1 8 6 6 —1905) só teve filhos naturais; sua irmã
Jú lía (dita Ju lin h a) da C osta Pinto (1 8 7 1 -1 9 3 5 ) casou duas vezes (com dois irmãos)
c morreu sem descendência, mas um dos seus m aridos tinha tido filhos naturais.
Assim, só dois filhos do V isconde de A ram aré tiveram prole legítim a.
M esm o deixando de lado quatro casam entos que uniram prim os longínquos, 12
dos 26 casamentos dos descendentes diretos dos Costa Pinto foram endógamos, se­
guindo o mesmo m odelo presente na fam ília A raújo Góis: nao havia regra, mas se
notava uma pequena preferência por uniões entre prim os cruzados, em vez de primos
paralelos. Esse sistema encorajava o casam ento de uni homem com a filha de sua
própria irmã, o que não im plicava de modo algum a existência dc um modelo de
aliança assimétrica. Percebo, antes, um modelo nuclear desregrado, o da fam ília anômica,
decorrente da coabitação entre pais c filh o s,^ EIc predom inou num a estrutura social
muito ílexível, sobretudo no que dizia respeito âs famílias.
Esse tipo de solução não era expressamente procurado, mas era aceito. Os senho­
res dc engenho, que em suas terras possuíam apenas uma casa digna de ser habitada
por gente de sua classe, acabavam por formar grupos domésticos extensos, vivendo em
ambientes propícios a essas uniões endógamas. M as, quando uma fam ília era dona dc
L iv r o III - A F am ília B a ian a 185

mais de um engenho, os recém-casados tinham para onde ir. Em nome da integridade


das propriedades, quem tivesse escolhido sua m ulher no seio da própria fam ília era
encarregado de explorar as terras vizinhas à nova residência.- :
A trajetória da fam ília Costa Pinto se enquadra perfeitam ente nesse modelo. Em
meío a casamentos endógam os, o tabu do incesto se atenuava logo na prim eira gera­
ção, contada a partir do fundador. Com efeito, entre os seis filhos que sobreviveram
e se casaram, só um se uniu a um a m ulher não aparentada aos Costa Pinto! Os
outros cinco — três rapazes e duas moças — casaram com primos ou primas em
prim eiro grau, ou então com sobrinhas. Tratava-se, naturalm ente, de consolidar os
bens adquiridos por um pai que, tendo casado com a filha de um proprietário de
terras, deixara o com ércio e fora cu idar de bois e escravos.24 No início do século XIX
esse tipo de troca já não era tão lucrativo como fora no fim do século XVIII.25 Mas
nao im porta: tratava-se de conservar as terras na própria fam ília, se possível aum en­
tando a área territorial.
Dois exemplos ilustram claram ente essa tática: M aria Luiza da Costa Pinto casou-
se com seu prím o A ntônio Jo aq uim de M o ura em 1826 ou 1827; dois de seus oito
filhos m orreram em tenra idade, dois outros se casaram fora da fam ília (com filhas de
senhores de engenho dos arredores) e quatro se casaram com parentes (três com
prim os-irm ãos e a outra com um tio m aterno). A irm ã de M aria Luiza, M aria Rita
Ermelina, casou-se com seu prim o-irm ao, João Ferreira Lopes; sua filha única fez a
mesma coisa, casando-se m ais tarde com o filho do irm ão de sua mãe.
As mesmas práticas poderiam ser descritas para a geração seguinte, dos bisnetos do
fundador. As tendências endógam as dos Costa Pinto atingiram 46,2% dos integrantes
da fam ília, proporção m uito m aior que os 19,2% registrados entre os Araújo Góis,
m uito mais antigos no Recôncavo. Dez dos 52 casamentos ou segundos casamentos
celebrados na fam ília A raújo Góis no século XIX foram endógamos (o número 52 só
representa 26,7% do conjunto dos casam entos celebrados na fam ília desde o século
XVI). O utra diferença im portante: os filhos homens dos Costa Pinto e quase todos os
seus genros trabalhavam na agricultura, enquanto os filhos dos Araújo Góis estudavam
direito ou m edicina, seguindo carreira na m agistratura, no serviço público e na polí­
tica. Seria porque estes tinham menos propriedades rurais que aqueles? É possível.
Graças aos casamentos endógamos, o clã Costa Pinto manteve o controle sobre onze
engenhos (Jacu, Europa, Bento Simões, Regalo, Gameleira, Gravatá, Bonsucesso,
Canabrava, O iteiro, M ato Limpo e Aramaré), todos situados nas ricas terras de massapê
dos distritos de Santo Amaro, Cachoeira e Água Fria. Em 1880, eles instalaram uma
moderna usina, logo famosa, para o refino do açúcar.
Esses dois modelos, tão contrastantes, se reproduziam em outras famílias do
Recôncavo baiano? Para dcscobri-lo, fiz um estudo mais geral, que abrangeu quatro
outras famílias baianas. Duas, muito importantes, estavam em pé de igualdade com os
Araújo Góis. Trata-se das famílias Bulcão e Sodré, cujos antepassados chegaram à
Bahia em meados do século XVII.
186 B a h ia , S éculo X IX

Gaspar de Faria Bulcão se estabeleceu nas terras da paróquia de Nossa Senhora do


M onte do Recôncavo, fundada cm 1603, fazendo parte do famoso distrito açucareiro
de São Francisco da Barra de Sergi do Conde. O genealogista dessa fam ília — da qual,
aliás, ele mesmo descendia — afirm ou que Gaspar com prou nessa região uma grande
extensão de terras, em que instalou a capela de São José e os engenhos Cravaçu,
Q uicengue, São José, Novo, de Baixo, G uaíba, Cassarangongo, Pitinga, Queronte,
A cutinga e G uabinha, este últim o situado na península de Iguape, distrito de Cachoei­
ra. Ele e sua m ulher, G uiom ar, filha do capitão Balthazar da Costa, grande proprietá­
rio de engenhos na mesma paróquia, deram início a um a rica linhagem , que se desta­
cou nos séculos XVIII e XIX .26 Esse Gaspar de Faria Bulcão teria trazido dos Açores
o capital que valorizou nas terras férteis da Bahia? O historiador não esclarece. Mas é
verossím il, dada a rápida instalação de Gaspar como proprietário de terras e fundador
de engenhos.
Os Araújo Góis diziam ser de origem bretã, os Bulcão flam enga e os Sodré inglesa.
Estes consideravam -se descendentes de Fradique Sodré, que fora para Portugal duran­
te o reinado de Afonso V (1 4 3 2 —1481) e se tornara o prim eiro senhor de Águas Belas
em Ribam ar, distrito do bispado de Lisboa. M em bros da fam ília se destacaram, servin­
do ao Estado português: José Pereira Sodré foi governador da ilha de São Tomé, e
D uarte Sodré P ereira, cap itão -d e-m ar-e-g u erra e go vern ado r da C ap itan ia de
Pernambuco entre 1727 e 1737. O ramo baiano dessa fam ília teve início com o mestre
de campo Jerônim o Sodré Pereira (1 6 3 1 -1 7 1 1 ), q u e c h e g o u à Bahia por volta de 1660
e se casou com Francisca de Aragão, filha de um a das fam ílias maís poderosas do
Recôncavo.27
Vários membros da fam ília continuaram a servir ao Estado. Um dos netos de
Jerônim o Sodré Pereira foi m estre-de-cam po auxiliar e integrou o Conselho M unicipal
da cidade de Salvador. No século XVIII, alguns bisnetos — Jerônim o Sodré Pereira
(1 7 1 9 -1 7 9 0 ), João Sodré Pereira (1 7 4 5 -1 7 9 0 ), José Álvaro Pereira Sodré (1746­
1773), Jerônim o Sodré Pereira (1754—1808), Francisco Sodré Pereira (1758—?) c dc
Rodrigo Sodré Pereira (1 7 5 9 -1 7 9 3 ) — exerceram as funções de mestre-de-campo
auxiliar, de sargento-mor da cavalaria e de coronel da M ilícia.
As outras duas famílias escolhidas, Bittencourt (ou Bethencourt) e Berenguer,
tinham raízes profundas no Recôncavo, onde eram proprietárias rurais, mas sua im­
portância social era menor. Essa não é, evidentemente, a opinião dos seus genealogistas,
que lhes atribuem papel tão prestigioso quanto aquele dos Araújo Góis, dos Bulcão e
dos Sodré.28
f elix de Bittencourt c Sá, cavaleiro fidalgo da Casa Real, cavaleiro da Ordem de
Cristo c familiar do Santo Ofício, chegou â Bahia por volta de 1685, por razões
desconhecidas. Em 1688, casou com Catarina de Aragão Ayaia, viúva de Jorge de
Britto, que morava na paróquia dc São 1’cdro du Rio Fundo, no distrito açucareiro de
Santo Amaro. Os Bittencourt, que tiveram numerosos descendentes, instalaram-se em
outras áreas do próprio Recôncavo, como São Gonçalo, São Sebastião do Passé,
L t v r o III - A F a m í l i a B a i a n a 187

Sant A nna do C atu e ate mesmo Salvador, C ontudo, não há menção de que algum
engenho de porre tenha pertencido a essa fam ília. Pode-se especular que eles fossem
proprietários agrícolas de m edio porte, pois nenhum membro da fam ília recebeu título
de nobreza no século XIX. Alem disso, os B ittencourt não desem penharam papel
político im portante nas assem bléias Provincial e N acio n al.29
A fam ília B erenguer apresentava o m esm o perfil. Português de Funchal, com
ascendência espanhola, D iogo A ntônio de B itten co u rt Berenguer Cesar chegou à
Bahia na segunda m etade do século XVITI, tam bém sem que se saiba a razão de sua
vinda. Em 1760, casou-se na parp q u ia de Nossa Senhora do M onte do Recôncavo
com A na M aria Borges de Barros, filh a de A lexandre V az da Costa e de Josefa M aria
do Socorro Barros. Os dois m orreram em Salvador, Josefa em 1791 e Diogo cm 1805.
Seus descendentes residiram no Recôncavo e possuíram terras nas paróquias de Nossa
Senhora da P urificação, São Pedro do Rio Fundo, São G onçalo e Bom Jardim , todas
situadas no d istrito de San to A m aro , estendendo suas glebas para m ais longe, até
A lagoinhas (A greste d a B ah ia), São M ateu s (C ap itan ia do Espírito Santo) e Aracaju,
capital da C a p ita n ia de Sergipe. N enhum títu lo de nobreza foi atribuído à fam ília, que
só teve um representante na A ssem bléia Provincial, A ntonio B ittencourt Berenguer
Cesar, eleito d eputado em 1835 e 1 8 3 9 .30 Pelo jogo das alianças m atrim oniais, essas
duas fam ílias acabaram se torn an d o parentes das grandes fam ílias dos senhores de
engenho, com o Borges de Barros, A rgolo M enezes, Lopes V illas-B oas, Pires de Carva­
lho e A lbuquerque, A ragão, M o reira Pinho etc.
Q uais eram as práticas m atrim o n iais dessas quatro fam ílias? Aproxim avam -se do
modelo dos C o sta P into ou do dos A raújo Góis? A endogam ia de fia sse era tão
pronunciada aqu i q u an to nas outras fam ílias im portantes da B ahia: as pessoas se
casavam dentro d a m esm a categoria social. M as, e a endogam ia fam iliar? O caso da
fam ília C osta Pinto parece ser u m a exceção à regra. No que tange a cinco dessas seis
fam ílias, o percentual de endo gam ia fam iliar era relativam ente baixo (9% , em mé­
d ia).31 N ota-se tam bém que, para três dessas seis fam ílias, a endogam ia fam iliar esteve
ausente nas prim eiras gerações. Os casam entos entre prím os-irm ãos e entre sobrinhas
e tios sc m ultip licaram sobretudo no século XIX.
As fam ílias Bulcão, Sodré e B ittencourt, que apresentavam o mais fraco percentual
dc endogam ia, chegaram à Bahia mais ou menos ao mesmo tempo, isto é, na segunda
metade do século XVII. Duas delas, Bulcão e B ittencourt, se insralaram em terras
ainda pouco exploradas no século XVII, situadas na paróquia de Nossa Senhora do
M onte do Recôncavo, de onde foi desm em brada, no século XVIII, a paróquia de São
Pedro do Rio Fundo. A instalação dessas fam ílias na Bahia aconteceu num período de
depressão da econom ia açucareira. Isso não se deu no caso das fam ílias Berenguer e
Costa Pinto, que chegaram cin um período de nova expansão da cultura de cana-de-
açúcar. Além disso, as fam ílias qUe se instalaram na Bahia na segunda metade do
século XVII encontraram terras disponíveis no Recôncavo. As que chegaram no hm
do século XVIII se estabeleceram num Recôncavo dotado de grande densidade
10 B a h ia . S é c lto XIX

p o p u lacio n al, em que cada m etro q uadrado dc terreno tinh a que ser disputado. Nessas
circu n stân cias, a endo gam ia era o único m eio dc conservar os hens de um a família.
A exogam ia — não de classe, mas fam iliar — representaria um a estratégia m atrim o­
n ial q u e, m ais q ue a con servação dc bens, p o ssib ilita ria a aq u isição de bens ç
corresponderia a um a etapa dc co n qu ista, num m om ento em que os laços fam iliais
ain d a náo estavam so lid am en te estabelecidos.
A endo gam ia sc m anifestou na fam ília A raújo G óis — um a das m ais antigas da
B ahia — logo nas prim eiras gerações, m as no in ício essa tendên cia foi relativam ente
fraca, com parada ao que ocorreu nas três gerações q u e atravessaram o século XIX. No
início da colonização da B ah ia, q u an d o a in d a era p eq u en a a população de origem
européia, a en d o gam ia era quase indisp en sável. A pesar disso, no século XIX a incidên­
cia dessa p rática foi m aís acen tu ad a em rodas as fam ílias, pois nesse período a quan­
tidade de terras dispon íveis d im in u iu e a con dição de p ro p rietário agrícola passou a
conferir título s de nobreza aos q u e asp iravam por eles. A dem ais, a ativ id ad e açucareira
era econ om icam ente p restigiad a, ap esar da gran d e depressão por que passou esse setor,
sobretudo na segunda m etade do século.
O estudo gen ealó gico dessas seis fam ílias do R ecôncavo tam bém torna possível
avaliar, m esm o de form a ap ro x im ativ a, o p ercen tu al de celib ato e de m ortalidade
in fan til. Im pressiona, nesse caso, o alto p ercen tual de celib atário s em todas as fam ílias
estudadas, inclusive a C o sta P into, o q ue ev id en cia a p rática d a endogam ia. Na gera­
ção dos netos se en co n trava o m aio r p ercen tual de celib ato , exceto nas fam ílias Sodré
e C osta P into . E xcep cion alm en te, esse p ercen tu al podia a tin g ir até 90% da população
ad ulta. M as, com o o núm ero de gerações por fam ília sem pre foi m uito variável,
tentem os com parar apenas as três ú ltim as gerações que, de m odo geral, corresponderam
ao século XIX. , ? . . ■ ■
Foram celibatário s 4 2 ,0 % dos m em bros d a fa m ília A raújo G óis, 3 0 ,2 % da Bulcão,
3 3,3% da Sodré, 4 3 ,6 % da B itten co u rt, 4 1 ,8 % da B eren gu er e 2 5 ,7 % da Costa Pinto.
A m édia ficou em torno de 3 6 ,0 % , o que, aliás, co in cid e com os percentuais de
celibato encontrados para a p o pulação de Salvad o r. T an to nas zonas rurais quanto na
cidade, um pouco m aís de 1/3 dos adulto s perm aneciam solteiros.
Com exceção dos A raújo G óis e dos B ulcão, esse percentual era ainda mais acen­
tuado nas fam ílias menos endogám icas. T entarei explicar mais adiante essa discordância,
associando outros dados. A ntes dc m aís nada, com parem os o percentual dc endogam ia
e o dc celibato nas seis fam ílias estudadas,

t a n r. I. a o .

E n d o g a m ia n C kí .ih ato n a s S kis F a m í l i a s E s t u d a d a s ( % )

A raújo Gots B uicA o Sciiir C Ui [trn co u rt B kriínuúur C osta Pin io

Kndngami* 15,4 5.8 12,5 12.0 9,8 46,2____


C«l>b«o 42,0 30,2 33.3 43.6 41.8 25,7
L ivro III - A F amília B aiana 189

A endogam ia fam ílíar im pedia que o percentual de celibato fosse mais elevado?
O celibato era praticado por um ou pelos dois sexos? Vejamos.

TABELA 47

C a s a m e n t o e C e l ib a t o e n t r e H o m e n s e M u l h e r e s d a s S e i s F a m í l i a s E s t u d a d a s

A ra ú jo G ó is B u i.cA o SodrE B it t e n c o u r t B çrengijer C o s t a P into


C a s. C el . C a s. C el . C a s. C el . C a s. C el . C a s. C el , C a s. C el .
H om ens 29 12 68 28 19 11 11 12 41 35 16 8
M u lh e r e s 20 22 64 29 25 11 16 9 44 26 13 2
T o ta l 49 34 132 57 44 22 27 21 85 61 29 10

À prim eira vista, os resultados perm item afirm ar que os dois sexos praticavam o
celibato. M as um a análise m aís profunda, fam ília por fam ília, esclarece diferenças
relativam ente im portantes. Entre os A raújo Góis, por exemplo, 52,4% das mulheres
e só 29,4% dos hom ens perm aneceram solteiros; entre os Costa Pinto o celibato
m asculino era m aior, com 3 3,3% , contra 13,3% das mulheres. Essas duas famílias
apresentavam o m aior percentual de endogam ia fam iliar. Como explicar comporta­
mentos tão diferentes?
Em prim eiro lugar, em bora fixados no Recôncavo, tudo indica que no século XIX
os Araújo Góis não viviam apenas de atividades agrícolas. Desde a prim eira metade do
século, cerca de 38% dos homens dessa fam ília haviam efetuado estudos superiores,
iniciando carreiras como advogados, médicos, m ilitares ou altos funcionários. Entre os
Costa Pinto, em bora 9 dos 25 filhos tenham feito estudos superiores, nenhum deles
exerceu um a profissão liberal, nem seguiu carreira na m agistratura. A principal ativi­
dade continuou sendo a exploração agrícola. Aliás, dos nove filhos que fizeram estudos
superiores, três se tornaram engenheiros, especializados em agronomia, topografia ou
mecânica, profissões que podiam interessar ao bom funcionam ento da usina de açúcar
instalada em suas terras em 1880. Com o a atividade agrícola ficara em segundo plano
entre os Araújo Góis, o dote de suas filhas tornou-se mais difícil. Esta pode ter sido a
causa do número considerável de m ulheres dessa fam ília que permaneceram celibatá­
rias (é interessante notar que o genealogista da fam ília — o mesmo da fam ília Bulcão
— não citou nenhum nom e de engenho que tenha pertencido aos Araújo Góis; o cia
dos Costa Pinto, m arcado por casamentos endógamos, tinha, como vimos, onze enge­
nhos, todos situados em ricas terras de massapê nos distritos de Santo Amaro, Ca­
choeira e Água Fria). t
Essa hipótese é corroborada pela análise das razões que levaram o imperador a
conceder títulos de nobreza a alguns membros dessas famílias. Somente dois Araújo
Góis receberam esses títulos: Inocêncio M arques, Barão de Araújo Góis, magistrado
e político, e seu irm ão maís moço, Antônio Calm on, que preferiu permanecer em
suas terras para fazè-las frutificar e se tornou Barão de Camaçari. A fam ília Costa
190 B a h ia , S éculo XIX

Pinto recebeu três títulos de nobreza, todos como recom pensa à sua im portante ati­
vidade agroindustrial. A ntônio da C osta Pinto se tornou V isconde (e depois Con­
de) de Sergim irim , seu Pilho A ntônio (d ito T otôn io) da C osta Pinto recebeu o títu­
lo de V isconde de O liveira e seu irm ão, M anoel da C o sta Pinto, foi feito Visconde
de Aram aré, nome do engenho que possuía. Além disso, Cícero D antas M artins,
um dos genros dos C osta Pinto, associado a seu sogro e a seu cunhado na instala­
ção da usina central de Bom ja rd im , recebeu o títu lo de Barão de jerem oabo, nome
de um a localidade do Agreste baiano, cm que os D antas possuíam m uita terra.
As fam ílias cujos filhos faziam estudos superiores — com o A raújo Góis, Bulcão e
Sodré — desem penhavam o principal papel no plano po lítico, com representantes nas
assem bléias Provincial e N acional, no E xecutivo e n a m agistrarura. Assim , ao lado do
forte percentual de celibato, havia igu alm en te um forte percentual de jovens que
abandonavam as atividades agrícolas pelas do setor terciário.
Q uanto à m o rtalidade in fan til, a irregu larid ad e dos registros fam iliais dificulta a
interpretação. Exceto para as fam ílias A raújo G óis e C osta Pinto, os percentuais muito
baixos de m ortalidade in fan til registrados alhures levam a crer que houve sub-regis-
tros. D urante todo o século XIX, a m o rtalidade infan til beirava 30% a 35% , o que
coincide com os resultados obtidos em m inhas análises precedentes. O utros 35%
m orriam celibatários. O grande núm ero destes leva a pensar que os casamentos
endógamos talvez fossem uniões forçadas, T eria realm ente sido o caso?
A autoridade paterna reduzia as m ulheres ao estado de eternas menores, condena­
das a passar da subm issão ao pai à subm issão ao m arido, sem conseguir um a autono­
m ia real. Excluídas da vida social, dos banquetes e das conversas oficiais, as mulheres
ou donzelas de boa fam ília raram ente saíam de casa, e nunca o faziam sozinhas.
Acompanhadas, iam à Igreja e ao baile. Com o as donzelas tinham m uito poucas
ocasiões de encontrar pessoas, a escolha do m arido acabava por se restringir ao círculo
fam iliar, pois seu contato com o m undo se resum ia a primos e tios. Nesse contexto,
estabeleciam-se fortes laços afetivos tntraíam iliares, fazendo com que, m uitas vezes, os
desejos dos filhos coincidissem com os dos pais.
Para as moças, a situação de celibatária era penosa. Ficavam, nesses casos, ao
encargo de um irmão ou irmã, educando os filhos dos outros, num a sociedade que
prestigiava fortemente a m aternidade, a criação dos próprios filhos e a boa adm inistra­
ção de um lar. Os homens eram , quase sempre, economicamente independentes. Um
homem celibatário podia ter o prazer de ser pai, procriando fora de qualquer laço
familiar. Por exemplo, entre oito celibatários da fam ília Costa Pinto, dois deixaram
filhos naturais, c seis dos dezesseis homens casados deixaram uma descendência ilegí­
tima; entre estes, três-casaram com primas-irmãs e não tiveram filhos.32
Nessa época, aliás, a maior parre dos filhos era dócil, e o apoio familiar era
necessário durante toda a vida. Privar-se dele eqüivalia, no caso dos homens, a privar-
se de todas as relações sociais necessárias a uma carreira; no das mulheres, a abdicar de
uma vida honrosa. Para elas, o celibato só podia ser encarado como um sacrifício de
L i v r o 111 - A F v v a i \ B a i a n a 191

moça sem dote. M anter boas relações com a família era fundam ental para preservar
sua pane da herança fam iliar.
A endogamia fam iliar desses enobrecidos baianos sc ligava, portanto. a im perati­
vos econômicos, l/ma verdadeira endogam ia de classe estreitava os laços que já exis­
tiam naturalm ente entre os membros das cam adas dom inantes da sociedade. Graças a
essa coesão sem falhas', os proprietários de terras conservavam seus privilégios, fazen­
do com que sc impusesse à adm iração dos baianos a imagem dos ‘barões do açúcar’
todo-poderosos — uma imagem que tinha várias facetas pois, já o disse antes, nos
séculos XVIII e XIX um com erciante bem -sucedido podia tornar-se senhor dc enge­
nho, com prando terras ou se aliando, pelo casam ento, às grandes famílias da região.
Assim, sangue novo e dinheiro renovavam constantem ente uma classe social cujas
atividades estavam sujeitas a flutuações econôm icas im previsíveis. No decorrer do
século XIX esse mecanismo perdeu eficácia, no que diz respeito à renovação dos
senhores de engenho, que passaram a fortalecer os laços de solidariedade no próprio
interior do grupo. '
Existiram três razões para essa situação. A prim eira: desde a Independência, m ui­
tos portugueses retornaram ao seu país. para fugir da hostilidade dos brasileiros, que
os consideravam açam barcadores e aproveitadores. Foi inevitável adm itir que a vida
econômica de Salvador e do Recôncavo sofreu m uiro com a evasão dc capitais, relacio­
nada a esse processo. O governo im perial expulsou numerosos comerciantes portugue­
ses mas, cm seguida, os senhores de engenho consentiram em que eles retornassem,
para lutar contra o monopólio inglês c para proreger sua fome dc abastccimenro de
escravos africanos, cujo tráfico estava ameaçado pela ação da Inglaterra. O retorno dos
portugueses ao Brasil — agora como estrangeiros — recomeçou por volta dos anos
1 83 5-1 84 0, mas a maior parte deles não escondia o desejo de enriquecer e regressar
à pátria quando chegasse a velhice. Por isso, freqüentem ente esses novos imigrantes
permaneciam celibatários. Por outro lado, os ingleses tiraram o maior proveito da
abertura dos portos aos comeciantcs estrangeiros, decretada cm 1808. Importação,
exportação e navegação passaram a partir daí, pouco a pouco, das mãos dos portugue­
ses à dos estrangeiros, sem contar com os brasileiros, igualm ente tentados pelo comér­
cio de varejo. Em 1854, 83,6% dos comerciantes eram portugueses. Em 1873, eles
não passavam dc I 1,1%/*3
A esse primeiro problema acrescentou-se um segundo, em 1850, com a abolição
definitiva do tráfico. Portugueses e brasileiros tinham sido muito atuantes nesse ramo,
trocado por atividades comerciais mais modestas, como a distribuição de mercadorias
importadas por firmas estrangeiras.*4 Tornaram-se intermediários dc um comércio
controlado por estrangeiros e passaram a emprestar dinheiro aos pequenos varejistas
da capital ou do interior, tornando-se indispensáveis a seus clientes. O comércio
intcrprovincial dc alimentos permitiu que mantivessem laços estreitos com os senhores
de engenho, levando ao mercado a produção destes c abastcccndo-os coin toda especie
de produtos. Continuaram , enfim, a desenvolver atividades típicas de um capitalismo
192 B a h ia , S écu lo X I X

com ercial arcaico e especulativo, mas sem o brilho de outrora. Alguns se achavam à
frente de em presas que tentavam m odcrrtizar-sc, como certas indústrias têxteis ou
bancos. M as tam bém aí a especulação era m ais forte: os fundadores da fábrica de
tecidos se desinteressaram por ela e os banqueiros retiraram os capitais de seus bancos
por acharem suficientes os lucros, sem que houvesse preocupação com o provável
desm oronam ento do trabalho executado nos anos anteriores.35
U m a terceira explicação pode ser enco ntrada na perm anente crise açucareira, que
não incitava m ais à com pra de engenhos. T ornou-se m u ito m aís interessante investir
na com pra de bens im o b iliário s urbanos ou de apólices d a d ívid a pública, que tinham
m aior liqu id ez. Os raros portugueses que se casaram no Brasil escolheram filhas de
com erciantes ou de patrões q u e podiam ajudá-lo s em suas carreiras,36 De qualquer
m aneira, tom ados estrangeiros no B rasil, os portugueses passaram a ter que se natura­
lizar para poder receber título s de nobreza. N a m aio r parte dos casos eles se contenta­
ram , desde então, em receber condecorações liso njeiras.
A Bahia co n tin u o u a assistir à alian ça dos grandes negociantes e dos senhores de
engenho. M as o co n tigen te p o rtuguês não se renovava m ais entre a população local, e
eram grandes os sacrifícios im postos pela necessidade de conservar o prestígio social
que advinha da popriedade de terras açucareiras. A p artir dos últim o s trinta anos do
século XIX, os filhos e filhas dessa velh a aristocracia ru ral com eçaram a se casar com
filhos de profissionais liberais, funcio nários ou m agistrados não são necessariamente
aparentados com as grandes fam ílias do R ecôncavo. A sociedade m udou em proveito
desses recém -chegados. A B ah ia assistiu baianos oriundos do in terio r, ou até mesmo
de outras províncias, assum irem o controle da boa sociedade de Salvador, outrora
com andada pelos orgulhosos senhores de engenho do Recôncavo.

E st r a t é g ia s M a t r im o n ia is d o s B a ia n o s A l f o r r ia d o s

No outro extrem o da escala social, os alforriados form avam um grupo cada vez mais
numeroso, pois o núm ero de alforrias aum entou consideravelm enre no decorrer do
século XIX. Já descrevi as fortes tendências à endogam ia étnica desse grupo, estratégia
m atrim onial evidente, tanto para as uniões livres quanto para os casamentos legais.
M as, além da evidente preocupação em preservar a originalidade do grupo, que causas
incitavam antigos escravos, habituados ao celibato, a se unir quando reencontravam a
liberdade? O desejo dc constituir fam ília é um a explicação insuficiente, pois já de
monstrei que os casais alforriados tinham poucos filhos. D e v e haver outras razoes
talvez um desejo de ajuda m útua e dc solidariedade num am biente manifestamente
hostil a esses estrangeiros. Algumas estórias individuais, curtas mas sugestivas, ajudam
a aprofundar melhor esse universo.
O antropólogo Luiz M ott encontrou recen tem ente na Bahia um documento muito
revelador, q u e atesta a in flu en cia do grupo étnico na escolha de um parceiro. Trata
L m t o III - A F amília B alana 193

se de um a queixa feita ao arcebispo-prim az por um negro alforriado, nascido no Brasil,


que tinha concluído as negociações necessárias para casar-se com a filha de uma
africana nagô. Esta últim a o acusava de ainda ser escravo e, além disso, casado; o
queixoso afirm ava que essas alegações eram falsas. Ele explicava que vivia na casa da
futura sogra e já m antinha relações sexuais com sua prom etida m ulher, que desejava
casar-se com ele: mas, por influência da com unidade, a ‘sogra’ desejava que a ‘donzela’
se casasse com um nagò. _
Neste caso, é evidente a interferência da fam ília étnica, que pretendia impor sua
própria estratégia m atrim onial até a jovens negros brasileiros. Q uando se tratava de
africanos adultos, esse tipo de problem a não era colocado da mesma m aneira. M as é
facil perceber qual era a escolha livrem ente consentida na m aior parte desses grupos.
O perfil do parceiro procurado em cada caso pode ser elucidado por algum as estórias
de negros que fizeram testam entos na Salvador do século XIX.
M aria de A raújo R ibeiro, por exem plo, ‘m ulher negra’, originária da Costa da
M ina, chegou ao Brasil criança, sendo vendida como escrava. Por volta dos cinqüenta
anos, conseguiu libertar-se e se casou com Silvestre de Araújo Ribeiro, africano tam ­
bém alforriado. Em testam ento redigido após sua viuvez, ela declarou ter tido dois
filhos quando ain d a era celibatária. Ambos haviam falecido, mas um deles deixara um a
filha, A na F lo rên d a de A ndrade, casada com Luiz Gonzaga de Barros, sargento-mor
das ‘entradas e assaltos’.38 Esse jovem casal foi designado como legatário universal de
M aria. Nesse testam ento, A na F lo rên da foí cham ada de ‘dona’, tratam ento habitual­
mente reservado àquelas cujo m arido ou paí ocupavam um a posição social reconheci­
da. O m arido de A na F lo rên d a fora com andante de um grupam ento param ilitar cuja
função principal era capturar escravos fugitivos. Esses chefes de patrulha eram geral­
m ente recrutados entre os m ulatos.
Ana M aria da Silva Rosa, africana do “povo d a G uiné”, declarou em testamento
ter se separado do m arido, M athias de Souza, que nada tinha trazido à com unidade
conjugal na ocasião do casam ento e que tinha desperdiçado os bens da m ulher com
concubinas. ^
Rafael C ordeiro, africano da Costa da M ina, se casou com Josefa do Rego, africa­
na jeje, mas não tiveram filhos. Em seu testam ento, Rafael declarou que todos os bens
do casal haviam sido adquiridos por sua m ulher antes do casam ento.40 No ano seguin­
te, quando morreu seu m arido, Ana Josefa ditou um testamento, concedendo liberda­
de a seus quatro escravos c escolhendo como herdeira sua antiga escrava Felicidade,
agora alforriada, jeje como cia.41
Joaquim M onteiro dc Santa Ana. negro nascido no Brasil, cego. casado com
Brigida de Santa Rita Soares, negra também brasileira, declarou viver da esmola dos
fiéis e dos bens dc sua mulher ("ele nada tem que lhe pertença”).42 Nove anos mais
tarde, Brigida redigiu seu próprio testamento, no qual declarou ser proprietária de
duas casas, situadas em ruas importantes da cidade, a da Ajuda, na paróquia da Sé, e
a do T angui, na paróquia dc Sant'Anna. Além disso, deixou numerosas jóias de ouro
194 B ah ia , S éculo X I X

e prata. Seu legatário universal foi V icente Ferreira, filho de sua escrava M aria, que
Brigida tinha educado e libertado gratu itam ente.43
M ariana Jo aquina da Silva Pereira, africana da C osta da M ina, casou-se com José
Antônio de Etra, africano da m esm a região. Em 1810, ela o instituiu legatário univer­
sal de seus bens, que haviam sido "adquiridos por ele e a ela doados por causa do amor,
da fidelidade e do zelo que ele sempre me dispensou e do bom casal que formávamos”,
diz ela.44 Tendo enviuvado, o m arido fez red igir seu testam ento em 1826, após ter
sido obrigado a vender um a grande parte de seus bens duran te as guerras da Indepen­
dência, para poder nutrir os 22 escravos que possuía. Legou a eles a pouca fortuna que
lhe restava.45
Esses cinco exemplos poderiam ser m u ltip licad o s, mas acho que são bastante
reveladores das razoes que levavam esses alforriados a se casar. O casam ento era um
acordo de entendim ento e ajuda m útua, visando a m elhorar a q ualidade de vida dos
dois parceiros. A partir do m om ento em que os dois cônjuges encontrassem vantagens
e garantias na vida com um , não im portava que os bens estivessem repartidos de
m aneira desigual: a m ulher buscava o apoio de um a presença m asculina, tão necessária
nessa sociedade em que o verbo ‘poder' se con jugava no m asculino; o homem, fre­
qüentem ente desprovido de bens, trocava, sem problem as, esse apoio por sustento.
O casamento dos africanos entre si, num am biente profundam ente hostil, estreitava os
laços de solidariedade e ajudava a sobrevivência do grupo e dos indivíduos.
Os objetivos das alianças m atrim oniais aparecem aqui tão concretos, tão bem
adaptados à condição social desses alforriados, quanto apareciam no caso das altas
camadas da sociedade baiana. C o incidên cia de objetivos, coincidência dos métodos
adotados para alcançar esses objetivos. O que im portava era a confiança e a ajuda
m útua, que tornariam possível a sobrevivência m aterial e cultural do grupo. Dois
grupos tão opostos (de um lado, aristocratas aparentados a senhores de engenho e, de
outro, ex-escravos) defendiam valores quase idênticos, com meios bem adaptados:
para os alforriados, o essencial era, sem dúvida, a sobrevivência m aterial, sem a qual
nada maís era possível. Precisam ente deste ponto de vista, as confissões que aparece­
ram no testamento de Ana M aria da Silva Rosa foram m uito claras: o marido não
ajudou a aum entar ou preservar os bens do casal. M ais grave: ele colocou em perigo a
associação conjugal, dilapidando com concubinas os bens adquiridos com dificuldades
por sua mulher. Um perigo duplo, que aviltava o casam ento, única instituição do
mundo branco que perm itia, ao alforriado, inserir-se na sociedade, conquistando um
lugar reconhecido.
Existia, e n tretan to , u m a fonte de novas tensões: os filhos desses alforriados, que
representavam para seus pais um verd ad eiro in v estim en to social. Os filhos dos africa­
nos náo eram m ais estrangeiros; os filhos d e negros alforriados já nasciam livres e não
tin h am mais a tara o rig in al d a escravidão. A d em ais, eles p o d iam tornar-se para seus
pais, já velhos, u m a fonte de renda, trab alh an d o e trazendo seu salário p ara o grupo
fam iliar. M as, esses filhos q u e já nasciam livres eram um elem ento q u e d ilu ía a coesão
L ivr o III - A F a m ü ia B aian a 195

dos grupos étnicos. T ão coerentes no início do século, tão chegados às etnias de


origem , esses grupos não sc renovaram c acabaram desaparecendo. Foram substituídos
por grupos negros dc etnias m isturadas, que, para ascender, precisaram recusar essas
tradições, outrora bem protegidas. A herança africana só sobreviveu no candom blé,
relativam ente pouco freqüentado ate a explosão de formas alternativas dc religiosidade
a partir da década de 1960. Na segunda m etade do século XIX, a m aioria dos baianos
descendia de alforriados, tendo recebido duas heranças: a tran sm itida pelos antigos
escravos e a copiada do m odelo im posto pelos senhores dc engenho. As m ulheres,
através desses dois m odelos, co n tin u aram a desem penhar seu papel. A coesão dos
grupos e a m o b ilid ad e social sem pre resultaram de alianças m atrim o n iais, com suas
estratégias tão flexíveis q u an to obstinadas. A fam ília, com o o Estado e a Igreja, con­
tinuou a d eterm in ar a vida dos b aian os, p ara o m elho r e o pior.

R a pt o s e E s t u p r o s ( o u C o m o T e n t a r se L ib e r t a r
de R e g r a s I m p o s t a s pe la I g r e ja e a F a m íl ia )

Havia, porém , im p ed im en to s para a realização de casam entos, m esm o quando deseja­


dos pelos dois parceiros. A Igreja p o d ia proibir, ou u m a das fam ílias podia im pedir que
seu filho ou filha entrasse num grup o fam iliar considerado socialm en te inferior. A liás,
a prim eira razão p o d ia d issim u lar a segu n d a, e vice-versa.
A Igreja tin h a u m a série de m otivos para p ro ib ir casam entos, entre os quais
aqueles ligados à cognação.^6 Para a Igreja, existiam três tipos de cognação: natural,
quando os futuros cônjuges eram parentes consangüíneos até o quarto grau; espiritual,
quando havia laços entre os futuros cônjuges, fosse pela aproxim ação de suas fam ílias,
fosse pelos sacram entos do batism o e da crism a; legal, quando, por exem plo, um filho
adotivo preten dia se casar com um filho da fam ília que o adotara. Esses dois últim os
tipos de cognação criavam laços tão fortes quanto a con sangüin idade real, como o
mostra o valor atrib uíd o a padrinhos c m adrinhas.
O utra situação suscitava a interdição da Igreja — a afinidade. C om efeito, pelo
casamento o hom em e a m ulher contraíam afinidades com todos os parentes consan-
güíncos de ambos, até o quarto grau. Para poder casar com um a prim a-irm ã, uma
afilhada do pai ou um a irmfi adotiva, era necessário obter a perm issão da Igreja. Esta
proibia casam entos consecutivos a um rapto {aliás, as constituições prim eiras do
arcebispado de Salvador não faziam diferença entre rapto e estupro); para reparar a
falta com etida, era preciso pedir perm issão.
É fácil im aginar o quanto essas proibições deviam causar embaraços na sociedade
baiana, em que as alianças m atrim oniais c os apadrinham entos eram a chave do êxito
social. Em todos os meios sociais, essas estratégias de alianças produziam im ensa
dim inuição do núm ero dc pessoas (jovens ou mais idosas) não ‘im pedidas’, com os
quais não havia problem as dc afinidade ou cognação.
196 B a h ia , S éculo X I X

Na segunda metade do séxulo XIX, o tabu do incesto começou a se propagar: os


casamentos entre primos próximos (prim os-irm ãos, primos de prim eiro grau, primos
‘carnais’, segundo as definições canônicas e civis) e entre tios e sobrinhas suscitavam
m uito medo: ‘taras de fam ília’, debilidade m ental, inclinações para desvios de conduta
ou infidelidades fem ininas. D aí surgiu o ditado de que “m ulher e cachorro se escolhe
pela raça”. Idéias como esta contribuíam para que as pessoas aceitassem mais facilmen­
te as proibições impostas pela Igreja. M as elas continuavam a ser desrespeitadas; só na
paróquia de São Pedro, 145 dispensas por consangüinidade e vinte dispensas por
afinidade foram outorgadas entre 1815 e 1890. Aliás, como já vim os para as classes
sociais elevadas, o tabu do incesto nao acabou com as práticas endogâm icas; os inte­
resses m ateriais eram m uito fortes para que considerações de ordem m oral e até de
saúde pudessem sobrepujá-los. De qualquer m aneira, quando havia rapto ou estupro,
as vítim as eram as m ulheres, sobre quem recaía a falta. -
A moça que, apesar das proibições, tivesse “pecado”, era trancada num conven­
to ou num a casa dc correção, sempre dirigidos por religiosas que se dedicavam à
regeneração das “perdidas ou extraviadas”.47 O prim eiro convento fem inino, Santa
Clara de Nossa Senhora do Desterro, data de 1677, fundado pelos senhores de en­
genho para suas filhas. M as, 23 anos m ais tarde, João de M attos A guiar deixou à
M isericórdia um capital de 8 0.00 0 cruzados, que devia servir à construção e ao sus­
tento de uma Casa de R ecolhim ento colocada sob a proteção do Santíssim o Nome
de Jesus. Inaugurada em 1716, acolhia moças de fam ílias da classe m édia, em idade
de casar e cuja honra estivesse am eaçada pela m orte de um ou dos dois progenito-
res. Essas moças recebiam um dote ao casar. H avia um segundo grupo de mulheres,
constituído por aquelas cujos m aridos deviam se ausentar durante m uito tempo. ‘Re­
colhendo’ suas mulheres, os m aridos garantiam sua fidelidade.48 Em 1739, as religio­
sas ursulinas fundaram a Casa de Recolhim ento de Nossa Senhora da Soledade, para
prostitutas arrependidas e para jovens extraviadas. F inalm ente, em 1753, o sargen-
to-mor Raimundo M aciel Soares fundou a Casa de Recolhim ento de São Raimundo,
que acolhia mocinhas pobres e desam paradas. Segundo o ínstituidor dessa funda­
ção, a Casa de Recolhim ento recebia “não som ente as jovens que, vítim as da sedu­
ção do mundo, reassumem seus nobres sentim entos da virtude buscando volunta­
riamente este pio asilo, mas, tam bém, órfãs e moças cuja pobreza as expõe aos perigos
da corrupção”.49
D urante o século XIX, essas in stitu içõ es ex istiram e até floresceram em Salvador,
d esem penhando um d u p lo papel: eram , ao m esm o tem po, instituições ‘preventivas
(que acolhiam m oças órfãs ou sem parentes, por d e m ais expostas ás tentações) e
educativas . Em um dos colégios m ais famosos, o do Sagrad o C oração d e Jesus,
fundado pelo padre hrancisco G om es em 1827, as m oças reclusas ap ren d iam “a reli­
gião, a moral, a leitura, a escrita, as línguas portuguesa e francesa, todas as prendas
domésticas, trabalhos d e ag u lh a e outros próprios a seu sexo e de sua condição de
pobreza, até m esm o os de lavar, passar e cozánhar”. Q u a n d o sua educação se com ple­
L iv r o III - A F a m ília B aiana 19 *

tava. eram colocadas com o em pregadas dom ésticas em casas de fam ílias honestas.
Q uando se casavam , recebiam um enxoval m odesto e um dote de 3 0 0 ,0 0 0 réis.50
H avia um esforço para separar as Casas dc R ecolhim ento — como as de São Raim undo,
Nossa S en h o ra dos Perdões e N ossa Senh ora dos H u m ildes — , freqüentem ente
dedicadas a receber m ulheres perdidas, e os asilos ou colégios que recebiam , como
internas, tan to m oças pobres, geralm en te órfãs, q uan to moças de fam ílias da classe
m édia, que ali eram educadas. E sperava-se, assim , afastar os perigos que poderiam
advir de um a p ro m iscu id ad e entre m ulheres da v id a e jovens inocentes.
Todas as casas de reco lh im en to e colégios eram d irigid o s por freiras. As casas de
São R aim u n d o , dos Perdões e dos H u m ild es estavam sub m etidas à autoridade do
arcebispado da B ahia. A d a S an ta C asa da M isericó rd ia desapareceu em 1866 (após
um século e m eio de serviços) por falta de recursos. Os asiios-colégios do Coração de
Jesus, a C asa da P ro vid ên cia e a de N ossa Senh ora dos A njos (esta ú ltim a só funcionou
entre 1855 e 1 860) foram ad m in istrad o s pelas religiosas de São V icente de Paula,
chegadas à B ah ia em 1 8 5 3 . O C o lég io de N ossa Sen h o ra da Salete, por sua vez, foi
adm inistrado pelas religio sas po rtuguesas da O rdem d a A ssunção. A Igreja, por con­
seguinte, estava presente em toda p arte. M as, ao passo que para a m u lher só existiam
perspectivas de p u n ição ou de segregação, para os hom ens suspeitos de terem com eti­
do estupro havia duas p o ssib ilid ad es: a de um casam ento forçado com a vítim a e a de
um casam ento ráp id o , com o u tra m u lh er, antes de o escândalo vir à rona. Nessas
circunstâncias não era raro que o cu lp ad o fosse ob rigado, por sentença ju d icial, a pagar
um dote à m u lh er u ltrajad a , con fo rm e previsto nas O rdenações F ilipin as; podia tam ­
bém acontecer que, m ais tarde, com a ‘h o n ra restau rad a’ pelo casam ento forçado, o
hom em repudiasse sua m u lh er, sob o pretexto de q ue desconfiava de sua honestidade.
A m ulher p o d ia ser rep u d iad a pela p rópria fam ília, o que talvez explique o caso das
m ulheres celib atárias brancas, com filhos, vivendo sozinhas, que descobri ao estudar a
estrutura dos casais em Salvado r. O dote p o d ia servir, even tualm ente, para que a moça
se casasse novam ente.
O rapto e o deflo ram en to eram utilizados pelos próprios nam orados, para forçar
o consentim ento de pais rccalcitrantes. C o m o isso se passava na Salvador do séctilo
XIX? Consegui enco ntrar um com eço de resposta a essa questão ao exam inar as dis­
pensas para casam entos, pedidas â Igreja pelos habitantes da paróquia de São Pedro
entre 1815 c 185K),51 As dispensas eram solicitadas prin cipalm ente nos casos dc im pe­
dim ento causado por um a afinidade espiritual entre os futuros cônjuges (por exemplo,
padrinhos de batism o com uns) ou cm casos dc consangüinidade. A dispensa da Igreja
era necessária, tam bém , em caso de estupro ou de rapto.
N a prim eira m etade do século XIX, essas dispensas por rapto ou estupro foram
inexistentes, ou raras, mas, a partir dc 1854, começaram a sc m ultiplicar. Como
explicá-lo? N um erosas hipóteses poderiam ser formuladas, mas os exemplos de que
disponho são por dem ais lim itados para gerar um a explicação convincente. A hipótese
mais plausível parece ser a seguinte: durante a prim eira metade do século XIX, os
198 B a h ia , S é c u l o XIX

TABELA 48

P e d id o s de D is p e n s a d e C a sa m e n to na P a r ó q u ia de S ao P edro
1 8 1 5 -1 8 5 4 e 1 8 7 1 -1 8 9 0
Períodos C onsangüinidade AUNIUADP. Rapto Estupro
1815-1824 10 4 - -

1825-1834 12 1 3 -

1835-1844 27 5 2

1845-1854 24 - 2 6 1

1871-1880 34 2 13 10

ÍSSI-1890 38 6 9 13

raptos e estupros teriam sido sub -registrados. O crescim ento verificado por volta do
fim do século talvez tenh a deco rrid o de um m aio r rigo r por parte da Igreja, menos
in clin ad a a perdoar atos con trário s à sua m oral: ela passou a im por longos processos,
cu ja conclusão era im previsível, tan to para os futuros cônjuges quanto para suas fam í­
lias. A dotando essa atitu d e, a Igreja criou, ao m esm o tem po, a possibilidade de regu­
larizar situações que talvez tivessem red u n d ad o em uniões livres, pois o núm ero de pais
celibatários au m en to u d u ran te a segu n d a m etade do século.
Q ue pessoas com etiam esses atos de rapto e estupro? Infelizm ente, os pedidos de
dispensa não revelam gran d e coisa. Eles geralm en te in clu íam os nom es dos requeren­
tes, sua filiação (leg ítim a ou n a tu ral), raram en te sua idade, sua religião, seu estaturo
ju ríd ico (escravos ou alforriados), às vezes sua cor e o nom e dos pais.
D urante todo o período coberto pelos dados (1 8 1 5 —1854 e 1871—1890), raptos e
estupros parecem ter ocorrido apenas entre a população livre, que provavelmente
inclu ía os libertos. Esbarram os novam ente num caso de sub-registro, pois é difícil
ad m itir que a população escrava nao praticasse estupros. M as o escravo era como
era”. Seus atos nao podiam envolver hom ens livres, nem prejudicar o conjunto da
sociedade. Com o o casam ento não era a norm a para as associações conjugais entre
escravos, o poder eclesiástico nao dava im portância ao fato de que tivesse ou não
havido estupro.
Só as pessoas livres tinham o privilégio de preocupar a Igreja! A grande maioria
dos casos em que a cor dos peticionários foi registrada referia-se a homens não bran­
cos, com nítida predom inância de m ulatos: três raptos envolveram parceiros brancos,
. i c /
só um envolveu negros (que, aliás, eram nascidos no Brasil) e cinco eram mulatos, oo
um estupro dizia respeito a brancos, dois a negros nascidos no Brasil, nove a mulatos
e um envolvia um m ulato e unia negra. Os atos devassos eram cometidos contra
pessoas da mesma cor. Não há registro de caso de m ulher branca vítim a de um homem
de cor (lembremos que entre a população de cor se encontrava o m aior n u m e r o de
famílias consensuais). Tratar-se-ia dc um modelo de comportamento? Não se deve
generalizar, diante de um número de exemplos tão reduzido. Uma resposta conclu-
L i v r o III - A Fam ília. B a ia n a
199

dente só poderia advir de um estudo sobre o conjunto das dispensas outorgadas no


sécuio XIX em Salvador. ■
Esses atos eram praticados por hom ens e m ulheres oriundos de fam ílias legalm en­
te constituídas ou naturais. Os registros tratam de quatro rapazes de filiação legítim a
que seqüestraram m ocinhas, filhas naturais, talvez com intenção de forçar os pais a
aceitar, na fam ília, um a jovem de condição social inferior, ou cuja pele fosse mais
escura. Q uanto aos estupros, parece ser o contrário: rapazes de filiação natural estupra­
vam moças de filiação legítim a. M as os dados de que disponho sobre essa questão não
são mais num erosos, em relação às m ulheres, que aqueles que dizem respeito aos
raptos. Nao pude, por isso, satisfazer m in h a curiosidade.
A idade dos requerentes foi fornecida cm quatro dos nove raptos registrados no
período de 1 8 8 1 -1 8 9 0 : a m édia de idade era de 2 0,5 anos para os homens e 19 anos
para as moças, m uito inferior à idade m édia com que os baianos se casavam (respec­
tivam ente, 28 e 24 anos). Isso fortalece a idéia de que os raptos eram cometidos para
forçar as fam ílias a aceitar os casam entos, mas esta é um a conclusão não demonstrada,
dado o pequeno núm ero de casos conhecidos. N otem os ainda que em dois desses
raptos (para os quais a idade dos parceiros não foi fornecida) os docum entos declaram
que houve im pedim en to: um por afinidade ilícita de prim eiro grau em linha transver­
sal; outro por co n san güin idade de segundo grau em prim eira lin h a lateral igual.
De q ualqu er m aneira, raptos e estupros eram práticas correntes em Salvador,
sobretudo entre a população de cor, m ajoritária. M as, infelizm ente, os documentos
não indicam a q u alid ad e dos requerentes — sobretudo no que diz respeito aos rapazes
— e de seus pais, o que teria p erm itid o saber em que cam adas da população de cor rais
atos eram com etidos. Q uando um rapto ou um estupro ocorria envolvendo dois
jovens, a m oça era enclausurada num asilo ou o casam ento era precipitado, para
‘restaurar a honra da fam ília’ o m ais rapidam ente possível.
Assim se casavam os baianos: todas as estratégias, doces ou violentas, que acabo de
estudar eram o preço cotidiano que as fam ílias pagavam por viver num a terra em que o
sangue é quente, mas em que os individualism os e os lim ites impostos pelas mentalidades
acabavam por criar um a sociedade relativam ente harm oniosa. Nela, celibatos forçados,
casamentos (arranjados ou livrem ente consentidos), divórcios (às vezes extorquidos),
eram freqüentem ente efetuados à revelia das m ulheres, mas a m aioria dos casais sabia
construir um a vida equilibrada e educar da m elhor m aneira possível filhos que amavam.
M as, em que am biente viviam essas fam ílias com estruturas tão originais? Como
organizavam sua vida cotidiana? Dc que m aneira e a que preço nasciam as relações
sociais que m antinham a coesão c a paz num a sociedade aparentem ente sujeita a graves
tensões, mas habilidosa em evitar confrontos dolorosos? Que gênero de concessões
deviam ser aceitas para galgar a escala social? São perguntas para as quais não é fácil
encontrar respostas. Espero que elas me permitam evidenciar alguns traços dessas
m entalidades coletivas, em torno das quais se organizava um a sociedade dotada de
componentes tão ricos e tão diversos. ■ . ! .
C A P Í T U L O 12

A F a m í l i a B a i a n a e a s R e l a ç õ e s S o c ia is

O p a p e l q u e as f a m ília s d e s e m p e n h a v a m n a e d u c a ç ã o n ã o p o d e ser e s q u e c id o . A té a
I n d e p e n d ê n c ia , as in s t it u iç õ e s r e lig io s a s p r a t i c a m e n t e m o n o p o liz a v a m a instrução,
s o b r e tu d o n o n ív e l s e c u n d á r io , O p r im e i r o I m p é r io c r io u , a q u i e a li, cátedras de
g r a m á t ic a , la t im , g r e g o e fr a n c ê s . M a s só n o s e g u n d o I m p é r io , e m 1 8 3 4 , o A to A d i­
c io n a l a u t o r iz o u as a s s e m b lé ia s le g is la t iv a s d as p r o v ín c ia s a e la b o r a r leis co n cernen tes
ao e n s in o d e n ív e l p r im á r io e s e c u n d á r i o . 1 E m 2 2 d e a b r il d e 1 8 6 2 , ap ó s d o is anos de
d iscu ssõ es, foi r e g u l a m e n t a d a u m a le i o r g â n ic a d e 1 8 6 0 , d e f in in d o a e s tr u tu ra escolar.
F o r a m c r ia d a s d u a s esco las n o r m a is : u m a p a r a m o ç o s , o u t r a p a r a m o ça s , c o m profes­
sores d o m e s m o sex o q u e os a lu n o s . A s c lasses e r a m n u m e r o s a s . Só c o n s e g u ia m vagas
os filh os d e f a m ília s a b a s ta d a s , q u e se d e s t in a v a m a o c u r s o s u p e r io r d e d ireito , após o
q u e se t o r n a r ia m f u n c io n á r io s . O acesso d e escrav o s e filh o s d e escrav o s aos estabele­
c im e n to s de e n s in o e r a o f ic ia lm e n t e v e d a d o .
E m 1 8 7 3 , t e n to u - s e a c r e s c e n ta r às d is c ip lin a s t r a d ic io n a lm e n t e m in is tra d a s no
en s in o e le m e n t a r — lín g u a s , g e o g r a fia , h is t ó r ia , c a t e c is m o e a r itm é t ic a — a de traba­
lho s m a n u a is . N o m e s m o e s p ír ito , f u n d o u - s e o L ic e u d e A rte s e O fíc io s, d estin ad o a
e d u c a r filh o s d e o p e rá rio s e artesão s. E m 1 8 8 1 , a to d o p r e s id e n te d a P ro v ín c ia pro m o ­
v e u g r a n d e re fo rm a d o e n s in o . C r ia r a m - s e c u rso s d e p e d a g o g ia e in s titu iu -s e o jard im -
de-ÍnfâncÍa. O c u r r íc u lo d o cu rso p r im á r io p a s s o u a c o m p r e e n d e r : le itu ra , escrita,
g r a m á tic a p o r tu g u e s a , a r itm é t ic a , d e s e n h o , c iê n c ia s n a tu r a is , re lig iã o , ed u cação cívica
e artes d e c o ra tiv a s.2 M a s o acesso às esco las p ú b lic a s e p riv ad a s c o n tin u a v a restrito,
co m o o d e m o n s tr a m os d a d o s d o r e c e n s e a m e n to de 1 8 7 2 .
É in teressan te n o tar q u e , e m b o r a os escravos n ã o p u d e sse m freq ü e n tar a escola, 63
deles, e n tre os 1 6 7 -8 2 4 recen sead o s em 1 8 7 2 n a P ro v ín c ia d a B ah ia, sab iam ler e
escrever. Só três desses p r iv ile g ia d o s , p o ré m , v iv ia m e m S alv ad o r. A p o p u lação escrava
m a sc u lin a era de 9 8 .0 9 4 pessoas, das q u a is 4 7 s a b ia m ler e escrever, assim distribuídos,
q u a tro em C a m a m u , d o is em C a ra v e la s , u m e m V iço sa, d o is e m E ntre Rios, um em
P u rificação , u m e m I ta p ic u ru , u m e m P o m b a l, u m em S a n ta Isabel do P araguaçu, três

200
L iv r o III - A F am ília B aiana

em C aetílé, dois em M onte Alto, um cm Rio de Éguas, um em X iquexique, três na


paróquia do P iiar (Salvado r), um no d istrito de C achoeira, três no de Santo Am aro,
sete no de T ap era c treze no dc N azaré. H avia ainda 7 8 .7 3 0 escravas m ulheres, das
quais quinze sabiam ler e escrever: um a em Itapicuru , duas cm X iquexique e doze no
distrito de Nazaré. Neste ú ltim o , situado no Recôncavo Sul — onde a cu ltu ra da
m andioca parecia sup lan tar a do açúcar , se concentravam portanto esses escravos
le tra d o s ’: treze hom ens e doze m ulheres, cujo aprendizado se fazia na casa do senhor.
Os dados do censo relativos ao co n jun to da população de Salvador foram os seguintes:

TABELA 49

H omens e M u lh eres A l f a b e t iz a d o s , 1872


ParOqcias Homlns M uLHLR£5
S im Nao T otal S im Náo T otal
Sc 2.629 3.245 5.874 2.922 4.237 7.139
São Pedrú 1.923 4.068 5.989 642 5.766 6.408

SanéAnna 3.427 6.020 9.447 2.820 5.227 8,047

Conceição da Praia 2.630 700 3.330 651 359 1.010

Vitória 2.041 3.452 5.493 1.843 2.092 3.935

Paço 525 1,077 1,602 137 1.459 1.596

Pilar 1.627 2.241 3.868 722 2.847 3.569

S.mto Antônio Além do Carmo 2.529 4.728 7.257 2.119 6.127 8.246

Brotas 3.090 400 3.490 806 200 1.006

Mares 500 1.328 1.828 224 1.526 1.750

Penha 842 1.499 2.341 604 1.808 2.412

Total 21.761 28.758 50.519 13.490 31.628 45.118

Esses núm eros sugerem que 37% dos habitantes da capital eram alfabetizados, o
que me parece m u ito para a época (talvez fossem considerados assim os que apenas
assinavam o próprio nom e). C om o era de esperar, o núm ero de mulheres que sabiam
ler c escrever era m enor que o dc hom ens (30 e 4 3% , respectivam ente). O percentual
referente ao conjunto da população revela que nem todos os alfabetizados eram brancos,
pois apenas 31% da população eram declarados de cor branca e muitos dos imigrantes
europeus — com íorte presença portuguesa — eram analfabetos. Entre 1852 e 1889,
7.815 portugueses de sexo m asculino estabclecem -sc na Bahia. Sabemos a idade que
3.1 55 deles tinham ao aportar: 34,5% escavam entre oito e catorze anos eram quase
crianças — e chegavam corno aprendizes do comercio junto a negociantes portugueses.
É legítim o pensar que m uitos não eram alfabetizados, tendo aprendido a ler na Bahia.
É interessante com parar dados das várias paróquias sobre a distribuição por cor da
população livre e o percentual dos que sabiam ler e escrever:
202 B a h ia , S é c u l o X I X

1 A R r ]. A 5 0

T ax a de A lfabetização k C o r d a P ele d a P o pu l aç ão L ivre , 1 8 7 2 (% )

P arôqlias H omfns MUI HERF-S

B rancos NA o - B r . A i.farf.t . B rancas NAo -B r . A lfapft .

Sé 3 6 ,3 6 3,7 4 4 ,8 3 4 ,7 65,3 40,9

Sáo Pedro 3 5 .6 6 4 ,4 3 2 ,0 2 4 ,8 7 5 .2 10 ,0

Siiru’A nna 4 0 ,5 59,5 36,3 3 7 ,1 62,9 35,0

Conoriçâo da Prata 6 1 ,7 3 8 ,3 7 9 ,0 4 1 ,0 5 9 ,0 64,4

Virôria 3 5 ,6 64 ,4 3 7,1 2 8 ,9 7 1 .1 4 6 ,8

Paço 23,4 7 6 ,6 3 3 ,0 10,9 89,1 8 ,6

Pilar 41,5 5 8,5 4 2 ,0 38,3 6 1 ,7 20,2

Santo Antônio Além do Carm o 3 1 ,0 69,0 34,8 27 ,2 7 2 ,8 25,7

Brotas 54,8 4 5 ,2 8 8 ,5 3 7 ,6 62,4 80,1

Mares 36,1 63 ,9 2 7 ,3 3 6 ,3 63,7 12,8

Penha 3 3 ,6 66 ,4 3 6 ,0 26,8 73.2 25,0

No geral, os dados sugerem q ue h av ia m aio r n ú m ero de alfabetizados nas paró­


quias em que predom inavam os brancos. A an álise por sexo, contudo, introduz nuances.
No tocante aos hom ens, a p aró q u ia de B rotas su rp reen d e: 8 8 ,5 % de seus habitantes
m asculinos sab iam ler e escrever. T in h a u m a forte co n cen tração de brancos — é a
segunda, desse ponto de vista — m as isto não é su ficien te para explicar índice tão
elevado, q uando se sabe q u e se tratav a de u m a p aró q u ia sem i-urb an a. Já os índices
referentes às p aróquias com erciais d a C o n ceição da P raia e do P ilar (79% e 42% ,
respectivam ente) não surp reen dem . T am b ém nao espan ta en co n trar 4 4 ,8 % de ho­
mens alfabetizados na p aró q u ia da Sé — terceiro lu g ar — , q ue concentrava profissio-
naís liberais e funcio nários. N as dem ais p aró q u ias o p ercen tual se m an tin h a acim a de
3 0% , exceto na de M ares, onde caía para 2 7 ,3 % .
T am bém no tocante às m ulheres a p aró q u ia de Brotas surpreende: 8 0,1% eram
alfabetizadas, um dos m ais altos percentuais en tre as paróquias da cidade, quando as
brancas não passavam de 3 7 ,6 % (percen tual baixo em relação ao de alfabetizadas,
mas um dos m aiores entre as várias paróquias). Percentuais bastante elevados de
m ulheres alfabetizadas — m ais de 4 0% — foram registrados nas paróquias burguesas
e com erciais da Sé, da C onceição da Praia e d a V itória. Nas de São Pedro e de
M ares, baixavam a 10% e 12,8% , rcspectívam enre. Na do Paço, só 8,6% das m ulhe­
res sabiam ler e escrever, mas é preciso considerar que ali só eram brancos 10,9% da
população fem inina.
Em suma, quer sc tratasse de homens ou dc m ulheres, o percentual de alfabetizados
era proporcional ao com ponente branco na população livre das paróquias. Aliás, o
mesmo censo revelou o núm ero de crianças que sabiam ler e escrever, por paróquia.
L ivro III - A F amília B aiana

Só 1/3 dos meninos e pouco mais que 1/4 das meninas entre seis e quinze anos
freqüentavam a escola em Saivador. O percentual de alfabetização entre as crianças
(27,9% ) era dez pontos percentuais menor que o referente à população adulta (37% ).
A paróquia de Brotas mais um a vez aparece à frente: 82,8% dos meninos e 80,9% das
meninas freqüentavam a escola: na Conceição da Praia o percentual referente aos
meninos caía para 73% , ntas o das m eninas, 89% , era o mais alto de todos. Nas
dem ais, menos de 30% das m eninas iam à escola, com exceção da de V itória, com
67,7% , e de Santo A ntônio A lém do C arm o, com 40,6% . Surpreende o percentual
registrado em S an t’A nna: só 8,8% das m eninas iam à escola nessa paróquia habitada
por cam adas m édias da sociedade. A situação dos meninos era bastante parecida com
a das m eninas: a paróquia de S an t’A nna registrava o m ais baixo índice de escolaridade
(14,6% ), seguida pela da V itó ria (18,% ) e de M ares (24 ,9 % ). Nas outras paróquias o
índice ficava acim a de 35% ,
Seja como for, são percentuais m uito baixos: a grande m aioria das crianças baianas
não aprendiam a ler e escrever.4 Em 1873, tom ou-se a decisão de generalizar a alfabe­
tização, criando escolas prim árias noturnas para adultos nas paróquias da Sé, da Con­
ceição da Praia, de Santo A ntonio A lém do C arm o, da Penha, do Passo e da Vitória.
No prim eiro ano de sua criação, as aulas eram freqüentadas por 648 alunos, mas nos
anos seguintes este núm ero dim in u iu progressivam ente, com algum as oscilações, até
atingir 64 em 1883. No ano seguinte, foram suprim idos os cursos prim ários noturnos.
É preciso dizer, porém , que as crianças ausentes da escola não estavam, de todo,
privadas de educação: recebiam afeto, cuidados e a instrução possível de familiares,

TABELA 5 1

C r i a n ç a s d e S e is a Q u i n z e A n o s E s c o l a r i z a d a s , 1872
P a r ó q u ia s M e n in o s M e n in a s

T otal % E sc o l a r iz a d o s T otal % E sc o l a r iz a d a s

Sé 1.453 40,2 1.420 27,7

São Pedro 818 43,0 915 24,0

SancAnna 2,701 14,6 2.283 8,8

Conceição da Praia 167 73.0 120 89,0

Vitória 1,658 18,3 715 67,7

Paço 222 74,8 221 16,3

Pitai 1.561 42,0 1.499 19.0

Samo Antônio Além do Carmo 1.823 66,0 1.979 40,6

Btotas 290 82,8 157 80,9

Mares 607 24,9 538 21,1

Penha 380 36,7 380 19,5


204 B ah ia , S éculo X I X

padrinhos c amigos. A história insiste em talar nos vagabundos, esquecendo que, na


intim idade dos lares pobres baianos, a criança reinava. Nos mais hum ildes casebres
eram treinados artesãos c o m p e te n te s , operários habilidosos, Era isto que perm itia que,
na ausência dc associações de classe ou de escolas técnicas, se fabricassem na Salvador
do século XIX produtos de excelente qualidade para uso cotidiano, para não falar das
obras de arte para o culto de Deus e de rodos os santos. Mas a educação doméstica
nunca substitui a instrução pública.
A vida universitária era reduzida. A Faculdade de M edicina da Bahia, a primeira
do Brasil, fundada em 1808, foi a única instituição de ensino superior da Província até
1877. Nesse ano foram fundadas a Escola Superior de A gricultura e a Academia de
Belas -Artes; foi preciso, porém, esperar a República para que fossem criadas a Facul­
dade de Direito (1891) e a Escola Politécnica (1 8 95 )-5 Q uerendo estudar direito, os
jovens baianos iam para O linda, em Pernam buco, ou para São Paulo, que contavam
com essas faculdades a partir de 1827. Inútil dizer que só filhos dos ricos podiam se
dar a esse luxo. Entre eles, era com um , até a Independência, fazer o curso superior em
Portugal, mas a partir de então a França e a A lem anha ganharam a preferência.
A vida cultural era tipicam ente provinciana. Por volta de 1863, existiam várias
associações de caráter literário, recreativo, artístico, a cuja frente estavam quase sempre
as mesmas pessoas, em geral médicos, advogados, eclesiásticos, magistrados, funcioná­
rios. A mais prestigiosa, em bora recente, era o Instituto H istórico da Bahia, fundado
em 1858 sob a égide de dom Pedro 11, am ante das ciências, letras e artes. Reunindo
os expoentes da cultura baiana, o instituto dava o tom da vida cultural. Atividades
musicais e literárias eram fomentadas por diversas entidades, como a Associação Euterpe
(que reunia músicos oriundos das cam adas populares) e a Associação Filarm ônica da
Bahia. As agremiações recreativas eram m uito numerosas e quase sempre ocupavam-
se de obras de caridade, como a Associação Italiana ou a Associação Portuguesa. As
outras associações agrupavam funcionários, artesãos e empregados do comércio. Não
raro, desavenças entre os membros davam lugar a cisões, como ocorreu com a Socie­
dade Recreio Literário da M ocidade, fundada em 1860 num a cisão da Sociedade
Recreio Literário, que existia desde 1845.
Era na arte d ram ática, porém , q u e os b aian o s m ais se esm eravam : nada m enos que
três associações c o m p etiam cm 1860 para atrair os jovens talentos. O Conservatório
D ram ático, o C lu b e D ram ático e o Instituto D ram átic o d isp u tavam tam bém os palcos
dos dois teatros da cid ade, o dc São Pedro dc A lcân tara e o de São Jo ão, este o mais
célebre. Inaugurado em 1812, d u ran te o governo tio condc dos Arcos, subsrituiu o
velho teatro, conhecido com o de C u a d a lu p c ou C asa dc Ó pera Velha, que desapare­
ceu em 1837, q u an d o o prédio foi com prad o pela C â m a ra M u n ic ip a l, pelo módico
preço dc 8 0 0 réis!6
Os testem unhos dos viajantes são variados. A vé-Lallem ant fala de um publico
seleto e d istinto”,7 mas zom ba dos atores ou cantores. W etherelt observa: embora as
peças representadas sejam ou péssimas traduções de obras francesas ou estúpidos
L ivro III - A F amília B aiana 203

dram alhões portugueses, e que os cenários e o vestuário dos atores sejam dos mais
pobres, os teatros estão quase sempre repletos".8 Por volta de 1820, os ‘m istérios’,
como o de Santa C ecília — a que assistiu L. F. T ollcnare9 — , e espetáculos mais
populares tinham a preferência do público. Os enredos eram inspirados no cotidiano
das fam ílias; contavam , por exem plo, os amores grotescos entre um velho negro ciu­
mento e uina velha negra provocante, ou mostravam um inglês bêhado tentando falar
português, ou ainda cenas de em pregados dom ésticos pokrões. Representavam-se tam ­
bém tragédias, como um a baseada em M aom ê, de V oltaire, ou o dram a Duas filh a s do
conde de Bragança, do autor português A ntônio Pereira da C unha. Não faltavam
farsas, como A vila fid a lga , nem obras de Scribe e Alexandre Dumas, além da indefectível
H ernani de V ictor H ugo, Ó peras líricas eram encenadas por com panhias italianas,
como D ilúvio u n iv ersa l e L ucia d e L a m erm oor(à e D onízetti) e T em plário (de N ícolai),
Foi tam bém nos teatros que, na segunda m etade do século XIX, começaram a se
realizar bailes de máscaras que antecipavam os clubes carnavalescos do fim do século,
A julgar pelo que se lê no D iário d a B ahia dc jan eiro de 1863, esses bailes favoreciam
os encontros extraconjugais, pois um anúncio assinado por um certo Cavaleiro Ver­
melho com eçava por um alegre “viva a m ascarada” e declarava: “estou te esperando
hoje no teatro... E ntendeu, bela dam a?” O utro anúncio, escrito num cíaudicantc
francês, dizia: “M adam e F... Estou te esperando hoje no baile de máscaras para dançar
contigo e beber cham panhe. Pierrô E scarlate.”10 Os baianos cultos — ou os que,
pertencendo à boa sociedade, queriam parecê-lo ■ — ■prom oviam os chamados saraus,
que tinham lugar à noite, em geral nas casas das fam ílias, ensejos para brilhantes
duelos de retórica, fundados sobretudo na capacidade m nem ônica dos contendores.
T udo era pretexto para festas n a B ahia, sobretudo em lugares abertos, na rua.
Festas cívicas — com destaque para as datas de expulsão das tropas portuguesas da
Bahia (2 de julho) e de Independência do Brasil (7 de setembro) — e religiosas se
sucediam num ritm o frenético. Só no calendário religioso havia dezenove grandes
ciclos de festas, sem contar as inúm eras procissões prom ovidas pelas ordens terceiras
e as confrarias religiosas, além das festas das com unidades africanas, que não eram
poucas, Estas com unidades adotaram o calendário religioso católico, para passar desa­
percebidas da vigilância exercida pelo poder. Em dezembro, as festas do calendário
litúrgico eram Santa Bárbara (dia 4 ), Nossa Senhora da Conceição (dia 8), Santa Luzia
(dia 13) e Natal (dia 25). Em janeiro, Ano-Novo (dia Io), acompanhado da procissão
m arítim a dedicada a Nosso Senhor dos Navegantes (festa instituída pelos capitães e
pilotos que praticavam o tráfico negreiro), Epifania (dia 6), Nosso Senhor do Bonfim
(segundo dom ingo do mês) c o Entrudo. Em fevereiro ou março, a Quaresma, com a
procissão dc Nosso Senhor dos Passos. Em março, a festa de São Josc (dia 19). Em
março, abril e maio, Domingo dc Ramos, Q uinta-Feira Santa, Sexta-Feira Santa,
Sábado de Aleluia, D omingo de Quasfmodo, Ascensão, Pentecostes, festa do Divino
(acompanhada da festa do Imperador) e Corpus Christi. Em junho, a festa de Santo
Antônio de Pádua (dia 13), de São João (dia 24), de São Pedro e São Paulo (dia 29).
B a h ia , S é c u l o X IX

Em agosto. Assunção de Nossa Senhora (dia 15), que fechava o c ic lo .11 Celebrações,
tanto da cultura popular quanto da cu ltu ra das elites, têm até hoje grande peso no
cotidiano dos baianos.
Tam bém se lia na B ahia. M as quem lia? E o quê? Em 1811, no governo do Conde
dos Arcos, foi fundada a B iblioteca Rública. As autoridades portuguesas, porém , não
mostraram grande em penho cm dotá-la do m aterial necessário ao seu funcionam ento.
De fato, tudo ficou na dependência da in iciativa privada, e m uitos foram os baianos
que doaram seus livros à in stituição . Doações dos irm ãos Pedro e A lexandre Gomes
Ferrão Castello Branco e de Francisco A gostinho Gomes con stituíram o primeiro
acervo dessa b ib lio teca.12 Em 1819, ela contava cinco m il volum es, jornais em várias
línguas e panfletos em in g lês.13 Em 1863, o suíço T sh u d i avaliou seu acervo em
dezesseis m il volum es, especificando que eram quase todos escritos em lín gua estran­
geira, o que naturalm ente lim itav a o núm ero leito res.14 U m inventário datado de
1887 recenseia cerca de vinte m il volum es, m apas incluídos.
D a leitura dos relatórios anuais dos seus diretores, depreende-se que a biblioteca
não podia crescer rapidam ente, porque o governo não liberava as verbas necessárias.
Em 1873, por exem plo, o diretor A ntônio Ferrão M o n iz assinalava que um a bibliote­
ca, para ser ú til, deveria possuir obras de base em cada ram o das ciências teóricas e
aplicadas, um a coleção com pleta das obras clássicas de todas as literaturas, ou ao
menos das principais, além de jorn ais, revistas e obras novas. Q ueixava-se de que a
instituição não contava com dicionários, gram áticas, quase nada de filosofia com para­
da e da escassez das obras em inglês, quando “atu alm en te o m ovim ento intelectual na
Inglaterra talvez seja superior ao da França e quase equivalente ao da A lem anha”. 15 De
fato, obras de autores franceses ou publicadas em francês existiam em núm ero consi­
derável na biblioteca, como já o observara cm 1817 o francês T o llen are.16 Infelizm en­
te, não foi possível encontrar um inventário dos acervos dessa biblioteca no século
XIX, mas entre as aquisições feitas em 1870 encontram -se: H o m m ep rim itifi de Eiguier,
obras de C laude Bernard, de N iem eyer, u m a H istoire d e F rance de H enri M artin, a
H istoire U ntverselle de Paradel, um a V/e d e Jésu s C hrist do padre D upanloup e a V iede
la Vierge M arie do abade O rsini. A biblioteca tin h a a assinatura da R evue des Deux
M ondes , do Jou rn a l d ’A griculture , do J o u r n a l des Savants, do J o u rn a l des E conomistes e
da revista JIlustration.
Encontra-sc o m esm o p re d o m ín io da lín g u a e d a lite ra tu ra francesas nas coleções
privadas, em b ora m e p are ça arriscad o ju lg a r o gosto dos leitores baian os por aquele
dos proprietários d e b ib lio tecas. Estas, a lém de refletirem gostos pessoais, eram em
sua m aior parte especializadas, p erten cen d o a m édico s, advogados, m agistrados ou
religiosos. A ju lgar pelos in ven tários m u ito su m ário s de dois livreiros falecidos em
1 880 , os leitores davam g ran d e preferência aos rom ances c obras históricas, em detri­
m ento das obras filosóficas o u científicas. Em francês, liam -se sobretudo obras de
autores do próprio século XIX, com o M ad n m c d e Staêl, C h a te a u b ria n d , Lam artine,
Lam m enais, Balzac, V icto r H u g o , T o cq u evillc, G uizot, M ic h e le t e M in g u e t, que.
L iv r o 1 II - A F amil ia B ai sn a ; o~

por volta do m eio do século, destronaram os grandes clássicos do século XVIII. C u ­


riosam ente. a obra de A uguste C om tc estava ausente das bibliotecas particulares,
apesar do grande sucesso que lhe é atrib uíd o no Brasil. As literaturas portuguesa e
brasileira estavam m uito bem representadas pelos grandes nomes da época: Alexan­
dre H erculano. Jú lio D iniz, C astello Branco, G arreit, José dc A lencar, M achado de
Assis c outros.
A falta de interesse pelas obras científicas é um a constante nos relatórios dos
diretores da B iblioteca P ública, que tam bém sc queixavam de seu alto custo.17 A
biblioteca era freqüentada por um a clien tela restrita, form ada sobretudo pela popula­
ção estudantil — sem inaristas, alunos do curso secundário, das escolas normais e da
Faculdade de M ed icin a — e por adultos que lá iam ler jornais e revistas.
A população b aian a d ispunha ain d a de outras fontes de inform ação. A imprensa
— tribuna ideal para o espírito crítico dos habitantes de Salvador — era m uito
desenvolvida. O prim eiro jo rn al da cid ad e, Id a d e d e O uro do Brasil\ com eçou a circular
em 14 de m aio de 1811. O C on stitu cion a l surgiu no período da Independência e foi
publicado até depois de 1850. M as os grandes jornais baianos do século XIX foram o
D iário da B ahia (1 8 3 3 -1 9 5 8 } e o J o r n a l d e N oticias { 1 8 8 3 -1 9 1 7 ). Em 1880, Salvador
tinha sete diários, alin hados com o liberais ou conservadores ( D iário d e N otícias, D iário
da Bahia , O M on itor , Gazeta d a B ahia , J o r n a l d e N otícias , A labam a e Gazeta da
Tarde), e cinco periódicos ( G azeta M éd ica , Escola , Voz do C om ércio , B aiano e O Balão).
Era bastante para u m a cid ad e em que só 1/3 da população era alfabetizada. Embora
lessem m uitos jorn ais e se im pregnassem da literatura francesa, os homens cultos da
Bahia escreviam pouco. O século XIX só pode se orgulh ar de um grande poera, Castro
Alves, c de um grande ro m an cista, X avier M arq u es.18
N um a avaliação glo bal, im põe-se reconhecer que a educação, pública ou privada,
fez notáveis progressos no século XIX. Excelentes escolas leigas privadas se m ultip lica­
ram. As fam ílias abastadas continuavam a m atricular as filhas nas U rsulinas das M er­
cês, mas os m eninos freqüentavam cada vez m enos as escolas religiosas. Depois do
advento da R epública, jesuítas e m aristas passaram a desem penhar im portante papel
na educação prim ária e secundária dos jovens baianos.

F am ília, E ixo d a s R elações S o cia is

Ao longo de todo o século XIX o local em que se formavam inteligências e mentali-


dades foi, na Bahia, a fam ília, fosse legítim a, abençoada pela Igreja, ou consensual,
chefiada m uitas vezes por um a m ulher, situação aceita sem grande dificuldade pela
sociedade. Scr filho natural não acarretava, ao que parece, grandes problemas de
inserção ou mesmo de ascensão social, pelo menos no âmbito das classes médias e
inferiores da sociedade. E, quando sc era rico, origens hum ildes ou naturais eram
rapidamente esquecidas.
20* B ah ia , Sfcm o XIX

A famí! ía natural, criacía pela mera vontade dos parceiros, era tão com um na Bahia
quanto a sacram entada pela Igreja C atólica. A liás, por ra7.õcs de ordem institucional,
econômica c dc m entalidades, as uniões livres eram mais numerosas que as legais. Do
ponto de vista institucional, a sociedade se com punha dc indivíduos cujos estatutos
legais e sociais eram diversos — os livres, os alforriados e os escravos — e, com muita
freqüência, as uniões consensuais se davam entre pessoas de condições diferentes. Era
comum que homens livres (brancos ou de cor) escolhessem concubina entre alforriadas
ou escravas. Várias situações podiam ocorrer.
A união legal com um a escrava — mesmo m ulata ou quase branca — era proibida
por lei. A união com um a alforriada era legalm ente viável, mas tendia a permanecer
consensual, pois o casam ento com um a m ulher de nível inferior podia ocasionar a
decadência social do hom em , privando-o ain d a da possibilidade de vir a se unir for­
m alm ente com outra m ulher, que pudesse auxiliá-lo a ascender. Por outro lado, a vida
em comum com uma m ulher branca podia indicar que ela já era casada ou vinha de
um meio social inferior. Era tam bém freqüente que, tendo em vista a preservação de
bens, viúvas preferissem m anter um a relação oficiosa, renunciando a novo casamento,
mesmo quando se dispunham a ter filhos dessa relação ile g ítim a .19
As motivações de um hom em livre e de cor para viver no concubinato eram muito
semelhantes às do homem branco, sobretudo em se tratando de alguém que fizera
fortuna c que podia se valer disso para obter as graças de um a m ulher de condição
social superior à sua. Nos dois casos, o concubinato podia ser brevem ente interrom ­
pido, mas não raro se eternizava, como ocorreu com os portugueses que chegaram ao
Brasil após a Independência,
Essas situações só eram com uns nas cam adas m édias da população livre. Nas
camadas superiores, os homens, quer ficassem solteiros ou se casassem, tendiam a
m ultiplicar suas aventuras sexuais, m antendo ligações sucessivas ou sim ultâneas com
várias mulheres. Foi aliás o com portam ento desses homens que deu origem à idéia,
muito difundida na época, de que reinava a devassidão, idéia reforçada pelo combate
intransigente da Igreja aos que transgrediam as leis civis e religiosas.
H om ens livres, por um la d o , e escravos e alfo rriad o s, p o r o u tro , não eram ju lg a ­
dos pelos mesmos padrões. Razões de o rd em in stitu c io n a l e e co n ô m ic a atu av am , mas
o econôm ico pesava m ais. O liberto, com o o h o m e m livre, só po dia se casar com
u m a escrava sc a libertasse, o q u e p ressup un h a g ran d e d is p o n ib ilid a d e m aterial. H a­
via casos em q u e isso era possível, m as dc m odo geral os alforriados viviam em
concubinato com alforriadas ou escravas. Em 1 8 5 3 , por ex em p lo , o alforriado nagô
Luiz V ieira, carregador dc cad eirín h a dc arru ar, alu gava um quarto por 8 0 0 réis
mensais no imóvel n" 61 da rua D ireita, on de m orava com Felicidade, tam bém de
origem nagó, escrava de outro alforriado, U m segu nd o q u arto no m esm o imóvel
estava alugado ao alforriado Jacin to e a sua am ig a F irm ina, am bos de m esm a origem.
Segundo o estudo d e J.J, Reis, o con cu b in ato de alforriados ou alforriadas com escra­
vos era coisa rara, os alforriados preferindo um parceiro q u e tivesse o m esm o estatuto
L iv r o III - A F a m íl ia B a ian a 209

ju rídico .20 Aliás, as uniões livres, em geral contraídas em idades mais avançadas — o
que tam bém aco ntecia com os casam entos — , co n stitu íam acordos de entendim ento
e aju d a m útuos para m elho rar a vida dos dois parceiros, assim com o uma tentativa
dc perpetuar origens étnicas c o m u n s ,21
Q u an to aos escravos, com o já in d iq u e i, não se casavam , fato a que os senhores não
davam m u ita im p o rtân cia. T a m p o u c o en co n trei, nas m inhas pesquisas, registro de um
caso sequer de escravos v iv en d o em co n cu b in ato . Ao que tudo indica, as uniões livres
eram privilégio dos q u e gozavam do estatu to de cidadão livre ou de alforriado.22
É fácil im a g in a r a aflição dos escravos, privados de todo tipo de vida familiar.
Mas cabe p erg u n tar se essa privação era im po sta u n icam en te do exterior, pela pró­
pria natureza da so cied ad e escravocrata. Até certo ponto, ela pode ter refletido uma
escolha do próprio escravo. C o m efeiro, a q u a lid ad e de pessoa lhe era recusada. T i­
nha u m a existên cia de coisa, q u e se c o m p ra e vende. T o rn ar-se pessoa im plicava a
compra d a alforria, e esta era m u ito cara. O ra, a v id a em co m u m envolve obriga­
ções m ú tuas e ten de a m elh o rar a situ ação dos parceiros do ponto de vista material.
Os escravos, rurais ou urbanos, q ue v iv iam na casa do seu senhor, tinham a sobre­
vivência assegurad a. D a u n ião , c asam en to ou co n cu b in ato , resultam fllhos, cuja
existên cia c ria o b rig a ç õ e s ta m b é m de o rd em m o ral. A ssu m ir responsabilidades
parentais afastava para sem p re a p o ssib ilid ad e da alforria, pois resgatar a liberdade
de u m a fam ília seria caríssim o. M e lh o r era, portanto, evitar a união e suas conse­
qüências. N o caso dos escravos de gan h o , ter um cônjuge e filhos era igualm ente
um obstáculo para a consecução da gran de m eta, a alforria. A causa principal para a
ausência de casam entos e co n cu b in ato s entre escravos era, ao q ue parece, um a forte
coação m aterial.
Em co n trap artid a, a associação en tre escravos do m esm o sexo, vivendo sob o
mesmo teto, era, com o v im o s, p rática corrente. É preciso não esquecer que a Igreja,
que censurava a v id a devassa da po pu lação Hvre e lib erta, condenando o concubinato,
nao dem onstrava gran d e interesse pela v id a que levavam os escravos, cujos desvios de
conduta sem pre d escu lp av a.2'1 F req üen tem en te, as m ulheres trabalhavam c seus com ­
panheiros m asculinos ajudavam a to m ar conta das crianças. Na época do processo
contra os p articip an tes da R evo lta dos M alês, de 1835, A jadi, por exem plo, declarou
que ficava em casa tom ando conta de seus três filhos, enquanto a mãe das crianças
estava na rua vendendo m ercadorias. E Tgnácio Santana declarou que sua vida de
homem idoso o reduzira a educar seus dois filhos m ais velhos, dos quais um ia à escola
e o outro aprendia o ofício dc carpinteiro , e a criar m ais duas crianças, ainda m uito
pequenas. Q uan do G aspar da Silva C unh a foi preso, as autoridades o encontraram
preparando um m ingau para sua am iga I crcsa que estava d o en te...
Essa relativa anornia da sociedade baiana, em que as uniões livres eram m aioiia,
não parece ter tido influencia negativa sobre os com portam entos de ordem fam iliar.
Filhos oriundos dc laços m atrim oniais ou consensuais gozavam da mesma proteção e
estavam subm etidos ao poder paterno, m aterno ou ao de um tutor. Desde que reco-
210 B a h ia , S é c u l o X I X

nhecidos, esses ú ltim o s tin h am tam bém o m esm o d ireito à herança paterna, numa
atitu d e perm issiva do legislad o r, q ue era ao m esm o tem po causa e efeito do grande
núm ero de uniões livres p raticad o nessa so ciedade. N ão era, aliás, m era conseqüência
da situ ação escravocrata e co lo n ial do B rasil, pois vigorava em P o rtu gal, onde as uniões
livres e os n ascim en to s ileg ítim o s eram tam bém freq ü en tes.25 No m áxim o, pode-se
a d m itir q ue aqui o fenôm eno se a m p lio u , em d eco rrên cia da m aio r d esiguald ad e entre
hom ens e m ulheres e po rq ue se tratava de u m a so cied ad e em q ue o casam ento era visto
com o m eio de ascensão so cial: era preciso p en sar duas vezes anres de se unir oficial­
m ente a alg u ém p ara fu n d ar u m a fa m ília . .
R econhecendo as u niões livres e os d ire ito s dos filhos ileg ítim o s, a sociedade
b rasileira se afigu rav a m u ito ‘a v a n ç a d a ’ p a ra a ép o ca, crian d o u m a realidade que
teve en o rm e in flu ê n c ia sobre co m p o rtam en to s e relaçõ es so ciais. Estes tenderam a
ser m enos fo rm ais, to rn an d o po ssível a In tegração , nas cam adas sup eriores, de toda
u m a m assa o riu n d a de castas m en o s favo recid as. G raças a laços de parentesco indis­
cu tív eis, um m u lato — e às vezes u m n egro — p o d ia su b ir n a h ierarq u ia social,
protegido por um sistem a ao m esm o tem p o ríg id o e flex ív el, freq ü en tem en te frouxo
e to leran te. . ■
Eis um p rim eiro traço carac te rístic o dessa so cied ad e, q u e dava m argem a com por­
tam en to s sociais q ue tra n sg red iam os estatu to s legais q u e a d iv id ia m entre brancos e
negros, senhores e escravos. Foi assim q ue a in s titu iç ã o fa m iliar to rn o u -se um m eio de
prom oção social. J á o d em o n strei ao a n alisar as estratégias m a trim o n ia is que me
revelaram a a m p litu d e dessa ev o lu ção . Em to rn o d a fa m ília devem ser buscados os
elem entos para se co m p reen d er as co m p lexas h ie ra rq u ia s so ciais, pois a fam ília era o
eixo a cuja volta g irav am as relações so ciais, com base nas q u ais as h ierarq u ias se faziam
ou se desfaziam . R eu n in d o p aren tes, agregados e vizin h o s de ru a ou de bairro, os
casam entos, n ascim en to s, enterro s e o u tro s aco n tecim en to s fam iliares eram atos pú­
blicos e, com o tais, criavam situ açõ es p riv ile g ia d as p ara ap reen d er a tram a tecida pelos
laços sociais.
A escolha do cô n juge se realizava em pelo m enos du as etapas: o nam oro e o
noivado. E,sta sucessão de fases não era a rb itrária , obedecendo a preceitos definidos
pela fam ília c a sociedade. O nam oro era u m a form a de relação q ue se estruturara no
início do século XIX, a partir da crise do casam ento de conveniência, im posto pelos
pais, vencido pela força do am or ro m ân tico . No tem po cm que o casam ento era
decidido pelos pais, havia noivado — geralm en te longo — mas não nam oro. Antes do
com prom isso, os futuros cônjuges não tin h am nenhum contato entre si.
O nam oro com eçava com u m a troca de olhares e gestos expressivos. A iniciativa
geralm ente partia do rapaz. Os avanços exploratórios eram discretos. Um antigo
M anual dos n am orados recom endava ao rapaz m u ita prudência ao se d irigir à moça
cujo am or pretendia conquistar. Um tom brusco e ousado podia ter resultados desas­
trosos,26 Se a prim eira tentativa fosse bem -sucedida, se podia arriscar um passo um
pouco m ais ousado. ,
L i v r o III - A F am Ilia B a ia n a 211

Entre os rapazes, a idade do namoro com eçava por volta dos dezoito aos dezenove
anos; entre as m oças, um pouco m ais cedo, entre catorze e quinze anos. Apesar da
reclusão em que viviam as m ulheres, as oportunidades para um prim eiro encontro
eram m uitas: missas, novenas e outros atos litúrgicos, assim como as festas fam iliares.
É preciso dizer, porém , que esses m ovim entos eram secretos e assim perm aneciam
durante a m aior parte do nam oro. F reqüentem ente, mães, irm ãs mais velhas ou tias se
tornavam confidentes da jovem apaixonada. U m dos papéis tipicam ente reservados às
tias solteironas, que viviam na depen dência de um irm ão ou cunhado, era o de servir
de ‘pau-de-cabeleira’, ou seja, v ig iar de perto o desenvolvim ento do namoro ou pro­
mover seu térm ino, se o rapaz não fosse do agrado da fam ília. Assim , conforme o caso,
a tia celibatária tornava-se cú m p lice ou espiã.
D urante a segunda etap a, que pressupunha a aquiescência do futuro parceiro,
estabelecia-se entre os nam orados u m a relação am bígua, que só podia ser legitim ada
pelo noivado. Os dois co n tin u avam a se encontrar em lugares públicos, mas — fre­
qüentem ente graças à cu m p licid ad e de um m em bro da fam ília — tornavam-se possí­
veis rápidos encontros, no portão da casa da m oça, ou ju n to a um a janela térrea, quando
havia, Seja com o for, esses encontros deviam ser públicos, à vista dc todos: encontros
em lugares escuros e escondidos, sobretudo à noite, eram sinônim o de m á conduta e
expunham a m oça ao escândalo. O pai era o ú ltim o a saber do nam oro de sua filha ou
de seu filho e só ele tin h a o poder de criticar, recusar ou aprovar a escolha.27
A função do nam oro era preparar a união dé ‘igu ais’ em estatuto social, maneiras
e tipo físico. No fundo, o casam ento era um problem a de fam ília, cujo sucesso depen­
dia do acaso, já q ue “casam ento e m ortalha, no céu se talh a”. M as era preciso a
m áxim a atenção para prevenir certos desacertos. Por isso, deviam ser levadas em conta
noções como “somos o que é nossa fa m ília ”, ou “as fam ílias devem se parecer m uito”,
repetidas por um conselheiro fam iliar da épo ca.28
V encida esta segunda etapa, o nam oro cam inhava para o ‘compromisso : juras de
fidelidade entre os jovens nam orados, que os encorajavam a revelar suas relações às
respectivas fam ílias. Nessa nova etapa, o rapaz conquistava o direito de freqüentar a
casa da sua eleita alguns dias por sem ana, sempre sob a vigilância direta dos pais ou de
outros m embros da fam ília. F inalm ente, quando a união era decidida e o rapaz estava
em condições dc ‘pensar em casam ento’, era feito o pedido oficiai ao pai da moça.
Celcbrava-se então o noivado, um a etapa de m aior aproxim ação entre as duas famílias.
Enquanto isso, os jovens continuavam a s e ver, sempre sob vigilância. A virgindade era
o bem mais precioso da m oça.2''1
O namoro não era exclusivo da burguesia: também as classes médias da sociedade
baiana o praticavam . Aliás, segundo a tradição, era até mais comum nestas últimas,
pois na classe alta continuava freqüente a escolha do cônjuge pelos pais. O elevado
percentual de mulheres celibatárias que encontrei entre as famílias burguesas estuda
das é um indício de que as fam ílias preferiam que as filhas ficassem solteiras a vê-las
‘desclassificadas’ pelo casamento com um rapaz de condição inferior.^
212 B a h ia , S écu lo X I X

E videntem ente, esse era o paradigm a do nam oro e do casam ento, o modelo ideal
form al, ritualizado e hierarquizado , a que a realidade nem sem pre se ajustava com
perfeição, Podia haver desvios m aiores ou m enores, segundo as circunstâncias. Havia
por exem plo, nam oro e casam ento do rapaz ‘pobre e bo m ’ com a m oça rica, de família
respeitada; havia tam bém casam ento de rapaz de cor com m oça branca. Eram ‘arran­
j o s ’ — que sem pre funcionaram bem n a sociedade brasileira — à m argem da endogamia
ou da isogam ia das classes, que com pensavam a falta de can didato s m ais bem qualifi­
cados e perm itiam a incorporação de in d iv íd u o s com dotes intelectuais ou políticos
em fam ílias de com erciantes, p ro p rietário s agríco las, senhores de engenho, homens de
governo, sem que isso prejudicasse a m u lh e r.31
A ssim , nem sem pre o casam ento u n ia os ‘so cialm en te igu ais’, Os portugueses, por
exem plo, casavam -se facilm en te com m u latas ricas, e não raro um a branca sem dote
casava-se com um m u lato talen toso ou rico. Isso aco n tecia sobretudo nas categorias
interm ed iárias, aqu ela dos q u e tin h am pressa e q u eriam cortar cam inho até o topo da
h ierarq uia social.
Por outro lado , as relações entre n am orados e até en tre noivos nao eram tão puras,
com o já dem on strei ao an alisar os raptos e estupros. F req üen tem en te ocorria que a
m oça fosse d esvirgin ad a — po rtan to, co m p ro m etid a — pelo nam orado ou aquele a
quem tin h a sído p ro m etid a. C o m raras exceções, a m u lh er q u e p erdera a virgindade,
se nao con seguia gu ard ar o fato em segredo, evitando assim q uaisq uer problemas,
tin h a três escolhas: a p ro s titu iç ã o — d eclarad a, se fosse pobre, discreta se tivesse alguns
recursos — , o celib ato ou um casam ento de co n v en iên cia.32
Q uan d o o nam oro co n d u zia ao com prom isso e ao pedido de casam ento, celebra­
va-se o noivado, em cerim ô n ia p resen ciad a por parentes, am igos, vizinhos e empre­
gados. Por vezes, com o vim os, n lo era precedido de nam oro, pois tratava-se de esco­
lha dos pais. Era com um fazer, no d ia do n o ivado, u m a exposição do enxoval da
noiva, em gerai adm irado com estardalh aço na presença da noiva e de seus familiares
e com frequência acerbam ente criticad o m al se cruzava o portão, na saída. Bebia-se,
com ia-se, contavam -se m il e u m m exericos e se fazia u m a provisão de futricas para as
semanas vindouras.
Para o casam ento, os dias preferidos eram as quin tas-feiras e os sábados. Sexta-
feira, jam ais: era d ia aziago. Em geral a cerim ô n ia era celebrada na presença das
fam ílias e dos am igos, na igreja da paróquia de um dos noivos, por um numero de
padres correspondente às posses das fam ílias. Os filhos dos grandes proprietários rurais
e senhores de engenho casavam -sc m uitas vezes nas casas dos pais. Até o advento da
República, o casam ento era um ato exclusivam ente religioso, pois não existia casamen­
to civil. Era necessária a presença de duas testem unhas, mas este número podia ser
m ultiplicado quando havia m uitos am igos a hom enagear. Era com um que entre esses
am igos fosse in clu ída um a pessoa de condição social inferior, que podia ser um bom
artesão, um am igo de cor ou um em pregado cujas qualidades fossem especialmente
apreciadas. Por tradição, a esposa podia conservar seu sobrenome, e alguns dos filhos
L iv r o III - A F am ília B aiana
213

m u la s vezes o herdavam , ou o de algum parente que tivesse posição social de desta­


q u e, costum e que acarreta não poucos problem as para o historiador que renta
recon stituir a h istó ria das fam ílias baianas.
V iagem de lu a-de-m el ain da não etustia. F inda a cerim ônia e as comemorações
h ab itu ais, os noivos iam para sua nova casa, ou para a dos pais de um deles Era
com um , em sin al de alegria, lib ertar escravos em d ia de casam ento. Segundo Thales de
Azevedo, no século X IX o dote a in d a era um a condição im prescindível ao casamento
e era assegurado pelo pai ou pelos irm ãos afortunados,33
N ascim entos eram tam b ém ocasião para grandes festas fam iliares, preparadas com
esm ero ao lon go d a gestação. N esse período, a m ulher era subm etida a um sem-
núm ero de in terd içõ es e ritos: gráv id a não p o d ia passar em baixo de um a corda, pois
isso p o d ia “atar o seu v en tre ” e d ific u lta r o parto; se enjoasse, devia tom ar chá com
canela; p ara ter um m en in o , o casal devia m atar u m a galin h a e deixar seu coração
inteiro ; para ter u m a m en in a, d evia cortar o coração da galin h a em dois; barriga
redonda era m en in a; b arriga p o n tu d a, m enin o na certa.
C h egad a a h o ra, a p a rteira e as indispensáveis vizinhas experientes acorriam . Ser­
viam à p artu rien te ovos q u en tes, café e vin h o do Porto, D epois do nascim ento, a
p arteira se o cu p ava p rim eiro d a m ãe, pois, segundo a tradição “se um recém-nascido
m orrer, está m o rto : é u m anjo a m ais ju n to de D eus”. D epois do parto vinha o
resguardo, e a m u lh e r d ev ia seg u ir u m a d ieta estrita: o prato recom endado era galinha,
e até as escravas q u e d avam à lu z segu iam esse preceito. As com idas proibidas forma­
vam u m a lista in te rm in áv e l: couve, abóbora, m axixe, fruta-pão, m elão, abacaxi, cozido
de carne, feijão , carn e de po rco, b an an a... Se o recém -nascido sobrevivia, os que dele
cuidavam n u n ca se esq u eciam de lhe p in gar nos olhos um as gotas de lim ão, providen­
ciar para q ue fosse m o rd id o por u m a pessoa de belos dentes, e, por fim , pôr uma
m oeda gran d e na á g u a do p rim eiro banh o, para que fosse rico. A criança recebia
tam bém u m a m ed alh a d a V irgem M a ria, aco m panh ada de um a figa.
E sperava-se q u e a crian ça crescesse um pouco para batizá-la, o que dava ensejo a
nova festança para a fa m ília e os am igos. G eralm ente os padrinhos eram escolhidos
pelos pais, Esses laços ficavam registrados nos docum entos oficiais: raros são os testa­
m entos e in v en tário s p o st m ortem que não m encionam os afilhados do finado. Parece
tam bém m u ito claro q ue os pais procuravam escolher os padrinhos de seus filhos
num a cam ada social m ais elevada que a sua; no caso dos que já eram das camadas
superiores a escolha recaía sobre pessoas de especial prestígio e influência. Era uma
escolha d ecisiva, porque os laços de apadrinham ento não diziam respeito apenas ao
afilhado; eram , sim u ltan eam en te, laços de com padrio, que podiam ser proveitosos
para toda a fam ília. Assim se reforçavam solidariedades sociais, para além do contexto
fam iliar, prolongando as relações. Podia ser mais interessante ter um padrinho in­
fluente que um pai rico; quando se tratava de alguém que pertencia a uma cama
superior da sociedade, era um a relação que valia ouro. Nem todos, porém, po iam ter
padrinhos entre os m ais influentes, e isto se aplica em especial ao hum ildes, alforriados
214 B a h ia , S éculo XIX

ou escravos: para eles, tratava-se de escolher alguém que tivesse algun s bens e gozasse
de prestígio m oral na sua própria categoria so cial.34 Ao q u e tudo in dica, o apadri­
nham ento com o m eio de ascensão social só desem penh ava papel im po rtan te entre a
população livre e branca, ou en tre a de cor, q u an d o já so lid am en te estabelecida na
sociedade. ' ■ " " ■■■■■' ■. 1
N um outro ato, que se segu ia im ed iatam en te ao b atism o , podia-se apelar para
alguém m ais h u m ild e. T ratava-se da ‘ap resen tação a N ossa S en h o ra’ , em que a criança
era posta sob a proteção da V irgem M a ria. A ssim , além dos p adrinh os de batism o,
havia a ‘m ad rin h a de ap resen tação ’, q ue p o d ia ser esco lh id a até entre os agregados,
escravos alforriados, u m a v izin h a so lícita ou um p aren te pobre. Era um a prova de
am izade e consideração q ue p e rm itia co n q u istar a d ed icação de pessoas, alargando o
círculo fam iliar. Por ocasião do crism a, ch egad a à id ad e da razão, p ad rin h o s ou m adri­
nhas podiam ser escolhidos en tre os m ais h u m ild e s. ■: . .
A niversários e fo rm aturas eram tam b ém ocasiões de festas nas fam ílias abastadas,
que a im pren sa da época não d eixava de rep o rtar. O s pobres, q ue nao festejavam seus
próprios aniversários, eram co n vid ad o s p ara esses festejos, q u an d o tin h am algum laço
com u m a fa m ília de posses. D ip lo m ar-se n u m a esco la su p erio r era, para o jovem
baiano, aco n tecim en to tão im p o rtan te q u an to casar-se. M u ito s escravos foram liber­
tados no século XIX em h o m en agem ao su rg im en to de m ais um ‘d o u to r’ .
Q uan to à m o rte, todos a tem iam nessa c id ad e em q ue as condições de higiene
eram precárias e as en d em ias e ep id em ias grassavam . O ín d ice de m o rtalid ad e infantil,
já o constatam os, era catastró fico . Ign o ro a ex p ectativ a de v id a d a po pu lação adulta,
talvez entre 45 e 50 anos. U m a co isa é certa: a m o rte aterro rizav a e estava sempre
presente. T odos usavam figas, a m u leto q u e, segu n d o se acred itav a, co n jurava essa
fatalidade. Os padres, em suas orações e h o m ilías, não se can savam de tran sm itir aos
baianos a im agem de um D eus v in gativ o e cioso, em d etrim en to daquele Todo-
M isericordioso do N ovo T estam en to . M u ito cedo, o b aian o era prep arado para en­
frentar a m orte, q ue o poria face a face com o C riad o r. Essa prep aração envolvia duas
etapas: prim eiro, o ingresso n u m a das num erosas irm an d ad es, o que dava a segurança
de ter um enterro decente; depois, a redação do testam en to , expressão das últimas
vontades, cm que as preocupações de ordem religio sa superavam de m u ito as de ordem
fam iliar.
Eram m uitos, dc fato, os baianos que red igiam seu testam ento “no gozo dc ótim a
saúde, com a m esm a m ente sadia que Deus [lhej deu, ign orando a hora que Deus
Nosso Senhor haveria por bem c h a n iá -[lo J”. Frases desse gênero eram geralm ente
seguidas por toda um a séríc dc invocações, tais com o: “R ecom endo m in h ’alm a ao
T odo-Poderoso, que a criou, c a Jesus C risto seu Pilho Ú nico, meu Senhor, que a
resgatou com seu precioso sangue, à V irgem M aria, Nossa Senhora m uito santa, a meu
santo padroeiro, a meu anjo da guarda c peço a todos os outros santos que intercedam
por mim agora e na hora de m inha m o rte.” O u ainda: “Recom endo m in h alm a à
Santíssim a T rin d ad e, que a ctio u , rogando à santíssim a M ãe de D eus, a meu anjo da
L iv r o III - A F a m íl ia B a ian a 215

guard a e san to p ad ro eiro e a todos os santos e santas da corte celestial que intercedam
por m im agora e q u an d o m in h a ím a d eixar m eu corpo, para que, com o um verdadeiro
cristão, eu possa esperar ser salvo graças aos m éritos desse m esm o Filho Ú n ico de
D eus1’. Em segu id a, o testam en to listava as irm an dades religiosas a que pertencia o
testador, pois em todas as classes sociais — in clu siv e as cam adas m ais hum ildes, com o
a dos alfo rriad o s — era co m u m o ingresso de u m a pessoa em várias delas. Descobri
algum as q ue p erten ciam a o ito .
A té 1 8 6 0 , era raro q ue se deixassem à fa m ília as decisões sobre o enterro , e m ais
raro ain d a desejar-se u m en terro sim p les, sem po m p a; para o período de 1 7 9 0 -1 8 2 6 ,
entre cem testad o res ex-escravos só 2 1 % dos ho m ens e 2 4% das m ulheres deixaram
suas fam ílias d e c id ir sobre seu se p u lta m e n to . M a s, se fizerm os o cálcu lo para o período
de 1 8 6 3 -1 8 9 0 , en tre cem testad o res, sem p re ex-escravos, 6 8 % dos hom ens e 64% das
m ulheres nao m e n c io n a ram a m a n e ira com o desejavam ser sepultados ou deixaram
isso a critério d a fa m ília .35 N os testam en to s dos pobres, boa parte dos parcos bens que
possuíam era d e stin a d a ao p ag a m en to das m u itas m issas a serem rezadas nos meses ou
anos sub seq üen tes à m o rte. A té os african o s recém -saído s da escravidão q ueriam um
enterro ap aratoso.
U m exem p lo é D a m ia n a V ie ira , african a d a C o sta da M in a , gan h ad eira, que
com p rara sua a lfo rria p o r cem m il réis.. Em 1 80 5 fez seu testam en to , onde aparecem
as sete irm an d ad es a q u e p e rte n c ia: N o ssa S en h o ra do R osário das Portas do C arm o,
Bom Jesus das N ecessid ad es e d a R ed en ção , Sao B en ed ito de São Francisco, Santa
Ifigênia d e São F ran cisco , N o ssa S en h o ra do R osário de S an tan a, N ossa Senhora do
Rosário d a C o n ceição d a P ra ia e B om Jesu s dos M a rtírio s .36 P ed ia q ue seu corpo fosse
enterrado com o h á b ito do seráfico São F rancisco e o féretro aco m panh ado pelo
reverendíssim o pároco , seu sacristão e m ais o ito padres. Seu corpo deveria ser trans­
portado no caixão d a Irm a n d a d e de N ossa S en h o ra do R osário das Portas do C arm elo
e seguido por todas as irm an d ad es a q ue p erten cia. D eixou tam bém u m a esm ola de 12
réis para cad a u m dos 12 pobres q u e d eviam tran sp o rtar o corpo até a Igreja do
Rosário dc N ossa S en h o ra das portas do C arm o , on de q u eria ser enterrada. O rdenava
que fossem rezadas seis m issas de corp o presente p ela alm a de seu finado m arido, seis
pela de sua filh a, tam b ém falecid a, e q u atro por todas as pessoas com q ue lidara seja
para com p rar, seja p ara ven d er". C o m o ú n ico bem , deixou um a escrava avaliada em
5 0 .0 0 0 réis e m óveis sin gelo s, declarados de pouco valor.
Jo aq u im de São Jo sé escreveu seu testam ento em 1857. Era um africano de mais
de sessenta anos, cx-cscravo dc Serafim G onçalves, viúvo em prim eiras núpcias de
Rosa B árbara — african a que cie liberto u para des posar — e casado em segundas
núpcias com M aria do B onfim , tam bém african a, libertada pela filha do próprio
Jo aq u im , do p rim eiro casam ento. No testam ento, declarou ser irm ão das Confrarias
de São B enedito e de São V icen te Fcrrer, am bas ligadas ao convento dos franciscanos.
Pediu que lhe fizessem o enterro uo m ais decente possível e encom endou 24 missas
cantadas por sua alm a, m ais 24 pela alm a da p rim eira m ulher. À filha, deixou um a casa
2 )6 B a h ia , S éculo X I X

na rua de Baixo e “quatro filh inh as” — que sua segunda m ulher tivera antes do ca*
sarnento — que deveriam ser “batizadas e educadas da m aneira mais apropriada pela
d ita filha V eríssim a”. Assim , as filhas que M aria do Bonfim tivera quando ainda
escrava, fora dos laços m atrim oniais, não foram libertadas, mas dadas à filha legítima
para servi-la.37
Em 1846, o norte-am ericano T hom as E w bank escrevia: “O corpo [do defunto]
fica sem pre exposto na peça prin cipal da casa; raram ente é velado por mais de 36
horas e, m uitas vezes, menos que as 24 im postas pela lei. Se o finado for casado, um
pano preto ornado com fios dourados é pendurado na porta de entrada; se for celiba­
tário, as cores são lilás e dourado; se for criança, azul e dourado. Os casados tinham
sempre caixões pretos, a m enos que fossem jovens, caso em que eram azul e verme­
lho. Os religiosos eram levados à sep u ltu ra num caixão que ostentava um a grande
cruz, o que não era perm itido aos leigos (...). A m antes de belos trajes, os brasileiros
eram sem pre enterrados com suas m elhores roupas, exceto quando algum hábito ou
roupa especial era preferido por razões religiosas. As m ulheres casadas eram envoltas
em lençóis negros e tin h am os braços cruzados, cada m ão pousando no braço oposto.
As solteiras eram envoltas em lençóis brancos, enfeitados de gu irlan das de flores bran­
cas, as mãos ju n tas em posição de oração. H om ens e rapazes tinham as mãos cruza­
das no peito. Os ocupantes de cargos oficiais eram enterrados com suas vestimentas
de função, os padres com suas b atinas, os soldados com farda, os membros das con­
frarias com as in d u m en tárias próprias. C rian ças de até dez ou doze anos eram vesti­
das com hábitos religiosos ou com o santas, com o an jin h o s ou com o m adonas. M eni­
nos pequenos, por exem plo, eram vestidos de São Jo ão , com um a plum a e um livro
nas mãos, ou de São José, segurando um pequeno bastão guarnecido de flores. M eni­
no cham ado Francisco ou A ntôn io em geral era enterrado com roupa de monge. Se o
nome era M igu el, vestiria um saiote e um a tú n ica, teria um capacete dourado e uma
das mãos em punhando u m a espada. As crianças eram consideradas anjos, e as mães
se alegravam de vê-las sub ir aos céus, preservadas das tentações e pecados que encon­
trariam na T erra.”38
N a visita que fez à B ahia em 1860, M axim ilian o , príncipe do Império Ausrro-
H úngaro — c futuro im perador do M éxico — , ao passar dian te do cem itério do
Cam po Santo viu um cortejo fúnebre no qual havia “um a carreta dourada, atrelada a
quatro cavalos pretos, com um dossel de veludo cheio dc franjas douradas e plumas de
avestruz pretas. Na rica boléia estava sentado, enfeitado como um macaco, uni negro
velho em libré espanhola. No carro triunfal havia um a cobertura preta e dourada que,
visivelm ente, nada cobria. Atrás seguia tnn corso de coches. Dessa vez tinham despa­
chado um ricaço, e os herdeiros voltavam a galope para casa, para o banquete alegre,
para a boa sesta, feliz c despreocupada,”39
O espetáculo e o esplendor do cerim onial que cercava os enterros eram muitas
vezes iguais para ricos c pobres, brancos ou negros, alforriados ou livres. M as se tais
exibições dc fausto e pom pa eram solicitadas por gente que muitas vezes só escrevia
L iv r o III - A F a m Ilia B a ian a 21 7

testam ento para con signar esses desejos, havia tam bém pobrcs-coitados, cujos cor­
pos eram conduzidos fu rtivam en te à sua ú ltim a m orada, graças à caridade pública.
O rom ancista X avier M arqu es deixou um a boa descrição do enterro de um desses
infelizes: “Da rua B aixa surge o cortejo fúnebre de um enterro de braço, composto
de um a confraria de negros envoltos em capas da cor dc ju n q uilh o s e de negras que
levam na cabeça, gu arn ecido s de flores, os tabuleiros com que vendem frutas e le­
gum es na rua, um a delas segurando até um b an q u in h o em que se podia pousar o
caixão para d escansar".40
O fato é que a ‘boa m o rte5 estava no centro das preocupações de todos os baianos.
‘M orrer b em 5 era o ú ltim o dever so cial do ho m em . O corpo era velado pela fam ília, os
parentes, os vizinh os. Q u an d o era levado para igreja de p aró q u ia, o dono da casa em
que fora velado jo g av a um copo d ’ág u a na d ireção do cortejo, dizendo: “Eu te conjuro,
que Deus te receb a!” D epo is, toda a casa era lim p a, para q ue o defunto não voltasse.
Após o enterro, a fa m ília oferecia, em h o m en agem ao finado, um lauto banquete a
todos os presen tes.41

A Q u a l id a d e d a s R e l a ç õ e s S o c ia is

C asam entos, n ascim en to s, an iversário s, fo rm aturas e enterros eram portanto, na Bahia,


acontecim entos q u e u ltrap assavam os lim ite s d a v id a fam iliar. T ornavam -se públicos,
com partilhados por