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O Yoga de Sri Aurobindo

Partes V a VII

O Yoga de Sri Aurobindo Partes V a VII Nolini Kanta Gupta Editora Shakti

Nolini Kanta Gupta

Editora Shakti

O Yoga de Sri Aurobindo

Partes V a VII

Nolini Kanta Gupta

Tradução: Thalysia de Matos Peixoto Kleinert

Livro originalmente publicado pela Editora Shakti 1ª edição 1991 esgotada

1ª Edição Eletrônica

Julho de 2012

Tradução do livro

The Yoga of Sri Aurobindo Parts five to seven

First Combined Edition 1969

© Sri Aurobindo Ashram Trust

Pondicherry, India

Nota da Editora

Os ensaios contidos neste livro compreendem partes V a VII, do Volume 3, das Obras Reunidas de Nolini Kanta Gupta, intitulada "The Yoga of Sri Aurobindo". Foram baseados nas palestras dadas pel’A Mãe, em francês, a seus discípulos do Ashram de Sri Aurobindo. Tra- duzidos livremente em inglês pelo autor, quase todas conservaram a forma direta das narrativas na primeira pessoa, como era no original.

Esses ensaios em inglês já haviam sido publicados anteriormente em um livro separado, em 1969, e foi esta edição que usamos para nossa versão em português.

Nota do Editor desta Edição Eletrônica

Esta versão eletrônica faz parte de um trabalho de coleta, editoração

e publicação na Internet da maior parte possível dos livros e textos

de Sri Aurobindo e da Mãe traduzidos para o português até a presen-

te

data.

O

objetivo deste trabalho é o de divulgar e disponibilizar os ensina-

mentos destes grandes mestres do Yoga à qualquer pessoa interes- sada, colocando-os nas estantes virtuais da maior biblioteca que a

humanidade já criou.

Temos também a esperança de que, desta forma, muitas pessoas que ainda não conhecem estes ensinamentos venham a descobri-los e talvez utilizá-los em suas vidas, assim contribuindo com a aceleração da evolução da Consciência em nosso mundo.

Agradecemos especialmente aos tradutores destas obras pelo seu grande trabalho e sua dedicação, e também a seus herdeiros e ao Sri Aurobindo Ashram, por permitirem que estes textos sejam publica- dos e distribuídos livremente no formato pdf.

Brasil, julho de 2012

Sobre o Autor

Sobre o Autor Nolini Kanta Gupta, um dos primeiros e mais antigos discípulos de Sri Aurobindo

Nolini Kanta Gupta, um dos primeiros e mais antigos discípulos de Sri Aurobindo e d’A Mãe, nasceu no dia 13 de janeiro de 1889 em Faridpur, a leste de Bengala, Índia. Quando jovem, participou do movimento de libertação da Índia, ao lado de

Sri Aurobindo.

Acusado de sedição, foi preso em 1908 e, depois de libertado, trabalhou em Cal- cutá com Sri Aurobindo. Em novembro de 1910, mudou-se definitivamente para Pondicherry para reunir-se ao Mestre que lá se encontrava. Estava presente quando o Ashram de Sri Aurobindo foi fundado em 1926, e exerceu as funções

de Secretario do Ashram por mais de cinquenta anos. Através de seu amor e

devoção, através de sua exposição luminosa da visão e trabalho de Sri Auro- bindo e d’A Mãe, Nolini inegavelmente ajudou inúmeros discípulos e seguido- res.

Ele faleceu no dia 7 de fevereiro de 1984, às 16:42 horas, em seu quarto no Ash- ram de Sri Aurobindo, com a idade de noventa e cinco anos. Seu corpo foi enter- rado no cemitério de Casanove, uma propriedade do Ashram, na manhã do dia 9

de

fevereiro.

O

Ashram de Sri Aurobindo, situado ao sudeste da Índia, na velha cidade de

Pondicherry, é a expressão viva dos ideais de Sri Aurobindo e d’A Mãe, sua discí- pula e colaboradora. Referindo-se a seu Ashram, o Mestre disse: "O Ashram foi criado com um objetivo diferente daquele que é comum a tais instituições, não para a renúncia do mundo, mas como centro e campo de pratica para a evolução de uma outra espécie e forma de vida que, no seu termo final, será movida por uma consciência espiritual mais elevada e corporificará uma vida maior do espiri- to."

ÍNDICE

Parte V

11

NA ORIGEM DA IGNORÂNCIA

11

MÉDICO, CURA-TE A TI MESMO

12

O

CORPO NATURAL

14

A

MEDIDA DO TEMPO

16

O

HOMEM, O PROTÓTIPO

17

O

PAPEL DO MAL

20

O

HOMEM E O SUPER HOMEM

21

VERDADEIRA CARIDADE

24

VARIEDADES DE EXPERIÊNCIA RELIGIOSA

26

CRIANÇAS E MENTALIDADE INFANTIL

28

A ALMA DE UMA NAÇÃO

31

A ALMA E SUA JORNADA

33

Parte VI

42

O

FIM DE UMA CIVILIZAÇÃO

42

DA ESCURIDÃO PARA A LUZ

45

TIPOS DE MEDITAÇÃO

46

O SER CONSCIENTE

49

A HISTÓRIA DA CRIAÇÃO

50

A TERRA, UM SÍMBOLO

52

TOTAL TRANSFORMAÇÃO EXIGE TOTAL REJEIÇÃO

52

O

INDIVÍDUO E O COLETIVO

53

COMO ESPERAR

55

FADIGA E TRABALHO

56

OS PASSOS DA ALMA

58

A

EXPANSÃO DA CONSCIÊNCIA DO CORPO

61

O

CORPO, O AGENTE OCULTO

63

A

REALIZAÇÃO INTEGRAL

64

UMA PÁGINA DE HISTÓRIA OCULTA

67

MUDANÇA DIRIGIDA

68

O

VALOR DA GINÁSTICA MENTAL OU OUTRA QUALQUER

70

O

SILÊNCIO MENTAL

70

MENTE, ÓRGÃO DA CONSCIÊNCIA SEPARATIVA

73

O

PESSOAL E O IMPESSOAL

74

"NÃO TENHO NADA, NÃO SOU NADA"

75

AQUI OU EM OUTRO LUGAR

76

QUANDO A IMPERFEIÇÃO É MAIOR QUE A PERFEIÇÃO

77

A ALMA INDIVIDUAL E A COLETIVA

78

A MARAVILHA DE TUDO ISSO

79

APRENDER E COMPREENDER

80

A

VINDA DO SUPER-HOMEM

81

EM DIREÇÃO À REDENÇÃO

82

DOCES LÁGRIMAS SAGRADAS

85

IDENTIFICAÇÃO DE CONSCIÊNCIA

86

A

CONSCIÊNCIA CENTRAL

89

OS CONSTANTES DO ESPÍRITO

90

O

TRABALHADOR DESPRENDIDO

91

SEGUNDA VISÃO

91

A

MÃE SOBRE SI MESMA

94

PARTE VII

96

REALIZAÇÃO, PASSADA E FUTURA

96

O

UNIVERSO EM ESPIRAL

98

ESTE UNIVERSO EM EXPANSÃO

100

O

MUNDO SERPENTE

102

ESTE MISTÉRIO DA EXISTÊNCIA

102

O

REGISTRO DA HISTÓRIA DO MUNDO

103

LIBERDADE E DESTINO

105

A

VERDADE DIVINA SEU NOME E SUA FORMA

107

DOENÇAS E ACIDENTES

109

O

PROBLEMA DO MAL

113

ESTA FEIÚRA NO MUNDO

116

A

JUSTIÇA DIVINA

117

O

SOFRIMENTO DIVINO

119

O

DESGOSTO DIVINO

121

COISAS SIGNIFICANTES E COISAS INSIGNIFICANTES

123

POR QUE ESQUECEMOS COISAS?

123

COMO LIVRAR-SE DE PENSAMENTOS DESAGRADÁVEIS

124

MÁ FORMAÇÃO DE PENSAMENTO

125

POR QUE OS SONHOS SÃO ESQUECIDOS?

129

SOBRE OCULTISMO

130

MISTICISMO E OCULTISMO

133

MEDITAÇÃO E ALGUMAS PERGUNTAS

135

MEDITAÇÃO E MEDITAÇÃO

137

PRECE E ASPIRAÇÃO

139

OFERENDA E ENTREGA

141

IGUALDADE DO CORPO IGUALDADE DA ALMA

142

O

ESFORÇO E VONTADE PESSOAIS

143

COMO SENTIR QUE PERTENCEMOS AO DIVINO

144

SINCERIDADE É VITÓRIA

146

IMAGENS DE DEUSES E DEUSAS

148

OS CENTROS YÓGUICOS

149

O

INTERIOR E O EXTERIOR

152

E

ESTA RAZÃO ÁGIL

152

A

FORÇA DA CONSCIÊNCIA DO CORPO

153

O

CORPO E O PSÍQUICO

154

O

SER PSÍQUICO - ALGUNS MISTÉRIOS

159

VIDAS PASSADAS E O SER PSÍQUICO

164

O

SER HOMOGÊNEO

165

A

FAMÍLIA DIVINA

170

A

NATUREZA E O DESTINO DA ARTE

171

MÚSICA SUA ORIGEM E NATUREZA

175

MÚSICA INDIANA E EUROPEIA

178

ESPECIALIZAÇÃO

179

ESBOÇO DA VIDA DA MÃE

181

ESBOÇO DA VIDA DE SRI AUROBINDO

183

ENDEREÇOS PARA OBTENÇÃO DE INFORMAÇÕES

185

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PARTE V

NA ORIGEM DA IGNORÂNCIA

A Divina Consciência, básica e essencialmente uma e única, tem, inerente em si, quatro atributos cardinais princípios de sua modulação, modos de sua vibração desenvolvendo-se em, ou aparecendo como quatro aspectos e per- sonalidades. São eles: Luz, Força, Deleite e Conhecimento. Originalmente e no status supremo, os quatro movimentos são unos e indivisíveis e formam uma identidade indissolúvel com a essência pura e a absoluta unidade do Divino. A diferenciação ou variabilidade no Imutável é um jogo imanente na própria natu- reza integral do Supremo. O uno e os muitos formam nesse nível uma única entidade, um todo indivisível: a unidade correndo dentro e através e mantendo a multiplicidade e a multiplicidade sendo o jogo da unidade. Multiplicidade, con- tudo, implica em liberdade de movimento no Único. Em outras palavras, o pró- prio caráter da variabilidade é a absoluta liberdade dos variáveis. O jogo consis- te precisamente na livre escolha e autodeterminação dos parceiros, as unidades diferenciadas, porque uma formação na Consciência Divina, uma formulação individualizada de seu ser, deve ter inevitavelmente a própria liberdade do Divi- no. Bem, o resultado desta liberdade é algo inesperado, não muito explícito nes- se particular, nesse campo de consciência, quer dizer, sob o ponto de vista humano. Pois a liberdade, no curso normal de seu desempenho, alcançou um grau ou chegou a um estado que provocou um deslocamento e um impulso, que motivou uma fenda e uma clara separação: o ímpeto do movimento livre levou a formação individual além do âmbito de seu sentido de unidade e identidade com tudo e com o Único. Cada vez mais ela isolou-se, confinando-se à sua pró- pria órbita e a seu próprio recurso de energia. Deve-se observar que este isola- mento ocorre na origem, sem nenhum senso de perversidade ou revolta ou desobediência por parte da entidade livre, como a lenda formulada pela mente humana imaginou. O movimento de liberdade e formação individual cruza, no seu anseio, uma fronteira, passa, por assim dizer, de uma zona segura, dentro do próprio status do Divino, para uma zona diferente, cria-a, como algo real, através desse movimento livre, fervoroso e autoconcentrado. Mas, como disse, não há premeditação ou arrière pensée 1 ou "má vontade" ou espírito de contra- dição na origem do desvio. Não é pecado original; é uma consequência espon-

1 N.E.: segundas intenções

12

PARTE V

tânea e quase lógica, uma expressão inevitável de liberdade que os indivíduos gozam como parte e parcela do Divino Universal.

E contudo, o resultado é estranho e revolucionário. Uma vez começado, o

jogo desenvolve seu próprio esquema, padrão e modalidade. Pois esse passo crucial no movimento de liberdade, esse afastamento definitivo, a afirmação de completa independência e isolamento, resultaram imediatamente numa rever- são de realidades, numa completa negação dos atributos originais. Assim, a Luz tornou-se obscuridade ou inconsciência, a Vida tornou-se morte, o Deleite tor- nou-se dor e sofrimento, o Poder tornou-se incapacidade, o Conhecimento tor- nou-se ignorância, e a Verdade tornou-se falsidade. Em outras palavras, o Espíri- to tornou-se imediatamente Matéria. Contudo, o que parecia não ser nada mais do que um acidente, está impregnado de um sentido e um significado profun- dos. De fato, Deus não criou o mundo por pilhéria. O Espírito tornou-se Matéria, quer dizer, uma negação aparente do Espírito, para demonstrar que a negação é uma forma de afirmação, uma forma mais integral da afirmação do Espírito. A Matéria foi criada para expressar um outro equilíbrio do espírito, o espírito con- cretizado e incorporado.

MÉDICO, CURA-TE A TI MESMO

Não é que a humanidade não saiba nem sinta a necessidade de uma mudan- ça radical em si. Em todo lugar, o homem reconhece que, se os problemas e as dificuldades com os quais se defronta têm que ser resolvidos satisfatoriamente, deve haver uma completa revisão de sua perspectiva e natureza; não meramen- te remendar os sinais e sintomas superficiais de uma doença orgânica através de paliativos, expedientes e panaceias, mas com uma operação de maior importân- cia. De fato, se deseja ser curado, ele deve transcender sua natureza presente e ser alguma coisa mais.

E contudo, ele não muda. Não tem a vontade sincera de mudar. Pelo menos,

segue o caminho errado para isso. E a razão é que ele não adota, sem restrição, o curso que sabe ser o único certo. Está dividido em seu ser; uma parte sabe realmente, mas a outra, a maior, a parte dinâmica, não se aproveita desse conhecimento, ignora-o e segue uma trilha oposta, a trilha habitual da ignorân- cia e do laissez-faire.

Ele se consola e se conforta, coloca a unção ilusória em sua alma, escolhen- do um ideal menos exigente, um substituto sem lágrimas, por assim dizer. Por causa disso, procura fora, tenta reformar a sociedade, mudar suas leis e consti-

MÉDICO, CURA-TE A TI MESMO

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tuição, acreditando que desta forma a sociedade possa ser remodelada e a humanidade transformada.

Sem dúvida, já deveria ter sido provado que não é isso que ocorre. O único modo de curar o mundo fora, é curar-se primeiro dentro. O antigo provérbio ainda é válido: o macrocosmo é apenas uma ampliação do microcosmo. O microcosmo é o macrocosmo em miniatura. O universo é uma transcrição, uma projeção, em escala maior, da natureza interior do indivíduo. O que está lá, está aqui e o que não está aqui, não é encontrado lá. Quando vemos algum erro no mundo, algo que deve ser retificado, se, em vez de corrermos para fora e ten- tarmos resolvê-lo no campo externo, se nos contivéssemos e olhássemos para dentro, certamente acharíamos, talvez para nossa surpresa e nosso esclareci- mento, um movimento muito semelhante, frequentemente uma réplica exata, em nossa própria consciência e nosso caráter, daquilo que encontramos no movimento anônimo maior da natureza e da sociedade. Bem, podemos argu- mentar que quase não temos nenhum controle sobre nossa natureza, que o mundo exterior está além do nosso alcance e não podemos organizá-lo ou mol- dá-lo como queremos. Mas o mundo menor que somos nós, não está tão longe e nem é tão grande para nós. Nossa própria natureza individual e caráter são nossos, e nos foram dados poder e liberdade suficientes para reformá-los, reno- vá-los e refazê-los como quisermos. Isto é o segredo, embora pareça ser uma verdade muito simples, quase um truísmo.

Se não pudermos corrigir e moldar, à nossa vontade, o pequeno mundo den- tro que é nosso, como poderemos corrigir ou mudar o vasto mundo exterior? Deixar-se ficar como se é e tentar fazer outros mudarem, é evidentemente um absurdo e uma proposição contraditória. Por outro lado, se a primeira coisa que fizermos for corrigir-nos então veremos, para nossa surpresa e satisfação, que há muito pouco para corrigir no mundo, que tudo já foi corrigido automatica- mente.

A cada homem é dado um pequeno domínio dentro de si e ele é senhor des- se domínio. A ninguém é dado mais (nem menos) do que pode dirigir com sucesso: o fardo é medido exatamente de acordo com a capacidade. Pode-se de fato ser um roi fainéant 2 , se assim quisermos; mas esse não é o destino inevitá- vel do homem. Ele pode realmente ser o rei reinante e exercer ao máximo sua autoridade. É uma verdade simples, o homem tem uma vontade e pode exercê-

14

PARTE V

la. Esta vontade ele pode conscientemente desenvolver, aumentar e ampliar, fazê-la um instrumento de ação extremamente poderoso, se não invencível.

Duplo é o poder da vontade: é energia e é luz. A vontade verdadeira, a von- tade em sua pureza essencial, quer dizer, quando se é perfeitamente sincero e determinado em seguir sua própria sinceridade, ela impulsiona correta e infali- velmente. A consciência da coisa certa a fazer existe, e a energia também está inerente nessa consciência para elaborá-la inevitavelmente. Há uma vontade que pertence a um nível inferior, à mente, que é somente uma variante do dese- jo, e com referência a isso diz-se apenas que mesmo que o espírito queira, a carne é fraca. Esta vontade é uma luz, mas sem o fogo que vivifica; e é assim porque há uma divisão na consciência, "pode-se amar e contudo, pode-se trair" (nas palavras de um famoso novelista).

Mas, como já dissemos, o homem não está condenado a esta doença de esquizofrenia; ele não é, por natureza, uma criatura maniqueísta. É completo e inteiro na sua realidade interior e na sua consciência verdadeira, e pode afirmar sua integralidade. Ele tem a liberdade e o poder de fazê-lo tem que fazer assim e o fará porque, isso não é meramente uma possibilidade, mas uma inevitabilidade que é para acontecer no curso de seu crescimento e evolução.

E quando ele tiver feito isso, quando se tiver salvado, através disso salvará também o mundo à sua volta. A medida do sucesso interior será a medida do sucesso exterior.

O CORPO NATURAL

A respeito do alimento que o homem ingere, há dois fatores que o determi-

nam ou prescrevem-no. Em primeiro lugar, vem a necessidade real do corpo, quer dizer, o que o corpo realmente requer para seu sustento, os elementos de que necessita para enfrentar as mudanças químicas que nele ocorrem, algo bas- tante material e bem definido, isto é, a espécie de comida e a quantidade. Mas geralmente, esta necessidade real do corpo é obscurecida e submersa pelas exi- gências de uma outra espécie de influência, quase totalmente alheia a ela: (1) o desejo vital e (2) as noções mentais. Realmente, o cardápio de nossa mesa, pelo menos 90% dele, é preparado de tal maneira que as exigências da segunda cate- goria, a consideração que deveria vir primeiro, vem, de fato, por último. Atual- mente, o corpo é um escravo da mente e do vital; raramente lhe é dado a liber- dade de escolher suas próprias necessidades, em quantidade e qualidade certas. Por isso o corpo sofre e está geralmente doente durante a maior parte de sua existência na terra, porque foi obrigado a ocupar uma posição anômala no orga-

O CORPO NATURAL

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nismo humano, entre estes dois tiranos. O vital age através da voracidade, da repulsa e atração, impulso para o excesso (algumas vezes para seu oposto, a pri- vação). Ao que está acostumado e ao que satisfaz seu capricho, ele se agarra, e se o corpo não cumprir o que ele prescreve, lança-lhe a sugestão de que cairá doente. A mente física tem suas próprias noções e esquemas, ideias e planos favoritos (talvez tirados daquilo que tenha lido em livros ou ouvido de pessoas) a respeito das necessidades do corpo. Ela pensa que se uma determinada pres- crição não for seguida, o corpo sofrerá. A mente e o vital são íntimos amigos e cúmplices em condicionar o corpo. Impõem-lhe suas próprias exigências e pre- conceitos, e o corpo, desamparado acaba por emaranhar-se neles e perde seu instinto natural. O corpo, deixado a si mesmo, é maravilhosamente autocons- ciente; sabe espontânea e infalivelmente o que é bom para sua saúde e força. Geralmente os animais, em especial aqueles da floresta, ainda conservam intac- to este instinto do corpo, pois não têm nenhuma mente para tiranizá-los, nem seu vital é da espécie que vai contra as exigências normais do corpo. O corpo, isolado da mente e do vital, pode facilmente escolher a qualidade certa e a quantidade exata de comida e até mesmo variá-las de acordo com as condições variantes do corpo. Bom senso é um atributo inerente à consciência do corpo; nunca erra do ponto de vista de excesso e imoderação ou perversidade. O vital é dramático, a mente imaginativa, mas o corpo é a própria sanidade. E isto não é um sinal de sua inconsciência ou inércia. A imobilidade apática e surda de que é algumas vezes acusado, talvez seja uma forma de autodefesa contra as divaga- ções desenfreadas da mente e do vital, que tão frequentemente o solicitam para emprestar seu apoio. Na verdade, pode bem ser que a acusação de que a "carne é fraca", seja apenas uma opinião ou sugestão imposta ao corpo pelo vital- mental que lança toda a culpa no corpo, só para fugir de sua responsabilidade. O vital é impaciente e barulhento, e se for pressionado e coagido em direção à execução e realização físicas torna-se normalmente confuso, perturbado, obscurecido e duplamente distorcido, quando aconselhado e apoiado por uma mente estreita e superficial, que não enxerga um palmo adiante do nariz, limita- da por uma moldura de noções emprestadas e incorretas.

O corpo, exatamente por causa de sua natureza negativa, sua inércia surda, como é chamada, precisamente porque não tem nenhum problema próprio a resolver, como não tem fantasias e impulsos, planos e esquemas dos quais pos- sa se orgulhar, precisamente por causa de sua inocência infantil, tem uma plas- ticidade formidável e uma estabilidade calma, quando não é perturbado pela mente ou pelo vital. Na verdade, as qualidades divinas que estão ocultas no cor- po, que ele procura conservar e expressar, são as de harmonia estável, de esta- bilidade e de equilíbrio, capazes de suportar o peso total de todos os níveis de consciência, desde o pico mais alto aos abismos mais baixos, assim como fisica-

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PARTE V

mente suporta o peso da total densidade atmosférica, facilmente, sem nem mesmo sentir-lhe o peso.

A MEDIDA DO TEMPO

Quando se diz que a Realização está decretada, será que isto significa tam- bém que o tempo para ela tenha sido fixado? Se assim for, todo esforço indivi- dual e de liberdade de ação parecem fora de cogitação, tornando-se irrelevan- tes, nem apressando, nem retardando o processo. O que acontece é um pouco diferente, nem tão simples, nem tão drástico.

Há muito pouco sentido na noção comum de que tudo esteja predetermina- do quanto ao tempo em que acontecerá, que o esquema universal tenha sido arranjado e estruturado de modo inalterável, que nada possa mudá-lo, que tudo siga de acordo com o que foi planejado. Isto é somente uma concepção huma- na, uma construção da mente, uma tradução errada no cérebro de algum fato que é de outra maneira e de algum outro lugar. A mente divide onde não há

divisão, dispõe coisas, umas contra as outras, onde há perfeita compatibilidade

e harmonia. Determinismo e indeterminismo, livre-arbítrio e mecanicismo são

contradições arranjadas pela mente e não têm existência real objetiva. De um certo ponto de vista, em um certo nível de consciência, tudo parece mover-se numa moldura rígida de determinismo mecânico. De outro lado, num outro nível, tudo parece possuir absoluta liberdade.

Considerando as coisas de sua origem superior, o fator tempo, em si, parece uma ilusão. O que é verdadeiro, é um certo conjunto de condições, no qual as forças se exercitam. E neste padrão de condições, o tempo (junto com o espaço)

não fornece a disposição fixa e absoluta que possa servir de referência, como é geralmente considerado, mas é um cenário variante, mesmo que não seja um acontecimento secundário ou um subproduto. A força consciente que trabalha no mundo visa uma mudança nas condições. É um trabalho primário de reorga- nização e ordem. O estado da Natureza, no presente momento de ignorância

e de inércia é de completo caos. O que a Vontade Divina faz por trás, isto é, a Consciência que está acima, é desenvolver um cosmos daquele caos. As coisas são colocadas fora de lugar, ao acaso, desordenadas, e têm que ser escolhidas, arranjadas, rotuladas, cada item no seu devido lugar. Sabemos, por exemplo, que na partícula material, os átomos estão agregados desordenadamente, cada um apontando numa direção diferente, mas quando arranjados de forma que uma metade aponte para uma direção, e a outra, para o lado contrário, temos o que se chama de corpo magnetizado.

O HOMEM, O PROTÓTIPO

17

Quando as coisas são dispostas desta maneira, a coisa certa no lugar certo, é que a perfeição divina, a Realização no plano material, é alcançada. E para que esta consumação se realize, o processo seguido é uma infiltração cada vez mais alta de forças, dentro do campo da desordem, da nossa vida normal e consciên- cia. O tempo tomado simplesmente indica que o processo está sendo planejado;

é uma expressão do ritmo de procedimento. Mas para o Divino, a Consciência

Suprema que trabalha, o tempo em si não tem sentido separado, ou qualquer valor intrínseco; para ela, mil ou um milhão de anos não significam mais que um momento para nós. De fato, a lentidão do tempo somente marca os passos dos acontecimentos nos estágios mais baixos da criação; enquanto nos elevamos

cada vez mais alto, forças de lá descem para o campo inferior, e o tempo dos acontecimentos torna-se mais rápido. Finalmente, quando o pico mais alto é alcançado e suas forças descem e intervém na ordem dos níveis mais baixos, então a mudança, o arranjo que está sendo planejado, é concluído imediata- mente e sem demora. O atraso do tempo é abolido completamente. O tempo pode ser comparado a uma espécie de fita elástica que liga o mais alto ao mais baixo, passando pelas zonas intermediárias. Contrai-se quando movemos para cima e vai se encaixando no topo, por assim dizer.

O HOMEM, O PROTÓTIPO

A terra foi criada para um propósito especial; tem um papel divino a realizar.

E assim, há somente uma terra e não muitas, a despeito do que os cientistas possam dizer. A terra não é uma massa de matéria morta, não é meramente a morada de crescimentos que ocorrem nela, de plantas e animais e homens. Ela

é o lar e a mãe de todos eles. Tem uma consciência e uma personalidade. A for- ma externa que vemos é somente seu corpo.

De fato, todos os luminares do céu têm, cada um, a sua personalidade cons- ciente: os planetas, a lua e sobretudo o grande sol. Não é uma fantasia ou ima- ginação fútil que fez os astrólogos atribuírem influências definidas a estes cor- pos celestes. Na astrologia hindu, por exemplo, eles são considerados como pessoas reais, cada um com forma e caráter definidos, um dhvāna rūpa. Os chamados deuses da Natureza, nos Vedas ou na mitologia antiga, não são, geralmente, criações de mera imaginação poética também: são realidades mais reais, num sentido, do que os objetos reais que os representam e os encarnam.

Não apenas isso. Nossa mente e nossos sentidos limitados estão acostuma- dos a ver e reconhecer unicamente indivíduos como pessoas. Mas há personali- dades-grupo da mesma forma. Assim, cada espécie tem uma personalidade genérica, uma consciência e um ideal ou forma intrínseca também: os indivíduos

18

PARTE V

no plano físico são suas várias encarnações, projeções e formações. O velho Pla- tão não era tão ingênuo como somos hoje propensos a acreditar, quando falou

da realidade real das ideias gerais. Os atributos, qualidades e funções da perso- nalidade genérica, são a fonte e o padrão daquilo que os indivíduos que formam

o grupo realmente são. A pessoa-grupo é o rei, é também o corpo do Dharma 3

governando o domínio. Qualquer mudança na lei do ser da pessoa grupal é necessariamente traduzida em uma mudança semelhante na natureza e na ati- vidade dos indivíduos da espécie. O que os evolucionistas descrevem como uma súbita variação ou mutação, e cuja causa ou gênese nem vestígios eles são capa- zes de achar, é precisamente devido a uma mudança oculta na consciência e vontade da alma-grupo.

O homem, também como uma espécie, tem uma personalidade genérica, seu protótipo. Apenas, em oposição ao ponto de vista científico, isto é um fenômeno anterior, que pertence à própria origem das coisas. O homem, na sua forma e realidade essenciais, é encontrado na fonte e no começo da criação. Quando o Transcendente imanifesto avança para manifestar-se, quando há a primeira expressão de variações de tipos no infinito, como base da criação física, imediatamente aparece o Homem, na sua forma divina essencial e eterna. Lá está ele, quase como uma sentinela, guardando a passagem do sem forma para

a forma. De fato, ele é a primeira forma original do sem-forma. Um certo poeta diz que o homem é o arquétipo de todas as formas vivas. Um pássaro é um homem voador, um peixe, um homem nadador, um verme, um homem raste- jante, mesmo uma planta não é senão um homem enraizado. Sua forma perten- ce a uma região que está mesmo além dos primeiros princípios da criação. Os

primeiros princípios, que criam e formam e sustentam o universo manifesto, são

a trindade: Vida, Luz e Deleite em outros termos, Sachchidananda. O todo

complexo do universo manifesto é solucionável naquela unidade de status tri- plo. Mas mesmo por trás deste supremo, mais adiante, em direção ao desapare- cimento final no absoluto Imanifesto, resumindo nele, por assim dizer, toda a manifestação, permanece esta forma primordial original, esta primeira pessoa, este Homem arquetípico.

A aparência essencial do Homem é, como dissemos, o protótipo do homem atual. Quer dizer, o homem atual é uma projeção, mesmo sendo uma projeção algo desfigurada da forma original. Contudo, há uma singularidade essencial de padrão, uma comensurabilidade entre os dois. Os anjos alados, os querubins e serafins são reputados como sendo figuras ideais de beleza, mas eles não são

3 A lei da conduta do ser.

O HOMEM, O PROTÓTIPO

19

em nada relacionados com o Protótipo, pertencem a uma linha diferente de emanação, outra que a do Ser humano. Podemos fazer alguma ideia daquilo que

é,

recorrendo à distinção que os filósofos gregos costumavam fazer entre a cau-

sa

formal das coisas e a material. O Protótipo é a realidade formal escondida e

engastada na realidade material de um objeto. A forma essencial é feita da con-

figuração original das vibrações primárias que mais tarde se consolidaram e se tornaram uma massa compacta, chegando finalmente à sua composição final psicoquímica. Contudo, uma harmonia sutil e perfeita de vibrações, que formam um todo vivo, é o que o protótipo é essencialmente. Um artista talvez esteja em melhor posição de entender o que estamos nos esforçando para descrever. O olho do artista não está confinado à forma física grosseira de um objeto, mesmo

o artista mais realista não copia a natureza neste sentido; ele vai além e vê o

contorno interno, a figuração sutil que está por baixo da massa e do volume externos. É isto que é bonito e harmonioso e significante, e é isto que o artista

se esforça para criar e fixar em um sistema ou corpo de linhas e cores. Aquela

forma interior não é a forma exterior visível, contudo, é ainda aquela forma fun-

damental e essencialmente. É aquilo e não é aquilo. Podemos acrescentar uma

outra analogia para ilustrar este ponto de vista. Pitágoras, por exemplo, falou dos números como sendo realidades, as realidades reais de todos os objetos sensíveis. Estava evidentemente referindo-se à verdade básica em cada indiví- duo, e esta verdade aparecia-lhe como um número, a substância e a relação que permanece de um objeto quando tudo concreto e superficial é extraído, ou abs- traído, para fora dele. Para ele, um número é uma qualidade, uma vibração, um quantum de partículas ondas, na terminologia científica moderna, uma norma.

O protótipo humano pode ser concebido como algo da categoria do número

pitagórico.

A concepção do Purusha 4 na origem das coisas, como a própria fonte das coisas, tão familiar à tradição indiana, dá à figura humana esta alta primazia. A divindade cósmica lançada em molde humano também nos é conhecida embora com cabeças e pés múltiplos e foi visionada e cantada por sábios e videntes. Os próprios deuses parecem possuir uma moldura humana. Os Upani- shads dizem que, uma vez, há muito tempo, os deuses estavam procurando por um corpo apropriado para habitar. Estavam desapontados com todos os outros,

e foi somente quando a forma humana lhes foi apresentada que eles exclama-

ram, "Esta é de fato uma forma perfeita, uma forma perfeita de fato". Tudo isto indica o sentimento e a percepção de que há algo eterno e transcendente na moldura do corpo humano.

4 O Ser consciente, a alma, o elemento divino no tornar-se.

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PARTE V

O PAPEL DO MAL

O advento ou a presença do mal na terra introduziu certos fatores na vida humana que a enriqueceram, que aumentaram mesmo seu valor. Certas expe- riências não teriam acontecido nela, experiências íntimas e reveladoras, não fosse por essa Sombra Escura. Pode-se, é claro, conceber uma linha de cresci- mento e desenvolvimento na qual tudo seja luz e deleite, tudo seja bom e pelo bem. Mas então teria sido omitida uma região completa de experiências e reali- zações. Há certas experiências que não teríamos gostado de ter perdido, em hipótese alguma, mesmo que tenham implicado em pagamento e pagamento pesado.

Mal é mal, não há dúvida; não é divino e não é uma ilusão. É um borrão real na bela face da criação. Sua existência não pode ser justificada no sentido de que seja a coisa certa e tenha que ser bem-vinda e mantida, já que forma parte da sinfonia universal, não apenas no sentido de um teste e de uma provação colocados pelo Divino, para o justo provar seu mérito. Não foi colocada ali com um propósito definido, mas já que aconteceu, foi a ocasião para um milagre, porque ofereceu a oportunidade para a manifestação de algo único, esplêndido

e grandioso, maravilhoso e belo. A presença do mal tocou o Divino giustizia

mosse il mio alto fattore e a Graça nasceu. Ele desceu, o Distante e o Trans- cendente, em todo seu amor e compaixão, para esse vale de lágrimas. Ele des- ceu direto, dentro de nosso meio, sem parar em nenhum lugar, na infinita gra- dação, que marca a distância entre o mais alto e o mais baixo. Ele desceu, do mais elevado para o mais baixo, nada pedindo, não impondo nenhuma condição

à alma na Ignorância, nada exigindo da terra sob as garras do mal. Assim foi que

essa Vida alojou-se no lar da morte, a Luz achou seu caminho na caverna distan- te da obscuridade e da inconsciência, o Deleite floresceu no cerne da miséria. A

Esperança foi acesa, uma chama se ergueu das trevas mais profundas, em dire- ção à Aurora. Se não fosse o espírito de negação, não teríamos conhecido esta figura da Mãe graciosa, próxima e íntima.

Este é o milagre divino que foi concedido ao homem, o espetáculo do pró- prio Divino, que se tornou uma criatura humana, usando como seu próprio cor- po de carne e sangue, esta moldura mortal de dor e sofrimento e ignorância, de obscuridade e incapacidade e falsidade. Este é o calvário que ele aceitou, o sacrifício de sua divindade concedido por Ele, para que este não-divino também possa graciosamente servir ao Divino, ser consumido e transmutado nesta reali- dade da qual ele caiu, da qual ele é uma aberração.

A glória e a beleza deste gesto não gostaríamos de não ter testemunhado e experimentado e partilhado.

O HOMEM E O SUPER HOMEM

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O HOMEM E O SUPER HOMEM

Quando falamos do super-homem, queremos nos referir a uma nova raça quase uma nova espécie que aparecerá na terra como resultado inevitável da evolução da Natureza. A nova raça desenvolver-se-á da humanidade presente, parece não haver dúvida quanto a isso; não significa, entretanto, que toda a humanidade será assim mudada. Na realidade, a humanidade, em geral, não pede por tal mudança catastrófica em si ou para si mesma. Mas a Super- humanidade significa uma mudança muito radical: significa abandonar comple- tamente alguns e mesmo vários dos atributos e qualidades humanas verdadei- ramente básicas. Não visa meramente uma elevação moral, quer dizer, uma renúncia das más qualidades, que são consideradas no homem, por exemplo, como predominantemente animais e brutas. Significa, também, um desapego às boas qualidades, pelo menos em relação a algumas ou às que são consideradas como tais. O super-homem não é um homem purificado e moralizado, como também não é um homem animal magnificado e glorificado; é um homem de tipo diferente, qualitativamente diferente.

Tomemos uma analogia. Qual era a situação, no momento crítico em que o homem estava para suceder (ou para ser sobreposto) a uma nova raça de maca- cos? Podemos imaginar uma boa parte daquela velha raça, bastante relutante em aceitar o novo tipo estranho e bizarro, que apesar de não ser inferior no todo, pelo menos era considerado assim em alguns aspectos. Não encaravam com equanimidade o desaparecimento de muitas de suas características e de seus poderes estimados: a glória do rabo, por exemplo, a infinita capacidade de balançar-se e pular, a capacidade de quebrar uma noz com a mera força das mandíbulas. E quem sabe se eles não consideravam sua inteligência mais aguda e mais eficaz do que o tipo de razão, obtusa e vagarosa, demonstrada pelo homem! Eles perderiam muito para ganhar pouco. Este seria, mais provavel- mente, o veredito geral. Assim também a humanidade, na crucial separação dos caminhos, muito naturalmente olharia desconfiada para o valor diminuído de muitas de suas qualidades e de seus atributos, no novo status que viria. Antes de tudo, como tem sido demonstrado, o intelecto e o poder do raciocínio terão de se entregar e abdicar. O próprio poder, pelo qual o homem atingiu seu alto status presente e o mantém no mundo, tem de ser sacrificado por algo mais, chamado intuição ou revelação, cujo valor e eficácia são desconhecidos e têm que ser rigorosamente testados. De qualquer forma, não é o demônio conheci- do, sem dúvida, preferível à entidade desconhecida? E então, o sabor pela vida, peculiar ao homem, que trabalha através de contradições, deleite e sofrimento, vitória e derrota, guerra e paz, dúvida e conhecimento, todo o jogo de luz e sombra, o espírito de aventura, de combate e luta e esforço heroico, terão, tal-

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PARTE V

vez, que desaparecer e dar lugar a algo pacífico e harmonioso, porém monóto- no, insípido, não progressivo. O próprio caráter da vida humana é sua paixão de lutar até o fim, mesmo que nem sempre chegue satisfatoriamente até esse "fim". Pois, é frequentemente dito, que o fim ou o objetivo não importa, o alvo é sempre incerto. São os caminhos, os meios e a ação imediata que são de con- sequência suprema,. pois é isto que testa a maturidade do homem, dá-lhe o valor que possa ter. E acima de tudo, é pedido ao homem que desista da própria coisa que ele se esforçou para construir através de milênios de sua vida terres- tre, sua individualidade, sua personalidade, pois a exigência é de que ele deva perder seu ego para atingir o status de super-homem.

Assim, a probabilidade é de que uma grande parte da humanidade perma- neça devotada à vida humana normal. Mas isto não diminui em nada o valor, a tremenda importância do que acontece com a outra parte, talvez, não insignifi- cante ou inconsiderada. Ao lado daqueles que duvidam ou negam, haverá aque- les que acreditam e afirmam, que apoiarão a divinização, qualquer que seja a desumanização que isto possa implicar.

Bem, pode-se perguntar, qual seria a relação entre as duas humanidades, a humana e a divina? E qual seria o efeito do aparecimento da nova raça sobre a velha linhagem? Aqui, novamente, podemos seguir a analogia animal. Como o advento do homem afetou o reino animal? Afetou até certo ponto, mesmo a um ponto considerável, pode-se aventurar a dizer. Antes de tudo, o homem reuniu à sua volta um grupo razoavelmente grande de animais, domesticou-os, como é designado, empregando-os a seu serviço, usando-os para seus propósitos. Além disso, invadiu as matas, as florestas e montanhas, regiões congeladas e mares profundos, e lá estendeu sua esfera de influência, caçando e aprisionando ani- mais que eram há tanto tempo livres e não molestados, efetuando uma mudan- ça nas condições de vida, mesmo entre os animais selvagens. Não diremos que o super-homem lidará com o homem da mesma forma (embora algo disso possa ser encontrado na ideologia Nietzscheana). Pois o homem era uma criatura de Ignorância, e seu comportamento e sua influência eram naturalmente do tipo ignorante. O super-homem, entretanto, tendo sido libertado da ignorância e vivendo em perfeito conhecimento, tem uma natureza e uma perspectiva dife- rentes. Ele é uno com o universo, com todas suas criaturas. Unido ao Divino, ele encontra e realiza seu próprio eu em toda criatura e coisa. Seu caráter e sua conduta são a expressão automática deste sentido de perfeita identidade. Assim, ele não pode fazer nada que possa escravizar ou causar dano real à humanidade. Pelo contrário, seu amor e seu conhecimento sendo unos com a existência cósmica, inevitavelmente trabalharão pelo progresso e bem estar do

O HOMEM E O SUPER HOMEM

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homem também; de fato, ele será a perfeita ajuda que mesmo a humanidade comum possa desejar e receber.

Apesar de todas as aquisições que ele teve no passado e apesar do cul-de- sac ou beco sem saída no qual parece estar agora se estagnando, há ainda pos- sibilidade suficiente para o homem progredir mais além, quer dizer, mesmo como ser humano, sem dar o mais audacioso salto para a super-humanidade. As misérias atuais da sociedade humana, a má distribuição das necessidades da vida, as devastações das doenças e dos males, a prevalência da ignorância, não são e não precisam ser, afinal, uma característica permanente e irrevogável da organização humana. Possibilidade há de remediá-las grandemente e a socieda- de pode se tornar mais decente para se viver, mesmo que não seja transfigurada na Cidade de Deus. O homem, sem anteceder a sua natureza humana presente, pode ainda ser uma criatura mais humana e humanística, quer dizer, mais ver- dadeiramente humana e menos animal e demoníaca do que está tentando ser. Para este fim, o advento e a presença da raça divina certamente contribuirão em grande escala. A influência que os indivíduos de tal raça exercerão, pela for- ça de sua consciência luminosa e o impacto do seu viver purificado, a simpatia e o conhecimento e a compreensão que sua própria presença traz, irá alterar materialmente a natureza e a composição do homem normal e de sua socieda- de. Emergirá uma espécie de humanidade superior um intermediário entre a presente humanidade degradada, mais ou menos animal, e a humanidade divina do futuro. As duas humanidades podem muito bem viver amigavelmente juntas e ser de ajuda e utilidade uma à outra.

Podemos mencionar aqui também a outra possibilidade extrema. Por exem- plo, pode acontecer que a velha humanidade no todo, rejeite o Novo Homem e não lhe ceda nenhuma polegada de terreno na terra, que agora mantém como seu feudo e domínio, como pode muito bem acontecer, em vista da evidência que temos da inveja, do ciúme, do ódio, da incompreensão que movem os homens normais, quando entram em contato com homens que não seguem seu modo de vida, que parecem se preocupar com coisas que são sem sentido e até mesmo injuriosas a eles. Se tal for o caso, então, dizemos, significará o fim da humanidade, da mesma forma que algumas espécies se extinguiram, ou mesmo sua reversão a um estado de feroz selvageria, algo como aquele (ou talvez pior) do qual ele veio.

Ou você aceita o Divino e permite ser influenciado e modelado por Ele, e neste caso você está na linha do progresso e da realização, ou então, se você colocar-se contra Ele e entrar em choque com o Poder que guia, inevitavelmen-

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PARTE V

te, em direção a seu alvo elevado, o resultado está nas palavras gráficas da Bíblia:

"Todos os que caírem sobre esta pedra ficarão em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó". (Mateus, 21)

VERDADEIRA CARIDADE

A caridade, como é geralmente entendida, consiste em prestar auxílio mate-

rial aos semelhantes, dar esmolas aos pobres, remédios aos doentes, dinheiro ou bens materiais àqueles que necessitam deles e também trabalho físico onde for exigido. Tudo isto é bom e bem. O mundo está repleto de doenças e priva- ções e calamidades. E se algo for feito que possa aliviá-lo, está tudo certo, e ati- vidades nessa direção merecem total encorajamento. Mas isto não leva muito

longe, não toca a raiz do problema. Essa é a maneira humana de lidar com as coisas e portanto, muito limitada em seu campo de ação e eficiência. Há uma forma mais elevada e mais divina o caminho do espírito para a cura dos males terrenos, cura e não meramente alívio. Esta era a inspiração secreta por trás da mensagem de Cristo e de Buda.

Não é verdade que, quando nossas necessidades são resolvidas, ficamos ou continuamos sempre felizes; nem todos os pobres são infelizes, nem são os ricos invariavelmente felizes. Felicidade é uma qualidade que depende de algo mais e vem de algum outro lugar: não é diretamente proporcional ao bem-estar mate- rial. Também a infelicidade é uma entidade psicológica, e consiste de uma vibra- ção especial da mente e da vitalidade e consequentemente do ser físico devido a uma deformação da própria consciência, no âmago da personalidade interior. As condições materiais servem apenas para manifestá-la, mantê-la ou agravá-la, mas não a criam na verdade, são criadas por ela. É por isso que os curadores espirituais sempre se referem à bem-aventurança do espírito como único remédio para os males físicos, até para a doença, a miséria e a morte. E os infelizes mortais são sempre chamados para voltar-se apenas para o Divino em suas aflições bhajasva mam.

A verdadeira caridade consiste em colocar o bálsamo curador sobre a chaga

que está escondida por trás de todas as misérias externas, que derivam daquela fonte e sustentáculo. E ela é posse exclusiva apenas daquele que encontrou a bem-aventurança do espírito, e vive sempre nela. Uma pessoa assim não requer acessórios externos para seu trabalho de cura e conforto. Ele não precisa fazer nada, aparentemente, pode mesmo parecer distante e indiferente. Mas sua própria presença é um poder curador; o paciente sente-a e surpreende-se com a

VERDADEIRA CARIDADE

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calma e a felicidade que lhe vem como se fosse do nada. Muitos médicos têm esta espécie de poder curador; na verdade, sem isso, um simples médico, com sua farmacopeia, não é um médico. Pode não ser bem conhecido nem reconhe- cido, mas é um fato que uma boa parte da eficácia dos remédios está na influência sutil, na saúde vital que o médico adiciona a seu remédio ou mesmo

diretamente ao corpo do paciente. E no caso de um Bhishak (médico) espiritual,

o poder pode ser aumentado ao grau infinito. O curador não precisa nem mes-

mo estar presente fisicamente, perto do paciente, porque sua influência pode

muito bem agir à distância. É bastante natural e compreensível que seja assim.

O poder curador está na consciência espiritual, na felicidade inalienável do pró-

prio status no Espírito. Ele se torna identificado com todo objeto, pessoa ou coi- sa, dentro de seu próprio eu, no verdadeiro ser e substância; e a luz e a felicida- de que ele possui transferem-se num fluxo espontâneo para outros que não são realmente outros, mas partes e porções integrais do mesmo eu.

Esta condição é alcançada, completa e soberanamente, quando há ausência absoluta de ego, quando não há consciência de uma pessoa separada, a dual consciência do que ajuda e do ajudado, o reformador e o reformado, o médico e

o paciente. O senso humano normal dos valores é baseado nessa divisão, no

egoísmo, mamatvam. Um filantropo ajuda outros através de um sentido de simpatia, dando margem a um sentimento de dever e obrigação. Este sentimen- to de piedade, de comiseração, é perigoso pois o coloca numa disposição de mente que tende fazê-lo olhar de cima, a assumir um ar de superioridade em relação a seu objeto de piedade. Você torna-se autoconsciente, com a consciên- cia de seu eu inferior, pensando estar ajudando os outros, estar fazendo bem ao mundo, fazendo algo que aumenta seu valor; este sentido de mérito pessoal é apenas um outro nome para vaidade. Vaidade e ambição são os poderes que motivam e que estão por trás do espírito filantrópico nascido da simpatia. Para indicar uma nuance de sentido diferente daquele que é usualmente expresso pela palavra "simpatia", a psicologia moderna achou uma outra palavra

"empatia". Pode-se dizer que simpatia seja a relação ou contato entre dois egos;

é um vínculo ou ponte entre duas entidades separadas e independentes. Empa-

tia, por outro lado, significa penetrar no próprio ser e consciência do outro, tor- nando-se aquele outro; é identificação e identidade e somente a consciência espiritual pode fazê-lo. Simpatia leva à filantropia, empatia é a origem da verda-

deira caridade, a compaixão espiritual de um Buda ou de um Cristo. Filantropia é humana, caridade (caritas) é divina.

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PARTE V

VARIEDADES DE EXPERIÊNCIA RELIGIOSA

Já houve religiões, tentativas de aproximação do Divino, que não acredita- vam na divindade do homem, como por exemplo, a linha da Caldéia ou a Semíti- ca. De acordo com elas, o Criador e o Criado são separados em ser e natureza; chamar de Deus qualquer coisa criada é blasfêmia. Os egípcios antigos, os hebreus ou muçulmanos, colocam Deus lá em cima no paraíso, e, do seu ponto de vista, o homem só pode ser seu servo ou escravo, seu trabalhador ou guer- reiro. O homem é muito pequeno e muito terreno para identificar-se com Deus:

só pode ser um adorador. O homem pode amar a Deus, no máximo, como seu Amado. Mas esta devoção é dirigida a algo distante, como o desejo da mariposa pela estrela. E igualar os dois é confundir realidades. O homem, como adorador e devoto, pode alcançar certas qualidades divinas, mas limitadas e modificadas e sempre humanizadas de um modo geral. E Deus nunca pode se tornar homem. Ele envia seu representante, seu vigário, profeta ou apóstolo que age por ele, em e através de quem Ele age, mas Ele próprio não desce e se reveste da forma carnal. O universo é obra de Deus e atesta seu milagre e sua glória; mas o uni- verso não é Deus. Entre o relógio e o relojoeiro há sempre um hiato e uma incomensurabilidade.

Mas podemos nós dizer, "nasci de Deus e contudo não sou Deus?". Assim, os indianos audaciosamente declaram que tudo isto é o Divino supremo, não há nada que não seja o Divino sarvam khalvidam brahma Eu sou Ele, Tu és Aquilo, ou ainda, Aquilo que está em mim e o Ser consciente que está lá no sol, são uma e a mesma coisa. Deus criou o homem e o mundo, Ele está no homem e no mundo, Ele tornou-se e é o homem e o mundo. Não apenas isso. Deus não apenas tornou-se o torrão de terra reduzindo Seu potencial a zero, por assim dizer, mas Ele desce, frequentemente, em Seu próprio Ser e consciência, aqui para baixo, assumindo uma forma humana, para um trabalho e propósito espe- ciais. Esta é a concepção indiana do Avatar.

A concepção cristã parece ocupar uma posição intermediária, sendo uma espécie de elo que liga as duas. Cristo não apenas o Filho de Deus, mas é tam- bém o Deus-Homem ele afirma muito clara e categoricamente que ele e o Pai no céu são um e que todos deveriam ser tão perfeitos como o próprio Deus. Contudo, uma diferença é ainda mantida. Em primeiro lugar, a respeito do nas- cimento. O Deus-Homem não nasceu do pecado como os mortais comuns, mas uma virgem imaculada deu-lhe nascimento. E em relação à união ou identidade de Pai e Filho, a fusão não é absoluta. Pede-se ao homem que seja tão puro e perfeito como Deus, mas unicamente em espécie e não em ser e substância. As almas purificadas e perfeitas sentam-se ao lado de Deus no céu, não se perdem

VARIEDADES DE EXPERIÊNCIA RELIGIOSA

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em Deus. A concepção Vaishnava na Índia pertencia à mesma linha. De acordo com ela, a alma liberada mora com Deus no mesmo mundo, possuindo as quali- dades de Deus a união é a de Salokya 5 e Sadharmaya 6 mas ela não se torna una e indivisível com Deus (Sayujya 7 ).

A doutrina Sufi também ocupa uma posição intermediária como a Cristã,

entre a da Caldeia e a Vedântica. A absoluta identidade do amante humano e o Divino Amado, a completa fusão dos dois em um estágio particular ou num momento de consciência, é uma das experiências cardinais da disciplina Sufi. Mas este é um estado íntimo, não normal e habitual na vida e na atividade, onde a diferença, a separação entre o adorador e o adorado, é mantida exata- mente para o deleite do jogo. Mas o dualismo da disciplina Hindu é mais do que compensado pela doutrina da Encarnação, que elimina fundamentalmente toda diferença entre o humano e o Divino. De acordo com ela, Deus não se torna homem apenas uma vez, como na concepção Cristã, mas isso é uma de suas funções constantes. De fato, a tradição Indiana diz que Ele é sempre o líder da evolução terrestre; a cada crise, a cada momento quando é necessária sua orientação, Ele desce em carne e osso, na forma de criatura terrena para mos- trar o caminho, como viver e andar e agir.

A contribuição especial da linha de disciplina da Caldeia volta-se para outra

direção. Ela não cultivava tanto as linhas mais elevadas de realização espiritual, mas ocupava-se com o que pode ser chamado de regiões intermediárias, o mundo oculto. Este universo material não é movido por forças físicas, vitais ou mentais, que são aparentes ou demonstráveis, mas por outras forças secretas e sutis. De fato, estas são as forças-motivo, os agentes reais que planejam e ini- ciam os movimentos na Natureza, enquanto que as forças aparentes são apenas as formas externas ou mesmo máscaras. Este ocultismo também foi praticado largamente no Egito antigo, de onde os Gregos adotaram umas poucas linhas. Os mistérios Órficos e Eleusianos cultivaram a tradição dentro de um círcu- lo restrito e de um modo muito esotérico. A tradição continuou na Igreja Cristã também e num grupo fechado formado no seu coração, que praticou e manteve vivo algo desta ciência antiga. Os princípios e dogmas externos da Igreja não admitiam nem toleravam aquilo que era considerado magia negra, a Ciência do Diabo. A razão evidente disso era que, se alguém seguisse esta linha de ocultis-

5 Salokya: morada da alma do Divino.

6 Sadharmaya: identidade em natureza

7 Sayujya: identificação com o Real e o Eterno.

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PARTE V

mo e provasse o poder que ela conferia, podia muito provavelmente desviar-se do caminho direto e estreito que conduzia ao Espírito e à salvação espiritual. Também na índia, os siddhis ou poderes ocultos são sempre evitados por aque- les que são verdadeiramente espiritualizados, embora sejam procurados por muitos que seguem a vida espiritual frequentemente com resultados desas- trosos. No Cristianismo, lado a lado com os maiores santos, sempre houve um grupo ou uma linha de praticantes que seguiram o sistema oculto, embora externamente observassem o credo oficial. É curioso notar que, geralmente, onde o texto original da Bíblia fala de deuses no plural, referindo-se às deidades ou poderes ocultos, a versão oficial traduz como Deus, para dar a atmosfera e os valores teísticos necessários.

Mas, se o ocultismo deve ser temido por causa do seu mau uso e perigo potencial, a espiritualidade também deve ser colocada no mesmo plano. Todas as boas coisas no mundo têm sua deformação e perigo, mas isto não é razão para que sejam completamente evitadas. É necessário a atitude e discriminação corretas, treinamento e disciplina. Visto sob a luz verdadeira, o ocultismo é espi- ritualidade dinâmica. Em outras palavras, procura expressar, executar e trazer para a vida material, os poderes e princípios do Espírito, através da intervenção de forças mais sutis da mente e da vida e do físico sutil. O ocultismo é natural- mente evitado por aqueles que adoram, que procuram experimentar o Espírito transcendente, Deus nos Céus, mas é um instrumento indispensável para aque- les que se empenham em manifestar o Divino em uma forma concreta.

CRIANÇAS E MENTALIDADE INFANTIL

Muitas vezes as crianças são consideradas cruéis com os animais. Por que é assim? É especialmente notório seu modo de tratar os passarinhos. Procurar ninhos e derrubá-los, capturar filhotes e torturá-los de todos os modos, pegar ovos e esmagá-los, são brincadeiras fascinantes para as crianças. Parecem sentir um prazer especial em variar e intensificar tanto quanto possível a tortura que possam infligir. Uma das razões a que pode ser atribuído o endurecimento da sensibilidade da criança é o seu egocentrismo: ela está inteiramente voltada para si mesma, isolada dos outros, e ainda não aprendeu as necessidades e vir- tudes sociais. Tudo que faz e sente é para si mesma, para seu próprio prazer e autoafirmação. A fim de desenvolver-se, sua crescente individualidade afasta-a dos outros e faz com que ela não respeite o senso de valor que os outros pos- sam ter. Exclusivamente preocupada consigo mesma, deixa de se incomodar com os demais. Sentimento pelo outro é uma sensibilidade que cresce mais tar- de, como resultado de choques de intercâmbio mútuo. Simpatia real é um movimento da consciência madura.

CRIANÇAS E MENTALIDADE INFANTIL

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A inquirição que uma criança tão fortemente possui, é também o impulso de

uma consciência que está despertando e crescendo. Ela se apraz em quebrar, rasgar, dilacerar por causa desta curiosidade, desta sutileza aguçada de uma consciência em desenvolvimento e experiência. Parece ser dura e insensível, até mesmo uma aberração, precisamente por causa da natureza egocêntrica de sua consciência que ainda não esta familiarizada com valores normais da idade e da experiência.

Mas se é a natureza que até certo ponto torna a criança tão indiferente, preocupada consigo mesma e cruel, esta não é a única causa e não é a história toda. Há outros fatores muito ativos na vida que afetam e moldam a consciência da criança desde o princípio.

A criança, podemos dizer, vem ao mundo com uma ardósia mais ou menos

limpa para gravar as reações da vida. No primeiro período, ela ainda está muito perto de seu ser psíquico, que ainda não foi lançado para trás e encoberto pelos impactos e impressões do mundo. Os primeiros contatos conscientes com o mundo não são geralmente felizes para a criança. Ela encontra coisas à sua volta que vão contra a natureza da sua consciência psíquica ainda sensível. A primeira briga que ela presencia entre seus pais, o primeiro comportamento ou movi- mento áspero de um adulto que afete sua observação, a primeira mentira que ela ouve pronunciada por seu professor, agem quase como neuroses de guerra em seus nervos. E, enquanto cresce, lições como essas são derramadas sobre ela de todos os lados e não é de admirar que sua consciência se torne, desde muito cedo, deformada e distorcida, e ela também comece seu próprio jogo, seguindo a mesma linha que observa e experimenta. Apenas, não sendo guiada ou con- trolada pela razão e experiência, ela exagera a coisa e por causa de sua idade, o que no adulto é sem importância, trivial e insignificante, no seu caso assume largas e funestas proporções. O ambiente em que uma criança vive e cresce, forma a atmosfera que ela respira a cada momento e, se há veneno nela, ela o inala e o absorve e ele se torna parte de sua natureza e substância. Um ambien- te puro é necessário para que um impulso de vida puro seja formado e desen- volvido.

Qual é o verdadeiro caráter central da consciência infantil? É a confiança na vida, a certeza de que nada pode impedir a realização do propósito da vida, a confiança que domina todos os reveses e tropeços, que alegremente passa atra- vés de todos os perigos e todas as dificuldades. Nesta confiança, nesta certeza, o próprio corpo toma parte e o impulsiona para os movimentos de ousadia e aventura. Esta é a razão do crescimento do corpo e enquanto ela é mantida, conserva-o jovem. Assim diz o poeta:

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PARTE V

Uma simples criança

Que levemente respira

E que sente a vida em cada membro,

O que saberia ela da morte?

A idade se fixa precisamente quando existe um declínio desta autoconfiança

e segurança da consciência do corpo, quando o corpo começa a ter medo e se torna cauteloso e apreensivo. Um ferimento, um corte, mesmo um membro quebrado, normalmente não impede a criança de continuar com o mesmo ímpeto e descuido. E esta característica é a fonte, não apenas de sua aptidão e crescimento físicos, mas também da vivacidade e sanidade mentais que são posses inestimáveis da consciência infantil. O professor mais sábio é aquele que não ensina muito a sabedoria da prudência e moderação, mas que encoraja na criança este "élan vital", o impulso da vida, e entretanto, procura organizá-lo e canalizá-lo como um instrumento de ideais e propósitos elevados.

Há duas fraquezas contra as quais o professor deve se proteger para as quais usualmente tende se quiser assegurar respeito e obediência e confiança das crianças:

1) dizer uma mentira e

2) perder a paciência.

Uma criança pode facilmente descobrir se você está inventando uma história ou não. Ela é inquisitiva, irreprimivelmente curiosa e, acima de tudo, tem sua maneira e ângulo apropriados de ver as coisas. Ela faz perguntas de todos os modos, sobre todas as coisas e assuntos que parecem estranhos do ponto de vista do adulto. Também suas respostas a perguntas, suas soluções aos proble- mas são pouco ortodoxas e bizarras. Porém é trabalho do adulto de não apenas tolerar todas estas fantasias, mas também, com grande simpatia e paciência, apreciar e entender o que a criança tenta expressar. Se você ficar irritado e com raiva, e tentar censurá-la ou afastá-la, isto significará o fim de toda relação cor- dial entre você e ela. Ou ainda, se você tentar enganá-la, dar uma resposta falsa para esconder sua ignorância, neste caso também a criança não será enganada, porque descobrirá e perderá todo respeito por você. É muito melhor admitir sua própria ignorância, dizendo que não sabe, do que se apresentar como um sabe- tudo. Embora isto possa afetar, de certo modo, o sentimento de adoração, o respeito e a estima com que estava acostumada a admirá-lo, entretanto você não perderá sua afeição e confiança. Do professor ou dos pais que queiram

A ALMA DE UMA NAÇÃO

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guiar e controlar uma criança, com sucesso e apropriadamente, são exigidos infinita paciência e um temperamento que não seja nunca desgastado ou per- turbado. Com isso, você pode no fim moldar a criança mais refratária, sem isso, você falhará mesmo com uma criança de boa vontade.

A ALMA DE UMA NAÇÃO

Uma nação é uma personalidade viva, e tem uma alma, do mesmo modo que um indivíduo humano. A alma de uma nação é, também um ser psíquico, quer dizer, um ser consciente, uma formação da Divina Consciência e em direto contato com ela, um poder e um aspecto da Mahashakti 8 . Uma nação não é meramente a soma total dos indivíduos que a compõem, mas uma personalida- de coletiva da qual os indivíduos são como células, como células de um orga-

nismo vivo e consciente. O ser psíquico ou a alma de uma nação é verdadeira- mente consciente; conhece sua raison d'être, seu propósito de vida, seu destino,

o

papel que tem de desempenhar no esquema divino como instrumento divino.

E

sua vontade pois tem uma vontade, a expressão de sua consciência, o

impulso Divino nela e através dela é inevitável, mais cedo ou mais tarde, rea- lizar-se-á. Do mesmo modo que a alma do homem, a alma da nação está por trás de todos os movimentos que formam sua vida externa, apoiando, cons- truindo, guiando sua composição política, econômica, social ou cultural. O indi- víduo pode conhecer e entrar em contato com a alma da nação, dentro e atra- vés de sua própria alma. Somente quando alguém se torna consciente de seu ser psíquico, é que está em condições de tornar-se consciente do ser psíquico da pessoa coletiva de sua nação, ou da nação com a qual tem afinidade interior.

Há períodos no ciclo da vida de uma nação, momentos críticos, quando ela está em perigo mortal, quando sua própria existência está ameaçada, atacada por forças inimigas de dentro ou de fora. Tal foi o caso, por exemplo, da Grã- Bretanha quando foi invadida pela Armada Espanhola, ou quando a França esta- va sendo subjugada pela Inglaterra. Estes foram momentos de muita ansiedade, mas em cada caso, a alma da nação veio à frente e inspirou-a a reagir e passar pela provação e sobreviver. Joana D'Arc pode ser considerada como a incorpo- ração da alma nacional francesa, como ainda numa ocasião anterior, a mesma alma corporificou-se em Santa Genoveva. Mas a nação pode cair em dias piores, ou seja, quando ela perde contato com sua própria alma, desencaminhando-se,

e seu movimento de vida desvirtua-se. Uma nação pode negar sua alma, da

8 Mahashakti: a Suprema Mãe.

32

PARTE V

mesma forma que um indivíduo, e o resultado é desastroso. A Alemanha é um exemplo terrível dessa tragédia em nossos próprios dias.

A índia está oferecendo um espetáculo de uma outra tragédia. O que está acontecendo aqui é o ataque de uma doença que está convulsionando o corpo político. Parece uma doença cancerosa, os membros procurando crescer inde- pendentemente às custas uns dos outros. O paciente está passando por um período muito crítico e é, na verdade, uma questão de vida ou de morte. Mas nós esperamos estamos certos que a alma desta antiga nação afirmar-se-á

e através de quaisquer vicissitudes, restabelecerá a saúde e a harmonia, pois a missão dessa alma ainda está para ser cumprida.

Como o indivíduo, uma nação também morre. A Grécia Antiga e Roma, Egito

e Babilônia e Caldeia, não existem mais. Pode-se perguntar o que aconteceu às

suas almas. Bem, o que acontece com a alma do indivíduo, quando o corpo se desagrega? A alma volta para o mundo-alma. Como a Psique individual, a Psique coletiva também se retira para o seio da paz e da luz com todos seus tesouros, com sua beleza e glória acumulados, como um pássaro que vai dormir dentro de suas asas dobradas. O que a cultura e a civilização gregas foram, ainda conti- nuam a existir na sua realidade pura, num mundo ao qual temos acesso se tivermos afinidade de consciência e abertura psíquica necessárias. Essa alma vive no seu próprio domínio, com toda a glória de suas aquisições e realizações na sua forma mais pura; e de lá irradia seu esplendor, exerce sua influência, age como um fermento vivo na herança cultural e no crescimento espiritual do mundo.

Entretanto, quando a alma se retira, quando uma nação, num ciclo particular da manifestação de sua alma, realizou seu papel e sua missão, o corpo da nação entra gradualmente em decadência. Os elementos que compunham a realidade orgânica, a consciência viva da vida nacional, desintegram-se, perdem sua ener- gia e capacidade de coesão. Eles morrem e são dispersos, ou persistem por algum tempo como uma mistura confusa de células desligadas e que se movem mecanicamente. Mas pode acontecer também que, uma nação que está aparen- temente morrendo ou morta, uma alma que se retirou, retorne novamente, não na sua velha forma e modo de vida pois isto não pode ser (o Egito se vivesse novamente hoje, não poderia repetir as eras dos Faraós e das Pirâmides), mas teria sim uma nova personalidade, e um propósito de vida renovado. Em tal caso, o que acontece é realmente uma ressurreição nacional, um Lázaro que volta à vida pelo toque do Divino.

Não acreditamos que a índia tenha estado alguma vez completamente mor- ta ou irremediavelmente agonizante: sua alma, embora nem sempre à frente,

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sempre esteve presente como uma força viva, presidindo de cima e guiando seu destino. É por isso que existe nela uma capacidade perene de renovação e a capacidade de passar por provações terríveis. E para viver à altura de seu gênio, ela também precisa saber como marchar com os tempos, quer dizer, não se agarrar a formas velhas e passadas ser fiel à sua alma antiga não significa eternizar as molduras e fórmulas externas que expressaram aquela alma em um tempo ou noutro. De fato, a alma torna-se viva e vigorosa quando encontra uma nova disposição do plano de vida que pode incorporar e traduzir uma atividade criativa renovada, uma nova realização que emana das profundezas da alma.

A ALMA E SUA JORNADA

1

Quando um homem morre, sua alma ou ser psíquico, depois de algum tem- po, vai para o mundo psíquico e repousa lá até que chegue a hora de nascer de novo num outro corpo na terra. Há, então, estes dois períodos na vida depois da morte. Primeiro, a passagem e depois, o repouso. A passagem significa o des- prendimento gradual de todos os outros revestimentos ou invólucros que envolvem o ser psíquico e foram sua moldura terrestre. Com o corpo físico, desaparece também o corpo sutil, depois o vital, e finalmente o mental. É esta a razão pela qual não nos lembramos de vidas passadas, porque deixamos para trás o instrumento da memória, a mente-cérebro, com a nossa morte. Não car- regamos para cima, com o ser psíquico, as outras partes que constituem a vida terrestre. Elas são dispersas e dissolvidas nas suas respectivas esferas cósmicas. O corpo sutil entrega seus elementos ao plano físico sutil, os elementos vitais são absorvidos pelo mundo vital e os elementos mentais vão para o mundo mental, a não ser que o ser psíquico seja altamente desenvolvido e tenha orga- nizado à sua volta, como seu instrumento de auto expressão, qualquer destes elementos. Nesse caso, o tanto das partes terrestres, isto é, do corpo sutil e vida e mente, que tenha entrado em contato direto com o psíquico e sido impressio- nado e moldado por sua consciência, somente isto, persistirá e participará da imortalidade da alma. Normalmente, os elementos do veículo humano formam um agregado disperso e desorganizado, amontoado à volta do centro psíquico. Quando o centro se retira, eles também caem automaticamente e são espalha- dos no armazém universal da Natureza. Unicamente quando eles forem organi- zados e tiverem adquirido uma forma definida e um caráter que expresse algu- ma coisa da natureza psíquica, é que eles conservam sua identidade, pois sua identidade é parte e parcela da identidade psíquica.

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PARTE V

Disse que a memória das vidas passadas é apagada devido ao desapareci- mento do instrumento. Mas há uma memória mais alta que é o atributo da consciência psíquica. O ser psíquico é feito de luz e conhecimento: ele sabe, ou melhor, ele vê e pode supervisionar toda a curva de seu crescimento e desen- volvimento passados. Obviamente, pode não ver ou lembrar-se, e frequente- mente não o faz, de todos os detalhes físicos das coisas e dos acontecimentos de uma vida terrestre, as centenas de incidentes, acidentes e contingências que não estejam diretamente ligadas à sua consciência. Mas todas as coisas que tiverem tido seu toque e contribuído para seu crescimento e desenvolvimento, e, por sua vez recebido sua influência, objetos, pessoas, acontecimentos ou movimentos, encontram-se abrigadas na memória psíquica. Assim, o único caminho certo para relembrar o passado, lembrar, por assim dizer, daquilo que valha a pena ser lembrado, é entrar dentro do ser psíquico, possuir a consciên- cia psíquica. Lá, temos revelado o panorama completo da odisseia da alma. Qualquer outro caminho conduz somente à imaginação, conjectura e engano.

2

A passagem entre a morte e a chegada ao descanso final no mundo psíquico

é a provação mais difícil e mais perigosa para o ser humano. Ele deixou as prote-

ções do corpo e ainda não encontrou o refúgio no psíquico: está obcecado e puxado para trás pelo seu passado, os desejos, os anseios, as atrações e repul- sas, os planos não realizados, esquemas problemáticos, tudo ainda o atormenta, coisas feitas e coisas não feitas cercam-no e impedem sua marcha para frente. Não somente seu próprio Karma, mas o Karma de outros também o perseguem:

todas as pessoas relacionadas com ele, que pensam nele agora, têm pena dele, choram por ele, lamentam sua ausência, levantam tantas barreiras e tantos obs- táculos no seu caminho, que o obrigam a voltar-se e olhar para trás. Também existem forças e personalidades nos mundos intermediários com os quais a pobre criatura desencarnada tem que entrar em contato e, muito frequente- mente, ela se sente como se estivesse sem pele e todos os nervos expostos desamparadamente a impactos rudes e doloridos.

Na verdade, embora possa parecer algo estranho e maravilhoso, entretanto,

é literalmente verdadeiro que o corpo é a fortaleza, por excelência, do ser indi-

vidual: não é somente uma vestimenta suja e feia que tem de ser lançada fora para que se possa ir direto gozar da beatitude do Paraíso. Pelo contrário, é, por

assim dizer, uma armadura, uma moldura de aço que protege o corpo sutil con- tra os ataques ou toques ásperos e cruéis de outros mundos e de seus seres. Uma vez fora do corpo, existe todo perigo de o indivíduo se perder e ser ferido, a não ser que seja guiado e protegido por um anjo protetor, como Dante que

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teve Virgílio como seu Mestre. Podemos notar aqui, que a passagem de Dante, do Inferno através do Purgatório para o Céu, cruzando seus vários níveis, é qua- se uma imagem exata do que acontece à alma depois da morte. O Céu mais alto onde Dante encontra Beatriz pode ser considerado como o mundo psíquico e a própria Beatriz, a Graça Divina que banha, ilumina e conforta o ser psíquico.

Entretanto, se tivermos dentro de nós uma chama ardente, sincera e não vacilante, podemos atravessá-la sem maiores dificuldades e intocados; mas isto

é raro. Mesmo quando vivos, no sono, saímos frequentemente e entramos em

outros mundos, e os contatos e experiências estranhas e desagradáveis que temos lá são gravadas na mente-cérebro como pesadelos. Nestas ocasiões, a melhor maneira de escapar, é correr de volta para o corpo, único lugar de segu- rança. Muitos têm a experiência de precipitar-se dentro do corpo, mergulhando de cabeça, por assim dizer, para escapar de um perigo ameaçador no sono e acordar de repente, para descobrir, com alívio, que tudo era ilusão e alucinação.

Uma passagem fácil e rápida para o lugar de repouso é o que ser precisa e pede depois da morte. Isto é determinado pelo Karma de cada um na vida e pelo último desejo e última prece no momento da morte, pois a força de cons- ciência, neste momento crítico, age não somente sobre o caráter da passagem mas sobre o caráter até mesmo do próximo nascimento. Independentemente de seus próprios méritos, pode-se ser ajudado por outros que ainda estão na terra e que se dizem seus parentes e amigos, ou por aqueles que o estimam muito. Não como se faz atualmente, quer dizer, angustiando-se e lamentando- se, ou mesmo executando rituais e cerimônias que frequentemente retardam em vez de acelerar a passagem, mas por um desprendimento interior e prece tranquila e boa vontade. A melhor maneira para ajudá-lo, talvez, seja esquecê- lo. Um auxílio consciente, na verdade, pode ser dado somente por alguém que tenha o necessário poder oculto e realização espiritual, o Guru, por exemplo.

3

Uma vez no seu lugar de repouso, a alma desfruta de profundo deleite e paz,

e fica numa espécie de sono luminoso. Lá, ela assimila todas as experiências de

sua última vida, quer dizer, absorve delas toda a substância que vai aumentar e fortalecer sua consciência, a seiva que se oferece para o crescimento da forma e estrutura do ser. Estas experiências têm a função de trazer a alma mais para perto, cada vida sendo um degrau mais próximo, para a plenitude de sua união com a Consciência

Divina, de onde ela veio originalmente e apareceu na terra, como uma mera fagulha, uma parcela ainda separada. Este processo pode ser longo ou curto, de

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PARTE V

acordo com a natureza da assimilação empreendida. Aí também, o ser se prepa-

ra para o nascimento iminente, quer dizer, reúne todos os elementos que serão

necessários para o drama da consciência naquela vida. Um plano amplo também

é feito aqui, um esquema, em linhas gerais, da espécie de experiências que

serão precisas para um crescimento determinado de consciência, que se tencio- na fazer. Algumas forças de consciência, retiradas do estoque desenvolvido e reunido pelo ser, são retidas como reserva, outras são expostas para uso ime-

diato na vida a ser vivida em seguida. Tudo isso , entretanto, não é um processo deliberado e racional da mente, é algo espontâneo, emaranhado, uma gestação

e incubação luminosas, algo como o transe de Brahman, dentro do qual a semente da criação está para germinar.

O ser psíquico é um invólucro de poder acumulado, uma bateria carregada, por assim dizer; quando ele desce à terra, reúne à sua volta elementos da men- te, do vital e mesmo do físico sutil, necessários ao propósito da experiência de vida particular, e até mesmo aqueles que irão constituir o corpo físico. O ser psí- quico, usualmente, quando precisa deles, coleta estes elementos de mente, vida e corpo do armazém universal da atmosfera da terra, da mesma forma que os devolve na viagem de volta, depois da morte. Mas, como já disse, há seres que desenvolvem personalidades bem formadas de mente e vida, e mesmo da cons- ciência física. Estas formações não são meros acréscimos dispersos, arranjos temporários para uma vida de experiência, mas são fundidas, organizadas, com uma forma mais ou menos permanente, como um instrumento adequado do ser psíquico, como sua própria expressão. Em tais casos, a personalidade exterior também continua a existir como um modo ou vibrações essenciais, dentro e com a própria consciência psíquica. E quando a alma desce à terra e entra em contato com a atmosfera terrestre, projeta para fora de si mesma uma forma- ção e personalidades externas. Certamente isso não quer dizer que a personali- dade permaneça como algo fixo e rígido, mas que ela adquiriu uma plenitude essencial de forma e, no entanto, conserva a capacidade de mudança e cresci- mento posteriores através de mais crescimento do ser psíquico em outras vidas de experiências.

Contudo, o tempo e a ocasião para um determinado nascimento da alma depende naturalmente, da necessidade íntima daquele ser. Mas deve ser ano- tado como é um fato no mundo oculto que as almas não são assim como entidades autossuficientes, absolutamente separadas, não relacionadas e autô- nomas, cada uma indo e vindo como e quando quiser ou escolher. Ao contrário, as almas formam grupos ou famílias de acordo com alguma afinidade secreta. E quando elas descem, fazem-no, de um modo geral, em companhia. Vem um chamado, um sino toca como se estivesse intimando que a hora chegou e elas

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correm para baixo. E pode mesmo acontecer que no correr para baixo, o ser psíquico não seja tão cuidadoso ou meticuloso a respeito do instrumento, o veí- culo que escolhe para habitar; qualquer um que esteja à mão e mais próximo, e no conjunto conveniente a seu propósito, ele pega e continua. Ele toma tudo como uma aventura e tem a alegria da luta e o espírito do guerreiro que pode saborear a vitória somente quando obtida com dificuldade. E assim que, comu- mente, encontramos uma discrepância considerável entre o ser interno de um homem e sua habitação terrestre, sua alma e seu caráter externo e sua natureza física. Há um significado na escolha, um sentido na utilização de condições des- favoráveis: há um método na loucura.

Este agrupamento parecerá natural e inevitável quando tivermos em mente o propósito da criação e o papel da consciência psíquica. Porque não é uma questão de salvação individual, de crescimento e desenvolvimento unilaterais e realização de um ser psíquico individual. A alma é um ponto luminoso num uni- verso inconsciente e seu papel é torná-lo consciente, pelo menos uma porção representativa dele. A atividade do ser psíquico é o meio de uma nova criação, a transmutação da consciência-terra, o crescimento e advento de uma raça divina, a manifestação e incorporação do Divino e de seu drama na terra. As almas são os guerreiros, os companheiros, os amados do Senhor. Elas têm que se reunir e de se mover juntas para o bom desempenho do drama. Têm que estar em com- panhia e regimentos e batalhões, em associações e concertos e formações har- monizadas.

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As almas agrupam-se em tipos naturais, de acordo com o modo fundamental de consciência e seu dinamismo. E elas formam uma hierarquia: existem e fun- cionam em uma organização cujo tipo e padrão formam a pirâmide. No ápice está o Supremo Único, na base, a infinidade de almas individuais e díspares, fagulhas terrestres, que são emanações, derivações, condensações espalhadas, partes e parcelas daquele Supremo Único. Entre esses dois extremos, do topo para baixo, estão em formações de escala graduada cada vez mais específicas, particularizadas e concretizadas: enquanto subimos, encontramos as formas das mesmas entidades, porém mais amplas, mais vastas e mais inteligíveis, até che- garmos ao típico e original, o ser-fonte. Assim, podemos visualizar uma alma, ao longo de sua linha de emanação da fonte central, como uma série de seres, o mais alto encerrando e cingindo o mais baixo. Não somente assim, uma entida- de mais alta pode ter várias emanações mais baixas e cada uma destas pode novamente emanar várias outras. O número de emanações multiplica-se enquanto se desce e decresce quando subimos. Podemos entender agora o que

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PARTE V

significa quando falamos de almas afins. Quando há uma afinidade ou uma simi- laridade inexplicável ou natural entre duas almas, acontece, nesse caso, que as almas são emanações da mesma Sobre-Alma. E também acontece algumas vezes que o anjo protetor ou demônio com quem possamos entrar em contato, não é outro senão a nossa própria Sobre-Alma. O termo Sobre-Alma toma assim um significado literal e profundo.

Aqui, podemos ilustrar um pouco. No ápice da pirâmide da existência está o Divino, a Pessoa Suprema, o Purshottama. Mesmo lá, quando Ele começa a se inclinar e olhar para baixo, Ele se expressa, mesmo no início, como a dupla per- sonalidade de Ishwara e Shakti (o Pai Divino e a Mãe Divina) sa dvittyam aic- chat, como diz o Upanishad. É ainda o Divino em Seu status transcendente mais alto, paratpara. Em seguida, esta realidade dual ou dupla ou bivalente mostra- se ou projeta-se ainda mais longe, numa valência de quatro facetas da dinâmica consciência-verdade, criando e dirigindo a evolução cósmica. Os quatro Aspec- tos de Ishwara, ornando a linha masculina ou purusha, são os grandes nomes:

Mahavira, Balarama, Pradyuma e Aniruddha. E os quatro aspectos correspon- dentes de Ishwari formam o outro grande quaternário: Maheshwari, Mahakali, Mahalakshmi e Mahasaraswati. Eles incorporam os quatro atributos principais do Divino em Sua relação ao universo criado: Conhecimento, Poder, Amor e Habilidade no trabalho. Assim, eles também representam uma ordem divina de quatro facetas. A primeira incorpora a qualidade de Brahmin de grande sabedo- ria, ampla compreensão, uma consciência vasta; a segunda tem a qualidade Kshatriya de força, dinamismo, concentração e impulso de energia; a terceira possui a qualidade Vaishya de harmonia, beleza, mutualidade e a quarta tem a qualidade Shudra de execução perfeita, eficácia de trabalho detalhado, ordem e planejamento.

Os Deuses mais altos, como aqueles, por exemplo, visualizados no Veda, podem ser considerados cada um como uma emanação de um ou outro destes aspectos Divinos. São os habitantes do Swar ou da Sobremente. Varuna parece ser uma emanação de Mahavira, um filho de Maheshwari, pois ele é preeminen- temente o deus da consciência pura e vasta que nos liberta dos laços triplos e nos mostra o caminho tortuoso para o abraço da Mãe infinita. Seu associado, Mitra, é o senhor do amor e harmonia, evidentemente uma emanação de Prad- yuma (ou Mahalakshmi). Outros deuses da mesma categoria são Bhaga e Soma. O aspecto Balarama ou Mahakali é manifestado em Aryaman, sendo Rudra uma outra forma do mesmo. E Mahasaraswati (ou Anirudha) deve ter dado origem e inspirado os Ribhus, que são artesãos da divindade. A trindade Purânica Brahma, Vishnu e Shiva com Indra como o quarto membro, forma um sistema paralelo incorporando uma concepção semelhante.

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Uma outra tradição define os Quatro Eternos como: 1) Luz ou Consciência, 2) Verdade ou Conhecimento, 3) Vida e 4) Amor. A tradição também diz que seres que representam estes quatro princípios fundamentais da criação, foram os primeiros e mais antigos deuses que emanaram do Divino Supremo, e que eles se separaram, da sua fonte e um do outro, cada qual seguindo sua própria linha independente de realização, perdendo sua divindade e tornando-se seus opos- tos a Luz tornou-se obscuridade, a Consciência, inconsciência ou o incons- ciente, a Verdade, falsidade e o Conhecimento, ignorância, a Vida tornou-se morte e finalmente o Amor e Deleite tornaram-se sofrimento e ódio. Estes são os anjos caídos, os Asuras que negam sua essência divina e que agora governam o mundo. Eles se apossaram da humanidade e estão controlando a existência terrestre. Eles têm também suas emanações, forças e seres que nascem deles e os servem em seus vários graus de poder. Os homens falam e agem inspirados e impelidos por estes seres e, quando assim o fazem, perdem sua humanidade e tornam-se piores que animais.

Mas ainda assim, a Realidade Pura desce indesviável na sua própria linha e o homem a entesoura dentro de si, o fogo imortal que o purificará e o conduzirá à fonte de onde veio. E há deuses luminosos que o ajudam e eles próprios querem participar da transformação terrestre. Há uma pressão de cima e há um anseio de baixo, e entre estas duas infinitudes, tudo é triturado e moldado e mudado. Mesmo os Senhores da Negação vão mudar no fim e aprender a aceitar, tornan- do-se novamente o que eram e são verdadeiramente.

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Primeiro, então, há as divindades supremas, aspectos ou as próprias perso- nalidades do Divino no seu status supremo, a Supramente; depois vêm as pri- meiras emanações, os deuses puros ou verdadeiros da Sobremente. Deste pon- to ou simultaneamente, há a linha de deformação, aquela dos falsos deuses e divindades, os Asuras e Titãs. Também estes se estendem numa série de ema- nações para baixo até o físico sutil, exceto quando eles próprios se encarnam na terra num corpo terrestre.

Dissemos que o homem, a alma, vem diretamente do Divino e é lançada, quase que cravada na terra como uma centelha, como um ponto luminoso de força-consciência. Esta alma, conforme se desenvolve, assim achamos, pertence a um outro tipo fundamental da personalidade divina, é um descendente linear, por assim dizer, de um dos quaternários e seu crescimento significa crescimento dentro da natureza daquele determinado deus e sua realização significa identifi- cação com ele.

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PARTE V

Podemos tentar ilustrar com exemplos, embora seja um jogo um pouco perigoso que possa tender para uma fórmula rígida e matemática, algo que é vivo e variável. Ainda assim servirá para dar uma visão mais clara ao assunto. Napoleão era evidentemente um filho de Mahakali; e César parece ter sido defi- nitivamente moldado pelo princípio de Maheshwari; enquanto Cristo ou Chai- tanya 9 são claramente emanações na linha de Mahalakshmi. Gênios construti- vos, por outro lado, como o grande estadista Colbert, por exemplo, ou o próprio Luiz XIV, o grande monarca, pertencem à uma família (ou gotra, como se diz na índia) que se originou de Mahasaraswati. Ainda, poetas e artistas, embora geralmente pertençam ao clã de Mahalakshmi, podem ser reagrupados de acor- do com o princípio que predomine em cada um, o deus que preside sobre sua inspiração. A grande expressão em Homero e Valmiki, o estilo elevado e nobre de seu movimento, a dignidade e amplidão que compõem sua consciência, afi- lia-os naturalmente à linha de Maheshwari. Um Dante, por outro lado, ou um Byron, têm algo em sua substância e estilo que nos faz pensar no selo de Maha- kali. Virgílio ou Petrarca, Shelley ou o nosso Tagore parecem ser emanações de Beleza, Harmonia, Amor Mahalakshmi. E o perfeito artesanato de Mahasa- raswati encontrou seu especial encorporamento em Horácio e Racine e em nos- so Kalidasa. Michelangelo, na sua fúria de inspiração, parece ser impelido por Mahakali, enquanto Mahalakshmi lança seu favor genial sobre Raphael e Ticia- no; e o cuidado meticuloso e certeza detalhada num Tintoretto faz-nos pensar na graça de Mahasaraswati. Mahasaraswati também parece ter favorecido especialmente Leonardo da Vinci, embora uma presença protetora de Mahesh- wari também pareça estar misturada aqui.

Pois, deve ser lembrado que a alma humana, afinal, não é um ser simples e unilateral, é um pequeno cosmos em si mesma. A alma não é meramente um ponto ou simples raio de luz vindo diretamente do seu arquétipo divino ou do próprio Divino, é também um fogo em desenvolvimento que cresce e se enri- quece através de múltiplas experiências de progresso evolucionário - não ape- nas cresce em altura, como também em amplidão. Mesmo que tenha original- mente emanado de um único principio e Personalidade unos, absorve para seu desenvolvimento e sua realização, influências e elementos de outros também. Na verdade, sabemos que as quatro personalidades primordiais do Divino não são separadas e distintas sem disparidade. Os próprios deuses Védicos são tão interligados, tão interpenetrados que, afinal, se pode afirmar que só há uma única existência, à qual é dada muitos nomes. Todas as personalidades divinas são aspectos do Divino, não podendo ser senão um complexo de muitas perso-

9 Chaitanya: um santo hindu.

A ALMA E SUA JORNADA

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nalidades e frequentemente pode ser difícil e mesmo perigoso descobrir e fixar- se em uma personalidade dominante. O pleno desabrochar da alma humana, sua perfeita divinização, exige a realização de uma personalidade de muitos aspectos, a própria riqueza do Divino dentro de si.

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PARTE VI

O FIM DE UMA CIVILIZAÇÃO

Desde o começo deste século, o curso de degradação do mundo vem se acentuando progressivamente. Um dos grandes sintomas do declínio é a preva- lência das guerras. De fato, pode-se dizer que não tem havido paz real ou mes- mo trégua sobre a terra desde que o século começou com a guerra Russo- Japonesa. As guerras têm continuado ininterruptamente desde então, numa ou noutra parte do mundo. Na verdade, pode-se dizer que tem sido uma única guerra contínua, em muitas frentes, irrompendo em diferentes épocas. Uma outra coisa que se nota nestas guerras é sua natureza. Com o correr do tempo, elas se tornaram cada vez mais prolongadas e devastadoras. Não é mais sim- plesmente um choque de exércitos ou de profissionais, dessa parte da socieda- de cuja profissão é lutar. Nações inteiras, literalmente o todo de um povo, incluindo homens, mulheres, crianças de todas as idades, são agora mobilizados, obrigados a participar da luta e compartilhar do mesmo perigo.

Naturalmente, guerra sempre significou matança; mas a natureza da matan- ça mudou, assim como o motivo. A matança é agora praticada com crueldade, feita com métodos terrivelmente atrozes e revoltantemente engenhosos. E isso afetou a própria consciência e a moral do homem. Não somente não há decên- cia nem decoro, para não falar de magnanimidade e nobreza de atitude e com- portamento coisas familiares nas histórias dos Kshatriya 10 , dos Samurais, dos Cavaleiros de antigamente mas surgiu em campo um fenômeno para o qual ela própria achou um nome, sadismo, violência brutal e em escala maciça. O homem parece ter lançado fora toda máscara, todas as regras da vida social civi- lizada e se tornado pior do que o animal. Ele é agora o Pisacha, o vampiro e o demônio, e parece ter alcançado o fundo do poço.

Sabemos que mundos mundos vitais são feitos dos horrores mais ini- magináveis, de fealdade e artes diabólicas. Muitos já tiveram ocasião de entrar em contato com esses domínios, quer conscientemente, no curso de suas expe- riências yóguicas, quer inconscientemente, em pesadelos. Eles dão testemunho da rematada monstruosidade destes mundos a escuridão e o medo, a dor e a tortura, a perdição e a condenação reinam lá. Todo esse mundo interior parece ter-se precipitado sobre a terra e tomado corpo aqui. Um poeta brilhante falou

10 Kshatria: a classe dos guerreiros.

O FIM DE UMA CIVILIZAÇÃO

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do Paraíso que era transplantado para a terra na forma de uma cidade feliz (a cidade de Raghus). Hoje, fazemos o milagre inverso, a capital do demônio está

instalada na terra, ou até mesmo algo pior. Pois nos mundos mais sutis há, afi- nal, a graça salvadora. Se você, em algum lugar, tiver dentro de si uma aspira- ção, uma confiança, uma fé, uma luz, o inimigo não poderá tocá-lo ou maltratá-

lo gravemente. Você também pode ter lá, à sua volta, seres que o ajudam, um

mestre, um guia que esteja perto, visível ou invisivelmente, para lhe dar o necessário aviso ou proteção. Mas, aqui em baixo, quando o inimigo se reveste de forma material e mune-se de armas materiais, você está quase indefeso. Para salvar-se de um choque físico, nem sempre é suficiente possuir consciência inte-

rior apropriada. Algo mais é necessário.

Portanto, a miséria campeia livremente sobre a terra. Nada comparado a

ela, quer em qualidade ou quantidade, pode a história oferecer como exemplo.

O homem não encontra remédio para seus males, não ousa ter esperança algu-

ma. Sente que está sendo irremediavelmente arrastado para os braços do arqui- inimigo.

Talvez tenha sido necessário que assim fosse. Um pralaya, um Dilúvio tem que acontecer para terminar uma época e começar uma nova. De fato, a civiliza- ção que o homem construiu através de milênios, alcançou seu auge no cientis- mo moderno. Qualquer contribuição que possa ter acrescentado ao homem, mesmo que tenha sido grande, poderosa e bela, no apogeu de sua própria esfe- ra, foi ainda uma limitação, tendo agido como um freio para um salto e um pro- gresso da consciência no porvir. O ciclo humanístico tem reinado, desde a Grécia antiga até a América moderna. Não é tempo para que uma outra consciência intervenha, outros deuses façam sua aparição?

* * * * *

E, contudo, se a civilização realmente se for, não será algo sem importância, mesmo quando medida na escala cósmica. Uma civilização é para ser julgada e avaliada não no seu nadir, mas no seu zênite, no seu efeito total e não por uma fase temporária do seu curso. O que a civilização realmente significa é a prepa- ração do instrumento: o instrumento humano que deve expressar o Divino. O

propósito da criação, temos frequentemente dito, é o estabelecimento da cons- ciência espiritual mais alta na vida incorporada na terra. A vida incorporada sig- nifica corpo e vida e mente do homem. Individual e socialmente, estes consti- tuem o instrumento através do qual a luz mais elevada está para se manifestar.

O instrumento tem que ser preparado, pronto para o propósito. No momento

atual é obscuro, ignorante, estreito, fraco. A princípio, e por muito tempo, expressa somente, ou principalmente, a natureza animal inferior. Civilização é

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PARTE VI

uma tentativa de erguer esta natureza inferior, de refiná-la, de ampliá-la e ele- vá-la, para cultivar e aumentar suas potencialidades e capacidades. A civilização presente, dissemos, é um crescimento de milhares de anos, pelo menos cinco mil anos, de acordo com a computação arqueológica mais modesta. Neste período, o homem desenvolveu seu cérebro, sua inteligência racional, desven- dou alguns dos grandes mistérios da natureza. Controlou e organizou a vida a tal ponto que abriu novas possibilidades de crescimento e conquista. Mesmo com respeito ao corpo, ele aprendeu a tratá-lo com maior habilidade e dotá-lo de maiores e requintadas potencialidades. Houve aberrações e abusos, sem dúvida, mas a essência das coisas adquiridas ainda permanece e é sempre uma posse inestimável: não se deve permitir que isso se vá.

Se a civilização se for, significa que o instrumento também se vai; a base do edifício sobre o qual a consciência Divina deve ser erguidaé demolida, nada res- ta onde se apoiar firmemente. Assim, o labor tem que começar de novo: deve- se começar do princípio. O trabalho tem que ser feito e será feito, não lhe é permitido terminar num labor de Sísifo.

Olhe para o indivíduo. Por que existe nele o impulso-vida para persistir, para perseverar, para sobreviver? Se a vida não tivesse nenhum outro significado do que o mero viver, então a melhor coisa seria deixar o corpo, tão logo ele estives- se seriamente afetado ou incapacitado pela doença, acidente ou velhice. Em vez disso, por que esta tentativa de prolongá-lo, recusando aceitar as dificuldades e desvantagens presentes? A razão é que a vida requer tempo para crescer em consciência, para adquirir experiências, para assimilá-las e utilizá-las e assim transformá-las em poderes de ser, de tempo, quer dizer, de construir e forjar o instrumento para que ele possa abrigar a consciência e existência mais elevadas. Na formação presente, o corpo, a um certo estágio, tem que ser abandonado, pois a moldura torna-se muito rígida e dura para acompanhar o movimento crescente e mais rápido da consciência interior. O fio é retomado novamente em outra vida, mas há sempre uma considerável repetição neste processo natu- ral; deve-se repisar o estágio da infância e imaturidade, uma retempera do ins- trumento, até que este seja capaz de outros usos. Na verdade, alguma coisa das experiências, de sua essência, fica armazenada em algum lugar, nas profundezas do ser; mas não é utilizada completamente, não é um elemento efetivo na cons- ciência normal. E embora uma pessoa sempre se baseie no seu passado, o edifí- cio construído parece novo cada vez. O yoga, no indivíduo, procura eliminar este elemento de repetição e inconsciência e atraso no processo de crescimento e evolução: sua meta é completar o ciclo de crescimento individual numa única vida.

DA ESCURIDÃO PARA A LUZ

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Ora, o mesmo princípio pode ser estendido a um desenvolvimento coletivo mais amplo. A civilização hoje alcançou um status em que o próximo status mais alto pode e deve ser tentado. O homem elevou-se a uma considerável altura na esfera mental; o tempo e a ocasião estão agora aqui para avançar em direção ao supramental, o dinamicamente espiritual. Perigos estão à frente, mesmo perto e à volta; todas as forças do infra-humano, os impulsos submersos do atavismo animal, estão empurrando e puxando o homem para baixo, para uma regressão, para uma reversão ao tipo. A escolha é, de fato, crucial. Se a civilização está para perecer, isto significa que a humanidade tem que começar novamente seu curso de vida, começar, quer dizer, do estágio do recém-nascido, uma vez mais, para ir através do processo vagaroso dos séculos, a fim de adquirir o domínio que foi conseguido nas regiões físicas, vitais e mentais. Já tem havido tais períodos per- didos na evolução do homem, agora submersos em sua consciência, e suas vitó- rias estão sendo recuperadas com dificuldade. Mas um desmoronamento nesta hora crítica será uma catástrofe colossal humanamente falando, algo quase irremediável.

Pois aqui está o sentido da crise. O mantra dado para a nova era é que o homem será transcendido e, no processo, o homem, como ele é, passará. O homem passará, mas algo do veículo que o presente ciclo preparou permanece- rá. Pois essa é precisamente a função da civilização que passa, especialmente nos seus últimos estágios, isto é, construir um templo terrestre para o Senhor. A aberração e a deformação desenfreadas de hoje, representam apenas um excesso de pressão sobre este aspecto, sobre a apresentação externa que foi ignorada ou não suficientemente considerada nas primeiras e mais altas curvas da civilização presente. Os valores espirituais declinaram, porque os valores materiais vieram a ser considerados como destituídos de valor, e isto perturbou a economia ou o equilíbrio da natureza. É verdade que nós fomos longe, muito longe, na nossa revanche. E o problema com o qual nos defrontamos hoje é este: se a humanidade será capaz de mudar suficientemente e transformar-se no ser superior que habitará a terra, como seu coroamento, no ciclo vindouro, ou, sendo incapaz, se extinguira totalmente, desaparecerá de todo ou será rele- gada à estagnação da vida terrestre, e algo como as tribos aborígenes de hoje.

DA ESCURIDÃO PARA A LUZ

A Escuridão é a medida da Luz. O mundo como ele é, é a oposição do que tem que ser e será. E a fim de ser o que será, ele tem que ser o que é agora, jus- tamente o que não será. Os antípodas andam juntos, inevitavelmente: a pro- fundidade do precipício é precisamente a medida de sua altura. A queda do

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PARTE VI

homem representa a ascensão que ele tem que fazer, que está destinado a rea- lizar.

Barreiras e obstáculos são colocados aí no caminho, não meramente para testar sua força, mas para treiná-la, fazê-la crescer e discipliná-la. Dificuldades existem em abundância, precisamente porque, vencendo-as, você alcança a plenitude de sua perfeição. Você foi constituído por elementos e forças que estão exatamente na medida de sua capacidade para elaborá-los: você é colo- cado no meio de condições e situações que estão absolutamente na proporção daquilo que você tem que realizar. Na verdade, você carrega dentro de si todas as dificuldades que são necessárias para tornar sua realização perfeita em si mesma.

Quando você receber um golpe, não recue ou pestaneje ou afunde. Levante

a cabeça com coragem e firmeza e diga para si: "aqui está uma oportunidade

para dar um outro passo à frente". O golpe é o dedo de luz apontado para o ponto escuro a ser iluminado, para o elo fraco que deve ser forjado de novo. Enfrentando e sobrepujando uma dificuldade, você acrescenta um outro degrau

à sua ascensão, um outro nervo, por assim dizer, a seu músculo. Lembre-se, uma

dificuldade nunca é desproporcional à sua força: ela vem na medida exata de seu poder para enfrentá-la. É sua mente, são suas noções, que fazem a sugestão contrária e uma espécie de ilusão apossa-se de você, de que está diante de uma tarefa além de seu alcance e que deve se desorientar.

Talvez você não possa fazer a coisa ideal num dado momento. Pode não ser capaz de executar o gesto perfeito que é esperado de você num conjunto de circunstâncias. O Divino pode lhe parecer velado e você não ouvir sua voz direta. Mas não tem importância. O que se espera de você é que faça o melhor, o melhor que é capaz de fazer naquele momento. Esse mais elevado que está pre- sente em você, as culminâncias disponíveis no momento e sob as circunstâncias da ocasião isso deveria ser a fonte e a inspiração de seu ato. Aja das alturas de onde você se encontra e aspire por alturas ainda mais elevadas.

TIPOS DE MEDITAÇÃO

O primeiro tipo é pensar num assunto em ordem lógica e contínua. Quando, por exemplo, você quer encontrar a solução de um problema, vai passo a passo, de uma operação à outra, subsequentemente, até que finalmente chega à con- clusão. O pensamento é retirado de todos os outros objetos e canalizado para uma única linha. Isto é uma espécie de meditação, embora não seja usualmente conhecida por este nome. Marca um progresso na formação da consciência

TIPOS DE MEDITAÇÃO

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humana. Pois, normalmente, a mente se move ao acaso, de momento a momento, os pensamentos correm de lá para cá em torno de múltiplos assuntos diferentes, contrários e contraditórios. Não há nem direção, nem consistência ou organização: é uma massa confusa de pensamentos incipientes e incomple- tos. Para começar, o controle e a organização dessa massa numa esfera limitada e numa direção definida, a rejeição do supérfluo e do irrelevante e a disposição e o arranjo dos elementos requeridos constituem o primeiro exercício para o crescimento mental. Toda inteligência superior, todo domínio efetivo do poder de pensamento precisam desta disciplina. Nas circunstâncias atuais do mundo, a escola da vida enseja a melhor oportunidade para este desenvolvimento. Esta é uma meditação que deveria ser obrigatória e universal.

O tipo seguinte podemos chamar de concentração em vez de meditação. Aqui não seguimos uma linha de pensamento, mas fixamos o pensamento em um objeto imóvel. Significa um processo subsequente de retirar a consciência de seu habitual movimento extrovertido e dispersivo. O pensamento é mantido num ponto e a atenção é ali focalizada: é uma atenção contínua e ininterrupta, por exemplo, em torno de uma ideia, de uma frase (mantra) ou de uma imagem. Pode-se também concentrar num ponto físico, digamos, fixar o olhar na ponta do nariz ou num ponto externo luminoso etc. Nesta disciplina, toda a mente fica unificada e focalizada: ou, tudo o mais é excluído, deixando-se apenas uma úni- ca coisa sobre a qual toda a luz da consciência é dirigida. É uma consciência parada como uma chama ereta e imóvel num lugar sem vento.

Há um terceiro estágio, quando a mente se torna um vazio, todos os pensa- mentos são lançados fora e as vibrações estão tranquilizadas. É um vasto silên- cio cheio de uma luminosidade calma. A operação é difícil pois significa uma espécie de drenagem contínua e metódica, ou rarefação que leva mais ou menos um longo tempo. Primeiro, você joga fora ideias e noções bem formadas, processos e produtos de raciocínio e julgamento, as ondas maiores, por assim dizer. Assim que estas se acalmam, você descobre que há ondas menores por baixo ou atrás pensamentos meio-formados, ideias que desabrocham, noções fugidias e assim por diante. Quando estas são também aquietadas, você depara ainda com uma outra camada de ondulações menores de pensamentos, próxi- ma a sensações, reações nervosas, vibrações de mente-cérebro, preceitos rudi- mentares etc., etc. Pode-se prosseguir assim, se não ad infinitum, pelo menos por um tempo considerável. Por fim, chega-se ao que é praticamente um vácuo, uma mente silente para todos efeitos. Mesmo então é um processo árduo e difí- cil e pode não ser tão absoluto quanto se possa esperar.

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PARTE VI

Há outros processos mais seguros e até mais fáceis para alcançar o mesmo fim. Assim, em vez de empenhar-se e lutar e impor a sua vontade sobre as ondas inquietas, você simplesmente relaxa, deixa-as de lado por assim dizer; espera e aspira e abre-se em direção ao Silêncio que paira acima; chama pelo silêncio com fé e confiança e ele vem, frequentemente como uma inundação maciça, um fluxo glacial que automaticamente o domina, afogando-o e enchen- do-o de alto a baixo.

Existe, também, uma outra maneira: contatar, sentir a Presença da Mãe. A Presença da Mãe significa todas as realizações que aspiramos ver concretizadas, trazidas para baixo, perto de nós, dentro de nosso alcance humano. Não temos que andar por toda a parte, escalar alturas inacessíveis, labutar e extenuar-nos com sangue, suor e lágrimas para conseguir o que queremos: todas as possibili- dades estão ali, ao nosso alcance, em nossa atmosfera; temos apenas que saber e perceber, abrir em nós algo para que elas afluam. Esta é talvez, a ação da Gra- ça: silêncio, silêncio absoluto, não apenas na mente, mas em todo o nosso ser, que pode vir desta forma também.

O último processo dá a chave para o quarto tipo de meditação, o tipo que é de fato recomendado por nós, não só por ser o mais fácil, porque segue a linha de menor resistência, como também porque dá a plenitude do resultado dese- jado. Em vez de tentar manipular a força mental com a própria vontade e o pró- prio esforço, em vez de procurar controlar e comandar a consciência, a melhor coisa a fazer seria permanecer quieto, tanto quanto for normalmente possível, sem lutar. Então, voltar o olhar para o outro lado, para o mais profundo ou mais elevado, tornar-se mais consciente da luz, da Vontade que o trouxe para este Caminho, animar-se com o deleite secreto, a aspiração flamejante que está em nós, por trás de todas as turbulências da vida e consciência superficiais.

Esta Presença e Orientação, colocarão espontaneamente, diante de nós, os elementos e movimentos a serem rejeitados e os que são para serem aceitos e receber nosso consentimento sincero, aqueles que nos ajudam a praticar as ações necessárias. De fato, se você não resistir demais, ela eliminará o que é para ser eliminado e atrairá o que é para ser atraído. É desse modo que o ins- trumento será purificado e refinado. O silêncio inserir-se-á, pois essa é a base; mas não o silêncio apenas, porque ele será unificado com um novo dinamismo expressando a Vontade do Divino; não haverá nenhuma escolha pessoal, nem por uma quietude absoluta, nem por mera atividade.

O SER CONSCIENTE

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O SER CONSCIENTE

O ser consciente, em nós, é verdadeiramente o ser psíquico. Mas encontra-

se presentemente atrás e fora de ação. O que é normalmente consciente, então, é a mente, essa parte que conseguiu a luz e que é iluminada. Somos conscientes

através desta porção e mesmo, identificamo-nos com ela, conhecemo-la, e sen- timo-la como nós mesmos, como "eu".

A mente, contudo, tem uma consciência central que pode ser chamada de

Mente Testemunha, o Purusha 11 na mente. Ele fica à parte e observa o que está acontecendo na mente, bem como em outras partes; é, de fato, o observador de todo ādhāra 12 . As outras partes são o vital e o físico. O vital também tem sua própria consciência central, sua testemunha Purusha, que observa todos os

movimentos vitais e também as outras partes, através de seu próprio ângulo. Do mesmo modo, o físico tem um Purusha e ele também observa através de sua própria consciência. O Purusha mental diz, "Eu vejo que estou pensando, racio- cinando etc."; o Purusha vital diz, "Eu vejo que estou zangado, violento ou gos- tando, infundindo energia etc."; o Purusha físico diz, "Eu vejo que estou agindo, andando, correndo etc.". Bem, numa pessoa comum, cada um destes três Puru- shas permanece separado e cada um é consciente a seu modo. Eles não são inteiramente conscientes uns dos outros, misturam-se, mas não apropriada- mente, e na maior parte das vezes não se entendem. Muito raramente unificam- se, harmonizam-se ou reúnem-se como um time para servir a um propósito comum, a um único objetivo. Essa união e harmonização somente pode ser feita através do Purusha Supremo, a Testemunha Divina, que é o verdadeiro Ser consciente, o único Purusha atrás e acima de todos os outros, cuja luz, antes de tudo, centraliza-se no ser psíquico e, então, através dele, é canalizado para seus representantes ou emanações nos níveis inferiores, a mente, o vital e o físico.

O que é consciência? É o inverso de Inconsciência. É a essência criativa do

universo: sem consciência não existe criação. Inconsciência significa não- existência. O supremo Não-manifesto torna-se consciente de si mesmo, isto é, objetiva-se, vê-se criado ou refletido em múltiplos centros: isto é a origem de toda criação. Pela consciência tudo é, pela inconsciência nada é. Consciência é luz, consciência é vida.

11 Purusha: a alma consciente, o elemento divino no tornar-se

12 Ādhāra: receptáculo; o sistema abrangente composto de 5 invólucros, dos princípios que constituem o físico, o vital, o mental, o supramental e o ser espiritual.

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PARTE VI

A consciência original é una, indivisível, no seu mais elevado potencial. Mas

quando se desloca e fica dividida, isto é, individualizada, torna-se ao mesmo tempo difratada e reduzida ao mínimo, como os reflexos num espelho áspero. O que normalmente entendemos por consciência é este seu grau diminuído no indivíduo. Mas apesar de diminuída e difratada em muitas formas e modos, a consciência básica é ainda a consciência divina que está ali por trás e na origem de todas as formulações parciais. É através deste cerne da Presença Divina que nada mais é que o psíquico que o indivíduo mantém e desenvolve seu contato com o Divino, cresce dentro da plenitude da divina consciência, mesmo como uma incorporação individual e terrena.

A HISTÓRIA DA CRIAÇÃO

A consciência é a fonte e a base da criação. Mesmo o objeto mais material,

aparentemente inconsciente, a pedra, por exemplo, tem inerente em si, uma vibração de consciência. Onde não existe consciência alguma, é o Inconsciente. Se alguma vez você descer ao Inconsciente, quer dizer, mais abaixo da escala da pedra inanimada, saberá a diferença. O abismo entre a pedra e o Inconsciente é muito maior, na verdade, do que entre a pedra e o homem. Porque é uma cons- ciência secreta que liga o homem à pedra, porém mais além, existe um hiato, alguma coisa intransponível. O Inconsciente é o Vazio, o zero absoluto (Inane Sri Aurobindo menciona-o em Savitri): não é substância, é pura negação. A Consciência está por trás do universo material: sem esta Consciência não have- ria a maravilhosa organização que é encontrada dentro da partícula material do átomo. O Inconsciente é preexistente à criação material.

A Realidade indivisível una e sua consciência pura: esta é a origem. Esta Consciência Suprema escolheu objetivar-se, pôr-se em cena para Si mesma, tes- temunhar-se no jogo o Upanishad diz: o Uno desejava ter um segundo, um companheiro para si mesmo (sa dwitīyam aichhat). Este poder de auto- objetivação é um livre arbítrio dado à consciência para mover-se fora de seu estado unificado original e mover-se amplamente em direção contrária, à von- tade. Assim, o Supremo viu-se a si mesmo como seu próprio poder de automani- festação, e isto é a Mãe-Consciência, Adya Shakti, Aditi a consciência-poder, que outra vez no seu impulso criativo de ir mais além, expressou-se nas primei- ras quatro principais Emanações (Maheshwari, Mahakali, Mahalakshmi e Maha- saraswati) 13 . Mas este impulso livre, livre de separar-se e continuar um movi-

13 Maheshwari sabedoria; Mahakali força e energia; Mahalakshmi beleza e harmonia; Mahasaraswati ordem e perfeição.

A HISTÓRIA DA CRIAÇÃO

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mento independente de auto-expressão e evolução, precipitou-se imediatamen- te, quase como consequência lógica de sua carreira de livre escolha, para dentro da Negação, da Nulidade que é a inconsciência. Assim, contra o Supremo, isto é, contra a Divina Consciência, colocou-se a completa Inconsciência: a Luz desapa- receu na absoluta Escuridão. Este foi o resultado da auto-escolha na consciência, mas o fim foi o verdadeiro oposto de consciência.

Era um silêncio de morte, mais silencioso que a Morte e mais morto que o Silêncio mesmo. E era completo o abandono, e total o desespero. A Divina Cons- ciência Aditi viu a terrível linha de destino que a liberdade tinha tomado e onde tinha acabado: ela não pode suportar isto por mais tempo e emitiu um gri- to pedindo socorro, por ajuda. E a resposta veio imediatamente, um raio foi dis- parado para baixo pela Única Consciência Suprema e entrou no ventre da Inconsciência. Veja! O milagre, a Matéria nasceu, a primeira criação, a primeira manifestação da Graça Suprema. A Matéria contém em si a centelha da cons- ciência que deve crescer e desabrochar, brilhar cada vez mais dentro da escuri- dão envolvente da Inconsciência, iluminando-a cada vez mais longe, empurran- do suas fronteiras sempre para trás e mais além.

O nascimento da Matéria coincidiu com uma outra descida da Suprema Consciência; é uma descida em estágios gradativos ligando o mais alto ao mais baixo, através de formações intermediárias: elas são formadas de partes que se encaixam umas nas outras dentro da Matéria para que a Matéria possa abrigá-la e expressá-la gradualmente através de sua consciência inerente em desenvolvi- mento, até que o mais alto seja revelado e corporificado aqui, como é sempre autorevelado no mais alto.

Na descida gradativa, na hierarquia de planos e níveis, apareceram forças e seres também próprios de cada domínio. Os mais antigos, os primeiros entre eles são os Asuras, melhor, o Asuras original o primeiro quaternário (algum vestígio deles parecia subsistir na lenda grega de Chronos e sua descendência). Pois eles corporificam os poderes de divisão, de Inconsciência: eles são a Afir- mação da Negação. Contra os Asuras vieram e classificaram-se na primeira linha de divisão, de um lado da descida da Luz os primeiros deuses, os principais poderes e personalidades da Divina Consciência. A batalha dos deuses e Titãs pela posse da terra tem continuado desde então. O fim virá um dia. Significará a dissolução das forças da Negação, pelo menos dentro da esfera terrestre, e o estabelecimento nela do reino da Luz.

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PARTE VI

A TERRA, UM SÍMBOLO

A terra é o centro do universo material. Foi criada para concentrar a força

que vai transformar a Matéria. É o símbolo da potencialidade divina na Matéria. Como dissemos, a terra foi criada através da direta intervenção da Consciência Divina: é apenas na terra que existe e pode haver um contato direto com o Divi- no. A terra absorve, desenvolve e irradia a luz divina; sua irradiação espalha-se

pelo espaço e estende-se por onde quer que exista Matéria. O Universo material partilha, até certo ponto, da dádiva que a terra carrega a luz e a harmonia da Divina Consciência. Mas é somente na Terra que existe o desabrochar pleno e final desta consciência.

O ser psíquico é encontrado unicamente na terra porque é produto da terra:

é o toque do Divino sobre a Matéria. O ser psíquico é filho da Terra: nasce e cresce na Terra, não é nativo de nenhum outro lugar. Contudo, quando se desenvolve suficientemente e torna-se uma individualidade adulta, pode ir a outros domínios físicos, como visitar planetas, por exemplo.

TOTAL TRANSFORMAÇÃO EXIGE TOTAL REJEIÇÃO

Para cada lado positivo do "Sadhana" 14 deve existir também um lado negati- vo. A Realização ou experiência deve ser acompanhada pela rejeição das coisas que se lhe opõem. As pessoas se admiram que uma experiência desapareça tão depressa ou que não se repita facilmente, ou então, que uma situação feliz não continue por mais tempo, mas seja seguida quase que inevitavelmente por uma condição de desânimo.

A razão é muito simples. A experiência ou realização não é total, quer dizer,

pertence apenas a uma parte da natureza e não é partilhada pelas outras. O "Sadhak" 15 não é feito de uma só peça: o todo de sua natureza não é trabalhado na mesma intensidade e amplitude, não é igualmente responsivo em todos os lugares. Assim, quando o ser psíquico traz à frente uma experiência e a cons- ciência interior está cheia de luz e energia e alegria e fé, mesmo então, no fundo ou do lado, se você estiver vigilante e observar cuidadosamente, verá que a mente, a mente externa, tem suas reservas ou continua a agir do modo costu- meiro. Olha de soslaio para a experiência, critica ou duvida, ou tenta entendê-la ou explicá-la em seus termos, confinando-a à sua moldura de compreensão. Ou

14 Sadhana disciplina espiritual.

15 Sadhak – aquele que pratica “Sadhana”.

O INDIVÍDUO E O COLETIVO

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então, o vital vem à tona e tenta aprisionar a experiência e utilizá-la para seus próprios fins: é apreciada como uma comida saborosa, feita para servir à sua ambição ou vaidade, algum impulso egoísta, mais baixo e ignorante. Ou ainda, o físico, a consciência do corpo não pode de modo algum participar da experiên- cia, permanece indiferente, apática, inerte, sem impulso ou entusiasmo para por em prática a experiência de sua consciência interior. Qualquer desses empeci- lhos ou dessas tendências contrárias são suficientes para prejudicar e diminuir e até mesmo apagar a experiência. E, geralmente, todos três estão lá, afinal, com- binando-se e empenhando-se para estragar tudo.

O remédio é voltar-se para dentro e apoiar-se no ponto de luz que há na consciência, o clarão ou a aspiração que pertence ao ser interior mais elevado. Isso deve ser usado como um facho, como um bastão para sustentá-lo e guiá-lo nos seus períodos de escuridão e vacilação. Esse raio de luz ardente deveria ser dirigido sobre essas partes que cerceiam com sua obscuridade e inconsciência, dúvida e arrogância, a realização que vem, o progresso no caminho. Isso deve ser feito com firmeza, vigilância e perseverança. A mistura tem que ser selecio- nada, a escória mantida de um lado, e o elemento puro do outro: as impurezas têm que ser colocadas sob a luz-chama para se derreter, queimar-se e ser elimi- nadas. E isso requer uma sinceridade ardente, pois é o combustível que mantém o fogo em chamas.

E sinceridade exige frequentemente um lidar severo consigo mesmo; envol- ve aceitar uma inconveniência, infringindo mesmo uma pressão dolorosa. Deve- se estar preparado para essa reviravolta, deve-se mesmo, às vezes, recebê-la bem. A parte que está de má vontade ou refratária tem que sentir a torcedura, se for para ser purificada e corrigida.

De fato, a experiência da alegria no próprio processo de sofrimento é uma experiência comum ao santo e ao mártir. Conhecemos exemplos incontáveis onde a tortura feroz da carne foi afogada, superada no êxtase da aspiração inte- rior; o entusiasmo vital extraído das chamas interiores espalha-se, corre através dos nervos e tecidos com tal energia e ímpeto que efetivamente bloqueia a rea- ção invasora da dor. É uma disciplina que tem seu valor mesmo para o Sadhak do caminho ensolarado.

O INDIVÍDUO E O COLETIVO

Um Sadhana integral não pode ser confinado ao indivíduo apenas; um ele- mento da coletividade deve entrar nele. Um indivíduo não é, de modo algum, um ser isolado. Existem, é claro, escolas de Yoga e filosofia que procuram isolá-

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PARTE VI

lo, considerá-lo como uma entidade circundada por sua própria consciência; na verdade, estas escolas classificam os indivíduos como um todo distinto e sepa- rado, cada qual um círculo fechado ou esfera, mal podendo tocar-se, mas nunca interpenetra-se ou intercomunicar-se. Cada um é como uma ilha solitária, todas juntas formando o vasto arquipélago do universo. Esta é uma posição, não há

dúvida, que pode ser adquirida por uma espécie de disciplina de consciência, apesar de não atingir uma grande perfeição; mas não é um equilíbrio natural ou necessário. Normalmente, os indivíduos fundem-se uns nos outros e formam uma trama de dar e receber. Um desejo, um impulso, mesmo um pensamento que surge em você, sai, ultrapassa-o e se espalha à volta e vai até mesmo ao limite extremo da terra, como uma onda hertziana. Repito, qualquer movimen- to, em qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, alcançá-lo-á, penetrá-lo-á

e provocará em você uma vibração semelhante, mesmo que não possa reconhe-

cê-la mas a considere como algo que lhe pertença exclusivamente. Você emite

vibrações para o mundo e o mundo emite vibrações para você. A vida individual

é o campo de confluência destas forças de saída e entrada. É precisamente para

evitar este círculo ou ciclo de vibrações-mundo que os antigos Yogues costuma- vam deixar o mundo, afastar-se da sociedade, retirar-se para o topo das monta- nhas, dentro da floresta virgem, onde esperavam encontrar-se sozinhos e dis- tantes, para ser um só com o Único Eu. Esta é uma saída, mas não a única ou melhor solução. Não é a melhor solução porque, apesar de aparentemente sozi- nho no topo da colina ou numa cripta deserta ou no seio da floresta, carregamos sempre dentro de nós um mundo inteiro, a natureza normal com todos seus ins- tintos e impulsos, reações, memórias e esperanças; você decepa o exterior, foge para longe dele, mas, e quanto ao exterior que está dentro de você? O gosto por uma coisa gostosa não desaparece com a remoção do objeto. Em segundo lugar,

tal solução individual, mesmo que fosse possível, seria ainda um recurso pura- mente pessoal e, em última análise, egoísta.

É por isso que Buda recusou-se a entrar definitivamente no Nirvana e reti-

rou-se do isolamento, para trabalhar entre os homens. Na verdade, a solução real está em outro lugar. Não é retirar-se ou fugir, mas achar dentro do campo de ação, aqui, um centro, um foco de consciência que não seja controlado pelas forças exteriores, mas que possa controlá-las, que não seja colorido por elas, mas que possa emprestar-lhes sua própria luminosidade. Isto é a alma ou o cen-

tro psíquico.

E este centro não é uma entidade isolada em sua natureza; é como se fosse

um centro universal, por assim dizer, que se liga indissoluvelmente, em um sen- tido secreto de identidade, com todos os outros centros. Porque este eu é ape- nas um dos seus, através do qual o Único Eu multiplicou-se em uma auto-

COMO ESPERAR

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objetivação variada. A luz que brilha aqui, o fogo que arde aqui e o deleite que flui aqui, ilumina, purifica e revitaliza não apenas o indivíduo no qual mora, mas espalha-se amplamente à volta e estende-se a outros indivíduos com os quais vive em identidade espiritual.

COMO ESPERAR

"Se você souber esperar, ganhará tempo". Geralmente, quando você está para fazer uma coisa, seu impulso é correr para ela e apressá-la. Entre a ideia e a execução, você não deixa nenhum intervalo, não faz uma pausa para olhar à vol- ta, examinar as condições e circunstâncias, pensar na melhor forma de trabalhar em direção ao objetivo. A pressa resulta em mau êxito, muito frequentemente em malogro total. Você tem que começar tudo de novo. Pode ter até mesmo de recomeçar várias vezes se não aprender a lição dada. Evidentemente, você per- de tempo, perde energia e perde seu sucesso.

Em vez disso, o que deve fazer antes de realmente iniciar seu trabalho, não é saltar sobre ele, mas compreender o seu significado e o que ele envolve, ter diante do olho da mente uma clara configuração ou padrão da coisa a ser empreendida. Não se guiar por uma noção vaga e indefinida sobre ela, algo que tomará forma, que cuidará de si mesmo enquanto você prossegue. Deve ter uma nítida concepção do seu trabalho e também descobrir os meios e modos exatos para executá-lo e ter à mão os melhores implementos. Somente quando você estiver completamente armado com o equipamento necessário, é que ele pode estar certo do sucesso, sem desperdício de tempo ou de energia.

E ainda assim existe um tempo, um tempo apropriado para cada coisa. Uma coisa não pode ser feita a qualquer tempo, tem sua própria hora marcada. Você não pode ter sucesso antes da hora certa, mesmo que tente cem vezes. Mas quando o tempo está maduro, como parece fácil empreender algo! No que con- siste esta maturidade do tempo, quais são os sinais da hora propícia? Isto ocorre quando você está na posse completa dos instrumentos corretos e quando a dis- posição das circunstâncias é tal que ela concorre para ajudar e executar, e não para prejudicar e obstruir. Mas como descobrir ou reconhecer quando essas condições estão disponíveis? Não é através de sua mente ou raciocínio externo. Você deve ter a intuição, uma percepção instintiva da situação. A indicação sempre existe no próprio equilíbrio de sua consciência. Quer dizer, quando ela está repleta de grande calma, de fé e confiança e de concentração luminosa.

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PARTE VI

FADIGA E TRABALHO

Diz-se que a fadiga vem do excesso de trabalho. Consequentemente, a cura da fadiga é o descanso, quer dizer, não fazer nada. Mas a verdade é que mais frequentemente a fadiga é devida, não ao excesso de trabalho, mas à falta dele, ou melhor, à preguiça ou tédio. A fadiga não deveria ocorrer tão depressa ou tão facilmente, se você soubesse como fazer o trabalho. Se estiver interessado em seu trabalho, você pode continuá-lo por muito tempo sem sentir fadiga. E, precisamente, um dos meios para se recuperar da fadiga, é não se sentar e cair em apatia e tamas 16 mas assumir um trabalho que desperte seu interesse. Tra- balho feito com alegria e entusiasmo calmo é tônico. É descanso dinâmico. Tra- balho feito sem interesse, como uma espécie de dever e obrigação, naturalmen- te o cansará logo. Assim, o remédio para a fadiga é manter o interesse desperto. Mas há um outro mistério. O interesse não depende do trabalho: qualquer tra- balho pode tornar-se interessante, até mesmo a um grau extremo. Não há tra- balho que por si só seja monótono, insípido e desinteressante. Tudo depende do valor que você lhe dá e compete-lhe torná-lo tão atraente como um romance ou tão significante quanto um símbolo.

Como fazê-lo? Como achar interesse em qualquer coisa ou em tudo? Não há um trabalho que esteja de acordo com sua natureza, adaptado a seu caráter e à sua capacidade? E não existem trabalhos que vão contra sua natureza e que estão fora de seu alcance e de sua competência?

A questão não diz respeito a seu alcance e sua capacidade. Tudo depende de sua atitude, da consciência com que você se acerca de um trabalho, especial- mente quando você é um sadhak. Quando um trabalho aparece ou quando você tem que fazê-lo, deve assumi-lo como algo que valha a pena ser feito. Seja qual for o valor que lhe é dado normalmente ou que você próprio lhe dá, não deveria ser negligenciado ou meramente tolerado, mas ser bem recebido e você deveria dedicar-se a ele com a máxima escrupulosidade. Mesmo que seja algo insignifi- cante como, por exemplo, um trabalho doméstico, não o considere vil ou abaixo de sua dignidade. Assim que você começar a fazer uma coisa no espírito certo, descobrirá que ela se torna extraordinariamente interessante. Tente trazer per- feição, mesmo para aquele pouco de insignificância. Faça-o de boa vontade, mesmo se for esfregar o chão, dizendo para si mesmo: "Devo fazê-lo o melhor possível, quer dizer, poderei fazê-lo até mesmo melhor que um empregado. Farei com que o chão pareça realmente em ordem, limpo e bonito". Este é o

16 Tamas: inércia, incapacidade, obscuridade.

FADIGA E TRABALHO

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ponto crucial do problema. Você deveria exibir o melhor de si e colocá-lo em seu trabalho. Em outras palavras, o trabalho tornar-se-ia um instrumento de pro- gresso. A boa vontade, a atenção, a concentração, o autoesquecimento e o con- trole de si, sobre seus órgãos e nervos, (quanto menor o trabalho, tanto mais detalhado o controle adquirido) tudo que seja necessário para fazer um trabalho perfeito, com o máximo de perfeição possível, são elementos trazidos à tona e que contribuem para torná-lo uma pessoa melhor. Na verdade, um trabalho pelo qual você não tenha inclinações preferenciais, ao qual não esteja emocio- nalmente ligado, mesmo normalmente indiferente, pode ser de especial ajuda, porque, então, você será capaz de fazê-lo com menos perturbação nervosa, com maior desapego e desinteresse.

O homem geralmente escolhe seu trabalho ou é obrigado a escolhê-lo por uma preferência vital, um preconceito ou ideia de que seja a espécie de trabalho no qual possa brilhar ou ter sucesso. Esta vaidade egoísta ou este oportunismo podem ser necessários ou inevitáveis na vida comum. Mas quando se deseja ir além da vida comum e aspirar pela vida verdadeira, este apego e esta escolha pessoal tornam-se mais um impedimento do que um auxílio para progredir em direção ao caminho da vida verdadeira. A atitude yóguica em relação ao traba- lho é, pois, aquela de desapego absoluto, de não fazer nenhuma escolha, mas de aceitar e fazer qualquer coisa que lhe seja dada, qualquer coisa que lhe venha no curso normal de sua vida e de fazê-la com máxima perfeição possível.

É desta maneira, e apenas assim, que todo trabalho se torna extremamente interessante e toda vida um milagre de deleite.

Contudo, isso não quer dizer que não haja um trabalho que lhe seja ineren- te, para o qual você não tenha uma aptidão especial, no qual e através do qual sua alma, o Divino, possa expressar-se plena e completamente, de um modo especial. Mas qual é esse trabalho? O kartavyam karma o trabalho que se tem obrigação de fazer, derivado de seu swadharma sua autonatureza? Evi- dentemente não é aquele de sua natureza superficial que a mente escolhe, que

o vital prefere, e o corpo acha conveniente. Para encontrar seu verdadeiro tra-

balho ou o trabalho de sua alma, você deve passar por uma disciplina considerá-

vel e por um treinamento rigoroso.

Você não pode desprezar este ou aquele trabalho ao acaso, declarando que não são adequados a você, ou pegar qualquer coisa que sua imaginação favore- ça. Na verdade, não pode desprezar nada, desperdiçar nada, simplesmente por- que seja desagradável ou não suficientemente agradável. Quanto mais violen- tamente tentar afastar uma coisa de si, tanto mais ela se apegará a você. Em vez disso, você deve aprender a deixar uma coisa cair por si mesma, tranquila,

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PARTE VI

automática e definitivamente. Esta é a única maneira de se livrar de algo indese- jável ou desnecessário. Antes de mais nada, seja sincero consigo mesmo, quer dizer, tente seguir a luz e a aspiração mais altas em você, a cada momento, e seja fiel a elas e apenas a elas. Nunca se permita ser abalado ou tocado por sim- patias ou antipatias de sua mente ou de seu coração ou de seu corpo. Faça mesmo o que discorde da natureza de seu corpo ou de seu coração ou de sua mente. Se lhe for apresentado como a coisa a ser feita, faça-a tão calma, desa- paixonada e perfeitamente quanto possível e deixe o resto a seu destino mais alto. Se você pertencer todo à sua alma, se for obediente ao Divino somente, então, enquanto esta consciência e este equilíbrio cresceram mais nítidos e fir- mes, você verá que coisas não consoantes com elas abandoná-lo-ão tranquila- mente, sem qualquer esforço ou reação de sua parte, como as folhas de outono caem de galhos que não mais lhes fornecem seiva. Seu trabalho será mudado, suas circunstâncias serão mudadas, seu relacionamento com as coisas e pessoas será automaticamente e inevitavelmente mudado, de acordo com a necessidade e exigência de sua consciência-alma.

OS PASSOS DA ALMA

O indivíduo humano é um ser muito complexo; ele é composto de inúmeros

elementos, cada um sendo uma entidade independente, quase com uma perso- nalidade. Não apenas isso, os mais contraditórios elementos convivem juntos. Se houver uma qualidade particular ou uma capacidade presente, a própria opo- sição dela, como se fosse para anulá-la, será também encontrada a seu lado, envolvendo-a. Já vi um homem bravo, corajoso e heroico ao extremo, que não recuava diante de perigo algum, enfrentar corajosamente o perigo máximo, na verdade, o mais bravo dos bravos. E, no entanto, vi esse mesmo homem aco- vardado em terror ignóbil, como o último dos poltrões, em face a certas situa- ções. Vi o homem mais generoso gastando à larga e liberalmente, não contando qualquer despesa ou sacrifício, sem o menor cuidado ou reserva; a mesma pes- soa descobri ser também o mais vil dos avarentos em outras circunstâncias. Vi ainda a pessoa mais inteligente, de mente clara, cheia de luz e entendimento, compreendendo facilmente a lógica e a implicação de um tópico e, contudo, a vi evidenciando a estupidez extrema, de que mesmo o homem comum, sem edu- cação ou inteligência, seria incapaz. Estes não são exemplos teóricos, mas cruzei

realmente com tais pessoas na vida.

A complexidade apresenta-se não apenas em extensão, mas também em

profundidade. O homem não vive em um plano único, mas em muitos planos ao mesmo tempo. Existe uma escala de gradação na consciência humana: quanto mais alto alguém se eleva na escala, tanto maior é o número de elementos ou

OS PASSOS DA ALMA

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personalidades que ele possui. Quer ele viva principalmente no físico ou no vital, ou no plano mental ou em qualquer seção particular destes planos, ou nos pla- nos acima ou além, de acordo com isso existirão diferenças na constituição ou construção psicofísica da personalidade individual. Quanto mais alto se eleva, tanto mais rica é a personalidade, porque ela vive não apenas no seu próprio nível normal, bem como em todos os que estão abaixo, aos quais transcendeu. O homem completo ou integral, dizem alguns ocultistas, possui 365 personali- dades; na verdade podem ser muito mais (os Vedas falam de 3’033’033’000 deuses que podem estar alojados no veículo humano os três básicos sendo evidentemente o status triplo ou o mundo do Corpo, Vida e Mente).

Qual o significado desta autocontradição, desta divisão no homem? Para compreender isto devemos conhecer e lembrar que cada pessoa representa uma certa capacidade ou qualidade, uma realização particular a ser corporifica- da. Qual a melhor maneira de se conseguir isto? Qual é o modo pelo qual se pode adquirir uma qualidade na sua maior perfeição, sua maior pureza e no mais alto grau? E colocando-se uma oposição a ela. É assim que um poder é aumentado e fortalecido lutando contra e conquistando tudo que o enfra- quece e o contradiz. As deficiências a respeito de uma qualidade particular mos- tram-lhe onde você deve consertar e reforçar e qual o modo de melhorá-la a fim de torná-la rigorosamente perfeita. É o martelo que malha o ferro frágil e mole, para transformá-lo em aço duro. A discordância é útil e necessária, para ser utili- zada a fim de se conseguir uma harmonia mais elevada. Há o segredo do auto- conflito no homem. Você é mais fraco exatamente neste elemento que está des- tinado a ser a sua maior conquista.

Cada homem tem, então, uma missão a cumprir, um papel a desempenhar no universo; uma parte que lhe foi dada para aprender e ocupar no Propósito cósmico, que somente ele é capaz de executar e nenhum outro. Isso ele tem que aprender e conquistar através de experiências-vida, quer dizer, não em uma vida única, mas em vida após vida. De fato, este é o significado da cadeia de vidas que o indivíduo tem que atravessar, isto é, para adquirir experiências e recolher delas o fio da meada de qualidades e atributos, poderes e capacidades para o modelo de vida que ele tem que tecer. Bem, o ser mais profundo, a ver- dadeira personalidade, a consciência central do indivíduo que evolui, é o seu ser psíquico. É como se fosse uma minúscula partícula de luz situada muito, muito atrás das experiências, nas pessoas normais. Em almas adultas, a consciência psíquica tem uma luz acrescida, aumentada em intensidade, volume e riqueza. Assim, existem almas velhas e novas. Velhas e antigas são aquelas que alcança- ram ou estão para alcançar plenitude da perfeição; elas vieram através de um longo passado de vidas incontáveis e desenvolveram uma personalidade mais

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PARTE VI

complexa e, contudo, mais integrada. Almas novas são aquelas que são recém- emergidas ou estão emergindo da mera existência físico-vital; estas são como organismos simples, feitas de poucos componentes, relacionando-se geralmente com a vida corporal, com apenas um mínimo do mental. É a alma, entretanto, que cresce através de experiências e é a alma que constrói e enriquece a perso- nalidade. Qualquer porção da vida exterior, qualquer elemento na mente ou no vital ou no corpo que entrar em contato com a consciência psíquica, quer dizer, que for capaz de sofrer sua influência, é absorvido e lá abrigado: ele permanece no ser psíquico como sua memória viva e aquisição permanente. São esses ele- mentos que formam a base, o campo de trabalho sobre o qual a estrutura de personalidade verdadeira e integral é levantada.

A primeira coisa, então, a fazer é descobrir o que você quer realizar, qual o papel que você tem que desempenhar, sua missão particular e a capacidade ou qualidade que você tem que expressar. Você tem que descobrir isto e também o que se lhes opõem ou não permite seu florescimento ou que cheguem a plena manifestação. Em outras palavras, você tem que se conhecer, reconhecer sua alma ou ser psíquico.

Para isso você tem que ser absolutamente sincero e imparcial. Você deve se observar como se estivesse observando e criticando uma terceira pessoa. Você não deve começar com a ideia de que isso é a missão de sua vida, de que essa é sua capacidade particular, que vai fazer isto ou tem que fazer aquilo, que nisso está seu talento ou gênio, etc. Isto levá-lo-á para longe de sua verdadeira trilha. Não é o gostar ou desgostar de seu exterior, sua escolha mental ou vital ou física que determina a verdadeira linha de seu crescimento. Nem deveria você assu- mir a atitude oposta e dizer: "Eu não sirvo para nada neste assunto, sou inútil naquele outro, isso não é para mim". Nem vaidade, arrogância, autodepreciação ou falsa modéstia deveriam movê-lo. Como disse, você deve ser absolutamente imparcial e despreocupado. Você deveria ser como um espelho que reflete a verdade e não julga.

Se você for capaz de conservar essa atitude, se tiver esta tranquilidade e calma confiança no seu ser e esperar pelo que lhe possa ser revelado, então é provável que alguma coisa aconteça. É como se você estivesse em uma floresta escura e silenciosa. Você vê à sua frente um lençol de água escura e parada, apenas visível, um pedaço de charco mergulhado na escuridão, sobre o qual incide um raio de luar e na luz fria e tênue emerge a superfície líquida e calma. Assim é como a sua secreta verdade de ser aparecer-lhe-á e se lhe apresentará ao primeiro contato com ela; ali você verá gradualmente refletidas as verdadei-

A EXPANSÃO DA CONSCIÊNCIA DO CORPO

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ras qualidades de seu ser, os vestígios de sua personalidade divina, o que você realmente é e o que tenciona ser.

Aquele que assim se conheceu e se possuiu, conquistando toda oposição dentro de si, por causa disso, estendeu-se a si mesmo e à sua conquista, tornan- do mais fácil para outros alcançar conquista igual ou semelhante. Estes são os pioneiros ou a elite que, por sua campanha vitoriosa dentro de si, ajudam outros em direção à vitória deles.

A EXPANSÃO DA CONSCIÊNCIA DO CORPO

O campo de nossa atividade física é muito limitado. Se você examiná-lo mais de perto, descobrirá que é, na verdade, extremamente estreito e nossas capaci- dades estão confinadas dentro de um pequeno círculo. Somos limitados pelo contorno de nosso corpo material. Não posso, por exemplo, estar sentada em meu quarto e ao mesmo tempo fazer ginástica no pátio. Se você quiser fazer uma coisa, não pode fazer outra. Se você estiver num lugar, não pode estar em outro simultaneamente. Como seria conveniente se, enquanto estivesse escre- vendo à escrivaninha, pudesse pegar um livro para consulta diretamente da pra- teleira distante, sem mover-me ou pedir ajuda de alguém! Contudo, é a coisa assim tão impossível? Sabemos, por exemplo, das coisas extraordinárias pelo menos estranhas que acontecem nas chamadas "sessões espíritas", coisas que não podem ser explicadas pelo funcionamento normal dos sentidos físicos e que o são pela intervenção do mundo do espírito. Na realidade, entretanto, espíritos ou fantasmas têm, em geral, muito pouco a ver com isso. Não é a ação de seres desencarnados, mas de energias humanas normais especialmente o vital ou energia-vida libertas do controle do corpo e trabalhando independen- temente. Um exemplo, um fato verdadeiro que aconteceu, ilustrará melhor o que quero dizer.

Um jovem, em Paris, um funcionário de uma estação ferroviária, costumava receber de tempos em tempos, a visita de sua noiva, acompanhada da mãe. Um dia ele aguardava-as e esperava pela hora do trem; elas viriam de trem. Enquan- to estava ocupado com o trabalho à sua mesa, perto da hora marcada, as pes- soas à sua volta viram-no de repente, inclinar a cabeça para a frente, dar um gri- to e depois apoiá-la sobre a mesa; ficou inconsciente. Nesse entretempo acon- teceu um terrível desastre com o trem em que as duas mulheres viajavam. O trem ficou estraçalhado e todos os passageiros ou morreram ou ficaram grave- mente feridos. Mas, curioso dizer, a jovem, a noiva, foi encontrada viva e quase ilesa, no meio dos destroços, dentro de uma espécie de cobertura feita por uma trave caída que estava atravessada sobre ela. Puxada para fora, apresentava

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PARTE VI

apenas algumas escoriações no corpo. Agora, vejamos a versão do jovem sobre

o acontecimento. Ele disse que, enquanto trabalhava à mesa, de repente ouviu

a voz de sua noiva gritando por socorro e viu, num lampejo, por assim dizer, a

situação em que ela se encontrava. Precipitou-se para fora, não fisicamente, é verdade, correu e jogou-se sobre o corpo da noiva para resguardá-la. Era a única coisa que poderia fazer para protegê-la, como de fato aconteceu. Na realidade, ele não saiu fora do corpo, porque se o tivesse feito não teria sido nenhuma uti- lidade. O que saiu dele foi seu corpo vital, uma formação daquela energia-vida que está mais próxima ao corpo e que é tão concreta quanto a energia física, mas muito mais poderosa e efetiva. Este poder vital, concentrado e projetado para fora, agiu como um verdadeiro escudo sobre a mulher. O próprio jovem, curioso dizer, trazia sinais de escoriações na cabeça, como se um enorme peso tivesse caído sobre ela. Um impacto forte sobre o vital pode e deixa cicatrizes sobre o corpo material. Não é um fenômeno incomum. Dizem que muitos san-

tos cristãos (São Francisco de Assis, por exemplo) apresentavam no corpo as marcas, os estigmas da crucificação do corpo de Cristo. Ramakrishna também, dizem, uma vez mostrou marcas de escoriações nas costas quando um menino foi chicoteado na sua presença.

Tudo isso significa que o corpo físico não é o único meio de ação do homem no mundo físico. O físico estende-se e expande-se em modos de atividade cada vez mais sutis e, contudo, efetivos por essa mesma razão. Por trás do físico está

o físico sutil, atrás do qual está o físico vital e as várias gradações do vital. Na verdade, o vital ou energia-vida, como um todo é o dinamismo real de todas as nossas atividades físicas e, se ele usualmente age através dos instrumentos do corpo, pode agir independentemente deles também. De modo geral e frequen- temente, ele age deste modo, só que não somos suficientemente conscientes ou observadores para notar. Uma concentração consciente da energia vital diri- gida sobre um objeto material pode lidar com ele com a efetividade da energia material. Quando necessita de condições físicas, ela as cria como a energia pro- tetora vital do jovem criou a disposição física dos objetos que formaram uma cobertura para a moça.

No caso presente, o fenômeno aconteceu automaticamente, sem nenhuma premeditação por parte das pessoas envolvidas. Porque a simpatia entre os dois era muito forte, outras considerações não entraram em jogo. Desnecessário dizer que, se desejamos obter um domínio consciente sobre este poder oculto, devemos nos submeter a uma longa e árdua disciplina. Mas, se difícil, a coisa não é impossível. Com relação a feitos físicos, por exemplo, um desenvolvimen- to determinado pode parecer, no momento, além de seu alcance; mas com prá- tica e perseverança, vontade obstinada e orientação sábia, você pode não ape-

O CORPO, O AGENTE OCULTO

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nas alcançar seu fim imediato, mas fazer muito mais. A história de muitos que quebraram recordes olímpicos comprova isso. Do mesmo modo, pode-se domi- nar as forças sutis, se se fizer a coisa honestamente e da maneira certa. É mais difícil muito mais talvez mas o caminho está aí, desde que a vontade tam- bém esteja.

O CORPO, O AGENTE OCULTO

O corpo tem uma individualidade própria. É uma formação organizada e age como um todo em cada uma de suas partes. O corpo humano é essa formação por excelência, pois é movido e controlado pela consciência que o protege ou o informa, que é sua orientadora, cuja vontade ele executa escrupulosamente.

O corpo é um epítome do mundo. Abriga em sua moldura o mundo inteiro, particularmente a terra sendo a própria terra um epítome do mundo numa escala em miniatura, o mikros reproduzindo todos os traços e caracteres do makros.

Sendo assim, um corpo totalmente consciente, governado e inspirado pela Consciência Suprema, vive e move-se no ritmo cósmico. Não somente registra em si os acontecimentos do mundo, mas também possui um poder ativo para controlar e até mesmo mudar esses acontecimentos por seu movimento indivi- dual. Podemos imaginar o corpo como se fosse uma espécie de mapa ou carta da terra. Cada lugar na terra é representado por um lugar específico, um certo grupo de células no corpo, por exemplo. Se a consciência que rege o corpo con- centrar-se sobre aquele ponto e induzir lá uma mudança, uma mudança corres- pondente pode resultar automaticamente, em escala maior, na parte e condi- ções da terra com a qual está ligado. Assim, sem sair ou mover-se, sem ser o "homem no local da cena" para saber as coisas "em primeira mão", pode-se, sentado em seu quarto, ligando uma chave, por assim dizer, num canto do cor- po, colocar em movimento um processo completo de acontecimentos numa região particular da terra. Através de uma redisposição consciente de umas poucas células no seu corpo, você pode produzir uma mudança desejada nas circunstâncias do mundo. Assim, o corpo é a sala de controle da consciência em relação aos acontecimentos na terra. Naturalmente, nem todo corpo pode fazê- lo, somente um corpo destinado e treinado para esse propósito.

Um corpo torna-se, desta forma, um instrumento, uma alavanca para pro- duzir mudanças e criações poderosas na terra. Esta concepção da potência ocul- ta do corpo é a base do ritual ou instituição do sacrifício, que era a feição carac- terística da sociedade de antigamente. Ifigênia foi oferecida em holocausto para

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PARTE VI

evitar a ira dos deuses e trazer vitória aos gregos. Algumas vezes, um animal substituía a vítima humana e servia ao mesmo propósito e do mesmo modo. E num sentido mais elevado, realmente num sentido mais alto, um corpo pode sacrificar-se de tal modo total e integralmente para produzir uma reversão ou reavaliação integral correspondente no mundo físico. Um corpo humano que faz de si um holocausto, que se oferece no altar do Divino, não guardando nada para si, vivendo para o Divino apenas, chamando para dentro de si a vontade divina, traz também para a vida da terra uma presença e transformação divinas. Um total sacrifício físico resulta inevitavelmente numa total expressão e incor- poração do Divino ao mundo físico.

A REALIZAÇÃO INTEGRAL

Infindáveis são os caminhos para o Divino. Cada um, seguido até o fim com sinceridade, honestidade e persistência, leva ao mesmo alvo. Bem, se o fim fos- se unicamente alcançar as alturas supremas, o ponto além, o Deus transcenden- te, e estabelecer-se lá, qualquer linha seria inteiramente suficiente para esse propósito. E mesmo se diversas ou todas fossem experimentadas, como Ramak- rishna fez, isto seria apenas para provar o fato e encorajar a todos a palmilhar seu próprio caminho, e não ficar desencorajados se outros não o aprovarem ou mesmo o negarem. No máximo, seria uma experiência mais rica no sentido de que a mesma verdade fosse testada e apreciada de vários modos.

Mas tal não é o caráter do Yoga Integral ou Supramental. Este Yoga não visa dar um pontapé na escada da existência, uma vez que se esteja lá em cima, além. Procura integrar o Além e o Aqui-Embaixo, fazer do mundano uma expres- são e encorporamento do Espírito. Assim sendo, as tentativas de aproximação em direção ao Divino não são meras verdades provisórias, mas facetas de uma realidade total orgânica encarnando a consciência divina em uma vida divina.

Nos outros métodos que levam a uma fuga, você alcança um estado em que fica feliz e satisfeito, sente que atingiu o mais alto, o máximo que vale a pena alcançar e não necessita avançar ou procurar por nada mais. O yogue integral não fica preso a uma única experiência. Ver-se-á sempre fugindo do status já alcançado, não importa quão elevado seja, e explorando além. Mesmo que ten- te repetir uma experiência que tenha apreciado e considere válido repeti-la e tente os passos usuais para recobrá-la, poderá descobrir que, em vez da expe- riência desejada, foi-lhe dada uma completamente nova.

O problema para ele não é rejeitar ou minimizar qualquer experiência, ou apegar-se a alguma como a mais valiosa, mas abraçá-las todas e colocá-las jun-

SEMPRE VERDE

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tas, fazer delas uma síntese. Esta síntese é o verdadeiro caráter do Yoga Integral.

E pode ser alcançada unicamente elevando-se além das experiências dadas para

a síntese. Só um elevado equilíbrio de consciência pode encontrar o ponto de

união entre os diferentes elementos e a função e o papel de cada um na harmo- nia composta. O status supra-mental é o centro sintético mais alto; aí, todas as

experiências e realizações elevam-se até sua realidade original e verdadeira e acham sua perfeita expressão.

SEMPRE VERDE

Quando você tem uma experiência interior, sua tendência natural é repeti-la

e repeti-la, seguir pelo mesmo caminho e do mesmo modo. Em meditação, por

exemplo, você se abstrai dos contatos exteriores e entra num estado que se lhe tornou familiar, que o agradou e que considera suficientemente elevado, um equilíbrio recomendável de consciência. Assim, todas as vezes que se senta para meditar, automaticamente você segue a mesma trilha habitual, sem nenhum esforço, e lá permanece o tempo que lhe é conveniente. Evidentemente, a experiência tornou-se um hábito, isto é, mecânica e sem vida, mas você se tor- nou tão inconsciente que não o percebe. Isto significa que não há mais progres- so, que você se fechou numa caixa trancada, por assim dizer. E pode continuar a proceder deste modo durante a vida inteira, que não avançará um único passo; ao contrário, poderá até regredir.

O grande segredo do progresso e também de uma permanente juventude é sentir a cada momento que você está justamente começando sua vida e sua experiência de vida. Comece sempre de novo. Mesmo que você trilhe o mesmo caminho e pareça andar na mesma direção, pela centésima vez, você deve sentir como se fosse a primeira vez que empreendesse a jornada, como se fosse sua tentativa virgem em direção a uma nova descoberta. Esqueça-se de todas as ideias passadas, noções, experiências que se amontoam em sua mente; varra para sempre toda a poeira acumulada que obstrui seu cérebro. Torne sua cons- ciência limpa e clara como a de um bebê recém-nascido, tudo em linha reta, sem nenhuma das circunvoluções e rugas de um cérebro envelhecido. Você entrará em contato com o mundo e com as coisas em toda simplicidade e espontaneidade de uma consciência pura, e o mundo e as coisas sempre lhe apresentarão sua maravilha e beleza e verdade sem fim.

Todas as vezes que você se interiorizar para buscar equilíbrio, não procure por conhecimentos antigos, por experiências familiares, não carregue nas costas

o fardo do passado, mas prossiga como se fosse uma trilha virgem, fazendo des- cobertas totalmente novas e abrindo perspectivas inesperadas a cada passo.

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PARTE VI

Você poderá fazer até uma experiência com seu corpo físico, isto é, levar sua consciência física a partilhar também de sua aventura de descobertas sempre novas. Então você pode, por exemplo, esquecer seu hábito de comer ou mesmo andar, verdadeiramente esquecer e tentar aprender uma vez mais, assim como fez pela primeira vez quando criança. Você deve conquistar conscientemente uma capacidade do corpo, que se tenha tornado quase uma ação reflexa incons- ciente. É uma experiência maravilhosa e estimulante. Naturalmente você não pode repetir como frequência, ou levar muito longe uma experiência desta espécie, no plano físico. Mas pode relacionar-se livremente com sua vida e consciência interiores. Você pode fazer de sua mente e de seu vital uma lousa limpa, tanto quanto quiser, não apenas uma vez na vida, mas a cada momento. Que descobertas e novas aberturas lhe chegam continuamente, quando você constata as pressões exercidas pelo mundo exterior sobre sua consciência! Pode sempre livrar-se das vibrações costumeiras nos níveis normais de sua existência,

o físico, o vital e o mental; e mesmo, ir além de sua formação psíquica e ser o

amplo, o vasto, o ilimitado, o próprio Infinito, vazio de todo nome e forma. E assim, com essa consciência virgem, cair direto dentro do mundo de vida e for-

ma materiais, dentro de seu corpo e reações corpóreas. O mundo entregar-se-á

a você em sua pureza prístina, sua beleza e verdade originais, sempre luminosas

e gloriosas. Esta experiência deve ser a maneira normal de seu viver, não sim- plesmente a culminância ou acme de seu ser, um status fixo e estagnado, mes- mo se for considerado o mais elevado, o summum bonum. É assim que você pode conservar-se, e ao mundo ao redor, sempre vivificado e jovem e novo.

Geralmente o pregador que fala a verdade e a transmite a seus ouvintes, só tem sucesso na primeira vez ou em algumas primeiras ocasiões, quando ele sen- te a verdade de sua verdade e é sincero quando a está transmitindo. Mas com o passar do tempo, sua verdade também se esvai, pois se torna estereotipada, um mero hábito. A experiência não é mais vivida, mas mecanicamente distribuída. Você é sincero unicamente quando a experiência é nova, louçã e viva; isso deve- ria ser sempre feito, a todo momento, de outro modo é letra morta, letra que destrói.

Esse é o segredo da vida espiritual e mesmo da vida normal. Para conservá- la sempre verde, você pode saber como derramar sobre ela um fluxo contínuo de nova seiva. Olhe para si mesmo, olhe para o mundo sempre com olhos reno-

vados, nunca sobrecarregados ou obscurecidos pelos padrões que experiências

e aquisições passadas recolheram. Desaprenda o passado, comece sempre do

começo, como um principiante cada momento, um impacto revigorado, uma nova revelação, uma abertura inesperada. Assim é que a vida permanece sem- pre jovem e sempre progressiva.

UMA PÁGINA DE HISTÓRIA OCULTA

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UMA PÁGINA DE HISTÓRIA OCULTA

No começo da criação, quatro formações individuais as primeiras perso- nalidades fizeram seu aparecimento. Eram: 1) um Ser de Luz ou Consciência, 2) um Ser de Verdade ou Realidade, 3) um Ser de Amor ou Ananda e 4) um Ser de Vida. E a primeira lei da criação foi a liberdade de decisão. Estes seres eram manifestações dentro do movimento livre do Divino; eles próprios moviam-se livres, segundo sua vontade individualizada. Salientavam-se, como num ousado relevo, no cenário da Existência Divina. Pois originalmente, embora diferencia- dos entre si e o Divino, formavam contudo uma harmonia unificada e viviam e se moviam e tinham seu ser como se fossem membros diferentes do mesmo Corpo Divino. No princípio eles se salientaram, mas ainda ligados aparente e essencialmente à sua fonte e origem. Bem cedo, porém, desligaram-se do Divi- no, afastaram-se Dele, para longe, desvinculados, procurando realizar sua von- tade e destino individualizados. O Divino não impôs sua vontade ou forçou a estas individualidades que voltassem, porque frustraria o verdadeiro propósito da criação. Ele permitiu que estes seres independentes desfrutassem sua com- pleta independência, apesar de terem nascido dele e serem uma parte essencial e uma parcela de seu próprio ser. Partiram para uma viagem de aventura, cada um escolhendo sua própria linha de crescimento e realização. Os primeiros fru- tos, a inevitável reação de liberdade, foi precisamente, como foi dito, a separa- ção do Divino, cada um circundado por seu ego, limitado e confinado às suas próprias reservas de potência: individualismo significa limitação. Então, uma vez separados, a conexão com a fonte rompeu-se, quer dizer, na atividade aparente, no movimento dinâmico ou no tornar-se (não no ser essencial) e os Quatro Independentes degeneraram aos poucos em seus opostos: a Luz tornou-se Escu- ridão, isto é, a consciência em inconsciência, a Verdade tornou-se Falsidade, o Deleite tornou-se Dor e Sofrimento, e a Vida tornou-se Morte. Foi assim que os quatro princípios não divinos, os Poderes do Não Divino começaram a reinar e a moldar a criação material.

Dentro do coração desta Escuridão e Falsidade e Dor e Morte, uma semente foi plantada, um grão que é para ser o epítome e o símbolo da criação material e no qual e através do qual o Divino reclamará de volta todos os elementos extra- viados, os pródigos que retornarão para reconhecer e realizar o Divino. Era a Terra. E a terra, por sua vez, em seu labor em direção à Realização Divina, lan- çou fora de seu seio, um ser que outra vez simbolizaria e sintetizaria a terra e a criação material. Ele é o homem. Pois o homem veio com uma alma dentro de si, o Ser Psíquico, a Flama Divina, a centelha de consciência no meio da incons- ciência universal, uma miniatura da Luz-Verdade-Amor-Vida Divinas originais. Entrementes, para ajudar a evolução, para dar as mãos à alma aspirante no ser

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PARTE VI

humano, foi criada, por causa da rebelião dos Primeiros Senhores (a Quaterni- dade Asúrica), uma segunda hierarquia de seres luminosos, os Devas, os deuses. (Alguma coisa desta história interior do mundo está representada na lenda Gre- ga da luta entre os Titãs e os Olimpienses). Estes deuses, contudo, sendo uma criação posterior, talvez por serem mais jovens e inexperientes, não podiam de imediato competir em pé de igualdade com seus antepassados mais fortes. É por isso que vemos nas lendas mitológicas, os deuses muitas vezes derrotados pelas mãos dos Asuras, Indra escondendo-se em baixo do mar, Zeus ameaçado frequentemente pela derrota e desastre. Era apenas a intervenção do Supremo (os Gregos chamavam a isto de Destino) que os salvava no fim e restaurava o equilíbrio.

Contudo, os Asuras mudaram de ideia a respeito do jogo e consentiram em usar sua liberdade a favor do Divino, para o cumprimento do Divino, quer dizer, concordaram em se converter. Então, aceitaram nascer como seres humanos ou neles, para assim poder entrar em contato com a alma humana Psique que é a única porta ou passagem para o Divino neste mundo material. Mas a ques- tão não era fácil; o processo não era direto. Pois, mesmo concordando em ser convertidos, mesmo aquecendo-se ao sol brilhante da psique humana, estes antepassados incorrigíveis não podiam esquecer ou desistir completamente de seus velhos hábitos e natureza. Eles agora queriam trabalhar para a Realização Divina, para engrandecer-se desse modo; consentiram em servir ao divino, para fazer o Divino servi-los, utilizar o Desígnio Divino, para seus próprios propósitos. Queriam ver a nova criação, segundo os desejos de seus próprios corações.

Foi assim que as coisas se tornaram difíceis sobre a terra e estão atrasando a consumação final que, entretanto, virá a seu tempo, quando a roda do Tempo ou do Destino tiver fechado seu círculo completo.

MUDANÇA DIRIGIDA

Nunca ficar preso às experiências do passado, nunca experimentar recuperar e ficar apegado ao conhecimento ou realização adquiridos, mesmo que possam parecer particularmente inestimáveis ou únicos. Este é o lema que deveria estar sempre presente diante de sua mente. Quando você tenta repetir o que disse uma vez, ou fez, ou experimentou, descobrirá logo que a coisa vai se tornando cada vez mais sem vida, mecânica, rotineira, e por conseguinte, completamente inútil. A alma desapareceu, o esqueleto continua. Você deve viver a palavra que profere no momento que a está proferindo; você deve viver a experiência que quer se lembrar ou expressar. Só assim a verdade se torna viva; só assim possui força e luz e ganha seu pleno valor.

MUDANÇA DIRIGIDA

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Na verdade, entretanto, não existem dois movimentos sucessivos que sejam os mesmos, quer em sua consciência ou no movimento do mundo. Mesmo que você tente séria e sinceramente, não poderá nunca trazer de volta uma coisa do passado como ela era ou como lhe aconteceu, quer dizer, não exatamente da mesma maneira. Porque você não é mais o mesmo, nem o mundo. O mundo é um fluxo contínuo, foi declarado muitas vezes, mas não é uma repetição ou recorrência contínua ou uma ordem meramente cíclica. Por outro lado, renova- ção constante é o verdadeiro caráter da mudança. A todo momento algo novo está descendo no cenário, algo que ali não estava, pulsa de repente. A Natureza exibe a cada passo alguma coisa que estava escondida ou latente nas suas pro- fundezas secretas, algo que é pingado de cima no seu movimento normal, algo imprevisto e inesperado. A marcha do tempo significa evolução, quer dizer, a adição de um novo fator aos fatores existentes, fazendo manifesto algo que era imanifesto "mrtam kancana bodhayanti," como diz o Rishi Védico. Mesmo que à aparente visão tudo pareça continuar o mesmo, contudo não é assim na reali- dade; sempre um novo elemento está sendo derramado dentro das circunstân- cias existentes, sempre uma centelha adicional ou influência entra no drama atual de forças. É a pressão acumulada de todas as variáveis que acarreta as grandes mudanças sobre a terra e na humanidade, e que são resumidas na pala- vra evolução mudanças cosmológicas e psicológicas.

Você tem que aceitar este princípio de mudança e continuar, para ser uno com o espírito cósmico, e nunca ficar parado ou voltar atrás, mas olhar para frente e avançar. Ficar estagnado significa morrer e tornar-se fossilizado. Assim, se as coisas mudam continuamente, significa que as coisas podem mudar e devem ser mudadas. Só que se deve ver em que direção a mudança ocorre. Uma mudança pode ser, afinal, para melhor ou para pior. E você tem o poder, se esti- ver consciente e com a consciência certa, de dirigir a mudança ou mesmo iniciar uma que seja da ordem certa. Você já escalou um morro? Existem vários modos, caminhos e saídas que levam ao topo, alguns mais ou menos diretos, alguns em zigue zague, outros serpenteantes ou fazendo uma longa curva. Não importa, desde que olhe para cima e tenha o senso da direção para o cume, você poderá então escalar. Caso contrário, se tiver seu rosto virado para baixo ou olhar Para baixo, você se dirigirá para baixo, afastando-se do topo. Da mesma forma, as mudanças que ocorrem serão dirigidas de acordo com a direção de seu olhar. E existe apenas uma direção para onde você deve volver seu olhar: em direção ao cume, em direção ao objetivo mais elevado. E crescer consciente, crescer cada vez mais consciente, ser consciente de si, ser consciente do universo e ser cons- ciente do Divino que mora em você e permeia o mundo e assim manifestar o Divino na sua vida física e na vida física no mundo.

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PARTE VI

O VALOR DA GINÁSTICA MENTAL OU OUTRA QUALQUER

A atividade intelectual é uma espécie de ginástica. Qual o valor da ginástica física? Desenvolver os músculos, torná-los fortes, flexíveis e ágeis. Mas simples- mente desenvolvê-los, fazê-los crescer tanto quanto possível ou ter prazer num mero corpo musculoso não é o ideal e antes frustra o verdadeiro objetivo da ginástica. O propósito é desenvolver, fortificar, modelar todos os membros do corpo e organizá-los e harmonizá-los num todo belo e capaz. Um determinado exercício não deve ser permitido pelo seu próprio valor: toda energia do corpo é voltada para isso apenas e toda atenção devotada a essa única coisa. Uma con- centração exclusiva sobre uma só atividade física não favorece a capacidade total do corpo. É para este fim, para a plenitude do potencial do corpo que a cul- tura dos membros do corpo deve ser dirigida. Da mesma forma, a cultura men- tal o poder de pensar, raciocinar, argumentar tem seu valor com relação à cultura total da mente e da consciência. Há regiões mais altas de consciência além do alcance do intelecto; e você deve parar toda atividade intelectual, fazer em sua mente um vazio total, antes que possa chegar lá. E indulgência, mesmo a respeito das chamadas especulações elevadas ou, filosóficas, pode apenas blo- quear o caminho para a consciência e conhecimento verdadeiros. Todavia, você não pode descuidar-se das faculdades intelectuais ou não desenvolvê-las sob o pretexto de que algo mais alto é necessário.

No corpo físico não precisa que seu ideal seja tornar-se um "homem- músculo". Entretanto você não gostaria de ter membros frágeis, mal desenvol- vidos e raquíticos, que fossem fracos e desproporcionados. Com relação a seu corpo mental também, não seria de nenhuma utilidade ter uma mente ou um intelecto que fosse incapaz de pensar com energia, convicção e clareza. E preju- dicial quando você se dedica à ginástica mental apenas por ela mesma, dispon- do-se a acrobacias exclusivamente intelectuais discussões, disputas, sofismas verbais etc. etc. Isso resulta em crescimento desproporcionado. Mas o desen- volvimento da mente, mesmo da mente lógica, pode e deve fazer parte do desenvolvimento integral, deve alcançar sua forma, estrutura e força verdadei- ras, como finalidade e auxílio em direção de uma expressão, no seu próprio campo, da divindade, a consciência mais rica e mais alta no homem. Assim tam- bém, o corpo deve expressar e tornar concretos a beleza e o vigor supremos do ser perfeito.

O SILÊNCIO MENTAL

Normalmente a mente está agitada, está ansiosamente ativa. Antes de tudo, está preocupada com seus problemas e quer sua solução. Sabe apenas pensar,

O SILÊNCIO MENTAL

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ver os prós e os contras, pesar, raciocinar, deduzir; chega a uma espécie de con- clusão que leva ao sucesso ou ao fracasso, quase por acaso. Aparte desta ativi- dade consciente ou voluntária', existe na mente uma região inteira de atividades involuntárias, quer dizer, ela é assaltada, por todos os lados, por centenas de pensamentos, ideias e noções Que vêm de fora e enchem sua cavidade cerebral

e sobre as quais você não tem nenhum controle. Cada qual experimenta empur-

rar para frente, assegurar um lugar para si, clamar por satisfação e realização.

Estão todos excitados por propósitos contrários e a mente não conhece paz ou alternativa.

É possível colocar uma pressão violenta sobre si mesmo e expulsar à força

todo este movimento confuso e tornar a mente vazia. Mas o efeito da vontade mental sobre a mente não pode ser perfeito ou duradouro. Ademais não é isso,

o vazio absoluto, que é nosso alvo. Um outro modo ou jeito tem que ser encon- trado para aquietar as atividades da mente.

É chamar para dentro a paz que está além, que já existe lá em algum lugar.

Acontece por uma sincera insistência ou aspiração na consciência, uma certa

disponibilidade no ser. Quando isso sucede (algo da maneira do Upanishadico vivṛṇute tanun svām ele revela a si mesmo seu próprio corpo), você sente como se houvesse um completo branco, mesmo como se um vazio negro o hou- vesse penetrado e aprisionado. Até no meio do turbilhão das atividades, vem uma parada repentina. Não há nada lá, agora, nenhuma ideia, nenhum pensa- mento, nenhuma noção, nenhum movimento mesmo um imenso vazio devo- rou e engolfou tudo. Fique firme e espere. Nesta quietude, alguma coisa se ergue para cima, para cima e escapa para longe, um tranquilo raio de

consciência. E então algo desce, de longe uma paz, uma luminosidade, autên- tica e absoluta em sua realidade. Ela desce, penetra-o, apossa-se de seu cérebro

e de seu corpo. Você descobre que ela resolveu todos os problemas, harmoni-

zou todos os contrários e conflitos, porque vem do lar da verdade-mãe. Agora você não luta, mas conhece: você não tateia, porque é guiado. Você espera e a

cada momento recebe a direção quanto ao que deve ser feito; não tem nenhum pensamento ou preocupação, o movimento inspirado vem automática e infali- velmente.

Algumas vezes acontece também que o silêncio súbito ou imobilidade inte- rior causa um atordoamento e você é tomado pelo medo de estar ficando com- pletamente desorientado, de estar se tornando um absoluto idiota ou coisa pior. Alguns, em pânico, têm deixado escapar a graça que veio. Em tal condição deve- se ser firme, persistente, e continuar.

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PARTE VI

Disse que normalmente você é assaltado por toda sorte de pensamentos. Eles entram em seu cérebro, vindos de todo lugar, e exigem audiência e satisfa- ção. É necessário que os pensamentos entrem no cérebro para que as ações se tornem possíveis através deles, e lhes deem forma e moldura para sua ação. Mas, a dificuldade reside no fato de serem os pensamentos não apenas varia- dos, mas quase sempre contrários uns aos outros. Por isso vemos frequente- mente o homem agindo em direções opostas e contradizendo-se a cada passo. Assim está destinado a ser, se as portas da mente forem deixadas inteiramente abertas. Algumas vezes, contudo, em certas pessoas, um pensamento dominan-

te toma posse da mente e expulsa todos os outros. Nestes casos, quando uma

única ideia governa, é possível que a pessoa se amesquinhe, estreite-se e force o ser numa camisa de força para andar em uma trilha apertada. O ser, em sua totalidade, não encontra autoexpressão ou autorealização. Deste modo, você pode ter a ideia, a ideia fixa, de que o mundo é irrevogavelmente miserável e

incorrigível e, portanto, planejará naturalmente toda sua vida neste sentido, todas as suas ocupações e preocupações serão para fugir deste mundo, procurar uma solidão longínqua, interior e exterior, procurar livrar-se da existência e mergulhar no Transcendente ou no Vazio. Por outro lado, se você tiver a ideia de que, a despeito de todas as aparências contraditórias, o mundo é remediável

e regenerável, então sua vida toma um aspecto diferente. Você procurará

encontrar os caminhos e os meios para o remédio e saberá quais as possibilida- des de achá-lo.

Bem, o valor de uma ideia não pode ser determinado pela própria ideia. Usualmente ela é escolhida por causa de uma outra razão externa: a própria educação, o ambiente, o temperamento de cada um, gostos e antipatias têm uma grande influência em determinar a própria escolha. Assim, a primeira coisa que você tem a fazer, é não permitir que pensamentos venham em confusão, como e quando quiserem. Pensamentos devem vir apenas quando você os esco- lher e apenas aqueles que escolher. Deve haver uma seleção consciente. Como proceder neste trabalho? Como seus próprios pensamentos não podem esco- lher-se a si mesmos, o que você deve fazer, no início, é invocar uma direção mais elevada e colocar-se absolutamente imparcial e passivo em suas mãos. Um vazio é necessário, um branco, em algum lugar atrás, mesmo que ele não venha para ocupar a fronte também. Desista da escolha pessoal e espere pela Direção Mais Alta o Divino para fazer com você aquilo que Ele quiser. Propiciados o necessário silêncio e confiança, a decisão vem inevitavelmente e você é impul- sionado a fazer automaticamente o que é preciso ser feito, de momento para momento.

MENTE, ÓRGÃO DA CONSCIÊNCIA SEPARATIVA

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A princípio, você pode não tomar conhecimento do porquê e do para quê de

sua ação, você age meramente como um autômato, mas com um silêncio lumi- noso dentro e uma aspiração tranquila, assistindo. Uma vez treinado nesta doci- lidade inquestionável, então o conhecimento lhe será dado gradualmente, no início, apenas uns poucos passos à frente, mais tarde, uma perspectiva mais plena e completa.

MENTE, ÓRGÃO DA CONSCIÊNCIA SEPARATIVA

O mundo é uno, indissoluvelmente e solidamente uno: nenhuma parte pode

ser separada uma da outra. Qualquer ação, em qualquer lugar, afeta o todo e nada pode ser movido por um centésimo de milímetro, sem alterar 0 equilíbrio inteiro. Cada elemento literalmente vive, move-se e tem seu ser num outro e a

totalidade é uma massa rigidamente unificada.

Se assim é, então levanta-se uma dificuldade, um dilema. Se o mundo tem que progredir nestas circunstâncias, ele deve progredir como um todo, em mas- sa; ele não pode progredir aos pedaços. A totalidade deve avançar para que cada elemento possa progredir, e cada elemento deve avançar para que a tota- lidade possa progredir. Talvez isto seja o que está acontecendo presentemente no mundo, mas o resultado tem sido bastante vagaroso. Levará não apenas milênios, mas éons para que a humanidade possa fazer algum progresso digno de nota.

Contudo, não precisaria ser assim. O homem é solidamente uno com o uni- verso, é verdade, mas tem em si uma faculdade pela qual pode separar-se e iso- lar-se do resto do mundo. É o poder mental de autodivisão e dissociação. Atra- vés desta faculdade, o homem pode colocar o mundo de lado e fora de si (pelo menos por algum tempo), desligar-se dele e concentrar-se em seu próprio ser, sua verdade interior. Em outras palavras, fazer o progresso em si mesmo, tão rápido quanto possível, independentemente, sem esperar pelos outros ou pelo progresso do mundo, em qualquer grau. E então quando, por sua vez, tiver feito o progresso em si, alcançado um status mais elevado, ele pode retornar ao mundo, fazer valer a força de seu progresso e estabelecer um progresso mais amplo.

Este poder, que na consciência inferior humana aparece como mente ou dis- cernimento mental, é a imagem ou representação aqui em baixo daquela mes- ma força de consciência que originalmente separou o mundo do Divino, criou o ego e colocou-se como uma realidade objetiva contra si mesma. Era uma força de consciência divisória de concentração exclusiva que criou a brecha no status

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PARTE VI

original indiviso do Divino: foi isto que precipitou o mundo de negação, de igno- rância e de inconsciência para fora da Luz e Realidade supremas.

Um poder de contestação separou o mundo de sua fonte pura. Esse mesmo poder pode ser agora utilizado para o regresso, para a reintegração. O poder que se desligou do Divino é capaz de se desligar do mundo; a consciência que se afastou para longe do Divino Único, pode afastar-se também da Ignorância Múl- tipla. Assim como o elemento individualizado isolou-se da consciência indivisa do Divino, do mesmo modo, o elemento individualizado no homem pode man- ter-se afastado do ser unitário do mundo. Assim como desceu a escada de cons- ciência da luz suprema do espírito e alojou-se na mais baixa profundidade da matéria morta inconsciente, ele pode tomar o mesmo caminho no lado oposto, e da inconsciência elevar-se até a plenitude da luz original. A alma escolheu livremente a servidão, ela é livre também para escolher a liberdade outra vez! Isto é o que o Upanishad 17 que significar quando diz: "avidyayā mṛtuym tirtwā", "pela Ignorância ele deverá cruzar a morte".

O PESSOAL E O IMPESSOAL

Quando você se eleva em consciência até a origem das coisas, chega final- mente ao término de tudo: encontra-se além dos nomes e das formas que cons- troem o universo, além mesmo dos nomes e formas sutis.

Chega a algo sem forma, impessoal, inimaginável, único, infinito e eterno. É, quando muito, uma vasta força ou um estado de consciência. Quando entra em contato com isso, você perde sua forma pessoal, sua individualidade separada e torna-se o absoluto sem feições. Muitas religiões e filosofias consideram este o supremo status, o mais elevado e a origem das coisas. Na realidade, contudo, não é o fim das coisas, nem o supremo status. Você pode ainda elevar-se mais além. Sua consciência penetra no impessoal e sem forma, incorpora-se a ele e então emerge outra vez; ela contempla uma realidade que não é sem forma, mas tem uma forma, que não é impersonalidade, mas uma Pessoa, com a qual ou com quem você pode ter uma relação pessoal diferente da relação ou falta de relação com o Impessoal. Porém esta forma, além do sem forma, não é como as formas da consciência inferior: é a forma das formas. E não uma pessoa como um ser humano ou mesmo como um ser divino ou deus, mas uma Personalidade essencial, a Pessoa das pessoas. Não tem a limitação ou exclusividade da indivi- dualidade limitada pelo ego (mesmo os deuses são ego-limitados). Tem uma

17 Upanishad livro sagrado dos Hindus.

"NÃO TENHO NADA, NÃO SOU NADA"

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espécie de demarcação ou esboço definido que é reconhecido como o de uma Pessoa definida, mas não tem a fixidez ou dureza das formas inferiores.

E, no entanto, para chegar a esta Pessoa suprema, para entrar em contato com Ela, é necessário atravessar e ter a experiência do infinito impessoal e sem forma. Porque isso quebra os moldes inferiores, as formações egoístas estreitas, que são apenas aberrações ou imagens obscuras da verdadeira Pessoa.

De modo mais ou menos semelhante o vital, também, tem que proceder assim para transformar-se. Ele deve livrar-se de seus impulsos ignorantes e vio- lentos, suas formações obscuras: deve ser totalmente limpo e purificado. Para isso, deve aprender a ficar quieto e silencioso absolutamente imóvel e passi- vo, e nessa passividade tranquila, sentir, tornar-se consciente da Presença Divi- na, saturar-se dela. Quando isso acontecer, é preciso voltar e tomar parte na vida ativa. Normalmente, a tendência daqueles que, tendo se retirado para viver a tranquila vida interior, retornam à vida exterior, é reatar os velhos modos e reações costumeiras e recair nas antigas trilhas habituais de consciência. O vital deve então fazer a experiência e a realização da Divina Presença dinâmica para torná-la, assim, uma realidade viva; ele deve tornar-se consciente dela no meio de todas as atividades e não meramente no estado interiorizado. A energia do vital deve ser expressa num modo de viver completo e perfeito, sem contudo trilhar os velhos moldes e voltar aos costumeiros hábitos. Com o constante sen- so do Divino, com a sempre presente verdade e beleza da consciência Divina, o vital possuirá uma nova vida e criará um novo padrão de viver.

"NÃO TENHO NADA, NÃO SOU NADA"

Esse é um estado absolutamente comum. O sentimento de que estou fazen- do Yoga, de que sou algo e tenho um trabalho especial a fazer, de que alguma coisa tem que ser alcançada, de que a vida tem um propósito etc. etc., tudo isso acabou, deixando dentro um vazio e um vácuo e um autômato absolutamente mecânico por fora. Faço as coisas mais comuns da vida, como qualquer outro homem comum, como o trabalho de rotina de uma máquina; não sei nada e não tenho impulso de saber ou planejar o que deveria fazer, como devo andar ou porque tudo é como é. Uma grande tranquilidade e silêncio permeiam todo o ser. Não há nenhum eu, nenhuma pessoa a quem se referir na consciência: a individualidade foi totalmente abolida, um arremesso de universalidade passa através da consciência tornando-a, por assim dizer, uma terra de ninguém. A mente descarrega seu fardo e diz que está livre agora e obediente ao chamado que lhe vier. Também o vital se submete e espera a ordem: não tem inclinação própria ou escolha. O físico, do mesmo modo, torna-se totalmente dócil.

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PARTE VI

Este estado de vazio supremo e de passividade aproxima-se da experiência da ilusão a ilusão do mundo e a vaidade ou o vazio da vida. A criação parece uma concha vazia, sem nenhum sentido ou propósito e até mesmo sem a ver- dade real de existência. É um drama sombrio que não se apoia em nada e desa- parece no nada. Os grandes expoentes da Ilusão devem ter tido uma experiência desta espécie e assim consideraram que O NADA seria a última verdade e mistério da existência.

Agora quando todo o sentido de personalidade não apenas o sentido mas também o fato em si dissolveram-se totalmente, a voz do Divino Supremo foi ouvida e Seu impulso gravado. "As Preces e Meditações" daí em diante foram escritas através desse impulso; foi uma escrita verdadeiramente automática o instrumento não sabia o que estava escrevendo e até mesmo não entendia o significado das palavras registradas. Era meramente um copista, olhava para a escrita como uma terceira pessoa o faria.

Assim todo o ser, em todas suas partes agia como um agente que grava e transmite. Foi sob estas condições no ponto zero da personalidade e cons- ciência humanas que o instrumento, que por tanto tempo vivera aparte e por

trás, preocupado mais ou menos consigo próprio, foi levado à frente e assumiu

o trabalho que o Divino dele exigia. O recipiente estava completamente vazio, uma forma universal e transcendental começou, gradualmente, a plenificar-se com a própria vontade do Divino e suas formações.

AQUI OU EM OUTRO LUGAR

É fácil e agradável entrar dentro de si e numa consciência interior encontrar

e manter uma união, mesmo uma íntima união com o Divino. É por causa desse estado de paz e ventura que muitos, até mesmo a maioria que chega lá, não quer voltar para a vida normal na terra. E mestres, grandes e pequenos, quase

invariavelmente, ensinaram que afinal é melhor dessa forma, e talvez seja a úni- ca coisa a fazer sob este estado de coisas. Pois esta vida e esta terra significam o próprio oposto daquele céu interior e daquele bem maior. Mas a alguns não é dada esta solução agradável da dificuldade. A eles é pedido que voltem e vivam

a vida da terra. Não lhes é concedido permanecer aconchegados em um lugar

estreito para se ocupar apenas de si mesmos. Na verdade não é egoísmo mes-

quinho procurar somente a própria salvação? Quando alguém se salvou a si

próprio, não é seu dever o resultado e a implicação lógicos de sua liberdade pessoal que ele deva procurar ajudar outros a se salvarem? Essa era, de fato,

a atitude do Amitabha Buddha.

QUANDO A IMPERFEIÇÃO É MAIOR QUE A PERFEIÇÃO

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Uma casa está pegando fogo. Tem um telhado de piche. Pode-se facilmente entender a fúria do fogo. Alguns moradores que estavam presos conseguiram sair a tempo, embora um tanto machucados e queimados. Mas havia outros, algumas crianças deixadas no seu interior. Um daqueles que havia saído, corre novamente para dentro, através das chamas, num vai e vem, até que todos sejam salvos. Ficou gravemente queimado, arriscou a vida: ele não se importou porque não podia permanecer afastado a uma distância segura. Não podia se contentar em salvar-se, o que era certamente uma aquisição suficiente sob um aspecto. Esta alma tinha consciência de seu eu mais amplo.

Do mesmo modo, há almas que emergiram do fogo da vida terrena e estão gozando a segurança e proteção AOS céus; mas elas foram chamadas para voltar ao mundo, acrescentar à experiência da tranquilidade do alto a experiência da dificuldade aqui em baixo. Certamente isto aumenta o alcance de sua consciên- cia. Mas retornar a0 mundo significa também reentrar na ignorância, pois este mundo como ele é significa ignorância, não é nada senão ignorância. A missão, então, daquele que volta, é abraçar mais uma vez a ignorância, com a intenção de trazer para ela a luz e a ventura que ele alcançou lá em cima, o estofo do mundo atual com a substância da consciência superior. É um sacrifício exigido dele, devendo abandonar a felicidade eterna dos altos céus a ininterrupta união com o Divino acima para entrar nas profundezas "deste mundo grande e perigoso". Mas é um privilégio também trazer consolo aos aflitos, a luz trans- formadora às almas sombrias, a energia radiante à terra inerte. É um alto privi- légio pelo qual a alma luminosa fica grata: ela modestamente aceita essa dádiva da graça do Supremo. Aceita a Ignorância e oferece-a: deposita-a aos pés do Supremo para que possa ser transmutada em luz luz aqui em baixo. Sua pró- pria missão é a daquele de um modesto intermediário.

QUANDO A IMPERFEIÇÃO É MAIOR QUE A PERFEIÇÃO

Uma consciência aperfeiçoada atinge o mais alto status do ser quando é cheia de luz e deleite, paz e pureza, una com a Consciência Divina. Essa cons- ciência, quando desce à terra, na sua clareza original não misturada, vive como um elemento estranho e não tem real contato com o mundo; pode ter apenas uma influência indireta sobre os homens e as coisas. Se a Divina Consciência, Perfeita, tiver que ser verdadeiramente efetiva, tiver que mudar a natureza humana e do mundo, deve assumir, pelo menos parcialmente, esta natureza; deve partilhar da imperfeição da ignorância para assim poder mostrar como essa imperfeição pode ser trabalhada e transformada. O Divino tem que se tor- nar humano, mesmo o humano comum, em um sentido, no aspecto exterior instrumental, num grau maior ou menor, como for necessário, para que Ele pos-

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PARTE VI

sa entrar em contato vivo com a consciência obscura mais baixa e nela colocar Sua Luz e, gradualmente, purificá-la e iluminá-la. Se, contudo, a consciência reti- ver sua plenitude de poder e luz e aparecer como tal, ela pode deslumbrar e conquistar, como um milagre meteórico, mas não deixa nada substancial atrás. Isto é o que tem acontecido no passado da história do homem. Os santos e os sábios, os maiores e mais genuínos dentre eles viviam em consciência, na sua grande maioria, apartados da humanidade e mesmo longe do contato humano. A terra, por conseguinte, não podia se beneficiar inteiramente de seu exemplo.

Por isso a Mãe diz em suas "Preces e Meditações" que tendo passado além de todos os desejos, teve, no entanto, que viver no meio do desejo. Sem escolha própria, sem nenhuma preferência, nenhum apego, nenhuma necessidade de nada, foi, contudo, colocada em condições comuns de vida, de vida normal humana. Teve de lidar com o homem comum, tratar de objetos pequenos e insignificantes da existência material. Numa parte de seu ser, ela tinha que se identificar com a ignorância e obscuridade, de tal modo que mesmo a distinção entre consciência e inconsciência o consciente e o inconsciente ficou obli- terada por algum tempo. Naturalmente, o ser mais interior no seu recôndito eu permaneceu sempre calmo, luminoso, inviolável, mas colocou à sua volta este corpo de natureza comum para se defrontar com suas reações normais e, atra- vés delas, gradualmente elevá-lo e treiná-lo para manifestar e encarnar o Divino mais profundo.

Os deuses são perfeitos; mas, dizem, têm que se tornar homens, descer à terra e assumir proporções humanas quer dizer, imperfeições se quiserem progredir mais além, atingir níveis ainda mais elevados de consciência. Pois os deuses são perfeitos, cada um em seu próprio tipo limitado, bem definido e, portanto, imutável; mas o homem significa uma alma aspirante, quer dizer, infi- nita sua própria imperfeição é um sinal e um símbolo de possibilidades sem- pre maiores. A fluidez de sua natureza significa uma oportunidade.

A ALMA INDIVIDUAL E A COLETIVA

O indivíduo tem uma alma. Do mesmo modo, um conjunto de indivíduos, um grupo, também tem uma alma. Quando pessoas se encontram habitualmen- te para um certo propósito, formam um círculo ou sociedade e gradualmente tendem a desenvolver uma consciência comum, que é o princípio de uma alma. Na escola, aqueles que leem juntos, a classe, aqueles que jogam juntos, o time, todos que vivem e andam juntos inspirados por impulsos e ideias iguais ou semelhantes, possuem uma alma rudimentar. Do mesmo modo, um grupo maior, a nação, tem também uma alma, cada uma a sua própria, de acordo com

A MARAVILHA DE TUDO ISSO

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sua natureza, tradição e cultura. Mesmo um continente tem uma alma. Pode-se falar da consciência da alma da Europa, da Ásia ou da África. De fato, cada célula de um organismo tem uma consciência própria; ela pode ser chamada de a consciência da unidade individual. Muitas destas células se combinam para for- mar o organismo, o indivíduo (que deste modo pode ser visto como um ser composto ou coletivo). Muitos indivíduos formam a família cada família com suas consciências de grupo (daí a ideia de kuladharma, o gênio da família ou tradição e o selo da Casa Real). Muitas famílias formam a tribo, aqui também, cada uma com sua consciência particular. E então famílias e tribos formam a nação moderna, cada uma com uma alma distinta e quase bem desenvolvida. O agrupamento continua a alargar-se e temos as várias nações combinando-se para formar o grupo humano como um todo. A humanidade também tem sua própria consciência e sua própria alma. Não há um limite de volume ou dimen- são de um grupo. A terra tem sua consciência de alma, assim como o sol ou uma estrela ou qualquer outro planeta. O sistema solar ou um sistema galáctico tam- bém é movido por sua própria consciência secreta.

A MARAVILHA DE TUDO ISSO

A consciência comum aceita graciosamente as coisas como elas são. Não questiona, considera tudo muito natural e presumível. Ela vê e espera ver repe- tidas as mesmas coisas antigas e familiares, e não fica impressionada por nenhuma nota extraordinária nelas. Isso é a inconsciência da consciência comum. Mas quando você começa a se tornar consciente, quando olha à volta e se extasia diante das coisas, desperta do sono, por assim dizer, e começa a se perguntar, a maravilhar-se. O que é isso, por que é assim, como aconteceu, qual o propósito? Normalmente você vê o sol nascer, a chuva cair, a terra girar, mas não dispende um pensamento sequer a respeito destas coisas ou acontecimen- tos, exceto para considerar até que ponto são úteis ou simples transtornos. Mas, quando em você existe uma luz que o torna consciente, consciente de si mesmo e das coisas à sua volta, tudo adquire importância, um sentido, e você fica cheio de admiração, extasiado diante da criação maravilhosa.

Quanto mais avança, quanto mais a luz cresce em você, tanto mais sua admiração aumenta. Conforme sua percepção cresce, seu interesse também se amplia. Uma nova beleza rodeia, emana de cada objeto e de cada acontecimen- to. Você não aceita graciosamente as coisas e as deixa passar mecanicamente, mas cumprimenta cada uma delas como a um convidado, com quem você quer travar conhecimento e tornar-se familiar, cada qual tendo uma mensagem para você e você mesmo algo para transmitir. Essa é a fonte de inexaurível deleite e de um conhecimento sempre crescente.

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PARTE VI

APRENDER E COMPREENDER

Uma coisa é aprender (apprendre), outra bem diferente é compreender (comprendre). No aprender você percebe uma coisa através da mente superfi- cial, é algo que vem de fora como um corpo estranho. É colocada em você e empurrada para dentro. Não é absorvida, não se torna totalmente sua. Se você não estiver atento, se deixá-la de lado por algum tempo, ela desaparecerá de sua memória. Por outro lado, compreender uma coisa significa absorvê-la, rece- bê-la no âmago de seu ser, vivê-la na sua consciência interior. Quando você compreende uma coisa, não a esquece jamais; ela se tornou um elemento de sua consciência. Anos e anos podem passar, e, no entanto, a coisa se conservará tão viva e clara como no primeiro dia. Por que você se esquece tão facilmente das lições que aprendeu, com sacrifício e dificuldade, de livros ou de professores na escola? É porque você simplesmente as aprende, mas não as compreende. Você retém no cérebro as palavras, as formas ou fórmulas externas, anota a informação; mas o que elas representam, sua importância e lei interior, a verda- de viva escapa-lhe totalmente. Você lê Einstein, lê e relê suas fórmulas e equa- ções e até mesmo confia-as à memória, aprende de cor. Mas depois de algum tempo, se perder contato, elas somem de sua mente, ou tornam-se muito vagas

e nebulosas e você tem de começar de novo. É porque você aprendeu Einstein

meramente como uma lição, enquanto que, se entrasse nas percepções que estas formas corporificam, os princípios interiores que as determinam, se a

consciência de Einstein tivesse se tornado de alguma forma sua consciência, então você teria compreendido e nunca esquecido. Não teria sido uma lição, mas uma experiência. Assim, o que é necessário é este despertar interior pelo qual você vive uma coisa, identifica-se com ela, torna-se uno com ela e não sim- plesmente a encontra e acena meramente com a cabeça. A não ser que haja este despertar ou abertura na consciência como se diz, por mais que uma lição seja empurrada para dentro, não entranhará profundamente. Você pode apren- der como um papagaio, mas não compreenderá, passará por cima de sua cabeça

e logo será esquecida.

Na verdade, não era necessário que os sábios e ocultistas de antigamente tivessem tentado esconder seu conhecimento em linguagem obscura, em códi- gos e símbolos e números, por temerem o mau uso pelo não iniciado comum. Mesmo se eles tivessem expressado seu conhecimento na linguagem usual, pes- soas comuns não os teriam compreendido de forma alguma. Seria como se eu falasse chinês e vocês não compreendessem nada. Compreende-se somente aquilo que já se possui, quer dizer, deve-se ter dentro de si algo daquilo que se quer conhecer e compreender, algo que corresponda a isso, que seja semelhan- te em natureza e vibração. Isto é o que quero expressar quando digo que você

A VINDA DO SUPER-HOMEM

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deveria ser aberto, que sua mente e sua consciência deveriam voltar-se e afinar- se com o objeto que querem apreender. Deve haver alguma luz nelas para rece- berem a luz de fora e além. Se for mera escuridão, a luz não iluminará; mesmo que consiga vir, irá embora logo ou será engolfada pela escuridão.

A mente humana só pode captar coisas em três dimensões. Um conheci- mento tridimensional é sua posse normal. Mas há uma quarta e uma quinta dimensão (das quais alguns intelectuais da Europa começaram a suspeitar). Realmente, há pelo menos umas doze dimensões com referência à presente criação. Não podemos de imediato, imaginar um objeto em quarta dimensão, uma quinta dimensão aproxima-se do bizarro e além dela, tudo é um vazio para a consciência humana. Se eu falasse destas experiências multidimensionais, o que fariam vocês delas?

Por exemplo, você lê constantemente e ouve muito falar do Divino. O que é Ele ou Isto para você na realidade? Algo vago, nebuloso, prolixo. A percepção não é concreta para vocês. Pode duvidar, negar, recusar, dar crédito, como qui- ser. Mas se você experienciá-lo uma vez, apreendê-lo em seu ser e na sua cons- ciência interiores, mesmo de uma forma pequena, um pouco que seja, se você entrar em contato direto, de qualquer maneira bem, a coisa se torna ines- quecível e viva, viva para sempre. Se o mundo inteiro negar e zombar, você permanecerá inabalável, sorrirá do mundo porque sabe o que sabe.

Então, qual é o caminho para esta experiência, para esta abertura da cons- ciência? A Presença está aí, a Luz está aí, a Graça sempre se inclina para você, cercando-o. Por seu lado você deve fazer um gesto correspondente. Deve pedir pela coisa com sinceridade, com seriedade, aspirar por ela incansavelmente. Deve pedir por ela persistentemente, sem perder a fé ou a confiança, deve con- tinuar perseverantemente, sem contar o tempo gasto.

Lá está uma porta de ferro, pregada e fixa. Tem que ser arrombada. É a por- ta que o fecha dentro de sua estreita consciência-ego. Você tem que derrubar a barreira e abrir-se para fora. Tem que desejar isso, lutar por isso com uma cons- tância decidida. Há a pressão do outro lado também, a pressão da Graça. Quan- do sua vontade aspirante encontrar a Graça, certamente fará a abertura neces- sária na parede morta.

A VINDA DO SUPER-HOMEM

Dizem que quando o supramental descer, virá com tal força, irresistível e esmagadora, que toda a humanidade será transformada imediatamente. Quer dizer, que todos os homens, quer queiram ou não, quer a procurem ou não,

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PARTE VI

serão automaticamente transformados? Não pode ser assim: esta é uma doutri- na cômoda que premia a preguiça e a inércia.

Não é necessário que todos os homens se tornem superhomens e a raça humana normal desapareça completamente. A humanidade não precisa se extinguir como os antigos mamutes e mastodontes, para dar lugar ao super- homem. As duas raças podem viver juntas; a terra é suficientemente ampla. O homem apareceu; mas nem por isso o macaco desapareceu, embora se diga que o homem tenha vindo da espécie do macaco. O super-homem virá e viverá sua nova lei de vida; o homem também continuará com seu dharma 18 humano. Não apenas isso, eles não precisam ficar separados em compartimentos estanques, pode haver interação ou troca entre os dois. Com a vinda do super-homem haverá naturalmente uma descida de harmonia e paz e felicidade e boa vontade para a atmosfera da terra, e a humanidade provavelmente será beneficiada com isso. As condições de vida serão mudadas e afetarão a vida do homem também. Um elemento de luz e alegria e tranquilidade entrará no comportamento nor- mal da humanidade. E o homem, por seu lado, pode oferecer seus serviços como base de recrutamento da super-raça. Além disso, o todo da Natureza sen- do um movimento unificado, e nenhum nível de criação sendo totalmente sepa- rado dos outros, a mudança pode muito bem tocar o reino animal e mesmo o vegetal. A planta pode vestir, por exemplo, um colorido mais verde ou luminoso, e o animal pode desenvolver um salto mais feliz e mais animado. Pode haver menos escassez, privações, aridez, menos convulsões e catástrofes na terra.

Entretanto, exceções são sempre possíveis. Mesmo agora, onde as condi- ções de vida são mais felizes e onde as coisas deveriam ser mais tranquilas e harmoniosas, há pessoas que são por natureza, tão obscuras, tão briguentas e turbulentas, que não são tocadas de modo algum e continuam seu caminho, encontrando sempre ocasiões para discutir e brigar e criar confusão. Elas serão, no meio da nova humanidade, como são hoje, os hotentotes ou caçadores de cabeça, aborígines e selvagens aos olhos da humanidade civilizada.

EM DIREÇÃO À REDENÇÃO

Como tenho dito frequentemente, a criação é a auto-objetivação do Divino Supremo; é a suprema consciência projetando-se fora de si, para poder se olhar. Assim fazendo, auto-objetivando-se e autodividindo-se, ela se espalhou para longe: o uno infinito multiplicou-se em infinitos átomos. Não apenas isso, desta-

18 Dharma a lei do ser, a verdade do ser.

EM DIREÇÃO À REDENÇÃO

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cando-se de si mesma, a consciência tornou-se sua própria oposição: a cons- ciência tornou-se inconsciência, o espírito tornou-se matéria, o deleite tornou- se dor, o conhecimento tornou-se ignorância e a luz tornou-se escuridão. Uni- versalidade sem fronteiras era a natureza essencial do Divino e agora ela ficou coagulada dentro dos nódulos de egoísmo nos quais está baseada esta criação inconsciente. No meio desta completa nulidade, desta negação de sua origem pelo universo, o Amor Divino desceu e alojou-se para levar a criação errante de volta a seu lar perdido. O Amor Divino envolveu-se e emaranhou-se no Incons- ciente, tornou-se uno com ele. Só assim poderia Ela (na verdade, a Mãe Divina na sua graça), inundar o universo inconsciente com sua própria substância e transmutá-la em sua natureza original. O primeiro efeito ou sinal visível desta descida ou infusão é o mergulho do psíquico ou do elemento-alma no corpo material. É a partícula da consciência engastada na matéria, que habita a partí- cula aparentemente morta ou agregado de partículas que continuamente cresce

nela, através de sua relação de ação e reação com a inconsciência circunvizinha,

e ao mesmo tempo, expande sua luz dentro dessa escuridão, transformando-a gradualmente no que era originalmente em sua fonte.

* * * * *

A origem da criação é uma individualização a manifestação ou emanação de muitos, como unidades, emitidas do Uno individido e indivisível. Significou liberdade para cada unidade escolher. O indivíduo tornou-se, por assim dizer, uma unidade de liberdade. O resultado imediato, contudo, não foi aparente- mente muito bem sucedido, pode-se dizer. Pois a unidade individual escolheu seguir um caminho exatamente oposto à sua origem: a individualização aconte- ceu como um elemento que tivesse ressaltado abruptamente da unidade infini- ta, arremessando-se em seu ímpeto, tão distante quanto possível, ao outro polo. Foi assim que o espírito único tornou-se partículas infinitas da matéria inconsciente. O propósito e o problema então colocados, eram trazer os ele- mentos extraviados de volta à sua fonte e origem.

Era um longo e árduo trabalho. Levou e está levando, mesmo agora, séculos

e mais séculos para o único Ser que podia fazer isso, preparar-se vagarosamen-

te, escalar gradualmente os degraus pelos quais a criação escorregara, recupe- rar penosamente o terreno e alcançar o propósito escondido, reivindicando amplamente o desvio e a queda. Através de caminhos tortuosos, longos e sinuo-

sos, através de caminhadas árduas, o espírito de evolução labuta há milênios; foi

o instrumento utilizado pela Graça Divina.

O indivíduo original era um ponto duro concentrado de ego, preocupado única e exclusivamente consigo mesmo. Então foi provocada uma situação de

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PARTE VI

dar e tomar, para que até mesmo existir significasse existir através dos outros. A sociedade humana começou desse modo. O animal humano solitário, em bene- fício próprio, teve de sair de sua solidão, tomar uma companheira e assim gra- dualmente constituir família. A parede do egoísmo foi derrubada até este ponto, sua esfera ampliada. Este alargamento do ego continuou e ainda continua aumentando a capacidade da unidade. Da família, o ego humano ampliou-se na tribo e o ego tribal alargou-se agora na nação. Agregados cada vez mais exten- sos estão sendo formados em lugar das unidades individuais originais. As nações também estão agora se aproximando e interpenetrando-se e de muitos modos o todo da humanidade começou a viver como um agregado. O indivíduo tem assim aprendido a encontrar-se a si mesmo na vida da humanidade como um todo. Ele tem que olhar ou logo terá de fazê-lo para toda criação como uma única existência na qual e através da qual ele tem que existir. Assim, o uni- verso está recobrando a sua unidade indivisível original, tendo também ganho alguma coisa no processo; porque não é mais a unidade inexpressiva da fonte, mas a unidade enriquecida e múltipla em expressão. Sobretudo o indivíduo pode continuar ainda mais além. Ele tem e agora está apto, não somente em sua consciência individual como também na coletiva, a voltar-se e caminhar direto para sua unidade original; ele pode estabelecer contato direto, comungar

e unir-se com o Próprio Divino de onde veio e do qual se afastou. Os planos de

ascensão estão dentro de si e são paralelos àqueles no exterior, que o universo está percorrendo no seu caminho de evolução. Tal é o processo que a Graça

Divina empreendeu para cumprir o propósito Divino na criação.

* * * * *

O sentido primitivo de "ego" ou "eu" é limitado e confinado ao próprio eu, como se estivesse em oposição aos outros e às outras coisas. É assim que se tem

o sentido de querer e pedir por coisas que não se têm. Ele excluiu da extensão

de suas asas, homens e coisas, por sua própria iniciativa, para gozar seu livre arbítrio individual mas agora é compelido a pedir-lhe coisas materiais para des-

frutar, para crescer e aumentar mesmo para existir. Mas por outro lado, se você se ampliar, identificar-se com todos, então achará dentro de si todas as coisas, não tem necessidade de sair e procurá-las, não tem o sentido do querer. O que for necessário para um propósito definido ou para uma circunstância particular, no tempo e lugar certos, aparece automaticamente, de imediato. Contudo, você não perde seu "Eu" real. Seu "eu" acha seu "eu" em todos os outros "eus" e todos os outros "eus" no "eu" que você próprio se chama. Perdeu seu ego anti- go, a pessoa pequena e estreita, e o transcendeu e o transmutou no ego cósmi- co e transcendental. O Divino é esse ego e essa pessoa individual. Na realidade, só o Divino é isso, no sentido supremo e mais verdadeiro.

DOCES LÁGRIMAS SAGRADAS

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DOCES LÁGRIMAS SAGRADAS

As lágrimas que a alma derrama são santas, são doces. Enviadas pelo Divino, são abençoadas por Sua Presença. Como o orvalho do céu, são puras, espontâ- neas, jorrando de um coração de franqueza inocente. A sensação é infinitamen- te impessoal, completamente desligada do ego. Há apenas um intenso movi- mento de autodoação, total e simples. As lágrimas são a expressão natural de alguém que precisa de ajuda, que tem a entrega completa e a simplicidade de uma criança, a abdicação de toda a vaidade. Estas lágrimas são bonitas em sua natureza e benéficas em caráter. São como gotas de orvalho que pertencem aos céus e vêm de lá com uma virtude curadora soberana. Estas lágrimas não são "lágrimas frívolas", como diz o poeta inglês num veio de melancolia, mas são investidas de um poder, uma energia efetiva que traz alívio, calma e paz. Este sentimento formado de intensidade e aspiração e entrega tranquilas, sem mis- tura, livre de qualquer exigência ou necessidade de recompensa ou devolução não é somente puro, mas purificador. É tão impessoal que a aspiração torna-se, por assim dizer, até mesmo independente do objeto pelo qual existe.

Numa suprema crise da alma, quando parece não haver solução, se você se abrir, na simplicidade singela de todo seu ser, numa torrente de autodoação, Àquele que possa ser seu refúgio no fim, só o Divino pode ser isso e que possa responder totalmente à intensidade e ardente sinceridade de sua aproxi- mação, quando vier segurando sua alma em lágrimas, numa completa autodoa- ção, você nem sabe que tremenda resposta evoca, a bênção divina que você traz para si e à sua volta.

"Eu preparei o Banquete". 19

Foi um banquete que preparei para os homens. Em vez de uma vida de miséria e sofrimento, de obscuridade e ignorância eu lhes trouxe uma vida de luz e alegria e liberdade. Passei por todos os sofrimentos que o dever exigia e quando o banquete estava pronto, ofereci-o à humanidade para que dele parti- cipasse. Mas o homem na sua insensatez e teimosia o rejeitou, não o quis. Pre- feriu ficar no seu covil escuro e miserável. Agora, que vou fazer com meu Ban- quete? Não posso deixar que se estrague, atirá-lo aos ventos. Assim eu o ofereci ao meu Senhor e o depositei a seus pés. Ele aceitou-o. Apenas ele pode desfru- tá-lo e honrá-lo.

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PARTE VI

O Banquete é aquele da Transformação, a Vida Divina na terra. O homem

não é capaz dele naturalmente, não pode alcançá-lo por seu próprio esforço ou valor pessoal. É o próprio Divino que deve trazê-lo. Ele deve Se manifestar e assim estabelecer Sua própria vida aqui embaixo. Apenas então, será possível para a criatura humana abrir-se à urgência da nova beleza e oferecer sua entre- ga.

Não foi fácil preparar o Banquete. Tive de suportar o peso total da cruz e ascensão ao Calvário. Jesus, enquanto subia para seu destino com a Cruz às cos- tas, tropeçava frequentemente, e caía e se levantava novamente, com membros feridos, para começar novamente a penosa jornada. Mesmo assim, este ser também teve que passar através de muitas desilusões e decepções, muitas experiências brutais e dolorosas. Não foi uma caminhada suave e reta, mas uma subida tortuosa e perigosa. Mas no fim do túnel sempre existe a luz. O Calvário e a crucificação culminaram na Ressurreição: a divina Paixão de Cristo floresceu nesta suprema Recompensa. Aqui também, depois de todas as vicissitudes escu- ras e adversas, está a realização da transformação. Deve-se passar através de todo o vale da morte e elevar-se ao cume mais alto para receber e alcançar a plenitude da glória. Deve-se deixar para trás todos os níveis inferiores de igno- rância, o domínio inteiro da consciência humana, e sair da imperfeição da qual o homem é feito. Somente então ele vestirá a natureza divina como seu próprio corpo e substância.

* * * * *

A Cruz simboliza todo o sofrimento e toda a dificuldade, a renúncia e o

autodespojamento que a subida à Meta envolve. O Calvário da lenda cristã signi- fica a Ascensão, e a Ressurreição é a Transformação em nosso sadhana. A Cruz é também o símbolo da consciência Transformada. Tem três ramificações e repre- senta o Divino triplo, o Divino em seus três modos de existência. O ramo supe- rior, a porção vertical acima da linha transversal, representa o Divino supremo ou transcendente, aquele que está acima da manifestação. O do meio, ramo transversal ou horizontal, representa a expansão da consciência universal, o Divino Cósmico. E a porção inferior, a linha vertical abaixo da transversal, repre- senta o Divino individual imanente ou imerso na manifestação. Você notará que a flor que chamamos de "transformação" tem uma forma semelhante à Cruz.

IDENTIFICAÇÃO DE CONSCIÊNCIA

"As Preces" sempre falam da identificação da consciência com o Supremo. Além disso, há também outra identificação da consciência, quer dizer, com coi-

IDENTIFICAÇÃO DE CONSCIÊNCIA

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sas e seres, com o mundo exterior. A isso as "Preces" também se referem cons- tantemente. Na realidade, entretanto, há somente uma consciência; está em todo lugar, em todos os objetos, no universo e além. Quando, em algum lugar, um limite é colocado à sua volta, uma moldura é levantada, então ela se torna ou parece se tornar uma consciência individual. É o ego do homem, um lugar ou ponto que separa e se isola da consciência global, e assim se desliga do Divino; é a esse ego, a essa consciência separativa que se pede para exceder os próprios limites e recuperar sua unidade natural com a consciência única. E quando ela pode fazê-lo, diz-se ter sido feita a identificação com o Supremo. Contudo, ao lado disso, apesar da consciência ter se separado e se individualizado em dife- rentes centros, mesmo assim ela existe e age escondida em todas as múltiplas variedades de formas, desde a mais pequenina até a maior. A mesma consciên- cia está viva no átomo, na pedra, na planta, no animal, na terra e no sol e nas estrelas, no universo como um todo. Cada objeto, grande ou pequeno, vivo ou não, consciente ou inconsciente, contém essa consciência no seu centro e incorpora-a ou expressa-a de vários modos.

Considere, por exemplo, seu país, a índia. Quando você diz "Índia", o que quer expressar? É o limite geográfico que recebe esse nome ou a expansão de solo contida dentro daquele limite, ou seus morros e rios, florestas e campos, ou as feras que nela vagueiam, ou seus habitantes humanos, ou tudo isso junto? Não, é algo mais, é um centro de consciência que tem como sua moldura corpó- rea um limite geográfico particular. É isto que habita nas suas montanhas e pra- dos, vibra em sua vegetação, vive e se move no seu reino animal. E é isto que está por trás da mente e da aspiração de seu povo, animando sua cultura e civi- lização e movendo-a em direção à iluminações e conquistas cada vez mais ele- vadas. Não é apenas a índia, mas cada país na terra tem sua consciência que é o núcleo central de sua vida e cultura. Não apenas isso, mas a própria terra, a ter- ra como um todo, tem uma consciência no seu centro e é a incorporação dessa consciência; e a evolução da terra significa o crescimento e a expressão dessa consciência. Da mesma forma, o sol também tem uma consciência solar, um ser solar que preside seu destino. Além disso, o universo também tem uma cons- ciência cósmica, una e indivisível, movendo-o e guiando-o. E ainda além existe a consciência transcendental fora da criação e da manifestação.

Sendo a consciência uma e a mesma, fundamentalmente, em todos os luga- res, através de sua própria consciência, você pode se identificar com a consciên- cia que habita qualquer outra formação particular, qualquer objeto ou ser ou mundo. Você pode, por exemplo, identificar sua consciência com a de uma árvo- re. Saia a passear numa tarde, encontre um lugar sossegado no campo, escolha uma grande árvore uma mangueira, por exemplo e sente-se à sua raiz,

88

PARTE VI

com as costas apoiadas ou encostadas no tronco. Acalme-se, fique quieto e espere, veja e sinta o que acontece em você. Sentirá como se algo estivesse

subindo dentro de você, de baixo para cima, correndo como um fluido, algo que

o faz sentir-se imediatamente feliz e contente e forte. É a seiva que sobe na

árvore com a qual você entrou em contato, a força vital, a consciência secreta na árvore que é confortadora, repousante e saudável. Bem, viajantes cansados sentam-se sob uma figueira de Bengala, pássaros descansam sobre seus galhos ramificados, outros animais e mesmo seres também (você deve ter ouvido falar de fantasmas que assombram uma árvore) abrigam-se lá. Não é mera- mente pela sombra fresca e aconchegante, não meramente pela proteção física que ela dá, mas pelo refúgio vital ou pela proteção que ela oferece. Às árvores são tão vivas, tão sensíveis que podem ser quase tão amistosas como um animal ou mesmo um ser humano. A pessoa se sente em casa, aquietada, protegida, revigorada sob sua folhagem generosa.

"Dar-lhe-ei um exemplo. Havia uma velha mangueira em um de nossos jar- dins, muito velha, sem folhas e seca, decrépita e aparentemente morrendo. Todos achavam que devíamos derrubá-la para desimpedir o lugar para flores ou verduras. Olhei para a árvore. Subitamente vi dentro da casca seca, no âmago, uma coluna de luz fraca e tênue, uma luz de cor esverdeada, subindo, algo mui- to vivo. Eu estava una com a consciência da árvore e ela disse-me que não deve- ria permitir que fosse cortada. A árvore ainda estava viva e gozando saúde razoavelmente boa''.

"Quando mocinha, apenas entrada na adolescência costumava passear pelos bosques, não longe de Paris (Bois de Fontainebleau), onde havia enormes carva- lhos talvez centenários. E embora na época não soubesse nada de meditação costumava sentar-me quieta, sozinha, e sentir a vida em volta, a presença viva de algo em cada árvore que trazia invariavelmente para mim a sensação de saú- de e de felicidade."

"Um outro exemplo mostrará uma outra espécie de identificação. É uma

experiência à qual tenho frequentemente me referido. Estava sentada, recolhida

e meditando. Senti que meu corpo físico estava se dissolvendo ou mudando;

estava tornando-se cada vez mais vasto, perdendo suas características humanas,

e gradualmente tomando a forma de um globo. Braços, pernas, cabeça, não

mais existiam: o corpo tornou-se esférico, tendo exatamente a forma da terra. Senti que tinha me tornado a terra. Era a terra em forma e substância e todos os objetos terrestres estavam em mim, animais e pessoas, vivos e mo vendo-se em

mim, árvores e plantas e mesmo objetos inanimados como parte de mim mes- ma, membros do meu corpo: eu era a consciência da terra encarnada".

A CONSCIÊNCIA CENTRAL

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Mas a questão é ser esta consciência individual em todo e qualquer lugar e ainda manter a consciência suprema, a mais alta, a universal e transcendente, ser simultaneamente consciente em ambos os modos até o máximo grau.

A CONSCIÊNCIA CENTRAL

Muito frequentemente esta era a experiência: a união com o Supremo acon- tecia, mas assim que a consciência estava para se afirmar e submergir na ventu- ra da união, era chamada de volta e tinha de retornar ao mundo exterior, para os afazeres comuns da consciência comum. Era como se fosse para entender que não devia esquecer e rejeitar a vida do mundo físico e passar para o Além, mas manter o contato, o contato mais íntimo, entre este mundo e o Além, man- tê-los juntos em uma única consciência. O processo é algo assim: você retira a

consciência do mundo exterior e volta-se para dentro; retira-se mesmo de suas próprias atividades e percepções físicas. Desta forma se retira ainda mais, passo

a passo, através de todas as gradações de movimentos da vida e movimentos

mentais, interioriza-se e se eleva até alcançar o cume mais elevado: o silêncio absoluto e a unidade indivisível com a única realidade imutável. Esta era a meta

e, geralmente, o fim de todas as maiores disciplinas espirituais do passado. Nós também temos que possuir esta realização; mas para nós ela é a base, a base indispensável sem dúvida e ao mesmo tempo é o ponto de partida. Sri Aurobin- do sempre disse que nosso Yoga começa onde os outros Yogas terminam. Pois o que almejamos não é meramente a conquista da realidade suprema, a consciên- cia além, mas trazê-la para baixo, torná-la uma realidade autêntica e viva no mundo físico. Os Yogas antigos pretendiam salvar o mundo, mas conseguiam apenas a salvação do indivíduo, do seu próprio eu, passando além do mundo, realizando o supremo Espírito e Verdade, e nunca retornando. Dessa forma, o mundo permaneceu como sempre tem sido: somente uns poucos escaparam dele. Nosso Yoga entra em sua fase crucial, sua mudança de direção mais difícil

e característica, quando procura trazer para baixo a consciência mais elevada,

que foi realizada nas alturas e fazê-la entrar na vida do mundo e lá fixá-la como

a posse permanente da vida terrestre.

A chave é descobrir o equilíbrio onde ambos os extremos se encontram, a junção dos dois níveis de consciência, o transcendente e o manifesto, onde os dois não apenas não se contradizem nem se opõem, mas são aspectos ou modos da mesma Verdade, indissoluvelmente unidos e unificados. É justamente

a linha limítrofe, o último ponto do mundo manifesto e o primeiro ponto do

Não-Manifesto (quando vai-se para cima). Se você for capaz de descobrir o pon- to, não terá de fazer a escolha entre dois irreconciliáveis, o Brahman ou o mun- do. É somente quando não encontra o ponto que você é forçado a fazer a esco-

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PARTE VI

lha: alguns escolhem o outro lado da fronteira, a consciência estática, o ser puro, eterno e imutável, absorvido em si mesmo e autossuficiente; outros que não ousam fazer isso, voltam-se para o mundo e permanecem emaranhados e afogados na sua escuridão, na ignorância, na sua luta, no desencanto, na impo- tência e miséria. Mas, como disse, não é essa a solução necessária ou inevitável se é que é solução do enigma.

A primeira condição, entretanto, para se chegar ao estado de consciência crucial ou sintético (que é de fato a consciência supramental básica, como Sri Aurobindo a chama) é a compreensão de que o mundo, quer dizer, a consciência física não existe por si mesma. Por si mesma ela não é nada. Como a ' 'Prece" diz "ela não sabe nada, não pode fazer nada, não é nada". Esta realização não deve ser meramente uma percepção mental, uma percepção da consciência interior somente; mas o corpo, a própria existência física deve ser consciente e nessa consciência ver e experimentar a verdade que por si mesma é um vazio, não existência: no entanto, torna-se assim apenas para descobrir que ela é real, supremamente real quando é inundada com sua substância verdadeira, quando é o incorporamento ou o veículo da consciência supramental.

OS CONSTANTES DO ESPÍRITO

O Divino existe em três modos: 1) Existência, 2) Consciência e 3) Bem- aventurança. Pura Existência, pura Consciência e pura Bem-aventurança Sat- Chit-Ananda estes são os três elementos fundamentais dos quais o mundo foi feito. Estão em todo lugar, em todas as coisas, em todos os seres, em todos os domínios e níveis de ser. Sachchidananda é a suprema realidade que está por trás de tudo, mesmo aqui em baixo, por trás da mente, por trás da vida e por trás do corpo também, e por trás de cada forma em cada um desses domínios. É isso que mantém e sustenta tudo. Portanto, a fim de realizá-la, não é necessário elevar-nos, deixando para trás o mental, o vital e a existência física, e passarmos além. Geralmente quando procuramos Sachchidananda, procuramo-la fora do universo, acima e além da criação, no transcendente. Na realidade, contudo, podemos encontrá-la onde quer que estejamos, quer na mente ou no vital ou mesmo no físico. Temos apenas que nos recolher e nos aprofundar, ou ir por trás: ela está sempre lá. Encontrar Sachchidananda na existência física ou atra- vés dela não é muito mais difícil ou mais raro do que os outros modos; é mais difícil ou raro mantê-la constantemente lá e conscientemente fazer dela uma posse física dinâmica. Este é o trabalho a ser feito e para o qual Sri Aurobindo veio.

O TRABALHADOR DESPRENDIDO

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O TRABALHADOR DESPRENDIDO

Nor-

malmente, a pessoa é consciente de si. Tudo que faz, ou todas as vezes que faz algo, a consciência sempre permanece por trás, "Eu estou aqui, Eu estou fazen- do". E se esta percepção de "Eu estou" não estiver lá, não se pode fazer nada. Toda ação para automaticamente se eu não vejo ou não sinto que estou agindo. Mas esta é a natureza da consciência comum; na consciência espiritual, as coisas são de outra forma. Consciência espiritual significa a consciência na qual este sentido de "Eu estou fazendo" ou mesmo "Eu sou" desapareceu, dissolveu-se. Na verdade, o trabalho é feito não por mim, no sentido "Eu-ismo", mas pela Prakriti, a Natureza, aparentemente pela Natureza Inferior, secretamente pela Natureza Superior. Quando o "Eu" desaparece, a força que estava trabalhando, continua a trabalhar, somente o senso do "Eu" ligado a ela (na ignorância e por ignorância) não está mais aí. Ou, o "Eu" submergiu completamente na Força que trabalha e está uno com ela. O que é consciente não é a personalidade ou o Eu individual, mas a Força de ação.

A Prece diz: "Eu procuro minha mente consciente e não a acho mais

"

SEGUNDA VISÃO

Sabemos que os animais possuem, geralmente, sentidos aguçados a um grau extraordinário. Eles podem ouvir e sentir cheiros a uma distância muito além do que é normal para o sentido humano. Dê a um cão um lenço usado por um homem, que ele o localizará entre mil. Um elefante o levará direto a um lugar distante várias milhas, onde exista água, se acontecer de você estar em dificul- dade num local sem água. Mesmo independente da visão ou do olfato, os ani- mais percebem coisas de um modo estranho: certa vez um elefante, por exem- plo, recusou-se a prosseguir numa estrada porque, como foi descoberto depois, ela estava oca e teria afundado se o animal a tivesse pisado. Há outros incontá- veis fenômenos para provar a perspicácia e a sutileza do sentido animal ou ins- tinto, como é chamado.

Percepção significa contato com o objeto. Bem, o que é este contato? Na percepção sensorial humana normal, por exemplo, é a vibração física emanente do objeto que contata o órgão físico. A distância em que a vibração pode ser recebida depende da sensibilidade dos nervos receptores. No homem a sensibi- lidade é limitada, no animal é altamente intensa. Contudo, isto é apenas um dos fatores do fenômeno. Explicaremos:

Como é bem sabido, existem três níveis de consciência: o físico, o vital e o mental; no momento deixamos de considerar o quarto ou o espiritual (inclusive

92

PARTE VI

o psíquico). Não apenas isto, em cada nível ou plano todos os outros estão

envolvidos, isto é, acham-se ocultos. Assim, na mente existe uma mente vital e uma mente física; no vital, há um vital mental e um vital físico. Assim no físico também existem estas três gradações: 1) o físico físico, 2) o físico vital e 3) o físi- co mental.

Agora entenderemos melhor o processo do contato na percepção sensorial.

O contato puramente material, a vibração física que toca os nervos físicos de um

órgão particular, é um exemplo da percepção física física: o cão que cheira ou o elefante que escuta a distâncias extraordinárias. Temos ouvido falar de homens que, colocando o ouvido no chão, são capazes de perceber sons que vêm de uma grande distância e que praticamente são inaudíveis a outros que estão por perto.

Mas existe uma outra classe onde não se cogita de vibração material; é a vibração vital no físico que toca o físico vital do receptor. O elefante que acha água ou sente a estrada oca é um exemplo disso. O físico mental, o último dos três, é uma espécie de intuição no físico; é o que usualmente se chama "instin- to". Um gato, por exemplo, colocado num saco e levado de sua casa a uma dis- tância de várias milhas, achará seu caminho de volta. Um cão andará quase o mundo todo e achará e reconhecerá seu dono mesmo depois de muitos anos (o primeiro a reconhecer Ulisses foi seu cão).

No homem, também o físico vital, mais especialmente o físico mental, não raro encontra ocasião para se manifestar, embora seu físico físico, isto é, sua sensibilidade puramente material seja extremamente limitada. Esta limitação da sensibilidade física em geral, qualquer que seja a esfera a que pertença, é devida a preferências intelectuais ou racionais que se desenvolveram nele. Nas raças ou tipos mais genuínos, a sensibilidade ainda se conserva. O homem pode, contu- do, cultivar e conscientemente desenvolver estas faculdades: isto se torna então

o que se chama um sistema de Yoga. O exemplo familiar da ação física mental

quando cultivada no homem é oferecido pelo adivinhador de água ou o rabdo- mante, como o chamam. Mas, como disse, o efeito normal da racionalidade humana é inibir a ação espontânea dos sentidos, como ela se apresenta natu- ralmente nos animais.

É interessante notar que os animais no estado selvagem, mantém intacta sua capacidade instintiva, sua "segunda visão", mas começam a perdê-la quando convivem com os homens, quando sob a influência da mente e da razão humana se tornam "domesticados". Uma vaca habituada a pastar livremente nos cam- pos, nunca tocará a grama venenosa, evitá-la-á sempre e tomará apenas a variedade inofensiva e saudável. Mas confinada dentro do estábulo, acostuma-

SEGUNDA VISÃO

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da a uma vida fechada, perde seu instinto natural, torna-se confusa e não sabe distinguir a comida certa da errada, porque lhe dão sempre coisas preparadas pelo dono.

O contato humano exerce assim um efeito prejudicial à vida instintiva do

animal. Mas de outro lado, pode também ter uma influência enaltecedora. Alguns dos sentimentos humanos refinados simpatia, gratidão, fidelidade, autosacrifício num modo humano pronunciado, encontram expressão em animais domesticados, que vivem perto do homem e dentro de sua atmosfera. É verdade que muitos destes sentimentos não estão totalmente ausentes no reino animal (especialmente nos níveis mais elevados), em seu estado natural ou sel- vagem, mas pertencem a um nível de puro sentimento ou impulso e não se ele- varam ao nível de sentimentos que têm um elemento mental infuso em seu estofo vital. Na verdade, um forte elemento mental, uma capacidade de raciocí- nio se desenvolve às vezes muito claramente no animal doméstico.

Dizemos que o animal age por instinto, quer dizer, ele vai direto à coisa a ser feita. A fim de fazê-la, ele não faz uma escolha entre possibilidades, não há nenhum processo seletivo em sua consciência. E somente a consciência humana que diz, "isto não é para ser feito, mas aquilo é para ser feito, não isto mas aqui- lo", ou formula a pergunta "qual deles, ser ou não ser?" Isto é o que queremos dizer por discriminação ou deliberação. Normalmente esta faculdade está ausente no animal. Falamos de sentimentos refinados no homem; "refinados" aqui não significa sempre enobrecidos ou moralmente elevados. Também podem significar mais sutis, mais complicados e ser aplicados a alguns sentimen- tos mais básicos acentuadamente perversos que são talvez peculiarmente humanos. Os animais domésticos, algumas vezes, os contraem dos homens:

inveja, desprezo, represália, vingança a um extremo grau, provavelmente se encontram mais entre animais que convivem com homens do que entre os que se encontram em estado selvagem. Ouvimos falar de elefantes remoendo-se durante longos meses por causa de um ferimento ou mesmo um insulto, e vin- gando-se quando a ocasião se lhes apresenta. E ouvimos falar de um gato que se atirou de uma janela para a rua e se matou, simplesmente porque pensou que sua dona mostrasse mais amor por um outro gato.

A humanização de animais que convivem com os homens, através de seus

efeitos bons e maus, tem um valor evolucionário: quer dizer, alguns animais

atingem deste modo quase um estado humano em suas almas. E os ocultistas dizem que as almas passam desta maneira da encarnação animal para a huma- na.

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PARTE VI

A MÃE SOBRE SI MESMA

Há duas coisas que não deveriam ser confundidas uma com a outra, a saber, o que se é e o que se faz, o que se é essencialmente e o que se faz no mundo exterior. Elas são muito diferentes. Sei o que sou. E o que os outros pensam e dizem ou qualquer coisa que aconteça no mundo, não altera essa verdade que permanece inabalável, inalterável, um fato. É real para si mesma e a negação ou a afirmação do mundo não aumenta nem diminui essa realidade. Mas sendo o que sou, o que faço realmente é totalmente uma questão diferente: dependerá das condições e circunstâncias onde as coisas estão e nas quais e através das quais eu deva trabalhar. Conheço a verdade que trago, mas quanto dela acha expressão no mundo, depende do próprio mundo. O que trago, o mundo deve ter a capacidade e a vontade de aceitar: de outra forma mesmo se eu trouxesse comigo a verdade mais alta e mais imperativa, ela seria, absolutamente inexis- tente para uma consciência que não a reconhecesse nem a recebesse: o ser com essa consciência não tiraria dela o mínimo proveito.

Você dirá que, se a verdade que eu trago é suprema e onipotente, porque ela não obriga o mundo a aceitá-la, porque ela não pode quebrar a resistência do mundo, forçar o homem a aceitar o bem que ele recusa? Mas esse não é o modo pelo qual o mundo foi criado, nem a maneira pela qual ele se move e se desenvolve. A origem da criação é liberdade: é um livre arbítrio na consciência que se projetou como o mundo objetivo. Esta liberdade é o próprio caráter de sua natureza fundamental. Se o mundo nega sua verdade suprema, seu bem mais elevado, assim o faz no deleite de sua livre escolha; e se for para voltar e reconhecer essa verdade e esse bem, deverá assim fazê-lo no mesmo deleite de livre escolha. Se ao mundo errante fosse obrigado a se corrigir e imediatamente assim o fizesse, se as coisas fossem feitas num instante, através de milagres, então, não haveria razão para se criar um mundo. Criação significa um jogo de crescimento: é uma jornada, um movimento no tempo e no espaço através de passos e estágios graduados. É um movimento para longe longe de sua fonte e um movimento direcionado: esse é o princípio ou plano sobre o qual ela se mantém. Neste plano não há compulsão sobre quaisquer dos elementos que compõem o mundo para renegar seu movimento natural, para obedecer a um ditame do exterior: tal compulsão quebraria o ritmo da criação.

E contudo há uma compulsão. É a pressão secreta da própria natureza da pessoa que a impulsiona para a frente através de todas vicissitudes, de volta novamente à sua fonte original. Quando se diz que a Graça Divina pode e deve- ria fazer tudo, isso significa nada mais e nada menos do que isso: a Graça Divina apenas acelera o processo de retorno e reconhecimento. Mas ao lado do ele-

A MÃE SOBRE SI MESMA

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mento que viaja, a alma, uma colaboração consciente deve ser despertada, um consentimento inicial e uma adesão renovada constantemente. É isto que traz para fora, pelo menos ajuda a estabelecer no exterior, no plano físico, a força que já está e tem sempre estado a trabalhar dentro e nos planos mais altos e mais sutis. Esse é o esquema do jogo, o sistema de condições sob os quais o jogo é executado. A Graça trabalha e se incorpora em e através de um corpo de cola- boradores conscientes e de boa vontade: estes tornam-se parte e parcela da Força que trabalha.

A verdade que eu trago manifestar-se-á e será incorporada sobre a terra; pois, é o destino inevitável da terra e do mundo. A questão de tempo é irrele- vante. Em um aspecto, a verdade que digo que será manifestada, já está total- mente manifesta, já está realizada e estabelecida: não há questão de tempo lá. Ela está em uma consciência interminável ou eternamente presente. Há um processo, um jogo de tradução entre o equilíbrio infinito e o equilíbrio no tempo que nós conhecemos aqui em baixo. A medida desse hiato é muito relativa, rela- tiva à consciência que mede, longo ou curto de acordo com o metro que cada um traz. Mas isso não é a essência do problema: a essência é que a verdade está lá, ativa, no processo de "materialização", apenas dever-se-ia ter a visão para vê-la e a alma para saudá-la.

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PARTE VII

REALIZAÇÃO, PASSADA E FUTURA

Todo o mundo material e físico, toda a terra refiro-me à terra porque nos preocupamos mais diretamente com ela do que com outras regiões tem sido

até agora governada por forças de consciência que vêm daquela região que Sri Aurobindo chama de Sobremente. Mesmo a coisa que o homem chama de Deus

é uma força, um poder na Sobremente. O universo inteiro tem estado, por assim

dizer, sob o domínio deste status de consciência. Mesmo assim, você tem de passar por muitos graus ou níveis intermediários para chegar à Sobremente e quando você chega lá, a primeira impressão é de uma luz ofuscante que quase o cega. Mas pode-se e deve-se pressionar e ir além. Sri Aurobindo diz que a regência da Sobremente está agora justamente chegando ao fim e a regência da Supermente tomará seu lugar. Todas as experiências espirituais do passado foram concernentes à Sobremente. Assim, isso é uma coisa conhecida de todos que encontram o Divino e que estão identificados com Ele. O que Sir Aurobindo diz é que existe alguma coisa além da Sobremente, que está situada num degrau mais alto e que agora é a vez deste status mais elevado descer e reinar. Não precisamos falar muito da Sobremente, porque todos os santos e videntes, todas as religiões e disciplinas espirituais, escrituras e filosofias falaram dela detalhadamente. Todos os deuses conhecidos e familiares aos homens estão lá no seu panteão. O que queremos, o que é necessário agora é uma nova revela- ção, uma manifestação de certo modo nova, da qual muito poucos estiveram conscientes no passado. Não estamos aqui meramente para repetir o passado.

Mas isso é tão difícil! É difícil para as pessoas deixarem experiências que

tiveram, largarem aquilo que, repetidamente e em toda parte, ouviram e leram

a respeito. E difícil não pensarem na Supermente em termos de Sobremente,

não confundirem a Supermente com a Sobremente. São incapazes de conceber algo além ou diferente. Sri Aurobindo costumava sempre dizer que seu Yoga

começava onde todos os Yogas passados terminavam. Para realizar o Yoga dele

já se deve ter chegado ao limite extremo daquilo que os antigos realizaram. Em

outras palavras, já se deve ter tido a percepção do Divino, a união e identifica-

ção com o Divino. Esta divindade, diz Sri Aurobindo, é o Divino da Sobremente, que já é em si algo bastante inconcebível para a consciência humana e mesmo para chegar lá, é necessário elevar-se através de muitos planos de consciência e, como disse, fica-se ofuscado e atordoado, mesmo neste nível.

REALIZAÇÃO, PASSADA E FUTURA

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Há seres do mundo vital que, todas as vezes que aparecem aos homens, são por eles tomados por deuses supremos. Você pode chamar isso de ilusão mas é uma aparência enganosa muito bem sucedida, pois frequentemente pessoas que os veem ficam totalmente convencidas de que aquilo que veem é na verda- de o próprio Deus. Contudo, esse Deus é somente um ser vital. Mesmo assim, os seres da Sobremente são tão assombrosos em comparação conosco, seres humanos, que ficamos verdadeiramente atordoados toda vez que entramos em contato com essas entidades. E a Supermente e os seres supramentais estão ainda mais além. Assim, você pode compreender a distância a ser ainda percor- rida.

Mas há uma espécie de Graça que vem a seu auxílio. Se um cientista tivesse novamente que repassar todas as experiências que já foram feitas, tudo que os outros descobriram no passado em seu ramo, para fazer um progresso mais além, para chegar a uma nova descoberta, então, ele teria de passar toda a vida repetindo o passado e não sobraria tempo para nada mais. O cientista, em vez disso, abre um livro ou consulta uma outra pessoa que esteja familiarizada com o passado e adquire todo o conhecimento que requer sobre o assunto. Sri Auro- bindo quis fazer algo semelhante no domínio espiritual. Pede-lhe para recolher a experiência do passado está toda aí gravada na história da terra e conti- nuar. Baseando-se nisso você se eleva a planos ainda mais altos. Entretanto, você pode perguntar pertinentemente, porque nós não começamos com seres sobrementais; deveríamos ter aqui, digamos, apenas Vivekanandas e não criatu- ras frágeis e comuns.

Você pensa que o trabalho teria sido mais fácil? Tais seres, ao contrário, teriam sido menos controláveis e maleáveis. Pois é muito difícil convencer alguém que já tenha tido uma realização. Ele acredita que já alcançou a meta e que nenhum progresso posterior lhe seja necessário. Geralmente acontece, especialmente com homens que se esforçaram e realizaram o objetivo de seus esforços, que eles não progridem mais e param nisso, porque sentem que já alcançaram sua meta final. Acomodam-se e lá se fixam. Era seu alvo pessoal e o conseguiram. O cérebro deles torna-se cristalizado e sua consciência fossilizada. Viverão lá toda a vida e nunca saberão como continuar. Assim, digo eu, aqueles que tiveram uma experiência ou realizaram algo em si próprios, não são neces- sariamente os mais adiantados porque falta-lhes um elemento de simplicidade, de modéstia, de plasticidade, que ocorre com alguém que sinta que não se desenvolveu plenamente e tem que se desenvolver ainda mais.

Uma pessoa realizada, se posso assim dizer, literalmente e de certo modo veementemente, é um produto terminado para ser guardado na caixa de vidro

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PARTE VII

de um mostruário, num museu. Ela é uma amostra do que foi feito e do que pode ser feito. Mas aí você não tem o estofo para prosseguir. Preferiria, para meu trabalho, alguém Que tivesse talvez pouco conhecimento mas muita boa vontade, uma grande aspiração, que sentisse dentro de si esta chama, esta necessidade de ir para frente. Digo, ela pode saber pouco, ter realizado ainda menos, mas aqui está um bom material, com o qual se pode ir longe, muito lon- ge. Além disso, há um outro ponto a ser considerado. Como no alpinismo, um guia é muito útil, mesmo indispensável, para que possa lhe mostrar o caminho certo e torná-lo mais fácil para que você possa escalar alturas cada vez mais ele- vadas. Assim, na ascensão espiritual, um guia, se você tiver a boa sorte de encontrar um, ajudá-lo-á a elevar-se muito mais alto do que poderia fazê-lo por sua força e visão pessoais de um objetivo fixo. Você não fica orgulhoso de sua descoberta e não perde tempo ou energias em buscas e investigações inúteis.

É por isso que prefiro crianças crianças no corpo ou na alma e temo adultos saturados de erudição e realização.

O UNIVERSO EM ESPIRAL

A evolução não se processa em linha reta, mas em espiral. Quer dizer, não é um constante progresso em uma única direção, mas consiste em progressão, regressão e uma progressão final. O movimento em espiral significa que todas as coisas devem entrar no fenômeno de evolução, para evitar que apenas uma úni- ca coisa progrida deixando as outras para trás, mas que tudo se mova para fren- te tudo se move para frente mas em diferentes velocidades e também de diferentes pontos de partida. E elas se movem, não em linha reta como o vôo do corvo, mas em círculo, como a águia que paira nas alturas. Se você concentrar- se sobre um ponto do círculo, verá, em relação a ele, que muitos outros não avançam de modo algum, mas recuam e o ponto mesmo parecerá às vezes estar retrocedendo em direção a uma posição ocupada anteriormente. Anda-se para trás para apanhar certos elementos que não foram incluídos no progresso, não devidamente trabalhados. Acontece, usualmente, que quando você progride numa coisa, esquece outra; assim tem que voltar para apanhar o elemento negligenciado. Então, você tem que dar voltas e mais voltas, por assim dizer, até abranger a totalidade de seu ser, até mesmo abraçar a totalidade do universo. Contudo, quando tiver reunido o fator negligenciado e voltado à posição original de onde tinha aparentemente regredido, você descobrirá que não está exata- mente no mesmo ponto, mas num ponto correspondente em um plano mais alto. Isto forma uma espiral, não meramente um círculo.

O UNIVERSO EM ESPIRAL

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Existe no universo um infinito número de pontos se movendo, cada um for- mando uma espiral; portanto existe um número infinito de espirais. E estas espi- rais, não apenas se situam lado a lado, mas entrecruzam-se dando um aspecto de oposição e de contraditoriedade. Portanto, se quiser ter uma visão total do movimento do progresso universal, você ficará de certo modo perplexo. Existem umas tantas linhas que avançam e outras tantas que retrocedem ao mesmo tempo. Algumas vêm em direção à luz, outras vão para o fundo e nenhuma é independente ou autossuficiente. Há uma espécie de mesclagem, até mesmo de coordenação.

O universo pode então ser concebido como um globo, consistindo de um número infinito de espirais que se interceptam. Pode-se dar a cada espiral uma cor diferente, cada uma representando um aspecto do movimento da natureza. Um globo, modelo desta espécie, pode talvez ser construído. Apenas uma sec- ção da curva da espiral fica do lado de fora, o resto permanece dentro do globo e pode ser visto por causa de sua cor especial, desde que consideremos o globo como algo transparente. Estas secções múltiplas de fora formam a superfície do globo. O interior está, naturalmente, cheio de espirais, exceto aquela secção da espiral que está no exterior. B entretanto, apesar de se cruzarem e entrecruza- rem, não formam uma massa opaca. Pode-se ver através e seguir as linhas bri- lhantes de cores variadas. É assim que vejo isso. Você pode tentar fazer dele uma figura geométrica, se for possível. A natureza tem um plano próprio. Não é como o plano coerente e racional do homem. O plano da Natureza é feito de uma aspiração, uma decisão e um alvo. Mas o modo é realmente fantástico, pelo menos é o que aparenta ao homem. A Natureza parece mover-se de momento a momento, sob a pressão da ocasião; há avanços, retrocessos, tenta- tivas, contradições, demolições de coisas, construções laboriosas e outras vezes, destruições. É um completo caos. Ela começa uma coisa, deixa-a pela metade, toma outra, rejeita-a completamente, começa de novo algo deixado de lado, faz, refaz, desfaz, separa, mistura. Ela segue um milhão de linhas de progresso ao mesmo tempo, mas não do mesmo ponto de partida e cada uma com sua própria velocidade e ritmo. Há tal emaranhado que parece não fazer sentido. Contudo, existe um plano, ela persegue um objetivo que lhe parece muito claro, apesar de velado ao olho humano. O globo em espiral de que falei, pretende dar alguma ideia desta unidade complexa do plano da Natureza.

Você pode trazer para dentro dele uma ordem melhor, com menos desper- dício e mais eficiência, uma organização mais consciente. Mas para isto, o homem deve mudar primeiro sua própria organização interior. Em sua própria consciência e ser, ele deve introduzir uma nova ordem, um novo cosmos.

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PARTE VII

ESTE UNIVERSO EM EXPANSÃO

O universo é uma manifestação, quer dizer, o desdobramento de infinitas possibilidades. O desdobramento não parou, está continuando e continuará, lançando fora ou trazendo para dentro da expressão física tudo aquilo que está por trás e latente. O universo pode ser considerado como uma esfera ou um globo, uma totalidade ou conjunto contendo tudo que existe aqui e está sendo manifestado. Além e fora, por assim dizer, deste círculo de criação, encontra-se o transcendente, o Divino Supremo, em seu próprio status. O transcendente significa o não-manifesto. Entretanto, não significa o vazio, porque contém tudo aquilo que é para ser manifestado, todas as coisas com suas potencialidades, suas essências, em forma de semente. Tudo se encontra ali como uma possibili- dade latente, uma verdade fundamental de ser tudo está ali, não simples- mente como ideia geral, mas em todos os detalhes, como se fosse em escala microscópica, algo como os cromossomos na vida da célula. O transcendente está além do tempo e do espaço. A Manifestação ou a criação começa com a formulação do tempo e do espaço, a moldura para a qual aquilo que existe em forma latente é gradualmente trazido para fora e exposto. O transcendente é a consciência absorvida em si mesma, identificada consigo mesma; a manifesta- ção é a consciência despertando e olhando-se como seu objeto (La prise de conscience objective de soi).

Assim, pode-se permanecer inativo ou estacionado exclusivamente no status do imanifesto. Para essa pessoa o infinito e o eterno são realidades sempre pre- sentes, não há nada como passado ou futuro, tudo é. Ela sabe e está na presen- ça de uma verdade fixa; tudo que aconteceu, tudo que acontecerá como se nos aparenta lá está realizado no mesmo plano e no mesmo momento (embora os termos plano e momento não se apliquem bem aqui). E o mundo ou status do absolutamente determinado. A livre escolha ou a não determinação, o inesperado e o imprevisto não têm lugar aí.

A esfera de manifestação, ao contrário, é precisamente o campo do súbito e do incalculável, quer dizer, do livre arbítrio. Aí as coisas que não estavam ante- riormente aparecem, forças que não eram esperadas ou mesmo imaginadas, entram em jogo. Todas elas movem-se por linhas que mudam e trocam conti- nuamente. Este é o status do tornar-se sambhuti, como é designado pelo Upanishad e descrito pelo filósofo grego Heráclito, nas palavras panta rei, tudo flui continuamente. Aqui, frequentemente, uma certa disposição que parece bastante estável ou previsível, é perturbada de repente pela invasão de um fator novo e recente, que veio de algum lugar.

ESTE UNIVERSO EM EXPANSÃO

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Mas entre os dois, como se fosse na fronteira, há um equilíbrio de consciên- cia que combina ambos numa percepção integral e é um único movimento dos dois, do ser e do tornar-se: é a Supermente. É o ponto onde o que é ou existe no imanifesto, justamente torna-se no manifesto, a verdade e a realidade puras, acima, imóvel, agita-se e começa a sair ou desprender-se através de um jogo de possibilidades. É como um filme de cinema que é enrolado e conservado na bobina até que seja posto no projetor e desenrolado gradualmente sobre a tela da vida, numa apresentação em tamanho natural.

O transcendente é então uma realidade integral, pois ela contém o todo, mas é de dimensão fixa avyaya, ele não cresce nem decresce: é o Estável, o Estagnado sthānuracaloyam. O cosmos, por outro lado, não está apenas se movendo ou mudando, está também sempre crescendo e se expandindo. Pois novos possíveis estão se tornando reais aqui e acrescentando algo à soma de seus fatores. Do transcendente, do não-manifesto, potenciais estão sendo cons- tantemente emitidos para baixo e se tornado dinâmicos no universo, fazendo-o cada vez mais rico.

Além do mais, esta expansão não é meramente acréscimo, mas um cresci- mento, quer dizer, é dirigido e tem sentido, um propósito e um fim em vista. De fato, todos os possíveis que encontram âmbito de ação, os elementos que entram aqui embaixo, são necessários pelo modo como contribuem para o signi- ficado do Drama, para o desenrolar do enredo. Podemos tomar outra vez a ana- logia do filme de cinema e dizer que o filme que se desenrola é interessante porque tem uma história para contar, contínua e em desenvolvimento, com um princípio, um meio e um fim. Da mesma forma, a manifestação também conta um história interligada não é um disparate, mas tem um alvo; é um processo elaborado por uma causa final. Do mesmo modo que um ser individual, ela é um organismo que está sempre crescendo e trazendo para fora suas possibilidades latentes, movendo-se em direção a uma alta fruição de sua aspiração e de seu destino.

Nesse sentido, a manifestação é uma realidade mais completa e cada vez mais completa do que a do Supremo não-manifesto. O Não-Manifesto, o Transcendente, é uma realidade integral, a manifestação uma realidade comple- ta, uma vez que ela acrescenta à sua própria realidade, a atualidade da expres- são concreta.

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PARTE VII

O MUNDO SERPENTE

O universo é frequentemente concebido como uma serpente enroscada, comendo-se a si mesma, com a cabeça virada e engolindo o rabo. A imagem é a de um esfera ou globo abrangendo toda a existência, de algo sem fim ou come- ço, infinito. Também dá a ideia de uma extensão perpétua, quer dizer, de cons- tante criação, mas ao mesmo tempo de um retorno. O desenrolar do universo não segue uma linha reta, mas circular.

Entretanto, o universo é uma entidade complexa. Não é constituído de um plano único, mas consiste em muitos planos sobrepostos, uns sobre os outros. Assim, no fundo, como base, está o físico a matéria e no topo, como o acme, está o mais sutil, o espiritual; entre eles há gradações cujo número varia segundo a modalidade da perspectiva.

Voltando à imagem da serpente, pode-se dizer que a cabeça representa o espírito, a consciência suprema, e o rabo, o outro extremo, a matéria de supre- ma inconsciência. A imagem, sobretudo, dá uma ideia gráfica da grande verdade de que os extremos se encontram, a cabeça curva-se e pega o rabo. Psicologi- camente, isto significa que se alguém elevar-se cada vez mais alto em consciên- cia, começando da consciência do corpo, atravessando a Vida e a Mente e a Sobremente e alcançar a própria fonte, isto é, a cabeça e fronte de consciência, então, curioso dizer, encontra-se subitamente imerso no coração da matéria. Em linguagem oculta, isto quer dizer que a consciência que brilha no pico mais elevado está impregnada também aqui em baixo no abismo da matéria morta. Se alguém se elevar suficientemente alto, degrau por degrau, até o extremo fim da escada, voltará exatamente ao ponto de onde começou, sem ter que passar através de todos os degraus. Reversamente também, se alguém sondar profun- damente, no mais longínquo canto da matéria, o último limite da inconsciência, sairá para a luz intensa da mesma infinitude que abrange acima e abaixo e em volta.

Podemos relembrar aqui a curiosa conclusão alcançada por alguns cientistas modernos a respeito do caráter esférico do universo que, sendo ele uma super- fície de fronteiras sem fim, é bem possível que uma determinada estrela que você vê à sua frente, possa não estar ali situada, mas esteja enviando raios que vieram à volta de toda a esfera, atingindo-o por trás, por assim dizer.

ESTE MISTÉRIO DA EXISTÊNCIA

Alguma vez você já se perguntou porque este universo existe afinal, pelo menos esta terra com a qual estamos tão preocupados e que nos parece tão

O REGISTRO DA HISTÓRIA DO MUNDO

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real, tão autêntica? Seria talvez mais sábio de sua parte não perguntar. Frequen- temente tenho lhes falado de Théon. Ele era verdadeiramente um sábio, a seu modo. As pessoas costumavam procurá-lo e fazer-lhe perguntas. Muitos per- guntavam porque existia um universo. Ele respondia: "Mas o que lhe importa isso?" Alguns perguntavam "Por que o universo é assim?" a isso ele dizia: "Ele é

o que é, que diferença faz para você?" Outros ainda comentavam: "Eu não con-

sidero o mundo um acontecimento satisfatório". Agora chegamos mais ao ponto principal. Para aqueles que acham o mundo insatisfatório, dizia: "Comece a tra- balhar, tente mudá-lo. Descubra um modo de fazê-lo de outra forma, para que possa torná-lo melhor". As coisas são o que são, não adianta especular a respei-

to e preocupar-se. Procure meios de remediá-las para que possam tornar-se o que deveriam ser. Por que as coisas são o que são? Não que não se possa saber

a razão, embora nunca se tenha certeza. A melhor coisa a fazer é aceitar o que

quer que seja como é, e tentar mudá-lo naquilo que deveria ser. Agora, a mara-

vilha disto é que se você for sincero, se desejar saber verdadeiramente e traba- lhar honestamente, saberá porque as coisas são o que são a causa, a origem e

o processo pois são apenas um. Há uma única verdade na base das coisas; se

ela não estivesse lá, nada existiria. Se você captar essa verdade, conhecerá ao mesmo tempo a origem da criação e os meios de mudá-la também. Em outras palavras, se estiver em contato com o Divino pois o Divino é essa base você estará de posse da chave de todas as coisas, saberá 0 porquê, o como e o processo para a mudança. A coisa a fazer, então, é começar a transformá-la. Mas você Poderá dizer que ela é grande demais, muito difícil, enorme, para que você possa trabalhá-la no mundo ou para o mundo. Muito bem, comece então por você mesmo. Você é uma pequena massa de substância, um símbolo ou representante do universo. Que seu trabalho seja o de formar e remodelar essa

partícula. Concentre-se nela, aprofunde-se dentro daquela sua pequena pessoa

e achará a chave há tanto procurada.

O REGISTRO DA HISTÓRIA DO MUNDO

Tudo que aconteceu na terra, tudo, desde o começo da criação até agora, tudo sem exceção, foi registrado em algum lugar, em algum mundo particular ou região de consciência. Tudo que o homem pensou, suas pesquisas e desco- bertas, seus achados e suas conclusões são conservados intactos, cuidadosa- mente armazenados. Se você quiser saber qualquer coisa da história passada da terra, algum acontecimento num determinado tempo e lugar, você deverá sim- plesmente transportar-se para aquele mundo e procurar nos registros.

É um lugar muito curioso, algo como uma vasta biblioteca. Consiste de um número infinito de celas, por assim dizer, cada uma contendo todas as informa-

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PARTE VII

ções sobre um assunto determinado. Parecem quadradas na forma e permane- cem fechadas normalmente. Se você tiver que consultar um quadrado determi- nado, você aperta um botão, ele se abre e vem para fora um rolo de matéria escrita. Você o desenrola e descobre o que quer. Há milhões e milhões destas celas e rolos, à volta, acima, em todo lugar. Felizmente, no mundo mental, você pode mover-se em qualquer direção, não precisa de elevadores, nem de escadas para subir.

A questão, entretanto, é como chegar até lá. Bem, a primeira coisa a fazer é silenciar sua mente completamente. Cogitações mentais e agitações devem ser deixadas para trás, nenhum pensamento deve entrar em sua consciência, ela deve estar tranquila e imóvel como um lençol de água transparente ou lisa e polida como um espelho. A descrição que fiz de uma biblioteca é apenas uma imagem, a coisa real é algo diferente. Entretanto, desta forma você tem alguma ideia para se basear. Na mente silenciosa você forma um ponto de consciência e

o envia como mensageiro para colher a informação requerida. Este ponto de

consciência deve estar totalmente desligado e ter a liberdade de ir para onde

quiser, pois se ficar preso a qualquer forma dos movimentos normais de sua própria mente, então, você não irá mais longe do que existe em sua cabeça. Você deve ser capaz de tornar seu cérebro vazio, não deve ter nenhuma noção preconcebida, nenhuma ideia de que a solução de seu problema esteja neste ou naquele caminho. Como disse, sua mente tem que se tornar uma página absolu- tamente em branco, uma lousa limpa, sem nada escrito nela,nem mesmo uma marca. Deverá haver, em vez disso, uma aspiração sincera para conhecer a ver- dade, sem postular de antemão que espécie de verdade deverá ser, senão você encontrará no cérebro sua própria formação.

Certamente você poderá testar e corrigir a informação que conseguir da via- gem interior pela informação exterior, do que outros acharam ou do que foi anotado em livros. O conhecimento interior não precisa nem deveria tomar o lugar do conhecimento exterior, mas suplementá-lo, e ambos deveriam apoiar- se e completar-se mutuamente. Mas há uma mistura sobre a qual você deve ser muito cuidadoso. Sua mente silenciosa, sua consciência interior recebe o conhe- cimento necessário, mas quando você quer expressá-lo ou traduzi-lo em termos normais, Quer dizer, quando seu cérebro se torna ativo novamente, pode, e de modo geral o faz, fornecer seus próprios materiais e formações, e o conheci- mento original é perturbado e distorcido. Algumas vezes o que você pode fazer

é ditar passivamente as coisas que vê ou percebe e deixar que outra pessoa

anote, por escrito, enquanto você prossegue. Você deve dizer exatamente o que vê e o outro tomar nota exatamente do que ouve.

LIBERDADE E DESTINO

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É como a imagem de ler um livro que lhe dei. Mas é, como disse, apenas uma imagem. O que ocorre realmente, é uma espécie de percepção. E a percep- ção pode ser na forma de uma imagem, pode ser na forma de uma narrativa. Outras vezes pode ser uma simples resposta a uma determinada questão. Há muitas espécies e variedades de registros, diferindo de acordo com os tipos ou níveis de consciência que você alcança.

Naturalmente, o processo não é fácil e disponível para todos, como um livro comum. Requer uma aptidão e uma disciplina especial.

LIBERDADE E DESTINO

De um certo ponto de vista, qualquer coisa que aconteça aqui no mundo material é a reprodução ou realização do que já aconteceu ou existiu em um outro nível de realidade. Portanto, neste mundo, não há livre escolha, tudo é predeterminado. Contudo, por outro lado, pode-se dizer, com igual verdade, que o mundo aqui está sendo recriado a cada momento. Não é meramente uma repetição ou volta ao passado, de um evento acontecido antes, um fenômeno preexistente, mas algo sempre novo e recente. Tome, por exemplo, o corpo material de uma composição química particular, tendo algumas propriedades bem definidas. Ele se comporta de acordo com esta natureza e produz inevita- velmente resultados derivados dela. Bem, se um novo elemento for introduzido dentro dele a qualquer momento, a qualidade inteira da composição e seu com- portamento sofrerão uma mudança. Algo parecido com isto acontece no univer- so.

O universo é uma massa enorme constituída de inúmeros elementos que formam uma certa composição e, de acordo com esta composição, tudo está organizado dentro dele. Mas este arranjo não é o fim ou o acme; não é estático, mas move-se para frente e está em processo de desenvolvimento. Porque a qualquer momento, através da ação de uma espécie diferente, um ou mais ele- mentos novos podem ser introduzidos na massa total que forma o universo a um dado momento e, inevitavelmente, mudará toda a composição interna, O universo, isto é, o universo material, é a concretização de um certo aspecto ou emanação do Supremo. Esta concretização é progressiva, não necessariamente de um modo regular e constante, mas em resposta a uma lei, com uma qualida- de sutil ou grau de liberdade. Assim, na composição do universo, a cada momento, novos elementos estão penetrando e alterando a organização. A organização, que era perfeita em si mesma e movia-se e desenrolava-se de acordo com um plano e padrão definidos, muda subitamente e as relações inte- riores também são modificadas e atingem um equilíbrio diferente. Isto pode dar

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PARTE VII

a impressão de algo incoerente ou impreciso ou milagroso de acordo com a maneira como se olha o problema. Assim, existem estes dois fatos ou fatores simultâneos: há um determinismo que é absoluto, a seu modo, com um movi- mento complementar de liberdade e há a adição imprevista dentro de uma soma existente fixa.

Esta adição vem da aspiração pela suprema Consciência. No fenômeno não existe nada para causar admiração. Há uma aspiração agindo no mundo, movendo-se com um certo fim em vista. O propósito é trazer de volta a cons- ciência decaída e obscura ao seu estado normal e original da consciência divina. Cada vez que esta consciência aspirante encontra um obstáculo ao seu trabalho, uma resistência nova para conquistar ou transformar, ela chama por uma nova Força; e esta nova Força é uma espécie de nova criação. No ser humano tam- bém, há domínios diferentes, em obediência à lei de correspondência; em cada um há um destino diferente e cada um é absoluto em sua linha. Mas há também nele, através de sua aspiração, a capacidade de entrar em relação com um domínio mais alto do que aquele onde ele acontece estar, e trazer para baixo a ação desta região mais elevada para o determinismo inferior. Assim, podemos dizer que há um determinismo horizontal em cada domínio, absoluto em seu trabalho normal. Mas há também uma intervenção vertical de outros planos mais altos ou mesmo do mais elevado e, então, o determinismo mais baixo é mudado completamente. Desta forma, cada ser humano é, ao mesmo tempo, uma soma dos vários determinismos, absoluta a seu modo, e há também uma liberdade absoluta que pode intervir trazendo para baixo outras forças dentro da moldura aparentemente rígida do destino dos mundos inferiores e alterá-la. Isto é como as coisas no mundo dão a impressão de imprevisível, do incalculá- vel, do milagroso.

Você pode chamar a isto de intervenção da Graça, porque sem a Graça Divi- na isto não podia acontecer. Existe uma consciência e uma visão das coisas na qual tudo é trazido de volta a esta única força; apenas a Graça existe, não há nada mais ali. Isso faz tudo. Mas como você não se elevou até este ápice, não teve essa realização extrema, tem que tomar em consideração sua própria pes- soa, sua aspiração pessoal, a coisa que chama pela Graça, à qual a Graça res- ponde. Os dois são necessários aqui. Enfim, ambos são modos de ver a mesma verdade, a mente, contudo, acha difícil conceber os dois em um movimento simultâneo. As rígidas distinções que faz, desperdiçam muito da verdade inte- gral, sutil e flexível de uma experiência total.

A VERDADE DIVINA SEU NOME E SUA FORMA

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A VERDADE DIVINA SEU NOME E SUA FORMA

A verdade divina no âmago das coisas tem sido chamada por toda espécie de nome, cada um apresentando-se segundo seu próprio ângulo de experiência. Mas ela é sempre a Realidade única. Há milhões de modos que conduzem a ela. Mas uma coisa é certa: você pode encontrá-la e qualquer que seja o caminho que siga, qualquer que seja a forma que lhe dê, o resultado é sempre o mesmo,

a experiência final é idêntica. Se todos tiverem-na alcançado, esbarram sempre

na mesma coisa. E a prova de que entraram em contato com a verdade divina é que ela é a mesma para todos; se não fosse a mesma coisa, não a teriam tocado.

Você pode lhe dar o nome que quiser, pois um nome é apenas uma palavra.

Qual é o valor de uma palavra, afinal? Você já notou que há pessoas que não

o entendem, embora lhes fale claramente? Há outras, ainda, que o entendem

mesmo que você pronuncie apenas duas palavras. A forma externa o som de uma palavra só tem sentido se existir uma força de pensamento por trás. Quanto maior a força de pensamento, mais poderosa e precisa e clara ela é, maior a chance das pessoas receberem a força e entenderem a palavra que car-

rega a força. Mas quando alguém fala sem pensar, de modo geral, é impossível entendê-lo; ouve-se apenas um barulho.

Você deve ter notado também que pessoas que vivem juntas e estão habi- tuadas ao pensamento e ao modo de falar uma da outra, não necessitam definir as palavras que usam ou mesmo usá-las em profusão para se entenderem. Hou- ve um ajustamento mental e as palavras são apenas o pretexto para o contato interior, o contato entre o cérebro e cérebro, que está subjacente ou mesmo precede as palavras. Mas quando você faz um novo conhecimento, leva algum tempo para se adaptar, e se ajustar para compreender as palavras que o outro usa.

É o significado, o pensamento por trás da palavra que é importante. Quando

o pensamento é poderosamente pensado, ele produz uma vibração da qual a

apalavra é apenas o mensageiro, um intermediário. De fato, você pode desen- volver a força-pensamento a tal ponto que seja capaz de estabelecer um conta- to material direto com um mínimo de palavras ou, até mesmo, sem usá-las absolutamente. É claro que isso requer um forte poder de concentração. Mas você descobrirá que o mecanismo do corpo é apenas um meio mecânico; é um instrumento, mas nem sempre importante ou indispensável.

Quando somos conscientes do Divino, vemo-lo em todas as coisas, em uma forma particular?

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PARTE VII

Você espera ver uma forma divina em todas as coisas? Pode acontecer, mas não posso afirmar com certeza. Tenho a impressão de que há uma grande dose de imaginação nessas experiências. Você pode, por exemplo, ver a forma de Krishna ou de Cristo ou Buda em cada ser ou coisa. Mas digo-lhe que muito da concepção humana entra nesta percepção. De outra forma, como estava dizen- do justamente agora, não seria verdade. Disse que todos que têm a consciência do Divino, todos que entram em contato com o Divino, onde quer que estejam, em qualquer era ou país a que pertençam, todos têm a mesma experiência essencial. Se não fosse assim, os hindus veriam sempre um de seus deuses, os europeus um de seus, os japoneses uma terceira variedade e assim por diante. Isso pode ser uma adição da própria formação mental de cada um, mas não seria a Realidade na sua essência ou pureza, que está além de qualquer forma. Uma pessoa pode ter uma percepção da Presença Divina, uma percepção muito concreta, pode mesmo ter um contato pessoal com o Divino. Mas não precisa acontecer na forma e através da forma específica que imagina. É algo inexprimí- vel, além de toda explicação ou definição, evidente apenas para aquele que tem a experiência. Quando você é subitamente elevado a uma condição peculiar e se encontra na presença do Divino, pode ser que Ele tome uma forma que lhe pareça familiar, uma forma que você esteja acostumado a associar ao Divino por causa de sua educação, de sua formação e tradição. Mas, digo, não é a suprema essência da experiência: afinal, a forma dá uma limitação à experiência, tira dela sua universalidade e grande parte de seu poder.

A IGNORÂNCIA SIMBÓLICA

Como pode haver manchas escuras na luz da consciência plena (a consciên- cia da Mãe)? A escuridão é apenas relativa e depende do grau e do status da consciência. No princípio, nos níveis inferiores e mais limitados, a luz é vaga e embaçada, circundada por uma área de escuridão maior e mais densa. Confor- me a consciência cresce, quer dizer, se manifesta, enquanto ela se eleva e se amplia, a obscuridade também diminui cada vez mais e vagarosamente desapa- rece. Esta consciência não é pessoal, mas algo impessoal. Em outras palavras, ela abrange em si o universo, incluindo especialmente a terra. E a terra é um objeto escuro feito de ignorância e inconsciência. A luz a envolve e gradualmen- te a penetra e a transforma. A consciência da Mãe e portanto, a consciência representativa: representa tudo o que ainda está inconsciente e lutando secre- tamente, sem saber, em direção à consciência. É também, ao mesmo tempo, a própria luz que age e transforma. A consciência divina encarnada agindo sobre si mesma, simboliza e incorpora sua ação sobre 0 Que poderia ser visualizado como outros.

DOENÇAS E ACIDENTES

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DOENÇAS E ACIDENTES

"Se o corpo ficar doente, a mente também ficará?"

Não necessariamente, sem dúvida. Doenças são geralmente, como lhes dis- se, um deslocamento entre as diferentes partes do ser, uma espécie de desar- monia. Pode ser que o corpo não tenha acompanhado o movimento ! de pro- gresso, possa ter ficado para trás enquanto as outras partes, ao contrário, fize- ram progresso. Neste caso existe um desequilíbrio, uma quebra de harmonia que produz uma doença, quero dizer, no corpo, pois a mente e o vital também podem continuar bem. Há muitas pessoas que estão doentes há anos, sofrendo de doenças terríveis e incuráveis e contudo mantém seu poder mental maravi- lhosamente claro e ativo e continuam, a fazer progresso naquele setor. Houve um poeta francês, um ótimo poeta chamado Sully Prudhomme que estava mor- talmente doente; foi durante essa época que escreveu seus poemas mais boni- tos. Estava sempre de bom humor, encantador e sorridente, agradável a todos, enquanto seu corpo decaía. Você deve se lembrar como o grande Luiz XIV cos- tumava brincar e rir quando, nos últimos dias de sua vida, seu corpo estava sen- do dilacerado e entregue às sanguessugas pelos médicos e cirurgiões. Varia de indivíduo para indivíduo. Pois há pessoas de outro tipo que ficam totalmente perturbadas, da cabeça aos pés se houver a mais leve indisposição física. Cada um tem sua própria combinação de elementos.

É claro que há uma relação entre a mente e o corpo, uma relação bem ínti- ma. Na maioria dos casos é a mente que faz o corpo ficar doente, pelo menos é o fator mais importante na doença. Como disse, há pessoas que mantém a men- te clara embora o corpo sofra.

Mas é muito raro e muito difícil manter o corpo sadio quando a mente sofre ou está desequilibrada. Não é impossível, mas muito, muito raro. Pois como lhe expliquei, a mente é que é a mestra do corpo, o corpo é um servo obediente e obsequioso. Infelizmente, não sabemos como usar a nossa mente, não apenas isso, usamo-la mal, da pior forma possível. A mente possui um considerável poder de formação e de ação direta sobre o corpo. É precisamente este poder que é usado pelas pessoas para fazerem seus corpos doentes. Assim que algo não vai bem, a mente começa a se preocupar, cria formações de catástrofes vindouras, cultiva toda espécie de futuros perigos imaginários. Bem, se em vez de deixar a mente atacar e destruir, se a mesma energia fosse usada para um propósito melhor, se boas formações fossem feitas, por exemplo, dando auto- confiança ao corpo, dizendo-lhe que não há nada para se preocupar, que é ape- nas um mal estar passageiro e assim por diante, nesse caso, o corpo seria colo- cado numa certa condição de receptividade e a doença iria embora tranquila-

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mente como veio. Assim é que se deve ensinar a mente a dar boas sugestões ao corpo e não amesquinhá-lo. Resultados maravilhosos serão conseguidos se você fizer isto apropriadamente.

Quando um acidente acontece, existe nele um momento crítico. Por exem- plo, você escorrega e cai. Bem, entre o momento em que você escorrega e o momento em que cai, há apenas uma fração de segundo quando lhe é dada a escolha, por assim dizer. Pode não ser nada ou algo muito sério. Mas para fazer

a escolha deve ter uma consciência perfeitamente desperta e o seu ser estar

permanente contato com o psíquico, Não há tempo para se fazer o contato, deve-se já estar em contato. Assim, justamente entre o escorregar e o cair, se a formação mental e psíquica for suficiente, você sairá ileso. Se, ao contrário, o corpo pensar, como é seu hábito: 'Oh, eu escorreguei" e ficar apreensivo é, como digo, uma Questão de fração de segundo, até menos então, a catástro- fe acontece. Você tem a capacidade de prevenir um acidente que está para

acontecer, a você é dada a escolha. Mas para isto você deve aprender a estar bem desperto, e ser totalmente consciente. Se estiver nessa condição, você pode prevenir um acidente, pode impedir uma doença que esteja a caminho. Mas é apenas uma questão de fração de segundo e você não deve perdê-la.

Contudo, existe ainda um outro momento. Quando tiver caído e já estiver

machucado, lhe é oferecida a escolha de torná-lo sem importância ou grave, se será apenas um contratempo ou se vai transformá-lo em algo realmente sério ou tão sério quanto possível. Não sei se você já notou que há certas pessoas que não perdem nenhuma ocasião de sofrer um acidente. Toda vez que há uma pos- sibilidade, elas a agarram. E o acidente nunca é leve, tende a ser sério e fre- quentemente, muito sério. As pessoas dizem: "que pessoa sem sorte! A sorte nunca está do seu lado! etc. etc." Mas tudo isso é pura ignorância. Tudo depen- de absolutamente do trabalho da consciência. Poderia citar inúmeros exemplos

e uns curiosos. Há pessoas que poderiam ter sido mortas, mas saíram sãs e sal- vas de acidentes. Com outras o que foi completamente inofensivo no começo, torna-se cada vez pior e, no fim, até fatal.

Mas você deve entender que não é o trabalho do pensamento, do pensa- mento comum. O pensamento pode ser tão bom em um caso quanto no outro. Tudo depende do momento da escolha. Há pessoas que sabem como reagir da maneira certa e no momento certo. E o caráter que importa. Tais pessoas têm uma consciência desperta e alerta; não estão dormindo, estão de guarda cons- tantemente dentro de si mesmas. E no momento certo chamam pela ajuda, invocam a força divina, sim, exatamente no momento certo. E o perigo é afasta- do. Caso contrário, toda vez que algo esteja errado, algum deslocamento no ser,

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se você for tomado pelo medo, por previsões tenebrosas ou se em sua cons- ciência se sentir derrotado, então, você estará perdido.

Como digo, não é a mente que decide. É uma atitude interior, um equilíbrio do ser, a consciência certa que reage da maneira certa. Seu efeito vai muito lon- ge. Você não sabe que poder é. Mesmo se for somente por uma fração de segundo, ela faz milagres. Só que ela já deve estar lá, você já deve estar no esta- do de alerta, porque naquele momento você não tem tempo de invocá-la.

Você pode dizer outra vez que é a Graça Divina que salva. Mas poderia expli- car como ela trabalha? Seria interessante, na verdade, descobrir que, quem tinha precisamente a consciência desperta, tinha também fé e confiança inte- rior, havia chamado por auxílio e tinha em si aquilo que respondeu automatica- mente e mesmo de uma certa forma inconscientemente a algo que veio para dentro. A inteligência humana é uma coisa relativa e tem graus de poder que variam. Usualmente ela entende por contrastes e opostos. Não entende uma verdade na sua tonalidade. Por exemplo, tenho recebido centenas de car- tas de pessoas agradecendo-me por terem sido salvas do perigo. Mas não me lembro de ter recebido nenhuma carta agradecendo-me por que as coisas foram normais e nada aconteceu. Os homens percebem a a ação da Graça somente quando há a atmosfera pessimista e há um perigo do qual escapam, quer dizer, quando já há prenuncio do acidente e quando o acidente foi evitado. Quando escapam do perigo em segurança então é que prestam atenção à força que sal- va. De outra forma não teriam sequer pensado nela. Se a viagem que fizeram tiver ocorrido sem nenhum acidente, não pensariam que estivesse Presente qualquer ação da Graça. Aceitam-na como uma coisa normal. Mas precisamente porque é assim, talvez haja uma Graça de uma ordem superior atuando aí e pos- sa já existir uma harmonia pré existente mais profunda entre a consciência da pessoa e a força mais alta à qual ela responde. A chance de um acidente já é o começo do deslocamento do qual falei. Mas a situação torna-se complicada se é o caso de acidente coletivo. O resultado então depende da atmosfera das pes- soas envolvidas. É a proporção destes dois elementos nas pessoas envolvidas num acidente coletivo, que determina o caráter e a magnitude do acidente.

Vou lhe contar uma história, quero dizer, uma história verdadeira a esse res- peito. Havia um piloto que era considerado o que se chama de um ás entre os seus companheiros da Primeira Guerra Mundial. Era um aviador extraordinário e um herói de muitas vitórias. Nada jamais lhe acontecera em tempo algum. Mas perto do fim da vida, um acidente ocorreu alguma tragédia particular e subitamente teve a sensação de que algo iria lhe acontecer, um acidente talvez e tudo estaria terminado para ele. Havia saído da guerra mas ainda estava no

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PARTE VII

exército. Queria fazer um vôo à África do Sul, da França direto ao sul da África. Partiu da França e dirigiu-se à Madagascar, ao que me lembro, e então queria voar de volta para a França. Bem, meu irmão era nessa época o governador do Congo e precisava voltar a seu posto o mais breve possível. Ele pediu um lugar no avião do piloto de quem estou falando. Não era um avião de serviço regular, mas um destes usados para testes, para mostrar a habilidade do aviador e a capacidade das máquinas. Muitos tentaram dissuadir meu irmão de fazer a via- gem, dizendo que estas viagens aventurosas eram sempre perigosas. Meu irmão, contudo, não se importou com o risco. Nada sério aconteceu, exceto um ligeiro enguiço no meio do Saara, que foi facilmente reparado e o avião fez uma jornada a salvo e deixou-o em seu lugar no Congo. O avião continuou em dire- ção à Madagascar. Bem, o piloto começou a voltar, fez metade da viagem, e então seu avião espatifou-se e ele morreu imediatamente. Explicarei a vocês o que realmente ocorreu. O que aconteceu tinha que acontecer, era um resultado previsto. Meu irmão tinha uma absoluta fé no seu destino, uma certeza que nada o tocaria. A consciência do outro era, ao contrário, cheia de dúvidas e apreensões. Assim, a mistura das duas atmosferas fez com que em primeiro lugar, o acidente não pudesse ser evitado, mas impediu que se tornasse uma catástrofe.

Mas já que o destino de meu irmão não estava lá na máquina como o destino de César que fez o barqueiro remar a salvo pelo rio e através de uma tempestade a proteção foi também retirada e o piloto teve que cair sob o peso da força de seu destino malfadado. Posso narrar uma outra história análo- ga a respeito de um navio. Havia duas pessoas, marido e mulher. Foram para a Indochina pelo ar. Tiveram um acidente, um acidente muito sério. Todos morre- ram, exceto estes dois. Agora, tinham que voltar à França. Não queriam viajar pelo ar porque já haviam tido uma experiência desagradável. Assim, tomaram um barco, ou melhor, um navio, que pensavam seria completamente seguro. Bem, o que aconteceu foi absolutamente inesperado, completamente extraor- dinário. No meio do Mar Vermelho, em plena luz do dia, o navio bateu de encontro a um banco de areia e afundou coisa que acontece uma vez em um milhão de casos. Todos os passageiros se afogaram, exceto, outra vez, milagro- samente, o casal. Existem pessoas como estas carregam a infelicidade em si, mas o infortúnio é para os outros, eles próprios escapam de algum modo.

Se você olhar a coisa de um modo comum, não percebe nada. Mas o fato está aí. Você deve ser muito cuidadoso com suas associações. Uma associação infeliz pode ser desastrosa para você. O Karma dos outros pode cair-lhe em cima, a não ser que você tenha o conhecimento interior, a visão e o necessário poder. Se você vir uma pessoa com algo como um redemoinho escuro à volta,

O PROBLEMA DO MAL

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evite-o de todos os modos. A moral disto tudo é que, é muito útil olhar para as coisas um pouco mais profundamente do que observar apenas a superfície.

O PROBLEMA DO MAL

Deus criou o mundo, o mundo material como ele é? Sim e Não, mais "Não" do que "Sim". Porque Ele não criou diretamente. Houve muitos criadores, melhor "formateurs", fazedores de formas, entre o mundo e Deus, que se junta- ram no trabalho da criação, quem eram eles? Deram-lhes vários nomes. A cria- ção geralmente segue um princípio de gradação. É feita passo a passo, mundo surgindo de mundo, sucessivamente. Cada mundo é um estado particular de ser, um modo particular de consciência. Cada estado é habitado por entidades, individualidades, personalidades e cada uma criou um mundo à sua volta ou ajudou na criação de certos tipos ou espécies na terra . Os últimos destes cria- dores ou formadores foram os do mundo vital. No topo estão aqueles que moram na região que Sri Aurobindo chama de sobremente. Pode-se dizer que foram estes que deram as primeiras formas aos seres e coisas terrestres. Eles emitiram suas emanações e estas, por sua vez, emitiram outras e assim por diante. Então, não foi a Vontade Divina que agiu diretamente sobre a Matéria e deu ao mundo a forma que podia ou deveria ter tido. Existem camadas ou pla- nos, gradações intermediárias sucessivas, através das quais a Vontade teve que agir. Falei do plano sobremental e do plano vital. Há também o plano mental entre eles. Existem os seres mentais que são também criadores, dando forma a alguns seres que tomaram corpo na terra.

Por isso, existe uma tradição que diz que o mundo dos insetos é produto dos criadores do mundo vital. É por essa razão que quando você vê insetos sob o microscópio, eles assumem aparências que são absolutamente diabólicas. Aumentados numa tela, parecem verdadeiros monstros, tão horríveis são. São monstros microscópicos. Dizem então, que seres do mundo vital pensaram em se divertir e criaram estas coisas detestáveis e insuportáveis, que tornam a exis- tência humana desagradável.

É claro que você pode perguntar como estes intermediários chegaram a existir se não vieram do Divino. Os intermediários procedem de outros interme- diários ainda mais elevados, até que a cadeia alcança o Supremo. Originalmente, quer dizer, se você remontar à fonte original, é claro que só existe o Divino. Então, como aconteceu a deformação? Eu expliquei uma vez que se você per- manecer uno com o Divino, sob sua direta influência, se não seguir o movimento da criação ou expansão, exatamente como o Divino quer, esta ruptura de conta- to é suficiente para motivar o maior de todos os males, a divisão. Mesmo o mais

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PARTE VII

luminoso, o mais poderoso dos seres pode seguir seu próprio movimento , em vez de obedecer ao movimento divino. Eles podem ser até mesmo seres maravi- lhosos e os seres humanos, se os vissem, tomá-los-iam pelo próprio Divino e contudo eles podem, se seguirem sua própria vontade e trabalhar em desarmo- nia com o universo, ser a fonte das maiores desordens. Não existe nada que não seja Divino, só que acontece uma desordem, quer dizer, cada coisa não está no seu devido lugar. O problema é como isso vai ser remediado.