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CEFART - CENTRO DE FORMAÇÃO ARTÍSTICA

PRODUÇÃO EM ARTES VISUAIS - EXPOGRAFIA

Isabela Cordeiro Lopes

Investigações em escultura:
a performatividade do volume e da linha em obras contemporâneas

BELO HORIZONTE
2018
Anna Maria Maiolino, Rolinhos na horizontal, 1993
gesso moldado, 97 x 130 cm

Louise Bourgeois, Sleep II (Sono II), 1967


mármore e dois blocos de madeira, 59.4 x 76.8 x 60.3 cm
Giuseppe Penone, Avvolgere la terra – il colore delle mani (Envolver a Terra - a cor das mãos), 2014
terracota e engobe de quartzo colorido, cerca de 83 x 120 x 70 cm

Exposição solo do artista: Ebbi, Avrò, Non Ho (Tivera, Terei, Não tenho)
Galeria Marian Goodman Gallery, Paris, França, set-out 2016
Todo o grande artista é inevitavelmente contemporâneo.
Não se pode criar o seu século. À lei férrea do tempo não se pode desobedecer.
Há quem diga que no futuro não haverá fronteiras, mas isso desde sempre foi
prometido pelos artistas. (MOLDER, 2017, p. 50)

Introdução

Falar de arte contemporânea é, necessariamente, conversar sobre as relações possíveis


entre forma e conteúdo. Mais do que isso, entretanto, é conversar sobre as relações que forma
e conteúdo estabelecem com seu tempo - o tempo da obra e o tempo histórico em que se inserem
artista e obra. Sem um ou sem outro não há a possibilidade do contemporâneo: este nada mais
é que “a relação com o tempo que a este adere através de uma dissociação e um anacronismo”
(AGAMBEN, 2010, p. 59).
Este trabalho pretende, ao voltar o olhar para três diferentes esculturas, investigar essas
relações do contemporâneo postas pela forma escultórica: mais precisamente, pelos elementos
do volume e da linha nas obras e pelas possibilidades de leitura que estes abrem no que tange
aos aspectos de representação, temporalidade, corpo, ação e, por fim, performance -
compreendida aqui de forma conceitual e aberta. São três esculturas distintas, de momentos
históricos, contextos de produção, origem e propostas claramente diferentes. Conservam,
entretanto, todas as três, algo de inerentemente discursivo, conectado a um mesmo
deslocamento conceitual - deslocamento este que está nas relações fronteiriças entre sua
composição (e, como foi dito, mais especificamente seus elementos de volume e linha) e seu
diálogo com os tempos de produção: um discurso constituído sobre seu próprio fazer, sua
materialidade, seu processo.
Louise Bourgeois, com seu mármore sensual, entre surreal e conceitual (1967), Anna
Maria Maiolino, com seus repetitivos rolinhos horizontais (1993) e Giuseppe Penone, com seu
vigoroso mas ainda delicado trabalho com a natureza (2014) são três artistas com trabalhos que
partem em direções conceituais bem distintas, mas que têm uma aproximação narrativa: a de
falarem, no tempo da obra, sobre o seu processo de vir a ser. Ou, ainda, a de falarem, pela obra,
dela mesma. Apontamos, então, para a noção de que “a questão da arte contemporânea é a
questão de pensar a si mesma” (RAJCHMAN, 2011). Nesse sentido, as três esculturas
desenvolvem, através de suas linhas e volumes, de forma alguma dissociados, uma relação
dialética consigo mesmas e, principalmente, através de seus próprios corpos - o próprio volume,
as linhas que dialogam e se imprimem, a densidade por vezes pouco rigorosa, mas sempre
presente, o equilíbrio curvilíneo que marca todas elas - enfim, todos esses e muitos outros
elementos que compõem as esculturas performam, eles mesmos, um tempo e um espaço de
comunicação para a arte.
A escolha pelo tema de volume e escultura se deu a partir dessa leitura: na tentativa de
compreender essas obras em sua própria construção de sentido sobre si mesmas; e na captação
do olhar que estes dois elementos escultóricos agenciam. Tomando das palavras de Naum Gabo,
em seu Manifesto Realista, de 1920, “o espaço e o tempo são as únicas formas sobre as quais a
vida é construída e, portanto, também a arte deve ser construída” (GABO, apud CHIPP, 1988,
p. 331), procuramos, então, investigar esta performatividade da própria vida que se dá nessas
obras contemporâneas. Entender, por fim, a escultura contemporânea, ao menos as três
escolhidas, como uma ação assinalada em seu próprio tempo, apontando sempre para seu
processo de devir.

O volume e a linha nas obras

O volume, nessas obras, toma o papel de moldar, alterar, ressignificar o espaço do real,
não mais o de representá-lo. Mais que uma comunicação do real, o volume nas obras escolhidas
tem um aspecto de ação e percepção da ação - ação esta que recai sobre o próprio ambiente ou
sobre a própria escultura, e tem como agente a obra em si ou um gesto oculto da(o) artista. Seu
tempo, portanto, é o do fazer, não aquele tempo histórico em que as esculturas clássicas ou
modernas majoritariamente procuram se inscrever. É neste sentido que aportamos a noção da
performatividade do volume, compreendendo a performance como uma ressignificação da ação
pela produção de um tempo próprio:
Como definir a performance, sendo ela um meio híbrido por essência? Sua estrutura
está sendo sempre remontada e reapropriada. Absorvendo as idades e passagens do
tempo como parte de seu composto, o artista produz um elo entre o tempo da história
e o tempo presente, sentido em um corpo também ambíguo. (ROLLA, 2012, p. 125)

A linha, por sua vez, age nessas obras quase como um fio condutor das tensões entre
massa e espaço, corpo e tempo, materialidade e fluidez. Não necessariamente abstratas, mas
forçosamente metalinguísticas e autorreferenciais, as tensões contidas pelas linhas, entretanto,
não são restritas ao interior das obras. Pelo contrário, apesar de comunicarem relações ambíguas
de ação e reação, inscrevem-se mais no campo do conceito e da impressão que propriamente
naquele da física: isso porque, por mais que as linhas estejam atreladas ao real, necessariamente,
sua narrativa não se dá sobre o corpo escultórico em si - mas sim, tal qual o volume, e em
consonância com ele, sobre o gesto e a matéria.
Rolinhos na horizontal (1993), Anna Maria Maiolino

“Você está tão íntima com os processos, que você não sabe onde começa o processo,
onde começa a tua vontade.” (MAIOLINO, 2014) O trabalho da artista ítalo-brasileira caminha
justamente no sentido de adentrar-se nos processos artísticos ao ponto do indissociável - e, ainda
além, de tomá-los como parte integrante da própria tessitura de seus trabalhos. Segundo verbete
da Enciclopédia Itaú Cultural, o trabalho da artista
de certa forma anuncia a preocupação com a gestualidade e a relação com a matéria,
presente nos objetos escultóricos de parede e relevos (em argila, gesso e cimento) do
início dos anos 1990. Pouco a pouco, Maiolino concentra-se no aspecto manual do
fazer artístico e passa a usar quase que exclusivamente a argila. Elabora projetos com
grande quantidade desse material, em que a repetição do gesto e seu registro na
matéria assinalam enorme concentração de energia. Instalações como Muitos (1995)
ou São Estes (1998) colocam o corpo no centro do trabalho de arte, ao mesmo tempo
em que transformam o gesto desmemoriado do cotidiano em reservatório de
experiência. (ENCICLOPÉDIA, 2018)

Rolinhos na horizontal, parte desses trabalhos do início dos anos 1990, consiste em uma
série de rolinhos em gesso dispostos na parede uns acima dos outros. Integrados a uma narrativa
pessoal da artista, os rolinhos, motivo repetido reiteradamente em suas obras, remetem à
produção caseira de massa típica de sua tradição familiar italiana, e também ao modo de fazer
das esculturas por moldagem. Remontando, então, ao gesto das mãos de moldar e trabalhar o
material dando-lhe forma e volume, a escultura integra-se à noção contemporânea de tentar
compreender-se em si mesma.
Seu volume, simultaneamente equilibrado e irregular, é realçado pela forma expositiva
escolhida, sobre uma parede lisa e plana. Dessa forma, as saliências, inchaços e sinuosidades
são adensados, convidando o olhar a acompanhá-los, imaginando e percebendo as nuances de
força e movimento impressos pelo trabalho manual. As linhas, conjuntamente, têm um papel
importante: em uma produção marcada pela repetição, os rolinhos sobrepostos dialogam entre
si por meio de linhas desiguais, descontínuas e pouco tensionadas. Elas são, mais do que tudo,
uma presença reiterada, rompendo uma possível continuidade da massa e definindo uma
linearidade horizontal ao mesmo tempo calma e instigante.
Sleep II (1967), Louise Bourgeois

O trabalho de Louise Bourgeois


tem formas sensuais e orgânicas, como aquelas feitas por ela anteriormente em látex
e gesso. Mas dessa vez elas foram esculpidas em mármore, como para enfatizar o
contraste entre sua aparente suavidade e a real dureza da pedra. As formas também
têm uma qualidade ambígua, ao mesmo tempo fálica e bulbosa, ou semelhante a um
seio, dura e macia, masculina e feminina. (TATE, 2007)
O vigoroso trabalho da artista, construído em torno da memória, da psicanálise e de sua relação
com o corpo humano adquire, muitas vezes, um caráter oscilante entre surrealismo e
conceptualismo. Aqui, ao voltarmos o olhar para a escultura Sleep II, estes elementos mostram-
se presentes: de forma simbólica e sugestiva, a obra remete a uma concepção de corpo que é
comunicada pelo volume e pela matéria, estabelecendo uma conversa sobre sua própria
constituição matérica e a que ela nos aporta em termos de memória e associação.
O volume é voluptuoso e avultado, e não parece se conter na concretude do mármore,
sugerindo uma flacidez e uma maleabilidade que o material não permite. As curvas,
contornadas por linhas sugestivas e suaves, ainda que também rigorosas, por sua sensação quase
tátil e necessariamente marcada, delimitam o volume sem necessariamente contê-lo, em uma
relação que não implica em causa e consequência e sim, muito mais, em contrastes e sugestões.
A metalinguagem deste trabalho, diferentemente do que vimos em Maiolino, que trata do
processo e do fazer, encontra-se na provocação acerca dos materiais e das associações
inconscientes (aproximando-se, então, das concepções do surrealismo e da psicanálise, como
muitos dos trabalhos de Bourgeois). Essa escultura, então, joga com as possibilidades do
mármore, falando dele em sua superfície e em sua forma, evocando contrários e potencialidades
ao pensar formas de corpo em uma forma quase abstrata.

Avvolgere la terra - il colore delle mani (2014), Giuseppe Penone

Minha preocupação sempre foi de criar esculturas não apenas como uma pesquisa da
forma, mas como uma pesquisa do conteúdo, e a necessidade existencial ligada à
escultura. Tentando fazer um trabalho ligado à natureza, para encontrar um novo
campo de estudo e uma nova área de trabalho. (PENONE, 2011)

Essa é a proposta do trabalho do artista italiano: procurar compreender, pela escultura, o


conteúdo dela mesma, e fazê-lo pela investigação da natureza, do espaço do vivo e das linhas
de força daquilo que se constitui como material de trabalho: troncos de árvores, folhas, pedras,
barro - os materiais de que Giuseppe Penone se apropria já são, em si, uma investigação, tal
qual vimos no trabalho de Louise Bourgeois. Aqui, na escultura Envolver a terra - a cor das
mãos, o artista faz uso da terracota, remetendo diretamente à terra, ao barro e ao próprio ato de
criação.
Uma obra complexa, esta escultura é sinuosa, sugerindo curvaturas e caminhos não-
lineares, em um volume pouco definido que não chega a remeter a nenhuma representação
realista possível. Seu título sugestivo, entretanto, aponta para um sentido contido pela força das
linhas e do corpo que performam um lugar próprio para a escultura: ao apontar para o envolver
a terra com as mãos, Penone nos propõe um pensar sobre a ação constituinte daquela escultura,
seu ato fundador e essencial - enfim, um olhar voltado para o gesto processual que dá à obra
sua forma e sua narrativa. Se comparada com as duas outras esculturas aqui trabalhadas, a
escultura do artista italiano comunica-se nos dois caminhos abertos por Maiolino e Bourgeois:
com a primeira, encontra-se na narrativa de um processo artístico, discutindo na obra seu fazer;
da segunda tem a mesma preocupação com o material utilizado e sua discursividade quase que
inerente.
O volume dessa escultura está, sem dúvida, conservado em seu próprio interior,
comunicando-se com o exterior pela sinuosidade. Não é, então, um volume expansivo, mesmo
que exista nele um movimento de ida e vinda proposto pelo próprio gesto das mãos de apalpar,
amassar, envolver o material da terracota e imprimir-se nela. As linhas ganham portanto grande
destaque na obra, marcando claramente as forças de expansão e contração, as direções da ação
e sua integração com o ambiente, em uma dinâmica relação com o volume - sem contê-lo
propriamente, mas certamente delineando seu comportamento.

A relação com o espaço expográfico de Ebbi, Avrò, Non Ho (2016)

A escultura Avvolgere la terra - il colore delle mani (2014) foi exibida, em 2016, em
uma exposição solo do artista Giuseppe Penone, na França. A exposição, cujo nome pode ser
traduzido por Tivera, Terei, Não tenho, ocupou um espaço amplo de uma galeria de arte
contemporânea e distribuiu, neste espaço, obras diversas do artista, dispostas no formato
clássico do cubo branco. Com um pé direito alto, paredes brancas e grande entrada de luz, o
espaço expográfico ofereceu ao visitante uma experiência de apequenamento diante das obras
de grande porte. A escultura, por sua vez, foi exposta ao centro da galeria, sem pedestal,
colocada de forma singular no chão cinzento, apequenada ela também em relação ao amplo
espaço livre disponível.
Essa escolha expositiva valorizou o vazio - elemento pouco presente na escultura em si
- de forma a relativizar o próprio volume da obra. Apequenada ao centro da galeria, a escultura
assemelha-se a um evento mínimo e potente que acontece diante do observador, uma onda com
cores, volume e linhas. Enquanto as linhas do espaço convergem para a escultura, as linhas da
própria escultura acabam por concentrar-se na obra de forma mais hermética, ensimesmada -
menos performática, certamente, que a obra em si, e que a obra, talvez, em algum outro espaço
expográfico. O volume da própria galeria (e, por que não, o volume do amplo vazio ali contido)
age pesadamente sobre o volume da obra, que, apesar de maciço e bem integrado em si mesmo,
integra-se apenas suavemente com a amplitude branca e com pouca natureza da galeria de arte.

Conclusão

A arte demanda tempo, um simples passar de olhos não permite abranger toda a
amplitude das criações plásticas. (...) A expressão “arte contemporânea” é bem
particular pois ela remete a uma arte desenfreada, livre dos cânones acadêmicos. Eu
digo “expressão” pois ela não é uma categorização real nem estética nem estilística,
mas sobretudo uma sensação. (MARTINS, 2017)

Pensar, então, a escultura contemporânea a partir de seu volume e linha e a partir de sua
contemporaneidade é, sem dúvida, pensar sobre seu próprio lugar como escultura e sua relação
com o fazer artístico que a constitui - nisso constando tanto o gesto da(o) artista, quanto os
materiais utilizados quanto, e principalmente, a narrativa autorreferencial produzida a partir
destes elementos. Aqui, as três obras escolhidas para análise performam, através de seu volume
e linha, sua inter-relação e sua relação com o tempo da produção, um novo tempo: uma
temporalidade que, performática, “quer ser penetrável, transformadora de espaços, pessoas e
mentes (...), quer ser mutante e mimético” (ROLLA, 2012, p. 125).
Maiolino, Bourgeois e Penone se encontram, então, na construção de um pensamento
sobre a arte em si, sobre a produção e seu processo, sobre a impressão do e no material, sobre
as discursividades e permeabilidades possíveis - e impossíveis - da arte de pensar a si mesma e
pensar em seu próprio fazer. Mimetizam, por fim, um espaço e um tempo retirados do real mas
necessariamente próprios - um espaço e um tempo para o pensamento da obra.
Referências bibliográficas

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2010.

ANNA Maria Maiolino. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São
Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa9539
/anna-maria-maiolino. Acesso em: 14 de Jun. 2018. Verbete da Enciclopédia.

GABO, Naum. Manifesto Realista. In: CHIPP, H. B. Teorias da arte moderna. São Paulo:
Martins Fontes, 1988.

GIUSEPPE PENONE: Documentary. Birmingham: Ikon Gallery, 2011. Disponível em:


https://www.youtube.com/watch?v=7Fo-76Gfg3w

LOUISE BOURGEOIS: Room 7. In: Tate Gallery. Londres: Tate Modern, 2007-08. Disponível
em: http://www.tate.org.uk/whats-on/tate-modern/exhibition/louise-bourgeois /room-
guide/louise-bourgeois-room-7

MARTINS, Alicia. L’art contemporain est-il populaire? In: Deuxième Temps, 2017.
Disponível em: deuxieme-temps.com/2017/02/11/dossier-lart-contemporain-est-il-populaire

MOLDER, Maria Filomena. Cerimónias. Belo Horizonte: Chão da Feira, 2017.

MUSEU VIVO: Anna Maria Maiolino. Direção: Cacá Vicalvi. Produção: Renata Antoniassi.
São Paulo: SescTV, 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4ZJ1bF1p8Yk

RAJCHMAN, John. O pensamento na arte contemporânea. Trad. Alberto Rocha Barros. Rev.
Novos Estudos - CEBRAP. São Paulo, n. 91, nov. 2011. Disponível em: http://dx.doi.org/
10.1590/S0 101-33002011000300005

ROLLA, Marco Paulo. O corpo da performance. Revista UFMG. Belo Horizonte, v. 19, n. 1
e 2, p.124-129, jan./dez. 2012