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CENTRO UNIVERSITÁRIO BARÃO DE MAUÁ

MONIQUE ULLEN AZZOLA DE SOUZA


PATRÍCIA APARECIDA BARAÚNA CORDEIRO

Adolescentes em conflito com a lei: variáveis desenvolvimentais.

RIBEIRÃO PRETO
2016
MONIQUE ULLEN AZZOLA DE SOUZA
PATRÍCIA APARECIDA BARAÚNA CORDEIRO

Adolescentes em conflito com a lei: variáveis desenvolvimentais.

Trabalho de conclusão de curso de Psicologia


do Centro Universitário Barão de Mauá.
Orientadora: Profª Dra. Marlene de Cássia
Trivellato Ferreira

Ribeirão Preto
2016
Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio
convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.

S716a
SOUZA, Monique Ullen Azzola de
Adolescentes em conflito com a lei: variáveis
desenvolvimentais / Monique Ullen Azzola de Souza; Patricia
Aparecida Baraúna Cordeiro - Ribeirão Preto, 2016.
46p.

Trabalho de conclusão do curso de Psicologia do Centro


Universitário Barão de Mauá
Orientador: Dra. Marlene de Cássia Trivellato Ferreira

1. Adolescência 2. Desenvolvimento 3. Delinquência I.


CORDEIRO, Patricia Aparecida Baraúna II. FERREIRA,
Marlene de Cássia Trivellato III. Título

CDU 159.9

Bibliotecária Responsável: Iandra M. H. Fernandes CRB8 9878


MONIQUE ULLEN AZZOLA DE SOUZA
PATRÍCIA APARECIDA BARAÚNA CORDEIRO

Adolescentes em conflito com a lei: variáveis desenvolvimentais.

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado ao Centro Universitário
Barão de Mauá como exigência
parcial para obtenção do grau de
bacharel em Psicologia

Data de aprovação:__ /__ /2016.

BANCA EXAMINADORA:

________________________________________
Prof.ª Dra. Marlene de Cássia Trivellato Ferreira
Centro Universitário Barão de Mauá – Ribeirão Preto

_________________________________________
Profa. Me. NatháliaSabaineCippolaRoncato
Centro Universitário Barão de Mauá – Ribeirão Preto

__________________________________________
Mariana Reis Felipe
Psicóloga/Coordenadora do Projeto Inclusão de Jardinópolis.

RIBEIRÃO PRETO
2016
Dedicatórias

Dedicamos este trabalho em primeiro lugar a


Deus, pois sem ele certamente esta conquista
não seria possível, a nossa família, em especial
aos nossos pais, Adriana e Clayton; João e Silvia
e aos nossos irmãos, João Vitor; e Paulo
Henrique que depositaram todo amor, confiança e
apoio para a realização deste estudo. À nossa
orientadora Marlene que se fez presente em todos
os momentos, nos contagiando com seu amor
pela profissão. As participantes da nossa banca
examinadora, Nathália e Mariana, pela
disponibilidade de estar presente nesse momento
único em nossas vidas.

Monique Ullen Azzola de Souza


Patrícia Aparecida Baraúna Cordeiro
AGRADECIMENTOS

A Deus por ter me dado saúde, bom ânimo e forças para superar todas as
dificuldades, sem Ele nada disso seria possível!

A minha mãe pela paciência, amor e apoio incondicional, você é minha inspiração de
todos os dias.

Ao meu pai Clayton e meu irmão João Vitor, que mesmo de forma mais reservada,
foram essenciais para que esse sonho se concretizasse.

Aos meus familiares por todo amor e incentivo.

A minha orientadora, professora e supervisora Marlene, que com todo amor dividiu
seu conhecimento e nos auxiliou no decorrer deste trabalho, obrigada por mostrar
que a vida pode ser mais simples e muito mais leve, seu amor e alegria contagiam!

A minha dupla Patrícia, por toda parceria, amizade, paciência e cumplicidade. Sua
humildade me mostrou o quanto juntas podemos ir mais longe, com toda certeza
dividir esta jornada com você tornou tudo mais leve, muito Obrigada!

A minha chefe Mariana, obrigada por me ensinar a ver a vida com mais leveza, seu
apoio foi fundamental para a construção deste trabalho.

Aos meus queridos amigos, professores e parceiros do dia-a-dia, por ter partilhado
dos momentos de angustias e alegrias.

Aos meus avós toda minha gratidão, minha avó Mariana não está mais entre nós e
meu avô José, sem vocês nada disso teria sentido!

E a todos que direta ou indiretamente fizeram parte da minha formação, o meu muito
Obrigada!

Monique Ullen Azzola de Souza.


AGRADECIMENTOS

Agradeço, primeiramente, a Deus, por ter me mostrado que o caminho a ser


enfrentado seria bem mais tranquilo do que pude imaginar e por sempre me mostrar
que eu estava no caminho certo e que conseguiria alcançar essa conquista.

Aos meus pais, João e Silvia, que tiveram uma vida muito difícil, mas que
nunca perderam a fé e a esperança de alcançarem grandes conquistas, sendo uma
delas, a minha formação. Tenho uma enorme admiração por vocês, pelo que são,
pela humildade, por tudo o que enfrentaram e pelos infinitos ensinamentos que me
proporcionam até hoje, amo vocês!

Ao meu irmão, Paulo, que é essencial em minha vida, uma pessoa que
sempre pude contar nos momentos mais difíceis, apesar de muito reservado eu sei
que sempre desejou o melhor para mim.

A minha orientadora/professora/supervisora, Marlene, que conseguiu me


mostrar que tudo nessa vida é mais leve do que pensamos, a forma de lidar com as
coisas é que faz toda a diferença. Obrigada por cada aula, cada orientação, cada
conselho que você pode me dar, esse carinho que você sempre teve comigo e o seu
amor pela profissão sempre estarão presentes no meu coração.

A minha parceira e amiga, Monique, que se fez primordial na realização desse


trabalho. Obrigada pelo seu ombro amigo nos momentos mais difíceis e por
conseguir me mostrar que sempre estávamos no caminho certo, mesmo em meus
momentos de desespero e insegurança.

A todos os familiares, e pessoas que direta ou indiretamente pode contribuir


para essa minha grande conquista.

Por tudo o que sou e consegui e sou até hoje, devo a todos vocês!

Patrícia Aparecida Baraúna Cordeiro.


Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma
humana, seja apenas outra alma humana.

Carl Jung

Talvez não tenha conseguido fazer o melhor, mas lutei para que o melhor fosse

feito. Não sou o que deveria ser, mas Graças a Deus, não sou o que era antes”.

Marthin Luther King


RESUMO

SOUZA, M. U. A; CORDEIRO, P. A. B; Adolescentes em conflito com a lei: variáveis


desenvolvimentais. 2016. Trabalho de Conclusão de Curso. Centro Universitário Barão de
Mauá, Ribeirão Preto, 2016.

O desenvolvimento humano pode ser compreendido a partir do interjogo entre fatores de


risco e de proteção presentes nas características pessoais e do contexto do indivíduo. O
presente estudo aborda a adolescência e considera que estabelecer os fatores de risco e de
proteção ao desenvolvimento dos adolescentes em conflito com a lei torna-se uma
estratégia importante para a promoção de medidas de prevenção de risco ao
desenvolvimento do adolescente. Assim, o presente estudo teve como objetivo geral
identificar os fatores de risco e de proteção ao desenvolvimento de adolescentes em
situação de conflito com a lei. O estudo foi realizado por meio de uma pesquisa bibliográfica
em artigos de revistas indexadas na plataforma Scielo, dos quais foram selecionados 25
artigos no total, a partir das palavras chaves, adolescente infrator e delinquência juvenil,
destes, quatro atendiam os critérios de inclusão do estudo. Os resultados apontam que
existem altos índices de adolescentes envolvidos em atos infracionais, dentre os fatores de
risco ao desenvolvimento presentes na família, os quatro estudos destacam a família com
pouco repertório afetivo, socioeconômico e psíquico. Quanto aos fatores de proteção ao
desenvolvimento, os estudos sugerem que a família e a escola são entendidas como fatores
de proteção, quando promovem o desenvolvimento dos adolescentes, por meio do bem-
estar físico, psicológico e social. Diante de tais aspectos sabe-se que cada fator
apresentado neste trabalho isoladamente não levariam um adolescente a prática de atos
infracionais, mas como abordado no decorrer do trabalho, o desenvolvimento humano é
resultado da interação de diversos fatores, sendo eles de risco ou de proteção, que podem
estar presentes no meio na qual o indivíduo encontra-se inserido, vale ressaltar que ainda,
existem as influencias e condições pessoais (subjetivas) do adolescente em lidar com sua
forma de vida.

Palavras–Chave: adolescentes; conflito com a lei; ambiente familiar; adolescência;


desenvolvimento.
ABSTRACT

SOUZA, M. U. A; CORDEIRO, P. A. B; Adolescents in conflict with the law:


developmental variables. 2016. Work Conclusion of course. University Center Barão de
Mauá, RibeirãoPreto, 2016.

Human development can be understood from the interplay between risk and protection
actors present in the personal characteristics and context of the individual. The present study
addresses adolescence and considers that establish in risk and protective factors for the
development of adolescents in conflict with the law becomes an important strategy for
thepromotionofmeasuresofriskpreventiontoadolescentdevelopment.Thus,
thepresentstudyaimedtoidentifytheriskfactorsandprotectionofthedevelopmentofadolescents in
conflict with the law. The study was carried out by means of a bibliographic research in
articles of journals indexed in the Scielo platform, from which 25 articles were selected in
total, from the key words, adolescent offender and juvenile delinquency, of which four metthe
inclusion criteria of the study. The results indicate that there are high rates of adolescents
involved in infractions, among the develop mental risk factors present in the family, the four
studies highlight the family with low affective, socioeconomicandpsychicrepertoire.
Regardingthedevelopmentprotectionfactors, the studies suggest that the family and the
school are understood as protectionfactors, whentheypromoteadolescents' development,
throughphysical, psychologicaland social well-being. Faced with such aspects it
isknownthateachfactorpresented in this work alone would not lead
anadolescenttocommitinfractions, but as approached in the course of the work, human
development is the result of the interaction of several factors, beingtheyofriskorprotection ,
Which maybe present in the environment in whichthe individual is inserted, it is worth
mentioning that there are still the personal (subjective) influences and conditions of the
adolescent in dealingwithhis / her way of life.

Keywords: adolescents; conflict with the law; adolescent; familiar environment; adolescence;
development.
SUMÁRIO

1. CAPITULO 1- O DESENVOLVIMENTO HUMANO E ASPECTOS


RELACIONADOS ..................................................................................... 11
1.1 Introdução............................................................................... 11
1.2 Adolescência............................................................................. 16
1.3 Contextos familiar, escolar e rede de amigos no
desenvolvimento da adolescência................................................. 23
1.4 O perfil do adolescente infrator................................................ 27
1.5 Justificativa................................................................................ 29
1.6 Objetivos.................................................................................... 29
1.7 Método........................................................................................ 30
2. CAPITULO 2 – RESULTADO E DISCUSSÃO....................................... 31
3. CONCLUSÃO......................................................................................... 40
4. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................... 43
11

CAPITULO 1 - O DESENVOLVIMENTO HUMANO E ASPECTOS


RELACIONADOS

1.1 Introdução
Os estudos sobre o desenvolvimento humano são importantes para a
compreensão dos diversos processos envolvidos ao longo do ciclo vital. A psicologia
do desenvolvimento é a ciência que tem como objeto de estudo as mudanças e as
continuidades nas diferentes fases do desenvolvimento humano, nos aspectos:
cognitivos, psicomotores e psicossociais.
A busca pela relação causa e efeito esteve sempre entre os objetivos da
maioria dos estudos, a qual ora apontavam causas biológicas, ora causas
ambientais. Entretanto, na atualidade utiliza-se com maior frequência a concepção
de sistemas de influenciação, perante as interações as quais o ser humano se
engaja em seu meio histórico, social e cultural.
Todavia o desenvolvimento pode variar de cultura para cultura, não existindo
um padrão a ser seguido, portanto é de extrema importância considerar a
singularidade que permeia a existência humana e suas fases de desenvolvimento.
(BEE; BOYD, 2011).
Desde o nascimento, a interação do ser humano com o meio em que se
desenvolve está mediada pela cultura e, são agentes dessa mediação, os pais, os
educadores e os adultos em geral que envolvem a criança (SALVADOR, 1999).
Interpretamos o desenvolvimento como um processo mediado, em que a
sequência e os tipos de mudanças afetados na conduta das pessoas estão
marcadamente mediados pelas características do ambiente social e cultural
onde essas pessoas se desenvolvem. (SALVADOR, 1999, p. 125).
Do momento da concepção ao momento da morte, os seres humanos passam
por complexos processos de desenvolvimento. As mudanças que ocorrem durante
os primeiros períodos do ciclo de vida são mais amplas e aceleradas do que
qualquer outra fase da existência humana. Como os seres humanos são pessoas
inteiras, todos os aspectos do desenvolvimento estão interconectados, até mesmo
no útero (PAPALIA; OLDS 2009).
Os autores que estudam o desenvolvimento querem saber sobre as
diferenças individuais, tanto sobre suas influencias no decorrer do desenvolvimento
quanto suas consequências. As pessoas diferem em sexo, altura, peso e compleição
física; em fatores constitucionais como saúde e nível de energia; em inteligência; em
12

características de personalidade e reações emocionais. Os contextos de suas vidas


e de seus estilos de vida também diferem; os lares, as comunidades e sociedade em
que vivem, seus relacionamentos, as escolas que frequentam (ou se vão para a
escola afinal), o trabalho que fazem e as maneiras como passam seu tempo livre.
Houve época em que os cientistas do desenvolvimento davam pouca atenção
ao contexto histórico – o tempo, ou época, em que as pessoas vivem. Depois,
quando os primeiros estudos longitudinais sobre a infância se estenderam até a
idade adulta, os pesquisadores começaram a se concentrar em como certas
experiências, ligada ao tempo e ao lugar, afetavam o curso de vida das pessoas
(PAPALIA; OLDS, 2009).
Bronfenbrenner (2011) aborda o tema da ecologia para o desenvolvimento
humano, na qual o desenvolvimento é uma função que se articula do indivíduo com
o ambiente. O autor destaca o termo desenvolvimento humano que pode ser
definido como um fenômeno de constância e mudança das características da
pessoa ao longo do seu ciclo vital. Em seu estudo Bioecologia do Desenvolvimento
Humano, entende-se um modelo de pessoa-contexto na qual o autor chama de
nichos ecológicos em que existem regiões especificas do ambiente favoráveis ou
não para o desenvolvimento do indivíduo levando em consideração as
características pessoais e particulares de cada indivíduo.
Esse processo pessoa-contexto também chamou o autor de cronossistema,
na qual focou a atenção para as mudanças do desenvolvimento que podem ocorrer
pelos eventos ou experiência de vida, que podem ter origem externa do ambiente
(ex., o nascimento de um irmão, entrada na escola, divorcio, etc) ou de origem
interna (ex., puberdade, doença, etc).
O modelo bioecológico do autor UrieBronfenbrenner (2011), explica o
desenvolvimento humano como um fenômeno de continuidade e de mudança das
características biopsicológicas dos seres humanos, seja ele indivíduo ou em grupo.
O autor ressalta que o indivíduo é visto como parte integrante e ativa de um
processo, o qual consiste na interação do ambiente e as características da pessoa
em desenvolvimento. Neste modelo o autor propôs que o desenvolvimento humano
fosse estudado através de quatro componentes que se inter-relacionam: Processo, a
Pessoa, o Contexto e o Tempo (BRONFENBRENNER, 2011).
O Processo é considerado parte fundamental do modelo bioecológico do
desenvolvimento humano, tendo destaque os processos proximais, que são as
13

formas na qual o indivíduo relaciona-se com o ambiente. Segundo o autor estas


relações são “os principais motores do desenvolvimento”. É com esta interação, que
os processos proximais, que ocorrem as interações mais complexas do indivíduo,
relação com objetos e símbolos. (BRONFENBRENNER, 2011).
O segundo componente é a Pessoa, que envolvem tanto as características
biopsicológicas, quanto as características construídas na interação com o ambiente.
O autor enfatizou que as características da pessoa são produto e produtoras do
desenvolvimento que influenciam nos processos proximais, mas ao mesmo tempo
são resultados da interação dos quatro componentes do modelo bioecológico.
(BRONFENBRENNER, 2011).
O Contexto, terceiro componente do modelo, trata-se da interação de quatro
níveis ambientais (microssistema, mesossistema, exossistema e macrossistema). Os
contextos que Bronfenbrenner chama de microssistemas são os ambientes em que
a pessoa no curso do seu desenvolvimento vive de forma mais direta, como a
família, a escola, creches, etc. Para o autor as relações dentro do microssistema são
experiênciadas pelo indivíduo, no sentido de como a pessoa percebe e significa
suas vivências. É dentro desse sistema que operam os processos proximais para a
sustentação do desenvolvimento. (BRONFENBRENNER, 2011).
O mesossistema trata-se de um conjunto de microssistemas, na qual o
indivíduo se inter-relaciona, passando a frequentar novos ambientes, possibilitando
os processos de ocorrerem em diferentes ambientes interdependentes, ou seja, a
interação na escola é influenciada pela interação que ocorre na família do indivíduo
e vice-versa. (BRONFENBRENNER, 2011).
O mesossistema inclui as inter-relações e influencias recíprocas entre dois
ou mais ambientes dos quais a pessoa em desenvolvimento participa
ativamente. Família e escola constituem, na vida das crianças, um
importante mesossistema, em que as influencias mutuas vão repercutir de
diferentes maneiras no aprendizado escola, na adaptação da criança a
escola e até mesmo na sua relação com os pais. (BORGES; MARTURANO,
2012, p. 30).
As situações particulares que o indivíduo vivência pode afetar outras pessoas,
como por exemplo, uma professora com problemas pessoais pode afetar sua
relação com o aluno, ou até mesmo uma mãe com problemas com o chefe que
permite que tal situação reflita na relação com os filhos, essas situações
caracterizam o exossistema. (BORGES; MARTURANO, 2012).
14

Já o macrossistemaé o que engloba todos os outros citados anteriormente:


micro, meso e exossistema. Esse é composto por padrões globais de ideologias,
crenças, valores, religião, formas de governo, culturas e subculturas, os quais estão
presentes no cotidiano das pessoas. (BORGES; MARTURANO, 2012).
O Tempo, quarto componente do modelo biocológico, possibilita averiguar
sobre a influência do desenvolvimento humano de mudanças e continuidades que
ocorrem ao longo da vida do indivíduo, é de extrema importância levar em
consideração não só as mudanças que ocorrem em relação à pessoa, mas também
em relação ao ambiente e a interação dinâmica que ocorre entre estes processos. O
desenvolvimento do indivíduo está intimamente ligado às mudanças e os eventos
históricos, que são fortes influências no curso de vida de cada indivíduo.
(BRONFENBRENNER, 2011).
A abordagem ecológica destaca a importância dos processos que ocorrem
nas interações entre natureza e ambiente, na qual o indivíduo é visto como um ser
ativo, capaz de mudar a si próprio e mudar o seu ambiente. Vale ressaltar que os
aspectos hereditários da pessoa influenciam e são influenciados pelo ambiente.
(KOLLER, 2011).
A ideia de que o ambiente afeta o desenvolvimento humano tem sido aceita
nos meios educacionais, os quais percebem a existência de fatores por trás das
crianças que não estão se desenvolvendo muito bem. Com os estudos da
neurociência, o pensar sobre a influência do ambiente no desenvolvimento cerebral
foi ampliado. Foi possível verificar que o cérebro do ser humano é dotado de
plasticidade, o qual faz com que sejam sensíveis ao ambiente, principalmente na
primeira década de vida. (BORGES; MARTURANO, 2012).
Sendo assim, é possível compreender que o desenvolvimento humano é
marcado por transformações: fisiológicas, psicológicas e ambientais. As fases que
envolvem essas mudanças são distintas, cada qual marcada por mudanças
especificas como, por exemplo, a fase da adolescência. Por tratar-se de uma fase
com grandes mudanças, exigem-se adaptação e faz-se necessário falar sobre
resiliência, termo este que vem sendo pesquisado em diversos campos da ciência.
Coimbra (2015),aborda resiliência em seu sentido mais pleno, como a possibilidade
de retomar a vida após passar por situações de sofrimento tanto sociais quanto
psíquicos.
15

A resiliência é compreendida como um processo de enfrentamento e de


superação de crises e adversidades. Vale ressaltar que o indivíduo que passa por
um evento estressor não volta a sua forma anterior, mas estes eventos podem
ocasionar um processo de aprendizagem, crescimento, desenvolvimento e
amadurecimento. As autoras também ressaltam que resiliência não é uma
característica fixa, esta pode ser desencadeada e desaparecer em determinados
momentos da vida, também pode estar presente em algumas áreas e ausente em
outras, nesse sentido a resiliência não deve ser considerada apenas uma
característica inata, presente apenas em algumas pessoas consideradas
“privilegiadas”, mas sim uma interação entre as subjetividades de cada indivíduo e o
ambiente na qual este está inserido, o contexto ecológico (KOLLER, 2011).
Essa é uma perspectiva dinâmica, que enfatiza o interjogo continuo entre
influências internas e externas, passadas e presentes sobre o
desenvolvimento individual. Conceitos como resiliência e vulnerabilidade
não devem ser entendidos como qualidades inerentes ao indivíduo, mas
como resultantes desse interjogo em um momento dado na vida da pessoa.
O desenvolvimento se processa não através de estágios prodeterminados,
mas através de períodos sensíveis e pontos de transição que podem
conduzir a trajetórias de desenvolvimento diversas. (MARTURANO, 2002, p.
12).
Sendo a definição de resiliência uma interação entre o contexto no qual o
indivíduo encontra-se inserido e suas subjetividades, destaca-se como parte deste
processo os fatores de risco e proteção. Os fatores de risco estão relacionados a
eventos negativos de vida, quando presentes no ambiente no qual o indivíduo está
inserido aumentam a probabilidade de o indivíduo apresentar problemas físicos,
psicológicos e sociais. Os fatores de proteção estão relacionados às influencias que
modificam, melhoram e alteram respostas subjetivas do indivíduo a determinados
riscos de desadaptação (KOLLER, 2011).
Também no conceito dos fatores de proteção, enfatiza-se uma abordagem
de processos, através dos quais diferentes fatores interagem entre si e
alteram a trajetória da pessoa, seja para produzir uma experiência
estressora ou protetora em seus efeitos (MORAIS; KOLLER, 2011, p.105).
Neste interjogo entre fatores de risco e de proteção, as autoras ressaltaram
que se faz necessário e coerente estudar o desenvolvimento humano como um
processo de interações das características da pessoa e do ambiente na qual está
inserido. As características muito particulares de cada indivíduo podem representar
16

tanto os fatores de risco, que expõem o indivíduo a situações estressoras que


podem ser enfrentadas de formas negativas, quanto os fatores de proteção, os quais
melhoram e alteram os riscos de desadaptação. Portanto pode-se notar a
semelhança de resiliência com a definição de saúde que não permanece estagnada
e sim em um processo de movimento, que não se encontra em um estado absoluto
(KOLLER, 2011).
O presente estudo trata a temática dos fatores de risco e de proteção
envolvidos no desenvolvimento da adolescência.

1.2 Adolescência
O desenvolvimento humano é algo bem complexo e para ser compreendido
em sua totalidade deve ter por referência estudos de diversas disciplinas, como o
estudo da genética, história, filosofia, entre outros. Mas, para compreender o tema
aqui proposto destaca-se o estudo do desenvolvimento infanto-juvenil. Todavia, se
buscara definição da palavra “ADOLESCÊNCIA” que vem do latim, significando
período do desenvolvimento humano o qual é definido pela transição entre a
juventude e a idade adulta; fase que se inicia após a puberdade. Encontraremos
ainda quem defina adolescência como uma fase natural da vida marcada pelas
transformações: biológicas e comportamentais. Alguns pesquisadores vão entender
e descrever a adolescência como um processo de construção social e histórica.
(BOCK, 2007).
Costumamos entender por adolescência a etapa que se estende, a grosso
modo, dos 12-13 anos até aproximadamente o final da segunda década da
vida. Trata-se de uma etapa de transição, na qual não se é mais criança,
mas ainda não se tem o status de adulto. (COLL; PALACIOS; MARCHESI,
1995, p. 263).
Em relação ao desenvolvimento na adolescência, Papalia e Olds(2009),
ressalta que o começo desta fase acontece entre os dez ou onze anos até os
quatorze anos. Trata-se de uma fase a qual o indivíduo conta com grandes
oportunidades de desenvolvimento, tanto em termos de dimensões físicas, quanto
em competência cognitivo social, autonomia, autoestima e intimidade.
Nas sociedades indústrias modernas, a passagem da infância para a vida
adulta é marcada não por um único evento, mas um longo período
conhecido como adolescência – uma transição no desenvolvimento que
começa por volta dos 10 ou 11 anos, ou mesmo antes, e vai até os 18 ou 19
17

anos, ou mesmo até os 21 anos, e que acarreta importantes alterações


físicas, cognitivas e psicossociais inter-relacionadas. (PAPALIA; OLDS,
2009, p. 397).
Nos apontamentos de Papalia e Olds (2009), ressalta-se que até o início do
século XX a adolescência não era considerada parte do desenvolvimento, por isto a
ideia de que o desenvolvimento humano é algo continuo depois da infância é de
certa forma relativamente novo.
Em nossa cultura ocidental, a incorporação dos adolescentes ao status
adulto retardou-se notavelmente, formando-se, em consequência, um novo
grupo que, como foi indicado, desenvolve, além disso, seus próprios hábitos
e maneiras, e que enfrenta problemas peculiares. (COLL; PALACIOS;
MARCHESI, 1995, p. 264).
Nas sociedades industriais, como já mencionamos, o conceito de
adolescência como um período de desenvolvimento é bem recente. Nos
EUA, até o começo do século XX os jovens eram considerados crianças até
deixarem a escola (geralmente bem antes dos 13 anos), casarem ou
arranjarem um emprego entrarem no mundo adulto. (PAPALIA; OLDS,
2009, p. 11).
No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)considera a
adolescência, a faixa etária dos 12 aos 18 anos de idade completos, sendo
referência, desde 1990, para criação de leis e programas que asseguram os direitos
desta população. A Organização Mundial de Saúde (OMS) define adolescência
como sendo o período da vida que começa aos 10 anos e termina aos 19 anos
completos. Para a OMS, a adolescência é dividida em três fases: Pré-adolescência –
dos 10 aos 14 anos; Adolescência – dos 15 aos 19 anos completos e Juventude –
dos 15 aos 24 anos.
Faz-se necessário fazer a distinção entre dois termos que possuem um
significado e alcance muito diferentes em relação ao tema estudado:
Chamamos puberdade ao conjunto de modificações físicas que
transformam o corpo infantil, durante a segunda década de vida, em corpo
adulto, capacitado para a reprodução. Chamamos de adolescência um
período psicológico que se prolonga por vários anos, caracterizado pela
transição entre a infância e a adultez. Como se torna evidente, a puberdade
é um fenômeno universal, para todos os membros de nossa espécie =,
como fato biológico que é, e com momento de maior importância em nosso
calendário maturativo comum. A adolescência, por seu turno, é um fato
psicológico não necessariamente universal e que não adota
necessariamente, em todas as culturas, o padrão de características adotado
18

na nossa, na qual, além disso, deu origem a uma importante variação


histórica, que, ao longo de nosso século, foi configurado a adolescência que
nós conhecemos. (COLL; PALACIOS; MARCHESI, 1995, p. 265).
Durante a puberdade, as mudanças fisiológicas e hormonais afetam o
desenvolvimento do senso de identidade, o que explica o quanto o desenvolvimento
físico está interligado ao desenvolvimento psicossocial. (PAPALIA; OLDS, 2009).
Na adolescência, a aparências dos jovens muda; como resultado dos
eventos hormonais da puberdade, eles adquirem corpo de adulto. O modo
de pensar também muda; estão mais aptos a pensar de maneira abstrata e
hipotética. Seus sentimentos de um modo geral se alteram. Todas as áreas
do desenvolvimento convergem à medida que os adolescentes confrontam
sua principal tarefa: estabelecer uma identidade – incluindo a identidade
sexual – que levará para vida adulta. (PAPALIA; OLDS, 2009, p.392).
Nesta fase ocorrem às mudanças corporais, o sexo oposto é entendido como
perigoso, levando os adolescentes a se agruparem com adolescentes do mesmo
sexo. Nestes períodos de mudanças o desenvolvimento corporal já reduziu seu
ritmo.
O menino que amadurece mais tarde do que a média pode se sentir mais
inseguro, mais inadequado. Para um e para outros surgem efeitos na área
da socialização, que podem ser de alguma importância: talvez o
adolescente que tiver amadurecido precocemente se veja pressionado a
comportar-se de acordo com critérios mais relacionados com sua
maturidade física do que com sua maturidade psicológica, o que pode
significar, para a criança, tensão e sentimentos de incompetência. (COLL;
PALACIOS; MARCHESI, 1995, p.267).
Como se pode observar existem diferenças no limiar idade, mas é necessário
atentar-se que esse fator não pode limitar os estudos referentes ao trabalho aqui
proposto, uma vez que, o adolescente é composto por suas subjetividades, o meio
que está inserido e a forma como se relaciona com o meio, que interfere diretamente
no desenvolvimento deste indivíduo.
O desenvolvimento das diferentes capacidades psicológicas que lhes
permitem interpretar o meio físico e social e atuar e elaborar a própria
identidade pessoal estaria fortemente vinculado, dessa maneira, ao tipo de
modelos culturais dominantes em seu entorno, ao tipo de práticas sociais
em que estão refletidos esses modelos e à natureza de aprendizagens
especificas efetuadas no âmbito dessa pratica. (SALVADOR, 1999, p. 112).
A adolescência é uma fase rica de reflexões, de procura, de mergulho em si
mesmo, na qual há um grande esforço na busca de significado. O que importa a
19

juventude é a descoberta de si mesmo como algo único e original. (SISTO;


OLIVEIRA; FINI, 2004).
Nessa busca de significado ele se defronta com a sociedade, que cria
expectativas em torno dele, ao mesmo tempo em que também lhe impõe
barreiras que se constituem tanto em medidas legislativas como também
em uma difusão cada vez maior de “modelos” julgados característicos das
condutas adolescentes. (SISTO; OLIVEIRA; FINI, 2004,p. 62).
Diante de sua experiência de vida boa ou má, o indivíduo estabelece
critérios para julgar-se, começando a formação de uma opinião favorável ou
desfavorável de si mesmo. O indivíduo se julga de acordo com todas as
suas características e habilidades e a falta delas também. Assim, o
organismo reage com emoções e afetos que podem ir de uma supertisma
ao desprezo por si mesmo. (SISTO; OLIVEIRA; FINI, 2004,p. 62).
Do ponto de vista psicológico considera-se que a tarefa básica da
adolescência é a aquisição desse sentimento de identidade pessoal. Por isso, diz
que a crise evolutiva do processo adolescente é sobretudo uma crise de identidade.
A adolescência é a fase caracterizada pela busca de independência que é,
inevitavelmente, acompanhada de confrontos com os pais, o autor ainda ressalta, o,
que do ponto de vista psicológico, as crises sofridas pelo adolescente é a busca pelo
sentimento de identidade pessoal (OSÓRIO,1992).
O autoconceito é um ato de inteligência, eminentemente cognitivo. Significa
a ideia que uma pessoa faz de si mesma, como se percebe, como se vê.
Significa uma tomada de consciência, um juízo, um posicionamento, uma
postura; um autoconhecimento; uma cognição. (SISTO; OLIVEIRA; FINI,
2004, p. 61).
Pode-se dizer que, a busca pelo autoconceito se faz ao longo da vida, os pais
e as pessoas próximas à criança tem o poder de influenciar a forma como a mesma
se percebe, pela constante gama de informação que essa recebe sobre si mesma,
informações sobre suas habilidades, destrezas ou falta deles, influenciando assim
em sua forma de se perceber. (SISTO; OLIVEIRA; FINI, 2004).
A angustia confusional que a humanidade experimenta, pelo
questionamento de seus valores tradicionais, e a imperiosa necessidade de
reformula-los face as exigências do atual momento do processo civilizatório,
tem características similares a que apresenta o adolescente quando vê
confrontadas as expectativas conservadoras do seu meio familiar com as
demandas da sociedade competitiva e em mutação cultural onde irá viver
sua condição de adulto (OSÓRIO,1992, p. 34).
20

Nesta fase também existem algumas características que são consideradas


comuns, se faz necessário levar em consideração quando relacionadas aos
contextos na qual o adolescente está inserido, o princípio da justiça e equidade, na
qual eles fazem questionamentos e apontam falhas dos adultos, a autoconsciência e
egocentrismo também considerados comuns para o desenvolvimento do
adolescente, esta característica é marcada por uma preocupação quanto a sua
própria aparência e também com o fato de pensar demais em si. O desenvolvimento
emocional e social também fica em evidência como jácitado, o adolescente afasta-se
do convívio familiar e passa a pertencer a pequenos grupos de amigos, na qual
sente-se aceito. Vale ressaltar que essa necessidade de aceitação pode levá-lo a
engajar-se em comportamentos de risco, principalmente quando encorajados pelos
amigos (BEE; BOYD, 2011).
Marturano e Trivellato Ferreira (2004), relatam em seus estudos que o grupo
de amigos na adolescência, embora tenham grandes influências para que uma
mudança de comportamento ocorra, estes grupos não possuem fatores
determinantes para influenciar em uma mudança de identidade. Ainda na pesquisa
as referidas autoras ressaltam a grande influência da família e do ambiente escolar,
destacando a importância destas duas grandes instituições, as quais exercem
papéis significativos na vida do adolescente.
Como a condição de vulnerabilidade em geral decorre de transações entre
características de temperamento do indivíduo e propriedades dos contextos
de desenvolvimento, é plausível supor um papel do contexto familiar na
origem das dificuldades, engendrando condições adversas de
desenvolvimento que persistem da fase pré-escolar à escolar. As
dificuldades interpessoais se generalizam para o contexto escolar e o grupo
de pares, configurando um processo cumulativo de transações adversas
(MARTURANO; TRIVELLATO FERREIRA, 2004, P. 238).
O desenvolvimento moral também é marcante na fase da adolescência, na
qual o adolescente costuma testar os limites e sente-se frequentemente injustiçado.
O desenvolvimento psicossexual passa a ficar em maior evidencia, já que o sistema
de recompensas está menos sensível. Nesta fase o adolescente busca maior
privacidade e as experiências com relação às mudanças corporais são diversas. E
por último a construção da sua identidade, que depende muito de como este
indivíduo vai criando uma impressão mais ampla e objetiva de suas qualidades,
defeitos, capacidades, história de vida, etc. Considera-se que para desenvolver de
21

forma benéfica seu autoconceito e sua autoestima é importante ter algumas


capacidades bem desenvolvidas, sendo elas: autonomia, senso de competência,
assumir um papel dentro dos grupos sociais com os quais se identifica, alcançar a
capacidade de receber e oferecer afeto em relações mais próximas e intimas e
conquistar uma identidade sexual (BRESSAN, 2014).
Muitos fatores afetam a forma como os adolescentes vivem sua transição
para a vida adulta, dentre eles: a história evolutiva anterior a adolescência, as
relações com os adultos, o êxito ou o fracasso acadêmico (COLL; PALACIOS;
MARCHESI, 1995). A percepção do mundo externo é o ingrediente básico que
permite o desenvolvimento do eu, assim como influi na sua manutenção (SISTO;
OLIVEIRA; FINI, 2004).
Existe uma comparação da adolescência com os primeiros anos da infância.
As crianças por volta dos dois anos de idade são famosas por seu negativismo e seu
constante fluxo na direção, são mais independentes e ao mesmo tempo estão em
busca de novas habilidades, entretanto os adolescentes evidenciam muitas dessas
características, embora em níveis mais abstratos, como por exemplo o
distanciamento afetivo voltado para os pais, centrado em torno de questões de
independência. Bee e Boyd (2011), ainda descreve a adolescência como plena
desturmunddrang (tempestade e tensão) é um exagero equivalente as expressões.
Por estarem realizando a transição de um sistema de apego centrado, em
parte, na família, para um sistema de apego centrado no grupo de iguais,
para um sistema de apego centrado em uma pessoa do outro sexo; por
sentirem-se membros de uma cultura de idade (cultura adolescente); que se
caracteriza por ter suas próprias modas e hábitos, seu estilo de vida próprio,
e seus próprios valores; por ter preocupações e inquietudes que não são
mais as da infância, mas que ainda não coincidem com as dos adultos
(COLL; PALACIOS; MARCHESI, 1995, p. 264).
Supõe-se, de acordo com esse ponto de vista, que a adolescência seja uma
época de turbulências, de mudanças dramáticas, de abundantes tensões e
sofrimentos psicológicos. No entanto, essa fase pode ser enfrentada de formas
diferentes pelos jovens, alguns podem considerar uma época de dificuldades
especiais e de ajustes particularmente dolorosos, enquanto outros podem considerar
uma época de transições que acontecem na vida. Neste momento, as mesmas
experiências podem ter significados diferentes. Para alguns adolescentes conseguir
a carteira de motorista significa poder sair com os amigos, dar muitas voltas e exibir-
22

se para os outros, enquanto que para outros pode ser sinal de responsabilidade e
assim, até poder acender a um posto de trabalho. Não se pode dizer que um sofre
mais que o outro, por isso é importante falar de adolescentes de forma que se
analise a história evolutiva de cada sujeito, do que falar de adolescência de maneira
geral (COLL; PALACIOS; MARCHESI, 1995).
Dessa forma, Coll, Palacios e Marchesi (1995), ressaltam que a maioria dos
adolescentes conseguem se adaptar razoavelmente para a transição de uma fase
para a outra, com tensões e conflitos, que podem ser enfrentados e resolvidos de
maneira satisfatória.
É claro que crianças que contaram com um suporte maior, as quais
executaram a independência, a autonomia, a iniciativa, a expressão de seus desejos
e necessidades, estarão mais preparadas para enfrentarem o processo de
adolescência. Por outro lado, aquelas que vivenciaram a dependência, a inibição da
própria personalidade e a submissão ao que lhe é imposto, terão mais dificuldades
de conseguir lidar com essa fase tão exigente (COLL; PALACIOS; MARCHESI,
1995).
Porém vale ressaltar que muitos dos jovens brasileiros são de certa forma
privados de sua adolescência, pois se vêem na obrigação de ter grandes
responsabilidades antes mesmo da puberdade, esses estão desde muito cedo
engajados em uma luta pela sobrevivência de sua família através do trabalho
(OSÓRIO,1992).
É certo que a adolescência é uma transição do tipo das outras produzidas
durante o ciclo vital, mas também é certo que é uma das transições que –
pelo menos em alguns adolescentes - realizam-se com menos suporte
social, ou, para dizê-lo de outro modo, com maiores contradições sociais,
projetando- se sobre o indivíduo em transição. (COLL; PALACIOS;
MARCHESI, 1995, p. 272).
Diante do exposto, entende-se esse período como uma fase de
transformação. O conceito de transformação permite manter, simultaneamente, a
idéia de certa estabilidade,certa continuidade com o passado e de certa forma
novidade e mudança(COLL; PALACIOS; MARCHESI, 1995).
Em qualquer dos casos, realizada de uma ou de outra maneira, a
adolescência é uma transição de inquestionável importância na vida das
pessoas, mas também é uma transição entre outras, não sendo a única,
nem a última. Como acontece nas demais transições, existirão elementos
23

do passado que se conservam e novos elementos que surgem ou que


precisam ser construídos. O equilíbrio que, em cada caso, existir entre o
que é novo e o que permanece, entre o que assegura a continuidade do
mesmo ser psicológico e social, e o que possibilita seu desenvolvimento e
transformação, informar-nos-á em que medida, para cada sujeito concreto,
pode-se falar com mais propriedade, na adolescência, de continuidade ou
descontinuidade (COLL; PALACIOS; MARCHESI, 1995, p. 272).
Para tratarmos dos fatores de risco e proteção ao desenvolvimento do
adolescente é necessário além de abordar ás características da fase, verificar as
características pessoais e os contextos de interação, como família e escola.

1.3Contextos familiar, escolar e rede de amigos no desenvolvimento da


adolescência
Nos primeiros anos de vida da criança o grupo social na qual ela está inserida
e adaptada é a família, com a entrada na escola ela conhece novas pessoas, novos
companheiros e novos adultos. Na adolescência esse grupo se expande ainda mais,
por outro lado ocorre um afastamento da família, o adolescente emancipa-se desta
em busca de sua autonomia (COLL; PALACIOS; MARCHESI, 1996).
O desenvolvimento de uma criança resulta de processos de construção
conjunta, caracterizados por sua participação ativa em interações nos diversos
ambientes, nos quais ela vive sua experiência cotidiana- a família, a creche, a
escola, o grupo de amigos (BORGES; MARTURANO, 2012).
A criança pequena se baseia naquilo que inicialmente os pais dizem sobre
ela. Se eles passam informações de que é ruim, sem valor, com uma severa crítica,
ele passará a acreditar nisso e se comportar como tal. (SISTO; OLIVEIRA; FINI,
2004).
Segundo, Coll, Palacios e Marchesi (1996), é importante entender que a
emancipação da família não ocorre da mesma maneira para todos os adolescentes,
que as práticas educacionais são diferentes de família para família, podendo ou não
favorecer a busca de autonomia deste adolescente de forma saudável, em paralelo
a essa emancipação os adolescentes criam laços mais fortes com outros grupos,
embora muitos acreditem que nesta fase os adolescentes se afastam do grupo
familiar por “rebeldia” eles ainda necessitam de afeto e de carinho por parte dos
pais, em um grau não inferior ao da infância, é importante ressaltar que mesmo com
um grupo de companheiros diverso, os valores adotados pela família é o que tem
24

maior influência na vida do adolescente. Geralmente o adolescente observa mais o


critério dos pais do que o dos companheiros. Algumas dimensões das práticas
educativas se referem à possibilidade de criar uma dinâmica familiar, na qual seja
possível explicar as normas e as decisões que são tomadas, de maneira que o
ponto de vista dos outros possa ser considerado, é uma dinâmica que permite
compartilhar os problemas, conflitos, dúvidas, ansiedades, expectativas e
satisfações.
De acordo com Salvador (1999) a família pode ser considerada como um
sistema no qual as ações e as atitudes de cada indivíduo afetam de alguma forma o
outro e vice-versa.
A criança criada num clima de aceitação tem probabilidade de desfrutar de
muitas vantagens. Numa atmosfera de afeição tem oportunidade de adquirir
uma atitude de confiança e fé naqueles que a educam e em si mesma, e
desenvolver um autoconceito positivo. Ao crescer estará em melhores
condições para desenvolver sua própria capacidade de se afeiçoar aos
outros. No caso contrário, onde atitudes se caracterizam com indiferença. O
adolescente toma tal atitude como falta de amor, e se não recebe amor será
difícil amar. Aprende a não esperar afeição, aprende a nada esperar.
Todavia, quanto mais se acautela, mais se ergue uma muralha entre ele e
os outros, que poderiam ser seus amigos. Esse tipo de pai é o que mais
favorece a diminuição da auto-estima (SISTO; OLIVEIRA; FINI, 2004, p.
65).
O fluxo dos sentimentos de solidariedade, tão importantes nas relações
sadias entre pessoas, é interrompido. Há um abismo entre ele e as demais pessoas.
Mais ainda, há um abismo dentro dele mesmo. (SISTO; OLIVEIRA;FINI, 2004).
A Família Resiliente é aquela que, exposta a altos níveis de estresse,
oferecem a criança um clima de suporte ao desenvolvimento tanto
diretamente, através de um relacionamento afetuoso associado a práticas
de socialização firmes e com regras claras, como por via indireta através de
sua capacidade de organização, coesão e enfrentamento do estresse.
(MARTURANO, 2002, p. 19).
Sob um regime tanto de rejeição e fracasso como de indiferença será difícil
para o adolescente adquirir confiança no próprio valor. Se ninguém o estima, será
difícil aprender a se estimar. (SISTO; OLIVEIRA;FINI, 2004).
Quando se coloca em primeiro lugar as relações que ocorrem na família para
explicar o seu impacto no desenvolvimento das crianças, fazem sentido as
25

formulações com tendência a considerá-la em termos sistêmicos(SALVADOR,


1999).
Os aspectos do ambiente familiar que favorecem o desenvolvimento das
habilidades escolares como leitura e escrita se referem a três conjuntos de recursos:
enriquecimento do ambiente físico, supervisão e organização das rotinas e oferta de
atividades extra-escolares. O conjunto de recursos que estão disponíveis para uma
criança no ambiente familiar faz grande diferença entre as crianças que conseguem
se organizar e assim elaborar um texto, em relação aquelas que apenas manifestam
uma intenção de escrita (MARTURANO, 2002).
Salvador (1999), diz que para tornar-se pai/mãe de maneira adequada e
satisfatória, requer alguns aprendizados, tais como:
Oferecer cuidados e proteção básica nos aspectos físicos e assegurar a
progressiva autonomia dos filhos nesta questão; Criar vida familiar
saudável, dando valores positivos, esclarecendo as normas que a regem,
ensinando a manejar os conflitos e as relações humanas; Ter as
expectativas ajustadas sobre as próprias competências como pais. Não
existem pais perfeitos e os progenitores deverão saber disso para viver com
tranquilidade os sentimentos de incompetência que, às vezes, implica o fato
de educar um filho; Ter expectativas ajustadas sobre os filhos, sempre
aceitando que são pessoas com identidade própria- não uma prolongação
de si mesmo, nem aquilo que se queiram que fossem; Controlar e orientar o
comportamento dos filhos para que eles aprendam a autorregularem-se de
maneira responsável e autônoma; Ser sensíveis as necessidades
emocionais e socias dos filhos, já que isso sempre existe, mesmo que a sua
manifestação mude radicalmente no transcurso do desenvolvimento;
Estimular o seu papel educativo em casa, além de dar suporte à função
educativa da escola e de outros contextos em que os filhos participam
(SALVADOR, 1999, p. 164).
A experiência escolar do indivíduo tem grande influência na imagem que ele
faz de si mesmo. Pode ser cerceadora das suas iniciativas ou então estimuladora de
um maior processo de crescimento individual.
As famílias podem contribuir para o progresso escolar das crianças, através
da criança de um clima de suporte ao desenvolvimento em que as crianças
desenvolvem auto-confiança e uma auto-imagem positiva, tem expectativas
positivas sobre suas relações com professores e outros adultos, tiveram
experiência de sucesso após persistência em tarefas difíceis, e são capazes
de estabelecer metas e regular seu próprio comportamento(MARTURANO,
2002 p. 24).
26

As críticas excessivas e as repressões em sala de aula vêm aumentar ainda


mais o sentimento de inadequação do aluno; ele passa a se conceituar como
incapaz(SISTO; OLIVEIRA; FINI, 2004).
A experiência escolar adversa afeta a trajetória de desenvolvimento por
restringir o repertório, enfraquecer as reservas para resiliência e aumentar a
vulnerabilidade. Em primeiro lugar, tem o efeito de obstruir o acesso a
recursos que constituem conquistas importantes da fase escolar, tornando o
indivíduo menos competente para enfrentar os desafios de etapas
posteriores do desenvolvimento. Em segundo lugar, ao interferir
negativamente na formação do senso de autoestima da criança, o
insucesso escolar lhe subtrai a chance de desenvolver um poderoso fator
de resiliência frente a adversidades futuras. Finalmente, quando afeta a
criança já vulneráveis em consequência de condições pessoais e/ou
ambientais pré-existentes contribui para aumentar sua vulnerabilidade a
fatores de risco presentes em seu entorno. (MARTURANO, 2002 p. 15).
O perfil de vulnerabilidade em muitas crianças com dificuldades escolares se
faz compatível com a visão ecológica de desenvolvimento, não enxerga-se uma
criança com problemas quando seus pais procuram por ajuda profissional, mas sim,
um sistema inadequado, onde muitas circunstâncias estão entrelaçadas, como o
contexto familiar, pessoal e escolar(MARTURANO, 2002).
No curso do desenvolvimento de uma criança em direção a vida adulta,
cada ano pode ser metaforicamente comparado a um trecho de caminho,
pequeno porém fundamental para definir rumos. Na escola, durante um ano
inteiro o professor compartilha o trilhar de seus alunos, detendo a
oportunidade – e a responsabilidade – de influenciar esse direcionamento
(BORGES; MARTURANO 2012, p. 37).
Foi realizado um estudo por Marturano (2002), o qual teve como objetivo
conseguir identificar a resiliência em crianças com baixo desempenho escolar. As
crianças consideradas mais sociáveis na adolescência se encontravam em grupos
mais adaptados, mostrando melhor perspectiva do plano pessoal, familiar, escolar,
ocupacional e social, do que em relação às outras crianças sem tais recursos que na
adolescência se mostraram menos adaptados, com severos problemas
psicossociais.
As Famílias as quais conseguem organizar suas rotinas básicas, tais como:
administrar horários, dividir tarefas, manter um clima emocional positivo e adaptar-se
a demandas externas, estão demonstrando maior capacidade de lidar com
27

problemas simples, dessa forma mostrando capacidade para conseguir lidar com
estressores mais graves (MARTURANO, 2002).
Dentro de todos os aspectos que envolvem o desenvolvimento humano é de
extrema importância compreender que o envolvimento da família no processo de
escolarização de seus filhos é um fator crucial que terá grandes influencias, não só
para a vida acadêmica, mas também para seu desenvolvimento emocional e social.
Portanto é necessário demonstrar interesse e criar um ambiente de estimulo ao
estudo (BRESSAN, 2014).
Como mencionado, o indivíduo começa a se afastar da família que deixa de
ser o grupo de referência, os amigos passam a ser o grupo a ser seguido pelos
jovens, dessa forma se inicia a busca pela autonomia e é nesse momento que
muitas vezes a violência surge, como uma forma de valorização, masculinidade e
virilidade, pois essa fase é marcada pela busca de identidade e reconhecimento.
(OSÓRIO,1992).
Diante deste cenário, verificou-se que a trajetória de desenvolvimento do
adolescente pode ser muito diversificada e abranger muitos contextos, que
envolvem desde suas características pessoais, características do ambiente familiar,
escolar e do grupo de amigos. Dentre as trajetórias do desenvolvimento, temos o
adolescente que se envolve em conflito com a lei, que vem se destacando pelo
aumento relevante do número de adolescentes envolvidos em atos infracionais
(Conselho Nacional de Justiça, 2012).

1.4 O perfil do adolescente infrator


O departamento de Pesquisas Judiciárias (DPJ/CNJ) realizou uma pesquisa
visando identificar qual a realidade vivida pelos adolescentes internados em conflito
com a lei e como eles enxergam à medida que lhes foi aplicada. Os dados foram
coletados pelo Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Sistema
Carcerário (DMF/CNJ) nas instituições de internações em todos Estados Brasileiros,
no período de julho de 2010 a outubro de 2011.
Foram entrevistados 1.898 adolescentes em todo país e estabelecido o perfil
desses adolescentes de acordo com: faixa etária, tipos de ato infracional, nível de
escolaridade, composição familiar e a relação dos adolescentes com os
entorpecentes.
28

A idade média dos adolescentes entrevistados é de 16,7 anos, segundo a


pesquisa os adolescentes cometeram o primeiro ato infracional entre 15 e 17 anos
(47,5%), na região nordeste. Segundo o Panorama Nacional: A Execução de
Medidas Socioeducativas de Internação, Programa Justiça ao Jovem de 2012,
considera-se ato infracional toda conduta praticada por criança ou adolescente
definida como crime ou contravenção pelo Código Penal brasileiro, sendo assim, os
atos infracionais mais cometidos por adolescentes em conflito com a lei são:
Crimes contra o patrimônio (roubo, furto, entre outros) foram os mais
praticados pelos respondentes. O roubo obteve os mais altos percentuais,
representando de 26% (Região Sul) a 40% (Região Sudeste) dos delitos
praticados. O crime de homicídio apresentou- -se bastante expressivo em
todas as regiões do país, com exceção da Sudeste, onde este delito
corresponde a 7% do total. Nas regiões Sul, Centro-Oeste, Nordeste e
Norte, o percentual varia de 20% a 28%. O tráfico de drogas se destaca nas
regiões Sudeste e Sul, sendo o segundo ato infracional mais praticado,
tendo obtido representação de 32% e 24%, respectivamente. Estupro, furto,
lesão corporal e roubo seguido de morte apresentam-se em menores
proporções. Importa ressaltar, não obstante, que um único adolescente
pode estar cumprindo medida de internação por mais de um motivo.
(DMF/CNJ, 2012, p. 10).
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), prevê que todo adolescente
privado de sua liberdade deve estar inserido em meio escolar visando promover a
escolarização e profissionalização do mesmo, no entanto observou-se que 8% dos
adolescentes entrevistados no país não foram alfabetizados, entre os que se
consideram analfabetos 44% destes encontram-se na Região Nordeste. Segundo os
dados do estudo em questão a composição familiar dos adolescentes infratores que
estão em cumprimento de medida socioeducativa de internação, ou seja, que se
encontram em privação de sua liberdade, 14%destes adolescentes têm filhos, 43%
foram criados apenas pela mãe, 4% pelo pai sem a presença da mãe, 38% foram
criados por ambos e 17% pelos avós, vale ressaltar que o mesmo adolescente pode
ter sido criado por mais de um ente familiar, como, pelos pais e avós
simultaneamente.
Na pesquisa do DPJ – Departamento de Pesquisas Judiciárias observou-se
que o uso de substancias psicoativas são de uso comum entre os adolescentes em
conflito com a lei, sendo que 75% faziam uso de drogas ilícitas. As drogas mais
citadas pelos adolescentes são: maconha (a mais citada), cocaína e crack, sendo
que o uso de substâncias psicoativas pode estar relacionado à ocorrência dos atos
infracionais.
29

O estudo de revisão da literatura de Gallo e Williams (2005) divide os fatores


de risco para a conduta infracional em fatores de natureza biológica e natureza
ambiental, existem pesquisas que apontam relação entre os fatores fisiológico-
biológico de ocorrência de comportamento agressivos, e outras que sugerem os
fatores ambientais, como de maior importância na determinação das condutas
agressivas.
Um aspecto interessante para a compreensão do termo adolescente em
conflito com a lei, é que na América do Norte utilizam o termo delinqüente, o que é
visto como pejorativo, já o termo adolescente em conflito com a lei implica uma
condição temporária (está em conflito) e não uma condição permanente como no
caso do termo adolescente infrator. (GALLO; WILLIAMS, 2005).

1.5 JUSTIFICATIVA
Estabelecer o perfil dos adolescentes em conflito com a lei é importante para
a promoção de medidas de prevenção de risco ao desenvolvimento do adolescente,
estudos que possam aprofundar os fatores de risco e de proteção envolvidos no
desenvolvimento do adolescente em conflito com a lei podem facilitar o incremento
das medidas preventivas.

1.6 OBJETIVOS
Assim, o presente estudo teve como objetivo geral identificar os fatores de
risco e de proteção no desenvolvimento de adolescentes em situação de conflito
com a lei.
Como objetivos específicos o estudo teve:
a) Verificar os fatores de risco presentes no ambiente familiar e escolar de
adolescentes em conflito com a lei;

b) Verificar os fatores de proteção presentes no ambiente familiar e escolar


de adolescentes em conflito com a lei.
30

1.7 MÉTODO

O estudo foi realizado a partir de uma pesquisa bibliográfica em artigos de


revistas indexadas na plataforma Scielo, até agosto de 2016. Foi utilizado como
critério de inclusão e exclusão os artigos que atendiam aos objetivos do estudo, ou
seja, estudos que abordavam os fatores de risco e de proteção presentes no
ambiente familiar e escolar do adolescente em conflito com a lei.
A pesquisa foi realizada em diferentes etapas, primeira a busca na plataforma
Scielo com as palavras chaves, posteriormente a leitura e investigação se atendiam
aos critérios do estudo, e finalmente a integração dos dados e análise destes. O
estudo atende aos princípios éticos da pesquisa bibliográfica.
31

CAPITULO 2 - RESULTADOS E DISCUSSÃO

O levantamento das pesquisas na plataforma Scielo resultou em 25 artigos


que foram submetidos a uma leitura verificando quantos atendiam aos critérios do
estudo. No quadro a seguir, temos as palavras chaves utilizadas para a busca,
quantos artigos foram encontrados e quantos foram selecionados.
O quadro 1 mostra que foram encontrados sete artigos com a palavra-chave
adolescente infrator, mas apenas dois atendiam aos critérios do estudo e 18 artigos
foram encontrados com a palavra-chave delinquência juvenil e somente dois foram
utilizados.
Quadro 1 – Palavra-chave, quantidade de encontrados e utilizados

Palavra -chave Artigos Artigos utilizados pelo


encontrados estudo

Adolescente x infrator 7 2

Delinquência x juvenil 18 2

Os quatros estudos selecionados estão listados abaixo:

1- O contexto de exclusão social e de vulnerabilidade de jovens infratores e de suas


famílias – 2004
Palavras-chave: delinquência juvenil; relações familiares; exclusão social;
vulnerabilidade familiar.
Autoras: Maria Cristina Feijó e Simone Gonçalves de Assis.
Revista: Estudos de Psicologia.
2- Adolescentes Infratores: Rede Social e Funcionamento Familiar - 2008
Palavras-chave: Adolescente; família; infrator; rede social.
Autoras: Bianca de Moraes Branco; Adriana Wagner & Karina AdrianiDemarchi.
Revista: Psicologia: Reflexão e Critica.
3- Variáveis familiares preditoras do comportamento anti-social em adolescentes
autores de atos infracionais – 2009.
Palavras-chave: adolescente; comportamento infrator; práticas educativas.
32

Autoras: Janaína Thaís Barbosa Pacheco e Claudio Simon Hutz.


Revista: Psicologia: Teoria e Pesquisa.
4- Violência e fragilidade nas relações familiares: refletindo sobre a situação de
adolescentes em conflito com a lei. 2012
Palavras- chave: delinquência juvenil; psicologia do adolescente; relações familiares.
Autores: Jana Gonçalves Zappe e Ana Cristina Garcia Dias
Revista: Estudos de Psicologia.
A seguir os artigos selecionados serão expostos, quanto ao objetivo, método,
resultado e conclusão e posteriormente serão analisados integrando seus dados.
O artigo um “O contexto de exclusão social e de vulnerabilidade de jovens
infratores e de suas famílias” apresentado por Feijó; Assis (2004), teve como
objetivo levantar a vulnerabilidade do jovem em conflito com a lei e de sua família e
também estabelecer as relações entre estes e o ato infrator.
O artigo em questão se refere a pesquisa feita entre abril a novembro de
1997, na qual foram entrevistados 61 jovens em conflito com a lei que cumpriam
medidas socioeducativas no Rio de Janeiro.
As autoras do presente estudo levantaram a questão da exclusão social como
uma das condições que expõem esses jovens a altos índices de vulnerabilidade,
alguns tipos de exclusão citados pelas autoras são: cultural, territorial, étnica e
considerada a mais grave a exclusão econômica.
As autoras sugerem uma linha teórica sobre a origem da delinquência juvenil,
que é dividida entre: nível estrutural (o qual atribui a origem da delinquência a
fatores sociais associados a fatores situacionais e pessoais); o nível individual (trata-
se das teorias que consideram os mecanismos internos do indivíduo como fatores
determinantes para o comportamento infrator, considerando tanto os aspectos
biológicos e psicológicos); e o nível sócio-psicológico (refere-se à quebra de vínculos
do jovem, dos quais se destacam: com a família, a escola, a igreja e outras
instituições que são importantes para o controle social destes jovens).
Os fatores associados ao índice de vulnerabilidade social destes
adolescentes envolvem a princípio a relação familiar, por meio desta todos as outras
esferas podem ser afetadas, as autoras relatam que a família desempenha papel
fundamental na socialização primaria destes jovens, pois é a partir dessa relação
que perpassa a forma como esse relacionamento acontece e a qualidade do
mesmo, que pode afetar toda a dinâmica de funcionamento deste jovem.
33

Após levantarem os dados feitos na pesquisa, as presentes autoras Feijó e


Assis (2004), chegaram aos resultados que apontam as dificuldades vivenciadas por
estes jovens, com relação a estrutura familiar. A maioria dos jovens faz parte de
famílias divididas, na qual os pais são separados, os genitores em muitos dos casos
abandonaram os filhos e/ou suas mães morreram, em apenas 21,3% dos casos os
pais vivem juntos, mas são famílias com situação financeira/econômica
prejudicados. Quanto ao relacionamento familiar, foi verificado que são famílias com
diversos problemas interpessoais, com problemas de comunicação entre os pais e
os jovens, na qual pode-se pensar no grau de influência que os fatores familiares
exercem no envolvimento desses jovens com a infração.
As referidas autoras chamam atenção para um padrão comum na maioria dos
jovens entrevistados, com relação aos cuidados iniciais: eles não tiveram os
cuidados maternos iniciais na maior parte do tempo, seja porque a genitora tinha
dificuldades em exercer o cuidar de seus filhos, ou porque precisavam trabalhar,
sendo transferido estes cuidados para terceiros.
A maior parte dos jovens entrevistados relataram sofrer violência em casa,
mas consideram “normal”, principalmente quando feito pela mãe, quanto a violência
psicológica a maioria relatou sobre rejeição, com relação a agressão verbal relatos
de desqualificação da criança.
Quanto aos recursos financeiros, à maioria dos jovens faz parte de uma
classe social baixa, alguns relataram passar muitas dificuldades quando crianças,
como falta de comida, falta de infraestrutura econômica para manter as
necessidades básicas da família. Constatou-se também que a maioria dos jovens
moram em bairros menos privilegiados, como favelas e bairros mais pobres.
São inúmeros os fatores que envolvem a vulnerabilidades destes jovens, as
autoras apontam no presente estudo os fatores já mencionados e também a baixa
escolaridade destes jovens e de seus familiares, problemas psiquiátricos e
envolvimento da família com atos infracionais e uso de drogas.
Ainda que os dados da pesquisa tenham sido coletados no ano de 1997, faz-
se uma ressalva para o quanto estes dados podem ser considerados atuais para os
presentes dias, as autoras concluem este estudo citando a importância de estudos,
programas de tratamentos, prevenção e promoção de saúde, podem ser
ferramentas de grande relevância para o enfretamento da infração juvenil.
34

O artigo dois de Branco; Wagner; Demarchi, (2007),”Adolescentes infratores:


Rede Social e Funcionamento Familiar”, contempla um estudo com adolescentes em
conflito com a lei que foram intimados a cumprir à medida sócio-educativa, na
Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (FASE). Teve como objetivo obter
informações relacionadas à rede social e funcionamento familiar desses jovens.
Foram entrevistados um total de cinco jovens com média de 18 anos de idade e
foram utilizados alguns instrumentos de avaliação como entrevista semiestruturada,
escalas de avaliação e Mapa de Rede Social que é utilizado para a compreensão da
estrutura e funcionamento das redes sociais.
Um fator interessante que pode ser observado e que muito contribui para o
presente trabalho é relacionado à escala GARF que foi utilizada para o estudo. Essa
escala consiste em diagnosticar o funcionamento familiar, ao ser usada com os
adolescentes, foi notada grande influência da família na vida desses jovens. Para
melhor entendimento da escala, seus escores foram distribuídos em quatro
categorias: 81-100 funcionamento familiar bom; 61-80 padrão de relacionamento
familiar de alguma forma insatisfatório; 41-60 família com predomínio de relações
insatisfatórias e por fim 21-40 família claramente disfuncional. Sendo assim, as
notas do funcionamento familiar dos adolescentes foram baixas, variando de 21 a
61. Os adolescentes ao montarem os mapas de rede social, excluíram o quadrante
escola ou trabalho, e em sua total maioria a família ocupou de 14 a 50% do mapa,
sendo a mãe a primeira figura a ser lembrada. O único adolescente que não teve
relação direta com drogas foi o adolescente que apresentou um melhor resultado da
escala GARF (61) e também foi o que obteve um mapa de rede social mais
completo e com mais distribuição utilizando três de cinco quadrantes que eram
divididos por: amigos, família, comunidade, trabalho e escola.
Em relação às influências de amigos na iniciativa do ato delinquente que foi
citado por todos os jovens, foi dito que tais amigos só se fizeram presentes para o
uso de drogas ou parcerias para atos delinquentes, e que após, no momento da
dificuldade, tais amigos “sumiram”, restando somente o apoio dos familiares em
alguns casos.
O estudo três: “Variáveis familiares preditoras do comportamento anti-social
em adolescentes autores de atos infracionais”, apresentado por PachecoeHutz
(2009), teve como objetivo identificar as variáveis individuais e familiares de 148
35

adolescentes autores de atos infracionais e 168 que não cometeram nenhum tipo de
ato infracional.
Os autores do presente estudo abordam o comportamento anti-social que de
alguma maneira está instalado no cotidiano desses adolescentes e entendem que as
práticas parentais estão ligadas a esse tipo de conduta.
Para o levantamento dos dados foi utilizada entrevista estruturada com 148
adolescentes em conflito com a lei e 163 adolescentes que não respondiam por
nenhum tipo de ato infracional, sendo estes estudantes de uma escola pública de
Porto Alegre. A entrevista foi dividida em três aspectos que buscava investigar as
práticas educativas dos pais para com os comportamentos dos filhos, a entrevista foi
dividida em desobediência, mentira e envolvimento com o cometimento de delitos,
nas três situações foi primeiro perguntado sobre a mãe e depois sobre o pai.
Os autores no decorrer da pesquisa evidenciaram as contribuições das
práticas educativas parentais e aspectos que envolvem o cotidiano familiar podem
contribuir ou não para o envolvimento desses adolescentes em atos delituosos.
No grupo de adolescentes que cometeram atos infracionais observou-se
números estatísticos significativamente altos, quanto ao uso de drogas por parte de
um familiar, cometimento de delitos por um membro da família, número de irmãos
(algo que vem chamando atenção nas pesquisas mais atuais, devido ao número de
irmãos do grupo de adolescentes que cometeram atos infracionais ser maior que no
grupo dos adolescentes que não cometeram atos infracionais) e uso de drogas pelo
próprio adolescente. Já com relação as práticas educativas parentais, como, não
interferência (negligência), aconselhamento (devido ao comportamento do
adolescente), reforçamento (estratégias por parte dos pais que reforçavam o
comportamento inadequado dos filhos) e a punição física (como forma de controle),
tais aspectos são estatisticamente maiores do que no grupo de adolescentes que
não cometeram atos delituosos.
Pacheco e Hutz, (2009) concluem que embora a individualidade e
subjetividade do adolescente seja extremamente importante para a compreensão de
seu comportamento, ainda é evidente que o ambiente social, cultural e familiar, com
maior evidencia neste estudo a família, são esferas da vida do adolescente que vão
influenciar direta e indiretamente para que este se envolva em atos delituosos, vale
ressaltar que os dados levantados indicaram que o uso de drogas pelos
adolescentes, o número de irmãos, o envolvimento de um familiar com delito, o uso
36

de drogas por algum familiar e as práticas educativas parentais (aconselhamento;


castigo ou privação de privilégio material; punição física; delegar responsabilidades
para outras pessoas; não interferência; e reforçamento do comportamento
inadequado) explicaram 53% da variância do comportamento infrator.
Sendo assim, entende-se que é preciso considerar a importância de todo o
contexto na qual o adolescente está inserido, que envolve questões sociais e
econômicas muito mais amplas. Os autores concluem que os programas de
intervenção precisam atuar efetivamente em todas as esferas de vida do
adolescente, principalmente a família.
No artigo quatro: “Violência e fragilidades nas relações familiares: refletindo
sobre a situação de adolescentes em conflito com a lei”, realizado por Zappe e Dias
(2012), teve como objetivo apontar a relação entre a prática de atos infracionais e as
relações familiares a partir de um levantamento feito com cinco jovens privados de
liberdade por terem cometido algum tipo de infração. Foi constatado a presença de
violência desde os primeiros anos de vida dos adolescentes, a violência relatada por
eles foram em relação à agressão que os pais realizavam contra suas mães, e a
própria mãe para com eles. A presença de violência, especialmente no convívio
familiar, se apresenta como fator de risco para a construção da identidade desses
adolescentes, no entanto que a maioria dos jovens entrevistados relataram que
aprenderam com o pai a agir por meio da agressão e a fazerem uso de álcool e
drogas. Considerando que esses jovens vivem em situações de precariedade social,
junto com o tráfico e a criminalidade e a falta de suporte familiar, tudo isso faz com
que o adolescente repita os atos que vivenciaram e aprenderam desde a infância.
Os autores apontam que a “delinquência” é vista como única possibilidade de
nomeação e identidade desses adolescentes, visto que a convivência com uma
família desestruturada não lhe traz esse reconhecimento.
No estudo, as mães dos adolescentes foram citadas como a pessoa mais
importante, todavia se faz necessário pensar como a mãe se torna um fator de
proteção para esses jovens, visto que o pai sempre é visto de maneira negativa ou
ausente.
Por fim, o trabalho relata sobre a necessidade de um suporte para a família
desses jovens, citando até um possível programa de orientação e desenvolvimento
para habilidades desses pais, a fim de fazer com que os mesmos consigam oferecer
fatores de proteção e a diminuição dos fatores de riscos para esses adolescentes
37

que já se encontram em situações de risco, visto que a família é um fator primordial


do desenvolvimento do ser humano, seja para um bom desenvolvimento ou não.
Tendo em vista os estudos apresentados até então, fica possível observar o
quanto alguns fatores estão atrelados ao desencadeamento do comportamento de
delinquência em muitos adolescentes.
Os resultados apontam que existe altos índices de adolescentes envolvidos
em atos infracionais, dentre os fatores de risco ao desenvolvimento, presentes na
família os quatro estudos destacam a família com pouco repertório afetivo,
socioeconômico e psíquico, relacionamento familiar marcado por agressão física e
ou verbal e ou psicológica, uso de drogas por algum familiar, família composta por
muitos irmãos, família que vive em comunidades e ou favelas e ou bairros menos
favorecidos, familiares com problemas escolares e ou psiquiátricos, práticas
educativas familiares, como negligência e coercitiva e falta da presença da mãe.
Dentre os fatores de risco presente ao ambiente escolar, os estudos indicam a baixa
escolaridade. A evasão escolar e os problemas escolares são muito comuns na vida
desses jovens. Ainda referente a fatores de risco ao desenvolvimento do
adolescente em conflito com a lei, o presente estudo encontrou a influência dos
amigos.
Quanto aos fatores de proteção ao desenvolvimento, os estudos sugerem que
a família e a escola são entendidas como fatores de proteção, quando promovem o
desenvolvimento dos adolescentes, por meio do bem-estar físico, psicológico e
social. As famílias que fazem uso de prática educativa menos coercitivas, que
propiciam ambientes favoráveis para uma boa comunicação e uma boa relação
interpessoal, com regras claras tendem a não terem adolescentes em conflitos com
a lei. A presença da figura materna mostrou ser um fator de proteção ao
desenvolvimento. Quanto ao ambiente escolar os estudos sugerem que o bom
desempenho na escola pode ser um fator de proteção ao desenvolvimento do
adolescente.
A teoria Bioecologia do Desenvolvimento Humano Bronfenbrenner (2011),
destaca os processos proximais presentes no microssistema familiar como
favoráveis ou não para o desenvolvimento. Os estudos aqui listados demonstram a
relação estreita entre fatores de risco ao desenvolvimento presentes no ambiente
familiar de adolescentes, com prejuízo em seus processos familiares e o
envolvimento do adolescente em atos que levam a entrar em conflito com a lei.
38

Estes resultados são compatíveis com a revisão bibliográfica realizada por


Gallo e Williams (2005), que apontam que adolescentes com vínculos pouco afetivos
e que presenciam momentos aversivos em seus ambientes familiares têm maior
probabilidade de se envolver em infrações do que aqueles com vínculos afetivos
familiares preservados. Vale ressaltar que as famílias destes adolescentes em
conflito com a lei em sua maioria são famílias monoparentais, que sofreram
abandono por parte de um de seus parceiros, o que pode implicar no surgimento de
problemas no desenvolvimento do adolescente. As famílias com dificuldades
financeiras, emocionais e de relacionamentos, seja pelo motivo de separação
conjugal, conflitos entre os membros, e até mesmo o fator
socioeconômico/social/cultural parecem funcionar como fatores de risco ao
desenvolvimento do adolescente.
Ainda como fator de risco presente na vida desses jovens, os autores
destacam a violência praticada dentro ou fora de casa, à influência de amigos que
passa a ter grande importância quando estes não encontram o apoio familiar
necessário, o uso de drogas que se mostra como forma de refúgio para esses
jovens, os próprios costumes que os cercam, o meio em que esses adolescentes
vivem e a forma como aprendem a se relacionar. Já a violência no meio social
também é considerada um fator de risco que está associada ao meio na qual o
indivíduo está inserido. A forma como o mesmo aprende a enfrentar as diversidades,
exigindo meios diferentes de lidar com as situações do dia-a-dia, o que perpassa
como este adolescente aprendeu a enfrentar seus conflitos (resiliência), (GALLO;
WILLIAMS, 2005).

Embora os adolescentes possam sofrer influências pelo grupo de amigos, os


valores que são transmitidos pela família têm maior influência na vida do
adolescente. Os estudos apontam indícios que os adolescentes envolvidos em
conflitos com a lei, muitas vezes estão seguindo os exemplos das pessoas mais
próximas e importantes a eles, muitos dos pais desses adolescentes já se
envolveram em conflito com a lei algumas vezes na vida, por sua vez estes pais
também passaram pelo mesmo processo enquanto filho, evidenciado um ciclo de
vida, em que a criminalidade, a violência e a pobreza econômica, social e cultural
estão sempre presentes (COLL, PALACIOS; MARCHESI, 1996).
39

Outro aspecto com grande relevância nos estudos aqui citados é a escola, na
qual observou-se, que o índice de evasão escolar entre os adolescentes envolvidos
em conflito com a lei é alto. Um estudo do Conselho Nacional de Justiça (2012),
aponta que estes adolescentes em sua grande maioria não estão alfabetizados. No
decorrer do presente estudo a instituição escola foi apontada como fator de
proteção, quando favorece o desenvolvimento destes adolescentes.
Ao mesmo tempo, observou-se que a família e a escola podem ser fatores de
risco ao desenvolvimento, quando não atuam de forma efetiva no processo de
amadurecimento e desenvolvimento dos adolescentes que se encontram em conflito
com a lei, mas também podem ser fatores de proteção quando promovem o bem
estar físico, psicológico e social destes adolescentes, como famílias que propiciam
ambientes favoráveis para uma boa comunicação, uma boa relação interpessoal,
regras claras, ambiente harmonioso, na qual o adolescente possa se sentir acolhido
e confiante, assim como, a escola sendo um ambiente de promoção e
desenvolvimento das habilidades destes indivíduos, (MARTURANO; TRIVELLATO
FERREIRA, 2004).
Embora, no decorrer do estudo tenha-se compreendido os fatores
desenvolvimentais, que envolvem a fase da adolescência e os fatores de risco e
proteção ao desenvolvimento, ainda é importante compreender que as
características biopsicossociais de cada indivíduo devem ser levadas em
consideração. Sendo assim, é possível compreender que o desenvolvimento
humano é marcado por transformações: fisiológicas, psicológicas e ambientais. As
fases que envolvem essas mudanças são distintas, cada qual marcada por
mudanças especificas (COIMBRA, 2015).
Os estudos selecionados sugerem de modo geral a relevância de programas
de prevenção e intervenção que promovam a saúde, bem estar, cultura, entre outros
aspectos que envolvem o desenvolvimento dos adolescentes. Neste sentido,
programas que possam fortalecer os vínculos familiares, bem como promover o
cotidiano escolar, com ações que atuem como fatores de proteção podem favorecer
o desenvolvimento da Resiliência. A resiliência pode ser desenvolvida em
indivíduos, que passam por processos de sofrimento e que de alguma forma
conseguem superar suas dificuldades (KOLLER, 2011).
40

CONCLUSÃO

Com os levantamentos obtidos nesse estudo, compreende-se o


desenvolvimento humano e todos os fatores que influênciam direta e indiretamente
no curso da vida. Foram apresentados no decorrer do trabalho aspectos que
envolvem o desenvolvimento humano como: a família, a escola, os amigos, o meio
em que vivem, o nível socioeconômico, até mesmo a questão da resiliência que
cada um apresenta ao longo do desenvolvimento frente a situações adversas,
podendo estar presente ou não em cada indivíduo.
O estudo se concentra na fase da adolescência, que por sua vez é uma fase
muito importante na vida do indivíduo, com mudanças físicas, psicológicas e sociais
significativas. A adolescência é em muitos momentos sentida e experiênciada por
vários conflitos internos e externos; é uma fase de transição, o adolescente está se
tornando adulto e as responsabilidades passam a ser sentida com maior cobrança.
A sexualidade também se faz presente, as relações com os pares começam a exigir
maior prioridade e com isso vêm as influências que podem causar conflitos internos,
em relação ao autoconhecimento. As emoções são sentidas de forma mais
impulsiva, (característica presente nesta fase), e alguns adolescentes podem
encontrar dificuldades em conseguir lidar com tudo isso. Sendo assim, passam a ser
evidenciados os fatores que podem influenciar de forma positiva ou negativa, no
comportamento deste adolescente, para que seu desenvolvimento ocorra da melhor
maneira possível.
Se o adolescente que está vivendo todo esse conflito, característico da fase
em que se encontra, tiver por perto uma família que consegue lhe dar o apoio e
subsídios necessários para que seu desenvolvimento aconteça de forma efetiva, se
a escola está atenta a essa fase e consegue trabalhar com esses jovens essas
questões, se os ambientes frequentados por esses jovens também oferecerem um
apoio necessário, se a condição econômico/financeira destas famílias na qual estes
adolescentes pertencem fornecerem o mínimo de respaldo para manter suas
necessidades básicas, encontra-se subsídios para que o desenvolvimento destes
adolescentes possa acontecer de forma plena e saudável.
Mas, evidenciou-se no presente estudo a realidade vivida por adolescentes,
na qual suas famílias em sua grande maioria são monoparentais, com problemas de
relacionamento, evasão escolar, uso abusivo de drogas, violência física e psíquica,
41

ambiente social e cultural expostos a situação de pobreza e violência. Os


adolescentes, muitas vezes, por falta da estrutura necessária para um bom
desenvolvimento, encontram em seu meio social, familiar e escolar uma realidade
que vem sendo discutida com números preocupantes que é o envolvimento do
adolescente com a criminalidade.
Diante de tais aspectos sabe-se que cada fator apresentado neste trabalho
isoladamente não levariam um adolescente a prática de atos infracionais, mas como
abordado no decorrer do trabalho o desenvolvimento humano é resultado da
interação de diversos fatores, sendo eles de risco ou de proteção ao
desenvolvimento, que podem estar presentes no meio na qual o indivíduo encontra-
se inserido (social, cultural, familiar, escolar). Vale ressaltar que ainda existem as
influencias e condições pessoais (subjetivas) do adolescente em lidar com sua forma
de vida. Assim, medidas que potencializem a promoção de fatores de proteção ao
desenvolvimento do adolescente (na família e na escola) podem favorecer o
desenvolvimento da resiliência, perante aos inúmeros fatores de risco vivenciados
pelos adolescentes em conflito com a lei.
Pode-se compreender ao longo do presente estudo a importância das
grandes instituições como, família e escola na vida dos indivíduos, principalmente no
que se refere à fase aqui estudada, a adolescência, e como o ambiente em conjunto
com estas instituições acarreta em influências que podem ser positivas e/ou
negativas para o desenvolvimento destes indivíduos. Ao falhar em seus papéis tanto
a família quanto a escola, que a princípio deveriam ser agentes de promoção do
desenvolvimento, estes se tornam fontes de angustias cotidianas.
No decorrer do presente trabalho, pode-se compreender a importância de
programas com medidas de prevenção e até mesmo de intervenção, na qual
possibilitem um trabalho efetivo com estes adolescentes e suas famílias. É de
extrema importância que se compreenda que o adolescente que está em conflito
com a lei, assim como qualquer outro adolescente, se desenvolve dentro de um
contexto biopsicossocial, sendo necessário levar em consideração suas
subjetividades.
Neste sentido, o presente estudo sugere que é importante a adoção de
políticas públicas especificas voltadas ao combate da evasão escolar, programas
educativos incentivando a frequência escolar, estratégias pedagógicas, oferta de
práticas desportivas, programas de combate ao uso de drogas, estes são exemplos
42

que podem ser usados pelas escolas. Com as famílias considera-se importante
programas que visem à manutenção e o fortalecimento dos vínculos familiares. E
considerando ainda o adolescente, programas voltados para a promoção de temas
atuais sobre o desenvolvimento da adolescência podem ser uma medida de
prevenção.
Através dos levantamentos obtidos nesta pesquisa foi possível observar a
falta de artigos relacionados ao tema proposto. De 25 artigos encontrados, somente
quatro atendiam ao critério de estudo. Outro ponto importante que foi observado é a
falta de pesquisas experimentais que comprovam a eficácia das medidas de
proteção e intervenção que são citadas na maioria dos artigos que foram
encontrados.
Considerou-se importante pensar em medidas de promoção, prevenção e
intervenção para com esses adolescentes em situações de risco, mas ficou em
evidência a importância de estudos experimentais que enfatizem a eficácia dos
programas de intervenção e se estes programas realmente trazem os resultados que
propõem. O que pode-se observar ao longo do trabalho é a ausência de pesquisas
experimentais que reforcem e auxiliem nos trabalhos de levantamentos, como o
presente estudo.
43

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