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doi: 10.1590/s0103-4014.2019.3395.

0022

Histórias afro-atlânticas
Ricardo Ohtake I

O da Lei Áurea, que determinava a abo-


s 130 anos que separam a assinatura 60% ao Masp e 40%, ao Instituto Tomie
Ohtake, com 504 obras de 215 artistas,
lição da escravatura, dos dias de hoje de 54 instituições de 13 países, e 62 ga-
não foram suficientes para extinguir as lerias e coleções particulares do mundo,
consequências de um dos mais violentos divididas em oito capítulos: 1 Mapas e
períodos da história do Brasil, iniciados margens; 2 Emancipações; 3 Cotidia-
quase três séculos atrás, ainda manifesto nos; 4 Ritos e ritmos; 5 Rotas e transes:
tanto por meio de preconceitos e maus- Áfricas, Jamaica, Bahia; 6 Retratos; 7
-tratos, que ainda ocorrem de forma Modernismos afro-atlânticos; 8 Resis-
ilegal, como também a partir da violên- tências e ativismos. A curadoria coube
cia oficial, encarceramento em massa e a Adriano Pedrosa, Ayrson Heráclito,
da falta de oportunidades iguais para a Hélio Menezes, Lilia Moritz Schwarcz e
população negra, nas plantações e nos Tomás Toledo, e a organização editorial,
pesados encargos urbanos e domésticos. a Adriano Pedrosa e Tomás Toledo.
Esse violento processo não se res- Simultaneamente à exposição, foi
tringiu ao Brasil: praticamente todos editada uma publicação (27,5x20,5cm,
os países da América receberam negros 416 páginas) com a reprodução de todas
oriundos da diáspora africana para tra- as obras e com textos gerais e específi-
balharem como mão de obra escrava, cos de cada capítulo da mostra, escritos
quase sempre em condição degradante. pelos vários curadores, com expressiva
Para além de produzir cicatrizes e ques- concepção visual e preciosa qualidade de
tões que persistem até hoje, esse proces- impressão gráfica, necessárias à compre-
so teve como palco o Oceano Atlântico, ensão cromática, textural, e do uso do
produziu também uma série de imagens, material – tinta a óleo sobre tela ou so-
documentos, textos, fotografias e outras bre papel, fotografia impressa em plati-
obras de arte que se debruçavam sobre na ou em prata, textura de esculturas de
o tema. O assunto, em função das con- madeira, peças em metal.
sequências existentes, mostra até hoje A moderna concepção do livro de
inquietações em artistas contemporâne- arte é muito diferente do livro de tex-
os, principalmente negros, que por vezes to. Este tem em todas as páginas duplas
resgatam o tema e trabalham em cima a mesma diagramação, e mesmo quan-
da própria iconografia da época, criando do haja ilustração essas ficam dentro da
leituras atuais sobre fatos formadores. mancha de texto, ao contrário do livro
Duas instituições artísticas brasileiras, contemporâneo de arte cuja liberdade
o Museu de Arte de São Paulo (Masp) de diagramação faz parte do entendi-
e o Instituto Tomie Ohtake, tomaram mento da própria arte.
a decisão de realizar uma extensa expo- É essa característica que difere a ve-
sição com esse material. O período da lha gráfica da que domina a produção
mostra foi de 28 de junho a 21 de ou- de pouco mais de meio século e que se
tubro de 2018, com um acervo cabendo desenvolve numa extraordinária veloci-

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Coleção Alma Fine Art & Galeria, Salvador, Brasil.

Bauer Sá. Salvador, Brasil, 1950– vive em Salvador. Sapato branco, sem data.

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dade exclamações na admiração de belos co Henry Chamberlain, que viveu entre
exemplares e com uma tecnologia mui- o século XVII e o século XIX nas Amé-
to aperfeiçoada do sistema industrial de ricas; depois, temos norte-americanos,
impressão que significa a máquina im- centro-americanos e brasileiros já do sé-
pressora, o processo de pré-impressão, o culo XX e num estilo que se aproxima da
papel e a tinta, sem contar a reprodução moderna pintura.
fotográfica incluindo sofisticada ilumi- A exposição buscou justamente mos-
nação de cada obra, o acabamento do trar como o Atlântico foi palco de todo
exemplar etc. esse processo, iniciado no século XV, e
A localização do Oceano Atlânti- que, de alguma maneira, persiste até os
co em relação à África e às costas ame- dias de hoje. Essa dimensão náutica e
ricanas mostra a grande extensão da geográfica da exposição fica muito clara
distribuição dos negros vindos de um em alguns núcleos: tanto “Mapas e Mar-
continente para outro, os tamanhos das gens”, presente no Masp e que apresen-
embarcações que trouxeram a mão de ta algumas dessas cartografias, como em
obra, desde os primeiros escravizados, “Emancipações”, presente no Instituto
depois transportados, são centrais nessa Tomie Ohtake e que traz alguns traba-
exposição com obras de artistas funda- lhos que discutem a representação do
mentais como Portinari, Mendive, Gil- navio negreiro, desde em artistas viajan-
berto de la Nuez, e os atuais Emanoel tes estrangeiros, como Rugendas, até ar-
Araujo, Paulo Nazareth, Jaime Lauria- tistas contemporâneos brasileiros, como
no, Sidney Amaral, Rosana Paulino e Paulo Nazareth.
Faith Ringgold, entre muitos outros. A maneira suavizada e romantizada
O dia a dia da escravidão sempre foi de se representar a escravidão, dentro e
muito violento, apesar de haver ima- fora do Brasil, também é discutida pela
gens em que uma suposta suavidade e mostra, pois essas imagens trazem mui-
vida confortável aparece em desenhos tas vezes cenas de violência muito clara.
e pinturas, mas também cenas em que Novamente, releituras feitas por artistas
os negros escravizados apareciam muito negros são parte importante. Nomes
violentados e açoitados, chegando até como Jaime Lauriano, Rosana Paulino e
a haver censura por parte do Instituto Sidney Amaral foram fundamentais nes-
Histórico e Geográfico Brasileiro, pois sa empreitada. Tais releituras aparecem
a elite brasileira pretendia divulgar um lado a lado de aquarelas e telas de nomes
processo menos violento. como Debret, Rugendas, Briggs e Pedro
O cotidiano é bastante registrado, Américo.
tanto nas zonas rurais como nas vilas, Finalmente, inúmeras imagens de
desde as conhecidas imagens dos artistas resistências e ativismos negros, desde a
do grupo de Mauricio de Nassau, prin- época colonial até os dias de hoje, inte-
cipalmente Frans Post, como de outros gram salas no Instituto Tomie Ohtake
europeus, o francês Jean Chauffrey, o e do Masp. Objetos rituais, pinturas,
jamaicano Isaac Mendes Belisario, o in- fotografias e vídeos apresentam algu-
glês Charles Landseer, o espanhol Victor mas dessas formas de se resistir e fazer
Patricio Landaluze, o francês que viveu política no mundo afro-atlântico, além
no Brasil Félix Émile Taunay, o britâni- de trazer vários pontos de diálogo e ele-

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mentos iconográficos em comum entre
os trabalhos.
Simultaneamente a essa publicação
(“Catálogo”) foi editado um livro (“An-
tologia”) contendo textos nos quais a
curadoria se baseou para a realização da
exposição (24,5x17,7 cm, 624 páginas).

Referências
PEDROSA, P.; HERÁCLITO, A.; ME-
NEZES, H.; SCHWARCZ, L. M.; TO-
LEDO, T. (Curadoria e textos). Histoórias
Afro-Atlânticas. Volume 1. Catálogo. São
Paulo, Instituto Tomie Ohtake; Masp,
2018 416p. Organização editorial Adria-
no Pedrosa e Tomás Toledo.
PEDROSA, A.; CARNEIRO, A.; MES-
QUITA, A. Histórias Afro-Atlânticas.
Volume 2. Antologia. São Paulo, Instituto
Tomie Ohtake; Masp, 2018. 624p. Com
a colaboração de Artur Santoro, Hélio
Menezes, Lilia Moritz Schwarcz, Tomás
Toledo.

Ricardo Ohtake dirige o Instituto Tomie


Ohtake desde sua criação, em 2001. Foi
secretário de Estado da Cultura de São
Paulo, dirigiu o Centro Cultural São Pau-
lo, o Museu da Imagem e do Som e a
Cinemateca Brasileira. Formou-se em ar-
quitetura pela Faculdade de Arquitetura
da Universidade de São Paulo. Foi mem-
bro do Conselho Deliberativo do Insti-
tuto de Estudos Avançados da USP entre
2015 e 2016 e titular da Cátedra Olavo
Setúbal de Arte, Cultura e Ciência do
IEA-USP. @ – ricardo.ohtake@instituto-
tomieohtake.org.br
https://orcid.org/0000-0002-7897-2796
Recebido em 22.10.2018 e aceito em
11.11.2018.
I
Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, São
Paulo, Brasil.

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