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UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA

FACULDADE DE CIÊNCIAS INTEGRADAS DO PONTAL

CURSO DE GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

NOTA: 50,0

Boa análise da canção em diálogo com a bibliografia.

COMPONENTE CURRICULAR: História do Brasil V.

PROFESSOR(A): Profa. Dra. Angela Aparecida Teles.

ALUNO: Marcos Antônio da Silva.

2019/1.
DISCO CAETANO VELOSO - 1968

Gravadora: Polygram/Philips faixa 06 Anunciação


Produtor: Manuel Barembeim Compositor(es): Caetano Veloso,
Rogério Duarte
Formatos: (LP/1968), (CD/1990)
faixa 07 Superbacana
Primeiro disco: 1968
Compositor(es): Caetano Veloso
faixa 08 Paisagem Útil
Música(s):
Compositor(es): Caetano Veloso
faixa 01 Tropicália
faixa 09 Clara
Compositor(es): Caetano Veloso
Compositor(es): Caetano Veloso,
faixa 02 Clarice
Perinho Albuquerque
Compositor(es): Caetano Veloso, José
faixa 10 Soy Loco Por Ti, America
Carlos Capinan
Compositor(es): Gilberto Gil, José
faixa 03 No Dia Em Que Eu Vim Me
Carlos Capinan, Torquato Neto
Embora
faixa 11 Ave Maria
Compositor(es): Caetano Veloso,
Gilberto Gil Compositor(es): Caetano Veloso
Músico(s): Beat Boys : Diversos faixa 12 Eles
faixa 04 Alegria, Alegria Compositor(es): Caetano Veloso,
Gilberto Gil
Compositor(es): Caetano Veloso
Part. Especial(ais): Os Mutantes :
Músico(s): Beat Boys : Diversos
Diversos/Vozes
faixa 05 Onde Andarás?
Compositor(es): Caetano Veloso,
Ferreira Gullar
Caminhando contra o vento E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro Eu vou
Eu vou
Eu tomo uma Coca-Cola
O sol se reparte em crimes Ela pensa em casamento
Espaçonaves, guerrilhas E uma canção me consola
Em cardinales bonitas Eu vou
Eu vou
Por entre fotos e nomes
Em caras de presidentes Sem livros e sem fuzil
Em grandes beijos de amor Sem fome, sem telefone
Em dentes, pernas, bandeiras No coração do Brasil
Bomba e Brigitte Bardot
O sol nas bancas de revista Ela nem sabe, até pensei
Me enche de alegria e preguiça Em cantar na televisão
Quem lê tanta notícia? O sol é tão bonito
Eu vou Eu vou
Sem lenço, sem documento
Por entre fotos e nomes Nada no bolso ou nas mãos
Os olhos cheios de cores Eu quero seguir vivendo, amor
O peito cheio de amores vãos Eu vou
Eu vou Por que não? Por que não?
Por que não? Por que não? Por que não? Por que não?
Por que não? Por que não?
Ela pensa em casamento
Nascido em Santo Amaro da Purificação, Bahia, aos 7 de agosto de 1942, Caetano
Emanuel Vianna Telles Velloso, (Caetano Veloso) o qual viria a ser um dos maiores
nomes da música popular brasileira. Desde muito jovem demonstrava aptidão para a
música. Em 1960 muda-se para Salvador com sua família onde aprende violão e se
apresenta em bares com sua irmã Maria Bethânia. Ingressa na Faculdade de Filosofia da
Universidade Federal da Bahia em 1963. Ainda nesse ano conhece Gilberto Gil, Gal
Costa e Tom Zé. Dois trabalhos importantes influenciaram em sua decisão de seguir a
carreira musical, a composição da trilha sonora da peça "O Boca De Ouro", de Nelson
Rodrigues, em montagem de Álvaro Guimarães, um diretor baiano que posteriormente o
convida para compor a trilha sonora de outra peça, esta, de Bertolt Brecht, "A Exceção
E A Regra". Em São Paulo, no ano de 1966, a canção, "Boa Palavra” interpretada por
Maria Odette galga o 5º lugar no Festival Nacional da Música Popular da TV Excelsior,
e no 2º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, "Um Dia" é premiada
como melhor letra,

No ano de 1967, assina contrato com a Philips e em parceria com Gal Costa grava seu
primeiro LP intitulado, “Domingo”,. Apresenta a canção "Alegria, Alegria",
acompanhado pelo conjunto pop argentino Beat Boys no 3º FMPB da TV Record,
alcançando a 4ª colocação, canção que é lançada em compacto simples nesse mesmo
ano. Nesse interim, já se delineia os contornos do Tropicalismo; movimento
vanguardista que, apropriando-se da “filosofia antropofágica” do modernista Oswald de
Andrade, assimila elementos da cultura pop internacional na produção de um produto
cultural brasileiro e original que acaba se tornando mais atraente ao gosto das massas.

Em nossa perspectiva, o Tropicalismo (ao menos o Tropicalismo musical) foi mais do


que o reflexo de uma crise específica do intelectual engajado ou de uma vontade de
modernização cultural por si mesma. O movimento foi também o polo ativo de uma
nova inserção de artistas e intelectuais na sociedade, passagem de uma cultura política
de matriz romântica (o nacional-popular) para uma cultura de consumo, que
acompanhou o quadro geral do novo estágio de desenvolvimento capitalista do Brasil,
alcançado na segunda metade dos anos 60. (NAPOLITANO, 2010)

A canção, Alegria, Alegria se configuraria em um marco representativo do


Tropicalismo ao sintetizar os resultados dessa antropofagia cultural em sua estrutura e
poética, contendo em si elementos da bossa nova tradicional e da cultura pop nacional e
internacional assim como uma base de baixo, guitarra, teclado e bateria muito utilizada
em bandas de rock surgidas nesse período como Led Zeppelin, The Doors e Deep
Purple.

O período em questão refere-se no Brasil ao governo do marechal Costa e Silva (1967-


1968) no qual se acirraram os ânimos entre os militares e seus opositores. De acordo
com (RIDENTI, 2014) nesse período houve uma alternância entre repressão e diálogo,
antes que o regime recrudescesse culminando no ato institucional nº5 (AI5) em 13 de
dezembro de 1968. Caetano Veloso e Gilberto Gil, expoentes do Tropicalismo são
presos dias após a promulgação do AI5, sendo soltos em fevereiro de 1969
permanecendo em Salvador em regime de confinamento e partindo para o exílio na
Inglaterra donde retornariam em 1972.

Muito embora a consolidação e ápice do Tropicalismo estejam centrados no biênio


1967-1968, já havia marcado indelevelmente a música popular brasileira que seguiria
exercendo importante papel na contestação e resistência ao regime militar nos anos que
se seguiriam.

A CANÇÃO

O nome, Alegria, Alegria foi tomado por Caetano Veloso do animador de TV


Chacrinha, que por sua vez o havia tomado do cantor de samba Wilson Simonal, mas
ficou conhecida pelo verso, ”sem lenço, sem documento”.

Caminhando contra o vento

Sem lenço e sem documento

No sol de quase dezembro

Eu vou

Alguns consideram que o “vento” seria uma metáfora utilizada pelo compositor para se
referir ao regime militar contra o qual o eu lírico, “Caminhando contra”, se insurgiria
demonstrando resistência. No entanto, nas palavras de (VELOSO, 1997):

(...)"sem lenço, sem documento" corresponde à ideia do jovem desgarrado que, mais do
que a canção queria criticar, homenagear ou simplesmente apresentar, a plateia estava
disposta a encontrar na canção. O verso que se segue à segunda aparição desse quase-
título - "Nada no bolso ou nas mãos" - foi tirado diretamente da última página de As
palavras de Sartre: numa brincadeira comigo mesmo, eu tinha enfiado uma linha do que
para mim era o mais profundo dos livros numa canção de circunstância.

O sol se reparte em crimes

Espaçonaves, guerrilhas

Em cardinales bonitas

Eu vou

Nessa estrofe vemos referências a mídia, fatos que por ela eram veiculados e ícones da
cultura pop internacional. “O sol”, é provavelmente uma referência ao jornal alternativo,
“O Sol”, idealizado por Reynaldo Jardim. A publicação em formato tabloide que
circulou no Rio de Janeiro entre setembro de 1967 e janeiro de 1968, a princípio foi
lançada como um suplemento cultural do “Jornal dos Sports” e posteriormente circulou
de forma independente. Nesse período estava em curso a Guerra Fria no interior da qual
se desenrolava a Corrida Espacial entre os EUA e a URS. Vemos também a referência a
Claudia Cardinale, atriz italiana muito popular durante os anos sessenta, e nos versos
que se seguem refere-se também a francesa Brigitte Bardot, ícone do cinema
internacional.

Em caras de presidentes

Em grandes beijos de amor

Em dentes, pernas, bandeiras

Bomba e Brigitte Bardot

O sol nas bancas de revista

Me enche de alegria e preguiça

Quem lê tanta notícia?

Eu vou

Mais uma vez o eu lírico parece se referir a elementos comuns do cotidiano do período
em que a canção foi composta. Se levarmos em conta o contexto mundial em fins da
década de 1960, Guerra Fria, Ditadura Militar no Brasil, guerra do Vietnã, movimentos
de contracultura, a personagem relata uma profusão de acontecimentos, personagens e
sentimentos que simultaneamente o enchem de “alegria e preguiça”, mas com os quais
ele não se ocupa além da constatação, e segue seu caminho. “Eu vou”.

O eu-lírico segue fazendo referência a banalidade do cotidiano, usos e costumes, seu


pouco apreço pelas instituições, ícones da cultura pop, ditadura militar e seus
opositores, meios de comunicação de massa. Ao constatar a beleza e esplendor do sol
de primavera, “Sol de quase dezembro”, esse “jovem desgarrado” constata que é
melhor “Seguir vivendo” de “cara pro vento” e alheio a todo esse estado de coisas, sem
“nada no bolço ou nas mãos. E por que não?

REFERÊNCIAS

RIDENTI, Marcelo 2. As oposições à ditadura: resistência e integração. In: REIS


FILHO, Daniel Aarão; RIDENTI, Marcelo; MOTTA, Rodrigo Patto Sá. A ditadura que
mudou o Brasil: 50 anos do golpe de 1964. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2014.

NAPOLITANO, Marcos. A república das bananas: o Tropicalismo no panorama da


MPB. In: Seguindo a canção: engajamento político e indústria cultural na MPB (1959-
1969). Versão digital, São Paulo, 2010.

VELOSO, Caetano. Verdade tropical: São Paulo: Companhia das Letras, 1997.