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Carta Aberta ao Director do Jornal de Angola

Sobre o suposto ́ E
́ quívoco de N ́zau Puna ́ ́
agosto 26, 2019

ASSUNTO: Direito de Resposta

Estimado Director,

Começo por apresentar os meus respeitosos cumprimentos.

Na sequência da matéria publicada no Jornal de Angola no pretérito dia 7 de Agosto de


2019 (Quarta-feira), edição No15711 (Ano 44) em que se dá destaque ao historiador
português Pedro Pezarat Correia, nas páginas 4 e 5, com os títulos
espampanantes ́ ́Historiador desfaz mitos e esclarece equívocos em Livro ́ ́ ou ainda ́ ́Do
lado do colonizador, mas do lado certo da História ́ ́, aproveito o ensejo para fazer uma
réplica à referência feita à minha obra autobiográfica com a epígrafe ́ ́O equívoco de
N ́Zau Puna ́ ́. Pelo que rogo que estes esclarecimentos sejam publicados no Jornal de
Angola com o mesmo destaque.

Em primeiro lugar, como não sou historiador, não vou entrar no mérito da obra do Pezarat
Correia sobre a descolonização. Todavia, o facto de não ser historiador não siginifica que
sou ignorante da história, sobretudo dessa história em que eu próprio sou protagonista e
testemunha na minha qualidade de nacionalista e combatente da liberdade. É neste sentido
que tenho uma palavra a dizer sobre o que o nosso Jornal de Angola chamou
de ́ é quívoco ́ ́ e o senhor Pezarat qualificou de ́ ́fantasia ́ ́.

Em 1956 Angola deixa de ser Colónia e passa a ter o estututo de ́ ́Província Ultramarina ́ ́
e Cabinda fica com o estatuto de ́ ́Distrito ́ ́, conforme o despacho de Sá Viano Rebelo. A
partir de então ficava proibida a designação de ́ ́Enclave ́ ́ até aí vigente em relação a
Cabinda, impedindo ipso facto o andamento de qualquer correio oficial que usasse essa
designação. Esse senhor perguntou aos Cabindas? Foi uma imposição do colonialismo. E
não esqueçamos que Cabinda gozava então do estatuto internacional de protectorado
decorrente do Tratado de Simulambuco de 1 de Fevreiro de 1885.

Quando fui para o Seminário Menor de Cabinda em 1948, após a ordenação do padre (e
futuro Arcebispo) Manuel Franklin da Costa, eram Prefeitos do Seminário Eduardo André
Muaca (futuro Arcebispo de Luanda) e Alexandre Tati para a 3a classe e Mateus Ferreira
dos Santos e Domingos Quioza para a 4o classe. Estes nos ensinavam quer na Geografia,
quer na História, rios de Portugal e seus afluentes, caminhos de ferro e seus apeadeiros, a
monarquia lusitana, as célebres batalhas como a de Aljubarota, etc. De Angola
praticamente nada. Quando se tratasse de Cabinda naquela altura então entre professores
e alunos dizia-se que temos um território ao Norte do rio Zaire que se chama ́ ́Enclave de
Cabinda ́ ́ ou ́ ́Congo Português ́ ́ (já havia o Congo Belga e o Congo Francês).

Em 1956 sou destacado como professor da escola primária de S.José de Ambriz onde
encontro o padre Farinha e o padre António da Silva Maia. Em Julho desse ano vou de
férias para Cabinda, onde o meu pai me convida a ir ver o governador de Cabinda. Este
faz-me então uma proposta inesperada para que eu fosse o sucessor do meu avô Alberto
Roberto Puna, assumindo o título de Barão de Cabinda. Obviamente rejeitei a proposta.
O Governador insistiu tentando persuadir-me a aceitar. Dizia que se era pela idade para
isso se podia arranjar conselheiros. Mesmo assim não aceitei. Foi então nomeado Barão
de Cabinda o meu tio Lourenço (Bilolo). Mas este por defender ideias ou interesses
voltados para Cabinda foi preso e desterrado para a cadeia de S. Nicolau.

Ora bem, o senhor historiador que ousa atacar-me conheci-o como oficial superior das
forças portuguesas contra as quais eu combati, sobretudo no Leste. Foi colonialista e
fascista ao serviço do regime do Salazar. Na sua digressão por vários territórios
portugueses em Africa, o que fez como militar foi participar na morte de muitos
nacionalistas. É a isso que o jornal de Angola retrata como ́ ́percurso fascinante ́ ́ a custo
do sangue dos filhos de Angola que sacrificaram as suas vidas pela liberdade. É a essa
personalidade que alguns angolanos, hoje, infelizmente consideram estar do ́ ́lado certo
da história ́ ́. Do lado certo da história talvez pela sua conversão ao comunismo e seu
protagonismo depois do 25 de Abril. Eu, como combatente da liberdade, cumpri a minha
missão e apenas uma vez me encontrei com o dito historiador depois do cessar-fogo entre
a UNITA e as forças portuguesas no Lungue-Bungo (Sakalemba). Houve uma grande
discussão sobre o local do cessar-fogo. Os portugueses queriam que fosse para lá da
fronteira com a Zâmbia, isto é fora do território nacional. A UNITA não aceitou e acabou
por acontecer dentro do território nacional. O dito historiador sempre teve opiniões
sectaristas em relação aos três movimentos de libertação. Por isso, não aceito receber
lições de história de um colonizador e um fascista de Salazar que me combateu e procurou
me eliminar. Não posso aceitar lições de um historiador parcial.

Em relação à dita ́ ́fantasia ́ ́ retratada no jornal de Angola, reitero que o acordo de Alvor
foi o acto que integrou Cabinda formalmente no futuro estado de Angola que estava para
nascer. Embora o acordo tenha sido violado e suspenso pelas autoridades portuguesas, o
seu artigo 3o talvez foi único que vingou e foi cumprido na íntegra. Cabinda não estava
integrada em Angola antes dessa data porque era um domínio submetido directamente à
soberania portuguesa. Embora em 1956, como uma estratégia de comodidade
administrativa, Cabinda tivesse começado a depender do Governador-Geral em Luanda,
a verdade é que a Constituição Portuguesa de 1933 que esteve vigente até ao momento da
descolonização considerava Cabinda um território distinto de Angola. Quanto ao papel
de Portugal no Alvor, é claro que Pezarat de Correia tem de aceitar com honestidade
intelectual que a decisão não esteve apenas nas mãos nos movimentos de libertação
angolanos. Portugal ainda mantinha o leme durante o processo da descolonização. Foi um
pouco antes do Alvor que numa reunião em Belém onde estavam o Presidente Costa
Gomes, Mário Soares, na qualidade ministro dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes,
na sua qualidade de ministro sem pasta e Almeida Santos, enquanto ministro da
coordenação interterritorial, discutiram o que se devia fazer com Cabinda. E a decisão
que saiu da reunião, depois de alguma discussão, para o bem dos interesses de Portugal,
era enveredar por uma descolonização conjunta entre Cabinda e Angola, alegando o
perigo de o petróleo de Cabinda ir cair nas mãos do Presidente Mobutu e dos franceses.

Termino dizendo, portanto, que a história de Cabinda teria um fim aceitável por todos se
se cumprisse o que os belgas fizeram no Ruanda-Urundi que também foram distritos
dependentes da administração colonial em Leopoldville.

Miguel Maria N ́Zau Puna

PS. O Jornal de Angola negou-me o direito de resposta, em plena violação da liberdade


expressão e do princípio do contraditório, recusando a publicação da minha opinião.
Esta é a razão que me fez recorrer ao site do Club-K. É triste para quem combateu pela
liberdade que lhe seja recusada a liberdade de expressão. Fico sem saber qual era a
verdadeira agenda do nosso Jornal de Angola em dar destaque a um antigo
colonizador, negando dar espaço a um nacionalista.

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