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TRABALHOS COMPLETOS/TRABAJOS COMPLETOS

VOLUME 1
CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
BIBLIOTECA DANTE MOREIRA LEITE
INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Congresso da Alfepsi. (7. : 2018 : Rio de Janeiro, RJ)


Formação em psicologia para a transformação psicossocial na América Latina / Formación en
psicologia para la transformación psicosocial en Latinoamerica / organizado por: ngela Soligo,
Pedro Paulo Gastalho de Bicalho, Horácio Maldonado e Francisco Teixeira Portugal, 5 a 8 de
setembro. – Rio de Janeiro : Alfepsi, 2018.
3 volumes.
ISBN:
978-85-89208-81-9 (Coleção)
978-85-89208-82-6 (v. 1)

1. Formação profissional (Psicologia) 2. Ensino da psicologia 3. América Latina I. Soligo, Ângela


II. Bicalho, Pedro Paulo III. Maldonado, Horácio IV. Tondin, Celso Francisco V. Título.

LC1043
(EU) SOU PORQUE (NÓS) FOMOS:
A EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA E SEUS EFEITOS
NO PSICÓLOGO EM CONSTRUÇÃO
Erick Silva VIEIRA1

EIXO TEMÁTICO: Formação, pesquisa e desenvolvimento profissional em Psicologia

RESUMO

Fundamentada na indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, prevista na Constituição


de 1988, a extensão universitária tem se mostrado enquanto processo ético e político-pedagó-
gico ímpar na construção do conhecimento científico. No contexto da Psicologia, a extensão
ganha destaque em sua relação com o compromisso social da profissão – dadas as mudanças na
categoria a partir da redemocratização do país – uma vez que oferece condições de possibilidade
para a ampliação de práticas que contribuam concomitantemente para o desenvolvimento da
ciência, sociedade e da formação do estudante-extensionista. Deste modo, o presente trabalho
busca evidenciar a relevância da extensão universitária no processo de formação do profissional
psicólogo, assim como de aportes e novas propostas de intervenção da própria ciência psicológi-
ca. Para tanto, parte-se de uma experiência enquanto extensionista do projeto “Construindo um
processo de escolhas mesmo quando escolher não é um verbo disponível”, vinculado ao Instituto
de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que adota como metodologia a Análise
do Vocacional e uma perspectiva crítica acerca dos critérios de escolha profissional de jovens
moradores de territórios ditos vulneráveis. As reflexões aqui realizadas surgem com um estudo
de caso dessas atividades, trabalhando-o com as ideias de potência, encontro e desejo da filosofia
de Espinosa e do conceito de análise de implicações da Análise Institucional. Constata-se que
as apostas nas atividades realizadas produzem efeitos múltiplos, nem sempre visíveis, tampouco
tangíveis, mas que apontam para uma visão crítica de si e do mundo e, principalmente, da Psi-
cologia enquanto ciência e profissão. Trata-se de construir sentidos para a prática psicológica que
não se limitem a modelos cristalizados, afastados da realidade histórica, política e social dos en-
volvidos no processo interventivo; que não se deixem seduzir pela conveniente individualização
da subjetividade para que, então, se ofereçam condições para todas as transformações possíveis a
partir dos diversos encontros.

PALAVRAS-CHAVE: Extensão universitária; Intervenção; Formação; Análise do Vocacional.

ABSTRACT

1 Discente do curso de graduação em Psicologia do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Praia Vermelha, Rio de Janeiro, Brasil. E-mail para contato: ericksilvieira@gmail.com

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Based on the indissociability between teaching, research and extension, provided for in the 1988
Constitution, university extension has shown itself to be a unique ethical and political-pedago-
gical process in the construction of scientific knowledge. In the context of Psychology, exten-
sion is highlighted in its relationship with the social commitment of the profession - given the
changes in the category from the redemocratization of the country - since it offers conditions
for the possibility of expanding practices that contribute concomitantly to the development of
science, society and student-extensionist training. Thus, the present work seeks to highlight the
relevance of university extension in the process of training the professional psychologist, as well
as contributions and new proposals for intervention of psychological science itself. To do so, it
is part of an experience as extensionist of the project “Building a process of choices even when
choosing is not an available verb”, linked to the Institute of Psychology of the Federal University
of Rio de Janeiro, which adopts as methodology the Vocational Analysis and a critical perspecti-
ve on the criteria of professional choice of young people living in so-called vulnerable territories.
The reflections made here emerge with a case study of these activities, working with the ideas of
potency, meeting and desire of the philosophy of Espinosa and the concept of analysis of impli-
cations of Institutional Analysis. It can be seen that betting on the activities carried out produces
multiple effects that are neither always visible nor tangible, but which point to a critical view of
oneself and of the world, and especially of psychology as a science and profession. It is a question
of constructing meanings for psychological practice that are not confined to crystallized models,
away from the historical, political and social reality of those involved in the intervention process;
that do not allow themselves to be seduced by the convenient individualization of subjectivity,
providing conditions that can be offered for all possible transformations from the various mee-
tings.

KEYWORDS: University Extension; Intervention; Formation; Vocational Analysis.

Ninguém transforma ninguém


E ninguém se transforma sozinho:
Nós nos transformamos no encontro.
Roberto Crema

Atualmente, discursos diversos acerca da extensão universitária são enunciados, desta-


cando seja suas potencialidades, seja os desafios que convoca. Contudo, ao debruçar-nos sobre
sua história e diretrizes, encontramos as premissas implícitas em todos esses, as quais destacam,
principalmente, concepções importantes acerca da produção de conhecimento e transformação
social, razões que justificam seu entendimento enquanto “instrumento que vai possibilitar à
universidade cumprir a sua função social” (Nogueira, 2013, p. 37).
Paula (2013) aponta que, no cenário brasileiro, as instituições públicas de ensino supe-
rior surgiram apenas no século XX, reproduzindo atividades da vertente europeia no que diz
respeito à extensão desde o começo deste. Mediante o Decreto nº 19.851/1931, legislação que
estabeleceu as bases do sistema universitário brasileiro, a extensão universitária já se encontrava

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prevista, porém de forma incipiente e incompleta em relação à sua efetiva implementação.
Após a ruptura do regime militar em 1979, as universidades públicas brasileiras foram
fortemente criticadas por atender exclusivamente as demandas das camadas médias da popula-
ção, razão pela qual passaram por um processo de democratização interna, inserido em um con-
texto no qual começaram a surgir manifestações da sociedade civil que, de modo organizado, se
engajou em um amplo movimento de participação política em prol de conquistas democráticas
(Nogueira, 2013; Conselho Federal de Psicologia [CFP] & Conselho Regional de Psicologia de
São Paulo [CRPSP], 2013).
Nogueira (2013) ainda nos indica que, no meio acadêmico, as discussões geravam em
torno de dois aspectos centrais: “a autonomia universitária e o compromisso social da univer-
sidade com os setores menos favorecidos da população” (pp. 36-37). Deste modo, tornava-se
necessário questionar os fins da própria instituição “universidade pública” no cenário de um país
cujas “condições econômicas, culturais e políticas comprometem a plenitude do ser homem”
(Lopes, 1990, p. 77).
Com o objetivo de discutir um modo de ação que atendesse à tais demandas, ou seja,
“democratizar o conhecimento produzido e ensinado na universidade e, ao mesmo tempo, pos-
sibilitar que esta universidade atendesse às demandas mais urgentes da população” (Nogueira,
2013, p. 37), representantes de extensão das universidades públicas de todo o país passaram a
realizar encontros regionais, posteriormente chamados de Fóruns Regionais de Extensão (No-
gueira, 2013; Paula, 2013). A região sudeste, da qual a Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ) faz parte, foi a última a criar seu Fórum Regional, tendo-o feito em setembro de 1987
– ocorrido em Minas Gerais, cujo conteúdo foi registrado na chamada Carta de Ouro Preto –,
pouco tempo antes da realização do I Fórum Nacional de Pró-reitores de Extensão das Univer-
sidades Públicas Brasileiras, em novembro do mesmo ano.
No ano seguinte, é promulgada a então democrática Constituição da República Fede-
rativa do Brasil, que em seu capítulo III, intitulado “Da Educação, da Cultura e do Desporto”,
art. 207, prescreve: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e
de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino,
pesquisa e extensão” (Constituição da República Federativa do Brasil, 1988). Trata-se, então, da
constitucionalização de uma das diretrizes da extensão universitária, “base sobre a qual se redi-
mensionaria a ação extensionista, superando a antiga visão de transmissão de conhecimento e
assistencialismo de discussões” (Nogueira, 2013, p. 38).
É a partir dessa concepção de ação extensionista que ganha lugar a concepção de “um
conhecimento que contribua para a superação da desigualdade e da exclusão social e para a
construção de uma sociedade mais justa, ética e democrática” (Fórum de Pró-Reitores das Insti-
tuições Públicas de Educação Superior Brasileiras [FORPROEX], 2012, p. 30). Em se tratando
do compromisso social do conhecimento, a história da Psicologia brasileira ganha lugar em nossa
análise. Nesse sentido, a ciência psicológica é marcada por tal perspectiva quando, já enquanto
profissão regulamentada pelo Sistema Conselhos2, assumiu compromissos com a sociedade e
2 A regulamentação da profissão ocorreu por meio da promulgação da Lei 4.119/1962, assim como a disposição

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levantou a bandeira do compromisso social. Os discursos intimistas e individualizantes, forjados
nos anos anteriores de modo alheio às relações de determinação sociohistórica na constituição do
psiquismo, passaram a ser criticados em suas referências teóricas e práticas, possibilitando assim
a gestação de práticas que procuravam atender às demandas da maioria da população, “até então
alijada do acesso ao trabalho do psicólogo” (CFP & CRPSP, 2013, p. 14).
Tendo em vista a necessidade de produção de um conhecimento comprometido com a
transformação mútua entre os atores sociais envolvidos nas atividades da extensão universitária,
as reflexões seguintes têm como condições de possibilidade as intervenções do projeto de exten-
são “Construindo um processo de escolhas mesmo quando escolher não é um verbo disponível”,
vinculado ao Instituto de Psicologia da UFRJ. A partir de um estudo de caso, buscar-se-ão
articulações com ideias da filosofia de Espinosa e com o conceito de análise das implicações,
oriundo da Análise Institucional, na medida em que apontam para a perspectiva de produção de
subjetividade e se relacionam ao método de pesquisa-intervenção.
Buscamos, por meio de tal esforço, ratificar a importância da extensão enquanto proces-
so ético-político-pedagógico transformador que promove encontros (re)criadores constantes do
conhecimento, da sociedade e, principalmente, do psicólogo-extensionista em formação. Tais
encontros serão aqui explanados, razão pela qual a política de escrita solene burocraticamente
determinada pode – e deve – ser interrompida, dando lugar à implicação que só a escrita em
primeira pessoa pode expressar.

O ENCONTRO TRANSFORMADOR

Final de 2016: seleção do projeto de extensão. Seu nome me intriga, me faz pensar acerca
de seus significados. Posteriormente, descubro que a atuação acontece através de práticas com
jovens moradores de territórios ditos vulneráveis, pretendendo criar “espaços coletivos, utilizan-
do encontros de grupo, a troca e o diálogo como estratégias para provocar análises de como se
constituem nossos processos de escolhas” (Lisboa, Cunha & Bicalho, 2018), tomando como
ponto de partida a escolha profissional – razão pela qual a metodologia principal do projeto se
chama Análise do Vocacional, além da perspectiva crítica adotada sobre o tema (Bartalini, Sasso
& Bicalho, 2010). Penso em mim: enquanto morador de favela, estudante do quarto período
de uma universidade pública e ex-aluno de um dos cursos preparatórios parceiros do projeto,
ter a chance de participar deste seria, naquele momento, a melhor escolha que podia fazer. Me
inscrevo e, felizmente, sou aprovado.
As atividades são divididas em determinadas etapas: inicialmente, são realizadas oficinas
para divulgação do projeto, chamadas de “Dialogandos”; depois de acertados os participantes,
de forma voluntária, são conduzidas entrevistas individuais a fim de construir um vínculo maior
com cada um. Em seguida, são feitos de oito a dez encontros em grupo, para a discussão dos
critérios de escolha. Por fim, os extensionistas constroem e devolvem a cada jovem um laudo
acerca dos cursos de formação desta categoria. Já a Lei 5.766/1971 dispõe acerca da criação do Sistema Conselhos, composto
pelos conselhos regionais e o Conselho Federal.

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psicológico – em conformidade com a Resolução 007/2003 do Conselho Federal de Psicologia
– com o objetivo de avaliar, em outro momento individual, o processo vivido a partir de uma
perspectiva contextualizada e de produção mútua.
Com isso, me pego pensando em uma súmula popular: com grandes poderes vêm gran-
des responsabilidades. A partir daquele momento, preciso assumir o desafio de lidar com uma
proposta nova de trabalho em Psicologia e tudo o que poderia estar junto disso. O mês seguinte
foi de treinamento intensivo e, durante este período, a minha preocupação com a qualidade das
possíveis intervenções das quais eu poderia vir a ser participante já tomava meus pensamentos.
Aqui, ainda imaginava que minhas ações poderiam ser mágicas, que poderia transformar al-
guém; aquilo que o modelo de pesquisa-ação e sua pretensa objetividade proclamam: a ação do
pesquisador que modifica o objeto (Passos & Barros, 2000). Pouco depois, veio o grupo – e eu
também fui até ele: uma turma de terceiro ano do Ensino Médio de uma escola pública em São
João de Meriti, cidade da Baixada Fluminense. As expectativas cresceram e, ao longo dos primei-
ros encontros, as pretensões foram esvaindo-se.
Foi na quarta oficina que o conheci.
Newton3, 17 anos, natural do Maranhão, morador de São João há um ano - informações
conhecidas posteriormente em entrevista individual. Porém, desde o primeiro encontro, o jovem
já se colocava de forma diferente dos demais; reservado, com poucas falas, incomodava-se com
o barulho produzido pela turma (e que barulho, diga-se de passagem); entrava e saía sem falar
com ninguém. Contudo, suas poucas falas eram colocadas em momentos nos quais a turma es-
tava perdida - ou bugada, como costumavam dizer; assim, ele abria mão de falar quando todos
falavam para falar e ser ouvido quando ninguém falava.
Três semanas depois estávamos nós, eu e ele, na Biblioteca - único espaço disponível
para a entrevista -, sentados no último corredor de livros ao fundo do espaço. Sensação estranha,
confesso: senti-me como se estivesse me escondendo - e fazendo-o se esconder comigo. Mesmo
assim, conseguimos conversar e nos conhecer melhor. Naquele momento, Newton pareceu feliz
por, enfim, ser ouvido sem interrupções, gritos ou desmerecimentos de suas falas. Por meio de
uma escuta implicada, pude perceber que atestar a existência do outro enquanto confirma a sua pró-
pria existência é de um valor inestimável em nossa prática profissional - ou melhor, é condição desta.
Conversamos sobre a mudança de estado, quem era ele, seus vínculos, seus projetos e
sonhos; tirar a carteira de motorista e fazer a faculdade de Engenharia foram indicados como
prioridades e objetivos a serem alcançados. Aqui percebo o quanto de significado ele atribui à
profissão. Para falar sobre isso, ele cita o físico inglês, dizendo que não queria fazer algo que não o
tornasse reconhecido, importante para a sociedade. Pergunto se para ser importante é necessário
ter alguma profissão e, mesmo com certa relutância em responder, afirma que sim.
E foi assim que ele participou dos grupos: não discutia para colocar suas opiniões, esco-
lhendo uma espécie de “momento certo” para se fazer ouvir. Em dinâmicas mais concretas/mate-

3 Era ao notório físico inglês que o jovem sempre se reportava, indicando seu desejo por ser tão reconhecido pela so-
ciedade como esse o foi. Com o intuito de reconhecer o nosso encontro enquanto fundamental na minha formação e preservar
sua identidade, presto-lhe a homenagem de chama-lo pelo nome de seu admirado.

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riais, reservava-se ao direito de apenas observar; já quando em discussões mais elucubrantes, suas
falas ganhavam espaço e enriqueciam a discussão. Desde o início já apresentava uma concepção
flexível acerca do tema profissão, mas sempre tratando emprego e profissão enquanto sinônimos,
além de sempre defender a Engenharia como sua escolha inabalável.
No sexto encontro, quando trabalhamos as definições de trabalho/profissão/emprego e a
dinâmica “Contrata-se”, na qual vagas de emprego eram ofertadas aos integrantes do grupo e à
cada um cabia argumentar seu interesse ou desinteresse por estas, parece que seus pensamentos
ganharam novos contornos. Defendeu que uma opção de projeto seria conseguir um emprego
para depois iniciar a formação que uma profissão demanda - definições concluídas por ele e seu
grupo a partir das definições propostas. Nesse mesmo encontro, afirmou que não trabalharia
com Administração Financeira porque era algo que não gostava, logo não perderia tempo es-
tudando tal área. Aqui, a Engenharia aparecia como único possível que abarcasse seus critérios
de escolha, tais como o desejo, as expectativas, trabalhar em grupo e o compartilhamento de
responsabilidades, além da formação requerida e as funções executadas.
A partir do sétimo encontro – e nós tivemos nove – Newton pareceu distante, sem muita
disposição para participar: no sétimo, respondeu ao teste vocacional proposto de forma lenta,
quase que por obrigação; não compareceu aos dois últimos, o que nos fez acreditar que talvez
aquele espaço tivesse se esgotado para ele. Senti como se não houvesse mais o que ser trabalhado.
Entretanto, no dia da entrega do documento, ele começou justificando que não participou dos
dois últimos grupos por conta de questões médicas (o que me propiciou certo alívio, confesso).
E esse foi o dia que os meus pensamentos ganharam outros contornos.
Combinamos que cada um de nós leria uma folha do laudo, pausando sempre que algum
ponto precisasse de explicações. A cada frase lida, ele expressava uma face diferente de estranha-
mento, alegando que era estranho ler o que alguém escreveu sobre você com coisas que você dis-
se. Quando chegamos ao momento no qual devolvi a minha impressão sobre sua afirmação em
momentos de discussões mais reflexivas, ele estranhou, parou, pensou – e concordou. Disse que
de fato pensa muito sobre a vida e do quanto gosta de fazê-lo. Continuamos. Por fim, quando
falamos sobre sua possível fixação na Engenharia e da concepção de que para ser alguém na vida
precisa-se de uma profissão, ele me lança a pergunta fatal: “Pra você, o que é Psicologia? (sic)”
Eu sorrio, desconcertado. Como responder essa pergunta sendo estudante de psicologia,
mas estando na posição de psicólogo? Hoje, tal distinção não faz muito sentido para mim, mas
naquele momento eu fiquei receoso sobre o que responder. Depois de milésimos de segundos,
respondi:
– “Pra você, o que nós fizemos aqui? (sic)”
– “Falamos da vida, do futuro, das coisas que a gente escolhe… e pensar sobre essas coisas
(sic)”
– “Isso pra mim é Psicologia.”
– “Essa semana vi no Facebook um negócio que dizia que o psicólogo ajuda as pessoas a
achar o caminho delas”

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– “Eu não acho que o psicólogo ajude as pessoas a acharem caminhos. Eu acredito que o
psicólogo ajude as pessoas a construírem os seus próprios caminhos.”
Ele ri discretamente, balança a cabeça em sinal afirmativo, levanta para apertar a minha
mão e finaliza:
– “Talvez eu queira fazer isso também”.

CONSIDERAÇÕES CONSTANTES... O PSICÓLOGO EM CONSTRUÇÃO

Ao meu ver, o encontro com Newton personifica o que Spinoza (2009) bem apontava
em sua proposta ética: bons encontros aumentam a nossa potência de agir, ou seja, estimulam-
-nos a perseverar na nossa própria existência. Mas não uma perseverança rígida. Na verdade, uma
perseverança aberta ao imprevisível. Encontrar-me com Newton – assim como com os outros
jovens do grupo – a partir dos nossos desejos, da forma que escolhemos existir, pôs em destaque
o que eu tinha como expectativas dos efeitos das atividades interventivas. Esperava que eles com-
preendessem o quão mutáveis podem ser nossas escolhas, na medida em que não se fixassem em
determinada profissão, mas refletissem acerca do que os leva a considera-la como possível.
No caso em análise, posso dizer de uma certa previsibilidade reconfortante: eu tinha
expectativas e, de alguma forma, sinto que elas foram atendidas quando, em certo grau, o jovem
considera outro possível, mesmo que no último momento do projeto. Mas a questão que mais
me marca é o como, o processo: esse não tem um pingo de previsibilidade. As dúvidas, as incer-
tezas, os anseios, a renovação das expectativas, a lida com as possíveis frustrações… Eu não tinha
mais controle. Nunca o tive. E experimentar isso foi angustiante, mas ao mesmo tempo muito
excitante. Em certo momento, Newton me fez pensar que o trabalho não fazia mais sentido. Em
outro momento, me fez acreditar que o trabalho não só tem sentido, como tem poder.
Contudo, o aumento da potência, por vezes, pode estar não na ampliação das possibili-
dades, mas na confirmação do possível desejado. É aqui que a análise de implicações, proposta
pela Análise Institucional, se faz potente. Implicar-me nas intervenções significa reconhecer que
o pesquisador também se constitui nesse processo, que também é transformado. Como escrevem
Passos e Barros (2010, p. 74): “Em se apostando no caráter sempre intervencionista do conhe-
cimento, em qualquer de seus momentos todo conhecer é um fazer”. Fazer algo, alguém; a si,
ao outro. Abrir mão de ideias pré-estabelecidas que subjuguem a experiência do encontro e as
diversas espécies de transformação que este pode vir a produzir.
Poder de desconstruir, reconstruir - e talvez chegar à conclusão de que a construção não
precisa ser agora. Poder de possibilitar a transformação social por meio da afirmação de potência
desses jovens, na medida em que eles não só podem como devem viver da forma mais autêntica e
singular possível, entendendo que isso não é sinônimo de irresponsabilidade, mas de vida, e que
cautela, ponderação e avaliação crítica não são antônimos de liberdade. Porém, este poder não é
mensurável e previsível. Bock (2003) alerta:

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É preciso trabalhar criticamente e inverter essas explicações. É preciso compreender as re-
lações sociais e as formas de produção da vida como fatores responsáveis pela produção do mun-
do psicológico. É preciso incluirmos o mundo cotidiano e o mundo cultural e social na produção
e na compreensão do mundo psicológico. A Psicologia precisa, para superar suas construções
ideológicas, analisar todos os elementos que se constituem como determinações do humano,
sem isolar o mundo psíquico no interior do indivíduo, como algo natural, universal e dotado
de força própria. A mudança nesta concepção permitirá a superação da ideologia presente na
Psicologia e consolidará um novo compromisso dos psicólogos e da Psicologia com a sociedade,
um compromisso de trabalho pela melhoria da qualidade de vida; um compromisso em nome
dos direitos humanos e do fim das desigualdades sociais (pp. 27-28).

Carvalho (1988) propõe ainda: “o que define uma atuação abrangente é o quanto essa
atuação reflete o potencial da utilidade e de contribuição da profissão à sociedade” (p. 235). Não
sei o que Newton está fazendo hoje, mas acredito que nos transformamos juntos naquele mo-
mento. A extensão se apresenta, portanto, enquanto mediadora de encontros que potencializa
desejos, constrói possibilidades, rompe cristalizações. Encontros que põem em relevo o plano de
imanência e seus fluxos de forças (Spinoza, 2009), coletivizando demandas que não são indivi-
duais, mesmo que as múltiplas relações de poder assim o façam parecer.
Assim, o que observo neste caso é a possibilidade de uma prática psicológica que tem
objetivos, mas não se fecha a eles e dispõe-se ao novo e ao imprevisível; que reconhece que as di-
ferenças produzem e não destroem; que se põe em análise, junto ao analisando, problematizando
a si mesma para que o outro possa perceber o valor da dúvida; que lance luz sobre o fato de que
as coisas nem sempre foram do jeito que são e não precisam sempre ser do jeito que estão; que
desafie políticas e reinvente-as (Patto, 2003); que olhe nos olhos, nas perguntas e nas respostas;
que atente aos afetos, às implicações, aos barulhos e silêncios; que construa mutuamente algo
que possa ser patrimônio de todos.

REFERÊNCIAS

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