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Gênesis, p.

BI210 – Exposição do Pentateuco


Seminário Batista do Cariri
Prof. Marcos Willson

GÊNESIS
PANO DE FUNDO DE Cps. 1-11: MESOPOTÂMIA
Os vários estudos sobre o pano de fundo do Antigo Oriente Médio são baseados em muitas fontes. As
principais são as obras de HALLO e SIMPSON, KENYON, KITCHEN, KRAMER, PRITCHARD, ROUX,
SAGGS, UNGER, e WISEMAN (informações completas na Referência Bibliográfica no fim da apostila):

I. Períodos Históricos
A. Civilização suméria (“Sumer” = shin’ar “Sinear”) – Período Dinástico
Precoce (2700 - 2400 a.C.): estados religiosos arcaicos, “idade heróica” (esp.
Gilgamés)
B. Império acadiano (2400 - 2200 a.C.): Sargom, o 1º imperador
C. Renascença neo-suméria – Período Ur III (2200 - 2000 a.C.): idade áurea de
Ur (foi justamente durante este período que Tera, pai de Abraão, levou sua
família a Harã, e que Abraão saiu da sua casa para ir à Palestina).
D. Babilônia – Antigo Império Babilônico (1800 - 1600 a.C.): Hamurabi
E. Período Cassita (1600 - 1200 a.C.)
1. Domínio da Babilônia pelos cassitas: “era das trevas” (pelo fato deles não estabelecerem um
império e de nós sabermos tão pouco sobre eles)
2. Presença forte dos hurritas, principalmente no reino de Mitanni no norte da Mesopotâmia
(1500 - 1350 a.C.), dominando até a Assíria.
3. Império heteu (1500 - 1200 a.C.)
4. Início do império Assírio (1350 a.C.)
F. Períodos Babilônico e Assírio Médios (1200 - 750 a.C.): muita rivalidade entre
as duas regiões e o desenvolvimento dos seus impérios; Israel teve sua idade
áurea durante esse período (1000 - 930 a.C.).
G. Impérios Assírio e Babilônico (750 - 539 a.C.): fim dos reinos israelitas.

II. Migrações: houve várias durante estes séculos


A. Povos semitas que imigraram do deserto para a região altamente civilizada da
Mesopotâmia e que chegaram a dominar:
1. Acadianos (nos meados do 3º milênio a.C.; Sargom, o primeiro império a se estender do
Golfo Persa até o Mar Mediterrâneo – parece que Ninrode em Gn.10 era tal imperador, talvez
até pertencente a este reino).
2. Amorreus (na época dos patriarcas; Hamurabi é o principal destes; outros deste povo
dominaram as colinas centrais da Palestina e foram destruídos ou dominados pelos israelitas
na conquista – cf. Nm 21.23-26, 32; Js 5.1; 10.5).
3. Arameus (no 1º milênio, se estabelecendo em Arã-Naharáim [região noroeste da
Mesopotâmia, onde ficava Harã, a cidade de Rebeca e Labão] e depois no interior da Síria
[Arã – região de Hamate e Damasco]; Labão era arameu, Dt 26.5 se refere a Jacó como
arameu, Cusã-Risatáim era rei de Arã-Naharáim [Jz 3.8]).
Gênesis, p.10

B. Povos indo-europeus (arianos) que migraram pelo norte da Mesopotâmia:


1. Hititas, ou heteus (passaram pelo norte da Mesopotâmia e se estabeleceram na terra de Hatti,
a parte Centro-Leste da Turquia, e desenvolveram um forte império, controlando o comércio
entre a Europa e o Oriente Médio). Havia um povo, nativo desta região, que se chamava de
heteu, e os invasores indo-europeus assumiram o nome para si. Havia heteus na Palestina na
época dos patriarcas, mas não se sabe qual dos dois seriam.
2. Hurritas (se estabeleceram no norte da Mesopotâmia enquanto os israelitas sofreram no
Egito). Este povo tem sido identificado com os horeus do monte Seir, por causa da seme-
lhança dos nomes. Isso é improvável, pois os hurritas migraram para o norte da Mesopotâmia
durante o 3º milênio a.C. e em números maiores durante o período dos patriarcas. Quase
todos os documentos que deixaram usam o idioma acadiano, que é semítico, mas o povo era
etnicamente indo-europeu, provavelmente da região do Cáucaso, entre os mares Negro e
Cáspio. Quanto aos horeus da Bíblia, eles são ligados exclusivamente à região ao sudeste do
mar Morto na Palestina, desde a época de Abraão (Gn 14.6; cf. tb. Dt 2.12, 22).
3. Outros grupos indo-europeus povoaram a Pérsia e o vale do Rio Indo na Índia.
C. No fim da Era do Bronze (ca. 1200 a.C.) houve várias migrações que
causaram grandes mudanças no Oriente Médio:
1. “Povos do mar” (talvez povos relacionados com os minoanos e outros do Mar Egeu, eles
destruíram o Império Heteu e a cidade de Ugarite, e uma parte se estabeleceu entre seus
parentes, os filisteus, na Palestina).
2. Heteus e horeus (fugindo da destruição dos seus respectivos reinos, eles se mudaram para o
norte da Síria e noroeste da Mesopotâmia).
3. Arameus, chamados sírios pelos gregos (invadindo as terras ao norte do deserto árabe, um
grupo se estabelecendo no interior da Síria, ao leste da Fenícia, inclusive em Damasco).
4. Os próprios israelitas (destruindo a civilização cananeia na Palestina).

III. Sociedade e Economia


A. Setores econômicos
1. Agropecuária: plantação de trigo, cevada, olivas, vinhas e outros frutos no fértil crescente,
usando irrigação; e criação de gado, esp. ovelhas e bodes, mas também vacas, jumentos, e
mais tarde camelos.
2. Profissões: escribas, adivinhadores, médicos-encantadores, artesanos, etc. Durante o 2º
milênio foram organizados em sindicatos (clãs, sendo que muitos dos aprendizes das
profissões naturalmente eram filhos biológicos dos seus mestres). Há algumas indicações
desta estrutura na sociedade israelita (locais associados a certas profissões – 1Cr 4.14, 21-23;
Ne 11.34; “filhos dos profetas” = aprendizes dos profetas; “meu filho” = aprendiz do sábio).
3. Comércio: com a Ásia central e Índia no Oriente, Ásia Menor e Europa no Ocidente, e o Egito
e a África no sul. (Não sei se era tão extenso no 3º milênio a.C.) O desenvolvimento da
escrita foi provocado pela necessidade de registrar as transações.
B. O Palácio e o Templo (mesma palavra, que significava “casa grande”) era onde
se acumulava a maior parte do capital.
C. Classes Sociais1
1. Classe superior (os nobres): awilu (cf. Evil-merodaque – 2Rs 25.27). Esta classe aparece
muito nas leis dos códigos legais da época. Eram as pessoas com privilégio e responsabi-
lidade dentro da sociedade, que ocupavam os cargos políticos.
2. Classe inferior (livre, mas não nobre): mushkênu.

1
Cf. citação do Código de Hamurabi em Gordon H. Fee e Douglas Stuart, Entendes O Que Lês? (São Paulo: Vida
Nova, 1986), p.147
Gênesis, p.11

3. Classe dos escravos: wardu. A pessoa tornava-se escravo de várias maneiras: nascendo de
pais escravos, sendo vendido pelos pais à escravidão (para pagar dívidas), mas especialmente
sendo levado cativo numa guerra.
D. A Família
1. As mulheres: tinham certos direitos, mas eram sujeitas aos homens. Filhos não tinham
direitos – eram totalmente sujeitos aos pais.
2. O casamento: era algo acertado pelos pais. (Note a responsabilidade de Abraão, e
irresponsabilidade de Isaque neste ponto.) Obviamente, alguns filhos de personalidade mais
forte teriam dado a sua opinião (cf. Sansão).

IV. Política
A. Unidades políticas
1. A cidade desenvolveu como unidade política pela primeira vez no 4º milênio a.C. na região
de Suméria. Controlava o terreno (campos e vilas) em redor e servia de defesa para a
população e de centro de atividades civis e religiosas: uma cidade-estado.
2. Logo cedo houve o sentimento de unificar várias cidades sob a hegemonia de uma: um
império. A cidade-estado subjugada ficou sendo um reino vassalo, ou pior, perdia a sua
independência, tornando-se província do império. Vários impérios se destacam por sua
organização eficiente: o de Sargom de Acade (séc. XXIII), da 3ª dinastia de Ur (Ur III – séc.
XXI), da Babilônia sob Hamurabi (séc. XVIII), o novo império assírico sob Tiglate-pileser e
seus sucessores (séc. VIII-VII), e o novo reino babilônico sob Nabucodonosor (séc. VI).
3. Ao mesmo tempo havia tendências para divisão: a vulnerabilidade à invasão ou infiltração
estrangeiras, a polarização do poder em dois centros (esp. Babilônia e Assíria nos 2º e 1º
milênios), e a simples falta de um reino suficientemente poderoso para dominar um império.
B. Instituições governamentais
1. O rei era o ápice do sistema. Ele tinha um relacionamento especial com o deus da sua cidade
e, dependendo do cumprimento das suas responsabilidades religiosas e cerimoniais, a nação
prosperava ou sofria. O livro dos Reis no AT destaca o rei como o elemento pivotal no culto
de Israel, mas não ignora o povo tanto quanto na Mesopotâmia, porque exigia mais do que o
mero cumprimento de certos rituais. Os profetas chamavam os líderes de “pastores”, indi-
cando sua responsabilidade de cuidar do povo. Além disso, grande parte de suas mensagens é
dirigida à população em geral. O poder executivo sob o rei se dividia em três setores:
a. O exército, liderado pelo marechal (tartã, cf. Is 20.1) e o copeiro-mor (rab-saqéh, cf. ——
Is 36.2). Neemias era copeiro do rei (Ne 1.11).
b. O sacerdócio, liderado pelo mordomo chefe do templo.
c. A burocracia, administrada pelos governadores, o principal deles sendo o do distrito
capital (cf. Daniel – Dn 2.48; 6.1-3).
2. A assembleia era tão antiga quanto o rei. Havia uma legislatura bicameral (um “senado” de
anciãos, e uma assembleia de nobres guerreiros mais jovens). Havia também um tribunal
supremo, presidido pelo rei. A voz do povo em geral não se ouvia, a não ser em rebeliões.
3. Existia um sistema judiciário, para resolver a grande parte dos litígios.

V. Religião
A. Conceito do deus
1. A noção antiga de águas primevais (Apsu), de um pai celeste (An, Anu) e mãe terrestre (Ki).
2. Politeísmo: diversificação dos deuses, refletindo o mesmo processo na vida dos homens. Às
vezes o deus e seu setor se confundiam (“Anu” é a palavra para “céu”), e havia uma tendência
para o panteísmo, em que todos os fenômenos eram vistos como tendo qualidades espirituais.
Às vezes o deus era visto como administrador do setor, e ocasionalmente um deus era visto
como o chefe de todos.
Gênesis, p.12

a. Em setores naturais: o céu (An / Anu), os ares (Enlil), as fontes de águas frescas (Enki /
Ea), a terra fértil (Ki), o sol (Utu / Shamash), a lua (Nanna / Sin), etc.
b. Em setores socio-econômicos: o amor (namoro – Inana / Ishtar), uma cidade, a
jurisprudência (Utu / Shamash, deus do sol), o lar, a sabedoria (mistura de educação e
treinamento, astrologia e mágica -–Enki / Ea, deus das fontes), etc.
B. O relacionamento entre o deus e o homem
1. Os deuses criaram os homens para fazer seu trabalho, para serem escravos. O deus tinha que
ser alimentado e apaziguado com sacrifícios e ofertas. A qualidade dupla de benignidade e
fidelidade não era o ponto forte dos deuses. Por outro lado há referências abundantes a
imoralidade e violência. O homem era indefeso diante dos seus caprichos. Fica claro que
estes deuses foram criados à imagem dos homens poderosos na sociedade.
2. Cada cidade e pessoa cultuava um certo deus, que podia avançar os interesses desses homens
se fosse devidamente adorado. As cerimônias eram uma mistura de adoração e magia, em
que os homens tentavam conseguir algum benefício do deus. Isso funcionava em dois níveis:
a. A religião oficial do estado, que estava ligada aos interesses políticos do rei (mas não do
povo): o deus “lá do alto”. Na Suméria, se a cidade tinha padroeira, ela tinha um sumo-
sacerdote (homem) que era o líder religioso e político (o en). Se a cidade tinha
padroeiro, como na maioria dos casos, a liderança ficou dividida entre uma suma-
sacerdotiza e um rei (lugal).
b. A religião popular das localidades e indivíduos: o deus “cá de baixo”. Eis aí a
popularidade dos “lugares altos”. Até o rei cuidava de cultuar todos os deuses que
achava necessário para garantir sucesso e evitar problemas.

VI. Escrita e Línguas


A. A escrita foi inventada na última parte do 4º milênio a.C.
B. Durante o 3º milênio (3000 - 2000 a.C.)…
A escrita desenvolveu muito, mudando de uma simples representação de objetos para um
sistema de símbolos representando os sons do idioma. A escrita foi desenvolvida na língua
suméria, que era a língua franca da Mesopotâmia (tanto falada como escrita) neste milênio. Os
símbolos representavam sílabas (combinações de consoantes e vogais), e por isso muitos foram
inventados. Os semitas acadianos adotaram o sistema para escrever a sua língua. No decorrer
dos tempos o acadiano sofreu grande influência do sumério.
C. Durante o 2º milênio (2000 - 1000 a.C.)…
O sumério continuou sendo o principal idioma escrito na Mesopotâmia, mas foi gradualmente
substituído pelo acadiano como língua falada (e.g. as cartas de Amarna – escritas em babilônio
médio). A invasão amorreu resultou em dois dialetos: assírio e babilônio. Outras culturas e
línguas adotaram o sistema sumero-acadiano, tanto como língua adotada (os cassitas e horeus
transmitiram e divulgaram a literatura sumero-acadiana), como um sistema de representação de
sílabas para escrever em suas próprias línguas (esp. os horeus e heteus). Os cananeus de
Ugarite até inventaram um alfabeto de 30 símbolos cuneiformes. Os persas do 1º milênio
desenvolveram um sistema simplificada do cuneiforme para a sua língua, que, tendo durado até
tempos modernos tornou-se em chave para decifrar a escrita cuneiforme.
D. Durante o 1º milênio (1000 a.C. - 0)…
O acadiano tomou o lugar como a língua escrita também, o qual ele então perdeu para o idioma
aramaico (com sua escrita alfabética, que era muito mais simples). A língua e escrita gregas
chegaram a dominar com o processo de helenização no período grego.

VII. Literatura
A. Literatura histórica: se divide em três classes gerais –
1. Mitos: histórias dos deuses antes do grande dilúvio. Geralmente servem para explicar a
origem de algum fenômeno do mundo ou da sociedade.
Gênesis, p.13

2. Epopeias: lendas (com alguma base histórica) sobre os primeiros reis depois do grande
dilúvio, especialmente os reis-sacerdotes de Uruque (Ereque) – Enmercar, Lugalbanda,
Dumuzi o pescador, e o maior de todos, Gilgamés.
3. Composições históricas: textos sobre o passado mais próximo, usando estilos documentários
de monumentos ou arquivos.
B. Literatura “sapiencial”:
Esta categoria não era reconhecida no Antigo Oriente Médio; caracteriza vários livros do AT
(Provérbios, Eclesiastes, Jó, alguns salmos, e talvez Cantares). Por outro lado, há muita
literatura semelhante que foi descoberta pela arqueologia: provérbios e fábulas, e composições
eruditas, instruções, ensaios sobre as escolas dos escribas. Eis alguns exemplos de provérbios
e ditados:2
Você é colocado no rio, a água fica ruim. Não falas do que encontrou,
Você é colocado num jardim, as frutas ficam podres. apenas do que perdeu.
(cf. Is 1.12-15; 5.1-7; Jr 2.21-25, 33)
Você vai e toma a terra do inimigo;
A destruição veio do seu próprio deus pessoal; —— ele vem e toma a tua terra.
ele não conhece nenhum salvador. (cf. Is 45.21-22)
Não devolva o mal ao seu adversário;
Seja restrita a sua boca e sob guarda a sua fala; Responda com benignidade o que lhe faz mal,
é orgulho do homem – seja preciosíssimo o que diz. Mantenha justiça pelo seu inimigo,
(cf. Pv 10.8, 10, 19; 12.23; 13.3; 15.28; 17.27-28; Seja amigável ao seu inimigo.
21.23; 29.20; Ec 5.1-7) (cf. Pv 25.21-22; Mt 5.43-48; Rm 12.17-21)
Quem pode competir com a justiça? Ela cria a vida. Quem andou com a verdade gera a vida.
(cf. Jó 9-10; Pv 1.18-19; 19.16) (cf. Pv 10.11, 16, 17, 27; 11.19, 30; etc.)
Casamento e família:
Quem é abastecido, quem é rico? O homem forte se alimenta pelo seu salário,
Para quem guardarei o meu amor? o fraco pelo salário do seu filho.
Para seu prazer: o casamento. Já que minha esposa está no santuário
Ao refletir: o divórcio. e a minha mãe está no rio,
morrerei de fome, ele diz.
Coração alegre: a noiva.
Coração triste: o noivo. (mas cf. Pv 18.22)
Animais:
O cão do ferreiro não conseguiu derrubar a bigorna; Não sou eu um cavalo de corrida?
então ele derrubou o pote de água. Mas estou atrelado a uma mula,
puxando carroça de juncos.
O cachorro entende “Tome!”
Ele não entende “Devolva!” Ao escapar do boi selvagem,
a vaca selvagem me confrontou.
A raposa tinha um pau: “Vou bater em quem?”
(cf. Is 24.17-18; Ez 6.11-12; 7.15)
Ele tinha um documento legal: “Vou desafiar a quem?”
Na boca aberta a mosca entrará.
A raposa não conseguiu edificar a casa,
então ele foi conquistar a casa do amigo.
(cf. Pv 1.10-19; 12.12)

Pobreza e riqueza:
Iremos morrer, vamos gastar; Quem edifica como senhor vive como escravo,
Iremos viver muito tempo, vamos economizar. Quem edifica como escravo vive como senhor.
(cf. Pv 12.9; 13.7)
A riqueza é difícil de conseguir,
mas a pobreza sempre está perto. Não se devolve o pão emprestado.
Quem possui muita prata pode ser alegre, O pobre é melhor morto que vivo.
Quem possui muita cevada pode ser alegre, Se tiver pão, não tem sal; se tiver sal, não tem pão.
mas quem não possui nada pode dormir. Se tiver carne, não tem cordeiro;
(cf. Pv 13.8) se tiver cordeiro, não tem carne.

2
KRAMER, pp.119-126; PRITCHARD, Vol.1, pp.244-245; LASOR, HUBBARD e BUSH, pp.487-495;
http://history-world.org/sumerian%20proverbs.htm.
Gênesis, p.14

C. Literatura científica:
1. A matemática foi altamente desenvolvida pelos sumérios e seus sucessores. Um aspecto
interessante é que, embora os mesopotâmios conhecessem um princípio, eles não o
declaravam como princípio abstrato, mas ilustravam e aplicavam-no por meio de um grande
número de exemplos. Assim, eles conheciam o teorema de Pitágoras quanto a triângulos
retos, mas nunca expressaram o princípio em si.
2. A astronomia foi desenvolvida ao ponto até de ser liberado da astrologia no 1º milênio. Os
neo-babilônios produziram um calendário de 19 anos que reconciliava os anos lunares com os
solares de maneira exata.
3. A medicina desenvolveu textos farmacêuticos e diagnósticos. Ficou intimamente ligada com
a adivinhação. (Merece notar que ainda hoje os espíritas tratam problemas de doença.)

TEMA E MENSAGEM DO LIVRO DE GÊNESIS


A exposição dos livros do Pentateuco depende de muitas fontes, principalmente os livros de HAMILTON,
HOFF, e SCHULTZ.

I. PRINCÍPIOS: A História do Início de Certas Entidades Importantes


A. Do mundo em geral: Os céus (o universo): o sol, a lua, e as estrelas. A terra (a
natureza): os setores (as águas e os ares, e a terra seca), e a flora e fauna que
os habitam.
B. Da humanidade especificamente: A raça inteira e as várias nações: Mesopo-
tâmia e seus arredores, Ásia Menor e as costas ocidentais do Mar Mediterrâneo,
o Egito e a Palestina, a Arábia e a África. A sociedade e suas instituições
básicas: a família, a agro-pecuária, a cultura, o governo civil, o império.
C. Do mal: como começou, os efeitos.
D. Da redenção: A promessa divina (Gn 3.15; esp. cps.12, 15, 17, 22; repetição da
promessa aos descendentes de Abraão) a resposta humana de fé (Gn 15, 22); o
relacionamento estabelecido em aliança (Gn 9; esp. cps. 15 & 17). O sacrifício
como aroma suave ao Senhor (4.4; 8.20-21); e como substituição de uma vida
por outra (cp.22).

II. RELACIONAMENTOS
A. Entre Deus e o universo: Ele é o soberano Criador. Não há outro poder divino,
nem nos céus (o sol, a lua, e as estrelas são apenas luzeiros), nem no mar (Ele
distribuiu as águas primevais, criou os monstros marinhos).
B. Entre Deus e o homem: Ele é o Criador, o Original, de cuja imagem o homem é
portador; Ele é o Justo e misericordioso Juiz (cf. Gn 3, 6-9, 18); Ele é o Salvador
(Noé, Abraão, José).
C. Entre homem e homem: os vários tipos de relacionamento (família, aliança,
etc.), as maneiras de se relacionar.
EXCURSO — AS MULHERES NO LIVRO DE GÊNESIS
A narrativa se concentra nos homens, já que a mulher não tinha posição independente na
sociedade, pelo menos na época dos patriarcas em diante. Entretanto, existem casos em que
uma mulher foi personagem importante na história. Eva, por exemplo, teve uma atuação
maior do que Adão nos eventos da queda (cp.3). De fato, ele se destaca pela sua ausência em
cps.3-4.
As noras na família de Tera são mencionadas (11.27-30; 22.20-24), mas somente as esposas
dos patriarcas se destacam. Elas contribuíram muito aos eventos registrados em cps.12-39.
Sara foi separada do marido duas vezes por causa da mentira que ele promoveu (12.10-20 e
Gênesis, p.15

cp.20). Ela, por sua vez errou trazendo outra mulher, Hagar, para dentro do lar (cp.16 e 21.8-
21). Em ambas essas situações, Deus restabeleceu o casal. O nascimento de Isaque cumpriu
a promessa repetida várias vezes a eles (18.9-15 e 21.1-7). A morte dela levou à compra do
terreno em Hebrom (cp.23), um local de grande importância futuramente, pois era a principal
cidade de Judá.
O texto indica que Rebeca de certa forma substituiu Sara no coração de Isaque (24.67). A
chegada dela é uma história comprida, que estabelece o caráter forte dela, pois seguiu os
passos do futuro sogro, partindo sem saber aonde ia (cp.24; cf. vv.5-8, 39-41, 49-61).
Quando ela estava grávida com os gêmeos, foi revelado que Deus faria outra separação entre
os filhos. Na geração anterior poderíamos dizer que Deus consertou o erro do homem elimi-
nando Ismael, mas aqui, Ele agiu na Sua soberania (25.19-26; cf. Rm 9.6-13). A última cena
em que Rebeca participa, ela e não Isaque está zelando pela promessa, mas, igual à falecida
sogra, tentou “consertar” as coisas e findou tropeçando (cp.27).3
A história de Jacó e suas esposas está repleta de tropeços espirituais (cps.29-31; veja os
comentários nesta apostila). Lia parece ter uma perspectiva mais espiritual do que Raquel,
frustrada e invejosa, mas com os filhos é o contrário. São os filhos de Lia que cometem
barbaridades (cp.34 – Simeão e Levi, a filha Diná se destaca4; 35.22 e 49.4 – Rubem; e cp.38
– Judá, que faz forte contraste com cp.39 – José) e o filho de Raquel que se destaca como
homem de Deus.
Quando o futuro da família (e da linhagem da promessa) chega a depender de José, encon-
tramos um homem exemplar, que mantém um padrão moral superior (cps.37, 39) e que
exerce uma liderança eficaz (cp.41 e 47.13-26). A partir do cp.37, tudo gira em torno dele.5

ASPECTOS LITERÁRIOS
I. ESTILO E TEMAS LITERÁRIAS
A. Formas literárias: É principalmente narrativa. Dentro dessa estrutura o autor
inseriu alguns trechos de outras formas. A introdução, 1.1 – 2.3, é narrativa,
mas com um estilo elevado. Há várias poesias, a mais comprida sendo cp.49.
O autor também inseriu seis genealogias. Duas são lineares, do pai para o filho
escolhido, servindo para dar continuidade à narrativa: cp.5 (linhagem de Adão) &
cp.11 (linhagem de Sem). As demais são ramificadas, incluindo todos os
descendentes de várias gerações: estes tratam de linhagens fora da promessa –
cp.4 (Caim), cp.10 (os filhos de Noé), cp.25 (Ismael), cp.36 (Esaú).
B. Técnicas: Há muitos artifícios literários usados pelo autor: paralelismo em cp.1;
sequência em cp.3 (serpente-mulher-homem na tentação, na investigação e na
maldição); repetição de todo tipo (cf. cp.5); a estrutura quiástica da narrativa do
dilúvio, com seu clímax em 8.1; alternação entre elementos; paronomásia (vista
principalmente no hebraico); etc.
C. Temas literários
1. A promessa de um descendente (3.15; 12.3 et.al). Outro tema relacionado é a eleição de um
filho mais novo acima do mais velho: (Abel &) Sete em vez de Caim; Isaque acima de Ismael,
Eliézer de Damasco, e Ló; Jacó antes de Esaú (o exemplo maior da eleição – cf. Ml 1.2-5; Rm
9.10-13), Judá e José acima de seus irmãos, Efraim antes de Manassés. O povo de Deus não é
resultado de processos naturais, mas da intervenção divina, muitas vezes a despeito da partici-
pação humana (morte de Abel, corrupção da terra, mentiras de Abraão e Isaque, intrigas nas
famílias de Isaque e Jacó, etc.).

3
Mas as esposas dos patriarcas nem se comparam com as duas filhas de Ló (19.30-39). As esposas de Esaú são
mencionadas na sua genealogia (cp.36).
4
Diná não foi a única filha de Jacó (37.35).
5
Cp.38 trata de Judá, mas como já falamos, serve de contraste com José em cp.39.
Gênesis, p.16

2. Bênção (Deus à Sua criação em cp.1, repetida a Noé depois do dilúvio em cp.9, Deus a Abra-
ão em cp.12 e outros, Melquisedeque a Abraão em cp.14, os pais aos filhos – esp. cps.27, 49).
3. Aliança: Deus entrou em aliança com certos homens. Com Noé (9.8-17), Deus fez uma pro-
messa específica a toda a humanidade, mas com Abraão (15.7-21; 17.1-22), ele escolheu um
homem e seus descendentes do meio da humanidade, prometendo bênção universal (e desen-
volvendo outros temas: promessa, descendente, fé, eleição, etc.). Há várias alianças entre
homens — os filisteus com os patriarcas (21.22-34; 26.26-31), Labão com Jacó (31.44-54).
4. Números significativos: 10 (“gerações”, gerações nas genealogias de Adão e de Sem; como
figura em 31.7,41), 7 (dias, gerações na genealogia de Caim, animais limpos na arca de Noé,
elementos na promessa a Abrão em 12.1-3, anos de abundância e seca), 70 (descendentes de
Noé em cp.10, e de Jacó em cp.46); 12 (filhos de Jacó), 40 (dias de chuva).

II. ESTRUTURA DO LIVRO


A. As “gerações” (“relatos”, “histórias”) de Gênesis:
Prólogo
a criação dos céus e da terra (1.1 – 2.3)

[história] Os céus e a terra (2.4 – 4.26)


{genealogia} Caim (4.17-24)

{genealogia} Linhagem de Adão (5.1 – 6.8)

[história] Noé (6.9 – 9.29)


— morte de Noé (9.28-29) —

{genealogia} Sem, Cão e Jafé (10.1 – 11.9)

{genealogia} Linhagem de Sem (11.10-26)

[história] Terá (11.27 – 25.11)


— morte de (25.7-11) —

[história] Isaque (25.19 – 35.29) {genealogia} Ismael (25.12-18)


— morte de Isaque (35.28-29) —

[história] Jacó (37.2 – 50.26) {genealogia} Esaú (36.1 – 37.1)


— morte de Jacó (49.29 – 50.14) —

O emprego desta estrutura genealógica enfatiza o caráter histórico do relato: estes homens viveram,
geraram, e morreram – eram homens reais.
B. As duas seções básicas: a história primitiva e a história patriarcal (veja
Esboço a seguir).

ESBOÇO
I. HISTÓRIA PRIMITIVA (1-11): 4 eventos II. HISTÓRIA PATRIARCAL (12-50): 4 pessoas
A. Criação (1-2) A. Abraão (12-24)
B. Queda (3-5) B. Isaque (25-26)
C. Dilúvio (6-9) C. Jacó (27-36)
D. Nações (10-11) D. José (37-50)
Gênesis, p.17

EXPOSIÇÃO
I. HISTÓRIA PRIMITIVA (1-11)
(Veja a elaboração do esboço básico na Bíblia de Estudo NVI, pp.3-5.)
Introdução: A maioria dos estudiosos nega a historicidade dessas narrativas.
1. Alguns acham que a ingenuidade dos escritores dessas narrativas obscureceu a distinção entre
fato e mito. Há vários acontecimentos anormais que “o homem moderno não pode aceitar”.
Quanto a isso, deve-se notar que há explicação perfeitamente racional para algumas das
objeções levantadas. Onde não há, precisamos escolher entre acreditar em teorias científicas
formuladas em geral por homens que não temem a Deus, ou crer no Deus da Bíblia e numa
ciência que procura se submeter ao Criador.
2. Outros acham que o propósito não era historiográfica, mas de produzir uma representação de
certas verdades através de personagens e eventos simbólicos. Quanto a isto, observamos que
o livro de Gênesis, tal como o resto do Pentateuco, tem caráter de história. A palavra
“gerações”, pela qual o próprio livro descreve seu conteúdo, significa “posteridade” ou
“história”. A forma verbal de narrativa histórica é usada constantemente. Não há diferença
de estilo entre as duas principais seções. O restante da Bíblia trata Gn 1-11 como sendo
históricos (cf. a seção “A criação no tempo e no espaço”, mais adiante).
Vd. o apêndice “Criação e Evolução”.
A. Criação (1-2)
Introdução
a. O Criador:
1) Deus é o sujeito da primeira frase da Bíblia. De propósito, a palavra Elohim domina
o capítulo (35 vezes em 34 versículos).6
2) O livro trata de Deus antes de tudo, e nosso primeiro interesse deve estar nEle
enquanto lemos Gênesis (ampliado das observações de HOFF, p.24).
a) A frase “No princípio … Deus ...” é a resposta aos erros do ateísmo (que afirma
que Deus não existe, cf. Sl 14.1; 2Pe 3.3-6), do agnosticismo (que recusa
reconhecer que Deus existe, cf. Lc 12.20), do politeísmo (que afirma existir mais
de um deus, cf. Dt 4.35, 39; 1Rs 8.60; Is 44.8; 45.5, 6, 14, 18, 22; 46.9; Jl 2.27),
e do dualismo (que afirma existirem dois poderes iguais e contrários, cf. Jó 1-2;
Ap 20.10-11 e as referências acerca do politeísmo).
b) A frase “No princípio criou Deus …” é a resposta aos erros do fatalismo (que
afirma que tudo acontece pelo acaso, ou pelo destino impessoal e
desinteressado, cf. Rm 8.28) e da evolução (que afirma que todas as coisas
estão se transformando indefinidamente, veja a apostila “Criação e Evolução”).
c) A frase “No princípio criou Deus os céus e a terra” é a resposta aos erros do
panteísmo (que afirma que Deus é o universo ou a natureza, cf. Is 57.15) e do
materialismo (que afirma que a matéria sempre existia, cf. Hb 11.3).
b. A criação no tempo e no espaço7: A Bíblia apresenta a criação como fato da história
espaço-temporal. Por exemplo, em Sl 136, Deus é louvado tanto pelos Seus atos
criativos (vv.5-9), como pelos Seus atos durante a história de Israel (vv.10-22). Não há
distinção entre a história ‘sagrada’ e ‘secular’. O salmista aceita o relato da criação na
mesma base que aceita os relatos do Êxodo. Considere também Sl.8 e sua doutrina do
homem baseada na observação científica (vv.3-4) e em Gn 1 (vv.6-8). O próprio livro de
Gênesis liga as seções primitiva e patriarcal pela frase estrutural “estas são as gerações
de…”. (KAISER, p.52)
1) “No princípio”8: Aqui temos um adjunto adverbial especificando o tempo em que a
ação da frase aconteceu. O tempo e o espaço é a substância da história. Em outras

6
Derek Kidner, Genesis, Tyndale OT Commentaries (Downers Grove: IVP, 1967), p.43.
7
Baseado na exposição de Francis Schaeffer, Genesis in Space and Time (Downers Grove: IVP, 1972), pp.13-22.
8
“No princípio…” Existe uma tradução alternativa, que aparece em algumas versões modernas (e.g. a Tradução
Interconfessional e a Tradução Ecumênica Brasileira):
/“Quando Deus começou a criar os céus e a terra,
a terra era sem forma e vazia;
Gênesis, p.18

palavras, a história consiste numa sequência de eventos ocorridos em lugares


específicos. Isto é subentendido no conceito hebraico da verdade. As narrativas do
Pentateuco, inclusive a história primitiva em Gn 1-11, relatam verdades históricas.
a) A verdade é racional, e não um salto de fé existencial ou místico (que é a
conceito moderno). Ela pode ser considerada e discutida numa base racional.
b) A verdade é profundamente ligada à história; não é algo “ideal”, existindo à parte
do mundo visível (o conceito grego). Portanto, ela está enraizada no tempo e no
espaço. Jamais encontraremos a verdade por tentar escapar deste mundo.
Diante disso, é coerente afirmar pela fé que Gn 1-11 é verdade espiritual e ao
mesmo tempo rejeitar (pelo intelecto) a sua historicidade?9
2) “Antes do princípio”
c) Antes do princípio do mundo, encontra-se a eternidade: Deus existia, e na Trin-
dade havia pensamento, atividade e expressão de vontade (cf. Ef 1.4; 1Pe 1.20 –
o planejamento da criação e da redenção); também havia amor (Jo 17.24).
d) Depois da criação? Deus opera dentro do tempo e espaço, comunicando com o
homem. Nós não podemos entender essa revelação exaustivamente, mas
podemos conhecê-la realmente, verdadeiramente. A concepção bíblica da
revelação milita contra a ideia neo-ortodoxa, de que Deus se revela acima do
tempo e espaço, numa experiência existencial, que o recipiente então tenta
descrever e transmitir.
1. Estrutura e estilo literário de Gn 1 (HAMILTON, pp.19-20; Bíblia de Estudo NVI)
a. A semana se divide em duas partes:
Deus dá forma ao que era “sem forma” Deus enche o que era “vazio”
(separação e identificação) (habitação e bênção)
1º dia - luz (divisão entre dia e noite) 4º dia – luzeiros
2º dia - céu ( “ “ as águas) 5º dia - animais celestes e aquáticos
3º dia - a - terra seca 6º dia - a - animais terrestres, homem
b - vegetação b - alimento: vegetação
7º dia - sábado de descanso
b. O vocabulário é muito simples. Não há nada de excesso, tudo tem a sua função. Cada
dia revela um processo de sete passos:
3) Introdução – “e disse Deus”
4) Palavra criadora – “haja...”
5) Cumprimento da palavra – “e houve / e assim se fez”
6) Descrição – “e Deus dividiu/fez/colocou/criou”
7) Nome ou bênção – “e chamou Deus / e Deus os abençoou”
8) Aprovação divina – “e...era bom”
9) Conclusão – “e houve tarde e manhã”
c. O vocabulário também exibe um certo simbolismo numérico (LUCAS, pp.129-130):
1) Expressões que ocorrem 10X:
a) “Disse Deus”: 1º & 2º dias, 2X no 3º; 4º & 5º dias, 4X no 6º (note a gradação).

e havia trevas sobre a face do abismo;


e o Espírito de Deus [ou, um forte vento] se movia sobre a face das águas.
Então disse Deus: ...”
v.1 é uma oração subordinada temporal: identificando o período em que o seguinte se encontra.
v.2 é composto de orações principais coordenadas.
Há dois problemas com esta interpretação. Primeiro, a tradução da primeira palavra de v.1 não é natural e a estrutura
de vv.1-2 fica complicada, num capítulo notável pela simplicidade de estrutura (é basicamente uma série de
afirmações). Segundo, cria um problema teológico, que afirma a existência de matéria antes de Deus começar a criar
o universo.
A interpretação tradicional não apresenta problemas exegéticas, nem teológicas. Deixa claro que Deus criou o
mundo ex nihilo, e v.1 apresenta um começo absoluto do universo:
“No princípio criou Deus os céus e a terra:
|E a terra era sem forma e vazia;
|e havia trevas sobre a face do abismo;
|e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
Então disse Deus: ...”
Veja HAMILTON, pp.30-33.
9
Cf. LUCAS, pp.126-165.
Gênesis, p.19

b) Ordens criadoras: 3X “haja” (1º, 2º, 4º dias), 7X verbos no impv. (3X no 3º dia, 2X
no 5º, 2X no 6º).
c) “Segundo a sua espécie”: 3X no 3º dia, 2X no 5º, 5X no 6º.
2) Expressões que ocorrem 7X:
a) “E assim se fez”: (1º dia), 2º, 2X no 3º, 4º, 2X no 6º.
b) “E viu Deus que isso era bom”: 1º dia, 2X no 3º, 4º, 5º, 6º, conclusão.
3) Expressões que ocorrem 3X:
c) O verbo “produzir”: 2X no 3º dia, 6º dia
a) “E Deus fez”: 2º, 4º, 6º dias.
b) “E Deus abençoou”: 5º, 6º, 7º dias.
c) Que Deus criou o homem.
4) A introdução contém 21 palavras (3X7), e o 7º dia, 35 (5X7).
Leia Gênesis 1.1 – 2.3 novamente, prestando mais atenção à beleza do texto.
2. Relação entre 1.1 – 2.3 e 2.4-25 (HAMILTON, pp.20-22)
Cp.1 Cp.2
visão panorâmica visão focalizada
ordem cronológica ordem lógica e tópica
perspectiva cósmica – o mundo perspectiva localizada – um jardim
relacionamento entre o mundo relacionamento entre um casal
e Elohim (Deus transcendente e majestoso) e Javé-Elohim (Deus imanente e íntimo)
“Enquanto Gênesis 1 descreve a criação do universo como um todo, 2.4-25 cobre um
segmento especial daquela criação. A palavra que faz a ligação (v.4) é traduzida ‘história das
origens’ na NVI, mas significa mais — algo como ‘relato subsequente / emergente’: Este termo
hebraico (toledôt), tanto no seu significado individual [derivado da raiz gerar] como no seu uso
no AT, expressa a ideia de como algo emerge ou surge daquilo que veio antes. Gênesis 2.4,
então, volta para Gênesis 1 para começar o estudo daquilo que aconteceu depois, como a vida
humana e a criação na Terra surgiram da obra criativa de Deus. Isso explica as alegadas
diferenças e supostas contradições entre os capítulos. É [perfeitamente] razoável que capítulo 2
esteja dando um relato mais detalhado da criação do homem e ao mesmo tempo não dizendo nada
sobre a criação da matéria, da luz, dos corpos celestiais, das plantas e de outros animais.” (NIV
Archaeological Study Bible, pp.6-7, nota sobre 2.4-25)
3. O homem em Gênesis 1 e 2 (Paulo cita 2.7 em 1Co 15.45, comparando Adão, que “passou a
ser alma vivente”, com Cristo, que “é espírito vivificante”).
a. A imagem de Deus (cf. HAMILTON, pp.23, 26-27): O homem é o auge da criação, algo
especial; o governador da criação que o Criador nomeou. Ao mesmo tempo ele é
extremamente frágil e pequeno diante do universo (cf. Sl 8). Ele tem personalidade, que
o permite uma relação com Deus que os animais e as plantas não têm. A imagem são
todas aquelas faculdades do homem pelas quais ele pode relacionar com outras pessoas.
1) Personalidade: CARACTERÍSTICA divina
a) Qualidades de intelecto, emoção, vontade.
b) Capacidade de comungar com outra pessoa.
(1) E criou DEUS o homem à Sua imagem;
à imagem de DEUS o criou;
macho e fêmea os criou (1.27)
Jesus combinou a terceira linha com 2:24 em resposta à questão do divórcio (Mt 19.4
/ Mc 10.6 – vd. nº 2 sob b. O relacionamento entre o homem e a mulher.). O homem
são macho e fêmea. “Deus não é um solteirão; ele é uma Trindade. …A unidade
familiar surge daquilo que Deus é no íntimo de seu ser.”10
(2) Os animais (e as plantas) não participam disso (só a mulher é uma “ajuda que lhe seja
idônea” – 2.18-24).

10
WHITE, p.118. Antes dessas declarações, ele diz: “As famílias existem porque Deus planejou que os seres
humanos vivessem em famílias. E, independente do que os futurólogos digam em contrário, no momento em que o
homem cessar de viver em família, ele também deixará de ser propriamente homem, para tornar-se menos humano,
mais desumanizado. Faço essa declaração mais baseado na Bíblia do que na ciência. Tudo o que a ciência pode
dizer (seja a corrente antropológica, sociológica, ou psicológica) é o que está acontecendo com as famílias e o que
poderia acontecer. A ciência nunca será capaz de dizer o que deve acontecer, pois não tem meios de saber o que é
uma família normal. Ela só pode descrever a aparência de uma família comum em determinado ambiente cultural.
A normalidade está além do alcance da ciência. Ela implica propósito e planejamento: elementos sobre os quais a
ciência nada sabe.”
Gênesis, p.20

(3) A mais íntima comunhão a nível humano é o relacionamento matrimonial (“uma só


carne” – 2.23-24). A família e a amizade, embora não cheguem a uma intimidade
física, são também ambientes de comunhão (1Sm 18.3-4; 2Sm 1.26; Pv 17.17; 18.24;
Ec 4.9-12).
“A figura (imagem) de humanos convivendo em amor, num relacionamento
harmonioso representa melhor a Deus do que a personalidade de um ser
humano isolado.” (LUCAS, p.204) Toda a vida do obreiro é ligada de uma
maneira ou outra ao relacionamento entre pessoas.
2) Domínio (“sujeitar e dominar”): FUNÇÃO divina (como representante de Deus –——
cf. Salmo 8). Envolve…
a) Uma capacidade superior para que possa administrar (a imagem de Deus).
b) Um bom desempenho nessa função (cf. Provérbios)
c) Uma atitude correta: dominar servindo (cf. Mc 10.42-45; Sl 72). Ao mesmo
tempo, não havia nenhuma dúvida de quem estava no comando. “Sujeitar” se
refere a “governo pela força” e “dominar” indica “domínio autoritário”. (MERRILL,
pp.277-278)
O homem, mesmo sendo o dominador da criação, não é autônomo, mas está
debaixo da lei divina (2.15-17). Como você deve exercer este domínio?
b. O relacionamento entre o homem e a mulher:
1) Há igualdade e desigualdade entre os dois.
a) Gn 1.26-28 – POSIÇÃO – Na sua criação, eles são basicamente iguais:
(1) Em Gn 1.26-27 e 5.1-2 são os dois juntos que Deus chama de “homem” (Adám).
Não há nenhuma indicação de inferioridade de um nem do outro.
(2) O homem e a mulher juntos são portadores da imagem de Deus e têm domínio sobre
a criação.
(3) Nenhum tomou parte da criação do outro.
b) Gn 2.18-25 – PAPÉIS ou FUNÇÕES – A criação do homem e da mulher indica
que não são iguais:
(1) A mulher segue a liderança do homem. O homem foi criado primeiro, fato que o
apóstolo Paulo ressalta em duas ocasiões (1Co 11.3-16; 1Tm 2.11-15). A mulher foi
criada do homem e para o homem, e não vice-versa. Há prioridade aqui, mas isso
não quer dizer que há superioridade. O homem foi formado do pó da terra, mas isso
não significa que ele era inferior ao pó. Da mesma forma, o fato de a mulher ser
formada da costela do homem não quer dizer que ela era inferior a ele. (ZUCK, p.19)
O propósito para criar a mulher, conforme Gn 2, era de complementar e completar o
homem. Ela deve, então, procurar fazer exatamente isso: 1) de maneira geral,
inclusive na igreja, e 2) principalmente dentro do casamento.
(a) O homem deve assumir a liderança, a responsabilidade.
[1] Ele precisa tomar a iniciativa em dar direção ao lar (ou qualquer que seja o
contexto). Ele é o responsável para verificar que há uma visão de como vai
ser a vida do grupo. Esta direção deve ser orientada pela vontade de Deus
revelada na Sua palavra. Esta visão deve buscar o bem da família: o líder é
servo dos liderados.
[2] Ele tem que trabalhar para realizar esta visão: dando o exemplo, executando
os planos, perseverando e adaptando conforme a necessidade.
(b) A mulher deve procurar ser complemento:
[1] Ela deve procurar inteirar o seu marido; ser parte integral do trabalho dele,
em vez de competir com ele. O homem é a melodia e a mulher, a harmonia.
[2] Ela não deve ignorar a liderança do homem, tomando o seu próprio rumo,
muito menos opor-se à liderança do homem.
(2) A submissão da mulher não quer dizer que ela é inferior. Em todas as outras
ocorrências da palavra “auxiliadora” (ou “auxílio”; a palavra é masculina), ela tem a
ideia do superior ajudando o inferior, ou pelo menos um igual necessitado. Na
maioria dos casos se refere a Deus mesmo (é usada muitas vezes nos Salmos).
Aplicando tudo isso a Gn 2, percebemos que o homem estava em necessidade, e só
ela era capaz de solucionar o problema. Mera “assistente” ela não é!
(3) A queda modificou esta submissão, tornando-a difícil. No princípio, cada um fazia o
seu papel em perfeita harmonia e esse relacionamento foi algo natural, mas o pecado
produziu atitudes rebeldes. Veja a seguinte comparação para melhor entender o que
Deus disse à mulher depois que o pecado entrou na raça humana:
Gn 3.16 “o teu desejo (isto é, da mulher) será para o teu marido,
e ele te governará”
Gn 4.7 “o seu desejo (isto é, do pecado) será para ti (Caim),
e tu o governarás”.
Gênesis, p.21

A queda deu início a batalha dos sexos, a mulher querendo dominar ou manipular o
seu homem e o homem exigindo submissão à força. A melhor maneira de corrigir
isso é a mulher mesma se sujeitar ao seu marido e o homem dar a sua vida em amor
pela sua esposa (Ef 5.22-33). Onde você se encaixa nisso tudo? (Obs.: A palavra
‘desejo’ ocorre mais uma vez na Bíblia hebraica, em Ct 7.10 – “Eu sou do meu
amado, e ele tem saudades de mim”. Não é só a mulher que pode ter este desejo, e
também não é necessariamente algo malicioso.)
John WHITE compara o relacionamento conjugal a um balé em que o bailarino e a
bailarina precisam se concentrar, cada um, na sua própria parte e esmerar-se em
executa-la perfeitamente. Ele acrescenta: “Podemos não ser bailarinos treinados, mas
podemos ser comparados a eles no seguinte aspecto: existe um sentimento profundo
no relacionamento familiar, análogo ao sentimento de um bailarino reagindo à
apresentação de um colega que executa os movimentos com perfeição. Há certa
comoção nos membros de nossos corpos, que nos provoca uma reação perante a
perfeição e beleza do que vemos e nos leva a participar da dança por simples
instinto.” (p.121)
(4) A ressurreição trará outra modificação no relacionamento entre homem e mulher.
Jesus disse que não haveria casamento na ressurreição, mas seremos como os anjos
(Mt 22.30; cf. tb. Gl 3.28). Supõe-se que a hierarquia de autoridade também será
modificada e cada pessoa se relacionará com os outros individualmente. Será assim
no milênio como na eternidade? Vamos ver.
2) A relação entre homem e mulher envolve compromisso. “Osso e carne” implica em
lealdade (cf. Gn 29.14; Jz 9.2; 2Sm 5.1; 19.12-13). Gn 2.23-24 nos ensinam que “o
casamento é ... um voto, uma aliança, e nunca uma relação arbitrária que possa ser
acomodada a caprichos e conveniências”. (HAMILTON, p.28) HOFF comenta que o
matrimônio “deve ser monógamo, pois Deus criou uma só mulher para o homem;
deve ser exclusivista, porque ‘deixará o varão o seu pai e a sua mãe’; deve ser uma
união estreita e indissolúvel: ‘apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne’”.
(p.28, ênfase minha) Jesus citou 1.27 e 2.24 em resposta à questão do divórcio —
(Mt 19.4-5 / Mc 10.6-8). Paulo também cita 2.24 em 1Co 6.16 (união ilícita com uma
meretriz) e Ef 5.31 (união lícita dentro do casamento e também união espiritual com
Cristo). Há um livro excelente, que faz um estudo amplo dos princípios nestes
capítulos que dizem respeito ao casamento: Ed Wheat, O Amor Que Não Se Apaga
(São Paulo: Mundo Cristão, 1986).
c. Princípios sobre a sexualidade em Gn.1-2
1) Deus criou o sexo. Ele criou “homem e mulher” (1.27), formando a mulher para ser
“idônea” para o homem, de modo que este casal perfeito se tornasse “uma só carne”
(2.18-24), e ordenou que se multiplicassem (1.28). Toda a criação foi feita com esta
capacidade de reproduzir-se (1.11-12,22,28).
2) O sexo que Deus criou era bom. Ele mesmo disse que tudo quanto fizera era “muito
bom” (1.31; cf. tb. vv.12,21). Tudo que se encontra em cp.1, incluindo a ordem para
multiplicar-se, existia antes da entrada do pecado na humanidade (cp.3). A noção de
que o pecado original foi o sexo contradiz a própria Escritura. O apóstolo Paulo
inclui a proibição do casamento entre as “doutrinas de demônios” (1Tm 4.1ss.).
Sendo bom, o sexo traz felicidade ao casal. Quem tem relações sexuais, mas não
procura a felicidade do seu parceiro, está ignorando essa bondade. Mas onde há um
compromisso de amizade e companheirismo entre os dois, eles encontram grande
alegria.
3) Deus ordenou que o casal se multiplicasse. Casamento sem sexo não é santidade;
é desobediência ao mandato de Deus. Por outro lado, se os dois não assumem
responsabilidade pelos filhos, estão contrariando o plano divino. Não quer dizer que
sempre deve gerar filhos, mas não se deve praticar o sexo sem aceitar a possibili-
dade. Deus criou um lar onde os pais se amavam e iriam amar seus filhos. A Bíblia
apresenta o nascimento de filhos como motivo de grande alegria. Assim, um casal
obediente, que procura desenvolver o seu namoro depois de casado, em todos os
aspectos do seu relacionamento, vai realmente curtir a vida e também criar um
ambiente seguro e feliz para seus filhos.
4) Deus criou limites para o sexo: um homem, uma mulher, estabelecendo um novo lar,
até a morte. Dentro desses limites é algo maravilhoso, porque só ali o casal terá
total liberdade para expressar o seu amor (cf. Cantares). Mas o sexo fora desses
limites é pecado: seja antes do casamento (Êx 22.16-17; Dt 22.23-29), no adultério
(Êx 20.14; Lv 18.20; 20.10; Pv 2.16-19; cp.5; 6.20-35; cp.7), homossexualidade —
(Lv 18.22; 20.13; Rm 1.26-27), ou bestialidade (Lv 18.23; 20.15-16).
Gênesis, p.22

d. O homem no Éden: HOFF mostra cinco maneiras pelas quais Deus forneceu as
melhores condições a Adão e Eva (pp.27-28). O homem não teve desculpa quando
escolheu cair no pecado.
4. O sábado
a. Os babilônios antigos observavam dias especiais também:11
1) Tinham festivais nos dias 1º (cf. a “lua nova” mencionada no AT), 7º, 15º, e 28º.
2) Nos dias “sétimos” (7º, 14º, 21º, e 28º) tomava-se precauções para evitar a má sorte.
3) O 15º dia era o dia de descanso, o shappatu (shabbát em hebraico). A razão?
Porque não havia chance nenhum de ter boa sorte em qualquer emprendimento
neste dia. “No shappatu, os babilônios procuravam apaziguar os deuses e aplacar-
lhes a ira com penitência e oração.”
b. O ensino bíblico demonstra outro ponto de vista
1) Deus deu o exemplo de descanso (Gn 2.1-3). Não foi por causa da má sorte que Ele
deixou de trabalhar, mas porque Ele havia terminado. Não foi um descanso
frustrado, e sim, bem-sucedido. O sábado então recebeu uma conotação positiva.
Hebreus 4.4 cita Gn 2.2 falando do descanso de Deus.
2) Deus exigia do Seu povo que seguissem o Seu exemplo. Ele santificou o dia: seria
um dia dedicado a Ele. Ele abençoou este dia, tornando-o um dia de descanso para
as Suas criaturas (até os animais – Êx 20.10). Os pagãos, com sua noção errada de
Deus, interpretaram a coisa de maneira completamente contrária. Para eles, em vez
de ser um dia de recuperação das forças, tanto físicas como espirituais, não passava
de uma interrupção no seu programa (cf. o servo “mau e negligente” da parábola dos
talentos – Mt 25.14-30).
O que é o sábado para você? Seus domingos são ocasiões de alegria no SENHOR?
5. Cinco qualidades de Deus reveladas em Gênesis 1 e 2 (cf. HAMILTON, pp.22-26)
a. Unidade (monoteísmo): Não há um grupo de deuses, nem uma consorte; Deus não carece
de nenhum outro ser para completa-lo ou realiza-lo.
b. Transcendência: Enquanto outras culturas traçavam a genealogia dos seus reis até um
deus, a Bíblia nos leva até o princípio da raça humana, onde encontramos Adão
(homem), e então um abismo infinito entre o homem e seu Criador.
c. Multiplicidade (Trindade): Entre muitas interpretações de Gn 1.26 (“Façamos … nossa
… nossa”), talvez a melhor seja o plural de plenitude ou pluralidade – no ser de Deus.
d. Santidade e moralidade: Ele é o Criador, separado da Sua criação de modo qualitativo.
Ele não é apenas superior, mas “totalmente outro”. Depois da queda isso tem
provocado terror, mas antes era uma reverência pura. Esta santidade também tinha
consequências morais: Deus deu ordens e uma proibição, que tinham que ser atendidos.
e. Majestade e soberania: Os luminares celestiais não têm nenhum aspecto divino, mas são
impessoais. Não há nenhum conflito entre o Criador e outro poder. (Há várias passa-
gens no AT que contêm referências à mitologia cananeia, e.g. Is 51.9; Sl 74.13-14; mas
deve-se notar que estas subentendem os relatos do Pentateuco. Além disso, se referem,
não à criação do mundo, mas à redenção do povo, especialmente a passagem pelo Mar
Vermelho.
EXCURSO — GÊNESIS 1-2 e MITOS do ANTIGO ORIENTE (cf. HAMILTON, pp.34-40)
Introdução
1) “É em comparação com relatos de temática idêntica que surge a singularidade da
mensagem e da fé bíblicas. ...Um estudo da mitologia ajuda o crente a compreender
como os povos antigos tentavam responder as perguntas fundamentais a respeito da
vida e da realidade que os cercava, sem dispor da luz da revelação de Deus. Curio-
samente, as respostas apresentadas por eles não são muito diferentes das apresen-
tadas pela humanidade não-redimida de hoje em dia.” (HAMILTON, pp.34-35).
2) Dois mitos são comparados: Enuma elish e a Epopeia de Atrahásis, ambos da
Mesopotâmia:
a) Estes têm mais em comum com Gn.1 do que Gn.2.

11
J. I. Packer, Merrill C. Tenney, e William White, O Mundo do AT (Miami: Vida, 1988), pp.112-3.
Gênesis, p.23

b) Abraão era natural da Mesopotâmia, e cps.1-38 refletem uma influência


mesopotâmica.
a. Elementos significantes dos dois relatos mesopotâmicos
1) Enuma elish (do 2º milênio a.C.)
a) Começa com uma genealogia dos deuses (teogonia)
(1) Apsu (águas frescas) e Tiamat (águas salinas) é o primeiro casal.
(2) Marduque (Merodaque) é a sexta geração, filho de Ea (águas frescas), neto de Anu
(céu).
b) Depois de várias gerações, Apsu se irrita com todos os deusinhos barulhentos, e
resolve mata-los. Mas Ea lança um feitiço no Apsu e o mata. Então Tiamat faz
voto de se vingar.
c) Os deuses chegam a Marduque, pedindo que ele os salve, e ele aceita fazer
isso, contanto que eles o façam chefe depois.
d) Ele mata Tiamat e do corpo dela forma o céu e a terra. Mais tarde mata o
segundo marido dela e do sangue dele cria os homens para livrar os deuses do
seu trabalho.
2) Atrahasis (do 2º milênio a.C.)
a) Anu é o deus dos céus, Enlil da terra (dos ares), e Enki das águas (frescas).
b) Os deuses sob Enlil estão cavando os rios Eufrates e Tigre, mas sendo
sobrecarregados, rebelam.
c) Enki entra na cena e sugere a criação do homem para livrar os deuses do seu
trabalho pesado. Ele mata um dos deuses e, misturando o sangue e a carne
dele com barro, cria o homem.
b. Contrastes entre Gn 1 e esses relatos.
1) Os mitos se enquadram num ambiente politeísta.
a) Os deuses se multiplicam e proliferam. Não havendo nenhum soberano abso-
luto, eles lutam entre si, e podem ser persuadidos, enfeitiçados, ou até mortos.
Em contraste, o Deus de Gn 1 é soberano absoluto e benéfico.
b) O próprio ser desses deuses é um reflexo da sociedade humana. O deus Anu (o
céu) fertiliza a deusa Ki (a terra) com seu sêmen (a chuva), que resulta em
vegetação e deusinhos. A realidade cósmica da criação do universo é modelada
na realidade imediata da procriação de uma criatura.
Em Gn 1, Deus realmente cria, por meio da Sua palavra onipotente, mas não
gera outros deuses.
2) Enuma elish apresenta uma ameaça da dissolução do universo num caos. Com a
derrota da deusa Tiamat a ordem no universo é garantida. Muitos acham que havia
um ritual no início de cada ano na Babilônia em que se desempenharam os papéis
das personagens deste mito, com o intuito de garantir ordem cósmica para o ano
novo. “Tinha-se a ideia de que as palavras certas, nos lugares certos e nos
momentos certos, pudessem produzir os resultados desejáveis.” (HAMILTON, p.38)
Em Gn 1 não há a menor evidência de algo contrário a Deus. Em passos
deliberados Ele procede com calma, inabalável, em total controle. O estado em v.2
não é de um caos ameaçador, mas de matéria bruta, sem forma, sem organização.
3) Nas partes mais antigas desses mitos, há uma confusão do pessoal com o
impessoal: o universo primordial são os primeiros deuses (as águas primevais). O
desenvolvimento do universo era (literalmente) a multiplicação dos deuses. Mais
adiante os deuses eram vistos mais como administradores de domínios.
Em Gn 1 o mundo é nitidamente distinto de Deus (a transcendência de Deus), e não
tem personalidade. Deus, porém, é uma pessoa, e confere essa personalidade a
uma das criaturas, o homem (macho e fêmea).
4) Quanto à atitude do deus à criação, notamos que o propósito de Enuma elish não é
descrever a criação do mundo, mas sim, de explicar a elevação de Marduque, o
padroeiro da cidade de Babilônia (ou do deus Assur, padroeiro da Assíria, na versão
deles). A criação em si é secundária, o principal é que haja ordem nela. Em
Atrahasis, a criação simplesmente acontece.
Gn 1 demonstra muito interesse da parte de Deus para com a Sua obra.
5) Quanto à atitude do deus para o homem, há um contraste muito grande. Nos mitos,
o homem é escravo ou uma máquina, criado para fazer o trabalho dos deuses, que
eles achavam pesado demais. Além disso, a criação do homem é um apêndice.
Em Gn 1, o homem se destaca. Ele é o clímax de toda a obra, ele é portador da
imagem de Deus e portanto tem uma relação especial com Ele, e o papel dele não é
de assumir o trabalho pesado de Deus, mas de administrar o mundo como Seu
Gênesis, p.24

representante, um governador. Como parte desta função, ele deve cultivar (lit.,
‘servir, trabalhar’) e guardar o jardim. O próprio Criador trabalhou seis dias e então
descansou “de toda a obra [ou, ‘trabalho’] que fizera” (Gn 2.2-3). “Para o homem,
trabalhar é agir como a imagem de Deus.” (MERRILL, p.278)
[PESQUISAS:
Fazer uma exposição de Gn 1.1 – 2.3 — os seis dias da criação.
Fazer uma exposição de Gn 2.18-25 — a criação da mulher e do matrimônio.]
B. Queda (3-5)
1. Capítulo 3
a. A serpente
1) Era criatura (“…que o SENHOR Deus tinha feito”). Não é igual a Deus.
2) Era sagaz. Esta palavra e o termo “nus” em 2:25 vêm de raízes homógrafas, ligando
as duas narrativas pela semelhança de som (ʿǎrummim … ʿārum).
3) O NT claramente identifica a serpente com Satanás (cf. Jo 8.44; Ap 12.9; 20.2).
b. A tentação
1) Satanás atacou a integridade de Deus (em Jó 1-2 ele atacou a integridade do
homem).
a) Que Deus era severo demais (v.1, por implicação).
b) Que Ele não havia de castigar (v.4, por contradição aberta).
c) Que Ele era egoísta (v.5, por calunia mentirosa).
2) Satanás estimulou a mulher a declarar independência e autonomia, a se exaltar à
posição de Deus, pelo menos em seus próprios negócios. Há três aspectos12 nisso:
a) “Boa para se comer” é a “concupiscência da carne” mencionada em 1Jo 2.16. É
o apelo aos apetites naturais, mas distorcidas pelo egoísmo. Jesus resistiu a
isso (Lc 4.4 / Mt 4.4), citando Dt 8.3 – “Não só de pão viverá o homem, mas de
toda palavra que procede da boca de Deus”. A resposta à tentação dos apetites
naturais é reconhecer a nossa dependência de Deus por meio da obediência.
b) “Agradável aos olhos” é a “concupiscência dos olhos” mencionada em 1Jo 2.16.
É o apelo à avareza. Jesus a resistiu (Lc 4.8 / Mt 4.10), citando Dt 6.13 – “Ao
Senhor, teu Deus, adorarás, e só a Ele darás culto”. A resposta à tentação da
avareza é reconhecer que isso é idolatria (Cl 3.5) e adorar somente a Deus.
Em 2.9 nós lemos que todas as árvores do jardim eram “agradáveis aos olhos e boas
para se comer”. Estas duas coisas Adão e Eva já tinham; não precisavam recorrer à
árvore do conhecimento do bem e do mal para obtê-las. Não era errado apreciar
algo belo, ou querer comida: Deus já providenciou isso. O pecado era procura-las no
lugar errado. Além disso, havia outro elemento pecaminoso: a árvore era…
c) “Desejável para dar entendimento” é a “soberba da vida” mencionada em ——
1Jo 2.16. É o apelo às ambições egocêntricas. Jesus também resistiu a isso —
(Lc 4.12 / Mt 4.7), citando Dt 6.16 – “Não tentarás o Senhor, teu Deus”. ‘Tentar’
quer dizer ‘pôr a prova’. Quando fazemos isso com Deus estamos invertendo as
nossas posições um para com o outro, estamos tentando forçar Deus a entrar no
nosso programa, fazer a nossa vontade, em vez de seguir a Ele. A resposta a
esta tentação é reconhecer e permanecer no relacionamento correto com Deus.
É submissão a Ele.13
Há pelo menos duas outras passagens bíblicas que falam do processo da tentação.
Acã, quando confrontado por causa do seu pecado, confessou: “vi... cobiçei (ou,
desejei)... e tomei...” (Js 7.21). Semelhante a Adão e Eva, tentou esconder o fato.
Tiago diz que “cada um é tentado pela sua própria cobiça (ou, desejo), quando esta
o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o
pecado, uma vez consumado, gera a morte.” (Tg 1.14-15) A pessoa pode desejar
satisfação carnal, ou coisas, ou prestígio. Se não dominar os desejos, ela cai no
pecado, geralmente tenta esconder o fato, mas não consegue escapar da morte.
[PESQUISA: Você já percebeu alguns desses elementos nas tentações que sofreu? Quais são os recursos divinos
para supera-las? Quais as respostas específicas que você pode dar? Fazer uma exposição de Gn 3.1-13 — a
tentação e queda.]

12
John WHITE observa a mesma relação entre a tentação de Eva, de Jesus e “tudo que há no mundo” em 1Jo.2:15-
17 (pp.73-75).
13
Submissão a Deus inclui submissão às autoridades em nossa vida (cf. Ef 5.22-24; 6.5-8; Cl 3.22-25; Rm 13.1-5;
1Pe 2.13-17).
Gênesis, p.25

c. Os resultados da queda: O homem e a mulher foram criados para ser a imagem de Deus
na criação. Sendo assim, eles estavam debaixo da autoridade dEle, mas co-iguais um
com o outro e acima dos animais. Na queda, eles se submeteram ao conselho de um
animal para se tornarem iguais a Deus, e como resultado os dois se depararam com a
frustração. A mulher ficou subjugada ao domínio do homem (em vez de se juntar a ele
harmoniosamente) e o homem voltaria ao pó do qual ele foi tirado (cf. Ec 2.12-17; 9.1-6;
12.1-8).
1) Adão e Eva chegaram a conhecer o bem e o mal
a) O bem com saudade dos tempos antes da queda, e de modo transitório agora.
b) O mal por meio da “experiência pecaminosa e contaminada” (como um paciente
conhece uma doença – Deus o conhece como um médico).
2) Eles perderam um aspecto fundamental da sua personalidade: a comunhão em
amor, a transparência (eles ficaram envergonhados e se esconderam).
3) Eles adquiriram a tendência de pecar:
a) Escolher o seu próprio “bem-estar” acima de obediência a Deus.
b) Não assumir responsabilidade por suas ações –
(1) Tentaram cobrir os efeitos do pecado, em vez de confessa-lo.
(2) Lançaram a culpa em outra pessoa.
4) Eles sofreram o castigo de Deus (cf. a seção “O procedimento de Deus em Gn 3”).
a) Certamente há punição aqui.
(1) Da mulher: agora ela teria fortes dores no parto e a desintegração do relacionamento
com o marido.
(2) Do homem: visto que atendeu a voz da sua mulher (cf. Gn 16.2; Dt 13.3, 8), ele
enfrentaria obstáculos e fadiga no seu trabalho para se manter (cf. 5.29; Sl 127.2).
b) Mas o próprio castigo demonstra a misericórdia de Deus em iniciar o seu plano
de redenção:
(1) Deus atribuiu “sofrimento, miséria e frustração aos momentos mais cruciais da reali-
zação pessoal do homem e da mulher. Tais ‘sentenças’ não são imposições ordena-
das por um Deus leviano. São, na verdade, dádivas de amor lançadas no caminho
dos seres humanos, a fim de os trazer de volta a Deus.” (HAMILTON, p.44-45)
(a) Em que se realiza a mulher? Na família (marido, filhos), e é justamente aí que
ela vê que as coisas não estão certas.
(b) Em que se realiza o homem? No seu trabalho, na obra de suas mãos, e
novamente, ele percebe que a realização não é perfeita.
(2) Assim eles almejam mais: algo que só Deus pode suprir. E quando, como crentes,
recebemos as primícias desta nova vida, anelamos por ela ainda mais profundamente.
Nem toda mulher se realiza na família, nem todo homem no seu trabalho, mas todo
crente se realiza no propósito de Deus para sua vida.
5) Eles foram expulsos do jardim:
a) Fica implícito na menção da chegada do Senhor Deus no jardim (v.8) que havia
comunhão entre Ele e Adão e Eva. Isso se tornou bem mais difícil, pois ficaram
distantes dEle; isto é, distantes do lugar e da condição em que tinham acesso
livre e natural com o Criador. De agora em diante, teriam certos protocolos para
chegarem diante do Santo: o sacrifício (cf. 4.3-5). (MERRILL, p.284)
b) Esta expulsão prefigura o exílio que Israel sofreu, sendo expulso da terra
prometida, “este lugar” que o SENHOR escolhera para pôr o Seu nome ali, para
habitar no meio do Seu povo (mas cf. Ez 11.16; cf. tb. o castigo sobre Caim em
cp.4 – veja comentários ali)
Todos nós tropeçamos, mas, em vez de desistir, pense: “Como posso aproveitar os
próprios tropeços e suas consequências dolorosas para voltar a Deus e retomar o
seu propósito para mim?”
d. O procedimento de Deus em Gn 3: o primeiro missionário foi o próprio Deus.
1) Ele toma a INICIATIVA, buscando os perdidos (v.8).
2) Ele mostrou PERSEVERANÇA ao procurar os perdidos (vv.9-10).
3) Ele foi DIRETO AO ASSUNTO ao tratar com os perdidos: o problema deles era a
desobediência, o PECADO (vv.11-14).
4) Ele pronunciou (nós anunciamos) a MALDIÇÃO sobre o pecado, a perdição dos
perdidos (vv.14-19).
5) Ele prometeu (nós proclamamos) a vitória final do bem sobre o mal que invadiu: as
BOAS NOVAS (v.15).
6) Ele deixou os perdidos num estado de INSATISFAÇÃO e FRUSTRAÇÃO enquanto
eles recusassem o caminho dEle (vv.16-19).
Como você poderia seguir este exemplo no seu estágio ministerial?
Gênesis, p.26

e. Esperança para o homem caído (além das bênçãos imbutidas nas maldições).
1) A promessa de Deus (Gn 3.15): uma solução definitiva no futuro com a derrota do
inimigo — realizado na cruz (Cl 2.15), consumado no fim dos tempos (Ap 12; 20).
a) Deus havia de criar inimizade entre a serpente e a mulher, e entre seus
descendentes (cf. Ap 12-13).
b) Ele havia de suscitar um descendente da mulher que venceria a serpente,
embora por meio do sofrimento. É notável que a inimizade passaria para a
descendência dos dois lados (cf. Jo 8.44), mas o descendente da mulher feriria a
cabeça da própria serpente. Quem é o descendente? É o MESSIAS, porque…
(1) É o único lugar em todo o AT em que aparece a frase “o descendente (lit., “semente”)
dela”. Em quase todas as referências do AT a uma descendência, a linhagem é
marcada pelo pai, e não pela mãe. A lei do levirado subentende isso. Mas aqui,
temos um descendente da mãe (o que implica na ausência de um pai; cf. Is 7.14 e sua
explicação em Lc 1.26-38 e Mt 1.18-25).
(2) A LXX destaca a masculinidade deste descendente, usando o pronome masculino
(“ele ferirá”) com um antecedente neutro (“semente”; cf. o mesmo fenômeno quando
Jesus se refere ao Espírito Santo em Jo 14-16). É a única vez que isso acontece no
livro de Gênesis, entre mais de 100 outras ocorrências do pronome masculino.
(3) O próprio Deus é que vai instigar essa inimizade. Portanto, isso tudo deve ser visto
como plano dEle. Examinando este plano, nós podemos ver apenas uma Pessoa que
cumpriu a promessa: Jesus Cristo, nascido de uma virgem.
“…O homem saiu do paraíso, não somente com uma lembrança triste e um
senso doloroso de culpa, mas também com um anseio esperançoso e
antecipação segura, que levou consigo no mundo fora do paraíso. Desde então,
o homem vive em conflito ou contradição…. Por um lado, ele é cheio de
remorso, culpa e auto-condenação, e, pelo outro, ele anseia, se esforça, espera
e antecipa. Esperança e medo, antecipação e desespero, amor e ódio se
misturam e se confundem. O homem é um pacote de complexos.” (G. W.
Peters, A Biblical Theology of Missions, p.86)
2) A provisão de Deus (Gn 3.21): uma solução provisória no presente com a morte de
uma vítima. Muitos acreditam que temos aqui a origem do sacrifício.
3) A fé do homem: Adão falou de vida na face da morte (Gn 3.20), e Eva reconheceu a
participação de Deus em sua vida, talvez pensando que Caim fosse o descendente
prometido (Gn 4.1).
f. Estrutura simétrica de cps.2 & 3:
(2.4-6) Introdução
(2.7-17) Adão criado e colocado no Éden (3.20-24) Adão e Eva expulsos do Éden
(2.18-25) Estabelecimento de relações (3.14-19) Efeitos sobre o relacionamento
entre o homem e os animais entre o homem e a mulher
e entre o homem e a mulher e entre o homem e a natureza
(3.1-5) As perguntas da serpente (3.8-13) As perguntas de Deus
(3.6-7) Eva e Adão comem o fruto proïbido

Note também o foco de atenção nos vários personagens da história, passando de um para o outro.
A serpente (1) fala com a mulher (2), que toma do fruto e dá para o homem (3); então os dois se
escondem quando escutam a voz do SENHOR Deus (4). O SENHOR Deus (4) chama e então confronta
o homem (3), que aponta para a mulher (2), que por sua vez aponta para a serpente (1). O SENHOR
Deus sentencia a serpente (1), então a mulher (2) e finalmente o homem (3). O episódio termina com
a ação do SENHOR Deus (4), vestindo o homem e a mulher.

O CRENTE E O TRABALHO (3.17-19)


“Os cristãos são pessoas libertas para desfrutar o trabalho. … [Desde a queda] o homem nunca mais
ficou livre da fadiga, exceto os que são bastante poderosos para fazer outros trabalharem para eles. A
reconciliação, porém, provocou uma mudança nesse panorama. O homem e a mulher remidos ficaram
livres da tirania da necessidade. O cristão deve parar de se preocupar com o alimento e o abrigo e
confia-los ao Pai Celestial. A ansiedade deve ser deliberadamente esquecida. Ele deve continuar
trabalhando com o mesmo afã, mas sem o sofrimento do trabalho enfadonho. O solo permanece
amaldiçoado, mas o homem remido foi libertado. Mais do que qualquer outro homem, o cristão pode
encontrar alegria no trabalho, por amor a Deus. E quanto mais ele trabalhar, mais exultará a sua alma.”
(WHITE, p.198, ênfase do próprio autor).
Gênesis, p.27

CINCO GRANDES VERDADES EM GÊNESIS 1-3 (T. F. Willson)


1- A criação (ex nihilo) de tudo pela poderosa palavra (fiat) de Deus.
2- A instituição de um dia em sete como dia de santo repouso a Deus.
3- A procedência (física) de todos os homens dos nossos pais comuns: Adão e Eva.
4- Nossa ligação com Adão como o cabeça da raça humana, pela qual toda a humanidade foi
envolvida no pecado dele e na queda (moral e teológica).
5- UM descendente de Adão (mas não pecador), por meio do Seu sacrifício, haveria de libertar-nos
das consequências da queda e, como último Adão, tornar-se Autor da salvação eterna.
2. Capítulos 4 - 5
a. Capítulo 4
1) Vários já notaram que “o primeiro ato de violência relaciona-se com o culto religioso”.
Este capítulo nos oferece uma oportunidade de sentir o cheiro tóxico do pecado. O
homem, que foi criado à imagem de Deus para glorifica-lo na terra, agora está
buscando a sua própria glória e tomando medidas drásticas para promovê-la.
2) As ofertas de Caim e Abel: É possível que Deus exigia um sacrifício de animal
(derramando o sangue e queimando a gordura).
a) O ensino posterior deixa claro a necessidade do sangue para fazer expiação —
(Lv 17.11; cf. tb. vv.1-7, que mencionam a gordura, queimada em aroma suave
ao SENHOR). Houve morte de animais para cobrir a nudez de Adão e Eva. Abel
ofereceu a gordura de animais.
b) Por outro lado, não temos certeza absoluta quanto ao tipo de sacrifício aceitável
a Deus nesta época. A revelação posterior também fala de ofertas a Deus das
primícias e dos dízimos da produção da terra (Dt 26).
3) A condição espiritual de Caim: O problema pode ter envolvido o modo em que
ofereceu seu sacrifício, mas o problema em si era o que estava dentro do seu
coração. O NT claramente declara isso (1Jo 3.12; Hb 11.4) e por isso Deus não
aceitou a sua participação no culto (cf. Is 1.15 – hipocrisia no culto é algo
severamente condenado pelos profetas).
a) A palavra “desejo” é a mesma que é usada em 3.16 e Ct 7.10, indicando um
desejo muito forte. A frase “o pecado jaz à porta” é interessante porque existe
uma palavra babilônica cognata, rabítsu (‘jaz’ = robêts), referindo-se a um
demônio que se agachava à porta de um prédio, ameaçando as pessoas por
dentro. O pecado já estava ameaçando Caim. O ódio para com seu irmão já
existia e queria domina-lo: ele estava perdendo controle de si, tornando-se
escravo (cf. Mt 5.21-22; Jo 8.34; Tg 1.13-15; mas cf. Jo 8.36; Rm 6.16).
b) Sua conversa com Deus (vv.6-7) revela um processo na vida espiritual:
rejeição/repreensão da parte de Deus
 reação má da parte do homem (endurecendo a cerviz)
 depressão (reação negativa do organismo)
 decisão:
 de humilhar-se e seguir a orientação divina
 aceitação e restauração da parte de Deus
 ou de continuar rebelde
 ser dominado pelo pecado  ódio  assassinato
( a rebeldia se estabelece como a norma [vv.23-24])
O que você precisa fazer para evitar de ser preso pelo seu pecado?
c) O castigo que sofreu pelo assassinato do seu irmão prefigura a experiência do
povo de Israel, condenado a andar “errantes entre as nações” (Os 9.17; Jr 50.6;
Lm 4.15, 16; Ez 34.5, 6).
d) Note que Caim nunca assumiu responsabilidade por seus atos (vv.9b, 13-14).
Ele preferiu fugir da justiça divina durante a vida inteira, do que se arrepender e
voltar-se para Deus (“Serei fugitivo e errante pela terra”, v.14).14 Em vez de
tratar da causa (o pecado) ele tentou amenizar o efeito (o castigo). Quantas
vezes nós fazemos isso? O que Caim previa foi exatamente o que ele havia feito
a seu irmão, “quem me encontrar me matará”. Parece que ele sabia intuitiva-
mente a consequência do seu ato (cf. MERRILL, p.222). Deus, porém respon-
deu que quem matasse Caim seria vingado sete vezes 15 e colocou uma marca
nele para que não fosse atacado.

14
Elben M. Lenz César, Práticas Devocionais (Viçosa MG: Editora Ultimato, 1995), p.35.
15
Cf. v.24: “Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete.” Isso faz contraste
profundo com o ensino de Jesus. Quando Pedro pergunto “Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim,
Gênesis, p.28

4) “Tornou Adão a coabitar com sua mulher; e ela deu à luz um filho” (v.25): depois de
contar a história de Caim, o narrador faz um novo começo (cf. v.1). “Chamou o seu
nome Sete (shêt); porque, disse ela, Deus me concedeu (shat) outro descendente
em lugar de Abel” (v.25). Eva reconheceu duas coisas aqui. Primeiro, Abel havia
sido a esperança do descendente e não Caim. Os dois nomes indicam que talvez
fosse o contrário no início: Eva explica o nome Caim (qáyin) dizendo “Adquiri (qaníti)
um varão com [o auxílio de] o SENHOR” (v.1), que nos lembra da promessa do
descendente (3.15), mas o segundo filho recebeu o nome Abel (hébel ‘bafo’), a
mesma palavra traduzida ‘vaidade’ em Eclesiastes (se bem que os léxicos associam
o nome próprio ‘Abel’ com outra raiz, que tem o cognato aplu, ‘filho’, no acadiano da
Mesopotâmia). A segunda coisa que Eva reconheceu foi que o nascimento de Sete
era um novo começo, não apenas da sua família, mas do plano de redenção
indicado pela promessa de Deus (“outro descendente”). Depois do nascimento do
filho de Sete começou-se a invocar o nome do SENHOR (v.26). As expressões
‘chamar o nome Fulano’ e ‘invocar o nome do SENHOR’ são parecidas: qará’ ’et-
shemô Fulano e qará’ beshêm YHWH, respectivamente (cf. Êx 34.5-7).16
[PESQUISA: Fazer uma exposição de Gn 4.1-16 — Deus tratando com Caim.]
b. Capítulo 5
1) Dados cronológicos nas genealogias: Como harmonizar as genealogias de Gênesis
com a ciência (geologia, anthropologia, arqueologia, etc.)? Esta genealogia inclui
todas as gerações entre Adão e Noé? Como devemos entender os números; são
literais ou envolvem alguma figura de linguagem? Por um lado, não iremos fingir que
essas questões não existem, mas pelo outro, não temos condições de resolvê-las
definitivamente.
a) O período de tempo nas genealogias é muito breve em comparação com o
tempo proposto pelos cientistas. Há 1557 anos entre Adão e Noé (Gn 5.1 e 32)
e 390 anos entre Noé e Abraão (Gn 11.10 e 26). Ou seja, Abraão teria nascido
menos de 2.000 anos depois da criação. Os evolucionistas acreditam que a
terra existe há milhões de anos. Mesmo rejeitando este ponto de vista, os
arqueólogos geralmente colocam as camadas mais baixas numa época anterior
a 4.000 a.C. Por isso, alguns intérpretes têm procurado meios para aumentar o
total de anos indicados nas genealogias, tais como lacunas nas listas.
b) Um outro problema é o número de anos que estes homens viveram. As idades
dos que viveram antes do dilúvio são incogitáveis hoje em dia e dos que viveram
depois ainda ficam bastante além da longevidade atual. Por isso, alguns
intérpretes querem diminuí-las de um modo ou outro, sugerindo que os nomes
representam famílias e linhagens, em vez de pessoas individuais, ou que os
números são hiperbólicas.
c) Os dados para a sequência Noé-Sem-Arfaxade indicam algum arredondamento,
mas é de apenas 2 ou 3 anos. Noé tinha 500 anos quando os três filhos
nasceram (5.32; Cão era o mais jovem conforme 9.24 e, segundo 10.21, Sem
era irmão mais velho de Jafé). O dilúvio começou quando Noé tinha 600 anos
(dia 17 do 2º mês, 7.6, 11) e eles ficaram na arca um ano e dez dias (dia 27 do
2º mês do ano 601, 8:3-16). Dois anos depois do dilúvio Sem tinha 100 anos,
quando gerou Arfaxade (11.10 — É dois anos depois do início do dilúvio ou da
saída da arca?).
2) O ensino das genealogias: Mesmo sem entendermos todos os detalhes, podemos
apreciar certas verdades aqui.
a) A realidade da maldição e da morte. O ciclo “…viveu …gerou …morreu” se
repete oito vezes. Esta é a única genealogia na Bíblia que afirma que a pessoa

que eu lhe perdoe? Até sete vezes?” (Mt 18.21), Cristo respondeu “Não te digo que até sete vezes, mas até setenta
vezes sete.” (v.22)
16
O nome Enos (’enôsh), do filho de Sete, é sinônimo de ’adam e os dois termos aparecem paralelamente em vários
textos poéticos (Jó 25.6; 36.25; Sl 8.4; 73.5; 90.3; 144.3; Is 13.12; 51.12; 56.2). A palavra ’adam ‘homem/Adão’
tem o artigo em todas as ocorrências de cps.1-3 menos duas: a primeira (1.26), que seria indefinida pelo fato de
ainda não existir o homem, e quando Deus se dirige a Adão para pronunciar a maldição (3.17). Provavelmente
devemos entender “o homem” nas demais ocorrências, porque em hebraico o nome próprio não recebe o artigo. Em
4.25 – 5.5 a palavra não tem o artigo e devemos entender ‘Adão’ (cf. 4.1 e 25 na ARA). Na introdução da
genealogia (5.1-2), que lembra da criação do homem em cp.1, o autor emprega a palavra de modo ambivalente. Em
cp.6, a narrativa se refere à humanidade como um todo e o artigo é usado novamente.
Gênesis, p.29

morreu.17 É apenas subentendida nas outras e, de fato, não é esse o propósito


de uma genealogia, que visa registrar os vários filhos de uma determinada
família, destacando os mais importantes, ou registrar a descendência (Gn 5, 11)
ou procedência (Rt 4, Mt 1, Lc 3) de uma determinada pessoa. Além desse ciclo
triste, o pai de Noé, ao dar o nome ao filho, manifestou um anseio comum a toda
a humanidade caída. Ele buscava algo que o elevasse acima das fadigas que
vieram por causa da maldição sobre a terra (Gn 5.29; o nome ‘Noé’ vem de uma
raiz que significa ‘pousar’ ou ‘descansar’).
b) A realidade da comunhão com Deus no exemplo de Enoque. Ele andava com
Deus e foi trasladado (v.24; cf. Sl 49.15; 73.24). A morte não é uma realidade
absoluta, pois Deus é maior (cf. Jo 11.25). O autor de Hebreus diz que Enoque
agradou a Deus por causa da sua fé (Hb 11.5-6). Caim rejeitou a autoridade de
Deus sobre a sua vida e preferia viver longe dEle, mas Enoque se aproximou do
SENHOR e teve comunhão e intimidade com Ele.
c) A realidade do governo soberano de Deus. O “livro das gerações de Adão”18
termina descrevendo a maldade da raça humana e a decisão divina de destruí-la
(6.1-8; o próximo relato, “as gerações de Noé”,19 começa em 6.9).
d) A realidade do plano de Deus na sucessão de gerações. O homem morre, mas
deixa um filho para continuar a linhagem (veja a repetição de ‘semelhança’ em
5.1-3). Esta genealogia faz a ligação entre Adão e Noé, e a de 11.10-26, entre
Noé e Abraão.20 Estes três homens marcam pontos cruciais no relacionamento
entre Deus e o homem no livro de Gênesis. A narrativa sobre Adão fala da
criação do homem e a sua queda, trazendo maldição. Deus, porém, o dá uma
pequena palavra de esperança. Noé viu o juízo de Deus no dilúvio, mas
participou da salvação do remanescente. Abrão veio depois de outro juízo, na
torre de Babel, onde Deus confundiu a linguagem dos homens, dispersando-os
por toda a terra; mas Abrão foi eleito para iniciar o povo de Deus, do qual viria
Aquele que atrairia todos para Si.
C. Dilúvio (6-9)
1. O mundo antes do dilúvio (6.1-13)
a. Três interpretações de Gn 6.1-2 – vd. apêndice “Filhos de Deus e Filhas dos Homens”.
A sequência “viram … formosas (lit. boas) … tomaram” é semelhante à queda (3.6; ESV
Study Bible Wheaton: Crossway, 2008, p.61).21 O termo “gigantes” é nefilim (a palavra
aparece transliterada em várias versões mais recentes — cf. NVI, Almeida Século 21),
que aparece somente aqui e em Nm 13.33, onde é associada ao homem Anaque; ele e
seus descendentes são mencionados 3x em Números, 6x em Deuteronômio, 7x em Josué e
1x em Juízes. O Targum e a LXX indicam que os judeus do período intertestamentário
acreditavam ser gigantes. O termo é usado nos dois contextos, o mundo ante-diluviano
aqui em Gn 6 e no relatório dos espias em Nm 13, mas não há nenhuma relação entre os
dois grupos, porque estes nefilim todos morreram no dilúvio.
b. O texto indica como a terra ficou completamente corrompida:
1) Há uma grande ênfase na pecaminosidade do homem.
a) Em termos de QUALIDADE:
 “maldade, má” (v.5): significa mau, de modo geral.
 “corrompida(o)” (vv.11-12): quer dizer corromper, poluir, degenerar.
 “violência” (vv.11,13): refere-se a crimes violentos (cf. os “valentes” de v.4).
b) Em termos de QUANTIDADE: “toda a imaginação dos pensamentos de seu
coração era só má continuamente” (v.5); “encheu-se a terra de violência” (v.11);
“toda a carne havia corrompido o seu caminho” (v.12); “a terra está cheia de
violência” (v.13).
2) Há também um grande contraste em Noé.

17
Na lista de reis edomitas em cp.36, encontramos a fórmula “morreu [o antecessor], e, em seu lugar, reinou [o
sucessor]”, mas é uma situação diferente, pois só pode haver sucessão na morte do anterior.
18
ARC; na ARA diz “…da genealogia…”.
19
ARC; na ARA, “a história…”.
20
Há algumas semelhanças entre as duas genealogias. Ambas são lineares e seguem o mesmo formato (Fulano
viveu X anos e gerou Sicrano; depois viveu Y anos). Ambas contêm 10 nomes, e a última geração são três filhos.
21
A interpretação de que os “filhos de Deus” são anjos é difícil porque em 6.3, Deus fala exclusivamente dos
homens; ele não diz nada acerca de anjos. Cf. G. Ch. Aalders, Genesis, vol. 1, Bible Student’s Commentary
(Grand Rapids: Zondervan, 1981), p.153.
Gênesis, p.30

a) Ele achou graça (favor) diante de do SENHOR.


b) Ele era justo e perfeito, e andava com Deus (cf. Enoque).
[PESQUISA: Fazer uma exposição de Gn 6.9-22 — Deus revela Seu plano a Noé.]
2. O dilúvio (6.14 – 9.17)
a. A história (pelo menos 6.11 a 9.17) revela uma estrutura quiástica:
Violência na criação de Deus (6.11-12)
| 1º discurso divino: resolução a destruir (6.13-22)
| | 2º discurso divino: ordem para entrar na arca (7.1-10)
| | | Começo do dilúvio (7.11-16)
| | | | As águas do dilúvio aumentam (7.17-29)
| | | | | DEUS LEMBRA-SE DE NOÉ (8.1)
| | | | As águas do dilúvio diminuem (8.1-5)
| | | O secamento da terra (8.6-14)
| | 3º discurso divino: ordem para sair da arca (8.15-19)
| Resolução divina a preservar a ordem da natureza (8.20-22)
4º discurso divino: bênçãos e aliança (9.1-17)
b. Podemos fazer algumas observações específicas:
1) Deus agiu com justiça ao punir o pecado (essa justiça é algo a ser levado a sério).
Deus também agiu com misericórdia salvando Noé e sua família (6.8,18). O texto
também mostra o lado humano deste relacionamento: ele era justo e íntegro (6.9;
7.1). A graça de Deus tem a sua contraparte na fé do homem. Deus providencia
salvação para o crente (6.14-16, 18-21; 7.1-4). O homem, por sua vez, expressa a
sua fé por meio da obediência (6.22; 7.5; cf. Êx 7.6, etc. — veja comentários na
apostila). 22
2) O ponto focal da história é a declaração de que Deus “lembrou-se” de Noé. A
palavra tem a ideia de prestar atenção, neste caso com favor e carinho. Com toda a
destruição do dilúvio, parecia que Deus havia esquecido de Noé e os outros na arca,
mas não.
3) Note a grande misericórdia de Deus às gerações futuras (8.21b): apesar de que o
coração do homem persistia com seus maus desígnios (cf. a mesma frase em 6.5),
Ele não mandaria outro dilúvio. Por outro lado, o dilúvio serve de exemplo do juízo
apocalíptico (cf. Mt 24.36-42; Lc 17.26-27; 2Pe 2.5 dentro do contexto de vv.4-10;
3.1-7, onde Pedro diz que o mundo pós-diluviano está reservado “para fogo”).
[PESQUISA: Fazer uma exposição de Gn 7 — o dilúvio destroi o mundo antigo; fazer uma exposição de Gn.8 —
salvos do dilúvio.]
3. Epílogo (9.18-29): a maldição sobre Canaã // a bênção do Deus de Sem
a. Os vv.18-19 e 28-29 não fazem parte do episódio, mas servem para ligar a narrativa de
cps.6-9 à narrativa maior, que começou com a genealogia em cp.5 e continua com as
genealogias em cp.10.
b. O pecado: era algo muito grave, e envolvia Canaã, que foi amaldiçoado. Alguns
sugerem incesto – Cão coabitou com sua mãe, gerando Canaã. O texto diz que “viu a
nudez” do pai. A expressão “descobrir a nudez” é usada em relação ao sexo ilícito em
Lv 18 & 20. Por outro lado, Sem e Jafé “cobriram a nudez” do pai com uma roupa, e
isso de costas, para não olharem no pai nessa condição, o que indicaria que devemos
entender a expressão literalmente. Talvez o pecado de Cão envolvia as duas coisas. De
qualquer forma, fica claro que Cão desonrou o pai pela sua atitude e suas ações. Outra
possibilidade é que Cão tenha feito algo vulgar, talvez uma brincadeira imoral envol-
vendo o filho Canaã. No final das contas, não sabemos, nem precisamos saber.

22
O meio de salvação era a arca (cf. 1Pe 3.20b). Era necessário construí-la e então entrar nela (6.18, 19; 7.1, 7, 8,
13, 15). Para ser salvo, foi necessário obedecer as ordens de Deus (6.22; 7.5, 9, 16).
Gênesis, p.31

c. O pronunciamento de Noé (tradução literal):


25 E disse:
“Maldito seja Canaã;
seja servo dos servos a seus irmãos.”
26 E disse:
“Bendito seja o SENHOR, o Deus de Sem;
e Canaã lhe seja servo.
27 Engrandeça Deus a Jafé,
e habite nas tendas de Sem;
e Canaã lhe(s) seja servo.”
Quem habitará nas tendas de Sem? Quase todas as versões traduzem a frase do modo
ambíguo que é colocado no original.
1) Três versões inserem o nome ‘Jafé’ como sujeito do verbo habitar: a Revisada, a
Almeida Século 21 (que é revisão da Revisada), e a NIV em inglês (a NVI em
português discorda neste ponto). Desta forma, v.25 pronuncia uma maldição sobre
Canaã, v.26, uma benção sobre Sem, e v.27, uma benção sobre Jafé. Há dois
problemas com esta interpretação. O v.26 não pronuncia benção sobre Sem, e sim,
sobre o Deus de Sem. O fato de ser seu Deus é uma grande benção, mas não é
esta benção, porque do jeito que é colocada, este relacionamento já existia antes de
Noé falar estas palavras. Outro problema mais difícil é o significado de Jafé habitar
nas tendas de Sem. As Escrituras falam muito de Deus habitar no meio dos homens
(cf. Êx 29.45-46; Jo 1.14; Ap 21.3) e, com a escolha da nação de Israel, Ele de fato
habitou nas tendas de Sem. O grande valor disso é óbvio, mas que seria o benefício
se Jafé habitasse nas suas tendas?
2) É melhor entender ‘Deus’ como sujeito dos dois verbos engrandecer e habitar.
Assim evitamos as dificuldades da outra interpretação. O contraste entre as frases
paralelas “maldito seja Canaã” e “bendito seja o SENHOR” serve de elo entre vv.25 e
26. A repetição da frase “e Canaã lhe(s) seja servo” liga vv.26 e 27.23 O v.25
pronuncia a maldição e vv.26-27 pronunciam benção: ao SENHOR em v.26 e sobre
Jafé e Sem em v.27. A benção inclui o serviço resultante do serviçal amaldiçoado.24
Os vv.26-27 não deixam explícito se Canaã será servo de Deus ou de Sem (e Jafé),
mas v.25 diz que serviria os seus irmãos.25
d. Uma observação sobre a embriaguez de Noé: Não há nenhuma condenação explícita
nesta passagem. Por outro lado, há duas ocasiões de embriaguez no livro de Gênesis:
esta (9.20-27) e o caso de Ló e suas filhas (19.30-38). Ambas as ocasiões envolveram
pecado grosseiro. Muitas vezes a própria realidade diz mais do que qualquer exortação.
TRÊS EXCURSOS sobre o DILÚVIO:
1º EXCURSO — GÊNESIS 6-9 e MITOS do ANTIGO ORIENTE MÉDIO
a. Elementos significantes dos mitos mesopotâmicos
1) A Epopeia de Gílgames:
a) Gílgames é um grande guerreiro e conquistador.
b) Perdendo o seu melhor amigo, ele vê a vaidade da vida diante da morte e
procura a imortalidade. Nas viagens ele encontra o homem Utnapistim, que
sobreviveu o dilúvio e ganhou a imortalidade.
c) Ele volta para sua cidade de Ereque, conformando-se com a “imortalidade”
mortal – através de grandes obras e monumentos.
2) A Epopeia de Atrahasis:
a) Depois da criação do homem, a raça se multiplica, e surge tão grande barulho
que o deus Enlil não pode dormir.
b) Ele tenta acabar com os homens por meio de várias pragas, mas cada vez o
deus Enki consegue neutralizar a praga. Finalmente manda um dilúvio e Enki só
salva um homem e sua família.

23
Esta técnica de ligar três frases repetindo dois elementos é bastante usada na literatura hebraica, especialmente na
poesia (repetição distribuído). Neste caso tem a ordem a : ab : b.
24
Cf. Walter Kaiser, Teologia do AT (São Paulo: Vida Nova, 1984), p.84
25
Há também uma possível indicação deste sentido na repetição da palavra ‘Deus’ e sua semelhança no hebraico à
palavra ‘tenda’:
v.26 baruk YHWH ’Elohey Shem viyhiy Kená‘an ‘éved lámou
v.27 yaft ’Elohim leYéfet veyishkôn beoholey Shem viyhiy Kená‘an ‘éved lámou
Gênesis, p.32

c) Enlil, vendo que não conseguiu destruir todos os homens, institui vários meios de
controlar a proliferação da raça humana.
b. Comparação e contraste
1) O motivo pelo dilúvio
a) Os mitos: a ira de Enlil provocada pela falta de sono (Atra.)
b) A Bíblia: a ira de Deus provocada pela corrupção da raça humana (a proliferação
do pecado, não das pessoas): “corrupto” (6.11) é da mesma raiz que “destruir”
(6.13b) – cf. Rm 1.24, 26, 28; “pesar” no coração (6.6) é da mesma raiz que
“sofrimentos … dores … fadigas” (3.16-17).
2) A razão pela salvação do sobrevivente
a) Os mitos: não é tratado.
b) A Bíblia: o favor de Deus a Noé // a justiça dele.
3) A nave (arca)
a) Os mitos: é cúbica.
b) A Bíblia: era realmente um baú do tamanho de um navio.
4) A moral da história
a) Os mitos: não há.
b) A Bíblia:
(1) A graça de Deus (8.21): nunca mais iria amaldiçoar a terra (cf. 3.17), a despeito da
pecaminosidade do homem (cf. 6.6)
(2) A aliança com Noé (9.1-17): reafirmando a bênção original (1.28), acrescentando
carne à dieta (mas sem o sangue), e a promessa de não mais destruir a terra com um
dilúvio (o arco-iris).
2º EXCURSO —
A história do dilúvio é o texto clássico para comprovar a teoria documentária da autoria do
Pentateuco. Os eruditos conseguem dividir esta narrativa em duas, cada uma sendo uma
unidade coerente. Por outro lado, há vários estudos demonstrando a unidade do texto na
forma em que está (e.g., a estrutura quiástica indicada acima) Um livro muito interessante
defende a unidade de Gênesis 1-11, argumentando pela crítica da forma. Traça os paralelos
entre os relatos de Adão e Eva, Caim e Abel, e o dilúvio de Noé. O livro inclui basicamente o
mesmo quiasmo apresentado acima, mas muito mais elaborado. Apresenta vários quiasmos
em trechos pequenos também, como este exemplo de Gn 6:8-9 (que conforme a teoria
documentária abrange duas fontes, a javista indicada pelo itálico e a eloísta, pelo negrito): 26
Noé
encontrou favor
nos olhos do SENHOR.
Estas são as gerações de Noé.
Noé era homem justo;
perfeito ele era
nas suas gerações.
Com Deus
andava
Noé.
3º EXCURSO — DILÚVIO UNIVERSAL ou LOCAL? Objeções contra a universalidade do dilúvio:
a. Não existe bastante água na terra para cobrir “todos os altos montes”, esp. Mt. Everest.
Precisaria 8 vezes mais do que tem. (De onde veio? Para onde foi?)
Resposta: É possível que não houvesse montanhas tão altas antes e durante o dilúvio.
Além disso, Gn.1 deixa claro que antes do 3º dia de criação TODA a terra estava coberta
de água: Deus não aumentou a quantidade de terra seca, nem diminuiu a água. Ele
ajuntou as águas e fez a terra aparecer.
b. O efeito ecológico: tal quantidade de água destruiria a maioria das plantas, e a mistura
de água salgada e doce seria desastrosa para os peixes.
Resposta: Não sabemos exatamente as condições ecológicas naquela época, se eram
iguais à nossa. Certamente existiam as leis físicas e biológicas, mas nós não devemos
pensar que as condições eram iguais, produzindo exatamente os mesmos fatores.

26
Isaac M. Kikawada e Arthur Quinn, Before Abraham Was (San Francisco: Ignatius Press, 1989), p.86.
Este quiasmo também atravessa a divisão entre seções do livro, as “gerações” (vd. p.16).
Gênesis, p.33

c. O mundo bíblico se limita ao Oriente Médio e a bacia do Mar Mediterrâneo (cf. Gn 10).
As civilizações da China, da Índia27, e dalém do nordeste da África28 são muito antigas.
Será mesmo que o dilúvio atingiu estas regiões que nem são mencionadas na Bíblia?
Resposta: Primeiro, em todos os continentes existem histórias de um grande dilúvio com
vários paralelos à história bíblica. Segundo, há muitas referências em Gn.6-9 a toda a
humanidade. Esta narrativa fala em termos universais de maneira repetida e variada,
tanto que é difícil evitar a interpretação universal (cf. 6.17; 7.4, 19, 21-23).
d. Evidência geológica: Uma catástrofe universal teria deixado suas marcas nas camadas
de fósseis, o que não fez. Além disso, existem lugares na terra sem nenhuma evidência de
dilúvio.
Resposta: Não é bem assim. Há muitas evidências de catástrofe nos fósseis, tais como
montões de fósseis de animais que morreram repentinamente. Mas, no final das contas,
não temos uma porcentagem tão grande de evidência, porque as rochas preservam só os
vestígios da vida antiga.
Conclusão: A Bíblia fala em termos universais. O dilúvio serve de exemplo do juízo final,
que é claramente universal. Portanto, mesmo que não possamos eliminar todas as
dificuldades, é melhor aceitar o que diz, esperando maiores informações, do que se
precipitar e abandonar a posição tradicional.
[PESQUISA: Fazer uma exposição de Gn 9.1-17 — a aliança com Noé.]
D. Nações (10-11)
1. Tabela das nações (cp.10): veja as identificações no Novo Dicionário da Bíblia. De maneira
resumida, …
a. Os descendentes de Jafé ocuparam as terras ao norte e oeste do Oriente Médio, as terras
vizinhas ao Mar Cáspio, Mar Negro, e Mar Mediterrâneo (as civilizações indo-arianas,
os gregos dóricos).
b. Os descendentes de Cão se espalharam por todo lugar, menos o norte. Eles ocuparam o
nordeste da África e as terras da civilização micênia e minoana (ligadas ao Egito), a
Arábia, a Palestina, e a Fenícia. Nestas últimas três, o povo usava uma língua semítica,
pelo menos no que resta da sua literatura. Ninrode deu início à civilização mesopo-
tâmica, construindo cidades tanto no sul (Babilônia) como no norte (Assíria). Talvez os
sumérios tenham sido camitas. Seu idioma é singular.
c. Os descendentes de Sem ocuparam as regiões desertas nas fronteiras da Mesopotâmia.
Em tempo eles infiltraram e dominaram a Mesopotâmia: os acadianos e amorreus nas
grandes cidades (babilônios no sul, assírios no nordeste), e arameus no noroeste. Há
uma genealogia linear em 11.10-25, que liga Sem com seu descendente Abraão.

2. A torre de Babel (11.1-9): O pecado aqui era a soberba, expressando-se em grandes obras
(“uma cidade”) e monumentos (“uma torre cujo cume toque nos céus”). 29 O local, Sinar, era
associado ao grande líder Ninrode (10.10), que parece ter tido um império na Mesopotâmia.
Este é o conceito pagão da imortalidade (“façamo-nos um nome”; cf. Gílgames, cf. 6.4 &
10.8-12; está em contraste com 4.26 “começaram a invocar o nome do SENHOR” e com a
promessa de Deus a Abraão em 12.2). Envolvia uma teimosia rebelde (“para que não sejamos
espalhados sobre a face de toda a terra”, quando Deus havia mandado encher a terra). “A
Babel (Babilônia), antítese do Reino de Deus, marca as páginas do texto sagrado não só ao
longo do Antigo Testamento, mas também do Novo Testamento (Is 47.1-15; 48.14,15; Jr 50 –
51; Dn 2, 4; Ap 17 – 18). A Babilônia simboliza todas as cidades e nações do mundo que
desafiam a Cidade de Deus e o domínio dele.” (MERRILL, p.227)

27
Mas cf. Et 1.1; 8.9.
28
As frotas de Salomão podem ter visitado toda a África oriental (cf. 1Rs 9.26-28; 10.22).
29
Mesmo assim, o SENHOR teve que descer “para ver a cidade e a torre” (11.5). Veja o comentário de Humberto
Cassuto, A Commentary on the Book of Genesis, trad. Israel Abrahams (Jerusalém: Magnes, 1964), pp.244-245,
citado em MERRILL, p.285, nota nº 10.
Gênesis, p.34

PANO DE FUNDO DE Cps. 12-38: CANAÃ


CRONOLOGIA
I. IDADE DA PEDRA (até 4300)
Jericó concorre com Jarmo na Mesopotâmia para ter a ocupação mais antiga, conforme os
arqueólogos. Neste período ocorreu a “revolução neolítica” (nova idade de pedra), que foi o
desenvolvimento de agricultura e a domesticação de animais para viver em comunidades
permanentes.

II. IDADE CALCOLÍTICA (4300 - 3300)


Houve desenvolvimento da metalurgia ao ponto de poder trabalhar com cobre, e outros
desenvolvimentos na cultura material.

III. IDADE DO BRONZE / PERÍODO CANANEU (3300 - 1200)


A. Bronze Precoce (3300 - 2100)
Desenvolvimento de cidades-estados, com muralhas.
B. Bronze Médio (2100 - 1550)
1. Bronze Médio I (2100 - 1900)
a. CARACTERÍSTICAS DO PERÍODO
1) Há pouca evidência de vida urbana: a vinda dos amorreus (Nm 13.29; Js 5.1; 10.6),
causa uma volta à vida nômade e retarda o desenvolvimento das cidades. Os
“cananeus” moravam nas cidades das planícies, enquanto os “amorreus” moravam
nas colinas (Nm 13.29).
2) A história de Sinuhe: Ele é um ministro egípcio que, quando o seu rei morre, foge
para Canaã e lá se estabelece como chefe entre os asiáticos primitivos. Anos depois
ele recebe a notícia que o novo faraó egípcio o receberá, e ele abandona tudo para
voltar ao Egito e ser sepultado ali.
3) Cultura cananeia indicada na história de Sinuhe
a) A sociedade era dividida em clãs ou tribos, com uma estrutura feudal, i.e.,
guerreiros e seus dependentes, liderados por um xeque (sheik – o patriarca).
Sendo guerreiros, cada tribo tinha um exército e fazia ataques contra outras
tribos, para ganhar despojos (cf. Gn 14; 35). Ao mesmo tempo, a hospitalidade
era de grande importância (cf. Gn 18). As armas incluíam arcos, facas,
machados, e lanças.
b) Embora muitos viviam em tendas, havia também cidades.
c) A comida incluía bebidas como leite, vinho e cerveja; carne de animais
selvagens e domesticados; cereais como trigo e cevada; frutas como figos, uvas
e azeitonas; e outros produtos naturais como mel de abelhas.
b. PERÍODO DOS PATRIARCAS (2091 - c.1805, ou 2100 – 1800; as datas são as do livro
Quadros Cronológicos do VT, por John H. Walton)
1) Chegada de Abraão em Canaã (Gn 12): 2091
2) Nascimento de Isaque (Gn 21): 2066
3) Ida de Jacó a Padã-Arã (Gn 28): 1929
4) Volta de Jacó para Canaã (Gn 31): 1909
2. Bronze Médio IIA (1900 - 1700)
a. CARACTERÍSTICAS DO PERÍODO
1) Influência egípcia em Canaã (“uma presença egípcia forte”). Ao mesmo tempo os
palestinos se mudaram ao delta do Egito em números cada vez maiores. Os hicsos
ganham controle do Egito (1730) e estabelecem um império (usando charretes),
dominando Canaã e além. Eles são estrangeiros, provavelmente semitas (amorreus
da Síria-Palestina). Asiáticos no delta do Rio Nilo se juntam a eles.
2) Quanto aos israelitas, é possível que os hicsos tenham sido os primeiros opressores.
Os hicsos não tinham uma população tão grande, e o raciocínio de Êx 1.8-10 faz
mais sentido com eles do que com os egípcios nativos, que tinham grandes
Gênesis, p.35

números, pelo menos em lugares próximos. Josefo fala de massacre e escravos ao


descrever os hicsos.
3) Em Canaã, são tempos de prosperidade e progresso:
a) Desenvolvimento de cidades (mais do que qualquer período anterior) e lado a
lado com isso um grande desenvolvimento na defesa das cidades (mais do que
em qualquer época antes ou depois). Pela primeira vez há casas com quintais.
b) Estratificação da sociedade em classes, evidência de bens materiais e objetos
de lazer (jogos). A cerâmica (vasílias de argila) chegou ao ápice, e pela primeira
vez temos evidência de vasílias de metal.
c) A religião agora tem templos, além dos “lugares altos”.
b. ESTADA NO EGITO (1876 - 1446)
Ida de Jacó para o Egito (Gn 45): 1876, no Reino Médio do Egito (antes dos hicsos).
3. Bronze Médio IIB-C (1700 - 1550)
a. CARACTERÍSTICAS DO PERÍODO
1) Período dos hicsos no Egito (1730 - 1580).
2) Os egípcios nativos expulsam os hicsos no final desse período.
3) A prosperidade e o progresso continuam em Canaã.
b. ESTADA NO EGITO (1876 - 1446)
A opressão continua e piora devido à antipatia aos semitas por causa dos hicsos.
C. Bronze Tardio (1550 - 1200)
1. Bronze Tardio I (1550 - 1400)
a. CARACTERÍSTICAS DO PERÍODO
1) Os egípcios realizam a sua maior expansão territorial sob a 18ª dinastia,
especialmente Tutmés III. O império egípcio se estende até o Rio Eufrates e há
relações diplomáticas com todos os reinos do Oriente Médio. Tutmés III começa a
prática de trazer príncipes palestinos ao Egito, como reféns e para “egipcioniza-los”.
Canaã chega a ser nada mais que o interior da capital, que é o Egito.
2) Em Canaã, a prosperidade está em declínio. Há guerras entre os reinos pequenos,
e a civilização de modo geral está corrupta.
3) Já com Amenotepe II, filho de Tutmés III, há menos interesse na Palestina (ele está
mais preocupado em parar os avanços do reino horeu de Mitanni). No fim do
período, a dominação do Egito diminui, o que permite o aumento de anarquia na
Palestina.
b. ESTADA NO EGITO (1876 - 1446)
Opressão continua (e provavelmente aumenta) quando os egípcios realizam campanhas na
Síria-Palestina: eles utilizam escravos para construções, inclusive “cidades celeiros” na
região leste do delta – provavelmente para equipar os exércitos em campanha.
c. ÊXODO (1446 - 1406)
1) Israel sai do Egito e vai para o Mt. Sinai (Êx 3-18): 1446
2) Estada em Sinai (Êx 18 – Nm 10): 1446 - 1445
3) Peregrinações (Nm 11-21): 1445 - 1407/6
4) Parada nos campos de Moabe (Nm 22 – Js 2): 1406
5) Conquista – as principais batalhas sob a liderança de Josué (Js 3-12): 1406 - 1399
2. Bronze Tardio IIA (1400 - 1300)
a. CARACTERÍSTICAS DO PERÍODO
1) Os egípcios demonstram pouco interesse no território cananeu, esp. o faraó
Akhnaton (cf. as placas de Amarna, da primeira metade deste século).
2) As cartas de Amarna demonstram bastante rivaldade e guerra entre as cidades de
Canaã. A questão de lealdade ao Egito é forte.
3) Os heteus sob Supiluliuma e Mursilis II expandem seu império, entrando na Síria e
acabando com o reino de Mitanni (dos horeus). O rei Nikmepa de Ugarite transfere
sua lealdade dos egípcios aos heteus (1336).
4) O efeito de tudo isso é um declínio na cultura canaeia (inferior à cultura do período
anterior, o Bronze Médio, e à cultura contemporânea da Síria).
Gênesis, p.36

b. CONQUISTA DA TERRA PROMETIDA (1406 - 1375)


1) Continuação da conquista pelas tribos individualmente, até a morte dos anciãos da
época de Josué.
2) Início da apostasia.
c. ÉPOCA DOS JUÍZES (1375 - 1050)
1) Opressão mesopotâmica (1385-1377) e libertação sob Otniel (1377-1337)
2) Opressão moabita (1337-1319) e libertação sob Eúde (1319-1239)
3. Bronze Tardio IIB (1300 - 1200)
a. CARACTERÍSTICAS DO PERÍODO
1) Seti I e seu filho Ramsés II voltam à política de expansão, invadindo a Síria-
Palestina, onde enfrentam o império heteu.
2) Batalha de Cades (1285): entre os impérios heteu e egípcio. O local fica entre
Damasco e Hamate. Ugarite é aliado dos heteus.
3) Firma-se uma aliança de paridade entre Ramsés II do Egito e Hatussilis III de Hátti
(1269). Os vestígios destes dois poderes permaneceram por muito tempo na região
(cf. 2Rs 7.6 – ca. 850 a.C.).
4) Os “povos do mar” (parentes dos filisteus) vêm no final do período, destruindo o
império heteu e várias cidades na costa da Fenícia (fim da ocupação de Ugarite).
Surgiu uma cultura neo-heteia nas cidades no norte da Síria.
b. PERÍODO DOS JUÍZES (1375 - 1050)
Opressão cananeia (1259-1239) e libertação sob Débora e Baraque (1239-1199)

IV. IDADE DO FERRO / PERÍODO ISRAELITA (1200 – 330): Já que os


seguintes períodos vem depois do fim do Pentateuco, daremos só
o resumo.
A. Ferro I / Israelita Precoce (1200 - 970): até Salomão
1. PERÍODO DOS JUÍZES (1375 - 1050)
a. Opressão midianita (1199-1192) e libertação sob Gideão (1192-1152)
b. Opressão amonita (1104-1086) e libertação sob Jefté (1086-1080)
c. Opressão filistia (1115-1075) e libertação sob Sansão e Samuel (1075-1050)
2. MONARQUIA UNIDA (1050 - 930)
B. Ferro II / Israelita Médio (970 - 580): até o exílio (Período do 1º templo)
1. MONARQUIA UNIDA (1050 - 930)
2. MONARQUIA DIVIDIDA (930 - 586)

INTERVALO: O EXÍLIO BABILÔNICO (586 - 539 a.C.)

V. PERÍODO PERSA (539 - 330 a.C. – Período do 2º templo)

VI. PERÍODO HELÊNICO (330 - 63 a.C. – Período do 2º templo, contdº)

VII. PERÍODO HELÊNICO-ROMANO (63 a.C. - 70 D.C. – Período do 2º


templo, contdº)

VIII. PERÍODO ROMANO (70 - 330 D.C. – dispersão dos judeus)


Gênesis, p.37

EXPOSIÇÃO (continuada)
II. HISTÓRIA PATRIARCAL (12-50)
A. Abraão (12-24)
1. Quatro passos-Chave na Vida de Abraão (etapas no desenvolvimento da aliança e da sua fé)
a. PRIMEIRO PASSO: o Chamado (Gn 12 – v.1 é citado por Estêvão em At 7.3, o qual
afirma que Deus chamou Abraão antes dele ir a Harã [v.2, cf. Gn 15.7]; v.3 por Pedro
em At 3.25 e por Paulo em Gl 3.8; v.7 por Paulo em Gl 3.16)
1) A iniciativa vem de Deus (o princípio de monergismo – vd. apêndice “Aliança
Abraâmica”). Não é que a responsabilidade humana é eliminada, mas que é
subordinada à palavra da promessa de Deus (cf. Gn 12.1-4 – “Sai...! Eu farei...”, e
então “partiu, pois, Abraão...”). Ao considerarmos o relato da criação e a história da
redenção, as coisas começam quando Deus fala.
2) Conteúdo da chamada:
a) Texto
1b Sai |da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai,
Sai |para a terra que te mostrarei;
2 de ti farei uma grande nação,
e te abençoarei,
e te engrandecerei o nome,
para que sejas uma bênção;
3 abençoarei os que te abençoarem,
e o que te desprezar, amaldiçoarei;
e [assim] serão benditas todas as famílias da terra.
b) Análise
(1) A ordem para sair da sua terra (i.e., Ur – cf. 15.7; Js 24.2-3; At 7.2-3) e da casa do
pai (12.1).
(2) A promessa:
(a) Uma descendência (12.2, 7 “semente/descendente” – cf. 3.16).
(b) Uma bênção (12.2-3 – cf. 1.28; 9.1-3). Abrão iria receber a benção de Deus
para então ser a benção de Deus para todas as nações da terra. A tradução “sê
tu uma benção” da ARA30 é literal, mas omite a conjunção que liga esta frase às
linhas anteriores. Temos aqui uma cadeia: Deus dá uma ordem a Abrão
(“Sai…”), e acrescenta uma promessa (“e farei… e abençõarei… e
engrandecerei…”), e termina com a consequência (“e sê [= e serás, ou para
que sejas’]…”; note o paralelismo com a última linha de v.3). Gn 20.7 exibe
uma construção semelhante – “restitui (a ordem) … e intercederá por ti (a
promessa), e viverás (a consequência)”. Neste caso, a ARA traduz o imperativo
‘e vive’ como consequência (cf. tb. 2Rs 5.10). O uso do imperativo torna a frase
mais vívida e enfática.
(c) Uma terra (implícita em v.1, mas explícita em v.7 e 13.14-17; cf. Hb 11.8-10,
13-16).
3) Estas promessas foram repetidas às gerações futuras (veja “Alianças Importantes”
na Bíblia de Estudo NVI e MGCI).
EXCURSO — Alguns detalhes na vida de Abraão:
Quanto aos dois casos em que Abraão mentiu, dizendo que Sara era sua irmã (no Egito
[cp.12] e entre os filisteus [cp.20]): Era meia verdade e mentira total. Um fator
interessante é que Sara, que tinha mais de 65 anos no Egito e 89 anos na terra dos
filisteus, despertou o interesse dos respectivos reis ao ponto de trazê-la para seus
respectivos haréns. Abraão tinha 75 anos quando saiu de Harã (12.4), 86 anos quando
Hagar deu à luz a Ismael (16.16), 99 anos quando foi circuncidado (17.24), e 100 anos
quando Isaque nasceu (21.5). Quando Deus disse que Sara teria o filho da promessa
(17.15-16), Abraão respondeu: “A um homem de cem anos há de nascer um filho? Dará

30
Somente a ACR concorda com ARA; todas as outras principais versões em português traduzem como
consequência — ARC, ACC, ACF, NVI e AS21 (revisão da ACR). Em inglês, somente a ASV tem o imperativo; a
KJV, RSV, NASV (revisão da ASV), NIV e ESV concordam com a ARC.
Gênesis, p.38

à luz Sara com seus noventa anos?”, indicando que ela tinha menos 10 anos de idade que
ele. É possível que Abraão esteja usando uma figura de linguagem aqui (paralelismo de
números para indicar que ela era mais jovem que ele, embora não tanto assim), mas já
que a sua própria idade é literal, por que não a dela?
[PESQUISA: Fazer uma exposição de Gn 12.10-20 — Abraão no Egito.]
Em cps.13-14, o PRIMEIRO CANDIDATO para herdeiro é removido: Ló. O texto bíblico
não diz explicitamente que ele era tal, mas isso era uma possibilidade. Em cp.19
encontramos o desastroso fim do caminho que Ló escolheu. 31 Ele serve de exemplo
assustador dos que amam o mundo. Achava que prosperaria, mas perdeu tudo, até a
própria honra (cf. 1Jo 2.15-17; cf. tb. Tg 3.13 – 4.10, esp. 4.4).
O encontro com Melquisedeque (Gn.14.17-20) é interessante pela sua brevidade, que nos
deixa curioso. A menção dele em Sl 110 aumenta isso. (Sl 76.1-2 identifica Salém com
Jerusalém e Sião.) Finalmente encontramos uma exposição em Hb 7, onde o autor faz
uma série de observações provocadas pela menção em Sl 110 e baseadas no texto de —
Gn 14. Mesmo assim, ele não traz nenhum novo fato sobre este rei-sacerdote.
[PESQUISA: Quais as relações entre Gn 14.18-20; Sl 110.4; e Hb 7? Como o autor de Hebreus utilizou as duas
passagens que mencionam Melquisedeque? Quais os elementos nos dois textos que ele aplicou a Cristo? Quais as
bases veterotestamentárias para a sua descrição de Cristo em Hb 7?] Um missionário, Don Richardson, escreveu
um livro chamado O Fator Melquisedeque, cuja tese é que Deus Se revela a pessoas fora da comunidade escolhida
(i.e., Israel ou a Igreja), e que os missionários transculturais podem explorar este conhecimento de Deus para
pregar o evangelho de Cristo.]
b. SEGUNDO PASSO: o Estabelecimento da Aliança Abraâmica (Gn 15 – v.5 é citado por
Paulo em Rm 4.18; v.6 é citado duas vezes por Paulo e uma vez por Tiago [vd. a
exposição da fé de Abraão, depois dos quatro passos-chave]; v.14 é citado por Estêvão
em At 7.7)
1) Repetição das promessas
a) Um filho (v.5): Abraão responde à declaração consoladora de Deus (v.1) per-
guntando o que lhe daria, já que continuava sem filho32 e seu herdeiro aparente
era o servo Eliezer de Damasco (vv.2-3). Mas este SEGUNDO CANDIDATO
para herdeiro é removido quando Deus afirma que o próprio Abrão geraria um
filho e teria uma grande descendência (vv.4-5). Abrão “creu no SENHOR, e isso
lhe foi imputado por justiça” (v.6).
b) A terra (v.7): Abrão pediu algum penhor (v.8), e Deus realizou a cerimônia da
aliança, em que Ele indicou os limites da terra.
2) A cerimônia: cf. Jr 34.17-20, veja “Aliança Abraâmica” nos apêndices. Nesta ocasião
Deus também revelou o futuro da descendência de Abrão.
3) O tipo de aliança: concessão real, conferida a um servo fiel e justo (veja a segunda
seção do gráfico “Alianças Importantes” na Bíblia de Estudo NVI e MGCI). O
merecimento de Abrão não era dele próprio, mas foi imputado quando creu na
promessa de Deus.
[PESQUISA: Fazer uma exposição de Gn 15 — Abraão crê na promessa deDeus, que faz aliança com ele.]
EXCURSO — Outro detalhe na vida de Abraão:
Cp.16: A cena com Hagar mostra a graça de Deus em chegar perto desta escrava. Ele não
tirou a responsabilidade dela à patroa, de servir e respeitar, mas Ele deu a ela uma
promessa. Cf. tb. 21.9-21.
c. TERCEIRO PASSO: a Confirmação da Aliança (Gn 17 – v.5 é citado por Paulo em —
Rm 4.17; 18.10 & 14 são citados em Rm 9.9; 18.18 em Gl 3.8; 21.10 em Gl 4.30; 21.12
em Rm 9.7 e Hb 11.18)
1) Deus começa fazendo um breve resumo do relacionamento pactual (vv.1-2).
2) Então Ele declara as estipulações da aliança (cf. vv.4, 9 na NVI, ACR, ACC, AS21;
veja a 2ª seção do gráfico “Alianças Importantes” na Bíblia de Estudo NVI e MGCI).

31
Mesmo na narrativa da separação de Abrão e Ló há indícios da insensatez da escolha do sobrinho (cf. Gn.13:10,
13 – MERRILL, p.227).
32
Em v.2, o termo que Abraão usa para dizer que continua sem filhos significa literalmente ‘despido’ e corresponde
à afirmação de Deus de ser escudo para o patriarca. O termo é usado somente aqui, mas vem de uma raiz que
significa ‘despir-se’ (cf. Sl 141.8 “não desnudes a minha alma” ACF).
Gênesis, p.39

a) Da parte de Deus (“Quanto a mim...” ou “De minha parte…” – vv.3-8)


(1) Uma grande descendência (e em vv.15-16, uma bênção sobre Sara). Deus muda os
nomes do casal, reforçando esta promessa.
(2) A relação pactual: “para ser o teu Deus, e da tua descendência”.
(3) A terra em “possessão perpétua”.
b) Da parte de Abraão (“Quanto a ti...” ou “De sua parte…” [cf. a – vv.9-14): o sinal
da aliança, a circuncisão.33
3) Deus conclui elaborando a promessa da descendência (vv.15-22).
a) Deus promete um filho, nascido de Sara (vv.15-16).
b) Abraão questiona a promessa (vv.17-18): nos seus pensamentos ele ri da ideia
(Sara tem a mesma reação em 18.12-15), mas nas suas palavras ele pede que
Ismael cumpra a promessa.
c) Deus confirma a Sua promessa (vv.19-22), removendo o TERCEIRO
CANDIDATO a herdeiro, Ismael.
(1) Sara haveria de ter um filho, cujo nome seria Isaque, e Deus firmaria a Sua aliança
com ele.
(2) Ismael também receberia a bênção de Deus, mas não herdaria a aliança.
4) Abraão então faz a sua parte, circuncidando todos os homens da casa (vv.23-27).
[PESQUISA: Fazer uma exposição de Gn 17 — A circuncisão, o sinal da aliança.]
EXCURSO — Ainda outro detalhe na vida de Abraão:
A conversa em que Abraão pede a Deus que poupe as cidades de Sodoma e Gomorra, caso
encontrar X pessoas justas nelas (18.22-33): Esta passagem apresenta de maneira linda
a paciência de Deus. Ele passa por seis etapas na conversa com Abraão, em cinco delas
Abraão está reduzindo a quantidade inicial, apresentando um número cada vez mais
precário de pessoas justas.34 Notamos a grande misericórdia de Deus no fato dEle estar
disposto a poupar as cidades inteiras por apenas dez pessoas e o fato de não encontrar
esse número tão pequeno mostra a terrível impiedade de Sodoma. A “violação da
hospitalidade e da decência foi tão clamorosa que, daquela época em diante, tornou-se
paradigma de desvio sexual, no sentido literal e no figurado (Dt 32.32; Is 3.8,9; Jr 23.14;
Ez 16.46-48; 2Pe 2.6; Jd 7; Ap 11.8).” (MERRILL, p.227)
d. ÚLTIMO PASSO: a Prova (Gn 22 – v.17 é citado em Hb 6.14; v.18 por Pedro em At 3.25
e por Paulo em Gl 3.8)
1) Para Abraão, Isaque era o ponto focal da aliança, a garantia do cumprimento das
promessas. Além disso, ele era muito amado e precioso. Deus não poupa nada ao
se referir a ele: “teu filho [Abraão tinha dois], teu único [cada um era o único da mãe],
a quem amas [Abraão amava ambos], Isaque”.35
2) Mas o cerne da aliança se encontra na relação pactual (“teu Deus, meu povo”).
Nesta prova Deus estava perguntando: “Você confia na garantia, ou no Garantidor?”
(cf. Dt 8.3; 2Co 4.18; cf. tb. Êx 33.1-3 & 12-17).36
3) Abraão havia crescido bastante na sua fé, e demonstrou plena confiança no SENHOR
(vv.8, 12; cf. Jo 8.56). Esta prova demonstrou sua fé (Tg 2.21-24). Fé em que? A
ênfase do capítulo responde esta pergunta: não é que Abraão se esforçasse, mas
que “Deus proverá”. A resposta dele à pergunta de Isaque ganha enorme significado
para nós que olhamos pela lente da revelação posterior: “Deus proverá para si o
cordeiro para o holocausto, meu filho” (v.8, cf. Is 53.7; Jo 1.29, 36; 1Pe 1.19; e 28X
no livro de Apocalipse; cf. tb. vv.13-14, Jo 8.56).

33
Na cultura do AT, em que a mulher não tinha posição independente, somente os homens receberam o sinal da
aliança. Porém no NT, não há “nem homem, nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gl 3.28). Por
isso, tanto homem como mulher recebem o sinal da nova aliança em Cristo, que é o batismo (Cl 2.11-12).
34
Nesta ocasião, Abraão estava agindo como profeta (20:7 – MERRILL, p.119).
35
Uma interpretação judaica deste trecho apresenta esta citação como um diálogo entre Deus e Abraão. No fim fica
absolutamente claro quem deve ser oferecido em holocausto. Mencionado em James L. Kugel, The Idea of Biblical
Poetry, Parallelism and Its History (New Haven: Yale, 1981), p.100.
36
Todos nós precisamos passar por esta prova com os nossos ídolos. O ídolo pode ser uma pessoa, um objeto, uma
atividade, ou uma atitude. Pode ser algo relacionado ao seu ministério, do modo que Isaque era relacionado à
aliança que Deus fez com Abraão. Quando descobrimos o ídolo, i.e., quando percebemos que a pessoa ou objeto, a
atividade ou atitude, se tornou tão precioso que não conseguimos funcionar sem ele, então é necessário coloca-lo no
altar e ofereê-lo a Deus em adoração irrestrita a Ele. “Nem só de pão viverá o homem, mas de tudo que procede da
boca de Deus.” (Dt 8.3; Mt 4.4 e Lc 4.4) Isso envolverá alguns dos mesmos sentimentos que Abraão certamente
teve nesta ocasião. Nossa obediência neste ponto será motivada pelo temor a Deus (Gn 22.12).
Gênesis, p.40

4) Deus repete a promessa novamente, esta vez com juramento (vv.15-18; cf. 12.1-3).
a) Bênção, eventualmente a todas as nações.
b) Descendência, o veículo da bênção universal.
5) Hebreus ressalta este juramento na sua exortação a perserverar na fé (Hb 6.9-20).
Abraão nos dá um exemplo a ser imitado (vv.11-12), porque “depois de esperar com
paciência, obteve … a promessa” (v.15). “Deus, quando quis mostrar mais
firmemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu propósito, se interpôs
com juramento”, dando-nos “duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus
minta” (vv.17-18). Diante de tão grande segurança, nós podemos nos refugiar nEle
com toda confiança, isto é, podemos enfrentar todas as aflições que nos vêm nesta
vida, perseverando firmes em Cristo até o fim, porque sabemos que não seremos
decepcionados. Gn 22, que nos relata a prova pela qual Abraão passou, mostra a
realidade das aflições.
[PESQUISA: Fazer uma exposição de Gn 22.1-19 — Deus prova a fé de Abraão.]
2. A Fé de Abraão: Três autores neotestamentários fazem menção da fé de Abraão: Paulo,
Hebreus, e Tiago. (Esta exposição depende em muitos aspectos de HAMILTON, pp.110-112)
a. Paulo (Rm 4 e Gl 3-4)
1) A justificação (Rm 4.1-15) não é obtida por meio de obras (vv.1-8), nem pela
circuncisão (vv.9-12; cf. o batismo), nem por guardar a lei (vv.13-15).
2) Se Abraão não conseguiu a justificação por meio destas coisas, então foi pela fé
(Rm 4.16; Paulo cita Gn 15.6 logo no início do capítulo). Em vv.17-21, Paulo elabora
o seu ensino sobre a fé, exortando-nos a exercer a fé de Abraão, que…
a) É teísta (“perante aquele no qual [ele] creu, o Deus…” – v.17).
(1) “...O Deus que vivifica os mortos – ressurreição.
(2) “...O Deus que chama à existência as coisas que não existem – criação.
b) É supra-racional (“esperando contra a esperança” – v.18)
(1) Não procura o ridículo, que seria irracional.
(2) Mas procura o impossível, que é supra-racional (cf. Lc 1.37).
c) Tem propósito (“para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito” –
v.18): alvejava a implementação da vontade de Deus.
d) É inteligente e realista (“sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu
próprio corpo amortecido” – v.19).
(1) Ele não tentou ignorar os fatos, mas os enfrentou.
(2) Ao mesmo tempo, ele não permitiu que os fatos o dominassem.
e) É inabalável (“não duvidou” – v.20): “Não foi Abraão que segurou a fé, mas a fé
que segurou Abraão” (cf. Ne 9.8 – “achaste o seu coração fiel perante ti”).
f) É bem fundamentada (“[não duvidou] da promessa de Deus” – v.20): Não é fé
em fé, nem fé em sentimentos, nem fé em palavras vãs, mas fé na promessa de
Deus.
g) É fortalecedora (“pela fé, se fortaleceu” – v.20).
h) É adoradora (“dando glória a Deus” – v.20).
i) Assegura (“estando plenamente convicto” – v.21).
b. Hebreus (6.9-20 e 11.8-22)
1) Pela fé Abraão obedeceu o chamado e saiu da sua terra, sem saber o destino (11.8)
– Gn 12.
2) Pela fé ele aceitou a promessa e peregrinava na terra, sem possuí-la (v.9) – Gn 12-
24.
3) Pela fé ele e Sara, mesmo de idade avançada, geraram um filho (v.11) – Gn 21.
4) Pela fé ele [foi aprovado por Deus quando] ofereceu Isaque como sacrifício,
confiante que Deus o ressuscitaria (v.17) – Gn 22.
Deus confirmou a promessa com um juramento. Abraão, por sua vez, esperou com
paciência e assim obteve as promessas (6.13-15; 11.11-12).
c. Tiago (2.21-24): Justificação por obras.
1) Obras como mérito de salvação? NÃO!
2) Obras como marca de salvação? SIM! (Cf. Ne 9.8 novamente.)
Conclusão: Nessas três exposições nós temos três perspectivas:
1) PAULO aponta para a fé de Abraão como ilustração da necessidade de fé para
tornar filho de Deus, para entrar no caminho dEle. Assim, ele focaliza na fé de
Abraão quanto aos problemas envolvidos com o nascimento de Isaque.
Gênesis, p.41

2) HEBREUS se refere à fé de Abraão como ilustração de fé perseverante na vida


diária do filho de Deus. Assim, ele focaliza, não em um evento, mas na vida inteira
de Abraão, desde a primeira ordem de Deus até a última.
3) TIAGO utiliza a fé de Abraão como ilustração da necessidade de obras como
evidência de fé na vida do filho de Deus. Assim, ele focaliza a suprema prova da fé
de Abraão.
3. Princípios para Descobrir a Vontade de Deus (cp.24 – v.7 é citado em Gl 3.16)
Introdução: Deve-se notar que Abraão e seu servo agiram, e agiram confiando e dependendo de Deus.
a. 1º Passo – o começo da viagem (vv.1-9): PLANOS
1) Formular os planos (vv.1-4).
2) Deixar lugar para mudança de plano (vv.5-8).
3) Comprometer-se com os planos (v.9).
b. 2º Passo – a encruzilhada em Harã (vv.10-27): DECISÕES
1) Efetuar os planos (vv.10-11): “A melhor maneira de realizar um plano é fazê-lo.”
Queremos “planejar o que faremos, e fazer o que planejamos”.
2) Procurar a vontade de Deus em termos específicos (vv.12-14): reivindicando as
promessas claras de Deus e pedindo algo específico (uma resposta a uma ação sua,
mas além do seu controle). Cautela: não devemos desprezar a suficiência das
Escrituras, insistindo em procurar novas revelações (sinais). Devemos agir com
sabedoria, i.e., a experiência ganha na prática dos princípios da Bíblia, e confiar na
direção de Deus. Isto é revelação geral e não uma nova revelação especial.
3) Esperar a resposta (vv.15-27): cumprindo os seus deveres, observando, e quando a
resposta chegar, agradecendo a Deus pela direção. Devemos notar que o servo não
tirou a conclusão baseado apenas no sinal que pediu. Quando Rebeca deu água
também aos camelos, o servo primeiro ficou observando, então deu a ela uma
recompensa pelo esforço e perguntou de quem era filha. Foi somente quando ele
descobriu que ela era parente de Abraão que ele concluiu que esta de fato era a
resposta à sua oração.
c. 3º Passo – o destino (vv.28-61): CONCLUSÃO
1) Persistir no propósito, sem desviar (vv.33-49). Não se sabe se o servo estava sendo
persistente no seu propósito, ou chato por recusar os costumes normais de hospita-
lidade. De qualquer forma, o princípio de persistência é importante.
2) Se Deus permitir, levar a cabo seus planos (vv.50-67).
[PESQUISA: Fazer uma exposição de Gn 24 — Uma esposa para Isaque.]
C. Isaque (25-26)
(25.23 é citado em Rm 9.11-12, e Pedro cita 26.4 em At 3.25) O nome Isaque (yits-ḥáq) vem de uma raiz
(tsa-ḥáq) que significa ‘rir, gracejar, caçoar, divertir-se’ (cf. Gn 17.17; 18.12, 13, 15; 19.14; 21.6, 9; 39.14,
17; Jz 16.25; Ez 23.32). Em um caso pode incluir a ideia de ‘acariciar’, algo próprio de uma relação mais
íntima entre marido e esposa (Gn.26:8; cf. Êx.32:6, onde o ambiente é das festas pagãs, as quais incluíam
prostituição). Das 15 ocorrências desta raiz, só duas estão fora do Pentateuco e nove têm a ver com Isaque.
Há outra raiz (sa-ḥáq), que é sinônima e aparece 51 vezes no restante da Bíblia hebraica, começando em —
Jz 16.25. É usada especialmente na literatura sapiencial (12X em Jó, 8X em Provérbios, 37 e 5X em
Eclesiastes) e Jeremias (7X no seu livro e mais duas em Lamentações).
1. Foi uma boa ilustração de Cristo como “descendente” e “filho” (HOFF, pp.62-64).
a. Era o filho da promessa cujo nascimento foi miraculoso (Gn 17.16; cf. Is 7.14; 9.6-7; —
Lc 1.31-35).
b. Foi chamado “único” e amado (“a quem amas”) de seu pai (Gn 22.2). O termo ‘único’
é yaḥid, que a LXX traduz por agapētós ‘amado’, que ocorre no batismo de Jesus ——
(Mt 3.17; Mc 1.11; Lc 3.22), na Sua transfiguração (Mt 17.5; Mc 9.7; 2Pe 1.17) e na
parábola dos maus lavradores (Mc 12.6; Lc 20.13). Em Jz 11.34, falando da única filha
de Jefté, a forma feminina yeḥidáh é traduzida pela LXX por monogenēs, que João usa
várias vezes para se referir a Cristo (Jo 1.14, 18; 3.16, 18; 1Jo 4.9).
c. Foi apresentado por seu pai como sacrifício (Gn 22; cf. Jo 3.16; Rm 8.32, 34; cf. tb. —
Jo 8.56).

37
Em 1.26 (|| zombar), 8.30-31 (= regozijo), 26.19 (= brincadeira), 29.9 (x raiva), e 31.25 (= sem preocupações).
Gênesis, p.42

d. Foi um filho obediente e submisso (Gn 22; cf. Hb 5.8; Fp 2.5, 8).
e. Foi ressuscitado em sentido figurado (Gn 22; cf. Hb 11.19).
f. Foi feito herdeiro de tudo o que o seu pai possuía (Gn 25.5; Hb 1.2).
2. Isaque e Rebeca eram opostos que se atraíram:
a. Ele foi fiel à esposa, “ele a amou” (24.67) e nunca tomou outra, mesmo durante a
esterilidade inicial de Rebeca (Elcana, marido de Ana, teve outra esposa, talvez por esta
razão – 1Sm 1). Quando mentiu dizendo que era irmã, ele foi pego por causa da sua
afetividade — “Abimeleque, rei dos filisteus, olhando da janela, viu que Isaque
acariciava a Rebeca, sua mulher” (Gn 26.8).
b. Há talvez uma indicação do índole de Isaque e o de Rebeca em cp.24, onde Abraão
providenciou esposa para seu filho. Isaque é totalmente passivo nesta história, mas
Rebeca não somente toma grande iniciativa em trazer água para os camelos como
também se aventura em sair logo com alguém que não conhecia. Enquanto Isaque faz
contraste com Abraão, Rebeca se mostra semelhante a seu sogro. Quando Esaú e Jacó
chegaram à idade de casar, Isaque não procurou esposas para eles, contrário à prática
da época, e ao que Abraão havia feito com grande esforço por ele. Além da sua
passividade, Isaque preferiu Esaú por razões egoístas e carnais. Rebeca, por sua vez,
amava mais a Jacó e se esforçou para garantir-lhe a bênção, só que de maneira
enganosa e manipulativa.
D. Jacó (27-36)
1. Enganador, suplantador: O seu nome (ya‘aqôv) é da mesma raiz que ‘calcanhar’ (‘êqev).
a. “O complô de Isaque para entregar a bênção a Esaú e a contra-artimanha de Rebeca e
Jacó põem em relevo a carnalidade da família toda. Cegado pelos impulsos carnais e
pela parcialidade Isaque estava disposto a dar a Esaú o que ele sabia não pertencer ao
filho mais velho, segundo a profecia (25.23). Esaú, por sua vez, estava disposto a
receber o que havia vendido por um prato de lentilhas. Rebeca e Jacó não estavam
dispostos a deixar a situação nas mãos de Deus, nem a confiar que Ele fosse capaz de
cumprir a promessa, mas quiseram contribuir com seus métodos carnais para a solução
do problema. [Merece notar que Jacó exigiu um preço ridículo pelo pote de lentilhas e
que, quando Rebeca falou do plano para enganar o pai, ele não se preocupou com o que
era correto, em contraste com seu filho José (39.8-9), mas em ser descoberto e amaldi-
çoado.] Como resultado, todos sofreram. Ao compreender que Deus havia prevalecido
sobre seus planos, Isaque se estremeceu. [A sua família, dividida em espírito, foi sepa-
rada fisicamente.] Esaú desiludiu-se e se amargurou contra Jacó. Devido às ameaças
formuladas por Esaú, Jacó teve de imediatamente abandonar o lar que ele tanto amava
[e a bênção que ele alvejava] e dirigir-se a uma terra estranha. Aqui sofreu muito sob a
mão corretora do Senhor. Rebeca, por sua vez, teve de despedir-se do filho amado para
não mais vê-lo: morreu antes que ele voltasse.” (HOFF, p.71, com ênfase e acréscimos
do professor)
b. HAMILTON traça o desenvolvimento do caráter de Jacó através de quatro etapas (cp.4,
pp.121-135):
1) Necessidade de transformação (25.19 – 28.9)
2) Preparação para a transformação (28.10 – 32.21)
3) Transformação (32.22-32)
4) Consequências da transformação (33.1 – 36.40)
2. As bênçãos em cps.27 e 28 (cf. HOFF, p.72)
a. A bênção de Isaque sobre Jacó, mas tencionada para Esaú (27.27-29): visava a parte
material, que Esaú queria (abundância material, senhorio sobre irmãos), mas não
repetiu as promessas da aliança.
b. A bênção de Isaque sobre Esaú (27.39-40): trata principalmente dos descendentes
(subjugação e subsequente livramento).
c. A bênção de Isaque sobre Jacó na despedida (28.3-4): aqui finalmente encontramos as
promessas ligadas à aliança abraâmica (descendência e bênção, a terra).
Gênesis, p.43

d. A bênção do SENHOR sobre Jacó no sonho em Betel (28.10-22): Deus toma a iniciativa
com Jacó para reafirmar as promessas da aliança abraâmica a ele. Depois de se
identificar, Ele promete a terra, uma descendência grande e, por meio de Jacó, trazer
bênção para todas as famílias da terra (vv.13-14). Então Ele promete ser com Jacó e
trazê-lo de volta à terra prometida (v.15). De manhã, quando Jacó se levantou, ele fez
um voto de compromisso com o SENHOR em resposta às promessas: “Se Deus for
comigo…, então, o SENHOR será o meu Deus…” (vv.20-22).38
[PESQUISA: Fazer uma exposição de Gn 27.1 – 28.5 — Intrigas para ganhar a bênção; fazer uma exposição de
Gn 28.10-22 — Deus se revela a Jacó na visão da escada.]
3. Quando Jacó chegou no Padã-Arã (território arameu) era a vez dele de ser enganado.
“Se a providência de Deus agiu na teofania em Betel, mais uma vez, em meio ao caos [do
engano envolvendo Lia], ‘Deus age de modo misterioso, para Suas maravilhas realizar’. O
terceiro e quarto filhos de Léia foram Levi e Judá respectivamente (29.34-35). De Levi veio a
linhagem dos sacerdotes. De Judá veio a linhagem dos reis e, no devido tempo, Jesus. Duas
das mais importantes instituições veterotestamentárias tiveram sua origem em um casamento
indesejado, provocado por um ato de má fé! Como comenta Gerhard von Rad: ‘a obra de Deus
mergulhou nas profundezas da mundanidade e escondeu-se para não ser reconhecida’.”
(HAMILTON, p.127)
4. Os doze filhos de Jacó: Considerando os nomes que as duas irmãs deram aos seus filhos,
parece que Lia teve uma sensibilidade espiritual e uma atitude mais bondosa, enquanto
Raquel se mostra um tanto vingativa. As duas agiram como rivais, Lia tentando ganhar o
amor de Jacó e Raquel tentando ganhar filhos. Os nomes eram significativos (de Lia, de
Raquel, pelas servas): Rubem (“olha, um filho”), Simeão (provavelmente “o que ouve”),
Levi (da mesma raiz que “unir”), Judá (da mesma raiz que “louvar”); Dã (“julgou”, “juiz”) e
Naftali (“minha luta”); Gade (“boa sorte” – ARA, ACR, ACC, ACF, NVI [Alfalit], Almeida
Século 21; ou “tropa” – ARC, NVInota) e Aser (“bem-aventurança”); Issacar (provavelmente
“há recompensa”) e Zebulom (“honra” – “desta vez o meu marido me tratará com honras” –
ACC); José (“acrescente”) e Benjamin (“filho da destra”, Ben-oni = “filho da minha
tristeza”).
Quanto ao caráter dos filhos, notamos que os dois filhos de Raquel não recebem nenhuma
reprovação no texto bíblico.39 José, apesar de sofrer muita oposição e injustiça, perseverou na
fé e prosperou por onde ele andou. Benjamin era muito novo e sua parte na história é mais
passiva. Os filhos de Lia, porém, não saíram tão bem. Rubem violou a cama do pai e se des-
qualificou da primogenitura. Simeão e Levi massacraram os homens de Siquém por causa da
violação da sua irmã Diná. Além disso, merece notar que foi Simeão que José escolheu para
manter preso no Egito quando os irmãos voltaram para casa encarregados de trazer Benjamin.
Judá se separou da família e caiu na tolice quando teve relações com a prostituta sagrada, que
realmente era a sua nora. Ele, porém, cresce no decorrer do tempo. Foi reconhecido por
todos como líder e se ofereceu no lugar de Benjamin quando José armou a cilada para testa-
los. Quanto aos filhos das servas, eles agiram mal quando estavam cuidando das ovelhas e
José trouxe más notícias deles ao pai. Todos os irmãos, menos Benjamin, participaram da
injustiça contra José e do engano do pai.
5. Os terafins (cp.31): Nas inscrições de Nuzu/Nuzi descobrimos que essas imagens eram
legados pelo patriarca ao descendente que seria o próximo líder da familia. É possível que
Raquel estivesse tentando tomar para si algo que legalmente pertencia ao herdeiro principal
de seu pai. De qualquer forma, ela estava levando objetos ligados com a idolatria da época,
talvez para adivinhação.40 Ela provavelmente estava mentindo quando disse que estava “com
o incômodo (lit. caminho) das mulheres” (ACR, ACC – i.e., menstruando).
6. A transformação de Jacó (cp.32)
a. Ele ainda está maquinando.
1) Enviando embaixadores a Esaú (vv.3-5).
38
Um detalhe interessante é o que Jacó esperava de Deus. Além de guarda-lo nesta viagem e trazê-lo de volta para a
casa dos pais, ele buscava pão para comer e roupa para se vestir, as duas coisas referidas por Jesus em Mt 6.25-34
quando disse: Buscai primeiro o reino de Deus e Sua justiça.
39
Mas com seus descendentes é outra história!
40
Veja o artigo nº 2545 ‫ ְּת ָרפִ ים‬em DITAT.
Gênesis, p.44

2) A divisão da família em grupos para evitar aniquilação total (vv.6-8).


3) Sua oração um tanto desesperada, mas ao mesmo tempo exemplar (vv.9-12).
HOFF observa que a forma é boa, mas erra quanto ao propósito (p.77). HAMILTON
observa uma falta de arrependimento, reconhecendo as bênçãos de Deus, mas
ainda não deixando de astuciar (p.129).
4) A tentativa de apaziguar a Esaú (vv.13-21).
b. Mas Deus intervém, e luta com ele.
1) De início, Jacó luta (ou talvez melhor dizendo, reluta).
2) Então o Anjo toca a sua coxa, deixando-o aleijado – agora Jacó está indefeso.
3) Há uma mudança na atitude de Jacó:
a) Agora ele agarra o Anjo desesperadamente.
b) Agora ele não se interessa em livramento de Esaú; ao contrário, seu único
propósito é a bênção de Deus.
4) Há também uma mudança no caráter de Jacó:
a) Agora seu nome será Israel (confirmado quando finalmente ele volta para Betel):
o que luta com Deus.
(1) Não é mais o enganador que luta astutamente com os homens. Agora é o que luta em
fé com Deus – o Deus da aliança – e assim ganha a vitória genuína.
(2) Ele havia recebido a benção de Isaque por meio da sua astúcia. Agora ele viu uma
benção superior, e se agarrou nela.
b) Agora também levou a marca dessa luta – um lembrete.
[PESQUISA: Fazer uma exposição de Gn 32 — Jacó volta à terra prometida.]
7. Sumário: a importância de Jacó (cf. HOFF, p.79; et. al.)
a. Jacó exemplifica a graça soberana de Deus: ele não era o primogênito, e tinha graves
falhas, mas Deus o escolheu, guiou, e abençoou. Jacó mostra a misericórdia de Deus,
que usa os homens, tais quais eles são, para os Seus propósitos.
1) Eventos na vida de Jacó que mostram isso:
a) Sua eleição antes mesmo de nascer (a profecia em 25.23; cf. tb. Rm 9.10-16).
b) A visão em Betel (28.12-22), que demonstra…
(1) A compaixão de Deus, a Sua presença quando Jacó havia perdido a sua família e
todos os seus amigos.
(2) O propósito de Deus na aliança (as três promessas). Jacó respondeu no afirmativo –
se Deus havia de fazer tudo que prometera, “não lhe restava nada senão adora-lo”.
c) A bênção e proteção, e a revelação da promessa em Padã-Arã (cps.30-31).
d) A transformação – Deus chegou até a lutar com ele (cp.32).
e) O reforço (cp.35).
f) A direção em ir para o Egito (cp.46).
2) A graça soberana de Deus não isentou Jacó da sua responsabilidade.
a) A justiça de Deus se vê na lei da semeadura e colheita:
(1) O enganador foi enganado por seu sogro (29.23; 31.38-42) e depois pelos próprios
filhos (37.31-32).
(2) A sua passividade como pai da família abriu espaço para grandes abusos da parte dos
filhos (cp.34; 35.22; 37.35; cf. cp.38).
(3) O favoritismo que mostrou a José contribuiu para a perda dele (37.3-4, cf. vv.33-35).
b) Mas o poder de Deus e a grandeza do plano messiânico sobressaíram: Deus
superou as falhas, intrigas e crueldades da família de Jacó para formar a nação
e preservar a linhagem.
b. Quanto a Jacó, o relato de Gênesis deixa claro que ele teve fé, mostrando que o meio de
ganhar vitória, mesmo sendo fraco e incapaz, é lançar-se nas mãos do Deus da aliança.
Cf. a seguinte observação de Thomas Willson:
1) “Esaú saiu perito caçador, homem do campo; Jacó, porém, homem pacato, habitava
em tendas.” (Gn 25.27) Embora entendida geralmente como indicação de fraqueza
da parte de Jacó, a declaração de ele habitar em tendas quer dizer que ele assumia
as responsabilidades do lar (cf. 30.29-30), enquanto Esaú corria atrás da caça.
2) Além disso, ele buscava as promessas, cujo alvo eram coisas que duram para
sempre. Jacó dava grande valor ao que tinha futuro – em contraste com Esaú, o que
fica claro no episódio das lentilhas (Gn 25.29-34; cf. Hb 12.16-17, esp. no contexto
de vv.18-29).
Gênesis, p.45

E. José (37-50)
1. Etapas na sua vida
a. Jovem: o período como favorito do pai (cp.37)
1) Demonstra espiritulidade, idealismo, responsabilidade
‘bonzinho’
2) Demonstra certa ingenuidade
b. Cativo: o período de sofrimento injusto (cps.39-40)41
1) Demonstra alta moralidade e simpatia
bem-sucedido
2) Demonstra integridade e capacidade
c. Primeiro ministro do Egito: o período de exaltação (cps.41-50)
1) Espiritualidade: justiça e perdão – discernia a perspectiva divina
“idealista prático”
2) Grande capacidade e astúcia
[PESQUISA: Fazer uma exposição de Gn 37 — os sonhos de José; fazer uma exposição de Gn 39 — José na casa
de Potifar.]
2. Lições da sua vida (cf. HOFF, p.95; GUSSO, pp.3-7)
a. A importância de manter a pureza pessoal: apesar de motivos e tentações fortes, ele se
manteve puro. José tinha toda ‘razão’ para abandonar toda a sua moralidade no
desespero das suas circunstâncias como escravo. Se tivesse feito isso, teria perdido o
vigor moral para chegar à posição de primeiro ministro. Note o grande contraste entre
José (cp.39) e Judá o ancestral de Cristo (cp.38). Uma barreira contra a tentação é a
consciência da benção de Deus e de nossa responsabilidade a Ele (39.8-9).
b. O papel da providência de Deus.
1) “E como José supera as tentações [a sentir ira, amargura, ressentimento, cinicismo e
auto-comiseração]? Ele sempre relacionou todas as suas experiências de vida, quer
boas quer más, ao plano soberano de Deus para sua vida. ‘...Não fostes vós que me
enviastes para cá, senão Deus’ (45.5-8). Ou, em outra parte: ‘Vós bem intentastes
mal contra mim, porém Deus o tornou em bem’ (50.20).” (HAMILTON, p.143) O
antídoto da amargura é olhar além das más intenções dos outros para a boa
intenção de Deus.
2) “A sabedoria de Deus … é maior que a sabedoria de qualquer um dos nossos
adversários, sejam pessoas humanas [como na experiência de José] ou o próprio
Diabo [na experiência de Jó]. Portanto, não devemos temer o que tentam fazer, ou
até mesmo conseguem fazer a nós. Deus está operando tanto nessas ‘coisas’,
quanto nas adversidades de doença, morte, reversão financeira, e os estragos da
natureza.” (BRIDGES, p.131)
c. O princípio “por meio da cruz, obter a coroa”: “Foi perseguido pelos irmãos, caluniado
pela mulher do Potifar, e esquecido pelo copeiro.” (HOFF, p.95)
1) Ele tinha 17 anos de idade no início da sua história em Gênesis (37.2) e 30 anos
quando entrou no serviço de Faraó (41.46), o que indica que sofreu mais de dez
anos. É difícil entendermos o que Deus está fazendo. Quando as coisas vão mal,
queremos que a dificuldade termine e quando há demora, ficamos impacientes.
a) “As circunstâncias difíceis de José não foram necessárias apenas para que
estivesse no lugar certo no tempo certo. Foram necessárias para fazê-lo o tipo
de pessoa certo para as responsabilidades que Deus o daria.” (BRIDGES, p.187)
Você pode perceber como as suas circunstâncias estão moldando-o para a obra
de Deus? Em vez de tentar sair de circunstâncias difíceis, tente aproveitar-se
delas. O fator tempo não deve ser desprezado. O que José chegou a ser não
foi possível em menos tempo. Ele precisava passar todos aqueles anos como
escravo e preso para estar pronto para ser primeiro ministro. O obreiro recem-
formado refletido não vai achar que ele ou ela não precisa ou não deve esperar
menos para receber as suas recompensas.
b) “José passou dois anos na prisão porque o copeiro se esqueceu da promessa de
dar uma palavrinha por José ao Faraó, mas quando Faraó teve um sonho que
nenhum dos sábios podia explicar, o copeiro se lembrou de José. … Se o
copeiro tivesse lembrado imediatamente, José pode ter sido liberto, mas nunca
teria se tornado o homem de Deus no Egito para salvar a sua família durante a
fome.” (FLYNN, p.42) Neste caso, Deus estava operando em várias vidas ao

41
“Diante destas situações a reação natural tende a ser a de revolta, mas deve ser a de paciência.” (GUSSO, p.5)
Gênesis, p.46

mesmo tempo. Aqueles dois anos serviram de preparação, não somente para
José, mas também para Faraó e seu copeiro, para os irmãos de José, e quem
sabe quais outros. Você está preparado para ser colocado de molho enquanto
Deus trabalha na vida dos outros ao redor?
2) Se Isaque foi ilustração passiva de Cristo (esp. Gn 22), José era ilustração ativa de
Cristo:
a) Era o filho amado pelo pai, mas odiado pelos irmãos (cf. Jo 1.11).
b) Era um servo de Deus que cumpriria um grande propósito: a salvação (cf. ——
Gn 50.20; Mt 1.21; Jo 3.17).
c) Foi maltratado e vendido como escravo (cf. Gn 37.23, 24, 28; cf. tb. Mt 26.14-16;
27.27-31).
d) Foi assim tratado, apesar de ser inocente (cf. Is 53.9b; 1Pe 2.21-25).
e) O seu sofrimento foi instrumental na salvação dos outros (cf. Is 53.4-6).
f) Era um servo fiel e abençoado por Deus (cf. Is 42.1-4). José mostrou-se
completamente digno de confiança (cf. Tt 2.10). Na sua mão, a casa do seu
mestre prosperou (39.2-6) e da mesma forma, a vontade do SENHOR prosperou
na mão do Seu Servo (Is 53.10).
g) Foi exaltado à posição mais alta possível, sob a autoridade do rei (cf. Fp 2.5-11;
1Co 15.27-28).
h) Na sua posição exaltada ele agiu por parte do rei (cf. Cl 1.15-20 – “por meio
dele”).
i) Ele trouxe os seus irmãos de uma terra faminta para uma terra fértil.
d. A busca de prosperidade nos negócios: não é garantida, mas é alvo digno e de esperar se
somos diligentes (cf. Provérbios, a parábola dos talentos; cf. tb. 2Co 9.6-11; Tg 3.13 –
4.10, esp. 4.1-3).
e. A importância de cuidar dos pais: cf. o quinto mandamento (e Ef 6.1-3; Mc 7.6-13).
[PESQUISA: 1–Analise o procedimento de José em Gn 39-40. Em Gn 42-45. 2–Faça uma comparação entre o
procedimento de Judá em Gn 38 e de José em Gn 39. 3–Traça o desenvolvimento do caráter de Judá no Livro de
Gênesis.]
3. A mudança para o Egito (Deus aprovou – 46.3-4)
a. Protegeu a nação de Israel contra a influência corrupta dos cananeus, tanto moralmente
quanto politica e militarmente.
b. A nação era protegida dos egípcios, que detestavam asiáticos.
c. Protegeu a família de Jacó, e a nação em outras épocas de seca, contra a fome.
EXCURSO — Algumas notas explanatórias:
 37.5-11; cp.40; e 41.1-40. Deus utilizou vários sonhos na vida de José (três duplas: dele mesmo, dos
dois oficiais, e do faraó). Este era um dos meios que Deus usou na época da Bíblia, e temos muitos
exemplos no AT e no NT. Será que Deus se comunica por meio de sonhos ainda hoje, enviando
mensagens a nós como fazia na Bíblia? Bem, não iremos pôr limites na atividade de Deus. Ele pode
fazer como lhe apraz. “É importante observar, porém, que a Bíblia não contém nenhum manual para
interpretação de sonhos. Não existe nenhum código mágico que possamos seguir. Se Deus se
comunicar por um sonho, somente Deus pode dar a interpretação (Gn 40.8).” (NIV Archaeological
Study Bible, p.741) Em vista disso, não é recomendável buscar interpretações para os sonhos. Se
Deus, por algum motivo, se revelar assim, Ele que se encarregue de esclarecer o recipiente da
mensagem.
 cp.38 – Judá se afastou da sua família. A situação lá não era tão boa, mas a cultura dos cananeus era
pior ainda. A morte dos dois filhos serviria de alerta para Judá, impedindo-o de adotar os costumes
do povo onde morava. Quanto à união entre Tamar e seu sogro para produzir um herdeiro, isso não
era algo desconhecido no antigo Oriente Médio. “A lei hitita estipulava que, se o irmão de um
falecido também morresse e assim não poder cumprir o seu dever à viúva, ela deveria casar o pai do
seu marido falecido.” (NIV Archaeological Study Bible, p.64) Judá, porém, não seguiu a prática.
Embora ele tenha reconhecido o seu erro em não cumprir a sua palavra, e aceitou os filhos como
seus próprios, ele não teve mais relações com a nora.
 39.7-20 – Um comentarista faz a seguinte observação interessante:
“Esta história acerca de José inverte o enredo bem conhecido nas narrativas dos
patriarcas. [1º] Enquanto que antes era a esposa formosa (12.11; 26.7) do
patriarca que foi procurada pelo governante estrangeiro, agora era José, o
próprio patriarca formoso que foi procurado pela esposa do governante
estrangeiro. [2º] Nas narrativas anteriores não foi o patriarca que resgatou a
Gênesis, p.47

esposa, mas sim, o Senhor (12.17; 20.3) ou a pureza moral do governante


estrangeiro (26.10), mas aqui foi a coragem moral do próprio José que salvou o
dia. [3º] Naquelas narrativas o foco estava na fidelidade de Deus em cumprir as
promessas ligadas à Sua aliança, mas na história de José a atençao vira para a
resposta humana. (¶) Repetidas vezes Abraão, Isaque e Jacó ficaram aquém das
expectativas de Deus, se bem que continuaram a ter fé em Deus. José, porém, é
um exemplo marcante de alguém que sempre responde em total confiança e
obediência à vontade de Deus”.42
 39.9 – “Ninguém há maior do que eu nesta casa” (Targum, LXX, ARC, ACF, ACC, AS21, KJV,
NASV, NIV), mas “Ele não é maior do que eu nesta casa” (ARA, ACR, ASV, RSV, ESV). A palavra
em questão é ‫( אֵ ֶ֫ינּנּו‬lit. não há ele), que a primeira interpretação entende como impessoal (não há
ninguém), dando um sentido natural dentro do contexto. A segunda interpretação entende o
pronome como se referindo a Potifar, que é o sujeito das frases antes e depois desta, assim dando um
sentido muito enfático: dentro do contexto da casa de seu mestre, José exercia autoridade igual a ele.
 39.12 – “…Mas ele deixou a sua capa nas mãos dela e fugiu”: quem é homem de verdade não vira as
costas para fugir … a não ser que seja a coisa apropriada diante da situação (cf. 2Tm 2.22).
 39.19-20 – Potifar lançou José no cárcere, em vez de simplesmente executa-lo. É provável que ele
fosse o mesmo “comandante da guarda” que era responsável pelo cárcere [40.4; cf. 39.1 & esp.
41.10 – responsável pelo cárcere e v.12 – mestre de José]. Potifar certamente não queria perder o
serviço de José, pelo qual ele estava prosperando [39.5]. Colocando-o no cárcere, ele estava
punindo José, afastando-o da esposa adúltera, e mantendo-o perto de si, tudo ao mesmo tempo.
 41.51 – José deu o nome Manassés ao seu primogênito, dizendo: “Deus me fez esquecer de todos os
meus trabalhos [dificuldades] e de toda a casa de meu pai”. Por que a casa do pai? José agora viu
que nunca mais seria restaurado à casa do pai, assumindo o lugar do primogênito que Jacó
imaginava. Deus tinha planos maiores para ele: primeiro ministro.
 Cps.42-44 – A reconciliação entre José e seus irmãos:
 Levou tempo (mais de dez anos desde que José foi vendido e provavelmente um ano pelo menos
entre as duas viagens ao Egito), tempo para madurecer: a consciência dos irmãos pesou ao ponto
do arrependimento (42.21-23, 38). José foi liberto do seu sofrimento, mas eles não tiveram
nenhum alívio da sua culpa. Rúben recuou como líder (42.22-23, 37) e Judá assumiu este papel
(43.8-10; 44.14-34).
 Era necessário tratar do pecado dos irmãos por meio da disciplina:
 A prova de humildade: José falou asperamente a seus irmãos e os encarcerou (42.7-19).
 A prova de honestidade: José exigiu que trouxessem Benjamin na próxima vez (42.20).
 A prova de lealdade: José prendeu Simeão como refém (42.24) e enlaçou Benjamin na
cilada (44.11-13).
 A prova de amor: José deu cinco vezes a Benjamin do que deu aos outros (43.34).
 42.24, 27 – Deus atua em nossas vidas para nos levar ao arrependimento genuíno. Ele pode nos
fazer sofrer uma injustiça que em outra ocasião nós mesmos cometemos (cf. Simeão em v.24: é
possível que ele tenha sido o pior contra José), ou Ele pode conceder uma benção inesperada que
não mereçemos (42.27 & 44.1).
 44.18-34 – A intercessão de Judá a favor de Benjamin. Aquele que sugeriu a ideia de vender o
irmão como escravo agora está se oferecendo como escravo para poupar o irmão. É uma bela
ilustração do seu Descendente, que a Si mesmo Se ofereceu para redimir o pecador.
 45.27-28 – Note a mudança de nome de Jacó para Israel. Este é o que expressa a sua fé em v.28.
 47.21 – “E, quanto ao povo, fê-lo passar às cidades…” (ARC), “Quanto ao povo, ele o
escravizou…” (ARA). A diferença é pouca: a parte sublinhada é he‘ebir ’otô le‘arím no TM, que a
ARC segue rigorosamente, enquanto a ARA segue o Pentateuco Samaritano e a LXX, que têm um
texto quase igual, mas que faz melhor sentido no contexto – he‘ebir ’otô la‘ abadím.
 47.31 – “…Israel se inclinou sobre a cabeceira da cama” (ARC, ARA, ACR, ACC, ACF), “…Jacó,
… apoiado sobre a extremidade do seu bordão, adorou” (citação em Hb.11:21 na ARC, ARA, etc.).
As versões seguem o TM em Gênesis (vayishtáhu yisra’êl ‘al-rô’sh hammittáh), mas a Epístola aos
Hebreus segue a LXX (… hammattéh). A NVI segue a LXX em ambos.
 49.10 – “O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus pés, até que venha Siló; e a ele
obedecerão os povos.” Esta é uma promessa 1) de que a realeza pertencia a Judá e 2) da vinda do
Messias. A frase “até que venha Siló” é obscuro, mas a tradução da ACR provavelmente está certa:
“até que venha aquele a quem pertence” (Siló = shé-lô = ‘que [é] dele’).
 49.19 – “Gade, uma guerrilha o acometerá; mas ele a acometerá por sua retaguarda.” A tradução
reflete em parte a repetição de sons: Gad gedud yegudénnu // vehu’ yagud ‘aqêb.

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John H. Sailhamer, comentário sobre Gênesis no Expositor’s Bible Commentary, Abridged Edition: Old
Testament (Grand Rapids: Zondervan, 1994), pp.48-49.
Gênesis, p.48

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