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ORGANIZADORES

Daniel Araújo Valença | Enzo Bello


Martonio Mont'Alverne Barreto Lima | Sérgio Augustin

DIREITO E
MARXISMO
Tempos de regresso e a contribuição Marxiana para a Teoria Constitucional e Política
www.lumenjuris.com.br

Editor
João Luiz da Silva Almeida

Conselho Editorial

Abel Fernandes Gomes Gina Vidal Marcilio Pompeu Luigi Bonizzato


Adriano Pilatti Gisele Cittadino Luis Carlos Alcoforado
Alexandre Bernardino Costa Gustavo Noronha de Ávila Luiz Henrique Sormani Barbugiani
Ana Alice De Carli Gustavo Sénéchal de Goffredo Manoel Messias Peixinho
Anderson Soares Madeira Jean Carlos Dias Marcelo Ribeiro Uchôa
André Abreu Costa Jean Carlos Fernandes Márcio Ricardo Staffen
Beatriz Souza Costa Jeferson Antônio Fernandes Bacelar Marco Aurélio Bezerra de Melo
Bleine Queiroz Caúla Jerson Carneiro Gonçalves Junior Marcus Mauricius Holanda
Daniele Maghelly Menezes Moreira João Marcelo de Lima Assafim Maria Celeste Simões Marques
Diego Araujo Campos João Theotonio Mendes de Almeida Jr. Océlio de Jesús Carneiro de Morais
Enzo Bello José Emílio Medauar Ricardo Lodi Ribeiro
Firly Nascimento Filho José Ricardo Ferreira Cunha Salah Hassan Khaled Jr.
Flávio Ahmed José Rubens Morato Leite Sérgio André Rocha
Frederico Antonio Lima de Oliveira Josiane Rose Petry Veronese Simone Alvarez Lima
Frederico Price Grechi Leonardo El-Amme Souza e Silva da Cunha Valter Moura do Carmo
Geraldo L. M. Prado Lúcio Antônio Chamon Junior Vicente Paulo Barretto
Vinícius Borges Fortes

Conselheiros Beneméritos

Denis Borges Barbosa ((in memoriam)


Marcos Juruena Villela Souto ((in memoriam)

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Copyright © 2019 by
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima
Enzo Bello
Daniel Araújo Valença
Sérgio Augustin

Categoria: Direito Constitucional

Produção Editorial
Livraria e Editora Lumen Juris Ltda.

Diagramação: Alex Sandro Nunes de Souza

A LIVRARIA E EDITORA LUMEN JURIS LTDA.


não se responsabiliza pelas opiniões
emitidas nesta obra por seu Autor.
É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer
meio ou processo, inclusive quanto às características
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de 17/12/1980), sujeitando-se a busca e apreensão e
indenizações diversas (Lei nº 9.610/98).
Todos os direitos desta edição reservados à
Livraria e Editora Lumen Juris Ltda.
Impresso no Brasil
Printed in Brazil

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE

D598d

Direito e Marxismo : tempos de regresso e a contribuição marxiana para


a Teoria Constitucional e Política / Martônio Mont’Alverne Barreto Lima,
Enzo Bello, Daniel Araújo Valença (organizadores). – Rio de Janeiro : Lu-
men Juris, 2019.
1238 p. : il. ; 23 cm.

Inclui bibliografia.

ISBN 978-85-519-1388-8

1. Direito constitucional. 2. Constituição Federal de 1988. 3. Filosofia


marxista. I. Lima, Martônio Mont’Alverne Barreto. II. Bello, Enzo.
III. Valença, Daniel Araújo. IV. Título.
CDD 342

Ficha catalográfica elaborada por Ellen Tuzi CRB-7: 6927


Os Organizadores

Daniel Araújo Valença é Professor Adjunto do Curso de Direito e do Progra-


ma de Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal Rural do Semi Árido
(UFERSA). Doutor em Direito pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Enzo Bello é Professor Adjunto da Faculdade de Direito e do Programa


de Pós-Graduação em Direito Constitucional da Universidade Federal Flu-
minense (UFF). Doutor em Direito pela Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (UERJ).

Martonio Mont’Alverne Barreto Lima é Professor Titular do Curso de Di-


reito e do Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade de Fortaleza
(UNIFOR). Doutor em Direito pela Universidade de Frankfurt.

Sérgio Augustin foi Professor Titular do Programa de Pós-Graduação em


Direito da Universidade de Caxias do Sul (2004 a 2018). É Professor con-
vidado do Master em Direito Ambiental da Universidade de La Empresa
de Montevidéu e Professor convidado do Doutorado em Direito da Univer-
sidade Federal da Paraíba (UFPB). Doutor em Direito pela Universidade
Federal do Paraná (UFPR).
Sumário

Apresentação................................................................................................XIII
Capítulo I – Conferências............................................................................... 1
Cuando digo derechos humanos, también digo procesos de lucha
contra la dictadura del Capital....................................................................... 3
Manuel Eugênio Gandara Carballido
O tempo histórico e “O Capital” de Marx: centralidade do
futuro emancipatório na disputa sobre o presente e o passado.................. 23
Newton de Menezes Albuquerque
Socialismo para os ricos, liberalismo para os pobres”: o Golpe
de 2016 e a mercantilização dos direitos sociais......................................... 43
Rene José Keller
O Sujeito neoliberal, a “ditadura do algoritmo” e o identitarismo:
fragmentação dos movimentos sociais no contexto de um
capitalismo em crise civilizacional .............................................................. 59
Maria Beatriz Oliveira da Silva
Bolivia e Proceso de Cambio: caminhos e impasses para o
socialismo comunitário ................................................................................ 71
Daniel Araújo Valença
O Novo Constitucionalismo Latino-Americano a as suas
aproximações com o Marxismo: análise da forma comunal na Bolívia..........85
Gladstone Leonel Júnior
Capítulo II – Marx e o Direito..................................................................... 93
A crise do Capital e o papel do Direito do Trabalho ................................. 95
Eduardo Albuquerque de Souza
A efetivação da política de saúde e as suas dificuldades atuais ................115
Lucas Moreira Rosado
A estigmatização dos direitos humanos..................................................... 129
Jefferson Lee de Souza Ruiz
Função social do Direito e Marxismo.........................................................149
Dâmaris Lívia Pinheiro Damasceno
Fabiana Nogueira Coelho
Lucas Sampaio Dias Lourenço
Pedro Ângelo Pereira Mesquita
Martonio Mont’Alverne Barreto Lima
Igualdade jurídica e dominação de classe ..................................................161
Rogério Guimarães Frota Cordeiro
Gabriel Landi Fazzio
O conceito de indivíduo na história do pensamento ocidental:
Kant, Marx e Nietzsche ...............................................................................175
Yago Barreto Bezerra
O direito e a teoria da renda fundiária: o IPTU como
instrumento de recuperação de mais-valias fundiárias no Brasil 189
Érica Milena Carvalho Guimarães Leôncio
André Felipe Bandeira Cavalcante
Sobre o método: Pachukanis como seguidor de Marx.............................. 209
Walber Nogueira da Silva
Capítulo III – Constituição e Marxismo.................................................... 225
A construção do direito sob a égide da filosofia política, da
construção moral e filosófica das classes sociais........................................227
José Raisson A. Holanda Costa
Constituinte de 1988: a promulgação de uma Constituição
democrática? Uma análise sob o pensamento de Lênin
e Rosa Luxemburgo ..............................................................................................239
Viviane Vaz Castro
Nadson Nunes Torres
Giulia Maria Jenelle Cavalcante de Oliveira
Mecanismos de participação popular nas cartas constitucionais:
analise entre a brasileira e boliviana...........................................................261
Carlos Eduardo Mota de Brito
Capítulo IV – História, Direito e Marxismo............................................. 281
Direito ao protesto: da crítica a violência à efetivação dos
direitos humanos......................................................................................... 283
José Augusto S. Neto
Guilherme Augusto Sá Barreto de Miranda
Entre libera e valquírias: a incompreensiva condição humana................ 303
Yago Barreto Bezerra
Francisca Kaline Oliveira da Silva
O exercício laboral como fator imprescindível para o
fornecimento da dignidade da pessoa humana...........................................317
Ingrid Teixeira Aguiar
Júlia Maia de Meneses Coutinho
Capítulo V – América Latina, Crises de Hegemonia e Marxismo.......... 333
A internacionalização da ciência e as possibilidades na relação
Sul-Sul a partir do caso brasileiro ............................................................. 335
Cecília Tavares Guimarães
Carla Luiza Cândido de Carvalho Freire
Jéssica Lorena de Araújo Silva
Joyce Pereira da Costa
Pablo de Sousa Seixas
Ana Ludmila Freire Costa
Anticomunismo: a igreja de mãos dadas com o Golpe de 1964.............. 347
Ronnan Thomas Oliveira da Cunha
O Movimento Indianista e sua influência para a concretização do
Estado Plurinacional da Bolívia................................................................. 363
Vítor Carlos Nunes
Partidarização do Sistema de Justiça no Brasil, fetichismo
ético-punitivo e o fim da crítica .................................................................375
Francisco Cardozo Oliveira
Nancy Mahra de Medeiros Nicolas Oliveira
Teoria Marxista como base teórica e metodológica do
Serviço Social: reflexões acerca da influência do marxismo
na construção do Código de Ética dos (as) Assistentes Sociais .............. 393
Emanuelle Monaliza de Sousa Gomes
Ferdinanda Fernandes Gurgel
Letícia Karoline Brito Medeiros Dantas
Thássila Tamires Batista Alves
Capítulo VI – Marxismo e Movimentos Sociais........................................413
Crise capitalista, o embate hegemônico e os desafios dos
intelectuais das classes subalternas ............................................................415
Eliana Andrade da Silva
Direitos LGBT e capitalismo: entre a organização social e os
processos de apropriação do capital............................................................431
Leonardo Gomes de Miranda
Maria Taynara Ferreira Bezerra
Ronaldo Moreira Maia Júnior
Thariny Teixeira Lira
Emancipação política e emancipação humana: uma análise
marxista da teoria dos Direitos Humanos ................................................ 441
Laíze Gabriela Benevides Pinheiro
Extensão universitária em educação infantil e popular durante
o encontro dos Sem Terrinha, no assentamento Maísa,
da região de Mossoró/RN............................................................................453
Nardella Gardner Dantas de Oliveira
Vagner de Brito Torres
Romana Alves da Câmara
Juventude e organização política: uma análise do protagonismo
juvenil nas lutas sociais............................................................................... 467
Taisa Iara de Almeida Costa
Seria Marx ecologista?.......................................................483
Walber Nogueira da Silva
Shyene Maranhão Guedes de Freitas
Uma análise marxista acerca dos movimentos sociais e seus
integrantes não pertencentes às classes oprimidas.................................... 495
Giovanna Helena Vieira Ferreira
Gabriel Braga dos Santos
Capítulo VII – Mundo do Trabalho e Reformas Neoliberais.................. 509
A informalidade do trabalho como consequência do crescente
desemprego estrutural no Brasil..................................................................511
Jássira Simões dos Santos
Milena de Sousa Freitas
A PEC 287/2016 e a trabalhadora do campo: a Reforma
da Previdência como obstáculo ao acesso da aposentadoria
rural pelas camponesas................................................................................529
Vágner de Brito Tôrres
A relação entre o direito à educação na forma jurídica e sua
contradição com a efetiva realização deste direito: o caso da
contrarreforma do Ensino Médio............................................................... 549
Tibério Bezerras de Brito Baima - UFPB
José Eudes Baima Bezerra – MAIE/UECE
As condições de labor das trabalhadoras de cana em Japoatã – SE........ 563
Shirley Silveira Andrade
Nataly Mendonça
As modificações constantes do art. 394-a da CLT: reflexos do
avanço neoliberal na flexibilização dos direitos das mães
trabalhadoras sob a ótica da Reforma Trabalhista (LEI 13.467/17)........ 583
Milena de Souza Batista
Cooperativas e expansão da informalidade - formas atuais de
controle do trabalho ................................................................................... 599
Sthephane Dutra dos Santos
Reivan Marinho de Souza
Cooperativas e terceirização – formas de controle do Capital
sobre o trabalho no capitalismo contemporâneo.......................................611
Ana Rute Oliveira Duarte
Reivan Marinho de Souza
Educação e mundo do trabalho: uma análise dos processos
formativos voltados para a classe trabalhadora no âmbito da
educação profissionalizante, com enfoque no sistema S de ensino......... 623
Gabriel Vinicius Jesus Maia Medeiros
Marília Paula Carlos Costa
Entre o constitucionalismo liberal e o social – a defesa dos direitos
sociais do trabalhador em contraposição aos meios que garantam
a celeridade na tramitação dos processos na Justiça do Trabalho........... 639
Bento Herculano Duarte
Hilana Beserra da Silva
Experiência de atuação em CREAS de um município de pequeno
porte no RN: uma análise das dificuldades enfrentadas pelo
advogado enquanto técnico SUAS............................................................. 657
Magna Manuelle Ferreira Alves
Samia Dayana Cardoso Jorge
Fabiana Dantas Soares Alves da Mota
Nada a temer! Precisamos resistir! A contrarreforma trabalhista
e a precarização do trabalho....................................................................... 667
Glênia Rouse da Costa
Izabella Patrícia Brito da Silva
Maria Lucilma Freitas
O atual modo de gestão do capital e a retomada da escravização
na contemporaneidade................................................................................ 681
Alex Moura do Nascimento
Luiz Manoel Andrade Meneses
O Positivismo Jurídico da Periferia do Capital na Justiça
Trabalhista da Paraíba ................................................................................ 703
José Mário da Silva Sousa Filho
Os rebatimentos do neoliberalismo na política de saúde:
uma reflexão teórica.................................................................................... 725
Maciana de Freitas Souza
Débora Rute de Paiva Mota
Rodrigo Jácob Moreira de Freitas
Tamara de Freitas Ferreira
Reforma Trabalhista: a atuação sindical e a proteção ao trabalhador.....743
Bento Herculan Duarte
Hilana Beserra da Silva
Ana Cecília Alves Nôga
Lei Nº 13.467/2017: limites e possibilidades a direitos fundamentais
de mulheres transexuais e travestis brasileiras...........................................767
Dandara da Costa Rocha
Ana Vitória Saraiva de Azevedo Pontes
Uma análise sobre a categoria trabalho a partir do filme
“segunda-feira ao sol”.................................................................................. 787
Thiago Henrique Lopes da Costa
Irinéia Raquel Vieira
Capítulo VIII – Direito Penal e Marxismo.................................................811
A construção política, legislativa e ideológica da proibição da
maconha no Brasil....................................................................................... 813
Douglas Diógenes Holanda de Souza
Dayane da Silva Mesquita
Luan Fonseca Araújo
A sociabilidade capitalista e a gênese da pena de prisão:
repercussões no atual grande encarceramento ..........................................831
Gênesis Cavalcanti
Júlio Ivo Celestino
Garantia de direitos na perspectiva dos(as) adolescentes em
cumprimento de medidas socioeducativas do Rio Grande
do Norte, Brasil............................................................................................851
Carmem Plácida Sousa Cavalcante
Joyce Pereira da Costa
Ilana Lemos de Paiva
Herculano Ricardo Campos
O relato mítico e sua linguagem persuasiva e ideológica:
um sintético ensaio acerca do mito da igualdade no direito penal...........871
Rodrigo Nunes da Silva
O trabalho na prisão: uma comparação entre as workhouses do
século XVII e o Projeto de Lei do Senado 580/2015................................ 877
Fernanda Vidal Mesquita
Roberta Calini Gomes Pereira
Os fatores socioeconômicos enquanto determinantes do delito:
a necessária abordagem crítica criminológica do sistema
penal brasileiro............................................................................................. 899
Rodrigo Nunes da Silva
Kátia Cristina Guedes Dias
Patriarcado e guerra às drogas: uma análise feminista marxista
do hiperencarceramento por crime de tráfico............................................919
Dayane da Silva Mesquita
Douglas Diógenes Holanda de Souza
Pornografia da vingança e violência contra a mulher: entre a
tipificação penal e os limites da forma jurídica......................................... 933
Maria Taynara Ferreira Bezerra
Leonardo Gomes de Miranda
Ronaldo Moreira Maia Júnior
Thariny Teixeira Lira
Sistema Penitenciário e Capitalismo: relações entre a sociedade
que pune e aquela que produz.................................................................... 947
Karízia Gabriela leite Cavalcante
João Batista dos Santos Alves
Ronaldo Moreira Maia Júnior
Adriana Dias Moreira Pires
Capítulo IX – Marxismo, Gênero e Raça...................................................961
A responsabilização pelo cuidado dos filhos e os impactos na
vida das mulheres........................................................................................ 963
Jakciane Simões dos Santos
Thanúsia Hensel da Cunha Ferreira
As religiões de matriz africana no banco dos réus: o Recurso
extraordinário 494.601 e a tentativa de proibição do abate
religioso de animais no Brasil..................................................................... 983
Afonso Falcão de Almeida Filho
Rayane Cristina de Andrade Gomes
Feminismo e marxismo: abordagens concomitantemente essenciais...... 997
Dacielle da Silva Ingá
Interlocuções entre o transfeminismo e o marxismo: uma análise
a partir da inserção da mulher trans no mundo do trabalho................. 1007
Ana Vitória Saraiva de Azevedo Pontes
Dandara da Costa Rocha
Ronaldo Moreira Maia Júnior
Interseções entre saúde das trabalhadoras rurais, gênero e Marx..........1019
Annie Lívia Torres de Albuquerque Araújo
Lázaro Fabrício de frança Souza
Mérito e interseccionalidade: uma análise sobre gênero raça e
renda com os ingressantes do curso de Direito da UFERSA
a partir do sistema de cotas sociais e raciais.............................................1037
Nayara Katryne Pinheiro Serafim
Mulheres guerreiras e de fé: feminismo, educação popular e
trabalho na comuna Luís Beltrame/MST em Natal/RN.........................1051
Lorena Cordeiro de Oliveira
Rayane Cristina de Andrade Gomes
O que é coisa de mulher?: reflexões acerca do trabalho considerado
feminino e do trabalho feminino não pago...............................................1071
Cínthia Simão
O silenciamento histórico da mulher do campo: violações domésticas
e familiares voltadas para uma perspectiva marxista.............................. 1083
Ingrid Nataly Fernandes de Sales
Júlia Gomes da Mota Barreto
Racismo e deslocamentos de pessoas não-brancas: uma abordagem
materialista e marxista...............................................................................1101
Amália Rosa de Moraes Silva
Sexualidade e direitos humanos: as “minorias sexuais” na
sociabilidade do capital.............................................................................. 1117
Artur Fernandes de Moura
“Somos a soma da diversidade, lutando por igualdade e por
transformação”: as particularidades da divisão sexual do trabalho
para as mulheres camponesas....................................................................1135
Gabriela Holanda Bessa de Lima
Larissa Ellem Alves da Silva
Larissa Souza Pinheiro
Romana Alves da Câmara
Um estudo sobre a condição de negras e negros no curso de
direito da UFERSA.....................................................................................1151
Luan Fonseca Araújo
Nayara Katryne Pinheiro Serafim
Uma análise do “feminismo mainstream” na realidade brasileira
enquanto mecanismo instrumentalizado a serviço da classe
dominante e reprodutora da desigualdade de gêneros e classe...............1169
Ana Letícia de Oliveira Bezerra Fernandes
Júlia Gomes da Mota Barreto
Uma releitura da ocupação da Mesa do Senado por senadoras:
nas perspectivas de gênero e classe........................................................... 1179
Camila Kayssa Targino Dutra
Verônica Palmira Salme de Aragão
Violência contra a mulher e o golpe de 2016...........................................1199
Maria Alice de Lima Lemos
Ana Caroline de Lima Silva Ferreira
Andréia Garcia dos Santos
Juliano Beck Scott
Isabel Maria Farias Fernandes de Oliveira
Apresentação

A presente obra é fruto dos trabalhos apresentados e das palestras profe-


ridas no III Congresso Internacional Direito e Marxismo: 200 Anos do
Nascimento de Karl Marx: A Contribuição Marxiana para a Teoria Cons-
titucional e Política em Tempos de Regresso Político, realizado na cidade
de Mossoró, Estado do Rio Grande do Norte, nos dias 07 a 09 de novembro de
2018, na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA).
Esta terceira edição foi organizada pelo GEDIC - Grupo de Estudos em
Direito Crítico, Marxismo e América Latina e pelo Programa de Pós-gradu-
ação em Direito da própria UFERSA, então recém inaugurado, em conjunto
com o Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade de Fortaleza
(PPGD-UNIFOR), o Programa de Pós-Graduação em Direito Constitucio-
nal da Universidade Federal Fluminense (PPGDC-UFF) e o Programa de
Pós-Graduação em Direito da Universidade de Caxias do Sul (PPGD-UCS).
Destaca-se o protagonismo do corpo discente da UFERSA, notadamente dos
discentes de graduação do GEDIC, em articulação com movimentos sociais
da região do Semi-Árido nordestino.
Trata-se de evento marcado por sua perenidade e pela articulação entre Pro-
gramas de Pós-Graduação em Direito de 3 regiões do Brasil: Nordeste, Sudeste
e Sul. As duas primeiras edições foram realizadas na Universidade de Caxias
do Sul, nos anos de 20111 e 20132, e contaram com a presença de mais de 1200
participantes, em cada edição, além de palestrantes de todas as regiões do Bra-
sil, bem como da América Latina e da Europa.
As duas primeiras edições do Congresso Internacional Direito e Marxismo
geraram diversos livros (impressos e digitais)3, que trazem as publicações de

1 https://www.ucs.br/site/ucs/eventos/I_seminario_internacional_direito_marxismo
2 https://www.ucs.br/site/eventos/ii-congresso-internacional-de-direito-e-marxismo/
3 AUGUSTIN, Sergio. (Org.). Direito e Marxismo: meio ambiente. Vol. 4. Caxias do Sul: EDUCS,
2014. https://www.ucs.br/site/midia/arquivos/Direito_e_marxismo_Vol4.pdf>. ISBN 9788570617415.
BELLO, Enzo; LIMA, Martônio Mont'Alverne Barreto; AUGUSTIN, Sérgio (Orgs.). Direito e
Marxismo: materialismo histórico, trabalho e educação. Vol. 1. Caxias do Sul: EDUCS, 2014. 384p.

XIX
resumos, artigos e palestras, contribuindo para a divulgação, a atualização e a
discussão da obra marxiana no Brasil contemporâneo.
A obra que ora apresentamos conta com nove capítulos, que trazem tra-
balhos elaborados a partir dos resumos expandidos apresentados nos Grupos
de Trabalho (GTs) “Marx e o Direito”, “Constituição e Marxismo”, “História,
Direito e Marxismo”, “América Latina, Crises de Hegemonia e Marxismo”,
“Marxismo e Movimentos Sociais”, “Mundo do Trabalho e Reformas Neoli-
berais”, “Direito Penal e Marxismo”, “Marxismo, Gênero e Raça”. Ademais,
abrimos o livro com as conferências e palestras que foram sistematizadas em
textos pelos próprios autores e autoras, ao redor dos temas “Reificação: Lei
e Democracia em Marx”, “A tensão entre capitalismo e direitos humanos”,
“Estado de Exceção Constitucional no Capitalismo”, “Cultura, Liberdade
de Manifestação e Democracia”, “Marxismo e questão racial”, “O Capital:
Teoria da História”, “Movimentos Sociais e Limites da Democracia”, “Novo
Constitucionalismo na América Latina”, “Teoria social marxiana e marxis-
ta: aportes para a luta”.
Cada vez mais se mostra necessária a discussão da obra marxiana. A força
da dialética materalista e de uma profunda historicidade crítica do pensamento
de Karl Marx auxilia na compreensão do fenômenos econônicos e políticos dos
dias de hoje. Se é verdade que não se pode cobrar de nenhum pensador

Disponível em: <http://www.ucs.br/site/midia/arquivos/Direito_e_marxismo_Vol1.pdf>. ISBN:


9788570617439.
LIMA, Martônio Mont'Alverne Barreto. (Org.). Direito e Marxismo: economia globalizada,
mobilização popular e políticas públicas. Vol. 2. Caxias do Sul: EDUCS, 2014. 330p. Disponível em:
<https://www.ucs.br/site/midia/arquivos/Direito_e_marxismo_Vol2_2.pdf>. ISBN 9788570617392
BELLO, Enzo. (Org.). Direito e Marxismo: transformações na América Latina contemporânea.
Vol. 3. Caxias do Sul: EDUCS, 2014. 272 p. Disponível em: <http://www.ucs.br/site/midia/arquivos/
Direito_e_marxismo_Vol3.pdf>. ISBN: 9788570617408.
BELLO, Enzo; LIMA, Martônio Mont'Alverne Barreto; AUGUSTIN, Sérgio; LIMA, Letícia
Gonçalves Dias (Orgs.). Direito e Marxismo: as novas tendências constitucionais da América
Latina. Caxias do Sul: EDUCS, 2014. 215p. ISBN: 9788570617576.
BELLO, Enzo; AUGUSTIN, Sérgio; LIMA, Martônio Mont'Alverne Barreto; LIMA, Letícia
Gonçalves Dias (Orgs.). Direito e Marxismo: tendências atuais. Caxias do Sul: EDUCS, 2012. 431p.
ISBN: 9788570616678.
BELLO, Enzo; AUGUSTIN, Sérgio; LIMA, Martônio Mont'Alverne Barreto (Orgs.). Anais do
1º Congresso Internacional Direito e Marxismo. Caxias do Sul: Plenum, 2011. 816p. ISBN:
97885885125.

XX
análises sobre peculiaridades e problemas que inexistiam na época de sua pro-
dução intelectual, por outro lado os episódios recentes que comprovam a volta
da xenofobia, da precarização do trabalho, da criminalização da pobreza e dos
movimento sociais ampliados remetem à necessidade de se compreender tais
fenômenos pela ótica do concreto. Desta forma, observar como o Direito se
localiza neste complexo panorama é uma obrigação imposta a todos os juristas,
embora não se possa ser ingênuo a ponto de pensar que logo os juistas irão
analisar criticamente este quadro de realiade, menos ainda lançando mão de
categorais como luta de classes, por exemplo.
As ferramentas com que Karl Marx e os marxistas analisam a realidade
têm a muito dizer sobre os recentes acontecimentos no Brasil. A “legalidade
que nos mata”, como escreveu Engels, fora criada pelos partidos da ordem,
não para ser necessariamente cumprida, mas para ser tolerada até o momen-
to em que não passe de uma “ilusão constitucional”, como advertiu Lênin.
Ter a coragem de assim compreender o golpe contra a incipiente democracia
brasileira de 2016 e seus desdobramentos na América do Sul, é também uma
tarefa de juristas que rejeitam a explicação puramente normativa e ingressam
no território das palavras e ações concretas.
Registramos a relevante contribuição da coletividade reunida em torno do
GEDIC, que construiu esta terceira edição com muita dedicação, carinho e
competência: Adriana Dias Moreira Pires, Adriele Jairla de Morais Luciano,
Afonso Falcão de Almeida Filho, Ana Caroline Melo Carvalho, Ana Flávia
Oliveira Barbosa de Lira, Ana Vitória Saraiva de Azevedo Pontes, Carlos
Eduardo Mota de Brito, Dacielle da Silva Ingá, Dayane da Silva Mesquita,
Dandara da Costa Rocha, Evillin Lissandra Cosme Santana, Fabiana Noguei-
ra Coelho, Gabriel Braga dos Santos, Gabriel Vinicius Jesus Maia Medeiros,
Giovanna Helena Vieira Ferreira, Jose Eider Madeiros, Lijohara Julia de Sá
Souza, Luan Fonseca Araújo, Luine Emmile Lima e Silva, Maria Taynara Fer-
reira Bezerra, Marilia Paula Carlos Costa, Nayara Katryne Pinheiro Serafim,
Pedro Ângelo Pereira Mesquita, Raissa Alves da Silva, Rayane Cristina de
Andrade Gomes, Ronaldo Moreira Maia Júnior, Thais Frota Ferreira Caval-
cante, Vitor Carlos Nunes.
No mesmo sentido, cabe consignar o trabalho da equipe de revisão e
formatação dos textos que compõem este livro, sem a qual esta empreitada
não seria possível: Afonso Falcão de Almeida Filho, Anna Cecília Faro Bonan,
Dacielle da Silva Ingá, Felipe Romão de Paiva, Larissa de Paula Couto, Rayane

XXI
Cristina de Andrade Gomes, Ronaldo Moreira Maia JúniorPor fim, desejamos
que esta obra proporcione contribuições a estudos e debates, fomentando a
renovação do pensamento crítico, no anseio pelo advento do IV Congresso
Internacional Direito e Marxismo.
Fortaleza, Mossoró, Niterói, Caxias do Sul, 30 de abril de 2019.

Prof. Dr. Martonio Mont’Alverne Barreto Lima


Prof. Dr. Daniel Araújo Valença
Prof. Dr. Enzo Bello
Prof. Sergio Augustin

XXII
Capítulo I
Conferências

1
Cuando digo derechos humanos,
también digo procesos de lucha contra
la dictadura del Capital

Manuel Eugênio Gandara Carballido1

Introducción
La abstracción de las condiciones socio-históricos ha permitido a la ideología liberal
fragmentar las distintas dimensiones que conforman la realidad social; así, ha hecho
posible formular un discurso de los derechos atendiendo a aspectos estrictamente
jurídicos sin tener que dar cuenta de las dimensiones política y económica.
Cuando asumimos los derechos humanos más allá de reivindicaciones
específicas y nos preguntamos por las razones estructurales que hacen que
en nuestra sociedad se mantengan y reproduzcan relaciones de dominio,
explotación y exclusión, tenemos que preguntarnos si las formas de organización
socio-económica, si los modelos políticos y los marcos civilizatorios, que definen
determinadas relaciones sociales, contribuyen o no a la satisfacción de tales
condiciones para todos y todas. Asumir críticamente los derechos humanos nos
debe llevar no sólo a ver si un determinado derecho está siendo garantizado,
sino a un análisis de nuestra sociedad, intentando determinar qué causas
estructurales (modelo de civilización, relaciones sociales de producción, sistemas
socio-culturales, formas de organización política) establecen una determinada
configuración que hace imposible la vida digna para todos y todas (incluida la
naturaleza). Este análisis no niega acciones específicas más sectoriales, sobre
derechos concretos, pero exige una comprensión del conjunto capaz de orientar
una práctica realmente transformadora.

1 Educador en derechos humanos. Doctor en Derechos Humanos y Desarrollo por la Universidad


Pablo de Olavide, en Sevilla, España. Miembro del Instituto Joaquín Herrera Flores - América
Latina. Realiza una estancia postdoctoral en el Programa de Postgrado en Derecho de la Universidad
Federal de Río de Janeiro.

3
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Por ello, nos proponemos desarrollar algunas reflexiones sobre la posibilidad


de sostener coherentemente derechos humanos en el marco de relaciones
definidas por el capitalismo; régimen que, sin lugar a duda ha logrado establecerse
como forma de organización social hegemónica en los dos últimos siglos.

2. Dibujando el campo de nuestra discusión


Si bien una fórmula mínima de capitalismo le reconoce asentado sobre el
principio de la acumulación ilimitada de capital a partir de una clara asimetría
de poder en las relaciones entre quienes detentan los medios de producción y
quienes han de subordinarse a estos primeros, dado que solo pueden ofrecer
su fuerza de trabajo a cambio de una remuneración salarial (Filho e Fonseca,
2011, p. 234), consideramos que el capitalismo no debe ser considerado
solo como un sistema económico, tal y como hace el análisis clásico de la
economía política, ni tampoco como un sistema cultural, en la línea de los
estudios poscoloniales anglosajones. Como propone el grupo de investigación
modernidad/colonialidad asumimos el capitalismo como una “red global de
poder” que integra procesos tanto económicos como políticos y culturales (Cfr.
Castro-Gómez y Grosfoguel, 2017, pp. 17-18). Esta integración de las distintas
dimensiones en un único sistema de poder queda patente al analizar las formas
en que la modernidad y el capitalismo, siendo procesos históricos con un origen
distinto, se fueron integrando y reforzando mutuamente (Cfr. Santos, 1989). En
ese sentido, Arturo Escobar plantea la necesidad de comprender la economía
occidental como una institución de la que no solo forman parte los sistemas
de producción, sino también, desde finales del siglo XVIII, los sistemas de
poder y significación, estando los tres unidos al desarrollo del capitalismo y la
modernidad, debiendo ser entendidos como formas culturales. La economía,
por tanto, debe reconocerse en su capacidad para producir una determinada
forma de ser humano (como sujeto productivo) y un tipo específico de orden
social (Cfr. Escobar, 1998).
El proceso histórico que venimos describiendo asume una condición
extrema a partir de la universalización de la forma mercantil y de la sujeción
de las normas jurídicas a las exigencias del mercado propias del actual proceso
de globalización capitalista del sistema neoliberal. En éste, se establece una
sensibilidad jurídica capaz de sacralizar tanto la productividad como la eficacia

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
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económica, a la vez que logra que se asuman como naturales los imperativos
requeridos por la acumulación privada de capital (Cfr. Gallardo, 2007, p. 3). Tal
y como la describe Herrera Flores (2005b):

Esta nueva fase de la economía neoliberal globalizada se caracteriza,


básicamente, por tres fenómenos. En primer lugar, por la ampliación
constante de las fronteras de la acumulación capitalista (el trabajo
productivo, el ocio, los conocimientos tradicionales). En segundo lugar,
por la contaminación e impregnación de lo humano de las exigencias
morales de dicha acumulación: competitividad, consumismo, egoísmo
“racional”, individualismo, etc. (es decir, por la colonización economicista
de los mundos vitales). Y, en tercer lugar, por la imposición de todas
estos fenómenos en todas las escalas en que la vida y la productividad
humanas se despliegan como si fueran procesos “naturales” e irreversibles
(lo que, en otros términos, podríamos definir como la globalización del
particularismo del capital a todo nuestro universo).

El mercado, como sistema de competencia, genera modelos de relación


social que a su vez van produciendo determinadas formas de sensibilidad en los
sujetos, definiendo así un horizonte de sentido2, de manera tal que no decide
únicamente sobre los productos y las formas de producción, sino también sobre
los productores y su vida Cfr. Hinkelammert, 2003, p. 238). Es por ello que el
sociólogo Edgardo Lander afirma que las alternativas que se quieran generar
al sistema capitalista “requieren no sólo alternativas a los patrones de propiedad
y de consumo de esta sociedad, sino igualmente alternativas a su cosmovisión, sus
subjetividades, a sus modos de conocer y de producir.” (2012, p. 38)
Todo este proceso histórico acontece, con el agravante de que el mercado,
sustentado en la absolutización de la racionalidad instrumental y la lógica de
propio beneficio, se ha constituido en un automatismo que produce riqueza
destruyendo las bases de toda riqueza: el hombre y la naturaleza (Cfr.
Hinkelammert, 2003, p. 249). El mercado, convertido en absoluto, se transforma
de esta manera en la mayor amenaza a la sostenibilidad de la vida.

2 En relación con el capitalismo como orden que implica además del sistema económico, una estructura
social, un modelo de cultura y una estructura política, puede verse la obra de Roger Garaudy. La
alternativa. Madrid: EDICUSA, 1973, pp. 63-64. Sobre el desarrollo y contenidos del capitalismo,
véanse el texto de Karl Polanyi. La gran transformación. Crítica del liberalismo económico.
Madrid: La Piqueta, 1997; también HINKELAMMERT, F y MORA, H. Hacia una economía para
la Vida. San José: DEI, 2005.

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Pero, más aún, tal y como señalan laval y Dardot en su texto “La nueva
razón del mundo”, el capitalismo neoliberal, antes que una ideología o
una política económica es, de entrada y ante todo, una racionalidad. En
consecuencia, tiende a estructurar y a organizar no solo la acción de los
gobernantes, sino también la conducta de los propios gobernados. (Cfr.
Laval y Dardot, 2013, p. 15).
La racionalidad neoliberal tiene como característica principal la
generalización de la competencia como norma de conducta y de la empresa
como modelo de subjetivación. Así, el neoliberalismo se puede defirnir
como el conjunto de los discursos, de las prácticas, de los dispositivos que
determinan un nuevo modo de gobierno de los hombres según el principio
universal de la competencia (Cfr. Laval y Dardot, 2013, p. 15). Nuestras
sociedades de mercado están conformadas por sujetos aislados, que además
se perciben entre sí como competidores que deben orientarse por el logro del
máximo beneficio personal. En ellas, el consumo (o al menos la expectativa
de consumo, cuando consumir no es posible) se convierte en “lugar estructural
y autónomo de relaciones sociales, una forma nueva de poder, de derecho y de
conocimiento.” (Santos, 2003, p. 315)
En este “horizonte de sentido”, en el marco de este proyecto societal, se
configura el régimen civilizacional que Boaventura De Sousa Santos ha
definido como fascismo social, caracterizado por diversas formas de marginación
(apartheid social, fascismo de la inseguridad, fascismo paraestatal, fascismo
financiero…) de extensas masas de población que quedan excluidas de toda
forma de contrato social: jóvenes de guetos urbanos populares, campesinos,
trabajadores del posfordismo, etc. (Cfr. Santos, 2003, p. 83).
Ante este panorama, los desafíos teóricos y prácticos (siempre entendidos
como dimensiones de la praxis humana, no como momentos separados), son
de inmenso calado. Se necesita desnaturalizar las supuestas evidencias que
el capitalismo ha logrado instalar como forma de pensamiento; se requiere
imaginar alternativas concretas que permitan anudar el lazo social sobre la
base de otra dinámica histórica que no sea la del capital. Tal tarea, para que
sea real y efectiva, solo será posible en el diálogo permanente entre los actores
sociales que habiendo reconocido la necesidad de esta transformación, asumen
el compromiso de hacerla posible (Cfr. Gruner, 2011). Por eso, las reflexiones
que siguen pretenden ofrecer algunos aportes para pensar y actuar una teoría
anticapitalista de los derechos humanos.

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3. Necesidad de una aproximación teórica capaz de


recuperar la economía política
Reconocer que la lucha de los derechos humanos va más allá de su mero
reconocimiento formal en los marcos normativos, atendiendo a la construcción de
reales condiciones de vida digna en los diversos contextos en que las personas y
los pueblos realizan sus proyectos vitales, exige recuperar el análisis crítico de la
economía política en la comprensión de los derechos. Es falso todo intento por
construir sociedades que reconozcan y se orienten por la vigencia de los derechos,
si tales intentos no asumen lo económico como una instancia imprescindible (Cfr.
Hinkelammert, mimeo, p. 75). No habrá garantía posible de derechos humanos sin
transformaciones profundas a nivel económico, pues dichas transformaciones son
parte de sus condiciones de posibilidad (Cfr. Hinkelammert y Mora, p. 347).

En cuanto la economía política se interesa por el problema de la


reproducción de los factores de la producción, fuerza de trabajo y capital,
por ejemplo, esta reproducción se constituye en matriz de la asignación
óptima de los recursos sociales. Diciéndolo esquemáticamente, una
economía política determinada puede privilegiar la reproducción
del capital, otra la de la fuerza de trabajo y una tercera la del ser
humano… Desde luego, una política económica puede invisibilizar
ideológicamente su referente en la economía política, pero esta
invisibilización trae consigo la desaparición, también ideológica, del
ser humano y de sus responsabilidades como sujeto. Se advierte aquí
que la matriz que afirma la reproducción de la vida humana y de
la Naturaleza y hace de toda otra decisión social funciones de esta
reproducción, constituye la matriz óptima para imaginar, pensar y
luchar por derechos humanos.(Gallardo, 2008, p. 288)

El discernimiento crítico de los modelos económicos, un ejercicio necesariamente


atravesado por opciones de carácter ético y político, permite desnaturalizar
supuestas posiciones “necesarias e ineludibles” en las formas de asignar los recursos
en nuestras sociedades, identificando también presupuestos y opciones que han sido
interesadamente invisibilizadas. En este sentido, es preciso afirmar que cualquier
propuesta de política económica, y de economía política en general, que desconozca
la centralidad de las necesidades humanas y de las formas de organización social
que se requieren para atenderlas, establece y refuerza dinámicas discriminatorias,

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autoritarias, totalitarias y de exterminio de lo humano y la naturaleza (Cfr. Gallardo,


2000, p. 28). En función de ello, afirmamos la contradicción entre los procesos de
acumulación irrestricta de capital, base de la propuesta capitalista, y la asunción de
derechos humanos entendidos desde el pensamiento crítico.
El discurso y configuración de las prácticas de los derechos humanos pueden
responder de manera diversa a la consolidación del capitalismo; bien resultando
funcional a él, bien reaccionando de manera contundente contra su lógica
de exclusión y explotación de grandes sectores de la población. De hecho, el
proceso histórico de conformación del capitalismo puede ser leído a partir de
sus consecuencias en la configuración de los derechos humanos. Veamos al
respecto el planteamiento de Santos:

Desde meados do século XVIII, a trajectória da modernidade está


vinculada ao desenvolvimento do capitalismo nos países centrais, o
que pode ser ilustrado também no campo dos direitos humanos…
Um tanto esquematicamente pode dizer-se que o primeiro período é o
período da expansão e consolidação dos direitos civis e políticos pois,
como é sabido, a componente democrática do Estado liberal começou
por ser muito ténue e só se foi ampliando em consequência das lutas
sociais conduzidas pelos trabalhadores, as quais, de resto, embora
características deste período, continuaram sob diferentes formas nos
períodos seguintes. O segundo período, o período do capitalismo
organizado, é um período dominado pela conquista dos direitos sociais
e económicos, a segunda geração dos direitos humanos, e a forma
política do Estado em que se veio a traduzir é o Estado-Providência ou
o Estado social de direito. Por fim, o terceiro período, que estamos a
viver, é um período complexo pois se é certo que nele se tem vindo a
pôr em causa os direitos conquistados no período anterior, os direitos
sociais e económicos, por outro lado, tem-se vindo a lutar, en alguns
países com algum êxito, pelo que se poderia considerar a terceira
geração de direitos humanos, os direitos culturais, pós-materialistas,
anunciadores de modos de vida alternativos (ecológicos, feministas,
pacifistas, anti-racistas, anti-nucleares).(Santos, 1989)

En el actual “orden” mundial, en el que el sistema económico capitalista


ordena los demás campos de la relaciones sociales, buena parte de los marcos
normativos son definidos en función de la dinámica de acumulación del capital
(Cfr. Senent, 2012, pp. 13-14). Ante el “orden” gestado desde el capitalismo

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globalizado, necesitamos identificar el papel que ha venido jugando el discurso


tradicional de los derechos humanos, e identificar las potencialidades de otro
discurso que recoja y anime otras prácticas.
Un orden social sostenido sobre la base de la acumulación de capital,
que legitima, por tanto, relaciones asimétricas en el acceso a la propiedad,
en el manejo de la información, en la construcción de conocimiento y en el
control de las condiciones necesarias para vivir dignamente, debe, con justa
razón, calificarse como estructuralmente contrario a derechos humanos (Cfr.
Gallardo, 2008, p. 48). Su lógica de base configura una sociedad conformada
por “vencedores y perdedores estructurales”, respectivamente justificados y
culpabilizados gracias a su aparato ideológico. Resulta evidente el carácter
profundamente antidemocrático de semejante forma de organización de la
vida en sociedad; si optamos, como de hecho lo hacemos, por radicalizar la
democracia en los diferentes órdenes de la vida, eso se debe traducir en la
exigencia de democratizar el poder en los distintos ámbitos y transformar
así las relaciones económicas, la configuración cultural y la organización
política (Red de Apoyo, mimeo).
Por todo ello, afirmamos que en la construcción de la realidad llevada
adelante desde la ideología capitalista, solo podrán afirmarse derechos humanos
de forma aleatoria, fragmentaria y restringida para los victoriosos (Cfr. Gallardo,
2006, p. 57); hay una negación estructural (insistimos en este adjetivo) de la
posibilidad de un ejercicio de derechos a partir del cual todas y cada una de
las personas puedan proponerse y hacer posible horizontes de humanización
desde sus contextos específicos. El proyecto de los derechos humanos es, pues,
impracticable, desde este horizonte civilizatorio (Cfr. Senent, 2012, p. 16). Así
lo recoge el profesor Helio Gallardo:

La acumulación de capital no puede ser matriz de derechos humanos


universales por diversos motivos de los que indicaremos tres: contiene
una lógica de discriminación que produce ganadores y perdedores; reifica
mercantilmente la experiencia humana reduciendo la plenitud posible
de esta experiencia a consumo u opulencia; propone un orden absoluto
desde el que se puede agredir la diversidad humana o sus experiencias
individuales diversas. (2008, pp. 22-23)

Pero, no nos equivoquemos, la estrategia del sistema capitalista


globalizado, el neoliberalismo, no pasa por negar los derechos humanos, por

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el contrario, se propone mundializarlos, siempre que antes logre instalar una


concepción de los mismos que resulte compatible con su lógica, sus intereses,
su concepción de ser humano, de mundo y de sociedad. Ella propondrá
un ejercicio de los derechos centrado en la ficción jurídica de un supuesto
individuo abstracto del que se dice no está determinado por ningún rasgo
identitario específico, pero que en realidad responde al muy específico
modo de ser humano del hombre propietario burgués occidental blanco
(Cfr. Fariñas, 2005, p. 109). “Son los derechos que garantizan la protección
jurídica de las manifestaciones jurídicas del señorío autónomo, racional y
posesivo de la personalidad de cada individuo: los derechos del individuo
propietario libre.” (Fariñas, 2005, p. 104) Se platea, pues, una tendenciosa
homogeneización del modelo antropológico, reduciendo el ser humano a este
individuo ideológicamente configurado, pretendiendo universalizar el tipo
local específico que subyace a la propuesta civilizatoria capitalista.
Pero la estrategia neoliberal, en su reconfiguración de los derechos
humanos, da un paso más, de no poca significación y consecuencia: le reconoce
“personalidad jurídica” a las empresas y corporaciones trasnacionales, de manera
tal que son asumidas como sujetos jurídicos (Cfr. Fariñas, 2005, p. 103). De esta
forma, “los derechos del mercado (derechos humanos de las personas jurídicas y
colectivas, empresas) sustituyen a los derechos humanos (derechos humanos de las
personas corporales).” (Hinkelammert y Mora, 2001, p. 321)
Así, se pone en marcha una reinterpretación de los derechos humanos,
transformándolos en un gran correlato de derechos de propiedad. Todo,
incluido el ser humano, es visto como propiedad, y por tanto como algo
transable, quedando el ejercicio de los derechos reducido al cálculo de utilidad
en función del criterio de la maximización del beneficio (Hinkelmmart, mimeo
2010, p. 8). En la forma de organización capitalista, hoy imperante, el mercado
se constituye en el centro de la sociedad y la legalidad se establece a partir
de la relación contractual entre individuos, protegiendo, fundamentalmente
la propiedad y el estricto cumplimiento de los contratos. Desde este principio
se configura la libertad; libertad es libertad para contratar, y consumir. (Cfr.
Hinkelammert, 2010, pp. 296-298)
Por su parte, los derechos de carácter redistributivo, de sentido igualitario,
son descartados, negados en su condición de derechos (Cfr. Fariñas, 2005, p.
108). Para esta narrativa, los derechos conocidos como económicos, sociales y
culturales son entendidos como distorsión y obstáculo al libre desenvolvimiento

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del mercado; son contrarios a “la” (su) racionalidad económica y, por tanto, son
descartados. Nuevamente la estrategia pasa por simplificar para generalizar una
alternativa, su alternativa: su racionalidad se presenta como “la” racionalidad.
Frente a ello, un pensamiento crítico debe visibilizar las consecuencias de esta
práctica y desestabilizar los discursos que pretenden legitimarla, haciendo ver que
tal racionalidad, la inherente al modelo capitalista, no se corresponde con un
orden natural y objetivo de las cosas, no es ni universal ni necesaria, no es reflejo de
ningún tipo de relacionamiento original del ser humano; es, sí, una construcción
social que, por tanto, está sometida al discernimiento de los actores sociales en
su quehacer socio-histórico (Cfr. Gallardo, 2008, pp. 22-23). Veamos entonces
algunos aportes que pueden ser útiles para la construcción de ese pensamiento.

4. Algunos criterios y principios orientadores


Frente a una concepción de los derechos reductivamente formalista, capaz
de afirmar derechos haciendo abstracción de las condiciones concretas en que
los seres humanos viven, necesitamos construcciones teóricas que integren
en su discurso la gestación de condiciones que hagan posible transformar los
impedimentos socio-históricos que en cada caso concreto las personas y los
pueblos requieren enfrentar para así poder acceder a las diferenciadas formas
de vida digna. Se tratará de una construcción que, sin pretender establecer
de antemano cuáles han de ser esas condiciones y las capacidades necesarias
para enfrentarlas, permita reconocer y animar alternativas frente a los múltiples
mecanismos y estructuras de subordinación que la dinámica sociopolítica
plantea, fundadas en las asimetrías de poder.
Entendiendo los derechos humanos como procesos de lucha por condiciones
de vida digna, ponemos en el centro de la necesidad de que los seres humanos,
individual y colectivamente, estén en posibilidad de reaccionar frente al
entorno de relaciones en que viven, contando con los recursos materiales e
inmateriales necesarios para poder formular y construir mundos de vida a partir
de sus particulares y diferenciadas concepciones de dignidad. Así, el elemento
paradigmático de los derechos humanos lo conformaría "la facultad para gozar
del desarrollo de las capacidades humanas objetivadas social e institucionalmente y
para apropiárselas, es decir, para ponerlas en práctica siempre de un modo renovado.”
(Herrera, 1989, p. 126)

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Se presenta así un abordaje material de los derechos humanos que asume lo


particular-concreto de cada contexto, reconociéndolo y valorándolo en cuanto
tiene de condición de posibilidad para impulsar procesos de transformación.
Se plantea la lucha por los derechos humanos como lucha por la creación de
condiciones para que cada actor social pueda definir y desarrollar su proyecto
personal y colectivo de vida humana. Considerar los derechos humanos desde
esta perspectiva socio-histórica exige recuperar la crítica a la economía política,
al asumir la conquista de los derechos desde las luchas sociales que se gestan
en el marco de sociedades con relaciones socio-económicas asimétricas y
conflictivas (Cfr. Gallardo, 2008, pp. 289-290).
Esta forma de comprender los derechos humanos impulsa a crear
condiciones que permitan frenar el automatismo del mercado irracionalmente
absolutizado; un mercado que se reproduce a sí mismo sin otro criterio que la
máxima eficiencia económica; lo que es contrario a la creación de condiciones
que permitan una vida digna para todos y todas. En sintonía con estos
planteamientos, Herrera Flores concibe los derechos humanos como “medios
discursivos, expresivos y normativos que pugnan por reinsertar a los seres humanos
en el circuito de reproducción y mantenimiento de la vida, permitiendo abrir espacios
de interpelación, de lucha y reivindicación.” (2000, p. 78)
Hacer frente a este desafío e impulsar las transformaciones necesarias,
exige controlar los distintos poderes, tanto públicos como privados. Entre esos
poderes fácticos que ponen en riesgo los derechos humanos, es necesario llamar
la atención con respecto a la necesidad de control sobre las burocracias privadas;
algo que Franz Hinkelammert plantea sin dejar lugar a dudas:

Hoy, en efecto, los derechos humanos centrados en la propiedad privada


tornan imposible el control del poder que nos domina, en vista de que
las burocracias privadas afirman su poder en nombre de estos derechos
humanos. La propiedad privada, como derecho humano central,
destruye a la propia democracia liberal… En la actualidad, el único
control posible de las burocracias privadas pasa por la intervención de
los mercados, intervención que la burocracia privada declara ilegítima
en nombre de su comprensión de los derechos humanos. (2003, p. 27)

En opinión de Hinkelammert, no es posible hablar de derechos humanos


sin asumir la necesaria intervención sistemática en los mercados (Cfr.
Hinkelammert, mimeo, p. 77). Así, pues, en contra del mito de la capacidad de

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los mercados para autoregularse, no podemos hablar de democracia económica


sin asumir la intervención sistemática en los mercados donde ello sea necesario
en función de asegurar las condiciones necesarias para vivir con dignidad.
Necesitamos, por tanto, preguntarnos con qué recursos contamos o podemos
contar para ejercer este poder. Del conjunto de herramientas de lucha, queremos
a continuación preguntarnos por el papel que el Estado puede cumplir.
Participamos de un momento histórico en el que es explícito el debate
sobre el papel del Estado (Cfr. Santos, 2008); la definición de su rol en los
procesos sociales es un campo de disputa (Cfr. Santos, 2006, p. 57). Por ello,
la puesta en marcha de procesos de transformación social que hagan efectivo
el disfrute de derechos humanos obliga, entre otras acciones necesarias, al
discernimiento del Estado como institución central de la actual forma de
organización socio-política.
Contra el discurso que presenta a la globalización neoliberal en el intento
por hacer desaparecer el Estado, es preciso percatarse que en lugar de disolverlo
lo que ésta pretende es transformarlo en función de sus intereses. En lugar de
desregulación lo que está aconteciendo es una re-regulación que tiene como eje
las reglas que el capitalismo requiere para intensificar su acción; en ello, el papel
del Estado es fundamental, para controlar a la población, para poner lo público
al servicio de los intereses privados (Cfr. Hinkelammert, 2001, pp. 197-198). De
tal manera que en lugar de una crisis del Estado, a lo que nos enfrentamos es
a la tentativa de transformación del modelo de Estado hasta ahora conocido
para ajustarlo a las demandas del capital globalizado; el nuevo tipo de Estado
propuesto por los mentores del discurso capitalista se articula de forma directa
con el mercado (Cfr. Santos, 2008, p. 259).
Sin embargo, el Estado, dependiendo de cómo se configure, puede ser de
gran significación en la construcción de alternativas contra-hegemónicas. A
pesar de las resistencias que al interno de la tradición crítica se han tenido a la
figura del Estado, las últimas experiencias, particularmente en algunos países de
América Latina (Venezuela, Ecuador, Bolivia…), obligan a revisar su capacidad
potencial en estos procesos.
Ciertamente la configuración del Estado tal y como le conocemos responde
fundamentalmente a los intereses de los sectores sociales con mayor poder;
sin embargo, no debemos obviar que su configuración también es producto
de luchas llevadas adelante por diversos sujetos populares intentando superar
situaciones de subordinación y exclusión. Es decir, en nuestro análisis crítico

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del Estado es preciso el cuidado necesario para no cometer la injusticia de


invisibilizar los logros de las luchas populares, que también están presentes,
aunque no sea una presencia preponderante a lo largo de la historia. Al
respecto, resulta lúcida la consideración de Nicos Poulantzas cuando, en una
formulación más compleja que acá recogemos de manera sucinta, entiende
que el Estado materializa la condensación material de una correlación de
fuerzas presentes en la sociedad (Cfr. Poulantzas, 2002, p. 159). Miriam Lang
lo desarrolla en los siguientes términos:

El Estado no es ni un simple instrumento de las clases dominantes, ni


una instancia neutra dedicada a realizar el bien común. Más bien sería
un campo estratégico en el cual las distintas fuerzas sociales luchan por el
fortalecimiento y, en el caso ideal, por la generalización de sus intereses o
valores – mediante leyes, recursos públicos, legitimidad oficial o incluso
mediante el blindaje de la coerción. (2010, p. 17)

Necesitamos, por tanto, complejizar la valoración que tradicionalmente


los pensadores de izquierda han tenido sobre el Estado al entenderlo como
mera herramienta de dominación de una clase sobre otra, o bien considerarlo
irrelevante o puro factor de corrupción que debe ser dejado de lado por los
actores que buscan la emancipación social (Cfr. Santos, 2006, p. 95).
Frente a tales posturas, asumir, como veíamos antes, que el Estado es un
campo de contradicciones sociales, permite que dichas contradicciones puedan
ser aprovechadas por los movimientos populares, combinando, en la medida en
que las circunstancias específicas lo permitan, “la lucha legal y la ilegal, la lucha
institucional y la directa, la lucha dentro del Estado y la lucha fuera de éste.” (Santos,
2011, p. 3) En este proceso, será necesario un discernimiento permanente de las
acciones a partir del criterio del protagonismo y empoderamiento de los sectores
sociales vulnerabilizados. En tal tarea, resulta alentadora la lectura histórica
que realiza Rosario Valpuesta Fernández:

La noción de ciudadanía que hoy se maneja y que concita la atención


de los movimientos sociales, no se corresponde con la idea burguesa que
la anudaba casi en exclusiva al sufragio electoral activo y pasivo, y a un
Estado débil, que se limitaba a ejercer casi en exclusiva las funciones
ligadas a la soberanía... esta mudanza en la percepción de la ciudadanía
ha requerido, como parece lógico, la transformación del modelo liberal

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burgués en una organización política más implicada con la construcción


de esa ciudadanía y, por consiguiente, más concernida con la igualdad
sustancial y la libertad real. Este es el cambio que se produce en el
tránsito del Estado burgués al Estado Democrático y Social, que discurre
desde la formalidad de la declaración de los derechos a la esencialidad de
su realización. (2010, p. 1055)

En el sentido expuesto, un movimiento popular robusto, con capacidad


para llevar adelante sus demandas, requiere de un Estado consolidado, con la
fuerza necesaria para asumir y llevar adelante los proyectos presentados desde
los movimientos sociales. Para avanzar en las demandas de los actores sociales
que apuestan a una transformación emancipadora, necesitamos de un Estado
vigoroso capaz de intervenir y controlar al mercado (Cfr. Hinkelammert,
2001, p. 198). Necesitamos repensar el Estado, identificando y potenciando su
capacidad de control sobre las burocracias privadas.
Para ello, es preciso confrontar la propuesta de Estado que el modelo liberal
ha logrado consagrar, y que está directamente vinculada a la configuración
histórica de los derechos tal y como ha quedado recogida en las declaraciones
tradicionales de derechos humanos. A partir de dichas declaraciones, tiene
lugar el establecimiento de “fueros individuales” frente al poder del Estado
(presentado como sociedad política), pero no así ante el poder del mercado
(visto como sociedad civil). Esta tendencia se ha exacerbado al extremo y el
mercado ha pasado a ser visto como espacio de libertad a ser preservado de
la acción del Estado (Cfr. Fariñas, 20005, pp. 111-112), lo que deja el campo
libre a la consolidación de la acumulación capitalista en sociedades marcadas
por profundas asimetrías de poder entre actores asumidos como iguales; una
igualdad que solo es posible sostener en términos formales, desconociendo las
reales condiciones socio-históricas (Cfr. Gallardo, 2000, p. 27). Al respecto, las
palabras de Franz Hinkelammert no pueden ser más contundentes:

La emancipación frustrada de la iluminación independizó la actividad


privada de los controles públicos. Desembocó en la sociedad burguesa y la
imposición mundial del capitalismo, que le corresponde. De la actividad
privada de individuos se transformó en la constitución del poder absoluto
de burocracias privadas, que se apoderaron de los derechos humanos para
legitimarse como poderes despóticos por encima de todos los otros poderes y
en cátedra mundial del pensamiento único que nos domina hoy. Necesitamos

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una respuesta, que, sin embargo, no será posible sino desde los derechos
humanos mismos. Por tanto necesitamos una crítica de la formulación de los
derechos humanos de las declaraciones del siglo XVIII. (2003, p. 461)

Una arista de este debate se plantea si asumir o no una


praxis que reconozca la responsabilidad de las violaciones
a los derechos humanos más allá del Estado. 
5. Para
concluir y seguir pensando derechos humanos
La concepción tradicional, es decir liberal, que restringe la violación de
derechos humanos exclusivamente a la actuación del Estado, acarrea entre
sus consecuencias el que se invisibilicen las responsabilidades de otros poderes
fácticos en las violaciones de dichos derechos, dificultándose así la búsqueda de
respuesta frente a su actuación contraria a la vida digna de los pueblos. Como
bien resalta Ignacio Ellacuría:

El presupuesto de las luchas en favor de los derechos humanos, según el


cual era el Estado el principal opresor de los individuos, no es correcto,
porque dentro de la sociedad hay poderes y mecanismos de opresión
y explotación, no sólo del individuo por el individuo sino de mayorías
sociales por minorías sociales, sean clases o no. En estas condiciones,
el robustecimiento del Estado en favor de las mayorías populares para
contrarrestar el poder de las minorías viene a ser una vuelta al poder de
todos contra el poder de unos pocos. De todos modos queda pendiente,
aún después de la revolución francesa (1789) y de la soviética (1917), el
problema de unos derechos humanos que se planteen no sólo para las
mayorías sino desde y por las mayorías. (2001, Nota 9, pp. 441-442).

Entendiendo los derechos humanos como una construcción socio-histórica,


su posible reformulación ha de estar sometida a la dinámica que definan
los actores sociales y las relaciones (de consenso, conflicto, construcción de
hegemonía, etc.) que entre ellos se constituyan. El discurso de los derechos
humanos (la manera de comprenderlos, de narrarlos, de aplicarlos, de
institucionalizarlos, etc.) es, al fin y al cabo, un espacio de disputa. 

16
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Cuando se plantea que el Estado y no otros actores tiene obligaciones en


materia de derechos humanos, ello responde a una construcción social que,
precisamente por ser tal, puede ser reformulada. Evidentemente, plantear que
otros actores tengan obligaciones y se consideren potenciales violadores de
derechos humanos, también es una construcción social; en ningún caso estamos
describiendo fenómenos naturales o encarnando esencias eternas. La pregunta,
entonces, es, qué forma de comprender y de aplicar los derechos resulta más
provechosa de cara a lograr mejores condiciones de justicia, de vida digna.
Como hemos visto, éste es un discernimiento que hay que hacer tomando
en cuenta las potencialidades, pero también los riesgos que plantear el cambio
traería. Un riesgo puede ser que los Estados relajen su nivel de compromiso con
los derechos humanos. Desde nuestra perspectiva, hablar de ampliar el espectro
de actores con obligaciones en materia de derechos humanos, no se entiende
necesariamente como disminución de obligaciones al Estado; no planteamos
una transferencia de obligaciones.
La pregunta es, entonces, si no sería favorable a las luchas en las que estamos
empeñados, empezar a reconocer los límites en que nos coloca la comprensión
de los derechos humanos que se fraguó fundamentalmente en el marco de
la doctrina liberal, en la medida en que dicha comprensión de los derechos
impide gestar mecanismos de lucha que sirvan para enfrentar a algunos poderes
fácticos que, valiéndose, por ejemplo, de una pretendida división entre lo público
y lo privado, actúan al amparo de los vacíos y distorsiones que los actuales
instrumentos jurídicos presentan a partir de esa concepción teórica.3
Un ejemplo claro de ello es la actuación de las tras-nacionales. Bien a través
de Estados penetrados por el poder económico, o directamente a su servicio,
o bien valiéndose de la debilidad de otros Estados, en el marco del derecho
liberal se ha venido construyendo una nueva "lex mercatoria" que deja impune
prácticas que afectan gravemente la posibilidad de que los pueblos puedan vivir
condiciones de vida digna. Esta nueva "ley" que rige el intercambio comercial en
el escenario globalizado establece sanciones a los Estados cuando sus acciones

3 De ello da cuenta, por ejemplo, la decisión de la Corte Suprema de Justicia de EE.UU. del 21 de enero
de 2010, emitida en el caso "Citizens United vs. Federal Election Commission" en la que se elimina
el límite de financiación a las campañas electorales por parte de las grandes empresas. Resulta difícil
suponer que esa financiación no implicará luego cuotas de poder y definición de acciones por parte
de los gobiernos en función de los intereses de las empresas.

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

afecten los intereses de las empresas, sin que ocurra lo contrario obligando a las
empresas a resarcir los daños causados a las poblaciones.
En busca de brindarnos instrumentos para llevar adelante los proyectos de
sociedad en los que creemos, convendría, por una parte, afianzar y desarrollar
las herramientas legales con las que ya contamos, tanto en el plano nacional
como en el internacional, y avanzar en el servicio que el Estado debe prestar
supervisando, controlando y sancionando las acciones por parte de las empresas
que afecten la calidad de vida de la gente; pero, al mismo tiempo, podemos
pensar en construir y desarrollar otras herramientas conceptuales, jurídicas,
políticas, que permitan actuar también en los escenarios que la globalización
ha ido definiendo. Se trata de construir y consolidar nuevas formas de control
democrático que permitan atender a las asimetrías creadas (y, porque creadas,
susceptibles de ser transformadas), sometiendo así a actores hasta ahora no
considerados por la doctrina dominante sobre los derechos (Cfr. Pisarello,
2004). Evidentemente, esta construcción implicará un gran esfuerzo creativo,
no exento de riesgos, y una gran osadía política para definir los mecanismos,
instrumentos y sistemas de protección necesarios.
El criterio para orientarnos en este terreno lleno de desafíos debe ser siempre
aquello que más favorezca la construcción de vida digna para todos y todas, pero
empezando por los y las que se encuentran en condiciones más precarias para
formular y desarrollar sus proyectos de vida: personas y colectivos sometidas a
relaciones de explotación, exclusión y subalternización estructural.

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O tempo histórico e “O Capital” de Marx:
centralidade do futuro emancipatório na
disputa sobre o presente e o passado

Newton de Menezes Albuquerque1

Introdução: o necessário reencontro com Marx e sua


metodologia histórico-crítica
Tornou-se “lugar comum” identificar Marx com uma concepção fechada
de história, presa a um presumido causalismo “físico”, onde a temporalidade
circunscreve-se a uma reiteração do presente que, por sua vez, atribui sen-
tido ao passado e ao futuro como seus desdobramentos lógicos. Tal leitura
decorre de variados fatores, alguns compreensíveis, outros nem tanto, como
passaremos a verificar.
Marx como todo grande pensador encontra-se sujeito a diferentes apropria-
ções teóricas, construções discursivas, interpolações, como sói ocorrer com He-
gel, Kant, Aristóteles, Spinoza, etc. Via de regra, os pensadores estão aí para se-
rem “usados”, relidos a partir de um novo contexto social, político, econômico,
cultural. Contudo, nem sempre, as interpretações de seus aportes teóricos são
feitos com fidelidade metodológica, problemática, ao concebido pelo referido
pensador em seus propósitos iniciais.
No caso de Marx, há um agravante, dado o peso de seu escrutínio sobre as
estruturas do capitalismo vigente, colocando-se assim como um crítico impie-
doso de seus valores e normatividades, o que fez com que desde cedo aquele
visse-se fustigado por seus inimigos, notadamente por todos aqueles que faziam
apologia à ordem produtora de mercadorias. Ou seja, Marx, suas percucientes

1 Professor do Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade de Fortaleza (UNIFOR).


Professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC). Doutor em Direito pela
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

análises, conjeturas, proposições foram engolfados pela torrente dos enfrenta-


mentos de classe, pelas clivagens entre as forças burguesas e proletárias que se
esbatiam, sem pudor do sacrifício da verdade por parte de seus figadais inimi-
gos. Compreender suas reflexões, separando-as dos interesses concretamente
situados, forcejando por uma apreensão plenamente autônoma, neutral, de sua
teoria, é pouco viável. Nesse sentido, qualquer autor encontra-se”ameaçado”
pela subjetividade projetante de quem o lê, o que podemos tentar coibir, para
o bem do funcionamento adequado da “esfera pública” argumentativa, são os
excessos, apodando as arbitrariedades tipicas do modismo dominante, prenhe
de “narrativas” sem fundamento doutrinário.
Ademais, as circunstâncias específicas da assimilação do pensamento mar-
xiano pelas distintas realidades nacionais, com suas peculiares formações sócio
econômicas, modelou em graus diversos o sentido da compreensão, do alcance
da crítica marxiana. Posto que uma coisa era compreender a produção de Marx
em sociedades modernas, relativamente integradas na ordem capitalista mun-
dial, dotadas de sofisticadas relações de produção, articulação ideológica de
representações de mundo hegemônicas; outra diversa, era introduzir Marx em
realidades periféricas, dominadas por lealdades estamentais em interação com
as exigências mercantis, onde a complexidade da sobreposição de paradigmas
requeria uma flexibilidade teórica.
Acresça-se a isto, os processos burocráticos que se assenhoraram da Revo-
lução Russa, responsáveis pelo advento trágico do stalinismo e de toda uma
perspectiva apologética do real, do Estado, precisamente após o “Termidor”
soviético, “canibalizando” Marx e sua filosofia da história dentro de um en-
torno doutrinário pobre, esquematista, evolucionista e sem musculatura. Tais
dimensões, com certeza, levaram a que Marx e o marxismo, muitas vezes
fossem vistos como criadores de uma doutrina dogmática, linearista, reducio-
nista do homem e da história.
Outro aspecto a ser considerado, é a abordagem a-histórica de Marx, em que
seus textos, artigos e livros são examinados em “abstrato”,sem coligi-los com os
fatos e motivações que levaram a sua produção. Por exemplo, não é recomendá-
vel falar de Marx sem mencionar os ajustes de contas que ele fez com a filosofia
idealista de Hegel, marcada pelo veio excessivamente sistemático, teleológico
de sua obra. Nem muito menos, de seu rechaço da passividade de um materia-
lismo grosseiro, amplamente difundido por distintos círculos intelectuais.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

A ausência desses pressupostos marxianos, de sua consideração adequada,


termina por levar a que Marx sejainterpretado equivocadamente. Daí a frequ-
ência dos unilateralismos metodológicos, tendentes a vê-lo ora como um fisica-
lista social, de laivos positivistas, ora como uma duplicação hegeliana de uma
razão metafísica vagante pela história à sombra dos atores concretos.
O tempo histórico de Marx, portanto, para ser compreendido em seus pró-
prios termos, precisa ser escoimado dos “a prioris” preconceituosos, dos parcia-
lismos ideológicos, das escumalhas dos ódios recalcitrantes, ineptos para uma
avaliação rigorosa, honesta e minimamente isenta das contribuições de Marx
sobre o assunto em tela.
De resto, devemos nos precaver em relação aos vícios corporativistas,
posto que como juristas, temos por péssimo hábito, a tendência a nos en-
clausurar em fórmulas canônicas, não episodicamente de cariz retórica,
quase sempre vazia em termos de conteúdo, de substância. A história para
o direito instituído reduz-se, corriqueiramente, a mera expressão dos inte-
resses de classe dominantes, a razão ou desrazão dos “vencedores”, de sua
gramática de poder. O silêncio eloquente dos códigos, das leis, quase sem-
pre estampa-se na dicção hermenêutica por parte dos aparatos do Estado
burguês, estruturalmente refratários às demandas dos trabalhadores, “dos
de baixo”. O que os leva a ter uma visão exegética, coagulada da história,
acrítica diante dos valores e conteúdos postos pelas normas que integram o
ordenamento jurídico. As categorias normativas da propriedade, da posse,
dos tipos penais, dos contratos, dos procedimentos solenes são veiculadas
à sombra do tempo, da história, ou, como dá no mesmo, dentro de uma
história homogênea, “pacificada” pela omnipresença da racionalidade do
dinheiro e de seus agentes vertidos em “paisagem” onde floresce o direito,
como se estes fossem partes de uma realidade intangível.
O estudo de Marx, a apreensão de sua temporalidade histórica aberta,
resinificada pelas lutas em favor de um futuro emancipatório, retesa os
tempos aparentemente fixos do presente e do passado. Precisamos saber
que o passado, o presente e o futuro estão em disputa, e os juristas em
vez de figurarem como seguidistas de uma ordem decomposta, genuflexa
à ilegitimidade do Capital, como vemos no Brasil contemporâneo, devem
funcionar como sujeitos aliados dos trabalhadores, do povo e dos direitos
instituintes que forcejam por criar.

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

2. Marx, o tempo do “Capital” e os vários tempos


concomitantes na sociedade e no direito: contraposição às
visões causalista, linear e fatalista da história
É usual afirmar-se que Marx defendia uma visão de mundo pautada numa
crença linear, evolutiva, inelutável e hermética da história. Como prova, em
geral, apresentam manuais “marxistas”, artigos de terceiros, quando muito,
excertos pinçados de sua obra, apresentados como expressão da totalidade de
sentido última de sua reflexão. Tal caricatura, por vezes, é referendada por de-
terminados epígonos do pensador alemão, o que dificulta o combate as vulgatas
deterministas que se lhe são impingidas.
Marx, na verdade, buscou com sua obra abrangente fugir das percepções
escolásticas do real, bem como refugar as ortodoxias metodológicas, as filoso-
fias da história pejadas de necessitarismo, mesmo porque tais premissas opõe-se
frontalmente ao que pretendem deduzir. Para começar, um tempo fechado, des-
dobrado em si mesmo, simples realização de um evento pré-figurado não pode
ser considerado histórico. Pelo menos, no sentido moderno de sua acepção,
conformada pela inauguração da subjetividade livre, do trabalho como catego-
ria ontológica projetante sobre o meio. Princiaplmente depois de sua virada feu-
erbachiana, quando antrologiza sua percepção da dialética histórica, invertendo
a metodologia idealista de Hegel. Enzo Falleto capta tal mudança:

Conviene mantener presente que la filosofia hegeliana definia la


historia como la historicidad de um principio infinito que se realizava
em un processo dialéctico. Frente a esta interpretación Feuerbach va a
representar la reinvindicación del carácter humano de la historia ; ya
no es un principio el que se realiza a través de la historia sino que esta
es lo los hombres hacen. Este hecho significaba reconocer la finitud del
hombre y de las relaciones de los hombres entre si. La base del nuevo
pensamiento natural de la existencia humana, las conexiones entre la
natureza y la sensibilidad del hombre. La historia pasa a ser una historia
de la relación entre el hombre y su medio natural a través de su própria
sensibilidad ; em forma más especifica, aunque redundante , a través de
de la necessidad de satisfacer necessidades.2

2 Falleto, Enzo. Falleto Latinoamericano: artículos y ensaios.Santiago do Chile: Editorial Universitaria,


p.113. 2016.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Afinal de contas, quando Marx critica implacavelmente o capitalismo


não o faz sob o diapasão da negação da liberdade, do advento da supremacia
ordenadora do Estado e de sua presumida ação conciliatória dos interesses
gerais, sacrificando a autonomia privada do homem. Muito pelo contrário,
Marx investe contra a ordem do Capital, exatamente por que esta é incom-
patível com a verdadeira liberdade, nascida e possibilitada na confluência
de uma sociabilidade erigida sob o reconhecimento recíproco das individu-
alidades livres da coercibilidade presentes nas estruturas normativas deriva-
das do metabolismo da mercadoria.
Foi com a assunção do capitalismo em sua figuração jurídica de Estado Li-
beral que se articulou a ideologia de uma história de circuitos fechados, ten-
dente a um final inexorável. A melhor consecução de tal construção ideológica
vislumbra-se no positivismo sociológico de Augusto Comte, em que o autor
francês intenta submeter a história dos homens aos desígnios de uma causalida-
de natural infensa às contingências, às mudanças.
A ordem liberal burguesa, após os faustosos festins e rega-bofes de sua revo-
lução vitoriosa, empanzinada de poder e privilégios, “in continenti” proclama-
-se infensa às vagas da história pretérita, agora abolida pela eternização norma-
tiva das condições institucionais postas pelo direito. “Se houve história, não há
mais!”3, essa consigna combinada como o preceito da submissão do existente
ao “Tribunal da História” de Immanuel Kant, condensam os fundamentos do
Iluminismo, de sua irresignação contra e toda e qualquer ordem factual das
coisas em desacordo com os ideais da transparência e da ética republicanas. Pa-
lavras de ordem esvaziadas de sentido perante as pretensões de poder das clas-
ses dominantes, estas sentindo-se crescentemente fustigadas pela emergência
proletária na Europa. A “razão emancipatória” dá lugar a “razão instrumental”,
segundo a terminologia versada por Adorno, ao flagrar as tendências destruti-
vas do capitalismo em nossos tempos.
Enfim, ao contrário do propalado, não é Marx que defende uma ideia de
historicidade fechada, retilínea, mas sim os pensadores da ordem dominante,

3 “Os economistas procedem de um modo curioso . Para eles, há apenas dois tipos de instituições, as
artificiais e as naturais. As instituições do feudalismo seriam artificiais, ao passo que as da burguesia
seriam naturais. Nisso, eles são iguais aos teólogos , que também distinguem entre dois tipos de
religiões. Toda religião que não a deles é uma invenção dos homens, ao passo que sua própria religião
é uma revelação de Deus. Desse modo, houve uma história, mas agora não há mais.” Marx, Karl.
Miséria da Filosofia. p.113.

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
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do capitalismo vigente, que diante da perpetuidade dialética do movimento


crítico ao real, busca refreá-lo. No âmbito do direito, verificamos tal proce-
dimento de interdição à história, noutra variante do positivismo, este já de
matriz lógico-normativa, o positivismo jurídico de Hans Kelsen.
Hans Kelsen eminente teórico, metodólogo do direito do século XX, com
fulcro em seus estudos feitos no “Círculo de Viena” , particularmente inspirado
nas fusões entre os horizontes filosóficos do neokantismo, da física e da mate-
mática de Carnap e Wittigenstein, pretendeu imunizar o direito e sua produção
das influências da realidade histórica e social. Segundo sua teoria do direito, a
interpretação jurídica deveria ater-se a moldura normativa, mais precisamente
ao raciocínio formalista, eminentemente lógico-formal, de aplicação\subsunção
das normas específicas às normas mais gerais em consonância com a hierarquia
pré-constituída da pirâmide normativa ideada por Kelsen. Aos fatos, a dimen-
são decisória, conflitiva da política, dos interesses, é obnubilada pela ênfase
num cientificismo dogmático do direito. Mas antes de tudo, tal edificação dou-
trinária faz-se com base na negação peremptória da história, em seu fechamen-
to acrítico. Tendência do desenvolvimento do capitalismo em sua fase contem-
porânea de desenvolvimento que é bem flagrado por Pachukanis4:

Finalmente, o formalismo extremo da Escola Normativa ( Kelsen)


indubitavelmente expressa a tendência geral decadente do pensamento
científico burguês recente, que tende a se esgotar em estéreis artifícios
metodológicos e lógico-formais, flertando com a completa ruptura com
a realidade de fato.

Ruptura mencionada que só se agrava na fase atual de financeirização apro-


fundada do capitalismo imperialista, justificadas pela ação de seus intelectuais
no interior do direito, dispostos a destruição, inclusive, da história de tutela de
direitos e garantias institucionais no âmbito do livre-cambismo, em nome da ab-
solutização da ordem, da segurança e do combate ao terror. Mais do que nunca, a
história ingressa em uma “presentificação” que obstrui, ou busca fazê-lo, qualquer
alternativa civilizatória ao capitalismo. O direito como “técnica de compartimen-
tação do poder”, de “positivação da liberdade”, de acordo com a boa consciência
liberal dos primórdios do capitalismo, decai, para condição de instrumento do

4 Pachukanis, Eugeni. A Teoria Geral do Direito e o Marxismo e Ensaios Escolhidos 1921 -1929. São Paulo:
Sundaermann, p.94, 2017.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

poder nu. Da observância pura e simples aos comandos aos aparatos privados
e estatais, agora posta-se á serviço do mercado. Dinâmica de poder absorvida,
por sua vez, pelo azeitamento de uma temporalidade instantânea, fundada na
circulação alucinante do dinheiro e da mercadoria em consonância com a mun-
dialização do Capital. A temporalidade na ordem das mercadorias, cada vez mais
afasta-se das pessoas, da mundividência de seus carecimentos, genuflexando-se
aos requerimentos do Capital, do espaço-tempo de sua produção e reprodução
ampliadas, o que, por sua vez, tem dado azo a transição para a constituição de
Estados de Exceção.
Aliás, o positivismo lógico-jurídico mais do que isolar o direito e sua produ-
ção da história, também assim procede em relação ao Estado como marco insti-
tucional de preservação da lógica do sistema. Em relação a este, estabelece uma
“recriação” de seu poder, extirpando tudo que não for normativo, notadamente
aquilo que for histórico, entendendo-se por tal, as possibilidades alternativas
do “tempo instituinte”.Procede-se desta forma, a dogmatização, ao enclausura-
mento do Estado e do Direito em si mesmos, interditando-lhe a crítica sobre a
natureza de suas instituições, aos interesses que o conformam.
Carré de Malberg, em passagem sintética condensa tal orientação positi-
vista com acuidade ao citar Jellinek, outro expoente do positivismo norma-
tivista antihistórico:

La consecuencia, muy importante, que se deduce de estas observaciones,


es que el Estado no debe ser considerado como uma persona real, sino
sólo como una persona jurídica, o mejor dicho, que el Estado aparece
como persona únicamente desde el momento em que se mira bajo su
aspecto jurídico. Em outros términos, que el concepto de personalidad
estatal tine un fundamento y un alcance puramente jurídicos ( Jellinek,
op.cit. ed. francesa, vol.1, pp.267, 271 ss., 295; Michoud, op,cit., vol.I,
pp.7 y 98) …. “Es pues, un concepto exclusivamente jurídico, em el
sentido de que tiene ya su fonte em el Derecho.5

A demonstração do “expurgo” da história, ou de fechamento à dialética, é


uma sobeja comprovação de como pensamento burguês no período hodierno
abre mão de uma dimensão legitimatória, hegemônica, existencial da realidade.
Tempo histórico que é mediado, “administrado” pelo direito e seus mecanismos

5 Malberg, Carré. Teoria General del Estado. México: Fundo de Cultura Economica, p. 43, 2001.

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legais de protraimento e agilização dos ritmos sociais. Como pode-se constatar


em momentos diversos, desde a informalidade, as mediações ágeis dos inte-
resses, cinzelados pelo direito privado, passando pela personificação “imortal”
do patrimônio, até chegar ao constitucionalismo com suas variantes políticas,
porosas ás pressões sociais, principalmente “dos de cima”. A concentração e
distencionamento do tempo dentro da ordem capitalista dá-se em conformi-
dade com as exigências estruturais, funcionais dessa mesma ordem. O que já
não acontece com as “decisões judiciais” contra os pobres, trabalhadores, “seres
periféricos”. Nesses casos, a rapidez do tempo do processo é sabidamente maior,
haja vista a “periculosidade” dessa gente, e a proverbial seletividade dos juízes.
Em raras ocasiões, a não ser quando se conta com correlação favorável às
forças trabalhadores, o direito labora em direção ao futuro, mormente em países
dependentes como o Brasil que detém classes dominantes hiper-reacionárias,
resilientes a toda e qualquer generalização de direitos aos pobres. Quando mui-
to, como refere-se Marcelo Neves, inscreve-se o direito como cristalização de
demandas progressivas como elemento nominal, a ser devidamente procrasti-
nado em sua efetivação, cuidando de aplicar medidas de segurança contra os
potenciais “subversivos”.
Os acontecimentos no Brasil, agravados em 2016 com o golpe de Estado defla-
grado contra a presidenta Dilma Rousseff, colocam tal desiderato com dramatici-
dade. Basta contrastar a jurisprudência dos Tribunais Constitucionais Europeus,
com o papel desempenhado pelo STF no delineamento do Estado de Exceção en-
tre nós. A distância entre “esses dois mundos” é nítida, insofismável, vexaminosa.
François Ost em seu “Tempo do Direito” nos indica as diversas funções do
direito na “gestão” do tempo, onde memória, esquecimento e poder são desen-
volvidos em suas respectivas temporalidades. Sem esquecer, porém, que é na
estabilização de um tempo pretérito, sem descontinuidade com o presente e o
futuro, que se trabalha a importância da segurança jurídica como objeto central
da legitimação do direito nas sociedades burguesas. As rupturas, a não ser as au-
torizadas pelo poder constituído da ordem, são criminalizadas, compreendidas
como tradução, em tom pejorativo, de populismos.
A escrita de Marx de sua obra magna “ O Capital” é precedida de um
ajuste de contas com o idealismo e o positivismo factual impregnados na
ciência e na filosofia de então. Já na “Ideologia Alemã” e nos “Grundrisse”,
Marx havia se oposto a uma histografia meramente unidimensional, que

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

cala as vozes dissonantes e aplaina os processos de sua elaboração, clarifi-


cando sua visão inovadora sobre a história.
A teoria da história para Marx radica-se da reflexão sobre o fino enredo
entre objetividade fatual, força das relações de produção, das formas de apro-
priação das riquezas, e a consciência como fator de alteração dos marcos ins-
titucionais, da transição para um outro horizonte civilizatório. A história que
em Marx é tematizada em variados níveis, não prendendo-se aos pressupostos
eurocêntricos clássicos, ainda que marcado por ela. Contudo, Marx superar tal
particularismo, enveredando para o estudo das temporalidades e espacialidades
regionais da macrorealidade dos sistemas de produção.
A ideia de Revolução Permanente, mais tarde continuada por Trotsky,
surge do reconhecimento das distintas temporalidades submergidas na tem-
poralidade geral, atribuidamente única da normatividade capitalista. Tempo-
ralidades variegadas que estruturam-se diante da sobreposição de modos de
produção diferente, combinando modernidade e atraso, nos países capitalistas
de desenvolvimento periférico.
Uma histografia feita no presente com o único propósito de transformar o
existente no desenvolvimento óbvio, linear e absoluto das instituições burgue-
sas. Mesmo porque foi com tal procedimento metodológico, “a priori” valora-
tivos “normalizadores” da vida social, que se delimitou a “narrativa” sobre o
Estado-Nação nos albores da modernidade. Para tanto, fez-se imprescindível,
apagar os vestígios das pegadas de outras civilizações, povos, culturas, línguas,
etnias, direitos, estabelecendo o mito da unidade nacional abstrata e imperecí-
vel dos homens. Pois é com lastro na ideologia que se “naturaliza” os vínculos de
poder, não somente com a força, a coerção dos exércitos e polícias.
Marx no “contrapelo” dessa história oficial, presa aos circuitos apologéticos
da ordem posta, instaura um pluralismo de caminhos, de potencialidades
criativas, de inauditas tensões sobre a ideia de “partido único” da história. A
leitura do “O Capital” revela-nos uma plurivocidade, interpelando o tempo
com base na proeminência da consciência. Claro que Marx sabia que a história
não pode ser redirecionada em seu “funcionamento” pelo voluntarismo dos
homens, não obstante a relevância da subjetividade na ação transformadora, no
impulsionamento da “práxis”. Entretanto, Marx postulava que a normalidade
burguesa do tempo, do espaço ancorada nas relações de produção, de poder,
entram periodicamente em crises, podendo suscitar brechas para ação
revolucionária do mundo pelos trabalhadores. Por isso, Marx com “O Capital”

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

livrou-se definitivamente de uma concepção homogeneizante do tempo prescrito


por uma tradição filosófica, como se percebe em Hegel mais notadamente,
buscando achegar-se a imanência da política, das lutas sociais.
Saliente-se que Marx ao deter-se analiticamente sobre os processos de for-
mação do capital, dos engenhos que este foi capaz de dar nascimento, nunca
pretendeu agir como um futurólogo, presciente das leis férreas da história. Se
há em Marx, como bem apanhou Gramsci, “incrustações positivistas” em sua
ampla obra, mesmo porque ele era um homem de seu tempo, num tempo de
euforia industrializante, de saberes florescentes, de técnicas poderosas de do-
minação da natureza, também o é, que ele se opôs, de maneira cada vez mais
pronunciada, a um casualismo mecânico e finalista, na medida em que cria na
liberdade do homem. Sua crítica ao capitalismo, identificando-o como momen-
to pré-histórico do homem, deve-se a ênfase positiva que atribuía história como
realidade a ser transfigurada pela livre expressão da personalidade do indivíduo.
Marx escreveu seus textos em uma epocalidade de crise da dominação liberal,
ainda que distante dos ares extremos dos cataclismos vividos no final dos anos
20 como ”crack” da Bolsa de Nova Iorque. Mas foi o suficiente, para concluir
que a noção de uma história mais permeável, pluralista, demandava ser contida,
controlada, sob pena de que as massas populares tornaram-se insurretas diante
das promessas vãs feitas pela burguesia às maiorias. Cedo, o povo, compreendeu
que suas demandas mais singelas, despertavam o furor das classes dominantes
e de seu Estado. A teoria da história precisa ser constringida, alinhada, coe-
sionada, consensualizada pela ordem histórico-concreta em vigor. O instituí-
do concretamente modularia, a partir daí, a ótica da “universalidade” mítica
imposta, atribuindo-se aos agentes da ordem jurídico e política, um papel de
“enquadramento dos eventuais desordeiros”.
Marx ao longo do “O Capital” examina teoricamente os processos de nas-
cimento, formação e “ideologização” da ordem capitalista, sem olvidar as de-
núncias por meio da menção aos relatos de inspetores de fábrica ingleses dos
regimes desumanos de acumulação primitiva que ceifavam vidas de crianças,
mulheres e velhos. Perscruta ainda sobre a lei de equivalência das merca-
dorias, advertindo sobre a distância entre o plano das aparências,da remu-
neração “justa” da força de trabalho, e os processos ocultos de exploração
daquele como eixo da dinâmica produtiva, incrementadora de sobrevalor da
produção. Mas, principalmente, na desmistificação da falsa separação entre as
temporalidades dos circuitos econômicos da vida social, ao desvelar os nexos

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

inextrincáveis entre as esferas da produção, distribuição e circulação de bens.


Obviamente que Marx não era um determinista, compreendida o papel da
política na delimitação da ação do Capital e da dinâmica de sua temporalida-
de hermética. Por isso, Marx reconhecia que em dados momentos, a força da
luta de classes poderia interferir amainando os ritos e processo brutalizantes
do capitalismo. Processos estes que ultrapassam a pretensa autonomia do fun-
cionamento dos parlamentos como instâncias de representação da “vontade
geral”, mas dimanavam, preferencialmente, da auto-organização operária e
popular. Pois, segundo suas palavras:

Vimos que essas determinações minuciosas, que regulam com uma


uniformidade militar os horários, os limites, as pausas do trabalho de
acordo com o sino do relógio, não foram de modo algum produto das
lucubrações parlamentares. Elas se desenvolveram paulatinamente
a partir das circunstâncias, como leis naturais do modo de produção
moderno. Sua formulação, seu reconhecimento oficial e sua proclamação
estatal foram o resultado de longas lutas de classes.6

Afinal a temporalidade indivisa do capitalismo deve-se a centralidade do


capital, de seu metabolismo, paradoxalmente “necrófilo”, posto que seu espec-
tro define-se pelas necessidades internas de sua constituição negando a fruição
da vida pelas maiorias trabalhadoras. No máximo, aceitam que gozem de uma
subvida, premida pelo medo hobbesiano. Como pode-se depreender da densifi-
cação de tais tendências desumanizadoras em sua atual fase neoliberal, em que
o tempo é praticamente suprimido dos trabalhadores, ao ponto de sua vida pri-
vada ver-se subordinada às demandas contínuas da empresa, até quando estão
em seus lares. O tempo do lazer, do descanso, da “preguiça”, deve ceder diante
do imperativo do mercado. Para tanto, avançam sobre as aposentadorias, incre-
mentam exigências brutais de produtivismo, estabelecem moralismos punitivos
para interiorizar e racionalizar a culpa no trabalhador, de maneira a torná-lo
mais subordinado ao Capital.
Ou melhor, o tempo histórico do capitalismo, oposto ao de Marx, é da
absoluta presentificação, da instantaneidade, da descartabilidade dos objetos,
dos corpos, das pessoas em nome da abstração do tempo mercantil, das finanças,
do dinheiro. A própria transformação da cultura no lúdico, presumidamente

6 Marx. Karl. O Capital. São Paulo: Boitempo Editorial, pp354-355, 2001.

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

vivido no “descanso” após o trabalho, tem como consequência a destruição


da arte como promessa de futuro, visando assim interditar a ampliação dos
sentidos, o sentido antecipatória da utopia como possibilidade de uma nova
realidade. A tendência uniformizadora, determinista do capitalismo, no afã de
colonizar as demais normatividades sociais pela da economia, pelo dinheiro,
explica o templo bloqueado dos adeptos da racionalidade liberal como
tendência inelutável da “modernidade”. Modernidade encerrada na razão
tecnológica dos aparatos que definem os critérios de eficiência, de produção,
inclusive de lazer. A técnica ora autonomizada, desprende-se dos pressupostos
da liberdade, da dúvida, da polivalência dos processos democráticos e
humanistas. Segundo Marcuse:

Tudo contribui para transformar os instintos, os desejos e pensamentos


humanos em canais que alimentam o aparato. As organizações
econômicas e sociais dominantes “não mantém o poder através da
força… Fazem-no identificando-se com as crenças e lealdades do povo”,
e o povo foi treinado a identificar suas crenças e lealdades com as
organizações. As relações entre os homens são cada vez mais mediadas
pelo processo da máquina.7

O tempo utópico do “ainda não existente”, dito por Ernest Bloch, atualiza as
potencialidades encerradas de futuro presentes na liberação do trabalho. A utopia
e a intensidade interior do vivido, rompendo-se com a instrumentalidade aliena-
da do tempo do Capital, projeta-se em variados espaços. Como referiu-se Bloch8:

O espírito da utopia está presente na predicação definitiva de todo grande


enunciado, na catedral de Estrasburgo e na Divina Comédia, na música
expectante de Beethoven e nas latências da Missa em si menor . Ele está no
desespero que ainda contém o unum necessarium como algo perdido, e no
hino á alegria. Tanto o leyrie quanto o credo nascem de modo bem diferente
no conceito de utopia como uma esperança compreendida, mesmo que
não tenham mais o reflexo da mera ideologia situada numa certa época,
justamente nesse caso. (….) A função utópica arranca os assuntos da
cultura humana do leito pútrido da mera contemplação e desse modo

7 Marcuse, Hebert. Tecnologia, guerra e fascismo. São Paulo: Unesp, p.81, 1998.
8 Bloch, Ernest. O Princípio Esperança, p. 157. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

descortina sobre cumes de fato galgados o panorama ideologicamente


desimpedido do conteúdo da esperança humana.

Marx com “O Capital” não intenciona replicar o modelo de cientificidade


factual, legalista, mecânico de um tempo/espaço limitados pelas condicio-
nalidades do horizonte posto. Busca sim, abrir-se a um tempo profético, não
no plano religioso, mas de ultrapassagem dos limites dados pelos párocos do
puritanismo mercantil, de sua teologia ignóbil que coloca a mercadoria na
condição de imagem a ser adorada. A profecia “secular” de um projeto para
além da “razoabilidade” instituída do Estado, da administração dos homens
e coisas,instaurativo de um kairós ativador de um homem autêntico, expres-
sivo, autônomo em quea individualidade seja a condição de uma sociabili-
dade fundada no reconhecimento recíproco entre todos. Não é à toa que os
liberais, encerrados no tempo contábil da ordem, veem Marx como arauto
do caos, da desordem, trazidos pelos eventos da revolução que seccionam
o tempo contínuo, interpelam o dado, questionam o direito como apanágio
da segurança em desacordo com a liberdade a igualdade, assim como da
afirmação da dignidade humana.
O projeto comunista em Marx enraíza-se não na abstração da mercado-
ria, do dinheiro, da instrumentalidade pragmática, mas sim na elevação do
homem à humanidade perdida, a construção deum novo Renascimento, de
uma retotalização dos sentidos, da existência em comunidade de indivíduos
iguais nas suas diferenças.

3. Marx e o contratempo, ou a assunção das


temporalidades dissonantes em contraposição
ao capitalismo
Daniel Bensaid analisa em seu “Marx intempestivo” o que ele denomina de
“contratempo”, categoria que traduziria um tempo contraposto a temporalidade
do Capital em suas distintas esferas. Inspirado na perspectiva de Marx, mas
também de outros pensadores contemporâneos nele inspirados como Benja-
mim. Bensaid propõe uma reconstrução do tempo vivido, daquilo que o sistema
denomina de “perda de tempo”, de ausência de produtividade.

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

A dinâmica do Capital, tanto no âmbito da produção, da circulação e do


consumo delimitam o sentido da vida útil, justificada segundo os termos do
modo de produção de mercadorias. Vivemos para o Capital, único sujeito váli-
do, enquanto as demais individualidades, especialmente as dissonantes ligadas
ao “Mundo do Trabalho”, das identidades culturais, políticas em recusa à or-
dem, são negadas como legítimas. O tempo no capitalismo está umbilicalmente
ligado ao espaço da mercadoria, a contabilização dos produtos feitos, daí por
que “tempo é dinheiro”.
O dinheiro, aliás, afigura-se como a mercadoria por excelência, a sucedânea
de todas as mercadorias individualizadas, a expressão geral, abstrata, podendo
ser até incorpórea de todas as demais configurações concretas, materiais das
coisas. No mundo da pseudo-concreticidade do Capital, o dinheiro é a causa
motor, eficiente das riquezas existentes, cabendo ao trabalhador um lugar se-
cundário, meramente passivo.
A lógica da funcionalidade do trabalho, empregado nas fábricas, molda essa
subordinação, ao acoplar o homem ao ritmo externo da máquina, aos ditames
gerenciais do comando administrativo da unidade fabril. Daí o caráter de es-
tranhamento do operário diante do seu produto, visto como algo gerado das
determinações do Capital. O próprio tempo apresenta-se como exterior, impes-
soal, regido pelas retortas do utilitarismo do processo produtivo. O paradoxal
é que o liberalismo como doutrina seminal do mundo burguês, síntese de suas
representações mais centrais, ontológicas, prega o valor autonomia como aquele
definitório da personalidade do indivíduo, apesar de sua interdição aos traba-
lhadores. Pregação esta que se vê confirmada pela noção prática fixada pelo
mercado da troca de equivalente dos produtos do trabalho individual mediado
pelo dinheiro, como bem referira-se Marx em “O Capital” No plano das apa-
rências, a premissa da autonomia de vontade legitima a crença na liberdade do
homem na esfera das “escolhas” com quem e o que troca. A própria venda da
força de trabalho seria resultante de um ato deliberado, incoercível, impessoal,
distante dos nexos de dominação direta da época feudal.
Afinal como falar de autonomia individual junto a uma unidade econômica
que dita processos, escolhas e modos de ação avessas à vontade da pessoa? Os
fundamentos constitutivos do racionalismo iluminista apregoaram a não-ins-
trumentalidade humana, numa afirmação da soberania ética do humanismo,
mas as condições existenciais da produção e reprodução do Capital são lhe
completamente antinômicos. O que prevalecerá? Claro, que os “imperativos

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

categóricos” do dinheiro, da mercadoria, da soberania abstrata da nação. Os


valores eminentemente mascarados em sua abstração normativa não têm cor-
respondência – no mundo burguês – com a facticidade.
Gramsci ao tratar em seu livro “Americanismo e Fordismo” dos processos
de alienação cultural presente no capitalismo, mencionara como a estética mu-
sical hegemônica, por exemplo, preparava o trabalhador para a subordinação
aos ritmos inclementes da produção. Além disso, examinou detidamente os
influxos do domínio do Capital sobre a autonomia individual do trabalhador,
constrangendo-a sob as necessidades internas, autotélicas, da produção bur-
guesa. A racionalização dos comportamento, o uso do tempo, o controle da
vida, da família, inclusive da vida sexual dos operários, vê-se magnificado pelo
estabelecimento do capitalismo mais avançados nos EUA, precipuamente com
o desenvolvimento do método fordista de produção. Como refere-se Gramsci
em trecho expressivo:

Por outro lado, é necessário encaminhar esta regulamentação do


fato sexual e a criação de uma nova ética. Deve-se observar como os
industriais (especialmente Ford) se interessaram pelas relações sexuais
de seus empregados e, em geral, pela organização de suas famílias; a
aparência de “puritanismo” assumidapor este interesse (como no caso
do proibicionismo) não deve levar a avaliações erradas; a verdade
é que não se pode desenvolver o novo tipo de homem exigido pela
racionalização da produção e do trabalho enquanto o instinto sexual não
for adequadamente regulamentado, não for também ele racionalizado9.

Tais aportes de Gramsci atualizam as análises de Marx no conjunto de sua


obra, mais enfática e concretamente em “O Capital” ao apontar o funcionamen-
to cego do movimento do Capital em sua figuração monetária, incontrolada até
pelos capitalistas enquanto indivíduos. Pois, segundo Marx: “A circulação do
dinheiro como capital é, ao contrário, um fim em si mesmo, pois a valorização
do valor existe apenas no interior desse movimento sempre renovado. O movi-
mento do capital é, por isso, desmedido”10

9 Gramsci, Antônio. Cadernos do Cárcere: Americanismo e Fordismo. Rio de Janeiro: Civilização


Brasileira, p.252, 2001.
10 Marx, Karl. O Capital. São Paulo: Boitempo Editorial, p.228, 2013.

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Por isso mesmo, precisamos da política, da afirmação de sua veia instituinte


em contraponto ao mecanicismo cego do funcionamento das relações de pro-
dução capitalistas, para socialmente revolucionarmos o sentido da apropriação
do tempo e do espaço, transfundindo-os aos moldes de uma sociedade humani-
zada. O horizonte comunista, de realização da autonomia individual e social do
homem, é alternativa para o fim da tirania da propriedade privada dos meios de
produção, e a consequente redenção de um novo tempo, um tempo humaniza-
do, suscetível de ser regulado pela construção da personalidade, da cultura, de
uma política, e até de um direito, livres da tutela do dinheiro, do Capital.
A contrapelo da noção religiosa, posteriormente secularizada, de progresso,
devemos orientar-nos pela ação consciente, ético-política, sem quedar-se numa
teleologia necessitarista, como, infelizmente fizeram os marxistas da II Segunda
Internacional socialdemocrática, ao adotar o evolucionismo reformista como
tática/estratégia da esquerda. Postura ideológica que significou uma adaptação
á ordem burguesa, a sua temporalidade geral e específica, submetendo os traba-
lhos às pilhagens do Capital. A luta transformadora, revolucionária articula-se
na proclamação de um outro tempo “profético”, insurrecto, em que a unidade
prévia, burocrática, dos aparatos do estado e do mercado burguês ceda lugar
para capilaridade de uma sociedade civil emancipada.
Um novo tempo que assimile dissonâncias, valores, línguas, expressividades
estéticas, étnicas diversas, multitudinárias, estiolando a unidade abstrato co-
ercitivo do sistema complementar formado pelo Mercado e pelo Estado. Claro
que com mediações, sabendo-se do longo ciclo de transformações, de desen-
volvimentos autônomos que precisam advir para que possamos ultrapassar as
formas de sociabilidade heteronômicas ainda existentes. O caminho adotado
por alguns povos, como os andinos com sua Revolução Bolivariana, fornece-nos
uma senda para a crítica indispensável as práticas tecnológicas de exercício do
poder herdadas da modernidade burguesa.
A hierarquização, a abstração da mercadoria, a genuflexão ao dinheiro, o feti-
chismo objetal, são as características que saltam os olhos das formações capitalis-
tas, cada vez menos abertas a democracia e ao Estado de direito, e por isso mesmo
divorciadas do espaço e tempo concreto forjado pelas comunidades enraizadas. O
tempo dos afetos, da política autêntica dos fins, da cultura, não deve, nem pode
ser o tempo homogêneo do mercado, do Capital personificado no Deus Dinheiro.
Homogeneidade que se vê endossada pela narrativa mítica burguesa da nação,
corpo indiviso, avesso a dissenção, ao pluralismo, a democracia.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Somente com a reescrita da gramática do tempo, sua abertura para os dissen-


sos sociais, poderemos pensar num tempo consentâneo com a liberdade de Marx.

Conclusão
O tempo é matéria controversa, suscetível a interpretações múltiplas se
observarmos a história. Há o tempo estáticos dos conservadores, dos morige-
rados costumes de antanho nas sociedades pré-modernas; há o tempo meticu-
loso dos afetos, da vida privada com seus hábitos de província nos séculos an-
teriores; há o tempo veloz, marcado pela instantaneidade do ciberespaço, dos
circuitos comunicacionais, dos deslocamentos vertiginosos da mercadoria em
tempos recentes. Existe ainda outros tempos, quase todos interditados pela
voragem da dinâmica do capitalismo financeiro, homogeneizador, intoleran-
te, autocrático, como o tempo dos profetas, da secularização revolucionária,
dos afetos expectante por um futuro emancipatório. Tempos estes, abertos,
porosos as subjetividades, as variâncias dos espaços, das culturas,das pulsões
jurígenas por novos direitos.
A grosso modo, numa síntese generalizante, diria que vivemos sob a égide
do tempo do Capital, da mercadoria figurado em Deus Dinheiro. A unifi-
cação do mundo fez-se, sob certo sentido, a partir desse império dos deuses
pagãos da indústria, esmagando distinções, identidades multitudinárias, con-
travalores de resistência a grana.
Marx foi um pensador audaz, corajoso, compromissado com o humani9smo
radical, com a cabeça mergulhada nos livros, na apreensão dos sistemas filosó-
ficos, teorias políticas, literatura e a larga acepção da cultura iluminista, mas
também tinha os pés cravados no chão, na imanência das lutas, dos processos
de crítica real, concreta, ao capitalismo e sua dinâmica criativa e destrutiva.
Nadou contra a corrente, insurgiu-se contra o pensamento único, determinista
da ciência, do linearismo histórico, não obstante ser constantemente acusado
do contrário. Por isso, contestou frontalmente a noção homogênea de tempo
forcejada pelo capitalismo. Buscou dá voz aos silenciados, aos operários, às na-
ções subjugadas pelo colonialismo, às dissonâncias ocultadas pelo positivismo,
ou mesmo pelos idealismos morais mistificatórios da realidade em sua época.
Daí a importância de sua obra, pelas potencialidades ainda não totalmente
exploradas em relação as dimensões emancipatórias de um projeto alternativo,

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

contraposto radicalmente, ao capitalismo e seu fetichismo aniquilador da


economia, da política, da cultura, de todas as instâncias da vida humana. Mais
do que nunca, as conquistas civilizatórias do homem encontram-se sob ameaça,
algumas delas obtidas no interior do próprio capitalismo, que hoje como
Saturno procurar devorar seus filhos. Nenhuma novidade, as classes antes
revolucionárias, presas ao particularismo de seus interesses, logo enfatuam-
se no poder, e renunciam aos seus valores. A dialética da história prega suas
peças, desvela os limites da dominação de classe, sua contraditoriedade com a
universalidade da liberdade, da igualdade.
Marx quando redigiu “ O Capital” buscou perscrutar os desvãos dos meca-
nismos sigilosos do real, da ideologia falseadora do mundo, voltada para legiti-
mação dos privilégios, da exploração, das hierarquias. Sua ciência desmistificou
as aparências solenes da ordem de produção de mercadoria, das retóricas de
seus graves juristas, da brutalidade das armas que a guardavam. Colocou a ci-
ência colada a ação, sem olvidar a sofisticarão dos meios intelectuais, da vetusta
tradução, da apropriação dos antigos saberes. Marx nunca se rendeu ao tempo
imediatista, apologético do Capital, nem as suas divagações mentirosas, presu-
midamente racionalizadoras do desenvolvimento das coisas.
Redescobrir Marx e sua teoria da história, abrindo-se as várias vozes dos
oprimidos, das particularidades de um mundo diferenciado em seus processos,
é uma necessidade inadiável dos pensadores e dos lutadores sociais. Marx é
atual como bem o sabemos, daí a pressa de alguns adeptos da ordem, ao bus-
caram enterrá-lo, fazerem-lhe as exéquias às pressas. Em tempos de violência
inaudita, de golpismo cínico, de tantos que ensarilharam as armas da crítica,
tenhamos a coragem de dissentir, de funcionar como as sementes intelectu-
ais de um mundo que forceja por nascer, um mundo autenticamente livre e
igualitário, de tempos lurais na variada expressão de nossas subjetividades ora
constrangidas pelo Capital.

Referências bibliográficas

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Brasileira, 507 p, 1999.

40
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Escolhidos 1921 -1929. São Paulo: Sundaermann, 384 p., 2017.

41
Socialismo para os ricos, liberalismo
para os pobres”: o Golpe de 2016
e a mercantilização dos direitos sociais

Rene José Keller1

Introdução
Uma das discussões políticas mais acaloradas ao longo dos anos de 2015-2016
foi se a queda da ex-presidenta Dilma Rousseff foi resultado de um processo le-
gítimo de impeachment ou se foi um Golpe de Estado2. No contexto regional, já
se tinha observado no Paraguai discussões semelhantes após as deposições do
ex-presidente Fernando Lugo, em 2012, bem como do ex-presidente de Hondu-
ras, Manuel Zelaya, em 2009. Os casos até então isolados não permitiram uma
reflexão mais ampliada de como tem ocorrido o término de alguns governos
de “esquerda”3 na América Latina, sendo que o ocorrido no Brasil pode ser o
indício da formação de um padrão.
Ao contrário dos Golpes de Estado ocorridos na América Latina no século
XX, em que a remoção de governos de “esquerda” era procedida à força, com

1 Doutorando em Teoria e Filosofia do Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro


(UERJ). Doutorando em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUCRS). Bacharel e Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais. Advogado trabalhista.
2 O processo de impeachment foi iniciado em 2 de dezembro de 2015, com o recebimento da denúncia
pelo então presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, encerrando-se em 31 de agosto de 2016
com o julgamento final pelo Senado Federal.
3 “Esquerda é o conjunto de teorias e práticas transformadoras que, ao longo dos últimos 150 anos,
resistiram à expansão do capitalismo e aos tipos de relações econômicas, sociais, políticas e culturais
que ele gera e que, assim, procederam na crença da possibilidade de um futuro pós-capitalista, de
uma ordem alternativa, mais justa, porque orientada para a satisfação das necessidades reais das
populações, e mais livre, porque centrada na realização das condições do efetivo exercício da
liberdade” (BOAVENTURA, 2018, p. 8).

43
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

utilização do aparato militar e notória influência norte-americana diante da


suposta ameaça comunista, atualmente age-se seguindo os critérios formais de
legalidade4. Quando se utiliza das próprias vias procedimentais do Estado, que
seriam um resguardo do mecanismo democrático contra abuso de poder para
a destituição de chefes do executivo, a palavra golpe passa a assumir uma outra
conotação, radicalmente distinta.
É sem dúvida alguma um trabalho custoso destituir um chefe do executivo
resguardando todos os ritos e tramites formais, todavia, há um preço político
menos alto, pois projeta ao menos a dúvida acerca da legalidade dos atos. A
defesa da queda de Dilma Rousseff como plenamente legítima toca diretamente
ao fato de o impeachment ser um procedimento constitucionalmente previsto,
enquanto os que defendem como sendo um Golpe apontam que não passou de
uma figuração, ante a inexistência de crime de responsabilidade.
Se em outros tempos era necessário inflar ideologicamente a população
como se houvesse uma ameaça comunista real, como foi o caso da queda do
ex-presidente João Goulart em 1964, agora basta encontrar alguma situação
passível de se enquadrar como crime dentro do ordenamento jurídico e levar
até as últimas consequências essa defesa. O caráter do Golpe se revela não
na sua forma, ou na atenção aos ritos legalmente estabelecidos, podendo so-
mente ser localizado nas reais intenções que mobilizaram tanto a população
brasileira, como o congresso e até mesmo entidades da sociedade civil, como
a Ordem dos Advogados do Brasil.
Quem busca defender a existência de um Golpe não encontrará caminho
aberto na forma, na observância dos ritos, senão no contexto conjuntural que o
antecedeu. Há ao menos quatro elementos centrais, extrajurídicos, para a ocor-
rência da queda da ex-presidenta Dilma: a) projeção dos escândalos de corrup-
ção; b) crise econômica; c) crise política (perda da base aliada no congresso); d)
ampla manifestação nas ruas. Sem a confluência desses quatro elementos seria
impossível gritar a palavra Golpe, ao passo que nenhum deles toca o funda-
mento jurídico da sua deposição. Portanto, o presente artigo tem como objetivo

4 No contexto latino-americano, a última tentativa de seguir esse molde “tradicional” de golpe foi
experimentada pelo então presidente Hugo Chávez, da Venezuela, em 2002, quando foi detido
por militares por 47 horas, sendo dissolvida a Assembleia Nacional e o Supremo Tribunal. Após
intensa pressão popular, Chávez retornou ao poder, sendo possível que esse fracasso explique a
mudança de estratégia.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

geral examinar um dos fatores responsáveis pela queda de Dilma Rousseff, que
é o aspecto econômico, i.e., o fundamento material do Golpe.
A primeira parte é dedicada à análise do papel ideológico e concreto
cumprido pela crise econômica no esmorecimento do governo de Dilma,
examinando a tentativa de imposição da racionalidade neoliberal. A se-
gunda, por sua vez, examina como o retorno do neoliberalismo constitui
uma ameaça aos direitos sociais, tendo em vista a sua lógica de oferecimen-
to. Para tanto, propõe-se o estabelecimento de um critério objetivo para o
exame dos projetos político-econômicos brasileiros, a partir da adoção da
teoria do valor, de Karl Marx. O método guiador do estudo é o dialético,
na fundamentação materialista.

2. O real e o semblante da crise econômica no contexto


de Golpe institucional de 2016: a incursão totalitária da
racionalidade neoliberal
Como preleciona Alain Badiou (2017, p. 13-15), o vocábulo “real” atualmen-
te é utilizado de forma intimidadora, como princípio de submissão necessária, já
que não há saída senão aceitá-lo. A economia exerce um papel decisivo na defi-
nição deste real, sendo que em época de crise, tal qual experimentada ao longo
dos anos de 2015-2016, manifesta-se de forma mais acentuada o seu discurso,
que impõe os mandamentos a serem seguidos como fatalidades. Não importa
que os desastres ocorridos dentro da sua própria esfera não tenham sido previs-
tos, ou evitados, até mesmo porque a culpa recai sobre os agentes políticos, os
malfadados que não seguiram as orientações adequadamente.
O real advindo da economia subjuga os mais diversos aspectos do cotidiano,
desde o ato mais adorado do capitalismo, o consumo, até as decisões macroeco-
nômicas a serem tomadas por um corpo diretivo institucional. Se a economia
não vai como o esperado, há espaço para a crise, recessão, inflação, desemprego,
baixa no consumo, i.e., elementos de desestabilização política experimentados
pelo governo Dilma. Portanto, é praticamente impossível governar o país sem
atentar para o real originário do econômico, sendo que a figura do “mercado”
ocupa assento privilegiado nesse assunto.
Quem acompanha o noticiário televisivo, ou é ouvinte de rádio, deve ter se
perguntando alguma vez: “quem é o mercado, afinal? ”; a que tanto se refere

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

como uma pessoa em carne e osso, que porta os mais diversos sentimentos
humanos. Por vezes, o mercado está nervoso, agitado, em outras ocasiões está
esperançoso, animado, ao reagir às informações provenientes da ação do gover-
no. Isso recorda um fato curioso, quando Lula era ainda presidente do Brasil,
em 2004, e havia o boato de que o presidente do Banco Central, Henrique Mei-
relles, seria demitido. Distribuindo castanhas às pessoas que acompanhavam a
cerimônia de lançamento do Programa Nacional de Florestas, Lula disse: “Está
nervoso o mercado? Eu não estou, estou calmo”. Segundo consta, a frase fez
com que o mercado esquecesse a boataria (LULA apud ÉPOCA, 2004).
Essa mesma calmaria não foi experienciada por Dilma Rousseff, que sucum-
biu formalmente pela abertura de créditos suplementares (“pedaladas fiscais”),
ainda que a denúncia apresentada por crime de responsabilidade tenha ressal-
tado as tantas crises que estava sujeita, inclusive a econômica. Por isso, é impor-
tante lembrar que ao lado do real existe o semblante, como na tradicional divi-
são entre essência e fenômeno aprendida na filosofia marxista (KOSIK, 2011, p.
18), que nada mais é do que a aparência falsa do real. Ainda que o semblante
do impeachment seja o crime de responsabilidade, o real tem seus pés fincados
na exploração dos dados econômicos negativos do governo Dilma.
No exato dia em que o Senado Federal iria votar a admissibilidade do pro-
cesso de impeachment na casa, em 12 de maio de 2016, que coincidiria com a
assunção interina de Michel Temer à presidência, o jornal “O Globo” lança a
seguinte matéria: “Com saída de Dilma, mercado vê chance de retomada da
confiança econômica” (CARNEIRO, 2016). Aqui, encontramo-nos em um ter-
reno perigoso, em que a democracia sucumbiu ao real da economia, diante da
necessidade de prover o crescimento econômico almejado pelo mercado, que a
ex-presidenta Dilma supostamente não teria condições de atender.
Na obra responsável pela sua expulsão do Partido Comunista Francês, Ro-
ger Garaudy (1970, p. 43) bem ilustrou o culto do crescimento econômico na
“religião dos meios”, em que um economista pode gracejar sobre um cidadão
que quando chegar no céu será interrogado por São Pedro, o qual, para decidir
sobre o encaminhamento ao paraíso, purgatório ou inferno, irá perguntar: o
que você fez para aumentar o PIB? Não é preciso mencionar qual o destino de
Dilma Rousseff quando amargou uma queda de 3,8% em 2015, depois de um
crescimento pequeno de 0,5% em 2014, inicialmente anunciado como 0,1%.
O crescimento converteu-se na antonomásia do progresso, não importando
que o critério econômico de aferição do sucesso tenha se concentrado no

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

aprimoramento de objetos inanimados, como o PIB ou PNB. Passa à margem


dessa obsessão o quanto isso representa para o efetivo aumento da qualidade
de vida, bem-estar, liberdade, como lembra Amartya Sen (2011, p. 259). O
custo a ser pago por não cumprir os anseios do mercado pode ser alto, como
demonstrou a queda da Dilma, mesmo que se trate efetivamente do cresci-
mento e progresso de objetos inanimados.
Um dia depois do afastamento temporário de Dilma, o “blog” de economia
do “Estadão”, assinado pelo economista Alexandre Cabral (2016), trazia a se-
guinte manchete: “Dados Econômicos da Era Dilma: de Chorar!”. Após apre-
sentar alguns dados econômicos, como queda do PIB, aumento do desemprego
e da inflação, sentenciou: “Infelizmente o governo Dilma foi ruim demais. Vá-
rias medidas equivocadas, teimosia demais, orgulho ao extremo. Este para mim
foi o principal motivo da queda: o governo se achava intocável” (CABRAL,
2016). Ora, e fica nesse discurso as “pedaladas fiscais”?
O Golpe sofrido por Dilma escancarou o fato de que a relação entre o Esta-
do e a economia é um terreno fértil para a ação da ideologia liberal, propagada
pela grande mídia. Os avanços econômicos que o Brasil passou no período de
Lula-Dilma, mesmo em comparação com o de FHC, foi noticiado costumeira-
mente como apesar do PT. Se a economia vai bem, mérito dos investidores e
empresários, se vai mal é culpa exclusiva do governo, que não tomou as medidas
necessárias para manter o crescimento.
A racionalidade neoliberal5, que se firmou como ideologia dominante na
seara do Estado a partir da década de 1990, não foi completamente posta de
lado pelos governos petistas, fazendo com permanecesse o ente estatal como o
principal responsável pelos desconsertos que ocorrem na esfera econômica. Es-
capa dessa lógica que identifica o Estado como um peso e o mercado como efi-
ciência, que, por expresso mandamento constitucional, o seu papel de atuação
na economia é reduzido ao mínimo6; ou seja, não existe no desenho normativo

5 “O neoliberalismo é em primeiro lugar uma teoria das práticas político-econômicas que propõe
que o bem-estar humano pode ser mais bem promovido liberando-se as liberdades e capacidades
empreendedoras individuais no âmbito de uma estrutura institucional caracterizada por sólidos
direitos a propriedade privada, livres mercados e livre comércio. O papel do Estado é criar e preservar
uma estrutura institucional apropriadas a tais práticas” (HARVEY, 2014, p. 12).
6 “Art. 173. Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração direta de atividade
econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos da segurança nacional
ou a relevante interesse coletivo, conforme definidos em lei” (PLANALTO, 1988).

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

brasileiro um projeto nacional-desenvolvimentista com o exercício direto de ati-


vidade econômica pelo próprio Estado.
Até mesmo o incentivo à empresa nacional foi derrocado durante o governo
de Fernando Henrique Cardoso, com a revogação do art. 171 da Constitui-
ção7, imprimindo um modelo de ordem econômica que tem a primazia pela
livre circulação de capital, com apoio ao ingresso de multinacionais. Isso sem
contar que, nos mais recentes debates da eleição presidencial de 2014, nenhum
candidato de potencial se atreveu a defender que o Banco Central se sujeite à
política econômica do governo. Decisões sobre o controle do crédito, o capital
estrangeiro, a regulação do mercado cambial etc., deveriam ser tomadas com no
mínimo autonomia, havendo quem defendesse a independência.
Essa ausência de subjugação do Banco Central às diretrizes de uma plata-
forma política é um dos imperativos do “mercado”, que receiam toda e qual-
quer influência do governo na gestão das decisões macroeconômicas. Na era
ideológica ou dita pós-ideológica em que vivemos, o real que advém da eco-
nomia sequer precisa dar explicações suficientes. A crise econômica brasileira
de 2015-2017 é inquestionável, no entanto, se indagarmos “o que ocasionou
a crise?”, decerto as respostas seriam evasivas, porque se sabe exatamente o
necessário para se entender que estamos em crise, para que se construa a nar-
rativa desejada a partir dela, não raro pesando a culpa para o Estado, ou para
o agente mandatário, como era Dilma Rousseff.
Ora, se o Estado brasileiro não exerce diretamente a atividade econômica,
tem um Banco Central com autonomia, um Ministro da Fazenda sempre ao
agrado do mercado, como era o Joaquim Levy, por que uma crise que brota
das relações econômicas seria culpa da ação do Estado? A resposta não pode
ser mais ideológica: porque não soube criar o “cenário” econômico necessário
à reprodução do capital, que, por via de consequência, mantém a estabilidade

7 “Art. 171. São consideradas: I - empresa brasileira a constituída sob as leis brasileiras e que tenha sua
sede e administração no País; II - empresa brasileira de capital nacional aquela cujo controle efetivo
esteja em caráter permanente sob a titularidade direta ou indireta de pessoas físicas domiciliadas e
residentes no País ou de entidades de direito público interno, entendendo-se por controle efetivo
da empresa a titularidade da maioria de seu capital votante e o exercício, de fato e de direito, do
poder decisório para gerir suas atividades. § 1º - A lei poderá, em relação à empresa brasileira
de capital nacional: I - conceder proteção e benefícios especiais temporários para desenvolver
atividades consideradas estratégicas para a defesa nacional ou imprescindíveis ao desenvolvimento
do País; [...] (Revogado pela Emenda Constitucional nº 6, de 1995)” (PLANALTO, 1988).

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

dos postos de trabalho e nível de produtividade para alavancar o PIB. Esse é


o real da economia em ação.
Adalberto Cardoso (2003, p. 77-81) captou o arranjo de pensar do nosso
tempo, em que a ideologia liberal ganhou vigor teórico e prático ao pon-
to de impor a sua racionalidade econômica. A partir da década de 1990,
nos governos Collor e FHC, há um câmbio drástico na forma de enxergar
o mundo, assumindo as noções de livre mercado, indivíduo (colaborador),
eficiência, mérito, competição etc., sobrepujanças em relação à igualdade,
solidariedade, justiça social, classes sociais. É o real da economia fincando
os pés sobre a abordagem marxista da sociologia, cujo espaço é contraído
para certos âmbitos da academia, deixando de servir como sustentáculo
para as políticas implementadas faticamente.
A propagação da ideologia em território nacional penetra nos mais variados
meandros sociais, naturalizando anseios de uma classe em específico como se
fosse a vontade geral. Não por menos o Estado é visto hoje como sinônimo de
ineficiência e o mercado o seu oposto, ainda que as pessoas efetivamente de-
mandem serviços públicos. Mais do que promover o embaçamento do Estado,
a racionalidade neoliberal molda a personalidade necessária para sobreviver a
sua lógica. É preciso forjar o profissional do mercado que incorpore certas ap-
tidões relacionais, de qualificação técnica, que aceita as flutuações inerentes
à economia, que quando desempregado agradeça a empresa que o contratou
anteriormente pela oportunidade no aprendizado.
Por isso, a racionalidade neoliberal não é apenas uma questão de política
econômica a ser adotada por um Estado, ao passo que ela demanda a corpo-
rificação em uma subjetividade moldada para agir nos seus marcos. Vladmir
Safatle (2016, p. 137) pontuou que o neoliberalismo não se trata apenas de uma
regulação dos sistemas de trocas econômicas, que tem como mote a maximiza-
ção do livre comércio e da concorrência, senão “é um regime de gestão social e
produção de formas de vida que traz uma corporeidade neoliberal”.
Essa ideia foi extraída, quase literalmente, da obra de Pierre Dardot e
Christian Laval (2016, p. 328), segundo os quais o neoliberalismo modelou a
partir da “cultura da empresa” uma nova subjetividade especifica aos desafios
do tempo histórico. Exige uma corporeidade que governe a si com base numa
racionalidade competitiva, em que “deve maximizar os seus resultados, expondo-
se a riscos e assumindo a inteira responsabilidade por eventuais fracassos”. O

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neoliberalismo, portanto, não se resume a uma plataforma econômica gerida pelo


político, ao passo que exige a formatação de uma individualidade compatível.
Tornar a si próprio um objeto descartável de acordo com as necessidades do
“mercado”, demandando que os sujeitos aceitem que não há mais rigidez nas re-
lações sociais e laborais, constitui um dos imperativos do real acima enunciado.
A própria noção de trabalho, do vínculo com a empresa e dos direitos sociais
inerentes, pouco a pouco vai sendo dissolvida em nome da carreira própria
como símbolo da autogestão. Não existe no plano da consciência uma estrutura
econômica condicionante do agir, somente o indivíduo que deve incorporar
certas aptidões para ser “bem-sucedido”, sob a ótica de um mercado flexível,
desregulado, com mobilidade de contratação e demissão.
Um ditame de Ludwig von Mises (2015, p. 27-29), que pareceria desprovido de
sentido em uma época próxima, é que a “classe dominante” no capitalismo não seria
o detentor do capital, mas o “consumidor soberano”. O motivo residiria no fato de
que a prosperidade do capitalista somente existe porque ele consegue suprir a vontade
de um maior número de pessoas pelo preço mais barato. Ou seja, há uma comple-
ta inversão argumentativa da hierarquia social, pois o verdadeiro soberano seria o
consumidor e não o capitalista, que está sujeito aos imperativos do real mandatário.
Esse arranjo ideológico sistematiza uma forma de pensar a realidade, a qual
está convalidando, no plano ideológico, os dizeres do autor da escola austríaca,
bastando observar o ingresso avassalador do modelo de transporte individual,
o “Uber”, em que o trabalhador não tem qualquer vínculo com a empresa. A
aceitação maciça dessa forma de relação laboral expressa o atendimento a uma
demanda por um serviço com o menor preço e maior qualidade, exatamente
nos moldes formulados por Mises. Vivemos, portanto, sob a égide da racionali-
dade neoliberal e o pior: sem sentirmos, ao passo que não existe nada mais leve
do que a ideologia que repousa sobre a consciência como um dado natural.

3. A teoria do valor e a mercantilização jurídica:


a negação dos direitos sociais sob a égide do retorno
do neoliberalismo
Ao incorporar as diretrizes econômicas estabelecidas pelos seus antecesso-
res, apenas com uma maior margem de interferência do Estado na provisão de

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

direitos, a ex-presidenta Dilma assentiu com os riscos de não tencionar o debate


para o modelo de sociedade e de pessoa que estava em curso. Não é por menos
que há muitos anos não se escuta a palavra “socialismo” no debate eleitoral,
lembrando que a ideologia é sempre uma verdadeira luta pela apropriação de
narrativas, inclusive a ora existente entre Golpe e impeachment.
Se Dilma Rousseff tivesse sido julgada efetivamente pelo cometimento de
crime de responsabilidade, causaria um tremendo espanto a manchete da jor-
nalista Miriam Leitão (2016), no início do julgamento final de Dilma no Se-
nado, que trazia os seguintes dizeres: “Crise econômica é a grande causa do
impeachment”. Como se observa, a crise econômica representa uma das facetas
constituintes do real, enquanto o impedimento por crime de responsabilidade
era somente o semblante, que por vezes era completamente esquecido. O mes-
mo pode ser observado na fala do Entrevistado Militante A, segundo o qual:
“Se tivesse só o crime e tivesse a população bem de dinheiro, cara, talvez a
população não fosse pra rua”.
Na mesma linha, no dia da votação acerca da autorização de abertura do
processo de impeachment, em 17 de abril de 2017, não foram poucos os deputa-
dos que sequer mencionaram o pretenso crime de responsabilidade. A trágica
sinceridade foi verbalizada nos tantos votos, que expuseram as limitações da
representação política, a exemplo do Deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB/SP):

Pela segunda vez, eu vou votar pelo impeachment e, sem dúvida nenhuma,
acompanhando aqueles aposentados, pensionistas e idosos que querem
que eu vote dessa maneira. Pela recuperação da economia brasileira,
pelo combate à recessão e pela garantia de emprego para 10 milhões de
trabalhadores desempregados, meu voto é “sim” (SÁ apud CÂMARA
DOS DEPUTADOS, 2016).

A face oculta do Golpe está nos interesses de setores econômicos brasileiros,


os quais se manifestaram publicamente favoráveis ao afastamento de Dilma,
conforme notícia veiculada no “Estadão” (HIRATA, SALLOWICZ, ROCHA,
2016), dando conta que cerca de 300 lideranças de associações empresariais
iriam realizar uma pressão conjunta para que o Congresso Nacional priorizasse
o processo de impeachment. A sede da FIESP tornou-se inclusive centro de re-
ferência para os manifestantes anti-Dilma, os quais chegaram a ser agraciados
com um almoço que tinha como prato principal filé mignon, segundo noticiado
no “Valor Econômico” (AGOSTINE, 2016).

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Após o apoio maciço dos setores empresariais ao golpe, resta apenas inda-
gar: qual o resultado do Golpe à esfera econômica? A resposta foi antecipada
por Marx (2016, p. 78), ao examinar o Golpe francês de 1851: “O governo da
burguesia nunca foi tão absoluto, nunca ela ostentou com tanta prepotência
as insígnias da dominação”. Colocando em prática um projeto político diverso
do eleito, Michel Temer não tardou para implementar medidas alinhadas ao
liberalismo libertário propugnado pelos setores empresariais, não para eles pró-
prios, que passaram a demandar benefícios do Estado, mas principalmente para
a camada pobre da população.
Grande parte da “esquerda” brasileira foi pega de surpresa com a proposi-
ção, pelo governo de Michel Temer, da Proposta de Emenda Constitucional nº
241/55, aprovada (EC nº 95/2016) para limitar os gastos públicos primários do
governo federal por vinte anos, inclusive os relativos a ensino e saúde. Mesmo
entre os que se posicionavam contrários a medida, não se sabia ao certo de onde
ela teria partido ou com base em que fora pensada.
O que se negligenciou no debate é que se trata da aplicação pura e simples
dos ditames da ortodoxia liberal da Escola de Chicago, preconizada por Milton
Friedman e Rose Friedman, na obra “Livre para Escolher”. Os autores propõem
limites aos gastos públicos federais por meio de Emenda à Constituição, tal qual
adotada no Brasil, a fim de restringir o orçamento do governo: “isso acabaria
com a tendência de um governo cada vez maior, não haveria reversão. [...] Uma
redução gradual de nossa renda que o governo gasta seria uma contribuição
importante para uma sociedade mais livre e mais forte” (FRIEDMAN; FRIE-
DMAN, 2015, p. 429)8.
O congelamento dos gastos públicos em âmbito federal, seguindo a orto-
doxia liberal, tem uma repercussão direta para o modo pelo qual as pessoas
acessam os mais variados direitos sociais, em pormenor a classe trabalhadora.
Ao invés do seu fornecimento ocorrer por meio do Estado, que obtém receita
derivada (tributos) para o custeio, a limitação de gasto com o aumento popu-
lacional fará com que as pessoas passem a “adquirir” os direitos pela via do
mercado, como qualquer outra mercadoria.

8 Na obra consta até mesmo o modelo de Proposta de Emenda Constitucional, sendo que a diferença
entre a que foi aprovada no Brasil e a defendida pelos Friedman é somete o índice de reajuste.
Enquanto a proposta deles para os Estados Unidos da América o orçamento deveria ser corrigido
pelo crescimento do Produto Interno Bruto, no Brasil optou-se pelo índice de inflação oficial.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Em termos de economia política, trata-se do fenômeno da precificação ou


mercantilização dos direitos, em que estes deixam de ser ofertados como valor de
uso e passam a ser assimilados como valor de troca. Toda mercadoria possui um
valor de uso à medida que possui alguma utilidade condicionada pelas proprie-
dades do seu próprio corpo (MARX, 2014, p. 113-123). Uma mesma mercadoria
pode ter mais de um valor de uso, como um carro, por exemplo, que pode servir
como meio de transporte, ou para deleite de um colecionador, podendo servir
para demonstrar aos demais o potencial de riqueza etc.
O valor de troca, ao seu turno, está ligado à quantidade de dinheiro ne-
cessária para se obter o valor de uso do bem, expresso em termos dos custos
reais de produção mais o lucro (HARVEY, 2016, p. 29), abstraindo-se, aqui,
para fins didáticos, o papel do valor (que difere do valor de uso e de troca).
Quando o Estado fornece determinado direito por meio das políticas públicas,
os usuários acessam os direitos apenas sob a veste de valor de uso. Isto é, quem
se gradua em uma instituição de ensino pública acessou o bem “educação”
apenas sob a veste do valor de uso, da utilidade levando em conta o interesse
do Estado na formação e do aluno no aprendizado, no entanto, sem ser trata-
do o direito como valor de troca.
Por outro lado, quando o acesso a determinado direito ocorre pela via
concorrencial privada, o bem é obtido a partir do seu valor de troca, abrindo
espaço à acumulação privada de capital sob a esfera dos direitos até então
assegurados pelo Estado. O governo Temer, com a aprovação da PEC 241/55
impulsionou o processo de privatização ou mercantilização dos direitos que,
com a sua precificação, passam a ser fruídos com base no seu valor de troca. O
reflexo dessa equação é que o ditame liberal de garantia dos direitos pela via
individual privada exime o Estado do seu fornecimento, mercantilizando um
bem que deveria ser alcançado apenas como valor de uso por mandamento
legal, ao agrado do mercado.
O governo de Temer promoveu ainda a chamada “reforma” trabalhista (Lei
nº 13.467/2017), que de forma inédita no sistema judiciário brasileiro passa a
onerar o trabalhador que demandar uma empresa judicialmente, ao passo que
se perder o processo terá de custear os honorários do advogado patronal. Por-
tanto, a receita de Michel Temer para os pobres é o puro e simples liberalismo
econômico, o qual propugna o individualismo epistemológico, em que o traba-
lhador deve ser merecedor do que aufere em contrapartida pelo seu trabalho
(venda da força de trabalho) para que tenha uma vida digna.

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Para os integrantes da classe dominante que apoiaram o Golpe, i.e., os em-


presários brasileiros, não foram ministradas as mesmas doses de liberalismo
econômico. Pelo contrário, somente à aprovação da reforma da previdência,
estima-se que o governo Temer tenha aberto mão de R$ 43 bilhões com exone-
rações fiscais. Além disso, como fruto da ação do Estado, editou-se uma medida
provisória, convertida em lei, que concede isenção fiscal às empresas petro-
leiras, que seria na ordem de R$ 20 bilhões entre 2018 e 2020, estimando-se
chegar a R$ 1 trilhão até 2040 (SENADO FEDERAL, 2017).
Outro caso notório foi a aprovação no Congresso da modificação na Lei
Geral das Telecomunicações, aguardando apenas sanção presidencial, em
que seria transferido do patrimônio da União a quantia de R$ 87 bilhões
às operadoras de telefonia (BORGES; BONFIM, 2016). Em 2017, foi edi-
tada também a Medida Provisória 783, convertida na Lei nº 13.496/2017,
instituindo o Programa Especial de Regularização Tributária (Pert), que,
segundo matéria do “Estadão” (TOMAZELLI, 2017), pode perdoar dívidas
tributárias das empresas de R$ 78 bilhões.
Não se pode esquecer dos aumentos promovidos no salário mínimo, que
nos anos de 2016 e 2017 ficaram abaixo da inflação, fazendo com que a classe
trabalhadora brasileira tenha restringido ainda mais a sua capacidade de con-
sumo. Os ditames do liberalismo econômico ecoam diretamente na vida dos
trabalhadores, que estão libertos à própria sorte, enquanto para os empresá-
rios a mão invisível tem sido a branca e amigável de Temer, com suas benesses
infindáveis. A fórmula guiadora do governo Temer, por conseguinte, é uma
só: socialismo para os ricos, liberalismo para os pobres! Ganha atualidade
nesse debate as palavras de José Paulo Netto (2012, p. 89), segundo o qual:
“ela [a burguesia] e seus associados compreendem que a proposta do ´Estado
mínimo´ pode viabilizar o que foi bloqueado pelo desenvolvimento da demo-
cracia política – o Estado máximo para o capital”.
O aspecto econômico é fundamental para compreender o Golpe de 2016,
ao instante que foi impulsionado por uma elite, que se utilizou da crise política,
das manifestações populares e da crise moral para fazer valer os seus interesses.
E o mais assombroso é que, a par de transbordar ideologia por todos os lados,
o governo salienta que está no atendimento da vontade geral, acreditando pia-
mente no seu discurso. Como lembra Slavoj Žižek (2011, p. 16), “Os pregadores
e praticantes da democracia liberal nos dias de hoje também não ´imaginam
que acreditam em si mesmos´, em seus pronunciamentos? ”.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Não é à toa que Alain Badiou (2017, p. 27) brinca que estamos assistindo a
peça da “democracia imaginária”, não havendo a representação de outra no es-
tágio atual do capitalismo, lembrando que quando o governo decide dar bilhões
ao patronato, sem contrapartida, ele atua na peça com convicção: “que diabos
poderia fazer senão isso?”. Ou seja, o semblante do golpe – o crime de respon-
sabilidade – era uma encenação do real oculto, i.e., os interesses econômicos de
determinados setores da economia brasileira.
Por falar na divisão filosófica entre semblante e real, que tem acompanhado o
estudo até aqui, Badiou (2017, p. 21) o explicita também a partir de uma anedota,
que foi a morte do dramaturgo francês Molière. Considerado um dos mestres da co-
média satírica, Molière faleceu enquanto encenava a peça “O Doente Imaginário”,
fazendo com que o real tenha frustrado a representação, sendo “o momento em que
o semblante se torna mais real do que o real de que ele é o real”. Em 2017, ocorreu
algo similar com o músico Bruce Hampton, que comemorava o seu 70º aniversário
em um show com seus amigos, quando se atirou no chão e os músicos seguiram
tocando. O que se imaginava ser uma performance, era o seu trágico destino. Entre
nós, o impeachment foi somente o semblante do real econômico, ocorre que, ao
instante que todos focalizavam o processo, que é a sua representação, o real é que
a própria democracia falecia enquanto estava sendo encenada como impeachment.

Considerações finais
Os processos políticos turbulentos, tais quais vivenciados no Brasil ao longo
dos anos de 2015-2016, somente terão a sua leitura sedimentada a partir do dis-
tanciamento promovido pelo decurso do tempo, com a sua consequente incur-
são nos tratados de história. O que se tenciona, por ora, é o duelo de narrativas
e a tentativa de firmar uma das versões como a que mais fidedignamente irá
denotar o período. Ccomo não assumo nenhuma postura de neutralidade ou
imparcialidade científica, o presente artigo constitui uma defesa da existência
de um Golpe de Estado em 2016. A focalização do aspecto econômico ocorreu
porque constitui o fundamento material que corroborou à sua perfectibilização.
Rompendo com estudos eminentemente abstratos, que discutem categorias
teóricas do marxismo sem a correlata base material, o presente estudo teve como
intento maior explicitar a validade analítica da teoria do valor, na formulação de
Karl Marx, para compreender processos históricos concretos. O que se intenta é

55
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

o incentivo de se romper com discussões abstratas em demasia (como se haverá


ou não direito em uma sociedade socialista futura [?]), procurando vincular as
categorias teóricas do marxismo com a realidade e suas contradições.
Compreender o que representa o retorno do projeto político neoliberal e a
sua racionalidade tem relevância central para exame do fenômeno jurídico. É
ínsito à lógica do neoliberalismo a promoção da mercantilização do Direitos,
sendo que a primazia do valor de troca representa, em última análise, a própria
negação do valor de uso. Ou seja, o direito deixa de ser efetivado por um crité-
rio eminentemente material: somente irá ter acesso a dado direito social quem
possuir condições materiais de custeá-los.
Nesse aspecto, a teoria do valor de Karl Marx se mostra de grande valia para
compreender tanto o fenômeno da precificação dos direitos sociais em si como
para examinar projetos políticos distintos. O modo como os direitos sociais são
ofertados à população, se como valor de uso ou como valor de troca (ou aceitan-
do valor de troca e destinando como valor de uso) irá repercutir diretamente na
forma como dado direito é efetivado em correlato ao projeto político adotado.
O Golpe de 2016 foi promovido com amplo apoio dos setores empresariais
justamente para que houvesse um regresso dessa lógica de expansão de mercado
sobre os direitos. A mercantilização dos direitos significa a criação de espaços
de acumulação de capital que não são acessíveis caso o Estado assume para si a
tarefa de concessão ou mediação. Com isso, espero que o artigo sirva, ainda que
minimamente, para que se possa pensar criticamente a realidade e o Direito,
fazendo uso operacional das categorias formuladas pelo Karl Marx.

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58
O Sujeito neoliberal, a “ditadura do
algoritmo” e o identitarismo: fragmentação
dos movimentos sociais no contexto de
um capitalismo em crise civilizacional

Maria Beatriz Oliveira da Silva9

A título de introdução: leituras e questionamentos partilhados


Este texto não é uma reprodução exata, mas resulta da palestra que proferimos
no painel que tratava dos movimentos sociais no III Congresso Internacional de
Direito e Marxismo, ocorrido na cidade de Mossoró em novembro de 2018.
Na ocasião, esclarecemos que o objetivo da nossa fala era muito mais dividir
inquietações do que apresentar análises ou conclusões sobre o gigantesco desafio
que é o de (re) pensar, (re) organizar e (re) unificar os movimentos sociais10 (MA-
CHADO, 2018) em um contexto de aprofundamento da ofensiva neoliberal.
Para que nossa fala pudesse, de alguma forma, ser amalgamada escolhemos
como ponto de partida e conexão a palavra “crise”, partindo da realidade con-
creta que revela uma crise (sem precedentes) do capitalismo, crise esta, que se
desdobra em diferentes dimensões.
Entre as dimensões da crise do capitalismo – apontada por muitos como
uma crise sistêmica e civilizacional - está a crise do próprio sujeito visto que tem
ocorrido mudanças de contornos na sociabilidade11 e, consequentemente, nas

9 Professora do Programa de Pós Graduação em Direito e coordenadora do Núcleo de Pesquisa em


Direito e Marxismo (NudMarx) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – biabr@hotmail.fr
10 Quando falamos aqui em « movientos socias » estamos nos referindo aos movimentos do campo popular
e progressista em geral. No entanto, sabemos da amplitude do conceito visto que os « movimento
sociais » podem abrigrar inclusive, movimentos conservadores. Por esta razão fizemos referência a Eliel
Machado que apresenta uma tipologia classista dos movimentos sociais na obra citada.
11 Sociabilidade entendida, aqui, como uma construção histórica produzida coletivamente, envolvendo
relações de poder e refletida em cada sujeito singular por diferentes mediações, expressando, assim,

59
subjetividades, com a exacerbação do individualismo, bem como, em face da
“revolução numérica” com uma “algoritmização” dos sujeitos e da política com
graves consequências para a(s) democracia(s).
Este quadro de crise(s) do capitalismo e de ofensiva neoliberal também traz
consigo o aprofundamento da flexibilização no mundo do trabalho que redun-
da em desregulamentação no mundo do Direito. Gerando enormes retrocessos
com a subtração de direito e garantias conquistados com lutas coletivas, guiadas
pelo princípio da solidariedade, o neoliberalismo acaba forjando um sujeito neo-
liberal (ou neosujeito) norteado pelo princípio da concorrência.
Esta crise (civilizacional) do capitalismo que potencializa a ofensiva neolibe-
ral aprofundando o individualismo gera como consequência uma maior atomi-
zação e fragmentação dos movimentos socais do campo popular e democrático.
Em resumo, a crise do capitalismo contribui para a crise do sujeito, que,
por sua vez, contribui para a crise dos movimentos sociais. Diante desta inter-
conexão de crises muitas questões podem ser extraídas, entre elas: como (re)
organizar e unificar os movimentos e as lutas sociais cuja essência e a própria
sobrevivência encontra-se no princípio da solidariedade (de classe) quando o
princípio norteador do “sujeito neoliberal” é o da concorrência? Como reagir à
“ditadura do algoritmo” e restabelecer o lugar da política? Quem é (ou poderá
vir a ser) neste contexto tão hostil aos que vivem da força do seu trabalho o
“sujeito revolucionário” na concepção marxista do conceito?
Como afirmamos preliminarmente nosso propósito não é dar respostas, mas
dividir inquietações e apresentar alguns cenários e reflexões que, no nosso en-
tendimento, merecem ser levados em consideração na elaboração das respostas
a serem coletivamente construídas.
Iniciaremos nossa exposição com breves considerações sobre a crise do ca-
pitalismo e, posteriormente, para abordar a temática do “sujeito neoliberal” e
da “ditatura do algoritmo” iremos trazer à reflexão algumas ideias contidas em
duas obras de autores franceses tentando entre elas estabelecer algum diálogo.
Uma das obras é intitulada “ A Nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade
Neoliberal” (DARDOT; LAVAL, 2016) na qual nos interessa, mais especifi-
camente , o capítulo 9 intitulado “A fábrica do sujeito neoliberal” ; e a outra ,

um ordenamento comum sobre as formas de sentir, pensar e agir.


ainda não traduzida para o português, é “L’homme nu : la dictature invisible du
numérique”1 (DUGAIN; LABBÉ, 2016).
No que tange “identitarismo” teremos como referências básicas dois autores
que, apesar de abordagens um pouco distintas, foram escolhidos por coincidirem
na visão crítica sobre este tema, sendo que um deles é Douglas Rodrigues Barros,
escritor e coordenador político da Uneafro-Brasil; e o outro, Tomasz Pierscionek,
doutor em psiquiatria e editor chefe do London Progressive Journal.
Comecemos, então, pela crise do capitalismo.

2. Crise(s) do capitalismo e ofensiva neoliberal


Em publicação (inédita), datada de 2009, intitulada “Les crises du
Capitalisme”(MARX, 2009) irá mostrar que a incessante busca do lucro e da
valorização do capital está na origem da crise e , quando a crise se efetiva, os
planos de retomada de crescimento e as ajudas do Estado não fazem mais do
que remediar a quebra, visto que as crises resultam das contradições inerentes
ao próprio capitalismo.
Na obra acima citada Marx também assevera que o germe da crise está presen-
te no dinheiro na medida em que ele se tornou autônomo, ou seja, apresentando
uma forma de existência que se tornou independente do próprio valor de troca.
Essa autonomia engendra, segundo Marx, a ilusão de que o dinheiro pos-
sa se multiplicar por partenogênese, pois assim como na partenogênese ocorre
crescimento e desenvolvimento de um embrião sem a fertilização, acredita-se
que com o dinheiro possa ocorrer o mesmo entrando no circuito de crédito e
financeiro sem que tenha passado pelo processo de produção.
Corroborando com o núcleo das ideias acima apresentadas o professor Ben-
jamim (BENJAMIM, 2009) observa que Marx concluiu que o capital procuraria
ampliar suas possibilidades de acumulação na forma D-D’ na qual nunca deixa
de existir como riqueza abstrata, e anteviu, quando essa fórmula se tornasse
predominante, a civilização do capital entraria em crise e , aqui, trata-se de uma
crise civilizatória, muito mais ampla do que as crises cíclicas do capitalismo.
Para a filósofa e marxista francesa Isabel Garo (GARO, 2013) o aumento
da taxa de lucro é a única obsessão do Capitalismo, independente das

1 “O Homem nu: a ditadura invisível do numérico”- “numérico” refere-se aos algoritmos e a “revolução
numérica” que é uma das dimensões da 4ª revolução industrial (Revolução 4.0)

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

consequências sociais ou ambientais que venha a gerar, e o meio que encontra


de se manter em tempos de crise é, notadamente, através da pressão sobre os
salários diretos e indiretos assim como a “mercadorização” (marchandisation)
de tudo que foi conquistado com muita luta no terreno da saúde, previdência,
educação, transporte, etc.
Garo também defende que as políticas ultraviolentas de contrarreforma
(como as que estamos experimentando no Brasil) não parecem adequadas para
resolver o que se considera uma das piores crises da história desse modo de
produção. Por essa razão, afirma que os efeitos do capital fictício são bem reais e
levam esta crise a caracterizar-se como uma crise de civilização.
Esta crise civilizacional que faz avançar o processo de financeirização
da economia, que desumaniza (ainda mais) o humano colocando no centro
das relações o mercado vai forjando um novo contorno de sociabilidade e,
consequentemente, de sujeito. Este novo sujeito Dardot e Laval irão nomear
de “sujeito neoliberal” (ou sujeito empresarial, sujeito empreendedor, empre-
endedor de si mesmo, neosujeito).

3. O sujeito neoliberal
As reflexões aqui trazidas sobre o sujeito neoliberal resultam da síntese de
algumas ideias desenvolvidas pelos franceses Dardot e Laval na obra anterior-
mente citada (DARDOT; LAVAL, 2016).
Os autores apresentam quatro traços que caracterizam a razão neoliberal: 1.
o mercado se apresenta não como um dado natural, mas como uma realidade
construída.; 2. a essência da ordem do mercado não reside na troca, mas na
concorrência - que passa a valer como norma geral das práticas econômicas; 3.
O estado não é simplesmente vigilante deste quadro visto que ele próprio em
sua ação é submetido à norma da concorrência ; 4. A exigência de uma univer-
salização da norma de concorrência ultrapassa as fronteiras do estado atingindo
diretamente os indivíduos em sua relação consigo mesmo e com os demais.
Este último traço caracterizador da razão neoliberal é que nos interessa
examinar mais de perto para, posteriormente, questionar os reflexos dessa
“subjetividade neoliberal” nos movimentos sociais e reinvindicatórios do
campo popular e progressista.
Para Dardot e Laval a grandeza de Marx foi ter mostrado que o preço da
liberdade subjetiva que emergiu com o advento do capitalismo resultou de uma

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

sujeição a leis impessoais e incontroláveis da valorização do capital e, neste caso,


o contrato tornou-se mais do que nunca a medida de todas as relações humanas.
Com base no contrato ( e, poderíamos acrescentar, na instituição sujeito de
direito pelo capitalismo (KASHIURA JUNIOR, 2014)),2 o indivíduo passou a
experimentar, cada vez mais, na relação com outro, sua plena e total liberdade
de compromisso voluntário e passa também a perceber a sociedade como um
conjunto de relações e de associações entre pessoas dotadas de direitos sagrados
- e este é o cerne do que se convencionou chamar de individualismo moderno.
Os direitos sociais e políticas sociais que começam a emergir no final do sé-
culo XIX limitaram um tanto a lógica acumuladora do capital e a concepção
estritamente contratualista das trocas sociais. No entanto, o momento neoliberal
caracteriza-se por uma homogeneização do discurso do homem em torno da fi-
gura da empresa fazendo nascer o “sujeito empresarial”, um ser cuja subjetividade
deve estar inteiramente envolvida na atividade que se exige que ele cumpra.
Assim, “a racionalidade neoliberal produz o sujeito de que necessita orde-
nando os meios de governá-lo para que ele se conduza como uma entidade
em competição e que, por isso, deve maximizar seus resultados expondo-se a
riscos”(DARDOT; LAVAL, 2016 p.5) e, mais do que isso, cabe a ele assumir
inteira responsabilidade por eventuais fracassos.
Neste contexto, o indivíduo não deve mais se vender como um trabalhador
mas como uma empresa que vende um serviço ao mercado, e a “ empresa de si
mesmo” passa a ser uma entidade psicológica e social (e mesmo espiritual) ativa
em todos os domínios e presente em todas as relações podendo-se dizer que o
primeiro mandamento da ética do empreendedor é “ajuda-te a ti mesmo.”
Ocorre, em função desse quadro, um enfraquecimento dos coletivos de
trabalho que vem a reforçar o isolamento e o desmonte dos engajamentos
dos sujeitos uns com os outros gerando a corrosão dos laços sociais de soli-
dariedade e de tudo o que sempre fez parte da reciprocidade social simbólica
dos locais de trabalho.
Ainda no campo das mudanças no mundo do trabalho, acrescentamos ao
exposto com base nas ideias de Dardot e Laval, o fato de já termos ingressado
na chamada quarta revolução industrial (ou revolução 4.0) (SCHWAB, 2016)
- o que comprova a tese a tese de Marx de que “a burguesia não pode existir
sem revolucionar permanentemente os instrumentos de produção, portanto,

2 Para que possam contratar os indivíduos são tomados, juridicamente, como sujeitos de direito.

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

as relações de produção e, portanto, as relações sociais todas” (grifo nosso).


(MARX; ENGELS, 2002)
Não sabemos ainda todas as consequências que trará a revolução 4.0.
O certo é que produzirá um cenário de desemprego sem precedentes, bem
como, dilemas éticos e legais relativos ao rompimento das esferas físicas,
digitais e biológicas.
Os avanços na esfera digital da revolução em curso é uma das facetas
exploradas pelos autores que apresentaremos a seguir e que eles denominam
de “revolução numérica”, ou “revolução dos big data”. Em que pese a abor-
dagem um tanto distinta da de Dardot e Laval, Dugain e Labbé também
tratarão da crise do sujeito e da democracia, mas no contexto da “ditadura
do algoritmo” que, segundo eles, tem deixado “o homem nu”, destituído a
política e matado a democracia.

4. O homem nu e a “ditadura do algoritmo”3


As ideias relativas à temática deste subtítulo foram hegemonicamente reti-
radas (e por nós traduzidas) da obra “L’homme nu: la dictature invisible du numé-
rique” citada na introdução deste texto (DUGAIN; LABBÉ, 2016).
Para os autores Dugain e Labbé o homem é, antes de tudo, um animal co-
letivo e sua força está no grupo. Ocorre que a solidariedade, elemento consti-
tutivo da humanidade, desaparece com um apertar de botão, pois vive-se um
individualismo exagerado, guiado pelas empresas do chamado big data - termo
genérico cujo núcleo representa uma nova revolução - a revolução numérica
(DOS REIS, 2017). 4
A revolução numérica não se contenta em modelar nosso modo de vida na
busca de mais informações e maior rapidez de conexão, ela conduz a um estado
de docilidade e de servidão voluntária, de desaparecimento da vida privada e de
renúncia irreversível da liberdade.
Entramos em um sistema de vigilância total em que a vida privada se tornou
uma anomalia. Carregamos um espião dentro do próprio bolso - o telefone

3 Os autores usam termos como sinônimo “revolução numérica”, “revolução do big data”, “ditadura dos
big data” e “ditadura o algoritmo”.
4 Aos que têm interesse em saber sobre o que é o Big Data há inúmero vídeos explicativos na web
além do citado.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

celular- e jamais o homem esteve tão nu, pois a partir dos metadados dos
celulares, do georreferenciamento e da hora e duração da conexão é possível
também estabelecer o perfil psicológico dos utilizadores, seus hábitos, suas
convicções filosóficas religiosas e mesmo sua origem étnica.
O fato é que por trás de doces promessas e atrativos incontestáveis, a re-
volução numérica implementa um processo que coloca “a nu” o indivíduo em
proveito de um punhado de multinacionais (americanas na sua maioria) por
meio dos famosos big data.
É assim que a Apple, Microsoft, Google e Facebook têm hoje 80% das infor-
mações pessoais numéricas da humanidade o que significa dizer que, jamais na
história, um tão pequeno número de indivíduos teve concentrado tanto poder e
tanta riqueza – o mundo digital gestou uma hiperoligarquia.
No que tange ao campo político e democrático é fundamental ressaltar
que para os big data a democracia é obsoleta, bem como, os valores univer-
sais por ela aportados.
Antoinette Rouvroy, pesquisadora de Direito na universidade de Namur,
estima que as empresas visam a uma “governabilidade algorítmica” - um
modo de governo inédito operando, mais precisamente, por uma configura-
ção antecipatória das possibilidades de conduta do que por regulamentação
de condutas. Neste caso, endereçando-se aos indivíduos muito mais pela via
de alertas aos seu reflexos do que às suas capacidades de entendimento e de
vontade.(ROUVROY, [s.d.])
No futuro configurado pelos big data as democracias são sufocadas as-
sim como os seus sistemas de representação. A questão posta pelos autores
em apreciação é: Será que votar todos os quatro ou cinco anos terá ainda
algum significado visto que, em poucos anos, os big data serão capazes de
conhecer, em tempo real, a reação de cada indivíduo e todas as proposições
coletivas de sociedade?
Para responder a esta questão é preciso considerar que os big data hoje são
capazes de obter bilhões de dados e extrair um perfil político-individual e assim,
é possível conhecer o indivíduo e as suas mais profundas convicções e influir
nos resultados – razão que tem levado os mestres dos “megadados” a organiza-
rem as campanhas políticas nos Estados Unidos.
Assim, segundo os autores aqui trabalhados, os mestres dos megadados po-
dem fazer balançar, ou mudar os rumos de uma eleição (podemos testemunhar
que no Brasil isso ficou muito claro!).

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Também alertam para o fato de que a aposta do vale do silício é o da gover-


nança por meio de dados. É substituir o debate político pela performance e tro-
car as leis pelas “regras algorítmicas”. Este novo tipo de governança leva o nome
de “regulamentação algorítmica” e o seu programa é “no lugar de governar as
causas - o que necessita de imaginação e de coragem por enfrentar complexida-
de - se controlar os efeitos”. (DUGAIN; LABBÉ, 2016 p.92)
Destarte, os big data destituem a política dando um golpe de estado invi-
sível que busca esvaziar o sentido da democracia que passa a ser apenas um
vestígio da herança grega.
Evgeny Morozov estudioso da influência da tecnologia sobre a sociedade e
autor de um livro intitulado “Pour tout résoudre, cliquez ici : l’aberration du solu-
tionnisme technologique”5(MOROZOV, 2014) denuncia , entre outras coisas, a
tomada de poder por meio de dados e a morte da política.
Também Giorgio Agamben autor do ”O Homem Sem Conteúdo“ (AGAM-
BEN, 2012) afirma que a cidadania se limita a um estatuto jurídico e o exercício
do direito de voto se assemelha cada vez mais a uma sondagem de opinião.
Esta “ditadura do algoritmo” vende a ilusão de neutralidade da técnica ocul-
tando o fato de que os algoritmos são concebidos pelos homens e estão susce-
tíveis ao viés cultural, político e comercial. No entanto, advertem os autores,
“esta ilusão atende à expectativa de um mundo sem tomar partido, sem convic-
ções ,sem debate de ideias, no qual todos se contentem em reagir por espasmos
emocionais”(DUGAIN; LABBÉ, 2016, p.64).
Dugain e Labbé também advertem que a profecia de Platão está se re-
alizando. No mundo dos big data nós somos acorrentados como jamais às
ilusões e o reflexo da realidade tornou-se, na nossa cabeça, mais importante
do que a própria realidade.
Na caverna na qual estamos presos os vigilantes são também os ilusionistas
que mantêm cada um de seus prisioneiros dentro de um estado de passividade e
de dependência diante da realidade projetada.
A saída desta caverna torna-se difícil dado o fato de que entregamos as
chaves às empresas que codificam o mundo e que passaram a ter um poder
exorbitante, pois dentro desse espaço código numérico é a lei.
Cabe ressaltar que podemos discordar em diversos aspectos dos autores
franceses até aqui trabalhados, no entanto, não tem como deixar de levar em

5 Para Tudo Resolver Aperte Aqui : a aberração do solucionismo tecnológico

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

consideração a realidade por eles apontada ao pensarmos no necessário fortale-


cimento e na busca de unidade das lutas e dos movimentos sociais.
As duas obras dos autores francesas acima sintetizadas coincidem em mos-
trar que uma hipótese básica da ofensiva neoliberal está em retomar os pres-
supostos ideológicos da fundamentação estanque do indivíduo rompendo com
a solidariedade e gerando fragmentação. O tema da fragmentação dos movi-
mentos gerada pelo individualismo que se traduz em “identitarismo” é o que
pretendemos, mesmo que brevemente, comentar a seguir.

5. Identitarismo e fragmentação das lutas e dos


movimentos sociais
Douglas Barros parte do individualismo e da exaltação da identidade para
fazer uma ferrenha crítica ao chamado identitarismo. Segundo ele, devido à falta
de perspectivas sólidas e alternativas concretas à esquerda se criou “uma miscelâ-
nea sincrética de sabedoria oriental com filosofice barata visando promover uma
espécie de autoajuda para ‘rebeldes’.” E vai adiante na sua crítica afirmando que:

A exaltação da identidade como fixo e não relativo é a pura expressão


da forma de valorização do capital como fim em si mesmo que precisa
assegurar alguns indivíduos como colônia ainda viável de exploração. É
esse fenômeno que busca uma identidade estanque, ideal e não relativa,
um Eu=Eu, como forma inconsciente de realização de valorização do
capital, que chamo de identitarismo. (RODRIGUES BARROS, 2018)

Note-se que o autor acima citado, que aliás é coordenador político de Mo-
vimento Negro, não nega a identidade, mas a diferencia de identitarismo que
seria a identidade “como um fixo e não como um relativo”.
Na mesma trilha, Tomasz Pierscionek faz uma crítica à ideologia identitária acu-
sando-a de ter feito a esquerda ocidental perder a sua identidade coletiva. Segundo
ele, “o fenômeno da ideologia identitária, que se alastra no mundo ocidental, serve
como uma estratégia política de atomização social que obstaculiza a emergência de
uma verdadeira resistência às classes dirigentes”.(PIERSCIONEK, 2018)
Correndo o forte risco de, na síntese, simplificar o bem fundamentado texto
do autor supracitado, pode-se dizer que uma das ideias-chave por ele apresentada

67
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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

é a de que um princípio fundamental das lutas que têm como horizonte o


socialismo está ligado à solidariedade internacional da classe trabalhadora.
O princípio da solidariedade se opõe a qualquer fator suscetível de dividir
a classe, tal como, nacionalismo, raça, religião ou gênero. Os trabalhadores de
todos os países guiados por este princípio devem se mobilizar em torno dos
mesmos valores e do mesmo nível de responsabilidade na luta contra os que
exploram as suas capacidades intelectuais, seus esforços físicos e psíquicos.
Ocorre que o slogan “ ferir a um é ferir a todos”6 , segundo Pierscionek, foi substi-
tuído por “se ferir a mim é tudo que conta” pois, ao final do século XX, uma tendência
ideológica-liberal se implantou no seio da esquerda pequeno-burguesa (pelo menos no
ocidente) pretendendo abolir a consciência de classe em proveito de identidades múl-
tiplas baseadas em gênero, sexualidade, raça, religião ou tantos outros fatores de divi-
são comunitárias estranhas às relações sociais de produção a que todos se submetem.
O autor acima citado segue a trilha de Marx ao fazer sua análise com base
nas relações sociais de produção. Como sabemos é das relações sociais de pro-
dução que Marx vai extrair o conceito de classes sociais opondo os proprietários
dos meios de produção aos que detém , unicamente, a força de trabalho - e vai
acrescentar que a luta de classes é o motor da história.
Podemos inferir que é de um horizonte de classe e anticapitalista que ambos
autores fazem a crítica ao “identitarismo” como um dos responsáveis pela frag-
mentação e atomização dos movimentos sociais. No entanto, nenhum nega o
pluralismo de “identidades” que compõem as classes sociais.
Também entendemos que o identitarismo, de forma atomizada e desconecta-
do do horizonte de classes, contribui para a fragmentação das lutas e movimentos.
De outra parte, “classe” não é uma categoria “homogênea”, pois a totalidade dos
que não detém os meios de produção e vendem sua força de trabalho é constituída
de múltiplas identidades que, evidentemente, possuem reivindicações específicas.
A grande questão é saber como unificar estas lutas específicas em um hori-
zonte de classe (e, por consequência, anticapitalista) em um contexto tão hostil
como o que foi aqui apresentado.
Esta foi uma das questões inicialmente levantadas para as quais pretende-
mos retornar sem apresentar uma resposta, pois, conforme anunciamos, o nosso
propósito é o de partilhar inquietações.

6 Slogan atribuído a David C. Coates - editor, líder sindical e político socialista - que passou a ser usada
por organizações sindicais e populares.

68
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

A título de conclusão: votando às questões para


provocar ações
As questões e inquietações apresentadas introdutoriamente que emergiram
das leituras aqui compartilhadas foram: como (re) organizar e unificar os movi-
mentos e as lutas sociais cuja essência e a própria sobrevivência encontra-se no
princípio da solidariedade (de classe) quando o princípio norteador do “sujeito
neoliberal” é o da concorrência? Como reagir à “ditadura do algoritmo” e resta-
belecer o lugar da política e a retomada da democracia? Quem é (ou poderá vir
a ser) neste contexto tão hostil aos que vivem da força do seu trabalho o “sujeito
revolucionário” na concepção marxista do conceito?
Na verdade, são antigas questões a serem respondidas em um novo contexto histó-
rico. O certo é que as tecnologias, por mais revolucionárias que sejam, trazem consigo
a velha e mais inflexível marca capitalismo que é a de reduzir o tempo de trabalho em
nome do lucro e transformar tudo, não só o trabalhador, em mercadoria.
Também é preciso lembrar que uma das estratégias das classes dirigentes
para alcançar seus objetivos sempre foi a de promover o divisionismo, razão pela
qual a tarefa de buscar a unidade na luta nunca saiu da pauta dos movimentos
do campo popular e democrático.
Retornar a Marx e aos que o interpretam à luz dessa nova e desafiadora
realidade é o melhor caminho para nos munirmos das armas teóricas necessá-
rias para fortalecer e unificar os movimentos renovando a práxis cotidiana sem
perder o horizonte da luta que é que o da construção de uma nova sociabilidade
fundada na solidariedade e não na concorrência: o horizonte do socialismo.

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70
Bolivia e Proceso de Cambio: caminhos e
impasses para o socialismo comunitário
Bolivia and Proceso de Cambio: ways
and impasses for community socialism

Daniel Araújo Valença7

Introdução
A América Latina vivenciou, a princípios deste século, o ascenso de go-
vernos progressistas como resposta às consequências das políticas neoliberais
na década de 1990. Se as condições materiais de depreciação das condições
de reprodução social levaram o continente a um novo ciclo político, cada país
refletiu sua especificidade, formação social e processos próprios de luta política.
Entre os que vivenciaram este intento de superação do neoliberalismo, a Bolívia
aparece com um conjunto de profundas transformações nas esferas econômica,
política, cultural e jurídica, inauguradas com o governo de Evo Morales, deno-
minado de “Proceso de Cambio”.
Se há, no momento, um avanço do capital sobre o trabalho no continente,
materializado, por exemplo, na reforma trabalhista do governo ilegítimo de Te-
mer e na proposta enviada ao parlamento por Macri na Argentina –, na Bolívia
permanece em curso o “Proceso de Cambio”. Este trabalho se volta a analisar
algumas das contradições, potencialidades e conjuntura do mesmo.
Para tanto, parto do materialismo histórico-dialético, com fins de realizar uma
investigação qualitativa, mediante o uso, como instrumentos metodológicos, de

7 Daniel Araújo Valença é professor do Curso de Direito da UFERSA, graduado em Direito pela
UFRN,especialista em Direito Urbanístico pela PUC-Minas, mestre em Arquitetura e Urbanismo
pela UFRN,doutor em Direito pela UFPB e coordenador do Grupo de Estudos em Direito Crítico,
Marxismo e América Latina – Gedic.

71
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

revisão bibliográfica e documental, bem como entrevistas a líderes políticos e


intelectuais daquele país andino.
Em um primeiro momento, abordo o processo de alteração na correlação de
forças dentro da sociedade civil boliviana. É do encontro das diversas frações
das classes subalternas bolivianas que haverá a tradução de demandas econômi-
co-corporativas em ético-políticas (GRAMSCI, 2002), possibilitando derrotar
o antigo bloco histórico imperial-burguês-colonial (MOLDIZ, 2009). Analiso,
logo após, o socialismo comunitário, o “Proceso de Cambio” e o Estado Pluri-
nacional da Bolívia a partir de suas características fundantes, assim como das
potencialidades e dilemas que dela aparecem.

2. A tesitura do bloco camponês-indígena-popular


e de um novo projeto político autônomo das classes
subalternas bolivianas
A origem imediata das transformações ocorridas na Bolívia remete às conse-
quências econômicas, políticas e sociais da reestruturação produtiva decorrente
das políticas neoliberais inauguradas na década de 1980. O Decreto 21.060/86,
de privatização da minas, proporcionou tanto a depreciação das condições
objetivas de reprodução social como a reconfiguração de suas classes sociais
(GARCÍA-LINERA, 2010).
A Bolívia, desde a década de 1940 e, especialmente, a partir da Revolução
Nacional de 1952, teve na classe mineira a principal resistência ao status quo,
cujo projeto político se caracterizava pela inserção dependente no capitalismo
internacional, assim como na superexploração da força de trabalho indígena
e em sua exclusão da esfera política. Essa classe operária, que realizaria a Re-
volução Nacional de 1952 e a Comuna de La Paz em 1971, momento em que
se instituiu um poder dual em La Paz e, frente ao avanço dos trabalhadores,
estourou novo golpe de Estado (ANDRADE, 2011), será a principal derrotada e
afetada pelas políticas neoliberais. Com a privatização e fechamento das minas,
milhares de mineiros se deslocaram para o Chapare e El Alto e consigo levaram
a consciência de classe operária, arraigados por décadas de lutas políticas8.

8 Para Thompson (1979), as pessoas se encontram imersas em determinado contexto de reprodução


social, experimentam a exploração, identificam interesses comuns e antagônicos e, a partir daí, se
descobrem como classe.

72
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

O Chapare se destaca, nacionalmente, pela sua produção de folha de coca.


Ocorre que o governo boliviano declarou guerra ao seu cultivo e consumo na
década de 1990. A luta camponesa, nesse contexto, encontrava na coca um
elemento unificador, pois incorporava a defesa desta cultura originária e ma-
terializava a resistência a uma nova imposição estrangeira. Um conflito local
e de cunho econômico-corporativo transcendeu à dimensão ético-política
(GRAMSCI, 2002), ou seja, reivindicações de determinadas frações das classes
subalternas se irradiaram para amplas massas populares, constituindo um senti-
mento nacional-popular comum a todo o grupo subalterno (GRAMSCI, 2005).
Mas, para além do legado mineiro, o Chapare também incorporou o india-
nismo, teoria inicialmente elaborada por Fausto Reinaga (TICONA-ALEJO,
2014). Este publicaria, em 1970, o Manifiesto del Partido Indio y, en 1971, Tesis
India (TICONA-ALEJO, 2014). Em seus primeiros escritos, Reinaga realizou
uma particular interpretação da Bolívia e territórios originários incaicos, para
recuperar seus pilares e defender uma nova possibilidade de projeto de sociabili-
dade autônomo de seus povos e nações. Bebendo parcialmente nas formulações
de Reinaga, ainda na década de 1970, se desenvolveu o indianismo katarista.
Em seu interior, havia desde os “indianistas duros”, que rechaçavam qualquer
assimilação ocidental, aos que aproximavam as questões étnicas e de classe,
sendo estes a parte majoritária. Em uma posição próxima à de Mariátegui
(2010), o mais original dos marxistas latino-americanos e precursor da investi-
gação do entrelaçamento entre classe e etnia, o katarismo vê o camponês como
índio. Este camponês, portanto, não era abstrato e a-histórico, como o enxerga
determinado marxismo vulgar. Se na Europa ocidental se materializa desde a
propriedade privada e organização individual do processo de trabalho, o kata-
rismo reconhece a particularidade do campesinato boliviano: este não passou
pela individualização ocidental e preserva, ainda que parcialmente, organização
do processo de trabalho, da propriedade e da reprodução social próprios aos po-
vos originários. Por outro lado, inegável que, naquele momento, amplas massas
indígenas também se enxergassem como camponesas, assim como se auto-or-
ganizassem na forma política sindical. O elemento comunidade, seja em Ayllus9
ou em sindicatos rurais, constituía uma particularidade deste campesinato.

9 Marcelo Vega, indianista katarista, aclara o que são os ayllus: “Los ayllus son las familias, los
conjuntos de familias, los markas, los suyos donde cada uno ve sus intereses, pero nadie ve su interés
para sí mismo, tenemos que avanzar y tenemos que ver que no me perjudique o le perjudiquemos

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Ao contrário do indianismo “mais puro”, o Katarismo enxergava o índio


como camponês e o campesinato indígena como possível sujeito revolucionário
– sem, necessariamente, ancorar-se expressamente em tal categoria marxiana
–, em um país eminentemente rural. Para eles, a ação política indianista deve-
ria recuperar os mecanismos ancestrais dos Ayllus, constituir um sindicalismo
rural autônomo e comunal, assim como desenvolver seu próprio instrumento
partidário (Ticona-Alejo, 2014) para, atraindo o apoio de outras frações das
classes trabalhadoras10, construir a regeneração social da Bolívia. Se desenvol-
veu, desde então, a categoria “campesinato indígena” (VIAÑA, 2014) e um
sujeito histórico que amadureceria em princípios do século XXI.
Quando esse campesinato, objetivamente e historicamente constituído pela
Revolução Nacional de 1952, encontra-se com sua identidade étnica, forma-
-se uma perspectiva nacional-popular, que orientará as organizações sindicais
no campo, a partir dos anos 90. Em paralelo, no oriente do país, conhecido
como Media Luna, os indígenas de terras baixas, povos e nações minoritárias,
desenvolveriam um horizonte indígena-comunitário (CUNHA FILHO, 2015),
durante a mesma década.
Portanto, uma série de transformações econômicas, sociais, políticas e cul-
turais, ocorridas ao longo de décadas, levam as mais diversas frações das classes
subalternas a encontrar-se. No decorrer da resistência às políticas neoliberais,
as organizações de orientação nacional-popular se voltam para a construção de

al otro, si hay que avanzar, entonces avanzamos, no tenemos que ver lo que perjudique y que me
perjudique, ni que lo perjudiquemos al otro, intercambiamos en las reuniones sectoriales y luego ya
se reúne la plenaria y ahí se ponen de acuerdo. Por eso se usan las pausas, ¿no? Es un sistema en el
cual, precisamente, intervienen 3 principios fundamentales: la reciprocidad, la complementariedad y
la solidaridad, entonces bajo esos principios lo que a él le falta, yo le puedo dar, lo que a mí me falta,
él me puede dar, nos colaboramos y ahí vamos hacia el suma qamaña, el ‘vivir bien’, nadie está para
perjudicar a nadie” (Tona-Murisaka & Vega 2014).
10 A mediação política com a correlação de forças real da sociedade boliviana era tal que o Katarismo se
abria para a possibilidade de alianças até com a Igreja Católica e evangélicas progressistas, por mais
que o cristianismo tenha cumprido papel central na exploração colonial: “Los mineros, los fabriles,
los obreros de la construcción, del transporte, las clases medias empobrecidas... son hermanos
nuestros, víctimas bajo otras formas, de la misma explotación, descendientes de la misma raza y
solidarios en los mismos ideales de lucha y liberación. Solamente unidos lograremos la grandeza de
nuestra patria. Pedimos igualmente a la Iglesia Católica (la Iglesia de la gran mayoría campesina)
igualmente a otras Iglesias Evangélicas que nos colaboren en este gran ideal de liberación de nuestro
pueblo aymara y quechua. Queremos vivir íntegramente nuestros valores sin despreciar en lo más
mínimo la riqueza cultural de otros pueblos” (Primer Manifiesto de Tiahuanaco, 1973).

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

seu instrumento político-partidário e criam, então, o Instrumento por la Sobe-


ranía de los Pueblos - Movimiento al Socialismo (MAS-IPSP).
Ao avançar da fase de mobilização por demandas econômico-corporativas
e alcançar progressivamente a tessitura de plataformas ético-políticas, que
respondiam às contradições imediatas e mediatas do Estado boliviano (Gar-
cia-Linera 2010), tal fração dirigente reuniu ao seu redor as demais frações das
classes subalternas e compuseram um bloco social de longa duração, exercen-
do direção intelectual e moral sobre amplas massas. Tal bloco desenvolveu,
então um projeto político autônomo que seria materializado, em termos de
sociedade política, na Constituição Política de 2009 e na formação do Estado
Plurinacional da Bolívia.

3. A Constituição do Estado Plurinacional da Bolívia ou


sobre o entrelaçamento de classe e etnia na lógica estatal
A depreciação das condições de reprodução social no interior da sociedade
boliviana e o encontro de suas classes subalternas levaram o país a viver o que
se denominou de “Quarta Crise Estatal”1: as sucessivas sublevações populares
conhecidas como “Guerra da Água”, “Guerra do Gás”, “O Impuestazo” e o “Le-
vantamento Aimará” provocaram o derretimento da ordem neoliberal.
As ideias-força que regiam a sociedade – livre mercado, privatizações e
Estado Mínimo –, e a lógica estatal fundada na Democracia Pactada2 foram

1 García-Linera (2010) e Moldiz (2009) trabalham a categoria "crise estatal" como o momento em
que a lógica estatal e as idéias-força que guiaram a sociedade por décadas entram em uma crise
insuperável e terminam substituídas por um novo período histórico de reordenamento estatal e
nova configuração de classes. A primeira crise estatal ocorreu com a derrota da Bolívia frente ao
Chile na Guerra do Pacífico e a consequente explosão da guerra civil. A segunda crise estatal se
situa na perda da Guerra do Chaco frente ao Paraguai e o esgotamento do liberalismo, levando
à eclosão da Revolução Nacional do 1952. Depois de décadas liderando a sociedade boliviana,
o nacionalismo revolucionário esgotou-se nos anos 80 e o país, ante sua terceira crise estatal,
entrou no neoliberalismo.
2 Se constituía em uma separação ilusória dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário (García-
Linera 2010), pois, enquanto estava em vigor, caso nenhum dos candidatos à presidência atingisse
maioria absoluta nas urnas no 1° turno, a eleição do chefe do executivo ocorria por deliberação do
legislativo, que escolhia um dentre os mais votados. Ao Congresso cabia, também, as indicações
para as cortes superiores do Poder Judiciário, que se davam de acordo com a proporção de cada
agremiação política. Dessa maneira, durante todo o interregno entre a terceira e quarta crise estatais,
o chefe máximo do Executivo foi escolhido de maneira indireta.

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

suplantadas a partir de uma alteração na correlação de forças no seio da socie-


dade civil boliviana, a partir da ascensão do bloco camponês-indígena-popu-
lar frente ao refluxo do antigo bloco dirigente imperialista-burguês-colonial.
Com a eleição de Evo Morales e García Linera, o país experimentou transfor-
mações estruturais a partir de 2006, nos campos da economia, lógica estatal
e ideias-força que orientam a sociedade.
A crise de Estado materializada em 2003 produziu a quebra irremediável do
consenso social ao redor dos pressupostos neoliberais, emergindo os pleitos da
nacionalização dos hidrocarbonetos e da convocação de uma assembleia consti-
tuinte como principais mobilizadores das camadas populares. O novo governo,
eleito a partir dessas premissas, iniciou um processo progressivo de ressignifica-
ção da matriz econômica boliviana, desde a nacionalização dos hidrocarbone-
tos, de setores estratégicos privatizados na década anterior, criação de estatais,
bem como atribuiu papel dirigente ao Estado na economia.
Ao nacionalizar os hidrocarbonetos, passou ao controle do Estado o cor-
respondente a cerca de 50% das exportações bolivianas (GARCÍA-LINE-
RA, 2013). Dessa maneira, os ingressos saltaram de um bilhão e seiscen-
tos milhões de dólares nos cinco anos anteriores à nacionalização, a nove
bilhões e meio nos cinco anos posteriores (GARCÍA-LINERA, 2013). Se
tal resultado reflete o cenário internacional da década passada, favorável
à venda de commodities, figura como indiscutível o papel da nacionalização
para a recomposição do orçamento do país.
Paralelamente às mudanças na ordem econômica, o bloco ascendente teceu
novas ideias-força, com base nos pilares da plurinacionalidade e no horizonte do
socialismo comunitário. Aquelas afirmavam a autodeterminação dos povos e das
nações indígenas, bem como o controle da economia pelo Estado como via de re-
distribuição de excedentes e impulsão da economia comunitária (Valença, 2017).
Além disso, ainda em 2006, o governo obtém êxito na convocação de uma As-
sembleia Constituinte para refundar o Estado boliviano a partir destas diretrizes.
Após três anos de intensos debates e conflitos durante o processo consti-
tuinte, o governo Evo Morales-García Linera e as organizações sociais conquis-
tam a aprovação da Constituição Política do Estado de 2009, que proclama o
Estado Plurinacional da Bolívia3. Fruto do encontro das classes subalternas na

3 Para uma análise mais detalhada do processo constituinte, consultar Schavelzon (2012) e
Valença (2017).

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

história, representa a síntese de um repertório de levantes indígenas, operários,


camponeses, ocorridos ao longo de cinco séculos de espoliação (Valença, 2018).
A CPE apontou para um Estado antiimperialista e plurinacional: as riquezas
naturais antes abocanhadas pelas multinacionais, se voltam para a redistribuição
de excedentes, com fins de propiciar um novo patamar de reprodução social das
classes trabalhadoras bolivianas. Por outro lado, o plurinacional foi afirmado não
no sentido de reconhecer que a sociedade é multicultural, como o fez a reforma
constitucional de 1993, mas de atribuir ao Estado o caráter de plurinacional (Gar-
cía-Linera 2010), o que significa, segundo García-Linera, "a indianização da forma
estatal” (VALENÇA, ILANA, 2017). Classe e etnia (ou o nacional-popular e o
indígena-comunitário) se entrelaçam no texto legal, como produto das lutas políti-
cas concretas que desaguaram nesta nova CPE. Da consolidação desta nova lógica
estatal, contudo, surgiram novas contradições, e sobre passas passo a me debruçar.

4. A Economía Plural e as contradições no interior do


Proceso de Cambio
A CPE, nos marcos das perspectivas anti-imperialistas e plurinacionais, pre-
via que a Bolívia desenvolvesse uma Economía Plural, a fim de eliminar a po-
breza e a exclusão social, no marco do Vivir Bien (Art. 313). Para o ex-Ministro
de Finanças e Economia, Luis Alberto Arce Catacora, o "Modelo Econômico
Social Comunitário Produtivo" ou a Economía Plural, prevista na CPE de 2009:

[…] es un modelo de transición hacia el socialismo, en el cual


gradualmente se irán resolviendo muchos problemas sociales y se
consolidará la base económica para una adecuada distribución de los
excedentes económicos. En ningún momento se pensó en construir el
socialismo de inmediato, el propio Carlos Marx – cuando habla de la
Comuna de Paris – y Lenin, dan elementos que explican por qué no se
puede realizar el tránsito mecánico del capitalismo al socialismo, hay un
periodo intermedio (Arce-Catacora 2014: 4).

A CPE atribui ao Estado a direção do desenvolvimento econômico e plani-


ficação da economia (Art. 311 e 316), determina que é prioridade do Estado a
industrialização dos recursos naturais para a superação da dependência quanto
a commodities e a constituição de uma economia de base produtiva (Art. 311,

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

318 e 355), prevê que os investimentos nacionais serão priorizados frente aos
capitais multinacionais (Art.320), prevê a redistribuição dos excedentes eco-
nômicos para políticas sociais (Art.306) e a proteção e promoção da economia
comunitária de povos e nações indígenas originário-camponesas (Art.306).
Ademais, com a nacionalização dos hidrocarbonetos – ocorrida em 2006 e
elevada à condição de cláusula pétrea na CPE de 2009 – o governo Evo-Linera foi
exitoso em reverter os excedentes produzidos em favor das políticas públicas esta-
tais. Dessa maneira, o Estado, outrora facilitador da acumulação por despossessão
(HARVEY, 2011), passa a operar para a redistribuição das riquezas socialmente
produzidas. O modelo adotado desde então é claramente de intervencionismo e
direção estatal da economia, voltado à redistribuição de excedentes a partir do
extrativismo e com fins de industrialização dos recursos naturais.
Entre as diversas políticas empreendidas, se ressalta o reajuste periódico do
salário mínimo, a determinação de um 14° salário – por parte dos entes públi-
cos e empresas privadas – em exercícios de crescimento do PIB superior a 5%,
políticas de redistribuição de renda – denominadas de bonos –, entre outras com
amparo constitucional. A partir de tais políticas sociais, segundo García-Linera:

Quanto à distribuição de riquezas, reduzimos a diferença entre os mais


ricos e mais pobres em 139 vezes: os 10% mais ricos tinham 139 vezes mais
riquezas que os 10% mais pobres dos bolivianos. Esta diferença está reduzida
a 40, de 139 a 40 [...]. O petróleo caiu de 100 a 29 dólares e a economia caiu
de 6 a 4-5, ou seja, não despencou. Isto devido à importância do mercado
interno e do fortalecimento das economias comunitárias, das economias
camponesas, das economias artesanais, do mercado interno. Conquistamos
um feito há alguns meses. Há 10 anos, a economia brasileira era 96 vezes
maior do que a boliviana; agora, é 45 vezes, ao redor disto. Segue sendo
enorme, é verdade! Mas, em uma década, reduzir de noventa e algo para 45,
é bastante. A economia chilena era 14 vezes maior do que a boliviana há dez
anos, hoje é sete vezes maior (Valença & Paiva 2017: 358).

O conjunto de medidas no campo da produção e redistribuição de exce-


dentes, tomadas a partir de 2006 e com pilares na nacionalização dos recursos
naturais, portanto, teve o condão de alterar as condições de reprodução social
das classes trabalhadoras bolivianas. Ademais, no campo se materializaram as
maiores transformações, especialmente no que se refere aos índices de pobre-
za, extrema pobreza e acesso à terra.

78
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

O modelo econômico adotado permitiu uma ampliação de direitos, drástica


redução da desigualdade social, da pobreza e da extrema pobreza. Por outro lado,
assim como a reestruturação econômica da década de 1985, esta também impli-
ca novas reconfigurações de classe dentro do bloco popular. Se, anteriormente,
a mediação entre indivíduo e sociedade ocorria mediante formas comunitárias
auto-organizativas – Ayllus, Sindicatos, assembleias, etc. – e, consequentemente,
a forma de tessitura do sentido comum –, políticas públicas de transporte, comu-
nicação, transferência de renda, fazem com que concorram outras possibilidades
de mediação entre indivíduo e sociedade. Desta forma, a centralidade sindical e
comunitária para a formação da visão de mundo das pessoas, tende a debilitar-se.
Por outro lado, a perda relativa de poder aquisitivo dos setores médios frente
às massas, de caráter objetivo em termos de inserção no mundo do trabalho,
implica no deslocamento e distanciamento dos mesmos em relação ao bloco
camponês-indígena-popular, ao qual haviam se aproximado no marco da cri-
se estatal derivada do período neoliberal. Assim, a dificuldade de inserção e
exercício de hegemonia pelo bloco camponês-indígena-popular nas capitais,
derivado da própria natureza do sujeito revolucionário – organizado ao redor
de entidades camponesas e indígenas, como a CSUTCB, as Bartolinas, o seu
partido político (MAS-IPSP) – que lideram o processo em curso, se agravou no
decorrer do Proceso de Cambio.
Outra contradição interna e a mais importante, desde 2010, é aquela que opõe
os horizontes nacional-popular e o indígena-comunitário. Como assinalado, desde
a fundação do MAS-IPSP que há uma prevalência do nacional-popular frente ao
indígena-comunitário. Esta distinção de horizontes existia nas classes subalternas
antes do ascenso de Evo-Linera, em 2006 e, desde ali, se transladou à esfera esta-
tal. E se refere a uma questão de cunho objetivo: a necessidade de alteração das
forças produtivas bolivianas, com fins de garantir outro patamar de condições de
reprodução social de suas classes trabalhadoras. Se determinado povo indígena se
opõe a determinada obra, logo após, há outro que a reivindica. Esta contradição
perdurará enquanto existir o Estado Plurinacional, e a única alternativa governa-
mental é assegurar o máximo de decisão democrática e dialogada, ao contrário do
que houve, por exemplo, no caso Tipnis.
De qualquer maneira, o socialismo comunitário só poderá ser possível mediante
o desenvolvimento de forças produtivas que possibilitem outro padrão de sociabi-
lidade, bem como que respeite os valores e interesses de nações e povos indígenas
minoritários. O governo Evo-Linera logrou uma exitosa política de nacionalizações

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

– mas não de expropriações – reposicionando o controle de excedentes no país.


Se, a partir disto, instaurou outro padrão de distribuição de excedentes, por outro
lado, não avançou de maneira contundente na ressignificação da organização do
processo de trabalho – ou seja, não promoveu a expansão do trabalho associado
frente à compra e venda da força de trabalho – o que fortalece, em médio prazo, a
perspectiva de indivíduo liberal (sem vida comunitária, associativa, e submetido ao
trabalho alienado), nem em termos de impulsão da economia comunal.
Se somente a partir da estatização das áreas estratégicas foi possível reestru-
turar a divisão dos excedentes bolivianos, persiste um longo e tortuoso caminho
para a desalienação dos produtores. Apesar da criação de “empresas sociais”
estatais para reforçar a produção e a economia comunitárias, o horizonte do
socialismo comunitário permanece vinculado a políticas redistributivas e não à
economia e desenvolvimento comunal.

Considerações finais
A América Latina passou por importantes processos políticos neste princípio
de século. À ideia-força do “fim da história” e a estabilidade que lhe acompanhou
ao longo da década de 1990 se seguiram várias sublevações populares e ascensos
de governos progressistas. Esta nova conjuntura tampouco chegou a se consoli-
dar; golpes de Estado e algumas derrotas eleitorais levaram o continente a um mo-
mento de indefinição política. Entre os países que vivenciaram esse conjunto de
transformações, avanços e refluxos das classes subalternas, Bolívia mostra surpre-
ende estabilidade. No presente trabalho, se aponta que tal conjuntura se mostrou
possível devido ao ascenso de um bloco hegemônico camponês-indígena-popular
e às alterações estruturais no âmbito econômico, de lógica estatal e de ideias-for-
ça. Tais transformações, sem embargo, ressignificaram a configuração de classes
no interior da sociedade boliviana e setores médios urbanos que anteriormente
se acercavam a tal bloco atualmente dele se afastam. Se desenvolvem, também,
novas formas de mediação do indivíduo com a sociedade, derivadas do acesso a
novas tecnologias, produtos e direitos, levando a uma perda da centralidade das
organizações sindicais e comunitárias, e a uma crescente individuação de pessoas
advindas das classes subalternas e outrora sob influência do bloco popular.
O debate marxiano, expresso na Crítica ao Programa de Gotha, no tocante ao
“teto” das transformações quando estas se realizam apenas na esfera da circulação,

80
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

deve ser, portanto, resgatado e aprofundado. A redistribuição de excedentes


aponta seus próprios limites e nos recorda que a auto-organização popular, o
desenvolvimento de formas de trabalho associado, de economia comunal e
superação do valor como mediador das relações sociais, são passos indispensáveis
para a materialização de um projeto político realmente emancipador.

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83
O Novo Constitucionalismo
Latino-Americano a as suas aproximações
com o Marxismo: análise da forma
comunal na Bolívia

Gladstone Leonel Júnior1

Introdução
Ao realizarmos uma regressão histórica podem ser verificadas as di-
versas mudanças políticas na América Latina, alternadas em momentos
de maior abertura democrática e outros períodos de regimes políticos au-
toritários. Geralmente essa instabilidade se faz presente nos períodos de
crise econômica e aprofundamento da exploração do modo de produção
hegemônico, o capitalismo.
No início dos anos 90, as forças políticas da esquerda latino-americana ago-
nizavam. Após a queda do muro de Berlim, tanto a social democracia européia,
quanto a pretensa social democracia na América Latina, aderiram ao programa
do neoliberalismo. Na geopolítica regional, somente Cuba permanecia isolada e
frágil com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Nesse contexto
histórico, o intelectual liberal Francis Fukuyama (1992) decreta, em um de seus
livros, o “fim da história” com o êxito do neoliberalismo.
Embora na década de 90, a América Latina tenha se tornado o laboratório
das medidas neoliberais, no início dos anos 2000, tornou-se o laboratório de
contestação ao neoliberalismo. Os exemplos históricos são variados e atingem

1 Professor Adjunto da Faculdade de Direito e do Programa de Pós-Graduação em Direito


Constitucional da Universidade Federal Fluminense. Doutor em Direito pela Universidade de
Brasília, com estágio doutoral realizado na Facultat de Dret, Universitat de Valencia, Espanha. Pós-
Doutor em Direitos Humanos e Cidadania pela Universidade de Brasília. Membro da Secretaria
Nacional do IPDMS (2018-2020) e integrante da RENAP.

85
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

as suas diversas regiões. Basta rememorarmos o Caracaço na Venezuela ainda


em 1989; a atuação dos indígenas zapatistas mexicanos na região de Chiapas;
as lutas populares contra as tentativas de privatização da água e do gás na Bo-
lívia, as recorrentes ocupações de terra e a luta por reforma agrária realizada
pelo MST no Brasil, os bloqueios dos piqueteiros desempregados na Argentina,
dentre outros exemplos. Não por acaso, entre 2000 e 2005, caíram 06 presiden-
tes na zona andina (Peru, Equador e Bolívia). Já entre 2001 e 2002, em duas
semanas há uma sucessão de 03 presidentes na Argentina.
Essa reação da sociedade civil latino-americana às políticas neoliberais im-
pactaram diretamente a conformação dos Estados no período seguinte. A partir
de 1999 apareceram governos que eram fruto de toda essa resistência empre-
endida nas lutas populares. Em pouco mais de uma década, mais de 10 países
se inclinaram à esquerda ou centro-esquerda elegendo presidentes populares.

Dentre os exemplos mais emblemáticos podemos destacar: um militar


revolucionário na Venezuela (Hugo Chávez), um militante operário (Lula)
e uma lutadora contra a ditadura militar no Brasil (Dilma Rousseff), um
sindicalista cocalero na Bolívia (Evo Morales), um economista anti-
imperialista no Equador (Rafael Correa), uma lutadora contra ditadura
militar no Chile (Michelle Bachelet), um guerrilheiro tupamaro no
Uruguai (Pepe Mujica), um casal de peronistas de esquerda na Argentina
(Nestor e Cristina Kirchner), um padre da teologia da libertação no
Paraguai (Fernando Lugo). (LEONEL JÚNIOR, 2018, p. 189).

Em razão desse contexto gerado, é possível compreender os fundamentos emer-


gentes que deram suporte para processos constituintes populares, que ensejaram o
que ficou conhecido como o Novo Constitucionalismo Latino-Americano. Esses
processos constituintes concebidos “desde abajo” abriram a possibilidade para re-
estruturação de alguns Estados e ampliação de medidas democráticas e populares,
as quais permitiram uma maior participação das pessoas e dos movimentos sociais
na vida política de países como Venezuela, Equador e Bolívia.
O caso da Bolívia chama a atenção na forma de organização social histó-
rica, presente ainda na atualidade, que possibilitou esse rearranjo institucional
plural com a promulgação da Constituição de 2009. Diante dessa realidade é
fundamental compreender como os diferentes grupos se organizam e produzem
suas existências naquele país, além de identificar quais foram os reais sujeitos
transformadores daquele processo histórico.

86
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

2. As formas de organização social para apreensão da


realidade: o caso boliviano
A experiência histórica dos países andinos se assemelham, não somente na
forma de dominação colonial, mas antes mesmo da chegada de qualquer euro-
peu a esse continente. As características históricas, geográficas, econômicas
e políticas guardavam relação, seja dos povos de Tiwanaku, da civilização de
Nazca ou do Império Inca (Tawantinsuyu).
Ao longo do tempo esses povos produziram a existência de suas civilização
prescindindo do capitalismo, que sequer existia. Assim, predominava um modo
de produção da vida comunitário, em boa parte dessas regiões. Após a invasão
europeia no século XVI, passou-se a uma coexistência dos modos de produção
funcionando então, dentro dos Estados-Nação, que passavam a ser divididos
nas disputas territoriais entre as classes dominantes.
Diante desse cenário, países como a Bolívia terão maneiras peculiares para
que se abarque seu panorama social. Um dos autores que oferecem reflexões
trazidas da própria realidade boliviana é o intelectual René Zavaleta Mercado.
Segundo o autor, duas características são basilares para se compreender o de-
senvolvimento dos meios de produção e da vida social na Bolívia:
1) a formação do povo boliviano, seguindo a noção do conceito de nacional-
-popular. De acordo com ele, esse conceito consideraria os números de mineiros e
indígenas em oposição à elite racial senhorial (ZAVALETA MERCADO, 2008).
2) ademais ele destaca um método preferencial de apreensão da realidade
social boliviana: a crise, conforme caracterizado em uma de suas obras clássicas,
“Las masas en noviembre” (ZAVALETA MERCADO, 2009).
A formação social "abigarrada", como diria Zavaleta Mercado, permitiu
a coexistência de poucos capitalistas junto às atividades pré-capitalistas. A
crise unifica o que é nacional na Bolívia: uma classe trabalhadora (pautada
no modo de produção capitalista) mais uma classe comunal (pautada em
uma forma comunitária). Esses são regimes civilizacionais diferentes, algo
que vai além da mera diferenciação do modo de produção, pois partem de
outra matriz cognitiva e de procedimentos de autoridade que regulam a vida
coletiva de maneira diversa.

La producción comunitaria o parcelaria en la Bolivia alta, por ejemplo, no


sólo es distinta en su premisa temporal agrícola a la oriental, por el número

87
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

de cosechas y las consecuencias organizativas del trabajo del suelo, sino


también a la minera, que es ya la supeditación o subsunción formal en acción.
El único tiempo común a todas estas formas es la crisis general que las cubre,
o sea la política. La crisis, por tanto, no sólo revela lo que hay de nacional
en Bolivia, sino que es en sí misma un acontecimiento nacionalizador. Los
tiempos diversos se alteran con su irrupción. Tú perteneces a un modo de
producción y yo a otro, pero ni tú ni yo somos los mismos después de la
batalla de Nanawa; (…) (ZAVALETA MERCADO, 2009, p. 216).

Uma sociedade em que apenas aproximadamente ¼ da população participa di-


retamente do processo produtivo deve também olhar para outros setores possíveis,
capazes de compor uma vanguarda compartilhada responsável pelo processo de
transformação na Bolívia (GARCIA LINERA, 2008). A lógica capitalista na Bolí-
via não é impulsionada, em grande parte, por uma estrutura industrial. Ela não teve
sua economia plenamente desenvolvida pelo capitalismo. Logo, inúmeras estruturas
comunitárias permaneceram intactas. Diante desse contexto, torna-se fundamen-
tal estudar as formas sociais de organização dos setores que compõe a noção de Na-
cional-Popular capazes de aprofundarem os processos de transformação na Bolívia.
Um tipo clássico de organização proletária no mundo, e não seria diferente
na América Latina, é a forma sindical. Diante dela há uma submissão real de
trabalhadores ao capital, permitindo a organização do movimento sindical. Esse
foi o principal instrumento de uma vanguarda política em 1952, período em
que ocorreu a Revolução Nacionalista na Bolívia. A Central Obrera Boliviana -
COB – consolidou-se esse processo como vigoroso instrumento de luta, embora
com o passar dos anos, já nos anos 80, as políticas neoliberais implementadas
pelo Estado minaram e enfraqueceram a luta sindical.
Os trabalhadores desempregados pelas políticas de arrocho estatal passa-
ram a realizar as grandes trocas informais de trabalho nas grandes cidades. No
entanto, eles carregaram consigo a forma organizacional e a disciplina política
sindical, que serviram em um momento posterior para fomentar as lutas popu-
lares no período de crise neoliberal.
Uma outra maneira de organização da sociedade boliviana, já citada, que
merece destaque é a forma comunidade. Ela se manifesta através de parte das
comunidades indígenas, ao se organizarem em ayllus2, especialmente aqueles

2 “Configura um modo de organização tradicional andina, proveniente dos antepassados incas,


caracterizado pela utilização de um determinado quinhão de terra, trabalhada, via de regra, de

88
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

que vivem nas terras altas dos Andes. Nesses casos, as estruturas civilizacional,
cultural, política e tecnológica são diferentes daquelas praticadas, em geral, pe-
los camponeses e trabalhadores urbanos.
Os comuneros em geral, ao contrário dos camponeses, trabalham em pro-
priedades coletivas, estimula a democracia comunal em acordos, e não têm
como objetivo imediato a mercantilização de sua produção (GARCIA LINE-
RA, 2008, p. 309). O que se observa é que um parte considerável da produção
do ayllus serve para abastecer as comunidades.
No entanto, como já apontado por Zavaleta Mercado, por mais que atue em
um sistema próprio, com dependência diminuta em relação à reprodução do
capital, em tempos de crise geral todos são alcançados, seja na esfera política ou
econômica, revelando o aspecto nacional do Estado.

3. A forma comunidade como possibilidade de produção


da vida a partir das lições de Marx
A economia plenamente boliviana não foi desenvolvida pelo capitalismo
de maneira plena. Lá continuaram intactas diversas estruturas comunitárias
de funcionamento próprio, as quais se mantiveram em boa parte da existência
histórica. Ainda hoje, a maioria exerce alguma relação de troca e complemento
com a economia capitalista urbana, mas ainda possuem autonomia frente a esse
mercado capitalista pelo padrão e modo de vida que levam.

Essa relação do modo de produção dominante e a existência de outros


que se reproduzem em espaços como os exemplificados nos ayllus,
através da forma comunidade, serve para compreender, inclusive, as
formas de minar as estruturas do capitalismo periférico desenvolvido
em um Estado liberalmente montado (LEONEL JÚNIOR, 2018, p. 25).

Diante de diagnóstico, as leituras de Marx apontam caminhos que


extrapolam a linearidade e unicidade de via para avançar rumo às rupturas
fundamentais frente ao Estado burguês, a partir das realidades específicas
de cada lugar. Um dos momentos onde isso é evidenciado foi na Carta que
escreve a Vera Zassulitch (1881), em que aborda o potencial comunista das

forma coletiva em território comum, sendo alguns deles, vinculados ao mercado urbano” (LEONEL
JÚNIOR, 2018, p. 23).

89
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

comunas agrárias na Rússia, não justificando que passassem por um choque de


capitalismo para alcançar o modo de produção socialista.
Na obra que antecede O Capital (1983), conhecida como Grundrisse (2011),
Marx tratará das formas que antecederam a produção capitalista, o que pode
ser refletido aos olhos daqueles que buscam compreender os ayllus, por mais que
Marx não estudasse expressamente essa experiência, mas a vivência asiática.
Nessas situações, “a terra é o grande laboratório, o arsenal, que fornece tanto
o meio de trabalho quanto o material de trabalho, bem como a sede, a base da
comunidade” (MARX, 2011, p. 389). Marx caracteriza o momento da desvin-
culação do trabalhador da terra para gerar força de trabalho para o capitalismo.
Assim, ao compreender que parte do povo foi desvinculado da terra, ingres-
sando no mundo do trabalho alienado, e parte se manteve reproduzindo uma
forma de vida comunitária, admitimos a existência paralela de dois modos de
produção da vida na Bolívia.
Ao trazer esssa análise, não se busca um retorno agrário nostálgico, mas
uma possibilidade em um cenário de universalização do capitalismo e de mu-
danças desiguais internacionais, de rearticular o comunismo e a comunidade
(BOSTEELS, 2013, p. 101). Nos ayllus, as formas de associação e controle da
produção podem ser aprimoradas, visto que as condições atuais de tecnologia
e desenvolvimento são diferentes, das existentes na época de Marx. O que se
apresenta é uma possibilidade de pensar maneiras não simplesmente anteriores
ao capitalismo, mas também pós-capitalista. Em boa parte dos ayllus, conforme
já salientado, não há subsunção do trabalho ao capital, mas desenvolvimento de
valor de uso a partir das necessidades da comunidade.
O que se quer nesse trabalho, não é buscar uma visão idealizada e romanti-
zada desses processos concretos, que possuem uma autonomia relativa em rela-
ção ao mercado e a forma de produzir sua existência. Contudo é fundamental
apontar a existência de alternativas possíveis, como destacado por Garcia Line-
ra (2009), que ocorrem paralelamente à expansão do capital, sem apresentarem
sinais de desaparecimento.

Considerações Finais
Apesar de hegemônico, o capitalismo é algo em constante movimento que se
impõe, mas também sofre resistência e se adapta ao avanço das lutas, podendo

90
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

em algum momento histórico ser rompido. As possibilidades de ruptura que


partiram do Novo Constitucionalismo Latino-Americano abrem brechas para
o aguçamento dessas contradições.
A conjuntura atual conservadora na América Latina traz um tom pessimis-
ta em nossas projeções. Devemos mais uma vez nos valer de Karl Marx (1984)
ao antever o processo histórico como movimento pendular, marcado por ondas,
sobretudo para a emergência revolucionária. Justamente por se tratar de algo
em movimento, não estanque, os períodos históricos tendem a alterar a conjun-
tura atual em algum momento, ainda não diagnosticado.
A tarefa do militante latino-americano é fazer a leitura das falhas passadas
para conseguir avançar rumo a um projeto transformador, quando o momento
político for mais favorável. O compromisso junto à classe trabalhadora deve ser
de jamais baixar a cabeça, pois temos pela frente um mundo a ser transformado!

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92
Capítulo II
Marx e o Direito
A crise do Capital e o papel
do Direito do Trabalho

Eduardo Albuquerque de Souza1

Introdução
Este artigo tem por objetivo analisar os principais aspectos da crise do capi-
tal na sociedade burguesa, e principalmente como esses se conformam na forma
jurídica desta sociedade. Como é notório, o poder político e o poder econômico
no capitalismo se separam, possibilitam com isso a expansão do capital pelo
planeta e universalizam a forma burguesa de produção e propriedade.
Mas esta forma, não se exime de contradições em sua base estrutural, o
capitalismo como forma de produção social se constitui e se desenvolve a partir
destas crises em sua base de formação, assim, o próprio direito não se isenta do
papel de legitimador e conformador dos descompassos desta sociedade.
No primeiro ponto do trabalho será analisada a questão do desmembra-
mento do poder político e do poder econômico, graças a este desmembramen-
to a questão da exploração do trabalho e do desenvolvimento da propriedade
burguesa se liberta do vínculo nefasto de uma opressão direta. O capitalismo
se desenvolve sem a figura subjetiva de poder centralizador como ocorria no
feudalismo, os imperativos desta sociedade assumem uma forma impessoal e
aparentemente neutra.
No segundo ponto do trabalho será apresentado as principais características
da crise da sociedade burguesa, não pretendendo logicamente esgotar o assunto,
mas sim expor de forma coerente os principais aspectos desta crise. O descom-
passo entre a produção e a circulação, entre a compra e a venda e a queda das
taxas de lucro dos capitalistas e como estas questões afetam o trabalhador.

1 Mestrando em Direitos Humanos no Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade do


Extremo Sul Catarinense (UNESC). Integrante do Núcleo de Estudos em Direitos Humanos e
Cidadania (NUPEC/UNESC). eduardoalbuquerquedesouza@gmail.com

95
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

No último ponto se insere uma reflexão muito importante para compreen-


der a dinâmica do direito, em especial do Direito do Trabalho e sua relação com
o próprio trabalho e com a política dentro desta sociedade. O papel importante
e necessário de naturalização da forma de produção social capitalista e a pro-
teção das conquistas burguesas relativas aos contratos e a propriedade privada
dos meios de produção.
Nesta pesquisa será utilizado o método dialético, envolvendo a técnica de pes-
quisa da documentação indireta, uma vez que o trabalho se baseia também em pes-
quisa bibliográfica e documental, e como método de procedimento, o monográfico.

2. O desmembramento do poder econômico


Uma das manifestações da crise do capitalismo se dá no campo político e
econômico, e no desdobramento deste último. Para compreender esta questão
do desdobramento do político e do econômico é necessário viajar para so-
ciedades pré-capitalistas. Nestas sociedades não capitalistas, como menciona
Ellen Wood, em O Império do Capital, “não costuma ser difícil identificar a
sede do poder”. Este último obviamente se encontrava sempre concentrado
politicamente, militarmente e economicamente. Sendo o poder político fir-
mado através de força militar. A constituição do econômico nestas sociedades
pré-capitalistas se enraizava em razão da coerção militar, ou seja, as classes
dominantes utilizavam da violência militar para se firmarem como classe po-
lítica e econômica. (2014, p. 21).
Um exemplo para ilustrar seria o modo de produção feudal. No feudalismo,
os trabalhadores, que eram camponeses em sua maioria, não eram expropriados
dos meios de produção para realizar o seu trabalho2. Neste caso, para que se ex-
traísse um trabalho excedente destes sujeitos, era necessário o uso ou a ameaça
de uma força militar. (WOOD, 2014, p. 21).
No capitalismo as coisas acontecem diferentemente. O capitalista não ne-
cessariamente precisa do controle direto de uma força militar para fazer valer
o seu poder político ou econômico. Os trabalhadores se encontram em grande
medida expropriados dos meios de produzir a sua subsistência, “porque estes
não têm propriedades, não têm acesso direto aos meios de produção e precisam

2 No feudalismo os camponeses detinham a posse destes meios, ou como proprietários ou como locatários.

96
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

vender a sua força de trabalho”, numa troca que envolve o salário que lhe per-
mite um trabalho para viver. (WOOD, 2014, p. 22).
Logicamente que o capital, e os capitalistas em geral, dependem em última
instância da coerção e da violência do Estado para que sejam mantidos “os seus
poderes econômicos e o domínio da propriedade”, para que seja conservada a
ordem social, bem como, “condições favoráveis à acumulação”. Mas mesmo este
poder de Estado age dentro de limites, conservando certos poderes aos capita-
listas e certos poderes ao Estado. É no capitalismo, portanto, que o “econômico”
se aparta do político. Nas palavras de Wood:

Existe mesmo um sentido em que somente o capitalismo tem uma esfera


“econômica”. Isso se dá porque o poder econômico é separado do poder
político ou da força militar e porque somente no capitalismo “o mercado”
tem uma força própria, que impõe a todos, capitalistas e trabalhadores,
certos requisitos sistêmicos impessoais de concorrência, acumulação e
maximização de lucros. (2014, p. 22).

O mercado não pertence a um capitalista dominante, este não é o senhor


de todos os trabalhadores, pelo contrário, o mercado, ou o econômico, se er-
gue como potência máxima de todos os sujeitos, sejam eles trabalhadores ou
operários. Como estes sujeitos “dependem do mercado para todas as suas ne-
cessidades, todos os atores econômicos são obrigados”, a preencher os requisitos
imperativos deste mercado antes de atender as suas necessidades e caprichos
pessoais. (WOOD, 2014, p. 22).
É justamente este desmembramento que permite ao “econômico” a ex-
ploração em condições capitalistas de produção. Assim, a “crescente mer-
cantilização da vida, a regulação das relações sociais pelas ‘leis’ impessoais
do mercado criaram uma economia formalmente separada da esfera políti-
ca”, como destaca Wood:

[...] como a vida social é cada vez mais regrada pelas leis da economia,
seus requisitos modelam todos os aspectos da vida, não somente a
produção e a circulação de bens e serviços, mas também a distribuição
de recursos, a disposição do trabalho e a própria organização do
tempo. (2014, p. 22).

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Ou seja, a expansão do capital incute esta sujeição das relações humanas, em


uma dependência direta das diretrizes do mercado. Estas tendem a modelar, como
enfatiza Wood, as conexões e relações humanas a maneira de ser do capital.
Outra característica levantada por Wood é a capacidade do capital como re-
lação social, se estender “muito além dos limites da dominação política direta”.
Dito de outro modo: o capitalismo se diferencia de outras formações sociais,
justamente por sua capacidade “de estender seu domínio por meios puramente
econômicos.” O exemplo levantado por Wood, se configura na relação de de-
pendência entre Estados imperiais e subordinados, no qual o modelo para ilus-
trar a questão se mostra na situação das dívidas externas das nações do Terceiro
Mundo. (2014, p. 23). No capitalismo, portanto, a coerção não necessariamente
precisa de meios militares ou extraeconômicos, mas esta coerção pode se confi-
gurar em meios puramente econômicos.
Uma das manifestações da crise é este desmembramento do político e do eco-
nômico em esferas apartadas. Esta cisão atinge também o sujeito, que será con-
siderado também sujeito público, ou cidadão, ou sujeito privado, pessoa egoísta.
O capitalismo parte destes pressupostos para firmar a sua ordem social. As
questões da esfera econômica tornam-se partes da natureza humana, imbuídas
na satisfação egoísta do sujeito que persegue as suas conquistas pessoais no
mercado. Este último se eleva como categoria suprema da realidade burguesa,
as questões do trabalho, do espaço público, dos bens comuns, do direito, da
política, se conformam as diretrizes do modo de produção burguês.
O lado político da vida burguesa se restringe aparentemente numa autoafir-
mação do próprio modo de produção de vida material burguês.
Este primeiro aspecto da crise, o desmembramento do econômico e do polí-
tico em esferas apartadas, revela a fragmentação do poder econômico e a pos-
sibilidade da exploração capitalista ser garantida pelo político, em especial pelo
poder político do Estado. É justamente este, no início da aventura capitalista
que garantiu a ordem que interessava a burguesia industrial nascente.
Obviamente que este Estado se modifica, precisa se atualizar e reconfigurar
novas formas e novos métodos de sociabilidade. As lutas operárias, as guerras, e
as contradições internas deste modo de produção, oscilaram formas de Estado
mais ou menos progressistas, mas basicamente, a ordem econômica que interes-
sa o capital sempre esteve protegida.
Como o processo de configuração do capital aparentemente atinge sua ple-
nitude no capitalismo contemporâneo, o próximo ponto deste artigo irá tratar

98
das questões críticas de ordem interna deste modo de produção que já se firmou
universalmente. A produção burguesa será vista de perto, em suas manifesta-
ções gerais, permitindo compreender a essência da contradição deste modo de
produção que atualmente se limita a suspender os efeitos da crise do capital pela
especulação dos capitais financeiros.

3. A crise do econômico
Em 1848, Marx e Engels escrevem um pequeno livro, panfletário, polêmico,
que tinha a intenção de fazer valer um manifesto político dos comunistas con-
tra a ordem burguesa de sua época3. A simplicidade dos argumentos contidos
no Manifesto não retira o valor histórico e a importância e relevância política
do documento. No que concerne ao problema levantado por este ponto, Marx
e Engels apresentam no exemplo do sistema feudal, os pressupostos da crise do
capitalismo de sua época.
Fato já consumado e verificado pela história as incongruências das forças de
produção e os seus limites internos, tendem a explodir suas contradições eco-
nômicas e sociais, provocando convulsões políticas e levantes populares contra
os obstáculos do crescimento destas forças de produção. O sistema feudal é
característico para ilustrar o ponto do Manifesto.

Em certo estágio do desenvolvimento desses meios de produção e de


troca, as condições em que a sociedade feudal produzia e intercambiava, a
organização feudal da agricultura e da manufatura, em suma, as condições
da propriedade feudal deixaram de corresponder às forças produtivas
já desenvolvidas. Entravavam a produção em vez de a incrementarem.
Transformaram-se em meros grilhões. Era preciso arrebentá-los, e assim
sucedeu. Foram substituídas pela livre concorrência, com a organização
social e política pertinente, com a supremacia econômica e política da
classe burguesa. (MARX e ENGELS, 2001, p. 32).

A crise se manifestou pela insuficiência do sistema feudal, em particular,


pelo modo de propriedade feudal e pela limitação no trânsito livre de merca-
dorias. Sendo assim, a substância da crise era o modo de organização da terra,
que impedia a liberdade mercantil, e a ampliação dos mercados. Ocorre aqui

3 Trata-se do Manifesto do Partido Comunista de 1848, escrito por Marx e Engels.


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uma contradição entre os propósitos econômicos e sociais do sistema feudal e


as forças de produção burguesas já bem desenvolvidas.
Mas o fenômeno não é exclusivo das entranhas do modo de produção feudal.
Como muito se sabe, a crise é também vivenciada pelo próprio capitalismo. De
forma análoga este último vive constantemente experimentando crises e novas
crises econômicas em sua sociabilidade. Este sistema econômico político apa-
rentemente se nutre de suas próprias contradições.
As crises comerciais que se manifestam no descompasso entre a compra e a
venda de mercadorias, também entram em contradição com as forças produtivas
existentes, provocando novas crises e novos métodos de superação das mesmas.
“Nas crises eclode uma epidemia social que teria parecido um contra-senso a todas
épocas anteriores: a epidemia da superprodução”. (MARX e ENGELS, 2001, p. 33)
O excesso de produção de mercadorias faz com que estas explodam no merca-
do. A sociedade já não comporta mais em si mesma este acúmulo de mercadorias
que se nutre da exploração do trabalho. A produção não se orienta pela demanda
e a crise se manifesta no não consumo destas coisas criadas pelos homens.

A sociedade vê-se bruscamente de volta a um estado de barbárie


momentânea: dir-se-ia que a fome ou uma guerra geral de aniquilamento
tolheram-lhe todos os meios de subsistência: a indústria e o comércio
parecem aniquilados. (MARX e ENGELS, 2001, p. 33-34).

E qual a razão deste aniquilamento? Marx e Engels apontam no “excesso


de civilização”, isto é, no excesso de todas as coisas produzidas pela indústria.
Toda a força de produção que alimenta a sociedade já não sustenta a própria
sociedade, suas relações entre classes, isto é, a relação de exploração entre capi-
tal e trabalho, não comporta aquela própria sociedade. “As forças produtivas de
que dispõe já não servem para promover a civilização burguesa e as relações de
propriedade burguesas; ao contrário, tornaram-se poderosas demais para essas
relações, e são por elas entravadas”. (2001, p. 34)
A superação das crises inevitavelmente se resolve de forma violenta. Marx e
Engels afirmam que: “De uma parte, pelo aniquilamento forçado de uma enor-
me contingente de forças produtivas; de outra, pela conquista de novos merca-
dos e pela exploração mais acirrada dos antigos”. A violência se caracteriza pela
extensão das crises e pela redução das formas de combatê-las. (2001, p. 34).

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

É como se a identidade sempre habitual entre produção e circulação, compra


e venda de mercadorias se tornasse estranha. O vínculo se quebra e a unificação
se torna tarefa difícil e penosa. Cada parte do ciclo se autonomiza, o dinheiro
torna-se também autônomo e as partes que outrora funcionavam tão bem não
conseguem falar o mesmo idioma. É como diz Daniel Bensaid: a crise se instala,
“então, a discórdia entre produção e circulação”, estas partes não funcionam
mais em uníssono, parece não acordarem mais em sua identidade. “A crise é a
expressão desse mal-estar identitário”. (2013, p. 121).
A cisão entre os componentes básicos da lógica do sistema provoca o rompi-
mento do hábito. A mercadoria não consegue perseguir o seu ciclo habitual4. A
razão se justifica. Não existe um alinhamento entre a produção e a circulação
como pressupõe os liberais, o mercado não se regula automaticamente como
sustentam estes teóricos. Pelo contrário, tanto produção e circulação perseguem
o mesmo ciclo da mercadoria (D – P – M – D’), ou seja, cada ramo do sistema de
produção capitalista pode se separar e não necessariamente se alinha no tempo
e no espaço. (BENSAID, 2013, p. 124).
Para os liberais dos tempos do capitalismo clássico, ocorria uma espécie de
equilíbrio lógico entre a produção e a circulação, entre a compra e a venda
de mercadorias. Cada estágio do ciclo era assim misteriosamente equilibrado,
não havendo disjunções e desequilíbrios entre os estágios separados do modo
de produção burguês. Partia-se da ingênua constatação de que cada produtor
tornar-se-ia ou consumidor de seus próprios produtos, ou então comprador e
consumidor de produtos de outro produtor, desta forma, ocorreria um equi-
líbrio natural entre compra e venda, oferta e procura das mercadorias. Estas
constatações se encontram na maioria dos economistas do período clássico do
capitalismo liberal. (BENSAID, 2013, p. 124).
Mas as ingênuas constatações dos liberais não se confirmaram. A crise
aconteceu e o equilíbrio entre as esferas separadas de fato existiu por pouquíssi-
mo tempo. A crise é uma realidade inexorável do modo de produção capitalista.
Qual a razão? Bensaid oferece uma pista:

4 O ciclo habitual da mercadoria no capitalismo moderno é: dinheiro – meios de produção –


mercadoria – dinheiro’, ou D – P – M – D’. O ciclo, no capitalismo já minimamente desenvolvido,
pressupõe a existência do capital na forma dinheiro. O percurso inicia pelo dinheiro e deve terminar
em dinheiro. Tal fato demonstra que para existir em sua “normalidade”, este sistema precisa daquilo
que é vulgarmente denominado “economia real”.

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

A separação da venda e da compra diferencia a economia capitalista


de uma economia de troca, em que “ninguém pode vender sem ser
comprador” (e reciprocamente), em que a maior parte da produção é
diretamente dirigida para a satisfação de necessidades imediatas. “Na
produção mercantil”, por outro lado, “a produção imediata desaparece”.
Não se produz mais em função de necessidades, mas de lucro – que não
se importa com necessidades sociais, apenas com demanda solvente,
pois, “se não existe venda, é a crise”. (2013, p. 124-125).

No capitalismo, como se sabe, a compra e venda de mercadorias não


esta em sintonia e muito menos reciprocidade mútua. Se o interesse da
produção não é a satisfação coletiva, mas a necessidade solvente do sujei-
to egoísta, a produção não age de maneira alguma de modo a vincular o
interesse do comprador e do vendedor eternamente. Se o comprador não
possui dinheiro1, a mercadoria não vende, a crise se instala, e o vendedor
se esfacela em sofrimento e danação.
Na produção do capitalismo, para que o ciclo da mercadoria2 se realize ju-
bilosamente, é preciso que o mais-valor que se incorpora a mercadoria, seja
transformado novamente em dinheiro. Mas o dinheiro acumulado não neces-
sariamente precisa ser reinvestido na compra de novas mercadorias, é aqui que
o ciclo se quebra, ou como diz Bensaid, que a “metamorfose” da mercadoria se
interrompe. A crise, deste modo se manifesta de duas formas:

Em sua primeira forma, “a crise é a metamorfose da própria mercadoria,


a dissociação entre compra e venda”; em sua segunda forma, é função
do dinheiro como meio de pagamento autonomizado, “onde o dinheiro
atua em duas fases distintas e separadas no tempo, em duas funções
distintas”, de simples equivalente geral entre mercadorias e de capital
acumulado. (BENSAID, 2013, p. 125).

Tal autonomia do dinheiro se estende na separação entre o lucro do negócio


e os juros, estes últimos parecem surgir não da relação concreta do trabalho
contido da empresa, isto é, fruto da força de trabalho dos operários, mas sim,

1 O dinheiro é o facilitador do sujeito. Para que este último possa ser, é preciso portar consigo o
atestado de validade social, isto é, o dinheiro, só assim o indivíduo poderá desfrutar de todas as
maravilhas do convívio social burguês.
2 (D – P – M – D’).

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

do esforço do capitalista. É conhecido vulgarmente pela interpretação de que


dinheiro faz dinheiro, suprimindo-se a base material e concreta de sua realiza-
ção. (BENSAID, 2013). Em outros termos: para que este dinheiro se acumule
em capital, é preciso existir uma relação econômica que se sustenta em uma
forma concreta, a economia burguesa não pode sobreviver em um mundo que
se generaliza condições de especulação financeira sem uma base concreta de
trabalho, sejam eles trabalhos materiais ou imateriais.
O elo que permitia a troca no mercado de um valor de uso por outro
valor de uso foi desconectado pela autonomia do dinheiro como equivalente
geral destas mercadorias. Como aponta Bensaid, “não se trata mais da troca
direta de um valor de uso por outro valor de uso, mas de uma mercadoria
por dinheiro”. (2013, p. 127).
Em síntese a crise na análise marxista se apresenta da seguinte forma: no
início ocorre uma “descontinuidade” entre a produção e a circulação destas
mercadorias, estas empresas submetidas a padrões elevados de lucro e competi-
tividade produzem insaciavelmente para o mercado, a produção almeja inchar
o mercado com seus produtos, mas se o processo de circulação não for bem su-
cedido, as mercadorias entulham nas prateleiras, assim, aqueles que produzem
não conseguem liberar novas mercadorias já que a circulação não se livra das
anteriores. (BENSAID, 2013, p. 128).
Se o cenário anterior se tornar excessivo qual o efeito? Sobreprodução
de mercadorias e sobreacumulação de capital. E o que é sobreprodução? É
quando uma mercadoria não consegue ser comprada. E o que é sobreacumu-
lação de capital? É quando o capital se acumula nas mãos de um capitalista
sem investimento produtivo qualquer. Como o capitalismo consegue adiar
a crise e suspender temporariamente os seus efeitos? Através de capitais
financeiros, ou seja, através do capital acumulado em suas diversas manifes-
tações, seja ele: industrial, comercial, bancário, etc., na forma de emprésti-
mos, desta forma, se consegue:

[...] mascarar a desproporção crescente entre a reprodução ampliada e


a demanda final restante. A eclosão da crise pode, assim, ser adiada
principalmente graças a intervenção dos capitalistas financeiros,
que transformam seu lucro em capital-dinheiro para empréstimo.
(BENSAID, 2013, p. 129).

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Na sequência da exposição ocorre uma terceira manifestação da crise. A


chamada “lei da queda tendencial da taxa de lucro”. Esta “lei” acontece em
termos contraditórios, pois não são os fatos puramente econômicos que influen-
ciam sobre esta tendência da queda da taxa de lucro. O que isto significa? Que
fatores sociais, lutas de trabalhadores, em suma barreiras humanas impedem a
acumulação serena do capital. Ela “lei”, aponta Bensaid:

[...] só parece se impor por suas próprias negações: aumento da taxa de


exploração (relação entre o tempo de trabalho fornecido gratuitamente
ao empregador e o tempo de trabalho pago), que visa a recuperar o lucro;
predação imperialista, que permite reduzir a “composição orgânica
do capital” (relação entre a parte do capital destinada à compra de
instalações, maquinário etc. e aquela reservada ao pagamento de
salários), por meio da exploração de uma força de trabalho barata
e da redução do custo das matérias-primas; aceleração da rotação do
capital, com o auxílio da publicidade, do crédito e do gerenciamento de
estoques para compensar a diminuição da taxa de lucro pelo aumento de
sua massa; intervenção pública do Estado, mediante despesas públicas,
isenções fiscais e, sobretudo, despesas em armamento. (2013, p. 131).

A tendência da redução da taxa de lucro se consuma num cenário em que


o trabalho morto (meios de produção) se acumula “em detrimento do trabalho
vivo”, desta forma, mais a taxa de lucro tende a baixar. Para compensar as perdas
os capitalistas reagem no intuito de quebrar a tendência de queda. Como se dá
esta reação? De diversas formas, e todas dependem de “múltiplas variáveis, de
lutas incertas, de relações de forças sociais e políticas”. (BENSAID, 2013, p. 132).
De maneira geral os capitalistas tendem a aumentar o grau de exploração
da força de trabalho, seja estendendo a jornada, seja pelo aumento da produti-
vidade, seja pela diminuição salarial abaixo das taxas de inflação e ainda pela
retirada de direitos sociais. (BENSAID, 2013, p. 132). Como as taxas de lucro
se comprimem, diminuem, os capitalistas encontram nos trabalhadores a forma
de recuperar as perdas de lucratividade de seus empreendimentos.
A alta concorrência entre mercados empurra as empresas para uma aventu-
ra que impõe altos níveis de produtividade e velocidade na produção de merca-
dorias e serviços, é preciso sempre mais e sempre o melhor. O resultado desta
nova cosmovisão é uma contínua reorganização do espaço de trabalho e de uma
eterna renovação dos tempos e da velocidade do próprio trabalho, que ao final

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

tende a aumentar a intensidade do trabalho e os níveis de exploração, tudo com


o intuito de compensar as quedas das taxas de lucros do mercado.
Estes acontecimentos se iniciam na Revolução Industrial do século XVIII e
XIX e vão sistematicamente ocorrendo ao longo da história do capitalismo. O
taylorismo, o fordismo e o toyotismo são formas de incrementar as perdas do
lucro impulsionando a intensidade do trabalho e aumentando o grau de explo-
ração dos trabalhadores ao longo do tempo da história do capitalismo. Cada
etapa histórica de transição sempre aumentou a intensificação através do uso de
máquinas e tecnologia ou então de uma reorganização dos espaços de trabalho,
seja diminuindo o número de trabalhadores, aumentando assim a carga de fun-
ções de cada trabalhador, seja simplesmente aumentando o nível de cobrança e
resultados destes mesmos funcionários. (DAL ROSSO, 2008).
Neste cenário já considerado plenamente desenvolvido, as lutas entre a classe
capitalista e a classe trabalhadora se resolvem, ou encontram seu suposto equilí-
brio, na esfera do Direito. É no Direito, em especial, no Direito do Trabalho que
os conflitos do trabalho serão resolvidos, ou seja, não existe mais razão de uma
intervenção violenta ou do uso da força para fazer valer uma vontade. As lutas
de classe se desviam para as lutas de direitos, nesse caso, direitos opostos. Mas
o direito do trabalho pode resolver os impasses e os conflitos sociais provocados
por uma sociedade que se sustenta numa crise em seus fundamentos?

4. O papel do Direito do Trabalho e a política


É no direito que a forma burguesa de propriedade se legitima e se fixa com
maestria. É nestes discursos jurídicos e nas abstrações filosóficas a respeito da
liberdade e da igualdade humana que toda a pompa e todo o requinte do ideário
burguês solidifica sua institucionalidade. O desmembramento do poder eco-
nômico e do poder político possibilita que a esfera estatal se erga socialmente,
se eleve como entidade máxima de controle dos excessos e dos descompassos
contraditórios entre os embates dos sujeitos opostos. O Estado, a política e o
Direito consumam a aliança contraditória do capital e do trabalho num esforço
desmedido para o progresso do capitalismo enquanto forma social.
No primeiro estágio o econômico se separa do político, firma a base de sus-
tentação da exploração do trabalho e da apropriação capitalista dos frutos deste
trabalho. Num segundo momento o direito trata de legitimar a propriedade

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burguesa e o controle da produção pela burguesia. Num terceiro estágio de de-


senvolvimento da forma social burguesa, é preciso compactuar com a classe
explorada garantindo certos direitos sociais. Pois não é possível que os novos
servos da modernidade sejam somente escravos sem garantias e direitos.
A ambiguidade das conquistas dos trabalhadores repousa em uma base tre-
mula. A exploração do trabalhador não pode eliminá-lo por completo, é preciso
reconhecer certos aspectos de dignidade, pois esse é também um potencial con-
sumidor dos bens que fabrica, assim, a banalidade liberal jurídica precisa encon-
trar um apelo humanístico para integrar a massa expropriada dentro de uma
ilusão de pertencimento e relevância social. Como bem apresenta Guy Debord:

[...] Subitamente levado do absoluto desprezo com que é tratado em


todas as formas de organização e controle da produção, ele continua
a existir fora dessa produção, aparentemente tratado como adulto,
com uma amabilidade forçada, sob o disfarce de consumidor. Então o
humanismo da mercadoria se encarrega dos “lazeres e da humanidade”
do trabalhador, simplesmente porque agora a economia política pode e
deve dominar essas esferas como economia política. (2005, p. 31).

Bernard Edelman, em A legalização da classe operária, reconhece um du-


plo aspecto da ambiguidade da conquista dos movimentos operários. O pri-
meiro aspecto seria que as supostas vitórias “foram necessárias para manter
em “boa saúde” a classe operária”, sendo o capitalismo inglês emblemático
no sentido de que o Estado sempre se manteve presente na intenção de
conter a fome insaciável dos capitalistas ingleses; o outro, repousa na cínica
integração do trabalhador no quadro social, uma integração que se dá na
aceitação de sua subordinação e no rebaixamento como mera mercadoria a
serviço do capital. (2016, p. 18).
Outro aspecto da integração é a resignação e o condicionamento das lutas
e conflitos de classe para o âmbito jurídico. Uma luta que nos primórdios do
movimento operário era radical e feroz foi lentamente sendo apropriada e re-
gulada pelos imperativos jurídicos burgueses, que logo trataram de confinar o
conflito de classe dentro da argumentação ponderada e moderada da política e
do direito burguês. (EDELMAN, 2016).
Se o conflito foi apropriado de certa forma pelo direito, os caminhos a se-
rem conduzidos pelas lutas operárias serão sempre limitados e cercados pelo
direito burguês. A história do movimento operário é assim então, reduzida a

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

história jurídica que se pauta em conquistas através do direito. Esta redução da


história da luta operária para uma luta pelo direito caracteriza por um ajuste
“permanente da relação capital/trabalho na própria estrutura da lei, ou melhor,
que considera a relação capital/trabalho uma relação jurídica, uma relação entre
“sujeitos””. (EDELMAN, 2016, p. 19). A noção de sujeito logo importa uma
relação contratual. Como se dá esta relação?
No contrato de trabalho, aponta Edelman, “o trabalhador vende “traba-
lho”, não força de trabalho, mas trabalho, isto é, a forma-mercadoria da força
de trabalho. Em contrapartida, ele recebe um salário, isto é, o preço de seu
trabalho.” (2016, p. 30). Mas qual a diferença entre trabalho e força de traba-
lho? Trabalho é o conceito genérico, envolve as várias espécies de trabalho,
já a força de trabalho se refere ao grau de intensidade do trabalhador numa
produção qualquer. A força de trabalho pode aumentar os valores criados po-
tencializando o lucro do capitalista, logo a força é uma medida que aumenta
o valor da mercadoria produzida.
Quando o direito regula o contrato de trabalho, a relação entre o trabalhador
e o capitalista se expressa numa aparência de troca entre o trabalho e o salário,
sendo este último expressão do equivalente desta relação de contrato. Mas o
salário não corresponde equitativamente ao valor criado pela força de trabalho
dos trabalhadores. O capitalismo se caracteriza pela troca de equivalentes, isto
é, toda mercadoria possui um valor de troca equivalente. Por exemplo: troca-
-se dois reais, por um quilo de arroz. Dois reais significam a equivalência por
um quilo de arroz. Temos uma relação de troca de equivalentes. O valor de um
quilo de arroz se iguala em dois reais. No contrato de trabalho, esta igualdade
de valor não se consuma. E é aqui que habita o mistério do capitalismo, sua ca-
pacidade de extrair mais-valor do trabalho e apropriar a riqueza produzida pelo
trabalhador. Conforme expõe Edelman:

A partir do momento que o contrato de trabalho é um contrato de venda


do trabalho, cuja contraprestação é o salário; a partir do momento
que “a relação monetária oculta o trabalho gratuito do assalariado”,
a relação real entre capital e trabalho torna-se “invisível”. É na forma
salário – que o contrato de trabalho torna tecnicamente eficaz – que
repousam todas as noções jurídicas, tanto do trabalhador como do
capitalista, todas as mistificações do modo de produção capitalista,
todas as suas ilusões de liberdade, todas as tolices apologéticas da
economia vulgar. (2016, p. 30).

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

O trabalho é a única mercadoria em que o valor pago não corresponde ao


valor criado pela força do trabalhador. A capacidade que a força de trabalho
tem de criar valor e aumentar o valor da mercadoria não é paga para o assala-
riado. O Direito jamais regula a extorsão deste trabalho não pago.
O direito ainda regula outra relação muito cara e relevante para a produção bur-
guesa. A questão da propriedade, do direito de propriedade. Toda a interpretação
jurídica da propriedade foi construída baseada na definição burguesa de proprieda-
de privada. A propriedade era e é tratada como uma essência humana, como uma
qualidade natural do ser humano, como parte funcional do seu ser social.
Para firmar o conceito que se ajusta ao modo de produção a interpretação da
propriedade não pode sustentar uma noção de uso comum da propriedade, a pro-
priedade precisa se orientar ao uso privativo, individual do sujeito que a possui. A
instituição do capital como relação social, a definição do homem, “como sujeito in-
dividual e parte de um contrato, torna-se a medida das práticas sociais, a proprieda-
de se define em relação a ele como propriedade privada.” (BENSAID, 2017, p. 23).
Sujeito individual, propriedade individual, trabalho individual, a interpreta-
ção se estende a todas as relações humanas, partem sempre do princípio do su-
jeito isolado, dobrado e voltado a si mesmo, a satisfação do seu próprio interesse
privativo e alheio aos demais que o cercam. A propriedade burguesa se orienta
por este norte. A felicidade desta vida se resume na vida privada, egoísta, a
propriedade é privada, é de alguém, pertence ao proprietário privado. A coisa
pertence ao dono. Um atentado contra a propriedade privada é um atentado
contra o dono da coisa. A qualidade privativa de um bem qualquer se estende
ao dono, é um desdobrar do sujeito na coisa.
A lógica da propriedade privada abraça a produção das mercadorias. A pro-
priedade da empresa é sempre de alguém, é um título jurídico que confere ao
dono o poder de usufruir deste bem. Não se sabe a origem desta coisa, mas o
direito aponta no título a qualidade de dono da coisa, logo este título confere ao
dono a extensão deste poder. Como interpreta Edelman:

Para o direito, os meios de produção são objetos de propriedade, aparecem


como “coisas” autônomas, dotadas da estranha faculdade de “nascer” de
um título – o título de propriedade ou a “origem da propriedade” – e,
portanto, de aumentar por si mesmas. Com efeito, uma vez que o “título”
cria a coisa, e a substância da coisa é seu próprio sinal, seu crescimento é
apenas um desenvolvimento de sua própria substância, um sinal a mais.

108
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Toda a teologia e toda a contabilidade ensinam: só se pode criar a partir


de si mesmo. (2016, p. 30-31).

Se a coisa, ou a propriedade é do dono, que possui o seu título legal, todo


enriquecimento de valor que se agrega ao seu terreno pertence a esta coisa. “Da
mesma forma que a maçã pertence à macieira, o lucro pertence ao objeto de
propriedade”. (EDELMAN, 2016, p. 31).
E como o direito interpreta o trabalho alheio que aumenta o valor da coisa?
Pois logicamente existe a figura de um trabalhador que está envolvido nesta
produção de mercadorias, e é graças ao trabalho destes homens e mulheres que
a mercadoria aumenta o seu valor. Como o direito interpreta esta relação de um
trabalho vendido pelo operário e comprado pelo capitalista? Para o direito, o
trabalho humano valoriza este desenvolver da coisa:

[...] mas essa valorização pelo trabalho apresenta-se também como um


desenvolvimento da “coisa”; o trabalho anima a substância da coisa, ele
a faz trabalhar e, ao fim da operação, a coisa é maior que ela mesma;
o “título” aumentou. Esse é o “mistério” da fórmula D-D’ do capital
portador de juros. (EDELMAN, 2016, p. 31).

Se o capital compra a mercadoria força de trabalho, os frutos que esta mercadoria


produz são de propriedade do seu comprador, isto é, do capitalista. E é aqui que reina
o mistério da produção burguesa, que acumula riqueza e cultura para uma classe em
detrimento da outra. Nesta formulação jurídica da relação de trabalho que a extorsão
do trabalhador e a relação de equivalência da sociedade mercantil não tem sentido. O
trabalho humano é a única mercadoria que não se paga pelo seu valor de equiva-
lência, é a única mercadoria paga abaixo do seu valor real, do valor que ela pro-
duz, e é este o segredo da acumulação do grande capital na sociedade burguesa.
Se todos os trabalhadores recebessem pelo valor real de sua mercadoria,
não existiria acumulação de capital e sociedade capitalista. É justamente esta
extorsão regrada por fórmulas jurídicas e coerção estatal que possibilita o desen-
volvimento desta sociedade contraditória. Pode-se então entender que:

[...] o contrato de trabalho reproduz o direito de propriedade, e como o


direito de propriedade reproduz o contrato de trabalho. De um lado, o
contrato de trabalho aparece como uma técnica de venda do “trabalho”,
que só dá direito a um salário; de outro, o proprietário dos meios de

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

produção compra a força de trabalho sob a forma de salário e a incorpora


juridicamente à sua propriedade. (EDELMAN, 2016, p. 31).

Esta relação entre sujeitos, livres, iguais, detentores de suas propriedades revela
o sentido jurídico que porta cada sujeito. O trabalhador é dono de sua proprieda-
de, da sua capacidade de trabalhar, de sua força de trabalho, logo ele tem direito
a um salário, ele troca a sua força física, mental, psicológica, sua existência, por
um salário; o outro, o capitalista, o empresário, é o dono da propriedade dos meios
de produção. O primeiro aparece no mercado com seu entusiasmo, com uma
vontade imensa de produzir, de trabalhar; o outro aparece neste mesmo mercado
com uma vontade irresistível de que trabalhem para aumentar o valor de sua pro-
priedade. O direito afirma esta relação como uma relação de vontade, de sujeitos
livres, iguais, que se compatibilizam e se harmonizam no contrato.
O direito não tenta compreender a dinâmica real desta sociedade, o conteúdo
destas relações. Ele trata estes sujeitos como sujeitos de direito, portadores de suas
garantias e donos de suas propriedades. Não existe para o mundo jurídico uma
relação contraditória, um mundo que exista de fora do limite positivo da norma.
Fica extremamente fácil para compreender o desenrolar desta história. As
lutas operárias jamais puderam ultrapassar a questão fundamental e absoluta
do direito, que é a propriedade privada dos meios de produção. Este núcleo
enrijecido da política e do direito não se flexibiliza jamais, a propriedade é uma
garantia jurídica importante para a acumulação capitalista e para a extorsão do
valor da força de trabalho.
O poder do capital transparece nesta relação jurídica que envolve o traba-
lho. Edelman afirma que é um “poder desdobrado”, nas palavras do autor:
O que é, então, o poder jurídico do capital? Nada além disto: a dupla
forma do contrato de trabalho e do direito de propriedade. E, quando
digo “dupla forma”, devemos nos entender, porque seria mais exato dizer
“forma desdobrada” do capital. Do ponto de vista do operário, o capital
toma a forma do contrato de trabalho; do ponto de vista do patrão, ele
toma a forma do direito de propriedade. Mas é exatamente uma forma
desdobrada, pois sua unidade não é nada além do capital sob a forma do
direito de propriedade. (2016, p. 31).

Esta proteção jurídica proporcionada pelo direito possibilitou e possibilita


que a lógica de equivalência valha para tudo, menos para a mercadoria de pro-
priedade do trabalhador, isto é, sua força de trabalho.

110
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

O direito ainda faz valer outra importante ferramenta ideológica, muito valida
para os fins práticos desta sociedade. Que ferramenta seria? A política, ou melhor,
a despolitização do espaço de trabalho. Se a política entra na fabrica é justamente
para dosar e regular os excessos. A luta política vai sendo sempre orientada pelo
direito. Se existe um conflito político entre classes, é no direito que se harmoniza
o conflito. Limite de jornada, regulamentação do salário mínimo, repouso sema-
nal, segurança e higiene no trabalho, etc., são formas de lutas políticas que se
resumem em reivindicações jurídicas. Mas qual a razão de ser assim?
Para a sociedade burguesa o trabalho é uma espécie de “mola que impulsiona
o desenvolvimento humano; é no trabalho que o homem se produz a si mesmo”.
Graças ao trabalho humano este último se desgrudou “um pouco da natureza e
pôde, pela primeira vez, contrapor-se como sujeito ao mundo dos objetos naturais”.
Sem esta relação do trabalho, deste ato que toca e altera a composição dos bens
da natureza, “não existiria a relação sujeito-objeto”. (KONDER, 2007, p. 23).
Sendo o trabalho uma propriedade humana, ele pode ser privativo ao uso
individual de um sujeito. Se um sujeito trabalha solitariamente na criação de
uma mercadoria qualquer ele é o dono desta coisa. A lógica simbólica desta
abstração permanece no cotidiano empresarial contemporâneo. Se o trabalho
é uma essência humana natural, um ato de desenvolvimento humano, uma
propriedade humana, ele é parte de uma natureza egoísta do ser como tal, desta
forma pode ser apropriado individualmente pelo sujeito criador. No capitalismo
o sujeito criador é o dono da propriedade do trabalho, dos frutos do trabalho,
e não o dono da força de trabalho. A empresa como espaço de propriedade do
trabalho é parte de uma essência humana que desenvolve e persegue o progres-
so do gênero humano, logo este espaço não é inteiramente político, é neutro, é
parte de uma essência humana.
Pela leitura a questão da política envolvendo as relações de trabalho é
limitada, mas até onde toca o debate político no âmbito do trabalho? Somen-
te naquilo que envolve as questões profissionais do trabalho enquanto tal.
Edelman analisa a situação da greve, e vislumbra o limite imposto para os
grevistas. A greve, de fato atípico nos primórdios da industrialização teve que
ser institucionalizada pelo Estado e pelo direito burguês, uma greve contida,
contratualizada, e perfeitamente regulada pelos limites do direito. De um fato
não jurídico, a greve se transforma em direito de greve, sendo um direito a
greve possui limites, e se os grevistas ultrapassarem os limites do direito de

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

greve, esta se torna um abuso de direito, podendo ser punida pelo ordenamen-
to jurídico. (EDELMAN, 2016).
O direito do grevista se mantém dentro das cercanias seguras e reguladas
pela forma jurídica, se os grevistas derem um pé adiante do limite, ocorre o
abuso, se os grevistas contestarem a propriedade burguesa, ou o prossegui-
mento da produção de mercadorias, tudo é um atentado contra a nature-
za humana, uma natureza individual e voltada a satisfação das necessidades
individuais. (EDELMAN, 2016). Como já dito anteriormente: propriedade
individual, trabalho individual, sucesso individual, gozo e fruição da vida to-
mados a partir da perspectiva individual.
Ao regressar a pergunta do fim do segundo ponto a resposta torna-se dúbia.
Uma conquista ou um direito laboral em grande medida não se volta contra as
estruturas de normalidade de reprodução do capitalismo. A propriedade priva-
da e a reprodução capitalista seguem regradas e reguladas pela forma jurídica.
Os espaços de luta para promover novos e outros direitos, se resguardam no li-
mite muito bem regulado pelo capital. Inexiste supressão da contradição apenas
um alívio temporário ou então uma tensão contínua provocada pela crise. O
capitalismo, através tanto da política como do direito, apenas suspende os efei-
tos e empurra para os cantos os seus problemas e suas contradições insanáveis.

Conclusão
Como se viu nesse pequeno artigo o sistema capitalista se cerca de garantias
políticas e jurídicas para coibir qualquer avanço contrário que desequilibre seu
poder sobre os indivíduos. Em essência esse poder abarca a totalidade da vida
humana em todas as suas contradições. O desmembramento, ou a cisão, entre
o poder econômico e o político permite que a exploração em condições capita-
listas de produção siga um curso habitualmente normal ou natural. Se a esfera
econômica segue um curso normal essa esfera torna-se natural parte da essência
humana, já a política se encarregaria dos assuntos públicos, do bem comum. É
aquilo que Marx denominaria de cisão do homem em cidadão privado egoísta
e cidadão público ou político. Graças a essa cisão o capitalismo persiste, pois o
processo econômico segue um curso natural e independente da vontade cons-
ciente dos sujeitos da sociedade burguesa.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Se essa sociedade caminha solta e sem rédeas o descompasso entre o inte-


resse individual e o interesse coletivo também se acirra e ganha força. As con-
tradições e crises aumentam os descompassos e a sociedade se torna ainda mais
problemática. A crise e as contradições potencializam os problemas sociais. E
nesse mundo contraditório e repleto de problemas a sociedade burguesa elege o
Direito como sendo a esfera de resolução destes problemas. No que se refere as
relações de labor o Direito do Trabalho se resguarda de tal incumbência.
Como se viu por aqui o Direito do Trabalho em sua essência protege e con-
serva as relações de trabalho em condições burguesas de produção. Mantendo
e garantindo a propriedade privada burguesa bem como o trabalho em condi-
ções assalariadas. Não existe nenhuma transgressão aos limites postos pela lei
que regula o trabalho. A sociedade caminha em sua eterna sina de reproduzir
eternamente a propriedade como sendo privada e o trabalho como sendo as-
salariado. Dessa forma se chega a conclusão por este estudo preliminar que as
garantias e proteções dos trabalhadores dentro da lei apenas legitimam e res-
guardam o interesse na autoreprodução do capitalismo. Existe, portanto, uma
contradição. A lei do trabalho auxilia na vida do trabalhador no mesmo instan-
te que limita qualquer possibilidade de vida além das condições sociais postas.
Como superar tal dilema?

Referências bibliográficas

BENSAID. Daniel. Marx, manual de instruções. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2013.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. 1. ed. Rio de Janeiro:


Contraponto, 2005.

EDELMAN, Bernard. A legalização da classe operária. 1. ed. São Paulo:


Boitempo, 2016.

KONDER, Leandro. O que é dialética. 28. ed. São Paulo: Brasiliense, 2007.

MARX, Karl. Os despossuídos: debates sobre a lei referente ao furto de


madeira. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2017.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O Manifesto do Partido Comunista:


1848. Porto Alegre: L&PM, 2001.

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
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ROSSO, Sadi Dal. Mais trabalho!: a intensificação do labor na sociedade


contemporânea. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2008.

WOOD, Ellen Meiksins. O império do capital. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2014.

114
A efetivação da política de saúde
e as suas dificuldades atuais

Lucas Moreira Rosado1

Introdução
O presente estudo tem como interesse abordar a origem dos Direitos Hu-
manos, e seu reflexo na judicialização da saúde em nosso atual contexto social.
O papel atual do Direito surge no início do Estado burguês, numa ilusão falsa
criada pelas classes dominantes, de que tais escrituras são norteadoras de uma
sociedade justa. Porém, na realidade, escondem em si sua adequação à justifica-
ção e manutenção do capitalismo e do individualismo burguês.
Historicamente os Direitos Humanos surgem, em nossa sociedade moderna,
a partir de lutas entre as mais diversas camadas sociais. Num primeiro momen-
to, no início de seu surgimento, os Direitos pelo qual a sociedade lutava exigia
do Estado a manutenção da propriedade privada, principalmente como uma
forma de garantir a acumulação de capital pela burguesia, e posteriormente,
após a evolução das necessidades humanas, surgiram novos Direitos, estes agora
exigindo uma atitude positiva do Estado, no sentido de se necessitar tomar cer-
tas posturas para que os Direitos pudessem ser devidamente efetivados.
Deste modo, os direitos humanos surgem por meio de ações organizadas por
grupos oprimidos, os quais reivindicam as bases legais da dignidade humana
(SANTOS, 2013). De acordo com este raciocínio desenlaçado acerca dos Di-
reitos Humanos, vemos uma relação complexa não só pela sua origem ser fruto
de lutas e reivindicações das classes sociais, por meio dos movimentos sociais,
mas, também pela sua serventia ao Estado burguês, como instrumento eficaz
para trazer de volta a tranquilidade ao grupo dominante.

1 Formado em Direito, cursando Mestrado em Serviço Social e Direitos Sociais na Universidade do


Estado do Rio Grande do Norte - UERN.

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

2. O Surgimento do Estado, e sua função à burguesia


O Estado no contexto da sociedade capitalista surge tendo como função
primária a de servir como comitê estruturante para alicerçar a dominação bur-
guesa, porém, à medida em que foram surgindo os movimentos da classe tra-
balhadora, os quais se mobilizavam para cobrar mudanças na atuação estatal,
fosse por meio de concessão de novos Direitos, fosse por meio da abstenção
em agir em determinado sentido, isto porque o Estado no sistema capitalista
necessita agir como um mediador, aplicando os “corretivos necessários” para a
manutenção da dominação (MESZÁROS, 2015).
Neste contexto, devido esse antagonismo base existente, em que, a vida
cotidiana no capitalismo é complexa, onde de um lado apenas na vida em so-
ciedade podemos pensar na acumulação de capital, e na exploração dos tra-
balhadores, e de outro, reside o fato de que é nessa vida em sociedade em que
fragmentam-se os indivíduos, vez que cada um quer enriquecer e explorar o
outro. (LESSA, 2011).
Por esse aspecto antagônico que nosso cotidiano é marcado por disputas
das mais diversas, onde impera o individualismo e a acumulação de capital,
desta forma, o Estado, para que a sociedade entre em consenso, ele passa a in-
corporar diversas funções, todas de forma organizada e aceitável à manuten-
ção da burguesia e do capital, de modo que passa a ter a necessidade de suprir
demandas sociais da classe trabalhadora, para que se possa dar continuidade
à dominação, e é dentro dessa lógica que surgem os Direitos Humanos, são
essas demandas exigidas pela classe trabalhadora, demandas estas que bus-
cam garantir à população um mínimo de dignidade na vida humana, são os
chamados Direitos Humanos.
Com base nessa linha de raciocínio, devemos nos ater ao fato de que a
convicção fática de que os seres humanos possuem Direitos Fundamentais, os
quais, em tese, deveriam existir para que se garanta uma igualdade de trata-
mento, apesar das desigualdades sociais existentes, não passa de uma interação
social forçada e edificada na existência de Direitos controlados pelo Estado,
num agrupamento social chamado de sociedade civil organizada.
É o que nos diz Gramsci (2002, p.41) o qual reforça o conceito de Estado,
afirmando que “O Estado é certamente concebido como organismo próprio
de um grupo, destinado a criar as condições favoráveis à expansão máxima
desse grupo” e, continua seu raciocínio dizendo “Estado é todo o complexo de

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

atividades práticas e teóricas com as quais a classe dirigente não só justifica seu
domínio, mas consegue obter consenso ativo do governados” (2002, p. 331).
Deste modo, explica-se o fato de que a burguesia por ter o controle dos meios
de produção e, consequentemente, controlar o trabalho e a exploração da classe
trabalhadora, pôde estender a sua dominação ao Estado, o qual, na sociedade
capitalista, flui em função da manutenção do próprio sistema e refletir os
interesses da burguesia, desta forma, para fazê-lo, necessita manter uma relação
minimamente consensual entre o grupo dominante e o dominado.
Não obstante, Lessa (2011, p. 85) nos dá uma luz acerca de como entender
o Estado ao ditar o seguinte “Em outras palavras, o Estado capitalista afirma a
igualdade formal, política e jurídica, com o objetivo real e velado de manter a
dominação da burguesia sobre os trabalhadores”. Com base em seus ensinamen-
tos torna-se possível entender que o Estado tem a função primordial de manu-
tenção do consenso e da exploração capitalista, seja por meio do reforço da ideia
ilusória da igualdade entre os cidadãos, seja na intervenção nos conflitos de
classe, o Estado sempre buscará manter o consenso e a condição de exploração
da classe trabalhadora.
Com tal ensinamento, Tonet (2002) reforça o raciocínio aqui delineado
ao nos elucidar que poder político nada mais é que a força social apropriada
por determinada classe social e posta a serviço dele para a reprodução de um
entendimento que possuem.
Trindade (2010), não diferente do que já fora abordado, afirma que a declaração
universal dos direitos do homem, põe o homem enquanto membro da sociedade
burguesa, a igualdade prevista na lei é algo fora do alcance em face da sociedade
capitalista, pois só nos fornece o quanto é necessário fornecer para manter o próprio
regime. Nas suas palavras a igualdade perante a lei não passa de uma “Quimera lu-
zente”, em face à desigualdade que de fato existe na sociedade. Ou seja, a lei formal
não nos abraça enquanto indivíduos sociais, mas, tão somente abarca o quanto for
necessário abarcar para que nós não nos voltemos contra a classe dominante.

3. Os Direitos Humanos e suas diversas peculiaridades


Vemos então que os Direitos Humanos são inerentes apenas à vida do ho-
mem na sociedade de classes, desigual, como a sociedade burguesa que vivemos,
não possuindo necessidade de existência numa sociedade cujo homem esteja

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

efetivamente emancipado. A utilidade e conveniência dos Direitos Humanos


em nossa sociedade encontra base fundamental na necessidade existente de
se esconder a desigualdade inerente ao sistema capitalista dominante, ou seja,
se é necessário garantir-se o acesso à saúde, quer dizer que existem indivíduos
que não conseguem ter o devido acesso à saúde, enquanto outros indivíduos
conseguem ter um pleno atendimento, sem necessitar de uma garantia estatal.
Marx já mencionava tal condição (2010, p.31) ao nos dizer que “A exigência de
rejeitar ilusões a respeito de uma situação equivale à exigência de rejeitar uma
situação que carece de ilusões”.
Esses Direitos surgem como forma de negociação entre as classes dominante
e a dominada, no intuito de arrefecer as lutas sociais, porém à medida em que
sua concessão é fruto de negociação entre os grupos existentes em nossa socie-
dade, e, sendo assim, uma conquista do grupo oprimido, é, também, um instru-
mento de desmobilização. Isto porque, ao acalmar os ânimos das lutas sociais,
evita que se haja uma revolução maior contra o capitalismo, no intuito de se
emancipar a sociedade a outro nível, onde não seja necessário lutar por direitos,
mas sim, que tais direitos sejam concedidos naturalmente, sem necessidade de
se garantir por meio de leis, vez que serão concedidos em face da própria neces-
sidade natural (TRINDADE, 2010). Não obstante, percebemos que o Direito
por surgir em uma sociedade de classes não tem como deixar de ser um Direito
Classista, sendo, assim não deixará de ser um instrumento de reprodução da
desigualdade social (TONET, 2002).
Outrossim, Santos (2013, p. 42) numa visão semelhante nos diz o seguinte:

A hegemonia dos direitos humanos como linguagem de dignidade


humana é hoje incontestável. No entanto, esta hegemonia convive com
uma realidade perturbadora. A grande maioria da população mundial não
é sujeito de direitos humanos. É objeto de discurso de direitos humanos.

A autora completa o raciocínio questionando acerca de a quem serve eficaz-


mente os direitos humanos se aos oprimidos ou aos opressores.
Nesta linha de raciocínio percebemos que a conquista de direitos é sempre
uma vitória, isto porque evita o avanço desenfreado dos interesses capitalistas
na sociedade, mas ao passo em que conquistamos novos direitos, temos a ilusão
de que a vitória foi suficiente, esquecendo, assim, a luta maior pela emancipação
humana, pela igualdade plena entre os seres sociais. Desta forma é importante

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

que, nas lutas, não sejam esquecidos os pontos que integram a luta pela supera-
ção do capital, de modo que busquemos sempre tal avanço.
Para Tonet (2002) a luta pelos Direitos Humanos só terá seu pleno efeito pro-
gressista se não perdermos de vista o fim último da própria extinção destes direitos.
Neste contexto, fruto deste ambiente de lutas e mobilizações sociais é que
nascem os direitos. Para Santos (2007) o Direito é próprio da sociedade de clas-
ses, e ao analisarmos suas origens e função social pode-se revelar os modos de
dominação existentes na organização social.
Estudar a função dos Direitos na sociedade capitalista significa, também,
determinar a existência de um aspecto contraditório, consequência dessa or-
ganização social. Esse caráter contraditório se expressa no fato que de um lado
temos o ganho da garantia e dever por parte do Estado em minimizar a miséria
e a exploração a que a classe trabalhadora é submetida; e por outro o fato do
sistema capitalista acatar o Direito, porém sob a égide de garantir apenas o
mínimo necessário a acalmar os ânimos da classe trabalhadora, dando conti-
nuidade à exploração da força de trabalho. Não obstante Iasi (2013, p;182) tem
entendimento semelhante, afirmando que “Podemos concluir que a pretensão
da ilusão jurídica em adiantar-se à materialidade impondo algo que um dia se
tornaria real só se iguala a sua pretensão de impedir o movimento do real na
direção que as transformações materiais impõem”.
A conquista de Direitos Fundamentais, tais como a saúde, educação, previ-
dência, dentre outros, incorpora-se na garantia de melhores condições de vida
à classe trabalhadora, estes direitos são em sua essência reivindicações e con-
quistas desta classe.
Neste aspecto, os direitos apresentam-se como ganhos para os trabalhado-
res, e, para seu reconhecimento se faz necessário pressionar o Estado para que
atenda as demandas da classe, deste modo, a garantia dos direitos, na sociedade
capitalista, ocorre pela intervenção do Estado, pois é ele, o representante da
legitimidade conferida aos direitos. Santos (2007, p.27) evidencia que a con-
quista de direitos perpassa por um amplo processo de mediações para que a
classe trabalhadora tenha garantido seu pleito, é o que diz: “a luta por direitos se
estende, então, por várias dimensões da vida, sintetizando um amplo processo
de mediação para explicitação das necessidades humanas em diferentes conjun-
turas sócio-históricas”.
Desta forma, percebemos que no capitalismo, o Estado flui em função da
manutenção do próprio sistema e, para fazê-lo, necessita manter uma relação

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consensual entre a classe dominante e a dominada. Ou seja, existe uma espécie


de correlação de forças, em que de um lado existe uma classe dominante, bus-
cando manter-se na dominação, e de outro a classe dominada, que busca sair do
estado de dominação, lutando sempre por melhorias, buscando sua emancipa-
ção. É neste sentido que se firma o conceito do Estado ampliado2 (GRAMSCI,
2002), no qual, a classe dominante busca, por meio de concessões determina-
das, manter-se no controle do Estado, e, consequentemente, da dominação.
Conforme depreende-se do que fora explicitado, torna-se possível vislumbrar
que os direitos sociais servem não só à classe trabalhadora, mas, também, à pró-
pria manutenção do sistema capitalista ao passo em que, por um lado, garante
a atuação do Estado em conceder um mínimo de dignidade ao trabalhador,
serve, também, para a manutenção e perpetuação do próprio sistema capitalista
(NETTO; BRAZ, 2006)
Não obstante, Marx (2010, p.66) nos traz um interessante raciocínio acerca
da efetiva utilidade dos Direitos Humanos, nos dizendo o seguinte:

Nenhum dos chamados direitos humanos ultrapassa, portanto, o


egoísmo do homem, do homem como membro da sociedade burguesa,
isto é, do indivíduo voltado para si mesmo, para o seu interesse
particular, em sua arbitrariedade privada e dissociado da comunidade.
Longe de conceber o homem como um ser genérico, esses direitos, ao
contrário, fazem da própria vida genérica, da sociedade, um marco
exterior aos indivíduos, uma limitação de sua independência primitiva.
O único nexo que os mantém em coesão é a necessidade natural, a
necessidade e o interesse particular, a conservação de suas propriedades
e de suas individualidades egoístas.

Desta forma, entende-se que ao permitir que haja essa divisão do indivíduo
entre o homem egoísta e o homem em sociedade, permite que haja uma efetiva
coexistência entre igualdade e desigualdade, o que permite o tratamento dife-

2 Teoria fundamentada na perspectiva de Estado a partir da teoria gramsciana, onde entende que a
política se tornou um ambiente de enfrentamentos plurais, vez que passou a englobar os diversos
indivíduos e classes da sociedade capitalista, e, deste modo acabou incorporando a luta de classes
entre trabalhadores e burgueses. Sendo assim, passou, consequentemente, a incorporar as mais
diversas atribuições de modo que ampliou sua função na sociedade do capital, todas de forma que
pudessem manter a dominação burguesa.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

renciado à pessoa em cada âmbito de sua vida, e, portanto, legitima a desigual-


dade entre os indivíduos.
Entender que o direito humano deve ser expresso em forma positiva, escrita
principalmente, é esquecer o próprio fundamento de que o direito humano é
histórico. o modelo positivista implica necessariamente na limitação dessas mu-
danças conforme o tempo e sociedade.
Dentre os direitos sociais constitucionalmente garantidos temos o direito a
saúde, a qual só se tornou preocupação do Estado quando a classe trabalhadora
puxou para si essa luta política, de modo que impôs ao Estado tal obrigação, a
partir do seu dever de manutenção da ordem social, de intervir neste aspecto da
vida, buscando por meio de políticas públicas, a resolução da saúde enquanto
expressão da questão social. Neste sentido, Bravo (2006, p.89) assevera que “a
conquista de alguns direitos sociais pelas classes trabalhadoras foi mediada pela
interferência estatal, no seu papel de manutenção da ordem social capitalista e
de mediação das relações entre as classes sociais”.

A política pública de saúde e seus desafios atuais


No Brasil, por muito tempo as ações na área da saúde se desdobraram
em medicina previdenciária, que atuava apenas em favor dos trabalhadores
que fossem contribuintes do serviço de previdência, e saúde pública, que
se limitava a campanhas mínimas, de vacinação ou educação em saúde,
deixando o atendimento médico às entidades de filantropia e caridade. A
partir dos anos de 1980 a saúde assumiu uma dimensão política, a discussão
deste setor passa a contar com a participação de diversos sujeitos de modo
a contribuir para um melhor debate da questão. Dentre as propostas de-
batidas neste período, destacam-se: a universalização do acesso à saúde; a
concepção da saúde enquanto direito social; e uma reestruturação do setor,
com um novo olhar sobre a saúde individual e coletiva. Importante destacar
a 8ª Conferência Nacional de Saúde ocorrida em 1986, que tratou da refor-
mulação do Sistema Nacional de Saúde (BRAVO, 2006).
Importante destacar que, apesar da mudança da atuação estatal que ocor-
reu a partir do final do século XX, que resultou na redução dos gastos públicos
com as políticas sociais, a política de saúde já havia tomado uma dimensão
tão grande na discussão com a sociedade, que a implementação, em 1988, na

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

nossa Constituição, onde a Saúde é colocada como “direito de todos e dever


do Estado”. Oportunidade em que se cria o Sistema Único de Saúde – SUS,
definido no artigo 198 da Constituição. Outrossim, apesar do SUS ter sido
criado pela Constituição, ele só foi regulamentado em 1990, com as Leis nº
8.080 e a 8.142, nelas restou definido o modo de operação, organização e fun-
cionamento, e prevendo, inclusive a participação da comunidade na gestão.
Neste momento a saúde passa ter uma definição mais abrangente, conforme
previsto no art. 3º da Lei 8080/90:

A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros,


a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente,
o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos
bens e serviços essenciais: os níveis de saúde da população expressam a
organização social e econômica do país.

Nesta baila, o SUS representa um grande avanço em relação às políticas de


saúde, indica um norte no rumo da atuação estatal. Não obstante torna-se ne-
cessário destacar suas diretrizes básicas, firmadas na: Universalidade; equidade;
integralidade; regionalização e hierarquização; resolubilidade; descentralização;
gestão participativa com a sociedade; e a complementariedade do setor privado.
É importante ressaltar que a participação do setor privado que outrora foi
previsto como complementar não se sustentou ao decurso do tempo, a ofensi-
va da tese neoliberal prejudicou de forma veemente a aplicação da política de
saúde. Para Sousa (2014, p.228), seu entendimento segue no mesmo raciocínio,
entendendo que a ofensiva privatizante acarretou em um óbice à efetivação
plena da política de saúde, vejamos:

A desigualdade gerada pelo processo de exploração do capital transforma


tudo que é lucrativo em mercadoria. A reforma do Estado no Brasil,
que teve seu início por volta de 1990 e se estendeu pela década de 200,
impulsionou a ofensiva privatizante, confrontando-se com os princípios
do SUS, particularmente o da universalização da saúde.

Ou seja, a exceção virou regra, nos últimos anos temos visto uma grande
redução do financiamento da saúde no setor público, e o crescimento da entrega
destes serviços ao setor privado, este desrespeito à previsão da complementarie-
dade, regra do SUS, o qual em tese deveria ser um sistema totalmente público e

122
gerido pelo Estado em conjunto com a sociedade tem gerado um problema sem
precedentes, se manifestando como uma das causas da judicialização. Tal asser-
tiva se faz pois enquanto o Estado promove o desmanche do setor público, em
especial o da saúde, a nossa Constituição e demais Leis preveem um tratamento
diferenciado à saúde, em que pese o atendimento completo à sociedade, desta
forma, enquanto o poder executivo por um lado reduz os gastos sociais e au-
menta o índice de privatização, do outro o judiciário impede que o cidadão seja
desassistido, obrigando, na maioria das vezes, o estado a cumprir sua obrigação
de fornecer serviços e medicamentos.
Neste sentido, cabe ressaltar que nossa Constituição Federal de 1988 nos
garantiu Direitos Sociais mínimos à dignidade do cidadão, em especial à po-
pulação integrante da classe trabalhadora. Não obstante destaca-se que ao
final do século XX, com a crise ocorrida no modelo keynesiano3, o Estado
mudou seu foco de atuação, tendendo a reduzir os gastos sociais sob a prer-
rogativa de serem onerosos, alegando que o Estado não possui meios para
custeá-los, ou mesmo custeia de forma ineficaz, sem saber como investir do
melhor modo o orçamento público.
Outrossim, apesar de existirem diversos mecanismos legais para que se ga-
ranta o acesso pleno às políticas públicas por parte da sociedade, vivenciamos
no modelo atual de neoliberalismo adotado no Brasil, nota-se o avanço da pre-
cariedade, o que demarca a tendência hodierna de sucateamento dos órgãos e
serviços que antes deveriam atender a população.
Tais retrocessos não ocorreram apenas no início da implantação do Sistema
Único de Saúde, não obstante à época existirem diversos conflitos de interesse,
onde de um lado os trabalhadores lutavam pela saúde fornecida pelo próprio
Estado, por meio do movimento sanitarista, de outro haviam os empresários do
setor médico, que buscavam a privatização do serviço. Acontece que, mesmo
nos dias atuais, as lutas e conflitos entre os diversos projetos inerentes à saúde
pública continuam em pleno conflito. (BRAVO, 2018). Com tais retrocessos,

3 Também conhecido como Estado de bem-estar social, ou welfare state, é uma teoria criada por
John Maynard Keynes, onde se propunha uma intervenção estatal na economia, cujo objetivo era
conduzir o Estado e a sociedade ao pleno emprego, neste sentido, o Estado era posto numa posição de
organizador da economia, passando a regular os diversos aspectos da vida em sociedade, cabendo ao
Estado promover e garantir o pleno acesso a serviços públicos e Direitos que visassem a proteção da
população, tais como saúde, educação, moradia.
os quais ficaram mais fortes após a ascensão de Temer ao poder, conforme faz
prova os ensinamentos de Bravo (2018, 11):

com o advento do governo Temer, é flagrante a aceleração e a


intensificação das políticas que contribuem com o desmonte do Estado
brasileiro, configurando uma nova fase de contrarreformas estruturais
que atacam os direitos dos trabalhadores[...].

Passa a ser notável a implementação do desmonte da saúde pública na agen-


da de avanço das políticas neoliberais. Os retrocessos não são fatos inéditos de
nossa atualidade, o avanço do Projeto Privatista de Saúde ocorre desde os anos
1990, porém em nossa atualidade, a partir da tomada de poder por um repre-
sentante que promove a defesa do capital tais movimentos têm tomado maior
forma e avançado em nosso cotidiano (BRAVO, 2018).
Não obstante, os Direitos são viabilizados não pelo fato do Estado entender
ser seu papel social, o de nos garantir uma vida com um mínimo de dignidade,
até porque se assim fosse, não estaríamos vivendo este retrocesso legal que vive-
mos hoje, com um esfacelamento de leis trabalhistas, desmanches de estruturas
públicas para a consequente entrega à iniciativa privada, dentre outros.
Tais privatizações ocorrem com discursos frágeis de culpabilização da classe
trabalhadora, alegando que suposta crise na saúde pública e que somente a
privatização pode ser a salvação do problema, (BRAVO, 2018), sendo assim, os
Direitos que deveriam ser plenamente garantidos pelo Estado à sociedade em
geral, passa a ser apenas meros vislumbres, à medida em que a ideologia da crise
é massificada em meio à população, as conquistas da classe trabalhadora passa a
ser reduzida e entregue de volta ao capital, esquecesse que o Direito não advém
da natureza, mas das contradições provocadas pelo capital, os Direitos Sociais
são o mínimo de garantia que temos a uma vida digna, cujas expressões da
questão social possam ser minimizadas, apesar de num contexto de sociedade
fundada no capital, jamais possam ser extintas tais expressões.

Considerações finais
Vivemos numa sociedade baseada no capital, o qual são necessários ins-
trumentos mínimos de redução da exploração do trabalhador, os Direitos
Sociais surgem como meio de garantir mínimo acesso à uma vida digna. Os

124
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Direitos Humanos, apesar de terem seu surgimento vinculado às ideias de


manutenção da propriedade privada e da hegemonia do domínio burguês a
partir de ideais liberais como a manutenção e segurança da propriedade pri-
vada, bem como a afirmação da igualdade de todos perante a Lei (sem que,
contudo, prevejam as próprias diferenças inerentes à exploração do capital),
tiveram em seu seio a complementação de ideias que visavam a garantia da
vida digna, com saúde, educação, lazer.
Não obstante todos esses Direitos foram conquistados mediante lutas, a
classe trabalhadora sempre necessitou afirmar sua revolta, perante o Estado,
contra a exploração do capital, por sua vez o Estado, a partir de seu papel me-
diador, buscou conciliar as reivindicações e o interesse do capital, no sentido de
ampliar ou restringir Direitos na medida apenas necessária à manutenção do
consenso, e da hegemonia burguesa.
Ocorre que, os Direitos Humanos concedidos têm uma dúbia funcionalida-
de, num primeiro momento concede alguma garantia às classes sociais oprimi-
das, de modo a amenizar a desigualdade existente em toda a sociedade. Num
segundo momento, acalma essa classe que estava erguendo-se contra o Estado,
e, assim, evitando uma “tomada do poder” que possa causar uma mudança na
estrutura social e papel do Estado.
Contudo, apesar dos avanços conquistados ao longo dos anos, a agenda ne-
oliberal tem encontrado espaço suficiente para amplificar a massificação do
ideário de crises e justificar a demanda de privatizações impostas pelo capital,
de modo a imputar ao trabalhador a culpa pela falta de estrutura do Estado,
bem como a conta pela crise criada pelo capital.
Devemos nos lembrar que os chamados Direitos Humanos são assim cha-
mados, por serem de extrema necessidade à manutenção da dignidade do ser
humano. Em uma sociedade realmente emancipada, tais Direitos deixam de ter
essa necessidade de serem expressas enquanto leis, pois a dignidade humana é
preservada pela existência da igualdade real entre os indivíduos. Somente a luta
de classes é capaz de incentivar a conquista de Direitos e evidenciar a necessá-
ria superação do capitalismo.
Neste sentido nós, trabalhadores devemos ter em mente sempre que jamais
devemos baixar a guarda, as justificativas impostas pelo capital, massificadas
pela mídia são reflexos da necessidade do próprio capital, mas não da nossa
necessidade enquanto trabalhadores, e, principalmente humanos. A socieda-
de continuará sempre a ter e expressar os reflexos da exploração, e das diver-

125
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

sas expressões da questão social, enquanto vivermos nesse contexto explora-


tório de acumulação de capital e principalmente do individualismo crescente,
sempre estaremos em exploração constante e luta constante, portanto, torna
fundamental a união dos trabalhadores numa perspectiva emancipatória de
superação do modelo de Estado.

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127
A estigmatização dos direitos humanos

Jefferson Lee de Souza Ruiz1

1. Polêmicas históricas e/ou conjunturais


O início do século XXI vivencia uma experiência ímpar. Se outrora setores
conservadores e reacionários defenderam determinadas concepções de direitos
humanos, a crise capitalista e as tentativas de ampliar hiperexploração do traba-
lho têm feito com que direitos antes defendidos como fulcrais por liberais-burgue-
ses sejam sistematicamente violados. Marques (2006) analisa reflexos históricos
de tal processo no imediato período após o ataque às Torres Gêmeas2, em 2001.
Intensificaram-se violações de direitos individuais – o Patrioct Act é uma de suas
maiores demonstrações. Para o capital, direitos são argumento para sustentação
do status quo burguês. Se e quando julgam necessário, mesmo os que afirmam ser
inalienáveis são violados.
O fim da Guerra Fria (cf. HOBSBAWM, 1995) expôs o quanto havia, no
interior dos próprios blocos capitalista e socialista, distintas concepções sobre o
que se costuma denominar de direitos humanos. Harvey (2018) registra o quan-
to o capital, até os anos 1980/90, manteve subsumidas posições reacionárias
como o “fervor anti-imigrante”. Até então políticas de imigração em regimes de

1 Assistente social, mestre e doutorando em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ). Professor na Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (UERJ). E-mail: leenorio@uol.com.br
2 Para uma visão mais abrangente dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, sugerimos a leitura do
ótimo livro 102 minutos (Dwyer & Flynn, 2005). Dentre outras análises – como as tensões e conflitos
entre forças de segurança e socorro –, todas feitas a partir de acontecimentos anteriores e posteriores
ao ataque, os autores demonstram que parte importante das mortes do evento deve ser creditada a
reformas feitas algum tempo antes para ampliar a lucratividade de aluguéis nos edifícios. Uma de suas
consequências foi a redução da área de escape por escadas, o que, na leitura dos jornalistas, contribuiu
para que centenas de pessoas não conseguissem se salvar do desabamento dos prédios.

129
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

livre comércio apontavam algum nível de resultado benigno para quem detém
meios de produção de riqueza.
Alguns fenômenos não deixaram de existir na Guerra Fria, mas se acentuam
na conjuntura do século XXI. É o caso do superencarceramento. Davis (2018)
o caracteriza como complexo industrial-prisional, e lembra que mesmo em se-
tores democráticos a existência de prisões é tão naturalizada quanto o foram
segregação e escravidão em séculos anteriores. Políticas abolicionistas, afirma,
são vistas, no máximo, como ingênuas e cheias de boa intenção. Ainda que se
questione o perfil de classe e raça predominante no encarceramento, não se
questiona sua existência. Ao contrário: corrupção, machismo, racismo, homo-
fobia etc. são expressões para as quais se defende prisão. Há, inclusive, retomada
e intensificação de privação de liberdade em políticas para o envelhecimento
(como instituições de longa permanência de idosos), saúde mental ou supostas
infrações cometidas por adolescentes (RUIZ & PEQUENO, 2015).
Se conservadores ou reacionários estigmatizam direitos humanos como
voltados para “bandidos” (obviamente sem registrar sentidos históricos
conferidos ao termo, como fazem Aslan, 2013, e Hobsbawm, 2015), setores
democráticos ou “à esquerda” no espectro das lutas políticas o fazem em
sentido oposto. Direitos humanos seriam predominantemente servis à lógica
liberal-burguesa. Baseados em uma das leituras de obras de Marx (como
Para a questão judaica – 2009 – em que o autor faz contundente crítica
ao direito burguês), defendem ser necessário o fim do direito (e do Estado,
e dos direitos humanos) em uma sociedade humanamente emancipada.
Para esta leitura, o cidadão/indivíduo burguês, mônada servil à lógica da
produtividade e à apropriação privada da riqueza socialmente produzida
típicas do capitalismo, seria o centro do questionamento de Marx. Não
o individualismo, perspectiva teórico-política construída para a defesa
da sociedade burguesa. Ainda que se reconheça que qualquer plataforma
marxista para o século XXI não pode prescindir da defesa de direitos
humanos (TRINDADE, 2011). Tais perspectivas tendem a acentuar a
indevida dicotomia entre classe e indivíduo. Embora em sentido distinto, se
aproximam de movimentos chamados de “identitários” que, na conjuntura
pós-Guerra Fria, obtêm maior força nas arenas de disputa política e social.
Estes últimos por vezes cometem o equívoco de negar a existência de classes
sociais, quando todos os dados objetivos quanto à produção, distribuição
e apropriação de riquezas no mundo demonstram a persistência da

130
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

apropriação privada, por pouquíssimos, das riquezas socialmente produzidas


(Marx, 2017)3 – o que os leva a perigosa aproximação com a chamada
pós-modernidade. Os primeiros, embora em direção oposta, mantêm uma
suposta supremacia da classe social sobre características identitárias e/ou
individuais de cada ser/indivíduo social. Repetem equívocos como os de
solicitar a segmentos oprimidos (e, por vezes hiperexplorados4) na sociedade
contemporânea que aguardem a solução da desigualdade econômica para
verem suas pautas adquirirem centralidade e legitimidade.
Uma pergunta para qual cuja resposta pretendemos contribuir é: há,
mesmo, dicotomia entre classe e indivíduo? É possível constatar na obra
marxiana afirmações que se chocam com tais perspectivas. Nos Grundris-
se (2011) e na Crítica ao Programa de Gotha (2004) singularidade e uni-
versalidade, indivíduo social e classe são apresentados como processos não
necessariamente dicotômicos, mas complementares e dialéticos. Na primei-
ra obra, ao esboçar o que viria a ser O Capital, tal reflexão é articulada
a constatações feitas acerca da produção, circulação, troca e consumo na
sociedade capitalista (n’O Capital – 2017 – Marx unifica as dimensões de
circulação e troca). Na segunda, como veremos, Marx demonstra que há
necessidades e potencialidades humanas singulares – portanto, individuais,

3 Tal apropriação não se restringe ao período analisado por Marx: “A classificação anual das
grandes fortunas realizada pela revista Forbes recenseou 415 bilionários em dólares em 2006.
Menos de mil pessoas possuem 3,5 trilhões de dólares, ou seja, o dobro do produto interno da
França. Entre 1966 e 2001, a renda dos 10% mais ricos aumentou 58%, a renda do 1% mais rico,
121%, a do 0,1% mais rico, 236%, e a do 0,01@ mais, rico, 617%; 2% da população mundial
possui a metade dos bens financeiros, enquanto 50% dos mais pobres dividem entre si 1% desses
bens” (Bensaïd, 2017, p. 49, grifo original).
4 São conhecidos os dados acerca das desigualdades de renda entre homens e mulheres, brancos e
negros, no Brasil. Há inúmeras fontes fidedignas para demonstrar que a violência não atinge
igualmente todos os segmentos sociais. Homens negros, pobres, jovens, moradores das periferias
e subúrbios brasileiros são suas principais vítimas e, ainda assim, os mais punidos pelo sistema
penitenciário. Tais processos têm profunda relação com a possibilidade de hiperexploração do
trabalho. Atingem segmentos para os quais sequer nos atentamos. Spencer (1996) demonstra que em
vários momentos a repressão à homossexualidade estabeleceu dadas relações com a força de trabalho
disponível em cada sociedade. Naquelas em que era necessária maior disponibilidade de jovens para
a produção, houve tendência a entender o ato sexual meramente como procriador. Levada às últimas
consequências, o autor prevê: “Seria lícito pensar que na conferência das Nações Unidas sobre
população, em 1994, no Cairo, a questão da homossexualidade tivesse sido discutida positivamente,
em vez de completamente negligenciada. (...) E, no entanto, no próximo século, a superpopulação
provocará uma grande pressão sobre os recursos do planeta, e os governos poderão ter de encorajar
os homossexuais, subsidiando seu modo de vida à custa dos casais heterossexuais” (Idem, p. 379).

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

ainda que mediadas por distintos fenômenos em cada sociedade. Acerca de


como alguns fenômenos ocorrerão na sociedade comunista, Marx recomen-
da prudência. Inclusive no que se refere ao possível fim do Estado numa
sociedade humanamente emancipada, à qual denomina comunismo.
A mesma questão é válida para o âmbito do que denominamos direitos.
Pachukanis (2017) identifica, sob a sociedade capitalista, a profunda equi-
valência entre direito e mercadoria. Na mesma obra, registra que litígio e
tribunal são dimensões centrais da forma jurídica. Ora, a noção de “igual-
dade” de todos e todas perante a lei é uma das fórmulas ideológicas libe-
rais visando convencer setores populares do suposto acerto das revoluções
burguesas (RUIZ, 2014). Mas, como afirma Hobsbawm (2010), segmentos
revolucionários subsequentes adotam sentidos distintos para categorias e
bandeiras anteriores – o autor cita liberdade e igualdade5, lemas consagra-
dos em 1789. Se um aspecto central da forma jurídica é o litígio; se lutas so-
ciais conferem sentido a categorias e conceitos (palavras também compõem
a luta de classes, afirma Konder em 2009) é razoável que haja distintos
sentidos em disputa para o que chamamos “direitos”.
Mesmo no âmbito crítico: Flores (1989) remete à Escola de Budapeste em
sua fase marxista para afirmar que, quando vistos a partir da ontologia do ser
social, direitos se associam a necessidades. Como se sabe apenas homens e mu-
lheres, simultaneamente seres e indivíduos sociais que somos, realizamos o me-
tabolismo entre nossa espécie (também natureza transformada) e a natureza.
Neste processo, todos se modificam, alerta Marx (2017). As necessidades que
reconhecemos e buscamos superar podem ou não ser satisfeitas – e são disputa-
das por vezes com o nome de direitos, não necessariamente legais.

5 No mesmo sentido, parece-nos instrutiva a reflexão de dois autores aos quais não pode se creditar
a defesa da ilusão no direito: “De um lado, a reivindicação de igualdade foi ampliada, buscando
completar a igualdade jurídica com a igualdade social; de outro lado, concluiu-se das palavras de
Adam Smith – o trabalho é a fonte de toda a riqueza, mas o produto do trabalho dos trabalhadores
deve ser dividido com os proprietários de terra e os capitalistas – que tal divisão não era justa e devia
ser abolida ou modificada em favor dos trabalhadores” (Engels & Kautsky, 2012, pp. 19-20).

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

2. À esquerda ou à direita, a estigmatização dos


direitos humanos
“Bandido bom é bandido morto”. “Direitos humanos para humanos direi-
tos”. “Quero que se defenda o direito da vítima”. Estas e outras frases são bas-
tante conhecidas em países como o Brasil. Circulam entre a população, em
ambientes tão diversos como universidades, bares, baladas, confraternizações
familiares, locais de trabalho. Como em todo processo social, contudo, ir além
de sua dimensão aparente revela novos conteúdos. Quem as pronuncia não é
contra direitos humanos, embora costumeiramente afirmem sê-lo. Mesmo se
tiver convicção do que está dizendo. Para percebê-lo basta apreciar criticamente
algumas das situações concretas que, em geral, levam a tais afirmações. Nos
debates acerca do sistema penitenciário a forma mais “humanitária” para tra-
tar “bandidos” é substituída pela ideia de um retorno ao momento anterior à
prisão como expressão da pena6. Pessoas que incomodam a sociedade com seus
comportamentos “desviantes” precisam ser vistas como os arrogantes vilões7
da história. No que diz respeito à “defesa da vítima”, retoma-se ideias pré-bur-
guesas: nem a “igualdade perante a lei” das revoluções liberais do século XVIII
aparece. A derrota de pessoas menos capazes não é de ordem meramente moral:
é necessária para o futuro da humanidade8. Estas três reflexões e seus exemplos

6 Historicamente prisões já foram instituições “de passagem”. Eram o local em que pessoas que cometiam
o que cada sociedade considerava “crime” aguardavam pela pena (enforcamentos, apedrejamentos,
guilhotina etc.). A respeito, cf. Davis (2018) e Melossi & Pavarini (2006), dentre outros.
7 “Os habitantes da cidade viam certamente com maus olhos os homens do campo, achavam-nos
rudes, grosseiros. A palavra vilão deriva das villas, quer dizer, das casas que, na Roma antiga, ficavam
fora da área urbana. (...) Quando os pobres pediam (pedir, em latim, é rogare), os ricos podiam tolerá-
los; quando, porém, reivindicavam (reivindicar é arrogare), passavam a ser considerados arrogantes”
(Konder, 2009, pp. 165-166, grifos originais). A mesma linha de reflexão pode ser feita quanto à
palavra bandido. Lestai era a palavra grega para bandidos no tempo de Jesus: “Para os romanos a
palavra ‘bandido’ era sinônimo de ‘ladrão’ ou ‘agitador’. Mas estes não eram criminosos comuns. Os
bandidos representavam os primeiros sinais do que viria a tornar-se um movimento de resistência
nacionalista contra a ocupação romana” (Aslan, 2013, p. 44). A pena de crucificação era então
aplicada quase exclusivamente para crimes de sedição (revoltas, “perturbação da ordem pública”).
Jesus era o maior bandido.
8 “Se houver desenvolvimento econômico e for promovida a mobilidade social na África Central
e Ocidental, aumentarão os incentivos e a capacidade para migrar, e a ameaça de “islamização”
da Europa será substituída pela de ‘africanização’. O grau em que essa ameaça se irá concretizar
sofrerá grande influência do grau em que as populações africanas sejam reduzidas pela AIDS e outras
pestes, bem como do grau de atração que a África do Sul exerça sobre imigrantes de outras áreas da

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

demonstram não uma rejeição a direitos, mas sua restrição a uma parte da hu-
manidade. É uma concepção reacionária de direitos humanos (RUIZ, 2014, p.
180-206), pré-burguesa, que retorna em uma conjuntura internacionalmente
complexa e nas quais as forças que se articulavam em torno de blocos ao longo
da chamada Guerra Fria não se veem mais constrangidas a ocultar suas reais
interpretações e proposições para a sociedade.
Há, aqui, uma estigmatização dos direitos humanos “à direita”: o impedimento
ao debate é justificado sob argumentos que visam “restaurar a ordem”, “impedir a
ameaça comunista”, “reconhecer como cidadãos apenas pessoas de bem”9.
Mas o que nos preocupa centralmente, e de certa forma surpreende, é a
estigmatização dos direitos humanos “à esquerda” – inclusive em setores mar-
xistas. Neste âmbito parece haver algumas origens para a consideração dos cha-
mados direitos humanos como algo de menor importância.
Uma delas é a correta identificação do papel que o direito (enquanto nor-
matizações existentes na vida, mas fundamentalmente em sua dimensão legal)
cumpre na manutenção da sociedade capitalista. A proposição da igualdade
perante a lei é obra das revoluções burguesas do século XVIII. Nas sociedades
anteriores tal noção não existia sequer no discurso religioso10, salvo raras ex-
ceções. A participação nas decisões11, o acesso à riqueza, o direito ao próprio
corpo12, dentre outros aspectos, eram organizados a partir das classes a que se

África” (Huntington, 1997, p. 256, grifos nossos). O autor demonstra sua preocupação com o risco
de “contaminação” do que denomina “civilização ocidental” (para ele, composta por Estados Unidos,
países europeus centrais, Nova Zelândia e Austrália).
9 Seja lá o que, na verdade, tais frases quiserem afirmar. Afinal, uma das características centrais da
“ordem capitalista” é a convivência contínua e ininterrupta com a (a) desordem de suas próprias
crises; não há, na conjuntura recente, qualquer indício de (b) ameaça comunista mundial no planeta;
(c) pessoas “de bem” são constantemente flagradas em ações que demonstram o quanto desprezam
quaisquer perspectivas que não sejam as de obter vantagens pessoais, custe o que custar.
10 Cf., a respeito, os já citados Aslan (2013) e Ruiz (2014). Acerca da relação entre marxismo e religião
também é enormemente instrutiva a leitura de Löwy (2016).
11 Desde a Grécia Antiga a participação nas ágoras, assembleias populares que deliberavam sobre as
questões centrais da sociedade, era restrita a indivíduos do sexo masculino e que detinham posses.
Mulheres e escravos, dentre outros públicos, eram os infantes (os “sem voz”).
12 “Tratava-se, portanto, de sociedades nas quais inexistia a noção da igualdade formal entre os
indivíduos. Cada grupo social tinha direitos diferentes. Os senhores feudais, membros da nobreza e
do clero tinham privilégios. Em diferentes partes da Europa chegaram a ter o direito a dormir a primeira
noite com a noiva dos seus camponeses. E isso era considerado normal em um sistema baseado em relações
de dependência e subserviência” (Dornelles, 2007, p. 15, grifos nossos).

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

pertencia. Como vimos, contudo, em Hobsbawn (2010) e Konder (2009), os


sentidos emprestados a termos como igualdade, liberdade e fraternidade, dentre
outros, foram e são fruto de profundas lutas e disputas de interesses. A nascente
burguesia também tinha sua interpretação para tais bandeiras.
Liberdade e igualdade guardavam (e o fazem até hoje) inter-relações entre si,
ainda que também tivessem suas características específicas. Em uma sociedade
em que aproximadamente nove entre dez pessoas morriam na exata localidade
em que nasciam (Hobsbawm, 2010) – exceto por razões como expulsão de suas
terras ou recrutamento militar – era quase impossível fazer circular mercado-
rias excedentes. A liberdade de ir e vir, se respondia a interesses de mulheres
que eram aviltadas sexualmente pelos donos da gleba de terra em que elas e
suas famílias produziam riquezas, tinha, para os burgueses, o papel fundamental
de fazer com que a mercadoria se realizasse (MARX, 2011; 2017; NETTO &
BRAZ, 2006). Igualdade, por sua vez, era uma noção absolutamente necessária
para, perante a lei (o que exclui, nesta perspectiva, a necessidade de igualdade
real, efetiva, de acesso a bens e riquezas) construir a ideia de equivalência entre
capital e trabalho, entre quem vende sua força de trabalho e aquele que a ela
explora. A “igualdade no contrato” é uma perspectiva defendida pela burguesia
desde seu surgimento. Inclusive no âmbito das polêmicas sobre direitos huma-
nos. Neste âmbito (o do que se pode denominar “direito”) estabelece-se uma
equivalência entre a forma jurídica e a forma mercadoria (PACHUKANIS,
2017). Direito e capitalismo guardam profunda e intrínseca relação na perspec-
tiva societária vigente na sociedade burguesa.
Esta precisa constatação não elimina o fato, contudo, de que lutas de classes
e de segmentos de classe13 em torno do que estas e estes também denominam

13 Nas lutas sociais articulam-se demandas de classe a outras que, embora presentes entre as massas
subalternizadas, não lhe são exclusivas. Apreender este sentido para as lutas da população negra,
das mulheres, das pessoas com deficiência, por liberdade de orientação e expressão sexual etc.
é absolutamente necessário para superar a falsa dicotomia existente entre classe e indivíduo.
Optamos (Ruiz, 2014) por chamá-las de lutas de classes e/ou de segmentos de classe para registrar
esta relação dialética. Na conjuntura internacional de 2018 evidencia-se quão equivocada e sectária
é certa polarização dicotômica entre lutas classistas e identitárias, que se excluiriam mutuamente.
Há razões concretas, materiais, para que no século XXI tais expressões identitárias se apresentem
com maior força. Dentre elas, o fim da Guerra Fria, período em que, equivocadamente, no âmbito
das lutas societárias populares, se defendia que a solução da desigualdade econômica deveria ser
a “prioridade zero”, com as demais demandas (por vezes vistas como “pequeno-burguesas”, como
as que envolvem controle sobre o próprio corpo) devendo aguardar uma sociedade humanamente
emancipada para se expressarem.

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

“direitos” se efetivem. Elas expressam materialidades distintas e, portanto, in-


terpretações antagônicas e possivelmente excludentes acerca de como conside-
rar o que sejam direitos. Na perspectiva que julgamos mais precisa e promissora
para apreender tal fenômeno, direitos são exclusivos da espécie humana. São
processos advindos do metabolismo que ocorre entre seres humanos e natureza
para satisfação de interesses que só homens e mulheres são capazes de reconhe-
cer, disputar socialmente e efetivar, a depender da correlação de forças de cada
sociedade (FLORES, 1989). A proposição liberal-burguesa para o que sejam
direitos tenta se apropriar desta legítima e ineliminável característica que nos
diferencia das outras espécies vivas. Apreender a essência do que, para setores
subalternizados, são os direitos é urgente e necessário.
Ainda neste aspecto e nos limites de um artigo14 é importante registrar dois
aspectos sobre a obra de Pachukanis (2017) – central para os debates marxistas
acerca do “direito”. O próprio autor afirma que sua produção é um esboço ini-
cial – ainda que posteriormente ao enorme impacto causado por suas reflexões
tenda a valorizá-la mais adequadamente. Este primeiro aspecto faz com que
persistam até 2018 tensões e leituras distintas sobre seus apontamentos (RUIZ,
2018). O que nos leva a um segundo registro: como vimos, ao abordar o que é
essencial na forma jurídica que identifica no direito, o autor russo afirma que
dois elementos fundamentais a compõem: o litígio e o tribunal. O que indica a
possibilidade de que Pachukanis estivesse analisando fundamentalmente como
se organiza, na sociedade capitalista, o caráter normativo do direito, senão seu
próprio funcionamento jurídico-legal.
Nesta hipótese, em que direito e capitalismo guardam a mesma raiz e ori-
gem, há lógica em propor que com o final da sociedade dividida em classes
deixe também de existir o direito. Se sua razão essencial de existência é esta-
belecer equivalência com a forma mercadoria (cuja produção gera a mais-valia,
elemento fundamental para sustentação da sociedade do capital), derrotar a de-

14 A estigmatização dos direitos humanos pelas “esquerdas” vem sendo parte central de nossas
preocupações desde a militância social anterior à graduação em Serviço Social. Iniciada a trajetória
acadêmica, desafiei-me a estudar a relação entre esta profissão e o campo dos direitos humanos
na graduação (Ruiz, 2009). No mestrado concentrei atenções nas distintas concepções de direitos
humanos em disputa na sociedade contemporânea. Dentre as seis identificadas, duas estão no âmbito
marxista (Ruiz, 2014). Uma hipótese central da pesquisa do doutorado ora em curso é que a polêmica
fundamental marxista não está no âmbito dos direitos humanos, mas em torno do que denominamos
direitos. Este artigo e parte importante de minha produção nos últimos nove anos têm abordado
distintas dimensões deste tema.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

sigual e desumana sociedade capitalista exigiria também fazê-lo com o direito.


Consequentemente, com os direitos humanos, como aponta Trindade (2011).
Outro aspecto aparentemente presente na estigmatização dos direitos hu-
manos “à esquerda” é seu deslocamento do âmbito das lutas de classes. Há
quem argumente que Marx (2009), em Para a questão judaica, demonstraria
ser contra os direitos humanos. Ao questionar seu interlocutor, Bruno Bauer,
sobre a distinção entre emancipação política e emancipação humana, a crítica
ao cidadão “mônada” apresentada por Marx desmontaria qualquer possibilidade
de conferir aos direitos humanos previstos pela Declaração dos Direitos do Ho-
mem e do Cidadão, da Revolução Francesa, papel no processo de superação da
desigualdade das sociedades divididas em classes. Esta nos parece uma leitura
equivocada e parcial. Equivocada ao não perceber (ou secundarizar) que a crí-
tica marxiana se dá ao direito burguês – adjetivação, aliás, constantemente uti-
lizada por Marx sobre o tema. Parcial por que mesmo na própria polêmica com
os liberais-burgueses, o filósofo alemão defende direitos tão individuais como
os de não inviolabilidade de correspondência – fundamental para o exercício
da política nos tempos de Marx. Ademais, Marx nunca se refere a propriedade,
segurança, liberdade e igualdade como imaginárias ou supostamente universais.
Articulista de jornais de significativa circulação à sua época, o autor se utiliza
de pronomes demonstrativos para evidenciar quais perspectivas de direitos está
questionando: as da burguesia, expressas nas lutas sociais de então e nos docu-
mentos das revoluções do século XVIII.
Outro elemento muito presente, e em profunda conexão com o do parágrafo
anterior, é a dicotomização que ainda persiste em torno de direitos chama-
dos de “civis”, “políticos”, “sociais”, “econômicos”, “culturais”, “ambientais” etc.
A literatura registra em Marshall (1967), ao apreciar relações entre cidadania,
classes sociais e o que denomina “status”, a proposição desta divisão dos direi-
tos. Para o autor inglês, uma análise da evolução da cidadania demonstraria
haver um reconhecimento sequencial de demandas civis para políticas, depois
sociais. Posteriormente se convencionou conferir o mesmo caráter evolutivo a
novas demandas que, socialmente, se apresentaram (como o da defesa do meio
ambiente, central para a vida da humanidade). Merece maior atenção a assi-
milação algo imediata das reflexões e proposições de Marshall. Não deveria
passar desapercebido, por exemplo, que o próprio autor defende cidadania como
participação integral na comunidade, o que o leva a afirmar que “(...) a desi-
gualdade do sistema de classes sociais pode ser aceitável desde que a igualdade

137
de cidadania seja reconhecida” (MARSHALL, 1967, p. 62). Ou, coerente com
sua leitura, que “A igualdade de status é mais importante do que a igualdade de
renda” (Idem, p. 95). Para Abreu,

o sociólogo inglês desenvolve com maestria os fundamentos de sua


vertente ideológica e cultura, demonstrando que a cidadania pode ser
transformada em uma força mística, mediadora e reguladora da luta de
classes. (Abreu, 2008, p. 295)

Abreu (Idem, pp. 275-313), questiona mesmo se uma análise atenta dos
acontecimentos da própria Inglaterra permite tal interpretação evolutiva.
Voltando aos debates contemporâneos, para argumentar em defesa da
prioridade de “direitos sociais” há quem defenda que, por demandar algum
nível de redistribuição de riquezas (mesmo que tímida e indiretamente,
como o fazem políticas sociais1), aqueles seriam os que guardam algum ní-
vel de relação com a distribuição da mais-valia. Ora, espaços de participação
política; liberdade de deslocamento pelas cidades e de opinião; organização
sindical e partidária... todos estes não estabelecem relações com o processo
de produção e apropriação de riquezas? Ou, ainda que reconheçamos a im-
portância de organizações coletivas do mundo do trabalho (o próprio Mar-
shall cita as lutas sindicais como importantes elementos de conquistas dos
direitos que qualifica como “sociais”), isto significa estabelecer uma ordem
hierárquica de importância sobre movimentos que, embora tivessem como
discurso central a defesa de liberdades “civis” – pensemos nas lutas contra
a escravidão e/ou o racismo –, denunciavam formas de extração de riquezas
nos modos de produção então predominantemente2 existentes?
Ademais, seria importante qualificar o debate explicitando o que se entende
por “social” no termo “direitos sociais”. Dois aspectos nos parecem evidentes a
respeito. (a) Direitos tidos como “civis”, “políticos”, “econômicos”, “ambientais”
e outros são, sempre, disputados em sociedade. Expressam demandas sociais
distintas – como vimos, de classes ou segmentos que a elas pertencem. Nenhum

1 Basta uma análise atenta dos dados dos gastos oficiais dos governos ao longo dos anos, disponíveis no
sítio eletrônico da Auditoria Cidadã da Dívida.
2 Predominantemente existentes. Afinal, trabalho escravo e não pago persiste sendo realidade mundo
afora. Mesmo em instituições legitimadas socialmente por amplos setores, que não conseguem
articular à dimensão de classes proposições como o fim do aprisionamento de pessoas. A respeito, cf.
Davis (2018) e Herivel (2013), dentre outros.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

direito, então, nem mesmo em uma leitura restrita que só reconheça como tal
aqueles previstos em leis, é extrassocial. (b) Com a complexificação da vida
em sociedade tais demandas estão radicalmente interligadas. Dificilmente se
apontará um direito “civil” que não guarde profunda relação com um “político”
ou “social”. E vice-versa.
A conjuntura vem se mostrando regressiva quanto ao acesso a direitos e políticas
públicas. Neste quadro, os debates “à esquerda” começam a conferir importância a
direitos “civis” e “políticos”. Sem liberdade de expressão, organização, participação na
vida social (o que obviamente inclui acesso a bens e riquezas produzidos socialmente)
retrocede-se a momentos que imaginávamos superados na história da humanidade.
Se tal reconhecimento não é meramente tático é algo a se constatar.
A nosso ver, não há por que sustentar, histórica e/ou conjunturalmente, que
alguns direitos devam ter, sempre e inevitavelmente, prevalência sobre outros –
exceto em uma situação: aquela em que se denominam de “direitos” processos
que geram opressão/exploração de outrém3.
Somos simultaneamente seres e indivíduos sociais. As classes são compostas
por pessoas e nossa diversidade não é um obstáculo para a construção de uma
sociabilidade efetivamente justa. Ao contrário, é condição para ela, como nos
indica o próprio Marx.

4. Em Marx, outra possibilidade de apreensão do tema


De cada um, conforme suas capacidades.
A cada um, conforme suas necessidades.
Karl Marx

As pessoas costumam afirmar que têm direitos. Vários deles, reconhe-


cem, não são efetivados: elas não conseguem garanti-los na realidade con-

3 “Para Budapest, es preciso el reconocimiento de todas las necessidades, a excepción de aquellas


que consideren al hombre como puro medio, aquellas que se dirigen a la opresión de los otros, al
mantenimiento irracional del poder, a la humillación y a la degradación del ser humano” (FLORES,
1989, pp. 89-90, grifo original). Em tradução livre: “Para Budapeste é necessário o reconhecimento
de todas as necessidades, exceto aquelas que considerem o homem como puro meio, aquelas que se
dirigem à opressão dos outros, à manutenção irracional do poder, à humilhação e à degradação do
ser humano”. Certamente a propriedade privada dos meios de produção de riqueza social se enquadra
nesta previsão. Mas esta, como preveem Marx e Engels (2008), deve ser indubitavelmente abolida.

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

creta da vida. Na materialidade cotidiana a previsão em lei pode ser vista


como importante, mas não é o aspecto central. O essencial é que o direito
que julgam ser seu seja vivenciado.
Estas constatações poderiam parecer algo ingênuo ou descontextualizado do
papel que o direito cumpre em sociedades de classes. Não nos parece que seja
o que ocorre. Em sociedades desiguais (econômica e/ou culturalmente, lem-
bramos – Ruiz, 2014), a existência de interesses distintos é uma constatação.
Embora haja quem os classifique como “expectativa de direitos”, vendo-os quase
como uma ameaça4, tais processos guardam em si um potencial libertário: o de
contraporem-se desigualdades efetivamente existentes. Lyra Filho (1982), em
perspectiva distinta da de Bobbio, vê o debate sobre o direito como prenhe das
contradições concretas, materiais, da vida.
Ora, se perguntarmos às pessoas o que chamam de direitos quase inevitavel-
mente obteremos como resposta algo similar a necessidades. Ainda que possa-
mos encontrar limites5 nesta definição, ela não esvazia uma constatação mate-
rial, típica da vida em sociedade. E que pode nos levar à investigação de outra
apreensão possível, no âmbito dos pensamentos marxiano e marxista, acerca do
sentido que, para classes e segmentos subalternizados, o direito assume.
Como Marx (2017) constata em O Capital, a espécie humana combina uma
série de distinções fundamentais em relação aos demais seres vivos. Somente
ela é capaz de, ao reconhecer suas necessidades e buscar satisfazê-las, estabele-
cer um processo de metabolismo (da natureza) e autometabolismo (dos próprios
seres humanos) que é ininterrupto. A cada nova necessidade criada, disputa-
da e, quiçá, satisfeita, novas vão surgindo. Ocorre, inclusive, de se alterar, no
curso destas disputas e descobertas, o sentido anteriormente conferido ao que
chamam de direito6. Trata-se do processo dialético, material, da vida concreta

4 Bobbio (2004, pp. 73-75), por exemplo, o faz. Afirma partilhar da preocupação dos que pensam
que equiparar direitos e exigências – “na melhor das hipóteses” – de direitos futuros significa “criar
expectativas que podem não ser jamais satisfeitas” – o que tende a esvaziar o papel das lutas. Diz
que o sentido corrente do termo direito é o de “[...] expectativas que podem ser satisfeitas porque são
protegidas”, e completa: são “[...] meras aspirações, ainda que justificadas com argumentos plausíveis,
no sentido de direitos (positivos) futuros”. Evidencia uma reduzida associação entre direito e lei.
5 Por exemplo, necessidades podem ser criadas artificialmente. Parece-nos ser o caso das “necessidades
do consumo”, algo gerado na sociedade capitalista e apresentado como potencial gerador de status,
de reconhecimento, de ter alcançado sucesso na vida etc.
6 Um exemplo concreto deste metabolismo e autometabolismo, com repercussões para algo que
a sociedade já via como direito, é o que envolve a comunicação. Sabemos que o impressionante

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

que faz com que desenvolvamos ciência, tecnologia, investigações, curiosidades


acerca da vida, de sua origem e história, dentre outros diversos aspectos.
Só nós, da espécie humana, somos capazes de gerar direitos, reconhecê-los,
disputá-los e vê-los satisfeitos ou não. Uma das características do que envol-
ve uma concepção dialética de direitos é que eles sempre expressam distintos
interesses, podendo ou não ser efetivados, e em diferentes escalas – universal,
parcial, temporariamente etc. – em cada conjuntura. Se esta reflexão tem lógi-
ca, e estamos convictos de que tenha, estamos diante de uma das proposições
mais radicais e originais da obra de Marx, captada com excelência por György
Lukács (2012; 2013): a ontologia do ser social. Acerca do direito, o que nos
parece típico da sociedade capitalista (RUIZ, 2018) é a equivalência entre for-
ma jurídica e forma mercadoria (PACHUKANIS, 2017), não sua própria [do
direito] existência. Associados às necessidades humanas, como Flores (1989)
identifica na Escola de Budapeste em reflexões de sua fase marxista7, direitos

avanço da ciência e da tecnologia teve neste campo alterações velocíssimas. Para nos limitar a
poucas – mas fundamentais – análises sobre seus impactos, podemos nos referir às alterações nas
lutas sindicais, identificadas por Hobsbawm (1995) no surgimento do rádio. O mesmo autor se alinha
a Harvey (2003) ao chamar atenção para o quanto a revolução nos transportes e nas comunicações
praticamente teria anulado tempo e distância (Harvey denomina este fenômeno de compressão do
espaço-tempo). Sempre importante lembrar que isto não ocorre sem nítidas contradições: a era da
internet viabiliza um processo similar ao de uma escravidão voluntária (Crary, 2014), em que somos
nós quem fornecemos dados pessoais e de nossa inserção política a quaisquer serviços de inteligência
mais equipados. Além de ser viabilizada por aparelhos que são natureza transformada pela espécie
humana (pensemos nos celulares), a comunicação alterou nossas necessidades, nossa forma de agir,
de fazer política – e ainda o vem fazendo; gerou novas exigências de agilidade para a circulação
de informações – não só as midiáticas, mas também as do dia-a-dia, que antes estavam satisfeitas
pelo ditado popular que afirma que “notícia ruim corre rápido”. Mas também alterou o sentido de
debates sobre o direito à comunicação: se em sociedade ditatoriais o centro destas mobilizações era a
recepção de informações sem censura, na era da internet o debate gira em torno da posse de meios de
comunicação que viabilizem o envio, a transmissão de informações por setores muito mais amplos que
os pouquíssimos que possuem, privadamente, os principais e mais massivos veículos de comunicação,
caso inequívoco do Brasil.
7 Uma de suas principais expoentes, Agnes Heller, embora reafirme sua referência em Lukács, diz
abertamente, em entrevista recente, ser antimarxista. Perguntada se a democracia liberal é o
melhor regime possível, sua resposta é: “Sim. Penso que o desenvolvimento da história europeia
atingiu sua última fase com a democracia liberal. Não se pode ir mais longe. Podemos somente
melhorá-la: a liberdade pode ainda ser explorada e desenvolvida em muitas direções” (Heller,
2018). Há que se registrar que a publicação, no Brasil, se deu pelo jornal O Globo, que a nosso
juízo tem evidentes interesses em apontar a democracia de molde liberal como objetivo máximo
e legitimá-la nas reflexões de uma autora internacionalmente reconhecida como discípula de
Lukács. Ressalva feita, os milenares debates sobre o que caracteriza uma real democracia persistem
em curso (Cf. Coutinho, 2009).

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

são decorrência do processo que nos fez vingar como a principal espécie viva na
longa história do planeta8.
Isto não elimina férteis diálogos e instrutivas polêmicas, entre interpretações
que não vemos como necessariamente excludentes. Sartori (2010), abordando a
temática do direito em Lukács, demonstra que o autor, dentre outras dimensões
centrais, identifica teleologias secundárias (as das relações entre seres huma-
nos) e mediação jurídica. Na leitura de Flores (1989), da qual já parecemos ter
evidenciado que mais nos aproximamos, o direito está especialmente identifi-
cado com as teleologias primárias (as relações entre ser humano e natureza).
Esta abordagem dialética sobre o que configura o direito e sua relação
com o próprio Estado nos parece ser algo que Marx, embora não a analisasse
centralmente, já constatava. Em 1875, questionando proposições do Partido
Operário Alemão para o Congresso de Gotha (MARX, 2004, p. 119), o
autor afirma que seria necessário ao Programa apresentado àquele evento
dizer “que transformação sofrerá o Estado numa sociedade comunista” (grifo
nosso) e pergunta: que funções sociais análogas às do Estado persistirão em
uma sociedade humanamente emancipada?
Há outros paralelos possíveis para o debate sobre o direito no mesmo texto.
Marx afirma que “o direito igual continua aqui, no seu princípio, a ser o direito
burguês” (Marx, 2004, p. 108)9. Registra que “O direito nunca pode ser mais
elevado que o estado econômico da sociedade e o grau de civilização que lhe
corresponde” (Idem, p. 109). Contudo, à pg. 120 afirma que “só se reclama o
que não se tem”, coerente com outra sua contundente afirmação, a de que

A humanidade não se propõe nunca senão os problemas que ela pode


resolver, pois, aprofundando a análise, ver-se-á sempre que o próprio

8 Acerca desta especificidade humana podemos acrescer reflexões de autores que não se declaram
marxistas, mas que, em nossa leitura, chegam a conclusões muito semelhantes, como Harari (2015).
9 A epígrafe escolhida para esta seção (De cada um, conforme suas capacidades; a cada um, conforme
suas necessidades) está na mesma obra marxiana. Evidencia-se que a categoria central “classe social”
não elimina, sequer entre nós das classes subalternizadas, características que nos são individuais. As –
se consideradas como naturais e, portanto, insuperáveis – frágeis dicotomias entre classe e indivíduo,
classe e identidade, dentre outras, não encontram lugar nas reflexões feitas por Marx nesta obra, escrita
oito anos antes de seu falecimento. Nos Grundrisse (Marx, 2011) a mesma pista nos parece evidente. O
consumo, que é simultaneamente produção, é caracterizado como o momento singular do processo que,
naquela obra, envolve produção, circulação, troca e consumo da mercadoria. Universal é a produção;
particulares são circulação e troca. O singular é momento que envolve a esfera individual, que combina
elementos sociais com perspectivas e características de cada ser/indivíduo social.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

problema só se apresenta quando as condições materiais para resolvê-lo


existem ou estão em vias de existir. (Marx, 2008, p. 50)

Encontramos em Marx, portanto, elementos que complexificam os debates


marxistas acerca do que seja o direito, sua origem, sua eliminação ou não em uma
sociedade liberta do jugo do capital. Uma concepção dialética de direitos (que,
registremos, sempre são humanos – não por que naturais e imutáveis, mas exata-
mente pela razão contrária, por que sempre sociais e exclusivamente humanos)
permite indicar que eles não se extinguirão na sociedade humanamente emanci-
pada: terão outro conteúdo, serão disputados ou não em outro patamar. Suprimi-
das as “diferenças de classe desaparece por si mesma toda a desigualdade social e
política resultante dessas diferenças”, diz Marx (2004, p. 116, grifo nosso). Não as
demais. Ou corre-se o risco de decretar o fim da história às avessas ou mesmo a
morte da dialética (RUIZ, 2014, p. 298-302) – só invertendo o equivocado sinal
de Fukuyama (199210) em sua leitura do período do imediato pós-Guerra Fria.

Concluindo: possíveis repercussões


As repercussões deste debate não envolvem exclusivamente sua interpretação
teórica. Afinal, “não é a consciência dos homens que determina o seu ser social; ao
contrário, é o seu ser social que determina sua consciência” (Marx, 2008, p. 49). A
materialidade da vida social é a que nos permite dialogar sobre o sentido assumido
pelos distintos fenômenos sociais (o que inclui o direito) em cada sociedade.
Se é assim, a repercussão de tais debates envolve, certamente, lutas sociais
efetivamente existentes. Pode incluir, também, profissões que afirmam como
seu papel social a defesa de direitos11.

10 Em artigo publicado logo após a queda do Muro de Berlim, em 1989, Fukuyama defendia que com o fim do
que ele entendia como comunismo – Hobsbawm (1995), prudente e corretamente, prefere qualificar tais
sociedades como aquelas que se reivindicavam socialistas –, a democracia liberal teria demonstrado ser a única
forma possível de governo. Em 2015, relativizando suas opiniões, já afirmava não ter tanta certeza de que
este caminho seria inevitável, ainda que mantenha a posição antidialética de que a história terá um fim:
“Ninguém que viva numa democracia estabelecida pode dar como certa a sua sobrevivência. Mesmo que nos
interroguemos sobre o tempo necessário para que todos acedam a esse estágio, não restam dúvidas quanto ao
modelo de sociedade a que o fim da História conduz” (Fukuyama, 2015).
11 Referimo-nos, aqui, especialmente ao Serviço Social brasileiro. Seu código de ética profissional,
aprovado em 1993 e atualmente em vigor, prevê, entre seus onze princípios fundamentais, a “defesa
intransigente dos direitos humanos e recusa do arbítrio e do autoritarismo”. Não o faz em perspectiva

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Limitar direitos a sua esfera normativa elimina a possibilidade de vê-lo em


constante e radical disputa entre modelos societários distintos. Em outras pa-
lavras, retira os direitos – sempre humanos – das esferas das lutas de classes e
da possibilidade de que integrem plataformas e sociabilidades humanamente
emancipadas. No âmbito das profissões (e mesmo das lutas sociais) limita sua
esfera ao âmbito do estritamente normativo-jurídico. Tende a eliminar o caráter
dialético do processo. Não reconhece que também o direito é decorrência de
especificidades humanas, que nos caracterizam como seres ontológicos.
Tende, ainda, a limitar as respostas dadas para a falsa dicotomia (como vimos
brevemente, crescente na conjuntura pós final da Guerra Fria) entre classes e
indivíduos sociais, com suas singularidades identitárias que nada têm de necessa-
riamente pós-modernas nem se identificam com a mônada burguesa questionada
por Marx. Fragiliza a busca de uma sociedade efetiva e humanamente emancipa-
da não apenas do ponto de vista econômico, mas em todas as complexas dimen-
sões que envolvem nossa espécie. Superadas as sociedades de classes, outras dife-
renças e distinções estarão em questão – não mais as advindas daquelas relações.
Se formos capazes de evitar o desaparecimento da espécie humana pela sanha
dos interesses mesquinhos capitalistas (algo que, infelizmente, vai se constituindo
numa das mais difíceis e desafiadoras tarefas para os próximos séculos), a história não
terá fim. Por que ela é, foi e será a história da espécie humana. Complexa, contraditó-
ria, assassina, inúmeras vezes brutal. Mas, ainda assim, bela e desafiadora.

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da “defesa do aprofundamento da democracia, enquanto socialização da participação política e da
riqueza socialmente produzida” e o da “opção por um projeto profissional vinculado ao processo de
construção de uma nova ordem societária, sem dominação-exploração de classe, etnia e gênero” (CFESS,
1993, pp. 23-24; os grifos são sempre nossos). Analisamos o conteúdo do princípio que anuncia uma
defesa intransigente dos direitos humanos em Ruiz, 2013. Ora, se uma pessoa que procura o Serviço
Social apresenta uma demanda não prevista em lei, nossa perspectiva de direitos precisa se associar
à necessidade objetiva, material, concreta, de sua vida. O que nos exigirá, por vezes, ir além das
próprias determinações institucionais, sempre guiados pela relativa autonomia que o fato de sermos
profissão regulamentada e com uma regulamentação ética própria nos confere. Só assim se justifica
a ideia da intransigência na defesa dos direitos humanos.

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148
Função social do Direito e Marxismo

Dâmaris Lívia Pinheiro Damasceno 12


Fabiana Nogueira Coelho 13
Lucas Sampaio Dias Lourenço 14
Pedro Ângelo Pereira Mesquita 15
Martonio Mont’Alverne Barreto Lima 16

Introdução
O presente artigo tem como objetivo realizar uma análise crítica da fun-
ção social do direito mediante a perspectiva marxista em contraste ao pro-
posto pela ideologia de um direito burguês. Tal tema possui relevância, uma
vez que a luta de classes ainda se evidencia na realidade, sendo necessário
manter-se sempre atento ao rumo que, neste complexo conjunto de elementos
objetivos da realidade, o Poder Judiciário e as relações econômicas, jurídicas,
políticas e sociais têm tomado. De modo, trata-se de procurar compreender
a origem do funcionamento político da institucionalidade, a fim de oferecer
possíveis explicações sobre regressos quando se envolve com o ordenamento
jurídico e sua aplicação prática.

12 Aluna de Graduação em Direito da Universidade de Fortaleza. E-mail: damarislivia@hotmail.com.


13 Aluna de Graduação em Direito da Universidade de Fortaleza. E-mail: fabinc8@hotmail.com.
14 Aluno de Graduação em Direito da Universidade de Fortaleza. E-mail: luccassampaio.ls@gmail.com.
15 Aluno de Graduação em Direito da Universidade de Fortaleza. E-mail: pedroangelomesquita@
gmail.com.
16 Orientador. Professor Doutor pela JWG-Universität. E-mail: barreto@unifor.br.

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

2. Da função social do direito


Uma das mais importantes e profundas discussões da Ciência Política é
exatamente sobre a natureza da origem da sociedade. Ao longo da história
diversos pensadores formaram opiniões e defenderam suas teses acerca desse
tema, uns pautados num naturalismo aristotélico, defendido em sua obra A
Política, sobre ser, o homem, um animal naturalmente político (zoon politikón)
e, portanto, a condição social é inerente a ele, de forma que esta sociedade
é consequência inata ao surgimento do homem e não fruto de sua escolha,
como pretendem os contratualistas. Para os defensores desta corrente, a so-
ciedade seria uma criação do homem utilizando-se de sua razão que escolhera
se submeter à égide de um contrato com regras de convivência, abrindo mão
do seu estado natural de liberdade total, o chamado por essa doutrina como
o Estado de Natureza. A título de ilustração, Thomas Hobbes concebe esse
estado natural do homem como um caos, um período de tempo o qual não
havia paz, já que os homens viviam em um estado de guerra permanente de
todos contra todos e, devido a essa insegurança, o mesmo homem decide se
submeter a um disciplina de um poder superior que impõe regras e limites no
comportamento e nas interações sociais.
Todavia, apesar das dicotomias dessas teorias, entre si e internamente,
ambas convergem em um ponto especifico, que a nós é o interessante, nesses
pensamentos e suas difusões, o homem adentrado em sociedade se submete
a regras, normas, em outras palavras, de convivência mútua para com outro
homem, de tal sorte, que ele acaba por ser limitado em suas condutas. Esse
sistema normativo que prescreve condutas a serem cumpridas para desen-
volver uma boa convivência de maneira efetiva era, e é, o Direito. Segundo
a lição de Paulo Nader:

As necessidades de paz, ordem e bem comum levam a sociedade à criação


de um organismo responsável pela instrumentalização e regência desses
valores. Ao Direito é conferida esta importante missão. A sua faixa
ontológica localiza-se no mundo da cultura, pois representa elaboração
humana. O Direito não corresponde às necessidades individuais, mas
a uma carência da coletividade. A sua existência exige uma equação
social. Só se tem direito relativamente a alguém. O homem que vive
fora da sociedade vive fora do império das leis. O homem só, não possui
direitos nem deveres. (2017, p. 18).

150
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

O Direito então, desde logo, assume um papel de protagonismo na manuten-


ção da sociedade e mantém com ela, devido a esse papel, íntima relação, sendo,
portanto, “fruto e raiz”, é que o professor nomeia de mútua dependência:

Direito e sociedade são entidades congênitas e que se pressupõem.


O Direito não tem existência em si próprio. Ele existe na sociedade.
A sua causa material está nas relações de vida, nos acontecimentos
mais importantes para a vida social. A sociedade, ao mesmo tempo,
é fonte criadora e área de ação do Direito, seu foco de convergência.
Existindo em função da sociedade, o Direito deve ser estabelecido
à sua imagem, conforme as suas peculiaridades, refletindo os fatos
sociais. (NADER, 2017, p. 27).

Essa “mútua dependência” parece passar por minuciosa confirmação his-


tórica que faz crer de sua existência até nas comunidades tribais no inicio da
humanidade, como apresenta Georges Abboud, na sua Introdução à Teoria e
à Filosofia do Direito, os homens primitivos, apesar de não terem desenvolvido
o princípio de proporcionalidade, pautavam seus comportamentos pelo princí-
pio da retribuição. Dessa forma, sua conduta social era pensada e desenvolvida
pensando sempre no bem da coletividade já que tudo que fizesse poderia ser
utilizado contra si, com efeito, produziam um vinculo jurídico no qual “toda
a estrutura perpassa por uma relação de dar, receber e retribuir de forma obri-
gatória” (ABBOUD, CARNIO, OLIVEIRA, 2015, p. 64) e, ainda, essas obri-
gações “eram a base organizacional das sociedades arcaicas. Era preciso pôr
em circulação os presentes e os benefícios ou, até mesmo, os malefícios” (AB-
BOUD, CARNIO, OLIVEIRA, 2015, p. 65).
Nessa linha de raciocínio, cumpre-se entender o modus operandi do Direito
para executar propriamente sua função social e, dessa maneira, compreender
porque ele se tornou a modalidade mais eficaz de controle do comportamento
humano e sua busca por efetivação que engloba o pensamento de Karl Marx.
De início, é obrigatório pontuar que o Direito não é a única espécie nor-
mativa que pretende manter uma coesão à sociedade, tal como ele a Moral
despende papel semelhante, qual seja, dispositivo normativo de natureza ética
que age sobre o comportamento das pessoas. Esta forma de controle social pode
ser definida como um conjunto de valores e costumes que são considerados
pelos homens em suas relações sociais e que devem ser observados (ABBOUD,
CARNIO, OLIVEIRA, 2015, p. 172). Mas que, exatamente por sua condição

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

axiológica, não produzem uma vinculação obrigatória, uma vez que o homem
usando a razão como instrumento pode questionar e desenvolver esses valores
num sentido oposto o positivado.
Essa noção da subjetividade e instabilidade da Moral decorre daquilo que
Heinrich Henkel busca elencar numa separação das naturezas morais, entre
Moral Natural e Moral Positiva, sendo aquela os princípios gerais da Moral,
os ideais mais nobres, a ideia geral de bem, enquanto a outra se subdivide em
Moral Social, e Moral Autônoma, as quais influenciam o comportamento do
homem mutuamente, ao passo que também sofrem influencias entre si. Quer
dizer, a Moral Social, sendo aqueles comportamentos e princípios inerentes aos
costumes daquela sociedade, é posta à prova e passa por constante reflexão
pela Moral Autônoma, aquela que todo ser humano mantem no seu íntimo
formada pelos valores por ele desenvolvido ao longo da vida. E dessa forma, esta
questiona e atualizada aquela sobre as novas tendências e novos valores que a
sociedade passa a desenvolver.
Nesse sentido, a Moral apresenta-se completamente instável, como dito,
e facilmente mutável, uma vez que determinado grupo que pensa diferen-
te sobre certas condutas podem influenciar os demais ou, até, aqueles que
mantem os meios de comunicação e a indústria cultural podem influenciar
a forma de pensar de grande parte da sociedade, mantendo, então, os pa-
drões de condutas por eles ditados.
Sobre essa discussão e dando ensejo a outro ponto a ser enfrentado acerca
da efetividade da Moral na normatização da conduta humana, Evguiéni B.
Pachukanis afirma:

Por um lado, essa lei [moral] deve ter um caráter social e, como
tal, colocar-se acima da personalidade individual. Por outro lado, o
possuidor de mercadorias, devido à própria natureza, é o portador
da liberdade (da liberdade de apropriação e alienação); portanto,
a regra que determina as relações entre possuidores de mercadoria
deve ser implantada na alma de cada um deles, ser sua lei interna. O
imperativo categórico de Kant reúne essas exigências contraditórias.
Ele é supraindividual, porque não tem nenhuma relação com qualquer
motivação natural, como paixão, simpatia, compaixão, sentimento
de solidariedade etc. Ele, na expressão de Kant, não ameaça, não
convence, não bajula. Está situado, em geral, fora de quaisquer motivos
empíricos, ou seja, puramente humanos. (2017, p. 155 e 156).

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Quer dizer, além desta mutabilidade, inerente à natureza reflexiva da Mo-


ral, e decorrente desta mesma essência, há outra razão que impede compre-
ender esse instrumento como o controlador mais eficaz da conduta social, a
sua não coercitividade. Sucintamente, sua natureza axiológica e, portanto,
residente do mundo das ideias, a Moral não pode ser exigida e nem pode exer-
cer força para tanto, já que a subjetividade do sujeito é livre para questionar
e modificar, com certa facilidade, as noções de moralidade “positivadas”. É
essa crítica que o professor russo aufere à noção axiológica das normas morais
como uma mera sugestão incapaz de produzir efeitos práticos, de forma que se
conclui sua ineficácia para esse papel.
A contrário senso das normatizações morais, o Direito mantém caráter co-
ercivo e capaz de produzir efeitos práticos às desobediências para com suas nor-
mas. Essa característica, própria dele, é decorrente da legitimação dada pela
sociedade ao Estado de aplicar sua imperatividade em busca da coesão e ma-
nutenção da sociedade (aquilo que foi apresentado no início deste trabalho).
Nesse modelo, então, a norma jurídica se pretende um mandamento de conduta
a ser seguida, busca imperativamente, efetivar o que é prescrito para atingir a
sua função buscada. Nesse sentido, Pachukanis leciona que “essas regras podem
ser mais ou menos complexas se o objetivo for a eliminação mecânica de um
membro perigoso da sociedade ou sua correção; mas, em todos os casos, nelas se
expressa clara e simplesmente como um fim social em si” (2017, p. 182).
Ademais, vale salientar que Abboud também apresenta, quando tra-
tando das comunidades primitivas e suas relações “jurídicas”, a figura do
banimento, como sanção à ordem descumprida ou àquele principio da re-
tribuição que tinha força obrigatória. Evidente que naquele tempo, dizem
os antropólogos trazidos à baila pelo autor, não desvinculam esse caráter
obrigatório (e porque não normativo) do princípio das crenças religiosas e,
até mesmo, da moral, entretanto, o que cumpre salientar aqui é somente o
papel coercitivo das ordens que buscavam manter o controle e coesão social
já àquela idade recente da humanidade, ressaltando assim essa característi-
ca que viria a ser atribuída às normas jurídicas e a legitimidade do Direito
para usar da força quando necessária em função do cumprimento de sua
função social (ABBOUD, CARNIO, OLIVEIRA, 2015).
Portanto, conclui-se que pela própria natureza da coercitividade do Direi-
to, ele se traduz como método que efetivamente produz mais resultados, por
isso é o mais buscado e batalhado pelas demandas sociais que vão surgindo

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

ao delongar histórico. O Direito, apesar de ser mandamento ético no mundo


do Deve-ser, encontra respaldo, ou melhor, produz seus efeitos empiricamente,
no campo do Ser, já que o sujeito em tratamento pelo direito, ou seja, quem
não observou a norma, assume o papel de um devedor pagando uma dívida
forçada e recebendo, por conseguinte, uma sanção disciplinar, atingindo, de-
pendendo da conduta, a própria liberdade (PACHUKANIS, 2017, p. 182).
Por fim, analisada as particularidades do direito enquanto forma de controle
social, vale, sucintamente, para preparar a discussão do direito mais adentro na teo-
ria marxiana, promover uma reflexão breve sobre sua tendência de imperatividade.
Bem, ficou claro que o Direito é capaz de ativar ao Estado o uso da força, para que
se faça ser observado, todavia essa força obrigatória cria à realidade normativa do
Direito para com a sociedade uma disputa interna de exigibilidade oponível, ou seja,
um sujeito daquele meio vê a possibilidade de exigir do outro aquilo que a normati-
vidade lhes impõe, promovendo de certa forma outro tipo de conflito. Essa concep-
ção do Direito pode ser decorrência da forma de interpretação burguesa das normas
e do ambiente ao qual ele foi gestado, um ambiente revolucionário na França.

3. Do direito burguês
A dinâmica do Direito Burguês, de fato, possui seu início com a ascensão
e estabilização da classe burguesa e do capitalismo na sociedade, fazendo-se
necessário remeter-nos mais uma vez à Revolução Francesa, de modo que se co-
nheça a Acumulação Primitiva de Capital, ou seja, os fatores históricos que pro-
piciaram a formação e a concentração de riquezas nas mãos de uma burguesia
comercial (PEREIRA, 2015, p. 9). Ademais, tendo em vista que o Direito, nos
dizeres de Marx (2008, p. 47), ao se pôr como uma superestrutura, se origina da
totalidade das relações de produção que constituem a estrutura econômica da
sociedade, poder-se-á compreender o direito burguês.
Tem-se, como principal marco normativo da sociedade francesa no século
XVIII, a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, a qual positivou, nos
termos a seguir, os principais direitos reivindicados pela burguesia:

Artigo 2º- O fim de toda a associação política é a conservação dos direitos


naturais e imprescritíveis do homem. Esses Direitos são a liberdade. a
propriedade, a segurança e a resistência à opressão. (DECLARAÇÃO
DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADÃO, 1789)

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Ora, é evidente que para que os interesses defendidos pela sociedade bur-
guesa fossem atingidos, era necessária uma comoção geral que envolvessem os
camponeses, de modo que tal declaração também positiva uma isonomia for-
mal. Entretanto, é clarividente que a classe camponesa - uma maioria pobre
- dificilmente desfrutou de direitos como a propriedade e futuramente, durante
a Revolução Industrial, sofreu a opressão.
Marx, visualizando essa questão, em Sobre a Questão Judaica (2010, p. 71),
expõe que de fato a burguesia atinge sua plenitude ao desvencilhar-se de todos
os laços humano-sociais substituí-los por laços egoístas, os quais colocando um
homem contra outro, trouxe hostilização mútua.
Tal previsão, bem demonstrada por Marx, remete a outro autor, Cesare
Beccaria, que já percebia as consequências de tal relação de direito oponí-
vel, cem anos antes dos escritos marxistas, ao discorrer que o roubo é um
delito decorrente do próprio direito de propriedade - que em seus dizeres
é horrível e desnecessário - que deixa ao homem como único bem, a sua
existência (BECCARIA, 2001, p.52).
Portanto, pode-se observar que a dinâmica do Direito Burguês - diferente da-
quilo proposto e escrito por Marx, em uma união das forças humanas (MARX,
2010, p.65) logo em um direito universal, com o outro - traz uma proposta que ao
invés de emancipar o homem ao lhe dar direitos, o aliena e subordina ao lhe pôr
em eterno estado de conflito contra o outro, em razão, de nada mais, que bens.

4. Do direito em Marx
Em sua vasta obra, Karl Marx desenvolve conceitos como o materialismo
histórico, que foi conceituado, apresentado, explicado e analisado no período
mais maduro de seu trabalho, e que, para atingir esse período ele perpassa por
e desenvolve diversos outros conceitos que o auxiliam a construir o raciocínio
que o faz concluir, em último grau, a relevância da filosofia e prática comunista.
No texto Sobre a questão judaica, no qual o jovem Marx discorre sobre a situa-
ção dos judeus na Alemanha no tocante à aquisição de direitos civis e políticos,
averiguando não só os meios para que isso viesse a se realizar, como também,
dissecando a tese da emancipação política e humana.
Outrossim, no citado texto do escritor prussiano, é apresentado diversos
extratos da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão e de algumas

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

constituições de Estados Americanos nos quais se visualiza os direitos liberais


conquistados no período da Revolução Francesa e os advindos do processo de
independência norte-americana em relação à metrópole inglesa, apontando a
importância das garantias advindas desses movimentos.
Todavia, tece-se uma crítica a esses direitos a partir dos conceitos apre-
sentados de emancipação política. Marx divide os cidadãos entre bourgeois e
citoyen, definindo o primeiro como o homem egoísta que, com a aquisição dos
direitos civis, utiliza o Estado somente como meio para que haja a proteção
desses direitos adquiridos contra outro indivíduo. Essa categoria renega o es-
paço público a favor da vida individualista, ambientada no cenário privado.
Já o citoyen é a forma que o cidadão se comporta como membro efetivo da
sociedade política, e nas palavras de Marx, atingir-se-ia tal patamar “quando
o homem tiver reconhecidos suas forças próprias como forças sociais e, em
consequência, não mais separar de si mesmo a força social na forma da força
política” (MARX, 2010). A partir dessa classificação, pode-se compreender o
parecer crítico atribuído aos direitos civis conquistados nas revoluções libe-
rais, normatizados em declarações de direito e constituições de Estados, como
o direito à liberdade, propriedade, igualdade e segurança, que fazem parte do
corolário das garantias burguesas, visto que se apresentam como direitos de
um indivíduo contra o outro, baseados na separação entre um homem e outro,
explicitando a segregação do homem da comunidade.
De fato, nota-se a pontualidade de Marx em relacionar o Direito, ainda que
não tenho desenvolvido uma teoria aprofundada nesse âmbito, à questão da
emancipação política e humana, entendendo que o Estado político deve se dar
por meio da revolução política, em direção à emancipação, que decompõe a
sociedade burguesa na qual se visualiza o mundo das necessidades, do trabalho,
dos interesses privados e do direito privado (MARX, 2010).

5. De Marx sobre a questão judaica


No texto Sobre a Questão Judaica, o jovem Marx responde, aos hegelianos
de esquerda, como eram alcunhados aqueles que integravam o grupo de estu-
dantes e jovens professores na Universidade Humboldt de Berlim após a morte
de Georg Hegel em 1831. Bruno Bauer, em seu ensaio, propõe que é no mínimo
egoísta dos judeus terem a demanda de emancipação em um Estado Cristão;

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

pautada como se eles fossem os únicos fora do processo emancipatório político,


enquanto, na realidade, todos os cidadãos estão no mesmo passo que os judeus,
ou seja, não sendo cidadãos emancipados, portanto, esse grupo não seria uma
exceção à regra, mas sim uma confirmação dela.
Assim, Marx, em sua obra Sobre a Questão Judaica, replica o escrito
de Bauer principalmente na perspectiva da redução da problemática em
questão à crítica do Estado Cristão, pois o filósofo alemão mencionado por
último disserta sobre o que seria o Estado Cristão, como também sobre seu
povo, esmiuçando um raciocínio que, no entanto, não trata o revés de modo
que se analise os seus pontos basilares, tal como a diferenciação entre a
emancipação política e a humana.
Logo, como Marx resume, Bauer propõe que se faz mister a emancipação
de todos antes de se tratar da emancipação de um grupo em particular, os ju-
deus (MARX, 2010, p. 44). Possuindo a questão judaica um cunho universal,
Bauer pormenora a discussão ao tratar que qualquer indivíduo que deseja se
emancipar politicamente, i. e., se tornar, de fato, um cidadão, deve superar a
religião, assim como o Estado que se diz Real. De fato, somente renunciando
ao “privilégio da fé”, o judeu, de acordo com Bauer, estará apto para acolher os
direitos humanos universais conquistados pelas revoluções liberais do século
XVIII, visto que tais direitos são políticos dado que são humanos, ou seja, são
celebrados e exercidos em consonância com a comunidade.
Destarte, Marx propõe a diferenciação entre os direitos do homem e do
cidadão, analisando diversos direitos sociais conquistados no período ilumi-
nista que refletem garantias e liberdades fundamentais presentes na Declara-
ção de Direitos do Homem e do Cidadão (1791) e as constituições dos Estados
americanos. Dentre eles, há o direito de consciência expressamente posto na
Constituição de New Hampshire, artigos 5º e 6º17, que está ligado à liberdade

17 Art. 5. Every individual has a natural and unalienable right to worship God according to the dictates
of his own conscience, and reason; and no subject shall be hurt, molested, or restrained, in his
person, liberty, or estate, for worshipping God in the manner and season most agreeable to the
dictates of his own conscience; or for his religious profession, sentiments, or persuasion; provided he
doth not disturb the public peace or disturb others in their religious worship.
Art. 6. As morality and piety, rightly grounded on high principles, will give the best and greatest
security to government, and will lay, in the hearts of men, the strongest obligations to due subjection;
and as the knowledge of these is most likely to be propagated through a society, therefore, the several
parishes, bodies, corporate, or religious societies shall at all times have the right of electing their own
teachers, and of contracting with them for their support or maintenance, or both. But no person shall

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

de praticar cultos, tida como direito natural imprescritível. Entendido, assim,


como direito humano universal o “privilégio da fé”, discordando, nessa pers-
pectiva, Marx de Bauer.
Outrossim, a diferenciação crucial do homem e do cidadão se pronuncia no
tocante ao que se coloca em primeiro plano: o público ou o privado. O homem,
membro da sociedade burguesa, é egoísta, separando-se do seu semelhante e
recolhendo-se ao âmbito privado, vê-se assim que sua relação com a sociedade
é, de certa forma, conflitante, devendo o Direito atuar como moderador eficaz
ao bom convívio social, nesse caso, o Direito de um indivíduo atua em oposição
ao de outro. Essa relação pode ser visualizada na Declaração de Direitos do Ho-
mem e do Cidadão ao definir o direito de liberdade: “La liberté consiste à pouvoir
faire tout ce qui ne nuit pas à autrui”, assim, “trata-se da liberdade do homem
como mônada isolada recolhida dentro de si mesma.” (MARX, 2010, p. 55).
Ainda, o filósofo alemão utiliza-se outro direito que compõe a base da so-
ciedade burguesa como exemplo para explicitar as contradições inerentes a ela:
à segurança. Nessa situação, Marx o entende como a máxima garantia do sta-
tus quo do homem, como definido anteriormente, que o utiliza para assegurar
outros direitos burgueses, tais quais o da liberdade e o da propriedade privada.
A partir dessa análise, reforça-se a ideia de que o Direito Burguês tem o papel
central de perpetuar o conflito de todos contra todos, não se colocando como
ferramenta de emancipação política, nem humana.
Por outro viés, há o cidadão caracterizado por Marx como aquele que, in-
tegrando a comunidade, prioriza o que é proveitoso socialmente, voltado para
os interesses coletivos e para o bem comum (CHAGAS, 2012, p. 5). Assim, a
transição do homem burguês para o cidadão se realiza a partir da emancipação
humana que é, nos dizeres de OLIVEIRA, a “verdadeira liberdade, o retorno
do homem a si, a efetivação da sua genericidade, é a revolução não apenas das
estruturas políticas, mas sociais”.
Enfim, diante do exposto, entende-se que a crítica de Marx se firma na
perspectiva de que o Direito Burguês emancipou politicamente os indivíduos,
separando-os do antigo sistema feudal, emancipando-os do poder do soberano
e individualizando-os. Acontece, assim, certa emancipação política, que cons-

ever be compelled to pay towards the support of the schools of any sect or denomination. And every
person, denomination or sect shall be equally under the protection of the law; and no subordination
of any one sect, denomination or persuasion to another shall ever be established.

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titui o Estado Real, além de ter desmantelado “o conjunto dos estamentos, cor-
porações, guildas, privilégios, que eram outras tantas expressões da separação
entre o povo e seu sistema comunitário.” (MARX, 2010, p. 63). No entanto,
a emancipação não permitiu a fase humana que seria a conjunção do âmbito
público ao privado, da efetiva junção da vida humana à comunitária, vivência
tal que a sociedade burguesa não permite e promove meios para que aconteça
o contrário: a disjunção dos dois âmbitos e a utilização do Estado apenas como
um intermédio para a realização de direitos individuais e a preservação, por
exemplo, da propriedade privada, através de determinado “poder de polícia”.
Desse modo, apresenta-se a falsa ideia do direito burguês como efetivador da
boa convivência social, quando, como explicitado, atua de forma desagregadora
de maneira que sua função social se torna deturpada e não correspondente à
emancipação humana dos cidadãos.

Conclusão
A perspectiva do Direito que se propõe hoje, no ponto de vista marxista,
não se encaixa mais com o modelo clássico do Direito liberal proposto no
século XVIII, onde há uma quase que completa “autonomia da vontade”,
sendo esse pensamento consolidado com a positivação dos direitos civis.
Segundo Marx, o Direito, como fenômeno criado pela política, deve ma-
nifestar as mudanças da sociedade e servir como uma ferramenta concreta
de emancipação e liberdade dos cidadãos como membros da sociedade civil
organizada, o que não seria possível através de normas de natureza moral
devido à sua valoração volátil e não coerção.
Desta forma, o Direito proposto por Marx, deve atuar como uma ferra-
menta concreta e de efetiva mudança social ao garantir direitos ao homem,
de forma a superar um estado de relações egoístas e conflituosas; garan-
tindo assim uma verdadeira emancipação do cidadão, e a sua inserção em
uma sociedade política.

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160
Igualdade jurídica e dominação de classe

Rogério Guimarães Frota Cordeiro1


Gabriel Landi Fazzio2

“Este mundo, que oferece el banquete a todos y cierra la puerta en las


narices de tantos es, al mismo tiempo, igualador y desigual: igualador en
las ideas y en las costumbres que impone, y desigual en las oportunida-
des que brinda.”
Galeano, E. Patas arriba: la escuela del mundo al revés (1998).

Introdução
O golpe parlamentar contra o governo Dilma põe a nu a legalidade burgue-
sa: toda a fraseologia sobre a soberania do voto popular e o devido processo
legal são atirados à lata do lixo em nome de uma conveniência política. Há,
aqui, duas questões importantes a destacar:
1) Em primeiro lugar, essa reviravolta política é incompreensível fora das
bases materiais do modo de produção capitalista. É comum o esforço de pintar
o impeachment como um fenômeno puramente político ou moral, buscando ex-
plicar as raízes do ódio a Dilma e ao PT. Parece-nos, porém, que o terreno mais
seguro é o da economia. Só assim podemos explicar o programa do golpe: Dilma
foi removida para dar lugar a uma agenda acelerada de contrarreformas, que já
vinham sendo gestadas sob o nome de “Ponte para o futuro” e, depois “Agenda
Brasil”. Tudo isso são fatos políticos notórios.
Só é possível compreender o impeachment no quadro geral da crise capitalis-
ta, deflagrada em 2008 (COSTA, 2018). Essa crise, que nunca foi efetivamente
superada, precipitou inúmeros países, a tempos distintos, em crises políticas.

1 Advogado. Doutor em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.
2 Advogado. Especialista em Direito do Trabalho.

161
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Seu efeito foi o mesmo em todo o mundo, em ritmos e qualidades distintos:


fortalecimento da agenda de ataques aos trabalhadores, por um lado, e fortale-
cimento do populismo de direita, proto-fascista (FAZZIO, 2018), por outro (dois
lados de uma mesma moeda depreciada).
Por trás da reforma trabalhista, não há outra coisa senão os interesses
da burguesia em aumentar as taxas de extração de mais-valia (tanto mais-
-valia absoluta quanto mais-valia relativa) levando a população trabalha-
dora a sofrer processo acelerado de despossessão social, política e econômi-
ca (FAZZIO, 2016).
Por trás da Emenda Constitucional 95, não há nada senão os interesses dos
grandes monopólios nacionais e internacionais em privatizar a saúde e a edu-
cação, e dos banqueiros em assegurar o pagamento da dívida pública. Convém
oferecer aos pobres o serviço público de saúde, a fim de manter parte da popu-
lação trabalhadora hígida para a produção e a educação para formar trabalha-
dores para a reprodução do capital até o nível intermediário (uma vez que como
país limitado tecnologicamente e em termos de inovação necessita-se continuar
dependente das grandes potências). Assim, significa o aumento do mercado
para a saúde e para a educação privada. Por isso mesmo, deve-se sacrificar o ser-
viço público lentamente no altar dos planos de saúde e redes privadas de ensino.
Por trás da Reforma da Previdência, estão interesses dos mesmos grandes
banqueiros, ávidos pela privatização da previdência, esse abominável fundo
dos pobres que poderia lhes render tanta especulação! Sequer é preciso evi-
denciar quais interesses o golpe está atendendo, quando vende a preço de
banana às multinacionais, o petróleo, a Embraer, enfim, inúmeros capitais
produtivos estratégicos do Estado.
Outro item abordado é a criminalização dos movimentos sociais; estes repre-
sentam uma ameaça ao estado de direito, o qual é fundamental para o capitalismo.
Também as repercussões da negativa de Habeas Corpus em favor do ex-presi-
dente do Brasil, em 2018, representou manutenção do status quo, evidenciando
proteção aos políticos de determinada classe (a classe burguesa) em detrimento
da celeridade no julgamento dos casos contra políticos de origem popular, liga-
dos de uma forma ou de outra à classe trabalhadora.
Os fatos aqui trazidos são representados pela atuação coercitiva do Estado
(aprovada nas duas casas do Congresso Nacional) bem como pelo abuso de
direito por meio de mandados coletivos de busca e apreensão em atuação das
Forças Armadas no Rio de Janeiro e pela reação dos militares ao estabeleci-

162
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

mento da Comissão da Verdade após a atuação das forças de segurança naquele


estado, nítida demonstração do retrocesso que as instituições brasileiras estão
experimentando em curto espaço de tempo.
Outras intimidações têm vindo a lume por ameaças realizadas pelo novo
presidente eleito quando menciona que haverá uma perseguição de partidos e
movimentos políticos e incita seus correligionários a fazer verdadeiras persegui-
ções. Evidencia-se como será o repressivo modus operandi desta ameaça.
Conforme a crise econômica empurra a burguesia para uma crise política,
suas medidas põem em movimento os trabalhadores atacados. Naturalmente,
qualquer pessoa há de notar que o agravamento do descontentamento social
demanda a preparação do Estado para o conflito – e vemos proliferar a legis-
lação e jurisprudência repressiva, em medidas como a restrição do direito de
habeas corpus e tipificação de organizações políticas como terroristas. Ao mesmo
tempo, a extrema-direita organiza um grande ataque à liberdade de expressão,
com propostas como as patrulhas do “Escola Sem Partido” (partidárias do PSL
de Bolsonaro) e a criminalização do comunismo, proposta por Bolsonaro filho.

1. A legalidade no capitalismo
O Estado de Direito é, no capitalismo, o produto de um equilíbrio relativo
de classes. Se as classes dominadas fossem fortes demais, poriam abaixo todo
o regime e ergueriam um novo. Em reforço, a burguesia precisa guerrear com
todas suas armas, sem se permitir limites. Se, após um longo período de auto-
cracia burguesa, a massa trabalhadora se fortalece e pressiona pela liberdade
política, é possível à burguesia conceder determinadas margens de legalidade e
democracia. Se, porém, tais concessões se tornam estorvos, e se, como se isso
não bastasse, a vivência democrática acomodou e deseducou a massa trabalha-
dora para uma luta revolucionária, então, aproveitando-se essa fragilidade, nada
é mais previsível do que a retirada de tais concessões pela burguesia, o que só
poderá ser evitado se a luta social se reestruturar.
Nesse sentido, é absolutamente preciso verificar, no impeachment, uma
demonstração do caráter burguês da legalidade moderna, e seu conveniente
amoldamento às imperfeições jurídicas dos interesses burgueses dominan-
tes. Em momentos críticos, há ampla margem para se contornar essa legali-
dade, sem sequer romper com seu quadro geral. Em outros casos, naqueles

163
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

em que há resistência dos oprimidos, a situação é mais complexa; a esse


respeito, notava Gramsci (2016, p.1):

Até onde vão os limites da legalidade? Em que momento deixam de


ser respeitados? É certamente difícil fixar qualquer limite, dado o
caráter bastante elástico que assume o conceito de legalidade. Para
qualquer governo, toda ação que se manifesta no campo da oposição
contra ele supera os limites da legalidade. Contudo, pode-se dizer
que a legalidade é determinada pelos interesses da classe que detém
o poder em cada sociedade concreta. Na sociedade capitalista, a
legalidade é representada pelos interesses da classe burguesa. Quando
uma ação busca atingir de algum modo a propriedade privada e os
lucros que dela derivam, tal ação se torna imediatamente ilegal. Isso é
o que ocorre no plano da substância. No plano formal, a legalidade se
apresenta de modo diverso. Já que a burguesia, ao conquistar o poder,
concedeu igual direito de voto ao patrão e seu assalariado, a legalidade
foi aparentemente assumindo o aspecto de um conjunto de normas
livremente reconhecidas por todos os segmentos de um agregado
social. Houve então quem confundisse a substância com a forma,
dando assim vida à ideologia liberal-democrática. O Estado burguês é o
Estado liberal por excelência. Nele, todos podem expressar livremente
seu pensamento através do voto. Na verdade, no Estado burguês, a
legalidade reduz-se a isto: ao exercício do voto. A conquista do sufrágio
pelas massas populares apareceu aos olhos dos ingênuos ideólogos da
democracia liberal como a conquista decisiva para o processo social da
humanidade. Jamais se levou em conta que a legalidade tem uma dupla
face: uma interna, a substancial; outra externa, a formal.

O que nos leva à segunda questão: em segundo lugar, se é verdade que há de-
terminada violação da legalidade burguesa no impeachment de Dilma Rousseff,
esta mesma legalidade manteve-se formalmente intacta em seu quadro geral. A
substancial contradição flagrante de nossa época consiste em vivermos ainda
numa mesma República Constitucional, mesmo após um golpe parlamentar – e,
precisamente, porque se tratou de um golpe parlamentar, e não militar. No es-
sencial, foi precisamente a conivência Judicial o meio pelo qual foi possível, sem
estremecer a legalidade toda, a aceitação de tal farsa pontual de imensas reper-
cussões. Com efeito, sem resistência violenta ao golpe, foi possível fazer o golpe
passar sem violação violenta da legalidade. O mesmo ocorre agora, quando o ju-

164
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

diciário se dobra aos arroubos autoritários do Presidente eleito sem qualquer he-
sitação, permitindo sua campanha à Goebbels (ministro da propaganda nazista)
de notícias que têm sido reputadas como falsas e como propaganda caluniosa.
Em favor disso tudo, muitos juristas (notadamente aqueles que abordam o
tema da Justiça de Transição) já notaram que pesa sobre a tradição política
brasileira a ausência de qualquer enfrentamento radical às reminiscências auto-
ritárias do período militar na própria estrutura estatal brasileira. Gentili (2018,
p. 2) nota que “Brasil salió de la dictadura sin realizar un ajuste de cuentas con
21 años de opresión y violación al estado de derecho democrático. Cuando esto
ocurre, las naciones suelen estar condenadas a repetir el pasado. Pero el pasado
nunca se repite de la misma forma.”

2. Igualdade e dominação
Da leitura de A Teoria Geral do Direito e o Marxismo, de Pachukanis (2017),
obteve-se fundamentação teórica que se aplicou aos fatos trazidos, de modo que
se pôde afirmar a tese aqui pretendida.
Como resultado, aplicou-se, então, o método de Pachukanis a fim de carac-
terizar o direito como instrumento de classe quanto às ocorrências factuais aci-
ma, demonstrando que do texto A Teoria Geral do Direito e o Marxismo subsidia
a interpretação desses fatos.
A concepção materialista dialética da história e dos fenômenos sociais
(o direito entre eles) permite a Marx, Engels, Lenin, Pachukanis e diversos
outros autores compreenderem que o Estado (e sua forma correspondente de
legalidade) não é um aparato estranho à sociedade, que paira acima dela: é
um aparato criado pela própria sociedade, precisamente com a função de se
opor a ela como expressão oficial da coerção social. Engels é quem melhor
desenvolve esse aspecto (em seu A Origem da Família, da Propriedade Priva-
da, e do Estado[1984]): antes da divisão da sociedade em classes, a violência
era compartilhada pela comunidade de caçadores e guerreiros, com meios
coercitivos morais ou diretamente violentos. Essa possibilidade de distri-
buição comum dos meios de coerção desaparece ao mesmo tempo em que
desaparece a propriedade comum dos meios de produção: assim que surge
uma classe possuidora dos meios de trabalho, essa classe organiza para si
um instrumento concentrado de violência, um Estado, que mantém subor-

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

dinados os trabalhadores despossuídos, e que preserva sua propriedade de


classe contra a hostilidade das massas. Antes do capitalismo, a ligação entre
a classe dominante e o Estado sempre foi direta. Em Roma, só os senhores
de escravos detinham direitos civis e políticos; na Idade Média europeia, o
Estado era a própria organização hierárquica dos senhores de terras e seus
cavaleiros, e essa estrutura normativa do Estado era conhecida não como
direito, mas como seu oposto, privilégio.
Se a sociedade é dividida em classes e determinada classe domina o Estado,
incluído o judiciário, é imperioso entender que esta utiliza o Estado para domi-
nar as demais classes a favor de seus interesses – ainda que de modo indireto.
Contudo, para abordarmos especificamente do domínio da burguesia no poder
judiciário, é preciso dar um passo além no problema da igualdade.
A sociedade burguesa operou uma mudança significativa nessa forma geral
da dominação de classes. Pela primeira vez, o Estado deixou de se apresentar
como instrumento direito da classe dominante: sabemos que a burguesia está,
em conjunto, imersa no aparelho estatal. A instituição do sufrágio público (pri-
meiro censitário e, só depois, sob a luta e pressão dos trabalhadores, dos negros
e das mulheres, universal) foi acompanhada pela extensão da igualdade jurídica
a toda a sociedade civil, a tal ponto que não só todos são iguais perante o mes-
mo ordenamento de normas abstratas, mas o próprio Estado que suporta esse
ordenamento é subordinado à forma do direito, tendo também nele suas restri-
ções. A teoria liberal-constitucional burguesa foi realizada, e pela primeira vez
as classes dominadas puderam expressar politicamente sua vontade, por meio
do voto em seus governantes.
Na sociedade burguesa, tanto como em toda sociedade de classes, as relações
sociais são fundadas em relações de dominação, relações de exploração. Como
então é possível que todo o procedimento ideológico e jurídico da sociedade seja
igualitário? Simples: ele precisa ser apenas igualitários do ponto de vista de sua
forma, não de seu conteúdo. Para o direito burguês, todos são iguais na medida
em que todos são proprietários. Todos podem vender e comprar voluntariamen-
te; mas apenas na medida desigual da riqueza que possuem. Por isso há, por trás
da forma de igualdade do direito burguês, uma série de conteúdos desiguais.
Para o direito, o empregado e o empregador são iguais. Por isso, um vende livre-
mente sua força de trabalho em troca do dinheiro do outro. A desigualdade de
fundo, a diferença de poderes econômicos e políticos, pode muito bem viver em
harmonia com essa forma de igualdade.

166
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Por isso que, se por um lado o movimento reacionário da burguesia põe em


xeque diversos aspectos da legalidade democrática, por outro lado pode muito
bem preservar os aspectos mais gerais dessa legalidade: a segurança jurídica dos
investidores, o império da lei (ou seria das forças repressivas que a executam?)
etc. Porque, por trás da forma igualitária da legalidade burguesa, existem uma
série de verdades obscenas da desigualdade material: a mais-valia, a desigual
distribuição dos meios de produção, a desigualdade de acesso à riqueza, e todas
as desigualdades e injustiças que pesam sobre os pobres, mulheres, negros e
negras, povos indígenas.

3. A crise do regime constitucional de 88


Sob efeito da crise econômica global e nacional, vivemos desde 2016 uma
flagrante crise da III República, isto é, do regime constitucional pós-88.
Sem antecipar juízos mais profundos, podemos apontar 2013 como o ano
de descarrilamento: quando, por um lado, a burguesia começou a fortalecer
suas aspirações golpistas e quando, por outro lado, iniciou-se um processo
de afastamento entre parcelas do movimento popular e o PT, o que viria
a minar as condições deste de resistência ao golpe. É interessante notar,
contudo, que dentre as palavras de ordem “progressistas” de junho de 2013,
duas saltava aos olhos: saúde e educação.
Não parece fortuito que o início social da crise constitucional remonte justa-
mente às duas grandes promessas mal cumpridas da Constituição de 88. Tam-
bém não parece vão que um dos atores sociais mais destacados, nesse período
de resistência, seja o movimento dos sem-moradia — tendo sido o direito à
moradia uma das inovações significativas da Carta de 88.
Por um lado, realizou todas essas promessas sociais; por outro, consagrou
a propriedade privada. Não buscou resolver a questão de como seria possível
realizar a reforma agrária e urbana e, ao mesmo tempo, pagar as exorbitantes
indenizações decorrentes do direito de propriedade. Não resolveu a questão de
como seria possível conciliar um sistema público de saúde com a propriedade
intelectual das indústrias farmacêuticas, ou com a concorrência dos hospitais
privados. E quando, em face dos imperativos da propriedade privada, o Estado
burguês não pôde cumprir suas promessas populares senão à custa de um endi-
vidamento brutal e da prestação de um serviço precário.

167
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

A respeito dessa crise constitucional, é bastante instrutivo verificar a apre-


ciação que Karl Marx (1852), citado por Minikovsky (2012, p. 294-5) fazia das
contradições da legalidade constitucional:

O inevitável estado-maior das liberdades de 1848, a liberdade pessoal,


as liberdades de imprensa, de palavra, de associação de reunião, de
educação, de religião etc., receberam um uniforme constitucional
que as fez invulneráveis. Com efeito, cada uma dessas liberdades é
proclamada como direito absoluto do cidadão francês, mas sempre
acompanhada de restrição à margem, no sentido de que é ilimitada
desde que não esteja limitada pelos "direitos iguais dos outros e pela
segurança pública" ou por "leis" destinadas a restabelecer precisamente
essa harmonia das liberdades individuais entre si e com a segurança
pública. Por exemplo: "Os cidadãos gozam do direito de associação,
de reunir-se pacificamente e desarmados, de formular petições e de
expressar suas opiniões, quer pela imprensa ou por qualquer outro
modo. O gozo desses direitos não sofre qualquer restrição, salvo as
impostas pelos direitos iguais dos outros e pela segurança pública”
(Capítulo II, § 8, da Constituição Francesa). "O ensino é livre. A
liberdade de ensino será exercida dentro das condições estabelecidas
pela lei e sob o supremo controle do Estado" (Ibidem. § 9). "O domicílio
de todos os cidadãos é inviolável, exceto nas condições prescritas
na lei" (Capítulo II, § 3). Etc. etc. A Constituição, por conseguinte,
refere-se constantemente a futuras leis orgânicas que deverão pôr em
prática aquelas restrições e regular o gozo dessas liberdades irrestritas
de maneira que não colidam nem entre si nem com a segurança
pública. E mais tarde essas leis orgânicas foram promulgadas pelos
amigos da ordem e todas aquelas liberdades foram regulamentadas
de tal maneira que a burguesia, no gozo delas, se encontra livre de
interferência por parte dos direitos iguais das outras classes. Onde
são vedadas inteiramente essas liberdades "aos outros" ou permitido
o seu gozo sob condições que não passam de armadilhas policiais,
isto é feito sempre apenas no interesse da "segurança pública", isto
é, da segurança da burguesia, como prescreve a Constituição. Como
resultado, ambos os lados invocam devidamente, e com pleno direito,
a Constituição: os amigos da ordem, que ab-rogam todas essas
liberdades, e os democratas, que as reivindicam. Pois cada parágrafo
da Constituição encerra sua própria antítese, sua própria Câmara
Alta e Câmara Baixa, isto é, liberdade na frase geral, ab-rogação da

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

liberdade na nota à margem. Assim, desde que o nome da liberdade


seja respeitado e impedida apenas a sua realização efetiva - de acordo
com a lei, naturalmente - a existência constitucional da liberdade
permanece intacta, inviolada, por mais mortais que sejam os golpes
assestados contra sua existência na vida real.

A Constituição de 88 não conseguiu cumprir suas promessas à classe tra-


balhadora e converteu-se em um obstáculo indesejável à burguesia. Por isso,
tende, irremediavelmente, a perecer. Para essa tendência, apontam não apenas
o impeachment da Presidente Dilma Rousseff, mas o próprio fortalecimento de
alternativas de extrema-direita e projetos de lei de criminalização dos movi-
mentos populares (como as atuais tentativas de reforma da Lei Antiterrorismo).
A crise da república burguesa se arrasta, portanto, sem desfecho certo. Da
parte da burguesia, esta seguirá atacando os direitos dos trabalhadores o quanto
puder, por dentro da legalidade — mas já se mostrou disposta à sua violação, e
não hesitará em apoiar alguma alternativa autoritária se julgar necessária. Da
parte da classe trabalhadora, a situação é dramática: não pode, como antes,
seguir iludida com os poderes da legalidade e da democracia burguesa, que pode
se lhe fugir sob os pés de uma hora para outra. Só pode confiar, portanto, em
sua própria força organizada, em seu Poder Popular. Esse poder, atualmente,
está muito aquém de suas necessidades históricas — seja para implementar uma
ordem social nova, seja sequer para opor barreira aos ataques da burguesia. Por
um longo e duro período, a tendência, portanto, é a de resistência e a derrota,
no bojo das quais deverão criar-se as forças capazes de reverter a atual correla-
ção, e assim poder reverter às tendências regressivas do movimento social em
tendências progressivas, que superem a ordem capitalista. Justamente porque
não dispõe das forças suficientes para tanto, a classe trabalhadora seguirá, en-
tretanto, sendo vítima das ilusões da legalidade, e seguirá acreditando, embora
cada vez com menor entusiasmo, nos “males menores” e nas tentativas de reso-
lução “pacífica” dos conflitos. Como, contudo, a burguesia não parece ter em
vistas tão cedo uma situação de pactuação, tal tática só poderá conduzir a classe
trabalhadora a derrotas ainda mais graves e penosas. Como dizia Marx:
“Numa palavra: o progresso revolucionário abriu caminho não pelas suas
conquistas tragicômicas imediatas, mas, inversamente, por ter criado uma po-
derosa e coesa contrarrevolução, por ter criado um adversário na luta contra

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

o qual é que o partido da subversão amadureceu, só então se tornando num


partido verdadeiramente revolucionário”. (MARX: 1850, p. 1)
Walter Benjamin citado por (FABRE: 2018) sintetizou muito bem essa lição
que podemos aprender com o impeachment, e sobre a base da qual devemos
erguer um projeto político revolucionário dos trabalhadores:

A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que


vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de
história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos
que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção; com
isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo. Este se
beneficia da circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome
do progresso, considerado como uma norma histórica. O assombro
com o fato de que os episódios que vivemos no século XX “ainda”
sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum
conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história
da qual emana semelhante assombro é insustentável.

Conclusão
É necessário vencer o fosso entre o que somos e o que poderíamos ser, tendo
em vista que, desde a colonização do Brasil, tem havido permanente violação
dos direitos básicos de educação, de saúde, de segurança, de justiça, em suma:
as necessidades mais elementares para assegurar à maioria do povo uma vida
digna. Como mencionado acima, tristemente se constata que “em nenhum mo-
mento de nossa história foi tão grande a distância entre o que somos e o que
esperávamos.” (Furtado, 1999).
Na luta contra o reacionarismo, os setores populares contam com o apoio
dos juristas anticonservadores, que atuam buscando aproveitar a legalidade, a
doutrina e a jurisprudência como arma para contrapor-se ao conservadorismo
do sistema judiciário. Esses setores podem prestar apoio significativo à luta po-
pular, na medida em que juristas progressistas assumam postos e funções em
todas as esferas, incluindo o judiciário, provocando o acirramento dos conflitos
internos dos poderes constituídos – e, com isso, fazendo com que esses poderes
hesitem na repressão ao povo e no apoio às medidas reacionárias.

170
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

O Poder Judiciário sempre foi, no Brasil, uma das instituições mais elitistas
e conservadoras do Estado. Está constantemente a favor da classe dominante,
e na verdade recruta seus quadros especialmente nesta classe. Esse cenário se
agrava no contexto da atual contrarrevolução mundial. Daí a impossibilidade
de quebrar a hegemonia burguesa sobre o poder judiciário, isto é, a curto prazo
não esperamos qualquer mudança fundamental no cenário brasileiro. Espera-
-se, sim, um acirramento dessas contradições e desse acirramento devem brotar
quadros preparados para a transformação para uma sociedade mais justa.
Se as instituições de Estado são incapazes de realizar um ordenamento so-
cial erigido sob uma compreensão mais humanista, distributiva e reparativa
do mundo, então é dever de todo o povo explorado oprimido ser o “freio e
contrapeso” de todo este estado elitista e reacionário. Os juristas progressistas
atuando no interior da burocracia estatal podem ser grandes aliados do Poder
Popular, mas serão absorvidos pela corrente hegemônica, se tentarem atuar iso-
ladamente, sem se ligar à luta popular, ou se essa luta não for forte o suficiente
para exercer fortes pressões sobre as instituições.
Se a sociedade é dividida em classes e determinada classe domina o Estado,
incluído o Judiciário, é imperioso entender que utiliza o Estado para dominar as
demais classes a favor de seus interesses.
As atuais reformas no Brasil não estariam em curso se grande parte da popula-
ção não as apoiasse incluída a classe média (funcionários públicos, arrendatários,
aristocracia sindical, donos de pequenas e médias empresas, professores, profis-
sionais liberais etc.) e a própria classe baixa desprovida de consciência de classe.
A classe intermediária serve de para-choque, de protetor da burguesia dos
golpes mais duros vindos do lado do trabalhador e ao mesmo tempo de condutor
das corruptas influências burguesas naquele meio. (Pachukanis, 2017, p. 255)
Após o dia 28 de outubro de 2018, com a vitória do projeto ultraliberal pelo
candidato Jair Messias Bolsonaro, é certo que haverá retrocessos com maior
potência, pois a vitória com 55% dos votos válidos e a maioria parlamentar
conservadora permitirão realizar mudanças ainda mais radicais.
Percebe-se hoje um esgarçamento dos poderes executivo, legislativo e ju-
diciário, e esse esgarçamento é a demonstração da própria ruína da socieda-
de capitalista, no âmbito da qual as contradições entre as classes sociais estão
absolutamente expostas. Tanto o Estado quanto a iniciativa privada não dão
conta das demandas da sociedade, indicando que o judiciário como arauto da
burguesia não tem dado respostas satisfatórias aos problemas da ampla maioria

171
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

da população. Esse é um dos sinais de que estamos a caminho de uma época de


rupturas significativas.
A sociedade não mais pode suportar os atuais níveis de desemprego, margi-
nalização de grande parte da sociedade, a precariedade das escolas e do sistema
de saúde, a falta de habitação digna etc. Enquanto os trabalhadores penam, a
burguesia usufrui quase que completamente dos imensos recursos naturais e
humanos de que dispõe a economia brasileira. Essas são situações que estão a
levar a uma condição insustentável, que clama por mudança, pois não mais se
poder mais viver nesse nível de contradição, e esta é, por sua vez, insanável sem
uma completa revolução da ordem social existente.
O processo revolucionário está, contudo, nascendo, originado da pró-
pria contradição interna ao capitalismo. Para a maioria da população, que,
infelizmente, está longe de compreender teoricamente o fenômeno, tem-se
percebido na prática cotidiana essa contradição. Em meio a essa confusão
e revolta, deposita, porém, em parte suas esperanças em um projeto de teor
altamente questionável e incerto, capaz de submergir a sociedade em crises
e conflitos ainda mais graves.
Chegará o momento de ruptura.

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173
174
O conceito de indivíduo na
história do pensamento ocidental:
Kant, Marx e Nietzsche

Yago Barreto Bezerra1

Introdução
Sobre quantos mais espetáculos se alicerçará o Estado Liberal? O primeiro
destes: a noção malfeita de individualismo. Alega-se ser o ser humano um
indivíduo fundado em seu livre arbítrio, em sua vontade plena. Por que se trata
de um espetáculo? Ora, porque foi feito com este intuito, de fazer domesticar
os espíritos. Todo espetáculo é como uma dança, que prende os olhos e que
hipnotiza por tempo indeterminado. A noção frouxa de vontade plena, de buscar
tornar o ser humano um império de si, guarda consigo uma franca contradição:
aqui o animal débil, que se afasta dos outros animais presunçosamente, por
possuir certa capacidade de raciocínio e de interpretação, anuncia uma ideia e
a segue, como um tolo; cria uma abstração, algo inexistente, e a torna verdade
para si. Estes seres humanos de modo muito peculiar — e hilário, se tomarmos
a questão por um aspecto inverso — enfrentam o seu próprio vazio afastando
a matéria que os moldou e acreditando em qualquer balbúrdia que lhes sirva.
E quantas asneiras não foram tomadas como verdades no decorrer da história?
E qual a necessidade delas? Por que o ser humano engana a si mesmo? Por que
a verdade lhes é tão incômoda, tão desconfortável? O que lhes dói tanto? Será
que simplesmente não se pode aceitar esta condição inicial de ser um “nada”?
Não, evidente que não. É preciso amaneirar a visão, transformar a realidade
em fantasia, ou em hiper-realidade. É preciso se iludir, para que não se morra

1 Graduando em Direito pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido.

175
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

de angústia. Quanta fraqueza para uma só espécie... e tudo isso a partir dos
devaneios da maldita razão, esta ardilosa meretriz!
Olha-se afinal para o espelho e indaga: que és tu, ó ser humano? Que na
verdade, transmite um anseio um tanto mais egoísta: “Que sou eu?” O reflexo
nada lhe diz. É uma visão indefinida, sem anunciar qualquer concretude. Será
que Marx, em algum tempo ou outro, enfrentou o espelho? E que poderia ele
ter constatado de sua observação? Talvez a imagem mais desnudada, mais de-
sencantada, mais crua. Provavelmente não se viu ali; provavelmente não havia
nada além de uma indefinida construção. Um contrassenso para quem busca o
definitivo. Ser construção significa ser fluidez, e ainda, adotá-la como compo-
nente de sua essência — ou de uma não essência, se essência pressupor neces-
sariamente algo absoluto e indivisível. A percepção, o encontro de si através do
reflexo, ou encontro de si por meio de si, na tentativa mais pura de encontrar
alguma verdade, este entender-se como construção, é a primeira constatação do
ser humano que se identifica enquanto um ser social e não um ser racional — ou
seja, sustentado pela própria razão. A crítica de Marx ao indivíduo racional se
encontra muito bem exposta na Ideologia Alemã, onde ele dispõe largamente so-
bre o seu método de análise, o materialismo histórico-dialético, e sobre a cons-
trução do mundo humano. E o que significa dizer que tudo é construção? Ora,
significa compreender que tudo no mundo, e, portanto, também o ser humano,
é resultante de um processo material anterior. “O primeiro pressuposto de toda
a história humana é, naturalmente, a existência de indivíduos humanos vivos.
O primeiro fato a constatar é, pois, a organização corporal desses indivíduos e,
por meio dela, sua relação dada com o restante da natureza.” (MARX e EN-
GELS, 2007, p. 87) E esta matéria, ainda em sua dimensão mais elementar, no
processo de assimilação do real, eventualmente colide e forma algo, o novo real.
E a cada novo encontro — e isto ocorre de forma indefinida e caótica — outras
partículas vão tomando forma e a realidade vai se amoldando em um processo
indeterminável. Dentro deste cenário, surge então, não melhor do que uma
barata ou um rato, o ser humano. Emerge, pois, desde o princípio, diante das
trocas e encontros materiais, latejando, em estado bruto. É ainda uma criatura-
zinha muito desprezível, trêmula e assustada com o que vê. A mente, esta “dádi-
va” maliciosa, que o acorda para o mundo, tornando-o visível, manifesta-se em
algum momento incerto dessa troca material, não antes ou concomitantemente
à nossa condição animal. Ela surge, pois, no meio de algo; surge empoeirada,
condicionada, construída. Diz Marx:

176
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Somente agora (...) descobrimos que o homem tem também


‘consciência’. Mas esta também não é, desde o início, consciência
‘pura’. O ‘espírito’ sofre, desde o início, a maldição de estar
‘contaminado’ pela matéria, que, aqui, se manifesta sob a forma de
camadas de ar em movimento, de sons, em suma, sob a forma de
linguagem (MARX e ENGELS, 2007, p. 34).

Neste sentido, os seres e as coisas são manifestações ímpares dentro do real,


e dentro dos seres, e dentro das coisas, existem as mais profundas distinções.
Por exemplo, a matéria se manifesta enquanto lagarta e enquanto árvore. São
seres diferentes, não por causa de uma essência de lagarta ou de uma essência
de árvore, mas pela junção e remodelação, em suma pela composição e sequên-
cia de processos materiais distintos e que as deram forma. Assim também um
ser humano difere de outro, como uma lagarta difere de outra lagarta. E não
seriam todos humanos e todas lagartas? Eis a armadilha de uma visão decaden-
te que estaca sua observação na superfície. Não há falar em “todos” como que
reunindo-os dentro de uma mesma manifestação, pois cada corpo é remodelado
de um modo díspar. E por que isso? Porque cada coisa e cada ser encontra-se em
locais diferentes em tempos diferentes no mundo. O encontro que forma o novo
real dá-se pela proximidade; o próximo encontra-se e afeta-se mutuamente. É
um acaso, uma desordem, uma anarquia de partículas. Não é possível domá-las
com o pensamento, muito menos reordená-las. O esforço é vão. Quando tenta
e admite conseguir, não se percebe que antes fora domado, reposto, ressignifi-
cado. Denote-se que pelo acaso e pela particularidade do encontro, é impossível
conceber algo igual a algo, muito menos uma mente igual a outra. Tal diferença,
contudo, reitere-se, não é derivada da consciência em si, mas do modo históri-
co-material como essa consciência é produzida.
Se a mente de fato é uma construção, como poderia assaltar o altar da fortu-
na e controlar a tudo? É um devaneio, uma loucura, uma histeria coletiva. Al-
guém em algum momento falou “somos livres para pensarmos o que quisermos;
a ideia é infinita e perfeita”, e, com os olhos cintilando e o coração em taquicar-
dia, os demais urraram em concordância. E assim fez-se a fábula do ser humano.
Atormentado pela angústia, fez de uma prepotente afirmação a sua verdade. E
não é este um meio eficiente para contornar todas as adversidades? Que sim ou
que não, o que se seguiu na história foi o mais genuíno ato de covardia (ou se
se preferir, de alienação do espírito): decidiu-se pelo conforto da ilusão em vez

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

da escabrosidade da matéria. E daí vem a Filosofia do eixo socrático-platônico


— que acabou subvertendo para si toda a Filosofia —, e mais tarde a Ciência,
revestida de impessoalidade, para justificar a fábula e revesti-la com o argumen-
to racional, e desponta então o preconceito, a suposta mentira e a verdade, sem
ter-se mais a compreensão de que trata-se, antes, de uma pulsão, de um anseio,
de uma necessidade daquele que pensa. Assim, o filósofo que almeja pensar à
parte do mundo, desconecta o produto de sua ideia à matéria, sua fonte gerado-
ra, se impõe enquanto razão e por fim, inverte o domínio das coisas. “A partir
desta ‘crença’ esforçam-se em alcançar um ‘saber’, criam a coisa que, afinal, será
pomposamente batizada com o nome de ‘verdade’” (NIETZSCHE, 2001, p. 12).
E qual o argumento levantado por estes filósofos que pensam à beira do
mundo? Vejamos o que diz Kant: “Não resta dúvida de que todo o nosso
conhecimento começa pela experiência” (KANT, 2001, p. 62) Aqui, ele
parece admitir a dependência da razão humana, mas note-se o uso do termo
“começar”; continua: “Se, porém, todo o conhecimento se inicia com a ex-
periência, isso não prova que todo ele derive da experiência.” (KANT, 2001,
p. 62); arrematando:

Há, pois, pelo menos, uma questão que carece de um estudo mais
atento e que não se resolve à primeira vista; vem a ser esta: se haverá
um conhecimento assim, independente da experiência e de todas as
impressões dos sentidos. Denomina-se a priori esse conhecimento
e distingue-se do empírico, cuja origem é a posteriori, ou seja, na
experiência. (...) designaremos, doravante, por juízos a priori, não aqueles
que não dependem desta ou daquela experiência, mas aqueles em que
se verifica absoluta independência de toda e qualquer experiência. Dos
conhecimentos a priori, são puros aqueles em que nada de empírico se
mistura (KANT, 2001, p. 62).

A questão enfrentada por Kant era estabelecer como se dá este juízo sintético
a priori, ou seja, como poder afirmar algo sobre algo sem que haja a necessidade
da percepção pelos sentidos. Neste enfrentamento, o professor alemão fornece
à ainda incipiente sociedade moderna as chaves para o castelo onde repousa o
indivíduo: como Copérnico para o sistema solar, o sujeito, não mais o objeto,
passa a figurar no centro da problemática do conhecimento. Em palavras mais
esmiuçadas, não seria o sujeito regulado pelo objeto, mas este regulado pelo
sujeito — sujeito enquanto razão — que agora se torna o ser que dá sentido

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

às coisas no mundo e que, de um modo atípico, o constrói através do exercício


racional. É famosa a sua passagem no prefácio da Crítica da Razão Pura:

Até hoje admitia-se que o nosso conhecimento se devia regular pelos


objetos; porém, todas as tentativas para descobrir a priori, mediante
conceitos, algo que ampliasse o nosso conhecimento, malogravam-
se com este pressuposto. Tentemos, pois, uma vez, experimentar se
não se resolverão melhor as tarefas da metafísica, admitindo que os
objetos se deveriam regular pelo nosso conhecimento, o que assim
já concorda melhor com o que desejamos, a saber, a possibilidade de
um conhecimento a priori desses objetos, que estabeleça algo sobre
eles antes de nos serem dados. Trata-se aqui de uma semelhança com
a primeira ideia de Copérnico; não podendo prosseguir na explicação
dos movimentos celestes enquanto admitia que toda a multidão de
estrelas se movia em torno do espectador, tentou se não daria melhor
resultado fazer antes girar o espectador e deixar os astros imóveis. Ora,
na metafísica, pode-se tentar o mesmo, no que diz respeito à intuição
dos objetos. Se a intuição tivesse de se guiar pela natureza dos objetos,
não vejo como deles se poderia conhecer algo a priori; se, pelo contrário,
o objeto (enquanto objeto dos sentidos) se guiar pela natureza da nossa
faculdade de intuição, posso perfeitamente representar essa possibilidade
(KANT, 2001, p. 45 – 46).

O que Kant fez aqui? Ora, o que nem os racionalistas dos séculos anteriores
tiveram a audácia de conceber. Estacou a razão definitivamente no centro de
gravidade do mundo, sem qualquer pudor, numa espécie de convencionalismo
— ou seria boa vontade? — desassombrado. O que o sujeito percebe, por meio
de sua razão, sua construção do mundo, é tudo aquilo que pode ser conhecido;
contudo, não é a coisa em si, admite. A realidade humana diferiria da reali-
dade real, pois esta seria incognoscível, impossível de ser conhecida. Disto, se
a coisa em si não pode ser captada, a coisa elaborada pelo produto racional se
transforma em coisa da realidade humana, única acessível. Daí, agora, os juízos
sintéticos a priori se tornam possíveis, porque derivados do indivíduo, o centro
do conhecimento humano.
Aqui, a mente faz a sua própria teoria, que a legitima; elabora sua pró-
pria emancipação e sua miséria. Diz “sou livre, dentro das liberdades a que
eu mesma me imponho” e se convence disto. Ela cria a verdade, na medida
em que enuncia os pressupostos do que é a verdade. Adentra-se aqui num

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

labirinto intrincado e aparentemente sem fim nem saída, em que a mente a


todo tempo tenta se justificar a partir de si mesma. Qual o limite? Qual o
fim do labirinto? Se a mente precisar se auto justificar, de duas consequên-
cias, uma das: ou não teremos labirinto, travaremos logo na entrada, florida
com as felicitações de quem fez uma grande campanha; ou suas paredes nos
conduzirão a um abismo eterno. Na Ideologia, ao tratar sobre a burguesia na
Alemanha, Marx cita o professor alemão:

A forma característica que assumiu na Alemanha o liberalismo francês,


que se baseia em reais interesses de classe, encontramos novamente em
Kant. Nem ele, nem os burgueses alemães, de quem ele foi o porta-voz
eufemístico, perceberam que na base dessas ideias teóricas estavam
os interesses materiais dos burgueses e uma vontade condicionada e
determinada pelas relações materiais de produção; por essa razão, ele
separou essa expressão teórica dos interesses que ela expressa, fez das
determinações materialmente motivadas da vontade dos burgueses
franceses puras autodeterminações da ‘vontade livre’, da vontade em si
e para si, da vontade humana, transformando-a, desse modo, em puras
determinações conceituais ideológicas e postulados morais (MARX e
ENGELS, 2007, p. 194).

Além de Marx, Nietzsche também faz a crítica a Kant, em Além do Bem e


do Mal:

Creio que é chegado o momento de substituir a pergunta de Kant: ‘Como


são possíveis os juízos sintéticos a priori?’ por esta outra pergunta: ‘Por
que é necessário acreditar nesta classe de juízos?’ Devemos lembrar que a
conservação de seres de nossa espécie necessita desses juízos que devem
ser tidos como verdadeiros, o que não impede por suposição, que possam
ser falsos, ou, para sermos mais claros, mais chãos e radicais: os juízos
sintéticos a priori não deveriam ser ‘prováveis’. Nós não temos nenhum
direito sobre eles, são como tantos outros juízos falsos que pronunciamos.
Entretanto, necessitamos considerá-los verdadeiros: isto nada mais é que
uma suposição imprescindível para viver (NIETZSCHE, 2001, p. 21).

Assim, a teoria kantiana, antes de elucidar uma vontade plena, livre em si,
acaba por solidificar as bases da ideologia que sustentam o indivíduo burguês;
mais ainda, que sustentam, a partir do argumento racional, a noção de indivíduo

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

do Estado Liberal; que essa noção fazia-se essencial para domesticar os espíritos
rebeldes e extraviados e que tinham muito mais função do que verdade; era, em
suma, uma verdade que se impunha, por uma pulsão, ou anseio, social e moral.
Não restam dúvidas de que Kant foi um dos maiores defensores deste indi-
víduo fundado na razão. Foi, em verdade, o último a se empenhar com tanto
esmero. A doutrina contratualista, nos dois séculos anteriores, consumou, no
terreno da filosofia política, o ser isolado que, a partir dos desígnios da sua cons-
ciência, convenciona a formação de uma sociedade civil. Assim é, por exemplo,
em Hobbes, onde o ser humano, lobo de si, a fim de preservar a própria vida,
acorda com outros seres humanos pela formulação de um contrato que crie uma
entidade com força suficiente para manter a paz — o Estado, ou o Leviatã. O
pensamento hobbesiano, contudo, carecia de maior contato com a classe à épo-
ca em ascensão, a saber, a dita burguesia, que necessitava de um modelo estatal
que não suprimisse a liberdade dos seus cidadãos. Nesse contexto, surge, como
um encaixe quase perfeito, o contrato político de John Locke, mais “amaneira-
do”, menos severo na sua concepção da função do Estado. Pois se para Hobbes,
o estado natural é estado de guerra generalizada, em Locke, os seres humanos
vivem naturalmente sob o jugo de uma lei natural, percebida e assimilada pela
razão. A sociedade civil apenas emerge para dar maior proteção à propriedade
do indivíduo — propriedade aqui compreendida em sentido amplo de vida, li-
berdade e bens. Tão colossal se torna o indivíduo que a este é dada a faculdade
de resistir a um governo que não cumprisse com tal função basilar do Estado.
Com Kant, o sujeito é inapelavelmente fechado em si; é posto como um impé-
rio, um ser fim de si mesmo, capaz de, com o esforço de seu pensar, criar e dar
sentido ao seu próprio mundo, seja o político, seja o da casa.
Conclui-se a história da Filosofia, e também a história do ser humano, que
prossegue a definhar, agora em seu mausoléu próprio, agora como um “rei”,
num castelo empoeirado e sem luz, onde qualquer rastro de vida parece nunca
ter anunciado passagem. Se devassa e se corrói, sentindo que lhe falta algo,
algo que não sabe expressar em palavras. Há uma imperfeição oculta em algum
canto, talvez sob as teias de aranha, um sabor ainda amargo na boca, um senti-
mento ruim, ah, um sentimento ruim...
Que há de concreto, pois? Nada, não há nada, além do sopro indistinguível
do vazio. O espelho, na sua mais tesa natureza, reflete apenas um abismo; o
expõe, como uma ferida na terra, que o ser humano repudia enxergar. Prefere
ser uma paródia de “rei”. Pois se tudo no mundo é criação resultante de um

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

embate caótico de matéria, o mundo é autêntica fluidez e acaso. E se tudo é


fluido, e tudo é acaso, nada possui uma essência indivisível. E se nada possui
essência, nada é a priori. E pelo acaso, nada está a priori. A árvore não é a
priori; nem o animal, nem a mulher, nem o homem. O que nos é revelado
pela superfície se perfaz apenas em uma aparente solidez, uma aparente esta-
bilidade. Olhamos e não descortinamos os processos anteriores que nos per-
mitiram estar neste ponto. O mero estar não é, vez que a construção do real é
ininterrupta. Mas se não somos a priori, como podemos achar que somos? É
como uma fotografia: eternizamos um instante efêmero, que passeia no tempo
e que, por seu aspecto enxuto, atribuímos-lhe veracidade absoluta. Sobre isso,
interessante colocação de Sartre:

O ser não é uma ‘estrutura entre outras’, um momento do objeto: é a


própria condição de todas as estruturas e momentos, o fundamento sobre
o qual irão se manifestar os caracteres do fenômeno. E, analogamente,
não é admissível que o ser das coisas ‘consista em manifestar sua essência’.
Porque então seria necessário um ser desse ser (SARTRE, 1943, p. 55).

Se não há nada essencial no ser, se homens e mulheres são um nada a priori,


se tudo no mundo resulta do acaso do encontro de partículas — assim também
o ser humano —, então, por consequência, nada no mundo, e mesmo o próprio
o mundo, está para nada, ou seja, nada possui um fim a priori; nem os seres,
nem as coisas, nem os homens, nem as mulheres. É a razão humana — e aqui
Kant estava correto, errou no que tange à excessiva valoração deste impulso
pretencioso — que, quando emerge ao mundo sensível, o ressignifica, e então
diz que uma pedra é uma pedra, e uma árvore é uma árvore, e quem sabe possa
ser outra coisa, além de árvore, se se transformá-la em algo diferente do que é.
A mente é quem atribui a si mesma um fim, como se dissesse “eu estou para
algo, para isto ou para aquilo” no processo de ressignificação do real.
Mas neste ponto da reflexão incide um outro problema a ser enfrentado:
se o ser humano, e tudo no mundo, é um nada a priori que não possui um fim
específico, de onde vem o movimento? Como surge o movimento? Aduz-se “o
ser humano foi feito para a convivência; é um animal gregário”; mas de onde
vem esta força que os torna gregários? Alega-se, por outro lado, “são todos dese-
jantes”; mas insistamos: qual o motor que impõe o desejo? Se for certo que uma
essência não há, que no lugar dela há apenas um monte de coisa alguma, que a

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

matéria se encontra imersa no vazio, em uma interação aleatória, como pode o


ser humano se movimentar dentro do espectro da vida? Como pode ainda dese-
jar, ou arguir que deseja? Como pode, ademais, se esforçar por perseverar em si,
dentro da sua insignificante e angustiante experiência? Precisamente, de onde
vem este esforço inconsciente, esta vontade absurda, que confronta — e persiste!
Mesmo diante de tanta fraqueza, persiste na contradição; é o seu último suspiro
— a contingência do real? O que impede que essa estirpe mal-acabada que é o
ser humano atrofie definitivamente?
Essa “vontade”, essa potência, que move o ser vivo para a conservação de si, é
explicada pela perspectiva essencialista, que precisamente por estar contida no
ser vivo, constitui-se como a sua essência.2 O ser humano seria essencialmente
potência, potência em busca da conservação de si. E por ser potência em prol
de si, e unicamente em prol de si necessariamente, e por nela não se encontrar
potência contra si, porque então o ser não seria, segue-se que não é potência
meramente para a conservação de si, mas para a expressão máxima de si, como
se no ser sempre estivesse presente esta necessidade de viver na condição mais
sublime de existência. O problema, contudo, reside pontualmente na contradi-
ção entre a ideia de essência e a concepção materialista de formação do real,
pois para admiti-la deve-se impor uma verdade, a primeira verdade, a verdade
metafísica. Nietzsche procura resolver essa contradição a partir de seu conceito
de vontade de potência, substituindo a ideia de potência em prol de si por um
impulso fundamental, que se manifesta em decorrência de uma resistência.3
Contudo, não preconiza o caráter contingente do próprio impulso, se limitando
a estabelecer para ele uma natureza dialética. Dessa forma, não há grande dife-
rença substancial entre a vontade de potência nietzschiana e a potência em prol
de si essencialista (contida de modo esmiuçado na filosofia de Espinosa, a quem
Nietzsche também critica). Os impulsos estariam presentes em toda a matéria
viva, não apenas no animal já formado, mas em cada célula constituinte des-
te animal, estando relacionado, pois, com o orgânico. Tudo o que vive, desde
a bactéria unicelular, possui vontade de potência que se expressa na medida
em que algo confronta o ser. Nessa perspectiva, o indivíduo seria constituído
de diversos impulsos, manifestando ele a resultante destes mesmos impulsos.
Perceba-se a diferença com o sistema metafísico, que apregoa uma essência una

2 Sobre isso, Espinosa na Ética (2007).


3 Ver Scarlett Marton, em Nietzsche, das Forças Cósmicas aos Valores Humanos (1990).

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e indivisível. Aqui Nietzsche inova por quebrar essa indivisibilidade: não há


uma essência que aponta para uma direção: há um conjunto de impulsos que se
sobrepõem e se subjugam em um processo de luta interna constante e ininter-
rupta, donde o ser expressa a resultante deste processo. Não há, também, von-
tade em prol da vida; há vontade de potência, ou seja, há impulsos que almejam
triunfar sobre outros, que eventualmente, pela desordem, encontram-se. Ora,
então como não há grande diferença substancial entre a vontade de potência e
a potência em prol de si, se a primeira é múltipla no indivíduo e a segunda una?
Se a primeira está para o triunfo, a segunda para a vida? Não há, na medida em
que o impulso, numa partícula — tomada exatamente no seu sentido elemen-
tar—, se torna o único orientador da própria partícula, e na medida em que este
impulso é aquilo que acompanha o orgânico. A necessidade de triunfar acaba
por tornar-se uma “essência” heterogênea do orgânico.
Falta, pois, responder de onde vem o impulso, para que enfim superemos
essa custosa dicotomia entre essência/existência. Se a resposta de Nietzsche foi
insuficiente para solucionar o impasse, não foi menos fundamental para a sua
conclusão definitiva. Tomemos, pois, a ideia basilar da crítica, a saber, a de que
tudo o que há, assim os seres vivos, são um resultado de uma interação material
anterior, e estes mesmos seres influenciarão na composição da realidade poste-
rior. Ora, imaginemos uma partícula solta, pronta, que num instante seguinte
encontra outras partículas. Que temos? Uma interação material entre as partí-
culas que se encontraram. O que a partícula solta é antes de se encontrar com
outra matéria? Não pode ser nada, além de si, nem pode conservar qualquer
movimento, pois se encontra no nada, de modo que a própria partícula se con-
funde com o nada no qual está imersa. Assim, não há falar também em impulso,
pois não há movimento, nem ação, nem reação. Não há, ainda, vontade. A
partícula é um nada, nada de tudo, não havendo qualquer razão de ser, um nada
a priori. Apenas o encontro material, ou seja, o encontro com outra partícula,
pode fazer com que ela manifeste algo. A interação leva, por conseguinte, à for-
mação de um impulso que eventualmente se manifesta em prol de si, mas não é
possível afirmar que necessariamente. E não é precisamente pelo caráter caótico
e indeterminável das relações materiais. Perceba-se que só então, somente de-
pois da interação material, é que nasce um impulso na partícula. O impulso não
é a priori; é a posteriori. O querer, o último suspiro, mesmo fragilizado, revela
uma resultante do conflito entre os impulsos presentes no ser, sendo, pois, tais
impulsos, derivados de um afeto, ou seja, de um ou mais encontros do ser vivo

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

com o mundo. O que irá definir o desejo, a necessidade, a ansiedade, portanto,


será o encontro material.
Se, contudo, cada ser vivo for, em verdade, um conjunto de impulsos, visto
que cada uma de suas partes constituintes, na medida em que interage, gera um
impulso, e o indivíduo não for fundado em sua razão, nem possui uma essência
una que o defina, como podemos daqui pensa-lo, ou melhor, delimitá-lo? Pois se
o indivíduo é uma pluralidade de outros corpos, aquilo que tomamos enquanto
unidade, não seria mera convenção? Por exemplo, digo que o corpo humano
é um indivíduo por nele haver uma pluralidade de corpos e impulsos. Uma
sociedade de humanos, nesse contexto, também não seria um indivíduo, por
também possuir uma pluralidade de corpos e impulsos? Deste modo, o planeta,
deste modo o sistema solar, e deste modo todo o real? Perceba-se que o concei-
to não fornece delimitação para que se diga que isto é o ser, ou aquilo é o ser;
em suma, qualquer coisa pode ser tomada como um indivíduo, na medida em
que se constitua como um conjunto de impulsos e mantenham determinada
proximidade. A metafísica espinosana procura se afastar deste outro impasse
fundando o indivíduo enquanto singularidade.4 Ou seja, o ser seria tomado
enquanto aquilo que é único no universo. Contudo, mesmo no conceito de
singularidade, ainda não há delimitação fixa que possa afirmar que isto é um
indivíduo e aquilo não. Aqui, tudo o que possui singularidade é um indivíduo,
e dentro do espectro do real, tudo pode ser tomado enquanto singularidade. É
certo que, para Espinosa, para que algo se configure como um indivíduo, faz-se
necessário que o conjunto esteja mais ou menos orientado em torno da mesma
finalidade, qual seja, a preservação daquilo que se toma enquanto um corpo
único. Assim, toda a matéria, ou partícula, que interaja, não para conservação
do corpo, mas para o seu desequilíbrio, nele gerando uma reação em prol de si,
não faz parte do indivíduo, pois não tem a tendência imanente de conservá-lo.
Contudo, dentro da perspectiva nietzschiana de impulso, não havendo a ideia
de potência em prol de si, mas de vontade de potência, que almeja triunfar so-
bre as demais partículas, os corpúsculos internos do corpo se confundem com
a matéria teoricamente externa ao corpo, pois em ambas há o mesmo impulso
movido pela necessidade de triunfar. Em Nietzsche, a tarefa da delimitação,
portanto, fica ainda mais delicada, justamente por não aceitar a ideia de uma
essência regente do ser.

4 Marilena Chauí deixa essa questão deveras esclarecida em seu livro Política em Espinosa (2006).

185
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

De modo que, em face da dificuldade de dizer o que não é um indivíduo,


a questão a ser apreciada deve ser compreender o que é o indivíduo humano,
ou o que é o indivíduo felino, ou o indivíduo inseto, etc. sem se procurar
um essência humana, mas buscando identificar o que constitui-se enquanto
experiência humana. Ora, é perceptível, e plenamente acessível aos sentidos,
a diferença, por exemplo, entre um ser humano e um carneiro. Mas onde, e
quando no decorrer da história, há, exatamente, essa diferença entre um e
outro? Quando o ser humano enxerga o carneiro como algo distinto de si?
Pois o que é ser humano, e o que é ser carneiro? Marx dirá na Ideologia que
o que diferencia o ser humano dos demais animais é a sua capacidade para o
trabalho, uma ideia que merece atenção. Diz, Marx, em nota de rodapé: “O
primeiro ato histórico desses indivíduos, pelo qual eles se diferenciam dos
animais, é não o fato de pensar, mas sim o de começar a produzir seus meios
de vida.” (MARX e ENGELS, 2007, p. 87) O trabalho, pois, distinguiria a
espécie humana pelo fato de que com ele se é capaz de modificar o real de
modo a alterar a matéria e, com isso, alterar-se na matéria:

Pode-se distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião


ou pelo que se queira. Mas eles mesmos começam a se distinguir dos
animais tão logo começam a produzir seus meios de vida, passo que é
condicionado por sua organização corporal. Ao produzir seus meios de
vida, os homens produzem, indiretamente, sua própria vida material
(MARX e ENGELS, 2007, p. 87).

O fator material, portanto, caracterizador da espécie humana, seria a pro-


dução dos próprios meios de vida, que alterarão o modo de viver da própria
espécie, impedindo que toda a existência seja mera reprodução. Mas o trabalho
apenas pode individualizar o humano, não tendo alcance para individualizar o
indivíduo humano. Nesse sentido, a família ainda pode ser tida como um in-
divíduo humano, assim também uma comunidade, assim também uma nação.
Há ainda a estranha indagação: se uma outra espécie, por exemplo o símio do
conto de Kafka5, adquire a capacidade de realizar trabalho, ele vem a se inserir
no mundo humano, ou seja, vem a se tornar humano?
A delimitação permanece no campo da convenção, mas, perceba-se, não
trata-se de convencionar sobre o que é o indivíduo, mas sobre o que ele não é.

5 Refiro-me ao conto Um Relatório para uma Academia, presente no livro Um Médico Rural (1999).

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Pois, independentemente da delimitação que se fizer, no real, mesmo que se


admita o conceito de singularidade, tudo o que estiver orientado mais ou menos
para uma mesma finalidade, ainda será singular, e mesmo que se admita o con-
ceito de indivíduo na qualidade de pluralidade de corpos e de impulsos, todo
o mundo vivo pode ser tido como pluralidade de corpos e de impulsos. O indi-
víduo necessariamente existe. Assim, não será indivíduo tudo aquilo que não
corresponder ao conceito formado. O que Kant fez, consolidando o indivíduo
como razão, em verdade foi afastar o que não se afigura dentro da experiência
do indivíduo humano; o professor alemão definiu, então, o que o indivíduo não
é. O conceito de indivíduo é, portanto, negativo; trata-se de estabelecer o que ele
não é. Já o conceito de humano é positivo; pois trata-se de conceber o que ele é.
Enfim retornamos então ao indivíduo adoentado, que não consegue enxergar
de onde vem toda a sua angústia, todo o seu mal viver, já inteiramente preso dentro
do conceito rebuscado desta filosofia ardilosa que torna o ser humano império de
si, sem compreender como ele, império, pode sofrer tanto — pois se é dono de si,
deveria poder afastar o sentimento ruim, mas não afasta; seria ele um masoquista?
Ou um iludido? —, ter ainda acumuladas incomensuráveis dúvidas, parecer ainda
com a pessoa pequena da sua infância, inexperiente diante do mundo, com a úni-
ca diferença de que traz consigo certezas grosseiras. Aqui a noção apregoada de
indivíduo fundado na razão, que ensejou a criação do individualismo, distancia os
homens e as mulheres do que eles realmente são e, por acreditarem nesse conceito
mal-acabado, deformado, distanciam-se de si mesmos, e vivem perdidamente na
ilusão que criaram. Como dói, como corrói os corações... Quanta vontade de se
quebrar o espelho com uma pedra, e quanta falta de vontade de enfim confrontar
toda a angústia, todo o abismo... Ele olha para si, olha para a sua mão, percorre o
resto do corpo, e já não se reconhece. Pergunta talvez se algum dia se reconheceu,
numa languidez típica da sua espécie. Olha para os lados e só vê a poeira nos móveis
antigos e o brejo nas paredes; esqueceu que expulsou a todos, e que agora só há o
eco da sua consciência que, numa indefinida sobrevida de contradição, murcha
progressivamente, perdida de tudo, inclusive de si, mesmo que sua arrogância custe
em admitir, restando-lhe apenas os sonhos, as fantasias e as lembranças de outrora,
e convertendo-as, numa última atitude de resistência, para que não definhe abso-
lutamente. Sonha o pobre humano, toma o seu “antídoto”, e vê-se adequado, vê o
mundo justo, coeso, harmônico, moral. Vê-se dono do destino, tem uma casa bem
arrumada, tem um automóvel na garagem, “tem uma roupa limpa”, tem dinheiro
no banco, tem trinta dias de férias, tem o amor, tem a liberdade, tem amigos, tem a

187
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

força, tem a coragem, tem o reconhecimento, tem a satisfação! E então, vê que pode
até esboçar um sorriso, um sorriso bobo, meio sem graça, meio torto, ainda fraco,
tímido, envergonhado, mas ainda sim um sorriso, uma genuína alegria. Quanta
tolice, quantos delírios... Ainda queres olhar para essa figura miserável? Sob um
manto de alucinações, repousa, pois, o indigente e sofrível ser que se diz humano.

Referências bibliográficas

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SPINOZA, Benedictus de. Ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2016.

188
O direito e a teoria da renda fundiária:
o IPTU como instrumento de recuperação
de mais-valias fundiárias no Brasil

Érica Milena Carvalho Guimarães Leôncio6


André Felipe Bandeira Cavalcante7

Introdução
A terra ao longo dos processos de desenvolvimento do capitalismo foi se
concentrando nas mãos de poucos e sua reprodução não se manifesta da mesma
forma que as demais mercadorias. A propriedade privada em conjunto com o
desenvolvimento capitalista da cidade ganha força e acaba por dominar as rela-
ções sociais fundadas num sistema de desigualdade social.
Marx e Engels destacam que a burguesia “criou cidades enormes, aumentou
num grau elevado o número da população urbana face à rural”, além disso, os
autores ensinam que esse processo de produção das cidades capitalistas “aglo-
merou a população, centralizou os meios de produção e concentrou a proprie-
dade em poucas mãos” (MARX; ENGELS, 1997, p. 34).
O presente artigo tem como objeto o estudo do IPTU como instrumento
de recuperação de mais-valias fundiárias, previsto na Constituição Federal

6 Advogada, graduada pelo ICF (Teresina-PI), mestranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos


Urbanos e Regionais – PPEUR/UFRN (Natal-RN).
7 Bacharel em Direito pela UFRN (Natal-RN), mestrando no Programa de Pós-Graduação em Estudos
Urbanos e Regionais – PPEUR/UFRN (Natal-RN).

189
de 1988, Código Tributário Nacional, no Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257
de 2001) e legislações municipais. Entendendo-o não apenas como um
tributo em sua função fiscal, mas como uma ferramenta de auxílio à política
urbana, capaz de recuperar, em benefício da coletividade, os benefícios
auferidos pelos proprietários privados com a valorização de seus imóveis em
razão de ações do poder público, como obras de infraestrutura e alocação
de serviços para população.
No entanto, os municípios brasileiros têm apresentado dificuldades na efe-
tivação de tributos como o IPTU. Além disso, observa-se também que não há
uma clara compreensão da relevância dos instrumentos de política urbana pelos
cidadãos, tampouco uma cobrança para que sejam efetivados, sendo relevante
demonstrar como o IPTU pode auxiliar à política urbana, tanto com a sua ar-
recadação em si, como através da sua função extrafiscal.
A noção de recuperação de mais-valias fundiárias utilizada na nossa pesqui-
sa é a de mobilizar uma parte dos incrementos de valor da terra que tenham
sido decorrentes de ações alheias à dos proprietários de terras como: investi-
mentos públicos em infraestrutura, alterações administrativas nas normas ou
regulamentações de usos do solo (SMOLKA, 2014, p.14).
No que diz respeito à retenção da terra urbana, principalmente, aqueles
servidos por infraestrutura, leva parte da população a ocupar áreas inadequa-
das para moradia ou regiões de proteção ambiental ou terrenos ambiental-
mente frágeis. Surge, então, um processo de exclusão da população mais pobre
do acesso ao solo urbanizado. Dessa forma, existe um custo pela manutenção
de infraestrutura paga pela coletividade, mas que devido à capacidade con-
tributiva acaba comprometendo boa parte da renda das classes mais pobres e
exploradas (MARICATO, 2000).
Diante disso, questiona-se: em que medida a arrecadação do IPTU
possibilita (ou não) a recuperação de mais-valias fundiárias em prol da
coletividade? E partindo dessa problematização tem-se por objetivo geral
verificar se o IPTU tem capacidade de recuperar mais-valias fundiárias em
prol da coletividade
Para se chegar ao objetivo proposto, buscou-se a revisão sistemática de lite-
ratura através do uso de referencial teórico, bem como de teses e dissertações
recentes que analisam o IPTU e o conceito de recuperação de mais-valias fun-
diárias. Adotamos o método materialista histórico com base em autores como
Marx, Gonzalez, Topalov e Harvey para compreender a contradição entre a

190
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

valorização coletiva do solo da cidade e sua apropriação privatista. Bem como,


utilizaremos pesquisas mais recentes sobre a recuperação de mais-valias e o
IPTU de autores como Smolka, Furtado e De Cesare.

1. Propriedade de terra no Brasil e a teoria da


renda fundiária
Analisando, historicamente, o processo de urbanização no Brasil, percebe-se
que este processo é pautado por um desenvolvimento capitalista que estruturou
o território brasileiro através da apropriação de terras voltadas para acumulação
extensiva descrita por Brandão (2010), caracterizada pela alta concentração de
renda, riqueza e terras por uma elite privilegiada e por uma classe trabalhadora
sem acesso à propriedade, cidadania e direitos sociais, políticos e civis.
Partindo dessa noção, entende-se que a tanto a concentração fundiária
como a especulação e, consequente, valorização imobiliária estão na base
da expansão desordenada das cidades brasileiras, como demonstrado por
Gottdiener (1993), onde frequentemente se vislumbra processos de retenção
de terras orientados pelo mercado imobiliário ao lado do surgimento de
periferias distantes, onde se localizam as classes trabalhadoras, que, através
de processos de espoliação urbana, segundo retrata Kowarick (1993), são ex-
pulsas dos centros das cidades em direção as regiões mais afastadas, sem in-
fraestrutura e serviços públicos básicos, enquanto que um pequeno número
de proprietários é beneficiado pela valorização de terras mais próximas dos
centros urbanos, aonde a infraestrutura e os serviços chegam antes mesmo
da ocupação dessas áreas.

1.1. A Lei de Terras e a propriedade fundiária no Brasil


Brandão ensina que no Brasil o atraso estrutural constituiu-se através
de uma divisão de classes, onde por cima encontravam-se “classes funda-
das e arraigadas em formas mercantis, patrimonialistas, financeirizadas,
usurárias e rentistas, descompromissadas com o povo e a nação”, enquanto
que por baixo estavam “classes destituídas de direitos e de propriedade”,
assim, a história brasileira pode ser sintetizada “em movimentos em que
todas as heterogeneidades estruturais e as diversidades produtiva, urbana,

191
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

social e ambiental estiveram subordinadas à lógica econômica da valoriza-


ção fácil e rápida, isto é, de natureza imediatista, rentista e patrimonialis-
ta” (BRANDÃO, 2010, p. 48 – 49).
Os estudos acerca da realidade da questão fundiária são recentes e passaram
por longos períodos de submissão colonial. O primeiro grande debate de ideias
e teses que passaram a interpretar de forma diferente as origens e características
da posse, da propriedade e uso da terra no Brasil somente acontece na década
de 1960 (STÉDILE, 2012, p.18).
Vale destacar que em relação à propriedade da terra, a forma adotada pelos
colonizadores foi o monopólio da propriedade de todo território pela Monar-
quia e, dessa forma, a propriedade da terra não era capitalista. E como forma
de implantar e incentivar o modelo agroexportador a Coroa entrega grandes
extensões de terras aos capitalistas-colonizadores com base na ‘concessão de
uso’ com direito à herança. O marco jurídico para o surgimento e legitimação
da propriedade de terras no Brasil tem início na Lei n° 601/1850. Assim,

A lei proporciona fundamento jurídico à transformação da terra – que


é um bem da natureza e, portanto, não tem valor, do ponto de vista da
economia política – em mercadoria, em objeto de negócio, passando,
portanto, a partir de então, a ter preço. A lei normatizou, então, a
propriedade privada da terra [...] ela regulamentou e consolidou o
modelo da grande propriedade rural, que á a base legal, até os dias
atuais, para a estrutura injusta da propriedade de terras no Brasil
(STÉDILE, 2012, p.24-25).

Esse processo tem rebatimentos e influência no processo de concentração da


propriedade da terra até hoje, inclusive no processo de urbanização. O resgate
histórico mostra que vigora no país uma sociedade dividida em classes, de um
lado estando uma elite formada por uma aristocracia herdeira de latifúndios e
que tem na renda da terra, voltada para a especulação imobiliária e valorização
fundiária, uma das suas principais fontes de acumulação de riqueza e, na outra
ponta, uma massa trabalhadora a qual desde o início da urbanização das cida-
des foi negada a posse e a propriedade da terra.
Neste sentido, o poder público – que deveria atuar para diminuir as desi-
gualdades sociais e regulamentar a ocupação territorial – atua como garanti-
dor da segurança dos proprietários fundiários que se apropriam continuamente
dos territórios urbanos e regionais não adensados, ocupando descontinuamente

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

propriedades privadas que se valorizam em razão dos ganhos de retenção espe-


culativa da terra (BRANDÃO, p. 2010, p. 63 -64).
No interior das grandes cidades, esse processo de concentração fundiária
não foi diferente, sendo diretamente influenciado pelo capitalismo então vigen-
te no país. Ao retratar a periferia – que surge no cenário urbano brasileiro com
a intensificação da industrialização – Kowarick (1993, p. 35) caracteriza como
“aglomerados distantes dos centros, clandestinos ou não, carentes de infraestru-
tura, onde passa a residir crescente quantidade de mão-de-obra necessária para
fazer girar a máquina econômica”.
Diante do crescimento metropolitano explosivo, o autor destaca que “o poder
público só se muniu tardiamente de instrumentos legais para tentar dar um míni-
mo de ordenação ao uso do solo”. Ademais, percebe-se que o governo se restringiu
“a seguir os núcleos de ocupação criados pelo setor privado, e os investimentos
públicos vieram colocar-se a serviço da dinâmica de valorização-especulação do
sistema imobiliário-construtor” (KOWARICK, 1993, p. 35).
Assim, quando o Estado sai da sua condição de passividade, ele dificilmente
atua como um agente regulador do uso do solo urbano em benefício da comu-
nidade mais necessitada, mas sim em prol dos agentes do mercado imobiliário,
facilitando a valorização das áreas requeridas por este mercado.
Disso resulta um cenário urbano caótico, formado por um processo desorde-
nado de expansão urbana, onde o setor imobiliário – responsável pela ocupação
espacial – decide como bem quer quais áreas serão ocupadas e quais serão reti-
das em prol da especulação, ou seja, imensas areais mais próximas aos núcleos
centrais foram “guardadas” a espera de valorização, “enquanto zonas mais lon-
gínquas, sem qualquer infraestrutura eram abertas para a aquisição das classes
pobres”, sendo nítido que a ocupação do solo não seguiu nenhum critério de
planejamento governamental, sendo pautada na retenção especulativa de terre-
nos nas grandes cidades brasileiras (KOWARICK, 1993, p. 36).

1.2. Considerações sobre a Teoria da Renda da Terra e as


Mais-Valias Fundiárias
Ao analisar a teoria da renda da terra de Marx, Harvey entende que “o
capital pode ser encarado como o criador da propriedade da terra moderna,
da renda fundiária”. Assim, segundo o pensamento marxista, “a propriedade

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privada da terra, como o capital e a usura do comerciante, é tanto um pré-


requisito como um produto do modo de produção capitalista” (2013, p. 502).
Quanto à propriedade privada, “a posse da propriedade privada na terra
confere poder exclusivo a pessoas privadas sobre algumas porções do globo”,
para tanto, “a propriedade privada na terra, na prática em geral registrada me-
diante levantamento cadastral e mapeamento, estabelece claramente a porção
da superfície da terra sobre a qual indivíduos privados têm poderes monopolis-
tas exclusivos”. Nessa análise, o autor considera que aqueles que estão melhores
localizados – no sentido de terem custos menores com transporte – e podem ter
um “excedente de lucro” (HARVEY, 2013, p. 437-438).
Mais adiante, aprofundando-se na compreensão da teoria da renda fundiá-
ria de Marx, Harvey entende que ela “resolve o problema de como a terra, que
não é um produto do trabalho humano, pode ter um preço e ser trocada como
uma mercadoria.”, assim, “a renda fundiária, capitalizada como o juro sobre
algum capital imaginário, constitui o valor da terra” (2013, p. 471). Já o lucro
obtido pelo proprietário com a valorização dessa propriedade através de ações
alheias a ele – como obras e melhorias urbanas realizadas pelo Estado – vem a
ser um “mais-valor” agregado a este terreno ou imóvel.
Assim, a renda fundiária é proveniente, em grande parte, do lucro obtido
pela valorização da terra, ou seja, pela expectativa gerada pelo mercado imo-
biliário de que seu valor seja acrescido pelas melhorias urbanas realizadas pelo
Estado, sem que o proprietário tenha realizado nenhum esforço para tanto, ou,
quando muito, beneficiou o terreno com uma construção (residencial ou comer-
cial), porém, não é esta destinação dada ao bem que corresponde ao seu valor
principal, mas sim, aquele que foi gerado através da mais valia agregada.
Explicando tal fenômeno, Gottdiener (1993, p. 245) traz que

Em resumo, a atividade imobiliária reflete o papel do espaço tanto como


fonte de criação quanto de realização de mais-valia; é relativamente
impérvia aos ciclos de acumulação de capital, exceto no tocante a
mudanças em suas formas de investimento (digamos, da habitação
suburbana para os edifícios de escritório e shopping centers na cidade); e
representa um processo mais fundamental da criação de riqueza do que
entenderam os teóricos da acumulação do capital.

Segundo o autor, “a atividade imobiliária é uma fonte de criação de mais-


-valia e não apenas de realização”, confirmando tal entendimento ao lembrar

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

que “nos primeiros estágios de desenvolvimento suburbano, os especuladores


precederam os empreendedores”, pois estes últimos são os primeiros a penetrar
em áreas rurais, “comprando terra cultivada disponível e mantendo-a para fu-
tura subdivisão uma década antes do desenvolvimento”, constituindo, portanto,
“a vanguarda da expansão metropolitana não-planificada” (GOTTDIENER,
1993, p. 245 – 246).
O conceito de mais-valia fundiária tem sua base na teoria da renda de Marx,
como bem explica Harvey (2013), como sendo o lucro que o proprietário da ter-
ra aufere com a sua valorização em razão de ações alheias que geram uma mais-
-valia ao valor do imóvel. Assim, tem-se uma pequena parcela da população que
enriquece pelo simples fato de possuir terra em locais que se valorizam dentro
da cidade, seja pela ação estatal seja pelo interesse do mercado imobiliário.
Nesse sentido, Kowarick (1993, p. 40) afirma que

a especulação imobiliária não se exprime tão somente pela retenção de


terrenos que se situam entre um centro de suas zonas periféricas. Ela se
apresenta também com imenso vigor dentro das próprias áreas centrais,
quando zonas estagnadas ou decadentes recebem investimentos em
serviços ou infraestruturas básicas. O surgimento de uma rodovia ou vias
expressas, a canalização de um córrego, enfim, uma melhoria urbana de
qualquer tipo, repercute imediatamente no preço dos terrenos.

Essa explicação trazida pelo autor deixa claro como a mais-valia fundiária é
produzida e assimilada pelos proprietários privados. Nos ajuda na compreensão
da especulação mediante a retenção de terras e valorização imobiliária através
do incremento no valor por meio de obras públicas de infraestrutura construí-
das próximas aos seus imóveis, tornando-os mais acessíveis, mais bem localiza-
dos, entre outros atributos que contam para a valorização.
Em razão disso, é preciso compreender a necessidade de o Estado intervir
de forma a recuperar em prol da coletividade essa mais-valia que é produzida,
em regra, com recursos públicos, mas que não retorna em benefícios para a
cidade ou sua população, servindo, principalmente, à especulação imobiliária,
ao valorizar terrenos em locais privilegiados e ao enriquecimento dos agentes
do mercado imobiliário.
Tal recuperação de mais-valias somente é possível com uma ação estatal
direta a partir da utilização dos instrumentos previstos no arcabouço legislativo,
que visa justamente diminuir as desigualdades sociais existentes, minimizando

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

os efeitos da concentração fundiária e da especulação imobiliária que tanto


prejudicam as cidades brasileiras. Desse modo, compreende-se que o Estado
tem um papel primordial, pois a mera expectativa de que certas terras venham
a ser destinadas para determinados usos urbanos no futuro ou para uma reurba-
nização por si só já pode gerar em aumentos significativos no preço das terras,
mesmo antes da realização de qualquer investimento público.
Em razão disso, Smolka entende que “além dos ganhos indevidos acumulados por
uma minoria privilegiada, que poderiam ser utilizados para financiar investimentos
públicos, decisões públicas tendenciosas podem resultar em custos sociais não conta-
bilizados”, sendo comum ver casos no país de decisões públicas questionáveis “relacio-
nadas com a alocação espacial dos investimentos em infraestrutura urbana e servi-
ços e com o uso arbitrário de normas e regulamentos de usos do solo” (2014, p. 5).
Nesse sentido, Gottdiener (1993, p. 246 - 247) entende que “as atividades
dos governos locais, inclusive projetos de planejamento, zoneamento e regu-
lamentação do código de edificações, se tornam todas altamente políticas em
favor de interesses imobiliários”, além disso, o autor acrescenta que “líderes polí-
ticos locais usam muitas vezes o cargo público de forma corrupta, a fim de tirar
vantagens pessoais e para o partido de sua capacidade de regulamentar o uso da
terá nas regiões que estão crescendo rapidamente”.
Ademais, “o custo do investimento para a provisão de serviços é muito me-
nor do que o incremento do valor da terra daí resultante” (SMOLKA, 2014, p.
7), ou seja, o valor que o Estado investe em infraestrutura e serviços urbanos
é bem menor do que a valorização dos imóveis beneficiados pela ação estatal.
Portanto, é nítido o lucro obtido pelos proprietários de terras urbanas sem
que tenham promovido qualquer investimento, sendo fruto exclusivamente de
ações externas (em grande maioria promovidas pelo governo), de onde estes
proprietários não implementaram nenhum esforço, sendo este processo deno-
minado pela doutrina de produção de mais-valia fundiária.

2. Instrumentos de recuperação de mais-valias fundiárias

2.1. Recuperação de Mais-Valias Fundiárias


A urbanização brasileira é marcada por uma grande concentração fundiária
pertencente a uma seleta classe de proprietários que ao longo do tempo enri-

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

quecem em razão de uma urbanização desordenada, formando cidades cada


vez mais segregadas, tendo na ação governamental o impulso necessário para a
valorização das áreas retidas pela especulação.
Segundo o estudo de Smolka (2014, p. 2) há “uma forte pressão pela oferta
de terras dotadas de serviços, o que resulta em incrementos significativos nos
valores das terras, os quais são distribuídos de forma desigual entre os proprie-
tários e outros agentes envolvidos”, sendo clara a necessidade do poder público
de recuperar as mais-valias fundiárias produzidas por ações alheias aos investi-
mentos dos proprietários.
Diante disso, o autor afirma que:

A noção da recuperação de mais valias fundiárias é a de mobilizar, em


benefício da comunidade, uma parte ou a totalidade dos incrementos
de valor da terra (benefícios indevidos ou mais-valias fundiárias)
que tenham sido decorrentes de ações alheias à dos proprietários
de terras, tais como investimentos públicos em infraestrutura ou
alterações administrativas nas noras e regulamentações de usos do
solo (SMOLKA, 2014, p. 2).

Para ele, apesar de ter crescido de forma geral o interesse das gestões locais
pelos instrumentos de recuperação de mais-valias fundiárias, a efetiva imple-
mentação continua sendo o desafio principal. Segundo as pesquisas realizadas
pelo Lincoln Institute of Land Policy, ainda é vista como “uma ferramenta para
promover a equidade nas cidades, mais que uma forma de avançar na autono-
mia fiscal municipal e no desenvolvimento urbano em geral” (2014, p. 60).
Para que a recuperação de mais-valias fundiárias ocorra é necessária uma
conversão desses “incrementos do valor da terra” produzidos por ações estatais
em receitas públicas “através da cobrança de impostos, taxas, contribuição de
melhoria e outros meios fiscais, ou mediante a provisão de melhorias locais de
forma a beneficiar a comunidade” (SMOLKA, 2014, p. 9).
No Brasil, o Estatuto da Cidade – Lei Federal 10.257 de 2001 – incor-
pora vários princípios relevantes à recuperação de mais-valias fundiárias,
princípios estes que foram estabelecidos na Constituição Federal de 1988
e regulamentados pela legislação federal, que estabeleceu instrumentos de
efetivação da política urbana, de forma a possibilitar a recuperação de mais-
-valias em prol das comunidades.

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

No entanto, as pesquisas mais recentes demonstram a dificuldade de im-


plementação desses instrumentos pelas gestões municipais, ainda sendo baixo
o interesse pela recuperação de mais-valias pelos gestores, bem como o desco-
nhecimento da população dessas ferramentas que estão à disposição da admi-
nistração pública.

2.2. A recuperação de mais-valias fundiárias no


ordenamento jurídico brasileiro
A propriedade imobiliária urbana, vista tradicionalmente como um insti-
tuto natural, perpétuo e absoluto, passa a ser percebida dentro do Direito Ur-
banístico. Assim, segundo Débora Sotto (2015, p. 98), “o valor econômico de
um imóvel urbano não é determinado apenas pelos traços ínsitos do bem em si
mesmo considerado, mas também e principalmente por características decor-
rentes da sua inserção na cidade”, podendo repercutir direta ou indiretamente
no valor da propriedade imobiliária urbana.
A inclusão no texto constitucional de um capítulo específico para a política
urbana, com instrumentos voltados à garantia da função social da cidade e da
propriedade urbana, no âmbito de cada município, partiu da luta de um movi-
mento multisetorial e nacional pela reforma urbana iniciado nos anos de 1960
(ROLNIK, 2002, p. 21).
A reforma urbana teria como principal objetivo a instituição de um novo
padrão de política pública orientado, entre outros princípios, pela necessi-
dade de uma gestão democrática das cidades, o fortalecimento da regulação
do uso do solo urbano e focalização de investimentos em política urbana
que favoreça as necessidades coletivas de consumo das camadas populares
(RIBEIRO, 2003, p. 14)
Nesse contexto, o art. 182, §2º da CF vincula a propriedade urbana à sua
função social de ordenação da cidade. A literatura explica que conforme as
normas dos artigos 182 e 183,

A propriedade urbana é formada e condicionada pelo direito urbanístico


a fim de cumprir sua função social específica: realizar as chamadas
funções urbanísticas de propiciar habitação (moradia), condições
adequadas de trabalho, recreação e circulação humana; realizar em
suma, as funções sociais da cidade (SILVA, 2010, p.75).

198
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Para assegurar a adequada utilização dos imóveis e o combate ao uso espe-


culativo do solo urbano através dos planos diretores, a Constituição Federal
de 1988, em seu art. 182, §4º, estabeleceu alguns mecanismos de efetivação
da função social da propriedade urbana. Em que pese ter estabelecido a fun-
ção social da propriedade urbana, bem como mecanismos para sua efetivação a
Constituição Federal de 1988 não estabeleceu parâmetros explícitos para carac-
terizar o seu cumprimento, deixando esta tarefa a cargo do legislador municipal,
através da edição dos planos diretores e de leis específicas.
Além disso, o legislador constitucional previu no artigo acima citado a ne-
cessidade de uma lei federal que determinasse as diretrizes gerais pertinentes à
matéria, somente vindo a ter concretude com o advento do Estatuto da Cidade
(Lei nº 10.257 de 2001) que estabelece regras gerais e determina que os prazos e
condições para implementação estejam previstos em legislação específica, apli-
cando-se em áreas previamente determinadas no plano diretor (CARVALHO
FILHO, 2009, p. 71).
Os instrumentos previstos na CF/1988 e no Estatuto da Cidade/2001, con-
forme afirma a literatura, possuem como objetivo “induzir a ocupação de áreas
já dotadas de infraestrutura e equipamentos, mais aptas para urbanizar ou po-
voar”, o que pode contribui para evitar a expansão horizontal da cidade para
áreas sem infraestrutura ou ambientalmente frágeis, bem como, fazendo o cor-
reto uso de terrenos vazios dentro da malha urbana, que já são beneficiados
pelos investimentos públicos, não servindo apenas à especulação imobiliária
(ROLNIK, 2002, p.63).
Com o objetivo de efetivar a captura de mais-valias fundiárias a legislação
urbanística traz mecanismos direcionados para esse fim. Pinheiro defende que
a diversidade de instrumentos se faz necessária para que os municípios possam
viabilizar “a cobrança de contrapartidas e impostos daqueles que se apropriam
de excedentes gerados pelo poder público e daqueles que subutilizam áreas con-
sideradas estratégicas da cidade”. Para o autor, esses instrumentos “devem ser
utilizados com junto ao planejamento urbano para minimizar os impactos nega-
tivos da produção capitalista no espaço urbano” (2016, p. 53).
Furtado acrescenta que em “praticamente todos os instrumentos está
presente a possibilidade de geração de impactos diferenciados sobre o valor dos
terrenos afetados em relação ao conjunto dos terrenos urbanos”. Ademais, além
dos instrumentos de recuperação de mais-valias fundiárias tradicionais, “como
a outorga onerosa e a própria contribuição de melhoria”, existem também

199
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

outras possibilidades em instrumentos mais genéricos “incluídos ou não como


instrumentos de política urbana no Estatuto da Cidade, como respectivamente
as Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis) e o Imposto Predial e Territorial
Urbano (IPTU)” (2007, p 248).
Porém, o que se percebe através das pesquisas mais recentes com foco nas
experiências brasileiras é que existem desafios na efetivação desses instrumentos
pelas gestões municipais. Teremos como foco de análise, neste trabalho, o IPTU
enquanto instrumento que apresenta características que possibilitam uma rela-
ção entre a questão fiscal e a questão urbana, principalmente, relacionada na
regulação do uso e ocupação do solo urbano por parte do Poder Público.

3. O IPTU como instrumento de recuperação de


mais-valias fundiárias

3.1. O IPTU no ordenamento jurídico brasileiro


Em relação ao poder de tributar dos municípios brasileiros, desde a Consti-
tuição de 1934 que os municípios alcançaram tal possibilidade com a criação
do imposto predial e do imposto territorial (DE CESARE, 2015, p. 15). Porém,
somente com promulgação da Constituição de 1988 os municípios passaram
a ter autonomia, sendo equiparados aos demais entes federativos – União, Es-
tados e Distrito Federal – no entanto, no que se refere às rendas tributárias, a
União ainda fica com a maior parte das receitas, sendo parte delas, em seguida,
distribuída para Estados e Municípios, conforme dispõe os artigos 157 a 162 da
CF/88 (BRASIL, 1988).
Segundo Fernandes (2016, p. 143), os municípios, via de regra, somam
grandes prejuízos em razão da baixa arrecadação de impostos como IPTU e
o ITBI/ITIV e da Contribuição de Melhoria, bem como da dificuldade em
gerir os instrumentos previstos nos Planos “que poderiam ajudar a prevenir
e minimizar os prejuízos financeiros e decorrentes de um mau planejamento
e gestão dos Municípios”.
O IPTU está regulamentado no CTN em seu capítulo que trata dos
impostos sobre o patrimônio e a renda. O qual inicia com o art. 32, que
estabelece que esse imposto é de competência dos Municípios, tendo como
fato gerador “a propriedade, o domínio útil ou a posse de bem imóvel por

200
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

natureza ou acessão física, como definido na lei civil, localizado na zona


urbana do Município” (BRASIL, 1966).
Quanto à base de cálculo, o art. 33 do CTN traz “o valor venal do imóvel”
(BRASIL, 1966). Machado o conceitua como “aquele que o bem alcançaria se
fosse posto à venda, em condições normais” (2013, p. 404). Ademais, no que se
refere ao valor venal do imóvel como base de cálculo do IPTU, Barreto afirma
que “não é lícito ao legislador municipal adotar qualquer outra”, assim não se
pode eleger qualquer outro valor seja ele, histórico, locativo, especulativo, justo
ou de seguro (2009, p. 206).
Assim, para se fixar o valor venal do imóvel, Barreto (2009, p. 209) as-
severa que deve ser feita uma avaliação de cada imóvel, “não sendo possível,
dessa forma, estabelecer, previamente, em lei, o quantum do imposto. A
determinação numérica do valor venal só poderá ser realizada a posterio-
ri”. Diante dessa constatação, o autor entende que a administração pública
pode optar por uma dessas formas:

a) proceder a avaliações individuais, inteiramente a cargo dos agentes


tributadores;
b) empregar o sistema de avaliação em massa, isto é, proceder a avalia-
ções com lastro em regras e métodos predeterminados, mediante o em-
prego de pessoal especializado e distribuído nas várias fases do processo
(BARRETO, 2009, p. 209).

Já em relação aos contribuintes do IPTU, o art. 34 da lei tributária na-


cional determina que serão assim considerados “o proprietário do imóvel, o
titular do seu domínio útil, ou o seu possuidor a qualquer título” (BRASIL,
1966). Ou seja, tem o dever de pagar IPTU aquele que seja proprietário ou
possuidor do bem imóvel, ressalvando-se que o locatário não tem obrigação
tributária perante o fisco.
Por fim, no que tange às alíquotas do IPTU, Machado afirma que nem a
CF/1988 e nem o CTN impõem qualquer limitação à fixação de alíquotas pelos
Municípios (2013, p. 401). Sobre essa não imposição constitucional de alíquotas,
Barreto defende que se fundamenta “na diversidade das características regionais,
a exigir tratamento consentâneo com as peculiaridades socioeconômicas das mi-
lhares de comunas brasileiras”, porém o autor lembra que o princípio da vedação
do confisco deve ser considerado para efeito de estipulação desse percentual, de
modo a evitar que o imposto venha a ser confiscatório (2009, p. 213).

201
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

3.2. O IPTU enquanto instrumento de recuperação de


mais-valias fundiárias
Além da finalidade fiscal – arrecadar recursos financeiros para custear as
despesas públicas – o IPTU se destaca da maioria dos outros tributos em razão
da sua extrafiscalidade, pois o imposto está diretamente ligado à promoção do
ordenamento territorial e do desenvolvimento urbano, sendo utilizado, segundo
a literatura, para “evitar a ociosidade da terra urbanizada, recuperar as mais
valias produzidas por investimentos públicos, mitigar a informalidade, legitimar
a posse quando viável e universalizar a provisão de recursos públicos” (DE CE-
SARE, 2015, p. 18).
Assim, ao se fazer uso efetivo do IPTU, o custo da retenção da terra ocio-
sa aumenta, reduzindo o retorno econômico da especulação imobiliária e,
consequentemente, liberando terra para ser devidamente ocupada. Ao clas-
sificar o IPTU, a doutrina tributarista entende que se trata de um imposto
patrimonial, vez que incide sobre a riqueza, sendo embasado pelo princípio
da capacidade contributiva objetiva, tendo o valor venal do imóvel como
presunção de riqueza. Entretanto, de acordo com o princípio do benefício, o
IPTU pode ser graduado conforme os benefícios urbanos - serviços públicos
e infraestrutura - providos pelo Município.
Além disso, o imposto atua também na promoção da cidadania, “na medida
em que alerta para a responsabilidade dos cidadãos com o financiamento dos
gastos públicos”, sendo apelidado de “Condomínio da Cidade” no gibi "Jacinto
BenéFício e o IPTU", publicado pelo Ministério das Cidades, Lincoln Institute of
Land Policy e Caixa Econômica Federal (DE CESARE, 2015, p. 19).
A função extrafiscal do IPTU se dá em razão deste imposto se caracte-
rizar pela busca da justiça tributária, “uma vez que é tido como um instru-
mento de intervenção econômica e social”, ou seja, o IPTU deve incidir de
modo a reduzir as desigualdades socioespaciais e a especulação imobiliária,
além disso, pode funcionar também como um instrumento jurídico de orde-
nação do espaço frente às questões da alta demanda e pouca oferta de terra
na cidade (ARAGÃO, 2016, 35).
Assim, em que pese ser um imposto e ter como função primordial gerar re-
ceita para os cofres públicos, a literatura específica e experiências em algumas
cidades, principalmente latino-americanas, vêm demonstrando que o IPTU

202
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

tem um grande potencial para ser utilizado como instrumento de recuperação


de mais-valias fundiárias pelos Municípios.
Gaio (2012, p. 37) assevera que, “embora o imposto predial e territo-
rial urbano (IPTU) não seja concebido com essa finalidade, observa-se que
qualquer imposto sobre a propriedade imobiliária é uma forma de captura
de mais-valias”. Isso pode ser verificado, principalmente, quando se aplica
o IPTU com finalidade extrafiscal através da utilização de alíquotas pro-
gressivas, pois “além de sua incidência ser maior nas áreas mais beneficiadas
pelo Poder Público, a progressividade igualmente possibilita que as popula-
ções de baixa renda paguem menos, se comparado com o sistema tradicional
de arrecadação”. Outro elemento importante defendido pelo autor é que
como no Brasil há uma baixa aplicação da Contribuição de Melhora, resta
ao IPTU o papel de mecanismo mais eficaz de apropriação da valorização
imobiliária pelo Estado.
Entretanto, os municípios brasileiros têm uma arrecadação do IPTU abaixo
do seu potencial, o que pode ser explicado pelo elevado grau de informalidade
na cobrança do imposto, o que dificulta a atualização dos cadastros de imóveis e
limita a base de imóveis tributados pelos municípios. Segundo De Cesare (2016,
p. 72), em geral, a atualização da base cadastral depende do esforço do fisco,
mas também há uma necessidade de se aumentar o compromisso da comunida-
de local, ou seja, dos contribuintes.
Esse tipo de tributação, além de ser baixa provoca uma desigualdade fiscal e,
por conseguinte, gera injustiça social, contribuindo para a concepção pessimis-
ta que, grosso modo, prevalece entre os cidadãos em relação à gestão tributária.
Corroborando com esse posicionamento, Barreto compreende ser aconselhável
que as municipalidades utilizem os Mapas de Valores, pois “facilita e racionaliza
o trabalho, resguarda a necessária uniformidade no comportamento do Fisco,
evita discrepâncias próprias do arbítrio e representa segurança para o Fisco e os
contribuintes” (2009, p. 227).
Portanto, entende-se que a valorização é gerada de forma coletiva, principal-
mente pela implantação de infraestrutura urbana. Assim, deve ser socializada
entre todos os cidadãos, ou seja, voltando para o patrimônio público de forma
a ser utilizada para prover obras e serviços que beneficiem a todos e contribua
para um processo de urbanização com base no princípio de justiça socioespacial.
Para que isso ocorra, as Administrações Públicas devem “deixar de sus-
tentar e incentivar o latifúndio urbano, a especulação imobiliária e os vazios

203
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

urbanos em área de infraestrutura consolidada”. Além disso, precisa ser en-


frentada com rigor a sonegação e a inadimplência de forma que o IPTU possa
efetivamente garantir o Direito à Cidade (FERNANDES, 2016, p. 170). Na
teoria o IPTU nasce como um tributo essencialmente justo, vez que visa a re-
distribuição de riquezas, a preservação do mínimo existencial e a diminuição
da especulação imobiliária. Na prática, as municipalidades devem ser pauta-
das e se pautarem por tais parâmetros jurídicos para que o IPTU cumpra as
suas funções integralmente.

Considerações finais
Atualmente há nas grandes cidades uma forte atuação do Direito Urbanísti-
co sobre a propriedade, com a ordenação da ocupação do espaço urbano a partir
de interesses coletivos e da qualidade de vida dos cidadãos, não se sujeitando à
discricionariedade do proprietário privado (CARDOSO, 2008). Além da fina-
lidade fiscal, o IPTU se difere da maioria dos outros tributos em razão da sua
extrafiscalidade relacionada também diretamente com questões urbanística.
Deste modo, apresenta uma relação direta com o ordenamento territorial e o
desenvolvimento urbano, fazendo-se necessária a compreensão da formação da
propriedade privada e sua relevância na produção e reprodução do espaço capi-
talista, como no caso brasileiro que, apesar de ter uma origem não propriamente
capitalista, devido a forma como se deu a colonização e a ocupação inicial das
terras no país, logo foi modificada pela legislação então vigente, de modo a
expandir-se através de um modelo capitalista que priorizou as camadas mais
abastadas da população, privilegiando os grandes latifúndios de terra e, mais à
frente, uma urbanização das cidades de forma segregada, onde as melhores loca-
lizações foram sendo paulatinamente ocupadas pelas classes de mais alta renda,
enquanto às camadas populares restou ocupar as periferias distantes, sem aces-
so aos serviços públicos e às infraestruturas básicas, bem como, essa ocupação
se deu de forma irregular, pois o Estado somente passou a se preocupar com a
regulamentação dessas áreas recentemente, especialmente com a Constituição
Federal de 1988 e o Estatuto das Cidades em 2001.
A partir daí que se passou a tratar de instrumentos voltados para o uso e
ocupação ordenada do solo urbano, bem como da necessidade de se recuperar
as mais-valias fundiárias existentes nas propriedades privadas.

204
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Ao se analisar a relação jurídica e as potencialidades do IPTU, as literaturas


e pesquisas mais recentes, permitem compreender o imposto também como um
instrumento de controle do uso e ocupação do solo urbano, pois possibilita
evitar os vazios e a subutilização da terra urbana ao utilizar o mecanismo de
recuperação das mais valias produzidas por investimentos públicos. Bem como,
permite mitigar a informalidade, legitimação da posse quando viável e univer-
salizar a provisão de recursos públicos (DE CESARE, 2016).
No entanto, percebe-se que as prefeituras brasileiras, via de regra, reclamam
permanentemente da ausência de recursos próprios, dependendo de transfe-
rências governamentais para levar adiante seus projetos, sem levar ao conhe-
cimento da população a sua capacidade e potencialidade de tributar e gerir
recursos provenientes da própria arrecadação municipal. Diante disso, as teses
mais recentes que abordam essa temática mostram que não há entre a gestão
municipal e os cidadãos um diálogo sobre como os instrumentos de recuperação
de mais-valias fundiárias podem ser usados para beneficiar suas comunidades e,
numa perspectiva mais ampla, garantir o direito à cidade para seus moradores.
Assim, há necessidade de se buscar esse diálogo, bem como aprofundar os
estudos acadêmicos que tragam novas evidências sobre como funcionam con-
cretamente as políticas e os instrumentos de recuperação de mais-valias fundi-
árias, objetivando uma mudança de comportamento e de atitudes dos gestores
municipais, dos proprietários e da comunidade em geral.

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208
Sobre o método:
Pachukanis como seguidor de Marx

Walber Nogueira da Silva1

Introdução
Pachukanis, para chegar às suas teses acerca do Direito, apresentadas em A
Teoria Geral do Direito e o Marxismo, foi fiel ao método usado por Marx na aná-
lise da economia política, em geral, e da sociedade capitalista, em particular2.
Mas o que seria este método? Em que ele consiste?
Marx, na Introdução de 1857, escrita como introdução aos Grundrisse, mas
publicada também no Brasil junto ao texto de Para a Crítica da Economia Políti-
ca, desenvolve um princípio metodológico que tem como pontos fundamentais
ir do abstrato ao concreto e do simples ao complexo. Dessa forma, para realizar sua
análise da economia política, o pensador alemão parte das determinações mais
simples como o preço, o valor e a mercadoria, para reproduzir uma totalidade
concreta enquanto uma unidade rica de inter-relações e determinações. Em
sentido contrário caminhavam os economistas do século XVII, que começaram
pelas noções concretas e complexas de Nação, Estado e População para chegar
às mais simples e abstratas. A crítica marxiana mostrou que em tal método a
representação plena volatiza-se em determinações abstratas.

1 Advogado, professor de Direito. Graduado em Direito (UFC), especialista em Literatura Aplicada à


Semiótica e Áreas Afins (UECE), especialista em Filosofia Moderna do Direito (ESMP/CE - UECE),
mestre em Filosofia (UECE).
2 Tal “fidelidade” foi chamada por Lukács (2003, p. 64) de “ortodoxia”: “Em matéria de marxismo,
ortodoxia se refere antes e exclusivamente ao método. Ela implica a convicção científica de que, com
o marxismo dialético, foi encontrado o método de investigação correto, que esse método só pode ser
desenvolvido, aperfeiçoado e aprofundado no sentido de seus fundadores (...)”.

209
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Assim, Marx não começa sua pesquisa pensando a economia em geral, mas
por uma análise da mercadoria e do valor (as determinações mais simples). Isto
porque a economia, enquanto esfera de relação entre particulares, somente se
diferencia das outras atividades vitais, com as quais forma uma totalidade orgâ-
nica, com o surgimento da troca.
Na mesma senda, Pachukanis principia sua análise definindo a Teoria Geral
do Direito como sendo o desenvolvimento dos conceitos jurídicos fundamen-
tais, isto é, os mais abstratos. Pertencem a esta categoria conceitos como o de
norma jurídica, relação jurídica e sujeito de direito. Tais conceitos, por sua natu-
reza abstrata, são utilizáveis em qualquer domínio do Direito, bem como sua
significação, lógica e sistemática permanecem ao mesmo domínio, independen-
temente do conteúdo concreto das normas jurídicas, ou seja, eles (os conceitos)
conservam sua significação mesmo que o seu conteúdo material concreto se
modifique de uma maneira ou de outra. Eles são o resultado de um esforço de
elaboração lógica que parte das relações e das normas jurídicas e representam
o produto tardio e superior de uma criação consciente. Mas, tal corpo de con-
ceitos jurídicos abstratos e fundamentais poderia nos dar um conhecimento
científico do direito ou seriam eles apenas meros expedientes técnicos criados
para fins de comodidade? Qual a possibilidade de uma análise das definições
fundamentais da forma jurídica, tal qual existe na economia política uma aná-
lise das definições fundamentais e gerais da forma mercadoria e da forma valor?
Para o jurista russo, a solução destas questões determinará se a Teoria Geral do
Direito pode ser considerada como uma disciplina teórica autônoma.
Ora, Direito é um conceito das (mal) chamadas ciências sociais, portanto,
sujeito a uma história real que se constrói a partir do desenvolvimento das re-
lações humanas. O direito igualmente, em suas determinações gerais, o direito
enquanto forma, não existe apenas no cérebro e nas teorias dos juristas espe-
cializados. Ele possui uma história real, paralela, que não se desenvolve como
um sistema de pensamento, mas como um sistema particular que os homens
realizam não como uma escolha consciente, mas sob pressão das relações de
produção. Assim, a relação jurídica pode ser entendida como resultado do de-
senvolvimento social, não como mero produto de uma elaboração conceitual.
A Teoria Geral do Direito burguesa o vincula aos interesses materiais das
diversas classes sociais, mas não explica a regulamentação jurídica enquanto
tal, ou seja, por que determinado interesse de classe é tutelado justamente pela
forma jurídica e não por outra forma qualquer. Não há dúvida de que a teoria

210
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

marxista não deve apenas examinar o conteúdo concreto dos ordenamentos


jurídicos nas diferentes épocas históricas, mas fornecer também uma explicação
materialista do ordenamento jurídico como forma histórica determinada. Se
renunciarmos à análise dos conceitos jurídicos fundamentais, obteremos ape-
nas uma teoria jurídica explicativa da origem do ordenamento jurídico a partir
das necessidades materiais da sociedade e, consequentemente, do fato de que
as normas jurídicas correspondem aos interesses de tal ou qual classe social.
Mas o próprio ordenamento jurídico permanece sem ser analisado enquanto
forma, apesar da riqueza do conteúdo histórico que introduzimos neste concei-
to. Ao invés de dispormos de uma totalidade de determinações e seus vínculos
internos, somos compelidos a utilizar, mais modestamente e apenas de forma
aproximada, um esboço de análise do fenômeno jurídico. Este esboço é tão
fluido que as fronteiras que delimitam a esfera jurídica das esferas vizinhas são
completamente enevoadas.
Sobre os pontos centrais de seu método, Pachukanis nos dá algumas pistas:
primeiramente, de que é a forma jurídica burguesa a forma mais evoluída do
direito, e é a partir desta que é possível a compreensão das formas jurídicas pré-
-capitalistas, onde o direito está contido e amalgamado a outras formas sociais
(costumes, religião) e o porquê disto (aqui, o método marxiano apresenta-se
claramente: para Marx, é o mais complexo que explica o mais simples, não
o contrário, como quer uma vulgar proposição de cunho positivista); em se-
gundo lugar, ele afirma corresponder a forma jurídica a uma forma particular
de organização da sociedade (o capitalismo), advindo daí sua especificidade;
por último, mostra a necessidade de se examinar os modos como os conteúdos
materiais do direito se exprimem, não sendo suficiente apenas o exame destes
conteúdos em cada época histórica. Portanto, podemos, partindo destas consi-
derações, estabelecer uma conexão entre as formas do direito e o modo de pro-
dução capitalista, no sentido de que só no capitalismo a forma jurídica se torna
verdadeira, precisamente porque é na sociedade burguesa que a forma jurídica
atinge seu mais alto grau de abstração.
Só podemos obter definições claras e exaustivas se basearmos nossa análise
sobre a forma jurídica inteiramente desenvolvida, a qual revela tanto as formas
jurídicas passadas quanto as suas próprias formas embrionárias. É apenas deste
modo que podemos captar o direito, não como um atributo da sociedade huma-
na abstrata, mas como uma categoria histórica que corresponde a um regime
social determinado, edificado sobre a oposição dos interesses privados.

211
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Neste trabalho analisamos inicialmente o método de Marx para, em segui-


da, nos determos na análise de como Pachukanis se utiliza deste método em sua
pesquisa sobre o Direito exposta em Teoria Geral do Direito e Marxismo. Para
nossa análise do método marxiano, nos deteremos na Introdução de 1857.

1. O método de Marx
A discussão do método na obra marxiana 3 é parca. Podemos recordar
dois momentos de sua obra em que Marx trata do tema de modo mais siste-
mático: no §1 da segunda parte da Miséria da Filosofia, quando, na polêmica
contra Proudhon, analisa o método deste e suas relações com a dialética
hegeliana, e na Introdução aos Grundrisse, os manuscritos econômicos de
1857-1858, onde sintetiza as bases de sua análise da sociedade capitalista
que terá seu ponto alto em O Capital 4.
Não é casual que Marx tenha, numa obra tão extensa como a sua, se de-
dicado tão pouco às questões metodológicas ou mesmo não tenha publicado
uma obra especificamente dedicada ao seu método de pesquisa. É que seu
pensamento tinha uma natureza ontológica e não epistemológica. Como diz
Netto (2011, p. 27): “o seu interesse não incidia sobre um abstrato ‘como co-
nhecer’, mas sobre ‘como conhecer um objeto real e determinado’”. Por isso,
para Marx, não se tratava, como em Hegel, de expor uma ciência da lógica,
“importava-lhe a lógica de um objeto determinado - descobrir esta lógica con-
siste em reproduzir idealmente (teoricamente) a estrutura e a dinâmica deste
objeto” (Netto, 2011, p. 27). Como bem formulou Lênin, “se Marx não deixou
uma ‘Lógica’ (com letra maiúscula), deixou a lógica de O Capital, e isso deve-
ria ser utilizado profundamente nessa questão. Em O Capital aplica-se a uma
ciência a lógica, a dialética, a teoria do conhecimento – não são três palavras:
é uma coisa só – do materialismo, que tomou tudo o que há de valioso em
Hegel e fez esse valioso avançar” (Lênin, 2018, p. 327).
Estabelecido em poucas palavras porque não há uma discussão mais siste-
mática em Marx a respeito de seu método, passemos agora à análise do mesmo.

3 Por “obra marxiana” queremos referir a obra de Karl Marx, diferenciando-a da “obra marxista”, a
obra dos pensadores que se reivindicam da tradição inaugurada por Marx.
4 Como já referido, esta Introdução foi publicada também junto ao texto intitulado Para a Crítica da
Economia Política.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Marx principia a discussão sobre seu método na Introdução aos Grundrisse


afirmando que

quando estudamos um dado país do ponto de vista da Economia


Política, começamos por sua população, sua divisão de classes, sua
repartição entre cidade e campo, na orla marítima; os diferentes ramos
da produção, a exportação e a importação, a produção e o consumo
anuais, os preços das mercadorias, etc. Parece que o correto é começar
pelo real e pelo concreto, que são a pressuposição prévia e efetiva; assim,
em Economia, por exemplo, começar-se-ia pela população, que é a base e
o sujeito do ato social de produção como um todo” (Marx, 1974, p. 122).

Mas aquilo que aparentemente parece o correto, se revela depois de uma


observação mais atenta completamente falso porque a população é uma abs-
tração se deixamos de lado em sua análise, por exemplo, as classes que a
compõem. Estas classes são também vazias de sentido se ignoramos os vários
elementos em que repousam (o trabalho assalariado, o capital, etc.). Tais ele-
mentos supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços etc. Por isso, confor-
me Marx (1974, p. 122),

se começássemos pela população, teríamos uma representação caótica


do todo, e através de uma determinação mais precisa, através de uma
análise, chegaríamos a conceitos cada vez mais simples; do concreto
idealizado passaríamos a abstrações cada vez mais tênues até atingirmos
determinações as mais simples.

Temos aqui a exposição de uma faceta do materialismo de Marx. De fato,


ele está a distinguir o que é da ordem da realidade, portanto, do objeto, daqui-
lo que é da ordem do pensamento, portanto, do sujeito no processo de conhe-
cimento. O começo se opera pelo concreto; então, pela análise, os elementos
são abstraídos e, com o avanço da análise, chega-se a conceitos, “determina-
ções as mais simples”.
Este foi o método historicamente seguido pela economia política nascente e,
diga-se, um procedimento necessário naquele momento. No entanto, Marx nos
lembra que ele não é suficiente para reproduzir teoricamente o real, já que “a
representação plena volatiza-se em determinações abstratas”. Então,

213
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

chegados a este ponto [‘as determinações as mais simples’], teríamos


de voltar a fazer a viagem de modo inverso, até dar de novo com a
população, mas desta vez não como uma representação caótica de um
todo, porém com uma rica totalidade5 de determinações e relações
diversas (Marx, 1974, p. 122).

Esta “viagem de volta” é que constitui o “método cientificamente exato”, no


qual “as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto por meio
do pensamento”. Daí Marx (1974, p. 123) caracterizar seu método como um
“elevar-se do abstrato ao concreto, porque é assim que procede o pensamento
“para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo como concreto pensado”.
A abstração é o procedimento do pensamento pelo qual pode-se extrair de
uma totalidade um elemento, isolá-lo e examiná-lo. É, portanto, um recurso do
pensamento, que o próprio Marx entendia ser indispensável para a pesquisa. Na
falta de microscópio ou reagentes químicos na pesquisa econômica, lembrou ele
em O Capital, a abstração deve substituir estes meios. O ponto de partida da
abstração é a coisa dada, o concreto. Como disse Lukács (2012, p. 322):

o tipo e o sentido das abstrações, dos experimentos ideais, são


determinados não a partir de pontos de vista gnosiológicos ou
metodológicos (e menos ainda lógicos), mas a partir da própria coisa, ou
seja, da essência ontológica da matéria tratada.

Como já referimos anteriormente, ao possibilitar a análise, o procedimento


de abstração vai avançando até chegar às determinações as mais simples do

5 Sobre a categoria teórico-ontológica da totalidade, vale a pena dar voz ao longo, mas imprtante
comentário de Netto (2011, p. 56. Grifos no original): “Para Marx, a sociedade burguesa é uma
totalidade concreta. Não é um ‘todo’ constituído por ‘partes’ funcionalmente integradas. Antes,
é uma totalidade concreta inclusiva e macroscópica, de máxima complexidade, constituída por
totalidades de menor complexidade. Nenhuma dessas totalidades é “simples” – o que as distingue é
o seu grau de complexidade (é a partir desta verificação que, para retomar livremente uma expressão
lukacsiana, a realidade da sociedade burguesa pode ser apreendida como um complexo constituído por
complexos). E se há totalidades mais determinantes que outras (...), elas se distinguem pela legalidade
que as rege: as tendências operantes numa totalidade lhe são peculiares e não podem ser transladadas
diretamente a outras totalidades. Se assim fosse, a totalidade concreta que é a sociedade burguesa
seria uma totalidade amorfa – e o seu estudo nos revela que se trata de uma totalidade estruturada
e articulada. Cabe à análise de cada um dos complexos constitutivos das totalidades esclarecer as
tendências que operam especificamente em cada uma delas”.

214
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

objeto de estudo. Mas, o que seriam estas “determinações”? Neste ponto, é es-
clarecedora a resposta dada por José Paulo Netto (2011, p. 45) à questão:

determinações são traços pertinentes aos elementos constitutivos


da realidade. (...) Por isso, o conhecimento concreto do objeto é o
conhecimento das suas múltiplas determinações – tanto mais se
reproduzem as determinações de um objeto, tanto mais o pensamento
reproduz a sua riqueza (concreção) real.

O real é concreto justamente por ser “síntese de múltiplas determinações”6,


característica de toda totalidade. Porém, este concreto não se oferece imediata-
mente ao pensamento e Marx chamou a atenção para tal fato quando afirmou,
no terceiro volume de O Capital, que “toda ciência seria supérflua se a forma de
manifestação [aparência] e a essência das coisas coincidissem imediatamente”.
O pensamento deve reproduzir a realidade concreta e só a já citada “viagem
de modo inverso” é que permite essa reprodução. Isso que é, para Marx, teoria.
Aprofundando a questão passemos novamente a palavra ao professor José Paulo
Netto (2011, pp. 20, 21):

Para Marx, a teoria é uma modalidade peculiar de conhecimento, entre


outras (como, por exemplo, a arte, o conhecimento prático da vida
cotidiana, o conhecimento mágico-religioso). Mas a teoria se distingue
de todas essas modalidades e tem especificidade: o conhecimento
teórico é o conhecimento do objeto – de sua estrutura e dinâmica – tal como
ele é em si mesmo, na sua existência real e efetiva, independentemente
dos desejos, das aspirações e das representações do pesquisador. A
teoria é, para Marx, a reprodução ideal do movimento7 real do objeto pelo
sujeito que pesquisa: pela teoria, o sujeito reproduz em seu pensamento a
estrutura e a dinâmica do objeto que pesquisa. E esta reprodução (que
constitui propriamente o conhecimento teórico) será tanto mais correta
e verdadeira quanto mais fiel o sujeito for ao objeto (grifos no original).

6 “O concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso. Por
isso o concreto aparece no pensamento como o processo da síntese, como resultado, não como ponto
de partida, ainda que seja o ponto de partida efetivo e, portanto, o ponto de partida ainda da intuição
e da representação” (Marx, 1974, p. 122).
7 É necessário chamar a atenção para este termo: movimento. De fato, a teoria não é a mera reprodução
ideal (porque no plano do pensamento, da idéia) do real, mas a reprodução ideal do movimento do
real, justamente porque o real não é estático, mas, dialeticamente, movimento.

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Marx pretende, com sua teoria, ou seja, com a reprodução ideal do movi-
mento do real, chegar ao estabelecimento das “categorias que exprimem suas
[da sociedade burguesa] relações, a compreensão de sua própria articulação”
(Marx, 1974, p. 124). Estas categorias são reflexivas (porque estabelecidas pelo
pensamento), mas são também ontológicas (porque pertencem à ordem do ser)
e históricas (porque transitórias). É lapidar como Marx explica o caráter onto-
lógico das categorias:

(...) é preciso ter sempre em conta, a propósito do curso das categorias


econômicas, que o sujeito, nesse caso, a sociedade burguesa moderna,
está dado tanto na realidade efetiva quanto no cérebro; que as categorias
exprimem portanto formas de modos de ser, determinações de existência”8
(Marx, 1974, p. 127. Itálicos nossos, W.N.S.).

Já o caráter histórico é assim explicado:

(...) até as categorias mais abstratas – precisamente por causa de sua


natureza abstrata –, apesar de sua validade para todas as épocas são,
contudo, na determinidade desta abstração, igualmente produto de
condições históricas, e não possuem plena validez senão para estas condições
e dentro dos limites destas” (Marx, 1974, p. 126. Itálicos nossos, W.N.S.).

Este caráter histórico das categorias leva, como a citação aponta, a que a
validade plena destas categorias só se dá no âmbito de uma sociedade especí-
fica. Assim, as categorias próprias da sociedade burguesa, só têm validade nos
marcos desta sociedade. Além disso, as categorias da sociedade burguesa são
as mais desenvolvidas e as mais diferenciadas e complexas, exatamente por ser
esta sociedade a mais desenvolvida. Neste sentido, para Marx, é o mais desen-
volvido, o mais complexo, que explica o menos desenvolvido, o mais simples, e
não o contrário, como querem os positivistas. Logo, o presente explica o passa-
do. Passemos a palavra a ele:

8 Não à toa Lukács afirmou que “(...) as categorias não são elementos de uma arquitetura hierárquica
e sistemática, mas, ao contrário, são na realidade, ‘formas de ser, determinações de existência’,
elementos estruturais de complexos relativamente totais, reais, dinâmicos, cujas inter-relações
dinâmicas dão lugar a complexos cada vez mais abrangentes, em sentido tanto extensivo quanto
intensivo” (Lukács, 2012, p. 297).

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

a sociedade burguesa é a organização histórica mais desenvolvida, mais


diferenciada da produção. As categorias que exprimem suas relações,
a compreensão de sua própria articulação, permitem penetrar na
articulação e nas relações de produção de todas as formas de sociedades
desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos se acha edificada, e cujos
vestígios, não ultrapassados ainda, leva de arrastão, desenvolvendo tudo
que fora antes apenas indicado que toma assim toda a sua significação
etc. A anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco. O que
nas espécies animais inferiores indica uma forma superior não pode, ao
contrário, ser compreendido senão quando se conhece a forma superior9.
A Economia burguesa fornece a chave da Economia da Antigüidade etc.
Porém, não conforme o método dos economistas que fazem desaparecer
todas as diferenças históricas e vêem a forma burguesa em todas as
formas de sociedade (Marx, 1974, p. 126).

Toda exposição que fizemos até aqui foi no sentido de apontar aspectos ge-
rais do método de Marx. Para tanto, como já afirmamos, nos restringimos à
análise da parte 3 da Introdução de 1857. Passemos agora à análise do método
de Pachukanis.

2. O método de Pachukanis
Pachukanis aplica ao estudo do Direito o método (dialético) que Marx apli-
cou ao estudo da Economia ou, mais precisamente, que Marx aplicou na elabo-
ração de sua teoria social. Assim, ele procura apresentar o Direito como totali-
dade concreta para explicitar suas contradições e toda a sua dinâmica interna.
Inicialmente, o jurista russo pretende demonstrar o caráter histórico da
forma jurídica para, desse modo, apontar tanto as condições em que ela
se desenvolve por completo, quanto as condições de seu desaparecimento.
Neste ponto, Pachukanis rompe radicalmente com as teorias burguesas do

9 Marx utiliza aqui, claramente, uma metáfora que remete à teoria darwiniana da Evolução. Com isso,
não se pense que ele vê o processo histórico numa perspectiva evolucionista linear. Para Marx, não há
um caminho pré-estabelecido a ser seguido pela História. Em outras palavras: não há determinismo
em Marx. A própria sociedade burguesa não estava pré-estabelecida no início da História. Ela é
produto do devir histórico, logo, traz em si as marcas desse processo. Daí sua crítica aos economistas
clássicos, para quem as características da sociedade burguesa já estavam dadas nas formas mais
arcaicas de vida social, o que levou estes economistas a eternizarem as relações capitalistas, vendo-as
como a-históricas e naturais.

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Direito que consideram variáveis historicamente o seu conteúdo, mas imu-


tável sua forma. Diz ele:

O direito, considerado em suas determinações gerais, como forma,


não existe somente na cabeça e nas teorias dos juristas especialistas.
Ele tem, paralelamente, uma história real, que se desenvolve
não como um sistema de ideias, mas como um sistema específico
de relações, no qual as pessoas entram não porque o escolheram
conscientemente, mas porque foram compelidas pelas condições de
produção (Pachukanis, 2017, p. 83).

De fato, Pachukanis busca descobrir a relação social específica que se expri-


me e dá origem à forma jurídica e a identifica como estando na esfera da circu-
lação mercantil, onde relações de troca de equivalentes são estabelecidas entre
os sujeitos-proprietários, ou seja, a relação social que dá origem à forma jurídica
é a estabelecida entre os proprietários de mercadorias no processo de troca10.
Assim, para nascer, a forma jurídica precisa que esteja posta na sociedade a
divisão social do trabalho, onde os trabalhos privados só se tornam trabalho
social mediante a intervenção de um equivalente geral. A forma jurídica nesta
sociedade mercantil se faz necessária porque é preciso que um acordo de vonta-
des equivalentes seja introduzido para que o valor de troca das mercadorias se
realize. Este acordo de vontades é referendado justamente pelo direito.
Temos, então, que a forma jurídica não esteve dada desde sempre. Sua emer-
gência e seu aparecimento, em um estágio mais completo e complexo, como a
conhecemos hoje, ocorreu apenas com o surgimento do capitalismo. Como afir-
mou Pachukanis, “só a sociedade burguesa capitalista cria todas as condições
necessárias para que o momento jurídico alcance plena determinação nas rela-
ções sociais” (Pachukanis, 2017, p. 75). Antes do aparecimento do capitalismo,
o que havia era uma forma jurídica ainda débil e fraca, amalgamada a outras
formas, como a religião ou a vontade do soberano, por exemplo11. E, como aque-
le estágio indiferenciado correspondia a uma sociedade específica, com relações

10 Dada essa aproximação do direito com a mercadoria, Piotr Stucka, jurista que polemizou com
Pachukanis acerca do caráter do direito na nascente sociedade socialista soviética, definiu a posição
deste com relação à teoria geral do direito como uma “tentativa de aproximar a forma do direito da
forma da mercadoria” (Pachukanis, 2017, p. 60), o que só evidencia a fidelidade de Pachukanis ao
método marxiano.
11 O mesmo se deu com a mercadoria: sua forma plena e acabada só se deu na sociedade capitalista.

218
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

econômicas específicas, o atual, autônomo e separado da religião, corresponde


a outras formas de relações sociais.
O Direito, portanto, é a forma jurídica mais evoluída, mais complexa, prenhe
de determinações e totalmente diferente das formas embrionárias anteriores. E,
como afirmara Marx, a forma mais desenvolvida explica a menos desenvolvida.
Segue daí que é o Direito que permite a compreensão das formas embrionárias
(jurídicas) pré-capitalistas:

a análise da forma do direito completamente desenvolvida oferece


uma interpretação tanto das formas que lhe precederam quanto de
sua forma embrionária. Apenas nesse caso conceberemos o direito não
como acessório de uma sociedade humana abstrata, mas como categoria
histórica que corresponde a um ambiente social definido, construído
pela contradição de interesses privados (Pachukanis, 2017, p. 86).

Aqui temos que a forma jurídica é histórica (porque transitória e possui


validade dentro dos limites de certas condições) e ontológica (já tem existência
concreta. Por isso, capturar sua história é possível, por estar ligada à história
das relações mercantis): “A relação jurídica é, para usar um termo de Marx,
uma relação abstrata, unilateral; nessa unilateralidade, ela se revela não como
resultado do trabalho racional da mente de um sujeito, mas como produto do
desenvolvimento da sociedade” (Pachukanis, 2017, p. 85).
Estabelecido que a forma jurídica é histórica e ontológica, que é mais desen-
volvida que suas precedentes (e por isso as explica) e que seu surgimento está
condicionado ao surgimento do capitalismo, resta a Pachukanis encontrar a
categoria fundamental, aquela que deve ser seu ponto de partida na “viagem de
volta”, rumo às determinações mais concretas.
Lembremo-nos que Marx, em sua análise do modo de produção capitalista,
começa pela mercadoria. Como apontou Kashiura Júnior (2011, p. 13):

Esta é a categoria que, na ordem burguesa completamente desenvolvida,


serve de fundamento para tudo mais, e isto não porque surgiu antes
das demais ou porque não é logicamente viável passar às demais sem
passar pela mercadoria, mas porque ocupa um lugar estratégico na
hierarquia interna da economia capitalista. A mercadoria é a forma
social necessária que todo produto do trabalho humano deve tomar no
capitalismo – ela é o ‘átomo’ da economia capitalista. É a partir dela

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

que deve ter início a reprodução da estrutura da economia capitalista: a


partir da mercadoria Marx pode explicar o dinheiro, depois o capital e
daí por diante, reconstruindo a economia como um todo pela síntese de
suas partes, isto é, como totalidade concreta.

O mesmo pode ser dito sobre o sujeito de direito. A categoria que, na análise do
Direito, cumpre este papel de fundamento e, portanto, ponto de partida é o sujeito
de direito. Pachukanis nos explica: “toda relação jurídica é uma relação entre sujei-
tos. O sujeito é o átomo da teoria jurídica, o elemento mais simples e indivisível, que
não pode mais ser descomposto” (Pachukanis, 2017, p. 117). A concepção teórica do
autor de Teoria Geral do Direito e o Marxismo se organiza, portanto, sobre a noção
de sujeito de direito. Essa concepção implica uma posição antinormativista, ou seja,
de recusa da ideia de que a norma gera a relação jurídica. Na verdade, é a relação
jurídica que permite a conexão dos sujeitos privados através dos contratos.
Há que se destacar que só no modo de produção capitalista os indivíduos se
tornam sujeitos. Isso acontece porque, para que haja uma esfera geral de troca
de mercadorias, é preciso que aqueles que estão trocando os bens sejam proprie-
tários, logo, que sejam livres e iguais (pelo menos formalmente). A liberdade é
fundamental porque a troca implica um ato volitivo, uma expressão do querer
do proprietário. Como diz Marx:

As mercadorias não podem por si mesmas ir ao mercado e se trocar. Devemos,


portanto, voltar a vista para seus guardiões, os possuidores de mercadorias.
As mercadorias são coisas e, conseqüentemente, não opõem resistência ao
homem. Se elas não se submetem a ele de boa vontade, ele pode usar de
violência, em outras palavras, tomá-las. Para que essas coisas se refiram umas
às outras como mercadorias, é necessário que os guardiões se relacionem
entre si como pessoas, cuja vontade reside nessas coisas, de tal modo que
um, somente de acordo com a vontade do outro, portanto cada um apenas
mediante um ato de vontade comum a ambos, se aproprie da mercadoria
alheia enquanto aliena a própria. Eles devem, portanto, reconhecer-se
reciprocamente como proprietários privados. Essa relação jurídica, cuja forma
é o contrato, desenvolvida legalmente ou não, é uma relação de vontade,
em que se reflete a relação econômica. O conteúdo dessa relação jurídica ou
de vontade é dado por meio da relação econômica mesma. As pessoas aqui
só existem, reciprocamente, como representantes de mercadorias e, por isso,
como possuidores de mercadorias (Marx, 1985, pp. 79-80).

220
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

O homem transforma-se em sujeito quando, por meio de sua vontade livre,


estabelece com outros homens uma relação consensual de reciprocidade. Essa
equivalência subjetiva corresponde à equivalência material, à troca de mercadoria
com base na lei do valor. Sem essa condição de subjetividade jurídica não se da-
ria a troca de mercadorias, o que significa dizer que a liberdade, esse atributo da
personalidade, existe para a troca, donde concluímos que o homem só é livre uma
vez inserido na esfera da circulação. Mas se o homem se faz livre na troca, quanto
mais se alarga a esfera da circulação de mercadorias, mais o homem será livre, de
modo tal que a mais completa e absoluta expressão de sua liberdade é a liberdade
de dispor de si mesmo como mercadoria, através da venda no mercado de sua
força de trabalho. Dessa forma, ao trocar a si mesmo como mercadoria, o homem
realiza sua liberdade a ponto de ser, ao mesmo tempo, sujeito e objeto de direito.
Então, o sujeito de direito é, na esfera jurídica, a categoria que serve de funda-
mento, de ponto de partida para explicar o todo. Logo “se, como nota Marx, toda a
riqueza das sociedades capitalistas se manifesta como uma ‘imensa coleção de mer-
cadorias’ e tem a ‘mercadoria individual como sua forma elementar’, isto equivale,
numa perspectiva inversa, a dizer, como faz Pachukanis, que ‘a sociedade, em seu
conjunto, apresenta-se como uma cadeia ininterrupta de relações jurídicas’ e tem o
sujeito de direito como sua forma elementar (Kashiura, 2011, p. 14, 15).

Conclusões
Pachukanis é o mais importante pensador marxista do direito. Apesar de
inacabada, sua obra Teoria geral do direito e marxismo apresenta teses radicais
onde o autor mostra as contradições de toda a tradição jurídica burguesa que
defende a tese da eternização da forma jurídica. De fato, o Direito é visto como
algo que sempre existiu e para sempre existirá12.
Fundamentado no método marxiano, no qual os elementos mais simples
apontam para a compreensão dos mais complexos, o jurista russo funda a crítica
do Direito sobre uma base materialista. Para ele, a teoria marxiana não tinha
apenas que examinar o conteúdo dos vários ordenamentos jurídicos nas dife-

12 Não custa lembrar o exemplo dado por processualistas para tentarem provar que ubi societas, ibi jus:
na hipotética ilha de Robinson Crusoe, o direito surge apenas com a chegada do nativo Sexta-Feira. Os
processualistas burgueses também cometem “robinsonadas”.

221
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

rentes épocas históricas, mas fornecer também uma explicação materialista do


ordenamento jurídico como forma histórica determinada.
A partir deste método, Pachukanis aproxima o Direito da forma merca-
doria e descobre que o Direito tem por finalidade estabelecer e mediar os
vínculos existentes entre dois agentes econômicos que estão em contato no
mercado. Daí em diante, regras e garantias recíprocas são estabelecidas e a
relação jurídica vai se desenvolvendo de acordo com a complexidade do nível
de desenvolvimento das relações econômicas e sociais. Portanto, a relação
jurídica tem um papel fundamental na economia capitalista, qual seja, o de
permitir e estimular a troca mercantil.
Daí decorre que o Direito está intimamente ligado ao capitalismo, já que
só a sociedade burguesa, produtora de mercadorias, criou todas as condições
para que o momento jurídico aparecesse e fosse plenamente determinado nas
relações sociais. Assim como a mercadoria existia em outras sociedades, mas
só alcança seu estágio pronto e acabado no capitalismo, também o direito só se
torna pleno no âmbito da sociedade burguesa. Nas sociedades pré-capitalistas,
é difícil distinguir a forma jurídica de outras formas sociais, além dela estar
fracamente desenvolvida.
Todas essas descobertas de Pachukanis só foram possíveis porque ele aplicou
ao direito, com inteligência e criatividade, o método que Marx utilizou para
entender a sociedade capitalista e mostrou, assim, as íntimas conexões entre o
direito e o capitalismo.

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223
Capítulo III
Constituição e Marxismo
A construção do direito sob a égide da
filosofia política, da construção moral e
filosófica das classes sociais

José Raisson A. Holanda Costa1

Introdução
Dentro do processo de fundação da sociedade almejada no capital, os víncu-
los objetivos de convivência e os processos interpessoais das relações são modi-
ficados pelo enraizamento contínuo do status objetificação das relações. Nisto,
cabe a reflexão teórica sobre como foram erigidas as formas de governo e a
tomada de lugar pelos agentes que controlam a sociedade (dentro da concepção
da figura de Estado), assim como os possíveis estamentos sociais que pressu-
põem o modelamento do estatuto de sociedade a ser seguido.
Além do já exposto, a figura da burocracia estatal que seria, primaria-
mente, um agente modelador do processo de socialização das vivências.
Esta, detentora do monopólio do conhecimento, do verbo social e das liga-
ções afetivas de implementação e fundação dos processos culturais, passa a
dividir tal quadro situacional como a burguesia econômica, que participou
e participa historicamente do polo ativo no processo de formação dos qua-
dros opinativos das classes estamentárias inferiores, satisfazendo o ponto de
ligação entre burocracia e burguesia.
Dito isto, friso a pressuposição de que o processo histórico de materialização
dos sentimentos pessoais de justiça, cultura e educação passou a ser intrinseca-
mente subconsciente ao ser social, o qual o próprio ser humano passa a figurar
como máquina, num processo de mecanização relacional e prático de diminui-

1 Aluno de Direito da Universidade Federal Rural do Semi-Árido.

227
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

ção crescente da subjetivação e dos potenciais sensíveis do ser; com o ser social
– assim como sua classe – perdendo todo seu sentido de totalidade e corroendo
o sentido de dialética social das classes trabalhadora.
Desta forma, o ser social perde toda a capacidade de relativizar não só o sen-
tido social de si, mas dos relacionamentos interpessoais dele mesmo, desestrutu-
rando não só a ética (ligada ao processo deformação do caráter), como a moral
(ligada ao processo de montagem dos costumes sociais); obstruindo qualquer
sentido de práxis social revolucionária. Numa linha de argumentação precípua
da construção moral/filosófica da classe popular trabalhadora, o processo de
ação sobre a construção do “ser social, moral e ético” a partir de uma classe
dominante que determina métodos de ações de uma sociedade, e que modifica
a sociedade continuamente sob o devir das relações sociais construídas e modi-
ficadas historicamente, torna-se pequeno diante do poderio estatal detentor de
todas as formas de poder.
Em Adorno, a cultura das massas e a indústria cultural formam o polo
binário do mecanismo de dominação, sob o processo de semiformação dos
agentes sociais, fomentadas em ações concretas que nunca serão concretiza-
das, em possibilidades de contradições que não se efetivam, e num contexto
de não problematização das ações formativas que compõem o âmbito social.
Assim, não só classes sociais passam a mover a sociedade, mas de todo um
aparato da psicologia de massas que passa por um processo de semiformação
social do sujeito social, que paira sob os mecanismos de dominação no pro-
cesso de produção de ideias e da gênese das condutas, não deliberando sobre
liberdades básicas do cidadão, assim como perdendo o tato sobre como conci-
liar a vivência com a igualdade democrática.
Tendo demonstração de como o Direito, dizendo-se como um braço das
relações políticas e sociais de uma sociedade, tornou-se uma prática de aplica-
bilidade da dominância da vontade do Estado sobre uma sociedade que a aceita,
além de enraizar e naturalizar proposições de vontades advindas e estruturadas
socialmente por pequenos grupos de classes que atuam no processo mercado-
lógico do capital mundial; modificando as relações ao ponto de tornarem-se
negócios. Assim, todas as relações interpessoais e intersociais perdem sua abs-
tração e se materializam sob a determinação de um capital do desejo. O Direito
configura-se dentro deste universo de vontades e princípios que regem e repre-
senta as vontades desta determinada sociedade.

228
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

O ponto comum desta linha de pensamento, de onde parte o ideal de que


o processo de criação de valores e mutabilidade de opiniões, tem crescido
num movimento em que os seres humanos pós-modernos passam a figurar
como máquinas. A crise da modernidade, que vem precedida de mudanças
sociais e intelectuais ocorridas no decorrer do século XX e dentro do século
XXI, formam a sequência de um declínio da filosofia fundada na política e na
ciência social e toma um maior dinamismo fundado nas novas conformações
relacionais, onde parâmetros de sociabilidade entram em choque com novos
horizontes de eventos sociais advindos do processo de desenvolvimento da
sociedade moldada no capital.
Neste novo modelo de sociedade que se remodela constantemente, num
processo de devir de uma classe social como um todo, surge a sociedade que
funciona como um ser vivo retroativo. Dentro disso, os humores, sentimentos,
pressupostos éticos e morais são moldados a partir da classe detentora de poder.
Num processo de esfacelamento das relações socias e desmobilização da classe
trabalhadora em si; em que se mudam os agentes, mas o padrão de movimento
das relações que controlam a sociedade continua inalterável.
Assim, em uma sociedade onde o moderno é tido como sinônimo de um
processo de desenvolvimento liberal da economia, e que se mostra como
reflexo “do que deu certo” deste quadro desenvolvimentista, o projeto mar-
xista passa a ter uma conotação pejorativa que refletiria a imagem de uma
radicalização dos movimentos de esquerda, que entraria em choque com o
processo de desenvolvimento social e com a nova roupagem de desenvolvi-
mento moderno obtida e tomada como a melhor pelas forças que compõem
e modelam o Estado; forças estas, compostas por bens burocráticos e eco-
nômicos materializados.
Seguindo o pensamento de Poulantzas, qualquer que seja o regime político,
as camadas que compõem o sistema burocrático de controle estatal e econômi-
co, tornam-se não só o reflexo de sociedade que eles regulam, mas também o
espelho dos padrões políticos, sociais, culturais, morais e éticos desta sociedade;
dentro de processos culturais, sejam literários ou musicais, em que padrões es-
téticos deixaram delineados uma metamorfose social objetivada, deixando de
fornecer o processo de mimese e a catarse de sentimento social e diminuindo
a noção de representatividade do conteúdo de vida a ser compartilhado social-
mente, já que todas as relações construídas nos percursos de desenvolvimento
dos processos sociais são adjacentes às questões econômicas.

229
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

1. O logocentrismo e a positivação do subjetivo


O pensamento pós-metafísico, onde o domínio do logos torna-se marca do
poder pensante e determinador de verdades absolutas. O logocentrismo, assim,
rompe o paradigma ontológico e resume todas as possibilidades socais a relação
entre linguagem, objeto e metalinguagem. Toda a interioridade se torna objeto
e se projeta como palavra, o verbo, de onde parte o ideal de que o processo de
criação de valores e mutabilidade de opiniões tem se desenvolvido num movi-
mento em que os seres humanos pós-modernos passam a figurar como máqui-
nas sobrepostas num circuito escrito e positivado.
Neste processo de crise da modernidade, que vem precedida de mudanças
sociais e intelectuais ocorridas no século XX e no decorrer do XXI, forma a
sequência de um declínio da filosofia fundada na política e na ciência social e
toma um maior dinamismo fundado nas novas conformações relacionais, onde
parâmetros de sociabilidade entram em choque com novos horizontes de even-
tos sociais advindos do processo de desenvolvimento da sociedade moldada no
capital. Assim, neste novo modelo de sociedade desenvolvida, que cresce e se
remodela constantemente dentro de uma mesma objetividade, que o processo
de devir das classes sociais retroalimenta-se como um ser vivo.
Dentro disso, os humores, sentimentos, pressupostos éticos e morais são
moldados a partir da classe detentora de poder. Num processo de esfacelamento
das relações socias e desmobilização de uma classe trabalhadora que não abre
uma disputa permanente sobre questões de princípio em matéria de Moral ou
de Direito, que objetive um acordo discursivo; numa constância de mudanças
de agentes onde o padrão dos movimentos das relações que controlam a socie-
dade continua inalterável.
O movimento subjetivo deste novo corpo social baseia-se em um ciclo onde
o moderno é tido como sinônimo de um processo de desenvolvimento liberal da
economia, e que se mostra como reflexo “do que deu certo” deste quadro desen-
volvimentista. O projeto marxista passa a ter uma conotação pejorativa que re-
fletiria a imagem de uma radicalização dos movimentos de esquerda, entrando
em choque com o processo de desenvolvimento social e com a nova roupagem
de desenvolvimento moderno obtida e tomada como a melhor pelas forças que
compõem e modelam o Estado, forças estas compostas por bens burocráticos e
econômicos materializados.

230
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Nesta sociedade edificada sobre o símbolo da praticidade e da tecnocracia,


a metafísica e subjetivismo do ser passam por uma nova mobilização e por um
ciclo contínuo de reconstrução aos moldes da sociedade que o compõe, onde
qualquer que seja o regime político, as camadas que compõem o sistema buro-
crático de controle estatal e econômico, tornam-se não só o reflexo de socie-
dade que eles regulam, mas também o espelho dos padrões políticos, sociais,
culturais, morais e éticos desta sociedade.
Assim, os processos culturais, sejam literários ou musicais, não são padrões
estéticos que causariam a mimese e a catarse de sentimento social, originan-
do a noção de representatividade do conteúdo de vida a ser compartilhado
socialmente, que fossem replicados e absolvidos, mas processos de tomada de
consciência do social, já que todas as relações construídas nos percursos de de-
senvolvimento dos processos sociais são adjacentes às questões econômicas. Ha-
bermas abrange a crítica das qualidades linguísticas em “No nível fenomênico,
cada língua se desenvolve apenas socialmente, e o homem só se compreende a
si mesmo ao testar, tentativamente, a compreensibilidade de suas palavras junto
a outras pessoas” (HABERMAS, 2007 p. 67).
Cabe aqui, a relativa crítica ao projeto marxista de emancipação social, mas
em um caminho que se afunila à crítica em relação à cultura do progresso,
numa sociedade regulada pelo poder do Logos, pela racionalidade e pela lingua-
gem, e que afirma como objeto próprio do homem. Este tipo de razão regimen-
tada é essencial para estabelecer uma relação hierárquica de poder.
Assim, esse método de pensar trouxe consigo uma lógica de identidade cen-
trada numa relação de valores, dando a estes o peso e a valoração do que seria
negativo ou positivo. Contrapondo-se a uma Práxis que rompa com a continui-
dade do processo de reificação, caracterizado pela transformação gerada produ-
tivamente pelas relações sociais e pela própria subjetividade humana, sujeitadas
e identificadas cada vez mais ao caráter inanimado, quantitativo e automático
dos objetos ou mercadorias circulantes no mercado.
Neste contexto, O homem unidimensional, é, senão, o homem que vive em
consonância com o sistema capitalista vigente e aceita toda a totalidade do
mesmo; de forma que o tecido social se afunila a somente uma dimensão. Um
sujeito que produz e reproduz os sentidos socias, culturais, econômicos e educa-
cionais de forma automatizada e inconsciente, demonstrando que a dominação
também ocorre a partir da subjetividade. A praticidade só faz parte da reprodu-

231
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

ção do sujeito, mas não do seu processo de interiorização. O automotismo desse


sentido veio a ser construído a partir de um alicerce histórico.

2. Semiformação e reficação
A indústria cultural atua como idealizadora do processo de produção ma-
terial no contexto da reificação como mediação social invertida. Nos mo-
mentos objetivos da subjetivação toda uma classe é observada como um ser
único, com opiniões massificadas. Não há consciência neste processo. Não há
consciência onde não há ser consciente. Assim, a formação social fica anco-
rada no processo de reificação, que domina as liberdades e põe a autonomia
do ser social num processo de adaptação ao modo materialista do mercado.
Num processo em que a cultura se tornou mercadoria, findada numa ótica
mercantilista, como na citação a seguir.

(...) Os sistemas obscuros realizam hoje o que o mito do diabo da


religião oficial realizava na Idade Média: a atribuição arbitrária de
um sentido à realidade exterior. (...) a real emancipação dos homens
não ocorreu ao mesmo tempo que o esclarecimento do espírito (...)
quanto mais a realidade social se afasta da consciência cultivada,
tanto mais esta se via submetida a um processo de reificação. A
cultura converteu-se totalmente numa mercadoria (ADORNO &
HORKHEIMER, 1985, p. 117-118).

Ao afirmar a cultura como mercadoria, Adorno funda a concepção de mo-


delamento estamental da classe dominada pela ordem do trabalho, num pro-
cesso de reprodução e naturalização das condições impostas. Deste modo, o
homem passa a reproduzir valores não só herdados, mas transfigurados histori-
camente pela burguesia; de forma que o homem transpassa valores instrumen-
talizados e reproduz todo seu quadro situacional automaticamente a partir dos
meios culturais de reprodução.

A velha experiência do espectador de cinema que percebe a rua como


um prolongamento do filme que acabou de ver, porque este pretende
reproduzir rigorosamente o mundo da percepção cotidiana, tornou-se a
norma da produção (Idem, ibid., p. 117-118).

232
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Nisto, o sujeito passa a ser apenas o prolongamento do que ele observa nos
meios culturais de representação da realidade e os reproduz automaticamente,
moldado no processo de dominação consistente e gradativo até toda a interio-
ridade do sujeito social seja tomada. Neste conceito de semiformação, o sujeito
que compõe a massa perde seu papel do contraditório e passa a ser massa de
movimentação e de reprodução dos meios.

[...] as tentativas pedagógicas de remediar a situação transformaram-


se em caricaturas. Toda a chamada educação popular – a escolha
dessa expressão demandou muito cuidado – nutriu-se da ilusão de
que a formação, por si mesma e isolada, poderia revogar a exclusão do
proletariado, que sabemos ser uma realidade socialmente constituída”
(ADORNO, 2010, p. 14).

A crítica principal, concerne a uma educação que possibilite a formação


do sujeito social e que lhe dê capacidade crítica em relação ao seu direito à
contradição das condições impostas a si; justificada no fato de que a represen-
tatividade objetiva deixa de existir quando o sujeito social perde a noção do seu
papel no esboço constitutivo da sua classe e da construção da sociedade que
lhe cerca; acatando quaisquer que sejam as imposições aplicadas pelo Estado,
esquecendo e perdendo sua consciência de classe, num primado no indivíduo
reduzido finalizado apenas no fato biológico.
Para Adorno, a cultura não só é formada pelo corpo subjetivo do su-
jeito, mas também é representatividade no processo de produção social.
A formação, para Adorno, é sempre formação cultural, “pois a formação
nada mais é que a cultura tomada pelo lado de sua apropriação subjetiva”
(ADORNO, 2010, p. 9).
Assim, numa democracia que tem como base ideais contrários à eman-
cipação das classes, a decisão única de cada ente social torna-se inútil; de
forma que, este sujeito passa a reproduzir a antidemocracia interpretando
como forma de empoderamento social. A consciência que não foi eman-
cipada esbarra nos pressupostos abarcados pela sociedade de classes, que
legitimou a frente de consciência social constitutivo deste sujeito e na sua
formação como classe política.

Evidentemente não a assim chamada modelagem de pessoas, porque não


temos o direito de modelar pessoas a partir do seu exterior; mas também

233
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

não a mera transmissão de conhecimento, cuja característica de coisa


morta já foi mais do que destacada, mas a produção de uma consciência
verdadeira. Isto seria inclusive da maior importância política; sua
ideia, se é permitido dizer assim, é uma exigência política. Isto é: uma
democracia com dever de não apenas funcionar, mas operar conforme
seu conceito, demanda pessoas emancipadas. Uma democracia efetiva
só pode ser imaginada enquanto uma sociedade de quem é emancipado
(ADORNO, 1995a, p. 141-142,).

3. Establishment, formação ética e constituição do estado


Dentro da crítica marxista da classe dominante e no escopo da ciência po-
lítica, as racionalizações ideológicas – independente da classe – são estados re-
lacionais de interesses. A problemática disto sobre a constituição do Estado e
do seu corpo burocrático-legislativo, concerne no fato de praticamente todo o
poder de mobilização do Estado estar sob o poderio de pequenos nichos onde
transcorrem o poder de forma cíclica ou onde os indivíduos dividem a manu-
tenção deste estado de equilíbrio desigual.
Poulantzas problematizou e analisou o sistema das elites políticas, aplicando
uma ótica marxista e afirmando que: “o funcionamento do Estado capitalista
deve ser explicado a partir dos vínculos objetivos (e não subjetivos, isto é, in-
terpessoais) existentes entre essa instituição política e a estrutura de classes”
(Poulantzas, 1969). Logo, o Estado representa todo quadro situacional de fo-
mentação do modelo de classe, de forma que, o papel do indivíduo nos quadros
de função do Estado determina a sua observância e seu papel estatal de manter
o quadro de homogeneidade social.
No processo de interiorização do sentido de establishment e na manutenção
deste, é que principia o moldar da manutenção dos processos cognitivos que
constroem as opiniões que norteiam a consciência de classes. O próprio poderio
das elites econômicas, sociais e políticas detentoras do poder de formular opini-
ões das massas configura-se

...em que se apresenta, em suas instituições mesmas, como Estado


“de classe” (das classes dominantes, que ele contribui a organizar
politicamente) de uma sociedade institucionalmente estabelecida como
não-dividida-em-classes; em que se apresenta como um Estado da classe

234
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

burguesa, subentendendo que todo o “povo” forma parte dessa classe


(POULANTZAS,1970, p. 240).

Deste universo de economia de mercado, onde liberdades transformam-se


em mercadorias e o controle estatal passa pelas mãos de uma pequena parte
da população que se resume em subtipos de classes interligadas e cíclicas na
manutenção do poder, “os recursos políticos da classe dominante” derivam do
seu poder econômico – ou mais exatamente “da posse dos recursos econômicos”
(SAES, 1994, p. 11). Firmando o poder em frações de classes, criando profissões
que compõem a nova forma de governar e servem de status constitutivos de
representatividade não só de poderio econômico, mas de excelência intelectual.
Esse processo de divisão de classes sociais, agora ultrapassando monopólio
econômico e consagrando-se no intelectual, fecha o clico e concretiza o movi-
mento de alienação social. O novo processo de alienação figura-se num espelho
social, onde as classes sociais correspondem em movimentos repetitivos de uma
esperança e de sucesso pessoal. É nesse contexto que se consagra a desmobi-
lização de classes: a partir do homem unidimensional que passa a agir só para
si e em uma situação politicamente estável, onde reproduz ideias concretizadas
e práticas, não só para a remodelação cíclica do Estado, mas também para a
manutenção deste ciclo social-produtivo

Atualmente, o poder político se afirma através dos seus poderes sobre o


processo mecânico e sobre a organização técnica do aparato. O governo
de sociedades industriais desenvolvidas e em fase de desenvolvimento
só se pode manter e garantir quando mobiliza, organiza e explora com
êxito a produtividade técnica, científica e mecânica à disposição da
civilização industrial (MARCUSE, 1982, p. 25).

Poulantzas também afirma que uma nova subclasse surge com o sentido de
reprodução dos ideais da burguesia. A burocracia servidora que reproduz, num
sentido convectivo, os interesses da classe dominante. “O Estado capitalista
“só pode servir verdadeiramente à classe dominante até o ponto em que seja
relativamente autônomo em relação às várias frações dessa classe, com vista
justamente a tornar-se capaz de organizar a hegemonia do conjunto da classe”
(Poulantzas, 1975, p. 22).
Ao ponto de que se torna quase imperceptível distinguir diferença entre
sociedade civil – montada a partir de classes - e Estado; quando a socie-

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

dade não se identifica mais com o sentido de povo (conjunto de cidadãos


detentores dos mesmos direitos). Nesta triangulação de forças, o Estado
mantém o poder formal sobre a modulação de quaisquer forças. As classes
dominantes agem fora do Estado, usando este como ferramenta de mobili-
zação das suas aspirações pessoais.

Conclusão
Dentro da criticidade dos objetos, a formulação dos ideais de classe é a mes-
ma para a reformulação de um Estado onde a cidadania deixou de ser a melhor
forma de representatividade de um povo e da sua constituição básica. Assim, a
perspectiva do indivíduo, mesmo que ele se sinta representado por um processo
legislativo – também positivado – perde a validade com o passar dos aconteci-
mentos históricos moduladores das sociedades
Atestando assim, o fato de o sujeito ser um participante da base dessa
sociedade de classes individualizadas em processos de poder, o torna prati-
camente objeto de representação da vontade das classes detentoras de poder.
Poder este que não se configura apenas nas estruturas estatais, mas já tomou
forma e força em todas as estruturas socias, educacionais e culturais. Pensan-
do no sujeito como nova forma de empoderamento do capitalismo contempo-
râneo A indústria da cultura
Atualmente nos encontramos num dos auges da nova revolução industrial,
onde os processos culturais são moldados por processos midiáticos e tecnológi-
cos, de um excesso de informação que padronizou o sujeito ao ponto de tornar
suas opiniões ocultas aos processos moldadores da sociedade, fugindo da iden-
tidade do ser social.
Assim, a indústria cultural e midiática que Adorno abre crítica, comple-
menta o sentido do ideal de Poulantzas de representatividade e enraizamento
das foças formuladoras das classes estatais; promovendo o binário que move os
ciclos objetivos e constitucionais da sociedade.
Assim, a necessidade da revolução política e cultural assume um papel cen-
tral na transição do modo de como uma sociedade deve observar e absorver os
seus sentidos e imagens nos sistemas reprodutivos para o processo de emanci-
pação social e do sujeito que irá fomentá-la. A conscientização de classes seria
um elo essencial para a estruturação deum Estado onde o social, o cultural e o

236
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

econômico formam uma tríade de esclarecimento e libertação de pensamento


do sujeito semiformado culturalmente e alienado dentro dos processos produti-
vos e econômicos.

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Roberto Neiva Blundi. Zahar Editores: Rio de Janeiro, 1975.

______. Poder Político e Classes Sociais. São Paulo: Martins Fontes, 1977.

SAES, Décio. “Marxismo e história”. In: Crítica Marxista. 2ª edição. São


Paulo: Brasiliense, n° 01, 1994, pp. 39-59.

238
Constituinte de 1988: a promulgação de uma
Constituição democrática? Uma análise sob o
pensamento de Lênin e Rosa Luxemburgo

Viviane Vaz Castro2


Nadson Nunes Torres3
Giulia Maria Jenelle Cavalcante de Oliveira4

Introdução
“Ser farol e ser alerta,
silêncio e paciência,
quando falta consciência
cabe a ti dizer:- Desperta!”
Pedro Munhoz

Vivenciamos um momento antidemocrático de agudização das desigualda-


des sociais e crescente caráter autoritário do Estado brasileiro. O que temos hoje
no país é uma política reprodutora de desigualdades, realizando-se sob bases de
um Estado, formalmente considerado, constitucional de direito.
Em 2018 a Constituição Federal brasileira faz aniversário de 30 anos.
Ainda muito jovem e reivindicada ao longo desses anos por sujeitos críti-
cos e conservadores, certamente aqueles que estiveram nas lutas da déca-
da de 1980 no Brasil esperavam àquela época que hoje, 30 anos após sua

2 Mestranda em Serviço Social e Direitos Sociais pela Universidade do Estado do Rio Grande do
Norte. Componente do GEF (Grupo de Estudos Feministas).
3 Bacharel em Direito pela UFERSA (Universidade Federal Rural do Semi-Árido).
4 Mestranda em Serviço Social e Direitos Sociais pela Universidade do Estado do Rio Grande do
Norte. Componente do GEDIC (Grupo de Estudos em Direito Crítico e Marxismo na América
Latina pela UFERSA.

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

promulgação, pudéssemos estar avançando em experiências democráticas,


inclusive, em pautas não contempladas na Carta Magna. Na contramão de
avanços democráticos, seguindo a característica do autoritarismo da nos-
sa história, os últimos anos foram marcados por golpe, repressão violenta
(aumento da militarização da polícia e da política), conservadorismo (com
apelo ainda a valores tradicionalistas, como a defesa da família heteropa-
triarcal monogâmica e dos “bons costumes”) e precarização das condições
de vida da classe trabalhadora.
Esse momento histórico que nos é posto atualmente leva-nos a ques-
tionar: o Estado democrático de direito existe de fato? Vivemos em uma
democracia? É possível uma democracia sob bases de um sistema capitalista?
Todas essas perguntas desembocam no objeto deste artigo, qual seja, debater
sobre a concepção de Estado, democracia e Constituição na particularidade
do capitalismo periférico no Brasil.
Nos propomos assim a realizar esse debate, sem, contudo, exaurir esses te-
mas, mas colaborar com a produção acadêmica para a construção de uma visão
crítica, sob o viés marxista, a respeito da nossa Constituinte e como a mesma
está ligada ao que entendemos sobre Estado e democracia.
Para tanto, usaremos de revisão bibliográfica sobre as categorias aqui deba-
tidas, sob análise do método materialista histórico dialético e do pensamento
marxista, com destaque para a contribuição de Lenin e Rosa Luxemburgo.

1. Estado e Democracia sob perspectiva marxista:


como temos e como queremos
São múltiplas as possibilidades de fundamentação e conceituação sobre Es-
tado. Quer dizer, diferentes vertentes teóricas interpretam o Estado a partir de
diferentes propostas metodológicas também. Assim, não é nossa intenção aqui
esgotar a discussão, criar uma verdade absoluta e nem encerrar polêmicas. Ao
contrário, pretendemos debater e apresentar o que compreendemos como Es-
tado a partir de alguns princípios e à luz de reflexões de alguns autores que se
situam na tradição marxista.
Para Engels, a necessidade de existência de um Estado como forma tam-
bém de controle dessas insatisfações prova que as contradições de classes
são inconciliáveis:

240
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

O Estado não é de forma alguma, uma força imposta, do exterior, à


sociedade. Não é tampouco, “a realidade da Ideia moral”, nem “a
imagem e a realidade da Razão” como pretende Hegel. É um produto
da sociedade numa certa fase do seu desenvolvimento. É a confissão de
que essa sociedade se embaraçou numa insolúvel contradição interna, se
dividiu em antagonismos inconciliáveis de que não pode desvencilhar-
se. Mas, para essas classes antagônicas, com interesses econômicos
contrários, não se entredevorassem e não devorassem a sociedade
numa luta estéril, sentiu-se a necessidade de uma força que se colocasse
aparentemente acima da sociedade, com o fim de atenuar o conflito nos
limites da “ordem”. Essa força, que sai da sociedade, ficando, por cima
dela se afastando cada vez mais, é o Estado (ENGELS, 2010, p. 67).

O Estado, assim, apresenta-se como órgão da conciliação das classes. Lênin


afirma que “o exército permanente e a polícia são os instrumentos fundamen-
tais da força do poder estatal” (LÊNIN, 2007). Essa face do Estado, a força,
mostra-se necessária para manter a conciliação do inconciliável, mantendo os
privilégios da classe dominante, em detrimento de uma maioria que precisa
lutar e estar sempre alerta para alcançar e não perder os direitos já tão ardua-
mente conquistados no embate da luta de classes.
É importante deixar claro que Lênin não nega que uma república demo-
crática, ou Estado democrático, seja a melhor forma de governo para o prole-
tariado sob solo capitalista, mas afirma, de modo irônico, que "andaríamos mal
se esquecêssemos que a escravidão assalariada é o quinhão do povo mesmo na
república burguesa mais democrática” (LÊNIN, 2007, p. 37).
O Estado burguês pode, assim, se apresentar de diversas maneiras, mas
como bem nos diz Lênin “todos esses Estados se reduzem, de um modo ou de
outro, mas obrigatoriamente, afinal de contas, à ditadura da burguesia” (LE-
NIN, 2007). Há desse modo, a permanência de uma sociedade dividida em
classes e por isso a necessidade da existência de um Estado, e não de um Estado
qualquer, mas um Estado que promova a falsa conciliação de classes (LÊNIN,
2007). Assim, para Lênin, faz-se necessário eliminar esse Estado burguês, subs-
tituindo-o por uma organização do proletariado como “a classe dominante”.
Não há apenas consensos entre autores que se denominam marxistas
quanto ao Estado. Entretanto, alguns pontos merecem destaque. Dentre
eles, vamos nos ater a elementos que Mandel caracteriza como principais
funções do Estado, a saber:

241
1) criar as condições gerais de produção que não podem ser assegura-
das pelas atividades privadas dos membros da classe dominante;
2) reprimir qualquer ameaça das classes dominadas ou de frações parti-
culares das classes dominantes ao modo de produção corrente atra-
vés do Exército, da polícia, do sistema judiciário e penitenciário;
3) integrar as classes dominadas, garantir que a ideologia da sociedade
continue sendo a da classe dominante e, em consequência, que as
classes exploradas aceitem sua própria exploração sem o exercício di-
reto da repressão contra elas (porque acreditam que isso é inevitável,
ou que é “dos males o menor”, ou a “vontade suprema”, ou porque
nem percebem a exploração) (MANDEL, 1982, p. 333-334).
O primeiro ponto destacado pelo autor diz respeito ao caráter de classe
do Estado, como instrumento de manutenção do poder da classe dominante.
Marx já dizia no Manifesto do Partido Comunista que “O poder do Estado
moderno não passa de um comitê que administra os negócios comuns da
classe burguesa como um todo” (MARX, 2008, p. 12), bem como, na obra
O 18 de Brumário de Luis Bonaparte (2011), que o Estado é expressão política
de dominação de uma classe. Mandel sintetiza esse primeiro fundamento ar-
gumentando que o “Estado é produto da divisão social do trabalho” (MAN-
DEL, 1982, p. 333) e que sua origem “coincide com a origem da propriedade
privada” (MANDEL, 1982, p. 334). Isso justifica uma das funções do Estado
burguês ser a garantia das condições de reprodução do capital. Istvan Mésza-
ros (2015) destaca o Estado como um dos três elementos que compõe o tripé
consubstancial do sistema do capital, sendo os outros dois o trabalho e o pró-
prio capital. Assim, para o referido autor,

[...] a materialidade do Estado está profundamente enraizada na base


sociometabólica antagônica sobre a qual todas as formações de Estado
do capital são erguidas. Ela é inseparável da materialidade substantiva
tanto do capital quanto do trabalho (MESZAROS, 2015, p. 29).

Nesse sentido, também afirma Marx, ao nos trazer o Estado como “comu-
nidade ilusória”:

E é precisamente por essa contradição do interesse particular e do


interesse comunitário que o interesse comunitário assume uma

242
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

organização autônoma como Estado, separado dos interesses reais dos


indivíduos e do todo, e ao mesmo tempo como comunidade ilusória, mas
sempre sobre a base real dos laços existentes em todos os conglomerados
de famílias e tribais – como de carne e sangue, de língua, de divisão
do trabalho numa escala maior e demais interesses – e, especialmente,
como mais tarde desenvolveremos, das classes desde logo condicionadas
pela divisão do trabalho e que se diferenciam em todas essas massas de
homens, e das quais uma domina todas as outras. Daqui resulta que
todas as lutas no seio do Estado, aluta entre a democracia, a aristocracia
e a monarquia, a luta pelo direito do voto etc. não são mais do que
formas ilusórias em que são travadas as lutas reais das diferentes classes
entre si e também que todas as classes que aspiram ao domínio, mesmo
quando o seu domínio, como é o caso com o proletariado, condiciona
a superação de toda a velha forma da sociedade e da dominação em
geral, tem primeiro de conquistar o poder político para, por sua vez,
representarem o seu interesse como interesse geral, coisa que o primeiro
momento são obrigadas a fazer (MARX, 2013, p. 48).

Partindo da perspectiva que na história nada é estático, compreendemos


que os diferentes formatos de Estado são resultados da correlação de forças
entre setores que possuem interesses antagônicos (capital e trabalho), bem
como expressam diferentes estágios de acumulação do capitalismo. O modo
de gerir o Estado, nesse sentido, sofre diversas determinações. Dentre elas, si-
tuamos também as particularidades da formação sócio-histórica de cada país,
que revelam contornos diferentes para a luta de classes. Quer dizer, a partir
das transformações societárias se alteram as necessidades de regulação das
relações sociais de produção e reprodução social, e com elas acompanham as
mudanças na legislação, na economia, na política, enfim, em todas as áreas
de atuação estatal. É nesse sentido que:

As formações estatais historicamente dadas do sistema do capital


devem se afirmar como executoras eficazes das regras necessárias
para a manutenção da ordem sociorreprodutiva estabelecida.
Naturalmente, a ‘Lei’ deve ser definida e alterada em conformidade,
a fim de atender às mudanças nas relações de poder e às alterações
correspondentes dos antagonismos fundamentais inseparáveis do
metabolismo de reprodução social do capital. Essa maneira de impor
a legitimidade do Estado é viável por vezes em sintonia com as

243
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

‘normas constitucionais’, e outras vezes só através da suspensão e


violação de todas as regras desse tipo. O desenvolvimento histórico
decide qual dos dois deve prevalecer sob as circunstâncias dadas e,
via de regra, mutáveis (MESZAROS, 2015, p. 56-57).

A função primordial do Estado é garantir a manutenção do poder político


de setores da burguesia para que se mantenham as condições necessárias de
reprodução do capital. Recorrente em países de capitalismo periférico, como
é o caso do Brasil, infringir as leis criadas pela própria classe dominante é le-
gítimo em nome de sua função primeira. Aliás, é possível pensar em diversos
momentos diferentes da história brasileira, como o golpe civil-militar de 1964 e
mais recentemente o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, episódios que
marcam a frágil democracia brasileira em contextos críticos do capitalismo no
país. Dessa forma, os caminhos trilhados pela burguesia na direção do Esta-
do envolvem a reflexão das necessidades do capital em seus diferentes estágios
de acumulação, crise, prosperidade ou regressão. É nesse sentido que Mandel,
quando alerta para a suscetibilidade do capitalismo tardio às crises econômicas
e políticas (1982), afirma que:

[...] a “administração de crises” é uma função tão vital do Estado


na fase tardia do capitalismo quanto sua responsabilidade por um
volume enorme de “condições gerais de produção” ou quanto seus
esforços para assegurar uma valorização mais rápida do capital
excedente. Economicamente falando, essa “administração das
crises” inclui todo o arsenal das políticas governamentais anticíclicas
(MANDEL, 1982, p.340).

Quer dizer, apesar da propagação das ideias liberais de mínima intervenção


do Estado, em tempos de crise as políticas econômicas intervêm em específicos
momentos do ciclo de rotação do capital para salvar aquele que se encontra em
dificuldade de realização. Além disso, por políticas anticíclicas podemos pensar
algumas políticas sociais que também vão cumprir outra função primordial do
Estado que Mandel chama atenção: a necessidade de integrar a classe domina-
da e criar falsos consensos na maioria da população. Assim,

[...] as funções superestruturais que pertencem ao domínio do Estado


podem ser genericamente resumidas como a proteção e a reprodução
da estrutura social (as relações de produção fundamentais), à medida

244
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

que não se consegue isso com os processos automáticos da economia


(MANDEL, 1982, p.340).

Essa necessidade de intervenção do Estado burguês na economia evidencia a


lógica destrutiva e insustentável do capital. Garantir a proteção e a reprodução
da estrutura social envolve políticas nas mais diversas áreas: econômica, social,
ideológica (como controle e direcionamento das principais instituições como
escolas, faculdades, Igreja e família) e repressiva, com o apelo militar e a utiliza-
ção de forças armadas para manter a “ordem e progresso”.
Destacado um dos aspectos de nossa concepção sobre Estado, que é neces-
sariamente sua dimensão de classe como instrumento de propagação da ordem
social vigente, vale ressaltar que se são poucos e escassos os espaços da classe
trabalhadora em sua direção, a disputa entre setores da burguesia desenham
conciliações, rompimentos e golpes na história mundial. Foi nesse sentido, para
compreensão de uma conjuntura específica de disputa no interior da própria
burguesia e para frear os avanços de movimentos pré-revolucionários na Eu-
ropa que Marx escreve o 18 de Brumário de Luis Bonaparte, destacando a luta
de classes como a grande lei do movimento da história (2011, p. 22). Assim, a
direção do Estado envolve disputas mesmo no interior da burguesia, nas frações
da classe dominante, já que os diferentes setores buscam interesses particulares
vinculados à sua atividade produtiva.
No Brasil, o enlace dos setores da burguesia é marca recorrente em nossa
história, em alianças que integram a burguesia nacional, internacional e os mi-
litares. Nesse sentido, há um consenso entre os estudiosos da formação sócio-
-histórica brasileira (IANNI, 1984) que

[...] as classes dominantes, ou os blocos de poder, sempre buscaram


impor os seus interesses, em geral de forma exclusiva, sobre o
conjunto da sociedade. Por meio da “conciliação entre frações das
classes dominantes” e lançando mão de “medidas aplicadas de cima
para baixo”, em geral os blocos de poder conseguiram monopolizar
largamente o aparelho estatal. Seja impondo-se pela violência, seja
antecipando-se na adoção de medidas paliativas, seja cooptando
lideranças e organizações, com frequência as classes e frações de
classes dominantes impõem-se aos grupos e classes subordinados, na
cidade e no campo (IANNI, 1984, p. 33).

245
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Quer dizer, há particularidades na dominação burguesa no Brasil com


alianças pragmáticas para controlar os movimentos e possíveis ameaças da
classe trabalhadora, ora com acentuação da repressão e fortalecimento do
aparato militar do Estado, ora por meio de implementação de políticas so-
ciais “consensuais”. Assim, as mudanças que temos no âmbito do Estado
brasileiro ao longo da história não expressam anseios da classe trabalhadora
organizada, são decisões tomadas de “punho firme” por uma burguesia au-
toritária e com forte apelo militar.
Retomando os pontos destacados por Mandel como funções primordiais do
Estado, vamos ao segundo: a dimensão repressiva do aparelho, com utilização
das forças armadas, seja para controle de momentos de efervescência da classe
trabalhadora organizada, seja pra conter ameaças de demais setores da burgue-
sia. Nessa lógica, Mészaros afirma que

[...] dada sua [do Estado] função crucial de reprodução social global,
o tipo de defesa legitimadora do Estado próprio do metabolismo social
estabelecido não pode assumir qualquer outra forma senão a sobreposição
a todo custo. Isso envolve a política/militar global e as formas mais
violentas (MESZAROS, 2015, p.18).

O terceiro ponto sintetizado por Mandel é quanto à alienação e dominação


ideológica. Aqui, são centrais as principais instituições da sociedade burguesa,
como as Igrejas, a tradicional família monogâmica heterossexual, as escolas,
atividades culturais (como música, teatro e novelas) e, com ainda maior força
no Brasil, as emissoras de televisão, capazes de chegar todos os dias na sala das
casas de trabalhadores e propagar as ideias dominantes.

Um aparelho de Estado construído sobre essas bases se propõe a


administrar o sistema social existente – ou, na melhor das hipóteses,
modificá-lo mediante reformas “aceitáveis”, isto é, assimiláveis. Sua
função é intrinsecamente conservadora. Um aparelho de Estado que
não preserva a ordem social e política seria tão impensável quanto um
extintor de incêndio que espalha chamas ao invés de apagá-las. Uma
instituição conservadora desse gênero é por natureza totalmente incapaz
de conceber, para não dizer efetivar, qualquer alteração radical do
sistema social vigente (MANDEL, 1982, p. 348).

246
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Assim, seja pela utilização da força militar ou pela integração e aceitação da


ideologia burguesa, a atividade primordial do Estado é manutenção da ordem social.
Aliás, em sociedades que conseguem firmar os valores dominantes e controlar as re-
beldias da classe dominada – sobretudo em contextos de menor desigualdade social
e barbárie -, os Estados podem utilizar menos a força repressiva e mais a dimensão
da integração das classes e dos consensos. Como nos mostrou Marx no 18 de Bru-
mário, o Estado militar se torna uma alternativa para controle de insatisfações.
A necessidade de um Estado que afirme direitos formais e igualdades for-
mais, mostra uma base material não democrática, preenchida substantivamente
por desigualdades. Como nos diz Ivo Tonet, a conquista de uma democracia
plena e, por conseguinte, a conquista do socialismo, promove a ausência de
manutenção de certas categorias, como capital, Estado, e a existência dos cha-
mados direitos do cidadão,

uma vez que estes são a expressão de uma sociedade articulada sobre a
existência da desigualdade real e da igualdade formal; e por outro lado,
são direitos exatamente porque não podem ser efetivamente realizados
(TONET, 2004, p.132).

Quer dizer, no exercício da democracia substantiva, o Estado perde sua razão


de existir. Defendemos assim, uma sociedade na qual possamos desfrutar de uma
democracia substantiva5, não nos deixando contentar com uma democracia como
“participação”6 efetiva de todos na gestão da sociedade. Ivo Tonet, fazendo uma
crítica sobre essa concepção de democracia participativa, afirma que:

Se por democracia entendermos a participação efetiva de todos


na gestão do processo social – o que, obviamente, supõe já uma
forma de entificação deste mesmo processo a partir da matriz do
trabalho associado – como chamaremos a participação de Atenas,

5 Entendemos democracia substantiva, àquela que está ligada à conquista da cidadania plena,
afirmada por Nelson Coutinho, ligada à concepção de emancipação humana trazida por Marx em
Para a Questão Judaica, ou seja, o fim das desigualdades sociais, das opressões e discriminações, uma
democracia como “O” caminho para a chegada do socialismo.
6 Democracia participativa como sendo àquela que defende a necessidade de uma participação mais
efetiva dos sujeitos sociais nas diferentes instâncias políticas de discussão dos assuntos públicos, onde
o centro seria a influência que os sujeitos coletivos podem exercer, tanto no que tange ao controle das
instituições, quanto a influência por meio de demandas (DURIGUETTO, 2011).

247
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

em Florença, nos países mais desenvolvidos, hoje? Democracia


imperfeita? (TONET, 2004, p.137).

Surge assim um questionamento: o que viria a substituir o Estado? Marx, no


Manifesto do Partido Comunista, afirmou que a máquina do Estado seria subs-
tituída pela “organização do proletariado como classe dominante”, pela “con-
quista da democracia”. Lênin, nesse sentido, complementa de maneira enfática:

Em lugar de instituições especiais de uma minoria privilegiada


(funcionários civis, chefes do exército permanente), a própria maioria
pode desempenhar diretamente as funções do poder político; e, quanto
mais o próprio povo assumir essas funções, tanto menos se fará sentir a
necessidade desse poder (LÊNIN, 2007, p.61).

A construção de um poder político verdadeiramente democrático é dada,


assim, pelo aprofundamento e desenvolvimento da democracia, porém, esta,
se considerada isoladamente não nos trará o socialismo, no entanto, se consi-
derada “em conjunto”, “exercerá a sua influência sobre a economia, cuja trans-
formação precipitará, sofrendo também ela a influência do desenvolvimento
econômico etc. Tal é a lógica da história viva” (LENIN, 2007, p. 95).
Tomando por base a visão de Lênin, a construção de uma sociedade verda-
deiramente democrática, se dá com a supressão natural do Estado:

Isto é, de toda violência, organizada e sistemática, de toda coação sobre


os homens em geral. Não desejamos o advento de uma ordem social
em que caducasse o princípio da submissão da minoria à maioria. Mas,
em nossa aspiração ao socialismo, temos a convicção de que ele tomará
a forma do comunismo e que, em consequência, desaparecerá toda
necessidade de recorrer à violência contra os homens, à submissão de
um homem a outro, de uma parte da população à outra. Os homens,
com efeito, habituar-se-ão a observar as condições elementares da vida
social, sem constrangimento nem subordinação (LENIN, 2007, p. 99).

Enquanto estivermos em uma sociedade capitalista, a democracia estará


sempre comprimida diante da exploração, opressão e desigualdades. A demo-
cracia sob bases capitalistas não irá passar nunca de uma democracia de uma
minoria, uma “democracia mutilada, miserável, falsificada” (LENIN, 2007, p.

248
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

107). Enquanto isso, para a manutenção dessa “democracia”, a massa é mantida


sob o domínio de uma minoria, aonde como nos diz o pensador revolucionário:

os escravos assalariados de hoje, em consequência da exploração


capitalista, vivem por tal forma acabrunhados pelas necessidades e pela
miséria, que nem tempo têm para se ocupar de democracia ou política
(LENIN, 2007, p. 105).

Lênin conclui que só o comunismo é capaz de tornar o Estado inteiramente


supérfluo, “porque não há mais ninguém a coagir (ninguém no sentido social,
não de classe)” (LENIN, 2007), assim:

No período de transição do capitalismo para o comunismo, a repressão é


ainda necessária (...) O aparelho especial de repressão do “Estado” é ainda
necessário, mas é um Estado transitório, já não é o Estado propriamente
dito, visto que o esmagamento de uma minoria de exploradores pela
maioria dos escravos assalariados de ontem é uma coisa relativamente
fácil, tão simples, tão natural, que custará à humanidade muito menos
sangue do que a repressão das revolta de escravos, de servos e operários
assalariados” (LENIN, 2007, p. 108).

Fazer a crítica à democracia formal não retira desta sua importância no


avanço da conquista de direitos e liberdades democráticas, mas a entendemos
como um meio e não como fim. Se por um lado o Estado democrático é um
sistema organizado que mantém uma minoria superior a uma maioria, um sis-
tema de coação, por outro, reconhece, mesmo que formalmente, a igualdade
entre os cidadãos, o direito em determinar a forma de Estado e administrá-lo,
porém é necessário transpô-la:

A tarefa histórica do proletariado, quando toma o poder, consiste


em instaurar a democracia. A democracia socialista não começa
somente na Terra prometida, quando tiver sido criada a infra-
estrutura da economia socialista, como um presente de Natal, já
pronto, para o bom povo que, entretanto, apoiou fielmente o punhado
de ditadores socialistas. A democracia socialista começa com a
destruição da dominação de classe e a construção do socialismo. Ela
começa no momento da conquista do poder pelo partido socialista
(LUXEMBURGO, 2006, p.121-122).

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Necessário assim, como nos diz Luxemburgo, perceber:

Nunca fomos idólatras da democracia formal só pode significar que


sempre fizemos distinção entre o núcleo social e forma política da
democracia burguesa: que sempre desvendando o áspero núcleo da
desigualdade e da servidão sociais escondido sob o doce invólucro da
igualdade e da liberdade formais – não para rejeitá-las, mas para incitar
a classe trabalhadora a não se contentar com o invólucro, incitá-la a
conquistar o poder político para preenche-lo com um conteúdo social
novo. (LUXEMBURGO, 2006, p. 121)

Para Rosa Luxemburgo, as ações espontâneas e organizadas das massas,


com direção autônoma e democrática, constituem o instrumento fundamen-
tal para destituir a democracia burguesa e alcançar a democracia substantiva,
para assim chegarmos ao socialismo. São essas massas que de forma livre,
como fizeram os operários russos no século XX, somam espontaneidade com
a atuação dos sindicatos e partidos para a condução dos processos de luta que
resultam na Revolução Russa, posteriormente degenerada e burocratizada.
Assim, a liberdade das massas e a democracia são inseparáveis, não podendo,
pois, desconsiderar os movimentos espontâneos, tampouco abrir mão de bus-
car a sua direção consciente.
É por isso que a própria inteligência da massa quanto às suas tarefas
e meios é, para ação socialista, condição histórica indispensável assim
como a inconsciência da massa foi, antigamente, condição para as ações
das classes dominantes (LUXEMBURGO, 1971, p. 81).

É evidente que a força das massas na construção do socialismo e da de-


mocracia, para Rosa, estava ligada diretamente a ação das massas, porém,
ela não negava a necessidade e importância da união entre as essas massas
populares e os organismos (sindicatos, partidos, etc.), àquelas entendidas
como corretivo poderoso destes:

Tudo isso mostra que o pesado mecanismo das instituições


democráticas encontra um corretivo poderoso exatamente no
movimento vivo e na pressão constante da massa. E quanto mais
democrática a instituição, quanto mais viva e forte a pulsação da
vida política da massa, tanto mais imediata e precisa é a influência
que ela exerce – apesar das etiquetas partidárias rígidas, das listas

250
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

eleitorais obsoletos etc. É claro que toda instituição democrática


tem seus limites e lacunas, o que aliás, compartilha com todas as
instituições humanas (LUXEMBURGO, 2006, p.112).

Nos fica claro que a democracia que temos é a formal, mas a que queremos é a
substantiva. Rosa nos mostra assim, a importância da superação dessa democracia
formal, das liberdades apenas formais, para alcançarmos a democracia substanti-
va, com liberdades democráticas substantivas e a construção de um novo mundo.

2. Contribuições marxistas para pensar a Constituinte


de 88 e o Estado Democrático de direito no Brasil
Em contraponto ao idealismo de Hegel, no qual temos no conceito de Esta-
do e Constituição, fundamentos ligados à razão7, à expressão de uma racionali-
dade ideal, aonde “o Estado se anunciava, para Hegel, como razão em si e para
si” (MARX, 2013). Marx, sem desprezar a razão, nos traz como fundamentos da
Constituição, as lutas sociais, envolta por uma política concreta e real. (MARX,
2013, p. 4). Ela surge dos embates e contradições vigentes no mundo real, estan-
do seu surgimento, diretamente atrelado à correlação de forças vigente.
Para Marx, o povo é o “Estado real”, é o todo, a constituição é a “parte”, ou
seja, o poder constituído. Marx percebe assim, que há uma inversão de posições
e a consagração de uma alienação política, no momento em que o povo se sub-
mete a sua própria obra (MARX, 2013, p.67). O povo, assim, transforma-se em
receptor de uma forma estabelecida de Estado.
Uma nova Constituição se faz necessária, de acordo com Marx, quando as
normas vigentes já não são mais o espelho do mundo atual. Trata-se assim de
um acordo político, entre o Estado, o governo e a sociedade civil. O surgimento
de uma constituição está assim atrelado à conjuntura que se impõe, de rupturas
políticas e institucionais.

7 “O Estado como espírito vivo, só é como um todo organizado, distinto em atividades particulares,
que, procedendo do conceito único (embora não sabido como conceito) da vontade racional,
produzem continuamente esse todo como seu resultado. A Constituição é essa articulação da
potência do Estado. Contém as determinações da maneira como a vontade racional, enquanto
nos indivíduos é somente em si a vontade universal, pode, por uma lado, chegar à consciência e à
inteligência de si mesma, e ser encontrada, e por um lado, chegar à consciência e à inteligência de
si mesma (MARX, 2013, p.24).

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

A construção da democracia brasileira se deu assim, diante de um “desen-


volvimento desigual e combinado” (MARINI, 2005). As marcas de subordina-
ção e dependência são ainda mais agravadas pela raiz colonial do Brasil, cons-
tantemente revitalizada. A “revolução” burguesa no Brasil ocorre sem alterar as
estruturas dominantes, ou seja, houve uma “revolução passiva”8, enraigada em
uma estrutura patrimonialista, patriarcal, racista e autoritária que não permite
abrir caminhos para processos de democratização substantivos. Para Florestan
Fernandes (1981, p. 350), construímos uma história na qual “democracia e li-
berdade” para uma “minoria dominante” é “oligarquia e opressão para a maioria
submetida” ou, ainda, uma “democracia de cooptação”9, que caracteriza uma
“democracia restrita típica” no país (IDEM, 1981, p. 359).
Isso fica mais evidente quando se analisa a gênese da nossa Carta Magna,
forjada e lapidada não pelo povo, mas, sobretudo, pela elite conservadora a fim
de garantir uma transição sistemática, de forma "lenta e gradual", sem romper
os laços com o regime ditatorial.
Essa mesma elite, financiada pela classe burguesa, conquistou a maioria dos
assentos da Assembleia Nacional Constituinte-ANC, com o intuito primário de
preservação dos próprios interesses. Vale dizer que o sistema eleitoral da Cons-
tituinte era regulado por leis advindas do regime ditatorial, a exemplo da Lei
Orgânica dos Partidos (lei nº 5.682/71), lei 7.493/86, lei 7.508 e lei 7.514/86, fatos
que a afastam, desde a sua gênese, do caráter democrático. Nesse ponto, coa-
dunamos com o entendimento de Lênin, sobre como deve ser uma Assembleia
Constituinte eleita pelo povo e, por conseguinte, verdadeiramente democrática:

É em primeiro lugar, uma assembleia que expressa realmente a vontade


do povo, para o que se requer o sufrágio universal, etc. e a plena garantia
de uma livre agitação eleitoral. É em segundo lugar, uma assembleia
que possua realmente o poder e a força necessários para constituir uma
ordem estatal que garanta a autocracia do povo. É claro como água que
se não se derem estas duas condições, a Assembleia não será realmente
eleita por todo o povo, nem realmente constituinte (LENIN, 1985 p. 24).

8 Aqui tomamos o conceito de “revolução passiva” forjado por Gramsci, sendo o processo pelo qual,
muda-se a forma de dominação, mas, mantém-se sua substância, ou seja, é um “movimento de
cooptação dos dominados pelos dominadores” (GRAMSCI, 2009, p. 8).
9 A “democracia de cooptação” está associada à corrupção no sistema de poder e a compra de alianças
e lealdades (Ver FERNANDES, 1981).

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Florestan Fernandes já nos alertava que nossa Assembleia Constituinte, não


passava de uma Assembleia fantasiosa, pois a maioria parlamentar representava
uma minoria econômica e social hegemônica em evidente inversão de represen-
tatividade expressada na pirâmide social.

Na ANC a sociedade civil aparece de cabeça para baixo, invertida.


A minoria dominante, graças aos artifícios da democracia burguesa e
dos mecanismos eleitorais, torna-se maioria parlamentar. A maioria
social – todo povo pobre e trabalhador – surge ali como uma minoria
parlamentar, graças aos partidos políticos proletários e aos setores
dissidentes da burguesia (FERNANDES, 2014, p. 108).

É dizer, de outra forma, que a Constituição Federal de 1988, foi concebida para
resguardar, prioritariamente, os interesses políticos, sociais e econômicos pauta-
dos nos ideais liberais de liberdade, igualdade formal, da proteção da propriedade
privada, da livre iniciativa, enfim, com pautas eminentemente burguesas, mesmo
com alguns pontuais avanços nos direitos para a classe trabalhadora.
Apesar do desequilíbrio na correlação de forças como citado alhures e pro-
mulgação detentoras de mitigada característica de democracia real, foi a consti-
tuinte de 88, a mais democrática desde então. Configurando-se uma democra-
cia constitucional, acolheu milhares de sugestões populares e reuniu um con-
junto de conquistas de direitos. Porém, apesar da ampliação de muitos direitos
sociais, econômicos e políticos dos trabalhadores, restrições democráticas ainda
permaneceram, o que impossibilita até os dias atuais a plenitude dos mesmos,
como por exemplo, a reforma agrária, o reconhecimento de greve de servidores
públicos, o imposto sobre grandes fortunas, dentre outros.
Essa conquista de direitos, pela qual fez o Brasil avançar democraticamente,
provocou reação da oposição conservadora. Embates entre os setores populares
e os neoliberais, herdeiros da oligarquia, foram travados e a luta de classes, mais
uma vez, fez-se presente em nosso processo de transição democrática tardia.
Hoje, do mesmo modo que outrora, os direitos que ainda anseiam por regu-
lamentação, enfrentam uma batalha. A batalha entre os setores conservadores
e progressistas. Direitos formais são amplamente previstos na constituinte, mas
o desafio que se impõe é mais amplo ainda, é avançar para sua eficácia plena e
impedir o retrocesso dos já regulamentados.
Lênin mostra, corroborando com o dito anteriormente, como essa
democracia constitucional, liberal, representativa, é constituída de limitações,

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

exceções, exclusões e obstáculos à classe trabalhadora. Um regime político


dotado de múltiplos mecanismos de restrições:

as velhas contradições entre as palavras de ordem e os fatos, entre o


democratismo, como princípio, e o democratismo no campo da política
realista dão lugar a outra novas, pois a crescente revolução traz à
democracia exigência cada vez maiores. Não obstante, a democracia
burguesa continua caminhando atrás dos acontecimentos ainda que
eleve o alvo das suas palavras de ordem, caminha coxeando atrás
dos fatos, formulando sempre estas palavras alguns graus abaixo do
que realmente exige a verdadeira luta revolucionária e verdadeira
liberdade (LENIN, 1994, p.22).

Democracia como a entendemos, deve pressupor o exercício pleno da


soberania e a garantia de direitos de um povo. Demanda, portanto, a garan-
tia universal de direitos, uma vez que podemos definir democracia como “a
presença efetiva das condições sociais e institucionais que possibilitam ao
conjunto dos cidadãos a participação ativa na formação do governo e, em
consequência, no controle da vida social” (COUTINHO, 1997, p.145). A
universalização dos direitos ou da cidadania, todavia, “é incompatível com
a existência de uma sociedade de classes. Ou, em outras palavras: a divisão
da sociedade em classes constitui limite intransponível à afirmação conse-
quente da democracia” (IDEM, 1997, p.159).
Para que os direitos não se limitem à integração das massas ao capital ou mes-
mo busquem meramente o aperfeiçoamento da ordem, como preconiza a demo-
cracia liberal, mas que integrem uma perspectiva emancipatória, não podem se
encerrar como uma estratégia em si mesmos, mas como uma tática que na dinâ-
mica da luta de classe, devem “contribuir para revelar movimentos permanentes
de tensão e contradição com a ordem vigente” (SANTOS, 2007, p. 29).
No dizer de Wood:

O capitalismo tornou possível conceber democracia formal, uma forma


de igualdade civil coexistente com a desigualdade social e capaz de deixar
intocadas as relações econômicas entre a elite e a multidão trabalhadora
(WOOD, 2003, p. 184).

A compreensão crítica das contradições e mesmo dos limites dos direitos na


ordem do capital, por outro lado, não nos leva a desconsiderar sua importân-

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

cia, afinal, não “se pode libertar os homens enquanto estes não estiverem em
condições de adquirir comida e bebida, habitação e vestuário na qualidade e na
quantidade perfeitas. A “libertação” é um ato histórico, não um ato de pensa-
mento [...]” (MARX e ENGEL, 2009, p. 36-37).
Com base nessa análise, uma pergunta precede a qualquer discussão para se
pensar a concretização universal de direitos e, por conseguinte, da democracia:
estando a sociedade dividida em classes, a democracia não pode ser alcançada?
Carlos Nelson Coutinho nos elucida:

Como parece óbvio, a condição de classe rica, por um lado, privilégios,


e, por outro, déficits, uns e outros aparecendo como óbices a que todos
possam participar igualitariamente na apropriação das riquezas espirituais
e materiais socialmente criadas. Ora, se há alguma conclusão a tirar disso,
ela me parece óbvia (embora toda a propaganda ideológica atual tenda a
negá-la): só uma sociedade sem classes – uma sociedade socialista – pode
realizar o ideal da plena cidadania, ou, o que é o mesmo, o ideal de soberania
popular e, como tal, da democracia (COUTINHO, 1997, p. 159).

Nesse sentido, faz-se necessário uma sociedade sem classes para a “plena cida-
dania” e, por conseguinte, para a plena democracia. Falar em democracia é, então,
falar em socialismo (COUTINHO, 1997). São assim caminhos interligados que vi-
sam a superação do individualismo para construção de uma sociedade emancipada.

Conclusão
Percebemos limites e contradições inerentes à democracia constitucional
representativa no capitalismo que sacrificam a classe trabalhadora em favor da
manutenção dos privilégios de uma minoria. Uma “democracia” que concentra
muito nas mãos de poucos e, nas mãos de muitos, muito pouco.
É notório, ao longo da construção democrática no país, que os setores domi-
nantes - as classes dominantes e possuidoras - procuram por todos os meios “le-
gais” ou mesmo ilegais impedir a consolidação de uma democracia da maioria,
destruindo e minando os avanços e fechando a cortina para qualquer pequeno
raio de luz que possa nos levar a uma democracia substantiva.
É fato que no regime democrático-burguês os elementos democráticos se
mostram como majoritários, porém, podem e contém ainda elementos ditato-

255
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

riais, como diz Demier e Gonçalves, elementos esses que podem se mostrar
como “residuais ou em fermentação” (DEMIER; GONÇALVES, 2017).
Reconhecer que possuímos uma democracia com a Constituição “Cidadã”
de 88 não pode nos vendar e nos calar face a esses elementos. Uma Consti-
tuição que prega a igualdade civil é a mesma que sustenta uma “democracia”
onde a desigualdade social persiste. É inegável que essa Constituição traz di-
versos direitos individuais e coletivos, mas que substancialmente não se efeti-
vam como se propõe.
Mesmo após 30 anos da promulgação da Constituição Federal de 88 e com
quase 14 destes sob governos de um partido com origem popular de esquerda -
Partido dos Trabalhadores - em que se observou, momentaneamente, aspectos
de ascensão social e econômica da classe trabalhadora, não houve qualquer
alteração na estrutura de classes, o que nos leva a concluir, que na democracia
capitalista "de tempos em tempos, os operários triunfam, mas é um triunfo efê-
mero" (MARX e ENGELS, 1998, p.48).
É notório que não há como mudar a natureza do capitalismo através de polí-
ticas conciliatórias como desejam os reformistas e os sociais-democratas, pois a
essência da democracia capitalista é servir aos interesses do capital.
Além disso, como bem nos afirma Trotsky “o proletariado não pode con-
quistar o poder por meio de leis promulgadas pela burguesia" (TROSTKY, 1998,
p. 162) e a Constituição, em seu sentido amplo, nada mais é, na sua essência,
que uma lei promulgada pela classe burguesa. Por isso mesmo, não devemos
relevar o seu caráter instrumental, com funções bem definidas: organizar, san-
cionar e legitimar a “distribuição de riqueza e do poder da sociedade capitalista,
não "igualmente" para todo povo, porém desigualmente, seguindo o modelo de
desigualdade econômica, cultural e de dominação de classe imperante na socie-
dade civil" (FERNANDES, 2014, p 108).
Podemos enquadrar o Brasil, assim como nos traz Demier, como uma “de-
mocracia blindada” (DEMIER, 2017). As democracias blindadas são forjadas
a partir de 1980, dotadas de um caráter hegemônico, que mantém de forma
equilibrada coerção e consenso, apresentando “estruturas de funcionamento
hermeneuticamente fechadas às pressões populares, preservando seus núcle-
os institucionais decisórios como espaços exclusivos dos interesses da classe
dominante” (DEMIER, 2017, p. 2372). Impendem assim, que as demandas
populares reformistas possam adentrar a política, sendo assim, portanto, es-
sencialmente contra-reformistas.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

A democracia constitucional blindada na qual o Brasil se insere, possui as-


sim, uma combinação entre retirada de direitos sociais e expansão de políticas
sociais compensatórias, com aumento do Estado penal, violentador e repressor,
bem como com massiva produção de consenso com uso da mídia como instru-
mento de alienação e de fundamental importância na formação do mesmo, tão
essencial ao Estado burguês.
O cenário "pós-golpe" é ainda mais desafiador para a classe trabalhado-
ra, pois a configuração política das eleições presidenciais e parlamentares de
2018, com um governo essencialmente neoliberal, fascista e ultraconservador,
a torna ainda mais vulnerável, o que nos remete à única solução viável e
permanente para a igualdade real: uma nova ordem social, sem classes, sem
dominação e com emancipação humana. Contudo, como afirma Trotsky: "ne-
nhuma ordem social deixa a cena da História antes de haver esgotado todas
as suas possibilidades" (TROTSKY, 1998, p. 161), quer dizer, não cede seu
lugar sem apresentar resistência.
Como nos diz Rosa, sem a conquista da liberdade plena e da autodetermina-
ção, não há como haver democracia, e existindo de forma substantiva, entrarí-
amos em solo socialista (LUXEMBURGO, 2006).
É com unidade, organização, formação de consciência crítica e ação política
revolucionária voltada à construção de uma contra hegemonia, que permitirá à
classe trabalhadora resistir e alcançar a derrocada da democracia permitida, da
democracia vigente, limitada pelos interesses do capital e grupos hegemônicos,
superando assim a democracia como “valor instrumental” para conquistar a
“democracia como valor em si” e a emancipação humana.

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259
Mecanismos de participação popular nas
cartas constitucionais: analise entre a
brasileira e boliviana

Carlos Eduardo Mota de Brito1

Introdução
Desde o início da organização do homem em sociedade, as reflexões sobre
como a vida comunal deve ser gerida existiram, mas, especificamente o pensar
sobre a democracia, pode ser rastreado desde século V antes de Cristo no livro
Histórias do historiador grego Heródoto. Já na modernidade, com as revoluções
liberais do século XIX a burguesia chega ao poder criando os primeiros Estados
liberais democráticos, onde nesses Estados burgueses, o pressuposto da sobera-
nia popular era - e continua - sendo a base do regime. Porém, paradoxalmente,
como dito por Marx, o Estado eleva interesses particulares à condição de uni-
versais (MARX, 2010, n.p.). Desta maneira, cabe a pergunta se a democracia li-
beral burguesa se ampara realmente na soberania popular ou representa apenas
a melhor maneira de exercício do domínio de classe burguês.
Trazendo para a realidade Latino Americana, onde os Estados Nacionais
foram fundados para garantir a expansão do capitalismo mercantil, toda a
lógica que justificou a criação estatal e jurídica europeia - no tocante do
controle do poder pátrio e garantias de direitos fundamentais - é perdida,
tendo em vista que desde o início do processo democrático latino americano
diversos grupos foram excluídos.

1 Graduando do curso de Direito da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) – campus


Mossoró. Membro do Grupo de Estudos em Direito Crítico, Marxismo e América Latina (GEDIC).
E-mail: carlos.brito@ufersa.edu.br

261
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

O desdobrar da história latino-americana causou diversas mutações na so-


ciedade e nesses processos os Estados criavam novas Constituições que dia-
logassem com o momento histórico inserido. No caso do Brasil, após décadas
de ditadura militar, houve um período de “transição” em que uma nova Carta
Constitucional foi escrita, esse documento que contou com uma intensa - e
inédita para os moldes brasileiros - participação popular positivou diversas ga-
rantias e direitos, como também mecanismos de participação popular para que
o povo, de onde emana o poder, interagisse diretamente com o fazer político.
Tendo em mente que nas realidades dos países subdesenvolvidos, diversos
sujeitos históricos só foram recentemente incluídos nos processos políticos, o
presente trabalho pretende analisar – utilizando o método materialista his-
tórico dialético, com documentos acompanhados de literatura jurídica e so-
ciológica sobre o tema - quais formas de mecanismos de participação popular
estão presentes nas constituições do Brasil e na Bolívia. O trabalho objetiva
em síntese: primeiro delimitar a teoria democrática que abarque a América
Latina e a história constitucional dos dois países; a segunda parte está con-
centrada em falar sobre a atual constituição brasileira e seus mecanismos de
participação popular, com a sessão seguinte tendo a mesma finalidade só que
para a Constitución Política del Estado boliviana; e por último, serão feitas
considerações finais sobre os temas elencados no trabalho.

1. Democracia como conceito em disputa


Quando se fala sobre democracia é perceptível a pluralidade de significados
da palavra. Por isso, é necessário situar que a democracia analisada no presente
trabalho está vinculada ao prisma – ainda que liberal - da “representação popu-
lar”, conceito esse que a filósofa francesa Simone Goyard-Fabre explica como:

[...] o axioma propiciador de os governantes falarem em nome dos


governados, e pressupõe a concordância dos atos de quem está no poder
estatal e dos seus representados, produzindo assim, legitimidade formal
de um governo. (GOYARD-FABRE, 2003, p. 277-8).

Apesar das limitações da democracia liberal, a representação popular é


muito “cara” na América Latina, em decorrência de diversos processos como
ditaduras, votos censitários, escravidão, proibição do voto para indígenas e

262
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

mulheres entre outros. Em decorrência de historicamente os governantes


serem representante somente das oligarquias locais, onde os interesses da
maioria excluída da população são esquecidos em detrimento da oligarquia
local e do capital internacional.

1.1. Teoria democrática e América Latina


Na teoria democrática são habituais as definições homogeneizadoras de
povo, Estado, Nação, família e outras instituições que moldam indiretamente
os processos políticos e legislações.
Consciente que essas instituições foram cunhadas primariamente para rea-
lidades europeias, onde a criação dos Estados Nacionais - e por consequência a
criação de identidades nacionais – foram vinculadas com: (1) a uniformização
de valores promovida pelos dogmas da religião católica; (2) a homogeneização
proveniente da expulsão de povos mais diferentes com a uniformização dos me-
nos diferentes. (QUADROS DE MAGALHÃES, 2016, p. 177-8).
Assim, as identidades nacionais integraram a uniformização dos povos por
conter um caráter narcisista e de afirmação da superioridade sobre outras popu-
lações. A exemplo da Península Ibérica que foram portugueses e espanhóis ex-
pulsaram os invasores árabes. (QUADROS DE MAGALHÃES, 2016, p. 177-8).
Já no caso da América Latina a criação de Estados Nações foram desdo-
bramentos desse processo de dominação econômica europeia, pois diferente
da realidade já retratada, os conceitos de instituições foram parte do processo
de dominação do território americano pelos habitantes da Europa. Onde o
colonizador impôs todos regulamentos jurídicos e sociais aos nativos - por
meio da dominação econômica direta bem como pela catequização - para
garantir o espólio de riquezas.
Com a imposição da religião católica e seus dogmas foi possível ao coloniza-
dor controlar o conceito do nativo sobre família, e juntamente ao de racionali-
dade individualista, antropocêntrica e liberal foi cabível sustentar o desenvol-
vimento do capitalismo. Além da existência do exército nacional para o Estado
lidar com os indivíduos que não cedessem as práticas do colonizador.
Chegando ao ramo jurídico, junto a noção de propriedade trazida pelo libe-
ralismo, é possível perceber uma dupla utilidade para o direito, servindo como
forma da burguesia legitimar sua dominação, já que nas a palavras de Engels e

263
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Kautsky no livro Socialismo jurídico, “as reivindicações resultantes dos interes-


ses comuns de uma classe só podem ser realizadas quando essa classe conquista
o poder político e suas reivindicações alcançam validade universal sob a forma
de leis” (ENGELS; KAUTSKY, 2012, p. 47).
O europeu impôs ao nativo americano uma assimilação forçada da sua
cultura por meio jurídico. Tendo em vista que legislação relacionada a as-
suntos familiares e morais estaria presente para criminalizar os que não à
seguissem e as forças nacionais exerceriam o controle por meio da força,
utilizando as leis como legitimadoras da exploração econômica exercida na
esfera de produção capitalista.
Explanando todo esse de fundo histórico, é claro compreender os processos
democráticos latino americanos e suas exclusões. Já na maioria dos casos as popu-
lações nativas e os africanos trazidos como escravos para a América constituíam
maioria populacional, mas, paradoxalmente, configurarem-se como indivíduos
excluídos dos processos de partição política. Assim como diz o filósofo argentino
Enrique Dussel “Por su parte el excluido, por definicion, no pudo participar en la
decision del acuerdo que lo excluye” (DUSSEL, 2006, p. 96). Demonstrando que
esses povos habitantes da América Latina nunca foram materialmente sujeitos
políticos, tendo em vista que nunca estiveram presentes no fazer político.

1.2. A experiência histórica das constituições


brasileiras e boliviana
Como já exposto, a criação dos Estados Nacionais na América Latina serviu
como uma dupla forma de dominação, tanto externa para as elites europeias quanto
interna para as elites locais, - que detinham diversos laços com a Europa - sobre
populações nativas e negras escravizadas.
Assim será necessário fazer uma retomada histórica de todo trajeto cons-
titucional brasileiro e boliviano desde suas respectivas primeiras cartas até a
atual, pois como a constituição é o elemento de funda o Estado e nele está
diversos princípios e leis que norteiam o legislador bem como estruturam
toda ação estatal.
A História constitucional brasileira é atípica até para o contexto latino ame-
ricano, com oito cartas constitucionais e singularidades em conquistas de direi-
tos. O cenário constitucional brasileiro é, assim, idiossincrático.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Com a independência brasileira proclamada em 1822, o Brasil foi o único


País latino americano em que, pós independência da coroa, houve a perpetua-
ção do monarquismo. Assim em 1822 foram convocadas – por decreto - eleições
para a primeira assembleia constituinte brasileira. Um ano após, em 1823 os
eleitos reuniram-se no Rio de Janeiro para a criação da Carta com um parado-
xal sentimento liberal que permitia a pratica da escravidão. Essa Carta Magna
tinha como concepção inicial a adoção de uma monarquia constitucional, além
a clássica divisão tríplice dos poderes e limites rígidos sobre a atuação do im-
perador. No entanto, imperador dissolveu a assembleia e outorgando uma nova
com poucas alterações no ano seguinte, como comenta Souza Neto e Sarmento
(2012, p. 84), que além de algumas alterações redacionais a principal diferença
do projeto anterior era a criação de um “Poder Moderador” central e controver-
so exercido pelo monarca.
A novidade redacional significativa, o poder moderador, representava uma
tentativa de aumentar o poder concentrado na mão do monarca. Valendo res-
saltar também que, mesmo essa sendo uma constituição primariamente de
garantia das liberdades individuais, - como por exemplo o direito absoluto à
propriedade -, ela também servia para legitimar violação suprema que era a
escravidão. Além de cercar vertiginosamente o direito a participação popular
pois consagrava o voto censitário e masculino. Sobre esse contexto, Souza Neto
e Sarmento (2012, p. 82) colocam, que o Brasil era um país agrário baseado
na monocultura e latifúndio sustentado pela mão de obra escrava, onde dos 5
milhões de pessoas da população geral, 1,8 milhão de pessoas eram negros ou
indígenas. Onde nessa realidade o voto censitário seria uma forma de manuten-
ção das estruturas de poder presentes
Em 1889 um golpe militar culminou na proclamação da república no Bra-
sil, que passou a chamar-se Estados Unidos do Brasil. Assim, em 1891 foi
promulgada no País, a primeira carta constitucional republicana com fortes
influências do modelo americano. Essa Carta Política trouxe um amplo rol de
direitos individuais, garantiu a laicidade do Estado, concedeu direito políticos
a um grupo de homens maiores de 21 anos entre outros. Sobre o ponto dos di-
reitos políticos vale salientar Souza Neto e Sarmento (2012, p. 93) pois como
relatam os autores; os direitos políticos foram estendidos a todos os cidadãos
brasileiros maiores de 21 anos, desde que não fossem analfabetos, mendigos,
praças militares ou se fizessem parte de alguma ordem religiosa que colocasse
essa restrição. Além dessas restrições os autores ainda comentam que mesmo

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

não existindo nenhum trecho que impedisse a participação de mulheres no


processo político, no entanto:

Não houve qualquer referência restritiva expressa às mulheres no texto


constitucional, mas a discriminação de gênero era tão enraizada que
sequer se discutia se elas podiam ou não votar ou se candidatar: nem
precisava ser dito que as mulheres não tinham direitos políticos, pois isto
seria “natural” (SOUZA NETO; SARMENTO, 2012, p. 93).

Mesmo com algumas alterações, como a abolição do voto censitário e o au-


mento do número de cidadãos votantes, as próprias estruturas sociais impediam
a plena participação política das sujeitas do sexo feminino.
No início da década de 30 o presidente da época Getúlio Vargas edita o
decreto de lei Nº 19.398 que instituiu um governo provisório encabeçado pelo
mesmo que iria comandar o Brasil até o fim dos trabalhos da constituinte. Que
segundo Sousa Neto e sarmento (2012, p.97) texto atribuía prerrogativas de-
mais ao poder presidencial, como de exercer as funções e atribuições dos Pode-
res Executivos e Legislativos, além da extinção do das garantias constitucionais.
Oque os autores finalizam concluindo, “estruturava-se ali, ainda que provisoria-
mente, um governo de exceção”. (SOUZA NETO; SARMENTO, 2012, p. 97).
No período citado, o governo provisório criou o código eleitoral que editou
o sufrágio universal, voto secreto e voto feminino, também se fundou os minis-
térios da Educação, da Saúde e do Trabalho, Indústria e Comércio que desem-
penhavam um papel de Estado interventor e social.
Essa roupagem mais social do Estado era uma das novidades também
presente na Constituição – paradoxalmente outorgada - de 1934, com
inspiração na carta alemã de Weimar. A carta brasileira manteve o fe-
deralismo e a separação dos poderes com um legislativo unicameral que
continham tanto representantes do povo como dos dois lados da relação
empregatícia. Outras novidades foram a primeira aparição da ação popular,
do mandado de segurança e direitos trabalhistas.
Outorgada em 1937, a Carta Constitucional popularmente chamada de pola-
ca teve esse nome pois sua principal influência foi a Constituição da Polônia de
1935, teve como principal objetivo tentar conferir um revestimento de legitimi-
dade ao Estado Novo de Vargas. Usando para isso a justificativa de uma ameaça
comunista e uma suposta guerra civil. (SOUZA NETO; SARMENTO, 2012, p.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

103). Outro ponto interessante foi art. 187 em que se firmava o compromisso de
um plebiscito nacional para votar a Carta, no entanto a não convocação desse
plebiscito acarretou na tese de alguns juristas – até o responsável pela redação
da mesma – que a carta não tinha validade.
Mesmo com a tese a da não juridicidade dessa carta, suas principais caracte-
rísticas, como comentam Souza Neto e Sarmento (2012, p. 103): foram a disso-
lução do poder legislativo, concentrando na figura do presidente várias funções,
entre elas a prorrogativa de nomear interventores para os Estados, e o declarar
do estado de emergência que suspendeu inúmeras garantias constitucionais.
No panorama mundial o fim da Segunda Guerra Mundial e o fim da di-
tadura varguista no Brasil, houve uma onda constitucional no mundo que
atingiu o território brasileiro de forma a influenciar a Constituição de 1946.
Com um grande apelo ao respeito aos direitos fundamentais pós os horrores
de regimes como o Nazismo, a carta constitucional brasileira tentou conci-
liar um caráter liberal com as prerrogativas de um Estado social. (SOUZA
NETO; SARMENTO, 2012, p. 110).
Com o início da ditadura militar no brasil em 1964, foi perceptível a cria-
ção de dois principais grupos entre os militares. Um grupo mais moderado
que se propunha a devolver o poder político aos civis depois de livrar-se dos
componentes mais perigosos da vida política e que também não concorda-
vam com os excessos cometidos pela outra ala militar. O segundo grupo
composto por militares linha dura apoiavam a radicalização do regime com
a intensificação de perseguições a opositores entre outras ações (SOUZA
NETO; SARMENTO, 2012, p. 117-8).
A disputa de poder entre esses dois grupos foi a responsável tanto pelas ca-
racterísticas da constituição de 1967, como a de 1969.
Possuindo uma fachada liberal a Constituição de 1967, refletia os interesses
do grupo mais moderado, onde mantinha-se o federalismo dual, com eleições
indiretas e um capítulo destinado – paradoxalmente – aos direitos e garantias
fundamentais. Já no ano de 1969 foi editada uma emenda à Constituição de
1967 que serviu como uma tentativa de viés legitimador a nova Carta que re-
produzia em grandes partes a anterior, mas autorizava que o presidente suspen-
desse diversas liberdades como a de associação, além da suspensão de habeas
corpus para crimes políticos etc.
Em decorrência do desgaste do regime militar e o aumento dos protestos
contra o mesmo, diversas entidades civis começaram a pedir a criação de uma

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

nova assembleia constituinte. Essa assembleia não representou uma ruptura


com o regime anterior e sim uma transição para um novo momento democráti-
co, com medidas como a lei de anistia que concedeu o perdão aos torturadores.
Iniciando seus trabalhos em 1987 sendo composta por 559 membros, sendo
eles 487 deputados federais e 72 senadores – 23 desses sendo ainda do pleito in-
direto de 1982 – a assembleia constituinte aglutinou os trabalhos ordinários do
legislativo com os trabalhos constituintes. Vale ressaltar também que durante a
assembleia constituinte somente 26 parlamentares eram mulheres e 11 negros.
Sobre a assembleia constituinte é necessário entender o momento histórico
em que ela estava inserida, e sobre isso comenta Cristiano Paixão:

Até aquele momento, compreendido entre março de 1985 e fevereiro


de 1987, é necessário reconhecer que o regime militar obteve êxito, em
grande parte, na sua estratégia de abertura “segura, lenta e gradual”: foi
aprovada uma lei de anistia, que postulou o perdão a todos os integrantes
do regime que perpetraram graves violações aos direitos humanos
(1979), a grande mobilização popular em torno de eleições diretas
foi frustrada pela negativa do Congresso Nacional (1984), o partido
governista manteve a maioria no Congresso até os últimos momentos do
regime, a eleição do primeiro Presidente da República civil após 21 anos
de militares no poder se deu de forma indireta, por meio de um Colégio
Eleitoral criado pela própria ditadura (janeiro de 1985), e o próprio
candidato eleito, assim como seu vice, assumiram de modo enfático o
discurso da conciliação (março-abril de 1985) (PAIXÃO, 2011, p. 20).

Para os paramentos da história constitucional brasileira, a Carta Cidadã de


1988 foi a que mais contou com participação popular, demonstrando que mes-
mo com um número ínfimo de pessoas pertencentes a grupos de minorias, essa
magra participação direta mais a intensa interação de grupos da sociedade civil
foram responsáveis pelos avanços nos direitos sociais, a exemplo dos artigos 12 e
13 que legislam sobre a função social da terra, ou o artigo 26 do Ato das Dispo-
sições Constitucionais Transitórias (ADCTs) que permitem uma auditoria da
dívida pública externa. No entanto, como ainda existia uma grande parcela de
parlamentares com intrincadas relações com o regime militar, os avanços não
foram tão plenos e materializaram-se em aspectos como a não reestruturação
das formas militares e policiais pós ditadura militar.

268
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Já no caso da Bolívia, é perceptível a divisão de sua história constitucional


em quatro momentos, sendo eles: O Estado das Oligarquias; Estado Nacional
popular; Estado Neoliberal e o atual Estado Plurinacional.
Começando pelo Estado das oligarquias, em 1825 a Bolívia passava pelo
seu processo de independência despontando como uma das primeiras colônias
espanholas a rebelar-se contra a metrópole. Assim, em 1826 foi escrita com
a presença dos clássicos sujeitos históricos bolivianos Simon Bolívar e Antô-
nio de Sucre a primeira constituição, que nos seus artigos 11° e 14° definiam,
respectivamente, quais requisitos legais para ser considerado boliviano e para
ser cidadão e colocavam limitações a essas categorias, segundo o próprio texto
constitucional no artigo 14:

Artículo 14.- Para ser ciudadano es necesario:


1. Ser boliviano.
2. Ser casado, o mayor de veinte años.
3. Saber leer y escribir; bien que esta calidad sólo se exigirá desde el año de
mil ochocientos treinta y seis.
4. Tener algún empleo, o industria, o profesar alguna ciencia o arte, sin suje-
ción a otro en clase de sirviente doméstico. [grifo nosso] (BOLÍVIA, 1826).

Essas definições de cidadania excluíram de diversos direitos a maioria


da população composta pelos povos originários e escravizados. Nessa mes-
ma carta também estavam presentes as básicas estruturas do Estado liberal
burguês como: defesa da propriedade privada, soberania popular, tripartição
dos poderes, representação para homens que não fossem índios e etc. (NAS-
CIMENTO, 2015, p. 286-7).
Mesmo com a independência, a Bolívia ainda ocupava na economia mundial
o posto de fornecedor de matéria prima, assim a Constituição recém escrita servia
como um legitimador do status quo. Dessa forma a atividade extrativista perpe-
tuou-se exercendo importante papel na economia inclinando o presidente a san-
cionando em 1880 a Lei de Mineraria para equilibrar os gastos públicos e desbaratar
o embrião de organicidade do trabalho mineiro. Essa lei bem como outras tiveram
um papel importante na manutenção de diversos problemas sociais que só seriam
enfrentados depois da metade do século XX (NASCIMENTO, 2015, p. 288).
Dessa forma a contradição entre o ideário de liberal de democracia e a práti-
ca democrática boliviana era gritante, em decorrência do papel que o país ainda

269
Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

detinha de simples mina para exportação no cenário do capital mundial, bem


como atrasadas relações sociais de produção.
Entre 1932 e 1935 ocorreu um conflito de proporções bélicas entre a Bo-
lívia e o Paraguai que fiou conhecido como Guerra do Chaco. Por causa da
derrota boliviana e das perdas territoriais houve uma grande desmoralização
das elites no poder, já que o início do conflito se deu pela suposta descoberta
de petróleo na região do Chaco (NASCIMENTO, 2015, p. 289). A junção
do vácuo de poder gerado pelo descredito das elites pós-Guerra do Chaco,
em conjunto com fatores internacionais, como insurreições agrícolas no Mé-
xico, a Revolução Russa e a Crise de 29. As frentes de esquerda começaram
a fazer movimentos nesse cenário de vácuo do poder, com intuito de suprir
fendas sociais que também poderiam configurar-se como fendas ao modelo de
democracia liberal proposta, e sobre isso diz Nascimento (2015, p. 289-90),
que após três décadas de laisssez-faire e posteriormente a crise de 1929, as
intervenções na economia se tornaram pratica comum com as Constituições
de 936 e 1945 vinculando a propriedade privada a uma utilidade pública,
quebrando a defesa absoluta do posse da terra. Essa nova abordagem sobre a
terra foi resultado de junções de frentes nacionais que organizarem pós Chaco
e tinham como objetivo pleitear pautas latentes.
O Estado Nacional popular, é o período que começa após uma guerra civil
que durou 3 dias nos principais centros urbanos do país em 1952. E, como con-
sequências, foram promovidas reformas no Estado boliviano como a reforma
agraria, - exercidas pelos Decretos Supremos Nº 3464 e 1953 - campanha de
alfabetização e uma interiorização das escolas.
Entre 1964 e 1982 o espectro de regimes ditatoriais militares, financiados
pela potência norte americana e com objetivo de barrar a influência soviética
na América latina chegou a Bolívia. E nesse período o Estado continuou exer-
cendo sua facete de intervir na economia como já estava configurado, agindo
nesse cenário por meio das alianças civis-militares. Essa nova realidade gerou
um processo de invisibilização dos indígenas utilizando-se da cooptação de lí-
deres sindicais por vias frequentemente violentas.
Com maior ênfase na década de 1990, mas perceptível desde 1970, uma
onda neoliberal estava presente em todo mundo e por consequência na Bolívia.
Essa nova faceta Neoliberal do Estado foi consequência do esgotamento da po-
lítica de alianças entre civis e militares e as orientações do capital internacional
para descentralização do gerenciamento estatal. Sobre esse contexto Nascimen-

270
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

to (2015, p. 295) diz que desde a década de 50 o Fundo Monetário Internacional


(FMI), usava o acesso a empréstimos financeiros para “controlar” a legislação
boliviana, só que nos anos 1980/90 tais ações se intensificaram, acarretando o
fim de diversas iniciativas estatais. Onde o fim dessas políticas ajudou as diver-
sas frentes de esquerda a reorganizarem-se frente a um “inimigo comum”.
Por consequências como a queda preço dos minerais no mercado inter-
nacional e as demissões de levas de trabalhadores oriundos dessas empresas,
ocorreram êxodos para as plantações de coca. E em razão da coca ser muito
ligada a população originaria junto de ressignificações vindas do trabalho mi-
neiro, a planta passou a ser considerada um símbolo de resistência cultural e
política as intervenções do FMI (NASCIMENTO, 2015, p. 296). Utilizando-
-se dessa bagagem ideológica surge na década de 1970 o indianismo, definido
por Daniel Valença como “[...] uma singular interpretação da Bolívia e terri-
tórios originários incaicos para recuperar seus elementos fundantes e defen-
der uma nova possibilidade de desenvolvimento autônomo de seus povos e
nações” (VALENÇA, 2017, p. 90).
O indianismo acompanhou todo o processo de chegada ao poder de Evo
Morales e o bloco camponês-indígena-popular por ele representado, além
da constituinte convocada em 2006 que promoveu mudanças atípicas na
história constitucional da América Latina, sobre o tema Valença (2017,
p.120) escreve, sobre as três principais questões que diferenciam o proces-
so Constituinte de 2006 da Bolívia foram: (1) era resultado da Ascenção
do bloco camponês-indígena-popular e não da alternância das elites locais;
(2) em decorrência de ser resultado da Ascenção do bloco era baseado na
participação popular; (3) e como era resultado desse momento histórico de
participação popular, as alterações não eram apenas um tipo de “redemo-
cratização” nos mesmo moldes do Estado anterior e sim uma nova lógica de
atuação estatal que refletia o bloco social em ascensão.
As alterações promovidas pelo Poder Constituinte em 2006 teceram a nova
lógica de atuação estatal, ligadas paradoxalmente a efetivação de princípios da
democracia liberal, e ao cercamento de outros como da propriedade privada
para permitir a efetiva utilização do Estado pela maioria excluída da popula-
ção boliviana. Trazendo para a materialidade que Enrique Dussel expõe em
seu livro 20 Tesis de política, “El poder dominante se funda en una comunidad
política que, cuando era hegemónica, se unificaba por el consenso. Cuando los

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

oprimidos y excluidos toman conciencia de su situación, se tornan dissidentes”


(DUSSEL, 2006, p. 96).

2. O Brasil no contexto neoconstitucional


A Constituição brasileira de 1988 foi um marco no paradigma da participa-
ção popular, tanto na sua constituinte com o imenso debate político que cercou
sua elaboração quantos nas garantias e mecanismos de participação positivados
pela mesma. Do ponto de vista teórico, a Carta Magna brasileira pode ser enca-
rada pelo prisma do pós-positivismo e neoconstitucionalismo, com o primeiro
sendo descrito por Sousa Neto e Sarmento (2012, p. 177) como a busca por uma
ligação entre o Direito e a Moral usando interpretações de princípios jurídicos
abertos que tem caráter normativo.
A ligação desses conceitos dão-se com o neoconstitucionalismo, quan-
do o constituinte promove certas alterações tanto no tipo de constituição
como nos arranjos institucionais para reconhecer uma série de fatores
como: constitucionalização do Direito com normas e valores constitucio-
nais permeando outros ramos do ornamento; reaproximação da moral e do
Direito; valorização dos princípios jurídicos mais abertos e a valorização da
importância dos mesmos para a aplicação do Direito entre outros (SOUZA
NETO; SARMENTO, 2012, p. 177).

2.1. Mecanismos de participação popular na


constituição cidadã
No artigo 14 do texto constitucional são previstos o voto e três meca-
nismos de participação popular direta, sendo eles: plebiscito, referendo e
iniciativa popular. Esses três mecanismos tiveram sua execução regulamen-
tada somente 10 anos após a promulgação da carta com a lei nº 9.709, de
18 de novembro de 1998.
Com uma grande parte de seu corpo destinada aos casos de reorganização
do território nacional por meio de criação, incorporação ou fusão de municípios
ou Estados, essa lei ainda das definições para os mecanismos bem como que
situações são cabíveis seu uso. Segundo a Lei n. 9.709, de 18 de nov. de 1998,
(BRASIL, 1998). Plebiscito e referendos são definidos e tem sua abrangência de

272
Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

uso restrita a tais citações de reorganização territorial. Dessa forma plebiscito


será convidado com anterioridade a ato legislativo ou administrativo, para a po-
pulação aprovar ou não pelo voto o que se tenha sido exposto e o referendo uti-
liza a mesma lógica só alterando que é convocado com posterioridade aos atos.
Já a iniciativa popular consiste na apresentação de projeto de lei circunscrito
a um único assunto, precisando ser apresentado por um cento do eleitorado
nacional distribuídos, em ao menos em cinco estados. Esses projetos de lei não
podem ser rejeitados por vicia de forma e quando tem as exigências formais
atendidas, a Câmara dos deputados é obrigada a dar continuidade ao processo
conforme o regimento interno da casa.
Como a prerrogativa de convocar um referendo ficou a cargo dos poderes
executivos e legislativos, mais os pré-requisitos complexos para alguma inicia-
tiva popular, além do histórico distanciamento populacional dos processos po-
líticos. O encargo de convocar o referendo ter sido deixado pelo constituinte
originário somente a classe política contribui para o já descrito esvaziamento
democrático, tendo em vista o ideal que todo o poder deveria emanar do povo.
Essa realidade pode ser averiguada tanto pelo fato ter acontecido somente um
plebiscito e um referendo no brasil, com respectivamente um sendo previsto
nos ADCTs sobre a escolha da população entre o regime parlamentarista ou
presidencialista e o outro sobre o comercio de armas de fogo.
No caso da participação popular, o fato da lei exigir adesão de 1% do elei-
torado nacional à proposta pode colocar entraves a sua efetivação. Segundo
estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)1, existem no brasil 147.302.357
eleitores válidos para o processo de 2018, sendo necessários 1.473.024 assina-
turas para atender ao requisito constitucional. Outro ponto relevante é que
as quatro leis que começaram como forma de participação popular, após sua
chegada ao legislativo ou executivo foram tratados como projetos de autoria
parlamentar, como demonstra o relatório sobre Projetos de lei de iniciativa popular
no Brasil, elaborado pelo Instituto de Tecnologia & Sociedade do Rio (ITS). O
relatório do instituto comenta que sobre as iniciativas populares – em decor-
rência da impossibilidade de verificar a veracidade de assinaturas – quando
chegam as casas legislativas ou executivas um membro da casa “apadrinha”

1 Disponível em: <http://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2018/Agosto/brasil-tem-147-3-milhoes-de-


eleitores-aptos-a-votar-nas-eleicoes-2018>. Acesso em: 28 ago. 2018.

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

o projeto como se fosse de sua autoria (INSTITUTO DE TECNOLOGIA &


SOCIEDADE DO RIO, 2017, p. 24).
Os quatro casos de leis que começaram como iniciativa popular foram:
a Lei 8.930/1994, que foi criada após a comoção nacional com a morte da
atriz Daniella Perez e resultou com que o crime de homicídio adentrasse o
rol de crimes hediondos; Lei 9.840/1999, que alterou certas leis eleitorais no
tangente da compra de votos permitindo, entre outras coisas, a cassação de
quem doar, oferecer ou prometer vantagem pessoal em troca de voto; Lei
11.124/2005, que criou o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social,
destinando verbas para a construção de morais destinadas a populações de
baixa renda da área urbana; e a Lei complementar 135/2010, conhecida po-
pularmente por Lei da Ficha Limpa, que aumentou o rigor nos critérios para
o registro de candidaturas excluindo candidatos respondendo processos sobre
certos tipos de crimes.
Analisando os três mecanismos de participação direta que a Constitui-
ção brasileira reconhece, é possível perceber que o constituinte os colocou
com o intuito de garantir a direta participação popular no processo político,
no entanto os requisitos necessários para sua utilização, bem como a his-
tórica exclusão da população civil da política acarretaram a não utilização
dessas ferramentas.
Em cenários como o atual onde o governo golpista encabeçado por Michel
Temer aprova uma série de medidas antipopulares e que atinge negativamente
os cidadãos em geral, esses mecanismos não são usados pois dependem majori-
tariamente da vontade política, que na conjuntura contemporânea está a ser-
viço de setores que historicamente contribuíram para a exclusão de indivíduos
das decisões políticas.

3. O Novo Constitucionalismo latino-americano e a


experiência do Estado Plurinacional da Bolívia
A Constitución Política del Estado (CPE) da Bolívia representou um divi-
sor de águas para história constitucional como um todo, mas principalmente
para a lógica latino-americana. Com sua organização não expansionista e não
homogeneizadora, tornou possível a um Estado Nação que nasceu pela e para

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

dominação do capital estrangeiro inserir os povos historicamente excluídos


no processo democrático.
Sobre a lógica do Estado plurinacional comenta o professor José Luiz Qua-
dros de Magalhães, (2012, n.p.) que a grande mudança do Estado Plurinacional
é o fato de ser um Estado Constitucional, democrático participado e dialógico
que rompe com as bases teóricas e sociais do Estado nacional representativo
e uniformizador de valores que tem por consequência a exclusão. Além disso
Quadros de Magalhaes (2012, n.p.) também fala que essa nova forma de Estado
mais “inclusiva” garante formas de constituição econômica e familiar diversas e
com valores dos grupos originários bolivianos.
Essa nova lógica de atuação e estruturação estatal foi possível após a vitória
do bloco compostos pelos sujeitos excluídos dos processos políticos que após
uma progressão de acontecimentos uniram-se em um bloco camponês-indíge-
na-popular. Assim, em 2006, elegem Juan Evo Morales Ayma e Álvaro García
Linera como presidente e vice-presidente respectivamente.
Esse novo Estado boliviano com lógica indianista é um dos modelos cons-
titucionais que pode ser enquadrado no Novo Constitucionalismo Latino
Americano juntamente com Equador e Venezuela. Como colocam Antônio
Carlos Wolkmer e Lucas Machado Fagundes, (2011, p. 377-8) essas Consti-
tuições que quebram com a antiga matriz eurocêntrica de pensar o Direito e
Estado para esse continente, as refundando para serem instrumentos jurídicos
a favor das classes apagadas pelo processo colonial, podendo também ser pos-
sível relaciona-las com uma possível descolonização do poder e justiça.
Essas novas características são perceptíveis em diferentes aspectos na Bolí-
via, Venezuela e Equador, mas seguindo uma lógica semelhante de inclusão de
sujeitos históricos excluídos e reconhecimentos dos mesmos.

3.1. Mecanismos de participação popular na Constituição


Plurinacional da Bolívia
Sobre os mecanismos de participação popular presentes na CPE é pos-
sível Alencar o quadro produzido por Fidel Pérez Flores, Clayton Men-
donça Cunha Filho e André Luiz Coelho, reproduzidos parcialmente no
presente trabalho:

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

Figura 1 – Mecanismos de Participação popular presentes na Constitución Política del Estado.

Mecanismos de
Bolívia
participação
Cortes Superiores do Judiciário eleitas por sufrágio direto (Artigos 182,
183, 188, 194 e 197).
Mecanismos de
Possibilidade de eleger parlamentares indígenas e autoridades dos
representação
territórios autônomos por meio de usos e costumes (Artigo 11).
ampliada
Quota indígena na Câmara (Artigo 146) - Regulamentado por Lei
Eleitoral Transitória de 2009.
Revogação
Todos os cargos eletivos são revogáveis menos o judiciário (Artigo 240).
de mandatos
Revogação/
Qualquer emenda à Constituição precisa de referendo (Artigo 411).
ratificação de leis
Cidadãos podem convocar referendo para aprovar tratados e convênios
internacionais (Artigo 259).
Política Externa Tratados sobre questões limítrofes, integração monetária, integração
econômica estrutural e cessão de competência a órgãos supranacionais
referendo é obrigatório (Artigo 257).
Cidadãos podem propor legislação, modificações constitucionais e
Iniciativa de lei
convocar uma assembleia constituinte (Artigos 162 e 411).
Territórios indígenas autônomos são instâncias sub-nacionais de governo,
nos quais se aplicam justiça indígena e usos e costumes para seleção de
Autonomia
governantes (Artigos 289 a 296).
indígena
Leis que afetem territórios indígenas e recursos naturais dos mesmos
precisam passar por referendo no território em questão (Artigo 30).

Fonte: (COELHO, CUNHA FILHO, FLORES, 2009, p. 4 a 6)

É possível perceber pela análise da figura anterior que a Constituição


boliviana cedeu a povos indígenas o direito a identidade e organização
autônoma já que foram alçados ao título de subnações dentro do território
plurinacional boliviano.
Outro ponto importante trazido nessa Carta em diversas possibilidades é
a atuação direta da população no processo político e na esfera econômica de
gastos estatais com a possibilidade de revogação de mandatos de cargos eletivos,
em que é necessário 15% dos cidadãos da área de onde o representante proveio.
A possibilidade da atuação direta da sociedade civil em todos os níveis e em
todas as empresas estatais e que usem recursos públicos por meio da fiscalização
e denuncia de possíveis casos de revogação de contratos.
Em casos de emendas ao texto Constitucional ou a assinatura de qualquer
tratado internacional sobre questões territoriais, de integração monetária ou

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

econômica e estrutural é necessário a consulta popular por meio de referendo


com porcentagens de aprovação distinta para ambos os casos.
Na criação de políticas públicas bolivianas é possível perceber o que (CO-
ELHO, CUNHA FILHO, FLORES, 2009, p. 12) chamam de contra poder na
figura da participação e controle social, já que a população participa desde a cria-
ção e molde da política pública até no auxílio ao legislativa na elaboração de leis
e denunciar de atos de corrupção ligados ao ente público.
Sobre a questão indígena a própria alteração no Nome oficial do País para
Estado Plurinacional da Bolívia demonstra a relevância que foi dada a questão in-
dígena, como também a autonomia eleitoral para escolher e moldar o processo le-
gislativo em consonância com suas tradições e também a consulta a esses mesmos
povos sobre qualquer lei ou projeto que afete seus territórios ou recursos naturais.
No tocando da exploração dos recursos naturais, no seu texto estabelece que os
recursos naturais são propriedade do povo e administrados pelo Estado, em que eles
serão usados para a promoção prioritária para a industrialização com respeito ao meio
ambiente e aos direitos das nações e povos indígenas (VALENÇA, 2017, p. 161).
Por último, é importante salientar que os conceitos de representação foram
ampliados e diversificados quando aspecto de gênero e étnico se tornaram signi-
ficativos ao processo eleitoral. Pois como comentam os estudiosos Fidel Lopez,
Clayton Mendonça e André Luiz Coelho (2009, p.12) condições de indígena e
mulher se tornam politicamente relevante para a eleitores e instituições quando
essas condições passam a ter uma parcela cativa mínima de representação em
diversos órgãos executivos e legislativos.
Essa obrigatoriedade presente na lei de metade das cadeiras do legislativa
estarem destinadas a mulheres garantem a Bolívia o impressionante título de
país com maior representatividade política feminina é a Bolívia2, demonstrando
o êxito nas reformas estruturais promovidas pela Constituição no quesito de
participação popular e inserção de povos historicamente excluídos.

Considerações finais
No presente trabalho foram expostos os mecanismos de participação po-
pular na Constituição Federal brasileira de 1988 e na Constitución Política del

2 Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2018-06/onu-mulheres-defende-


ampliacao-da-participacao-feminina-na-politica>. Acesso em 03 de setembro de 2018.

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Estado Boliviana de 2009. Com o uso de método materialista histórico dialético


foi possível perceber que existem diferenças abissais entre as duas cartas e seus
direitos garantidos. No entanto, é imaterial desejar a transposição de todos os
direitos efetivamos em uma Carta Magna para a outra, sabendo que os dois
Países citados passaram por processos históricos diferentes.
Ainda assim, foi possível perceber no cenário brasileiro um aumento de di-
reitos garantidos na atual Constituição em decorrência da intensa participação
popular, mesmo com os empecilhos que marcaram o início do processo cons-
tituinte para o momento brasileiro durante sua criação. Todavia, é evidente
também que os mecanismos de participação direta presentes na realidade brasi-
leira tiveram utilizações quase restritas ao clássico direito ao voto com as outras
ferramentas tendo pouca usabilidade na pratica.
Já na realidade boliviana em decorrência de diversos processos históricos
debatidos anteriormente, o hall de direitos garantidos como as ferramentas de
participação popular foram numerosas e inovadoras ao ponto que o presente
estudo não conseguiu exaurir a possiblidade de análise de todas, concentrando
nas mais relevantes, e ficando para futuros trabalhos analises aprofundadas so-
bre as legislações bolivianas voltadas a questão fundiária, organização territorial
ou mesmo sobre a organização econômica do país.
Além disso, é necessário frisar que por meio da análise dos mecanismos
de participação popular presentes nas respectivas Cartas Constitucionais, con-
cluiu-se que para a efetivação do conceito democrático básico de representa-
ção política, pelo paradigma da concordância entre os povos governados e seus
governantes é necessário mudar, dentro da realidade material, para conseguiu
incluir os povos que historicamente foram excluídos dos processos políticos. E
nesse tocante ambas as constituições deram passos importante, dentro de seus
avanços, contradições e retrocessos.

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280
Capítulo IV
História, Direito e Marxismo
Direito ao protesto: da crítica a violência
à efetivação dos direitos humanos

José Augusto S. Neto1


Guilherme Augusto Sá Barreto de Miranda2

Introdução
Os direitos humanos, mais do que direitos ‘propriamente ditos’, são proces-
sos, ou seja, “o resultado sempre provisório das lutas que os seres humanos colocam
em prática para ter acesso aos bens necessários para a vida”, já observou o professor
Joaquín Herrera Flores (2009, p. 28), de saudosa memória.
Em uma sociedade dividida em classes, o direito existe para regular as re-
lações entre frações de classe e classes sociais, de forma tendente a garantir o
consenso social. É conveniente observar que direito se distingue da justiça. As
leis não são justas porque se estabelecem como leis e a elas se guarda obediência
não por serem justas, mas porque têm autoridade:

O próprio surgimento da justiça e do direito, o momento instituidor,


fundador e justificante do direito, implica uma força performativa, isto
é, sempre uma força interpretadora e um apelo à crença: desta vez, não
no sentido de que o direito estaria a serviço da força, instrumento dócil,
servil e portanto exterior do poder dominante, mas no sentido de que
ele manteria, com aquilo que chamamos de força, poder ou violência,
uma relação mais interna e mais complexa (...) Ora, a operação de
fundar, inaugurar, justificar o direito, fazer a lei, consistiria num golpe
de força, numa violência performativa e portanto interpretativa que,

1 Mestrando em Direitos Humanos no Programa de Pós-Graduação em Ciências Jurídicas da


Universidade Federal da Paraíba (UFPB); j.segundoneto@gmail.com
2 Graduando em Direito na FDR/UFPE; guilhermesabarreto@gmail.com

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

nela mesma, não é nem justa nem injusta, e que nenhuma justiça,
nenhum direito prévio e anteriormente fundador, nenhuma fundação
preexistente, por definição, poderia nem garantir nem contradizer ou
invalidar (DERRIDA, 2007, p. 24).

Devem ser distinguidas duas violências relacionadas ao direito: a violência


fundadora – aquela que institui e instaura o direito – e a violência conservadora
– aquela que mantém, confirma e assegura a perpetuação do direito (BENJA-
MIN, 1986). O Estado monopoliza essa violência no interesse do direito e não
na proteção de determinados fins justos e legais, pois deve se levar em conside-
ração “a surpreendente possibilidade de que o interesse do direito em monopolizar o
poder diante do indivíduo não se explica pela intenção de garantir os fins jurídicos,
mas de garantir o próprio direito” (BENJAMIN, 1986, p. 162-163), de forma que
o poder quando não está nas mãos do próprio direito, o ameaça. Os códigos
tomam tantas precauções contra a violência e a educação debilita de tal manei-
ra nossos impulsos que, institivamente se pensa que toda ação violenta é uma
manifestação de retorno à barbárie (SOREL, 1973, p. 187).
Entretanto, a própria ordem jurídica concede a possibilidade da utilização
de instrumentos para que o indivíduo, atuando coletivamente, possa buscar a
eficácia de determinado direito, como se dá com o direito à greve e, de forma
semelhante, com o direito ao protesto, fundado a partir do direito à liberdade
de expressão, de opinião e de reunião, considerados de primeira geração que,
a despeito de possuírem maior grau de abstração e de maior nível de eficiência
jurídica, também possuem maior dificuldade de proteção. A despeito da previ-
são normativa do seu exercício, a forma que os Poderes do Estado se relacionam
com os protestos sociais e as manifestações populares reflete uma longa tradição
no sistema de repressão e controle do direito de participar, com endurecimento
e exclusão das camadas populares à cidadania ativa, o que ratifica concepção
benjaminiana. Nesse contexto, a pesquisa jurídica não é suficiente, dotando a
presente investigação de certo grau de originalidade.
Nesse contexto, o objeto da presente investigação é analisar, a partir do
ensaio Crí­tica da violência, crítica do poder (Zur Kritik der Gewalt)3, de Walter
Benjamin, a relação entre direito, violência e o exercício dos protestos sociais e

3 Publicada em 1921 na revista fundada em 1888 por Edgar Jaffé, Werner Sombart e Max Weber
Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

mobilizações populares. O filósofo alemão, nesse ensaio, constrói o texto a par-


tir da ambiguidade da palavra gewalt, que pode significar para os alemães “vio-
lência” e, ao mesmo tempo, “poder legítimo, autoridade, força pública”. Gewalt é
ao mesmo tempo a violência e o poder legítimo, a autoridade justificada (DER-
RIDA, 2007, P. 10). É o espírito da violência que, segundo Benjamin, origina o
direito e o poder judiciário.
Para tanto, parte-se dos seguintes objetivos específicos: examinar a indisso-
ciabilidade do direito, coação e Estado, elemento característico do Estado mo-
derno; relacionar a violência fundadora e a violência conservadora do direito e
o exercício dos protestos sociais e mobilizações populares.
No tocante a metodologia, o método de eleição é o dialético, buscando
entender a sociedade enquanto totalidade concreta, onde cada fenômeno deve
ser entendido como parte integrante e se relacionando entre si e com o todo
concreto. Nesse contexto, o direito não é percebido enquanto fenômeno autô-
nomo da vida social, mas como categoria constituída em seu interior, de forma
que o método escolhido permite analisar as relações entre os processos que
ocorrem na totalidade social, o que possibilita uma abordagem descritiva. O
procedimento técnico utilizado será a pesquisa bibliográfica.

1. O fenômeno histórico da monopolização da violência


pelo Estado. O direito, coação e Estado enquanto
elementos indissociáveis
Walter Benjamin inicia o ensaio Crítica da violência – Crítica do Poder (Zur
kritik der Gewalt) (1986) relacionando a crítica da violência com o direito e a
justiça e afasta do conceito de violência tudo o que não toque à moralidade:
“qualquer que seja o efeito de uma determinada causa, ela só se transforma em
violência, no sentido forte da palavra, quando interfere em relações éticas” (1986,
p. 160), portanto às esferas do direito e justiça. Essa é a base para a crítica da
violência (Gewalt: aquilo que pretende ter autoridade) (DANA, 2007, p. 261).
É conveniente, de logo, relembrar uma observação antecipada na introdução
deste trabalho: a palavra Gewalt tem o significado de ‘violência’. Gewalt signi-
fica também para os alemães “poder legítimo, autoridade, força pública”. Observa
Jacques Derrida (2007, p. 9-10) que Gesetzgebende Gewalt é o poder legislativo,

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

geistliche Gewalt é o poder espiritual da Igreja, Staatsgewalt é a autoridade ou o


poder do Estado. “Gewalt é, portanto, ao mesmo tempo a violência e o poder legíti-
mo, a autoridade justificada”.
A coação define o mundo do direito e adquire existência pelo Estado. Direi-
to, coação e Estado são, portanto, três elementos indissoluvelmente ligados. Eis
como Jhering define coação:

Por coação, no sentido mais amplo, entendo a realização de uma


finalidade mediante a subjugação de uma vontade alheia (Der Zweck in
Recht, vol. I, p. 152) (...) A coação se exerce por meio da Gewalt, termo
que em alemão indica o poder que se manifesta na força; as relações
entre poder e direito são assim definidas: O poder (Gewalt) pode em
caso de necessidade estar sem o direito. (...) O direito sem poder é um
nome vão sem realidade, porque só o poder, que realiza a norma do
direito, faz do direito o que ele é e deve ser (op. Ct., vol. I., p. 253).

O direito positivo marca, assim, o monopólio do uso do Poder/Violência pelo


Estado, distinguindo-se o chamado poder sancionado e o não sancionado e “a ques-
tão central passa a ser a da legitimidade de determinados meios que constituem o poder”.
Benjamin sublinha a diferença entre direito natural e direito positivo.
“O direito natural não vê problema nenhum no uso de meios violentos para fins
justos (...) a violência é um produto da natureza, pois assim dizer, uma matéria
prima utilizada sem problemas, a não ser que haja abuso da violência para fins
injustos” (1986, p. 160).
Pois bem.
A tradição do pensamento jurídico ocidental é dominada pela distinção
entre ‘direito positivo’ e ‘direito natural’ (BOBBIO, 2006, p. 15). A doutrina
do direito natural envolve manifestações de diversos tipos: na antiguidade, o
direito natural girava em torno da oposição entre natureza e norma; no perí-
odo medieval, entre o direito divino e humano e, na modernidade, “em torno
da oposição existente entre a coação jurídica e a razão individual”. Entretanto, em
todas as suas formas, ele se caracteriza por quatro traços essenciais: “primeiro,
oferece juízos de valor jurídico que são determinados quanto ao conteúdo; esses juízos
de valor, conforme sua fonte – natureza, revelação, razão -, tem validade geral e são
invariáveis; são também acessíveis ao conhecimento; e, uma vez conhecidos, têm pri-
mazia sobre os direitos positivos que lhes são opostos” (RADBRUCH, 2004, p. 25).

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Norberto Bobbio (2006, p. 20 e ss.) considera que a mais célebre distinção en-
tre direito natural e direito positivo no pensamento moderno é devida a Grócio:

O direito natural é um ditame da justa razão destinado a mostrar que


um ato é moralmente torpe ou moralmente necessário segundo seja
ou não conforme à própria natureza racional do homem, e a mostrar
que tal ato é, em consequência dito vetado ou comandado por Deus,
enquanto autor da natureza.

E Acrescenta: “os atos relativamente aos quais existe um tal ditame da justa
razão são obrigatórios ou ilícitos por si mesmos” (grifos no original).
Na metodologia desenvolvida por Norberto Bobbio (1994, p. 13 e ss.), quando
se fala em “doutrina” ou “escola” do direito natural, sem outra qualificação, a
ideia é referir-se ao desenvolvimento do direito natural durante a idade moderna,
entre o início do século XVII e o fim do século XVIII, delimitação que interes-
sa ao presente trabalho. Os jusnaturalistas, em que pese as divergências que os
separam4, são ligados por um método próprio – o método racional - que busca a
redução do direito e da moral a uma ciência demonstrativa. “Se há um fio vermelho
que mantém unidos os jusnaturalistas (...) é precisamente a ideia de que é possível uma
“verdadeira” ciência da moral, entendendo-se por ciências verdadeiras as que haviam
começado a aplicar com sucesso o método matemático” (BOBBIO, 1994, p. 18).
No desenvolvimento dessa concepção racionalista que veio a dominar o
Estado moderno, é conveniente observar que a sociedade medieval era uma
sociedade pluralista, constituída por agrupamentos sociais e cada um dispondo
de um ordenamento jurídico próprio, de forma que o direito se constituía en-
quanto fenômeno social, produzido não pelo Estado, mas pela sociedade civil.
Com a formação do Estado moderno, a sociedade assume uma estrutura mo-
nista, no sentido de que o Estado concentra em si todos os poderes, entre eles o
de criar o direito: “não se contenta em concorrer para esta criação, mas quer ser o
único a estabelecer o direito, ou diretamente através da lei, ou indiretamente através
do reconhecimento e controle das normas de formação consuetudinária” (BOBBIO,
2006, p. 27). Surge, nesse contexto, o processo de monopolização da produção
jurídica por parte do Estado.

4 Observa Norberto Bobbio que sob a etiqueta de “escola do direito natural” estão autores de correntes
diversas: filósofos como Hobbes, Leibniz, Locke, Kant; juristas-filósofos como Pufendorf, Thomasius
e Wolff, professores universitários, como Rousseau (1994, p.14).

287
Observa Walter Benjamin (1986, p. 160-161), que em conformidade com a
teoria política do direito natural, se “todas as pessoas abrem mão do seu poder em
prol do Estado, isso se faz, porque se pressupõe (...) que, no fundo, o indivíduo – antes
de firmar esse contrato deitado pela razão – exerce também de jure qualquer tipo de
poder que, na realidade, exerce de fato”.
Nesse contexto, para compreender as ideias de Benjamin, é interessante
analisar a formação do Estado moderno e, seu pressuposto, o contrato social,
elemento necessário à monopolização da violência pelo Estado.
Para Bobbio (1994), a primeira grande obra política que assinala o início
do jusnaturalismo político e do tratamento racional do problema do Estado
é o De cive1. Hobbes afasta os pressupostos teóricos até então utilizados: a
Política, de Aristóteles e o direito romano e, no problema crucial do fun-
damento e da natureza do Estado, constrói-se um modelo baseado em dois
elementos fundamentais: o estado (ou sociedade) de natureza e o estado
(ou sociedade) civil. Trata-se de um modelo dicotômico no sentido de que
o homem ou vive no estado de natureza ou vive no estado civil (não pode
viver ao mesmo tempo em um e outro).

Entre os dois estados, há uma relação de contraposição: o estado natural


é o estado não político e o estado político é o estado não natural. Em
outras palavras, o estado político surge como antítese do estado natural,
do qual tem a função de eliminar os defeitos, e o estado natural ressurge-
se como antítese do estado político, quando esse deixa de cumprir a
finalidade para o qual foi instituído (Bobbio, 1994, p. 38-39).

O Princípio de legitimação das sociedades políticas é exclusivamente o con-


senso. É interessante destacar que a sociedade política se distingue da sociedade
doméstica e da sociedade senhorial por meio do fundamento da autoridade. O
governante, ao contrário do pai e do dono de escravos, necessita que sua própria
autoridade obtenha consentimento para que seja considerada como legítima.
O Estado, para se originar, necessita de duas convenções sucessivas: o pac-
tum societatis, com base no qual um certo número de indivíduos decide de co-
mum acordo viver em sociedade; e o pactum subiectionis, com base no qual os
indivíduos assim reunidos se submetem ao um poder comum. O primeiro pacto
transforma uma multitudo em um populus; o segundo, um popolus numa civitas.

1 O título exato é Elementa philosophica de cive, com a primeira edição de 1642.

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Hobbes, por seu turno, propõe o pactum unionis, com base no qual cada
um dos indivíduos que compõem uma multidão cede o direito de autogover-
nar-se, que possui no estado de natureza, a um terceiro (seja uma pessoa ou
uma assembleia), contando que todos os outros façam o mesmo. Tal pacto
é ao mesmo tempo um pacto de sociedade e um pacto de submissão, já que
os contratantes são os indivíduos singulares entre si e não o populus, por um
lado, e o futuro princeps, por outro, um pacto de submissão na medida em
que aquilo que os indivíduos acordam entre si é a instituição de um poder
comum ao qual decidem se submeter.
Questões relacionadas às modalidades e ao conteúdo do contrato social
apresentaram divergências que podem ser agrupadas em torno dos seguintes
problemas: a) se o poder soberano é absoluto ou limitado; se é indivisível ou
divisível; se se pode restituir a ele ou não. Há uma contraposição clássica entre
Hobbes (para quem o poder era absoluto, indivisível e irresistível) e Locke (po-
der limitado, divisível e resistível).
Na realidade, os pensadores não defendem o caráter absoluto do poder, por-
quanto poder absoluto é somente o de Deus. O fato de que o soberano ser livre
das leis, significa que ele é livre das leis civis, quais sejam, aquelas que ele mes-
mo tem o poder de criar, conforme lição de Rousseau, citado por Norberto Bob-
bio: “assim como a natureza dá a todos os homens um poder absoluto sobre todos os
seus próprios membros, do mesmo modo o pacto social dá ao corpo político um poder
absoluto sobre todos os seus próprios membros; e é esse mesmo poder que, dirigido
pela vontade geral toma (...) o nome de soberania”. O fato de que o poder soberano
esteja acima das leis civis não quer dizer que seja um poder sem limites, mas
que os limites do seu poder são limites não jurídicos (de direito positivo), mas
derivados daquele direito incoercível que é o direito natural.
Observa Norberto Bobbio (1994, p. 78 e ss) que em relação à divisibilidade
do poder soberano, embora a doutrina aponte aqueles que defendem sua indi-
visibilidade, como Hobbes e Rousseau e os defensores da divisão de poderes,
como Locke, Montesquieu e Kant como representantes de duas teorias diver-
sas, essa contraposição não é não evidente como se aparece: quando Hobbes,
por exemplo, afirma que o poder soberano deve ser indivisível e condena
como teoria sediciosa a tese contrária, o que ele rechaça é a teoria do governo
misto, ou seja, a teoria que afirma como governo ótimo aquele em que o poder
soberano está distribuído entre órgãos diversos em colaboração entre si, repre-
sentados cada um por três diversos princípios de qualquer regime (o monarca,

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Martônio Mont’Alverne Barreto Lima / Enzo Bello
Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

os melhores, o povo). Quando Locke defende a teoria da divisão dos poderes,


o que ele acolhe não é absolutamente a teoria do governo misto, mas sim a
teoria segundo a qual os três poderes através dos quais se explicita o poder
soberano – o poder legislativo, o poder executivo e o poder judiciário – devem
ser exercidos por organismos diversos. Entretanto, apesar da divisão apresen-
tada por Locke, o poder soberano é um só, o poder legislativo, e que o poder
executivo deve permanecer subordinado ao primeiro. Somente quando se leva
em conta essa não-correspondência entre os dois conceitos de divisão e, res-
pectivamente, de indivisibilidade do poder soberano, um dos quais se refere
à divisão dos órgãos (rei câmara dos lordes e câmara dos comuns), enquanto
o outro refere-se à divisão das funções (legislativa, executiva, judiciária) é
que se pode compreender o aparente paradoxo de O Contrato Social, no qual
Rousseau afirma ao mesmo tempo a tese da indivisibilidade da soberania,
como Hobbes, e a tese da divisão do poder legislativo e do poder executivo,
bem como a subordinação do segundo ao primeiro, como Locke. O paradoxo
de Rousseau consiste no fato de que, com sua teoria do contrato social, ele
imaginou uma fórmula com a qual visa salvar ao mesmo tempo a unidade do
Estado (pelo que ele se professa admirador de Hobbes) e a liberdade dos indi-
víduos (no que é certamente um seguidor de Locke).
A terceira questão diz respeito à resistência. A anarquia é, para Hobbes,
um mal extremo, um mal que provém da conduta irrefreada dos indivíduos, de
forma que ele se coloca ao lado do príncipe, cujo poder considera irresistível, ou
seja, de tal natureza que, diante dele, o súdito tem o dever de obedecer. Locke,
ao contrário, considera o despotismo como mal extremo, um mal que provem
da conduta irrefreada do soberano, motivo pelo qual se coloca ao lado do povo
que, segundo ele, tem em determinados casos o direito de resistir às ordens do
soberano, ou seja, de não obedecer.
Entretanto, não se pode perder de vista que a formação do Estado moderno
surge a partir dos vários conflitos religiosos (que dá origem ao que Hobbes toma
por anarquia, referido linhas acima). Com o apoio de magistrados e militares,
o Estado dos príncipes forma uma esfera de ação supra-religiosa e racional que,
em oposição às suas demais instâncias, era determinada pela política estatal
(KOSELLECK, 1999, p. 20). É a manifestação da expressão que a doutrina cha-
ma de “razão de Estado”. No século XVI, a ordem tradicional estava em plena
decadência. E “em consequência da perda da unidade da Igreja, a ordem social
como um todo saiu dos eixos” (KOSELLECK, 1999, p. 20).

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Direito e Marxismo: Tempos de regresso
e a contribuição marxiana para a Teoria Constitucional e Política

Hobbes desenvolveu sua teoria do Estado a partir da situação histórica pro-


vocada pelas guerras civis religiosas e ele laça o seguinte problema: em uma
situação de guerra civil, em que o direito de todos prevalece sobre todos, como
é possível desenvolver uma legalidade que permita realizar este desejo? A lei
natural, antes de se tornar lei necessita de uma garantia que viabilize seu cum-
primento, de forma que a filosofia moral deve elaborar tal legalidade e o tema
apropriado à matéria em questão é a política.

Hobbes introduz o Estado como uma construção política em que as


convicções privadas são destituídas de sua repercussão política. No
direito constitucional de Hobbes, as convicções privadas não encontram
nenhuma aplicação às leis; as leis não são aplicadas ao soberano. O
interesse público de Estado, sobre o qual somente o soberano temo
direito de decidir, não compete mais à consciência. A consciência, da
qual o Estado se separa e se aliena, transforma-se em moral privada:
“Autorictas, non veritas, facit legem” [“É a autoridade, e não a verdade,
quem faz as leis”]. O monarca está acima do direito e é sua fonte; ele
decide o que é justo ou injusto; é ao mesmo tempo, legislador e juiz.
O conteúdo deste direito, como direito público, não está mais legado a
interesses sociais e esperanças religiosas; para além de igrejas, estamentos
e partidos, ele marca um domínio formal de decisões políticas. Este
domínio pode ser ocupado por esse ou aquele poder, contanto que possua
a autoridade necessária para proteger os homens, independentemente de
seus interesses e esperanças. A decisão política do príncipe tem força de
lei (KOSALLECK, 1999, p. 31).

Ora, na medida em que a ordem social é assegurada de cima para baixo, sua
estabilidade só é possível quando houver o reconhecimento dos de baixo e isso
é feito por meio de uma necessidade moral. A suprema obrigação do Estado é
oferecer proteção e isso só pode ser feito se todos os homens transferirem seus
direitos ao soberano, conforme visto acima. Mais adiante, na época em que
Walter Benjamin escreveu seu clássico, isso pode ser a origem de uma crise de
legitimidade nos detentores do poder. Para Benjamin, o poder historicamente
reconhecido, distingue-se o poder sancionado e o não sancionado e questiona
qual o sentido desta distinção e a defende: “se o critério estabelecido pelo direito
positivo para a legitimidade do poder só pode ser analisado segundo o seu sentido, a
esfera do seu uso tem de ser criticada segundo o seu valor” (1986, p. 161).

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Daniel Araújo Valença / Sérgio Augustin

No Estado de Hobbes, em que a vontade do príncipe é a única lei, racional é


apenas a legalidade formal das leis, não o seu conteúdo. Racional é a obediência
às leis independentemente de seu conteúdo. O que interessa não é o conteúdo
da lei, massa manutenção da paz “a legalidade destas leis não residia na qualifica-
ção de seu conteúdo, mas exclusivamente na sua origem, ou seja, no fato de serem a
impressão da vontade do poder soberano” (KOSELLECK, 1999, p. 37-38).
Para Hobbes, a lei da natureza coincide com a moral e é vinculante para a
consciência individual em seu próprio interior e está completa desprovida de
qualquer conteúdo jurídico. Se a autoridade ordena fazer algo contra as leis da
natureza e a consciência pessoal – por exemplo, inicial uma guerra injusta, “o
súdito deve obedecer, pois o juízo acerca do que é justo ou injusto pertence apenas ao
príncipe: se não fosse assim, todo ser humano estaria no dilema entre a condenação
eterna e a destruição da sociedade humana e a vida civil” (PRODI, 2008, p. 369)
Hobbes secciona o homem em dois: metade privada e metade pública.
No entanto, na medida em que desaparece a neutralidade moral que distin-
gue a decisão soberana, o Estado absolutista perde seu caráter evidente que
estava ligado à situação histórica. Com o iluminismo, a separação entre ho-
mem e súdito deixa de ser compreensível. O homem deve se realizar politi-
camente como homem, o que provoca a desagregação do Estado absolutista
e a separação entre política e moral desencadearia esse processo, cujo ápice
se deu com a Revolução Francesa.
Convém observar, de outra banda, que o direito tem existido como organis-
mo legitimador de domínio. É possível afirmar que o direito serve para manter
um status-quo na medida e na duração em que este domínio tem força para se
sustentar. Dessa forma, o direito se constrói sendo pautado pelas forças que, por
meio de diferentes métodos, conseguem estabelecer seu domínio, e, assim, o sis-
tema jurídico se desenvolve perpassando e sendo adaptado pelos vários estágios
que o poder dominante se mantém. 
Diz-se poder dominante a coalizão de forças políticas que detém maior
grau de controle das instituições sociais. O domínio, enquanto construção
"weberiana" perpassa por uma convivência entre os setores que detém o po-
der de comandar a sociedade. O político e o econômico são os fatores dessa
convivência. O jurídico será o "compasso" legitimador dessa convivência e,
consequentemente, desse domínio.
Observa Walter Benjamin que a função diferente do poder se serve a fins
naturais ou fins jurídicos pode ser demonstrada de maneira mais didática to-

292
Direito e Marxism