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ESTE LIVRO É SEU üMlGO porém,

não.sua propriedade...
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riscá-lo ou dobrar; suas páginas, 1
para que o mesmo pbssa ser útil a
outros que, como v$cê5 poderão pre_
cisar d1ele. ;

PRESERVE 0 QUE É SEü !


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- BibliOTECA BÃSÍCA efe FibsofíA


A filosofia, como interrogação fundamentai e primeira, é a
preocupação permanente do homem. Com o intuito de permitir o
acesso desta disciplina a camadas do público cada vez mais
largas esta colecção preenche uma etapa necessária do
conhecimento filosófico.

ESTE LlVRO Ê SEO jéêlQO porém, não sua


propriedade... Trate-o com .carinho, sem-
rasgá lo, riscá-lo ou dobrar suas páginas, 1
para que o mesmo pbssa ser útil a outros
que, como vçce, poderão pre_ cisar d1ele.
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PRESERVE 0 QUE É SEU !

- BibiiOTECA BÁSÍCA CJE FibsofiA


A filosofia, como- interrogação fundamental e primeira, é a
preocupação permanente do homem. Com o intuito de permitir o
acesso desta disciplina a camadas do público cada vez mais
largas esta colecção preenche uma etapa necessária do
conhecimento filosófico.

ESTE LÍVRO Ê SEU AJSIGO porém, não--sua


propriedade.., Trate-o v com ..carinho, sem-
rasga lo, riscá-lo ou dobrar, suas páginas, '
para que o mesmo ppssa ser útil a outros
que, como vçce, poderão pr§_ cisar d1ele.
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PRESERVE 0 QUE Ê SEU !

- BiblioTECA BÁSICA de Filosoíi A


A filosofia, como- interrogação fundamentai e primeira, é a
preocupação permanente do homem. Com o intuito de permitir o
acesso desta disciplina a camadas do público cada vez mais
largas esta colecção preenche uma etapa necessária do
conhecimento filosófico.
aFenomenoIocj?a

BibliOTECA B?sica <JeGuy


a) — PIAGET RlosofiA 1 — OS PRÉ-SOCRATICOS Jean Brun 2 — KANT Raymond Vancourt
Celleríer
b) — PLATÃO Gaston Maire
5 — A FENOMENOLOGIA Jean-Françols Lyotard

A publicar

A FILOSOFIA MEDIEVAL Edouard Jeaunneau


BACHELARD François Dagognet
DESCARTES Michále Beyssade TOMÁS DE AQUINO
Joseph Rassam A FILOSOFIA ANTIGA Jean-Paul Dumont A HISTÓRIA DA LÓGICA Mareei Boll e Jacques Relnhart ARISTÓTELES André
Cresson
HEGEL Jacques d'Hondt GALILEU Antonio Banfi A ESTÉTICA Denis Huisman

JEAN-
FRANÇO
0010100231020 ÍS
LyoTARd
AFENOMEN
OIOGÍA

Título original: La Phénoménologie ©


Presses Universitaires de France, 1954
Tradução de Armindo Rodrigues Capa de
Fernando Camilo Direitos reservados para a
Língua Portuguesa
EDIÇÕES 70 —Av. Duque de Avila, 69-r/c. Esq.
1000 Lisboa —Tels.: 55 68 98/57 2001
Distribuidor no Brasil: LIVRARIA MARTINS FONTES
Rua Conselheiro Ramalho, 330-340 — São íedições
Paulo 70
* 'c/0-
i
______
í
Mas o testemunho
da fenomenologia
não vai em favor
de um
subjectivismo
simplista, como o
sugerido por
Jeanson, por meio
do qual o
historiador, ao
descrever um
determinado
pensamento, mais
não faria, em
última análise, que
insinuar o seu.
. II ■— A
fenomenologia de
Husserl germinou
durante a crise do
INTRODUÇÃO subjectivismo e do
irracionalismo (fim
do século XIX,
I princípios do XX).
Importará situar
este pensamento
na sua história,
como ele próprio
se situou, história
que é, aliás,
também a nossa.
Foi contra o psi-
cologismo, contra
o pragmatismo,
contra uma etapa
do pensamento
ocidental que a
fenomenologia
reflectiu, buscou
apoio, combateu.
Começou por ser e
9
consiste, em primeiro lugar, em dispensar uma aceita. Daí o seu estilo interrogativo, p
cultura, uma história, em refazer todo o saber seu radicalismo, o seu
eíevando-se a um não saber radical. Mas tal inac^>ãm^itõ~èssèíL-ciai. " ' '
recusa em ser herdeiro, esse dogmatismo, como
Husserl curiosamente lhe chama, radica numa d) — Porquê Fenomenologia? — 0 termo
herança. Por isso, a história envolve a fenome- significa estudo dos fenómenos, isto é,
nologia, e Husserl disso teve consciência, da daquilo qüe aparece à cons-
primeira à última linha da sua obra. Mas há uma j ciência, daquilo que é dado. Trata-se de
explorar este j dado, a própria coisa que se
intenção, uma pretensão a-histórica
fenomenologia, e é por esse motivo que se
na
percebe, em que se pensa, I de que se fala,
iniciará a abordagem da fenomenologia pela sua evitando forjar hipóteses, tanto sobre o laço que
história e se terminará o seu debate com a une o fenómeno com o ser de que é fenómeno,
história. como sobre o laço que o une com o Eu para
quem é fenómeno. Não é necessário sair do
c) — A fenomenologia pode comparar-se ao pedaço de cera para fazer uma filosofia da
cartesianismo e é indubitável que desta substância extensa, nem para fazer uma filosofia
maneira se pode efectuar adequadamente do espaço, forma a priori da sensibilidade: im-
uma abordagem: é uma meditação lógica porta circunscrever-se ao próprio pedaço de
que visa ultrapassar as próprias cera, sem pressuposto, descrevê-lo apenas tal
incertezas da lógica, com vista e por meio como se nos apresenta. Desenha-se deste modo
de uma linguagem ou logos que exclua a no seio da meditação feno-menológica
incerteza. O anseio cartesiano de uma um^jnojnenio_<2Híi<^„um^ ciência (Merleau-
ma~ thesis universalis renasce em Ponty) que^con^ste-na-recusa^mpassar à
Husserl. Nesse caso é verdadeiramente explicação. Porque explicar o vermelho deste
filosofia, e mesmo filosofia pós-kantiana, aBaVfõur consistè^pfecisamente em pô-lo de
pois pretende evitar a sistematização lado enquanto é este vermelho ostentando neste
metafísica. É uma filosofia do século XX, abat-jour, sob cuja luz eu reflicto sobre o
que sonha com a restituição a este século vermelho; consiste em apresentá-lo como
da sua missão científica, fundamentando vibração de frequência, de intensidade dadas, é
em novas exigências as condições da colocar em seu lugar alguma coisa, o objecto
ciência. Sabe que o conhecimento para o físico, que já não é de modo algum a
encarna em ciência concreta ou empírica própria coisa, para mim. Há sempre um pré-
e pretende conhecer onde tal reflexivo, um irreflectido, um antepredicativo,
conhecimento científico ganha apoio. Os sobre que se apoia a reflexão, a ciência, e que
dados imediatos da consciência, eis o seu ela escamoteia sempre, quando pretende
ponto de partida, a raiz de que se explicar-se a si própria.
alimenta. Já Kant procurava as condições Compreendem-se agora as duas faces da
a priori do conhecimento: mas esse a fenomenologia: uma forte confiança na ciência
priori pressupõe já a solução. A instiga a vontade de assentar as suas bases com
fenomenologia nem sequer esta hipóstase solidez, a fim de estabilizar todo o edifício e
impedir nova crise. Mas, para realizar tal fenomenológica reterá a nossa atenção. Na
operação é preciso sair fora da ciência e pesquisa do dado imediato anterior a qualquer
mergulhar naquilo em que ela inocentemente tematização científica, e validando-a, a
mergulha. É por vontade racionalista que fenomenologia revela o estilo fundamental, ou a
Husserl se empenha no ante-racio-nal. Mas uma essência, da consciência deste dado, que é a
inflexão imperceptível pode transformar este intencionalidade. No lugar da tradicional
ante-racional num anti-racional e a consciência digerindo, ou ao menos ingerindo, o
fenomenologia na bengala do irracionalismo. De mundo exterior (como em Condillac, por
Husserl a Heidegger há verdadeiramente exemplo) mostra uma consciência que irrompe
herança, mas há também mutação. A nossa para (Sartre), uma consciência, em suma, que
exposição não tentará esconder esse equívoco, nada é, se não for relação ao mundo. A partir
que se inscreve na própria história da escola daí, os métodos objectivos, experimentais, em
fenomenológica. resumo, decalcados sobre a física, utilizados
pela psicologia, sociologia, etc, não são
V — Será, sobretudo, no concernente às radicalmente inade
ciências humanas que a reflexão
quados? Não conviria começar, ao menos, por Lévinas, que
desvendar, explicitar os diversos modos através dos justificam a
quais a consciência se tece com o mundo? Por exemplo, prudência que
antes de apreender o social como objecto, o que sublinhámos no
constitui uma decisão de carácter metafísico, torna-se início. Mas
sem dúvida necessário explicitar o sentido mesmo do subsiste um estilo
facto estar-em-so-ciedade e, por consequência, fenomenológico
interrogar ingenuamente este facto. Chegar-se-á, assim, comum, como
à liquidação das contradições inevitáveis, derivadas da justamente mos-
própria posição do problema sociológico: a trou Jean Wahl. E
fenomenologia tenta, não substituir as ciências do não podendo aqui,
homem, mas afinar a sua problemática, seleccionando excepto na opor-
os seus resultados e reorientando a pesquisa. Esforçar- tunidade, localizar
nos-emos por refazer esse percurso. as divergências
ténues ou
VI — Tornar-se-á necessário realçar a importância da acentuadas que
fenomenologia? Ela é uma etapa do pensamento separam estes
europeu e como tal se entendeu a si própria, como filósofos, é
mostra Hus-serl na Krisis. Tentaremos determinar o seu essencialmente
significado histórico, se bem que tal significado não seja este estilo que
determiná-Ivel uma vez por todas, porque existem procuraremos
vários fenomenó-ílogos actualmente e porque o seu captar, depois de
sentido está em curso, inacabado enquanto histórico. ter atribuído a
Há, com efeito, diferentes acentuações de Heidegger a Hus-serl o mérito
Fink, de Merleau-Ponty a Ricoeur, de Pos ou Thévenaz a que lhe cabe:
haver começado. PRIMEIRA
PARTE

HUSSERL
(O

0 Edmund Husserl nasceu em


1859, em Prosnitz (Moravia), ae
uma família israelita. Estudos
científicos em Berlim (Weier-
sirassj e em Viena (Brentano).
Doutoramento em 1883: Contri-
buição a leona do Cálculo das
Variações, tese de matemáticas.
As primeiras publicações
relacionam-se com a lógica das
matemáti-l 1Î * n^^J^istica:
Filosofia da Aritmética, publicada
apenas ÍÀ A I? ( i891); As
Investigações Lógicas, I (1900) e II
(1901). Em lööo, Husserl
converteu-se à religião
evangélica; casou-se em 1887 e
exerce a função de encarregado
de curso na Universidade de
«âne. A partir de 1901, ensina em
Gotinga, numa atmosfera de
I A
EIDÉTICA

combate, identifica sujeito do conhecimento e


sujeito' psicológico. Afirma que o juízo este
muro é amarelo não é uma proposição
independente de mim, que a exprimo e percebo
o muro. Dir-se-á que muro e amarelo são
conceitos definí-veis em extensão e em
compreensão, independentemente de ^
qualquer pensamento concreto. Deverá então
atri-buir-se-lhe uma existência em si,
transcendente ao sujeito e ao real? As
contradições do realismo das ideias (platónico,
entusiasmo em que se formam os primeiros por exemplo) são inevitáveis e insolúveis. Mas,
discípulos {Ideia da Fenomenologia, 1907). É se se admite ao menos o princípio de
então que publica o célebre artigo de Logos, A contradição como critério da validade de uma
Filosofia como Ciência de Rigor (1911), e o
primeiro tomo, o único publicado em vida, das tese (aqui platónica), não se afirma a sua
Ideias Directoras para Uma Fenomenologia independência relativamente ao pensamento
Pura e Uma Filosofia Fenomenológica {Ideen 1) concreto? Transita-se assim do problema da
(1913). Em 1916, obtém a cátedra de Friburgo- matéria lógica, o conceito, ao da sua
i.-B. O seu discípulo Martin Heidegger edita os
seus Prolegómenos à Fenomenologia da organização, os princípios: mas o psicologismo
Consciência Interna do Tempo (1928). Em não desarma neste novo terreno. Quando o
seguida, Hus-serl publica sucessivamente lógico estabelece que duas proposições contrá-
Lógica Formal e Transcendental (1928), rias não podem ser simultaneamente
LesMéditations Cartésiennes (em francês,
1931), A Crise das Ciências Europeias e a verdadeiras, quer apenas dizer que me é
Fenomenologia Transcendental {Krisis, 1936). impossível de facto, ao nível do vivido da
Experiência e luízo é editada pelo seu aluno consciência, acreditar que o muro é amarelo e
Landgrebe (1939). que é verde. A validade dos grandes princípios
Apesar da hostilidade com que o envolve o
regime nazi, Husserl não se expatria. Morre em funda-se na minha organização psíquica e, se
Friburgo em 1938. O R. P. Van Breda, seu aluno são indemonstráveis, é precisamente porque
em Friburgo, receando o anti-semitismo são inatos. De onde se segue, evidentemente,
hitleriano, transporta clandestinamente para que não há afinal verdade independente dos
Lovaina a biblioteca e os inéditos de Husserl.
Os Arquivos Edmund Husserl de Lovaina fazem processos psicológicos que conduziram até ela.
o espólio de trinta, mil páginas de inéditos, por Como poderia eu saber se o meu saber é
vezes estenografados, e continuam a adequado ao seu objecto, como exige a
publicação das obras completas, Husserliana concepção clássica de verdadeiro? Qual o sinal
(Níjhoff, Haia).
1. O cepticismo psicológico dessa adequação? Necessariamente um certo
estado de consciência, através do qual toda a
O psicologismo, contra o qual Husserl questão concernente ao objecto de que
possuímos saber se revele supérflua: a certeza efeito, o postulado.de base de todo o empirismo
subjectiva. consiste na afirmação de que a experiência é a
Assim, o conceito seria um vivido, o única fonte de verdade para toda a experiência;
princípio uma condição contingente do mas esta afirmação deve ela mesma ser
mecanismo psicológico, a verdade uma crença submetida à prova da experiência. Ora, a
coroada de êxito. Sendo o próprio saber experiência, que sempre fornece apenas o
científico dependente da nossa organização, contingente e o singular, não pode trazer à
nenhuma lei pode ser considerada como ciência o princípio universal e necessário de
absolutamente verdadeira; seria uma hipótese uma afirmação deste teor. O empirismo não
sujeita a verificação contínua e cuja validade pode ser compreendido pelo empirismo. Por
seria definida pela eficácia das operações outro lado, é impossível confundir, por exemplo,
(pragma) que possibilita. A ciência teceria o fluxo de estados subjectivos experimentados
assim uma rede de símbolos cómodos (energia, pelo matemático enquanto raciocina e o
força, etc.) com que veste o mundo; o seu raciocínio: as operações de raciocínio são
único fim consistiria, então, em estabelecer definíveis independentemente de tal fluxo.
entre esses símbolos relações constantes que Pode-se apenas dizer que o matemático
possibilitassem a acção. Não se trataria raciocina correctamente quando, por meio
propriamente de um conhecimento do mundo. deste fluxo subjectivo, atinge a objectividade do
Nem se poderia afirmar um progresso de tal raciocínio verdadeiro. Mas esta objectividade
conhecimento no decurso da história: a história ideal define-se por condições lógicas e a
é um devir sem significação assinalável, uma verdade do raciocínio (a sua não contradição)
acumulação de tentativas e erros. Torna-se, impõe-se quer ao matemático, quer ao lógico. O
portanto, necessário renunciar a pôr à ciência raciocínio verdadeiro é universalmente válido, o
questões para as quais não há resposta. raciocínio falso é viciado pela subjectividade,
Finalmente, a matemática é um vasto sistema portanto in-transmissível. Do mesmo modo, um
formal de símbolos convencionalmente triângulo rectângulo possui uma objectividade
estabelecidos e de axiomas operatórios sem ideal, no sentido em que é o sujeito de um
conteúdo limitativo: tudo aqui é possível à conjunto de predicados, inalienáveis, sob pena
nossa fantasia (Poin-caré). A própria verdade de perder o próprio triângulo rectângulo. Para
matemática se encontra definida de acordo evitar o equívoco da própria palavra ideia,
com o referencial de axiomas escolhidos à par- dizemos que possui uma essência, constituída
tida. Todas estas teses convergem para o por todos os predicados cuja hipotética
cepticismo. supressão arrastaria a supressão do próprio
triângulo em pessoa. Por exemplo, todo o triân-
gulo é por essência convexo.
2. As essências Mas, se nos detivermos ao nível dos
objectos matemáticos, o argumento formalista,
que faz de tais objectos concepções
Husserl mostra (Investigações Lógicas, convencionais, é ainda poderoso. Mostrar-se-á,
Ideen I) que tal cepticismo, baseado no por exemplo, que os pretensos caracteres
empirismo, se suprime ao contradizer-se. Com essenciais do objecto matemático são na
realidade deduzíveis a partir de axiomas. Por apresenta é impensável. Porque se, ao 1 fazer
isso Husserl amplia, a partir do tomo II das variar pela imaginação o objecto cor, lhe retirar-
Investigações Lógicas, a sua teoria da essência | mos o predicado extensão, suprimimos a
para a estender ao terreno favorito do possibilidade ( do próprio objecto cor, atingimos
empirismo, a percepção. Quando dizemos o uma consciência da \ impossibilidade. Esta
murp é amarelo, implicamos essências neste revela a essência. Há, pois, nos V juízos, limites
juízo? E, por exemplo, a cor poderá apreender- à nossa fantasia, que nos são fixados pelas \
se independente da superfície em que se próprias coisas sobre que se ajuíza e que a
encontra espalhada? Não, porque uma cor própria Fan- J tasia desvenda, graças ao
separada do espaço ^ em que se nos processo da variação.
A FENOMENOLOGIA A EMÉTICA

i O processo da variação imaginária dá-nos a fundar todo o conhecimento na experiência,


própria / essência, o ser do objecto. O objecto considerando como adquirido sem exame que
(Objekt) é um uma I coisa qualquer, por exemplo só a experiência dá as próprias coisas: há aí um
o número dois, a nota dó, I o círculo, uma preconceito empirista, pragmatista. Na
proposição qualquer, um dado sensível {Ideen realidade, a fonte última de direito de qualquer
I). Faz-se variar arbitrariamente, obedecendo afirmação racional encontra-se no ver (Sehen)
ape-\ nas à evidência actual e vivida do eu posso em geral, isto é, na consciência doadora
ou do eu não j posso. A essência ou eidos do originária (Ideen). Nada admitimos como
objecto é constituída pelo / invariante, que pressuposto, diz Husserl, nem sequer o conceito
permanece idêntico através das variações. de filosofia. E quando o psicologismo pretende
Assim, se se opera a variação sobre o objecto identificar o eidos, obtido pela variação, com o
coisa sensível, obtém-se como ser mesmo da conceito, cuja génese é psicológica e empírica,
coisa: conjunto espacio-temporal, dotado de respondemos-lhe apenas que diz então mais do
qualidades segundas, dado como substância e que sabe realmente, se pretende ater-se à
unidade causai. Experimenta-se, pois, a essência intuição originária que deseja ter por lei. O
como uma intuição vivida. Mas, a visão das número dois é, talvez, enquanto conceito,.cons-
essências (Wesenschau) não tem qualquer truído a partir da experiência; mas, enquanto
carácter metafísico. A teoria das essências não deste nú-mero obtenho o eidos por variação,
se enquadra num realismo platónico em que a digo que este eidos Sé anterior a qualquer
existência da essência seria afirmada^á teoria da construção do número, / e disso é
essência é apenas aquilo em que.a própria coisa prova o facto de qualquer explicação genética f
se me revelou numa doação originária^ se apoiar sempre no saber actual do algo que a
Tratava-se na verdade, como desejava o génese ^deve explicar. A interpretação
empirismo, de voltar às próprias coisas {zu den empirista da formulação do número dois
Sachen selbst), de suprimir qualquer opção pressupõe SL compreensão originária deste
metafísica. Mas o empirismo era ainda número. Esta compreensão é, portanto, uma
metafísico quando confundia esta exigência de condição para toda a ciência empírica. O eidos
regresso às próprias coisas com a exigência de que nos fornece é apenas um puro possível,
mas há uma anterioridade desse possível no real em geral, ou ainda, a ontologia da natureza (ou
de que se ocupa a ciência empírica. seja, estudo do esse ou essência). Esta
ontologia foi apreendida na sua verdade, como
prolegómeno à ciência empírica
3. A ciência eidética correspondente, por altura do desenvolvimento
da geometria e do papel por ela desempenhado
Afigura-se então possível fornecer a esta na rectificação do conhecimento físico. Qualquer
ciência a sua validade. As incertezas da ciência, coisa natural tem efectivamente por essência
sensíveis já para as ciências humanas, mas ser espacial e a geometria é a eidética do
acabando por atingir as que constituíam como espaço. Mas nã© abraça toda a essência da
que o seu modelo, a física e a matemática, têm coisa e daí o desenvolvimento de outras
origem numa obstinada preocupação expe- disciplinas. Distinguiremos, então,
rimental. Antes de fazer física, importa estudar o hierarquicamente e partindo do empírico: I)
que sejo facto físico, sua essência; o mesmo se Essências materiais (a do vestuário, por
diga para as outras disciplinas. Da definição do exemplo) estudadas por ontologias ou ciências
eidos captado pela intuição originária poderão eidéticas materiais; 2) Essências regionais
extrair-se as conclusões metodológicas que irão, (objecto cultural) cobrindo as anteriores e
orientar a pesquisa empírica. £ então claro que, explicitadas por eidéticas regionais; 3) A
por exemplo, nenhuma psicologia empírica séria essência do objecto em geral, segundo a defi-
pode empreender-se se a essência do psíquico nição apresentada anteriormente, cujo estudo é
não tiver sido apreendida, de modo a evitar feito por uma ontologia formal (*). Esta última
qualquer espécie de confusão com a essência do essência, que cobre
físico. For outras palavras, importa definir as leis
eidéticas que orientam todo o conhecimento 0 A hierarquia é evidentemente em rede e
empírico: tal estudo constitui a ciência eidética não unilinear.

A FENOMENOLOGIA

todas as essências regionais, é uma pura forma possíveis (sistema de multiplicidade).


eidética e a região formal que determina não é Tal é o primeiro grande movimento do
uma região coordenada com as regiões percurso hus-serliano. Apoia-se no facto,
materiais, mas a forma vazia de região em geral definido como estar ai individual e contingente;
Esta ontologia formal é indentificável com a a contingência do facto reenvia para a essência
lógica pura. É a mathesis universalis, ambição necessária, porque pensar a contingência é
de Descartes e de Leibniz. É claro que tal pensar que é próprio da essência desse facto
ontologia deve definir não apenas a noção de poder ser diferente do que é. A facticidade
teoria em geral, mas todas as formas de teorias implica, pois, uma necessidade. Tal percurso
recupera aparentemente o platonismo e a sua partir do segundo tomo das Investigações
inocencia. Mas contém também o carte- Lógicas, desenha-se um salto que nos vai fazer
sianismo, pois se esforça por fazer do entrar na filosofia propriamente dita. A
conhecimento das essências não o fim de todo o problemática da correlação, isto é, o conjunto
conhecimento, mas a introdução necessária ao dos problemas suscitados pela relação do
conhecimento do mundo material. Neste pensamento ao seu objecto, uma vez
sentido, a verdade da eidética está no empírico aprofundada, deixa emergir a questão que
e é por isso que esta redução eidética, por meio constitui o seu núcleo: a subjectividade. É prova-
da qual somos convidados a passar da velmente aqui que se faz sentir a influência de
facticidade contingente do objecto ao seu Brentano sobre Husserl (que fora seu aluno). A
conteúdo inteligível, pode ainda considerar-se observação-chave da psicologia brentaniana era
mundana. A cada ciência empírica corresponde que a consciência é sempre consciência de
uma ciência eidética respeitante ao eidos alguma coisa, ou seja, que a consciência é
regional dos objectos por ela estudados, e a intencionalidade. Transpondo este tema para o
própria fenomenologia é, nesta etapa do nível da eidética, isso significa que todo o
pensamento husserliano, definida como ciência objecto em geral, o próprio eidos, coisa,
eidética da região consciência. Por outras pala- conceitopete, é objecto para uma consciência,
vras, em todas as ciências empíricas do homem de tal modo que importa descrever neste
(Geites-wissenchaften) se encontra momento o modo como eu conheço o objecto e
necessariamente implicada uma essência da como o objecto é para mim. Quer isto dizer que
consciência. É essa implicação que Hus-serl regressamos ao psicologismo? Houve quem tal
tenta articular em Ideen II. pensasse. Mas não é nada disso.
A preocupação de fundar radicalmente o
saber conduzira Husserl à eidética formal, isto é,
a uma espécie de logicismo. Mas, a partir do
sistema das essências, duas orientações se
abriram: ou desenvolver a ciência lógica em
mathesis universalis, ou seja, constituir do lado
do objecto uma ciência das ciências; ou, ao
contrário, passar à análise do sentido para o
sujeito dos conceitos lógicos utilizados por esta
ciência, do sentido das relações que estabelece
entre estes conceitos, do sentido das verdades
que pretende estabilizar, ou seja, em resumo,
II O TRANSCENDENTAL pôr em questão o próprio conhecimento, não
para construir uma teoria a seu respeito, mas
para fundar mais radicalmente o saber eidético
1. A problemática do sujeito radical. Ao tomar consciência de que já na
simples doação do objecto estava implícita uma
A fenomenologia assumia assim o sentido de correlação do Eu e do objecto que devia remeter
uma propedêutica às ciências do espírito. Mas, a para a análise do Eu, Husserl escolhe a segunda
orientação, A radicalidade do eidos pressupõe (matemática ou física puras), mas não as
uma radicalidade mais fundamental. Porquê? condições reais do conhecimento concreto: a
Porque o próprio objecto lógico pode ser-me subjectividade transcendental kantiana é sim-
dado confusa ou obscuramente, pois posso ter plesmente o conjunto das condições que
uma simples representação, vazia, formal, regulam o conhecimento de todo o objecto
operatória de tais leis, de tais relações lógicas. possível em geral; o Eu concreto é relegado para
Na sexta Investigação Lógica, mostra Husserl o nível do sensível como objecto (e é por isso
que a intuição lógica (ou categorial) só que Husserl acusa Kant de psicologismo); e fica
consegue escapar a esta compreensão sem resposta a questão de saber como é que a
puramente simbólica quando se funda na experiência real entra efectivamente no quadro
intuição sensível. Trata-se de um regresso à apriórico de todo o conhecimento possível para
tese kantiana de que o conceito sem intuição é permitir a elaboração das leis científicas
vazio? Os neo-kantianos assim pensaram. particulares, pelo mesmo motivo que, na Crítica
Assinalámos dois movimentos entrecruzados da Razão Prática, a integração da experiência
no segundo tomo das Investigações Lógicas: moral real nas condições a priori da moralidade
um, parece reconduzir-nos ao psicologismo, ao pura é impossível, como admite o próprio Kant.
introduzir a análise do vivido como fundamento Husserl retém o princípio de uma verdade
de todo o conhecimento; o outro, ao projectar fundada no sujeito do conhecimento, mas rejeita
sobre o fundo da intuição da coisa sensível a a disjunção deste e do sujeito concreto. É neste
compreensão evidente do objecto ideal, parece passo que encontra Descartes.
reduzir a fenomenologia às posições do
kantismo. Aliás, entre as duas vias acima
definidas, Husserl empenha-se na segunda e 2. A redução
parece passar do realismo das essências ao
idealismo do sujeito: A análise do valor dos É na Ideia da Fenomenologia (1907) que
princípios lógicos conduz a pesquisas centradas surge a inspiração cartesiana. Essa inspiração
no sujeito {Lógica Formal e Lógica desequilibrará as Ideen I, bem como, mas em
Transcendental, 203). Parece então que nesta menor grau, as Meditações Cartesianas.
fase tenhamos de escolher entre um idealismo O sujeito cartesiano, obtido pelas operações
centrado no Eu empírico e um idealismo da dúvida e do cogito, é um sujeito concreto,
transcendental à maneira kantiana. Mas, nem vivido, não um quadro abstracto. Mas este
um nem outro podiam satisfazer Husserl. O sujeito é, simultaneamente, um absoluto, tal é o
primeiro, porque torna incompreensíveis sentido das duas primeiras meditações: basta-se
proposições verdadeiras, reduzidas pelo psicolo- a si mesmo, de nada necessita para fundar o seu
gismo a estados de consciência não ser. A percepção que este sujeito tem de si
privilegiados, e porque no mesmo fluxo desta mesmo é e permanece, enquanto dura, um
consciência vaza, conjuntamente, o que é válido absoluto, um «este», algo que é, em si, o que é,
e o aue não é válido, destruindo assim a ciência algo com que eu posso medir, como medida
e destruindo-se a si mesmo enquanto teoria última, o que «ser» e «ser dado» pode e deve
universal. O segundo, porque explica apenas as significar (Id. Fen.). A intuição do vivido por si
condições a priori do conhecimento puro mesmo constitui o modelo de toda a evidência
originária. E nas Ideen I Husserl vai refazer o um passado e um futuro, conhecidos e
percurso cartesiano, a partir do mundo desconhecidos, imediatamente vivos e privados
percebido ou mundo natural. Não há motivo de vida. (Enfim, esse mundo não é apenas)
para estupefacção neste deslizar do plano lógico mundo de coisas, mas, com o mesmo carácter
ao plano natural: um e outro são mundanos e o imediato, mundo de valores, mundo de bens,
objecto em geral é tanto coisa como conceito. mundo prático (Ideen, 48-50). Mas esse mundo
Para falar com propriedade, não se trata compreende também um ambiente ideal: se
verdadeiramente de um deslizar, mas de uma presentemente me ocupar de aritmética, esse
acentuação. Ora, é indispensável compreender mundo aritmético está aí para mim diferente da
verdadeiramente que a redução tem, em geral, realidade natural, pelo facto de que está para
por objecto toda a transcendência (isto é, todo o mim apenas enquanto assumo a atitude de
em si). aritmético, ao passo que a realidade natural já
A atitude natural contém uma tese ou está sempre aí. Enfim, o mundo natural é
posição implícita, pela qual eu encontro aí o também o mundo da intersubjectividade.
mundo e o aceito como existente, As coisas A tese natural, implicitamente contida na
corporais estão simplesmente aí para mim com atitude natural, é o meio pelo qual descubro (a
uma distribuição espacial qualquer; estão «pre- realidade) como existente e a acolho, como se
sentes» no sentido literal ou figurado, quer eu me apresenta, igualmente como existente
lhe conceda ou não uma atenção particular... (Ideen, 52-53). Posso, com certeza, duvidar dos
Também os seres animados, como os homens, dados do mundo natural, recusar as informações
estão aí para mim de maneira imediata... Para que dele recebo, distinguir, por exemplo, o que
mim, os objectos reais estão aí dotados de é «real» do que é ilusão, etc, mas semelhante
determinação, mais ou menos conhecidos, dúvida «nada muda na posição geral da atitude
aderindo fortemente aos objectos natural» (ibid.). Proporciona o acesso a uma
efectivamente percebidos, sem serem eles mais adequada captação do mundo como
mesmos percebidos, nem sequer de modo existente, e mais rigorosa do que a fornecida
intuitivo... Mas o conjunto dos objectos co-pre- pela percepção imediata, e fundamenta a
sentes à intuição de maneira clara ou obscura, ultrapassagem do perceber pelo saber científico.
distinta ou confusa, e cobrindo constantemente Mantém-se, no entanto, neste saber a tese
o campo actual da percepção, nem sequer intrínseca à atitude natural, pois não há ciência
esgota o mundo que para mim está «aí» de que não admita a existência do mundo real, do
modo consciente em cada um dos momentos qual é ciência.
em que estou desperto. Pelo contrário, estende- Esta alusão às duas primeiras meditações de
se sem limite, segundo uma ordem fixa de Descartes mostra que, mal o radicalismo
seres, em certo sentido atravessado, em certo cartesiano surgiu, logo Husserl descobre a sua
sentido rodeado por um «horizonte insuficiência: a dúvida cartesiana respeitante à
obscuramente consciente de realidade coisa natural (pedaço de cera) é em si mesma
indeterminada»... Tal horizonte brumoso, uma atitude mundana, não passa de uma
definitivamente incapaz de total determinação, modificação desta atitude, não respondendo,
está necessariamente aí... O mundo... com um portanto, à exigência profunda de radicalidade.
horizonte temporal infinito nos dois sentidos, Disso será apresentada prova nas Meditações
Cartesianas, onde Husserl denuncia o dissocia plenamente, por um lado, o mundo
preconceito geométrico pelo qual Descartes como totalidade das coisas e, por outro, a
assimila o cogito a um axioma do saber em consciência sujeito da redução. Procedamos à
geral, quando o cogito^ deve ser muito mais, análise eidética da região coisa e da região
pois é o fundamento dos próprios axiomas. Tal consciência.
preconceito geométrico mostra a insuficiência A coisa natural, por exemplo, aquela árvore
da dúvida como forma de radicalização. acolá, é-me dada num e por um fluxo incessante
Convém, então, opor à dúvida uma atitude por de esboços, de silhuetas (Abschattungen). Tais
meio da qual não tome posição em relação ao perfis, através dos quais a coisa se desenha, são
mundo como existente, seja essa atitude de vivências relacionadas com a coisa por seu
afirmação natural de existência seja de duvidar sentido de apreensão. A coisa é como um
cartesiano, etc. Enquanto sujeito empírico e mesmo que me é dado através de incessantes
concreto, continuo, bem entendido, a participar modificações. O que faz com que seja coisa para
de facto na posição natural do mundo, tal tese é mim (isto é, em si para mim) é precisamente a
ainda algo vivido, mas não faço dela qualquer inadequação necessária da minha apreensão
uso. Está suspensa, posta fora de jogo, fora de desta coisa. A ideia de inadequação é equívoca:
circuito, entre parêntesis. E por esta redução enquanto a coisa se desenha através das silhue-
(epochê) o mundo circundante não é mais tas sucessivas, só unilateralmente tenho acesso
simplesmente? existente, mas fenómeno de à coisa, por uma das suas faces; mas são-me
existência (Med. Cart.). dadas as demais faces da coisa, não em pessoa,
mas sugeridas pela face dada sensorialmente.
Por outras palavras, a coisa, tal como me é dada
pela percepção, está sempre aberta a horizontes
3. O Eu puro de indeterminação, indica de antemão uma
variedade de percepções, cujas fases, passando
Qual o resultado desta operação redutora? continuadamente de uma a outra, se fundem na
Na medida em que o Eu concreto se encontra unidade de uma percepção (Ideen, 80). É por
imbricado com o mundo natural, é evidente que isso que jamais a coisa me pode ser dada como
ele próprio é reduzido; ou seja, devo abster-me um absoluto, pois encerra uma imperfeição
de qualquer tese relativa ao Eu como existente. indefinida concernente à essência inextinguível
Mas não é menos evidente que existe um da correlação entre coisa e percepção de coisa
Eu, que justamente se abstém, e que é o Eu (ibid.). No decurso da percepção, são retocados
mesmo da redução. Este Eu denomina-se Eu os sucessivos esboços, e pode um novo perfil vir
puro; a epoché é o método universal por meio corrigir o perfil precedente, sem haver qualquer
do qual me apreendo como Eu puro. Este Eu contradição, uma vez que o fluxo de todas estas
puro tem um conteúdo? Não, no sentido em que silhuetas se funde na unidade de uma^ per-
não é um continente; sim, no sentido em que cepção. Assim, acontece que a coisa emerge
este Eu é o objectivo de algo. E não será através de retoques sem fim.
necessário fazer incidir a redução sobre este Ao contrário, o próprio vivido é dado a si
conteúdo? Antes de responder a esta questão, mesmo numa percepção imanente. A
convém verificar que à primeira vista a redução consciência de si fornece o vivido em si mesmo,
isto é, tomado como absoluto. Tal não significa das experiências (no sentido kantiano) pode
que o vivido seja sempre captado adequada- revelar-se simples aparência e não passar de um
mente na sua plena unidade: enquanto fluxo, sonho coerente. Neste sentido, a redução é já
está já sempre longe, já passou, quando por si mesma, na qualidade de expressão da
pretendo captá-lo. Por isso, é apenas como liberdade do Eu puro, a revelação do carácter
vivido retido, como retenção, que posso captá- contingente do mundo. Ao contrário, o sujeito da
lo. E é por isso ainda que o fluxo total do meu redução ou EUi puro é evidente a si mesmo de
vivido é uma unidade de vivência que por uma evidência apodíctica, o que significa que o
princípio é impossível de captar pela percepção, fluxo de vivências que o
se nos deixamos por completo «.deslizar com»
ela (Ideen, 82). A dificuldade particular, que é
simultaneamente uma problemática essencial 0) Ver mais adiante, pp. 90 sq.
da consciência, prolonga-se no estudo da cons- constitui, enquanto se aparece a si mesmo, não
ciência do tempo interior (*); mas, ainda que pode ser posto em questão, nem na sua
não haja adequação imediata da consciência a essência, nem na sua existência. Esta
si mesma, fica de pé que todo o vivido encerra apodicticidade não implica uma adequação; a
em si mesmo a possibilidade de princípio da sua certeza de ser do Eu não garante a certeza do
existência. «O fluxo do vivido, que é o meu conhecimento do Eu; mas é suficiente para opor
fluxo, o do sujeito pensante, pode ser não a percepção transcendente da coisa e do mundo
apreendido tão amplamente quanto se em geral e a percepção imanente: A posição do
pretenda, desconhecido quanto às partes já mundo, que é uma posição «contingente», opõe-
decorridas e que estão para vir; basta que lance se à posição do meu Eu puro e do meu vivido
o meu olhar sobre a vida que passa na sua egológico, que é uma posição «necessária» e
presença real e que neste acto me apreenda a absolutamente indubitável. Qualquer coisa dada
mim próprio como o sujeito puro desta vida, «em pessoa» pode igualmente não ser,
para poder dizer sem restrição e nenhuma vivência dada «em pessoa» pode não
necessariamente: 'eu sou', esta vida ê, eu vivo: ser {Ideen, 86). Esta lei é uma lei de essência.
'cogito'» (Ideen, 85). Perguntávamo-nos: a redução
Por consequência, o primeiro resultado da fenomenológica deve incidir sobre o conteúdo
redução consistia em obrigar-nos a dissociar do Eu puro? Compreendemos agora que tal
nitidamente o mundano ou natural em geral e questão supõe um contra-senso radical,
um sujeito não mundano; mas continuando a precisamente o que Husserl imputa a Descartes:
descrição, conseguimos hierarquizar de algum consiste em admitir o sujeito como coisa {res
modo estas duas regiões do ser em geral: con- cogitans). O Eu puro não é uma coisa, pois não
cluímos com efeito pela contingência da coisa se dá a si próprio como a coisa lhe ê dada. Não
(tomada como modelo do mundano) e pela coabita pacificamente com o mundo, tão--pouco
necessidade do Eu puro, resíduo da redução. A precisa do mundo para ser; porque, imaginemos
coisa e o mundo em geral não são apodícticos que o mundo fosse aniquilado (reconhecer-se-á
(Med. Cart.), não excluem a possibilidade de se de passagem a técnica das variações
duvidar deles, portanto, não excluem a pos- imaginárias para fixar a essência), o ser da
sibilidade da sua não existência; todo o conjunto consciência seria com certeza necessariamente
modificado..., mas não seria atingido na sua doação originária. Em seguida, ao meditar nesta
essência. Com efeito, um mundo aniquilado mesma doação, e mais precisamente na doação
significaria, para a consciência que visa este originária das coisas (percepção), descobrimos,
mundo, o desaparecimento de certas conexões aquém da atitude pela qual estamos ao dispor
empíricas ordenadas no fluxo das suas das coisas, uma consciência cuja essência é
vivências, desaparecimento que implicaria o de heterogénea a tudo aquilo de que é consciência,
certas conexões racionais determinadas pelas a toda a transcendência, por meio da qual é
primeiras. Mas semelhante aniquilamento não posto o sentido mesmo de transcendente. É essa
implica a exclusão de outras vivências e de a verdadeira significação do pôr entre
outras conexões entre as vivências. Por outras parêntesis: refere o olhar da consciência sobre si
palavras, nenhum ser é necessário para o ser mesma, transforma a direcção desse olhar e
da própria consciência. O ser imanente é, pois, levanta, ao suspender o mundo, o véu que
indubitavelmente um ser absoluto, dado que ocultava ao Eu a sua própria verdade. Essa
«nulla 'res' indiget ad existendum». Por outro suspensão revela que o Eu continua sendo o que
lado,' o mundo, das «res» transcendentes é, isto é, entrelaçado com o mundo, e que o seu
refere-se inteiramente a uma consciência, de conteúdo concreto é efectivamente o fluxo das
modo nenhum a uma consciência concebida Abschattungen, por meio das quais a coisa se
logicamente, mas a uma consciência actual desenha. O conteúdo concreto da vida
(ibid., 92). subjectiva não acaba com a passagem à
A epoché tem, deste modo, uma dupla dimensão filosófica, antes se revela então na
significação, na fase das Ideen I: por um lado, sua verdadeira autenticidade. A posição do
negativa, por isolar a consciência como resíduo mundo foi «posta fora de acção», não
fenomenológico, sendo também a este nível que aniquilada; permanece viva, embora sob um
se opera a análise eidética (isto é, ainda forma «modificada», que permite à consciência
natural) da consciência; por outro lado, positiva, a plena consciência de si mesma. A epoché não
porque faz emergir a consciência como é uma operação lógica exigida pelas condições
radicalidade absoluta. Com a redução de um problema teórico, mas o processo que
fenomenológica, realiza-se numa nova etapa o confere acesso a um novo modo da
programa husserliano de um fundamento «existência»: a existência transcendental como
indubitável e originário: da radicalidade eidética existência absoluta. Tal significação só pode
faz-nos descer a uma radicalidade realizar-se num acto de liberdade (').
transcendente, ou seja, a uma radicalidade que
fundamenta toda a transcendência. (Recorde-
mos que se deve entender por transcendência o _( ) TRAN-DUC-THAO, Phénoménologie et
modo de apresentação do objecto em geral.) matérialisme dialectique, pp. 73-74. Nunca será
Perguntávamos como pode ser possível uma demais aconselhar a leitura desta obra notável.
verdade matemática ou científica. Contra o 4. Eu puro, Eu psicológico, sujeito
cepticismo, vimos que só é possível pela kantiano
posição da essência do que é pensado; tal
posição de essência nada mais fazia intervir do Não se trata de um regresso ao
que um ver (Schau) e a essência captada numa subjectivismo psicolo-gista, porque o Eu
revelado pela redução não é precisamente o Eu E não é por acaso que o criticista Natorp
natural psicológico ou psicofísico. Não se trata Q se declarava de acordo com as Ideen 1.
igualmente de uma centração numa posição Tais sugestões provêm sobretudo do facto
kantiana, pois o Eu transcendental não é «uma de Husserl insistir no ser absoluto da
consciência concebida logicamente, mas uma consciência, para evitar se acreditasse
consciência actual». não passar este»Eu duma região da
e) Não se pode confundir Eu transcendental natureza (postulado da psicologia). Mos-
e Eu psicológico, tema em que insistem tra, pelo contrário, que a natureza só é
fortemente as Meditações Cartesianas. possível por meio do Eu: A natureza só é
Sem dúvida, diz Husserl, eu, que possível a título de unidade intencionai,
permaneço na atitude natural, sou motivada na consciência por meio de
«também» e em cada momento eu conexões imanentes... O domínio das
transcendental. Mas (acrescenta) só me vivências enquanto essência absoluta... é
dou conta disso ao efectuar a redução por essência independente de qualquer
fenomenológica. O Eu empírico está ser pertencente ao mundo, à natureza, e
interessado no mundo e nele vive nem sequer o requer para a sua
completamente à vontade. Com base existência. A existência duma natureza
neste Eu, a atitude fenomenológica não pode condicionar a existência da
constitui um desdobramento do Eu, por consciência, pois que uma natureza se
meio do qual se estabelece o espectador revela a si mesma como correlato da
desinteressado, o Eu fenomenoló-gico. É consciência (Ideen, 95-6). Os criticistas
este Eu do espectador desinteressado (Natorp, Rickert, Kreis, Zocher) apoiam-se
que a reflexão fenomenológica examina, nesta filosofia transcendental; mostram
sustida, também ela, por uma atitude que, para Husserl como para Kant, a
desinteressada do espectador. Torna-se, objectividade se relaciona com o conjunto
então, necessário admitir das condições a priori e que o grande
simultaneamente que o Eu em questão é problema fenomenológico é precisamente
o Eu concreto, pois não há, de facto, o da Crítica: como é possível um dado?
qualquer diferença de conteúdo entre Quanto ao aspecto intuicionista,
psicologia e fenomenologia, e que não é o sobretudo quanto à pura apreensão do
Eu concreto, pois é separado do seu ser vivido por si mesmo na percepção
no mundo. A psicologia intencional e a imanente, não resta a Kreis qualquer
fenomenologia transcendental partirão dúvida de que brota dum preconceito
ambas do cogito, mas a primeira deter- empirista: com efeito, como seria possível
se-á no nível mudano, enquanto a que um sujeito que não é mais que o
segunda abarca o mundo na totalidade, conjunto das condições a priori de toda a
incluso o Eu psicológico. objectividade possível fosse também um
f) Encontramo-nos, então, perante o sujeito fluxo empírico de vivências, apto a
transcendental kantiano? Assim o apreender a sua in-dubitabilidade radical
sugerem muitas passagens, tanto das numa presença originária a si? Escrevia
Ideen I como das Meditações Cartesianas. Kant: Fora da significação lógica do Eu,
não temos qualquer conhecimento do problema: para falar com propriedade, a
sujeito em si, que está na base do Eu fenomenologia não se põe o problema criticista;
como de todos os pensamentos, na quali- põe-se antes o problema da origem do mundo, o
dade de substrato. O princípio de mesmo que se punham as religiões e as
imanência husserliano resulta duma metafísicas. Tal problema foi sem dúvida
psicologia empirista, é incompatível com eliminado pelo criticismo, porque era sempre
a constituição da objectividade. posto e resolvido em termos apódeos. O criti-
Ressalvada esta reserva, Husserl seria um cismo substituiu-o pelo problema das condições
kantiano bastante aceitável. de possibilidade do mundo para mim. Mas tais
Num artigo célebre 0), E. Finck, na altura condições são elas próprias mundanas, e toda a
assistente de Husserl, responde a tais análise kantiana se limita
comentários de maneira a esclarecer o nosso

(') «Husserls Ideen zu einer reinen mais não ser que o mundo enquanto visado,
Phänomenologie», Logos, VII, 1917-18.
(') «Die Pänomenologisch Philosophie E. intencional, fenómeno, quando o mundo é
Husserls in der gegenwärtigen Kritik», posto como existência real e transcendente
Kantstudien, XXXVIII, 1933. Subscrito por pelo Eu. A redução resultante de semelhante
Husserl.
paradoxo, permite-nos precisamente
apenas ao nível eidético. Por isso, é claro que o
apreender como existe para nós o em si, ou
criticismo comete um erro de interpretação
seja, de que modo a transcendência do objecto
acerca da fenomenologia. Tal erro é
pode ter o sentido de transcendência na
particularmente manifesto no que diz respeito
imanência do sujeito. A redução restitui ao
à questão da imanência e da fusão do sujeito
sujeito a sua verdade de constituinte das
transcendental com o sujeito concreto. Na
transcendencias, implícita na atitude alienada
realidade, não há fusão, mas, ao invés,
que é a atitude natural.
desdobramento. Porque o que é dado
anteriormente a qualquer construção
conceptual é a unidade do sujeito; e o que se 5. A intencionalidade
torna incompreensível no criticismo em geral
reside no facto de o sistema das condições a Se o objecto pode ter o sentido de
priori de objectividade ser um sujeito, o sujeito transcendência no próprio seio da imanência
transcendental. Na realidade é o próprio sujeito do Eu é, em suma, porque não existe
perceptivo que constrói o mundo, mundo em verdadeiramente imanência à consciência. A
que, no entanto, está por meio da percepção. distinção entre os dados imanentes e os dados
Quando o exploramos na perspectiva do seu transcendentes, na qual Husserl funda a
entrelaçamento com o mundo, > para o primeira separação da consciência e do mundo,
distinguir desse mundo utilizamos o critério da é ainda uma distinção mundana. Na realidade,
imanência; mas a situação pradoxal provém do a epoché husserliana revela uma dimensão
facto de o próprio conteúdo dessa imanência essencial da consciência, a partir da qual se
aclara o paradoxo que há pouco essenciais do Eu: fundamento radical ou abso-
acentuávamos. Com efeito, a intencionalidade luto, fonte de toda a significação ou potência
não é apenas esse dado psicológico que Hus- constituinte, nexo de intencionalidade com o
serl herdou de Brentano, mas ainda aquilo que objecto. A intencionalidade não tem, bem
possibilita a própria epoché: perceber este entendido, apenas um carácter perceptivo.
cachimbo em cima da mesa, de modo nenhum Husserl distingue diversos tipos de actos in-
ter uma reprodução em miniatura deste tencionais: imaginações, representações,
cachimbo no espírito, mas visar o próprio experiências alheias, intuições sensíveis e
objecto cachimbo. Ao pôr fora de circuito a categoriais, actos da receptividade e da
doxa natural (posição espontânea da espontaneidade, etc; em resumo, todos os
existência do objecto), a redução revela o conteúdos da enumeração cartesiana: Quem
objecto enquanto visado, ou fenómeno; o sou eu, eu, que penso? Uma coisa que duvida,
cachimbo não é, então, mais que um face-a- que ouve, que concebe, que afirma, que nega,
face (Gegen-stand), e a minha consciência que quer, que não quer, que imagina também
aquilo para quem há esses face-a-face. A e que sente. Por outro lado, Husserl distingue o
minha consciência não pode ser pensada, se Eu actual, no quaj há consciência explícita do
imaginariamente lhe retirarmos aquilo de que é objecto, e o Eu inactual, no qual a consciência
consciência; e nem se pode sequer dizer que do exemplo, o acto de apreensão atenta)
seria, nesse caso, consciência de nada, porque encontra-se sempre rodeado por uma área de
este nada seria automaticamente o fenómeno vividos inactuais, o fluxo do vivido jamais pode
de qüe seria consciência. A variação imaginária ser constituído por puras actualidades (Ideen,
operada na consciência mostra-nos cla- 63). Todas as vivências, actuais ou inactuais,
ramente a sua verdadeira essência, que é ser são igualmente intencionais. Importa, então,
consciência de alguma coisa. não confundir intencionalidade e atenção. Há
É_p_orque_a..consciência é intencionalidade intencionalidade desatenta, implícita. Teremos
que é possível efectuar a redução sem perder o ocasião de voltar a este ponto, essencial para a
que é reduzido: reduzir é, no fundo, ciência psicológica, pois contém em resumo
transformar todo o dado em face-a-face, cm toda a tese fenomenológica concernente ao
fenómeno, e revelar assim os caracteres inconsciente.

A FENOMENOLOGIA

Vemos que, com Husserl, é possível falar mas convirá sempre precisar que tal inclusão
de uma inclusão do mundo na consciência, não é real (o cachimbo está no quarto), mas
dado que a consciência não é só o pólo Eu intencional (o fenómeno cachimbo está na
(noese), mas também o pólo isso (noema); minha consciência). A inclusão intencional,
revelada em cada caso particular pelo método
da análise intencional, significa que a relação
da consciência ao seu objecto não é a de duas
realidades exteriores e independentes, já que,
por um lado, o objecto é Gegenstand,
fenómeno que reenvia à consciência a que
aparece, e, por outro lado, a consciência é
consciência deste fenómeno. É porque a inclu-
são é intencional que é possível fundar o
transcendente no imanente, sem o aviltar.
Deste modo, a intencionalidade é por si
mesma uma resposta à questão: como pode
haver um objecto-em-si para mim? Perceber o
cachimbo é, precisamente, visá-lo enquanto III O «MUNDO DA VIDA»
existente real. O sentido do mundo é assim
decifrado como sentido que eu dou ao mundo;
1. O idealismo transcendental e suas
mas tal sentido é vivido como objectivo, des-
contradições
cubro-o, de outra forma não seria o sentido
que o mundo tem para mim. Ao proporcionar-
Chegados a este estádio, somos
nos a análise intencional, a redução permite
reenviados, parece, a um idealismo
descrever rigorosamente a relação sujeito-
transcendental (Med. Cart.)\ tal idealismo
objecto. Esta descrição consiste em pôr em
transcendental estava já contido na própria
acção a filosofia imanente à consciência
acção de reduzir. Mas, como o sujeito
natural, e não em desposar passivamente o
transcendental não é diferente do sujeito
dado. Ora, é a própria intencionalidade que
concreto, o idealismo transcendental parece,
define esta filosofia. A análise intencional (daí
além disso, dever ser solipsista. Estou só no
deriva o seu nome) deve, então, esclarecer
mundo, o próprio mundo é apenas a ideia da
como é constituído o sentido de ser (Seinssin)
unidade de todos os objectos, a coisa é a mera
do objecto; porque a intencionalidade é um
unidade da minha percepção da coisa, isto é,
objectivo, mas é igualmente uma doação de
das Abschattungen, todo o sentido se funda na
sentido. A análise intencional apodera-se do
minha consciência, na qualidade de intenção
objecto constituído como sentido e revela essa
ou doadora de sentido (Sinngebung). Na
constituição. Assim, nas Ideen II, Husserl
realidade, Husserl nunca se deteve neste
conduz-se sucessivamente às constituições da
idealismo monádico, primeiro, porque a
natureza material, da natureza animada e do
experiência da objectividade pode invocar em
Espírito. É evidente que a subjectividade não é
seu favor a concordância duma pluralidade de
criadora, já que por si mesma não passa de
sujeitos, depois, porque o próprio outro me é
Ichpol; mas a objectividade
dado numa experiência absolutamente original.
(Gegenständlichkeit), por seu lado, só existe
Os outros ego «não são meras representações
como pólo de um objectivo intencional que lhe
e objectos representados em mim, unidades
confere o sentido de objectividade.
sintéticas dum processo de verificação que se espírito (Geist) e a prioridade ontológica
desenrola em 'mim', mas efectivamente absoluta deste sobre aquele: a unidade da
'outros'» (Med. Cart., 75). A alteridade do outro coisa é a da manifestação das Abschattungen a
distingue-se da transcendência simples da uma consciência, a unidade da pessoa é
coisa pelo facto de o outro ser para si próprio unidade de manifestação absoluta. No caso do
um Eu e de a sua unidade não estar na minha sujeito, e por conseguinte do outro enquanto
percepção, mas nele próprio; por outras sujeito (alter ego), não se pode reduzir a
palavras, o outro é um Eu puro que de nada existência real a um correlato intencional, pois
carece para existir, é uma existência absoluta o que intencionalizo, quando viso outrem, é
e um ponto de partida radical para si mesmo, precisamente uma existência absoluta: aqui,
como eu o sou para mim. A questão transfor- ser real e ser intencional confundem-se. Ê
ma-se então em: como é possível um sujeito possível, então, delimitar uma comunidade de
constituinte (o outro) para um sujeito pessoas, que Ricoeur («Analyses et problèmes
constituinte (eu)? Bem entendido, o outro é dans Ideen II», Revue de métaphysique et de
experimentado por mim como estranho (Meã. morale, 1951) aproxima da consciência
Curt.), pois é fonte de sentido e de colectiva de Durkheim ou do espírito objectivo
intencionalidade. Mas aquém desta no sentido de Hegel, e que assenta
experiência de estranheza (que fornecerá a simultaneamente na mútua apreensão das
Sartre as suas temáticas da separação das subjetividades e na comunidade de ambiente.
consciências), a explicitação do outro não pode Esta comunidade das pessoas é constitutiva do
ser feita, a nível transcendental, nos mesmos seu próprio mundo (o mundo medieval, o
termos que a explicitação da coisa, embora o mundo grego, etc.); mas será constitutiva
outro, na medida em que é para mim, seja originariamente? Afirmá-lo, seria admitir que o
também por mim, a dar crédito aos resultados sujeito transcendental e solipsista não é
essenciais da redução transcendental. Esta radical, pois mergulharia as raízes num mundo
exigência, própria da explicitação do outro, do espírito, numa cultura que é ela própria
não é verdadeiramente satisfeita nas constituinte.
Meditações Cartesianas, texto que acabamos Por outras palavras, a filosofia
de utilizar para expor a posição sobre o transcendental, enquanto filosofia do sujeito
problema do outro. Com efeito, após ter radical, não consegue integrar uma sociologia
descrito a apercepção assi-milante, pela qual o cultural. Mantém-se entre ambas uma tensão
corpo do outro me é dado como corpo próprio (Ricoeur), quiçá uma contradição, que não está
de um outro Eu, sugerindo o psíquico como seu embutida sobre o pensamento
indicador adequado, e após ter feito da sua fenoraenológico, mas que lhe é aderente: na
acessibilidade indirecta o fundamento para nós realidade é a própria filosofia transcendental
da existência do outro, Husserl declara que, do que conduz ao problema da intersubjectividade
ponto de vista fenomeno-lógico, o outro é uma ou da comunidade das pessoas, como mostra o
«modificação» do «meu» Eu {Med. Cart., 97), o percurso paralelo das Meditações Cartesianas e
que trai a nossa expectativa. Nas Ideen II, III das Ideen. É evidente que a perspectiva de
Parte, em contrapartida, Husserl acentuava a uma sociologia cultural, que era já a das Ideen
oposição entre mundo natural e mundo do II e domina amplamente os últimos escritos
(Krisis, «Lettre à Lévy-Bruhl»), introduz, no origens da situação crítica em que nos
dizer do próprio Husserl, algo semelhante a um encontramos no que respeita às ciências e à
relativismo histórico, que é precisamente filosofia. Este escrito constitui, portanto, uma
aquilo contra que devia lutar a filosofia introdução independente à fenomenologia
transcendental, embora tal filosofia não possa transcendental. Por outras palavras, o caminho
deixar de desembocar na problemática do seguido até ao presente, e que, partindo dos
outro, nem de elaborar o problema de maneira problemas lógico-matemáticos ou do problema
a reexaminar as aquisições do subjectivismo perceptivo, conduzia ao ego absoluto, não é
radical. Com a análise intencional do outro, a privilegiado: a via da história é também se-
radicalidade não se situa mais do lado do Eu, gura. A elucidação da história em que estamos
mas do lado da intersubjectividade, a qual não empenhados esclarece a tarefa do filósofo.
é apenas intersubjectividade para mim, Nós, que não temos apenas uma herança
afirmação pela qual o Eu retomaria o seu espiritual, mas que não passamos, de parte a
sentido de único fundamento, mas também parte, de seres em devir segundo o espírito his-
intersubjectividade absoluta ou, se preferir- tórico, é somente a este título que temos uma
mos, primeira. Pode-se, no entanto, afirmar tarefa verdadeiramente nossa. (¡Crisis, 15). E o
que o próprio Husserl nunca foi tão longe: a filósofo não pode deixar de passar pela
radicalidade do cogito transcendental, tal história, porque o filósofo preocupado com a
como é fundada nas Ideen I, permanece o radicalidade deve compreender e ultrapassar
núcleo de toda a sua filosofia. Na Krisis II, por os dados históricos imediatos, que são na
exemplo, encontramos esta crítica realidade as sedimentações da história, os
significativa, dirigida contra o preconceitos, e constituerr, o seu mundo no
transcendentalismo cartesiano: Descartes não sentido cultural. Ora, qual a crise com que nos
descobriu que todas as distinções do tipo Eu e debatemos? Ê a crise derivada do objectivismo.
Tu, dentro e fora, só se «constituem» no «ego» Para falar com propriedade, não se trata da
absoluto. Deste modo, o tu, como o isso, não crise da teoria física, mas da crise que atinge o
passa de uma síntese de vividos egológicos. significado das ciências para a própria vida. 0
E, no entanto, é no sentido desta que caracteriza o espírito moderno é a
sociologia cultural que evolui o pensamento de formalização lógico-matemática (precisamente
Husserl, no final da sua vida. Disso nos fornece aquela que constituía a esperança das
abundante testemunho a Krisis, cujas duas Investigações Lógicas) e a matematização do
primeiras partes foram publicadas em Bel- conhecimento natura/; a mathesis universalis
grado, em 1936. Husserl põe especial atenção de Leibniz e a nova metodologia de Galileu. É
na ligação estreita desta reflexão sobre a nesta base que o objectivismo se desenvolve:
história, ou seja, sobre a intersubjectividade, descobrindo o mundo como matemática apli-
com o seu problema, a radicalidade cada. Galileu ocultou-o como obra da
transcendental: este escrito ê uma tentativa consciência (Krisis II, 9). Por isso, o formalismo
de fundar a necessidade inelutável duma objectivista é alienatório. Tal alienação iria
conversão da filosofia à fenomenologia transformar-se em mal-estar, a partir do
transcendental no sentido duma tomada de momento em que a ciência objectiva se
consciência telógico-histórica aplicada às apoderou do subjectivo. Oferecia então a
opção entre construir o.psí-quicosobre o de Wesenschau. É, no entanto, incontestável
modelo do físico, ou a renúncia a estudar o que tal pensamento se mantém até ao fim no
psíquico com rigor. Descartes prenuncia a cerne do problema central, a radicalidade. Mas
solução, ao introduzir o motivo transcendental: o ego absoluto, que o filósofo das Ideen
pelo cogito é-lhe facultada a verdade do considerava um pólo único, idêntico e
mundo como fenómeno, como cogi-tatum, universal, surge a uma outra luz na filosofia do
cessando então a alienação objectivista que último período. Acabámos de o ver empenhado
conduz às aporias metafísicas da alma e de na história e na intersubjectividade. Por vezes,
Deus — ou pelo menos teria cessado, se Husserl designa-o Leben (a vida), sujeito da
Descartes se não tivesse iludido a si próprio Lebenswelt. Já sabíamos que, no fundo, não há
com o objectivismo de Galileu e não houvesse diferença entre o ego concreto e o sujeito
confundido o cogito transcendental e o Eu transcendental. Mas a identificação é aqui de
psicológico: a tese do ego res cogitans corta tal modo sublinhada que a última fase da
com todo o esforço transcendental. Daí a dupla filosofia de Husserl pôde ser qualificada de
herança cartesiana: o racionalismo metafísico, empirismo (J. Whal).
que elimina o ego; o empirismo céptico, que A filosofia da Lebenswelt começa a ganhar
arruina o saber. Somente o forma principalmente com a elaboração da
transcendentalismo, articulando todo o saber grande questão posta a partir das
num ego transcendental, doador de sentido, Investigações Lógicas: o que se entende por
vivendo duma vida pré-objectiva, pré- verdade. A verdade não pode, evidentemente,
científica, num mundo da vida imediato para o definir-se aqui pela adequação do pensamento
qual a ciência exacta não passa de e do seu objecto, pois semelhante definição
revestimento, concederá ao objectivismo o implicaria que o filósofo que define contemple,
verdadeiro fundamento e lhe retirará o poder por um lado, todo o pensamento e, por outro
alienatório. A filosofia transcendental lado, todo o objecto na sua relação de
possibilita a reconciliação do objectivismo e do exterioridade total. Ora, a fenomenologia
subjectivismo, do saber abstracto e da vida ensinou-nos que tal exterioridade é
concreta. O destino da humanidade europeia, impensável. Também não se pode definir a
que é também o de toda a humanidade, verdade apenas como um conjunto de
encontra-se, por isso, ligado às probabilidades condições a priori, pois este conjunto (ou
de conversão da filosofia à fenomenologia. sujeito transcendental à maneira kantina) não
Péla nossa actividade filosófica, somos os pode dizer Eu, não é radical, é apenas um
funcionários da humanidade. momento objectivo da subjectividade. A ver-
dade só pode definir-se como experiência
vivida da verdade: é a evidência. Este vivido
2. A Lebenswelt não é, porém, um sentimento, pois é evidente
que o sentimento não garante nada contra o
Não podemos prolongar a descrição da erro. A evidência é o modo originário da
evolução de Husserl nesta direcção. Torna-se intencionalidade, isto é, o momento da
claro que a acentuação do seu pensamento se consciência em que a própria coisa de que se
modificou sensivelmente a partir da doutrina fala se dá em carne e osso, em pessoa, à
consciência, em que a intuição é preenchida. refaz se tal vivido a mim se dá actualmente
Para poder responder à questão: o muro é como uma evidência passada e errónea,
amarelo?, ou entro no quarto e observo o muro constituindo esta mesma actualidade uma
(ao nível perceptivo, é uma evidência nova experiência que exprime, no presente
originária que Husserl muitas vezes designa vivo, simultaneamente o erro passado e a
por experiência), ou tento lembrar-me dela, ou verdade presente, como correcção daquele
interrogo alguém a esse respeito. Nos dois erro. Não há, então, uma verdade absoluta,
últimos casos, experimento se existe em mim postulado comum do dogmatismo e do
ou em outrem uma experiência, ainda cepticismo; a verdade define-se em devir,
presente, da cor do muro. Qualquer justi- como revisão, correcção e ultrapassagem de si
ficação possível do juízo deverá passar por mesma, efectuando-se tal operação dialéctica
esta experiência presente da própria coisa. A sempre no meio do presente vivo (lebendige
evidência é, deste modo, o sentido de toda a Gegenwart). Por isso, contrariamente ao que
justificação, ou de toda a racionalização. A acontece com uma tese dogmática, o erro é
experiência não diz respeito apenas ao objecto compreensível, porque está implicado no
perceptivo; pode versar sobre um valor próprio sentido da evidência com que a
(beleza), em suma, sobre qualquer um dos consciência constitui o verdadeiro. Para
modos intencionais atrás enumerados (pág. responder correctamente à questão da
33). Mas esta evidência ou vivido da verdade verdade, ou seja, para descrever
não dá total garantia contra o erro. Há, com correctamente a experiência do verdadeiro,
certeza, casos em que não possuímos a convém, então, insistir fortemente no devir
experiência de que falamos, e sentimo-los nós genético do ego: a verdade não é um objecto,
próprios com evidência. 0 erro pode, todavia, mas um movimento, e só existe se este
inserir-se na própria evidência: o muro movimento for efectivamente feito por mim.
amarelo, apercebo-me à luz do dia que era Para verificar um juízo, isto é, para
cinzento. Há, então, duas evidências estabelecer o seu sentido de verdade, é
sucessivas e contraditórias. A urimeira preciso proceder a uma análise regressiva que
continha um erro. A isso responde Husserl na conduza a uma experiência pré-categorial'
Lópica Formal e Lógica Transcendental, § 8: (antepredicativa), a qual constitui
Mesmo uma evidência que se apresente como pressuposição fundamental da lógica em geral
apodíctica pode revelar-se ilusória, o que (Aron Gurwitsch) 0. Esta pressuposição não é
pressupõe, não obstante, uma evidência do um axioma lógico, Ê condição filosófica de
mesmo tipo, na qual «se manifeste». Por ou- possibilidade, constitui o solo (Boden) em que
tras palavras, é sempre e exclusivamente na lança raízes toda a predicação. Antes de
experiência actual que surge como ilusória a qualquer ciência, a matéria que estamos a
experiência anterior. Não há, pois, uma tratar é-nos previamente dada numa crença
«experiência verdadeira» à qual deveria passiva, e o previamente dado universal
recorrer-se como ao índice da verdade e do passivo de qualquer actividade judicativa
erro. A verdade experimenta-se sempre e chama-se mundo, substrato absoluto,
exclusivamente numa experiência actual. independente, no sentido forte de
Pode-se dizer que o fluxo das vivências só se independência absoluta {Experiência e Juízo,
26 e 157). O fundamento radical da verdade evidência através da qual o homem e o mundo
descobre-se no final dum regresso, por meio se encontram originariamente de acordo.
da análise intencional, à Lebenswelt, mundo
em cujo seio o sujeito constituinte recebe as
coisas como sínteses passivas anteriores a Nota sobre Husserl e Hegel
qualquer saber exacto. Esta receptividade
deve ser entendida É de Hegel que o termo fenomenologia
recebe plena e singular acepção, com a
(') «Présuppositions philosophiques de la publicação em 1807 de Die Phänomenologie
logique», RMM, XLVI, 1951. des Geistes. A fenomenologia é ciência da
como etapa inferior da actividade {ibid., 83), o consciência, «na medida em que a consciência
que quer dizer que o ego transcendental ê em geral o saber de um objecto, ou exterior,
constitutivo do sentido destes objectos se ou interior». Escreve Hegel no Prefácio à
refere implicitamente a uma apreensão Fenomenologia: «O estjzr aí imediato do
passiva do objecto, a uma cumplicidade espírito, 'a consciência', possui os dois mo-
primordial que possui com o objecto. Esta mentos: o do saber e o da objectividade, que é
alusão demasiado breve permite-nos precisar, o negativo relativamente ao saber. Quando o
a terminar, que o mundo de que aqui se trata espírito se desdobra neste elemento da
não é, evidentemente, o mundo da ciência
consciência e aí expõe os seus momentos, esta
natural, mas o conjunto, ou ideia no sentido
oposição acontece em cada momento
kantiano, de tudo quanto há ou pode haver
particular e todos surgem, então, como figuras
consciência.
da consciência. A ciência deste caminho é a
Deste modo, depois da redução que isolara
o mundo na sua forma constituída, para ciência da 'experiência' que faz a consciência»
restituir ao ego constituinte a autenticidade de (cit. na trad. franc. de J. Hyppolite, pp. 31-32).
dador de sentido, a tentativa husserliana, Por isso, não há resposta para a questão de
explorando o sentido mesmo desta Sinnge- saber se, em filosofia, se deve partir do objecto
bung subjectiva, recupera o mundo como a (realismo), ou se se deve partir do Eu
própria realidade do constituinte. Não se trata, (idealismo). A própria noção de fenomenologia
evidentemente do mesmo mundo: o mundo arruma com a questão: a consciência é sempre
natural é um mundo feiticizado no qual o consciência de, e não há objecto que não seja
homem se abandona como existente natural e objecto para. Não há imanência do objecto à
no qual ingenuamente objectiva a significação consciência se, correlativamente, se atribuir ao
dos objectos. A redução procura apagar esta objecto um sentido racional, caso contrário, o
alienação; o mundo primordial que descobre objecto não seria um objecto para. O conceito
ao prolongar-se é o terreno de experiências ou sentido não é exterior ao ser; o ser é
vividas em que se ergue a verdade do conhe- imediatamente conceito em si e o conceito é
cimento teórico. A verdade da ciência já não se ser para si. O pensamento do ser é o ser que se
funda em Deus, como em Descartes, nem nas pensa a si mesmo e, por consequência, o
condições a priori de possibilidade, como em método que este pensamento emprega, a
Kant; funda-se no vivido imediato de uma própria filosofia; não é constituído por um
conjunto de categorias independentes do que A dupla proposição hegeliana: o ser é já
pensa, do seu conteúdo. Só formalmente é que sentido ou conceito, não há um originário que
a forma do pensamento se distingue do seu funde o conhecimento, permite delimitar com
conteúdo; ela é concretamente o próprio bastante clareza Husserl de Hegel, a partir da
conteúdo que se apreende, o em-si que se comum crítica do kantismo. Com respeito à
transforma em para-si. Devemos considerar as primeira parte desta proposição, a
formas do pensamento em si e para si, porque fenomenologia husser-liana está de acordo: o
são o objecto e a actividade do objecto objecto é constituído pela sedimentação de
(Enciclopédia). Daí que o erro de Kant — que significações, que não são as condições a priori
era um erro positivo, enquanto momento no de toda a experiência no sentido kantiano,
devir-verdade do Espírito — consistisse em dado que o entendimento, que estabelece
descobrir as formas e as categorias como estas condições como fundadoras da
fundamento absoluto do pensamento do experiência em geral, se funda já ele próprio
na experiência. Não há uma anterioridade
objecto e do objecto para o pensamento:" o
lógica das categorias, nem sequer das formas
erro consistia em admitir o transcendental
pelas quais um sujeito transcendental se
como originário.
atribuiria objectos. Pelo contrário, como mostra
Segundo a identificação dialéctica do ser e Erfahrung und Urteil, são os juízos, e as
do conceito, o problema da originalidade é, na categorias que empregam, que supõem uma
verdade, saltado: não há começo imediato e certeza primeira, a de que o ser existe, ou seja,
absoluto, isto é, um qualquer coisa sem a a crença numa realidade. Husserl chama-lhe
consciência ou uma consciência sem qualquer Glaube, fé, crença, para acentuar que se trata
coisa, ao menos porque o conceito de começo dum pré-saber. Antes de qualquer actividade
ou de imediatez contém, como sua negação predicativa, e mesmo antes de qualquer
dialéctica, a perspectiva de uma progressão atribuição de sentido, há, no seio da
subsequente, de uma mediação. A progressão apresentação passiva, mesmo quando se trata
não é supérflua; sê-lo-ia, se o começo fosse já dá percepção da coisa sensível, «uma fé
absoluto (Ciência da Lógica). Nada é abso- exercida e inelutável» na existência de
lutamente imediato, tudo é derivado; para falar «algum» real... Fonte de todo o saber e nele
com rigor, a única realidade não derivada ê o exercida (esta crença), não é inteiramente
conjunto do sistema das derivações, isto é, a recuperável num saber propriamente dito e
Ideia absoluta da Lógica e o Saber absoluto da explícito (Waelhens, Phénoménologie et vérité,
Fenomenologia: o resultado da mediação 52 e 50).
dialéctica surge a si próprio como único ime- Portanto, se a recuperação da totalidade do
diato absoluto. O saber absoluto, escreve real (no sentido hegeliano) se afigura
Hyppolite, não parte duma origem, mas do impossível, é precisamente porque há real
próprio movimento de partir, do «minimum originário, imediato, absoluto, que funda toda a
rationale» que é a tríade «Ser-Nada-Devir», o recuperação possível. Será, então, necessário
que quer dizer que parte do Absoluto como dizer que é inefável, se é verdade que todo o
mediação, sob a sua forma ainda imediata, a Iogos, todo o discurso racional, toda a
do devir (Logique et existence, 85). dialéctica do pensamento .pressupõe, por vez,
a fé originária? Há, então, anterracional? não originário, especulativo e não campo de
Compreende-se que basta esta questão para toda a verdade possível.
distinguir nitidamente de Hegel a Por consequência, quando Kojève mostra,
fenomenologia husserliana e pós--husserliana. na Introdu-tion à la lecture de Hegel, que o
Para Hegel, escreve Hyppolite, não há inefável método da Fenomenologia do Espírito é o
aue se situe aquém ou além do saber, nem mesmo de Husserl, puramente descritivo e não
singularidade imediata ou transcendência; não dialéctico (467), sem dúvida que não deixa de
há silêncio ontológico, mas o silêncio dialéctico ter razão. Convém, contudo, acrescentar que a
é uma conquista progressiva do sentido. Isso Fenomenologia hegeliana fecha o sistema, é a
não significa que este sentido fosse de direito retomada total da realidade total no saber
anterior ao discurso que o descobre e o cria..., absoluto, ao passo que a descrição husserliana
mas tal sentido desenvolve-se no próprio dis- inaugura a apreensão da própria coisa aquém
curso (Logique et existence, 25-26). No artigo de toda a predicação. É por isso que jamais
«Glauben und Wissen», já Hegel se declarava cessa de recomeçar, de se inutilizar, pois é um
contra a transcendência do em-si kantiano combate da linguagem contra si mesma, para
como produto duma filosofia do entendimento, atingir o originário (atente-se, a propósito, nas
para a qual a presença do objecto não é mais notáveis semelhanças, em igualdade de
que simples aparência duma realidade circunstâncias, aliás, do estilo de Merleau-
escondida. Ora, não é uma outra e mesma Ponty e de Bergson). É certa, neste combate, a
transcendência que Husserl reintroduz em derrota do filósofo, do logos, já que o
Experiência e Juízo, sob a forma do Lebenswelt originário, descrito, já não é originário,
antepredicativo? Pelo facto de este mundo da enquanto descrito. Em Hegel, ao contrário, o
vida ser antepredicativo, toda a predicação, ser imediato, o pretenso originário, é já logos,
todo o discurso, por certo, o implica, mas não o sentido, e não ponto de chegada da análise
alcança, e, para falar com propriedade, nada regressiva, começo absoluto da existência. Não
se pode dizer a seu respeito. Aqui ainda, se pode considerar o começo como um
embora num sentido completamente diferente, imediato, mas como mediado e derivado, se é
o Glauben substitui o Wissen, e o silêncio da fé ele próprio determinado em face da
põe termo ao diálogo dos homens acerca do determinação do resultado (Ciência da Lógica).
ser. Por conseguinte, a verdade de Husserl Nenhum objecto, enquanto se apresenta como
estaria em Heidegger, para quem a dualidade algo de externo, como afastado da razão,
do Eu e do ser ê insuperável (Waelhens) e para como independente dela, lhe pode resistir,
quem o pretenso saber absoluto mais não faz pode perante ela ser duma natureza particular,
que traduzir o carácter «metafísico», especula- pode ser por ela penetrado (ibid.).
tivo, inautêntico do sistema que o supõe. O Aparentemente, o conflito entre o
imediato, o originário de Husserl é para Hegel racionalismo hege-liano e Husserl é total. No
um imediato que se ignora, como momento no entanto, se considerarmos que a empresa
devir total do ser e do logos. Mas o absoluto de fenomenológica é fundamentalmente contra-
Hegel, isto é, o devir tomado cornei totalidade ditória enquanto designação pela linguagem
fechada sobre si própria e para si própria na dum significado pré-Iógico no ser, ficará para
pessoa do Sábio, é, para Husserl, fundado e sempre inconclusa, porque remetida
dialécticamente do ser ao sentido, através da
análise intencional. A verdade é, então, devir e
não apenas evidência actual, é retomada e 1.° Pudemos observar que o problema das
correcção das evidências sucessivas, dialéctica ciências humanas não é subsidiário no
das evidências, a verdade é, escreve Merleau- pensamento fenomenoló-gico. Pode-se dizer,
Ponty, um outro nome da sedimentação, a ao contrário, que, em certo sentido, se
qual é, por sua vez, a presença de todos os encontra no seu centro. Com efeito, é a partir
presentes no nosso («Sur la phénoménologie da crise do psicologismo, do sociologismo, do
du langage», in Pro-blèmes actueis de la historicismo, que Husserl empreende a
phénoménologie, 107), a verdade é tentativa de restituir a validade à ciência em
Sinngenesis, génese do sentido. Por geral e às ciências humanas. O psicologismo
consequência, se, por outro lado, se admite pretende reduzir as condições do
que a Fenomenologia do Espírito é a filosofia conhecimento verdadeiro às condições
militante, mas ainda não triunfante (Merleau-- efectivas do psiquismo, de tal modo que os
Ponty), se se compreende o racionalismo próprios princípios lógicos, que são a garantia
hegeliano como aberto, o sistema como etapa, deste conhecimento, só seriam garantidos por
talvez Husserl e Hegel convirjam afinal no Nós meio de leis de facto, estabelecidas pelo
queremos ver o verdadeiro sob forma de psicólogo. O sociologismo procura mostrar que
resultado da Filosofia do Direito — na condição todo o saber pode, com rigor, deduzir-se dos
de que tal resultado seja também momento. elementos do meio social onde se elabora, e o
SEGUNDA PARTE historicismo, ao sublinhar a relatividade deste
meio no devir histórico, dá a última demão
nesta degradação do saber. Em última análise,
FENOMENOLOGIA E cada civilização, e, no interior de cada
civilização, cada momento histórico, e, no
CIÊNCIAS HUMANAS interior de cada momento, determinada
consciência individual, produzem uma
arquitectura de mitos, elaboram uma
Weltanschauung: é na filosofia, na religião, na
arte, que esta visão do mundo melhor se
Capítulo exprime, mas afinal também a ciência é uma
visão do mundo. O filósofo alemão Dilthey, cuja
influência em Husserl é considerável, está no
Primeiro
centro desta filosofia relativista.
O relativismo nascera das ciências
POSIÇÃO DO
humanas (positivismo de Comte, humanismo
de Schiller, pragmatismo de James). E
PROBLEMA implicava o seu desaparecimento como
ciências. Pois, se arruinarmos a validade do reduz a verdade lógica do juízo à certeza
saber, subordinando os princípios lógicos que o psicológica experimentada por aquele que
fundam (causalidade, por exemplo) aos julga. A feno-menpJogia,_aq contrário,
processos psíquicos estabelecidos pelo pretende, a partir dum juízcP Verdadeiro,
psicólogo, resta saber qual é a validade dos regressar~ãõ~qüé~ é ^ aquele_que
princípios e categorias utilizados pelo psicólogo julgã."~Orã, para apreender o que é efectiva-
para estabelecer os mencionados processos. mente vivido, importa ater-se a uma descrição
Fazer da psicologia a ciência--chave é destruí-la que abrace estreitamente as modificações de
como ciência, pois é incapaz de se legitimar a si consciência: o conceito de certeza, proposto
própria. Por outras palavras, o relativismo ataca por Mill para descrever a verdade como vivido
não apenas as ciências da natureza, mas ainda de consciência, não se dá de modo algum
as ciências humanas, bem como, mais longe conta do que é realmente vivido. É então
ainda, a infra--estrutura lógica em que assenta o patente a necessidade duma descrição de
corpo das ciências. É pela defesa desta infra- consciência extremamente fina e maleável,
estrutura que lucidamente iniciava Husserl a cuja hipótese de trabalho é a redução feno-
sua obra. rnenológica. Com efeito, esta apreende de
2.° Nesta perspectiva, a fenomenologia é novo o sujeito na sua subjectividade,
uma lógica: das Investigações Lógicas à arrancando-o à sua alienação no seio do
Experiência e Juízo, pudemos apreciar a mundo natural, e garante que a descrição con-
constância do pensamento husserliano. Mas cerne mesmo à consciência efectivamente
esta lógica não é, nem formal, nem metafísica: real e não a um substituto mais ou menos
não se contenta com um conjunto de operações objectivado daquela. Para o psicólogo, não há
e condições operatórias que delimite o campo juízo verdadeiro ou juízo falso: há juízos a
do raciocínio verdadeiro; mas também não descrever. A verdade daquilo que julga o
pretende fundar o operatório sobre o sujeito que o psicólogo observa não passa de
transcendente, ou afirmar que 2 e 3 são 5, um acontecimento de maneira alguma
porque Deus assim quer, ou porque Deus, que privilegiado em si; este sujeito que julga
pôs em nós esta igualdade, não pode ser encontra-se determinado, acorrentado a
mistificador. A lógica que a fenomenologia é^ é séries de motivações que são as responsáveis
uma lógica funa^mentaFque investiga como" é pelo seu juízo. Por conseguinte, só se pode
que" de fãçfiõ existe ver^ã^epãrãliõs:" ã^ atingir o vivido de verdade que importa
èxpefiêhcia no sentido hüssèrliano exprime tal descrever se não se eliminar primeiro a
facto. Não pode tratar-se dum empirismo puro e subjectividade do vivido.
simples, cuja contradição profunda muitas vezes 3.° Por isso, a filosofia do sujeito
Husserl criticou. Trata-se, na realidade, de fazer transcendental exigia inelutavelmente uma
brotar o direito do facto. Será isto cair de novo psicologia do sujeito empírico. Insistimos
no relativismo céptico? Não, porque o relati- longamente na identidade dos dois sujeitos,
vismo, o psicologismo por exemplo, não que são apenas um; na perspectiva das
consegue precisamente extrair o valor da ciências humanas, esta identidade significa
realidade: reduz o necessário ao contingente, que a psicologia intencional contém já em si
mesma o transcendental (Med. Cart.), ou que transcendental concreto, do problema do
uma descrição psicológica bem feita não pode tempo, que é também, se atendermos ao
deixar de restituir afinal a intencionalidade paradelismo psicofeno-menológico, o
constituinte do Eu transcendental. A problema da história individual: como pode
fenomenologia era, portanto, inevitavelmente haver história para a consciência? Esta
conduzida a inscrever no seu programa a psi- questão é bastante próxima da da
cologia, e não somente porque suscite fenomenologia: como pode existir o outro para
problemas metodológicos particulares, mas a minha consciência? Para a história, com
essencialmente porque a fenomenologia é uma efeito, sou eu que me torno outro,
filosofia do cogito. permanecendo o mesmo; para o outro, é um
Não é menos estreito o laço que a une à outro que se dá como eu. Especialmente se se
sociologia. Assinalámos muito rapidamente, a definir a verdade como vivido de verdade e se
propósito da V Meditação Cartesiana e de Ideen se admitir que as vivências se sucedem num
II, como o solipsismo transcendental desemboca fluxo infinito, o problema do tempo interior e
no problema do outro. Parece que Husserl não da história individual é maximamente
chegou a uma versão definitiva deste problema. susceptível de tornar efémera qualquer
No entanto, quando escreve que a pretensão à verdade: jamais alguém se banha
subjectividade transcendental é inter duas vezes nas mesmas águas dum rio. E, no
subjectividade, ou que o mundo do espírito entanto, a verdade parece exigir a
possui uma prioridade ontológica absoluta sobre intemporalidade. Finalmente, se a
o mundo natural, dá a entender que o facto do subjectividade transcendental é definida como
Einfüh-lung ou da coexistência com o outro, que intersubjectividade, o mesmo problema se
é uma compreensão do outro, modifica uma levanta, não já a nível individual, mas da
relação de reciprocidade em que o sujeito história colectiva.
transcendental concreto se apreende a si 4.° A fenomenologia constitui
próprio como outro, enquanto é um outro para simultaneamente uma introdução lógica às
outrem, e introduz na problemática deste ciências humanas, enquanto procura definir-
sujeito um elemento absolutamente original: o lhe eideticamente o objecto, anteriormente a
social. Também aqui a fenomenologia era qualquer experimentação, e uma retomada
inevitavelmente conduzida, precisamente por filosófica dos resultados da experimentação,
não ser uma metafísica, mas uma filosofia do na medida em que procura apreender-lhe a
concreto, a apoderar-se dos dados sociológicos significação fundamental, em especial quando
para se esclarecer a si própria, bem como para procede à análise crítica da ferramenta mental
de novo pôr em questão os processos pelos utilizada. Num primeiro sentido, a
quais são obtidos esses dados pelos sociólogos, fenomenologia é* a ciência eidética
para elucidar a sociologia. correspondente às ciências humanas em-
Que a fenomenologia se interrogasse acerca píricas (em especial a psicologia); num
da história, isso seria a própria interrogação da segundo sentido, instala-se no âmago destas
história acerca da fenomenologia e acerca de ciências, no coração do facto, assim
toda a filosofia que a ela conduzisse. Mas seria realizando a verdade da filosofia, que consiste
ainda a descoberta, no seio do sujeito em extrair a essência do interior do próprio
concreto:, é, então, o revelador das ciências pensamento fenomenológico actual, mas
humanas. Estes dois sentidos correspondem a veremos que podem ainda ser isolados e que
duas etapas do pensamento husser-liano. a definição eidética (por variação imaginária)
Encontram-se estreitamente imbricados no é de prática difícil, para não dizer arbitrária.

FENOMENOLOGI
A E PSICOLOGIA

supunha, por sua vez, uma total


transparência do acontecimento de
consciência ao olhar da consciência, e que
todos os factos de consciência são factos
conscientes. Por outras palavras, o vivido dá-
se imediatamente com o seu sentido, quando
a consciência se volta para ele. Segundo, este
vivido era concebido por essa psicologia como
interioridade: importa distinguir de maneira
categórica o exterior e o interior, o que
Capítulo Segundo depende das ciências da natureza, ou
objectivo, e o subjectivo, ao qual só se tem
acesso por meio da introspecção. Para falar
FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
com verdade, esta dissociação depressa se
revelou de uso melindroso, sobretudo com o
progresso da fisiologia, .pois punha-se o
1. A introspecção
problema de saber onde passava a linha de
demarcação; daí as hipóteses paralelistas,
O psicólogo objectivista, principal epifenomenistas, etc, até que se
interlocutor do fe-nomenólogo, afirma que a compreendesse finalmente, e a fenomeno-
psicologia deve renunciar a privilegiar o Eu no logia desempenha papel importante na
conhecimento de si próprio. Como método maturação do problema, que uma fronteira só
geral da psicologia, a introspecção admitia, pode separar regiões da mesma natureza.
primeiro, o axioma: o vivido de consciência Ora o psíquico não existe como o orgânico.
constitui por si próprio um saber da Terceiro, o vivido tinha um carácter
consciência. Estou assustado, então sei o que estritamente individual, no duplo sentido de
é o medo, dado que sou medo. Este axioma
que é o vivido de um indivíduo situado e Acontece que a fenomenologia está de
datado e de que ele próprio é um vivido que acordo com o objectivismo para criticar certas
não pode reproduzir-se. É esta ultima teses introspeccionis-tas. Que o sentido dum
característica que tais psicólogos invocavam conteúdo de consciência seja imediatamente
de modo determinante, para defender o manifesto e captável enquanto tal, isso é
método introspectivo: é preciso apreender o desmentido pela própria empresa psicológica:
vivido imediatamente, caso contrário, o vivido se sentimos necessidade duma ciência
sobre que se reflecte em seguida é um novo psicológica, é precisamente porque sabemos
vivido e o vínculo entre um e outro não que não sabemos o que seja o psiquismo. É
apresenta qualquer garantia de fidelidade. A verdade que, estando assustado, eu sou
heterogeneidade dos estados de consciência medo; mas não sei por isso o que seja o
condena qualquer forma de captação medo, sei somente que tenho medo: avaliar-
diferente da introspecção. A individualidade e se-á a distância entre estes dois saberes. Na
mesmo a unicidade do vivido captado pela realidade, o conhecimento de si por si é
introspecção suscita, evidentemente, o duplo indirecto, é uma construção, é-me necessário
problema da sua universalidade e da sua decifrar a minha conduta como decifro a do
transmissibilidade. Em geral, a filosofia outro (Mer-leau-Ponty, Les sciences de
tradicional e a psicologia introspectiva Vhomme et la phénomênolo-gie). A
resolvem-no, primeiro, recorrendo à hipótese fenomenologia opõe, deste modo, a reflexão
duma natureza humana, duma humana condi- à introspecção. Para que a reflexão seja
ção que autorizaria a universalização dos válida, é necessário, evidentemente, que o
resultados particulares, depois, preferindo, ao vivido sobre que se reflecte não seja
instrumento de comunicação que é a imediatamente arrastado pela corrente de
linguagem quotidiana ou a linguagem consciência, é necessário que permaneça
científica, uma linguagem de expressão, pela duma certa maneira idêntico a si mesmo,
qual seria menos traída a interioridade. Daí a através deste devir. Compreende-se por que
preferência desta psicologia pelas formas razão Husserl, a partir de Ideen I, procurava
literárias. Reconhecer-se-á neste passo um fundar a validade da reflexão na retenção,
dos problemas essenciais do bergsonismo função que não deve confundir-se com a
que, afinal, nunca foi frontalmente abordado memória, pois é, ao contrário, sua condição.
por Bergson, embora constituísse a chave de Pela retenção, o vivido continua ele próprio e
todos os outros. Finalmente, a em pessoa a ser-me dado, afectado de um
heterogeneidade das vivências na corrente de /estilo diferente, isto é, sob a forma do já não.
consciência traduzia uma contingência que Esta cólera ! que ontem se apoderou de mim,
impedia, em última instância, que o psicólogo ainda existe implicita-I mente para mim, pois
elaborasse leis a respeito do psíquico: a lei posso apreendê-la de novo pela 1 memória,
pressupõe o determinismo. datá-la, localizá-la, encontrar as suas motiva-
ções, as suas desculpas. E é de facto esta
mesma cólera que assim se encontra retida
2. A reflexão no seio do meu presente vivo, pois, mesmo
que afirme, de acordo com as leis ex-
perimentais da degradação da recordação, reconstruir a sua significação.
que o vivido 'Ade cólera presente está
modificado, esta afirmação im-i plica em
profundidade que tenho ainda, de certo modo, 3. Intencionalidade e comportamento
j a cólera não modificada, para poder
compará-la com a 1 cólera passada, da qual A fenomenologia, aqui ainda paralela ao
presentemente me informa a vminha objectivismo, era então necessariamente
memória. O Gegenstand cólera é o mesmo, ao conduzida a rejeitar a distinção clássica do
longo das evocações sucessivas que dele interior e do exterior. Em certo sentido, pode
posso fazer, pois falo sempre da mesma dizer-se. que todo o problema husserliano
cólera. É por isso que toda a reflexão é consiste em definir como é que há para mim
possível e em especial a reflexão objectos e é por isso que é verdadeiro afirmar
fenomenológica, a qual tenta precisamente que a intencionalidade se encontra no centro
restituir o vivido em questão . (a cólera), do pensamento fenomenológico. A in-
descrevendo-o o mais adequadamente possí- tencionalidade, tomada em sentido
vel. Esta descrição é uma retomada descritiva psicológico, exprime precisamente a
do próprio vivido, captado então como insuficiência intrínseca do corte entre a
Gegenstand para a consciência actual daquele interioridade e a exterioridade. Dizer que a
que descreve. Trata-se, em suma, de consciência é consciência de alguma coisa, é
desenhar fielmente o aquilo que penso, dizer que não há noese sem noema, cogito
quando penso a minha cólera passada; mas é sem cogitatum, mas também não há amo
também necessário que pense efectivamente sem amatum, etc; em resumo, encontro-me
esta cólera vivida, e não tal reconstrução da entrelaçado com o mundo. E recordamo-nos
minha cólera, não devo deixar mascarar-me o que a redução não significa de modo algum
fenómeno realmente vivido por uma interrupção deste entrelaçamento, mas
interpretação prévia desse fenómeno. A apenas pôr fora de circuito a alienação, por
reflexão fenomenológica distingue-se assim meio da qual me apreendo mundano e não
da reflexão das filosofias tradicionais, que transcendental. Com rigor, o Eu puro não é
consiste em reduzir a experiência vivida às nada, isolado dos seus correlatos. Por isso, o
suas condições a priori; por isso encontramos, Eu psicológico (que é o mesmo que o Eu puro)
na base da reflexão que a fenomenologia se encontra constantemente e por essência
opõe à psicologia introspectiva, o cuidado mergulhado no mundo, empenhado em
husserliano pela própria coisa, o cuidado com situações. Atinge-se, então, uma nova
a simplicidade. É este cuidado que motiva a localização do psiquismo,^ que já não é
redução, garantia contra a inserção dos interioridade, mas intencionalidade, ou seja,
preconceitos e a expansão das alienações na relação do sujeito e da situação. Entende-se
descrição reflexiva que da cólera devo fazer. evidentemente que esta relação não une dois
Importa que comece por extrair, pela análise pólos rigorosamente isoláveis, mas, ao
reflexiva, o vivido de cólera anterior a contrário, que tanto o Eu como a situação só
qualquer racionalização, a qualquer são definíveis nesta e por esta relação. Contra
tematização, para, em seguida, poder Santo Agostinho, evocando o regresso à
verdade interior, Merleau-Ponty escreve: o para que se orientava Watson, nada de
mundo não é um objecto cuja lei de surpreendente, pois via nele uma recaída nas
constituição tenho em meu poder, mas o meio aporias do introspeccionismo: em vez de se
natural e o campo de todos os meus conservar a nível periférico, em conformidade
pensamentos e de todas as minhas com as suas primeiras definições, Watson
percepções explícitas. A verdade não «habita» ousava procurar a causa da resposta a um
apenas o «homem interior»; ou antes, não há estímulo dado nas conduções nervosas
homem interior: o homem está no mundo, é aferentes, centrais e eferentes em que o
no mundo que se conhece (Phénoménologie influxo circula. Tentava mesmo, por fim,
de la perception, p. V). O mundo é, deste reduzir todas as conduções ao esquema
modo, negado como exterioridade e afirmado reflexo, assim integrando, sem precaução, os
como ambiente, o Eu é negado como resultados da célebre reflexologia de Pavlov e
interioridade e afirmado como existente. Betchterev e isolando de novo o corpo. 0
Ora, observava-se paralelamente nas reflexo tornava-se o conceito de base da
pesquisas empíricas a mesma deslocação da explicação behaviorista: os fenomenólogos
noção central de toda a psicologia, ou seja, o não têm dificuldade em mostrar que Watson
próprio psiquismo. O conceito de já não descreve, então, o comportamento
comportamento, tal como é definido, por efectivamente vivido, mas um substituto
exemplo, por Watson, em 1914, responde já à tematizado desse comportamento, um
mesma intenção: este comportamento é modelo fisiológico abstracto, cujo valor é, de
concebido periféricamente, isto é, pode ser resto, contestável.
estudado sem apelar para a fisiologia, como
uma relação constantemente móvel entre um
conjunto de estímulos, provenientes do meio 4. A psicologia da forma
natural e cultural, e um conjunto de respostas
a esses estímulos, impelindo o sujeito para Antes de examinar como a fenomenologia
esse meio. A hipótese duma consciência fe- utiliza a fisiologia para criticar o mecanismo
chada na sua interioridade e dirigindo o watsoniano, dete-nhamo-nos na
comportamento, como um piloto o seu navio, Gestalttheorie, de entre todas as escolas
deve ser eliminada: é contrária ao único psicológicas a que mais de perto se
postulado coerente duma psicologia objectiva, aproximou das teses fenomenológicas: os
o determinismo. Além disso, tal definição psicólogos da forma são discípulos de Husserl.
autoriza as pesquisas experimentais e 0 conceito de comportamento é retomado
favorece a elaboração de constantes. A e precisado no de forma Q). O erro de
fenomenologia não tinha de se pronunciar Watson, como mostra Koffka (Principies of
sobre este último ponto, mas, de qualquer Gestalt Psychology), foi ter admitido im-
modo, não podia deixar de aplaudir a plicitamente a objectividade do
formação duma psicologia empírica, cujos comportamento. 0 facto de uma conduta ser
axiomas eram conformes com as suas observável não significa que seja um objecto
próprias definições eidéticas. Que se tenha cuja origem é necessário procurar numa cone-
dessolidari-zado do behaviorismo reflexológico xão também objectiva, como a que a liga à
organização nervosa. Na realidade, os exemplo, a igualdade dos dois segmentos),
estímulos perceptivos, por exemplo, que pois o real é precisamente o que nós
condicionam a nossa actividade, não são eles percebemos. É particularmente claro que a
próprios percebidos. Se retomarmos a própria ferramenta mental e instrumental da
experiência^ elementar de Müller-Lyer, em ciência adquire a sua eficácia na relação
que os segmentos iguais são, por construção, imediata do sujeito que a utiliza com o
percebidos como desiguais, temos mundo. Husserl não pretendia dizer outra
coisa, quando mostrava que a própria
<í > verdade científica não se funda, em última
análise, senão na experiência antepredicativa
do sujeito da ciência. Quando nos colocamos
>— < o problema de saber se o sujeito empírico
percebe o próprio real, instalamo-nos, de
um exemplo significativo da diferença entre o
certa maneira, acima desta relação; o filósofo
que é objectivo e o que é dado. A confusão
contempla, então, do alto de um pretenso
watsoniana resulta de o dado ser
saber absoluto, a relação que a consciência
precisamente um dado objectivo, pois é da
mantém com o objecto e denuncia as suas
essência da percepção fornecer-nos o
ilusões. Como mostrava a República, a
objectivo. Quando se afirma que esta
compreensão do facto de que estamos na
experiência nos fornece uma ilusão, não se
caverna pressupõe que já se saiu dela.
compreende que, ao contrário, para um
Apoiando-se nos dados das pesquisas da
sujeito qualquer que percebe, os dois
Gestaltpsychologie, a fenomenologia denun-
segmentos são efectivamente desiguais e que
cia esta inversão de sentido: pode-se
só em relação ao sistema de refe-
compreender o mundo inteligível de Platão
(') Ver o livro clássico de P. GUILLAUME, La como o conjunto das construções a partir das
psychologie de la forme, Flammarion, 1937. quais a ciência explica o mundo sensível. Não
rência do experimentador que construiu a se trata precisamente, para nós, de partir do
figura existe ilusão. 0 mundo da matemática construído: importa, ao contrário,
ou mensurável, em que a figura foi construída, compreender o imediato a partir do qual a
não é precisamente o mundo perceptivo. ciência elabora o seu sistema. De qualquer
Importa, por isso, dissociar o meio perceptivo modo, este sistema não deve ser realizado,
e o meio que Koffka denomina geográfico, não passa, como dizia Husserl, de um vestido
como o que é dado imediatamente e o que é do mundo perceptivo. Por consequência,
construído por mediação conceptual e aquilo a que Koffka chama meio do
instrumental (conceito de igualdade, duplo comportamento (Umwelt) constitui o universo
decímetro). A questão não está em saber qual efectivamente real, porque efectivamente
destes meios é mais verdadeiro; quando se vivido como real; prolongando o seu
fala de ilusão de óptica, privilegia-se pensamento, Lewin mostra que é necessário
indevidamente o meio científico e construído. liquidar toda a interpretação substancia-lista
Com efeito, não se trata de saber se do meio geográfico, como do meio de
percebemos o real tal como é (aqui, por comportamento. Só na medida em que estes
dois universos são realizados se põe o deslocação que nele se produza parece-lhe
problema da sua relação e particularmente da insólita: um homem que anda, parece
sua antecedência ou mesmo da sua inclinado, um corpo que cai, parece cair
causalidade. Se se admite, em compensação, obliquamente, etc. Ao fim de alguns minutos
que aqui só se trata de conceitos operatórios, (se, bem entendido; o sujeito procurar
o problema deixa de existir. 0 termo realidade observar o comportamento apenas através do
não implica, então, de modo algum um envio espelho), as paredes, o homem que se
para uma substância material. Seria preferível desloca, a queda do corpo, aparecem direitos,
defini-lo por preexistência. verticais, desaparecendo a impressão de
É, com efeito, característica essencial do obliqüidade. Trata-se, aqui, duma
Umwelt fenomenal, como também lhe chama redistribuição instantânea do alto e do baixo.
Koffka, estar sempre fá lá. Em certo sentido, Pode-se dizer, em termos objectivistas, que a
todo o livro de Merleau--Ponty sobre a vertical rodou; mas tal expressão é errada,
percepção consiste em separar esse núcleo de precisamente porque, para o sujeito, não é
fá, e que, por vezes, designa por pré-história, isso o que se passa. Que aconteceu, então? A
querendo com isso dizer que qualquer imagem do quarto no espelho aparece-lhe,
tentativa experimental objectiva para primeiro, como um espectáculo insólito: o
delimitar o como da minha relação ao mundo próprio insólito é boa garantia de que se trata
remete sempre para um como já instituído, dum espectáculo, isto é, que o sujeito não
anterior a qualquer reflexão predicativa e no está em confronto com os utensílios que o
qual assenta, precisamente, a relação quarto encerra, não o habita, não coabita
explícita que mantenho com o mundo. com o homem
Retomemos, por exemplo, a experiência de
Wer-theimerC): um sujeito, colocado num
quarto, de tal modo que só vê este por
(') «Experimentelle Studien über das
intermédio dum espelho que o inclina 45° Sehen von Bewegung», citado por Merleau-
relativamente à vertical, percebe primeiro Ponty in Phénoménologie de la perception,
este quarto como oblíquo. Qualquer 287.
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA

que vê ir e vir. Ao fim de algum instantes, este mesmo sujeito um Umwelt objectivo. O que não se compreendia no
sente-se apto a viver nesse quarto, em vez dos seus braços e associacionismo era, precisamente, como é que esta rosa,
pernas verdadeiros, sente os braços e pernas que seria composta ao nível cortical e de modo imanente, podia ser
necessário possuir para andar e agir no quarto reflectido, captada, e o era de facto, como transcendente. Por
habita o espectáculo (ibid., 289). Isso significa, além do mais, conseguinte, o Umwelt em que nos estabelecemos pela
que a direcção alto-baixo, que gere poderosamente a nossa percepção é efectivamente objectivo, transcendente, mas não
relação com o mundo, não pode definir-se a partir do eixo de absoluto, pois de certa maneira se pode dizer, com verdade,
simetria do nosso corpo, concebido como organismo que esta objectividade nós lha conferimos fá; mas conferimos-
fiosiológico e sistema de reacções objectivas; a prova reside lha a um nível mais profundo que aquele a que nos aparece, a
em que o nosso corpo pode deslocar-se relativamente ao alto um nível primordial, no qual assenta a nossa relação com o
e ao baixo, que assim se mantêm para mim independentes da mundo.
sua posição. Quer isso dizer que a verticalidade existe em si? Pode-se concluir que a teoria da forma procurou des-
Isso não seria menos errado, pois a experiência de vendar uma Lebenswelt fundamental, aquém do universo
Wertheimer, ou a de Stratton acerca da visão com inversão da explícito e límpido em que nos fazem viver a atitude natural,
imagem retiniana 0, mostram, ao contrário, que se pode bem como a atitude da ciência natural. Era precisamente essa
seguramente falar de direcções espaciais objectivas, mas não a ambição do último Husserl. E Merleau--Ponty parece situar-
absolutas, e que esta impossibilidade é inevitável, na medida se na mais rigorosa linha do pensamento fenomenológico,
em que nos situamos no interior da percepção, do mesmo quando retoma os resultados da Gestalttheorie e os interpreta
modo que, há instantes, só podíamos criticar a percepção da no sentido que indicámos. O simples facto de se ocupar do
desigualdade dos segmentos, saindo da própria percepção. problema da percepção é disso sintoma: pois a percepção é
Mas a nova direcção espacial não surge como modificação da aquilo por que estamos no mundo, ou aquilo por que temos
antiga; também na experiência de Stratton, o indivíduo um mundo, como quisermos, e constitui, por conseguinte, o
munido de óculos inversores acaba por assentar numa núcleo de toda a compreensão filosófica e psicológica do
direcção alto-baixo simultaneamente visual e táctil, que não homem. Também a Gestalttheorie está centrada
mais é captada como inversa da vertical ordinária. Pelo essencialmente na percepção; por sua vez, o pensamento de
contrário, a nova verticalidade é vivida como verticalidade, Husserl voltava constantemente, como se sabe, ao problema
sem mais, isto é, com direcção objectiva do espaço. da constituição da coisa. Esta convergência não é fortuita.
Encontramos aqui presentemente a característica da Explica-se pela preocupação de radicalidade que, aquém do
Gestalt: não existe em si, isto é, não existe independen- próprio comportamento tomado como relação do sujeito e do
temente do indivíduo que nela pretende inserir a sua relação seu Umwelt, procura fundar-lhe a possibilidade numa relação
com o mundo; também não é construída por mim, no sentido ainda mais originária. É essencial que esta originalidade tenha
simplista em que Condillac pretendia que a rosa era sido procurada, quer pelos psicólogos da forma, quer pelos
construída pelos dados dos diversos campos sensoriais. Não é fenomenólogos, não apenas no que diz respeito ao organismo
absoluta, porque a experimentação prova que se pode fazer fisiológico, mas no interior da própria relação. Não se trata de
variar: é o caso, por exemplo, da clássica experiência acerca buscar a sua explicação num dos pólos da relação, pois,
das oscilações da atenção (cruz de Malta negra inscrita num afinal, é a própria relação que confere sentido aos dois pólos
círculo cujo fundo é branco); não é puramente relativo ao Eu, que une. Encontramos novamente, inerente ao conceito de
porque nos dá Gestalt, a noção central da fenomenologia: a intencionalidade.
Mas não está em questão, evidentemente, a intencionalidade
duma consciência transcendental: trata-se antes da dum
(') Descritas e comentadas por Merleau-Ponty, ibid., 282 Leben, como dizia Husserl, a intencionali
sq.
dade dum sujeito profundamente embrenhado no mundo primordial. É por isso que Merleau-Ponty procura a sua fonte
60 42
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
no próprio corpo. estruturalista e não é por acaso que os vocabulários das duas
escolas acabam por fundir-se.
Os fenomenólogos não podiam ficar contentes com tal
fusão e é sobre este ponto exactamente que termina a
5. O problema do corpo concordância que davam aos psicólogos objectivistas. Com
efeito, se se passa da compreensão das estruturas à
Identificar sujeito transcendental e corpo, não será um explicação das estruturas, abandona-se aquilo que constituía o
regresso ao fisiologismo? Não se refaz deste modo o percurso interesse do conceito de Gestalt, ou seja, que implica de
de Watson? Não. Mas não deixa de ser verdade que certos algum modo uma intencionalidade e é indissociável dum
psicólogos da forma se sentiram tentados pelo fisiologismo, sentido. Quando Koffka se orienta no sentido da explicação
só o evitando porque se transferiram para a posição vizinha, das estruturas psíquicas pela morfologia nervosa, inverte de
o fisicismo. Interrogando-se sobre as relações entre o campo novo o verdadeiro problema psicológico: pois a explicação,
fenomenal e o campo geográfico, Koffka mostra que um e ainda que penetrante, dos fenómenos físico-químicos que
outro se fundam no mundo físico e que a ciência física acompanham a visão não N pode justificar o próprio facto de
descobre nesse mundo fenómenos de forma (por exemplo, a ver. Se, como psicólogo, seguir, passo a passo, o percurso da
distribuição da corrente eléctrica num condutor). Ora, se se excitação provocada na retina até ao centro visual, através da
procurar interpretar as causas das Gestalten psicológicas, complexidade das agulhagens, em seguida a emissão do
isto é, explicar porque não é o campo geográfico que é influxo para as zonas que permitem a acomodação, etc., por
percebido, mas o campo fenomenal, será efectivamente mais que o meu esquema seja tão adequado quanto possível
necessário, em última análise, reportar-se a Gestalten aos factos, não poderá nunca explicar este facto fundamental:
fisiológicas, nas quais reside o segredo desta deformação. É eu vejo: «Tomámos em consideração um olho morto no meio
por causa das estruturas a que está submetida a nossa do mundo visível para explicar a visibilidade deste mundo.
organização nervosa que as coisas são percebidas segundo Como se admirar, depois, que a consciência, que é
certas constantes: a interposição destas constantes ou interioridade absoluta, recuse deixar-se ligar a este objecto?»
Gestalten entre o mundo e eu traduz a transformação que (Sartre, Être et néant, 367). Por outras palavras, não há união
aos dados físicos faz sofrer o meu sistema fisiológico. À física possível entre o corpo objectivo estudado pelo fisiólogo e a
das informações visuais corresponde, deste modo, uma fisio- minha consciência. A este nível, qualquer regresso à fisiologia,
logia da sua captação, e a esta, por sua vez, uma psicologia como para Watson ficou dito, reintroduz as contradições insu-
da sua tradução. Necessário se torna, então, pôr como peráveis do problema clássico da união da alma e do corpo. Se
hipótese de trabalho o princípio dum isomorfismo que abra a psicologia deve ser em primeira pessoa, não pode, no
caminho a pesquisas explicativas: a simples descrição entanto, encarregar a fisiologia, ciência na terceira pessoa, da
compreensiva da experiência vivida deve prolongar-se numa solução dos seus problemas.
interpretação causal. Não se trata, evidentemente, dum Convém reconhecer, no entanto, que a interioridade
paralelismo ultrapassado, sabemo-lo hoje da própria boca dos absoluta, por meio da qual Sartre opõe a consciência ao corpo
fisiólogos, o facto de ser impossível de a uma localização objectivo, não se encontra muito na linha fenome-nológica: a
cortical fazer corresponder uma representação ou mesmo interioridade remete-nos para a introspecção e faz-nos cair no
uma função bem delimitada. E sabemos, em contrapartida, dilema já um pouco gasto duma subjectividade intransmissível
que as áreas corticais são atingidas pelo influxo, segundo e dum objectivismo que falha o seu objecto. Em todo o caso,
certas estruturas, e que, como ao nível psicológico, o há, na posição sartriana sobre este problema, que
importante não é tanto a incitação molecular, como a consideramos como a chave da tese fenomenológica em
distribuição global do influxo, ou seja, a relação das áreas psicologia, uma tendência evidente para dissociar fortemente
entre si e o equilíbrio ou desequilíbrio da carga do influxo. Os os dados fisiológicos da própria análise intencional. Assim, no
neurónios não funcionam como unidades, mas como partes Imaginaire, Sartre consagra uma primeira parte à descrição
dum todo, e não é possível explicar o comportamento eidética pura da consciência figurativa e, reconhecendo que a
fisiológico do todo a partir dos seus elementos. Estas descrição reflexiva não nos informa directamente sobre a
estruturas reguladoras, que podem por sua vez compreender- matéria representativa da imagem mental, passa, numa
se com base no modelo das regulações físicas (noção de segunda parte, ao exame dos dados experimentais. Ora,
campo de força, por exemplo), elucidam as estruturas que acontece que estes necessitam uma revisão da descrição
regulam o nível periférico, isto é, psíquico. Koffka, e depois fenomenológica. Em Esquisse d'une théorie des émotions, as
dele Guillaume, aproximavam-se, assim, duma behaviorismo tentativas de Dembo, psicólogo da forma, para interpretar a
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A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
cólera, por exemplo, em termos de meio, de campo corrente é unificada na unidade duma percepção. Ora, donde
fenomenal de forças e de equilíbrio de estruturas, são vem esta unidade, isto é, o sentido que esta coisa é para mim?
igualmente rejeitadas por Sartre, porque não são suficientes Duma consciência constituinte? Mas quando compreendo uma
à intencionalidade da consciência constituinte. Por fim, em coisa, um quadro por exemplo, não opero actualmente a sua
L'Être et le néant, o corpo próprio é ultrapassado como síntese: venho ao seu encontro com os meus campos
organismo fisiológico e apreendido como fac-ticidade vivida, sensoriais, o meu campo perceptivo, e, finalmente, com uma
como objecto para outrem, mas também como o meio pelo típica de todo o ser possível, uma montagem universal acerca
qual o meu interior mais recôndito se exterioriza sob o olhar do mundo... O sufeito já não (deve) ser compreendido como
do outro: o meu corpo está aí, não só como o ponto de vista actividade sintética, mas como ek--stase, e qualquer operação
que eu sou, mas como um ponto de vista sobre o qual são activa de significado ou de Sinngebung aparece como
actualmente tomados pontos de vista que jamais poderei derivada e secundária, relativamente a esta pregnância da
tomar; escapa-me em todos os sentidos {Être et néant, 419). significação nos sinais que poderia definir o mundo (Phéno.
Se me escapa é porque há um Eu que não é ele. A perc, 490). A Phénoménologie de la perception é uma
dissociação da análise intencional e dos dados fisiológicos penetrante e séria descrição desta montagem universal
parece, então, pressupor uma dissociação, mais grave essa, acerca do mundo. O método utilizado é muito diferente do de
pois é uma opção filosófica e de modo algum, somente um Sartre. É uma retomada, ponto por ponto, dos dados
erro metodológico entre consciência e corpo, ou antes, entre experimentais e, sobretudo, dos dados clínicos da patalogia
sujeito e objecto. A integração do corpo na subjectividade ou nervosa e mental. No entender do próprio autor, este método
da subjectividade no corpo não consegue fazer--se em mais não faz que prolongar o que Goldstein utiliza na Struc-
profundidade em Sartre, que segue muito mais o Husserl ture de l'organisme.
transcendentalista que o do terceiro período: é o mesmo Consideremos o caso da afasia Q). É classicamente
Husserl que rejeitava as teses da Gestaltpsy-chologie, definida pela carência total ou parcial de determinada função
embora esta se apoiasse nele, pois, em seu entender, a da linguagem: carência da recepção da linguagem falada ou
noção objectiva de estrutura em caso algum podia servir para escrita (surdez ou cegueira verbais), carência da acção de
descrever a subjectividade transcendental. É. evidente que a falar ou de escrever, não sendo esta carência resultado de
noção de síntese passiva está completamente ausente da alguma perturbação receptora ou motora periférica. Tentou-se
psicologia e filosofia sartrianas, que sem dúvida lhe ligar estas quatro funções respectivamente a centros corticais
reprovariam o facto de pôr o espírito nas coisas, como, por e explicar este comportamento psicopatológico na base da
outro motivo, Sartre atribui ao marxismo. fisiologia nervosa central. Goldstein mostra que estas
tentativas são necessariamente inúteis, porque admitem sem
crítica a quadri-partição da linguagem, a título de hipótese de
6. Fenomenologia e fisiologia trabalho; ora, estas categorias (falar, escrever, etc.) são as do
uso corrente e não têm qualquer valor intrínseco. O médico,
Em compensação, a psicologia fenomenológica de quando estuda o síndroma na perspectiva dessas categorias,
Merleau-Ponty aceita o debate, mesmo a nível psicológico, não se deixa guiar pelos próprios fenómenos, mas reveste os
como pode ver-se a partir da Structure du compor-tement. A sintomas duma anatomia preconceituosa e decalcada sobre a
própria noção de significação é secundária e exige ser anatomia psicológica que o senso comum insinua sob o
fundamentada num contacto mais originário com o mundo: o comportamento. Faz fisiologia em função duma concepção
que estabelece a diferença entre a Ges-talt do círculo e a psicológica e nem mesmo esta é elaborada com seriedade.
significação círculo é o facto de a segunda ser reconhecida, Efectivamente, se prosseguirmos com o exame dos sintomas
por um entendimento que a engendra, como lugar dos da afasia, conclui-se que o afásico não é um afásico puro e
pontos equidistantes dum centro e a primeira, por um sujeito simples. Sabe, por exemplo, designar a cor vermelha por
familiarizado com o seu mundo e capaz de a captar como um intermédio de um morango, embora não saiba designar as
modulação desse mundo, como uma fisionomia circular cores em geral. Em suma, sabe usar duma linguagem já feita:
{Phéno. perc, 491). Por conseguinte, a significação não a que nos faz transitar, sem mediação e sem meditação, duma
constitui a referência psicológica última, é ela própria ideia a outra; mas, quando, para falar, é necessário utilizar
constituída. E o papel da psicologia da percepção, por categorias mediadoras, então o afásico é verdadeira-
exemplo, consiste em saber como é constituída a coisa,
enquanto significação. É evidente que a coisa é corrente de (') GOLDSTEIN, «Analyse de l'aphasie et esence du
langage», Journal de psychologie, 1933. Para as relações da
Abschattungen, como dizia Husserl; mas, acrescentava, tal psicopatologia com a fenomenologia, ver os trabalhos de
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A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
BINSWANGER, JASPERS e MINKOWSKI, citado em 7. Fenomenologia e psicanálise
Phénoménologie de la perception, bibliografia.
mente afásico. Não é, portanto, o complexo sonoro que a As relações da fenomenologia com a psicanálise são
palavra constitui que falta na afasia, mas o uso do nível ambíguas. Sartre, nas páginas de L'Être et le néant em que
categorial. Pode-se, então, definir como degradação da define a sua psicanálise existencial (pp. 655-663), faz
linguagem e queda no nível automático. O doente não essencialmente duas críticas à psicanálise freudiana: é
compreende, também, nem retém uma história, ainda que objectivista e causalista, utiliza o conceito incompreensível de
curta; apreende, apenas, a sua situação actual e qualquer inconsciente. Objectivista, Freud postula, na base do
situação imaginária se lhe apresenta sem significação. Por acontecimento traumático e, portanto, de toda a história das
isso, Merleau-Ponty, retomando as análises de Gelb e de névroses, uma natureza, a libido; causalista, admite uma
Goldstein, distingue, em conclusão, uma palavra falante e acção mecânica do meio social sobre o sujeito, a partir da qual
uma palavra falada: carece o afásico da produtividade da elabora, por exemplo, uma simbólica geral que permite
linguagem. desvendar o sentido latente dum sonho sob o seu sentido
Não procuramos aqui uma definição da linguagem, mas a manifesto e, isso, independentemente do sujeito (do conjunto
expressão dum novo método: a Stein, que declarava que uma significante, diz Sartre). E, por último, como é que o sentido
fisiologia séria se deve fazer em termos objectivos, por duma névrose, sendo inconsciente, pode ser reconhecido no
medidas de cronaxia, etc, respondia Goldstein que essa momento em que o doente, ajudado pelo analista,
investigação físico-química não é menos teórica do que a sua compreende por que está doente? Mais radicalmente ainda,
abordagem psicológica. De qualquer modo, trata-se de como é que algo inconsciente poderia ter um sentido, dado
reconstituir a dinâmica do comportamento e como, de que a fonte de todo o sentido é a consciência? Na realidade,
qualquer modo, há reconstituição e não coincidência pura e há uma consciência das tendências profundas, melhor, tais
simples com o comportamento estudado, devem utilizar-se tendências não se distinguem da consciência (662). As noções
todas as abordagens convergentes. Por conseguinte, não se psicanalíticas de resistência, de recalcamento, etc, implicam
encontra aqui uma condenação dos métodos causais; importa que o id não é verdadeiramente uma coisa, uma natureza
seguir no seu desenvolvimento científico a explicação causal, (libido), mas o próprio sujeito em sua totalidade. A consciência
para lhe determinar o sentido e remetê-la ao seu verdadeiro discerne a tendência para recalcar da tendência neutra;
lugar no conjunto da verdade. Ê por essa razão que não se pretende então não ser consciência daquela, é má-fé: uma
encontrará aqui qualquer «■refutação», mas um esforço para arte de formar conceitos contraditórios, isto ê, que unem em
compreender as dificuldades próprias do pensamento causal si uma ideia e a negação dessa ideia (95).
(Phéno. perc, 13, nota). Os ataques contra o objec-tivismo, Se Merleau-Ponty não retoma esta última crítica na
que se encontram, por exemplo, no livro de Jeanson {La Phénoménologie de la perception (o corpo como ser se-xuado,
phénoménologie, Téqui, 1951), e a redução da fenomenologia pp. 180-198), isso não acontece por acaso. Ter--se-á reparado
a um método de subfectivação (ibid., p. 113) parecem-nos que a descrição sartriana da má-fé faz intervir uma
ser desmentidos pela inspiração de todo o pensamento consciência conceptual: com Sartre situamo-nos sempre ao
fenomenológico, a começar pelo de Husserl, que visa a nível duma consciência transcendental pura. Ao contrário,
superação da alternativa objectivo--subjectivo. Em psicologia, Merleau-Ponty procura desvendar as sínteses passivas onde a
tal superação consegue-se, como método, pela retomada consciência bebe as suas significações. A psicanálise
descritiva e compreensiva dos dados causais e, como existencial, escreve, não deve servir de pretexto a uma
doutrina, pelo conceito de pré-objectivo (Lebenswelt) (l). restauração do espiritualismo. E mais adiante acrescenta
Notar-se-á, também, o (436): A ideia duma consciência que fosse transparente para
si própria e cuja existência se resumisse à consciência que
(') O uso simultâneo dos dados experimentais e da possui de existir, não é lá muito diferente da noção de
análise intencional não significa ecletismo e muito menos inconsciente: trata-se, em ambos os casos, da mesma ilusão
comodidade de método. retrospectiva; introduzem em mim, a título de objecto
abandono dos processos indutivos, tal como estão tradi- explícito, tudo o que com a continuação poderia aprender de
cionalmente estabelecidos pela lógica empirista: retoma- mim mesmo.
remos este ponto capital a propósito da sociologia. Mas, 0 dilema do id e da consciência clara é, portanto, um falso
também aqui, o método preconizado e utilizado por Goldstein dilema. Não existe inconsciente, dado que a consciência está
satisfaz totalmente os requisitos da fenomenologia. sempre presente àquilo de que é consciência; o sonho não é a
oficina de imagens dum id que desenvolveria, graças ao sono
60 45
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
da minha consciência, o seu próprio drama mascarado. É, de não identificada como situação sexual. Dizer com Freud que a
facto, o mesmo Eu que sonha e se recorda de haver sonhado. lógica do sonho obedece ao princípio do prazer, é dizer que,
O sonho é, então, uma permissão, que concedo às minhas desligada do real, a consciência vive o sexual sem o situar,
pulsões, em completa má-fé, se sei aquilo que sonho? Nada sem poder distanciá-lo ou identificá-lo — do mesmo modo que
disso. Quando sonho, instalo-me na sexualidade, a para o amante que o vive, o amor não ê um nome, não ê uma
sexualidade é a atmosfera geral do sonho, de modo que a coisa que se possa designar, não é o mesmo amor de que
significação sexual do sonho não pode ser tematizada por falam os livros e jornais, mas uma significação existencial
falta de referência não sexual a que possa ligá-la. O (437). Aquilo que Freud denominava inconsciente é afinal uma
simbolismo do sonho só é simbolismo para o homem consciência que não consegue captar-se a si própria como
acordado. Este capta a incoerência da narrativa do seu sonho especificada; encontro--me cercado numa situação e só me
e procura relacioná-la simbolicamente com um sentido compreendo como tal na medida em que dela saí, na medida
latente. Mas, quando sonhava, a situação onírica era em que me encontro numa outra situação. Só esta
imediatamente significativa, não incoerente, mas também transplantação

da consciência permite compreender intimamente a cura (') No Prefácio que MERLEAU-PONTY escreveu para a
psicanalítica, pois é apoiando-me na situação presente, e em obra do Dr. HESNARD, UOeuvre de Freud, Payot, 1960,
encontra^se-á uma nova tematização da consonância entre
especial na relação vivida com o analista (transferi), que psicanálise e fenomenologia: a sua ideia central consiste em
posso identificar a situação traumática passada, dar-lhe um afirmar que a fenomenologia não é uma filosofia da
nome e, por fim, livrar-me dela. consciência clara, mas a actualização contínua e impossível
Tal revisão da noção de inconsciente supõe, evidente- dum Ser onírico, por definição escondido; apesar de que, no
que lhe diz respeito, a psicanálise deixa, graças, sobretudo,
mente, o abandono da concepção determinista do com- aos trabalhos do Dr. Lacan, de ser incompreendida na
portamento e em particular do sexual. É impossível isolar no qualidade de psicologia do inconsciente: tenta articular
íntimo do indivíduo pulsões sexuais que integrassem e «esse intemporal, esse indestrutível em nós, que é, diz
Freud, o próprio inconsciente».
estimulassem as suas condutas como causas. E o próprio
Freud, ao generalizar o sexual muito para além do genital,
sabia não ser possível estabelecer, num comportamento
dado, o que pertencia às motivações sexuais e às não
sexuais. O sexual não existe em si. É um sentido que dou à
minha vida e, se a história sexual dum homem fornece a
chave da sua vida, é porque na sexualidade do homem se
projecta a sua maneira de ser em relação ao mundo, ou seja,
em relação ao tempo e aos outros homens (185). Não há,
portanto, causação do comportamento pelo sexual, mas
osmose entre a sexualidade e a existência. Porque a
sexualidade está constantemente presente à vida humana Capítulo Terceiro FENOMENOLOGIA E
como uma atmosfera ambígua (197) C).
SOCIOLOGIA

1. A explicação

Antes de abordar os problemas especificamente socio-


lógicos, podemos desde já extrair das considerações pre-
cedentes uma conclusão essencial ao método nas ciências
humanas. A ciência experimental em geral procura esta-
belecer relações constantes entre fenómenos. A fim de

60 46
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
estabelecer que a relação visada é constante, torna-se social. Com certeza que não se pode reduzir Durkheim a
indispensável multiplicar as observações e as experimen- esta sociologia estática; ele próprio faz uso da explicação
tações em que aparecem ou podem aparecer os termos a genética ou histórica, no seu estudo acerca da família, por
pôr em relação. Deste modo se encontram legitimados os exemplo. Na Revue de métaphysique et de moyde, de 1937,
processos tradicionais descritos por Claude Bernard e MUI. fazia um ponto da situação nos termos do qual distinguia o
Quando a correlação entre os dois termos é atestada por problema da génese das instituições (quais foram as causas
uma frequência satisfatória, admite-se que os dois termos
que as fizeram surgir) e o problema do seu funcionamento
estão ligados de modo constante ceteris pari-bus, isto é,
(quais os fins úteis que realizam, a maneira como
reunidas certas condições. A pesquisa estende-se, então, a
uma constelação de factores em cujo seio se pode verificar a funcionam na sociedade, isto é, como são aplicadas pelos
constante. A epistemologia é assim conduzida a abandonar a indivíduos). A sociologia empreende esta dupla pesquisa,
categoria de causa e a ideia correspondente de apoiando-se, para o segundo ponto, na estatística e, para o
encadeamento linear; substitui-as pelo conceito mais flexível primeiro, na história e na etnografia comparada (*). Não é
de conjunto de condições ou de condicionamento e pela ideia menos certo que a tarefa sociológica se mantém
de um determinismo em rede. Mas esta evolução não altera exclusivamente explicativa, simultaneamente no sentido
o objectivo da ciência experimental: a explicação. A lei, ou longitudinal (génese) e transversal (meio). O determinismo
relação constante entre um conjunto de condições e um é em rede, mas trata-se sempre de determinismo.
efeito, não é explicativa por si mesma, pois só responde à Atitude metodológica sensivelmente paralela poderia
pergunta como, e não à pergunta porquê; a teoria, elaborada encontrar-se em psicologia com os objectivistas (2).
com base na infra-estrutura dum conjunto de leis
respeitantes ao mesmo sector da natureza, visa extrair a sua
razão comum. É apenas então que o espírito se pode dar por 2. A compreensão
satisfeito, porque detém a explicação de todos os fenó-fenos
subsumidos na teoria por intermédio das leis. A tentativa Contra esta descrição da ciência, invocava Husserl, no
explicativa passaria, então, necessariamente por uma mesmo sentido que alguns racionalistas como Bruns-chvicg,
indução: esta, a dar crédito à metodologia empirista, a insuficiência essencial da indução. Na realidade, a
consistiria em concluir da observação dos factos uma relação hipótese de constância que o empirismo crê encontrar no
constante de sucessão ou de simultaneidade entre alguns final das observações é construída pelo espírito, even-
deles. A constante relativa à observação seria em seguida tualmente na base duma única observação. Dum grande
universalizada como constante absoluta, até que a número de casos não se pode induzir uma lei; esta é uma
observação eventualmente a desmentisse. ficção idealizante fabricada pelo físico e que retira o seu
Aplicado às ciências humanas, este método de pesquisa poder explicativo, não do número dos factos sobre que foi
não apresenta, à primeira vista, qualquer dificuldade construída, mas da claridade que projecta sobre os factos.
particular. Pode mesmo dizer-se que oferece garantias de Esta ficção será, bem entendido, submetida em seguida à
obiectividade. Por isso, Durkheim, propondo-se tratar os prova da experimentação, mas continua de pé que a
factos sociais como coisas, procurava elaborar um método indução e o tratamento estatístico não podem, só por si,
explicativo em sociologia: em Les regles de la méthode resumir todo o processo científico: este exprime um
sociologique tratava-se explicitamente de estabelecer trabalho criador do espírito. Na Krisis, Husserl acentuava
relações constantes entre a instituição estudada e o meio que já Galileu tinha estabelecido uma eidética da coisa física
social interno, também ele definido em termos de física e que não se pode obter a lei da queda dos corpos induzindo
(densidade, volume). Durkheim mostrava-se deste modo fiel o universal a partir do diverso da experiência, mas apenas
ao programa comtiano da física social e fazia enveredar a pelo olhar que constitui a essência de corpo material
(Wesenschau). Não há ciência que não comece por
sociología pelo uso predominante da estatística comparada.
estabelecer uma rede de essências, obtidas por variações
Tratava-se, com efeito, de pôr uma determinada instituição
imaginárias e confirmadas por variações reais
em relação com diversos sectores do mesmo meio social ou (experimentação). Depois de se ter oposto à indução das
com diversos meios sociais e de extrair, por meio do estudo ciências empíricas, Hsserl acabava por fazer da
detalhado das correlações assim estabelecidas, constantes fenomenologia eidética um momento do conhecimento
para o condicionamento desta instituição. Podíamos, então, natural. É, portanto, uma falsificação do método físico,
universalizando até nova ordem, escrever leis de estrutura
60 47
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
(') Ver G. DAVY, «L'Explication sociologique et le recours intenção utilitária, ao passo que aquela nada exprime. Ê
à l'histoire d'après Comte, Mill et Durkheïm», R.M.M., 1949. claro que o caso do objecto cultural é relativamente
O Ver por exemplo GUILLAUME, Introduction à la psycho-
logie, Vrin, 1946. privilegiado,,, precisamente porque se trata duma
e não este método, que os objectivistas, que na realidade configuração material destinada explicitamente a satisfazer
são cientistas, tentam introduzir nas ciências humanas. uma necessidade: é o resultado do trabalho, isto é, da
Importa dissociar uma certa lógica da ciência, colocada em imposição duma forma premeditada a uma matéria. Mas,
quando nos encontramos perante um sílex da Pedra Polida
lugar de destaque pelo empirismo e o positivismo, e a
ou perante um altar fenício, não descortinamos logo à
prática científica efectivamente vivida, que convém primeiro
primeira o destino destes objectos, interrogamo--nos sobre
descrever rigorosamente. A atitude durkheimiana, por
qual seja esse destino. Continuamos, no entanto, a admitir
exemplo, está imbuída dos preconceitos comtianos; pois, se
que existe um destino, um fim, que há significação nos
se pretende estudar a existência duma instituição num grupo fenómenos humanos, mesmo e, talvez, sobretudo se não
determinado, a sua génese histórica e a sua função actual no compreendemos imediatamente qual seja essa significação.
meio não a explicam por si sós. É indispensável definir o que O que precedentemente dissemos acerca da afasia
é esta instituição. Por exemplo nas Formes élémentaires de implicava tal tese: tratava-se, em suma, de mostrar, a partir
la vie religieuse, Durkheim assimila vida religiosa e da observação correctamente descrita, que o
experiência do sagrado; mostra que o próprio sagrado tem comportamento afásico é realmente um comportamento,
origem no totemismo e que o totemismo é uma sublimação isto é, que encerra um sentido. E o problema
do social. Mas constitui efectivamente a experiência do psicopatológico não consistia mais em estabelecer apenas
sagrado a essência da vida religiosa? Não é possível relações de condições que caracterizassem o síndroma
conceber (por variações imaginárias) uma religião que não afásico, mas em recaptar o conjunto dessas condições na
se apoiasse em tal prática do sagrado? E, finalmente, que unidade do comportamento afásico, compreendendo a
significa o próprio sagrado? A constituição da essência deve significação profunda e, se tal se pode dizer,
corrigir constantemente a observação, caso contrário, os anteconsciencial de tal comportamento. Nunca abordamos
resultados desta são cegos e destituídos de valor científico. um fenómeno humano, isto é, um comportamento, sem lhe
Por outro lado, a preocupação objectivista nas ciências dirigir a pergunta: o que significa? E o verdadeiro método
humanas esconde inevitavelmente ao sábio a natureza das ciências humanas não consiste em reduzir este
daquilo que estuda. É, em suma, um preconceito e não é por comportamento, com o sentido que encerra, às suas
acaso que Merleau-Ponty, no Cours já citado, denuncia a condições e anulá-lo nelas, mas em responder por fim a
existência em Guillaume de pressupostos filosóficos. É essa pergunta, utilizando os dados de condicionamento
preciso ir às próprias coisas, descrevê-las correctamente e explicitados pelos métodos objectivos. Explicar
elaborar, com base nessa descrição, uma interpretação do verdadeiramente, nas ciências humanas, é fazer com-
seu sentido; é a única objectividade verdadeira. Tratar o preender.
homem como uma coisa, seja na qualidade de psicólogo ou O objectivismo finge que uma captação puramente
de sociólogo, é afirmar a priori que o pretenso método exterior do comportamento individual ou colectivo é não só
natural vale igualmente para os fenómenos físicos e os possível, mas desejável. Convém, acentua, desconfiar das
fenómenos humanos. Ora, não podemos ajuizar previamente interpretações espontâneas com que cercamos b
a este respeito. Se, como ainda há pouco Husserl nos comportamento observado. E é claro que a compreensão
convidava, procurarmos descrever os processos das ciências imediata que temos de tal jovem arrancada do seu cantinho,
humanas, descobriremos, no próprio coração da interrogação como se costuma dizer, num baile ou num jogo, não oferece
que o psicólogo ou o sociólogo lança ao psíquico ou ao social, garantia de verdade. Tais tipos de compreensão evidente e
a tese duma modalidade absolutamente original: a espontânea resultam na verdade de sedimentações
significação do comportamento estudado, individual ou complexas da nossa história pessoal e da história da nossa
colectivo. Esta posição do sentido é em geral omitida na cultura; por outras palavras, torna-se necessário fazer a
descrição dos métodos, sobretudo quando se trata de sociologia e a psicologia do observador para compreender a
métodos objectivistas. Consiste em admitir imediatamente sua compreensão. Mas não é razão para, dum mesmo golpe,
que este comportamento quer dizer alguma coisa, ou ainda, liquidar toda a compreensão e para alinhar na reivindicação
que exprime uma-intencionalidade. 0 que distingue, por durkheimiana: suprime o problema, mas não o resolve.
exemplo, o objecto natural do objecto cultural (uma pedra e Entre o subjectivismo simplista, que equivale a arrumar toda
uma caneta) é que neste se encontra cristalizada uma a ciência social ou psicológica, e o objectivismo brutal, cujas
60 48
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
leis falham afinal o objectivo, há lugar para uma retomada compreensibilidade do homem pelo homem; por
dos dados explicativos que procuraria exprimir a sua unidade conseguinte, a relação do observador ao observado, nas
de significação latente. Freud tinha compreendido isso. 0 ciências humanas, é um caso da relação do homem ao
cerne do sentido não se atinge logo à primeira: era homem, de mim a ti. Então, toda a antropologia, e em
precisamente isso que os fenomenólogos punham em especial a sociologia, contém em si uma sociaíidade
destaque, quando, de acordo com o objectivismo, criticavam originária, se se entender por isso essa relação por meio da
a introspecção. Mas, quando J. Monnerot, por exemplo, qual os sujeitos se dão mutuamente. Esta sociaíidade
fazendo profissão de fenomenologia, escreve que a originária, enquanto terreno de todo o saber antropológico,
compreensão é evidência imediata, a explicação é carece duma explicação, cujos resultados poderão
justificação tardia da presença dum fenómeno pela exis- posteriormente retomar-se a fim de esclarecer a própria
tência hipotética doutros fenómenos {Les faits sociaux ne ciência social. O social já lá está, quando o conhecemos ou
sont pas des choses, p. 43), compara evidentemente duas julgamos... Antes da tomada de consciência, o social existe
atitudes incomparáveis, pois a compreensão, enquanto surdamente e como solicitação (Phéno. perc, 415).
apreensão evidente e imediata do sentido do gesto pelo qual Recordemos a elaboração teórica do problema do outro, já
o magarefe lança a carne na balança, não pode servir lá esboçado a propósito de Husserl O: como se explica que não
muito a sociologia; pelo contrário, prejudica-a, como o perceba o outro
sentido manifesto dum sonho esconde ao analista, tanto
como traduz, o seu sentido latente. Uma sociologia
compreensiva não pode usar daquela compreensão. Todo o (') Ver atrás, pp. 35 sq.
livro de Monnerot é um vasto contrasenso acerca da palavra como um objecto, mas como um alter ego? A hipótese
compreender, como é manifesto quando se trata de precisar clássica do raciocínio analógico pressupõe aquilo que devia
de que é feita essa sociologia compreensiva. Aniquila-se explicar, como mostra Scheller (Essence et forme de la
Durkheim (não sem ingenuidade, aliás), mas substitui-se por sympathie), discípulo de Husserl. Porque a projecção sobre
quê? Tivemos já ocasião de observar que a doença infantil da as condutas do outro das vivências correspondentes para
fenomenologia é um certo subjectivismo. Há, sem dúvida, mim às mesmas condutas implica, por um lado, que o outro
que fazer uma sociologia desta doença. seja apreendido como ego, isto é, como sujeito apto a
3. O social originário, fundamento da compreensão experimentar vivências para si, e, por outro lado, que eu
próprio me apreenda como visto de fora, isto é, como um
Este desvio metodológico conduz-nos directamente ao outro para um alter ego, pois essas condutas a que assimilo
centro do problema sociológico propriamente dito, pelo as do outro que observo, como sujeito, apenas posso vivê-
menos tal como a fenomenologia o apresenta. Este pro- las, e não apreendê-las do exterior. Existe, pois, uma
blema, antes de ser um problema de método, é um problema condição para que a compreensão do outro seja possível: é
de ontologia: só uma definição eidética adequada do social que eu não seja para mim mesmo uma pura transparência.
permite uma abordagem experimental fecunda. Isso não Este ponto ficou assente a propósito do corpo 0). Cora
significa, como referimos já em outras ocasiões, que seja efeito, se nos obstinarmos em situar a relação com o outro
benéfico elaborar a priori uma teoria do social, ou forçar os ao nível das consciências transcendentais, torna-se claro
dados científicos ao ponto de exprimirem conclusões que só um jogo de destituição ou de degradação recíproca
concordes com a eidética. Na realidade, esta eidética se pode instituir entre estas consciências constituintes. A
indispensável deve construir-se no decurso da exploração análise sartriana do para-o-outro, que é feita
dos próprios factos, e também na sua continuação. É uma essencialmente em termos de consciência, detém-se
crítica, mas, como dizia Husserl, toda a crítica revela já a sua inevitavelmente naquilo que Mer-leau-Ponty chama o
outra face, a sua positividade. ridículo dum solipsismo a vários. O outro, escreve Sartre,
Ora a compreensão, intrínseca a todo o saber antro- como olhar é apenas isso, a minha transcendência
pológico e da qual acabámos de falar, exprime a minha transcendida (L'Être et le néant, 321). A presença do outro
relação fundamental com o outro. Por outras palavras, toda a traduz-se no meu pudor, na minha arrogância, no meu
antropologia reflecte a existência dum sentido daquilo que medo, e as minhas relações com o outro só podem ser de
estuda. Tal sentido não se reduz a uma função de utilidade, tipo demissionário: amor, linguagem, masoquismo,
por exemplo, e só pode ser correctamente identificado caso indiferença, desejo, ódio, sadismo. Mas a correcção que
seja referido ao homem ou aos homens estudados. Está, Merleau-Ponty introduz nesta interpretação reorienta-nos na
portanto, implícito em toda a ciência humana o postulado da problemática do outro: na verdade, o olhar do outro só nos
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A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
transforma em objecto se ambos nos retirarmos para o fundo identifica-se com o outro: ego e alter ego são indistintos.
da nossa natureza pensante, se ambos adoptamos um olhar Wallon caracteriza este período pela expressão
inumano, se cada um sente as suas acções, não retomadas e sociabilidade incontinente e Merleau-Ponty, retomando-o e
compreendidas, mas observadas como as dum insecto prolongando-o O, pela de sociabilidade sincrética. Esta
(Phéno. perc, 414). É preciso descer abaixo do pensamento indistinção, esta experiência dum intermundo onde não
do outro e reencontrar a possibilidade duma relação existem perspectivas egológi-cas, exprime-se na própria
originária de compreensão; nem isso, os próprios linguagem, muito depois de se ter operado a redução da
sentimentos de solidão e conceito de solipsismo deixarão de imagem especular a uma imagem sem realidade. As
ter qualquer sentido para nós. Devemos, por consequência, primeiras palavras-frases da criança visam condutas e
descobrir, anteriormente a qualquer separação, uma acções pertencentes, quer a outro, quer a si própria (ibid). A
coexistência do Eu e do outro num mundo inter-subjectivo; apreensão da sua própria subjectividade como perspectiva
neste terreno ganha sentido o próprio social. absolutamente original só aparece mais tarde e, em todo o
É precisamente isso que nos ensina a psicologia da caso, o Eu só é utilizado quando a criança compreendeu que
criança, que é já uma sociologia. A partir dos seis meses o tu e o te podem dirigir-se, tanto a si mesmo, como ao
desenvolve-se a experiência do próprio corpo da criança. outro, e que todos podem dizer «eu» (observação de
Wallon nota, em conclusão das suas observações, ser Guillaume). Por altura da crise dos três anos, Wallon nota
impossível à crianças distinguir um conhecimento inte- um certo número de comportamentos que caracterizam a
roceptivo (cenestésico) do seu corpo e um conhecimento do superação do transitivismo: vontade de agir sozinho,
exterior (por exemplo, por imagem num espelho ou imagem inibição sob o olhar do outro, egocentrismo, duplicidade,
especular); o visual e o interoceptivo são indistintos, há um atitudes de transacção (em especial no dom e roubo dos
transitivismo por meio do qual a criança se identifica com a brinquedos). Wallon mostra que, no entanto, o transitivismo
imagem do espelho: a criança acredita simultaneamente que não foi suprimido e se prolonga para aquém desta
está no lugar onde se sente e no lugar onde se vê. Do distanciação
mesmo modo, quando se trata do corpo do outro, a criança

0) Ver atrás, pp. 62 (') «Les relations avec autrui chez l'enfant», curso de 1950-
51, Bulletin de psychologie, Nov., 1964.
sq.
do outro. É por isso que Merleau-Ponty se opõe à tese de lentamente (através do conflito, evidentemente) do
Piaget, segundo a qual, por volta dos doze anos, a criança intermundo originário. Se há social para mim, é porque sou
realizaría o cogito e encontraria as verdades do racionalismo. originariamente social e, se sei que compreendo ou tenho de
«Tornase necessário que as crianças tenham de qualquer compreender as significações que inevitavelmente projecto
modo razão contra os adultos e contra Piaget, e que os nas condutas do outro, é porque o outro e eu estamos e
pensamentos bárbaros da primeira idade se mantenham continuaremos compreendidos numa rede única de condutas
como uma aquisição indispensável sob os da idade adulta, se e num fluxo comum de intencionalidades (*).
deve existir para o adulto um mundo único e intersubjectivo» 4. Fenomenologia e sociologia
(Phéno. perc, 488). Merleau--Ponty mostra que, com efeito, o
amor, por exemplo, constitui uma expressão deste estado de Não poderia, então, pôr-se a questão de definir o social
indivisão com o outro, e que o transitivismo não é abolido no como objecto. B tão falso colocarmo-nos na sociedade como
adulto, pelo menos na ordem dos sentimentos. Verifica-se um objecto no meio de outros objectos, como introduzir a
deste modo a diferença com as conclusões de Sartre. A sociedade em nós como objecto de pensamento; em ambos
essência das relações entre consciências não é Mitsein, é o os casos, o erro consiste em tratar o social como um objecto
conflito, escrevia o autor de L'Btre et le néant (502). Uma (ibid., 415). Monnerot anuncia em grandes parangonas que
análise fenomenológica parece mostrar, ao contrário, na base não há sociedade. E isso é verdade, na medida em que não é
das ciências humanas, que a ambiguidade da relação com o uma realidade na mesma qualidade que o indivíduo e,
outro, tal como a apresentámos a título de problema teórico, atentando bem, a ideia não é nova. Mas, daí a diluir os factos
ganha sentido numa génese do outro para mim: os sentidos sociais nos comportamentos individuais e a vazar o
do outro para mim são sedimentados numa história que de sociologismo durkheimiano na psicologia social pura e
início não é a minha, mas uma história a vários, uma simples, vai apenas um passo, que muitos sociólogos
transitividade, e onde o meu ponto de vista se separa
60 50
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
modernos transpõem, aparentemente pouco conscientes da ou de Centers sobre as classes sociais Q. Deste modo são
sua gravidade. Porque o social já não é reduzido apenas a escamoteados ou problemas sociológicos; é neste sentido
uma representação individual, mas um social para mim e à que se inclinam as observações de Monnerot, cuja solidez
minha medida; e a investigação sociológica dirige-se, não às teórica não pode ser demasiado questionada. Que sociologia
modalidades reais do Mitsein, mas ao que dessas mo- propõe, então, a fenomenologia?
dalidades pensam as individualidades sondadas. Encon-trar- Uma vez mais, não propõe uma sociologia (2). Propõe um
se-iam mil exemplos desta deslocação na sociologia reexame, uma reinterpretação crítica e construtiva
contemporânea; retenhamos o das investigações de Warners

socialidade viva e tradicional e compreendê-la na medida em


(') É claro que a investigação ao nível da psicologia da que, na sua vida social total e a partir dela, esta humanidade
possui o mundo, que para ela não ê uma 'representação do
criança e a retomada dos resultados por Merleau-Ponty
apontam na mesma direcção que a reflexão heideggeriana mundo', mas o mundo que para ela é real» (citado por
acerca do Mitsein, criticada por Sartre (Être et néant, 303, Merleau-Ponty, ibid., p. 135). Deve-se igualmente
sq). Mas pôde-se fazer sua a crítica pela qual Sartre qualifica
de afirmação sem fundamento a tese heideggeriana, acompanhar a direcção da interpretação que Claude Le-fort
acrescentando que é precisamente esta coexistência que Q apresenta do célebre trabalho de Mauss sobre O Dom (2),
importaria explicar. Pela retomada dos dados experimentais, ao contrário da leitura estruturalista que Lévi--Strauss
o Mitsein é, senão explicado, o que aliás não é pensável em entende fornecer na sua Introduction: pois é certo que Mauss
antropologia, ao menos explicitado, desvendado e
desenvolvido no seu sentido originário. Ter-se-^á prestado se orientava muito mais no sentido duma compreensão do
atenção ao facto de que esta originalidade era simulta- dom, do que duma sistematização formal das tensões sociais
neamente genética e ôntica. ou interpessoais inerentes ao dom. O comentário de Lefort,
(') Ver um bom estudo crítico de A. TOURAINE, «Classe que tenta esclarecer o dom à luz da dialéctica hegeliana das
sociale et statut socio-économique», Cahiers internationaux
de sociotogie, XI, 1951. consciências em luta, segue numa linha fenomenológica.
(2) Pode-se, evidentemente, falar duma escola Para o fenomenólogo, o social não é de modo algum objecto;
fenomenológica em sociologia; Scheller, Vierkandt, Litt, é apreendido como vivido e trata-se então, como referimos
Schütz, Geiger, seriam os seus representantes. (Ver por para a psicologia, de descrever adequadamente tal vivido,
exemplo CUVILLIER, Manuel de sociologie, I, p. 49 sq., 162
sq., e bibliografias.) Na verdade, todos os ataques dirigidos para lhe reconstituir o sentido. Mas essa descrição, por sua
contra estas tentativas, mais filosóficas que sociológicas, são vez, só pode realizar-se com base nos dados sociológicos,
no fundamental justificadas. Quando Mauss exigiu que a também eles resultado duma objectivação prévia do social.
sociologia só interviesse em resultado das investigações
concretas, orientava-se no sentido da sociologia contem-
porânea, como iremos ver. Seja como for, a pesquisa duma (') «L'Échange et la lutte des hommes», Les Temps
socialidade originária não implica que a definição da modernes, Fevereiro, 1951.
socialidade seja anterior ao exame das suas formas (2) In Sociologie et anthropologie, P. U.F., 1950.
concretas.
das investigações sociológicas. Não existe uma sociologia 5. Indivíduo e sociedade. O problema etnológico
fenomenológica: há uma filosofia que não fala, como a
sociologia, apenas do mundo, dos homens e do espírito As observações anteriores concernentes ao social ori-
(Merleau-Ponty, «Le philosophe et la sociologia», Signes, p. ginário, entendido como dimensão de existência, e que nos
138). Esta filosofia distingue-se de toda a sociologia, porque conduziram à psicologia da criança, parece terem militado
não objectiva o seu objecto, antes visa compreendê-lo ao em favor duma degradação social no individual. Isso mesmo
nível desse transitivismo que a ciência da criança revelou. podem igualmente sugerir certas passagens de Merleau-
Não há dúvida que esta tarefa não é fácil, quando se trata de Ponty na Phénoménologie de la per-ception. Na realidade, a
sociedades arcaicas: a análise intencional revela aqui, não fenomenologia, ligada às pesquisas sociológicas e
algo como o nosso mundo, mas um mundo cujas estruturas etnológicas concretas, visa superar, a partir delas, a
profundas nos escapam. Não se pode, no entanto, afirmar a tradicional antinomia entre o indivíduo e a sociedade. Não
sua incompreensibi-lidade, pois o próprio Lévy-Bruhl, que de está, evidentemente, em questão a supressão da
início o fizera, renuncia a tal nos seus Carnets póstumos. especificidade das ciências sociológicas e psicológicas: no
Quanto a Husserl, em 1935 escrevia a esse mesmo Lévy- que concerne a este problema, a fenomenologia alinha-se
Bruhl, a respeito da Mythologie primitive: «é uma tarefa pela posição definida por Mauss no seu artigo Rapport de la
possível e de enorme importância, é uma grande tarefa psychologie et de la sociologie (*) e que preconiza um
projectarmos numa humanidade fechada sobre a sua envolvimento das duas disciplinas, sem fixação de fronteira
60 51
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
rígida. diante da mulher, a iniciativa exclusivamente feminina nas
Ora, aqui como em psicologia, os resultados da elabo- relações sexuais, a importância das transacções financeiras
ração teórica convergem com as pesquisas independentes: monopolizadas pelos homens e que muitas vezes provocam
por isso, a escola culturalista americana acaba de facto por neles inibições sexuais — traduzem a hostilidade dos homens
abandonar as categorias solidificadas e contrárias de para com as mulheres, enraizada na história infantil, bem
indivíduo e sociedade. Quando Kardiner retoma e prolonga as como a agressividade, a ansiedade e a desconfiança que
pesquisas de Cora du Bois acerca da cultura das ilhas Alor à rodeiam e penetram o crescimento da criança. Kardiner fez
luz da categoria de basic per-sonality, esboça aplicar testes de Rors-chach aos habitantes de Alor por
simultaneamente um método de abordagem, que evita as psicólogos que ignoravam as suas próprias conclusões: os
inconsequências do pensamento causal e redutor, e uma resultados vão no mesmo sentido que a interpretação de
teoria da infra-estrutura neutra, sobre que se edificam, quer Kardiner; aliás, a análise de histórias de vida confirma ainda
o psíquico, quer o social. Esta base neutra responde mais, se tal
razoavelmente bem às exigências duma existência anónima,
que seria uma coexistência anónima, impostas pela reflexão 0) LEFORT, «La méthode de Kardiner», C.I.S., X, p. 118.
fenomenológica sobre o Mitsein e a relação do para si e do Atentar-se-á no carácter negativo de cada um dos factores.
para o outro. Kardiner preocupa-se (em virtude dum Não será isso porque, implicitamente, a personalidade de
base é definida relativamente à da nossa cultura e em
postulado psicanalítico e mesmo psicologista a que contraste com ela? Esta relatividade é inevitável ao nível da
voltaremos) em descrever a experiência total da criança no compreensão, funda a sua possibilidade.
seu meio cultural, em seguida, em estabelecer correlações fosse necessário, a correlação estabelecida entre a expe-
entre esta experiência e as instituições do meio e, riência infantil e a integração na cultura.
finalmente, em concluir que estas funcionam como Utilizámos em várias ocasiões o termo correlação para
projecções daquelas. unir o conjunto dos dados da história individual e os da
As mulheres de Alor realizam o trabalho de produção cultura colectiva. Convém precisar este termo, que se
(agrária). Catorze dias após o nascimento, a criança é mantém ambíguo. Kardiner propõe-se isso, quando distingue
instituições primárias e instituições secundárias. As primeiras
são aquelas que suscitam os problemas fundamentais e
0) In Sociologie et anthropologie, P.U.F., 1950. inevitáveis de adaptação; as instituições secundárias
geralmente abandonada aos cuidados de quem estiver (o resultam, do efeito das instituições primárias sobre a
irmão mais velho, parentes afastados, vizinhos); alimentada estrutura da personalidade de base Q). Assim, considerando
de modo muito irregular, passa fome, e não pode ligar a somente o caso da instituição religião, em Alor, onde reina o
supressão eventual desta com a imagem da mãe; as abandonismo da criança, o ego mantém-se amorfo e revela-
primeiras aprendizagens não são orientadas, nem sequer se incapaz de formar a imagem dos deuses; enquanto nas
encorajadas; pelo contrário, aqueles que a rodeiam ilhas Marquesas, onde a educação é maleável e negligente, a
ridicularizam-na, provocam-lhe fracassos, desencorajam-na; o elaboração e a prática religiosas são secundárias, embora o
sistema de punições e de recompensas é flutuante, ciúme provocado pela indiferença maternal se projecte nos
imprevisível e impede qualquer estabilização das condutas; o contos, onde o Papão desempenha um papel importante; em
controlo da sexualidade é inexistente. Podemos assim contrapartida, em Tanala a educação patriarcal rigorosa e o
esboçar os caracteres da personalidade de base: sentimento controlo severo da sexualidade traduzem-se por uma religião
de insegurança, falta de confiança em si, desconfiança em na qual a ideia de destino é poderosamente repressora.
relação ao outro e incapacidade duma ligação afectiva sólida, Vemos que Kardiner liga as instituições secundárias, por
inibição do homem perante a mulher, ausência de ideal, exemplo a religião, à personalidade de base, mas não de ma-
incapacidade de levar um empreendimento a bom termo (') neira puramente mecanicista, antes como psicanalista,
Correlativamente a esta personalidade, certas instituições utilizando os conceitos de projecção e de motivação. Quanto
derivam-se aparentemente destas frustrações familiares: o à personalidade de base, a sua estrutura é comum a todos os
carácter vago e a fraca intensidade da religião como dogma e membros duma dada cultura: é afinal o melhor meio de
como prática explicam-se pela fraqueza do super ego; a compreender essa cultura.
crença em personagens, espíritos benéficos, funda-se na Subsistem, evidentemente, ambiguidades nas formu-
experiência infantil do abandono; a negligência e a ausência lações de Kardiner: é claro em especial, e esta crítica já
de iniciativa nas técnicas artísticas e mesmo de construção clássica é essencial, que a cultura é uma instituição primária
exprimem a fraqueza da personalidade; a instabilidade do ca- apenas para a criança e não para a personalidade de base
samento e a frequência dos divórcios, a ansiedade masculina
60 52
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
em geral. Primário e secundário parecem designar uma mulheres, este por sua vez remete, se o quisermos
ordem de sucessão temporal; este tempo não pode ser o da compreender, para a sociedade global, incluindo as
própria cultura, cujas estruturas institucionais se pretendem instituições secundárias. A persona-
isolar, mas o do indivíduo psicológico. Na verdade a educação
em Alor depende estreitamente do padrão de vida das (') Citado por LEFORT, ibid., p. 121.

A FENOMENOLOGIA

lidade de base não pode ser compreendida como intermediária abordasrem objectiva não deve ser reieitada. mas
entre primário e secundário, mesmo que se trate duma inter- rectificada. Mais que qualquer outra, a história, ciência total,
relação de motivações e não duma causalidade linear: porque confirmará estes resultados.
por mais longe que se leve a detecção da complexa teia de
motivações de que se tece uma cultura, jamais se atingem
dados primeiros constitutivos duma infra-estrutura responsável
pelo estilo da cultura considerada. Apenas se pode dizer, com
Lefort, que é no interior da personalidade de base que as
próprias instituições ganham sentido e que só a adequada
apreensão daquela pelo etnólogo permite compreender a cul-
tura que caracteriza. Esta personalidade é uma totalidade
integrada e, se tal instituição se modifica, é toda a estrutura da
personalidade que entra em movimento: por exemplo, entre os
Tanala a passagem da cultura de sequeiro à cultura de regadio Capítulo Quarto FENOMENOLOGIA E HISTORIA
do arroz modifica, não só o regime da propriedade, mas ainda a
estrutura familiar, a prática sexual, etc. Tais modificações só
são compreensíveis a partir do sentido que os Tanala projectam 1. O histórico
na cultura do arroz; e este sentido também só ganha forma a
partir da fonte de todo o sentido, a personalidade de base. Esta Em primeiro lugar, há uma ambiguidade do termo
constitui, então, de facto, a socialidade viva -que Husserl história que designa, tanto a realidade histórica, como a
considerava como o objectivo do sociólogo; é aquilo que faz ciência histórica. Esta ambiguidade exprime um equívoco
com que homens coexistam efectivamente no interior duma existencial, o de que o sujeito da ciência histórica é também
sociedade é, aquém das instituições, a cultura culturante um ser histórico. Compreender-se-á imediatamente que a
(Lefort). Deste modo, o indivíduo não existe como entidade pergunta como é possível uma ciência histórica?, que
específica, pois significa o social, como mostram as histórias da interessa ao nosso propósito, se encontra rigorosamente
vida, nem tão pouco a sociedade a título de em si coercitivo, ligada à pergunta deve e pode o ser histórico transcender a
pois simboliza com a história individual. sua natureza de ser histórico, para apreender a realidade
As pesquisas objectivas podem, pois, caso sejam reto- histórica enquanto objecto de ciência? Se designarmos por
madas, restituir-nos a verdade do social, como podem historicidade esta natureza, a segunda pergunta muda-se
desmascarar a verdade do psíquico. Esta verdade, estas em: a historicidade do historiador é compatível com uma
verdades são inesgotáveis, pois são as dos homens concretos: captação da história que responda às condições das
Mauss sabia disso; mas sabia também que são penetráveis ciências?
pelas categorias de significação. Por sua vez, o culturalismo Primeiramente, é preciso interrogarmo-nos sobre a
continua demasiado submetido ás categorias causais da própria consciência histórica; como é que o objecto História
psicanálise, já corrigidas por Merleau--Pontv, a propósito da acontece na consciência? Não pode ser a experiência natural
sexualidade. A verdade do homem não é decomponível. mesmo relativa ao desenrolar do tempo, pois não é porque o
em sexualidade e sociedade. É por isso que qualquer indivíduo se encontra na história que é temporal; mas se só
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A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
existe e só pode existir historicamente, ê porque é temporal no originariamente. Por conseguinte, como é que a historicidade
fundo do seu ser ('). Que significaria, com efeito, uma história do sujeito é compatível com a sua unidade e a sua
na qual acontecesse que o sujeito fosse um objecto histórico totalidade? Esta questão da unidade duma sucessão vale
em si mesmo? Tome- também para a história universal.
Uma fórmula célebre de Hume pode esclarecer ainda
0 HEIDEGGER, Sein und Zeit, na trad. Corbin, «Qu'est-ce mais o problema: o sujeito não é mais que uma série de
que la métaphysique?», Gallimard, p. 176. estados que se pensa a si própria. Reencontramos aqui a
mos de Heidegger o exemplo dum móvel antigo, coisa série dos Erlebnisse. A unidade desta série seria dada por
histórica. O móvel é coisa histórica, não apenas porque objecto um acto do pensamento imanente a ela; mas este acto,
eventual da ciência histórica, mas em si mesmo. Mas o que é como nota Husserl, acrescenta-se à série como um
que, em si mesmo, o faz histórico? É porque, de algum modo, é Erlebnisse suplementar, para o qual se tornará necessária
ainda o que era? Nem isso, porque mudou, degradou-se, etc... uma nova apreensão sintética da série, isto é, um novo
É, então, porque é velho, fora de moda? Mas pode não o ser, vivido: estaremos, então, perante uma série inacabada e,
embora sendo móvel antigo. Então o que é passado, neste sobretudo, cuja unidade estará sempre em questão. Ora a
móvel? É, responde Heidegger, o mundo de que fazia parte; unidade do Eu não está em questão. Não ganhamos nada
desse modo esta coisa subsiste ainda hoje e por isso está com transportar o tempo das coisas para nós, se repetimos
presente e não pode deixar de o estar; mas, enquanto objecto «na consciência» o erro de o definir como uma sucessão de
pertencente a um passado, esta coisa presente é passado. Por agoras (Merleau-Ponty, Phéno. perc, 472); é neste ponto que
consequência, o objecto é mesmo histórico em si mesmo, mas a fenomenologia procura separar-se do bergsonisrao. É claro
a título secundário; é histórico, apenas porque a sua que o passado é, como noese, um «agora», ao mesmo
proveniência se deve a uma humanidade, a uma subjectividade tempo que um «já não», como noema; o futuro um «agora»
que esteve presente. Mas que significa, então, por sua vez, e, simultaneamente, um «ainda não», e, por consequência,
para esta subjectividade, o facto de ter estado presente? não interessa dizer que o tempo se escoa na consciência: é,
Eis-nos, portanto, remetidos do histórico secundário a um ao contrário, a consciência que, a partir do seu agora,
histórico primário, ou melhor, originário. Se a condição do desdobra ou constitui o tempo. Poderia dizer-se que a
histórico do móvel não se encontra no móvel, mas no histórico consciência intencionaliza agora o isso de que é consciência,
do mundo humano era que o móvel se situava, que condições segundo o modo do já não, ou segundo o modo do ainda
nos garantem que este histórico é originário? Dizer que a não, ou então, segundo o modo da presença.
consciência é histórica, isso quer dizer, não só que há algo A consciência seria, então, contemporânea de todos os
como tempo para ela, mas que ela é tempo. Ora a consciência tempos, se é a partir do seu agora que desdobra o tempo:
é sempre consciência de alguma coisa e uma elucidação, tanto uma consciência constitutiva do tempo seria intemporal.
psicológica como fenomenológica, da consciência vai revelar Para evitar a imanência pouco satisfatória da consciência no
uma série infinita de intencionalidades, isto é, de consciências tempo, desembocamos numa imanência do tempo na
de. Neste sentido, a consciência é fluxo de vivências (Erleb- consciência, isto é, numa transcendência da consciência ao
nisse), que são todas no presente. Do lado objectivo, não há tempo, que deixa sem explicação a temporalidade dessa
qualquer garantia de continuidade histórica; mas para o pólo consciência. Em certo sentido, não avançámos sequer um
subjectivo, qual a condição de possibilidade desta vaga unitária passo desde a primeira posição do problema: a consciência,
de vivências? Como se pode passar das vivências múltiplas ao e em especia] a consciência historiadora, envolve o tempo e
Eu, quando nada mais existe no Eu além destas vivências? é simultaneamente envolvida pelo tempo. Mas, num outro
Embora se encontre entrelaçado desta maneira particular com sentido, construímos o problema sem previamente ajuizar da
todas as suas vivências, o Eu, que as vive, não é de modo sua solução, preocupados com apresentá-lo correctamente:
algum algo que possa considerarse «para si» e tratarse como o tempo, e por consequência a historia, não é captável em si;
um objecto «próprio» de estudo. Se abstrairmos dos seus mas deve ser remetido à consciência que há da historia. Esta
modos de se relacionar e dos seus modos de se comportar..., relação imanente da consciência à sua história não pode
não há nenhum conteúdo que se possa explicitar: é em si e compreender-se horizontalmente como série que se de-
para si indescritível: Eu puro e nada mais (Husserl, Ideen senvolve, porque duma multiplicidade não se tira uma
I, 271). O problema a que conduz a elaboração do problema da unidade, pois duma unidade intemporal não se obtém uma
ciência histórica é, então, neste momento, o seguinte: dado continuidade temporal.
que a História não pode ser dada ao sujeito pelo objecto, então
é porque o próprio sujeito é histórico, não por acidente, mas
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A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
2. A historicidade toricismo, se nega a si mesmo como cepticismo, pois o
sentido da alteração implica que se conheça de algum modo
Que é, então, afinal, a temporalidade da consciência? aquilo que é alterado, isto é, A em pessoa Q). Há, pois, como
Voltemos à descrição das próprias coisas, isto é, à consciência que uma síntese passiva de A com os seus esboços,
do tempo. Encontro-me retido num campo de presenças (este entendendo-se que esta expressão não explica a unidade
papel, esta mesa, esta manhã); este campo prolonga-se em temporal, mas permite pôr correctamente o problema dela.
horizonte de retenções (tenho ainda na mão o começo da Importa ainda salientar que quando B se torna C, B se
manhã) e projecta-se em horizonte de protenções (esta manhã torna também B', e que simultaneamente A, já caído em A',
termina em refeição). Ora, estes horizontes são móveis: este cai em A". Ou seja, todo o meu tempo esta em
momento que era presente e, por consequência, não era posto
como tal, começa a perfilar-se no horizonte do meu campo de (') Isto remete para a descrição da reflexão e para a
defesa do seu valor. Ver atrás, pp. 53 sq.
presenças, apreendo-o como passado recente, não estou se-
movimento. Aquilo que está para vir, que só podia apreender
parado dele, pois o reconheço. Depois afasta-se ainda mais,
através de esboços opacos, acaba por me advir em pessoa,
não o apreendo já imediatamente; pára o agarrar tenho de
C2 desce para Ci, depois apresenta-se em C no meu campo
atravessar uma nova separação. Merleau-Ponty (Phéno. perc,
de presença e, quando medito sobre esta presença, já C se
477) extrai de Husserl (Zeitbewusztsein, 10) o essencial do
esboça para mim como já não, enquanto a minha presença
esquema a seguir apresentado, no qual a linha horizontal
está já em D. Ora, se a totalidade é dada duma só vez, isso
exprime a série dos agora, as linhas oblíquas os esboços desses
significa que não existe verdadeiro problema de unificação
mesmos agora vistos dum agora ulterior, as linhas verticais os
extemporânea da série das vivências. Heidegger mostra que
esboços sucessivos dum mesmo agora. O tempo não é uma
esta maneira de apresentar o problema (síntese a posteriori
linha, mas uma rede de intencionalidades. Quando de A deslizo
duma multiplicidade de estados) caracteriza a existência
para B, tenho A em meu poder, através de A', e assim
inautêntica, que é a existência perdida no Se indefinido. A
sucessivamente. Dir-se-á que o problema é apenas iludido:
realidade humana (Dasein), diz, não se perde, de modo a
tratava-se de explicar a unidade do fluxo das vivências, por isso
que tenha de se recolher de qualquer maneira fora de
importa estabelecer aqui a unidade vertical de A' com A, depois
tempo, exceptuado o divertimento, nem de modo a ter de
de A" com A' e A, etc. Substitui-se a questão da unidade de B
inventar totalmente uma unidade que dê coesão e que
com A pela da unidade de A' com A. É aqui que Merleau-Ponty,
recolha {Sein und Zeit, loc. cit., 198). A temporalidade,
depois de Husserl e Heidegger, estabelece uma distinção
escreve mais adiante, temporaliza-se como futuro que vai ao
fundamental para o nosso problema da consciência
passado, ao vir ao presente (citado por Merleau-Ponty, 481).
historiadora: na recordação precisa e na evocação voluntária
Não tem, pois, que se explicar a unidade do tempo interior;
dum passado longínquo, há efectivamente lugar para sínteses
cada agora retoma a presença dum já não que procura no
de identificação que me permitem, por exemplo, prender esta
passado, e antecipa a presença dum ainda não que aí
alegria no seu tempo de proveniência, isto é, localizá-la. Mas
procurará; o presente não é fechado, transcende-se para um
esta mesma operação intelectual, que é a do historiador, pres-
futuro e para um passado; o meu agora nunca é, como diz
supõe uma unidade natural e primordial pela qual é o próprio A
Heidegger, uma in-sistência, um ser contido num mundo,
que atinjo em A'. Dir-se-á que A é modificado por A' e que a
mas uma existência ou ainda uma ek-stase e é finalmente
memória transforma aquilo de que é
porque sou uma intencionalidade aberta que sou uma
* temporalidade (*).
*
A Antes de passar ao problema da ciência histórica, uma
s
* f
S s * * observação se impõe a respeito desta proposição: quer ela
% dizer que o tempo é subjectivo, e que não há tempo
B •*
c Futuro objectivo? A esta questão podemos responder,
simultaneamente, sim e não: sim, o tempo é subjectivo,
A
porque o tempo tem um sentido e porque, se o tem, é,
y i
y i / B'
porque nós somos tempo, como o mundo só tem sentido
para nós porque somos mundo pelo nosso corpo,, etc; essa é
verdadeiramente uma das principais lições da fe-
nomenologia. Mas simultaneamente o tempo é objectivo,
memória, proposição banal em psicologia. Ao que Husserl
responde que este cepticismo, que está na base do his-
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A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
(') A teoria husserliana do «Presente Vivo», tal como se de- via; passamos imediatamente destes sinais ao seu sentido, o
preende dos inéditos, está exposta por TRAN-DUC-THAO, op. que não significa que saibamos dum saber explícito o sentido
cit., 139 sq. Ver também a excelente Introdução de J. Derrida a
L'origine de ta géométrie, trad. Derrida, P.Ü.F., 1962. destes sinais e que a tematização científica nada acrescenta
pois nós não o constituímos pelo acto dum pensamento que à nossa compreensão; só esta tematização, esta construção
seria ele próprio isento dele; o tempo, como o mundo, é sempre do passado é, como se costuma dizer, uma reconstrução. É
um já para a consciência, e é por isso que o tempo, não mais necessário que -os sinais de que parte a tematização
que o mundo, não é para nós transparente; como temos de contenham já em si próprios o sentido dum passado; caso
explorar este, temos de percorrer tempo, isto é, de desenvolver contrário, como distinguir entre o discurso do historiador e
a nossa temporalidade, desenvolvendo-nos a nós mesmos: não uma fabulação? Reencontramos aqui os resultados da eluci-
somos sub-jectividades fechadas sobre si próprias, cuja dação do sentido. Pela história saímos ao encontro dum
essência fosse definida ou definível a priori, em resumo, mundo cultural, que será, evidentemente, necessário re-
mónadas para as quais o devir fosse um acidente monstruoso e constituir e restituir por um trabalho de reflexão (Aron); mas
inexplicável, mas tornamo-nos no que somos e somos aquilo este mundo cultural sai também ao nosso encontro como
em que nos tornamos; não possuímos significação mundo cultural. A ruína, o monumento, a narrativa, remetem
determinável uma vez por todas, mas uma significação em o historiador, cada um a seu modo, para um horizonte
curso. É por isso que o nosso futuro é relativamente cultural onde se esboça o universo colectivo de que é
indeterminado, por isso que o nosso comportamento é re- testemunha. Esta captação do ser histórico dos sinais só é
lativamente imprevisível para o psicólogo, por isso que somos possível porque há uma historicidade do historiador. Não
livres. são, nem a reunião, nem a triagem, nem a garantia dos
materiais que põem em marcha o regresso ao «passado»,
mas tudo isso pressupõe já... a historicidade da existência do
3. A filosofia da história historiador. Ê essa historicidade que funda existencialmente
a história como ciência, mesmo nas disposições menos
Sabemos agora como é que há história para a consciência: aparentes, mesmo nos arranjos que são «segredos do ofício»
ela própria é história. Qualquer reflexão séria sobre a ciência (Sein und Zeit, loc. cit., 204). E R. Aron: Todas as análises
histórica deve começar por este princípio. R. Aron (Introduction que se seguem são dominadas pela afirmação de que o
à la philosophie de Vhistoire, Galli-mard, 1938), consagrando homem não está apenas na história, mas traz em si a
um capítulo ao conhecimento de si, chega aos mesmos histeria que explora (loc. cit., 11). Por consequência, os
resultados: temos consciência da nossa identidade através do sinais apresentam-se ao historiador imediatamente
tempo. Sentimo-nos sempre este mesmo ser indecifrável e investidos dum sentido de passado. Mas esse sentido não é
evidente, do qual seremos eternamente o único espectador. transparente e é por isso que se torna necessária em história
Mas as impressões que asseguram a estabilidade deste uma elaboração conceptual. A história pertence, não à
sentimento, torna-se-nos impossível traduzi-las ou sequer ordem da vida, mas à ordem do espírito (Aron, ibid., 86). Isso
sugeri-las (59). Há um fracasso do psicólogo objectivista que significa que o historiador, com base neste ponto de
queira definir a minha história, que é essencialmente arranque, deve desvendar, não as leis, não os aconte-
inacabada, isto é, indefinível. Não sou um objecto mas um cimentos individuais, mas a possibilidade que efectivamente
projecto; não sou apenas o que sou, mas o que vou ser e o que existiu no passado (Heidegger, loc. cit., 205). Mas para
quero ter sido e vir a ser. Mas esta história que existe para a atingir tal desiderato, pense o que pensar Heidegger a esse
consciência não se esgota na consciência da sua história; a respeito, o historiador deve reconstruir com conceitos. Ora,
história é também a história universal, já não relativa ao diz Aron, temos sempre possibilidade de escolha entre
Dasein, mas ao Mitsein, é a história dos homens. múltiplos sistemas, pois a ideia é simultaneamente imanente
Não retomaremos a pergunta: como há um alter ego para o e transcendente à vida, entendendo-se por isso que no
ego? Está implicada, já o vimos, em todas as ciências humanas. interior dum dado devir histórico existe de facto uma
Prender-nos-emos apenas à maneira específica como o objecto significação desse devir (uma lógica económica, ou
história se apresenta ao historiador. espiritual, ou jurídica, etc), mas que essa significação ou
Apresenta-se por meio de sinais, de ruínas, de monu- essa lógica deve ser revelada por um acto do historiador,
mentos, de narrativas, um material possível. Esse móvel de que que equivale a uma escolha acerca desse devir. Seja essa
falava Heidegger remete já de si ao mundo de que provém^ Há escolha explícita ou não, não há ciência histórica que não se
uma via aberta em direcção ao passado, anterior ao trabalho apoie numa filosofia da história. Não podemos aqui
da ciência histórica: são os próprios sinais que nos abrem essa reproduzir as minuciosas análises de Raymond Aron.
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A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
Dir-se-á que a necessidade do historiador em elaborar indiferença? Nem isso, pois o próprio historicismo se
conceptualmente o devir não implica uma filosofia, nías uma encontra historicamente ligado à crise do positivismo e as
metodologia científica. Não, responde Aron, porque a realidade suas teses, negativas, não podem, mais que outras,
histórica não é essencialmente constituída, como a realidade apresentar-se como absolutamente verdadeiras: como todo
física, mas essencialmente aberta e inacabada. Há um discurso o cepticismo, nega-se a si próprio.
coerente da física porque há um universo físico coerente,
mesmo para o físico; mas por mais coerente que seja o
universo histórico, essa coerência será sempre indeterminável 4. Ciência histórica e historicidade
para o historiador, porque este universo não é fechado. Sem
dúvida que Water-loo passou e a história do Primeiro Império Vemos assim em que direcção se comprometia R. Aron;
terminou. Mas, se abordarmos como tal este momento do representava bastante bem aquilo que poderíamos
devir, certamente o não alcançamos, pois, para os actores, cujo denominar a ala direita da fenomenologia. E ainda que o seu
mundo tentamos restituir (essa possibilidade que no passado trabalho não tivesse possibilidade de comparação com o já
realmente existiu), esse momento perfilava-se num horizonte citado de Monnerot, fazia sofrer à história uma redução
equívoco de possíveis contingentes. Extemporaneamente comparável, pelo intelectualismo que a inspirava, à que
declaramos necessária a queda do Império, o que significa aquela obra infligia à sociologia. É evidente que uma
confessar, então, que fazemos a história da História, a partir interpretação mecanicista da História deve ser rejeitada;
dum observatório, que é ele próprio histórico, pois dizemos mas não é menos evidente que ura método compreensivo
extemporaneamente: então a história que fazemos não é uma não se prolonga necessariamente num sistema filosófico.
ciência transcendental. O que é então? A ciência histórica é Certamente que a ausência dos homens que habitavam
uma forma da consciência que uma comunidade tem de si esse Mitsein para que se volta o historiador torna a sua
própria (Aron, op. cit., 88), como tal inseparável da situação tarefa ainda mais complexa que a do etnólogo. Mas não é
histórica em cujo seio se elabora e da vontade do próprio sábio. menos certo que o sincronismo que a época histórica
As interpretações dadas para um mesmo momento do devir considerada constituiu encerra um sentido que deve ser
variam em função do momento do devir em que são dadas. A compreendido, sem o que não seria história humana. É
Idade Média não era a mesma para o século XVII e para o necessário que de algum modo esse sentido nos solicite, que
século XIX. Mas será impossível considerar, a título de haja uma comunicação originária, uma cumplicidade dessa
postulado primeiro do esforço do historiador, uma interpretação época com a nossa e nós próprios; o que garante, em
que fosse adequada ao real interpretado? Não, responde ainda princípio, a possibilidade duma compreensão desse passado.
Aron, porque, ou esta interpretação definitiva assentaria no Em suma, R. Aron insistia na sequência de Dilthey, na
modelo causal das ciências da natureza (economismo simplista, descontinuidade do devir, de tal modo que por fim se
por exemplo) e uma interpretação desse tipo não pode abarcar obstruía a passagem do pensamento compreensivo dum
o conjunto do real histórico, aplicar-se a um devir total, período a outro e se tornava necessário que o historiador
substituição dum esforço livre que ultrapassa tal factor, ou lançasse mão dum conjunto de conceitos que projectava
assentaria no modelo da compreensão, apropriação do passado cegamente no passado, esperando a reacção como um
por captação do seu sentido; mas, precisamente, este sentido químico empirista. Mas essa descontinuidade não existe,
não nos é dado duma maneira imediatamente transparente. A pois há uma história, isto é, exactamente, um incessante
causalidade e a compreensão têm ambas o seu limite. Para retomar do seu passado pelos homens e uma protensão para
ultrapassar estes limites, é preciso formular uma hipótese o futuro. Suprimir a continuidade histórica é negar que haja
sobre o devir total, que não só retome o passado, mas abarque um sentido no devir. Ora, é forçoso que o devir tenha um
o presente do historiador como passado, isto é, o projecte num sentido, não porque os homens pensem esse sentido, ou
futuro. É preciso fazer uma filosofia da história. Mas o uso desta fabriquem sistemas do sentido da história, mas porque os
filosofia é condicionado por uma história da filosofia, que homens vivendo, e vivendo em conjunto, produzem sentido.
exprime, por sua vez, a imanência no tempo dum pensamento Este sentido é ambíguo, precisamente na medida em que
que se desejaria intemporal. Por isso o marxismo, por exemplo, está em devir. Como não há significação com que possamos
surge, não como uma ciência, mas como uma ideologia, não qualificar sem apelo uma subjectividade, porque esta se
como um conhecimento objectivo, mas como uma hipótese projecta num futuro no qual se encontram abertos os
feita acerca do futuro por políticos. Cai-se, então, no possíveis que a definirão um pouco mais, também o sentido
historicismo, isto é, na aceitação dum devir sem significação, (a direcção) duma conjuntura histórica total não é
que prepara, quer o cepticismo, quer o fatalismo, quer a determinável uma vez por todas, dado que a sociedade
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A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
global, que é afectada por ele, não pode perseguir-se como doutrina historicista e exige da filosofia que seja uma ciência
algo que evolui de acordo com as leis da mecânica e que a uma rigorosa, não procura definir uma verdade exterior à história,
etapa deste sistema complexo não se sucede uma etapa, mas mantém-se, pelo contrário, no centro da sua compreensão
um leque de eventualidades. Os possíveis não são inúmeros e é da verdade 0): esta não é uma verdade intemporal e
por isso que há sentido na história, que são vários, e é por isso, transcendente, mas vivida no fluxo do devir, e será
igualmente, que esse sentido não se lê sem esforço. indefinidamente corrigida por outras vivências; é, portanto,
Finalmente, este futuro pertence, enquanto aberto, à própria omnitemporal, em via de realização, e dela se pode dizer o
conjuntura presente, não lhe é acrescentado: esta prolonga-se que dizia Hegel: é um resultado — com a particularidade,
nele como em sua própria essência. Uma greve geral não é todavia, de sabermos que a história não tem fim. A
apenas o que é, mas também, e não menos, o que vai tornar- historicidade do historiador e o seu engrenamento numa
se. Se se salda por um fracasso e pelo recuo da classe operária, coexistência social não impedem que a ciência histórica se
será compreendida como um sobressalto reprimido, como um faça: são, ao contrário, condições da sua possibibUidade. E
combate de rectaguarda ou como um aviso, segundo a quando R. Aron conclui que a possibilidade duma filosofia da
natureza da etapa seguinte; ou então, convertendo-se em história se confunde afinal com a possibilidade duma
greve política, toma um sentido explicitamente revolucionário. filosofia, não obstante a história (op. cit., 320-321), admite
Em qualquer dos casos, o seu sentido definitivo repercute-se implicitamente uma definição dogmática da verdade in-
gradualmente ao longo do desenvolvimento histórico e por isso temporal e imutável. Esta encontra-se, de facto, no centro do
não tem verdadeiramente um sentido definitivo, pois este seu pensamento, hipoteca todo ura sistema filosófico latente
desenvolvimento não termina. e apresenta-se em radical contradição com a apreensão da
O equívoco de R. Aron reside no facto de situar o sentido da verdade em movimento que o último Hus-serl exprimia com
história ao nível do pensamento desse sentido e não ao nível veemência.
do sentido vivido, tal como no-lo revelava há pouco a sociologia A fenomenologia não propõe, portanto, uma filosofia da
Q. Afinal, as dificuldades encontradas pelo historiador para história; mas responde afirmativamente à questão que
restabelecer o núcleo significativo dum período, essa cultura colocámos no início do capítulo, se não pretendermos reduzir
culturante a partir da qual a lógica do devir dos homens o sentido da palavra ciência ao mecanicismo e se tomarmos
transparece claramente através dos acontecimentos e os em linha de conta a revisão que foi esboçada a propósito da
organiza num movimento, tais dificuldades não são próprias sociologia. Propõe uma retomada reflexiva dos dados da
dos etnólogos? É evidente que, na medida em que o historiador ciência histórica, uma análise intencional da cultura e do
se debruça sobre sociedades históricas, lhe compete descobrir período definidos por esta ciência, bem como a
também a razão do movimento, desvendar a evolução duma reconstituição do Lebenswelt histórico concreto, graças ao
cultura, reunir as suas possíveis aberturas em cada uma das qual transparece o sentido desta cultura e deste período. Em
etapas. Do mesmo modo que se tratava de, por uma caso algum tal sentido pode pressupor-se. A história não se
transposição imaginária, compreender como é que a sociedade lê através de tal factor, quer seja polí-
primitiva fecha o seu futuro, devem sem ter consciência de se
transformar, e, de algum modo, se constitui em função da sua
estagnação, igualmente se trata de se situar no curso da 0) Ver atrás, p. 39.
sociedade em progressão, para apreender o movimento do tico, económico ou racional. 0 sentido é latente, porque
sentido, a pluralidade dos possíveis, o debate ainda aberto originário, deve ser reconquistado sem pressuposto, se nos
(Lefort, art, cit., Les temps modernes, Fev., 1951). deixarmos guiar pelas próprias coisas. Esta possibilidade de
captar de novo a significação duma cultura e do seu devir
0) A mesma atitude se encontra em L'Opium des intellec- funda-se, em princípio, na historicidade do historiador. O
tuels (Calmann-Lévy, 1955), onde R. Aron termina desta facto de a fenomenologia se ter situado a si própria na
maneira a discussão do sentido da história: a história possui, história e de, com Husserl ('), se ter identificado como
em última análise, o sentido que lhe atribui a nossa filosofia. oportunidade de salvaguardar a razão que define o homem,
Por conseguinte, não é pelo facto de o historiador estar, de ter tentado introduzir-se, não apenas por meio duma
também ele, inserido na história e de o seu pensamento ser, meditação lógica pura, mas por uma reflexão acerca da
por seu lado, um acontecimento, que é invalidada a história história presente, mostra que não se compreendeu a si
que constrói, ou que tal pensamento deixa de poder ser própria como uma filosofia exterior ao tempo ou como um
verdadeiro e terá de contentar-se com exprimir uma saber absoluto que resume uma história acabada. Surge
Weltanschauung transitória. Quando Hus-serl protesta contra a como um momento no devir duma cultura e não vê a sua
60 58
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
verdade contradita pela sua historicidade, pois faz dessa e, com a fenomenologia, sempre tivemos grande
mesma historicidade uma porta aberta sobre a sua verdade. preocupação em separá-la de toda a apreensão objectivista
Esta significação histórica que a fenomenologia se atribui é possível. Esta realidade não é, pois, objectiva, assim como
precisamente contestada pelo marxismo, que lhe atribui outra, subjectiva; é neutra, ou então, ambígua. A realidade do
muito diferente. mundo anterior à redução, isto é, em suma, a matéria, é em
si destituída de sentido para a fenomenologia (cf. Sartre); as
diversas regiões do ser encontram-se dissociadas, como nota
5. Fenomenologia e marxismo ainda Thao, e, por exemplo, a matéria trabalhada pelo
homem fá não é matéria, mas «objecto cultural» (ibid., 225-
a) A terceira via — Convém antes de mais acentuar as 6). Esta matéria só adquirirá sentido com as categorias que a
oposições insuperáveis que separam fenomenologia e apresentam como realidade física, de tal modo que ser e
marxismo. O marxismo é um materialismo. Admite que a sentido se encontram afinal separados por causa da
matéria constitui a única realidade e que a consciência é uma separação dos diversos domínios do ser. O sentido remete
forma material particular. Este materialismo é dialéctico: a exclusivamente para uma subjectividade constituinte, r,, por
matéria desenvolve-se segundo um movimento, cujo motor sua vez, essa subjectividade remete para um munao neutro,
está na supressão, na conservação e na superação da etapa ele próprio em devir, e no qual se constituem segundo a sua
anterior pela etapa seguinte; a consciência é uma dessas génese (Sissgenesis), todos os sentíaos aa realidade. Por
etapas. Na perspectiva que aqui adoptámos, isso significa, em conseguinte, conclui Thao, a contradição da fenomenologia
especial, que toda a forma material contém em si própria um parece intolerável. Pois parece claro que o mundo neutro
sentido; tal sentido existe, independentemente de toda a que contém o sentido sedimentado de toda a realidade só
consciência * transcendental. Hegel captara a presença deste pode ser a própria natureza, ou antes, a matéria no seu
sentido, ao afirmar que todo o real é racional, mas imputava-o movimento dialéctico. Em certo sentido, continua a ser
a um pretenso Espírito cuja realização era a natureza e a verdade que o mundo anterior à redução não é o mesmo que
história. O marxismo, ao contrário, recusa-se a separar, como se encontra após a análise da subjectividade constituinte: o
fazem todos os idealismos, o ser e o sentido. primeiro é realmente um universo mistificado onde o homem
se aliena, mas não é precisamente a realidade; a realidade é
(') Ver Krisis; atrás, pp. 30 sq. o universo reencontrado no final da descrição
Por certo, a fenomenologia do terceiro período hus-serliano fenomenológica e no qual o vivido enraíza a sua verdade.
parece recusar, por sua vez, esta separação, por exemplo Mas o vivido é apenas um aspecto abstracto da «vida
quando Merleau-Ponty, que é o seu representante mais notável, efectivamente real», no qual a fenomenologia não podia
fala dessa pregnância da significação nos sinais que poderia conseguir apreender o conteúdo material desta vida
definir o mundo. Mas a questão toda reside em saber de que sensível. Para conservar e ultrapassar os resultados do
mundo se trata. Tivemos o cuidado de notar aqui mesmo que o idealismo transcendental, importa prolongá-lo no
mundo que a meditação husserliana sobre a verdade atinge materialismo dialéctico, o qual o salva da última tentação: a
não deve confundir-se com o mundo material, mas se define recaída no cepticismo total, que Thao vê transparecer nos
preferencialmente, como aliás fizemos, a partir da consciência, últimos escritos de Hus-serl e que parece inevitável, se não
ou, pelo menos, do sujeito constituinte. Dizia Husserl que a se atribuírem à subjectividade os seus predicados de
constituição do mundo, tal como se opera no devir da realidade.
subjectividade, se apoia no Lebenswelt, num mundo originário Não podemos discutir aqui o notável texto de Thao. Em
com o qual a subjectividade está em relação, por meio de todo o caso, apresenta com clareza a irredutibili-dade das
sínteses passivas. Esboço de empirismo, conclui Jean Wahl a duas teses, pois só ao preço da identificação da
este respeito (R. M. M., 1952). Não acreditamos, pois trata-se subjectividade originária como matéria é que o marxismo
sempre duma subjectividade reduzida e dum mundo que já não pode tencionar conservar a fenomenologia, ultra-passando-a.
era o da realidade natural. Por certo, Husserl não pretendia cair Encontra-se em Lukacs (Existencialisme et marxisme, Nagel,
por seu turno nos erros mil vezes denunciados do empirismo. 1948) uma crítica marxista bastante diferente, pois critica a
Como correctamente refere Thao, a realidade natural que se fenomenologia, não retomando do interior o seu
descobre nas profundezas do vivido fá não é a que se pensamento, mas estudando-a explicitamente como
apresentava à consciência espontânea antes da redução (op. comportamento. Completa, de certo modo, a crítica
cit., 225). A realidade em questão é a que na sequência de precedente, pois procura mostrar que a fenomenologia,
Merleau-Ponty denominámos existência, mundo originário, etc.; longe de ser degradada pela sua significação histórica, nela
60 59
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
encontra, ao contrário, a sua verdade. Convirá notar, aliás, que função ideológica.
Lukacs está mais contra o Hus-serl do segundo período.
Husserl lutou, paralelamente a Lenine, contra o psi- b) O sentido da história — Parece claro que nenhuma
cologismo de Mach e contra todas as formas de relativismo conciliação entre as duas filosofias se pode tentar com
céptico aue se enunciaram no pensamento ocidental a partir do seriedade; e importa acentuar que, de facto, os marxistas
final do século XIX. Esta posição fenomenológica explica-se, no nunca o pretenderam. Mas, se a recusaram, é exactamente
entender de Lukacs, pela necessidade de liquidar o idealismo porque lhes foi oferecida. Não nos compete repetir aqui o
objectivo, cuja resistência ao progresso científico fora histórico da discussão; incontestavelmente, a experiência
finalmente vencida, especialmente no que respeita à noção de política e social da Resistência e da Libertação são disso
evolução. Por outro lado, o idealismo subjectivo conduzia, motivações essenciais. Seria necessário fazer a análise da
então, visivelmente, para um pensador honesto como Husserl, situação da intelligentsia durante este período. A verdade é
a conclusões perigosamente obscurantistas; mas o que a fenomenologia foi levada a confrontar as suas teses
materialismo permanece, por outro motivo, inaceitável a seus com as do marxismo; fazia-o de resto espontaneamente,
olhos, subjectivamente, porque se situa na linha cartesiana e, após a descentração da sua problemática a partir do Eu
objectivamente, por causa da sua ideologia de classe. Daí a transcendental na direcção do Le-benswelt.
tentativa que caracteriza o comportamento fenomenoló-gico de A fenomenologia investiu o marxismo essencialmente por
revestir as caterogias do idealismo subjectivo duma pseudo- duas teses: o sentido da história e a consciência de classe —
objectividade... A ilusão (de Husserl) consiste exactamente em que na verdade são uma só, pois, para o marxismo, o
acreditar que basta voltar as costas aos métodos puramente sentido da história só pode ler-se através das etapas da luta
psicológicos para sair do domínio da consciência (op. cit., 260- de classes. Estas etapas estão dialécticamente ligadas à
262). Paralelamente, se Husserl luta contra Mach e os consciência que as classes têm de si próprias no processo
formalistas é para introduzir o conceito de intuição, do qual se histórico total. A classe é definida, em última análise, pela
espera que resista ao relativismo e para reafirmar a validade situação nas relações objectivas de produção (infra-
da filosofia contra a inevitável degradação para que fora estrutura), mas as flutações do seu volume e da sua
arrastada pelo pragmatismo. Ora, estes temas são outros combatividade, que reflectem as modificações incessantes
tantos sintomas da crise da filosofia. E qual é essa crise? desta infra-estrutura, estão também dialécticamente ligadas
Encontra-se estreitamente ligada à primeira grande crise do a factores superstruturais (políticos, religiosos, jurídicos,
imperialismo capitalista, que eclodiu em 1914. Anteriormente, ideológicos propriamente ditos). Para que a dialéctica da luta
a filosofia havia sido posta fora de circuito e substituída pelas das classes, motor da história, se torne possível, é
ciências especializadas no exame dos problemas do necessário que as supers-truturas entrem em contradição
conhecimento. Ê precisamente o estádio do positivismo, do com a infra-estrutura ou produção da vida material e, por
pragmatismo, do formalismo, caracterizado pela confiança dos consequência, as superstruturas gozem, como diz Thao (l),
intelectuais num sistema social aparentemente eterno. Mas as de autonomia
garantias concedidas pelo sistema por altura do seu
nascimento político (liberdades do cidadão, respeito pela
pessoa humana) começam a ser ameaçadas pelas próprias 0 TRANT-DUC-THAO, «Marxisme et phénoménologie»,
consequências do sistema; podem--se ver surgir os sintomas da Revue Internationale, 2, pp. 176-178. Este artigo, muito
crise do pensamento filosófico: é esse o contexto histórico da anterior à segunda parte do livro já citado, está ultrapassado
do ponto de vista marxista relativamente às teses do livro.
fenomenologia, encarada como comportamento. O seu a- Está nele explicitamente contida uma intenção de revisão do
historicismo, intui-cionismo, intenção de radicalidade, o seu marxismo. Ver as respostas de P. NAVILLE em Les conditions
fenomenismo, são outros tantos factores ideológicos, de la liberté, Sagittaire.
destinados a camuflar o verdadeiro sentido da crise, a evitar em relação à produção e não evoluam automaticamente na
extrair dela as conclusões inelutáveis. A terceira via, nem esteira da sua evolução. A autonomia das superstru-turas é
idealista, nem materialista (nem objectivista, nem psicologista, tão essencial à compreensão da história como o movimento
dizia Husserl), é o reflexo dessa situação equívoca. A filosofia das forças produtivas (art. cit., 169). Chega-se assim à tese,
da ambiguidade traduz a seu modo uma ambiguidade da retomada por Merleau-Ponty (í), de que a ideologia (no
filosofia nesta etapa da história burguesa e é por essa razão sentido geral do termo) não é ilusão, aparência, erro, mas
que os intelectuais lhe atribuem um sentido de verdade, realidade, como a própria infra-estrutura. O primado do
enquanto vivem tal ambiguidade e enquanto essa filosofia,
económico, escreve Thao, não suprime a verdade das super
camuflando o seu verdadeiro significado, desempenha a sua
60 60
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
strutur as, mas remete-a à sua autêntica origem, na existência forma ideológica da Reforma, para se libertar do poder
vivida. As construções ideológicas são relativas ao modo de papal: afirmar que esta forma não passa de reflexo ilusório
produção, não porque o reflectem — o que ê um absurdo —, (ideológico) de interesses materiais, é recusar-se a com-
mas simplesmente porque todo o seu sentido advém duma preender a história. Thao propõe-se explicar o movimento da
experiência correspondente, na qual os valores «espirituais» Reforma como a tradução racionalizada da experiência
não são representados, mas vividos e sentidos {art, cit.). Thao realmente vivida das novas condições de vida introduzidas
atribui à fenomenologia o mérito de haver legitimado o valor de pelo próprio desenvolvimento da burguesia, condições
todas as significações da existência humana, isto é, de ter caracterizadas sobretudo pela segurança que já não exigia,
ajudado a filosofia a esclarecer a autonomia das superstru como resultava da insegurança dos séculos precedentes, o
turas. Tentando compreender, num espírito de absoluta encerramento da espiritualidade nos claus-
submissão ao «dado», o valor dos objectos «ideais», a
fenomenologia soube ligá-los à sua raiz temporal, sem com isso
os depreciar (ibid., 173). E Thao mostra que a relação ao (') «Marxisme et philosophie», in Sens et non-sens, pp.
económico permite exactamente fundamentar com correcção o 267 jsq'.
sentido e a verdade das ideologias, por exemplo, da
fenomenologia — ou seja, compreender verdadeiramente a 6 /«T .
história, compreender como e, sobretudo, porque é que o
esforço da burguesia no século XVI, por exemplo, assumiu a 1%
.L

O
tros e permitia em compensação adorar Deus no mundo. Há, sucesso, porque, então, o caminho para o fim, posto
pois, possibilidade de no seio das análises marxistas arbitrariamente por um projecto subjectivo e incontrolável,
introduzir análises fenomenológicas, relativas à consciência e pode passar por um lugar qualquer e a felicidade e liberdade
exactamente susceptíveis de interpretar a relação dialéctica dos homens pelo nazismo e Ausch-witz. A história mostra-nos
desta consciência, encarada como fonte das superstruturas, que não é nada disso. Não basta dizer que a violência é
com a infra-estrutura económica em que, em última análise inevitável, porque o futuro está aberto e por realizar, é
(e só em última análise), se acha inserida. Deste modo se necessário dizer também que certa violência é mais justificada
encontra simultaneamente legitimada a possibilidade dum que outra. Não. basta consentir que o político não pode deixar
desenvolvimento dialéctico da história, cujo sentido é, de ser um Maquiavel; é preciso mostrar, também, que a
simultaneamente, objectivo e subjectivo, isto é, necessário e história tem
contingente. Os homens não estão directamente ligados ao
económico; estão ligados ao existencial, ou melhor, o
económico é já existencial e a sua liberdade de consignação é (l) Ver em especial Humanisme et terreur, Gallimard, 1946;
por eles sentida como real. 0 problema revolucionário, e duas passagens da Phéno. perc, nata acerca do materialismo
segundo Thao, não consiste apenas em organizar e histórico, pp. 195-202, «liberté et histoire», pp. 505-513.
estabelecer uma economia nova, mas na realização pelo as suas manhas e maquiaveliza eventualmente os Maquiavel.
homem do próprio sentido do seu devir. É neste sentido, em Se a história mostra, se a história engana, é porque visa algum
seu entender, que a teoria de Marx não é um dogma, mas um objectivo e significa. Não a história em si mesma, que não
guia para a acção. passa duma abstracção; mas há uma significação média e
Merleau-Ponty aborda o mesmo problema no aspecto estatística dos projectos dos homens empenhados numa
concretamente político 0). Recusar um sentido à história é, situação, que não se define só por estes projectos e pela sua
igualmente, recusar a sua verdade e a sua responsabilidade resultante. O sentido duma situação é o sentido que os
na política, é dar a entender que o Resistente não tem mais homens atribuem a si mesmos e aos outros, numa fatia de
razão para matar que o Colaboracionista, é defender que o duração chamada presente. O sentido duma situação histórica
fim justifica os meios, segundo uma fórmula que teve é um problema de coexistência ou Mitsein. Existe uma história,
60 61
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
porque os homens são conjunto, não como subjectividades transcendente? E quando imputamos a Sinngebung aos
moleculares e fechadas que se adicionassem, mas, pelo con- próprios homens, às suas liberdades, não fazemos uma vez
trário, como seres projectados para o outro como para o mais andar a história de cabeça para baixo, não regressamos
instrumento da sua própria verdade. Existe, pois, um sentido ao idealismo? Existe uma possibilidade ideológica de sair do
da história, que é o sentido que os homens quando vivos dilema do pensamento objectivo Q do idealismo? O
atribuem à sua história. Deste modo se explica que numa economismo não pode explicar a história, não pode explicar
base objectiva idêntica possam enxer-tar-se tomadas de como é que uma situação económica se traduz em racismo, ou
consciência variáveis, o que Sartre designava como em cepticismo, ou em social-democracia; também não pode
possibilidade dum descolamento: nunca uma posição explicar que a uma mesma posição no circuito que descreve
objectiva no circuito da produção foi suficiente para provocar possam ser correlativas posições políticas diferentes, nem que
a tomada de consciência de classe (Phéno. perc, 505). Não se haja tratados, nem sequer que uma agitação política seja
passa automaticamente da infra-estrutura à superstrutura e necessária. Neste sentido, a história é mesmo contingente.
há sempre equívoco duma para outra. Mas então, se é Mas o idealismo, que o afirma, também não pode explicar a
verdade que os homens dão à sua história o seu sentido, história, não pode explicar que o século das luzes seja o século
donde retiram esse sentido? Atribuem-no por uma escolha XVIII, ou
A FENOMENOLOGIA
FENOMENOLOGIA E HISTÓRIA

que os Gregos tenham fundado a ciência experimental, ou conduza à própria existência dos sujeitos históricos no seu
que o fascismo seja uma ameaça do nosso tempo. Se se mundo, a partir da qual o objectivismo e o idealismo surgem
quiser compreender a história (e não há tarefa mais como duas possibilidades, respectivamente inadequadas, para
verdadeira para o filósofo), torna-se necessário sair do duplo os sujeitos de se compreenderem na história. Esta
impasse duma liberdade e duma necessidade igualmente compreensão existencial não é ela própria adequada, porque
totais. A glória dos resistentes, como a indignidade dos há sempre um futuro para os homens e os homens produzem
colaboracionistas, supõe simultaneamente a contingência da o seu futuro produzindo-se a st próprios. A história, porque
história, sem a qual não há culpados em política, e a jamais terminada, ou seja, porque humana, não é um objecto
racionalidade da história, sem a qual há apenas loucos determinável; mas, igualmente porque é humana, a história
(Humanisme et terreur, 44). Damos à história o seu sentido, não é insensata.
mas não sem que ela no-lo proponha (Phéno. perc, 513). Isso Assim se justifica, de maneira diferente, a tese husser-Jiana
significa, não que a história tem um sentido, único, duma filosofia que nunca resolveu a questão dum começo
necessário e por isso fatal, do qual os homens seriam os radical (').
joguetes e os patetas, como são, afinal, na filosofia hegeliana
da história, mas que tem sentido. Essa significação colectiva
é a resultante das significações projectadas por
subjectividades históricas no meio da sua coexistência e que
compete a estas subjectividades captar num acto de
apropriação, que põe termo à alienação ou objectivação
desse sentido e da história; constitui por si mesma uma
modificação desse sentido e anuncia uma transformação da
história. Não há um objectivo, por um lado, e um subjectivo,
por outro, que lhe fosse heterogéneo e procurasse, no melhor
dos casos, ajustar--se-lhe: desse modo nunca haverá uma
compreensão total da história, porque, mesmo quando a
compreensão é tão adequada quanto possível, compromete
já a história numa nova via e abre-lhe um futuro. Não se
pode captar a história, nem pelo objectivismo, nem pelo
idealismo, nem, muito menos ainda, pela união problemática
dos dois, mas por um aprofundamento dum e doutro que nos
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A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
(') Ve-se ainda em Les aventures de la dialectique do Estado: Eis a verdadeira questão: a revolução é um caso
(Gallimard, 1955)_: Hoje, como há cem anos e como há trinta limite do governo ou o fim do governo? Ao que Merleau-Ponty
a oito anos, continua a ser verdade que ninguém é sujeito e responde: Concebe-se no segundo sentido e pratica-se no
ninguém é livre sozinho, que as liberdades se contrariam e primeiro... As revoluções são verdadeiras como movimentos e
se exigem uma à outra, que a história é a história do seu falsas como regimes (290 e 279). Não cabe realizar aqui a
debate, que se inscreve e que é visível nas instituições, nas descrição crítica do livro. Notemos apenas que exprime a
civilizações, na esteira das grandes acções históricas, que há incompatibilidade absoluta das teses fenomenológicas com a
possibilidade de as compreender, de as situar, senão num concepção marxista da história. Em particular a rejeição por
sistema com uma hierarquia exacta e definitiva e na Merleau-Ponty da possibilidade efectiva duma idealização do
perspectiva duma sociedade «verdadeira», homogénea, final, socialismo não pode surpreender, se tomámos em
ao menos como diferentes episódios duma única vida,_ cada consideração que, ao recusar qualquer referência à
um dos quais é uma esperiência e pode passar aos objectividade das relações de produção e das suas
seguintes... (276). Mas desta vez o marxismo é atacado na modificações, os fenomenólogos deviam insensivelmente
sua tese fundamental, que é a possibilidade mesma do tratar a história e a luta de classes como devir e contradição
socialismo, a sociedade sem classes, a supressão do somente das consciências.
proletariado como classe pelo proletariado no poder e o fim

CONCLUSÃO

I. Para a fenomenologia, a discussão acerca do sentido histórico da fenomenologia pode continuar-se indefinidamente, pois tal sentido
não é determinável uma vez por todas. Apresentando uma historia ambígua, a fenomenologia apresenta a sua própria ambiguidade na
história. O marxismo, ao contrário, mostra que a pretensa ambiguidade da história traduz, na realidade, a ambiguidade da fenomenologia."
Incapaz de se juntar ao materialismo do proletariado revolucionário ou ao idealismo do imperialismo barbarizante, pretende abrir uma
terceira via e faz objectivamente o jogo das suas burguesias, mesmo que, subjectivamente, a honestidade de alguns dos seus pensadores
não possa Ser posta em dúvida. Não é por acaso que a sua ala direita adere ao fascismo e a sua esquerda se contradiz irrisoriamente (*). A
filosofia da história, prematuramente edificada por Husserl na Krisis, não podia aguentar-se.

(') Ver sobre Heidegger, THÉVENAZ, «Qu'est-ce que la Phéno.?», II, Revue de théo. et de philo., lausana, 1951; J. M. PALMIER, Les écrits
politiques de Heidegger, l'Herne, 1968. E, por outro lado, os artigos de SARTRE, «Matérialisme et révolution» (escritos em 1946) in Situations
III; «Les communistes et la paix», Temps modernes, Jul.-Out., 1952. Ler-se-á igualmente com proveito a consternante «Réponse à Lefort»,
bem como o artigo deste, T. M., Abril de 1953; a resposta de Chaulieu a Sartre in Socialisme ou barbarie, n.° 12, Agosto-Setembro. de 1953; e
a resposta de Lefort, T. M., Julho de 1954.

II. Mas pode servir para revelar uma verdade da Fe- as infra-estruturas de todo o pensamento, incluindo o
nomenologia. Porque é certo que a ambiguidade das teses pensamento sistemático. Ora, a questão reside em saber se
fenomenológicas traduz, por sua vez, a intenção de superar a as infra-estruturas, as próprias coisas, são susceptíveis de
alternativa do objectivismo e do subjectivismo; essa intenção ser desvendadas originariamente, independentemente de
realizou-se sucessivamente em Husserl nas noções de toda a sedimentação histórica. Não entendemos por
essência, de ego transcendental e de Leben. Tais conceitos originalidade um hipotético em si, excluído da finalidade
têm isto em comum: são neutros, servem para delimitar o intencional: a fenomenologia parte do fenómeno. Mas a
terreno onde se alimenta o sentido da vida. Através das fenomenalidade do fenómeno nunca é, ela mesma, um dado
ciências humanas, vimos especificá-los sucessivamente em fenomenal, escreve muito bem E. Fink (l).
corpo, Mitsein, historicidade. Pretendia-se, com tais conceitos, Não há, em suma, uma decisão fenomenológica de se
não construir um sistema, mas reconstruir, em novas bases, postar num observatório onde o aparecer do ente não é uma
60 63
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
coisa que ela própria aparece (ibid.)? E a fenomenologia Leben, como terreno do sentido da vida, só será
reconhece-se incapaz de se dar conta, fenomeno- despojado da sua ambiguidade e do risco subjectivista,
logicamente, desta decisão de indentificar ser e fenómeno. se for identificado com a matéria. Mas tal passo não
Seria necessário fundamentar o direito de fazer da feno- pôde ser dado pela fenomenologia, pois significaria o
menologia^). Mas fundamentar tal direito é voltar ao abandono da análise intencional (do ego cogito) e a
pensamento especulativo tradicional, à sistematização fi- passagem à filosofia especulativa. Na realidade, a
losófica. Justificar a análise intencional é sair dela e recorrer análise intencional e a evidência do cogito não são
ao sistema. Fink vai mais longe que Wahl: mostra que, quer menos elementos da filosofia especulativa. Contra este
queira quer não, tal recurso existe implícita-: mente no método intuitivo e seu postulado, afirma a lógica
pensamento de Husserl: interpretação da «própria coisa» dialéctica a sua adequação ao real, afirraando-se como
como fenómeno, postulado dum recomeço radical, tese da emanação do real. A fenomenologia pressentiu essa
posterioridade do conceito, f é no «método», indeterminação verdade, quando definiu a verdade como movimento,
sobre o que é uma «constituição», carácter vago do conceito génese, renovação. Mas ainda aqui se ficou no
de Leben, mesmo antes de qualquer procedimento analítico, equívoco, não porque tal movimento fosse em si pró-
e, mais exactamente, afirmação prio equívoco, como a fenomenologia pretende, mas
porque se recusou a restituir-lhe a realidade material.
Ao manter a fonte do sentido a meio-caminho do
(') «L'Analyse intentionnelle et le problème de la pensée objectivo e do subjectivo, não viu que o objectivo (e
spéculative», in Problèmes actuelles de la phénoménologie,
Desclée, 1952, p. 71. não o existencial) contém já o subjectivo, como
negação e como superação, e que a matéria é, ela
C) WAHL, «Conclusions», ibid.
própria, sentido. Longe de as ultrapassar, a
da prioridade dos modos originários, tudo isso esconde os
fenomenologia está, portanto, muito recuada
elementos especulativos herdados da filosofia moderna e,
relativamente às filosofias hegeliana e marxista. Esta
mais concretamente, da revolução cartesiana do cogito. A
regressão explica-se historicamente.
Krisis, que explicitamente situava a fenomenologia nesta
herança, constituía, pois, uma confissão, pelo que não nos
h) Acentuámos no início que a noção de antepredi-cativo,
de pré-reflexivo podia ser aprofundada, tanto contra a
devemos surpreender por romper com a análise intencional e
ciência, como para a estabelecer: é aqui que as duas
inaugurar um sistema especulativo da história (aliás
correntes da fenomenologia se separam. Tal dualidade
extremamente medíocre).
é particularmente manifesta no tratamento das
g) Se bem nos recordarmos, fizemos já com que Hegel ciências humanas. Ora, é claro que a fecundidade da
respondesse à pretensão de orginalidade de Husserl: a
fenomenologia não se encontra do lado daqueles que
crítica de Fink sugere já essa resposta. E a crítica
tomam para si os argumentos insípidos e irrisórios da
marxista completa-a. 0 que está aqui em causa, como
teologia e da
muito bem viu Thao, é o problema da matéria. O

A FENOMENOLOGIA

filosofia espiritualista, contra a investigação científica do obscurantismo, nem de ecletismo sem solidez teórica,
homem. A riqueza da fenomenologia, o seu lado positivo, é o responde bastante bem às exigências duma filosofia
esforço para captar o próprio homem sob os esquemas concreta. E se Merleau-Ponty faz sua (') a célebre fórmula de
objectivistas de que ciência antropológica não pode deixar Marx: Só podeis suprimir a filosofia, realizando-a, é porque a
de o revestir e é, evidentemente, nesta base que importa fenomenologia lhe parece significar exactamente uma
discutir com a fenomenologia. O reexame compreensivo dos filosofia feita real, uma filosofia suprimida como existência
dados neuro e psicopatológicos, etnológicos e sociológicos, separada (2).
linguísticos (de que não pudemos aqui falar), históricos, etc.,
na medida em que não se trata nem de grosseiro
60 64
?1 A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
Ideen..., III (Wissenschaften); 6. Die Krisis...; 7. Erste
Philosophie (1923-1924), I (Kritische Ideengeschichte); 8.
Erste Philosophie (1923-1924), II (Reduktion); 9.
Phaenomenologische Psychologie (1925); 10. Zur
Phaenomenologie des inneren Zeit-bewusztsein (1893-
1917); 11. Analysen zur passiven Synthesis (1918-1926);
12. Philosophie der Arithmetik.
Traduções francesas: Méditations cartésiennes, Vrín,
1947;
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abaixo; e sobretudo in FORNI, Fenomenologia, Milão, géométrie, P. U. F., 1962; Leçons pour une
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60 65
A FENOMENOLOGIA FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA
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WAHL, «Notes sur la première partie de Erfahrung und serl», Rev. Méta. Morale, 1952.
Urteil», Rev. Méta. Mor., 1952. Husserl, curso, C. D. U., 1956-1962.
«Notes sur quelques aspects empiristes de la pensée de

60 66
i) O idealismo transcendental e as suas contradições ....

..................................................................................................35
j) A Lebenswelt .............................................................
.................................................................................................39
Nota sobre Husserl e Hegel................................................
.......................................................................................................42

118

INDICE
SEGUNDA PARTE

FENOMENOLOGIA E CIÊNCIAS HUMANAS


INTRODUÇÃO
CAPITULO PRIMEIRO — Posição do problema ................. 47
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO SEGUNDO — Fenomenologia e psicologia ........ 52
HUSSERL
I A eidética
15 k) A introspecção .............................................................. 52
1. O cepticismo psicológico ....................'.......................... l) A r e f l e x ã o .................................................................. 53
15 16 m)Intencionalidade-e comportamento.............................. 55
2. As essências n) A psicologia da forma..................................................... 57
o) O problema do corpo ..................................................... 62
3. A ciência eidética ........................................................... 19 p) Fenomenologia e fisiologia ........................................... 65
q) Fenomenologia e psicanálise ........................................ 68
II O transcendental
CAPITULO TERCEIRO — Fenomenologia e sociologia ........ 71
............................................................................................. *
2

r) A explicação .............................. ................................... 71


1. A problemática do sujeito .............................................. 2
*
s) A compreensão ............................................................. 73
t) O social originário ...........v............................................ 77
<TZk r e d u ç ã o ..................................................................... 23
u) Fenomenologia e sociologia .......................................... 81
CPO Eu puro ....................................................................... f v) Indivíduo e sociedade; o problema etnológico ............. 83
4. Eu puro, Eu psicológico, sujeito kantiano ......................
CAPITULO QUARTO — Fenomenologia e história............... 87
''5^ A_ intencjpnalidade .................................................... 32

w)O histórico ................................................................. 8?


III O «mundo da vida» ...................................................... i5
x) A historicidade ............................................................... 90
y) A filosofia da história ..................................................... 93
z) Ciência histórica e historicidade ................................... 96
aa)Fenomenologia e marxismo
bb)A terceira via............................................................ ^0
cc)O sentido da história ........................................... ^
C O N C L U S Ã O .................................................................. 111

BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA ..................................................... US

119