Você está na página 1de 4

FIDES REFORMATA X, Nº 1 (2005): 151-154

RESENHA
Marcelo Gomes da Silva

DONNER, Herbert. As fontes. In: História de Israel e dos povos vizi-


nhos. 2. ed. Tradução de C. Molz e H. Trein. São Leopoldo: Sinodal, 1997.
p. 17-32.

O livro História de Israel e dos povos vizinhos foi escrito originalmente


em alemão com o título Geschichte des Volkes Israel und seiner Nachbarn in
Grundzügen. O teólogo alemão Herbert Donner, autor de diversas obras, foi
aluno de Albrecht Alt e Siegfried Morens, renomados professores de Antigo Tes-
tamento e Egiptologia, respectivamente. A primeira edição da obra foi publicada
em 1983, na Alemanha. Dez anos depois, em 1994, foi publicada a sua segunda
edição, com alterações especialmente nas duas primeiras partes do livro, que
tratam da pré-história e da história primitiva de Israel. A edição em português
foi publicada sob a coordenação do Fundo de Publicações Teológicas/Instituto
Ecumênico de Pós-Graduação (IEPG) da Escola Superior de Teologia (EST)
da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).
O autor inicia a obra apresentando os pressupostos do seu estudo. Entende
que a história de Israel deve ser apresentada a partir das fontes, daí o nome do
seu primeiro capítulo. Faz então algumas reflexões sobre o acervo de fontes e
sobre a interpretação do material. Lamenta o fato de o Antigo Testamento (AT)
ser a fonte principal e, em alguns casos, a única fonte (p. 17).
Donner informa que trata dessas fontes da mesma forma que trataria de
qualquer outro povo, em qualquer parte do mundo, i.e., sem vínculos com a
religião ou a filosofia. Assim, trabalha com a interpretação histórico-crítica das
fontes. Segundo o autor, no que tange às fontes extrabíblicas, esta visão não traz
problemas. Porém, ao se tratar do AT, a sua canonicidade, i.e., o seu caráter de
Escritura Sagrada, parece sugerir outro modo de interpretação. Tratando tudo
como história, o autor conclui que não se pode escrever sobre este tema com
fontes qualitativamente diferentes, com um material profano de um lado e um
material sacro de outro. Para o autor, o AT nada mais é que uma coletânea de

151
HISTÓRIA DE ISRAEL E DOS POVOS VIZINHOS

documentos históricos de caráter diferenciado, tornando a canonicidade do AT


em um objeto de investigação histórica (p. 18).
O autor classifica dois tipos de fontes: o material literário e material
arqueológico. Quanto ao material literário, comemora o fato de, a cada ano,
estar aumentando o material extra-israelita, através da exploração de culturas
de povos do Oriente Antigo. Assim a história de Israel é olhada também a partir
de fora. Donner classifica esse material por regiões: Egito, Mesopotâmia, Síria
e Palestina (p. 19-20). Nesse trabalho historiográfico, os documentos contem-
porâneos são preferidos a outros que se refiram a acontecimentos e pessoas
da história a partir de uma distância cronológica mais ou menos grande (p.
22). Crítica textual, crítica literária, crítica da forma e do gênero, história das
tradições, história da redação e história da interpretação são os métodos e pro-
cedimentos de pesquisa defendidos pelo autor, que afirma que só através deles
as fontes de fato começam a ser visualizadas e se tornam utilizáveis (p. 22).
O livro ainda cita a dificuldade de se obter documentos históricos de um
povo que viveu como nômade: “Israel é um povo não-autóctone” (p. 25). Sob
esse ponto de vista, o autor entende que Israel revestiu as suas origens, a sua
pré-história e a sua história primitiva com o manto da saga. A princípio o autor
diz que estas sagas não podem ser consideradas documentos históricos – são
tradição. Gênesis 1 a 11 é citado como exemplo disso. Depois afirma que esse
seria um julgamento errôneo. Conclui que as sagas dizem algo sobre aqueles
que a narraram (concepções).
O livro menciona eruditos que através de seus estudos têm enriquecido a
pesquisa histórico-crítica, às vezes com abordagens histórico-traditivas, como
é o caso de Martin Noth e Albrecht Alt, os quais foram antecedidos por nomes
importantes, segundo o autor, como Hermann Gunkel e Hugo Gressmann (p.
26). Donner conclui que a conseqüência disso foi uma rigorosa desmontagem
do quadro tradicional transmitido pelo Pentateuco, Josué e Juízes, e não deixa
de observar que isso desencadeou acusações de ceticismo e niilismo. O autor
relata as objeções a estes métodos, sem muitas conclusões – como de fato
admitiu em seu prefácio. A obra ainda traça um paralelo entre o princípio me-
todológico e o teológico, fazendo a crítica de que este último parte do princípio
de que se algo não for francamente anti-racional deverá ser crido com base na
autoridade da Bíblia (p. 27).
Por fim, apresenta as fontes arqueológicas. Depois de conceituá-las, men-
ciona os seus dois métodos de trabalho: através das escavações e da exploração
arqueológica de superfície (p. 29). Diz que a arqueologia bíblica, que surgiu
no século 19 a partir do interesse pela Bíblia, é superestimada, tendo motiva-
ções extracientíficas, principalmente de caráter religioso. Em sua opinião, os
resultados da pesquisa arqueológica nas terras bíblicas muitas vezes são usados
erroneamente para confirmar as informações da Bíblia (p. 32).

152
FIDES REFORMATA X, Nº 1 (2005): 151-154

A apresentação do livro é de excelente qualidade quanto à encadernação,


edição e fontes utilizadas. O autor poderia ter utilizado um maior número de
subdivisões em seu capítulo inicial, pois o excesso de informação (sempre
mostra vários pontos de vista) acaba por fazer um leitor menos atento se perder
sobre o assunto principal. Se as referências bibliográficas fossem colocadas no
final do livro seriam mais funcionais, pois como notas de rodapé não trazem
informações muito relevantes para a leitura naquele momento. A linguagem
é acadêmica e, apesar de traduzida do alemão, não prejudica a leitura. Sem
dúvida a obra destina-se àqueles que já possuem um conhecimento prévio do
assunto, não sendo, portanto, indicada para leigos. Acredito que bons livros
acadêmicos podem ser escritos de forma popular e acessível a todos, o que
não é o caso desta obra.
Ao analisar o conteúdo desse primeiro capítulo do livro já se pode per-
ceber claramente a linha e a intenção do autor. É importante lembrar que essa
abordagem teve forte influência do Iluminismo, o pensamento racionalista e
deísta que entendia que Deus tem de ficar de fora do conhecimento humano.
Deus existe, mas não intervem na história humana por revelação, milagres
ou providência. O fato de esta edição ter sido publicada no Brasil pela Igreja
Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), de origem alemã, nos
lembra que a Igreja Luterana da Alemanha se dividiu justamente neste perí-
odo, com o surgimento do liberalismo teológico, nome que foi dado a esta
nova hermenêutica. Assim todo o conteúdo do livro será apresentado sob o
princípio de que Deus não se revela ao homem, nem intervém, muito menos
sobrenaturalmente, na história humana. Daí já não é necessário ler os demais
capítulos, a não ser por curiosidade, pois certamente o leitor constatará que a
criação do mundo, os milagres de Moisés e a formação do povo de Israel, entre
outros episódios, são desacreditados, explicados como fenômenos naturais ou
tratados como invenções do povo de Israel. Nunca aconteceram historicamente,
são criação da fé dos israelitas, histórias lendárias denominadas pelo autor de
mitos ou sagas.
Prefiro a visão de Samuel J. Schultz que diz que através das bênçãos e
infortúnios de Israel, Deus, o criador do universo e do homem, determinou o
curso a ser tomado pelo seu povo escolhido no cenário internacional das cul-
turas antigas. Deus não é apenas o Deus de Israel, mas também o governante
supremo que controla as atividades de todas as nações. Mas infelizmente este
não é o pano de fundo do método histórico-crítico, adotado pelo autor dessa
obra, que teve seu início no século 17 e falecimento decretado em meados dos
anos 1970. Concordo com Augustus Nicodemus Lopes, que afirma em sua obra
A Bíblia e seus intérpretes: “É triste observar que uma boa parte dos supostos
resultados infalíveis deste método ainda influenciam estudos acadêmicos hoje,
como fatos provados e não meras hipóteses – o que de fato são”.

153
HISTÓRIA DE ISRAEL E DOS POVOS VIZINHOS

O livro é recomendado para estudos sobre a investigação do AT através do


método histórico-crítico, principalmente em denominações que abraçam essa
corrente teológica. Não há sentido em ser utilizado em seminários confessionais,
pois a hermenêutica defendida pelo autor parte do princípio de que a Bíblia
não é o registro infalível e inspirado da revelação divina, e sim da religião
dos judeus, i.e., ela não fala de Deus, mas do que os judeus criam sobre ele.
Além disso, esta linha defende que as confissões de fé não são essenciais para
o cristianismo, pois o que molda a religião é a experiência e não a revelação.
O que é isso senão um ataque à autoridade das Escrituras e ao cristianismo?
Inescrupulosamente tira o pressuposto da fé e adota o da incredulidade.
Por isso, creio que a história apresentada por Herbert Donner em seu
livro não é autêntica, não é verdadeira. Trata-se no máximo de um conjunto
de suposições e hipóteses. Porém, ao apresentá-la como verdade, acaba por
se tornar uma história espúria de Israel. Nenhum de nós pode ler a Bíblia sem
a influência do que cremos. O importante é termos os pressupostos certos em
nossa leitura, exigidos pela própria Escritura – o reconhecimento de seu caráter
divino e a crença nas suas afirmações.

154