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A Construção da

Psicologia Social
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Sumário
A Construção da Psicologia Social
Para início de conversa… ................................................................... 04
Objetivo ........................................................................................... 05
1. A vida Coletiva como Vida Mental: a Völkerpsychologie,
de Wilhelm Wundt ............................................................... 06
1.1 A Influência Alemã na Psicologia Social: Wilhelm Wundt ........... 06
1.2 A Psicologia dos Povos .......................................................... 08
2. Raízes da Psicologia Social e o Surgimento do Paradigma
Psicológico e Sociológico ...................................................... 11
2.1 Diferenças e Aproximações entre a Psicologia Social Psicológica
e a Psicologia Social Sociológica .................................. 15
2.2 A Psicologia Social Psicológica ............................................... 18
2.3 A Psicologia Social Sociológica, Escola de Chicago e o
Interacionismo Simbólico ....................................................... 18
Referências ........................................................................................ 24
Para início de conversa…
O século XIX forjou os principais marcos históricos e as principais
ideias psicossociais, que influenciaram o nascimento da Psicologia Social.
Mas como essa área do conhecimento se desenvolveu no século XX, na
modernidade? A Psicologia Social tem uma única vertente ou se constituiu de
diferentes maneiras, a partir de diferentes referenciais? O que seriam, nesse
cenário, a Psicologia Social Sociológica e a Psicologia Social Psicológica?

Neste capítulo, será abordada a importância da contribuição de


Wilhelm Wundt (1832-1920) para a constituição da Psicologia Social,
especialmente por meio da sua proposição da Psicologia dos Povos. Essa é
uma área da obra do pensador que ficou sem visibilidade por muito tempo
na historiografia da Psicologia, em função do viés positivista que ciências
humanas e sociais assumiram ao longo do século XIX, na busca por um tipo
de legitimação enquanto ciência.

Ademais, veremos a partir de qual perspectiva o berço da Psicologia


Social moderna pode ser considerado um fenômeno americano e, ainda,
as diferentes vertentes da Psicologia Social a partir da obra de Robert Farr
(1999), que faz uma distinção entre a psicologia social fundamentada no
experimentalismo, no cognitivismo e no positivismo – a Psicologia Social
Psicológica – e aquela que tem suas origens mais fundamentadas na Sociologia
nascente e, mais especificamente, nas chamadas Escola de Chicago e no
Interacionismo Simbólico – a Psicologia Social Sociológica.

4 Psicologia Social
Objetivo
Compreender a construção da Psicologia Social, correlacionando as
aproximações e diferenças entre o paradigma americano e europeu.

Psicologia Social 5
1. A vida Coletiva como Vida Mental: a
Völkerpsychologie, de Wilhelm Wundt
A literatura aponta o surgimento da Psicologia como uma disciplina
específica na Alemanha, na segunda metade do século XIX, em especial
com o lançamento do livro-texto de Wundt, intitulado Fundamentos da
psicologia física (1873 apud FARR, 1999), com a inauguração do laboratório
de psicologia na cidade de Leipzig (Alemanha), em 1879, e o lançamento da
revista científica Philosophische Studien, em 1881 (FARR, 1999).

1.1 A Influência Alemã na Psicologia Social: Wilhelm Wundt


Wilhelm Wundt (1832-1920) é reconhecido como o fundador da
Psicologia e teve seu mérito acadêmico inicialmente reconhecido, especialmente
por conta da sua psicologia experimental, de cunho empirista, que tinha como
objetivo firmar a Psicologia enquanto Ciência. O método experimental da
Psicologia consistiria na interferência intencional e controlada do pesquisador
sobre o início, a duração e o modo de ocorrência dos fenômenos investigados.

No entanto, Wundt reconhecia a limitação de sua psicologia


experimental, observando que apenas uma parte da Psicologia era um ramo
das ciências naturais. O psicólogo afirmava que seu projeto de psicologia
experimental não estava interessado nas mentes individuais, mas na mente
em geral, e reconhecia que os processos mentais mais profundos, como
pensamento ou imaginação, não podiam ser estudados de modo experimental.
O método experimental só servia ao estudo de processos mentais básicos
como sensação, imagem e sentimentos.

Partindo dessa constatação, Wundt produziu uma importante obra


na área da Psicologia Social, chamada Psicologia dos Povos - Völkerpsychologie,
escrita em 10 volumes, entre os anos de 1900 e 1920 (FARR, 1999), de
estudos sobre linguagem, pensamento, cultura, religião, mitos e costumes,
dentre outros.

6 Psicologia Social
Importante
O positivismo é um paradigma nas ciências que nasceu em meados do século XIX e
diz respeito ao movimento filosófico que teve início com a obra de Augusto Comte e se
consolidou em meados do século XX, no chamado positivismo lógico do Círculo de Viena e na
análise linguística. Auguste Comte apostava no progresso moral e científico da sociedade por
meio da ordem social e do desenvolvimento das ciências.
Em sua obra Apelo aos Conservadores (1855), Comte definiu a palavra “positivo” por meio
de sete concepções: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático. Ele sistematizou
o pensamento positivo em três etapas, sendo a primeira a etapa de pensamento teológico
(mítico, intuitivo, sensitivo, religioso), a segunda, já mais refinada e aprimorada, o
pensamento metafísico (pensamento filosófico, no entanto, sem métodos sistematizados
para comprovação da realidade) e a terceira etapa, o estágio positivo ou científico (no qual,
por meio do método científico, o pensamento positivista transforma uma leitura da realidade
em verdade) (JACQUES; STREY, 2013).
De acordo com Farr (1999, p.56), “para um positivista, a ciência substitui a metafísica”.
Positivistas não consideram crenças, superstições ou quaisquer outros tipos de conhecimento
que não possam ser comprovados empiricamente, por meio, fundamentalmente, de métodos
experimentais. Ademais, o positivismo está baseado em um ideal de progresso contínuo,
postulando a ordem social em uma marcha progressiva, que a humanidade tende a seguir a
caminho do progresso. A inscrição Ordem e Progresso na bandeira brasileira tem inspiração
claramente positivista.

Farr (1999) afirma que a Psicologia surgiu em fins do século XIX


e início do XX, na Alemanha, como uma ciência natural e social. Em
reconhecimento às origens da disciplina, a língua alemã se tornou obrigatória
na maioria dos programas de doutorado implantados nas universidades dos
EUA e na Inglaterra, a partir das experiências de milhares de pesquisadores
que visitaram o laboratório de Leipzig. No entanto, em boa parte das vezes,
os laboratórios implantados, em especial, nos EUA desenvolveram produções
bastante distintas do que Wundt realizava na Alemanha. Nesse sentido, Farr
(1999) chama a atenção para o projeto de estudo de diferenças individuais,
que aponta como uma inovação inglesa, francesa e americana, e não como

Psicologia Social 7
uma proposta alemã.
A exigência da língua alemã nesses cursos parece não ter suscitado o
efeito desejado, que parecia ser o de manter certa continuidade entre o que era
realizado por Wundt em Leipzig e o chamado Novo Mundo. É nessa perda de
vínculos com a proposta original alemã que se pode também perceber a não
compreensão e valorização do projeto social da psicologia wundtiana, bem
como uma sobrevalorização da psicologia experimental, o que contribuiu para
a apreensão da psicologia nascente como uma ciência natural. “Se a psicologia
se tornou primeiro uma ciência experimental na Alemanha, foi a psicologia
social que se tornou, depois, uma ciência experimental nos EUA” (FARR,
1999, p.59).

A Psicologia dos Povos influenciou fortemente diversos pensadores


e correntes de pensamento, dentre elas a própria constituição da Psicologia
Social que Farr nomeará Sociológica.

1.2 A Psicologia dos Povos


Conforme afirma Wund (1916, p.3):

A consciência individual é totalmente incapaz de fornecer a história


do pensamento humano, pois ela está condicionada por uma
história anterior a respeito da qual ela não pode, por si mesma,
dar-nos nenhum conhecimento.

Em sua Psicologia dos Povos - Völkerpsychologie, Wundt considera a


mente um fenômeno histórico, cultural e linguístico, algo que não pode
ser explicado individualmente, afirmando uma íntima relação entre a mente
humana e a cultura, entre indivíduo e o contexto cultural no qual ele se
desenvolve. Assim propõe, nessa etapa da sua produção, que a psicologia
deveria estudar as produções mentais coletivas, originadas das ações de
conjuntos de indivíduos, se quisesse efetivamente estudar a mente humana
(FARR, 1999).

Na primeira etapa de sua produção, a chamada Psicologia Experimental,


Wundt se utilizava do método da introspecção (auto-observação rigorosa e

8 Psicologia Social
controlada dos fenômenos) para o estudo da consciência. Na Psicologia dos
Povos, reconhece a ineficácia do método e a impossibilidade de compreender
fenômenos complexos, a mente coletiva, a partir apenas da proposição de
consciência individual. Assim, Wundt propôs a distinção entre a psicologia
experimental, responsável pelo estudo dos processos mentais básicos, e a
Psicologia dos Povos - Völkerpsychologie, voltada para o estudo dos processos
mentais superiores, em que o método de estudo seria o histórico-comparativo
(ÁLVARO; GARRIDO, 2006). Nessa perspectiva, conteúdos religiosos,
artísticos, linguísticos e socioeconômicos são analisados transversalmente.

Uma das principais distinções entre a ciência experimental de Wundt e


a sua Volkerpsychologie é a proposição da diferença entre consciência e cultura.
Ele defendia que certas representações, sentimentos e comportamentos
poderiam ser pensados em estágios, que apresentariam características
psicológicas específicas de cada período da evolução mental, e propunha
essa evolução em quatro estágios: Primitivo; Totemismo; Heróis e Deuses;
Evolução em direção à Humanidade.

O cientista acreditava que o exame dos estados psíquicos anteriores


possibilitaria aportar pistas sobre as produções culturais mais complexas e
sofisticadas. Nessa direção, a Völkerpsychologie não trata apenas de povos, mas
de famílias, grupos, comunidades, entre outros. Em sua perspectiva, a
categoria povo seria transversalizada por outras categorias (classe, etnia,
estirpe etc.). No entanto, na visão wundtiana, uma verdadeira Psicologia
consagrada aos estudos das culturas humanas deveria ampliar seu campo de
estudo até se constituir uma Psicologia da Humanidade.

A Psicologia dos Povos de Glossário


Wundt influenciou pensadores como
Sigmund Freud, que escreveu seu Totemismo é a religião que subordina as
Totem e Tabú como uma resposta pessoas a seres que, para eles, são considerados
a Wundt quanto à sua produção sagrados, podendo ser objetos, animais, plantas
sobre o totemismo. Influenciou, ou quaisquer seres míticos. Foi entre os nativos
ainda, Émile Durkheim, que, norte-americanos que se estudou as instituições
mesmo não tendo reconhecido e crenças totêmicas pela primeira vez. Totem
publicamente a influência de Wundt diz respeito a qualquer objeto ou ser que seja
em sua concepção das representações cultuado como um símbolo ou ancestral de um
coletivas, foi influenciado pela povo.

Psicologia Social 9
concepção de resultantes coletivos wundtiana. Resultantes coletivos, em
Wundt, dizem respeito ao fato de que “em todas as combinações psíquicas, o
produto não é a mera soma dos elementos que compõem tais combinações,
mas representa uma nova criação” (WUNDT, 1973 [1912], p.164 apud ABIB,
2009, p.198). Para ele, o fenômeno coletivo não é o mesmo que a soma
das partes que o compõem, é um fenômeno novo, coletivo, que precisa ser
estudado e entendido deste modo. Para Wundt, a cultura é algo que está além
da consciência individual, algo que as pessoas mantêm e reproduzem.

É importante salientar que a linguagem foi o importante objeto de


estudo da Psicologia dos Povos, e o trabalho de Wundt influenciou também
o campo da linguística, tendo tido entre seus admiradores Saussure, Delbrick
e Bloomfield, que vieram a se tornar referência no campo de estudos da
linguagem. Em seu projeto científico sobre os povos, Wundt também estudou
a religião, costumes, mitos, magia, entre outros. Seus estudos partiam da
premissa da impossibilidade de uma abordagem reducionista e individualista
desses fenômenos, em uma perspectiva bem semelhante à proposição de
representações coletivas de Durkheim.

Farr (1999) coloca que, na verdade, as semelhanças entre Wundt e


Durkheim foram maiores que as diferenças. Talvez a maior das diferenças
seja o fato de que Durkheim encarava a Psicologia dos Povos como um ramo
das ciências sociais e sua ideia para a área da Sociologia, ou para construção
dessa disciplina, era pensá-la fundamentada no positivismo. Wundt era um
antipositivista e não pensava em fazer ciência nesses parâmetros, tendo o
positivismo como paradigma e os métodos das ciências naturais como modelo
único para fazer ciência.

Curiosidade
A rejeição da afirmativa de Wundt sobre seu projeto científico para a Psicologia enquanto
ciência, no que diz respeito ao reconhecimento da limitação do método experimental para
o estudo dos fenômenos mentais superiores, resultou em um movimento na Academia,
que ficou conhecido como o “repúdio positivista de Wundt”, conforme postulado por
Danziger (apud FARR, 1999). As gerações seguintes a Wundt queriam provar que Wundt
estava errado e questionavam veementemente a afirmativa wundtiana de que apenas em
parte a Psicologia poderia ser compreendida como uma ciência natural, pois seria uma

10 Psicologia Social
ciência que se encontrava entre as ciências da natureza e da cultura. Essa nova geração
de experimentalistas era repudiada por Wundt, assim como Wundt era repudiado pelos
positivistas (FARR, 1999).
Wilhelm Wundt estabeleceu três objetivos para sua carreira ao longo de sua vida, tendo
conseguido alcançar todos: 1) construção de uma psicologia experimental ou de construção
da psicologia como uma ciência independente; 2) construção de uma filosofia científica ou
metafísica científica; 3) criação de uma psicologia social. O que Dazinger (apud JACQUES;
STREY, 2013) aponta ao cunhar o termo “repúdio positivista a Wundt” diz respeito a um
processo de seleção enviesada da vasta obra de Wundt, feita por determinados historiadores
e fundamentada no positivismo e em uma perspectiva utilitarista, que relegou a um certo
obscurantismo a Psicologia dos Povos. Conforme Farr (1999) afirma, a influência da leitura
positivista da obra de Wundt teve efeito devastador na historiografia da Psicologia, em
especial na produção de língua inglesa.

Pensar em Wundt como o pai da Psicologia e Durkheim como o pai


da Sociologia ajuda a compreender que a Psicologia Social nasce justo dessas
duas áreas, e não como uma área exclusiva da Psicologia.

A Psicologia dos Povos, uma corrente europeia do pensamento, teve


grande influência na constituição da vertente sociológica da Psicologia Social,
em especial pela ênfase atribuída à determinação sócio-histórica do indivíduo
e ao uso da metodologia não experimental (NEIVA; TORRES, 2011).

2. Raízes da Psicologia Social e o Surgimento do


Paradigma Psicológico e Sociológico
Antes de seguir, é preciso lembrar que a escolha de um(a) autor(a) ou
de uma escola para pensar a origem de determinada área do conhecimento
significa sempre abandonar outras possibilidades. Esse tipo de escolha, na
maioria das vezes, termina em um relato parcial da história, em que se narra
origens a partir da sua proximidade ou distanciamento com determinada
perspectiva, deixando de lado outras possibilidades reflexivas. Conforme
afirmam Álvaro e Garrido (2006), a visão do presente da disciplina termina
sempre em uma visão distorcida do passado.

Psicologia Social 11
Nesse sentido, uma das obras referenciais para o estudo do nascimento
da Psicologia Social é o livro-texto de Robert Farr, As raízes da psicologia social
moderna (1999). Nessa obra, Farr critica as versões parciais da historiografia
dessa área do conhecimento, fazendo uma análise de obras tidas como
históricas, produzidas e editadas nos EUA. Farr (1999) busca delimitar as
origens e diferenças de uma Psicologia Social predominantemente psicológica
e marcar as diferenças dessa para a sociológica. Farr (1999) colocam ainda,
que, para compreender o “florescimento” dessa área do conhecimento nos
EUA com um fenômeno tipicamente americano, é preciso compreender
também suas “raízes” europeias com relação à influência que seus maiores
representantes tiveram ou não das ideias psicossociais nascidas na Europa em
fins do século XIX.

O fenômeno histórico da Segunda Guerra Mundial está profundamente


vinculado ao desenvolvimento da Psicologia Social na modernidade. À
época, os cientistas sociais contribuíram na realização de levantamentos
sobre comportamentos adaptativos dos soldados ao cotidiano no exército,
participação nos combates e consequências dessa participação sobre suas
vidas e, ainda, na avaliação da eficácia das diferentes maneiras de se instruir
o corpo militar. Os resultados dessas pesquisas foram publicados após a
guerra, na série The American Soldier. Além disso, é importante destacar que
vários pesquisadores europeus se fixaram nos EUA, fugindo da perseguição
nazista. A publicação dessa série foi fundamental para o desenvolvimento
de programas de doutorado em Psicologia Social de cunho interdisciplinar,
em geral em programas conjuntos de Psicologia e Sociologia, incluindo, por
vezes, a Antropologia (FARR, 1999).

Ademais, alguns pesquisadores seguiram contribuindo com estudos


após o fim da guerra, em especial o grupo de pesquisa coordenado por
Hovland (apud FARR, 1999), na universidade de Yale, realizando estudos
sobre comunicação e atitude, com interesse especial no estudo experimental
da comunicação de massa. As publicações sobre estudos experimentais do
pós-guerra contribuíram para a consolidação desse método como estratégia
preferida de pesquisa.

Outro grupo de pesquisadores de destaque em Psicologia Social que


se estabeleceu no pós-guerra foi o de Kurt Lewin, no Instituto de Tecnologia
de Massachusetts (MIT) – o Centro de Pesquisa para Dinâmica de Grupo –,

12 Psicologia Social
que contribuiu muito para o estabelecimento da Psicologia Social moderna
como um fenômeno norte-americano. O fato de Lewin ser um psicólogo
alemão da área da Gestalt que se refugiou nos EUA fundamenta a afirmativa
de Robert Farr (1999, p.21) de que as raízes dessa disciplina “foram europeias,
embora a flor fosse caracteristicamente americana”.

Muitos dos pesquisadores em Psicologia Social da modernidade


tiveram sua formação em um desses dois centros de referência – MIT e Yale.
Essa nova onda de pesquisadores que se constituíram em solo americano
com os estudos sobre a grande guerra e no pós-guerra desempenhou papel
fundamental no estabelecimento da face marcadamente experimental da
Psicologia Social moderna enquanto fenômeno nos/dos EUA.

Além da afirmativa da Psicologia Social na era moderna como


um fenômeno tipicamente norte-americano relacionado às questões e
consequências que envolviam a Segunda Guerra Mundial, Farr (1999) coloca
que, nesse momento, a perspectiva hegemônica era de individualização
do social, no que mais tarde seria conhecido como vertente psicológica da
Psicologia Social. Essa individualização foi implementada tanto pela influência
do behaviorismo, no período entre as duas guerras, como pelo cognitivismo
no pós-Segunda Guerra Mundial.

Comentário
O Behaviorismo é uma linha teórica e metodológica da área da Psicologia que busca
estudar o comportamento humano de modo pragmático, com ênfase nos fatos objetivos
(estímulos e reações), sem fazer recurso à introspecção (método utilizado por Wundt em
sua psicologia experimental para estudo da consciência). Essa linha da Psicologia foi fundada
por John Watson (1878-1958), com base na crença de que os comportamentos podem ser
entendidos, mudados e treinados.
O marco inaugural dessa área pode ser identificado na publicação da obra A psicologia como
o behaviorista a vê (1913), de Watson. O autor acreditava que qualquer pessoa poderia
ter seu comportamento modificado a partir de um processo de condicionamento, que
demandaria condições controladas por meio do método experimental. Essa perspectiva não
levava em conta outras variáveis que constituíssem especificidades na vida da pessoa, ou
seja, não considerava contextos sócio-históricos e/ou culturais.

Psicologia Social 13
Existem diferentes correntes behavioristas. A corrente inaugurada por Watson é
compreendida como o Behaviorismo Clássico, cujo projeto científico de orientação positivista
e método experimental localizava a Psicologia no âmbito das ciências naturais. Watson
estava preocupado com a compreensão e controle do comportamento observável, e não com
o estudo dos fenômenos mentais (sentimento e pensamento).

É importante lembrar que, antes da instalação e institucionalização dessa


perspectiva individualista em solo norte-americano, houve o surgimento de
uma psicologia social comparativa, baseada em uma perspectiva evolucionista
que pode ser identificada no Manual de psicologia social, de Murchison, de
1935 (apud FARR, 1999). Esse trabalho, segundo Farr (1999), já revelava uma
perspectiva sociológica, por estar fundamentado em uma análise histórica
dos fenômenos filogenéticos, considerando o social a partir de metodologia
multidisciplinar de análise dos fatos e fenômenos sociais (ALMEIDA, 2012).
Porém, com o fortalecimento hegemônico do behaviorismo no período
entre as duas guerras mundiais, essa perspectiva foi invisibilizada nos EUA.
Essa hegemonia ocorreu em função do declínio do evolucionismo e pela
segmentação das disciplinas como áreas distintas entre si.

Ainda de acordo com Almeida (2012, p.127):

A vitória do behaviorismo contra o funcionalismo e a Psicologia


comparada marcou a derrota da perspectiva histórica na análise do
comportamento, dando lugar a uma perspectiva a-histórica que
se fundamentava na busca de leis que regem as interações sociais.
A visão de que a pesquisa deveria servir para a depuração precisa
das variáveis, pelo meio de pesquisas ex post facto e experimentais,
foi tomando espaço até tornar-se hegemônica com o advento do
cognitivismo.

Em seu livro publicado em 1924, Social Psychology, Allport postula


a Psicologia Social como ciência comportamental e experimental, partindo
da ideia de que essa área do saber não seria uma ciência humana ou
social, conforme propunha Wundt em sua Psicologia dos Povos, mas uma
ciência natural. Assim, para o estudo do binômio indivíduo-sociedade, a
Psicologia Social deveria se valer do modo de fazer ciência advindo das
ciências da natureza, fundamentado na perspectiva positivista. A Psicologia

14 Psicologia Social
Social moderna que floresce nos EUA entre as grandes guerras, mas
fundamentalmente, a partir da Segunda Guerra Mundial, tem um fazer
experimental, embasado na perspectiva positivista que, posteriormente, será
conhecido como a vertente psicológica.

Biografia
Floyd Henry Allport (1890-1979) foi um renomado psicólogo americano considerado
por muitos como um dos fundadores da Psicologia Social Experimental (posteriormente
conhecida como psicológica). Ele introduziu os princípios do behaviorismo na Psicologia
Social, tendo papel fundamental na legitimação da Psicologia Social como uma ciência do
comportamento. Para alguns autores, é considerado um behaviorista puro, para outros,
no entanto, é um behaviorista heterodoxo, que se opunha ao Behaviorismo Clássico de
Watson. Seu livro Social Psychology (1924) teve grande impacto sobre futuras publicações
do campo. Seus principais temas de pesquisa foram opinião pública, atitudes, moralidade,
rumores e comportamento, tendo como abordagem metodológica aos referidos fenômenos a
experimentação em laboratório e os surveys.

2.1 Diferenças e Aproximações entre a Psicologia Social Psicológica e a


Psicologia Social Sociológica
A institucionalização da Psicologia Social enquanto disciplina na
modernidade pode ser referenciada a duas obras, publicadas no ano de 1908, no
EUA: Uma introdução à psicologia social, de William McDougall, e Psicologia
social: uma resenha e um livro texto, de Edward Ross (FERREIRA, 2010).
A publicação dessas obras seminais já indicava os diferentes caminhos que
seriam percorridos pela Psicologia Social em suas vertentes compreendidas
como psicológica e sociológica. Ross era sociólogo e McDougall psicólogo, o
que levou a que cada obra fosse academicamente situada no âmbito de uma
disciplina e outra.

Biografia
William McDougall nasceu em 22 de junho de 1871, em Lancashire, Inglaterra. Seu
interesse primeiro no meio acadêmico foi pelas ciências naturais, de modo que, em 1894,
conquistou o diploma em ciências naturais da Universidade de Cambridge. Na mesma

Psicologia Social 15
universidade, McDougall interessou-se fortemente pelo comportamento humano, de modo
que se dedicou, também, à medicina, à psicologia e à neurologia.
Na Psicologia Social, MacDougall propõe a existência de uma vida mental coletiva, que não
seria a soma da vida mental dos indivíduos. Para ele, o desafio da Psicologia seria mostrar
os princípios dessa vida mental não individual e irredutível ao indivíduo. Macdougall viveu por
24 anos nos EUA, tornando-se um dos destaques da escola americana de psicologia social.

Farr (1999) afirma que a Psicologia Social nasceu no berço de duas


disciplinas distintas: a Sociologia e a Psicologia. Ainda segundo o autor, as
diferenças entre as formas da Psicologia Social na modernidade têm origem no
fim do século XIX, dentre outros, no debate sobre as relações entre psicologia
e sociologia protagonizado por Tarde e Durkheim.

Conforme visto anteriormente, a Psicologia e a Sociologia nem sempre


foram disciplinas constituídas enquanto tal e marcadamente distintas entre si.
Ambas são áreas do saber que se inspiraram e inspiram em outras áreas como
a Filosofia, Biologia, Fisiologia, dentre outras; além disso, seus precursores se
dedicaram tanto ao estudo dos fenômenos individuais quanto coletivos. Nesse
contexto, a psicologia social se desenvolveu tanto como uma psicologia social
psicológica como uma psicologia social sociológica (FERREIRA, 2010).

A ênfase maior dada ao indivíduo ou à sociedade fez com que


diferentes autores (STEPHAN; STEPHAN, 1985 apud FERREIRA, 2010)
começassem a defender a existência das duas modalidades de Psicologia Social.
Nesse sentido, quanto mais a psicologia se aproxima do indivíduo e se afasta
do social enquanto objeto de estudo, mais se afasta da Sociologia. Farr (1999)
observa, oportunamente, que, mesmo na contemporaneidade, a Psicologia
tem um cunho mais social em algumas culturas que em outras, como no caso
de a Rússia ser comparada aos EUA. Isso porque o individualismo não é um
valor cultural pregnante naquela como o é em solo norte-americano.

A separação das disciplinas de origem, Psicologia e Sociologia, está na


origem do desenvolvimento da Psicologia Social, o que acabou por contribuir
para a produção de vertentes em Psicologia Social que têm pouco ou nada em
comum (FARR, 1999). No entanto, é importante observar que a Psicologia
Social se diferencia e se consolida como disciplina científica independente
simultaneamente ao processo que ocorria com a própria Psicologia e com a

16 Psicologia Social
Sociologia. Diante disso, não cabe o entendimento de que a Psicologia Social
seria uma área que se constitui a partir de uma ou outra disciplina matriz, mas
uma disciplina-irmã (ÁLVARO; GARRIDO, 2017).

Quanto a isso, Álvaro e Garrido (2017) ressaltam a arbitrariedade da


tomada de qualquer marco histórico como aquele que efetivamente revela o
nascimento da Psicologia Social como disciplina. Os autores, propõem que,
ao invés dos primeiros manuais publicados com o título Psicologia Social, em
1908, poderíamos tomar um curso universitário como marco inaugural da
disciplina. Eles ainda destacam a relevância do curso ministrado por George
Mead na Universidade de Chicago, a partir de 1920.

Biografia
George Herbert Mead (1863-1931) foi um filósofo americano da Escola de Chicago,
de grande importância no campo da Sociologia e da Psicologia Social. Entre os teóricos
mais relevantes para a sua formação está Wilhelm Wundt, com quem estudou em Berlim.
Mead foi o revisor dos primeiros quatro volumes da Völkerpsychologie - Psicologia dos
Povos, de Wundt.
Assim como Wundt, reconhecia a necessidade de pesquisas sobre linguagem para elaborar
o conhecimento sobre a mente. No entanto, para Mead, a mente era um produto da
linguagem, enquanto na obra de Wundt a linguagem seria um produto da mente. Mead foi
publicado apenas após a sua morte, por seu sucessor na Universidade de Chicago, Herbert
Blumer. Phylosophy of the Present (1932) foi a primeira publicação com base em seus
escritos, seguida por Mind, Self, and Society (1934), que é uma compilação das aulas dadas
em seu curso sobre Psicologia Social na Universidade de Chicago.

Conforme Farr (1999), a separação entre Psicologia e Sociologia


enquanto disciplinas distintas no campo das ciências estava consolidada no
início dos anos 1920. A partir de então, as pressões em sentidos contrários
sobre as formas de se pensar e fazer Psicologia Social passaram a ser no
sentido de trazer essa área do conhecimento para mais próximo das novas
disciplinas: Psicologia e Sociologia. As formas que se aproximariam mais
da Psicologia pensariam as questões humanas a partir de uma perspectiva
individualizante, desconsiderando a influência do contexto social. Já aquelas
que se aproximariam da Sociologia, buscariam compreender os fenômenos
humanos com forte ênfase nas influências da sociedade sobre o comportamento

Psicologia Social 17
dos indivíduos e pensando a constituição do indivíduo tão somente a partir
das relações entre as pessoas. Ao fazer isso, exercem uma força contrária a
que se tome o indivíduo como objeto de estudo da Psicologia. Ambas as
perspectivas tomam o indivíduo de maneira dicotômica, a partir de uma
perspectiva individualizante (como é o caso das correntes psicológicas), ou
como fruto do social.

2.2 A Psicologia Social Psicológica


Segundo Allport (1954 apud FARR, 1999), a Psicologia Social
Psicológica procura explicar os sentimentos, pensamentos e comportamentos
do indivíduo na presença real ou imaginada de outras pessoas. Essa corrente
busca estudar processos intraindividuais, que são responsáveis pelo modo como
as pessoas respondem a estímulos sociais. Já a Psicologia Social Sociológica,
segundo Stephan e Stephan (1985 apud FERREIRA, 2010), teria como foco
a experiência social que o indivíduo adquire a partir de sua participação nos
diferentes grupos sociais nos quais se insere; nessa linha, os psicólogos sociais
privilegiam os fenômenos que emergem dos diferentes grupos e sociedades.

Floyd Allport (1924) defendia que a Psicologia Social deveria se


concentrar no estudo experimental do indivíduo, propondo que o grupo,
alvo dos estudos da vertente sociológica, seria apenas mais um estímulo do
ambiente, e não alvo dos estudos em si. Para o autor, a Psicologia Social
Psicológica é uma disciplina objetiva, de base experimental e focada no
indivíduo.

A Psicologia Social Psicológica estruturou-se, em especial nos EUA,


como uma ciência natural e empírica, que não considerava o papel das
estruturas sociais e dos sistemas culturais sobre os indivíduos.

2.3 A Psicologia Social Sociológica, Escola de Chicago e o Interacionismo


Simbólico
A consolidação da Psicologia Social Sociológica ocorreu marcadamente
nos EUA, onde podemos destacar as contribuições de Charles Horton Cooley

18 Psicologia Social
e dos sociólogos vinculados à chamada Escola de Chicago. A publicação
do livro de Edward Ross, em 1908, pode ser considerada um marco da
consolidação dessa vertente da Psicologia Social.

Importante
A Escola de Chicago diz respeito a um grupo de sociólogos americanos que integravam
o corpo docente do Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago, fundado
pelo historiador e sociólogo Albion W. Small. Esses sociólogos se dedicavam, de maneira
pioneira, ao estudo dos fenômenos sociais urbanos. O surgimento dessa escola está
relacionado ao processo de expansão urbana e crescimento demográfico da cidade de
Chicago no início do século XX. Nesse momento, a cidade se deparou com problemas
sociais urbanos, como o crescimento da criminalidade, aumento da desigualdade social,
desemprego, imigração e surgimento dos chamados guetos. Em sua primeira fase, a
Escola de Chicago foi influenciada primordialmente por Émile Durkheim, embora não deixe
de citar as contribuições de Gabriel Tarde.
Muitas vertentes da Psicologia Social tiveram origem na Escola de Chicago, como o
Behaviorismo Social de George Mead, os estudos sobre atitudes sociais de William Thomas,
as técnicas para medição de valores sociais de Louis Leon Thurstone, o Interacionismo
Simbólico de Hebert Blumer e, na modernidade, a sociologia das relações interpessoais de
Gustav Ichheiser e “as formas dramatúrgicas de psicologia social de Goffman” (FARR, 1999,
p.161).

Ross (1908 apud ÁLVARO; GARRIDO, 2017), influenciado


pelos trabalhos de Gabriel Tarde e sua teoria da imitação, compreende
a Psicologia Social como uma área da Sociologia que deveria se voltar ao
estudo das uniformidades no comportamento decorrentes da interação social,
cujas explicações possam ser encontradas em causas sociais e ignorando
explicações derivadas de fatores biológicos (ÁLVARO; GARRIDO, 2017).
Ross propunha que os mecanismos explicativos do comportamento seriam
a sugestão, a imitação e a invenção. Sua obra se apresentou como um
contraponto às explicações inatistas na perspectiva da teoria dos instintos,
oferecida no Manual de Psicologia Social, do psicólogo McDougall (1908
apud ÁLVARO;GARRIDO, 2017).

Psicologia Social 19
Importante
O interacionismo simbólico tem seu início entre os anos de 1930 e 1940, consolidando-
se como área das ciências nas duas décadas seguintes. O nome dessa linha de pesquisa
psicossociológica foi dado por Herbert Blumer, em 1937. Nessa perspectiva, o significado
é “um dos mais importantes elementos na compreensão do comportamento humano, das
interações e dos processos” (CARVALHO; BORGES; REGO, 2010, p.153). Os interacionistas
propõem que, para se compreender plenamente os processos sociais, é necessário a
apreensão dos significados que são experienciados pelos indivíduos em um contexto
particular (JEON, 2004 apud CARVALHO; BORGES; REGO, 2010).
Blumer (1969/1982), apoiado na obra de George Mead, reafirma o significado como
produto social, como criação das atividades dos indivíduos à medida que estes interagem
(CARVALHO; BORGES; REGO, 2010). Para Blumer (1969), o interacionismo simbólico tem
como base a análise de três premissas:
A primeira é que o ser humano orienta seus atos em direção às coisas em função do
que estas significam para ele... A segunda é que o significado dessas coisas surge como
conseqUência da interação social que cada qual mantém com seu próximo. A terceira é
que os significados se manipulam e se modificam mediante um processo interpretativo
desenvolvido pela pessoa ao defrontar-se com as coisas que vai encontrando em seu
caminho. (BLUMER, 1969, p.2 apud CARVALHO; BORGES; REGO, 2010, p.153)
O tema central do Interacionismo Simbólico é a interação social, compreendida como ação
social orientada e recíproca, que é analisada em seu caráter simbólico – o significado.

A obra de Mead foi, inicialmente, nomeada como Behaviorismo Social.


Acredita-se que isso ocorreu em virtude de, à época, o Behaviorismo ser
o paradigma dominante na Psicologia e, também, porque Mead tecia uma
crítica ao Behaviorismo clássico de Watson. Mead se opunha ao reducionismo
do que ele chamou de watsonismo e que era identificado nas tendências da
Psicologia Social nos EUA.

O Behaviorismo Social de Mead é bastante distinto das demais formas


vigentes à época, em especial porque ele considerava a linguagem como objeto
de estudo privilegiado, pensando-a como um fenômeno inerentemente social.
Mead foi concebido por seus pares, inicialmente, como um behaviorista, no
entanto, sua obra se afasta das perspectivas behavioristas por ser, efetivamente,

20 Psicologia Social
antirreducionista. Somente após a sua morte, com a retomada por Herbert
Blumer de sua obra, ele passou a ser concebido como um interacionista
simbólico, nome dado por Blumer, em referência à concepção de Mead
quanto aos processos de interação social, que ocorrem entre indivíduos ou
grupos mediados por relações simbólicas. Os sociólogos consideram Mead
o criador do interacionismo simbólico (FARR, 1999), mas desconsideram
suas proposições no campo da evolução da espécie, visto que Mead era um
darwiniano comprometido e coerente.

O fato de a Psicologia Social de Mead ter sido absorvida pelos


sociólogos fez com que sua obra tenha sido ignorada por psicólogos sociais
da modernidade e que estavam alinhados com as formas psicológicas de
Psicologia Social, que eram predominantes. Assim como Wundt, Mead foi
repudiado pelos positivistas da época.

A psicologia social de Mead está fundamentada na tradição


do pensamento filosófico ocidental, sendo também um fenômeno
caracteristicamente norte-americano. Uma das maiores contribuições de
Mead à Psicologia Social foi ter demonstrado a natureza dialética da relação
entre indivíduo e sociedade, mostrando que a individualização é resultado dos
processos de socialização, e não seu extremo oposto. Para esse pensador, o
self (ou “si mesmo”) deve ser pensado em termos da evolução da espécie, em
perspectiva com o desenvolvimento de cada membro individual da espécie.

Com relação à separação das vertentes da psicologia social psicológica


e sociológica, tem-se, na obra de Serge Moscovici, uma tentativa pioneira
de reaproximação das duas correntes. Moscovici tem uma compreensão de
que os fenômenos humanos ocorrem na interseção das esferas individuais e
sociais, e não apenas em uma ou em outra.

O estudo das representações sociais de Serge Moscovici (2003)


costuma ser classificado como uma vertente sociológica da Psicologia Social,
efetivamente bastante distinta da vertente psicológica, especialmente no que
diz respeito à não individualização dos fenômenos humanos.

Psicologia Social 21
Biografia
Serge Moscovici foi um psicólogo social romeno radicado na França. Trabalhou como director
do Laboratoire Européen de Psychologie Sociale, que ele cofundou em 1975, em Paris. O
psicólogo é autor de uma obra considerável, tão importante para a psicologia quanto para a
história e as ciências sociais. Seus trabalhos e sua Teoria das Representações Sociais (TRS)
têm influenciado, ao longo das últimas quatro décadas, pesquisadores tanto na Europa como
nas Américas, incluindo o Brasil. Outro campo de estudos inaugurado por Moscovici foi o da
influência social minoritária, cuja rápida consolidação na Psicologia Social parece se dever à
sua ampla difusão no âmbito acadêmico norte-americano.

A construção teórico-conceitual das representações sociais de


Moscovici representa uma importante crítica ao entendimento de uma
natureza exclusivamente individual, conforme o entendimento de Psicologia
Social nos EUA e na Inglaterra. De acordo com Farr (1999, p.162), “de
certa maneira, ela contém o antídoto para o processo de individualização da
psicologia social nos Estados Unidos”. O contraste entre a pesquisa sobre
representações sociais francesa e a pesquisa sobre atitudes e opiniões nos EUA
e Inglaterra é um exemplo claro das diferenças entre as vertentes sociológica
e psicológica da Psicologia Social.

Moscovici afirma que psicólogos são incapazes de construir formas


de Psicologia Social que sejam úteis para outros cientistas sociais, por
isso, “estes cientistas sociais irão criar suas próprias formas de Psicologia
Social” (FARR, 1999, p.165). Hoje, efetivamente, é possível a identificação
de várias formas de se fazer Psicologia Social que foram construídas em
outros campos do saber e das quais psicólogos(as) vêm se aproveitando para
renovação e (re)construção do campo.

A influência da produção alemã na construção da Psicologia Social


pode ser referida primordialmente à Wilhelm Wundt, considerado por muitos
como o pai da Psicologia, em especial pelo desenvolvimento de sua psicologia
experimental no laboratório de Leipzig, e que também contribuiu em muito
para o desenvolvimento da Psicologia Social. A tentativa positivista de fazer
da psicologia social nascente uma disciplina exclusivamente das ciências

22 Psicologia Social
naturais fez com que essa parte da sua obra fosse ignorada. Assim, é possível
compreender que a Psicologia Social que floresce em solo americano, em
especial durante e após a Segunda Guerra Mundial, é fundamentada sob uma
perspectiva experimentalista.

O livro-texto de Robert Farr (1999), referência para compreensão


do nascimento da Psicologia Social moderna, evidencia que essa área do
saber se constitui simultaneamente à separação da Psicologia e Sociologia
enquanto disciplinas distintas, o que faz com que a Psicologia Social
em florescimento, também se apresente de forma bastante diferenciada
conforme se aproxima de uma ou outra área. Ou seja, apresentando-se em
sua vertente psicológica – que estuda processos intraindividuais que são
responsáveis pelo modo como as pessoas respondem a estímulos sociais – e
sua vertente sociológica – que privilegia os fenômenos que emergem dos
diferentes grupos e sociedades, das interações entre os indivíduos.

Psicologia Social 23
Referências
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