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XIII International Conference on Graphics

Engineering for Arts and Design

RESSIGNIFICANDO O PROFISSIONAL LICENCIADO EM EXPRESSÃO


GRÁFICA OU POR ONDE ANDA MEU PROFESSOR DE DESENHO?
GALVÃO, Thyana Farias1

Resumo
O licenciado em expressão gráfica é o profissional capacitado ao ensino da
Geometria no ensino básico. Atualmente, os conteúdos de Geometria estão
inseridos no programa de matemática da educação básica brasileira, contudo,
estudos revelam que, apesar da contribuição da área para o desenvolvimento
do individuo, tais conteúdos não vêm sendo abordados de maneira eficaz
pelos professores de matemática. Em sentido inverso a isso, temos um curso
cuja gestão está sempre atenta às necessidades emergentes e trabalha para
que parcerias sejam realizadas entre todos os atores, por meio de um diálogo
permanente. Assim, alavancada pelos avanços tecnológicos, o processo de
ressignificação deste profissional tem sido realizado numa ação conjunta com
discentes e egressos em constante busca por aperfeiçoamento.

Palavras-chave: licenciatura em expressão gráfica; Geometria Gráfica; ensino


básico; modelagem digital; ressignificação.

Abstract
The graduate in graphic expression is the professional trained in the teaching
of geometry in basic education. Currently, the contents of geometry are
inserted in the math program of Brazilian basic education, however, studies
reveal that, despite the contribution of the area to the development of the
individual, such contents are not being approached effectively by mathematics
teachers. In the opposite direction, we have a course whose management is
always attentive to emerging needs and works for partnerships to be carried
out between all the actors, through a permanent dialogue. Thus, leveraged by
technological advances, the process of re-signification of this professional has
been carried out in a joint action with students and graduates in constant
search for improvement.

Keywords: degree in graphic expression; graphic geometry; basic education;


digital modeling; re-segnification.

1 Universidade Federal de Pernambuco, tf.galvao@gmail.com


Graphica 2019: XIII International Conference on Graphics Engineering for Arts and Design

1 Entendendo o processo de Ressignificação e sua aplicabilidade


Ressignificar é um verbo transitivo que se refere ao ato de dar um novo significado a
alguma coisa ou alguém. Ele está relacionado com o processo de ressignificação (palavra
que não se encontra reconhecida no vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de
Letras - ABL), um método da neurolinguística, muito usado na psicologia e psicanálise, que
faz com que as pessoas possam dar novos significados a acontecimentos da vida, a partir
da sua mudança de percepção do mundo.
Embora não tenha reconhecimento pela ABL, a palavra ressignificação virou lugar
comum em muitos campos do saber (arquitetura, artes visuais, cinema, design, música,
etc.) e passou a ser considerado um elemento fundamental no processo criativo, onde a
habilidade de atribuir novas importâncias a situações corriqueiras se torna útil e propicia
prazer às pessoas.
Para a área da comunicação, por exemplo, o ato de ressignificar tem significados
muito diferentes dependendo do contexto em que ele se manifesta. Normalmente, a partir
da ressignificação cultural, por exemplo, se pode atribuir novas funções e interpretações a
obras de arte, músicas, filmes, games, moda, etc.
Oliveira (2011) ao analisar versos poéticos de Carlos Drummond de Andrade (1984) e
Guimarães Rosa (1988) assume que o conceito de ressignificação surgiu cedo, mas
continua repercutindo. Segundo a autora, nas epígrafes que selecionou para análise

[...] os autores parecem falar de uma luta com a memória, daquilo que
permanece ressoando em nosso psiquismo, e do desejo de atribuir nova
significação ao já vivido [...] Marcas, signos e indícios ficam à espera de
ressignificação, o nachträglich freudiano. (OLIVEIRA, 2011, p. 127-8)

No artigo Estudos de Psicanálise, Pimenta (2014) assegura que o termo nachträglich,


embora tenha sido herdado da teoria traumática das neuroses, apareceu pela primeira vez
no relato do caso Emma, investigado por Freud, em 1895, e apresentado no capítulo
denominado Próton pseudos do livro Projeto para uma Psicologia Científica, publicado em
1950. O autor prossegue afirmando que uma cena traumática não encontra sentido em si
mesma, ou seja, ela só se torna traumática quando, transformada em representação ou
lembrança, passando a ser evocada por uma segunda cena que deve sugerir algo novo,
capaz de atribuir à primeira recordação um sentido que não lhe havia sido abonado.
Tendo em vista as contribuições que o processo de ressignificação tem levado a
diversas áreas do conhecimento e considerando que o curso de Licenciatura em Expressão
Gráfica (LEG) passou por uma reforma em seu Projeto Pedagógico (de curso), esse artigo
vem discutir a possibilidade de ressignificar a profissão deste licenciado: o antigo professor
de Geometria (desenho geométrico) que atuou no ensino básico de maneira efetiva e
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obrigatória até a implantação da Lei nº 5.692 (promulgada em 11 de agosto de 1971)


pelas escolas brasileiras.
Sabemos que a expansão do ensino superior pressupõe a melhoria da eficiência do
sistema educacional, particularmente das instituições federais, que são em princípio,
referência no sistema brasileiro. Hoje, as instituições de ensino superior estão assumindo
sua responsabilidade social, visto que estão preocupadas com a formação de profissionais
mais adequados às necessidades do mercado e, principalmente, com o papel da
Universidade na sociedade do século XXI, que requer mudança de paradigma.
A sociedade vem demonstrando a necessidade por um profissional de nível superior
que tenha uma formação mais completa e complexa, não apenas específica em sua área,
mas que respeite padrões éticos, humanísticos, culturais e sustentáveis, que possa atuar
junto a áreas afins em equipes multidisciplinares. Assim, os cursos voltados à formação do
professor necessitam formar profissionais capazes de promover a interação entre partes
de um sistema e com habilidades para gerar mudanças nas comunidades em que atuam
com a capacidade de análise crítica dos processos de transformação da sociedade.

2 O curso de Licenciatura em Expressão Gráfica


O curso de graduação em Licenciatura em Expressão Gráfica (LEG) da Universidade
Federal de Pernambuco funciona no Campus Joaquim Amazonas, situado na cidade de
Recife, e tem suas instalações físicas no Centro de Artes e Comunicação. Sua grade
curricular lhe confere um caráter singular, apesar disso, não se trata de um curso novo:
sua origem remonta ao curso de Professorado em Desenho da Universidade do Recife
(criado em maio de 1951, com matrículas iniciadas em fevereiro do ano seguinte), sediado
na Escola de Belas Artes.
Em 20 de março de 1961, o curso de Professorado em Desenho passou a se chamar
Curso de Licenciatura em Desenho e Plástica (sendo reconhecido através do Parecer
nº59/1961 do Ministério da Educação - MEC), numa tentativa de conquistar um mercado
de trabalho mais amplo, que atraísse melhores candidatos ao vestibular, absorvendo,
assim, o curso superior de Pintura e Escultura, que vinha funcionando sem o
reconhecimento do MEC, durante muitos anos, na Escola de Belas Artes.
A promulgação da Lei nº 5.692/71, do Conselho Federal de Educação, trouxe distintas
interpretações quanto à obrigatoriedade da disciplina de Desenho Geométrico no Ensino
Básico. Esta lei definiu que os conteúdos escolares fossem reunidos em núcleos comuns
(concebidos de modo diferente para cada série, a partir do tratamento metodológico que
deveriam receber), compostos por um grupo de disciplinas que, obrigatoriamente,
deveriam ser incluídas nos currículos plenos de 1º e 2º graus (atualmente ensinos
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fundamental e médio), em âmbito nacional, e uma parte diversificada, para atender às


peculiaridades e necessidades locais dos estabelecimentos de ensino.
Concomitantemente às mudanças que esta lei estabelecia para o ensino básico, o
MEC tentava a unificação dos cursos de licenciatura, no ensino superior. Criaram a
“Licenciatura em Educação Artística”, que contava com uma formação polivalente (com
duração de 2 anos) e outra, específica (com duração de mais 2 anos), contemplando as
áreas de “Música”, “Teatro”, “Artes Plásticas” e “Desenho”, resultando na desativação do
curso de “Licenciatura em Desenho e Plástica”.
Entretanto, por motivos de diversas ordens, quer no sentido de não haver uma
demanda ou por não ser possível formar ‘o professor polivalente almejado’, a partir da
década de 80, as antigas licenciaturas específicas foram restauradas. Dessa forma, em
1983, a UFPE reativou o curso de Licenciatura em Desenho e Plástica (LDP). Até ser
alterado para LEG o curso de LDP passou por duas reformas em seu perfil curricular: em
1993 (válido para ingressantes do primeiro semestre de 1994) e em 2000 (válido para
ingressantes do primeiro semestre de 2001). Em 2006, considerando a necessidade de
adequação curricular dos Cursos de Licenciatura às Resoluções do Conselho Nacional de
Educação aprovadas em 2002, 2004 e 2005, que instituíram e disciplinam as Diretrizes
Curriculares Nacionais para Formação de Professores da Educação Básica em nível
superior, a UFPE aprovou uma resolução interna que tratava de procedimentos relativos à
reforma curricular integral e parcial de todos os cursos de licenciatura da instituição, e,
atendia às recomendações do Fórum das Licenciaturas da UFPE relativas às estruturas
curriculares desses Cursos, contemplando o contexto institucional e social contemporâneo.
Esta adequação curricular demorou quatro anos para ser implantada: foram muitas
reuniões de colegiado até que se chegou a um denominador comum. A reflexão sobre a
formação do profissional que o curso deveria formar perpassou necessariamente pelo
Projeto Pedagógico e abrangeu não apenas questões científicas. Diante disso, e também,
devido as constantes e profundas transformações sociais, o Colegiado (do curso) entendeu
que havia a necessidade de reformular a estrutura curricular do Curso de Licenciatura em
Desenho e Plástica. Devido à profundidade das mudanças, o Colegiado iniciou o processo
de extinção da LDP e, simultaneamente, a implantação da LEG. Assim, após um
procedimento iniciado em 2006, entrou em vigor no primeiro semestre do ano de 2010, o
Curso de Licenciatura em Expressão Gráfica, cujo perfil do profissional licenciado era mais
voltado para a Geometria Gráfica e suas aplicações e, portanto, mais adaptado à realidade
e demandas vigentes naquele período: posterior à Resolução CNE/CEB nº 1, de 3 de
fevereiro de 2005, que instituiu a inclusão do Ensino Técnico à Educação Básica. Assim, o
ensino médio integrado definido como “Educação Profissional de nível técnico” passou a
ser denominado de “Educação Profissional Técnica de nível médio”, representando um
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promissor e importante campo de trabalho para os licenciados em Expressão Gráfica, ou


seja, a formação na LEG seria apropriada aos interessados em integrar o quadro de
docentes das Escolas Técnicas Estaduais (ETE’s) e dos Institutos Federais de Educação,
Ciência e Tecnologia (IF’s).
No primeiro semestre de 2013, visando atender o mercado de trabalho representado
pelo Ensino Técnico, teve início um novo perfil curricular (em vigor até 2019) que buscou
aprimorar e flexibilizar a identidade do curso de LEG, permitindo, por parte do aluno, a
escolha entre cinco eixos de aprofundamento: (1) Artes Visuais; (2): Arquitetura; (3) Design;
(4) Engenharias, e (5) Tecnologias Computacionais.
Desde então, especificamente, tanto o Colegiado do Curso como o Núcleo Docente
Estruturante (NDE) vem discutindo sobre o perfil do profissional que devemos formar.
Entendemos que a formação de um professor é uma responsabilidade dupla, por um lado
temos a preocupação com o aprendizado do conteúdo específico da área da Expressão
Gráfica e, por outro lado, há a preocupação com a formação de um docente, a qual deve
estar, invariavelmente, associada a um caráter humanístico, com responsabilidade social e
ética na postura profissional, especialmente porque esse profissional trabalhará no Ensino
Básico, isto é, com crianças, adolescentes e jovens adultos.
Tendo como foco específico a Geometria Gráfica e as suas aplicações, o perfil em vigor
na LEG até o ano corrente visa caracterizar um licenciado com atributos mais flexíveis e
adaptado ao contexto da sociedade. A Geometria Gráfica, aliás, é o fio condutor que dá
suporte ao aluno durante todo curso. A mesma Geometria que, no decorrer da sua história,
passou por diversas crises tanto em seus fundamentos como no modo da sociedade
enxergá-la e estudá-la. Sabemos que entender esses acontecimentos do passado é uma
maneira de compreender os problemas no presente e de buscar soluções para os mesmos,
ou seja, ter essa compreensão faz parte do processo de ressignificação do profissional que
ensina(va) desenho.

3 Por que estudar Geometria?


É comum os alunos iniciantes da graduação em Licenciatura em Expressão Gráfica (LEG)
questionarem: “porque o curso está fisicamente instalado no Centro de Artes e
Comunicação (CAC) da UFPE, uma vez que é a Geometria (um conhecimento dito de
ciências exatas) que norteia todo o curso?”. Esse questionamento, a princípio, tão simples
perpassa por discussões complexas que trazem consigo a compreensão do referencial
teórico do curso, ou seja, o corpo articulado de conceitos de diferentes níveis de abstração
(pressupostos gerais, conceitos específicos, etc.) que orientaram a concepção da LEG
(2010) e vêm norteando as reformas curriculares que o Núcleo Docente Estruturante (NDE)
do curso tem proposto numa ação coletiva com egressos.
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Apesar da Lei nº 5.692, de 11 de agosto de 1971, estar diretamente ligada à


depreciação do estudo da Geometria Gráfica (desenho, desenho geométrico) no ensino
básico brasileiro, essa desvalorização não é fruto exclusivo dessa lei. A importância do
estudo da Geometria para formação humana não vem sendo apresentada amplamente, de
maneira a mostrar sua importância nas diversas áreas do conhecimento tanto científico
como social.
O estudo da Geometria Gráfica desenvolve habilidades relacionadas à inteligência
espacial como: coordenação visual motora, memória visual, descriminação visual,
percepção da posição no espaço, entre outras (FROSTIG e HORNE, 1964; HOFFER, 1977;
FOSTIG, HORNE e MILLER, 1980; GARDNER, 1994). Segundo a psicologia (PIAGET, 1967),
uma vez que o conteúdo de desenho geométrico não é ensinado ou trabalhado com
crianças na faixa etária de 7 a 12 anos, elas estão perdendo um momento cognitivo
propício para tal aprendizado. Contudo, essas habilidades podem ser desenvolvidas
tardiamente, no entanto, corre-se o risco de nunca serem desenvolvidas completamente.
Vivemos em uma sociedade de um excesso de imagens, informações, ou seja, vivemos
hiperatentos. Para Byung-Chul Han (2017, p.33), a hiperatenção é “essa atenção dispersa
que se caracteriza por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes
informativas e processos”. Na verdade, nosso olhar está habituado a esse excesso e não
consegue mais parar e contemplar. Não se tem mais uma atenção profunda, porque a
sociedade tem conduzido o indivíduo a fazer milhares de coisas ao mesmo tempo e, com
isso, temos o olhar superficial, pois nossa atenção é dividida entre diversas demandas.
Desta feita, asseguro que o “Aprender a Ver” tem se tornado cada dia mais importante no
mundo contemporâneo, não só para a disciplina de Geometria, mas para grande parte das
nossas atividades cotidianas.
Na construção do pensamento geométrico, o olhar tem um papel importante que era
atribuído, anteriormente, apenas a caracterização da Geometria das formas. Uma questão
importante na aprendizagem da Geometria, em particular nas primeiras séries do ensino
fundamental, é como fazer a passagem desse olhar, que reconhece e diferencia formas,
para a identificação dessas formas (TEIXEIRA, 2008).
Pesquisas sobre a aprendizagem de Geometria no ensino fundamental (KALEFF, 1994;
LORENZATO, 1995; PAVANELLO, 1993; PEREZ, 1995) observaram a deficiência na
aplicação dos conteúdos de Geometria Gráfica. Nessas pesquisas foram apontados
diversos motivos para explicar tal carência, como por exemplo: a escassez de material
didático, a desobrigação do ensino e a falta de professores qualificados. A teoria dos níveis
do pensamento geométrico, de autoria dos educadores holandeses Pierre M. Van Hiele e
Dina Van Hiele Geoldof (casal Van Hiele), foi muito significativa para estas pesquisas, pois
descreve os processos de pensamento usados no contexto geométrico.
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Para o casal Van Hiele (1984), o espaço destinado aos conteúdos de Geometria nas
matérias de Matemática e Artes não supre o tempo nem a profundidade dos conteúdos
necessários aos alunos para o desenvolvimento de um pensamento geométrico.
Consequentemente, esses estudantes chegam ao ensino superior com habilidades em um
nível inferior ao esperado.
Atualmente, dentro da disciplina de Matemática, as escolas trabalham a geometria por
meio de dedução das fórmulas e resolução de exercícios, o que resulta num trabalho muito
mecânico. Com isso os alunos se confundem na realização das atividades e não
compreendem os conteúdos e conceitos da mesma. Pelo fato de apresentar uma
quantidade de fórmulas, os alunos não conseguem visualizar os objetos e nem fazer
relação com os que estão ao seu redor.
No caso dos conteúdos de Geometria nas disciplinas de Artes, os dilemas são
diferentes: não há uma evolução tão gradual e contínua de assuntos, pois a disciplina
precisa suprir outras áreas de conhecimento além de artes plásticas, como teatro, música,
dança.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) destacam a importância desse ramo da
matemática que também serve de instrumento para outras áreas do conhecimento. O
aluno desenvolve um tipo especial de pensamento que lhe permite compreender,
descrever e representar, de forma organizada, o mundo em que vive.

[...] O trabalho com noções geométricas contribui para a aprendizagem


de números e medidas, pois estimula a criança a observar, perceber
semelhanças e diferenças, identificar regularidades e vice-versa. Além
disso, se esse trabalho for feito a partir da exploração dos objetos do
mundo físico, de obras de arte, pinturas, desenhos, esculturas e
artesanato, ele permitirá ao aluno estabelecer conexões entre a
Matemática e outras áreas do conhecimento (BRASIL, 1997, p. 39).

Essa situação representa uma perda da possibilidade do aprendizado de habilidades


importantes e necessárias não apenas para o estudo da Geometria e das áreas do saber
que se utilizam desse conhecimento – como é o caso das áreas das Engenharias, da
Arquitetura, da Expressão Gráfica, do Design e da Comunicação Visual – como também
para a vida cotidiana, ao propiciar para o indivíduo o desenvolvimento de habilidades de
percepção espacial, por exemplo, saber se localizar num espaço conhecido ou não, ler
mapas, interpretar e comparar imagens, ter noções de distância e de proporção,
desenvolver coordenação visual-motora, entre outras. Nacarato e Passos (2003, p. 29)
apontam que “é cada vez mais indispensável que as pessoas desenvolvam a capacidade
de observar o espaço tridimensional e de elaborar modos de comunicar-se a respeito dele,
pois a imagem é um instrumento de informação essencial no mundo moderno”.
Além disso, dependendo de como são trabalhados os conceitos geométricos, existem
muitas possibilidades para o aluno explorar, representar, construir, discutir, investigar,
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perceber, descobrir e descrever propriedades, o que é fundamental no processo de ensino


e de aprendizagem da matemática. Assim, a Geometria pode contribuir para o
desenvolvimento da capacidade de abstrair e generalizar.
Na pesquisa “Os por quês matemáticos dos alunos e as respostas dos professores”,
Lorenzato (1993) submeteu 255 professores, com mais de 10 anos de experiência no
ensino fundamental (anos iniciais), a oito questões (propostas por alunos) referentes à
Geometria plana euclidiana. Nenhuma questão teve acerto: foram 2040 respostas erradas.
Do total de professores consultados, apenas 8% admitiu que tentava lecionar conteúdos
de Geometria aos alunos. Lorenzato (1993) conclui a pesquisa afirmando que o professor
que não conhece Geometria também não conhece o poder, a beleza e a importância que
ela possui para a formação do futuro cidadão, logo, para esses professores, o dilema é
tentar ensinar Geometria sem conhecê-la ou então não ensiná-la.
Considerando as exposições ao longo desta seção, afirmamos que estar fisicamente
inseridos no Centro de Artes e Comunicação não nos coloca como um curso de artes, mas
nos remete a sermos um curso que trabalha a linguagem gráfica conferida pela ciência da
Geometria, ou seja, o curso da LEG está no CAC por ser comunicação. Nesse sentido Luz
em seu artigo diz:

O Desenho como ciência que integra os conhecimentos é um dos apoios


filosóficos e epistemológicos que pode contribuir decisivamente na
formação humana, levá-lo para a sala de aula, integrando conhecimento
estar-se-á resgatando o pensamento crítico dos educandos do ensino
médio e fundamental. Quando se pensa criticamente, consegue-se
resolver problemas em qualquer área. Não existem limites para o
pensamento. Um exemplo disso foram os primeiros temas ecológicos
desenvolvidos por Hipócrates e Aristóteles, ambos considerados grandes
geômetras, filósofos e pensadores. (LUZ, 2005, p. 23).

4 Ressignificando o profissional Licenciado em Expressão Gráfica


No artigo “Por que não ensinar Geometria?”, ao dissertar acerca da Omissão Geométrica,
Lorenzato (1995) descreve algumas causas para a situação caótica do ensino da
Geometria no Brasil:

Uma delas é o currículo (entendido diminutamente como conjunto de


disciplinas): nos nossos cursos de formação de professores, que
possibilitam ao seu término o ensino da Matemática ou Didática da
Matemática (Licenciatura em Ciências, em Matemática, em Pedagogia e
Formação para o Magistério), a Geometria possui uma fragilíssima
posição, quando consta. Ora, como ninguém pode ensinar bem aquilo
que não conhece, está aí mais uma razão para o atual esquecimento
geométrico (LORENZATO, 1995, p. 4).

Notem que o artigo tem mais de vinte anos e continua atual, pois, atualmente, com
exceção da Licenciatura em Expressão Gráfica (UFPE) e da Licenciatura em Desenho
(UFRJ), os cursos de formação de professores que habilitam o profissional ao ensino da
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Geometria para o ensino básico são: Pedagogia (educação infantil e anos iniciais do
fundamental), Licenciatura em Matemática (ensino fundamental e médio), Licenciatura em
Ciências da Natureza e Matemática (ensino fundamental e/ou médio, a depender da
habilitação específica escolhida). Entretanto, salvo raras exceções, a Geometria não tem
existido na educação básica como disciplina específica. Seu conteúdo vem sendo diluído
na disciplina de matemática e, infelizmente, o cenário não mudou desde a pesquisa
realizada por Lorenzato, em 1993.
Justamente por não haver a obrigatoriedade da disciplina de Geometria ou Desenho
Geométrico na educação básica brasileira, se faz necessário o processo de Ressignificação
do profissional Licenciado em Expressão Gráfica. Outros fatores que contribuem para a
realização deste processo são: a velocidade dos avanços tecnológicos e a compreensão
das necessidades emergentes.
Em relação aos avanços tecnológicos, muitas oportunidades têm surgido: por exemplo,
sabe-se que o desenho (representação gráfica manual) sempre foi o principal suporte da
linguagem gráfica, contudo, atualmente, esse suporte também ocorre através da
representação digital com a utilização de softwares gráficos. Cada vez mais, as tecnologias
da informação e comunicação têm interferido positivamente na área da representação
gráfica e, as ferramentas de modelagem têm possibilitado métodos mais integrados entre
as diferentes áreas responsáveis pelo processo de representação digital.
O novo perfil curricular da LEG apresentado no Projeto Pedagógico do Curso (versão
2019) foi estruturado pelo NDE que pautou suas discussões em consonância aos preceitos
da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96, de 20 de dezembro
de 1996), da Resolução nº 02 de 1º de Junho de 2015 do Conselho Nacional de Educação
e da Nova Base Comum Curricular (BNCC/MEC, 2017). Sem esquecer a Lei nº
13.005/2014 (PNE 2014-2024) que define a integralização de, no mínimo, dez por cento
do total de créditos curriculares exigidos nos cursos de graduação, através de programas e
projetos de Extensão em áreas de pertinência social. Este perfil conta com disciplinas
específicas mais arrojadas e pautadas com base nas tendências tecnológicas da
atualidade. É bem verdade que a produção de artefatos no curso da LEG vem passando
por mudanças desde o perfil curricular anterior (vigente até 2019), com a popularização de
tecnologias como o corte a laser e a impressão 3D. Sobre os métodos de produção, Celani
e Pupo (2008) afirmam que os antigos destinavam-se a fabricação em massa de cópias
idênticas de um mesmo produto, diferentemente dos novos, baseados em modelos
digitais, capazes de manufaturar grande quantidade de formas diferentes. Em seu trabalho
de conclusão de curso, Silva (2019) apresenta dois desses novos métodos de produção
utilizados no Grea3D (Grupo de Experimentos em Artefatos 3D), o Laboratório de
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prototipagem rápida e fabricação digital, equipado com quatro impressoras 3D, seis
computadores e uma cortadora a laser que faz parte da estrutura física da LEG.

Figura 1 – Laboratório Grea3D

Fonte: GALVÃO, Thyana Farias Galvão et al. Projeto pedagógico do curso de Licenciatura em
Expressão Gráfica, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2019.

Figura 2 – Trabalho desenvolvido por alunos da LEG utilizando a cortadora a laser

Fonte: Disciplinas de Expressão Gráfica utilizam abordagem multidisciplinar e prototipagem rápida


(Disponível em: http://grea3d.expressaografica.pro.br/noticias/)

No tocante à compreensão das necessidades emergentes, podemos afirmar que os


fundamentos teóricos e metodológicos do ensino ativo e inovador (empatia, engajamento,
criatividade e microaprendizagem; prototipagem e cultura maker; aprendizagem baseada
em projetos e problemas; mobile learning; realidade aumentada e virtual; etc.), bem como
princípios norteadores do Atendimento Educacional Especializado (AEE.) guiaram a reforma
pedagógica proposta na nova edição do PPC do curso. O AEE é um serviço da educação
especial que identifica, elabora, e organiza recursos pedagógicos e de acessibilidade, que
eliminem as barreiras para a plena participação dos alunos, considerando suas
necessidades específicas (BRASIL, 2008).
Num país tão controverso quanto o Brasil, trabalhar a ressignificação de um
profissional da docência é uma ação prioritária que precisa ultrapassar os limites da
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universidade, ou seja, é necessário que as atividades desenvolvidas na LEG cheguem até a


sociedade. A falta dessa divulgação, inclusive, tem sido algo negativo aos profissionais
formados no curso, que perdem oportunidades interessantes, como, por exemplo, não
conseguirem concorrer em editais de concursos públicos voltados para profissionais com
qualidades inovadoras, pois a LEG, raramente, aparece nestes editais.

5 Algumas considerações acerca da formação de professores


O processo educacional deve ser continuamente revisto para se adequar à necessidade de
formação de cidadãos aptos a entender e intervir na realidade socioeconômica do seu
tempo e do local em que vive. A universidade precisa rever suas estruturas visando formar
profissionais adaptados às necessidades do momento atual e do que se espera no futuro.
A graduação já não é mais um fim. A educação é continuada e o maior valor de cada etapa
está em preparar um profissional com qualidade e apto a aprender cada vez mais.
A contribuição para a melhoria permanente da qualidade de vida da sociedade é
função da universidade enquanto espaço apropriado ao pensar e produzir conhecimento.
Com isso, ela forma profissionais que devem atuar em prol do atendimento das diversas
demandas que surgem diariamente, no estabelecimento de seus deveres e em respeito
aos direitos de todos. Entre esses profissionais que as universidades formam estão os
professores de todas as áreas do conhecimento, os quais participarão da educação das
futuras gerações. Esses profissionais terão a responsabilidade de auxiliar a formar
cidadãos mais conscientes de seu papel como agentes da (re)construção das relações
sociais. Para tanto, é imprescindível que a formação desses futuros docentes os garanta a
construção do conhecimento a partir da produção do pensamento crítico-reflexivo, pois só
assim estes futuros professores poderão vivenciar adequadamente sua atividade
profissional, de modo a contribuir para a concretização de uma sociedade mais
democrática, tolerante e justa.

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