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EU, TÁSSIA REIS E BACO EXU DO BLUES: NA ENCRUZILHADA DOS

AFETOS E DA REEXISTÊNCIA

Glauce Souza Santos1

Resumo: Neste ensaio apresento reflexões sobre as produções dos rapperes Tássia Reis
e Baco Exu do Blues. Faço comentários interpretativos e reflexivos sobre as canções
Desapegada e Semana vem do álbum Outra esfera lançado em 2016, de Tássia Reis.
Assim, discuto sobre a sua identidade, com o intuito de pensar as questões de afeto e
resistência da mulher negra. Depois, pensando a partir da noção de encruzilhada como
operadora de linguagens e de discursos, como propõe Leda Martins (2002), discutirei os
sentidos plurais na obra de Tássia Reis e Baco Exu do Blues e farei um cruzamento
entre as formas como a rapper apresenta em seus versos algumas críticas à construção
dos afetos masculinos, apontando, concomitantemente, algumas das fragilidades dos
homens e como Baco, responde a uma subjetividade masculina contrária à da
superioridade e da força em suas canções Flamingos e Me desculpa Jay Z do álbum
Blusmean, lançado em 2018. Minhas reflexões estarão conectadas com pensadores
como Henrique Freitas (2013), Ana Lúcia Silva Souza (2011), Beatriz Nascimento
(2006), bell hooks (2010), Daniel dos Santos (2017), Leda Martins (2002), Muniz Sodré
(2017), Osmundo Pinho (2005) e (2014), Stuart Hall (2013), Sueli Carneiro (2003) e
Ta-Nehisi Coates (2015).

Palavras-chave: Tássia Reis, Baco Exu do Blues, rap, afeto, reexistência.

I. Sobrevivi

Aprender com os nossos ancestrais é um dos mais belos gestos cultivados pela
cultura africana. Inicio este ensaio observando o ensinamento de uma mais velha, Mãe
Stella de Oxóssi2 que diz: “Nas encruzilhadas da vida busque seu centro e encontre a
saída”. O seu provérbio, gerador de vida, saúde e encontros, muito me comunica, me
fazendo frutificar e crescer, como diz a letra do grupo baiano Opanijé3. Outros versos
que muito tem me comunicado nascem no rap. Alguns apresentarei neste ensaio e
contarei como com eles aprendi a buscar o centro e a encontrar saídas em uma
determinada encruzilhada da minha vida. Essas letras me apontam caminhos de cura
para dores emocionais.

1
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura – Instituto de Letras (UFBA).
Mestra em Literatura e Cultura pelo mesmo programa.. E-mail: glaucesouzasantos@yahoo.com.br
2
Escritora, nascida em Salvador no dia 2 de maio de 1925. Foi a quinta Iyalorixá do Ilê Axé Opó
Afonjá, situado na capital baiana. Faleceu recentemente, no dia 27 de dezembro de 2018.
3
“[...] a encruzilhada é sua morada. Aquele que comunica, frutifica e faz crescer.”
Já estive diante de diversas situações em que a masculinidade tóxica dos homens
heterossexuais se revelou de forma muito intensa para mim. Mas quero revelar o que
aconteceu em outubro de 2016. Era o início de um namoro com um homem negro, o
primeiro em quem tinha percebido um discurso sincero e mais distante da dominação, o
qual parecia não pretender colocar em risco a minha autoestima. Senti-me feliz e
animada com a possibilidade de estabelecer tal relação, cujos laços de dominação
pudessem ser afrouxados. O discurso desse homem contra o machismo me
impressionou, até que um dia, sem coragem de afirmar com sinceridade que não
desejava mais estar envolvido comigo, começou a fugir e a se esconder, usando
escapatórias mentirosas e desnecessárias. Percebi que todas essas escapatórias
apresentadas por ele eram apenas repetições do que eu já havia vivenciado e
presenciado em outras relações. Todas as suas atitudes o tornava previsível demais.
Mesmo percebendo as fragilidades dele, essa situação foi capaz de abalar a minha
autoestima, de tal modo que comecei a me considerar desinteressante e transferi para
mim a culpa de não ter conseguido manter a relação com ele, duvidando da minha
capacidade de amar. Nesta encruzilhada, foram alguns raps que me fizeram frutificar e
crescer.
Encontrei algumas canções que, ao mesmo tempo, me levaram a um encontro
comigo. Uma irmã cuidadosa, ao saber da minha deprimente experiência, e ao ver-me
perplexa com tal situação, me recomendou ouvir o álbum Outra esfera (2016) de Tássia
Reis, mulher negra, rapper paulista, de Jacareí, e que traz tatuado no peito os versos
“Todo amor/Todo poder/Toda glória/Toda ternura”. A recomendação, certamente, foi
feita na tentativa de que eu pudesse encontrar algumas respostas, as quais me
conduziriam à criação de mecanismos de sobrevivências diante das experiências
afetivas e das minhas subjetividades enquanto mulher negra.
Desse álbum, as canções Desapegada e Semana vem foram as mais potentes, no
sentido de me fazerem entender a situação vivida e me ajudar a traçar os caminhos que
precisava, como, por exemplo, passar a compreender as tensões e os frutos maléficos da
estrutura machista em que vivemos e identificar as roupagens sexistas veladas em
diversas situações. Dois anos depois, após sobreviver à deprimente experiência afetiva,
conheci o trabalho de Baco Exu do Blues. O encontro com as canções Flamingos e Me
desculpa Jay Z do álbum “Bluesman” (2018) do rapper baiano, também tem me
comunicado, neste caso, sobre uma subjetividade masculina − contrária à da
superioridade, da força e da auto estima − cuja potência deve ser considerada, a fim de
estabelecer relações heteroafetivas não opressoras. Dessa forma, meu questionamento
diante das produções de Tássia e Baco são as seguintes: trata-se de poéticas negro-
feminista e de poéticas da inversão da supermasculinidade, respectivamente?

II. Ser independente é só o início4

Não é minha pretensão apresentar, exaustivamente, conceitos ou noções sobre o


movimento Hip-Hop e sobre o rap, pois muitos estudiosos já deram essa contribuição.
Por isso, selecionei apenas dois nomes importantes e apenas duas noções bases para
dialogar com o que estou refletindo. O primeiro é o de Ana Lúcia Silva Souza que,
dentre outros ensinamentos, nos apresenta o Hip-Hop como “[...] um espaço de práticas
que, sem ser fixo ou suficientemente institucionalizado, engendra possibilidades de usos
da linguagem em práticas letradas.” (SOUZA 2011, p. 82) e seus ativistas, mostram-se
agentes ao criar condições alternativas e ao formar outras pessoas por meio das
vivências que realizam. Nessas vivências colocam em foco as concepções de aprender e
de ensinar próprias o que a autora denomina letramentos de reexistência.
O segundo intelectual referência nessa discussão é José Henrique Freitas que
localiza o rap como “[...] um produto das tecnologias de leitura-escrita diaspóricas do
Atlântico Negro” (FREITAS 2016, p. 163), possibilitando uma pedagogia que sustenta
uma aprendizagem vinculada ao empoderamento5.
Considero importante destacar essas noções, tendo em vista que se aproximam
significativamente da ideia de movimento cultural e político de desenvolvimento de
práticas de autoafirmação. Ademais, essas noções são rentáveis para quem está disposto,
assim como eu, a analisar os versos e as narrativas do rap.

4
Verso da canção Desapegada.
5
Gosto de pensar o empoderamento pelo viés do desenvolvimento coletivo de estratégias que iluminem
o caminho rumo ao poder econômico e político e como: “[...] uma movimentação interna de tomada de
consciência ou do despertar de diversas potencialidades [...]” (BERTH 2018, p.17) como aponta Joice
Berth no livro O que é empoderamento? (2018). Além disso pontua que essa noção está além do
construto psicológico tradicional, não tem a ver com auto-estima, auto-eficácia, competência, auto-
controle, como normalmente, está associado.
Muitas rappers, como Preta Rara, Nega Fyah, Áurea Semiséria, Mirapotira e
Cintia Savoli e Eva Rap Diva, como também grupos femininos de rappers, a exemplo de
Rimas e Melodias e Psicopretas, tem desenvolvido práticas de autoafirmação e
reexistência da mulher negra através das narrativas apresentadas em suas letras de rap,
fazendo de suas produções um espaço de formação e de expressão da subjetividade e
das identidades. Tássia Reis está entre essas artistas, e tem investido em um discurso
mobilizador da liberdade em prol do afeto e da resistência. No contexto daquela minha
experiência, todas as vezes em que ouvia a sua canção cujo título Desapegada −
adjetiva o comportamento de uma mulher envolvida em um determinado
relacionamento – um sentimento de liberdade era potencializado em mim. Sentia-me
exatamente como propõe a metáfora do seu primeiro verso: “uma folha solta/com
rumo”. Liberdade e autonomia são as expressões mais potentes dessa voz poética. Além
de narrar o comportamento de uma mulher que lida com certa liberdade, os versos
figuram uma mulher criativa, capaz de inventar – aquilo que eu também buscava - um
jeito novo de viver:

Tão solta quanto o vento indica / Voando por onde se quer e vai
querer / Ninguém manda na sua vida / Ela criou um jeito novo de
viver. (TÁSSIA REIS 2016, faixa 3)

No livro Vozes Transcendentes: os novos gêneros na música brasileira (2018),


Tássia Reis conta que fez o refrão: “tão solta quanto o vento indica” em um momento
no qual ela se conectou com a questão de Oyá, orixá que a acompanha. A imagem do
movimento presente na letra da canção sinaliza essa relação com a deusa Yorubá dos
ventos e das tempestades. Para ela, Outra esfera é a presença negra em sua vida.
Em outro trecho dessa canção, a voz poética feminina se autodeclara desapegada
e desiludida, reclamando a falta de esforço, por parte da pessoa com quem se relaciona,
para demonstração do sentimento:

É foda, mas sem maldade, dizer que está com saudade? / Mas nem faz
um corre pra colar aqui / Eu volto pra minha realidade, desapegada e
desiludida / Desde que sai lá de Jacareí. (TÁSSIA REIS 2016, faixa 3)
A imagem de mulher empoderada presente na canção de Tássia Reis vincula-se
à imagem de uma mulher que cria mecanismos de autoproteção, ainda que a sombra da
solidão represente algum tipo de ameaça, como aparece no verso a seguir: Eu aprendi a
me virar pra não me machucar / Por mais que eu tema a solidão (TÁSSIA REIS 2016,
faixa 3).
Os versos “[...] aprendi a me virar pra não me machucar” aponta, na narrativa da
canção, o aprendizado ocorrido, com a finalidade de evitar situações capazes de
promover prejuízos afetivos. Lembro-me de uma sensação de segurança que
experimentei ao ouvir pela primeira vez esse verso. As imagens de autoproteção e de
agenciamento despontaram para mim como alternativas para enfrentar as dominações.
A questão da solidão que aparece na canção, me faz recordar o ensaio A mulher
negra e o amor (1990), no qual Beatriz Nascimento aponta sobre a limitação do trânsito
afetivo das mulheres negras, sinalizando duas opções para nós: ou permanecemos
solitárias, ou nos ligamos a alternativas onde os laços de dominação podem ser
afrouxados. De modo geral, a canção de Tássia Reis parece investir nesse limiar,
apostando na segunda alternativa, de modo que é possível perceber certo investimento
na construção de um relacionamento, no qual a proposta de dominação unilateral seja
combatida. Essa reflexão racial que proponho se justifica porque sou uma mulher negra,
escrevendo sobre outra mulher negra, cujo trabalho artístico não deixa de fora o quesito
racial.
Tenho a consciência de que escolher uma experiência amorosa como mote para
iniciar este ensaio pode gerar certo estranhamento, ainda mais porque, historicamente, é
a condição sexual e não amorosa que se conecta com o estado de ser mulher preta no
Brasil, como aponta Beatriz Nascimento (1990). Num gesto de resistência, insistirei
nesta reflexão a partir da experiência do amor, considerando o impacto da escravidão
para a manifestação da nossa afetividade e do ato de amar. Com essa consciência, e
considerando a repercussão nas relações com o outro sexo e a profunda desvantagem
em que se encontra a maioria da população feminina, como aponta Nascimento (1990),
sempre quando estou envolvida sentimentalmente com um homem negro, e vivencio
alguma situação opressiva, é inevitável não questionar: e se eu fosse uma mulher
branca, ele agiria assim?
Ainda, na esteira do enfrentamento da dominação unilateral, a canção
Desapegada é finalizada com um discurso que aponta a busca por um lugar em que
possa ocorrer a substituição da lógica herdada do contexto escravocrata pela lógica da
liberdade, como pode ser observado nos próximos versos: Vou, sem medo de errar /
Procuro um lugar / Que me seja leito e não prisão. (TÁSSIA REIS 2016, faixa 3)
Na canção, há um movimento autônomo, mesmo diante da possibilidade do erro,
em busca de um lugar onde haja a possibilidade de experimentar outra vivência afetiva.
A imagem do leito como metáfora desse lugar revela que os desejos para essa vivência é
de conforto, tranquilidade, calmaria e liberdade. Trazer a imagem do leito resignificada
é de grande importância, tendo em vista que esse lugar fora para muitas mulheres,
durante o Brasil Colônia, um lugar de violência sexual.
Por isso, julgo necessário considerar o texto Vivendo de Amor de bell hooks.
Esse texto foi fundamental para que eu entendesse os meus trânsitos afetivos e,
consequentemente, problematizasse a pouca ou nenhuma presença do amor em minha
vida. Nele, hooks fala sobre as difíceis condições criadas pelo sistema escravocrata e
pelas divisões raciais para que os negros nutrissem seu crescimento espiritual. A
intelectual aponta que precisamos reconhecer que a opressão e a exploração distorcem e
impedem nossa capacidade de amar. hooks acredita que isso não deveria nos
surpreender, pois, a história dos nossos ancestrais está marcada por uma série de
traumas como filhos vendidos, amantes, companheiros e amigos apanhando sem razão,
separações de famílias e comunidades. Logo, é evidente que não poderíamos ter saído
desse contexto entendendo sobre o amor, diz ela. Na obra Um defeito de cor (2017) a
narrativa do estupro sofrido por Kehinde 6, na presença do homem a quem amava,
estando ele preso e com o órgão genital amputado pelo seu dono, evidencia que esse
tipo de trauma foi uma realidade no Brasil Colônia. Sueli Carneiro em seu artigo
intitulado Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a
partir de uma perspectiva de gênero (2011) caracteriza essa violência sexual colonial
como o “cimento” de todas as hierarquias de gênero e raça presentes em nossas
sociedades. Toda essa violação cometida historicamente pelos brancos contra as
mulheres negras e indígenas, explica a vivência afetivo-sexual das mulheres negras até
os dias de hoje .

6
Africana escravizada no Brasil.
Diante desse contexto, é preciso experimentar o amor como alternativa de
alteração das estruturas sociais que nos limitam, pois, segundo hooks, “[...] quando nós,
mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossas vidas,
assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes.”
(HOOKS 2010, sem paginação). Beatriz Nascimento (1990) aponta que já fazemos isso,
quando desmistificamos o conceito de amor, transformando este em dinamizador
cultural e social (envolvimento na atividade política, por exemplo) e buscando mais
paridade entre os sexos do que a “igualdade iluminista”. Segundo Nascimento (1990),
dessa forma, acabamos rejeitando esses outros, homens, masculinos, machos e já não
aceitamos uma proposta de dominação unilateral. É nessa perspectiva que os últimos
versos da canção Desapegada vinculam-se ao discurso e prática de liberdade, tão
necessários para se alcançar uma relação saudável.

III. Meter o loko igual você faz

O título que utilizo aqui nesta parte, verso da canção Semana vem de Tássia
Reis, passou a martelar em minha mente como uma solução viável para a minha
deprimente experiência com a tal masculinidade tóxica relatada no início deste ensaio.
Com essa experiência, percebi que o relacionamento amoroso é um dos
territórios onde muitos homens – cada um ao seu modo, revelando a sua masculinidade
– repetem as normatividades masculinas e seus modelos sexuais, aprendidos em espaços
de sociabilidade nos quais a virilidade deve ser exercitada. Dessa forma, ao repetir essas
normatividades e modelos, empreendem uma verdadeira guerra contra as suas
afetividades. Daniel dos Santos (2017) trata sobre isso em sua dissertação de mestrado
intitulada Como Fabricar um Gangsta: Masculinidades Negras nos Videoclipes dos
Rappers Jay-Z e 50 Cent (2017). Na Parte I da dissertação, no texto Espaços e
territórios de masculinização gangsta, o pesquisador cita Welzer-Lang (2001) para
explicar que o mimetismo dos homens é um mimetismo de violências que tanto os
prejudicam quanto prejudica os outros.
Esses mimetismos, os quais eu chamo de previsibilidades, bastante recorrentes
em relações amorosas heterossexuais, solidificadas numa masculinidade tóxica, são
narrados por Tássia Reis em sua canção Semana vem (2016). Enquanto nos versos da
primeira canção que analisei é possível perceber um potente investimento em um
discurso de liberdade, os primeiros quatro versos contextualizam uma rotina afetiva
cíclica de manipulação, prisão e virilidade.

Semana vem, semana vai / Quando penso em sair, você me diz: Não
sai / Me diz sem me dizer, me manipula e atrai / Eu estou presa a ti,
você é eficaz (TÁSSIA REIS 2016, faixa 4)

No sexto verso da mesma canção temos a narrativa de uma relação não muito
estável. Há uma voz poética feminina que expressa sofrimento com o sumiço do
homem: “[...] Vai, some, como uma dor que me consome” e ao mesmo tempo denuncia
a existência de mais uma relação alimentada pelo homem. O sétimo verso “Cê já tem
outra engatilhada no seu nome” evidencia na narrativa a possibilidade de mais um
envolvimento amoroso prestes a acontecer. Essa objetividade sinaliza um status de
segurança, mas que logo é ameaçado com a presença de outro homem: “[...] pois
quando sente que eu tenho outro rapaz /você aparece/ me distrai.”
Os próximos versos a serem abordados sinalizam uma consciência e uma postura
assumida como alternativa diante deste contexto de masculinidade tóxica, tão
prejudicial às relações. Agir da mesma forma que o homem age é a solução apresentada
por Tássia como forma de superar os efeitos dos gestos machistas. Por isso ameaça,
dizendo que vai meter o “loko”: “Meter o loko igual você faz, meter o loko igual você
faz”.
Citei a dissertação de Daniel dos Santos porque a imagem masculina que
consigo enxergar ao ouvir essa canção é bastante próxima a de um gangsta. Tássia está
tratando sobre um homem que não assume responsabilidades afetivas, é vaidoso e
reprodutor das violências atreladas às masculinidades, o que me permite aproximar essa
imagem à imagem da masculinidade playa, o homem sedutor, conquistador e
irresistível, como explica Santos (2017).
Nesse sentido, identifico nesses versos algumas críticas ao não exercício dos
afetos masculinos, apontando, consequentemente, algumas das fragilidades. Além disso,
há uma linguagem agressiva, apontando a necessidade de agir de forma contundente
diante da situação: “Eu lhe digo: Nem vem, esse perfume é de quem? / Não me peça pra ser
zen, que hoje eu vou tumultuar / Vaidoso, mas não segura a barra, foda-se sua marra.”
(TÁSSIA REIS 2016, faixa 4).
Outro aspecto que quero destacar é o ambiente da rua, um lugar de
experimentação da masculinidade. Na canção, esse ambiente torna-se propício para uma
mulher que deseja apenas sarrar, ou seja, ter outras experiências sexuais, se divertir, e
beber, dentre outros gestos tão comuns para os homens. O ambiente do baile, por
exemplo, é o ambiente visto como um lugar de possibilidades para outras experiências:
Se for só pra sarrar tem vários, otário de quem acha / Pois quem me vê agachar no baile,
não sabe de nada (TÁSSIA REIS 2016, faixa 4).
Novamente o gangsta aparece na canção. Desta vez, problematizado na imagem
de cara estiloso, audacioso e perspicaz: “Os cara é estiloso e até demonstra audácia /
Alguma perspicácia de se admirar.” (TÁSSIA REIS 2016, faixa 4). Mas ao mesmo
tempo é um cara que não impressiona, por representar pouco diante das exigências
dessa voz feminina que ecoa na canção: “Mas ainda tá pouco, eu exijo eficácia / Pois
pra pegar a Tássia, precisa melhorar (TÁSSIA REIS 2016, faixa 4).
Outro fato que merece destaque na canção é a inserção do nome de Tássia na
canção, sinalizando o seu protagonismo na narrativa. Em certa medida, esse gesto
retoma duas discussões caras aos estudos literários: a presença do autor no texto e o
limite entre ficção e realidade.
Posso então inferir que há no texto produzido pela rapper uma pessoalidade que
muitas vezes é recusada no ato da escrita literária. Sua inserção no texto é acompanhada
pela exigência que faz. Assim, depois de apontar as fragilidades masculinas, sinaliza
nitidamente: melhorar é o pré-requisito para quem deseja se relacionar com Tássia.
Nesse caso, a autoria não é um elemento diminuído no fundo da cena e a natureza
ficcional da canção discutível. Não chamo a atenção aqui para a autoria a fim de
centralizá-la na análise da canção, mas para destacar o tom e a justa medida escolhida
pela rapper para falar de si. Inserir seu nome na narrativa é dar a liberdade para que eu
insira o meu.

IV. Na encruzilhada dos afetos

Acredito ser rentável concentrar-me na encruzilhada discursa entre as narrativas


do rap. Farei isso a partir da noção de encruzilhada como operadora de linguagens e de
discursos, como propõe Leda Martins em Performances do tempo espiralar (2002):
Operadora de linguagens e de discursos, a encruzilhada, como um lugar terceiro, é
geratriz de produção sígnica diversificada e, portanto, de sentidos plurais [...] (cf.
MARTINS, 1997, p. 25-26 apud MARTINS 2003, p. 70).
Consigo perceber tal cruzamento de diálogos discursivos entre as canções
Semana vem (2016) de Tássia Reis e Flamingos (2018) de Baco Exu do Blues,
inicialmente porque há uma condição que une essas produções: trata-se de um diálogo
entre produções negras. Depois, porque nesse cruzamento percebo o lugar de
centramento e descentramento, intersecções e desvios, texto e traduções, confluência e
alterações, influências e divergências, fusões e rupturas, multiplicidade e convergência,
unidade e pluralidade, origem e disseminação, constituintes da encruzilhada, como me
ensina Leda Martins.
O texto Hip-hop: uma produção cultural da diáspora negra (2011) de Ana
Lúcia Silva Souza é uma referência bastante importante para entender as marcas e as
consolidações do hip-hop no mundo. Primeiro, trata das origens do HIP-HOP na
Jamaica e nos EUA. Depois foca seu surgimento, desenvolvimento e transformação em
São Paulo. Ana Lúcia sinaliza que foram os problemas sociais e raciais os
desencadeadores das várias correntes e tendências do rap, e nesse contexto, a crítica
social e a oralidade da cultura africana são a tônica. Em sua obra, Ana Lúcia Silva
Souza pontua que as rotas históricas da formação do HIP-HOP, em especial as do rap,
têm sido associadas a práticas culturais da África tradicional, como a dos griots: mestres
da arte de narrar.
Muniz Sodré em seu texto Indeterminação e narrativa (2017) – nos ajuda a
pensar a narração pelo viés das indeterminações, ou seja, da variação dos lugares e dos
personagens – e também chama a atenção para a existência do narrador tradicional em
plena modernidade africana, na figura do griô, que segundo ele é um sábio contador de
histórias que canta, interpreta e dança. Nesse sentido, podemos ampliar o conceito de
narrativa, considerando o canto, a interpretação e a dança de um(a) rapper. Em todas as
suas expressões, a narrativa do rap não obedece a uma temporalidade sucessiva nem
mesmo a uma centralidade como insiste o lento processo de elaboração da consciência.
Olho para o rap e para quem o produz, pensando na necessidade de observar
narrativas, representações e experiências da cultura popular negra, pois é por meio dela
que vem à tona elementos de outro discurso, como bem pontuou Stuart Hall em Que
negro é esse na cultura negra? (2009), ao acrescentar algumas qualificações a um
momento peculiar para se propor a questão de tal cultura.
Sem pretensão de repetir o trabalho daqueles que dedicaram seus estudos à
criação e à identificação das particularidades das tradições diaspóricas, Hall (2009) cita
três aspectos que refletem as tradições de representação da cultura negra: o estilo, a
música e o corpo. Para o intelectual jamaicano, esses repertórios da cultura popular
negra eram frequentemente os únicos espaços performáticos que restou ao povo da
diáspora.
É importante pontuar que o interesse pela contranarrativa presente não só nas
letras de rap, como no próprio corpo dos rappers, é uma forma de trazer para o centro o
discurso de um corpo negro que é a própria “tela de representação”, metáfora utilizada
por Hall (2009) a respeito de como o povo negro tem trabalho.
Essa ideia do corpo negro como tela de representação está presente no trabalho
de Baco Exu do Blues. Percebi isso em duas canções que mesmo não sendo eleita para
análise neste trabalho, me ajuda a pensar a respeito das experiências de um eu na
criação discursiva da poesia negra. Na canção intitulada BB King (2018), em um dos
trechos, Baco − além de deslegitimar uma imagem e uma estética criadas sobre o corpo
negro, baseada numa ideologia dominante quando diz: “Foda-se a imagem que vocês
criaram” (BLUES 2018, faixa 9) – desautoriza quem as criou: “[...] Me olhe como uma
tela preta, de um único pintor / Só eu posso fazer minha arte / Só eu posso me
descrever.” (BLUES 2018, faixa 9).
Em Kanye West da Bahia, Baco denuncia os rótulos em que insistem inserir na poesia
negra ao fazerem referências estereotipadas ao corpo negro. Assim, num tom de ordem declama os
seguintes versos: “Seus rótulos não tocam na minha poesia
Não, não, não nunca vão tocar [...]” (BLUES 2018, faixa 5)
No livro Entre o mundo e eu7 (2015) de Ta-Nehisi Coates8, encontramos o relato
de uma experiência semelhante ao que Baco propõe em seu trabalho. Trata-se de Coates

7
Relato de experiências da uma infância que mostra como era ser negro nos EUA, questionando o que é
estar em um corpo negro.
8
Ta-Nehisi Coates é um jornalista americano que nasceu em 30 de setembro de 1975, num gueto em
Baltimore, e vem de uma linhagem de luta e resistência.
ter percebido na poesia negra de Hayden9, a imagem dos escravizados, durante a
travessia dos navios negreiros, a partir da perspectiva dos escravizados. Ele conta a
respeito da identificação ocorrida entre a sua vida e a poesia negra do poeta
afroamericano.
Vale pontuar que Silvana Carvalho (2014), ao dialogar com Alfredo Bosi
(2003), ressalta que a criação discursiva de uma poesia negra, a partir das experiências
de um eu, gera um movimento em que a poesia pode ser o avesso e contraponto da
ideologia dominante, elaborando, assim, novos padrões estéticos e enunciando “[...] sua
experiência subjetiva de um eu individual e ao mesmo tempo um nós coletivo que fala
conscientemente de sua história e de sua comunidade.” (CARVALHO, 2014, p. 39).
Ainda na encruzilhada dos afetos, confesso que meu corpo experimenta a
dinâmica de atravessamentos cada vez em que ouço tais canções e as leio. Isso me
permite traçar meus próprios caminhos, e perceber que enquanto na canção Semana vem
(2016), Tássia narra a rotina de um homem pouco envolvido sentimentalmente numa
relação, com suas fragilidades estampadas nos estereótipos de virilidade e no exercício
da superioridade, da força e da auto estima, Flamingos (2018) de Baco responde
contrariamente a todas as máscaras que ocultam a subjetividade masculina apontando
certas desconstruções e uma nova educação amorosa.
A imagem de um homem envolvido sentimentalmente numa relação afetiva
sexual duradora, por exemplo, contraria rituais de masculinidade e desloca o homem
para um lugar contrário ao das representações de poder e dominação. O trecho da
canção onde está presente certa divergência em relação a esse poderoso ritual de
masculinização expressa uma confissão de amor, um sofrimento típico de quem está
envolvido sentimentalmente e uma fragilidade da auto estima:

Entro em você mais do que já entrei em bares / Te amo aqui, mas te


amo em outros lugares / Louvre em Paris, me embriaguei, alguém me
pare / Amor, senta firme, me faz favor, não pare / Coração partido,
espero que cê repare / Meu tênis branquíssimo, espero que cê repare.
(BLUES 2018, faixa 6)

9
Robert Hayden foi um poeta, ensaísta e educador americano que nasceu em 4 de Agosto de 1913, em
Detroit, e faleceu em 25 de Fevereiro de 1980, aos 66 anos. O poeta, assim como Coates, cresceu em
gueto da sua cidade natal. É importante pontuar que teve uma infância traumática, por ser de baixa
estatura e míope, como também por viver em uma casa repleta de violência. Mais tarde serviu como
consultor em poesia para a Biblioteca do Congresso de 1976 a 1978, sendo o primeiro escritor afro-
americano a ocupar tal cargo.
Osmundo Pinho, em Etnografias do brau: corpo, masculinidade e raça na
reafricanização em Salvador (2005), ao discutir a consolidação de uma figura social
que habita o mapa das representações de identidade da Salvador reafricanizada, a figura
do brau, nos alerta como, normalmente, são descritos tais rituais: “Rituais de
masculinidade têm sido descritos, por outro lado, como demonstrações de força,
engendrando certa retórica de violência e autodeterminação que coloca o homem no
centro das representações de poder e dominação. (PINHO 2005, p. 138)
É importante pontuar como as subjetividades negras são impactadas pelo
racismo, machismo e sexismo. Ao refletir sobre as questões de masculinidades, percebo
que a inversão da reprodução dos estereótipos no que se refere às questões da
subjetividade masculina já apareciam, por exemplo, no século XIX, na literatura
produzida por Lima Barreto, escritor negro. Lembro-me da obra Cemitérios dos vivos,
romance autobiográfico, escrito em um período em que o autor ficou internado no
Hospital Nacional de Alienados no Rio de Janeiro. Na romance, o relato que faz a
respeito da sua história de casamento, sinaliza um homem negro heterossexual de auto-
estima baixa, cujos problemas refletem na forma como se relaciona afetivamente. Seus
dramas psicológicos e sua falta de desenvoltura com as mulheres são expostos na obra
como também o pedido de casamento, feito a ele por sua mulher.
A depressão e o desejo de suicídio confessados por homens negros é outro
assunto que contrapõe com os modelos de masculinidades tóxicas. Ainda na obra de
Lima Barreto, ao relatar o suicídio de um doente no pavilhão, o autor sinaliza
escancaradamente a possibilidade de fazer o mesmo.
Há na canção Me desculpa Jay Z (2018) de Baco Exu do Blues, assim como na
obra barretiana, uma voz poética masculina que aborda as tensões da depressão e do
suicídio. No trecho inicial da canção, confessa alguns dilemas psicológicos como não
gostar e não querer ver mais a pessoa amada, ao mesmo tempo em que confessa amá-la
e sorrir ao vê-la. Outro dilema exposto é estar entre tirar a roupa de alguém ou a própria
vida. Na terceira estrofe da canção desenha a depressão de forma bastante nítida,
confessando: “Procuro um motivo pra sair da cama e melhorar meu autoestima”
(BLUES 2018, faixa 3).
Confissões finais

Quando comecei a ouvir rap percebi como a arte negra contemporânea impacta
nossas afetividades e vivências. Os temas abordados por Tássia Reis e Baco Exu do
Blues, são temas que atravessam a minha vida, de modo que o encontro com essas
canções promoveu um encontro comigo para continuar seguindo e reexistindo, afinal,
falar sobre o afeto é também traçar, intelectualmente, formas de reexistências. Ouvindo
rap aprendi o que ainda não tinha conseguido, mesmo lendo algumas feministas
acadêmicas negras: aquela minha experiência não se tratava de uma simples decepção
amorosa, mas de uma violência contra a minha afetividade, que talvez tenha me deixado
alguns traumas.
No entanto, assim como o rap de Tássia Reis, com sua poética negro-feminista,
me faz entender hoje a estrutura machista por trás de uma decepção amorosa,
encontrando estratégias de cura para experiências dolorosas, o trabalho de Baco Exu do
Blues me diz sobre outra masculinidade, a do afeto e da confissão do amor. Refletir
sobre essas questões é entender sobre o amor negro em nosso próprio tempo, tempo de
uma reeducação do amor para todos e todas.

REFERÊNCIAS

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