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IDÁLIA HENRIQUES DE MELO

A LITERATURA INFANTO JUVENIL DE LYGIA BOJUNGA: UMA


IMPORTANTE ANÁLISE SOBRE AS CRÍTICAS SOCIAIS PRESENTES NA
OBRA A BOLSA AMARELA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à


coordenação do Curso de Licenciatura em
Letras, da Universidade do Estado do
Amazonas, como pré-requisito para a obtenção
do título de Licenciada em Letras.

Orientadora: Profª Msc. Delma Pachêco Sicsú

Parintins/Am

2018
1
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS – UEA

CENTRO DE ESTUDOS SUPERIORES DE PARINTINS – CESP

CURSO DE LICENCIATURA EM LETRAS

A LITERATURA INFANTO JUVENIL DE LYGIA BOJUNGA: UMA


IMPORTANTE ANÁLISE SOBRE AS CRÍTICAS SOCIAIS PRESENTES NA
OBRA A BOLSA AMARELA

IDÁLIA HENRIQUES DE MELO

ORIENTADORA Msc. DELMA PACHÊCO SICSÚ

Parintins/ Am

2018
2
IDÁLIA HENRIQUES DE MELO

A LITERATURA INFANTO JUVENIL DE LYGIA BOJUNGA: UMA


IMPORTANTE ANÁLISE SOBRE AS CRÍTICAS SOCIAIS PRESENTES NA
OBRA A BOLSA AMARELA

Trabalho de Conclusão de Curso – TCC


apresentado como exigência parcial para
obtenção do grau de licenciada em Letras
pela Universidade do Estado do Amazonas.

Aprovada em: _______/_______/_______

BANCA EXAMINADORA

Msc. Delma Pachêco Sicsú

Msc. Franklin Roosevelt Martins de Castro

Msc. Francisca Keila de Freitas Amoêdo

Parintins/Am

2018

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Sumário
RESUMO: .................................................................................................................................... 5
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................... 6
A LITERATURA INFANTIL E JUVENIL NO BRASIL: SUA TRAGETORIA ATÉ OS
DIAS ATUAIS ............................................................................................................................. 7
A LITERATURA DE LYGIA BOJUNGA ............................................................................. 10
METODOLOGIA ..................................................................................................................... 14
A BOLSA AMARELA: UM MUNDO ESCONDIDO ........................................................... 16
CONSIDERAÇÕES FINAIS: .................................................................................................. 24
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................... 26

4
A LITERATURA INFANTO JUVENIL DE LYGIA BOJUNGA: UMA
IMPORTANTE ANÁLISE SOBRE AS CRÍTICAS SOCIAIS PRESENTES NA
OBRA A BOLSA AMARELA

Idália Henriques de Melo1


Delma Pachêco Sicsú2

RESUMO: O presente trabalho tem por objetivo analisar uma obra da Literatura Infantojuvenil produzida
pela escritora Lygia Bojunga, levando em conta as críticas sociais presentes em A bolsa amarela, publicado
em 1976 e desde então traduzido em vários idiomas. A obra trata dos problemas existentes nas relações
humanas e faz críticas importantes, por meio de vasta simbologia da realidade social. A narrativa traz o
conflito interior e familiar que Raquel vive, porém, de forma bem humorada. A personagem cria um mundo
imaginário onde é possível viver sonhos com amigos que entendem e respeitam suas vontades. Nesta análise
proponho-me a investigar como a crítica social se permeia entre o real e o fantástico colocado pela autora.
Como suporte teórico, fez-se necessário estudiosos que contribuem significativamente com a temática deste
trabalho, como: Arroyo (2011); Cristófono (2010); Lajolo e Zilberman (1988), Malheiros (2000) entre
outros que vieram cooperar para o desenvolvimento do trabalho.
Palavra-chave: Literatura Infantojuvenil. Lygia Bojunga. A Bolsa amarela.
ABSTRACT: The present work has the objective of analyzing a work of the Child and youth Literature
produced by the writer Lygia Bojunga, taking into acciunt the social critics present in The yellow bag,
published in 1976 and since translated in several languages. The book deals with the problems that exist in
human relations and makes important criticisms, through a vast symbology of social reality. The narrative
brings the internal and familiar conflict that Raquel lives, however, in a humorous way. The character
crestes na imaginary world where it is possible to live dreams with friends who understand and respect their
wishes. In this analysis i propose to investigate how social criticismo permeates between the real and the
fantastic placed by the author. As a theoretical support, it became necessary for scholars to contribute
significantly to the therme of theme of this work, as: Arroyo (2011); Cristófono (2010); Lajolo e Zilberman
(1988), Malheiros (2000) among others who came to cooperate for the development of the work.
Key- words: Infantojuvenil literature. Lygia Bojunga. The yellow bag.

1
Acadêmica do Curso de Licenciatura em Letras do Centro de Estudos Superiores de Parintins
da Universidade do Estado do Amazonas.
2
Profª. Msc. Do Curso de Licenciatura em Letras da Universidade do Estado do Amazonas-UEA.
5
INTRODUÇÃO
A literatura Infantojuvenil consiste em um gênero literário dedicado
especialmente para crianças e jovens, com características próprias e originais veem
ganhando espaço e consequentemente se promovendo no âmbito literário.
Na esfera educacional, as literaturas infantis e juvenis apresentam várias
modalidades e estabelecem novas possibilidades de leitura conforme as crianças e os
jovens leitores exploram os livros. Porém, essas novas possibilidades não estão apenas
ligadas ao caráter pedagógico, mas também no campo da construção do senso crítico do
indivíduo. É desta forma que esta pesquisa se permeia sobre o campo da literatura, através
de uma análise da obra A bolsa amarela da escritora Lygia Bojunga e propõem-se
evidenciar as críticas sociais feitas por Bojunga levando em conta o plano real e fantástico
da narrativa, como objetivo central dente artigo, uma vez que o trabalho com textos
literários tem um importante papel no processo de formação de sujeitos críticos e
reflexivos.
O interesse por essa linha de pesquisa surgiu a partir da disciplina Literatura
Infantojuvenil, ofertada pelo curso de Letras. Através desta disciplina tive o primeiro
contato com a autora e consequentemente com a literatura produzida por ela, haja vista,
que Bojunga constrói as suas narrativas usando a infância como tema principal. Suas
obras permeiam entre realidade e fantasia, o que pode proporcionar à criança um caminho
para a maturidade e para a busca de sua identidade e isso se torna evidente no decorrer da
pesquisa. Desse modo, a relevância em abordar essa temática consiste na promoção da
literatura Infantojuvenil e reflexão sobre o papel do texto literário para a construção de
sujeitos críticos.
Ao analisar a obra A bolsa amarela, compreende-se a necessidade que o
indivíduo tem de ser compreendido em qualquer fase da vida, principalmente na infância,
pois a não compreensão desse indivíduo, influência para o surgimento de conflitos
internos que afetam na sua aceitação e reafirmação de sua identidade.
O trabalho é de cunho bibliográfico, pois se trata de uma análise do livro A bolsa
amarela, por isso a necessidade de recorrer a autores que discutem sobre a literatura
Infantojuvenil desde o seu surgimento até a atualidade. As etapas da pesquisa se deram
por meio de pesquisas de estudos relacionados ao tema, leituras e fichamentos, escolha
dos principais autores, pois são muitos os que discorrem acerca da temática proposta,
análise e produção do texto. Os autores escolhidos para compor o corpus do trabalho são
referência na área literária. Também no que diz respeito à escolha de tais autores, explica-

6
se o fato que seus trabalhos contêm informações de que necessitei ao longo da realização
desta pesquisa.

A LITERATURA INFANTIL E JUVENIL NO BRASIL: SUA


TRAGETORIA ATÉ OS DIAS ATUAIS

A literatura Infantojuvenil é uma parte da literatura destinada de forma especial


às crianças e jovens adolescentes. Hoje sabemos que esta literatura tem um papel
importante no desenvolvimento intelectual de crianças e jovens, mas houve um tempo em
que isso não era levado em consideração. Segundo Zilberman (1983, p. 15) “Essa faixa
estaria não era percebida como um tempo diferente, nem o mundo da criança como um
espaço separado”. Pequenos e grandes compartilhavam dos mesmos eventos.
Nesse sentido, compreendia-se que não era necessária uma literatura destinada a
esse público. “E como a criança era vista como um ‘adulto em miniatura’, os primeiros
textos infantis resultaram da adaptação (ou da minimização) de textos escritos para
adultos” (COELHO, 2000, p. 29). Tais textos eram de difícil compreensão para crianças,
devido a linguagem complexa e temas que não estavam acima da compreensão infantil.
A trajetória da literatura Infantojuvenil começa a surgir no início do século
XVIII, quando a criança passa a ser considerada um ser diferente do adulto, com
necessidades e características próprias, “pelo que deveria distanciar-se da vida dos mais
velhos e receber uma educação especial, que a preparasse para a vida adulta”. (CUNHA,
1999). É a partir desse momento que surge a literatura destinada ao público infantil, com
a finalidade de, juntamente com a escola, educar.
Segundo Zilberman (1983, p. 15) “A aproximação entre a instituição e gênero
literário não é fortuita. Sintoma disto é que os primeiros textos para crianças são escritos
por pedagogos e professoras, com marcante intuito educativo”. Esse era o principal
objetivo da literatura, abordar temas que aproximasse as crianças do que os adultos
esperavam que elas se tornassem.
No Brasil, até o século XIX, a literatura produzida para o público infantil e
juvenil era importada e suas traduções eram feitas em Portugal. Por conta disso, era
considerada uma literatura cara, pouco acessível. Assim, é no âmbito da ascensão de um
pensamento burguês e familista que surge a literatura infantil brasileira (ZILBERMAN,
1983, p. 87). Não havia editoras no país e até mesmo os autores brasileiros tinham que
mandar imprimir seus textos na Europa. Isso era, pois o principal fator que dificultava o
desenvolvimento da literatura Infantojuvenil no Brasil.

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No começo do século XX esse cenário começa a mudar, pois Monteiro Lobato
publica em 1921, Narizinho arrebitado. A partir daí, surge um novo rumo da literatura
Infantojuvenil no Brasil, iniciando assim uma nova fase literária da produção brasileira
destinada a crianças e jovens. Segundo Arroyo (2011, p. 198)
Embora estreando na literatura escolar com Narizinho arrebitado,
Monteiro Lobato trazia já com seu primeiro livro as bases da verdadeira
literatura infantil brasileira: o apelo À imaginação em harmonia com o
complexo ecológico nacional; a movimentação dos diálogos, a
utilização ampla da imaginação, o enredo, a linguagem visual e
concreta, a graça na expressão – toda uma soma de valores temáticos e
linguísticos que renovava inteiramente o conceito de literatura infantil
no Brasil.

A partir de Lobato é que a literatura para crianças e jovens assume um plano


estético em que a ficção abre espaço para um pensamento questionador e crítico sobre a
realidade. Em seus livros infantis, os temas englobam mitologia grega, matemática, história,
ciências naturais, geografia, entretanto, é a cultura brasileira a base de suas composições,
inclusive com destaque para costumes regionais e lendas folclóricas.
Reconhecendo ou não o caráter pedagógico da literatura infantil para crianças,
a verdade é que sua importância no contexto escolar vai além do pedagogismo utilizado no
interior da escola, uma vez que permite múltiplas possibilidades de povoar a imaginação e
de despertar as fantasias infantis (SILVA, 2016, p. 25). Compreende-se então que Monteiro
Lobato contribuiu de forma excepcional para o que a literatura Infantojuvenil se tornou,
deixando de ser apenas um artifício pedagógico.
Atualmente, o papel da literatura não se restringe apenas a codificação das
palavras ou enriquecimento do vocabulário. A literatura é levada para a sala de aula como
uma proposta didática diversificada, as inúmeras possibilidades de leituras com esses textos
proporcionam a identificação do leitor com a obra possibilitando-os construir suas próprias
interpretações. Pois, segundo Coelho (2000, p. 164):
(...) a literatura infantil ocupa um lugar específico no âmbito do gênero
ficção, visto que ela se destina a um leitor especial, a seres em formação,
a seres que estão passando pelo processo de aprendizagem inicial da
vida. Daí o caráter pedagógico (conscientizador) que, de maneira
latente ou patente, é inerente à sua matéria. E também, ou acima de
tudo, a necessidade de ênfase em seu caráter lúdico... Aquilo que não
divertir, emocionar ou interessar ao pequeno leitor, não poderá também
transmitir-lhe nenhuma experiência duradoura ou fecunda.

Nesse modo, compreende-se a necessidade de uma proposta de leitura atraente,


que prenda a atenção do leitor, despertando seu senso crítico e capacidade de reflexão
sobre o mundo que o rodeia, tornando-o consciente dos problemas da complexa sociedade
que ele faz parte. Sobre a literatura infantil brasileira atual, Silva (2016, p. 28) contribue
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dizendo que “A característica atual da literatura infantil brasileira é a de prosseguir com
a utilização dos antigos temas nacionais”, só que fazendo uso de novas perspectivas e
formulações para poder continuar encantando o público infantil. Sobre essa preocupação,
de tratar de problemáticas da vida real utilizando a fantasia do universo infantil,
Zilberman (1983, p. 37) corrobora com Silva afirmando que:
A literatura infantil oferece um campo de trabalho igualmente válido,
ao reproduzir, nas obras transmitidas às crianças, as particularidades da
criação artística, que visa a uma interpretação da existência que conduza
o ser humano a uma compreensão mais ampla e eficaz de seu universo,
qualquer que seja sua idade ou situação intelectual, emotiva e social.

Nessa perspectiva, compreende-se que a literatura destinada ao público


infantojuvenil atualmente, vai muito além do ensinar, está interessada em ampliar o vasto
conhecimento do indivíduo sobre o mundo que o cerca, despertando seu senso crítico de
modo que o leve a questionamentos que ele próprio, de acordo com sua compreensão de
seu universo, possa lhe dar as respostas de que precisa, exercitando desta forma a
capacidade de construir sua própria interpretação. É nesse sentido que a “literatura pode
se constituir em objeto de conhecimento, ampliando e renovando o horizonte de
percepção de seu leitor” (ZILBERMAN, 1983, p. 60). Desta forma, entende-se que a
literatura infantil e juvenil veio se moldando com o tempo até a atualidade, vencendo
estereótipos e conquistando seu espaço nas estantes dos pequenos, colaborando para seus
desenvolvimentos enquanto indivíduos sociais. Este fator determina a índole
eminentemente histórica da literatura, pois não apenas ela está em constante evolução,
como somente se transforma, porque reage de maneira ativa às circunstancias sociais de
onde procede (IDEM, 1983, p. 60). É justamente nesse sentido que a literatura contribui
significativamente para com o desenvolvimento crítico social do leitor, fazendo-o
conhecedor e participante das mudanças que ocorrem na sociedade, além de colaborar
com a criatividade, imaginação e interesse pela leitura.
Segundo Cavalcanti (2009, p. 39) “[...] a literatura pode ser, para a criança, um
aspecto para a expansão do seu ser [...] ampliando o universo mágico, transreal da criança
para que esta se torne um adulto mais criativo, integrado e feliz”. Tendo a infância como
plano de fundo, é mais fácil tratar de assuntos importantes e desta forma atrair os jovens
leitores. Através de aspectos comuns do dia a dia a leitura do texto se torna mais acessível
e leva-os a construção de suas interpretações. A criança pode buscar na literatura, uma
maneira de manifestar seus sentimentos, identificando-se com a leitura, pelo prazer que
ela lhe proporciona.

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Desde o reconhecimento da necessidade de uma literatura voltada para o público
infantil e juvenil, muitas foram as faces dessa literatura, mesmo que no início ela fosse
vista apenas como um instrumento pedagógico usado com o intuito de instruir e
moralizar. Hoje sabe-se que a literatura infantojuvenil vai muito além disso. Para
Zilberman (2005, p. 79) “a literatura infantil brasileira deu um grande passo, ampliando
as possibilidades de representação do mundo interior da criança, sem ter de renunciar à
comunicabilidade com o leitor, nem ter de apelar ao socorro dos adultos na condição de
auxiliares mágicos ou decifradores dos sentidos ocultos dos textos”.
A literatura infantil contemporânea no Brasil chama atenção pelo “brincar”
lendo, além da solidariedade, do amor à natureza, do humanismo e do exercício da
cidadania desde a infância; ainda aborda um conteúdo de caráter pedagógico rico em
recursos para discussões e reflexões em família, em espaços de socialização e em salas
de aula de escolas sob gestão democrática, compromissadas com a formação de cidadãos,
desta maneira tem mais a contribuir com os jovens leitores, criando possibilidades de
discursão e não apenas impondo.

A LITERATURA DE LYGIA BOJUNGA


Lygia Bojunga Nunes nasceu em Pelotas no dia 26 de agosto de 1932 e cresceu
numa fazenda. Aos oito anos de idade foi para o Rio de Janeiro onde em 1951 se tornou
atriz numa companhia de teatro que viajava pelo interior do Brasil. A predominância do
analfabetismo que presenciou nessas viagens levou-a a fundar uma escola para crianças
pobres do interior, que dirigiu durante cinco anos. Trabalhou durante muito tempo para o
rádio e televisão, antes de iniciar como escritora de livros infantis.
Em 1972, Lygia Bojunga Nunes escreveu seu primeiro livro Os colegas e já em
sua estreia recebeu o Prêmio Jabuti de melhor livro infantil. De 1972 até os dias atuais, a
autora completou um acervo de 21 títulos. São eles, Os Colegas (1972), Angélica (1975),
A Bolsa Amarela (1976), A Casa da Madrinha (1976), Corda Bamba (1979), O Sofá
Estampado (1980), Tchau (1984), O Meu Amigo Pintor (1987), Nós Três (1987), Livro,
um encontro com Lygia Bojunga (1988), Fazendo Ana Paz (1991), Paisagem (1992), Seis
Vezes Lucas (1995), O Abraço (1995), Feito à mão (1996), A Cama (1999), O Rio e Eu
(1999), Retratos de Carolina (2002), Aulas de Inglês (2006), Sapato de Salto (2006),
Vinte 1 (2007) e Querida (2009). Trata-se de um trabalho criativo bem extenso que possui
uma predominância do gênero novela, “mas que também possui trabalhos de incursões
dramatúrgicas” (PIRES, 2013, p. 10). Além destas obras, a autora também escreveu para
o teatro a peça O Pintor (1989) e fez a adaptação da obra Nós três (1989).

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A escritora, que iniciou suas atividades literárias ainda no período da ditadura
militar, foi uma ativista da resistência. “Essa luta surge e depois é transposta para o
domínio da literatura infantil, já que segundo a escritora, os generais não liam livros
destinados a crianças e adolescentes” (CRISTÓFONO 2010, p. 3). Os textos de Bojunga
baseiam-se intimamente na perspectiva da criança. Ela observa o mundo através dos olhos
das mesmas. Sobre esse aspecto, Pires (2013, p. 12) contribue dizendo que:
A obra da autora gaúcha tem potencial expressivo e representa um
movimento renovador na literatura Infanto-juvenil brasileira. Além
disso, seu acervo destaca-se por grande qualidade literária e alto nível
de criação, sendo sua originalidade seu aspecto singular.

Em suas narrativas, encontramos personagens que se revoltam contra a


desigualdade e diferença social. Porém, Lygia Bojunga busca não utilizar um discurso de
censura, já que o importante é a tomada de consciencialização e esta é sempre feita de
uma maneira bem humorada. Malheiros (2000, p. 2) diz que “Lygia Bojunga Nunes é
uma escritora que fala para todas as idades, mas procura estabelecer diálogos antes de
tudo com crianças e jovens”. A escritora utiliza suas personagens para evidenciar questões
sociais sem deixar sua obra pesada para seu público principal, uma vez que cada
personagem remete o leitor a uma interpretação pessoal.
É evidente em diversas obras da autora, sua preocupação em estabelecer uma
relação com seus leitores. Isso fica claro quando observamos os diálogos que
encontramos nelas. Esse recurso abre espaço para as mais diferentes possibilidades de
leitura, permitindo que o leitor faça sua própria interpretação do que está lendo, levando
em conta sua experiência de vida. De acordo com Marchi (2000, p. 198):
O leitor desempenha um papel fundamental nas narrativas de Lygia, pois elas
produzem sua ativação (...) na medida em que motiva o questionamento dos
estereótipos, seja no que concerne às convenções literárias ou as circunstâncias
sociais de onde provem o destinatário.

Pode-se dizer que a escrita de Bojunga está voltada para a experiência do leitor,
uma vez que a partir da sua leitura, ele vai construindo sua própria interpretação baseado
em seus conhecimentos do mundo, seja ele adulto ou criança. O que pode parecer mais
interessante nas obras de Bojunga é a relação que o leitor faz com situações do dia a dia.
É nesse sentido que a autora procura envolver leitor e texto, possibilitando que o texto
seja interpretado de acordo com as vivências do cotidiano do jovem leitor. Entre os
autores contemporâneos que escrevem para crianças e jovens, a escritora Lygia Bojunga
destaca-se por abordar em suas obras essa particularidade literária.
Bojunga não propõe uma literatura paternalista, onde as histórias têm o intuito
de repreender, admoestar. A autora quase sempre se utiliza da criança, tomando como
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plano de fundo a infância para contestar o universo dos adultos, que costumam achar que
esses pequenos indivíduos não são capazes de levantar questões tão importantes.
Geralmente, suas personagens apropriam-se da fantasia a fim de ultrapassar experiências
pessoais difíceis no mundo de gente grande e se transportam para um mundo particular.
Segundo Cristófono (2010, p. 3):
Para a autora, o dia a dia encontra-se repleto de encantamento de bom
humor: onde despertam os desejos tão intensos que não são possíveis
sustentá-los, onde personagens como alfinetes e guarda-chuvas
dialogam tão convincentemente com os peões e as bolas, onde animais
e objetos vivem vidas tão diversificadas e vulneráveis como as das
pessoas.

No mundo infantil, tudo se torna possível; o mundo real abre espaço para o
imaginário, cheio de fantasia. E no interior da fantasia, que é o mundo da escrita, está a
criança, muitas vezes só, sentindo-se abandonada, sempre emotiva e cheia de vontade de
mudar essa realidade. É nessa perspectiva que Bojunga constrói histórias envolventes,
com personagens dos mais variados, vivendo seus dramas particulares, porém de forma
bem humorada, tornando a leitura agradável. Esses elementos insólitos não possuem
ligação fixa ou verdadeira com a realidade e são responsáveis por despertar o imaginário
do leitor, fazendo com que ele sinta a estranheza dos fatos e ao mesmo tempo não busque
explicações na realidade.
Nesse aspecto é consenso entre estudiosos do fantástico que o importante é a
maneira como o autor dispõe os elementos insólitos no enredo e a habilidade em liga-los
aos outros elementos da narrativa. Assim afirma Todorov (2008, p. 11) “um texto não é
somente o produto de uma combinatória preexistente (combinatória constituída pelas
propriedades literárias virtuais); é também uma transformação desta combinatória”. Esses
elementos insólitos são integrados à literatura Infantojuvenil com o intuito de facilitar a
interpretação pelo leitor enquanto criança, uma vez que Lygia usa esse artifício fantástico
para tratar de situações do âmbito social. “Por entender o papel social da literatura, a
autora faz de suas obras um meio de reflexão sobre problemas que atingem crianças e
adolescentes” (PIRES, 2013, p. 13). Para que isso aconteça, é necessário tornar o
cotidiano mais interessante para a criança, já que as histórias se perpassam nesse
ambiente, e de fato a autora o faz com graça e clareza. A prova disso está em suas
personagens.

12
Usando o recurso da fantasia, as personagens de Lygia Bojunga Nunes
superam os obstáculos e os conflitos e estão prontas, meninos e
meninas, a empreender a caminhada pelo mundo, com os olhos no
futuro, de mãos dadas com seus iguais: os que acreditam na humanidade
do homem e têm esperança no futuro. Os que sabem que o presente e o
futuro ninguém os recebe de graça, são frutos do trabalho e da luta
organizada”. (MALHEIROS, 2000. p. 3)

O caráter crítico presente na escrita de Bojunga, corresponde a questões que


facilmente se comprovam pelas temáticas de suas obras que, enfocando os problemas
existenciais da criança e o questionamento de valores sociais mais amplos, propõe uma
reflexão crítica sobre os preconceitos, a situação de exploração em que vivem os
oprimidos, as relações sociais, o ensino, a família, assuntos até então incomuns na
literatura voltada para o público infantil. Sobre esse caráter crítico social presente nas
obras de Bojunga, Pires (2013, p. 13) destaca algumas obras.
Ao analisarmos algumas obras da autora, percebemos que nelas são
expostas grandes problemas sociais como o estupro, no livro O Abraço
(1995); o problema da orfandade, na história da menina Maria, em
Corda bamba (1979); a situação do assassinato na obra Nós três (1987);
a questão do suicídio em Meu amigo pintor (1987); o desamparo social
em A casa da madrinha (1978), o abandono, narrado na história da mãe
que decidiu ir embora com um amante e deixa seus filhos com o marido
em um conto intitulado Tchau da obra de mesmo título (1984).

Partindo do pressuposto de que esses temas, apesar de comum, são


consideravelmente pesados para se tratar com o público infantil é que a autora utiliza do
fantástico. Dentro do fantástico, é possível construir histórias com personagens que
fogem da realidade, pois, é segundo o olhar infantil que as histórias acontecem. Temas
relacionados a afirmação da criança enquanto individuo social também perpassam pelas
obras da autora, de forma que as personagens representam um posicionamento crítico que
lhes possibilitam uma postura afirmativa da busca por aceitação.
Muitas são as contribuições de Lygia Bojunga para a Literatura Infantojuvenil.
Elizabeth D'Angelo Serra, Secretária Geral da Fundação Nacional do Livro Infantil e
Juvenil, ao falar de Bojunga diz que "o potencial humano para influenciar o outro tem sua
expressão maior na palavra escrita. E Lygia Bojunga, sabendo disso, o faz como poucos.
Enfeitiça-nos com uma mistura que liberta: suas palavras carregadas de sentimentos,
conhecimentos, experiências e muita imaginação a serviço de desconstruir e construir
significados que nos tocam”. É dessa maneira que a autora se propõe a escrever para o
público infantil, apesar de encantar também o público adulto através da riqueza de suas
metáforas, bem como seu domínio técnico na elaboração da narrativa, e na perfeita fusão
do social com o individual, do real com o fantástico.
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“O impacto causado à literatura brasileira para crianças pela autora Lygia
Bojunga Nunes, por exemplo, dificilmente poderá tornar sustentável a defesa do
utilitarismo como forma ideal e/ou única de discurso literário dirigido à criança ou ao
jovem.” (PERROTTI. 1986, p. 133). De fato, a autora está entre os que arriscaram uma
literatura mais diversificada para o público infantil, mantendo a graça e o maravilhoso
geralmente presentes em livros desse gênero, Bojunga acrescentou elementos que apenas
tornou esta literatura mais interessante. Deste modo, Bojunga rompe as fronteiras da
literatura infantojuvenil.
O que talvez a faça mais conhecida como autora de um público infantil e jovem
é o fato de que a maioria de suas obras são protagonizadas por crianças. Este é um fator
interessante porque algumas obras não apenas são protagonizadas por crianças como são
narradas a partir do ponto de vista delas, a partir da forma como elas enxergam e sentem
o mundo. Salientando que, ao expor o mundo a partir da visão da criança, faz-se
necessário o incremento da fantasia, uma vez que esse elemento é característico desse
público, permitindo que histórias sejam contadas de acordo com as peculiaridades do
universo infantil.

METODOLOGIA
Esta pesquisa partiu do interesse em analisar críticas sociais presentes na
literatura Infantojuvenil, especificamente em uma obra escrita por Lygia Bojunga, uma
escritora contemporânea que dedica-se a escrever para crianças e jovens. Para
compreender a necessidade de Bojunga de escrever para esse público e levantar questões
sociais, fez-se necessário abarcar de forma resumida a história da literatura infantil, como
se deu esse processo no Brasil até os dias atuais. A abordagem dessa pesquisa é
qualitativa, segundo Oliveira (2002, p. 117).
A abordagem qualitativa nos leva, entretanto, a uma série de leitura
sobre o assunto da pesquisa, para efeito da apresentação de resenhas,
ou seja, descrever pormenorizada ou relatar minuciosamente o que os
diferentes autores ou especialistas descrevem sobre o assunto e, a partir
daí, estabelecer uma série de correlações para, no final, darmos nosso
ponto de vista conclusivo.

É nessa perspectiva que este trabalho foi elaborado, analisando o objeto da


pesquisa e levando em consideração as contribuições de estudiosos da área da literatura
Infantojuvenil, críticos literários, pesquisadores, que discutem sobre está literatura,
relacionando-os com a obra A bolsa amarela de Lygia Bojunga. Haja vista, que a pesquisa
qualitativa permite a contribuição do ponto de vista do pesquisador em questão,
expressando sua opinião, como visto nos resultados e discursões deste artigo.

14
A pesquisa é, portanto, de cunho bibliográfico, pois, “a pesquisa bibliográfica
tem por finalidade conhecer as diferentes formas de contribuição científica que se
realizaram sobre determinado assunto ou fenômeno” (OLIVEIRA, 2002, p, 119). Desse
modo, foi necessária uma vasta pesquisa sobre obras e artigos científicos publicados sobre
o tema, desde o processo da consolidação da literatura Infantojuvenil no Brasil aos dias
atuais, até a Literatura de Lygia Bojunga, incluindo biografia da autora, acervos de obras,
características de suas narrativas, principais temas abordados, contexto histórico, e seu
papel e contribuições para a literatura Infantojuvenil.
Para a realização da pesquisa biográfica, foi indispensável seguir as fases
necessárias para o desenvolvimento do trabalho. Essas fases correspondem a: escolha do
tema, elaboração do plano de trabalho, identificação, localização, compilação,
fichamento, análise e interpretação e por fim, a redação. Para a escolha do tema e
delimitação considerou-se a necessidade de estudos sobre a literatura e autora em questão.
Após a escolha do tema seguiu-se a elaboração do plano de trabalho, segundo Marconi e
Lakatos (2014, p, 46). “Na elaboração do plano deve-se observar a estrutura de todo o
trabalho científico: introdução, desenvolvimento e conclusão”. O plano consistiu em
identificar o que cabe a cada parte do artigo. Já a identificação contribuiu para saber que
livros, teses, artigos, entre outros, seriam necessários e relevantes para a pesquisa. Após
ser feita a identificação, fez-se a localização de pesquisas na biblioteca da universidade,
artigos e teses publicados disponíveis na internet. A compilação foi a reunião de todos
esses materiais, em seguida foram feitas as leituras e fichamento dos textos lidos. Em
seguida, a análise e interpretação e então a redação.
Essas oito fases foram essenciais para a construção deste artigo. Após ser
observada e compreendida o que correspondia cada parte que compõe o trabalho, foi
desenvolvido o referencial teórico, dividido em dois tópicos, que discutiu sobre a
trajetória da literatura Infantojuvenil até os dias atuais e as especificidades dos textos de
Lygia Bojunga, enfatizando aspectos críticos e sociais em suas obras. Após a elaboração
do referencial teórico, parti para os resultados e discussão. Nesse tópico, foi feita uma
breve apresentação do enredo e informações sobre a obra analisada. Tendo o aporte
teórico como base e a interpretação feita através da leitura da obra, foram levantados
pontos pertinentes sobre as críticas feitas pela autora, sempre buscando mostrar com
trechos da obra analisada. Desta forma, aporte teórico, pesquisador e objeto da pesquisa
estiveram sempre interligados.
Assim, a pesquisa bibliográfica, permitiu-me a leitura de um vasto conteúdo
sobre literatura Infantojuvenil e a partir dessas leituras é que foi possível analisar a obra
15
proposta, tomando como pressuposto os estudos de outros autores. “Sua finalidade é
colocar o pesquisador em contato direto com tudo aquilo que foi escrito sobre
determinado assunto, com o objetivo de permitir ao cientista o reforço paralelo da análise
de suas pesquisas ou manipulação de suas informações” (TRUJILLO, 1974) apud
(MARCONI e LAKATOS 2014, p, 44). É desta maneira que a pesquisa bibliográfica
contribue para a construção deste trabalho, dando o devido suporte para a construção de
minha interpretação e escrita do texto, a partir de estudos já realizados anteriormente.
O método de abordagem qualitativo permitiu que a pesquisa abordasse situações
complexas ligadas as várias possibilidades de interpretação de um único objeto. Uma vez
que uma obra pode ser analisada de várias formas e sob olhares e perspectivas diferentes.
Desse modo, compreende-se que o presente trabalho consistiu na capacidade de leitura,
compreensão e interpretação, respeitando as fases impostas pela pesquisa bibliográfica.
Os resultados apresentados no artigo, se deu através de todo um processo até chegar a sua
conclusão. Porém, vale lembrar que a literatura e a sociedade estão em constante
transformação, permitindo múltiplas interpretações, abrindo portas para novos
questionamentos, oportunizando novas pesquisas e consequentemente, novos
conhecimentos que virão a enriquecer e promover mais ainda essa literatura ainda
considerada nova, porém, indispensável para o despertar do senso crítico infantil.

A BOLSA AMARELA: UM MUNDO ESCONDIDO


O livro A bolsa Amarela (1976) é uma narrativa que conta a história de Raquel,
uma menina que tem vontades muito fortes: ser gente grande, se tornar escritora e ter
nascido menino, porém, ela reprime essas vontades dentro de uma bolsa amarela. A
narrativa é conduzida pela própria protagonista que conta fatos do cotidiano e ao mesmo
tempo, cria grandes episódios fantásticos. A menina usa elementos do seu dia a dia para
construir um mundo imaginário, onde ela e as personagens que cria são respeitadas por
todos. Essa mistura é a forma que ela encontrou para poder tornar o mundo real da sua
família algo em que ela pudesse sentir as mais fortes emoções.
A narrativa de Lygia Bojunga Nunes, está dividida em dez capítulos, assim
denominados: “As vontades”, “A bolsa amarela”, “O galo”, “História do alfinete de
fralda”, “A volta da escola”, “O almoço”, “Terrível vai embora”, “História de um galo de
briga e de um carretel de linha forte”, “Comecei a pensar diferente” e “Na praia”.
No primeiro capítulo, Raquel, já revela o que tem guardado como segredo.
Assim, faz a apresentação: “Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades
[...]”. (NUNES, 2013, p. 9). Sentindo-se incompreendida pelos familiares, a menina

16
conhecia bem as três vontades que cresciam dentro de si e por isso achou melhor esconde-
las. Por mais que seja uma criança, Raquel, a caçula entre quartos irmãos, tem uma
personalidade forte, possui senso crítico aguçado, criatividade peculiar e questiona a todo
o tempo os conceitos e padrões sociais impostos por sua própria família.
No decorrer da história é possível entender o porquê dos seus três desejos
secretos. O de crescer é porque os adultos não a levavam a sério pelo fato de se tratar de
uma criança. A de ser menino, porque ela queria fazer o que quisesse sem ser julgada pelo
fato de ser menina. E ser escritora, porque ela adora inventar histórias e personagens.
Esses desejos reprimidos por Raquel é uma crítica à estrutura familiar tradicional, onde
criança não tem vontade própria.
Prezado André:
Ando querendo bater papo. Mas ninguém tá a fim.
Eles dizem que não têm tempo. Mas ficam vendo televisão. Queria
contar minha vida. Dá pé?
Um abraço da Raquel. (BOJUNGA, 2013, p. 10)

Nessa carta, destinada a um amigo inventado de Raquel, a protagonista deixa


evidente a frustração de não ter atenção e, ao mesmo tempo, a necessidade de
compartilhar sua história. Já nesse trecho é perceptível o motivo do surgimento do desejo
de se tornar gente grande, uma vez que na sua família, criança não tinha voz. Por se sentir
muito só e oprimida, ela começa a escrever a seus amigos imaginários, com os quais
compartilhava tais desejos.
No decorrer da história em que o leitor vai conhecendo as personagens que estão
dentro da Bolsa amarela, muita coisa passa a fazer sentido e tais personagens começam a
levá-lo a interpretá-los, trazendo metáforas consideradas chocantes, até mesmo para
adultos, como o galo com o cérebro costurado. Vale considerar que o livro foi escrito no
período da ditadura. Esse período pode ser percebido através da história de duas
personagens, o galo Rei e o galo Terrível. O galo Rei nasceu incumbido de exercer uma
tarefa muito importante no galinheiro, o de mandar e desmandar nas galinhas, mas ele
não queria, pensava diferente dos donos do galinheiro e por conta disso foi preso, porém,
consegue fugir e achar abrigo na bolsa amarela.

17
Quando eu expliquei que desde pequenininho eu sonhava com um
galinheiro legal, todo mundo dando sua opinião, resolvendo as coisas,
achando furada essa história de só um galo mandar e desmandar a vida
toda, sabe o que elas fizeram? Chamaram o dono do galinheiro e deram
queixa de mim.
- No duro?
- Fiquei danado. Subi no puleiro e berrei: “Não quero mandar sozinho!
Quero um galinheiro com mais galos! Quero as galinhas mandando
junto com os galos!”
- Que legal!
- Legal coisa nenhuma; me levaram preso.
- Mas por quê?
- Pra eu aprender a não ser um galo diferente. (BOJUNGA, 2013, p. 36)

Conforme relata na obra, o galo Rei insatisfeito com o seu nome, muda e passa
a chamar-se Afonso. Vivendo uma vida reclusa dentro da bolsa amarelo, Afonso decide
que vai lutar por suas ideias, mas apenas no final consegue compreender pelo o que deve
lutar. Outra personagem que também representa esse período difícil na história do Brasil,
é o galo Terrível, que teve seu pensamento costurado, com uma linha bem forte, pelos
seus donos, a fim de que só conseguisse pensar em uma coisa, ganhar de todos.
Foi ai que os donos disseram:
- o jeito é fazer o Terrível pensar do jeito que a gente quer que ele pense.
Mas, que jeito? Bolaram, bolaram, e acabaram resolvendo que o jeito
era costurar o pensamento do Terrível e só deixar de fora o pedacinho
que pensa: “Eu tenho que ganhar de todos!”. (BOJUNGA, 2013, p. 94-
95).

A história dessas personagens remete o leitor a uma reflexão sobre o direito de


expressão, um grande problema enfrentado por muitos durante a ditadura. A autora
também aborda essa temática em outras obras, mas sempre de forma leve, como é possível
observar em A bolsa amarela, “Lygia Bojunga debate uma questão política urgente, a
ditadura militar. No entanto, jamais descuida da função lúdica” (CRISTÓFANO, 2010,
p. 2). Essa função, permite que o leitor interaja com o texto, sinta as emoções que a
história lhe propõe. Desta forma, torna-se mais fácil compreende-lo, interpreta-lo e
refletir sobre as problemáticas que o texto apresenta. É desta forma, lúdica, que Bojunga
traça o caminho de Raquel. A protagonista está entre dois planos, o real e o imaginário.
No plano real a família da menina a trata como uma mera espectadora de sua própria vida,
enquanto que no plano imaginário ela é a personagem principal, importantíssima para o
andamento da história das demais personagens que estão dentro da bolsa.
De todas as personagens que vivem dentro da bolsa amarela, os desejos de
Raquel são os que mais pesam, porém, há episódios em que um desejo pesa mais que o
outro, a ponto de a menina quase não aguentar o peso da bolsa. Dos três desejos de Raquel,
o de ter nascido garoto tem uma posição dominante no início da narrativa. De fato, Raquel
18
não se conforma em não poder realizar tarefas que só eram atribuídas aos rapazes e deseja,
assim, libertar-se de um padrão de procedimentos que lhe foram atribuídos.
Se eu quero jogar uma pelada, que é o tipo do jogo que eu gosto, todo mundo
faz pouco de mim e diz que é coisa pra homem; se eu quero soltar pipa, dizem
logo a mesma coisa e se a gente bobear e fica burra: todo mundo tá sempre
dizendo que vocês têm que meter as caras no estudo, que vocês tem que vão
ser chefe de família, que vocês é que vão ter tudo. Até para resolver casamento
– eu não te vejo – a gente fica esperando vocês decidirem (BOJUNGA, 2013,
p. 16-17).

O discurso da protagonista vem de encontro às preocupações e ao debate das


mulheres na década de 70, quando o movimento hippie tendo por ideal ideias de Betty
Friedman, luta pela igualdade entre os sexos. Essa questão da desigualdade feminina é
colocada pela autora ainda na infância, uma vez que a menina é criticada por gostar de
brincadeiras consideradas para meninos e ensinada a esperar que os homens decidam
pelas mulheres, isso faz com que ela queira abdicar do seu papel feminino. No entanto,
isso muda depois que o galo Afonso lhe dá de presente uma guarda-chuva, que se vê na
condição de poder escolher o que deseja ser e ainda assim, escolhe ser mulher. Essa
personagem remete a protagonista a uma espécie de libertação, onde ela se reconhece
como menina e aceita sua condição.
Na hora do guarda-chuva nascer, quer dizer, na hora que ele foi feito, o
homem lá da fábrica – que era um cara muito legal e que gostava de ver
as coisas gostando do que elas tinham nascido – perguntou:
- você quer ser guarda-chuva homem ou mulher?
E ele respondeu: mulher. (BOJUNGA, 2013, p. 48)
[...]
Fui andando e pensando que eu também queria ter escolhido nascer
mulher: a vontade de ser garoto sumia e a bolsa amarela ficava muito
mais leve de carregar. (BOJUNGA, 2013, p. 48)

[...]
- Tá vendo? Falaram que tanta coisa era coisa de garoto, que acabei até
pensando que o jeito era nascer garoto. Mas agora eu sei que o jeito é
outro. Vamos lá na praia soltar pipa? (BOJUNGA, 2013, p, 126)

No final da história, “a vontade de ser um menino emagreceu tanto que foi


embora”, o que prova que Raquel assumiu a sua identidade feminina. A discursão da
condição da mulher dessa década, também pode ser vista na história do galo Afonso,
porém, numa outra perspectiva. Na história contada por Afonso, as galinhas
representavam as mulheres que não compreendiam a luta do movimento hippie, que não
se permitiam desprender-se das amarras impostas pela sociedade machista da época,
duvidando de suas capacidades de seguir seus próprios ideais.

19
Sabe, Raquel, elas não botavam um ovo, não davam uma ciscadinha,
não faziam coisa nenhuma sem vir me perguntar: “Eu posso? Você
deixa?” E se eu respondia: “Ora, minha filha, o ovo é seu, a vida é sua,
resolve como você achar melhor”, elas desatavam a chorar, não queriam
mais comer, emagreciam, até morriam. Elas achavam que era melhor
ter um dono mandando o dia inteiro: faz isso! Faz aquilo! Bota um ovo!
Pega uma minhoca! Do que ter que resolver qualquer coisa. Diziam que
pensar dá muito trabalho. (BOJUNGA, 2013, p. 35)

Isto reflete com alguma nitidez o contexto social da época e o pensamento da


mulher que não tinha sido instruída para os novos desafios que lhe eram colocados,
enquanto que o galo Afonso representa a visão masculina, expressa na dúvida se as
mulheres possuem realmente vontade de ser donas de si próprias, ou seja, se são capazes
de construir o seu próprio destino, baseado nos seus sonhos e perspectiva de vida. Na
narrativa, a autora aborda essa questão por meio da fantasia da menina, através do olhar
masculino dentro da imaginação da protagonista, Marchi (2000, p. 199) apud Pires (2013,
p. 20) afirma que, “[...] a fantasia utilizada por Lygia remete ao real e é sempre utilizada
a fim de aguçar a percepção crítica, ao contrário de outras histórias que a utilizam como
fator alienante”. Esse método, de discutir o plano real através da fantasia, possibilita ao
leitor, além de divertir-se com as histórias das personagens criadas por Raquel, o despertar
de sua percepção crítica.
A bolsa amarela permite o enriquecimento da vida do pequeno leitor ao
estimular a sua imaginação. Segundo Bruno Bettelheim (2006 apud Cristófano 2010, p,
16) “para que uma história possa verdadeiramente prender a atenção do jovem leitor e
enriquecer a sua personalidade, tem de estimular a sua imaginação; tem de ajudá-lo a
desenvolver o seu intelecto e esclarecer as suas emoções; tem de estar sintonizada com
as suas angústias e aspirações”. Em A bolsa amarela vários são os momentos em que
podemos vivenciar isso. Nos trechos da narrativa percebe-se que os fatos do cotidiano são
colocados por Lygia com muita sensibilidade e principalmente sob a perspectiva da
criança. Isso se dá através do desejo da menina em ser escritora. A autora é conhecida e
reconhecida por essa habilidade em retratar no mundo infantil assuntos que muitos
autores consideram distantes das crianças.
Enquanto eu escrevia a “História de um Galo de Briga e de um Carretel
de Linha Forte”, a vontade de escrever andou tão magrinha que já não
pesava quase nada. Que alívio. Acabei até mudando de ideia: resolvi
que se eu queria escrever qualquer coisa eu deveria escrever e pronto.
Carta, romancinho, telegrama, o que me dava na cabeça. Queriam rir?
Paciência. Melhor rirem de mim do que carregar aquele peso dentro da
bolsa amarela (BOJUNGA, 2013, p. 103).

20
No trecho acima Raquel decidiu que iria escrever independente se as pessoas
iriam rir ou gostar das suas histórias e isso fez com que sua vontade de ser escritora
voltasse ao tamanho normal e que não fosse um peso para ela. Essa atitude de Raquel faz
parte da sua afirmação pessoal, ela começa a assumir sua identidade e seus sonhos. Nessa
passagem da narrativa é possível perceber que os elementos reais e fantásticos na história
de Raquel estão de maneira particular relacionados a sua busca de identidade, vivida por
toda criança. Ao mesmo tempo que acontecem episódios reais e fantásticos, uma aventura
espiritual acontece, e a menina segue o rumo da sua afirmação como pessoa.
O desfecho ou a solução dos conflitos ocorre no momento em que a protagonista
descobre que as coisas podem ser diferentes. Seu contato com as pessoas da Casa dos
Consertos foi crucial para sua descoberta: “E eu fiquei achando que gente grande não era
uma turma tão difícil de entender que nem eu pensava antes”. (NUNES, 2013, p. 115).
Esse momento de reflexão da narradora sobre o mundo adulto acontece quando ela
conhece a família da casa do conserto, essa família é um modelo de família ideal, onde
todos desempenham funções importantes para o bom relacionamento familiar e todos têm
vez e voz. Nesse sentido prevalece a crítica à entidade familiar por meio do fantástico,
uma vez que a família da casa dos concertos está no plano fantástico da narrativa.
Outro recurso que colabora para a construção do caráter crítico e que torna a
narrativa leve para o leitor é a linguagem. É importante ressaltar o efeito do uso da
primeira pessoa na narrativa, isto porque a narração dos fatos pelo próprio personagem
indica a veracidade dos acontecimentos e ao mesmo tempo confere um tom de incerteza,
pois este personagem narra episódios que podem estar em sua imaginação. Esse recurso
é muito bem utilizado por Lygia em A bolsa amarela. A personagem Raquel que narra a
história nos traz de maneira espontânea os acontecimentos e lhes conferem veracidade,
mesmo em fatos imaginários.
Mas na porta eu parei: “E se alguém abre a bolsa amarela enquanto eu
tô fora? e se descobrem o Afonso lá dentro? e se o Terrível foge pra ir
brigar? e se as minhas vontades saem também – crescendo, engordando,
tomando conta do quarto, de tudo?” Me apavorei. O jeito era não
arriscar, era levar a bolsa comigo. Levei. (BOJUNGA, 2013. P. 68)

Nessa passagem da narrativa, Raquel por meio de várias indagações faz com que
o leitor também pense sobre o risco que ela corre deixando a bolsa em casa. Isso permite
um envolvimento maior com o leitor e reafirma a veracidade de sua fala, ou seja, ela
conduz o leitor a não duvidar se realmente estão dentro da bolsa tudo que ela disse. A
linguagem é simples, de fácil compreensão. Raquel narra os fatos com muita clareza,
usando expressões do dia a dia. Nos trechos a seguir, percebe-se que o uso de gírias,

21
desvios das normas gramaticais e a escolha do vocabulário reproduzem a fala de uma
criança na idade da personagem e isso possivelmente aproxima personagem e leitor.
Um dia fiquei pensando o que é que eu ia ser mais tarde. Resolvi que ia
ser escritora. Então já fui fingindo que era. Só pra treinar. (BOJUNGA,
2013, p. 10)
- Ah, pera lá, Afonso! A bolsa já tá lotada. (BOJUNGA, 2013, p. 63.)

Essa linguagem simples causa uma aproximação do narrador com o leitor, pois
essas expressões e gírias estão presentes em seu cotidiano, na sua interação com amigos
e família, possibilitando, com facilidade, a construção da imaginação do fato narrado
devido a espontaneidade com que é narrado. De acordo com Malheiros (2000, p, 2) “as
palavras do cotidiano são usadas e combinadas com maestria e muitas vezes deixam de
lado o prosaico e se embrenham no poético”. A obra toda é de linguagem simples,
composta por diálogos e reflexões da narradora sobre situações que surgem dentro da
narrativa, por seu vocabulário informal e pela criação de palavras, fato comum nessa fase
da vida humana. O fato de ser narrado com a linguagem simples de uma criança, não
impede a reflexão dos temas propostos, pelo contrário, torna-se mais fácil o
envolvimento, por conta da inocência do mundo infantil. “O estilo implica agilidade por
parte do narrador, rapidez na comunicação e interação com o leitor, características que
desenham o relacionamento da escritora com a literatura infantil e com suas expectativas
perante o leitor” (ZILBERMAN, 2005, p. 71).
É assim que Raquel narra episódios da vida real e do fantástico, que se passa
dentro da bolsa. É de forma simples e lúdica que a narradora apresenta e conta sua história,
os acontecimentos do seu âmbito familiar e do seu universo infantil, possibilitando uma
ampla imaginação. Como já dito anteriormente, “as bases da literatura Infantojuvenil
consiste no apelo à imaginação, a movimentação do diálogo” (AROYO, 2011).
Dentro desses episódios narrados por Raquel, muito se disse sobre o plano
imaginário, que consiste no fantástico, insólito, costumeiramente presente nas obras de
Lygia Bojunga, em A bolsa amarela isso está bastante presente. Os elementos insólitos
na narrativa estão na constituição das personagens guardadas dentro da bolsa e também,
nos acontecimentos no decorrer da história, como as vontades da menina Raquel que
engordavam e emagreciam, a possibilidade de carregar dentro de uma bolsa nomes, galos,
alfinete, guarda-chuva e vontades. Nota-se isso com frequência no decorrer da narrativa,
quando o leitor se envolve tanto com a leitura a ponto de torcer pro galo Terrível ter um
final diferente do previsto, que o galo Afonso consiga encontrar uma ideia e que possa
lutar por ela, que a guarda-chuva destrave e comece a viver sua vida de onde parou, e

22
principalmente, que Raquel se aceite como menina, criança e seus desejos sejam
respeitados.
Dentro do penúltimo capítulo, finalmente, as vontades se esvaem, menos a de
escrever, e a bolsa fica vazia, torna-se leve e consequentemente a menina também se sente
leve. A bolsa amarela nesse sentido, corresponde a própria Raquel, é dentro do seu íntimo
que ela guarda as suas vontades e seus amigos imaginários, é no seu inconsciente que ela
guarda suas frustações, preocupações, desejos, medos e críticas e é nesse mesmo ambiente
que ela se reencontra e reafirma como criança.
Mesmo sendo personagens reais dentro de um plano fantástico, suas histórias
permitem inúmeras possibilidades de interpretação. De forma bem humorada abordam
críticas sociais consideravelmente relevantes para o despertar do senso crítico do pequeno
leitor. O propósito da autora de considerar o leitor em sua obra faz toda diferença, dessa
forma a narrativa dialoga com o universo do leitor a todo momento de forma intensa, mas
sem se tornar exaustiva. Percebe-se que há uma preocupação por parte da autora no que
diz respeito à relação entre leitor e livro. “É nesse sentido que se verifica a posição da
autora em proporcionar ao leitor infantil histórias que fazem parte da sua vida, de forma
a contribuir com sua formação social” (PIRES, 2013, p, 14).
A partir da história de Raquel, uma garota que entra em conflito consigo mesma
e com uma estrutura familiar repressora, a autora estabelece uma análise da família
patriarcal. A menina, afetiva e sonhadora, conta-nos o seu dia a dia. Nesse contar, mundo
real e mundo imaginado, povoado de amigos ocultos e fantasistas, interligam-se na
medida em que fatos reais e fantásticos cruzam-se numa aventura íntima de auto
aceitação. Essa sua postura a leva a questionar e contradizer os pré-julgamentos impostos
pelos adultos contra as crianças e a mulher: a imagem feminina vai se revelando também
nas histórias de outros personagens, porém, sob outros aspectos. Mas a autora deixa à
criança leitora a hipótese de construir a sua imagem e não lhe impõe a possibilidade um
perfil único, permitindo diferentes interpretações. “Ler e reler os livros de Lygia é
descobrir e redescobrir um mundo cada vez mais rico. Seus leitores saem de lá menos
pobres” (MALHEIROS, 2000, p, 4)
Em síntese, a narrativa de Lygia Bojunga, por meio de uma abordagem lúdica
da realidade social, constitui-se de grande utilidade ao abrir caminho para ampla reflexão
sobre o papel do ser humano na sociedade. Ela, a narrativa, apela a cada leitor para a
percepção da sua identidade própria, ressaltando a existência das diferenças. Além de
contribuir para a aceitação pessoal, colabora com a promoção da literatura Infantojuvenil
no âmbito literário.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Ao se analisar o contexto em que a literatura infantojuvenil se desenvolveu,
percebe-se que a função pedagógica sempre esteve muito presente. A intenção educativa
do livro destacou-se, carregando consigo a função de dirigir e orientar a criança, quase
sempre sem a possibilidade de decidir e escolher o que ler.
A partir de 1970, iniciou no Brasil uma produção de livros para as crianças e
para os jovens, voltada para questionamentos dos valores sobre os quais estava assentada
a sociedade. Assim, formou-se uma literatura inquieta que focava nas relações entre a
criança e o mundo em que ela vivia. Dentre os autores dessa época, encontra-se Lygia
Bojunga Nunes, apreciada pela sua originalidade de temas e pela capacidade de criar
personagens que derrubam tais valores carregados de preconceitos, abrindo espaço para
a criança enquanto ser crítico.
Diante do exposto, não é difícil constatar que a bolsa amarela e os demais
elementos mágicos da narrativa contribuem com maior ou menor intensidade para o
aparecimento do fantástico na obra.
Esses objetos mágicos e toda a ambientação insólita servem não para criar
apenas um clima mágico, muito comum nas narrativas para crianças e jovens, mas os
recursos fantásticos servem para realçar a crítica social existente na narrativa. Ou seja, é
através desses elementos insólitos que a crítica da autora sobre a sociedade se faz de forma
mais precisa. É importante ressaltar ainda que por meio deste trabalho foi possível
compreender a importância das narrativas fantásticas e que os recursos utilizados nestas
ficam muito expressivos quando voltados para as crianças. O limite entre o real e o
imaginário para elas é leve, sem falar que essas histórias vêm ao encontro dos seus desejos
de magia e fantasia. Ficando claro na narrativa analisada que a relação entre os elementos
reais e imaginários vão além da fantasia de Raquel, esse forte jogo entre o real e o
imaginário colabora para a construção de críticas à sociedade, na verdade, esses fatos,
aparecem de certa forma para refletirmos.
É através da interpretação das histórias das personagens que se torna possível a
reflexão sobre os temas abordados pela autora na obra. A história nos comove, nos
permite adentrar no mundo das personagens, no tempo das mesmas e sentir as emoções
delas. É nesse momento que de forma involuntária surgem os questionamentos, a
necessidade de reflexão.. Isso porque além de deleitar-se e divertir-se com os episódios
inusitados narrados, o leitor torna-se conhecedor de seu papel como individuo social,
mesmo que seja o papel de seguir seus sonhos infantis. Com o trabalho, mostrou-se a
riqueza de abordagem literária que se encerra no interior de A bolsa amarela, seja a partir

24
de Raquel ou a partir da análise do processo de busca de identidade pelo qual passa até
sentir-se feliz consigo mesma. É uma história cujo final não é o já conhecido nos contos
maravilhosos, “felizes para sempre”, mas fica aberto; há apenas a certeza de que a menina
aprendeu a conviver com as vontades e amadureceu como pessoa.

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