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REVISTA BRASILEIRA DE ISSN: 2594-7451

COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS


ANO V Nº 07 FEVEREIRO 2019

Foto: Divulgação Itaipu


www.ctgbr.com.br

NOSSA MISSÃO É
PROVER ENERGIA LIMPA
PARA AS PESSOAS
POR MEIO DE PROJETOS
EM HARMONIA
COM O PLANETA
Somos a China Three Gorges Corporation,
uma das líderes mundiais em energia limpa.
Nosso foco está no desenvolvimento e operação
de hidrelétricas e outras fontes de energia renovável,
como eólica e solar.

No Brasil, nosso time soma o conhecimento de


diferentes culturas e experiências para gerar soluções
que contribuam para um futuro sustentável.

Respeito ao ser humano e à natureza:


o segredo da nossa energia.

Usina Hidrelétrica Garibaldi – Rio Canoas

ENERGIA
QUE
GERA
EDITORIAL

COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS – CBDB


Conhecimento científico e segurança
REPRESENTANTE DA COMISSÃO INTERNACIONAL DE Por Dimilson Pinto Coelho* - Diretor Técnico do CBDB
GRANDES BARRAGENS (ICOLD-CIGB) NO BRASIL

Parabenizo os colegas que concluíram com excelente


DIRETORIA
qualidade e sucesso os artigos da nossa Revista Brasileira
PRESIDENTE - CARLOS HENRIQUE MEDEIROS
de Engenharia de Barragens (RBEB).
VICE-PRESIDENTE - JOSÉ MARQUES FILHO
DIRETOR-SECRETÁRIO - CELSO JOSÉ PIRES FILHO
O conhecimento científico é primordial para o engenheiro
DIRETOR TÉCNICO - DIMILSON PINTO COELHO
barrageiro exercer sua função com qualidade e segurança. O profissional precisa
DIRETOR DE COMUNICAÇÕES - RICARDO AGUIAR MAGALHÃES conhecer a história da barragem, como ela foi construída e as suas particularidades
através de projetos executivos, relatório de acompanhamento da execução e ensaios
NÚCLEOS REGIONAIS - DIRETORES realizados em laboratório e in loco. Essas informações são fundamentais para a
BA – LÚCIO LANDIM FONSECA avaliação do comportamento estrutural.
CE – VANDA TEREZA MALVEIRA O desenvolvimento de ferramentas de gestão para avaliar o comportamento
GO/DF – HABIB SALLUM das barragens é louvável e necessário. Porém, não podemos esquecer da premissa
MG – CLEBER JOSÉ DE CARVALHO básica de realizar um projeto com qualidade, bem como executar e fiscalizar a obra
PR – ÉTORE FUNCHAL DE FARIA com rigor, sem poupar esforços para pôr em prática as melhores técnicas reconhecidas
PE – JOSÉ AQUINO DE SOUZA mundialmente - e normatizadas. Esse conjunto somado com uma efetiva manutenção e
RJ – GERALDO MAGELA PEREIRA um monitoramento contínuo trarão consequente qualidade e segurança nas barragens.
RS – LÚCIA WILHELM VÉRAS DE MIRANDA Esta edição apresenta artigos sobre: setor elétrico brasileiro e seu futuro, proposta
SC – SÉRGIO CORRÊA PIMENTA de implantação do plano de ação de emergência, classificação por categoria de risco
SP – PAULO VICTOR CASTELLO BRANCO BRAUM e dano potencial associado, sistemas de gerenciamento, inspeções e avaliação do
sistema de drenagem e operação de barragens. Esperamos, desta maneira, contribuir
COMISSÕES TÉCNICAS NACIONAIS - COORDENADORES
para o bom cumprimento da missão do CBDB. Desejamos uma excelente leitura!
BARRAGENS DE CONCRETO
JOSÉ MARQUES FILHO
BARRAGENS DE ENROCAMENTO COM FACE DE CONCRETO * Dimilson Pinto Coelho é formado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná
BAYARDO MATERÓN (UFPR) e mestre em Desenvolvimento de Tecnologia pelo Instituto LACTEC. Trabalhou por dez
anos na Companhia de Saneamento do Paraná (SANEPAR). Em 2009 passou a integrar a Divisão
BARRAGENS DE REJEITOS
de Engenharia Civil e Arquitetura da Usina Hidrelétrica de Itaipu atuando como engenheiro e
JOAQUIM PIMENTA DE ÁVILA coordenador, por Itaipu, do Centro de Estudos Avançados em Segurança de Barragens (CEASB). O
BARRAGENS DE TERRA E ENROCAMENTO órgão conta com mais de 21 pesquisas voltadas ao desenvolvimento de novas soluções estratégicas
LEONARDO DE OLIVEIRA GUERRA DEOTTI em segurança de barragens aplicadas em Itaipu.
CONDICIONANTES REGULATÓRIOS À REALIZAÇÃO DE
BARRAGENS E RESERVATÓRIOS
RAYMUNDO JOSÉ SANTOS GARRIDO CAPA
FORMAS DE CONTRATAÇÃO DE SERVIÇOS DE ENGENHARIA
E CONSTRUÇÃO
Itaipu Binacional - A maior geradora de energia limpa e renovável do planeta
A Usina Hidrelétrica de Itaipu é um empreendimento pertencente ao Brasil e ao Paraguai, implantado com base
RICARDO ANDRZEJEWSKI
no Tratado celebrado em 26 de abril de 1973. O documento registra a decisão de realizar o aproveitamento
HIDRÁULICA EM BARRAGENS
hidrelétrico dos recursos hídricos do Rio Paraná desde, e, inclusive, o Salto Grande de Sete Quedas (ou
DIEGO DAVID BAPTISTA DE SOUZA Salto de Guaíra) até a Foz do Rio Iguaçu. Dentre outras disposições, o Tratado de Itaipu estabelece que a
IMPACTO AMBIENTAL DE BARRAGENS E RESERVATÓRIOS energia produzida pelo aproveitamento seja dividida igualmente entre ambos os países, possuindo cada um o
SANDRA ELISA FAVORITO RAIMO direito de adquirir a energia que não for utilizada pelo outro para seu próprio consumo. A Itaipu Binacional foi
OBRAS DE PROTEÇÃO E CONTENÇÃO DE FLUXO DE DETRITOS constituída em 17 de maio de 1974 com igual participação no capital por parte da Eletrobrás e da Ande, sendo
esta última a entidade responsável pelos serviços de energia elétrica no Paraguai. As obras de construção da
DIMITRY ZNAMENSKY
usina foram iniciadas em 1975 e, em maio de 1984, entrou em operação a primeira unidade geradora. Sete
PESQUISA, DESENVOLVIMENTO E INOVAÇÃO TÉCNICA
anos depois, em abril de 1991, foi colocada em serviço a 18ª máquina e, com esse marco, a usina atingiu a
RICARDO AGUIAR MAGALHÃES capacidade de 12.600 MW, com nove unidades geradoras em cada uma das frequências, de 50 Hz e 60 Hz.
REGISTRO DE BARRAGENS Em 2000, em função da necessidade de atendimento da máxima demanda diária dos sistemas elétricos do
ÉTORE FUNCHAL DE FARIA Brasil e do Paraguai, do aumento estimado de cerca de 3.600 GW/h na capacidade anual de produção da
SEGURANÇA DE BARRAGENS usina, que propicia, além da energia adicional, a geração de royalties para os dois países, e da oportunidade
CARLOS HENRIQUE MEDEIROS ensejada pelo baixo custo de implantação, a Itaipu, em conjunto com a Eletrobrás e a Ande, decidiu instalar
duas unidades geradoras adicionais de 700 MW. Essas novas unidades entraram em operação comercial
USOS MÚLTIPLOS DE RESERVATÓRIOS
ao final de 2006 e no início de 2007, elevando a potência instalada de Itaipu para 14.000 MW. Desde que
FÁBIO DE GENNARO CASTRO
entrou em operação, em maio de 1984, a Usina de Itaipu é líder mundial em produção de energia limpa e
renovável, tendo produzido mais de 2,6 bilhões de Megawatts-hora (MWh) desde o início de sua operação.
CBDB - Comitê Brasileiro de Barragens Com 20 unidades geradoras e 14.000 MW de potência instalada, fornece 15% da energia consumida no
Rua Real Grandeza, 219 - Bloco C - Sala1007 Brasil e 90% no Paraguai. Esta energia é suficiente para atender à demanda brasileira por aproximadamente
Bairro Botafogo - Rio de Janeiro/RJ - Brasil 5 anos e 3 meses. Itaipu fechou 2016 com uma produção histórica de 103.098.366 de MWh e estabeleceu
CEP 22281-900 FAX 055 21 2528 5959 uma nova marca mundial. A eficiência operativa de Itaipu é atestada pelos excelentes resultados que vêm
TELEFONES 055 21 2528 5320 | 055 21 2528 5283 sendo alcançados, comprovados pelos indicadores específicos que expressam a consecução do objetivo
E-MAIL cbdb@cbdb.org.br WEB www.cbdb.org.br empresarial de “manter a excelência na produção e no suprimento de energia”.

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 3


SUMÁRIO
COMITÊ EXECUTIVO

CARLOS HENRIQUE MEDEIROS

ARTIGOS Publicação de responsabilidade do CBDB DIMILSON PINTO COELHO


COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS
RICARDO AGUIAR MAGALHÃES

06 O SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO E O FUTURO A Revista Brasileira de Engenharia de COORDENAÇÃO EDITORIAL


Barragens (RBEB) é uma publicação
Tema: Energia RICARDO AGUIAR MAGALHÃES
técnica aperiódica do Comitê Brasileiro
País / Edição: Brasil / 2018 de Barragens (CBDB), distribuída em JORNALISTA RESPONSÁVEL
Autor: José Marcos DONADON todo o território nacional e direcionada CLÁUDIA RODRIGUES BARBOSA
Revisor: Flavio Miguez de Mello aos profissionais que atuam na
PROJETO GRÁFICO
Engenharia de Barragens em geral e em
obras associadas. Os artigos assinados E DIAGRAMAÇÃO
10 ADAPTAÇÃO DA METODOLOGIA LEGAL DA são de expressa responsabilidade
URSULA FUERSTENAU
CLASSIFICAÇÃO POR CATEGORIA DE RISCO – CRI de seus autores e não refletem,
E DANO POTENCIAL ASSOCIADO – DPA PARA FINS necessariamente, a opinião do CBDB. FOTOLITO / IMPRESSSÃO

GERENCIAIS Todos os direitos reservados ao CBDB. GRÁFICA COMUNICAÇÃO IMPRESSA


Nenhuma parte de seus conteúdos pode
Tema: Segurança de Barragens TIRAGEM
ser reproduzida por qualquer meio sem a
País / Edição: Brasil / 2018 autorização, por escrito, dos editores. 800 EXEMPLARES
Autores: Marco de VITO, Rafael Ribeiro SILVEIRA, Gertjan BEEKMAN
Revisora: Teresa Cristina Fusaro
A Revista Brasileira de Engenharia de Barragens (RBEB) tem por objetivo a
publicação de artigos científicos e de relatos técnicos inerentes à Engenharia de
16 APLICAÇÃO DE SISTEMA PIMS NO GERENCIAMENTO Barragens em geral, de modo a explicitar os conhecimentos técnicos atualizados,
E ANÁLISE DE DADOS DA INSTRUMENTAÇÃO DE que sejam úteis tanto para a operação das empresas que projetam, constroem ou
operam barragens, como para os centros de pesquisa e as universidades que se
AUSCULTAÇÃO DE BARRAGENS
dedicam ao desenvolvimento da Engenharia de Barragens.
Tema: Instrumentação O Conselho Editorial, abaixo nominado, é o órgão responsável pela definição
País / Edição: Brasil / 2018 da linha editorial e pela qualidade técnica dos trabalhos. Está composto por
Autora: Alexandre Vaz de MELO, Diego Antonio Fonseca BALBI, membros selecionados entre os sócios do Comitê Brasileiro de Barragens
Wellerson da Silva BASTOS, Johnny Souza ANDRADE (CBDB) com comprovada experiência profissional ou acadêmica em cada um
Revisor: João Francisco Alves Silveira dos 16 temas a seguir relacionados.

TEMAS E COMPOSIÇÃO DO CONSELHO EDITORIAL


26ANÁLISE DE MATERIAIS PROVENIENTES DO SISTEMA
DE DRENAGEM INTERNA DA BARRAGEM DE TERRA DA BARRAGENS DE CONCRETO COMPACTADO A ROLO (CCR)
FRANCISCO RODRIGUES ANDRIOLO, WALTON PACELLI DE ANDRADE
UHE SÃO SALVADOR BARRAGENS DE FACE DE CONCRETO E DE NÚCLEO ASFÁLTICO
Tema: Barragens de Terra e de Enrocamento BAYARDO MATERÓN, CIRO HUMES
País / Edição: Brasil / 2018 BARRAGENS DE REJEITO
Autores: Cesar Schmidt GODOI, Juliana Francisca CORREA, Karina JOAQUIM PIMENTA DE ÁVILA
BARRAGENS DE TERRA E DE ENROCAMENTO
Guimarães Lopes SOLA, Márcia Collares MEIRELLES
CIRO HUMES, PAULO TEIXEIRA DA CRUZ, CASSIO BAUMGRATZ VIOTTI
Revisor: Paulo Teixeira da Cruz CONCRETO, TECNOLOGIA E MATERIAIS
SELMO CHAPIRA KUPERMAN, WALTON PACELLI DE ANDRADE, JOSÉ
MARQUES FILHO
33PROPOSTA DE IMPLANTAÇÃO DO PLANO DE AÇÃO
ENERGIA
DE EMERGÊNCIA EM CICLOS FLAVIO MIGUEZ DE MELLO, JERSON KELMAN, FRANCISCO LUIZ SIBUT GOMIDE
Tema: Segurança de Barragens EQUIPAMENTOS HIDROMECÂNICOS
País / Edição: Brasil / 2018 PAULO CEZAR FERREIRA ERBISTI, JOÃO CARLOS MATHEUS
GEOLOGIA DE ENGENHARIA
Autores: Débora Pimentel COSTA, Glauco GONÇALVES, André Santos de
RICARDO ANTÔNIO ABRAHÃO
Oliveira FURTADO GEOTECNIA E FUNDAÇÕES
Revisora: Teresa Cristina Fusaro ALBERTO DE SAMPAIO FERRAZ JARDIM SAYÃO, MILTON ASSIS KANJI
HIDRÁULICA E VERTEDORES
MARCELO GIULIAN MARQUES, NELSON LUIZ DE SOUZA PINTO
39 MÉTODOS DE INSPEÇÃO REMOTA DE BARRAGENS
HIDROLOGIA
Tema: Segurança de Barragens HEINZ DIETER OSKAR AUGUST FILL, MÁRIO CICARELI PINHEIRO
País / Edição: Brasil / 2018 INSTRUMENTAÇÃO
Autores: João Francisco Alves SILVEIRA, Kaique Dantas OLIVEIRA ARSENIO NEGRO JR., JOÃO FRANCISCO ALVES SILVEIRA, RUBEN JOSÉ
RAMOS CARDIA
Revisora: Teresa Cristina Fusaro
MEIO AMBIENTE
MARÍLIA PIRONI SCOMBATTI, SÍLVIA HELENE MENEZES PIRES
47BARRAGEM TERZAGHI: AVALIAÇÃO APÓS 68 ANOS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
MARIA ASSUNÇÃO FAUS DA SILVA DIAS
DE OPERAÇÃO
RECURSOS HÍDRICOS
Tema: Barragens de Terra e de Enrocamento
BENEDITO PINTO FERREIRA BRAGA JÚNIOR
País / Edição: Brasil / 2018 SEGURANÇA DE BARRAGENS
Autores: Bruno NEVES, Alberto SAYÃO CARLOS HENRIQUE DE A. C. MEDEIROS, TERESA CRISTINA FUSARO
Revisor: Paulo Teixeira da Cruz TÚNEIS
TARCÍSIO BARRETO CELESTINO

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HOLOFOTE

Horizonte e perspectivas do controle de cheias no Brasil


Dr. Carlos E. M. Tucci - Diretor da Rhama Consultoria Ambiental e Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS

Existem dois tipos de inundações que ocorrem isoladamente ou combinadas numa mesma área urbana1.
As inundações ribeirinhas ocorrem por extravasamento natural da calha menor do rio em períodos de
umidade e o impacto é decorrência da ocupação de área de risco pela população. Isto ocorre em bacias
> 300 km2. As inundações na drenagem urbana são devido à urbanização e ocorrem em pequenas bacias
urbanas de alguns km2. A urbanização (impermeabilização do solo, canais e condutos) aumenta a vazão média de cheia em até 700% se
comparada com uma bacia rural.
Infelizmente, estes problemas não têm uma estratégia de gestão adequada no País porque os investimentos são pulverizados pelos
ministérios, estados e municípios, sem um entendimento integrado do problema. Usualmente são priorizadas medidas estruturais (obras)
que dificilmente serão recuperadas pelos benefícios - até porque este tipo de análise dificilmente é realizada. Uma medida estrutural para
controle de inundações ribeirinhas geralmente está na magnitude de R$ bilhões, o que não é sustentável economicamente, considerando
o universo nacional. Além disso, não costumam trazer benefícios maiores que os custos. Uma família que deixa de ocupar a área de
inundações reduziria o custo futuro de reassentamento da ordem de US$ 15 a 20 mil. O zoneamento de inundação com infraestrutura
urbana permite preservar áreas de riscos e reduzir os impactos futuros. Na década de 60, os Estados Unidos previram que as medidas
estruturais não eram sustentáveis e desenvolveram um programa de zoneamento e seguros de inundações.
Nas inundações na drenagem urbana, o investimento no Brasil ainda está em construção de condutos e canais (apesar dos manuais
do Ministério das Cidades). O custo é da ordem de US$ 7 milhões/km2 de bacia, enquanto que com o uso de amortecimento, fica na
ordem de US$ 1 milhão/km2 (medidas na fonte, o custo é ainda metade do anterior). Certamente, você receberá a seguinte resposta de um
engenheiro: “Não tem espaço para amortecimento, mas para controle da cheia de 10 anos (tempo de retorno economicamente ideal, pois
apresenta a melhor relação benefício/custo) é necessário a ordem de 1% da área da bacia”. Portanto, mesmo nas bacias mais densas, é
possível usar amortecimento quando realmente existe interesse. Este tipo de alternativa pode permitir uma solução integrada com outros
serviços urbanos e introduzir elementos de arquitetura verde na cidade.
Para que haja sustentabilidade é necessário que existam instituições para prestar os serviços de manutenção dos sistemas construídos
depois das obras. No Brasil, apesar da legislação de saneamento de 2007, que previa drenagem urbana como um serviço, apenas duas
cidades tinham prestador de serviço (Porto Alegre/RS e Santo André/SP). Infelizmente, o serviço de Porto Alegre foi fechado no ano
passado depois de 40 anos de operação. Sendo assim, mesmo que tenham recursos, os mesmos podem ser desperdiçados por falta de
gestão e manutenção.
Recentemente fizemos um Plano Estratégico para Taquara, no Rio Grande do Sul, onde preparamos o Zoneamento de Inundação
(medida não-estrutural para as áreas ribeirinhas e inserido no Plano Diretor Urbano do município para que a cidade tenha os instrumentos
de controle sobre esta área de risco). Elaboramos ainda a regulação da drenagem urbana para evitar que as novas construções aumentem
a vazão para a rede pública e controle o impacto da sua futura expansão (as cidades de Porto Alegre, 2000; Brasília, 2011 e Teresina, 2015
já possuem). Criamos o termo de referência para as medidas estruturais na drenagem urbana para as três macrobacias do município com
ênfase no amortecimento. Então, propusemos prestar serviço de drenagem urbana, com recuperação (estimado em R$ 0,65/m2 de área
impermeável por ano).
Esta foi a estratégia para uma cidade, mas o País necessita desenvolver uma proposta nacional para encaminhar de forma racional os
investimentos em prevenção e adaptação - e não apenas em mitigação depois da ocorrência dos problemas. Quando visto isoladamente,
a gestão é construir obras, como diques e barragens para diminuir o risco. Mas, essas são obras insustentáveis economicamente, como
identificaram os EUA nos anos 60. A gestão integrada envolve definir uma estratégia nacional, regional e local de prevenção e mitigação
com investimento ao longo do tempo.
1
O texto tem viés de abordar as inundações urbanas.

Carlos Eduardo Morelli Tucci é engenheiro civil, PhD Colorado State University, 1978, professor titular (aposentado) IPH-UFRGS, diretor da Rhama
Consultoria e consultor de empresas nacionais como Itaipu e Fundação Renova, e internacionais como Banco Mundial, BID e CAF. Publicou mais de 500
artigos em revistas, eventos, capítulos de livros e livros e recebeu o Prêmio ABRH de 2005 e International Hydrology Prize da IAHS, UNESCO E OMM.

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ENERGIA

O SETOR ELÉTRICO
BRASILEIRO E O FUTURO
José Marcos DONADON | Engenheiro Civil EPUSP/78 – CEF

RESUMO

Nos últimos 14 anos, para cada pequena hidroelétrica, o Brasil In the last 14 years, for each small hydro, Brazil has built 20
construiu 20 termelétricas. Isto é chamado de “aquecimento” do thermoelectric plants. ThisABSTRACT
is called the “heating” of the Brazilian
setor elétrico brasileiro. Este procedimento, aliado às fontes eólica Electricity Sector. This procedure, together with wind and solar
e solar, é adequado às grandes potências, que já esgotaram seu sources, is suitable for developed countries, which have already
potencial hídrico para geração de energia. Ao contrário, o Brasil exhausted their hydroelectric potential for power generation. On the
construiu duas de cada cinco das suas hidroelétricas inventariadas. contrary, Brazil built 2 out of 5 of its inventoried hydro power plants.
O presente artigo procura identificar o exato ponto no qual uma The present paper seeks to identify the exact point at which an
fonte cara, poluente, que bate de frente com a COP 21 em termos expensive, polluting source that is confronted with COP 21 in terms
de aquecimento global, vem, ano a ano, suplantando de forma of global warming, year by year, increasingly supplanting another
crescente a outra fonte econômica, sustentável, renovável e economic, sustainable, renewable and abundant source, which, to
abundante, que, até hoje, inundou 0,0042 do território nacional. date, has flooded 0.0042 of the national territory.
O trabalho finaliza com a sinalização de um lapso temporal de It ends by signaling a time lapse of new energy input from 2020
entrada de energia nova de 2020 a 2024. to 2024.

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1. INTRODUÇÃO evento contou com a participação de chefes de estado de 197
países, sendo que o principal tema foi o clima e as mudanças

D
e 2005 ao início de 2018, o Brasil realizou 39 leilões de climáticas causadas pelo efeito estufa e pelo aquecimento global.
geração de energia nova, que totalizaram 28 GW de O encontro teve como principal objetivo firmar um acordo
termelétricas contra 5 GW de pequenas hidroelétricas.[1] (ficou conhecido como Acordo de Paris) entre as 197 nações,
O apogeu dessa corrida na contramão foi o Leilão “A-6” de 2018 voltado para a redução das emissões dos gases do efeito
[2], para energia nova a entrar a partir de 1º de janeiro de 2024. estufa. Este pacto deverá entrar em vigor a partir de 2020.
A missão é reduzir o aquecimento global para que até o ano
de 2100 a temperatura média do planeta tenha um aumento
inferior a 2°C.
2. LEILÃO A-6 / 2018 – O Intended Nationally Determined Contributions (INDC)
CADASTRAMENTO é um documento em que todos os países devem apresentar
medidas práticas e metas para reduzir a emissão de carbono
Fonte Projetos Potência (MW) Participação (%) nos próximos anos. Estas metas devem ser revistas, a partir de
UTE a gás natural 36 27.608 47,64
2018, a cada cinco anos.
Eólica 926 27.058 46,68
UTE a biomassa 25 1.040 1,79 Os países do G20 (mais ricos do mundo) se comprometeram
UTE “a carvão” 2 940 1,62 a ajudar financeiramente as nações em desenvolvimento com
PCH 63 919 1,59 US$ 100 bilhões por ano (a partir de 2020), para que estas
UHE 7 333 0,57 possam desenvolver sistemas e projetos para redução da
CGH 21 61 0,11 emissão de gases de efeito estufa.
Totais 1.080 57.959
O Acordo de Paris entrou em vigor no dia 4 de novembro
de 2016.

3. ANÁLISE
5. COP 22
A fonte eólica, com praticamente a metade da composição do
cadastro deste Leilão (46,68%), além de mais cara que a hídrica,
A 22ª Conferência da ONU sobre o Clima foi realizada
é intermitente e, não raro, aerogeradores de 90 m de altura (um
em Marraquexe (Marrocos) em novembro de 2016. Ela foi
edifício de 30 andares) são danificados ou mesmo derrubados
importante, pois deu início à regulamentação do Acordo de Paris.
por ventos de 120 km/h. Os equipamentos ainda matam grandes
aves, atraídas pelo silvo das pás gigantes. Esta fonte não se presta
a grandes cargas, como a industrial. Uma linha de produção de
alumínio da ALCOA consome uma turbina de Tucuruí: são 375 MW 6. COP 23
ou 375 aerogeradores gigantes.
Porém, o absurdo não está nesta metade. O aspecto preocupante A 23ª Conferência da ONU sobre o Clima foi realizada em
é com a energia térmica (51,05%), o que inclui dois projetos “a Bonn (Alemanha) em novembro de 2017. O principal objetivo
carvão” que totalizam quase 1 GW. A geração térmica, além de foi a implementação do Acordo de Paris. Os principais embates
dispendiosa, é poluente e contribui para o aquecimento global. Na ocorreram em relação ao financiamento para combater o
tabela, ela soma 29.588 MW, mais que duas Itaipus em potência. aquecimento global e com os prazos para a redução da emissão
Sobram para as fontes hidroelétricas míseros 2,27%. Este dos gases do efeito estufa. Os questionamentos e obstruções
número reflete a imagem do atual descaso motivado por interesses partiram, principalmente, dos países industrializados.
estranhos aos da nação brasileira.

7. COP 24
4. AQUECIMENTO GLOBAL – COP 21
A COP 24 será realizada na Polônia, em dezembro de 2018.
A COP 21 [3] (Conferência das Nações Unidas sobre as Nesta conferência, os países irão analisar a redução na emissão
Mudanças Climáticas) foi realizada em Paris, no final de 2015. O dos gases do efeito estufa.

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 7


O SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO E O FUTURO

8. METAS DO BRASIL NO ACORDO DE radicalmente entre si. Não há consenso. O risco hidrológico GSF
(a sigla em inglês significa Generation Scaling Factor, ou seja, a
PARIS relação entre o volume de energia efetivamente gerado pelas
usinas que compõem o Mecanismo de Realocação de Energia
Como participante da COP 21 e do Acordo de Paris, o Brasil (MRE) e a garantia física total dessas mesmas hidrelétricas)
assumiu metas para reduzir a emissão de gases do efeito estufa. atinge cifras absurdas, capazes de quebrar empreendedores.
Entre esses compromissos está a redução em 37% nas emissões Some-se a isto o aumento exponencial do número e
destes gases até 2025, ampliando a redução para 43% até o ano complexidade das ações jurídicas, verificado no setor nos
de 2030. Outro desafio nacional é o de ampliar a participação últimos anos. Modismos, como a fracassada reengenharia,
de fontes de energia renováveis na matriz energética. que destruiu empresas mundo afora há 15 anos, e hoje em
dia outros, como coaching, evolução disruptiva, engenharia
da complexidade, funcionam muito bem na seara teórica, mas
9. RESULTADO DO LEILÃO A-6 podem ser desastrosos no mundo real.
Além disso, a dupla concessão é um fato muito estranho.
Realizado no dia 31 de agosto de 2018, neste Leilão, para Quando foram construídas, há três ou quatro décadas, as UHEs
energia nova por entrar a partir de 1 de janeiro de 2024, foram recebiam concessão por 35 anos. Hoje, à medida em que este
vendidos 2.100 MW, ou 3,6% dos 57.959 MW ofertados, o que prazo expira, as concessões são renovadas via leilões.
representa apenas 1,1% do aumento de oferta, considerado o O problema é o preço. O correto seria o valor amortizado
total atual instalado de 186.555 MW [4]. da usina, mas o praticado é o de uma usina nova, muitas vezes
Este acréscimo pífio não guarda qualquer aderência maior, ou seja, é como se a mesma usina fosse construída duas
com uma possível, e fortemente desejada, retomada do vezes, fato que sobrecarrega os consumidores e vai contra a
desenvolvimento do Brasil - ora estagnado. modicidade tarifária.
A título de comparação, mesmo com o crescimento zero do
PIB, a demanda energética sobe 3% ao ano.
12. CONCLUSÃO
10. LAPSO TEMPORAL DE ENERGIA Em 1 de junho de 2017, o presidente dos EUA anunciou a saída
NOVA de seu país do Acordo Climático de Paris. Os EUA são um dos
maiores emissores de gases do efeito estufa do mundo (21%) e
Interessante que este percentual pífio coincide com a tal decisão afeta significativamente o acordo. A decisão de Donald
média de energia nova contratada nos leilões realizados para Trump foi muito criticada pela comunidade internacional e pelos
os quatro anos anteriores, para entrada entre 2020 a 2023, defensores do combate ao aquecimento global.
de 2.029 MW/ano [1], ou seja, o mesmo 1,1% de aumento ao Ao contrário das metas do Brasil no Acordo de Paris, conforme
ano. Este triste número não é um ponto isolado do Leilão A-6 / item 8 acima, é evidente que, nos leilões dos últimos 14 anos e, em
2018: ele é uma tendência, uma média. especial, no A-6 / 2018, existe uma perfeita aderência, um estreito
Caracteriza-se, então, um lapso temporal de entrada de energia alinhamento, uma sólida ressonância entre o comportamento dos
nova, de 2020 a 2024, em um montante adequado ao futuro do EUA e do Brasil, no que tange ao aquecimento global.
Brasil, colocando em risco seu possível desenvolvimento. É este o exato ponto no qual reside a razão de o Brasil preterir
UHEs em prol das UTEs. Provar isto era o objetivo, ora alcançado,
destas mal traçadas linhas.
A nossa matriz, outrora 87% hidroelétrica, hoje é de 59,45%.
11. COMPLEXIDADE E DUPLA A nossa matriz, outrora limpa, está sendo cada vez mais suja.
CONCESSÃO
A complexidade atual do sistema elétrico brasileiro é 13. PALAVRAS-CHAVE
enorme e irracional técnica, econômica e politicamente. A
interdependência dos processos é brutal. E a imprevisibilidade é Energia, hidroelétrica, termelétrica, aquecimento global,
inevitável. São fatores que poucos entendem e ainda divergem lapso temporal, complexidade, dupla concessão.

8 WWW.CBDB.ORG.BR
14. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
José Marcos DONADON
Engenheiro Civil formado pela Escola Politécnica da
[1] ANEEL – Resumo dos Resultados dos Leilões de Geração
Universidade de São Paulo em 1978. Trabalhou durante
no ACR de 2005 a 2018
40 anos na construção das Hidroelétricas de Itaipu, Porto
[2] EPE – Cadastramento para o Leilão “A-6” de 2018
Primavera, Salto Caxias e Passo São João. Há seis anos atua
[3] Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças em Belo Monte. É concursado desde 2010 e trabalha na
Climáticas de 2015 área de Engenharia da Caixa Econômica Federal. Afiliou-
[4] http://www2.aneel.gov.br/aplicacoes/capacidadebrasil/ se ao CBDB em 1989 e tem 36 trabalhos publicados em Seminários Nacionais de
capacidadebrasil.cfm Grandes Barragens.

Conte com a expertise da MC para Construção


ou Recuperação de Barragens.
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SEGURANÇA DE BARRAGENS

ADAPTAÇÃO DA METODOLOGIA
LEGAL DA CLASSIFICAÇÃO POR
CATEGORIA DE RISCO – CRI E
DANO POTENCIAL ASSOCIADO –
DPA PARA FINS GERENCIAIS
Marco de VITO | Eng. Agrônomo, MSc. – Ministério da Integração Nacional
Rafael Ribeiro SILVEIRA | Eng. Civil – Ministério da Integração Nacional
Gertjan BEEKMAN | Eng. Civil PhD – Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura

RESUMO ABSTRACT

A metodologia legal utilizada para a classificação das barragens em The established legal framework to rank the dams according
função da sua Categoria de Risco (CRI) e Dano Potencial Associado their Category of Risk and Potential Associated Damage is
(DPA) não permite a gestão eficiente dos sempre escassos recursos not useful for managing efficiently the limited resources for
para recuperação de barragens. Nesse trabalho, apresentam- rehabilitation purposes. This work illustrates some changes to
se algumas mudanças na classificação legal, visando a definir a the legal framework, in order to identify the priorities dams to
priorização das barragens a serem recuperadas. be rehabilitated.

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1. INTRODUÇÃO Resumidamente, as barragens de acumulação de água
são classificadas, segundo a CRI e o DPA. Por sua vez, a CRI é

P
or meio de consultoria internacional, o Ministério da desdobrada em três critérios: Características Técnicas (CT), Estado
Integração Nacional visou a estabelecer um Plano de de Conservação (EC) e Plano de Segurança de Barragem (PS).
Ações Estratégicas para a Reabilitação de Barragens Os CRI e DPA são cruzados entre si na matriz introduzida
da União (PLANERB), em cumprimento às determinações pela Resolução ANA 236, que divide as barragens em quatro
estabelecidas pela Lei Nº 12.334/10 [1]. classes: A, B, C e D.
Ao longo dos trabalhos desenvolvidos nos anos 2017 e É, entretanto, importante salientar que a classe atribuída
2018, foi realizado o diagnóstico estrutural, jurídico, cadastral à barragem não guarda relação direta com seu estado de
e ambiental para a reabilitação de barragens da União, conservação e sua periculosidade. Certa barragem de classe A
supostamente ou efetivamente, operadas por dois entes não exigirá, necessariamente, atuação prioritária relativamente
federais, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas à outra de classe B, por exemplo.
(DNOCS) e a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do De fato, as classes são utilizadas para obrigar os
São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF), ou pertencentes empreendedores a cumprir diferentes exigências. A Resolução
ao extinto Departamento Nacional de Obras de Saneamento ANA nº 236 estabelece, por exemplo, que uma represa de
(DNOS). classe A tem de realizar a Revisão Periódica de Segurança de
Uma das atividades previstas foi a classificação das barragens Barragem (RPSB) a cada 5 anos, enquanto para uma represa de
por Categoria de Risco (CRI) e Dano Potencial Associado (DPA), classe B, o prazo é de sete anos. Para as de classe C são 10 anos
de acordo com as normas vigentes. e, finalmente, de classe D, 12 anos.
O resultado dessa classificação se demonstrou pouco eficaz Por esses motivos, a classificação legal não se coaduna com
para a priorização das ações necessárias para a recuperação das o escopo dos trabalhos para estabelecer o Plano de Ações,
barragens. Dessa forma, recorreu-se à modificação de alguns uma vez que não permite a priorização das intervenções.
critérios legais, visando a uma melhor classificação de risco.
Com esse procedimento, obteve-se um índice mais detalhado
e objetivo, dirigido a melhorar a definição de prioridade dos 3. RESULTADO DA CLASSIFICAÇÃO
investimentos, sob o ponto de vista da urgência. DE BARRAGENS DE ACORDO COM
O CRI E DPA
2. ARCABOUÇO LEGAL Foram classificadas, segundo os critérios legais, 137 barragens.
Os resultados estão resumidos no quadro abaixo.
A Lei nº 12.334 [1], de 2010, ao instituir a Política Nacional
de Segurança de Barragens (PNSB), veio dotar o Estado de
instrumentos que aperfeiçoam a prevenção e a resposta aos Classe Barragem N. de Barragens
acidentes e incidentes em barragens. A 130
Entre os instrumentos da PNSB, há o sistema de classificação B 1
por Categoria de Risco (CRI) e por Dano Potencial Associado C 5
(DPA), previsto no inciso I do artigo 6º da citada lei [1]. D 1
A Resolução do Conselho Nacional de Recursos Hídricos Total 137
(CNRH) nº 143 [3] estabelece critérios gerais de classificação
de barragens para represamento de águas por Categoria de
Risco, Dano Potencial Associado, em atendimento ao artigo 7º Quadro 1. Classificação de barragens
de acordo com o CRI e DPA
da Lei nº 12.334 [1].
Já a Resolução da Agência Nacional de Águas (ANA) nº 132 [4]
estabelece critérios complementares de classificação de barragens Chama a atenção o grande número de barragens inseridas
reguladas pela agência quanto ao DPA, com fundamento no art. 5°, na classe ‘A’. Isso se deve especialmente à importância
§ 3°, da citada Resolução CNRH n° 143 [3]. Por fim, a Resolução ANA atribuída pela legislação à perda de vidas humanas (avaliada
nº 236 [2] apresenta a matriz de Classificação, segundo o CRI e o DPA. no DPA) numa eventual ruptura da barragem.

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 11


ADAPTAÇÃO DA METODOLOGIA LEGAL DA CLASSIFICAÇÃO POR CATEGORIA DE RISCO – CRI E DANO POTENCIAL ASSOCIADO – DPA PARA FINS GERENCIAIS

4. CLASSIFICAÇÃO DAS BARRAGENS 4.1.1 CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS MODIFICADAS (CT*)

SEGUNDO CRI*, DPA* E ÍNDICE DE No cálculo da CT*, o valor original de f é substituído por
RISCO (IR) f*, produto dos pontos indicados na coluna ‘Vazão do Projeto’
pelo peso da coluna ‘Informação Disponível’ (ID).
Visando a desenhar o plano estratégico para a reabilitação
das barragens em questão, foi necessário desenvolver uma
Vazão de Projeto Pontos Informação Disponível Pontos
sistemática para uma classificação com características gerenciais,
contínua e não discretizada, em apenas quatro classes, na forma CMP-Cheia 3 Estudo hidrológico 1
Máxima Provável < 20 anos com detalhes
imposta pela lei, que permita definir a ordem das intervenções. ou deca milenar
Nesse contexto de adaptação da metodologia legal às Milenar 5 Estudo não recente 1.4
exigências do Plano, foi idealizado o Índice de Risco (IR), (20 – 35 anos) ou
pouco detalhado
destinado para melhor refletir o real perigo que a barragem
TR = 500 anos 8 Estudo hidrológico 1.6
oferece à comunidade, levando em consideração, inclusive, a antigo (> 35 anos)
situação observada durante as inspeções técnicas.
TR < 500 anos ou 10 Estudo não confiável ou nen- 3
A metodologia desenvolvida encontra sua base na Resolução desconhecida hum dado existente
CNRH 143/2012, mas foram introduzidos conceitos e critérios
Quadro 2. Pontuação em função da Vazão de Projeto e Informação
de outras metodologias semiquantitativas já em uso em várias
Disponível (f*)
empresas do Brasil (KUPERMAN S. C., et alii, 2001[5]; FUSARO
T.C., 2003 [6]; MENESCAL et alii, 2001 [7]).
Reuniões e oficinas ad hoc entre especialistas permitiram O CT* é dado pela somatória de todas as pontuações atribuídas:
modificar os critérios de valoração de forma a: a) modular
valores conforme o tamanho da população afetada; b) dar CT* = a + b + c + d + e + f* (3)
mais importância aos dados hidrológicos; e, c) considerar uma
variedade maior de anomalias que possam vir a ser constatadas Onde os valores de a, b, c, d, e foram extraídos das matrizes da
nas barragens. Resolução CNRH 143/2012 e o de f*, conforme acima descrito.
Em analogia com a definição clássica de risco, o IR obtém-se
do produto entre o CRI modificado e DPA modificado:
4.1.2 ESTADO DE CONSERVAÇÃO MODIFICADO (EC*)

IR = CRI* × DPA* (1)


Para calcular EC*, foram introduzidos à respectiva matriz da
resolução CNRH 143/2012 dois critérios: Sistema de Drenagem
4.1 CATEGORIA DE RISCO MODIFICADO (CRI*) (m1) e Acesso à Barragem (m2).
O critério m1 foi introduzido para levar em consideração o
Diante da percepção de que o CRI oficial não considera alguns Sistema de Drenagem em barragens de concreto, conforme
parâmetros que influenciam a periculosidade da barragem, esse especificado no Quadro 3.
foi modificado para: a) aumentar a importância das informações
hidrológicas disponíveis; b) considerar problemas no sistema
de drenagem de barragens de concreto; c) considerar o acesso Fator Sistema de drenagem (m1) Pontos
em caso de emergências; d) considerar a importância do Em barragem de terra OU em barragem de concreto sem 0
monitoramento e da inspeção nas barragens; e, por concluir, e) necessidade de drenagem OU em barragem de concreto
estimular a implantação dos Planos de Ação de Emergência (PAE). com drenagem e drenos funcionando corretamente
O CRI* é calculado conforme a fórmula (2): Em barragem de concreto com drenagem, drenos com 5
alguns problemas de obstruções
CRI* = CT*+ EC* + PS* (2)
Em barragem de concreto com drenagem, drenos comple- 8
tamente obstruídos
Onde CT* representa a nota das Características Técnicas,
EC*, do Estado de Conservação, e PS*, do Plano de Segurança, Quadro 3. Pontuação do fator ‘Sistema de Drenagem’ (m1)
modificadas.

12 WWW.CBDB.ORG.BR
O critério m2 foi introduzido para considerar como se dá o O novo critério s foi introduzido para captar a existência de
acesso à barragem. Sua pontuação é mostrada no Quadro 4. um Plano de Ação de Emergência implantado. Os valores do
critério constam do Quadro 6.
Fator Acessos à Barragem (m2) Pontos

Fácil acesso à barragem 0 Plano de Ação de Emergência (s) Pontos


Dificuldades de acesso à barragem 4 Não existe Plano de Ação de Emergência 6
Impossibilidade completa de acesso à barragem 8 Plano de Ação de Emergência escrito, mas não aprovado 4

Quadro 4. Pontuação dos valores do fator ‘Acesso à Barragem’ (m2) Plano de contingência aprovado, mas não implantado 2

Plano de contingência aprovado e implantado 0


A partir dessas pontuações, o índice EC* é calculado como:
Quadro 6. Pontuação modificada do fator ‘Plano de Ação de Emergência’ (s)
EC* = g + h + i + j + k + m1 + m2 (4)

O valor de PS* é:
Onde os valores de g, h, i, j e k foram extraídos das matrizes
da Resolução CNRH 143/2012 e os de m1 e m2, conforme
PS* = n + o + p* + q + r + s (5)
acima descrito.
Foi mantida a priorização que diz respeito às barragens
Onde os valores de n, o, q, e r foram extraídos das matrizes da
com graves problemas de conservação. Assim, em primeiro
Resolução CNRH 143/2012 e os de p* e s, conforme acima descrito.
lugar aparecem as barragens que tenham pontuação maior
ou igual a 8 em qualquer das colunas relativas ao Estado de
Conservação do Índice CRI*. Nesses casos, a priorização das 4.2 DANO POTENCIAL ASSOCIADO MODIFICADO (DPA*)
ações se dará em função do DPA* da barragem.
O DPA foi modificado para: a) levar em consideração a
magnitude da população afetada pela ruptura da barragem; e,
4.1.3 PLANO DE SEGURANÇA DA BARRAGEM MODIFICADO (PS*)
b) introduzir no cálculo as consequências econômicas por perda
do reservatório (perda de produção hidroelétrica, abastecimento
O Critério PS* se diferencia da Resolução CNRH 143/2012
urbano, abastecimento industrial, irrigação, etc.).
por ter modificado a pontuação de p, identificando agora esse
O DPA* é calculado a partir do potencial de perdas de
parâmetro como p*, e, adicionalmente, introduzindo o critério
vidas humanas e dos impactos ambientais e socioeconômicos
Plano de Ação de Emergência (s) no seu cálculo, para levar
decorrentes da ruptura da barragem.
em consideração a existência, ou não, desse plano. Os valores
Para calcular o DPA*, a pontuação do fator b foi modificado e
modificados são apresentados no Quadro 5.
adicionalmente foi introduzido o critério Impactos por Perda do
Reservatório (e).
Procedimentos de roteiros de inspeção de segurança Pontos
e de monitoramento (p) Os novos valores utilizados para definir o critério modificado
Aplica procedimentos de inspeção e realiza monitoramento 0
(b*) são mostrados no Quadro 7.
detalhado na barragem. Os dados são registrados e analisados.
Aplica procedimentos de inspeção e monitoramento com um 6 Potencial de Perdas de Vidas Humanas (b) Pontos
sistema básico, onde muitas variáveis-chave não são analisadas.
INEXISTENTE- Não existem pessoas permanentes/residentes 0
Possui e aplica apenas procedimentos de inspeção, mas dispõe 8 ou temporárias/transitando na área afetada a jusante da
de projeto para desenvolvimento de monitoramento no futuro. barragem.
Possui e aplica apenas procedimentos de inspeção e não dispõe 12 POUCO FREQUENTE- Não existem pessoas ocupando 4
de projeto para desenvolvimento de monitoramento no futuro. permanentemente a área afetada a jusante da barragem,
Possui e não aplica procedimentos de inspeção e monitoramento. 16 mas existe estrada vicinal de uso local.
Não possui e não aplica procedimentos para monitoramento e 20 FREQUENTE- Não existem pessoas ocupando 8
inspeções. permanentemente a área afetada a jusante da barragem,
mas existe rodovia ou outro e empreendimento de
Quadro 5. Pontuação modificada em função dos Procedimentos de Roteiros (p*) permanência eventual de pessoas.

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 13


ADAPTAÇÃO DA METODOLOGIA LEGAL DA CLASSIFICAÇÃO POR CATEGORIA DE RISCO – CRI E DANO POTENCIAL ASSOCIADO – DPA PARA FINS GERENCIAIS

Potencial de Perdas de Vidas Humanas (b) Pontos 4.3 ÍNDICE DE RISCO (IR)
Conforme já antecipado, com base no CRI* e no DPA* o Índice
EXISTENTE – De 1 a 10 pessoas ocupando 10 de Risco (IR) é calculado conforme a equação [1]:
permanentemente a área afetada a jusante da barragem.
EXISTENTE – De 10 a 100 pessoas ocupando 15 IR = CRI* × DPA* (1)
permanentemente a área afetada a jusante da barragem.
EXISTENTE – De 100 a 1.000 pessoas ocupando 20
O Valor do IR de cada barragem foi obtido mediante
permanentemente a área afetada a jusante da barragem.
preenchimento da Ficha de Classificação Modificada das
EXISTENTE – De 1.000 a 10.000 pessoas ocupando 30
Barragens de Acumulação de Água, conforme quadro abaixo.
permanentemente a área afetada a jusante da barragem.
EXISTENTE – Mais de 10.000 pessoas ocupando 40
CATEGORIA DE RISCO MODIFICADO (CRI*) Pontos
permanentemente a área afetada a jusante da barragem.
1 Características Técnicas (CT*)
Quadro 7. Pontuação modificada em função do Potencial de Perdas de Vidas
2 Estado de Conservação (EC*)
Humanas, modificado (b*)
3 Plano de Segurança (PS*)
PONTUAÇÃO TOTAL CRI* = CT* + EC* + PS*
Caso esteja corretamente implantado um Plano de Ação de DANO POTENCIAL ASSOCIADO (DPA*)
Emergência e com uma boa coordenação entre as administrações PONTUAÇÃO TOTAL DPA*
envolvidas, aplicar-se-á o coeficiente de 0.65 ao critério b*.
ÍNDICE DE RISCO (IR)
Por último, conforme antecipado, é adicionada a variável Impacto
por Perdas do Reservatórios, cuja magnitude é identificada na PONTUAÇÃO ÍNDICE DE RISCO. IR = CRI* x DPA*
coluna (e), para refletir as consequências econômicas decorrentes Quadro 9. Ficha de Classificação Modificada das Barragens de Acumulação
da impossibilidade da utilização do reservatório, tais como perda de Água
de produção hidrelétrica, desabastecimento urbano, quebra da
safra por falta de irrigação, etc.
O valor dessa coluna é calculado a partir dos valores contidos 5. CONCLUSÕES
no Quadro 8.
O Quadro 10 apresenta o resultado obtido, em que o IR é
discretizado em intervalos.
Impacto por Perdas no Reservatório (e) Pontos

INEXISTENTE – A água do reservatório não é usada. 0 Intervalos de IR (IR=CRI* x DPA*) Nº de Barragens


BAIXO – Produção hidrelétrica de baixa magnitude ou no 4 0<IR<500 1
abastecimento de modesta significância ou em pequenos
empreendimentos agrícolas ou industriais.
500≤IR<1000 3

MÉDIO – Produção hidrelétrica ou empreendimentos 6 1000≤IR<1500 12


agrícolas ou industriais de importância local, ou 1500≤IR<2000 24
abastecimento urbano de pequenas cidades.
2000≤IR<2500 17
ALTO – Demais casos 8
2500≤IR<3000 22

Quadro 8. Pontuação em função do Impacto por Perdas do Reservatório (e) 3000≤IR<3500 23


3500≤IR<400 11
4000≤IR<4500 13
O índice DPA* é calculado como: 4500≤IR<5000 7
5000≤IR<5500 2
DPA* = a + b* + c + d + e (6)
5500≤IR<6000 2

Onde os valores de a, c, d foram extraídos das matrizes da Total 137


Resolução ANA nº 132 [4] e os de p* e e, conforme acima descrito.
Quadro 10. Classificação das barragens segundo o IR

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Nota-se que, diferentemente da situação mostrada no Quadro [4] BRASIL. Resolução ANA n. 132, de 10 de set. de 2018.
1, em que apenas uma classe (classe A) reúne praticamente todas Estabelece critérios complementares de classificação de
as barragens (130 de 137), no caso do IR proposto, as barragens barragens reguladas pela Agência Nacional de Águas – ANA,
estão distribuídas entre uma dúzia de diferentes valores do quanto ao Dano Potencial Associado - DPA, com fundamento
índice, o que proporciona melhor visão para o gerenciamento no art. 5°, §3°, da Resolução CNRH n° 143, de 2012, e art. 7° da
dos investimentos. Lei n° 12.334, de 2010. Brasília, fev. 2016.
[5] KUPERMAN, S. C.; RE, G.; FERREIRA, W. V. F.; TUNG, W. S.;
VASCONCELOS, S. E.; ZÚÑIGA, J. E. V. (2001)- “Análise de risco e
6. AGRADECIMENTOS metodologia de tomada de decisões para barragens: evolução
do sistema empregado pela Sabesp.” In: Seminário Nacional de
Agradece-se aos profissionais consultores do projeto PLANERB: Grandes Barragens, 24. p. 535-548. CBDB, Rio de Janeiro.
José Manuel ALONSO Hydraulic Project Manager; GNF IDG, [6] FUSARO, T. C. (2003) – “Metodologia de Classificação
Espanha; de Barragens Baseada no Risco.” In: Seminário Nacional de
Ignacio ESCUDER Universitat Politècnica València, Espanha; Grandes Barragens (SNGB), CBDB, Salvador.
Ignacio GUERRA Hydraulic Project Engineer; Segula Technologies [7] MENESCAL, R. A.; CRUZ, P. T.; CARVALHO, R. V.; FONTENELLE,
Espanha; A. S.; OLIVEIRA, S. K. F. (2001) – “Uma metodologia para a
Modesto SÁNCHEZ Hydraulic Project Engineer; GNF IDG, Espanha; avaliação do potencial de risco em barragens do semiárido.”
Adrián MORALES iPresas Risk Analysis, Espanha. In: Seminário Nacional de Grandes Barragens, 24., CBDB, Rio
de Janeiro.

7. PALAVRAS CHAVES
Marco DE VITO
Possui formação como Engenheiro Agrônomo pela
Segurança de Barragens, Análise de Risco, Categoria de Risco,
Universidade de Perugia, na Itália. Em 2007, pela
Dano Potencial Associado. Universidade de Brasília (UnB), recebeu o título de
Mestre em Tecnologia Ambiental e Recursos Hídricos.
A especialização é de 2016 pelo Instituto Federal do

8. BIBLIOGRAFIA Ceará/ANA.

[1] BRASIL. Lei n. 12.334, de 20 de set. de 2010. Estabelece


a Política Nacional de Segurança de Barragens. Brasília, set. Rafael Ribeiro SILVEIRA
2010. Formou-se em Engenharia Civil pela Universidade de
Brasília (UnB). Possui Pós-Graduação (lato-sensu) em
[2] BRASIL. Resolução ANA n. 236, de 30 de 2017. Estabelece
Gestão Ambiental pela Universidade Federal de São Carlos
a periodicidade de execução ou atualização, a qualificação
e Pós-Graduação (lato-sensu) em Gestão em Saneamento
dos responsáveis técnicos, o conteúdo mínimo e o nível de Ambiental pela AVM Faculdades Integradas. Atua como
detalhamento do Plano de Segurança da Barragem, das coordenador geral de Engenharia e Estudos do MI e
Inspeções de Segurança Regular e Especial, da Revisão como analista de Infraestrutura do MCid e do MI. Operou na Eletronorte, em
Periódica de Segurança de Barragem e do Plano de Ação de Conservenge e CAESB.
Emergência, conforme art. 8°, 9°, 10, 11 e 12 da Lei n° 12.334
de 20 de setembro de 2010, que estabelece a Política Nacional
de Segurança de Barragens - PNSB. Brasília, jan. 2017. Gertjan BEEKMAN
[3] BRASIL. Resolução Conselho Nacional de Recursos Engenheiro Civil, MSc e PhD em Recursos Hídricos.
Hídricos n. 143, de 10 de 2012. Estabelece critérios gerais Consultor, com 25 anos de experiência em projetos de
planejamento, desenvolvimento e gestão de Recursos
de classificação de barragens por categoria de risco, dano
Hídricos. Atualmente é coordenador de Recursos
potencial associado e pelo seu volume, em atendimento ao
Naturais e Adaptação às Mudanças Climáticas do Instituto
art. 7° da Lei n° 12.334, de 20 de setembro de 2010. Brasília,
InterAmericano de Cooperação para a Agricultura.
jan. 2012.

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 15


INSTRUMENTAÇÃO

APLICAÇÃO DE SISTEMA
PIMS NO GERENCIAMENTO
E ANÁLISE DE DADOS DA
INSTRUMENTAÇÃO DE
AUSCULTAÇÃO DE BARRAGENS
Alexandre V. MELO | Engenheiro de Segurança de Barragens, M.Sc. – Cemig Geração e Transmissão
Diego A. F. BALBI | Gerente de Segurança de Barragens, M.Sc. – Cemig Geração e Transmissão
Wellerson S. BASTOS | Técnico em Eletrônica – Cemig Geração e Transmissão
Johnny S. ANDRADE | Mestrando em Engenharia Elétrica – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

RESUMO ABSTRACT

Os sistemas informatizados são ferramentas essenciais para suportar Computer programs are essentials tools to support the
a qualidade e a agilidade atualmente exigidas na avaliação da quality and agility currently required in risk assessment for
segurança de barragens. Este trabalho tem como objetivo apresentar dams. This work aims to present the experience of Cemig
a experiência da Cemig Geração e Transmissão (Cemig GT) na GT in the implementation of a PIMS - Plant Information
implementação de um sistema PIMS- Plant Information Management Management System - for the management and analysis of
System - para a gestão e análise dos dados de instrumentação de dam instrumentation data. The project was applied at the
barragens. O projeto foi aplicado na barragem de Irapé, que possui Irapé dam, which has part of its geotechnical instrumentation
parte da sua instrumentação geotécnica automatizada, permitindo automated, allowing to demonstrate all the potentialities of a
demonstrar todas as potencialidades de um sistema PIMS. Os PIMS system. The results show an excellent performance, with
resultados mostram um desempenho excelente, com inúmeras several advantages in the use of this type of system in relation
vantagens no uso desse tipo de sistema em relação aos bancos de to the conventional databases historically used by the company.
dados convencionais historicamente utilizados pela empresa.
16 WWW.CBDB.ORG.BR
1. INTRODUÇÃO Como cita Aranha et al. [2], a gestão corporativa de processos

É
pode ser facilitada com a implantação de sistemas PIMS, sendo
de conhecimento geral que a coleta e análise dos uma ferramenta útil na correlação dos dados das diversas fontes
dados da instrumentação de auscultação são atividades de informações. Especialmente em uma empresa de grande
fundamentais para avaliação do comportamento de porte como a Cemig, onde os processos estão distribuídos em
barragens. Na fase de operação, a instrumentação, desde que vários setores, o PIMS se torna ainda mais relevante, integrando
adequadamente projetada, instalada e interpretada, pode distintas áreas, por meio de uma base de dados unificada e
prover informações importantes sobre anomalias, ainda em aderente ao conceito da indústria 4.0. Além disso, na rotina de
estágio inicial de evolução, que possam vir a representar risco à gerenciamento e análise de dados pelos usuários especialistas
segurança da barragem. Evidentemente, a instrumentação, por em segurança de barragens, o sistema PIMS tem trazido também
si só, não aumenta a segurança de uma barragem. Porém, se os inúmeros ganhos frente aos bancos de dados convencionais
dados estiverem confiáveis, disponíveis e forem analisados em historicamente utilizados na Cemig GT.
tempo hábil por uma equipe especializada, ações preventivas Enfim, este trabalho tem como objetivo apresentar o sistema
podem ser eventualmente adotadas para manutenção da PIMS aplicado à instrumentação das barragens operadas e
segurança das estruturas. mantidas pela Cemig GT. Com intuito de mostrar de forma prática
Assim, em virtude desta necessidade de que as informações a modelagem e telas, o artigo detalha o projeto implantado na
sejam processadas de forma rápida, prática e com reduzida UHE Irapé. Este projeto também está sendo estendido para
taxa de erros, é possível afirmar que os sistemas informatizados outras barragens da companhia. Irapé possui uma barragem
dedicados à operação e manutenção da segurança de barragens de enrocamento com núcleo (a mais alta do Brasil), cujo
são ferramentas essenciais para suportar a qualidade e a plano de monitoramento e instrumentação é bem atualizado
agilidade atualmente exigidas na avaliação da segurança das e interessante, com parte da instrumentação geotécnica
estruturas e nas tomadas de decisões. Empresas proprietárias recentemente automatizada, permitindo, assim, demonstrar
de barragens, tal como a Cemig GT, com uma grande quantidade todas as potencialidades no uso de um sistema PIMS.
de estruturas instrumentadas em seu portfólio, necessitam
de robustos sistemas especialistas que permitam a gestão de
um número elevado de dados com otimização de tempo nas
consistências e nas análises periódicas dos dados.
2. EVOLUÇÃO DOS SISTEMAS DE
Nesse contexto, a Cemig GT adotou, em 2017, um sistema INSTRUMENTAÇÃO NA CEMIG GT
PIMS (Plant Information Management Systems) para a gestão
e análise dos dados da instrumentação. De acordo com Souza Os sistemas especialistas utilizados na Cemig GT são frutos de
[1], PIMS são softwares que contêm um repositório de dados décadas de pesquisa e desenvolvimento da engenharia civil da
que concentram informações relevantes de um processo, fazem empresa, consolidando procedimentos, guias e instruções aderentes
seu armazenamento em um banco de dados temporal e os às boas práticas de segurança de barragens. Acompanhando a
disponibilizam por meio de variadas formas de representação. evolução dos recursos computacionais, o desenvolvimento de

Figura 1 – Sistemas especialistas utilizados na Cemig GT ao longo de décadas

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 17


APLICAÇÃO DE SISTEMA PIMS NO GERENCIAMENTO E ANÁLISE DE DADOS DA INSTRUMENTAÇÃO DE AUSCULTAÇÃO DE BARRAGENS

sistemas para gestão dos dados da instrumentação de barragens instalada é constituída por piezômetros, células de pressão
na Cemig se iniciou com o IES – Instrumentação de Estruturas total, medidores de vazão, caixas suecas, marcos superficiais,
(1984), avançando por diversos softwares, até chegar ao sistema entre outros. Considerando a importância do monitoramento,
ADB- Auscultação e Diagnóstico de Barragens (2008), em fase atual principalmente em relação às tensões efetivas nas ombreiras,
de substituição pelo sistema PIMS. vazões percoladas e gradientes hidráulicos no núcleo,
Na vasta experiência da Cemig GT com sistemas de foi realizada a automatização [3] de grande parte da
instrumentação, alguns problemas foram relatados no instrumentação instalada. Contudo, ressalta-se que também foi
passado, como o baixo desempenho de alguns sistemas web mantida a possibilidade de conferência manual das leituras nos
(consultas de bancos relacionais), além da dificuldade de instrumentos automatizados.
customização quando do fim de contratos de manutenção A rede local de automação implantada na região da crista
com desenvolvedores. Alinhada às tendências de automação da barragem e talude de jusante é constituída por dataloggers
da instrumentação geotécnica de barragens e à necessidade e módulos de rádio em 900 MHz na topologia mesh e um
de informação online, em tempo real, dinâmica e interativa datalogger servidor de interface (Gateway), situado na casa
(flexibilidade), a Cemig GT adotou uma nova estratégia em de força da usina. Os dataloggers disponibilizam um arquivo
relação à prospecção de softwares para instrumentação, do tipo “.DAT” a cada 60 minutos referente às medições de um
priorizando performance (sistemas historiadores com banco determinado grupo de sensores.
de dados temporal), flexibilidade (independência de fábricas O Gateway possui interface de rede ethernet e tem um IP fixo
de software e personalização pelo próprio usuário) e base de na rede corporativa, o que possibilita o acesso remoto da sede
dados unificada (uso corporativo). da Cemig GT em Belo Horizonte. Todos os arquivos “.DAT” dos
Nesse sentido, a Cemig GT adquiriu um sistema PIMS (PI dataloggers são enviados automaticamente através do Gateway
System da Osisoft™) que corresponde a uma infraestrutura para o servidor de FTP (File Transfer Protocol) da Cemig GT. Na
e conjunto de módulos de software (em arquitetura cliente- Figura 2 é apresentada a arquitetura simplificada da aquisição
servidor) responsável pelo armazenamento, organização, automática de dados.
cálculo, análise e exibição de dados de um processo. O PIMS
adotado é considerado padrão industrial em infraestrutura
corporativa para gestão de dados e eventos em tempo real.
Vale destacar algumas vantagens do PI System: foi projetado
para processar e historiar um grande volume de dados (com
alta disponibilidade e velocidade); as ferramentas têm foco
na análise e visualização de informações; são produtos
configuráveis com utilização fácil e intuitiva; proporciona uma
maneira simples de integrar manualmente as leituras coletadas
e permite disponibilizar os dados em diversas plataformas
Figura 2 – Arquitetura simplificada da aquisição automática de dados
(dispositivos móveis, painéis web e desktops). Por outro lado,
os custos do PI System são aparentemente restritivos para
empresas com poucos dados e só se justificam para empresas Na arquitetura de rede do PIMS há um Servidor de Interfaces
ou plantas de maior porte, por meio de um uso corporativo. que realiza a cópia dos arquivos do servidor FTP para os servidores
do PIMS da Cemig GT, denominados “PI Data Archive” e “PI AF”
(Asset Framework). Por sua vez, as rotinas de interface fazem
3. SISTEMA PIMS APLICADO À a leitura e salvam as informações dos arquivos nos devidos PI
Points, conhecidos como “tags”.
INSTRUMENTAÇÃO DA UHE IRAPÉ O sistema PIMS apresenta característica nativa de um sistema
historiador e cada variável proveniente de uma fonte de dados
3.1 AQUISIÇÃO AUTOMÁTICA DE DADOS é configurada como tag, ou seja, um único ponto de medição,
como a altura da lâmina d’água em um medidor de vazão. A
A análise da instrumentação da barragem de Irapé consiste tag está na unidade de armazenamento PI Data Archive [4].
essencialmente na avaliação das grandezas relacionadas à As tags podem ser acessadas diretamente no Data Archive ou
percolação, tensão, vazão e deformação. A instrumentação pelo servidor de AF (Asset Framework). Devido às vantagens de

18 WWW.CBDB.ORG.BR
usabilidade, o acesso dos usuários é realizado pelo servidor AF, sistema PIMS já é utilizado em várias tarefas operativas e em
por meio das ferramentas cliente de visualização [5]. As tags outras áreas da empresa.
têm um conjunto de propriedades que as definem, tais como O protocolo de comunicação utilizado para troca de
descrição, tipo de variável e unidade de medida. A obtenção das informação entre os servidores PIMS é o TCP/IP (Transmission
grandezas de engenharia necessárias para análise da barragem Control Protocol/ Internet Protocol), um dos mais utilizados na
consiste na realização de operações matemáticas com as tags. atualidade. Assim, os dispositivos interligados cumprem tarefas
Os resultados das operações são armazenados em pontos específicas e bem definidas que tornam o sistema robusto e
classificados como “atributos”. Um atributo pode fazer confiável (com várias redundâncias), e buscam a garantia da
referência a uma tag, uma fórmula, um valor de um banco de integridade e da qualidade dos dados.
dados relacional e, até mesmo, a um arquivo ou uma imagem Uma característica importante do sistema PIMS é a utilização
[4]. Dessa forma, tem-se a aquisição automática dos dados de do conceito Cluster [6] para os servidores de Interface, Data
cada instrumento da barragem, caracterizado pelo PIMS como Archive e AF [4]. Trata-se de uma redundância de disponibilidade
um “ativo”. Cada ativo possui um conjunto de informações como dos servidores, onde se um determinado servidor falhar, outro
tags e atributos, os quais serão detalhados no item 3.4. automaticamente assume as suas tarefas, tendo confiabilidade
e garantia efetiva da segurança e disponibilidade dos dados,
3.2 ARQUITETURA DE REDE bem como das tarefas a serem executadas. Outro dispositivo
importante a ser destacado é o servidor de Interface (PI
O sistema PIMS é extremamente flexível no que diz respeito Interfaces). Ele tem a tarefa de intermediar a comunicação entre
aos protocolos de comunicação e interfaces para troca de dados. a fonte dos dados, neste caso, o servidor FTP e o PI Data Archive.
A Figura 3 mostra a tipologia de rede utilizada. Este arranjo Estes servidores (Interface e Archive), por sua vez, têm a tarefa
foi escolhido devido à estrutra existente na Cemig GT, onde o de atribuir características únicas (“nomes”) aos dados recebidos

Figura 3 - Arranjo geral de rede

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 19


APLICAÇÃO DE SISTEMA PIMS NO GERENCIAMENTO E ANÁLISE DE DADOS DA INSTRUMENTAÇÃO DE AUSCULTAÇÃO DE BARRAGENS

e disponibilizá-los de maneira organizada para


o servidor PI AF.
Por sua vez, o servidor PI AF tem a tarefa
de receber estes dados, que foram copiados e
organizados, e disponibilizá-los na ferramenta
de visualização. Este servidor também tem
uma comunicação direta a um banco de dados
relacional que armazena todos os dados
cadastrais dos instrumentos e do sistema, que
são utilizados nas equações, análises, alarmes,
limites de controle, dentre outros. Ou seja,
todos os dados que não são leituras em campo
ficam armazenados neste servidor chamado de
SQL Server AF DB, também representado na
Figura 3.
Logo, é possível perceber que as informações
advindas das leituras dos instrumentos e
os dados cadastrais são armazenados em
locais distintos. Eles ficam juntos somente
no servidor PI AF, onde todas as equações,
tarefas e modos de visualização são definidos.
Assim sendo, o sistema trabalha de uma
maneira mais precisa, visando sempre um
alto desempenho. O PI System possui também
uma característica nativa, chamada de scan
class, que consiste em configurar a frequência
de tarefas em momentos distintos para cada
interface na busca de dados, procurando
eliminar a possibilidade de consulta simultânea
aos mesmos registros, tornando assim uma
ferramenta de alto desempenho na pesquisa,
processamento e apresentação de dados.

3.3 COLETA MANUAL DE LEITURAS

Para integrar todo o sistema de


instrumentação da UHE Irapé, os equipamentos
não automatizados também foram agregados
ao PIMS por meio das ferramentas PI AF e PI
Data Link. Para esta operação foi necessário:
envio automático de formulários de leitura;
preenchimento de formulário manual e
importação das leituras para o PIMS.
O envio do formulário de leitura de forma
automática ocorre através de uma ferramenta
do PI AF (Notification Rules) [4]. Ela possibilita
a criação de atributos que seguem uma
sequência de datas/intervalos de tempo e Figura 4 - Modelo de formulário e fluxo dos dados com inserção manual

20 WWW.CBDB.ORG.BR
que, se atendidos, disparam arquivos e mensagens de forma a verificar prontamente o dado e reduzir erros de digitação. Para a
atender a demanda dos usuários. O formulário foi previamente importação automática dos dados para o PI foram criados botões
configurado no Excel, onde constam as características dos no formulário padrão, configurados com tarefas determinadas.
instrumentos a serem lidos e que são preenchidas com valores
dos atributos criados no PI AF, por meio do Data Link. O PI faz uma 3.4 MODELAGEM DA ÁRVORE DE INSTRUMENTOS
interação com o Excel, adicionando ferramentas suplementares E TEMPLATES
e com uma conexão de leitura/escrita com o PI AF.
Uma configuração importante que a interação permitiu O servidor PI AF apresentado nos itens 3.1 e 3.2 possibilita
foi a aplicação dos limites de consistência nos formulários o gerenciamento dos ativos e disponibilização dos dados para
que monitoram os valores de leituras digitados nas planilhas. as ferramentas clientes. Por definição, os equipamentos e os
A partir do ciclo histórico de medidas é calculada uma média processos que os usuários desejam monitorar são denominados
dos valores e estipulado limites máximo/mínimo de variação. ativos [4]. A modelagem hierarquicamente organizada desses
Quando os limites são extrapolados, automaticamente a ativos simplifica a localização das informações e é conhecida
célula que recebe o valor fica vermelha e indica a possível como “árvore de ativos”. No caso da UHE Irapé, os ativos da
inconsistência, possibilitando ao leiturista da instrumentação barragem são os instrumentos e os dataloggers.

Figura 5 – Árvore de ativos e template de piezômetro de corda vibrante

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 21


APLICAÇÃO DE SISTEMA PIMS NO GERENCIAMENTO E ANÁLISE DE DADOS DA INSTRUMENTAÇÃO DE AUSCULTAÇÃO DE BARRAGENS

Para padronizar o conjunto de informações referente a leituras” onde são informados os dias em que foram recebidos.
cada instrumento foram criados Elements templates, com E, por fim, há ainda as “variáveis medidas”, que são atributos que
todos os atributos separados por categorias para cada tipo recebem os valores das leituras e dão a elas um “nome” para
de instrumento, como, por exemplo, o piezômetro de corda posteriormente serem usadas nas suas devidas equações.
vibrante. Além da vantagem de padronização, a utilização dos
templates possibilita adicionar novos instrumentos já com os 3.5 FERRAMENTAS DE ANÁLISE E VISUALIZAÇÃO
atributos necessários, representando ganho de produtividade
e qualidade. Em uma perspectiva futura, a expansão da árvore Durante o processo de análise das variáveis geotécnicas é
de ativos demandará tempo inferior, mantendo o padrão de importante a certificação sobre o correto funcionamento elétrico
qualidade. Na Figura 5 é apresentada a árvore de ativos da UHE dos sensores e confiabilidade de suas medições. Os piezômetros
Irapé e os atributos de um piezômetro. e células de pressão total da barragem de Irapé são de tecnologia
Como pode visto na Figura 5, a instrumentação da barragem “corda vibrante”, tendo já ocorrido algumas perdas parciais ou totais.
de Irapé está organizada na árvore de ativos de acordo com No processo de automatização [3] foram instalados
as análises geotécnicas, em níveis aqui intitulados como dataloggers com a tecnologia VSPECT, cujo objetivo é o
agrupamentos. Os atributos dos agrupamentos possibilitam diagnóstico dos transdutores dos instrumentos de corda vibrante
aos engenheiros realizar de forma rápida e eficaz a análise por meio da análise espectral. O diagnóstico consiste na excitação
do comportamento de uma dada seção, no que tange às do transdutor e na avaliação do “Espectro de Frequência do
poropressões, vazões, tensões efetivas e deslocamentos. Uma Sinal” e da “Série Temporal” (Figura 6). O diagnóstico do sensor é
vez que as variáveis hidrometeorológicas e as da operação da realizado automaticamente pela verificação das variáveis “relação
usina fazem parte da árvore de ativos da UHE Irapé, a criação sinal/ruído”, “amplitude do sinal” e “frequência”.
de gráficos destas variáveis com os dados da instrumentação A aplicação do sistema PIMS no gerenciamento e análise
permite inferir correlações importantes para o comportamento da instrumentação da barragem de Irapé é constituído,
da barragem. Com o agrupamento de Sistemas de Automação essencialmente, da utilização da ferramenta AF para organização
é possível monitorar os equipamentos eletroeletrônicos em hierárquica dos ativos e de uma ferramenta para visualização de
tempo real, permitindo planejar as manutenções necessárias dados em telas sinóticas. A tela principal (Figura 7) do sistema de
para garantir sua disponibilidade. monitoramento compreende um overview dos níveis de controle
Os instrumentos estão no nível inferior dos elementos das cinco seções instrumentadas, número de instrumentos
denominados “Seção”. Na Seção 2 do agrupamento “Análise de operantes, além da data e hora da última atualização.
Percolação”, por exemplo, há 11 piezômetros (Figura 5), enquanto O PIMS permite correlacionar quaisquer dados disponíveis no
o template apresenta cinco categorias para organização dos dados: sistema. Gráficos também podem ser configurados para exibição
Dados cadastrais; Coeficientes de cálculos; Variáveis brutas do online semelhante às telas sinóticas. As telas sinóticas do sistema
sensor; Variáveis geotécnicas e Variáveis elétricas para diagnóstico são desenvolvidas em ferramenta cliente do PIMS e as alterações
do sensor. As informações pertencentes a cada categoria podem ser necessárias podem ser realizadas pelos próprios usuários. Para cada
tags ou atributos. Os resultados dos cálculos de poropressão e cota seção foram desenvolvidas telas de monitoramento de percolação,
piezométrica, classificados como atributos, foram realizados com a tensão, vazão e deslocamento. Em todas são apresentadas a data/
referência de dados em “Fórmula”, a qual possibilita cálculos simples hora da última atualização. A tela de percolação da seção principal
com os dados brutos (exemplos: dígito e temperatura) e outros da barragem (Figura 8), por exemplo, apresenta a cota piezométrica
atributos (exemplo: cota de instalação do respectivo instrumento). dos instrumentos, gradiente hidráulico, poropressão e nível do
Os instrumentos célula de pressão total e medidor de vazão, reservatório. A cota piezométrica é representada por meio de
além das cinco categorias citadas, possuem a categoria “Valores de barras coloridas, o que facilita a visão dos níveis de controle das
controle”, a qual contém os níveis de controle dos instrumentos. De poropressões atuantes no núcleo.
posse destes valores são elaborados eventos e notificações sempre
que há uma extrapolação dos valores pré-definidos. 3.6 ALARMES E NOTIFICAÇÕES
A árvore dos instrumentos não automatizados possui todas as
categorias supracitadas, exceto “variáveis elétricas”. Entretanto, As notificações e alarmes foram todos configurados
são adicionadas mais três categorias, chamadas de “atributos de utilizando a ferramenta “Notification Rules” com um nível
configuração”. Elas consistem em dados que vão monitorar os hierárquico de importância. Dada a criticidade do eventual
valores digitados no formulário de inserção manual, as “datas das extrapolamento dos limites de controles, definidos por métodos

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Figura 6 – Resposta de um instrumento de corda vibrante com funcionamento normal após excitação

determinísticos, é necessária a configuração destes alertas, pois obstante, o “olho humano treinado” continua sendo o melhor
incidem diretamente na garantia da segurança do barramento. instrumento para avaliar o desempenho das estruturas, uma vez
Os alarmes, de maior criticidade, são enviados imediatamente que as inspeções visuais têm o potencial de integrar rapidamente
ao correio eletrônico do gerente e/ou responsável. Também toda a situação do comportamento [7].
existe o recurso “reconhecimento de alarme”, que só identifica A experiência com o uso do sistema PIMS para gerenciamento
o alarme e para de enviar as notificações quando for verificado e análise dos dados da instrumentação na Cemig GT foi
dentro do sistema. Estas notificações, por sua vez, enviam altamente positiva. A flexibilidade e o desempenho especial do
também mensagens para o e-mail dos responsáveis. Entretanto, sistema são fatores que o diferenciam em relação às soluções
é disparada somente uma mensagem assim que a anomalia é de desenvolvimento convencionais. Em geral, as ferramentas
detectada, não mantendo o fluxo de e-mails como no critério nativas disponíveis no sistema PI System abrangem todas
anterior. Além disso, o sistema lembra aos usuários a pendência as funcionalidades necessárias para o processo de coleta e
de reconhecimento do alarme todas as vezes em que for aberto. análise dos dados de instrumentação de barragens.
Contudo, vale destacar que todo sistema necessita de
atualização tecnológica permanente. Desse modo, no projeto
4. CONCLUSÕES de ampliação do PI System várias soluções são vislumbradas,
sendo algumas simples e necessárias, enquanto outras
A coleta e a análise da instrumentação, bem como o emprego bastante inovadoras. Algumas dessas iniciativas já estão em
de tecnologias para apoiar estes processos, incrementam bastante desenvolvimento e outras ainda dependem de contratações
a qualidade do monitoramento da segurança das barragens. Não ou aquisições.

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APLICAÇÃO DE SISTEMA PIMS NO GERENCIAMENTO E ANÁLISE DE DADOS DA INSTRUMENTAÇÃO DE AUSCULTAÇÃO DE BARRAGENS

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Monitoring Fystem of Dams Instrumentation: CEMIG GT’s


Experience at Irapé Dam”, Anais Third International Dam World
[1] SOUZA, A. J. (2005) – “Sistema de Gerência de Informação Conference – IBRACON, Foz do Iguaçu, PR.
de Processos Industriais via WEB”, Dissertação do programa de [4] OSISOFT, LLC (2017) – “Guia do Usuário do PI System
pós-graduação em engenharia elétrica- Centro de Tecnologia da Explorer”, Manual Osisoft – Osisoft, San Leandro, CA.
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN. [5] OSISOFT, LLC (2016) – “Visualizando dados do PI System”,
[2] ARANHA, E. R., TEIXEIRA, E. B., CARMO, E., TAVARES, G. A. S., Manual Osisoft – Osisoft, San Leandro, CA.
COSTA, P. H. M., ARANHA, P. L. F., BARBOZA, C. B., FIGUEIREDO, [6] FILHO, N. A. P. (2004) – “Serviço de Pertinência para Clusters
A. M., LOURENÇO, S. R. (2015) – “Hierarchical Structure de Alta Disponibilidade”, Dissertação de Mestrado- Universidade
for Corporate PIMS”, Anais IX International Conference on de São Paulo, São Paulo, SP.
Engineering and Computer Education – COPEC, Žilina, Slovakia. [7] ASCE (2000) – “Guidelines for Instrumentation and
[3] ANDRADE, J. S., BALBI, D. A. F., MELO, A. V., DIVINO, P. L., Measurements for Monitoring Dam Performance” - Library of
BASTOS, W. S. (2018) – “Design of an Automatic and Remote Congress, USA.

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Alexandre Vaz de MELO
Engenheiro Civil graduado pela Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG/2003) e Mestre em Geotecnia
com linha de pesquisa em análises de riscos aplicadas a
barragens de terra e enrocamento (UFMG/2014). Possui
15 anos de experiência na avaliação do comportamento
de barragens e estruturas civis de geração. Atua como
Engenheiro de Segurança de Barragens da Cemig GT desde 2006.

Wellerson da Silva BASTOS


Graduando em Engenharia Civil pela Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais. Técnico em eletrônica contratado
pela CEMIG GT para desenvolvimento dos projetos de
automatização da instrumentação de auscultação de
barragens desde 2017. Trabalhou na mineradora Vale de
2012 a 2015, com controle e automação, atuando no Start-
Up da instalação de tratamento de mineiro I Vargem Grande.

Johnny Souza ANDRADE


Mestrando em Engenharia Elétrica pela Universidade
Federal de Minas Gerais, formou-se Engenheiro
Eletricista pela Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais. Trabalha como técnico na Cemig Geração
e Transmissão desde 2013, tendo atuado até 2017 na
elaboração de especificações técnicas para serviços de
automatização da instrumentação de auscultação de barragens.

Figura 8 -
Tela sinótica
"Análise de
Percolação”

Diego Antonio Fonseca BALBI


Engenheiro Civil formado pela Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG) em 2000, é Mestre em
Recursos Hídricos pela UFMG em 2008, tendo
defendido dissertação sobre a elaboração de
PAEs para barragens. É Engenheiro de Segurança
de Barragens na Cemig GT desde 2002, atuando
como Gerente de Segurança de Barragens e Manutenção Civil de Geração
desde 2014. Foi professor do curso Segurança de Barragens, promovido
pela Agência Nacional de Águas e Parque Tecnológico Itaipu e atua como
professor em cursos de Pós-Graduação na área de Engenharia e Segurança
de Barragens. Atualmente é vice-diretor (Energia) do Núcleo Regional de
Minas Gerais do CBDB.

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 25


BARRAGENS DE TERRA E DE ENROCAMENTO

ANÁLISE DE MATERIAIS
PROVENIENTES DO SISTEMA
DE DRENAGEM INTERNA DA
BARRAGEM DE TERRA DA UHE
SÃO SALVADOR
Cesar Schmidt GODOI | Engenheiro Civil / Tractebel Engineering
Juliana Francisca CORREA | Engenheira Civil / Tractebel Engineering
Karina Guimarães Lopes SOLA | Engenheira Civil / Tractebel Engineering
Márcia Collares MEIRELLES | Engenheira Civil / Statkraft

RESUMO ABSTRACT

A formação de concreções em saída de sistemas de drenagens The formation of concretions in the way out of drainage systems
em barragens é relativamente comum. São denominadas de in Dams is relatively common, denominated “ferrobacteria”
“ferrobactérias” e, mais recentemente, têm sido chamadas de and more recently, being called ocher formation. The present
formação ochre. O presente artigo tem por objetivo apresentar a article aims to present the analysis done with the material
análise dos materiais provenientes do sistema de drenagem interno coming from the internal drainage system of the Earthfill
da Barragem de Terra Margem Direita da Usina Hidrelétrica (UHE) São Dam / Right Margin of the São Salvador HPP, in relation to
Salvador, em relação às observações visuais e ensaios realizados em the visual observations and tests carried out at one of the
um dos pontos de captação de drenagem, o medidor de vazão MV- drainage points, the flowmeter MV -002. Since this flowmeter
002. Este medidor vem apresentando ao longo do tempo a presença has been presenting over time the presence of reddish colored
de material de coloração avermelhada, o que trouxe a discussão e a material, which brought the discussion and research on the
pesquisa sobre a origem do material: material fino proveniente do origin of the material: fine material coming from the dam cor
maciço da barragem ou uma formação ochre. or an ocher formation.
26 WWW.CBDB.ORG.BR
1. INTRODUÇÃO • Argila: solo de granulação fina constituído por partículas com
dimensões menores que 0,002 mm, apresentando coesão e

A
formação de concreções em saída de sistemas de drenagens plasticidade (NBR 6502/1995).
em barragens é relativamente comum e cada vez mais
vem sendo abordada em trabalhos técnicos. Algumas • Concreção: material formado por precipitação química a
referências destacam essa ocorrência como “ferrobactérias” e, mais partir de solução aquosa, com forma de nódulos ou crostas, de
recentemente, como formação ochre (denominação de diversos composição diferente do solo ou rocha encaixante. Pode ser
autores). Essa formação ocorre em regiões de transição ou interface composta por concentração de agentes cimentantes, como
entre ambientes anaeróbios e aeróbios, comum em diversos pontos sílica, óxido de ferro, óxido de cálcio, etc. (NBR 6502/1995).
em barragens, como por exemplo, medidores de vazão, saída do
sistema de drenagem interno e drenos de alívio.
Conforme citado por Neves (2015), a bactéria ochre se 2. UHE SÃO SALVADOR
desenvolve ao oxidar minerais dissolvidos na água (o ferro é a forma
mais comum). Osako (2002) cita que “os depósitos de bactérias A Usina Hidrelétrica São Salvador está localizada no Rio
ferruginosas ocorrem em filtros de barragens de terra/enrocamento Tocantins, no estado de Tocantins, entre os municípios de São
e podem também ser encontrados em drenos de concreto”. O Salvador do Tocantins (margem esquerda) e Paranã (margem
mesmo autor indica que essas bactérias crescem em águas ricas direita). Ela dista cerca de 7 km a montante da cidade de São
em ferro que têm um pH entre 6,0 e 7,6 e uma condutividade entre Salvador do Tocantins, nas coordenadas geográficas 12º48’33”,
+200 e +320mV. O ferro transportado pela água subterrânea pode Latitude Sul e 48º14’05”, Longitude Oeste.
acumular nos sedimentos do fundo de um reservatório e pode, O arranjo das estruturas é composto por Barragem de Terra
algumas vezes, gerar um ambiente adequado para o crescimento Margem Direita, Barragem de Terra Leito do Rio, Barragem de
desse tipo de bactéria. Concreto (Blocos 1, 2, 3, 4, 5 e 6), Vertedouro controlado por
Mendonça (2000) indica que o ochre é uma substância 6 comportas tipo segmento; Casa de Força Abrigada contendo
biopolimérica extracelular, um gel amorfo produzido pela duas unidades hidrogeradoras tipo Kaplan de eixo vertical
bactéria. Essa massa, além de viscosa, tem fortes propriedades com potência nominal de 124,5 MW, totalizando 243,2 MW
adesivas. A massa é agregada pela própria bactéria e por material instalados. A altura máxima da barragem é de 40 m e a crista
em suspensão no meio. Superfícies com alguma porosidade encontra-se na elevação 290,00.
absorvem o material por meio de forças dinâmicas, eletrostáticas,
interação de Van der Waals, ligações covalentes e gravidade, 2.1 BREVE DESCRIÇÃO DA ESTRUTURA
melhorando o ambiente para a bactéria e aumentando o acúmulo
de resíduo. Com o passar do tempo, essa massa absorve material A Barragem de Terra Margem Direita conta com dois
em suspensão. Com o envelhecimento e desidratação, cristaliza e medidores de vazão. O MV-001 está localizado próximo à
toma resistência mecânica. ombreira na estaca 2+12,65 m. O MV-002 está próximo ao
Com as discussões iniciais, o presente artigo tem por objetivo encontro com a Tomada d’Água. Estes dois medidores foram
mostrar a análise dos materiais possivelmente provenientes do locados nas regiões de maior contribuição de vazão segundo
sistema de drenagem interno da Barragem de Terra Margem os estudos apresentados no Projeto Executivo. O medidor
Direita da UHE São Salvador, em relação às observações visuais e de vazão MV-001 capta a vazão da região da margem direita
ensaios executados. Basicamente, a saída do sistema de drenagem na Figura 1, e o medidor de vazão MV-002 capta a vazão nas
é direcionada para o medidor de vazão MV-002, o qual vem proximidades do leito do rio.
apresentando ao longo do tempo a presença de material de A captação da água e direcionamento para o medidor de
coloração avermelhada. As análises feitas, histórico e descrição do vazão MV-02 é realizado através de um tubo de PVC com
processo estão descritas neste artigo. diâmetro de φ6”, na qual a extremidade inicial do tubo (boca
do tubo) encontra-se perfurada e envolta por tela de nylon
1.1 DEFINIÇÕES com malha de #2 mm (ou geotêxtil). Até a saída da água para o
medidor de vazão, o tubo é envolto por concreto. A Figura 2 e
• Coloide: são partículas menores que 1 (um) micrômetro de a Figura 3 apresentam esses detalhes.
diâmetro (0,001 mm).

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 27


ANÁLISE DE MATERIAIS PROVENIENTES DO SISTEMA DE DRENAGEM INTERNA DA BARRAGEM DE TERRA DA UHE SÃO SALVADOR

Figura 1 – Planta da Barragem de Terra Margem Direita – sistema de drenagem interno (Intertechne – Projeto Executivo)

Figura 2 – Detalhe da captação do medidor de vazão até a saída no MV-02 (Intertechne – Projeto Executivo)

Figura 3 – Detalhe da
captação da água para
o MV-02 (Intertechne –
Projeto Executivo)

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3. BREVE HISTÓRICO No ano de 2015 foram produzidos ensaios de análise
granulométrica e sólidos em suspensão. Os resultados
Desde o ano de 2010, a Tractebel vem observando e dos ensaios foram analisados e comparados com a curva
acompanhando a ocorrência de material de coloração granulométrica dos materiais do filtro, transições e aterro.
avermelhada na saída do medidor de vazão MV-002. Quando O resultado do ensaio realizado em 2015 indica como uma
pertinente, a Tractebel elaborou recomendações técnicas para virtual hipótese a ocorrência de carreamento, tendo em vista
diagnosticar e entender essa ocorrência para possibilitar a que ocorre sobreposição da curva granulométrica do ensaio
avaliação deste comportamento. Na sequência está apresentado com as de projeto.
um registro histórico e fotográfico da evolução desta ocorrência. Entretanto, a análise foi feita com coleta de material da
Não existe um padrão de aumento deste processo. bacia do medidor de vazão, motivo pelo qual possa ter ocorrido
a contaminação durante a coleta. Além disso, como foi feito
apenas granulometria por peneiramento, não foi possível
verificar toda a curva granulométrica.
No ano de 2017, de forma a aprimorar o acompanhamento,
foram instaladas peneiras de malha 0,075 mm na saída da
tubulação do medidor de vazão. Desde o mês de abril daquele
ano, constatou-se que o material granular ficou retido nas
peneiras. Por isso, recomendou-se em caráter de urgência a
elaboração de novas análises granulométricas deste material.
Foto 1 – Material presente no Foto 2 – Material presente no
medidor de vazão MV-002 (2010) medidor de vazão MV-002 (2012)

4. REALIZAÇÃO DOS ENSAIOS EM 2017


4.1 COLETA DE AMOSTRAS

No mês de maio de 2017 foi realizada a coleta de amostra


para a granulometria por sedimentação. Na sequência está
apresentado o registro fotográfico com as principais informações
Foto 3 – Material proveniente Foto 4 – Material proveniente em cada legenda.
do MV-002 (2015) do MV-002 (2016)

Figura 4 – Curvas
granulométricas e faixas
granulométricas dos
materiais constituintes
da BTMD

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 29


ANÁLISE DE MATERIAIS PROVENIENTES DO SISTEMA DE DRENAGEM INTERNA DA BARRAGEM DE TERRA DA UHE SÃO SALVADOR

Posteriormente foi realizado o ensaio de granulometria


(peneiramento e sedimentação). As imagens das frações retidas
em cada peneira estão apresentadas na sequência.

Foto 5 – Coleta de material para Foto 6 – Detalhe do material


ensaio de granulometria por coletado para análise Foto 13 –
peneiramento granulométrica por peneiramento Fração retida
na peneira
1,19 mm

Foto 14 –
Fração retida
na peneira
Foto 7 – Tambor coletando material Foto 8 – Tambor coletando material 0,6 mm
para análise granulométrica por para análise granulométrica por
sedimentação sedimentação

4.2 ENSAIOS DE LABORATÓRIO


Foto 15 –
Inicialmente, a amostra ficou em repouso, onde os materiais Fração retida
particulados sedimentaram. Entretanto, mesmo com pequenos na peneira
0,42 mm
movimentos sobre a água, foi constatada a rápida mistura entre
a água e as partículas, o que indica possível fração coloidal.
Posteriormente, o material foi seco em estufa em
temperatura próxima a 600C de modo a não ocorrer a queima
de eventual matéria orgânica (NBR 6457/2016).
Foto 16 –
Fração retida
na peneira
0,3 mm

Foto 9 – Material sedimentado Foto 10 – Aspecto da amostra após Foto 17 –


a secagem Fração retida
na peneira
0,15 mm

Foto 18 –
Fração retida
Foto 11 – Aspecto da amostra após Foto 12 – Amostras preparadas na peneira
o destorroamento para os ensaios de granulometria e 0,075 mm
densidade

30 WWW.CBDB.ORG.BR
Observa-se que as partículas apresentam coloração escura.
Possivelmente, trata-se de óxido de algum mineral (ferro ou
manganês).

4.3 RESULTADOS DOS ENSAIOS

A Figura 4 apresenta a curva granulométrica obtida na


análise granulométrica. As frações obtidas estão apresentadas
na Tabela 1.

Figura 5 – Comparação da curva


granulométrica obtida no ensaio
com as faixas granulométricas do
material da barragem

Constata-se que não há sobreposição entre materiais. Apenas


na fração acima de 0,42 mm ocorre uma pequena sobreposição
(aproximadamente 1%), e que pode ser considerada irrelevante. Ou
seja, a hipótese de fuga de material (carreamento) pelo corpo da
barragem está totalmente descartada com base nas investigações.
O valor de densidade real dos grãos de 4,7 g/cm3 também
indica o descarte da hipótese mencionada anteriormente, tendo
em vista que nenhum ensaio gerado durante a etapa de projeto
básico e executivo da UHE São Salvador aponta esse valor, o qual é
significativamente elevado.
Conforme as informações obtidas no Projeto da UHE São
Salvador, para os materiais ensaiados nas três áreas de empréstimo
na margem direita foram obtidos valores de massa específica dos
grãos entre 2,60 e 2,80 g/cm³, com uma média aproximada de 2,7
Foto 19 – Curva granulométrica obtida no ensaio de granulometria com g/cm³. O valor obtido encontra-se na faixa de densidade para óxidos
sedimentação
de ferro ou óxidos de manganês. Para os óxidos de ferro foram
Fração Porcentagem
encontrados em bibliografias os valores de densidade entre 4,6 a
5,3. O valor de densidade para óxidos de manganês também está
Argila 61% próximo a esta faixa.
Silte 33% Tabela 1 – Porcentagem
de materiais obtidos no
Areia Fina 5% ensaio de granulometria
Areia Média 1%
(frações conforme NBR
6502/1995)
5. CONCLUSÕES
Tendo em vista as análises efetuadas, têm-se como principais
No ensaio de densidade real dos grãos, obteve-se o valor
conclusões:
de 4,717 g/cm³.
• Os resultados não indicam um eventual carreamento de
materiais do corpo da barragem e/ou fundação;
4.4 ANÁLISE DOS RESULTADOS
• A densidade obtida está na faixa de densidade para
óxidos de ferro ou óxidos de manganês. Para os óxidos
A comparação da curva granulométrica obtida com as faixas dos
de ferro foram encontrados em bibliografias os valores
materiais constituintes da barragem está apresentada na Figura 5.

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 31


ANÁLISE DE MATERIAIS PROVENIENTES DO SISTEMA DE DRENAGEM INTERNA DA BARRAGEM DE TERRA DA UHE SÃO SALVADOR

de densidade entre 4,6 a 5,3. O valor de densidade para [5] TRACTEBEL ENGINEERING [2002-2018] – Arquivos Internos.
óxidos de manganês também está próximo a esta faixa. [6] INTERTECHNE – Projeto Executivo – UHE São Salvador
• O material proveniente do tubo do MV-2 é uma concreção [7] ANEEL - Resolução ANEEL nº 696/2015
de óxidos, possivelmente ferrobactérias; [8] ABNT NBR 6457/2016 – “Amostras de solo - Preparação
• A coleta foi executada de forma adequada, com o para ensaios de compactação e ensaios de caracterização”.
material plenamente obtido da saída do tubo do
medidor de vazão, descartando-se qualquer hipótese de
contaminação de material na coleta. A amostra recebida Cesar Schmidt GODOI
Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal
em laboratório estava totalmente selada, sem vazamento
de Santa Catarina (2011) e Mestre em Engenharia Civil pela
ou outro indício de perda de material.
mesma instituição (2014), com ênfase na área de Geotecnia
e Ensaios de Laboratório. É doutorando na Universidade
Destaca-se que o monitoramento vem sendo feito com Federal do Rio Grande do Sul em Geotecnia de Barragens,
frequência, através de uma equipe técnica locada em campo, e trabalha como Engenheiro Civil na Tractebel Engineering
a qual produz as observações visuais, bem como através dos desde 2011. Atua na área de Engenharia Geotécnica, especialmente em estabilidade
dados de instrumentação. As inspeções de segurança regular de taludes, barragens, segurança de barragens, fundações e ensaios de laboratórios
são elaboradas por equipe multidisciplinar de Engenharia e de campo, bem como é professor das disciplinas de Geotecnia no curso de
Engenharia Civil na Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) desde 2016.
conforme a Resolução ANEEL nº 696/2015.

Márcia Collares MEIRELLES


6. AGRADECIMENTOS Engenheira Civil, graduada pela Universidade Federal de
Santa Catarina (2004). É Mestre pela mesma instituição
Os autores agradecem à Engie Brasil Energia, aos (2008) e certificada Project Management Professional
Engenheiros Cleuton Pacheco e Eduardo Marchante. Os (PMP), renovado em agosto de 2017. Engenheira Civil

autores agradecem também aos técnicos de Segurança de da equipe PNBP & Project, da área de O&M Brasil da
Statkraft, atua na gestão de projetos civis de usinas
Barragens da Tractebel que trabalham na UHE São Salvador
hídricas e parques eólicos, processos de due diligence de usinas hídricas,
e se dedicam à manutenção da Segurança da Barragem,
parques eólicos e solares e segurança de barragens. Líder técnica no projeto de
Vagnaldo Carneiro e Romildo Chagas. otimização de segurança de barragens da Statkraft América Latina. Atuou como
Engenheira Civil na Tractebel Engineering, nas funções de Engenheira e Gerente
da área de Segurança de Barragens e Geotecnia no escritório de Florianópolis,

7. PALAVRAS-CHAVES sendo responsável técnica por diversos serviços de engenharia do proprietário,


além de projetos e segurança de barragens, entre os anos de 2004 a 2017.

Barragem de Terra; Formação Ochre; Sistema de Drenagem


Interno.
Juliana Francisca CORREA
Graduada em Engenharia Civil pela Universidade Federal
de Santa Catarina (2006) e Mestre em Engenharia Civil
8. REFERÊNCIAS pela mesma instituição (2008), com ênfase na área de
Infraestrutura e Gerência Viária. Engenheira Civil na
Tractebel Engineering desde 2008. Atua na gestão de
[1] NEVES, B. (2015) “Considerações Sobre a Ameaça Ochre”.
projetos e contratos da área de Engenharia de Segurança
Revista Brasileira de Barragens. CBDB. e auscultação de Barragem e Geotecnia.
[2] OSAKO, C. I. (2002) “Manutenção dos Drenos nas
Fundações de Barragens: O Caso da Usina Hidrelétrica de
Itaipu”. Dissertação de Mestrado. UFPR – Universidade Federal SOLA, Karina Guimarães Lopes
do Paraná. Engenheira Civil, graduada pela Universidade Federal de
[3] MENDONÇA (2000). “Avaliação da Formação do Ocre no Santa Catarina (2010). Atua como Engenheira Civil na
Tractebel Engineering desde 2010, com foco na área de
Desempenho de Filtros Geotêxteis.” Tese de Doutorado.
Segurança de Barragens.
COPPE/UFRJ
[4] ABNT NBR 6502/1995 – Rochas e Solos.

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SEGURANÇA DE BARRAGENS

PROPOSTA DE IMPLANTAÇÃO
DO PLANO DE AÇÃO DE
EMERGÊNCIA EM CICLOS
Débora Pimentel COSTA | Técnica em Edificações | ENEMAX Engenharia e Consultoria
Glauco GONÇALVES | Eng de Produção Civil | ENEMAX Engenharia e Consultoria
André Santos de Oliveira FURTADO | Eng Eletricista | ENEMAX Engenharia e Consultoria

RESUMO ABSTRACT

A Lei n° 12.334/2010 estabelece a Política Nacional de Segurança Brazilian law 12.334/2010 establishes the National Policy of Dam
de Barragens e determina as ações necessárias para a garantia da Safety and determines the actions needed to guarantee the safety
segurança para barragens de diversos fins. Sendo assim, os órgãos of dams of various purposes. Therefore, the regulatory agencies
fiscalizadores ANEEL, ANA e ANM publicaram regulamentações ANEEL, ANA and ANM published regulations that prescribe, among
que descrevem, dentre outros assuntos, a elaboração do Plano de other subjects, how Emergency Action Plans (EAP) should be
Ação Emergencial (PAE). Apesar da clareza com a qual é tratada developed. Despite the clearness with which the development of
a elaboração, a implantação do PAE é abordada em diferentes these documents is treated, the EAP implementation is approached
níveis pelas fiscalizadoras em suas regulamentações, sem que se at different levels by different agencies and their regulations, without
estabeleça uma cronologia de execução ou prazo para conclusão. establishing a chronology of execution or a deadline for completion.
Esse artigo traz uma análise das diretrizes de cada entidade, somada This article presents an analysis of the guidelines of each entity,
às propostas de melhores práticas contidas no Guia de Orientação da together with the best practices proposed by ANA (Orientation
ANA e no caderno de Orientações para Apoio à Elaboração de Planos Guide for EAPs) and the Guidelines for Supporting the Development
de Contingência Municipais para Barragens da Defesa Civil. A partir of Municipal Contingency Plans of Dams for the Civil Defense. Based
dessa avaliação, será proposta uma abordagem de implantação dos on this evaluation, an approach is proposed to implement the
Planos de Ação Emergencial em ciclos, numa sucessão evolutiva que Emergency Action Plans in cycles, in an evolving sequence that begins
parte do ganho de conhecimento interno, passa pela interação com with the gain of internal knowledge, continues with the interaction
as entidades governamentais até alcançar maturidade suficiente with governmental entities, until reaches sufficient maturity for the
para o envolvimento e treinamento da população do vale. involvement and training of the downstream valley’s population.
REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 33
PROPOSTA DE IMPLANTAÇÃO DO PLANO DE AÇÃO DE EMERGÊNCIA EM CICLOS

1. INTRODUÇÃO • Resolução Normativa n° 696/2015, da ANEEL;


• Resolução Normativa n° 236/2017, da ANA;

O
Plano de Ação de Emergência (PAE) visa estabelecer um • Portaria n° 70.389/2017, da ANM.
conjunto de ações que minimizem as consequências de • Além disso, para complementar a investigação, serão
acidentes ocorridos pela ruptura de barragens [1]. analisados:
A Lei nº 12.334, de 20 de setembro de 2010, “estabelece a Política • o “Guia de Orientação e Formulários do Plano de Ação de
Nacional de Segurança de Barragens destinadas à acumulação de Emergência – PAE”, Volume IV, publicado pela ANA;
água para quaisquer usos, à disposição final ou temporária de rejeitos • o documento “Orientações para Apoio à Elaboração de Planos
e à acumulação de resíduos industriais, cria o Sistema Nacional de de Contingência Municipais para Barragens”, publicado pela
Informações sobre Segurança de Barragens (...)” [2]. Defesa Civil, sobre o assunto de elaboração do Plano de
O tema de implantação do PAE é abordado nesta lei nos artigos 4º Contingência para barragens.
e 12º. Neles, é estabelecido que o PAE deve apresentar “estratégias
de divulgação e alerta para as comunidades localizadas na zona A análise dos documentos citados será realizada buscando-
afetada pela inundação”, contudo, sem especificar os responsáveis se encontrar evidências sobre a implantação do Plano de Ação
por essas atividades. Além disso, é exposto que “a população deve de Emergência.
ser informada e estimulada a participar das ações preventivas e
emergenciais”. 2.1 AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL)
Depois do acidente de rompimento da Barragem de Fundão,
os órgãos fiscalizadores ANEEL, ANA e ANM publicaram, A ANEEL, órgão fiscalizador de barragens de exploração de
respectivamente, a RN 696/2015, a RN 236/2017 e a Portaria n° energia hidráulica, publicou a Resolução Normativa n° 696,
70.389/2017, com o intuito de regulamentar, dentre outros, a de 15 de dezembro de 2015, que “estabelece critérios para
elaboração do Plano de Ação de Emergência de suas barragens. Com classificação, formulação do Plano de Segurança e realização
a publicação das resoluções por parte das fiscalizadoras, a elaboração da Revisão Periódica de Segurança em barragens fiscalizadas
do PAE tornou-se obrigatória, principalmente para barragens pela ANEEL de acordo com o que determina a Lei n° 12.334, de
classificadas como de dano potencial associado alto. 20 de setembro de 2010” [3].
Dessa forma, até o início de 2018 todas as barragens brasileiras Esta resolução aborda a elaboração do PAE, mas não fornece
enquadradas na Lei 12.334, independentemente do uso ao qual direcionamento objetivo sobre a sua implantação.
se destinam, tiveram que atender às regulamentações quanto à
2.2 AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS (ANA)
elaboração do PAE.
Apesar da relevância da implantação efetiva do PAE, as orientações
A ANA, responsável pela fiscalização de barragens de água
publicadas pelos órgãos fiscalizadores relacionadas ao tema, até
que não possuem fins de aproveitamento hidrelétrico, publicou
o presente momento, não constituem uma orientação clara e
a Resolução Normativa n° 236, de 30 de janeiro de 2017, que
cronológica de implantação do plano de emergência.
“estabelece a periodicidade de execução ou atualização, a
Neste contexto, o presente artigo propõe analisar as diretrizes
quantificação dos responsáveis técnicos, o conteúdo mínimo e
fornecidas pelos órgãos fiscalizadores de barragens sobre o tema de
o nível de detalhamento do Plano de Segurança da Barragem,
implantação do PAE e as orientações dos órgãos de Defesa Civil sobre
das Inspeções de Segurança Regular e Especial, da Revisão
a elaboração do Plano de Contingência de barragens. Por fim, com
Periódica de Segurança de Barragem e do Plano de Ação de
base nas orientações analisadas, será proposta uma programação
Emergência (...)” [4].
para a implantação do Plano de Ação de Emergência (PAE).
Esta resolução estabelece algum direcionamento ao
empreendedor com relação à implantação do PAE, podendo-
se listar como principais pontos:
2. REVISÃO DA LEGISLAÇÃO E
REGULAMENTAÇÕES • promover treinamentos internos, no máximo a cada dois
anos, e manter os respectivos registros das atividades;
Para auxiliar o empreendedor no entendimento sobre • participar de simulações de situações de emergência
implantação do PAE, serão analisadas legislações e em conjunto com prefeituras, Defesa Civil e população
regulamentações existentes atualmente, a saber: potencialmente afetada na Zona de Autossalvamento (ZAS);

34 WWW.CBDB.ORG.BR
• estabelecer, em conjunto com a Defesa Civil, estratégias de Barragem e do Plano de Ação de Emergência para Barragens
comunicação e de orientação à população potencialmente de Mineração, conforme art. 8°, 9°, 10, 11 e 12 da Lei n° 12.334
afetada na ZAS sobre procedimentos a serem adotados nas de 20 de setembro de 2010, que estabelece a Política Nacional
situações de emergência. de Segurança de Barragens (PNSB)” [5].
Diferentemente das regulamentações anteriormente
Além disso, para orientar o empreendedor quanto ao citadas, a Portaria elaborada pela ANM fornece ao
conteúdo, à organização e à elaboração do PAE, a ANA publicou empreendedor um direcionamento mais detalhado de como
o “Guia de Orientação e Formulários do Plano de Ação de implantar o PAE, devendo esse ser responsável por:
Emergência (PAE), Volume IV”, que faz parte do Manual do
Empreendedor sobre Segurança de Barragens. • atualizar o PAE sempre que houver alguma mudança nos
Algumas informações sobre a implantação do PAE podem meios e recursos disponíveis, nos contatos e telefones
ser identificadas neste Guia, tais como: constantes no fluxograma de notificações ou nos cenários de
emergência;
• Na ZAS, o empreendedor é responsável por alertar a • promover treinamentos internos e participar de exercícios
população. Os sistemas de alerta devem ser definidos em de simulação em conjunto com prefeituras, Defesa Civil,
conjunto com a Defesa Civil e será baseada na extensão da população na ZAS, entre outros;
zona afetada, no tipo, dimensão e dispersão geográfica da • fornecer aos organismos de defesa civil municipais os
população a avisar; elementos necessários para a elaboração dos Planos de
• A Defesa Civil é responsável pelo alerta, pela evacuação e pela Contingência em toda extensão do mapa de inundação;
sensibilização/educação das populações no que diz respeito à • prestar apoio técnico aos municípios nas ações de elaboração
atuação em emergências; e desenvolvimento dos Planos de Contingência Municipais,
• O empreendedor é responsável por promover treinamentos na realização de simulados e audiências públicas;
internos e participar de simulações de situações de • estabelecer, em conjunto com a Defesa Civil, estratégias de
emergência em conjunto com as prefeituras e organismos de alerta, comunicação e orientação à população potencialmente
defesa civil; afetada na ZAS em situações de emergência;
• O plano de treinamento do PAE deve envolver: teste dos • divulgar o PAE e assegurar seu conhecimento por parte de
sistemas de notificação e de alerta; exercício de nível interno todos os envolvidos;
(tabletop exercise); e exercício de simulação (externo); • instalar sistemas de alerta, como sirenes, na ZAS.
• O exercício de simulação externo deve envolver ações de
sensibilização e educação/treino da população. Devem ser 2.4 DEFESA CIVIL
promovidas sessões de esclarecimento antes da realização
de exercícios controlados. O Ministério da Integração Nacional (MI), a Secretaria
Nacional de Defesa Civil (SEDEC) e o Centro Nacional de
Apesar de não ter força jurídica, o Guia elaborado pela ANA Gerenciamento de Riscos e Desastres (CENAD) elaboraram, em
é mais abrangente que a regulamentação sobre a implantação 2016, o documento “Orientações para Apoio à Elaboração de
dos planos de emergência. Planos de Contingência Municipais para Barragens”, a fim de
apoiar os Municípios e Estados para que estes desempenhem
2.3 AGÊNCIA NACIONAL DE MINERAÇÃO (ANM) competências legais relativas à elaboração de Planos de
Contingência Municipais para os riscos gerados por barragens
A ANM publicou a Portaria n° 70.389, de 17 de maio de 2017, existentes em seu território [6].
elaborada pelo antigo Departamento Nacional de Produção Segundo este documento, as principais informações que
Mineral (DNPM), que “cria o Cadastro Nacional de Barragens devem constar no Plano de Contingência Municipal são:
de Mineração, o Sistema Integrado de Gestão em Segurança
de Barragens de Mineração e estabelece a periodicidade de • Identificação do cenário de risco (área de impacto potencial e
execução ou atualização, a qualificação dos responsáveis população vulnerável);
técnicos, o conteúdo mínimo e o nível de detalhamento do • Definição do sistema de monitoramento e alerta;
Plano de Segurança da Barragem, das Inspeções de Segurança • Definição de um sistema de alarme;
Regular e Especial, da Revisão Periódica de Segurança de • Estabelecimento de rotas de fuga e de pontos de encontro;

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 35


PROPOSTA DE IMPLANTAÇÃO DO PLANO DE AÇÃO DE EMERGÊNCIA EM CICLOS

• Plano de Comunicação para autoridades e serviços de implantação do PAE. Na Figura 1 estão representados os ciclos
emergência (Resgate e encaminhamento para abrigos e propostos e as atividades a serem desenvolvidas em cada um deles.
hospitais). Conforme mostrado na Figura 1, os ciclos definidos foram
representados sem duração pré-estabelecida, apesar de terem início
No documento é possível confirmar que a competência e fim, pois entende-se que o tempo para o processo de implantação
legal para a elaboração dos Planos de Contingência é dos do PAE pode variar de acordo com cada empreendimento. A única
municípios. Entretanto, é afirmado que o empreendedor deve atividade que não tem fim determinado é a revisão do PAE, que
participar, com o poder público local, da construção das ações deve ser feita de forma contínua, sempre que necessário.
de contingência a serem estabelecidas no Plano. Além disso, o Para empreendedores com maior número de estruturas, a
empreendedor deve fornecer apoio técnico, desenvolvendo os implantação do PAE pode seguir uma priorização que privilegie
elementos básicos para a construção do Plano de Contingência, aquelas com comunidades mais vulneráveis no vale a jusante.
e apoio financeiro nos recursos a serem utilizados nas ações de Independentemente do nível de desenvolvimento e implantação
contingência. do PAE, os planos deverão ser contemplados na Revisão Periódica
Como o risco é gerado pela atividade econômica associada de Segurança das Barragens- e revisados, se necessário.
às barragens, o documento sugere não parecer razoável que A seguir, serão detalhadas as atividades a serem desenvolvidas
as medidas de enfrentamento ao risco de barragens sejam em cada um dos quatro ciclos propostos.
custeadas exclusivamente pelo(s) município(s). Além disso, é
inegável que, sem a produção dos recursos necessários por parte 3.1 PRIMEIRO CICLO
dos empreendedores das barragens, a elaboração dos Planos de
Contingência Municipais, na maioria das vezes, não será viável. O processo de implantação tem início internamente ao
Por último, é especificado no documento que o empreendedor empreendimento, com a apresentação do plano de emergência
deve cumprir com seu compromisso social, que consiste em apoiar aos envolvidos nas atividades de segurança da barragem
as ações de proteção da população que seu empreendimento e demais atores indicados no PAE, de forma a promover
expõe ao risco, além das ações de resposta em uma eventual a discussão entre diferentes atores internos, verificar a
situação emergencial causada por sua barragem. aplicabilidade do PAE e identificar possíveis adequações a
serem feitas no plano.
Em seguida, propõe-se a realização de um treinamento
3. PROPOSTA DE IMPLANTAÇÃO DO PAE das equipes internas, de maneira a tornar conhecidas as
responsabilidades de cada envolvido e a sequência de ações
Por meio da análise das informações disponibilizadas pelos a serem executadas em uma emergência. Este exercício
órgãos fiscalizadores e pela Defesa Civil, abordadas anteriormente, interno, também conhecido como tabletop exercise, auxilia
reuniu-se as principais medidas relevantes, separadas por ciclos na sensibilização e na preparação dos envolvidos no fluxo de
de implantação, que devem facilitar o processo de efetivação da comunicação para atuação na emergência.

FIGURA 1 –
Proposta de
Implantação do
PAE em ciclos

36 WWW.CBDB.ORG.BR
3.2 SEGUNDO CICLO atividade, além de experiência e imagem institucional junto
à população. A atuação do empreendedor nesta etapa pode
No segundo ciclo é proposto o início do contato do ocorrer por meio de apoio logístico e técnico.
empreendedor com entes públicos, especialmente com a Para auxiliar o processo de esclarecimento da população,
prefeitura e a Defesa Civil. O envolvimento dos participantes pode-se lançar mão da utilização de cartilhas informativas,
externos permite buscar melhores respostas para situações de que trazem de forma simples e ilustrada como proceder em
risco, dar transparência às ações desenvolvidas e incentivar os caso de emergência, sendo capazes de educar os indivíduos
conceitos de autoproteção. em risco independentemente do nível cultural e educacional
O diálogo entre empreendedor e órgãos públicos pode ser que apresentam. As informações principais que podem ser
iniciado por meio de uma apresentação do PAE, de modo a disponibilizadas à população por meio de cartilhas são:
expor os impactos e as responsabilidades de cada envolvido
no plano. Nesta oportunidade, será possível conhecer o grau • Resumo das características da barragem;
de preparação desses órgãos para atuação em emergência de • Os riscos associados à barragem;
ruptura de barragem, especialmente da Defesa Civil Municipal. • O responsável por emitir o alerta à população situada na ZAS;
Em seguida, deve ser discutida a elaboração do Plano de • As medidas de segurança a serem realizadas pelos
Contingência Municipal, que deve ser de responsabilidade da responsáveis (empreendedor, prefeitura e Defesa Civil)
Defesa Civil. O desenvolvimento deste plano deve contar com quando em situação de risco;
a participação do empreendedor na construção das ações de • Os meios de alerta à população (sirenes, mensagem por
contingência a serem estabelecidas. telefone, etc.);
No Plano de Contingência Municipal devem ser definidos, • Orientações sobre o que a população deve ou não fazer antes
sobretudo, o sistema de monitoramento e alerta, as rotas e durante a emergência;
de fuga, os pontos de encontro e o plano de comunicação • Lista com a localização dos pontos de encontro;
à autoridades e serviços de emergência. Além disso, devem • Mapa de inundação, que mostre a mancha de inundação no
ser estudados os recursos disponíveis no município a serem caso de cheia e no caso de ruptura da barragem e a localização
usados no caso de acidente, como meios de transporte, locais dos pontos de encontro no vale à jusante da barragem.
de abrigo, hospitais, entre outros. Após a elaboração desse
plano, pode ser necessário atualizar o PAE para que sejam 3.4 QUARTO CICLO
incluídas novas informações relevantes definidas nesse ciclo,
como sistema de alerta e mapas com rotas de fuga e pontos Assegurado o conhecimento do PAE por todos os envolvidos
de encontro. na emergência da barragem, dá-se início aos simulados externos.
Dependendo da região onde o empreendimento estiver O principal objetivo desta atividade é treinar a população
localizado, o empreendedor pode defrontar-se com um para uma emergência de ruptura da barragem. Esta ocasião
possível despreparo técnico da estrutura municipal. Entretanto, representa a oportunidade de testar a eficácia dos meios de
esta situação não pode impedir a elaboração do Plano de alerta definidos no PAE e das rotas de fuga e pontos de encontro
Contingência, devendo este ser desenvolvido para possibilitar definidos no Plano de Contingência Municipal.
a continuidade do processo de implantação do PAE. Os simulados externos devem ser conduzidos pela Defesa
Civil com o apoio do empreendedor. Devem ser realizados nas
3.3 TERCEIRO CICLO comunidades mais expostas ao risco, ou seja, aquelas na ZAS.
Eventualmente pode ser indicado o treinamento de populações
Neste ciclo, propõe-se o início do contato com as em áreas menos afetadas.
comunidades do vale a jusante por meio de ações de As simulações externas devem ser repetidas periodicamente,
sensibilização e mobilização, que consistem em sessões de de forma a conscientizar a população sobre a importância
esclarecimento sobre a existência do PAE. A sensibilização da deste evento e desenvolver continuamente as ações de auto
população para um evento de ruptura de barragem é uma salvamento esperadas nas comunidades à jusante da barragem.
ação de mitigação de risco e, por esse motivo, representa uma Todos os simulados deverão ser documentados e
importante etapa do processo de implantação do PAE. as informações deles provenientes, empregadas para
A comunicação com as comunidades deve ser conduzida retroalimentar o PAE.
pela Defesa Civil, que possui atribuição legal para este tipo de

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 37


PROPOSTA DE IMPLANTAÇÃO DO PLANO DE AÇÃO DE EMERGÊNCIA EM CICLOS

4. CONCLUSÕES [3] BRASIL. ANEEL. Resolução Normativa n° 696 de 15 de


dezembro de 2015. Disponível em: http://www2.aneel.gov.br/
Empreendedores de barragens, principalmente de cedoc/ren2015696.pdf. Acesso em: 28 mai. 2018.
exploração de energia hidráulica, têm questionado sobre como [4] BRASIL. ANA. Resolução Normativa n° 236 de 30 de
proceder em relação à implantação do PAE. janeiro de 2017. Disponível em: http://arquivos.ana.gov.br/
Dessa forma, com vistas a direcionar os empreendedores, resolucoes/2017/236-2017.pdf. Acesso em: 28 mai. 2018.
nosso artigo propõe um roteiro de implantação do PAE em [5] BRASIL. DNPM. Portaria n° 70.389 de 17 de maio de 2017.
ciclos, criado com base nas evidências encontradas no estudo Disponível em: http://www.anm.gov.br/portaria-dnpm-n-70389-
das informações disponíveis atualmente sobre o tema. de-17-de-maio-de-2017-seguranca-de-barragens/view. Acesso
Nossa proposta se baseia na análise dos conteúdos em: 28 mai. 2018.
disponibilizados pelos órgãos fiscalizadores de barragens e na [6] BRASIL. Ministério da Integração Nacional. Secretaria Nacional
aglutinação e síntese das diretrizes sobre implantação do PAE de Proteção e Defesa Civil. Centro Nacional de Gerenciamento
encontradas nos textos desses órgãos. de Riscos e Desastres. Orientações para Apoio à Elaboração
Esperamos que as sugestões aqui apresentadas auxiliem de Planos de Contingência Municipais para Barragens.
empreendedores na implantação de seus planos, apoiem a Setembro de 2016. Disponível em: http://www.mi.gov.br/
evolução técnica das discussões sobre o tema e contribuam documents/3958478/0/Caderno+-+Orienta%C3%A7%C3%B5
para a segurança das populações nos vales a jusante. es+Planos+Contingencia+Barragens+V.03.pdf/86af8270-a597-
4061-bcfb-5934db8f0829. Acesso em: 30 mai. 2018.

5. AGRADECIMENTOS Glauco GONÇALVES


Engenheiro Civil pelo Centro Federal de Educação Tecnológica

Os autores agradecem à Enemax Engenharia e Consultoria de Minas Gerais (2005), é Mestre pela mesma instituição
(2010). Desde 2015 está à frente da Enemax Engenharia e
Ltda pelo apoio e incentivo ao desenvolvimento técnico
Consultoria, onde é responsável técnico por 20 UHEs e PCHs
contínuo de seus colaboradores.
atendidas pela empresa em todo o País. Atua em Inspeções
de Segurança de Barragem, Elaborações de PAEs e PSBs,
realização de laudos técnicos, levantamentos topográficos, entre outros. Esteve por 10
6. PALAVRAS-CHAVE anos na CEMIG, sendo coordenador de Segurança de Barragens e Manutenção Civil
das usinas da região Centro-Sul de Minas Gerais. Foi responsável por 19 barragens
e realizou inspeções de segurança em 29 estruturas. Sua atuação envolvia, além da
Implantação do PAE, ANEEL, ANA, ANM, Defesa Civil.
realização de inspeções de segurança, elaboração de laudos técnicos, declarações de
estabilidade e análise da instrumentação. Possui vasta experiência ministrando cursos
relativos à Segurança de Barragens e à Instrumentação de Barragens, tendo conduzido
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS recentemente cursos para equipes da ANA, ANEEL e Geradoras de Hidroeletricidade.

[1] BRASIL. ANA. Guia de orientação e formulários do Plano de Ação Débora Pimentel COSTA
de Emergência – PAE. Volume IV. Brasília, 2016. Disponível em: http:// Técnica em Edificações pelo Centro Federal de Educação

www.snisb.gov.br/portal/snisb/downloads/volume-iv-guia-de- Tecnológica de Minas Gerais em 2012. É técnica na


Enemax Engenharia e Consultoria Ltda, onde atua na área
orientacao-e-formularios-dos-planos-de-acao-de-emergencia-2013-
de Segurança de Barragens por meio da elaboração de
pae. Acesso em: 30 mai. 2018.
Planos de Segurança de Barragens (PSB), Planos de Ação
[2] BRASIL. Lei nº 12.334, de 20 de setembro de 2010. Estabelece Emergencial (PAE) e Relatórios de Inspeção de Segurança
a Política Nacional de Segurança de Barragens destinadas à de Barragens para diversas PCHs e UHEs.
acumulação de água para quaisquer usos, à disposição final ou
temporária de rejeitos e à acumulação de resíduos industriais, cria André Santos de Oliveira FURTADO
o Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens e Engenheiro Eletricista pela UFMG (2006), possui Mestrado em
Engenharia Elétrica pela UNICAMP (2009). É sócio-proprietário
altera a redação do art. 35 da Lei no 9.433, de 8 de janeiro de 1997,
da Enemax Engenharia e Consultoria, onde atua, desde 2012,
e do art. 4o da Lei no 9.984, de 17 de julho de 2000. Disponível em:
na coordenação e gestão dos projetos e na elaboração de
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/ Planos de Ações Emergenciais (PAE) e Planos de Segurança de
l12334.htm. Acesso em: 03 set. 2018. Barragem (PSB) para diversas PCHs e UHEs.

38 WWW.CBDB.ORG.BR
SEGURANÇA DE BARRAGENS

MÉTODOS DE INSPEÇÃO
REMOTA DE BARRAGENS
João Francisco Alves SILVEIRA | Engenheiro Civil - SBB Engenharia
Kaique Dantas OLIVEIRA | Estagiário – SBB Engenharia

RESUMO ABSTRACT

Tendo em vista o grande avanço de tecnologias com câmeras Considering the great advance of technologies using high-
fotográficas de alta definição, bem como a utilização de laser e definition cameras, laser and radar waves technologies for
de ondas de radar para levantamentos aéreos ou terrestres, o aerial or terrestrial surveys, this paper presents a synthesis
presente trabalho apresenta uma síntese da aplicação dessas of the application of these technologies in the field of remote
tecnologias na inspeção remota de barragens, com ilustrações inspection of dams, with illustrations of practical results
de alguns resultados práticos. Tais tecnologias estão sendo whenever possible. They are, however, technologies that are
implantadas rotineiramente em outros países, mas têm tido routinely being implemented in other countries, but which have
raríssimas aplicações nas barragens brasileiras. had very few applications in Brazilian dams.

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 39


MÉTODOS DE INSPEÇÃO REMOTA DE BARRAGENS

1. INTRODUÇÃO Elas integram as captações fotográficas adequadamente e


transformam o conteúdo em um vídeo. Estas imagens podem

H
á uma série de vantagens na seleção de um método ser arquivadas em mídia digital e aproveitadas em relatórios para
remoto para inspeção de barragens, como: segurança atividades de manutenção planejada. Importante salientar que
da equipe, mínima perturbação da estrutura e podem ser utilizadas múltiplas câmeras em um mesmo veículo,
possibilidade de acesso virtual aos elementos estudados. como se pode observar na Figura 2.1.
Sendo assim, os dados podem ser analisados sem que ninguém
seja exposto a condições de perigo.
Com o avanço na tecnologia digital, câmeras, sonares e
diversos outros sensores podem ser integrados aos veículos de
operação remota, de modo relativamente simples, aprimorando
as inspeções de campo. Junto com esta facilidade, vem, por
consequência, o processamento e aquisição aprimorada de
dados, que fornecem um conjunto de informações essenciais
para o gerenciamento do sistema de segurança da barragem.
Há muitos casos de acidentes geotécnicos e de barragens
que ocorreram em lugares onde havia instrumentação. A FIGURA 2.1 – Modelo CAD (direita) e modelo construído (esquerda) de ROV
maioria dessas rupturas está relacionada com problemas de com múltiplas câmeras instaladas [1]
comunicação, equívocos na interpretação e/ou na apresentação
dos dados. Em estruturas com longos ciclos de vida, em que 3. SONAR
se conhece a importância do monitoramento no decorrer do
tempo para a previsão do comportamento, podem ser utilizados Sonar é uma sigla em inglês que significa Variação e
Sistemas Ativos de Monitoramento (SAMs) – conjuntos de Navegação através do Som (Sound Navigation and Ranging).
elementos interligados que garantem compatibilidade com Um pulso acústico é emitido pelo transdutor e ele viaja através
os sistemas de monitoramento, autonomia e baixos níveis de da água até encontrar outra superfície que reflete o pulso ou
interdependência. Os dados ficam disponíveis em nuvem, onde parte dele de volta para o transdutor, de modo a possibilitar o
são validados, arquivados e podem ser plotados ou visualizados cálculo da distância até o obstáculo.
em diferentes plataformas, minimizando os erros decorrentes Existem muitos tipos de sonares. Mas, geralmente, eles são
do sistema de monitoramento. utilizados para medições ponto a ponto ou para “iluminação”
Dessa maneira, a possibilidade de se adotar um sistema remoto pelo som, de forma a criar uma imagem bidimensional da área
para o monitoramento de barragens pode ser muito vantajosa, sondada. São fornecidos em uma gama extensa de frequências
especialmente no aspecto do impacto socioeconômico de um e padrões de feixe. Quanto menor a frequência, maior a
programa de monitoramento. Afinal, ele permite uma análise distância atingida, mas menor a resolução da imagem. Com
mais detalhada de dados sem a necessidade da presença de frequências maiores, pode-se obter uma melhor definição da
alguém no local, minimizando os riscos e os custos associados, imagem, mas com menor distância de geração.
além de evitar falhas na obtenção das informações. Uma vantagem importante do sonar sobre sistemas de
Neste trabalho serão apresentados alguns aparelhos de câmeras é que os sonares não são afetados pela turbidez da
monitoramento remoto e a descrição das metodologias de água. Enquanto as câmeras necessitam de boa visibilidade e
aplicação deles na engenharia de barragens. Ao fim, serão curta distância para serem efetivas, o sonar pode ser usado
expostos alguns casos de utilização dos modelos citados, de para detectar falhas mesmo em áreas com baixa visibilidade,
modo a apontar a sua usabilidade em projetos reais. só pelo uso do som.

2. CÂMERAS DIGITAIS 4. LASER - LIDAR


Câmeras digitais que usam telemetria Ethernet são muito LIDAR é uma sigla inglesa que significa Detecção, Variação
comuns, permitindo obter imagens com um mínimo de 5 e Imageamento através da Luz (Light Imaging, Detection and
megapixels, sob uma alta quantidade de quadros por segundo. Ranging). Este tipo de aparelho é capaz de captar milhões de

40 WWW.CBDB.ORG.BR
FIGURA 3.1 – Exemplo de aplicação do Sonar para geração de imagens 2D [1]

pontos que são integrados para definir uma superfície, sendo possibilitar a digitalização do modelo completo da estrutura. As
extensivamente utilizados na construção e na engenharia civil. nuvens de pontos geradas são vinculadas umas às outras para
Adicionando refletividade ou cor a cada ponto, a nuvem de pontos produzir um sistema de coordenadas único.
pode representar de maneira mais próxima o elemento analisado. A Figura 4.2 mostra o equipamento do LIDAR em operação na
Este sistema é também usado em levantamentos aéreos ombreira esquerda de uma barragem. Convém informar ainda que o
para mapear corpos de água próximos à costa ou não muito aparelho utilizado funciona para determinação de deslocamentos ou
profundos, onde o laser penetra através da camada de água, falhas e fissuras na superfície da barragem.
refletindo o relevo do fundo do oceano, lago ou rio, como se Além dessas aplicações, o sistema pode ser aproveitado para
pode observar na Figura 4.1. auxiliar em procedimentos de caracterização de maciços rochosos.
O sistema pode criar uma nuvem de pontos com a produção de até O LIDAR faz um excelente trabalho em capturar superfícies de
100 mil pontos por segundo. Para grandes estruturas, são utilizados fratura por meio da nuvem de pontos gerada, mas também precisa
aparelhos com maior ângulo de abertura, possibilitando digitalizar de algum software adicional que processe as imagens digitais
áreas com até 1000 metros de extensão entre as superfícies. geradas, já que o sistema por si não é capaz de gerar informações
O LIDAR também é indicado para o monitoramento de barragens, sobre o espaçamento de fraturas, o tamanho das juntas ou dos
sendo adotado de três a cinco pontos de fixação do aparelho para blocos de rocha.

FIGURA 4.2 –LIDAR em operação na ombreira esquerda de uma barragem


FIGURA 4.1 – Mapeamento de região próxima à costa com LIDAR [1] em arco [6]

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 41


MÉTODOS DE INSPEÇÃO REMOTA DE BARRAGENS

Neste sentido, estão sendo desenvolvidos softwares (como monitoramento da deformação em túneis, monitoramento
o Split FX) para processar as imagens obtidas e realizar a e planejamento do uso de áreas com atividade sísmica ou
caracterização do maciço. A Figura 4.3 representa o sistema de vulcânica.
delineamento automático efetuado por este software através A metodologia de leitura do satélite consiste em explorar a
de uma imagem digital gerada pelo LIDAR. informação contida na fase do sinal de duas complexas imagens
do SAR, obtidas em tempos diferentes sobre a mesma região,
utilizadas para formar o chamado interferograma. O interferograma
é obtido pela multiplicação cruzada da primeira imagem SAR com
o complexo conjugado da segunda, possibilitando a determinação
do deslocamento associado da região no intervalo de tempo entre
as imagens.
Há algumas limitações desse procedimento. A presença de
contribuições topográficas residuais, a não correlação com efeitos
temporais e geométricos, e interferências devido à barreira da
atmosfera, podem impedir a observação de deslocamentos ou
reduzir a precisão da técnica.
O DInSAR Avançado (A-DInSAR) é uma técnica que tem se
apresentado como solução efetiva para reduzir as limitações
citadas na análise do DInSAR padrão. Esta técnica avançada se
baseia na exploração de uma extensa gama de dados multi-
temporais, de forma a gerar inúmeros interferogramas, alcançando
FIGURA 4.3 – Delineamento pelo software Split FX em um maior redundância nos resultados interferométricos. Uma das
corte de rodovia no estado do Colorado, EUA [5] abordagens mais conhecidas é a Interferometria por Dispersão
Persistente (PSI), a qual é baseada na informação adquirida pelos
pixels das imagens do SAR, caracterizadas pela grande coerência
5. INTERFEROMETRIA POR SATÉLITE sobre um longo intervalo de tempo.
SAR (INSAR) No entanto, há outras limitações que vão além da precisão e
obtenção de dados. Como o aparelho necessita de objetos que são
O aprimoramento da capacidade de computação, assim como bons refletores do radar, para serem analisados, há dificuldade em
o lançamento de uma série de satélites por diferentes agências se obter informações sobre áreas densamente vegetadas.
espaciais, tem contribuído para a propagação da Interferometria
por Satélite SAR e para o monitoramento de deslocamentos de APLICAÇÃO DO INSAR À BARRAGEM DE SVARTEVATN, NA
maciços de solo-rocha ou de estruturas. NORUEGA
Atualmente, abordagens de processamento com múltiplas
imagens permitem análises em áreas extensas (milhares de Trata-se de uma barragem de enrocamento com 130 metros
quilômetros quadrados) ou para escalas locais (talude ou estrutura de altura e um reservatório de 4,7 hm³, localizada na Noruega,
isolada), fornecendo informações de deslocamento com precisão com um núcleo central de material procedente das morainas
milimétrica. Possibilitam também levantamentos históricos, já que glaciares, pois no clima local não há intemperismo químico,
existem registros coletados por agências espaciais desde 1992. mas apenas físico. A estrutura foi construída em 1968 e é até
Durante os últimos 20 anos, as análises clássicas de interferometria hoje a maior desse tipo naquele país. (Figura 5.1)
por SAR- Diferencial (DInSAR), executado pela junção de imagens do Devido ao aumento no rigor das regulamentações com
satélite para gerar interferogramas diferenciais, estão sendo usadas respeito à segurança de barragens na Noruega, Svartevatn
extensamente como uma ferramenta para investigar os processos passou por uma extensiva reabilitação entre 2012 e 2014, o
de deformação da crosta e o deslocamento dos continentes. que gerou um impacto nos resultados das análises da estrutura.
As capacidades e peculiaridades dessa técnica com satélites O enrocamento com núcleo de moraina teve seu talude de
(InSAR) permitem a sua utilização para diferentes campos jusante abatido para assegurar mais proteção em caso de
e aplicações, como avaliação da estabilidade de taludes, sismos, assim como para permitir uma melhor proteção para o
monitoramento de estruturas e infraestruturas de barragens, caso de um eventual galgamento.

42 WWW.CBDB.ORG.BR
6. REFLETÔMETRO (TDR – TIME
DOMAIN REFLECTOMETER)
O refletômetro consiste em um cabo coaxial que é fixado
(grouted) à rocha de interesse. Os movimentos da rocha
devido às tensões sofridas geram deslocamento deste cabo,
produzindo mudanças na reflexão de pulsos elétricos no
padrão do refletômetro. Ao monitorar essas modificações nas
ondas de reflexão do aparelho, pode-se obter a extensão e o
cisalhamento sofridos pelo elemento estudado.
Este instrumento é usualmente utilizado para identificar
áreas de deformação ou localizar rupturas do maciço rochoso
FIGURA 5.1 – Barragem de Svartevatn a partir da ombreira esquerda [7]
escavado, assim como os efeitos das detonações do entorno.
O cabo coaxial pode ser usado para quantificar o tipo e a
A Figura 5.2 a seguir mostra a deformação da estrutura magnitude da deformação.
após sua remodelação, concluída no outono de 2014. O sistema é considerado econômico devido à simplicidade
Aproximadamente 5 mil pontos de medição foram realizados de instalação, à utilização de ferramentas comerciais e à
no local. Os pontos verdes, nas ombreiras e base da Svartevatn, facilidade de aquisição e interpretação dos dados. A Figura 6.1
são estáveis, enquanto os que variam de amarelo a vermelho demonstra as características de instalação do aparelho.
correspondem a áreas com movimentação vertical.

FIGURA 5.2 – Deslocamentos indicados pelo método InSAR entre


Out/2013 e Out/2014. A região com baixa cobertura de pontos se deve
aos procedimentos de manutenção [7]

Não foi possível obter boa cobertura na região superior da


barragem devido aos trabalhos de manutenção que ainda
estavam sendo executados, o que dificultou o processamento
dos dados InSAR, sendo necessário produzir uma nova série de
medidas futuramente para se obter um número maior de pontos
em toda a estrutura.
Fica claro na Figura 5.2 os maiores recalques da barragem no
topo das seções de maior altura, decorrência do lançamento de FIGURA 6.1 – Características da instalação de um
refletômetro e relação entre cabo e instrumentação [3]
uma nova camada de rocha sobre o talude de jusante

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 43


MÉTODOS DE INSPEÇÃO REMOTA DE BARRAGENS

O equipamento é muito utilizado em minas, onde há e uma resposta incorreta do instrumento, ou uma calibração
preocupação elevada com regiões de instabilidade devido inadequada, por exemplo.
à escavação do maciço rochoso. Os engenheiros necessitam A escolha dos instrumentos passa por uma série de fatores
de medidas quantitativas da probabilidade de ocorrência de e análises, que podem ser especificadas por descrição ou por
ruptura, de modo a prever e evitar possíveis acidentes com desempenho:
a equipe e os equipamentos. Dessa maneira, o reflectômetro
torna-se essencial para que impactos negativos sejam a. Variação do campo de leitura, resolução, acurácia,
antecipados. precisão e repetibilidade;
É ainda possível, em lugares com elevado risco geomecânico, b. Geometria e peso;
realizar a conexão e coleta de dados remotamente por meio de c. Preço;
fibra ótica ou comunicação de rádio, não sendo necessário que d. Robustez e qualidade, manutenção;
o operador esteja no local de aplicação do cabo para ler as e. Características de instalação e operação;
deformações. f. Longevidade.

O número de tipos de instrumento e modos de operação


7. SISTEMA ATIVO DE presentes no mercado é muito extenso, sendo que vários
ainda são bem rudimentares, com métodos manuais de
MONITORAMENTO (SAM) aquisição de dados, dependendo de uma equipe no local,
dos instrumentos para o registro das leituras e, quando há
Segundo Dunnicliff (1988), os benefícios de um monitoramento
processamento automático, a capacidade é baixa e limitada
eficiente variam de acordo com a fase de vida de um
em alguns instrumentos. Os avanços da tecnologia ocorreram
empreendimento:
de modo gradual, transferindo o processo de aquisição,
transmissão e processamento de dados entre os operadores
• Durante o projeto, a instrumentação pode ser utilizada e os computadores.
para fornecer valores de entrada para a concepção inicial
A evolução da tecnologia, no entanto, trouxe um paradoxo.
da estrutura;
É mais fácil e mais barato obter dados com novos sensores
• Durante a construção, a instrumentação é usada para do que construir uma ferramenta de compatibilidade entre
garantir boa segurança, minimizar os custos e aprimorar
novos sistemas e modelos antigos. Isso é um grande problema,
os procedimentos e cronogramas de controle, fornecendo
porque a troca sistemática da instrumentação pode gerar
dados para medição dos valores de controle;
perda ou interrupção de dados fundamentais para análise de
• Após o fim da construção, a instrumentação é importante um comportamento de longo prazo.
para garantir a segurança da estrutura, através da medição
Outro problema advindo do poder tecnológico é que
e identificação de possíveis mudanças no ambiente ou
a quantidade de dados pode se tornar tão grande que o
condições da estrutura.
engenheiro não tem mais habilidade de gerenciar e interpretar
os dados fundamentais, colocando o trabalho de correlações e
A instrumentação, segundo Bressani (2009), pode ser
observações visuais em segundo plano.
empregada como uma ferramenta de investigação, ou seja, uma
O Sistema Ativo de Monitoramento é projetado para
forma de obter informação adicional, que pode ser conflitante
suportar equipamentos eletrônicos utilizando os conceitos
com a campanha mais recente de inspeção.
de internet. A premissa é reduzir gastos por meio do uso de
É válido ressaltar a importância da interação adequada
sensores de baixo custo, fornecendo compatibilidade dos
entre a equipe e os instrumentos. O instalador e o engenheiro
novos sensores e instrumentos com aqueles já instalados no
responsável pela interpretação dos dados devem ter
campo, integrando todos os equipamentos de monitoramento.
conhecimento extensivo sobre os fundamentos geotécnicos e
A rede de comunicação pode ser feita ponto a ponto ou por
os detalhes da instrumentação a ser aplicada. Particularmente
portas de acesso, tornando-se então disponível para ser visualizada
o engenheiro que irá interpretar os dados deve conhecer
ou impressa em smartphones, tablets ou computadores, seguindo
profundamente os instrumentos, de maneira a garantir um
o esquema de acordo com a Figura 7.1.
melhor entendimento dos comportamentos observados.
As análises variam com o tipo de problema. Pode ser um
Isso possibilitará a distinção entre um problema geotécnico
estudo de uma série histórica com redes neurais, bem como

44 WWW.CBDB.ORG.BR
FIGURA 7.1 – Esquema de atuação do Sistema Ativo de Monitoramento (SAM) [2]

aprendizado da máquina ou aplicação de equações analíticas 8. PALVRAS-CHAVE


e empíricas sobre os dados para prever a possibilidade de
alterações, por exemplo. É importante enfatizar que o sistema Inspeção remota; barragem, levantamento, InSAR, LIDAR.
não é capaz de entender o problema, mas pode avaliar e
processar as informações de maneira muito mais rápida, usando
uma combinação ampla de variáveis que levam à indicações de
riscos potenciais.
9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Neste processo de verificação, traduzir para a máquina
[1] ASDSO (2017) – “Dam Safety Conference Proceeding”, San
a relação entre o engenheiro geotécnico (que conhece o
Antonio, Texas”, Setembro 10-14, 1044 p;
comportamento esperado) e a equipe de programação do
[2] BRESSANI, L.A. et al. (2018) – “A Monitoring System for
sistema (que treina a máquina para reconhecer padrões e
Landslides and Geotechnical Works Using Statistical and Artificial
desvios) é a chave para o sucesso do sistema ativo.
Intelligence Models”, FMGM, Julho;
Atualmente, a combinação de sensores de baixo custo e a alta
[3] MATOS, A.R. et al. (2018)- “Detailing the use and installation of
capacidade de processamento de informações tem aberto novos
the Time Domain Reflectometer in Geomechanics Monitoring”,
desafios para os engenheiros geotécnicos. Reconciliar a geração
FMGM, Julho, 13p;
de bases de dados extensas com a eficiência na interpretação
[4] BENEDETTA, A. et al. (2018) – “Satellite SAR Interferometry
é um destes dilemas. Embora o exponencial volume de
for Geohazard and Infrastructures Monitoring”, FMGM, Julho,
informações não seja sinônimo de um sistema mais eficiente,
16p;
seu potencial não pode ser negligenciado. Dessa forma, inéditas
[5] KEMENY, J. & DONOVAN, J. TECHNICAL NOTE (2015) – “Rock
técnicas devem ser desenvolvidas para maximizar a qualidade
Mass Characterisation using LIDAR and Automated Point Cloud
das informações extraídas em sistemas com muito conteúdo.
Processing”, Novembro, 4p;
A inteligência artificial é uma destas alternativas, já que,
[6] CAMP, G.; CARREAUD, P.; LANÇON, H (2013) – “Large
quando corretamente aplicada, é capaz de sintetizar uma
Structures: which solutions for health monitoring. International
grande quantidade de dados em informações vitais para uma
Archives of the Photogrammetry, XXIV International CIPA
tomada de decisão adequada, o que torna o Sistema Ativo de
Symposium”, Setembro, 5p;
Monitoramento uma ferramenta extremamente eficiente para
[7] ENERGIFORSK Report 212 (2015) – “Insar On Embankment
a leitura da instrumentação, desde que garanta a longevidade e
Dams”, 36p.
integração entre os equipamentos modernos e antigos.

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 45


MÉTODOS DE INSPEÇÃO REMOTA DE BARRAGENS

João Francisco Alves SILVEIRA Kaique Dantas OLIVEIRA


Atua na área de Instrumentação e Segurança de Na Escola Técnica Getúlio Vargas fez o curso técnico
Barragens desde 1973, tendo participado do projeto e em Edificações e concluiu graduação em Engenharia
análise da instrumentação das Usinas Hidrelétricas de Civil pela Escola de Engenharia de São Carlos (USP).
Itaipu, Água Vermelha, Marimbondo, Três Irmãos, Xingó, Na Geotecnia (USP/EESC – CNPq) foi Pesquisador de
Itá, Itapebi, Dona Francisca, Jirau e Belo Monte, dentre Iniciação Científica, na Equipe de Concreto da USP
outras. É autor de cerca de 120 trabalhos técnicos e de (ECON) foi coordenador do Projeto de Engenharia, na
dois livros dedicados à instrumentação e segurança de barragens. Presidiu a SBB Engenharia foi estagiário de Engenharia Civil. Possui especialização em
Comissão Internacional “Ad Hoc Committee on Small Dams” do International Economia pela Freie Universität Berlin (Alemanha).
Commission on Large Dams (ICOLD), entre 2005 e 2011.

RELATÓRIO DE SEGURANÇA DE
BARRAGENS

2017

O Relatório de Segurança de Barragens 2017


apresenta informações de 31 entidades
fiscalizadoras, sendo 3 federais e 28 estaduais,
distribuídas em 10 unidades da federação.

Os fiscalizadores declararam que


45 barragens estão com estruturas
comprometidas.
O Relatório, um dos instrumentos da Política
Nacional de Segurança de Barragens (Lei nº
12.334/2010), é produzido anualmente sob a
coordenação da ANA com informações
disponibilizadas pelas entidades fiscalizadoras.

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BARRAGENS DE TERRA E DE ENROCAMENTO

BARRAGEM TERZAGHI:
AVALIAÇÃO APÓS 68 ANOS
DE OPERAÇÃO
Bruno NEVES | Pesquisador Puc-Rio / Engenheiro SR. Light Energia
Alberto SAYÃO | Professor, Depto. Eng. Civil, PUC-Rio

RESUMO ABSTRACT

O presente trabalho apresenta a Barragem Terzaghi com foco no This paper presents the behavior of Terzaghi Dam, focusing
desempenho e nas condições geotécnicas atuais, em termos de on its performance and on the assessment of its geotechnical
percolação, tensões e deformações, considerando o acúmulo conditions, regarding seepage, stresses and strains, with the
de sedimentos sobre a face montante, usando modelagem por sediment load on its upstream slope, using finite element
elementos finitos da seção principal da barragem. Foi obtida a simulations for the main section of the dam. The evolution of the
evolução do fator de segurança ao longo dos 68 anos de operação. safety factor has been evaluated over the 68 years in operation.

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 47


BARRAGEM TERZAGHI: AVALIAÇÃO APÓS 68 ANOS DE OPERAÇÃO

1. CARACTERIZAÇÃO

A
Barragem Terzaghi e o Dique do Vigário foram construídos
para compor um reservatório de 38 milhões de metros
cúbicos e receber águas transpostas do sistema Piraí-
Paraíba do Sul pela Usina Elevatória de Vigário, situada na
cidade de Piraí, no estado do Rio de Janeiro. A Usina de Vigário,
mostrada na Figura 1, abriga quatro unidades reversíveis, que
operaram no passado, gerando energia nas horas de pico de
carga. Na época, eram umas das primeiras unidades reversíveis
(turbina/bomba e motor/gerador) do mundo.
A Barragem e o Dique têm dimensões semelhantes. Na
Figura 1 – Vista aérea de Piraí com a Usina Elevatória de Vigário em
época da construção, e até 1964, eram denominados Barragem
primeiro plano
e Dique de Vigário. O vale por onde corria o Córrego de Vigário
foi fechado pela Barragem e o Dique foi construído para fechar
uma sela topográfica e formar o reservatório.
As obras foram realizadas de 1949 a 1953. A barragem foi
renomeada como Barragem Terzaghi em 1964, em homenagem
ao seu ilustre projetista e consultor Karl Von Terzaghi, o
engenheiro austríaco, criador da Mecânica dos Solos, falecido
no ano anterior. A Figura 2 mostra a Usina Elevatória, o Dique
e a Barragem, na margem direita da Rodovia Presidente Dutra
(BR-116, Rio-São Paulo).
Na segunda metade do século XX, o desenvolvimento
urbano e o desmatamento ao longo da bacia do Rio Paraíba Figura 2 – Usina Elevatória, Dique e Barragem de Vigário (imagem Google)
do Sul promoveram o assoreamento dos reservatórios do
sistema gerador da Light. A Usina Elevatória de Santa Cecília
desvia água (cerca de 190m³/s) para o sistema Piraí-Paraíba do
Sul, que depois é novamente bombeada pela Usina Elevatória
de Vigário. A carga de sedimento distribui-se ao longo do
reservatório de Vigário, formado pela Barragem de Terzaghi.
Junto à Barragem de Terzaghi e ao Dique de Vigário, o
assoreamento atinge quase o nível de operação (399m). A
Figura 3 ilustra as condições atuais de assoreamento.
Pela comparação do projeto original com as batimetrias
realizadas no reservatório junto à Barragem foi possível
verificar o nível de assoreamento junto à face montante. Tal
informação é mostrada na Figura 4. A camada de material do
assoreamento chega, atualmente, a 30 m de espessura. Figura 3 – Vista do assoreamento junto à face montante do Dique de
vigário com o reservatório na cota 398m

2. ENSAIOS E PARÂMETROS
Os parâmetros geotécnicos utilizados na modelagem
numérica foram obtidos por meio de duas campanhas de
investigação na Barragem Terzaghi, ambas contratadas
pela Light Energia. Na primeira, em 2001, os ensaios foram Figura 4 – Seção típica da Barragem de Terzaghi com detalhe da carga de
assoreamento

48 WWW.CBDB.ORG.BR
Figura 5 – Planta da Barragem Terzaghi com a locação dos poços de inspeção e amostragem

realizados na PUC-Rio, e, na segunda, em 2017, em empresa horas: 50, 100, 200, 400, 500, 600, 700, 800, 900 e
de engenharia. 1000kPa;
A Figura 5 mostra o local da amostragem da campanha de • Permeabilidade: ensaios do tipo Carga Constante foram
2001, representado por um círculo azul, e, em 2017, por dois realizados na campanha de 2001 em permeâmetro de
círculos vermelhos, na crista da Barragem. parede flexível com moldagem nas direções horizontal
Para considerar o efeito da carga do assoreamento e vertical em relação à posição original das amostras no
acumulado na face montante, foram coletadas, em 2015, campo;
amostras dos sedimentos no entorno das cotas 393 e 387. • Triaxiais: ensaios CIUSAT (ensaios executados em corpos
Os seguintes ensaios foram então realizados: de prova saturados, consolidados hidrostaticamente,
com cisalhamento não drenado);
• Caracterização: ensaios de granulometria, limites de • Granulometria completa (peneiramento e sedimentação):
liquidez e plasticidade, e massa específica real dos grãos; estes ensaios permitem descrever o material do corpo de
• Adensamento: ensaios incrementais com as seguintes uma barragem como um silte arenoso e o material de
tensões confinantes mantidas constantes durante 24 assoreamento como uma areia siltosa.

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 49


BARRAGEM TERZAGHI: AVALIAÇÃO APÓS 68 ANOS DE OPERAÇÃO

A Tabela 1 mostra os resultados obtidos em amostras


retiradas ao longo da profundidade do poço, na Barragem. A
Tabela 2 mostra os resultados no material do assoreamento.

Tabela 5 – Resumo dos parâmetros de


resistência em tensões efetivas - Barragem

Tabela 1 – Valores de umidade e pesos específicos ao longo


da profundidade do poço – material da Barragem
Tabela 6 – Resumo dos parâmetros de resistência em
tensões efetivas - material de assoreamento

Os valores do módulo E50, reportados nas Figuras 6 e 7, foram


obtidos com os resultados dos ensaios triaxiais (Sayão, 2017).
Tabela 2 - Pesos específicos ao longo da profundidade – assoreamento

Os valores do coeficiente de permeabilidade do solo saturado


foram obtidos com base na lei de Darcy (Lambe e Whitman,
1969). As Tabelas 3 e 4 exibem os resultados para os materiais
da Barragem e do assoreamento, respectivamente.

Figura 6 – Valores E50 – material da Barragem

Tabela 3 – Coeficientes de permeabilidade – Barragem

Tabela 4 – Coeficientes de
permeabilidade do material
acumulado por assoreamento
Figura 7 – Valores E50 – material do assoreamento

As Tabela 5 e 6 resumem os parâmetros de resistência obtidos


dos ensaios triaxiais nos materiais da Barragem e do assoreamento, Foram definidos os valores médios E50 = 24GPa e E50 = 7,5GPa,
respectivamente. respectivamente para os materiais da Barragem e do assoreamento.

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3. MODELAGEM NUMÉRICA simulação começa na construção da barragem onde já ocorrem
deformações. M7-M8 e M9-M10 são marcos mais próximos da
Para as análises de tensão-deformação foi utilizado o programa crista. A modelagem indica que o deslocamento continua, o
SIGMA/W com parâmetros de tensões efetivas e variação de que reflete na variação do fator de segurança.
poropressão (GeoSlope, 2013). Para a verificação da estabilidade
do talude de jusante foi utilizado o software SLOPE/W, aplicando
os resultados de tensões obtidos na análise com o SIGMA/W.
Dessa forma, a análise mostra resultados interessantes no que
tange aos sucessivos estados de tensão ao longo da vida da
Barragem Terzaghi, uma vez que o carregamento imposto pelas
camadas de assoreamento foi depositado gradativamente, ao
longo do tempo (GeoSlope, 2012). A Barragem foi modelada
desde a construção, considerando 20 etapas de alteamento e
em diferentes momentos: 1 ano, 68 anos, 80 anos, 100 anos,
120 anos, 140 anos e 200 anos de operação.
A Tabela 7 resume os parâmetros utilizados na modelagem
numérica.

Figura 8 – Comparação M7-M8 x Deslocamentos verticais simulados

Tabela 7 – Parâmetros utilizados nas simulações

sendo:
E’ – Módulo de deformabilidade E50 utilizado para assoreamento
e aterro; para os demais, os valores foram estimados considerando
a calibragem do modelo;
c’ – Coesão efetiva;
Ø’ – Ângulo de atrito efetivo;
δ – Massa específica real dos grãos;
Figura 9 – Comparação M9-M10 x Deslocamentos verticais simulados
– Módulo de Poisson;

PERCOLAÇÃO
DESLOCAMENTOS VERTICAIS
Com a simulação acoplada foi possível verificar a diminuição de
Os gráficos na sequência reportam os deslocamentos verticais percolação pela Barragem. O modelo utilizado é bidimensional.
obtidos em campo, comparados aos deslocamentos verticais Ao comparar os resultados medidos com os simulados não foi
estimados. A simulação foi conduzida até a idade de 200 anos viável utilizar valores absolutos, pois estes não representariam
da Barragem. Os valores simulados foram ligeiramente maiores o comportamento do campo, onde o fluxo acontece de maneira
que os medidos, com mesma tendência de comportamento. tridimensional.
Nas Figura 8 e Figura 9 são mostradas as comparações entre Os valores simulados e medidos foram analisados em termos
os resultados da simulação e as medidas de campo, note que de porcentagem da diminuição da percolação ao longo do tempo,
os deslocamentos simulados não iniciam no zero, isso porque a como pode ser visto na Figura 10.

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BARRAGEM TERZAGHI: AVALIAÇÃO APÓS 68 ANOS DE OPERAÇÃO

É notado um acréscimo dos valores medidos após 50 anos Os fatores de segurança não variaram consideravelmente
de operação da Barragem. Tal acréscimo é atribuído às limpezas com o tempo, como pode ser visto na Figura 11. Em 200 anos
realizadas na saída do sistema de drenagem. de idade, a barragem estaria com um FS=1,99, acima do valor
FS=1,5, recomendado internacionalmente para condições
permanentes de carregamento (Engineers US Army Corps 2004).

Figura 10 – Diminuição da percolação ao longo do tempo Figura 11 – Variação do fator de segurança no tempo

A Figura 12 mostra um estudo do risco de ruptura, que


consiste em áreas com diferentes cores. A linha escura
ESTUDO DE ESTABILIDADE representa a superfície crítica de ruptura, posicionada na
região com coloração vermelha, representando o menor fator
Os estudos de estabilidade utilizaram como condição de de segurança. Na medida em que as cores variam para laranja,
contorno os estados de tensão proporcionados com o acréscimo amarelo e verde, o fator de segurança aumenta.
de assoreamento e a dissipação do excesso de poropressão Os valores de Fator de Segurança (FS) encontrados
no tempo, bem como espaços amplos de entrada e saída de na simulação são aceitáveis, uma vez que a condição de
superfícies de ruptura, por meio da utilização de elementos carregamento da Barragem não é passível de acréscimo, pois o
finitos. Foi modelada a seção principal da Barragem Terzaghi. nível de assoreamento não aumenta.

Figura 12 – Mapa risco 140 anos. FS:2,03

52 WWW.CBDB.ORG.BR
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS des Corps Imperiaux des Ponts et Chaussés et des Mines. Paris.
US Army Corps of Engineers ( 2004). On General Design and
Comparando os resultados dos deslocamentos verificados Construction Considerations for Earth and Rock-Fill Dams,
em campo com os simulados, é possível dizer que a modelagem Washington.
representa de forma aceitável a situação de campo. GEO-SLOPE International, Ltd. (2012). Seepage Modeling with
Os valores do fator de segurança da seção principal da SEEP/W.Geostudio Helpfile, Canada.
Barragem são satisfatórios, considerando-a com até 200 anos GEO-SLOPE International, Ltd. (2013). Stress-Deformation Modeling
de operação, limite deste estudo. Acreditava-se no início deste with SIGMA/ W. Geostudio Helpfile, Canada.
trabalho que os valores de fator de segurança diminuíssem GEO-SLOPE International, Ltd. (2012). Modeling with SLOPE/W:
acentuadamente com o tempo, indicando a eventual GeoSlope International, Calgary.
necessidade de estabilização do talude jusante. Isto, porém, Goodman R. E. (1998). Karl Terzaghi. The engineer as artist. ASCE
não se fez necessário, pois, para 200 anos de operação do Press, New York.
reservatório, a simulação indicou fator de segurança FS = 1,99. Lambe T. W. e Whitman R. V. (1969). Soil Mechanics. J. Wiley & Sons.
A simulação numérica apontou ainda a tendência New York.
de impermeabilização do talude montante devido ao Legget R.F. (1984). There are two Terzaghi dams. Geotechnical News,
assoreamento gradual. Canadá.
Ao longo do trabalho foram simuladas seções intermediárias. Light Energia (1997). Condições de segurança: Vigário e Terzaghi.
Todavia, devido à peculiaridade do sistema de drenagem Relatório, Rio de Janeiro.
interno da Barragem Terzaghi, que concentra a água ao Light Energia (2005). Memorandos de acompanhamento da obra:
longo do talvegue, verificou-se que estas seções não eram Vigário 1949-1953. Relatório, Rio de Janeiro.
representativas. Portanto, uma análise tridimensional seria MELLO V. F.B. (1975). Some lessons from unsuspected, real and
mais indicada para simular este empreendimento para além fictious problems in earth dam engineering in Brasil. Sixth Regional
da seção principal. Considerando o exposto, as condições de Conference for Africa on Soil Mechanics & Foundation Engineering.
estabilidade de seções adjacentes às ombreiras não puderam - Durban- Vol. II.
ser verificadas. Netto J. M. A.,(1998). Manual de hidráulica: Ed. Edgard Blucher, São
Paulo.
PUC-Rio ( 2001). CARACTERIZAÇÃO GEOTÉCNICA E PROPRIEDADES
MECÂNICAS E HIDRÁULICAS DE AMOSTRAS DA BARRAGEM DE
5. PALAVRAS-CHAVE TERZAGHI. Relatório: Dept. Eng. Civil, PUC-Rio.
Romanel C.(2017). FLUXO PERMANENTE 1D. Notas de aula: Dept.
Assoreamento; Barragens; Segurança de Barragens; Modelagem
Eng. Civil, PUC-Rio.
numérica.
Rodrigues, R. L. (2017). Comportamento da barragem de terra
da margem esquerda de Itaipu durante período de operação.
Dissertação de Mestrado. Dept. Eng. Civil, PUC-Rio.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Sayão, A. S. (2017). Notas de Aula, CIV 2530 Mecânica dos Solos.
Dept. Eng. Civil, PUC-Rio.
ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas (1990). NBR 12007 Silveira J. F. A. (2006). Instrumentação e segurança de barragens de
- Solo - Ensaio de Andensamento Unidimentsional. ABNT, Rio de terra e enrocamento: Editora Oficina de Textos, São Paulo.
Janeiro. Skempton, A.W. (1954). The Pore Pressure Coeficcients A and B.
Barrantes, P. R. E. (2013). Análise Sísmica e hidromecânica de uma Geotechnique, vol.4, pp. 143-147.
barragem de terra zonada no Peru. Dissertação de Mestrado. Dept. Soares J.M.D., Pinheiro R.J.B. e Tavares I.S. (2006). Notas de aula
Eng. Civil, PUC-Rio. Mecânica dos solos: UFSM, Santa Maria.
CBDB - Comitê Brasileiro de Barragens (2012). Barragens de Terzaghi K. (1943). Theorical Soil Mechanics: John Wiley and Sons Inc.
Rejeitos no Brasil. Livro. Rio de Janeiro: Editor: PIMENTA DE AVILA N. York.
CONSULTORIA LTDA. Terzaghi K. e Peck R. (1967). Soil Mechanics in engineering practice:
CFBR - Comité Français des Barrages et Réservoirs (2015). Colloque, John Wiley and Sons Inc. N. York.
Chambéry. Terzaghi K. (1949). First Memorandum concerning design and
Darcy H. (1856). Les fontaines publiques de la ville de Dijon: Libraire construction of Vigario Dike. Light Energia, Rio de Janeiro.

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 53


BARRAGEM TERZAGHI: AVALIAÇÃO APÓS 68 ANOS DE OPERAÇÃO

Alberto SAYÃO Bruno NEVES


Possui graduação em Engenharia Civil pela Pontifícia Possui graduação em Engenharia Civil, Pós-Graduação em
Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio/1976) Segurança de Barragens pela Universidade Federal da Bahia e
e doutorado em Engenharia Geotécnica na University of mestrado em Geotecnia pela Pontifícia Universidade Católica
British Columbia, Canadá (1989). Atualmente é professor do Rio de Janeiro. Atuou em empresas de referência no setor,
associado da PUC-Rio e secretário Geral da Academia como EDP, Duke Energy e Light Energia, onde atualmente
Nacional de Engenharia (ANE). Foi presidente da Associação ocupa cargo de Engenheiro Sr. Acumula experiência na área
Brasileira de Mecânica dos Solos (ABMS) e Engenharia Geotécnica de 2004 a 2008. de Engenharia Civil, operação e manutenção de usinas hidrelétricas com foco em
Atua na área de Engenharia Geotécnica, especialmente em estabilização de encostas, Segurança de Barragens, ramo para o qual presta consultoria.
geossintéticos, barragens e obras de terra e trabalhos experimentais no campo e em
laboratório. Foi bolsista pesquisador 1B do CNPq até março de 2010. Em 2011 foi
eleito Membro Titular da ANE e Academia Nacional de Engenharia. É Membro do
Conselho Deliberativo do CBDB e Membro Vitalício do Conselho Diretor da ABMS.

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XXXII SNGB será extensiva ao Simpósio Internacional (II SISB).

  


 
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REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA


COMITÊ BRASILEIRO DE BARRAGENS DE BARRAGENS 55
NORMAS EDITORIAIS

1. INTRODUÇÃO 6. PADRÃO DE LETRAS E ESPAÇAMENTO


Os trabalhos a serem apresentados ao Conselho Editorial da Os trabalhos deverão ser digitados em arquivo Word 97 for Windows
Revista Brasileira de Engenharia de Barragens do CBDB deverão ou superior, com as seguintes formatações de fonte:
ser inéditos, não tendo sido antes publicados por quaisquer meios. Fonte:
Apenas profissionais qualificados deverão ser aceitos como autores. - Arial;
Profissionais recém-formados ou estagiários poderão ser aceitos, - Tamanho 12 em todo o trabalho.
desde que participem como colaboradores. Parágrafo:
- Espaçamento entre linhas: simples;
2. EXTENSÃO DO TRABALHO - Alinhamento: justificado;
Os trabalhos, para serem aceitos para divulgação, deverão ter no - Marcadores como o desta linha (traço) poderão ser utilizados sempre
máximo dez páginas, incluindo as ilustrações, esquemas e o sumário que necessário.
em português e inglês. Os trabalhos que excederem este número de
páginas serão devolvidos aos autores para sua eventual redução. 7. PÁGINA DE ROSTO
Apenas na primeira página deverá constar o Cabeçalho (ver item 7.1).
3. TIPO DE ARQUIVO MAGNÉTICO O título do trabalho deverá ser escrito a 60 mm do topo (configurar
Os trabalhos a serem recebidos pelo Conselho Editorial da Revista apenas esta página com margem superior de 6 cm), em letra
Brasileira de Engenharia de Barragens do CBDB deverão estar em maiúscula, em negrito e centralizado na página. Na sequência deverão
formato Word 97 for Windows ou superior. Não serão recebidos ser apresentados os nomes dos autores, com os respectivos títulos
arquivos em separado, isto é, com o texto e as ilustrações em arquivos profissionais e instituição (ver item 7.3). Em seguida, o Resumo e o
diferentes. As ilustrações deverão ser agrupadas no corpo dos Abstract (ver item 7.4).
trabalhos em formato JPEG. A página de rosto deve ser limitada a uma única página, ou seja, todas
as informações necessárias devem estar nela contidas (título, nome e
4. NÚMERO DE AUTORES E COAUTORES cargo dos autores, Resumo e Abstract).
Os autores e coautores estão limitados a um número máximo de 7.1 - Cabeçalho
quatro, ou seja, um autor e até três coautores. Os trabalhos com mais O Cabeçalho, a ser apresentado apenas na página de rosto, está
de quatro participantes serão devolvidos aos autores para atendimento indicado no exemplo a seguir. A fonte é Arial 10, iniciais em maiúscula
a esta diretriz. Caso haja mais colaboradores no trabalho, os mesmos ou versalete (conforme a versão do Word 97 for Windows ou superior).
poderão ser citados em Agradecimentos (ver item 10). Na primeira linha deve ser digitado: Comitê Brasileiro de Barragens.
Na segunda linha: Revista Brasileira de Engenharia de Barragens do
5. CONFIGURAÇÃO DE PÁGINA CBDB.
A configuração de página deve obedecer a seguinte formatação: Na terceira linha: a data; exemplo: 11 de abril de 2013.
Margens: 7.2 – Título do trabalho
- Superior: 2,5 cm; O título do trabalho deve ser digitado em letra maiúscula, negrito e
- Inferior : 2,0 cm; alinhamento centralizado. Este é o único item do trabalho que recebe
- Esquerda: 2,5 cm; negrito.
- Direita: 2,5 cm; 7.3 – Autores e coautores
- Medianiz: 0 cm. Os nomes dos autores deverão ser apresentados com apenas um
A partir da margem: dos sobrenomes todo em letras maiúsculas. Abaixo do nome de cada
- Cabeçalho: 1,27 cm; um dos autores deverá ser indicado, com letras maiúsculas iniciais,
- Rodapé: 1,27 cm. o título profissional (Consultor, Título Universitário, Diretor Técnico,
Tamanho do Papel: Coordenador Geral, etc) e ao lado, separado por um traço, a empresa
- A4 (21 x 29,7 cm); ou instituição do autor (ver também item 4).
- Largura: 21 cm; 7.4 – Resumo / Abstract (item sem numeração)
- Altura: 29,7 cm; Cada trabalho deverá ser iniciado por um resumo em português, não
- Orientação: retrato em todo o trabalho. excedendo dez linhas, seguido de um resumo (também de no máximo
dez linhas) em inglês (Abstract), para permitir seu cadastramento por 10. AGRADECIMENTOS (item opcional)
organismos internacionais. Para auxiliar na versão dos resumos para o A critério do autor, poderão ser apresentados agradecimentos às
inglês, consultar os dicionários técnicos do CBDB/ICOLD disponíveis empresas e/ou pessoas que contribuíram para a elaboração do
no site www.cbdb.org.br. trabalho, sempre após o item Conclusões.
Serão devolvidos os trabalhos que não apresentarem adequadamente
o Resumo e o respectivo Abstract. 11. PALAVRAS-CHAVE
Quando houver necessidade, o Resumo e o Abstract poderão ter Após os Agradecimentos, deverá ser apresentada uma relação de no
mais que dez linhas, desde que caibam na página de rosto e não haja mínimo três e no máximo cinco palavras-chave, para possibilitar a
discordância com os demais itens desta diretriz. localização do trabalho em função das mesmas na versão eletrônica
dos anais (CD). Caso não haja Agradecimentos, o item Palavras-Chave
8. ITEMIZAÇÃO GERAL deverá ser apresentado após o item Conclusões.
Os itens principais do trabalho deverão ser numerados sequencialmente,
com a Introdução recebendo o N° 1 e as Referências Bibliográficas 12. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
recebendo o número final. Estes deverão ser digitados com letra O item Referências Bibliográficas é o último. Ele encerra o trabalho.
maiúscula e centralizados na linha, com recuo esquerdo de 0,50 cm. Deverá estar posicionado após o item Palavras-chave. O padrão para
Exemplo: a apresentação das referências bibliográficas é o mesmo da Comissão
1. INTRODUÇÃO Internacional das Grandes Barragens (ICOLD), conforme diretrizes a
Os itens secundários serão alinhados sempre à esquerda, com a seguir, com exemplo ilustrativo:
designação sequencial, por exemplo: 2.1, 2.2, 2.3, etc., em minúsculo Todas as referências bibliográficas deverão ser indicadas no texto com a
com apenas a primeira letra em maiúsculo, usando a formatação em numeração respectiva;
maiúscula ou versalete, conforme a versão do Word 97 for Windows Todas as referências apresentadas deverão ser numeradas
ou superiror. Caso haja a necessidade de nova itemização, a mesma sequencialmente (na ordem em que aparecem no texto) mostrando o
deverá ser, por exemplo: 3.1.1, 3.1.2, 3.1.3, etc., em itálico, com as número em destaque e entre colchetes após a citação;
letras minúsculas e somente a primeira letra maiúscula. O nome do(s) autor(es) deverá(ão) ser apresentado(s) em letras maiúsculas,
Exemplo: com o sobrenome por extenso, seguido das iniciais do primeiro nome e
2.1 Item Secundário dos nomes intermediários, separadas por ponto;
2.1.1 Item Terciário Na sequência, deverá ser indicado, entre parênteses, o ano de publicação
O primeiro parágrafo, após cada item ou subitem, deverá ser iniciado dos anais ou do livro consultado, com hífen ao final;
uma linha após o título do item (ou subitem), com alinhamento justificado. Na sequência, indicar entre aspas o título do trabalho ou do livro
A primeira palavra deverá começar junto à margem esquerda. consultado, com apenas a primeira letra maiúscula e com vírgula ao final;
Entre um parágrafo e outro deverá sempre ser deixada uma linha de Indicar na sequência os anais em que o trabalho foi apresentado, seguido
espaçamento, sendo que entre a última linha do último parágrafo e o do tema, volume dos anais e país ou cidade em que o mesmo foi realizado.
item seguinte deverão ser deixadas duas linhas. Exemplo:
O texto deverá estar com alinhamento justificado e recuo especial com
9. CONCLUSÕES deslocamento de 1,00 cm (Formatar Parágrafo).
Neste item o(s) autor(es) deverá(ão) apresentar de forma bem sucinta as Exemplo:
principais conclusões ou recomendações que resultaram de sua pesquisa, [1] DUNNICLIFF, J. (1989) – “Geotechnical Instrumentation for Field
trabalho ou relato de um determinado evento técnico. (Adaptado das Performance”, livro editado pela John Wiley & Sons, Inc., New York;
“Diretrizes para apresentação de trabalhos para seminários, simpósios [2] HOWLEY, I., McGRATH, S. e STEAWRT, D. (2000) – “A Business
e workshops organizados pelo CBDB” do XXIX Seminário Nacional de Risk Approach to PrioritizingDam Safety Upgrading Decisions”, Anais
Grandes Barragens (SNGB), Porto de Galinhas, PE, 2013). Congresso Internacional ICOLD, Beijing, Q.76 – R.17;
Trabalhos sem uma conclusão final serão devolvidos aos autores para [3] SILVEIRA, J.F.A. (2003) – “A Medição do Coeficiente de Poisson em
as devidas complementações. uma de Nossas Barragens”, Anais XXV Seminário Nacional de Grandes
Barragens – CBDB, Salvador, BA.

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 57


NORMAS EDITORIAIS

13. ILUSTRAÇÕES 15. SIMBOLOGIA E FÓRMULAS


As eventuais ilustrações dos trabalhos técnicos, sejam elas figuras, Todas as grandezas físicas deverão ser expressas em unidades do
gráficos, desenhos ou fotos, deverão estar sempre incorporadas ao Sistema Métrico Internacional. As equações e fórmulas devem ser
texto, não devendo ser apresentadas em separado. Ao formatar a localizadas à esquerda e numeradas, entre parênteses, junto ao
figura, o layout deve ter a disposição do texto alinhada e o texto deve limite direito na mesma linha, deixando uma linha em branco entre
estar com o alinhamento centralizado. Todas as referidas ilustrações as equações/fórmulas e o texto. Todos os parâmetros das equações
deverão ser identificadas pela palavra “FIGURA” e numeradas e fórmulas deverão ser indicados com suas respectivas unidades.
sequencialmente. A palavra “FIGURA”, sua numeração e título deverão A referência a elas no texto do trabalho deve ser com a palavra
ser apresentados imediatamente abaixo das respectivas ilustrações, “Equação” ou “Fórmula” e o respectivo número ao lado, ou seja, em
também com o alinhamento centralizado. O título de cada figura minúsculo, apenas com a inicial em maiúscula.
deverá ser escrito com a primeira letra em maiúsculo. A referência a
elas no texto do trabalho deve ser em minúsculo, apenas com a inicial 16. TEMÁRIO / CONTRIBUIÇÕES
em maiúscula. O tema deverá ser indicado pelo autor, quando do encaminhamento
As fotos ou outras ilustrações quaisquer poderão ser apresentadas do trabalho ao Conselho Editorial da Revista Brasileira de Engenharia
em cores, sempre que necessário. Caso sejam utilizadas cores de Barragens do CBDB.
para representar desenhos e figuras, deverá haver convenções de Caso o Conselho Editorial não concorde com o assunto selecionado
representação que permitam identificações independentes da cor. pelo autor, este poderá ser eventualmente deslocado para outro tópico.
As ilustrações poderão ser apresentadas com a orientação retrato ou Se o trabalho não se encaixar em nenhum dos temas selecionados
paisagem, ou seja, poderão ser giradas na página de forma a mudar a para o evento mas apresentar bom nível ténico, poderá ser publicado
sua orientação. A configuração da página deve permanecer sempre como Contribuição Técnica.
orientada como retrato para garantir a posição do rodapé uniforme em
todo o documento (ver item 5). Desta forma, o título da ilustração também 17. LÍNGUA
permanecerá com a orientação retrato. Não serão aceitos trabalhos com Todos os trabalhos a serem publicados na Revista Brasileira de
as ilustrações em separado ou em outro programa que não seja o Word 97 Engenharia de Barragens do CBDB deverão ser elaborados em língua
for Windows ou superior. portuguesa, assim como todas as ilustrações que o acompanham
deverão conter legenda também em português. Apenas os trabalhos
14. TABELAS citados como referências bibliográficas deverão estar na língua original
As tabelas deverão ser incorporadas ao texto, não devendo ser em que os mesmos foram elaborados.
apresentadas em separado. A tabela deverá ter alinhamento centralizado. Os trabalhos eventualmente recebidos pelo Conselho Editorial em
O tamanho da fonte pode ser inferior ao especificado para todo o trabalho outro idioma (que não seja o acima mencionado) serão encaminhados
(Arial 12), desde que o conteúdo permaneça legível e a fonte não seja de volta aos autores para sua tradução para o português.
inferior a Arial 7. Todas as referidas tabelas deverão ser identificadas pela
palavra “TABELA” e numeradas sequencialmente. A palavra “TABELA”, 18. LICENÇA PARA PUBLICAÇÃO DOS TRABALHOS
sua numeração e título deverão ser apresentados abaixo da mesma e Para que o trabalho seja aceito é necessário que um dos autores envie
também centralizados. O título das tabelas deverá ser escrito com a autorização devidamente preenchida e assinada.
primeira letra em maiúsculo. A referência a elas no texto do trabalho deve
ser em minúsculo, apenas com a inicial em maiúscula. 19. FOTO E CURRÍCULO DOS AUTORES
As tabelas poderão ser apresentadas com a orientação retrato ou paisagem, Deverão ser enviados, anexos aos artigos, uma foto 3x4 em alta
ou seja, poderão ser giradas na página de forma a mudar a sua orientação. resolução e um mini currículo, com até 400 caracteres, de cada um
A configuração da página deve permanecer sempre orientada dos autores.
como retrato, para garantir a posição do rodapé uniforme em todo
o documento (ver item 5). Desta forma, o título da tabela também
permanecerá com a orientação retrato.

58 WWW.CBDB.ORG.BR
CARTA DE SÃO PAULO EM PROL DOS RESERVATÓRIOS DE ACUMULAÇÃO
23 de maio de 2018

MANIFESTO EM DEFESA DE ATUAÇÃO GOVERNAMENTAL


PARA PROPORCIONAR A VIABILIZAÇÃO DOS
EMPREENDIMENTOS HIDRÁULICOS COM
RESERVATÓRIOS DE ACUMULAÇÃO NO BRASIL
Há quase 60 anos, o Comitê Brasileiro de Barragens (CBDB) apoia e subsidia a utilização responsável dos recursos hídricos
nacionais.
Fornecimento perene de água e alimentos é preocupação constante e, como esses são sazonais, pouco uniformes no
tempo, estocamos na abundância para utilizarmos na carência. Os reservatórios são evolução natural desse aspecto,
reserva de segurança para a manutenção da vida pelo fornecimento contínuo de água. A espécie humana convive com
barragens desde o início da civilização e passou a utilizar o aumento do desnível de água armazenado em rodas d´água,
evoluindo daí formas de gerar energia.
A disponibilidade de água e energia permite que existam conglomerados humanos com milhões de indivíduos. Crescimento e
concentração populacional são afetados pela desigualdade de acesso da maioria das pessoas a insumos básicos: água tratada,
acesso à energia, mobilidade e moradia, condições mínimas de higiene e conforto.
Além das regiões metropolitanas, o País possui áreas com clima seco que devem ser atendidas pelo aumento da reservação,
criando condições de sobrevivência aos atingidos pelas secas constantes. Essas regiões se adequam à vida humana digna, desde
que atendidas por empreendimentos e gestão adequada de recursos hídricos. Hoje, 50% dos alimentos utilizados dependem de
irrigação: empreendimentos hídricos, sua expansão, manutenção e proteção contra efeitos de mudanças climáticas são
preconizados nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU.
O Brasil sempre foi um País responsável e inovador na área de recursos hídricos. Domina toda a tecnologia e fases para o
desenvolvimento de empreendimentos hidráulicos com parque industrial consolidado. A falta de discussão, alguma
desinformação e limites de investimento aumentaram o risco hídrico, gerando um sistema cada vez mais hidrotérmico. A
falta de recursos coloca hoje a indústria e a construção nacionais em risco, podendo emigrar do Brasil, aumentando
importação de tecnologia, equipamentos e combustíveis, expostos ao custo das variações cambiais.
O ciclo natural da água gerado pela energia da insolação e gravidade, utilizado com os devidos cuidados em usina
hidrelétrica produz energia limpa, renovável, com impacto extremamente baixo na produção de gases do efeito estufa. A
energia das hidrelétricas provém exclusivamente da água, ao contrário de termelétricas, majoritariamente utilizadas em
países desenvolvidos que, após exaurirem recursos hidrelétricos, geram preponderantemente a partir de combustíveis
fósseis ou materiais radioativos.
O Brasil tem recursos hídricos abundantes, com distribuição heterogênea em bacias hidrográficas, com condições
hidrológicas diversas, que geraram um sistema elétrico único no mundo: é interligado, cobre o País, permite levar a energia
de uma região a outra, otimizando o sistema, aumentando a disponibilidade e a confiança nele.
Há décadas, o País posterga investimentos importantes na área de recursos hídricos e construção de reservatórios,
gerando o panorama atual de água superficial poluída, sistema elétrico dimensionado em condição crítica de
fornecimento e carência de água em regiões urbanas importantes. Abriu mão da reservação de água na maior parte dos
empreendimentos, optando por usinas denominadas de fio d’água, que geram energia através da água que chega a cada
instante no empreendimento, sem regularizar o curso d’água, usando desníveis mínimos para a produção de energia.
Apesar de viáveis economicamente, inunda-se, ainda, área considerável sem o armazenamento que equivaleria à reserva

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE BARRAGENS 59


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Comitê Brasileiro de Barragens
ÁGUA E ENERGIA PARA A VIDA

que manteria o sistema seguro. Essa falta causa a necessidade de complementação por energia térmica, com impactos
econômicos, sociais e ambientais.
Acreditamos que diversificar a matriz elétrica é fundamental e deve-se buscar soluções sustentáveis. É essencial que a geração
eólica e solar tenha recebido estímulos para se inserir e se afirmar como fontes importantes. Entretanto, são intermitentes,
necessitam do sistema interligado de armazenamento e fontes de estabilidade. Esse importante papel de estabilizar o sistema
sempre foi hidráulico, mas com a falta de novos reservatórios, a energia térmica assumiu progressivamente este papel,
aumentando custos e o efeito estufa, causando desequilíbrios ao setor, em detrimento da opção hidráulica, mais econômica.
Ao contrário das concorrentes, sua maturação é longa e sua implantação necessita de tempo expressivo para materialização,
e há dificuldade para a geração hidráulica - renovável, limpa e econômica - viabilizar-se no mercado, em razão dos incentivos
fiscais e regulatórios oferecidos às outras fontes.
Conclamamos a sociedade civil e agentes do setor para a análise da situação e o planejamento de soluções baseados em
fatores técnicos frente ao risco hídrico existente. Insistimos na avaliação criteriosa e isenta da matriz energética com
especial atenção à preservação da tecnologia dominada pelo País, manutenção adequada e desenvolvimento do parque
hidráulico existente. A união dos atores nacionais na discussão corajosa dessa situação é necessária e nos colocamos
como entidade técnica, neutra, sem fins lucrativos à disposição para colaborar nesse diálogo. Não podemos limitar ou
abrir mão da vantagem competitiva do Brasil, com recursos hídricos abundantes, que deve ser utilizada para melhorar a
qualidade de vida dos brasileiros, preservando recursos naturais e caminhando em direção a uma economia
sustentável.
Por essas razões, O CBDB preconiza a equalização dos estímulos oferecidos às diversas fontes de geração de energia em
benefício do crescimento ordenado e sustentável. Entende que é prioritário restaurar e aumentar a garantia de água e
energia com a criação de novos reservatórios que as armazenem.
O CBDB apoia as agências reguladoras que salvaguardam o fornecimento seguro no País. Defende a razoabilidade do
estudo e a ampliação de reservatórios sob a ótica sustentável e energia limpa dela decorrente, ajudando a controlar os
efeitos das mudanças climáticas, pois reservatórios, além de fornecer água, energia e seus usos múltiplos, controlam
cheias, amenizam efeitos de secas, geram lazer e elevam qualidade de vida. A segurança hídrica é fundamental, ligada à
vida e à dignidade.
Emblematicamente, o CBDB se manifesta neste evento em São Paulo, cuja população sofreu período importante de
limitação no fornecimento de água e passou por riscos significativos. Esse exemplo demonstra que obras hidráulicas são
necessárias no Brasil como um todo, antecipando a visão das mudanças demonstradas pelo último relatório do
International Panel on Climate Change, ligado à ONU.
Após debates ocorridos no XI Simpósio sobre Pequenas e Médias Centrais Hidrelétricas, no II Simpósio sobre Usinas
Hidrelétricas Reversíveis e no II Encontro Técnico sobre Incidentes e Acidentes em Barragens, as entidades, associações,
empresas e os profissionais especialistas do setor elétrico reunidos na cidade de São Paulo, Capital, vêm solicitar ações
governamentais com vistas à viabilização dos empreendimentos hidráulicos com reservatórios de acumulação no Brasil.

No aguardo de providências, assinam:

Eng.° Carlos Henrique Medeiros Eng.° José Marques Filho


Presidente do CBDB Vice Presidente do CBDB

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ENTIDADES APOIADORAS DO MANIFESTO EM DEFESA
DE ATUAÇÃO GOVERNAMENTAL PARA PROPORCIONAR
A VIABILIZAÇÃO DOS EMPREENDIMENTOS HIDRÁULICOS
COM RESERVATÓRIOS DE ACUMULAÇÃO NO BRASIL

www.cbdb.org.br | cbdb@cbdb.org.br | +55 21 2528.5320


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MANIFESTAÇÃO DO CBDB SOBRE


O ACIDENTE EM BRUMADINHO (MG)

O Comitê Brasileiro de Barragens – CBDB vem acompanhando com extrema atenção e cuidado os lamentáveis
acontecimentos de Brumadinho. Apesar de a Engenharia Brasileira de Barragens ter reconhecimento internacional
de sua qualificação, com obras icônicas como Belo Monte, Itaipu e Tucuruí, o País teve nos últimos três anos
acidentes de proporção gigantesca, com perdas de vidas e de bens, além de degradação do patrimônio natural.

Com preocupação, verifica-se uma quantidade de informações imprecisas e às vezes errôneas, que dificultam o
entendimento do problema pela sociedade brasileira, e podendo gerar preocupações e pânico desmedidos.
Entende-se o atual momento de preocupação e revolta, mas a cautela exige que não se eleja culpados antes de
todos os fatos estarem estudados e as responsabilidades levantadas. Por isso, o CBDB defende a apuração dos
fatos ouvindo-se com isenção todos os profissionais envolvidos.

É importante frisar que o CBDB faz parte do International Commission on Large Dams, tendo relacionamento
técnico com toda a Comunidade técnica internacional, e seus comitês técnicos criam publicações que orientam as
soluções e cuidados em todas as fases dos empreendimentos relacionados com barragens. Nos últimos anos, o
Comitê tem se relacionado continuamente com as agências reguladoras, procurando fornecer suporte técnico.
Também são realizados continuamente workshops, simpósios e seminários que focam discussões sobre acidentes
e incidentes dessas estruturas, bem como os processos de gestão da segurança, incluindo monitoramento,
inspeção, instrumentação, reparos, planos de ação emergencial, consolidando todas as especialidades da
engenharia. Procura-se qualificar tecnicamente os engenheiros, através da disponibilização de trabalhos,
recomendações e discussões.

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Apesar da excelência do conhecimento de engenharia no País, o CBDB indica que devem ser potencializados os
esforços para a disseminação da cultura da segurança. As ações nesse sentido devem ter a participação de
profissionais qualificados e experientes nos processos de análise e gestão da segurança, com procedimentos
técnicos adequados e tomada de decisão no tempo correto.

É importante frisar que as decisões de engenharia devem ser independentes de pressões, e as ações necessárias
devem ser feitas dentro dos prazos necessários. Não deve haver submissão dos processos de segurança à
produção, minimizando o risco de demora na decisão da ação de correção ou alerta. As barragens e seus órgãos
complementares são estruturas extremamente complexas, necessitando de sedimentação do conhecimento para
sua execução e operação. Portanto é necessário o treinamento constante e qualificação dos profissionais
envolvidos em todas as fases destes empreendimentos. Devido aos últimos acontecimentos, defende-se uma
imediata avaliação de empreendimentos com maior suscetibilidade a acidentes, com critérios autônomos,
aumento da fiscalização e avaliações redundantes para diminuir erros de avaliação.

Reitera-se que o Brasil detém conhecimento técnico de ponta, e a legislação existente procura minimizar os riscos
dos empreendimentos hidráulicos. A grande maioria dos aproveitamentos estão com comportamento adequado.
A legislação ainda passa por fase de regulação e ajuste para se tornar mais eficaz ao longo do tempo. Apesar disso,
acredita-se que é necessário aumentar a qualificação técnica e que a cultura de foco incessante e perseverante na
gestão de segurança.

Diretoria do Comitê Brasileiro de Barragens

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O Comitê Brasileiro de Barragens tem a honra de ser apoiado por sócios coletivos e mantenedores.
Venha engrandecer ainda mais este time. Associe-se através do e-mail cbdb@cbdb.org.br.

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