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Professor de Comunicação e Sociedade Este é um livro sobre o poder dos ecrãs nas nossas so- Sociedade dos Ecrãs

ade dos Ecrãs é um livro simultanea-


no Instituto Universitário de Lisboa e in- ciedades. Do telemóvel ao tablet, do computador ao mente prático e teórico. Procura respon-
vestigador no CIES-ISCTE. As suas áreas televisor, os ecrãs acompanham-nos no dia-a-dia, em der tanto às inquietações das disciplinas
de investigação centram-se nas culturas da família, no emprego, na escola. científicas que estudam a comunicação
sociedade em rede, na leitura digital e no quanto às que preocupam as empresas,
futuro do jornalismo. Entre 1996 e 2006 na tentativa de compreender o que as es-
É através dos ecrãs que temos acesso ao entreteni-
foi consultor para a sociedade de informa- pera no futuro próximo.
mento, aos negócios, à ciência. É através deles que
ção e telecomunicações da Presidência da
protestamos nas redes sociais, tomamos posição pe-
República Portuguesa e em 2008 foi es- Nele se procuram respostas sobre o pa-
rante a opinião pública em comentários às notícias
colhido pelo Fórum Económico Mundial pel dos ecrãs e da mediação nas nossas
como Young Global Leader. É membro do nos jornais ou procuramos angariar dinheiro para lan- culturas e sociedades, cobrindo temas
Innovation Lab da Annenberg School of çar o projecto cultural que nos anima. tão diversos como o cinema europeu nas
Communication da USC, director d’Étu- suas relações com os públicos ou as di-
des Associées da Fondation Maison des A Sociedade dos Ecrãs coloca questões nas áreas das ciên- nâmicas familiares que se estabelecem
Sciences de L’homme em Paris e profes- cias da comunicação, da sociologia e da economia, pro- entre pais e filhos no contexto dos novos
sor visitante da Universidad Oberta de curando compreender como funciona o actual mundo modelos de comunicação.
Catalunya. É, também, editor associado em rede.
do Journal IC&S e book review editor do É também um livro sobre como se in-
IJOC e da (OBS*) Observatorio. É, ain- O que está a acontecer nas famílias, nas relações inter- vestiga quando os objectos de estudo
da, membro dos painéis de avaliação do pessoais? Que mudança culturais se têm verificado, na estão para além da dimensão nacional,
European Research Council (ERC), da literatura, no cinema? Que jornalismo se pratica hoje? envolvendo a comparação de realidades
rede COST e do Forward Look on Media tão díspares como os Emirados Árabes
– são algumas das questões que os autores propõem
Literacy da European Science Foundation Unidos, a China, Portugal e os Estados
esclarecer.
(ESF). Foi vice-presidente da Agência de Unidos, e sobre as culturas que a comu-
Notícias Lusa e é director do OberCom. nicação em rede está a criar, alterando
irreversivelmente as nossas vidas.
a sociedade dos ecrãs
A SOCIEDADE DOS ECRÃS
SOCIOLOGIA DOS ECRÃS,
ECONOMIA DA MEDIAÇÃO

Gustavo Cardoso (org.)

lisboa:
tinta-da-china
MMXIII
Índice— A GERAR NO FIM

© 2013,
e Edições tinta-da-china, Lda.
Rua João de Freitas Branco, 35A
1500-627 Lisboa
Tels.: 21 726 90 28/9 | Fax: 21 726 90 30
E-mail: info@tintadachina.pt

www.tintadachina.pt

Título: A Sociedade dos Ecrãs. Sociologia dos Ecrãs,


Economia da Mediação
Organização: Gustavo Cardoso
Autores: AAVV
Posfácio: Jonathan Taplin
Revisão: Sofia Söndergaard
Composição e capa: Tinta-da-china

1.ª edição: Julho de 2013


isbn: 978-989-671-154-2
Depósito Legal n.º ??????/13
APRESENTAÇÃO
OBSERVAR, REGISTAR E PENSAR
GUSTAVO CARDOSO, SANDRO MENDONÇA E RITA ESPANHA

Este livro é o produto do trabalho desenvolvido ao longo dos úl-


timos três anos por um conjunto de investigadores das áreas das
ciências sociais e da economia, no contexto do Observatório da
Comunicação (OberCom), do Centro de Investigação e Estudos de
Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa (CIES-IUL) ou em
projectos e parcerias internacionais. O seu trabalho de observação
e análise incidiu sobre um conjunto diferenciado de registos que
incluem Portugal mas também outros países dos diferentes conti-
nentes. Alguns destes trabalhos foram apresentados em conferên-
cias internacionais ou serviram de base para relatórios de redes de
investigação, mas nunca antes foram alvo de uma interpretação glo-
bal sobre o que nos dizem do que é a comunicação contemporânea.
Daí que este seja um livro simultaneamente prático e teó-
rico. É uma obra que procura responder tanto às inquietações
das disciplinas científicas que estudam a comunicação quanto às
que preocupam as empresas na tentativa de compreender o que
as espera no futuro próximo. Acima de tudo, este é um livro que
procura colocar questões diferentes para tentar obter respostas
diferentes. Respostas sobre como compreender o que está a ocor-
rer com a sociologia e com a economia na sua busca de perceber
a realidade. Respostas sobre o papel dos ecrãs e da mediação nas
nossas culturas e sociedades, mas também respostas muito con-
cretas sobre o que espera o cinema europeu nas suas relações com

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a sociedade dos ecrãs

os seus públicos ou das dinâmicas familiares que se estabelecem


entre pais e filhos no contexto dos novos modelos de comunica-
ção nos agregados familiares.
Este é também um livro sobre como se investiga quando os PARTE I
objectos de estudo estão para além da dimensão nacional e envol-
vem a comparação de realidades tão díspares como os Emirados A SOCIOLOGIA DA MEDIAÇÃO
Árabes Unidos, a China, Portugal e os Estados Unidos, ou quais
as culturas que a comunicação em rede está a criar e que podem
E DOS ECRÃS
estar a mudar as nossas vidas num contexto de crise.
Mas, da mesma forma que a crise global, iniciada em 2007,
coloca desafios às nossas vidas pessoais no quotidiano, também
apresenta escolhas difíceis às empresas do sector da comunicação.
Tal torna imperativo questionar o que é hoje a televisão, a rádio,
a imprensa escrita, e fazê-lo num contexto de interpretação do
que é uma economia da mediação. É assim que aqui propomos
pensar, reorganizar e propor a gestão da actividade das empresas
de televisão segundo um paradigma de ecrãs em rede. É igualmen-
te desta forma que achamos fundamental pensar a rádio actual
como fazendo parte de uma metamorfose que a coloca como in-
terface entre som, texto e imagem, ou que vemos a imprensa es-
crita como tendo que reconstruir a sua identidade para manter a
proximidade perante os seus públicos.
Este é o desafio para que vos convidamos ao longo das pró-
ximas páginas, o desafio de acompanhar as nossas observações,
registos e análises, e pensar connosco a comunicação contempo-
rânea.

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INTRODUÇÃO

GUSTAVO CARDOSO E TIAGO LIMA QUINTANILHA

Esta é uma análise radicada na ideia de que o meio não é a men-


sagem. Como referia Roger Silverstone, num texto publicado
na revista Telos (1992), o meio não é a mensagem, porque na for-
mulação filosófico-tecnológica de McLuhan nem o meio nem a
mensagem assumem um papel de produtos sociais. A Sociologia,
na sua aplicação ao estudo da comunicação, centra-se nas rela-
ções entre os indivíduos, daí que, nos seus primórdios, o estudo
da comunicação de massa tenha sido encarado na perspectiva da
distorção dessa comunicação centrada no indivíduo (Silverstone
2006). Partindo do estudo da comunicação entre os indivíduos
e, posteriormente, dos estudos centrados no papel das comuni-
cações de massa, a sociologia acabou lentamente por se centrar
naquilo a que se passou a denominar por sociologia da mediação
(Silverstone 2006). A sociologia da mediação decorre não daquilo
a que uma leitura precipitada poderia levar-nos a pensar, isto é, do
estudo do processo tecnológico de mediação, numa proximidade
teórica a McLuhan, mas sim do papel do social em todos os pro-
cessos que se constroem em torno da comunicação, como acto
social e inserido numa estrutura institucional num determinado
momento histórico e cultural (Castells 2002).
A sociologia da mediação implica que procuremos com-
preender como os processos comunicacionais mudam os ambien-
tes sociais e culturais que os suportam, bem como as relações que

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a sociedade dos ecrãs introdução

os participantes, tanto individuais como institucionais, têm para O objectivo inerente a esta análise é o de proporcionar uma
com esse ambiente, e estabelecem entre si (Silverstone 2006). reflexão sobre qual o papel da sociologia no estudo dos fenóme-
A sociologia da mediação requer que pensemos o social como um nos comunicativos no início do século XXI, tomando por base as
mediador e não apenas a tecnologia nesse papel, pois, embora as propostas de reflexão iniciadas por Roger Silverstone na década
instituições e as tecnologias desencadeiem a mediação, através de 1990 sobre a sociologia dos ecrãs (1992) e que tiveram o seu
das representações por si produzidas, aquelas são também media- culminar na sua proposta de uma sociologia da mediação (2006).
das através dos processos sociais de recepção e consumo (Silver- Ao fazê-lo, procuramos tentar responder à dupla interrogação
stone 2006). que acompanha o pensamento sociológico desde as suas origens,
O meio não é a mensagem (McLuhan 1967), nem a mensa- isto é, como se desenrola o papel transformador da acção dos in-
gem é o meio (Castells 1999), a mensagem e o meio são produtos divíduos sobre diferentes facetas do mundo social — neste caso a
sociais, produtos dos processos de recepção e consumo e da au- comunicação — e que vantagens para as diferentes instituições da
tonomia do sujeito social face às tecnologias, daí que faça sentido sociedade poderá tal conhecimento trazer?
relembrar que a mensagem são as pessoas. Esta é outra forma de A proposta de Silverstone sobre a necessidade de uma socio-
relembrar que o social é um mediador da comunicação, também logia dos ecrãs (1992) decorria da observação do papel central da
num contexto em que a comunicação de rede (Cardoso 2010) se televisão nos processos comunicativos nas nossas sociedades, mas
implanta em substituição da comunicação de massa (Thompson também daquilo que parecia ser o início da presença de outro ecrã
1995) e os indivíduos se tornam iminentemente participantes, nas nossas casas, o computador. Essa percepção da necessidade
uma vez que possuem as literacias para actuar em qualquer meio e de uma sociologia que se centrasse na análise dos processos comu-
alterar a mensagem, desde que tal seja a sua vontade. A capacida- nicativos através do elemento comum à comunicação mediada,
de social de agência e de construção de autonomia introduz-nos o ecrã, deu lugar mais tarde, na análise de Silverstone, à propos-
perante uma realidade social em que a tecnologia é produto da ta de uma sociologia da mediação, pois no seu entender era esse
interacção constante entre tecnologia, instituições, acções comu- o seu elemento comum, o processo de mediação. No entanto,
nicativas, representações e práticas dos sujeitos. A mediação é o o evoluir da apropriação social das tecnologias de comunicação
resultado dessas interacções, produto de escolhas e opções dos e informação apresenta-nos um mundo social cada vez mais po-
sujeitos sociais. Como tal, a sociologia da mediação é o estudo dos voado de múltiplos ecrãs nos quais a mediação ocorre sustentada
processos comunicativos na sociedade: como se gera a cultura, num processo de interacção em rede. Indivíduos e organizações
como se mudam ou não tecnologias e instituições, como se alte- concorrem para a institucionalização dos ecrãs como suporte de
ram ou não padrões de consumo e recepção e como se alterna nos todas as formas comunicativas mediadas. Do telemóvel ao televi-
papéis de consumidor e produtor numa sociedade onde as visões sor, do computador ao tablet, do leitor mp3 ao rádio, o elemento
da idade de ouro do ecrã televisivo de McLuhan deram lugar ao físico comum à mediação parece ser o ecrã. Resta-nos, por en-
mundo de ecrãs em rede proporcionado pela adopção e transfor- quanto, a ausência parcial de ecrãs nos jornais e nos livros, mas
mação social do que se acordou designar por internet. todos os restantes herdeiros da comunicação de massas, da rádio

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a sociedade dos ecrãs introdução

à televisão, parecem fazer um percurso de apropriação social do diversificada em conteúdos e individualizada nas escolhas.
ecrã como o seu elemento definidor da mediação comunicativa. Ao mesmo tempo, a televisão e os seus públicos estão cada vez
Se a sociologia da mediação nos parece ser uma denomina- mais a ser disputados não apenas pelo crescimento sustentado da
ção com capacidade para captar a centralidade dos processos internet, por si só, como pela possibilidade que grande parte de
de mediação institucional, tecnológica, de consumo e recepção, outros suportes baseados no ecrã conferem em formas alternativas
a evolução das escolhas sociais de apropriação da comunicação de de consumo de programas televisivos, seja em aberto ou pirateado.
rede, promovida pela internet, levanta-nos outras interrogações O centro está assim a passar da audiência para o utilizador, ou par-
não totalmente captáveis pelo enfoque na mediação. De algum ticipante potencial, sendo certo que utilizamos a televisão quando
modo, a proposta que aqui se coloca é a de questionar até que procuramos momentos de baixa interactividade e a internet quan-
ponto, partindo da definição de sociologia da mediação, não nos do procuramos alta interactividade. A televisão deixou de ser o
será necessário revisitar a ideia de «sociologia dos ecrãs», na tenta- único «objecto dominante, um ecrã que se converte na porta de um
tiva de actualizar o objecto de análise sociológica de acordo com mundo de oportunidades» (Silverstone 1992). A televisão tornou-se
as transformações comunicativas em rede. num dos ecrãs do nosso espaço comunicativo, numa das aberturas
A sociologia dos ecrãs, segundo Silverstone (1992), requer para os processos de mediação, daí que, embora tendo presente as
o compromisso de pensar no ecrã não apenas como um objecto reservas anteriormente descritas, o ecrã na sua dimensão plural e
material, um produto da tecnologia, mas também como um ob- múltipla é, cada vez mais, o centro da inovação tecnológica e o in-
jecto social e simbólico, como o foco não apenas de uma série de termediador de consumo. A verdade é que, com o crescimento da
práticas de comunicação, mas também como parte da cultura da internet e da lógica dos sistemas de mediação multiusos, o ecrã do
habitação, privada e doméstica. No seu artigo «De la sociología de televisor passou a ser partilhado com outros ecrãs, onde por vezes
la Televisión a la sociología de la pantalla. Bases para una reflexión glo- também a narrativa televisiva está presente.
bal», Silverstone refere que «a televisão estava a mudar, estava a Uma segunda transformação decorrente da multiplicação
converter-se no centro do entretenimento doméstico e dos sis- dos ecrãs foi a perda de centralidade da cultura e espaço privados
temas de informação» (1992). Num momento caracterizado pela associados ao agregado familiar e à casa. Para Silverstone (1992),
passagem de um sistema de comunicação em massa para um mo- esses eram os espaços de eleição do estudo da sociologia do ecrã.
delo baseado na comunicação em rede, focado nas redes de me- No entanto, é partindo do lugar da casa de Silverstone que com-
diação onde coexistem diferentes graus de interactividade, a au- preendemos que o enfoque no estudo dos processos de mediação
diência enquanto interveniente passivo, na forma como a víamos e do papel dos ecrãs está hoje dividido entre três dimensões espa-
em grupo, sentada no sofá, de frente para a televisão, deu lugar a ciais de enquadramento das relações sociais: a casa, o trabalho e
um participante potencial, pronto a escolher entre uma enorme os espaços intermédios entre aqueles. Em todos os três, a media-
variedade de conteúdos e suportes de mediação. ção ocorre nos ecrãs que aí escolhemos deter ou aqueles que nos
A televisão já não é hoje vista como o era na altura da análi- acompanham dentro dos bolsos, malas ou pastas. Assim sendo,
se de Silverstone (1992), mas sim como a televisão do «eu», mais a sociologia do ecrã descrita por Silverstone como uma sociologia

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a sociedade dos ecrãs introdução

que teria o seu contexto de análise na família e na televisão, passa assume não apenas uma função de intermediário no constructo
a ser uma sociologia do ecrã que, para se fazer útil, deve abordar o dos rituais diários, como também todo um imperativo de con-
avanço e centralidade do ecrã mas nos seus formatos múltiplos, tal sumo baseado nos lados estético e actual de novas ofertas e pro-
como hoje os conhecemos, baseados no «eu» com escolha de ser dutos. Algumas inovações decorrentes da introdução do teleco-
activo, participativo, interactivo e em rede, e já não no suporte uni- mando, do videogravador, do zapping e da escolha de conteúdos,
versal conferido ao televisor e à centralidade atribuída à audiência da diminuição dos preços e do tamanho dos aparelhos são claros
mais passiva, por menores escolhas permitidas pelo ecrã — basta exemplos de mudanças que se situam, em certo sentido, no para-
lembrar que à altura da análise inicial de Silverstone os computa- digma do predomínio do ecrã enquanto ponto de partida não para
dores raramente estavam ligados em rede. O predomínio do ecrã uma certa «convergência tecnológica» (Silverstone) entre disposi-
com base quer na prioridade que a inovação tecnológica lhe con- tivos de comunicação, mas sim para uma cultura de convergência
fere, quer na sua centralidade na vida do dia-a-dia, produto das (Jenkins 2004). Uma cultura de convergência em que diferentes
escolhas das pessoas e dos processos de mediação, conduz-nos a caixas pretas, brancas e cinza, todas dispondo de ecrãs, se inter-
uma análise do ecrã como síntese do objecto do estudo da sociolo- ligam em rede e onde, muitas vezes, são os conteúdos e não as
gia da mediação na sua componente de articulação comunicativa tecnologias a convergir. Silverstone referia em 1992 que «nunca es-
em rede de múltiplos objectos de visionamento. tivemos rodeados de tantos ecrãs como actualmente. Assistimos
A importância do ecrã como objecto da análise sociológica a uma explosão de ecrãs: dos ecrãs dos televisores tradicionais aos
deve então ser pensada numa dupla vertente. Em primeiro lugar ecrãs dos computadores e ecrãs móveis de telemóveis e leitores
(e talvez a razão mais óbvia) surge uma certa envolvência asso- de média portáteis. Silverstone fala, por isso, de ecrãs enquanto
ciada à aposta cada vez maior nas tecnologias centradas no ecrã. interfaces multiusos e multicontexto, mas numa época onde a in-
Em segundo lugar, poder-se-á falar de uma certa tendência de terligação em rede entre elas era apenas imaginada e não expe-
ecranização, se assim podemos dizer, dos processos e ferramentas rimentada e apropriada por milhões de pessoas no seu dia-a-dia.
de mediação, em resultado do crescimento sustentado do mo- O nosso objecto de estudo contemporâneo é assim o da media-
delo Web e daquilo que é hoje o caminhar da comunicação nos ção, centrada em ecrãs e articulada entre estes através de redes
formatos tradicionais para a comunicação em rede, nos forma- comuns, onde o consumidor pode escolher assistir alternada ou
tos online e digital. sequencialmente aos mesmos conteúdos, adaptando diferentes
Comecemos então pelo primeiro ponto para dizer que hoje, suportes tecnológicos, todos eles cada vez mais ancorados no su-
mais do que nunca, as tecnologias se representam e dependem do porte ecrã como uma mesma infra-estrutura comunicacional de
ecrã para ser adaptadas não apenas à casa, mas também ao lugar intermediação.
onde nos encontramos fora das horas passadas no contexto do Silverstone (1992) propôs-nos uma centralidade do ecrã na
agregado familiar. Estas tecnologias, dispostas numa multiplici- comunicação sustentada por três pontos analíticos centrais.
dade de gadgets (ipads, ipods, telemóveis, GPS, etc.), realçam uma A questão que se coloca a uma sociologia contemporânea é a de
espécie de cultura baseada nos ecrãs, onde o produto tecnológico discutir até que ponto os mesmos são ainda hoje fulcrais. As três

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a sociedade dos ecrãs introdução

dimensões propostas por Silverstone são: o papel central do ecrã mediação e dos ecrãs, o foco de uma série de práticas de comuni-
na cultura doméstica, quotidiana, e na esfera privada; o seu papel cação, parte da cultura dos agregados familiares, do trabalho e do
central enquanto precursor e referência de desenvolvimento tec- espaço físico de fluxos (Castells 2002), isto é, da cultura privada
nológico; e a sua dupla vertente de objecto de consumo e trans- e doméstica e também da cultura do trabalho e dos lazeres, defi-
missor de significados. O mesmo autor fala de um predomínio nindo também a cultura dos espaços de nação e das identidades
do ecrã como a legitimação de um poder simbólico e cultural que individuais e grupais.
encontra significado na aproximação das culturas pública e priva- A sociologia da mediação e dos ecrãs é o ponto de partida
da, na fusão de informação e entretenimento, fantasia e realidade, para compreender como as rotinas e as fórmulas da vida quotidia-
e no acesso a passados e futuros no desejo de nos situarmos na na (Silverstone 1992) se formam e são sustentadas, como a identi-
dimensão temporal. dade individual e a segurança ontológica se encontram definidas
As dimensões atrás enunciadas continuam a possuir a centra- no espaço e no tempo. Os ecrãs são uma dimensão fundamental,
lidade analítica que lhe era conferida por Silverstone na década pois têm de ser adaptados tecnologicamente e como objectos de
de1990, mas necessitam de ser enquadradas pela relação crescen- design aos espaços onde interagimos com eles — a casa, o traba-
te entre o «eu» participante potencial na produção e distribuição, lho, os transportes, a rua, etc., adaptados ao complexo mundo das
independente da esfera exclusivamente doméstica e privada, e o diferenciações sociais, das relações de autoridade, de proprie-
crescimento de formas múltiplas de mediação, sobretudo a inter- dade, de género e idade. É da interacção social entre o objecto
net. A grande mudança social das duas últimas décadas na esfera ecrã, o espaço e o indivíduo que também, através da comunicação
da mediação reside na multiplicação dos ecrãs, mas também na mediada, se definem as escolhas de consumo quer das próprias
sua articulação em rede. O ecrã migra do modelo tradicional de tecnologias de comunicação e informação quer das nossas opções
comunicação de massa para o modelo de comunicação de rede. de consumo quotidianas por impulso ou por escolha. É também,
A sociologia da mediação e dos ecrãs centra a sua atenção nos dessa mesma interacção, que tomam forma as classificações da
processos de mediação e na pluralidade dos ecrãs articulados por experiência que nos permitem referenciar e posicionarmo-nos
redes comunicativas, como a internet, como elemento central da perante escolhas políticas, culturais, desportivas, religiosas, etc.
escolha dos indivíduos e como objecto onde se centram as nossas Os ecrãs dão-nos as rotinas que organizam o nosso quotidiano em
aspirações em termos de definição social da tecnologia, institui- casa, no trabalho e nos espaços e tempos de lazer.
ções, recepção, consumo e cultura. Como referia Silverstone, o estudo sociológico dos ecrãs re-
A sociologia da mediação e dos ecrãs implica pensar o ecrã quer também algo mais, requer «uma preocupação pela tecnolo-
como mais do que um mero objecto tecnológico e isolado. O ecrã gia e pelos processos de mediação, consumo e regulação» (1992).
é um objecto ligado a outros objectos através de redes tecnológi- A sociologia da mediação e dos ecrãs tem assim por objectivo ana-
cas, mas essa concretização é produto da escolha e da valorização lisar a forma como as tecnologias foram social, política e econo-
social das redes e dos ecrãs. O ecrã é assim, para nós, tanto objecto micamente configuradas, na busca da compreensão de como a sua
como metáfora social e simbólica. O ecrã é, para a sociologia da produção tecnológica e comercialização contribuem para o seu

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a sociedade dos ecrãs introdução

estatuto social de objecto com funções específicas mas também A sociologia da mediação e dos ecrãs é o elemento comum
significados, valores sociais ou culturais, e de como esses são re- ao conjunto de textos que constitui a primeira parte deste livro,
construídos e transformados pelo consumo e utilização. na tentativa de aprofundar o nosso conhecimento da vida social
A sociologia da mediação e dos ecrãs implica igualmente contemporânea a partir do ponto de vista da cultura e da tecno-
o centrar da nossa atenção na mediação e no consumo. Pen- logia dos ecrãs em rede, para uma análise das estruturas e dos
sar e analisar os ecrãs implica pensar tudo o que antecede e processos de mediação na vida quotidiana (Silverstone 1992).
ocorre após ligarmos ou desligarmos o objecto de mediação,
as escolhas e as consequências das mesmas no tempo e no es-
paço familiar, de trabalho ou nos momentos e espaços inter-
médios entre aqueles. Interagir com ecrãs e em rede implica
questionar sociologicamente os compromissos tomados face
à articulação entre uma cultura pública partilhada e culturas
individuais, entre privacidade, reserva e abertura. Como refere
Silverstone, «fazer nossas notícias ou assuntos (…) ou episódios»
é o que nos capacita para entrar num novo mundo público com
uma moeda de troca, podermos discutir com outrem algo que
essa pessoa pode também compreender e sobre o qual pode
dar opinião informada. É através dos ecrãs que consumimos
a classificação que informa a nossa experiência sobre as múl-
tiplas facetas do mundo que nos rodeia, de perto ou de longe
nas diferentes dimensões da distância. É através dos ecrãs que
consumimos significados e que os negociamos, transformamos
e, por vezes, distribuímos.
Por fim, escolhermos uma abordagem sociológica centrada
na mediação e nos ecrãs implica também questionar como pro-
duzimos conteúdos enquanto organizações e indivíduos e quais as
consequências das nossas opções para a sociedade onde vivemos.
Quais os tipos de liberdades e de controlo que queremos imple-
mentar, como redefinir conceitos como propriedade, distribui-
ção, produção, partilha social à luz da multiplicação de ecrãs em
rede e dos seus conteúdos gerados em parceria entre organizações
e indivíduos?

[22] [23]
PARA ALÉM DA INTERNET E DOS MASS MEDIA

GUSTAVO CARDOSO

Neste ponto, parte-se da ideia de que a crise surgida nas nos-


sas vidas, por volta de 2007, não é apenas uma crise de natureza
económico-financeira. Esta crise vai para além do económico e
do financeiro, sendo, por isso, diferente, e podendo ser designada
como uma crise estrutural reflectida na mudança de paradigmas
em diversas áreas das nossas vidas.
Por outras palavras, esta é uma crise experienciada em quatro
grandes dimensões que ocorrem simultaneamente num mesmo
intervalo, apesar de, por um longo período (Volcker 2001, Caste-
lls 2001, Soros 2001), o primeiro e mais visível sintoma da crise ter
ocorrido nas dimensões financeira e económica (Krugman 2008).
A segunda dimensão da crise é uma questão de legitimação
política, que atravessa fronteiras e sistemas políticos de há al-
guns anos para cá (Castells 2009, Beck 2001, Thompson 2000,
Giddens 1994).
A terceira crise a incluir nesta reflexão tem uma natureza de
origem ambiental, uma crise visível no tratamento e percepção as-
sociados ao aquecimento global, seja por agentes políticos e eco-
nómicos, seja por líderes culturais ou até no alargar da discussão à
população em geral (Giddens 1999, Shiva 2001).
Mas, last but not least, estamos também a experienciar uma
crise de âmbito comunicacional. Comunicacional, porque as mu-
danças que resultam do que temos vindo a construir dentro do

[25]
a sociedade dos ecrãs para além da internet e dos mass media

sistema de mediação (Castells 2009, Colombo 1993, Silverstone na nossa vida diária e no equilíbrio de poder que os média facultam
2006, Lash 2007, Hesmondhalgh 2007, Varnelis 2008) teriam de aos actores políticos, económicos e culturais nas nossas sociedades.
despontar num momento futuro, e esse «futuro» parece ser agora. Esta mudança comunicacional pode ser testemunhada numa
Quando olhamos para a paisagem dos média, nomeadamen- série de acontecimentos e transformações em práticas e repre-
te as dimensões corporativas, ventos de crise parecem emanar sentações dos média e do seu papel na sociedade. Os exemplos
de todos os lados, numa tendência que captou a nossa atenção, são vários e podem ser encontrados em tendências mais visíveis,
de forma mais consciente, desde que o The Economist lançou na como quedas abruptas na venda de jornais, na crescente proli-
primeira página, a 24 de Agosto de 2006, a frase «The future of the feração do P2P1 na distribuição dos conteúdos audiovisuais, na
newspapers: who killed the newspaper?». crescente presença de publicidade na internet, em fenómenos
A ideia de crise ou o «fim de algo como nós o conhecíamos» menos óbvios como o papel das redes sociais nas rotinas diárias
parece ter captado a atenção de todos os interessados no estudo dos cidadãos e das organizações, na ocasional relação simbiótica
dos média nos últimos anos, desde académicos que publicam tex- ou competitiva entre jornalistas e o cidadão-comum, na cobertu-
tos relacionados com um eventual fim da televisão e o seu impac- ra de acontecimentos relatados no Twitter ou em sites e blogues,
to no mundo, a jornalistas que descrevem o fim das publicações na apropriação do open access, open source e open science nas práticas
em papel tal como as conhecemos, passando por produtores de de produção científica ou, por outro lado, na desmercantilização
cinema, como Francis Coppola, que falam já de um cinema, nos de conteúdos produzidos, em fenómenos de partilha online.
seus formatos mais tradicionais, como estando a morrer, etc., etc. Esta mudança comunicacional leva-nos a questionar a produ-
As razões que nos levam a falar de uma crise no sector dos média ção dos média e a sua distribuição e, consequentemente, o consu-
e dos seus principais actores são diversas. Apesar de, muitas vezes, li- mo dos seus outputs, sejam eles informação, entretenimento, co-
mitarmos a discussão ao utilizador individual e seus usos na internet, nhecimento e, claro, formas de comunicação nas sociedades con-
podemos argumentar que será duvidoso focar a discussão apenas no temporâneas. Tamanha mudança redunda num caminho fértil de
utilizador e no seu papel na apropriação de novas tecnologias. Em análise e interrogações teóricas no que respeita a novos paradig-
todo o caso, a ideia de que o mundo dos média já não é o que era, com mas comunicacionais, seu futuro e papel nas mudanças sociais.
todas as transformações que essa afirmação acarreta, é a principal ra- Televisão, rádio e jornais, tal como foram desenvolvidos,
zão pela qual podemos garantir que estamos também em plena crise tornaram-se conhecidos, durante o século xx, como os verdadei-
comunicacional. Mas, se para dirigentes de empresas e seus accionis- ros mass media (Thompson 1995), tendo assumido o papel cen-
tas, os tempos parecem ser de crise, por outro lado estamos perante tral no sistema de mediação (Ortoleva 2004) e dando origem a
um quadro de mudanças e transformações de práticas e até, talvez, um novo paradigma comunicacional. Esse paradigma comunica-
perante o surgimento de um novo paradigma comunicacional. cional, designado por comunicação em massa (Mattelart 1996,
O que é discutido nas próximas páginas é que estamos a teste- Thompson 1995, Ortoleva 2004) foi o modelo comunicacional
munhar a erosão do anterior paradigma comunicacional e a emer-
gência de um novo. Tal emergência tem implicações na economia, 1 P2P, ou peer-to-peer, pressupõe a existência de várias plataformas em rede (ex.: compu-
tadores).

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a sociedade dos ecrãs para além da internet e dos mass media

das sociedades industrializadas, no modelo industrial de desen- pela maioria dos seus actores como potenciadora de todas as dimen-
volvimento (Castells 2002) designado por Giddens (1991) como sões da actividade humana, desde a produção de cultura, ou desde o
modernidade tardia. De Bell a Touraine (Webster 1995, Castells exercício de poder, à classificação da experiência. Na Sociedade em
2002), de Poster (2000) a Castells (2002), o papel da informação Rede, o desenvolvimento baseado no papel da informação e fomen-
e comunicação nas mudanças sociais das nossas sociedades tem tado pela interacção de infra-estruturas informacionais, produção
sido discutido de há 40 anos para cá (Webster 1995). de informação e conhecimento (Castells 2002, Himanen 2006) dá
O nascimento da internet, em 1969, e o longo caminho origem ao Modelo de Desenvolvimento Informacional. Mediante
percorrido nestes mais de 40 anos, desde as primeiras apro- este modelo de desenvolvimento, surge a ideia de que conseguimos
priações para fins científicos e laboratoriais, até à utilização caracterizar as mudanças comunicacionais em sociedade pelo sim-
generalizada nos ambientes doméstico e empresarial, bem ples acto de adicionar uma nova tecnologia e sua utilização às an-
como a generalização da sua apropriação para fins pessoais e tigas tecnologias e anteriores formas de utilização, como os mass
de organização pessoal no dia-a-dia, introduziram uma clara media tradicionais, e produzir um novo modelo que nos garantirá
mudança no nosso ambiente comunicacional (Castells 2009, uma melhor compreensão da realidade. Em todo o caso, as mudan-
Colombo 1993, Silverstone 2006, Lash 2007, Hesmondhalgh ças e dinâmicas promovidas pela acção da internet nos mass media
2007, Varnelis 2008). tradicionais são um fenómeno muito mais complexo.
Tal mudança trouxe a lume a discussão sobre o possível papel Devemos então considerar que a comunicação em rede está
da internet, quando combinada com os então designados mass me- lentamente, embora com firmeza, a substituir a comunicação em
dia, na reconfiguração do próprio conceito de mass media. O que massa e os seus paradigmas comunicacionais nas nossas socieda-
poderíamos esperar? des. Tal substituição, de uma comunicação em massa para uma
Estas questões foram ponto de partida para muito do que se pro- comunicação em rede, ocorre com diferentes nuances em diferen-
duzia academicamente, numa discussão que se prolongou durante a tes contextos e em diferentes sistemas de média no mundo (Cas-
última década do século passado e início deste novo milénio. Hoje tells 2009, 2003, Colombo 1993, Silverstone 2006, Lash 2007,
temos um enorme contributo teórico, que resultou desta inquieta- Hesmondhalgh 2007, Varnelis 2008), mas mantendo ao mesmo
ção de cientistas sociais e que claramente nos ajudou a compreen- tempo uma série de características que possibilitam maior con-
der a forma pela qual a internet e os mass media interagiram e de que sistência argumentativa na ideia de que testemunhamos uma mu-
maneira foram coexistindo (Henten e Tadayoni 2008, Van der Duff dança global dos modelos comunicacionais.
2008, Bakker e Sábada 2008, Freedman et al. 2008). É possível suge- À medida que caminhamos de um sistema e uma dieta me-
rir e argumentar que tais interacções levaram ao que hoje podemos diáticos baseados na comunicação em massa para um modelo
designar como networking de diferentes média, seja do ponto de vista baseado na comunicação em rede (Cardoso 2009) e uma indivi-
tecnológico ou em termos de padrões de utilização. dualização na apropriação da comunicação em massa, de acordo
A Sociedade em Rede (Castells 2002) é uma espécie de cons- com o que Castells designa como self mass communication (2009),
tructo social onde a estrutura da organização em rede é percebida também estamos a focar a análise de um mundo onde o utilizador

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a sociedade dos ecrãs para além da internet e dos mass media

de média, de forma crescente, partilha com as organizações mais e utilizador, apesar dos níveis de interactividade que estão asso-
proeminentes o papel mais relevante no surgimento de um novo ciados à utilização dos diversos média. Aos participantes e uti-
sistema de média. lizadores de média associamos diferentes papéis no contexto de
A comunicação em rede é o resultado combinado da acção das uma comunicação em rede. Tais papéis podem ser definidos num
forças da globalização na comunicação, mediação em rede (isto é, triângulo conceptual construído com base num grande número de
a adopção viral da self mass communication, comunicação multimé- participantes envolvidos em papéis definidos como: distribuido-
dia interpessoal), onde as tecnologias para massas interagem com res; inovadores; e classificadores da experiência.
tecnologias interpessoais de comunicação e com a disponibilidade A comunicação tem influência na transformação dos consumos
de escolha por diferentes graus de interactividade que nos possibi- de média, tais como: entretenimento, comunicação e fornecimento
litam combinar momentos de maior actividade com menor activi- de informação e notícias, mas também na criação de conhecimen-
dade na nossa relação com a vida pública e a vida privada. to em geral, que inclui a dimensão científica. O sistema educativo,
O modelo de comunicação em rede está estruturado de acor- baseado na comunicação do conhecimento produzido, e o sistema
do com a apropriação social de duas grandes esferas tecnológicas científico, que depende da produção de conhecimento, fazem sentir
e suas apropriações, às quais acedemos através de múltiplos inter- uma mudança do paradigma comunicacional na dimensão científica
faces tecnológicos: televisão para actividades de baixa interactivi- e, em última análise, em muitas vertentes da sociedade.
dade e internet para actividades marcadas por uma alta interacti- Num mundo onde o consumo não é monopólio exclusivo das
vidade. O que aqui vemos é uma característica comum de media- empresas de média e começa a ser partilhado pelos designados
ção baseada em ecrãs e práticas diferenciadas. participantes, dependendo da disponibilidade de tecnologia, esta
Os ecrãs da televisão e da internet resumem, respectivamen- dimensão da mudança do paradigma comunicacional representa
te, os conceitos de browse e de search, de zapping e de broadcast em também uma mudança na vertente cognitiva, ou seja, tem tam-
diferentes práticas e estágios de envolvimento em actividades co- bém influência no sistema educativo, apresentando possibilida-
municacionais e, consequentemente, em diferentes dimensões de des que vão do ensino cara a cara à aprendizagem à distância, em
interactividade. tempo real; da leitura expositiva à leitura interactiva; da apresen-
Apesar de dispormos de outros média, e consequentemente tação multimédia à comunicação oral e escrita em aula, etc., etc.
de diferentes formas de mediação, o presente das nossas dietas O modelo comunicacional discutido neste capítulo, que dá
mediáticas sugere, por exemplo, que ler um jornal ou um livro, pelo nome de comunicação em rede, faz-se sentir com mudanças
ouvir rádio ou música estão mais próximos da dimensão de zap- nas nossas vidas. Essas mudanças significam oportunidades para
ping, e que jogar um videojogo ou utilizar um telemóvel — nas suas algumas pessoas e organizações, e crise para outras. «O futuro é
múltiplas funcionalidades — estão mais próximos da dimensão de construído hoje» é sempre uma ideia cliché. No rescaldo das cri-
searching. ses que levam a reformulações nas nossas práticas, fará mais sen-
Vivemos um período onde o centro se desloca do conceito tido dizer-se que «o nosso futuro é o que experienciamos hoje».
de audiência para o conceito de participante (Silverstone 2006) Esta é uma experiência que iremos explorar mais à frente.

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a sociedade dos ecrãs para além da internet e dos mass media

NO RESCALDO DA CRISE DAS ORGANIZAÇÕES DE MÉDIA? informação e novos papéis de inovação, também eles ao alcance
OU O NETWORKING DE UM NOVO MODELO DE COMUNICAÇÃO? dos utilizadores, com profundo efeito nos modelos noticiosos e
de entretenimento.
Todas as sociedades são caracterizadas por modelos comunica- Os conteúdos — sejam eles informação ou entretenimento
cionais e não apenas por modelos de informação (Wolton 2000, — mudaram graças à presença de conteúdos produzidos pelos uti-
Colombo 1993, Himanen 2006, Castells 2006, Cardoso 2006). lizadores, e não apenas pela esfera corporativa em si, afirmando-
As nossas sociedades de informação testemunharam a emergên- -se a coexistência de diferentes modelos de informação para dife-
cia de um novo modelo de comunicação, um quarto modelo que rentes audiências. Mas esta mudança não corresponde apenas ao
é acrescentado aos três modelos anteriores, cronologicamente campo da informação, o entretenimento também mudou. Em ter-
situados em ciclos de afirmação social (Ortoleva 2004). mos de entretenimento, a inovação reflecte-se na grande disponi-
O quarto modelo comunicacional, aquele que, aparentemente, bilidade de user-generated contents e nas mudanças introduzidas nas
caracteriza as sociedades contemporâneas, deriva das potenciali- empresas de média, nomeadamente nas suas lógicas de procura
dades da globalização comunicacional, bem como da ligação, em de conteúdos e «formatos», na sua experimentação na eliminação
rede, de médias interpessoais e massificados, na emergência de uma de fronteiras entre as definições programáticas tradicionais e as
mediação em rede sob diferentes padrões de interacção. Juntos, es- novas abordagens a valores sociais, tais como a privacidade. Esta
tes padrões tomam a forma de uma self mass communication (Castells mudança surge associada a novas formas de apropriação social do
2009), quando usamos o Twitter, blogues ou as mensagens SMS em tempo, espaço e ética, dimensões que têm reflexo na forma como
massa; de uma comunicação multimédia interpessoal, quando uti- as histórias são contadas e os guiões escritos.
lizamos o MSN, o Google Chat ou mesmo o Skype; de one to many O modelo comunicacional desenvolvido nas sociedades infor-
communication, quando usamos o Facebook e contactamos com os macionais, cuja forma prevalecente de organização social é a rede
nossos «amigos»; e, claro, de uma comunicação em massa e uma (Castells 2002), designa-se, precisamente, comunicação em rede.
comunicação interpessoal não mediada. Todos estes padrões têm Não substituindo os modelos anteriores, este modelo inter-rela-
em conta, na sua definição, modelos comunicacionais anteriores ciona-os, produzindo novos formatos de comunicação e permitin-
e, através da evolução da mediação, permitem-nos reconfigurá-los do novas formas de empowerment e, consequentemente, autonomia
para formar um novo modelo comunicacional. comunicacional. Nas sociedades informacionais, em que a rede é o
A organização dos usos e a interconexão em rede de média elemento organizacional central, está-se a assistir à formação de um
dentro deste novo modelo comunicacional está directamente re- novo modelo comunicacional, um modelo que se caracteriza pela nova
lacionada com os diferentes graus de interactividade que os nos- interconexão entre comunicação interpessoal, one to many communica-
sos média actuais permitem (Cardoso 2008). tion e comunicação em massa, ligando audiências, participantes, uti-
Os actuais paradigmas comunicacionais assentam numa re- lizadores, broadcasters e editores numa só matriz mediática em rede.
tórica baseada na importância da imagem em movimento, jun- Num ecossistema comunicacional em rede, mediação (Silver-
tamente com a disponibilidade de novas dinâmicas de acesso a stone 2006), dietas de média (Colombo e Aroldi 2003), matrizes

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a sociedade dos ecrãs para além da internet e dos mass media

de média (Meyrovitz 1985) e o próprio sistema mediático em si como SMS, telemóvel e e-mail) e mass media (tais como a televisão,
(Ortoleva 2004) sofreram transformações significativas. Estas rádio, e jornais ou fóruns online).
transformações na relação entre diferentes média, que se encon- É possível argumentar que um novo sistema se tem vindo
tram cada vez mais ligados em rede, mais do que em relação de lentamente a estabelecer desde a primeira década do século xxi,
convergência — seja em termos de hardware, serviço ou ligação com base na análise das diferentes dimensões do que se designou
em rede –, fazem da mediação uma experiência integrada, combi- acima como novo paradigma comunicacional, sedimentado num
nando o uso de diferentes média: do telefone à televisão, do jornal novo sistema mediático e num modelo comunicacional em rede.
aos jogos de vídeo, da internet à rádio, do cinema ao telemóvel, Nos anos 70 do século xx, McLuhan argumenta que os mé-
colocando, uma vez mais, os utilizadores, as suas práticas e graus dia são a mensagem (McLuhan 1997), significando isto que todo e
de literacia para os média no centro da análise (Livingstone 1999, qualquer média induz comportamentos, e cria ligações psicológi-
Cardoso 2007, Cardoso 2008). cas e mudanças de mentalidade nos indivíduos receptores, inde-
A ocorrência destes fenómenos permite afirmar que estamos pendentemente do conteúdo transmitido.
a lidar com um novo sistema mediático organizado em torno de Castells, por sua vez, caracterizou a relação organizacional
duas redes e da centralidade focada nos seus ecrãs: a televisão e dos média actuais como sendo baseada em «message being the me-
a internet. A televisão, com a sua lógica de emissão e o zapping dia» (Castells 2002), isto é, os média são escolhidos de acordo com
como legitimação da baixa interactividade, e a internet, na lógica a mensagem que se pretende transmitir, sendo possível escolher
de search and browse, para práticas de alta interactividade (Kim e o meio de comunicação que melhor se adequa à mensagem e à
Shawney 2002). Todas as outras tecnologias estão ligadas, e in- audiência a que se destina essa mensagem.
teragem com estas duas esferas nas redes tecnológicas e nas suas No entanto, esta mudança não se limitou à passagem de um
apropriações sociais. Mesmo quando esta relação é, por vezes, estado em que os média eram a mensagem para uma sociedade em
estabelecida entre tecnologias que partilham os mesmos ambien- que «a mensagem são os média». Estamos também a testemunhar
tes técnicos (por exemplo, quando alguém cria um link entre duas um tempo em que o canal de informação/média já não é neutro
páginas web), a forma da conexão depende das escolhas do utiliza- em relação àquilo que transmite. Mais, «os média precedem a
dor: quando alguém participa numa votação por SMS (criada no mensagem» (Eco 2001) quando a aceleração tecnológica produz
âmbito de um programa de rádio ou por um jornal, por exemplo), múltiplos canais novos que existem antes de serem criados con-
e os resultados da votação são depois publicados e lidos em forma- teúdos para os preencher, criando-se um novo desafio de carácter
to impresso, essa é uma forma de comunicação entre diferentes económico: a transmissão é possível sem ter sido equacionado o
média, numa rede fundamentada pela interacção entre utilizado- que se irá transmitir (como no caso da televisão interactiva e digi-
res, grandes empresas de média e, também, a esfera da regulação. tal ou do CD-ROM interactivo).
Este exemplo ilustra o que é a comunicação em rede: uma cons- A somar a este desafio económico, este novo paradigma de
tante reformulação das relações entre formatos de média, confi- organização comunicacional é também marcado por uma mudan-
gurações comunicacionais interpessoais e interconectadas (tais ça cultural. Tal paradigma é visível no facto de a maioria dos novos

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a sociedade dos ecrãs para além da internet e dos mass media

canais comunicacionais terem sido apresentados ao público em multipolar. Multipolar porque não só se verificam estas duas di-
geral ou como processos de experimentação activa, que Castells mensões em simultâneo, como também uma terceira se torna visí-
define como «aprender fazendo» (Castells 2002), ou como a cria- vel — outros actores acompanham o processo de mediação, a sua
ção de ambientes de média pelas audiências, e não exclusivamen- evolução, e como a experiência foi vivida por quem a presenciou
te pelas empresas de média. e evoluiu, tornando-se a mediação num processo mais complexo
Na passagem dos média como mensagem, para a mensagem e partilhado. Podemos encontrar exemplos da importância do pa-
enquanto média e para o meio de comunicação como precedente pel destes novos mediadores quando, por exemplo, os utilizado-
da mensagem, é possível argumentar que a actual ligação de média res de internet distribuem cinema europeu ou latino-americano
em rede torna a discussão sobre média e mensagem obsoleta, na nas redes P2P, na partilha de bens (virtual, e não física) em jogos
medida em que uma vez que a mensagem entra na rede, chegará a no Facebook e até ao nível da investigação, com investigadores
quem está destinada e, se o formato em que circula não for o mais a utilizar a lógica open access na distribuição do seu trabalho pela
apropriado para determinado média, ela será recriada pelas pes- comunidade científica.
soas de forma a adequar-se aos média existentes. Se a mensagem A inovação chega quando os utilizadores da internet recor-
for do interesse de alguém, esses utilizadores tomarão conta da rem a instrumentos como o cinema open source, os vídeos de Man-
sua adaptação ao meio de comunicação. Portanto, relativamen- ga/Anime acompanhados por música rock ou pop, ou quando são
te ao modelo comunicacional em rede, é possível afirmar que os criadas legendas e novas criações artísticas fandom que emulam os
média não são a mensagem, mas que as pessoas são a mensagem. universos das séries de culto.
Este artigo aborda a questão da mudança comunicacional, Estes mediadores classificam a experiência partilhando a
a crise no sector dos média e o rescaldo dessa crise. Não se baseia, importância do seu papel de classificadores das lógicas de news
no entanto, em qualquer urgência em encontrar sinais de mudan- making com os jornalistas profissionais, ou quando novos clas-
ça. Procura, sim, explorar uma dimensão empírica, fundamentada sificadores da experiência contactam com outras pessoas online
em diversos exemplos de natureza global. através de notícias no Twitter para aqueles que escrevem críti-
Numa sociedade em que se testemunha uma classificação cas literárias ou outros produtos na Amazon, iTunes, Tripad-
massiva por parte de utilizadores individuais, e não apenas organi- visor, etc. Os utilizadores também classificam a experiência
zações, a mudança ocorre a um ritmo mais intenso, porque é mais através de movimentos nas redes sociais, aqueles que se tornam
rapidamente percebida por um maior número de pessoas. Isto activistas através da criação de grupos no Facebook, redes de
ocorre porque muitas destas classificações derivam da experiên- bloggers, Twitter clouds, com o objectivo de chamar a atenção
cia partilhada com outros na rede — e quando o processo de clas- de outros para questões específicas, contra organizações espe-
sificação da informação acontece, a distribuição é praticamente cíficas ou entidades públicas. Movimentos sociais que nascem
imediata e exponencial. A classificação da experiência passa de no Facebook, derivados de acontecimentos nacionais ou inter-
uma lógica bipolar (o mediador profissional versus aqueles que ex- nacionais, ou mesmo quando membros do sector financeiro se
perienciam os acontecimentos em primeira mão) para uma lógica tornam em subscritores do juramento da gestão global — Global

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a sociedade dos ecrãs

Business Oath Subscribers –, trazendo novas percepções sobre ino-


vação e ética financeiras. A LITERACIA COMO CULTURA DOS MÉDIA
Os exemplos que se procurou sublinhar podem ser vistos
como tentativas experimentais de mudar uma estrutura media-
da de aprovisionamento, produção e consumo de bens culturais, MIGUEL PAISANA E GUSTAVO CARDOSO
ou podem ser vistos como pontos de partida para futuras práticas
que darão origem a novas estruturas comunicacionais nas nossas
sociedades. Este capítulo visa enriquecer esse debate.
No rescaldo desta mudança comunicacional, «nós» somos, tam-
bém, experimentação. Somos cientistas a oferecer artigos em open A renovação de linhas de investigação sobre a literacia para os
access, seguindo práticas de investigação em plataformas de ciência média implica, por diversas razões, um significativo esforço de
aberta; professores a reexperimentar conceitos pedagógicos entre reintrodução e reestruturação reflexiva do conteúdo simbólico
o face a face e a mediação; consumidores de cinema europeu e sul- do conceito, em termos teóricos e metodológicos. A actualida-
-americano a usar redes P2P em busca de um novo sistema de dis- de do conceito é particularmente relevante, o termo literacia
tribuição de cinema; criadores de remixes, em colaboração, nas redes para os média é mencionado com muita frequência, mas nem
sociais como o Facebook; utilizadores como repórteres autoprocla- sempre surge em contextos de discussão como um conceito
mados em acontecimentos no Irão, em Bagdade ou no nosso bairro, plenamente estruturado. As muitas interpretações e não inter-
a reportar notícias que nos dão a opção de olhar para algo e decidir pretações, oriundas dos mais diversos campos (política, média,
ser a favor, contra, ou simplesmente indiferentes. educação, etc.) relevam um estatuto de trendiness comprovado,
E agora? Esta é uma questão a que apenas a futura investigação mas raramente sustentado, o que resulta não só numa grande
e desenvolvimento podem responder. Como não há, no futuro, fac- multiplicidade de interpretações (entre campos e, muitas ve-
tos, é impossível para o cientista social fazer previsões. Podemos, zes, dentro de cada um deles) como, também, numa elevada
no entanto, pensar o futuro com uma certeza, porque a regularida- probabilidade de todo este revestimento conceptual resultar
de histórica assim o indica — que um dado modelo comunicacional em muitos actores a falarem de coisas diferentes sob a égide de
se juntará, sempre, a um novo modelo. Logo, a comunicação em um símbolo oco.
rede irá, a certo ponto, ser substituída por outro modelo, que será, A principal justificação para esta situação prende-se, muito
também, um produto da forma como comunicarmos entre nós. provavelmente, com a carência de um entendimento geral dos
interlocutores sobre a esfera dos média, um campo de produção
simbólica, ele mesmo dotado de extrema complexidade pela ra-
pidez a que a mudança se perpetua. A própria diversidade con-
ceptual e de nomenclaturas justifica, por si só, a situação. Termos
como educação para os média, literacia mediática, educação para

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a sociedade dos ecrãs a literacia como cultura dos média

a comunicação, literacia digital, alfabetização mediática, educo- do indivíduo dentro da esfera mediática? Consumidor, cidadão,
municação, etc. são reveladores de uma nebulosidade geral face cidadão-consumidor, utilizador, receptor, gerador?
ao que verdadeiramente se está a querer definir (Pinto et al. 2011). A discussão está, portanto, relacionada com tecnologia, mas
Estruturar uma discussão implica reconhecer a esfera dos não é exclusivamente sobre tecnologia ou consumos directos atra-
média como um campo de produção simbólica a uma escala alar- vés desta. Literacia para os média é uma co-produção da interacção
gada: um contexto de afectação quase integral dos aspectos da entre o utilizador e os recursos tecnológicos a que este tem acesso.
vida social e produção sócio-simbólica vital; os conteúdos mediá- Depende, também, mas não exclusivamente, de uma dinâmica de
ticos, e sua geração, como potencial simbólico capitalizável e, por interface relacionada com o próprio design dos meios em si (Liv-
isso, sujeitos a interesses dos mais diversos campos; o reconheci- ingstone 2003, 2). Relaciona-se, também, com o risco do posicio-
mento da necessidade de coadjuvar a produção científica com as namento acrítico dos indivíduos face a elementos aos quais estão
acções institucionais e, na academia, a produção de instrumentos permanentemente expostos num contexto informacional em rede
e quadros teórico-metodológicos suficientemente abrangentes e, a partir daí, com os fluxos informacionais, recebidos e gerados
para a compreensão de um universo de novos e velhos média (ESF nesse contexto. Literacia para os média é, conceptualmente, um
2008). Desta forma, conceptualizar algo como literacia para os elemento de ponderação de processos e práticas sociais com uma
média é considerar uma visão holística da sociedade informacio- dinâmica tecnológica por trás, mas não só. Maiores níveis de litera-
nal em rede enquanto elemento aglutinador de dinâmicas de hard- cia digital (utilização e manipulação de novos média) não significam
ware e software (tecnologia e práticas), não só nos novos média necessariamente maiores índices de literacia, mas abrem caminho
mas também nos média antigos (Bolter e Grusin 2000 e Rivoltella para uma reestruturação teórica do que se entende por literacia
em Verniers 2009). para os média, inclusão e exclusão informacional (Verniers 2009).
Devidamente enquadradas, as orientações da European Na prática, a ponderação da variável tecnologia tem um peso pre-
Science Foundation (2008) respeitam uma condição de posicio- ponderante na exploração de conceitos como inclusão e exclusão
namento comum a todos os campos, academia inclusive, que é a enquanto dimensões informacionais, e essa linha de investigação
assunção de um fetichismo artefactual no estabelecimento de uma permanece enquanto interesse público, na medida em que o desen-
relação com a tecnologia como variável independente, que afecta, volvimento de instrumentos de optimização e facilitação da relação
que pouco contempla a possibilidade de essa relação ser afectada com a tecnologia são de interesse para os mais diversos campos, na
pelo quadro das práticas e usos que lhe é dado. Assumir a tecno- medida em que a optimização da experiência tecnológica em con-
logia como variável independente mas, também, potencialmen- textos pedagógicos próprios opera como estímulo a novas práticas
te dependente, é estabelecer o uso enquanto processo reflexivo, sociais, de alfabetização mediática, em termos de variedade e quali-
como uma prática social mais do que como padrão de consumo dade (Buckingham em Verniers 2009, 20).
apenas, razão que justifica também a posição do indivíduo dentro A chave interpretativa destas questões passa muito pela com-
da esfera mediática. Poderá ser esta indefinição conceptual que preensão da relação entre indivíduos e tecnologia/média via utili-
está na origem de uma outra indefinição, a da definição do papel zação enquanto dimensão sujeita a processos críticos individuais,

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a sociedade dos ecrãs a literacia como cultura dos média

sim, mas com uma carga social expressiva, sendo este um passo central sobre o estatuto do indivíduo enquanto agente potencial-
importante na definição de parâmetros de produção de conheci- mente crítico face à informação que recebe, numa estrutura me-
mento que vão além da relação maquinal entre indivíduos e média diática, em particular, e simbólica, em geral, em contornos teóri-
— o que distingue o consumidor literato do não literato é, efecti- cos mais abrangentes. As literacias de média não são quantificáveis
vamente, a capacidade crítica. O risco da substituição de uma li- exclusivamente a partir do uso — se uma pessoa vê mais ou menos
teracia para os média, composta por uma literacia digital, uso não televisão, por exemplo –, na medida em que são um conceito com-
reflexivo, é, neste âmbito, significativo. Acesso, compreensão e posto que compreende, sim, uma dimensão relacionada com as
criação de conteúdos não são, por si só, condições reveladoras de capacidades individuais e uma dimensão crítica que diz respeito
literacia para os média, mas assumem esse estatuto quando todo não só à avaliação dos conteúdos consumidos mas também dos
o processo é combinado com uma componente avaliativa, críti- próprios veículos da sua distribuição (Verniers 2009). A sugestão
ca e consciente do processo: a diferença entre pensar dentro de é a da assunção de uma postura crítica relativamente à distinção
um enquadramento mediático e pensar sobre um enquadramento entre literacias digitais e literacias de média, concentrando esfor-
mediático em si é substancial (Buckingham em Verniers 2009). ços nas práticas e processos sociais e nas dinâmicas tecnológicas,
Por outro lado, a carga simbólica da identificação de um termo culturais e políticas (Caronia em Verniers 2009).
tal como literacia para os média arrisca uma subsequente relega- Se «o acesso às tecnologias não garante, por si mesmo, o exer-
ção do tema para segundo plano: a própria denominação «litera- cício de uma cidadania esclarecida e participada, podendo ser uma
cia para os média» resulta de uma tendência teórica para a adição condição necessária mas não suficiente na formação dos cidadãos»
do termo literacia a outros conceitos, numa forma de renovação (Pinto et al. 2011), impõe-se a associação entre média e risco, neste
conceptual meramente estética, uma tentativa de os evidenciar caso, o de não saber avaliar, o do uso acrítico. Tal como os média são
como novos e incontornáveis. São exemplo disso termos como mensagem, a tecnologia traz consigo prática e conteúdos simbóli-
literacia financeira, literacia digital, literacia emocional, literacia cos com significados próprios, havendo capital interpretativo não
computacional e literacia crítica. Tendencialmente, estes termos só na informação mas na sua estrutura de distribuição. A postura
tornam-se temporariamente bem-sucedidos mas têm uma dura- reflexiva remete para a imperatividade de reconhecer a carga sim-
ção curta, sobretudo em termos de realpolitik. A junção do termo bólica associada a cada média (Caronia em Verniers 2009). Desta
literacia para os média resulta, pois, na sua marginalização, atra- forma, importa compreender o que é o uso informado/crítico de
vés de uma expressão tímida em projectos a muito curto-prazo, recursos de média, dado que a tecnologia e a capacidade para o seu
e não na criação de culturas de literacia crítica nas suas mais diver- uso e manipulação podem estar apenas a acentuar perfis estratifi-
sas vertentes (Bazalgette em Verniers 2009, 87). cacionais e de desigualdade já existentes. Por outro lado, o poder
Deveria a literacia para os média estar incluída no conjunto subjectivo atribuído ao papel desempenhado pelos agentes de dis-
dos aspectos que consideramos constituírem um quadro de lite- tribuição corresponde a dinâmicas económicas que estão subjec-
racias básicas, acrescentando a esses elementos o da construção tivamente associadas aos conteúdos por eles distribuídos, questão
de perfis de cidadania? O valor na pergunta reside numa discussão cujo reconhecimento por parte dos indivíduos é mais complexo

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a sociedade dos ecrãs a literacia como cultura dos média

(Buckingham em Verniers 2009). Receber informação e replicá-la, média quer face aos conteúdos acedidos, é um mecanismo perma-
ainda que possa requerer algum tipo de conhecimento técnico e ca- nente que se desenvolve e afecta todas as fases de manipulação da
pacidade de manipulação técnica, não implica necessariamente um informação, mais do que uma etapa isolada de cada processo comu-
posicionamento crítico por parte do utilizador quanto ao capital nicativo. Assim, os autores sugerem onze etapas/fases do processo
simbólico desse conteúdo num quadro mais abrangente de estrutu- comunicativo de recepção/manipulação da informação (numa tipo-
ras, os média enquanto esferas de produção simbólica. logia claramente pensada a contemplar os novos média):
A utilização das tecnologias é diferente da compreensão das — Contacto (interacção com conteúdos, compreensão e resolu-
dinâmicas tecnológicas, que são muitas vezes reduzidas ao pa- ção de problemas);
pel de elementos utilizáveis tendo, na verdade, um potencial de — Performance (adopção de identidades alternativas para impro-
emanação e produção simbólica muito forte na sua estruturação. viso e descoberta simbólica);
Livingstone desenvolve o conceito de literacia num modelo tri- — Simulação (interpretação e edificação de modelos dinâmicos
dimensional: acesso, análise e avaliação. O acesso envolve mais do do real);
que a simples habilidade física do utilizador: «As access is no sim- — Apropriação (mistura e combinação de conteúdos);
ple matter of hardware provision, it must be evaluated in terms of the — Multitasking (avaliação do contexto, evidência de detalhes re-
ongoing nature and quality of access to media technologies, contents and levantes de acordo com os quadros axiológicos individuais e
services.» (Livingstone 2003, 7), e está dependente de recursos fi- processo de síntese da informação);
nanceiros, temporais e espaciais, competências técnicas, capital — Cognição distribuída (produção simbólica individual do pro-
social e culturas de utilização. A análise é um factor fundamental cesso, através de ferramentas mentais);
no modelo tríptico, na medida em que se constitui como o núcleo — Inteligência colectiva (debate e adequação aos padrões simbóli-
duro da literacia para os média, em conjunto com a capacidade cos colectivos);
de avaliação e de utilização reflexiva dos recursos disponíveis e — Crítica (avaliação de credibilidade das fontes);
reconhecimento inteligível das razões para o não-acesso a outros — Navegação pluri-mediática (seguir informação em vários média);
recursos. A importância destas capacidades é premente nos novos — Networking (procura, síntese e disseminação da informação);
média, face a cenários de (aparente) democratização do acesso a — Negociação (identificação de valores múltiplos, discernimen-
mais conteúdos, por mais pessoas: «(…) without either a laudable to, identificação de múltiplas perspectivas e procura de
purpose or critical discernment, the benefits of internet access will come to alternativas).1
nothing.» (Livingstone 2003, 10).
Jenkins et al. (2009) definem um modelo analítico de literacia Jenkins et al. (2009) utilizam esta tipologia na definição daquilo que
para os média em que o processo crítico/avaliativo é transversal a designam por «cultura participativa», no seio da qual a literacia para
todas as etapas de contacto do indivíduo com os conteúdos me-
diáticos, mais do que isolado numa só fase analítica. O processo de 1 JENKINS, Henry; PURUSHOTMA, Ravi; WEIGEL, Margaret; CLINTON, Katie, e ROBISON,
avaliação crítica, que resulta numa postura reflexiva quer face aos Alice J. (2009), «Confronting the challenges of participatory culture: Media education for
the 21st century», Massachussets, MIT Press.

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a sociedade dos ecrãs a literacia como cultura dos média

os média, em particular para os novos média, desempenha um pa- de uma cultura educativa para os média, ou seja, educação através
pel preponderante. Neste quadro conceptual, os problemas de uma dos média ao invés de educação para os média? Este binómio é
cultura participativa dizem respeito a diferentes configurações de particularmente importante, na definição de uma relação entre a
literacia para os média, a compreender não só o uso de meios de co- educação, enquanto meio, e a literacia, enquanto fim. À comple-
municação e compreensão de conteúdos como também dinâmicas xidade da discussão soma-se, portanto, um carácter de urgência
de utilização crítica. Questões que se designam como digital divide, no reconhecimento de duas dimensões distintas na exploração
perfis de estratificação gerados pelas diferentes condições de maxi- conceptual da literacia para os média, a da centralidade do papel
mização dos processos comunicacionais, estão relacionadas com o do indivíduo, por um lado, e a da renovação das abordagens, até
fosso entre perfis de participação (acesso desigual às oportunidades, agora, centradas nos média. Estas dimensões não são mutuamen-
experiências e conhecimento, resultantes de perfis de capacidade di- te exclusivas, necessitam de novos mecanismos de conjugação.
ferentes), a transparência (o desafio de compreender os meios em si
na diferença entre percepções individuais) e as questões éticas (queda
de antigos mecanismos de treino, formação e socialização que prepa- RESPONSABILIDADE E LITERACIA PARA OS MÉDIA:
ram e introduzem os indivíduos na experiência mediática). A insti- AS INSUFICIÊNCIAS DA CAPACITAÇÃO
tucionalização do update, enquanto agente normativo e imperativo
permanente, provoca ritmos de remediação acelerados que podem Se, na sua ascensão, os novos média transportam novas condições
acentuar as disparidades entre indivíduos (Jenkins et al. 2009). e possibilidades de acesso para os indivíduos, é fundamental en-
A sensibilidade da discussão reside, precisamente, na dificul- contrar, dentro do discurso da literacia para os média, mecanis-
dade em definir um quadro teórico que permita uma reflexão mais mos que permitam compreender a dimensão dessas condições.
orientada do que é, na verdade, o conjunto de factores objectivos Um outro efeito desta dinâmica é uma relativa diluição, em ter-
que determinam diferentes graus de literacia para os média. Mes- mos teóricos e conceptuais, do que se interpreta habitualmente
mo a própria nomenclatura de literacia para os média não é pe- como propostas centradas nos média e propostas focadas na uti-
rene ou consensual, falando-se de novas formas de literacia — li- lização individual.
teracia computacional, literacia online, ciberliteracia, etc. (Living- No panorama de agilização e complexificação do processo co-
stone 2003, 1). Estas (in)definições interessam, particularmente, municacional, impõe-se a edificação de modelos analíticos que com-
a campos sociais no contexto dos quais operam profissionais cuja portem esta complexidade. A proposta de Silverstone é, nestes parâ-
metodologia deveria passar, precisamente, pela promoção de uma metros, relativamente abrangente. Veja-se que, num primeiro grau,
literacia para os média, de forma contrária a uma intensa deriva há uma considerável fractura conceptual em Silverstone, patente na
tecnocrática contemporânea (Buckingham em Verniers 2009). diferenciação entre o que é o discurso da capacidade e o discurso da
Falando de educação e instituição escolar, num exemplo par- literacia: o primeiro contempla as digital divides, mas, em termos de
ticular, qual a legitimidade estrutural e curricular de planos edu- abrangência, o segundo enriquece substancialmente mais o debate.
cativos que privilegiam a componente tecnológica em desfavor Uma peça-chave desta compreensão é a desmitificação da tecnologia

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a sociedade dos ecrãs a literacia como cultura dos média

enquanto variável de extrema importância na definição de formas de mas não suficiente na era digital, já que uma optimização da relação
exclusão informacional. Ainda que a segregação se possa fazer por com os média permite, acima de tudo, a produção de conhecimen-
via da tecnologia, da capacidade ou não capacidade para o seu uso, to e a capacitação dos indivíduos (Silverstone em Osimo 2005).
a exclusão é, sempre, antes de mais, um processo social e cultural A discussão vai tão longe quanto profundo é o debate em
complexo (Silverstone em Osimo 2005). torno das dinâmicas de literacia enquanto empowerment (Hobbs,
Neste plano, de reenquadramento do tecnológico, as conside- Cohn Geltner e Landis 2011), edificação democrática e criação
rações de Silverstone vão mais longe na apologia de uma alfabeti- de capital crítico. Em todo o caso, e neste quadro conceptual, as
zação para os média através da autonomização dos indivíduos/uti- dinâmicas de estratificação/segregação podem ser lidas de forma
lizadores e das condições para o self-made knowledge. É, portanto, diferente, nos termos da sua operacionalização efectiva, nas quais
um processo que diz respeito aos indivíduos, na ascensão do auto- a intersecção entre redes, online ou offline é particularmente ex-
didactismo como valor fundamental mas, também, aos média, em pressiva. A investigação já realizada demonstra bem a importância
termos de regulação e ética funcional. Segundo Silverstone (Sil- de contextos culturais de suporte para a utilização das tecnologias
verstone em Osimo 2005), a regulação dos média deve estar limi- (família, amigos ou colegas de trabalho). O desenvolvimento de
tada à gestão dos mercados da competitividade e isso conduzirá, capacidades de utilização necessita de ser socialmente visto por
invariavelmente, a uma institucionalização da educação para os outros como relevante para todos. A ausência dessas culturas de
média como valor principal na construção de processos com base contextualização consistente do uso está patente em muitos per-
em dinâmicas democráticas, onde o capital intelectual e cultural, fis de exclusão, por exemplo (Silverstone em Osimo 2005).
massificado, permite uma responsabilização dos utilizadores pelo A ressalva é importante na compreensão de que tanto as tec-
seu uso individual dos média. Silverstone e Mansell (1996) apon- nologias quanto os média em si não são mais do que uma produção
tam cultura de média, ética, regulação e inovação como palavras-chave social, simbólica e também estética. São configurações materiais
para novos caminhos de investigação. e funcionais distintas de quadros comunicacionais já existentes,
Neste quadro, uma noção de literacia crítica para os média mas, simultaneamente, uma renovação desses mecanismos (Man-
assemelha-se inquestionavelmente a um processo de responsabi- sell e Silverstone 1996) na constituição da tecnologia enquanto
lização do eu e do outro na perpetuação do acto comunicacional, característica-chave dos processos de mediação nos processos
de reconhecimento mútuo. O conceito de proper distance (Silver- sociais. Por tecnologia entenda-se também, mas não só, máquina
stone 2003) é essa noção crítica, a implicar uma comunicação sus- ou automação. Falar de tecnologia implica falar de redes, capaci-
tentada em conhecimento suficiente sobre o outro e as suas defi- dades e conhecimento, em permanente processo de desbloqueio,
nições culturais, que não é mais do que uma responsabilização de transformação, armazenamento, distribuição e regulação de co-
cada um pela sua utilização e repercussão da informação. Literacia, nhecimento e de práticas (Silverstone 2005). O não reconheci-
na sua forma crítica, é uma condição fundamental para quadros re- mento da tecnologia enquanto produção e valor social tem im-
lacionais sãos, democracias participadas e sociedades civis sólidas, plicações significativas no alcance da visão tanto sobre os média
já que não pode ser apenas um processo de leitura, que é essencial como sobre os aspectos relacionados com a sua literacia crítica.

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a sociedade dos ecrãs a literacia como cultura dos média

O caminho para a reconciliação teórica entre estudos de au- conjunto de competências e conhecimentos que permitem aos ci-
diência e literacia crítica para os média é complexo, mas uma fil- dadãos uma utilização consciente e formada dos meios de comu-
tragem sobre aquilo em que os novos média são, de facto, novos nicação social, que representa uma componente essencial do pro-
possibilita outras leituras sobre dinâmicas comunicacionais reno- cesso comunicativo. Do ponto de vista institucional e da mudança
vadas, bidireccionais. A constituição do utilizador e, sobretudo, positiva, no sentido do saneamento da relação entre utilizadores e
do conjunto dos utilizadores enquanto esfera de geração de capi- média, a geração de capital informacional com base na utilização
tal crítico é vital para a criação de renovados mecanismos de par- crítica remete para a consolidação de um espaço público toleran-
ticipação, na medida em que a participação gera, efectivamente, te, transparente, com equidade e diálogo, através da formação de
mais participação, em cadeia (Silverstone 2002b). cidadãos activos, formação essa que passa necessariamente pelos
A noção de moral e consequência coaduna-se, em Silver- média (Pinto et al. 2011). O apelo ao uso reflexivo assume parti-
stone, com a premissa da importância desta actividade enquanto cular urgência face a uma institucionalização dos novos média
produção moral (cuja importância tem sido relegada para segundo em torno de noções quase iluministas, do ponto de vista do po-
plano). Se os indivíduos se constituem, de facto, audiências neces- tencial democrático (e quase auto-alfabetizador) destes meios de
sariamente activas, então a noção de responsabilidade individual comunicação. Este sentimento é particularmente expressivo na
face ao acto comunicacional, enquanto acto necessariamente re- fundamentação conceptual de, por exemplo, conceitos como o de
flexivo, faz todo o sentido (Silverstone 2002b). Esta afirmação é nativos digitais, pela potencial opacidade que confere às questões
particularmente veemente na defesa de que uma negação dessa da infoexclusão. Assim, em paralelo com a capacidade de conviver
responsabilidade individual tem implicações morais significati- criticamente com os média e com o seu uso, os novos mecanis-
vas, em rede, dado que todos os indivíduos são, hoje, e forçosa- mos comunicacionais renovam a imperatividade da alfabetização
mente, parte de uma audiência, a consequência de uma inclusão dos utilizadores, enquanto cidadãos, como forma de prevenção de
potencial que é, em última instância, aquilo que há de novo nos perfis agravados de exclusão social (Pinto et al. 2011).
novos média. As mais-valias dos novos média acentuam várias necessida-
des, cuja compreensão é fundamental para a definição, leitura e
análise do que é a literacia para os média. Abordam-se as ques-
UTILIZADOR E UTILIZAÇÃO CRÍTICA COMO PODER tões da privatização da responsabilidade de consumos mediáti-
cos, enquanto correspondente a uma desresponsabilização regu-
O valor científico de um enquadramento do estudo da literacia latória dos estados face ao cidadão-consumidor (empowerment).
para os média enquanto processo crítico está assente nas possibi- A literacia para os média constitui-se, efectivamente, como um
lidades de enquadramento do(s) indivíduo(s) em sistemas comu- atributo social e pessoal, mas não se verificou ainda uma explo-
nicacionais mais abrangentes. Na condição de formação e enten- ração consistente do estatuto do utilizador enquanto isso mes-
dimento das componentes essenciais do processo comunicativo mo, posicionado face a conteúdos cuja análise depende de atri-
terá de estar um conceito de literacia para os média, enquanto butos pessoais. Buckingham (Verniers 2009) chama a atenção

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para o facto de muitos eixos conceptuais (menos elaborados) para uma nova literacia para os média compreendem, portanto,
insistirem na necessidade da responsabilização dos indivíduos uma partilha da mediação, através da participação e da respon-
pelos seus consumos e comportamentos mediáticos, sem con- sabilização na constituição de sistemas morais de comunicação
templar devidamente a questão do uso crítico e literato. O não (Silverstone 2002, 16).
reconhecimento desta dimensão transporta a discussão para o Literacia para os média é um tópico que extravasa as frontei-
campo da própria regulação dos média, um processo cada vez ras do estudo dos média, remetendo para o reconhecimento das
mais sensível, pela indefinição das linhas que separam a esfera instituições e dos próprios sistemas sociais por parte dos indiví-
pública da privada, a indefinição da individualidade e agência in- duos, processos dependentes quer de processos sociais relaciona-
dividual. Corresponderá então uma plena literacia para os média dos com o sistema educativo quer de uma relação descomplexa-
a um processo individual, uma capacidade para discernir e auto- da com sistemas mediáticos e meios de comunicação, sejam eles
-regular o uso através de uma utilização crítica? Os riscos de uma novos ou tradicionais. Henry Milner (2002) é particularmente
utilização básica são evidentes nos velhos mas, sobretudo, nos incisivo na explicação destas dinâmicas de orientação teórica, na
novos média, podendo resultar num empobrecimento do uso, reflexão da literacia para os média em escalas mais abrangentes.
contrariamente a um uso sofisticado e multifacetado, que per- Explica-o de forma particularmente sólida ao estabelecer uma re-
mite o acesso a novas oportunidades e o cumprimento de objec- lação entre a baixa dependência dos escandinavos face à televisão
tivos individuais e colectivos (Livingstone e Helsper 2007, 14). e os seus elevados níveis de literacia cívica, fortemente sedimen-
Esta questão vai para além da utilização, do acesso, e da lite- tada nos hábitos de consumo de imprensa escrita. Esta relação é
racia dos média em particular. Diz respeito a um quadro referen- particularmente significativa na análise dos níveis de abstenção
cial cultural de literacia, de facto, mas mais vasto e abrangente, nesses países (Milner 2002).
na assunção dos média como cultural blanket (Silverstone 2002a). Estas questões são exemplo do que se discutiu acima, da ne-
Este entendimento passa, de uma maneira ou de outra, por um cessidade de orientações teóricas que coloquem os utilizadores
aprofundar do estudo do consumo enquanto processo crítico, em relação com os média, enquanto conteúdos e estrutura, e com
mais do que um consumo simples ou dinâmicas de recepção, in- sistemas sociais mais vastos: os grupos mais aptos a ultrapassar
vocando questões éticas e morais no estudo da literacia para os com sucesso os desafios típicos de sociedades comunicacional-
média de uma forma muito particular. A literacia tem surgido, mente avançadas são aqueles com perfis de literacia elevados e
conceptual e textualmente, como um conceito sem componente institucional e contextualmente enquadrados em formas cul-
crítica ou cívica. Também não surge como uma actividade com turais igualmente avançadas. Esses grupos podem aspirar a uma
potencial regulatório, com potencial de associação a um pro- distribuição mais justa das externalidades negativas dos processos
jecto de ética para os média. Literacia para os média, enquanto de globalização e do progresso em termos de novas tecnologias
actividade crítica, impõe uma assunção da opacidade dos mé- da informação, bem como a uma maximização das externalidades
dia e das implicações morais dessa opacidade, em processos de positivas dessa mudança. A literacia crítica será, portanto, um va-
mediação que são processos sociais e políticos. As orientações lor fundamental na revitalização conceptual (e, posteriormente,

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a sociedade dos ecrãs a literacia como cultura dos média

ideológica) do Welfare State, uma das maiores conquistas do sé- educacional e, sobretudo, científico-social no que toca à reflexão
culo xx (Milner 2002, 189). sobre conceitos existentes, na construção de horizontes concep-
Literacia para os média, a par de outros tipos de literacia, tuais relacionados com uma postura crítica dos média e conteú-
é uma relação entre textualidade, competências e poder, cujo não dos que veiculam. É uma questão cultural, por excelência, mas
reconhecimento impõe sérios limites teóricos: «Without a demo- também ideológica, comunicacional e educacional que permite
cratic and critical approach to media literacy, the public will be positioned compreender (Caronia em Verniers 2009) a literacia para os mé-
merely as selective receivers, consumers of online information and commu- dia nos termos de culturas mediadas ou em permanente remedia-
nication» (Livingstone 2003, 2). A discussão deverá passar, portan- ção. As literacias dizem respeito tanto à reformulação dos média
to, pela exploração de formações conceptuais tais como consumi- quanto aos seus conteúdos? Estará a questão da utilização crítica
dor e cidadão, acção e reacção, recepção e geração, enriquecendo relacionada com alguma forma de influência estrutural nos mé-
teoricamente a análise com o potencial avaliativo dos indivíduos dia, por parte dos utilizadores, e não apenas na sua relação com
no processo comunicativo, privilegiando este processo como dinâ- os conteúdos por eles veiculados (Kotilainen em Verniers 2009)?
mica relacional, bidireccional, em detrimento da visão de sentido
único do fluxo informacional, trazendo para a equação factores de
textualidade, competência e poder. Note-se que o conceito de li- LITERACIA E PODER SIMBÓLICO
teracia está na fundação histórica da desigualdade, reposicionando
o papel do utilizador de média enquanto gerador de poder simbó- No panorama da produção teórica sobre aquilo que será o estudo
lico, de passivo para activo, de receptor para participante, de con- das literacias, em geral, e da literacia para os média, em particu-
sumidor a cidadão (Livingstone 2004). A principal vantagem de lar, no século xxi, sobressai um eixo analítico fundamental que
horizontes teóricos orientados para a componente crítica na li- diz respeito a questões relacionadas com a ascensão da crítica en-
teracia para os média é a de paralelizar uma história fundamental quanto expressão fundamental de dinâmicas de poder simbólico.
associada à democratização do conhecimento, com a mudança em Nesta esfera, é incontornável um entendimento do fosso que se-
termos de tecnologias da informação e comunicação, pelo que li- para a abordagem via posicionamento face à utilização de meios
teracia para os média é diferente de literacia crítica para os média, de comunicação e uma aproximação ao posicionamento face aos
em termos de mapeamento conceptual, e, note-se, estas têm tido meios de comunicação, por parte dos utilizadores, face a uma es-
um tratamento excessivamente exclusivo. trutura com uma emanação simbólica complexa. Esta emanação,
Em termos de reflexão sobre o próprio método científico, este poder estabelece-se sobretudo pelo reconhecimento social
iniciou-se já um questionamento daquilo que poderá ser um pro- face ao valor do campo dos média, pelo reconhecimento de um
cesso de ruptura em termos de abordagem teórico-metodológica. papel relacionado com a produção de legibilidade e inteligibilida-
Uma alteração de paradigma não implica ruptura tecnológica ou de, para todos, de diversos campos de produção social e simbólica
alteração da lógica evolutiva, representa sim uma reflexão dos pa- (Pinto et al. 2011). O papel revelador que os média exercem con-
drões analíticos dos cidadãos face aos média, do sector político, trasta fortemente, nestas perspectivas, com a fraca promoção de

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um entendimento legível e acessível aos utilizadores, que afecta Algumas propostas vão ainda mais longe, considerando a ile-
a utilização, promovida no quadro da previsibilidade, dentro de gibilidade dos média como uma condição sine qua non para a pro-
ecossistemas mediáticos controlados1. dução do poder simbólico do campo dos média, na produção de
O conjunto das propostas teóricas críticas atenta ao facto de distinção quanto à interpretação dos processos sociais por parte
a importância de ir buscar informação (apesar de esta busca re- dos utilizadores face às mais diversas esferas da vida social. Isto
quisitar, também, competências específicas) ser secundária face conferirá aos média uma capacidade de geração de poder face a ou-
ao processo de a avaliar. Argumenta-se, então, a informação e tras esferas de emanação simbólica. Na perspectiva da gestão e da
avaliação como processo social, e este processo é um exercício indústria de média, à primeira vista, não há interesse relativamente
interpretativo de dinâmicas relacionais de poder: «Information be- ao questionamento dos média enquanto objectos, na medida em
comes relevant depending on who we perceive as the authoritative voice que esse questionamento não corresponde a outputs significativos
which validates reality» (Caronia em Verniers 2009). A confiança, do ponto de vista da legitimação do poder e hegemonia no campo
relevância e atribuição subjectiva de poder estão na formação de dos média. Promover o seu uso, crítico ou não, é suficiente e a con-
padrões analíticos. Argumentar que a literacia digital e a literacia tinuidade dos média enquanto esfera hermética, que transforma as
de média têm uma relação de causa e efeito é perspectivar meca- necessidades sociais em produtos utilizáveis por todos.
nicamente a dinâmica, sem salvaguardar a determinação indivi- Necessidade é um conceito fundamental para a indústria dos
dual dos cidadãos, isto é, acentuando os formatos estratificacio- média, porque havendo necessidade de aquisição há viabilidade
nais já existentes e a não-interpretação das referidas dinâmicas para a criação de média enquanto objectos (Antoine em Verniers
simbólicas (Caronia em Verniers 2009). Uma perspectiva teórica 2009, 51). Frédéric Antoine vai mais longe na sua explicação, ao re-
estratificacional da literacia para os média permitirá porventura meter para um desajuste entre «economia» (indústria) e «educação»
a sua identificação como um recurso cuja posse e não-posse são (academia e escola), na medida em que ambas apologizam uma lite-
determinantes para as dinâmicas de poder: a literacia comporta as racia através dos média, mas a primeira privilegia uma literacia no
condicionantes históricas e culturais dos processos de mediação, uso dos média, e a segunda preconiza uma literacia para os média,
na representação simbólica e material do conhecimento e valores, efectivamente. Em todo o caso, e do ponto de vista institucional,
a difusão das capacidades interpretativas em populações estratifi- em termos de realpolitik, há um interesse generalizado no desenvol-
cadas e, também, as dinâmicas de poder e gestão entre aquelas que vimento de media skills e de uma efectiva literacia para os média, ha-
possuem maiores configurações de literacia (Livingstone 2003, 2). vendo espaço para consonância entre interesses dado que, nas suas
mais diversas vertentes, estes processos passam pelo consumo de
recursos mediáticos e utilização de meios de comunicação. Educar
1 Nota: neste caso, uma excepção confirma a regra: veja-se o exemplo do conjunto de princí- para o consumo é diferente de educar para os média: as competên-
pios que se designa por hacker ethics e que rege a utilização dos média para este grupo de utiliza-
dores. São indivíduos com uma capacidade técnica exacerbada, que lhes permite operar dentro cias relacionadas com literacias para os média — utilização, com-
de estruturas criadas para «consumidores» e, sobretudo, fora dessas estruturas, especialmente
pelo questionamento da sua ética simbólica. Este perfil de utilização, que ultrapassa na verdade
preensão e criação ou acesso, análise, avaliação e produção criativa
esta esfera de acção, corresponde a reivindicações sociais precisas e consistentes (generalização — relacionam-se com aspectos de desenvolvimento e expressão
da ética open source, por exemplo).

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a sociedade dos ecrãs a literacia como cultura dos média

individual, tais como consciência, pensamento crítico e capacidade pela sua metaforização dos média enquanto apropriações proté-
de solucionar questões (Kotilainen em Verniers 2009). Estas pre- sicas, cujo acesso ou não-acesso é determinante para explorar as
missas são particularmente significativas no estudo dos novos mé- questões da inclusão/capacitação vs. exclusão/limitação nos pro-
dia, em geral, e da internet, em particular, na medida em que este cessos de mediação permanentes da existência individual em rede.
meio de comunicação combina, na sua génese, componentes híbri- A questão do não-acesso é determinante para a compreensão da
dos de outros meios de comunicação, que vêem no online a oportu- infoexclusão enquanto dinâmica de desmembramento dos indiví-
nidade ou a condição essencial para a sobrevivência. Literacia para duos face às oportunidades com que se confrontam, criando uma
os média coloca-se, então, como a habilidade para aceder, analisar, situação de ininteligibilidade, intangibilidade e marginalização.
avaliar e criar conteúdos simbólicos numa variedade de contextos Os estudos sobre digital divides têm sido particularmente nume-
(quer estes operem dentro de um ou vários média) (Livingstone rosos e diversificados na abordagem da situação dos jovens em rela-
2004). Esta compreensão de uma renovada literacia para os média, ção, sobretudo, à internet e estratificação, relacionada com determi-
no quadro de outras literacias, responde a factores referenciais es- nação dos indivíduos e da utilização desse meio de comunicação. Há
tritamente ligados a processos de poder crítico. pistas que apontam para uma relação muito significativa entre a utili-
zação de internet e as definições socioeconómicas nos jovens, noção
que contesta a conceptualização de natividade digital (Livingstone e
CAPACIDADE, DESMEMBRAMENTO E PRÓTESE Helsper 2007), o que evidencia a literacia, a par de outras determi-
nantes, como uma variável potencialmente estratificacional.
O trabalho desenvolvido no eixo conceptual de digital divides as- É uma questão complexa que quebra barreiras e campos teóri-
segura a importância de aprofundar, também, o estudo da litera- cos, se inclui num horizonte conceptual mais vasto no quadro das
cia para os média, na compreensão dos limites e possibilidades literacias e diz respeito a novas interrogações. O enquadramento
oferecidos pelas tecnologias da informação e comunicação ao de- da literacia para os média no quadro de outras literacias básicas,
senvolvimento de práticas sãs de utilização destes meios. isto é, de primeira necessidade, assume-se como uma necessida-
Em termos analíticos, este eixo conceptual é de extrema de sistémica, na medida em que a própria genética da «socieda-
importância pela dimensão cultural dos elementos que o consti- de da informação» e da economia/mediação do conhecimento se
tuem. Veja-se que não só o acesso ou não acesso a recursos infor- baseiam em lógicas de organização que requerem competências
macionais pode ser determinante para tendências discriminató- básicas como a leitura e o cálculo. Estes modelos de organização
rias (Kotilainen em Verniers 2009) como a literexclusão, um perfil necessitam de uma continuidade em termos de competências,
de literacias básicas pouco desenvolvido, se afigura cada vez mais mensurável através da leitura dos níveis de capacidade na mani-
como uma importante dimensão processual das situações de ex- pulação dos diversos recursos informacionais disponíveis (Gomes
clusão social (Gomes 2003). 2003, 63 e ss.).
A sugestão de McLuhan (1964) é útil na compreensão da di- A análise da literacia para os média e dos seus processos passa
mensão estratificacional da literacia para os média, em particular, pela definição de novos modelos de mediação, para lá da dinâmica

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do consumo de informação, e pelo fortalecimento desses modelos apropriação simbólica das coisas. Essa postura crítica, vital para a
teóricos para o entendimento de processos dinâmicos e em per- sobrevivência num sistema em que as capacidades interpretativas
manente mutação, na medida em que, num contexto de exposição determinam e hierarquizam permanentemente os sistemas sob
permanente a estruturas e outputs mediáticos, mediação e reme- esses critérios, é um processo de adequação multifuncional aos
diação não são conceitos suficientes para compreender a escala de meios de comunicação, assim como os organismos sobreviventes
exposição dos indivíduos, já que o acesso se baseia, é verdade, num são aqueles cujas capacidades adaptativas às mais diversas reac-
processo social e mutável de provisão de informação, mas que é ções externas são mais efectivas e diversificadas.
mais complexo na sua filtragem alfabetizada e crítica, uma vez que A perpetuação crítica dos fluxos informacionais é impor-
esta motiva alterações das condições iniciais de acesso (actualiza- tante para a existência numa sociedade informacional em rede,
ção de conhecimento e condições de acesso) (Livingstone 2003, 1). minimizando o risco de exclusão social, e uma conceptualização
A definição de estruturas analíticas, que reflictam e contemplem crítica de literacia para os média põe em evidência o utilizador
graus de literacia para os média, deve ter em conta as limitações como uma esfera de rede e, portanto, sujeito a estas dinâmicas de
impostas pelos próprio modelos, face à ubiquidade dos média, en- sobrevivência (Pinto et al. 2011), na medida em que uma presença
quanto cultural blanket, privilegiando a leitura daquilo que é o pro- como mero reprodutor determina uma importância mínima.
cesso reflexivo dos indivíduos ao longo da sua exposição mediática. A literacia para os média constitui o conjunto de instrumen-
tos e capacidades que facilitam e agilizam o processo comunica-
cional, pela determinação das práticas comunicativas, em termos
MÉDIA E LITERACIA EM REDE, de variável independente face às dinâmicas de absorção e repro-
MULTIFUNCIONALIDADE COMO SOBREVIVÊNCIA dução da informação. A sociedade informacional em rede deter-
minou a alteração do paradigma de recepção-produção da infor-
Debateu-se já a constituição da literacia para os média enquan- mação, desta forma (Pinto et al. 2011). A definição de parâmetros
to peça-chave para a compreensão das dinâmicas comunicacio- de literacia crítica é, precisamente, uma forma de maximizar as
nais processuais no contexto de uma sociedade informacional em mais-valias dos meios de comunicação em si. A optimização da
rede. Discorrer o pendor evolucionista da edificação de Manuel experiência mediática é mais intensa quando os indivíduos expe-
Castells acerca de um sistema social na forma de uma rede infor- rimentam directamente o processo de produção de conteúdos.
macional de larga escala, assumindo que a capacidade adaptativa Neste sentido, a internet é por excelência um meio que permite a
de esferas comunicacionais depende da sua capacidade de perpe- massificação da experiência e das oportunidades de confrontação
tuar a recepção, interpretação, avaliação e repercussão de fluxos dos utilizadores com os conteúdos e é nessa disponibilização que
informacionais, é importante para esta discussão. A capacidade reside a sua mais-valia (Livingstone 2003, 2).
reflexiva e crítica dos indivíduos é uma componente fundamental A conjugação de uma proposta teórica também respeitante
da sua existência mediática, não só do ponto de vista da leitura da às dinâmicas da sociedade informacional em rede evoca a já referi-
sua presença, e dos outros, mas também da optimização da sua da necessidade de centrar o processo científico nas dinâmicas que

[60] [61]
a sociedade dos ecrãs a literacia como cultura dos média

dizem respeito à qualidade da experiência individual em ecossis- realidade, podem contribuir para o acentuar de um buraco gera-
temas mediáticos, ou seja, uma educação para os média não cen- cional, não necessariamente fiel ao que se passa.
trada exclusivamente nos média, mas concretizada através deles. Existe um outro preconceito, que é o de que uma postura
É importante reconhecer a mais-valia criativa dos média digitais, crítica sobre os média pode representar uma ameaça para os pró-
mas essa potencialidade deve ser reconhecida do ponto de vista prios meios de comunicação social, na sua estruturação simbólica
da disponibilização de recursos de conhecimento consumível, e de poder. Independentemente de isso ser ou não verdade (esta
e não apenas como uma vantagem para os média em si (Buckin- discussão não é essa), as mais-valias do estudo (e posterior pro-
gham em Verniers 2009, 22). O estudo do uso informado é, sem moção) da literacia para os média enquanto posicionamento crí-
dúvida, mais moroso e complexo que o estudo das dinâmicas de tico dos utilizadores de meios de comunicação surge em relação
consumo, sobretudo pelas dinâmicas estruturais de um campo profícua com um maior pluralismo e independência dos meios de
com uma estrutura igualmente complexa, quer na sua definição comunicação social (Pinto et al. 2011).
quer nas suas práticas simbólicas. A colocação dos média no centro do processo educativo é,
nesta perspectiva, uma deturpação educacional, uma confusão do
meio com o fim, mas ao mesmo tempo, uma não-exploração do
CONSIDERAÇÕES FINAIS estatuto dos próprios média em si, e uma não-promoção do pen-
samento crítico nem sobre o meio nem sobre o fim (Buckingham
Argumentar a lógica de uma apologia da literacia para os média em Verniers 2009, 21). Se os média não devem ser o foco da aten-
como uso informado implica advogar, também, as literacias para ção no estudo da literacia para os média, a sua expressão tecnoló-
os média como elemento fundamental de análise, a surgir num gica também não, na medida em que os esforços que efectivamen-
plano básico a par de outras formas de literacia. A sua nomeação te marcam as definições comunicacionais relacionadas com este
específica como «para os média» deve permanecer, portanto, ape- conceito dizem respeito a escalas de acção macro, que afectam a
nas com uma função de orientação, na medida em que deturpa interacção dos indivíduos entre si, dentro do sistema, face a ele,
significativamente o próprio valor e importância do conceito. e, nalguns casos, a contrariedade entre indivíduos e sistema, que
A orientação para a constituição de um programa analítico de li- conduz à mudança. Em termos de mudança efectiva no mundo,
teracias plurais, mais abrangente, possibilitará ele mesmo novas essa sempre foi perpetuada por projectos políticos de governos ou
orientações teóricas. A pluralidade, como valor ético e metodoló- de reestruturação de modelos económicos e não apenas por novas
gico da abordagem, deve visar também a desmontagem de outros tecnologias (Lambert em Verniers 2009, 35).
conceitos, tais como os da geração digital ou dos nativos digitais. Assim como a exploração de conceitos de literacia crítica não
O facto de os mais jovens usarem cada vez mais e com maior fa- deve ser lida como uma contrariedade face ao estatuto dos média
cilidade dispositivos e novas tecnologias não quer dizer que o seu e do seu património simbólico, não devem também ser entendi-
uso seja potencialmente mais crítico e alfabetizado. Para além de dos como uma ameaça às definições passadas, mas sim como uma
estas premissas se poderem conjugar numa visão deturpada da reestruturação necessária para salvaguardar a viabilidade do con-

[62] [63]
a sociedade dos ecrãs a literacia como cultura dos média

ceito, o seu pluralismo e holismo. Este exemplo aplica-se a todas xistência de culturas de literacia crítica para os média. Os média
as formas de literacia, a um conjunto de literacias plurais. Mais institucionalizam-se como vertentes aceites no quadro de cultu-
do que socializar os indivíduos para uma utilização dos recursos ras partilhadas, emanações de poder, e sem questionamento e su-
pedagógicos em contextos pedagogicamente definidos, é preciso jeição a juízo crítico. Sem a responsabilização individual pela sua
instruí-los para uma utilização desses recursos em qualquer con- optimização, falham no seu propósito, como os indivíduos lhes
texto, diariamente, seja em ambiente profissional, pessoal, cultu- falham, também, a eles (Silverstone 2002b).
ral, cívico ou, muito importante, democrático (Gomes 2003, 65). A grande questão crítica, patente nesta discussão, está no
Um outro entendimento é possível, que é o de que a urgên- facto de o uso crítico, a par da responsabilização individual pelos
cia de uma literacia crítica para os média é uma necessidade da inputs ou processos de comunicação ser um passo importante a ca-
própria evolução e progresso dos meios de comunicação social, minho da democratização da regulação dos média e da promoção
dos antigos e dos novos, e da transição entre eles. As literacias de uma efectiva literacia para os média.
são uma variável constante, ou mudam com os média? A litera-
cia depende dos média, é uma co-produção de um envolvimento
interactivo entre tecnologia e utilizador. Por outro lado, literacia
crítica, quando associada aos novos média, é um conceito subs-
tancialmente diferente da literacia crítica associada aos média
tradicionais (Livingstone 2003, 15).
Em última análise, esta mudança de paradigma, dos média
ao centro para o indivíduo no centro da questão crítica, poderá
em si mesma contribuir para novas perspectivas sobre os média
e levar a novos cenários de mudança, para os quais é vital uma as-
sociação entre maior uso crítico, dos indivíduos, e qualidade, nas
estruturas mediáticas. Esse uso reflectido, a par de uma moraliza-
ção dos processos comunicacionais, permitirá um salto qualitati-
vo substancial em termos de regulação e incremento qualitativo
dos próprios mecanismos mediáticos. A internet, enquanto novo
média, carece infinitamente de parâmetros de compreensão para
melhorar a qualidade da experiência comunicacional, cujos agen-
tes de regulação podem, na perspectiva de Silverstone (2003), ser
os próprios utilizadores. A internet é o projecto mediático críti-
co, em termos de utilização crítica e de mediação das extensões
do indivíduo. A fraqueza dos média está, precisamente, na ine-

[64] [65]
O P2P E O FUTURO EM REDE
DO CINEMA EUROPEU
GUSTAVO CARDOSO, TIAGO LIMA QUINTANILHA,
MIGUEL CAETANO, RITA ESPANHA, PEDRO JACOBETTY
Sem filmes revolucionários e sem um público que os reclame, toda a in-
tenção de abrir novas formas de distribuição estaria condenada ao fracasso.
(Fernando Solana e Octavio Gerino,
Towards a Third Cinema, p. 59)

A produção e a distribuição cultural foram e continuam hoje em


dia a ser influenciadas pelo desenvolvimento tecnológico por inter-
médio de uma relação de interdependência com várias influências.
Exemplos disso podem ser encontrados ao longo da história dos
média, em épocas como o nascimento da imprensa, da rádio, da te-
levisão e hoje em dia da internet (Winston 1998, 8). As redes peer-to-
-peer (P2P) surgem como parte integrante de um fenómeno emer-
gente na internet. O P2P envolve um conjunto de protocolos com
uma característica essencial em comum: são os próprios utilizado-
res que constituem os nós da rede. Isto não significa a inexistência
de qualquer tipo de centralização mas sim que os utilizadores ac-
tuam como o suporte para o funcionamento das redes, o elemento
estrutural que contribui com conteúdos e recursos. Uma crescente
comunidade de utilizadores aliada ao acesso relativamente fácil a
ligações de alta velocidade são factores que contribuem para o cres-
cimento de redes de utilizadores capazes de ligar pessoas de todo
o mundo através dos computadores. Surgem assim novas ciberco-
munidades baseadas em novos processos de comunicação que con-
cedem às pessoas a possibilidade de integrar diferentes meios de

[67]
a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

comunicação em vastas redes de acesso partilhado. O factor dis- o utilizador apenas necessita de «pagar» ao contribuir com a sua
tância não assume qualquer papel neste tipo de comunicação de al- largura de banda para a comunidade de outros utilizadores.
cance global. Estas comunidades e suas capacidades acabam por ser Esta dualidade das redes P2P entre custos de distribuição re-
fortalecidas por uma cada vez maior velocidade de ligação aos con- duzidos — na medida em que a maior parte da largura de banda
teúdos online. De 2005 a 2008, a taxa de penetração de banda larga1 é «paga» pelos utilizadores — e a ausência de qualquer restrição
nos países da OCDE sofreu um aumento de 174,2 por cento e o seu física ao acesso é vista por muitos produtores de conteúdos como
valor cresceu 22,6 por cento apenas no último trimestre de 2008. uma ameaça aos seus modelos de negócio tradicionais. Não é, por
Dada a importância crescente das Tecnologias de Informação isso, surpreendente que desde há uns anos a esta parte estejamos
e Comunicação (TIC) num mundo globalizado, e tendo em conta a a assistir a uma estratégia concertada de pressão dos poderes le-
eficiência comunicacional e o rápido desenvolvimento tecnológico gislativo e executivo no sentido da adopção urgente de medidas
que lhes são inerentes2, é provável que o acesso global à internet de repressivas como a chamada «resposta gradual». Estas medidas
banda larga venha a aumentar ainda mais nos anos vindouros. É este visam suspender o acesso à internet do utilizador no caso de este
contexto que serve de base às redes P2P em que os utilizadores de- ser alegadamente apanhado três vezes seguidas a partilhar fichei-
sempenham simultaneamente o papel de construtores e participan- ros de obras protegidas por direitos de autor sem autorização dos
tes num processo de partilha de conteúdos e recursos tecnológicos. detentores de direitos. A França, através da lei HADOPI, foi o
Aquilo que mais diferencia a arquitectura das redes P2P de primeiro país do mundo a introduzir um regime de resposta gra-
outros protocolos de internet como o HTTP da World Wide Web3 dual. Desde então, Nova Zelândia, Coreia do Sul, Formosa e Rei-
é o modo como aquelas possibilitam uma reconfiguração da dis- no Unido adoptaram leis semelhantes.
tribuição dos produtos culturais. Em contraste com a economia Não obstante alguns dados enganadores e inconclusivos da
de mercado, nas redes P2P a partilha é uma condição sine qua non responsabilidade de fontes oficiais (Moya 2011), estas medidas
do sistema de trocas. A maioria consiste em redes de acesso li- não se afiguram suficientes para reduzir significativamente a par-
vre que exigem apenas o recurso a software cliente4 passível de ser tilha não autorizada de ficheiros, nem tão pouco parecem con-
obtido gratuitamente online. Não há qualquer troca de dinheiro tribuir para o crescimento das receitas económicas dos sectores
entre o utilizador e o fornecedor do serviço ou com os restan- económicos que se sentem mais prejudicados por essa prática.
tes utilizadores. Sempre que faz download ou upload de ficheiros, O argumento de que cada cópia feita corresponde a uma ven-
da perdida, pelo que a realização de cópias deve ser proibida, não
1 A taxa de penetração consiste no número de ligações de banda larga (aquelas com uma surgiu com as redes P2P. Pelo contrário, ao longo das últimas dé-
velocidade superior a 256 Kbps) por habitante.
2 Em 2007, a taxa de penetração da banda larga era de 4,6 por cento a nível global (In- cadas, ele foi invocado várias vezes pelas indústrias discográfica e
ternet World Stats). cinematográfica. Primeiro com as cassetes áudio, mais tarde com
3 Hoje em dia maioritariamente dominada por enormes organizações com fins lucrativos
como a Google, o Facebook e a Amazon — empresas cujo modelo de negócio assenta res- o gravador de vídeo (Lessig 2004). No entanto, estes dois supor-
pectivamente na publicidade, na exploração dos dados relativos aos hábitos online dos seus
utilizadores e no comércio electrónico.
tes acabaram por ser adoptados por ambas as indústrias como
4 Programa que serve de interface entre um utilizador, o computador e a rede em que plataformas de distribuição, daí que seja premente averiguar se a
funciona.

[68] [69]
a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

estratégia da repressão estará novamente condenada ao fracasso. mos de tráfego de internet1. Para esta evolução muito contribuí-
No caso do cinema europeu que, ao contrário da tradição de fi- ram o recrudescimento da importância da Web2 e o aparecimento
nanciamento privado característica dos Estados Unidos, é maio- das plataformas de streaming de vídeo3, bem como dos chamados
ritariamente financiado por dinheiros públicos, a aplicação destas «cibercacifos»4. Seja como for, os dados disponíveis são suficiente-
medidas pode ser mesmo contraproducente face às políticas cul- mente sólidos para acreditar que o P2P continua a crescer em ter-
turais da União Europeia. Se o financiamento da produção cine- mos absolutos, estimando-se que o seu nível de utilização mundial
matográfica europeia visa aumentar a igualdade de oportunidades represente ainda hoje 25 por cento de todo o tráfego de internet5.
no mercado de distribuição audiovisual e permitir o acesso do
público a perspectivas artísticas e culturais que não as representa- FIG. 1 EVOLUÇÃO DOS PROTOCOLOS DA INTERNET, 1993-2006
das pelos blockbusters de Hollywood, não deveriam as autoridades 70

Percentagem de tráfego na internet


e-mail FTP
nacionais e europeias apoiar este novo ambiente mediático? A 60
P2P Web

questão adquire uma maior pertinência se tivermos em conta que 50


este mesmo ambiente dos novos média está a incentivar o apare- 40 53,6

cimento de uma cultura da participação em que os utilizadores 30


passam a ter acesso directo às obras dos criadores, podendo desta 20
forma contribuir para a sua promoção através da criação de legen- 10
das, remisturas e mash-ups (Jenkins 2006). A obscuridade, que al- 0
93 94 95 96 97 98 99 00 01 02 03 04 05 06
guns consideram ser a maior ameaça aos cineastas independentes
em lugar da pirataria (O’Reilly 2002), é deste modo combatida. fonte: CacheLogic (2006).
No intuito de investigar de forma mais aprofundada esta hi-
1 De acordo com vários estudos de utilização de largura de banda realizados por em-
pótese, iniciamos este artigo com uma descrição sumária do fenó- presas de monitorização de tráfego de rede como Sandvine, Ipoque, Arbor Networks e
meno global emergente que o peer-to-peer constitui. Cisco. Os resultados destes estudos foram condensados num relatório técnico publicado
em Janeiro de 2011 pela Envisional (Envisional 2011).
2 Sobretudo com o aparecimento de redes sociais (Facebook e Twitter, por exemplo),
Google, Wikipedia e blogues, entre outras plataformas.
3 Como por exemplo: YouTube, DailyMotion, Hulu e Netflix.
O PEER-TO-PEER EM CONTEXTO 4 Sites de alojamento de ficheiros baseados na Web como Rapidshare, MegaUpload,
4Shared e Hotfile que, tal como o P2P, são usados para partilhar filmes, séries televisivas e
álbuns de música. Ao contrário das redes P2P, que exigem o recurso a uma aplicação clien-
O volume de tráfego P2P era até há uns anos atrás superior ao de te específica (como o uTorrent para BitTorrent ou o eMule para eDonkey), os utilizadores
de um cibercacifo apenas necessitam de um navegador da Web para guardar ou aceder aos
todos os restantes protocolos de rede na maioria das regiões ana- conteúdos aí guardados. A Envisional estima que os cibercacifos são responsáveis por cer-
lisadas, à excepção do Norte de África e do Médio Oriente (fig. 1). ca de sete por cento do tráfego de internet (Envisional 2001, 47).
5 «É extremamente difícil determinar a porção do tráfego de internet que corresponde
O crescimento da percentagem do tráfego P2P começou logo ao peer-to-peer. A proporção varia de estudo para estudo e, de entre estes estudos, de região
para região. (…) Tendo em conta as devidas cautelas, esta análise estima que o P2P repre-
com a criação do Napster em Setembro de 1999. Contudo, recen- sente à escala global 25 por cento de todo o tráfego de internet. Partindo desta leitura,
temente, este protocolo de rede perdeu a sua supremacia em ter- pode-se considerar que o protocolo BitTorrent ocupa 17,9 por cento de toda a largura de
banda da internet» (Envisional 2011).

[70] [71]
a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

Em todo o caso, este cálculo não engloba o número de utiliza- FIG. 2 DISTRIBUIÇÃO DOS PROTOCOLOS DA INTERNET, 2011
dores neste tipo de redes ou a quantidade de ficheiros que são ESTIMATIVA DE USO GLOBAL DA INTERNET
DADOS RETIRADOS DE QUATRO ESTUDOS (SANDVINE, CISCO, IPOQUE, ARBOR)
partilhados nas redes P2P, uma vez que as operações levadas
a cabo por utilizadores e o tamanho dos ficheiros envolvidos
são duas características bastante irregulares. «O tamanho é,
de facto, o maior problema nos ficheiros vídeo, uma vez que é Streaming de vídeos 26,5%
maior do que qualquer ficheiro de texto, fotografia ou áudio. Web 33%
O aumento da largura de banda disponível deverá, aliás, gerar
um compreensível aumento do tráfego de dados, isto é, caso os
consumidores desejem descarregar filmes com uma qualidade
BitTorrent 17,9%
de imagem em alta definição» (Mayer-Schönberger 2008, 252).
Outros/Sem classificação 5,2%
Um indício disso mesmo é o facto de, «nos maiores países da Jogos 0,5%
VOIP 1,0% Usenet 0,9%
UE, entre 15 a 30 por cento dos assinantes de internet de banda Cibercacifos 7,0%
VPN 1,8% eDonkey 1,8%
larga utilizarem pelo menos uma aplicação peer-to-peer, subin- Outros P2P 2,0% Gnutella 2,3%

do este número para duas entre os lares que recorrem ao P2P» fonte: Envisional (2011).
(Gavosto et al. 2008, 289).
Há inúmeros protocolos P2P em funcionamento na inter- O grande volume de dados existentes torna a partilha mais difícil,
net. De modo a determinar os mais importantes, é possível uti- razão pela qual os utilizadores são encorajados a tirar partido da
lizar alguns critérios, tais como: o número de computadores eficiência do protocolo BitTorrent.
que uma determinada plataforma instalada tem, a disponibili- A arquitectura do BitTorrent tenta também combater o
dade de conteúdos e a quantidade de operações geradas em free-riding, conceito que, no que se refere às redes P2P, diz res-
cada plataforma. No entanto, quando se tenta ler os números, peito àqueles utilizadores que descarregam (fazem download)
todos estes critérios podem levar a interpretações enviesadas sem partilhar. De modo a impedir este tipo de comportamento,
e erróneas. Por um lado porque, apesar de um programa poder o protocolo integra dois mecanismos: os utilizadores de BitTor-
estar instalado num computador, os seus utilizadores podem rent não podem fazer o download de um ficheiro sem automa-
não conseguir tirar partido da sua utilização. No que respeita à ticamente disponibilizarem partes desse ficheiro incompleto
disponibilidade dos conteúdos, não há informação clara sobre que está a ser descarregado; e os utilizadores devem ter um rá-
se esse conteúdo está ou não a ser extraído a dado momento. cio superior a uma unidade entre uploads e downloads (Werbach
E, por outro lado, pode sempre dizer-se que um alto volume de 2008, 103). Se as características do BitTorrent podem contribuir
operações pode também ser o resultado de um conjunto não para um maior número de downloads bem-sucedidos, a rapidez e
muito grande de utilizadores, ideia que pode desvalorizar a efi- facilidade destes não é sempre garantida, especialmente no caso
cácia deste indicador. dos conteúdos vídeo.

[72] [73]
a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

Embora, como já referimos, seja relativamente difícil precisar permite aos utilizadores descarregar muito mais rapidamente os
o número de utilizadores regulares de todos os protocolos P2P, ficheiros completos do que se dependessem unicamente da veloci-
existe uma fonte fidedigna de dados sobre BitTorrent, a empresa dade de ligação de um único par.
responsável pelo cliente original, bem como pelo uTorrent, a apli- Este artigo tem como objecto de análise o The Pirate Bay,
cação de BitTorrent mais popular do mundo. Em Janeiro de 2011, um dos sites de BitTorrent mais populares1. Na altura em que
os clientes somados tinham mais de cem milhões de utilizadores iniciámos este estudo, o The Pirate Bay possuía o maior tracker
activos por mês e 20 milhões de utilizadores diários activos em do mundo, tanto em termos do número de utilizadores como
cerca de 220 países (BitTorrent, Inc. 2011). de volume de tráfego. Em 2007, este tracker tinha o maior volu-
Condição essencial para o funcionamento correcto do proto- me de tráfego de entre todos os restantes para todas as regiões
colo BitTorrent é a existência de servidores centrais denominados analisadas pela Ipoque no seu Internet Study. Olhando de per-
trackers. Os clientes dos utilizadores comunicam os trackers para to as estatísticas de utilização do The Pirate Bay, detectamos
encontrar outros utilizadores que já possuem uma cópia comple- uma grande quantidade de utilizadores ligados a este tracker
ta dos ficheiros solicitados (geralmente conhecidos por seeders) ou que se encontram espalhados pelo mundo. O The Pirate Bay
que estão também a descarregar os ficheiros naquele exacto mo- pode assim ser considerado uma plataforma privilegiada de
mento (leechers). Contudo, esta intervenção é apenas necessária observação. Desta forma, a análise que se segue centra-se em
para dar início aos downloads. A partir daí, todas as comunicações dados obtidos a partir do seu site sobre os seus utilizadores e os
entre clientes (ou pares1, como também são conhecidos) podem conteúdos que eles partilham.
ocorrer na ausência de um tracker. Convém salientar que um track- Não obstante a sentença emitida contra os seus fundadores,
er não aloja qualquer dos ficheiros partilhados entre os utilizadores o The Pirate Bay é frequentemente comparado pelos seus defenso-
de BitTorrent. Todo o conteúdo disponível é alojado pelos pares res a um motor de pesquisa como o Google, na medida em que este
e partilhado entre estes. O tracker apenas aloja os ficheiros torrent também indexa e encaminha os utilizadores para ficheiros de obras
contendo metadados, isto é, informação a respeito dos ficheiros ilícitas (Fleischer 2008). A reforçar ainda mais esta similaridade de
que os utilizadores solicitam. Cada torrent constitui assim um tipo
de índex do ficheiro a ser transferido. Fica pois claro que um torrent 1 Importa aqui abrir um parêntesis por forma a contextualizarmos a actual situação ao
não pode ser considerado material protegido por direitos de autor. nível das plataformas que resolvemos incluir neste artigo. Assim, apesar de este estudo
(em particular a parte empírica) ter sido iniciado antes de 17 de Abril de 2009 — quando
O ficheiro requisitado é em seguida dividido pelo torrent em várias os três fundadores do The Pirate Bay (Peter Sunde, Fredrik Neij e Gottfrid Svartholm) e
pequenas partes de igual dimensão. Os pares partilham essas par- o investidor Carl Lundström foram considerados culpados de assistência ao cometimen-
to de infracções ao direito de autor por um tribunal sueco — e mesmo que uma grande
tes dos ficheiros com o maior número possível de outros pares. No maioria dos dados aos quais nos reportamos lhe estejam directamente associados, não
final, os ficheiros solicitados são então novamente combinados a deixamos de considerar credíveis os dados e as considerações que apresentamos. Uma
vez que o número total de utilizadores em todas as plataformas BitTorrent ultrapas-
partir dessas pequenas peças, exactamente como a imagem final sa claramente o número de utilizadores do The Pirate Bay, existem razões sólidas para
acreditar que se trata de uma amostra representativa do universo do P2P. Em todo o
resultante de todas as partes separadas de um puzzle. Este processo caso, a possibilidade dos utilizadores deste site migrarem para outras plataformas de Bit-
Torrent será certamente mais provável que o fim puro e simples deste fenómeno de
1 Peers no original em inglês. massas no tocante à utilização da internet.

[74] [75]
a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

funções está também o facto de o Google permitir que os utilizado- FIG. 3 O THE PIRATE BAY EM NÚMEROS
res pesquisem e encontrem ficheiros torrent 1. UTILIZADORES DO THE PIRATE BAY POR DIA E POR PAÍS (MILHARES)
Após a condenação de Abril de 2009, os responsáveis pelo Rússia 133
The Pirate Bay decidiram encerrar o tracker como medida de pre- Portugal 139
caução contra outros eventuais reveses jurídicos. Em seu lugar, Brasil 309
foi adoptada uma arquitectura mais descentralizada, assente em Suécia 385
tecnologias como Distributed Hash Tables (DHT) e Peer Exchange Alemanha 391

(PEX), que tornam os trackers desnecessários (Ernesto 2009b). Canadá 579

Os utilizadores que não querem ou podem descarregar torrents França 647

através de um navegador da Web podem agora obter links magnet Reino Unido 796
796
de outros pares e começar imediatamente a descarregar os con- Espanha
EUA 1632
teúdos pretendidos. Aqueles que pretendem disponibilizar con-
China 3301
teúdos a outros e promovê-los no The Pirate Bay podem agora
efectuar upload dos ficheiros para trackers públicos de BitTorrent 0 500 100 1500 2000 2500 3000 3500
sem motor de busca ou índex associado. Em Junho de 2010, o Pu- fonte: ThePirateBay Tracker Geo Statistics (http://geo.keff.org).
blicBitTorrent e o OpenBitTorrent, dois trackers dessa nova gera-
ção, lideravam a lista dos maiores do mundo (Ernesto 2010a). Trackers públicos como o The Pirate Bay não são, no entanto,
o único tipo de sites torrent disponíveis. Também relevantes para
a nossa análise são trackers como o português BTnext.com. Nes-
1 Esta similaridade entre ambos os sites não passou despercebida à Google, que em 2009 sentiu tes trackers privados, o acesso está reservado a quem receber um
necessidade de publicar um post no blogue oficial da sua subsidiária italiana para defender-se da-
queles que acusam a empresa de facilitar a realização de infracções ao direito de autor. De acordo convite de um dos membros. De modo a combater o free-riding, os
com a Google, o seu motor de pesquisa: 1) indexa todo o tipo de dados disponíveis online, inde-
pendentemente dos formatos dos ficheiros; 2) disponibiliza várias ferramentas para a notificação
responsáveis aplicam um rácio de partilha que impede os utiliza-
e remoção de conteúdos ilegais dos seus resultados de pesquisa (Pancini 2009). Uma dessas fer- dores de gastarem mais recursos (mediante o download de fichei-
ramentas é o ContentID, um mecanismo tecnológico implementado no YouTube que permite
que os detentores de direitos bloqueiem videoclips infractores ou, em alternativa, insiram publici- ros) do que aqueles com que contribuem (ao fazerem upload). Este
dade de modo a gerarem receitas. A mensagem secreta neste post da Google é que o The Pirate mecanismo funciona como um incentivo para os utilizadores con-
Bay apenas indexa ficheiros torrent e não faz qualquer esforço para cooperar com Hollywood e as
maiores companhias discográficas sempre que apresentam queixas. A este respeito, basta lembrar tinuarem a disponibilizar os torrents para partilha (fazer seeding)
as respostas sarcásticas aos avisos legais enviados pelos estúdios de cinema, que são regularmente depois de concluirem o download durante o maior período de tem-
publicadas pelos responsáveis do The Pirate Bay, sem as quais o site de BitTorrent nunca teria
alcançado a fama mundial de que hoje em dia goza. Mais recentemente, a Google reforçou a sua po possível. Aqueles que não conseguirem manter o rácio mínimo
colaboração com a indústria do entretenimento ao adoptar uma série de medidas antipirataria,
comprometendo-se a responder a pedidos ao abrigo do direito de autor de remoção de conteúdos
estipulado são banidos do site. Na medida em que a comunidade
no prazo de 24 horas e impedindo que termos que possam estar associados à pirataria apareçam exerce maiores poderes de moderação nestes sites do que nos pú-
na funcionalidade autocomplete durante a introdução dos termos de pesquisa (Walker 2010). Mas
embora termos específicos como «BitTorrent», «torrent», «uTorrent», «RapidShare» e «MegaU- blicos, os membros têm mais garantias de que os torrents não se
pload» tenham deixado de aparecer nas sugestões de pesquisa do Google (Ernesto 2011), o facto é encontram corrompidos por vírus ou spyware.
que continua a ser possível encontrar links para conteúdos ilegais.

[76] [77]
a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

De entre os trackers privados de BitTorrent, é possível iden- «mundos da arte» (Becker 1982). Estes «mundos», tal como o cine-
tificar vários tipos. Ainda que a grande maioria deles sejam pe- ma europeu, assumem diferentes lógicas de produção e consumo.
quenas comunidades dedicadas a conteúdos bastante específicos, De modo a comparar a posse de uma obra de arte a uma forma de
os maiores trackers privados são aqueles onde é possível encon- capital semelhante ao capital económico, Bourdieu, por seu lado,
trar qualquer tipo de conteúdo1. Este é o caso do Btnext.com, prefere usar o termo «capital simbólico»:
o maior tracker português de BitTorrent. Em seguida e antes de
analisarmos os números e dados empíricos relativos à relação en- Quando reproduzem as diferenças meramente económicas atra-
tre o cinema europeu e as redes P2P, examinaremos as principais vés de diferenças geradas a partir da posse de bens simbólicos
culturas cinematográficas existentes, com especial ênfase para o como obras de arte ou distinções simbólicas na forma de usar
cinema europeu. esses bens, as classes privilegiadas alcançam o seu sonho […] de
conciliar, à maneira da velha aristocracia, o poder temporal com a
grandeza espiritual ou a elegância mundana. (Bourdeu 1992, 280)
O QUE É O CINEMA EUROPEU?
HISTÓRIA E RELAÇÃO COM O MERCADO CINEMATOGRÁFICO Nos dias de hoje, uma bem preparada e qualificada classe média
NORTE-AMERICANO também passou a valorizar o consumo de arte como uma forma
de capital disponível. Contudo, ao não disporem dos recursos
Tal como todas as formas de arte, o cinema resulta de um traba- das classes mais altas para adquirirem obras de arte dispendiosas,
lho colectivo. Assim como Howard Becker (1982) refere em Art a classe média vira-se para outros tipos de produção artística que
Worlds, a análise da arte deve ser sempre integrada no que desig- não exigem um investimento económico tão elevado mas que, no
na de redes socialmente organizadas de actividades (processo que entanto, lhe concedem alguma espécie de «distinção». Uma das
vai do criador ao consumidor, passando por intermediários — as razões para a procura de cinema europeu num mundo dominado
indústrias dos bens de produção e as responsáveis pela cobertura por grandes grupos multimédia e filmes do tipo blockbuster.
mediática, etc.). Isto permite desmitificar o termo socialmente A discussão sobre estilos cinematográficos não é recente.
construído que é a palavra arte e assim adoptar uma abordagem Esta é, aliás, uma discussão que tem acompanhado a evolução
sociológica deste fenómeno2. As convenções desempenham um das indústrias do cinema ao longo de décadas. Em primeiro lu-
papel crucial no pensamento de Becker, para quem a audiência gar, convém reconhecer que não existe uma só indústria cinema-
é quem constrói aquilo a que chama de «sistemas estéticos» ou tográfica com códigos de produção e actuação unificados, mas
sim uma enorme variedade de indústrias que privilegiam ideias
1 Música, cinema europeu e asiático, livros, revistas, séries televisivas, jogos de consolas, e estilos distintos. A ideia de que tudo se tem passado median-
programas informáticos, etc.
2 «Quando desenhou um bigode numa reprodução comercial da Mona Lisa e a assinou, te um prolongamento hegemónico da indústria cinematográfi-
Marcel Duchamp fez com que Leonardo da Vinci se tornasse um elemento do seu pessoal
de apoio.» (Becker 1982, 20). Esta apropriação do trabalho artístico de outrem é hoje mui-
ca dos EUA é errónea. Assim, remetendo para segundo plano o
to comum na forma de remisturas de músicas, frequentemente publicadas em sites como o lugar-comum que atribui à Europa o título de região do cinema
YouTube.

[78] [79]
a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

para audiências restritas, importa começar por mencionar os vam a realização de filmagens nas ruas com pequenas equipas de
posicionamentos e reposicionamentos históricos do cinema eu- produção, tornando assim desnecessária a construção de cenários.
ropeu em reacção a outros mercados, em especial ao dos EUA, (Taplin, 2007)
para posteriormente elencar as características distintivas das
suas produções. Foi a partir daqui que surgiu o Neo-Realismo na Itália e a Nouvelle
O período inicial do cinema, no início do século xx, foi for- Vague em França, com realizadores como Fellini e Antonioni que
temente marcado pelos desenvolvimentos ocorridos em França: começavam a produzir filmes que reflectiam o «mundo real». Na
França do final dos anos 50, realizadores como Truffaut, Chabrol e
De tal modo que, nos países que mais importavam filmes france- Godard contavam histórias românticas com uma sofisticação que
ses, a necessidade intrínseca do recurso à legenda acabou por fazer jamais seria aceite pelo código de conduta de Hollywood. Igual-
desta uma opção economicamente acessível. O custo de produzir mente na Suécia, Ingmar Bergman começava a realizar filmes a par-
uma versão em inglês de um filme silencioso francês era insignifi- tir de um ângulo original, girando em torno de questões filosóficas.
cante já que apenas era necessário legendá-lo. (Taplin 2007) Estas novas técnicas de narração de histórias introduzidas pe-
los europeus conduziram a uma década de declínio do cinema dos
Em todo o caso, a crescente turbulência política que se fazia sen- EUA. A capacidade de reinvenção do cinema norte-americano em
tir no Velho Continente fez com que o predomínio do cinema termos estratégicos veio, no entanto, a impossibilitar um período
europeu caísse por terra. Muitos produtores começaram a mudar- mais alargado de hegemonia das produções de origem europeia.
-se para a Califórnia onde, mais tarde, se veio a instalar um pe- «No final dos anos 70, Hollywood recuperou a sua forma graças ao
queno número de grandes estúdios que, por sua vez, deram ori- êxito de uma série de sucessos de bilheteira como Tubarão e Guer-
gem ao Sistema de Estúdios de Hollywood. A «Era de Ouro» de ra das Estrelas, entre outros.» (Holt, Perren e Wiley 2009, 53). Para
Hollywood teve logo depois o seu início. além disso, o novo cinema norte-americano, com as suas grandes
No período após a Segunda Grande Guerra, o ambiente do produções e referências (Coppola, Lucas, Scorsese ou Spielberg) e
cinema mundial permaneceu instável, com as grandes inovações tirando partido de estratégias de marketing fortíssimas, dá origem à
em termos de logística e materiais introduzidas nos cinemas euro- era do blockbuster. Com isto, os problemas associados à distribuição
peu e asiático a constituírem um novo desafio para a indústria dos e consumo do cinema europeu agudizaram-se: «O recurso ao pro-
EUA. Estas alterações ficaram sobretudo a dever-se à: duct placement e o lançamento de novos produtos como artigos de
merchandising fizeram com que os filmes de Hollywood se tornas-
(…) adopção de câmaras de filmar mais leves fabricadas na Euro- sem mais comerciais» (Moul 2005, 12). Por outro lado, «na mesma
pa (ex.: Arriflex e Aaton) que tinham sido concebidas para serem altura em que Hollywood tinha acabado de estrear um novo género
usadas na produção de filmes de actualidades. Ao contrário das de acção, os produtores europeus e asiáticos começaram a passar
pesadas câmaras Mitchell usadas em Hollywood que exigiam uma por uma crise de talento, por sinal bastante semelhante ao que se
grua mecânica para se deslocarem, as câmaras de mão possibilita- tinha passado nos EUA no início dos anos 60» (Taplin 2007).

[80] [81]
a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

Dados do Statistical Yearbook 1997, da Unesco, revelam um SERÁ O CINEMA EUROPEU CARACTERIZADO POR FORMAS
elevado nível de consumo de cinema com origem nos EUA — par- DIFERENTES DE DISTRIBUIÇÃO E EXIBIÇÃO?
ticularmente no caso do continente europeu. Dada a abertura ge-
neralizada dos mercados, o expectável é que, passados mais de dez Esta questão parece ser de resposta dupla. Em teoria e tendo em
anos, ocorra uma predominância ainda mais acentuada dos filmes conta que a revolução tecnológica oferece as mesmas condições
norte-americanos. em todo o lado, as formas de distribuição são idênticas às de qual-
quer outro cinema regional. Contudo, na prática as formas de dis-
tribuição do cinema europeu acabam involuntariamente por ser
UMA ABORDAGEM COMPARATIVA distintas dos restantes, em particular do cinema dos EUA. Com
o predomínio da distribuição dita tradicional (via salas de cinema
Para se perceber melhor o nosso ponto de vista segundo o qual e, mais recentemente, com a TV) associada a artigos de merchan-
o cinema europeu possui um conjunto de características especí- dising de origem norte-americana, produzidos em massa e de alta
ficas, colocamos em seguida uma série de questões que nos per- rentabilidade, a principal forma de consumo de filmes europeus
mitirão diferenciá-lo dos demais, sobretudo do norte-americano. pode hoje em dia ser encontrada nos meios de partilha e download
de ficheiros, como iremos aprofundar mais à frente.
SERÃO OS FILMES EUROPEUS PRODUZIDOS DE FORMA
DIFERENTE? FIG. 4 NÚMERO DE FILMES PRODUZIDOS
NOS EUA E UNIÃO EUROPEIA
A resposta é um «sim» inequívoco. Do ponto de vista histórico, Filmes produzidos pelos 27 países da UE
o cinema europeu sempre foi considerado como tendo uma forte Filmes produzidos pelos EUA

componente artística, concedendo um ênfase especial ao actor


1048 1033 1145
enquanto personagem e essência da própria produção. Pelo con- 929
870
trário, o cinema norte-americano é visto como sendo mais orien-
tado para as vendas e para o lucro. «Embora a indústria cinema- 656
tográfica dos EUA possa ter algumas características específicas, 699 673
611 520
ela continua a ser uma indústria que visa o lucro. (…) Os filmes de
Hollywood são feitos porque são considerados uma actividade lu-
crativa ou de baixo risco» (Moul 2005, 17). Podemos por isso dizer fonte: World Film Market Trends, Marché du film 2009.
que estas são duas formas diferentes de cinema, com a dimensão
económica a assumir especial relevância na conceptualização e Com efeito, apesar de nos últimos anos o número total de fil-
produção dos filmes norte-americanos e uma menor importância mes de origem europeia ter sido claramente superior aos de
nas produções de origem europeia. origem nos EUA, dados relativos ao ano de 2003 demonstram

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

que os filmes norte-americanos foram exibidos em cerca de 35 Como os dados das tabelas demonstram, a grande maioria dos fil-
mil salas, ao passo que os filmes produzidos na Europa se fica- mes que estrearam na União Europeia nesse mesmo ano tiveram
ram por aproximadamente 25 mil ecrãs. Acresce ainda que os origem nos EUA. Esta é, aliás, uma tendência que se tem vindo a
filmes europeus são aqueles que permanecem menos tempo em verificar há largos anos.
cartaz, o que deixa de alguma forma indiciar um declínio desta Outro dado referente a 2008 é que os filmes mais vistos na Eu-
forma tradicional de distribuição neste caso específico. De sa- ropa ao longo de 2008 foram maioritariamente produções norte-
lientar que isto ocorre apesar de o número de produções norte- -americanas, sendo que praticamente todos aqueles que tiveram
-americanas ter diminuído ao longo dos últimos anos, ao con- origem na Europa foram co-produções entre o Reino Unido e os
trário das produções europeias cujo número por ano tem sido EUA. Esta tendência manteve-se no primeiro semestre de 2009 no
cada vez maior. Mas, não obstante a recente queda no número que se refere aos cinco maiores mercados europeus de consumo de
de produções, em 2008 os filmes norte-americanos represen- cinema. Filmes como O Estranho Caso de Benjamin Button ou Anjos e
taram 63,20 por cento do total das receitas cinematográficas Demónios lideraram as tabelas de vários países.
geradas na Europa.
SERÃO AS FONTES DE FINANCIAMENTO
DO CINEMA EUROPEU DIFERENTES?
O CINEMA NA EUROPA
Corroborando ainda mais os argumentos «históricos», o sistema
distribuição de cinema na europa, por país de produção (%)
Região 2005 2006 2007 2008 2009*
de financiamento dos filmes europeus é distinto daquele que en-
Filmes europeus 24,6 27,9 28,1 28,2 26,7 contramos nos EUA, onde desde cedo o cinema se assumiu como
Co-produções UE/EUA 10,3 5,6 7,5 4,4 4,2 um negócio com fins lucrativos conduzido por privados. Em con-
EUA 62,5 63,4 62,6 65,6 67,1 trapartida, o cinema europeu esteve sempre associado a formas de
Outros 2,6 3,2 1,8 1,8 2,0
financiamento público, pelo que a sua história não pode, por isso,
* Previsão
ser dissociada de um certo cariz governamental e de interesse pú-
filmes europeus, por país de produção (%)
França (FR) 9,2 10,6 8,4 12,1 8,7
blico. A título de exemplo, o governo francês desempenhou um pa-
Reino Unido (GB) 3,9 2,8 6,1 2,3 3,9 pel muito activo na promoção da importância cultural da indústria
Itália (IT) 2,9 3,0 3,8 3,6 3,0 nacional do cinema. «Na Europa, o mercado e as artes são consi-
Alemanha (DE) 3,2 4,8 3,8 3,6 4,1 derados como companheiros de cama forçados. (…) Hoje em dia
Espanha (ES) 2,3 2,8 2,1 1,6 1,9
boa parte da elite cultural da Europa receia a cultura comercial e
Outros países europeus 3,1 3,9 4,6 5,0 5,1
alega que os subsídios são essenciais para financiar a alta cultura»
(Ginsburgh e Throsby 2006, 1185). Esta noção está relacionada com
fonte: Observatório Europeu do Audiovisual (EAB) — Base de dados LUMIERE. a ideia de que o mercado requer poder aquisitivo. «Quem paga, tem
direito a entrar. As forças de mercado idiotizam as expressões da

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

cultura de elite de forma a obter a atenção das massas» (Ginsburgh FIG. 6 EVOLUÇÃO DO VOLUME TOTAL DE FUNDOS PÚBLICOS
e Throsby 2006, 1186). Deste modo, o cinema europeu acaba tam- APLICADOS AO SECTOR DO CINEMA E AUDIOVISUAL NA EUROPA
bém por implicar «processos complexos de produção cinematográ- (1998-2004) (EM MILHARES DE EUROS)
fica independente que combinam empreendedorismo de pequena
1500
escala e um aclamado cinema de autor com mecanismos de finan- Supranacional
ciamento nacionais» (Elsaesser 2005, 563). 1200
Outros EUR 32
BE
Como se pode constatar em cima, a entrada na última década SE DK
NO
IT
foi marcada por um aumento nos fundos públicos destinados à 900 ES
NL
GB
indústria cinematográfica europeia, particularmente no caso da
600 DE
França, Alemanha e Itália. No que diz respeito aos vários mode-
los de financiamento, em baixo pode-se ver um exemplo de uma
300 FR
produção europeia cujo orçamento adveio em 80 por cento de
apoios financeiros associados ao Estado. 0
1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004
As fontes de financiamento disponíveis para os produtores
de cinema europeu têm várias origens, desde fontes nacionais a fonte: European Audiovisual Observatory/KORDA database.
supracionais — todas com formatos diferentes. Para além da pos-
sibilidade de os produtores e autores se candidatarem a financia- FIG. 7 MODELO DE FINANCIAMENTO PÚBLICO DE UM FILME EUROPEU
mentos nacionais com origem no Estado, os fundos para os filmes empresa de
europeus são geralmente indirectos, o que quer dizer que o Esta- banco garantia
produção
fornece
do é considerado um co-produtor. Em Portugal, por exemplo, os mínima do
agente
Orçamento
30% de do projecto de
produtores, realizadores e argumentistas têm acesso a um concur- financiamento garantia comercial filme: €10M
do supergap suportada
so público cuja periodicidade é normalmente anual. Caso o seu + pelo governo 200% do Gap: 30% Supergap
totalidade do €6M
projecto seja aprovado, poderão receber até 30 por cento do total empréstimo
10%
Contrato de
do orçamento previsto para o filme. Este montante será reembol- financeiro Distribuição
interno
10% Capital
sado se o filme conseguir gerar lucro na bilheteira. Os restantes Próprio do
Produtor
70 por cento devem ser obtidos a partir de outras fontes. Caso 80% da quan-
tia total do 20% Acordo
sejam nacionais de um dos países do Conselho da Europa, os inte- empréstimo: de Instalações
€8M
ressados poderão ainda candidatar-se a fundos do programa Euri- 20% Subsídio de
Financiamento
mages que, após análise das candidaturas e consequente votação, Taxa/Prémio: a do Contrato
definir
se poderá tornar num parceiro de financiamento. Contudo, não Juros: a definir
10% Acordo de
Impostos
só a percentagem de financiamento é variável (pois depende dos
projectos apresentados e aprovados), como existe um requisito fonte: cineuropa/finalreport/12 May 2009.

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

formal: apenas os projectos que constituem co-produções artísti- Em alternativa ao modelo de financiamento público, no modelo
cas e técnicas entre países do Conselho da Europeu são apoiados. privado de financiamento de um filme — característico dos EUA
Tal condição explica, em grande medida, o facto de em décadas (fig. 8) — os bancos são quem desempenha um papel fundamental
recentes tantos filmes europeus serem co-produções europeias. na produção dos filmes, através de concessão de créditos. Pode-
O programa Eurimages estimula ainda a exibição dos projectos mos, por isso, argumentar que existe um padrão dicotómico no
subsidiados nas salas dos países envolvidos. que diz respeito ao financiamento de cinema.
Em Portugal e Espanha existe ainda uma fonte de financia-
mento adicional que é o programa IberMedia, cujos termos de SERÁ O CINEMA EUROPEU CARACTERIZADO
funcionamento são semelhantes aos do Eurimages mas que ape- POR UMA FORMA DIFERENTE DE CONTAR HISTÓRIAS?
nas inclui países ibero-americanos, nomeadamente Argentina,
Brasil, Bolívia, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Chile, Equador, Es- Aqui a resposta é mais uma vez sim. O cinema europeu tem a repu-
panha, México, Panamá, Peru, Portugal, Porto Rico, República tação de ser mais liberal no que se refere às representações do cor-
Dominicana, Uruguai e Venezuela. Os recursos económicos do po e da nudez (Elsaesser 2005, 563). Esta é, aliás, uma característica
fundo provêm essencialmente das contribuições dos estados par- que o diferencia muito dos primórdios de Hollywood, onde existia
ticipantes no fundo e do reembolso dos empréstimos concedidos. um grande receio da potencial influência do cinema europeu nas
normas morais da sociedade mais conservadora dos EUA no que à
FIG. 8 MODELO DE FINANCIAMENTO PRIVADO sexualidade diz respeito. Para além disso, o cinema europeu pare-
DE UM FILME NORTE-AMERICANO ce estar menos associado às temáticas ligadas à violência, que são
recorrentemente contadas no cinema de origem norte-americana
estúdio norte- sobre a máfia ou em «géneros de Hollywood como o filme clássico
-americano
pequeno/ de gangsters ou ainda o filme sobre a senda de vingança da mulher
principal
banco fornece
volume de
que é violada» (Elsaesser 2005, 563). Mais ainda, o cinema europeu
facilidade de
crédito mid-cap negócios anual
do estúdio:
sempre procurou reflectir o mundo real, «enquanto o filme clássico
Facilidade de
€20M crédito usada de Hollywood se centra em torno de um protagonista activo que
para:
Produzir e enfrenta vários obstáculos para alcançar determinados objectivos.
e disponibilizar
custos de edição As acções e desejos das personagens principais conduzem a histó-
(cópias, dobragem
bens do e legendagem)
ria através de uma cadeia sequencial de causa-efeito, sendo os seus
estúdio:
Taxa: 3%
e promoção e
publicidade para
planos de visão filmados com um trabalho de câmara e técnicas de
Juros: 7% Uma biblioteca
de filmes
uma nova lista edição convencionais» (Holt, Perren e Wiley 2009, 52).
provisória de
filmes Não menos importante é o facto de o cinema europeu nunca
ter atribuído uma grande prioridade à necessidade de atrair gran-
fonte: cineuropa/finalreport/12 May 2009. des audiências — ao contrário da indústria americana que sempre

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

a sentiu. Estamos assim perante um cinema considerado mais «eru- dos fundos públicos que qualificam este tipo de cinema regio-
dito», com uma forte ligação à música, literatura e artes plásticas. nal. Em 2004, por exemplo, a indústria norte-americana regis-
Exemplos dessa proximidade são o movimento surrealista — onde tou 65 milhões de dólares (50 milhões de euros) face aos 25 mi-
Satie na música, Cocteau na literatura e Giacometti nas artes plás- lhões de dólares alcançados pelo cinema europeu (pouco menos
ticas assumiram lugar de destaque — ou o Neo-Realismo italiano, de 20 milhões de euros). O crescente número de co-produções
onde o cinema acabou por se ramificar com outras àreas culturais. entre França e EUA ou Alemanha e EUA, em especial no caso
No fundo, o cinema europeu é na sua raiz, tal como diria Jacques de blockbusters, irá provavelmente reduzir ainda mais os lucros
Tati, distinto do cinema norte-americano. Tanto as produções eu- obtidos pelos filmes de origem europeia, uma vez que todos os
ropeias clássicas como as modernas seguem uma linha que «foi sem- lucros gerados por esses títulos serão repartidos com a indústria
pre considerada como sendo estética e culturalmente importante» norte-americana.
(Vincendeau 1998, 31). Poder-se-á assim dizer que «os EUA (isto é, Igualmente importante é a especificidade do modelo de
Hollywood) estão para o entretenimento de cariz popular como a distribuição. Este aspecto em particular foi o que mais con-
Europa está para o cinema artístico» (Dyer e Vincendeau 1992, 2). tribuiu para o sucesso do cinema de Hollywood: «antes de o
cinema ser analisado enquanto objecto cultural, ele deve ser
TERÁ O CINEMA EUROPEU UMA DIMENSÃO ECONÓMICA compreendido enquanto indústria», uma vez que «a produção,
E UM MODELO DE DISTRIBUIÇÃO DIFERENTES? promoção e disponibilização dos filmes perante uma audiên-
cia deve ocorrer antes da identificação de qualquer significado
Para resumir tudo o que até agora foi dito, a resposta é claramente ou efeito ideológico do filme» (Moran 1996, 1). Porque é que a
afirmativa. distribuição é tão importante? Albert Moran afirma que «en-
quanto actividade industrial, o cinema encontra-se dividido
Os estúdios de Hollywood foram absorvidos por um cartel de em três sectores interdependentes, embora separados: produ-
conglomerados transnacionais de média: Time Warner, Viacom, ção, distribuição e exibição. Dos três, a distribuição é o mais
News Corp (20th Century Fox), Sony e GE. (…) O modo de fun- relevante, em especial porque serve de elo de ligação entre os
cionamento da indústria cinematográfica norte-americana tor- restantes. A distribuição é aquela parte do ciclo físico da in-
na evidente que estamos perante uma actividade comercial que dústria cinematográfica onde, depois de concluído o filme, as
requer um grande investimento de capital, pelo que os maiores fitas são armazenadas e enviadas para várias partes do mundo»
investidores visam a todo o custo a optimização da eficiência e a (Moran 1996, 2). O que isto quer dizer é que uma equipa de
minimização do risco. (Holt, Perren e Wiley 2009, 54) produção poderá ter os recursos necessários para fazer um pri-
meiro filme, «mas se as receitas resultantes da sua distribuição
Por outro lado, a pouca relevância atribuída pelo cinema europeu não forem suficientes para assegurar o retorno do investimen-
à obtenção do lucro torna-se compreensível à luz do empreen- to, será difícil ou impossível fazer um segundo filme» (Solanas
dedorismo de pequena escala e do papel central característico e Getino 1976). Por outras palavras, «a indústria de cinema de

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

Hollywood foi e continua a ser a indústria regional dominante 347). Mesmo nos EUA, é possível constatar nas obras de reputa-
do sector em termos mundiais. Historicamente, nenhum cine- dos cineastas como Gus van Sant ou até de novos nomes como
ma regional conseguiu escapar ao seu campo de forças. A pon- a multi-facetada Miranda July um revivalismo dos primórdios da
to de se poder dizer que Hollywood definiu em larga medida o arte do cinema, em que é atribuída uma primazia à narrativa e ao
leque de opções disponíveis aos outros tipos de cinema, tanto argumento e não tanto à obtenção de lucros.
em termos económicos como culturais» (Moran 1996, 7). Para Daí que se possa concluir que o cinema independente já não
Solanas e Getino, «a expansão do imperialismo dos EUA fez se encontra limitado ao continente europeu. Para Suppia, Pieda-
com que as fronteiras desaparecessem e com isso os modelos de e Ferrarez:
de produção, distribuição e exibição continuaram a ser os de
Hollywood» (Solanas e Getino 1976). (…) o termo ‘cinema independente’ refere-se a uma prática cinemáti-
ca que, de alguma maneira, se apresenta como alternativa, ou oposi-
SERÁ A ESSÊNCIA DO CINEMA EUROPEU ção, ao cinema dominante ou mainstream. O termo em si abarca uma
EXCLUSIVAMENTE EUROPEIA? variedade de práticas cinematográficas, tanto comerciais como não
comerciais, e estende-se para além da produção, incluindo os siste-
Aqui há que reconhecer que a essência do cinema europeu não se mas de distribuição e exibição. (Suppia et al. 2008, 235)
limita exclusivamente ao Velho Continente. Alguns cineastas não
europeus assimilaram nas suas obras algumas das características Para além disso, segundo Emanuel Levy, «a definição ideal de um
básicas do cinema independente europeu. Tsai Ming Liang, por filme independente é a de um filme de baixo orçamento sobre um
exemplo, está próximo da Nouvelle Vague e François Truffaut é tema invulgar que reflecte a visão pessoal do seu realizador» (Levy
alegadamente o seu principal ponto de referência. «A sua análise 1999, 2). Levy identifica «duas diferentes concepções de cinema in-
da condição solitária do indivíduo situa-se muito próxima do alto dependente: uma que assenta na forma de financiamento dos fil-
modernismo europeu.» (Lim 2006, 127). Para demonstrá-lo, não mes e outra centrada em aspectos artísticos como inovação ou au-
existe melhor exemplo do que o filme What Time is it There? que toria» (Levy, 1999, 2). De acordo com Bohn e Stromgren (1975, 445),
não só foi filmado em Paris como também traz de volta um dos «o movimento do New American Cinema, nos anos 60, começou
actores favoritos de Truffaut, Jean-Pierre Léaud. Outro exemplo historicamente com Maya Deren, a cineasta que teria feito a liga-
é o de Arun Govilum, um premiado actor, produtor e cineasta in- ção entre a vanguarda europeia dos anos 20 e a new wave americana
diano, responsável por um novo tipo de cinema independente à após a Segunda Grande Guerra Mundial» (Suppia et al. 2008, 159).
margem da indústria de Bollywood. O realizador iraniano Kiaros- Resumindo, «os filmes de Hollywood são grandes em orçamento,
tami pode também ser enquadrado neste grupo: «Adepto de uma mas pequenos em talento artístico» (Suppia et al. 2008, 237). Em re-
escola cinematográfica que procurou fugir do recurso ao estúdio, lação a esta mesma questão, Nelson Pereira dos Santos defende que
inspira-se em ambientes, personagens e situações de uma realida- «o cinema independente representa sobretudo liberdade de produ-
de imediata, sem elaboração de mise-en-scéne» (Suppia et al. 2008, ção» (Santos 1994, 70), ao passo que Glauber Rocha argumenta que

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

«o cinema independente é livre por natureza e esta liberdade é ba- são mais inacessíveis) junto de meios de partilha online. A relação
sicamente intelectual» (Rocha 2003, 118). Em última análise, a na- estabelecida por Ji no seu modelo matemático entre os tipos de ci-
tureza do cinema europeu, tal como a do norte-americano, não de- nema regional e os suportes de exibição pode ser explicada através
pende de barreiras geográficas. Como Luhmann afirma, «a obra não do seguinte diagrama:
existe, ela acontece em cada interacção com o receptor, mediante
um processo em que as comunicações são acontecimentos e não FIG. 9 A RELAÇÃO ENTRE CINEMA
objectos» (Luhmann 1990, 32). E O MODELO MATEMÁTICO DE SUNG WOOK JI
Viremos agora a nossa atenção para a relação entre o cinema
O modelo matemático (visualização única)
(nomeadamente, o cinema europeu) e as redes P2P da internet.
Cinema de Cinema
Hollywood Europeu
(+) salas; (-) P2P (-) salas; (+) P2P

PORQUÊ O PEER-TO-PEER E NÃO OUTROS MÉDIA?


O modelo matemático avançado por Sung Wook Ji (2006) contri- Uma questão pertinente é saber se, para além do P2P, outras prá-
bui para uma percepção mais alargada da relação entre o peer-to-peer ticas de visionamento de cinema poderão produzir um aumento
e as modalidades de visionamento de cinema europeu. A relação é do número de espectadores de cinema europeu. Contudo, este
simples: em primeiro lugar e como acima ficou demonstrado, há parece não ser o caso. No que se refere às vendas de DVD, os
que ter em mente o peso crescente do cinema dos EUA nas salas de filmes estreados nos cinemas podem ter um impacto negativo
cinema um pouco por todo o mundo. Considerando que a grande (segundo a teoria do modelo matemático) ou positivo. O efeito
maioria das pessoas tende a pagar e ver um filme uma única vez (Ji negativo ocorre no caso de a pessoa já ter visto o filme pelo que
2006), coloca-se então a hipótese de que outras formas de visio- tenderá a não adquirir o respectivo DVD. O efeito positivo re-
namento de filmes tenderão a ser privilegiadas por quem procura sulta do contributo que as estratégias de marketing e publicidade
outro tipo de cinema, incluindo o cinema europeu. Entre estas poderão gerar nas vendas. Sung Wook Ji nota, no entanto, que os
encontram-se outros canais de distribuição, entre os quais se desta- filmes mais vendidos em DVD costumam ser os mais vistos no
ca o peer-to-peer por permitir que aqueles filmes que normalmente cinema e os que beneficiam de uma maior divulgação nos média.
não beneficiam de um grande destaque na conjuntura cinematográ- Dado que os filmes europeus tendem, em virtude do seu menor
fica actual — focada na distribuição de produtos rentáveis e mas- impacto comercial, a ficar de fora das listas dos filmes mais vistos,
sificados — cheguem a um maior número de pessoas. Em última não será então descabido supor que um eventual crescimento do
análise, se a maioria das pessoas vê um filme uma única vez e se os número de DVD vendidos terá um impacto nulo nos lucros dos
filmes originários dos EUA tendem a estar mais associados às salas filmes europeus, uma vez que esse aumento estaria apenas asso-
de cinema, pode-se então deduzir que as pessoas tenderão a procu- ciado aos filmes mais rentáveis, ou seja , os norte-americanos. Por
rar outro tipo de filmes (incluindo os filmes de origem europeia que outras palavras:

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

— Poucos filmes europeus nas salas = ausência nas listas dos fil- esta lógica comercial deixa indiciar um futuro nada positivo para o
mes mais vistos = pouco feedback = menor número de DVD cinema em geral e, em particular, para o cinema europeu. Ao mesmo
vendidos = menos espectadores de cinema europeu. tempo, convém também não ignorar as transformações pelas quais a
— Muitos filmes norte-americanos nas salas = presença nas lis- televisão está presentemente a passar. Como Lotz refere, «a televisão
tas dos filmes mais vistos = muito feedback = maior número pode não estar a morrer, mas alterações sentidas na oferta de con-
de DVD vendidos (com uma eventual redução associada ao teúdos têm vindo a afectar a forma como pensamos a seu respeito e
modelo matemático do cinema) = maior predominância de compreendemos o seu papel na cultura» (Lotz 2007, 12).
filmes norte-americanos vistos em DVD.
TEMPO DE CINEMA NOS HORÁRIOS TELEVISIVOS (24 HORAS)
Se as estatísticas indicadas em cima não fossem suficientes para
Estação televisiva País 2002 (%)
demonstrar o fraco desempenho dos filmes europeus nas salas RTL TV Alemanha 6,00
de cinema, o relatório Focus 2010: World Film Market Trends do SAT 1 TV Alemanha 7,90
Observatório Europeu do Audiovisual (EAB) revela que «os fil- ZDF TV Alemanha 14,70
mes europeus captaram uma quota de mercado provisória de 26,7 TF 1 França 3,70
M6 França 3,00
por cento do total de entradas vendidas na União Europeia, uma
Canal+ França 45,80
descida em relação aos 28,2 por cento de 2009 e o nível mais baixo
ITV Reino Unido 5,80
desde 2005», ao passo que «a quota de mercado dos filmes norte- Channel 4 Reino Unido 12,00
-americanos deverá subir dos 65,6 por cento para os 67,1 por cento, RUV TV Islândia 18,00
o nível mais elevado desde 2003» (EAB 2010). Mais preocupante Media Set Itália 17,90
do que isso é o facto de que, «embora em muitos países europeus VRT Bélgica 7,30
HRT TV Croácia 11,40
as produções nacionais tenham em 2008 registado quotas de mer-
MTV Hungria 7,10
cado nunca antes alcançadas, em 2009 as quotas de mercado das
RAI Itália 8,40
produções nacionais desceram em 18 dos 23 estados-membro da SVT Suécia 7,90
UE cujos dados relativos a esse ano estavam disponíveis». STV Eslováquia 1,20
No que diz respeito à televisão, os dados apontam claramente
para uma predominância residual do tempo atribuído aos filmes eu- fonte: Observatório Europeu do Audiovisual (EAB).

ropeus nos canais de televisão do continente. Daí que a televisão seja


uma alternativa igualmente pouco viável às salas de cinema, a que os Face a este desafio, várias emissoras públicas europeias iniciaram já
filmes europeus dificilmente têm acesso. Na verdade, a maioria da projectos experimentais baseados no P2P, no sentido de reduzirem os
programação televisiva dedicada ao cinema parece depender sobre- seus custos com largura de banda na distribuição de vídeo online. Em
tudo de critérios de rentabilidade económica. Como se não bastasse Março de 2009, a NRK da Noruega abriu mesmo um tracker de Bit-
a redução do tempo concedido ao cinema pelas estações de televisão, Torrent para distribuir alguns dos seus programas de televisão num

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

formato sem DRM1 (Ernesto 2009a). Nesse mesmo ano, a NRK dis- por isso considerado um agente de desordem do mercado. E em-
ponibilizou via BitTorrent um ficheiro de vídeo com o tamanho de bora os representantes da indústria tenham por hábito recorrer
264 GB contendo um programa em alta definição com a duração de aos média para apresentar regularmente estatísticas que parecem
sete horas sobre uma viagem de comboio entre Bergen e Oslo (The indicar a ocorrência de um efeito de substituição — segundo o
Economist 2010a). Mais recentemente, em Junho de 2010, a NPO da qual os partilhadores tendem a substituir a aquisição de cópias
Holanda foi ainda mais além na adopção do P2P com o lançamento originais legítimas pelas cópias ilícitas obtidas via internet —,
de um projecto-piloto que visa disponibilizar todas as suas transmis- o que é geralmente ignorado é que esses números provêem do
sões de vídeo mais recentes sob a forma de download e streaming via próprio sector. Neste sentido, uma das fontes mais fiáveis de
BitTorrent (Ernesto 2010b). Aliás, esta tendência actual em direc- investigação independente sobre os efeitos económicos da par-
ção ao P2P não é um exclusivo europeu: em Março de 2008, a CBC tilha de ficheiros pode ser encontrada no trabalho desenvolvido
do Canadá decidiu distribuir uma versão sem DRM e com uma por Felix Oberholzer-Gee e Koleman Strumpf. Num artigo de
elevada qualidade de imagem de Canada’s Next Great Prime Minister, 2004, os dois economistas começaram por afirmar que «o efei-
um reality-show transmitido em horário nobre (Orvis 2008). Outra to dos downloads nas vendas é estatisticamente indistinguível de
estação de televisão que parece estar disposta a aceitar o BitTorrent zero» (Oberholzer-Gee e Strumpf 2004). Ao longo de 17 semanas
enquanto canal de distribuição é a BBC, tendo recentemente acei- durante o Outono de 2002, eles analisaram quase 1,8 milhões de
tado integrar o projecto P2P-Next, um consórcio internacional de downloads para chegarem a esta conclusão inicial.
centros de investigação, fabricantes de electrónica e emissores de Desde então, contudo, a sua posição modificou-se ligeira-
radiodifusão financiado com 14 milhões de euros concedidos pela mente. Num artigo de 2010, Oberholzer-Gee e Strumpf recolhe-
União Europeia (The Economist 2010a). De qualquer forma, é prová- ram os valores médios de oito «estudos relevantes» sobre a ques-
vel que demore algum tempo antes que todos os necessários direitos tão para concluírem que a partilha de ficheiros seria afinal respon-
de autor sejam obtidos junto dos produtores independentes de boa sável por uma parte — «não superior a 20 por cento» — da descida
parte dos programas televisivos. das vendas de música (Oberholzer-Gee e Strumpf 2010). Esta per-
centagem é, por sinal, extremamente próxima do valor referido
num estudo de 2007 da CapGemini encomendado por um grupo
SERÁ O P2P UMA OPÇÃO IMORAL EM TERMOS ECONÓMICOS de trabalho da indústria musical britânica. Segundo a consultora,
QUE DEVE, POR ISSO, SER FORTEMENTE REGULADA? 18 por cento do valor total perdido pela indústria discográfica do
Reino Unido entre 2004 e 2007 ficou a dever-se à pirataria digital.
A opinião predominante entre a indústria de entretenimento é Os autores do estudo atribuem a maior responsabilidade por esta
que o P2P é imoral porque coloca em causa a legimidade da po- descida aos downloads legais de singles que anteriormente eram co-
lítica de preços, a propriedade privada e o investimento, sendo mercializados em pacote na forma de um CD (Orlowski 2007),
uma tendência que teve início com o lançamento da iTunes Mu-
1 Digital Rights Management ou Gestão Digital de Direitos em português. Termo referente a sic Store da Apple em 2003. Por outro lado, a descida das receitas
qualquer tecnologia destinada a impedir a cópia e partilha indiscriminada de ficheiros digitais.

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

não pode também ser desligada do surgimento de novas opções — 29 por cento dos partilhadores alugam pelo menos um DVD
de entretenimento como os videojogos e os DVD. por mês, por comparação com uma média de apenas 19 por
No seu artigo de 2010, Oberholzer-Gee e Strumpf também cento dos restantes internautas;
se dão ao trabalho de desmistificar a ideia de que a partilha de — 45 por cento dos partilhadores vão ao cinema pelo menos
ficheiros e obras leva ao declínio das indústrias da música, do ci- uma vez por mês, ao passo que apenas 34 por cento dos res-
nema e do livro. Segundo os dados que recolheram, entre 2002 tantes internautas fazem o mesmo.
e 2007 verificou-se um aumento de 66 por cento no número de
novos livros publicados e a produção de novos álbuns quase que Os três investigadores também deitam por terra o mito de que os
duplicou, tendo ainda a produção de filmes crescido cerca de 30 partilhadores são muito relutantes em pagar por conteúdos online:
por cento. «A nossa leitura dos dados é que não existem quais- — 52 por cento dos partilhadores afirmaram que estavam dis-
quer provas de que a nova tecnologia está a servir de desincenti- postos a pagar uma tarifa mensal mais elevada pela sua ligação
vo à produção artística.» (Oberholzer-Gee e Strumpf 2010). Mais à internet em troca do acesso a programas televisivos exclusi-
ainda, a partilha de ficheiros fez com que aumentasse a procura vos, contra apenas 25 por cento dos restantes internautas;
de «artigos complementares das obras protegidas por direitos de — 45 por cento dos partilhadores estão dispostos a pagar
autor» como concertos e merchandising, o que veio em parte com- mais pelo acesso antecipado a filmes antes da sua estreia
pensar as receitas perdidas com a venda de música. Daí que não se nas salas de cinema, contra apenas 23 por cento dos restan-
possa dizer que o P2P eliminou os incentivos dos artistas à cria- tes internautas.
ção, nem reduziu as opções de escolha dos consumidores.
Mais pertinentes para a indústria cinematográfica são os Outra pesquisa a reforçar ainda mais a tese segundo a qual a par-
resultados de um questionário de 2008 realizado por Sylvain tilha de ficheiros não tem um efeito de substituição mas antes um
Dejean, Thierry Pénard e Rhaphaël Suire junto de uma amostra «efeito de prova» sobre os conteúdos de vídeo — isto é, os indiví-
de dois mil indivíduos com idade superior ou igual a 15 anos re- duos tendem a descarregar vídeos para poder vê-los antes de os
presentativos da região francesa da Bretanha: os indivíduos que comprarem –, foi recentemente divulgada por Tatsuo Tanaka do
afirmaram já ter descarregado conteúdos culturais de uma rede Instituto de Investigação para a Economia, Comércio e Indústria
P2P estavam mais habituados a pagar por conteúdos vídeo do do Japão (RIETI). Tanaka recorreu ao YouTube e à rede de P2P
que aqueles internautas que afirmaram aceder a vídeos online por Winny para analisar os efeitos da pirataria nas vendas e aluguer de
outros canais (Dejean, Pénard e Suire 2008). De acordo com o DVD de Anime — séries televisivas de animação japonesas:
questionário:
— 31 por cento dos partilhadores adquirem pelo menos um (…) equações estimadas a partir da análise de 105 episódios de Anime
DVD por mês, por comparação com uma média de apenas demonstram que (1) o visionamento através do YouTube não afec-
22 por cento para os internautas não partilhadores que vêem ta negativamente o aluguer de DVD, podendo mesmo contribuir
regularmente vídeos online; para um aumento nas vendas de DVD; e (2) apesar de a rede Winny

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

de partilha de ficheiros afectar negativamente o aluguer de DVD, como também acrescentam valor às cópias grátis1 (Kelly 2008). Se-
o seu efeito é nulo no caso das vendas de DVD. (Tanaka 2011) gundo o ponto de vista de Kelly, estas qualidades constituem uma
forma alternativa ao modelo tradicional de monetização dos con-
Ou seja, as pessoas que descarregaram séries de Anime tendem a teúdos disponíveis nos canais digitais de distribuição centrado na
usar a partilha de ficheiros em detrimento do aluguer e não tanto publicidade, devendo por isso ser consideradas pela indústria cine-
da compra. matográfica — especialmente no caso do P2P, onde os utilizadores
Mesmo que as conclusões de Tanaka pareçam conceder uma normalmente desprezam todo o tipo de anúncios intrusivos.
legitimidade parcial ao efeito de substituição, neste caso trata-se Em vez de focar o seu olhar em Hollywood, cujo modelo de dis-
de um efeito muito mitigado. No que diz respeito ao YouTube e tribuição — apesar de todos os novos serviços de streaming de vídeo
uma vez que, devido a restrições técnicas, a maioria das cópias ile- disponíveis como Netflix e Hulu2 — permanece ainda muito enraí-
gais que permanecem disponíveis no YouTube1 possuem uma fraca zado num passado analógico3, a indústria cinematográfica europeia
qualidade de imagem e encontram-se divididas em várias partes, podia aprender algo sobre pirataria com os produtores e realizadores
o investigador aconselha os detentores de direitos a utilizarem o site brasileiros. Com efeito, poder-se-á até afirmar que é aqui que estão a
como canal promocional. Mas será que esta lógica se aplica à disse- começar a surgir os modelos de negócio do cinema de amanhã. Um
minação de cópias de inferior qualidade nas redes P2P? Não neces- caso de estudo de grande sucesso pode ser encontrado em Tropa de
sariamente. Embora não baseada em quaisquer dados empíricos, Elite. «Na véspera da estreia nas salas de cinema, a 5 de Outubro de
a nossa experiência diz-nos que os fãs mais ávidos de um determi- 2007, o filme sobre o quotidiano do grupo de forças especiais de polí-
nado tipo de cinema, cineasta ou actor/actriz, aqueles que gastam cia do Rio de Janeiro tinha já sido visto por 19 por cento dos residentes
mais dinheiro com idas ao cinema, DVD e artigos de merchandising de São Paulo, de acordo com um inquérito Datafolha baseado numa
são também aqueles que mais partilham ficheiros, sendo frequente amostra de 601 indivíduos com idade superior ou igual a 16 anos. Com
preferirem codecs de vídeo com a melhor qualidade de imagem pos- base numa projecção dos dados, a pesquisa estima que cerca de 1,5 mi-
sível. Daí que se possa dizer que, mesmo que a análise de Tanaka lhões de pessoas só nessa cidade tenham visto o filme» (Novaes 2007).
esteja correcta no que diz respeito aos efeitos prejudiciais da parti- No final de Julho, meses antes da estreia, uma cópia de Tropa de Elite
lha de ficheiros no aluguer de DVD (afirmação que, é importante encontrava-se já disponível nas redes P2P e pouco tempo depois os
relembrar, os resultados do inquérito realizado por Dejean et al. re- vendedores de rua começam a criar cópias em DVD e a vendê-las um
futam), esta perda de receitas poderá ser mitigada caso a indústria pouco por todo o Brasil. E mesmo assim, Tropa de Elite acabou por ser
introduza uma oferta mais sofisticada e flexível que tenha em linha o filme nacional com maior volume de receitas geradas em 2007:
de conta as exigências dos seus melhores clientes, os próprios par-
tilhadores. Partindo do princípio de que a internet é uma máquina 1 Imediatez, personalização, interpretação, autenticidade, acessibilidade, corporalida-
de, mecenato e «encontrabilidade».
de fazer cópias, Kevin Kelly introduz o conceito de «valor gerativo» 2 Serviços estes que, na sua maioria, apenas podem ser acedidos a partir dos EUA devido
a restrições regionais de licenciamento dos direitos de autor.
para designar oito qualidades que não só não podem ser copiadas 3 Como ficou demonstrado pela campanha de perseguição movida pela Associação da
Indústria Cinematográfica Norte-Americana (MPAA) contra a partilha dos seus conteú-
1 Não obstante a tecnologia ContentID de bloqueio de conteúdos desenvolvida pela Google. dos nas redes P2P por parte dos fãs de cinema.

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

O filme foi originalmente planeado para estrear em 150 salas de ci- que as receitas geradas com as vendas, os filmes só são produzidos
nema no mês de Novembro. Contudo, a estreia antecipada de Tro- caso alguém ou alguma entidade suporte esses custos. Porém, ime-
pa de Elite acabou por ter lugar em 300 salas espalhadas pelo país diatamente a partir do momento em que o ponto de massa crítica
— em grande parte devido à enorme publicidade possibilitada pela é atingido, o negócio em questão torna-se auto-sustentável. Para-
pirataria. A aposta foi ganha. O lançamento teve um desempenho doxalmente, esta é já uma fase em que a actividade passa a requerer
90 por cento melhor que o filme brasileiro Cidade de Deus (…), o fil- menos investimento. Corroborando esta teoria, Oberholze-Gee e
me estrangeiro responsável pelo maior volume de receitas nos EUA Strumpf afirmam que, mediante um efeito de rede, os benefícios
durante o ano de 2003 e que foi também um grande sucesso nas sa- obtidos vão aumentar consoante o número de utilizadores. Deste
las brasileiras. As receitas geradas por Tropa de Elite foram também modo, quanto mais utilizadores de P2P houver, maiores os lucros
46 por cento superiores a Dois Filhos de Francisco, o maior êxito do do cinema europeu poderão ser, deixando este de estar dependen-
cinema brasileiro dos últimos anos. (Martini 2007) te da fase que antecede o ponto de massa crítica e que neste caso
corresponde à subsidiarização da indústria cinematográfica euro-
O que aconteceu foi precisamente o contrário que o realizador peia pelos diferentes governos europeus1.
José Padilha receara quando o filme foi disponibilizado online.
Na altura, ele afirmou irascível num artigo publicado no jornal Nollywood — «produz cerca de mil videofilmes por ano e gera receitas anuais no total de 2,75
mil milhões de dólares (pouco mais de 2,1 mil milhões de euros» (Castells 2009, 92). Sendo a
O Globo que «o incidente, longe de ser um truque de marketing, terceira maior indústria de cinema do mundo, fica apenas atrás de Hollywood e Bollywood.
Isto não obstante ou mesmo por causa da elevadíssima taxa de pirataria do país assim como
deixou-o chocado e irritado. Na sua opinião, a pirataria iria pro- de todo o continente africano. Daí que não seja de admirar que os piratas sejam considerados
vocar graves danos financeiros na produção do filme, pelo que ao mesmo tempo uma bênção e uma praga por produtores e realizadores. Tal como a revista
The Economist afirmou recentemente, «os gangues de piratas são provavelmente os maiores
as autoridades brasileiras deveriam começar o quanto antes a exportadores de Nollywood. Eles sabem como atravessar fronteiras perigosas e fazer com
perseguir os infractores» (Martini 2007). Dois meses após o lan- que os artigos cheguem a todos os cantos de um continente heterogéneo onde vastas exten-
sões de terra permanecem inacessíveis» (The Economist 2010b). Convém no entanto salientar
çamento de Tropa de Elite, Eduardo Costantini Jr. exprimia uma que estes filmes são sobretudo caracterizados por terem orçamentos reduzidos: a maioria
opinião muito diferente, indo ao ponto de admitir — embora das produções de Nollywood custa entre dez mil e cem mil dólares (7700 e 77 mil euros,
respectivamente). Mesmo assim, Nollywood pode ser entendida como mais um exemplo do
com alguma relutância — que a pirataria do DVD do filme teve conceito de pirataria enquanto actividade económica que permite a criação de novos mer-
cados, uma tese defendida por Lawrence Liang: «Todo o circuito da pirataria cria economias
um impacto positivo no sucesso da produção (Reuters 2007). locais bastante dinâmicas. Gera emprego, permite a transferência de tecnologia, possibilita
A história por detrás do êxito de Tropa de Elite enquadra-se no o surgimento de inovações locais. Se olharmos o fenómeno de um ponto de vista de uma eco-
nomia global da informação, onde somos uma multinacional que controla os direitos de um
modelo de massa crítica empregue por Noam (2008) para demons- filme (…), sim, é mau para a economia. Mas se estivermos interessados no desenvolvimento
trar que a relação entre a partilha de ficheiros via P2P e o sistema das economias locais, bem como da inovação local, diria que é algo positivo para a economia»
(Beckedahl 2007).
tradicional de transacções não é uma relação necessariamente pre- 1 Dito isto, torna-se necessário referir que não existe necessariamente qualquer correlação
judicial1. Uma vez que os custos de produção são mais elevados do directa entre as receitas geradas na bilheteira e a popularidade obtida pelo filme no BitTor-
rent. Pelo contrário, dados relativos aos últimos anos demonstram que pode haver filmes
que, embora tenham alcançado um estatuto de blockbuster na bilheteira, acabam por ser neg-
1 Sem querer estender muito os limites do modelo, o mesmo pode ser dito no que se refere ligenciados pelos utilizadores de BitTorrent. Toy Story 3, por exemplo, foi o filme mais bem-
à pirataria física de filmes, ou seja, a produção e/ou distribuição de cópias de DVD sem au- -sucedido na bilheteira em 2010, tendo gerado mais de mil milhões de dólares em receitas
torização dos detentores de direitos, particularmente no caso de países periféricos como a nas salas de cinema de todo o mundo (Box Office Mojo 2011). Porém, o filme acabou por
Nigéria. A florescente indústria cinematográfica nigeriana — popularmente conhecida por não entrar na lista dos filmes mais pirateados no BitTorrent desse ano elaborada pelo blogue

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

No que diz respeito à regulação, medidas de protecção como partilharem as obras originais e criarem algo novo a partir daí
a apresentação de contas de cópias ilegais ou a centralização de como uma remistura ou um mash-up (Liang 2004).
registos de downloads aparentam ser de díficil aplicação à esca- Em última análise, o problema do P2P está na dificuldade em
la global. Para além disso, o exemplo de Hollywood mostra-nos encará-lo como uma forma de distribuição rentável, em grande
que uma regulação muito draconiana da partilha de ficheiros não parte porque o P2P interfere com as formas de distribuição con-
é economicamente favorável, já que muitas das tecnologias que vencionais. É por isso que os seus potenciais benefícios são como
estão na base desta prática constituem uma boa fonte de recei- que subvalorizados face à aparente estabilidade económica garan-
tas. Mais ainda, a partilha de ficheiros acaba por contribuir para tida pelos canais de distribuição tradicionais.
uma redução do preço dos CD, fazendo com que os preços se A questão-chave aqui é que a indústria do cinema enfrenta uma
tornem mais atractivos e, consequentemente, que o número de ruptura do paradigma que exige novas e imaginativas soluções para
potenciais compradores aumente. Finalmente, poder-se-á refe- garantir a sustentabilidade financeira sem comprometer a produ-
rir que qualquer tentativa de centralisar ou impedir o recurso ção criativa. Num mundo de abundância digital possibilitado pela
a programas e plataformas de P2P apenas irá contribuir para internet, deixa de ser possível continuar a vender ficheiros unitá-
uma (re)estruturação de todo o ecossistema da partilha online, rios como se eles não pudessem ser copiados um número infinito de
levando assim ao surgimento de novas práticas P2P que tornarão vezes sem qualquer degradação da sua qualidade. Daí a pertinência
obsoletas as anteriores plataformas. Licenças abertas de direi- do conselho dado por Kevin Kelly de encarar os bens informacio-
tos de autor como as que foram criadas pela associação norte- nais como filmes enquanto perdas que servem apenas para vender
-americana Creative Commons poderão aqui servir de ajuda, na mais artigos escassos.
medida em que garantem alguma segurança legal face aos riscos Centremos agora a nossa análise na relação entre o cinema
adicionais resultantes da distribuição via P2P (ex.: atribuição in- (em especial o cinema europeu) e a internet (nomeadamente, as
correcta da autoria), sem impedir os autores e utilizadores de redes P2P) mediante uma apreciação dos resultados de uma ob-
servação sincrónica do site de BitTorrent The Pirate Bay. Poste-
Torrent Freak (Ernesto 2010c). No sentido inverso, não raras vezes encontramos filmes que riormente, iremos comparar os dados relativos às vendas de bi-
são grandes fiascos junto do público frequentador de salas de cinema mas que conseguem,
todavia, despertar o interesse dos partilhadores. Kick-Ass — O Novo Super-Herói é um caso
lheteira portuguesas com os filmes mais descarregados do tracker
típico. Apesar de apenas ter obtido receitas inferiores a cem milhões de dólares (77 milhões privado nacional de BitTorrent Btnext.com.
de euros) na bilheteira (tendo-se ficado pelo 64.º lugar na lista do site Box Office Mojo dos
filmes responsáveis pelo maior volume global de receitas em 2010), Kick-Ass acabou por ficar
em segundo lugar na lista do Torrent Freak, com mais de 11,4 milhões de downloads. Outro
caso é o de Estado de Guerra («The Hurt Locker») que na bilheteira não conseguiu sequer
chegar aos 50 milhões de dólares (38 milhões de euros) e, no entanto, veio mais tarde a ser um CINEMA E P2P: UTILIZADORES COMO
enorme sucesso online (nono lugar na lista do Torrent Freak). Isto apesar de uma cópia do
filme ter sido disponibilizada via BitTorrent logo em meados de 2009. Para esta recuperação
DISTRIBUIDORES E O ÍNDICE PCDI
no circuito do P2P muito devem ter contribuído os seis Óscares da Academia de Hollywood
entretantos conquistados pelo filme. A lição a tirar é que não se deve descurar a possibilidade
de haver uma terceira ou quarta variável em acção. O que é mais peculiar na «segunda vida»
A seguir, analisamos o número de utilizadores que fizeram download
de Estado de Guerra é que ela teve início após os seus produtores terem desencadeado uma ou upload dos filmes que estrearam comercialmente em Portugal
campanha de processos judiciais contra os utilizadores de BitTorrent.

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

no ano de 2007. O número de pares foi usado como o indicador da salas de cinema, de modo a reflectir o actual nível de procura por
disponibilidade e distribuição dos filmes neste tracker. No sentido de um determinado filme na rede BitTorrent1.
percebermos as diferenças entre a distribuição dos filmes nas salas O primeiro ranking, relativo aos filmes mais vistos nas salas de
e via peer-to-peer, optámos por criar um ranking de acordo com (1) o cinema em 2007, torna evidente a supremacia dos filmes de origem
número de espectadores nas salas de cinema portuguesas; (2) o índice norte-americana. Este cenário é comum a muitas partes do mundo
sobre a distribuição de cinema a partir do P2P (PCDI1). (com excepção da Índia). Alejandro Pardo refere que «entre 1999 e
O PCDI é calculado através do rácio entre o número total de 2003, os filmes norte-americanos representaram uma média de 70,4
pares (isto é, os utilizadores que efectuaram uploads juntamente por cento do mercado europeu» (Pardo 2006, 5). O domínio das pro-
com os que realizaram downloads) durante o período de tempo con- duções norte-americanas é aqui bem patente: 14 dos 20 filmes mais
siderado para análise e o número de espectadores nas salas de cine- vistos pelos espectadores (70 por cento) foram inteiramente produzi-
ma2. Quanto maior for o valor desse rácio, maior será o peso que o dos nos EUA. Dos restantes seis filmes, quatro são co-produções en-
P2P assumirá no processo total de distribuição de um filme. Em tre os EUA e países europeus (o que equivale a 20 por cento) — estan-
2007 estrearam 274 filmes em Portugal. Na análise que se segue, do o Reino Unido presente em três dessas co-produções –, e apenas
iremos comparar os 20 mais vistos em termos de espectadores com dois são de origem exclusivamente europeia (10 por cento). De desta-
a lista dos 20 filmes com maior rácio de acordo com o PCDI. Sen- car que um destes dois últimos filmes é um blockbuster britânico com
do baseado no rácio entre o número de espectadores em salas de grandes semelhanças com os filmes de Hollywood2. O segundo é um
cinema portuguesas e o número de pares no The Pirate Bay a nível filme português com características muito particulares que explicam
internacional, o PCDI deve ser encarado como um indicador ex- o raro sucesso de uma produção nacional no mercado português3.
ploratório, pelo que a interpretação dos resultados obtidos exigirá
algum cuidado. Acresce ainda que o número de pares não é repre-
sentativo do número total de downloads. Mesmo levando em conta 1 De notar que, com este índice, não queremos de modo algum estabelecer qualquer re-
que o protocolo BitTorrent força os utilizadores a partilharem os lação directa inequívoca entre os filmes mais vistos nos cinemas portugueses e aqueles que
registaram o maior número de pares no tracker do The Pirate Bay. Primeiro, porque como
ficheiros que se encontram já a descarregar, os utilizadores pode- já foi referido acima, a obtenção de enormes receitas de bilheteira nem sempre se traduz
numa actividade intensa de partilha via BitTorrent; em segundo lugar, porque os dados
rão interromper imediatamente essa partilha assim que o download recolhidos a partir do The Pirate Bay poderão não ser muito representativos dos hábitos
estiver concluído. Uma vez que os filmes que analisámos já tinham de visionamento dos partilhadores portugueses. Ou seja: os partilhadores portugueses que
usam este tracker podem estar subrepresentados em proporção com o total de internautas
sido lançados há alguns anos, o número real de vezes que um filme portugueses quando comparados com outros países do mundo; terceiro, porque os parti-
foi descarregado é provavelmente muito superior ao presente nú- lhadores portugueses podem preferir usar outros sites e trackers de BitTorrent, redes P2P,
ou fóruns de partilha de ficheiros em vez do The Pirate Bay. Devido às naturais limitações
mero de pares. O índice contabiliza assim a disponibilidade de um de espaço, essas objecções não poderão ser examinadas neste artigo.
filme no The Pirate Bay em relação ao número de espectadores nas 2 «Os blockbusters europeus com melhor desempenho no box office são capazes de con-
correr directamente com os maiores filmes de Hollywood, chegando mesmo a gerar mon-
tantes semelhantes de receitas globais. Com efeito, eles competem tão bem que só muito
dificilmente a maioria dos espectadores se apercebe que se trata de filmes não originários
de Hollywood» (Pardo 2005, 20).
1 P2P Cinema Distribution Index em inglês. 3 O filme Corrupção é uma adaptação dramática de um livro sobre um escândalo recente
2 PCDI = pares ÷ (espectadores × 100) envolvendo o presidente de um dos maiores clubes portugueses de futebol.

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a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

Como se pode ver na figura 10, as produções e co-produções FIG. 10 RANKING 1: FILMES MAIS VISTOS NAS SALAS DE CINEMA
norte-americanas ocupam 18 posições entre os 20 filmes mais vis- EM PORTUGAL EM 2007, SEGUNDO A ÁREA GEOGRÁFICA DE PRODUÇÃO
tos (90 por cento), enquanto as produções e co-produções euro-
peias representam apenas 30 por cento (seis filmes) desta lista.
Uma outra barreira importante à exportação cultural consis-
te no idioma da obra em questão. Quando um filme é distribuído
fora do seu mercado doméstico, é necessário recorrer à sua do-
Só Europa – 10%
bragem ou legendagem. Ainda assim, as afinidades culturais en- Europa e EUA – 20%
Só EUA – 70%
tre a Europa e os EUA parecem compensar a barreira linguística.
A grande popularidade da cultura norte-americana e a internacio-
nalização do inglês — que é a língua falada em 18 dos 20 filmes
mais vistos pelos portugueses (ou seja, 90 por cento), também de-
sempenha aqui um papel crucial4. As únicas excepções são os diá-
logos que recorrem ao idioma maia em Apocalypto, o filme realiza-
fonte: Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA).
do por Mel Gibson, e o filme português Corrupção. Em contraste
com outros países europeus, a dobragem raramente é utilizada na
exibição cinematográfica em Portugal, com excepção dos filmes
infantis. Não surpreende, por isso, que 19 dos filmes que constam Em seguida, os filmes foram classificados de acordo com o
da lista dos mais vistos nas salas de cinema cujo idioma não é o seu valor PCDI (proporção de distribuição P2P). As diferenças
português sejam legendados. entre os dois rankings são óbvias. Na lista dos 20 filmes com os
valores PCDI mais elevados, as produções exclusivamente norte-
4 Pesquisa empírica no campo da engenharia de redes parece fortalecer ainda mais a con- -americanas dominam, contando com dez filmes (50 por cento).
clusão de que os filmes legendados tendem a atrair mais audiências no BitTorrent do que
através dos canais tradicionais de distribuição. Stas Khirman e Vijay K. Gurbani realizaram No entanto, esta preponderância dos EUA é bem menos
uma análise detalhada dos enxames (swarms) de dois filmes no intuito de registar o número
total de pares que os descarregaram (leechers) e redistribuíram (seeders) através do The Pirate
acentuada do que o que sucede na lista dos 20 filmes mais vistos
Bay durante o período de uma semana — de 30 de Maio a 6 de Junho de 2009 (Khirman e nas salas de cinema. Do mesmo modo, a percentagem das co-
Gurbani 2009). Para o estudo, os investigadores seleccionaram duas populares produções
provenientes de contextos culturais muito diferentes: Push — Os Poderosos, um filme de acção -produções Europa-EUA também diminui para três filmes (15 por
em inglês (EUA) e The Sniper, um filme de acção em língua cantonesa (China) mas com le- cento). Já as produções exclusivamente europeias fazem-se repre-
gendas em inglês. Ao contrário do que tinham inicialmente previsto, Khirman e Gurbani
descobriram que The Sniper acabou por ser descarregado um pouco por todo o mundo, até sentar por seis filmes (30 por cento). Outro dado que se destaca na
mesmo em países como a Noruega que não são conhecidos por acolherem uma importante lista é que a presença de países europeus se faz sentir em nove dos
diáspora chinesa. Embora estivessem disponíveis várias cópias no BitTorrent, a que os inves-
tigadores analisaram conseguiu chegar a um enxame composto por 122 437 pares oriundos 20 filmes que constam do ranking PCDI (45 por cento), quer seja
de 165 países. Em termos comparativos, o enxame de Push — Os Poderosos chegou a ter um
máximo de 136 259 espalhados por 159 países. À luz destes resultados, somos tentados a saber
através de produções exclusivamente europeias (30 por cento) ou
se teria havido alguma diferença significativa caso na altura apenas estivessem disponíveis de co-produções com os EUA (15 por cento).
legendas traduzidas por fãs (fansubs) do filme estrangeiro em questão.

[110] [111]
a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

OS 20 FILMES MAIS VISTOS EM PORTUGAL EM 2007 SEGUNDO O CÁLCULO DO Como fica bem patente na figura 11, o número de países europeus
PCDI E POR PAÍS DE PRODUÇÃO representados no ranking PCDI ascende a oito, o que contrasta
fortemente com a lista dos 20 filmes mais vistos pelos especta-
Países de produção Idioma
PCDI Título original
principal dores portugueses, da qual apenas constam três países europeus.
Índex 1 Índex 2 As diferenças não acabam aqui. As barreiras linguísticas são uma
41,6 Across the Universe EUA EUA Inglês
de entre várias razões para a pouca popularidade dos filmes euro-
Tenacious D in The EUA,
14,9 Europa, EUA Inglês peus. Este obstáculo faz-se mesmo sentir entre os países europeus
Pick of Destiny Alemanha
EUA,
8,6 Peaceful Warrior Europa, EUA
Alemanha
Inglês que, no seu conjunto, formam um mercado muito diferente do
8,3 Hot Fuzz Europa
França,
Inglês
que caracteriza a indústria cinematográfica norte-americana.
Reino Unido
A nossa hipótese inicial de que as redes P2P estão a fazer com
6,1 The Fountain EUA EUA Inglês
5,4 Saawariya Ásia Índia Hindi
que um público mais vasto se familiarize com o cinema europeu
5,2 10 Items or Less EUA EUA Inglês
foi igualmente confirmada com uma posterior análise comparati-
The Diving Bell and va entre os 20 filmes mais vistos nos cinemas portugueses durante
4,3 Europa, EUA EUA, França Françês
the Butterfly 2009 e os 20 filmes mais descarregados no tracker privado portu-
4,1 Vitus Europa Suíça Alemão suíço
guês BTnext.com. Uma vez que apenas os endereços IP relativos
4,0 Planet Terror EUA EUA Inglês
a Portugal estão autorizados a utilizar o seu cliente de BitTorrent,
3,6 Sicko EUA EUA Inglês
3,5 Fred Claus EUA EUA Inglês
Alemanha,
3,4 Black Book Europa
Holanda,
Holandês FIG.11 RANKING 2: OS 20 FILMES MAIS VISTOS EM PORTUGAL, SEGUNDO
Bélgica, Reino
Unido O CÁLCULO DO PCDI E MEDIANTE A ÁREA GEOGRÁFICA DE PRODUÇÃO
3,3 The Lookout EUA EUA Inglês
Kirikou and the
3,2 Europa França Françês
Wild Beasts
Butterfly: A Grimm
3,1 Europa Alemanha Inglês
Love Story
The Astronaut
2,9 EUA EUA Inglês Só Ásia – 5%
Farmer Só EUA – 50%
França, Só Europa – 30%
2,9 Taxidermia Europa Áustria, Húngaro Europa e EUA – 15%
Hungria
2,7 Shortbus EUA EUA Inglês
2,7 Factory Girl EUA EUA Inglês

fontes: ICA, The Pirate Bay e IMDB.

fontes: ICA e The Pirate Bay.

[112] [113]
a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

este tracker permite-nos obter um retrato mais fidedigno das pre- OS 20 FILMES MAIS DESCARREGADOS DO TRACKER
ferências cinematográficas dos partilhadores portugueses. PRIVADO PORTUGUÊS DE BITTORRENT BTNEXT.COM
Desta vez, tomámos por base da análise os dados de 2009 re- Downloads
Países de produção
Idioma
Título original
colhidos pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA). A pre- concluídos
Índex 1 Índex 2
Principal
ponderância dos filmes de produção norte-americana no circuito 10497 Twilight EUA EUA Inglês
tradicional de distribuição assente nas salas de cinema é ainda 10022 Second Life Europa Portugal Português
mais forte do que em 2007, com 16 dos 20 títulos mais vistos pe- American Pie Presents:
8931 EUA EUA Inglês
los espectadores portugueses (80 por cento) a serem inteiramente The Book of Love

produzidos nos EUA, enquanto os restantes quatro (20 por cen- Europa,
8243 The Art of Stealing Portugal, Brasil, Espanha Português
América Latina
to) são co-produções entre os EUA e países europeus.
7029 The Hurt Locker EUA EUA Inglês
Digno de menção é também o importante papel do Reino
6707 The Town EUA EUA Inglês
Unido no que concerne a co-produções entre Europa e EUA.
É por isso sem surpresa que verificamos que todos os filmes nesta 6410 The Book of Eli EUA EUA Inglês
lista têm o inglês como língua principal. Prince of Persia: The
6294 EUA EUA Inglês
O cenário é bastante diferente quando desviamos a nossa Sands of Time

atenção para a lista dos 20 filmes mais decarregados no BTnext. 6232 New Moon EUA EUA Inglês

com. Aqui, apenas metade (dez) dos 20 filmes são produções 6226 Inception Europa, EUA EUA, Reino Unido Inglês
totalmente norte-americanas, ao passo que as produções e co-
-produções europeias representam 40 por cento (oito) dos títu- 5377 Elite Squad 2 América Latina Brasil Português

los. A presença de uma co-produção entre Europa e América La- França, República Checa,
5085 Solomon Kane Europa Inglês
tina e uma produção latino-americana faz com que adquira ainda Reino Unido

mais validade a tese segundo a qual os sites de partilha de ficheiros 5082 Faster EUA EUA Inglês

podem contribuir para aumentar a diversidade cultural quando 4636 The Hangover Europa, EUA EUA, Alemanha Inglês
comparados com o circuito de distribuição comercial típico do
Quim Roscas e Zeca
mainstream. Isto pode também ser comprovado com o número 4618
Estacionâncio
Europa Portugal Português

superior de países representados no Top 20 do BTnext em com- França, EUA, Espanha,


4516 Green Zone Europa, EUA Inglês
paração com os que constam do Top 20 de espectadores de 2009: Reino Unido

sete países contra três. Ainda mais relevante é a presença de cinco 4477 Law Abiding Citizen EUA EUA Inglês

filmes no Top 20 do Bitnext cujo principal idioma é o português. 4255 Clash of the Titans EUA EUA Inglês
Três destes são produções exclusivas, a quarta é uma co-produção Beauty and the
4173 Europa Portugal Português
Portugal-Brasil e a quinta é Tropa de Elite 2, a sequela do blockbuster Paparazzo

brasileiro Tropa de Elite cujo sucesso na estreia nas salas de cinema

[114] [115]
a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

se ficou pelo menos parcialmente a dever à disponibilização ante- (…) as condições para o crescimento da partilha de vídeos através
cipada de uma cópia ilegal meses antes do lançamento (tal como do peer-to-peer são um dado adquirido: redes de transmissão de
já foi previamente mencionado). vídeo (…), dispositivos de acesso e armazenamento de grande ca-
pacidade (…), software capaz de descarregar e reproduzir vídeo (…)
FIG. 12 OS 20 FILMES MAIS DESCARREGADOS DO BTNEXT e mesmo algumas aplicações que tiram partido de tecnologia de
DE ACORDO COM A SUA PROVENIÊNCIA GEOGRÁFICA captação e criação de vídeo (…). (Carey 2008, 131)

Estas condições têm a ver com: velocidades de transmissão das


ligações à internet em banda larga que fazem com que os partilha-
dores possam partilhar um grande volume de conteúdos vídeo; dis-
positivos de armazenamento (discos rígidos internos e externos,
Só EUA – 50%
Europa e EUA – 20% pens USB, smartphones e tablets) e gravação de dados (CD, DVD e
Só Europa – 20%
Europa e América Latina – 5%
Só América Latina – 5%
discos Blu-ray) com cada vez maior capacidade; e a popularização
dos leitores de DVD e novos dispositivos multimédia enquanto
artigos de entretenimento doméstico. Os media center ou os novos
discos multimédia directamente ligados aos computadores, ecrãs
e dispositivos áudio constituem um elo de fácil ligação entre os
fontes: BTnext.com e IMDB. ficheiros vídeo descarregados da internet e os tradicionais dispo-
sitivos multimédia de sala (televisor, aparelhagem de alta fidelida-
de, aparelhos de home cinema, etc.).
CONCLUSÃO: AS CARACTERÍSTICAS DA DISTRIBUIÇÃO De facto, poder-se-á até afirmar que o aparecimento e po-
DE CINEMA VIA P2P E OS PADRÕES DA PROCURA pularização desta nova geração de dispositivos multimédia se
encontram intrinsecamente associados à partilha de ficheiros
Os resultados desta análise evidenciam que diferentes círculos via internet. Outras tecnologias como o vídeo a pedido (video-
de distribuição correspondem a diferentes padrões de procura. -on-demand) estão também a aumentar a sua popularidade. Es-
Os fãs de cinema de todo o mundo podem encontrar nas redes tamos portanto a atravessar um período de mudança na distri-
P2P filmes que não conseguem ver nos cinemas, nem tão pouco buição e no consumo de cinema. Mesmo que «a partilha de fi-
encontrar em DVD, algo que sucede com grande parte dos filmes cheiros vídeo não substitua a ida ao cinema» (Einav 2008, 158),
europeus. Esta tecnologia permite que pessoas de todo o mundo substitui claramente o aluguer de DVD (Einav 2008, Gavosto
adiram a comunidades de partilha de filmes e contribuam com et al. 2008).
conteúdos e largura de banda.
Como John Carey defende:

[116] [117]
a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

Os filmes em Discos Versáteis Digitais (DVD) são também mui- facilita uma determinada mentalidade que aceita e abraça a capa-
to populares. Aqui, o peer-to-peer tem um efeito semelhante ao de cidade de os utilizadores obterem, processarem e armazenarem
um serviço de vídeo a pedido, funcionando como um substituto quantidades enormes de informação a um custo extremamente
do aluguer. Quando comparado com o aluguer físico do filme, reduzido. Ao contrário dos serviços de vídeo a pedido — que ape-
o apelo do peer-to-peer reside no facto de não sermos obrigados nas o fazem de uma forma limitada –, o P2P incentiva a bricolage
a deslocar-nos ao videoclube ou à máquina de distribuição. Em informacional.
relação ao VoD (vídeo a pedido), a grande vantagem do P2P é o O surgimento da sociedade em rede (Castells 2002) conduziu
facto de podermos ficar com os filmes depois de os descarregar- à criação de uma série de espaços sociais não regulados que pro-
mos, gravarmos para CD, transferirmos e por aí adiante. (Gavosto vocaram uma desestabilização dos quadros cognitivos das pessoas.
et al. 2008, 275) Sempre que tal acontece, as regras sociais sofrem um processo de
modificação, reinterpretação e adaptação. À medida que novas rea-
Para além do descrito, o peer-to-peer em geral, e a partilha de fi- lidades vão sendo projectadas, as meta-regras que regem os direitos
cheiros vídeo em particular, representam o expoente máximo da relativos à propriedade privada e os próprios princípios democrá-
ideia defendida por Mijke Slot e Valerie Frissen de que «na era da ticos são mobilizados de forma a reestruturar e a atribuir um novo
Web 2.0, já não faz sentido pensar nos utilizadores como utili- significado à acção humana. Mesmo que determinadas empresas
zadores finais, dado que eles passaram a fazer parte do centro da apelem a uma regulação online mais apertada, a natureza da internet
cadeia de valor (…), passaram a ser agentes importantes em quase faz com que as novas regras dificilmente venham a ser aplicadas.
todos os elementos dos serviços online (…), os utilizadores conso- Este impasse remete para questões de moralidade e solidariedade
mem conteúdos de um modo activo e, por intermédio do peer-to- social: os quadros normativo e cognitivo são valorizados por forne-
-peer, assumem uma função de distribuição» (Slot e Frissen, 2007). cerem as meta-regras necessárias para a criação de novos sistemas
Dada a maior e mais fácil disponibilização de recursos (isto de regras. A pirataria, por exemplo, é um fenómeno bipartido que
é, filmes) via P2P, faz sentido pensar nesta cadeia de valor cen- coloca em confronto os interesses dos editores e produtores e os de
trada na publicação e utilização de conteúdos (Limonard 2008) quem, como os membros da comunidade do The Pirate Bay, defen-
como um substituto provável do aluguer de DVD. O resultado de a total liberdade de informação. Nesta luta, podemos encontrar
final desta cadeia de valor é que «cada utilizador tem as mesmas tanto autores que tomam partido por uma das partes1 como outros,
oportunidades de consumir e de criar conteúdos», situação a que sem opinião formada, que preferem ficar de fora.
Axel Bruns dá o nome de «produsage»1 (Bruns 2006). Contudo, não
se trata apenas de uma mera evolução tecnológica. Opondo-se ao
determinismo tecnológico, Mayer-Schönberger (2008) argumen-
1 Um apoio simbólico mas mesmo assim importante concedido por um autor à posição
ta que na era da comunicação em rede as cadeias de valor existen- dos partilhadores foi a doação de mil euros feita por Jean-Luc Godard para cobrir parte
das custas judiciais da defesa de um cidadão francês acusado de ter descarregado 13 788
tes vão sendo eliminadas ou reconfiguradas. A tecnologia digital ficheiros mp3 (Hervaud 2010). O cineasta franco-suíço é também conhecido por ser um
crítico acérrimo do conceito de propriedade intelectual, assim como de todos os abusos
1 Neologismo que resulta da fusão das palavras «produção» e «uso». relacionados com a aplicação dos direitos de autor (Les Inrockuptibles 2010).

[118] [119]
a sociedade dos ecrãs o p2p e o futuro em rede do cinema europeu

O cinema europeu poderá assim beneficiar dos sistemas de do também relacionada com a forma de disponibilizar mais fa-
distribuição alternativos que aqui analisámos. No caso da distri- cilmente os conteúdos aos consumidores (isto é, espectadores
buição de cinema via P2P, alguns problemas poderão advir da au- de cinema ou compradores). A posição que aqui defendemos
sência de regulação que autorize explicitamente esta prática. Mas não passa pela criação de um mercado livre ao estilo norte-
o facto de o cinema europeu ser fortemente subsidiado parece -americano, em que a promoção de novos filmes depende de
indiciar uma menor renitência à adopção deste canal de distri- dispendiosas campanhas de marketing. Partimos, sim, do prin-
buição do que no contexto norte-americano. «Em alguns países cípio realista segundo o qual, num contexto em que um cada
europeus, o financiamento público de filmes coloca os produtores vez maior número de filmes europeus acaba por não chegar às
numa posição em que o filme é em grande parte financiado por salas de cinema e em que o acesso aos outros canais tradicio-
subsídios mesmo antes de estrear» (Rimscha 2006, 2). Em última nais se encontra igualmente vedado, os consumidores de cine-
análise, as já existentes redes de distribuição de cinema via P2P ma europeu não olharão a esforços para satisfazer as suas ne-
poderão ser usadas em conjunto com uma distribuição mais gene- cessidades. Uma vez feita esta constatação, consideramos ser
ralizada nas salas de cinema e uma aposta mais forte no marketing urgente determinar a relevância que o P2P poderá ter enquan-
com vista à disseminação das obras de cinema europeu em merca- to meio alternativo de acesso1.
dos estrangeiros. Uma questão que só poderá ser respondida mais Ao discutirmos o cinema europeu nas redes P2P estamos a
tarde consiste em saber em que medida esse modo de actuação falar não só da utilização e distribuição de conteúdos mas tam-
poderá comprometer o conteúdo bem como a própria essência do bém do modo como a inovação cria novos conteúdos e formas de
cinema europeu, nomeadamente através de uma eventual apro- mediação (exemplo: novos programas e plataformas), que permi-
ximação ao modelo económico da indústria norte-americana, tem que as pessoas descarreguem conteúdos através da internet
de maior apelo junto das massas. de maneiras cada vez mais eficientes. Por fim e já que os utiliza-
Uma coisa é certa: se perpetuarmos a situação actual em dores das redes P2P avaliam a qualidade da experiência, convém
que o consumo de filmes europeus não é favorecido, a indústria também não descurar o padrão de qualidade a adoptar para os fi-
europeia corre o risco de desaparecer ou de ser absorvida por cheiros. Na medida em que os utilizadores que mais contribuem
intermédio de parcerias com produtores de outras indústrias garantem com as suas classificações e comentários uma simbiose
cinematográficas regionais, particularmente Hollywood. O que positiva entre a qualidade de cada ficheiro e a frequência com que
na prática, na opinião de alguns, será o mesmo que «dormir com este é partilhado, a viabildiade do sistema é assegurada.
o inimigo» (Pardo 2006). Diante deste cenário, o P2P poderá Acreditamos que o estudo destes três processos interligados
tornar-se um agente dinamizador capaz de voltar a colocar o ci- nos irá permitir verificar se, a partir do momento em que um filme
nema europeu numa posição de liderança no contexto da indús-
tria cinematográfica global. 1 O surgimento de trackers privados de BitTorrent como o Karagarga — especializado
em cinematografias clássicas e independentes — poderão ser vistos como um possível pro-
A sustentabilidade do cinema europeu não se restringe tótipo de sistema de distribuição de cinema europeu na era digital. Sites como o Karagarga
apenas a uma questão económica de receitas ou ganhos, estan- são fruto do trabalho de uma comunidade de fãs de cinema que velam pela aplicação das
regras por parte dos restantes membros e efectuam regularmente upload de novos filmes.

[120] [121]
a sociedade dos ecrãs

se encontra disponível na internet, o seu nível de procura aumen-


ta ou diminui; se é ou não fácil de encontrar; quantos utilizado- DINÂMICAS FAMILIARES E MEDIAÇÃO:
res o acabarão por ver e qual a sua classificação. Acima de tudo,
pensamos que este estudo nos irá permitir testar a nossa principal
CRIANÇAS, AUTONOMIA E CONTROLO
hipótese, isto é, que o número de filmes europeus irá aumentar ao
longo dos próximos anos. GUSTAVO CARDOSO, RITA ESPANHA E TIAGO LAPA

A imagem da convivência em família em torno da «lareira electróni-


ca» parece, hoje em dia, dar lugar à rede convivial, real e virtual per-
mitida pela emergência dos novos média e das novas tecnologias da
informação e comunicação (TIC) (Espanha, Soares e Cardoso 2006).
As gerações mais novas têm crescido no meio de mudanças no do-
mínio da interactividade da comunicação e no meio de um sistema
de múltiplos produtores e distribuidores. Os jovens são assim par-
ticularmente susceptíveis a uma socialização entre várias realidades
mediáticas, concorrentes ou complementares, e crescem entre uma
multiplicidade de escolhas no que respeita às formas de comunica-
ção, entretenimento e informação. Novas competências parecem es-
tar a ser adquiridas intuitivamente pelos mais novos como a forma de
explorar a interligação entre as várias realidades mediáticas e a forma
de operar vários expedientes mediáticos simultaneamente.
A apropriação dos média e das novas tecnologias pelos jovens
sugere que possam estar a ocorrer transformações no âmbito da
interacção familiar em torno das TIC. Essas transformações po-
derão incluir a ocorrência de conflitos específicos em torno do
consumo dos média — por exemplo, em termos dos tempos de
utilização e conteúdos. Surge assim a hipótese de que novos cam-
pos de negociação ou de tensão familiar poderão estar a emergir
no que respeita à autonomia dos adolescentes, à autoridade pater-
nal, às regras parentais e ao controlo caseiro sobre os média.

[122] [123]
a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

CONTEXTOS JUVENIS NA ERA DOS NOVOS MÉDIA MySpace, o MSN ou as mensagens de telemóvel, celebra a diver-
sidade de estilos de vida, a divulgação ou a expressão pessoal.
Nos últimos tempos temos assistido, como aponta Livingstone O conceito de deslocação sublinha os desencontros que se
(2002), a uma mudança do público para o privado na vida dos poderão desenhar entre grupos de pertença e agentes de referên-
mais jovens, o que se relaciona, por um lado, com o declínio da cia. Por outras palavras, poderão verificar-se deslocações entre
«cultura de rua» e a retirada para a casa ou o apartamento, em pais, educadores e jovens, tanto na transmissão de conhecimen-
especial, em contextos urbanos, e, por outro lado, com o declí- tos e valores como na partilha de culturas mediáticas e comuni-
nio do convívio familiar em torno da televisão e a emergência da cacionais. Ademais, essas deslocações poderão exacerbar algumas
«cultura do quarto de dormir». Ora tais questões ligam-se com contradições na condição de ser «jovem». Uma primeira contra-
outras mais gerais sobre o significado do estatuto de «jovem» e dição brota da situação transitiva dos jovens entre o estatuto de
do estatuto da família. A penetração dos média no quotidiano criança e o estatuto de jovem adulto, o «homenzinho», senhor de
pode traduzir-se em novas formas de organizar práticas de tem- si. Uma segunda contradição advém do usufruto de novos cam-
pos livres ou de lazer e de estudo. E a utilização dos vários média pos de liberdade num contexto de dependência financeira face
poderá de certa forma traduzir o dia-a-dia dos jovens nos seus aos pais. Muitos jovens vivem hoje ao abrigo de um verdadeiro
espaços (casa, escola, outros). A organização, no tempo e no es- sistema de protecção familiar, uma welfare family como nota Ma-
paço, do uso dos média traduz ainda maiores ou menores graus chado Pais. «Economicamente dependentes dos pais, usufruem,
de liberdade dos jovens e é um foco de negociação e de possível porém, de autonomia existencial. Decoram o quarto a seu gosto,
conflito com pais e educadores. escolhem as suas roupas, decidem sobre os usos do tempo e sobre
Os média pertencem ao que Merton denomina de grupos de as companhias com quem andam» (Público 5 de Março de 2007).
referência, por oposição aos grupos de pertença como a família, A natureza própria dos novos média poderá trazer mudanças
o grupo de amigos ou a escola. Portanto, os média, dadas as suas substanciais nas possibilidades e formas de mediação educativas
características e a sua poderosa rede de influência, constituem por parte de pais e mães. Tal como afirma Meyrowitz (1995), a en-
agentes socializadores de referência capazes de contrastar, com- trada dos novos média nos agregados familiares supõe um novo ce-
plementar, potenciar ou anular a influência dos agentes socializa- nário nas relações de autoridade entre pais e filhos. A experiência
dores de pertença como a família. Tanto os agentes de pertença de mediação frente aos média tradicionais como a rádio ou a te-
como de referência cumprem funções muito importantes mas que levisão baseia-se na experiência dos próprios pais como membros
poderão nem sempre coincidir. Neste âmbito, Loader (2007) cha- desde a sua infância da designada Tv Generation. Porém, dá-se o
ma a atenção para os processos de deslocação cultural dos jovens, paradoxo de que, frente a novos ecrãs como a internet, os jogos de
em especial aqueles mais socializados nas novas tecnologias, que vídeo, os telemóveis, etc., os jovens vão à frente no conhecimen-
poderão constituir o pelotão da frente de uma nova cultura tecno- to e no uso desses meios, facto que pode situar os progenitores
-social. Esta deslocação cultural que pressupõe a socialização em clara desvantagem. Inclusive, pode chegar a questionar a sua
num contexto mediático e em espaços comunicacionais como o autoridade para exercer qualquer mediação (Sala e Blanco 2005).

[124] [125]
a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

Muitas crianças e jovens descobrem e usam as inovações digitais lores, símbolos e autoridade que a família tradicional representa
antes dos seus pais; são elementos que formam parte quotidiana (Beck 2000). Outro processo a ter em conta é a individualização
da sua vida e das suas actividades. Além disso, as crianças podem dos tempos livres e dos espaços de lazer. O quarto dos jovens é uma
diferenciar-se dos seus pais em relação às suas disposições e ati- arena onde é visível essa individualização e privatização dos tempos
tudes face aos média. Segundo Sala e Blanco, as crianças e ado- de lazer e onde se joga uma parte importante da conquista de li-
lescentes percepcionam a internet e os computadores como algo berdade e autonomia. Apesar de esta situação não ser propriamen-
lúdico, divertido, enquanto os pais podem considerar esses meios te nova, é um conclave privado onde se realiza cada vez mais todo
de comunicação como realidades complexas, vinculadas ao esta- um conjunto de práticas individualizadas ligadas aos média. Não
tuto social, etc. No estudo de Rivoltella (2006), os pais tendem a podemos, todavia, dizer que a sala se tornou irrelevante enquan-
ter representações cuja dimensão comum é o uso mais instrumen- to espaço familiar comum na utilização dos média. Pelo contrário,
tal da internet: meio de informação, comunicação e conhecimen- verifica-se que continua a ser bastante relevante, porém tem sofri-
to, ferramenta de trabalho. A falta de conhecimentos dos novos do a concorrência de outros espaços domésticos mais privados.
média constitui, portanto, um primeiro condicionante da media- O quarto de dormir cresce em importância como local de uti-
ção familiar em relação às actividades mediáticas dos jovens, em- lização dos média, a par de uma utilização cada vez mais privatiza-
bora possa ser temporário e circunscrito ao momento actual de da de vários aparelhos, visto que cada membro poderá ter direito,
transição para a sociedade em rede (Castells 2002). em potência, a ter o seu próprio telemóvel ou telefone, aparelho
A utilização dos novos média como mais um palco de expres- de televisão, computador, etc. Podemos mesmo dizer que o sis-
são da autonomia dos jovens poderá chamar ao de cima as con- tema dos média visível no espaço público tem invadido o espaço
tradições da condição juvenil na estipulação de ditos e interditos, privado do quarto de dormir das novas gerações. Esta lógica «do
de regras e controlos parentais. Através da utilização dos média, quarto para o mundo» pode, no futuro, lançar novas tensões e re-
os jovens poderão reclamar para si o direito à sua autonomia exis- configurações da fronteira entre público e privado e novas recon-
tencial, enquanto pais e educadores poderão reconhecer aspectos figurações e negociações no que se entende por vida familiar.
preocupantes no seu uso e recolocar os jovens na sua posição de Tendo em consideração este contexto, queremos dar conta
dependentes. Ademais, as diferentes culturas mediáticas de pais não só das dinâmicas familiares num sentido lato mas, principal-
e filhos poderão provocar elementos de incerteza na aplicação mente, da forma como a apropriação dos média e das novas tecno-
de regras. Como regrar aquilo que não se conhece ou se conhece logias pelos jovens pode estar a ter impacto no âmbito da interac-
pouco? Como discutir democraticamente ou fazer valer no seio ção familiar em torno das TIC. Com o rápido aumento do número
familiar regras e prescrições quando se desconhece a cultura dos de agregados familiares com conexão à internet, surge o interesse
filhos? Neste contexto, muitas regras poderão ser vistas como in- em perceber como as novas tecnologias influenciam as relações
justas pelos jovens e serem potenciadoras de conflito. familiares e qual o potencial das TIC para mudar a vida familiar,
É de sublinhar igualmente que estes fenómenos têm como tanto no desempenho de papéis tradicionais, como na produção de
pano de fundo o processo mais global de questionamento dos va- novos campos de possível conflito. Os nossos questionamentos não

[126] [127]
a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

significam, contudo, aceitar acriticamente a divisão entre novos e O projecto E-Generation baseou-se numa metodologia de re-
velhos média. É válido o argumento de que os teóricos dos novos colha de dados realizada através de um questionário presencial
média provavelmente exageraram a novidade das novas tecnologias aplicado a uma amostra representativa da população, com idades
e da emergência da segunda era dos média (Webster 2001). Como entre nove e 20 anos.
sugerem Livingstone et al. (2007), os jovens no seu todo poderão No caso do projecto desenvolvido em conjunto com a
continuar a ser influenciados mais pela televisão do que pela inter- PT.COM, a metodologia escolhida foi a aplicação de um inquéri-
net. Portanto, levanta-se a questão de saber até que ponto os no- to online realizado pelo CIES-ISCTE, alojado na rede SAPO, a jo-
vos média introduzem, em termos qualitativos, novas variáveis na vens utilizadores de internet. O inquérito esteve online durante
relação entre pais e filhos ou se apenas constituem um acrescento um mês e totalizou 1377 respostas, das quais foram consideradas
quantitativo aos média convencionais. válidas 1353, o que nos permite fazer uma caracterização dos jo-
vens utilizadores de internet que responderam ao questionário e
da sua relação com as tecnologias e os meios de comunicação.
METODOLOGIA E DADOS A recolha dos dados obtidos de duas formas distintas (através
da aplicação de um inquérito online e através da aplicação tradicio-
O CIES-ISCTE (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia), nal, face a face, de um inquérito a nível nacional) veio de encontro a
em colaboração com a PT.COM — Comunicações Interactivas, objectivos diferentes, mas convergentes. Com o inquérito aplicado
S.A., e no âmbito de um protocolo de colaboração realizado entre presencialmente a nível nacional o nosso objectivo passou por ob-
estas instituições, desenvolveu um estudo sobre «Crianças e jovens: ter dados representativos da população portuguesa no que respeita
a sua relação com as tecnologias e os meios de comunicação». Si- à utilização dos média. O propósito do inquérito online foi chegar
multaneamente, o CIES desenvolveu uma pesquisa denominada a uma população jovem mais socializada nas novas tecnologias e
«E-Generation: os usos de media pelas crianças e jovens em Portu- assim dispor de um novo recurso metodológico. Com estes dados
gal», apoiado pela Fundação PT. podemos então comparar as práticas de uma parte (crescente) da
Ambos tinham objectivos semelhantes: mapeamento dos es- população mais socializada nas novas tecnologias e a população na-
tilos de vida mediáticos de jovens e oportunidades de evolução dos cional, representativa dos vários sectores da sociedade portuguesa.
mercados; caracterização dos contextos e usos dos média por parte Apesar de o uso da internet ter proliferado nos últimos anos,
de crianças e jovens em Portugal; e comparação de resultados a ní- o seu uso por parte das Ciências Sociais para conduzir inquéritos
vel europeu e global — numa primeira fase (2006), entre Portugal e por questionário ainda continua bastante limitado. Apesar das re-
Catalunha e, numa segunda fase, EUA, Canadá; Alemanha, Singa- servas e dos cuidados necessários na aplicação deste método, não
pura, Índia, Japão, China, Chile, Argentina, França, Reino Unido, deixa contudo de fornecer um grande potencial e uma versatili-
Itália, Suécia e Espanha, no quadro do World Internet Project. dade metodológica, oferecendo vantagens distintas: proporciona
A principal diferença entre estes projectos residiu na meto- ao investigador um contacto mais facilitado com populações geo-
dologia de recolha de informação utilizada para cada um deles. graficamente dispersas; proporciona uma redução de custos no

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a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

processo de investigação e uma agilização do processo de recolha sala continua a ser o local onde maior número de jovens vê televi-
e armazenamento de dados. são. Todavia, é de assinalar que 51,1 por cento dos jovens afirmam
À parte as questões metodológicas, uma dificuldade com que que vêem televisão no seu quarto.
os investigadores se depararam está relacionada com as compe-
tências técnicas necessárias para utilizar este tipo de tecnologias, FIG. 1 LOCAL ONDE OS JOVENS PORTUGUESES VÊEM TELEVISÃO
pelo que, no nosso caso, foi bastante frutuosa a parceria com a %
100
PT.COM. Apesar do potencial atractivo dos questionários apli-
90 81,0
cados online, o seu uso deve ser justificado e ponderado, tendo em 80
conta os objectivos do projecto de investigação em causa. Dado 70
60 51,1
o carácter voluntarioso das respostas neste tipo de inquéritos, 50
deve ser pensada uma estratégia amostral para obter as respostas 40 34,1
30
de indivíduos relevantes para o estudo. A esta questão está ligada
20 8,1
à ponderação do uso de incentivos. No caso particular do nosso 4,0 7,8
10
inquérito foi sorteado um prémio (uma consola de jogos de vídeo) 0
No meu No quarto Na sala No quarto Na cozinha Noutros
direccionado para a população jovem. Este tipo de inquéritos de- quarto do meu dos meus locais
verá também ser usado de forma ética, garantindo o consentimen- irmão/irmã pais

to explícito de que os dados estão a ser recolhidos, assim como


salvaguardando a confidencialidade e a privacidade dos dados.
Além disso, perto de 40 por cento dos jovens respondentes têm o
computador no quarto, o que vem reforçar a ideia de que tendem a
ANÁLISE DOS DADOS concentrar no seu reduto mais privado os média que utilizam. É nesse
reduto que os jovens realizam um conjunto de práticas em simultâneo
Tanto os dados do inquérito aplicado face a face como do aplica- ou em exclusivo: navegam na internet, usam o computador, estudam,
do online parecem suportar os processos já mencionados, como a jogam, assistem a programas de televisão, entre outras actividades.
individualização do uso dos média e a sua crescente utilização no As percentagens de jovens que têm o seu próprio telemóvel
âmbito de uma cultura do «quarto de dormir». Os dados do inqué- são mais impressionantes. Os dados do inquérito face a face, re-
rito face a face demonstram claramente que quase todos os lares presentativo da população juvenil portuguesa, mostram que 72,8
portugueses têm mais de duas televisões e nos lares de mais de 50 por cento dos jovens dos 8 aos 18 anos têm telemóvel, sendo que a
por cento dos jovens há três ou mais televisões. Esses números sua utilização é praticamente universal nos jovens entre os 16 e os
tornam-se ainda mais expressivos no inquérito online onde mais 18 anos de idade. Além disso, perto de 70 por cento dos respon-
de 70 por cento dos jovens inquiridos afirmam ter três ou mais dentes afirmam que existem pelo menos três telemóveis no seu
televisões em casa. Os dados obtidos online mostram ainda que a agregado familiar, como é demonstrado na figura 2.

[130] [131]
a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

FIG. 2 QUANTIDADE DE TELEMÓVEIS POR AGREGADO FAMILIAR FIG. 3 ACTIVIDADES DE TEMPOS LIVRES REALIZADAS EM CASA
Ver televisão 97,1
% 93,5
Interagir com a televisão 7,2
100 6,3
Ver DVD ou vídeos 11,9
90 12,1
5,0
80 Ver programas de TV gravados 2,6
70 Usar o computador 40,9
26,7
60 Usar MSN/Chats 10,6
6,4
50 Navegar na internet 18,9
16,7
40 Ouvir música 60,5
29,7 40,3
30 Jogar jogos 34,2
20,5 21,6 24,9
20 Fazer downloads de música na internet 5,8 Antes do jantar
8,4 10,5 5,7
10 3,2 4,2 1,5 0,4 Fazer downloads de filmes na internet 1,7
1,6 Depois do jantar
0 Fazer downloads de programas e 2,7
Nenhum Um Dois Três Quatro Cinco Seis Sete Dez jogos na internet 2,6
Fazer desporto 11,9
1,7
Ler livros 18,8
14,4
Ler revistas 17,1
Através dos dados desse inquérito podemos aferir também o peso 9,3
13,1
Ler banda desenhada 8,6
que a televisão continua a ter nas actividades de tempo livre dos Estudar/ fazer trabalhos de casa 33,2
72,3
13,1
jovens. Contudo, a televisão constitui muitas vezes um pano de Falar ao telefone 11,8
32,1
Enviar mensagens SMS a amigos
fundo de outras actividades e poderá ser partilhada com a reali- Nenhuma 0,4
27,4
0,6
%
zação de outras actividades, em especial com o próprio estudo. 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
Utilizar o computador, ouvir música, jogar jogos e enviar mensa-
gens SMS aos amigos são outras actividades de destaque, como é
mostrado na figura 3. inquiridos online preferem jogar a ver televisão, e perde igualmen-
Ainda que a televisão continue a ser o grande ecrã dos mais te para o telemóvel. Estes dados sobre preferências estão em con-
novos, muitos vivem e crescem rodeados de uma rede digital sonância com os dados apresentados por Sala e Blanco (2005), que
composta por vários ecrãs, daí que Rivoltella (2006) designe a demonstram a preferência dos jovens espanhóis inquiridos online
presente geração de jovens com a «geração dos ecrãs», em oposi- por ecrãs que permitam maior interacção: a internet, o telemóvel
ção a uma geração anterior cuja cultura mediática era dominada e os jogos de vídeo. Estes dados parecem assim suportar a ideia
pelo grande ecrã da televisão. Porém, este ecrã é unidireccional e de deslocação cultural dos jovens, que preferem cada vez mais o
não permite as possibilidades comunicacionais e interactivas de contacto com os novos média.
outros média. Daí que a televisão esteja a perder importância ao No inquérito online foram feitas perguntas específicas sobre
nível das preferências dos jovens. No inquérito online, verifica-se se já houve ou não discussões e conflitualidade familiar em torno
que a grande maioria dos internautas (72,9 por cento) prefere a do uso de diferentes média. Na figura 4 podemos ver que 44,8
internet à televisão. No geral, a televisão perde ainda terreno para por cento, ou seja, perto de metade dos jovens inquiridos, já teve
os jogos de consola ou computador, visto que 60,3 por cento dos discussões com os pais por causa do tempo que passa ligado à

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a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

FIG. 4 CONFLITUALIDADE FAMILIAR EM TORNO DO USO DE DIFERENTES MÉDIA fruto de uma crescente liberdade e autonomia (ou de uma cres-
Já tive discussões (com os pais) por causa do seguinte: cente procura dessa autonomia) quanto ao acesso e ao uso da
O que gasto 16,7 internet e, por outro lado, cruzar-se com as dinâmicas próprias
enquanto estou 81,7
ligado à internet
do (ainda curto) ciclo de vida do adolescente em termos de nego-
1,6
ciação da autonomia entre pais e filhos. Entre os 13 e os 15 anos
O que faço 8,5
quando estou ligado 89,5 muitos adolescentes ainda não têm liberdade para sair à noite ou
Sim
à internet 1,9 para organizar determinado tipo de programas com os seus pares,
Período do dia em 18,5 Não contudo, poderão já ter liberdade suficiente para um livre acesso
que me ligo à 79,6 Não sabe/não à internet. Adolescentes com este grau intermédio de liberdade
internet 1,9 responde
poderão recorrer mais ao uso da internet, potenciando o conflito.
44,8
Tempo que passo 54,0
Além disso, parte da vida social dos adolescentes poderá estar a
ligado à internet
1,2 ser transferida para os programas de computador que permitem
%
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 uma mediação das interacções sociais.
No que respeita ao período do dia em que estão ligados, são
os rapazes os que declaram ter mais discussões (19,8 por cento).
internet. Verifica-se ainda que o período do dia em que os inqui- E é entre os mais novos que parece ser um pouco mais propenso
ridos se ligam à internet parece gerar bem menos conflito que o o conflito em torno desta questão. A propensão para o conflito
tempo de uso. Apenas 18,5 por cento dos inquiridos assinalam parece ir diminuindo há medida que a idade dos inquiridos au-
que já tiveram discussões com os pais em torno do período do menta. Isto faz sentido se pensarmos que é nas idades mais jovens
dia em que estão online. que há um maior controlo paternal sobre os horários como os das
Os nossos dados fornecem ainda a informação interessante de refeições, de deitar e de levantar.
que existe uma maior percentagem de raparigas (47,2 por cento) A fonte menos significativa de conflito é o que os jovens fa-
do que de rapazes (42,9 por cento) que afirmam já terem tido dis- zem quando navegam na internet. E, sem surpresas, é entre os
cussões familiares relacionadas com o tempo que passam na inter- mais jovens que esse conflito é maior, o que denota um maior
net. Igualmente curioso é verificar que entre os mais novos há a controlo paternal nos jovens entre os 9 e os 12 anos, sendo claro
menor percentagem de jovens inquiridos a ter discussões com os que os mais velhos (dos 16 aos 18 anos) gozam de mais liberdade
pais. Isto poderá ser talvez o resultado de um controlo paternal e autonomia. Os gastos também só são um foco de conflito para
mais apertado, onde os pais podem impedir o acesso ao compu- uma minoria dos jovens internautas (16,7 por cento). Será de espe-
tador e à internet. Por seu turno, é entre os 13 e os 15 anos que há rar que este seja um foco de conflito cada vez menos importante
uma maior percentagem de inquiridos que já tiveram discussões à medida que aumentarem as ligações de banda larga e à medida
com os pais, percentagem essa que baixa um pouco entre os 16 que os contratos com as empresas de telecomunicações tiverem
e os 18 anos. A frequência dos conflitos poderá, por um lado, ser limites de tráfego menos restritivos.

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a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

Parece haver um pouco mais de propensão para o conflito em pais que se sentam ao lado do computador também é bastante
torno dos gastos entre os rapazes (17,8 por cento) e entre os jovens minoritária (7,1 por cento), assim como a percentagem de jovens
dos 16 aos 18 anos (17,7 por cento). O conflito em torno dos gastos cujos pais os ajudam a navegar (6,8 por cento). São ainda 11,2 por
está ligado com o conflito em torno do tempo de uso1. Portanto, cento os inquiridos que declaram que os pais estão presentes na
uma parte das discussões em torno do tempo não terá apenas a mesma sala quando estão ligados à internet. O que é significativo
ver com o argumento de que a internet «rouba» tempo para ou- é a percentagem de jovens inquiridos que afirmam que os pais não
tras actividades (estudar, estar com a família, etc.), mas sim com fazem nada (53,6 por cento), contudo, isto não deve ser equacio-
razões económicas sentidas pelos pais. Contudo, não é só entre nado com a ausência de controlo por parte dos pais destes inqui-
esses dois conflitos que existem relações estatisticamente signifi- ridos. Como seria de esperar, a vigilância por parte dos pais é mais
cativas. Elas foram verificadas em todos os tipos de conflito2. Fica apertada entre os mais jovens. São 42,5 por cento os inquiridos
então patente que as discussões com os pais envolvem muitas ve- dos 9 aos 12 anos que afirmam que os pais perguntam o que estão
zes as várias dimensões de utilização, que constituem um «pacote» a fazer e 47,5 por cento os que declaram que os pais vão espreitar
completo com o qual os jovens são confrontados. Por outras pa- o que estão a fazer. De resto, todas as percentagens relativas à vi-
lavras, tendencialmente, os inquiridos que declararam já ter tido gilância e à ajuda parental aumentam nos inquiridos mais jovens.
discussões com os pais numa dimensão declaram também já ter Como seria de esperar, essas percentagens descem à medida que
tido discussões noutra dimensão de utilização. são considerados os inquiridos mais velhos.
Como se pode ver na figura 5, perguntar directamente aos
jovens o que estão a fazer parece ser a forma mais frequente de FIG. 5 FORMAS DE VIGILÂNCIA PARENTAL
vigilância paternal (38,1 por cento) e logo a seguir está a observa- % O que fazem os teus pais enquanto estás ligado à internet?
100
ção dos pais sobre os que jovens internautas estão a fazer (36,9 90
por cento). As raparigas parecem sofrer uma vigilância um pouco 80
mais apertada do que os rapazes, visto que 41,8 por cento decla- 70
60 53,6
ram que os pais perguntam o que estão a fazer e 40,7 por cento 50
38,1 36,9
afirmam que os pais vão ver, contra 35,3 por cento e 34 por cen- 40
30
to dos rapazes, respectivamente. O controlo directo do correio 20 11,2 7,1
electrónico é muito pouco frequente (0,6 por cento dos casos), 10 6,8 2,9 0,6
0
assim como é pouco frequente os pais acederem ao historial dos

Perguntam-me
o que estou a
fazer

Dão uma
olhadela

Ajudam-me

Estão na
mesma sala

Sentam-se
comigo

Vão ver, a
seguir, por onde
andei a navegar
Vão ver o
meu correio
electrónico

Não fazem
nada
browsers para verificar onde os filhos andaram a navegar (2,9 por
cento). A percentagem de jovens que são acompanhados pelos

1 Tal foi verificado estatisticamente utilizando o teste do qui-quadrado (sig. <0,001).


As compras e a revelação de informações pessoais são as proi-
A relação entre os dois conflitos é moderada (V de Cramer = 0,49). bições mais significativas (41,4 por cento e 38,9 por cento dos
2 sig. <0,001

[136] [137]
a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

casos, respectivamente). A terceira maior proibição é o download aos 15 anos que declara não ter proibições explícitas é de 34,6
de ficheiros, mas apenas 16,1 por cento dos inquiridos declaram por cento e, entre os inquiridos dos 16 aos 18 anos de idade,
que não têm permissão para o fazer. Nos restantes itens, a taxa essa percentagem ascende aos 54 por cento.
de proibição é menos elevada, não chegando aos 10 por cento.
(É curioso que 5% declaram que não têm o aval para preencher QUANDO NAVEGAS NA INTERNET, SEGUNDO OS TEUS PAIS,
questionários. Visto que a informação aqui exposta foi obtida QUE COISAS NÃO PODES FAZER?
por questionário, ficamos a saber que pelo menos 5% desobede- n.º %

cem aos pais.) Uma percentagem substancial de inquiridos (43,1 Fazer compras 448 41,4
por cento) declara não ter qualquer proibição. Participar em chats 106 9,8
As raparigas parecem ser um pouco mais advertidas pelos
Dar informações pessoais 420 38,9
pais no sentido de não fazerem compras (43,3 por cento) e de
Preencher questionários 54 5,0
não darem informações pessoais (42,9 por cento) em compara-
Fazer download de ficheiros
ção com os rapazes (40 por cento e 35,8 por cento, respectiva- (música, jogos, etc.)
174 16,1

mente). E são mais os rapazes que declaram não ter qualquer Enviar SMS 39 3,6
proibição (44,9 por cento) do que as raparigas (40,7 por cento). Enviar mensagens de correio
22 2,0
No que respeita a proibições, verifica-se uma clara estratifi- electrónico
Jogar online 80 7,4
cação por idades. Os mais novos são os que menos liberdades
têm, como seria de esperar. Apenas 14,2 por cento dos inter- Não me proíbem de fazer nada 466 43,1

nautas dos 9 aos 12 anos declara não ter qualquer tipo de proi-
bição. A maioria está proibida de fazer compras e 63,3 por cen- Apenas uma minoria dos jovens inquiridos (16,7 por cento)
to afirmam terem sido advertidos para não darem informações afirma que os pais utilizam a internet como mecanismo de re-
pessoais. Há aqui um claro contraste com os inquiridos mais compensa ou de castigo. Entre os sexos não há grandes dife-
velhos, visto que apenas 31 por cento destes jovens estão avi- renças. É entre os escalões etários que se notam as principais
sados para não fazer compras e 30 por cento para não fornecer diferenças, em especial, entre os inquiridos mais velhos (dos
informações pessoais. São 20,8 por cento os inquiridos mais 16 aos 18 anos) e os restantes. Entre os mais velhos, apenas 11,2
jovens que estão ainda proibidos de participar em chats e 15,8 por cento afirmam que os pais usam a internet como prémio ou
por cento os que estão proibidos de jogar online. São 13,3 por castigo, enquanto nos inquiridos entre os 13 e os 15 anos essa
cento os que declaram ainda que não podem preencher ques- percentagem ascende aos 23 por cento e entre os mais novos,
tionários. Uma minoria não pode enviar SMS nem mensagens dos 9 aos 12, atinge os 25 por cento.
de correio electrónico (8,3 por cento e 6,7 por cento, respec-
tivamente). Nas camadas mais velhas, a clara tendência é para
que haja menos restrições. A percentagem de inquiridos dos 13

[138] [139]
a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

OS TEUS PAIS UTILIZAM A INTERNET COMO FORMA Apenas cerca de 20 por cento dos jovens declara já ter tido
DE CASTIGO OU DE PRÉMIO? discussões por causa do tempo que passou ao telemóvel. Um
dado curioso é a discrepância entre a percentagem de raparigas
Sexo Idade que já teve discussões com os pais por causa do tempo (27,8 por
Total 9 aos 12 13 aos 15 16 aos 18 cento) e a percentagem de rapazes (13,5 por cento). Por outro
Masculino Feminino
anos anos anos lado, são os mais velhos que tendencialmente têm mais discus-
n.º % n.º % n.º % n.º % n.º % n.º %
Sim 180 16,7 105 17,0 75 16,2 30 25,0 83 23,0 67 11,2 sões em torno do tempo gasto a falar ao telemóvel. Uma pos-
Não 715 66,1 404 65,5 311 67,0 71 59,2 219 60,7 425 70,8 sível explicação será que os jovens mais velhos utilizam mais o
Ns/
186 17,2 108 17,5 78 16,8 19 15,8 59 16,3 108 18,0 telemóvel como forma de aprofundar e alargar as suas relações
Nr
Total 1081 100 617 100 464 100 120 100 361 100 600 100 sociais, condizendo com a sua maior liberdade, seja para falar
e trocar impressões com parceiros, combinar saídas, encontros,
ou simplesmente namorar.
DE QUE MODO?
FIG. 6 CONFLITUALIDADE FAMILIAR EM TORNO DO USO DO TELEMÓVEL
n.º %
Já tive discussões (com os pais) por causa do seguinte:
Deixam-me utilizar a internet durante
100 9,3
mais tempo como prémio O que gasto 31,4
em telemóvel 65,9
Não me deixam utilizar a internet ou 2,8
135 12,5
retiram-me tempo útil
7,7
Não fazem nada 846 78,2 O que faço 89,9
enquanto uso o Sim
Total 1081 100 telemóvel 2,4

9,5 Não
Período do dia 88,2 Não sabe/não
Verifica-se que, tendencialmente, entre os inquiridos a internet em que utilizo o
2,3 responde
telemóvel
é mais utilizada como mecanismo de punição (em 12,5 por cento 19,6
dos casos) do que de prémio (em 9,3 por cento dos casos). Essa Tempo que passo 77,8
ao telemóvel
2,6
tendência é especialmente evidente entre as raparigas e os inquiri-
%
dos dos 13 aos 15 anos de idade. Já entre os inquiridos mais jovens, 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100

dos 9 aos 12 anos, verifica-se o inverso, visto que 17,5 por cento
declaram que os pais utilizam a internet como prémio contra 14,2 O período do dia em que os jovens falam ao telemóvel só é um
por cento que dizem que os pais constrangem o uso da internet foco claro de conflito para 9,5 por cento dos inquiridos. Mais uma
como castigo. No entanto, é de notar que a maioria dos inquiridos vez, são as raparigas as mais propensas às discussões com os pais,
declara que os pais não fazem nada. visto que 11,5 por cento declara já ter tido discussões relativas ao

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a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

período de utilização do telemóvel, contra 7,8 por cento dos rapa- utilização: o tempo, o período do dia em que se usa o telemóvel,
zes. Os mais velhos são os que mais declaram já ter tido discussões o que se faz com o telemóvel, os gastos.
por causa dos períodos de utilização (10,2 por cento), que poderão E uma vez mais são as raparigas as que revelam maior tendên-
ser devido a utilizações tardias do telemóvel, nas horas das refei- cia para o conflito com os pais, desta vez em torno dos gastos: 37,9
ções, em momentos inconvenientes, etc. O tipo de uso que é dado por cento das raparigas afirmam já terem entrado em conflito com
ao telemóvel é o que gera menos conflito. Apenas 7,7 por cento os pais, uma percentagem claramente acima da verificada entre os
declara já ter entrado em conflito com os pais por causa do tipo rapazes (26,4 por cento). No que respeita à comparação entre os
de utilização do telemóvel. Não são de registar diferenças muito vários escalões etários, já não se verificam diferenças tão evidentes.
significativas entre rapazes e raparigas, embora se verifique mais Cerca de um terço dos jovens internautas já entrou numa dis-
uma ténue tendência para serem as raparigas as mais propensas cussão com os pais por causa do tempo que passou a jogar jogos de
a entrarem em conflito com os pais por causa do telemóvel. No vídeo ou de computador, sendo este o principal foco de discussão.
entanto, é entre os mais novos que é mais evidente uma maior E desta vez a propensão para o conflito é muito mais clara entre
propensão para o conflito com os pais, talvez fruto do maior con- os rapazes, sendo isto verdadeiro para todos os tipos de conflito
trolo parental a que são sujeitos. considerados: o tempo que se passa a jogar; o período do dia em que
Os gastos com o telemóvel são o principal tópico de discus- se joga; o tipo de jogos de que os inquiridos gostam; e os gastos em
são com os pais para 31,4 por cento dos jovens. Conduziu-se o tes- jogos. São 41,5 por cento os rapazes que declaram já ter entrado em
te estatístico1 para verificar até que ponto as discussões relativas contenda com os pais por causa do tempo passado a jogar, sendo
aos gastos se associam à discussão em torno do tempo gasto em que as raparigas estão a uma distância de 20 pontos percentuais.
telemóvel e de facto, mais uma vez, verificou-se uma ligação entre São 17,2 por cento os rapazes que já tiveram discussões por causa
os dois conflitos — o do tempo e o dos gastos. Poderemos então do período em que estiveram a jogar e pouco mais de dez por cento
dizer, com propriedade, que grande parte da discussão sobre o os que declaram ainda ter tido discussões em torno do tipo de jo-
tempo é derivada dos gastos com o telemóvel, até porque muito gos jogados, enquanto apenas 7,5 por cento das raparigas entrou em
do tempo que os jovens passam ao telemóvel é invisível para os conflito com os pais por causa do período do dia em que jogaram
pais enquanto tempo, mas revela-se nos custos. Aprofundando a e só 4,3 por cento afirmam já ter tido discussões por causa do que
análise verificamos relações estatisticamente significativas entre tipo de jogos de que gostam. Os inquiridos mais novos também são
todos os tipos de conflitos, o que sugere que quando é desenca- mais propensos à discussão com os pais nos vários focos de conflito
deado um conflito familiar em torno da utilização do telemóvel considerados, mas as diferenças entre escalões etários não são tão
são discutidas muitas vezes em conjunto as várias dimensões de díspares como as diferenças entre rapazes e raparigas.
É relevante perceber como é que os jovens usam e valori-
zam diferentes jogos, em que medida os jogos são integrados nas
1 Teste do qui-quadrado (sig <0,001). Com a medida de associação V de Cramer verifi-
vidas das crianças e dos jovens (Livingstone, d’Haenens e Hase-
cou-se que a associação entre os dois conflitos está entre uma associação mediana e uma brink 2001) e como é que a mudança nos média se relaciona com
associação forte (V de Cramer = 0,665).

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a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

FIG. 7 CONFLITUALIDADE FAMILIAR EM TORNO DO USO DE JOGOS DE VÍDEO Um melhor conhecimento sobre processos informais de apren-
Já tive discussões (com os pais) por causa do seguinte: dizagem e o seu pano de fundo torna-se assim necessário para evitar,
10,4 segundo Fromme (2003), o «choque de culturas mediáticas». Esta
O que gasto 88,5 noção metafórica chama a atenção para o seguinte: professores, pais
em jogos
1,1
e educadores em geral são membros de uma geração que, na sua so-
8,6 cialização primária, cresceram numa cultura mediática diferente e,
Tipo de jogos 90,4
de que gosto
1,0
Sim portanto, têm experiências mediáticas diferentes das gerações mais
13,0 Não novas. Estas experiências mediáticas informais não só influenciam os
Período do dia 85,9 Não sabe/não valores privados e as atitudes em relação aos novos média como tam-
em que jogo
1,0 responde bém têm impacto nos seus conceitos e nas suas práticas de educação.
Tempo que
33,0 Ou seja, os educadores tendem a abordar as culturas mediáticas das
65,7
passo a jogar
1,3
crianças e dos jovens a partir da sua perspectiva geracional, que eles
% representam como a norma implícita nas práticas e nos discursos
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
educacionais, assim como políticos (Fromme 2003).
Isto implica que os novos média sejam muitas vezes olhados
desenvolvimentos sociais mais genéricos. A relevância cultural com desconfiança e cepticismo pelos educadores. Os jogos elec-
e social dos jogos prende-se com a discussão sobre a «compe- trónicos em especial parecem apelar mais imediatamente ao lú-
tência dos média e das TIC» ou info-literacia dos jovens e dos dico, a uma ética mais hedonista e de satisfação imediata, o que
modos ou processos informais de aquisição de competências poderá chocar com a «ética protestante» weberiana mais presente
dentro da cultura dos jogos electrónicos. Greenfield (1984) foi nos adultos, assente num estilo de vida mais racionalizado e em
das primeiras autoras que se afastou do medo senso-comunal de formas específicas de autocontrolo. Daqui podem surgir conflitos
que os novos média são maus educadores porque, por exemplo, específicos em torno do uso do computador, visto que os educa-
instilam nas crianças e nos jovens comportamentos violentos. dores poderão querer desviar as crianças e os jovens dos jogos para
Porém, os novos média como artefactos culturais frequente- outras actividades e ferramentas informáticas tidas como mais
mente desenvolvem e exigem competências cognitivas comple- educativas e úteis, como trabalhar com processadores de texto,
xas, apreendidas de forma informal e à parte dos contextos da utilizar enciclopédias ou usar outro tipo de software educacio-
aprendizagem formal na escola (Greenfield 1984). Deste modo, nal (Leu 1993). No entanto, se adoptarmos a análise de Himanen
muitos alunos já vão para a escola com competências ao nível do (2001), podemos levantar a hipótese de que na realidade as gera-
uso de computadores antes da instrução formal de professores ções mais novas estão a adoptar uma ética diferente daquela que
ou de educadores, o que alimenta a sensação de que as crianças os seus pais conheceram e que a relação dialéctica entre as duas
e os jovens já «nascem ensinados» no que respeita ao uso de no- éticas produz novas formas de relação familiar mediadas pelas ex-
vas tecnologias. periências mediáticas dos membros do agregado doméstico.

[144] [145]
a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

No que respeita à utilização da televisão, o principal tópico do telemóvel. Estes dados parecem não ser apenas gerais para a
de conflito com os pais é o tempo passado a ver televisão (29,1 por sociedade portuguesas mas também foram obtidos em investi-
cento dos casos). A seguir vem a contenda em torno do período gações noutros países europeus (Livingstone e Bovill 2001; Sala
do dia em que os jovens vêem televisão (14,7 por cento dos casos) e Blanco 2005). Mas, dados que não deixam de ser relevantes,
e, por último, a discussão em torno do tipo de programas que os tanto à luz dos nossos resultados como de outros estudos, são a
jovens inquiridos vêem (9,1 por cento). As raparigas são mais pro- fraca incidência de conflitos em tornos dos conteúdos dos vários
pensas ao conflito com os pais no que respeita ao tempo despen- média e o controlo pouco apertado de muitos pais em relação a
dido e ao período do dia que passam a ver televisão. Porém, a si- esses mesmos conteúdos.
tuação inverte-se nas discussões em torno do tipo de programas É curioso que uma parte substancial dos jovens inquiridos
vistos. Os inquiridos entre os 9 e os 12 anos, com menos liberdade (58,9 por cento) declara assumir o controlo sobre o que vê na tele-
e sujeitos a maior controlo paternal, constituem o escalão etário visão, mesmo nos inquiridos mais novos. Ao controlo do próprio
mais propenso ao conflito. O conflito poderá até ter maior inci- só se sobrepõe o paternal (65,3 por cento) que é maior do que o
dência neste escalão etário por causa de um processo de negocia- maternal (58,3 por cento), o que será talvez um espelho das rela-
ção contínua entre pais e filhos, na tentativa de estes ganharem ções de poder entre a família, ou da forma como são, elas próprias,
territórios de liberdade no que respeita à utilização dos média. percepcionadas pelos jovens. São 30,9 por cento os inquiridos que
declaram que os irmãos também participam na decisão sobre que
FIG. 8 CONFLITUALIDADE FAMILIAR EM TORNO DO USO DA TELEVISÃO programa ver. Contudo, é de notar que nem todos os inquiridos
Já tive discussões (com os pais) por causa do seguinte: têm irmãos, pelo que o peso dos irmãos na decisão sobre que pro-
9,1 gramas ver pode estar subestimado. O que isto poderá querer di-
Tipo de programas 89,6 zer é que a decisão sobre o que ver na televisão é um processo mais
que vejo
1,3
negociado e democrático entre pais e filhos do que antigamente.

14,7 Sim
Período do dia em 84,3
QUANDO VÊS TELEVISÃO EM FAMÍLIA,
que vejo televisão Não
1,0 QUEM DECIDE QUE PROGRAMA VER?
Não sabe/não n.º %
responde
29,1
Eu 637 58,9
Tempo que passo Os meus irmãos 334 30,9
69,8
a ver televisão
1,0 O meu pai 706 65,3
% A minha mãe 630 58,3
0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100
O meu avô/avó 56 5,2
Outras pessoas 39 3,6
Em geral, as questões principais nas discussões familiares são Quase nunca vemos televisão juntos 120 11,1
sem dúvida o tempo de consumo e também os gastos, no caso

[146] [147]
a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

A televisão é mais utilizada como mecanismo de recompensa ou No inquérito aplicado no terreno a nível nacional verifica-se
de castigo do que a internet. São 27,9 por cento os jovens inqui- que o maior controlo é sobre a televisão. São 40 por cento os jo-
ridos que afirmam que os pais usam a televisão como forma de vens que afirmam existirem regras por parte dos pais sobre o tem-
castigo ou de prémio. Entre os sexos não existem significativas po para ver televisão e 29,5 por cento os que declaram existirem
diferenças a apontar, sendo entre os escalões etários que se verifi- regras sobre o tempo para jogar, sendo este o segundo maior foco
cam diferenças, em particular entre os inquiridos mais velhos (dos de atenção dos pais. O tempo de uso do computador e da inter-
16 aos 18 anos) e os restantes. Entre os mais velhos, 21,2 por cento net aparecem com menos destaque (em 24,6 por cento e 22,2 por
afirmam que os pais usam a internet como prémio ou castigo, en- cento dos casos, respectivamente), porventura, espelhando ainda
quanto nos inquiridos entre os 13 e os 15 anos essa percentagem a falta de acesso a estes média numa parte da população portugue-
sobe para os 35,7 por cento e entre os mais novos dos 9 aos 12 atin- sa. Considerando apenas os jovens que são utilizadores regulares
ge os 38,3 por cento. Ao contrário da internet, a televisão funciona da internet, a televisão fica relegada para último lugar enquanto
mais como mecanismo de recompensa (em 56,8 por cento dos ca- foco das regras parentais (28,5 por cento dos casos) e a internet
sos) do que de punição (em 43,2 por cento dos casos). Contudo, no ganha um claro destaque (41,1 por cento dos utilizadores regulares
caso dos inquiridos mais jovens, dos 9 aos 15, verifica-se o inverso. da internet afirmam que existem regras sobre o tempo de uso da
internet). Verifica-se uma transferência do controlo parental da
OS TEUS PAIS UTILIZAM A TELEVISÃO COMO CASTIGO OU PRÉMIO? televisão para os jogos (32,8 por cento dos casos), para o compu-
Sexo Idade tador (36,2 por cento dos casos) e principalmente para a internet.
Total 9 aos 12 13 aos 15 16 aos 18 As diferenças entre os sexos não são de grande dimensão, sendo
Masculino Feminino
anos anos anos mais significativas as diferenças entre os escalões etários, onde
n.º % n.º % n.º % n.º % n.º % n.º %
Sim
se verifica uma clara tendência para um maior controlo parental
302 27,9 172 27,9 130 28,0 46 38,3 129 35,7 127 21,2
Não 658 60,9 378 61,3 280 60,3 51 42,5 198 54,8 409 68,2
sobre os inquiridos mais novos.
Ns/Nr 121 11,2 67 10,9 54 11,6 23 19,2 34 9,4 64 10,7
Total 1081 100 617 100 464 100 120 100 361 100 600 100 REGRAS DOS PAIS
SOBRE O TEMPO DE USO DOS DIVERSOS MÉDIA
SE SIM, DE QUE MODO? Total da amostra Utilizadores regulares
(n=249) da internet (n=100)
n.º %
n.º % n.º %
Deixam-me ver mais
O tempo para ver
tempo de televisão como 614 56,8 100 40,0 28 28,5
televisão
prémio O tempo para jogar jogos 73 29,5 33 32,8
Retiram-me algum tempo 467 43,2
O tempo de uso da
de televisão como castigo 55 22,2 41 41,1
internet
Total 1081 100
O tempo de uso do
61 24,6 36 36,2
computador

[148] [149]
a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

REGRAS DOS PAIS SOBRE O entre os ditos e os interditos. É ainda de notar que 67 por cento dos
TEMPO DE USO DOS DIVERSOS MÉDIA EM FUNÇÃO DA IDADE entrevistados afirma que se sentem quase sempre satisfeitos com o
Idade tempo que dedicam à família.
8 aos 12 anos 13 aos 15 anos 16 aos 18 anos É curioso notar que, em todas as dimensões de satisfação apre-
n.º % n.º % n.º %
sentadas no que respeita às relações familiares, há sempre uma
O tempo para ver 63 58,6 22 33,1 14 19,3
televisão maior percentagem de raparigas satisfeitas do que de rapazes. Em
O tempo para jogar 45 41,4 20 29,4 9 12,0 quase todas as dimensões, a percentagem de raparigas geralmen-
jogos te satisfeitas é superior a 70 por cento e apenas no que respeita à
O tempo de uso da 27 25,5 16 23,3 12 16,3
internet
aceitação das vontades de fazer coisas novas e de fazer mudanças
O tempo de uso do 36 33,4 15 21,4 11 14,5 no seu estilo de vida é inferior a essa percentagem (65,8 por cento).
computador Já os rapazes apresentam taxas inferiores de satisfação, geralmente
inferiores a 60 por cento. É de notar ainda que é entre os mais ve-
Ainda dentro do tema das relações familiares, analisamos questões lhos (dos 16 aos 18 anos) que se verificam as menores percentagens
que se prendem com a satisfação dos jovens inquiridos em relação a de jovens satisfeitos com as dimensões expostas no que respeita às
determinadas dimensões das relações em família. Genericamente, relações familiares. Tal resultado poderá advir precisamente da exi-
os jovens estão satisfeitos no que respeita às relações dentro do seio gência de maior autonomia e individualização destes jovens dentro
familiar. O que parece ser mais consensual é a percepção dos jo- da família, que sejam reconhecidos como elementos com vontades
vens quanto à ajuda que recebem da família quando acontece algum próprias e com exigências de democratização das relações. Toda-
problema. São 71,2 por cento os que declaram que quase sempre via, tais exigências poderão ser muitas vezes problemáticas numa
recebem essa ajuda. Já não parece ser tão consensual entre os jovens situação transitória entre ser criança e tornar-se adulto, entre que-
o facto de a família aceitar as suas vontades, de fazer coisas novas e rer ser mais autónomo e independente sendo, todavia, económica
de fazer mudanças no seu estilo de vida. Ainda assim, 58 por cento e emocionalmente dependente da família.
dos inquiridos declaram que a sua família aceita quase sempre essas
vontades. Mais de 60 por cento dos jovens entrevistados afirmam
ainda que, quase sempre, a família discute questões e assuntos de CONCLUSÃO
interesse comum, resolve problemas em conjunto com eles e expri-
me os seus afectos e sentimentos. Está aqui patente, portanto, uma Os dados do inquérito aplicado no terreno a nível nacional e do
família contemporânea mais democratizada, onde se exprimem inquérito online apontam para uma diversificação do controlo pa-
afectos e onde se abrem brechas para a comunicação, o diálogo, as- rental que se joga em várias frentes: da televisão ao telemóvel, dos
sim como, não poderia deixar de ser, o conflito, aberto ou latente. jogos à internet. Estudos apresentados por Livingstone e Bovill
É dentro deste cenário que os jovens racionalizam a sua situação fa- (2001) mostram que, em geral, os média mais «controlados» são
miliar, onde negoceiam e conquistam a sua autonomia, onde agem a televisão e o telefone. Os dados apurados do nosso inquérito

[150] [151]
a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

face a face confirmam o maior controlo dos pais sobre o uso da jogos. No que diz respeito à utilização do telemóvel, o principal foco
televisão. Mesmo nos jovens inquiridos online, a televisão é o meio de contenda são os gastos, o que se traduz obviamente em tempo de
de premiação e de castigo mais frequentemente utilizado pelos utilização, mas que neste caso poderá ser muito mais «invisível» para
progenitores, em comparação com a internet. Porém, nos jovens os pais. Livingstone e Bovill lançam luz sobre este maior foco nos
mais socializados nas novas tecnologias, o controlo parental sobre conflitos quotidianos causados pelo número de horas que os jovens
o consumo de televisão está a ser transferido para outros média. dedicam aos média através de entrevistas realizadas aos progenito-
Nesses jovens, o controlo parental sobre o tempo de uso da inter- res. As principais preocupações dos pais centram-se na distorção
net é o mais expressivo, enquanto o controlo sobre o tempo de que o tempo dedicado aos média pode produzir no rendimento es-
visionamento da televisão é o menos expressivo, atrás do controlo colar, na vida familiar, na saúde, etc., e não sobre a qualidade dos
sobre o tempo despendido no computador e nos jogos de vídeo. conteúdos ou a exposição aos mesmos. A atitude mais comum dos
Podemos aqui vislumbrar tendências futuras, visto que, à medida progenitores é pensar que esses conteúdos não afectam directa-
que a utilização da internet se vai alargando, aquilo que se verifica mente os seus filhos. De algum modo, desenvolve-se nos pais uma
num grupo restrito de jovens poderá ser a norma para a população atitude de dissipar a influência e o controlo sobre os conteúdos em
juvenil num futuro próximo. «outrem», através de duas dimensões: são os filhos dos outros que
Esta diversificação em várias frentes do controlo e das regras são afectados e são outras pessoas ou entidades que devem trabalhar
parentais sugere a emergência de vários campos de negociação para mediar ou controlar os conteúdos (o poder público, as organi-
entre pais e filhos com repercussões na organização da vida fami- zações públicas ou da sociedade civil, a escola, etc.).
liar. Como demonstram os estudos compilados por Livingstone Ademais, existem relações significativas entre os vários tipos
e Bovill (2001), essas repercussões podem mesmo sentir-se, entre de conflito, pelo que as discussões com pais envolvem muitas ve-
os progenitores, na divisão do trabalho de educação, mediação e zes a confrontação a respeito de mais do que uma dimensão de
controlo do uso dos média por parte dos filhos. No que respei- utilização dos média: tempo de utilização, período do dia, activi-
ta aos média tradicionais, grande parte do trabalho de controlo e dades efectuadas e gastos monetários. Os conflitos em torno da
mediação recai sobre a mãe, enquanto a presença do pai é maior utilização do telemóvel incidem em especial sobre as raparigas,
no uso do computador e das novas tecnologias. No nosso estudo, enquanto o conflito em torno dos jogos é mais evidente no caso
verifica-se que os jovens inquiridos têm a noção de que os seus dos rapazes. É ainda patente um maior controlo e uma maior inci-
pais usam e conhecem geralmente melhor que as suas mães tecno- dência das regras e das proibições sobre os mais novos, que obvia-
logias como o computador, a internet ou os jogos de vídeo. mente gozam de menor autonomia, tal como é verificado noutros
Uma das consequências da penetração cada vez maior dos mé- estudos (Livingstone e Bovill 2001; Sala e Blanco 2005).
dia no quotidiano dos adolescentes é a ocorrência de conflitos fa- É também de notar que os pais com menor capital cultural
miliares específicos em torno do consumo dos média. No inquérito ou pais com poucas competências em relação aos filhos ao nível
online verificou-se que os conflitos em torno do tempo de utilização do uso das novas tecnologias poderão usar um estilo mais repres-
são os mais frequentes, no que respeita à internet, à televisão e aos sivo na sua mediação e no seu controlo. Um estudo efectuado

[152] [153]
a sociedade dos ecrãs dinâmicas familiares e mediação

por Mesch (2006) demonstra um aumento do conflito entre pais influência dos média no seio familiar é apenas um aspecto de pro-
e adolescentes em famílias onde o adolescente era considerado cessos sociais mais alargados e a forma como a utilização dos média
como o perito na utilização da internet. Tais conflitos eram tan- é encaixada pelas famílias é condicionada por esses mesmos pro-
to maiores quanto maior a pressão dos pais para tentar reduzir cessos. A família no início do século xxi encontra-se em processo
a autonomia do adolescente, ao controlar o acesso à internet, de reconfiguração e democratização negocial entre pais e filhos.
e quando os pais mostravam preocupações ou atitudes negativas Além disso, a família contemporânea poderá, como sugere Manuel
sobre o uso da mesma. Estes pais constituem um grupo designa- Castells, estar perante o desafio de integrar as características da so-
do por Rivoltella (2006) de «progenitores ansiosos», que contras- ciedade em rede nas relações domésticas: flexibilidade, autonomia,
tam com outros tipos: os «progenitores confiantes», que confiam adaptabilidade. A questão que fica é saber se a família enquanto ins-
na responsabilidade dos filhos e para os quais os média não re- tituição irá adoptar essas características ou lutar contra elas porque
presentam um problema educativo; os «progenitores ausentes», são erosivas do poder patriarcal tradicional.
caracterizados pelo laissez faire e pela ausência de mediação que Na primeira hipótese, teremos uma família mais democráti-
contextualize as experiências mediáticas dos filhos; e os «proge- ca, onde o poder é fruto da negociação. Na segunda hipótese, ve-
nitores atentos», que reconhecem na internet oportunidades para remos o acumular de tensões e o surgimento de relações fractura-
uma apropriação sensata e possibilidades educativas. No nosso das e extremadas. Mas mesmo vislumbrando um cenário em que
inquérito realizado online, grande parte dos jovens declara serem as famílias adoptam as características da sociedade em rede, fica
eles que mais sabem sobre internet em casa e apenas cerca de 10 por saber os processos através dos quais isso poderá ocorrer. Num
por cento declara ser o pai quem mais sabe de internet. Esta dis- primeiro cenário, essa adaptação poderá ocorrer porque a cultura
crepância de conhecimentos poderá, por um lado, condicionar a tecno-social dos adolescentes vai sendo assimilada e apropriada
produção social de «progenitores atentos», por outro lado, criar por pais, educadores e pelas gerações mais velhas, estabelecendo-
alguma confusão nas representações das relações de poder no es- -se assim pontes comunicacionais com os mais jovens. Neste ce-
paço doméstico. A utilização das novas tecnologias por parte dos nário, teremos um modelo de sociedade que já não tem como re-
jovens pode assim gerar ansiedade e focos de incerteza nos pais no ferência a sociedade adulta mas antes o modelo da sociedade juve-
que respeita à aplicação de regras e ao desempenho do papel de nil. Num segundo cenário, aliado ao curso natural de substituição
mediadores. Deste modo, é plausível a hipótese de que as fileiras das gerações, só quando um conjunto alargado de utilizadores da
de «progenitores ansiosos» poderão estar a engrossar em famílias internet forem pais é que se poderá esperar uma adaptação plena
onde os filhos demonstram ter muito mais competências que os da família às características da sociedade em rede.
pais ao nível das novas tecnologias.
Pelo que foi exposto, podemos dizer que os novos média não
representam apenas um mero acrescento quantitativo nas relações
familiares, pois introduzem mudanças qualitativas na forma como
pais, educadores e adolescentes se relacionam entre si. Claro que a

[154] [155]
PERSPECTIVAS COMPARATIVAS
SOBRE A INTERNET NO MUNDO GLOBAL
GUSTAVO CARDOSO E TIAGO LAPA

A INVESTIGAÇÃO GLOBAL E EM REDE DA INTERNET


Um dos exemplos de investigação global sobre a internet é a rede
de pesquisa designada de World Internet Project (WIP), no qual
está inserida uma equipa de investigação portuguesa. Iremos uti-
lizar vários dados e um conjunto de conhecimentos que este pro-
jecto já produziu para ilustrar e traçar um panorama da utilização
e adopção da internet em diversas regiões do globo. O desenrolar
do WIP ao longo dos últimos anos constitui também uma exce-
lente oportunidade para discutir as potencialidades e os desafios
metodológicos que comporta a coordenação e implementação de
uma pesquisa global e longitudinal sobre os impactos da internet,
composta por uma grande diversidade de equipas.
O projecto WIP foi iniciado por um grupo de pesquisadores
com o objectivo de apreenderem os impactos económicos, polí-
ticos, culturais e sociais das redes globais1. A abordagem do WIP
procurou fomentar a pesquisa colaborativa entre equipas de vá-
rios países à volta do globo, cada uma procurando uma estratégia
comum para recolher dados que possam ser comparáveis. Duran-
te a última década, o WIP recolheu bases de dados e análises que

1 As informações actualizadas sobre o World Internet Project podem ser encontradas


em http://www.worldinternetproject.net/, ou http://www.digitalcenter.org/.

[157]
a sociedade dos ecrãs perspectivas comparativas sobre a internet no mundo global

se reportam aos usos e impactos da internet em cada país, mas O projecto foi pioneiro em implementar um trabalho co-
debruçou-se também sobre os aspectos transnacionais e compa- laborativo a nível global e a explorar longitudinalmente como
rativos desses mesmos usos e impactos. Ao longo do tempo, avan- a vida quotidiana está a ser transformada pela internet, através
çou com esforços no sentido da partilha e da confluência coerente de comparações diacrónicas das mudanças sociais e culturais
e tecnicamente correcta das bases de dados nacionais e procurou à medida que os indivíduos vão adoptando e dominando esta
de forma consistente a partilha de conhecimentos sobre os im- tecnologia. Todavia, a colaboração internacional apresentou
pactos globais da internet com académicos, governos, jornalistas, desafios metodológicos de monta, que iremos discutir mais
cidadãos, empresas e indústrias de todo o mundo. adiante, e constituiu um processo moroso e de gestão com-
O projecto iniciou-se em 1999 no Centro de Políticas da plexa. Seja como for, é um projecto que tem contribuído de-
Comunicação da Universidade da Califórnia, Los Angeles, mas cisivamente para o avanço do conhecimento sobre a internet
em 2004 transferiu-se, com o seu principal investigador, para o no mundo global, tendo como alicerce um sólido trabalho
Centro para o Futuro Digital da Escola Annenberg1 da Univer- comparativo.
sidade da Califórnia do Sul. Foi fundado em colaboração com Dados os enormes desafios de harmonização e coordena-
a Escola de Estudos da Comunicação da Universidade Técnica ção da rede global de parceiros, há a necessidade de uma coor-
de Nanyang em Singapura e o Osservatorio Internet Italia da denação mais centralizada, efectuada pelo Centro para o Futu-
Universidade Bocconi em Milão, Itália. A partir deste conjun- ro Digital da Universidade da Califórnia do Sul, sendo que cada
to nuclear de países, o projecto procurou incorporar países de equipa nacional está encarregada de ter a iniciativa em termos
todas as regiões do mundo. Procurou parceiros entre os países de angariação de fundos, e de dirigir e conceber uma estraté-
mais desenvolvidos, antes que estas nações normalizassem o gia própria de implementação do WIP nos respectivos países.
uso da internet; mas foi considerado importante, na mesma me- Este procedimento fomentou a partilha de resultados, e ori-
dida, o trabalho de pesquisa em conjunto com equipas de paí- ginou tópicos de discussão, tendo em vista o melhoramento
ses em vias de desenvolvimento, que começavam a incorporar contínuo da pesquisa global, tanto em termos metodológicos
as Novas Tecnologias da Informação e Comunicação (NTIC). como no que diz respeito à sua amplitude. Em 2011, o World
Os fundadores do projecto partiram da premissa de que a im- Internet Project contava com a colaboração de mais de 30 par-
portância da internet iria exceder a da televisão, e tornar-se ceiros. Por esta altura já não era arriscado argumentar que, em
num dos instrumentos mais importantes de influência cultural alguns países, a internet se tornou comparável com a televisão
e social do século xxi, comparável nos seus impactos com a in- nos seus impactos no mundo do trabalho, na escola e no lazer,
venção da imprensa. Com esta premissa em mente, o WIP foi o que veio sublinhar o valor da pesquisa longitudinal e transna-
concebido para se tornar um veículo de pesquisa empírica para cional sobre a internet.
perceber as transformações sociais à medida que os agregados
familiares e as nações adoptam e usam a internet.

1 Em inglês: Annenberg School’s Center for the Digital Future.

[158] [159]
a sociedade dos ecrãs perspectivas comparativas sobre a internet no mundo global

ABORDAGENS NO ESTUDO DA DIFUSÃO GLOBAL DA INTERNET Apesar do enfoque na recolha de dados ao nível indivi-
dual, a diversidade do WIP e da sua pesquisa global permite
Os Estudos da Internet são um campo científico emergente que aos investigadores moverem-se em múltiplos níveis de análi-
tem adoptado uma perspectiva multidisciplinar sobre os impactos se, incluindo: as contribuições para as teorias da informação
da internet na vida social. O WIP é um exemplo desta diversidade e da sociedade em rede, que têm impactos na teorização so-
de abordagens disciplinares que adoptam, ao mesmo tempo, uma cial como um todo, e um enfoque nas mudanças societais de
estratégia metodológica articulada. Como tal, não segue uma abor- nível macro; os estudos das mudanças regionais ou nas comu-
dagem teórica e metodológica totalmente coesa ou homogénea, nidades associadas ao nível médio de análise; e os estudos da
uma vez que a amplitude dos estudos da internet é potencialmente comunicação mediada interpessoal, geralmente associados ao
vasta e definida de um modo genérico. Sob este enquadramento, nível micro. Contudo, como argumenta Mouzelis (1995), este
o projecto de investigação do WIP segue uma abordagem essen- enclausuramento analítico entre macro e micro é uma simpli-
cialmente pragmática, em que as equipas parceiras de pesquisa pro- ficação muitas vezes abusiva, dado que as interacções pessoais,
curam possibilitar uma análise global das tendências que podem ser por exemplo, entre chefes de Estado, podem e frequentemen-
analisadas em conjunto, ao mesmo tempo que encoraja cada par- te comportam consequências macrossociais que se estendem
ceiro a desenvolver abordagens únicas nas suas próprias análises, tanto no tempo como no espaço. As interacções mediadas en-
de acordo com as especificidades das suas socializações teóricas. tre agentes sociais, a comunicação mediada entre membros de
O significado de internet é propositadamente conceptualiza- uma comunidade de hackers, a publicação de textos em blogues
do de forma ampla como uma «rede de redes», que inclui no seu ou nas redes sociais de actores políticos relevantes ou a publi-
seio os meios de comunicação e as novas tecnologias da informa- cação de um vídeo no YouTube por um único utilizador são
ção e comunicação (NTIC) que lhe estão relacionadas, de modo acontecimentos que podem desencadear um conjunto de acon-
a reflectir as suas cambiantes características a par das suas conse- tecimentos que têm implicações macrossociais. Deste modo,
quências imprevistas e não intencionadas. Uma vez que a inter- o campo dos estudos da internet concerne tanto a análise das
net trouxe mudanças em, virtualmente, todas as áreas da vida so- estruturas (da morfologia das redes, dos constrangimentos à ac-
cial — política, cultura, economia, educação, relações familiares ção nas redes, e dos fluxos de informação) como da agência ou
e interpessoais –, pesquisadores de diferentes disciplinas, desde acção daqueles que actuam nas redes (Castells 2000).
as ciências sociais e comportamentais a outros campos do saber, Existem, e continuarão a existir, controvérsias sobre o âm-
foram atraídos para o extenso campo dos estudos da internet. bito dos estudos da internet e dos campos do saber relacionados
Esta situação fomenta inovação entre a análise dos impactos da como a ciência da Web ou os estudos dos novos média. Portanto,
internet, embora crie também complexidade na implementação é útil manter uma definição ampla de estudos da internet que in-
de um novo campo científico, devido à diferença de perspectivas corpore amplos aspectos desta área de pesquisa e de ensino. É um
teóricas e metodológicas que nem sempre são conciliáveis umas campo constantemente em movimento, a um ritmo acelerado,
com as outras. reflectindo o movimento do seu próprio objecto de estudo, que

[160] [161]
a sociedade dos ecrãs perspectivas comparativas sobre a internet no mundo global

procura novos objectos de análise e perspectivas frescas, e novas forma como adoptavam as NTIC. Desde então, a difusão mun-
metodologias para estudar velhos objectos. Reconhece as inte- dial e rápida do acesso à internet e a introdução acelerada no mer-
racções complexas entre internet e sociedade que fazem a ponte cado de NTIC, muitas vezes designadas pela expressão sonante
entre as mudanças tecnológicas, pessoais e psicossociais, sem so- de «novos média» — «shorthand for a volatile cultural and technolo-
brevalorizar um tipo de mudança em detrimentos de outros. gy industry that includes multimedia, entertainment and e-commerce»
Como Wellman (2004) sistematizou, podemos distinguir en- (Lievrouw e Livingstone 2002) — começaram a atrair mais aten-
tre três eras dos estudos da internet que nos ajudam a captar o ção de um número de disciplinas emanadas das ciências sociais e
seu âmbito disciplinar e a variedade crescente de abordagens nes- das humanidades, incluindo o campo dos estudos da comunica-
te campo. A primeira era foi marcada por um grande optimismo ção, resultando num terreno fértil para contributos conceptuais.
em torno das mudanças que as NTIC poderiam trazer, e sobre Algumas destas investigações, como o Pew Internet e American
o seu significado em termos do progresso tecnológico e da vida Life Project e o WIP, enquadraram a pesquisa em termos das
humana como um todo. Usando as palavras de Wellman: «The in- abordagens tradicionais das ciências sociais, focando-se menos
ternet was seen as a bright light, shining above everyday concerns. It was nas tecnologias em si e mais na forma como os utilizadores do-
a technological marvel, thought to be bringing a new Enlightenment to mesticam essas mesmas tecnologias.
transform the world» (2004, 124). Porém, as visões utópicas trou- Além disso, o enfoque analítico manteve-se, em larga medida,
xeram consigo outras de cariz distópico, reflectindo a distinção no nível agregado e na pesquisa global comparativa. Mas a inter-
binomial de Umberto Eco entre visões apocalípticas e integradas. net e as redes não são vistas como meros objectos de estudo; têm
Perante a novidade do objecto, colocou-se de lado grande parte sido extensivamente utilizadas como plataformas de fomento
do património teórico das ciências sociais, o que conduziu a in- da pesquisa transnacional e em rede, o que facilita as trocas de
terpretações enviesadas e grosseiras sobre o significado da inter- conhecimento em termos de procedimentos e conhecimentos
net, como designar cada interacção online uma «comunidade» — à científicos e o desenvolvimento partilhado de novas hipóteses
boleia da noção de Marshall McLuhan de que a comunicação de referentes ao papel da internet nas mudanças na vida dos indiví-
massa estava a transformar as relações sociais, tornando o mundo duos. O facto de diferentes equipas de todo o mundo realizarem
numa aldeia global. De igual forma, o enfoque no admirável mundo estudos que permitem a análise diacrónica, a longo prazo, sobre
novo da internet negligenciou as relações estreitas entre o mundo o impacto das NTIC, usando métodos e técnicas de inquirição
social offline e as suas dinâmicas com a comunicação online e as científica bem aceites e sedimentadas, constitui um grande desa-
relações mediadas. fio mas também uma grande oportunidade, que separa as condi-
No final dos anos 90, caracterizado por Wellman como o ções sociais e tecnológicas do estudo da internet do que foi pos-
começo da segunda era, uma série de actores, agentes governa- sível fazer no passado quanto ao estudo dos média tradicionais,
mentais responsáveis pela elaboração de políticas públicas, agen- nomeadamente da televisão (Cardoso, Cheong e Cole 2009, 3-4).
tes comerciais e académicos reconheceram a necessidade de uma A contínua recolha global de dados empíricos tem vindo a abrir o
documentação e investigação sistematizadas dos utilizadores e da caminho aos escrutínios teóricos e aos refinamentos conceptuais

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mais recentes. Os actuais desenvolvimentos disciplinares corres- perspectivas, a internet constitui um novo domínio, que levanta
pondem precisamente ao que Wellman (2004, 127) anteviu como questões inteiramente novas e conceitos analíticos novos. Mas
o desabrochar da terceira era dos estudos da internet, o período existem também aqueles que são altamente cautelosos e cépticos
quando a «verdadeira» análise arranca com projectos mais coeren- quanto às supostas evidências de transformação social causada
tes e teoricamente direccionados. pelo desenvolvimento das redes e preferem analisar a agência hu-
De um modo geral, o estudo da relação entre a internet e a mana e as suas práticas dentro de enquadramentos teóricos bem
sociedade apresenta-nos uma janela sobre as sociedades con- estabelecidos.
temporâneas, englobando o estudo de problemas sociais como Na pesquisa, as análises geralmente contextualizam os fenó-
a exclusão económica, política e tecnológica, assim como as im- menos sociais que se desenrolam online recorrendo aos antece-
plicações sociais e pessoais da disseminação da internet. Deste dentes offline (dados demográficos, características dos utilizado-
modo, a comunidade global de pesquisadores tem sido convidada res, questões em torno do poder e do acesso, etc.) das actividades,
a identificar os problemas sociais ou as mudanças que resultam, atitudes e usos demonstrados ou perpetrados na internet. Por seu
a montante, da estruturação social e, a jusante, das consequências turno, estas práticas sociais online podem desencadear consequên-
ou propriedades estruturantes da internet. Contudo, constitui cias offline nos níveis individual, grupal ou societal, que poderão
também um desafio traduzir tanto as modalidades de estrutura- ser negativas ou positivas, difusas ou específicas. Portanto, não
ção como as propriedades estruturantes da internet numa teoria há um modo linear de analisar a internet e as suas consequências
social coerente e conceptualmente rigorosa. A questão de saber sociais. Nem há uma unidade paradigmática de apreender o se-
até que ponto a internet é parte da sociedade continua a alimen- guinte ciclo social dinâmico: antecedentes offline → práticas online
tar um debate teórico de monta. Todavia, muitas destas discus- → consequências offline.
sões não se centram tanto nas potencialidades tecnológicas ou Este enquadramento, que chama a atenção para a necessida-
nas tecnologias em si, mas nas modalidades de transformação das de de contextualização social dos fenómenos, está intimamente
sociedades, sobre quais são os principais eixos impulsionadores ligado a tradições teóricas nas ciências sociais de pendor empíri-
da mudança, que mudanças poderão ter impactos positivos ou co. Há aqui um primado dos determinantes offline que se encon-
negativos, como é que a internet medeia as transformações e rela- tram a montante da praxis online, ou seja, são perspectivas que
ções sociais, quais são os seus impactos no estado da democracia, deixam pouco espaço para a inovação social derivada da agência
da cultura e da exclusão social. nos contextos online. As novas tecnologias, na melhor das hipóte-
Estas questões, que contêm várias avaliações sobre o ritmo ses, irão exacerbar as propriedades estruturais, entendidas como
e o significado das transformações sociais e tecnológicas, são ali- positivas ou negativas, já existentes nos sistemas sociais. Algumas
mentadas em parte pelas dificuldades empíricas em medir a mu- destas perspectivas conduziram a pesquisa partindo de uma visão
dança social. Existe um conjunto de perspectivas que identificam positiva das estruturas económicas, sociais e políticas do mundo
uma transformação dramática no ambiente social e clamam por offline. Esta posição é mais evidente no Ocidente, onde é mais
uma renovação das perspectivas das ciências sociais. Para estas provável que os investigadores percepcionem a internet como

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a sociedade dos ecrãs perspectivas comparativas sobre a internet no mundo global

uma ferramenta com a potencialidade de melhorar os aspectos (2001) apontaram, a pesquisa deve olhar para a estrutura social
positivos das democracias liberais. Neste âmbito, os autores que de uma dada sociedade e ter presentes questões como o poder,
propalaram as primeiras esperanças utópicas em torno dos im- as desigualdades e os constrangimentos ao acesso às tecnologias.
pactos da internet na sociedade argumentaram que os putativos Além disso, as consequências offline da internet são multifaceta-
antecedentes positivos do mundo ocidental offline, tais como das e compostas por diversos níveis de impacto, dada a miríade de
as liberdades civis, o pluralismo, a diversidade e a formação de influências nas estruturas e na vida social. É uma tarefa deveras
comunidades, poderiam traduzir-se e ser até aperfeiçoados pelo complexa, senão inglória, tentar isolar de forma clara e absoluta
funcionamento da internet (Kapor 1993). Logo, as consequências um efeito considerado determinante da utilização da internet,
offline da praxis na internet introduziriam mudanças benéficas na visto que os seus impactos na sociedade podem revelar-se em
vida dos indivíduos (Rheingold 1993), que complementariam a manifestações diversas e orientar-se em sentidos diferentes, ou
sua conectividade social através da utilização da internet (Katz, mesmo inversos. Como McKenna e Bargh adiantam: «Like the te-
Rice e Aspden 2001). lephone and television before it, the internet by itself is not a main effect
De outro ponto de vista, os autores que olham para o capita- cause of anything» (2000, 57).
lismo ocidental a partir de uma postura crítica, nomeadamente Ademais, a apropriação e domesticação (Silverstone 2005) da
estudiosos marxistas como Schiller (1996), contemplam tenden- internet na vida quotidiana não se espalha pelo globo de forma uni-
cialmente as NTIC como tecnologias que reflectem a estrutura forme, apresentando impactos diferenciados em cada dimensão,
social capitalista e que podem ser usadas, não necessariamente consoante o contexto social. Acrescente-se ainda que as questões
de modo propositado, para aumentar as desigualdades sociais. em torno da relação entre internet e sociedade não estão restritas
Ao nível individual, também surgiram reacções às visões utópicas aos panoramas mediáticos ou tecnológicos; abarcam antes todas as
iniciais, uma vez que a internet poderia ser entendida como um dimensões. De facto, podemos conceptualizar a internet como fac-
mecanismo de escape aos estados de solidão e depressão, e para o to social global num duplo sentido; não apenas na noção original de
decréscimo da comunicação e exacerbamento do individualismo Marcel Mauss, de que constitui um facto social que engloba todas
nas sociedades modernas (Kraut et al 1998). Esta perspectiva veio as dimensões do social, mas igualmente porque é uma manifestação
reintroduzir o tema da alienação, alegadamente promovida pe- e uma ferramenta da globalização com consequências que se esten-
las tecnologias mediáticas, que poderiam aumentar e até mesmo dem largamente no espaço e com implicações na própria noção de
fomentar a perda de contacto com o meio social (Nie e Erbring tempo. Isto não significa que não existem consequências específicas
2000) e ter impactos negativos no capital social dos indivíduos e e localizadas ou particularismos numa dada sociedade. E afirmar que
nas comunidades formadas no mundo offline (Putnam 2000). o estudo social da internet tem efeitos que poderemos considerar
Este debate chamou até si análises mais neutrais e menos holísticos nas estruturas sociais não significa, por um lado, que es-
apaixonadas em torno da internet e dos seus impactos no mun- ses efeitos impliquem de antemão impulsos transformativos de cariz
do offline, mas também foi útil para sublinhar as complexidades qualitativo, e que não haja discrepâncias nos fluxos informacionais
do estudo social das novas tecnologias. Como DiMaggio et al. entre as estruturas económicas, culturais e políticas.

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A própria necessidade de retirar a internet de um vácuo social todo o mundo. O conhecimento sobre o aumento do uso da in-
e de a colocar em contexto não constitui um passo analítico sem ternet torna-nos mais conscientes das nossas semelhanças do que
problematização, em especial em termos da sua operacionaliza- das nossas diferenças. Porém, compreender as causas das diferen-
ção. Por um lado, a génese de uma dada tecnologia constitui, ela ças em todo o mundo irá provavelmente permitir-nos saber mais
própria, uma actividade social. Como adverte Livingstone: sobre as nossas sociedades e a nossa identidade na sociedade em
rede. Há muitos exemplos das diferenças capturadas pelos inqué-
(…) before and indeed after any new medium is introduced there is a ritos do WIP. Olhando para os dados do WIP de 2010, podemos
lengthy process of development and design, of the identification of observar que nos países europeus nórdicos mais de 80 por cen-
a market and the construction of a ‘need’, all of these being funda- to da população utiliza a internet, o que excede em muito outras
mentally social activities rather than purely technical ones. (2002, 18) áreas do mundo, como o Sul da Europa, a China ou a América
Latina. Na Suécia, o acesso à internet é elevado por causa do aces-
Por outro lado, existe o perigo analítico que emana de um exces- so generalizado às conexões de banda larga (que engloba 97 por
so de zelo ao imunizar totalmente a tecnologia como reacção aos cento dos utilizadores da internet), com as pessoas a gastarem um
vícios do determinismo tecnológico, que coloca a inovação tec- tempo considerável nos ambientes online (15,5 horas por semana
nológica como um factor explicativo determinante na mudança em média, incluindo o tempo gasto em casa e no trabalho). Nor-
social. Porém, como MacKenzie e Wajcman (1999) explicam, malmente, uma alta percentagem de conexões de banda larga está
o determinismo tecnológico é uma verdade parcial, uma vez que correlacionada com o tempo despendido online. No entanto, nos
as características específicas da internet como tecnologia — a sua EUA, onde há uma menor penetração da banda larga (que abran-
semiótica, as suas histórias e potencialidades — também contam, ge cerca de 80 por cento dos utilizadores), as pessoas despendem
pelo que devem ser incluídas na análise social. De um modo geral, ainda mais tempo online (19 horas por semana, em média).
os estudos da internet têm vindo a contextualizar esta nova tec- Há também diferenças entre estudos sobre as consequências
nologia, considerando os antecedentes históricos, económicos e do desenvolvimento (tecnológico e comercial) dos novos média
culturais específicos a cada sociedade na pesquisa do seu desen- para os média tradicionais — em particular, jornais e televisão.
volvimento, disseminação e apropriação social. Todavia, as recentes mudanças não são apenas sobre a competi-
ção entre novos e velhos média para ver que dispositivos conse-
guem captar o tempo e a atenção dos indivíduos, e a atenção e a
A DIFUSÃO DA INTERNET E OS SEUS USOS maior fatia nas receitas de publicidade. De acordo com Cardoso
E IMPACTOS A NÍVEL GLOBAL e Araújo (2009), a internet como meio de comunicação tem um
papel importante nas nossas ecologias digitais e transformou-se
A pesquisa baseada nos dados do WIP tem vindo a mostrar que a recentemente, de um espaço de detentores do conhecimento,
difusão da internet tem incrementado rapidamente durante a úl- num espaço construído principalmente em torno das actividades
tima década, mas também que ainda há grandes disparidades em de comunicação que configuram o arquétipo do comunicador.

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Os autores examinam traços comuns encontrados entre as pala- Quando comparou o Reino Unido com a Suécia, Reisdorf (2010)
vras escritas sobre a internet antes de 1997 e as acções realizadas constatou que, em países com uma percentagem elevada de inter-
pelos utilizadores da internet em 2007. Eles argumentam que, nautas, a difusão está a abrandar, atingindo um patamar onde a
embora pudéssemos enquadrar os primeiros estudos sobre os divisão digital persiste devido a processos de exclusão resultantes
usos da internet na oposição fundamental entre espaços de infor- de restrições sociais e económicas, mas também como o produto
mação e espaços sociais ou comunidades, depois de uma década, de processos reflexivos de «escolha» (Dutton et al. 2007).
a comunicação surgiu como a principal força motriz da nossa uti- A abordagem da diferenciação digital também olha para as di-
lização diária da internet. Além disso, a oposição tipológica entre ferenças no uso da internet através das «gerações». Neste âmbito,
entretenimento, informação e comunicação pode ser usada para Prensky defende que pais e educadores são, na melhor das hipóte-
diferenciar países e grupos de indivíduos dentro do mesmo país. ses, «imigrantes digitais», que falam uma linguagem ultrapassada
Os pesquisadores argumentam que se a Ásia é mais inclinada para (a da era pré-digital)», e pelejam-se para ensinar uma população
o «entretenimento», o mundo anglo-saxónico é dividido entre a juvenil (os nativos digitais) que fala uma linguagem inteiramente
Austrália e os EUA, onde o «entretenimento» tem um peso maior nova (2001, 2). Prensky reproduz aqui o argumento de Tapscott
do que no Reino Unido, onde, por sua vez, os internautas estão (1998), em favor de traçar uma linha clara entre gerações, com
mais concentrados nas práticas de «comunicação» e «informação». base em socializações em contextos ou panoramas mediáticos di-
Tem havido um interesse entre os pesquisadores do WIP ferenciados. No entanto, Buckingham (2006) é cauteloso quanto
em estabelecer ligações entre a estrutura sociodemográfica e os a esta argumentação, já que os significados e usos da tecnologia
padrões de uso da internet. Esta análise é particularmente im- variam de acordo com vários factores que não a idade. Ademais,
portante para o estudo da divisão digital em termos de factores este autor argumenta que definir as fronteiras de uma geração é
como idade, educação, rendimento, etnia e localização geográ- uma tarefa muito mais complexa do que simplesmente defini-la
fica. Mas a pesquisa não é apenas realizada dentro da mesma so- através do seu relacionamento com uma tecnologia específica ou
ciedade. A pesquisa comparativa global leva em consideração as meio de comunicação (2006, 11). De resto, as mudanças tecno-
diferenças entre país, como a riqueza nacional ou o tipo de es- -sociais afectam tanto crianças como adultos. Porém, os estudos
tado social ou de bem-estar. Há também uma postura diferente que se concentram no uso da internet e os seus efeitos entre os
sobre a realidade social que advém da democratização do acesso: idosos parecem ser bem menos do que aqueles que se concentram
a abordagem de diferenciação digital. Aqueles com maiores re- em crianças, mas não menos importantes — a este respeito ver os
cursos socioeconómicos, cognitivos e culturais, e competências estudos do Nordicom (2009) e do projecto Pew Internet (2010).
tendem a usar a internet com mais frequência como ferramenta De acordo com Zimic (2009), sustentando-se na análise que fez
de informação e como um meio social, e menos como ferramen- da sociedade sueca, a noção de «Geração Net» pode ser enganosa,
ta focada no entretenimento. uma vez que existem nuances sob as imagens estereotipadas da re-
O foco no acesso e na frequência de uso também leva à ques- lação dos mais novos com as NTIC. A autora não nega variações
tão da normalização da sua utilização versus a sua estratificação. importantes no uso da internet entre os indivíduos de diferentes

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idades, contudo, assinala que é importante olhar para além das duas vezes mais propensos a considerar a internet como «importan-
diferenças geracionais para um conhecimento mais aprofunda- te para o seu actual estilo de vida» e é mais provável que valorizem a
do da realidade. As diferenças dentro da mesma geração, como internet como uma «fonte muito importante de entretenimento».
aquelas que se reportam à experiência e práticas online (Blank e Tal análise pode destacar as diferenças entre os utilizadores em paí-
Dutton, no prelo), são significativas e há grandes disparidades ses com um uso generalizado da banda larga e os utilizadores em
dentro da putativa «Geração Net» no que concerne aos tipos de países com baixos níveis de acesso via banda larga.
uso em torno da comunicação, entretenimento e informação. Ainda na Oceânia, Goodwin et al. (2009) sustentam-se nos
À escala global e inter-societal, grandes diferenças estão igual- resultados da pesquisa do WIP recolhidos na Nova Zelândia para
mente presentes, o que constituirá o destaque das secções seguin- argumentar que, num ambiente caracterizado pela rápida transfor-
tes, organizadas por regiões do mundo. mação global, o acompanhamento do impacto da mudança tecno-
lógica pode informar as políticas públicas destinadas a atenuar as
desigualdades sociais. No entanto, através da sua análise argumen-
EUROPA, AMÉRICAS E OCEÂNIA tam que a noção de «divisão» ou «fosso digital» tem significados di-
ferentes em países onde o desenvolvimento económico e social é
A pesquisa do WIP na Austrália, efectuada por Ewing e Thomas, elevado, como a Nova Zelândia, em comparação com países com
tem-se focado nos «usos criativos» da rede, que vão desde tarefas níveis mais baixos, como a Colômbia. Primeiro, a quem a divisão
relativamente simples como a partilha de fotografias até à distribui- digital afecta depende da distribuição do rendimento, da educação
ção de material mais complexo produzido por amadores (Ewing e e de outras características demográficas como a composição étnica:
Thomas 2009, 268). Os dados da Austrália indicam que o papel da na Nova Zelândia, os indivíduos de etnia asiática apresentam taxas
internet como fonte de entretenimento é muito mais forte entre os superiores de acesso à internet (94 por cento) do que os pakeha (77
mais jovens, que estão menos propensos a ficar a assistir à televisão por cento), os pasifika (72 por cento) e os maori (62 por cento). Se-
em comparação com outros indivíduos de outros grupos etários. gundo, há uma divisão digital entre os utilizadores de internet com
Ewing e Thomas sugerem que a utilização criativa da internet tem acesso à banda larga e os outros internautas, e entre os utilizadores
algumas características sociais distintivas: uma base de utilizado- de primeira geração, ligados através do PC em casa, e «os utiliza-
res em expansão, atraindo, por exemplo, cada vez mais mulheres, dores da próxima geração», que têm vários dispositivos, alguns dos
embora ainda haja uma maior probabilidade de encontrar um in- quais portáteis (Dutton e Blank 2011). Isto sugere que há diferentes
ternauta criativo entre os jovens, a proceder ao carregamento e ao camadas de análise em torno da noção de divisão digital.
desenvolvimento de conteúdos online. Os autores afirmam, no en- A noção de «exclusão digital» é outro conceito intimamente re-
tanto, que o entendimento dos usos criativos da internet exige con- lacionado com o anterior que pode assumir diferentes significados
siderar um contexto mais amplo, como a relação entre o desenvol- consoante o contexto social, uma vez que engloba várias dimen-
vimento da «internet criativa» e a generalização do acesso à banda sões: o acesso, as motivações, os conhecimentos, as competências
larga. Os australianos com acesso de banda larga em casa são quase e a experiência e o uso continuado no quotidiano. Analisando o

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contexto europeu, Helsper e Galácz (2009) apontam que países opõem-se à noção de que os jovens internautas são passivos, fáceis
com uma elevada desigualdade socioeconómica apresentam fortes de manipular e marcados pela ausência de valores e pela falta de
ligações entre exclusão social e digital: por exemplo, o Reino Uni- pensamento crítico. Em vez disso, os dados são mais coincidentes
do apresenta fortes ligações entre baixa escolaridade e rendimen- com a noção de os jovens internautas são geralmente utilizadores
to, e exclusão digital. No entanto, o Reino Unido tem uma taxa de activos, capazes de interpretar, julgar e escolher, e, consequen-
acesso por banda larga maior do que outros países europeus com temente, capazes de utilizar conhecimentos e competências em
menor desigualdade socioeconómica, como a República Checa e a ambientes online, mas também no que respeita à avaliação dos
Hungria. Nestes países, há ligações mais diversificadas entre exclu- conteúdos dos média tradicionais.
são digital e social. Por exemplo, na Hungria a etnia apresenta um Em Espanha, Tabernero et al. (2009) também investigaram a
forte efeito sobre a inclusão digital, que é consideravelmente me- relação entre as práticas mediáticas e as «vidas conectadas» dos jo-
nor entre a população cigana. Como outros, as autoras defendem vens. Estes autores descobriram que o uso da internet e a explosão
que a consideração de outras variáveis, além do rendimento e da generalizada da comunicação móvel abriram a porta à participação
educação, tais como o sexo, o estado civil, a presença de crianças no directa e ao surgimento de culturas participativas e colaborativas
agregado familiar, a etnia e até variáveis soft ou incorpóreas — com- dirigidas pelos utilizadores. Neste contexto, os jovens, cada vez
petências, valores e atitudes — promete enriquecer as análises que mais embrenhados num ambiente mediático e tecnológico rico,
procuram estabelecer as ligações complexas entre exclusão social e são considerados como desempenhando um papel fundamental
envolvimento digital. nas transformações socioculturais ligadas aos média e às práticas
Outras análises, que destacam as diferenças dentro do mes- de comunicação. Entre estas, as redes sociais online destacam-se
mo país entre internautas mais velhos e mais jovens, mostram-nos como um poderoso factor de mudança, tanto como uma forma
que contextos de uso e experimentação diversos fazem a diferen- multimodal de consumo cultural como um conjunto renovado de
ça. Por exemplo, a Espanha oferece uma abordagem menos regu- práticas mediáticas, que medeiam a formação da identidade, a ne-
lada e mais liberal no que diz respeito ao uso da internet, o que gociação de estatuto social e a sociabilidade entre pares.
permite uma experimentação mais ampla deste meio, enquanto as Também no México se tem assistido à ascensão de uma eco-
autoridades do Canadá tentam aplicar no mundo online muitas das logia mediática nova, com características particulares. De acor-
limitações presentes na indústria audiovisual offline. do com Gutiérrez e Islas (2009), a internet é usada mais para fins
Caron e Caronia (2009), olhando para a apropriação de con- informativos, enquanto a televisão é usada mais como um meio
teúdos de entretenimento pelos internautas mais jovens no Cana- de entretenimento. No entanto, depois da televisão, os internau-
dá, apontam que, apesar de as NTIC serem tecnologias extrema- tas mexicanos consideram a internet como o segundo meio mais
mente dinâmicas, o seu conteúdo tem sido bastante controlado e importante para fins de entretenimento. Como em muitas outras
regulado. Esta regulação, aliás como outro tipo de legislação foca- nações, o uso da internet no México está altamente correlacio-
da na protecção de menores, parte de alguns pressupostos sobre nado com o nível socioeconómico dos indivíduos e fortemente
as características dos indivíduos mais novos. Todavia, os autores estruturado por idade: cerca de dois terços dos utilizadores de

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internet têm 25 anos ou menos, e quase 80 por cento têm menos naturas de jornais sofreram uma forte queda, enquanto as vendas
de 40 anos. noutros países têm vindo a aumentar.
O que estes três últimos exemplos ilustram é que não é ape- As NTIC não têm sido automaticamente responsáveis pelo
nas a idade dos utilizadores que define o resultado do uso da inter- declínio da venda de jornais. O declínio da leitura de jornais come-
net num determinado país, mas também o contexto institucional çou nos EUA já na década de 1960, quando a televisão foi introdu-
e a cultura mediática prevalecente. Tal combinação tende a gerar zida. Lunn e Suman (2009) argumentam que a literatura existente
mais diferenças do que semelhanças entre países. demonstra que o processo de difusão de uma tecnologia é ineren-
Outro exemplo de diversidade transnacional no âmbito da temente complexo, envolvendo populações heterogéneas, que
investigação do WIP pode ser encontrado na análise da relação não se pode reduzir a um resumo simples com as percentagens
entre o uso da internet e o consumo de meios de comunicação de utilização. Estes autores identificam a existência de diversas
mais tradicionais. A suposição geral é que existe uma correlação dimensões no uso da internet que complexificam o processo de
inversa entre a leitura de jornais em papel e o uso da internet, uma adopção desta tecnologia. Essas dimensões poderão reportar-se
vez que há uma miríade de jornais online disponíveis gratuitamen- a processos de adopção distintos, à não-adopção, à suspensão e a
te. Da mesma forma, ver televisão deverá diminuir porque as pes- padrões de uso intermitente. Os autores alegam que a expansão
soas vão ter menos tempo disponível para assistir aos programas de determinados tipos de adopção da internet pode estar relacio-
televisivos. Mas uma análise mais aprofundada revela que essa é nada com a queda sistemática da importância dos jornais como
uma relação espúria, explicada por outros factores. Por exemplo, fonte de informação nos EUA. No entanto, há o perigo de se pro-
mantendo o factor idade constante, a correlação entre o uso da ceder a uma análise baseada num «mediacentrismo» tautológico
internet com a utilização de outros meios de comunicação desa- que explica a evolução de um dado meio de comunicação através
parece. Ou seja, pessoas mais velhas vêem mais televisão e têm da evolução de outro meio. Existem muitos outros factores para
níveis mais baixos de utilização da internet. Quanto às gerações além da expansão da internet e da concorrência entre média, tais
mais novas, as mudanças nas práticas e nos hábitos mediáticos são como o clima económico, que têm um impacto sobre o declínio
inegáveis, mas as mudanças são lentas e não tão profundas como ou a ascensão de um dado meio de comunicação. Além disso,
geralmente se supõe. a confiança dos utilizadores e a percepção da qualidade dos con-
Para entender melhor o que está a acontecer ao longo dos teúdos disponibilizados constituem alguns dos muitos factores
anos há a necessidade de recolher dados longitudinais em vários que podem contribuir para o sucesso de um meio de comunica-
países, que apenas as redes de investigação como o WIP podem ção. O panorama mediático não se altera de um dia para o outro.
oferecer. No geral, nos países nórdicos e no Japão a venda de jor- A conclusão geral dos resultados do WIP até à data é que a
nais em papel manteve-se alta e o visionamento da televisão não internet tem sido mais um complemento para os média tradicio-
mudou durante os últimos dez anos (Findahl 2009). Todavia, os nais do que um concorrente, e que os efeitos de transferência dos
impactos nos média tradicionais não são os mesmos em todos os usos de um tipo de média para outro são difíceis de encontrar e
países (Findahl 2009). Em alguns países, como os EUA, as assi- não são gerais ou universais. Há, naturalmente, casos individuais

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que apontam noutra direcção, como nos EUA, mas ainda são ra- singular, visto que aqueles que têm acesso à internet móvel supe-
ros e não podemos vê-los como uma tendência geral. Seja como ram aqueles com acesso à internet apenas no PC — embora o uso
for, tal análise é algo que somente os estudos comparativos a nível dos média sociais seja maior em famílias com acesso via PC. Como
global sobre a internet, como o WIP, podem revelar. país que apresenta uma ecologia dos média particular, dada a alta
taxa de acesso à internet móvel, o Japão mostra que a ecologia dos
média, ou o contexto tecno-social, é uma variável a ter em conta
ÁSIA/MÉDIO ORIENTE no que diz respeito à análise das escolhas dos utilizadores.
Em Singapura, Choi (2009) analisa a relação entre internet
Entre dois mil milhões de utilizadores de internet no mundo, 44 e vida social, olhando para as relações familiares e a resolução de
por cento estão na Ásia e 3,3 por cento estão no Médio Oriente. conflitos em torno do uso da internet. Ele afirma que existem
No entanto, a taxa de penetração da internet na Ásia é de apenas diferenças de opinião no que diz respeito à possibilidade ou não
23,8 por cento, muito menos do que na América do Norte (78,3 de a internet ser benéfica ou prejudicial para a família e para as
por cento), na Europa (58,3 por cento), e do que a média mundial relações e actividades sociais. Choi confronta perspectivas confli-
(30,2 por cento). Porém, a Ásia e o Médio Oriente oferecem-nos tuantes sobre esta questão e as suas conclusões são duas. Primei-
outras perspectivas sobre o uso de estudos transnacionais e glo- ro, a sua pesquisa quantitativa não apoiou a visão pessimista de
bais sobre a internet, tendo em vista a compreensão da mudança que a internet tem efeitos negativos sobre as relações familiares.
social, económica, política e cultural. Por exemplo, Allagui e Wal- Porém, mostrou ainda que a interacção em torno do uso da inter-
ters (2009) focam-se na realidade dos Emirados Árabes Unidos e net, a consciência dos pais e determinados estilos parentais vie-
nos padrões de uso da internet no próprio país ou como emigran- ram aumentar o nível de conflito, e que o método de resolução de
tes em países de acolhimento. Os autores mostram-nos como as conflitos influencia o resultado dos conflitos entre pais e filhos.
pessoas podem ter diferentes padrões de uso da internet no seu Esses dois últimos estudos mostram que projectos como o
próprio país e como emigrantes. WIP não se resumem simplesmente a obter dados sobre diferen-
Outro exemplo vem do Japão, onde Mikami (2009) argumen- tes países, mas têm também como objectivo fundamental levan-
ta que as políticas governamentais e a acentuada concorrência de tar novas questões, na tentativa de identificar o papel de situações
mercado têm compelido a proliferação de novos média como a in- endógenas, como as culturas nacionais e as opções políticas no
ternet, os telemóveis e os serviços de televisão digital a partir de que diz respeito à adopção e ao uso da internet.
meados da década de 1990. Com base nos dados do WIP sobre os Culturalmente, cerca de 70 por cento dos internautas estão
internautas japoneses, o autor mostra que a internet, ao contrário situados no Oriente Asiático, uma área profundamente influen-
do que seria de esperar, não é uma fonte de informação ou entre- ciada pelo confucionismo. Desenvolvido há 2500 anos e baseado
tenimento tão valorizada em comparação com os média tradicio- na sociedade agrícola, o confucionismo foca-se essencialmente
nais, como a televisão e os jornais. O país tem uma taxa de pene- sobre a ordem social e as relações interpessoais, como «um filho
tração cada vez maior da internet, mas surge como uma realidade deve obedecer ao seu pai» e «os vassalos devem obedecer ao rei».

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a sociedade dos ecrãs perspectivas comparativas sobre a internet no mundo global

Também é caracterizado pelos valores orientados para o colecti- mente. Apenas na China urbana se verificou que menos de 40 por
vo e a família, em que os direitos individuais são seriamente negli- cento dos utilizadores consultam o seu correio electrónico diaria-
genciados. Isto contrasta fortemente com a cultura da internet, mente, sendo que em países como o Canadá, a Nova Zelândia e os
que é um sistema aberto e uma ferramenta potencialmente revo- Estados Unidos, 80 por cento ou mais dos internautas consultam
lucionária. O Leste da Ásia, e especialmente a China, constitui, o seu correio electrónico diariamente ou várias vezes por dia1. Em
portanto, um lugar ideal para analisar o impacto social e cultural contraste, apenas um número pequeno de utilizadores de internet
da internet. na maioria dos países e regiões participantes do WIP usam roti-
O processo de modernização na China tem afrouxado os laços neiramente os serviços de mensagens instantâneas. Em nove dos
tradicionais da família chinesa. Os jovens deixam as suas cidades e países ou regiões parceiros do WIP, pelo menos 40 por cento dos
aldeias de origem rumo às grandes cidades. Para além das chama- utilizadores disseram que nunca usaram mensagens instantâneas,
das por telemóvel e dos SMS, o envio de mensagens instantâneas enquanto na China urbana mais de metade (52 por cento) dos uti-
pela internet é igualmente popular na China. Ao contrário dos in- lizadores da internet reconhece ter enviado mensagens instantâ-
ternautas ocidentais, que usam a comunicação pela internet tanto neas pelo menos uma vez por dia (WIP 2008, 327).
para o trabalho como para fins pessoais, os internautas chineses Tradicionalmente, as autoridades chinesas não estão na posi-
preferem comunicar via internet com os seus familiares e amigos ção de ser desafiadas. Todavia, com o sistema aberto da internet,
do que com os seus colegas de trabalho. Enquanto a maioria dos mais e mais pessoas estão a tentar expressar abertamente a sua
utilizadores ocidentais usam correntemente o e-mail, os internau- opinião online, mesmo que a discussão seja limitada e, por vezes,
tas chineses preferem utilizar o QQ, uma versão chinesa do ICQ censurada. Um fenómeno recente na China é o rápido crescimen-
(um serviço de mensagens instantâneas cujas letras representam to de blogues públicos, o que entra em conflito com a cultura tra-
a expressão «I Seek You»), fornecido por uma empresa chinesa, dicional chinesa, que aventa que os indivíduos não devem exibir-se
a Tencent, Inc. Por exemplo, em Julho de 2011, 79,4 por cento dos e que os jovens devem respeitar os idosos. Contudo, registaram-se
internautas na China estavam a utilizar ferramentas de mensa- 294,5 milhões de bloguistas na China no final de 20102. Dezasse-
gens instantâneas, segundo os dados do China Internet Network te por cento dos internautas chineses escrevem nos seus próprios
Information Center (CNNIC)1. Em Março de 2010, a Tencent blogues, enquanto 49 por cento dos utilizadores da internet lêem
anunciou que o número de utilizadores registados no QQ chegou blogues, de acordo com os dados do CNNIC3.
a mil milhões e o número de internautas simultaneamente online O Sr. Han Han, um jovem piloto de carros de corrida chinês
ascendeu a cem milhões2. e autor de best-sellers, foi eleito pelo New Statesman como uma das
A análise feita com dados do WIP de 2008 mostra que uma «50 pessoas mais importantes em 2010» devido à influência e ao
grande percentagem de utilizadores, em quase todos os países e número de leituras do seu blogue4. Ao lado de bloguistas populares
regiões participantes, verifica o seu correio electrónico diaria-
1 WIP (2008). The World Internet Project Report 2009.
2 The 27th Internet survey report (http://www.cnnic.net/), p. 32.
1 The 27th Internet survey report (http://www.cnnic.net/), p. 31. 3 Ibidem, p. 36.
2 http://tech.qq.com/a/20100310/000298.htm 4 http://www.newstatesman.com/2010/09/han-china-matter-taken-200

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a sociedade dos ecrãs perspectivas comparativas sobre a internet no mundo global

que comentam sobre os mercados financeiros, ele foi classificado que pode contribuir para algumas mudanças estruturais básicas na
como o bloguista mais popular do portal sina.com.cn, o portal da política e na sociedade chinesa1.
internet número um na China. Além de escrever sobre a vida pes-
soal, o Sr. Han Han escreve sobre eventos sociais e às vezes critica
o governo. O seu blogue já teve 679 mil fãs activos e chegou a 510 OPORTUNIDADES METODOLÓGICAS E ARMADILHAS
milhões de visitas em Novembro de 20111. PARA A PESQUISA TRANSNACIONAL SOBRE A INTERNET
O microblogging também é uma ferramenta importante, não
só para a comunicação com os outros, mas também para expres- As diferentes equipas de investigação do WIP realizam estudos
sar opiniões pessoais sobre assuntos públicos. O número de mi- longitudinais de longo prazo sobre o impacto dos computadores,
crobloguistas registados no portal sina.cn atingiu cem milhões a internet e tecnologias relacionadas nas famílias e na sociedade,
no final de Março de 2011. Outro portal chinês, do provedor do utilizando uma combinação de métodos de pesquisa bem acei-
serviço de mensagens instantâneas mais popular na China (QQ), tes e sedimentados no seio das ciências sociais. Provavelmente,
Tencent.com, também reclama ter cem milhões de microbloguis- a maior força do WIP não advém de uma abordagem teórica uni-
tas registados. O microbloguista de topo no portal sina.com.cn, ficada, mas de uma estratégia metodológica que mobiliza em rede
Yao Chen, averbava 7,4 milhões de fãs activos até 20112. A grande a investigação comparativa transnacional. A busca de tendências
base de utilizadores fez do microblogue uma ferramenta de co- globais, bem como de casos especiais ou singulares numa realida-
municação muito forte para a discussão política e dos assuntos de social diversificada em todo o mundo, é o que tem impulsiona-
públicos. Neste meio, uma parte significativa dos internautas chi- do as equipas que compõem o projecto WIP.
neses compartilham informações e a sua opinião sobre questões No seio de algumas esquipas do WIP é tão importante es-
internacionais e domésticas. Mesmo alguns governos locais e de- tudar os usos da internet como monitorizar e perceber os cons-
partamentos de polícia comunicam com os cidadãos através de trangimentos ou até mesmo as motivações dos não-utilizadores:
microblogues. acompanhar regularmente o seu comportamento social e cultural
De acordo com o relatório do WIP de 2008, percentagens para averiguar se e como as atitudes e práticas sociais mudam com
globais relativamente baixas de utilizadores (entre os 20 a 25 por a difusão do acesso das famílias aos dispositivos tecnológicos e à
cento), na maioria dos países ou regiões participantes no estudo, internet. O projecto WIP tem investigado porque é que os não-
concordaram que a internet «dará aos utilizadores uma palavra a -utilizadores não participam e quais são as suas representações da
dizer nas acções do governo». Porém, os entrevistados das áreas internet e do mundo conectado em rede. Ao fazê-lo, o projecto
urbanas da China (46 por cento) e da Columbia (45 por cento) espera saber o que motiva muitos deles a tornarem-se utilizadores
exibiram níveis mais elevados de concordância (WIP 2008, 186). mais tarde, e como os seus padrões estabelecidos de uso dos mé-
Isto sugere que os chineses percepcionam a internet como algo dia, de educação dos filhos, os seus comportamentos económicos

1 http://blog.sina.com.cn/twocold 1 Este resultado da pesquisa do WIP é suportado por pesquisas relacionadas com os va-
2 http://weibo.com/ lores e as atitudes a nível global sobre a internet (Dutton et al. 2011).

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a sociedade dos ecrãs perspectivas comparativas sobre a internet no mundo global

e políticos, entre outras actividades, estão a mudar. Por exemplo, turais» (Kohn 1987). Os artefactos metodológicos podem derivar
numa dada sociedade, quando, e se, a penetração residencial da de estratégias de amostragem diferenciadas ou reflectir desvios
internet atingir 90 por cento, o WIP espera ser capaz de determi- na obtenção de uma equivalência entre medições, modalidades
nar quem são os 10 por cento que não são utilizadores e responder linguísticas e conceptuais nas perguntas e no processo de codifi-
porque é que permanecem não-utilizadores, e como fazem offline cação das respostas. Este é um problema particularmente agudo
o que a maioria dos indivíduos faz online. De modo mais geral, na pesquisa transnacional da internet, uma vez que, por um lado,
o objectivo tem sido o de coordenar um esforço verdadeiramente estamos a lidar com uma nova terminologia e uma linguagem da
internacional para entender como tanto os países desenvolvidos internet que não é socialmente reconhecida da mesma forma em
como os países em desenvolvimento são afectados pelo uso das todas as gerações e em todo o mundo e, por outro, a terminologia
tecnologias da informação. ligada aos novos média foi cunhada no mundo anglo-saxónico.
No entanto, coordenar e aplicar uma rede mundial de pesqui- São assinaláveis os esforços de Allagui e Al-Shakaa (2009)
sa, garantindo uma boa qualidade na recolha de dados, é uma tare- para obterem financiamento nos Emirados Árabes Unidos e en-
fa árdua, dados os desafios metodológicos na harmonização mul- volverem instituições académicas árabes no projecto transnacio-
ticultural da investigação transnacional. As equipas nacionais não nal WIP, e os desafios culturais na realização da pesquisa naquele
têm os mesmos recursos materiais e humanos, as amostras podem contexto específico. No entanto, as pesquisadoras apontam os
não ser obtidas da mesma maneira em cada país, e cada equipa de benefícios de ser o único parceiro da rede do WIP a realizar uma
pesquisa enfrenta problemas que são específicos ao seu contexto investigação de âmbito transnacional dentro de um país árabe: a
nacional. Além disso, o processo de tradução de um questionário possibilidade de permitir que os pesquisadores dentro do mundo
comum não é tão simples como os pesquisadores gostariam uma árabe possam usar dados ancorados nessas sociedades, e de poder
vez que as mesmas palavras e expressões podem ter significados constituir um elemento motivador para pesquisas futuras sobre
particulares e diferenciados em determinados contextos culturais. os efeitos das NTIC nas sociedades árabes.
Um problema fundamental é saber se estamos a analisar o A comparabilidade não advém do uso das mesmas aborda-
mesmo fenómeno em diferentes contextos; isto é, os inquéritos gens teóricas, independentemente do contexto social, político e
quantitativos que possam ser usados em análises comparativas económico. De facto, as pesquisas em países não ocidentais po-
dependem para a sua fiabilidade do princípio da equivalência dem acrescentar novas perspectivas que desafiam o conhecimen-
funcional (Verba 1967). Assim, o pesquisador tem de questionar to científico dominante proveniente do mundo ocidental.
se as aparentes diferenças entre os países que emergem do pro- Olhando para os dados sobre inclusão digital no Reino Unido e
cesso analítico são cientificamente significativas e não artefactos no Chile, Godoy-Etcheverry e Helsper (2010) desafiam o conceito
metodológicos. Portanto, diante de resultados estranhos ou não de «fosso digital», argumentando que é necessário ir além das di-
expectáveis, deve-se primeiro questionar a fiabilidade, validade e visões binárias nos eixos analíticos sobre a adopção do uso da in-
comparabilidade dos procedimentos de pesquisa e não saltar de ternet: acesso/não acesso (eixo digital) e querer/não querer (eixo da
imediato para interpretações substantivas sobre diferenças «cul- decisão). Os autores afirmam que o «fosso digital» é um conceito

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a sociedade dos ecrãs perspectivas comparativas sobre a internet no mundo global

complexo e evolutivo que deve progredir para a noção de «não- Com dados transnacionais em mãos podemos usar muitas
-envolvimento». Uma das suas principais conclusões é que com- dimensões de análise. Uma dimensão poderá incluir a variação
parar dois países diferentes, com estruturas sociais diferenciadas, intra-societal dos padrões de uso e das representações em tor-
utilizando as mesmas variáveis sobre a inclusão digital não é uma ta- no da internet e sua distribuição demográfica. Esta dimensão é
refa simples e linear, uma vez que existem diferentes variedades de semelhante a uma das estratégias da tipologia de Kohn (1987):
inclusão e de interpretações sobre o envolvimento com as NTIC. o tratamento de cada nação como objecto de estudo em si.
Existem constrangimentos económicos em termos de acesso, mas Outra dimensão de análise refere-se à exploração da diversi-
existem outro tipo de variáveis, culturais ou outras, que poderão dade cultural, política, económica e institucional entre nações
explicar a decisão, em vez da impossibilidade, de não ter acesso à do mundo. Isto centra o foco analítico na expectativa de da-
internet. Portanto, os autores questionam se o Reino Unido está dos heterogéneos entre as sociedades. Estas duas dimensões
de facto «à frente» do Chile em termos de inclusão digital apenas de análise devem ser articuladas entre si, uma vez que é difícil
porque o Reino Unido tem uma proporção maior de pessoas online uma diferenciação cabal entre ambas, como Kohn reconhece.
(ou seja, se se está realmente a medir o mesmo fenómeno social em Desta forma, um pesquisador pode esperar alcançar a validade
ambos os países), ou se são realidades simplesmente diferentes? das interpretações derivadas da análise de nações individuais e
Com uma abordagem transnacional, é útil empregar uma es- encontrar regularidades sociais.
tratégia de pesquisa próxima da maneira de pensar durkheimiana, Um exemplo vem da análise transnacional de Amichai-Ham-
lançando luz sobre importantes problemas analíticos, tais como burger e Hayat (2011), baseada nos dados do WIP, que interro-
os limites interpretativos do que foi aprendido sobre a internet no ga se a utilização da internet leva a um declínio nas interacções
mundo. Este modo de conduzir a pesquisa pode esclarecer ques- sociais e no envolvimento nas comunidades em todo o mundo.
tões como: qual é o impacto dos contextos culturais, políticos e Os seus resultados mostram, em linha com outros estudos, que a
económicos nas «realidades» da internet desde os EUA ao Médio utilização da internet não tem um impacto negativo sobre a vida
Oriente? O que podemos conhecer e que tipo de generalizações social dos utilizadores comuns e, em alguns aspectos, pode até ter
podemos fazer? Quais são os casos singulares em todo o mundo? efeitos positivos.
Quais são os limites do nosso conhecimento sobre a internet e Kohn (1987) argumentou que as semelhanças substantivas en-
quais as questões que gostaríamos de responder? Tal abordagem tre países são menos difíceis de interpretar e, mesmo existindo
pode revelar não só as diferenças intrigantes entre países e cultu- dissemelhanças nos procedimentos metodológicos, tais similitu-
ras, mas também os aspectos dos nossos próprios países e culturas des poderão até sustentar a robustez dos resultados. Todavia, os
que seriam obscurecidos se usássemos unicamente dados nacio- problemas tornam-se mais agudos no processo interpretativo das
nais sobre a internet. Também é argumentável que os estudos diferenças entre países quanto aos dados e às relações entre variá-
transnacionais são ainda mais relevantes hoje em dia, tendo em veis. Jowell (2008) assinala que, embora o propósito das pesquisas
conta os passos dados na direcção de uma governação transnacio- transnacionais seja melhorar a comparabilidade entre diferentes
nal, como é o caso da União Europeia (Hantrais e Mangen 1996). países, mesmo as maiores precauções metodológicas no desenho

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a sociedade dos ecrãs perspectivas comparativas sobre a internet no mundo global

e aplicação das pesquisas não impedem que as diferenças entre do tráfego de internet com um dispositivo de gestão de tráfego
as nações surjam como consequência de questões de taxonomia apresentam-nos todos os dados de tráfego, mas os dados são apre-
e técnica. sentados de forma indiferenciada e têm de ser adaptados, catego-
As questões em torno da validade das medições nas inquiri- rizados e sintetizados. No estudo de Findahl, os dados reunidos
ções mantêm a sua relevância para além do desenho da pesquisa. em diários e através de medições de tráfego são inconsistentes e
Durante a análise de dados, o pesquisador deve estar ciente de variam de acordo com o período do dia. Por exemplo, a medição
que diferentes línguas não são apenas meios de definir e comuni- de tráfego no período nocturno revelou-se muito maior do que a
car as mesmas ideias e conceitos, mas também reflectem diferen- actividade na internet registada em diários relativa ao mesmo pe-
tes processos de pensamento, quadros institucionais e os valores ríodo. Além disso, a quantidade de tempo despendida na internet
que lhes estão subjacentes (Harding 1996). Isto é particularmente em casa que foi indicada pelos respondentes por meio de ques-
relevante no estudo dos itens de inquérito relativos à medição de tionário é muito menor do que a medição de tráfego registada,
atitudes e representações, mas também às práticas na internet. mesmo excluindo a troca de ficheiros ou de dados de fundo. No
Na senda do rigor, podem colocar-se as seguintes questões: o que entanto, dependendo do âmbito e objectivos da pesquisa, pode
é o uso da internet? Que significa ser utilizador da internet, ter ser pertinente para fazer a escolha metodológica de excluir dados
acesso a um computador ou dar atenção ao ecrã do computador? de fundo nas medições.
O que dizer de utilizações que não requerem a atenção do utili- Quanto às atitudes em relação à internet, estas são muitas
zador, como deixar a janela do chat aberta enquanto ausente ou vezes medidas através de escalas tipo Likert, que são propensas
usar um programa de partilha de ficheiros? Independentemente a enviesamentos com várias causas. Os entrevistados podem: evi-
da intenção de quem conceptualizou a pesquisa, um entrevistado tar as categorias de resposta em ambas as extremidades da escala
pode interpretar o uso da internet como algo diferente de outro (viés da tendência central); tender a concordar com as declarações
respondente. Este é também um exemplo de como problemas apresentadas no questionário (viés da aquiescência); ou evitar res-
teóricos podem ter um impacto profundo sobre escolhas meto- postas percepcionadas como política ou socialmente incorrectas
dológicas e de desenho da pesquisa. (viés da desejabilidade social) — por exemplo, o que os respon-
Neste sentido, Findahl (2010) compara os registos do uso dentes sentem em relação à pornografia, à partilha de arquivos,
da internet entre questionários, diários e medições de tráfego e ou a outras práticas moralmente ambíguas. Em relação à sua vali-
encontra diferenças consistentes e significativas entre cada pro- dade interna, as questões atitudinais sobre a internet também são
cedimento de medição. O autor também aponta os benefícios e mais sensíveis do que as questões factuais (tais como questões re-
deficiências de cada procedimento. Os questionários estão sem- lacionadas com o acesso à internet e às práticas concretas, às mu-
pre dependentes da memória humana e são propensos aos erros danças no texto, contexto, ênfase, e assim por diante). Uma re-
de estimativa do tempo de utilização. Os diários que registam o comendação específica para melhorar a fiabilidade das medições
tempo e a actividade, se preenchidos de dia, podem dar respos- de atitudes é o recurso a vários itens no questionário (constituin-
tas mais precisas, mas estão restritos no seu âmbito. As medições do cada item uma pergunta singular) relacionados com o mesmo

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a sociedade dos ecrãs perspectivas comparativas sobre a internet no mundo global

constructo (por exemplo, a moralidade da partilha de ficheiros). históricos e de processos sociais muito diferentes. Assim, quan-
Ou corroborar a medição atitudinal com outros dados de apoio. do não há provas ou conhecimentos sólidos sobre uma dada reali-
Outro problema específico para os investigadores diz res- dade, Kohn (1987) recomenda explicações prudentes e limitadas
peito ao enviesamento que advém das não-respostas. Se a taxa de nas interpretações. Além disso, dados que podem aparecer como
não-respostas for aleatória, pode ser menos prejudicial, mas se é diferenças entre países ou regiões podem revelar-se antes como
estruturada (ou seja, se estiver distribuída de forma desigual con- regularidades quando os pesquisadores alteram o âmbito de aná-
soante os grupos sociais ou os países) conduz a uma representação lise a regiões mais vastas, enquadrando a interpretação de forma
enviesada das populações-alvo que pode comprometer uma com- mais abrangente. Ademais, as divergências observadas dentro de
paração significativa intra e inter-societal. Portanto, a inquirição cada país são às vezes mais significativas do que aquelas encon-
por questionário transnacional tem de ser acompanhada por rela- tradas entre os países. Neste âmbito, tomar um país como unida-
tórios metodológicos que permitam ao pesquisador informar-se de de análise pode dar-nos um quadro insatisfatório da realidade
sobre os procedimentos, métodos e dados, como as taxas de res- social, visto que a nação como um todo nem sempre constitui o
posta de cada país — destacando em vez de suprimir as variações nível mais adequado ou importante de análise.
entre nações. Com esta informação é possível tomar decisões so- Esse é o caso do Chipre, um país dividido entre o norte turco
bre a análise dos resultados, tais como omitir certos países da aná- e o sul de língua grega, onde há evidentes dificuldades metodoló-
lise comparativa ou desqualificar resultados com base em fracas gicas na condução da pesquisa e desafios em termos de análise.
taxas de resposta, um período de trabalho de campo não confor- A análise cipriota sobre os impactos da internet nessa realidade
me com o de outros países, ou a aplicação de diferentes modalida- social efectuada por Demertzis et al. (2009) não se refere à parte
des de inquirição ou método de amostragem (Jowell 1998). turca do país ocupada desde 1974. Da mesma forma, Liang e Bo
(2009) apresentam resultados sobre o uso das TIC para a comu-
nicação interpessoal circunscritos à China urbana. Recolher uma
OS CONTEXTOS PARTICULARES E AS SINGULARIDADES amostra representativa da sociedade chinesa como um todo seria
QUANTO À UTILIZAÇÃO DA INTERNET NO MUNDO inviável, dada a vastidão territorial e populacional daquela socie-
dade, a imensidão de recursos que seriam necessários para efec-
Uma limitação específica da análise comparativa transnacional tuar tal empreendimento e as clivagens sociais entre a realidade
é que esta implica muitas vezes um alto nível de abstracção a urbana e rural. O estudo da realidade urbana da China dá-nos ape-
partir de contextos sociais particulares. De acordo com Kohn, nas uma imagem parcial sobre os impactos da internet naquele
é legítimo seguir uma via analítica que coloque entre parêntesis enorme país, que significa deixar de lado vastas regiões rurais com
as diferenças culturais, políticas e económicas para explicar as re- níveis muito baixos de difusão.
lações entre as práticas, atitudes e outras variáveis. No entanto, Em suma, é essencial para manter uma perspectiva crítica nas
as aparentes semelhanças podem mascarar diferenças profun- abordagens comparativas, estar ciente da possibilidade de que as
das, dado que os mesmos resultados podem emergir de trilhos diferenças verificadas entre os países em determinada região ou

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a sociedade dos ecrãs perspectivas comparativas sobre a internet no mundo global

continente poderem perder muita da sua relevância analítica se questões é que os projectos como o WIP deverão levantar nos
compararmos o mundo ocidental com outras regiões do mundo. próximos anos a fim de manter a sua relevância científica?
Uma maneira prática e poderosa de superar essas dificuldades é De facto, tem sido atribuída uma crescente importância à
aproveitar as potencialidades da pesquisa em rede através da troca análise das características dos designados «utilizadores da próxi-
de ideias e conhecimentos autóctones sobre as sociedades onde ma geração» (Dutton e Blank 2011; Blank e Dutton, no prelo), que
se inserem os académicos, uma característica-chave de projectos acedem à internet, muitas vezes em movimento, saltando entre
como o WIP. vários dispositivos, e à distinção entre utilizadores constantes, que
estão sempre conectados à internet, e utilizadores frequentes e mó-
veis. É igualmente relevante a distinção entre outras modalidades
CONCLUSÃO: PARA ALÉM DOS PROJECTOS GLOBAIS de uso da internet, nomeadamente a distinção entre utilizadores
DE PESQUISA SOBRE A INTERNET? activos e produtores activos, e entre os usos informativos e as ac-
tividades relacionais, em particular, nas redes sociais. A própria
Num mundo ainda muito dominado pelas pesquisas de âmbito realidade social, o panorama tecnológico cambiante, representa
nacional sobre a internet, em que os paradigmas de pesquisa pa- um desafio e, por vezes, mina a relevância e adequação das per-
recem ter essencialmente uma força motriz e uma racionalidade guntas de pesquisa sobre a internet. Portanto, as perguntas de
analítica de cariz nacional e onde apenas a publicação parece ser pesquisa devem acomodar a realidade em mudança: ter em conta
fundamentalmente transnacional, qual é o papel de projectos o advento de dispositivos portáteis e dos tablets, que podem ter
como o WIP? Existem dois tipos de respostas para esta pergunta. um potencial transformativo em termos dos usos quotidianos da
A primeira é que é importante reconhecer as limitações dos estu- internet e dos seus impactos; e levantar questões específicas so-
dos comparativos, e explorar novas formas de lidar com eles, isto bre os média sociais e aplicativos populares e sobre como as pes-
é, vias inovadoras de os conceber e implementar tendo em conta soas fazem escolhas em ambientes online. Outra promissora linha
uma dada estratégia analítica de raiz. Mas, apesar das fraquezas e de pesquisa diz respeito ao desenvolvimento de análises sobre os
carências apontadas neste capítulo, os participantes de projectos não-utilizadores e ex-utilizadores, e sobre as tendências emergen-
como o WIP têm aprendido muito com os aspectos compara- tes, tais como o carácter difuso de «estar online» numa era de gene-
tivos do seu empreendimento. A outra resposta é que tem sido ralização das conexões de banda larga.
implementada com mais ou menos solavancos uma análise social Projectos como o WIP que articulam uma pesquisa em rede,
da e na sociedade em rede. Ou seja, projectos como o WIP têm que engloba equipas de muitos países, são um enorme desafio,
vindo a promover a pesquisa em rede, embora seja uma pesquisa, uma vez que há diferenças metodológicas, modalidades diferen-
tal como as redes que tenta apreender, que não é totalmente es- ciadas de produção científica e diferentes interesses consoan-
tável, porque a natureza das redes não é a da imobilidade. Então te as equipas de investigação nacionais. Não é fácil chegar a um
o que devemos fazer é questionar e aplicar a análise social numa consenso sobre a relevância, precisão ou validade das perguntas
realidade em constante mudança. Se é este o caso, que tipo de presentes num dado projecto de investigação transnacional que se

[192] [193]
quer aplicável num número alargado de países. Assim, os parcei-
ros do WIP têm vindo a discutir o desenvolvimento de módulos SURFANDO A CRISE: CULTURAS DE PERTENÇA
temáticos opcionais, além das questões comuns entendidas como
nucleares, que cada equipa de pesquisa pode aplicar nos respecti-
E MUDANÇA SOCIAL EM REDE
vos países, de acordo com os seus próprios interesses. Além disso,
seria muito útil desenvolver um banco comum de perguntas sobre GUSTAVO CARDOSO E PEDRO JACOBETTY
os diversos temas relativos à utilização da internet que pudessem
ser facilmente acessíveis, facilitando a concepção e construção de
pesquisas mais específicas e fomentando a acesso e participação
de pesquisadores de todo o mundo sem uma filiação mais forma-
lizada a projectos como o WIP. No fundo, podemos desejar o INTRODUÇÃO
aprofundamento do funcionamento em rede do estudo compa-
rativo, que possa incluir ainda alguns princípios da racionalidade Na abertura do documentário «The Chicago Sessions», produzido
de código aberto (open source): trabalho colaborativo, participação em 2009 pela holandesa VPRO Broadcaster, Naomi Klein afir-
alargada, abertura à inovação, melhoramento contínuo, etc. ma que a noção de «classe» havia regressado aos Estados Unidos.
Em termos da pesquisa concreta e do tipo de conhecimentos Klein parte da oposição entre «Main Street» e «Wall Street» para
e saberes sobre a internet que têm sido produzidos, vivemos cer- argumentar que as visões de Milton Friedman sobre o fim das clas-
tamente num momento único. Como afirmou David Pearce Sny- ses, através da generalização de capital com base na massificação
der, «this is the real McCoy — 50-60 years from now whole history film do acesso a ações e propriedade imobiliária, haviam fracassado.
clips will be devoted to this time discussing how countries of the world Embora Klein possa ter visto uma verdadeira oposição de
either successfully or unsuccessfully exploited this moment». A colabora- forças entre os que detêm e controlam as empresas, «Wall Street»,
ção em rede e a produção científica com alcance global no seio de e aqueles que recorreram ao crédito a fim de emular a proprie-
projectos como o WIP são hoje um imperativo. dade capitalista, «Main Street», iremos argumentar que a oposi-
ção fundamental que emerge da crise não se centra em torno da
propriedade, mas dos próprios valores que sustentam esse sistema
de relações sociais. A oposição dá-se entre duas matrizes cultu-
rais, uma está intimamente relacionada com o deflagrar da crise e
compreende as culturas de «interesse particular em rede», a outra
integra elementos comunitários em redes sociais mediadas e não
mediadas, dando origem a culturas de «pertença em rede».
Esta análise procurará desvendar as bases das culturas de per-
tença em rede, os seus valores e crenças nucleares que guiam as

[194] [195]
a sociedade dos ecrãs surfando a crise

práticas orientadas para a mudança social que se têm vindo a ma- interdependentes, mediadas ou não, presentes na sociedade em
nifestar nos primeiros anos da segunda década do século xxi. Al- rede (Castells 1996) é inquestionável. No entanto, alegaremos não
gumas destas práticas estão organizadas e visam objectivos claros, se tratar de uma crise da sociedade em rede em si mesma, que
outras parecem constituir consequências inesperadas de um feliz constitui apenas um modelo de organização da produção, do po-
acaso em rede que emerge nas práticas e nas escolhas do quotidia- der, da experiência e da vida social, e que se torna cada vez mais
no. Embora seja possível identificar fenómenos que carregam as um elemento civilizacional. Embora esse modelo organizacional
marcas destas culturas por todo o mundo, a análise incide, a títu- possa favorecer determinadas tendências, em última instância se-
lo ilustrativo, sobre um conjunto específico de movimentos e de rão os nossos valores e as nossas escolhas, individuais e colectivas,
organizações: o MBA Oath que visa o profissionalismo ético na que informarão as nossas práticas.
gestão de empresas; o Partido Pirata Internacional; a Wikileaks; Argumentamos que a crise não é produto da sociedade em
a dispersa rede de indivíduos conhecida por Anonymous; as revo- rede mas de um conjunto de valores que se tornaram dominan-
luções do Norte de África e Médio Oriente via Twitter e Face- tes e que têm vindo a ser veiculados pelos sistemas de mediação
book; o movimento Geração à Rasca em Portugal; e, finalmente, dominantes (Hope 2010). Na sociedade em rede, por oposição a
a #spanishrevolution. outros modelos de organização social, o poder é construído es-
Para compreender a verdadeira oposição de valores nas socie- sencialmente através da comunicação mediada (Castells 2009).
dades contemporâneas será necessário dar enfoque, em primei- A comunicação é poder mas apenas enquanto o universo simbó-
ro lugar, às culturas que nos levaram à actual crise e, em seguida, lico que está na base dos processos comunicativos for considera-
às culturas que ganham força no decorrer da mesma e que permi- do útil para enquadrar as experiências quotidianas dos invidíduos
tem aos indivíduos «surfar» a crise, evitando afogarem-se nas «on- (Silverstone 1999). Quando essas condições mudam, o poder não
das» de desintegração social e económica. Argumentaremos que, é mais reconhecido pelos actores sociais envolvidos.
por definição, o networking da cultura consiste em acção orientada O desenrolar de uma crise no seio de um determinado sistema
por valores e que o carácter eficiente da acção em rede pode pro- económico suscita dúvidas a respeito das suas verdadeiras causas
mover processos de mudança social veloz. e, com elas, surgem as condições de questionamento da validade
do sistema em geral. A extrema complexidade das dimensões que
afectam a nossa vida ficou clara nos últimos tempos. Os espaços
CRISE, INDIVIDUALISMO EM REDE E INTERESSE PARTICULAR para visões alternativas da realidade tendem a emergir em mo-
mentos como estes em que vivemos. Hoje, valores e crenças que
A crise desencadeada em 2007, inicialmente com raízes nos bens eram tomados como fundamentais para a organização das nossas
materiais do mercado imobiliário, propagou-se através das redes experiências já não são percebidos como tal.
financeiras globais, influenciando fortemente a vida quotidiana Giddens (1991) e Beck (1992) afirmam que a modernidade
dos indivíduos em todo o mundo. Que a crise nasceu no seio de tardia é caracterizada por indivíduos auto-reflexivos que produ-
um sistema social que temos vindo a adoptar, baseado em redes zem representações sobre si mesmos (auto-identidade), o que se

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

relaciona com processos de individualização. De acordo com pessoais de «capital em rede», ou seja, «a maneira como as pessoas
Bauman (2000, 31-2), a individualização «consiste em transformar contactam, interagem e obtêm recursos entre si» (Wellman 2002).
a ‘identidade’ humana enquanto ‘dado adquirido’ numa ‘tarefa’», «A colectividade largamente envolvente, que integra e con-
estabelecendo uma «autonomia de jure (independentemente do trola, tornou-se uma rede social fragmentada, variegada e perso-
estabelecimento em simultâneo da autonomia de facto).» A «de- nalizada. Autonomia, oportunidade e incerteza são a regra» (We-
terminação heteronómica da posição social» é substituída «pela llman 2002).
autodeterminação obrigatória e compulsiva» (Bauman 2000, 32). Paradoxalmente, a individualização pode promover práticas
O indivíduo é considerado, por si e pelos outros, como o único res- de networking e novas formas de acção social em resposta ao enfra-
ponsável pela sua condição pessoal e social, o que promove a sua quecimento das comunidades e à percepção do indivíduo como
dimensão de produtor e performer activo da identidade, integrando único responsável pela sua condição. Aqui vislumbra-se uma pos-
acontecimentos do «mundo exterior» numa «‘história’ contínua sível ponte entre individualismo e aceleração da mudança social
sobre si» (Giddens 1991, 54). Uma vez que identidade e sentimen- através da interligação de esforços individuais para a mudança de
tos de pertença incorporam desempenho e autonomia, defende- quadros institucionais.
mos que as culturas de pertença em rede fornecem referências A sociedade em rede pode ser vista como uma construção so-
normativas alternativas, permitindo que indivíduos isolados e ad- cial, uma infra-estrutura material e um processo organizacional.
versos aos actuais quadros institucionais possam empenhar-se em O capital de rede constitui o ponto de fusão entre recursos tão
actividades de networking, dar sentido à sua biografia pessoal, criar diversos como «informação, conhecimento, ajuda material, ajuda
espaços para a expressão e realização pessoais, e por vezes, lutar financeira, alianças, apoio emocional e mesmo um sentimento de
por mudanças sociais mais abrangentes. estar conectado» (Wellman 2002). Embora possamos assegurar
O que aqui é designado por culturas da crise, ou seja, os valo- a existência de um tipo específico de capital de rede, resultan-
res e crenças que informaram as práticas na origem da crise, assim te da apropriação social das redes de mediação, a sua eficácia na
como os que dela resultam, são promovidos pelo individualismo construção da autonomia individual ou na promoção do sucesso
em rede (Wellman 2002). O paradigma social e organizacional organizacional depende muito dos instrumentos tecnológicos
da sociedade em rede deu origem a novas formas de interligação existentes e das formas como estes são apropriados num dado
individuais e institucionais, nas quais os grupos largamente envol- momento histórico. Basta somente recordar que a sociedade em
ventes são substituídos por redes sociais difusas. Como Wellman rede até 2007 constituía um ambiente social onde os novos média
indica, as fronteiras tornaram-se mais permeáveis, as interacções como o Facebook não se haviam propagado como o fizeram ape-
multiplicaram-se, estabeleceram-se ligações entre várias redes e as nas um par de anos mais tarde. Estas ferramentas — redes sociais
estruturas hierárquicas tendem a ser mais horizontais e, simulta- mediadas como o MySpace, QQ e Facebook, entre outros — têm
neamente, mais complexas. A vida social dos indivíduos na socieda- vindo a permitir novos tipos de experimentalismos, que, por sua
de em rede é construída em torno das «suas próprias redes pessoais» vez, estão na base de desenvolvimentos culturais por via da acção
e não dos grupos mais próximos, permitindo a criação e gestão individualista em rede.

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

O acentuar do individualismo em rede não é apenas o produto rede de gestores em diferentes níveis e regiões geográficas. Estu-
das escolhas que os indivíduos fazem no seu dia-a-dia, mas também dar os principais protagonistas da crise de 2007 implica estudar
a consequência do papel cada vez mais importante que a mediação o papel desempenhado pelas elites da gestão e os motivos que as
de redes sociais assume a vários níveis, desde os amigos e a famí- levaram a adoptar uma dada cultura. Apesar da multiplicação de
lia à adopção organizacional do trabalho assente em informação. abordagens sociológicas e da economia política à crise, poucas
As práticas que assentam em culturas de interesse particular em análises têm tido por objecto os gestores, a gestão e a cultura em-
rede, cujo epítome são as elites da gestão e da finança, são enqua- presarial. O trabalho de Khurana (2009), analista que se foca no
dradas institucionalmente pelo ethos das business schools, dissemina- papel das escolas de gestão para compreender os fundamentos da
das através de um modelo de comunicação de massa, e encontram crise, constitui uma de tais excepções.
expressão na identificação com grupos de referência particulares. Khurana (2007) defende que as escolas de gestão capitularam
no combate pelo profissionalismo1 e, no processo, tornaram-se
meros fornecedores de um produto, o MBA, dirigido a estudantes
INDIVIDUALISMO EM REDE E AS NOVAS ELITES ECONÓMICAS que são vistos como consumidores. Como muitas outras activida-
des profissionais estabelecidas na modernidade, a gestão baseia-se
A transformação da organização social assente em grupos para na aceitação de garantias simbólicas e sistemas periciais (Giddens
uma assente em redes pode ser identificada em múltiplas esfe- 1990). O sistema de ensino superior sustenta a legitimidade e a
ras sociais, da política à economia. Comecemos por analisar a autoridade de tais grupos, bem como a confiança depositada nes-
forma como as possibilidades oferecidas pelo individualismo tes, condições sine qua non para o exercício das suas funções. No
em rede foram apropriadas por uma pequena elite profissional, caso da gestão, esses elementos estão enraizados nas escolas de
os profissionais da gestão e da finança. O epicentro da crise de gestão das universidades, mais particularmente em programas
2007 situou-se no sistema financeiro, um produto de interacção de MBA. Como argumenta Khurana, o MBA é «um requisito
e interdependência tecnológica e social. Por conseguinte, é pos- virtual para integrar os escalões superiores da gestão nas corpo-
sível distinguir um núcleo de valores e crenças subjacente — ele- rações grandes e bem estabelecidas, ou ocupações lucrativas tais
mentos de cultura normativa partilhados dentro e fora do sis- como consultoria, banca de investimento e participação privada»
tema financeiro. Os elementos culturais que fazem o elogio do (Khurana 2007). A gestão e outros campos profissionais, como o
indivíduo extremamente autocentrado e individualista, secun- jornalismo (Eco s.d.), formados fora do domínio da universidade
darizando tudo aquilo que não se traduza em benefício pessoal, e somente mais tarde estabelecidos como campos científicos —
integram aquilo que aqui designamos por culturas de interesse numa estratégia de alcançar maior reconhecimento — têm em
particular em rede. comum um relacionamento difícil entre a dimensão económica
Se a dimensão tecnológica do sistema financeiro era — e ain- da sua actividade e a dimensão cultural das normas e valores que
da é — suportada pela existência de uma rede mundial de centros
financeiros e servidores, a sua dimensão social é baseada numa 1 Entendido aqui no sentido anglo-saxónico do termo que remete para o estatuto espe-
cial das professions face a outras ocupações.

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

devem funcionar como fronteiras éticas no equilíbrio entre poder financiando as actividades de compra e venda de derivados finan-
individual e confiança social. ceiros ou bens por parte de terceiros de modo a gerir diferenciais
As noções de profissionalismo e responsabilidade que inspi- de preços (por exemplo, hedge funds, grupos de participação pri-
raram a constituição da gestão como profissão ao longo do sécu- vada e veículos especiais de investimento).
lo xx foram substituídas por uma visão dos gestores como sendo Os processos de desregulação, tacitamente aceites pela vas-
meros agentes dos accionistas que cumprem a função de facilitar ta maioria das business schools, deu origem a uma determinada
a repartição do lucro. A maximização do valor para o accionista construção cultural de sucesso que assenta no valor de mercado
tornou-se o objectivo da gestão, legitimando o foco no preço das das acções.
acções a curto prazo como medida de valor e sucesso das empre- Tal definição de sucesso criou as condições para a despropor-
sas e do trabalho dos gestores (Khurana 2007). Tal legitimação cionalidade na remuneração de executivos e para políticas de stock
sustenta-se em teorias micro e macroeconómicas, provenien- options (opções de compra de acções). Essa construção, aplicada à
tes dos paradigmas vigentes nos programas de MBA das business esfera financeira da gestão, cria as condições culturais para a inova-
schools relativos à natureza e ao propósito da profissão (Khurana ção financeira, nomeadamente os veículos de titularização que estão
2007). na origem da crise do sub-prime e ao subsequente quase desmorona-
Durante grande parte do século passado, a actividade dos mento do sistema financeiro dos EUA, assim como de muitos dos
gestores inseria-se num sistema de capitalismo gestionário que restantes nós do sistema financeiro mundial. Cria também as condi-
compreendia uma considerável margem para escolha (Khura- ções para uma cultura baseada no poder das redes digitais e uma per-
na 2007). Porém, depois da crise dos anos 70 (Castells 1996), cepção do individualismo como equivalente ao interesse particular.
desencadearam-se processos de desregulação a fim de melhorar a Ao longo dos últimos 30 anos, o ethos das business schools preparou o
produtividade do trabalho e a rentabilidade do capital (Khurana caminho para uma cultura de interesse particular em rede em que a
2007). A desregulação teve um forte impacto sobre o capitalismo confiança social é sacrificada em detrimento do favorecimento do
gestionário, deslocando grande parte do poder que os gestores de- poder individual e da busca de oportunidades, através da atribuição
tinham para os accionistas, dando origem a uma profunda trans- de um valor muito inferior às normas de justiça, equidade e lealdade
formação das relações entre executivos, empresas e accionistas. institucional (Bauman 2000, Nisbet 1988, Khurana 2009).
Esta transformação nas relações de poder conduziu ao desen- Para compreender o papel das elites financeiras nesta crise
volvimento de um novo tipo de modelo económico e corporati- é necessário identificar os modos como estas se constituíram em
vo: o capitalismo de investimento (Khurana 2007). Outra análise modelos globais dentro de uma dada cultura, e como validaram
sugere que assistimos à emergência de um «novo sistema de Wall e incentivaram a participação de uma grande parcela da popula-
Street» (Gowan 2009, 7-13), um sistema no qual a banca de investi- ção mundial em práticas potencialmente perigosas de consumo
mento deixou de efectuar apenas empréstimos, gestão de fundos e investimento. Essa difusão cultural ilustra como o exercício do
e trading em nome dos clientes, passando a empreender também poder não se limita a um determinado domínio institucional, tal
actividades de trading proprietário de activos financeiros e outros, como a banca de investimento ou participação privada, mas que

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

decorre igualmente da capacidade de influência através das «es- O hibridismo constitui o cunho principal das culturas de interes-
tratégias e técnicas de poder» e «formação discursiva «(Scott 2008, se particular em rede aqui analisadas, no sentido em que elas são o
29-30). A forma de dominação que deriva da internalização dos resultado do individualismo em rede, promovido por redes como
valores culturais predominantes e da identificação com aqueles a internet, e também estão presentes nos meios de comunicação
que ocupam as posições cimeiras em termos desses valores é de- de massa, essenciais na difusão dos seus valores e crenças.
nominada «dominação autoritária» por Giddens (1979). O poder Se as elites financeiras foram os actores centrais na constru-
depende da legitimidade, que por sua vez depende da aceitação ção de uma cultura de interesse particular em rede, de que modo é
de um determinado padrão de dominação como sendo certo, cor- que alcançaram o poder comunicativo que possibilitou a dissemi-
recto, justificado ou válido (Held 1989, Beetham 1991 em Scott nação destas práticas culturais? Com base em Hope (2010) e Cas-
2008, 32). A validade do poder das elites económicas é produto do tells (1996), defendemos que a difusão desta cultura ocorre num
reconhecimento de um conjunto exclusivo de peritagens que pro- período de surgimento e proliferação de políticas de desregula-
curam monopolizar, mas é limitado pela visibilidade que é dada ção, de globalização da actividade financeira, de financeirização
àqueles conjuntos de peritagens, ou seja, depende dos modelos de do capitalismo, e da crescente interligação de meios de comunica-
comunicação vigentes numa dada sociedade. ção, telecomunicações e computadores em rede. Estes elementos
Ao estudar uma crise podemos optar por examinar os seus foram indutores do extraordinário crescimento económico mas
resultados ou as suas causas, assim como as suas manifestações também da acumulação de riscos financeiros que levaram à crise
materiais (números e índices nas bolsas de valores e nos mercados de 2007. Como Hope (2010, 655) indica, o poder dos bancos de in-
de habitação, etc.) ou culturais. A abordagem cultural a uma cri- vestimento, a securitização da dívida das famílias, a disseminação
se implica identificar e analisar o conjunto subjacente de valores, de derivativos hipotecários, as redes globais e os meios de comu-
crenças e práticas, isto é, o modo como as pessoas pensam e agem, nicação tiveram um papel importante na criação das condições
mas também estudar os seus actores principais e as razões que os para o desencadear da crise e também do seu alargamento extre-
levam a adoptar determinados elementos culturais. mamente rápido a todo o mundo.
Mas, se voltarmos a nossa atenção para o período entre a que-
da do Muro de Berlim, em 1989, e a queda das Torres Gémeas,
INTERESSE PARTICULAR EM REDE E COMUNICAÇÃO DE MASSA em 2001, poderemos identificar o surgimento de meios informa-
tivos globais, a emergência das redes financeiras mundiais e a dis-
Apesar de o modo como comunicamos ter sido alvo de profundas seminação dos negócios online, dando origem à transformação do
transformações em meados dos anos 90, até há pouco tempo vi- modo como os meios informativos centrados nos negócios fun-
vemos principalmente ao abrigo de um modelo de comunicação cionam. Estes média construíram o seu próprio sistema pericial
de massa. Este modelo fomenta sobretudo a integração do indiví- e, tal como o entretenimento tem sistemas de celebridades, ou
duo nas configurações institucionais presentes na sociedade, não Hollywood o seu sistema de estrelas, os média de negócios desen-
estimulando a inovação a esse nível por meio da experimentação. volveram o que podemos denominar de sistema de analistas.

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Esse sistema, construído em torno de comentadores, exis- PERTENÇA MEDIADA E MUDANÇA SOCIAL
tia já antes dos anos 80, mas com configurações diferentes,
gravitando principalmente em torno de académicos e econo- Esta é uma crise diferente da crise do petróleo de 1973, pois teve
mistas do sector privado, bem como de alguns funcionários lugar num mundo globalizado e multipolar. Países como a Chi-
públicos (Hope 2010). Tal modelo de média de negócios de- na tornaram-se actores centrais na economia internacional e na
pendia fortemente da análise de indicadores estatísticos na- diplomacia. O poderio europeu e americano por seu turno havia
cionais, saldos comerciais, crescimento económico e emprego sido consumido por duas guerras e por um sector financeiro que
— habitualmente produzidos por instituições governamentais. implodiu por si mesmo e, de modo a sobreviver, secou os activos
Sob o modelo de desregulação baseado no capitalismo de in- financeiros dos estados soberanos. Por último, esta crise ocorre
vestimento, os média generalistas e de negócios passaram a in- num contexto em que crescimento e criação de riqueza não im-
tegrar painéis de comentadores mais orientados para a análise plicam a criação de mais empregos.
do ambiente financeiro global. Ao fazê-lo, os média de massa Todas as crises têm conflitos que raramente são liderados pe-
contribuíram para a legitimação de um sistema económico ba- las massas. Geralmente os conflitos sociais resultam de tensões
seado na elite financeira, banqueiros, comerciantes, investido- entre potenciais elites, que aspiram ao poder, e as elites vigentes,
res, corretores, etc. As análises centraram-se cada vez mais na que o procuram manter. Em momentos de crescimento econó-
opinião individual e na interpretação em tempo real de dados mico, a mobilidade social e as instituições democráticas suavizam
provenientes dos mercados financeiros. as tensões entre estes dois tipos de elites, mas esses mecanismos
Tal evolução teve por resultado o surgimento de um sistema tendem a perder a sua eficácia quando se vive uma crise prolon-
interdependente, onde a análise dos dados produzidos nas redes gada. A nossa sociedade é cada vez mais dependente do conhe-
financeiras informa a decisão sobre o que comprar ou vender, cimento e da informação, uma sociedade em rede que interliga
criando realinhamentos constantes de decisões comerciais basea- todos os domínios, do social ao económico, passando pela políti-
das nas análises dos média de negócios. Um sistema onde a elite ca. Consequentemente, os profissionais da informação com for-
financeira, através da sua actividade nos mercados e dos seus va- mação universitária que não conseguem emprego ou que, quando
lores e crenças presentes nos seus comentários, deu origem à dis- conseguem, este está em desacordo com as suas expectativas de
seminação de racionalidades com base numa cultura de interesse mobilidade social, constituem potenciais elites, limitadas pela
particular em rede (Tambini 2010). crise. Será junto desta camada da população que iremos encontrar
No entanto, as práticas enquadradas nas culturas de interesse os actores dos novos conflitos sociais.
particular em rede foram alvo de críticas depois da crise de 2007. Em termos estratégicos, os novos conflitos sociais recorrem
Terão essas críticas sido traduzidas em novos conjuntos de prá- à acção individual que é, simultaneamente, acção em rede. Muitas
ticas, informados por diferentes sistemas de valores que possam vezes, trata-se de acção anónima que ganha apoio através das re-
constituir-se como novos modelos sociais? des interpessoais online. As potenciais elites que visam promover
a mudança social através da sua acção (e os primeiros a adoptar

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

o que parecem ser novas culturas em rede) são radicalmente di- identidade como indivíduos em rede ao ocupar ruas e praças dos
ferentes das elites financeiras e da sua cultura de interesse par- centros urbanos.
ticular em rede. Aqueles que desafiam os poderes actuais cons-
tituem aquilo que podemos designar como elites por objectivos,
pois apenas são reconhecidas como tal pelos seus pares enquan- OATH PROJECT, UM COMPROMISSO
to forem capazes de atrair a atenção e a participação de outros PARA COM A MUDANÇA
nas acções que promovem através das redes digitais — embora
tenham impacto concreto em lugares e instituições. O seu poder O primeiro exemplo de pertença em rede orientado para a mudan-
é construído nas redes e encontra expressão simbólica tanto nas ça social aqui analisado deriva das acções de um pequeno grupo de
redes sociais online como nas ruas, sustentado pela sua capacidade estudantes de MBA e de jovens gestores em todo o mundo, numa
de actualizar permanentemente as suas acções e objectivos, em tentativa de transformar a dimensão ética da gestão. Como foi an-
gerir redes de partilha de ideias e de coordenação de actividades teriormente mencionado, as preocupações éticas nesta área têm
numa lógica de permanente interacção e acesso mútuo entre os sido postas de lado em favor da maximização do lucro e eficiência
seus membros. económica, num processo que também se fez sentir no seio das
O já conhecido poder da comunicação (Castells 2009) faz- business schools. O artigo de Rakesh Khurana e Nitin Nohria a este
-se sentir de forma particular no novo modelo de comunicação respeito, publicado na Harvard Business Review em 2008, continha
em rede (Cardoso 2011), mas os conhecimentos até agora dispo- as directrizes para um código profissional da gestão. Na sequên-
níveis não permitem antever as futuras consequências das lutas cia deste artigo foram feitas algumas tentativas para formalizar
pelo poder que ainda estão por vir. Essas lutas parecem centrar-se normas de conduta desejáveis que pudessem orientar aqueles que
em torno das questões consideradas mais importantes num mo- estudaram nas escolas de gestão. Após tais experiências, algumas
mento de crise e, como veremos nos exemplos seguintes, muitas associações e organizações influentes (Jovens Líderes Globais do
vezes partem da necessidade de mudança no sistema político, World Economic Forum (WEF), MBA Oath, Aspen Institute,
económico e no modo como organizamos as nossas vidas. Ao lon- Principles for Responsible Management Education, UN Global
go das próximas páginas iremos explorar as transformações das Compact, Association of Professionals in Business Management,
práticas sociais durante um momento de crise, alimentadas pela Net Impact, e Canadian MBA Oath) promoveram uma iniciativa
mudança cultural que se dá na sociedade em rede, na qual jovens internacional com vista a criar um juramento padrão para gesto-
e velhos têm adoptado o mundo das redes digitais e, ao fazê-lo, res do mundo inteiro. Juntos, fundaram o Oath Project.
aprendem a navegar na crise e a empreender experimentalismos A força das redes sociais é ilustrada por um movimento de
que poderão estar na base da mudança social. Essas pessoas as- gestores iniciados por alunos das business schools que desafia o es-
sumem o papel de inovadores, por vezes no seio dos tradicionais tabelecimento dos interesses do accionista como o fim absolu-
ambientes institucionais, tais como universidades, partidos polí- to para a actividade empresarial. Espalhou-se rapidamente pela
ticos, ONG e grupos de interesse, outras vezes assumindo a sua sobreposição parcial de redes sociais individuais, organizações,

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redes sociais mediadas privadas como o WELCOM do WEF. Na Tunísia, onde o partido não alcançou estatuto oficial, Slim
A sua disseminação foi auxiliada pelo compromisso, por parte das Amamou, um activista do Partido Pirata Tunisino foi nomeado
pessoas envolvidas, para com a divulgação do juramento junto dos secretário de Estado do Desporto e da Juventude do governo que
gestores. O Oath Project e o seu Global Business Oath são exem- se seguiu ao regime de Ben Ali1.
plos do reconhecimento dos problemas sociais causados pelos A análise de partidos pirata em diferentes países permite
valores e crenças que integram as culturas de interesse particular identificar a ideologia central a este movimento. Esta gira em tor-
em rede, assim como da percepção de que a mudança social pode no de uma emancipação tecnológica do indivíduo relativamente
ser promovida através de redes horizontais que se apropriam das ao que seria uma escassez de informação na era digital, artifi-
ferramentas disponíveis a fim de mudar uma cultura, neste caso cialmente criada para proteger interesses privados. No entanto,
relativa ao mundo dos negócios e, ao fazê-lo, impulsionam a mu- a existência de ideias comuns aos diferentes partidos nacionais
dança social. não deve esconder que estes se adaptam aos contextos nacionais
onde se inscrevem. No Reino Unido, por exemplo, um dos prin-
cipais objectivos estabelecidos pelo partido foi o disponibilizar
O PARTIDO PIRATA E A MUDANÇA medicamentos genéricos de produtos patenteados, o que, segun-
NAS POLÍTICAS PÚBLICAS do os membros do partido, iria possibilitar que o sistema nacio-
nal de saúde poupasse milhões de libras2. Em Espanha, o partido
Outro exemplo da promoção activa de transformação social é defende a criação de uma plataforma participativa que permita
suportado pelas mudanças nas práticas de distribuição da cultura aos cidadãos tomar parte nas decisões políticas em tempo real3.
popular, através do sistema de partidos políticos. O Piratpartiet, Como último exemplo, o Partido Pirata Português defende um
ou Partido Pirata, é um partido político sueco que teve origem sistema de ensino superior gratuito, o que compreenderia a gra-
num movimento em torno da partilha de ficheiros e actividades tuidade dos materiais necessários à realização do curso4. A criação
contra o copyright. O partido estabeleceu-se com sucesso em vá- de partidos pirata que partem da partilha de um pequeno número
rios países e, no dia 18 de Abril de 20101, 22 partidos pirata nacio- de princípios relacionados com a internet — privacidade, liber-
nais fundaram o Pirate Parties International (PPI). Esta entidade dade de expressão e abolição do copyright — e o alargamento do
visa apoiar e promover a cooperação entre os partidos pirata de seu discurso político a outras esferas sociais, da saúde à educa-
vários países2. Apesar de apenas existirem partidos pirata oficial- ção, mostra o poder dos valores e crenças enraizados em práticas
mente registados na Europa e no Canadá, a sua rápida dissemina-
ção leva a que este movimento possa ser considerado como um 1 «Turmoil in Tunisia: As it happened on Monday»: http://news.bbc.co.uk/2/hi/afri-
movimento bem-sucedido no âmbito da política internacional. ca/9363808.stm.
2 «Election: Can Pirate Party UK emulate Sweden success?» http://news.bbc.co.uk/2/hi/
uk_news/politics/election_2010/8644834.stm.
3 Objectivos do Partido Pirata Espanhol: https://www.partidopirata.es/conocenos/
1 Declaração do PPI: http://www.pp-international.net/node/471. quienes-somos.
2 Estatutos do Pirate Parties International. Disponível em http://int.piratenpartei.de/ 4 Manifesto do Partido Pirata Português: http://www.partidopiratapt.eu/politica/
wiki/images/a/a6/Statutes_of_the_Pirate_Parties_International.pdf. manifesto-ppp.

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

generalizadas na sociedade, mesmo que ilegais, que podem partir nome do interesse público, desestabilizando o equilíbrio de poder
de um pequeno e disperso grupo de indivíduos e desenvolverem- tradicional e capacitando os indivíduos. Na verdade, «a Wikileaks
-se até darem origem a uma rede institucionalizada de partidos desloca a potencial fonte de ameaça de um pequeno número de
políticos em vários países, que procuram influenciar as políticas hackers perigoso ou de um grupo maior de activistas, inofensivos
públicas e com isso promover mudança social. na sua maioria — ambos exteriores à organização — para os que
estão do lado de dentro» (Bodó 2011). Para além de ser um exem-
plo do modo de funcionamento do modelo de comunicação em
WIKILEAKS E A MUDANÇA ATRAVÉS rede (Cardoso 2011), a divulgação dos cabos diplomáticos das em-
DA FUGA DE INFORMAÇÃO baixadas através da aliança feita entre Wikileaks, The Guardian,
El País, The New York Times, Der Spiegel e Le Monde também de-
A WikiLeaks, apesar das controvérsias que a rodeiam, é pro- monstra o impacto das culturas de abertura fora do âmbito das
vavelmente o exemplo mais conhecido de uma cultura de rede redes digitais. Esta plataforma influenciou fortemente as discus-
orientada para a mudança. A lógica subjacente às suas acções sões sobre ética empresarial e nas relações internacionais, o papel
dita que todas as informações são publicáveis se puderem de al- dos jornalistas e do jornalismo nas nossas sociedades, e mesmo
guma forma ser consideradas de interesse público. A Wikileaks as contradições existentes e os eventuais desajustamentos entre
é baseada numa cultura de abertura, tratando-se de uma organi- (1) a percepção pública do que constituem a reserva e a privaci-
zação sem fins lucrativos, crowdsourced e crowdfunded, que opera dade, (2) o que é praticado por empresas e governos a esse nível e
internacionalmente (Sreedharan et al. 2011). Desde o seu lança- (3) como estas questões são enquadradas pela legislação nacional
mento em 2007, e de acordo com a página Web da organização, e internacional. Dada a sua ampla divulgação, a WikiLeaks é um
a «WikiLeaks publicou mais documentos classificados dos servi- exemplo visível de como pequenas organizações sem fins lucra-
ços de informação e segurança do que toda a imprensa mundial tivos, que colocam a sua atenção sobre a centralidade da infor-
combinada». Jay Rosen observou que a WikiLeaks foi a primeira mação nas nossas sociedades, podem incentivar a mudança social
organização de notícias apátrida do mundo, invertendo a tendên- através de novas perspectivas culturais sobre a informação.
cia histórica segundo a qual os média supervisionam os poderosos
funcionando sob e protegidos pelas leis de uma determinada na-
ção (Rosen 2010, Sreedharan et al. 2011). O seu impacto não alte- ANONYMOUS: LITERACIA E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
rou somente a relação entre média e Estado mas as próprias regras
do jogo, minando a autoridade do Estado para controlar o acesso Os adeptos da cultura hacker também podem associar-se em redes
à informação e influenciando a cobertura noticiosa por parte dos alargadas, tornando-se num outro tipo de grupos de interesse, tal
média estabelecidos. como a entidade denominada Anonymous, uma «não-organização»
Esta organização inovadora, fundada sobre princípios dos em rede, que, até recentemente, consistia essencialmente num
média sociais e de serviço público, publica material delicado em desconhecido centro cultural da internet (Blair 2008). Sites como

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

o imageboard 4chan, onde as pessoas interagem através do upload de grupos. Os indivíduos são vistos como actores responsáveis pelas
imagens e da escrita de comentários em threads, permitem interac- suas acções, que são desenvolvidas numa lógica cultural análoga à
ções anónimas alargadas, não exigindo registos de utilizador. A au- dos média sociais em torno de interesses específicos. A identifi-
sência de utilizadores registados deu lugar a que a grande maioria cação dos participantes com o colectivo satírico e sem rosto é o
da actividade presente nessa página Web fosse assinada por ‘anony- único requisito de recrutamento. Devido à natureza dessa parti-
mous’. Num cenário onde a cultura está em constante mutação de- cipação, ninguém pode afirmar-se como fazendo parte do Anony-
vido ao crescimento descontrolado de memes, Anonymous tornou- mous, exceptuando quando participa nas suas acções.
-se um meme em si, uma identidade compartilhada, muitas vezes O Anonymous mostra-nos como pessoas com graus elevados
retratada como se fosse uma pessoa real. de literacia digital podem agir colectivamente de formas inovado-
Ao contrário das descrições apresentadas nos meios de co- ras em torno de um propósito comum, com vista a mudar aquilo
municação social, não se trata de um grupo organizado de perigo- que consideram como errado. Embora a sua natureza implique
sos e habilidosos hackers mas de um nome colectivo adoptado por que poderão actuar como vigilantes com orientações próprias,
indivíduos com mentalidades semelhantes que ocasionalmente tal como Alan Moore descrevia o vingador mascarado em V for
actuam juntos em actividades normalmente denominadas «opera- Vendetta — um ícone usado pelo Anonymous —, a análise deste
ções»: a pertença a este colectivo é ad hoc e centrada em objectivos fenómeno lembra-nos como a articulação entre individualismo,
específicos. Underwood e Welser (2011) observaram as platafor- mobilização colectiva e mudança social poderá estar a ganhar no-
mas públicas na internet que sustentam a actividade de Anony- vos contornos.
mous «para planear, discutir, coordenar e executar o Project Cha-
nology» que consistia em protestos contra a Igreja da Cientologia.
Nestes protestos contra a suposta violação dos direitos humanos A PRIMAVERA ÁRABE E OS MÉDIA SOCIAIS
e liberdade de expressão por parte desta organização religiosa, os
participantes viam-se como «trapaceiros», considerando que a sua A 17 de Dezembro de 2010, a cidade de Sidi Bouzaid, na Tunísia,
participação nestes protestos era motivada pela «diversão». foi palco de um acontecimento tão chocante que viria a desenca-
Mas a visibilidade pública de que o Anonymous goza teve dear uma reacção em cadeia por toda a região. De acordo com o
origem na cobertura dos média de massa da «Operação Payback», New York Times1, Mohamed Bouazizi, um comerciante de rua de
cujo objectivo consistia em retaliar contra ataques DDoS (Dis- 26 anos de idade, imolou-se, em protesto por ter sido espancado
tributed Denial of Service) feitos a páginas Web que não haviam e humilhado pelas autoridades, às portas do gabinete do gover-
removido conteúdos em violação de copyright, e da decorrente nador local. Este acontecimento foi considerado pela população
«Operation Avenge Assange», ataque DDoS a empresas como a como sinal da perversidade da ditadura de Ben Ali, levando à
PayPal, MasterCard, Visa e Amazon (Amorosi 2011) após estas organização de protestos por todo o país que culminaram numa
terem cancelado os donativos à Wikileaks. Um dos pontos for-
tes do Anonymous é a falta de estruturas características de outros 1 «Slap to a Man’s Pride Set Off Tumult in Tunisia»: http://www.nytimes.com/2011/01/22/
world/africa/22sidi.html?pagewanted=1&_r=3&src=twrhp.

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

revolução. A Revolução de Jasmim na Tunísia foi a primeira de A influência das novas formas de comunicação nos pro-
uma série de revoltas populares que se fizeram sentir em todo cessos revolucionários não deve ser descurada, mas estas não
o Norte de África e Médio Oriente que ficou conhecida como devem ser tomadas como elementos revolucionários em si.
«Primavera Árabe». No dia 25 de Janeiro, os protestos tomaram Na verdade, o contexto comunicativo das sociedades depende
as ruas do Cairo, levando à queda do regime do presidente egíp- muito mais do acesso a plataformas de comunicação específi-
cio Hosni Mubarak1. No final de Janeiro de 2011, os protestos já cas. As autoridades egípcias cortaram o acesso à internet no
tinham alcançado o Iémen, o Líbano, a Síria, Marrocos, Omã, país, exceptuando o servidor usado pela Bolsa de Valores na-
a Jordânia e a Palestina e, em Fevereiro, o Bahrein, o Irão, a Lí- cional, bem como as comunicações móveis, o que, de acordo
bia e o Iraque. O descontentamento da população teve origem com Thomas M. Chen, «incitou ainda mais os manifestantes»
nos impactos da crise global no Norte de África e no Médio (Chen 2011). Na Tunísia, o governo bloqueou páginas Web in-
Oriente, mas também na falta de direitos políticos, na corrup- formativas específicas e blogues, prendendo bloggers e rouban-
ção política e nos persistentes (e agora bem documentados) abu- do as senhas de contas individuais no Facebook (Chen 2011).
sos dos direitos humanos (Hanelt e Möller 2011). A Google também participou no processo, contornando o blo-
Esses acontecimentos também podem ser analisados sob a queio de acesso ao criar um serviço que possibilitou aos egíp-
perspectiva da internet e dos média sociais. No caso da Tunísia, cios o envio de mensagens na rede Twitter através de uma cha-
a Wikileaks havia publicado um documento confidencial onde mada telefónica (Oreskovic 2011). Os média sociais e as redes
um diplomata dos EUA denuncia a corrupção por parte da família sociais mediadas puderam ser usados pelos manifestantes para
de Ben Ali. Cerca de 40 por cento dos tunisinos encontravam-se se organizarem, assim como pelas forças pró-governo, de for-
conectados à internet, metade dos quais com menos de 30 anos e ma a controlar as actividades dos primeiros.
com perfil no Facebook (Mourtada e Salem 2011). É importante Um outro facto interessante reside na articulação entre os
lembrar que se trata de uma população que apenas recentemente novos média e os meios de comunicação de massa, especialmente
adquiriu literacia mediática e que, no entanto, soube usar as novas a televisão, na construção de narrativas revolucionárias e significa-
tecnologias para desafiar publicamente as autoridades e exprimir dos biográficos partilhados. No caso das revoltas árabes, a estação
a raiva popular ao divulgar informações sobre os protestos (Harb de televisão Al-Jazeera desempenhou um papel central. A cober-
2011). Embora seja verdade que as redes sociais mediadas pela tura da Praça Tahrir durante os protestos, que incluiu filmagens
internet estão na base de grande parte da organização social de por parte dos próprios manifestantes, levou ao bloqueio da esta-
hoje, possibilitando a interconexão das pessoas e a troca de infor- ção no Egipto, tal como havia acontecido na Tunísia. No entan-
mações, não é correcto afirmar que são a principal razão para as to, continuaram a retransmitir user generated content proveniente
revoltas no Norte de África e no Médio Oriente. desses locais (Harb 2011). A influência dessa estação noticiosa in-
ternacional fez-se sentir no apoio internacional aos protestos e na
decorrente mudança política, indicando que o contexto comuni-
1 «Hosni Mubarak resigns — and Egypt celebrates a new dawn»: http://www.guardian. cativo é importante para canalizar descontentamentos populares,
co.uk/world/2011/feb/11/hosni-mubarak-resigns-egypt-cairo?intcmp=239.

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

mas a relação é multidimensional e que os novos média por si só prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores in-
não determinam uma ampla mudança social. termitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes,
Os movimentos que integram a Primavera Árabe e o seu su- estudantes, mães, pais e filhos de Portugal. Nós, que até agora
cesso estão relacionados com a utilização da telefonia móvel e da compactuámos com esta condição, estamos aqui, hoje, para dar
internet como ferramentas de organização e de construção da au- o nosso contributo no sentido de desencadear uma mudança
tonomia. Mostram como a vontade e a habilidade de contornar as qualitativa do país.
ferramentas de censura implantadas pelos governos, originalmen-
te destinados a controlar o acesso à informação política e a con- A manifestação da Geração à Rasca foi convocada através do Face-
teúdos de entretenimento, originou, em países com elevada pene- book e disseminada através da cobertura televisiva e da imprensa
tração da internet, o desejo de liderar os esforços para mudança escrita, tendo lugar a 12 de Março de 2011 em várias cidades de Por-
social por parte das camadas mais jovens da população. Trata-se tugal. Estes protestos nasceram de um movimento que se assume
de um exemplo prático da contaminação de lógicas desenvolvidas como apartidário, laico e pacífico, e tinham por objectivo pressio-
no âmbito do consumo de cultura popular que se tornaram cen- nar o governo para combater o desemprego, melhorar as condições
trais para a luta pela democracia. de trabalho e assegurar a valorização generalizada das qualificações
académicas. Estas são as exigências de uma jovem geração portu-
guesa, altamente afectada pelo desemprego e que integra o merca-
A GERAÇÃO À RASCA: MÚSICA E MUDANÇA SOCIAL do de trabalho maioritariamente com contratos a prazo ou estágios.
As redes sociais mediadas foram a principal plataforma de
No dia 22 de Janeiro de 2011, o conjunto musical Deolinda actuava comunicação e organização do movimento, e o seu sucesso foi
no Coliseu do Porto quando uma nova canção intitulada «Parva que parcialmente decorrente da elevada taxa de penetração destas
sou», desconhecida do público, começou a ser tocada. Descrevia a plataformas junto das gerações mais jovens, onde o movimento
vida actual dos jovens em Portugal e as suas dificuldades para atingir poderia ser comunicado rapidamente e reunir novos apoiantes.
o sucesso profissional e a remuneração necessária para se tornarem A cobertura noticiosa do movimento nas vésperas do protesto
independentes das suas famílias. O desempenho foi gravado com agendado também desempenhou um papel essencial no desenro-
um telemóvel e posteriormente partilhado através do YouTube e do lar dos acontecimentos. Tinha passado pouco tempo desde o iní-
Facebook, tornando-se o mote para o movimento Geração à Rasca. cio das revoltas no Norte de África e Médio Oriente, que tinham
Esse movimento teve início no dia 5 de Fevereiro de 2011, quando um demonstrado como a sobreposição de redes mudou a relação en-
grupo de quatro pessoas no Facebook descreveu os seus principais tre meios de comunicação tradicionais e os novos média sociais.
objectivos num manifesto online com a seguinte introdução: Quando o protesto começou a ganhar força nas redes sociais me-
diadas, o interesse público, tal como o dos jornalistas, voltou-se
Nós, desempregados, «quinhentoseuristas» e outros mal remu- para o que poderia vir a ser o próximo grande protesto a quebrar a
nerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a barreira entre o mundo online das redes e os centros urbanos.

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

No dia do protesto, uma grande multidão de manifestantes e bens culturais foram fundamentais para criar o ambiente organi-
tomou o centro das cidades de Lisboa e Porto, entre outras. O seu zacional para os protestos, também em Portugal a cultura popular
tipo de formação e organização tornou o movimento um veícu- foi essencial para a mobilização. O que muitos desses movimentos
lo perfeito para os conflitos não institucionalizados da sociedade aqui representados têm em comum são a forma como se relacio-
portuguesa. Centenas de milhares de manifestantes de todo o país nam com o consumo da cultura popular e como esses circuitos,
elaboraram e trouxeram para as ruas os seus próprios cartazes e imagens e narrativas, habilidades e ferramentas, desenvolvidos no
slogans. Ao contrário da maioria dos protestos, a diversidade social âmbito do consumo cultural, têm influenciado a participação cívi-
tornou-se a característica-chave do protesto de 12 de Março. Esta ca e política. As novas culturas em rede parecem florescer melhor
diversidade não é apenas identificável quando se analisa as origens quando os indivíduos participam da experimentação com a cultura
sociais e inclinações políticas, mas também ao nível das retóricas popular e, somente depois, essa experiência é aplicada aos esforços
mobilizadas e dos inimigos assinalados nos protestos: um espec- dos movimentos cívicos e políticos.
tro muito amplo que integra políticos e funcionários públicos, por
um lado, e capitalistas industriais e financeiros, por outro.
O movimento Geração à Rasca é, juntamente com os movi- #SPANISHREVOLUTION:
mentos da Primavera Árabe, exemplo da integração de diferentes LIGANDO EM REDE ESPAÇOS E FLUXOS
elementos culturais que emergem sob regimes autoritários ou de-
mocracias estabelecidas, inseridos em culturas de pertença em rede Os ecos económicos, políticos, sociais e culturais da crise fizeram-
na base de movimentos sociais. Mas uma das características mais -se sentir também em Espanha. Esse país, com uma taxa de desem-
interessantes deste movimento tem sido o papel desempenhado prego jovem que alcançou os 43 por cento, é um exemplo de quão
pela música no desencadear de um sentimento partilhado de objec- graves esses impactos pode tornar-se1. Os protestos que tiveram
tivos comuns e da pertença a uma mesma geração com os mesmos lugar em 50 cidades espanholas, convocadas pela plataforma De-
problemas. A música foi disseminada pelo YouTube e Facebook, mocracia Real Já para o dia 15 de Maio de 2011, foram o início do
como muitas outras músicas, redes que têm vindo a substituir esta- que se tornaria uma rede de protestos europeus. A plataforma res-
ções de rádio e televisão como o ambiente principal para ouvir mú- ponsável pelos protestos tinha apenas poucos meses de existência
sica e ver vídeos musicais. A partilha do vídeo do concerto dos Deo- mas, juntamente com cerca de 200 microassociações que se lhe
linda no Facebook catalisou a tomada de consciência da pertença juntaram, mostrou que era possível mobilizar um grande número
a um grupo mais amplo, com preocupações semelhantes sobre a de pessoas num curto espaço de tempo e sem muitos recursos,
situação política e económica portuguesa, abrindo caminho para a através do uso de redes sociais na base de um «boca a boca digital
segunda etapa no processo de mobilização — que fez uso das mes- massivo» de divulgação2.
mas plataformas — o convite para participar na manifestação a 12
1 «Indignados: el porqué de la fatiga democrática»: http://www.publico.es/espana/377681/
de Março. Embora de forma diferente da Primavera Árabe, onde as indignados-el-porque-de-la-fatiga-democratica-elecciones2011.
habilidades desenvolvidas para contornar a censura de informação 2 «Movimiento 15-M: los ciudadanos exigen reconstruir la política»: http://politica.elpais.
com/politica/2011/05/16/actualidad/1305578500_751064.html.

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

Esses protestos inspiraram-se nos protestos que ocorre- reside no facto de que, em vez de se tratar de uma manifestação
ram no mundo árabe1, na Grécia2, em Portugal3 e na Islândia. de um único dia, os manifestantes acamparam nos centros das ci-
O manifesto por trás dos protestos espanhóis afirma represen- dades, como a Porta do Sol em Madrid ou a Praça da Catalunha
tar progressistas e conservadores, crentes e não crentes, pessoas em Barcelona, e por lá ficaram1. Outra característica marcante des-
com ideologias definidas e outros que se consideram apolíticos, tes protestos foi a sua capacidade de se internacionalizar. A 24 de
apresentando-se como um movimento não partidário de indi- Maio, os protestos inspirados nos que tiveram lugar em Espanha
víduos preocupados e irritados com a política, a economia, e as haviam-se propagado a mais de 675 cidades do mundo inteiro.
perspectivas sociais a seu redor: a corrupção entre os políticos, No paradigma da comunicação em rede, a cada vez maior
empresários e banqueiros que deixa as pessoas indefesas e sem sobreposição de redes espalha-se por múltiplos dispositivos.
voz. Afirma ainda que «as prioridades de qualquer sociedade As mensagens não são apenas disseminadas por diversos meios de
avançada devem ser a igualdade, o progresso, a solidariedade, comunicação, o que facilita a divulgação de movimentos como o
a liberdade da cultura, a sustentabilidade e o desenvolvimento, 15-M junto de um público cada vez mais amplo e permite que pes-
o bem-estar e a felicidade das pessoas», defendendo «o direito à soas interessadas possam facilmente seguir o desenrolar dos acon-
habitação, emprego, cultura, saúde, educação, participação po- tecimentos; elas estão também integradas numa troca simultânea
lítica, desenvolvimento pessoal livre, e direitos do consumidor»4. e global entre jornalistas, consumidores de conteúdos informa-
O protesto deu origem ao movimento 15-M, também conhecido tivos, analistas, estudantes, políticos e manifestantes. Ao tomar
como o movimento dos Indignados. as praças urbanas em Espanha e as redes digitais, bem como ao
A singularidade deste protesto em particular não consiste na ser capaz de promover movimentos similares fora do país, o mo-
sua mensagem, apresentando uma retórica semelhante à de uma vimento dos Indignados deu um passo em frente no modo como
série de outros protestos que se foram espalhando pela Europa ocorre a apropriação social das novas culturas em rede. Os esfor-
em reacção à recessão económica que se seguiu à crise financeira, ços orientados para a mudança social transcenderam as manifes-
bem como ao anúncio das medidas de austeridade e, em alguns tações desenvolvidas online e nas ruas, vislumbrando-se novos mo-
casos, dos programas de resgate que terão um forte impacto nas dos de articulação entre, por um lado, o acesso permanente aos
vidas das gerações mais jovens. Também não é o seu tamanho, espaços online, utilizados para a construção de identidades sociais
reunindo menos participantes do que os protestos da Geração e de sentimentos de pertença através da participação na organiza-
à Rasca em várias cidades do país vizinho. A sua singularidade ção de eventos e em processos de tomada de decisão, e, por outro,
o acesso permanente a espaços físicos de encontro, como as pra-
1 «Spanish youth rally in Madrid echoes Egypt protests»: http://www.bbc.co.uk/go/em/ ças urbanas ou edifícios simbólicos.
fr/-/news/world-europe-13437819. A dissociação habitual na análise dos movimentos sociais en-
2 «Movimiento 15-M: los ciudadanos exigen reconstruir la política»: http://politica.elpais.
com/politica/2011/05/16/actualidad/1305578500_751064.html. tre espaços físicos e digitais faz cada vez menos sentido quando os
3 «‘Geração à rasca’ é referência para Espanha»: http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/
Interior.aspx?content_id=1857358.
4 Manifesto dos protestos de 15 de Maio do movimento Democracia Real Já: http://de- 1 «Continúan protestas pacíficas en España tras cinco días de resistencia»: http://www.
mocraciarealya.es/?page_id=814. elpais.com.co/elpais/internacional/cientos-espanoles-asientan-van-cinco-dias-protestas.

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

indivíduos se movem em ambos simultaneamente. Para os partici- através das redes. Em segundo lugar, argumentamos que, embora as
pantes da #spanishrevolution, a única possibilidade de debater a mudanças na nossa percepção sobre produção, distribuição e pro-
reforma do sistema político passa pela associação de indivíduos nas priedade sejam fundamentais na promoção do empenho para com
praças das cidades e nas redes digitais, dado que, mesmo em demo- a mudança social, a mudança central passa-se ao nível da percepção
cracias estabelecidas, os partidos políticos actuais e outras institui- do modo como se processa a organização social mais ampla, ou seja,
ções, como as universidades e os órgãos de comunicação social, pa- remete para o papel das redes sociais mediadas como o Facebook
recem ter perdido a capacidade de o fazer. O movimento mostrou e o Twitter. Essas redes podem ser usadas para gerir as nossas re-
que os discursos nos lugares de poder e nas ruas são diferentes, ha- des interpessoais ou podem ser usadas para a gestão de projectos
vendo uma incompatibilidade cultural entre elas. A #spanishrevo- de autonomia, como identificou Castells (Castells et al. 2003), que
lution trouxe consigo a explicitação da oposição entre duas culturas ocorrem em dimensões tão diversas como a profissional, da auto-
e dois grupos de actores sociais muito diferentes entre si — uns ain- nomia comunicativa, do empreendedorismo, da autonomia física,
da herdeiros das culturas de interesse particular, consolidadas após da participação sociopolítica e da autonomia individual.
os anos 80, e outro nascido das culturas da primeira década de 2000 Neste contexto, a autonomia deve ser tomada como objecto
e centrado em novas modalidades de pertença. de projectos individuais ou colectivos, construídos em torno de
uma definição individual ou compartilhada de cultura — uma cer-
ta representação da sociedade (Touraine 2004). Essa autonomia
MUDANÇA SOCIAL EM REDE deixa de apenas estar principalmente relacionada com a esfera
do trabalho, estando cada vez mais relacionada com o reconheci-
O que nos dizem estes exemplos sobre o modo como as pessoas mento da importância de criar uma autonomia moral em torno do
usam os recursos que têm à sua disposição para promover a mu- indivíduo, da sua subjectividade e da sua capacidade de agir (Tou-
dança social? Em primeiro lugar, poderíamos argumentar que evi- raine 2004). As esferas de autonomia discutidas aqui referem-se
denciam uma mudança cultural nas nossas sociedades. Vivemos na sua maioria a objectivos específicos que operam principalmen-
numa sociedade onde prolifera o individualismo em rede, mas a te a níveis simbólicos e que podem estar associados a situações de
cultura que enquadra as nossas acções está a transformar-se no conflito social.
sentido da adopção de um paradigma menos centrado no inte- Como Stalder (2010) sugere, a autonomia é cada vez mais
resse particular e muito mais em torno da capacidade de adoptar construída a partir de semi-redes públicas que são estruturadas
novas identidades e de perseguir interesses comuns, sustentando- por diferentes dimensões da comunicação em rede e da comuni-
-se na pertença a grupos no seio das redes interconectadas. Tal cação face a face mais ou menos frequente. Por outras palavras,
transformação cultural é alimentada por uma mudança de valo- a mediação é agora um aspecto central para o desenvolvimento
res e crenças, desencadeada através da experimentação com bens da autonomia. O estabelecimento da autonomia, ou seja, a capa-
culturais digitais. Tem por base mudanças nos modos como per- cidade que as pessoas têm de viver as suas vidas de acordo com os
cebemos a produção, distribuição, propriedade e sociabilidades seus próprios planos, é algo que ocorre em diferentes escalas e que

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

contém a diversidade inerente à condição humana, à criativida- papel fundamental para a criação de pontes sustentáveis entre
de e à diferença. Tais projectos de autonomia são facilitados por actores sociais que partilham os mesmos interesses. Além disso,
protocolos de comunicação baseados na confiança já estabelecida tornam-nos visíveis uns para os outros. As redes sociais media-
entre os participantes. Sob um ambiente de redes sociais media- das trazem consigo a possibilidade de promoção da mudança
das, a interligação de projectos individuais permite a criação da social, mas somente quando são usadas para gerir capital social
confiança necessária à activação de projectos de autonomia co- que faz ponte entre grupos heterogéneos e desde que leve em
lectiva (Stalder 2010). Mas o verdadeiro poder das redes sociais conta a utilização de ferramentas de comunicação sob lógicas
reside no seu potencial enquanto elemento de comunicação em do modelo de comunicação em rede. Para alcançar isso, os pro-
rede, ligando-se às redes onde já estamos inseridos e reforçando- gramadores e os switchers que transmitem energia à rede — ou
-as em estruturas de comunicação em rede. seja, os actores que fornecem a matriz organizacional e a eficácia
As redes sociais constituem espaços de criação que podem à rede — devem desenvolver estratégias orientadas para a acção
conduzir à acção orientada para a mudança social. Mas isso de- que tenham em consideração as lógicas deste novo modelo de
pende do papel que lhes atribuímos em estratégias mais amplas, comunicação (Cardoso 2011), manifestadas nas suas práticas e
que por sua vez deverão levar à acção. Quando os actores se empe- nos seus discursos.
nham na criação de poder seguindo um modelo de comunicação
em rede (Cardoso 2011) — isto é, combinando comunicação inter-
pessoal multimédia, comunicação mediada de um-para-muitos, auto- NOVOS ACTORES E CULTURAS EM REDE
comunicação de massa (Castells 2009) e comunicação de massa — e,
através de ideias comuns, promovem o contacto entre comuni- As práticas de mediação que deram origem à comunicação em
cação mediada e face a face, estão a criar condições eficazes para rede estão a mudar a nossa cultura mediática e, no processo, tam-
a mudança social no contexto da sociedade em rede. Podemos bém os nossos valores e crenças como cidadãos de uma sociedade
encontrar um exemplo do anteriormente exposto na análise por em rede global. Ou seja, elas também estão a transformar o modo
Neumayer e Raffles (2008) do protesto «No more! No more kidnap- como nos relacionamos com outras pessoas, organizações e com a
ping! No more lies! No more murder! No more FARC!». Este protesto vida quotidiana, dando-nos as ferramentas para projectar institui-
foi organizado através do Facebook em 2008 e reuniu cem mil ções futuras. Como Jenkins (2006) sugere, a teoria «tradicional»
participantes no seio da rede social mediada. Mas, em cooperação da convergência, baseada no nascimento de novas tecnologias que
com jornais e estações de televisão, tornou-se numa concentração convergirão cada vez mais meios de comunicação, não encontra
que agregou aproximadamente 500 000 pessoas em mais de 165 apoio empírico. Ao invés de uma convergência baseada em novos
cidades no dia 4 de Fevereiro de 2008, criando uma rede social padrões de produção, o que estamos a testemunhar são os novos
global de espaços e fluxos. padrões de consumo que promovem uma cultura de convergência.
Neste processo, as redes sociais mediadas que dependem Essa cultura de convergência é o produto do cruzamento de velhos
das novas ferramentas dos média sociais desempenham um e novos média, um lugar onde os média populares e corporativos

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

se encontram, onde o poder do produtor e o poder do consumidor individualismo em rede (Wellman 2002), mas não mais centradas
de média interagem de formas imprevisíveis (Jenkins 2006). Este em torno do interesse particular. Essas dimensões estão presen-
é também um espaço onde o modo como se produz e se consome tes no que podemos chamar de «culturas de nuvem» por referência
a cultura popular parece igualmente influenciar a participação po- ao modo como concebemos a propriedade actualmente, «culturas
lítica e cívica. de abertura» por referência aos modos pelos quais esperamos que
Tal influência pode ser melhor compreendida se olharmos, bens e serviços sejam produzidos e prestados, «culturas pirata» por
por exemplo, o projecto #18daysinegypt, um documentário so- referência aos modos pelos quais esperamos que bens e serviços
bre os protestos no Egipto que levaram à queda do regime de sejam distribuídos e, finalmente, e provavelmente a dimensão
Mubarak. Como o título sugere, este documentário centra-se que mais influencia a mudança cultural, as «culturas de rede social»
nos protestos egípcios que ocorreram entre 25 de Janeiro e 11 que se refere aos modos como construímos a identidade, combi-
de Fevereiro de 2011. Mas o que o torna diferente de outros nando ambientes de experiência mediados e não mediados das
documentários semelhantes é a sua estratégia de crowdsourcing, redes de relações sociais.
ou seja, é montado a partir de imagens registadas pelos partici- Na vida quotidiana dos indivíduos, o sentimento de perten-
pantes ou observadores directos dos protestos. Isso só é pos- ça determina, em diferentes graus, os nossos processos sociais e
sível devido à proliferação de dispositivos pessoais portáteis psicológicos de auto-identidade e (re)construção identitária. Esse
multifuncionais, tais como os telemóveis das novas gerações, sentimento descreve as relações sociais mas também uma parte
que integram funções de gravação de vídeo. Além do mais, não da nossa relação contemporânea com os média. Num contexto
se baseia apenas numa plataforma colaborativa ou em proces- social cada vez mais caracterizado e produzido por um modelo
sos de submissão individual das filmagens. Faz uso de páginas comunicacional construído sobre a noção de rede, a pertença a
Web de média sociais populares como o Twitter, o YouTube e uma rede é um traço cultural fundamental da experiência de me-
o Flickr através de uma estratégia suportada por hashtags. diação. As redes podem potenciar relações sociais através da me-
Parece claro que grande parte da experimentação sob os diação e, consequentemente, cultivar o sentimento de pertença
princípios da cultura popular e de fãs é cada vez mais utilizada a uma comunidade. Neste âmbito, a pertença mediada expande
como modelo para práticas de participação cívica e política. as comunidades imaginadas online. O sentimento de pertença é
É como se algumas dessas formas imprevisíveis de interacção en- uma medida de envolvimento comunitário e de suprimento das
tre o poder dos produtores e o dos consumidores de média, como necessidades pessoais de auto-estima. Mas a pertença também se
afirma Jenkins (2008), dessem origem a algumas características processa enquanto possibilidade descritiva de enquadramento da
já bem definidas do que podemos chamar de cultura de pertença natureza da nossa relação com a tecnologia e do seu uso cada vez
em rede, presentes nos estudos de caso anteriormente apresen- mais intrincados, tornando cada vez mais difícil distinguir entre
tados. As culturas de pertença em rede são uma matriz que in- a função do meio e as consequências sociais da sua apropriação.
tegra quatro dimensões diferentes que remodelaram os nossos As culturas de pertença em rede manifestam-se em muitas
valores e crenças e, ao fazê-lo, criaram culturas ancoradas no das diferentes apropriações sociais da mediação que ocorrem na

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

nossa vida diária, que vão desde a participação em páginas Web também implica a inovação contínua e a capacidade de surpreen-
de redes sociais e de comunidades online, à participação política der, integrando as experiências e conceitos anteriores.
ou cívica, ao user generated content e à sua partilha, à interacção A terceira dimensão das culturas de pertença em rede inte-
entre públicos, à partilha de ficheiros, etc. Mas a razão pela qual gra elementos das «culturas de nuvem» e como estas estão na ori-
elas se tornaram uma característica tão importante nas nossas in- gem de crenças e valores que têm vindo a mudar a forma como
teracções sociais deriva da crescente utilização e importância de nós concebemos a propriedade actualmente. A propriedade tem
redes sociais como o Facebook e outros, tornando as culturas de estado intimamente relacionada com a posse individual ou orga-
rede social um traço fundamental das novas culturas de pertença nizacional, mas, com a introdução das redes digitais nas econo-
em rede. mias capitalistas, o valor da propriedade parece ter-se movido em
A segunda dimensão das culturas de pertença em rede pode ser direcção a uma cada vez maior equivalência com o acesso. Essa
identificada na crescente importância e visibilidade das culturas de tendência é visível no estabelecimento de mercados financeiros
abertura, produto de três práticas distintas que hoje são centrais globais, onde as trocas são realizadas através de redes digitais e o
para o mundo da produção digital: remix e mashup; open source; e beta sucesso das operações não é medido em termos da propriedade
testing e actualização. A combinação dessas três formas de produ- adquirida mas sim do acesso permanente ao comércio de activos
ção tem permitido a difusão de uma cultura baseada na abertura financeiros globais. Nas redes financeiras, a propriedade de acti-
e, ao fazê-lo, temos cada vez mais como certo que uma parte sig- vos depende menos da sua posse legal do que da possibilidade de
nificativa da produção opera sob tais princípios. Essa cultura de manutenção do seu valor através das decisões tomadas em tempo
produção com a maior abertura influenciou, por sua vez, o modo real num contexto de acesso permanente. Isto porque apenas o
como estruturamos projectos de mudança social. É como se a ma- acesso e a troca permitem ganhar vantagens financeiras — ou seja,
neira como os produtos da cultura digital, tais como vídeo, música dinheiro. O acesso tornou-se uma peça central na definição da
ou software, são produzidos se tivesse tornado numa das compo- propriedade nas redes financeiras, mas, durante os últimos anos,
nentes de uma determinada «normalidade» de como nós concebe- temos assistido a uma tendência para modelos de negócio basea-
mos a produção. Essa concepção tem contaminado não apenas a dos numa noção de propriedade cada vez mais baseada no acesso.
forma como esperamos que a produção digital ocorra, mas também Exemplos disso podem ser encontrados na forma como a media-
acontecimentos e até mesmo hardware — como no caso da Apple ção é apropriada quando acedemos a conteúdos multimédia em
e das suas actualizações anuais de hardware, como o iPhone. As di- streaming, quando acedemos a documentos guardados em redes de
mensões de abertura das culturas de pertença em rede facilitam a computadores distantes, ou até mesmo quando usamos sistemas
entrada de quem quiser juntar-se a uma determinada rede de pro- de correio electrónico como o Gmail, o Hotmail ou o Yahoo.
dução com um objectivo comum. É também devido aos princípios O uso de computadores e o armazenamento de dados evo-
da abertura que as redes tendem a estar em permanente modo de luíram da proximidade para a distância e, no processo, mudaram
actualização sistémica dos seus objectivos e estratégias de acção. a nossa percepção sobre a posse de dados digitais, quer se trate
A abertura como um princípio fundamental associado à produção de comunicação pessoal ou de filmes ou música. Inicialmente os

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

dados eram armazenados em discos de computador ou junto a nós o pagamento de um valor de venda, uma licença, uma assinatura.
mesmos, usando primeiro disquetes, mais tarde pens USB. No en- Nos casos em que os conteúdos se encontram disponíveis gra-
tanto, os nossos dados encontram-se cada vez mais em nuvens de tuitamente para o utilizador, habitualmente são suportados pela
dados longe da nossa localização física. Deu-se uma mudança aná- publicidade. Perspectivamos os conteúdos e a forma como as pes-
loga na nossa percepção de propriedade: já não temos necessidade soas interagem com eles através de um determinado sistema de
de saber onde os dados foram armazenados, bastando acreditar pensamento que analisa o produto e os seus canais de distribuição
que, enquanto pudermos aceder-lhes em algum lugar do mundo, como o resultado de relações entre empresas de média, organi-
somos donos deles. Isto é produto de uma mudança cultural que zações e indivíduos, e de um relacionamento comercial de tipo
decorre de transformações na natureza da comunicação em si e contratual que integra direitos e obrigações.
da capacidade de construí-la sob um modelo de comunicação em Mas e se, por um momento, voltarmos a nossa atenção para
rede. As nuvens tornaram-se fundamentais para as culturas das re- as evidências empíricas relativas a esta questão? Em todo o mun-
des digitais, possibilitando novos modelos de negócio às empresas do assiste-se à construção de relações de média fora desse conjun-
e cada vez mais consideradas como facilitadores da acção colecti- to institucionalizado de regras por parte de um crescente número
va para os indivíduos. Assim, as culturas de nuvem levaram à des- de pessoas (Lobato 2009, Kariganis 2010, Yar 2005, Wang 2003,
valorização da posse em detrimento do acesso, fundamentando Sundaram 2001, Larkin 2004, Athique 2008). A questão suscitada
uma visão da mobilização social dependente do acesso constante pela construção dessas relações de acesso a conteúdos culturais
por parte dos envolvidos. Pertencer a uma determinada organiza- e software não se centra na legalidade ou ilegalidade das práticas,
ção torna-se menos importante do que estar permanentemente mas até que ponto estas se vão tornar centrais numa nova visão so-
em contacto com os outros e com os conteúdos digitais que são bre os meios de distribuição e consumo cultural. Propomos a de-
armazenados longe de nós em nuvens de computação. nominação «culturas pirata» pois necessitamos de um título para
A última dimensão das culturas de pertença em rede aqui caracterizar as culturas na sua diversidade, mas, ao mesmo tempo,
analisada consiste nas «culturas pirata» e na noção de que os con- nos seus lugares comuns. O ponto principal a reter é que as cadeias
teúdos em formato digital devem ser partilháveis, questionando de distribuição da cultura popular, tradicionalmente nas mãos de
as condições, legais ou outras, dessa partilha. As culturas pirata empresas, passaram a integrar canais de distribuição sustentados
reflectem as nossas expectativas em relação ao acesso a bens di- pela actividade dos indivíduos. As empresas consideram que uma
gitais e como essas construções culturais partilhadas influenciam grande parte desses canais de distribuição individualizados de
os nossos valores e crenças. A fim de abordar o que denominamos cultura popular é ilegal. No entanto, eles existem e passaram de
«culturas pirata» de comunicação em rede, importa estabelecer um cluster económico marginal, sob o modelo da comunicação de
a origem da definição de pirataria. Geralmente perspectivamos massa, a um sistema alternativo de distribuição, sob o modelo da
o consumo de média partindo de uma definição da indústria dos comunicação em rede1. Essa mudança levou à percepção genera-
média, ou seja, da ideia de que o acesso à televisão, rádio, jornais,
jogos, internet e conteúdos de média em geral, é feito mediante 1 A violação de direitos autorais é impulsionada por mudanças tecnológicas. A cas-
sete possibilitou que os indivíduos copiassem música e software durante os inícios da

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a sociedade dos ecrãs surfando a crise

lizada na sociedade de que os canais de distribuição já não têm de as relações de poder, a produção e a experiência. As culturas de
estar dependentes de organizações e podem ser suportados por pertença em rede são o produto de uma mudança radical no siste-
redes de indivíduos. ma de meios de comunicação e mesmo das formas de interacção.
As consequências de tal mudança estão muito para além dos Deu-se um deslocamento parcial do que Merton (1957) denomi-
prejuízos económicos das empresas que operam no ramo da cul- nava «grupos de referência» para aquilo que denominava «grupos
tura popular. A generalização dos valores fundamentais das cul- de pertença», através da emulação de funções sociais que até há
turas pirata, isto é, o que existe é partilhável, fortalece a noção pouco tempo eram apenas um atributo da interação face a face
de que os indivíduos têm recursos para participarem em redes de com a família, amigos e colegas do trabalho ou da escola. A trans-
partilha, não de ficheiros mas de ideias, ou mesmo na organização formação da mediação (Silverstone 2000) e a construção de um
de acções em torno de objectivos comuns. Através da adopção das novo modelo comunicacional de comunicação em rede (Cardoso
práticas de pirataria, os indivíduos adoptam os valores da partilha 2011, Castells 2009) possibilita que a mediação não desempenhe
e, no processo, o ethos de ser parte de uma rede no seio de redes somente o papel de grupo de referência ou de meio organizador
maiores. As culturas pirata são constitutivas de mudança social de projectos de autonomia, mas também de promoção de senti-
uma vez que permitem a construção social do valor de fazer-se mentos de pertença. A premissa geral desta análise é a seguinte:
parte de uma rede mais ampla, onde é possível partilhar valores se a comunicação de massa e os média de massa promovem prin-
comuns e construir projectos de autonomia. cipalmente a integração do indivíduo nas configurações de insti-
As culturas que ganham força com a crise actual, embora te- tuições existentes, a comunicação em rede promove a construção
nham nascido da experimentação com tecnologias digitais ante- de novas configurações por via das redes sociais dos indivíduos.
rior à crise, não são adoptadas por uma elite profissional identifi- O que os estudos de caso aqui apresentados e outros fenóme-
cável mas por uma rede heterogénea e geograficamente dispersa nos, como a Cidade de Tendas em Telavive que tinha por objec-
de indivíduos que promovem a mudança social através de uma tivo melhores condições de vida e de habitação em Israel, ou os
acção orientada por novas perspectivas culturais de proprieda- protestos de estudantes e famílias no Chile para mudar o sistema
de, produção, distribuição e construção da identidade em redes de ensino, nos parecem dizer é que as pessoas estão a questionar o
sociais. Trata-se das culturas de pertença em rede, que integram statu quo. Ao fazer isso, os valores que sustentam a confiança social
o individualismo de rede, mas adoptando práticas comunais no parecem ser valorizados em detrimento do interesse particular.
âmbito de um modelo de comunicação em rede. As culturas de As mudanças culturais na propriedade, produção, distribuição e
pertença em rede, construídas no domínio da interacção social socialização, resultado da apropriação de tecnologias e conteúdos
digital, cultura popular e de fãs (Jenkins 2006), parecem ser capa- digitais, também parecem ter tido uma influência fundamental no
zes de contaminar esferas sociais não digitais onde se inscrevem modo como tais movimentos e grupos de pessoas decidiram, ou
conseguiram, fazer-se ouvir. Parece que estamos, portanto, a vi-
computação pessoal. Mais tarde foi substituída pela disquete como o suporte típico da
ver um tempo no qual as pessoas estão mais interessadas em en-
pirataria. O desenvolvimento do Bulletin Board System (BBS) e da internet permitiram tender o que podem fazer para melhorar as suas condições de vida
a difusão de conteúdos digitais pirateados por todo o mundo (Li 2009, 284-5).

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a sociedade dos ecrãs

como uma sociedade ou grupo, ao invés de interessadas em pro-


por alternativas ao actual sistema político e económico. As pes-
soas estão em busca de lugares onde possam colocar novas e anti-
gas questões, a fim de serem capazes de experimentar diferentes PARTE II
respostas. Ao fazê-lo estamos, através da mediação, a transformar
a cultura na nossa sociedade em rede e, fundamentalmente, a criar DA ECONOMIA DA MEDIAÇÃO
novos pontos de partida que poderão conduzir-nos a uma nova À ECONOMIA DOS ECRÃS
vida após a crise. Estamos a «surfar» a crise, usando a partilha com
os nossos pares como terreno comum para construir um futuro ao
qual poderemos sentir que pertencemos.

[236]
APRESENTAÇÃO

SANDRO MENDONÇA

A economia contemporânea é uma economia intensiva em comu-


nicação. O sistema económico vive cada vez mais de interacção,
de mudança e de aprendizagem contínuas. A pergunta que se im-
põe é: como se inserem os média neste processo de transformação
da economia? O fenómeno económico tem sido caracterizado
pela colisão entre oportunidades e ameaças, por uma tensão entre
variáveis tecnológicas e sociais, pela coexistência de tendências
pesadas e ocorrências de viragens abruptas. Os média têm sido
um sector no centro deste turbilhão de vectores contraditórios.

ECONOMIA INQUIETA
A economia actual é sobretudo uma economia paradoxal. O siste-
ma económico contemporâneo é uma mistura cada vez maior de
elementos intangíveis (o factor crítico de crescimento e de dife-
renciação competitiva é o conhecimento) e tangíveis (as pessoas
continuam a ser seres tridimensionais que se rodeiam de objectos
e vivem em territórios concretos). O aparelho produtivo é infra-
-estruturado por um sistema re-produtivo, uma vez que a com-
ponente da logística e distribuição conecta um número cada vez
maior de unidades de produção geograficamente dispersas pelo
globo. Os ciclos económicos são governados por dinâmicas de

[239]
a sociedade dos ecrãs apresentação

curto prazo muito violentas e complexas para as quais conspiram O sector dos média tem, afinal, sido um sector altamente pres-
a um tempo o sector terciário (veja-se a bolha da «nova economia» sionado por constrangimentos originados nas envolventes socio-
que rebentou no ano 2000 e que teve por base a especulação febril tecnológicas. Ou seja, os média têm passado por dificuldades cada
sobre serviços de internet; veja-se a crise da «grande recessão» que vez mais sentidas nas redacções e nos lugares de administração, dis-
se iniciou em 2008 e que teve na sua origem um conjunto tóxico cutidas por participantes e observadores. Mas, no confronto com
de inovações financeiras) e o sector primário (a instabilidade per- um ambiente selectivo em acelerada evolução, os média conven-
sistente e os disparos observados nos preços das matérias-primas, cionais têm também sofrido um conjunto de mutações adaptativas.
nos recursos energéticos e nos bens alimentares). Isto é, os média tradicionais têm também inovado e deixado de ser
A economia moderna é um espectáculo de contradições e de isso mesmo, os conhecidos e tradicionais média de sempre. Os pró-
complementaridades de recursos, de substituições e de supera- ximos capítulos fazem o mapeamento destes novos desenvolvimen-
ções de produtos. A economia de hoje é um quebra-cabeças dinâ- tos num conjunto de ramos clássicos dos negócios dos média.
mico cujas peças mudam de forma a ritmos e direcções diferentes.
Neste contexto veloz, como têm os média enfrentado e aprovei-
tado o caos e a turbulência, as regularidades e as tendências? DAS ROTINAS DE INTERMEDIAÇÃO…
A distinção entre «produção» e «re-produção» introduz uma nuan-
OS MÉDIA NUMA ENVOLVENTE ce importante na análise dos potenciais caminhos futuros dos ne-
SOCIOTECNOLÓGICA IRREQUIETA gócios que aqui tratamos. É possível referirmo-nos a possíveis di-
ferenças entre os papéis de intermediário e mediador na ecologia
Numa primeira aproximação, poder-se-ia admitir que os negócios heterogénea das actividades de mediação. Estas noções contêm
do jornalismo e da comunicação social seriam inequivocamente be- princípios operativos que nos podem ajudar no nosso trabalho de
neficiados pelos novos tempos. Contudo, a dupla onda que define o compreensão da natureza e evolução do fenómeno dos média.
século xxi, a mudança organizacional a que chamamos globalização No vocabulário que pretendemos enfatizar, a noção de
(mais fontes de notícia e mais audiências num mercado alargado a «intermediário» prende-se com a actividade de transporte de
todos os cantos do planeta) e a transição tecnológica para uma socie- informação sem qualquer transformação. O passo entre os
dade em rede (meios mais potentes e flexíveis de cobertura e canali- inputs e os outputs é curto. A estrutura interna do intermediário
zação da informação), tem tido consequências ambíguas. A globali- é pouco complexa e pouco sofisticada. Procura comprar a bai-
zação trouxe concorrentes globais para os actores nacionais (edições xo custo para vender por um preço mais alto. Faz uma ligação
internacionais de jornais, proliferação de canais por cabo e satélite, quase directa entre a fonte e a foz, entre recursos a montante
etc.) e novas alternativas aos modelos de negócio convencionais (a e resultados a juzante. O papel funcional do intermediário é
internet provou ser um gigantesco e automático igualizador, os colmatar uma lacuna. É fazer lucro a partir das falhas de in-
consumidores passaram a autorar os seus próprios conteúdos, etc.). terligação entre as diversas partes do sistema de produção e

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a sociedade dos ecrãs apresentação

consumo de dados e informação. O mediador existe porque rios têm exercido bastante concorrência junto dos intermediários
tira partido da ocorrência de «informação assimétrica». Dá-se clássicos que se posicionavam nas etapas mais básicas da cadeia de
o caso de informação assimétrica quando nem todos os actores valor do negócio dos média.
de um sistema dispõem de informação completa (problemas
de qualidade da informação) e quando uns dispõem de mais
informação que outros (problemas de quantidade de informa- …AOS PROCESSOS DE MEDIAÇÃO
ção). O intermediário é o agente económico que prospera nes-
tas falhas do mercado informacional. Na essência, estas falhas Os «mediadores», por outro lado, podem ser entendidos como
derivam da não-homogeneidade da distribuição de informação agentes dotados de maior espessura cognitiva e de maior presença
pelo espaço de actores relevante. Um intermediário é, portan- estratégica num sistema geral de comunicação. Mais do que uma
to, um (re-)transmissor passivo. O intermediário reporta, isto actividade de mero transporte, a mediação implica o investimen-
é, porta a informação duas vezes: vai buscá-la à origem para si, to num processo de transformação qualitativa de informação, isto
e de si despacha-a para o utilizador final. é, de construção de acesso exclusivo a matérias-primas informa-
O papel dos intermediários puros é posto em causa pela in- cionais raras e de incorporação de conhecimento crítico na elabo-
ternet, o maior desintermediador jamais inventado. Por outras ração do produto informacional final. Os mediadores dedicam-se
palavras, órgãos de comunicação social baseados em modelos de a um saber-fazer que passa pela identificação dos fragmentos de
negócio de simples transmissão de informação têm sofrido uma informação pertinentes, pela construção de interpretações à volta
enorme concorrência, pois hoje os consumidores de notícias e deles e no serviço de entrega bem dirigido, mas em múltiplas di-
conteúdos podem ir directamente às fontes e fazer eles próprios recções, que é desenhado para acomodar e utilizar o retorno dado
a disseminação através das novas tecnologias de uso pessoal e de pelos destinatários. A insistência do mediador não é na quanti-
alcance global. No entanto, uma variedade de intermediários tem dade da informação mas antes na sua qualidade, não é apenas na
prosperado. Dotados de grandes activos tangíveis (servidores) e eficiência de economias de escala (rotinas viradas para o volume)
intangíveis (bases de dados), o actual ambiente tem favorecido a mas antes na eficácia de economias de gama (operações criativas
emergência de meta-intermediários. Esses meta-intermediários viradas para mais variedade, novas qualidades). Um mediador é
são agregadores de informação que são capazes de fazer uma hi- um (re-)elaborador activo. Ou seja, o mediador não reporta sim-
percompressão de informação e ao mesmo tempo fazer uma me- plesmente: reporta reflexivamente, dá notícias aumentadas, for-
gadifusão da informação. Baseados em enormes economias de nece conteúdos com descodificadores.
escala e focados na manipulação de grandes quantidades de infor- Assim, a actividade das entidades de mediação é uma activi-
mação, estes intermediários de segunda geração conseguem cap- dade de valor acrescentado, em que existe uma transacção de as-
tar a atenção dos consumidores, os quais se confrontam com uma sociações de significados que levam à superação dos limites infor-
superabundância de informação fragmentada que precisa de ser macionais existentes. O mediador existe porque o sistema está en-
colada e permanentemente actualizada. Estes novos intermediá- fermo de «desequilíbrios de conhecimento», pelo que o mediador

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a sociedade dos ecrãs

tem um papel explícito na sua reparação e transformação. A função


do mediador passa pela desambiguação, recombinação, tradução
e modificação de informações e significados. Mas com esse poder
ECRÃS EM REDE:
vêm também riscos de ocultação, distorção, indução em erro. Nes- TELEVISÃO, TENDÊNCIAS E PROSPECTIVAS
te sentido, reputação e confiança são alicerces desta actividade.
O mediador é um curador de interacções e de ligações pautadas por JORGE VIEIRA, SANDRO MENDONÇA, TIAGO LIMA QUINTANILHA
severas mas solidárias lógicas de reciprocidade. Exemplos deste E GUSTAVO CARDOSO
tipo de entidades são a Propublica ou a Climate Central.
Pretendemos fornecer pistas sobre o futuro da televisão. Este
subponto lida com um objectivo ambicioso, por isso impõem-se
MEDIADORES AUMENTADOS NA ESFERA DIGITAL escolhas que permitam maior atenção em alguns aspectos do fe-
nómeno televisivo.
Se os utilizadores de mensagens podem retransmitir essas Assim, a primeira constatação desta análise é o facto de viver-
mesmas mensagens (muitas vezes com alterações), surgem novas mos um momento de transição tecnológica que se reflecte numa
necessidades e desejos. Cada mensagem exige as suas próprias efervescência e heterogeneidade de usos sociais e numa volatili-
coordenadas e os mediadores surgem como plataformas de aber- dade de experimentação de modelos de negócio também no cam-
tura (recriação) e não de fecho (reprodução) de notícias e conteú- po da televisão.
dos. Os mediadores precisam de projectar uma matriz de refe- Este subponto, focado nas múltiplas práticas de consumo da
rência onde as mensagens se iluminem, precisam de fixar pontos televisão, disponibiliza uma discussão a partir dessa perspectiva
cardeais que ajudem os navegadores a encontrar o seu caminho através de uma paisagem em constante movimento. A nossa aten-
evitando naufrágios de conhecimento. Sem meios de realocação ção recairá sobretudo nos padrões de adopção, consumo e domes-
de significados e de (re)distribuição de conhecimento, a informa- ticação da tecnologia, estando estas dimensões necessariamente
ção tem uma existência fugaz, a concentração da atenção é tem- ligadas ao aparato tecnológico disponível.
porária e a sociedade não consegue tornar-se consciente de si pró-
pria. Os novos mediadores são recursos de transparência e os seus
resultados indutores de novas descobertas numa esfera pública O PRIMADO DO CONSUMO SOBRE A OFERTA NA TELEVISÃO
digital crescentemente central nos processos sociais e democráti-
cos (moldados pela «sociedade em rede»), económicos e de desen- Em tempos de mudança profunda no campo mediático e da in-
volvimento (moldados pela «economia do conhecimento»). formação, consideramos ser fundamental cartografar os novos
formatos de consumo e partilha informal nas redes digitais, pois
estes comportamentos estarão entre os principais propulsores do
processo de definição de novas ofertas televisivas.

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a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

As alterações em curso podem ser percebidas num sentido A TELEVISÃO E A CULTURA DA PIRATARIA
bottom up, ou seja, partindo das várias fragmentações dos hábitos
de consumo para depois influenciar a esfera da oferta — e não ao Este problema agrava-se na televisão pelo facto de a pirataria ter
contrário, isto é, nas tentativas (quase sempre frustradas) de con- mudado de uma prática eminentemente assente na produção
trolar e induzir práticas de conduta e padrões de consumos a par- própria seguida da difusão (rádio e imprensa), para um fenómeno
tir da oferta. Desta forma, quando se fala do futuro da televisão, maioritariamente assente em práticas de distribuição em massa
devemos estar atentos tanto ao exercício de reconversão e adap- realizada por indivíduos autónomos. Desta forma, e apesar de as
tação, que se realiza sobretudo no interior da oferta legal, como grandes mudanças tecnológicas surgirem pelo lado da indústria,
aos caminhos experimentados na miríade crescente de ofertas in- é acima de tudo o utilizador-distribuidor que lidera a mudança
formais e ilegais de televisão na rede. comportamental no mercado. É esta a premissa que serve de ali-
cerce a este trabalho.
Assim, assumimos o exercício de mapear e organizar concep-
A TELEVISÃO SIGNIFICA HOJE ECRÃS DIFERENTES tualmente aquilo que designamos por «desintegração organizada»
COM CONTEÚDOS SEMELHANTES e o (des)encontro entre padrões emergentes da procura e da oferta
nas suas múltiplas possibilidades. Partindo do pressuposto de que
A televisão poderá ser definida hoje pelos seus múltiplos ecrãs, por será a partir dos consumos que serão redefinidos os novos pro-
onde, na generalidade, se difundem conteúdos idênticos mas em cessos económicos de criação de valor e modelos de negócio, este
graus de qualidade e facilidade de acesso diferentes, disponíveis ora trabalho pretende, também, identificar tendências emergentes e
por práticas de pesquisa ora por práticas de zapping, e onde coabi- sinais ainda ténues de novas direcções para a televisão de hoje.
tam de forma generalizada formas legais e ilegais de consumo.
Como a história dos média mostra (isto é, rádios piratas, fan- As principais linhas de argumentação deste capítulo são as que se
zines, etc.), geralmente ocorre um processo de coevolução, mais seguem:
ou menos longo, em que as ofertas legais se aproximam das prá- — O serviço de televisão encontra-se numa fase de turbulência
ticas tidas como ilegais para, finalmente, assistirmos ao reactua- onde novas tecnologias e novas práticas de consumo audiovi-
lizar do enquadramento regulamentar e normativo. Tal tende a sual colidem com as estruturas de negócio preexistentes.
ocorrer por uma necessidade de sobrevivência, ou seja, fruto da — A transição digital e os comportamentos sociais de rede
vantagem do alargamento das audiências e, como tal, do aumento forçam essa mudança, deixando as estratégias empresariais
do financiamento da oferta via receitas publicitárias1. como uma variável iminentemente reactiva em relação aos
modelos de produção e distribuição que vão surgindo.
1 Embora num quadro de televisão paga se possa argumentar que tal lógica do passado não
se poderá repetir, gostaríamos de aventar a hipótese de que, quando a cultura do visionamento a pagar o mesmo produto quatro vezes (ex.: emissão de TV paga; bilhete de cinema; DVD;
se altera nas populações, novos fenómenos ocorrem, mas não obrigatoriamente repetindo o download), ou mais, é um exemplo desse padrão de mudança de comportamentos e conse-
passado. Cremos que o facto de as populações face ao entretenimento (séries de TV e filmes) quentemente de modelos de negócio — isto é, onde será a multiplicação do acesso à variedade
estarem disponíveis a pagar uma vez (pelo emissão de cabo ou pela ida ao cinema) mas não que levará ao pagamento e não a repetição do mesmo produto e a sua posse permanente.

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a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

— As presentes alterações podem ser lidas como um desenvol- cias pull — isto é, as que pré-escolhem os conteúdos, através
vimento radical de tendências que se vinham manifestando de pesquisa complexa e minuciosa, a fim de consumir quan-
desde a década de 1980 — isto é, o aparecimento da tecnolo- do decidirem. Muitas vezes estas audiências são as mesmas,
gia a cores, a introdução do controlo remoto e a disseminação diferenciando-se pelas práticas distintas em momentos dife-
do videogravador. rentes.
— As experimentações de décadas passadas podem ser olhadas — Hoje identificam-se também três perfis-tipo de consumi-
como acontecimentos iniciais num processo de transfor- dores futuros de televisão: (i) o espectador em rede (que
mação que tinha como objectivo tornar a experiência mais usa as novas tecnologias para aceder aos conteúdos); (ii) o
amiga do telespectador, mais confortável, mais interactiva, espectador-participante (que interage, recria e adapta expe-
mais individualizada, procurando, assim, em última análise, riências nos seus próprios canais de Facebook ou blogues);
o dotar o participante da capacidade de influenciar e moldar (iii) o editor-espectador (que activamente utiliza todas as tec-
a experiência televisiva. nologias para compor a sua dieta audiovisual individual).
— A televisão, mais do que uma plataforma de suporte, pode ser — Hoje emergem três grandes incertezas ao nível dos modelos
hoje definida como um sistema de experiências onde se arti- de negócio: (i) as controvérsias em torno da pirataria e da par-
culam três processos em coevolução: inovação tecnológica, tilha descentralizada de produtos audiovisuais na internet; (ii)
criação de conteúdos e criação de novos usos. as dificuldades das empresas incumbentes em encontrarem
— A experiência televisiva é pensada, cada vez mais, pelos con- esquemas simples de monetizar as suas propostas em novos
sumidores em função da possibilidade de atingirem uma na- canais; (iii) a necessidade de reinvenção do papel remunerati-
vegação em rede e se moverem, sem obstáculo, pelas diversas vo da publicidade.
plataformas — conforme a sua conveniência ou preferência.
— Os ecrãs hoje em dia são para nós o que foram os clássicos te- Este é um trabalho prospectivo que procura identificar tendên-
levisores para a década de 1980 e 1990, que convivem com os cias, daí que façamos o convite à sua leitura na íntegra, pois cada
computadores e com os ecrãs móveis nos telemóveis e tablets leitor encontrará, nas páginas seguintes, diferentes motivos para
— isto é, a desintegração organizada dos ecrãs em rede. compreender melhor o futuro da televisão nos próximos três anos
— A televisão é hoje um sistema de ecrãs em rede. (porque falar além disso é fazer futurologia).
— É relevante explorar as possíveis trajectórias que os dispositivos
de visionamento poderão seguir. Propomos que poderemos as-
sistir a três cenários: (i) canibalização entre os suportes; (ii) di- A CENTRALIDADE E TRANSVERSALIDADE DA TELEVISÃO
latação complementar entre as plataformas; (iii) convergência
tecnológica e fusão entre os dispositivos de visionamento. A centralidade da televisão, tanto numa perspectiva de bem de
— Hoje temos: audiências push — ou seja, as que consomem consumo, de negócio audiovisual ou de influência social é, ainda
conteúdos através da radiodifusão em tempo real; e audiên- hoje, inegável. Símbolo da comunicação de massas, a televisão

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a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

afigura-se como um meio de comunicação clássico com enorme visor» (o suporte concreto que permite o encontro da oferta com
poder na formação de preferências individuais, de traços de de- a procura audiovisual). O serviço audiovisual está hoje espalhado
senvolvimento pessoal e comunitário e na fixação de visões colec- de diversas formas nos mais variados tipos de ecrãs. A dissociação
tivas. Esta plataforma-espectáculo, fusão única entre tecnologia entre o «processo» de televisão e o «objecto» onde esse serviço é
e vivência social, é ainda hoje uma enorme força, estruturando o vertido é um pressuposto operacional na nossa análise. Esta mol-
que somos e a forma como olhamos o mundo. dura conceptual permite-nos falar de:
Numa frase, a televisão continua a ter uma grande centrali- — «ecrãs» enquanto interfaces multiusos e multicontexto;
dade na vida social (usos do tempo, costumes e partilha social) e — interacção biunívoca entre os dois lados do ecrã;
económica (peso no bolo publicitário, canal de distribuição para — portabilidade e ubiquidade da experiência audiovisual;
as indústrias criativas). Os tempos actuais são, contudo, de grande — estar alerta para um conjunto de outras manifestações dinâ-
turbulência e incerteza em relação à sustentabilidade dos mode- micas, tanto tecnológicas como sociais, que vão florescendo
los de negócio e modalidades predominantes de apropriação de à medida que as inovações vão sendo testadas num mercado
valor. A motivação da presente análise é auscultar estas impor- cada vez mais preenchido pelas gerações que nasceram ou
tantes mudanças e participar na construção de sentido a partir da cresceram em contacto com a revolução da informação e com
interpretação de um conjunto de sinais e padrões que vão emer- a sociedade em rede — os «nativos digitais».
gindo ainda neste jovem século. Como tem a televisão transitado
da era da certeza e da organização socioeconómica industrial de Numa linguagem sintética, a televisão transforma-se num sistema
meados do século xx para a fluida era da incerteza que caracteriza de ecrãs imerso numa rede de usos e conteúdos tão intensos em
o início do século xxi? E como têm os públicos e a experiência vitalidade quanto em volatilidade.
televisiva evoluído? E que repercussões têm estes desafios trazi- Continua a ser verdade, sobretudo em sociedades com lacu-
do para a formulação de modelos de negócio adaptados aos novos nas em termos de «literacia digital» e com relativo atraso na tran-
tempos sociais e tecnológicos? sição para uma «sociedade de banda larga», que a televisão persiste
como um dos média mais (omni)presentes nos agregados fami-
liares e parte integrante da parafernália de objectos domésticos.
A DESINTEGRAÇÃO ORGANIZADA Mas novos meios potenciam novas mensagens, pelo que temos
cada vez mais a distribuição de conteúdos por distribuidores não
O presente capítulo pretende fornecer chaves para a descodifi- tradicionais, operando segundo lógicas não convencionais: meios
cação destes puzzles em mutação. Uma primeira observação que recém-chegados ao sector audiovisual, de raiz digital, de baixo
implementamos traduz-se na noção da desintegração organizada custo e que permitem tanto o download (o que replica a emissão li-
do fenómeno de televisão. Referimo-nos à separação entre a «te- near clássica num só sentido) como o upload (o que torna obsoleto
levisão» (o serviço que permite visionamento e audição de conteú- o antigo termo «espectador» e torna o consumidor num partici-
dos longe do espaço e do tempo em que são produzidos) e o «tele- pante prosumer, isto é, produtor-consumidor em potência). Estes

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a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

desenvolvimentos causam a obsolescência de velhos modelos de A dimensão tecnológica, por ser uma faceta tangível desta mu-
negócio e permitem abrir espaço para novos actores. dança, é um útil ângulo para a problematização.
As metamorfoses pelas quais tem passado o próprio aparelho
receptor são um bom ponto de partida para compreender o al-
COMO DEFINIR TELEVISÃO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO? cance do novo fôlego que está a ter a televisão. Não é necessário,
porém, recorrermos aos últimos desenvolvimentos do estado da
Num movimento contínuo de transformações, como definir te- técnica para descodificarmos a natureza do processo que está em
levisão hoje? Pela sua dimensão tecnológica? Pelo seu apelo ciné- curso. Ainda na sua fase analógica, pré-década de 1990, assistía-
tico e visual? Pelo seu lado social? Poderemos definir a televisão mos a uma intensa cadência de sucessivas alterações de produto
pela emissão linear (sentido unidireccional)? Pela sua sincronia no e de práticas de consumo, a começar pela difusão da cor nos iní-
tempo (emissão simultânea)? cios da década de 1980, caminho percorrido no sentido de tornar
a experiência televisiva mais «real»1. A «trajectória tecnológica»,
UM TRAJECTO HISTÓRICO MARCADO POR INOVAÇÕES para usar um termo dos estudos de inovação, tem consistido em
tornar o televisor numa tecnologia mais amiga do telespectador.
A televisão continua a ser o ícone dos média tradicionais por exce- É nesta linha que se pode entender a introdução do som estéreo
lência. Porém, a persistência da sua importância mascara a complexi- em meados da mesma década. Mas estas alterações nos atribu-
dade de um processo de transformação contínuo e inacabado. A re- tos funcionais dos televisores foram apenas um dos saltos moder-
presentação social típica da televisão tende ainda a ser aquela her- nizantes, pelo qual passaram os aparelhos na sua fase analógica.
dada da convivência com este meio durante a segunda metade do Os televisores começaram também a ter outros equipamentos à
século xx. A imagem cristalizada da televisão é a de um mecanismo: sua volta, que estendiam os seus benefícios já conhecidos mas que
— estático; também os desdobraram em novas direcções.
— de reprodução de informação e de entretenimento; A introdução do controlo remoto na generalidade dos apa-
— no centro de gravidade das rotinas de lazer e dos hábitos fa- relhos foi um novo momento de reinvenção do aparelho e de
miliares. alargamento dos seus usos potenciais. Esta seria uma inovação
no hardware (na prática um dos primeiros periféricos neste tipo
Resumindo numa expressão, a televisão ainda no papel de nova de electrónica de consumo) que consistia na mudança de canais à
lareira, a «lareira catódica». No entanto, hoje encontramos, des- distância e sem fios. A melhoria na experiência passaria sobretu-
de logo, entraves à definição de televisão em cada um dos pontos do pela melhoria do conforto. Esta novidade, que coincidiu com
atrás expressos. A concepção dominante de televisão padece hoje o aumento das ofertas disponíveis graças aos sistemas de televisão
de uma actualização necessária. Um conjunto de mudanças foi por satélite, arrastou consigo um conjunto de outros efeitos com-
alterando paulatinamente os pressupostos sobre os quais assen- portamentais inesperados e de adaptação social. Referimo-nos
távamos o conceito, até há pouco tempo pacífico, de televisão.
1 «Cores naturais», como dizia um anúncio da marca Phillips da altura.

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à emergência simultânea do fenómeno zapping (menos inércia no estes assiste-se agora à possibilidade de fuga à «tirania do horário»
consumo de programas, mais facilidade de mudar de canal antes através da gravação de programas que são, ou não, depois vistos
de um programa acabar, possibilidade de evitar publicidade mu- em alturas mais convenientes. Ou seja, os momentos de transmis-
dando de canal ou baixando o som) e da caricatura do couch pottatoe são e recepção podem, pela primeira vez, não ser sincrónicos.
(maior sedentarização e inactividade, uma vez que o telecomando Outras mudanças tiveram lugar graças à diminuição do preço
permitia um controlo muito maior sobre a televisão sem deixar de e do tamanho dos aparelhos na transição da década de 1980 para a
se estar sentado). Esta introdução permitiu um grau de interacção de 1990. As consequências destas alterações quantitativas em pa-
superior, um maior imediatismo na passagem de uma propensão à râmetros económicos e técnicos não foram triviais: alimentaram
acção e à emancipação no poder de escolha na selecção dos canais. outras mudanças, estas de natureza qualitativa. Até aqui a televi-
A proliferação do telecomando foi um primeiro passo claro no são tinha sido vista como um meio que estimulava comportamen-
rompimento com o formato tradicional de visionamento linear, tos eminentemente sociais. Por um lado, pela metáfora da «lareira
organizado desde a estação televisiva emissora. catódica», tínhamos um fulcro de atenção no lar que servia como
No fim da década de 1980, a democratização do videograva- elo de reunião familiar num dado momento, e, por outro, por ali-
dor (outro dispositivo periférico) colocava a outro nível o percur- mentar a construção de uma comunidade imaginada no espaço
so que se ia fazendo no sentido de uma personalização crescente público através da edificação de bases representacionais comuns
da dieta audiovisual. Os aparelhos de videogravação Beta e VHS e partilhadas (discutir o programa que se viu no dia anterior junto
operacionalizaram a possibilidade de total dessincronia no con- dos amigos, na escola ou no emprego). Mas se até aqui a televisão
sumo de conteúdos entre os elementos do público. Em primeiro parecia funcionar como elemento aglutinador, uma força centrí-
lugar, o vídeo significou a entrada de um canal de distribuição au- peta que unia os diferentes indivíduos e gerações, passámos a as-
diovisual paralelo dentro do lar, o qual era independente das linhas sistir a uma progressiva multiplicação da presença de televisores
editoriais das estações emissoras. Este facto permitia ao consumi- pelos vários cantos do agregado doméstico — na sala de estar, na
dor recorrer a videoclubes como alternativa, ou complementar a cozinha, nos vários quartos. Cada elemento do agregado familiar
programação televisiva (recorde-se que na altura a «ameaça» do poderia agora estabelecer as suas prioridades de visionamento
vídeo era vista mais em relação ao cinema do que à televisão). Por com autonomia e sem interferir nos planos de consumo audiovi-
assim dizer, o consumidor poderia agora, pela primeira vez, fazer sual dos outros. Ou seja, a maior difusão do aparelho e sua «espe-
zapping para fora da programação televisiva. O televisor já não era ciação» em diversos tamanhos levou a uma maior individualização
um servo apêndice da estação de televisão: poderia ser um cinema do consumo. Voltando à metáfora: a televisão passou de uma úni-
em miniatura. Em segundo lugar, o reforço da soberania do espec- ca «lareira» a vários «aquecedores».
tador acontecia ainda por outra via. O espectador torna-se o seu Hoje em dia não é preciso um televisor para ver televisão.
próprio editor de conteúdos, escolhendo os filmes que realmen- A efectivação do serviço de televisão nunca foi tão independen-
te quer ver e não escolhendo meramente entre alternativas dadas te das variáveis tempo e espaço em que o consumo tem lugar.
por diferentes programadores ou estações. E mesmo em relação a Continua a existir televisão de sinal aberto ou paga nos lugares

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clássicos do seu consumo — a sala de estar do agregado domés- Assistimos ao acentuar da tendência a um ritmo acelerado para a
tico e o café/restaurante público. Porém, os contextos de consu- hiper-segmentação de públicos, a migração do poder de escolha para
mo vão hoje muito para além destes tradicionais sítios de comu- o espectador e a dessincronização do consumo em relação à emissão.
nhão e socialização. Mas assistimos também ao desenvolvimento de tendências inteira-
Actualmente existem canais de circuito fechado debitando con- mente sem precedentes: conteúdos redistribuídos pelos próprios
teúdos próprios, desde as bancas de jornais até às salas de espera dos consumidores através de plataformas de partilha digital em rede
serviços públicos. Existe comunicação televisiva especializada em (blogues e redes sociais); a emergência do produtor amador, com
transportes colectivos que surgem nas estações do metropolitano, audiências potencialmente globais (plataformas de upload de vídeo);
passando pelo interior dos vagões dos comboios intercidades, até aos a independência do consumo de televisão face à disponibilidade do
monitores suspensos nas cabinas dos aviões. Também existe televisão televisor, permitindo a um espectador cada vez mais móvel consumir
em movimento no transporte privado, ocupando lugar na variedade onde e quando quiser conteúdos de acesso gratuito e fácil em plata-
de telas hoje disponíveis em veículos automóveis privados, de várias formas com grande capacidade de arquivo (YouTube, Vimeo), usan-
gamas. Existe televisão disponível em várias formas no continuum de do aparelhos leves e pessoais, mas com ecrãs relativamente grandes
meios computacionais à disposição dos indivíduos, desde os tradicio- em proporção com o seu tamanho (smartphones e tablets).
nais PC presos à secretária, passando pelos dispositivos de comunica- Segundo Gitelman1, o conceito de televisão não deverá ser in-
ção pessoal (como os smartphones), até aos últimos gadgets de electró- dexado a um tipo particular de tecnologia (o televisor). O critério
nica de consumo (como os tablets). Em suma, na convergência desta do aparelho-suporte é cada vez mais anacrónico, para chegarmos
tendência, assistimos a uma maior possibilidade de libertação face aos a uma definição contemporânea de televisão. Ou seja, não será
conteúdos pré-programados e temporalidades impostas pela lógica antes mais adequado definir televisão com base num conjunto de
centrada na oferta das estações. Esta leitura longitudinal revela-nos um práticas e regras sociais que têm vindo a conduzir a experiência
conjunto de transformações importantes que precedem inclusive a cha- televisiva nos últimos anos? Avancemos então com uma proposta
mada revolução das novas tecnologias de informação e comunicação. operacional de definição de televisão.
As transformações na experiência não são uma faceta exclu-
siva da era digital em rede. O rastilho já estava aceso e a chama PARA UMA PROPOSTA DE DEFINIÇÃO
em marcha. O advento do elemento digital veio dar contornos ex-
plosivos a esta sucessão de alterações. Como disse Adam Ostrow A televisão consiste num processo de coevolução das suas diver-
(2010)1, colaborador do site Mashable.com, num artigo publicado sas dimensões tangíveis e intangíveis; é cada vez mais, na contem-
na revista Forbes: «A televisão será o próximo meio de comunica- poraneidade, uma convergência de inovações, variedade de con-
ção a sofrer uma grande reestruturação às mãos da internet.» teúdos e imprevisibilidade de usos.

1 «Behind The Internet TV Revolution», Adam Ostrow, 14 de Outubro de 2010, disponí- 1 GITELMAN, Lisa (2006), Always Already New: Media, History, and the Data of Culture,
vel em http://www.forbes.com/2010/10/14/yahoo-boxee-roku-technology-internet-tv.html. MIT Press.

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Inovações tecnológicas midor poderá assistir alternada ou sequencialmente aos mesmos


conteúdos, adaptando diferentes suportes tecnológicos, cada vez
Combinação de tendências vindas de um aglomerado de activida- mais, todos eles, ancorados na internet, nas suas circunstâncias de
des, crescentemente inter-relacionado, como sejam a indústria de tempo e espaço. Os diversos suportes de consumo mediático es-
equipamentos electrónicos e de telecomunicações, do sector do tão crescentemente interligados por uma mesma infra-estrutura
software e das actividades profissionais do sector dos média. informacional e permitem uma gestão de dietas audiovisuais
trans-plataforma, iniciando, ou terminando, o consumo numa e
Conteúdos passando para outra(s) conforme a conveniência do seu utilizador.
Nesta perspectiva, será pertinente, quando discutimos os
Numa tentativa de abraçar a janela de oportunidade que se abre média, pensar em ecrãs enquanto interface de mediação entre o
devido ao actual momento de mutação tecnológica, fabricantes, consumidor e os conteúdos, e não apenas na tecnologia e dispo-
software houses, operadoras e criativos apressam-se a lutar por quo- sitivos de mediação. Importa assim reflectir neste exercício nos
tas de mercado e a tentar descobrir produtos e modelos de negó- diferentes formatos de relação dos utilizadores com estes forma-
cio adaptados aos múltiplos ecrãs. tos — da interacção à domesticação entre outros. A relação entre
utilizadores e tecnologias é assim co-produto da ligação entre as
Usos dimensões tecnológicas e os diferentes processos de mediação,
consumo, produção e regulação.
Novos comportamentos de manipulação de tecnologias e con-
sumo/produção de conteúdos que resultam de várias misturas da
novidade com o tradicional através da automediação nas redes so- DIFERENTES GRAUS DE INTERACTIVIDADE
ciais ricas em inovação e criatividade.
À medida que a tecnologia evolui, assistimos a uma sofisticação,
quer dos televisores, quer dos computadores ligados em rede.
DA TELEVISÃO PARA OS MÚLTIPLOS ECRÃS Desde um incremento da capacidade de banda, melhor resolução,
interfaces cada vez mais sofisticadas e onde a experiência de con-
Segundo Roger Silverstone, o ecrã, na década de 1980, emergia sumir «televisão» no computador se aproxima cada vez mais da
cada vez mais como o reflexo da vida cultural e social no agre- televisão analógica. Por outro lado, os televisores digitais tradi-
gado doméstico. Essa tendência continuou a intensificar-se e, na cionais incorporam cada vez mais valências interactivas e ligam-se
verdade, nunca estivemos rodeados de tantos ecrãs como actual- em rede, parecendo-se cada vez mais com computadores pessoais.
mente. Assistimos a uma explosão de ecrãs. Dos ecrãs dos televi- Desta forma, e num contexto complexo de crescente ambi-
sores tradicionais, aos ecrãs dos computadores e aos ecrãs móveis guidade e hibridismo, podemos sugerir parâmetros de distinção
dos telemóveis e leitores de média portáteis. O mesmo consu- da relação entre utilizadores e ecrãs/tecnologias. Nesta medida,

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uma das formas de distinguir os consumos apoia-se no grau de in- e espaços sociais mais propícios ao formato televisão e outros ao
teractividade. A televisão tradicional parece incitar a uma atitude vídeo (conteúdos de duração mais curtos).
mais passiva e relaxada aquando do seu consumo — note-se que A difusão aliada ao zapping corresponderá a um nível de inte-
o zapping pode ser encarado como um comportamento activo de ractividade mais baixo e ainda ligado à televisão tradicional com
fuga, mas num grau relativamente baixo e limitado quando com- comando, enquanto por seu turno a utilização assente na procura
parado com o consumo online. A televisão por cabo, que pode me- está associada a práticas de consumo mais interactivas, eminente-
dir melhor o comportamento das suas audiências, tem um incen- mente ligadas à lógica de pesquisa que têm a sua génese no uso de
tivo claro em aumentar o zapping interno (visualizações diferentes motores de pesquisa como o Google, etc.
dentro do mesmo ecrã, com partição de diferentes conteúdos no
mesmo canal em simultâneo) e o grau de participação dos espec-
tadores na influência dos conteúdos dos programas em directo CENÁRIOS POSSÍVEIS
(aumento das mensagens geradas pelas audiências em tempo real).
A POSSIBILIDADE DE CANIBALIZAÇÃO
DOIS GRANDES TIPOS DE CONSUMO
No final de contas, haverá espaço para estas diferentes tecno-
Haverá diferenças, então, entre os dois novos tipos de consumo logias, usos e graus de interactividade? Serão estes dois tipos de
em emergência? E, se sim, serão audiências distintas? Podemos consumo concorrentes entre si ou, pelo contrário, complemen-
desdobrar em dois grandes tipos de consumos: tares? De um lado temos os que defendem que a proliferação de
— Audiência push: a que consome conteúdos através da radio- novos média apresenta um portefólio de alternativas crescentes
difusão free to air ou paga — podendo ou não fazer mais ou (e muita vezes gratuitas) ao consumidor, o que poderá reflectir-
menos zapping. -se sobretudo no corte em serviços de televisão pagos. Tal como
— Audiência pull: a que pré-escolhe os conteúdos, através de relata o The Wall Street Journal1, com uma panóplia significativa
pesquisa complexa e minuciosa, a fim de consumir quando de alternativas disponíveis, de forma mais ou menos gratuita, há
decidir (agora ou num momento futuro indefinido). cada vez mais norte-americanos a cortarem a despesa na televi-
são por cabo paga — 12 por cento rescindiram no último ano com
Em termos genéricos, a diferença passa por um formato de consu- pacotes Premium, e 7 por cento acabaram mesmo com o serviço
mo assente no premir do botão on e um modo mais activo de aces- por cabo, segundo um inquérito da Wedbush Securities a 2500
so e procura, ou seja, a diferença entre audiências e utilizadores. norte-americanos. Veja-se por exemplo o pacote de subscrição da
Desta forma, tendemos a desenvolver diferentes graus de Xbox 360 que permite o streaming de vídeos através do NetFlix.
interactividade consoante os múltiplos ecrãs por onde passam as Na mesma linha, um estudo da Harris Interactive2, através de um
nossas dietas mediáticas. E haverá certamente tecnologias, ecrãs
1 http://online.wsj.com/article/sb10001424052748703440004575548083813748368.html
2 http://www.reuters.com/article/idustre6ae0of20101115

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inquérito online1, revela que 22 por cento dos seus inquiridos afir- sentida há alguns anos, entre os jovens adultos1, de um maior
maram ter cortado ou reduzido o peso da subscrição de televisão peso da internet, alarga-se agora para grupos etários mais ve-
no último meio ano — seguidos de 21 por cento que afirmaram lhos. O tempo dispendido na internet vai de uma média se-
estar a pensar fazer o mesmo. manal de cerca de 12 horas, entre os mais jovens, a um plateau
de oito horas entre os adultos com mais de 66 anos. O estudo
A POSSIBILIDADE DA DILATAÇÃO COMPLEMENTAR avança ainda com uma percentagem crescente de inquiridos
que utilizam a internet para ver vídeos — 33 por cento em 2010
Por outro lado, um estudo da Nielsen, intitulado «Life is a face aos 18 por cento de 2007.
Stream»2, que também se debruça sobre a realidade norte- Estes dados voltam a levantar a questão: será que este acesso
-americana, defende que a maioria das pessoas que assistem a online competirá com o modelo de negócio dos acessos pagos via
algum conteúdo online através de aparelhos de televisão tendem cabo? Segundo os dados da Forrester, o tempo dispendido a ver
a possuir também uma ligação paga de televisão. Segundo a in- televisão continua relativamente estável, apesar deste aumento.
vestigação que contou com um inquérito e focus groups, 84 por O crescimento no uso da internet não se constitui necessariamen-
cento dos espectadores inquiridos3 afirmaram assistir à mesma te como ameaça à televisão. Pelo contrário, o incremento das li-
quantidade, ou mais, de televisão tradicional, ou seja, com ho- gações em rede, aliadas à crescente mobilidade, parece, sim, criar
rário, desde que começaram a transmissão online alojada nos ser- novas oportunidades de consumo mediático. Ou seja, as tecnolo-
vidores (streaming) ou o download de conteúdos para assistir no gias parecem não ser concorrentes, podendo mesmo ser comple-
televisor. Note-se ainda que 92 por cento desse grupo suporta mentares entre si, permutando-se e adequando-se às diferentes
uma subscrição de televisão e apenas três por cento pretende contingências e disposições do quotidiano.
desistir de sua assinatura. Mais de metade (53 por cento) afirmou O processo de aquisição de novas tecnologias, produtos e
ter descoberto novos programas para assistir através da internet, serviços raramente termina na sua adopção — tal como é suge-
tendo depois continuado a assistir regularmente via transmissão rido pela promoção às razões de compra dos mesmos. Ou seja,
tradicional com horário. assistimos a um processo criativo, reflexivo e permanente de se-
Segundo um estudo da Forrester, avançado no The New lecção de atributos e de (re)invenção de modos de utilização. Ten-
York Times4, os norte-americanos dedicam agora o mesmo do em conta o fenómeno de domesticação, os consumidores nem
tempo à internet que dedicam à televisão. Segundo o relatório, sempre adoptam todas as possibilidades de uma dada tecnologia.
o crescimento da parcela de tempo diária dedicada à internet Como tal, importa pensar o uso social, suas motivações e a rela-
aumentou 121 por cento nos últimos cinco anos. A tendência já ção destas dimensões com as diferentes características sociais e
demográficas das diferentes audiências.
1 Que abarcou 3084 norte-americanos com mais de 17 anos.
2 http://www.reuters.com/article/idustre6ae0of20101115
3 De um total de 769 inquiridos.
4 http://bits.blogs.nytimes.com/2010/12/13/american-internet-use-catches-up-with-tv-
-use/?ref=technology 1 Com idades inferiores a 30 anos.

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AS DIFERENÇAS QUE SE ATENUAM A internet permite, por um lado, uma maior atomização, ou
seja, um processo de reforço da autonomia do indivíduo que deixa
A evolução tecnológica apressa-se a ultrapassar as dificuldades de estar na dependência das agendas que lhe são definidas por cír-
logísticas que antes existiam na conexão entre dispositivos. A dis- culos fechados de editores. Por outro lado, a internet possibilita,
tinção entre computadores e televisões é cada vez mais difícil, pelo seu carácter de rede, uma maior partilha social, ou seja, pro-
sendo que se registam progressos constantes num dos bottleneck move coesão, espírito de comunidade e sentimento de pertença
principais da nova televisão em rede, a saber, a qualidade e veloci- entre os utilizadores.
dade da ligação à internet. É certo que os operadores de televisão Poderão, no entanto, ocorrer casos em que a tendência para a
defendem que a qualidade de imagem e som da televisão é ainda partilha incorra em faltas de «etiqueta 2.0», isto é, a comunicação aber-
em muito superior à online, mas, na verdade: ta poderá interferir com lógicas meramente individuais de consumo
— esse hiato tem tendência a estreitar-se progressivamente — o qual continua a ser experienciado pessoalmente. Referimo-nos a
através da inovação e progresso tecnológicos; fenómenos potencialmente disfuncionais e destrutivos da experiên-
— a indústria musical já nos demonstrou que, muitas vezes, os cia, nos quais a partilha pode levar a efeitos indesejados. Um exemplo
consumidores preferem esse trade-off entre qualidade se esta deste tipo de comportamentos é já designado no jargão do mundo
se reverter em acessibilidade — a teoria do «good enough»1. em rede por spoiler — revelações parciais ou totais sobre o enredo
de uma obra que ainda não se conhece totalmente. Por exemplo, co-
mentar que o actor X morre no último episódio, quando apenas se
NOVAS FORMAS DE VER TELEVISÃO viu uns quantos episódios. A quebra da transmissão linear e simul-
tânea permite que cada utilizador possa agora definir o seu ritmo e
Alongada a discussão, importa analisar a evolução da televisão, temporalidade de consumo. Nesta medida, assistimos a uma dessin-
nos seus modos de produção, distribuição e consumo, por vias cronização, o que poderá levar à perda de um denominador comum
diferenciadas e questionar, sobretudo, as novas formas de con- de um dado conteúdo audiovisual espartilhado sequencialmente.
sumo mediadas por ecrãs. Quais os formatos de integração das Resumindo, assistimos à combinação de vários processos de
novas formas de ver televisão na vida quotidiana? Ou seja, como mediação, o que leva a um maior grau de complexificação das die-
é domesticada a tecnologia? Será que a explosão de possibilida- tas mediáticas, sendo que também outras tendências emergem
des anda a par com melhoramentos da qualidade da experiência? com a crescente miniaturização dos suportes e apelo da mobili-
Como definir a qualidade da experiência televisiva? O que fica do dade. É agora possível assistir a conteúdos televisivos enquanto se
social num consumo que parece cada vez mais individualizado? espera pelo autocarro, através de um telemóvel. Ora, a possibili-
Será que caminhamos para um individualismo em rede, como dade de consumir média propaga-se pelo quotidiano, pela abertu-
defende Barry Wellman? ra de novas janelas de oportunidade.

1 http://www.wired.com/gadgets/miscellaneous/magazine/17-09/ff_goodenough

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O QUE PERMANECE? entender e fácil de absorver. Para o seu usufruto era apenas preciso:
sentar, ligar e ver. Ora, cada vez mais, a televisão tradicional passa
Apesar de termos dado especial importância às mutações, im- de uma idiot box para uma plataforma inteligente e interactiva na
porta perceber que nem tudo é mudança e que muito permane- distribuição de conteúdos e com outros requisitos de literacia digi-
ce, apesar de minimamente transformado e adaptado. A difusão/ tal e atenção. A tecnologia parece assim servir e prolongar-se para
transmissão tradicional continuará em muitos ecrãs, sobretudo se dois fins antagónicos — tornar o simples complexo e vice-versa.
pensarmos na sociografia e infra-estrutura da realidade nacional, Mas será que haverá consumidores que querem tomar partido de
ainda muito ancorada ao formato de televisão tradicional (emis- todo esse manancial de possibilidades? Qual a parte dos consumi-
são linear, unidireccional, de um para muitos). O que neste mo- dores que rentabiliza ao máximo essas capacidades?
mento temos é uma acumulação de um processo em várias fases e
a duração desta convivência de diferentes paradigmas poderá ser
mais longa do que muitas vezes antecipada. O PANORAMA GLOBAL
Em termos prospectivos, de acordo com a análise da Deloit-
te, «Media Predictions 2010»1, o consumo linear continuará em INDICADORES GLOBAIS
força num futuro próximo e isto porque a escolha, selecção, inte-
ractividade não são o centro das atenções para grande parte dos Tendo a televisão como pano de fundo do estudo, devemos adop-
consumidores que querem apenas entretenimento. Segundo esta tar uma visão holística e integrada das dietas mediáticas e perce-
previsão, o consumo linear e unidireccional continuará a prevale- ber que coexistem vários consumos de média. Importa ter presen-
cer nos anos vindouros. E, acima de tudo, será necessário ter em tes alguns dados que nos ajudam a pensar no panorama mediático
conta as características sociodemográficas dos portugueses e os contemporâneo, de forma longitudinal e global. Ora, segundo a
índices de literacia digital, predisposição para novas tecnologias revista The Economist1:
e poder de compra. — desde 2000, fecharam 72 jornais norte-americanos e a circu-
Teremos então de repensar a chamada «tirania do horário», lação desceu um quarto desde 2007;
que, ao contrário do que defendem alguns autores, constitui em — a esmagadora maioria dos downloads musicais são ilegais (95
muitas sociedades um factor de integração social, ao permitir uma por cento do total);
plataforma de entendimento comum. O linear tem virtudes, no- — o YouTube disponibiliza diariamente até dois mil milhões de
meadamente por promover uma dada rotina social em sincronia. vídeos;
Tal como relata a revista Wired 2, o grande chamariz e vantagem — a rede Twitter regista uma média de 750 tweets por segundo;
relativa da televisão sempre passou por ser um conceito simples de — a taxa de crescimento do tráfego da internet anda na ordem
dos 40 por cento ao ano;
1 http://www.deloitte.com/assets/Dcom-Global/Local%20Assets/Documents/TMT/
Predictions%202010%20PDFs/Media_predictions_2010.pdf
2 Podcast da Wired «Storyboard Episode 30 — How to Watch Television». 1 http://www.economist.com/node/17091709

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— são colocados 2,5 mil milhões de fotografias no Facebook a uma fraca procura deste tipo de serviços. No entanto, tal como
cada mês; a teoria da «Cauda Longa» (a Long Tail), Chris Anderson tem vin-
— mais de metade dos adolescentes norte-americanos revêem- do a defender que a questão do armazenamento, gestão e distri-
-se como «criadores de conteúdos». buição de conteúdos digitais é alcançada actualmente a um custo
cada vez menor. Como tal, as vendas de produtos para nichos po-
Um estudo da Ofcom1, a entidade reguladora dos média britâni- derão equiparar-se às receitas de blockbusters.
cos, de 2009 afirma que o número de telespectadores no Reino No entanto, o crescimento de ofertas ilegais na rede aponta
Unido foi o mais elevado dos últimos cinco anos. O tempo médio para um mercado em evolução com um volume de procura cres-
de visionamento registou um aumento de três por cento em rela- cente, e com tendência a avultar-se com o tempo — a «geração
ção a 2004. Magalhães» será digital e em rede.
Um dos grandes entraves à presença de operadores interna-
O (DES)ENCONTRO ENTRE A OFERTA E A PROCURA cionais reside nas questões de licenciamento e direitos de autor a
uma dimensão transnacional. Abre-se assim uma janela de opor-
Um olhar panorâmico pela paisagem televisiva revela uma oferta tunidades para os players portugueses.
rarefeita de aluguer ou compra na internet quando nos focamos
no mercado legal português de aluguer de conteúdos audiovisuais O MODELO DA PIRATARIA
para outros suportes digitais que não a televisão tradicional — ta-
blets e smartphones, por exemplo. Parece assim haver um desencon- Tal como defende Abigail de Kosnik, professora na Universidade
tro entre a procura e a oferta na rede. Mesmo que um dado consu- de Berkeley, o futuro da televisão passará pela introdução crítica
midor queira pagar, não existe ainda uma pluralidade de vias ágeis de experiências e modos de distribuir inspiradas no modelo de su-
e populares de aluguer. A maioria dos serviços com forte presença cesso da partilha digital em rede não autorizada, vulgo pirataria
nos Estados Unidos e com relevância económica não permite o digital. A televisão deverá aprender com as lições da indústria mu-
consumo quando este está ancorado ao território nacional portu- sical e com o conhecimento dos padrões e motivações de procura
guês — grandes players tais como a Hulu e Netflix. dos consumidores.
Ou seja, vemos que o portefólio de ofertas em Portugal, ou A questão que serve de estímulo à reflexão é a seguinte: Como
não está disponível através dos operadores internacionais, ou não justificar que mesmo com alternativas legais os utilizadores prefi-
parece ser disponibilizado pelos operadores/distribuidores nacio- ram o consumo ilegal através da partilha informal em rede? Ora,
nais. Tal poderá dever-se a uma dualidade de explicação. Por um segundo as representações e hierarquizações mentais de preferên-
lado, pela maior inflexibilidade de gestão de conteúdos interna- cias desses utilizadores, a pirataria é, na contemporaneidade, uma
cionais disponíveis para a gestão pelos incumbentes nacionais, das formas mais expeditas e fáceis de consumir conteúdos audio-
por outro, pela percepção por parte dos decisores nacionais de visuais. E importa referir que a facilidade de acesso no contexto
da pirataria não se limita ao preço ou à sua inexistência, existindo
1 http://media.ofcom.org.uk/facts/

[268] [269]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

outros factores a ter em atenção e que são melhor explorados aqui social e cultural, isto é, a transição de uma comunicação de mas-
do que na oferta legal — isto é, disponibilidade de catálogos, pla- sa para a preponderância da autocomunicação de massa e comu-
taformas de acesso, etc. nicação e organização social em rede. Temos assim um número
Desta forma, os operadores deverão incorporar esses modelos crescente de agentes em rede, sendo esta última utilizada princi-
de distribuição, e de negócio, nas suas práticas. A oferta terá de ir palmente para a comunicação de carácter pessoal, e em rede, num
de encontro aos modelos de procura vigentes e emergentes, sendo sistema pós mass media em que o utilizador de média ocupa lugar
que são os utilizadores que estão a liderar a mudança. Até à data, de destaque — ao contrário das tradicionais visões teóricas da
a resposta da indústria de média tradicional à digitalização e parti- comunicação de massas. Este novo paradigma comunicacional e
lha em rede tem sido reactiva — da tentativa de erradicação à per- relacional complexifica, mescla e altera os hábitos de consumo de
seguição dos utilizadores. A mudança nos paradigmas de consumo média — os conceitos de audiência(s) e utilizador encontram-se,
é evidente, com especial acutilância entre os mais jovens em rede. misturam-se e dão espaço à emergência da figura do participante1.
Serão estes os futuros adultos. Como tal, a produção deve delinear e
experimentar novos modelos de distribuição baseados no formato O CONSUMIDOR COMO NÓ CENTRAL DA REDE
de sucesso junto dos consumidores — a partilha em rede informal.
A própria rede serve já como caixa-de-ressonância e de difu- A implementação de uma nova cultura digital em rede em articu-
são dessas preocupações por parte dos utilizadores. Veja-se, por lação com os seus usos sociais permite uma transmutação do pa-
exemplo, o manifesto: Don’t Make Me Steal1, que defende, a traços pel da audiência, que cada vez menos se relega a um papel passivo.
largos, filmes mais baratos, sem mecanismos artificiais de ino- Assistimos à ascensão do poder negocial do consumidor digital
perabilidade e de transferência para outras plataformas (Digital — ao mesmo tempo que, de forma inversa, observamos a cres-
Rights Management), com acesso global e sem avisos de violação cente perda do controlo e direito à privacidade de dados pessoais
dos direitos autorais. online. O consumidor já não se relega ao final do processo comuni-
cacional. Edita, comenta, partilha — ao contrário do consumidor
tradicional que raramente conseguiu tornar pública a sua opinião.
CONSUMIDORES/UTILIZADORES A organização em rede permite que, cada vez mais, o utiliza-
dor assuma um papel importante na escolha, crítica, edição, có-
A MUDANÇA DO PARADIGMA COMUNICACIONAL E SOCIAL pia, redistribuição e mediação de conteúdos. O consumidor, que
costumava estar no final da cadeia de consumo, deixa de ser um
As teorias da sociedade em rede2 defendem que assistimos a uma end-user e passa a ser um nó central. As tecnologias em rede são em
mudança de paradigma comunicacional e, como tal, também muito caracterizadas pela possibilidade de distribuição.

1 http://www.dontmakemesteal.com/ CASTELLS, Manuel (2002), A Sociedade em Rede. A Era da Informação. Economia, Sociedade e
2 CARDOSO, Gustavo, ESPANHA, Rita, e ARAÚJO, Vera (org.) (2009), Da Comunicação de Cultura, Volume I, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.
Massa à Comunicação em Rede: modelos comunicacionais e a sociedade de informação, Porto, Por- 1 SILVERSTONE, Roger (2007), Media and Morality: On the rise of Mediapolis, Cambridge,
to Editora. Polity Press.

[270] [271]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

FIG. 1 TIPOS DE CONSUMOS POR ECRÃS Na verdade, assistimos a um progressivo desencontro entre
consumos 4 canais formatos de consumos e ofertas televisivas. E importa, de um pon-
livres
legais
consumidor que se fica
to de vista da gestão, reduzir esse diferencial que parece ampliar-
consumos
pela oferta paga em pacotes
predefinidos
-se cada vez mais. Um dos contributos desta análise passa assim
televisão
pagos
consumidor que
pela sua preocupação organizadora desses desencontros e encon-
paga extra(s) a
essa subscrição
tros, isto é, tentar, de forma metódica e analítica, perceber os pa-
consumos
ilegais tv pirateada
drões de consumo que subjazem dos sinais ainda fracos num pa-
norama mediático turbulento, e daí partir para as perguntas: quais
consumos canais com streaming os segmentos para onde há oferta organizada, quais os que estão
livres
legais p2p a descoberto, e assim clarificar pontos de partida para estratégias
blogues e portais e modelos de negócio possíveis. Que segmentos de consumidores
de indexação de
computador consumos
(desktop/laptop) «ilegais»
conteúdos poderemos tipificar? Ir para além da distinção entre informação
sítios de streaming e entretenimento. Quais as ofertas com baixos consumos? Quais
troca directa com terceiros as ofertas ilegais e informais de média? Tentemos assim organizar
consumos
pagos pay per view as múltiplas possibilidades de encontro entre oferta e consumo.
Podemos desdobrar consumos por ecrãs, sendo que em cada
consumos canais com streaming
legais um deles podemos levantar dimensões para caracterizar os con-
p2p sumos. Note-se, é claro, que através de dispositivos de gravação
blogues, portais e cópia os consumos podem ser gravados de uma plataforma e
móveis consumos alojamento
(telemóveis e tablets) ilegais
streaming transferidos para outra plataforma, podendo ainda ser consumi-
troca directa com terceiros dos noutro espaço de tempo.
consumos
pagos pay per view

DIETAS TELEVISIVAS
PARA UMA TIPOLOGIA DE CONSUMOS-OFERTAS PERFIS-TIPO IDEAIS
Se no tempo da televisão analógica era a produção que criava o Na senda do mapeamento dos consumos, tentemos agora esboçar
consumo, agora parecem ser as múltiplas experimentações de alguns ideais-tipo de consumidor de conteúdos televisivos. Come-
modelos de consumo, mais ou menos espontâneas, que estimu- cemos por conjecturar dois pólos extremos, num continuum de prá-
lam e estabilizam a produção. E algumas delas, hoje nichos a ticas que vai de um telespectador com um campo de possibilidades
desenvolverem-se de forma descontrolada, fundarão as premissas de consumo mais reduzido a um consumidor com um portefólio de
para o mainstream televisivo e mediático de amanhã. consumo mais dilatado. De um lado o consumidor mais tradicional,

[272] [273]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

que vê televisão (por enquanto) apenas por via analógica, ficando — Espectador em rede: o que cedo se afastou do monopólio do
assim com acesso a quatro canais e suas grelhas de programação. canal hertziano clássico para proceder às suas visualizações
No pólo oposto, um consumidor com televisão paga, logo com uma de conteúdos; este é o visualizador que se habituou a um
maior oferta, ao que ainda acrescenta conteúdos descarregados da consumo multi-ecrã e que, embora familiar com as últimas
internet e que possui igualmente um smartphone ou tablet que lhe tendências tecnológicas, não as encara como um fim em si
permite consumir conteúdos em trânsito e no portátil em casa ou mesmas.
computador de secretária no emprego. Claramente estarão nos an- — Espectador-participante: o que envia SMS para a televisão nos
típodas estas duas dietas mediáticas. Entre esses dois opostos coe- horários da manhã, que ocasionalmente telefona para os progra-
xistem possibilidades múltiplas de cruzamento de média. mas da tarde ou coloca perguntas por e-mail nas entrevistas em
Avancemos para uma proposta de gradação dos consumos horário nobre; a participação no mundo 2.0 significa também
televisivos: poder comentar os sites das estações televisivas e, caso se depare
— Sem qualquer consumo televisivo; com um acontecimento, enviar as suas próprias fotografias e re-
— Televisão «grátis» — quatro canais; portagens para as redacções (e, inclusivamente, fazer o carrega-
— Televisão «grátis» mais aluguer através de videoclube físico; mento destas no seu próprio site, blogue ou redes sociais).
— Televisão paga sem consumos online; — Espectador-editor: o que procura as suas próprias soluções de
— Televisão paga com consumos online: conteúdos, aquele para quem a sua «sala de estar» é a sua ré-
. legais; gie; o espectador que utiliza activamente as set-up boxes da sua
. ilegais (nomeadamente pela acessibilidade a conteúdos televisão por cabo, decidindo os tempos e os ritmos de con-
na hora); sumo dos conteúdos lá disponíveis; aquele que transita com
— Sem televisão, mas com consumos online; facilidade de um ecrã no seu dispositivo informático pessoal
— Televisão e internet pirateada. para a televisão e vice-versa.

A FIGURA CONTEMPORÂNEA DO CONSUMIDOR O CONSUMIDOR COM MAIS PODER?


Podemos tentar desdobrar o espectador/utilizador em diferentes Na contemporaneidade, cada vez mais o consumidor pode deci-
categorias. É certo que se constituem apenas como um exercício dir quando ver, o que ver, como ver. Em súmula, pode tomar o
conceptual que procura sintetizar e dar sentido a fenómenos em controlo da sua dieta de média. O padrão cronológico dos con-
desenvolvimento; mais que tentar identificar uma realidade ain- sumos mediáticos é hoje cada vez mais pessoal. A dieta televisiva
da por estabilizar, são ideais-tipo, à beira de uma permanente de- tem também uma dimensão temporal, o utilizador pode cada vez
sactualização. E, na verdade, mesclam-se entre si. Apresentam-se mais escolher quando quer ver, fugindo à tirania da calendariza-
as três roupagens do «espectador» das primeiras duas décadas de ção e dos horários. O consumidor pode adaptar os conteúdos aos
2000: seus ritmos quotidianos no tempo e no espaço. Tem assim mais

[274] [275]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

poder através da cópia, que lhe permite assistir aos conteúdos FIG. 2 PERCENTAGEM DE PLATAFORMAS DE TELEVISÃO
quando quiser — a possibilidade de time-shifting. Note-se que al- %
NO AGREGADO DOMÉSTICO
guns operadores perceberam já esta nova forma de consumir — a 100
generalidade das televisões pagas permite gravar programas e, por
exemplo, a plataforma de partilha de vídeo online Vimeo permi- 80

te construir listas de vídeos para ver mais tarde. Na dimensão da 60


47,8
escolha, atravessamos uma multiplicação de conteúdos na rede. 42,8
40
Da produção de novos conteúdos a custos cada vez mais baixos
à revisitação de antigos. Ou seja, a cumulatividade e pesquisa são 20
3,1 3,2 2,4
facilitadas pela era digital. 0,6
0

Televisão Digital
Terrestre (TDT)
Antena

TV por cabo

Satélite

IPTV (Por ex: MEo


ou Clix)

Ns/Nr
A REALIDADE NACIONAL. QUE PADRÕES DE CONSUMO?
E o caso nacional? Quais os perfis? Como se encaixa o consumi-
dor típico português?! Podemos efectuar uma segmentação sim- PLATAFORMAS DE TV, POR SEXO E IDADE (%)
ples baseada no corte geracional que se liga ao número de canais e Sexo Idade
fragmentação. Assim, teremos uma tipologia geracional: Homem Mulher 15-24 25-34 35-44 45-54 55-64 65 ou +
— os que cresceram com um só canal ou operadora (RTP); Antena 46,5 49,0 34,0 35,2 49,6 44,2 50,9 75,2
— os que cresceram com as televisões privadas (SIC + TVI); Cabo 44,1 41,7 55,2 53,4 42,9 45,6 41,3 16,8
— os que cresceram com oferta multicanal e online (generalista + Satélite 3,6 2,8 3,1 5,9 2,2 4,1 1,8 1,0
cabo + ADSL + internet, etc.). IPTV 3,7 2,8 5,7 3,8 3,5 3,2 2,4 0,5

base: indivíduos que têm televisão (n=1242).


fonte: Sociedade em Rede, 2010.
O CONSUMO TELEVISIVO EM PORTUGAL

PLATAFORMAS DE ACESSO Centremo-nos nos que possuem televisão por cabo (seja cabo
ou ADSL). Olhando à segmentação por sexo, verifica-se que, do
A importância da televisão pauta-se à partida pela sua taxa de pe- total dos homens, 44,1 por cento possui televisão por cabo, sendo
netração. De acordo com os dados do inquérito A Sociedade em 41,7 por cento no caso das mulheres. Já no que toca à idade, cerca
Rede 2010, cerca de 99,0 por cento dos portugueses possui pelo de 53,2 por cento dos inquiridos das classes etárias 15-24 anos têm
menos um televisor no agregado, permanecendo o acesso analógi- televisão por cabo, contra apenas 16,8 por cento dos respondentes
co terrestre (antena) dominante (47,8 por cento). dos grupos mais idosos (65 anos ou mais).

[276] [277]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

FIG. 3 PERCENTAGEM DE PLATAFORMAS DE TV POR REGIÃO 2008). O visionamento de programas de televisão em plata-
26,1
formas alternativas permanece reduzido, sendo que apenas 3,7
Algarve 2,2
69,6 por cento dos inquiridos afirmaram ver televisão ou conteúdos
2,2
audiovisuais no telemóvel (5,7 por cento, se pensarmos apenas
62,5
Alentejo
19,6
1,8 nos inquiridos com idades entre os 15 e os 24 anos e 6,3 por
3,6
12,5 cento no escalão 35-44).
30,2
Grande 61
1,2
Lisboa 3,8
3,8
54,5
CONSUMOS TELEVISIVOS
Centro 41,6
2,4
Litoral
1,5 Em 2008 verificou-se um decréscimo da percentagem de inquiri-
15
72,8 dos que vêem mais de três horas de televisão por dia (30,7 por cen-
Interior 3,5
4,6
4,1
to em 2006, contra 20,7 por cento em 2008), tendo aumentado
36,9 a proporção dos que vêem uma hora ou menos (30 por cento em
Grande 51,2
Porto 8,3
1,2 2008, contra 24,1 por cento em 2006).
2,4
57
Norte 32,9
Litoral 0,8
8 FIG. 4 PERCENTAGEM DE TEMPO DIÁRIO MÉDIO DE UTILIZAÇÃO DA TELEVISÃO
1,3
% (2006 VS 2008 E TEMPO SEMANAL MÉDIO DE UTILIZAÇÃO DA TELEVISÃO)
0 20 40 60 80 100

Antena Cabo Satélite IPTV Outros/Ns-Nr

base: indivíduos que têm televisão (n=1242). 2006 24,1 23,2 22 30,7
fonte: Sociedade em Rede, 2010.

Destaque-se também que, do total de inquiridos que dispõem


de televisão por cabo, 33,9 por cento residem em agregados com
quatro ou mais pessoas, contra 23,8 por cento dos que acedem
através de antena. 2008 30 22,8 26,5 20,7

Em termos geográficos, observa-se o domínio do cabo nas


regiões da Grande Lisboa, Grande Porto e Algarve, sendo que o 1h ou menos entre 1 e 2h entre 2 e 3h mais de 3h

acesso através de antena lidera no Centro Litoral, Interior, Norte base: utilizadores de televisão (n=1036).
Litoral e Alentejo. nota: a resposta «não sabe/não responde» foi contabilizada como missing value.
fonte: Sociedade em Rede, 2008.
Em termos de equipamentos, 43,1 por cento afirmaram ter
leitor/gravador DVD e 11,5 por cento possuem um sistema de Se observarmos a segmentação por sexo, verifica-se que as mu-
home cinema (contra 11 por cento em 2006 e 13,9 por cento em lheres consomem televisão de forma mais intensiva do que os

[278] [279]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

TEMPO DIÁRIO MÉDIO DE UTILIZAÇÃO DA TELEVISÃO, POR SEXO E IDADE (%) TEMPO DIÁRIO MÉDIO DE UTILIZAÇÃO DA TELEVISÃO,
Sexo Idade POR FASE DO CICLO DE VIDA (%)
Homem Mulher 15-24 25-34 35-44 45-54 55-64 65 ou +
Trabalhador Desempregado Reformado Estudante Doméstica
Antena 30,4 29,7 31,7 31,3 34,5 31,8 23,8 25,2
1 hora ou menos 33,5 27,0 24,6 33,3 22,0
Cabo 24,4 21,5 26,2 28,0 23,8 20,3 20,5 16,6 1 a 2 horas 26,7 23,8 14,4 24,6 15,6
Satélite 26,7 26,2 26,9 24,2 26,2 22,3 30,3 29,8 2 a 3 horas 25,2 30,2 26,9 29,8 27,5
Mais de 3 horas 14,6 19,0 34,1 12,3 34,9
IPTV 18,5 22,7 15,2 16,5 15,5 25,7 25,4 28,5
base: utilizadores de televisão (n=1036).
base: utilizadores de televisão (n=1036). nota: a resposta «não sabe/não responde» foi contada como missing value.
nota: a resposta «não sabe/não responde» foi contada como missing value. fonte: Sociedade em Rede, 2008.
fonte: Sociedade em Rede, 2008.
que trabalham vêem uma hora ou menos de televisão por dia, assim
homens, sendo que 22,7 por cento passa mais de três horas por como 33,3 por cento dos estudantes, e apenas 14,6 por cento vêem
dia a ver televisão, contra apenas 18,5 por cento dos homens. Em mais de três horas, tal como 12,3 por cento dos estudantes). Simi-
termos de idade, são as camadas etárias mais idosas que dedicam larmente, o tempo dispendido a ver televisão entre os reformados
mais tempo a ver televisão: 28,5 por cento dos inquiridos com 65 e a categoria das domésticas reflecte também tendências comuns.
anos ou mais passa mais de três horas por dia diante deste suporte Se considerarmos apenas o consumo de média dos inquiridos
mediático, contra 15,2 por cento no âmbito do grupo 15-24 anos, que vêem três ou mais horas de televisão por dia, verifica-se que tam-
16,5 por cento na categoria 25-34 anos e 15,5 por cento junto dos bém apresentam níveis de exposição mais elevados a outros média
inquiridos com idades entre os 35 e os 44 anos (ver tabela a seguir). tradicionais, tais como a rádio. De facto, 22,6 por cento dos indiví-
O tipo de acesso televisivo também se relaciona com o tempo duos que vêem mais de três horas de televisão diárias também ouvem
dispendido a ver televisão, sendo que, dos inquiridos que dispõem mais de três horas de rádio por dia (contra cerca de 11,3 por cento, se
de televisão por cabo, 37,1 por cento vêem menos de uma hora nos referirmos ao total da população). Já no caso da utilização de no-
por dia, contra apenas 24,2 por cento dos que acedem através de vas tecnologias, nomeadamente a internet, um consumo mais activo
antena. No entanto, tal observação deve ser tecida à luz das carac- de televisão não parece estar relacionado com uma maior exposição
terísticas sociodemográficas previamente definidas para caracte- a esse meio: dos que vêem pelo menos três horas de televisão por dia,
rizar ambas as populações, verificando-se uma maior proporção 4,7 por cento usa também a internet mais de três horas diariamente,
de reformados e idosos (logo, indivíduos com bastante tempo dis- assim como 4,1 por cento, no caso da população em geral.
ponível) junto da população com acesso analógico terrestre. Em termos de percepção da evolução do consumo, é de des-
Por outro lado, o cruzamento com a fase do ciclo de vida em tacar que 30,1 por cento dos respondentes afirma ver actualmente
que os indivíduos se encontram, nomeadamente a sua situação pe- mais televisão do que há cinco anos atrás, contra 47,5 por cen-
rante o trabalho, revela paralelismos entre o consumo televisivo to que declarou que o consumo se manteve, e 19,6 por cento que
dos estudantes e dos trabalhadores (33,5 por cento dos inquiridos consideram ter diminuído.

[280] [281]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

FIG. 5 E FIG. 6 EVOLUÇÃO DO CONSUMO DE TV DESDE FIG. 7 INQUÉRITO DE OPINIÃO


HÁ CINCO ANOS, POR CATEGORIA ETÁRIA A utilização dos serviços de 26,6 Não concordo
30,7
televisão digital é complicada 42,8
Concordo
65 e + 46,8 44,9 6,8 5 Os conteúdos televisivos eram 9 Não sabe/não
57,8
melhores há uns anos atrás 33,2 responde
55-64 47,3 40,8 11,8 3,6
A televisão é um meio de
63,3
reunião da família 33,1
45-54 26,9 50,7 17,8 5
O horário dos programas que 8,3
63,8
me interessam é adequado 27,9
35-44 24,3 50 21,3 4,3 4,7
Estou contente com a actual 73,3
oferta de conteúdos televisivos 22
25-34 24,3 46,8 30,8 1,7
A televisão é antes de 2,0
83,2
mais uma companhia 14,8
15-24 29,1 50,3 26,2 4,1 2,6
A televisão é uma forma 84,2
% de passar o tempo
0 20 40 60 80 100 13,2
%
0 20 40 60 80 100
Aumentou Manteve-se Diminuiu Ns/Nr
base: indivíduos que têm televisão (n=1255).
65 e + fonte: Sociedade em Rede, 2010.
42,8 50 7,2

55-64 37,7 53,6 8,7


FIG. 8 PROGRAMAÇÃO PREFERIDA
45-54 34,1 47,3 18,6
Notícias 48,9
78,7
35-44 25,9 56,8 17,3 36,3
Filmes 45,7
35,5
25-34 21 52,8 Desporto 47,4
26,2
29,6
Telenovelas portuguesas 42,3
28
15-24 32,3 36 31,7 Séries 32,9
% Documentários/Grandes reportagens 21,8
40,3
0 20 40 60 80 100
Telenovelas estrangeiras 20,2
29,8
2010
Aumentou Manteve-se Diminuiu Programas de humor 16,3
24,9 2008
Programas de música 13,8
base: indivíduos que têm televisão (n=1242). 25,1
fonte: Sociedade em Rede, 2010. 13,5
Concursos (ex: Achas que sabes dançar?) 30,3
7,7
Talk Shows (ex: Praça da Alegria) 9,2
Os adolescentes e jovens adultos (15 a 34 anos) foram as catego- 5,5
Reality shows (ex: Big Brother) 12,1
rias etárias onde se registou uma maior percepção de diminuição do Desenhos animados
3,3
8,2
%
tempo despendido a ver TV, sendo o grupo dos idosos aquele onde 0 20 40 60 80

essa percepção foi menor (apenas 6,8 por cento dos inquiridos com base: indivíduos que têm televisão (n=1255).
fonte: Sociedade em Rede, 2010.
65 anos ou mais afirmaram ver hoje em dia menos televisão).

[282] [283]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

Destaque-se ainda que cerca de um terço (30,3 por cento) FIG. 9 EVOLUÇÃO MÉDIA ANUAL DAS QUOTAS DE MERCADO GLOBAIS
dos inquiridos que afirmou aceder mais hoje em dia à internet (SHARE), 2002 A 2010
do que há cinco anos atrás declarou também ver menos televisão %
100
do que há cinco anos atrás, sugerindo que o tempo antes dedica- 10,6 12,3 12,7 14,1 14 15,4 15,2 18,2 19,7
do ao pequeno ecrã poderá ter sido transferido para plataformas 80
31,4 28,5
alternativas. 28,9 30 30 29 30,5 28,7 27,5
60
Ainda neste inquérito, e na sua generalidade, os inquiridos Cabo/outros
TVI
concordam com a ideia de que a televisão é uma boa forma de 31,5 30,3 29,3 27,2 26,2 25,1 24,9 23,4 23,4
40 SIC
passar o tempo, tem uma boa oferta de conteúdos em horário RTP
adequado, e pode ser uma boa companhia ou um bom facilitador 20
26,4 28,8 29,1 28,6 29,9 30,4 29,4 29,8 29,5
de reunião de familiares.
0
Quer em 2008, quer em 2010, conteúdos noticiosos, con- 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
teúdos desportivos e filmes surgem como os três grupos de pro-
fonte: Marktest. Edição Obercom.
gramação que reúnem maior preferência por parte de uma maior
percentagem de inquiridos. aumentar. Este desempenho, com tendência crescente, demons-
tra existir em Portugal apetência pelo consumo pago de televisão
EVOLUÇÃO DAS QUOTAS DE MERCADO por cabo e DTH (Direct to Home).
A oferta do serviço por mais do que um operador na mesma
Passando para uma rápida leitura longitudinal das quotas de mer- região implica a possibilidade de múltipla cablagem de um mes-
cado, vemos, num primeiro plano, um avanço da TVI junto dos mo alojamento. Isto significa que na soma dos alojamentos ca-
dois canais (RTP e SIC) e restantes dos canais em 2005 e 2006. blados por todos os operadores, onde estão agregados os valores
Em 2008 vemos também a TVI com maior peso de quota (30,5 reportados por cada um deles, pode existir dupla contagem. Tal
por cento), seguindo-se a RTP (29,4 por cento) e a SIC (24,9 por é evidente, por exemplo, na região de Lisboa, onde a soma dos
cento). Em 2009 e 2010, a quota global é maior na RTP, por com- alojamentos cablados por todos os operadores é superior ao total
paração com as restantes. de alojamentos. Este facto tem vindo a ganhar relevância com o
crescimento da concorrência entre operadores.

TAXAS DE PENETRAÇÃO DA TELEVISÃO A RELAÇÃO COM OS MÚLTIPLOS ECRÃS


Passando para os dados disponibilizados pela ANACOM (Auto- Na relação da televisão com os designados múltiplos ecrãs, o estudo
ridade Nacional de Comunicações), vemos que a taxa de penetra- Sociedade em Rede 2010 evidencia que uma grande maioria de inqui-
ção de agregados domésticos em território nacional continua a ridos utilizadores de internet ainda não faz download de filmes. Em

[284] [285]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

FIG. 10 EVOLUÇÃO DO NÚMERO TOTAL DE ALOJAMENTOS CABLADOS EM FIG. 12 FREQUÊNCIA DE UTILIZAÇÃO DA INTERNET
PORTUGAL (MILHÕES), 2000 A 2010 PARA FAZER DOWNLOAD DE FILMES
4500 4215 Várias vezes ao dia 0,5
4000 4026
3773 3825 3990 4056
3500 3494 3631 3,2
3349 Diariamente
3000 3024
2500 2601
Semanalmente 12,9
2000
1500 Mensalmente 6,6
1000
500 Menos frequente 12,7
0
2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010
Nunca 63,5

fonte: ANACOM. Ns 0,5


%
0 20 40 60 80 100
FIG. 11 EVOLUÇÃO DO NÚMERO TOTAL DE ASSINANTES DA DTH
base: inquiridos utilizadores de Internet (n=559).
(DIRECT TO HOME ) (MILHARES), 2000 A 2010 fonte: Sociedade em Rede, 2010.

800
700 FIG. 13 TIPO DE CONTEÚDOS VISUALIZADOS
670
600 645
586
Programas TV/Séries 5,6
500 484
400 436
394
341 375 Filmes e animação 10,4
300 289
200 224
132 Música 27,2
100
0
2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

Entretenimento 22,8
%
0 20 40 60 80 100
Unidade: mil alojamentos cablados.
fonte: ANACOM. base: inquiridos utilizadores de Internet (n=559).
fonte: Sociedade em Rede, 2010.

todo o caso, convém reparar que uma já assinalável percentagem de de filmes, os escalões etários mais elevados e menores graus de es-
inquiridos utilizadores de internet (16,6 por cento) tira partido deste colarização surgem como as características mais representadas.
meio, pelo menos semanalmente, para fazer download de filmes. En- No que respeita aos inquiridos que costumam navegar em
tre os inquiridos utilizadores de internet que nunca fazem download sites de partilha de conteúdos audiovisuais, como o YouTube,

[286] [287]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

FIG. 14 MÉDIA DE VISUALIZAÇÕES DE VÍDEOS EM SITES DE PARTILHA Antes de mais, importa fazer distinções conceptuais sobre
os vários players no mercado, organizando o nosso olhar sobre a
Ns/Nr 38,6
oferta.

mais de 10 22,3
QUATRO CATEGORIAS DE PLAYERS
6 a 10 12,0
Segundo o estudo The Future of TV do The Norman Lear Cen-
ter, o surgimento da Web 2.0 introduziu novos serviços e novos
1a5 24,6 players no campo do audiovisual online. Estes agentes podem ser
desdobrados em quatro grandes categorias:
0 2,5 — Players puros: Apenas com presença online (ex.: YouTube).
%
0 20 40 60 80 100
— Motores de pesquisa (ex.: Google Videos).
— Redes de partilha P2P (ex.: Pirate Bay).
base: inquiridos que vêem sites de partilha de conteúdos audiovisuais (n=440).
fonte: Sociedade em Rede, 2010. — Empresas de média tradicionais (ex.: Os quatro canais portu-
gueses — RTP 1 e 2, SIC, TVI).
a tendência maior é para se procurar conteúdos relacionados com
música, entretenimento e filmes, sendo que os inquiridos mais jo-
vens surgem aqui como os mais representados. NOVAS FORMAS DE CONHECER OS HÁBITOS
Apesar de uma grande percentagem de inquiridos não quantificar DOS CONSUMIDORES
o número de vídeos visualizados, por semana, em sites de partilha de con-
teúdos audiovisuais, uma considerável percentagem (34,3 por cento) de A era digital, seja online seja pelas televisões digitais, alarga as pos-
inquiridos vê mais de seis vídeos por semana. Com efeito, e se tivermos sibilidades de monitorização das audiências por parte dos distri-
apenas em conta aqueles inquiridos que apresentam uma resposta con- buidores. É possível saber em tempo real quais os programas de
creta, verificamos que cerca de 56 por cento dos inquiridos afirmam sucesso e a quem são dirigidos (data mining). O estado actual do
ver seis ou mais vídeos, por semana, em sites de partilha de conteúdos. data mining permite um processo de retroacção com inputs dos
consumidores, que muitas vezes nem sabem que estão a ser mo-
nitorizados, levantando o problema da protecção dos dados e pri-
OPERADORES/INDÚSTRIA vacidade individual. A imersão do consumo num ambiente digital
facilita os rastreamentos do comportamento e tipificação do per-
A digitalização dos conteúdos e distribuição de conteúdos digi- fil, o que, por um lado, permite uma optimização da capacidade
tais em rede desceu as barreiras à entrada e arrastou uma maior de satisfação das necessidades de média pela personalização de
concorrência à escala global. conteúdos relevantes, mas, por outro, uma maior vulnerabilidade

[288] [289]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

a técnicas de marketing desenhadas para a extracção de valor dos consumidor comum. Quais as estratégias para conteúdos pirata?
seus públicos. As novas plataformas intensivas em informação, Banir? Ou promover a disseminação e retirar dividendos de for-
em tempo real, potenciam formas mais sofisticadas e subtis de mas alternativas? Acima de tudo, aprender com a observação das
microgestão de planos de programação. preferências e hábitos dos utilizadores. Desse exercício de (re)
No fundo, importa contrabalançar optimismos tecnológicos visitação e adaptação elencamos algumas propostas de estraté-
com algumas interrogações, nomeadamente de transparência, gias de acção.
o que se edifica como um problema ainda por resolver do ponto
de vista ético e de regulação do sector. Assim, se com o advento PREÇO JUSTO
da era digital o consumidor, por um lado, ganha poder, por outro,
assistimos ao desenvolvimento de novas vulnerabilidades. Com o advento da digitalização, os custos de cópia e distribuição
são reduzidos, ao limite, a zero. Como tal, será necessário reflectir
essa tendência no preço final.
COMO «MONETIZAR» ESTA TENDÊNCIA DE CRESCIMENTO?
DISTRIBUIÇÃO CONVENIENTE
Segundo o Los Angeles Times1, há cada vez mais consumidores a
verem filmes online, mas poucos a pagar. Mesmo que se denote Incentivar plataformas de distribuição ágeis e inteligentes. Ou
um incremento do comércio online, a venda de conteúdos digitais seja, que (re)conheçam os hábitos dos utilizadores e que sugiram
não parece acompanhar esse crescimento, sobretudo nos filmes. conteúdos relevantes — o problema em relação aos conteúdos au-
A nossa hipótese é que tal comportamento sucede por se tratar de diovisuais reside muitas vezes no licenciamento.
bens intangíveis e que muitas vezes são consumidos apenas uma
vez. Apesar de verificarmos mudanças nos consumos com uma ACESSIBILIDADE A UM VASTO PORTEFÓLIO
maior apetência e procura pelos conteúdos digitais, a indústria
não encontrou ainda a solução para converter em ganhos mone- O acesso terá de ser célere, imediato e fácil. Uma das
tários essa procura. motivações-chave da procura online de conteúdos passa pelo
acesso a conteúdos ou informação — ver dados dos relatórios
ESTRATÉGIAS Sociedade em Rede1. A indústria musical demonstrou já como é
necessário trabalhar no sentido de construir bibliotecas exten-
A indústria da televisão poderá querer basear a sua interpreta- sas. A teoria da Long Tail, de Chris Anderson, defende que a
ção através de leituras da história recente da indústria musical. centralização dos stocks, aliada à distribuição em rede e à digi-
Deverá, tal como já referido, incorporar as boas práticas dos mo- talização dos conteúdos, revoluciona as oportunidades de ne-
delos da pirataria digital em rede que se tornam apetecíveis ao gócio de venda e distribuição. A aposta em nichos de mercado

1 http://www.latimes.com/business/la-fi-ct-downloads-20101019,0,558719.story 1 http://obercom.pt/content/psociedaderede/

[290] [291]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

pode assim compensar quando equacionada cumulativamente PERSONALIZAÇÃO DOS CONTEÚDOS.


à escala global. MONITORIZAÇÃO DOS HÁBITOS
O olhar pelos hábitos dos consumidores indica que há pro-
cura e oferta em redes de peer-to-peer de conteúdos audiovisuais. É necessário conhecer e compreender os diferentes públicos e
Os arquivos aí encontrados são muitas vezes a única forma de ace- suas necessidades, que variam não só entre si como em diferentes
der a conteúdos já emitidos legalmente. Assim, a construção de momentos do dia e contextos de consumo.
um arquivo diversificado (do passado ao presente), e facilmente
acessível, poderá ser outra área a explorar. RECEBER MENOS DE MAIS
TRANSFERIBILIDADE Fazer mais com micropagamentos, ou seja, dividendos de massas
e não em massa. A inovação terá de passar pela aposta em conteú-
Os consumidores querem poder comprar conteúdos para se- dos que, eventualmente, só atingirão pequenas audiências e pe-
rem consumidos transversalmente em multiplataformas — mo- quenos pagamentos em rede e não grandes audiências, se bem que
mentos do quotidiano diferentes com suportes diferentes, tais a partilha viral permita que casos inusitados de sucesso aconte-
como iPod e Xbox. Ou seja, um dado conteúdo pode não ser çam — tal como sugerem casos da famosa celebridade online viral,
consumido na plataforma de compra original, e deve poder ser por exemplo o anúncio da Old Spice1. As plataformas de partilha
actualizado. Por exemplo, começar a ver uma série de televisão permitem uma disseminação em massa. E o consumidor, quando
num smartphone ou num leitor multimédia tal como um tablet gosta, tende a gostar de partilhar.
ou uma consola no comboio a caminho de casa (mobilidade
em detrimento da qualidade da experiência) e, quando chegar APOSTAR NO CROSS-MEDIA E NO TRANSMEDIA STORYTELLING
a casa, pode prosseguir a série num ecrã de maiores dimensões.
A palavra-chave é a interoperabilidade. E essa vertente quase Tal como defende Henry Jenkins2, importa envolver as audiên-
que só é assegurada pelos conteúdos pirata. cias. Genericamente, este conceito consiste na dispersão coor-
denada por vários média dos elementos de uma ficção, com a fi-
ACESSO A CONTEÚDOS GLOBAIS nalidade de criar uma experiência de entretenimento unificada e
combinada. Cada média deve dar o seu contributo único para o
As redes de partilha digital revelam um espólio que não olha a bar- desenrolar da história através desta sinergia, apostando em plata-
reiras geográficas. Os distribuidores e operadores de conteúdos formas diferentes, para momentos diferentes.
digitais terão de agilizar os processos de licenciamento e de ges-
tão de direitos, no sentido de tornarem acessíveis as suas obras à
escala global.
1 http://www.youtube.com/watch?v=owgykvbfgue
2 http://www.henryjenkins.org/2007/03/transmedia_storytelling_101.html

[292] [293]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

APOSTAR NA SEGMENTAÇÃO E NO PODER DOS NICHOS vias a explorar. Um exemplo pode vir do anúncio da Volkswagen,
com a presença de uma criança vestida da personagem Darth Va-
Diversificar a oferta através da aposta em nichos com canais temá- der, da Guerra das Estrelas, e transmitido num canal de séries de
ticos, que conseguem ser tão proveitosos quanto conteúdos mains- ficção ou imediatamente antes ou depois de um episódio de fic-
tream, se equacionados a uma economia de escala — a Long Tail. ção científica.
O investimento em estratégias cross-media, ou seja, a disper-
DIVERSIFICAR E PROCURAR NOVAS FONTES DE RECEITA são de uma campanha publicitária de forma integrada por vários
média, parece também ganhar terreno. A disseminação de uma
Procurar a diversificação das fontes de receita através da comer- mensagem coerente, adaptada às contingências e mais-valias de
cialização de bens de consumo associados à marca — tais como cada suporte, apresenta-se como um bom plano, contudo, com-
merchandising, livros, discos, etc. Aliar a aposta na rentabilização porta um grande investimento financeiro.
da participação das audiências — via SMS ou telefonemas. Outra tendência na publicidade em ecrãs, seja na televisão,
PC ou smartphone, prende-se com a inserção de diferentes spots
publicitários de acordo com diferentes segmentos de público.
PUBLICIDADE Por outro lado, tendo em conta um cada vez maior poder do
consumidor e saturação de mensagens publicitárias, estratégias
TENDÊNCIAS E ESTRATÉGIAS publicitárias como o product placement ganham especial relevância
neste novo panorama mediático.
O aumento do poder do consumidor instaura uma disrupção das Em suma, o ecossistema da publicidade atravessa mudanças
lógicas tradicionais de publicidade. O consumidor quer ver o que profundas, o que implica reestruturações e reconfigurações dos
quer, quando quer, onde quer e, muitas vezes, evitar a publicidade tradicionais modelos de investimento por parte dos anunciantes,
— sobretudo através de mecanismos que permitam gravar con- estratégias de mediação por parte das agências, formatos criativos
teúdos e escapar a anúncios indesejados. de publicidade e marketing.
Ora, tais revoluções tecnológicas terão de se reflectir nas es-
tratégias publicitárias. Nesta medida, pontos fulcrais como o pri- PUBLICIDADE ONLINE
meiro spot publicitário e o que antecede o conteúdo audiovisual
serão mais valiosos. Até aqui nada de novo, tal acontece nas es- Assistimos a uma revolução da publicidade online. A monitoriza-
tratégias publicitárias de negociação com revistas — as primeiras ção dos hábitos permite um melhor targeting e, como tal, publici-
inserções publicitárias, ou as inserções do lado direito, tendem a dade mais relevante ao consumidor.
ser mais caras. A publicidade é agora mais fácil de medir, mas introduz no-
Ligar publicidade e produto. A criação de spots de elevada vos desafios na compreensão de uma massa extensa de dados e
criatividade e associados às séries e entretenimento será outra das meta-dados. Como dar um uso eficiente a tão colossal acervo de

[294] [295]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

informação? Se, por um lado, as técnicas e algoritmos de monito- dos incumbentes. Note-se o caso prático do mercado fono-
rização evoluem, também aumenta o espólio e formas de infor- gráfico com a emergência de disseminação da música em for-
mação que o consumidor disponibiliza voluntariamente ou não. mato digital.
Trata-se de um desafio de gestão de bases de dados. — Mesmo com um share de mercado reduzido, a inovação dis-
E qual o padrão para medir a publicidade? Na verdade, ainda ruptiva provoca uma descida de preços e, como tal, uma dimi-
não se chegou a um consenso partilhado sobre a forma de me- nuição do tamanho do mercado — caso da quebra de preços
dir as inserções publicitárias e o seu sucesso. Jon Gerter relembra no mercado fonográfico.
no The New York Times1 a importância da publicidade e das suas
formas de parametrização: «Change the way you measure America’s Como tal, os players da publicidade offline necessitam de se preca-
culture consumption (…) and you change America’s culture business. And ver de uma possível quebra nas margens de receita.
maybe even the culture itself.»
Segundo um estudo da Deloitte, «Media Predictions 2010»2, ESTRATÉGIAS
o investimento na publicidade online continuará a crescer, sendo
que as diferentes modalidades de publicidade registarão desem- As estratégias por parte dos anunciantes terão de ter em linha de
penhos diferenciados. Importa perceber que, apesar de atraves- conta uma série de novos problemas. A começar, o advento da
sarmos um período de recessão, e mesmo apesar de o crescimento mobilidade resulta em tamanhos de ecrã cada vez menores. Como
do online ter sido negativo, continuou a ganhar share. mediar então publicidade em pequenos ecrãs? Como colocar in-
serções publicitárias sem ser intrusivo? A publicidade demasiado
TRUNFO DO ONLINE intrusiva pode ter efeitos não esperados, adversos aos anuncian-
tes. Como tal, o tempo de exposição terá de ter em conta estas
Num cenário de recessão, os anunciantes preferem investimentos vicissitudes, apostando em publicidade relevante e personificada
com métricas que permitam medir o melhor possível os resultados. para cada tipo de consumidor.
A indústria dos média e a publicidade podem estar prestes Para além desta melhor gestão, o product placement e o patro-
a passar por um cenário de «inovação disruptiva»3. Se tal suceder à cínio de conteúdos audiovisuais parece ser outro dos caminhos a
publicidade online, de acordo com a teoria da inovação disruptiva, seguir. No entanto, há uma regra básica para a publicidade: «Ela
colocam-se duas consequências prováveis: terá de estar onde estão as pessoas.» As empresas distribuidoras
— A inovação disruptiva toma conta do mercado existente, por de conteúdos televisivos em ecrãs terão de assegurar primeiro que
vezes acima dos 90 por cento, pondo em causa a viabilidade as pessoas estarão em massa (ou em microssegmentos de interesse
para essa dada publicidade) em frente a esses ecrãs. Só depois a
1 http://www.nytimes.com/2005/04/10/magazine/10nielsens.html publicidade chegará até si.
2 http://www.deloitte.com/assets/dcom-global/local%20assets/documents/tmt/predic-
tions%202010%20pdfs/media_predictions_2010.pdf
3 CHRISTENSEN, Clayton M. (1997), The Innovator’s Dilemma: When new technologies cause
great firms to fail, Harvard, Harvard Business School Press.

[296] [297]
a sociedade dos ecrãs ecrãs em rede: televisão, tendências e prospectivas

NOTAS PRINCIPAIS consumidor o operador que encontre soluções para estas con-
tingências.
Num olhar panorâmico e longitudinal pela paisagem mediática, Mas para tal é necessário não só monitorizar, mas acima de
observamos que as principais tendências no consumo passam so- tudo perceber os hábitos e usos sociais dos utilizadores em tempo
bretudo pela fragmentação das audiências e dos média a par com real e ser flexível para adaptar estratégias constantemente — es-
a personalização dos consumos e a crescente mobilidade, interac- timular a adaptabilidade à mudança. Ou seja, perceber as várias
tividade e articulação em rede. modalidades de consumo e adaptar a oferta a esta multiplicidade.
Não obstante essa atomização, a importância da televisão e, E desta massa de consumos emergem e solidificam-se algumas
sobretudo, a forma de consumir conteúdos audiovisuais através tendências mais ou menos espontâneas: falamos dos consumos
de ecrãs continuam a ser inquestionáveis e transversais. Numa desregulados, informais e, muitas vezes, sem alternativas comer-
vertente quantitativa, a diminuição do preço aliada à progressi- ciais legais.
va miniaturização do tamanho de dispositivos com ecrãs (do te- Abre-se assim espaço para compreender e aprender com o cor-
levisor ao smartphone) permitiu uma taxa de penetração notável. rente estado da procura e tentativa de executar um exercício pros-
Numa dimensão qualitativa, o televisor passou por inovações pectivo. Será necessário retirar leituras do emergente modelo de
tecnológicas e em si mesmo (passando a ser a cores e estereofó- características informais, alicerçado sobre a partilha digital em rede
nico — tentando mimetizar o real), bem como nas suas imedia- não autorizada, e incorporar esse conhecimento de forma reflexiva
ções de aparelhos de suporte (passando a dispor de telecomando nos processos de distribuição de conteúdos autorizados. Enveredar
e podendo ser acoplado a um videogravador — permitindo uma por um processo de adaptação entre as ofertas legais e as práticas de
maior comodidade na mudança de canais e independência face à pirataria, tidas pelas instituições como ilegais, mas já domesticadas,
programação difundida pelos emissores). rotinizadas e naturalizadas por um número crescente de pessoas.
Na contemporaneidade, o principal desafio junto dos ges- É impossível ignorar a mudança, que passa, em muito, pela cres-
tores relaciona-se com a distribuição. A crescente digitalização, cente cumulatividade e complexificação dos paradigmas na distribui-
aliada à distribuição em rede, tem como principal impacto bai- ção dos meios de comunicação na era digital. Não obstante, a estra-
xar as barreiras à entrada e promover a interdependência entre tégia dos produtores e distribuidores de conteúdos tem-se pautado
os múltiplos tipos de média. Desta forma, o portefólio de ofer- por uma tentativa de manutenção dos modelos tradicionais, ao invés
tas acessíveis é crescente, mas este ritmo de crescimento não da tentativa de adaptação à nova cultura digital em rede.
é acompanhado sincronicamente pela capacidade de gestão dos A pirataria emerge em muito da distância entre alternativas
consumidores. Um dia não se dilata, continua a ter 24 horas. legais e a crescente panóplia de conteúdos grátis acessíveis através
Numa economia da abundância, da pós-escassez, com um vo- da rede. Vive nos e dos interstícios dessa dissonância. Uma distri-
lume, ao limite, infinito de conteúdos audiovisuais, outras di- buição mais acessível levaria, à partida, a uma maior predisposi-
mensões tornam-se escassas — por exemplo: tempo, atenção, ção para pagar um preço justo. Vemos exemplos internacionais de
selecção, filtragem e acessibilidade. Será então valorizado pelo lógicas de entretenimento e de informação televisivos que estão

[298] [299]
a sociedade dos ecrãs

a captar ou fixar públicos perdidos e em nichos, como o caso do novas formas para aceder a conteúdos televisivos, que em muito
Hulu e TiVo. Estes são modelos práticos de sucesso em constru- alteram a forma de consumirmos, mas que são ainda pouco user-
ção e já com um alto grau de atractividade para um volume con- -friendly, implicam um volume considerável de literacias tecnoló-
siderável de audiências. Mas tais serviços, por contingências de gicas. Não esquecer ainda que, tal como revela Lev Grossman: «It
licenciamentos, não estão disponíveis ao público nacional. O en- turns out that there is something that can compete with free: EASY»1.
contro de respostas a este problema terá de ser, assim, global. Em última análise, é necessário construir interfaces de pesquisa e
A digitalização em rede coloca um enorme desafio aos pro- de acesso que consigam competir com o consumo gratuito, sendo
dutores e, sobretudo, aos broadcasters que se terão de reinventar. adequados às competências dos consumidores.
E essa reinvenção terá de passar por um processo faseado. Primei- Será proveitoso estar igualmente atento à crescente tendên-
ro, a desconstrução da ideia de um único público mas sim de múlti- cia da mobilidade, que abre novas janelas de oportunidade para
plos públicos de televisão. Seguidamente, a compreensão dos casos o consumo de conteúdos audiovisuais. É preciso perceber essa
de sucesso nos ecrãs em rede, sejam estes legais ou ilegais. Os dados tendência e capitalizar esses interstícios quotidianos, apostando
dos inquéritos Sociedade em Rede permitem perceber melhor os di- na portabilidade entre mundos online e offline, cada vez mais sin-
ferentes públicos. Fazem-nos perceber que a televisão permanece creticamente interligados. De notar que, sobretudo entre os mais
ainda enquanto forte elemento estrutural e estruturante das dietas jovens, essa distinção (entre online e offline) já quase não faz senti-
mediáticas e, como tal, das rotinas diárias, de grande parte da popu- do nesses termos dicotómicos.
lação, sobretudo nas categorias etárias mais avançadas. Será sempre necessária a distinção entre a dimensão tec-
A descida ao terreno revelou, contudo, e também, a emergên- nológica e o conjunto de práticas sociais associadas a uma dada
cia de novos padrões de consumo (sobretudo em segmentos mais experiência tecnológica, tantas vezes heterogéneas entre si. No
jovens) que co-existem com o modelo tradicional de visionamen- final de contas, o sucesso de cada estratégia dependerá da rela-
to televisivo. A importância da televisão parece agora diluir-se na ção da tecnologia com os diferentes usos sociais e modalidades
fragmentação de suportes alternativos e das dietas mediáticas dos de consumo(s).
mais jovens. Para além da variável idade, importa pensar num país Neste início de século, a televisão terá de pensar em redes
a duas velocidades, com assimetrias sociais no que toca ao acesso e em ecrãs, pois é nessa percepção cultural que está a sua ferra-
à internet. Como tal, terão de se estimular propostas de distri- menta de sucessão.
buição distintas consoante essas variáveis que influenciam quer o
consumo, quer os formatos em que se consome.
Perceber, por exemplo, variáveis como as motivações por de-
trás do consumo e o nível de competências como potenciais bar-
reiras ao consumo, como relata Jessi Hempel no artigo «What the
hell is going on with TV»1, na revista Fortune. A proliferação de

1 http://tech.fortune.cnn.com/2011/01/03/what-the-hell-is-going-on-with-tv 1 Revista Time, 6 de Dezembro de 2010, p. 51.

[300] [301]
RADIOMORPHOSIS: RÁDIO, TENDÊNCIAS
E PROSPECTIVAS
JORGE VIEIRA, SANDRO MENDONÇA, MIGUEL PAISANA
E GUSTAVO CARDOSO

Atravessamos um momento caracterizado por mudanças estrutu-


rais nos padrões de consumo de média e por inovações constantes
nos respectivos suportes tecnológicos. As mudanças sociais e tec-
nológicas alimentam-se umas às outras dando lugar a novos produ-
tos e serviços que definem mentalidades e modos de ser. Este con-
junto complexo de mudanças contemporâneas afectam também
um meio clássico como a rádio. A rádio há muito que faz parte do
som de fundo da sociedade moderna; surgindo como uma peça com
o seu lugar próprio num aparelho cultural moderno marcado pelo
consumo de massas e pela presença de referências como o automó-
vel, os electrodomésticos, o jornal diário ou o cinema. Assistimos
hoje a uma vaga tecnológica de fundo, que é acompanhada por mu-
danças prodigiosas nos hábitos individuais, nos usos sociais e nos
comportamentos colectivos. Os «novos» tempos levantam ques-
tões sobre este «velho» meio de comunicação, entre elas:
— Do lado da oferta: que casos de sucesso se destacam na ar-
ticulação entre este clássico meio difusor de informação e a
tendência para uma maior personalização na abordagem às
audiências?
— Do lado da procura: como se apresenta a tendência para uma
maior mobilidade e fragmentação da atenção dos consumi-
dores, bem como o crescente empenho destes na avaliação,
selecção, edição e na própria co-criação de conteúdos?

[303]
a sociedade dos ecrãs radiomorphosis: rádio, tendências e prospectivas

— Na ligação da oferta à procura: qual a relação da rádio com as (móvel ou não, online ou não). Segundo Menezes1, o sucesso da rá-
novas tendências da Web 2.0? dio provém igualmente de, por um lado, disponibilizar tabelas de
publicidade mais baixas do que outros média (em parte devido aos
Importa, assim, reflectir sobre o panorama actual e tentar identi- seus baixos custos) e, por outro, por se constituir enquanto média
ficar os caminhos por onde se promove a mudança. Este relatório crescentemente ubíquo — por exemplo, numa progressiva minia-
de prospectiva e análise dará especial atenção aos impactos da di- turização dos receptores a preços competitivos e numa fusão da
gitalização de conteúdos e distribuição em rede que veio provocar tecnologia receptora com outras plataformas de média.
evoluções no conceito tradicional de rádio. Para além destas características de sucesso elencadas por Me-
Interessa identificar as metamorfoses pelas quais está a passar nezes, podemos acrescentar e resumir alguns dos pontos fortes da
o panorama radiofónico, os seus modelos de negócio, os seus públi- rádio no exercício que se segue.
cos. Este artigo é, portanto, uma primeira aproximação a um tema
complexo, ainda envolto em incertezas quanto à sua evolução fu- CONCEITO SIMPLES E MADURAMENTE ESTABELECIDO
tura, e sobre o qual não existe à data literatura consolidada sobre a
sua dinâmica recente. Daí que tenhamos escolhido denominar este A rádio encontra-se longamente enraizada como um média tradi-
processo de radiomorphosis, o qual pretende fazer sobressair a ideia cional de uso fácil. O conceito está também baseado no acesso livre
de que a rádio não muda, mas antes se adapta às mudanças e é, no à emissão, pelo que enfrenta uma transição menos turbulenta para
actual contexto de mudança, o meio mais habilitado para o fazer os meios digitais, já que não padece dos problemas de quebra de
sem mudanças radicais da sua base enquanto média. receitas como aqueles que estão a ser sentidos pela imprensa diária
clássica que se vê ameaçada por sites informativos exclusivamente a
operar online ou por agregadores de notícias (Cardoso et al. 2010)2.
CARTOGRAFANDO OS CAMINHOS DA MUDANÇA
COMPATÍVEL COM O MULTITASKING DE MÉDIA
VANTAGENS COMPETITIVAS DA RÁDIO CONTEMPORÂNEO
Uma leitura da história da rádio demonstra que esta tem evoluí- Serve sobretudo como média secundário, sendo tal característica
do de forma resiliente, adaptando-se à mudança — quer do desen- um dos seus pontos fortes num contexto mediático crescentemen-
volvimento tecnológico, quer dos seus usos sociais. A rádio tem te marcado pelo multitasking3. A título de exemplo: a leitura requer
conseguido evoluir num terreno mediático nem sempre favorável
e tal deve-se sobretudo a algumas características únicas. Senão ve-
1 Menezes, João Paulo (2010), «A rádio em crise antes da crise provocada pela Internet»,
jamos: permite a sua fruição em conjunto com outro tipo de consu- (OBS*) Observatorio, disponível em www.obs.obercom.pt/index.php/obs/article/view/334/320.
2 Cardoso, Gustavo, VIEIRA, Jorge, e Mendonça, Sandro (2010), «Tendências e Prospecti-
mos (mediáticos ou não) e tarefas, ou seja, possibilita o multitasking vas. Os ‘novos jornais’», Lisboa, OberCom, disponível em http://obercom.pt/content/660.np3.
(justaposição com outros média) e uma utilização multicontexto 3 Veja-se o relatório OberCom (2008) A Sociedade em Rede em Portugal 2008 — Multitasking e
Preferências de Media na Sociedade em Rede, disponível em http://obercom.pt/content/554.np3.

[304] [305]
a sociedade dos ecrãs radiomorphosis: rádio, tendências e prospectivas

uma atenção exclusiva. Um leitor poderá não possuir tempo livre de massas. Este meio, contudo, sempre demonstrou uma flexi-
suficiente para ler o jornal diário no próprio dia de edição. No en- bilidade notável bem palpável na sua contínua capacidade para
tanto, poderá conduzir para o emprego enquanto ouve um briefing se expandir a cada novo passo tecnológico: dos velhos aparelhos
de notícias na rádio, trabalhar no seu computador a ouvir rádio, ou receptores a válvulas da década de 1930 aos auto-rádios de circui-
estar em espaços públicos onde é difundida. A rádio é, assim, ro- tos integrados da década de 1980; da sua presença nos televisores
busta num contexto informacional cada vez mais denso que induz dos hotéis à sua fusão com os programas vespertinos dos canais
uma escassez da atenção por parte dos consumidores de média. da TV por cabo; da sua nova vida fora de portas nos telemóveis à
sua infiltração nos terminais de computador graças à difusão via
ACTUALIDADE E COMPANHIA EM VOZ internet. Presentemente, o consumo da rádio continua a ampliar-
-se por uma pluralidade crescente de plataformas.
Permite a difusão de breaking news em tempo real, o que não é fá- A rádio é, assim, cada vez mais um meio multiplataforma e,
cil de concretizar em meios de comunicação com um aparato de deste modo, importa perceber num primeiro momento que a de-
produção mais pesado (a televisão) ou com um perfil mais estático finição de rádio não poderá passar exclusivamente pela indexa-
(imprensa). A esta dimensão de actualidade acrescenta-se ainda ção ao seu meio ou suporte tecnológico. A rádio será sobretudo
outra dimensão mais intimista nos usos que são feitos da rádio: um estilo de comunicação, não precisando já de ondas hertzianas
permite ainda a companhia pela voz, acto íntimo, a «magia da pa- para cumprir o seu papel. Mas, um estilo comunicacional é sem-
lavra», traço distintivo da rádio tradicional. pre permeável a interacções com os parâmetros impostos pelas
novas tecnologias no contexto dos seus usos sociais, mais ou me-
PORTÁTIL E UBÍQUO nos antecipados. Assim sendo, como definir a rádio na contempo-
raneidade? Pelo seu conteúdo? E de um ponto de vista de gestão,
A tecnologia assenta em suportes cada vez mais pequenos, pre- como garantir o retorno ao investimento na rádio? Qual o futuro
sentes e imbricados no quotidiano mediático. Poderíamos notar do consumo de rádio? O que procuram os ouvintes? Que sinergias
ainda que a rádio se tem imiscuído noutros suportes, dos leitores se podem criar com os média em rede? Que estratégias adoptar?
de mp3 aos telemóveis, alargando assim o seu raio de acção num Por onde passam os caminhos da rádio contemporânea?
modelo trans-hertziano de acumulação tecnológica de média que Na verdade, este tipo de discussões sobre o futuro da rádio
não é fácil de substituir. não são novidade. A progressiva democratização da televisão
deslocou a centralidade doméstica/familiar até então detida
pela rádio para a televisão, sendo a rádio relegada de um con-
AS ADAPTAÇÕES DA RÁDIO AO SEU CONTEXTO sumo primário para um consumo secundário e em acumulação
com outras tarefas quotidianas1. Mas este embate poderá ter
A rádio constituiu-se como um meio de comunicação pioneiro
na construção da matriz identitária da sociedade de consumo 1 Menezes, João Paulo (2010), «A rádio em crise antes da crise provocada pela Internet»,
(OBS*) Observatorio, disponível em www.obs.obercom.pt/index.php/obs/article/view/334/320.

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a sociedade dos ecrãs radiomorphosis: rádio, tendências e prospectivas

deixado marcas que hoje podem ser vistas como vantagens O que queremos compreender é, portanto, como se vão de-
num novo ambiente competitivo. Por exemplo, a perda de senhando as propostas radiofónicas num mundo rico em interac-
centralidade da rádio deu-se em muito por este média reivin- ções. A rádio, tal como os outros média clássicos, encontra-se a
dicar apenas o sentido auditivo — esta seria uma vulnerabili- vogar num ambiente comunicacional abalado por várias influên-
dade numa era em que a imagem animada triunfou, mas que, cias cruzadas. Como veremos de seguida, o contexto do negócio é
numa era saturada de informação, poderá ser entendida como neste momento marcado pelas pressões das tecnologias em rede
um dos seus maiores trunfos. Assim, a rádio conheceu cedo e por dinâmicas sociais em rede. Os média contemporâneos habi-
um destronar de posição, aprendeu a sobreviver na periferia tam hoje numa envolvente intensiva em transacções multidirec-
— neste processo deixou de ser um dispositivo de massas para cionais, com os consumidores em plataformas digitais em rápida
ser um veículo de segmentos. Mas, além disso, a rádio desde evolução. É preciso compreender bem como se estruturam estas
há muito que acolhe elementos de participação (telefonemas questões de enquadramento para depois mapear as possíveis tra-
dos ouvintes, fóruns de debate, etc.) que hoje são objecto de jectórias de reinvenção da rádio e identificar os caminhos que vão
redescoberta por parte do renovado potencial de interacção sendo trilhados ao nível de novos modelos de negócio.
dinâmica produtor-consumidor que as tecnologias digitais de
informação e comunicação permitem.
Um conceito, o de mediamorphosis1, poderá ser aqui útil. Este DINÂMICAS-CHAVE DO SECTOR RADIOFÓNICO
conceito alerta para uma permanente acumulação de mutações
na estrutura de determinado meio — o que faz despontar um Construir visões do futuro é uma actividade arriscada, depende da
novo meio de comunicação onde antes havia o tradicional. Isto confluência de um conjunto de elementos como: a) a identificação
é, as novas tecnologias não implicam uma substituição directa e de um assunto-problema pertinente, b) a recolha de informação
irreversível dos média tradicionais. Nair Prata2 e Álvaro Bufarah muitas vezes fragmentada e incompleta, c) a identificação das «for-
Junior3 trazem para a discussão uma importante aplicação deste ças motrizes» da mudança, d) a descoberta de «factores estáveis»
conceito, a saber, radiomorfose. Este remete para uma evolu- que estruturam o futuro e de e) «incertezas críticas» ainda por resol-
ção da rádio, agora revestida com «uma nova linguagem, novos ver. Desta combinação de ingredientes resulta o potencial teórico
signos textuais e imagéticos, novo suporte, novas formas de in- e empírico para o desenho de perfis tendenciais de mudança que
teração e a presença de gêneros reconfigurados, alguns do velho ajudam na monitorização do ambiente e onde se podem alicerçar
modo hertziano e outros novos nascidos das modernas tecnolo- pistas para a gestão privada e para as políticas públicas1.
gias» (Nair Prata 2008, 2). O corpo da presente análise teve em atenção estas preocu-
pações metodológicas. Esta secção refere-se aos elementos de
1 FIDLER, Roger (1997), Mediamorphosis: Understanding New Media, Londres, Sage. enquadramento estrutural («forças motrizes», «factores estáveis»,
2 PRATA, Nair (2008), «Webradio: novos gêneros, novas formas de interação», disponível
em http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2008/resumos/R3-0415-3.pdf.
3 JUNIOR, Álvaro Bufarah (2006), «Rádio na Internet: desafios e possibilidades», disponível em 1 Para uma discussão da metodologia do trabalho prospectivo ver Schwartz, Peter
http://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/147804830187090849186370036349146116483.pdf. (1996), The Art of the Long View, Nova Iorque, Currency Doubleday.

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a sociedade dos ecrãs radiomorphosis: rádio, tendências e prospectivas

«incertezas críticas»), enquanto a próxima secção aponta para as digital) no qual é operacionalizada. Esta versatilidade mul-
implicações destes no esquema de negócios da rádio. tiplataforma é um atributo que favorece a sua permanência
As «forças motrizes» da mudança podem ser identificadas num terreno tecnológico muito diferente daquele em que
nos vectores transformacionais que guiam a transição de uma so- nasceu.
ciedade fordista e industrial (de broadcasting na esfera mediática) — Um segundo factor (de natureza sociológica) é a emergência
para uma sociedade assente em activos intangíveis apoiados na di- do indivíduo-em-rede. O espaço informacional é hoje muito
gitalização da informação e na comunicação electrónica. denso e os contactos entre os actores sociais são hoje alavan-
Essa é uma revolução histórica cuja natureza tecnológica (o cados por ferramentas digitais que em simultâneo contraem o
aparecimento do circuito integrado e da internet) e institucional tempo e o espaço. O indivíduo navega hoje na internet numa
(formas de coordenação híbridas entre o mercado descentraliza- proliferação de ofertas de conteúdo que são altamente exi-
do e a burocracia hierarquizada) tem sido bem descrita e analisada gentes da sua atenção (o principal recurso escasso numa era
entre sociólogos e economistas (Castells 20001, Freeman e Louçã de superabundância de dados e signos)1. Como via para mi-
20012). Esta grande recomposição da envolvente expressa-se em nimizar os custos de busca, os consumidores de informação
novos condicionalismos e oportunidades ao nível sectorial. No contam cada vez mais com redes pessoais e sociais nas quais
nosso caso interessa-nos a indústria da rádio. confiam para seleccionar e avaliar os estímulos com que se
Este capítulo identifica um conjunto de premissas ou factores deparam. Os indivíduos não são «ilhas informacionais», mas
estáveis que estão a moldar o presente e o futuro da rádio. Estas são antes elementos de «arquipélagos comunicacionais».
vistas como grandes tendências de fundo, características-base que se
crê irão influenciar a transfiguração da rádio seja qual for o cenário As incertezas-críticas são, sobretudo, as respostas dadas a estes
socioeconómico ou tecno-estratégico que se julgue mais provável: desafios sociotécnicos descritos acima pelos veículos rádio. Res-
— Um primeiro factor (de natureza técnica) é a noção de rádio pectivamente:
trans-hertziana. A evolução tecnológica procede como uma — Na actual etapa da economia do conhecimento, como é que as
dialéctica entre «destruição criativa» (Schumpeter 1943) e rádios podem adaptar-se para tirar o máximo partido (seja no
«acumulação criativa» (Pavitt 1999). Por um lado, novos sis- back office ou régie, seja no front office ou programação) do po-
temas de produção apenas em parte substituem os tradicio- tencial das novas tecnologias? Quais as inovações organizacio-
nais. Por outro, as novas tecnologias potenciam muitas vezes nais e de serviço que estão a resultar? Dito de outro modo, que
recursos antigos, introduzindo também alterações nos seus mudanças se estão a operar nos modelos de negócio da rádio?
aspectos de continuidade. A rádio é um «estilo comunicacio- — Se as preferências e os gostos individuais evoluem rapida-
nal» que é muito adaptável ao meio tecnológico (analógico ou mente mas em concertação flexível com os gostos dos outros

1 Para uma discussão da metodologia do trabalho prospectivo ver Schwartz, Peter


(1996), The Art of the Long View, Nova Iorque, Currency Doubleday. 1 Esta observação é do Prémio Nobel da Economia Herbert Simon (1971), «Designing
2 Freeman, C. e Louçã, F. (2001), As Time Goes By: From the industrial revolutions to the Organizations for an Information-Rich World». Greenberger, Martin (org.), Computers,
information revolution, Oxford, Oxford University Press. Communication, and the Public Interest, Baltimore, MD, The Johns Hopkins Press, pp. 40-41.

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a sociedade dos ecrãs radiomorphosis: rádio, tendências e prospectivas

ouvintes, como podem as rádios aceder a este caldeirão fer- dio que, como veremos abaixo, é uma rádio pública dinamar-
vente de expectativas interligadas? Como podem as rádios fa- quesa que gere múltiplos canais no seu site, alguns voltados
zer coevoluir as suas agendas de conteúdo e as suas iniciativas para gostos muito específicos, outros voltados para comuni-
de captação publicitária com a dinâmica dos grupos e comu- dades locais muito empenhadas na discussão dos temas que
nidades que se agitam na internet 2.0? lhe são próximos.
— Drone station ou rádios automáticas e à medida: existem sinais
Interessa, portanto, saber como se traduzem estes novos traços de convergência entre sites que são meros repositórios de músi-
estruturais em posicionamentos de mercado e para tal importa ca e sites onde existe uma activa promoção de novas tendências
avançar com algumas tendências-chave que emergem no panora- estéticas (caso da Last.fm); existem em alguns casos sinais de
ma radiofónico. uma tendencial automatização das escolhas de música que é
passada, só raramente entrecortadas pela voz real de um locu-
tor (Classic.fm, por exemplo, com a sua playlist de música clás-
TENDÊNCIAS NA RÁDIO sica mais votada pelo público) ou mesmo sem qualquer edição
centralizada (a opção da Grooveshark de activação de uma es-
Como se têm, então, combinado todos estes elementos de en- pécie de rádio «zombie» em piloto automático); as diferenças
quadramento estrutural com a resiliência do conceito tradicional entre a rádio e discotecas digitais estão a esbater-se, sobretudo
de rádio? Isto é, que perfis de novas ofertas têm surgido? Na base à medida que o perfil dos ouvintes/utilizadores é seguido e mo-
da recolha de material empírico que dá corpo ao resto da presente nitorizado nos sites; neste caso, o radialista é um sujeito «cibor-
análise podemos tipificar três tendências nas ofertas de produtos gue», ou seja, é a própria pessoa com os seus gostos a escolher
radiofónicos, às quais damos rótulos estilizados para melhor iden- a música misturada com um algoritmo que lhe vai propondo
tificar o seu carácter distintivo. Os três grandes protótipos estraté- novos temas e bandas na mesma linha de preferência;
gicos de novas linguagens comunicacionais que detectamos (e que — Cloud radio, a rádio sempre disponível. A rádio está disponível
podem coexistir simultaneamente ou não numa mesma rádio) são: por via do auto-rádio, na rua através do telemóvel, num café
— Narrowcasting ou hiper-segmentação: em contraste com o ou restaurante onde um canal cabo emite rádio1, no escritório
modelo clássico das emissoras (broadcasting, isto é, modelo através do computador ligado à internet. A mudança é tal que
de distribuição unidireccional de uma antena para múltiplos a rádio já não precisa absolutamente de um aparelho especia-
receptores passivos), parecem surgir sinais de uma cada vez lizado para chegar aos seus ouvintes, está cada vez mais des-
maior especialização no contacto com públicos cada vez mais corporizada e vai-se dissolvendo por toda a paisagem artificial
pulverizados em torno de gostos, interesses ou outros valores (computacional) que envolve o indivíduo contemporâneo; no
de referência; ao mesmo tempo esta hiper-segmentação pode fundo, a rádio (ou as preferências do ouvinte) está onde está o
dar espaço à construção de audiências interligadas e activas
na própria co-edição de conteúdos. Um exemplo é a DR Ra- 1 Vários estabelecimentos na Baixa lisboeta fazem-no: têm televisão ligada, mas o som é
uma das rádios disponíveis no contrato da TV por cabo.

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a sociedade dos ecrãs radiomorphosis: rádio, tendências e prospectivas

ouvinte, e já não onde está o aparelho receptor, e é porque o investigação e desenvolvimento, experimentação e inovação dos
acompanha independentemente da plataforma que pode ser modelos de negócio adequados aos novos desafios.
cada vez mais personalizada e diversificada. O modelo de negócio e as formas de rentabilidade de rádios
online e outras empresas do género na área da distribuição de con-
teúdos encontram-se ainda em desenvolvimento. Não obstante,
ACTIVIDADES RADIOFÓNICAS: o difícil primeiro passo, a saber, a criação de uma rede social vo-
EXEMPLOS DE MODELO DE NEGÓCIO lumosa e extensa por parte destas start-ups, parece estar a gozar
de um relativo sucesso no que concerne ao ritmo de angariação
Os dados indiciam, e as leituras teóricas sugerem, que caminha- de ouvintes, havendo ainda espaço de crescimento da rede de uti-
mos para uma jukebox global (Burnett 1996), em formato digital. lizadores. E note-se que a escala é agora global, ao contrário das
A cadeia de valor da música é agora diferente, tal como aponta, limitações geográficas de alcance das ondas hertzianas.
entre outros, o italiano Richeri (2004).
Os modelos de negócio evoluem adequando-se à realidade SUBSCRIÇÕES
em constante mudança e, em muito, dependente da inovação tec-
nológica e dos seus usos sociais (mais ou menos esperados). Mas Para além da publicidade, o modelo de negócio da rádio passa tam-
qual o papel da rádio num panorama mediático crescentemente bém pelas receitas oriundas de subscrições — casos da Last.fm
fragmentado? De um ponto de vista da gestão, como lidar com a ou da MyWay, como iremos abordar de seguida. O modelo de
radiomorphosis? Quais os caminhos da mudança? negócio assenta nas premissas freemium1. Este modelo de negócio
Esta secção incide sobre modelos de negócio e o lado da ofer- desenvolve-se permitindo a experimentação gratuita do produto
ta do serviço radiofónico, destacando novas tendências no campo (em moldes básicos) a uma audiência vasta. Pretende assim criar a
da produção e distribuição, contextos particulares de contacto familiarização com o produto e um hábito de consumo, sendo que
com os ouvintes e modelos de geração de receita. este modelo poderá ser seguidamente enriquecido com conteúdos
premium pagos por outros segmentos de público.
MODELOS DE GERAÇÃO DE RECEITA A grande mais-valia passa por permitir alcançar um vas-
PARA ALÉM DA PUBLICIDADE to conjunto de consumidores, criando assim a necessária massa
crítica publicitária. A distinção entre conteúdo pago terá de ser
Do lado dos produtores de rádio e conteúdos, a era digital de par- devidamente enquadrada através da prospecção da propensão
tilha em rede oferece oportunidades de expansão do negócio mas máxima a pagar («willingness to pay») junto dos vários segmentos
também desafios ao sector da rádio e do audiovisual multimédia. de consumidores — as diferentes quantificações de valor estarão
O sector encontra-se em permanente mudança, sendo difícil co- dependentes deste equilíbrio entre oferta e procura. Estas subs-
locar cenários futuros. Os produtores tentam adaptar-se e, sobre- crições devem apresentar-se em forma de micropagamentos,
tudo, antecipar a mudança mediante a procura e investimento na
1 Termo cunhado por Fred Wilson.

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funcionando em economia de escala, e terão que ser de fácil per- PARCERIAS


cepção e user-friendly.
A dimensão digital em rede altera radicalmente a economia e Nas novas rádios online, para além dos modelos de receitas prove-
os modelos de negócio em rede. A teoria da Long Tail de Chris An- nientes dos dividendos publicitários e subscrições, subsiste ainda
derson1, posteriormente englobada no pacote de definições adja- a possibilidade de vendas de forma mais ou menos directa. Os pa-
centes à Web 2.0, defende que a tecnologia global em rede, a inter- ralelismos entre uma rádio e uma loja de discos online estão paten-
net, revoluciona as oportunidades de negócio de venda e distribui- tes no conceito da maioria das rádios online com parcerias com re-
ção musical. Os produtos com vendas relativamente baixas, quando talhistas em rede, como iremos ver. A audição de um determina-
somados, podem ser superiores a produtos populares, os chamados do trecho pode potenciar a sua aquisição, de forma rápida, numa
bestsellers ou blockbusters. A aposta em nichos de mercado pode assim procura e consumo musicais cada vez mais sob a premissa do à la
compensar quando equacionada cumulativamente à escala global. carte e unbundled.
Os gastos com o armazenamento são radicalmente inferiores aos A parceria entre serviços online em forma de mash-up é uma
suportes físicos, possibilitando a oferta de um espólio musical vasto tendência crescente. A comunicação de serviços com vista a im-
e ecléctico. A questão central do armazenamento deixa de actuar primir uma vertente mais social nota-se sobretudo através da in-
como um constrangimento a partir do momento em que o suporte tegração com o Facebook (um possível exemplo de intensificação
se desmaterializa passando para o campo do digital. Desta forma, da tendência cloud radio). Sintomático da percepção do potencial
teorias económicas como a da Long Tail, dão sentido estratégico de entrosamento entre a música e a interacção social, do poder da
à Distribuição de Pareto, a saber, 80 por cento do total de volume recomendação dos pares, a premissa-chave da Last.fm, a própria
de negócios advém de apenas 20 por cento de clientes, ganhando Apple está a aprender a adaptar-se a esta nova realidade tendo
relevo na leitura da realidade radiofónica em rede. lançado recentemente o serviço Ping, que consiste genericamen-
Reportando-nos ao caso português, note-se que este modelo te numa rede social no interior do iTunes.
de distribuição abre um novo espaço para a difusão e distribuição Para além destas parcerias notam-se, sobretudo no caso da
da produção de base nacional. O mercado de ouvintes alarga-se rádio, alianças com vista a capitalizar consumos auditivos em
pela imensidão do espaço da lusofonia. A Long Tail permite ali- compras musicais online ou concertos ao vivo — e mesmo entre
mentar esperanças de alguma rentabilização da produção portu- ouvintes de rádio e leitores de jornais — tais como a MyWay e
guesa de conteúdos quando equacionada numa economia de es- as publicações Correio da Manhã e jornal i, como iremos ver mais
cala de dimensão global. Encontra-se por explorar devidamente, adiante. Estas alianças são nota dominante nas empresas de mul-
por exemplo, o mercado dos Países Africanos de Língua Oficial timédia, que se pautam por lógicas de integração com outras em-
Portuguesa (PALOP) ou ainda parcerias com rádios brasileiras. presas contíguas não só à área do multimédia mas também das
novas tecnologias. Por exemplo, na Last.fm figuram pequenas
1 Apresentada em primeira mão na revista Wired em Outubro de 2004 e explorada na
publicidades textuais pelo Google, mas também pequenos ban-
publicação: ANDERSON, Chris (2006) The Long Tail: Why the future of business is selling less of ners comerciais e as ligações à loja do iTunes ou da Amazon para a
more, Hyperion.

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a sociedade dos ecrãs radiomorphosis: rádio, tendências e prospectivas

compra da música, álbum ou discografia completa do artista que a MyWay responsável pela edição e locução dos vídeos. Quanto
ouvimos naquele momento. Se a aliança com a Amazon é uma à Last.fm, veja-se a parceria realizada com a Microsoft no final
interessante estratégia de sinergia da Last.fm, de entendimento de 2009 em alguns países onde os membros do Xbox Live Gold1
quase imediato, atentemos com mais pormenor para a eficácia do podiam aceder aos conteúdos pagos.
serviço de publicidade introduzido por parte do Google. Note-se
que o serviço prestado pela rádio Last.fm é gratuito, sendo possí-
vel subscrever uma conta paga que, entre os benefícios, disponibi- PRODUÇÃO E DIFUSÃO DE CONTEÚDOS.
liza a remoção da publicidade. OS VÁRIOS CONTEXTOS DA RÁDIO
Para além destas alianças com serviços sociais, de venda de
música online ou publicidade, há ainda parcerias com editoras dis- RÁDIOS NA WEB
cográficas. As rádios, sobretudo aquelas em «piloto automático»,
pretendem dilatar o seu portefólio. Tais parcerias permitem ofe- Assistimos a uma pressão crescente junto dos gestores e produtores
recer um espólio musical mais vasto e diversificado, possibilitan- de rádio. Por um lado, a concorrência é agora global e com menos
do uma experiência de rádio mais rica ao consumidor, no sentido barreiras à entrada e, por outro, porque o consumidor tem ao seu
em que, por um lado, disponibiliza um leque de descoberta e so- dispor um crescente leque de escolhas de média muito mais diver-
cialização musical maior e, por outro, permite uma maior adequa- sificado, mas um tempo de consumo quotidiano limitado. Este
ção entre a oferta e a procura de gostos musicais já cultivados. processo de introspecção e de esforço prospectivo estende-se um
Já do lado das editoras o interesse é também óbvio. Estas co- pouco por todas as actividades socioeconómicas contemporâneas.
ligações de interesses demonstram a percepção, por parte das dis- A rádio encontra-se em transformação diferenciada num
cográficas, da importância destes serviços como forma de distri- crescente número de plataformas. Mas estas podem não ser rivais
buição, difusão e promoção dos conteúdos à escala global, e cria- entre si, mas sim complementares. O mais importante não será
ção de novos públicos e novos modelos de negócio. Por exemplo, a plataforma tecnológica em si mesma, mas sim o seu conteúdo
a Last.fm assinou acordos com múltiplas editoras independentes intrínseco — de qualidade e adaptado aos diferentes públicos e
e com a multinacional Sony BMG e a Warner Music — tendo esta diferentes tecnologias.
depois desistido do acordo em 2008. Já a MyWay assinou acordos Chris Brogan2, especialista em gestão e marketing nos novos
com a Sony Music1 e a Universal2. média, defende que as rádios não devem usar a internet apenas
Ainda em relação a parcerias, observe-se também que a My- para marcar presença. Devem, sim, usar os média sociais, pois
Way estabeleceu uma parceria com a agência de notícias Reuters estes permitem um grau de relação mais refinado e interactivo
com o intuito de publicação de notícias em formato vídeo3, sendo com os consumidores, ao contrário da rádio tradicional. E bas-
ta ver mais adiante os dados do inquérito Sociedade em Rede, do
1 http://www.meiosepublicidade.pt/2010/04/15/myway-fecha-acordo-com-a-sony-music/
2 http://www.meiosepublicidade.pt/2010/06/08/myway-fecha-acordo-com-universal/ 1 http://techcrunch.com/2009/07/01/lastfm-free-for-xbox-live-gold-members/
3 http://tek.sapo.pt/noticias/internet/videos_do_myway_na_reuters_1061388.html 2 http://www.chrisbrogan.com

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OberCom, para perceber que os métodos tradicionais, tais como As estratégias para as rádios terão de passar, tal como afirmam
mensagens e telefonemas, têm uma utilização baixa no panorama alguns gurus de gestão de rádio e new media Nick Piggott1, Gerd
nacional de ouvintes. Leonhard2 e Steve Rosenbaum3, pela curadoria, ou seja, selecção e
As rádios na Web devem adoptar estratégias similares à edição humana. O advento do digital e da comunicação em rede
«Grow bigger ears»1, tal como proposta por Chris Brogan, que se permitiu a explosão da oferta de rádio, mas uma oferta em demasia
edifica no uso de ferramentas Web 2.0 disponíveis online e que pode funcionar apenas como ruído. A assinatura editorial é assim
permitem monitorizar melhor o desempenho em rede (isto é, indispensável, sendo que a selecção criteriosa, a intervenção huma-
potenciam o narrowcasting). na, a presença da voz, para cada um dos utilizadores emerge como
Para além da interacção, a grande mais-valia da internet valor acrescentado na economia da abundância informacional.
passa pela monitorização do desempenho. A accountability é Se por um lado a especialização parece emergir como uma
majorada em rede, sendo que se evita o «shiny store syndrome» tendência dominante, até onde poderá funcionar comercialmen-
na relação com os anunciantes. Ou seja, de que serve um bom te essa pulverização?! Será pertinente questionar, tal como James
vídeo que se espalha de forma viral a milhares de pessoas mas Cridland: «Mais escolha na rádio: Bom ou mau?»4 Haverá ainda
que não se traduz em vendas reais? É realmente um sucesso do espaço para newcomers para além dos incumbentes? Serviços como
ponto de vista dos anunciantes? É preciso monitorizar não só a a Last.fm, Grooveshark, ou Pandora, sem qualquer intervenção
amplitude do impacto (reach) junto dos potenciais consumido- humana na escolha musical, poderão não funcionar da melhor
res, mas sobretudo a efectiva aquisição ou não do produto ou forma5 junto do público alargado. Senão vejamos, Glenda Shrader
serviço publicitado. Note-se que tal sucede actualmente não só Bos e Richard Harker defendem que, quando um ouvinte é expos-
com a rádio, mas também com outros média como os jornais e to de forma contínua a música similar, poderá desenvolver uma
a televisão — quem anuncia nem sempre consegue medir cor- «fadiga auditiva». Como tal, é necessário uma certa mudança de
rectamente o efeito directo da sua publicidade. tempos a tempos, e formatos que consigam surpreender o ouvinte
Importa ter igualmente em conta o facto de que, numa eco- e captar a atenção sem serem previsíveis.
nomia da abundância, onde o acesso a música e informação por Considerando que, segundo um recente relatório6 da consulto-
uma percentagem significativa da população é cada vez mais ra Nielsen, 22 por cento do tempo dos internautas mundiais é pas-
fácil, a dimensão discursiva e a relação empática2 entre anima- sado em sites de redes sociais7, importa não descurar a importância
dores/locutores e audiências constitui uma faceta cada vez mais
importante, por ser de facto a grande mais-valia competitiva. In- 1 http://nick.piggott.name/blog/2009/11/02/the-future-of-radio-is-curation e http://www.
mediafuturist.com/2009/03/the-future-of-radio-broadcasting-is-curation-.html
teressa, assim, talhar modelos de locução apelativos a cada seg- 2 http://www.mediafuturist.com/2009/03/the-future-of-radio-broadcasting-is-curation-.html
mento — ou seja, há limites à tendência drone station. 3 http://www.businessinsider.com/content-is-no-longer-king-curation-is-king-2010-6
4 http://james.cridland.net/blog/extra-choice-on-your-radio-good-or-bad
5 http://harkerresearch.typepad.com/radioinsights/2010/05/is-pandora-musak-for-the-
-21st-century.html
6 http://bits.blogs.nytimes.com/2010/06/16/22-percent-of-Internet-time-is-social-nielsen-says/
1 http://www.chrisbrogan.com/grow-bigger-ears-in-10-minutes/ 7 http://www.coworkers.com.br/midias-sociais/22-do-tempo-gasto-on -line-e-com-
2 http://www.slideshare.net/AndrewDewey/building-relationships-scott-howard-scloho -midia-social/

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a sociedade dos ecrãs radiomorphosis: rádio, tendências e prospectivas

das redes sociais — onde se está com quem se gosta e se procura nho oral, para a tradicional dimensão da palavra falada, mas sobretu-
mostrar do que se gosta. É preciso ainda pensar uma aposta em es- do munido de destreza escrita e perícia digital, para o ambiente online
tratégias integradas de média sociais em que se que crie uma rela- — tais como fóruns, páginas de fãs, de Facebook, entre tantas outras.
ção empática com os ouvintes com o intuito de passar essa ligação Funcionando como um gatekeeper nos novos média, terá de demons-
e atenção de valor acrescentado aos anunciantes. A presença online trar igualmente boas capacidades editoriais — apesar de funcionar,
terá de ser pensada de forma séria, equacionando o que funciona1, no quadro geral das empresas de média, com um baixo estatuto edi-
ou não2, nos respectivos sites3. E para tal é preciso compreender o torial, está incluído num plano com alto nível de prioridade.
conceito de «qualidade da experiência», optimizando a eficácia4 dos Desta forma, será necessário ir para além das habituais fun-
sites, sendo que o conceito de «qualidade da experiência» é multi- ções do animador e disco-jóquei, procurando a interacção com os
dimensional e subjectivo, ou seja, depende do perfil de utilizador. ouvintes — envio de texto (SMS ou e-mail) e resposta em voz. Há
Desta forma, será necessário ousar experimentar e investigar a que equacionar a necessidade de, durante o programa, contar com
fundo, inclusive através de testes de divisão A/B — explicando de ghost writers moderadores, que poderão ou não assumir o papel de
forma abreviada esta experiência; no mesmo site figurarão diferen- outrem (DJ ou animador), especializados em assegurar diálogo e
tes versões, sendo avaliada posteriormente a eficácia de cada uma produzindo conteúdos passíveis de gerar e aprofundar a ligação
delas. As rádios terão de efectuar um entrosamento íntimo com as emocional com os ouvintes e fãs.
redes sociais, permitindo a partilha em rede e fazendo uso do mar- Note-se ainda que ganham força outras formas de comunica-
keting viral e do crowdsourcing, tendo atenção ao feedback dos ouvin- ção e de relação com a audiência que não se esgotam na voz. Outro
tes5 e definindo estratégias de targeting minucioso de comunicação atributo da nova rádio em rede será a visualização que as novas tec-
consoante os diferentes perfis de públicos, os seus diferentes usos nologias permitem, dos displays presentes nos auto-rádios (com as
e gratificações. suas devidas limitações físicas de tamanho) às informações escritas
Abre-se espaço para a introdução da figura do moderador, sen- e/ou imagens (com ou sem movimento) dos monitores de televisão
do que este pode ser o próprio animador/radialista que acumula esta ou computadores. Nesses dispositivos há espaço para inúmeras ca-
função. Esta figura representa uma mudança de paradigma no que madas adicionais de (meta)informação (meta-dados1) que importa
toca à dimensão dos recursos humanos nas rádios. O moderador, fi- explorar. Trata-se não só de um incremento de serviço a oferecer e
gura em emergência no novo panorama mediático, terá de saber ali- uma melhoria na qualidade da experiência dos consumidores — e
mentar uma relação de proximidade entre a rádio e a(s) sua(s) rede(s) que permite casos como o site Compare My Radio2 que oferecem
social(ais) em rede. Será uma figura dotada não só de bom desempe- como serviço a monitorização das ofertas das rádios inglesas –,
mas também de permitir aos anunciantes e promotores musicais
um novo nível de accountability (transparência dos números sobre
1 http://www.nytimes.com/2010/06/24/arts/television/24npr.html?ref=media
2 http://james.cridland.net/blog/radio-websites-what-works-what-doesnt/
3 http://harkerresearch.typepad.com/radioinsights/2010/06/is -jelli -the -future -of-
-radio.html 1 Dados sobre os próprios dados: http://nick.piggott.name/blog/2009/10/24/is-the-mo-
4 https://www.google.com/analytics/siteopt/splash?hl=en ney-in-the-meta-data.
5 http://mashable.com/2010/06/20/feedback-filters-social-media/ 2 http://comparemyradio.com

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a sociedade dos ecrãs radiomorphosis: rádio, tendências e prospectivas

audiências e fidelização) e acima de tudo uma aproximação mais possibilidade de criação de grupos de ouvintes e da consulta das
eficaz aos diferentes públicos-alvo. páginas de outros utilizadores, retoma-se um pouco o conceito
No entanto, em toda a abertura de potencial tecnológico de rádio criada para um grupo e por um grupo em modelo de
existem novas questões éticas e desafios para a regulação. Como difusão. Esta criação difere da rádio tradicional pelo facto de a
fica, por exemplo, a privacidade dos dados pessoais? Como actuar sua criação ser motivada pelo lado do consumo do conteúdo e
na conversão da monitorização de comportamentos em dados não pela oferta do mesmo. Pelo facto de não haver qualquer res-
vendáveis a terceiros? trição à quantidade ou tamanho dos grupos, a especialização é
Os serviços de rádio na Web 2.0 utilizam a internet para po- essencialmente livre.
tenciar a acção colectiva e incentivar a produção de conteúdo sob Do lado do consumo há uma enorme liberdade de escolha.
a lógica da parceria, permitindo uma melhor experiência online Isto cria do lado da oferta uma democratização no acesso ao meio
para e pelo utilizador. Os média sociais operam como uma comu- que antes estava barrado abaixo de um determinado nível de po-
nidade global em rede de partilha, em torno não só de constela- pularidade. Simultaneamente, o mercado potencial é global e geo-
ções de gostos musicais, mas de traços da vida pessoal quotidiana graficamente indiferente. O conteúdo que antes era demasiado
à escala mundial. marginal para ser ouvido em qualquer rádio no mundo pode agora
O conceito de rádio perde também nas novas rádios não edi- estabelecer o seu nicho com quantidades apreciáveis de ouvintes
toriais (ou seja, rádios em piloto automático comandadas pelo geograficamente dispersos seja qual for a sua forma particular de
utilizador e sem critérios de edição e curadoria) parte da sua com- acesso à rádio (esta permanência e imunidade à distância é um dos
ponente editorial e programática comum, ao colocar a escolha da aspectos da tendência cloud radio).
música nas mãos de cada ouvinte — do broadcasting ao narrowcast-
ing enquanto um afastamento face ao broadcasting tradicional.
Estas novas rádios online inserem-se na vaga de personaliza- ALGUNS CASOS DE RÁDIOS E «RÁDIOS» NA WEB
ção de massas (estratégia de abordagem ao mercado/audiências)
que é permitida pelo cruzamento de três forças tecnológicas: a) o Iremos ver de seguida alguns exemplos de rádios online assentes
elemento digital em rede, b) a engenharia de data mining no back em modelos de negócio freemium em narrow casting, drone radio e
office, c) e a captação descentralizada e barata das preferências dos cloud radio.
ouvintes seguindo lógicas 2.0.
Por outro lado, com estas alterações, o espírito clássico da DR RADIO, UM CASO DE WELFARE STATE RADIOFÓNICO PARA
rádio não se perdeu de todo, foi sim metamorfoseado: a função UMA MASSA DE NICHOS
de recomendação do radialista é substituída pelas recomenda-
ções entre utilizadores e pela exploração electrónica dos seus A DR Radio é a unidade de emissão radiofónica do grupo de
perfis (característica subjacente à tendência drone station). E não média detido pelo Estado dinamarquês. Tendo uma missão
é só a música que deixa de funcionar em difusão única. Com a de serviço público, esta rádio tem sido inovadora no seu leque

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a sociedade dos ecrãs radiomorphosis: rádio, tendências e prospectivas

de programação, estando hoje ao serviço de vários públicos: o ana-


lógico, o digital, e todos os outros públicos que perseguem inte- FIG. 2 LOGÓTIPO DA LAST.FM
resses sonoros diversificados. É difícil pensar em segmentos de
mercado que a DR Radio não cubra. Entre os vários canais que
mantém, encontram-se canais/rádios cujo enfoque é a literatura,
a reportagem, o entretenimento, a informação, etc. Esta rádio
dispõe de um canal parlamento (DR Politik), de uma ampla pa-
leta de canais musicais temáticos e o seu canal mais popular (P4
København) tem 11 versões regionais com noticiários e músicas lançamento em 2002. A monitorização em tempo real dos hábi-
locais. Muito do que queremos dizer com narrowcasting é apro- tos dos ouvintes permite a construção de bases de dados.
priadamente ilustrado pelo caso desta rádio dinamarquesa. As diferenças relativamente à rádio tradicional são inúme-
ras. A começar: a dimensão da presença e da oralidade é subs-
FIG. 1 DR RADIO, BARRA DE CANAIS tituída pela palavra escrita e por complementos audiovisuais.
A Last.fm, por exemplo, é uma rádio especializada em música,
que relega a componente noticiosa generalista, concentrando-
-se no campo musical. A vertente informativa está presente,
mas centrada na música, funcionando neste caso na compreen-
são do tema, biografia do artista, ou ainda ao traçar similitu-
des do artista e géneros com outros semelhantes, precursores
ou derivados, possibilitando a descoberta e o enriquecimento
da cultura musical. Ao ouvir uma qualquer canção presente na
base de dados, o serviço aponta para um wiki1, onde a rádio
disponibiliza informação sobre, para cada canção e/ou álbum
e/ou artista e/ou editoras e/ou géneros similares e/ou álbum —
LAST.FM: UM RADIALISTA SEMIAUTOMÁTICO editável pelos próprios utilizadores em formatos de interco-
QUE SE EXPRESSA POR TEXTO E NÃO POR VOZ nectividade de grupos –, tudo isto tendo como pano de fundo o
conceito de indexação por tags. Esta interactividade suportada
Vejamos o exemplo da Last.fm que monitorizou (scrobbling1) até por uma grande automatização de processos é radicalmente
Abril de 2010 um total de 40 mil milhões de temas2, desde o seu

1 Scrobbling significa que, quando ouve uma música, o nome da música e do artista são
enviados para a Last.fm e adicionados ao perfil musical do utilizador, http://www.lastfm. 1 Consiste num software baseado na acção colectiva. Permite a edição, em formato de cola-
com.br/help/faq?category=99 boração, dos documentos, utilizando um sistema e user-friendly. O mais famoso site construí-
2 http://mashable.com/2010/04/19/last-fm-40-billion do sobre esta base é o Wikipedia. Versão portuguesa em http://pt.wikipedia.org/wiki.

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a sociedade dos ecrãs radiomorphosis: rádio, tendências e prospectivas

diferente e expressa boa parte do que a tendência para drone ART INTERNATIONAL RADIO. ARTE NA RÁDIO
station pode significar.
FIG. 5 LOGÓTIPO DA ART INTERNATIONAL RADIO (AIR)

GROOVESHARK: A MÚSICA ESTÁ NAS NUVENS


FIG. 4 LOGÓTIPO DO GROOVESHARK

A Art International Radio1 (AIR) é uma estação de rádio online


sem fins lucrativos sediada em Manhattan, nos Estados Unidos da
O Grooveshark1 apresenta-se como um site de partilha de música América. A rádio, lançada a 1 de Janeiro de 2009, é especializada
e auto-intitula-se como uma rádio. Funciona como plataforma em arte contemporânea. Emite programas tais como entrevistas e
de partilha onde os utilizadores podem carregar músicas suas. conversas em torno da arte, desencadeando ainda experiências de
Note-se que este serviço permite apenas a audição via streaming, teatro radiofónico e experiências artísticas sonoras2.
não permitindo assim o download de arquivos para o computador Este exemplo demonstra como se pode conseguir segmen-
— o site oferece a opção de adquirir os arquivos de áudio em lojas tos de público com um grau de fidelização considerável, como é o
online, tais como a Amazon ou o iTunes. Em linha com o mer- caso dos fãs de arte ou desporto. Mas tal poderá ser desdobrado
cado móvel, encontra-se disponível também para dispositivos ainda para casos onde o fenómeno de fandom provém dos média
móveis em arquitectura Android e Blackberry em site próprio2 e, — caso de fãs de telenovelas ou de séries de culto tal como o Lost.
em sintonia com as parcerias online, possui já uma ligação com os A AIR comprova ainda como é possível criar propostas de baixo
serviços online do Facebook e do Wordpress3. Assim, e tal como custo para nichos de rádio.
a Last.fm, funciona como um site de retalho e distribuição em
streaming de música, com algoritmo por detrás que trabalha com MYWAY. UM EXEMPLO DO PANORAMA PORTUGUÊS
o data mining sobre cada utilizador. A sua força, porém, é fazer
lembrar que o consumidor de música pode abdicar de ter con- FIG. 6 LOGÓTIPO DA MYWAY
sigo a sua música: onde estiver pode ter acesso ao seu tipo de
música preferida. Este pode ser um exemplo paradigmático do
que pode ser uma cloud radio.

1 http://listen.grooveshark.com/
2 http://mobile.grooveshark.com 1 http://www.artonair.org
3 http://mashable.com/2009/06/04/grooveshark-apps 2 http://monocle.com/sections/culture/Web-Articles/Art-International-Radio

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a sociedade dos ecrãs radiomorphosis: rádio, tendências e prospectivas

Semelhante ao Grooveshark e sob o lema «customiza a tua mú- do projecto pretendem injectar até ao final do ano um volume de
sica», surgiu recentemente no panorama mediático nacional a investimento na ordem do milhão de euros, seguidos de 500 mil
MyWay1 da Waymedia. Este serviço consegue oferecer aos seus euros previstos para o ano seguinte.
ouvintes, em parceria com a Sony Music, um catálogo de músicas Note que recentemente a MyWay firmou parceria1 com os
em streaming que ascende aos cinco milhões2. A plataforma inte- jornais Correio da Manhã e i, pela qual participa na criação de rá-
ractiva permite ainda visionar vídeos musicais, ouvir música atra- dios feitas à medida dos leitores das respectivas publicações. Se-
vés de canais temáticos predefinidos, construir playlists pessoais, rão criados widgets de acordo com o perfil de cada leitor; o Correio
classificar e partilhar músicas, ouvir rádios de artistas, consultar da Manhã contará com uma rádio que compila os principais hits de
informações e criticas musicais e a agenda de eventos. Verão. Quanto ao jornal i, o público pode contar agora com um
Explorando novos modelos de negócio, o MyWay avançou widget que permite pesquisar por artistas e ouvir online os temas
recentemente com serviços por subscrição3, desdobrado em duas escolhidos. Este exemplo demonstra como a rádio pode estabele-
modalidades: Premium e Light. O pacote Premium disponibiliza, cer parcerias com outros média, tais como publicações periódicas,
mediante um pagamento mensal de 9,99 euros, o acesso ilimitado no que toca a temáticas especializadas numa sinergia de esforços e
ao catálogo existente via streaming, bem como o download de dois capitalização de expertise longamente incorporados e resultado de
mil temas por mês. Apostando no mercado móvel, esta subscrição um grande investimento.
estende-se ao telemóvel através do MyWay Mobile, com uma sé-
rie de funcionalidades tais como a possibilidade de construção de OUTROS CASOS
listas de reprodução personalizadas. Já a adesão Light encontra-se
par a par com as funcionalidades gratuitas, mas retira a publicida- A Last.fm é apenas um dos inúmeros exemplos destes serviços de
de por 2,99 euros mensais. Através do modelo freemium, é possível partilha e descoberta musical e de rádio assentes nas premissas da
ouvir uma série de listas musicais, sendo intercruzada com inúme- Web 2.0. A inovação tecnológica aliada à criatividade faz surgir
ras opções. Por exemplo, em Agosto, é possível ouvir um álbum inúmeros projectos paralelos, concorrentes e sucedâneos, e em
de jazz na íntegra a cada dia. complementaridade com outras plataformas da Web 2.02. Como
Segundo comunicado, a MyWay, que conta actualmente com ilustrativo dessa diversidade, podemos referir os serviços Spo-
200 mil utilizadores, espera alcançar até ao final do ano de 2013 a tify3 (disponível apenas num número reduzido de países) e Pan-
meta dos 20 a 30 mil assinantes para este novo serviço de subscri- dora4 (actualmente com acesso limitado a residentes dos EUA),
ção e meio milhão de utilizadores totais4. Para tal, os responsáveis baseado no projecto The Music Genome Project5, a plataforma

1 http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=18&id_news=460448
1 http://myway.clix.pt 2 A econsultant disponibiliza uma lista de links para 47 dos principais sites de rádio social
2 Lisboa, 14 de Abril de 2010. em: http://www.econsultant.com/web2/music-playlist-sharing-services.html.
3 http://tek.sapo.pt/noticias/internet/myway_avanca_com_servicos_por_subscri- 3 http://www.spotify.com/int
cao_1092701.html 4 http://kwhs.wharton.upenn.edu/2011/08/pandora -the -building -blocks -of -an-
4 http://tek.sapo.pt/noticias/internet/myway_avanca_com_servicos_por_subscri- -innovative-internet-radio-station/
cao_1092701.html 5 http://en.wikipedia.org/wiki/Music_Genome_Project

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Musicovery1 ou mesmo o serviço The Hype Machine2, que fun- sucesso1 da NPR Music2, que permite por exemplo o streaming de
ciona como directório actualizado das tendências musicais que concertos ao vivo e a compra da faixa que estamos a escutar via
utilizam o ciberespaço. Para tal selecção e classificação, o serviço integração harmoniosa com o iTunes.
recorre a uma análise de popularidade através da blogosfera que O uso de geocaching, ou seja, a emissão de conteúdos geografi-
poderá reenviar feeds avisando automaticamente o utilizador ins- camente relevantes, poderá funcionar como propulsor de mode-
crito neste serviço. Podemos ainda apontar o serviço AmazingTu- los de negócio emergentes. Pode assim funcionar para catapultar
nes3, dedicado à mediação de artistas independentes e que serve a importância das rádios locais e para diferentes estratégias con-
(de forma simbiótica) de catálogo para a AmazingRadio4. soante os locais, resultando em estratégias de negócio múltiplas3.
Há ainda quem se dedique à exploração complementar de ser- As rádios locais4, mais próximas das suas comunidades, devem
viços, exemplo do mashup entre a Last.fm e Pandora; o Pandora- diferenciar-se de acordo com esses clusters geográficos, com vista
FM5 ou o projecto em formato open source OpenPandora6, fenóme- a maximizarem a sua pertinência e, como tal, a captação da aten-
no que vem ilustrar a crescente ascensão da figura do consumidor ção da audiência. Basta relembrar o típico espectador amante de
activo, crítico e interventivo e o software em código aberto. futebol que outrora ouvia o relato com um pequeno transístor e
que agora pode utilizar o telemóvel para esse fim.

RÁDIO NO TELEMÓVEL. O MERCADO MÓVEL


RÁDIO NO AUTOMÓVEL
Sendo o telemóvel um dos dispositivos com melhor taxa de pene-
tração e utilização quotidiana, será caso para dizer, tal como ques- A rádio no automóvel, pelo tempo aí passado quotidianamente,
tiona Mark Jefford Baker7, que a rádio via móvel constituirá uma reveste-se de especial relevância para a fruição da rádio, num tem-
oportunidade de ouro para os produtores de rádio8? E o mercado po de interregno entre casa e o emprego. Embora este seja o meio
móvel, em parceria com dispositivos tecnológicos cada vez mais de transporte onde o impacto da rádio mais se faz sentir nas dietas
dotados, permite estratégias de comunicação mais ricas e perti- mediáticas nacionais, a influência da rádio faz sentir-se ainda em
nentes. Por exemplo, actualmente existe já uma miríade de apli- transportes colectivos, embora de um modo bastante mais miti-
cações para iPhone, tais como Radioweave9. Ou vejamos o caso de gado. O caso mais saliente será a possibilidade de escutar rádio
nos serviços premium das companhias ferroviárias ou no serviço
comum da generalidade das companhias aéreas.
1 http://musicovery.com
2 http://hypem.com
3 http://www.amazingtunes.com
4 http://amazingradio.co.uk
5 http://pandorafm.real-ity.com 1 http://www.nytimes.com/2010/06/24/arts/television/24npr.html?ref=media
6 http://openpandora.blogspot.com 2 http://www.npr.org/music
7 Business Development Manager na Ericsson Multimédia. 3 «Radio in the Mobile: Golden Opportunities», disponível em http://www.slideshare.
8 http://www.technologyreview.com.br/read_article.aspx?id=40679 net/mramsey1/transforming-radios-business-model-with-multiple-revenue-streams
9 http://radioweave.com/ 4 http://nick.piggott.name/blog/2008/03/22/the-hidden-value-of-local-radio

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Segundo Michael Weber1, as tendências no que toca à rádio ANUNCIANTES


em automóveis passam por:
— Interface orientada pelo utilizador: tomando partido da di- Os produtores de rádio tendem a desenvolver uma relação sim-
gitalização das interfaces de controlo, importa oferecer ao biótica com distribuidoras, editoras e músicos, pois estrategica-
consumidor uma experiência de utilização o mais persona- mente percebem o poder de exposição da rádio e pela «certifica-
lizada e aprazível possível. Uma redistribuição de poder ao ção de qualidade» que concorre para a legitimação do produto, ex-
consumidor-utilizador 2.0. posição essa com dividendos simbólicos importantes, que poderá
— Música e vídeos personalizados: para além da personalização ser reconvertida em proveitos comerciais.
do meio de comunicação, importa personalizar os conteúdos
à medida de cada utilizador. PUBLICIDADE ONLINE
— Serviços on demand: importa disponibilizar um portefólio de
produtos o mais vasto possível e que este