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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO


INSTITUTO DE LINGUAGENS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM
ESTUDOS DE LINGUAGEM

TEREZINHA FERREIRA DE ALMEIDA

A BR 163 NA CIDADE DE SORRISO: APARTHEID DO CORPO SOCIAL URBANO

CUIABÁ – MT
2016
1

TEREZINHA FERREIRA DE ALMEIDA

A BR 163 NO MUNICÍPIO DE SORRISO:


APARTHEID DO CORPO SOCIAL URBANO

Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em


Estudos de Linguagem, Instituto de Linguagens da
Universidade Federal de Mato Grosso, para Exame de
Qualificação, como parte dos requisitos para a obtenção do
título de Mestre em Estudos de Linguagem.
Área de Concentração: Estudos Linguísticos
Linha de Pesquisa: Práticas textuais e discursivas: múltiplas
abordagens
Orientador (a): Profª. Drª. Maria Inês Pagliarini Cox

Cuiabá – MT
2016
2

Ficha Catalográfica
3

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO
PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE PÓS-GRADUAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DE LINGUAGEM
Avenida Fernando Corrêa da Costa, 2367, - Boa Esperança – CEP: 780609000 – Cuiabá/MT
Tel: (65) 3615-8408 – Email: secretariameel@hotmail.com.br

FOLHA DE APROVAÇÃO

TÍTULO: “A BR 163 NO MUNICÍPIO DE SORRISO: Apartheid do corpo urbano”

AUTORA: Terezinha Ferreira de Almeida

Dissertação defendida e aprovada em

Presidente da Banca/Orientadora: Profª. Drª. Maria Inês Pagliarini Cox

Examinador Interno: Prof. Dr. Fernando Zolin Vesz


Instituição: Universidade Federal de Mato Grosso

Examinadora Externa: Profª. Drª. Sueli Correia Lemes Valezi


Instituição: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso

Examinador Suplente: Prof. Dr. Elias Alves de Andrade


Instituição: Universidade Federal de Mato Grosso

Cuiabá – MT

2016
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A Willian e Thalita, força que me impulsiona todos os dias


a lutar por uma realidade melhor e que me faz acreditar na
possibilidade de uma Sorriso mais igualitária no futuro.
5

Agradecimentos

A Deus, pela força e providência em todos os momentos dessa caminhada que Ele me
permitiu trilhar.

À professora Drª. Maria Inês Pagliarini Cox, minha orientadora dos sonhos, por me guiar
nessa jornada, pelas sábias e ricas orientações, paciência e afeto, cuja excelência me inspira na
busca do conhecimento.

Ao Programa Pós-graduação em Estudos de Linguagem (PPGEL) na pessoa da ex-


coordenadora, professora Drª. Divanize Carbonieri, e do atual coordenador, Prof. Dr. Dánie
Marcelo de Jesus, bem como aos funcionários da secretaria, pela prontidão e cordialidade com
que sempre me atenderam.

Aos professores do PPGEL, pela partilha e incentivo em nossas buscas. Vocês são brilhantes.

Aos professores Dr. Fernando Zolin Vesz e Drª. Sueli Correia Lemes Valezi, pelas
iluminações e sugestões feitas no exame de qualificação.

À minha mãe, Aparecida M. Figueiredo, que inculcou em mim o amor aos estudos. Meu
exemplo de luta, honradez e persistência.

Ao Rony, meu esposo e incentivador, sempre acreditando em meus sonhos mais do que eu
mesma, pela companhia mesmo à distância e apoio incondicional.

À Clézia Figueiredo, minha irmã e amiga, por desempenhar tão bem seu papel de tia,
amenizando minha ausência constante durante esse processo.

À professora Drª. Tânia Pitombo, quem me apresentou a AD e me instigou na construção do


anteprojeto que culminou nessa pesquisa.

À IBN Sorriso, pelas orações que me fortaleceram em todo o tempo, principalmente nos
momentos de enfermidade da minha mãe. Obrigada a todos os membros dessa casa.

Aos meus inesquecíveis colegas de mestrado, Márcio, Patrícia, Rochelle, Ivanete e Aparecida,
pelos momentos de distração que deram mais leveza aos meus dias e pelas trocas que me
enriqueceram durante esse tempo. Obrigada pelo carinho e amizade.

À Betsemens e Rosângela, amigas de mestrado e para a vida toda, que desde o primeiro dia
partilharam comigo das mesmas lutas e sonhos. Obrigada por amenizarem a saudade da
minha família durante minha estada em Cuiabá.

À Lili Marlene Ergang, minha amiga cult, pelas proveitosas conversas sobre a „sorrisidade‟
que muito contribuíram para esse trabalho.

À Michelle Midon, pela gentileza em me ceder materiais para essa pesquisa.

Aos sorrisenses que gentilmente me concederam entrevistas e, assim, contribuíram para a


realização desse trabalho.
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ALMEIDA, Terezinha Ferreira de. A BR 163 no município de Sorriso: Apartheid do corpo


social urbano. Dissertação de Mestrado em Estudos de Linguagem. Orientadora: Drª. Maria
Inês Pagliarini Cox. Cuiabá, MT: Universidade Federal de Mato Grosso, 2016.

RESUMO: Este estudo tem por objeto de investigação discursos produzidos acerca da divisão
do corpo social urbano de Sorriso-MT pela BR 163 em duas regiões bem distinta: o lado de
“cá” (o lado dos sulistas) e o lado de “lá” (o lado dos não-sulistas). No imaginário da
população de Sorriso, essa divisão geográfica corresponde a diferenças socioeconômicas,
étnicas e culturais que têm gerado interpretações sobre o lado de “lá” como lugar indesejável
onde se origina boa parte dos problemas locais, principalmente aqueles relacionados à
segurança dos cidadãos do lado de “cá”. Não é, pois, como referente físico que a BR 163
interessa a esta pesquisa e sim como referente discursivo. Interposta entre o “lá” e o “cá”, a
rodovia funciona como uma metáfora da divisão interna do corpo social urbano de Sorriso,
como um símbolo do apartheid silencioso que vige entre sulistas e não-sulistas. O estudo tem
por objetivo geral captar os sentidos que recobrem, pois, a divisão geográfica da cidade pela
BR 163. Para a consecução desse objetivo geral, buscar-se-á identificar e interpretar, no nível
da materialidade linguística, as palavras-valise que necessariamente indiciam a relação dos
enunciados atuais (a formulação) com o interdiscurso ou a memória discursiva (a
constituição), no tocante à segregação e à discriminação de não-sulistas por sulistas. Pretende-
se, por meio dessa démarche, compreender como se (re)produzem os sentidos da divisão,
hierarquização, discriminação e segregação, e não os sentidos da complementariedade e
igualdade entre sulistas e não-sulistas na sociedade sorrisense. Pretende-se, ainda, delinear a
formação discursiva que funciona como sítio desse sentido de divisão, bem como a formação
ideológica correspondente. Os procedimentos metodológicos e teóricos mobilizados pela
pesquisa inscrevem-se no campo da Análise do Discurso, desenvolvida sob o signo das ideias
de Michel Pêcheux (1938-1983). A constituição do corpus discursivo se faz pela combinação
de duas vias de pesquisa: a arquivista e a experimental. Mediante pesquisa de arquivo, foram
selecionados quatro textos jornalísticos da mídia local e estadual nos quais se “ouvem”
discursos preconceituosos, excludentes e segregadores a propósito dos outros que vivem no
“lá” de Sorriso. Pela via experimental, foram realizadas cinco entrevistas para trazer à tona os
sentidos que, embora ainda não estivessem textualizados, já funcionavam no imaginário e na
memória discursiva da população sorrisense. A análise mostra que, enquanto os enunciados
das matérias midiáticas procuram mitigar os efeitos de sentido da divisão/segregação entre
sulistas e não-sulistas no corpo social urbano de Sorriso, os enunciados das entrevistas os
admitem sem meias palavras.

PALAVRAS-CHAVE: discurso, espaço urbano, segregação.


7

ABSTRACT

ALMEIRA, Terezinha Ferreira de. THE BR 163 in the city of Sorriso: urban social
body apartheid. Master Degree on Language Studies Dissertation. Mentor: Maria Inês
Pagliarini Cox Cuiabá, MT: Federal University of Mato Grosso, 2015.

ABSTRACT: This study aims at investigating discourses produced in relation to the division
of the urban social body of Sorriso-MT by the BR 163 into two very distinct regions: the
“here” side (the side of the Southerners) and the “there” side (the side of the non-
Southerners). In the imaginary of Sorriso population, this geographic division corresponds to
the socioeconomic, ethnic and cultural differences which have generated interpretations about
the “there” side as an undesirable place where much of the local problems originate,
especially those related to the security of the citizens from the “here” side. Therefore, the BR
163 is of interest to this research as a discursive referent rather than a physical one. Interposed
between “there” and “here”, the highway serves as a metaphor for the internal division of the
urban social body of Sorriso, as a symbol of the silent apartheid which prevails between
Southerners and non-Southerners. The study aims at capturing the senses that cover the
geographic division of the city by the BR 163. To achieve this overall objective, it will be
sought to identify and interpret, at the level of linguistic materiality, the words which
necessarily show the relationship of the current enunciations (formulation) with the inter-
discourse or discursive memory (the constitution), regarding the segregation and
discrimination of non-Southerners by Southerners. It is intended, through this démarche, to
understand how the senses of division, hierarchy, discrimination and segregation (re)produce
themselves, and not the senses of complementarity and equality between Southerners and
non-Southerners in the society of Sorriso. It is also intended to outline the discursive
formation which works as a site of this sense of division, as well as the corresponding
ideological formation. The methodological and theoretical procedures utilized by the research
fall into the Discourse Analysis, based on ideas of Michel Pêcheux (1938-1983). The
constitution of the discursive corpus is done through the combination of two lines of research:
the archivist and the experimental. Through archival research, four journalistic texts from the
local and state media were selected in which prejudiced, excluding and segregating discourses
“are heard” about the others who live in the “there” side of Sorriso. Through the experimental
line, five interviews were conducted to bring to light the senses that, although not textualized
yet, worked already in the imaginary and in the discursive memory of the population from the
city. The analysis shows that, while the enunciations of media materials seek to mitigate the
effects of the senses of the division/segregation between Southerners and non-Southerners in
the urban social body of Sorriso, the enunciations of the interviews admit them bluntly.

KEYWORDS: discourse, urban space, segregation.


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ÍNDICE DE FIGURAS E QUADROS

ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1: Sorriso – limites territoriais p.
Figura 2: Placa de boas vindas no canteiro central da BR163 na entrada de p.
Sorriso
Figura 3: Marco da inauguração da BR 163 em Cachoeira do Curuá (km 877) p.
Figura 4: Rodovia BR-163 (Cuiabá-Santarém) p.
Figura 5: Mapa urbano de Sorriso p.

ÍNDICE DE QUADROS
Quadro 1: Materiais obtidos mediante pesquisa de arquivo e experimental p.
Quadro 2: Os níveis do dispositivo analítico p.
Quadro 3: Despesas por função de governo p.
Quadro 4: Projetos oficiais de colonização ao longo da BR-163 em MT (1970- p.
1992)
Quadro 5: Projetos particulares de colonização ao longo da BR-163 em MT p.
(1968-992)
Quadro 6: Semas positivos e negativos do discurso da colonização p.
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SUMÁRIO

Introdução

Capítulo I
DISPOSITIVO TEÓRICO E DISPOSITIVO ANALÍTICO
1. 1 Da constituição do campo da Análise de Discurso
1. 2 Da ideologia jurídica e interpelação do indivíduo como sujeito de direito
1. 3 Do discurso, formação discursiva e forma-sujeito.
1. 4 Do interdiscurso e memória discursiva
1.5 Da cidade e cidade dividida como espaço simbólico
1. 6 Dos procedimentos metodológicos em Análise de Discurso
1. 7 Em resumo

Capítulo II
NARRATIVAS SOBRE A CIDADE DE SORRISO
2.1. Do município de Sorriso
2.2 Da capital nacional do agronegócio
2.3 Dos projetos de colonização e criação de cidades no interior de Mato Grosso
2.4 Da construção da sociedade sorrisense
2.5 Em resumo

Capítulo III
O OUTRO NO ESPAÇO URBANO DE SORRISO: EFEITOS DE SENTIDO
3.1 Enunciados buscados em arquivo
3.1.1 Matéria 1: o artigo definido, a nominalização e a lexia “convidar”
3.1.2 Matéria 2: o advérbio de inclusão “também” e a comparação “assim
como... também”
3.1.3 Matéria 3: a designação pelo topônimo “Maranhão”
3.1.4 Matéria 4: “uma extensão do sul” e “a segunda casa”
3.1.5. Das matérias em conjunto
3.2 Enunciados obtidos mediante entrevistas
3.2.1 Entrevista 1: “quando eu passo ali, nem parece que a gente tá em Sorriso”.
3.2.2 Entrevista 2: “os ladrões que você vê é tudo de lá, as mortes é tudo de lá, as
facadas é tudo de lá”
3.2.3 Entrevista 3: “a escola com maiores problemas é a escola São Domingos”
3.2.4 Entrevista 4: “o São Domingos é o bairro injustiçado da vez”
3.3 Em resumo

Conclusão

Referências bibliográficas
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INTRODUÇÃO

Situado no interior do estado de Mato Grosso, o município de Sorriso é mais um dos


que surgiram ao longo do traçado da BR 163. Promessa de se transformar em um importante
polo agrícola desde o início de sua colonização, na década de 70, Sorriso atraiu migrantes 1 de
várias regiões do país. De início vieram os sulistas, buscando adquirir áreas agricultáveis bem
maiores do que as que possuíam em seus estados de origem, motivados pelo sonho de se
tornar “fazendeiros” e enriquecer. Mais tarde vieram migrantes de outras regiões,
principalmente do nordeste, sobretudo maranhenses, fugindo do desemprego e da
garimpagem fracassada em outras áreas do estado de Mato Grosso. Hoje, o município, tido
como próspero à luz da ideologia desenvolvimentista que presidiu a colonização da Amazônia
durante o regime militar, continua atraindo pessoas de todas as regiões do estado e do país
para as mais diversas atividades econômicas, vislumbrando melhores condições de vida. A
convivência entre os que chegaram primeiro para colonizar a terra supostamente inabitada e
os que chegaram depois, já com a cidade em pleno desenvolvimento, tem sido marcada por
uma divisão que eclode na organização do espaço urbano, nas relações interpessoais,
profissionais e nas práticas discursivas.
O agronegócio ganhou proporções gigantescas no município, como sinalizam os
seguintes indicadores: melhor PIB agropecuário do país em 2011; status de Capital Nacional
do Agronegócio em 2012; 1º lugar na exportação de commodities no país em 2013. Apesar de
todo esse desenvolvimento econômico, Sorriso abriga os mesmos problemas sociais de outros
tantos municípios do país, apresentando divisões sociais bem definidas, que revelam uma
distribuição bastante desigual da riqueza, refletida na repartição do espaço urbano pela BR
163. Essa rodovia divide a cidade de Sorriso em duas regiões com características
socioeconômicas, culturais, urbanas e demográficas bem distintas, o que faz dela uma espécie
de símbolo do apartheid e da segregação reinante naquela formação social.

1
Usar-se-á neste estudo, acompanhando Mohsim Hamid, o termo “migrante”, ao invés de “imigrante”. O autor
argumenta que o termo “imigrante” parece privilegiar o lugar (país, estado, etc) de chegada, ocultando que todo
“imigrante” é também um “emigrante”. O termo “migrante” cobre as duas condições: a imigração e a emigração.
Ademais, para o autor, a migração é um direito humano fundamental, tal como a liberdade de expressão e a não
discriminação de gênero, raça, sexualidade e religão. Enfaticamente afirma Hamid que “If we do not recognise
their right to move, we will be attempting to build an apartheid planet where our passports will be our castes, and
where obedience will be enforceable only through ever-increasing uses of force. There is another way. We can
recognise the human right to migration.[…] Only in doing so can we hope to build a world in accordance with
the values we claim to believe in – liberty, equality, democracy – and wash clean the taste of hypocrisy that
burns so bitter in so many of our mouths”.
11

De um lado da BR 163, habitam os „gaúchos‟, como são chamados metonimicamente


todos os migrantes vindos da região sul, referenciados como senhores da terra, visto que são
donos de quase toda área rural do município. Como se trata de uma cidade cuja economia é
movida pela agricultura, são eles tidos como responsáveis pelo desenvolvimento e pujança da
cidade.
Do outro lado da BR, estão os nordestinos, metonimicamente designados como
„maranhenses‟, que começaram a chegar ao município, na década de 1990, para empregarem-
se como mão de obra não especializada no cultivo da terra, no trabalho doméstico, no
comércio, no setor de serviços em geral, certamente não motivados pela perspectiva de
enriquecimento futuro, mas desejando apenas assegurar a própria sobrevivência e a da família
no presente.
As circunstâncias da migração de uns e outros são bem diferentes, como também
diferentes são suas condições de habitantes do espaço urbano de Sorriso. Os pioneiros
recebiam, gratuitamente, lotes na sede do município, ao comprarem terras nas áreas rurais; os
outros, muitos deles, sequer tinham meios de pagar um aluguel (inflacionado pela lei da oferta
e da procura). Por isso, engrossavam/engrossam a população urbana dos sem teto, disposta a
ocupar áreas desocupadas próximas à cidade. Destarte, desde o princípio, são tidos como
sinônimo de desordem e problema social para o município. Em torno deles se avoluma um
discurso segregacionista, metaforizado pela dêixis espacial “lá” e “cá”, funcionando
discursivamente como um cronotopo: “lá” (= a periferia, o lugar dos migrantes nordestinos,
reduzidos a “maranhenses”) e o “cá” (= o centro da cidade, o lugar dos migrantes
colonizadores sulistas, chamados de “gaúchos”), que promove uma espécie de divisão do
corpo urbano.
De acordo com Orlandi (2012, p.199), “o modo como se dispõe o espaço é uma
maneira de configurar sujeitos em suas relações, em suma, de significá-los”. Nesse sentido, a
forma como o espaço urbano do município de Sorriso é habitado, isto é, repartido entre “lá” e
“cá” revela como nele se dão e são significadas as relações sociais. No “cá”,
desenvolvimento, organização e planejamento urbano, saneamento básico, câmeras de
segurança, centro comercial, construções a partir de projetos arquitetônicos arrojados, casas
construídas em terrenos amplos com jardins e piscinas, avenidas largas, praças, áreas verdes
mostram a presença do poder público municipal, bem como o alto poder aquisitivo de seus
moradores. No “lá”, bairros com infraestrutura precária ou sem infraestrutura, escondidos
atrás de armazéns e silos do parque industrial, frutos de ocupação geralmente desordenada,
motivada por invasões de terrenos, transporte ineficiente, ruas estreitas, casas humildemente
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construídas sem projeto arquitetônico, próximas umas das outras e margeando as ruas,
ausência de espaços de lazer, mostram o descaso do poder público, bem como o baixo poder
aquisitivo de seus moradores.
A divisão do corpo social, coincidindo com um lado e outro da BR 163, é tão presente
e dolorida àqueles que vivem no lado de “cá” de Sorriso na condição de “não-sulistas” que
pode justificar um estudo como tal. Não é outra a motivação que põe em movimento esta
pesquisadora, uma migrante mato-grossense que vive no lado de “cá” da cidade há mais de 10
anos, sempre atenta e incomodada com a divisão entre o “lá” e o “cá”, divisão que, além de
administrativa e política, é também simbólica. Ademais, não se pode deixar ouvir as palavras
de Orlandi (2004, p.11), acerca da relevância de se estudar o espaço urbano na
contemporaneidade: “Para nossa época, a cidade é uma realidade que se impõe com toda sua
força. Nada pode ser pensado sem a cidade como pano de fundo. Todas as determinações que
definem um espaço, um sujeito, uma vida cruzam-se no espaço da cidade”.
Dessa forma, mergulhando no imaginário e na memória discursiva da sociedade
sorrisense, objetiva-se captar os sentidos que recobrem a divisão geográfica da cidade pela
BR 163 que, apesar de ligar o município com o sul e o norte do estado e do país, no perímetro
urbano atua como um muro que divide o corpo social em dois grupos. Não é, pois, como
referente físico que a BR 163 interessa a esta pesquisa e sim como referente discursivo.
Interposta entre o “lá” e o “cá”, a rodovia funciona como uma metáfora da divisão interna do
corpo social de Sorriso, como um símbolo do apartheid silencioso que vige entre sulistas e
não-sulistas. Ecos da memória discursiva que afasta o “lá” (o lado dos não-sulistas) e o “cá”
(o lado dos sulistas) podem ser ouvidos frequentemente em variadas cenas de enunciação.
São, portanto, os ecos dessa memória que este estudo focalizará.
Para a consecução desse objetivo geral, buscar-se-á identificar e interpretar, no nível
da materialidade linguística, as palavras-valise que necessariamente indiciam a relação dos
enunciados atuais (a formulação) com o interdiscurso ou a memória discursiva (a
constituição), no tocante à segregação e à discriminação de não-sulistas por sulistas na cidade
de Sorriso. Pretende-se, por meio dessa démarche, compreender como se (re)produzem os
sentidos da divisão, hierarquização, discriminação e segregação, e não os sentidos da
complementariedade e da igualdade entre sulistas e não-sulistas na sociedade sorrisense.
Pretende-se, ainda, delinear a formação discursiva que funciona como sítio desse sentido de
divisão, bem como a formação ideológica correspondente.
Especificamente para este estudo, optou-se, para a constituição do corpus discursivo,
pela combinação de duas vias: a arquivista e a experimental. Mediante pesquisa de arquivo,
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foram selecionados quatro textos jornalísticos da mídia local e estadual nos quais se “ouvem”
discursos preconceituosos, excludentes e segregadores a propósito dos outros que vivem no
“lá” de Sorriso. Pela via experimental, foram realizadas quatro entrevistas (com uma dona de
casa, com alunos do 9º. ano de uma escola particular da cidade, com a assessora de projetos
da secretaria municipal de educação e com um policial militar) para trazer à tona os sentidos
que, embora ainda não estivessem textualizados, já funcionavam no imaginário e na memória
discursiva da população sorrisense. Tanto no caso dos enunciados recortados de textos
buscados em arquivos quanto no caso daqueles recortados de entrevistas realizadas pela
pesquisadora, é a posição-sujeito “sulista” que constitui o foco da análise. Não há no corpus
analisado enunciados que possam ser atribuídos à posição-sujeito “não-sulista”. São, pois,
enunciados em que os de “cá” falam dos de “lá” que constituem o corpus.
Balizam a interpretação dos enunciados, conceitos urdidos no campo da Análise do
Discurso, desenvolvida sob o signo das ideias de Michel Pêcheux (1938-1983), lançadas em
1969, na obra Análise automática do discurso, e consolidadas em Semântica e discurso: uma
crítica à afirmação do óbvio, publicada em 1975, sob a influência da leitura de Aparelhos
ideológicos de estado de Louis Althusser (1970). Retomam-se também autores como Michel
Foucault (1986), Dominique Maingueneau (2011, 2008, 2007), Denise Maldidier (2003), Eni
Orlandi (2012, 2008, 2004, 1999 e 1998), Sírio Possenti (2004), dentre outros autores filiados
à orientação de Pêcheux.
Esta dissertação está organizada em três capítulos.
O primeiro capítulo delineia as balizas teórico-metodológicas nas quais se fundamenta
a análise. Inscrever-se no universo conceitual da Análise de Discurso não significa lançar mão
de todos os seus conceitos, mas sim eleger aqueles que parecem mais virtuosos em relação ao
objeto analisado. Para este estudo, considerou-se necessária a retomada dos seguintes
conceitos: ideologia, discurso, formação ideológica, formação discursiva, interdiscurso,
memória discursiva, enunciado e forma-sujeito. Dedica-se também uma das seções à leitura
do espaço urbano como um espaço simbólico. Além disso, foram revisitados e detalhados os
procedimentos de constituição do corpus, bem como as etapas de análise.
O segundo capítulo, organizado em quatro seções, revisita brevemente a história de
Sorriso. Na primeira seção, retrata-se o município de Sorriso, seu surgimento como agrovila
na década de 70, bem como sua trajetória até a emancipação, em 1986. Na segunda seção, são
apresentados dados sobre economia, produção agrícola, exportação, arrecadação municipal,
índice de desenvolvimento humano que valeram à cidade o título de “Capital Nacional do
Agronegócio”. Na terceira seção, são retomados os modos de colonização no interior de Mato
14

Grosso, para perfilar aquele que deu origem ao município de Sorriso. Por fim, na quarta
seção, trata-se da construção da sociedade sorrisense, focalizando a divisão do corpo social
urbano em sulistas e não-sulistas.
O terceiro capítulo, organizado em três seções, é dedicado à análise do corpus
discursivo, à luz de conceitos da Análise de Discurso revisitados no Capítulo I. A análise
privilegia a interpretação de palavras-valise que funcionam como pontos culminantes da
dependência do enunciado atual com o já-dito, a memória discursiva ou interdiscurso. Na
primeira seção, dividida em cinco subseções, são analisadas os enunciados recortados das
matérias midiáticas. Na segunda, dividida em quatro subseções, são analisados os enunciados
recortados das entrevistas. Nos dois casos, a análise busca mostrar como o conjunto de
enunciados que constituem o corpus se nutrem de um discurso segregador que circula
vigorosamente em meio ao corpo social urbano de Sorriso. Na terceira, faz-se uma síntese das
análises realizadas nas duas seções anteriores.
A conclusão é o espaço-tempo do trabalho dedicado à retomada e à exploração do
vínculo de significação entre discurso e ideologia, mais precisamente entre o discurso
segregador e a ideologia da colonização.
15

Capítulo I

DISPOSITIVO TEÓRICO E DISPOSITIVO ANALÍTICO

De um lado, os fatos reclamam sentidos, de outro, os


sujeitos não podem não interpretar. Eles estão
condenados a significar. (ORLANDI, 2004, p. 25)

Neste capítulo, revisita-se a linha de Análise de Discurso que floresceu em torno da


figura de Michel Pêcheux na conjuntura francesa da década de 1960. O autor retirara da
lixeira da linguística a noção de discurso que havia sido descartado por colocar em cheque o
postulado da imanência e autonomia da língua. A retomada do discurso e, portanto, da
significação como objeto de estudo significou também a retomada do fora da língua, ou seja,
das condições sócio-histórico-ideológicas em que a língua é acionada. Na revisita a essa linha
de Análise de Discurso, reflete-se sobre a necessária relação entre discurso e ideologia, ou
seja, entre formação discursiva e formação ideológica, sobre a interpelação do indivíduo em
sujeito pela ideologia e pelo discurso, sobre o primado do interdiscurso e da memória
discursiva. Ensaia-se, ainda, uma reflexão sobre o espaço urbano como espaço simbólico e
discursivo. E, finalmente, considerando que, na Análise de Discurso, a constituição do corpus,
a descrição e a interpretação não são momentos discretos e lineares no curso da pesquisa,
fecha-se o capítulo com a discussão dos procedimentos metodológicos. Em vista dessa
peculiaridade das pesquisas em Análise de Discurso, optou-se por não separar em capítulos
distintos o dispositivo teórico e o dispositivo analítico.

1. 1 Da constituição do campo da Análise de Discurso

Este estudo é balizado pela Análise de Discurso que se desenvolveu a partir da ideias
de Michel Pêcheux, com a publicação, em 1969, de Análise Automática do Discurso –
AAD69, considerada a obra inaugural desse campo de investigação da linguagem. O estudioso
francês analisa as bases epistemológicas que viriam a dar origem à Análise de Discurso,
enfatizando o papel da linguística com ciência humana. O “corte saussuriano”, ou seja, a
dicotomia língua/fala (langue/parole), tem papel decisivo no que viria a se constituir como
Análise de Discurso, pois, até então, estudar a língua era estudar suas normas em sentido
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prescritivo ou estudar textos em sentido filológico. Com Saussure, passou-se a estudar a


língua como estrutura e sistema. Isso possibilitou delimitar o objeto de estudo da linguística –
a língua – em detrimento da fala. Esse recorte permitiu o desenvolvimento de algumas áreas
da linguística, como a Fonologia, a Morfologia, a Sintaxe, e até mesmo a Lexicologia, mas
deixou a Semântica na sombra.
A Semântica é, praticamente, silenciada no Curso de Linguística Geral (SAUSSURE,
[1916]1975), pois o estudo do sentido certamente extrapolaria o domínio da língua stricto
sensu. Contudo, deixar de fora o sentido é deixar de fora a parte mais significativa da língua.
No uso de uma língua, forma e sentido são inseparáveis como as duas faces de uma moeda. E
a linguística que retrata a forma em desfavor do sentido fornece uma radiografia parcial e
deturpada da língua. Diante dessa lacuna da linguística, Pêcheux ousa enveredar pelo caminho
da Semântica, retomando seu resíduo – a fala – não mais como a ação individual, mas como
uma prática discursiva enraizada em condições sócio-histórico-ideológicas determinadas.
Destarte entre a língua e a fala, está o discurso, que não pode ser analisado sem levar em
conta “um estado definido de condições de produção” (MALDIDIER, 2003, p. 23).
Remexendo o resíduo da linguística estrutural, Pêcheux funda o campo da Análise do
Discurso, ao questionar a imanência de seu objeto, ao menos no que tange à Semântica.
Em 1971, Claudine Haroche, Michel Pêcheux e Paul Henry publicam o artigo “A
Semântica e o Corte Saussuriano: Língua, Linguagem, Discurso”. Saussure propõe o princípio
da subordinação da significação ao valor. A significação é de ordem da fala e do sujeito, ao
passo que o valor é imanente a cada sistema linguístico. Essa posição traz à tona a questão da
tradução entre línguas e dentro de uma mesma língua, pois as palavras não significam do
mesmo modo em uma esfera de comunicação e outra. Os autores reconhecem que a dicotomia
saussuriana foi fundamental para a constituição da linguística como ciência, mas, no tocante
ao sentido, ela não levou a descobertas significativas. Se, por um lado, o princípio da
imanência da língua se apresentava como um empecilho ao desenvolvimento da Semântica,
por outro, não se tratava apenas de incorporar uma noção de contexto como propunha a
Sociolinguística. Na Análise de Discurso, “o laço que une as significações de um texto às
suas condições sócio-históricas não é meramente secundário, mas constitutivo das próprias
significações” (HAROCHE, PÊCHEUX e HENRY, [1971] 2007, p. 20).
É, pois, recorrendo à noção de ideologia, tal como definida por Althusser
([1970]1985), que os autores buscam tratar da significação como um aspecto da língua que
necessariamente encarna o fora da língua. Ao ser chamado a significar/interpretar, o sujeito
não o faz livremente. Ele é envolvido por uma trama de significações historicamente
17

determinadas que fundam a interpretação. Nos termos de Zoppi-Fontana (1998, p.51), a


ideologia é “uma injunção a interpretar os sentidos numa certa direção, determinada pela
relação da linguagem com a história”.

1. 2 Da ideologia jurídica e interpelação do indivíduo como sujeito de direito

No tocante à ideologia, Pêcheux segue os passos de Althusser ([1970] 1985). O autor


postula que a ideologia: 1) representa a relação imaginária de indivíduos com suas reais
condições de existência; 2) têm uma existência material, ou seja, existe sob a forma de
práticas; 3) interpela os indivíduos em sujeitos.
A primeira postulação enfatiza o processo de produção de formas simbólicas na
mediação da relação dos homens com a realidade concreta. Não se interage diretamente com o
vivido, com a coisa mesma, livre de significados prévios: a realidade só significa aos homens
ao ser simbolizada, ou seja, ideologizada.
A segunda postulação assinala o caráter prático das ideologias, contra o idealismo que
lhe atribui uma existência espiritual, uma suposta imaterialidade. As ideologias não são meros
fenômenos psicológicos subjetivos. A ideologia jurídica, por exemplo, encontra-se
materializada nas relações sociais de produção entabuladas pelos indivíduos que vivem sob a
égide do capitalismo. Althusser é enfático ao dizer que as ideologias dão lugar a práticas
sociais, regionalizadas de acordo com os Aparelhos Ideológicos de Estado (AIEs) nos quais
ocorram. É, pois, nessa vereda aberta por ele que os analistas de discurso ensaiarão a leitura
das práticas discursivas como uma forma de existência material das práticas ideológicas.
A terceira postulação solapa a concepção idealista de sujeito como causa sui. A ideia
da total indeterminação do sujeito é vista como um efeito ideológico elementar de uma ordem
antropocêntrica que, de tão antiga, já se apresenta naturalizada/eternizada. Em meio a essa
ordem, o termo sujeito mudou completamente de sentido, passando de “sujeito a” a “sujeito
de”, o que implica o esquecimento da sua determinação pela ideologia jurídica.
O dicionarista francês Paul Robert (1966, p. 397-399) registra, com relação ao verbete
“sujeito”, os dois sentidos: sujeito a – aquele que está na dependência ou deve obediência a
uma instância superior, vigorando entre os séculos XII e XVI; sujeito de – aquele que é a sede
do pensamento, do conhecimento e da linguagem, irrompendo a partir do século XVII e
tornando-se o sentido hegemônico a partir do século XVIII, com Immanuel Kant que é
considerado o Copérnico da filosofia, por ter invertido o princípio da sabedoria clássica
herdada dos gregos de que há uma necessária harmonia, um acordo final entre sujeito e
18

objeto. Deleuze (1983, p. 21) afirma que a revolução copernicana de Kant ensina que “somos
nós que comandamos”. Depois de Kant, o segundo sentido tende a substituir o primeiro não
apenas na filosofia, mas também nas ciências humanas, nas artes, na política, e,
principalmente, no direito etc.
Essa inversão de sentido inscreve-se na mudança da ordem econômica feudal em
direção ao capitalismo, encetada pelo surgimento de uma nova classe social – a burguesia. É
nesse novo tipo de sociedade que se universaliza a ideologia jurídica, nucleada pela categoria
do sujeito de direito. Nas sociedades erigidas sobre a escravatura e a servidão, não era
necessário dizer que “todos são iguais perante a lei”, que todos “são sujeitos de direito”, pois
a desigualdade era tida como legítima. É próprio da ideologia jurídica a evidência de que
somos sempre já sujeitos. Sobre isso afirma Batista (2014) que:

[...] a constituição dos indivíduos em sujeitos de direito não se dá por meio de procedimentos
de interpelação propriamente subjetivos, mas materiais. Ninguém tem sua individualidade
formatada para ser sujeito de direito [...], mas esta condição lhe é atribuída
independentemente de qualquer subjetividade psicológica pelo seu próprio registro de
nascimento. Não é possível existir na sociedade capitalista sem a condição de sujeito de
direito. Ela é mediação necessária da sociabilidade. Fetos nascituros, bebês sem
individualidade psíquica formada, indivíduos em estado vegetativo e pessoas com
deficiências intelectuais severas são todos sujeitos de direito, ainda que, eventualmente, suas
condições não os tornem sujeitos interpeláveis por outros Aparelhos Ideológicos de Estado
(BATISTA, 2014, p. 13)

Sob o signo do capitalismo, a universalização da troca mercantil, incluindo a força de


trabalho transformada em mercadoria, supõe “a universalização da condição de sujeito de
direito como mediação da participação nas relações sociais de produção” (BATISTA, 2014, p.
13). Destarte, o indivíduo é considerado um sujeito de direito desde o nascimento ou mesmo
antes dele. A interpelação ideológica do indivíduo em sujeito de direito é “a condição de
possibilidade de que cada indivíduo mantenha relações sociais de produção no seio do
capitalismo” (BATISTA, 2014, p. 13). Afinal, a universalização da troca mercantil depende
de um sujeito que seja livre para realizar a liberdade da mercadoria em sua plenitude. A
globalização é uma prova cabal da produtividade da ideologia jurídica no mundo
contemporâneo.
Além do Aparelho Ideológico de Estado jurídico, que interpela o indivíduo em sujeito
de direito, Althusser ([1970] 1985, p. 68) menciona outros AIEs – o religioso, o escolar, o
familiar, o político, o sindical, o de informação, o cultural. O autor distingue os Aparelhos
Ideológicos de Estado (AIEs) do Aparelho Estado (AE) que ele passa a designar de Aparelho
Repressivo do Estado (ARE). Segundo Althusser, enquanto o ARE, constituído pelo governo,
19

administração, polícia, tribunais, prisões etc., funciona pela violência, os AIEs funcionam por
meio da ideologia. Todos os AIEs “concorrem para um mesmo fim: a reprodução das relações
de produção, isto é, das relações de exploração capitalista” (ALTHUSSER, [1970] 1985, p.
78). Os AIEs são o lugar da luta de classes e, neles, o poder não impera de modo unilateral,
pois as antigas classes dominantes não abandonam prontamente suas posições para dar lugar
às novas. Se, por um lado, os AIEs são a instância de realização da ideologia dominante, por
outro, são o espaço em que as classes dominadas com ela se confrontam.
Althusser ilustra o processo de interpelação dos indivíduos em sujeitos nos AIEs,
recorrendo ao exemplo da ideologia religiosa:

A estrutura especular duplicada da ideologia garante ao mesmo tempo: 1. a interpelação dos


“indivíduos” como sujeitos; 2. sua submissão ao Sujeito; 3. o reconhecimento mútuo entre os
sujeitos e o Sujeito, entre os próprios sujeitos e, finalmente, o reconhecimento de cada
sujeito por si mesmo; 4. a garantia absoluta de que tudo está bem assim, e sob a condição de
que, se os sujeitos reconhecerem o que são e se conduzirem de acordo, tudo irá bem: “assim
seja”. (ALTHUSSER, [1970] 1985, p. 102 e 103)

Comentando essa estrutura especular de funcionamento da ideologia nos AIEs, o autor


destaca a ambiguidade do termo sujeito nos dois primeiros itens de seu sistema quádruplo. No
item 1, o sujeito se refere a “uma subjetividade livre: um centro de iniciativas, autor e
responsável por seus atos” (p. 103), ao passo que no item 2, o sujeito é “um ser subjugado,
submetido a uma autoridade superior, desprovido de liberdade, a não ser a de livremente
aceitar a sua submissão” (p. 103 e 104). O paradoxo do processo de interpelação é assim
explicitado por Althusser:

O indivíduo é interpelado como sujeito (livre) para livremente submeter-se às ordens do


Sujeito, para aceitar, portanto (livremente) sua submissão, para que „ele realize por si
mesmo‟ os gestos e atos de sua submissão. Os sujeitos se constituem pela sua sujeição. Por
isso é que „caminham por si mesmos‟ (ALTHUSSER, [1970] 1985, p. 104) (grifos do autor)

Sobre a ambivalência do sujeito no escopo de formação sócio-histórica capitalista, diz


Orlandi (2006):

O sujeito moderno é ao mesmo tempo livre e submisso, determinado pela exterioridade e


determinador do que diz: essa é a condição de sua responsabilidade (sujeito jurídico, sujeito
a direitos e deveres) e de sua coerência (não-contradição) que lhe garantem, em conjunto,
sua impressão de unidade e controle de sua vontade, não só dos outros mas até de si mesmo,
bastando para isso ter poder ou consciência. Essa é sua ilusão. O que chamamos ilusão
subjetiva do sujeito e que se acompanha da ilusão referencial (sobre a evidência do sentido)
(ORLANDI, 2006, p.20)
20

Em resumo, é estando sujeito à ideologia jurídica, que o indivíduo age como um


sujeito de. Se ele é um bom sujeito, ele reconhece/desconhece esse processo de interpelação e
caminha por si mesmo, como se inteiramente livre de qualquer espécie de sujeição. Porém, se
é um mau sujeito, desvela o funcionamento do processo de interpelação que o faz pensar que
ele caminha por si mesmo. Nesse caso, ele caminha por si mesmo geralmente acuado pela
violência do ARE.
Althusser trata das formações ideológicas em correlação com as formações sociais, ao
que os analistas de discurso acrescentam as formações discursivas. Num primeiro momento, a
Análise de Discurso adotou uma concepção de ideologia como mascaramento/falseamento da
realidade social, em oposição à visão “verdadeira” ou “científica”. Contudo, esse modo de
conceber a ideologia foi superado pelos analistas de discurso que passaram a vê-la como
modos de significar a realidade que vigoram e circulam por meio de práticas discursivas numa
determinada formação social em um determinado momento histórico. Hoje é consensual na
Análise de Discurso que não há um discurso ideológico, mas que todos o são. Não se pode
estar fora da ideologia, estando na linguagem. Porém, a ideologia não age sobre o corpo social
como uma máquina lógica que produz autômatos. A ideologia existe sempre no plural, razão
pela qual as formações sociais se caracterizarem pela fricção entre as diferentes posições de
sujeito. No interior dos AIEs, as formações ideológicas encontram-se enredadas num jogo
desigual e contraditório, no qual a ideologia dominante está sujeita a falhas que tornam
possível a transformação.

1. 3 Do discurso, formação discursiva e forma-sujeito.

Na perspectiva discursiva, as palavras não possuem significações inerentes; elas


significam no interior de formações discursivas que representam, na linguagem, as formações
ideológicas engendradas em condições sócio-históricas dadas. Tal concepção seria
impensável no escopo da semântica estruturalista que se funda no postulado de um léxico
formado de signos, reduzidos a formas imanentes à língua. Apesar de a dicotomia língua/fala
ter representado grande avanço nos estudos linguísticos, ela não permitiu à Semântica
ultrapassar o nível gramatical. Quando Haroche, Pêcheux e Henry, ([1971] 2007) afirmam
que a Semântica supõe uma mudança de terreno, o que eles querem dizer é que, para
estabelecer uma nova maneira de compreender os processos discursivos, é necessário lutar
contra o empirismo, que tinha o indivíduo no centro da problemática subjetivista, bem como
contra o formalismo, que dissocia a língua – objeto da linguística – da linguagem. Das
21

revisões da Semântica estrutural, pelo viés do materialismo histórico, nasce a Semântica


discursiva como “a análise científica dos processos característicos de uma formação
discursiva, que leva em conta o elo que liga esses processos às condições nas quais o discurso
é produzido (às posições às quais ele deve ser referido)” (HAROCHE, PÊCHEUX e HENRY,
2007, p. 27). É na obra Semântica e Discurso – Uma Crítica à Afirmação do Óbvio (em
francês, Les Vérités de La Palice), publicada em 1975, que Pêcheux elabora com mais
consistência noções fundamentais à Análise de Discurso, como: discurso, formação
discursiva, forma-sujeito, interdiscurso e memória discursiva.
Entre a língua, como um sistema universal compartilhado por uma comunidade de
falantes, e a fala, como ato individual, Pêcheux visualiza uma região da linguagem que
constitui uma instância particular: o discurso. Dessa forma, tem-se o conceito de discurso,
compreendido como uma espécie de contrato linguístico particular em meio ao universal (a
língua) e ao individual (a fala), ou seja, o uso particular da língua por sujeitos sócio-
historicamente posicionados. Parte do resíduo descartado pela linguística passa, assim, a ser o
objeto da Análise de Discurso, uma vez concebido como produto não de um sujeito em plena
liberdade, mas de um sujeito que assume determinadas posições ideológicas numa dada
formação sócio-histórica. É a compreensão do funcionamento do sujeito do discurso como um
sujeito à ideologia jurídica que torna possível o desenvolvimento da Análise de Discurso.
Não se deve confundir discurso com texto. A Análise de Discurso não se interessa
pelo estudo do texto em si e sim como exemplar de discursos. Nessa perspectiva, o texto
remete-se a uma ou mais formações discursivas que o regulam, e que, por sua vez, estão
ligada a formações ideológicas. “É nessa remissão à ideologia que encontramos o que é
sistemático, regular, em relação ao funcionamento do discurso” (ORLANDI, 1998, p. 10-11).
Abandonando a noção de discurso como máquina estrutural fechada (PÊCHEUX,
[1969] 1993), adotada na AAD69, Pêcheux (1975) inspira-se em Foucault ([1969]1986, p.
132), para quem o discurso é “um conjunto de enunciados, na medida em que se apoiem na
mesma formação discursiva”. Foucault (1986, p. 133) afirma ainda que “o discurso é
constituído de um número limitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto
de condições de existência”. A esse autor, mais do que analisar o discurso como objeto
linguístico, interessa analisar o que condiciona o aparecimento de um enunciado, o que leva à
irrupção de uma prática discursiva e não outra em determinado momento da história de uma
formação social. As práticas discursivas são, pois, “um conjunto de regras anônimas,
históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e
22

para uma determinada área social, econômica, geográfica ou linguística, as condições de


exercício da função enunciativa” (FOUCAULT, 1986, p.133).
Conforme Foucault ([1969] 1986), a análise de uma formação discursiva se faz com
base na identificação de duas características: a regularidade e a dispersão:

Tal análise não tentaria isolar, para descrever sua estrutura interna, pequenas ilhas de
coerência; não se disporia a suspeitar e trazer à luz os conflitos latentes; mas estudaria
formas de repartição (...) descreveria sistemas de dispersão.
No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados,
semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de
enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade
(uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos, por
convenção, que se trata de formação discursiva – evitando, assim, palavras demasiado
carregadas de condições e consequências, inadequadas, aliás, para designar
semelhante dispersão, tais como “ciência”, ou “ideologia”, ou “teoria”, ou “domínio
de objetividade” (FOUCAULT, [1969] 1986, p.42 e 43). (grifos da pesquisadora)

Haroche, Pêcheux e Henry ([1971] 2007) empregam o termo foucaultiano formação


discursiva já no artigo “A semântica e o corte saussuriano”, mas Pêcheux o retoma na obra de
1975, Semântica e Discurso – Uma Crítica à Afirmação do Óbvio, explorando-o mais
densamente em convergência com as noções de ideologia e luta de classes e banhando-a na
bacia semântica do materialismo histórico professado por Althusser. O que ele, efetivamente,
aproveita de Foucault é a concepção de discurso como prática discursiva, afinal Althusser
insistia que as ideologias não são ideias, mas sim práticas. Destarte, Pêcheux se permite uma
tradução althusseriana da noção de formação discursiva, enunciada nos seguintes termos:

[...]o sentido de uma palavra, de uma expressão, de uma proposição, não existe em si
mesmo (isto é, em sua relação transparente com a literalidade do significante), mas, ao
contrário, é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo
sócio-histórico no qual as palavras, expressões e proposições são produzidas (isto é,
reproduzidas). Poderíamos resumir essa tese dizendo: as palavras, expressões e
proposições mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que as
empregam, o que quer dizer que elas adquirem seus sentidos em referência a essas
posições, isto é, em referência às formações ideológicas, isto é, às formações
discursivas nas quais essas posições se inscrevem. Chamaremos então formação
discursiva aquilo que, numa formação ideológica dada, isto é, a partir de uma posição
dada numa conjuntura dada, determinada pelo estado da luta de classes, determina o
que pode e deve ser dito (articulado sob a forma de uma arenga, de um sermão, de um
panfleto, de uma exposição, de um programa, etc.).
Isso equivale a afirmar que as palavras, expressões, proposições, etc., recebem seu
sentido da formação discursiva na qual são produzidos: diremos que os indivíduos são
interpelados em sujeitos-falantes (em sujeitos de seu discurso) pelas formações
23

discursivas que representam “na linguagem” as formações ideológicas


correspondentes. (PÊCHEUX, [1975] 1988, p. 160 e 161).

Como se evidencia na citação anterior, formação discursiva, formação ideológica e


formação social encontram-se imbricadas na postulação da semântica discursiva, tanto na
produção dos sentidos quanto na produção dos sujeitos que significam/interpretam o mundo.
A formação discursiva é o lugar de constituição do sentido e não a língua (o signo, a sentença
etc.) ou o sujeito. Uma mesma palavra pode significar diferentemente quando passa de uma
formação discursiva para outra (efeito de antonímia/polissemia), ao passo que palavras
diferentes podem ter sentido semelhante quando ocorrem na mesma formação discursiva
(efeito de sinonímia/paráfrase).
Pêcheux (1975) inscreve sua teoria materialista do discurso na problemática das
condições ideológicas de reprodução/transformação das relações de produção, recorrendo à
categoria da contradição. Segundo Granjeiro (2007, p. 39), Pêcheux opera com a categoria
marxista da contradição dos “dois mundos em um só” ou, numa formulação leniniana, do “um
que se divide em dois”. A ideologia só se realiza sob a forma da contradição, sempre
colocando em jogo a unidade e a luta dos contrários. Numa formação social dividida em
classes, as classes não preexistem à luta. Só há classes em luta. A luta atravessa o modo de
produção em seu conjunto e, no campo da ideologia, atravessa os Aparelhos Ideológicos de
Estado. Estendendo-se à formação discursiva, a categoria da contradição implica que

[...] a formação discursiva é uma unidade dividida, a qual, embora seja passível de
descrição por suas regras de formação, por suas regularidades, não é una, mas
heterogênea, não de forma acidental, mas constitutiva. Assim, no interior de uma
formação discursiva coabitam vozes dissonantes que se cruzam, entrecruzam
dialogam, opõem-se, aproximam-se, divergem, existindo, pois, espaço para a
divergência, para as diferenças, pois uma formação discursiva é “constitutivamente
frequentada por seu outro” (GRANJEIRO, 2007, p. 39).

A instalação do outro no coração da formação discursiva solapa não apenas a sua


suposta homogeneidade, como também a do sujeito que fala interpelado por ela. Pêcheux
afasta-se do cogito cartesiano, do sujeito autônomo para pensar, conhecer e dizer. Adota a
concepção psicanalítica do sujeito clivado, cindido, descentrado. Atravessado pelo
inconsciente e pela ideologia, o sujeito reproduz o discurso já existente, apesar de ter a ilusão
de inaugurar seu discurso, pois se acredita livre e sempre consciente. Contudo, é de modo
inconsciente que a ideologia interpela o sujeito, manifestando-se por meio da linguagem.
24

Como afirma Granjeiro (2007, p. 38), “O sujeito não é mais um je tout-puissant2, que assume
os enunciados. São, inversamente, os enunciados que se impõe a ele em função das posições
que ocupa”.
A forma-sujeito que, na postulação de Althusser (1985), é constituída pelas ideologias
engendradas sob o signo da ordem antropocêntrica, sobre a qual se erigiram, na idade
moderna, o direito, a filosofia idealista, a estética romântica, a ética, a economia e a política
neoliberal, o capitalismo, a psicologia, a pragmática, dentre tantos outros saberes e práticas
que regem a vida do homem, figura como um sujeito responsável pelo que diz, como um
sujeito livre, autônomo e criativo para dizer o que pensa/deseja, como um sujeito que se auto-
governa e controla seu dizer, como um sujeito consciente que sabe o que diz, como um sujeito
uno, homogêneo e coerente. Contudo, para fazer sentido, esse sujeito, qualquer sujeito, não
pode não perder-se no Outro, não pode não fazer ecoar os sentidos que povoam a memória
discursiva. Diz propriamente Pêcheux (1975, p. 153), “Como se eu que falo estivesse no lugar
onde alguém me escuta”.
Nos termos de Cox (1989, p. 139), “sob a máscara do „eu falo‟, vive o Outro a me
fazer falar sem que eu queira/saiba/fale. Sob a evidência do „eu falo‟, age ininterruptamente o
processo de interpelação ideológica e discursiva”. Nenhum outro enunciado reflete tão
propriamente a ideia do sujeito cindido quanto aquele de Rimbaud (1972, p. 248) C’est faux
de dire Je pense: on devrait dire on me pense – pardon du jeu de mot. Je est um autre.3 Nesse
enunciado a quebra sintática entre je e est (ou seja, a não concordância verbal entre o sujeito
pronominal je e o núcleo do predicado est) é a expressão material de uma desconstrução
violenta do cogito cartesiano que leva a uma afirmação paradoxal: a identidade é a alteridade
(COX, 1989, p. 103). Na oração on me pense, o sujeito/agente je se transforma em
objeto/paciente me. O sujeito é o on, um pronome indefinido, que evoca “uma força anônima
que escapa à condição de pessoa, quer seja o texto do inconsciente, a linguagem, o corpo
social do discurso, o texto da cultura, que me fala, que fala através de mim” (FELMAN, 1978,
p. 104). Trazido para a Análise de discurso, esse on seria o equivalente das formações
discursivo-ideológicas que interpelam o indivíduo em sujeito.
Para dar conta da contradição vivida pelo sujeito entre ser determinado pelas
formações discursivo-ideológicas (estar/ser sujeito a) e ter a ilusão de ser a fonte do sentido

2
A expressão francesa „je tout-puissant‟ pode ser traduzida como „eu todo-poderoso‟ que, segundo o idealismo,
era tido como o senhor do pensamento, do conhecimento e da expressão. Esse „eu todo-poderoso‟ foi destronado,
pelo materialismo, da posição central que ocupava, para ser concebido como determinado pelas posições que
ocupa.
3
“É falso dizer Eu penso: deveríamos dizer pensam-me – perdão pelo jogo de palavras. Eu é um outro”.
(RIMBAUD, 1972, p. 248).
25

(ser sujeito de), Pêcheux (1988, p. 173-185) propõe a noção de esquecimento nº. 1 e nº. 2 . O
esquecimento não deve ser entendido como perda de algo sabido, mas como acobertamento
da causa do sujeito no próprio interior de seu efeito. O esquecimento nº. 1 é de ordem
ideológica, já o esquecimento nº. 2 é de ordem enunciativa. Pelo esquecimento nº. 1, temos a
ilusão de ser a fonte dos nossos enunciados e produtores de sentidos, quando na verdade, só
fazemos repetir sentidos já existentes. Pelo esquecimento nº. 2, somos tomados por uma
ilusão referencial que “produz em nós a impressão da realidade do pensamento [...] e nos faz
acreditar que há uma relação direta entre o pensamento, a linguagem e o mundo, de tal modo
que pensamos que o que dizemos só pode ser dito com aquelas palavras e não outras, que só
pode ser assim.” (ORLANDI, 1999, p.35). É preciso deixar claro que o esquecimento e a
ilusão são constitutivos do sujeito e dos sentidos: “As ilusões não são „defeitos‟, são uma
necessidade para que a linguagem funcione nos sujeitos e na produção de sentidos”
(ORLANDI, 1999, p.36).

1. 4 Do interdiscurso e memória discursiva

Além de se refletir fortemente sobre a noção de sujeito, o postulado de que uma


formação discursiva é atravessada por outras com as quais estabelece relação de aliança, de
subordinação ou de antagonismo indicia já a formulação da noção de interdiscurso. Maldidier
(2003, p. 51) localiza o embrião do conceito de interdiscurso ainda na obra AAD 69, ou seja,
nos primeiros escritos de Pêcheux, na postulação da “hipótese da relação do discurso ao „já
dito‟, „já ouvido‟”, assim como “na reflexão de Paul Henry sobre o pré-construído”. Contudo,
é em Pêcheux (1975, p. 146), na formulação da segunda tese, que a noção se patenteia,
primeiro sob a designação de “todo complexo com dominante das formações discursivas
intrincado no complexo das formações ideológicas” e, depois, sob a designação mesma de
interdiscurso. Se a primeira tese afirma que a formação discursiva é a matriz da constituição
do sentido, a segunda afirmará que “Toda formação discursiva dissimula, pela transparência
do sentido que nela se constitui, sua dependência com respeito ao todo complexo com
dominante das formações discursivas intrincado no complexo de formações ideológicas.”
(PÊCHEUX, [1975] 1988, p. 162). É, portanto, ao “todo complexo com dominante das
formações discursivas” que Pêcheux atribui o termo interdiscurso. O interdiscurso, como o
complexo das formações ideológicas, está também sujeito à lei de desigualdade-contradição-
subordinação.
26

O interdiscurso, por estar atravessado pelas contradições inerentes ao complexo das


formações ideológicas, corrobora o princípio do sujeito clivado e solapa a ideia de uma
determinação monolítica pela formação discursiva que funcionaria como uma espécie de
camisa-de-força; há um equilíbrio instável entre a retomada e a mudança de sentidos, entre
memória e atualidade. Paralelamente à noção de interdiscurso, Pêcheux ([1975] 1988, p. 167).
propõe a noção de intradiscurso, tido como “o fio de discurso” atribuído a um sujeito. Ainda
que, nessa posição, o sujeito se imagine/se porte como a fonte do que diz/significa, é sempre
atravessado pelo interdiscurso. Assim, o intradiscurso é o lugar em que a forma-sujeito tende
a absorver-esquecer a presença constitutiva do interdiscurso: “A forma-sujeito do discurso, na
qual coexistem, indissociavelmente, interpelação, identificação e produção de sentido, realiza
o „nonsense‟ da produção do sujeito como „causa de si‟ sob a forma de evidência primeira”
(PÊCHEUX, [1975] 1988, p. 295). Por isso, a segunda tese de Pêcheux trata do processo de
dissimulação que encobre a determinação do sentido pela formação discursiva.
Permeado pelo jogo desigual-contraditório de sentidos que se enredam no
interdiscurso, todo discurso, por si só, é “trabalho do sentido sobre o sentido, tomados no
relançar indefinido das interpretações”; “é índice potencial de uma agitação nas filiações
sócio-históricas de identificação” (PÊCHEUX, 1990, p. 51 e 57); é como, tão propriamente
condensou Maldidier (2003) no título da biografia de Michel Pêcheux, “inquietação”.
A noção de interdiscurso se tornou nuclear à Análise de Discurso, ocupando o lugar
antes ocupado pela noção de formação discursiva. Maingueneau (2008) desenvolve sua teoria
do discurso a partir de sete hipóteses. Não sem razão a primeira delas afirma o primado do
interdiscurso sobre o discurso. Assim, na gênese de um discurso sempre estão outros
discursos. O discurso não surge do vazio, mas de um espaço de trocas entre vários discursos.
Embora a noção de interdiscurso fosse nuclear à Análise de Discurso, autor a via como pouco
operacional no plano teórico-metodológico. Por isso, a desmembra em três dimensões, indo
da mais geral para a mais específica: universo discursivo, campo discursivo e espaço
discursivo, assim definidos:

UNIVERSO DISCURSIVO: o conjunto de formações discursivas de todos os tipos


que interagem numa conjuntura dada. (...) constitui necessariamente um conjunto
finito, mesmo que não possa ser apreendido em sua globalidade. É de pouca utilidade
para o analista e define apenas uma extensão máxima, o horizonte a partir do qual
serão construídos domínios suscetíveis de ser estudados, os „campos
discursivos‟(2008, p. 33).
27

CAMPO DISCURSIVO: um conjunto de formações discursivas que se encontram em


concorrência, delimitando-se reciprocamente em uma região determinada do Universo
discursivo. A relação de concorrência deve ser entendida de maneira mais ampla, pois
inclui “tanto o confronto aberto quanto a aliança, a neutralidade aparente etc...entre
discursos que possuem a mesma função social e divergem sobre o modo pelo qual ela
deve ser preenchida (MAINGUENEAU, 2008, p. 34).

ESPAÇO DISCURSIVO: Subconjuntos de formações discursivas que o analista,


diante do seu propósito, julga relevante por em relação. Tais restrições são resultado
direto de hipóteses fundadas sobre um conhecimento de textos e um saber histórico,
que serão em seguida confirmados ou infirmados quando a pesquisa progredir
(MAIINGUENEAU, 2008, p.35).

Na proposição de Maingueneau (2008), passa-se do universo discursivo, que é


inapreensível pela sua abertura e amplitude, para o campo discursivo, onde os discursos
encontram-se em relação uns com os outros, e desse para o espaço discursivo. E para passar
do „campo‟ ao „espaço‟ discursivo, mediante o pressuposto de que o interdiscurso
necessariamente está presente no intradiscurso, o analista recorre a seu conhecimento de
textos e saber histórico, sobre prováveis trocas, sobre prováveis enredamentos de discursos na
constituição de um discurso. Quer dizer, a definição dos componentes dos espaços discursivos
é variável e resulta dos recortes efetuados pelo analista; um espaço discursivo não se encontra
posto e à disposição de quem queira estudá-lo, mas é construído pelo olhar do analista. Assim,
ao definir o espaço discursivo, o analista conjetura algumas hipóteses de um discurso „já-ali‟
no intuito de reafirmá-las ou refutá-las.
Esmiuçando a noção de espaço discursivo, Maingueneau (2008) refere-se, numa
visada cronológica, aos discursos protagonistas como discurso primeiro e discurso segundo.
Pode-se pensar que só o discurso primeiro funcione como o Outro do discurso segundo, numa
relação dissimétrica. Contudo, essa possibilidade não cobre todas as formas de relação entre
os discursos que compõem o espaço discursivo. O discurso segundo nem sempre fere
mortalmente o discurso primeiro; ele pode sobreviver. Desse modo, no espaço discursivo, a
relação entre os discursos pode ser dissimétrica (um discurso ocupa o lugar do outro) ou
mesmo simétrica (os discursos interagem conflituosamente, em pé de igualdade, cada um
representando o seu Outro). No tocante à gênese dos discursos, pode-se falar para o discurso
segundo de uma fase de constituição, em que a presença do Outro é ostensiva, e de uma fase
de conservação, em que a presença do Outro, embora não se dissipe totalmente, recua para a
periferia, podendo cair no esquecimento, a não ser que recuperado deliberadamente por
pesquisa.
28

Em síntese, na primeira hipótese, Maingueneau (2008) afirma que os discursos não se


constituem independentemente uns dos outros, antes, nascem de um interdiscurso,
descentrado do eu e habitado pelo „Outro‟. Já a segunda hipótese trata do interdiscurso como
polêmica e da polêmica como interincompreensão. Afinal, no espaço discursivo, o
interdiscurso, como rede de interação semântica, significa, sobremaneira, interincompreensão.
Enunciar a partir de uma dada formação discursiva significa, a um só tempo, compreender e
reiterar os sentidos dessa formação e incompreender e recusar os enunciados do Outro, uma
vez que todo discurso é constituído por uma grade semântica formada por semas positivos
(reivindicados) e por semas negativos (rejeitados). Dessa maneira, assumir uma dada posição
discursiva significa necessariamente interpretar/traduzir os enunciados do Outro por meio dos
semas negativos, ou seja, por meio de simulacro.
Traduzir, aqui, não significa verter de uma língua a outra, ou de uma linguagem a
outra, mas de uma formação discursiva a outra, pois, dentro de uma mesma língua, há zonas
de interincompreensão recíproca. Maingueneau (2008) chama de discurso-agente aquele que
realiza a tradução e de discurso-paciente aquele que é alvo da tradução. Todavia, não se deve
entender polêmica como controvérsia violenta, mas como a dupla interincompreensão que se
faz ouvir num espaço discursivo. Para assegurar sua hegemonia frente ao discurso opositor, o
enunciador interage com o outro por meio de simulacro. Busca “desqualificar o adversário
mostrando que ele viola as regras do jogo (mentindo, produzindo citações inexatas,
informações errôneas, sendo incompetente, pouco inteligente, etc...)”. Destarte, “polemizar é,
sobretudo, apanhar publicamente em erro, colocar o adversário em situação de infração em
relação a uma Lei que se impõe como incontestável” (MAINGUENEAU, 2008, p.110).
Em resposta à crítica de que a compreensão da polêmica como constitutiva do
discurso, provocaria um esvaziamento de seu sentido, Maingueneau (2008, p. 107) propõe
uma distinção entre um nível dialógico – o da interação/heterogeneidade constitutiva – e um
nível polêmico – o da interação/heterogeneidade mostrada, mais e melhor dizendo, o da
citação. Ao polemizar, ou seja, ao citar o discurso-paciente, mediante “fragmentos
localizáveis”, engana-se quem pensa estar incorporando o real do discurso do Outro ao
discurso do Mesmo, pois, efetivamente, só faz incorporar um simulacro dele. Além disso, não
é meramente o significado do fragmento citado que é alvo de simulacro, mas todos os
elementos da discursividade que compõem o que ele chama de semântica global, a terceira
hipótese do Gênese dos discursos.
A semântica global, como um sistema de restrições, regula todos os planos e
elementos da discursividade: intertextualidade, o vocabulário, os temas, o estatuto do
29

enunciador e do destinatário, a dêixis enunciativa, o modo de enunciação e a coesão. Para


trabalhar com esse sistema de restrições, o analista deve saber reconhecer as regras de dizer
de cada discurso na análise em questão, visto que “ao lado dessas restrições compartilhadas
pelo diversos membros de um campo, há também o passado específico que cada discurso
particular constrói para si, atribuindo-se certas filiações e recusando outras”
(MAINGUENEAU, 2008, p.78).
No tocante à intertextualidade, o autor afirma que ela pode ser interna quando os dois
discursos não divergem quanto à construção de seus passados textuais, isto é, comungam dos
mesmos dizeres, embora se tratem de discursos oponentes. Dessa forma, a intertextualidade
ocorre no interior do campo discursivo. Já na intertextualidade externa, o discurso traz para
seu interior, filiações pertencentes a um campo diferente, seja por meio de citações ou não
(MAINGUENEAU, 2008, p. 78).
No caso do vocabulário, considerar a significação de uma palavra de forma estanque
não seria condizente com a análise do discurso, pois, como já afirmado anteriormente, as
palavras mudam de significação quando passam de uma formação discursiva a outra
(HAROCHE, HENRY, PÊCHEUX, 2007, p.26). O que Maingueneau (2008) propõe é
considerar o vocábulo dentro de um conjunto textual, observando o sistema de restrições
existentes, pois uma palavra pode assumir uma significação específica quando utilizada em
determinado discurso.
A respeito do tema, Maingueneau (2008, p. 82) afirma que “como no caso do
vocabulário, o importante não é o tema, mas seu tratamento semântico”. O teórico ainda
ressalta que discursos antagonistas, embora tratem do mesmo assunto, não partilham do
mesmo tema. De acordo com o autor, os temas são divididos em impostos e específicos. Os
temas impostos, por sua vez, dividem–se em compatíveis e incompatíveis. Os temas impostos
fazem parte, necessariamente, da competência das formações discursivas de um campo, no
entanto, isso não assegura que sejam tratados de maneira padrão entre as formações
discursivas, podendo receber mais ou menos ênfase ao serem abordados. Os temas específicos
são os que têm um laço semântico privilegiado, são prediletos no discurso, pois como indica o
nome, sua especificidade se deve ao fato de que estão presentes nos discursos de um mesmo
campo discursivo (MAINGUENEAU, 2008, p. 81-87).
O estatuto do enunciador e do destinatário interliga-se com a competência discursiva,
pois “cada discurso define o estatuto que o enunciador deve se atribuir e o que deve atribuir a
seu destinatário para legitimar seu dizer” (MAINGUENEAU, 2008, p. 87). O discurso
apresentará peculiaridades compatíveis com a competência discursiva de seu enunciador para
30

que autorize seu dizer frente a seu destinatário, que participa da constituição do discurso por
meio do jogo das imagens.
Ao se referir à dêixis enunciativa, Maingueneau (2008) a diferencia da dêixis
linguística que corresponde à localização espacial e temporal no sentido literal. Para o teórico,
“essa dêixis, em sua dupla modalidade espacial e temporal, define de fato uma instância de
enunciação legítima, delimita a cena e a cronologia que o discurso constrói para autorizar sua
própria enunciação” (MAINGUENEAU, 2008, p.89). Não se trata da data tampouco do local
geográfico da enunciação em si, e sim de tempo e espaço ideológicos e históricos, conforme
as restrições da formação discursiva.
Para Maingueneau (2008) o modo de enunciação corresponde à maneira de dizer do
discurso, que, mesmo que seja escrito, apresenta uma „voz‟ peculiar, chamada
preferencialmente de „tom‟. Ao tom estão associados a voz, a oralidade e o ritmo, bem como
o próprio corpo, observados no discurso. “A fé em um discurso supõe a percepção de uma voz
fictícia, garantia de um corpo. [...] O próprio tom se apóia sobre uma dupla figura do
enunciador, a de um caráter e a de uma corporalidade, estreitamente associadas”
(MAINGUENEAU, 2008, p.91 - 92). Em artigos posteriores, o autor tratará do modo de
enunciação na perspectiva do ethos, uma noção tomada da retórica clássica, mas
ressignificada no escopo da Análise de Discurso.
Se, na retórica clássica aristotélica, o ethos vinculava-se à eloquência, à oralidade em
situação de fala pública, na Análise de Discurso, a noção aplica-se a todos os tipos de texto,
(orais, escritos ou mesmo multimodais). De acordo com o autor, qualquer texto apresenta
“uma „vocalidade‟ que pode se manifestar numa multiplicidade de „tons‟”, que se associam ao
“corpo do enunciador (e, bem entendido, não do corpo do locutor extradiscursivo), a um
„fiador‟, construído pelo destinatário a partir de índices liberados na enunciação”
(MAINGUENEAU, 2011, p. 17-18). O termo “tom” e não “voz” lhe parece mais adequado
para designar tanto o escrito quanto o oral (MAINGUENEAU, 2011, p.18). Acrescenta,
ainda, que o ethos “recobre não somente a dimensão verbal, mas também o conjunto de
determinações físicas e psíquicas associadas ao „fiador‟ pelas representações coletivas”,
correspondendo ao “caráter” e à “corporalidade”. Maingueneau (2011, p. 18) explica que “o
„caráter‟ corresponde a um feixe de traços psicológicos”. E a “corporalidade” está associada a
uma compleição física e a uma maneira de vestir-se”. Ele se refere a um certo modo de
mover-se no espaço social, que ratifica certos comportamentos estereotípicos próprios de um
“mundo ético” compartilhado pelo enunciador e seus coenunciadores. O teórico afirma que o
modo de enunciação está, pois, sujeito às mesmas restrições semânticas. O enunciador exerce
31

papel decisivo no estabelecimento do estatuto do destinatário, visto que “o destinatário não é


somente um consumidor de ideias. Ele acede a uma maneira de ser através de uma maneira de
dizer. O laço assim estabelecido entre o corpo e a eficácia do discurso não deixa de evocar a
realidade das práticas linguageiras” (MAINGUENEAU, 2008, p. 94).
Maingueneau (2008) fecha a terceira hipótese abordando a coesão, a qual é também
determinada pelo sistema de restrições globais. A coesão em Análise de Discurso difere do
que é concebido por coesão na linguística textual que se ocupa em determinar elementos
coesivos, pois “refere-se à maneira pela qual um discurso constrói sua rede de remissões
internas” (MAINGUENEAU, 2008, p.94). Dentre os diversos fenômenos que constituem o
modo de coesão, o autor expõe o recorte discursivo e o encadeamento. O recorte discursivo
atua em um nível fundamental, referindo-se ao conjunto de gêneros que, determinados pelo
sistema de restrições, são constitutivos do discurso. Já o encadeamento ocorre em um nível
superficial, referindo-se ao modo particular de uma determinada formação discursiva dispor o
seu discurso, por meio de parágrafos, capítulos, arranjos de temas, dentre outros aspectos.
(MAINGUENEAU, 2008, p. 96).
Embora a leitura do corpus discursivo neste trabalho seja orientada pelas três
primeiras hipóteses de Maingueneau (2008), serão retomadas rapidamente as quatro restantes,
de modo a completar o percurso realizado pelo autor em Gênese dos Discursos.
Na quarta hipótese, afirma-se que o sistema de restrições posto pela semântica global
constitui um modelo de competência interdiscursiva. De acordo com Maingueneau (2008),
os enunciadores de um dado discurso têm o domínio tácito do sistema de restrições
semânticas que permitem produzir e interpretar enunciados que resultam de sua própria
formação discursiva e, correlativamente, permitem identificar como incompatíveis com ela os
enunciados das formações discursivas antagonistas.
Na quinta hipótese, afirma-se que o discurso não deve ser pensado somente como um
conjunto de textos, mas como uma prática discursiva. O sistema de restrições semânticas,
para além do enunciado e da enunciação, torna os discursos comensuráveis com as “redes
institucionais”. Essa noção desloca o discurso da estrita textualidade para seu “ambiente”,
para sua localização institucional, para a posição que pode/deve ocupar o sujeito que o
enuncia.
Na sexta hipótese, afirma-se que a prática discursiva é uma prática intersemiótica que
integra produções que pertencem a vários domínios semióticos (verbal, pictórico, musical,
arquitetônico etc). Essa ampliação para outras linguagens é necessária, já que o sistema de
32

restrições que funda a existência do discurso pode ser igualmente pertinente para outros
domínios simbólicos.
Na sétima hipótese, afirma-se que a formação discursiva revela-se, assim, como um
esquema de correspondência entre campos à primeira vista heterônimos. Porém, a teoria da
articulação entre a prática discursiva, a formação social e a conjuntura histórica ainda precisa
ser lapidada. Maingueneau (2008) exemplifica a correspondência entre o discurso religioso,
cosmológico e político ao estudar o discurso humanista devoto (a ele corresponde o discurso
do Cosmos finito e o discurso político pró-aristocrático e pró-feudalismo) e o discurso
jansenista (a ele corresponde o discurso do universo infinito e o discurso político
tendencialmente burguês).

Alguns teóricos da Análise de Discurso articulam a noção de interdiscurso à noção de


memória discursiva. Pêcheux (1999, p. 52) adverte que a memória discursiva não deve ser
confundida com memória individual. Para ele, “a memória discursiva seria aquilo que, face a
um texto que surge como acontecimento a ser lido, vem restabelecer os „implícitos' (quer
dizer, mais tecnicamente, os pré-construídos, elementos citados e relatados, discursos-
transversos, etc.) de que sua leitura necessita: a condição do legível em relação ao próprio
legível”. Seria uma força de regularização preexistente e estabilização parafrástica que
absorve o acontecimento e a formulação, podendo mesmo dissolvê-los. No Brasil, quem mais
explora a relação do interdiscurso com a memória discursiva é Orlandi (1999), como se pode
ler nos excertos seguintes:

A memória, por sua vez, tem suas características, quando pensada em relação ao
discurso. E, nessa perspectiva, ela é tratada como interdiscurso. Este é definido como
aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente. Ou seja, é o que chamamos
memória discursiva: o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob
a forma do pré-construído, o já dito que está na base do dizível, sustentando cada
tomada da palavra. (ORLANDI, 1999, p. 31)

Como dissemos, o interdiscurso – a memória discursiva – sustenta o dizer em uma


estratificação de formulações já feitas mas esquecidas e que vão construindo uma
história de sentidos. É sobre essa memória, de que não detemos o controle, que nossos
sentidos se constroem, dando-nos a impressão de sabermos do que estamos falando.
Como sabemos, aí se forma a ilusão de que somos a origem do que dizemos.
(ORLANDI, 1999, p. 54)

Orlandi, ao articular interdiscurso e memória discursiva, busca realçar a historicidade


do sentido e a impossibilidade de um sujeito inventar o próprio verbo. E, em companhia de
Pêcheux, afirma que “é o interdiscurso que especifica as condições nas quais um
33

acontecimento histórico é suscetível de vir a inscrever-se na continuidade interna, no espaço


potencial de coerência próprio a uma memória” (ORLANDI,1999, p.33). Também Hashiguti
(2009, p. 23) afirma que “Produzir sentido é sempre uma relação de repetição, já que, como
sujeitos da história e da ideologia, repetimos pela memória discursiva que nos constitui, que
possibilita historicamente os sentidos e compreende os dizeres já formulados e esquecidos”.
A memória discursiva é, pois, entendida como saberes anteriormente constituídos que
possibilitam a produção de sentidos. Desse modo, ela atualiza as possibilidades de dizeres no
momento da enunciação, em um processo histórico resultante de uma disputa de
interpretações para os acontecimentos presentes ou já ocorridos. A memória se configura pelo
atravessamento de discursos, pela relação que os discursos mantêm entre si, em constante
errância e movimento, imbricando-se e confundindo-se: possibilidade do esquecimento e do
dizível. Afirma Orlandi (1999, p. 33 e 34) que para que “as minhas palavras tenham sentido é
preciso que elas já façam sentido”, sendo necessário, para isso, que o que foi dito por alguém,
num momento particular, seja esquecido e passe para o anonimato. Em outros termos, a autora
assevera que “todo discurso se delineia na relação com outros: dizeres presentes e dizeres que
se alojam na memória” (ORLANDI, 1999, p. 43).
Como se viu pela sexta hipótese proposta por Maingueneau (2008) em Gênese dos
Discursos, pintores, escultores, arquitetos, urbanistas, paisagistas, compositores podem ser
interpelados por um mesmo discurso, estar sujeitos a um mesmo sistema de restrições
semânticas que os enunciadores, ao tecerem seus textos, mesmo empregando materialidades
diversas da escrita ou da oralidade. Essa abertura da Análise de Discurso para a urdidura dos
sentidos em domínios exteriores ao linguístico torna possível até mesmo a leitura da cidade,
logicamente não como espaço físico, mas sim como espaço simbólico, como espaço a ser lido.

1.5 Da cidade e cidade dividida como espaço simbólico

A cidade “se materializa em um espaço que é um espaço significativo: nela, sujeitos,


práticas sociais, relações entre o indivíduo e a sociedade têm uma forma material, resultante
da simbolização da relação do espaço, citadino, com os sujeitos que nela existem, transitam,
habitam, politicamente significados” (ORLANDI, 2012, p. 200). Em seus estudos sobre o
discurso urbano, a autora define duas noções: ordem e organização urbana. A ordem
corresponde ao real da cidade, a seus movimentos e à sua forma histórica, já a organização
urbana está atrelada ao planejamento que é feito desse espaço por administradores e
urbanistas de acordo com seus objetivos e ao imaginário projetado pelos habitantes sobre a
34

cidade (ORLANDI, 2012, p.199). Enquanto os especialistas do espaço se voltam para


organização da cidade, os analistas de discurso focalizam sua ordem, sua dimensão simbólica,
o modo como a cidade significa as relações sociais que nela se desenrolam. Ao passar da
ordem para a organização, passa-se do discurso da cidade para o discurso sobre a cidade. E,
segundo Orlandi (2004, p. 34), o discurso sobre o urbano tende a silenciar o discurso urbano,
o “real da cidade (e o social que o acompanha)”.
Pode-se relacionar essa distinção entre discurso da cidade e discurso sobre a cidade
com a distinção que Lefebvre (2000) faz acerca da prática espacial ou espaço vivido e
representação do espaço ou espaço concebido.
A prática espacial refere-se à interação entre as ações humanas e os suportes
materiais do espaço, assegurando a sua reprodução. Toda sociedade produz lentamente seu
espaço, dominando-o e se apropriando dele. O que caracteriza a prática espacial nas
sociedades urbanas contemporâneas? É articulação entre a realidade cotidiana (o emprego do
tempo) e a realidade urbana (o percurso, as redes ligando os lugares de trabalho, da vida
privada, da vida pública, do lazer). Paradoxalmente, a prática espacial ou espaço vivido inclui
a separação entre os lugares que religa.
Já as representações do espaço constituem os discursos produzidos por intelectuais,
planejadores, urbanistas, tecnocratas, certos artistas próximos da cientificidade, buscando a
conformação do vivido ao concebido. Tais representações tenderão para um sistema de signos
verbais ou visuais elaborados intelectualmente, mediante os quais se procede à análise dos
espaços tanto quanto das sociedades que os produziram e neles se estabeleceram. Nos termos
de Duarte (2002, p. 75), as representações produzem um meta-espaço, um espaço abstrato que
substitui a “heterogeneidade da forma urbana (valor de uso) pela homogeneidade do espaço-
mercadoria, da equivalência abstrata entre os diferentes (valor de troca)”.
Não raro, na história das cidades, as práticas espaciais entram em conflito com as
representações do espaço. No caso das cidades modernas, formadas a partir de uma concepção
ou representação prévia, nem tudo sai de acordo o planejado. Por exemplo, em Sorriso, que é
o objeto deste estudo, o projeto urbano concebia a setorização funcional do espaço, tendo
como limite a BR 163 que deveria separar o lado que abrigaria o parque industrial da cidade
do lado que abrigaria o centro comercial, a administração, os bairros residenciais e os serviços
de que a população necessita cotidianamente. Contudo, a prática espacial, num determinado
momento da história de Sorriso, fugiu ao script do projeto de urbanização: migrantes pobres,
principalmente ex-garimpeiros, que chegavam à cidade na década de 1990, sem lugar para se
instalar na área residencial, começaram a tomar posse de áreas vazias no lado industrial da
35

cidade e erguer barracos onde pudessem se abrigar. Em pouco tempo, o que era para ser o
parque industrial se tornou uma área residencial popular que não cessa de se expandir. Muito
comumente o espaço concebido é incapaz de conter a potência da prática espacial que parece
ganhar vida própria.
Contudo, nem sempre a direção da interferência é da prática espacial sobre o espaço
concebido. Pode ocorrer o inverso por meio do processo de “gentrificação” de áreas urbanas
muito importantes no passado (centro histórico, regiões portuárias, ferroviárias etc.), mas
que, com o crescimento da cidade, se degradaram e passaram a abrigar uma população de
pessoas empobrecidas e marginalizadas sócio-econômica e culturalmente. Gentrificar
significa, pois, enobrecer uma área desvalorizada de acordo com projeto de revitalização do
espaço urbano, via de regra envolvendo iniciativa público-privada. Tudo começa com uma
representação do espaço. Porém, as melhorias das áreas revitalizadas nunca são desfrutadas
pelos seus antigos moradores, já que eles terão sido “despejados” e “depositados” nos bairros
populares da periferia da cidade. Não há unanimidade na visão dos urbanistas com relação a
essa prática: para uns ela é a solução para regenerar áreas deterioradas, mas para outros se
trata de uma prática higienista que busca transformar áreas centrais degradadas e conflituosas
em espaços destinados ao entretenimento e ao consumo para uma parcela da população com
perfil socioeconômico superior. A gentrificação atua no sentido inverso ao ideal democrático
da polis que é o de convívio e interação das diferenças sociais e culturais. O exemplo mais
conhecido de “revitalização” no Brasil é o do Pelourinho em Salvador, realizado na década
1990. Por meio dele se desalojaram os antigos moradores dos casarões coloniais do centro
histórico e se promoveu uma operação de restauração das fachadas dos edifícios e de
renovação e readequação de seu interior para a instalação de restaurantes, lojinhas de
artesanato, escolas, museus, espaços para show e apresentações artísticas, instituições várias
etc., voltados diretamente para os turistas.
Segundo Lefebvre, (1999, p. 110), o espaço urbano é uma força centrípeta, uma
“centralidade” que reúne todas as diferenças, mas é também uma força centrífuga que gera a
“policentralidade”, a saber, “a disseminação e a constituição de centros diferentes, seja para a
dispersão, seja para a segregação”. Para lidar com a noção paradoxal do espaço urbano como
espaço que, ao mesmo tempo, reúne e separa, Lefebvre distingue diferença e distinção de
separação e segregação. Para ele, a diferença implica relação, proximidade, encontro,
informação, ao passo que a segregação implica a ruptura da relação, dificultando a
aproximação e o encontro dos diferentes. Consoante o autor, a separação e a segregação são
36

próprios de uma ordem totalitária que nega a lógica do urbano – a lógica da concentração e da
centralidade.
Se é a centralidade que caracteriza o urbano, então o modelo da racionalidade
industrial (que separa/discrimina/classifica/distribui) é inadequado para o exercício de pensá-
lo e representá-lo. Para se aproximar do urbano, o pensamento não pode separar, segregar e
descartar nada, precisa juntar tudo o que foi, historicamente, separado; não pode mais imitar
a empresa ou a indústria, mas a própria forma urbana que, como prática espacial, reúne e
promove o encontro das diferenças. Enfim, o pensamento do urbano precisa se desatrelar da
racionalidade industrial que é discriminatória e classificatória e passar a imitar a racionalidade
urbana que é acumulativa, uma forma de racionalidade cuja origem, segundo Lefebvre (1999),
é prenunciada no gesto ancestral dos coletores.
De acordo com Lefebvre (1999, p. 42-48 e 115-124), o espaço urbano é, pois, um
espaço diferencial. E, para esmiuçar o conceito de espaço diferencial, o autor recorre aos
conceitos de isotopia e heterotopia. Pelo conceito de isotopia, o autor se refere à ordem
próxima, àquilo que faz de um lugar (-topia) um lugar do mesmo (iso-), um lugar de
homologias. Para se chegar às isotopias, transformam-se diferenças contíguas em separação e
segregação urbana, para evitar que elas se encontrem no mesmo espaço. Nada ilustra tão bem
o princípio isotópico quanto os condomínios fechados que reúnem os iguais e os apartam
concretamente dos diferentes. Também são exemplos de isotopia os conjuntos habitacionais
populares, geralmente plantados em áreas consideradas menos nobres do ponto de vista do
capital imobiliário-financeiro. Já pelo conceito de heterotopia, o autor se refere à ordem
distante, àquilo que faz de um lugar (-topia) um lugar do outro (hetero-), ao mesmo tempo
excluído e incluído. Quando se pensa no espaço urbano de modo global, é impossível não vê-
lo como uma acumulação de heterotopias. As cidades são profundamente heteretópicas, mas
as políticas públicas em cumplicidade com a iniciativa privada não se afastam do propósito de
torná-las isotópicas.
É preciso lembrar ainda que isotopia e heterotopia não são categorias estanques. Um
espaço aparentemente isotópico, como o das imediações de um shopping de luxo, pode se
tornar altamente heterotópico, ao atrair uma numerosa população de indesejáveis (vendedores
ambulantes, flanelinhas, mendigos, artistas de rua, trombadinhas e uma série de outras
pessoas marginalizadas) que frequentam o local não como potenciais consumidores, mas
como proscritos da sociedade de consumo. Na heterotopia, sempre há o contraste que pode
gerar o conflito. Porém, a violência costuma irromper quando o discurso sobre o urbano (o
espaço concebido), ignorando a ordem do urbano (a prática espacial), que é uma ordem
37

conflitual, deseja converter espaços heteretópicos em espaços isotópicos ou, vice-e-versa,


quando a ordem do urbano (a prática espacial), que é heterotópica, estilhaça o que a
organização (o espaço concebido) havia tornado isotópico. Como exemplo do primeiro caso,
pode-se citar a resistência dos despejados de uma área a ser gentrificada e, do segundo, a
invasão de um imóvel desocupado em área nobre de uma metrópole por uma turba de sem-
teto. Nos dois casos, a ordem conflitual reinante na cidade costuma desembocar na violência.
A forma como o espaço urbano é organizado e distribuído indicia modos de significar
as relações entre os sujeitos que nele vivem. Consoante Orlandi (2012),

a cidade é um espaço significante, investido de sentidos e sujeitos, produzidos em uma


memória. Quando se fazem certos gestos em relação a essa memória – são gestos de
interpretação dela – se está transformando, modificando, ou não esta memória. E isto traz
consequências para o espaço e para seus habitantes (ORLANDI, 2012, p.205).

Por exemplo, na memória de quem vive na cidade, ruas são espaços públicos, espaços
interpretados como livres à circulação de quem quer que seja, espaços potencialmente
heteretópicos. Assim, quando se fecha uma rua com cerca e cancela e se planta um guarda
para vigiá-la 24 horas por dia, com poder de decidir quem pode e quem não pode circular por
ela, modifica-se a memória que se tinha da cidade. Trata-se, pois, de um gesto de violência
simbólica que afeta a relação do cidadão com o urbano: os que se encontram do lado de fora
do muro são tomados indistintamente como indesejáveis, tendo sua circulação regulada nesses
espaços. Conforme Orlandi (2004, p. 49): “Se a cidade é o lugar da interpretação com sua
particularidade significativa, a rua é estruturante no imaginário em que a cidade s ignifica:
via pública, calçadas, passantes. Lugar do público, lugar „comum‟”. A prática de
condominializar ruas em nome da segurança dos moradores, muito em moda em bairros
de classe média alta ou alta, implica, pois, uma divisão e uma mudança no modo de
significar os cidadãos: ela separa sujeitos que ficam pelo lado de dentro dos sujeitos que
ficam do lado de fora. Quem está dentro da cidadela é visto como socius (os iguais), ao
passo que quem está do lado de fora é visto como hostis (os inimigos). O gesto de
fechar/murar um bolsão de residências modifica, segundo Orlandi (2004, p. 84), “as
condições de produção de sentido em sua materialidade”. Diz a autora:

Por esse gesto, fica “dito” que os que estão do lado de lá do muro são as pessoas com as
quais se quer conviver, quem está para fora são as que se excluiu. O social fica
indistinto porque não são todos que estão do lado de fora que são nossos „inimigos‟.
Então o „hostis’ (inimigos) e o socius (nossos iguais) ficam confundidos. [...] Ao se
fechar um bolsão, se está fazendo uma violência social que é separar sujeitos de sujeitos
38

igualmente cidadãos, mas que se passa a tratar como se fossem uma ameaça. Há grave
diminuição do espaço de sociabilidade. Nesse imaginário, eficaz, acabam-se
implementando hostilidades que fazem as pessoas se „estranharem‟. (ORLANDI, 2004,
p. 84).

Essa divisão do corpo social urbano em socius e hostis, certamente motivada pelo
princípio da isotopia, reduz o espaço de sociabilidade que pode resultar em mais
hostilidade e violência, quer dizer, produzir um efeito contrário ao que se deseja com a
condominialização – a segurança. A demasiada preocupação com a segurança é reflexo da
inversão da forma como o Estado administra os problemas sociais que espocam na cidade,
controlando seus efeitos por meio da repressão, sem tratar as causas.
A mão da organização urbana produz uma “verticalização das relações horizontais na
cidade, que, de espaço material contíguo, se transforma em espaço social hierarquizado
(vertical)” (ORLANDI, 2004, p. 35). Essa verticalização reparte o território em regiões e
estabelece fronteiras, dificultando ou mesmo impedindo “a convivialidade, o trânsito
horizontal entre vizinhos” (ORLANDI, 2008, p. 189). Privilegia-se o convívio dos iguais;
interdita-se o encontro dos diferentes. A homogeneização e hierarquização garantida pela
organização urbana buscam silenciar os conflitos estruturantes da ordem urbana, mas, não
raro, podem gerar a violência. Segundo Orlandi (2008, p. 191), o conflito, dada a
concentração de diferenças no espaço urbano, é inerente à cidade, mas não a violência que “se
produz pelas condições de vida social, é mantida por políticas apenas repressivas e não
formadoras da sociabilidade e desencadeadas por soluções imediatistas”. Orlandi (2012,
p.212) afirma ainda que “Quanto mais dentro do social, mais seguros estamos”.
Nem sempre o que segrega tem a concretude de um muro, como aqueles que
apartam as cidadelas condominializadas do resto do corpo social urbano, ou como aquele que
separava a Berlim Oriental da Berlim Ocidental, ou como as cercas como arame farpado e
concertina que países europeus estão instalando em suas fronteiras para impedir a entrada de
refugiados políticos vindos de diversas regiões do Oriente Médio e África, ou como as
muralhas que separam o território palestino da Faixa de Gaza do Egito e Israel, dentre outros.
Às vezes, a barreira que separa é muito mais tênue do que um muro. Pode ser, por exemplo, a
divisão entre centro e periferia, zona norte e zona sul, morro e orla, favela e bairro, os limites
de um bairro, uma avenida ou uma rua etc. Há regiões malditas, há bairros malditos e há ruas
malditas em torno de que se avoluma uma prática discursiva que fomenta a segregação,
gerando “no ambiente da cidade, uma relação tensa entre o socius e o hostis”. (MARTINS,
2012, p. 40 e 41). Nessa prática discursiva, comumente, os hostis são significados como
39

aqueles que não se quer por perto, aqueles com os quais não se quer encontrar de forma
alguma. São demonizados, avaliados negativamente, discriminados, associados a
marginalidade, criminalidade, tráfico, vício, vadiagem, pobreza, ignorância, preguiça etc.
Enfim, por meio de muros concretos e/ou simbólicos, institui-se um apartheid entre o socius e
o hostis.
Não é outro o caso da cidade de Sorriso, dividida pela BR163, em lado de “cá” – o
lado do migrante sulista (os gaúchos) – e lado de “lá” – o lado do migrante não-sulista (os
maranhenses). Quem vive na Sorriso do lado de “cá” sabe o quão fecunda é a prática
discursiva que demoniza o corpo social urbano da Sorriso do lado de “lá”, tanto no
burburinho cotidiano das ruas quanto na esfera política, policial, midiática, dentre outras. A
BR 163 não opera apenas uma divisão geográfica da cidade de Sorriso, mas estabelece
também um apartheid do corpo social urbano, que separa horizontalmente os migrantes que
chegaram primeiro, na condição de colonizadores, daqueles que chegaram depois, na
condição ex-garimpeiros. A separação espacial do “cá” e “lá” pela BR 163 vale, pois, como
uma metáfora da separação social, econômica, étnica e de sentidos vigente na sociedade de
Sorriso. E são os discursos cuja tópica seja essa separação/segregação que se recorta como
objeto desta pesquisa.

1. 6 Dos procedimentos metodológicos em Análise de Discurso

Como se constitui um corpus discursivo e como se realiza um estudo em Análise de


Discurso? Se, como se viu nas seções anteriores, definir as principais noções da Análise de
Discurso não é uma empreitada precisa, traçar seus procedimentos metodológicos também
não é, mesmo porque os gestos de descrever e interpretar, nesse tipo de investigação, se
confundem. Entre a descrição e a interpretação há não sucessão, mas dobra de uma sobre a
outra. Evitando praticar “uma higiene pedagógica do pensamento” (PÊCHEUX, 1990, p. 51),
à maneira da semântica estruturalista, a Análise de Discurso, confrontada com a deriva do
sentido, com a possibilidade do equívoco, em vista do enredamento com o sentido-outro,
funciona como uma disciplina interpretativa.
Pêcheux (1994) nomeia duas vias de construção do corpus: a via arquivista e a via
experimental. O arquivo é formado por documentos pertinentes, conservados e disponíveis
sobre uma questão, produzidos independentemente do vir a se tornar um objeto de estudo.
40

Pela via experimental, os dados que constituem o corpus são obtidos por meio de uma
cenografia que põe os locutores em situação de teste, motivada pelo desenho da pesquisa.

Na formulação de Foucault (2005, p. 18), a noção de arquivo é definida como “o


conjunto de discursos efetivamente pronunciados numa época dada e que continuam a existir
através da história”. Foucault (1986, p. 149) afirma ainda que:

O arquivo é, de início, a lei do que pode ser dito, o sistema que rege o aparecimento
dos enunciados como acontecimentos singulares.[...] O arquivo não é o que protege,
apesar de sua fuga imediata, o acontecimento do enunciado e conserva, para as
memórias futuras, seu estado civil de foragido; é o que na própria raiz do enunciado-
acontecimento e no corpo em que se dá, define, desde o início, o sistema de sua
enunciabilidade. O arquivo não é, tampouco, o que recolhe a poeira dos enunciados
que novamente se tornaram inertes e permite o milagre eventual de sua ressureição; é
o que define o modo de atualidade do enunciado-coisa; é o sistema de seu
funcionamento. Longe de ser o que unifica tudo o que foi dito no grande murmúrio
confuso de um discurso, longe de ser apenas o que nos assegura a existência no meio
do discurso mantido, é o que diferencia os discursos em sua existência múltipla e os
especifica em sua duração própria.
Entre a língua que define o sistema de construção das frases possíveis e o corpus que
recolhe passivamente as palavras pronunciadas, o arquivo define um nível particular:
o de uma prática que faz surgir uma multiplicidade de enunciados como tantos
acontecimentos regulares, como tantas coisas oferecidas ao tratamento e à
manipulação. [...] Entre a tradição e o esquecimento, ele faz aparecerem as regras de
uma prática que permite aos enunciados subsistirem e, ao mesmo tempo, se
modificarem regularmente. É o sistema geral da formação e transformação dos
enunciados. (grifos do autor)

O autor enfatiza que o arquivo (de uma sociedade, de uma cultura, de uma civilização,
de uma época etc.) em sua totalidade é indescritível. A ele só se chega por fragmentos, regiões
e níveis. A análise do arquivo se dá numa região privilegiada: “trata-se da orla do tempo que
cerca nosso presente, que o domina e que o indica em sua alteridade; é aquilo que fora de nós
nos delimita” (FOUCAULT, 1986, p. 151).

Segundo Sargentini (2006, p. 35), “operar com a noção de arquivo é, portanto,


salientar que a análise desenvolve-se pautada em um conjunto de enunciados efetivamente
produzidos, respondendo a um sistema de enunciabilidade”. Cabe ao analista observar as
condições de aparecimento de determinado enunciado, suas condições de existência e sua
correlação com outros enunciados, observando que todo discurso é heterogêneo e se relaciona
sempre com um discurso outro. É função da Análise de Discurso, ao lidar com enunciados
que estão inseridos na história, ou seja, com enunciados específicos que circularam num dado
momento, descrever e interpretar as relações estabelecidas por eles com outros enunciados no
interior de um arquivo.
41

Embora os estudos em Análise de Discurso preferencialmente constituam seus


corpora com base em pesquisa de arquivo, não é vetada a possibilidade de formá-los a partir
de procedimentos empregados em pesquisas experimentais, a exemplo da entrevista. Porém,
segundo Rocha et alii (2004, p. 162), em Análise de Discurso, a entrevista deve ser
tratada como “um dispositivo de produção de textos a partir de uma ótica discursiva”.
Por esse viés, a entrevista não se apresenta como um instrumento que permite extrair a
realidade ou a verdade dos sujeitos entrevistados, mas como uma forma de captar uma
“massa de textos” que o pesquisador supõe já existir, mas que não estão imediatamente
disponíveis no arquivo. É como se o arquivo estivesse guardado na memória de
sujeitos que precisam ser estimulados para colocá-lo em palavras, dar-lhe uma
materialidade linguageira, a fim de que possa se constituir em objeto de estudo. “Em
outras palavras, só se entrevista quem já „sabe‟ algo a respeito de determinado tópico
(isto é, quem é capaz – ou quem vem sendo capaz – de produzir texto(s) a respeito do
que se deseja saber)” (ROCHA et alii, 2004, p. 173).
Para isso, é preciso que o pesquisador crie estratégias de interlocução que
estimulem os entrevistados a produzirem textos interpelados por discursos que já
haviam gerado uma massa de textos anteriormente. O procedimento da “entrevista”
torna possível retomar/atualizar/condensar esses discursos. Todavia, não se pode
perder de vista que os textos gerados – retomados/condensados – por esse dispositivo
resultam de uma cenografia que põe em interação entrevistado e entrevistador,
singularizando-se, assim, em relação aos textos tomados diretamente do arquivo, pela
inscrição dos rastros dessas condições de produção. Revisitando, pois, a entrevista
qualitativa na perspectiva da Análise de Discurso, Rocha et alii (2004, p. 177)
recomendam a articulação de três momentos:

1. o momento da preparação da entrevista: momento em que, lançando mão dos


saberes que possuímos acerca do outro e com base em objetivos determinados,
produzimos uma espécie de „roteiro‟ condutor de algo que se poderia considerar uma
“interação antecipada” com o outro que se pretende entrevistar;
2. o momento da realização da entrevista: situação que estará assentada nas bases
definidas por um roteiro, responsável por atualizar, sob o signo da interação
entrevistador-entrevistado, textos já produzidos anteriormente em diferentes situações
de enunciação;
42

3. o momento que se segue à entrevista: situação na qual o pesquisador estará em


condições de finalmente decidir sobre um corpus sobre o qual trabalhará, a partir do
conjunto de textos produzidos.

No presente estudo, o corpus é constituído tanto por enunciados tomados de arquivo,


quanto por enunciados tomados de entrevistas realizadas pela pesquisadora. Configuram-se
como enunciados de arquivo, aqueles tomados de matérias midiáticas – notícias e vídeos – em
circulação nos meios de comunicação locais ou estaduais, e como enunciados produzidos
experimentalmente, aqueles obtidos por meio de entrevistas. O quadro seguinte mostra o
conjunto dos textos midiáticos e entrevistas que serviram de fonte para o recorte dos
enunciados a serem analisados no capítulo 3

Quadro 1: Materiais obtidos mediante pesquisa de arquivo e experimental


Matéria 1 “Dilceu Rossato condena o preconceito e convida o nordestino a morar em
Sorriso”4
Matéria 2 “Sorriso: Festrilha Nordestina receberá incentivo da prefeitura”5
Matéria 3 “Sorriso: PC prende autor de assalto em drogaria e arma utilizada na
ação”6;
Matéria 4 “É Bem MT conta a história do município de Sorriso”7
Entrevista 1 Realizada com uma moradora do lado de “cá” de Sorriso
Entrevista 2 Realizada com alunos do 9º. ano de uma escola particular de Sorriso
Entrevista 3 Realizada com a assessora de projetos da Secretaria Municipal de Educação
Entrevista 4 Realizada com um policial militar
Fonte: a própria pesquisadora

O que significa o enunciado na bacia semântica da Análise de Discurso? Afastando-o


de noções afins, com as quais ele poderia ser confundido, Foucault chega à sua principal
característica: a função de existência. Enfaticamente, o autor afirma que o enunciado não é
uma proposição, não é uma frase, não é um ato de fala, mas, para que haja proposição, frase,
ato de fala é preciso que haja enunciado. Eles existem em tempo e espaço determinados
através de um enunciado. Assim, o que em primeira instância define o enunciado é a função
de existência. "O limiar do enunciado seria o limiar da existência dos signos" (FOUCAULT,
1986, p. 96). O enunciado é uma "função de existência" própria dos signos. São os enunciados
que permitem perguntar se os signos "fazem sentido"; quais regras permeiam sua
organização; a que referente se remetem; que ato realizam numa formulação. Na perspectiva

4
http://www.hojenews.com.br/2012/10/www.hojenews.com.br_6904.html
5
http://mtnoticias.net/sorriso-festrilha-nordestina-recebera-incentivo-da-prefeitura/
6
http://mtnoticias.net/sorriso-pc-prende-autor-de-assalto-em-drogaria-e-ara-utilizada/
7
http://gshow.globo.com/TV-Centro-America/E-Bem-MT/noticia/2015/09/e-bem-mt-conta-historia-do-
municipio-de-sorriso.html
43

foucaultiana, os enunciados não são necessariamente linguísticos. Vários exemplos de


enunciados não-verbais ou multimodais – a árvore genealógica, o livro contábil, o gráfico, a
curva de crescimento, a pirâmide das idades, a série de letras do alfabeto A, Z, E, R, T em um
manual de datilografia – os quais não são nem frases e nem textos no sentido linguístico do
termo, são mencionados por Foucault (1986, p. 93-98) como exemplos de enunciados.
Se é negativamente que Foucault (1986, p. 124-131) define o enunciado, é também
negativamente que diz o que é descrevê-lo: descrevê-lo não é fazer "análise lógica das
proposições", não é fazer "análise gramatical das frases", não é fazer "análise psicológica das
formulações"; não é procurar "a totalidade perdida", "a unidade profunda do Logos"; não é
descobrir sob a aparência e a superfície "um elemento oculto", "um sentido secreto", "um
resto enigmático e silencioso", mas é definir as condições que possibilitaram a uma série de
signos ter uma "existência específica", é descrever as regularidades que o regem. Descrever
enunciados e individualizar formações discursivas são, pois, operações correlatas. E
afirmando a interdependência entre enunciado e formação discursiva, Foucault os define
simultaneamente:

Um enunciado pertence a uma formação discursiva, como uma frase pertence a um


texto, e uma proposição a um conjunto dedutivo. Mas enquanto a regularidade de uma
frase é definida pelas leis de uma língua, e as de uma proposição pelas leis de uma
lógica, a regularidade dos enunciados é definida pela própria formação discursiva. A
lei dos enunciados e o fato de pertencerem à formação discursiva constituem uma
única e mesma coisa: o que não é paradoxal, já que a formação discursiva se
caracteriza não por princípios de construção, mas por uma dispersão de fato, já que ela
é para os enunciados não uma condição de possibilidade, mas uma lei de coexistência,
e já que os enunciados, em troca, não são elementos intercambiáveis, mas conjuntos
caracterizados por sua modalidade de existência". (FOUCAULT, 1986, p.135)

Para Foucault (1986), enquanto a enunciação é um acontecimento que não se repete, o


enunciado, em compensação, encontra-se ligado à noção de repetição. Em razão disso,
Foucault afirma que o enunciado é raro, no sentido de que a Análise de Discurso visa à
apreensão do sentido para o qual tudo converge e que pode definir uma época, tanto em suas
instituições quanto em suas práticas, técnicas e objetos. Diante disso, o autor diz: “Em relação
a esse „sentido‟ implícito, soberano, comunitário, os enunciados, em sua proliferação,
aparecem em superabundância” (FOUCAULT, 1986, p. 137). No escopo de uma formação
discursiva, pode-se dizer que há uma pletora de elementos significantes para um mesmo
significado. Assim, “analisar uma formação discursiva é procurar a lei de sua pobreza, é
medi-la e determinar-lhe a forma específica” (FOUCAULT, 1986, p. 139).
44

Neste trabalho, cujo corpus é constituído por meio de recortes de textos midiáticos,
buscados em arquivo, bem como de entrevistas com pessoas dos variados segmentos sociais e
representantes de instituições públicas locais, buscar-se-á evidenciar a persistência ou a
mudança do discurso do apartheid que divide a sociedade de Sorriso e é concretamente
metaforizado pela BR 163 que corta o perímetro urbano da cidade. Vai-se observar como os
diferentes textos, fontes de enunciados recortados para o corpus, convergem ou divergem na
significação dos diversos segmentos que compõem a sociedade sorrisense contemporânea.
Vale, pois, ressaltar que, em Análise de Discurso, como assinala Orlandi (2000, p. 72),
“não se toma o texto como ponto de partida absoluto nem de chegada. Um texto é só uma
peça de linguagem de um processo discursivo bem mais abrangente (...). Ele é um exemplar
do discurso”. Os textos serão, pois, a fonte de onde se extrairão os enunciados que formarão
as famílias parafrásticas a serem remetidas aos discursos, às formações discursivas e, por
último, às formações ideológicas. A relevância do texto para a AD reside no fato de ele ser
visto como parte de uma cadeia. Pouco importa se ele é ou não é uma unidade de sentido, o
que conta é o fato de ele ser “uma superfície discursiva, uma manifestação aqui e agora de um
processo discursivo específico” (POSSENTI, 2004, p. 364).
Em Análise de Discurso, não se visa à exaustividade horizontal, aliás, essa é uma
exigência impossível de ser cumprida, uma vez que “todo discurso se estabelece na relação
com um discurso anterior e aponta para outro” (ORLANDI, 1999, p. 62), numa cadeia que
não cessa de se expandir e que, por isso mesmo, dificilmente se deixa capturar pela análise. A
exaustividade visada é a vertical, aquela que faz do dado linguístico um fato de linguagem,
“com sua memória, sua espessura semântica, sua materialidade linguístico-discursiva”
(ORLANDI, 1999, p. 63). Os dados não estão à disposição do analista, mas são construídos
por ele. Construir um corpus é já uma operação em grande parte teórica – há um ir e vir entre
a construção e a análise do corpus e não sequencialidade. Consoante Pêcheux e Fuchs (1993,
p. 180 e 181), a análise envolve três níveis: 1) superfície linguística (sequência oral ou escrita,
dado empírico, discurso concreto, afetado pelos esquecimentos 1 e 2, ou seja, pela dupla
ilusão); 2) objeto discursivo (resultante da transformação da superfície linguística em objeto
teórico, pela de-superficialização que visa a anular o esquecimento 2); 3) processo discursivo
(resultante da de-sintagmatização que rompe a conexidade própria a cada objeto discursivo e
começa a anular o efeito do esquecimento 1). Assim, vai-se da superfície linguística para o
objeto discursivo e desse para o processo discursivo. Na companhia de Pêcheux e Fuchs
(1993, p. 181) e Orlandi (1999, p.77), sugere-se a seguinte sistematização do dispositivo de
análise em três níveis:
45

Quadro 2: Os níveis do dispositivo analítico


Superfície Linguística
(Objeto empírico =
texto/enunciado)
Objeto discursivo
(Objeto teórico = formação
discursiva)
Processo discursivo
(formação ideológica)
Fonte: Pêcheux e Fuchs (1993, p. 181) e Orlandi (1999, p.77)

Partindo da superfície linguística, constituída pelo material de linguagem em estado


bruto, o analista inicia o processo de de-superficialização, buscando, conforme Orlandi (1999,
p. 65 e 66) responder a questões como: “o como se diz, o quem diz, em que circunstâncias
etc.” Isso permitirá a descoberta de como o(s) discurso(s) estudados se textualizam. É, pois,
perseguindo os vestígios deixados no fio do discurso pelo sujeito enunciador que se chega ao
objeto discursivo. Num primeiro movimento, busca-se desfazer os efeitos do esquecimento
no. 2 que produz a impressão da “realidade” do pensamento e leva a pensar que “aquilo que é
dito só poderia ser dito daquela maneira”. Contrapondo discursos, afetados por diferentes
memórias discursivas, é possível desfazer os efeitos dessa ilusão. Procede-se, assim, a uma
desnaturalização da relação palavra-coisa. Nessa etapa, a observação da paráfrase e da
sinonímia é a forma mais segura para se “vislumbrar a configuração das formações
discursivas que estão dominando a prática discursiva em questão” (ORLANDI, 1999, p. 78).
Esse procedimento é antessala da análise do processo discursivo, uma vez que por ele se
delineiam as formações discursivas na sua relação com as formações ideológicas, facultando a
compreensão de como se produz um sentido x e não y. Esse dispositivo de análise em três
níveis mostra que

Entre as inúmeras possibilidades de formulação, os sujeitos dizem x e não y,


significando, produzindo-se em processos de identificação que aparecem como se
estivessem referidos a sentidos que ali estão, enquanto produtos da relação evidente de
palavras e coisas. Mas, como dissemos, as palavras refletem sentidos de discursos já
realizados, imaginados ou possíveis. É desse modo que a história se faz presente na
língua. (ORLANDI, 1999, p. 67)

Ainda conforme Orlandi (1999, p. 80), esse dispositivo permite a compreensão da


historicidade na língua, que deve ser entendida como “aquilo que faz com que os sentidos
46

sejam os mesmos e também que eles se transformem”. Afinal, o mesmo sempre em relação
com o Outro (o interdiscurso), que lhe é constitutivo, está sujeito ao deslizamento de sentido.
E o deslizamento do sentido, inerente às línguas naturais, leva os sujeitos do/no discurso à
interpretação. “E onde está a interpretação está a relação da língua com a história para
significar” (ORLANDI, 1999, p. 78). Em síntese, em Análise de Discurso, o mesmo e outro
sentido estão sempre em fricção, o que torna impensável um momento de pura inércia de
sentido. O devir outro de um sentido é inseparável de sua repetição, vis-à-vis seu enredamento
na trama interdiscursiva.
Revisitado o dispositivo analítico, imagina-se, para este estudo, um percurso que se
inicia com a seleção/produção das superfícies discursivas (matérias midiáticas e entrevistas)
que serão submetidas a um processo de de-superficialização mediante exame dos vestígios da
discursividade deixados nos enunciados, a fim de desautomatizar a interpretação da sociedade
sorrisense como sendo “naturalmente” dividida pela BR163. Por meio das famílias
parafrásticas, chegar-se-á ao objeto discursivo que – com sua materialidade linguageira,
espessura semântica e memória – permitirá abeirar as formações discursivas que dominam a
forma de significar as relações sociais entre sulistas e não-sulistas na cidade de Sorriso. O
passo seguinte será a compreensão do processo discursivo que consistirá na remissão das
formações discursivas às formações ideológicas. Nesse nível, provavelmente se chegará à
compreensão de como se produz o sentido da divisão e hierarquização e não o sentido da
complementariedade e da igualdade entre sulistas e não-sulistas na formação social de
Sorriso.

1. 7 Em resumo
Nomeou-se este capítulo como Dispositivo teórico e dispositivo analítico. Na parte
relativa ao dispositivo teórico, revisitou-se a teoria específica, focalizando conceitos tidos
como nucleares à Análise de Discurso, assim sintetizados:
 Ideologia (uma teia de significações historicamente constituídas que norteiam
a interpretação numa dada formação social);
 Ideologia jurídica (a ideologia jurídica nucleia-se pela categoria do sujeito de
direito, afirmando que “todos são iguais perante a lei” e que somos sempre já
sujeitos; a ideologia jurídica desenvolve-se em sincronia com o modo de
produção capitalista, tornando-se hegemônica; sua versão mais recente é o
neoliberalismo);
47

 Forma-sujeito: sujeito a/sujeito de (paradoxalmente, é pela sujeição à


ideologia jurídica, que o indivíduo age/enuncia como um sujeito de);
 Discurso (não é transmissão de informação, mas efeito de sentido entre sujeitos
que compartem uma memória discursiva);
 Formação discursiva/formação ideológica (a formação discursiva é o que,
numa formação sócio-histórico-ideológica, funciona como o lugar de
constituição do sentido, deslocado tanto da língua quanto do enunciador);
 Interdiscurso/memória discursiva (o interdiscurso ou memória discursiva
constitui um saber discursivo que possibilita o dizer, presentificando-se no
enunciado sob a forma do pré-construído; os sujeitos, desde o nascimento,
enredam-se numa teia interdiscursiva que os constrange a interpretar tudo o
que há no mundo em que vivem, mas, pelos esquecimentos no. 1 e 2, eles se
pensam com sendo a fonte do dizer, assim como pensam que o modo como
dizem é a única forma de dizê-lo);
 Cidade (na perspectiva da Análise de Discurso, a cidade interessa não como
objeto físico, mas como um objeto simbólico, como uma materialidade
significante que demanda dos sujeitos gestos de interpretação próprios).

A escolha desses conceitos e não outros se fez orientada pelo dispositivo analítico,
uma vez que se apresenta como uma leitura particular da teoria, tendo em vista os materiais
reunidos para a constituição do corpus. Como se trata de um estudo acerca do(s) discurso(s)
do/sobre o urbano, a passagem por autores que pensam a cidade contemporânea foi inevitável
(seção 1.5). Considerando que não há sentido fora da sociedade e da história, antes de se
proceder à análise, far-se-á, no capítulo 2, uma retomada das narrativas que se contam sobre a
formação de Sorriso.
48

Capítulo II

NARRATIVAS SOBRE A CIDADE DE SORRISO

[...] havia um consenso de que tratava-se de


uma cidade “dividida” pela BR 163.
Num dos lados, habitava a população “gaúcha”
e, no outro, ficavam os bairros pobres
habitados por trabalhadores “maranhenses”
(ALMEIDA, 2013)

Neste capítulo, revisitam-se narrativas acerca da formação do município e da cidade de


Sorriso, no médio norte mato-grossense, na conjuntura do projeto desenvolvimentista
implementado pelos governos militares, na década de 1970, por meio do Plano de Integração
Nacional (PIN). O PIN tinha por princípio que a integração da Amazônia ao resto do país se
faria mediante a abertura de estradas. É nesse contexto que a BR163 começa a ser construída
e, ao longo dela, inúmeras cidades se formam, incluindo Sorriso. Em pouco tempo, Sorriso
desponta, no estado e no país, como um celeiro agrícola, a ponto de ser considerada “a capital
nacional do agronegócio”. Além da abertura de estradas, o governo federal também criou
projetos oficiais de colonização para resolver conflitos de trabalhadores rurais sem terra da
região sul do país. Levas de sulistas foram assentadas no norte de Mato Grosso. E, ao lado dos
projetos oficiais de colonização, surgiram inúmeros projetos particulares, como o que
colonizou a região de Sorriso. Via de regra, os projetos particulares deram origens a cidades
com grande potencial de desenvolvimento, como Sorriso, Sinop, Alta Floresta, Colíder, Nova
Mutum etc. Provavelmente, isso se deva ao fato de os colonizadores, ao tempo que iam
loteando e comercializando os lotes rurais, criarem um pequeno núcleo urbano, com alguns
serviços indispensáveis, e distribuírem lotes urbanos, com a condição de que os proprietários
rapidamente neles construíssem suas casas. Assim, um aglomerado urbano se formava
rapidamente. Sorriso foi planejada para ocupar um lado da BR163, sendo o outro lado
destinado a silos, armazéns, indústrias, equipamentos indispensáveis ao agronegócio. Porém,
na década de 1990, a cidade se tornou o destino de muitos migrantes vindos de Peixoto de
Azevedo, após o fracasso da atividade de garimpagem naquele município. Esses migrantes
não vinham na condição de compradores de lotes rurais e urbanos, mas sim como um
contingente de pessoas empobrecidas que vinham vender sua força de trabalho. A eles não
restava outra alternativa que não a invasão de áreas vazias do outro lado da BR, onde erguiam
suas “casinhas”. Assim, de um lado da BR, ficaram os primeiros migrantes (sulistas),
49

geralmente proprietários de fazendas; do outro, ficaram os migrantes (não-sulistas) que


vieram depois, para se empregar nas mais diversas atividades rurais ou urbanas. No curso
deste capítulo, aproximar-se-á um pouco mais de histórias oficiais ou não que se contam sobre
Sorriso, já que elas constituem as condições de produção do(s) discurso(s) a serem analisados
no Capítulo III.

2.1. Do município de Sorriso

Sorriso é um dos 141 municípios que compõem o estado de Mato Grosso. Localizado
ao norte do estado, ocupa uma área territorial de 9.329,603 Km2. Situa-se numa região de
transição entre o cerrado e a floresta amazônica. Sua população atual é de aproximadamente
77 000 habitantes, dentre os quais contam-se 45.099 eleitores. Segundo dados do IBGE em
2014, Sorriso apresenta um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM)
considerado alto, 0.744, ocupando a 667º colocação no ranking do país e a 9º posição no
estado de Mato Grosso. Distando cerca de 410 km da capital pelas BRs 364 e 163, o
município é constituído por dois distritos: Boa Esperança e Primavera. Limita-se, ao norte,
com os municípios de Ipiranga do Norte e Sinop; ao leste com os municípios de Vera e Nova
Ubiratã; ao sul com Santa Rita do Trivelato e Nova Mutum e a oeste com Lucas do Rio Verde
e Tapurah, conforme figura 1:

Figura 1: Sorriso – limites territoriais


50

Fonte: Plano Municipal de Educação – Lei nº2.492 de 23 de junho de 2015.

É na década de 1970 que a história de Sorriso começa a ser escrita, ao menos em sua
versão oficial. Nesse momento, havia uma política federal de integração do país, implantada
pelo regime militar, vigente desde 1964, que se atribuía, em nome da segurança, grandeza e
desenvolvimento nacional, a tarefa de povoar os imensos vazios demográficos do território
brasileiro principalmente a Amazônia, considerada um flanco aberto a investidas estrangeiras.
A maior floresta tropical do mundo era vista, segundo a retórica militar, como uma “terra de
ninguém”, mas como objeto de desejo de muitos, graças a uma biodiversidade ainda
completamente inexplorada. São desse período, lemas nacionalistas como: “A Amazônia é
nossa” e “Integrar para não entregar”. Se o perigo de invasão das nossas fronteiras era real e
justificava, de fato, o chamado à nação para colonizar a região amazônica não se sabe, mas
sabe-se que ele deflagrou um descomunal projeto de colonização predatória que, em poucas
décadas, tem arrasado aquilo que a natureza demorou cerca de 55 milhões de anos para gerar.
Ademais, essa representação do imenso vazio amazônico ignorava totalmente a existência dos
povos indígenas. Era como se eles não existissem e, se existiam, eram considerados um
empecilho à abertura de fronteiras agrícolas onde havia floresta virgem. Estavam na
contramão do projeto desenvolvimentista.
O apelo dos generais presidentes para a ocupação da Amazônia soava, entre aqueles
que viviam no lado mais desenvolvido do Brasil, como o canto da sereia, ainda mais porque
vinha acompanhada de uma farta distribuição de benesses a quem quisesse explorar os
recursos naturais daquele território virgem. Em 1965, foi criada a Operação Amazônia e,
1968, a Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM) que praticava
uma política de incentivos fiscais e liberação de créditos para empresas colonizadores com
disposição para se instalar e participar do desenvolvimento da região. Em 1970, foi criado o
Plano de Integração Nacional, cujo principal objetivo era ligar o norte ao centro-oeste e sul do
país, pondo em prática o princípio ideológico nacionalista “Integrar para não entregar”, tão
caro aos militares no poder. Uma das estratégias para promover a integração nacional seria
ligar todas as regiões por meio de estradas, uma vez que o acesso a muitas delas, como a
Amazônia, por exemplo, era feito, quase que exclusivamente, por transporte aéreo e fluvial.
Sem estradas, a política de integração do Brasil seria apenas um devaneio. Por isso, uma das
providências dos governos militares foi planejar e construir estradas, dentre elas a
Transamazônica e a BR 163.
51

A BR 163, em cuja margem Sorriso iria crescer, foi construída nesse período, ligando
o sul ao centro-oeste e norte do Brasil, mais precisamente ligando Tenente Portela, no Rio
Grande do Sul, a Santarém, no Pará. O 9º Batalhão de Engenharia de Construção (9º BEC) se
instalou em Cuiabá em 1971, incumbido de abrir o trecho sul (de Cuiabá a Serra do
Cachimbo), na divisa com o Pará, e o 8º BEC, sediado em Santarém, construiria o trecho
norte (de Santarém até a Serra do Cachimbo). Foi, pois, nesse contexto de incentivo, por parte
dos governos militares, à povoação da Amazônia e construção da BR163 que Sorriso
começou a se inscrever no mapa de Mato Grosso.
Conta-se que o senhor Benjamin Raiser, que vivia com a família em Santa Catarina,
teria comprado terras no município de Barra do Bugre por intermédio de um corretor que fora
visitá-lo em seu Estado. Contudo, quando o senhor Benjamim, seu filho Ivo e seu genro
Nelson Frâncio vieram ver as terras adquiridas, constataram haver nelas muitos posseiros e,
por isso, desfizeram o negócio, mas não desistiram do projeto de comprar grandes áreas em
Mato Grosso. Em Cuiabá, conheceram um outro corretor que lhes oferecera terras no norte do
Estado, situadas no antigo Município de Nobres. As terras pertenciam a um italiano que vivia
nos Estados Unidos e, por isso, era referido como “o americano” pelo corretor. Deslocaram-se
para região para conhecer a terra e aprovaram o que viram. Diante da aprovação de Ivo e
Nelson, o senhor Benjamin adquiriu uma área de 2000 alqueires, doando 200 a seu filho e 100
a seu genro, com a condição de que eles abrissem as divisas e demarcassem as fronteiras dos
terrenos.
Como na saga dos velhos colonizadores, os homens vieram sem suas famílias para a
abertura das divisas, tarefa que levou dois anos para ser realizada. Então, “Ivo e Nelson
voltaram para a Região Sul para buscar suas mulheres e filhos e instalá-los em Sinop,
município recém-criado em Mato Grosso, ainda mais ao norte do que viria a ser Sorriso”
(PRESTES, 2010, p. 19), ocasião em que apresentaram Mato Grosso a amigos e parentes
como uma terra de futuro, como uma terra em que pequenos lavradores do sul tinham a
oportunidade de se tornar “fazendeiros”. De volta a Mato Grosso com as famílias, Ivo e
Nelson receberam, em 1975, a visita de Claudino Frâncio e outros paranaenses que tinham
vindo com a intenção de comprar terras na região. Sobrevoaram a região em companhia do
mesmo corretor que havia vendido terras a Benjamin Raiser e fecharam o negócio: Claudino
Frâncio comprou 3000 e Dorival Brandão, 1000 alqueires. De volta ao sul, Claudino Frâncio
revendeu parte das terras adquiridas em Mato Grosso a parentes, amigos e compadres.
Sobre o nome “Sorriso”, os pioneiros entrevistados por Dias e Bortoncello (2003)
contam que ele teria surgido informalmente nas conversas de membros da família Frâncio e
52

amigos que, em vista do sucesso alcançado na venda da primeira área adquirida no norte de
Mato Grosso a compradores sulistas, decidem entrar no ramo do comércio de terras e fundar
uma colonizadora. Com a empresa em pleno funcionamento, faziam propaganda das terras
mato-grossenses nas cidades do sul onde residiam e organizavam caravanas de possíveis
compradores. Como as caravanas a Mato Grosso haviam se tornado uma atividade rotineira,
era preciso saber qual era o seu destino no mapa do estado. Assim, a necessidade de designar
a gleba objeto de compra e venda de lotes rurais pela Colonizadora se tornou um imperativo.
Destarte, numa das conversas travadas pelos pioneiros, vários nomes foram aventados:
Videira, Rio das Antas, Ampére, nomes de cidades de Santa Catarina e Paraná onde
residiam 8 . Um deles sugeriu Curitiba, pois lá vivia Alberto Frâncio. O nome “Curitiba”
catalisou o interesse do grupo. Porém, Claudino Frâncio sugeriu que, ao invés de Curitiba,
poderiam chamar a gleba de “Sorriso”, que era um título dado a Curitiba. O nome “Sorriso”
agradou a todos e ficou decidido que assim designariam a gleba. Identificada no mapa do
estado de Mato Grosso a pedido de Claudino, a Gleba Sorriso era o endereço para onde as
caravanas de compradores do sul rumavam em busca da “terra prometida”. Apesar de a
designação da gleba e, posteriormente, da Colonizadora e da cidade ser uma transposição do
título outorgado a Curitiba no início do século XX, as narrativas fundadoras referem-se a ela
topofilicamente, relacionando-a a qualidades do lugar, como: “alegria, entusiasmo, coragem e
força de vontade dos pioneiros, motivo pelo qual ficou registrado na memória o ponto mais
forte que era a capacidade de sorrir, mesmo quando tinha vontade de chorar” (DIAS e
BORTONCELLO, 2003, p. 85).
Porém, essa versão acerca do nome „Sorriso” não é a única que circula na cidade.
Conta-se também que o sucesso dos primeiros plantios de arroz na gleba era
entusiasticamente noticiado aos familiares do sul, como: “É só rizzo!”. Quer dizer, ao invés de
dizerem “É só arroz!”, descendentes de italianos usavam o termo “rizzo” que é como
nomeiam “arroz”9. A junção de só e rizzo teria resultado em “Sorriso”. Em torno do nome de
uma cidade sempre há muitas lendas.
Assim, atraídos pela propaganda governamental e por incentivos fiscais e créditos para
a colonização e ocupação da Amazônia Legal, como é conhecida a floresta tropical, vieram
muitos paranaenses e catarinenses, bem como gaúchos oriundos da região de Passo Fundo-

8
Em Mato Grosso, muitas cidades criadas a partir da década de 1970, estimuladas pela política governamental
de colonização e povoamento da Amazônia, receberam nomes de cidades do sul, a exemplo de Nova Maringá,
Nova Ubiratã e Porto Alegre do Norte.
9
http://www.mteseusmunicipios.com.br/municipios/sorriso/historia-de-sorriso/571. Acesso em 07/01/2016
53

RS, trazidos pela Colonizadora Sorriso, que administrou o comércio de grande quantidade de
terras às margens da BR 163 no médio norte mato-grossense.
Por meio desta estratégia, a “Gleba Sorriso” foi sendo loteada e vendida. Sulistas
foram chegando e formando, com incentivo da Colonizadora, uma agrovila num dos lados da
BR 163. A agrovila não parou mais de crescer e foi elevada à categoria de distrito do
Município de Nobres em 26 de dezembro de 1980. Em 20 de março de 1982, passou a contar
com uma subprefeitura. E, no dia 13 de maio de 1986, Sorriso foi elevado à categoria de
município, tendo sua área territorial desmembrada dos municípios de Nobres, Sinop e
Diamantino.

2.2 Da capital nacional do agronegócio

Figura 2 “Soja, o ouro do Brasil”. Escultura alusiva à vagem de soja situada no canteiro central da
BR163.
Fonte: Arquivo pessoal

Sorriso é um município de economia predominantemente agrícola, sendo a soja seu


principal produto, seguida de milho e arroz. De acordo com informações do site da
EMBRAPA, baseadas nos dados da United StatesDepartmentofAgricultures (USDA)
relativos às safras de 2013/2014, a produção mundial de soja foi de 283, 873 milhões de
toneladas, correspondendo a 113,049 milhões de hectares plantados. Informa ainda o site da
EMBRAPA, com base nos dados da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), que o
Brasil é o segundo maior produtor da oleaginosa, com uma produtividade de 2842 kg/ha. Sua
54

produção chega a 85,656 milhões de toneladas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Os
dois países produziram juntos mais de 175 milhões de toneladas do grão, representando mais
de 50% da produção mundial de soja.
No Brasil, Mato Grosso é o maior produtor de soja. Em 8616 milhões de hectares
plantados, o estado chega a produzir 26442 milhões de toneladas, com uma produtividade de
3069 kg/ha, bem acima da média nacional que é de 2842 kg/ha. Da produção nacional, 38,5
milhões de toneladas são destinadas ao consumo interno e o restante é exportado, tanto em
grão, como beneficiado em farelo e óleo, rendendo cerca de U$31 bilhões para a economia
brasileira. Da soja produzida em Mato Grosso, boa parte sai do município de Sorriso. Na safra
de 2013/2014, foram produzidas cerca de 2.070.000 toneladas em 633.400 hectares
cultivados. De acordo com o estudo “Perspectivas para a Agropecuária”, realizado pela
CONAB, há previsão de aumento para a safra de 2014/2015.
Em 2011, Sorriso ocupava o primeiro lugar entre os cinco municípios de Mato Grosso
que apresentavam o maior PIB agropecuário do país. Segundo o IBGE, Sorriso apresentou o
melhor desempenho no estado e o segundo melhor no país. O valor adicionado bruto da
agropecuária totalizou R$ 745,6 milhões, representando 0,39% do total. Não sem razão, nesse
ano, a revista Dinheiro Rural, em sua edição nº 85, sob o título “A soja colocou Sorriso no
mapa”, trouxe uma reportagem na qual relata o desafio dos agricultores do município que
consiste em melhorar ainda mais a produtividade por área plantada, passando de 62 sacas de
60kg/ha (o que já é um bom índice, tendo em vista que a média nacional de produtividade é
de 50,8 sacas/ha), para 74 sacas/ha, contabilizando 20% de aumento de produtividade.
Contudo, o que, efetivamente, ocorreu, desde 2011, foi uma queda considerável de
produtividade. Segundo o presidente do Sindicato Rural de Sorriso, no ano de 2012, devido
ao excesso de chuva na região, a produtividade caiu para 55 sacas/ha. Devido a condições
climáticas irregulares, a safra 2014/2015 manteve a produtividade em torno de 56 sacas/ha,
abaixo da média histórica de 60 sacas/ha. Contudo, apesar dos percalços climáticos que
desencadearam as quedas na produtividade, não houve prejuízos na lavoura e o preço por saca
em janeiro de 2015 chegou a R$55,00, garantindo boa lucratividade aos produtores. Pelo seu
destaque como município brasileiro produtor de soja, Sorriso foi laureada, em outubro de
2012, por meio da Lei nº 12724, sancionada pela então Presidente da República, Dilma
Roussef, com o título de “Capital Nacional do Agronegócio”.
No ano de 2013, Sorriso foi o município brasileiro que mais exportou. Em dez meses,
as vendas de produtos oriundos do campo superaram US$ 1,2 bilhão. Desse montante, US$
55

728,1 milhões são resultantes da venda da soja, conforme matéria publicada no site G110.
Contudo, em 2015, Sorriso registrou queda nas exportações de quase 40%: somente a soja em
grão caiu 54%, de acordo com a Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), ligada ao
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). As possíveis causas
da queda nas exportações estão ligadas ao atraso na safra, visto que, além do clima atípico,
houve greve de caminhoneiros entre os meses de fevereiro e março, bem como chuva nos
portos. Esse declínio nas exportações representou, no geral, uma queda nas negociações de
US$ 402,5 milhões para US$ 244,08 milhões e, no caso da soja em grão, foi de US$ 273,2
milhões para US$ 124,9 milhões.
Em 15 de dezembro de 2014, em sessão ordinária da Câmara de Vereadores, foi
aprovada a Lei de Diretrizes Orçamentária (LOA) para 2015, a Lei nº 2.425, que previa uma
receita de R$ 250 milhões para uma despesa estimada no mesmo valor. Desse montante, R$
229 milhões seriam destinados ao poder legislativo, judiciário e executivo para suprir as
despesas dos setores públicos sob a responsabilidade do governo municipal. Do restante, R$
21 milhões seriam destinados ao Fundo Municipal de Previdência Social dos Servidores de
Sorriso (PREVISO). De acordo com o Quadro 3, os gastos públicos municipais ficam assim
discriminados:
Quadro 3: Despesas por função de governo
1. POR FUNÇÕES DO GOVERNO R$
Legislativa 7.891.000,00
Judiciária 776.500,00
Administração 21.179.695,00
Segurança Pública 2.235.000,00
Assistência Social 10.584.765,00
Saúde 58.870.040,00
Educação 67.599.000,00
Cultura 290.000,00
Habitação 480.000,00
Urbanismo 22.485.500,00
Gestão Ambiental 485.000,00
Agricultura 11.375.000,00
Indústria 5.826.000,00
Comércio e Serviços 1.171.000,00
Energia 2.000.000,00
Transporte 7.492.500,00
Desporto e Lazer 5.627.000,00

10
http://g1.globo.com/mato-grosso/agrodebate/noticia/2013/11/sorriso-lidera-ranking-dos-maiores-
exporta dores-de-mt-ate-outubro.html (Sorriso lidera ranking dos maiores exportadores de MT até outubro)
Acesso em 08/07/2015.
56

Encargos Especiais 2.532.000,00


Reserva de Contingência 100.000,00
TOTAL 229.000.000,00
Fonte: LOA - LEI Nº 2.425, DE 15 DE DEZEMBRO DE 2014.

A julgar pelo Quadro 3, Sorriso é o que se pode considerar um município próspero,


com uma despesa anual que ultrapassa a casa dos duzentos milhões. A receita do município
prevista para 2015 da ordem de R$ 195.580.726,95. Dessa projeção, até o mês de outubro a
arrecadação fora de 177.650.881,87. Há previsão de elevação da arrecadação em 2016 para
R$ 221.200.000,00, segundo a Lei de Orçamentária Anual – LOA- de 05 de novembro de
2015.
Se, por um lado, “a soja colocou Sorriso no mapa”, conforme o título da matéria, o
mapa não favorece o escoamento da produção agrícola do município, dada a distância dos
portos. É exatamente em relação ao escoamento da produção que os agricultores esbarram em
muitos obstáculos que acabam por onerar a atividade agrícola do interior do estado, visto que
a logística não conta com uma infraestrutura apropriada para o transporte das commodities.
Com o intuito de atender à necessidade de escoar a produção e colaborar no
desenvolvimento do estado, integrando-o ao Sul, a BR 163, como visto na seção anterior, foi
construída por meio de um convênio entre o Governo Estadual e Federal.

Figura 3: Marco da inauguração da BR 163 em Cachoeira do Curuá (km 877) – 1976


Fonte: Magarit, 2012, p. 42
57

A abertura do trecho que compreende do Trevo do Lagarto até Santarém foi realizada
pelo 9° BEC. Entretanto, a pavimentação da BR-163começou a acontecer após sua
inauguração, em 1976, e de modo fracionado. O maior trecho, entre o posto Gil e Sinop, com
cerca de 330 km, foi inaugurado em 1984. Em território mato-grossense, o trecho asfaltado
vai de Cuiabá a Guarantã do Norte (mais ou menos 750 km). Todavia, o trecho paraense
(cerca de 1000 km) ainda se encontra sem pavimentação.
Quando os primeiros pioneiros de Sorriso chegaram, já havia promessa de término da
pavimentação da BR-163. No entanto, até hoje ela se encontra parcialmente concluída. Desde
o início da colonização da região norte mato-grossense, na década de 70, a BR 163 já
representava uma importante via de acesso ao interior do país. Mesmo antes de o projeto se
concretizar, já determinava o rumo da colonização no norte do estado, visto que vários
municípios foram estabelecidos em localização estratégica em função do traçado da BR, que,
aliás, sofreu modificações, alterando, consequentemente, a colonização de determinadas
áreas, a exemplo do município de Vera, que foi projetado de acordo com o primeiro traçado
da BR 163. Com a mudança do trajeto, um novo município – Sinop – surgiu ao longo da BR
163. Essa BR é de vital importância para os municípios do norte do estado, pois é o único
meio de escoamento da produção agrícola, que é a principal atividade econômica da região.
O fato de a BR163 não estar inteiramente pavimentada (Fig. 3) representa um grande
problema para o agronegócio, não deixando alternativa aos agricultores de Mato Grosso que
não a de escoar toda a safra pelos portos do sul e sudeste – Paranaguá e Santos. Pela distância
geográfica, tais portos estão longe de ser uma alternativa lucrativa. O Porto de Santarém
encurtaria em centenas de quilômetros a distância percorrida pelos caminhões nos escoamento
das commodities produzidas no norte do Estado. Porém, há épocas do ano – estação das
chuvas – em que a rodovia, sem pavimentação, fica intransitável. Mesmo os trechos
pavimentados da BR 163 estão longe de oferecer condições ideais de trafegabilidade pelo
intenso movimento, quantidade de buracos, deterioração do asfalto sob o impacto das cargas
acima do permitido, falta de sinalização e duplicação em determinados trechos.
58

Figura 4: Rodovia BR-163 (Cuiabá-Santarém)


Base cartográfica: IBGE, 2008.
Fonte: Margarit, 2012, p. 43

Nos trechos em que falta pavimentação, o número de cidades é menor. Houve


estagnação na economia, pois a via é praticamente intransitável para o transporte de cargas. O
descaso do poder público tem contribuído para que, nessa parte do país, o desmatamento, a
grilagem de terras, o contrabando, dentre outras práticas ilegais prosperem.
De acordo com Margarit (2012, p. 43), a construção de rodovias e a colonização de
suas imediações faziam parte de um planejamento regional estratégico que visava à ocupação
do território nacional. Como a extensão da Amazônia e suas fronteiras inviabilizava a
vigilância e a ocupação exclusivamente militar, “a estratégia adotada foi incentivar a
ocupação através de projetos de colonização, recrutando imensos contingentes populacionais
em outras regiões do país”.

2.3 Dos projetos de colonização e criação de cidades no interior de Mato Grosso


59

Assim como ocorreu em praticamente todo o território brasileiro, os colonizadores de


Sorriso não encontraram uma área totalmente desabitada. Os primeiros habitantes do território
onde se formou o município de Sorriso foram os índios Kayabi, povo de língua tupi. A
história da colonização de Mato Grosso, bem como a do restante do país, foi marcada pela
violência contra povos indígenas nas suas mais variadas formas, incluindo a invasão,
espoliação e esbulho de suas terras. A ocupação das terras e a economia de subsistência
praticada pelos povos indígenas eram vistas como improdutividade e entrave ao progresso da
região. Para viabilizar o processo de colonização, os remanescentes kayabi que viviam na área
de Sorriso até a década de 60/70 foram “encaminhados” para o Parque Xingu.
Nas décadas de 1970 e 1980, à guisa de operacionalização da política pública de
ocupação da Amazônia e, ao mesmo tempo, propondo-se a resolver conflitos deflagrados por
movimentos de trabalhadores rurais sem terra no sul do país, o governo federal empreendeu
vários projetos de colonização oficial. Em Mato Grosso, através do Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária (INCRA), diversos projetos foram empreendidos no trecho
sul da BR 163 (Quadro 4). Nesses projetos, a terra era destinada a famílias de colonos,
geralmente oriundas da região sul, as quais deviam atender a critérios rigorosos e burocráticos
para receber a terra, bem como obedecer à orientação de desmatar apenas 50% da área
recebida (PASSOS, 2007, p.213). Ao longo dessa rodovia, municípios foram se formando.
Em 1970, Mato Grosso era composto por 34 municípios e em 1990 já contava com 95, a
maioria deles criados a partir de projetos motivados pela política de ocupação do interior do
estado (MORENO, 2007, p.310) e assentamento de famílias sulistas.
Além dos projetos oficiais financiados pelo Estado, houve também projetos de
colonização particular. Em Mato Grosso, cerca de 88 projetos, sob a responsabilidade de 33
empresas colonizadoras, foram desenvolvidos ao longo da BR 163, mais ao norte da rodovia
(Quadro 5). Nessa modalidade de colonização, as terras são comercializadas, ao passo que,
nos projetos oficiais do Estado, elas são cedidas sem ônus às famílias assentadas. Os projetos
da iniciativa privada deram origem a vários municípios no período de 1968 a 1992.
60

Quadro 4: Projetos oficiais de colonização ao longo da BR-163 em MT (1970-1992)


Nome do projeto Município em Municípios criados Área (ha) Nº. de
de colonização que foi instalado com a colonização do projeto famílias
assentadas

Braço Sul Colíder Guarantã do Norte 202.719 2.226


Cafezal Colíder - 20.000 1.160
Canaã Colíder Nova Canaã do Norte 63.000 1.098
Carapá Colíder - 14.440 326
Carlinda Alta Floresta Carlinda 89.986 4.000
Coqueiral Quebó Nobres - 49.383 500
Cruz do Sul Diamantino - 2.239 39
G.L. Eta Peixoto de Azevedo - 22.674 325
G. L. H. I. J. Peixoto de Azevedo - 23.373 388
Lucas do Rio Verde Diamantino Lucas do Rio Verde 200.000 972
Novo México Colíder - 9.963 154
Paraná Colíder - 9.520 318
Peixoto de Azevedo Guarantã do Norte Peixoto de Azevedo 211.000 1.230
Ranchão Nobres - 23.931 120
Serragem Nobres - 1.043 35
Teles Pires Colíder - 97.000 1.160
Terra Nova I e II Colíder Terra Nova do Norte 279.919 1.457
Fonte: Magarit, 2012, p. 46
61

Quadro 5: Projetos particulares de colonização ao longo da BR-163 em MT (1968-992)


Empresas Nomes dos projetos Municípios em que Municípios Área total dos
responsáveis pela de colonização foram instalados criados com a projetos (ha)
colonização colonização
Agropecuária do Matupá I e II e Colíder Matupá 116.064
Cachimbo Glebas A, B, C, D, E,
H, U e X
Agropecuária Rio do Sangue Diamantino - 76.771
Gravari
Coimbra São João Porto dos Gaúchos - 18.555
Empreendimentos
Colonizadora Nova Bandeirantes Alta Floresta e Juara Nova 19.992
Bandeirantes Bandeirantes
Colonizadora e Vale do Verde e São Nobres - 24.252
Melhoramento Manuel
Tropical
Colonizadora Maiká Marcelândia Sinop Marcelândia -
Colonizadora Sinop Gleba Celeste I, II, Chapada dos Sinop, Vera, 449.205
III, IV e V Guimarães Cláudia, e Santa
Carmem
Colonizadora Sorriso Sorriso, Teles Pires, Nobres e Chapada Sorriso 59.258
Santa Rita e Boa dos Guimarães
Esperança
Colonizadora Tapurah Diamantino Tapurah 25.684
Tapurah
Conomali Meu Brasil, Gleba Diamantino Porto dos 26.297
Arino 1, 2, 6 e 7 Gaúchos
´Coplaca Bariri Colíder - 12.136
Empreendimento Boa Esperança I, II, Diamantino - 31.958
Agropecuário III, IV e V
Eldorado
Imagrol Novo Horizonte Porto dos Gaúchos Novo Horizonte -
do Norte
INCOL Massapé 1, 2 e 3 Diamantino São José do Rio 17.877
Claro e Nova
Maringá
INDECO Alta Floresta, Aripuanã, Chapada Alta Floresta, 907.944
Paranaíta, Apiacás 1, dos Guimarães e Paranaíta e
2, 3 e 4 e Diamantino Apiacás
Redenção 1 e 2
Líder Colíder Chapada dos Colíder -
Guimarães
Mutum Agropecuária Mutum I e II e Diamantino e Nobres Nova Mutum 116.598
Mutum etapa A e B
SIBAL Juara Porto dos Gaúchos Juara 14.500
TOPLANAGRO Pacoval Nobres - 11.130
Fonte: Magarit, 2012, p. 47

Como é possível observar pelo Quadro5, Sorriso é um dos muitos municípios de Mato
Grosso que teve origem a partir de um projeto de colonização particular nas últimas três
décadas do Século XX. Esse modelo de colonização, no qual a terra é tida como capital,
automaticamente restringe sua posse àqueles que possuem poder aquisitivo para obtê-la e
cultivá-la, deixando de fora as famílias que dependem da concessão de terras por parte do
Estado para se estabelecer e desenvolver a agricultura de subsistência.
62

Os municípios criados mediante ação colonizadora de empresas privadas costumam


ter, como sedes, cidades planejadas, com infraestrutura adequada para atender sua população.
Segundo Ferreira (1986 apud DIAS e BORTONCELLO, 2003 p.57), a área que dera origem a
sede de Sorriso foi adquirida da Companhia Santa Irene por Claudino Frâncio, tido como um
dos “pioneiros” da colonização do município. De acordo com Prestes (2010) e Almeida
(2013), para criar a vila que daria origem à cidade de Sorriso, uma das estratégias adotadas
pela Colonizadora local foi a doação de lotes no centro urbano a quem comprasse áreas de
floresta, com a condição de que nele construíssem uma casa no prazo de seis meses. Caso essa
condição não fosse respeitada, o lote era retomado pela Colonizadora, pois o núcleo urbano
deveria se desenvolver célere e uniformemente. Assim, como outras cidades mato-grossenses
planejadas, nascidas na conjuntura da colonização, Sorriso desenvolveu-se segundo um
projeto que inclui áreas de preservação ambiental, conhecidas como “áreas verdes”, para
proporcionar conforto e lazer a seus habitantes, ruas e avenidas largas para garantir melhor
trafegabilidade e setorização de áreas residenciais e comerciais. A exemplo de Sorriso,
também a cidade de Sinop segue esse princípio de desenvolvimento urbano, que busca
implantar em Mato Grosso o modelo das cidades modernas e planejadas da região sul do país.
De acordo com Almeida (2013, p. 41), o planejamento urbanístico para a cidade de
Sorriso privilegiava a ocupação de umas das margens da BR 163, reservando a outra margem
à construção de armazéns e silos. Na década de 1980, esse planejamento foi observado, com a
ocupação da área urbana prevista principalmente por famílias sulistas, muitas delas com uma
residência na fazenda e outra na cidade. Contudo, na década de 1990, diante do expressivo
contingente de migrantes vindos de Peixoto de Azevedo, a margem oposta começa a ser
ocupada, mediante invasão de lotes pertencentes à Colonizadora, posteriormente
regularizados pela prefeitura (PRESTES, 2010). Consoante Almeida (2013, p. 42), “Essa
distribuição da população conferiu a Sorriso o aspecto de uma cidade dividida pela BR 163,
considerando o contraste flagrante entre os bairros situados nos dois lados da rodovia”.

2.4 Da construção da sociedade sorrisense

Conforme Prestes (2010), há uma história oficial sobre a formação do município e da


cidade de Sorriso, que exalta o pioneirismo e a bravura dos “gaúchos”, ao adentrarem a
região, em condições adversas, e, mesmo assim, transformá-la no celeiro do país. Essa versão
heroica, retratada por Dias & Bortoncello (2003), encontra eco nos discursos dos cidadãos
63

sorrisenses dos mais diversos setores. Vale observar que o termo “gaúcho” é empregado
metonimicamente pela população local para designar o migrante sulista em geral e não apenas
aquele que vem do Rio Grande do Sul.
Há relatos de que os índios Kayabi viviam na região de Sorriso e, além deles, também
„grileiros‟, como mostra a narrativa seguinte, feita por um dos primeiros responsáveis pelas
ações da colonizadora:

Quando nós compramos essa área de Sorriso, era oito mil alqueires. Tinha mais ou
menos umas duzentas pessoas aqui em cima, de grileiros. Nós compramos de uma
firma do Rio de Janeiro, do Euclides Aranha, que era ministro de Guerra do Governo
Castelo Branco. E nós compramos isso só que limpo, sem ninguém em cima. Eles
deram conta. Vieram ali com a justiça e tiraram todo mundo pra fora. Até fiquei
arrepiado! Tinha tanta criança! (DIAS; BORTONCELLO, 2003, p.197).

Essa narrativa sugere que a compra de uma área de oito mil alqueires, onde
sabidamente havia mais ou menos duzentas pessoas na condição de grileiros, foi condicionada
à limpeza do terreno, ou seja, à expulsão daqueles que lá se encontravam antes do processo de
colonização oficial se instalar (“E nós compramos isso só que limpo, sem ninguém em cima”).
Aos grileiros, que usufruíam da terra sem serem donos dela, estava associada implicitamente a
concepção metafórica de „sujeira‟, daí o emprego do termo “limpo”. Comprar a área “limpa”,
quer dizer, sem grileiro em cima, significava não ter de se haver com problemas de qualquer
ordem, até mesmo de consciência. Como espectador da retirada dos grileiros ou da “limpeza
do terreno” pela ação da “justiça”, neste caso confundida com “ação de policiais” (“Eles
deram conta”), o narrador se permite até “ficar arrepiado”, ao observar que havia “tanta
criança” entre eles. O mesmo entrevistado, quando questionado sobre possíveis
enfrentamentos no processo de „limpeza‟ da área, responde não ter participado, mas ter se
“comovido” com a cena que avistava: “Não, nada, só dava dó de ver, era um dia de chuva”.
Indagado sobre o destino dos desalojados, ele responde: “Vieram com autorização do
Ministro do Exército, com dois ônibus de policiais levavam na beira da rodovia e mandavam
embora”. Enfim, que “justiça” é essa feita com “Autorização do Ministro de Exército” e “dois
ônibus de policiais” que se encarregaram de “tirar todo mundo pra fora”, “despejar na
rodovia”, com a ordem de que “fossem embora”? Que justiça é essa feita sem tribunal, sem
juiz, sem defesa, apenas pela intimidação de um batalhão de policiais? Era o período da
ditadura militar. Não se estranha, pois, que as práticas repressivas fossem “confundidas” com
justiça.
64

Outro entrevistado, cujo nome não foi revelado na obra, quando indagado sobre a
questão da expulsão dos posseiros que viviam na área anteriormente à colonização oficial pela
iniciativa privada, se negou a relatar o que de fato ocorreu. Contudo, foi contundente ao dizer
que o que aconteceu em Sorriso acontece também em outros projetos de colonização. Nada de
explícito foi dito, mas respondendo de maneira apofática, refutando o pré-construído da
“expulsão dos posseiros” presente na pergunta do entrevistador, fez muitas insinuações acerca
do acontecido:

Eu posso dizer em duas palavras, a verdade: a senhora já viu no Brasil uma


colonizadora que não teve que apelar? Seria uma exceção. Apesar de que aqui foi uma
maravilha. Deus foi tão bom com esse povo aqui, que você não faz ideia. Nessa
gravação ficaria até feio pra quem fez, se só fosse um mar de rosas. Se só fosse bom,
por que não foram todo mundo morar lá, se lá é o céu? Não, aqui era o céu, mas tinha
um pedacinho do inferno. Quem quiser fazer um histórico de Sorriso, no entendimento
do público, que é uma família e uma família é claro, que não vai dizer: olha Fulano fez
isso, Ciclano fez aquilo errado, mas tem muita coisa também que no começo da cidade
deixa marcas muito tristes e que não convém registrar em um álbum de família, como
vai ser esse. (DIAS; BORTONCELLO, 2003, p.198)

O entrevistado tem plena consciência de que sua fala está colaborando para a produção
de uma obra que se propõe a ser o registro histórico da cidade e não tem a intenção de “expor
a face” dos pioneiros e a sua própria, uma vez que ainda residem na cidade que é vista como
uma família. A comparação da obra em que seu relato seria publicado com “um álbum de
família” revela sua preocupação em não macular a história “heroica” dos fundadores de
Sorriso, centrada na figura do senhor Benjamin Raiser juntamente com seu filho Ivo Raiser e
Nelson e Claudino Frâncio que construíram um município próspero onde antes havia uma
terra “desabitada”. Essa história, como se viu, silencia a presença dos índios Kayabi e a de
grileiros na região, os primeiros deslocados para a reserva do Xingu e os segundos despejados
na beira da BR por uma centena de policiais. Silencia também a presença dos atores
coadjuvantes que chegaram nos primeiros tempos da colonização, como pequenos
comerciantes, borracheiros, donos de pensão etc., referidos como “nordestinos” e, mais
comumente, como “maranhenses”. Afinal, a terra que colonizaram era uma “terra vazia”.
Dos relatos das primeiras famílias a fixar residência em Sorriso, encontra-se registro
apenas daquelas oriundas da região sul do país na condição de proprietários de grandes áreas:
os Frâncio, os Raiser e os Cappellari, tidos como “pioneiros”. Não se encontra na narrativa de
Dias & Bortoncello (2003), ou mesmo em entrevista de algum pioneiro, a identificação de
pessoas que tenham vindo, não na condição de proprietários, mas na de mão de obra.
Transformar mata em pé em área agricultável é um processo bastante complicado que envolve
65

muitas etapas, do desmate ao plantio da semente e colheita. Esse processo demandava muitos
trabalhadores braçais para execução das diversas tarefas. Porém, esses passam quase
despercebidos, apesar de sua relevância na formação do município e da cidade. São tratados
como sujeitos sem nome, designados por um substantivo comum, como “catadores de raiz”,
“peões”, “peonada”, “saqueiro” (DIAS; BORTONCELLO, 2003) e não por um nome próprio.
Nomes próprios são reservados aos “pioneiros”, aos “fundadores”.
À medida que Sorriso avulta na mídia nacional como uma “terra prometida” e
abundante em oportunidades de emprego, começa a atrair migrantes dos mais diversos estados
brasileiros, principalmente do norte e nordeste. Na década de 90, em meio à severa crise de
desemprego que assolava o país e ao fracasso das atividades de garimpagem em Mato Grosso,
Sorriso despontava como um oásis para muitos aventureiros. Sobre essa afirmação, é possível
constatar, em Prestes (2010, p.168), que no período de 1994 a 1996, no interior do estado de
Mato Grosso, mais precisamente em Peixoto de Azevedo, reconhecidamente uma área de
garimpo, corria a fama de Sorriso, como um lugar que oferecia oportunidades de trabalho e
boa remuneração. Então, entravam em cena os migrantes nordestinos e nortistas que haviam
migrado para Mato Grosso, mais precisamente, para o município de Peixoto de Azevedo, num
momento em que a garimpagem era uma atividade econômica atrativa. Com a precipitação da
crise nessa atividade, em razão da desvalorização do ouro e do encarecimento dos insumos
para a sua extração, teve início uma nova e maciça corrente migratória, em direção a Sorriso,
de paraenses e maranhenses, vindos não diretamente de seus estados de origem, mas de
Peixoto de Azevedo.
A chegada desses novos trabalhadores alterou a lógica do planejamento da cidade por
assim dizer, visto que Sorriso era um município essencialmente agrícola, cujas famílias,
vindas do sul, com larga experiência em agricultura, estavam transformando o ácido solo
mato-grossense num imenso e fértil canteiro de grãos. Os novos migrantes que buscavam
Sorriso vinham de uma experiência com garimpo, que é uma atividade de exploração, numa
lógica bem diferenciada da atividade dos primeiros migrantes que é a de cultivo. Havia ainda
uma diferenciação crucial na forma de migração praticada por ambos os grupos étnicos
observados. Os sulistas são conhecidos como pioneiros, desbravadores e colonizadores, que
migram para terras com florestas virgens, tornando-as agricultáveis, realizando benfeitorias, a
fim de fincar suas raízes, permanecer no local e gerar riquezas. Em síntese, sulistas são vistos
como promotores do progresso onde há atraso. Já os nortistas e nordestinos possuem um
histórico de migrações constantes em busca de lugares que já possuem boas condições de
trabalho para então fixarem residência, até que tenha se esgotado o potencial desse local,
66

como aconteceu com o garimpo de Peixoto de Azevedo, e seja necessário partir novamente à
procura de outras frentes de trabalho. Enquanto os migrantes do sul vieram para Sorriso com
o intuito de adquirir uma porção de terras para cultivar, virar fazendeiro e, consequentemente,
ficar rico, os do norte e nordeste vieram em busca de trabalho nas lavouras já estabelecidas,
no comércio e em setores de serviço que não demandassem mão de obra especializada,
visando muito mais a sobrevivência cotidiana do que a prosperidade futura.
Foram tantos os maranhenses que se deslocaram dos garimpos de Peixoto para Sorriso
que todo migrante não sulista que chegava à cidade era designado pelo adjetivo pátrio
“maranhense”, tivesse ele vindo ou não do estado de São Luiz do Maranhão. Assim, como
pelo termo “gaúcho” se nomeia todo migrante do sul, pelo termo “maranhense” se nomeia
todo migrante do norte ou nordeste. Em Sorriso, “maranhense” é o que era o “baiano” na
região cafeeira de São Paulo. Monbeig (1984), estudando o processo de colonização e
formação da cafeicultura no estado de São Paulo, havia observado algo semelhante em
relação ao uso dos gentílicos “paulistas” e “baianos”: “paulistas” designava os grandes
cafeicultores mesmo que não fossem paulistas e “baianos”, os trabalhadores braçais dos
cafezais, mesmo que não fossem originários da Bahia. Grosso modo, pode-se dizer que
Sorriso é uma terra de “gaúchos” e “maranhenses”, que, ao menos no plano simbólico,
mantêm uma relação de oposição e não de aliança.
Ao chegarem a Sorriso, os “maranhenses” se depararam com inúmeras dificuldades, e
uma delas foi a de moradia. Apesar de terem encontrado um município bem estabelecido,
diferentemente dos sulistas que tiveram que construí-lo, não puderam desfrutar de boas
condições de vida logo de início. Como mencionado anteriormente, os lotes urbanos eram
concedidos gratuitamente aos agricultores que adquiriam suas terras por intermédio da
Colonizadora Sorriso, ou seja, não se vendiam lotes urbanos a terceiros, sem que estes
adquirissem terras para plantio. Essa prática era uma forma de a Colonizadora deter o controle
da ocupação do espaço urbano, inicialmente da agrovila, mais tarde da cidade. Assim, quando
os “maranhenses” começaram a chegar em massa, as casas disponíveis para locação, bem
como pensões, hotéis e similares eram insuficientes para atender a demanda. Sorriso
vivenciava forte especulação imobiliária, com aluguéis, em virtude do desequilíbrio entre
oferta e demanda, atingindo preços estratosféricos.
Na época em que os “maranhenses” descobriram o caminho de Sorriso, a cidade
praticamente não dispunha de bairros periféricos em seu entorno, onde fosse possível, mesmo
que sem infraestrutura adequada, os recém-chegados se alojarem. De acordo com relatos de
moradores, os bairros periféricos começaram a surgir, a partir da década de 1990, por pressões
67

sociais dos novos migrantes que vinham para se estabelecer na cidade e não nas fazendas. São
dessa época os bairros São Domingos e Fraternidade, popularmente conhecidos como „bairros
de maranhenses‟.
Ao observar o posicionamento do perímetro urbano de Sorriso e a localização dos
bairros formados inicialmente, é possível evidenciar que a Colonizadora direcionou a cidade
para uma das margens da BR 163, ficando a outra margem destinada à construção de silos e
armazéns, isto é, a uma espécie de distrito industrial, criado por volta de 1988, onde se
fixaram serrarias, indústrias de beneficiamento de commodities, dentre outras empresas do
setor produtivo. Atualmente, ainda é essa a impressão de quem chega a Sorriso pela primeira
vez e trafega pelo perímetro urbano da BR 163. De um lado é possível observar, além de
empresas de vendas de insumos e máquinas agrícolas, as duas avenidas principais contendo
lojas, bancos, hotéis, como também, partindo delas, as ruas residenciais. Do outro lado, tudo o
que se vê são silos, armazéns, revendas de máquinas agrícolas e insumos, postos de gasolina e
outras empresas do gênero. À primeira vista, quem circula pela BR 163 não percebe nenhum
indício de que atrás daqueles silos e armazéns gigantescos encontram-se inúmeros bairros
residenciais. É lá que reside a maioria dos migrantes que vieram a Sorriso não com a intenção
de se tornar fazendeiros (esses foram agraciados com lotes urbanos na agrovila que veio a se
transformar na cidade de Sorriso em 1986), mas com a intenção de arrumar algum trabalho
para seguir sobrevivendo.
Não há dados oficiais do surgimento dos bairros periféricos localizados no lado da BR
163 que inicialmente foi destinado à área industrial (Figura 4). Porém, de acordo com Prestes
(2010, p. 207), as datas aproximadas para a criação dos bairros residenciais nessa área seriam
as seguintes: Área Industrial (1988), Fraternidade (1991), São Domingos (1992), Boa
Esperança I (1996), São Mateus (1997),Novos Campos (1999), Vila Bela (1999)11, todos na
década de 1990.Quer dizer, os bairros da área industrial surgiram não na primeira década de
Sorriso, mas sim na segunda, coincidindo com a chegada dos “maranhenses”. Como se pode
notar, são vários os bairros formados desse lado da BR 163, mas os “gaúchos” costumam se
referir a eles simplesmente como São Domingos, como se fosse um só bairro.

11
As informações fornecidas por Prestes têm como data limite o ano de 2010. Depois disso, mais dois bairros
residenciais já surgiram na área industrial: Nova Aliança I e Nova Aliança II.
68
69

Figura 5: Mapa urbano de Sorriso


Fonte: Prestes, 2010, p. 215
70

Observando a cidade de Sorriso e ouvindo seus moradores, Prestes (2010), em sua


primeira viagem de pesquisa, percebe haver, além de uma separação física, ocasionada pela
BR 163 que corta o espaço urbano em duas partes bem definidas, também uma separação
socioeconômica e até mesmo étnica se superpondo à primeira. Conversando com pessoas da
cidade, esses dois lados eram designados como o lado dos “gaúchos” e o lado dos
“maranhenses”. Em vista disso, Prestes conjecturou a existência de uma cidade A (o lado dos
gaúchos) e uma cidade B (o lado dos maranhenses). Ao longo de sua pesquisa, contudo,
reformulou sua hipótese. Não descartou a existência dessas duas cidades, mas relativizou a
descontinuidade geográfica, pois observou que, na cidade A, havia nichos de cidade B e vice-
e-versa. Em relação a alguns bairros da cidade A, Prestes (2010, p. 210) ouviu de informantes
“gaúchos” que “ali vivem muitos maranhenses”. Geograficamente, os bairros aludidos
compõem a cidade A, mas do ponto de vista socioeconômico e étnico se comportam como
bairros da cidade B. Diz a autora:

Durante nossa primeira estadia em Sorriso vários bairros haviam sido nomeados,
sendo caracterizados como pobres e habitados por “nordestinos” (a maioria
“maranhenses”), mas até então não sabíamos onde os mesmos se localizavam.
Somente durante a segunda viagem descobrimos que bairros como São José 1 e 2,
Jardim Carolina e União estavam onde deveria estar apenas a “Cidade A”. Sendo
assim, tivemos a primeira evidência de que poderíamos questionar a separação entre
“Cidade A” e “Cidade B” que havíamos definido no início do trabalho.
[...]
Notamos então que a divisão da cidade não se limita àquela feita pela passagem da
BR163. Na realidade percebemos que há diversas “Cidades B”, pois algumas se
localizam onde estaria apenas a “Cidade A”, ocorrendo o mesmo com a última: onde
deveria haver apenas “Cidade B”, também existe “Cidade A” (PRESTES, 2010, p. 33-
34)

A separação entre “maranhenses” e “gaúchos” é uma tópica sempre reiterada no


discurso dos moradores de Sorriso. Além da separação étnica, associada à separação
geográfica, as narrativas de uns e outros assinalam traços relativos a atributos físicos,
comportamentais e socioeconômicos. Conforme Prestes (2010, p.35-37), normalmente
“gaúchos” são significados como brancos, altos, e ricos por “maranhenses” que, por sua vez,
são significados como pretos, baixinhos, pobres, beberrões, preguiçosos, desordeiros e
promíscuos por “gaúchos”. Algo que chamou a atenção de Prestes (2010, p. 38), desde a sua
primeira visita a Sorriso, foi o silenciamento da participação dos “maranhenses” na
construção da história da cidade: “a história da cidade parece “pertencer” aos „gaúchos‟, pois
71

quando a contam eles se apresentam como os únicos „atores‟ da narrativa”, destacando a


própria bravura, coragem e empreendedorismo, ao erguerem uma cidade promissora e um
município que é um gigante do agronegócio em pleno cerrado.
De acordo com Almeida (2012, p. 42), informações colhidas durante sua pesquisa
mostram que essa disposição para repartir a cidade em lado dos “gaúchos” e lado dos
“maranhenses” pode ser decorrente de formas de interdição praticadas pela Colonizadora:
“Ao mesmo tempo que lotes eram oferecidos a migrantes sulistas, outros migrantes eram
impedidos de comprá-los em função da origem social e/ou étnica. Relatos obtidos em campo
apontam que a Colonizadora não negociava lotes com compradores considerados negros”.
Embora simbolicamente “gaúchos” e “maranhenses” sejam significados como
apartados, Almeida (2012, p. 45) observou que diversas fronteiras entre eles não são tão
rígidas, como por exemplo, a existência de “bairros muito pobres, considerados bairros de
maranhenses como Jardim Carolina, São José e Jardim Amazônia, localizados em áreas mais
periféricas do lado gaúcho”. Do lado “maranhense”, há moradores que são considerados
“gaúchos” e até casamentos entre gaúchos e maranhenses são relatados. Também o hábito
“gaúcho” de beber chimarrão foi observado com frequência do lado dos “maranhenses”. Tudo
isso mostra a fluidez das fronteiras entre os dois lados.
Outro aspecto que Almeida (2012) observou em sua pesquisa foi a circulação de
pessoas de um lado para o outro, constatando que o fluxo de maranhenses para o lado dos
“gaúchos” é bem mais intenso do que o de “gaúchos” para o lado dos “maranhenses”:

Os moradores do lado maranhense tendem a circular mais intensamente entre as “duas


metades” da cidade, uma vez que correspondem a boa parte da mão-de-obra atuante
nas casas e nos estabelecimentos comerciais dos gaúchos. Os gaúchos, por sua vez,
têm menos motivos para atravessar a rodovia: os produtores fazem diligências em
busca de trabalhadores, alguns homens mais jovens também costumam frequentar os
bailes no “São Domingos”. A Paróquia Santa Luzia, situada na borda desses bairros
pobres também costuma ser frequentada por moradores do lado “gaúcho”. No lado
nordestino, existem também algumas “chácaras” e clubes de piscina que os gaúchos
frequentam nos períodos de descanso. (ALMEIDA, 2012, p. 46 e 47)

Embora, simbólica e discursivamente, a oposição entre “gaúchos” e “maranhenses”


seja acentuada nas narrativas sobre a formação da cidade de Sorriso, os estudos etnográficos
de Prestes (2010) e Almeida (2012) mostram que as fronteiras entre essas duas comunidades
são, em muitos aspectos, fluidas, havendo interação entre elas.

2. 5 Em resumo
72

Resulta dessa revisita a narrativas oficiais ou não sobre Sorriso a percepção de que a
decantada divisão da cidade em lado de “cá” e lado de “lá”, tendo a BR163 como símbolo do
apartheid do corpo social urbano, está relacionada a seu processo de formação em dois
tempos: o tempo da colonização, nas décadas de 1970 e 1980, capitaneado por migrantes
sulistas e o tempo do pós-colonização, a partir da década de 1990, que, graças à fama de
cidade próspera, atrai um enorme contingente de trabalhadores desempregados dispostos a
vender a única coisa que possuem – sua força de trabalho. Essa formação em dois tempos e
por migrantes originários de regiões distintas e com propósitos diversos fez de Sorriso uma
cidade dividida, com um contraste econômico, social e étnico flagrante entre um lado e outro
da rodovia. Quem chegou primeiro, na condição de colonizador, não se afasta da
representação de “dono” do lugar. Nesse cenário, quem chega depois é representado/se
representa como o outro, o intruso, o que traz problema, o que desequilibra a ordem até então
reinante, tornando-se uma tópica discursiva fecunda, frequentemente sujeita a mal-dizer, nas
mais diversas esferas de comunicação da sociedade sorrisense, como se verá no capítulo
seguinte.
73

Galeria de fotos: o lado de “cá” e o lado de “lá” de Sorriso

Lado de cá: Galpão da Associação de Feirantes de Sorriso onde as feiras acontecem às terças, quintas
e sábados.

Lado de lá: Feira a céu aberto na rua Tangará, aos domingos.


74

Lado de cá: Escola Municipal Prof.ª Ivete Lourdes Arenhardt, situada na região central.

Lado de lá: Escola Municipal Valter Leite, com o melhor índice IDEB no município.
75

Lado de cá: CEMEIS Pingo de Amor, situado na região central

Lado de lá: CEMEIS São Domingos


76

Lado de cá: PSF Central

Lado de lá: PSF Industrial II


77

Lado de cá: Câmara Municipal de Vereadores

Lado de lá: Subsede da Câmara Municipal de Vereadores


78

Lado de cá: Igreja Matriz São Pedro Apóstolo

Lado de lá: Paróquia Santa Luzia, situada em rua sem pavimentação.


79

Lado de cá: Park Shopping Sorriso.

Lado de lá: Shopping “do Chagas”, contendo posto de combustível, loja de móveis, agência bancária,
pizzaria, farmácia e casa de carnes.
80

Lado de cá: Farmácia Cidadã, situada na Praça da Juventude.

Lado de lá: Farmácia Cidadã, anexa ao posto dos Correios.


81

Lado de cá: Oásis Clube.

Lado de lá: Clube Tradição


82

Lado de cá: El Taco Pub Mexicano

Lado de lá: Bares cujos frequentadores se espalham pela rua em dias de movimento intenso.
83

Lado de lá: Bar próximo à feira livre num domingo de manhã

Lado de cá: Musike lounge bar


84

Lado de cá: Praça das Fontes, situada na área nobre da cidade, cercada por belas casas.

Lado de lá: Praça da Integração, situada na divisa dos bairros São Mateus e Novos Campos.
85

Lado de cá: Franquia de fast food Subway.

Lado de lá: Franquia de fast food Subway.


86

Lado de cá: Laboratório de Análises Clínicas

Lado de lá: Laboratório de Análises Clínicas


87

Lado de cá e lado de lá: Ao cruzar o viaduto da BR163, Av. Idemar Riedi tem sua largura reduzida.

Lado de lá: Rua estreita de difícil tráfego no cruzamento com a Rua São Francisco
88

Lado de cá: Início da Av. Natalino Brescansin (Os silos do outro lado da BR163 camuflam os bairros
do lado de lá)

Lado de lá: Rua São Francisco de Assis (por trás dos grandes silos e armazéns, a continuidade da vida
urbana de Sorriso).
89

Lado de cá: Cruzamento da Av. Tancredo Neves com Av. Blumenau, ponto de encontro de jovens
nos finais de semana para ouvir som automotivo e consumir bebidas alcóolicas.

Lado de lá: Rua Passo Fundo, vulgarmente conhecida como “Passo o fumo” ou “Cracolândia de
Sorriso”.
90

Lado de cá: “Gaúcho”. Escultura situada no canteiro central da Av. Blumenau. Além
da cuia, havia uma chaleira na mão direita.
91

Lado de cá: “Agricultor”. Escultura situada na Av. Blumenau. Tributo aos profissionais do
setor. Originalmente havia brotos na semente que o agricultor tem nas mãos.
92

Lado de cá: “Mato-grossense”. Escultura situada na Praça das Fontes. A viola de


cocho remete à cultura cuiabana.
93

Lado de cá: “Nordestino”. Escultura situada na Praça da Juventude. Havia um triângulo em uma das
mãos, instrumento musical típico dos forrós.
94

Lado de cá: “Capoeirista”. Escultura localizada no centro da Praça da Juventude ( Além de muito
fotografada, a estátua é sempre visitada por crianças que a escalam . À sua volta acontecem rodas
de capoeira).
95

Lado de cá: “Índia”. Escultura situada na Praça Antenor Balbinot, em local de pouca visibilidade.
96

Lado de cá: “Raça”. Escultura situada na Av. dos Imigrantes. Uma alusão à raça negra. (É a
escultura mais alvejada por vândalos, seus braços já foram restaurados várias vezes).
97

Capítulo III

O OUTRO NO ESPAÇO URBANO DE SORRISO: EFEITOS DE SENTIDO

Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto


Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
(Caetano Veloso)

Como mencionado no primeiro capítulo deste trabalho (seção 1. 6), o corpus que será
aqui analisado foi construído pelas vias arquivista e experimental. Da pesquisa em arquivo
resultou um conjunto de quatro matérias – notícias e vídeos – em circulação nos meios de
comunicação locais e estaduais. Já pela pesquisa experimental, foram produzidas quatro
entrevistas com pessoas residentes em Sorriso, atuantes em diversas esferas de atividades
sociais. Nem as matérias midiáticas e nem as entrevistas serão analisadas integralmente; elas
se constituirão em fontes de enunciados a serem recortados pelo pesquisador em convergência
com o objeto e a perspectiva teórica da pesquisa. São justamente aqueles elementos materiais
– as palavras-valise – que, no enunciado, indiciam a relação do atual com as condições de
produção, as formações discursivas, a memória discursiva ou interdiscurso o alvo dos gestos
de leitura realizados pelo analista de discurso. Como se pergunta Sèriot (1986, p. 14): “Se se
considera a sintaxe como um sistema neutro e fechado, como se pode admitir que um texto
possa portar em si, na sua própria materialidade, alguma coisa que lhe seja “outra”.

3. 1 Enunciados buscados em arquivo

Nesta seção, serão analisados enunciados recortados das quatro matérias que
circularam na mídia local e estadual entre os anos de 2012 e 2015, listadas nos procedimentos
metodológicos constantes do Capítulo I.

3.1.1 Matéria 1: o artigo definido, a nominalização e a lexia “convidar”

A primeira matéria – “Dilceu Rossato condena o preconceito e convida o nordestino a


morar em Sorriso” – foi veiculada pelo site HojeNews, em 10 de outubro de 2012, três dias
após a votação que elegeu Rossato a prefeito de Sorriso pela segunda vez. Como visto no
segundo capítulo desta pesquisa, narrativas acerca da formação da agrovila que dera origem à
98

cidade de Sorriso relatam a difícil acomodação dos nordestinos que chegaram a um território
tido como domínio, por excelência, de sulistas. Apesar de mão de obra indispensável ao
cultivo da terra, os nordestinos carregam o estigma de indesejáveis, estando à sombra dos
sulistas na construção do município.
A BR 163 que divide fisicamente a cidade em duas partes funciona também com uma
linha fronteiriça que divide o corpo social, apartando a maioria sulista (gaúchos) que habita o
“cá” da maioria não-sulista (maranhenses) que habita o “lá”. O “cá” é o lugar ocupado por
aqueles tidos como pioneiros, por aqueles que assumem a posição de colonizadores do
município e, por isso, se arrogam o direito de dizer o discurso fundador. O “lá”, no discurso
dos pioneiros, é o lugar de quem chega depois, é o lugar do Outro, é o lugar dos intrusos e
invasores, daqueles que ameaçam a ordem, que são portadores da violência, da insegurança e
de toda sorte de problema social. Em meio a essa formação sócio-histórico-ideológica,
floresce uma prática discursiva permeada de preconceito e discriminação em relação à
presença do Outro em Sorriso, prática que é evocada e explorada eleitoreiramente em
campanhas políticas, como sugere o Enunciado 1 (E1), que figura como título da Matéria 1:

E1: Dilceu Rossato condena o preconceito e convida o nordestino a morar em Sorriso

Em E1, a presença do artigo definido „o‟, antecedendo o substantivo „preconceito‟,


vincula o enunciado atual a uma memória discursiva partilhada pelos sorrissenses em que o
preconceito racial contra os nordestinos emerge como o „já-dito”. Há, pois, uma relação entre
o que está sendo dito por E1 (a formulação atual) e o que já foi dito antes e em outros lugares
(a constituição). Quem escreveu a matéria jornalística, relatando a fala do prefeito, subsume o
leitor como alguém que também sabe de qual “preconceito” ele está falando. É como se
dissesse: “todos já sabem de que preconceito se trata”; “É tão evidente entre nós que se trata
de preconceito contra os nordestinos que nem é necessário determinar o alvo do preconceito”.
Em E1, o funcionamento do artigo definido antes do substantivo „preconceito‟ permite, pois,
compreender um postulado da Análise de Discurso, segundo o que as palavras significam pela
história (a memória discursiva) e pela língua. Não se está diante de um caso de emprego
anafórico do artigo definido, pois ele não retoma um referente que se torna conhecido do
leitor por ter sido introduzido anteriormente no texto. Ele retoma, sim, um saber discursivo
anônimo que foi se constituindo historicamente ao longo da formação social de Sorriso. É
uma retomada interdiscursiva, uma vez que a formulação de E1 tira seu sentido do jogo com a
memória discursiva.
99

Ainda em E1, a presença de outro artigo definido „o‟, antecedendo o substantivo


„nordestino‟, produz uma generalização. A expressão „o nordestino‟, empregada no singular,
não se refere a um único indivíduo, mas é extensiva a todos os nordestinos. Posicionando
Dilceu Rossato como prefeito recém-eleito, a matéria relata sua contraposição ao
divisionismo (de que fora acusado por seus adversários de campanha) e sua postura
politicamente correta, pautada pela tolerância à diversidade e recusa do preconceito. Contudo,
o termo “convidar” indicia a presença desse discurso divisionista no fio do enunciado. Apenas
posicionado como „dono da casa‟, como aquele que chegou primeiro para colonizar a terra
virgem e dela tomou posse, investe-se o prefeito do poder de convidar „o nordestino‟ para
morar em Sorriso. Há, portanto, entre quem convida (um colonizador sulista ocupando a
posição de prefeito) e quem é convidado (um migrante nordestino “sem eira e nem beira”)
uma clara hierarquia: um, além de maior autoridade política do município, é posicionado
como dono dos meios de produção por ter chegado “primeiro” e outro como aquele que
chegou depois quando já havia uma ordem estabelecida e adentrou sem pedir permissão, mas
que agora a tem por meio da ação expressa pelo verbo „convidar‟, desde que como “mão de
obra”, como se verá em E4. É como se a cidade tivesse “donos” e não fosse um espaço
público cujo acesso deveria ser franqueado a todos os cidadãos independentemente de quem
chegou antes ou depois e da origem de cada um.
Em E2, a seguir, há dois casos de nominalização deverbal, compreendida como
processo que designa a formação de um substantivo abstrato a partir de um verbo. Trata-se do
substantivo „tentativa‟, formado a partir do verbo tentar, e do substantivo „divisão‟, formado a
partir do verbo dividir.

E2: O prefeito eleito Dilceu Rossato condena a tentativa de divisão entre nordestinos e sulistas
adotada por um grupo político durante a campanha eleitoral em Sorriso. [...] disse que refuta
toda forma de preconceito racial ou econômico contra cidadãos que vieram do Nordeste,
principalmente do Maranhão.

Em E2, ao relatar a fala de Dilceu Rossato, o enunciador realiza uma transformação de


um enunciado verbal – “Um grupo político durante a campanha eleitoral em Sorriso tentou
dividir nordestinos e sulistas” – em “a tentativa de divisão entre nordestinos e sulistas adotada
por um grupo político durante a campanha eleitoral em Sorriso”, mediante processo de
nominalização. Conforme Sèriot (1986), a nominalização constitui uma forma particular de
pré-construído. Tal como compreendido por Pêcheux ([1975] 1988) e Henry (1975), o pré-
construído é um enunciado simples, originário de discursos anteriores ou dado como tal.
100

Exterior ao ato de enunciação atual, o enunciado nominalizado é prenhe de operações de


asserção efetuadas ou supostas efetuadas em uma enunciação precedente, quer seja interior ou
exterior ao discurso em questão. Ele participa da enunciação atual como um pré-construído e,
como tal, não é assumido pelo enunciador, mas se apresenta como um objeto “já-lá”,
preexistente ao discurso. Na nominalização, o enunciador não se apresenta como sendo o
responsável pelo dizer; há uma identificação do sujeito da enunciação ao sujeito universal da
formação discursiva, mesmo que seja para demarcar sua dissensão em relação ao que ele lhe
dá a pensar-dizer. Nomes originários de nominalização deverbal, como „tentativa‟ e „divisão‟,
são uma espécie de valise, pois eles carregam para a superfície linguística a presença do
Outro, fazendo ecoar a heterogeneidade constitutiva do enunciado. Por meio da
nominalização, E2 porta o discurso divisionista entre sulistas e não-sulistas que é anterior ao
momento da campanha eleitoral, mas que ganha um novo impulso na argumentação dos
candidatos adversários, a ponto de, no dia seguinte à eleição, o vencedor se explicar
publicamente que ele não tem preconceito em relação a nordestinos/maranhenses. E para não
deixar dúvida de sua posição amistosa com os nordestinos, apela para o argumento do
exemplo. O exemplo, lembrado em E3, é um argumento forte na contraposição à acusação do
adversário.

E3: “A maior parte dos funcionários da minha empresa é maranhense”, cita Rossato. “Ontem
[segunda-feira 8] cheguei na minha empresa fui recebido pela secretária e as duas mulheres
responsáveis pela limpeza. Nos abraçamos e choramos, porque elas ficaram indignadas
durante a campanha toda com aquilo que os nossos adversários pregavam a nosso respeito”,
contou.

Em E3, o enunciador contesta o argumento de que discrimina os nordestinos,


afirmando que a maioria de seus funcionários é maranhense, quer dizer, se não gostasse deles
não os empregaria. Contudo, ao estabelecer apenas relação patronal com os maranhenses,
mantém o discurso negado em pleno funcionamento. A relação entre eles é hierárquica: há os
proprietários dos meios de produção (os sulistas) e há a força de trabalho (os maranhenses).
Há “a minha empresa” e há “os funcionários” (a secretária e as duas mulheres da limpeza,
eufemisticamente designadas). No entanto, essa hierarquização é imediatamente amenizada
no relato do abraço emocionado entre o prefeito eleito/dono da empresa e as três funcionárias
(tudo leva a crer que sejam maranhenses), num gesto exemplar que “desmente” o preconceito
contra os nordestinos de que fora acusado ao longo da campanha. Também é muito relevante
na sua argumentação que a indignação diante da acusação de preconceito contra maranhenses
101

tenha sido atribuída às próprias funcionárias maranhenses: “elas ficaram indignadas durante a
campanha toda com aquilo que os nossos adversários pregavam a nosso respeito”. “Elas”
seriam uma espécie de prova viva de que o que disseram contra seu patrão/prefeito era
calúnia, inverdade. O gesto e a palavra delas (maranhenses) são dignos de fé porque elas
falam com conhecimento de causa, são testemunhas vivas de que prefeito/patrão não é o que
falam dele os adversários.
Em E4, prossegue a contraposição ao discurso divisionista que faz parte da memória
discursiva da sociedade de Sorriso e veio a ser explorado, na disputa eleitoral, para rebaixar a
imagem do candidato que disputava o mandato pela segunda vez.

E4: Rossato, no entanto, pede que nunca mais numa campanha se tente jogar pessoas de uma
região contra outra. “Nós, de Sorriso, estamos de portas abertas para receber gente do país
inteiro. Essa é uma cidade ordeira e que precisa de mão de obra. Vai faltar gente para trabalhar
nesses próximos anos. Nós queremos que toda a gente de bem venha morar em Sorriso. Não
importa a cidade ou o estado de origem. Sorriso é uma terra de oportunidades para todos. E
nós queremos cuidar bem do nosso povo”, convida.

Em primeiro lugar, no relato indireto da fala do prefeito, o enunciado introduzido pela negação
nunca mais: “nunca mais numa campanha se tente jogar pessoas de uma região contra outra”,
contém uma afirmação: “nessa campanha se tentou jogar pessoas de uma região contra outra”.
O que esse enunciado silencia é que o discurso divisionista é muito anterior à campanha em
que foi explorado para rebaixar o candidato Rossato. Ele circulava antes da campanha,
provavelmente de uma forma menos ruidosa, e continua a circular e a dividir o corpo social de
Sorriso depois dela, como se verá na análise das entrevistas.
Nas afirmações “Nós, de Sorriso, estamos de portas abertas para receber gente do país
inteiro.” e “Nós queremos que toda a gente de bem venha morar em Sorriso.”, o pronome
„nós‟ reveste-se de uma certa ambiguidade. Pode ser lido como um plural de modéstia, usado
para amenizar a distância entre a autoridade e o povo que governa, já que o “nós” é inclusivo,
refere-se a uma coletividade. Parece ser esse também o efeito de sentido produzido pelo
“nós/nosso” em “E nós queremos cuidar bem do nosso provo”.
Porém, também pode ser lido como um “nós” que inclui apenas os colonizadores
oriundos do sul que se estabeleceram primeiro na região e, por isso, se consideram os „donos‟
da casa. E, como „donos‟ da casa „podem‟ „abrir as portas‟ para receber os „hóspedes‟, no
caso, os nordestinos/maranhenses, que venham na condição de “mão de obra” e “gente para
trabalhar”, desde que preencham requisitos como o de ser “gente de bem” e “ordeira”. A
102

afirmação de que Sorriso é uma “cidade ordeira” funciona como uma advertência aos que
vem de fora. Eles serão benvindos desde que não perturbem essa ordem, como aconteceu no
início da migração dos nordestinos que causou desarranjo social.
Não se pode deixar de perceber, em E4, o discurso divisionista em pleno
funcionamento, embora seja explicitamente negado pelo enunciador. Nesse discurso, os
sulistas são emissários da ordem, da disposição para o trabalho, do progresso e da riqueza; já
os nordestinos são associados à desordem, à preguiça, ao atraso e à pobreza. Enfim, Sorriso
está de portas abertas àqueles migrantes nordestinos dispostos a participar ativamente da
cadeia produtiva do município e a se integrar ao modus vivendi do colonizador. Quem não
vier para trabalhar tanto quanto os colonizadores, para aproveitar as oportunidades que a terra
oferece, quem vier como emissário da violência e da criminalidade, esse não será recebido de
braços abertos. Introduz-se assim uma divisão no grupo dos não-sulistas
(nordestinos/maranhenses): os que são gente de bem e os que não são gente de bem,
polemizando com um dos sentidos correntes em torno de „ser nordestinos/maranhenses‟ no
discurso divisionista (nordestinos/maranhenses = não são gente de bem, são gente desordeira).

3.1.2 Matéria 2: o advérbio de inclusão “também” e a comparação “assim como...


também”

A segunda matéria – “Sorriso: Festrilha Nordestina receberá incentivo da prefeitura” –


foi publicada no dia 25 de junho de 2013, no site MT Notícias. Essa notícia relata a
autorização de repasse de 60 mil, pela prefeitura de Sorriso, ao CTN (Centro de Tradições
Nordestinas), para a realização da 8ª Festrilha Nordestina. O argumento usado para justificar o
apoio público à Festrilha é a valorização da cultura nordestina. Em E5, enunciado que
reproduz a fala da Presidente da Câmara de Vereadores, há uma comparação entre o CTNS
(Centro de Tradições Nordestinas de Sorriso) e o CTG (Centro de Tradições Gaúchas),
instalado em Sorriso há mais tempo e sendo reconhecido como referência cultural do
município, certamente porque é a entidade que representa os colonizadores, aquela por meio
de que se conectam com suas origens.

E5: Para a presidente da Câmara de Sorriso, vereadora Marilda Savi (PSD), a participação do
poder público municipal na Festrilha demonstra ao povo sorrisense que o nordestino também
contribui para o crescimento do Município. “Assim como o CTG, o CTNS também é uma
entidade filantrópica que precisa de repasse financeiro para suas manifestações culturais”,
ressaltou. [grifo da pesquisadora]
103

Em E5, as expressões-valise que trazem o interdiscurso para dentro do intradiscurso


são o advérbio “também” e a conjunção comparativa “assim como..., também” que denotam
inclusão de algo que estava fora. A participação do povo nordestino na construção de Sorriso
é, como se viu no capítulo 2, comumente silenciada. E o uso do advérbio “também” polemiza
com esse pré-construído do discurso do colonizador, num gesto de quem quer corrigir uma
dívida histórica – privilegiar o CTG em detrimento do CTNS. Afinal, o trecho seguinte de E5,
que contém a comparação “assim como..., também”, dá a entender que havia um tratamento
desigual entre CTG que vinha sendo apoiado com verba pública e CTNS que não. Assim, a
locução conjuntiva estabelece uma comparação no sentido de equalizar o tratamento
dispensado ao CTG e o CTNS. Em resumo, na formulação de E5, mantém-se uma relação
polêmica com o discurso divisionista difuso no corpo social de Sorriso.
Se, em E5, são os ecos da fala do representante do poder público, tentando neutralizar
o discurso divisionista, que são ouvidos, em E6, é a voz de um representante dos nordestinos,
numa paradoxal mimese do modus vivendi gaúcho transplantado para a “colônia”, que se
ouve.

E6: Festrilha Nordestina- O evento cultural que tem por objetivo integrar os mais de 25 mil
nordestinos que vivem em Sorriso através de danças, bebidas e comidas típicas vai contar com
diversas atrações.[...]
De acordo com o presidente do CTNS, Claudiano de Oliveira, a festrilha é a principal
manifestação da cultura nordestina. “É a oportunidade que todos têm de conhecer um
pouquinho do Nordeste. Também é a chance que damos aos nordestinos e aos seus filhos e
netos que aqui residem de terem um contato maior com suas raízes, não deixando que percam
suas origens”, explicou.

O leitor da matéria é informado de que praticamente um terço da população de Sorriso


é nordestina, percentual bastante significativo para ganhar visibilidade em meio a sulistas.
Tradição é uma palavra muito cara aos colonizadores do sul, eles migram para outras regiões,
mas carregam o “gauchismo” consigo. A fala do presidente do CTNS, justificando a Festrilha
como uma forma de oportunizar „aos nordestinos que residem em Sorriso e aos seus filhos e
netos um contato maior com suas raízes, não deixando que percam suas origens‟, parece soar
como enunciado do colonizador sendo verbalizado pelo migrante nordestino que chegou
depois. Porém, não é despropositado pensar na fala do presidente do CTNS como uma forma
de resistência à cultura dominante, estabelecendo uma espécie de luta simbólica no sentido de
não sucumbir a ela, apesar de boa parte dos filhos e netos terem já nascido em Mato Grosso.
104

Ao invés de troca e mistura entre sulistas e nordestinos, essa postura de cultivo e manutenção
das origens favorece a fissura do corpo social e a produtividade do discurso divisionista.

3.1.3 Matéria 3: a designação pelo topônimo “Maranhão”

A terceira matéria – “Sorriso: PC prende autor de assalto em drogaria e arma utilizada


na ação” – foi postada no dia 14 de maio de 2015 no site MTnotícias. Trata-se de notícia
policial sobre a apreensão de uma pessoa acusada de assalto a mão armada em uma drogaria
Sorriso. Conforme relatado na Matéria 3, a operação policial consistiu em abordar o suspeito
na praça do bairro em que morava e conduzi-lo até sua residência, onde foram encontrados os
objetos subtraídos das vítimas, assim como a vestimenta utilizada na ação, comprovando a
autoria do crime. O corpo da notícia é constituído por um texto breve, acompanhado da foto
do acusado e de vários objetos apreendidos e dos utilizados no assalto. Há também o vídeo do
circuito interno de segurança que mostra o momento da ação. Em E7, a seguir, há o relato da
operação que levou à prisão do acusado.

E7: A policia civil foi até a residência do suspeito, J. P. F. da C. (Maranhão), 21 anos, no


bairro Jardim Carolina, em Sorriso afim de cumprir um mandado de busca e apreensão.

E7, além do nome do suspeito, aparece também sua alcunha: „Maranhão‟, um apelido
provavelmente motivado pelo estado de origem de J. P. F. da C. Nos enunciados seguintes, E8
e E9, o acusado deixa de ser identificado pelo seu nome próprio e passa a ser designado apenas pelo
apelido Maranhão.

E8: Maranhão já tem outras passagens pela policia e agora vai responder
pelo crime de roubo, porte irregular de arma e munições, e falsidade ideológica.

E9: Maranhão ainda deve ser interrogado, pois a polícia quer descobrir quem era o
comparsa, que conduzia a motocicleta durante o assalto.

Em matérias jornalísticas de cunho policial, é comum o uso do apelido para designar


suspeitos de cometerem crimes ou criminosos já condenados. O apelido é uma espécie de
nome de guerra que confere identidade ao “bandido” no idioma da polícia e, por
consequência, no jornalismo policial. Todavia, não se pode deixar de pensar que o uso
enfático do topônimo Maranhão para designar J. P. F. da C. põe em relevo o pré-construído
105

acerca do caráter suspeito dos maranhenses em geral. A matéria parece jogar com a
associação de semas negativos aos maranhenses que residem em Sorriso, reafirmando o
interdiscurso que os generaliza como sendo os que causam a desordem e praticam os crimes
ocorridos na cidade.
Ao término da matéria, há uma seção de comentários de leitores. Dentre os quatro
comentários postados no site, um (E10), em tom de revolta, reafirma e generaliza a valoração
negativa dos maranhenses.

E10: Comentário de leitor: Até quando ficará preso? Daqui uma semana estaremos vendo a
noticia da soltura do mesmo.. E outra…. tinha que ser, Só pelo apelido. (Maranhão). Not
comment !!!

A forma verbal “tinha que”, aqui funcionando como o elemento-valise que traz a
memória discursiva para dentro do enunciado atual, indicia uma relação necessária,
obrigatória entre ser chamado de Maranhão e ser bandido. Na expressão “Só pelo apelido
(Maranhão)”, também o “só” funciona como uma palavra-valise que traz o discurso
segregaconista para dentro do texto e coloca todos os maranhenses no „mesmo saco‟, o saco
da criminalidade. Tal pensamento encontra-se filiado ao determinismo, corrente filosófica que
afirma que o comportamento humano é condicionado por três fatores: genética, meio e
momento.

Determinismo é doutrina filosófica que implica a negação do livre-arbítrio e segundo a qual


tudo, no universo, inclusive a vontade humana está submetido à necessidade. [...] O princípio
do determinismo universal é aquele segundo o qual todos os fenômenos naturais estão ligados
uns aos outros por relações invariáveis ou leis. Inaugurado por Laplace, este princípio afirma
que o conhecimento do estado do universo, num momento dado, e o conhecimento das leis da
mecânica permitem prever rigorosamente todos os estados futuros, porque não há nenhuma
independência das séries causais. (JAPIASSÙ e MARCONDES, 2008, p.52)

Em E10, o acusado (Maranhão), segundo o pensamento determinista apresentado no


comentário do leitor, não poderia agir diferente, visto que, dada sua origem maranhense,
realmente „tinha que ser‟ bandido. No fim de E10, há a expressão em língua inglesa „not
comment !!!‟, que, traduzida para o português, corresponde a „sem comentários...!!!‟. Tal
expressão assinala a força do funcionamento da memória discursiva local que, segundo o
leitor-enunciador de E10, dispensa explicações sobre a associação entre ser maranhense e ser
bandido. De um certo modo, é possível associar esse efeito de sentido àquele observado na
Matéria 1, entre ser maranhense e ser desordeiro e não ser gente de bem. Ambos transferem
106

uma caraterística individual para a classe. A interpretação, nesse caso, seria: é bandido porque
é maranhense, e, não, é um bandido que, por acaso, é maranhense.

3.1.4 Matéria 4: “uma extensão do sul” e “a segunda casa”

A quarta matéria - “É Bem MT conta a história do município de Sorriso” – é uma


reportagem veiculada pelo programa de televisão „É bem Mato Grosso‟, um programa
semanal que vai ao ar aos sábados pela TV Centro-América. Trata-se de um programa que,
como o próprio nome sugere, tem por objetivo divulgar a expressão cultural e artística mato-
grossense, bem como dar a conhecer recursos e belezas naturais do estado que já vem sendo
exploradas ou podem vir a ser exploradas pelo turismo. No ano de 2015, uma série de
programas foi dedicada à apresentação das potencialidades de municípios mato-grossenses. E,
na edição do dia 29 de agosto de 2015, Sorriso foi o tema do programa que incluiu
reportagens com artistas locais, moradores da cidade tidos como “pioneiros” provenientes da
região sul, bem como descendentes destes e uma única moradora de origem nordestina.
Mesclando depoimentos, fotos, apresentação cultural, leitura de cartas pessoais escritas a
parentes no princípio da colonização, o programa relembra a fundação do município, as
dificuldades encontradas, a motivação e persistência dos pioneiros que souberam driblar as
agruras dos primeiros anos e colheram os frutos do progresso do município.
Nos primeiros minutos do programa, uma das pessoas entrevistadas lê partes de uma
carta escrita, em 1985, a parentes do sul, noticiando a chegada de uma caravana vinda da
cidade de Sarandi – RS, em 26 de maio daquele ano, para a inauguração do Centro de
Tradições Gaúchas (CTG). No trecho lido, a autora da carta descreve a maneira como se
vestem os visitantes: os homens, ao modo dos gaúchos tradicionais, vestem bombacha, e as
mulheres, à maneira das prendas, usam vestidos longos rodados e de mangas, ou saias longas
rodadas e blusas de mangas compridas e sem decotes. Enquanto lê trechos da carta, o vídeo
mostra casais dançando tipicamente vestidos. Logo após a leitura dessa carta, os repórteres
entrevistam um casal de migrantes sulistas que se apresentam no vídeo „pilchados‟ e dizem o
seguinte:

E11: Na verdade a gente fez de Sorriso uma extensão do sul, pra mim.
Pra nós hoje o CTG é a segunda casa.
107

Em E11, os enunciadores assumem a posição de colonizadores sulistas (gaúchos) que


não só fizeram Sorriso, mas que o fizeram à sua imagem e semelhança. Fazer do lugar para
onde se migra “uma extensão” do lugar de origem é próprio da colonização, uma vez que
colonização envolve domínio não apenas material da terra e natureza bruta, mas também
cultural do outro. Vale relembrar o processo de silenciamento do outro não-sulista nas
narrativas oficiais sobre a fundação de Sorriso, como visto no Capítulo II. É como se o outro
não existisse. Estabelece-se uma sobreposição cultural que impossibilita trocas com o local. O
lugar de chegada acaba fica com a “cara” do lugar de saída. Tal como ocorreu na colonização
do Brasil pelos portugueses, quando o capital simbólico do Ocidente foi imposto aos índios,
na colonização de Sorriso e outras cidades do norte de Mato Grosso, o capital simbólico do
gaúcho se impôs aos grupos sociais em formação.
Na cidade que é “uma extensão do sul”, não pode faltar o CTG, considerado “a
segunda casa” dos gaúchos. O CTG funciona como um núcleo de resistência que permite aos
“gaúchos” mato-grossenses se conectarem às origens, apesar da distância que os separa da
região Sul. No CTG, são cultivados os valores morais e culturais sulistas caros à família
gaúcha, a fim de que sejam aprendidos pelas novas gerações. Apesar de muitos filhos e netos
dos primeiros colonizadores sulistas terem nascido em solo mato-grossense, estes continuam a
se considerar gaúchos. Há um ditado que diz o seguinte: “gato que nasce no forno não é
biscoito”. É possível traduzi-lo para o caso em questão: “gaúcho que nasce em Sorriso não
deixa de ser gaúcho”, uma vez criado de acordo com os valores e tradições gaúchas. Dizer
que o CTG é uma “segunda casa” não é uma figura de retórica, pois a filosofia da entidade é
que ela seja mesmo um espaço para todas as gerações da família gaúcha e não um clube
frequentado apenas por jovens. Assim, é como sujeitos interpelados pela ideologia da
colonização que o enunciador coletivo, que se designa com a gente e nós, diz: “a gente fez de
Sorriso uma extensão do sul” e “Pra nós hoje o CTG é a segunda casa”. Trata-se de uma
primeira pessoa do plural que inclui todos aqueles que vieram para Sorriso na condição de
colonizadores e trouxeram para Mato Grosso o modo de vida do sul. Esses se reconhecem
como socius, como companheiros no “hercúleo” empreendimento de derrubar a mata, abrir
áreas agricultáveis, formar uma cidade do nada. E mesmo encerrada essa primeira fase da
colonização, os socius continuam a se representar como “donos” de Sorriso.
Após várias inserções de trechos de entrevistas de migrantes sulistas, aparece uma
entrevistada nordestina, como se pode observar em E12. Vale salientar que se trata da única
participante da edição que fala da migração nordestina no município. Apesar da tentativa em
apagar o discurso de discriminação que há em relação ao nordestino, sobretudo ao
108

maranhense, o discurso de que os maranhenses são os hóspedes, muitas vezes indesejáveis,


continua presente.

E12: Repórter: Sorriso também é recanto para os nordestinos.


Entrevistada: Maravilhoso morar em Sorriso. É uma alegria. O pessoal recebe a gente bem,
que os nordestinos são bastante trabalhador, bastante, né. E a gente já vem pra cá pensando
no trabalho, melhorar de vida, dar um sustento melhor pra família da gente.

Em E12, a edição do programa dedicado a Sorriso inclui os nordestinos na história do


município, não como agentes na construção de uma cidade, mas como aqueles que
encontraram nela um espaço aprazível para viver. A expressão „também‟, usada pelo repórter,
assinala uma inclusão, que pressupõe que antes de ser „recanto‟ para os nordestinos, Sorriso
era um recanto para outro povo – o povo do sul – que, segundo a narrativa oficial, chegou
primeiro, na condição de colonizador de uma terra supostamente virgem e despovoada. Ao
assumir o turno de fala, a entrevistada nordestina relata sua alegria em morar em Sorriso,
referindo à estrutura da cidade em oferecer aos recém-chegados oportunidade de emprego e
assim sustentar a família com mais qualidade de vida. Contudo, ao chegar depois e encontrar
a cidade pronta, em franco desenvolvimento, o migrante nordestino não desfruta do status de
“colonizador”; ele vem como mão de obra para as atividades econômicas desenvolvidas no
município, sobretudo as que não demandam especialização. A enunciadora é bastante enfática
ao declinar a condição de “trabalhador” dos nordestinos que vivem em Sorriso. Na declaração
„o pessoal recebe a gente bem‟, há uma tentativa de neutralizar o discurso de discriminação
que vigora nas relações do corpo social urbano, de caracterizar as relações sociais como
amistosas, mas a hierarquização entre o migrante sulista (o pessoal) e o migrante nordestino (a
gente) reaparece na lexia “receber”, pois quem recebe é o „dono da casa‟ e quem é recebido é
o „hóspede‟. E o hóspede só é bem recebido pelo anfitrião e convidado a ficar na cidade se
corresponder à lógica de produção da cidade, caso contrário não encontra espaço nela, torna-
se indesejável, um hostis, uma persona não grata à família sorrisense. Enfim, para que o
hóspede caiba no espaço urbano de Sorriso, ele precisa ser o que o anfitrião quer que ele seja:
trabalhador e ordeiro. A lexia “receber” (E12) é análoga à lexia “convidar” (E1) na semântica
do discurso divisionista, ambas produzem o mesmo efeito de sentido.

3. 1. 5. Das matérias em conjunto


109

A leitura do conjunto dessas quatro matérias midiáticas, concentrada na interpretação


de determinadas expressões ou palavras-valise, mostra que a formulação dos enunciados
analisados (enunciados atuais) enraíza-se numa memória discursiva que circula no corpo
social urbano de Sorriso, dividindo-o entre migrantes sulistas-pioneiros-colonizadores-donos-
da-casa e migrantes não-sulistas-nordestinos-maranhenses-mão-de-obra-inquilinos-da-casa.
Como se trata de fala pública que envolve a exposição máxima da face, a divisão, o
preconceito e a discriminação em relação ao outro são negados pelos enunciadores sulistas e
até mesmo pela enunciadora nordestina, cuja fala especular reflete a posição do sujeito
colonizador. Disso decorre a abundância do emprego de formas linguísticas que significam a
„inclusão‟. Porém, a inclusão do outro – o nordestino/maranhense – pressupõe a sua exclusão.
Quem se propõe a incluir subsume que há separação, divisão, discriminação. Esse discurso de
separação do corpo social urbano de Sorriso é uma das formas de existência prática da
ideologia da colonização, aspecto que será explorado na conclusão.

3. 2 Enunciados obtidos mediante entrevistas

Nesta seção, serão analisados enunciados recortados das quatro entrevistas,


mencionadas no Capítulo I, das quais apenas a primeira não foi realizada diretamente para a
presente pesquisa.

3. 2. 1 Entrevista 1: “quando eu passo ali, nem parece que a gente tá em Sorriso”.

Os enunciados a serem analisados nesta seção foram extraídos de uma entrevista


realizada pela pesquisadora Luciana Schleder Almeida para a tese “Gaúchos, festas e
negócios: o agronegócio da soja no meio-norte mato-grossense”. A pesquisadora entrevistou
um casal de moradores de Sorriso que habitava o lado de “cá”, o lado da população sulista, o
lado mais próspero da cidade. Num dos trechos citados na tese (ALMEIDA, 2013), a esposa
relata sua relação não amistosa com o „lado de lá‟ da cidade, onde existia um clube do qual
eram sócios.

E13: Nós era sócio do Sol Nascente [clube de piscina] e a gente ia lá, depois começou a
misturar muita gente, deixavam todo mundo entrar, aí eu não quis ir mais. E eu sou muito…
sistemática.
110

Em E13, a entrevistada confessa não gostar de se “misturar” indiscriminadamente às


pessoas da localidade, dizendo-se “sistemática”. O fato de o clube, que representaria um
espaço de lazer restrito a um grupo determinado de pessoas, permitir a entrada de „todo
mundo‟ gera desconforto a quem não está habituado a dividir espaços, a se misturar. Nota-se,
portanto, como as relações sociais também são delimitadas. O termo „sistemática‟, empregado
pela entrevistada, diz respeito à sua maneira reservada de ser, à atitude de não tolerar a
“mistura de muita gente”, ocasionada pela liberação da entrada a “todo mundo”. À medida
que o clube deixa de ser um lugar exclusivo para os socius e libera a entrada para os hostis,
permitindo a mistura de socius e hostis, ou seja, a mistura de “todo mundo” num mesmo
espaço, a entrevistada confessa deixar de frequentá-lo.
O fato de o clube ficar do lado de “lá” tornava obrigatória a travessia dos
“bairrozinho”, impondo aos socius a vivência de uma espécie de purgatório antes de chegar ao
paraíso, conforme E14.

E14: Daí a gente, quando eu ia pro clube, eu me estressava antes de chegar no clube. [risos]
Porque passa no meio desses bairrozinho pequeno aqui que tu vê de tudo. Dai era aquela
criançada no meio da rua, pelada, de tudo que era jeito. Quando eu chegava lá em baixo,
parecia que eu tinha que atravessar aquilo pra poder ter alguma coisa e ver toda aquela gente
daquele jeito e eu chegava lá embaixo estressada. Eu não gostava mais de ir. Comecei a
desgostar de ir só por ter que passar ali. Parecia que tinha que ter outra rua do outro lado pra
passar. Ali tu via de tudo. Tinha uns bairrozinho, tem ainda...

Em E14, ao falar da travessia que tinha de fazer para chegar ao clube, a entrevistada
avalia negativamente o que vê nos bairros do lado de “lá”, assumindo, como enunciadora, um
ethos12 de estranheza, de reprovação e, até mesmo, de certo repúdio. Ao se referir aos bairros
que ficam no trajeto do clube, a enunciadora emprega o diminutivo (esses bairrozinho, uns
bairrozinho) que parece se revestir de um tom pejorativo. Aliás, o emprego do diminutivo
para significar, não algo pequeno, mas o apoucamento, o menosprezo de algo, é bastante
comum no uso do português em práticas discursivas de avaliação negativa. O tom de
reprovação permeia praticamente todo o enunciado.
Quando ela diz à pesquisadora “aqui (nesses bairrozinho) tu vê de tudo” e “Ali tu via
de tudo”, muito provavelmente ela está se referindo a “tudo” como coisas reprováveis, coisas
que seus olhos não gostavam/queriam de ver, como por exemplo: “aquela criançada no meio

12
Na Análise de Discurso, o ethos é concebido como a maneira de dizer vinculada à figura do enunciador, que é
o “fiador” de seu discurso, e que deverá, por meio de sua fala, construir uma imagem de si compatível com os
mundos criados pelos enunciados. O autor insiste, pois, que “as „ideias‟ apresentam-se por uma maneira de dizer
que remete a uma maneira de ser” (MAINGUENEAU, 2008a, p. 73).
111

da rua, pelada, de tudo que era jeito”. Neste trecho de E14, o termo “criançada”, em que o
morfema “-ada” indica um coletivo de crianças, parece dialogar com uma memória discursiva
que circula Brasil afora de que os nordestinos geram muitos filhos, mais do que são capazes
de sustentar e cuidar, por isso os abandonam à própria sorte. Neste trecho, a falta de cuidados
é significada pelo predicativo “pelada” e pelo adjunto adverbial “no meio da rua”, indiciando
o desleixo e a negligência dos pais ao permitirem a exposição dos filhos a situações de risco e
vulnerabilidade social. Certamente, há um efeito de sentido de reprovação dessa forma de
“criar filhos” que contrasta com o modo sulista que inclui uma vigilância constante das
crianças pelo olhar do adulto, que não permite a brincadeira no meio da rua e muito menos a
exposição da criança nua em público (é preciso cobrir „as vergonhas‟ desde pequeno).
A visão de tal quadro era tão desconfortável aos entrevistados, que eles desistiram de
frequentar o clube. Se, para desfrutar de alegres momentos de descanso e lazer em um espaço
reservado, aconchegante, bem cuidado e entre os socius, o preço a pagar era ver o que viam
na travessia obrigatória dos “bairrozinho”, então não valia a pena ir ao clube. O mal-estar
sentido pelo choque de culturas que o casal tinha de vivenciar no trajeto para o clube
materializa-se em formas como: “eu chegava lá embaixo estressada. Eu não gostava mais de
ir. Comecei a desgostar de ir só por ter que passar ali. [...] Ali tu via de tudo”. Nesse
enunciado, o adjunto adverbial ali não é apenas uma forma dêitica referencial que designa o
lugar que está longe fisicamente da enunciadora, mas é um dêitico discursivo que significa o
reduto da gente indesejável na Sorriso contemporânea, reduto da gente que não se quer
encontrar, com que não se quer interagir.
E14 culmina com a enunciadora aventando a hipótese de outra rua de acesso ao clube,
que passasse fora do perímetro dos “bairrozinho”: “Parecia que tinha que ter outra rua do
outro lado pra passar”, de modo a evitar a visão do inferno. Nem o contato esporádico e fugaz
da passagem era tolerado pela enunciadora que explicita a posição do casal e, possivelmente,
de outros sócios do clube em relação ao outro que eram obrigados a avistar no caminho. E14
parece ser muito mais a expressão de uma atitude de reprovação moral de hábitos culturais
destoantes daqueles da cultura gaúcho, tidos como ideais, do que uma sensibilidade para a
desigualdade social entre o lado de “lá” e o lado de “cá”. E se há uma sensibilidade para a
desigualdade social, ela se manifesta, às avessas, por se impor à visão e não poder ser
esquecida num momento em que se quer apenas desfrutar de um instante de lazer, afinal ser
forçado a se deparar com a desigualdade e a ter consciência social incomoda, “estraga” a
diversão. O tempo da ludicidade e o tempo da consciência social parecem ser antitéticos. O
112

gozo da ludicidade depende de uma anestesia da criticidade. Porém, em E15, é possível


perceber uma visão menos cínica e mais generosa com a desigualdade social:

E15: Eu não gostava de passar por ali. Via aquelas crianças, tristeza de vida aquilo ali.
Quando eu chegava lá em baixo, eu tava estressada de ver aquelas crianças, uma vida que a
gente não quer pra gente.

As formas “tristeza de vida” e “uma vida que a gente não quer pra gente”, em E15,
produzem o sentido de que há uma certa consciência da desigualdade social. Se, em E14, o
que era reprovado e estressava a enunciadora era o modo de criação dos filhos destoante do
modo gaúcho, em E15, o que parece incomodá-la e estressá-la é a pobreza, a privação em que
vivem as crianças. Para evitar encontrar o outro, quer por desaprovar o modo “solto” e
negligente de criar os filhos, quer por não querer se deparar com a pobreza visível do lado lá,
a entrevistada deixa até frequentar o clube “só por ter que passar ali”. Enquanto as análises
das matérias midiáticas nas seções anteriores indiciavam os sentidos de inclusão do outro, a
análise desta entrevista indicia sentidos de segregação e desejo de não se encontrar com o
outro nem de passagem. Também em E15, o “ali” é um dêitico discursivo que significa o
“lado de lá” como lugar de pobreza.
Contudo, o lado de “lá” não é só o lugar de abandono das crianças, de carência, de
pobreza e de tristeza; é também um lugar de muita festa e diversão, conforme E16:

E16: Se um dia você vir aqui eu vou te levar na sexta-feira. Ali você vê festa. Ali você vai ver
festa. Meu Deus do Céu! Incrível de ver! Que nem formiga! Tu não pode andar de carro. E
começa na sexta e vai até domingo. Se for lá agora tá fervendo. Divertido? Mas e muito! [...]
E cada boteco tem festa, festa, festa... Dança no meio da rua, por tudo.

Se, nos enunciados de E13 a E15, o ethos constituído pelo enunciador é o da


reprovação, em E16, é o do assombro ante a intensidade das festas que acontecem do lado de
“lá”, que acontecem “ali”. Expressões como “Meu Deus do Céu!”, “Incrível de ver!” são
constitutivas desse ethos de surpresa e admiração que se manifesta de modo enfático. A
ênfase na intensidade da diversão se expressa por meio da repetição da lexia „festa‟: “Ali você
vê festa. Ali você vai ver festa.”, “E cada boteco tem festa, festa, festa...”. Já a ênfase na
quantidade de pessoas que frequentam as festas prolongadas, que começam na sexta à noite e
só terminam no domingo, se expressa metaforicamente mediante formas como: “Que nem
formiga!” e “tá fervendo”. É tanta gente que frequenta as festas que elas tomam conta da rua,
113

a ponto de “não se poder andar de carro”. São festas populares que se diferenciam muito das
que ocorrem no lado de “cá” da cidade, geralmente em recintos fechados como clubes,
danceterias, casas de shows, pubs nos quais se cobram entradas, mesas, camarotes, e, por
consequência, há uma seleção de público e também uma lógica diferente do que é concebido
como festa. Em E16 e E18, as palavras “ali” e “lá” também funcionam discursivamente,
significando o “lado de lá” como lugar de muita festa e diversão.
Apesar de admitir que há muita animação, o casal entrevistado ressalta o perigo de
frequentar as festas do lado de “lá”, demarcando seu limite em relação à interação com o
povos além BR163. Permitem-se apenas passar de carro para espiar a festança de longe, pois a
linha que separa a diversão da briga é muito tênue (E17).

E17: Eu já passei umas duas, três vezes por que eu acho muito interessante aquilo ali. Passar
de carro. Nunca desci, não tem como descer ali. Não, porque tem que levar a faca na bota.
Talharam uma ontem de noite. Nove facadas ontem de noite. Enterraram ela hoje.

E18: Ali é virado em boteco e música alto. É um lugar onde o povo... são muito divertido e
tem muito boteco, som alto e a bebida... [...] O povo é bem divertido, só que onde tem muita
bebida...

E17 evoca a memória discursiva de que os nordestinos são um “povo divertido”, mas
também briguento, principalmente quando se excede na bebida. A expressão “tem que levar a
faca na bota” reproduz o discurso de que necessariamente as festas promovidas pelos
nordestinos, no lado de lá, são permeadas pela desordem e violência, logo, é imprescindível
dispor de meios para se defender de alguma investida sempre provável naquele ambiente de
excesso de álcool. Na cidade, conta-se a anedota de que na revista feita na portaria do clube,
caso o frequentador esteja desarmado, lhe é oferecido uma arma à sua escolha para que possa
se defender lá dentro. Para dar sustentação à tese de que o lado de „lá‟ é um lugar de
desordem, briga, criminalidade, a enunciadora apela para o argumento do exemplo, contando
o “causo” de um assassinato violento, provavelmente a facadas, a julgar pelo termo
“talharam”, ocorrido na noite anterior à entrevista. Em E17, o “ali” é o lugar da violência,
insegurança e criminalidade, remetendo-se ao discurso da segregação social e não apenas ao
lugar distante da enunciadora.
Em E18, a enunciadora ressalta a presença copiosa de botecos nos bairros situados no
lado de „lá‟ da BR 163, nos quais sempre há música alta, bebida e muita diversão. Porém, nem
tudo é diversão nos botecos, pois onde se consome muita bebida, a diversão e a confusão
estão muito próximas, como sugere a afirmação “O povo é bem divertido, só que onde tem
114

muita bebida...”. A enunciadora concorda com o fato de que o povo nordestino é animado,
festeiro, o que é algo atrativo para quem está de fora da festa, contudo, o emprego do termo
„só‟ permite antever que, apesar da diversão, não convém partilhar da folia porque a confusão
é inevitável. O restante da frase é suspensa por meio do emprego de reticências, supondo que
já seja do conhecimento do enunciatário o seu complemento, ou seja, onde há muita bebida,
há violência, bagunça, crimes, confirmando o estigma dos nordestinos como desordeiros,
beberrões, criminosos, embora sejas festeiros.
Em E19, a seguir, a enunciadora destaca o comportamento territorial dos machos do
lado “lá” que toleram mal a presença dos machos do lado de “cá” em seu quintal, quando os
identificam como estranhos ao lugar:

E19: Se eles sabem que você é desse lado... antes era pior, agora nem tanto... O filho da Odete
ele se enfia em tudo, que ele é muquirana. Ele disse que quando ele chegava pros cara lá e que
eles viam que ele era desse lado de cá da cidade, eles não desviavam o olho dele. Que
qualquer resbalozinho dele tava feito. Tava feita a briga. E se pegar as mulheres deles, Deus o
livre.

Por meio de E19, pode-se observar que o preconceito étnico existente na cidade de
Sorriso opera como uma via de mão dupla: do lado de „cá‟ em relação ao lado de „lá‟ e vice-
versa. Se, nos clubes e festas do lado de “cá”, os habitantes do lado de lá são discriminados,
nos clubes e festas do lado de “lá” os habitantes do lado de “cá” também o são. Quando em
território do „outro‟, os gaúchos são constantemente vigiados, devendo se portar como
visitantes bem comportados e não ameaçar as relações afetivas do anfitrião, pois qualquer
“resbalozinho” é motivo para briga. Há uma espécie de lei que regula a formação de pares nas
festas do lado de “lá”. Como se trata de festa realizada no lado nordestino da cidade, as
mulheres da festa, que também são nordestinas, são pares para os nordestinos, tanto para
dança como para envolvimentos afetivos. Assim, o sulista que ousar transgredir essa regra
local é interpretado como alguém que está provocando uma desordem e, consequentemente,
uma contenda. As festas do lado de “lá” são mais baratas e, por isso, atraem os “muquirana”
do lado de “cá”, como o filho da Odete, citado pela enunciadora, que deve funcionar como
uma espécie de cronista das confusões que presencia no território do outro.
A narrativa, em tom de reprovação, sobre a estranheza que a entrevistada sente a ter de
atravessar o bairro para chegar ao clube que frequentava, assim como a narrativa, em tom de
admiração, sobre as festas (espiadas de dentro do carro em movimento) que tomam conta das
115

ruas de sexta a domingo culminam com E20 que vincula tudo ao fato de o povo de lá ser
“mais nordestino”:

E20: O povo desse lado ali é o povo mais nordestino. A maioria é nordestino.
É incrível de ver, quando eu passo ali, nem parece que a gente tá em Sorriso.

Em E20 vigora o discurso presente em outros enunciados analisados de que os


primeiros migrantes construíram Sorriso nos moldes de cidades do Sul e fizeram dela uma
“extensão do Sul” (E11). Por isso, tudo que se apresente diferente disso lhes soa estranho.
Afinal, “narciso acha feio o que não é espelho”, como se pode ler em um dos versos da letra
de Sampa13, música de Caetano Veloso. Quando os entrevistados relatam que, ao passarem do
lado habitado pelos nordestinos, têm a impressão de não estarem em Sorriso, eles trazem à
tona a memória discursiva de que o que caracteriza Sorriso como cidade é a “cara” do sul, ou
seja, o povo e a cultura do sul. Assumido a posição-sujeito de sulista, a entrevistada refuta
toda forma de organização social que não seja compatível com o modelo de cidade conhecido
e implantado por eles do lado de “cá”. Quando diz “quando eu passo ali, nem parece que a
gente tá em Sorriso”, na verdade a ideia de estar em Sorriso é equivalente a estar em uma
cidade como aquelas do Sul, e o que difere dessa concepção torna-se inaceitável. O lado da
“cá” é Sorriso; o lado de “lá” não é Sorriso. Trata-se também de um funcionamento discursivo
dos dêiticos “cá” e “lá”. Não há isotopia entre um lado e outro da cidade separada pela
BR163. Quem está na cidade do lado de “cá” não quer se misturar a quem está do lado da
“lá”, por isso, procura evitar qualquer forma de encontro, até mesmo a simples travessia pelo
bairro; procura manter-se afastado/aparthado14 da vida desregrada vivida do lado de “lá”. O
lado de “lá”, ao menos no que diz respeito aos hábitos e modo de vida, quando interpretado
por alguém que ocupa a posição-sujeito sulista, como a entrevistada cujos enunciados são
analisados nesta seção, é pura heterotopia. A vida dionisíaca, desmedida, orgiástica,
concentrada no gozo do presente, desordenada ou permeada por uma ordem confusional
vivida do lado de “lá” contrasta com a vida apolínea, comedida, produtiva, voltada para o
futuro triunfante, racionalizada e organizada segundo a lógica do trabalho vivida do lado de
“cá”. Esses modos de vida são como água e óleo, não se misturam.
Nos enunciados da entrevista aqui analisada, os dêiticos espaciais “lá” e “ali”, usados
em abundância, não significam apenas referencialmente o lugar que está longe da
enunciadora; significam também discursivamente o lugar dos nordestinos, o lugar dos maus

13
Disponível em: http://www.vagalume.com.br/caetano-veloso/sampa.html. Acesso em 15/01/ 2016.
14
Usa-se essa grafia para evocar a palavra apartheid.
116

costumes, o lugar das festas e diversão, o lugar da violência e da criminalidade, o lugar que
não se parece em nada com a Sorriso do lado de cá.

3.2.2 Entrevista 2: “os ladrões que você vê é tudo de lá, as mortes é tudo de lá, as facadas
é tudo de lá”

Trata-se de uma entrevista realizada no ano de 2013, na Escola Raquel de Queiroz15,


com os alunos do 9º Ano do Ensino Fundamental. A escola pertence à rede particular de
ensino e atua na cidade de Sorriso há vinte e cinco anos, ofertando os níveis infantil,
fundamental e médio. Totaliza mais de quinhentos alunos, cujas famílias, majoritariamente
oriundas da região sul, possuem lavouras de soja no município, desenvolvem atividades
comerciais ou ocupam cargos públicos bem remunerados, sendo consideradas de classe alta e
média alta.
A entrevista, em tom de conversa, foi deflagrada por um comentário feito por
Fabiano 16 em uma aula na turma do 9º ano. Fabiano comentou que, se reprovasse, seria
obrigado pelo pai a mudar de escola. Como uma forma de punição, o pai pretendia tirar o
filho da escola particular, na qual é preciso pagar mensalidade, adquirir apostilas, livros,
uniformes e lanche, o que é dispendioso, para matriculá-lo em uma escola da rede municipal,
pois, além da gratuidade do ensino, fornece material didático, lanche e transporte. O que
parecia preocupá-lo não era a possível reprovação escolar, mas sim a escola que o pai
escolhera para matriculá-lo, Escola Municipal São Domingos, situada no bairro de mesmo
nome, que fica no “lado de lá da BR 163”. Ao ser questionado sobre o descontentamento em
relação à escola, o aluno demonstra repulsa em relação ao público atendido pela escola que
teria de frequentar:

E20: Fabiano: Ah, porque se eu reprovar, eu tenho que estudar com aqueles noiados. (pausa).
Ah, eu não quero estudar lá não, é muito “paia”. [...] Ah, é São Domingos, tudo noiado lá.

Em E20, o enunciador associa o bairro em que a escola está situada ao consumo de


entorpecentes e ele o faz do modo generalizante, como se fosse uma característica de todas as
pessoas que lá residem ou estudam: “Ah, é São Domingos, tudo noiado lá”. Em um bairro
onde só há “noiados”, os colegas de turma necessariamente serão “noiados”. E isso é ruim ,

15
O nome da escola – Escola Rachel de Queiroz- é fictício, para preservar a identidade da instituição, bem como
dos responsáveis por ela.
16
Todos os nomes usados nesta seção – Fabiano, Pedro, Jônatas, Paulo, João, Eva, Marta, Camila, Lúcia, Carla,
Fernanda – são fictícios, para preservar a identidade dos sujeitos entrevistados.
117

ou seja, é “paia”. Lá não é um dos lugares de Sorriso onde se comercializa e se consome


droga, é o lugar. Assim, morar em São Domingos é sinônimo de ser drogado. E20 dialoga,
pois, com uma memória discursiva que significa o “lado de lá” como reduto de drogados,
traficantes, marginais, bandidos de toda espécie que, não por acaso, são maranhenses. Ser
maranhense em Sorriso é ser hostis. Como visto no Capítulo II, o bairro São Domingos é um
dos bairros situados do lado de „lá‟ da BR 163, mas, pelo fato de ser o mais conhecido e o
primeiro a se formar, é usado para designar toda a região. É comum o uso da expressão “a
Grande São Domingos”. Enfim, “lá” é São Domingos e São Domingos é lugar de noiados.
Quando a professora questiona a generalização indevida do termo noiado, Fabiano
revê sua afirmação, conforme E21 a seguir:

E21:Professora: Mas todo mundo lá é „noiado‟?


Fabiano: Não. Nem todo mundo.

Em E22, a professora indaga sobre as características do lugar. Como se trata de uma


entrevista, nos moldes de uma conversa informal com uma turma inteira, os alunos vão
tomando o turno por conta própria. Em E22, E23 e E24, Jônatas e Pedro se elegem para
responder à pergunta feita pela professora:

E22: Professora: Mas como é lá, o lugar, o bairro, as coisas que tem lá?
Jônatas: Depende. Têm umas partes que é feia, têm umas partes que é bonita. Têm umas casas
feias, têm uns becos lá que é menor que... (gesticula) daqui até ali.

E23: Pedro: Eu nunca vi as partes bonitas (risos). Oh, desculpa, mas... eu já andei por lá e as
partes bonitas eu nunca encontrei. (risos, tumulto).

E24: Professora: Então, Pedro, o que lá é mais feio?


Pedro: Tudo. As pessoas, os maranhenses.
Jônatas: Ah, as pessoas lá são gente, igual a você.

Em E22, o aluno Jônatas ressalta as características do espaço físico do bairro São


Domingos que destoam das dos bairros do lado mais próspero. Sem planejamento prévio,
visto que surgiu a partir de ocupação desordenada, conforme relatado no capítulo dois deste
trabalho, as ruas dos bairros que se encontram do lado de lá da BR 163 são irregulares, não
possuindo simetria entre si. Portanto, é comum que uma rua inicialmente larga termine em um
beco estreito onde é praticamente impossível o tráfego de veículos, o que acaba dificultando a
realização da coleta de lixo urbano, que, nesses locais, é realizado com uma espécie de
carretinha puxada por trator. Também as residências construídas, boa parte de madeira, não
118

obedecem a nenhum padrão de construção estabelecido pela prefeitura, tampouco contam


com projetos de engenharia. As construções são erguidas conforme as possibilidades
econômicas de cada morador, sem que haja fiscalização do departamento de engenharia do
município.
Ainda em E22, ao dizer que „têm umas partes que é bonita‟, possivelmente na tentativa
de eufemizar a impressão negativa que tem dos bairros situados do lado de lá, o aluno Jônatas
vai na contramão do que pensa a maioria de seus colegas a respeito daqueles bairros. Apesar
de dizer que há partes bonitas, ele não descreve nenhum aspecto que se configure como
beleza, ao contrário, ele enfatiza as casas feias e as ruas estreitas.
Em E23, Pedro assume o turno para contrariar a opinião de Jônatas, dizendo conhecer
os bairros e nunca ter visto ou encontrado beleza por lá. Pedro, em E24, ao ser indagado pela
professora sobre “o que lá é mais feio?”, afirma genericamente “tudo”. Entretanto, do “tudo”
ele destaca “as pessoas do lugar, os maranhenses”. Ao caracterizar as pessoas do local como
„feias‟, visto que destoam do padrão de beleza sob a ótica do migrante sulista, o aluno retoma
o discurso preconceituoso, traduzindo os maranhenses pelos semas negativos, como: feiura,
desorganização, preguiça, desmazelo, falta de protagonismo, banditismo, dentre outros, em
oposição aos semas positivos empregados para traduzir os sulistas, como: beleza,
organização, disposição para o trabalho, zelo, protagonismo, honestidade.
Ainda em E24, Jônatas retoma o turno para contestar a opinião preconceituosa de
Pedro, explicitando sua posição solidária e tolerante à diferença. O termo “gente” está
empregado não como sinônimo ou coletivo de “pessoas”, simplesmente, mas como uma
condição mais elevada que a de ser “pessoa”. O fato de o maranhense ser “gente” e de o
colega Pedro ser “gente” os coloca em pé de igualdade. Se todos são “gente”, então devem ser
tratados com igualdade, todos merecem respeito do próximo, todos devem desfrutar dos
mesmos direitos. No termo “gente” parece ressoar os sentidos de “cidadania”.
Em E25, Pedro descreve, sob a ótica do colonizador sulista, características físicas e
comportamentais dos habitantes dos bairros que ficam do outro lado da BR 163.

E25: Pedro: Nós ia lá, passar pra pegar os maranhenses lá da fazenda, tinha só negada no meio
da rua, assim, bebendo. Eles sentam no meio da rua.
Um dia, nós fomos lá de camionete, os caras pararam na frente assim, né, a rua ainda estreita,
só passava a camioneta. Daí nós fomos lá pegar uma conta do cara lá que tinha saído do
aluguel. Os caras lá trancando a rua assim, com a moto lá, tudo uns negão, grandão lá. Minha
mãe se cagou toda. Daí ela falou: Pedro, vou trancar as portas. Daí ela trancou as portas. Daí
nós fomos indo bem devagarzinho... Daí eu falei: Óh, mãe, qualquer coisa você finca em cima.
Aí chegamos pertinho assim, os caras saíram e ficaram olhando assim pra nós. Minha mãe
saiu no doze de lá.
119

[...]E quando vem um carro subindo, quando você desce para pegar empregada, um tem que ir
de ré, até do outro lado.

Em E25, Pedro utiliza o termo “negada” para se referir aos maranhenses,


provavelmente em razão da cor da pele, mais escura que a do povo do sul. Porém, o termo
“negada” também pode ser interpretado como uma forma popular de se referir a uma
aglomeração de pessoas, a uma massa indeterminada de pessoas. Os dois sentidos – ambos
pejorativos – não são excludentes: além da designação, o termo “negada” envolve avaliação.
Pedro ressalta, em sua narrativa, o comportamento inadequado dos homens do lado de lá:
ingerir bebidas alcoólicas no meio da rua ou sentados em calçadas em dia de trabalho. Nota-se
que, na narração de Pedro, os maranhenses estavam bebendo quando seus pais foram buscá-
los para o trabalho, logo se subentende que se trata de algum dia útil da semana e
possivelmente de algum horário em que deviam estar trabalhando e não se divertindo ou
bebendo. Em seu relato, Pedro reafirma, pois, o discurso de que os maranhenses são beberrões
e preguiçosos.
Em E25, Pedro relata ainda uma situação de medo e insegurança vivida por ele e sua
mãe numa ida ao lado de lá, quando tiveram que passar com a camionete por uma das ruelas
do bairro que estava ocupada por moradores mal encarados e motos. Ao sentirem-se
ameaçados pela permanência dos maranhenses na via em que passavam, a mãe travou as
portas do carro e o filho lhe recomendou a passar por cima (“finca em cima”), caso alguém
investisse contra eles. Há nessa narração uma situação de confronto: de um lado, os invasores,
no caso os gaúchos, a bordo da camionete, símbolo da prosperidade da agricultura local; de
outro, os donos do espaço, os maranhenses, que em seu território, respondem, encarando o
visitante com o olhar, ao comportamento de suspeição e desconfiança que sentem na pele
quando estão na „parte sulista da cidade‟. Ainda nesse enunciado, o emprego da locução “uns
negão grandão” se configura não apenas como uma descrição da aparência física (cor da pele
e estatura) dos homens do lado lá, aos olhos do sulista, mas também como uma avaliação que
os torna mais amedrontadores.
Enfim, E25 traz à tona o apartheid do corpo social urbano de Sorriso demarcado pela
BR163. De um lado, o domínio sulista, onde maranhenses podem adentrar para trabalhar, de
outro, o reduto maranhense, onde sulistas têm de obedecer às regras locais.
E25 permite também entrever as relações econômicas entre os habitantes do lado de cá
– o proprietário dos meios de produção (os donos da fazenda) – e os habitantes do lado de lá –
120

a mão de obra, a força de trabalho (os empregados temporários da fazenda, os boias-frias).


Esse aspecto continua a ser explorado pela pesquisadora-entrevistadora, conforme E26:

E26: Professora: Mas trabalham para seu pai...


Pedro: É, tipo assim, é temporário, tipo, vai catar, tipo raiz.
Professora: Mas eles trabalham bem?
Pedro: Não, trabalham bem não.
Professora: Por que então seu pai ainda os contrata?
Pedro: AH, porque não tem outro, ué, aí tem que pegar aqueles.
Professora: E eles ganham bem?
Pedro: Bem pouco. Aqueles caras lá, o dinheiro que eles ganham trabalhando, eles gastam em
cigarro, em puta e em pinga.

Em E26, há indícios de como são as relações patrão-empregado entre sulistas e


maranhenses. Apesar de não corresponder ao modelo ideal de empregado sob a ótica do
empregador, os maranhenses representam uma opção viável, ou talvez a única, para tarefas
que não demandem mão de obra qualificada para serem executadas, como a atividade de
“catar raiz”. Apesar de representar a voz do empregador, Pedro admite que a remuneração
paga aos trabalhadores por seu pai não é satisfatória. Contudo, dá a entender que tanto faz eles
ganharem pouco ou muito, pois não sabem gastar. Ao falar sobre a forma como estes gastam
seus ganhos, Pedro reafirma o discurso de que o maranhense não poupa para o futuro, não
investe bem seu dinheiro, não promove o bem-estar de sua família, pois desperdiça tudo o que
ganha em cigarros, bebidas e prostituição. Trabalham para alimentar seus vícios e prazeres. A
expressão “aqueles caras lá” expressa o sentido de desprezo pelos maranhenses,
estabelecendo um distanciamento entre eles e eu, visto que o pronome demonstrativo
“aqueles” e o advérbio “lá” produzem o sentido de que aqueles de quem se fala mal estão
aparthados daquele que fala.
Quando questionados se eles, a exemplo de seus pais, também contratariam os
maranhenses, as respostas foram afirmativas, sob a justificativa de ser a única opção e de ser
mão de obra de baixo custo, conforme E27:

E27: Pedro: É o que tem de barato. Não tem outro.


Paulo: É bem melhor do que os que moram aqui.
Pedro: Quais outros que têm?

Pedro, em E27, afirma que os maranhenses constituem melhor opção porque não há
outra e porque é a mais barata. Paulo parece discordar de Pedro de que não há outra opção,
dando a entender que do lado sulista também há pessoas que podem realizar trabalhos braçais.
121

Nota-se, portanto, que não é somente no lado dos maranhenses que há mão de obra disponível
para o trabalho na lavoura; no lado dos sulistas também há, contudo, não tão dispostos,
provavelmente, a se submeterem aos trabalhos disponíveis no campo, sendo, por isso, mais
viável buscar esses trabalhadores no lado oposto da BR 163. Na segunda parte de E27, a
pergunta do aluno Pedro não é uma pergunta de fato, é mais uma ironia, com sentido de
negação. Ao indagar o colega sobre quais seriam os outros possíveis trabalhadores, na
verdade está negando a existência destes. A troca de turnos entre os colegas sobre as
“qualidades” dos maranhenses como trabalhadores continua em E28:

E28: Jônatas: São mais fortes.


Paulo: Não adianta nada serem os mais fortes, mas são tudo burro.
Fabiano: Você tem que ficar na cola, senão não fazem nada.

Em E28, cada aluno nomeia uma característica dos maranhenses como trabalhador:
Jônatas diz que eles são “fortes”; é contestado por Paulo, que diz que não adianta ser forte se é
“burro”, e também por Fabiano, que diz que eles precisam ser vigiados porque “não fazem
nada”, são preguiçosos. A força do trabalhador maranhense rivaliza com a sua burrice e
preguiça, o que faz com que tenha que ser vigiado o tempo todo pelo empregador (“tem que
ficar na cola”).
Ainda sobre as relações de empregabilidade entre sulistas e nordestinos, nota-se que
há alguns limites. Os maranhenses são aceitos em funções nas quais não há muito
envolvimento pessoal, como nas lavouras, por exemplo, onde a maioria dos empregos
disponíveis é temporária e não há estreitamento de laços nem convivência direta. Já em cargos
que demandam convivência próxima, em que os empregados desfrutam da intimidade da
família, como trabalhos domésticos exercidos pelas mulheres, existe certa cautela devido a
incompatibilidade entre a qualidade dos serviços prestados e a expectativa do empregador e
também a desconfiança acerca da idoneidade e confiabilidade das trabalhadoras maranhenses,
sendo que alguns não cogitam a possibilidade de confiar uma criança aos cuidados de uma
babá maranhense.

E29: Professora: E para trabalho dentro da sua casa, empregada doméstica, uma babá, por
exemplo?
(Confusão de Sim e Não)
Camila: Babá? (espanto e recusa)
Eva: A maioria a minha mãe pega lá. Não fica! Não fica![...] Minha mãe pegou semana
passada, a gente deixou lá em casa sozinha pela primeira vez pra fazer um teste. Ela não fez
nada o dia inteiro! Nada!
Paulo: É bem difícil achar uma pessoa confiável.
122

Em E29, vários alunos se manifestam diante da pergunta feita pela


entrevistadora/professora sobre o emprego doméstico, como o de “babá” por exemplo. Camila
responde com a pergunta retórica “Babá?” que significa uma incredulidade em relação à
possibilidade de uma maranhense ser uma babá nas famílias sulistas. Eva admite que a
maioria das empregadas de sua casa “sua mãe pega lá”, mas que elas não correspondem ao
que família espera, não ficam no trabalho, pois não passo no “teste”. Já Paulo retoma a
tópica de que os maranhenses não são pessoas confiáveis. No emprego da expressão “uma
pessoa”, o emprego do artigo indefinido “uma” não se refere a uma sorrisense ou a uma
brasileira, por exemplo, mas a uma maranhense a quem as famílias sulistas possam confiar, de
modo insuspeito, o trabalho doméstico. De acordo com Paulo, pessoas maranhenses com essa
qualidade são a exceção. Outra aluna, Marta, menciona o caso de sua babá (E30), que era do
lado de lá. Sua fala, de certa forma, contradiz a de Paulo acerca da confiabilidade das
empregadas domésticas maranhenses:

E30: Marta: Eu tive uma babá dos dois aos sete anos [...]. Ela cuidava da casa e
cuidava da gente... Ela mora lá até hoje [...] Meus pais foram padrinhos do filho dela
[...] gente ainda conversa, mas a gente não vai lá, na casa dela. Ela vai na nossa casa.
Porque ela mesma não gosta que a gente vá lá. Porque ela sabe como que é lá. Daí, ela
vai na nossa casa e a gente não vai lá.

Em E30, Marta relata a experiência de sua família ao ter, por cinco anos, uma mesma
empregada doméstica que residia do outro lado da BR163, com a qual a família estreitou
laços e os manteve mesmo após o término da relação empregatícia a ponto de se tornarem
compadres. Contudo, há nesse enunciado, o funcionamento do discurso que associa o lado de
lá ao lado do mal, da violência, do perigo, da imoralidade. Nesse discurso, a BR 163 demarca
a barreira que não deve ser ultrapassada por questão de segurança e bom senso. Ao dizer que
„ela mesma não gosta que a gente vá lá‟, a aluna atribui à empregada doméstica a assunção do
discurso de segregação. Marta põe sua babá assumindo a posição do sujeito sulista, falando
como fala um sulista, como visto também na matérias analisadas nas seções 3.1.1 e 3.1.4,
neste capítulo. O trecho do enunciado “Porque ela sabe como que é lá” evoca o discurso do
autopreconceito, como se as pessoas de bom senso que moram no lado de lá tivessem a
consciência de que lá realmente é um lugar impróprio para se viver e desagradável para
visitantes. Assim, ao invés de ser visitada, ela prefere fazer visitas aos antigos patrões. Dessa
forma, na fala de Marta, sua ex-babá é uma maranhense que pensa/fala como sulista,
123

reproduzindo o discurso da segregação social, que significa seus conterrâneos como não-
confiáveis, perigosos, baderneiros etc.
Para os alunos que participaram desta entrevista, o discurso discriminatório contra os
maranhenses que residem em Sorriso é justificado pelo próprio comportamento deles, já que
os problemas sociais „residem‟ no lado de lá. Em E31, há uma reafirmação contundente do
apartheid que divide a cidade em dois polos distintos: o “cá”, lado do bem e o “lá”, lado do
mal, conforme E31:

E31: João: Eles dizem que a gente tem preconceito com eles de lá, mas eles fazem a gente ter
preconceito.
Professora: Como eles fazem isso?
João: Os ladrões que você vê é tudo de lá, as mortes é tudo de lá, as facadas é tudo de lá. Tudo
é lá. Quer que a gente pense o quê? Todo mundo tem medo de ir pra lá. E é tudo de menor.
Camila: Tem mais gente ruim do que gente boa, então, essas pessoas ruins não deixam
a gente ver as pessoas boas de lá.

Na fala do aluno João, em E31, o lado de „lá‟ é caracterizado como o lugar onde estão
concentrados os ladrões que praticam roubos no lado de “cá”, os assassinos, as pessoas
violentas. Enfim, em “tudo é lá”, “tudo” significa “tudo de ruim que ocorre na cidade”, não
restando alternativa para que aqueles que habitam o “cá” pensar diferente dos que habitam o
“lá”. Por isso, o “lá” amedronta o “cá”. Ao dizer que os infratores são menores de idade, João
evoca a tópica da impunidade estimulada pelo Estatuto da Criança e Adolescente-ECA,
produtiva não apenas em Sorriso, mas no país inteiro, uma vez que o Judiciário, segundo
críticos do ECA, não pode proceder com menores da mesma forma que procedem com
criminosos adultos, por mais hediondos que os crimes sejam e mesmo se faltar apenas um dia
para o infrator atingir a maioridade. E31 produz o efeito de sentido de que o lado de lá é um
caso perdido. Contudo, Camila tenta uma contra argumentação à posição defendida por João
de que do lado de “lá” todos são ruins. Ela admite haver os que não se encaixam nessa
generalização, mas, como são a minoria, são ofuscados pela maioria e igualmente
desacreditados.

E32: Professora: Alguém já morou lá?


Fabiano: Não, e nem pretendo.
Pedro: Então, se lá é tão bom, então porque que todo mundo que tá lá, quer vir para cá?

Em E31, Fabiano e Pedro recusam-se a cogitar a possiblidade de morar do lado de lá,


Fabiano negando de forma peremptória e Pedro com uma pergunta retórica que é uma
124

negação irônica. Nesse enunciado, aparece o discurso de que não só os gaúchos desaprovam o
lado de lá, pois até mesmo os maranhenses não estão satisfeitos com o estilo de vida que o
lado de lá lhes oferece, ficando novamente o lado de „cá‟ caracterizado como o espaço ideal
para morar, trabalhar e investir. Muito provavelmente a avaliação do lado de “lá” pelos
próprios maranhenses como um lugar ruim, como referida por Pedro, se deva ao fato de ser
um lugar “esquecido” pela administração pública quanto a serviços e infraestrutura. Em E32,
a pergunta feita pela entrevistadora/professora procura descobrir a origem do esconjuro do
lado de “lá”:

E32: Professora: Mas se você nunca morou lá, como é que você sabe que lá é ruim?
Pedro: Dá de ver pelas pessoas de lá.
Eva: Todo mundo fala.

E32 associa o lugar às pessoas que vivem nele. O sentido é de que o lugar é ruim
porque as pessoas que vivem nele também o são, logo, não há meios de isso ser diferente. No
mesmo enunciado, Eva reitera o senso comum que faz parte da memória discursiva de
Sorriso: “todo mundo fala” que “lá” é ruim, então, eu também, como todo mundo, falo que
“lá” é ruim. Trata-se, pois, de uma adesão ao discurso hegemônico sobre o lado de lá. Em
E33, novamente uma moradora do lado de lá (uma cabeleireira) é convocada, por meio da fala
de Marta, a legitimar o que se diz do lado maranhense de Sorriso:

E33: Marta: O salão que eu vou é lá. Daí sempre quando eu vou, a mulher me conta tudo que
aconteceu lá. Que entrou um cara lá, começou a atirar, e matou uma cabeleireira, foi lá fora
levou facada. Ela foi assaltada 300 mil vezes [...] e desceu um cara correndo e saiu atirando no
povo. Um monte de coisa.
Professora: E por que você vai lá?
Marta: Ah, por que é a melhor que encontrei até hoje. Vou por causa dela.

Marta, frequentadora de um salão de beleza situado no lado maranhense, também


justifica a má fama do lugar, recontando causos escabrosos sobre assaltos, roubos,
assassinatos violentos etc., contados por sua cabelereira, uma espécie de cronista do lado de
“lá”. Tais narrativas são recorrentes nas rodas de conversa do lado de cá. Sempre os casos
policiais ocorrido no lado de “lá” são temas comentados do lado de “cá”. É frequente a leitura
dos maranhenses como violentos, desordeiros, ladrões, marginais, fora da lei. Por outro lado,
Marta admite que sua cabeleireira é a melhor que já encontrou, por isso frequenta seu salão.
Essa cabeleireira, como a babá citada também por Marta em E30, desautoriza a generalização
125

de que não há entre maranhenses bons profissionais e gente de bem, mas, pelo fato de serem
em menor número, acabam sendo ofuscados pela maioria „desordeira‟.

E34: Professora: Vocês teriam amizade com colegas do lado de lá?


Vários: Sim!
Pedro: Amizaaade, amizade... assim, sempre com pé atrás. Vai dizer que quando você vai
andar na rua, chega um preto do lado, você não fica se cagando. É! Ah, é verdade ou não?!
Carla/Lúcia: Fica, fica! É verdade!
Pedro: Se passar um branco, você de boa...
Lúcia: Até cumprimenta (rindo)
Pedro: Mas se passar o preto... prepara pra sair correndo! Vamos na cadeia, e vamos ver
quantos pretos e quantos brancos! [...] Vai na BR à noite e olha os travecos [...] Eu contei
quinze travecos, ali, na avenida, na BR, embaixo do viaduto. E a maioria é negro.
Eva: E a maioria é do São Domingo.

Em E34, ao serem questionados sobre a possibilidade de fazerem amizade com


colegas do lado de “lá”, vários alunos respondem que sim, mas com desconfiança (“sempre
com o pé atrás”). Nesse enunciado, os entrevistados deixam aflorar duas outras formas de
preconceito: o preconceito racial contra o negro e a homofobia. Para Pedro, todo maranhense
é negro, ou ainda, todos os habitantes negros da cidade são maranhenses, e estes, de antemão,
são significados como bandidos que metem medo pela simples aproximação (“Vai dizer que
quando você vai andar na rua, chega um preto do lado, você não fica se cagando. Se passar
um branco, você de boa, até cumprimenta. Mas se passar um preto... prepara para sair
correndo”). Como que para comprovar sua tese de que todo preto é bandido e imoral, ele
convida a turma a ir à cadeia para ver “quantos pretos e quantos brancos” há lá e também a
visitar a BR163, à noite, para ver quantos pervertidos sexuais ficam/circulam por ali (“Eu
contei quinze travecos, ali, na avenida, na BR, embaixo do viaduto. E a maioria é negro”).
Acrescenta Eva: “E a maioria é do São Domingos”. Não se observa entre meninos e meninas
do lado sulista, nenhuma preocupação em disfarçar seu preconceito contra não-sulistas, contra
negros e contra homossexuais, ainda que fosse em nome do politicamente correto.
É constrangedor perceber que, em pleno Século XXI, os filhos da classe média alta e
alta ainda sejam nutridos por ideologias e discursos racistas e machistas. Mas não poderia ser
diferente, pois a rede particular de ensino no Brasil funciona como um território à parte,
ignorando completamente o currículo oficial do país, em cumplicidade com o próprio Estado
que permite que isso ocorra. Enquanto, nas últimas duas décadas, meninos e meninas que
estudam em escolas públicas tiveram oportunidade de discutir visões outras sobre diversidade
étnica, cultural, sexual, religiosa, de gênero, etc. que era um dos temas transversais dos PCNs,
aqueles que estudam em escolas particulares permaneceram atados ao machismo e racismo
126

ancestral cultivado dentro de suas famílias. É desalentador ter de reconhecer que, se, por um
lado, as crianças das classes média baixa e baixa aprendem nas escolas que precisam respeitar
o outro e que as diferenças não podem significar desigualdade de direitos, por outro lado, as
crianças das classes média alta e alta estejam sendo educadas para perpetrar a rejeição
narcísica a tudo o que é diferente delas, a tudo o que não reflete o que elas mesmas foram
levadas a pensar que são. Enquanto as crianças das classes média baixa e baixa podem
aprender na escola lições de multiculturalismo democrático, as das classes média alta e alta
continuam imersas nas águas do iluminismo totalitário que impõe a visão da cultura letrada
como civilização em oposição à barbárie. No sentido antropológico, não se fala em “cultura”
no singular, mas sim em “culturas”, no plural, como também não se hierarquizam as
diferenças culturais em superior e inferior. Além disso, é já consensual que, no mundo
contemporâneo, não se pode mais falar em culturas puras, pois a trocas entre elas por meios
de transporte cada vez mais velozes, por meios de comunicação de massa e agora pela
Internet as tornam todas, em maior ou menor grau, misturadas, híbridas.
A BR163, por ser escolhida como ponto de trabalho noturno por travestis e
homossexuais e prostitutas, funciona como um refúgio para aqueles que não encontram
espaço na sociedade sorrisense. Escandalizariam os moradores do lado sulista, caso atuassem
nas ruas e avenidas do centro, e chocariam os moradores do lado maranhense pela sua
excentricidade. Assim, os travestis, pejorativamente chamados de „travecos‟ por Pedro,
escolhem a BR163 para trabalhar, pois, além de se tornarem visíveis a quem trafega em
direção às cidades vizinhas, estão em território neutro, nem “lá”, nem “cá”, menos sujeitos ao
cerceamento e à repressão tanto da parte de sulistas quanto dos próprios maranhenses, já que,
no tocante ao machismo e à homofobia, ambos se parecem.

E35: Fernanda: Um dos meus melhores amigos é de cor preta e ele é um dos melhores que
dança Free Step da cidade!

Em E35, Fernanda rebate o enunciado anterior quanto a ser amiga de um negro. Ela
confessa que um de seus “melhores amigos é de cor preta”. A entrevistada tenta se mostrar
uma pessoa sem preconceito. Contudo, a qualidade destacada por ela soa como uma
justificativa para a amizade „ele é um dos melhores que dança Free Step da cidade!‟. O efeito
de sentido produzido por esse enunciado é o de que „ele é negro e é um dos melhores
dançarinos, por isso é meu amigo‟, o que leva a crer que este se sobressaia dos demais como
„pessoa de bem‟, já que possui um predicado reconhecido na cidade, apesar de sua
manifestação artística, o Free Step, conhecida também como dança de rua (modalidade de
127

dança popular entre jovens dos grandes centros da região sudeste), não ser ligada ao CTG. Ao
destacar apenas a habilidade na dança, reforça o discurso de que o negro/maranhense é
festeiro, pouco dado ao trabalho. Apesar de tentar contradizer a posição do colega Pedro em
E34, Fernanda não apresenta argumentos capazes de desmontar/negar o discurso racista.

E36: Professora: Vocês vão ou gostariam de ir ás festas do lado de lá?


Vários: Não!
Pedro: Sim... Lá no Tradição levar uma facada...(ironia)

Em E36, novamente se reproduz a tópica de que as festas do lado de lá são regadas a


violência. Para Pedro, assim como para a moradora do lado de “cá” de Sorriso, cujos
enunciados foram analisados na seção 3.2.1, transpor os limites impostos pela BR163, a fim
de participar das festas promovidas no lado de „lá‟ é correr risco de morte.

E37: Jônatas: A professora acha que se eles tivessem mais oportunidades que a gente ia ter
aquele bando de gente pobre vivendo lá? Não ia!
Pedro: Só é pobre quem não trabalha. Hoje em Sorriso só é pobre quem não trabalha.
Carla: Em vez de trabalhar, eles vão fazer coisas erradas para sustentar os filhos.

Em meio à discussão, um dos entrevistados faz uma pergunta retórica na qual


reconhece que os nordestinos têm menos oportunidades do que os sulistas, prova disso é
“aquele bando gente pobre vivendo lá”. Jônatas dá a entender que se tivessem mais
oportunidade, os maranhenses viveriam do lado de “cá”. Como Sorriso apresenta hoje uma
das economias mais fortes do estado, reina, na memória discursiva local, a ideia de que todos
os moradores gozam do status de ricos de alguma forma, fortalecendo assim o discurso de que
a pobreza e a riqueza em Sorriso é uma questão de escolha. Ao dizer que „só é pobre em
Sorriso quem não trabalha‟, Pedro adere à crença de que todos os moradores de Sorriso têm as
mesmas oportunidades de enriquecimento. Essa posição é própria do liberalismo, nucleado
pelo princípio da livre iniciativa, que respalda o capitalismo. Mediante argumentos dessa
natureza, imputa-se a culpa da pobreza aos próprios pobres, pois são preguiçosos, não
trabalham, não estudam, não se sacrificam, não economizam, gastam tudo o que ganham nos
prazeres da carne (cigarro, puta, pinga e festa). Se os „gaúchos‟ enriqueceram foi porque
trabalharam muito, se sacrificaram, economizaram, visando a prosperidade futura e não o
prazer imediato. Carla acrescenta ainda que entre trabalhar e roubar, os maranhenses
preferem roubar (“em vez de trabalhar, vão fazer coisas erradas para sustentar os filhos”).
Uma vez mais se estabelece a relação de causa e efeito entre ser maranhense e ser criminoso,
bandido, ladrão.
128

Como mostra fartamente a análise realizada nesta seção, os meninos e as meninas do


9º. Ano da Escola Raquel de Queiroz reproduzem, sem rubor na face, o discurso da
segregação social entre quem vive do lado de “cá” de Sorriso (o lado sulista) e quem vive do
lado de “lá” (o lado maranhense). Tal como reproduzido por esses jovens, o discurso da
segregação social se nutre do discurso racista, machista e liberalista/capitalista, fortalecendo a
tese do primado do interdiscurso sobre o discurso.

3.2.3 Entrevista 3: “a escola com maiores problemas é a escola São Domingos”

Essa entrevista foi realizada no ano de 2014 com a Assessora de Projetos da Secretaria
Municipal de Educação no intuito de se ter a visão de quem lida com a demanda educacional
da cidade. A Secretaria de Educação do Município atende, em média, 13800 alunos, contando
com 34 unidades escolares e 980 professores (646 deles são efetivos). A entrevista focalizou
problemas e desafios enfrentados pelos gestores da rede municipal, como: indisciplina;
dificuldade em lotar docentes nas escolas periféricas; resistência por parte dos pais em
matricular seus filhos nessas escolas, etc. Em E38, o foco é a indisciplina e a recusa dos
professores em assumir encargos nas escolas do lado de “lá”:

E38: Entrevistadora: É possível mapear a indisciplina por escola? Isso leva os professores a
preterirem uma determinada escola?
Assessora: Não. Isso não dá para ser significativo de uma escola para outra, porque nas
escolas não se separa periferia e central. Não tem escola numa boa parte da periferia, então
não dá pra mapear isso, porém, a escola com maiores problemas é a escola São Domingos.
Escola São Domingos que está também lá no bairro São Domingos [...] mas lá que tem
problemas de ameaças externas, né, ao diretor, aos professores... Alunos que já se rebelaram...
De aluno QUASE agredir fisicamente o professor. Então, o maior problema hoje é lá, mas
existem problemas em todas as escolas, mas lá é o maior, principalmente por essa questão da
comunidade. E essa insegurança lá é onde a gente ouve professor dizendo que se sente
inseguro, é lá que a gente já ouviu. Mas não tem esse número registrado também, a gente fez
reuniões e ouvimos isso, está em ata e tal, mas dizer pra você que lá „x por cento‟, eu não sei.

Uma das justificativas por parte dos professores para se recusarem a trabalhar nas
escolas do lado de lá é a indisciplina e a violência que pontuam o dia a dia escolar. Em E38, a
assessora afirma não haver um mapeamento da indisciplina/violência no ambiente escolar da
rede municipal de Sorriso, já que nem todos os bairros periféricos contam com escola. No
entanto, ela admite que a escola São Domingos, situada no lado de lá, é a que mais apresenta
situações de violência tanto interna como externamente. Ao dizer “lá é o maior [referindo-se
ao problema da violência] principalmente por essa questão da comunidade”, a assessora
129

estabelece uma relação de causa e efeito entre a escola e a comunidade, quer dizer, a Escola
São Domingos é violenta porque o bairro São Domingos é violento. Ameaças externas ao
diretor e aos professores, rebelião de alunos, agressão física são reflexos do que as crianças e
jovens experimentam vivendo no Bairro São Domingos. Segundo a assessora (E39), a Escola
São Domingos era protegida pela comunidade, como as escolas das favelas:

E39: Até os professores relatam que até uns três ou quatro anos atrás, a comunidade protegia
a escola, a escola era um lugar que a comunidade protegia, onde geralmente é assim, a gente
vê, inclusive ouve relatos de grandes centros, de favelas que a escola é protegida.

A assessora compara a escola do bairro São Domingos com as escolas das favelas de
grandes centros. Ao estabelecer essa analogia, parece afirmar ser o lado de “lá” a favela de
Sorriso, lugar onde moram os problemas sociais, desde a falta de infraestrutura, saneamento
básico, educação, saúde até o tráfico de drogas, prostituição, violência, criminalidade; lugar
onde a omissão do Estado dá lugar à „comunidade‟ e à formação de um poder paralelo
exercido por milícias e traficantes que dominam o território e ditam a sua Lei, reprimindo e
protegendo a quem bem entender. Segundo a entrevistada, a escola “era”, até pouco tempo,
beneficiada com a „proteção‟ da comunidade. Ao admitir que para que a escola cumpra o seu
papel, ela precisa contar com a „benção‟ da comunidade local, está também admitindo a
ineficiência do poder público em promover a cidadania aos moradores do lado de “lá”,
diferentemente do faz para os moradores de lado de “cá”. Parece possível inferir de E39 que,
enquanto a escola era protegida pela comunidade, era menos violenta. E essa inferência
parece ganhar força pela leitura do E40:

E40: Lá era, mas agora não é mais. Então, eles vão na porta da escola oferecer droga, o diretor
não consegue tirar eles de lá, e aí por isso tem um trabalho com o delegado. O delegado
começou um trabalho que se chama “De bem com a vida”. Esse trabalho conta com a polícia
militar, a civil e com as entidades. Então eles vão trabalhar palestras com os pais também,
palestras com as crianças, tem teatro, vem teatro de Sinop, eles apresentam teatro pra essas
crianças, em questão de drogas... E são oficinas que a sociedade vai financiar pra aquelas
crianças. De música, de teatro, de dança. Existem algumas oficinas lá vinculadas ao
departamento de cultura, mas agora terão mais oficinas que a sociedade irá financiar, então a
intenção é ocupar essas crianças o maior tempo possível. A escola tem o “Mais Educação” que
é aquele tempo estendido. Eles atendem 100 alunos, mas eles diminuíram o índice do IDEB,
em questão de avaliação externa, eles pioraram isso.

Conforme E40, ao perder a proteção da comunidade, a escola vira alvo de traficantes e


vendedores de droga, tornando-se necessária a ação da polícia, já que o diretor não consegue
tirá-los de lá e garantir o funcionamento normal das jornadas escolares. A assessora cita dois
130

programas de intervenção do Estado, para retirar as crianças de situações de vulnerabilidade e


ocupar seu tempo ocioso, a fim de evitar que se tornem presas fáceis dos aliciadores de
menores. Um dos programas é o “De bem com a vida”, que envolve a polícia militar e civil, o
departamento de cultura, entidades e a própria sociedade, na realização de ações educativas e
artísticas que visam a prevenção contra as drogas. A palavra de ordem é “ocupar as crianças o
maior tempo possível”. Outro programa é o “Mais Educação” implantado pelo governo federal,
com o propósito de manter as crianças na escola o dia todo. A assessora conta que, apesar de
a escola contar com projetos extracurriculares, incluindo o “Mais Educação”, a nota do IDEB
diminuiu, o que pode ser interpretado como consequência da falta de apoio/proteção da
comunidade.

E41: Entrevistadora: Você avalia que isso pode ser uma causa para os professores relutarem e
não quererem lecionar lá?
Assessora: Sim, aquela [escola] especificamente, sim, até porque também ela atende alunos
maiores, fundamental II. Eles tendem a ter maiores problemas. Tem alunos de sétimo ano,
oitavo ano, estão com 13, 14 anos, chegando drogado na escola às 7h da manhã. Tem lá. A
única escola que a gente sabe que tem isso, que chega assim, é lá. Os outros a gente sabe que
existem esses problemas também, mas que chega a entrar na escola dessa forma é só lá.

Em E41, a entrevistada afirma acreditar que o consumo de drogas pelos alunos da


referida escola tem afugentado os professores da rede municipal, consistindo em um desafio
lecionar lá. A escola São Domingos acaba sendo o local de trabalho daqueles professores que
não têm poder de escolha. Ainda no mesmo enunciado, a entrevistada associa a faixa etária do
público atendido ao problema enfrentado pela escola. Por ser a única nas proximidades a
atender o ensino fundamental II, cujo público tem entre 11 e 14 anos, é a que está mais sujeita
à absorção de alunos com o problema de drogadição, diferentemente do que ocorre nas
demais unidades escolares da região que atendem educação infantil e ensino fundamental I.
Apesar de admitir que em outras unidades de ensino espalhadas pela cidade também há
problemas com consumo de drogas, a assessora é enfática ao afirmar que lá o problema é mais
grave e generalizado a ponto de alunos do primeiro turno assistirem às aulas visivelmente sob
o efeito de drogas, repetindo várias vezes expressões como „tem lá‟, „é lá‟, „é só lá‟, „mas é
lá‟. Como integrante do estafe da administração municipal, a assessora parece assumir uma
posição de contemporização, minimizando o alcance do discurso negativo que circula em
meio ao corpo docente e à sociedade sorrisense sobre a indisciplina, a violência, o comércio
de drogas e o aliciamento de menores na porta das escolas do lado de “lá”. “Não são todas as
escolas que são assim, apenas a São Domingos”, parece dizer a assessora. Assim como os
131

professores se recusam a lecionar nas escolas do lado de “lá”, também muitas mães gostariam
de matricular seus filhos em escolas do lado de “cá”:

E42: A gente tem muita, mas muitas famílias mesmo que se pudessem escolher, estudariam
nas escolas centrais. Sem conhecer número, sem conhecer professor, sem conhecer nada.
Eles escolhem, simplesmente.

É fala corrente em Sorriso que as escolas centrais oferecem ensino de qualidade


superior àquelas que se encontram nos bairros. Por isso, as famílias do lado de lá, querendo o
melhor para seus filhos, gostariam de matriculá-los nessas escolas centrais. Como essas
escolas estão na região central, há um cuidado maior com a aparência do prédio, são
contempladas com projetos de iniciativa privada, conseguem patrocínio para efetuar
melhorias, o que faz com que sejam mais procuradas pelas famílias. Efetivamente, o que é
levado em consideração na escolha da escola nem sempre é a qualidade do ensino, mas o
status de estudar em um prédio bonito, bem cuidado, confortável e bem localizado. Uma das
escolas municipais mais cobiçadas pela população dos bairros periféricos é a Professora Ivete
Lourdes Arenhardt. A escola está situada na região central e possui instalações amplas, prédio
com dois pisos, biblioteca, laboratório de informática, refeitório, horta escolar. A escola
divide o espaço com a UAB (Universidade Aberta do Brasil), além de concentrar várias
atividades nos fins de semana, como cursos de especializações e oficinas. É sobre a Escola
Ivete que a assessora fala em E43:

E43: Visualmente , a escola Ivete tem uma aparência boa, diferente de outras escolas que às
vezes lá dentro a coisa é muito melhor, mas visualmente não é tão boa. E também tem uma
cultura, eu não tenho pesquisa sobre isso, mas é uma cultura da cidade de querer separar
classes sociais assim, por uma divisória muito firme entre uma e outra. Então a escola Ivete
seria a escola municipal onde as classes sociais mais abastadas estariam, fora as particulares.
É essa vontade de pertencer a essa classe, que seria diretamente vinculada a essa escola.

Em E43, a assessora afirma que ter uma boa aparência não é sinônimo de ter ensino de
qualidade. Logo, escolher a escola pela aparência pode ser um engodo, uma espécie de
“comprar gatos por lebre”. Afirma ainda que há uma separação do público das escolas por
classe social: em algumas delas, como a Ivete, estão os filhos dos mais abastados que não
estudam nas escolas particulares, nas outras estão „o resto‟, aqueles que não se enquadram
nesse padrão. Matricular o filho na escola Ivete dá status, pois há o discurso de que „é pública,
mas é igual a particular, tem até ensino apostilado‟, o que pode soar como uma forma de
“ascensão social”. Como a entrevistada relata, o pertencer a uma classe social mais favorecida
132

está também vinculado ao endereço da escola do filho, se não é o colégio particular, que seja a
pública mais famosa.

E44: A gente tem um trabalho que a gente conseguiu durante esse ano para aquisição de ar
condicionado para todas as unidades através do Governo Federal. A ideia é que no ano que
vem a gente climatize 100% das escolas, porque era uma coisa que eles falavam, porque as
escolas centrais elas já são climatizadas. A escola Ivete já tinha, por iniciativa da própria
unidade. E era o problema que eles sentiam, que eles alegavam, e isso não vai mais acontecer.
Mas eles ainda têm esse preconceito de que lá não é tão bom.

Devido às condições climáticas, o argumento recorrente dos pais ao recusarem as


escolas dos bairros é a ausência de aparelhos de ar condicionado, problema que a
administração de Sorriso pretende resolver, climatizando todas as escolas municipais. As
escolas centrais contam com apoio de empresas, portanto, todas ou quase todas adquiriram
condicionadores de ar por meio de campanhas apoiadas pelos pais de alunos, iniciativas e
soluções incompatíveis com a renda das famílias que residem do lado de lá. É senso comum
entre as famílias que residem na periferia de Sorriso que a escola do centro, o posto de saúde
do centro, o comércio do centro, tudo do centro é superior ao do bairro. Assim, para elas,
negar o direito de escolher a escola do filho, obrigá-lo a frequentar a escola do bairro, é o
mesmo que impedir que este ascenda de classe social e possa vencer na vida.

E45: Entrevistadora: De qual bairro tem mais rejeição?


Assessora: Do lado de cá, da região do lado de cá da BR, já que a gente divide a cidade assim
mesmo, é mais preconceituosa nesse sentido. O lado de cá da BR, a maioria queria estudar na
escola Ivete. Não tenho isso pra dizer pra você „esse bairro é mais‟. A questão também não é
nem a escola do bairro, é que eles queriam a escola Ivete. É a mais visada, porque tem uma
estrutura, uma aparência de estrutura melhor. Eles hoje não têm o melhor índice da cidade em
questão de avaliação externa.

E46: Valter Leite que é a que menos tem professor efetivo atuando, e também no
quadro, eles, conseguiram uma das melhores evoluções do índice do IDEB, por
exemplo, na última medição. É uma escola periférica, também do lado de lá, uma
clientela bastante carente, e não só uma carência financeira. Por outro lado, tem um
número também bom de família que ainda acredita que a escola seja a melhor opção
para os filhos terem alguma coisa, aquelas frases que a gente ouvia algum tempo atrás:
“pra ser alguém na vida”.

Segundo a assessora, a Ivete é a escola mais requisitada, mas não é a que apresenta o
melhor índice do IDEB. Contraponto a realidade da escola Ivete, situada no centro da cidade,
e da escola Valter Leite, situada no lado de lá, vizinha da escola São Domingos, onde ocorrem
os problemas elencados pela entrevistada, a primeira representa o ideal de escola no
133

imaginário dos pais e a segunda a escola rejeitada por não ser bem equipada, bonita, ampla,
não promover festas e apresentações culturais. No entanto, a assessora tenta mostrar que
escolher uma escola por sua aparência e localização pode ser um erro, citando o caso da
Valter Leite que, mesmo não representando o ideal de escola que os pais buscam para os
filhos, foi a que mais progrediu na avaliação do IDEB, mesmo tendo o menor número de
professores efetivos em seu corpo docente. Provavelmente esse bom resultado esteja
relacionado com a participação de um bom número de famílias que acreditam no papel da
educação na possiblidade de ascensão social de seus filhos. Frases do tipo „pra ser alguém na
vida‟, comumente saídas da boca de pessoas simples, com pouca escolaridade e poder
aquisitivo, retratam a memória discursiva dos pais em relação a si mesmos. Se é preciso
estudar para ser alguém na vida, o inverso é que quem não estudou não é ninguém. A
evocação do enunciado da memória discursiva de que “quem não estudou não é ninguém”
serve como motivação para não querer que os filhos repitam sua história. Eles desejam uma
outra sorte para os filhos. O apoio ao trabalho docente está diretamente associado à
valorização do professor por ele ser estudado. O professor estudou, logo, no discurso do pai,
ele é alguém, que tem profissão, emprego, „trabalha na sombra, no leve‟ e está apto a tornar
seu filho um alguém também. O bom rendimento da escola Valter Leite desestabiliza o
discurso de que do lado de lá não há ensino de qualidade.

3. 2. 4 Entrevista 4: “o São Domingos é o bairro injustiçado da vez”

Sorriso hoje conta com aproximadamente 77 mil habitantes, como mencionado no


Capítulo II, com possibilidade de aumento significativo de sua população, dada a sedução
exercida pela pujança do agronegócio. Contudo, nem todos os setores têm acompanhado o
ritmo do crescimento econômico e populacional do município. Um dos setores que se
encontra em déficit é o de segurança pública, cujo efetivo de policiais atuantes diminuiu,
apesar de os problemas sociais terem se multiplicado com o crescimento da cidade. Segundo
dados publicados pela revista Veja17, em 2004 Sorriso contava com 78 policiais para uma
população de 40 mil habitantes, hoje conta com 56 para 77 mil moradores. O crescimento
econômico e a constante exposição na mídia atraíram não só empreendedores, mas também

17
Disponível em:http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/moradores-de-sorriso-protestam-contra-a-criminalidade –
Último acesso em 22/01/2016.
134

tornou a cidade vulnerável a uma crescente onda de violência. Hoje, a questão da segurança é
um dos maiores desafios à administração pública de Sorriso.
Nesta seção será analisada a entrevista realizada em 2014, com um policial militar, na
carreira há doze anos e sempre atuando no município de Sorriso. Essa entrevista foi realizada
especificamente para este trabalho, com o objetivo de observar a correlação entre os dois
lados de Sorriso e a ocorrência de violência e criminalidade. Em E47 e E48, o policial afirma
que é a região central, do lado de “cá”, a região da cidade com maior número de ocorrências
policiais:

E47: Entrevistadora: Se hoje fosse fazer um mapa da violência em Sorriso, de onde são a
maior parte das ocorrências atendidas pela PM?
Policial: Você não vai acreditar, ou vai. Você acredita que onde está ocorrendo é por causa da
oportunidade, o maior foco de ocorrências é na área central. Desse lado. Porque, igual eu te
disse: teve um crescimento de roubo. Roubo a estabelecimento comercial.

E48: Policial: É...tá acontecendo pra cá...assim, compreendendo onde tem comércio,
compreendendo do Bela Vista pra cá, porque antigamente você tinha incidência de ocorrências
em bairros. Em bairros, era questão de alcoolismo, brigas, bate em mulher, bate em filhos, e
um cara esfaqueou, localizados: São José, São Domingos. Agora está havendo incidências de
roubos, inclusive a residências e a estabelecimento comercial, eles procuram locais que vão
dar lucro pra eles, né. Aqui nessa região central nossa. Região que compreende aqui, Recanto
dos Pássaros, aqueles bairros bonitos, bairros nobres.

Segundo o policial militar entrevistado, o lugar e o tipo das ocorrências policiais


mudaram nos últimos anos. Sorriso ganhou ares de grande centro, a observar pela natureza
dos crimes cometidos. A crescente incidência de roubos e furtos em áreas comerciais e bairros
nobres do lado de “cá” mostra que os ladrões “procuram locais que vão dar lucro pra eles”.
Em E48, o policial distingue a natureza das ocorrências atendidas no centro e nos bairros.
Alcoolismo, brigas, violência doméstica e homicídios são crimes típicos de bairros periféricos
tanto de um lado como de outro. A memória discursiva local significa esses bairros, em
especial o São Domingos, como o lugar da desordem, da desestruturação familiar, do
consumo excessivo de bebidas e drogas, da promiscuidade e das brigas, associando aos
maranhenses a pecha de serem maus, de não se importarem com a família e os filhos. Em
E47, o entrevistado percebe que vai desapontar a entrevistada ao dizer que o bairro mais
violento de Sorriso não é o São Domingos, como se diz na cidade: “Você não vai acreditar, ou
vai. Você acredita que onde está ocorrendo [...], o maior foco de ocorrências é na área
central”. Essa contestação do senso comum de que São Domingos é o reduto de tudo que é
ruim em Sorriso é retomada em E49:
135

E49: Entrevistadora: O São Domingos deixou de ser o foco?


Policial: Na verdade, o São Domingos é o bairro injustiçado da vez. Eu vou te explicar o
porquê. São Domingos é o bairro injustiçado. São Domingos nunca foi do jeito que é. Sabe
por quê? O bairro que era problemático lá era o São Mateus. O São Mateus que é o bairro com
a rua Passo Fundo, né...a rua...

Em sua pergunta, a entrevistadora adere ao senso comum de que o bairro São


Domingos é o reduto dos problemas de segurança em Sorriso. O que indica essa adesão ao
senso comum é a expressão-valise “deixou de ser”, pois ela pressupõe que o São Domingos
era o foco dos problemas. Ao incluir o bairro São José (E48), que fica no lado de cá, o
policial nega o discurso que atribui a exclusividade dos atos criminosos ao bairro São
Domingos e ao lado de lá, o que destoa da declaração da maioria dos entrevistados. De acordo
com E49, o bairro „problemático‟ é o São Mateus, vizinho do São Domingos. Assim, para
esse policial, a má fama do São Domingos é uma injustiça. Ele nunca foi tão violento quanto
se diz na cidade. O „problemático‟ do lado de lá é a rua Passo Fundo, que fica no bairro São
Mateus. A expressão “O São Mateus que é o bairro com a rua Passo Fundo, né...a rua...”,
com as reticências no final da frase, evoca a memória discursiva local da entrevistadora que,
como qualquer morador de Sorriso, deve já conhecer a má fama da rua Passo Fundo.
Contudo, a rua maldita, rua Passo Fundo, parece sempre ter sido associada ao bairro maldito,
bairro São Domingos, como sugere a entrevistadora em E50:

E50: Entrevistadora: Eu sempre achei que a rua Passo Fundo fosse no São Domingos.
Policial: Pois é, e é no São Mateus. Rua Passo Fundo, São Mateus, e aqueles becos, né,
inclusive onde você vê usuários de drogas ali, de forma diuturna. E aí, só que daí o pessoal
fala do São Domingos, né. Ele compreende tudo como Grande São Domingos. Ali pra eles,
Industrial, Novos Campos, Vila Bela como se fosse tudo como São Domingos. E não é. Na
verdade, pra falar a verdade pra você, o São Domingos é um bairro tranquilo. Tranquilíssimo!
Pra falar verdade. São Mateus que é o que dá um pouquinho de trabalho, de dor de cabeça pra
gente.

Em E50, o policial reafirma para entrevistadora que a rua Passo Fundo fica no São
Mateus e que lá, sim, em seus becos, se concentram os usuários de drogas. Como bom
conhecedor da geografia da região, faz questão de esclarecer que a atribuição generalizada
dos atos criminosos ao bairro São Domingos é equivocada, assim como a designação
toponímica de todo o lado de lá como São Domingos, pois o lado de lá compreende vários
bairros. Porém, reduzir todo o lado de lá a “São Domingos”, ou mesmo a “Grande São
Domingos”, é já um hábito cristalizado nas práticas discursivas locais. A designação „grande‟
não faz jus à sua extensão, tampouco é sinônimo de consideração por parte daqueles que
136

assim se referem a ele. Popularmente, qualquer lugar do lado de lá da BR 163 no perímetro


urbano de Sorriso é chamado de São Domingos, assim como todos os seus moradores são
chamados de maranhenses. Observa-se, pois, que a má fama do São Domingos se origina da
má fama da rua Passo Fundo que, equivocadamente, era/é pensada como sendo uma rua desse
bairro e não do São Mateus. A má fama da rua Passo Fundo se deve ao fato de funcionar
como local de tráfico e consumo de drogas, conforme E51:

E51: Entrevistadora: Infelizmente, ficou conhecido por conta da droga.


Policial: Sim. Com certeza. Ali a Rua Passo Fundo, inclusive, chegou a ter o apelido de “Passo
o fumo”, “Cracolândia de Sorriso”. E ali é sempre assim: a viatura entra ali, aborda um,
sempre pega. Só que assim: igual eu disse, enxuga muito gelo.

Em E51, o entrevistado evoca várias formas de designar a rua Passo Fundo – o


trocadilho “Passa o Fumo”, a “Cracolândia de Sorriso” (em analogia à região central da
cidade de São Paulo) – que fazem parte da memória discursiva local e naturalizam o discurso
de que os problemas sociais do lado de lá não têm solução. Assim como a Cracolândia avulta
como um problema de difícil solução para a administração pública de São Paulo, a
Cracolândia de Sorriso também se apresenta como um grande “pepino” a ser descascado pelos
órgãos de segurança da cidade. A expressão „enxugar gelo‟, usada pelo policial, sugere sua
descrença na possibilidade de resolver o problema do comércio e consumo de drogas na Rua
Passo Fundo, pois as medidas tomadas são apenas paliativas, uma vez que atingem apenas a
“arraia miúda”. Seu desalento reaparece em E52:

E52: Entrevistadora: Parece que não tem volta. Só o combate ostensivo para coibir um pouco.
Policial: Igual você disse, coibir só, né. Eu costumo dizer de novo, a gente enxuga gelo.
Geralmente você pega sempre o usuário. Aí, os traficantes, esses têm que ter um estudo maior.
Aí teria que contar com um estudo minucioso da polícia civil, de investigação. Nosso serviço
compreende um serviço ostensivo. Você está ali, a população está vendo, viu a polícia militar,
dá aquela sensação de segurança. Tá ali rodando, opa! Aí, às vezes sim, de repente há um
trabalho conjunto. Porque também a polícia civil não conta com um efetivo maravilhoso
também. Acho que bem menos do que a gente. Agora, investiga, identifica, aí você trabalha
assim, pra você tentar pegar. Porque geralmente só pega os usuários mesmo.

Em E52, o policial volta a comparar o trabalho que realiza nas rondas de rua a
“enxugar gelo”, pois só pega o usuário, nunca o traficante. Segundo o entrevistado, para pegar
o traficante seria necessário a participação do serviço de inteligência e investigação, realizado
pela polícia civil. Reconhece, contudo, que a polícia civil, como a polícia militar, conta com
efetivo insuficiente para as demandas locais.
Como se pôde observar, em muitos dos enunciados, o entrevistado, procurou atenuar a
pecha de bairro mais violento de Sorriso que, segundo a opinião pública, recai sobre o São
137

Domingos. Ele faz isso, lembrando que o que se chama indevidamente de São Domingos é
um conjunto de bairros. Mas a redenção do São Domingos (“um bairro tranquilo,
tranquilíssimo”) não é a redenção de todo o lado de “lá”, já que o São Mateus, onde está a rua
Passo Fundo, é um bairro do lado de “lá”. Enfim, permanece a ideia de que a criminalidade se
origina em algum ponto do lado de “lá” e atravessa a BR163, atingindo o centro comercial e
adentrando os bairros residenciais de classe média alta e alta.

3. 3 Em resumo

No percurso realizado neste capítulo, primeiro, com a análise das quatro matérias e,
depois, com a análise das quatro entrevistas, pode-se observar que há, sim, um discurso
segregador circulando na sociedade sorrisense. Esse discurso é negado quando a esfera de
enunciação é a midiática, já que o enunciador, nessa situação, preocupa-se em “salvar a
cara”18, em representar-se como alguém que incorpora os valores oficialmente reconhecidos
pela sociedade, ainda que o faça de modo cínico. Quem daria a cara à tapa e defenderia
abertamente a segregação do outro em praça pública, representada, contemporaneamente, pela
imprensa, televisão e pelas redes sociais via Internet? Ninguém, em sã consciência, faria isso,
diante das políticas de respeito e inclusão do outro, defendidas por organismos internacionais
como a ONU. Nessa cena de enunciação, com raríssimas exceções, todos defendem a inclusão
do outro, como se viu pela análise das quatro matérias. Os enunciadores, na cena pública,
procuram produzir a impressão de que os atributos pretendidos por eles são seus atributos
mais essenciais. Por exemplo, na Matéria 1, nos enunciados atribuídos a Dilceu Rossato, o
prefeito eleito de Sorriso se defende da acusação feita pelo adversário de que ele teria
preconceito contra maranhense, mostrando que tanto não discrimina os maranhenses que os
emprega em sua empresa, evocando a cena do abraço emocionado que ele e sua secretária e as
mulheres da limpeza (supostamente mulheres maranhenses) trocaram no dia seguinte ao da
eleição. Com isso, o prefeito pretendia mostrar que seu apreço e respeito pelos maranhenses
são anteriores ao momento da eleição. A negação do discurso favorável à segregação
materializa-se por meio de palavras-valise que produzem o efeito de sentido de inclusão,
como o advérbio “também”, a conjunção comparativa “assim como... também”, as lexias
“convidar/receber” dentre outras. Tais palavras ou expressões conectam os enunciados atuais
(a formulação) com a memória discursiva (a constituição), no que diz respeito à segregação e
à discriminação de nordestinos/maranhenses por sulistas na cidade de Sorriso.

18
Trata-se de uma expressão usada por Goffman (1989) em sua teoria dramatúrgica da interação social.
138

Todavia, quando os enunciados advêm da esfera cotidiana, como aqueles recortados


das entrevistas com a moradora e com os adolescentes que frequentam o 9º. ano de uma
escola particular, a preocupação com a fachada desaparece. Então, o discurso da segregação é
reproduzido crua e intensamente, a ponto de o enunciador confessar que deixou de frequentar
o clube para não ter de se aproximar/atravessar o território dos nordestinos/maranhenses onde
via coisas que desaprovava; que não estudaria em uma escola do lado de “lá”; que não teria
amigos do lado de “lá”; que não frequentaria as festas do lado de “lá” porque “lá” é lugar de
“negada”, de “noiados”, de “ladrões”, de assassinos violentos que matam a “facadas”, enfim,
de tudo o que ruim, por isso se querem distantes/aparthados de “lá”, não atravessando a
BR163 que é “muro” que separa o lado do bem do lado mal.
Em resumo, sendo negado ou sendo exuberantemente afirmado, o discurso da
segregação está bem vivo e produtivo no corpo social urbano de Sorriso, como uma forma de
existência prática da ideologia da colonização que veio com os primeiros migrantes do sul.
139

CONCLUSÃO

Começar pelas palavras talvez não seja coisa vã. As


relações entre os fenômenos deixam marcas no corpo
da linguagem. (BOSI, 1992)

Como observado no Capítulo III, os enunciados analisados, enquanto formulação


atual, entretêm efetivamente uma relação constitutiva com o discurso sobre a existência de
uma forma de segregação de não-sulistas por sulistas no corpo social urbano de Sorriso, cuja
barreira seria não um muro ou uma cerca de arame farpado ou concertina, mas sim a BR163,
que divide a cidade em “lado de cá” e “lado de lá”. A tópica do apartheid é bastante produtiva
nas práticas discursivas entabuladas pelos habitantes da cidade. Neste estudo, foram
analisados enunciados das esferas midiática e cotidiana e, tanto em um caso como no outro,
há retomadas de sentidos que circulavam antes e em outro lugar sobre a barreira interposta
entre sulistas e não-sulistas em Sorriso. Contudo, o diálogo com o discurso da segregação não
se faz da mesma forma nas duas esferas de comunicação: os enunciados da esfera midiática
procuram negá-lo, ao passo que aqueles da esfera cotidiana, produzidos por moradores do
“lado de cá” da cidade (o lado dos sulistas), reafirmam-no sem medo de infringir os
mandamentos do politicamente correto que recomendam o respeito ao outro e às diferenças
culturais.
Se o discurso é um conjunto de enunciados gerados por uma mesma formação
discursiva, que representa, na linguagem, uma formação ideológica engendrada em
determinado momento da história de uma formação social, então cabe interrogar-se sobre a
formação ideológica que alimenta o discurso segregacionista na sociedade sorrisense. Os
sujeitos que (re)produzem enunciados em que negam ou reafirmam o discurso segregacionista
falam interpelados por que qual formação ideológica?
Tais enunciadores parecem sujeitos à ideologia da colonização que se implantou
naquela formação social desde que os migrantes do sul aportaram na região do médio norte,
na década de 1970, movidos pelo propósito de expandir a fronteira agrícola e povoar uma
parte do território brasileiro, tido pelo regime militar, como um imenso vazio populacional
que poderia colocar em risco a soberania nacional.
Retoma-se, como ponto de partida, a pesquisa etimológica que Alfredo Bosi (1992, p.
11-64) realiza sobre a palavra “colonização”. Segundo o autor, as palavras cultura, culto e
colonização se originam do verbo latino colo que significava eu moro, eu ocupo a terra, e,
140

também, eu trabalho, eu cultivo o campo. Essa forma latina arcaica está presente na palavra
portuguesa íncola que significa “o próprio habitante da terra” e também na palavra agrícola
que se refere ao “trabalho no campo”. Transformada, a forma colo está presente na palavra
inquilino, significando aquele que reside em terra alheia. Já a palavra cultura viria da forma
culturus (particípio futuro de colo) e culto, da forma cultus (particípio passado de colo)19. A
forma colo está presente também nas palavras colônia, colono e colonizar: colônia (espaço
que se ocupa e terra ou povo que se pode trabalhar e sujeitar), colono (aquele que cultiva uma
propriedade rural e vem se estabelecer no lugar do íncola) e colonizar (ocupar, povoar e
cultivar a terra de modo a fazê-la produzir riquezas). Assim, a forma colo significa tanto eu
moro quanto eu cultivo.
Pergunta-se Bosi (1992, p. 12): “o que diferencia habitar (colônia) e cultivar (colono)
de colonizar?”. Responde o autor: é “o deslocamento que os agentes sociais fazem de seu
mundo (onde vivem como íncola) para outro onde irão exercer a capacidade de lavrar ou fazer
lavrar o solo alheio (onde se tornarão colonos)”. Em princípio, o colono não é dono da terra, é
apenas aquele que a trabalha. Porém, “a produção dos meios de vida e as relações de poder, a
esfera econômica e a esfera política, reproduzem-se e potenciam-se toda vez que se põe em
marcha um ciclo de colonização” (BOSI, 1992, p. 12). Essa relação entre uma esfera e outra
potencializa o poder daqueles que se imbuem do papel de conquistadores/desbravadores que
correm risco e se sacrificam na empresa da colonização. Sobre isso afirma Bosi (1992):

[...] a dominação é inerente às diversas formas de colonizar e, quase sempre, as


sobredetermina. Tomar conta de, sentido básico de colo, importa não só em cuidar, mas
também em mandar. Nem sempre, é verdade, o colonizador se verá a si mesmo como a um
simples conquistador; então buscará passar aos descendentes a imagem do descobridor e do
povoador, títulos a que, enquanto pioneiro, faria jus. (BOSI, 1992, p. 12)

Ainda conforme Bosi (1992, p. 15), “a colonização é um projeto totalizante cujas


forças motrizes poderão sempre buscar-se no nível do colo: ocupar um novo chão, explorar os
seus bens, submeter seus naturais”. O processo de colonização não se constrange em recorrer
a métodos cruéis para ocupar o novo chão e fazer dele seu domínio. A história do Brasil é
abundante em exemplos de extermínio ou escravidão dos íncolas que aqui viviam desde o
início da colonização. De acordo com Gilberto Freire (apud BOSI, 1992, p. 22), “o açúcar
eliminou o índio”. E, no projeto expansionista das décadas de 1970 e 1980, “o gado expulsa o
posseiro; a soja, o sitiante; a cana, o morador” (BOSI, 1992, p. 22). É impossível não evocar,

19
Nesta conclusão, vai-se retomar apenas a família semântica nucleada pela forma colo que inclui palavras como
colonização, colonizar, colônia, colono etc.
141

conforme narrativa constante da seção 2.4 desta dissertação, a imagem da expulsão das
centenas de pessoas – grileiros – que viviam na região de Sorriso antes do início da
colonização. Se a condição para a aquisição da terra que seria comercializada entre
compradores do sul do país era que ela estivesse “limpa”, quer dizer, sem gente em cima,
então se providenciaria a sua desocupação mediante operação policial (dois ônibus de
policiais) que tiraria todos os íncolas da terra e os despejaria na rodovia com a ordem de que
não voltassem mais.
No lugar dos antigos íncolas que foram despejados de seu chão, uma nova população
de íncolas aí se formaria – os primeiros migrantes sulistas, os pioneiros, que viriam na
condição de colonizadores não apenas para morar e cultivar a terra, mas também para
mandar, afinal a produtividade econômica demanda o domínio do homem sobre a natureza e
sobre os outros homens. Domínio econômico (domínio dos meios de produção) e domínio
político andam de mãos dadas. Quem chegou depois à região, e não como colonizador, estava
predestinado a ocupar o lugar de um inquilino incômodo; esses seriam os
maranhenses/nordestinos, enfim, os não-sulistas. Como afirma Bosi (1992, p. 62), “o olho do
colonizador não perdoou, ou mal tolerou, a constituição do diferente e sua sobrevivência. [...]
Sempre uma cultura vale-se de sua posição dominante para julgar a cultura do outro”. A
forma como a moradora do “lado de cá” de Sorriso (seção 3.2.1) e os jovens do 9º. ano (seção
3.2.2) significam o que veem do “lado de lá” é uma manifestação crua da intolerância em
relação à diferença.
Na semântica global do discurso segregador, os semas positivos adjungidos ao “lado
de cá”, lado do colonizador sulista, contrastam com os semas negativos adjungidos ao “lado
de lá”, lado do migrante nordestino/maranhense, conforme quadro 6, a seguir:

Quadro 6: Semas positivos e negativos do discurso segregador


Como os sulistas significam o lado de cá Como os sulistas significam o lado de lá
Lugar dos socius (lugar daqueles que se Lugar dos hostis (lugar daqueles que
reconhecem como iguais, daqueles que chegaram depois, potencialmente inimigos
vieram na condição de colonizadores); dos socius);
Lugar da gente sulista (gaúchos), da gente Lugar da gente nordestina (maranhenses),
loira de olhos azuis; da gente morena ou negra;
Lugar dos novos íncolas; Lugar dos inquilinos;
Lugar dos pioneiros Lugar dos invasores
Lugar de quem se volta para o futuro, Lugar de quem vive o presente, sobrevive,
lugar para prosperar, acumular riquezas; subsiste;
Lugar do progresso e da modernidade; Lugar do atraso e do arcaísmo;
Lugar do trabalho, da luta e do sacrifício; Lugar da festa, do ócio e do gozo;
142

Lugar do recato; Lugar da promiscuidade;


Lugar da civilização; Lugar da barbárie;
Lugar da ordem e da organização; Lugar da desordem e do caos;
Lugar do capital Lugar da mão de obra barata
Lugar de gente pacífica, ameaçada pelos Lugar de risco, perigo, violência, consumo
hostis que vem do lado de lá; de drogas e bebida e criminalidade;
Lugar do bem Lugar do mal
Lugar de heróis Lugar de vilões
Lugar apolíneo (lugar da consciência, da Lugar dionisíaco (lugar da embriaguez, do
racionalidade, do bom senso e do êxtase, da orgia, dos instintos, dos
equilíbrio); excessos);
Lugar isotópico, da ordem próxima, Lugar heterotópico, da ordem distante,
daquilo que faz de um lugar (-topia) um daquilo que faz de um lugar (-topia) um
lugar do mesmo. lugar do outro (hetero-).
Os traços de si = semas positivos Os traços do outro = semas negativos
Fonte: a própria pesquisadora

Na semântica global do discurso segregador, que constitui uma instância de


materialização da ideologia da colonização, ainda hegemônica na formação social de Sorriso,
o enunciador sulista interpreta de modo negativo e rejeita tudo aquilo que não é um espelho
do lado de cá que, por sua vez, é um espelho da cultura e do modo de vida do sul (“uma
extensão do sul”, como diz uma antiga moradora de Sorriso). Assim, é por meio de
simulacros que o enunciador que fala interpelado pela formação ideológico-discursiva da
colonização delineia a identidade do outro nordestino/maranhense. Vale lembrar, com
Maingueneau (2005, p. 123), que “o mesmo não polemiza a não ser com aquilo que se
separou à força para constituir-se, e cuja exclusão reitera, explicitamente ou não, através de
cada um de seus enunciados.” A análise realizada no Capítulo III mostra, à exaustão, a
interpretação do outro mediante semas negativos da semântica global da formação
discursiva/formação ideológica da colonização e, dessa forma, a reprodução dos sentidos de
exclusão, divisão, hierarquização, discriminação e segregação entre o eu sulista/gaúcho e o
outro nordestino/maranhense. O outro só é tolerado quando aculturado ao padrão sulista, com
se viu na fala do prefeito eleito Dilceu Rossato.
Destarte, a formação da “sorrisidade” é vista como inteiramente tributária da herança
sulista, ignorando a participação do outro nordestino/maranhense. Ao invés da cara
sulista/gaúcha, a “sorrisidade” deveria apresentar uma cara híbrida sulista-nordestina ou
gaúcha-maranhense. E a BR163 deveria ser a “ponte” que liga os dois lados da cidade e une
as gentes, quaisquer que sejam, que formam o corpo social urbano de Sorriso, e não o “muro”
a simbolizar o apartheid entre quem vive do lado de “lá” e quem vive do lado de “cá”.
143

Retomando Bosi (1992), imagina-se que este trabalho possa funcionar como tomada
de consciência do passado e do presente de Sorriso como uma sociedade dividida, presidindo
a criação de alternativas para um futuro de algum modo novo. Relembrando Antonio
Gramsci, Bosi (1992, p. 17) propõe “a crítica do senso comum e a consciência da
historicidade da própria visão de mundo como pré-requisitos de uma nova ordem cultural”.
Que essa nova ordem cultural não demore a acontecer, com os dois lados da cidade
costurando as diferenças numa “sorrisidade mestiça” de carne e osso, para além das frias
estátuas com que os do lado de “cá” homenageiam as etnias que teriam participado da
construção de Sorriso!
144

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