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ANTOLOGIA DE

VIDAS CÉLEBRES
ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES
VI VOLUME

HORACIO
VIRGÍLIO
CRISTO
Seleção, organização, tradução e notas de
YOLANDA LHULLIER DOS SANTOS e CLÁUDIA SANTOS

L ivraria e E d itôra L O G O S L tda.


Rua 15 de Novembro, 137 — 8.° andar — Tel.: 35-6080
SÃO PAULO
1." edição: setembro de 1960
2.® edição: maio de 1961 *

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS


ÍNDICE

Horácio e Virgílio — José Pijoan ...............................*.. 9


Vida do poeta Horácio — Plutarco ............. 13
Jesus e as origens do Cristianismo ......... 17
Jesus .......................................................................................... 24
Jesus de Nazaré — José P ijo a n ....................................... 27
Jesus de Nazaré — Júlio Minhan ................................... 37
O Messianismo ........................................................................ 43
Jesus como homem ................................................................ 59
A grande lacuna ................................................................... 67
O Profeta dos Evangelhos .................................................. 69
História do Novo Testamento — JoséInácio Roquette 81
Capítulo I — Nascimento miraculoso do nosso Divino
Salvador — Sua infância e vida oculta até seu
ministério público ..................................................... 83
Capítulo II — Pregação e batismo de São João — Jesus
dispõe-se para o seu ministériopúblico................. 95
Primeiro ano do ministério público de Jesus Cristo, des­
de a primeira Páscoa, que celebrou depois de seu
batismo até a segunda ............................................ 101
Capítulo III — Segundo ano do ministério de Jesus
Cristo desde a segunda até aterceiraPáscoa .. 111
Parábola do semeador ......................................................... 126
t
8 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

Parábola do joio e do bom trigo — Outras parábolas 127


Terceiro ano do ministério de Jesus desde a terceira
Páscoa até aos últimos dias de seu ministério
público ..................................... 137
O filho pródigo .................. 154
Os últimos seis dias do ministério de Jesus ................... 167
Quinta-feira Santa ............................................................ 178
Capítulo IV — Paixão, morte e sepultura de Jesus .. 185
Depois da ressurreição de Jesus Cristo até a sua ascen­
são, e vinda do Espírito S a n to...................... 197

t
HORÁCIO E VIRGÍLIO
José Pijoan

Escreve J. Pijoan: Horácio e Virgílio não são personagens


de existência duvidosa como Hesíodo e Homero. É lamentável
que não se tenham conservado retratos autênticos dêstes gran­
des poetas latinos, mas conhecemos, no entanto, mil pormeno­
res de suas vidas que êles próprios cuidaram de explicar. Ho­
rácio era filho de um agricultor do sul da Itália; o pai enviou-o
à Roma para que aprendesse, porque desejava para o filho algo
mais do que uma escola rural com um mestre faminto, como
diz Horácio. De Roma, aos vinte anos, foi para Atenas, e ali
o surpreendeu a última guerra civil. Então Horácio devia ser
mais belicoso do que demonstrou depois em seus versos, por­
que sabemos que Bruto confiou a êste poeta e estudante o co­
mando de uma legião. Com ela participou Horácio na derrota
dos republicanos, e já desiludido, voltou a Roma para não sair
da capital e de seus arredores. Mecenas ofereceu-lhe uma pe­
quena propriedade perto de Tívoli, que Horácio não se cansa
de elogiar, mas nunca deveria ter sido mais do que um homem
da cidade enomorado da vida do campo, embora, às vêzes, não
saibamos se é sincero seu fervor bucólico. Por exemplo, em
sua famosa ode: Beatus ille qui procul negotiis... (Feliz da­
quele que, afastado dos negócios, cuida a sua herdade, etc.),
depois de ter cantado a simplicidade rústica dos campos, na
última estrofe, acrescenta: "Assim fala o usureiro Alfius, e
em seguida, quer fazer-se agricultor. Coloca hoje todo seu
dinheiro para rendimento, mas amanhã muda de pensar, e em­
presta-o novamente com juros”. No que ficamos? É Horácio
ou Alfius, quem canta a vida do campo? Horácio seria ambos:
um gracejador e um crente ao mesmo tempo, trnicamente se
mostra constante na beleza de seus versos, o os magna sono-
turum.
10 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

Ao contrário de Horácio, que era um meridional, Virgí­


lio (1) era de Mântua, no norte da Itália. Também seu pai
o enviou a Roma, e ali distinguiu-se como poeta. Mecenas pa­
trocinou-o, e o próprio Augusto demonstrou grande empenho
em estimular a produção literária de quem, sem dúvida algu­
ma, é o príncipe dos poetas latinos. Provàvelmente foi de
Augusto a iniciativa de encarregar a Virgílio a composição de
uma grande epopéia nacional, à imitação das de Homero, des­
crevendo a chegada de Enéias à Itália e as origens de Roma.
Observe-se bem que se preferiu Enéias a Rômulo, porque do
Enéias troiano faziam-se descender os Júlios. Além disso,
com Enéias, começa verdadeiramente a Itália inteira, não só
Roma, e Augusto era mais italiano do que romano. Na reali­
dade, a Eneida não chega até o momento da fundação da cida­
de, mas percebe-se já o esforço que terá de se fazer para fun­
dir as povoações itálicas numa nação. Quando na Eneida se
fala de Roma, deve entender-se tôda a Itália. Suas paisagens
estão admiràvelmente descritas. Até Sicília aparece já como
parte integrante da grande nação itálica. A obra será difícil,
criar uma Pátria! Doloroso dever, missão gloriosa a que
Enéias, símbolo da presente geração, entrega-se piedosamente,
sacrificando-se se fôr necessário.
Tantae molis erat Roynanam condere gentem. Tão grande
era a emprêsa de construir a naçã,o romana, e de "fundar uma
cidade de onde saíra a gente latina”. O livro está repleto de
uma piedade nacional, que é superior ao sentimento religioso
de fraternidade humana que encontramos nos estóicos gregos.
Não em vão toma Dante a Virgílio por modêlo. Enéias e seus
inimigos, todos, movem-se dentro de um ambiente histórico,
que é genuinamente romano. A Virtus é a nota dominante em
Virgílio. Virtude é força, até no italiano moderno, mas esta
força é principalmente moral. Na própria virtude, ato, obra,
sacrifício, está o maior prazer e a recompensa. "Que seja
tua virtude prêmio a si mesma”, diz na Eneida a um jovem
herói que marcha para a morte certa. Virgílio detesta a guer­
ra, sclerata insania belli (a malvada loucura da guerra); mas
é preciso lutar para organizar a terra, embora seja com as
armas. Aguarda uma hora de paz definitiva; então os ho-

(1) Nasceu em Andes, perto de Mântua. (.70 a. C.). Seu nome


Publius Vergilius Marus. Estudou medicina e filosofia; foram seus
mestres Syron, epicurista e Parthenius gramático.
HORÁCIO E VIRGÍLIO 11
mens até se esquecerão de navegar; cada um gozará de sua
pequena propriedade, com árvores, videiras, abelhas. . .
Esta é a obra que está reservada aos romanos. Eis aqui
como a explica Virgílio no final do sexto livro da Eneida:
"Outros trabalharão com mais arte o duro bronze, outros la­
vrarão melhor os mármores, outros discutirão com maior elo­
qüência ou descreverão melhor os movimentos dos astros. Em
troca, tu, ó Roma, teu dever é governar o mundo e impor um
regime de paz: proteger os humildes e dominar os soberbos”.
Programa sublime! E em que forma teve de ser exposto!
Pascere súbjectos et debellare superbos. Predicações como
esta de Virgílio e as leis "moralizadoras” de Augusto e Lívia
conseguiram resultados práticos. Recobrou a consciência da
dignidade humana, eclipsada durante a Revolução. Desempe­
nharão muitos com virtuoso decoro suas funções eives et pater
familia%
VIDA DO POETA HORÁCIO
Plutarco

Horácio Flaco, de Venusa, teve por pai, como êle mesmo


nos escreveu, um liberto arrecadador de contribuições; outros
dizem, não obstante, que foi um salsicheiro, baseando-se numa
briga, em que alguém lhe gritou: "Quantas vêzes vi o teu pai
assoar-sê com o cotovelo!” Na guerra de Filipos, foi chamado
' às armas por Marco Bruto, sob cujas ordens serviu como tri­
buno dos soldados. Depois da derrota do seu partido, conse­
guiu o perdão, e comprou então um cargo de escrivão nas ques-
turas. Não demorou muito em conseguir o favor de Mecenas,
e mais tarde o de Augusto, figurando em lugar distinguido
entre as suas amizades. O epigrama seguinte mostra muito
bem o afeto que soube inspirar em Mecenas: "Se já não te
quero mais que a mim mesmo, caro Horácio, consinto em que
se veja o teu amigo mais abatido que um mulo”. Mas uma
prova melhor ainda nos dá esta última recomendação de Me­
cenas para Augusto: "Lembrai-vos de Horácio como se se
tratasse de vós mesmo”. Augusto ofereceu-lhe o cargo de se­
cretário, como escreve nesta carta a Mecenas: "Antigamente
bastava eu para a minha correspondência; agora estou esma­
gado de trabalho e doente; desejo tirar-vos do vosso Horácio:
êle deixará, pois, esta mesa de parasita por nosso palácio, onde
nos ajudará a escrever nossas cartas”. A negativa de Horácio
não irritou Augusto, nem esfriou a sua amizade para com êle.
Possuímos ainda dêle algumas cartas, das quais citarei algu­
mas passagens como prova do que digo: "Usai dos direitos
que tendes sobre mim, como se vos tivésseis convertido em
meu comensal; e o teríeis sido, pois êste era o meu desejo, se
vossa saúde tivesse permitido que assim fosse”. Noutra par­
te lhe diz: "Nosso caro Sétimo poderá dizer-vos, como muitos
outros, a lembrança que conservo de vós, pois ofereceu-se
ocasião de que falasse de vós na sua presença. Se desdenhas-
14 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

tes em vosso orgulho a minha amizade não é esta uma razão


para que, por minha parte, eu me mostre soberbo para con-
vosco”. Augusto, gracejando, chama-o, entre outras coisas,
"o mais casto dos apêndices”, ou bem "seu formoso homenzi-
nho”, e suas liberalidades o fizeram rico. Agradavam-lhe, por
outra parte, tanto os seus escritos e os julgava dignos da imor­
talidade, que lhe encarregou que compusesse o canto secular,
e que celebrasse o triunfo dos seus afilhados Tibério e Druso
sobre os cindelícios. Por esta razão, nos três primeiros livros
das suas poesias, publicados há muito tempo, obrigou-os a ajun­
tar um quarto livro. Depois da leitura das suas "Epístolas”.,
lamentava-se nestes têrmos de que o poeta não o nomeasse
nêles: "Sabei que estou desgostado contra vós porque, na
maior parte dos escritos dêste gênero, não os dirigiste a mim
preferentemente. Acaso temeis prejudicar-nos ante a poste­
ridade, deixando adivinhar nêles que éreis meu amigo?”
Então o poeta escreveu a epístola que assim principia:
"Oh, vós, cujas vitórias servem de escudo à Itália,}
vós, cujas virtudes a adornaram e embelezaram,
vós, que, reformando-a, e iluminando-a com vossas leis,
da carga do Estado, levais sozinho todo o pêsol
César, não temais que uma indiscreta Musa,
em 'prejuízo dos romanos, abuse de vosso tempo
Horácio era de pequena estatura, mas gordo, e assim êle pró­
prio se pinta nas suas sátiras e também Augusto o descreve
numa carta: "Dionísio trouxe-me o vosso pequeno livro; ape­
sar de sua pequenez me proporciona contra vós matéria de
acusação. Parece-me que temeis que vossos livros sejam maio­
res que vós. Mas se sois pequeno de estatura, não o sois,
porém, em volume, pois neste sentido podereis escrever num
cilindro. A ampla redondez do vosso livro assemelha-se muito
ao vosso ventre redondo”. Era, segundo o que se assemelha,
muito inclinado aos prazeres do amor. Conta-se que possuía
habitações guarnecidas com espelhos, nos quais se encerrava
com prostituídos, de maneira que podia ver por todos os lados
refletida a imagem dos seus prazeres. Permanecia a maior par­
to do tempo no seu retiro do Tibre, vizinho ao território dos
HiibinoH, o ainda em nossos dias mostra-se a sua casa perto
do boHquezinho do Tibre. Tive em minhas mãos elegias, que
lovum o hcju nomo e uma epístola em prosa, na qual solicita
u proteçfto do Mecenas. Creio, não obstante, que tanto as ele-
HORÁCIO E VIRGÍLIO 15

gias como a epístola lhe são atribuídas falsamente; o estilo


daquelas é, em efeito, vulgar, e o da carta, obscuro, defeitos
em que incorreu raras vêzes. Nasceu no dia seis dos idos de
dezembro (1), sob o consulado de Lúcio Cota e Lúcio Tor-
quato, e morreu no dia cinco das calendas de dezembro ( 2 ),
sob o de Caio Mário Censorino e Caio Asínio Galo, com a
idade de cinqüenta e sete anos, designando, ante testemunhas,
Augusto como seu herdeiro, já que a violência e rapidez da
sua enfermidade não lhe permitiu dispor em regra o seu tes­
tamento. Seus restos foram inumados no limite cias Esquilias,
perto do túmulo de Mecenas.

(1) No dia 8 de dezembro de 689.


(2) No dia 27 de novembro de 746.
Anunciação
0 Natal
JESUS E AS ORIGENS DO CRISTIANISMO
(”Les grands courants de Vhistoire uruverseUe” de
Jacques Pirenne)

Entre todos os povos da antiguidade, somente os judeus


se orientaram a uma religião progressivamente monoteísta.
Foi durante o longo período de estadia no Egito, assim
' .nos parece, que o monoteísmo adquiriu o caráter puramente
espiritual e desprovido de todo simbolismo, que êle possui após
Moisés. Talvez a influência de idéias amarnianas não fossem
estranhas.
Sob a influência dos profetas, o deus único continuava
afirmando-se. Os reis, depois de Salomão, considerando Jahvé
como o deus real e judeu por excelência, tendiam, por razões
de política exterior, a admitir, até nos templos, os cultos dos
povos, com os quais êles procuravam manter relações econô­
micas ou políticas. Toda a história dos judeus é dominada
por esta luta entre os reis, que procuravam integrar a Pales­
tina na grande corrente da vida internacional, e os profetas
que, lutando contra a contaminação das idéias religiosas es­
trangeiras, pretendiam isolar-se de toda influência exterior,
de toda vida comercial, para manter o povo judeu isolado, como
uma comunidade de cidadãos, à volta do seu Deus exclusivo,
Jahvé.
A religião monoteísta dos judeus não representava, entre­
tanto, nos seus primórdios, uma forma religiosa superior. Ela
concebia Deus como um mestre, prendia ao seu culto uma mo­
ral muito elevada, fixada nas "tábuas da Lei”, mas ainda re­
servada aos únicos fiéis de Jahvé, e não acreditava numa vida
além-túmulo.
oalomão, tornando Jerusalém um grande centro de trá­
fico internacional, e ali introduzindo as primeiras instituições
18 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

monárquicas, copiadas dos modelos egípcios, possibilitou a pe­


netração na Judéia das primeiras noções da moral egípcia, tal
como era ensinada pelos moralistas Ptah-hetep, Ani e Amené-
mope. Os profetas, se combateram a política real, não se fe­
charam, entretanto, à influência dos moralistas egípcios, re-
cusando-se a trazer a idéia de lá.
As infelicidades que se abateram sobre a Palestina na
época assíria e neo-babilônica, e que culminaram na tomada
de Samaria por Sargão (722) e de Jerusalém por Nabucodo-
nosor (586), orientaram o pensamento profético num caminho
totalmente novo. Politicamente decaídos, o povo judeu, eleito
de Deus, não podia mais conceber o triunfo de Jahvé a não
ser sôbre o plano puramente espiritual. Isaías, pela primeira
vez, rompeu o papel nacional da religião de Israel e elevou-se
até à concepção de um culto universal. Ao mesmo tempo, os
profetas, que procuravam a explicação da desgraça ocorrida
ao seu povo, encontraram-na, com Amos Oséias, na queda mo­
ral das classes superiores, com Jeremias na sua infidelidade
à Jahvé e no seu materialismo religioso. A religião judaica,
desde aí, abriu-se amplamente à mais alta das morais.
O exílio devia aproximar mais o povo das idéias religiosas
dos babilônios e colocá-los em contacto com as influências mas-
deístas, que espalhavam, então, as idéias místicas e moráis de
Zoroastro, baseadas no antagonismo entre o bem e o mal.
Restaurada pelo rei da Pérsia, Ciro (538). Jerusalém, ten­
do se tornado uma província da satrápia de Damas, devia se
transformar, seguindo a constituição imaginada por Ezequiel,
num pequeno Estado teocrático, dominado por um grande sa­
cerdote hereditário e uma aristocracia sacerdotal. O culto de
Jahvé, o único oficial, tornou-se exclusivo e obrigatório sôb
pena de morte, e a Judéia foi governada por uma casta cleri­
cal, prêsa a um estreito conformismo nacionalista.
Jerusalém viveu, durante dois séculos, voluntariamente
isolada do mundo sob a autoridade da lei, concedida pela auto­
ridade de Moisés tal como figura no Pentateuco, reunião com­
posta de documentos redigidos no IX e VIII séculos, comple­
tada pelo Deuteronômio em 621, e pelo código sacerdotal, re­
digido por volta do ano 400.
A conquista da Palestina por Alexandre (331) pôs fim
ao inolnrnonto de Jerusalém. Atravessou as guerras helenísti-
<»a«, <» foi ligada ao Egito dos Ptolomeus (332), sofrendo, na­
CRISTO 19

turalmente, a influência egípcia. Depois, em 200, anexada ao


Império selêucida por Antíoco III, Jerusalém tornou-se uma
ilhota hebraica, no meio de um país cada vez mais helenizado.
Encontraram-se, aí, as influências do Egito e as do helenismo
que, comumente, se interpenetravam cada vez mais estreita­
mente. Estas influências foram cada vez mais fortes, fazen*
do com que Jerusalém apesar de ser o centro da religião judia,
não representar mais todo o pensamento de Israel. Após a
tomada de Samaria e Jerusalém, os judeus se tinham disper­
sado pelo mundo. O exílio instalou-os na Mesopotâmia; a
maioria ali tinha permanecido fora da restauração do Estado
judeu por Ciro. Outros tinham emigrado para o Egito com
o profeta Jeremias e, sob a dinastia saíta, uma comunidade
judia estabelecera-se em Elefantina; no transcorrer das guer­
ras helenísticas, uma constante emioração, favorecida por uma
natalidade elevada, carregara os judeus através de todo o Me­
diterrâneo oriental onde, de aldeões aue eram, na Palestina,
se transformaram em homens de neffócios. Os ptolomeus e os
selêucidas favoreceram, devido à inteligência que apresenta­
vam seu estabelecimento na Alexandria e na Antioquia.
Êstes judeus da diáspora se he^enizavam e participavam
do grande movimento cultural internacional. Logo, não mais
Jerusalém, mas Alexandria, tornou-se o centro do pensamento
judeu. Desde o início do III século, a tradução da Bíblia foi
iniciada na língua grega (versão dos Setenta). Os judeus
percorriam o universo conhecido. F^i anós uma longa via­
gem mie Ben Sirah escreveu, por volta do ano 170 a. C., o
Eclesiástico, penetrado das idéias morais do Egito. Era a
época em que, por todo o mundo marítimo greco-oriental, as
idéias egípcias triunfavam nos cultos dos mistérios, espalhan­
do as idéias do além e do julgamento das almas pelos deuses,
do mesmo modo que, no Norte da Ásia Anterior, o Zoroastris-
mo fazia crenças análogas penetrarem.
Jerusalém foi alcançada ao mesmo tempo pela civilização
helenística, e o povo judeu se dividiu em dois partidos: o par­
tido nacional conservador, e ferozmente jahevista, e o partido
helenístico que, apoiado pelo rei da Antioquia, se abria às cor­
rentes do pensamento universal. Daí resultou uma terrível
guerra civil, que se transformou, sob a direção dos Macabeus,
em guerra de independência (166). Ela atingiu, no ano 142,
o reconhecimento pelo rei da Antioquia, dum reino de Jeru-
ealém. Como na época de Salomão, a política real fez tam­
bém a Judéia sair do seu isolamento e a abriu às idéias de
20 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

fora. Mas o eterno conflito reapareceu novamente, entre o


partido do rei — então agora grã-sacerdote — entranhado
pelo cosmopolitismo, e o partido dos puritanos, sustentado pe­
los escribas, que desejavam manter a Palestina ao abrigo do
mundo exterior. A guerra da independência fêz entrar o pen­
samento judeu da Palestina num período tremendamente cria­
dor. O livro de Daniel, o primeiro do Apocalipse e toda a
literatura a êle ligada, — a parábola, as visões de Enoque,
etc. — que desenvolveram o tema dos destinos messiânicos de
Israel, datam desta época.
Defendendo com intransigência seu monoteísmo, o povo
judeu sofreu, entretanto, influência das idéias do seu tempo.
Chamou atenção ao que foi trazido pelos escritores bíblicos,
muitas vêzes palavra por palavra, do pensamento, da moral,
do sentimento religioso do Egito. A crença numa vida eterna,
no julgamento das almas, representada pelo símbolo egípcio
do pêso do coração, do paraíso e do inferno, dos anjos, a con­
cepção do dualismo entre o bem e o mal, a idéia do julgamento
final e a ressurreição dos mortos, inspirada no masdeísmo, o
anúncio da vinda do Messias, foram logo admitidas pelo pen­
samento judaico, do qual se tornaram temas essenciais.
Todas as idéias místicas orientais, egípcias, gregas, en­
contravam-se na encruzilhada de rotas que era a Palestina;
constituíram no século I a. C., o núcleo mais forte de sincre-
tismo religioso do mundo oriental.
A luta era tão forte entre o partido realista e o partido
pietista, que êste, no ano 64 apelou a Pompeu, vencedor da
guerra contra Mitrídates, para que pusesse fim à monarquia.
Pompeu interveio, e Jerusalém, incorporada à província da
Síria, transformou-se, sob direção de seus grandes sacerdotes,
numa simples cidade sacerdotal. O partido pietista acabava
de sacrificar a posteridade e o esplendor do país ao seu pro­
grama de política conservadora.
A monarquia suprimida por Pompeu, reapareceu sob An­
tônio. No ano 37, Herodes conferiu a si próprio, com o título
de aliado de Roma, o trono da Palestina. Jerusalém, sob seu
reinado, iria retomar o papel de grande capital. Herodes res­
suscitou o esplendor do tempo de Salomáo. Construiu um
tomplo suntuoso, rodeou-se duma corte cosmopolita. Seu rei-
’ nado estendeu-se até o Mediterrâneo e ao mar Vermelho. O
porto do Cesaréia, por êle fundado, transformou-se rapida­
mente num dos principais centros econômicos, intelectuais e
CRISTO 21
jurídicos do Império romano; pretendia incentivar para seu
próprio proveito a prosperidade que Tiro conseguira ter anti­
gamente como local de passagem para a Ásia central e as
Índias. A renascença econômica da Palestina permitiu a He­
rodes adquirir recursos consideráveis. Rival de Cleópatra,
praticou uma política imperialista na Síria e fêz-se protetor
de Atenas. Sua corte, ao lado da de Alexandria, foi um dos
centros do pensamento internacional, e sua influência esten­
deu-se tanto, que todas as colônias da diáspora que tinham
relações com Jerusalém pagavam dízimo e aceitavam a sua
autoridade.
Herodes, ainda que fiel ao culto de Jahvé, não conseguiu
ebter de graça, entretanto, do partido pietista, obstinadamente
voltado para a fórmula teocrática. Assim sua morte (4 a. C.)
marcou, como antigamente a de Salomão, o desmembramento
de seu magnífico reinado.
A Judéia retornou à posição de província romana sob um
procurador que designava o grande sacerdote. Mas Roma con­
cedeu a Jerusalém, assim como a todas as colônias da diáspora,
uma inteira autonomia religiosa e deu ao culto judaico pri­
vilégios especiais.
Em Jerusalém, a luta entre as facções políticas foi, neste
momento, mais intensa do que em qualquer outro. A classe
sacerdotal e aristocrática, que constituía o partido saduceu e
representava o espírito conservador em toda a sua pureza, não
admitia as crenças importadas sobre a imortalidade da alma,
a vida futura, o dualsimo entre o bem e o mal, mas aceitava
a tutela de Roma, da qual esperava a estrita manutenção do
"statu quo” social e doutrinai. Os escribas, ou fariseus, for­
mavam a elite intelectual; adotaram as idéias introduzidas no
II século, ou seja, anjos e demônios, ressurreição dos mortos,
advento do reino de Deus; mas eram nacionalistas, e sua ala
extrema, que formava o partido dos zelotas, pregava aberta­
mente a revolta contra Roma. Segundo o ponto de vista mo­
ral, estavam divididos; alguns professavam as idéias arcaicas
e permaneciam partidários, notadamente do direito do marido
repudiar a mulher; outros, levados pela grande corrente indi­
vidualista, adotavam a tese egípcia da monogamia e da fide­
lidade recíproca dos cônjuges.
Quanto ao povo, estava seduzido pelas idéias místicas que
representavam essencialmente, após o início do I século, a seita
22 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

dos essênios. Caracterizava-se esta por suas idéias ascéticas.


Existia entre os judeus ascetas desde a época dos Juizes. A
seita essênia constituiu-se, portanto, sob um velho fundo
judaico. Sofreu influências iranianas, talvez provindas de
Éfeso, idéias pitagóricas, então em voga em todos os países
gregos, e idéias morais, místicas e de piedade interna, que
vigoravam no Egito. Seguindo a lei judaica, os essênios re­
jeitavam o formalismo do culto e desejavam atingir, a vida
eterna pela prática das virtudes e pela renúncia. Representa­
vam exatamente, na Palestina, a mesma tendência que os mis­
térios de ísis e de Dioniso nos cultos pagãos. Mas seu mono-
teísmo absoluto libertava-os de toda a mixórdia que subjugava
o misticismo pagão e os engolia numa espécie de magia; o seu
espiritualismo, desprovido de símbolos, colocava-os diretamen-r
te em contacto com a própria idéia da divindade; sua pureza,
seu ascetismo lhe permitiam atingir uma altura moral que ul­
trapassava a de todos os mistérios, mesmo o de Ísis. Separa­
dos dos bens dêste mundo, renunciavam a propriedade privada
em proveito do grupo a que pertenciam, tomavam as refeições
em comum, após terem se dedicado a preces, recomendavam a
sobriedade, a castidade, a pureza dos costumes, a doçura, e
consideravam o celibato como um estado superior ao casamen­
to; sobre o plano social, professavam que todos os homens são
iguais, e rejeitavam a escravidão.
Sua religião admitiu o dualismo entre o bem, represen­
tado por Deus, e o mal, assimilado à matéria; acreditavam nos
anjos e na vida futura e faziam da salvação de sua alma o
fim de sua existência. Enfim, anunciavam a vinda próxima
do Messias. A idéia do Messias, que parece ter sido formu­
lada pela primeira vez por Zoroastro, estava então espalhada
em todo o Oriente. No I século, os assírio-babilôriios, anexa­
dos ao Império parta e conquistado sob a influência masdeísta,
anunciavam o Messias como um deus-homem nascido de forma
sobrenatural e que, tendo vindo ao mundo para o salvar, res­
suscitaria após a sua morte. Em Jerusalém, salvo na classe
sacerdotal que permanecia refratária, a idéia messiânica era
há muito tempo admitida e era espalhada pelos profetas. Uma
ampla literatura extrabíblica era dedicada a êste assunto. Da­
niel anunciara sua vinda sobre as nuvens. No I século, os
fariseus concebiam o Messias como um rei; uns ensinavam
que seu reino duraria mil anos e terminaria pelo julgamento
final; outros consideravam que sua aparição marcaria o fim
do mundo a a vinda do reino de Deus.
CRISTO 23

Mas o povo o esperava sob o aspecto de um dêstes homens


de Deus, pregando e praticando o bem, como João Batista, que
purificava e iniciava os fiéis pela cerimônia do batismo —
paralelo aos ritos dos mistérios isíacos e helenísticos — exor­
tando-os a fazerem penitência.
Os essênios, fervorosos adeptos da idéia messiânica, não
a viam, como os fariseus, sobre o plano nacional, mas univer­
sal. Com êles, sob a ação combinada de tôdas as idéias mís­
ticas do tempo, o pensamento judaico liberado, espiritualizado,
Be preparava para conquistar o mundo.
4

-
JESUS

Foi numa modesta família de artesões, originários, pa­


rece, dé Nazaré, no antigo reino de Israel, desta Galiléia con­
siderada por Jerusalém como perdida pela ortodoxia, que no
fim do reinado de Herodes nasceu, em Belém, pequena povoa-
ção ignorada, o Messias tão esperado.
Após uma temporada no Egito, provocada, segundo a tra­
dição, por uma perseguição do partido antimessiânico — o
massacre dos inocentes — e onde nada permite segui-lo, Jesus
passou sua juventude obscuramente, longe das lutas dos par­
tidos e fora das escolas, em Nazaré. Depois, conduzido como
os profetas pelo espírito de Deus, fêz-se batizar nas águas do
Jordão por João Batista, que pregava a penitência e anuncia^-
va a vinda próxima do reino dos céus. Jesus retirou-se para
o deserto, onde sofreu a tentação do espírito do mal. ApÕs
João Batista ter sido aprisionado, êle voltou à Galiléia, para
as margens do Lago de Genezaré, em Cafarnaum, e, como João
Batista, pregava: "arrependei-vos, porque o reino dos céus se
aproxima”. Seguido por alguns pescadores, antigos discípu­
los de João, percorreu a Galiléia, ensinando nas sinagogas,
anunciando o reino de Deus, e como os antigos profetas, tra­
tando dos enfermos.
Após o sermão da montanha, fixou sua moral: felizes os
pobres de espírito, os bons, os misericordiosos, os pacíficos, os
que choram, os que têm fome e sede de justiça porque o reino
dos céus lhes pertence.
A imortalidade da alma, ganha não pelos sacrifícios e a
prática do culto, mas sim pela renúncia, pelo abandono a Deus,
e a caridade, são a base da moral cristã.
Sem dúvida, Jesus não pretende estar fora da lei; reco­
menda sua observância em todos os seus preceitos. Portanto,
se admite a oferenda no templo, afasta-se dos sacrifícios, e
todo o seu ensinamento é de base moral.
26 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

Sua moral não é especialmente judaica, mas universal.


Êle não distingue os homens de nacionalidade diferente, nem
de religião diferente, e apregoa que Deus acolherá mais favo-
ràvelmente o bom samaritano do que um judeu de coração
endurecido. Individualista, não considera somente os homens
como criaturas iguais ante Deus, mas apregoa também a igual­
dade dos sexos, exige a estrita monogamia, a fidelidade con­
jugal, recomenda a indissolubilidade do casamento, e não
admite o repúdio da mulher em caso de adultério.
Sua moral não visa impor-se às instituições humanas, que
aceita como a expressão da justiça dos homens; vai além do
direito, recomenda dar o bem pelo mal e amar os seus inimi­
gos. Chama a atenção o fato da moral pregada por Jesus
preocupar-se muito pouco do ponto de vista social, tão apai­
xonadamente discutido no mundo helenísticó de então. Para
êle, a moral, assim como a religião, são essencialmente indi­
viduais.
A voz de Jesus foi ouvida por poucos, mas encontraria
wo mundo um imenso eco.
A lei judaica impunha-se no respeito ao dogma. A ati­
tude de Jesus apareceu como sacrilégio ao sacerdócio, que do­
minava soberanamente esia pequena teocracia que era Jeru­
salém. O sinédrio o condenou, segundo a lei, à pena de morte.
Pilatos, o governador romano, que não dispunha, quanto a as­
suntos de religião, de nenhuma autoridade em Jerusalém, acon­
selhou aos anciães conceder a salvação de Jesus por ocasião
da Páscoa; a lei foi aplicada em todo o seu rigor, e Jesus
pereceu na cruz.
Seu martírio, após uma vida toda dedicada à paz e ao
amor, devia assegurar seu triunfo, revelando aos homens seu
earáter messiânico e por conseqüência divino. A idéia do Deus
redentor, que constituía a base de todos os mistérios pagãos,
dirigir-se-ia ao Messias e à sua doutrina de amor, o grande
impulso' místico que trabalhava no mundo. Uma nova era se
anunciava no drama tocante do Gólgota.
JESUS DE NAZARÉ
José Pijoan

Jesus cresceu e se fêz homem em Nazaré da Galiléia


longe de Jerusalém e da atmosfera política do Templo. A dis­
tância entre Nazaré e Jerusalém percorre-se hoje em quatro
horas de automóvel, mas, no tempo de Jesus, os peregrinos
levavam vários dias para cobri-la. Os pais de Jesus iam uma
vez por ano a Jerusalém, e quando o menino completou doze
anos, levaram-no consigo pela primeira vez. Nesta viagem
ocorreu o fato tão significativo da disputa com os doutores,
que escutaram atônitos suas respostas sobre temas que Jesus
já denominava "coisas de seu Pai”. Isto demonstra que, desde
muito jovem, estava familiarizado com a Lei e os Profetas.
Mais tarde, manifestou ao recordar-se dos livros dos maca-
beus, o livro de Enoque e de alguns Salmos.
Jesus passou a sua juventude em Nazaré, trabalhando si­
lenciosamente como humilde carpinteiro. Êste seu silêncio,
desde a disputa com os doutores até o seu batismo, durou mais
de quinze anos, pois entrava nos trinta anos, quando foi visi­
tar João no vale do Jordão. Êste pregava que a condição de
judeu — filho de Abraão — não era suficiente para salvar-se,
que era preciso fazer penitência e receber o batismo, só assim
estaria preparado para o remo de Deus, cuja realização era
eminente. O reino de Deus era o império da Lei, que viria
precedido de grandes catástrofes. Somente sobreviveriam os
justos e os arrependidos. Uma vez separado o grão, e quei­
mada a palha, os escolhidos de Israel governariam o mundo,
porque teriam reconhecido o Senhor como rei.
, Ao perguntarem os neófitos o que deveriam fazer, João
respondia : "Aquêle que tem duas túnicas, que entregue uma
ao que não tem nenhuma”. Aos publicanos, ou seja, aos arre­
cadadores ou agentes fiscais do imposto, João aconselhava-os
28 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

exercerem a profissão com honradez, e aos soldados, contenta­


rem-se com o soldo. Mas, a maior grandeza do Precursor, ê
haver anunciado e reconhecido Jesus.
Dois dos que acompanhavam João sentiram-se imediata­
mente atraídos por Jesus. Depois de haver passado com êle
um dia inteiro, André, um dêles, disse a Simão, seu irmão:'
"Encontramos o Messias”. Simão. que era de mais idade e
já casado, quis ver Jesus imediatamente. Êste o recebeu como
antigo conhecido, dizendo: "Tu és Simão, filho de João, mas
serás chamado Cefas99 (que se interpreta Pedro). Jesus r>ro-
vava sua afeição, impondo nomes a seus discípulos. Aos filhos
de Zebedeu chamou-os Boanerges, ou filhos do trovão, e mudou
o nome de Levi para o de Mateus.
A convivência com Jesus deu coragem a João para acusar
de incesto a Herodes. Êste mandou prendê-lo, e depois, deca­
pitá-lo em sua fortaleza de Makerus. João, de sua prisão, en­
viou dois discípulos para perguntar a Jesus: "És tu o que
há de vir ou devemos esperar outro99?
Depois da morte de João, Jesus retirou-se para o deserto,
pelo espaço de quarenta dias. Os Evangelhos descrevem su-
màriamente, as tentações que ali teve de resistir, o que, de
certa maneira, podemos, também, aplicar a nós. "Viver com
Deus, ser filho de Deus, é o objetivo, mas não podemos viver
inteiramente para Êle porque temos necessidades”. A réplica
de Jesus é que nem só de pão vive o homem. Mas se podemos
nos manter de outra coisa além de pão, isto é, da palavra de
Deus, então por que apressar-se? Os anjos nos sustentarão
até quando nos lançássemos do alto da muralha do Templo, o
que é verdade, mas não se deve temeràriamente pedir mila­
gres. Enfim, se com a ajuda de Deus, podemos conseguir túdo
quanto desejamos, por que não nos valermos dêste poder pará
estabelecer o reino de Deus sobre a Terra, e acabar, de uma
vez, com tanta injustiça? Esta proposição de empregar a
violência, com pretexto de fazer um bem, foi repelida por Jesuâ
com uma frase da Lei: "Adorarás ao Senhor e só a Êle pres-
tarás culto”.
Após fortalecer seu espírito com êstes quarenta dias de
solidão e jejum, Jesus regressou à Galiléia. Na volta, tinha
que atravessar o país dos samaritanos, que haviam persistido
em viver afastados dos judeus, encravados entre a Judéia e a
Galiléia. Ao entardecer, Jesus sentou-se perto de um poço;
uma mulher samaritana veio buscar água, e como lhe pergun^
C R ISTO 29

tasse se devia adorar Jeová no templo da montanha de Jeru­


salém, ou no templo da montanha de Samaria, Jesus pronun­
ciou aquelas memoráveis palavras: "Hora virá em que, nem
neste monte nem em Jerusalém, adorareis o Pai. . . Deus é
espírito e os que o adoram, em espírito e em verdade, é mister
que o adorem”.
Devia ser aquêle um dos momentos em que, segundo Jesus,
o homem vive da palavra de Deus, porque, ao ser-lhe oferecido
alimento, Jesus recusou-o: "Eu tenho um alimento que vós
não conheceis; meu alimento é fazer a vontade d’Aquêle que
me enviou”... Depois, olhando os campos verdes dos arre­
dores, acrescentou: "Faltam ainda quotro meses para a ceifa,
mas eu vos digo que olheis bem e vereis que os trigos já estão
brancos. Aquêle que sega, recebe o salário e tem fruto para
a vida eterna”. Percebe-se, ainda, nestas palavras de Sama­
ria, um eco das tentações do deserto. Não há uma fronteira
fechada entre o espírito e o mundo material. Jesus começa
a revelar também o seu sentido universal do Pai. Desaparece
a distinção entre samantanos e judeus, que fora o pesadelo
de Israel desde os tempos de Esdras e Neemias. Manifesta,
além disso, propósitos cie proselitismo; as messes estão madu­
ras, há necessidade de trabalhadores.
Por isso, no seu regresso à Galiléia, Jesus começa reso­
lutamente a pregação. Um sábado, na sinagoga de Nazaré,
quis ler as palavras de Isaías. "O Espírito do Senhor está
sobre mim, porque me ungiu para anunciar a boa nova aos
pobres, e enviou-me a pregar a liberdade aos escravos, e a
devolver a visão aos cegos”. . . Depois, dirigindo-se a seus
eircunvizinhos, Jesus revelou-se sem reservas como o anuncia­
do pelo Profeta. A reação dos que o conheciam desde menino
íoi vivamente descrita peio Evangelista. JNo início, ficaram
maravilhados com as paiavras cheias de sabedoria que saíam
de sua boca, mas logo, voitando-se a si, irritaram-se e queriam
castigá-lo como impostor. Nem os seus, parece, terem-no de­
fendido; segundo outro Evangelho, seus parentes suspeitavam
que estivesse alienado e pretendiam afastá-lo do povo.
Não é, pois, de estranhar que Jesus abandonasse sua
pátria e sua família, e procurasse um refúgio na região do
lago de Genesaré, onde viviam os dois irmãos André e Pedro,
que conhecera no Jordão. O lago de Genesaré fica perto de
Nazaré; o espelho ovalado de suas águas distingue-se desde
as montanhas da Galiléia. Tem uns dezessete quilômetros de
80 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

circunferência; suas águas não são salgadas como as do mai*


Morto, e nele os peixes reproduzem-se maravilhosamente. No
tempo de Jesus, havia em suas margens, umas cinco aldeias
de pescadores: Betsaida, onde viviam Pedro e André; Mag-
dala, berço de Magdalena; Cafarnaum, Dalmanuta e Coracim.
Às vêzes, pregava Jesus de uma barca, para evitar que
a multidão o comprimisse, e de outras, subindo a uma das ele­
vações que rodeavam o lago.
Em seus sermões, revelava verdades eternas e universais :
"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é
o reino dos céus. Bem-aventurados os mansos, porque êles
herdarão a terra. Bem-aventurados os que choram, porque
êles serão consolados. Bem-aventurados os aue têm fome e
sêde de justiça, porque êles serão saciados. Bem-aventurados
os misericordiosos, porque êles alcançarão misericórdia. Bem-
-aventurados os puros de coração, poraue êles verão a Deus.
Bem-aventurados os pacíficos, porque êles serão chamados fi­
lhos de Deus. Bem-aventurados os aue sofrem persesruição r>or
amor à justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventu-
rados sois quando vos injuriarem, vos perseeruirem e, mentin­
do, disserem todo o mal contra vós nor minha causa; alee^ai-
-vos, então, porque a pagra é abundante, nos céus, pois dêste
modo perseguiram os Profetas antes de vós”.
Até acrui nada houve de novo que não fosse ensinado pelos
doutôres judeus. Mas acrescenta Jesus: "Não penseis aue
vim para revogar a Lei e os Profetas; não vim para revograr,
mas para cumprir! Porque vos digo que se vossa justiça não
exceder à dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos
céus”. Jesus manda que, se nos batam numa face, apresen­
temos a outra; que se nos peçam a túnica, demos o manto tam­
bém, e se nos peçam que caminhemos u’a milha, caminhemos
duas. *"Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos
odeiam, orai pelos que vos perseguem, abençoai os que vos ca­
luniam”. ..
"Porque se amais os que vos amam, não tereis direito a
nenhuma recompensa. Também assim o fazem os publicanos
e pecadores. Mas se amais os vossos inimigos então sereis
filhos do Pai, que está nos céus, porque Êle faz chover sobre
os justos e injustos e faz sair o Sol para os bons e os maus.
Sôde, pois, perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito”.
CRISTO 31
A oração, a esmola, o jejum devem fazer-se em segrêdo,
para que o Pai, que conhece o segrêdo, nos pague em segrêdo:
Não se deve julgar nem condenar o próximo; "porque muitas
vêzes, querendo corrigir o que tem um argueiro no olho, não
vemos a trave que está no nosso”. Esta bondade e paciência
evangélica não são fáceis; a porta é estreita, mas conduz à
vida, enquanto que a porta larga leva à perdição.
Sobretudo, nos adverte Jesus, que devemos nos prevenir
contra os falsos profetas, que se apresentam mansos como ove­
lhas, mas que por dentro são verdadeiros lobos. Pelos frutos
os conhecemos, porque a silva não produz figos, nem uvas, os
matagais. Por fim, Jesus estabelece aauela sentença, que as
seitas protestantes, que reduzem a eficácia das obras, ressal­
tando apenas a fé como caminho da salvação deveriam lem­
brar: "Por que me chamais Senhor, Senhor, se não fazeis o
que digo?... Nem todo aauêle que diz Senhor entrará no rei­
no dos céus, mas, sim, aquêles que fazem a vontade do Pai que
está no céu”.
Nesta ocasião Jesus já havia congregado alguns discípu­
los num lugar montanhoso e retirado, e escolheu doze, para
enviá-los, de dois em dois, a pregar por tôda parte o reino de
Deus. Os missionários deveriam curar doentes, ressuscitar
mortos, curar leprosos, expulsar demônios. . . e tudo de graça,
como Deus o concede também de graça. Os enviados de Jesus
não deviam levar ouro, nem prata, nem cobre, nem túnica, nem
calçado. . .
Jesus prova a eficácia da oração quando pergunta: "Qual
é o pai a quem o filho pede pão e lhe dá uma pedra?”. .. E
se assim procedem os homens, que são maus, o que não fará
o Pai celestial, que é perfeito? O que cuida dos pássaros, que
não semeiam nem colhem, mais cuidará ainda de nós, seus fi­
lhos, se tendes fé. "Olhai os lírios do campo, como crescem.
Não se afanam nem fiam; e Eu vos digo, contudo, que nem
Salomão, com tôda a sua glória se vestiu como um dêles”.
"Não vos preocupeis, pois, pensando o que comeremos, o que
beberemos, com o que nos vestiremos. Buscai primeiro o rei­
no de Deus e sua justiça, e tudo o mais vos será dado”.
Difícil é estabelecer a cronologia e o itinerário de Jesus
nestes anos de seu ministério, mas supomos que, depois de pas­
sar algum tempo na região do lago, alargou sua missão por
tôda Galiléia e dirigiu-se aos agricultores. A maioria de suas
parábolas, nesta época, são de pastôres que não abandonam o
32 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

rebanho e o protegem dos lobos, da ovelha desgarrada, do filho


pródigo que guarda a vara de porcos, do semeador que espalha
a semente sobre a boa e a má terra, da pobre mulher que varre
a casa, e da levedura faz crescer a messe. Vê-se que Jesus
deseja que o entendam até os mais humildes camponeses, que
cuidam de uma pequena parcela da vinha, e de um pequeno
rebanho de cabras e ovelhas. Fala-lhes da túnica nova, da
túnica remendada, do lavrador que para comprar um campo
tem de vender tudo o que tem, do vinho novo e dos odres ve­
lhos, do que lavra seu campo sem olhar para trás. Mas se
compreende que durante êstes últimos tempos, que passou em
Galnéia e na Judéia, Jesus não tem moradia fixa, seus discí­
pulos são seus únicos familiares. Queixa-se de que não tem
uma pedra onde possa reclinar a cabeça.
Além disso, Jesus começa a ser vigiado pelos emissários
de Jerusalém: "Então se apresentaram a Jesus alguns fari­
seus e escribas de Jerusalém, dizendo: "Por que teus discí­
pulos desprezam a tradição dos antigos, isto é, não lavam as
mãos antes de comer pão?”. . . Os judeus, zelosos do ritual,
ofendiam-se ao ouvir Jesus dizer que não é o que entra pela
boca o que faz mal ao homem, mas o que sai do coração. Por­
que do coração saem homicídios, adultérios, fornicações, fur­
tos, falsos testemunhos e maldições. Estas são as coisas que
fazem mal ao homem, e não o comer sem lavar as mãos.
Jesus também manifestava, que devia guardar-se o sába­
do, só quando suas restrições não eram incompatíveis com um
dever mais alto. "Misericórdia quero e não sacrifício”. Além
disso, Jesus, passou logo de acusado a acusador: "Guardai-
-vos da levedura dos fariseus... Cegos e guias de cegos”. ..
Mas sabendo que não havia chegado ainda o tempo de sua mor­
te, encaminhou-se, algumas vêzes, para a Fenícia ou para o
outro lado do Jordão, onde tinha alguns discípulos.
Estas curtas ausências da Galiléia deveriam preceder a
outros estágios de sua revelação. Ao regressar, Jesus não se
limita a explicar, como disse, talando com a samaritana: "Meu
alimento é fazer a vontade do Pai”, mas disse: "Sou o pão
da vida; aquêle que vem a mim não terá mais fome, e quem
crê em mim não terá mais sêde”. Ainda faz comparações com
a Lei, mas como uma coisa caduca e superada: "Vossos pais
comeram o maná no deserto e morreram. Êste é o pão que
desce do céu para que o homem dêle coma e não morra. Eu
«ou o pão vivo que desceu do céu; se alguém come deste pão,
A matança dos inocentes
WÊÈÊ&mm

A f im Par« o Egito
Jesus entre os doutores
CRISTO 33

viverá eternamente, e o pão que eu darei é minha carne para


a vida do mundo”... Discutiam, pois, os judeus, dizendo:
"Como pode nos dar sua carne para comer? Dura é esta pa­
lavra! Quem pode ouvi-la?” Ao que Jesus acrescentou bem
claramente: "O espírito é o que vivifica, a carne não serve
para nada: as palavras que vos tenho dito são espírito e são
vida”. ..
Afrontando o conflito, e somente com a humilde compa­
nhia de doze obscuros seguidores, Jesus seguiu para Jerusa­
lém. Sabia o que ali o esperava. Com antecedência havia
anunciado a sua morte. Às vêzes não o entendiam; julgavam
que queria suicidar-se. Os judeus diziam: "Quer matar-se
quando diz: "Onde vou, vós não podeis ir!”. . . E muitos
diziam: "Está endemonmhado e delira. Por que o escutais?”
Mas outros respondiam: "Estas não são palavras de ende-
moninhado. Pode um endemoninhado fazer voltar a vista aos
cegos?”
Contudo, a grande objeção em Jerusalém foi a que Jesus
vinha da Galiléia. Até quando Nicodemus tratou de defendê-
-lo no sinédrio, lembraram-lhe seus colegas: "Pensa bem e
verás que da Galiléia não saiu nenhum profeta. . . ” Que ar­
gumento! E recorde-se que os galileus eram judeus de pura
cepa, não gente de duvidosa nacionalidade como os samari-
tanos.
Por isto Jesus replicou com a sublime parábola do bom
samaritano: "Um homem descia de Jerusalém para Jericó e
caiu nas mãos de ladrões, que depois de o despirem e espan­
carem, se retiraram deixando-o meio morto. E aconteceu que
um sacerdote vinha pelo caminho, e tendo-o visto, passou de
largo. Depois veio um levita, e chegando àquele lugar, e ten­
do-o visto, também passou de largo. Por fim, um viandante
samaritano, vendo-o, apiedou-se dêle; aproximou-se e curou-
-lhe os ferimentos com azeite e vinho, colocou-o no cavalo e
levou-o a uma estalagem. No dia seguinte, entregando duas
moedas ao estalajadeiro, disse-lhe: "Trata-o, e tudo o que
gastes, no meu regresso te pagarei. Qual dos três vos parece
ter sido próximo daquele que encontrou os ladrões?”. . . Que
efeito devia fazer esta parábola em Jerusalém! O caminho
que de Jerusalém desce ao Jordão, passando por Jericó, é um
dos caminhos mais freqüentados de Palestina. Por ali chega­
ram os judeus ao voltar do Egito: por ali se vai a Moab e a
Peréia. E ainda hoje, a estalagem, na metade do caminho, é
ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

a única que se encontra de Jerusalém até Jericó. Jesus co­


nhecia bem aquela rota; durante sua última permanência em
Jerusalém havia se retirado com bastante freqüência para
aquela região deserta, do outro lado do Jordão, e tinha que
seguir, forçosamente, aquêle caminho.
Jesus permaneceu em Jerusalém desde a festa dos Taber-
náculos, que era no equinócio de outono, até à Páscoa, que cai
no equinócio da primavera. Na sua pregação durante êstes
seis meses revela seu contacto com uma sociedade mais com­
plexa, do que a dos humildes lavradores e pastores de Galiléia.
Assim nos fala do criado cruel que pede perdão ao amo; de
que não se deve oretender a cabeceira nos banauetes; de con­
vidar, não os amigos e os parentes, mas os pobres e os aleija­
dos; fala-nos dos que não aceitam o convite; dos que querem
servir a dois senhores; do que constrói uma torre; do rei que
se prepara para guerrear, e de todos êles deduz sutis compa­
rações para a vida espiritual.
Nesta época se realizou o fato milagroso da ressurreição
de Lázaro de Betânia. Esta aldeia se acha à pouca distância
de Jerusalém. Jesus fora, em várias ocasiões, hóspede e co-
mensal de Lázaro. O Evangelho diz que êste adoeceu grave­
mente, e suas irmãs, Marta e Maria, enviaram um mensageiro
à procura de Jesus, que se encontrava longe de Judéia, provà-
velmente no outro lado do Jordão. Jesus demorou alguns dias.
Quando chegou fazia já quatro dias que o corpo de Lázaro
estava sepultado. Ao chegar, ante a lousa que cobria o túmulo,
Jesus chorou, em seguida deu graças, e com voz forte, excla­
mou: "Lázaro, sai!”. .. E o morto saiu, com o rosto envolto
na mortalha, e os pés e as mãos enfaixadas.
E continua o Evangelho: "Muitos, pois, dos judeus que
foram de Jerusalém à casa de Maria, e viram o que Jesus fêz,
acreditaram n’Êle, mas alguns foram aos fariseus e contaram
o que Jesus fizera. Reunidos, então, os príncipes dos sacerdo­
tes e os fariseus, diziam: — Que faremos? Porque êste ho­
mem faz muitos milagres. Se o deixarmos assim, todos acre­
ditarão n’Êle e virão os romanos e tomarão êste lugar e a
nação. Mas um, chamado Caifás, que era pontífice naquele
ano, disse-lhes: — Vós não entendeis nada dessas coisas, não
compreendeis que é conveniente que morra um só homem por
todo o povo, que não se perca toda a nação. . . — "Desde aquêle
dia, pois, combinaram matá-lo”.
CRISTO 35
Decretada dêste modo a morte de Jesus, para que pela
morte de um — embora fosse inocente — se salvasse a na cão,
restava ainda fixar os pormenores nara prendê-lo e executá-lo.
A maneira de dar morte a um falso profeta está claramente
prescrita pela Lei: deve ser apedrejado, e assim morreu Es­
têvão, e em várias ocasiões os judeus tentaram apedreiar Jesus.
Mas, sob o protetorado romano, era duvidoso que alguém pu­
desse decretar uma pena de morte a não ser o governador ou
o procurador de Roma. aue então era Poncio Pilatos. Até o
próprio Herodes, o Grande, vira-se obrigado a pedir a confir-
macão de suas sentenças em casos graves. Era, pois, neces­
sário esperar que, num tumulto, nrovocado pelos agentes do
Templo, o povo, sempre irresponsável, apedrejasse a Jesus.
Na realidade ninguém sairia em sua defesa; a união dos
sacerdotes com os fariseus devia ser onipotente. A influência
dos fariseus era enorme, precisamente porque faziam alarde
da pureza, e praticavam a penitência e uma rigorosa piedade.
Tanto o Talmud de Babilônia como o de Jerusalém descrevem
os fariseus dividindo-os em sete classes, cujos nomes, por si
sós, são já sete tipos de tartufismo. Um é o siquemita, isto é,
de Siquém, onde se estabeleceu Abraão primeiramente. Por­
tanto, êste fariseu será arcaico, admitindo só o antigo e a pri­
mitiva revelação. Outro tipo de fariseu é o que sempre cai,
o pobre que quer fazer bem, mas tropeça, não é culpa sua se
faz mal. Outro é o qwe se ãessanpra — materialmente se per­
de pelo amor de Deus, fica exânime — não pode fazer mais
nada senão desfalecer. O quarto é o fariseu — tão moderno
— que não quer saber mais nada senão como há de salvar~se.
O sexto, o que é fariseu por mêdo, e o sétimo, único bom, o
que o é somente por amor. Mas Jesus não faz distinções. De­
fine os fariseus com os tão expressivos nomes de sepulcros
caiados por fora, acusa-os de serem avaros e amantes do di­
nheiro, e de roubar as viúvas, o que concorda com o que disse
Josefo dos fariseus, e também com modernos casos de fariseís-
mo que podemos ver entre nós.
Durante êstes últimos meses de sua vida em Jerusalém,
Jesus acentua a nota apocalíptica, prediz o fim do mundo, a
destruição da cidade e do templo, e sua vinda, pela segunda
vez, para julgar os bons e os maus. Mas, sempre prático,
acrescenta: "Assim como o Pai me amou, eu vos tenho amado,
Perseverai no meu amor. Se guardais meus mandamentos,
perseverareis em meu amor, como eu guardei os mandamentos
de meu Pai e persevero no seu. E êste é meu mandamento:
86 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

que vos ameis uns aos outros como eu vos tenho amado; nin­
guém tem maior amor do que êste: dar a vida por seus ami­
gos. .. Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros”.
Eis aqui a nova doutrina: amar-se, não como próximos,
não como judeus, nem ainda como homens, mas como Jesus
amou a seus discípulos, que é como o Pai amou a Êle, supre­
ma plenitude e infinito amor.
Jesus, neste sermão, disse ser Êle a vida verdadeira e seus
discípulos os rebentos; êstes podem dar muito fruto, unidos a
Êle, mas arrancados da videira não produzirão nada. Jesus,
em sua última ceia, estabeleceu o sacramento da Eucaristia,
centro do culto cristão.
São Paulo, mais tarde, recordava as palavras de Jesus na
sua primeira epístola aos Coríntios: "Jesus, na mesma noite
que ia ser entregue, tomou o pão, e quando acabou de dar gra­
ças, partiu-o, e disse: "Tomai, comei; êste é meu corpo, que
por vós é partido; fazei isto em minha memória”. E da mes­
ma maneira, tomou o cálice, depois de haver ceado, dizendo:
"Êste cálice é o Novo Testamento no 'meu sangue; fazei isto,
quantas vêzes o beberdes, em minha memória”.
Feita esta última recomendação, Jesus, acompanhado de
alguns discípulos, encaminhou-se para o Monte das Oliveiras,
certo de que ali iriam buscá-lo os que queriam a sua morte.
Esta foi decretada pelo Senado dos Sacerdotes, e perpetrada
com a cumplicidade do governador romano. Êste, cínico, para
desculpar sua cumplicidade, tolerando o suplício romano da
crucificação, fêz colocar sobre o madeiro da cruz uma inscri­
ção, declarando que Jesus de Nazaré havia se eleito rei dos
judeus.
JESUS DE NAZARÉ
Júlio Minhan

Sem dúvida alguma, a biografia mais fascinante, a mais


comentada e ao mesmo tempo a mais misteriosa e bela é a
de Jesus de Nazaré. É fascinante porque desde que iniciemos
sua leitura, tem-se de imediato a certeza de estarmos diante
de uma personalidade que aparece aureolado com todos os
atributos da perfeição humana. Parafraseando os Evangelhos*
poderíamos dizer que: "Nunca outro homem viveu como êsse
Homem”. É inspirada porque nos apresenta traços de caráter
tão humanos que supera pela sua sinceridade e perfeição tudo
que qualquer outro luminar humano nos tenha transmitido;
é variada, precisamente, pela felicidade que Jesus teve na sua
adaptação a qualquer meio e ambiente. Na verdade, ao ler-se
a Vida de Jesus, seja qual fôr o seu biógrafo, recebemos a im*
pressão de que o Nazareno nasceu para todos os ambientes e
para enfrentar todas as situações. Vemos logo, que foi o
Homem universal. É a mais misteriosa, porque os quatro pri­
meiros biógrafos— os quatro evangelistas — no-lo apresen*
tam com quatro particularidades distintas, que unindo-se como
um todo para formar um único caráter, nos colocam diante de
um Homem e de Deus, diante de súdito leal e diante de uin
verdadeiro rei. Aumentam êsse mistério os diversos lapsos
da vida de Jesus, que êsses biógrafos não souberam ou não
desejaram explicar.
Além dos evangelistas — Mateus, Marcos, Lucas e João
— o único contemporâneo de Jesus que d’Êle escreveu foi 9
historiador judaico, Flávio Josefo. Seu mais antigo testemu^
nho encontra-se em "Antiguidades Judaicas”, Livro XVIII,
c$p. III, parágrafo 3.°, onde um tanto bruscamente introduz
a Jesus na História com estas palavras: "Apareceu, nestá
épófca, Jesus, homem sábio, se é lícito chamar-lhe homem, po
que realizou obrãs maravilhosas, foi mestre dos que de bom
38 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

grado receberam a verdade e atraiu após si um grande número


de judeus e também de muitos helênicos. Êle era o Cristo.
Depois, pela denúncia dos principais da nossa nação, Pilatos
condenou-o à morte de Cruz. Aquêles que o amavam ao prin­
cípio lhe permaneceram fiéis, pelo que lhes apareceu ao ter­
ceiro dia, ressuscitado conforme tinham anunciado os diversos
profetas, que profetizaram quanto a Êle outras muitas mara­
vilhas. Ainda hoje, subsiste a raça dos cristãos que por Êle
assim se chamam”.
"Esta afirmação do historiador judeu levantou grande
controvérsia, especialmente pela afirmação que faz — "Êle era
o Cristo”. Aqui tem início o mistério de Jesus. "Cristo” não
é palavra hebraica, é grega e significa "UNGIDO”, que equi-
vaie ao hebraico — MiüstílASS — significando o "CONbA-
GKADO”, ungido. Já seria muito estran n o que um hebraista
puro, como íoi Jblávio Joseio, misturasse heienismos nas suas
"Antiguidades”, tendo como tmna a sua lingua, um termo
equivaiente e mais cftegado ao coração de seu povo; porem, o
misteriò aumenta amua com os atriDucos que reconneeia no
"Llngido”, que equivana a acreditar que o íviessias tmna che­
gado e encarnara na pessoa ae jesus de Nazare.
Os antigos judeus, doutrinados pelos profetas, tinham
noções muito claras quanto ao Messias, porem, aduiieraram-nas
paulatinamente, de tai iorma que quanuo Jesus veio em lugar
de um Messias, de um redentor, esperavam um rei, um guer­
reiro, um conquistador temporal que os libertasse do jugo ro­
mano e submetesse o mundo inteiro a Israel. Este pensamento
levou-os a escandalizar-se ao ver a aparência exterior e a hu­
mildade dêsse Messias. Os contemporâneos de Joseio e a
comparação dos atos que tinha operado Jesus, de surpresa em
surprêsa, levou-os a atingir o pináculo das duvidas.
Os antigos videntes tinham predito que o Messias seria
Deus e homem ao mesmo tempo; louvado e perseguido; Senhor
e servo; sacerdote e vítima; príncipe e sudito; inocente e cas­
tigado como o pior dos criminosos; envoito na morte e dono
da vida; rico e pobre; rei conquistador e glorioso — "homem
de dores” — exposto à fragilidade humana, ser abjeto e di­
vino. Como os contemporâneos de Joseio não tiveram a ca­
pacidade de harmonizar todos êsses predicados no humilde
, Nazareno ou simplesmente se recusaram a fazê-lo, Jesus apa­
receu-lhes como o humilde "filho do carpinteiro” José.
CRISTO 39

Ainda há mais, em nenhuma literatura antiga ou moder­


na, encontramos que Jesus foi ungido oficialmente por qual­
quer sacerdote ou grupo de sacerdotes daquele tempo, o que
sem dúvida contribuiu para a rejeição do messianismo que os
profetas lhe atribuíam. A unção da qual tanto profetas como
apóstolos falam, é toda espiritual, interna e secreta, concedida
pela Divindade como vemos em São Lucas, 4:18 e livro dos
Atos dos Apóstolos, cap. 10 e verso 38.
Como os judeus não aceitaram o messianismo que certa­
mente, pelas profecias, Jesus devia personificar, historiadores
modernos negaram a afirmação que Josefo fêz do Cristo.
Mas Eusébio já a menciona e se alguma alteração sofreu
o dito por Josefo, essa alteração não nos autoriza a dizer que
o historiador judaico não conheceu Jesus e menos que nada
tenha escrito dêle.
No livro mencionado, Josefo relata uma série de aconte­
cimentos que tiveram lugar entre os judeus durante o govèrno
de Pnatos. Enquanto nos parágrafos segundo e quarto, os
fatos se harmonizem perfeitamente, o terceiro corta a narra­
tiva; o fio se quebra com o que é dito de Jesus. Se queremos
ser corretos, temos que ver ua mão cristã no texto que comen-
tamosl Couchoud para estabelecer o que acabamos de admitir
-— que u’a mão cristã aiterou o texto — diz que Josefo não
podia chamar Cristo a Jesu s, sem que êle se tornasse cristão,
e o reverencio Goguel compartilha esta idéia. Embora tenham
um pouco de razao, teremos que dizer que Couchoud e Goguel
conheciam muito pouco o coração humano. Quantos ainda
•hoje, estão prontos a reconhecer que Jesus é o Senhor dos ho­
mens, mas nào lhe confiam seu destino Y Quantos o seguiram
e o seguirão ainda "porque comeram ao pão e se fartaram?”
O argumento de Couchoud, quanto à conversão de Josefo, não
pesa nada na baiança da razão. Embora reconheçamos que
ti’a mão cristã aiterou o texto, não vamos tão ionge que che­
guemos a negar sua existência em outra forma.
Mais adiante, XVIII, 5, 2, o mesmo historiador judeu
escreve: "Alguns dos judeus pensaram que a destruição do
exército de Herodes tinha vindo de Deus, muito justamente,
pelo castigo do que êle tinha contra João que era chamado o
Batista; porque Herodes o matou”. Estas palavras embora
não se refiram a Jesus têm um valor extraordinário, pois vêm
a confirmar o que os Evangelhos dizem de João. Isto a nós
serve de fundamento para o que afirmamos — que o que Jo-
40 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

sefo diz de Tiago completa nossa certeza: Leiamòs: "Aiianos


(Anás) reuniu o sinédrio dos juizes e trouxe perante êles o
irmão, de Jesus chamado o Cristo, cujo nome era Tiago e al­
guns outros quando Anás lhes havia formado acusação como
sediciosos (em grego — òs paranomesanthon), os mandou ape­
drejar. Estas duas citações são geralmente aceitas como sen­
do da pena do historiador judeu. É verdade que há uma gran-í
de diferença entre a declaração — "Jesus chamado o Cristo”
— e a afirmação categórica do que aceitamos como interpola-
ção — Êle era o Cristo”. Com toda essa diferença que não
desejamos ocultar, o último texto estabelece: 1.°) A existência
de Cristo. 2.°) Apresenta-nos Jesus como um personagem já
conhecido dos seus leitores. É claro que, se apresenta a Jesus
como um personagem já conhecido, só o podia ter feito no
primeiro texto citado e isto estabelece também a autenticidade
do último embora seja diferente. A verdade é clara, o pri­
meiro texto de Josefo existiu em outra forma, pois lemos,
"Josefo falou de Cristo como de um homem justo e bom, que
pela graça divina foi manifestado em meio de sinais e mila­
gres e que fêz bem a muitos. Por isso, Teodoro Reinach, eli^
minando o que foi interpolado por mão cristã, estabelece o
texto na seguinte forma: "Nesta época, apareceu Jesus, cha+
mado o Cristo, homem hábil que prendeu as gentes ávidas de
novidades e seduziu judeus e também muitos helênicos. En­
tretanto, Pilatos pela denúncia dos primeiros entre nós o con­
denou à cruz. Aquêles que o haviam amado ao princípio não
cessaram de lhe estar unidos e ainda hoje subsiste a seita
que dêle tomou o nome de cristãos. O texto de Reinach está
muito de acordo com as expressões de Josefo; porém, embora
o texto do livro décimo-oitavo, cap. terceiro e terceiro pará^
grafo não existisse, ficavam de pé os outros dois e um seria
suficiente para estabelecer a historicidade de Cristo. O laco-r
nismo de Josefo tem sua explicação. O historiador quis atrair^
-se as boas graças dos romanos e por isso êle não escreveu
nada que os pudesse inquietar, pois os romanos não permitir
riam que o reinado do Messias se viesse a estabelecer sobre
as ruínas da orgulhosa Roma. Além disso, se Josefo escre­
vesse da obra messiânica de Cristo, seria censurado pelos po­
derosos fariseus de ser solidário com êsse movimento que êlés
tanto odiavam. Estas três razões são o bastante para justi­
ficar até o silêncio absoluto do autor judeu.
Os biógrafos que negam a existência de Jesus sabem qúe
embora o texto em questão não tivesse existido como o temos
traduzido, assim êle se acha nos três manuscritos que de J©-
CRISTO 41

sefo' possuímos e já em 324 a. D., Eusébio nos diz tê-lo lido


tal quál o conhecemos. Contudo, nós admitimos que o texto
de Reinach seja a expressão mais exata do que teria dito Jo^
sefo; como temos afirmado, mesmo que se êste não existisse,'
nos ficavam os outros dois nos quais o autor menciona homens
que não só tinham relação com Jesus, mas que também eram
seus parentes.
Nenhum dêsses biógrafos se faz a ilusão de que o laco-
nismo de Josefo seja o da ignorância. Sabem que foi um laco-
nismo prudente, interessado.
Quanto à existência de Jesus como personagem histórico,
são muito mais valiosos os testemunhos dos historiadores ro­
manos. O primeiro em ordem cronológica é o de Tácito, que
assim o registra nos seus "Anais” XV, 44: "Nero, a fim dé
acalmar os rumores (de que êle havia incendiado Roma), cul­
pou disto as gentes que eram odiadas por suas práticas ímpias,
chamadas vulgarmente de cristãos: a êstes êle condenou du­
ramente. O autor dêste nome foi Cristo, que no reinado de
Tibério foi condenado ao suplício por Pôncio Pilatos, o pro­
curador. Esta execrável superstição detida por momentos,
surgiu de novo, não somente na Judéia, lugar de origem dêste
mal, mas também na cidade onde afluem e florescem todas as
atrocidades.
Tácito escreveu essas palavras no ano 110, pouco mais de
100 anos após o nascimento e 70 depois da morte de Cristo.
Isto seria o suficiente para pulverizar os argumentos dos que
negam a existência histórica de Jesus.
Temos ainda Plínio, o Jovem, que dois anos mais tarde,
envia uma carta ao imperador Trajano. Nesta carta lhe faz
certas perguntas sobre os castigos que havia que aplicar aos
cristãos e entre outras coisas diz: "Todos êstes oraram a tua
imagem e as imagens dos nossos deuses, amaldiçoando a Cris­
to. Êles me informaram que a sua principal falta (dos cris­
tãos) ou êrro era êste: reúnem-se ao amanhecer e cantam hi­
nos a Cristo como a um Deus e obrigando-se por juramento o
não cometer nenhum mal”.
Suetônio que viveu entre os anos de 69 a 141, faz duas
alusões ao cristianismo. Na primeira, somente fala dos suplí­
cios infligidos aos que praticavam a danosa superstição. O
segunda é mais curiosa, pois, êle escreve: ffJudaeos impulsore
Chrestos assidue tumvltuante Roma expelit”. (Cláudio expul­
42 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

sou de Roma os judeus que instigados por Cristo não cessavam


de promover desordens). O fato de o historiador dizer Chres-
tos em lugar de Cristo é indiferente para quem trate de ave­
riguar quem é realmente o personagem a quem êle alude.
Êsse texto de Suetônio é incompatível com a idéia de um
Cristo irreal, pois o historiador apresenta um quadro bem mo­
vimentado e fala de Cristo como de um personagem já conhe­
cido. Porém, há mais, e êste mais é que em Roma os crentes
eram chamados de Chrestianos e não cristianos, como devia
ser. A forma — chrestianos aparece na passagem que temos
copiado de Tácito. O Códice Mediceus repete esta forma nos
três únicos versículos do Novo Testamento onde em outros có­
dices se lê — christianos. "Não se opõe, pois, a mudança de
uma letra a que o personagem seja Jesus e com isto estão de
acôrdo a maior parte dos comentaristas. O mesmo Couchoud
declara que Tácito modificou a etimologia. É suficiente! Sue­
tônio é outra testemunha de Cristo que pelas contínuas con­
trovérsias entre judeus e cristãos êlé julgava ainda em Roma
nos dias de Cláudio, provando assim, que para êsses escritores
CRISTO EXISTIU.
O MESSIANISMO
Ocultos os juízos de Deus são.
Às gentes vãs que não o entenderam,
Chamando fado mau, fortuna escura,
Sendo só providência de Deus pura.
LUSÍADAS, CANTO 10:38

Antes de entrarmos na biografia propriamente dita, ve­


jamos como os profetas, especialmente Daniel, se referem à
vida e obra dêsse Messias e ao mesmo tempo compreendere­
mos a autoridade com que falavam.
Quando os ourives desejam conhecer a qualidade do ouro,
esfregam-no numa pedra e o submetem à ação do ácido. Assim
fica revelada a pureza do amarelo metal. Tudo o que temos
dito ter sido desenterrado pela Arqueologia, é o que permite
julgar a Bíblia à primeira vista, tal qual os ourives podem
saber se um objeto é ou não fabricado de ouro com tão-sòmente
vê-lo, porém, assim como êles usam a pedra de toque para me­
lhor avaliar os quilates do metal, assim nós temos de usá-la
para saber do grau de autoridade que as Escrituras têm para
com todo o ser humano. Pois, embora os achados arqueológi­
cos confirmem sua antiguidade e autenticidade, o que melhor
confirma sua Inspiração e com ela sua indiscutível autoridade,
é a exatidão da profecia cumprida. A profecia é, pois, a pedra
de toque da Escritura.
• .*£
O animoso pescador da Galiléia, ao aconselhar seus con­
temporâneos, não tratou de edificá-los no que tinha visto ou
ouvido. Colocou-os, sim, diante da Palavra dos profetas, "à
qual”, disse êle, "fareis bem em estar atentos como a uma luz
que alumia em lugar escuro (1). Para São Pedro, bem como
para todos os homens, a profecia é algo assim como um pode-

(.1) Epístola l.a de São Pedro, eap. 1:19.


44 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

roso refletor que os navios utilizam para dissipar as trevas da


noite e distinguir os perigos que os ameaça. Como já vimo3
nas "Maravilhas da Ciência” no profetizado quanto à França,
as predições da Escritura são para o mortal uma luz tão in­
tensa que atravessa os nuvarrões que atualmente escurecem a
atmosfera mundial e pressagiam o que nos espera num futuro
bem próximo.
Na Bíblia há centenas de profecias que se cumpriram.
Outras há de cujo cumprimento estamos sendo testemunhas;
e ainda outras que têm o cumprimento para um futuro mais
ou menos próximo. Como são tantas as que se cumpriram e
as que estamos vendo chegar a seu cumprimento, não nos será
possível tratar de tôdas elas. Além dos acontecimentos daí
revolução de 93 que já comentamos, nos limitaremos a mais
duas grandes profecias. De tôdas as que nos mencionam as
Escrituras, propositadamente escolhemos uma que cronologi­
camente pode ser posta à mais rigorosa prova. As que se
cumpriram na França, já vimos estarem matemàticamente cer­
tas. Neste capítulo estudaremos uma que abrange quase todos
os livros da Bíblia.
Vamos, pois, submeter as Escrituras à prova do ácido ãü
História, tal como o temos feito com as Ciências físicõ-natu-
rais. Se ela sai vitoriosa será o suficiente para que com sua»
vitória nos prove sua autoridade. Veremos assim, cronológica
e històricamente, uma revelação de tudo o que se tem dito con­
tra os ideais do cristianismo. W
Na corte babilônica achava-se ainda cativo e por aquêle
então já ancião Daniel, nobre judeu que tinha sido levado para
Babilônia pelo grande Nabucodonosor. Daniel, que era pátria
ta apaixonado, doía-se da escravidão de seus conterrâneos e. da
desolação em que sé achava a sua amada cidade de Jerusalém^
Pensando nas desditas da sua pátria, teve uma visão na qual
ouviu dois personagens falando. Um dêsses personagens per­
guntou : — "Até quando durará a visão do contínuo sacrifício
e da transgressão assoladora, para que seja entregue o sári*
tuário e a terra forte de Israel?” Precisamente por êle"não
ter uma resposta à esta pergunta que a seu parecer envolvia
a libertação de seu povo, prestou muita atenção para não peit*
der as palavras é ouviu quê o segundo personagem dizia:
"Até duas mil trezentas tardes e manhãs o santuário será pu­
rificado”.^ Pelo que o mesmo profeta diz, compreendemos que
ficou muito triste por não entender a resposta. Como» não
CRISTO 45
conseguira decifrar a visão, expôs sua perplexidade aos seus
companheiros que nada puderam fazer também. Daniel ficou
tão perturbado que por isso perdeu a sua saúde ( 2 ).
Depois da convalescença, o velho oficial babilônio, em lu­
gar de buscar sabedoria na ciência humana, procurou-a na
oração e no estudo metódico das Escrituras de seu tempo. No
livro de Jeremias achou que seriam setenta os anos que du­
raria o cativeiro. Pelo tempo que êle mesmo levava no exílio,
compreendeu que o fim da escravidão aproximava-se, pois, ha­
vendo Nabucodonosor tomado Jerusalém no ano 606 a. C., data
em que começou o cativeiro, até o advento de Ciro, em 538
a. C., há 68 anos. Como o profeta não podia fazer ligação al­
guma entre setenta anos e dois mil e trezentos que tinha ouvi­
do mencionar ao personagem da visão, procurou a revelação
do Alto para poder compreender o que a ela se lhe apresentava
tão difícil. Estando ainda proferindo as palavras da sua ora­
ção, viu que o varão Gabriel se lhe colocava diante e lhe fa­
lava : — "Atende, pois, tu agora as minhas palavras e entende
a visão” (3). A advertência do anjo chega agora a nós e nos
diz também: — "Atende, pois, tu agora as minhas pala/vras e
entende a visão ” Diante de tão imperativo e solene conselho,
só nos resta prestar atenção ao que dizem as Sagradas Letras
para compreender esta profecia que abrange tudo que diz res­
peito a Cristo.
Começa o anjo dizendo: — "Setenta semanas estão deter­
minadas sobre o teu povo e sobre tua santa cidade”. Se temos
em mente que o proieta deseja conhecer o longo período dos
dois mil e trezentos dias simbólicos, que na realidade eram
outros tantos anos, não nos será difícil entender a introdução
usada pelo anjo para aclarar o que tanto preocupava o vidente.
Antes de analisar tudo o que é necessário para pôr à pro­
va o que o anjo falou, e antes de submeter cada um dos tópi­
cos dêste tão longo período profético à mais rigorosa cronologia
e para dar-lhe um cunho da maior autoridade do que a nossa,
daremos a palavra ao sacerdote D. Félix Torres Amat, men­
cionado aqui. Êste tradutor explica muito ligeiramente a es­
tupenda profecia e o faz dêste modo: — "Todos os expositores
(2) Livro de Daniel, cap. 8:14. O Dr. Torres Amat traduz cômo
sendo “dias inteiros de tarde e manha”.
(3) Aconselhamos ao leitor a que faça uma leitura dos capítu­
los 8:13 até o fim e todo o capítulo 9.
46 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

íintiiros e modernos concordam em que são semanas de anos.


O anjo divide em três partes estas setenta semanas; uma de
sete semanas, outra de sessenta e duas, e a terceira só de uma
semana, na metade da qual seria morto o Messias, o Cristo.
A cidade será edificada durante sete semanas (49 anos), que
se iniciaram quando saiu o édito do rei da Pérsia e concederá
a licença para reedificar Jerusalém: passarão depois sessenta
e duas semanas (434 anos), até que o Cristo seja ungido pelo
Espírito de Deus. Sem entrar em alsrumas questões cronoló­
gicas, que somente versam sobre o fixamento do dia em que
saiu o édito para reedificar Jerusalém, direi que parece o mais
provável que o rei Artaxerxes concedeu o decreto no ano vigé­
simo do seu reinado e que a reedificacão durou 49 anos como
se vê nos capítulos quarto, sexto e sétimo de Esdras. Seguin­
do depois as sessenta e duas semanas, que nos levam ao ano
15 de Tibério, no qual Cristo foi batizado: e depois de ter
passado três anos e meio, foi morto na metade da última se­
mana” (4).
Ao ler a interpretação que das setenta semanas nos faz
o Dr. Torres Amat, não podemos ocultar a satisfação que sua
acertada exeerese nos proporciona. Esta explicação é a mesma
que o anjo fêz ao profeta, portanto é a única que dos 490 anos
se pode fazer. O que não nos explicam são os motivos aue
teve o reverendo para não chegar ao fim da explicacão dos
2.300 dias proféticos. Temeria encontrar-se em oposição às
suas próprias crenças? Ocultou intencionalmente o seu sismi-
ficado, ou como o profeta não o entendeu? Ou, o que ainda
é pior, temeria encontrar-se com dogmas mal estabelecidos?
Seja como fôr, nós diremos aue está muito claro que as setenta
semanas são os primeiros 490 anos do período total que o pro­
feta tinha ouvido ao anjo. O fiel diplomata estava perplexo
por tão longo período cujo fim não compreendera, quando ou­
viu que o anjo lhe solicitava atenção e sem mais preâmbulos
começa a falar: — "Setenta semanas devem ser contadas ( 5 ),
para o teu povo”.
Para entender a introdução à mais estupenda profecia
com data fixa, imaginemo-nos alguma coisa assim como se ao
(4) Veja-se a versão católica do Dr. Torres Amat, página 1.679.
Nota 5. {
(5) Conforme Genesius, êste é o sentido verdadeiro da palavra
NETTAK que achamos no original, cuja raiz é CHATAK, que signi^
fica cortar, determinar, destinar.
CRISTO 47

profeta se lhe houvesse entregue um livro com 2.300 páginas


em branco. Delas teria que separar 490 para escrever, con­
forme a introdução do anjo, a história de Israel até o ano 15
de Tibério, data em que o Messias devia ser ungido. As últi­
mas sete que completariam as 490 páginas, teriam de falar,
três e meia delas, de tôda a obra do Messias até Sua Morte
e as três últimas e meia páginas abrangeriam todos os acon­
tecimentos desde a morte de Cristo até à morte de Santo Es­
têvão no ano 34, ano que marcou o tempo tão pacientemente
destinado àquele povo aue tanto fizera pensar ao profeta.
Desde essa página até o fim do livro, ainda nos ficariam 1.810
páginas em branco, das quais o Dr. Torres Amat nada nos
diz, o que é uma pena, tanto mais quanto elas deviam descre­
ver sucessos não menos importantes aos que estavam registra­
dos nas 490 primeiras páginas.
Não podemos concordar com a precipitação cronológica do
tradutor dessa versão oficial. Diz na citada nota aue Cristo
foi batizado no ano 15 de Tibério, o que é uma verdade abso­
luta, porém, se contarmos com êle, nos meteremos num colos­
sal labirinto que nunca nos permitirá encontrar a saída à pro­
fecia e muito menos compreendê-la.
Diz nosso exegeta que o édito foi publicado no ano vigé­
simo de Artaxerxes, sem nos dizer qual dêles, pois, contando
o falso Esmerdis que também se chamou assim, temos quatro
reis dêsse nome na Pérsia. Admitamos que êle queria desig­
nar Artaxerxes Longimanus, que é o rei que promulgou o édi­
to. Êste rei, como provaremos mais adiante, subiu ao trono
no ano 284 da era de Nabonassar que corresponde ao ano 464
a. C. Se de 464, descontamos 20, que, como diz D. Torres
Amat, são os anos que Artaxerxes demorou para dar o decre­
to, ficariam 444, e para completar os 490 da proferia, teremos
de tomar 46 de nossa era e, neste tempo, já fazia cinco anos
que reinava Cláudio/ . . . Daqui concluímos que o cálculo que
o mencionado sacerdote fêz, só é exato a meias. Melhor dito,
êle não fêz cálculo algum, pois, é São Lucas quem diz que, no
"ano 15 de Tibério”, Cristo foi ungido. A maneira precipi­
tada de interpretar que nos apresenta o nosso reverendo, não
se pode harmonizar com a profecia, pois, de duas uma, ou ela
é exata em todos os seus detalhes, e portanto merece crédito,
ou somente o é em parte e neste caso será humana, inútil.
Pela nota que copiamos de D. Félix Torres Amat, vemos
que a Igreja crê e apresenta, embora incompletamente, a ver-
48 A N T O L O G IA D E VID A S C É L E B R E S

dadeira interpretação desta profecia que nós desejamos anali­


sar até nos seus mais mínimos detalhes, sendo nosso propósito
provar a Inspiração de tudo o que o profeta afirmara. Sem
precipitação, vamos dar a palavra à História, buscando nela
e na cronologia a confirmação do que o anjo explicara a Daniel.
Repetimos que o piedoso escravo ficou perplexo ao ouvir
mencionar êsse tão longo período de 2.300 anos, cujo início e
propósito desconhecia. Ao terminar sua oração, como já vi­
mos, lhe disse o anjo que devia começar a contagem dos pri­
meiros 490 anos, quando saísse o decreto para reedificar Je­
rusalém. Pelo que diz Esdras no seu livro, capítulo primeiro
e os três primeiros versículos, sabemos que Ciro, o Grande,
deu aos judeus um édito de libertação no terceiro ano do seu
reinado, ou seja, em 536 a. C., precisamente ao cumprirem-se
os setenta anos que Jeremias havia dito duraria o cativeiro.
Com êste édito a escravidão ficava pràticamente terminada e
mais de cinqüenta mil judeus voltaram a Jerusalém. Trouxe­
ram com êles uma ordem para reconstruir a cidade e o templo.
Porém, em lugar de pôr mãos ao trabalho, misturaram-se aos
pagãos que encontraram ali estabelecidos por antigas depor­
tações feitas por Essaradon, rei da Assíria. Tanta foi a
intimidade entre judeus e pagãos, que logo aquêles se viram
impossibilitados, melhor, impedidos de edificar pelos mesmos
pagãos a quem se tinham unido. Reum e Samsai, cheios de
inveja, depois da morte de Ciro, escreveram uma carta cujo
texto completo se acha em Esdras, capítulo quarto, dos versí­
culos décimo primeiro a décimo sétimo. Esta carta foi envia­
da ao usurpador Guamata, conhecido na História como o FAL­
SO ESMERDIS, a quem Esdras chama também de Artaxerxes.
Como usurpador que era não tinha em conta a convencional
constituição dos reis da Pérsia. Constituição que, entre outras
coisas, proibia até ao próprio rei mudar uma lei já decretada;
por isso, ordenou com outra carta, que vemos no mesmo Es­
dras, 4:18-23, dizendo que a\ obra fosse impedida. Assim:
"cessou então a obra da casa... até o ano segundo de Dario,
rei da Pérsia” (6).
Guamata era bastante parecido para ser tomado à primei­
ra vista por Esmerdis, o irmão de Cambises. Tinha só um
defeito físico que naquele então podia ser dissimulado com bas­
tante facilidade — a falta das orelhas —, que o diferenciava
do filho de Ciro. As liberdades do harém permitiram que uma
(6) Livro de Esdras, cap. 4:23.
Jesus tentado pelo demônio
A pregação do Batista
As bodas de Cana
C R ISTO 49
das princesas descobrisse o defeito e imediatamente o delatou.
.Ao conhecer essa fraude as sete principais famílias da nobreza
se reuniram e o usurpador foi morto, tomando o reino Dario
dEíistaspes.
Apenas os samaritanos souberam da ascensão de Dario,
£he enviaram uma carta assinada por Tatenai, cujo texto se
acha também em Esdras, cap. 5:8-17. Perguntava nessa car­
ta se existia a anterior autorização: — A intenção era clara,
desejavam impedir a obra outra vez. O nobre Dario recebeu
a carta e mandou procurar nos arquivos de Babilônia se tal
decreto existia. No mesmo escrito, versículos segundo e ter­
ceiro do sexto capítulo vemos o relato do achado. Em Acmetá
estava a cópia do decreto concedido por Ciro. Achado o de­
creto, Dario ordenou com outro, que tem data de 519, a con­
tinuação das obras. Como o primeiro, êste novo decreto não
teve grande efeito, nem mesmo entre os judeus que estavam
cheios de mêdo e negligenciaram o trabalho. Foi necessário
um terceiro decreto, o de Artaxerxes Longimanus, assim cha­
mado por ter um braço mais curto do que o outro. Êste de­
creto que encontramos na íntegra em Esdras, cap. 7, é o mais
-extenso dos três, resume os outros anteriores, os engloba e
completa, uma vez que autoriza a reconstrução total da cidade
e manda restaurar a administração civil e religiosa em Jeru­
salém e em toda a Judéia. A mesma Escritura cuja veracida­
de estamos demonstrando resume os outros decretos no de
Artaxerxes: — "Com isto erigiram e construíram o edifício
ao mandato de Deus de Israel, e por ordem de Ciro, Dario e
Artaxerxes, reis da Pérsia” (7).
Éste mesmo sacerdote — Esdras — nos diz, no seu sétimo
capítulo e versículo sétimo, que o terceiro decreto saiu no sétimo
ano do rei Artaxerxes, e não no vigésimo como diz o Dr. Tor­
res Amat. A solenidade da profecia importa que descubramos
com certeza absoluta qual é o sétimo ano do mencionado rei.
Çonvém que o saibamos com certeza, por dois motivos: 1.°)
Porque o significado da profecia é, como temos dito, dema­
siado solene para passá-la por alto e poder compreender até
que ponto a nova tendência ao mito nos quer levar. 2.°) Para
verificarmos a exatidão da profecia, pois, num período tão
'longo e com tantos eventos com data fixa, é muito fácil esta­
belecer a autoridade do profeta ou a falácia da Inspiração.
(7) Livro de Esdras, cap. 6:14.
50 A N T O L O G I A D E VID A S C É L E B R E S

Pela explicação do anjo sabemos que a ordem dada por


Artaxerxes, no sétimo ano do seu reinado, é o ponto de partida
para medir a distância entre os diversos acontecimentos que
a profecia apresenta como verdadeiros marcos na estrada da
História. Por divina providência a data do decreto chegou,
até nós. Ninguém pode contradizer que de tôda a longa lista
dos reis da Assíria, Babilônia, Média Pérsia, ordenados por
Ptolomeu, só um existe que tenha indicado nas Escrituras a
data da sua ascensão ao trono: — Êste rei é Artaxerxes Lon­
gimanus.
O mais importante documento cronológico da antiguidade
é o Cânon (8) ou Tábua de Ptolomeu, historiador, geógrafo
e astrônomo que morava no templo de Sarapis, próximo de
Alexandria, Egito. Êste astrônomo, de acordo com os antigos
anais, preparou uma tábua cronológica da antiguidade com os
nomes dos reis da Assíria, Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e
Roma até o segundo século depois de Cristo. Ao lado da lista
de reis e dos anos do seu reinado, compilou um catálogo dos
eclipses observados até o seu tempo. Os eclipses de Sol e Lua,
mencionados por Ptolomeu, são um verdadeiro farol que in­
falivelmente guia o estudante no confuso mar da cronologia
antiga.
Estudando êsses eclipses, o astrônomo Isaac Newton, ao
analisar a profecia que estamos tratando, chegou à conclusão
de que o sétimo ano do reinado de Artaxerxes Longimanus,.
foi o ano 457 a. C. Para evitar repetições, passaremos por
alto a primeira dedução que o sábio fêz de seus estudos e co­
piaremos totalmente a segunda. Diz êle: "Cambises iniciou
o seu reinado na primavera do ano juliano 4185, que eqüivale
a 529 a. C., reinou oito anos incluindo os sete meses de Es»
merdis; assim, Dario Histaspes subiu ao trono na primavera
do ano 4193 da era juliana (521 a. C.), e reinou trinta e trêa
anos, segundo a opinião unânime de todos os cronologistas. O
reinado dêstes dois reis são determinados por três eclipses de
Lua observados em Babilônia e mencionados por Ptolomeu de
tal forma que não podem ser contraditos. Um teve lugar q
(8) Êste Cânon é o Almagesto, que parece ser uma corrupção^
das palavras árabes "Al” e “Megisto” que signiíicariam O Grandios&r
ou segundo outros seria A Compilação foram organizados por Cláudid
Ptolomeu no reinado de Antônio Pio. Obra quase exclusivamente
astronômica. Além da lista dos reis contêm um tratado de Trigono-
metria e um catálogo de 1.022 estréias conhecidas naquele então.
Outras informações muito úteis sôbre o Sol e a Lua e instrumento
astronômicos do seu tempo.
C R ISTO 51
sétimo ano de Cambises, em 4191 (9) da era juliana (16 de
julho de 523 a. C.), às onze horas da noite; outro no vigésimo
ano de Dario, 4212 da era juliana (502 a. C.), a 19 de novem­
bro e às onze horas e quarenta e cinco minutos da noite; o
terceiro no trigésimo ano de Dario, 4223 da era juliana (491
a. C.), a 25 de abril, às onze e trinta da noite. Comparando
êsses eclipses (com as profecias de Ageu e Zacarias se põe a
manifesto que seu ano (de Dario) se iniciou depois do vigé­
simo auarto dia do primeiro mês judaico. Xerxes começou o
seu reinado na primavera do ano 4229 (485 a. C.), porque
Dario morreu no auinto ano da batalha de Maratona como o
mencionam Heródoto (10) e Plutarco. Aauela batalha teve
lugar em outubro de 4224 da era juliana (490 a. C.), dez anos
antes da batalha de Salamina. Isto permite afirmar que Xer­
xes subiu ao trono, antes de ter passado um ano depois de
outubro de 4228 da era juliana (ou 486 a. C.). talvez na pri­
mavera seguinte, porquanto gastou seus primeiros cinco anos
e um pouco mais em preparar a expedição contra os gregos,
expedição aue teve lugar durante os jogos olímpicos, ano 1.°
da olímpiada 75 do archontado de Galiades de Atenas; vinte
e oito depois de Regifugio (11) e consulado do primeiro côn­
sul Junio Brutus (273 da fundação de Roma, 481 a. C.), o
passo do exército de Xerxes pelo Helesponto que iniciou no fim
do quarto ano da ouarta olimpíada, isto é. em junho de 4234
da era juliana (480 a. C.), e demorou em passá-lo um mês
inteiro, no outono. Três meses depois, por ocasião da Lua
cheia, no décimo sexto dia do mês de Munichyion (12), teve
lugar a batalha de Salamina. Um pouco mais tarde houve um
eclipse de Sol, que pelos cálculos teve lugar no dia 2 de outu­
bro. Se seu sexto ano (de Xerxes) começou antes de junho,
na primavera, seu primeiro ano teve lugar em 4229 da era
juliana (485 a. C.). Todos os escritores estão de acordo em
que reinou quase vinte e um anos. Se lhe acrescentarmos os
(9) Aparentemente, há discrepância de um ano entre os que
cada rei governou nos calendários da era Juliana e antes de Cristo.
Isto se deve a que os dois calendários iniciam a contagem em dife­
rente mês do ano.
(10) Veja-se “Histórias”, Livro XII.
(11) Festa que se celebrou em Roma no dia 24 de fevereiro,
comemorando a exclusão de Tarquínio e foi instituída no ano 4220
do calendário juliano.
(12) Décimo mês do ano ateniense em que se celebravam as
festas de Munychion que comemorava a derrota dos persas .
52 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

sete meses de Artabano, teremos vinte e um anos e quatro ou


cinco meses mais, que terminam entre o verão e o outono de
4250 da era juliana (463 a. C.)* NESTE TEMPO INICIOU
ARTAXERXES O SEU REINADO” (13).
O diagrama n.° 1 nos ajudará a compreender sem muito
trabalho tudo o que temos copiado do astrônomo Newton e
por êle veremos que Ptolomeu afirma que Artaxerxes subiu
ao trono no ano 284 da era de Nabonassar (14). Isto, em têr-
mos modernos, alcança o 17 de dezembro do ano 465 a. C. até
16 de dezembro de 464. O Cânon não indica o mês do ano,
porém, por Newton sabemos que tinham passado cinco meses
do último ano de Xerxes, o que nos permite fix:ar com exatidão
o verão de 464 a. C., como o tempo da sua ascensão. Isto está
em plena harmonia com o que dizem Esdras e Neemias. Êste
último foi enviado no vigésimo ano do rei Artaxerxes e no
capítulo primeiro do seu livro, no primeiro versículo nos diz
que o mês era Quisleu do ano vigésimo e no seu segundo ca­
pítulo, também versículo primeiro, diz ter tido uma entrevista
com o rei no mês de Nizã dêsse mesmo ano. Nizã, que eqüi­
vale a nosso 15 de março até 14 de abril, veio depois do nono
mês — Quisleu. Portanto, a data da sua ascensão teve lugar
em qualquer tempo entre Nizã e Quisleu. Esdras, no seu ca­
pítulo sétimo e sétimo versículo, diz que o quinto mês Ab (cor­
respondendo a 15 de julho até 14 de agosto) veio depois do
primeiro de Nizã. Isto nos leva à conclusão que — Artaxer­
xes subiu ao trono entre a última parte de julho e a primeira
de novembro do ano 464 a. C. Nada mais claro do que isso!...
Uma vez estabelecido com toda a exatidão o ano de de­
creto que marca o início das setenta semanas, podemos daí co­
meçar a contagem dos anos invertidos na reconstrução de Je­
rusalém e reedificação do templo. Se de 457 (que é quandò
se deu o decreto), diminuímos quarenta e nove anos que de­
viam empregar-se na reedificação, vamos ter ao ano 408 a. C.
que é o ano assinalado para a conclusão da obra, das praças,
ruas e muros de Jerusalém. Assim foi. Estas obras não ter­
minaram antes nem depois. Precisamente 49 anos se gasta-

13) Newton. “Observations upon the Profecies”, parte I, cap. 10.


(14) A era de Nabonassar foi instituída por êste rei de Babilô­
nia que levado por seu orgulho destruiu todos os informes dos rei­
nados anteriores. Teve início no dia 26 de fevereiro do ano 474 a. C.
'O Cânon começa com esta data, dando a cada rei anos inteiros para
seu reinado sem importar-se com ós meses dá sua ascensão.
C R I S T O 53
ram nà reedificação tal qual o vidente tinha dito. "No ano
décimo quinto de Dario II (chamado Notus), terminaram as
sete primeiras semanas das setenta das profecias de Daniel.
Efetivamente, naquele tempo estava concluída a constituição
do Estado, e da igreja dos judeus em Jerusalém, e de tôda
a Judéia, no último ano da reforma, acontecimento que é rela­
tado no capítulo décimo terceiro de Neemias, desde o verso
vigésimo terceiro até o último, exatamente 49 anos depois de
ter sido empreendida a obra por Esdras no ano sétimo (457),
de Artaxerxes Longimanus” (15).
De 408 até o aparacimento do legislador, deviam passar
sessenta e duas semanas, ou 434 anos. Como da era antiga
sòmente tínhamos 408, segue-se que para completar os 434 te­
mos que tomar 26 da era atual. O anjo tinha dito a Daniel
que os 2.300 dias simbólicos deviam ser anos literalmente vn-
teiros como muito bem diz a versão Torres Amat. Por Esdras
sabemos que o período do reinado de Artaxerxes teve início
no outono de 457 a. C. e por conseguinte ao ano 26 temos que
aumentar os sete meses que nos faltam e que nos levam ao
ano 27 da era atual. Neste ano (27), devia ser ungido o
DESEJADO DOS POVOS. Como já vimos, o tradutor co­
piando São Lucas fixa o ano 15 de Tibério César como sendo
o da unção do MESCHIAB NAGIB, como diz o texto hebreu.
Com exatidão de cronômetro, no ano 15 de Tibério, sucedeu o
que tinha predito o profeta — o Príncipe, Jesus —, foi ungido.
Segundo o evangelista, quando Jesus foi batizado, estava para
cumprir os 30 anos, fato que os adversários tomaram como
sendo uma contradição do mesmo São Lucas, pois, no primeiro
versículo do terceiro capítulo, afirma que o acontecimento teve
lugar no ano quinze de Tibério que corresponde ao ano 27 da
nossa era. Outros críticos vão mais longe ainda, dizendo que
tudo foi adaptado à profecia. De uma e outra objeção nos
ocuparemos ainda.
Agora passemos a expor os fatos históricos que provam
ser o ano 15 de Tibério o nosso 27 a. C. e também o fim das
sessenta e nove semanas, ou 434 anos desde o início da pro­
fecia até o batismo de Jesus. César Augusto morreu no ano
14 da nossa era e lhe sucedeu Tibério. A História nos diz
que o segundo imperador de Roma já tinha participado do tro­
no dois anos antes da morte de seu pai adotivo. Alguns his-
toriógrafos, para quem como o sr. Torres Amat ano mais ou
(15) Prideaux. Parte I, página 250.
54 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

menos não faz diferença, dizem que Tibério subiu ao trono


no ano 13. Nós que temos interêsses em pôr à prova a profecia
não podemos aceitar essa cronologia e procurando temos en­
contrado que Dion Cássio, senador romano, nascido no século
segundo, diz que a data da ascensão de Tibério ao trono teve
lugar no ano 12 (16). Por se isto não fosse o suficiente, en­
contramos a confirmação dessa data nas medalhas cunhadas
em Antioquia da Síria que têm a efígie de Tibério "KAISER
SABASTOS” (César Augusto, não como nome, mas como tí­
tulo), e a data A. U. 765 (17). Como Roma foi fundada em
753 a. C., segue-se que o ano 765 da fundação dessa cidade
corresponde ao ano doze da nossa era. Agora, somando 12
a 15 anos que São Lucas nos diz que Tibério já governara,
temos 27. Precisamente 483 anos depois do decreto de Arta-
xerxes. O profeta não se enganou: no ano 15 de Tibério, Jesus
foi ungido para Sua imortal missão.
O bem-amado Filho da princesa Maria iniciou Seu minis­
tério depois de Seu batismo e na metade da semana, isto é,
depois de três anos e meio, devia ser sacrificado "e não por
si mesmo”, como diz a versão Trinitariana. Até aqui a pro­
fecia se realizou com precisão matemática. Cristo morreu na
metade da setuagésima ^semana, ou seja, no ano 31 a. D. Êle
mesmo, enquanto estava suspenso entre o céu e a Terra, com
Seus braços abertos, como que desejando atrair a Si a ingrata
humanidade que O crucificava, reconhecendo que no grande
relógio do tempo tinha chegado a hora, exclamou: — "Está
consumado!” Maravilhosa é a harmonia dos fatos históricos
com a profecia!
Uma vez consumado o maior crime que registra a Histó­
ria, ainda ficavam três anos e meio para ííndar o tempo deter­
minado para o povo judeu. As setenta semanas deviam chegar
até o ano 34, cujo fim incluía a rejeição final do povo rebelde,
dando início à oportunidade dos gentios. Ao estalar a perse­
guição contra a novel igreja, Estêvão, o primeiro mártir, caiu
apedrejado pelos fanáticos que ainda se criam com direito a
receber tudo pela mera razão de serem filhos de Abraão. O
leitor não deixará de surpreender-se se tomar o prazer de ler
o Livro dos Atos dos Apóstolos. Nêle notará como até o ca­
pítulo oitavo os apóstolos se demoram cumprindo a ordem de

(16) Dion Cássio. “História de Roma”. Livro 56, cap. 26.


(17) A. U. significam (Edificação da cidade” (Roma).
C R I S T O 55
ir "ante as ovelhas perdidas da casa de Israel”, e também no­
tará como depois da morte de Santo Estêvão as BOAS-NOVAS
foram mais e mais levadas aos gentios. São tão harmoniosos
os dados históricos que o venerável rabino venesiano, Simon
Luzzato, teve que reconhecer que "se os doutores judeus se de­
dicassem a uma longa e profunda investigação sobre Daniel,
chegariam provàvelmente a tornar-se todos cristãos, pois, não
se podia negar que, segundo a indicação cronológica do viden­
te, o Messias devia ter chegado já”.
Pelos dados que subministra o astrônomo Newton e com
êle muitos outros historiadores, sabemos já fixamente que o
ano sétimo de Artaxerxes Longimanus é o 457 a. C. Os his­
toriadores bíblicos nos fazem compreender que o decreto co­
meçou a vigorar depois da entrega oficial dos documentos aos
governadores e capitães do outro lado do rio. Esdras saiu de
Babilônia no primeiro dia do primeiro mês e gastou na viagem
quatro meses completos. Uma vez chegados, tomaram uns dias
em pesar e contar as riquezas que tinham transportado. Ter­
minada a contagem, o sábio escriba desejava entregar os do­
cumentos, mas temos que reconnecer que seus inimigos teriam
prazer em retardar dita entrega o mais possível, como o afir­
ma Neemias no capítulo quarto do seu livro. Peio contexto
podemos assegurar que essa entrega oficial foi frustraaa du­
rante dois meses inteiros. Provàvelmente essa entrega só se
realizou nos primeiros dias do sétimo mês — Thisri —, antes
de terminar a festa da expiação, ou como os judeus chamam
— ROSCtí-HA-CHANA —, festa que precedia o YIOM-
-KIPPUR. Êste era o dia em que culminava a festa da puri­
ficação e caía sempre no dia 10 do mês Thisri. A esta festa
parece referir-se Esdras no seu capítulo nove. Como o ano
judaico, começava com Nizã que já afirmamos, corresponde ao
15 de março até o 14 de abril nosso, segue-se que o més Thisri
deve corresponder a quase o mês de outubro. Um 'pequeno
cálculo nos provará que estamos no certo.
Se de 483, que são os anos das 69 semanas multiplicadas
pelo número de seus dias, descontarmos 457, data da saída do
decreto, teremos 4b3 menos 457, igual a 26 completas da era
atual, com mais dez meses, vamos até outubro de 27, que é o
ano em que Cristo foi ungido. Se estamos certos, segundo
nosso cálculo, que aclaramos com o diagrama n.° 2, Jesus deve
ter sido crucificado no mês de abril de 31. Êste cálculo é
matemático, pois, todos sabem que a crucificação teve lugar
no dia 15 de Nizã, que aquêle ano correspondeu ao nosso 7
56 A N T O L O G I A D E VID A S C É L E B R E S

de abril (18) . Agora, de abril de 31, com mais três anos


seis meses, chegamos ao ano 33 com dez meses, ou seja, outu^
bro do ano 34, ano em que morreu Santo Estêvão e findararri-
ôs 490, que Deus na Sua bondade mandara cortar dos 2.300;
para o povo judeu. De outubro de 34, com mais 1.810 anos
que completam o grande período, iremos até o 22 de outubro
de 1844, dia que nesse ano correspondeu exatamente ao dia'
dez do sétimo mês judaico. Como o ano judaico era lunar, os-
dias oscilavam quando comparados com o nosso calendário
que é solar. As datas foram correndo-se de tal forma que ao*
findar os 2.300 anos da profecia, o dia 10 do sétimo mês caiu.
no dia 22 de outubro. Notemos aqui outro fato interessante
que nos prova que temos razão em fixar o 22 de outubro com
o fim dos 2.300 anos da profecia. Já dissemos que Nizã co­
meçava no nosso 15 de março e findava em 14 de abril. Temos.
15 dias de março e 7 do nosso abril, quando Cristo foi morto,
igual a 22.
Não se pode negar que estas datas descansem sobre fun-*
damentos de rocha e disto dão testemunho completo os acon-^
tecimentos mencionados nas setenta semanas. No dia 22 de
outubro de 1844, quando as trombetas de prata deviam ressoar-
para lembrar a festa' da expiação, como o Santuário terrestre
não existisse mais, Deus iniciou no Santuário celestial um dia;
de expiação universal.
Como já vimos, o tradutor católico está de acordo com os?
eventos das setenta semanas, mas, seja pelo que fôr, não se
preocupa em absoluto com os 1.810 anos que restam da prQ-
fecia. Examinando as Escrituras, todos podemos notar que»
entre a morte de Estêvão e o fim dos 1.810 anos deviam ter?
lugar diversos sucessos no mundo político, social, científico e
religioso, que como verdadeiros arautos do dia que breve vai*
amanhecer, receberam da Onipotência a missão de revelar, ao&.
que desejam dar-se por avisados, a hora solene que tão ràpi-.
damente se está avizinhando.
Os acontecimentos mais importantes que nesses anos de­
viam ter lugar são por ordem cronológica: 1.°) A destruição,
de Jerusalém e dispersão dos judeus; 2.°) A divisão do inw»
pério romano do ocidente em dez pequenas monarquias; 3.°).
O édito dominical de Constantino; 4.°) O surgimento do ãnT.

, (18) J. C. Ferraz Júnior. “A Paixão de Jesus”, pág. 254, 2A


edição. Obra que mereceu a bênção papal de Pio XI.
CRISTO 57
ticristo e de Maomete com todo o seu cortejo de guerras é
perseguições; 5.°) Início da decadência e fim do império
otomano na Europa; 6.°) O tremor de terra de Lisboa, se­
guido de outros mais em diversas épocas; 7.°) Sinais astro­
nômicos, tais como o escurecimento do Sol e da Lua, chuvas
de meteoros e grandes sequias e inundações. Tudo se realizou
como na última parte veremos.
Sendo que a profecia teve início depois de um tríplice de­
creto dado por Ciro, Dario I, filho de Histaspes e Artaxerxes
Longimanus, nos parece acertado crer aue o fim da mesma
teria lugar com outro tríplice decreto. Na verdade assim é!
Lendo o capítulo décimo quarto do Apocalipse, vemos que o
vidente de Patmos descreve uma de suas visões na que vê três
anjos, cada um com seu decreto, não já dados por homens, mas
desta vez por Deus mesmo. Os três decretos se dirigem "aos
que habitam sôbre a terra, a cada nação, tribo, língua e povo.
Por que Deus enviará êstes três mensageiros celestes? Êles
mesmos o dizem no versículo sétimo.
"Para que todos temam a Deus e lhe dêem glória”. Em
outras palavras, para que todos reedifiquem nos seus corações
o templo espiritual, que pela ambição e ingratidão humana ti­
nha sido destruído. Que motivos apresentam os anjos para
exortar a todos a que paremos na louca carreira do mal e aue
tomemos a adorar ao Deus que criou os céus e a terra? Êle
dirige êste convite, porque a hora do juízo é chegada!... Aqui
reside a solenidade que tantas vêzes temos mencionado. Era
êsseo climax dos acontecimentos que o anjo tinha exposto ao
profeta.
Êste juízo é o antitipo do que se realizava no dia da ex-
piação que tinha lugar no dia 10 do sétimo mês judaico, que
naquele ano então era um verdadeiro juízo investigativo como
muito bem o descrevem os que disso se ocuparam. "Os anti­
gos israelitas tinham um ano religioso que começava na pri­
mavera no mês de Nizã, e um ano civil que tinha seu início
no outono. O ano civil caía no primeiro dia de Thisri e a festa
do Rosch-ha-chana durava dez dias... O período de dez dias
que se iniciava com o Rosch-ha-chana e findava com o YIOM-
-KIPPUR se designava como "os dez dias de penitência”. Du­
rante êsse tempo se recitavam os ofícios matinais, "súplicas
pelo perdão". São dias de penitência nos quais os fiéis, para
seu arrependimento, seus jejuns, suas orações è mortificações
se esforçavam pór obter perdão no dia de Kippur, quando o
58 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

juízo de Deus devia ser definitivo” (19). "Em judaísmo ra-


bínico, o dia do juízo (YIOM-KIPPUR) completava o período
penitencial dos dez dias do ano novo, a ocasião para o arrepen­
dimento e oração. O dia do ano novo e o dia do juízo eram
dias de séria meditação. . . Dias temíveis! ... O primeiro era
a festa anual do juízo, quando todos os homens passavam em
revista diante do penetrante olho da Onipotência. . . O des­
tino. .. se demorava até o dia do juízo, quando a sorte de cada
um se achava selada” (20). "O dia da expiação era também
um dia do juízo do povo. Encontramos que o Senhor ordenou
que a pessoa que não observasse êste dia, devia ser cortada
de seu povo. Por sua desobediência ao mandato de Deus nesse
dia, não buscando a purificação dos seus pecados por meio do
sangue que fora derramado por êle, se provava a êle mesmo
indigno da vida, selando pràticamente seu destino ao terminar
essa prova”. Como ao findar os 2.300 anos o mundo inteiro
entrava no tempo que eqüivale aos dez dias de penitência, ter­
minados os quais todos os homens selarão seus destinos pela
atitude que cada um adote, cremos que o conhecimento ou des­
conhecimento desta profecia é solene demais para ser passado
por alto.
Josefo como judeu que era, conhecia todas estas profecias
bem como os da vida racional judaica e os fatos históricos que
mencionamos. Cronologicamente, o aparecimento, vida e mor­
te do Messias estavam delimitados, não havia lugar a dúvida,
o Messias deveria aparecer e desaparecer em certas circuns­
tâncias que tiveram seu exato cumprimento nas datas pelos
profetas assinaladas. E já vimos que não se enganaram. Po­
dem, sim, ter-se enganado os exegetas que interpretaram essas
profecias e eventos históricos, mas, o engano só é aceitável na
sua aplicação. Jesus poderia ter sido ou não Messias. Josefo
afirmou que "Êle era Cristo”. Se não foi êle, é necessário
encontrar outro!

(19) A. Vieent. “Biblioteca Católica". Imp. Strasburgo, 1932.


* (20) “Jewish Enciclopédia". Art. Atonement., pág. 286.
f JESUS COMO HOMEM

Vejamos as outras facetas dessa radiante personagem que


j>ara ser melhor compreendida, não pode ser comparada uni­
camente como divino. Estudemo-la como homem.
Os Evangelhos que davam ao pináculo da glória, que o
divinizam, são também, os únicos documentos puros que nos
permitem estudar a varonilidade de Jesus.
Seu nascimento aparece rodeado de uma série de contra­
dições que sem um profundo estudo torna-se difícil harmoni­
zá-las, deixando o biografado aparentemente em meio a uma
"neblina” que o oculta aos "daltônicos” da História. Confor­
me a tradição, veio ao mundo numa data e recebe um adjetivo
gentílico de uma cidade na qual Êle absolutamente não nasceu.
Seus biógrafos — os evangelistas — apresentam-no com duas
diferentes genealogias como se tivesse nascido de duas famí­
lias distintas. Se isto fosse pouco, êsses mesmos biógrafos
mencionam que o nascimento teve lugar durante acontecimen­
tos históricos e até astronômicos que têm desafiado até agora,
tôda a pesquisa e inteligência humanas.
A tradição cristã diz que Jesus nasceu no dia 25 de de­
zembro, primeiro ano da nossa era. Nem o dia, nem o mês
e nem o ano são exatos.
Jesus nasceu seis meses após João, o Batista, de quem era
primo. Ora, o nascimento de João, o Batista, foi, segundo o
Evangelho de São Lucas, 1.°: 5, anunciado pelo anjo, quando
Zacarias estava de serviço no templo. Como Zacarias perten­
cia à oitava turma sacerdotal (cnamada de Abias, 1 Cron.
24:10) e estando de serviço pela segunda vez, essa anunciação,
sem dúvida, teve lugar no mês de novembro; seis meses de­
pois, chegamos a maio. Convém saber que as turmas sacer­
dotais eram 24 e cada uma servia uma semana no templo.
Como o anjo judaico começa no mês de Abib ou Nizã que cor­
responde a nosso abril, vemos que Zacarias servia pela segun-
60 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

da vez naquele ano, no mês de Marchesvam que é mais ou


menos nosso novembro, sendo assim, Jesus nasceu em dia des­
conhecido do mês de maio.
A data de 25 de dezembro foi adotada por conveniência
eclesiástica. Quanto ao ano não houve nenhum arranjo nem
interêsse em fixá-lo no que chamaríamos — ano primeiro da
era cristã. Houve, sim, lamentável equívoco cometido por Dio-
nísio, o Exíguo. Como nos primeiros séculos, a igreja cristã
não tinha um calendário definido, êste frade no ano 450 depois
de Cristo, fixou o nascimento no ano 753 da fundação de Roma,
e com êle deu início a nossa era. Cálculos posteriores viératà
provar que nessa data Jesus devia ter pelo menos cinco anos;
porém, quando êsses cálculos se fizeram e se descobriu o êrro,
muitos acontecimentos tinham tido lugar e muitos eventos his­
tóricos fixaram-se por essa cronologia errada. Jesus deve ter
nascido entre o dia 7 a 15 de maio do ano 747 da fundação de
Roma.
Também Jesus não nasceu em Nazaré. Tanto os profetas
como os Evangelhos, nos dizem claramente que nasceu na pe­
quena cidade de Belém (em hebraico Beth-Lehem) que signi­
fica literalmente "Casa de pão”. Nome que deve ter recebido,
não tanto pela fartura em alimento, mas por ser a cidade onde
nascera David que fundou a única dinastia que governou Judá
por mais de 500 anos. Belém fica a uns seis quilômetros de
Jerusalém, tinha tão pouca importância geográfica que Josué
nem a menciona quando fêz a partilha da Palestina. No tempo
de Jesus deveria ter, no máximo, 5.000 habitantes e não devià
ser muito farta, uma vez que os evangelistas nos dizem que
"não havia para Êle lugar na estalagem”.
Nazaré, que não é mencionada no Velho Testamento e nem
por Flávio Josefo, deu muito o que pensar aos geógrafos e his­
toriadores, pois, dela não havia notícia alguma. Recentemente,
há menos de 20 anos, várias expedições arqueológicas desenter-
raram-na. Era uma pequena cidade na encosta de um morro
do qual se descortinava um magnífico panorama a poucos qui­
lômetros de Monte Tabor, à metade do caminho entre Jerusa­
lém e o Mediterrâneo. Ao parecer, a única notoriedade que
se lhe pode atribuir era a má fama e aviltamento que nela im­
perava. Ali, Jesus passou sua meninice. Ao parecer, José, o
pai de Jesus, é o único que podia chamar-se nazareno, uirià vez;
que tanto Maria como seu filho eram belemitas.
C R ISTO 61

O evangelista Mateus nos diz que seu nascimento foi anun­


ciado por uma estrêla e pela visita dos reis magos. Nas "Ma­
ravilhas da Ciência” deixamos explicado que os astrônomos
trataram de identificar essa estrêla como o cometa Halley ou
como alguma Nova, que é a designação astronômica das estré­
ias que explodindo se tornam muito luminosas. A data do nas­
cimento não coincide iiem com o aparecimento do cometa Hal­
ley e nem com alguma Nova conhecida. A estrêla continua
um mistério. Quanto aos reis magos, no mesmo livro explica­
mos que eram estudantes de Astronomia, mas quantos eram e
de onde vieram é outro mistério, embora a fixe o número em
três: Gaspar, Melchior e Baltasar. Há tradições que davam
esse número ao quadrado.
Embora nunca cheguemos a saber qual foi a estrêla que
anunciou seu nascimento e nunca saibamos quais foram os reis
que o homenagearam, podemos afirmar que Jesus nasceu na
cidade de Belém em circunstância que muitos cristãos se en­
vergonham de mencionar. "Não havia lugar para Êle na esta-
lagem, e por êsse fato, seus pais recolheram-se a um estábulo,
e lá, na mangedoura que se enfeitam para o Natal, não pode­
mos fazer uma idéia nítida do que venha a ser a mangedoura
onde nasceu Jesus. Ouçamos outro dos seus biógrafos Gio-
vanni Papini, na sua "História de Cristo”, pág. 324: "Um
estábulo, um verdadeiro estábulo, não é o pórtico vistoso que
os pintores edificaram ao filho de David, como que envergo­
nhados de que seu Deus tenha repousado na miséria e na imun-
dície. E naò é também o presépio de gesso que fantasias dos
fabricantes de estatuetas inventaram nos tempos modernos —
o presépio asseado, de cores alegres, com a mangedoura limpa
e apurada, o burrico estático e o boi compungido, os anjos do
teto com as grinaldas ondulantes e as figurinhas dos reis com
seus mantos e dos pastores com seus capuchos, ajoelhados de
ambos os lados do alpendre. Pode isto ser o sonho dos noviços,
g encanto dos curas, o brinquedo das crianças e o vatidnato
astelo de Alexandre Manzoni, mas não é em verdade o estábulo
çjadef nasceu Jesus.
, Um estábulo, um verdadeiro estábulo, é a casa dos ani­
mais, a prisão dos animais que trabalham para o homem. O
‘antigo, o pobre estábulo dos países pobres, do país de Jesus,
# â o é a arcaria com pilastres e capitéis, nem a estrebaria cien-
figicfc dos ricos de hoje, nem a choupana elegante das vigílias
.jàje Ijíatal. O estábulo .‘são quatro paredes grosseiras, um pa­
vimento sujo, um teto de traves e ardósiaâ. O verdadeiro es­
A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

tábulo é escuro, mal-cheiroso, imundo. .. de limpo, só tem a


mangedoura onde o dono dispõe o feno e aveia”. Êsse é real­
mente o lugar onde nasceu Jesus.
No primeiro (São Mateus) e no terceiro Evangelho (São
Lucas) encontramos a genealogia de íesus. São Mateus co­
meça dizendo que seu relatório é o "Livro da genealogia de
Jesus Cristo”. Faz o apóstato três listas, contendo 14 nomes
cada uma, como podemos ver no capítulo primeiro.

l.a série 2.® série 3.a série


De Abraão a De David até Do exüio a Crü
David o exílio
1) Abraão Salomão Jeconias
2) Isaac Eoboão Sabatiel
3) Jacob Abia Zorobabel
4) Judá Asa Abiub
5) Phares Josafá Eliaquim
6) Esrom Joram Azor
7) Arão Ozias Sadoz
8) Aminadab Jotam Aquim
9) Naasson Adaz Eliud
10) Salmon Esequias Eleazer
11) Booz Manassés Matan
12) Jobed Amon Jacob
13) Jessé Josias José
14) David Jeconias Jesus - Maria
Essa divisão em três séries distintas não é acidental, tem
suas razões. Na mística seria o número 7 duplicado, ou como
outros diriam, a perfeição elevada por si mesmo ao cubo. Ha­
via porém, outras razões e estas eram de ordem informativa.
Segundo Flávio Josefo, até à destruição de Jerusalém por
Tito, as genealogias judaicas eram guardadas escrupulosamen­
te. Sendo assim, os oponentes à realeza de Jesus teriam refu­
tado sua ascendência se fossem falsas essas genealogias. Hoje,
por exemplo, seria muito difícil a alguém que pretendesse o
cetro de Israel ou messianismo que apresentamos, pudesse
provar sua genealogia desde o rei David até nós. Essa era
a razão de Mateus, permitir a pesquisa da ascendência do seu
biografado.
C R ISTO 63

A genealogia que nos transmitiu São Lucas apresenta três


diferenças fundamentais, como podemos ver no capítulo 3.°,
versos 23-28: l.a) Inicia a contagem às avessas, de Jesus ao
Criador; 2.a Apresenta 77 gerações. Os místicos diriam que
o número 7 — o da perfeição — foi elevado à décima potência.
Como o número 10 é o número do mundo, dizem que a perfei­
ção envolveu todo o mundo com o nascimento de Jesus; 3.a)
Introduz vários ancestrais não mencionados por Mateus dando
a idéia de que Jesus é filho de outra família, quando na reali­
dade não há nada disso.
Nessa questão de genealogia nunca houve uma nação mais
cuidadosa do que o antigo povo hebreu, uma vez que por elas
se fundamentava a distribuição das tribos, a propriedade, os
direitos da primogenitura, bem como o direito nos mais eleva­
dos cargos e privilégios como vemos no 1.° livro de Crônicas,
capítulo 5.°, versos 1 e 17. O registro da genealogia de Jesus
está completo nas Escrituras e abrange até Jesus mais de 3.500
anos. Quanto a isso não há dúvida. Se tivesse existido en­
gano, êrro ou adulteração genealógica, os judeus contemporâ­
neos do Nazareno, pelo menos os que o combatiam, repetimos,
tê-lo-iam denunciado. Se tal não houve, é porque tudo estava
em ordem.
Mesmo tudo certo na árvore genealógica, as duas listas di­
ferem muito e isso tem sua explicação raçional. Na linha de
São Mateus, temos todos os ascendentes da casa real, ou seja,
a linha da realeza. Na de Lucas, encontramos a linha natural
da primogenitura. Ambas se completam e harmonizam. Uma
das genealogias, a real, parte de Salomão, a outra, a natural,
parte de Natam, ambos filhos de David e Betsabá. Notamos
que as duas linhas unem-se em Sabatiel, separa-se em Zoroba-
bel para unir-se novamente em Cristo. Assim vemos que Ma­
teus, que escreveu primeiro, talvez para seu próprio povo, dá
a linha real que assegurava o trono; Lucas dá a linha de pri­
mogenitura que findou em Maria. Como vemos, em Deutero-
nômio, cap. 25:5 e número 36:8, as mulheres embora tivessem
direito à herança não podiam exercer os direitos da primoge­
nitura uma vez que êsses direitos eram exclusivamente mas­
culinos, daí que Lucas tenha colocado José no fim da lista quan­
do era Maria que devia aparecer. Com essa lista, Lucas dava
aos gentios a certeza de que Jesus era o herdeiro natural da
Casa de David. Temos pois que aceitar que o Nazareno tinha
direito ao trono de Judá, ocupado ilegalmente por Herodes e
pela lei da primogenitura, que tanto era civil como religiosa.
.64 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

podia reclamar os haveres usurpados à Casa de David. Jesus


tinha todo o direito à coroa de Judá.
O mais extraordinário não são as aparentes contradições
de seu nascimento, embora reconheçamos que podem parecer
fantásticas. Sua vida simples e elevada, de uma bondade ja­
mais vista, cheia de filosofia sã e inspiradora, é realmente o
que fascina o intelecto, a alma e satisfaz o coração.
Ninguém neste mundo foi tão amado desde menino e tam­
bém ninguém foi tão maltratado como o foi Jesus. Tendo efe­
tuado sua inscrição no recenseamento que Augusto César orde­
nara (Lucas, 2: 1,2), José voltou à cidade de Nazaré e lá foi
informado que o usurpador idumes — Herodes — queria ma­
tar o recém-nascido. O mesmo informante ordenou-lhe fugisse
para o Egito (Mateus, 2: 13-15) e José obedeceu; tomou o me­
nino e sua mãe e partiu. . . evitando a sanha tigrina de He­
rodes, o Grande!
Alguns dos biógrafos de Jesus estranharam que José efe­
tuasse a viagem tão depressa, sendo como era, paupérrimo;
pois, uma viagem tão longa exigiria gastos além das suas pos­
sibilidades. Êsses comentaristas esquecem-se de que o menino
tinha sido presenteado pelos reis magos e um dêles, pelo menos
fêz sua oferta em ouro, que embora pouco deve ter chegado
para as despesas da viagem e instalação do lar no Egito.
A viagem não foi por certo uma apoteose ao rei recém­
-nascido; foi cheia de canseiras, privações e não poucos peri­
gos. Perez Escrich, no seu inimitável "Mártir do Gólgota”
* apresenta o Nazareno em palestra com o bom ladrão que co­
nhecemos com o nome de Dimas. Geltas, o mau ladrão era
companheiro de Dimas nas suas tropelias e vendo passar o
casal prendeu-o para os roubar. Como os homens do bando
sabiam da ordem de Dimas — respeitar velhos, mulheres e
crianças, negaram-se a tomar alguma coisa de José ou Maria
e para resolverem a questão, foram apresentados ao que mais
tarde deveria morrer com a criança que tinha diante de si.
Conta-nos o romancista espanhol que Dimas ficou tão encan­
tado com as graças do pequeno viajante que lhe deu de pre­
sente um imaculado cordeiro branco e deixou que seus pais
prosseguissem a viagem sem mais percalços.
Herodes morreu, mais ou menos, três anos após a fuga
e José foi aconselhado a voltar para sua loja na cidade de
Nazaré. Desde esta época até os 12 anos, nada se sabe sto
Jesus caminha sôbre as águas
Ressurreição da filha de Jctiro
Madalena arrependida,
C R ISTO 65
certo das atividades de Jesus. São Mateus escreve lacônica-
mente: "O menino crescia e se fortificava, enchendo-se de
sabedoria: e a graça de Deus estava sobre Êle” (Mat. 2:40).
Êste texto dá a entender que freqüentava alguma instituição
onde "se enchia de sabedoria”, porém, não é assim; Jesus não
teve oportunidade de freqüentar uma escola. Esta afirmação
foi feita por seus próprios oponentes que depois de ouvi-lo,
disseram: "De onde sabe êste letras sem as ter aprendido?”
Sem ter freqüentado as universidades do seu tempo, Jesus
atingiu um grau de cultura tão extraordinário que em outra
ocasião, um ouvinte assim se expressou: "Nunca homem al­
gum falou como êste homem”.
Com a idade de 12 anos, para cumprir os requisitos da
primogenitura, seus pais levaram-no à festa da Páscoa que se
celebrava em Jerusalém. Com o grande ajuntamento, a pres­
sa de partir ou pela alegria natural de ter celebrado a festa
pascal, Maria e José partiram sem o menino. Certamente,
ambos partiram em grupos diferentes, do contrário teriam
dado por sua falta, que só a notaram ao fim do primeiro dia
de viagem (Lucas, 2:44). Não o tendo encontrado, voltaram
e depois de três dias, acharam-no em meio aos doutores da
Lei, "ouvindo-os e interrogando-os”, e os que o "ouviam, muito
se admiravam da sua inteligência e das suas respostas”. Isto
prova que o pequeno galileu era um consumado mestre sem
ter tido alguém que o ensinasse além de sua mãe que o teria
iniciado na leitura das Sagradas Letras e ensinado lendo o
grande livro da natureza.

B
A GRANDE LACUNA

Dos 12 aos 30 anos, há na vida de Jesus uma extensa


lacuna que ninguém pode explicar. Os evangelhos somente
nos dizem que após o encontro do Templo, os pais voltaram
para Nazaré e o menino "desceu” com eles — e estava-lhes
sujeito. Temos de concordar de que é muito pouca história
para tão grande período e tão dinâmico personagem. Custa
crer que durante 18 anos Jesus tenha estado apenas ocupado
nos rudes serviços de uma carpintaria antiga, embora aceite­
mos que os tenha realizado.
Alguns biógrafos têm dado rédea solta à imaginação e
como nada há escrito, pelo menos nada que tenha autoridade,
apresentam-nos facetas da vida de Jesus tão absurdas como
possíveis; facetas que uma vez analisadas podem com um pou­
co de boa vontade, enquadrar-se se não no personagem, pelo
menos no tempo. Uns dizem que Jesus viajou muito e nas suas
viagens em busca da sabedoria atingiu os píncaros do Tibete.
Lá teria estudado com antigos sacerdotes lamaístas que rece­
beram ou mesmo deram instruções ao visitante.
Custa acreditar-se que Jesus, naquele tempo tenha feito
uma viagem tão longa da Palestina ao Tibete. Os caminhos
eram perigosos, inóspitos e freqüentados por inúmeros saltea­
dores. Porém, sacerdotes lamaístas afirmam com uma por­
ção de argumentos a visita que Jesus teria feito a Lhasa, tendo
deixado seu nome gravado nas pedras do mosteiro e escrito
em documentos que por lá se guardam. O que há de verdade
nessa afirmação, talvez nem o saibam os mesmos que o fazem,
porém, o autor viu, e no Rio de Janeiro, uma fotografia de
uma assinatura em hebraico puro que atribuem a Jesus. Essa
mesma misteriosa assinatura foi encontrada em várias partes
da Grã-Bretanha.
Outros, menos imaginativos, colocam a Jesus entre os
essênios da comunidade de Cumrâm. Êstes biógrafos viram au-
68 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

mentadas suas esperanças em achar essa lacuna de 18 anos.


As recentes descobertas dos Manuscritos do Mar Morto pa­
recem confirmar o que êsses escritores têm dito da permanên­
cia de Jesus entre os essênios.
Seja como fôr, a doutrina de Jesus e os ensinos e práticas
de João, o Batista, podiam ser atribuídas às comunidades essê-
nias espalhadas no planalto da Judéia alguns anos antes e
depois do Nazareno. Não há prova histórica dêsse período de
aprendizagem, porém, se lermos Flávio Josefo, encontraremos
nas suas "Antiguidades Judaicas”, livro XVIII, cap. I e pará­
grafo 5.°, que as doutrinas essênias eram muito semelhantes
aos ensinos de Jesus. Se êle não fêz parte dessas comunida­
des, o mistério ainda é maior, pois ninguém pode afirmar como
essênios e Jesus harmonizaram seus ensinos e austeros cos­
tumes.
Talvez por essa lacuna inexplicável e pela semelhança dos
ensinos essênios e os de Jesus, o historiador Pierre Louis Cou-
choud depois de escrever muito sobre a vida do Nazareno,
disse: "Quem foi Jesus? um ponto indefinido no horizonte ou
um homem cuja estatura jamais outro homem atingiu?” Para
Couchoud, apesar de ter biografado Jesus continuou a ser um
mistério.
O PROFETA DOS EVANGELHOS

Comecemos por dizer que embora histórico, os Evangelhos


são a reprodução direta e até indireta da vida de Jesus. Neles
há uma tese que se demonstra e argumentos que se compro­
vam. Isto, no entanto não diminui em nada seu valor histó­
rico, seus autores não se apresentam como filósofos pregando
uma nova doutrina, apresentam-se como testemunhas do que
viram e ouviram.
É digno de nota ler como a vida de Jesus se desenrolâ
uniformemente. Pela narrativa ingênua dos Evangelhos, des-
cobre-se um desenvolvimento dramático e progressivo, cujo
trágico fim preparou-se lentamente ao princípio, para precipi­
tá-lo, bruscamente no fim.
Nêles vemos que a antítese entre os fanáticos opositores
e Jesus não podia ser mais rude. A miserável casuística nos
escribas, a força imoral dos fariseus e o epicurismo dos sadu-
ceus, evidentemente não podiam ver com simpatia a nobre in­
dependência com que o profeta apresenta a verdade.
Estudando os Evangelhos podemos acompanhar com exa­
tidão o radiante caminho percorrido por Jesus desde a man-
gedoura de Belém até o Gólgota. Podemos segui-lo com ò
pensamento nas muitas viagens que fêz a pé, associando com
os lugares que visitou, as palavras de verdade tão cristalina,
que encantava seus ouvintes e recordava as maravilhas de mi­
sericórdia tão eficaz que lhe granjearam a estima de publica-
nos desesperados e das mais santas mulheres.
É verdade que a curiosidade por uma parte e motivos mais
elevados por outra, suscitam muitas perguntas às que os Evan­
gelhos não dão resposta. Nisto, parece-nos que se manifesta
certa sabedoria, relatando o que devemos saber da vida de
Jesus e silenciando o que não tinha importância para nós.
70 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

Logo, no início do seu ministério, Jesus começou a ensi­


nar o povo com sua mágica palavra. São Mateus escreve três
capítulos completos com as exortações e conselhos que com­
põem ao assim chamado "Sermão da Montanha”. Jesus pro­
nunciou êste maravilhoso discurso (que podemos ler nos capí­
tulos 5.° e 7.° do primeiro Evangelho), estando sobre um
montículo, perto da cidade de Cafarnaum, no início do segundo
ano de vida pública. Nêle, exemplifica, de várias formas, a
dupla natureza da inclinação humana e apresenta todos os de-
veres que os bons cidadãos têm a cumprir e os privilégios que
devem esperar pela obediência. Se não tivéssemos mais nada
de Jesus, o "Sermão da Montanha” seria o monumento que
perpetuaria sua passagem por esta terra. Jamais, filósofo al­
gum produziu peça literária tão simples e tão sublime ao mes­
mo tempo. Nesse sermão, Jesus revela-se um estadista que
sabe como guiar a nau do Estado ao porto da prosperidade;
o humanista que compreende as dores e angústias dos seus se­
melhantes e quer aliviá-las; o médico que sabe de que padece
seu doente e sabe como curá-lo; apresenta-se enfim como o
sacerdote que sabe acalmar os desesperados, guiando-os ao
plácido lago da tranqüilidade da alma!
Vê-se nesse discurso sua luta contra os maus costumes e
a exploração dos poderosos.
Como filósofo propõe uma doutrina de moral puríssima,
cuja essência é: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao
próximo como a nós mesmos”.
Em todos os seus ensinos inculca com veemência os dita­
mes da lei natural e apresenta o prêmio de uma consciência
tranqüila. Por isso, os efeitos da sua obra foram e continuam
a ser em todo o mundo, uma admirável renovação de costumes
e até de doutrinas.
Com a grandeza com que Jesus desenvolvia seus temas
contrasta a simplicidade de suas palavras. Comentando ambas
— grandeza e simplicidade — delas disse Pascal: "Jesus fala
das coisas mais elevadas com tanta simplicidade que dá a im­
pressão de que nunca tinha pensado nelas, e, ao mesmo tempo
com tanto acêrto que logo nos dá a entender o quanto nelas
tinha meditado. Tanta simplicidade junta com tanta sabedo­
ria é admirável”.
É óbvio que nem sempre falou de modo a ser por todos
entendido, algumas vêzes utilizou-se de parábolas, que no sen­
C R ISTO 71

tido rigoroso são curtas narrações de algum acontecimento que


realmente tivera lugar ou possível de tornar-se realidade. Em-
prega-se para elucidar um aspecto definido da verdade, que
embora seja única e indivisível, tem como o diamante, múlti­
plas facetas.
A linguagem parabólica e enigmática era muito usada pe­
los sábios orientais e como vemos no Salmo 49:4, nada era
mais insuportável do que ouvir um néscio recitando parábo­
las. Jesus imitou os sábios de seu tempo, dando cumprimento
à profecia de Isaías. Ainda hoje, a parábola é empregada fre­
qüentemente pelos escritores e professores hebraicos, pois, essa
maneira de expressar-se, foi e continua a ser muito admirada
pelo povo oriental.
Jesus pronunciou as seguintes cinqüenta e três parábolas
que nos Evangelhos aparecem por citação nesta ordem crono­
lógica :
1 — Os edificadores prudentes e insensatos — Mateus,
7:24-27.
2 — A alegria imperial — Mateus, 9:15.
3 — Remendo novo em pano velho — Mateus, 9:16.
4 — Vinho novo em odres velhos — Mateus, 9:17.
5 — Espírito imundo — Mateus, 12:43-45.
6 — O semeador — Mateus, 13:3-18; Lucas, 8:5-15.
7 — O Joio — Mateus, 13:33.
8 — O grão de mostarda — Mateus, 13:31-32; Lucas,
13:19.
9 — O fermento — Mateus, 13:33.
10 — O tesouro escondido — Mateus, 13:44.
11 — A perda de grande preço — Mateus, 13:45-47.
12 — A rêde — Mateus, 14:47-50.
13 — O que contamina — Mateus, 15:10-20.
14 — O servo incompassivo — Mateus, 18:23-35.
15 — Os trabalhadores da vinha — Mateus, 20:1-16.
16 — Os dois filhos — Mateus, 21:28-32.
17 — Os maus lavradores — Mateus, 21:33-45.
18 — A festa nupcial — Mateus, 22:2-14.
19 — A figueira — Mateus, 24:45-51.
20 — Vigília do pai de família — Mateus, 24:43.
21 — Os servos bons e maus — Mateus, 24:45-51.
22 — As dez virgens — Mateus, 25:1-13.
23 — Os talentos — Mateus, 25:14-30.
72 ANTOLOGIA DE VIDAS CÉLEBRES

24 — O reino dividido — Marcos, 3:24.


25 — A casa dividida — Marcos, 3:25.
26 — O valente armado — Marcos, 3:27; Lucas, 11:21
27 — A boa semente — Marcos, 4 :26 - 29 .
28 — A tocha acesa — Marcos, 4:21; Lucas, 11 :33 - 36 .
29 — O homem em viagem — Marcos, 13:34-37.
30 — Cego guiando outro cego — Lucas, 6:39.
31 — A trave e o arqueiro — Lucas, 6 :41- 42 .
32 — A árvore e o fruto — Lucas, 6:43-45.
33 — O credor e os dois devedores — Lucas, 7:41-47.
34 — O bom samaritano — Lucas, 10:30-37.
35 — O amigo importuno — Lucas, 11:5-9.
36 — O rico insensato — Lucas, 12:16-21.
37 — A nuvem e o vento — Lucas, 12:54-57.
38 — A figueira estéril — Lucas, 13:6-9.
39 — Os primeiros lugares — Lucas, 14:7-11.
40 — A grande ceia — Lucas, 14:15-24.
41 — A tôrre edificada — Lucas, 14:28-30,33.
42 — O rei que vai à guerra — Lucas, 1 4 :31 - 33 .
43 — O sabor do sal — Lucas, 14:34-35.
44 — A ovelha perdida — Lucas, 15:3-7.
45 — A dracma perdida — Lucas, 15:8-10.
46 — O filho pródigo — Lucas, 15:11-32.
47 — O mordomo injusto — Lucas, 16 : 1- 8 .
48 — O rico e Lázaro — Lucas, 16:19-31.
49 — A viúva importuna — Lucas, 18:1-8.
50 — O fariseu e o publicano — Lucas, 18:9-14.
61 — As dez minas — Lucas, 19:12-27.
52 — O bom pastor — João, 10:1-6.
53 — A videira e as varas — João, 15-1-8.
Nestas 53 parábolas, Jesus apresentou outras tantas for­
mas de entender e usufruir a felicidade relativa que em nossa
vida terrestre se pode alcançar. Com cada uma delas quis en­
sinar um aspecto oculto da verdade social humana e até divina
que até Êle não se tinha compreendido, porém o que mais res­
saltou em tôdas elas, não é tanto a sabedoria com que foram
pronunciadas, mas sim, a varonilidade dêsse mestre que ora se
nos apresenta divino, ora humano.
Muitas são de caráter natural e perfeitamente compreen­
síveis, outras são sentimentais, subtis que é necessário anali­
sá-las bem para compreendê-las, tais como a dos lavradores da
vinha e as diferentes horas de trabalho; o bom samaritano; o
C R ISTO 73
rico e Lázaro; a videira e as varas. Na primeira destas pa­
rábolas vemos o empregador bondoso, justo, equitativo, recom­
pensando cada um, não pelo que tratara, mas pelo que real­
mente tinha feito, pelo que merecia; na segunda vemos o
humanista condoendo-se pelo seu próximo, sacrificando-se pelo
bem-estar alheio; na terceira achamos o sacerdote que aponta
a maneira mais simples e mais rápida de entrarmos na graça
de Deus: "Têm Moisés e os profetas, ouçam-nos”, e, na quar­
ta, o convívio que dêsse estudo resultaria.
Na parábola do filho pródigo, Jesus pôs seu magnânimo
coração à mostra. É tão patética que não há coração, por mais
insensível que seja que não se enterneça ao lê-la. Tal é a ter­
nura e angústia que empresta ao velho pai dêsse jovem dila­
pidador. Temos de compreender nesta parábola, que Jesus
embora solteiro e sem filhos, era um pai amantíssimo, capa*;
de sentir no âmago da sua alma a falta do filho querido.
Outra parábola enternecedora e perfeitamente humana é
a da dracma perdida. Aqui, mais uma vez se revela a natu­
reza humana de Jesus de Nazaré e o sensível coração que
possuía.
As três parábolas que encontramos no capítulo 15 de São
Lucas, foram pronunciadas na Perea, não muito longe da pe­
quena cidade de Galaed. Ali, tinha-se dado, fato real da drac­
ma perdida. O que o evangelista não conta é que essa moeda
fazia parte do dote que uma pobre viúva tinha ajuntado para
dar à sua única filha no dia do casamento e não conta porque
todos sabiam da história. A viúva juntara as dez dracmas,
ceitil após ceitil. Com sacrifício e árduo trabalho ia reunindo
as dracmas necessárias, quando tinha 160 brancas reunidas,
a viúva trocava o escuro bronze por uma brilhante moeda de
prata — a dracma. Depois de certo tempo, as dez dracmas
envoltas num pano eram a preocupação constante daquela po­
bre mãe. Contar essas dracmas tornou-se parte da sua devo­
ção diária. Uma noite, após seu labutar, tornou a contá-las.
Faltava um a!... Recontou e sempre a mesma falta. Como
naquele tempo a falta de qualquer moeda no dote de uma don­
zela, significava que o casamento seria infeliz, a extremosa
mãe não podia ficar sossegada, sua filha tinha de ser feliz,
era mister procurar a moeda. Contou às vizinhas aquela des­
graça ou estas dela tiveram conhecimento pelos seus lamentos.
O caso é que acendeu a luz, varreu a casa toda e quando read­
quiriu a prata perdida notificou em voz alta, convidando-as
74 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

a uma festa que talvez lhe custasse mais do que a dracma va­
lia. É verdade que na parábola, Jesus modificou o resultado
final, da emoção causada pelo aparecimento da moeda que com­
pletava o dote, para a alegria que os anjos têm quando ganham
mais um companheiro que quer viver como êles, mas nem por
isso se pode ocultar a magnanimidade e munificência de Jesus.
Além destas parábolas, os evangelistas apresentam-nos
outros tantos milagres que não vamos ‘comentar, pela simples
razão de que tôda vida de Jesus é em si um milagre contínuo.
Como vimos, seu nascimento está rodeado de mistérios e acon­
tecimentos tão espetaculares que mais parecem milagres do que
fatos naturais. As lacunas cronológicas da sua vida continuam
a desafiar os melhores biógrafos e comentaristas e temos para
nós que jamais saberemos a verdade da visita ou não ao Tibete
e se estêve entre os essênios. Há uma explicação que ainda
vamos apresentar, que aclara a maneira de seu aparecimento
repentino em lugares até fechados. Êstes repentinos apareci­
mentos, às vêzes um tanto fantasmagóricos pareciam outros
tantos milagres até um tempo atrás, porém, hoje, como vere­
mos, perfeitamente explicáveis.
Como os milagres se sobrepõem às leis ordinárias da na­
tureza por meio de agentes a ela superiores, não os comentare­
mos, pois, para estudar a varonilidade do Nazareno é suficien­
te estudarmos os seus feitos, embora sabendo que os milagres
operados fossem de uma natureza tal que nenhum homem pu­
desse efetuá-los. Todos foram públicos, realizados perante
numerosas testemunhas, não só entre partidários como entre
os opositores de Jesus e todos foram expostos ao escrutínio
mais rigoroso.
O milagre é sempre um acontecimento que foge à com­
preensão da mente humana. Coisa que não sucede com as
atividades da vida material a de Jesus está repleta de acon­
tecimentos que provam que êle foi o maior milagre que êste
mundo presenciou.
No início de seu segundo ano de vida pública, subiu à
festa da Páscoa que se celebrava em Jerusalém e São João nos
eonta no seu Evangelho, capítulo 2.° e versos 13-25, que tendo
entrado no Templo, viu os vendilhões com bois, ovelhas e pom­
bas, tendo como era de esperar-se, os cambistas ao lado. Os
materialistas sacerdotes dêsse tempo, tinham decretado que aii
teria livre curso apenas a moeda por êles cunhada e como os
peregrinos vinham de tôda a parte do mundo, eram obrigados
C R I S T O 75
a trocar o dinheiro pelo do Templo, com grande prejuízo, isso
já era muito mau negócio para uma Casa tão santa; porém,
havia mais, e êsse mais eram mugidos e validas dos animais
que aliados à desonestidade dos traficantes e das pragas dos
exploradores, poluíam o Templo. Isso não podia agradar o
"pálido galileu” que fêz um azorrague de cordas e expulsou a
todos. Comentando êste ato, o biógrafo Sholem Asch, no seu
livro "Nazareno”, diz que: "Jesus não era o manso cordeiri-
nho que tantos se esforçaram para nos fazer crer. Êste escri­
tor teria acertado mais se dissesse que Jesus não era pusilâ­
nime, uma vez que em nenhuma parte do Evangelho se nos é
apresentado como um medroso. Jesus foi um varão que sabia
enfrentar com coragem e dignidade todo e qualquer perigo;
foi valente sempre que as circunstâncias exigiram. Notemos
outrossim, que o evangelista não nos diz que bateu nos maus
negociantes, sua imponência, sua coragem desafiou e a reso­
lução que viam no seu rosto, foram o bastante para afugentá-
-los. JESUS ERA UM HOMEM!
Que êle era um homem, com todas as perfeições de caráter
que um perfeito homem pode ter, compreendemo-lo pelo epi­
sódio que São Lucas relata no seu capítulo 7.° e versos 36-50.
Aqui vemos uma jovem mulher chamada Maria (a Magdale-
na) que grata pelo que por ela tinha feito, ungiu-o na festa
que o fariseu Simão tinha oferecido a Jesus. Esta jovem e
linda mulher foi atraída a Jesus pela sua varonilidade e sem
irreverência alguma podemos aceitar que ao princípio tinha
sido o homem que a atraiu e não o profeta. É claro que êsse
sentimento humano modificou-se na Magdalena, passando a ver
em Jesus não mais um varão a conquistar, mas um profeta a
quem devia seguir e depois de o conhecer seguiu-o a toda parte.
Foi a primeira das mulheres ricas que serviu a Jesus. Acom­
panhou até à crucificação. Ungiu-o novamente já no sepulcro
e foi a primeira a ir visitá-lo. Não há evidência alguma de
que a Magdalena tenha sido uma mulher pública, não era uma
santa é claro, mas daí até à triste fama que lhe temos dado...
há muita distância! Magdalena foi uma mulher em toda a
extensão da palavra que cria ter encontrado em Jesus o homem
de seus sonhos e como vimos, no sentido espiritual, o foi. Ou­
tra Maria, a irmã de Lázaro, foi atraída a Jesus talvez pelos
mesmos sentimentos. Contemplativa, confiada e carinhosa, era
para Maria uma delícia celeste sentar-se aos pés do seu adora­
do mestre. Nenhuma oferta foi demasiado caro para que Maria
deixasse de oferecer; como a Magdalena, também derramou um
custoso perfume sobre os pés de Jesus. Que teria êsse jovem
76 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

profeta que atraía após si tantas mulheres? Concordamos que


todas ficam prêsas da personalidade de Jesus pelos seus ensinos
e pela esperança que lhes incutia de uma vida melhor e dife­
rente, mas teriam visto nêle algum efeminado? Essa qualida­
de, negativa em um homem, nunca atraiu mulher alguma!
Outros traços do maravilhoso caráter de Jesus podem ser
encontrados no relatório que São João nos dá no capítulo 8.°
e versos 1 até 11. Temos, neste triste quadro, uma desditada
mulher apanhada em adultério. Os fariseus que desejavam
acusar a Jesus tinham tramado o adultério e pago o vil com­
panheiro dessa mulher para que os avisasse em tempo. Tan­
to foi assim que êle nem foi levado para ser castigado, pois
segundo a lei, tanto um como o outro deviam morrer lapidados.
A pobre mulher não sabia disso, cedera, talvez pela necessida­
de do dinheiro, ou por fraqueza humana. O importante episó­
dio não é tanto a pobre mulher, nem o companheiro indigno
e muito menos a farsa sacerdotal. O importante aqui é a con­
duta de Jesus.
Achava-se a mulher trêmula, ao lado dum monte de pedras
e no lugar do Templo destinado às lapidações, quando Jesus
chegou e meteu-se entre os curiosos. Os interessados na vil
história, puseram a mulher no meio e perguntaram a Jesus
sôbre a conduta que deviam tomar. Queriam complicá-lo, pois,
o acusariam quer mandasse ou não apedrejá-la. Jesus adivi­
nhava isto e agiu da única forma possível naquela ocasião:
começou a desenhar na areia. A multidão já não se preocupa­
va com a amedrontada mulher, fechou um círculo em torno de
Jesus, uns porque desejavam ver o que se desenhava na areia,
outros, os fariseus, para insistir numa resposta. Tinha Jesus
desenhado seu primeiro quadro, quando instigado se levantou
e lhes disse: "Aquêle que estiver sem pecado atire a primeira
pedra”, e inclinou-se sôbre o desenho. Todos viram o que ha­
via desenhado. O cofre do gazofilácio aparecia nítido e dois
homens retirando dêle várias moedas. A maioria não enten­
deu, mas dois homens se entreolharam e saíram como almas
que o diabo ia arrebatar; eram dois sacerdotes ladrões que
vendo-se descobertos, fugiram. Jesus apagou o desenho e fêz
um novo. Agora, aparecia um campo com uma cêrca pelo
meio e um homem tratando de mudar as estacas. Um dos
fariseus que mais vociferava contra a pecadora, deitando um
olhar por cima do ombro de Jesus, viu-se retratado roubando
uma porção do campo do seu vizinho e sem esperar pelo con­
vite, fugiu. Passando a mão pela areia, novo desenho surgiu,
CRISTO 77
desta vez um doutor da Lei, tendo na mão uma sacola de
moedas e a seu lado um menino que implorava lhe entregasse
a bolsa. Um dos doutores presentes o que mais se destacava,
instigando o pai e o marido da vítima a que atirassem a pri­
meira pedra, viu o desenho e reconheceu-se. Êle recebera
aquele menino como seu pupilo e junto com o aluno a recheada
bolsa de ouro que o pai desde a província lhe tinha entregue
em confiança e gastara em proveito próprio. Com mêdo de
que todos soubessem, virou as costas ao lugar e foi-se retiran­
do. Vários desenhos mais surgiram e novos acusadores fugi­
ram, até que ficaram só dois sêres no lugar do martírio —
Jesus e a adúltera. Com o rosto sereno, Jesus levantou-se e
perguntou: "Ninguém te condenou?” e ela respondeu: "Nin­
guém, Senhor”. E Jesus disse: "Nem eu tampouco te con­
deno; vai e não peques mais”.
A mulher cheia de esperança, vendo que tinha ganho de
novo a vida, de tão alegre começou a dançar e dançou de tal
forma que tudo indicava que estava pronta a cometer outro
adultério; mas desta vez não iria a êle pela trama sacerdotal
ou vil dinheiro, iria voluntàriamente, por amor, por gratidão
e se ofereceria ali mesmo se não ressoassem nos seus ouvidos
aquelas divinas palavras: "vai e não peques mais”. Sim, para
êle também ela tinha pecado... Era mister não repeti-lo!
Neste lamentável e verídico episódio vemos a Jesus, não
como um santarro hipócrita, puritano fanático e intransigente;
vemo-lo como moralista perfeito que sabe que as falhas do
indivíduo quase sempre provêm do ambiente que o cerca ou da
orientação que a sociedade lhe imprime; vemos o filósofo que
sabe que errar é humano e que perdoar é divino e vemos mais,
vemos ainda o vidente que conhece o mal que se esconde nos
corações humanos.
Jesus nada deixou escrito, até as acusações que nesta oca­
sião íêz apagou-as na areia, porque Jesus não veio a condenar,
veio a transformar.
Adiante, mencionamos que os repentinos aparecimentos
seriam difíceis de explicar uns trinta anos atrás e que por
falta de explicação racional, muitos comentadores incluíram,
entre os milagres, os desaparecimentos e presenças repentinas.
Antes de darmos nossa opinião, vejamos algumas delas. Após
a ressurreição encontrou-se Jesus com dois discípulos no ca­
minho de Emmaús. Há entre êles (Lucas, 24:13-33) uma lon­
ga palestra e quando os discípulos o reconhecem, desaparece
78 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

dêles” (verso 31) como quem apaga uma luz. Quando todos
estavam reunidos tendo as "portas trancadas”, Jesus aparece
no meio dêles. Muitos explicam êsse fenômeno dizendo que
como Jesus já ressuscitara, entrara na casa em espírito, isto,
parece-nos demasiadamente infantil, uma vez que êle próprio
manda que o apalpem, pois, "um espírito não tem carne” (Lu­
cas, 28:39). Se não era espírito e entrava com "as portas
trancadas” (São João, 21:18-31) como podia entrar e sair?
Sem recorrermos ao sobrenatural, a quarta dimensão que Eins-
tein enquadrou na sua teoria da Relatividade, seria a explica­
ção. Sabemos que na quarta dimensão, que é o tempo, pode­
remos mover-nos neste como nos movemos no espaço. Se Jesus
chegou a compreender como utilizar essa quarta dimensão,
nada se podia opor a que entrasse em desaparecimento em um
recinto fechado; era só viajar para o futuro, ou passado e en­
trar em ocasião em que as portas estavam abertas. Pela quar­
ta dimensão temos outra possibilidade, podemos estar presen­
tes em qualquer reunião sem ser visto; é só ficar um segundo
atrás do tempo real para os outros presentes não nos verem:,
ou ficar segundos antes do tempo real para ser introduzido,
de repente, entre o grupo quando se escoem os segundos dê
antecipação. Isto explicaria os repentinos aparecimentos e áel
saparecimentos que nada teriam de fantasmagóricos ou truqiies
de prestidigitação. Seria um processo altamente científico qué
apenas começamos a compreender e talvez nunca possamos
utilizar.
Se Jesus atingiu êsse estupendo progresso científico, esta­
va pelo menos 3.000 anos à nossa frente, e se êle se movia rio
espaço, então tudo lhe foi possível incluso sua visita ao Tibete,
Inglaterra e a estada entre os essênios. Como êle nada nos
revelou quanto à quarta dimensão, temos de deixar tudo no
terreno do mistério!
•jsaai.
Sob o nome humano de Jesus, temos que fazer uma resr
salva com respeito à natureza e a história de sua vida sobre
a terra, pelo fato de dimanarem dela todas as facetas da ver­
dade que são o tema do Novo Testamento i— Jesus foi mais
do que um homem — como disse Renaux — "Foi um ser adò-
rável”.
Vimos que como homem, sua natureza era tão completa
que tanto a alma como o corpo eram humanos, e isto aparece
claro em toda a história evangélica. Seu título favorito "Fi­
lho do homem”, usado 81 vêzes ao falar de si mesmo, implica
C R ISTO 79

na sua completa e cordial identificação com a espécie humana,


vem como a energia de "líder” que empregou para efetuar o
seu desígnio.
Não há palavras que possam descrever êsse caráter, no
qual se uniam, formando um conjunto maravilhosamente har­
mônico, tanta firmeza e doçura; tanta dignidade e humildade;
tanto entusiasmo e tranqüilidade; tanta sabedoria e simplici­
dade; tanta santidade e amor; tanta justiça e misericórdia
tanta simpatia pelo céu e pela terra e finalmente, tanto amor
para com Deus e o próximo. Nada nêle foi demais, nada tam­
bém lhe faltou. O mundo nunca tinha produzido e nem con­
cebido um caráter semelhante e a pintura que dêle nos apre­
sentam os evangelistas é uma prova de que nunca houve outro
homem que se lhe igualasse. Se pudéssemos juntar toda espé­
cie humana, de todos os séculos, de todas as raças e línguas
para ver a Jesus no momento em que pronunciava o "Sermão
da Montanha” e comparássemos com êle os maiores benfeitores
da terra, ninguém haveria nessa multidão que se lhe igualasse.
Toda a coroa de glória, todo o tributo de louvor, ser-lhe-ia
atribuído como o único SER digno dessas honrarias pela per­
feição do seu caráter, por seu amor à humanidade, pelos sa­
crifícios que fêz e pelas bênçãos que derramou. Sua glória
será para sempre cantada, porque foi o amigo dos homens e
o sacerdote do perdão.
A perfeição absoluta de sua natureza messiânica foi tão
clara e tão plenamente comprovada como foi sua missão
humana.
A pesca miraculosa
Lázaro e o mau rico
Entrada de Jesus em Jerusalém
Jesus expulsa os mercadores do Templo
Ressurreição de Lázaro
HISTÓRIA DO NOVO TESTAMENTO
José Inácio Roquette
C apítulo I
NASCIMENTO MIRACULOSO DO NOSSO DIVINO
SALVADOR — SUA INFÂNCIA E VIDA OCULTA
ATÉ SEU MINISTÉRIO PÚBLICO

LiçÂO I
Geração eterna do Verbo — Concepção de São João Batista

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus,


e o Verbo era Deus, e êle no princípio estava com Deus. Todas
as coisas foram feitas por êle; e sem êle, nada foi feito. Nêle
estava a vida, e a vida era a luz dos homens. Esta luz res­
plandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
"Houve um homem enviado por Deus, que se chamava
João. Êle veio por testemunha, para das testemunho da luz,
a fim de que todos cressem por meio dêle. Êle não era a Luz,
mas veio para dar testemunho da Luz. A Luz verdadeira era
a que ilumina a todo o homem que nasce neste mundo. No
mundo estava: e sendo o mundo feito por êle, não o conheceu
o mundo.
"Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.
Porém deu podér de se fazerem filhos de Deus a todos os que
o receberam, e creram no seu nome, que não nasceram do san­
gue, nem do desejo da carne, nem da vontade do homem, mas
de Deus. E o Verbo se fêz carne, e habitou entre nós. E nós
vimos a sua glória como de Filho unigênito do Eterno Pai,
e êle era cheio de graça e de verdade”.
Assim se explime o evangelista teólogo, o discípulo ama­
do, a quem o Verbo eterno honrara, em sua vida mortal, com
o título de amigo e irmão. Tal é a feliz nova que êle anuncia
84 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

aos homens no princípio de seu celeste Evangelho, onde as pa­


lavras da vida eterna soam mais alto que em nenhum outro
lugar das santas Escrituras, e os bens de outra pátria nos são
mais claramente expostos e oferecidos. Mas quem sou eu para
balbuciar rudes expressões acêrca de tão augustas palavras?!
Como poderá a pena dum fraco mortal descrever os altos mis­
térios do Verbo, gerado al> eterno, e não feito em tempo?! Da
Sabedoria divina encarnada em humana natureza, para aos
humanos dar vida, ao inferno morte, ao céu glória, ao paraíso
vencimento?!
Humilha-te, razão minha, não pretendas elevar-te, com a
Águia de Patmos, ao celeste empíreo; adora prostrada em ter­
ra, e confundida em teu nada, o mistério de Deus trino e uno!
Deixa às celestiais inteligências o contemplarem, absortas num
oceano de luz, o mistério fecundo e misericordioso do Verbo
humanado para nossa salvação; e resignada na obscuridade que
te envolve, busca na terra os acontecimentos portentosos que
preceaeram, acompanharam e seguiram o nascimento tempo­
ral do Filho de Deus, por êle gerado, Deus como êle, superior
a todas as coisas, abençoado em todos os séculos, que entre nós
habitou, e mostrou aos humanos sua glória e verdade”.
Paremos um instante para ouvirmos a narração do nasci­
mento de seu grande precursor. Estamos como colocados num
istmo estreito do tempo; atrás de nós mugem as ondas dos
passados séculos, que impacientes esperavam aquêle cujo nome
era então um mistério; diante de nós se abre outro Oceano,
a venturosa época da nova aliança. Tarda-nos o embarcar, e
soltar as velas ao vento, que sopra galerno em mar bonança.
Caíra o cetro das mãos de Judá, reinava um estrangeiro
em Jerusalém; era pois chegada a época que Deus fixara para
a vinda do Messias. Prometido a nossos primeiros pais, anun­
ciado por Jacob, Isaías, Daniel e Malachias, esperado de todas
as nações, ia finalmente aparecer sobre a terra o Salvador do
mundo.
Reinando Herodes, o Grande (1), vivia na Judéia um
santo sacerdote por nome Zacarias, da turma de Abias (2),
(1) Não esqueça o que fica dito na vida de Moisés, e ligue-se
o princípio desta história com o fim daquela.
(2) David tinha dividido as famílias sacerdotais em vinte e qua­
tro ordens ou turmas, as quais desempenhavam por seu turno as vá­
rias funções do cuito. Os principais destas famílias, ou de mais auto-
C R ISTO 85
que com intacto proceder guardava todos os mandamentos de
Deus, como também Isabel, sua esposa; eram ambos adianta­
dos em anos, e Deus, que lhes queria acrisolar a virtude para
a galardoar depois com mais lustre, não lhes dando filhos, os
deixava padecer o opróbrio da esterilidade, tida naqueles tem­
pos como a maldição do céu. Um dia, que Zacharias oferecia
a Deus perfumes como a lei mandava, lhe apareceu o anjo Ga­
briel (3), e lhe anunciou que teria um filho a quem chamaria
João (4); que este filho seria grande diante de Deus, seria
santificado desde o ventre de sua mãe para converter muitos
dos filhos de Israel, e em espírito e virtude de Elias caminhar
diante do Senhor, para lhe preparar a estrada, e dispor os ho­
mens a recebê-lo.
Zacharias. duvidando da verdade das promessas, respon­
deu ao anjo: "Por onde conhecerei.que é certo o que me dizes;
eu velho, e com espôsa idosa?* — O anjo: "Eu sou Gabriel
(Isto é, a fortaleza de Deus), que estou em presença de Deus.
Por ordem sua, te venho trazer esta notícia. Ficarás mudo
até que isto se cumpra, porque não deste crédito às minhas
palavras”. Para logo perdeu o falar; e o povo, que só por
acenos o pôde compreender, colheu de seu silêncio que tivera
visão.
Acabado o tempo de seu ministério (que era duma sema­
na), voltou Zacharias para sua morada, que era numa cidade
da tribo de Judá. e Deus cumpriu o que pelo anjo lhe mandara
anunciar; porquanto Isabel (5) concebeu, e encobriu cinco
meses sua gravidez, para mais perfeitamente desfrutar diante
de Deus a graça que lhe fizera, descativando-a do opróbrio da
esterilidade, com lhe dar um filho, esperança de grandes ma­
ravilhas.
ridades entre elas, eram chamados pelos Judeus príncipes dos sacer­
dotes. Dêste número era Abias, e à sua turma pertencia Zacharias.
Quando uma turma entrava no serviço do templo, tiravam à sorte os
sacerdotes as funções que haviam de exercer em cada um dos dias
da semana. Naquele dia coube em sorte a Zacharias oferecer o in­
censo.
(3) Segundo as antigas tradições, consta que os sacerdotes eram
muitas vêzes favorecidos de visões quando ofereciam os perfumeg.
(4) João quer dizer filho de graça ou favorecido do Senhor, e
Zacharias, significa memória de Deus ou Aquêle de quem o Eterno
se lembrou.
(5) Em latim Elisabeth, tirado dos Setenta (grego) ; mas, se­
gundo o hebreu, deveria escrever-se Elichêbâ, que quer dizer A quem
Deus é juramento, ou antes adoração, serviço de Deus.
86 A N T O L O G IA D E VID A S C É L E B R E S

L ição II
Anunciação do anjo a Nossa Senhora — Encarnação
do Filho de Deus
Seis meses eram já volvidos depois que Isabel concebera,
quando o mesmo anjo que a Zacharias anunciara o nascimento
de Batista, foi por Deus mandado a Nazaré, cidade da Galiléia
(6), para anunciar o nascimento do Salvador do mundo, de
quem aquêle havia de ser precursor, a uma virgem da descen­
dência de Davi, desposada com José, também descendente de
David, que com ela vivia em perfeita castidade, e que era o
abono e fiel guarda da pureza de sua esposa. Entrando o anjo
no aposento de Maria, que assim se chamava a Virgem santa,
ab eterno escolhida para Mãe de Deus Filho, e esposa de Deus
Espírito Santo, lhe disse: "Eu vos saúdo, ó cheia de graça; o
Senhor é convosco, bendita sois vós entre todas as mulheres”.
De pejo estremeceu Maria ao ver o celestial mensageiro, e atô­
nita ficou de que assim a saudasse; porém o anjo continuou
dizendo: "Não temais, Maria, porque achaste graça diante de
Deus; concebereis, e dareis à luz um filho que se chamará
Jesus (7). Êle será grande e será chamado Filho do Altíssi­
mo; êle dominará eternamente sobre a casa de David, e seu
reino não terá fim. — Maria: Como é possível que isso assim
aconteça, se não conheço varão?! — O anjo: O Espírito Santo
descerá sobre vós, e o poder do Altíssimo vos cobrirá de sua
sombra; por isso o fruto santo que de vós nascerá se chamará
Filho de Deus. Eis que Isabel, vossa prima, concebeu em sua
velhice, porque a Deus nada é impossível. — Maria: Serva
sou do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra”, E
o anjo desapareceu.

(6) A Galiléia era uma das quatro grandes divisões da Pales­


tina no tempo dos Romanos, a mais setentrional de tôdas; compreen­
dia as três tribos de Nephtali, Dan e Zabulon, e nesta estava situada
a cidade de Nazaré, onde o Salvador viveu até o seu batismo.
(7) Jesus quer dizer Salvador.
C R ISTO 87

LiçAo III
Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel — Nascimento
de São João Batista
Logo que a Senhora se viu mãe do mesmo Filho de Deus,
sabendo pela revelação do anjo como sua prima Isabel tinha
miraculosamente concebido, se foi com pressa à Judéia (8), e
a visitou. Desde que lhe entrou em casa a saudou; apenas
porém lhe ouviu Isabel a voz, sentiu no ventre alvoroçar-se
seu filho de alegria, e exclamou, cheia do Espírito Santo:
"Bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do
vosso ventre. Donde mereci eu que a Mãe do Senhor me venha
visitar?” Daqui contou à Virgem Saiitíssima como exultara
o menino em suas entranhas, acrescentando: "Bem-aventurada
fôstes em crer; e o que vos foi dito da parte do Senhor será
cumprido”. Louvores êstes que não ensoberbeceram o ânimo
de Maria; antes atribuindo a Deus a glória de todas as graças
que dêle emanaram, e confessando a sua humildade, entoou
aquêle sublime cântico que a Igreja repete diàriamente a Vés­
peras, em que disse:
"Minha alma engrandece e glorifica ao Senhor.
"E meu espírito se transporta em santa alegria ao consi­
derar a bondade de Deus meu Salvador.
"Porque pôs os olhos em sua humilde escrava, por isso
todas as gerações celebraram minha felicidade.
"Grandes maravilhas obrou , comigo o Onipotente, cujo
nome é infinitamente santo.
"Cuja misericórdia se estende de geração em geração em
todos os que o temem.
"Assim ostenta quando quer o poder infinito de seu braço;
transtorna os desígnios dos soberbos.
"Derriba aos poderosos de seu assento, e exalta aos hu­
mildes.
"Enche de bens aos necessitados, e aos ricos ambiciosos
deixa vazios.
(8) Crê-se que a cidade onde morava santa Isabel era Hebron,
da tribo de Judá, que distava de 38 a 40 léguas de Nazaré.
88 A N T O L O G IA D E VID A S C É L E B R E S

"Decretou exaltar a Israel seu povo, lembrando de sua


misericórdia.
"Para cumprir a promessa que fêz a nossos pais, Abraão
e todos seus descendentes”.
Detendo-se a Senhora com sua prima quase três meses,
se cumpriu o tempo de seu parto, e nasceu o grande Batista.
Vieram parentes e vizinhos regozijar-se com Isabel pelo nas­
cimento de seu filho; e como fosse chegado o oitavo dia, em
que se havia de circuncidar o menino e pôr-lhe nome, todos-
lhe davam o de seu pai Zacharias; mas santa Isabel se opunha,
querendo que se lhe desse o de João, que Deus (segundo as
palavras do anjo) lhe tinha dado. Embora lhe demonstrassem-
que não havia em sua linhagem um só de semelhante nome. e
fizessem sinal ao pai que declarasse aual era a sua vontade;
êle, que não podia falar, escreveu: "João é o seu nome”. Para
looro se lhe restituiu a fala perdida, e a estreou entoando ao-
Senhor êste cântico profético, que a Igreja repete todos os dias*
a Laudes:
"Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e*
remiu a seu povo.
"E nos suscitou um poderoso Salvador na casa de David*
seu servo.
"Segundo o tinha anunciado pela boca de seus santos pro-,
fetas que floresceram nos passados séculos.
"Para libertar-nos de nossos inimigos, e das mãos de to-^
dos os que nos aborrecem.
"Para dar a conhecer sua misericórdia com nossos paisK
e que se lembra da aliança que com eles havia feito.
"Pois êste é o juramento que fêz com nosso pai Abraão >
jurou que nos concederia em algum tempo.
"Que sacudíssemos o jugo de nossos inimigos, para que^
pudéssemos servi-lo sem temor, e caminhar sempre diante de*,
seus olhos pelas veredas da santidade e da justiça.
"E tu, filho meu, serás chamado profeta do Altíssimo, por-,
que irás diante do Senhor para preparar-lhe seus caminhos.
"Ensinarás a seu povo a ciência da salvação, e o que deve>
fazer para alcançar a remissão de seus pecados.
CR ISTO 89
"Lhe descobrirás a fonte do perdão, nas entranhas da­
quela infinita misericórdia, que obrigou a nosso Deus a descer
do céu para vir visitar-nos.
"Êste Deus de bondade, vem iluminar aos que jazem se­
pultados nas trevas e sombras da morte; vem guiar nossos
passos pelo caminho da paz”.
Tomados ficaram de espanto quantos presenciaram ma­
ravilhas tais; correu logo fama pelas montanhas da Judéia,
e quantos delas ouviram falar, uns a outros se diziam: "Que
conceito fazeis do que será este menino?”
Cumpriu Deus o que Zacharias predissera de seu filho;
e para o preparar às funções do grande ministério a aue o
destinara, fêz que crescesse em espírito, e morasse nos deser­
tos até ao dia que havia de aparecer ao povo de Israel, e pre­
gar-lhe a penitência para preparar-se a receber o Messias.

L ição IV
Nascimento de Jesus Cristo — Adoração dos pastores

Tornando-se a Senhora para sua casa de Nazaré, medi­


tava em profundo silêncio o mistério que nela Deus obrara e
nem a seu espôso contara o sucedido: mas como sua gravidez
se descobriu aos olhos de São José, homem justo e timorato,
determinou confuso deixá-la ocultamente, e ir-se; mas, quando
nesta idéia estava, eis que lhe apareceu em sonhos um anjo,
que lhe disse: "José, filho de David, não temas viver em com­
panhia de Maria, tua esposa, que o fruto de seu ventre é obra
do Espírito S^nto. Dará à luz um filho que chamarás Jesus,
e será êle quem salve o povo de seus pecados”. Ordem esta
a que São José obedeceu humildemente, ficando com Maria e
com ela viveu em perfeita virgindade. Assim se cumpriu ple­
namente o que outrora disse Deus pelo profeta Isaías: "Con­
ceberá uma Virgem, e dará à luz um filho que terá nome Em-
manuel, que significa Deus conosco%
Correndo o tempo da gravidez da Virgem Maria, saiu uma
lei de Augusto César, que se descrevesse o mundo todo de que
era imperador, cada cabeça de família na terra onde tinha seu
solar; por ocasião do que veio São José a Belém (9) com sua
90 A N T O L O G I A D E V ID A S C É L E B R E S

espôsa, para ali matricular o seu nome; que era êle da família
de David, e David nascera em Belém. Cumpriram-se então os
nove meses, e a Senhora deu à luz a seu primogênito Jesus
Cristo num alpendre; e envolvendo-o em mantilhas o reclinou
no presépio, por não haver cômodo na estalagem.
Pastores que pela noite guardavam seus rebanhos perto
daquele sítio, se viram cercados de grande resplendor, e ouvi­
ram o anjo dizer-lhes: "Não temais; feliz nova vos trago, que
encherá todo o povo de grande alegria. Na cidade de David
nasceu hoje o Salvador, Cristo Senhor; e eis aqui o sinal pelo
qual o conhecereis: achareis um menino envolto em mantilhas,
reclinado num presépio”. E logo exércitos de anjos descan-
taram louvores ao Senhor, dizendo: "Glória a Deus nas altu­
ras, e paz na terra aos homens de boa vontade”. Retiraram-se
os anjos, e logo os pastores partiram para Belém, onde acha­
ram ao menino reclinado no presépio, como o anjo lhes tinha
dito; e depois de o adorarem devotamente, se tornaram a seus
rebanhos, glorificando a Deus. Maria considerava no entan­
to todas estas coisas em seu coração, e nêle as conservava
fielmente.
Chegado o dia oitavo, em que se havia de circuncidar o
menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como o anjo tinha pro­
nunciado.

LiçAo V
Adoração dos Magos
Estavam ainda em Belém São José e a Virgem Maria,
quando apareceu aos Magos (10) do Oriente uma estrêla, pela
qual entenderam o nascimento do Deus Menino* e guiados dela
(9) Segundo o hebreu, devia escrever-se Bethlehem, que quer
dizer Casa do pão. Entrava nos desígnios da Providência esta re­
senha de todos os vassalos do império romano, para que se provasse
dum modo autêntico que o Messias era na verdade da estirpe de David.
(10) Uns crêem que os Magos eram Caldeus, outros Árabes, ou­
tros Persas. Segundo a opinião mais comum, eram sábios ou filóso­
fos da Pérsia, a que chamavam Magos, porque em sua filosofia en­
trava muita astronomia, que a simplicidade daqueles tempos olhava
como uma espécie de mágica. Segundo uma antiga tradição, seus
nomes eram Gaspar, Melchior e Baltasar. Segundo o texto grego, po­
de dizer-se que a estrêla que guiou os Magos era um meteoro lumi­
noso.
C R I S T O 91

vieram a Jerusalém, corte de Herodes, perguntando pelo novo


rei dos judeus; com o que turbado Herodes, e toda sua corte,
ccnsultaram sobre o lugar do nascimento do Messias; e lhes
foi respondido que em Belém, segundo a profecia de Micheas,
que diz: "Nem tu, Belém, és a menor entre as cidades prin­
cipais de Judá; porque de ti há de sair o capitão que mandará
o meu povo de Israel”.
Inteirado do que, mandou Herodes vir ocultamente os Ma­
gos para lhes perguntar em que tempo tinham visto a estrêla;
e os mandou a Belém, dizendo-lhes: "Ide, e informai-vos apu-
radamente dêsse Menino; e dai-me parte, para que eu vá tam­
bém adorá-lo”. Apenas se puseram a caminho para Belém,
apareceu-lhes de novo a estrêla que viram no Oriente, de que
ficaram transportados de alegria, e os foi guiando até que
parou sobre o sítio em que estava o Menino Jesus. Entraram
no presépio, e encontraram o Menino com sua Mãe; prostra-
ram-se diante dêle, e ofereceram-lhe, por presente, ouro, in­
censo e mirra; e tributadas suas vassalagens, tornaram a suas
terras, sem passar por Jerusalém, por terem sido avisados em
sonhos que não voltassem a Herodes.
L ição VI
Apresentação de Jesus Cristo no tew/plo

Sendo passados quarenta dias depois do nascimento de


Jesus Cristo, levaram-no seus pais ao templo para o apresen­
tarem a Deus, como ordenava a lei de Moisés, e ofereceram o
sacrifício prescrito pela lei; isto é, um par de rolas ou dois
pombos. Era êste o sacrifício dos pobres, porque os ricos ofe­
reciam um cordeiro em holocausto; e nota o Evangelho que
a Santíssima Virgem oferecera por sua purificação o sacrifí­
cio dos pobres (10-A).
(10-A) Havia dois preceitos a cumprir, um tocante às mães, ou­
tro ao primogênito. Mandava o primeiro que durante quarenta dias
depois do parto não entrasse a mulher no templo nem tocasse nada
que sagrado fosse, se dera à luz um varão, e oitenta se era fêmea.
Findo êste prazo, ia a mãe purificar-se ao templo e oferecia em sa­
crifício um cordeiro, e sendo pobre, duas rolas ou dois pombos. Man­
dava o segundo que todo o primogênito fosse consagrado ao serviço
do Senhor, ou que fosse resgatado por uma oferenda em dinheiro.
O resgate do Menino Jesus foi de cinco siclos de prata, que valiam
pouco mais ou menos Cr$ 1,20 de nossa moeda.
92 A N T O L O G I A D E VID A S C É L E B R E S

Vivia naquele tempo em Jerusalém um idoso sacerdote


chamado Simeão, varão justo e temente a Deus, a quem fora
revelado que não morreria sem ver o Cristo do Senhor. E por
um movimento do Espírito Santo veio êle ao templo quando
a Sagrada Família ali estava; e nossuído de santa inspiração,
tomou o Menino Jesus em seus braços e bendisse ao Senhor,
dizendo:
"Agora, Senhor, já morrerei em paz. segundo a promessa
que me fizestes; porque meus olhos viram o Salvador que dais
ao mundo. Determinastes que se manifeste à vista de todos
os povos como objeto de seu respectivo amor. Êle será a luz
das nações, e a glória de Israel seu povo”.
Estando em profunda admiração Maria e José pelo que
viam e ouviam, quando, voltado para êles, os abençoou Simeão,
e disse à Maria que aquêle Menino era destinado para ruína
e ressurreição de muitos em Israel, que seria alvo de contra­
dição aos homens; e que estas contradições que patenteariam
os pensamentos e íntimas disposições de muita gente, seriam
para ela uma espada de dor, que lhe traspassaria a alma.
Chegou ao mesmo tempo uma viúva por nome Ana, que
tinha oitenta anos e com o dom de profecia, e que servindo a
Deus com rogos e jejuns, assistia incessantemente no templo;
a qual, logo que viu o Menino Jesus, o conheceu pela mesma
luz que o dera a conhecer a Simeão; e louvou a Deus da graça
que ao mundo fazia de lhe dar um Salvador; e dele não se
cansava de falar a quantos esperavam a sua vinda.

L ição VII
Fuga para o Egito — Matança dos inocentes —
O menino Jesus entre os doutores
Cumprida a lei, voltaram José e Maria de Jerusalém para
a casa e aí contaram viver em sossêgo, quando um anjo apa­
receu em sonhos a São José e lhe disse: "Levanta-te, toma
o Menino e sua Mãe, e foge com êles para o Egito, e fica ali
até que eu te avise; porque Herodes anda em busca do Me­
nino para lhe tirar a vida”. Obedeceu São José prontamente
à ordem do anjo, e partiu de noite com o Menino e sua Mãe
para o Egito.
C R ISTO 93

Esperava entretanto Herodes os Magos para dêles saber


onde estava o novo rei que receava, e como visse que não che­
gavam e que era frustrada sua esperança, pois haviam toma­
do outro caminho, concebeu suma raiva, e determinou degolar
todos* os meninos de Belém e seus contornos até à idade de
dois anos. E pôs por obra seu bárbaro desígnio, entendendo
abranger em tão grande mortandade aquêle cuja perdição
tinha resolvido; mas Deus iludiu a crueldade de Herodes, e
entre tanto sangue derramado só escapou o que êle com mais
ânsia buscava.
Viveu a Sagrada Família no Egito sete anos, segundo ge­
ralmente se crê (11); morto porém Herodes, apareceu de novo
o mesmo anjo a São José, dizendo-lhe que voltasse à s,ua pá­
tria, porquanto era morto o que queria a morte de Jesus Cristo,
a cujo aviso se tornou com a Virgem e o Menino a terras de
Israel. Sabendo porém que em Judéia reinava Archelau, filho
de Herodes, temeu; e sobretudo sendo advertido em sonhos que
se retirasse à Galiléia, foi assentar morada em Nazaré para
que se cumprisse a profecia que dizia que Jesus Cristo se cha­
maria Nazareno.
Em tanto crescia Jesus e se fortalecia em graça e sabe­
doria diante de Deus e dos homens; isto é, à medida que ia
crescendo, descobria-se nêie pouco a pouco e dum modo pro­
porcionado a sua idade, a graça e a sabedoria cuja plenitude
recebera desde o momento de sua conceição.
Segundo o costume dos judeus, iam José e Maria todos os
anos a Jerusalém pela festa da Páscoa, e Jesus os acompanha­
va. Quando tinha doze anos de idade, deteve-se em Jerusalém,
passada a festa, sem que seus pais dessem por isso, antes, sem
eie voiiaram, pensando que ia com alguma pessoa da comitiva.
Mas, havendo caminhado um dia, e não o achando consigo nem
com os do seu conhecimento, voltaram em sua busca a Jeru­
salém, e três dias depois o encontraram no templo, sentado no
meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os, dando que
admirar aos que ouviam tal saber e tais respostas.
Mui admirados ficaram Maria e seu esposo quando assim
o viram; e sua Mãe, representando-lhe quanta saudade e má­
goa lhe fora perdê-lo, e quantas penas tivera para achá-lo, lhe
(11) Outros dizem somente quatro. Crê-se também que a Sagra­
da Família morara em Heliópolis ou Cidade do Sol, situada no Egito
inferior.
94 A N T O L O G I A D E VID A S C É L E B R E S

dizia: "Por que, filho meu, assim nos tratais?” — "E por
que me procurais vós? — lhe respondeu, — não sabeis que me
devo empregar no que toca a meu Pai?” Bem que não com­
preendessem o sentido da resposta, guardou contudo a Virgem
Santíssima estas palavras em seu. peito. Tornou Jesus com
seus pais para Nazaré, e viveu com êles, sendo-lhes submisso
e obediente.
C a pítu lo I I

PREGAÇÃO E BATISMO DE SÃO JOÃO — JESUS


DISPÕE-SE PARA O SEU MINISTÉRIO PÚBLICO

LiçAo VIII
São João começa a preparar os homens para
receberem dignamente o Salvador
Correndo o ano décimo quinto do império de Tibério, sen­
do Pôncio Pilatos governador da Judéia, e Herodes tetrarca
(12) de Galiléia, no pontificado de Anás e Caifás (13), João,
filho de Zacharias, vivia no deserto vida austera e penitente,
e veio correndo às terras que lava o Jordão, e ali pregava o
batismo de penitência; não que êste desse a remissão dos pe­
cados, mas dispunha os homens a recebê-la, e era figura do
batismo que Jesus Cristo havia depois de instituir.
Abriu o santo Precursor a sua missão com estas palavras !
"Fazei penitência, que é chegado o reino de Deus”. E para
dar mais autoridade a suas vozes, pregava a penitência com
o exemplo, mais poderoso que suas palavras. Seu trajo era
um saco tecido de pêlo de camelo, trazia por cinto uma correia,
gafanhotos e mel silvestre eram suas iguarias. Pregador que
mostrava em si o que toda Jerusalém, todo o contorno do Jor-
(12) Esta palavra grega significa um príncipe que é sujeito a
outro soberano e governa na quarta parte de seus Estados.
(13) Anás e Caifás, seu genro, exerciam alternadamente o sumo
pontificado, cada um durante um ano, segundo uma concordata que
fizeram com os Romanos, então senhores da Judéia, os quais o pu­
seram por um ano, sendo antes vitalício, com o fim de dominarem
0 sanhedrim, e intervirem nos negócios da religião, não menos que
para saciarem sua cobiça.
A N T O L O G IA D E VID A S C É L E B R E S

dão, toda a Judéia, o ia buscar para confessar-lhe seus pecados,


c receber dêle o batismo nas águas do Jordão.
Vinham também receber seu batismo fariseus e saduceus,
êstes de ilustre origem, mas que não criam na imortalidade, e
aquêles, que muito blazonavam de claro conhecimento e pon­
tual observância da lei, pelo que tinham usurpado grande esti­
ma e autoridade no povo, mas altos hipócritas que com o man­
to de virtude externa encobriam a mais insuportável soberba.
Ouçamos como São João falou às pessoas destas duas seitas
que lhe requeriam batismo: "Raça de víboras, quem vos acau-
telou da cólera que vos ameaça? Fazei frutos dignos de pe­
nitência, e não vos contenteis de dizer entre vós: Temos a
Abraão por nosso pai; eu vos declaro que poderoso é Deus
para tirar das pedras filhos de Abraão. O machado está já
à raiz da árvore; e assim toda árvore que não der bom fruto
será cortada e lançada ao fogo”.
Perguntaram-lhe os publicanos, ou arrecadadores de tri­
butos, os soldados e o povo: "E que havemos de fazer?” —
"Quem tem dois vestidos, — respondeu êle, — e quem tem que
comer, dê a quem não tem; vós, soldados, contentai-vos com
vosso pagamento, e com ninguém useis de violência nem en­
gano”.
Tão acertadas respostas, acompanhadas de tão pura e pe­
nitente vida, davam ao povo alto conceito do Batista, e bem
se afiguravam todos que poderia ser o Cristo, a saber o Mes­
sias há tanto tempo esperado. Para arredá-lo desta idéia, lhes
dizia: "Eu batizo com água; mas outro mais poderoso que eu
%é vindo, cujas sandálias não sou digno de calçar, nem de de-
satar-lhe as correias, que vos batizará no Espírito Santo; traz
na mão o crivo com que alimpará perfeitamente a eira; reco­
lherá o trigo no celeiro, e queimará a palha em fogo inextin-
guível”.

L ição IX
Jesus prepara-se mais próxima/mente para o seu
ministério público
1.°) Pela humildade, recebendo o batismo da penitência.
Quando toda a Judéia ia ao Jordão para receber o batis­
mo de São João, Jesus Cristo, que tinha então trinta anos de
0 dinheiro da viúva
A cura do mudo
0 bom samaritano
CRISTO 9*7
idade e passava por filho de José, saiu da Galiléia, onde espe­
rara em silêncio o tempo do ministério para que viera ao mun­
do, e veio às margens do Jordão receber com os demais o ba­
tismo do seu Precursor. Não podia sofrer João tão profundo
abatimento, e recusava-se dizendo: "A mim cumpria, Senhor,
ser por vós batizado, e vós vindes a mim?” Jesus o atalhou
com estas palavras: "Deixa-me por hora, para que assim cum­
pramos eu e tu com tôda a justiça”. Cedeu João e batizou
a Cristo, que, apenas batizado, saiu do rei e se pôs em oração;
e logo o Espírito Santo, em forma de pomba, desceu e pousou
sobre êle, e do céu se viu uma voz que dizia: "Êste é o filho
meu muito amado, em que pus todas minhas complacências”.
2.°) Pelo jejum, a oração, e as vitórias contra as tentações.
Logo deixou o Salvador as margens do Jordão cheio do
Espírito Santo; e o mesmo Espírito o guiu ao deserto, onde
passou quarenta dias e quarenta noites sem comer nem beber.
E como para ser tentado lá o guiara o Espírito Santo, permi­
tiu que depois de tão longo jejum se lhe desse a fome a sentir,
e o demônio tivesse aso de o tentar: chegou-se pois ao Salvá-
ctor, e disse-lhe: "Se sois o Filho de Deus, dizei a estas pedras
que se convertam em pão”; ao que respondeu Jesus: "Nem
só de pão vive o homem, senão de tôda a palavra que sai da
boca de Deus”. Transportou-se depois com êle ao pináculo do
Templo de Jerusalém, e lhe propôs que se despenhasse dêle
abaixo para demonstrar que era o Filho de Deus: "Porquanto
escrito está, lhe dizia, que mandará Deus a seus anjos que vos
aparem nas mãos, para que as pedras vos não molestem os
pés”. A esta citação da Escritura, respondeu Cristo com ou­
tra: "Não tentarás ao Senhor teu Deus”.
Não quis o demônio desistir da emprêsa, antes o trans­
portou ainda ao alto dum‘'monte donde descortinasse todos os
reinos da terra, com todo seu lustre e pompa, prometendo-lhe
quanto descobria se o adorasse prostrado em terra. "Tudo
isto me foi dado, dizia falsamente, e dá-lo posso a quem me
agradar”. Ao que respondeu o Salvador com ar soberano e
divino: "Retira-te, Satanás; que escrito está: Ao Senhor teu
Deus adorarás, e só a êle servirás”. E como visse frustrados
todcs seus enganos, retirou-se o demônio, e os anjos se che­
garam a Jesus Cristo e lhe ministraram, isto é, o serviram à
mesa comida e refeição corporal.
98 A N T O L O G IA D E VID A S C É L E B R E S

LlÇÃO X
João Batista declara que êle não é o Cristo, e manda
a Jesus seus discípulos — Começam a vir discípulos
a Jesus Cristo; vai com eles às bodas de Caná —
Primeiro milagre de Jesus Cristo
Enquanto Jesus estava no deserto, não cansava o fiel Pre­
cursor de falar dêle a seus ouvintes, repetindo altamente o que
já havia dito: "O que depois de mim há de vir me foi prefe­
rido, porque antes de mim era”; acrescentando mais, que da
sua plenidão havemos tudo; que Moisés nos dera a lei, mas
que Jesus Cristo trazia ao mundo a graça e a verdade; e que
c Unigênito que está no seio do Padre descera para dar-nos
Deus a conhecer; Deus que nenhum homem vira.
Enquanto assim e tão avantajadamente falava do Messias,
por Messias o tomavam, e de Jerusalém lhe enviaram saceç-
dotes e levitas (que todos eram fariseus e mui consideradòs
do povo) para saber quem êle era. Então confessou êle que
não era Cristo; e como lhe perguntassem se era Elias ou al­
gum dos profetas, e êle lhes respondesse igualmente que não,
disseram: "Pois quem és tu, para levarmos resposta a quem
nos enviou? Que é o que de ti dizes?” — "Sou, — lhes res­
pondeu, — a voz do que brada no deserto: Endireitai os ca­
minhos do Senhor”. E ainda insistiám: "Se não és o Mes­
sias nem profeta, por que batizas tu?” — "Eu sim, — lhes
tornou, — batizo com água; mas entre vós está quem vós não
eonheceis, que depois de mim virá, que me foi preferido, e a
quem não sou digno de desatar as correias das sandálias ”.
Aconteceu isto em Betânia, além do Jordão, onde João estava
pregando e batizando (14)*
Depois de quarentena, e vencidas as tentações, saiu Jesus
Cristo do deserto, e voltou aos síiios onde o Batista andava
pregando (em Betânia d^lém Jordão); e vindo no outro dia
procurar ao santo Precursor, não. quis êste perder a ocasião
de o dar a conhecer, e disse aos que ali se achavam: "Eis o
(14) Nota mui acertadamente o sábio Stolberg que havia duas
vilas com nome Betânia: uma onde morava Lázaro com _suas irmãs,
de que muitas vêzes fala o Evangelho, que era situada não longe de
Jerusalém, ao pé do monte Olivete; e outra na tribo de Ruben, além
do Jordão, a qual se chamou mais tarde Bethabara, provàvelmente
para se distinguir de Betânia: ali é onde batizava São João.
C R ISTO 99
Cordeiro de Deus, que tira e apaga os pecados do mundo. Êle
é de quem vos disse: depois de mim virá o que antes de mim
existe; eu não o conhecia, mas o que me enviou a batizar com
água me disse que aquêle sobre quem visse pousar o Espírito
Santo em forma de pompa, êsse batizaria no Espírito Santo.
Eu o vi (15), por isso dou testemunho que êle é o Filho de
Deus”.
No dia seguinte, duas horas antes do pôr do sol, tornou
Jesus Cristo a passar por aquêle sítio, e João que ali estava
com dois de seus discípulos, apenas o viu, exclamou: "Eis o
Cordeiro de Deus”. O que ouvindo os dois discípulos, se­
guiram a Jesus, que, voltando-se para êles, lhes perguntou:
"Quem buscais?” E êles lhe tornaram: "Mestre, onde assis-
tis?” — "Vinde e vêde”, lhes disse o Senhor. Foram ver sua
morada, e com êle ficaram aquêle dia. André, que era um dos
discípulos, tinha um irmão por nome Simão, a quem disse:
"Achamos o Messias”; e o trouxe a Jesus, que olhando para
êle, disse: "Tu és Simão, filho de João, que te chamarás Ce-
fas (Pedro) ”.
Querendo Jesus ir para Galiléia, no dia seguinte, encon­
trou-se com Filipe, que era de Betsaida (16), donde também
eram André e Pedro, e disse-lhe: "Segue-me”. Filipe encon­
trou à Natanael (17), e lhe deu a saber que descobrira o
Messias prometido na Lei, que era Jesus de.Nazaré: "Por­
ventura, — lhe tornou Natanael, — pode vir de Nazaré coisa
boa?”; mas nem por isso deixou de seguir a Filipe que o
levou a Jesus, o qual apenas o viu, lhe disse: "Verdadeiro
israelita, é êste, em quem engano n㣠há”. Antônio Natanael
lhe perguntou donde o conhecia; ao que respondeu Jesus:
"Vi-te quando estavas debaixo da figueira, antes que Filipe
te chamasse. — "Mestre, — disse então Natanael — vós sois
o filho de Deus, sois o rei de Israel”. Jesus Cristo lhe falou
depois assim: "Tu crês porque eu te disse que te vira de­
baixo da figueira; coisas maiores que.estas tens de ver. Em
verdade e mui verdade te digo que de agora em diante verás

(15) Isto é, vi o Espírito Santo descer sôbre êle em forma de


pomba, quando o batizei.
(16) Cidade de Galiléia, assentada nas ribeiras do Norte, no mar
de Tiberíades ou lago de Genesaré.
(17) É o mesmo que. Bartolomeu, que era o seu sobrenome. Na­
tanael significa dado por Deus e, Bartolomeu, filho de Tulomeu.
100 A N T O L O G IA D E VIDAS C É L E B R E S

o céu aberto, e os anjos de Deus subir e descer sobre o filhó


do homem
Três dias depois (18)> achou-se Jesus numas bodas que
se fazia em Caná de Galiléia (19), onde estava a Virgem Ma­
ria, e às quais êle com seus discípulos fora convidado (20).
Começava o vinho a faltar, e disse Maria a seu Filho: "Já
não têm vinho”. Cristo porém respondeu à sua mãe: "Mu­
lher, que nos vai a nós nisso? Ainda não é chegada a minha
hora” (21). Não se molestou a Senhora com esta resposta,
antes disse aos que serviam à mesa que fizessem 0 que êle
mandasse.

(18) Podem-se entender êstes três dias, ou da partida de Jesus


de Betânia, ou de sua chegada a Nazaré.
(19) Caná estava a umas duas léguas de Nazaré, outros que­
rem que fôsse mais perto.
(20) Jesus tinha então só quatro discípulos: 1.°,. André; 2.°, Si-
mão, seu irmão, a quem o Salvador pôs o nome de Céfas, isto é, Pe­
dro; 3.°, Filipe; 4.°, Natanael ou Bartolomeu. A Senhora achava-se
ali não só como convidada, senão como parenta dos noivos; por isso
se interessa em que nada falte.
(21) A palavra mulher parece-nos neste caso malsoante em nos­
sa língua, e sem dúvida um filho bem criado não chamaria a sua mãe
mulher; não sucede porém em hebreu e em grego. Entre os Hebreus,
não encerra nunca esta palavra idéia de desprêzo; ao contrário é mui­
tas vêzes um título de honra, que corresponde à nossa dona, senhora;
e S. João, pôsto que escreveu em grego, era Judeu, falava em estilo
hebráico. Tampouco teremos como repreensão as palavras de Jesus
quid est mihi et tibi, mulier*, que muitos traduzem ao pé da letra que
tenho _eu de ver convosco, nem vós comigo; mas cuja verdadeira tra­
dução é a que damos, isto é, que nos vai a nós nisso; porque, como
adverte S. Justino mártir, não foram estas palavras de repreensão,
senão de advertência de algum particular mistério, como ensina S.
Agostinho. Donde veio que a Mãe não tomou a mal a tais palavras;
antes, ensinada já no mistério, disse aos ministros que fizessem o
que êle mandasse. E tão alheia foi de repulsa a resposta, que por
amor da Senhora fêz Cristo o milagre. Donde S. Gaudêncio explica:
‘‘Não o disse o Salvador à Mãe por repreensão, mas quase que lhe
quis mostrar isto: Não somos nós outros os que temos à nossa conta
o vinho que nas bodas se gasta; com tudo, por amor de vós, já que
levais gôsto nisso, farei o que desejas”. E talvez ajuntasse algum
sinal ou inflexão de voz que desse a conhecer à sua Mãe a intenção
em que estava; por isso ela disse confiadamente aos ministros: “Fazei
o que êle vos disser”.1
E no que acrescenta: “Ainda não é chegada a minha hora”, não
quis dizer o Senhor que sua Mãe pedia fora de tempo que sè manifes­
tasse ao mundo por milagres <porque esta hora já era chegada), se-
C R I S TO 101

Havia na sala seis grandes talhas dè pedra que serviam


para as purificações, que entre os judeus eram de uso freqüen­
te; essas talhas mandou o Filho de Deus que as enchessem de
água; e cheias, disse aos serventes da mesa: "Tirai daí, e
levai ao mordomo (22). Provou o mordomo, e como achasse
que era vinho excelente, e não sabendo donde vinha, disse ao
noivo que ia a revés do uso; pois costumando todos dar o
melhor vinho no princípio do banquete, êle o dava no fim.

PRIMEIRO ANO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DE JESUS


CRlSTO, DESDE A PRIMEIRA PÁSCOA, QUE CELEBROU
DEPOIS DE SEU BATISMO ATÉ À SEGUNDA
LiçÃo XI
Jesus lança do templo os que nele mercadejavam — Prediz sua
ressurreição — Cólóquio entre Jesus e Nicodemos — Dá o
Batista novo testemunho de Jesus Cristo, e é prêso

De Caná se foi Jesus com sua Mãe, seus discípulos e pa­


rentes, para Cafarnaum (23); mas pouco ali se demorou,
porque partiu para Jerusalém a celebrar a Páscoa, cuja so­
lenidade era chegada. Achando lá no templo mercadores, que
vendiam bois, carneiros, pombas; e banqueiros sentados à suas
bancas fêz êle mesmo de cordas um açoite com que os espan-

não que a falta do vinho se não sentia ainda, e que em sentindo, êle
teria cuidado de acudir-lhes à sua hora. Nem a Senhora em* sua peti­
ção queria que logo, incontinenti, se fizesse o milagre, senão que ma­
nifestou o seu desejo para auando e como entendesse o Filhõ convinha
tazer-se. Isto melhor se entende se atendermos ao que as bodas entre
os Hebreus duravam sete dias, e que muitas vêzes acontecia não che­
gar até o fim o vinho que estava preparado; pelo que era mister pro­
ver com antecipação que não faltasse*
(22) Eram as talhas de boca larga, como vasos grandes, de modo
que não lançavam com elas como comquartas, senão metiam outros
vasos menores, como taças ou púcaros, com que tiravam livremente
o liquido que continham.
(23) Cidade opulenta e mui populosa da Galiléia, na foz do Jor­
dão no mar de Tiberíades, que foi dali para diante a morada mais
ordinária do Salvador, e como o centro de suas missões, e por isso
se chama muitas vêzes no Evangelho a sua cidade.
102 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

cou a todos do templo,; derribou-lhes as bancas e disse aos que


vendiam pombas: "Tirai daqui tudo isto e não façais da casa
de meu Pai casa de negócio”* Agastaram-se os judeus de tan­
to zêlo, e disseram: "Que prova nos dais de que tendes poder
para assim obrar?” E Jesus lhes respondeu: "Destruí êste
templo, e em três dias eu o reedificarei”. Entenderam êles
que Jesus Cristo falava do templo donde espancara os vende­
dores, sendo que falava de seu corpo verdadeiro templo de
Deus, que pela morte seria destruído, e ressurgiria ao terceiro
dia. Muitos milagres fêz em Jerusalém na festa da Páscoa,
que durava oito dias, e muitas pessoas creram nêle vendo os
prodígios que obrava.
Durante sua estada em Jerusalém, veio uma noite ter com
êle um senador judeu, da seita dos fariseus, chamado Nicode-
mos, e disse-lhe: "Mestre, sabemos que sois doutor na lei, e
que vindes da parte de Deus; porque ninguém fizera os mila­
gres que vós fazeis, se Deus não fora com êle”. — Jesus: "Na
verdade te digo que quem não renasce da água e do Espírito
Santo não pode ver o reino de Deus”. — Nicodemos: "Como
pode um homem nascer outra vez quando já está adiantado
em idade?” — Jesus: "Em verdade e mui verdade, te digo
que quem não nascer da água e do Espírito Santo não entrará
no reino de Deus. Carne é o que de carne procede, e espírito
é o que vem do espírito e onde lhe agrada o espírito sopra”
(24). — Nicodemos: "Como se pode isto fazer?” — Jesus:
"És mestre em Israel e não sabes estas coisas? Em verdade
e mui verdade, te digo que nós dizemos o que sabemos e da­
mos testemunho do que vimos, e vós contudo não recebeis o
nosso testemunho. Se quando eu vos falo das coisas terrenas
não me credes, como me crereis se vos falar das celestiais?
Também não subirá ao céu senão o que dêle desceu, a saber,
o filho do homem que está no céu (25). E assim como Moisés

(24) Entende-se do Espírito Santo, cujas obras exteriores são as


virtudes e os milagres; ou podemos entender com S. João Crisóstomo
e S. Cyrillo que Jesus Cristo usou aqui da comparação do espírito
material, que é o vento, para explicar o oculto modo de obrar nas
almas o Espírito Santo.
(25) Jesus Cristo chama-se a si mesmo, por humildade, filho do
hõmem; mas sua intenção é mostrar sempre que êle é o Filho de Deus,
o Verbo Eterno que está em Deus, e é Deus com o Padre e com o
Espírito Santo, como se colhe do (Contexto.
C R ISTO 103
levantou a serpente no deserto, assim importa seja levantado
o filho do homem, para que todo o que nêle crê não pereça,
mas tenha a vida eterna. Porque Deus amou tanto o mundo,
que lhe deu o seu Unigênito Filho; e não o enviou para con­
denar o mundo, senão para que o mundo seja salvo por êle.
Porém o que não crer já èstá condenado; porque Deüs man­
dou a Luz ao mundo, e os homens, em lugar de receberem a
luz que veio alumiá-los, querem antes ficar nas trevas e escoü-
der suas obras do esplendor da verdade por que os não con­
vençam de suas más obras”.
Passada a festa da Páscoa foi Jesus Cristo com seus dis­
cípulos para as terras de Judéia, e lá batizava, enquanto São
Jòão continuava também a batizar nas margens do Jordão.
Tiveram seus discípulos certa disputa com os judeus acêrca
do batismo, e como viessem dizer a seu mestre que aquêle a
quem dera testemunho batizava também e todos corriam a êle,
respondeu-lhes São João: "Vós mesmos sois testemunhas de.
que vos disse: Eu não sou o Messias, mas sou mandado adian­
te dêle. Eu não sou o Esposo (da Igreja), senão o amigo dò
Esposo, e portanto a glória me vem de ouvir a voz do Esposo.
Convém que êle cresça e eu diminua. Jesús Cristo, que veio
do céu, é acima de todos; fala do que viu e ouviu; quem seu
testemunho recebe testifica que Deus é verdadeiro; Deus, que
o enviou, tudo pôs em suas mãos. Jesus Cristo é filho de Deus,
é quem nêle crê tem a vida eterna; e pelo contrário quem não
crê nêle a perde, e se torna alvo da ira de Deus, que sobre
ele mora”.
Não se contentou João com dar testemunho de Jesus
Cristo às turbas do Jordão, mas foi ã corte do príncipe dar
testemunho à justiça. Reinava em Galiléia Herodes Antipas,
filho do grande Herodes, sob cujo reinado nascera Jesus Cris­
to; e como desse grande escândalo por se ter desposado, con*-
tra todas as leis, com a mulher de seu irmão, lançou-lhe em
rosto o santo Precursor tão feio crime, e por ventura o trou­
xera ao arrependimento, senão fora Herodias, que perverteu
a tal ponto o ânimo de Herodes que sobre culpado se fêz cruel,
inundando lançar em ferros a João. Batista, e o mandara ma­
tar se não temera o póvo que o olhava còmo um santo profeta.
104 A N T O L O G IA D E VJD AS C É L E B R E S

Lição XII
Prática que teve Jesus Cristo com a samaritana
Tendo Jesus notícia que o Precursor estava prêso, e que
os fariseus já sabiam que êle tinha discípulos e que batizava
mais pessoas ainda que João, bem que não êle, mas seus dis­
cípulos as batizassem, retirou-se da Judéia para Galiléia e fêz
caminho pela Samaria..
Era perto do meio-dia quando entrou nos arrabaldes de
Sichar (26), onde cansado se assentou à borda do poço cha­
mado de Jacob, numa terra que outrora dera a José seu filho
aquêle patriarca; e vendo chegar a tirar água uma mulher^
lhe disse Jesus: "Dá-me de beber”. Não estavam ali os dis­
cípulos de Jesus, que tinham ido à cidade comprar mantimen­
tos. — Â samaritana: "Como é que tu, sendo judeu, me pedes
de beber a mim, que sou samaritana?” (27) — Jesus: "Se
conheceras o dom que te vem de Deus, e souberas quem é o
que pede de beber, tu lho requererias, e êle te daria a água
que dá vida. — A samaritana: "Tu não tens, Senhor, com que
tirar água, e é fundo o poço. Onde tens pois essa água que
dá vida? És acaso maior que nosso pai Jacob que nos deu êste
poço, e de que êle bebeu com toda sua família e seus gados?”
— Jesus: "O que bebe desta água ficará com sêde, porém o
que beber da água que eu dou não terá mais sêde por toda a
eternidade”. A samaritana: "Dá-me, Senhor, dessa água”. —
Jesus: "Vai chamar teu marido”. — A samaritana: "Eu não
tenho marido”. — Jesus: "Dizes a verdade. Tens tido cinco
maridos, mas o que agora tens não é teu marido”. — A sama­
ritana: "Bem vejo, Senhor, que és profeta: nossos pais ado­
raram neste monte (28), e vós outros, judeus, dizeis que em
Jerusalém é que se deve adorar”. — Jesus: "Mulher, crê o
que te digo; chegada é a hora em que não será nem sobre êste
(26) O mesmo que Sichem, perto do monte Garizim, que foi por
muito tempo a capital da Samaria, uma das quatro partes em que es­
tava dividida a Palestina no tempo dos Romanos; estava situada entre
a Galiléia ao N., a Judéia ao S., o Jordão a L. e o mar a O.
(27) Os Samaritanos, isto é, os habitantes de Samaria, eram
olhados pelos Judeus como infiéis, com os quais lhes não era permi­
tido comunicar, como se fossem pagãos.
(28) O monte Garizim, na tribo de Efraim, onde os Samarita­
nos edificaram um templo em oposição ao de Jerusalém.
CR ISTO 105

monte nem em Jerusalém que cumprirá adorar o Padre. Os


verdadeiros adoradores adoraram o Padre em espírito e ver­
dade. Deus é espírito, e os que o adoram devem adorá-lo em
espírito e verdade”. — A samaritana: "Sei que há de vir o
Messias, e que vindo nos ensinará tudo”. — Jesus: "Eu sou
o Messias que falo contigo”.
Chegaram entanto os discípulos, e ficaram maravilhados
de ver a Jesus conversando com uma mulher; mas respeitosos
nada perguntaram. Ela porém, deixando a quarta voltou à
cidade, e disse aos moradores: "Vinde ver um homem que
nie disse quanto eu tenho feito; não seja êle porventura o
Cristo!” Ficara Jesus à borda do poço, e instando com êle
os discípulos que comesse: "Manjar tenho para comer, — lhes
disse — que vós não conheceis”. E então lhes explicou que
manjar era, dizendo: "O meu sustento é fazer a vontade de
quem me enviou, e de perfazer sua obra. Era esta obra a
salvação dos homens, e seu sustento a fé dos que convertia.
Nisto chegou a mulher com os moradores de Sichar, que
sobre seu dito criam já nêle, e vinham rogar-lhe que com êles
ficasse. Jesus ali passou dois dias; e com suas falas os for^
tificou na fé, e avultou o número dos que nêle criam, de modo
que já diziam à mulher: "Não já pelo que nos disseste, senão
pelo que lhe ouvimos e sabemos, é êle o verdadeiro Salvador
do mundo”.

L ição XIII

Prega Jesus Cristo em Galiléia — Cura um filho do Régulo


— Os moradores de Nazaré querem matá-lo — Vocação ãe
quatro Apóstolos

Dois dias depois, saiu Jesus de Sichar e continuou sua


jornada para Galiléia, e os galileus o acolheram bem, porque
diante dêle ia a fama dos milagres que fizera em Jerusalém
na solenidade da Páscoa. Então começou a pregar claramente
o reino de Deus, e dizia: "Chegado é o tempo, e vindo é o
reino de Deus; crede no Evangelho”. Isto ensinava nas sina­
gogas com grande aceitação, porque todos o estimavam, e sua
fama se espalhou por tôda Galiléia e regiões vizinhas, e de
todas as partes lhe corria gente.
106 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

Um dia que estava em Caná, onde convertera a água em


vinho, veio o Régulo de Cafarnaum pedir-lhe que viesse com
êle à sua casa para dar saúde a seu filho que estava a morrer;
e Jesus, que conhecia os corações, e via quão imperfeita era
a fé de quem o vinha rogar, disse-lhe: "Não credes, a menos
que não vejais prodígios e milagres”. Instava porém o Régulo
que viesse, que seu filho estava à morte; então lhe disse Jesus:
"Vai, teu filho vive”. .. Aqui creu no que Jesus lhe disse, e
foi-se; no caminho o encontraram os servos, que corriam a
noticiar-lhe que seu filho estava bom, e informado da hora
(uma da tarde) em que a febre se despedira, viu que era a
mesma em que Jesus Cristo lhe dissera: "Teu filho vive”.
Com tal milagre, êle e tôda sua família creram em Jesus Cristo.
Veio depois Jesus a Nazaré sua pátria, e ia nos sábados
à sinagoga segundo seu costume, e como um dia lhe apresen­
tassem o livro de Isaías para ler, abriu-o êle justamente no
capítulo LXII, e leu em voz alta as palavras do profeta que
dizem assim: "O Espírito do Senhor é sobre mim,; êle me en­
viou para anunciar o Evangelho aos pobres, para curar ó co­
ração dos afligidos, para pregar a liberdade aos cativos, e pãrá
publicar o ano de graça do Senhor e o dia do perdão”. Lidas
estas palavras, fechou o livro, deu-o ao ministro, assentòu-se,
e à vista dê todos, que nêle tinham fitos us olhos, falou assini:
"Hoje se cumpre à vossa vista esta profecia, ó vós todos que
me ouvis”. E todos estavam admirados das palavras de graça
que saíam de sua boca, e diziam entre si: "Não é êste o filho
de José?” Porém Jesus disse-lhes: "Em verdade vos digo
que nenhum profeta é honrado em sua terra”. E provou-lhes
com o exemplo de Elias e Eliseu, que muita razão tinha de
não obrar entre êles os milagres que obrava noutros lugares.
Indignaram-se os circunstantes de tal ouvirem, lêvàntaram-se,
saíram da sinagoga, levaràm-no de força ao alto do monte onde
estava edificada a cidade, e quiseram deitá-lo dali a baixo;
porém Jesus escapou-se por entre o povo e retirou-se não só
longe do lago de Genesaré ou de Tiberíades, chamado tam­
bém no Evangelho mar, e às vêzes de Galiléia por ficar ao
nascente desta província e darem sobre êle muitas de suas
terras (29).

(29) No Antigo Testamento, tinha êste lago o nome de Cinnereth,


depois se mudou em Gennesareth. Deu-se-lhe também o nome dè Ti­
beríades, por causa da cidade dê Tibérias, que Herodes Antipas edi-
ficou à borda do lago, em honra do imperador Tibério. Segundo
C R ISTO 107
Um dia que Jesus Cristo caminhava pela praia dêste lago,
viu dois pescadores que nêle lançavam suas rêdes; eram Simão
e André, que já se tinham associado com êle por algum tem­
po, mas não de todo, antes, tornaram a seu antigo emprêgo;
e disse-lhes: "Segui-me, eu vos farei pescadores de homens”.
Abandonaram êles barcos e rêdes, e o seguiram. E como visse
mais ao longe dois outros pescadores, que eram Tiago e João,
filhos de Zebedeu, que estavam consertando suas rêdes numa
barca com seu pai, chamou-os igualmente; e êles deixaram tudo
para seguir a Jesus Cristo.

LiçAo XIV
Pescaria milagrosa — Milagre do possesso do demônio imundo
Jesus Cristo dá saúde à sogra de Pedro e a outros enfermos
— Cura um paralítico, e chama São Mateus

Estando Jesus na praia do lago de Genesaré, apertado


da multidão que corria a ouvir a palavra de Deus, viu duas
barcas, cujos pescadores tinham saído em terra a lavar as rê­
des; entrou na de Simão, e posto ao largo se assentou, e co­
meçou a doutrinar as turbas. Acabada a prática, disse a Si-
mão; "Faze-te mais ao mar e deita as rêdes”. — "Mestre, —
lhe respondeu Simão, — toda a noite trabalhamos e nada apa­
nhamos ; sobre vossa palavra deitarei não obstante as rêdes
Assim o fêz, e dum só lanço apanhou tanto peixe que a rêde
se rompia, e não a podiam meter na barca; chamaram os da
cnitra barca para os ajudar, e ambas as barcas ficaram tão
chèias que quase afundavam. Assombrado Simão, com êste
milagre, deitou-se aos pés de Jesus Cristo, dizendo: "Afastai-
-vos, Senhor, de mim, que sou grande pecador”. Ao que Jesus
tornou: "Não temas, de ora em diante serás pescador de ho-

Josefo, tem êle três léguas de comprido e uma de largo; espraia-se


entre Jerusalém e Damasco, é atravessado pelo Jordão, que vai lavar
Jericó, e pérto dali se vai meter no mar Morto; é mui piscoso, e mui
férteis suas ribeiras, então povoadas de florescentes e opulentas cida­
des: Eram doces e potáveis suas águas, e se o Evangelho lhe chama
mar é porque os Hebreus a todos os ajuntamentos dágua chamavam
mares, e pela mesma razão chamavam ao Mediterrâneo mar Grande.
108 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

mens” (30). Encalharam então as barcas em terra, deixaram


tudo e seguiram-no.
Morava Jesus em Cafarnaum com seus discípulos, e con­
tinuava e pregar na sinagoga, onde achando-se um sábado, co­
meçou um possesso a gritar: "Deixa-nos, que temos nós con­
tigo, Jesus de Nazaré? Bem sei quem és. És o santo de
Deus”. — "Cala-te, — lhe disse Jesus, — e sai dêsse homem”.
Vendo-se o demônio assim forçado a largar a prêsa, com
tais convulsões o atormentou, que o homem se torcia, despe­
daçava por terra, e dava gritos; mas por fim o deixou são e
salvo. Quantos foram testemunhas deste prodígio, entraram
em grande espanto, e diziam entre si: "Que homem! e que
palavras tão forçosas, aue mandam com império aos espíritos
imundos que saiam, e êles saem!”
Saindo da sinagoga, se foi com os dois filhos de Zebedeu
à casa de Simão e André, onde achou a sogra de Simão doente
com grandes febres (31); rogaram-lhe por ela os discípulos,
e Jesus, chegando-se ao leito, pegou-lhe pela mão, mandou à
febre aue a deixasse: naquele instante se despediu a febre, e
a doente se sentiu tão sã e vigorosa que se levantou da cama
e se pôs a servi-los e a preparar-lhe a comida.
Correu fama por todo Cafarnaum dos milagres que fazia
Jesus de Nazaré, de modo que ao sol posto estava toda a ci­
dade à porta da casa, e quantos tinham doentes lhos traziam,
e Jesus pondo-lhes as mãos os sarava; lançava com palavras
os demônios, os quais auando saíam dos possessos, iam gritan­
do: "Tu és filho de Deus”. Mas o Senhor os ameaçava, e
lhes pôs por preceito não dissessem que era êle Cristo (32).
Estando um dia Jesus numa casa em Cafarnaum, onde
havia fariseus e doutores da lei que vieram de todas as aldeias
da Galiléia, da Judéia, e até mesmo de Jerusalém, para o ve-
(30) É provável que êste milagre, referido por S. Lucas, acom­
panhou o chamamento de Simão e André, assim como o de Tiago e
João, de que falamos na precedente lição.
(31) Provàvelmente eram febres intermitentes ou cesoes.
(32) Jesus Cristo pôs êste preceito ao demônio; ou já porque
não queria ouvir seus louvores da boca dos espíritos imundos; nem
fôsse a. verdade apregoada pelo pai da mentira; ou já porque queria
dar a conhecer que nenhum comércio tinha com os demônios, ante­
vendo bem que inventaria a calúnia um dia contra êle, que em nome
de Belzebub, príncipe dos demônios, os expulsava.
C R I S T O 109
irem e ouvirem, aos quais todos pregava a palavra de Deus, e
lhes mostrava o poder que tinha de curar enfermos, chegaram
ali uns homens que traziam um paralítico; e como não pudes­
sem chegar à porta pelo grande apêrto que faziam as turbas,
subiram-no ao eirado da casa (33), fizeram uma abertura no
tato, e desceram por ela o catre do doente ao quarto onde es­
tava Jesus Cristo, que, vendo sua fé, disse ao paralítico: "Tem
confiança, meu filho; teus pecados te são perdoados”. Desa­
gradaram aos fariseus e aos doutores estas palavras, e imagi­
navam que êle blasfemava, porquanto só Deus pode perdoar
pecados; mas Jesus, que presenciava seus pensamentos, disse-
-Ihes: "Por que ocupais o ânimo com maus pensamentos?
Qual é mais fácil dizer a êste paralítico: "São-te perdoados
teus pecados, ou ergue-te, toma o teu leito e vai-te? Para que
saibais que o Filho do homem tem na terra poder de perdoar
pecados: Ergue-te (disse ao paralítico), pega no teu leito e
vai para tua casa”.
No mesmo instante, ergueu-se o enfêrmo à vista de todos,
pôs aos ombros o leito, e caminhou para casa, dando glória
a Deus. Comovidos ficaram dêste milagre os assistentes, to­
dos davam glória a Deus que tal poder dera aos homens, e no
espanto em que os lançara êste prodígio, diziam: "Admirá­
veis* coisas vimos hoje, e semelhantes nunca nós a vimos”.
Saindo Jesus desta casa, e encaminhando-se ao lago de
Genesaré, viu um publicano (34) sentado no seu telônio
(mesa de arrecadação), e disse-lhe: "Segue-me”. Chamava­
-se êle Levi, ou Mateus, e era filho de Alfeu; levantou-se
logo, deixou tudo, e juntou-se à comitiva de quem o chamara;
e depois o convidou a um banquete que em sua casa queria
dar-lhe e aos mais discípulos, onde se acharam à mesa vários
outros publicanos e pessoas de má fama. Não podiam os fa­
riseus e doutores sofrer que comunicasse o Salvador com pe­
cadores e publicanos aborrecidos dos judeus; murmuravam
entre si, e perguntavam aos discípulos: "Por que comei e
bebeis vós e vosso Mestre com gente desta relé?” Jesus que
(33) As escadas das casas dos Judeus eram ordinàriamente por
fora, por elas se subia ao teto que era de esteira em forma de terrado
ou sotéia, como ainda hoje se usa na África, em Andaluzia, no Algar-
ve, etc.
(34) Rendeiro, ou arrecadador de renda pública ou direitos de
alfândega. Os publicanos eram mal vistos dos Judeus, porque cobra­
vam e talvez extorquiam, os direitos para os Romanos ou príncipes
estrangeiros como Herodes.
110 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

lhes ouvia a murmuração, respondeu: "Não os sãos, mas os


enfermos necessitam do médico; nem eu vim chamar os justos,
senão os pecadores. Ide e aprendei o que significam estas pa­
lavras da Escritura: Misericórdia quero, não sacrifícios”.
Não aplacou esta resposta os queixumes todos dos fari­
seus, que juntos com os discípulos do Batista se chegaram a
êle e lhe perguntaram: "Porque jejuam e oram tanto os dis­
cípulos de João e os dos fariseus, sendo que os teus não je­
juam?” — "Fareis-vós — lhe tornou Jesus Cristo, — jejuar
os amigos do Esposo? Ou, enquanto o têm consigo, prantear
e estar de nojo? Tempo virá em que o Esposo os deixará e
então jejuarão”. E para lhes fazer entender que êle atendia
muito à fraqueza dos homens e não queria impor-lhes de re­
pente todò o rigor do Evangelho, ajuntou: "Ninguém conserta
um fato velho e usado com pano novo, porque se rasgaria,
nem põe vinho novo em odres velhos, porque se romperiam”.
E com êste argumento, tirado da fraqueza dos discípulos, insi­
nuou aos fariseus que pôr grossos preceitos sobre fracos om­
bros era estragar tudo, como êles haviam feito com seus rigo­
res e hipocrisias.
CAPÍTULO III
§ III
LIÇÃO XV
SEGUNDO ANO DO MINISTÉRIO DE JESUS CRISTO
DESDE A SEGUNDA ATÉ À TERCEIRA PÁSCOA
Jesus dá saúde a um homem que havia trinta e oito anos a
perdera, e ensiwa que êle é o Filho de Deus — Desculpa a seus
discípulos — Volta a Cafarnaum, onde cura um homem que
tinha a mão seca — Repreende os fariseus

Sendo chegada a solenidade de Páscoa, partiu Jesus Cristo


para Jerusalém, para ali celebrar a grande festa segundo o seu
costume. Havia perto do templo um lavatório, ou tanque que
se chamava a Piscina probática (35), cujas águas saravam,
por virtude milagrosa, os doentes' que ali entravam. Todos os
anos, descia em certo tempo um anjo, revolvia a água, e o
primeiro que nela entrava saía são de qualquer moléstia que
tivesse; razão por que as cinco galerias da Piscina estavam pe­
jadas de enfermos esperando pelo revolvimento da água. En­
tre êstes estava um que havia trinta e oito anos que padecia,
o que sabendo Jesus Cristo lhe disse: "Queres ter saúde?” —
"Não tenho, Senhor, — respondeu — quem me lance à Pisci­
na quando a água é revolvida, e enquanto desço, entra nela
outro”. — "Ergue-te, — disse Jesus, — toma o teu leito, e
vai-te”. No mesmo instante se achou são; pegou no leito, e
foi-se.
(35) Isto é das ovelhas, porque ali se lavavam para os sacrifí­
cios; também se chamava em hebreu Bethsaida, que significa casa de
graça ou de misericórdia.
112 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

Era num sábado, e os judeus o argüíam de quebrantar a


lei levando o leito às costas; mas êle lhes respondeu: "Quem
me curou me disse, que levasse dali a minha cama e que me
fosse”. Então lhe perguntaram que homem era aquêle; mas
êle o ignorava, porquanto Jesus Cristo se retirou logo da tur­
ba. Sucedeu porém que encontrando-o o Senhor no templo,
lhe disse: "Eis-te são; não peques, por que pior te não venha”.
Partiu êle logo a noticiar aos judeus que Jesus fora que o
curara; donde tomaram êles ocasião de perseguir o Filho de
Deus; e porquanto lhe competia obrar incessantemente com o
Padre, disso conceberam ainda maior ódio, não só de que não
guardava o sábado, mas de que dizia ser o Filho de Deus e
igual a Êle. Acêrca do que fêz o Salvador uma excelente prá­
tica, em que lhes demonstrava sua divindade e que de seu Pai
recebera todo o poder de obrar, julgar e ressuscitar. Que não
êle dava testemunho de si, mas dava-o São João, davam-no
suas obras e milagres, dava-o seu Pai, davam-no as Escrituras.
Que êles porém a nada se rendiam, porque não amavam a
Deus, e que em vez de buscarem a glória que de Deus vem,
buscavam a que os homens dão.
Pouco tempo depois, passava Jesus no dia do sábado por
uns trigos, que estavam já louros; e como estivessem famintos
seus discípulos, colheram algumas espigas e debulhando-as nas
mãos, lhe comeram os grãos; o que vendo os fariseus se quei­
xaram ao divino Mestre, dizendo: "Fazem teus discípulos o
que não é lícito fazer no sábado”. Mas o Senhor lhes fêz bem
compreender: 1.°) com o exemplo de David, que em urgente
necessidade comera os pães de proposição, que só aos sacerdo-
. tes era permitido comer (36), quando a necessidade dispensa
a lei; 2.°) com o exemplo dos sacerdotes que, sem transgredir
os sábados, degolam no templo as reses não obstante a lei, que
defende no sábado todo e qualquer trabalho. Que se êles pre­
textavam que o Templo sanava êsses atos, podia êle melhor
sanar a ação de seus discípulos, pois era maior que o Templo.
Que entendessem que a misericórdia é mais aceita que o sacri-
ficio, e que se não hão de condenar temerãriamente os inocen­
tes; e terminou dizendo: "O sábado fêz-se para o homem e,
não o homem para o sábado. Finalmente o Filho do homem
é Senhor até o sábado”.
Esta mesma queixa de não guardar o sábado lhe fizeram
os fariseus em Cafarnaum, e para o tentarem mandaram vir
(36) Como se vé na vida de David.
Jesus com Marta e Maria
A volta do filho 'pródigo
A colheita no dia de sábado
O filho pródigo nos braços de seu pai
Jesus curando os enfermos
C R ISTO 113

num sábado, à sinagoga onde se achava Jesus um homem que


tinha a mão sêca do ar. Conheceu logo Jesus seus intentos,
mandou pôr o homem no meio da casa, e virando-se para os
fariseus, disse-lhes: "Qual de vós não iria buscar uma ovelha
que lhe tivesse caído num poço no sábado? Ora, quanto não
vale mais um homem que uma ovelha? Não se poderá pois
fazer bem aos homens no sábado?” Ficaram calados, e não
souberam que responder-lhe. Jesus porém, vendo sua turva-
ção, disse ao doente: "Levanta a mão”. Levantou-a êle, e
estava curada e vigorosa. Em vez de se convencerem os fari­
seus, conceberam entranhável ódio contra Jesus, e desde logo
começaram a mancomunar-se com os herodianos para perde­
rem a Jesus; mas o Salvador, conhecendo seus intentos, reti­
rou-se às praias de Genesaré, e entrou numa barca para se ver
livre das turbas que o seguiam e importunavam, sem lhe dei­
xarem um instante de repouso; e os que tinham alguma en­
fermidade corriam para tocarem suas roupas, pois dêle saía
uma virtude que a todos sarava.

LIÇÃO XVI

Escolhe doze Apóstolos e prega no monte

Subiu Jesus a um monte vizinho de Cafarnaum, onde


passou toda a noite em oração, e quando raiou o dia chamou
os discípulos, e entre êles escolheu doze, e lhes deu o nome de
Apóstolos, que quer dizer Enviados, pois que a pregar o Evan­
gelho os enviava com poderes de curar enfermos e afugentar
demônios. E foram escolhidos Simão, que já chamava Pedro;
André, seu irmão; os dois filhos de Zebedeu (Tiago maior e
João), a quem deu o nome de Boanerges ou filhos de trovão,
Filipe, Bartolomeu, Mateus, a quem tirou de telônio; Tomé,
Tiago menor, filho de Alfeu, e seu irmão Judas Tadeu, Simão
o Cananeu, e Judas Iscariotes, que depois entregou a Cristo.
Desceu depois com êles, e numa planície, que o monte ali
fazia, parou, porque lá se achavam as turbas que vieram para
ouvi-lo, lidando cada um por tocar-lhe, que dêle saía tal vir­
tude que todos sarava. E como entre êles havia alguns que
114 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

estavam possessos do demônio, a todos deu saúde; e tendo aca­


bado, fêz a tôda aquela gente uma prática que encerra todas
as máximas do cristianismo, tomando por exórdio a essência
da felicidade, e ensinou:
1.°) Que a felicidade do homem não consiste naquilo em
que êle a põe.
"Bem-aventurados, dizia, são os pobres de espírito (37),
porque dêles é o reino dos céus. Bem-aventurados os brandos
de condição, porque êsses possuirão a terra (38). Bem-aven­
turados os que choram, porque serão consolados. Bem-aven­
turados os que têem fome e sêde de justiça, porque ainda se
verão fartos. Bem-aventurados os que têm coração puro, por­
que êsses verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos, porque
se chamarão filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem
perseguição pela justiça, porque dêles é o reino do céu. Então
sereis ditosos e bem-aventurados (39) quando os homens vos
tiverem ódio, e vos perseguirem por amor de mim; quando
vos carregarem de cadeias e vos disserem injúrias e afrontas,
quando fugirem de vós e vos lançarem de si, quando até vosso
nome for dêles aborrecido e abominado. Mas, quando tudo
isto padecerdes por amor de mim, não vos deveis entristecer,
senão alegrar e triunfar de prazer; porque o prêmio que de
tudo haveis de receber no céu é muito copioso”. Depois acres­
centou (como se lê em São Lucas) : "Ai de vós, ricos, porque
recebestes neste mundo vossa consolação; ai de vós que viveis
fartos, porque tereis fome; ai de vós que agora rides, porque
dia virá em que chorareis e soluçareis; ai de vós que sois

(37) Isto é os que têm espírito de pobreza, ou porque renuncia­


ram voluntàriamente às riquezas, ou porque delas fazem bom uso e
não os prende a cobiça aos bens do mundo.
(38) Gozarão de paz interior na terra, ou, como explicam os
Santos Padres, possuirão o Paraíso, que é a terra dos vivos, a herança
dos que sofrem com mansidão que lhes tirem quanto lhes vem do
mundo, quando conservá-lo não podem sem ofender a Deus.
(39) Aqui fala particularmente a seus discípulos. Tudo que Je­
sus Cristo diz no sermão do monte são conselhos que dá e não precei­
tos, e só vêm a ser preceitos para os que a êles se ligam por votos
solenes.
C R ISTO 115

louvados pelos homens, porque dêste modo foram louvados e


aplaudidos os falsos profetas”.
2.°) Para ganhar a salvação, é mister edificar a seu pró­
ximo com o bom exemplo, e guardar a lei de Deus, não só
exteriormente, mas no coração.
"Sois o sal da terra e a luz do mundo, disse depois a seus
discípulos; pela pureza de vossa vida, haveis de reformar os
costumes dos homens, e pela luz de vossa doutrina haveis de
desterrar sua cegueira. Brilhe pois vossa luz diante dos ho­
mens, como a dum candelabro, para que êles vejam vossas
boas obras, e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. Não
julgueis que vim a destruir a Lei, mas a preenchê-la e a dar-
-lhe perfeição. O que ensinar os mandamentos e os puser por
obra êsse será grande no reino dos cêus. Se vossa justiça não
for mais perfeita que a dos escribas e fariseus (40), não en-
trareis no reino dos céus. Tendes ouvido que foi dito aos an­
tigos: Não mates, e quem matar será réu no juízo. Pois eu
digo-vos: Que todo que se irar contra seu irmão será réu no
juízo. O que disser a seu irmão Racá será réu de conselho;
e o que lhe disser és um parvo será réu do suplício do fogo
(41). Quando fizerdes alguma oferenda, e vos lembrar que
ofendestes a vosso irmão, ponde vossa oferenda.ao pé do altar
e ide-vos reconciliar primeiro com êle, e depois a porei sobre

(40) Os escribas eram os doutores da Lei, a maior parte dos


quais não compreendia as profecias que diziam respeito ao Messias,
senão num sentido mundano e sensual; indignavam-se da humildade
de Jesus Cristo e de não anunciar êle senão um reino espiritual.
Os fariseus formavam uma numerosa seita entre os Judeus; afe­
tavam grande devoção e muitas práticas que a lei de Moisés não pres­
crevia, e olhavam com desprêzo altivo aos que não viviam como êles;
daqui o nome de fariseus, que significava separados.
(41) Para se entender bem o que diz Jesus Cristo nestas compa­
rações, é mister saber que naquele tempo havia entre os Judeus três
sortes de tribunais: uns, compostos de três juizes, que residiam nas
vilas ou aldeias, conheciam das causas pecuniárias, como as de fruto,
etc.; outros, mais elevados, compostos de vinte e três juizes, só resi­
diam nas cidades principais e sentenciavam causas mais graves, como
homicídios, etc.; também lhe chamavam sinedrio menor, porque tinha
direito de vida e de morte. A êstes tribunais chama a Vulgata juízo
ou julgado. Com a denominação de conselho quer indicar claramente
o Salvador o conselho supremo ou sinedrio maior, composto de se­
tenta e dois juizes que residiam em Jerusalém, e conheciam dos cri­
mes de suma gravidade, como de lesa-majéstáde, etc. Por estas com­
parações quer fazer-nos en tender que para cometer um pecado mortal,
116 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

o altar. Reconciliai-vos enquanto estais em caminho, não acon­


teça que êle vos entregue a seus ministros e vos metam na
cadeia. Na verdade vos digo que não saireis de lá sem que
pagueis o último ceitil.
não é necessário matar a seu irmão; mas que é digno das penas eter­
nas o que se deixa levar da ira violenta, e injuria e ultraja a seu
próximo.
A palavra racá vem, segundo a melhor etimologia, da raiz he-
bráica raqaq ou yaraq, que significa cuspir, escarrar, como se dissésse­
mos em latim conspuendus, que merece que lhe cuspam na cara, ou
simplesmente cuspir de alguém por desprêzo. Era uma espécie de
interjeição de desprêzo, mas não tão ofensivo como chamar a alguém
parvo, tolo, tonto, etc., como se colhe do contexto, pois a demência
se atribuía, à desordem do coração e não à do espirito.
O suplício do fogo é designado no Evangelho pela palavra gehen-
na, na qual designa em sentido próprio um vale nos arredores de
Jerusalém, que primitivamente se chamava Ben-Hinnon ou Gebenei-
Hinnon, vale aos filhos de Hinnon, que foram provàvelmente seus
possuidores. Tornou-se aquêle vale, por muitas razões, um objeto de
horror. Ali sacrificaram os reis apóstatas aos ídolos; ali erigiram a
estátua de Moloch, a quem muitos Israelitas ofereciam seus filhos,
passando-os pelo fogo, ou pondo-os nos braços candentes do ídolo dos
Amonitas. Grassava naquele vale um ar mau e infecto, pelo que
conservava sempre ali um fogo continuo, que servia também para
queimar os corpos mortos, o que deu ocasião a que se olhasse aquêle
lugar como a imagem do inferno e que até se designasse o inlemo
com o nome de Gehenna.
O padre Sepulcro explica muito bem os três graus de ira de que
fala Jesus Cristo; em resumo diz: “O primeiro é meramente interior,
quanao em seu pensamento alguém se agasta e indigna contra seu
proximo, deseja vingar-se dêle, ainda que o não dê a conhecer por
nennum sinal exterior; porque a ira em boa filosofia é apetite ou
desejo de vingança. E isto e o que diz: O que se irar contra seu
irmao será réu do juízo, divino, se entende, e no foro da consciência,
acusado diante do tribunal divino, como o que realmente matar terá
a pena de morte no tribunal humano.
“O segundo modo já é exterior, e sai a público por alguns sinais,
e rompe a ira inferior em alguma demonstração da paixao contra o
próximo, posto que não com injúria formal e aeterminada. E isto é o
que acrescenta: O que disser a seu irmão racá será réu de conselho;
isto é, que podem ja proceder contra êle; porque racá é mais interjei­
ção que exprime naturalmente mau ânimo, que palavra que signifi­
que injúria particular.
“O terceiro modo é mais grave, porque rompe em vitupério e
afronta do próximo; pelo que fica merecedor de maior e extrema
pena. E isto é o que diz: O que chamar a seu irmão: parvo, néscio
ou tonto, que tudo quer dizer a palavra fatue, que é afrontá-lo, com
lhe opor a falta que da natureza teve, ou lhe impor a que não tem.
Assim que vem o Senhor a dizer que de qualquer modo que ofenda
ao próximo, por pensamento, palavras ou obras, sempre é ato con­
trário à virtude, e como tal merece pena”. (Refeição espiritual, part.
ii, cap. v n ).
C R ISTO 117

"Sabeis muito bem o que diz a Lei: Não cometas adulté­


rio; e eu digo-vos que o que olhar com maus desejos para uma
mulher, já cometeu adultério em seu coração. Diz-vos tam­
bém a Lei que não haveis de jurar falso, e eu digo-vos que de
modo nenhum jureis (41-A). Contentai-vos com dizer sim,
sim, não, não. Lê-se também na Lei olho por olho, dente por
dente; e eu digo-vos: Não resistais à ofensa ou dano que quei­
ram fazer-vos. Antes quando alguém vos der uma bofetada
na face esquerda, apresentai-lhe a direita. Se alguém vos pu­
ser demanda para haver vossa túnica, abandonai-lhe ainda
vassa capa (42). Dai ao que vos pede, e não volteis as costas
ao que vos pede emprestado. Emprestai sem esperar benefí­
cio algum. Fazei aos outros o que quereríeis que êles vos fi­
zessem. Ouvido tendes o que a Lei diz: "Amarás ao teu
próximo e aborrecerás a teu inimigo; e eu digo-vos: Amai a
vossos inimigos, fazei bem aos que vos aborrecem, e orai pe­
los que vos perseguem e injuriam; deste modo sereis filhos de
vcsso Pai celestial, que faz nascer o sol para os bons como
para os maus, e derrama a chuva sobre os justos e os injustos.
Se não amardes senão aos que vos amam, que recompensa me-
receis? Isso fazem os pagãos. Sêde perfeitos como vosso Pai
celestial é perfeito” (43).
3.°) Necessidade duma intenção reta e pura, e que só
tenha a Deus por objeto.
"Tende cuidado em não fazerdes boas obras diante dos
homens, com o fito de que êles as louvem, porque não tereis
nenhuma recompensa de vosso Pai que está no céu. Quando
derdes esmolas, não saiba a mão esquerda o que faz a direita,
para que a esmola se faça em segrêdo; porque vosso Pai, que
vê o que está oculto, saberá recompensar-vos. Quando orardes,
retirai-vos ao vosso quarto, fechai a porta, e rezai em segrêdo;

(41-A) O exemplo de S. Paulo, e o uso de jurar autorizado pela


Igreja, legítimo intérprete da palavra divina, nos ensinam que o Sal­
vador não quis proscrever juramento dum modo absoluto, mas quis
sòmente pôr têrmo ao abuso.
(42) Nosso Senhor quer dizer nestes dois exemplos que devemos
fazer todos os sacrifícios e sofrer tudo por amor da caridade, e para
viver em paz com nossos semelhantes.
(43) Não exige o Salvador que tenhamos uma perfeição igual à
de Deus; mas quer que, por nossas orações, meditações e boas obras,
busquemos, como diz São Basílio, parecer-nos com êle em suas divinas
perfeições quanto cabe em nossa humana natureza.
118 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

êle vos vê, e vos dará o pago. Quando jejuardes, perfumai-vos


e lavai vosso rosto, para que vosso jejum seja conhecido, não
dos homens, mas de vosso Pai, que vê o que é oculto, e vos
galardoará. Não amontoeis tesouros sobre a terra, onde a
ferrugem e atraça os consomem e os ladrões os roubam; ajun-
tai um tesouro no céu onde a ferrugem e a traça o não conso­
mem, nem os ladrões o roubam. Onde estiver vosso tesouro,
aí estará também vosso coração. Ninguém pode servir a dois
senhores; porque ou há de aborrecer a um, e amar a outro;
ou há de acomodar-se a êste, e desprezar aquêle. Não podeis
servir ao mesmo tempo a Deus e ao demônio.
"Pelo que vos digo que não andais cuidadosos do que ha-
veis de comer ou do que haveis de vestir. Porventura não
é a vida mais que a comida, e o corpo mais que o vestido?
Olhai para as aves do céu que não lavram nem semeiam, nem
ceifam, nem fazem provimento em celeiros, e contudo vosso
Pai celestial as sustenta. Porventura não sois vós mais do
que elas? Olhai para os lírios do campo, vêde como crescem;
não trabalham, nem fiam, e contudo vos digo que nem Salo­
mão, em tôda a sua glória, nunca se vestiu como um dêles.
Se pois Deus veste assim uma erva do campo que amanhã
será cortada e deitada ao fogo, quanto mais cuidado não terá
de vós, homens de pouca fé?! Não vos aflijais pois, dizendo:
O que havemos de comer, o que havemos de beber, ou com que
nos havemos de vestir; porque os Gentios é que se cansam por
estas coisas. Porquanto vosso Pai sabe que de todas elas ha­
veis mister. Buscai primeiramente o reino de Deus e sua jus­
tiça, e tudo vos será dado por acréscimo. E assim não andeis
inquietos pelo dia de amanhã; o dia de amanhã trará seu cui­
dado por si mesmo; basta que sintamos o mal no dia em que
êle vem”.
4.°) Para nos salvarmos, é mister ocuparmo-nos de nossas
próprias faltas e não das dos outros, a não ser que nosso dever
a isso nos obrigue, e é mister seguir o caminho estreito.
"Não julgueis, para que vos não julguem; não condeneis,
para que vos não condenem. Sereis medidos pela medida por
onde medirdes os outros. Porque vêdes a aresta no olho alheio,
e não vêdes a trave no vosso? Hipócrita, tira primeiro a tra­
ve do teu olho, e então verás como hás de tirar a aresta do
olho de teu irmão. Fazei diligência por entrar pela porta es­
treita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que guia
t

CRISTO 119

à perdição, e muitos por aí entram. Mas que estreita é a


porta, e que apertado o caminho que guia à vida, e quão poucos
acertam com êle?! Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm
a vós com vestidos de ovelhas, e por dentro são lobos devora-
dores. Por seus frutos os conhecereis. Porventura dão uvas
os espinheiros, ou figos os abrolhos? Assim toda a árvore boa
dá bons frutos, e a má árvore dá maus frutos. Não pode a
árvore boa dar maus frutos, nem a árvore má dar bons frutos.
Toda a árvore que não der bom fruto será cortada e lançada
ao fogo. Nem todo o que disser: "Senhor, Senhor”, entrará
no reino dos céus, mas o que fizer a vontade de meu Pai, êsse
entrará no reino dos céus”.

LIÇÃO XVII
Jesvs Cristo sara um leproso; cura um paralítico, servo do
centurião; ressuscita o filho da viúva de Naim
Acabado o sermão, desceu Jesus do monte, acompanhado
das turbas, que com atenção o tinham ouvido e se admiravam
de tão santa doutrina; e veio ali lançar-lhe aos pés um ho­
mem coberto de lepra, que de joelhos lhe dizia: "Senhor, para
curar-me basta quererdes”. Agradou ao Salvador tão humilde
e esperançosa rogativa, e tocando-lhe com a mão, disse: "Pois
quero; limpo sejas”. E para logo ficou curado. Disse-lhe o
Senhor que a ninguém contasse aquêle prodígio, e que fosse
dali ao sacerdote declarar que estava limpo da lepra, e ofere­
cesse o sacrifício que a lei mandava; porém o leproso pu­
blicou altamente o sucedido, e a fama de Jesus Cristo espa­
lhou-se de sorte que já não podia manifestar-se na cidade, e
ia morar nos desertos, onde se entretinha em orar; até lá mes­
mo vinham os povos de toda a parte ouvi-lo, e buscar nêle o
remédio de seus males.
Entrara um dia Jesus em Cafarnaum quando o centu­
rião (44), que tinha um servo doente com mortal paralisia,
lhe mandou pedir pelos anciãos dos judeus houvesse por bem
curá-lo; o que êles com instância fizeram, representando-lhe

(44) Cabo, capitão de cem homens, era Romano, portanto pagão,


■eprovàvelmente governador militar de Cafarnaum; por isso mereceu
sua fé viva aos louvores de Jesus Cristo.
120 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

não só o perigo do servo, senão o merecimento do amo; e as


muitas obrigações que todo o povo judeu lhe devia: "Por­
quanto êle ama (lhe diziam) nossa gente, e nos edificou uma
sinagoga”. Jesus se foi com êles à casa do centurião, e já
se aproximava, quando lhe vêem outros ao encontro para lhe
pedir aue não tomasse tanto trabalho, e por fim vem o mesmo
centurião, que lhe diz: "Não sou digno, Senhor, que entreis
em minha morada; mas dizei só de palavra e meu servo serâ
curado”. Admirou Jesus a fé daauele pagão, e voltando-se
para os que o seguiam, disse: "Em verdade vos digro que
nunca achei tamanha fé em Israel. Muitos virão do Oriente
e do Ocidente tomar lugar no reino de Deus com os filhos de
Abraão, enquanto os judeus, aue se gloriam de seus descen­
dentes, serão dêle excluídos e lançados nas trevas exteriores,
onde há prantos e ranger de dentes”. E disse o Senhor ao
centurião: "Vai, e assim como crêste, se te faça” ; e desde
aquela hora ficou são o moço.
Foi dali Jesus a Naim, cidade da mesma província para
a banda do Mediterrâneo, e com êle os discípulos e multidão
de povo; e como fosse perto das portas da cidade, viu que le­
vavam a enterrar o filho único duma viúva, a qual acompa­
nhava o esquife com muitas outras pessoas, e enternecido de
ver a afligida mãe, disse-lhe: "Não chores, mulher” ; e che­
gando-se aos que levavam o esquife, mandou-os parar, tocou
no defunto, e disse-lhe: "Ergue-te, mancebo, que te mando
eu”. No mesmo ponto, se sentou o defunto, falou, e Jesus
Cristo o entregou à sua mãe. Todos os que presentes eram
ficaram entrados de admiração e espanto, e glorificaram a
Deus, dizendo: "Grande profeta se levantou entre nós, e Deus
visitou o seu povo”.

LIÇÃO XVIII

Manda o Batista dois discípulos a Jesus Cristo; resposta que


êle lhes dá — Jesus Cristo argüi os judeus, e ameaça as ci­
dades impenitentes — Perdoa a uma pecadora arrependida
Como chegassem à notícia de São João, que estava prêso,
os milagres de Jesus Cristo, e querendo dar a seus discípulos
um novo testemunho de que era êle o Messias, mandou-lhes
dois dêles, para que por si mesmos vissem e se informassem;
r

C R ISTO 121

os quais perguntaram ao Salvador se era êle o Messias que


devia vir, ou se tinham que esperar por outro. Não respon­
deu Jesus Cristo à pergunta; mas fêz muitas curas milagrosas
diante dêles, e depois lhes disse: "Ide contar a João o que
vistes e ouvistes: os cegos vêem, os coxos andam, os lenrosos
são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e o Evan­
gelho se anuncia aos pobres. Felizes os que se não escanda­
lizarem por causa de mim” (45).
Partidos que foram os dois discípulos, falou Jesus Cristo
ao povo em abono de São João. dizendo: "Que fôstes vós ver
ao deserto? Uma cana movendo-se com o vento?” E depois
de lhes recordar a firmeza exemplar e a vida penitente e aus­
tera do santo Precursor, não só lho abonou por profeta, mas
por mais que profeta, e concluiu o panegírico com dizer, que
a lei e os profetas acabavam, e que nêle começava o Evange­
lho; pois que fora o primeiro aue anunciara o reino de Deus,
reino aue depois dêle por violência se tomava, e violentos o
ganhariam; que era enfim o verdadeiro Elias, de cujo espírito,
virtude e ministério, estava de posse.
Desprezavam os fariseus e doutores da lei não só ao Ba­
tista, senão ao mesmo Jesus Cristo; êle porém, como Filho de
Deus e compadecido da dureza de seus corações, falou dêles
com santo ressentimento diante do povo, que com gosto ouvira
o elogio de São João: "A quem comparei os homens dêste sé­
culo? Não lhes viriam ao justo as palavras dêsses meninos
que sentados na praça dizem: Tocamos flauta e não danças-
tes; cantamos lamentações e não chorastes? Veio o Batista
que comia e bebia (46), e acusam-no de ter-se regalado na
comida e de se acompanhar com publicanos e gente de má
vida”.
Considerou depois o pouco fruto que as cidades de Gali­
léia, onde pregara, tiraram de tantos auxílios que a misericór­
dia divina lhes concedia para a salvação, e com ameaças lhes
lançou em rosto sua porfiada impenitência, clamando em alta
voz: "Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! (47), que se
(45) Como se dissesse (explicam os Santos Padres): Fácil é to-
mar-me por Messias, quando me vêem fazer milagres; mas poucos
crerão em mim quando me virem padecer morte afrontosa de cruz.
(46) Como se dissera que vivia ao vulgar.
(47) Cidades situadas nas praias do lago de Genesaré. Filipe
tetrarca aformoseou muito a segunda, e deu-lhe o nome de Juíia, em
honra da mulher de Tibério, que assim se chamava. Ambas estas
cidades foram arrasadas, ao ponto de se não saber em que lugar es-
tavam. Igual sorte teve Cafarnaum.
122 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

em Tiro, se em Sidônia, foram feitos os milagres que em vós


fiz, teriam com cinza e cilício feito penitência”. E encami­
nhando a prática à cidade de Cafarnaum, onde mais que em
todas as outras assistira, lhe exprobrou sua soberba e dureza,
neste sentido: "E tu Cafarnaum, levantar-te-ás tu sempre
até ao céu? Até ao inferno te abaixarão; porque se em So-
doma se fizessem os prodígios que em ti viste, Sodoma ainda
hoje fora”. E acrescentou que no dia de Juízo os habitantes
de Sodoma, que tão severamente foram punidos, e os de Tiro
e de Sidônia, cidades pagãs serão tratados com menos rigor
que os moradores das terras impenitentes de Galiléia.
Depois deu graças a seu eterno Pai, dizendo: "Graças
vos dou, Pai meu, Senhor do céu e da terra, porque escondes-
tes estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelastes aos
pequenos. Assim é, Pai meu, porque assim foi vossa vontade”.
Convidou então a todos a segui-lo, dizendo: "Vinde a mim
vós todos que andais em trabalho e estais carregados, e eu vos
aliviarei. Tomai o meu jugo, e aprendei de mim que sou man­
so e humilde de coração, e achareis descanso em vossas almas;
porque o meu jugo é suave, e leve o pêso da minha lei” (48).
Pouco tempo depois, um fariseu chamado Simão pediu a
Jesus que viesse jantar com êle. Aceitou o Salvador o convi­
te; e quando estavam à mesa, veio ali uma mulher pecadora,
a qual, posta detrás do Senhor, lhe banhava com lágrimas os
pés, e com os cabelos lhos enxugava, beijando-os, e ungindo-os
com o odorífero bálsamo que dum vaso de alabastro derramava
(49). Vendo isto o fariseu dizia consigo mesmo: "Se êste
homem fora profeta, bem saberia êle quem é a mulher que
toma tanta familiaridade com êle, pois é pecadora”. O Senhor
(48) Os preceitos da Lei Nova são sem dúvida penosos e pesa­
dos para a natureza; porém, como ela é a lei da graça, e a graça de
Deus tudo vence, tornam-se muito suaves, e a sua carga não oprime
antes nos alivia o pêso, como diz S. Agostinho. O jugo da Lei de
Cristo é suave, porque nos livra de todos os jugos opressivos desta
vida; sua carga é leve porque com sua graça nos ajuda a levá-la, e
porque ao amor tudo é fácil.
(49) Por serem de alabastro, êstes vasos ou frascos se chamaram
também alabastros. O bálsamo que continha era feito de nardo, plan­
ta aromática cuja aste termina em espiga, talvez à semelhança da
alfazema a cuja família pertence; o que se fazia da flor do nardo
era mais precioso, e se chamava também por isso precioso nardo; e
para que se não evaporasse seu aroma conservava-se bem fechado
nos ditos frascos, os quais se quebravam quando se usava do bálsamo.
Plínio fala dêstes vasos, e ainda hoje se desenterram nas escavações
de Roma.
C R ISTO 123

porém, que lhe penetrou o pensamento, disse-lhe: "Simão,


tenho que dizer-te uma coisa. — Simão: "Falai, Mestre”. —
Jesus $ "Um credor tinha dois devedores, um dos quais lhe
devia quinhentos dinheiros, o outro cinqüenta. Porém, como
não tivessem com que pagar, perdoou a ambos a dívida. Dize,
qual dos dois devedores deve mais amar o seu credor?” —
Simão: "Creio que aquêle a quem perdoou maior quantia”. —
Jesus: "Muito bem julgaste”. E voltando-se para a mulher,
disse a Simão: "Olha para esta mulher; que entrando eu em
tua casa não me deste água para lavar os pés, e ela mos lava
com suas lágrimas e enxuga com seus cabelos; não me deste
ò ósculo de paz, e ela, desde que entrou, não cessa de me beijar
os pés; não derramaste óleo sobre minha cabeça, e ela me
banha os pés com precioso bálsamo. Assim te declaro que
muitos pecados lhe são perdoados, porque me amou muito. Tu
amas pouco, porque te cuidas justo e que portanto deves pouco
a Deus; e esta mulher que se tem por grande pecadora amou
muito aquêle de quem esperava remissão de muitos pecados,
e por seu muito amor a alcançou”. E logo disse à mulher:
"São-te perdoados teus pecados”; e quantos à mesa estavam
murmuravam desta palavra, dizendo consigo: "Quem é que
se arroga o poder de perdoar pecados?” Jesus porém, despre­
zando-lhes os murmúrios, despediu a pecadora já justificada,
dizendo-lhe: "Tua fé te salvou; vai-te em paz” (50).

(50) Alguns expositores pretendem que esta pecadora é a Mag-


dalena, irmã de Martha e Lázaro; mas a opinião mais provável é que
a pecadora de Naim, nada tem de comum com Maria de Bethania,
nem com Maria de Magdala ou Magdalena; nem se há de confundir
Simão o Fariseu com Simão o Leproso, o primeiro de Naim e o se­
gundo de Betânia; além de que esta ação de ungir os pés de Jesus é
anterior a outra em que Judas começou a dar mostras de seu falso
zêlo. Temos como certo que no Evangelho se faz menção de três
Marias diferentes, mais ou menos pecadoras, a saber: Maria de Naim,
Maria de Betânia, irmã de Lázaro, e Maria de Magdala e por isso
chamada Magdalena, nas quais se manifesta a graça de Deus dum
modo extraordinário por causa de seu amor para com Jesus Cristo.
Veja-se a Dissertação que vem no 13.° volume da Bíblia de Vence.
124 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

LIÇÃO XIX

Jesus livra do demônio um possesso mudo — Ciúme dos fariseus


— Instruções diversas

Prosseguia Jesus Cristo sua missão, indo de cidade em ci­


dade e de aldeia em aldeia, pregando por tôda a parte o reino
de Deus. Iam com êle os doze Apóstolos e algumas santas
mulheres a quem livrara do demônio ou curara de suas enfer­
midades, as quais o seguiam e proviam do necessário para seu
sustento (51).
Voltava um dia o Salvador à sua casa de Cafarnaum,
quando se viu cercado de grande multidão de povo que lhe
trazia um energúmeno cego e mudo para que o curasse. Ex­
pulsou Jesus o demônio do corpo daquele homem, de maneira
que logo viu e falou, com admiração do povo todo, que dizia:
"Não é êste o filho de David?” Os fariseus em contrário di­
ziam que êle afugentava os demônios em nome de Belzebub
(52), príncipe dos demônios; Jesus porém confundiu sua ma­
lícia, representando a todos que o estavam ouvindo, que se os
demônios, que são inimigos mortais dos homens, uns a outros
se afugentassem, seu reino se arruinaria: porque todo reino
desunido será assolado; que homens havia entre os judeus que
afugentavam os demônios, e a quem os fariseus não acusavam
de os afugentar em nome do príncipe dos demônios; que um
homem forte e armado não pode ser expulso de sua casa, se
outro mais forte êle não o vem deitar fora, que se êle expul­
sava Satanás, com mais forte poder que o de Satanás o expul­
sava. Que assim cressem que o reino de Deus lhes era chega­
do; que opor-se, como êles se opunham, aos efeitos visíveis da
Espírito Santo, os fazia culpados de blasfêmia que não mere-

(51) Era costume entre os Judeus, como nos diz S. Jerônimo,,


quando os profetas iam de terra pregar a palavra de Deus, serem
alojados e sustentados por mulheres caridosas e de boa vida. Temos,
disto exemplo em Elias e Eliseu. O Senhor do céu e da terra dig­
nou-se de receber estes favores terrestres para dar em troca as graças,
celestiais às pessoas que mais as haviam mister.
(52) Veja-se a nota 32.
CRISTO 125
cia perdão (53); que pois julgamos da árvore pelo fruto, dêle
tíeviam julgar pelas obras, e não o condenarem por mau quan­
do fazia tão boas ações; finalmente que suas calúnias teme­
rárias vinham de estômago danado e não ficariam sem cas­
tigo; pois que no dia de juízo até das palavras inúteis se havia
de dar conta.
Alguns fariseus e doutores da lei disseram então: "Mes­
tre* quiséramos que nos fizésseis um prodígio”. Como Jesus
conhecesse sua má índole, respondeu-lhes com enfado: "Esta
estragada e adulterina progênie pede um prodígio, terão o de
Jonas profeta (54). Assim como Jonas estêve três dias no
ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias nas
entranhas da terra”. E assim denotava que seria enterrado,
e ressuscitaria do sepulcro ao terceiro dia; e que como Jonas
foi sinal para os ninivitas, assim o seria êle para os fariseus.
Ensinou depois a que perigo se expunha o homem que
depois de fazer penitência recaía no pecado. Em lugar dum
demônio, vêm sete espíritos impuros apoderar-se desta alma,
que há pouco estava pura e ornada.
Enquanto Jesus Cristo assim confundia a malícia de seus
inimigos ergueu uma mulher a voz no meio do povo, e disse:
"Bem-aventuradas as entranhas que vos trouxeram, e os pei­
tos que vos deram leite”; a quem respondeu Jesus: "Mais
venturosos ainda os que ouvem a palavra de Deus e o põem
por obra”. Ao mesmo tempo, o avisaram que sua Mãe e pa­
rentes (55) estavam fora; porque a multidão lhes impedia de
entrar, e queriam falar-lhe; ao que respondeu: "Quem é mi­
nha Mãe? E quem são meus parentes?” Aqui, olhando, para
os que estavam sentados e estendendo a mão sobre os discípu­
los, acrescentou: "Eis aqui minha Mãe e meus parentes; que
são minha Mãe e meus irmãos os que ouvem a palavra de Deus,
e fazem a vontade do meu Pai celestial”.
(53) Consistia aquela blasfêmia em atribuir ao espírito de men­
tira as obras de Deus; pecado tremendo que apaga a luz da fé; des-
seca a alma e lhe rouba o arrependimento. Énsina-nos N. S. J. C.
que o maior crime que o homem pode cometer é fechar os olhos à
verdade, ou negar a verdade conhecida como tal, e não querer co­
nhecer o dedo de Deus onde êle se mostra claramente. Oh! e quão
comum é em nossos dias êste pecado contra o Espírito Santo!
(54) Veja-se a vida de Jonas.
(55) A Vulgata diz irmãos; mas é esta uma expressão imitada
do hebraico, em que por irmãos se entendem também primos diretos
e parentes chegados.
126 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

LIÇÃO XX
Jesus Cristo ensina em parábolas
Naquele mesmo dia, saiu Jesus de casa e foi até à praia
do lago de Genesaré para doutrinar o povo; como porém cres­
cesse muito a turba que das cidades vizinhas corria a ouvi-lò,
subiu a uma barca e dali lhe propôs algumas parábolas, en­
voltas nas quais ensinou muitas verdades.
São as parábolas ou já histórias inventadas a propósito,
ou comparações tiradas de coisas naturais, cuja explicação,
quando é oculta, exercita o engenho, e descobre (quando o tino
acerta com ela) algum mistério de nossa religião, ou alguma
máxima importante para a regra dos costumes. O forte ar­
mado, de que falou Jesus Cristo na prática antecedente, é uma
parábola que se deve entender do demônio, e o mais forte què
êle, que vem expulsá-lo, é Jesus Cristo.
PARÁBOLA DO SEMEADOR

A primeira parábola que o Filho de Deus propôs ao povo


foi a do Semeador. "Começou êle a semear, diz Cristo, mas
com pouca ventura. Uma parte do trigo caiu entre espinhos,
e afogaram-no os espinhos. Outra parte caiu sobre pedras, e
secou-se nas pedras por falta de umidade. Outra parte caiu
110 caminho, e pisaram-no os homens e comeram-no as aves.
A quarta parte caiu na terra boa, nasceu e produziu com abun­
dância. Ouça quem tem ouvidos para ouvir”.
Como os Apóstolos não entendessem o sentido da parábola,
o divino Mestre lha explicou, dizendo-lhes, que pelo trigo se­
meado se entendia a palavra de Deus; que a estrada é figura
dos que ouvem, mas sem atenção e se descuidam logo desta, e
o demônio, figurando nos pássaros, lhes tira dos corações a pa­
lavra que os podia salvar: "Muitos há, lhes dizia, em quem a
avareza, o amor dos prazeres e mais paixões, são espinhos que
afogam a palavra de Deus; espinhos que convém arrancar,
para que a palavra de Deus frutifique; e a terra boa simboliza
as almas bem dispostas a receber e conservar a palavra de
Deus, que pela paciência e firmeza a deixa produzir todo o
fruto que ela em si traz”.
C R ISTO 127

PARÁBOLA DO JOIO E DO BOM TRIGO


Propôs Jesus Cristo outra parábola, em que comparou o
mundo a tim campo que o dono semeou do bom trigo, e que o
vê depois terçado de joio, que o inimigo sobressemeou de noi­
te; e querendo os criados arrancá-lo, o amo os atalha que com
o joio o não arranquem; antes espera a ceifa, e estrema o trigo
para o celeiro, e o joio para o fogo.
E como os discípulos não entrassem no entendimento
desta parábola, lha explicou dizendo, que neste mundo deviam
os bons sofrer com os maus com quem estão misturados, até
que no fim dos séculos se faça a separação inteira de uns e
outros; que serão então os maus precipitados no fogo eterno,
e brilharão os bons como sóis no reino de Deus.
OUTRAS PARÁBOLAS
A mesma verdade lhes ensinou também figurada nos pes­
cadores, que tomam em suas rêdes tôda a casta de peixe, e
que, sentados depois na praia, põem de mão o bom, e refugam
o mau. Comparou o reino de Deus ao grão que, lançado na
terra, cresce sem desvelos do lavrador, sem que saiba como
êle medra. Também o comparou ao grão de mostarda que,
sendo mui pequeno, cresce mais que as outras plantas; e os
capacitou por fim com a comparação do que tudo vende para
comprar a pérola de alto preço, ou o campo em que sabe que
há um tesouro, que nada há que não devamos dar para alcan­
çarmos o céu.
Continuou Jesus a falar ao povo sempre em parábolas, e
debaixo de figuras mui singelas, que todos entendiam, e dêste
modo lhes ia revelando os mistérios da vida eterna.

LIÇÃO XXI
Aplaca Jesus uma tempestade — Expulsa o demônio de dois
energúmenos — Sara uma mulher dum fluxo de sangue, e
ressuscita uma donzela — Dá vista a dois cegos
Entrou Jesus Cristo ao mesmo dia à tarde na barca para
passar à outra banda do lago de Genesaré, e tinha consigo
seus discípulos. Ao embarcar-se chegou-se a êle um doutor
128 A N T O L O G IA D E VIDAS C É L E B R E S

da lei e lhe disse: "Mestre, para onde fôrdes vos seguirei”.


E Jesus lhe respondeu: "Têm as raposas suas covas e as
aves seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde encos­
tar a cabeça”. Nisto despediam os discípulos as turbas, mas
não puderam atalhar que muitos entrassem nas barcas que ali
se achavam, e o seguissem.
Levantou-se de repente tal tempestade que as ondas de
violentas alagavam a barca em que ia Jesus, enquanto êle,
tomado de sono, para assim provar a fé de seus discípulos,
dormia à popa sobre uma almofada. Vieram a êle os discípu­
los, e acordando-o, disseram-lhe: "Mestre, nada se vos dá que
nos percamos? Salvai-nos Senhor, que nos afundamos!” En­
tão lhes disse: "Por que sois tão tímidos, homens de pouca
íé?” Ergueu-se logo, ameaçou os ventos e a tempestade, e
mandou às ondas que amansassem. Acalmou súbito o vento,
e o mar bravo se tornou bonança. E Jesus repreendeu ainda
a seus discípulos, dizendo-lhes: "Onde está vossa fé? De que
tanto pavor?” Êles porém, e quantos estavam nas outras
barcas, tomados de assombro e mêdo, perguntavam entre si:
"Quem é êste que assim manda com império aos ventos e ao
mar, e a quem obedecem os elementos!?”
Chegaram às terras dos Gerazenos (56), que ficam ao
nascente do lago, e apenas desembarcou Jesus Cristo, eis que
vêem a êle dois possessos que bradavam: "Jesus, Filho de
Deus, que há de ver entre ti e nós? Vieste tu aqui para nos
atormentar antes do prazo?” E êstes dois homens assistiam
entre sepulcros, e eram tão maníacos e furiosos que ninguém
ousava passar por aquêle sítio. Um dêles era de tal modo ve-
xado do demônio que nem vestido, nem morada tinha, antes
andava errante pelos montes, gritando e ferindo-se com pe-
%dras. Muitas vêzes o tinham amarrado com cordas e cadeias,
mas o demônio tudo despedaçava, e o arrastava pelos desertos,
de sorte que ninguém até ali o pudera amansar. Mandou Jesus
Cristo ao demônio que saísse daquele corpo, e mais ainda, que
dissesse seu nome; e êle respondeu que se chamava Legião,
porque naquele desventurado tinham entrado muitos demônios.
Andava ali pastando uma vara de porcos nas fraldas do
monte, e como os demônios pedissem a Jesus lhes permitisse
saindo dos energúmenos entrassem naqueles animais, consen-

(56) São os habitantes da cidade ou vila de Geraz.


Jesus pregando à multidão
Jesus na Sinagoga
A multiplicação dos -pães
C R ISTO 129
tiu-lho Jesus, e para logo os espíritos imundos entraram nêles,
os lançaram pelos rochedos e os despenharam no lago, e perto
de dois mil se afogaram (57).
Os pegureiros correram assombrados pelas vilas e lugares
eomarcãos, onde apelidaram tanta gente curiosa do caso que,
apinhada à roda do Salvador, olhava com pasmo para o ener­
gúmeno, já composto e arrazoado, sentado aos pés de Jesus
Cristo manso e quêdo, de furioso e terrível que dantes era.
Quisera êle seguir a Jesus Cristo, mas o Salvador lhe disse:
"Vai ter com os teus, e conta-lhes as grandes coisas que Deus
em ti obrou”. Fêz como o Senhor lhe dissera, e se foi por
toda a cidade e arredores publicar as graças que Jesus Cristo
ihe fizera.
Como os Gerazenos de assombrados pedissem a Jesus
Cristo que se retirasse de suas terras, reembarcou-se o Salva­
dor e voltou para Cafarnaum, onde foi recebido com grande
alegria do povo. Apenas tinha desembarcado, eis que vem ter
com êle Jairo, príncipe da Sinagoga, e prostrado a seus pés
lhe rogava pôr as mãos sobre sua filha de doze anos, que
estava em perigo de vida. Partiu logo o Redentor com seus
discípulos e grande multidão de povo. ía na multidão uma
mulher que há doze anos padecia fluxos de sangue, e já os
médicos a tinham desenganado que não tinha cura o seu mal.
Animada de grande fé, rompeu pela turba, e pondo-se por
trás de Jesus Cristo, lhe tocou na orla da túnica, e dizia con­
sigo mesma: "Só com lhe tocar no vestido ficarei curada”.
E não se enganou, porque o Divino Salvador vendo sua fé,
disse-lhe: "Tem confiança, minha filha; tua fé te salvou.
Vai-te em paz. Sarada sejas da tua moléstia”.
Ainda Jesus Cristo falava com a mulher, quando chega
um criado de Jairo, anunciando-lhe a morte de sua filha, e
que escusado era para Jesus o incômodo de ir mais longe; mas
« Salvador, que ouviu o recado, disse ao pai: "Não temas,
tem fé, e tua filha viverá”. Quando chegaram à casa já ali

(57) Ninguém se admire de haver dêstes animais entre os Judeus,


apesar de que eles lhes não comessem a carne; criavam-nos para os
vender aos povos vizinhos. Juvenal diz que os porcos envelheciam
entre os Judeus, porque não os matavam:
Et vetus indulget senibus clemencia porcis (sat. 6).
130 A N T O L O G I A D E VID A S C É L E B R E S

estavam vários tangedores de instrumentos (58) e muitas pes­


soas que pranteavajn a defunta: "Por que chorais, — disse
Jesus, — e fazeis tais ruídos? Não está morta a donzela, está
dormindo”. Riram-se os circunstantes, porque não sabiam que
tão fácil era a Jesus ressuscitar uma pessoa morta, como a
outro acordá-la de dormir. Mandou sair a todos do quarto,
deixando só três discípulos, Pedro, Tiago e João, e os pais
da donzela; daí chegou-se à cama da defunta, pegou-lhe pela
mão, e bradou-lhe: "Filha, ergue-te, que te mando eu”. Le­
vantou-se a moça ressuscitada, pediu de comer, e andava pela
casa com grande assombro de seus pais, a quem Jesus Cristo
recomendou que nada dissessem, mas logo se espalhou a fama
na cidade e seus arredores.
Ao sair de lá seguiram-no dois cegos, chamando-lhe:
"Filho de David, tende compaixão de nós”. E chegado que foi
à casa, disse-lhes Jesus: "Credes que posso fazer o que pe-
dis?” — "Cremos, Senhor”, lhe responderam. E logo lhes to­
cou nos olhos, dizendo: "Segundo vossa fé, vos seja feito”.
Abriram-se-lhes os olhos e ficaram com vista.
* * *
A propósito dos animais de que, por permissão divina, se
apoderaram os demônios, aprende três verdades: l.a) que
Deus pode dispor, como lhe apraz, de tudo o que é nosso, por­
que nada possuímos que dêle nos não venha; 2.a) que nada
pode o demônio sobre nós, nem sobre o que nos pertence, além
do que Deus lhe consente; 3.a) quão grande é o ódio e raiva
do demônio contra os homens que aturadamente ou nêles ou
sua fazenda os quer atormentar; e quanto mal nos faria por
saciar seu ódio, se Deus lhe não tivera curta a rédea.
Contempla atentamente quantos cristãos se aproximam
inutilmente de Jesus Cristo, como faziam as turbas, e poucos
lhe tocam com proveito, como fêz aquela mulher enfêrma; isto
é, muitos enchem as igrejas, cercam o sagrado tribunal da
penitência, e se sentam à mesa eucarística, mas quão poucos
tiram o fruto que deviam, por falta de fé viva, e daquele ar-

(58) Os de que aqui se faz menção eram flautas, trombetas, e


outros que com a boca se tocam. Os quais por estipêndio se traziam
com vozes e carpideiras, conforme a qualidade do defunto. Eram as
exéquias que naquele tempo se faziam com grande vaidade e supers­
tição e às vêzes com tal excesso, que afirma Josefo que muitos se
empenhavam e empobreciam.
C R ISTO 131

dente desejo que se requerem para alcançar do médico celes­


tial a cura das enfermidades espirituais da alma, das quais
era figura, a enfermidade corporal daquela mulher! Olha,
não sejas tu dêste número!...
Considera, alma cristã, que o que o Divino Salvador disse
daquela donzela, "Que não estava morta, mas que estava dor­
mindo”, nos diz a Escritura de todos os justos, cuja morte é
chamada sono; assim mesmo são chamados cemitérios, isto é,
dormitórios (59), aquêles lugares em que estão sepultados os
fiéis defuntos até que no dia do final juízo ressuscitem à nova
vida, e recuperem, pelo poder de Deus, os mesmos corpos, não
já passíveis e perecedouros, mas impassíveis, gloriosos e imor­
tais. Esta esperança da ressurreição gloriosa deve suster-te
e consolar-te nas aflições e trabalhos desta mísera vida, mor­
mente quando a morte se vem chegando. A mesma consola-
dora esperança deve temperar a justa dor que nos causa a
morte de nossos parentes e amigos. Lamentemos sem conso­
lação os infiéis, que não esperam uma melhor vida; mas nós,
que esperamos ressuscitar com Cristo e gozar ainda no corpo
uma eterna felicidade, consolemo-nos, porque a morte é pas­
sagem do destêrro à pátria, e trânsito à melhor vida, nem se
perdem os que morrem, mas nos precedem para serem em
pouco de nós seguidos. A verdadeira morte, digna de lágri­
mas, é a morte espiritual da alma, que se incorre pelo pecado,
e muito mais a morte segunda, que é a condenação eterna.
A esta morte infelicíssima procura fugir, oh! alma cristã, en­
tregando-te com boa e virtuosa vida à contemplação da celes­
tial glória que é a melhor, e ainda a única preparação a uma
boa morte, preciosa no conspecto do Senhor.

LIÇÃO XXII
Vai Jesus pregar a Nazaré — Visita segunda vez a Galiléia
e manda os Apóstolos a pregar — Manda Herodes degolar o
Batista
Depois de tantos milagres feitos em Cafarnaum, partiu
Jesus Cristo para Nazaré, onde fora criado, e ia todos os sá­
bados à sinagoga onde pregava, fazendo-se acreditar por o
(59) Caemiterium é a palavra grega que significa lugar para
dormir, dormitório, derivada do verbo grego que significa dormir, re­
pousar.
18 2 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

Messias de quem falara Isaías; mas, como não fosse mais bem
recebido de seus conterrâneos que da primeira vez (60), lan­
çou-lhes em rosto sua incredulidade, como já fizera, e retirou-
-se de Nazaré, onde poucos doentes sarou; que esta terra por
incrédula desmerecera sua presença e seus benefícios.
Quando saiu de Nazaré, deu volta pelas cidades e vilas de
Galiléia, instruindo nas sinagogas, pregando o Evangelho,
curando todas as enfermidades. Iam com êle os doze Apósto­
los, e considerando pela jornada na grande multidão de povos
a quem se havia de anunciar o Evangelho, disse-lhes: "Ampla
colheita, mas poucos segadores! Pedi ao dono da seara que
mande obreiros”. E como êle era o dono dela, e os Apóstolos
os decretados para nela trabalhar, os chamou e lhes deu o po­
dei- de curar enfermos, afugentar demônios, e dois a dois, pres­
critas as regras do que haviam de seguir no exercício de seu
ministério, os mandou anunciar o reino de Deus; ordenando-
-lhes que pregassem só aos judeus, e que fosse o assunto de
suas prédicas o remo do céu que chegava; que de graça dessem
o poaer que de graça receberam; e por não se empecerem de
vestidos, nem dinheiro, e mais livres cumprirem com suas fun­
ções; aceitassem aos que se convertessem o necessário para a
vida; que tomassem agasalho nas casas de mais virtude e
dissessem quando entrassem: "Paz seja nesta casa”; e nela
(sem mudar) ficassem o tempo de sua estada naquela terra;
e sacudissem a poeira de seus pés contra os que não quisessem
recebê-los, nem escutá-los. Avisou-os que os mandava como
ovelhas entre lobos, que vivessem entre os maus com simpli­
cidade de pompas e prudência de serpentes; que apesar de seu
sisudo proceder, seriam perseguidos, e que então fugissem;
mas que, se fossem presos e trazidos perante os tribunais, não
se desvelassem no que haviam de responder; que o Santo Es­
pírito lhes sugeriria o que haviam de dizer; que só cuidassem
* em se não desanimar; que não temessem os homens, que nada
podem sobre a alma, mas sim a Deus que sobre alma e corpo
tudo pode; que se perante os homens renunciassem a Deus,
Deus os renunciaria no dia de juízo; e só conheceria por seus
os que não tiveram pejo de confessar seu nome. Para animá-
-los por fim a padecer tudo por não faltar ao que deviam, lhes
afirmou que nada sem ordem de Deus lhes aconteceria, que os
cabelos de suas cabeças tinha por conta, e que perdendo a vida
em tempo ganhariam a salvação para a eternidade; que dos
(60) Veja-se Lição XIII.
CRISTO 133
discípulos é suportar a cruz; nem cuidassem em ser mais bem
tratados que seu mestre, a quem tratavam de endemoninhado
os mesmos que a salvar tivera; fechando esta prática com os
lucros que tirariam os que escutassem sua palavra, e lhe
acudissem com o necessário, dizendo que quando mais lhe não
dessem que um copo de água fria em seu nome, não perderiam
o galardão. Recebidas estas ins'truções, foram os Apóstolos
por todo o país, pregando à gente que fizesse penitência; e
Deus confirmava o que êles diziam com milagres; pois que
afugentaram muitos demônios, e sararam muitos enfermos,
ungindo-os com azeite.
Tempo havia que estava na prisão o Batista (61), pelo
ódio que Herodias lhe tinha; buscava aquela mulher desenvol­
ta ocasião para lhe tirar a vida, porque êle dizia a verdade;
e achou-a no dia de anos de Herodes, em que este príncipe
dando magnífico banquete lhe disse pedisse o que quisesse, que
com juramento lhe afirmava outorgar-lho; sobre o que tendo
ela consultado sua mãe, lhe ordenou esta que pedisse a cabeça
do Batista. Ela foi com muita pressa ter logo com o rei, e
pedir-lhe que num prato lhe desse a cabeça de João Batista;
agastou-se o rei da petição, mas respeitos humanos lhe impe­
diram de a recusar; e não querendo que o acusassem de faltar
à sua palavra os que presenciaram seu juramento, mandou
cortar na prisão a cabeça do santo, e dá-la a esta moça para
que a levasse à sua mãe. Quando os discípulos de João sou­
beram a morte de seu mestre, levaram o corpo, e o puseram
no sepulcro, e foram dar parte a Jesus Cristo.

LIÇÃO XXIII

Primeira multiplicação dos pães — Caminha Jesus Cristo


sobre as ond,as, o que também por ordem sua faz São Pedro
Chegando os Apóstolos da missão a que foram mandados,
disse-lhes Jesus Cristo: "Vinde ao deserto para descansardes
em lugar retirado”. Embarcou-se com êles e aportou da ou­
tra banda num lugar solitário perto de Betsaida; mas quando
lá chegou achou já muita gente que o esperava, e muita outra
se foi ajuntando.
(61) Veja-se Lição XI.
134 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

Jesus Cristo logo subiu ao monte, e com êle tôda aquela


turba, que êle acolheu com agrado, e comovido de lhes ver tão
bons desejos, se assentou e começou a instruí-los acêrca do
reino de Deus, e deu saúde a quantos enfermos lhe apresen­
taram.
Como o dia declinava já muito, pediram-lhe os Apóstolos
que despedisse aquela gente, que se viam num deserto despro­
vido, sem terem que comer, a que Jesus Cristo respondeu:
"Pois dai-lhes de que comam”. A isto acudiram os Apóstolos,
se queria êle que lhes fossem comprar por duzentos dinheiros
de comida (62), para sustentar tal quantia de povo? Jesus
Cristo cercou então com os olhos tôda aquela turba, e disse a
Filipe: "Onde compraríamos nós tanto pão que bastasse a
tanta gente?” O que dizia Jesus Cristo para os tentar, que
bem sabia o Senhor o que havia de fazer. Filipe disse que
com duzentos dinheiros de pão mal caberia a cada um uma
fatia. Perguntou-lhe quantos pães tinha: "Cinco, lhe disse
André, irmão de Pedro, e há ali um moço que tem cinco pães
de cevada e dois peixes; mas que é isso para tantos?” Jesus
porém disse que lhos trouxessem, e mandou aos Apóstolos que
fizessem sentar pela relva a gente em ranchos de cem, ou de
cento e cinqüenta, e eram quase cinco mil, sem contar mulhe­
res e crianças. Dispostos por ordem, pegou Jesus Cristo nos
cinco pães e dois peixes, levantou os olhos ao céu, e dando
graças a Deus, os abençoou, partiu os pães, cortou os peixes,
e mandou distribuir tudo; e depois que se refizeram, disse aos
Apóstolos que recoihessem os restos, e dêles se encheram doze
cestas.
O povo que vira a multiplicação miraculosa que as mãos
de Jesus Cristo obraram, o olharam como Messias, e entre si
diziam: "Êste é o verdadeiro profeta, que há de vir ao mun­
do”; e se deliberaram a aclamá-lo rei; mas Jesus, que lhes sou­
be o intento, e que haviam de vir arrebatá-lo dali para o fa­
zerem rei, deu pressa aos discípulos que se embarcassem e
fôsem esperá-lo da outra banda; e êle subiu ao monte, onde
orou até à noite. Entretanto a barca em que iam os Apóstolos
padecia tempestade no meio do lago, as vagas engrossavam,
o vento zunia pela proa e os atrasava, de modo que pela ma­
drugada, pouco mais de uma légua tinham canjado além da

(62) Pouco mais ou menos 128.000 réis de nossa moeda portu-


guêsa.
CRISTO 135

praia; então avistaram Jesus que por cima da água vinha a


êles, e tanto foi o seu pavor, que gritaram todos como se vis­
sem um fantasma: "Sou eu”, lhes disse Cristo; não temais.
— "Se sois vós, — lhe disse Pedro — mandai que sobre as
ondas vá ter convosco”. — "Vem”, — lhe disse Jesus, e Pedro
logo desceu da barca para ir a êle; mas o vento se ergueu tão
rijo, que Pedro perdeu o ânimo, e começava a afundar: "Se­
nhor, salvai-me”. Então lhe travou Jesus Cristo da mão di­
zendo: "Homem de pouca fé, por que duvidaste?” e entraram
ambos na barca; para logo acalmou o vento, e abordaram na
mesma praia designada. Êstes prodígios abriram os olhos dos
discípulos sobre quem não pesara bastante o milagre dos cinco
pães; espantaram-nos tantas maravilhas, tiveram-no por Filho
de Deus, e por tal, chegando-se para êle, o adoraram.
Logo que desembarcaram, veio a êles o povo dali, que eram
terras de Genesaré, conheceram a Jesus, e foram dizê-lo a
todos; com o que sucedia que por onde passava, lhe traziam
de toda parte enfermos sobre suas mesmas camas, ou os ex­
punham fora das portas, e lhe pediam que os deixassem tocar
na borda da vestidura; que êste toque só lhes dava saúde.

LIÇÃO XXIV
Demonstra Jesus Cristo, num sermão exímio, que era o pão
vivo e o sustento das almas
Estava contudo o povo, que êle milagrosamente tinha ali­
mentado, mui cuidadoso com o que lhe tinha sucedido; que bem
viram êles que os Apóstolos entraram na barca, mas não vi­
ram a Jesus Cristo; nem na praia havia mais barcas; e che­
gando outras no dia seguinte embarcaram nelas tanto que sou­
beram que êle não estava daquela parte, e foram em busca
dêle a Cafarnaum; e logo que o acharam: "Mestre, — lhe
disseram — quando é que viestes?” que não podiam compre­
ender como tinha atravessado o lago. "Buscais-me, — lhes
respondeu — porque vos fartei de pão; lidai em granjear ou­
tro sustento que não pereça, mas dure a vida eterna que o
Filho do homem vos pode dar”. Logo lhe perguntaram que
obras deviam fazer agradáveis a Deus para alcançar êsse sus­
tento ; e êle lhes tornou, que a obra de Deus era crefem no
que êles lhes enviara. "Mas que milagre fazeis vós, replica-
AX TO LO C iIA D E VID AS C É L E D R E S

ram, para em vós crermos? Nossos pais comeram maná no


deserto, que a Escritura chama pão do céu”. Como que lhe
dissessem "Vós sustentastes com cinco pães numa só vez cin­
co mil homens no deserto; e Moisés alimentou quarenta anos
seiscentos mil com o maná que caía do céu; fareis vós maio­
res coisas que Moisés?” "Em verdade, acudiu Jesus, vos digo,
que vos não deu Moisés o verdadeiro pão do céu: meu Pai o
dá; e esse pão é o que desceu do céu, e que dá vida ao mundo”.
Então lhe disseram: "Senhor dai-nos sempre êsse pão”. —
"Eu sou o pão da vida, lhes disse Jesus; quem a mim vem não
terá fome, e quem crê em mim não terá nunca sêde”. Que­
rendo com estas palavras dizer-nos que é êle o sustento das
almas que o comem, crendo nêles com fé viva e animada cari­
dade, e que, comendo assim,, merecem a vida bem-aventurada,
onde se saciaram plena e eternamente; e disse mais, que tendo
visto e testemunhado tantos milagres, ainda não criam nêle,
e por incrédulos perdiam os grandes lucros que ganhariam os
que seu Pai mandava que viessem a êle, que eram ressusci­
tarem do derradeiro dia, e possuírem a vida eterna. Nem dei­
xavam êles de entre si murmurarem: "Não é êle filho de
José? Não Jhe conhecemos nós o pai e a mãe? Como assim
nos diz que desceu do céu?” Tanto Jesus Cristo nada afrou­
xou das verdades que os ofendiam, que antes assegurou com
mais força, demonstrando-lhes pela Escritura que segundo as
palavras, Todos serão doutrinados por Deus, todo o homem que
seu pai doutrinava a êle vinha; e que se êles não vinham, era
porque não ouviam a voz de quem o enviara; e de novo lhes
declarou que êle era o pão da vida; que o maná não impedira
que morressem os que o comeram, mas que sua carne era o
verdadeiro pão descido do céu, que dava a vida eterna aos que
o comiam. Palavras estas que mais os enojaram, e entre si
disputavam de como poderia êle dar-lhes sua carne a comer.
Nada porém lhe atalha a prática em que lhes provou que sua
carne era verdadeira comida e seu sangue verdadeira bebida;
que não teriam em si vida se desta carne não comessem, nem
deste sangue bebessem, que quem dêles se alimentava ressur­
giria no dia último e teria eterna vida, e os instruiu dos gran­
des efeitos que seu corpo obra nas almas que dignamente o
recebem: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
mora em mim, e eu habito nêle, e por mim viverá como eu vivo
por meu Pai que me enviou”.
Estas verdades, que na sinagoga de Cafarnaum ensinava
Jesus Cristo, escandalizaram muitos judeus, e ainda discípu-
C R I S T O 187
los seus que ouvindo-as diziam: "Duras palavras; quem ouvi­
das pode?” Que tomavam muito à letra o que era para en­
tender no sentido espiritual. Cuidavam_(diz Santo Agostinho)
que para comer seu corpo precisariam despedaçá-lo, como nos
talhos se faz à carne; nem sabiam que além de alimentar-se
de Jesus Cristo pela fé, o comeriam na Eucaristia realmente;
e em lugar de crerem com respeito quanto lhes dizia Jesus,
que é a verdade por essência, e esperarem que êles os esclare­
cesse no que não compreendiam, ofendidos de seu dizer se re­
tiraram, e mais não foram seus discípulos. Mais bem avisados
os Apóstolos, que a Jesus que lhes perguntava se como os
outros, queriam deixá-lo, respondeu Pedro por todos: "E a
quem iríamos nós? Vós tendes palavras de vida eterna: cre­
mos e sabemos, Senhor, que sois Cristo, Filho de Deus”. En­
tre os dozes que assim ficaram firmes, havia contudo um Judas
Iscariotes, que o havia de vender, e Jesus Cristo, que o sabia,
mostrou dantes a infidelidade dêle quando disse: "Doze vos
escolhi, mas demônio é um de vós”.

§ IV
TERCEIRO ANO DO MINISTÉRIO DE JESUS DESDE A
TERCEIRA PÁSCOA ATÉ AOS ÚLTIMOS DIAS DE SEU
MINISTÉRIO PÚBLICO (63)
LiçAo XXV
Jesus confunde os judeus que argüiam seus discípulos que
comiam sem lavar as mãos — Lança o demônio fora da
Cananéia, e dá saúde a um surdo e mudo
Vendo alguns escribas e fariseus que os discípulos de
Jesus Cristo comiam sem lavarem as mãos, como era costume
entre êles, diziam-lhe: "Por que quebraram vossos discípu­
los as tradições dos antigos, não lavando as mãos antes de
comer?” E Jesus lhes retorquiu, por que quebrantavam êles
(63) Parece que Jesus foi em segrêdo celebrar a Páscoa a Je­
rusalém, e que voltou logo para Galiléia, porque os Judeus queriam
tirar-lhe a vida, e sua hora não era ainda chegada.
138 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

a lei do Senhor para seguirem suas tradições? E logo lhes


mostrou que eram êles os hipócritas de quem Deus dizia pela
boca do profeta Isaías: "Êste povo me honra de boca, mas
seu coração está longe de mim”. Chamou então o povo, e alto
lhe disse: "Ouvi-me, e compreendei bem o que vos digo: Nada
do que entra no corpo do homem o pode manchar; mas o que
do homem sai o mancha”. Como se lhes dissesse: não é a
pouca limpeza das mãos que faz o homem impuro, mas sim
os maus pensamentos, as invejas, os falsos testemunhos e to­
dos os vícios em geral.
Indo Jesus pelos confins de Tiro e Sidônia entrou numa
casa, onde se queria ocultar, mas uma mulher pagã, que o
Evangelho chama Cananéia (64), sabendo onde êle estava o
veio com brados procurar, dizendo: "Senhor, filho de David,
tende compaixão de mim, que me atormenta miseràvelmente o
demônio minha filha”. Uma só palavra lhe não deu Jesus;
e quando os discípulos rogavam que os livrasse daquela im­
portuna mulher concedendo-lhe o que ela pedia, o Senhor lhes
tornou que fora mandado às ovelhas desgarradas da casa de
David (os judeus); não desanimou a mulher com esta nega,
antes ousando mais, se lhe lançou aos pés, e o adorou dizendo:
"Socorrei-me, Senhor”. A que êle disse: "Deixa que sacie
os filhos; que não é bem que tire o pão aos filhos para o lan­
çar aos cães”. — "Assim é, Senhor, respondeu ela; mas per­
mitido é aos cães comerem as migalhas que aos filhos caem
debaixo da mesa”. Aqui lhe disse Jesus: "Mulher, grande é
a tua fé. Seja-te feito como desejas. Vai, que por essas pa­
lavras saiu o demônio de tua filha”. Ela partiu, e achou dei­
tada repousando a filha já liberta do demônio.
Tornou ainda Jesus às praias de Genesaré, onde lhe apre­
sentaram um homem surdo e mudo, e lhe pediram que lhe im­
pusesse as mãos, a quem êle, retirando-o da pinha do povo, lhe
meteu os dedos nas orelhas, e lhe pôs saliva na boca, e erguen­
do ao céu os olhos suspirou, e disse: Epheta, que quer dizer
Abri-vos; os ouvidos do surdo se descerraram, e a língua se
lhe desprendeu de maneira que já ouvia e falava correntemen-

(64) Os confins de Tiro e Sidônia era uma comarca, que tam­


bém chamavam Siro-fenícia; estendia-se na borda do Mediterrâneo,
desde Tiro até ao rio Eleutério, que a separava da Síria, e pertencia
à Fenícia. S. Mateus chama Cananéia a uma mulher daquela terra,
porque os Fenícios descendiam de Canaã por seu filho mais velho,
Sidon.
C R ISTO 139
te. Jesus porém aos que assistiam proibiu que a ninguém fa­
lassem desta miraculosa saúde; mas quanto mais Jesus Cristo
lho proibia, mais êles o apregoavam e admirados clamavam:
"Dá ouvir a surdos, e falar a mudos”.

Lição XXVI
Segunda multiplicação miraculosa dos pães — Dá vista a um
cego — Promete a Pedro que sobre êle edificará sua Igreja;
prediz aos discípulos sua morte

Voltou Jesus às praias de Genesaré, e subindo ao monte


lá vieram ter com êle as turbas para ouvirem a sua doutrina;
traziam muitos enfermos, os quais punham a seus pés, e a to­
dos sarou. Estava todo o povo em grande admiração, e dava
louvores a Deus. Chamou então Jesus a seus discípulos, e
disse-lhes: "Tenho dó dêste povo; há já três dias que me se­
guem, e não têem comido, não posso despedi-los assim, porque
tenho mêdo que caiam de fraqueza no caminho”. — Os discí­
pulos: "Onde acharemos nós neste deserto pão bastante para
dar de comer a tanta gente?” — Jesus: "Quantos pães tendes
aí?” — Os discípulos: "Sete pães e alguns peixinhos”. Man­
dou Jesus assentar o povo, abençoou os pães e os mandou dis­
tribuir ao povo, o mesmo fêz aos peixinhos, e com êles fartou
a quatro mil pessoas; e dos pedaços que sobejaram se enche­
ram sete cestas.
Despedidas as turbas, passou o mar com os discípulos, e
abordou a Dalmanuta ao nascente do lago de Genesaré, entre
Geraz e Corozaim, nos confins de Majedan; onde vieram os
fariseus e saduceus para tentá-lo; e disputando com êle lhe
pediram de novo que lhes obrasse nos ares um prodígio. Cristo
porém, em vez de fazer o que lhe pediam êstes porfiados in­
crédulos, que se não rendiam aos milagres que tinham presen­
ciado, lhes exprobrou, que bem sabiam êles pelo caris do céu
prognosticar se choveria ou faria sol, só não sabiam conhecer
o que é justo, nem por tantos sinais visíveis entender que era
chegado o venturoso tempo do Messias. Depois suspirou pro­
fundamente, e repetiu o' despacho, que a semelhante petição
já dera: "Esta nação estragada e adulterina pede sinal e pro­
dígio, e não terá senão o de Jonas profeta”. Assim os deixou
e tornou a passar o mar com os discípulos, aos quais disse:
140 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

"Acautelai-vos bem do fermento dos fariseus e saduceus”, e


como os discípulos não compreendessem bem o que êle queria
dizer-lhes, acrescentou que "o fermento de que falava era a
corrupta doutrina dos fariseus e saduceus”.
Chegaram a Betsaida quando lhe trouxeram um cego, e
lhe pediram que o tocasse; a quem êle tomou pela mão, e le­
vando-o fora da cidade lhe pôs saliva nos olhos, e, as mãos
postas sobre êle, lhe perguntou se via: "Vejo, respondeu êle,
andar os homens como árvores”. Então Cristo lhe pôs as mãos
nos olhos, e o cego distinguiu os objetos e os viu inteiramente;
ao que o despediu com proibição de contar o que lhe acontecera.
E foi dali com seus discípulos remontando para as nascen­
tes do Jordão, pelas vilas e arredores de Cesaréia de Filipe,
cidade situada sobre êste rio na parte setentrional da Galiléia,
e tendo-lhes perguntado que diziam dêle os homens, responde­
ram que uns o tinham pelo Batista, outros por Elias, outros
por Jeremias, ou outro qualquer profeta que nêle ressurgira.
"E vós, lhe disse o Senhor, quem dizeis que eu seja?” — "Vós
sois Cristo, acudiu Pedro, Filho de Deus vivo”. — "Bem-aven­
turado, lhe tornou Jesus, és tu, Simão filho de João, a quem
nem a carne, nem o sangue te revelou o que dizes, mas sim
meu Pai que está no céu. Tu és Pedro, e sobre essa pedra
fundarei a minha Igreja, contra a qual não prevalecerão as
portas do inferno. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu, e
quanto ligares na terra será ligado no céu, e o que desligares
na terra desligado será no céu”.
Manifestou depois aos discípulos que lhe cumpria ir a
Jerusalém, onde seria rejeitado pelos sacerdotes, magistrados
e doutores, padeceria muito, e lhe dariam morte, mas que no
terceiro dia ressuscitaria. Pedro, que amava muito a seu Mes­
tre, não sofria êste dizer; e tomando à parte a Jesus Cristo
lhe disse: "Senhor, Deus tal não permita, tal não sucederá”.
Mas Cristo, tomando-o também à parte, admoestou a quem lhe
dava os conselhos, e que, amando-o ainda ao terreno, não to­
cava nos desígnios de Deus: portanto lhe disse já em presen­
ça de outros discípulos: "Retira-te de mim, Satanás, que me
és escândalo, por não te saboreares do que é de Deus, mas sim
do que é dos homens”. Depois que Jesus Cristo falou assim
em particular aos Apóstolos, chamou a si o povo para lhe anun­
ciar as verdades que Pedro não compreendera quando o quis
desviar da morte; ali lhe manifestou que para bem o seguir,
C R ISTÓ 141
tinham de abnegar a si mesmos, e tomar quotidianamente a
cruz aos ombros; que quem por amor dêle e do Evangelho se
perdia, se salvava; que querer doutro modo salvar-se, era per­
der-se; e que nada vale ganhar o mundo inteiro, quem a si
perde; que viria um dia em toda a sua glória retribuir a cada
um segundo suas obras, e que se envergonharia, diante de seu
Pai dos que, no mundo, dêle e de sua doutrina se envergonha­
ram; que muitos dos que o ouviam, o veriam antes de mortos,
no seu Reino, e no lustre de sua glória.

L ição XXVII
Transfigura-se Cristo no Tabor — Cura um lunático
Poucos dias depois, chamou Jesus a Pedro, João e Tiago,
e subiu com êles ao monte Tabor, onde se pôs em oração; e
enquanto orava eis que seu rosto se tornou resplandecente como
coroado do sol, e suas vestiduras brancas como tecidas de neve.
Assim o viram os discípulos quando despertaram do sono, e
com êle Moisés e Elias falando do que havia de sofrer em
Jerusalém. Logo que Moisés e Elias se separaram de Jesus,
manifestou São Pedro o desejo de ali se demorar, dizendo a
Jesus Cristo: "Senhor, façamos aqui três tabernáculos (65),
um para vós, um para Moises e outro para Elias”. Ainda fa­
lava, sem saber de assombrado o que dizia, eis que uma nuvem
luminosa os envolveu, e da nuvem saiu a voz do Eterno Padre
que dizia : "Éste é o meu Filho muito amado, em quem muito
me agradei; ouvi-o”. Esta voz encheu de tanto espanto os três
Apóstolos que caíram com os rostos em terra. Então Jesus
chegando-se a êles os desintimidou e os mandou erguer; e êles,
olhando, nada viram. Desceram depois todos do monte, e pelo
caminho lhes encomendou o Senhor que nada dissessem do que
tinham visto, até que o Filho do homem ressuscitasse dos mor­
tos. Não compreenderam os Apóstolos esta palavra e pergun­
taram a Jesus por que razão, se êle era o Messias, não viefa
antes dêle Elias, como ensinavam os doutores da Lei? Ao que
respondeu Jesus, que Elias havia de preceder sua segunda vin-
da, e que João Batista é que viera no espírito de Elias para
anunciar aos homens sua primeira vinda.

(6§) Tendas ou barraeas de campanha.


142 A N T O L O G I A D E VIDAS C É L E B R E S

No dia seguinte, estando Jesus com os mais Apóstolos,


correu a saudá-lo grande multidão de povo transportado de
contentamento e de admiração. Rompeu então por entre o
povo um homem que se lançou aos pés de Jesus Cristo, pe­
dindo-lhe compaixão para um filho que ali trazia, a quem os
discípulos não puderam dar remédio.
Era seu filho lunático, e o demônio o atormentava lasti-
mosamente, pois que o lançava na terra, no fogo, na água, e
com tão violentas convulsões o vexava, que o moço gritava,
escumava, rangia os dentes, e ficava hirto, e ainda depois de
o ter quebrantado e moído lhe custava deixá-lo o espírito ma­
ligno. À vista de Jesus Cristo, entrou o mancebo em violentas
convulsões, escumando, deitando no chão e rodando na poeira.
Perguntou Jesus ao .pai desde quando assim o atormentava o
demônio: "Desde a infância, lhe disse; se tendes algum poder,
compadecei-vos de nós e socorrei-nos. — Jesus: "Se credes,
tudo é possível a quem crê”. — Pai: (com lágrimas): "Creio,
Senhor, ajudai a minha incredulidade” (66). Então falou
Cristo ao demônio, ameaçando-o: "Espírito surdo e mudo,
mando-te que saias dêste moço, e que a êle não tornes”. Deu
o demônio um grito horrendo, e depois de horríveis contorsões
ccm que agitou o mancebo, saiu de seu corpo, deixando-o como
morto; mas Jesus Cristo, tomando-lhe a mão, o levantou e en­
tregou são e salvo a seu pai, com assombro de quantos ali esta­
vam e viam quão grande é o poder de Deus.
Perguntaram os discípulos ao Senhor, apenas entrou em
casa: por que não tinham êles podido expulsar aquêle demô­
nio? Ao que êle respondeu: "Por vossa incredulidade; e se
vós tivésseis um só grão de fé perfeita, duma só palavra vossa
transmudaríeis as árvores e os montes de seu lugar”. Disse-
-lhes acêrca do energúmeno mudo, que aquêles demônios só
com jejuns e oração se afugentavam; instruções estas de que
os Apóstolos granjearam o que diz São Lucas, pedirem ao
Senhor que aumentasse sua fé (Lucas, XVII, 5).

(66) Isto é: Supri o que falta na minha fé para ser digna da


cura de meu filho.
C R ISTO 143
L ição XXVIII
Jesus Cristo paga o tributo das duas dracmas — Reprime a
ambição dos discípulos, e dá regras para corrigir e perdoar
Voltava Jesus a Cafarnaum com seus discípulos, quando
os cobradores dos tributos perguntaram a Pedro se seu Mestre
pagava ou não tributo (67). O Apóstolo respondeu que sim,
e apenas entrados em casa, perguntou Jesus Cristo a Pedro
se os reis da terra cobravam direitos dos naturais ou dos es­
tranhos. "Dos estranhos”, respondeu Pedro. Daqui concluiu
Cristo que seriam isentos os filhos, deixando inferir que êle,
como unigênito de Deus, era menos obrigado: porém, para não
escandalizar os mais, mandou que fosse lançar a linha e que
na boca do primeiro peixe acharia um starter (68) que daria
por si e por êle.
Por êste mesmo tempo, entrou no pensamento dos discí­
pulos qual dêles era o maior, e disto disputavam na jornada;
chegados à casa, perguntou-lhes Jesus sobre que tinham alter-
cado, a que êles não se atreveram a responder; mas chegando
todos a seu chamado, lhe perguntaram quem no reino do céu
era maior. Jesus lhes respondeu: "Quem quiser ser primeiro
faça-se último, e sirva a todos”. Chamou logo um menino, que
chegou a si, e beijando-o lhes disse: "Enquanto não fôrdes
como êste menino, não entrareis no reino do céu, onde será
maior o que se humilhar e se tornar pequeno como êste meni­
no; e quem em meu nome agasalhar um dêstes, me agasalha;
como quem me agasalha, agasalha a quem me enviou”. Nisto
João, filho de Zebedeu disse: "Mestre, vimos um homem que
em vosso nome afugenta os demônios, e nós o impedimos, por­
que não era dos nossos”; de cujo procedimento Nosso Senhor
o repreendeu, capacitando-o que êsse homem não caluniaria
fàcilmente aquêle em cujo nome fazia milagres; e pois que não
(67) Não se há de confundir êste tributo das duas dracmas com
o dinheiro que se pagava na Judéia aos imperadores romanos. Não
consta que as províncias governadas por tetrarcas, como era a Gali­
léia, onde isto sucedeu, pagassem tributos aos Romanos. Trata-se aqui
provàvelmente da taxa que os Judeus pagavam voluntàriamente, se­
gundo parece, para a fábrica do templo e despesas do serviço divino.
Êste é o parecer do douto Stolberg.
(68) Moeda dos Hebreus, qúe valia meio siclo de prata ou qua­
tro dracmas.
144 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

era contra êles, não o deviam ter por inimigo. Veio depois a
falar dos meninos, isto é, dos humildes, com quem lhes reco­
mendava que se parecessem; e pronunciou infortúnio contra
os que lhes fossem motivo de escândalo ou queda, declarando
que mais valia ser lançado no fundo do mar com uma mó ao
pescoço, que escandalizar êstes pequenos que nêle crêem, a
quem anjos guardam, que sem cessar vêem a face de Deus
no céu.
Disse mais, que o mundo estava cheio de escândalos, que
necessário era que os houvesse; mas desgraçado aquêle que o
causava; que para evitá-lo ponha diante dos olhos o inferno
com o remorso implacável que nunca morre; o fogo que sem­
pre queima e não consome, antes como sal os conserva para
serem eternamente atormentados. Que quem se quer eximir
dêstes castigos tremendos, vigie por não dar ocasião de queda
ao próximo; corte (se assim cumpre) o pé, a mão; arranque
o olho que escandaliza. O que quer dizer que se prive das
coisas úteis e mais amadas, quando elas são capazes de o fazer
tropeçar na culpa.
Por esta ocasião, deu Jesus Cristo aos discípulos várias
regras para corrigir a quem comete o mal, e lhe perdoar quan­
do ofende; disse, não só a êles mas também a nós, que admoes­
tamos só por só ao que nos ofendeu para o acarearmos com
bons modos; e que no caso que se frustre a correção fraternal
e oculta lha repitamos diante de duas ou três testemunhas;
e que sendo esta inútil nêle, o declaremos à Igreja; e que fi­
nalmente se não obedecer a Igreja, rompamos com êle a comu­
nicação, e o tenhamos como um infiel. E para que a Igreja
possa separar da comunhão os que empeceriam a salvação dos
outros, lhe promete o poder de ligar e desligar, abonando que
no céu ratificará quanto ela pronunciar na terra.
Manda, em segundo lugar, que perdoemos a ofensa rece­
bida quando foi útil a correção, e perdoemos sete vêzes por
dia, se sete vêzes se mostrar arrependido; o que se deve en­
tender assim: que nos não cansemos de perdoar a quem de
suas culpas se arrependeu; porquanto tendo perguntado Pedro
a Jesus Cristo quantas vêzes devia êle perdoar a seu irmão,
se sete vêzes, lhe respondeu o Senhor, que não só sete, mas se­
tenta e sete. E para demonstrar-lhe a necessidade e os lucros
desta pronta disposição a perdoar-lhes, propôs a parábola do
rei que, tomando a seus servos, e achando que um lhe devia
Jesus no Jardim das Oliveiras
A Ceia
O beijo de Judas
C R ISTO 145
tão sobejo cabedal que não tinha com que lhe pagasse, mandou
que o vendessem e sua mulher e filhos, e todos os seus bens;
mas o servo, lançando-se a seus pés, rogava que lhe esperasse,
que pagaria tudo. Apenas êste desventurado saindo, encon­
trou outro servo que devia uma quantia módica, que lhe travou
do pescoço, e sem lhe ouvir rogos que lhe desse tempo, o fêz
logo encarcerar. Tanto que o rei soube isto, mandou chamar
o servo ingrato, o exprobrou de inümano, e o cometeu aos al­
gozes para que dêle tirassem a dívida inteira. Desta parábola
fêz logo Jesus Cristo a aplicação, dizendo: "Assim vos tra­
tará meu Pai que está no céu, se bem do peito cada um de vós
&ão perdoar as ofensas que de seu irmão tiver recebido”.

L ição XXIX

Repreende Jesus o zelo inconsiderado de Tiago e João —


Separa setenta >e dois discípulos a quem manda pregar —
Ensina a um doutor da Lei como se há de amar o próximo
— Hospeda~se em casa cbe Marta

Ia-se chegando o tempo em que Jesus havia de deixar a


terra, e como era mister fosse a Jerusalém, mandou adiante
alguns discípulos para que lhe preparassem hospitalidade
numa cidade da Samaria. Não quiseram os habitantes daque­
la cidade recebê-lo, porque se encaminhava para Jerusalém.
Tiago e João disseram-lhe então: "Quereis, Senhor, que fa­
çamos descer fogo do céu, e que os abrasemos?” Virou-se
Jesus para êles, e disse-lhes: "Não sabeis que espírito vos
deve dominar. O Filho do homem não velo a perder as almas,
mas a fazê-las felizes”. Seguiram seu caminho, e foram per­
noitar a outro lugar.
Por êste mesmo tempo, escolheu Jesus setenta e dois dis­
cípulos a quem mandou dois a dois diante de si aos lugares
onde tinha de ir, aos quais deu as mesmas instruções que já
havia dado aos Apóstolos, e poder igual sobre os demônios
(69), e terminou dizendo-lhes: "Quem vos ouve a mim ouve,
e quem vos despreza a mim despreza”. Voltaram êles mui
contentes, dizendo: "Os mesmos demônios em vosso nome,

(69) Veja-se Lição XXII.


146 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

Senhor, se nos sujeitam”. Jesus porém lhes respondeu: "Não


vos comprazais tanto porque os demônios vos obedecem, ale-
grai-vos antes porque vossos nomes estão escritos no céu”.
Um doutor da Lei, que o quis tentar, veio ter com êle e
disse-lhe: "Mestre, que hei de fazer para possuir a vida eter­
na?” — Jesus: "Que manda a Lei, e o que lês tu nela?” —
O doutor: "Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu cora­
ção, com todas as forças de tua alma, e ao próximo como a ti
mesmo”. — Jesus: "Obra assim, e viverás”. O doutor, que
se queria abonar de justo e fiel observador da Lei, instou ain­
da por saber quem era o seu próximo, a que Jesus Cristo expôs
a parábola do judeu a quem roubaram na estrada e feriram
os ladrões deixando por morto. Passa um sacerdote por êle,
passa um levita, sem lhe darem socorro; vem depois um sama-
ritano, e vendo-o se enternece de compaixão, lança-lhe azeite
e vinho nas feridas, ata-as, o toma a cavalo, paga adiantado
à estalajadeira, e lhe recomenda que o trate como a si próprio.
"Qual dêstes era próximo do ferido?”, perguntou Cristo ao
doutor para que se aplicasse a si mesmo a parábola: "É o
que exercitou com êle misericórdia, disse o doutor”. — "Pois
vai, lhe tornou Jesus, e obra como êle”.
Foi caminhando depois com os seus discípulos, e entrando
num povo, o recebeu com muita alegria em sua casa Marta,
irmã de Maria e de Lázaro, de quem falaremos nesta histó­
ria: enquanto ela dispunha e aparelhava tudo para tão divino
hóspede, estava Maria a seus pés ouvindo suas palavras. Disto
se queixou Marta que lhe deixava todo o encargo, e pediu ao
Senhor que a mandasse ajudá-la; mas Jesus lhe respondeu:
"Marta, Marta, em muito te desvelas, quando só uma* coisa é
necessária; Maria escolheu a melhor parte, qúe lhe não será
tomada”.

L ição XXX

Jesus Cristo ensina a seus ãiscvpulos a orar


Acabava Jesus Cristo de fazer sua oração quando um de
seus discípulos lhe disse: "Senhor, ensinai-nos a orar, como
João Batista ensinou a seus discípulos”. Deu-lhes Jesus Cris­
C R ISTO 147

to nesta ocasião e em outras as seguintes instruções acêrca da


oração.
"Não deveis orar, como os idólatras, com afetação e egoís­
mo; mas como filhos que falam a seu pai e que amam a seus
irmãos”.
1.°) Pureza de intenção. Pedi primeiramente os bens
espirituais.
"Quando orardes, não façais como os hipócritas que se
mostram orando nas sinagogas e cantos das ruas para serem
vistos dos homens. Na verdade digo que êsses já receberam
sua recompensa. Também não é mister que multipliqueis
muitas palavras, como fazem os pagãos que cuidam que com
dizerem muitas palavras são mais depressa ouvidos; antes de
pedirdes, já vosso pai sabe o que haveis mister. Eis aqui
como haveis de orar.
"Padre nosso, que estais no céu (70), santificado seja o
vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa von­
tade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia
nos dai hoje; perdoai-nos as nossas dívidas (71), assim como
nós perdoamos aos nossos devedores (72); não nos deixeis,
Senhor, cair em tentação, mas livrai-nos do mal”.
"Quando vos dispuserdes a orar perdoai aos que poderiam
ter-vos ofendido, para que vosso Pai celestial, vos perdoe vossos
pecados. Se não lhes perdoardes também Deus não vos per­
doará”.
2.°) Confiança firme no nome de Deus.
"Alcançareis tudo que pedirdes com firme confiança. Tudo
que pedirdes a meu Pai, em meu nome, ser-vos-á concedido,
para que o Pai seja glorificado no Filho. Quando pedirdes
alguma coisa em meu nome, eu vo-la farei. Até aqui nada
(70) Daqui vem a mui portuguêsa expressão Pai do Céu, com
que nossas mães nos inspiram as primeiras idéias acêrca da Divin­
dade; expressão mui afetuosa e não menos teológica.
(71) Isto é, as ofensas que temos cometido contra Deus, ou
antes o castigo que por elas merecemos, o que constitui uma espécie
de dívida para com a sua justiça.
(72) Isto é, aquêles que nos ofenderam, cujas ofensas são igual­
mente uma espécie de dívidas para conosco.
148 A N T O L O G I A D E VID A S C É L E B R E S

tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que vossa


justiça seja inteira. Qual será o homem que dará a seu filho
uma pedra quando lhe pede pão, ou lhe dará uma serpente
quando lhe pede peixe? Assim que, com serdes vós maus, sa-
beis contudo dar coisas boas a vossos filhos, com muito mais
razão vosso Pai celestial vos enviará do alto céu seu bom E s­
pírito ao que lho pedirem”.
3.°) Humildade.
Como alguns tinham em si grande confiança, e julgando­
-se justos, desprezavam os outros, propôs-lhes esta parábola:
"Dois homens, um fariseu e outro publicano, foram orar
ao templo; aquêle em pé, dizia entre si: "Dou-vos graças,
Senhor, que não sou como os outros homens, roubador, in­
justo, adúltero, nem como êste publicano; duas vêzes jejuo na
semana, e de tudo pago dízimo”. O publicano afastado dali,
que nem ousava pôr no céu os olhos, batia nos peitos e dizia:
"Meu Deus, tende piedade dêste grande pecador”. Pois êste,
lhe disse Jesus Cristo, tornou justificado à casa, o outro não;
porque o que se exalta será humilhado, e o que se humilha
será exaltado”.
4.°) Perseverança.
Serviu-se o Divino Mestre de duas comparações para lhes
fazer compreender que é mister orar com perseverança. "Se
algum de vós tivesse um amigo, lhes dizia, que lhe viesse pela
meia-noite bater à porta, e lhe dissesse: "Amigo, empresta-
-me três pães, que veio um hóspede de viagem, e não tenho
que lhe oíerecer; e se deixando-se estar na cama, lhe respon­
desse : Não me venhas incomodar, a porta está fechada, meus
filhos estão deitados, e eu não posso levantar-me para te ir
abrir e te dar o que me pedes; e se o outro continuasse a
bater, digo-vos na verdade que o tal por fim se levantaria da
cama e lhe daria os pães, se não por seu amigo, ao menos para
se não ver importunado. Assim vos digo eu. Pedi, e recebe­
reis; buscai, e achareis; batei, e abrir-vos-ão”.
Propôs-lhes mais outra comparação, dizendo-lhes: "Havia
numa cidade um juiz que não era temente a Deus, nem dos
homens tinha vergonha. Veio um dia uma viúva ter com êle,
pedindo-lhe justiça contra um inimigo que a perseguia. Re-
CRISTO 149
eúsou-se o juiz por muito tempo, mas por fim disse consigo
mesmo: "Posto que não tema a Deus, nem me envergonhe dos
homens, quero contudo fazer justiça a esta viúva, porque me
é pesada, e quero ver-me livre dela. E ajuntou Jesus Cristo:
Entendeis esta parábola do juiz iníquo? E não vingará Deus
a seus escolhidos que a êle clamam noite e dia? Digo-vos, em
verdade, que não tardará a vir a seu socorro”.
Disse-lhes ainda mais: "Quando dois de vós estiverem
reunidos na terra, meu Pai que está no céu lhes concederá tudo
o que pedirem; porque onde se reunirem dois ou três em meu
nome, eu estou no meio dêles”.

L ição XXXI
Repreende os fariseus e doutores da Lei — Dá várias
instruções a seus discípulos

Sendo um dia convidado Jesus Cristo a jantar em casa


dum fariseu, e não tendo lavado as mãos antes de se assentar
à mesa, como tinham por costume os fariseus, começaram êles
a murmurar entre si, o que percebendo Jesus, disse-lhes: "Vós
outros tendes grande cuidado de trazer asseado o exterior,
mas interiormente andam mui sujas vossas almas. Dai esmo­
la, e ficareis limpos de muitas nódoas; porque a esmola tudo
purifica”. De muitos outros defeitos argüiu aquêles soberbos
que exigiam de todos honras e venerações de santos, e paten­
teou o interior da hipocrisia e de mil torpezas debaixo do seu
manto; lançando maldição contra os escrupulosos de nonada
e que o não são de muito, semelhantes aos que temem engolir
um mosquito e engolem camelos, que pagando dízimo das hor­
taliças de seus quintais, desprezam o fundamento da Lei, a
justiça, a misericórdia, a fé, o amor de Deus. Argüiu-os mais
que nas reuniões públicas buscavam os primeiros lugares, e as
saudações nas praças; que, com o pretexto de prolixas orações,
devoravam a fazenda das viúvas em cujas casas entravam.
Finalmente, comparou-os com os sepulcros branqueados, cheios
de ossos e podridão.
Assentando os doutores da Lei que sôbre êles caíam todas
estas exprobrações, lhe falou assim um dêles. "Mestre, tu nos
desacreditas, quando assim falas”. Nem por isso Jesus Cristo
150 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

lhes deu melhor quartel, antes amaldiçoou os que carregavam


nos outros o jugo em que êles nem tocavam com o dedo, e que
não entrando no céu, impediam os mais de entrar; censurou-
-lhes os magníficos adornos com que pomposeavam os sepul­
cros dos profetas, por se desnegarem de cúmplices dos que os
mataram; que o sinal mais perto de que aprovavam os mata­
dores era perseguirem (como êles faziam) os que lhes falavam
verdade; e que imitando-os na crueza se davam por filhos dos
que mataram os profetas, e acabou dizendo; que enchessem a
medida de seus pais: "Que eu vos enviarei profetas, sábios e
doutores que matareis, crucificareis, flagelareis em vossas si­
nagogas e perseguireis pela cidade, para que caia sobre vós o
sangue que derramaram vossos pais; e já vos declaro que a
esta nação se pedirá conta dêles, e sobre a geração que ora é
descarregará tudo”. Ainda falava, quando escribas e fariseus
começaram a apertá-lo, e a pôr-lhe tropeços com perguntas e
objeções; mas não tiraram de sua boca com que poder acusá-lo.
Tinha-se ajuntado muito povo à roda dêle, que uns se atro­
pelavam aos outros, enquanto êle ensinava os discípulos que se
precavessem do fermento dos fariseus, que era a hipocrisia;
que não receassem as perseguições dos homens, mas que temes­
sem a Deus, e nêle tivessem grande confiança; então gritou
um do meio da turba: "Mestre, dizei a meu irmão que repar­
ta comigo da herança que nos coube”. Mas Jesus, que por
doutrina queria que cada um se limitasse ao seu emprêgo:
"Amigo, lhe respondeu, quem me deu autoridade de vos julgar
nem fazer vossas partilhas? Acautelai-vos contra a avareza”.
Para inspirar mais profundamente esta verdade a seus
discípulos, disse-lhes que se não molestassem acêrca das coisas
desta vida; mas cuidassem maiormente no reino de Deus e sua
justiça; e que o mais lhe viria de seguida; que não juntassem
riquezas perecedouras, antes vendessem o que tinham para o
dar de esmola e fazer no céu tesouro; que, posto que eram pou­
cos em número, não temessem, pois que a seu Pai celeste lhe
agradava dar-lhes seu reino; que se pusessem sempre prontos
a aparecer diante de Deus, que na hora menos cuidada viria,
como servos que velam toda a noite, esperando o amo que vem
das bodas; que postos por mordomos de sua casa para distri­
buir a seu povo o sustento da doutrina, cumprissem fiéis com
seu dever, nem fizessem como o dispenseiro insensato que, ven­
do que o amo não vinha, estragou em devassidões a fazenda
que lhe confiara, empregando em maltratar os outros servos
CR ISTO 151

a autoridade que sobre êles lhe dera; e que com êste desre­
grado proceder granjeia que o precipitem com os hipócritas e
infiéis no sítio das penas, onde não há senão pranto e ranger
de dentes. E que havendo o Filho do homem de vir, sem lhes
prevenir a hora nem o dia, sindicar de sua administração, e
pedir-lhes conta, velassem sempre, como velaria um pai de fa­
mília avisado que certa noite o viriam roubar; que pois sabiam
qual era a vontade do Senhor, maior fora sua culpa de a não
cumprir; e que a quem mais se confia, mais estreita conta se
lhe pede. E por fim lhes disse que viera acender fogo sobre
a terra, e que nela havia um batismo em que êle tinha de
batizar-se; pelo qual batismo entendem os Santos Padres a
morte, e pelo fogo a caridade que o Espírito Santo espalharia
nas almas para que ardessem santamente no amor de Deus.

L ição XXXII
Mostra Jesus quanto necessitamos da 'penitência — Sara uma
mulher encurvada — Ensina a entrar pela porta estreita

Vieram naquele mesmo tempo contar a Jesus que Pilatos,


governador da Judéia, mandara matar a certos galileus que
sacrificavam, cujo sangue correu junto com o das vítimas; e
Jesus respondeu-lhes: "Se tendes êsses galileus pelos maiores
pecadores da Galiléia, enganai-vos; dêste sucesso deveis con­
cluir que se não fizerdes penitência parecereis como êsses des­
graçados; o mesmo deveis entender dos dezoito hierosolimita-
nos sobre os quais caiu a torre de Siloé (73) e os esmagou”.
E para que não malograssem o tempo saudável para a peni­
tência de suas culpas, lhes trouxe a comparação da figueira
estéril, que o dono mandou cortar, mas que a rogos do caseiro
lhe deu um ano ainda, por que amanhada e cavada a terra em
roda dela pudesse dar fruto.
Estando um sábado ensinando na sinagòga veio ali ter
uma endemoninhada, tão encurvada havia dezoito anos, que não
(73) A torre de Siloé fazia provàvelmente parte da muralha de
Jerusalém, na parte oriental donde saía, ao pé do monte de Sião, a
nascente ou aqueduto de Siloé, que formava um lago, que serviu de
piscina com o nome de Siloé, e fornecia aos habitantes da cidade água
para seu uso, e para regar várias hortas e pomares.
152 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

podia olhar para o céu. Chamou-a Jesus Cristo, impôs-lhe as


mãos, e disse-lhe: "Mulher, livre estás de tua moléstia” ; e
no mesmo instante se endireitou a mulher, e deu glória a Deus
da sua saúde. Agastado o arqui-sinagogo de que Jesus fizera
uma cura no sábado, dizia ao povo que viessem nos dias da
semana para serem curados, e não no sábado, dia de repouso;
ao que disse logo Jesus: "Ser-me-á a mim mais vedado livrar
no sábado dos laços do demônio uma filha de Abraão, que há,
dezoito anos êle traz cativa, que a vós desprender no sábado
o boi, o asno, para os levardes a beber?” A estas palavras ft%
caram corridos seus adversários, e todo o povo se alegrava,
de ver as maravilhas que fazia.
Noutra ocasião veio um homem perguntar-lhe se seriam
muitos os que se haviam de salvar. "Forcejai, respondeu
Jesus, por entrar pela porta estreita; que muitos, vos digo eu,
lidarão por entrar por ela e não poderão. Quando o pai des
família entrar e fechar a porta, e vós estando de fora, bater-,
des à porta, dizendo: Abri-nos, Senhor; êle vos responderá:
Não vos conheço, nem sei donde sois; retirai-vos de mim*
obreiros de iniqüidade. Então, haverá entre êles choros e ran-*
ger de dentes quando virem que entram no céu os gentios qu&
virãò de todo o mundo, enquanto os judeus, que eram os her-.
deiros do reino, serão expulsos, e de primeiros que eram, virão»
a ser derradeiros”.
Um sábado depois entrou em casa dum fariseu principal*
para tomar a sua refeição, e como ali se achasse também um»
hidrópico, Jesus pegou-lhe na mão, sarou-o e despediu-o, dK
zendo-lhe o que a outros dissera em semelhantes casos. Aos.
fariseus porém, que não aprovavam o curar êle nos sábados^
disse: "Qual de vós, se lhe cai o boi, ou o asno no poço, o
não vai tirar no sábado?” Como êles nada respondessem, e.
• se apressassem a tomar os primeiros lugares, repreendeu-o&í.
de sua vaidade, e recomendou-lhes a humildade, como já nou-.
tra ocasião fizera. Admoestou-os mais que não convidassem
a seus banquetes somente os parentes e os ricos, mas que con-.
vidassem os pobres e enfermos que não podiam convidá-losK
por amor dos quais os recompensaria Deus, no dia da ressur­
reição, do que por caridade e sem interêsse fizeram.
Um dos que estavam à mesa, ouvindo estas últimas palas,
vras, lhe disse: "Bem-aventurado quem come pão no reino de*
Deus”. Mas Jesus Cristo com uma parábola lhe demonstrou^
CRISTO 15S

que para o grande banquete do céu viera chamar os homens,


no qual não entrariam todos os convidados, porque amariam
mais os bens caducos, que os eternos: "Tendo — lhes dizia —
um homem convidado muitas pessoas para uma grande ceia,
mandou buscar os convidados quando tudo foi prestes; mas
todos se desculparam: um que ia ver uma quinta que com­
prara; outro, provar uma junta de bois; outro, que casara;
e os mais com outros pretextos; o que referindo os servos a
seu amo jurou que nenhum dêles tomaria gosto à ceia, e em
seu lugar mandou vir os pobres e enfermos que encontrassem
pelas ruas e encruzilhadas da cidade; e juntos, como houves­
sem ainda assentos de vago, mandou o rei seu servo pelas es­
tradas, e ao longo dos vaiados trazer por força os que por ali
se achassem”. Daqui veio que foram chamados os gentios aos
postos que haviam de ocupar os judeus, e êstes foram dêles
excluídos. Concluiu Jesus a parábola com esta sentença:
"Quem não renuncia a si mesmo, e toma a sua cruz, não pode
ser meu discípulo”.

Lição XXXIII

Parábolas consoladoras

Entre as pessoas que rodeavam de ordinário Jesus Cristo


havia muitos publicanos e pessoas de má vida que gostavam
de ouvir sua palavra. Murmuravam disto os escribas e fari­
seus, e Jesus Cristo, para os convencer de quão injustamente
eram queixosos, propôs-lhes esta parábola: "Qual é pastor
que não deixa noventa e nove ovelhas, que estão seguras, para
ir em busca da centésima que se desgarra, e achando-a, a não
tome muito alegre aos ombros, e venha convidar todos seus
amigos a tomarem parte na sua alegria? Assim que, eu vos
digo que haverá mais alegria no céu pela conversão dum pe­
cador, que pela conservação dum justo que não precisa de pe­
nitência. Ou se uma mulher que tinha duas dracmas perdeu
uma, não varre ela a casa e a busca com a candeia acesa, e
achand(>a se regozija com suas vizinhas do bem deparado?
Assim, vos digo, se regozijarão os anjos por um só pecador
que fizer penitência”.
154 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

O FILHO PRÓDIGO
Com outra parábola patenteou mais esta verdade. Pedira
a seu pai o mais moço de dois filhos que tinha, o que lhe ca­
bia em dinheiro, e foi-o estragar em devassidões em terras
arrendadas; tudo sendo gasto, guardou porcos; então se lhe
abriu ao claro a comparação do estado presente e da casa de
seu pai; parte dali, e lançado a seus pés pedia ser tratado como
os seus servos. Movido o pai de ternura e de alegria, lhe lan­
çou os braços ao pescoço e o beijou, enquanto o filho dizia:
"Pequei, meu pai, contra o céu, contra vós, não sou digno de
me nomear filho vosso”. Humildade esta que o congraçou cor­
dialmente com o pai, de sorte que êste lhe despiu os farrapos,
o cobriu de ricos vestidos, deu banquete para se regozijar de
sua tornada, de que o morgado que vinha do campo se enfadou
entrando em casa, não se tendo nunca feito por êle, fiel e mo-
rigerado, o que faziam por um dissoluto; e êste seu agravo
mostrou ao pai, que lhe respondeu: "Meu filho, tu sempre
-estiveste comigo, e teu é quanto possuo; mas cumpria ban-
quetear-nos por teu irmão que estava morto e reviveu; per­
dido, e se nos deparou”. Fácil é a aplicação desta parábola,
e como são injustos os murmúrios dos fariseus, agastados de
que o Senhor recebia com boa sombra os pecadores, Jesus que
só para salvá-los descera ao mundo.

Lição XXXIV
Parábola do feitor infiel — Confunde Jesus Cristo
a avcureza dos fariseus

Para mostrar o proveito da esmola, acrescentou Jesus


Cristo esta parábola. "Havia um homem rico que tinha um
vílico ou feitor, e êste foi difamado para com êle, como que
tivesse dissipado seus bens. Chamou-o o amo e disse-lhe: "Que
é isto o que ouço de ti? Dá conta da tua feitoria, porque não
poderás feitorizar”. Vendo-se o feitor privado de seu ofício,
disse consigo mesmo: "Que farei, pois meu amo me tira a
feitoria? Eu não posso cavar, tenho vergonha de mendigar.
Já sei o que hei de fazer, para que, quando fôr deitado fora
da feitoria, me recebam em suas casas”. Chamando pois a
C R ISTO 155

cada um dos devedores de seu amo, dizia ao primeiro: "Quan­


to deves tu a meu amo? E êle disse: Cem cados (74) de
azeite. E disse-lhe: Toma lá teu conhecimento, e escreve cin­
qüenta. Depois disse ao outro: E tu, quanto deves? O qual
respondeu: Cem coros (75) de trigo. Disse-lhe: Toma lá o
teu conhecimento, e escreve oitenta”. Louvou o amo ao mau
feitor, porque andara prudente; porque os filhos dêste mundo
são mais prudentes que os filhos da luz”.
Com esta parábola ensinou Jesus Cristo a imitar, não a
injustiça, mas a destreza daquele feitor, empregando os bens
da terra a granjear amigos na pessoa dos pobres, para serem
recebidos depois da morte nos eternos tabernáculos. Ensinou-
-lhes mais que fossem fiéis no pouco e no muito, e que não
fossem escravos das riquezas, das quais devemos ser dispen-
seiros e não donos.
Para confundir a avareza dos fariseus e lhes fazer ver o
castigo que aguardava aos avarentos, propôs-lhes a parábola
do rico avarento que trajava púrpuras e o linho fino, se ban-
queteava lautamente e nenhuma compaixão tinha dos pobres
famintos; pois que o Lázaro lançado à sua porta, o corpo todo
uma chaga, e a quem regalariam as migalhas que lhe caíam
da mesa, nada favorecia, menos piedoso que os cães que lhe
lambiam as feridas. Morreu o rico e morreu Lázaro com bem
diverso destino; que a Lázaro levaram os anjos ao seio de
Abraão, depósito das almas justas, e o rico foi sepultado no
inferno, donde por maior pena via o pobre mendigo venturoso:
"Abraão, meu Pai (clamava), compadece-te de mim; manda a
Lázaro que molhando na água a ponta do seu dedo me venha
refrescar a língua, que grandes são os tormentos que nestas
chamas sofro”. Abraão porém lhe significou que além da
grande distância que os separava, justo era que quem tanto
padecera em vida, fosse consolado e alegre depois da morte,
e quem se regalou de cabedais e delícias no mundo sofresse

(74) Medida de líquidos com cântaro de barro. O padre Sepul­


cro calcula que os cem cados faziam trezentos alqueires de azeite ou
cento e cinqüenta cântaros.
(75) Córo era outra medida judáica, que levava trinta alqueires
de pão; de modo que dois córos faziam um moio; e devia o segundo
por seu assinado cinqüenta moios de trigo.
156 A N T O L O G I A D E VID A S C É L E B R E S

sêde e tormentos na outra vida. O avarento, que não viu luz


de esperança nem misericórdia, considerou que tinha cinco
irmãos, e pediu a Abraão, que por Lázaro os avisasse do esta­
do em que êle gemia; para que sobre seu exemplo tomassem
melhor acordo; ao que se lhe respondeu que lá tinham Moisés
e os profetas, a quem não escutavam, e que não dariam mais
fé a um morto que para efeito de os advertir ressuscitasse.

LiçAo XXXV
Jesus vai à festa dos Tabemáculos; absolve a mulher
adúltera — Querem os judeus apedrejá-lo, porque diz
ser o Filho do Padre Eterno

Viera Jesus Cristo a Jerusalém pela festa dos Taberná-


culos (76) e ensinava no Templo com grande admiração dos
judeus, que diziam entre si: "Como sabe êste homem as Es­
crituras sem as ter estudado?” E Jesus Cristo lhes respon­
deu: "A minha doutrina não vem de mim, senão daquele que
me mandou. Quem quiser sujeitar-se à vontade de Deus co­
nhecerá se a minha doutrina vem de Deus, ou se eu falo de
mim mesmo” (sem missão, como homem). Muitos do povo
creram nêle, mas Jesus para evitar as perseguições dos fari­
seus, retirou-se aquela noite ao monte Olivete.
No dia seguinte pela manhã veio ao Templo onde se pôs
a doutrinar o povo que em roda dêle se apinhava. Ali lhe
trouxeram os escribas e fariseus uma mulher apanhada em
adultério, e pondo-a diante dêle no meio daquele povo, lhe
disseram: "Esta mulher cometeu adultério, e manda Moisés
na lei, que os que estão certos do crime a apedrejem. Que
dizes tu?” Questão capciosa para o tratarem de cruel se man­
dasse apedrejá-la, de destruidor da lei se a absolvesse dela.
Mas Jesus não responde; curva-se à terra, e nela escreve com
o dedo; e êles instavam que respondesse; então se ergue e diz:
"Quem se achar sem culpa lhe atire a primeira pedra”, e tor­
nou a curvar-se e a escrever. Foram-se todos retirando atô-
(76) Festa que os hebreus celebravam anualmente.
CRISTO 157
nàtos da resposta não esperada, e instigados de roedores re­
morsos. Quando Jesus viu que ficava só, perguntou à mulher:
"Onde estão os que te acusavam? Ninguém te condena?” —
"Não, Senhor”, respondeu ela. — "Nem eu, disse Jesus Cristo,
te condenarei tão pouco. Vai-te; não tornes a pecar”.
Aumentava de dia em dia o ódio que os judeus conceberam
contra Jesus Cristo, mas êsse ódio não lhe impedia pregar-lhes
a verdade. Dizia-lhes que era a luz do mundo, que não andava
em trevas quem o seguia; e replicando-lhe os fariseus que não
era ae receoer o testemunho que de si dava, lhes deu êle a
conhecer que tanto mais seu testemunho era verdadeiro, quan­
to se lunaava no que üeie dava com tantos milagres seu Pai
que o enviava. E perguntado onde seu Pai estava, respondeu,
que não conheciam seu Pai; porque não queriam conhecer o
.fcllho. "Vou-me; e buscando-me, não me achareis, e morrereis
em vosso pecado; que não podeis vir onde eu vou”. E como
êles imaginassem que èie queria dizer que se mataria por que
ninguém tosse em sua seguida, lhes declarou que não era, como
eies, deste mundo, mas das alturas; que se nêle não criam,
morreriam em seus pecados. líJntao me perguntaram quem
era; a que responcieu, que Jf iiho de Deus, mas em têrmos que
èles não compreenderam; e mes disse ainda, que quando o le­
vantassem ao alto (iaiava da cruz) o connecenam, e saoeriam
que ae si naaa obrava, mas que ae seu Pai aprendera o que
lües dizia.
Estas verdades, que deslumbravam os soberbos, esclare­
ciam a outros que neie creram, a quem disse que, se firmes
fossem em observar sua doutrina seriam seus verdadeiros dis­
cípulos, entrariam na verdade, e esta os libertaria; ao que re­
plicaram os judeus, que como filhos de Abraão eram livres
e não escravos. "Mas quem peca, lhes dizia Cristo, cativa-se
ao pecado, e só é livre quem déle se descativa. Sim, sois filhos
de Abraão, mas segundo a carne, e rejeitando a verdade vos
fazeis filhos da mentira e do demônio”. Depois de várias ra­
zões que lhes deu, disse-lhes: "Não me glorifico a mim, mas
de meu Pai que não conheceis, e que adorais, tiro a minha gló­
ria. Falais de Abraão, que tanto suspirou pela vinda de quem
vós desprezais, a quem êle vira e de o ter visto exultara”. __
"Não chegas, lhe instaram, a cinqüenta anos, e viste Abraão?”
— "Por certo, lhes respondeu, por certo, que antes de Abraão
158 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

era eu”. Aqui pegaram em pedras para apedrejá-lo; mas


Jesus se ocultou e saiu do Templo, evitando por então o arrojo
de seus inimigos para se entregar a todo o seu ódio, quando
chegasse o tempo de padecer.

L ição XXXVI
Jesus dá vista a um cego de nascimento — Significa
ser êle o bom Pastor — Cura dez leprosos, e ensina
em que consiste o reino de Deus

Passava um dia junto de Jesus Cristo um cego de nasci­


mento, e os discípulos lhe pergutaram se por pecados seus, ou
pelos de seus pais cegara. "Não por pecados seus, lhes respon­
deu, nem pelos de seus pais cegou, mas sim para que nêle mais
resplandeçam os prodígios do poder divino”. E cuspindo em
terra fêz lodo, que pôs nos olhos do cego, logo o mandou à
piscina ou lavatório de Siloé (77), e tanto que nêle se lavou
viu claramente. Os vizinhos e quantos o conheciam cego de
pedir esmola não davam crédito a seus olhos, e duvidavam se
era o mesmo ou outro parecido com êle: "Sou eu mesmo, dizia
o cego a todos, a quem Jesus deu vista”. Como o milagre
fora feito num domingo, indignaram-se os fariseus, e alterca-
vam com o mancebo, mas êle respondeu-lhes: "Coisa pasmosa
é que não saibais que é Filho de Deus quem com milagres dá
olhos a um cego de nascimento; coisa até aqui não ouvida”.
Espancaram-no de si, mas Jesus o acolheu com bondade, e lhe
disse: "Crês no Filho de Deus?” — "Creio, Senhor”, disse
o cego, e prostrado a seus pés, o adorou.
Para confundir a vaidade daqueles presunçosos, que sendo
cegos queriam guiar os outros, disse-lhes: "Eu sou o Bom
Pastor; o bom pastor dá a vida por suas ovelhas. O merce­
nário abandona-as, e foge quando vê vir o lobo. Eu sou o
Bom Pastor; eu conheço as minhas ovelhas, como elas me co­
nhecem a mim; dou a vida por minhas ovelhas”. Declarou-
-lhes enfim que não eram os judeus as únicas ovelhas por
quem tinha que morrer; mas que outros (os gentios) lhe con­
vinha guiar ao redil; e dumas e outras, que sua voz ouvissem,
faria um só rebanho, êle único pastor.
(77) Veja-se Lição XXXII.
C R ISTO 159
Atravessava uma aldeia, quando pararam longe dêle dez
leprosos e lhe bradaram: "Jesus, nosso Mestre, tende piedade
de nós”; aos quais êle ordenou que se fossem mostrar aos
sacerdotes, e obedecendo, partiram são. Um dêles que era sa-
maritano, estranho aos judeus (como notamos) tornou glori-
íicando a Deus, e prostrando-se por terra dava graças a Jesus
Cristo da recobrada saúde. Para patentear mais o humilde
agradecimento dêste homem, lhe perguntou Cristo como admi­
rando-se: "Não sararam todos os dez? Onde estão os nove?
Só entre todos se achou êste estranho para vir dar glória a
Deus! Ergue-te e vai, que tua fé te salvou”.
Perguntaram os fariseus a Jesus, quando viria o reino de
Deus, e êle respondeu: "O reino de Deus não vem de maneira
que possa ser observado; não se dirá pois: Ei-lo aqui, ei-lo
acolá, porque o reino de Deus está dentro em vós”. Querendo
dizer que o reino de Deus era espiritual e que pela justiça e
caridade põe seu trono no coração.

L ição XXXVII

Querem os judeus outra vez apedrejar a Jesus — Abençoa os


meninos — Casamento indissolúvel — Elogio da virgindade

Passava o Salvador pelo pórtico do Templo, na festa da


Dedicação, quando os judeus lhe fizeram roda para pergun-
tar-lhe até quando os teria na incerteza; e que lhes declarasse
se era Cristo. "Já vo-lo disse, respondeu, e não me credes.
As obras que eu faço em nome de meu Pai me abonam, nas
quais não credes porque não sois ovelhas minhas”; e para
mostrar-lhes que não eram ovelhas suas, disse que as suas
ovelhas lhe ouviam a voz, e o seguiam, ãs quais dava êle a
vida eterna, e que nunca pereceriam, porque ninguém as po­
dia roubar das mãos de seu Pai, nem das suas, pois que seu
Pai e êle eram um só. Nisto correm os judeus a apedrejá-lo,
e o Senhor lhes perguntou por qual das boas obras que lhe
viram fazer usam com êle assim? "Não pelas tuas obras, lhe
responderam, mas porque sendo homem te fazes Deus”. En­
tão pelas suas próprias Escrituras os convence, que nelas se
dá a homens o nome de Deuses, e que não blasfemava, quando
160 A N T O L O G I A D E VID AS C É L E B R E S

a si, unigênito de Deus, dava êsse nome, e que por tal quan­
tidade de prodígios provava quem era. Mas êles contumazes
traçavam apoderar-se dêle, quando das mãos lhes escapou, que
não era ainda próxima a sua hora; e atravessando o Jordão,
assentou morada no mesmo sítio em que João ao longo do rio
outrora batizava. Seguiam-no as turbas, e ali as instruía, e
sarava, segundo seu costume, os doentes que lhe apresentavam.
Muitos creram nêle, e diziam: "João não fêz milagres, e êste
é verdadeiro em quanto diz”.
Voltou Jesus para as margens do Jordão, onde batizava
São João, e ali se demorou. Vieram a êle muitos judeus, e
creram em sua doutrina.
Traziam-lhes meninos para lhes impor as mãos e orar por
êles; a quem falavam com aspereza os discípulos para os des­
viar dali; mas o Senhor, desgostado da sua dureza, os repre­
endeu, dizendo que deixassem vir a êle os meninos; que para
os pequenos era o reino de Deus; e que para nêle entrar im­
portava encurtar-se, isto é, humilhar-se, recomendando a in­
fância espiritual, que consiste na santa simplicidade e humil­
dade sincera; e abraçando e abençoando os meninos, se foi.
Dobravam os fariseus de inveja contra Jesus Cristo, bus­
cavam colhê-lo desapercebido, e para o tentar lhe disseram se
era permitido repudiar sua mulher por alguma coisa. "Que
manaa a lei?” lhe perguntou Jesus. Kesponderam que Moisés
permitia dar carta de repúdio. Então o Senhor tocou no pri­
meiro matrimônio instituído por Deus, quando disse a Adão
e Eva que seriam tão estreitamente unidos, como se ambos
compusessem uma só carne; assim não é bem que separe o
homem o que Deus juntou. Insistiam êles na permissão que
dava a Lei; a que êle respondia que em razão da dureza de
seus corações afrouxara a Lei, mas que não fora assim no
princípio; e que quem (exceto em caso de adultério) deixasse
sua mulher para se desposar com outra, seria adúltero, como
também o que se casa com mulher assim deixada. A mesma
resposta deu aos discípulos, quando entrando em casa lhe fi­
zeram igual pergunta; de que êles inferiram que não era van­
tajoso casar-se; acêrca do que disse Jesus que homens há
eunucos de nascimento, outros eunucos por violência e outros
por ganharem o céu são como eunucos de voluntária castidade;
mas como não cabe a todos poder sê-lo, disse Jesus Cristo:
"Compreenda-me quem é capaz de compreender-me”.
Negação cie Pedro
9

A coroa de espinhos
A flagelação
Jesus insultado
Jesus cai sob a cruz
Jesus chega ao topo do Calvário
CR ISTO 161

LiçÃÓ XXXVIII
Quão difícil é salvarem-se os ricos — Recompensas
reservadas aos que seguem a Jesus Cristo — Parábola
dos trabalhadores da vinha
Saindo daquele lugar veio ter com êle um mancebo nobre
e rico, e pondo-se de joelhos, disse-lhe: "Bom Mestre, que hei
de fazer para ganhar a vida eterna?” — Jestes: "Se queres
ganhar a vida eterna, guarda os mandamentos”. — O man­
cebo: "E que mandamentos hei de eu guardar?” — Jesus:
"Os da Lei”. — O mancebo: "Todos desde a infância tenho
guardado à risca; que mais hei de fazer?” Jesus olhou para
éle com ternura, e disse-lhe: "Uma coisa te falta ainda para
seres perfeito; ires vender quanto possues, dá-lo aos pobres,
vir e seguir-me”. Mas êie, porque era moço, nobre e rico,
tinha apego ao cabedal, foi-se entristecido; e Jesus de sua tris­
teza tirou a máxima que disse aos discipulos: "Mui difícil é
entrar um rico no céu!” E vendo que dela se espantavam os
ouvintes, continuou dizendo: "Tão difícil é entrar um rico
no céu, como um camelo passar pelo fundo duma agulha” (78).
Mais se espantaram ainda os Apóstolos e diziam: "Quem po­
derá salvar-se?” "Mas o Senhor os tranqüilizou, dizendo:
"Que é possível a Deus o que é impossível aos homens”.
Então lhe disse Pedro: "E nós que, por vos seguirmos,
deixamos tudo, que galardão teremos?” — "Quando, no dia da
ressurreição, lhes disse Cristo, se assentar o Filho do homem
jio trono da sua glória, vos sentareis com êle em tronos a jul­
gar todo o povo de Israel; e não só vós, mas todos os que por
êle, e pelo Evangelho deixarem casa, parentes e possessões, re­
ceberão cento por um e a bem-aventurança depois”. O que se

(78) Vieira e alguns críticos traduzem a palavra grega camelos


ou camilos de S. Máteus, por cabo grosso, calabre, o que na verdade
parece mais razoável; mas, atendido o uso proverbial, não é admissí­
vel esta opinião. Jesus Cristo já tinha lançado em rosto aos fariseus
que se engasgavam com mosquitos e enguliam camelos (S. Mateus,
XXIII, 24), e no Talmud encontra-se um provérbio que tem muita
analogia com êste: Serias tu como os de Pumbedela, que fazem pas­
mar um elefante pelo fundo duma agulha? O que exprime a idéia
duma grande dificuldade que se aproxima da impossibilidade. A pa­
lavra grega camelos vem, em nosso entender, da hebráica gamai, mu­
dado o g em c.
162 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

deve entender que Deus recompensará no outro inundo os seus


escolhidos, e neste lhes não negará o alívio na tribulação, nem
pessoas caridosas que lhes sirvam de parentes, acudindo-lhes
com igual do que deixaram por amor dêle. Propôs então Jesus
a seus discípulos esta parábola: "Um homem mandou pela
manhã buscar obreiros com quem se concertou no preço, para
lhe amanharem a vinha; às nove horas, mandou ainda buscar
outros, outros ao meio-dia, às três horas, e até à uma hora
antes de acabar o dia, prometendo a todos dar paga arrazoada.
Chega a noite, mandou vir os trabalhadores, começou pelos úl­
timos a ir pagando tanto quanto ajustara com os que vieram
pela manhã, de sorte que estes imaginaram receber mais que
os outros; mas, quando lhes deram o preço convindo, murmu­
raram; mas o dono os convenceu que dando-lhes o jornal do
ajuste, nada lhes devia, e que era senhor do seu dinheiro para
o dar a quem lhe agrade. Assim concluía o Filho de Deusr
serão útimos os primeiros e primeiros os últimos; porque são
muitos os chamados e poucos os escolhidos”.

L ição XXXIX

Jesus Cristo ressuscita a Lázaro — Faz com seus discípulos


a Ultima viagem a Jerusalém — Responde à mãe de Zébedeuh
toma aposento em casa de Zaqueu, e cura três cegos

Andando Jesus Cristo pregando pelas ribeiras do Jordão,,


caiu enfermo Lázaro, a quem êle muito amava, e suas irmãs
Maria e Marta mandaram-lhe aviso para que o viesse curar.
Era mortal a doença, e como Jesus Cristo tardasse dois dias,
quando chegou a Betânia (79) já Lázaro era falecido de qua­
tro dias, e suas irmãs recebiam pêsames de muitos judeus.
Marta soube que Jesus vinha, saiu fora da vila e lhe disse:
"Se aqui foreis, Senhor, não morrera meu irmão; mas sei que
vos concederá Deus quanto lhe pedirdes”. — "Teu irmão res­
suscitará, lhe respondeu Cristo, no último dia”. Lastimava-se
Marta. "E eu sou, acudiu Cristo, a ressurreição e a vida;

(79) Fica êste castelo ou vila a três quartos de légua de Jeru-*


salém, perto do monte Olivete.
C R ISTO 16S
quem em mim crê, dado que morto, viverá: e quem vive e
crê em mim, não morrerá. Crês o que eu digo?” — "Creio,
Senhor, respondeu, que sois Filho de Deus vivo, que viestes
a êste mundo”.
Ditas estas palavras se foi, e tendo ocultamente chamado
Maria, lhe disse que o Mestre chegara e queria vê-la. Ergue-
-aè logo Maria, corre a Jesus fora do arrabalde, ao mesmo sítio
em que Maria o encontrara; e os judeus, que com ela estavam,
que a viram partir tão pronta, a seguiram imaginando que ia
chorar sobre a sepultura de seu irmão.
Chegada perto de Jesus, se lhe lançou aos pés, choravia,
magoava-se: "Se aqui foreis, Senhor, não morrera meu ir­
mão”. Suas lágrimas acompanhadas com as dos judeus que
a seguiram, enterneceram o Senhor, aue, cheio de compaixão
e ternura, se chegou ao sepulcro, e mandou arredar a pedra que
fochava a entrada do jazigo talhado na rocha; a isto acudiu
Marta, dizendo que o morto de ouatro dias já cheirava mal.
Jesus por£m insistiu, dizendo: "Não te disse já, que se cresses
verias a glória de Deus?” Arredada a pedra, ergueu Jesus os
olhos ao céu, e disse: "Graças vos dou, meu Pai, de me ter-
des ouvido; que bem sei eu que sempre me ouvis; mas por
êste povo o digo, para que creiam que vós me enviastes”. E
tendo assim dito exclamou alto: "Lázaro, vem cá fora”. Saiu
logo o morto todo atado na mortalha; Jesus mandou que o de­
senvolvessem: e os judeus, que com as irmãs vieram, vendo
o prodígio, creram nêle.
Outros porém foram referir tudo aos fariseus, que, inimi­
gos mortais de Jesus Cristo, tiveram conselho com os sacer­
dotes para assentarem como haviam de perdê-lo. Sabendo isto
Jesus foi-se com seus discípulos para Efraim, cidade do de­
serto, onde estêve alguns dias; entretanto os sacerdotes e fa­
riseus passaram ordem para que quem o visse o prendesse.
Era chegada a festa de Páscoa, e antes de partir para
Jerusalém, disse Jesus a seus discípulos: "Vamos, enfim a
Jerusalém, para que se cumpra no Filho do homem o que os
profetas escreveram; seja entregue aos príncipes dos sacer­
dotes e doutores da Lei, que o condenarão à morte, e o porão
nas mãos dos gentios, que o tratem com escárnio e ultrajes,
164 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

que o açoitem e crucifiquem; mas ao terceiro dia ressurgirá”,


Êste antecipado falar acêrca da sua morte não o compreende­
ram melhor os Apóstolos agora, que nas duas vêzes anteceden­
tes; e o Evangelho o nota dizendo que era sentido oculto em
que êles não entenderam nada.
Nesta mesma ocasião, chegou-se a Cristo Salomé, mulher
de Zebedeu, mãe de Tiago e João, e pediu ao Senhor man­
dasse que seus filhos se assentassem ambos no seu reino, um
à direita, outro à esquerda. Não a despachou o Senhor, antes
lhe disse: "Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice
que eu hei de beber, e batizar-vos no batismo em que hei de
ser batizado?” — "Podemos”, responderam êles; mas Cristo
tornou-lhes: "Bebereis sim do meu cálice, mas assentar-se à
minha direita ou à minha esquerda no meu reino, só pertence
àqueles para quem meu Pai o reservou”. Fazendo-lhes assim
conhecer que não dava o seu reino por respeitos humanos; mas
que seu Pai o destinava a quem o merecesse por sua justa e
mortificada vida.
Como desagradasse aos outros dez Apóstolos a ambição
dos dois, e dela se indignassem, chamou-os Jesus de parte e
admoestou-os dizendo-lhes que se não parecessem com os prín­
cipes e grandes do mundo, que dominam com império em seus
vassalos; antes pelo contrário quem quisesse ser grande entre
os mais, servisse aos outros, tomando exemplo nêle que não
viera para ser servido, mas para servir, e com sua morte remir
as almas.
Continuando a jornada, chegaram, a Jericó, em cuja cidade
morava Zaqueu, maioral dos publicanos, homem muito rico, e
que desejava muito ver a Jesus Cristo, e como o tropel era
tanto, e êle era pequeno de estatura, trepou a um sincómoro
que caía para a estrada por onde passava o Senhor, o qual pôs
nêle os olhos, e disse: "Dá-te pressa a descer, Zaqueu, que
em tua casa tenho hoje cie aposentar-me”. Logo desceu Za­
queu, e mui contente o acolheu nela, enquanto outros murmu­
ravam de que fosse alojar-se em casa tão mal reputada. Mas
Jesus mostrou logo a miraculosa mudança do coração do pu­
blicano, como o médico que apenas entra dá melhoras ao doen­
te, veio logo Zaqueu oferecer-lhe a metade de seu cabedal para
os pobres, e se a alguém tinha prejudicado, em quádruplo lho
ressarciria; o que o Senhor recompensou dizendo: "Hoje en­
trou nesta casa a salvação”, afirmando aos judeus que Zaqueu,
CRISTO 16 5

até ali olhado como estrangeiro e pagão, filho de Abraão era


agora pela fé.
Saía Jesus de Jericó, e com êle grande tropel de povo,
quando dois cegos se puseram a gritar: "Jesus, filho de David,
tende compaixão de nós”. Perguntou-lhes o que queriam lhes
fizesse: "Que nos abrais, Senhor, os olhos”. Movido de com­
paixão, tocou-lhes o Senhor nos olhos, e para logo cobraram
vista, e o foram seguindo, dando louvores a Deus com todo o
povo, que foi testemunha do milagre.
OS ÚLTIMOS SEIS DIAS DO MINISTÉRIO DE JESUS

LIÇÃO XL

Vai Jesus cear a Betânia, onde Maria o unge eom precioso


bálsamo

Encaminhava-se Jesus Cristo a Jerusalém, e seis dias an­


tes da Páscoa chegou a Betânia, onde há pouco ressuscitara
a Lázaro, irmão de Marta e de Maria; ali em casa de Simão
Leproso (80) lhe aparelharam a comida; estava Lázaro à mesa
com êle, e Marta e Maria serviam. Então se chegou a Cristo
Maria, com um vaso de alabastro cheio de óleo precioso de
perfume de nardo, e lho derramou pelos pés enxugando-lhos
com seus cabelos; e quebrando o vaso lhe lançou o resto sobre
a cabeça, com que recendia a casa tôda (81). Os Apóstolos,
e principalmente Judas lscariotes, murmuraram dêste desper­
dício, que vendido êste perfume por trezentos dinheiros (18
cruzeiros) havia que dar aos pobres; não (como diz o Evan­
gelho) que tivesse a peito os pobres, mas porque era ladrão,
e como era o dispenseiro, quisera com êste dinheiro dar pasto
à sua avareza. Jesus porém tomou a si defender Mana, e
declarou ser obra boa a que ela fizera, prevenindo-o já para
a sepultura, e com adiantados cheiros; que enquanto aos po­
bres em cujo socorro queriam empregar o custo do nardo, não
lhes faltariam nunca pobres com que fossem caridosos; que
a êle não teriam sempre para lhe darem sinais de sua estima
e afeição: e que enfim a ação de Mana seria conhecida por

(80) Isto é, que fora leproso, e provàvelmente a quem Cristo


eurara.
(81) Veja-se o que fica dito a respeito dêste bálsamo, na lição
xvni.
168 A N T O L O G IA D E V ID A S C É L E B R E S

onde quer se pregasse o Evangelho. Já se sabia em Jerusalém


que Jesus estava em Betânia, e muitos judeus o vinham ver,
e ver também a Lázaro que êle tinha ressuscitado; Lázaro, que
os príncipes dos sacerdotes assentaram de matar, porque por
sua ressurreição muitos judeus criam em Jesus Cristo.

LIÇÃO XLI

Entra Jesus triunfante em Jerusalém, e chora sobre aquela


cidade — É glorificado por uma voz que se ouve do céu

Partiu Jesus, no dia seguinte, de Betânia, e perto de Beth-


fage, vila situada na raiz do monte Olivete, seiscentos passos
de Jerusalém, disse a dois discípulos: "Ide a êsse povoado
fronteiro onde achareis uma jumenta com sua cria em que nin­
guém montou ainda, desatai-a e trazei-a; e aos que vos per­
guntarem por que a levais, direis que o Senhor dela há mister,
e vo-lo deixarão”. Obedeceram os discípulos, e aconteceu tudo
à risca, como lho preconizara o Senhor. Como concorrera
muita gente para a celebração da Páscoa, e muitos haviam
presenciado o milagre da ressurreição de Lázaro, sabendo que
Jesus vinha a Jerusalém, tomaram ramos de palma, e em gran­
des bandos lhe corriam ao encontro, gritando: "Hosana (sal­
vação e glória). Bendito seja o rei de Israel, que vem em
nome do Senhor”. Coberto com as vestiduras dos discípulos
o jumento, montou nêle Jesus, e assim marchou em triunfo,
para se cumprir o que Zacharias diz: "Não temas, filha de
Sião; eis que entra o teu Rei pacífico, montado no filho de
uma jumenta”. Também grande multidão de povo estendia
pela estrada os mantos, e outros cortavam ramos de árvores
com que juncavam o caminho; já quando chegavam ao respal­
do do monte Olivete, os discípulos, arrebatados de alegria de
verem quanta glória recebia seu Mestre, louvavam a Deus em
altas vozes por todas as maravilhas que tinham visto: "Ben­
dito seja o Rei que vem em nome do Senhor; paz e glória no
céu”. E todo o povo, tanto os que iam diante de Jesus, como
os que o seguiam, juntando seu júbilo ao^ dos discípulos, cla­
mavam: "Hosana, glória ao Filho de David; bendito seja o
que vem em nome do Senhor; bendito seja o Reino de nosso
pai David que chegar vemos; Hosana, saúde e glória no mais
alto dos céus”.
CRI S T O 169
Viram com maus olhos os fariseus as grandes honras que
se davam a um homem a quem queriam tirar a vida, e diziam
entre si: "Nada lucramos, pois todo o povo vai atrás dêle”.
Muitos dêles, que se tinham intrometido na turba, não poden­
do refrear sua indignação, disseram a Jesus: ''Mestre, por
que não mandar calar a teus discípulos?” — "As pedras cla­
marão, respondeu Cristo, se êles se calarem”. Chegaram en­
fim perto de Jerusalém, e pondo o Senhor os olhos naquela
infeliz cidade, cujos crimes e cujas desventuras antevia, der­
ramou copiosas lágrimas, e disse: "Ah! se ao menos conhe-
ceras êste dia que te é dado, êste dia que podia trazer-te paz!
Mas tudo é escondido a teus olhos, e virá tempo em que teus
inimigos te cercarão de trincheiras, te investirão, te porão em
apêrto, te arrazarão os muros, exterminarão teus filhos, nem
deixarão pedra sobre pedra; porque não conheceste o tempo
em que Deus te visitava”.
Tôda a cidade se alvoroçou, e perguntava quem era êle;
e as turbas que o acompanhavam respondiam: "É Jesus, pro­
feta de Nazaré em Galiléia”.
Além dos judeus que para a celebração da Páscoa eram
juntos em Jerusalém, havia muitos gentios (82) que vinham
adorar a Deus na mesma solenidade, muitos dos quais tinham
grande desejo de ver a Jesus Cristo, para cujo fim se enca­
minharam a Filipe; e êste disse a André, e ambos foram dar
parte a nosso Senhor Jesus, que por sua morte se dispunha a
granjear a salvação dos gentios como a dos judeus, e êste res­
pondeu aos dois Apóstolos que vinda era a hora de ser glori-
ficado, e como o grão de trigo não dá fruto se não morre na
terra em que o lançaram, assim seria sua morte semente de
grande seara; que a seu exemplo aprenderiam os fiéis (fruto
desta seara) a aborrecerem a vida neste mundo, para ganha­
rem a eterna, e que os que o servirem e acompanharem-no por
onde ia serão galardoados com a participação da sua glória.
Para consolação dêles quis o Senhor sentir os horrores da mor­
te, e excitou em sua alma agitação tal que rompeu fora nestas
palavras: "O meu espírito está perturbado. Que direi? Meu
Pai, livrai-me desta hora”. E logo, para se corroborar com

(82) Êles já tinham algum conhecimento do Deus d’Israel.


170 A N T O L O G IA D E V ID A S C É L E B R E S

a idéia da glória que de sua morte tiraria Deus, disse: "Mas


para tanto cheguei a esta hora. Meu Pai, glorificai o vosso
nome”.
Súbito rompeu no céu uma voz dizendo: "Já o glorifi-
quei, e o glorificarei ainda”. Diziâm alguns dos que ouviram,
que fora estrondo de trovão, outros que fora anjo que lhe fa­
lara: "Não para mim, acudiu Jesus, mas para vós falou”, e
para assinalar os efeitos que havia de obrar a morte que tinha
de padecer na cruz, lhes disse que já o mundo seria julgado,
e expulso o príncipe dêste mundo, que é o demônio, e quando
o levantassem da terra atrairia tudo a si. Sobre o que lhe
perguntaram os judeus, como concordava a morte do Filho do
Homem com o que dizia a Escritura que eternamente havia de
durar o CristoV E quem é êste Filho de Homem? Ao que
êle respondeu que por pouco tempo seria ainda a luz com êles,
mas que perdida ela não seria seguro andar nem obrar; que
lhes cumpria crer na Luz enquanto a possuíam.
À tarde saiu Jesus de Jerusalém, e foi pernoitar em Be­
tânia.

LIÇÃO XLII
Jesus amaldiçoa a figueira, e lança do Templo os vendedores
— Prega aos sacerdotes e doutores

Voltou Jesus a Jerusalém na manhã seguinte, e apertado


da fome chegou-se a uma figueira que caia para a estrada para
ver se lhe acnava fruto, e como não tivesse figos, sendo o tem­
po dêles, disse à figueira: "Ninguém para o diante colherá
figos de ti”. E para logo começou a secar-se.
Foi dali ao Templo, e vendo o tráfico que ali se fazia,
lançou fora os que compravam e vendiam, como já fizera no
principio de seu ministério (ò3). Indignados ficaram os escri-
bas e fariseus com êste procedimento, e quiseram matá-lo; mas
não ousaram prendê-lo em razão do muito povo que o cercava
e proclamava seus louvores.
(83) Veja-se Lição XL
CR ISTO 171
Sobre a tarde, saiu Jesus de Jerusalém, onde tornou na
manhã do dia seguinte, em que com pasmo viram os Apóstolos
sêca até à raiz a figueira amaldiçoada; e como São Pedro lha
apontasse dizendo: "Mestre, vêde como secou a figueira que
amaldiçoastes!” Tornou-lhe o Senhor: "Na verdade te digo
que, se tiveres fé e não duvidares, não somente poderás fazer
secar figueiras, mas transmutar montes, e quanto na oração
pedires te será outorgado; contanto que perdoes a teus inimi­
gos, sem o que te não perdoará Deus tuas ofensas”.
Entrou Jesus no Templo, e começou a pregar ao povo sua
doutrina; concorreram também sacerdotes, doutores e magis­
trados, e lhe perguntaram com que autoridade fazia o que fa­
zia. Êle lhes respondeu com outra pergunta: "Donde era o
bastimo de João? do Céu ou dos homens?” Querendo dizer de
instituição divina ou humana. Emeou-os a pergunta: se di­
ziam que do Céu: "Porque o não recebestes, lhes diria Jesus”;
se dos homens, temiam o povo que tendo-o por profeta os não
apedrejasse. Assim responderam antes: "Não sabemos”. —
"Nem eu, respondeu Jesus Cristo, vos direi tampouco com que
poder o faço o que obrar me vêdes”.
Propôs depois várias parábolas àqueles hipócritas para
lhes dar a conhecer qual seria o castigo do aborrecimento in­
justo que lhe tinham, e da obstinação com que rejeitavam a
verdade que lhes anunciava. Um homem tinha dois filhos:
mandou trabalhar o mais velho numa vinha que possuía, o qual
lhe respondeu que não iria; mas tornou em si e foi. Mandou
o segundo, que disse que iria, mas que não foi. Então per­
guntou o Senhor aos sacerdotes e escribas: "Qual dos dois
filhos fêz a vontade de seu pai?” e dizendo-lhe que o primeiro,
lhes mostrou que o primeiro denotava os publicanos e gente
de má vida, que fizeram penitência como João lha pregava,
e que êles que não creram em João, que a êles veio na via da
justiça, seriam postos no Reino do Céu pelas pessoas de má
vida, cujo arrependimento não imitaram.
Propôs-lhe mais esta parábola. Mandou um rei seus cria­
dos chamar os que convidara para as núpcias de seu filho, e
recusando êstes vir, mandou outros criados instar-lhes e adver­
tir-lhes que tudo estava prestes, de que êles curando pouco, um
partiu para a sua herdade, outro para o seu negócio, outros
172 A N T O L O G IA D E V ID A S C É L E B R E S

injuriaram os criados e até mataram alguns. Logo que o rei


soube o mau trato que receberam seus criados, mandou ho­
mens darmas para dar cabo dos matadores, queimar-lhes a
cidade, e buscar pelas ruas e encruzilhadas outros que em seu
lugar viessem às bodas do príncipe. Sentados todos, entra na
sala do banquete e avistando um homem sem vestes nupciais,
lhe perguntou como viera sem roupas de boda! E logo o man­
dou atar de pés e mãos, e lançá-lo nas trevas, onde só haveria
prantos e ranger de dentes. Aplicou o Senhor esta parábola,
como já noutra ocasião fizera, dizendo: Muitos são os cha­
mados e poucos os escolhidos”.

LIÇÃO XLIII

Jesus Cristo confunde os fariseus e os saduceus — Manifesta


qual ê o maior dos mandamentos — Louva a esmola da viúva
pobre, e repreende os fariseus

Pensavam com razão os fariseus que as parábolas que


Jesus Cristo propunha se aplicavam a êles, pelo que andavam
buscando modo de o enlearem em suas respostas para melhor
o criminarem em justiça. Mandaram-lhe pois enviados, e com
êles alguns herodianos (84), que lhe falaram assim: "Sabe­
mos, Mestre, que sois sincero e verdadeiro, e que, sem aceitação
de pessoas, ensinais o caminho de Deus em verdade. Dizei-nos
o vosso parecer acêrca de pagar o tributo a César, se é per­
mitido ou não?” Conheceu Jesus sua malícia, disse-lhes que
lhe mostrassem uma moeda do tributo, e tendo-a na mão, per­
guntou: "De quem é êste cunho?” — "De César, lhe respon­
deram”. — "Pois dai a César, lhes tornou, o que é de César,

(84) Os herodianos eram provàvelmente um partido político fa­


vorável a Herodes e aos Romanos, e mal visto entre os Judeus. O
pressuposto dos fariseus era odiar Jesus Cristo com o povo, se dis­
sesse que o tributo era devido, pois o povo pagava de mau grado
tributo à injuriosa dominação romana; ou dá-lo por rebelde ao im­
perador, e assim castigá-lo de morte, se lho negasse.
Os imperadores romanos tinham o nome de César depois de Júlio
César e Augusto, que tomou êste nome por ser filho adotivo de César.
C R ISTO 173

e a Deus o que é de Deus”. Então, não sabendo que lhe dizer,


admiraram a resposta, e se foram envergonhados.
Idos êstes, chegam os saduceus, que não criam na imor­
talidade, e lhe falam duma lei de Moisés que obriga o irmão
do morto a casar com a viúva se lhe não ficam filhos; pondo-
-lhe o caso duma que casou com sete irmãos, de nenhum dos
quais teve filhos; e queriam saber de qual dêstes irmãos seria
ela mulher, ressuscitando: "Não entrais, lhe respondeu o Se­
nhor no sentido das Escrituras, nem no poder de Deus; que
o casamento que aqui foi dado para a procriação e sucessão
dos homens não terá lugar no céu, onde serão todos semelhan­
tes aos anjos, que não casam nem casarão”. E pelas mesmas
Escrituras lhes demonstrou que a respeito de Deus vivem os
mortos, havendo éie de ressuscitá-los, e que assim grande era
seu êrro em negarem a ressurreição futura. Também respon­
deu que se pode conter um doutor da Lei de assim o confessar,
e o povo continuou a admirar sua doutrina.
Outro doutor, e era fariseu, vendo como o Senhor emu­
decia os saduceus, chegou-se a êle para o tentar: "Qual é o
primeiro e maior dos mandamentos?” — "Amarás, respondeu
Cristo, ao Senhor teu Deus com tôda a tua alma, com todo o
teu espírito, e com todas as tuas forças; e o segundo lhe é
semelhante: Amarás o teu próximo como a ti mesmo; e nestes
dois preceitos se encerram a Lei e os Profetas”. Louvou o fa­
riseu a resposta, e confessou que com razão recomendava mais
que tudo o amor, que é acima dos holocaustos e sacrifícios;
também o Filho de Deus louva a sabedoria dêste doutor, e que
não estava longe do Reino de Deus.
Ninguém ousou depois pôr questões a Jesus Cristo; êle
porém pôs uma aos fariseus, que juntos ante êle estavam no
Templo: "Que entendeis vós de Cristo? De quem há de êie
ser íilho?” — "De David, lhe disseram” : — "Mas, instou Jesus
Cristo, o Senhor disse (Salmo ClX) a meu senhor: Senta-te
à minha destra. E como pode ser filho de David que, inspi­
rado do Espírito Santo, lhe chama seu senhor?” Não lhe de­
ram solução, porque, não querendo reconhecer a Divindade de
Jesus Cristo, não sabiam que como Deus era senhor de quem
(como homem) era filho.
Também reparou no dinheiro que o povo deitava no ga-
zofilácio (mealheiro) que ficava defronte donde estava senta­
174 A N T O L O G IA D E V ID A S C É L E B R E S

do, e vendo uma pobre viúva deitar dois réis, chamou os dis­
cípulos e lhes disse: "Aquela pobre mulher deu mais que os
ricos; que esses dão do supérfluo, e ela da sua pobreza e deu
quanto tinha*
Disse então Jesus a seus discípulos e ao povo: "Fariseus
e doutores da Lei que se assentaram na cadeira de Moisés, fazei
o que êles vos dizem, mas não façais o que êles fazem; pornue
êles dizem e não praticam; põem às costas dos outros grandes
cargas, e nem sequer as tocam com o dedo. Tudo quanto fa­
zem é para serem vistos dos homens”. E virando-se para êles,
disse-lhes: "Ai de vós, hipócritas, que pagais o dízimo da hor­
telã, e não tendes fé ; que paerais o dízimo do endro, e não ten­
des justiça; que pagais o dízimo dos caminhos, e não tendes
misericórdia”. Repetiu-lhes o aue já nas outras ocasiões lhes
dissera: que eram sepulcros caiados, raça de víboras; depois
disse a todo o povo: "Jerusalém, Jerusalém, que matas teus
profetas e apedreias os que te são enviados, quantas vezes quis
eu reunir teus filhos como a galinha junta seus pintos debaixo
das asas, e tu não quiseste! Vossas casas serão devastadas.
Não me vereis mais, até oue digais: Bendito seja o que vem
em nome do Senhor” (85).

LIÇÂO XLIV
Prognostica segunda vez a mina de Jerusalém, e fala de sua
vindu gloriosa

Quando saiu do Templo, para se recolher a Betânia, iam


pelo caminho os discípulos, falando da grandeza e formosura
do edifício, e das magníficas dádivas com que era enriquecido,
e se chegaram a seu Mestre para que com êles admirasse, de
maneira que lhe disse um deles: "Mestre, reparai naquelas
pedras, naquele edifício”. — "Tempo virá, lhe respondeu, que

(85) Foi esta a última vez que Jesus Cristo ensinou no Templo;
e parece ter sido na têrça-feira, e que gastara a quarta e a quinta até
à tarde em práticas familiares com seus discípulos e a preparar-se
para padecer. Entretanto faziam conselho os príncipes dos sacerdotes
e os anciãos do povo para o prenderem, e veio então Judas oferecer-
-se para o entregar por trinta dinheiros-
C R ISTO 176
desse grande edifício, arrasado então, não ficará pedra sôbre
pedra”. Chegados ao monte Olivete, se assentou fronteiro ao
Templo, e então lhe perguntaram Pedro, Tiago, João e André,
quando seria essa destruição, quando acabaria o mundo, quan­
do viria êle glorioso, e que sinais precederiam êsse aconteci­
mento. Tudo lhes explicou, e os preveniu que se não deixassem
enganar de embusteiros que tomassem título de Messias, nem
se turbassem se vissem guerras, sedições, fomes e outros es­
pantosos sinais, presságios e começos de horrendos infortúnios
que viriam. Avisou-os que seriam antes disso perseguidos,
trazidos a juízo, açoitados nas sinagogas, entregues aos suplí­
cios por seus parentes, aborrecidos de todos por amor dêle,
e que muitos dentre êles padeceriam morte; consolou-os porém
com a segurança de lhes dar perante os juizes tal sabedoria,
que ninguém pudesse resistir-lhes, que à força de paciência
possuiriam e salvariam suas almas; que apesar da fúria de
seus inimigos, um só cabelo de suas cabeças se não perderia,
e que o seu Evangelho seria pregado em todo o mundo. De­
clarou-lhes por fim que se levantariam falsos profetas, que
enganariam a muitos, que muitos desfaleceriam pelas perse­
guições, que veriam avultar a iniqüidade e, a caridade resfriar-
-se; mas que seriam salvos os que perseverassem até o fim.
Depois que os inteirou do que lhes havia de acontecer, lhes
disse o que havia de suceder à cidade de Jerusalém, e a todo
o povo judaico; que quando vissem a cidade acometida, e o
templo poluto com execráveis abominações, próxima estava a
deslocação; que então cuidassem em fugir e muito prontos, por
não serem enredados na desgraça; pois que chegava o tempo
da vingança do Senhor: que pisariam os gentios as ruas e
passariam ao fio da espada os judeus, ou os levariam cativos
por todas as terras, e se acumulariam sôbre êles todos os de­
sastres com que Deus na Escritura os ameaça, e seriam redu­
zidos a tal aflição, que nunca a houve, nem haverá igual.
Satisfeita a primeira pergunta dos Apóstolos, lhes disse
Jesus Cristo que seu segundo advento seria como um relâm­
pago que fuzila e passa do oriente ao poente; quer dizer, que
seria manifesto e conhecido de toda a terra, não encoberto e
sabido em certos sítios, como quiseram dá-lo a crer muitos em­
busteiros, dizendo uns: "Aqui está Cristo”; outros afirman­
do: "Cristo está acolá”. Que se levantariam muitos Cristos
falsos, que fariam prodígios tão pasmosos, que deslumbrariam
(se possível fora) os mesmos escolhidos; mas que saberiam
176 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

estas almas santas bem reconhecer o verdadeiro Messias, e


ajuntar-se à roda dêle, como as águias se embandam à roda
do corpo morto que lhes há de servir de sustento. Que para
fazer mais gloriosa a sua vinda, sinais espantosos e extraordi­
nários a precederiam: escurecer-se-ia o sol e a lua, cairiam
estréias, abalar-se-iam os céus, alvoroçar-se-iam e roncariam
horrendas as ondas do mar; tomaria aos homens geral cons­
ternação e abatimento de ânimo. Que depois desta alteração
universal em tôda a natureza, veriam aparecer o sinal do Filho
do homem, que a Igreja entende ser a Cruz, e depois o veriam
vir sobre as nuvens, com poder e soberana majestade; que
enviará seus anjos, que ressoarão com voz tão estrondosa como
de trombeta, e farão juntar das quatro partes do mundo os
escolhidos; então é que os servos fiéis levantarão com confian­
ça suas cabeças; porquanto assim como quando a figueira e
outras árvores começam a brotar se conhece que vem perto a
primavera, assim alcançarão êles por êsses sinais que cedo
serão gloriosos, que à porta está o reino dos céus.

LIÇÃO XLV
Jesus Cristo ensina a vigiar — Parábolas das dez virgens e
dos dez talentos — Descrição do juízo final

Não restava a Jesus Cristo senão preparar a seus discí­


pulos para o seu segundo advento, por isso lhes disse: "Tomai
cuidado não estejam pesados vossos corações com a boa comi­
da e demasiada bebida, e embaraçados com os cuidados das
coisas temporais para não serdes tomados de súbito, porque
êle virá quando menos se espera. Assim como aconteceu nos
dias de Noé, assim acontecerá na vinda do Filho do homem”.
Trouxe-lhes então o exemplo dos bons servos, que na ausência
de seu senhor cumprem fiéis com seus mandados, e velam à
espera dêle, não sabendo a que hora voltará, e concluiu dizen­
do: "Velai assim, por que não ache dormindo o Senhor quando
repentino venha: o que a vós digo, a todos o digo. Vigiai”.
Para lhes estampar com mais fôrça no ânimo esta ver­
dade de que depende a salvação, lhes propôs duas parábolas:
a primeira das dez virgens, que com suas lâmpadas acesas
A crucificação
Ereccão
& da cruz
Trevas que seguiram à morte de Cristo
Morte de Cristo
Descida da cruz
Cristo descido da cruz

1
CR ISTO 177
foram ao encontro do éspôso e da esposa para serem da boda;
ciilcõ delas, que Cristo chama loucas, contentaram-se com acen­
dei* âs lâmpadas; mas as outras, antevendo de prudentes que
pòdèria tardar o esposo precaveram-se de azeite para acudi­
rem com êle às lâmpadas que se apagassem. Tardou o esposo,
e umas e outras adormeceram; perto da meia-noite ouve-se
ruído: "Eis o esposo, ide ao seu encontro”. Erguem-se prêsto,
despertam as luzes, então as cinco loucas vendo apagar-se-lhes
as suas, pedem azeite às prudentes, que as enviam aos ten-
deiros, e enquanto elas correm a comprá-lo, chega o esposo,
e entram com êle à boda as virgens sábias. Vêm logo as com­
panheiras, que achando a porta fechada, batem: "Senhor, abri-
-nos”. — "Não vos conheço” lhes foi respondido. Fácil é a
aplicação, e concluir com Jesus: "Vigiai, que não sabeis o
dia nem a hora em que o Filho do Homem há de vir”.
Üm homem (segunda parábola) tinha de ir a longes ter­
ras e deu a seus servos, segundo a capacidade de cada um,
diversas quantias de dinheiro a render; e achando, quando vol­
tou, que renderam em dobro, disse a cada um: "Bom e fiel
servo que em pouco íòste tiel, muito porei a teu meneio, entra
no júbilo do Senhor”; achando porem um que num buraco
escondera o dinheiro cometido, lho tirou e mandou lançar numa
masmorra por preguiçoso e inútil. Já noutra parábola quase
parecida, vimos servos com porções iguais lucrarem diversa­
mente; nesta, diversas foram as quantias e iguais os lucros;
e das duas comparações tiramos o bom uso que devemos fazer
dos dons que Deus, como lhe agrada, nos reparte, e o prêmio
que com usura nos vem da sua misericórdia, se não esconder­
mos o talento com que nos avantajou.
Contadas estas duas parábolas, que encerram a importân­
cia de velar por que nos não tome de improviso o juízo final,
disse Jesus a seus discípulos: "Quando o Filho do Homem
vier com majestade assentar-se no trono de sua glória, tôd^s
as nações estarão postas perante êle, e êle separando os bons
dós maus, como um pastor aparta os cabritos das ovelhas, dirá
aos bons que lhe ficam à direita: "Vinde, benditos de meu Pai,
possuir o reino que vos está aparelhado; porque tive fome, e
me destes de comer, tive sêde, e me destes de beber; era pere­
grino, e me hospedastes; andava despido, e me vestistes; esta­
va enfêrmo e no cárcere, e me visitastes. Os justos admirados
lhe perguntarão: "Quando padecestes vós essas necessidades,
e quando lhe acudimos nós?” — "Em verdade vos digo, lhe
178 A N T O L O G IA D E V ID A S C É L E B R E S

responderá, que tantas vêzes acudistes ao menor de meus ir­


mãos, tantas vêzes a mim mesmo acudistes”. E aos da esquer­
da dirá: "Ides, malditos, ao fogo eterno, que para o diabo e
seus anjos está preparado”. Dando por motivo da sentença
terem-lhe faltado com socorro na figura de seus irmãos.

QUINTA-FEIRA SANTA
LIÇÂO XLVI
Ceia do Senhor — Lava os pés aos Apóstolos — Institui
o sacramento da Eucaristia
Chegada a grande solenidade de Páscoa, no primeiro dia
dos Asmos, em que havia de ser imolado o cordeiro pascal
(86), perguntaram os Apóstolos a Jesus Cristo onde queria
que comessem a Páscoa; e logo enviou Pedro e João a Jeru­
salém a um homem que à entrada dela encontrariam com uma
quarta de água, ao qual seguiriam, e que ao dono da casa onde
entrasse dissessem, que êle ali queria fazer a Páscoa com seus
discípulos, e que mostrando-lhe êste um grande quarto alto,
alfaiado e pronto, nêle preparassem a Páscoa (87). Executa­
ram Pedro e João à risca o que lhes fora ordenado, e pela tar­
de veio o Senhor, e à hora devida se sentaram todos à mesa,
e então disse a seus discípulos: "Muito desejei comer convos-
co esta Páscoa antes de padecer; que dela não comerei de agora
em diante, que não seja cumprida no Reino de Deus” (no céu,
onde não só a Páscoa, mas todos os mais mistérios se cumpri­
rão inteiramente). Depois tomou um cálice, e dando graças*
lhes disse: "Tomai-o e distribuí-o entre vós; que não beberei*
vos digo, do fruto da vinha até que o Reino de Deus seja
chegado”.
Estando à mesa, sabendo já que o demônio pusera no co­
ração de Judas a tenção de o trair, e antes de ser entregue às

(86) Vejam-se as explicações de todas estas cerimônias no nosso


Manual da Semana Santa.
(87) Isto é o Cordeiro, o pão asmo e as alfaces bravas que man­
dava a Lei.
C R I S T O 179

mãos de seus inimigos, quis dar a seus discípulos, que sempre


amara e amaria até o fim, um assinalado testemunho do seu
amor.
Ergue-se da mesa, depõe a vestidura, cinge uma toalha,
deita água numa bacia, e põe-se a lavar os pés dos Apóstolos
e enxugá-los com a toalha.
Pedro que não pôde sofrer tanta humildade em seu Mes­
tre, lhe diz pasmado: "Vós, Senhor, me lavareis os pés?!” —
Jesus: "Tu não sabes o que agora faço, depois o saberás”. —
Pedro: "Não, Senhor, não consentirei nunca que me laveis os
pés!” — Jesus: "Se tos não lavar, não terás parte comigo”.
Pedro: "Não só os pés. Senhor, mas ainda as mãos e a cabe­
ça”. — Jesus: "O aue está puro só precisa que lhe lavem os
pés, e assim fica todo puro. Vós estais puros; mas não todos”.
Depois que lavou os pés aos Apóstolos, tomou sua vestidura,
e tornando à mesa, lhes disse: "Sabeis que acão acabo de fa­
zer? Chamais-me Mestre e Senhor, e com razão que eu o sou.
Mas se eu vosso Mestre e Senhor vos lavei os pés, vós deveis
uns aos outros vos lavar os pés; que vos dei eu o exemplo, para
que imaginando no que eu fiz, assim façais”.
Continuaram a ceia, e no fim dela Jesus, que lavando-
-lhes os pés os preparava para o Sacramento que ali instituía,
tòmou o pão, e abençoando-o deu graças a Deus, partiu-o, e
lho deu dizendo: "Tomai e comei; êste é o meu corpo, que por
vós se entregará, em memória de mim o fareis” ; e assim pegou
no cálice, deu graças a seu Pai, e lho deu dizendo: "Bebei
dêle todo, que êste é meu sangue, sangue da nova aliança, que
por muitos, para remissão dos pecados será derramado” (88).
Depois se turbou voluntàriamente, ou já que se lhe afigu­
rasse a morte que ia padecer, ou já pelo horror que a perfídia
de Judas lhe causava, e disse aos Apóstolos: "Em verdade,
e muito certo vo-lo digo, um de vós que à mesa está e comigo
come, me trairá!” Esta fala os entristeceu e pôs atônitos, e
cada um começou a dizer: "Sou eu, Senhor?” — "Um de vós
doze, respondeu Jesus, que no prato mete a mão comigo, me

(88) A palavra grega poloi, muitos, é muitas vêzes usada no No­


vo Testamento, em lugar de pantes, todos. Vej. Stolberg, pág. 368.
A N T O L O G IA D E V ID A S C É L E B R E S

venderá. Que à morte vai o Filho do Homem, segundo está


determinado nas Escrituras; mas desgraçado de quem será seu
traidor, melhor fora não ter nascido”. Não sabiam de quem
Jesus falava, e uns aos outros perguntavam quem era êsse;
Pedro fêz sinal a João, discípulo amado, e que em seu peito
recostava, de lhe perguntar de qual dêles falava. Jesus lhe
respondeu que aquêle a quem desse o bocado que molhasse, E
ainda foi Judas tão imprudente, que perguntou se era êle:
"Sim”, lhe disse o Senhor, e molhou o bocado e deu-lho (89).
Então se apossou dêle o demônio para que pusesse por obra
a traição que tinha no peito. "Faze, lhe disse Jesus, e mui
prestes o que hás de fazer”. Nisso saiu Judas, sem que os
mais Apóstolos soubessem a que ia, antes cuidavam que o Se­
nhor o mandava a alguma compra, ou dar esmola aos pobres,
como quem trazia a bolsa. Apenas saiu, disse Jesus a seus
discípulos: "Agora vai glorificar-se o Filho do Homem, e
nêle í)eus se glorifica; e se nêle é Deus glorificado, Deus o
glorificará, e mui cedo o glorificará”. Recitaram depois o
cântico de graças, e se levantaram da mesa para ir ao monte
Olivete, onde Jesus costumava retirar-se à noite para orar. .

LIÇÃO XLVII

Jesus prediz a negação de Pedro e a fuga dos Apóstolos —


Despede-se de seus discípulos — Ora por êles e por nós

Continuou Jesus Cristo a instruir a seus discípulos, reco­


mendando-lhes que estivessem firmes em todas as persegui­
ções, e que portanto lhes aparelhava o reino que seu Pai para
êle tinha preparado; mas que Satanás pedira passá-los ao cri­
vo como se faz ao trigo; quer dizer, tentá-los e fazer com que
caíssem; e disse a Pedro: "Por ti pedi a meu Pai que tua
fé não fraqueasse, e quando te vires convertido dá firmeza a

(89) Para melhor se entender o que referem os Evangelistas


acerca da última Ceia, convém distinguir três sortes de Ceia. A pri­
meira foi a do Cordeiro pascal; a segunda, a do seu corpo e sangue
debaixo das espécies de pão e de vinho, à qual precedeu o Lava-pés;
a terceira finalmente, da comida ordinária, na qual deu Jesus Cristo
o bocado que tirou do prato de Judas traidor, de que aqui se fala.
CRISTO 181
teus irmãos”. Falando depois com todos, lhes disse que pouco
tempo tinha de estar com êles, que ia onde êles não o podiam
acompanhar; mas recomendava que se amassem uns aos ou­
tros, que por êste amor os conheceria por discípulos; ao que
acudiu Pedro: "Onde ides?” — Jesus: "Não podes ir agora
seguir-me aonde eu vou, mas depois me seguirás”. — Pedro:
"E por que não posso eu seguir-vos? Por vós darei a vida”.
— Jesus: "Darás a vida por mim! Na verdade te digo que
esta mesma noite, antes que o galo cante duas, tu me negarás
três vêzes; vós todos vos escandalizareis esta noite por amor
de mim, que escrito está: Ferirei o pastor, e as ovelhas do
rebanho se dispersarão; mas, quando eu ressuscitar, irei dian­
te de vós em Galiléia”. — Pedro: "Quando todos se escanda­
lizassem, nunca eu me escandalizarei; que pronto estou a ir
convosco ao cárcere e à morte”. Todos os discípulos disseram
o mesmo.
Afligiram-se os Apóstolos com tão claras seguranças aue
Jesus Cristo dava de sua morte, e tão próxima; para consolá-
-los pois, lhes disse que não se perturbasse seu coracão, antes
cressem firmemente nêle; que ia, sim. mas para lhes aparelhar
a cada um dêles seu pôsto em casa de seu Eterno Pai, e qiíe
tornaria para os ter consigo: Não sabeis aonde vou, disse, mas
sabeis o caminho. — Tomé: "Não sabemos aonde ides, e como
saberemos o caminho?” — Jesus: "Eu sou o caminho, a ver­
dade e a vida; por mim se vai a Deus; e se me conheceis, co-
nhecereis também meu Pai”. — Filipe: "Mostrai-nos. Senhor,
o Pai, è tanto nos basta”. — Jesus: "Tanto tempo há que es­
tou convosco, e ainda me não conheceis? Quem me vê a mim
vê a meu Pai; porque eu estou no Pai, e o Pai em mim; o
que deveis ter compreendido pelos milagres que diante de vós
tenho feito; e quem em mim crer, êstes e outros maiores fará;
pois que meu Pai fará quanto em meu nome lhe pedir.
"Se me amais, guardai os meus mandamentos. Eu pedi­
rei a meu Pai; e êle vos mandará outro consolador que ficará
convosco para sempre, espírito de verdade que o mundo não
pode compreender. Não vos deixo órfãos, mas tornarei a vós.
O que ama os meus mandamentos e os observa, êsse me ama;
e o que me ama será amado de meu Pai; eu mesmo o amarei,
e o manifestarei a êle. O que me ama guarda a piinha pa­
lavra, e meu Pai o amará, viremos a êle, nêle estabeleceremos
182 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

morada. O que me não ama não guardada minha palavra: a


palavra que tendes ouvido não é minha, senão de meu Pai que
me enviou. Isso vos ensinei enquanto convosco estive; mas o
Espírito Santo Consolador, que meu Pai vos há de enviar em
meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos porá patente
o que vos tenho dito”.
"Deixo-vos a minha paz, a minha paz vos dou; não se
perturbe vosso coração, nem vos entristeçais. Bem ouvistes
o que vos disse: Vou, mas a vós tornarei; se me amais deveis
vos alegrar de que eu va para meu Pai, porque lhe sou inferior.
Não falarei mais convosco, porque chegado é o príncipe dêste
mundo (o demomo); mas em mim naaa achara que me per­
tença, para que o muncio saiba que amo a meu Pai, e que iaço
o que Jtíie me rnanaa. Levantai-vos, e saiamos”.
Puseram-se todos a caminho, e andando os foi sempre
instruindo, recomenaando-ines cte novo o seu amor, e dizendo-
-lhes que não como escravo, mas como amigo os tratara, ensi-
nando-lhes o que de seu Pai aprendera, e que escolhendo-os
para os unir a si, os separara do mundo; que êste mundo, a
quem já não pertenciam devia aborrecê-los como a êle o per­
seguira; que (na intenção de agradar a Deus e fazer-lhe agra­
dável sacrifício; os expulsariam das sinagogas e os matariam;
que todas estas coisas lhes anunciava de antemão, para que,
sucedidas, se lemDrassem que eles lhas dissera, e que essa lem­
brança os íortincasse e impedisse de cair ã violência da per­
seguição. varias outras consolações iües deu, e por um, le­
vantando os olhos ao céu, disse:
"Pai meu, chegada é a hora, glorificai a vosso Filho, para
que vosso Filho vos glorifique, e faça participantes da vida
eterna aos que lhe coniiastes; a vida eterna consiste em conhe­
cer-vos a vós que sois o Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo que
vós enviastes. Glorifiquei-vos no mundo, glorificai-me tam­
bém agora, ó Pai meu, com aquela glória que em vós tinha
antes que o mundo fosse. Tenho manifestado vosso nome aos
que me confiastes. Eram vossos, por isso guardaram vossa
palavra. Por êles rogo, porque são vossos, mas não pelo mun­
do. Pai Santo, conservai-os em vosso nome, para que façam
um só, como nós fazemos um só. Não vos peço que os tireis
do mundo mas que os preserveis do mal. Santificai-os na ver­
C R ISTO 188
dade; vossa palavra é a verdade. Santifico-me a mim mesmo
por êles para que sejam santificados na verdade.
"Não vos peço somente por êles, mas também por todos
os que por sua pregação crerem em mim, para que sejam to­
dos um só como vós, meu Pai, vós estais em mim, e eu em vós:
«stejam também êles conosco, para que o mundo saiba que vós
me enviastes. Desejo, ó Pai Santo, que onde eu estiver este­
jam os que me destes, para que contemplem minha glória que
vós me destes, porque me amastes ainda antes que o mundo
fosse criado”.
C A P ÍT U L O IV

PAIXÃO, MORTE E SEPULTURA DE JESUS

LIÇÃO XLVHI

Agonia de Jesus Cristo no monte Olivete — Traição de Judas

Encaminhando-se, depois que orara, para o monte Olive­


te, passou o Cedron (torrente entre o monte e a cidade), en­
trou com os discípulos num horto, chamado Getsêmani (90),
aos quais disse que ali o esperassem enquanto por êle orava
para que fossem livres de tentação; e tomando consigo Pedro,
Tiago e João, entrou à tomar-se de pavor, de tédio e de tris­
teza e lhes disse: "Minha alma se entristece até à morte, ficai
aqui e velai comigo”. Arredou-se dêles um tiro de pedra, e
se prostrou por terra; e como bem quisera para consolação dos
seus, sentiu em si todos os abalos que a natureza sofre quando
avista já perto a morte; também lhes quis dar o exemplo do
que cabe então fazer. Por voluntário sentimento de fraqueza
da carne, pediu ao Pai que o isentasse da morte que lhe
ordenara de padecer; e pelo esforço de seu espírito obediente
emendou os primeiros movimentos, e se sujeitou à vontade de
seu Pai, dizendo: "Meu Pai, meu Pai, tudo vos é possível,
afastai de mim êste cálice: mas não se faça a minha vontadé,
senão a vossa. E nisto lhe apareceu um anjo do céu confor­
tando-o. E entrando em agonia orava com mais veemência,
lhe veio um suor como gotas de sangue que corriam até à

(90) Êste nome significa um lagar de azeite. Provàvelmente ha­


via ali um lagar de azeite; por isso que a horto era perto do monte
Olivete ou das Oliveiras.
186 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

terra. Depois que se levantou da oração, veio a seus discípu­


los, e achando-os dormindo, disse a Pedro: "Dormes, Simão?
Uma hora só (falando com todos três) não pudestes velar
comigo? Vigiai e orai para não cairdes em tentação; o espí­
rito está pronto, mas a carne é fraca”.
Tendo-lhes assim falado, tornou a pôr-se em oração, di­
zendo : "Meu Deus, se não pode êste cálice passar sem que eu *
o beba, faça-se a vossa vontade”.
Voltou outra vez aos discípulos, e achando-os a dormir
disse-lhes: "Dormi já agora e descansai; chegada é a hora
em que o Filho do Homem será entregue nas mãos dos peca­
dores. Levantai-vos, vamos, que já está perto quem me há de
entregar”.
Ainda não havia acabado de dizer isto, quando chegou
Judas Iscariotes, e com êle muita gente com espada e paus,
mandada pelos príncipes dos sacerdotes e magistrados do povo,
e como era de noité traziam fogaréus e lanternas. Como porém
não conheciam Jesus, para quem tinham ordem de prisão, Ju­
das lhes dera a senha. "Aquêle que eu beijar, êsse é; prendei-o
e levai-o com segurança”. Então chegou a Cristo e disse: "Eu
te saúdo, ó Mestre”, e lhe deu o beijo, que era a senha. Curta
foi a resposta do Senhor: "Amigo, a que vieste? Vendes com
êsse ósculo o Filho do Homem?”
Adiantando-se para os soldados que vinham com Judas,
lhes perguntou quem demandavam: "Jesus Nazareno”, dis­
seram êles. "Eu o sou”, disse Jesus. Súbito caíram todos por
terra, e Jesus lhes perguntou ainda: "Quem buscais?” e di­
zendo êles Jesus Nazareno, Jesus lhes respondeu: "Já vos
disse que era eu; e se eu sou quem procurais, deixai ir êstes”;
para se cumprir nos discípulos o que orando ao Padre dissera:
"Nenhum perdi dos que me destes”. Então se entregou nas
mãos de seus inimigos, que se lançaram sobre êle e o prende­
ram. Perguntaram os discípulos se meteriam mãos às espa­
das para o defenderem, e Pedro, desembainhando a sua, cortou
a orelha direita a Malco, criado do sumo sacerdote; mas Jesus
mandou aos discípulos que ficassem quedos, e tocando na ore­
lha de Malco lha sarou, e disse a Pedro: "Mete a tua espada
na bainha, porque todos os que com espada ferirem, com espa­
da morrerão. Não beberei o cálice que meu Pai me deu?
Pensas acaso que não posso recorrer a meu Pai, e me enviará
C R ISTO 187
logo mais de doze legiões de anjos? Como se cumprirão a«
Escrituras que dizem que assim cumpre se faça?”
Falando depois àquele tropel de gente, disse: "Viestes a
prender-me com espadas e paus como se eu fora um ladrão;
todos os dias, estava no meio de vós, ensinando no Templo, e
não me prendestes; mas tudo isto sucede assim para que se
cumpram as escrituras dos profetas; vossa é esta hora, e o
poder das trevas”. Então o desamparam todos os discípulos
e fugiram; um mancebo só o seguiu envolto num lençol, mas
querendo os soldados prendê-lo, lhe deixou nas mãos o lençol
e se escapou.

LIÇÃO XLIX

Jesus é levado a Caifás — Nega Pedro a seu Mestre —


Desesperação de Judas

Os que prenderam a Jesus o manietaram e levaram pri­


meiramente a Anás, sogro de Caifás; o qual Anás o mandou
a Caifás, que era o sumo-sacerdote daquele ano, e que dissera
aos judeus que convinha que morresse um só homem para sal­
var um povo inteiro. Estavam juntos em conselho em casa de
Caifás todos os sacerdotes doutores da lei e senadores; ali
perguntado a Jesus acêrca de seus discípulos e a sua doutrina,
respondeu: "Em público falei a todos, e sempre ensinei no
Templo e nas sinagogas onde todos os judeus assistem, nada
disse em segrêdo. Por que mo perguntas? Pergunta antes
aos que me ouviram, que sabem o que eu ensinei”. Assim fa­
lou; e um dos ministros que ali estavam lhe deu uma bofetada
e disse: "Assim respondes ao sumo-sacerdote?” Jesus lhe
tomou então: "Se mal falei, dize-me em quê; e se não, por
que me feres?”
Então buscavam do conselho falso testemunho contra Jesus
para o condenarem à morte, mas de muitos que muito tinham
deposto não havia ainda o preciso: vieram dois que o acusa­
ram de ter dito que destruiria o Templo, e que em três dias
o reedificaria, e não por mãos dos homens como o primeiro;
mas êste testemunho não bastava ainda. Todavia erguendo-se
Caifás no meio do congresso, disse a Jesus: "Nada respondes
188 A N T O L O G IA D E V ID A S C É L E B R E S

ao que êstes contra ti depõem?” E como o Senhor não respon­


desse, fêz-lhe outra pergunta, e com êle todos os mais: "Dize-
-nos: tu és Cristo?” — "Se vo-lo digo, respondeu Jesus, não
me dareis crédito; se vos interrogo, não me respondereis, nem
me deixareis ir; mas de agora em diante o Filho do homem
se sentará à direita do poder de Deus”. Ao que replicaram;
"Tu és pois o Filho de Deus? — "Vós o dissestes, respondeu
Jesus, eu o sou”.
Secundou Caifás a pergunta, e lhe mandou que por Deus
vivo declarasse se era Cristo Filho de Deus, e Jesus lhe repe­
tiu: "Tu o disseste, eu o sou; e um dia me vereis vir sôbre
as nuvens do céu assentado à direita de Deus”. O pontífice,
ouvindo isto, rasgou os vestidos, dizendo: "Blasfemou. Que
necessidade temos de testemunhas? Julgai-o vós, que o ouvis-
te blasfemar”. A que responderam que merecia a morte, e
a ela o condenaram. Logo lhe escarraram no rosto, e deram
pancadas, escarnecendo dêle; e vendando-lhe os olhos, uns a pu­
nhadas o feriam, outros o esbofeteavam, dizendo-lhe por mofa:
"Adivinha quem te deu”. Insultos que acompanhavam com
outras injúrias e blasfêmias.
Passava a noite o Salvador entre ultrajes em casa do pon­
tífice, enquanto no pátio se aqueciam ao fogo os criados e os
que prenderam a Jesus; também se aquecia Pedro, que cuida­
doso de seu Mestre o seguia de longe, e veio ali ter com um
discípulo que tendo conhecimento com Caifás, obteve da cria­
da entrar no pátio: a qual vendo a Pedro entre os que se aauen-
tavam, e reparando bem nêle disse alto. que êle era da com­
panhia daquele homem; e falando com êle: "Não eras tu dos
seus discípulos?” Diante de todos negou Pedro: "Mulher, eu
não o conheço, nem sou dos seus discírmlos, nem sei de aue
falas”; e ergueu-se para ir perto do vestíbulo, e cantou o galo.
Ia para sair quando outra criada que o viu disse aos que ali
estavam: "Também êste era com Jesus Nazareno”. Nisto
tornou a pôr-se ao fogo, onde perguntado se era discípulo de
Jesus negou sê-lo, e jurou que não o conhecia. Tinha passado
uma hora, quando um ministro do pontífice e parente de Mal-
co, a quem Pedro cortara a orelha, apontando para êle, afirmou
claramente que Pedro era galileu e da comitiva de Jesus: "Não
te vi eu, lhe disse, com êsse homem no horto?” Chegam outros
logo e dizem: "Certo que dêle és, que o teu falar te acusa
de galileu”. O que êle negou, e com pragas tresjurou dizendo.:
''Nem conheço tal homem, nem sei o que me dizeis”. Neste
CR ISTO 180
ponto cantou o galo segunda vez; pôs Jesus os olhos em Pedro
e lhe fêz lembrar o que lhe dissera, de sorte que o Apóstolo
caiu em si, saiu do pátio, e pôs-se a chorar seu pecado com
copiosas lágrimas.
Logo que foi manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e
os anciãos do povo tiveram conselho contra Jesus para tirar-
-lhe a vida, e tendo-o declarado réu de morte o amarraram e
mandaram a Pôncio Pilatos governador romano da Judéia.
Então Judas, vendo a Jesus sentenciado, arrependido do que
fizera, restituiu aos sacerdotes e magistrados os trinta dinhei-
ros por que vendera a seu Mestre, dizendo: "Pequei, pois ven­
di o sangue inocente”. Ao que responderam êles: "A nós que
nos importa? Lá te avenhas”. Êle porém arrojou no templo
o dinheiro, saiu e enforcou-se. Dinheiro quê fora preço do
sangue e vida dum homem julgaram os sacerdotes não devia
entrar no tesouro do Templo; assim compraram com êle o cam­
po dum oleiro para nêle se sepultarem os estrangeiros, e se
chamou Haceldama ou campo de sangue; com o que se cum­
priu o dito dum profeta que Jesus seria posto a preço, vendido
por trinta dinheiros com que comprariam o campo dum oleiro.

LIÇÃO L
Jesus acusado no tribunal de Pilatos — É mandado a Herodes,
que o trata com desprêzo — Barrabás é preferido a Cristo

Da casa de Caifás levaram os sacerdotes e anciãos do povo


a Jesus ao pretório, ou palácio do pretor, e porque temiam
manchar-se entrando em casa dum pagão, e se inabilitarem
para comer a Páscoa, ficaram fora, e saiu Pilatos a uma va­
randa para ouvir os crimes de que acusavam o réu. Deram-
-lho por um malvado, e como tal lho traziam: "Condenai-o
segundo vossas leis, lhes disse Pilatos”. — "Não podemos jul­
gar de morte”, responderam êles. Tinham os romanos tirado
aos judeus o sentenciar à morte, para se cumprir o que dissera
Jesus a seus Apóstolos, que seria entregue aos gentios, para
sèr crucificado.
Queria Pilatos soltar a Cristo por não achar nêle crime
provado; mas os judeus disseram que amotinava a nação, im­
19 0 A N T O L O G IA D E V ID A S C É L E B R E S

pedia que pagassem tributo a César, e se intitulava rei e Mes­


sias. Então entrou Pilatos no palácio, e mandando entrar
Jesus, perguntou se era rei dos judeus: "Dize-o tu, respondeu
Jesus, de ti mesmo, ou de mim to disseram outros?” — "Sou
eu judeu? lhe replicou Pilatos. Os de tua nação, os príncipes
e sacerdotes, te entregaram em minhas mãos. Que fizeste ?”
— "Meu reino, respondeu Jesus, não é dêste mundo: que se
o fosse, pelejariam por mim os meus para impedir que me hou­
vessem às mãos os judeus: mas o meu reino não é daqui”. —
"Tu és pois rei?” disse Pilatos. — "Tu o disseste, respondeu
Cristo; eu o sou. Nasci e vim ao mundo para dar testemunho
à verdade, e quem pertence à verdade onve a minha voz”. —
"E que é a verdade?” lhe perpruntou Pilatos, e nisto saiu aos
judeus, que em turba estavam à sua norta, para dizer-lhes que
não achava culpa em Jesus Cristo. Os sacerdotes e senadores
o acusaram então de muitos crimes, aos quais Jesus nada res­
pondeu, e Pilatos lhe disse: "Não ouves as acusações que con­
tra ti formam?” O Senhor conservou tal silêncio, que assom­
brou Pilatos.
Insistiam os judeus em criminá-lo, dizendo oue amotinara
o povo com sua doutrina, comecando pela Galiléia. Como Pi­
latos soubesse que Jesus era galileu, e como tal era da juris­
dição de Herodes, que então se achava em Jerusalém, lhe en­
viou; tanto mais que Herodes, pelo que dêle ouvira, desejava
há muito vê-lo, e presenciar algum de seus milagres. Assim
que lhe fêz muitas perguntas, às auais Jesus nada respondeu,
nem às acusacões com que os judeus o criminavam. Vendo
Herodes que não podia satisfazer sua curiosidade, e não achan­
do em Jesus crime algum, tratou-o com desprêzo, e por zom­
baria lhe pôs uma vestidura branca, como se fora um louco,
e o remeteu a Pilatos; do que procedeu que Herodes e Pilatos
se tornaram amigos, de inimigos que antes eram.
Não podia Pilatos acabar consigo de sentenciar à morte
um homem a quem não tinha por digno dela; assim que man­
dou chamar os magistrados, sacerdotes e povo a quem repre­
sentou, que tendo perante si perguntado Jesus, não o achava
incurso nos crimes que lhe imputavam; e que o mesmo dizia
.Herodes a quem o enviara; e por condescender com sua fúria,
que bem sabia que por ódio e inveja o acusavam, lhes propôs
que o castigaria, e depois o dava solto. Tomou ainda outro
meio para o livrar. Devia por festa dar soltura a um crimi­
noso à escolha dos judeus; e todo êsse povo que lhe pedia a
CRISTO 191

morte de Jesus, lhe pedia também a soltura do prêso da festa;


e como no cárcere estava Barrabás, ladrão famoso que com ou­
tros levantados cometera morte numa sedição, creu Pilatos que
dando-lhes à escolha Jesus e Barrabás seriam piedosos com o
inocente, lhes disse: "Nenhuma culpa encontro no que acusais:
como é costume soltar por Páscoa um prêso, quem quereis que
livre, Barrabás, ou Jesus que se diz Cristo?” Outro aconteci­
mento veio, que corroborou Pilatos no desejo de salvar a vida
a Jesus. Sua mulher lhe mandou dizer ao tribunal em que
estava: "Não te enredes no caso dêsse justo; que esta noite
sonhando dêle padeci muito”.
Pelo que fêz quanto pôde pelo livrar das mãos de seus ini­
migos; êste o motivo por que o propusera ao povo junto com
Barrabás, mas tanto abalaram o povo os sacerdotes e senadores,
que pediram solto a Barrabás e a Jesus morto, de sorte que rei­
terando Pilatos: "Qual quereis que vos solte? — Barrabás. —
E que farei a Jesus? — Crucificai-o, crucificai-o. — Mas que
mal fêz êle? Nada encontro nêle que mereça morte. Castigá-
-lo-ei, e depois lhe darei soltura. — Crucificai-o, crucificai-o”;
era sempre a voz do povo em grita, impelido dos sacerdotes
invejosos.

LiçAo LI

Jesus açoitado e coroado de espinhos — Pilatos o sentencia à


morte — Caminha paru o Calvário com a cruz às costas9 e é
crucificado

Mandou pois Pilatos açoitar a Jesus Cristo, ordem que os


soldados excederam ajuntando insultos aos açoites; porquanto,
tirando-o ao pátio, onde, convocados os de sua companhia, lhe
tiraram a vestidura, e lhe puseram uma capa de púrpura, e
com espinhos que entrançaram lhe cingiram a cabeça com uma
coroa, e nas mãos lhe puseram uma cana; e por zombaria o
saudaram, e com os joelhos em terra o adoravam, dizendo:
"Salve, rei dos judeus” ; e lhe davam bofetadas, com a cana
lhe feriam a cabeça, e lhe cuspiram no rosto. Persuadia-se
Pilatos que o não veriam os judeus nesta figura sem se com­
padecerem dêle; assim, saiu do seu palácio com êle para dizer-
192 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

-lhes que ali lho trazia para que soubessem que nenhum crime
lhe achara, e mostrou-lhes então a Jesus coroado de espinhos
e coberto com a púrpura, dizendo: Ecce homo (eis aqui o ho­
mem) ; e como os judeus gritassem: Crucificado, crucificai-ô,
lho entregou para o crucificarem, bem que não o achasse cul­
pado: "Temos uma lei (clamavam os judeus) pela qual deve
morrer, pois que se diz Filho de Deus”.
Entrou Pilatos no pretório atônito e estranhando da du­
reza e porfiada fúria dos judeus, pelo que perguntou a Jesus
donde era, e não lhe respondendo o Salvador: "Nada me di-
zes? replicou Pilatos. Nao sabes que tenho poder de crucifi­
car-te, e poder de te soltar?” — Não o ter ias sobre mim, res­
pondeu então o Senhor, se do alto te não fosse dado; por cuja
razão maior cuipa que tu cometeram os que a ti me entrega­
ram”. Nem seu siièncio, nem sua resposta, atalharam o go­
vernador de fazer novos esíorços p a ra seu livramento; mas os
judeus que ciamavam: "Se nao castigas êsse homem que se
queria fazer rei, és inimigo de César”, triunfaram de sua fra­
queza, porquanio apenas iai ouviu, trouxe fora do pretório a
Jesus, e sentado em seu tribunal, disse aos judeus: "Eis o
vosso rei”; e êieá braaavam: "T ira-o, tira-o, crucifica-o”. —
"Queres que crucifique o vosso rei*/l” disse Pilatos. — "Não
temos outro rei senão a Cesar”, responderam os príncipes dos
sacerdotes.
Vendo que nada vencia, e que aumentava o tumulto com
querer livrar a Jesus, manaou vir água, e diante do povo lavou
as mãos e disse: "inocente sou do sangue dèste justo. Vós
o vêdes”. — "Caia seu sangue sôbre nos e sôbre nossos filhos”,
respondeu o povo todo. uotiveram o que pediam, e Pilatos,
que mais não pôde resistir a seus brados, soltou a Barrabás, e
lhes entregou Jesus para que o crucificassem.
Então se apossam de Jesus Cristo, lhe tiram a púrpura e
lhe revestem sua roupa, e o levam ao Calvário, lugar do suplí­
cio (em hebreu Góigota); põem-lhe aos ombros a cruz em que
o haviam de crucificar, e tanto que saíram de Jerusalém, assa­
lariaram a Simão Ckreneo, que vinha da cidade e por ali fazia
caminho, para que lhe tomasse a cruz. Entre o tropel de ini­
migos, que triunfavam de verem levado à morte o que tão in­
justamente aborreciam, havia grande turba de povo e mulheres
que seguiam o Filho de Deus, chorando e batendo nos peitos;
para estas mulheres se voltou o Senhor, e disse: "Filhas de
Cristo colocado no túmulo
0 anjo e as santas mulheres
Jesus e os discípulos de Emam
Ascensão de Cristo
II

CRISTO 108
‘Jerusalém, não chorei sôbre mim, chorai sôbre vós e vohhoh
filhos; que tempo virá que se dêem por afortunadas as entra­
nhas que não deram fruto e os peitos que não criaram. Ent&o
,dirão aos montes: Caí sôbre nós, e aos outeiros: Cobri-nos.
Se assim tratam o madeiro verde, que farão do sêco?” Quer
dizer: Se com tanto rigor se castiga o inocente, que esperam
os culpados? Fácil é de ver que Jesus dizia dantes o que acon­
teceria a Jerusalém, onde os judeus desejariam que os montes
os soterrassem para escapar à fúria de seus inimigos, e seriam
venturosas as mulheres que não tivessem filhos; por que as nfio
lastimasse vê-los extenuados ou mortos de fome ante seus olhos.
Chegados ao Calvário, deram-lhe vinho temperado com fel
e mirra, e não quis beber; que era uso dos judeus darem aos
que iam padecer vinho confeitado com roborativos, mas o que
deram a Jesus Cristo, para que mais sofresse, era mui amar go.
Depois o puseram na cruz entre dois ladrões com êle ali tra­
zidos, e a seus lados crucificados, segundo a profecia de Isaías:
"Entre os malvados o puseram”.
E fizera Pilatos um título que denotava a causa da conde­
nação de Jesus, que lhe foi cravado na cruz por cima da cabe­
ça; e dizia (em hebreu, grego e latim) : Jesus Nazareno, rei
dos judeus, de que os príncipes dos sacerdotes se ofenderam e
rogaram a Pilatos que não pusesse Rei dos judeus, mas sim
que êle se dizia Rei dos judeus; e Pilatos respondeu: "O que
escrevi está escrito”.

L ição L II

Palavras de Cristo na cruz — Sua morte e sepultura

Posto Jesus Cristo na cruz, pediu a Deus por seus per­


seguidores, dizendo: "Perdoai-lhes, meu Pai, que não sabem
o que fazem”. Os soldados que o crucificaram repartiram en­
tre si as suas vestiduras, e tiraram os quinhões por sorte;
como porém a túnica fosse inconsútil (sem costura) por n&o
a contarem para as quatro partilhas, deitaram dados, e se cum­
priu a profécia do salmo XXI: "Repartirão meus vestidos,
e sôbre minha veste lançarão sorte”.
194 A N T O L O G IA D E V ID A S C É L E B R E S

Em todo êste tempo, *não se tirava o povo de .diante da


cruz, a olhar para Cristo e zombar dêle; os passantes diziam
blasfêmias sôbre injúrias abanando as cabeças: "Tu que des-
tróis o Templo e em três dias o reedificas, salva-te a ti mesmo;
se tu és o filho de Deus, desce dessa cruz”. Os príncipes dos
sacerdotes, os doutores da lei e os magistrados, também o mo­
tejavam, dizeado entre êles: "Êle que salvava os outros, por
que se não salva a si? Se é rei de Israel, se é Cristo e esco­
lhido por Deus, desça agora da cruz, e creremos nêle: pois que
confia em Deus, Deus que o ama, o livre; já que disse que
era Filho de Deus”. Os soldados que para o guardar estavam
sentados junto da cruz o insultavam como os mais, e lhe di­
ziam: "Salva-te daí, se és o rei dos judeus”. Até um dos
ladrões crucificados a seu lado lhe disse: "Se és Cristo, sal­
va-te e a nós contigo”. O outro ladrão porém o repreendia
assim: "Não temes a Deus, condenado ao mesmo suplício?
Quanto a nós, padecemos pelo que fizemos; mas êste que mal
fêz êle?” E recorreu a Jesus dizendo: "Senhor, lembra-te de
mim quando fores em teu Reino”. — "Em verdade te digo, lhe
respondeu Jesus, que hoje serás comigo no Paraíso”. (No Lim­
bo, depósito das almas justas, que com a presença de Jesus
Cristo que a êle desce, será um paraíso).
Entre a turba que rodeava a cruz, estavam algumas da­
quelas mulheres de Galiléia que com Jesus vieram e com seu
cabedal o sustentavam; também ali eram os que o conheciam
e de longe viam o que passava; mas a Santíssima Virgem,
Maria Madalena e outra Maria, estavam chegadas à cruz, e
João filho de Zebedeu, junto da Virgem. Jesus vendo sua Mãe
e ao pé dela o discípulo que amava, disse à sua Mãe: "Mulher,
eis o teu filho”. E ao discípulo: "Eis tua Mãe”. Depois do
que ficou (dizem os Santos Padres) a virgem Mãe com o dis­
cípulo virgem, a cujo cuidado Jesus a encomendara; nem nos
admiremos) diz Santo Ambrósio que tão divino fale João dos
altíssimos mistérios da religião, quando tinha consigo o san­
tuário que encerrara o autor dêles.
Não era ainda meio-dia quando puseram Jesus Cristo
na cruz, e pouco depois dêle começou a se escurecer o sol e
as trevas enlutaram o ar até às três horas; perto das quais
bradou Cristo: "Eli, Eli, lamma Sabbacthani. — (Meu Deus,
meu Deus, por que me desamparaste?”) Que alguns, que não
sabiam o hebreu, interpretaram que chamava Elias em sua
ajuda.
C R ISTO 195

Já tinha Jesus Cristo padecido quanto dêle diziam as


Escrituras, faltava somente a do salmo LXVIII: "Deram-me
fel a comer e vinagre por bebida”. E por que nada faltasse
do que seu Pai lhe ordenara, disse: "Tenho sêde”. Logo um
soldado correu a molhar uma esponja em vinagre, na ponta
duma cana lha deu a provar, dizendo: "Vejamos se Elias o
vem tirar da cruz”. Provou Cristo, e disse: "Está consuma­
do” (o sacrifício), e bradou segunda vez: "Meu Pai, em vossas
mãos encomendo o meu espírito”. Inclinou a cabeça e expirou.
Rasgou-se logo o véu do Templo em dois de alto a baixo,
tremeu a terra, fenderam-se as pedras, abriram-se os sepul­
cros; e quando Jesus Cristo ressurgiu, ressurgiram muitos
santos, saíram de suas sepulturas e apareceram em Jerusalém
a muitas pessoas.
Tantos prodígios assombraram o centurião e os soldados
que guardavam a Jesus, e de espavoridos exclamaram: "Certo,
que era êste homem Filho de Deus”. Todo. o povo que pre­
senciou o espetáculo ficou abalado, e voltaram a casa batendo
nos peitos.
Os judeus, que não queriam que o corpo de Cristo, nem
os dos ladrões com êle crucificados ficassem o sábado na cruz,
pediram a Pilatos que lhes fossem quebradas as pernas e ti­
rados dali. Quebraram pois os soldados as pernas aos dois
ladrões, e a Jesus não, que o viram morto, mas um lhe atra­
vessou o lado com a lança, de que saiu sangue e água; e duas
profecias se cumpriram; "Verão a quem transpassaram” (91).
E falando do Cordeiro pascal, figura de Jesus Cristo: "Não
lhe quebrareis sequer um de seus ossos” {Zacarias, XII, 10;
Êxodo, XII, 46).
José de Arimatéia, rico e poderoso, discípulo encoberto
de Jesus Cristo, receoso dos judeus, e que em seu crime não
tivera parte, bem que magistrado em Jerusalém, destemido
agora com a morte de seu Mestre, pediu licença a Pilatos para

(91) O sangue e água miraculosa que saíram do lado de Jesus


Cristo são, segundo os SS. Padres, duas fontes misteriosas que servi­
ram a regar e santificar a Igreja. A água significa o batismo, por
meio do qual o homem é regenerado à vida da graça, e o sangue sig­
nifica o sacramento da Eucaristia, que alimenta a alma, conserva e
aumenta a vida da graça, até que chegue à posse da vida eterna.
196 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

sepultá-lo, que o não crera morto se o centurião o não certi­


ficara; a quem mandou lhe entregasse o corpo.
Então José comprou um lençol para amortalhar a Jesus,
desencravou-lhe o corpo da cruz e o desceu com Nicodemus,
o senador, que de noite veio ter com Jesus e que com êle quis
ter parte no funeral de seu Mestre; ambos perfumaram e en­
volveram em linho o Salvador, amortalhando-o ao uso judaico.
Havia ali um horto, e nêle um sepulcro talhado de novo na
rocha, que estreara com o corpo de Jesus; e rodando um grosso
penedo, para lhe fechar a entrada, se retiraram. Também
assistiram à sepultura Maria Madalena e as outras mulheres
que viram a morte do Salvador, as quais, reparando em tudo,
e no lugar onde o puseram, foram preparar perfumes para o
embalsamarem logo que passasse sábado, que era o dia seguinte.
Morto e sepultado Cristo na sexta-feira, tendo-se ajuntado
os príncipes dos sacerdotes e fariseus, vieram a Pilatos e lhe
disseram: "Lembramo-nos, senhor, que disse êsse embusteiro
quando vivo, que três dias depois de morto ressurgiria; man-
da-lhe guardar o sepulcro: que não venham os discípulos de
noite roubar o corpo, e digam depois ao povo que ressurgira
e cairmos assim num segundo êrro pior que o primeiro”.
Pilatos lhes deu a ordem como a quiseram, e êles selaram o
monumento e lhe puseram guardas.
DEPOIS DA RESSURREIÇÃO DE JESUS CRISTO ATÉ
A SUA ASCENSÃO, E VINDA DO ESPÍRITO SANTO

L ição L III

Ressurreição de Jesus Cristo — Aparece a Madalena


e às santas mulheres

No domingo seguinte, que para os judeus era o primeiro


dia da semana, partiu Maria Madalena e as outras santas mu­
lheres com aromas, e chegaram ao sepulcro ao apontar do sol.
Somente se penalizava pelo caminho a grandeza da pedra que
era forçoso arredar; mas, quando chegaram acharam-na arre-
dáda, que um anjo de rutilante face e nevadas roupas descera
do céu, e derribando a pedra, sôbre ela estava sentado; de cuja
presença e do grande tremor de terra que sobreveio, se ame­
drontaram tanto os soldados de sentinela ao sepulcro, que caí­
ram como mortos; de sorte que chegadas as santas mulheres,
nem guardas, nem penedo, as impediu de entrar; mas assom-
brou-as, entrando, não verem dentro o corpo de Jesus Cristo.
A Madalena correu logo aos Apóstolos; e a Pedro e João
que encontrou, disse: "Levaram-me o meu Senhor, e não sei
onde o puseram”. Acodem os dois discípulos ao monumento,
e João, que chegou primeiro, abaixando-se, mas não entrando,
viu por terra os lençóis; e Pedro, que chegou depois e entrou,
viu os lençóis e sudário com que cobriram o rosto do Senhor,
dobrados e postos de parte; o mesmo viu depois João que en­
trou, e assentaram, como a Madalena, que tinham levado o
corpo, porque ignoravam o que as Escrituras e Jesus Cristo
lhes repetiram tanto: Que necessitava que ressuscitasse dos
198 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

mortos. Assim que voltaràm todos e Pedro pelo caminho ad­


mirava todas estas coisas.
Madalena só ficou, chorando inquieta e inclinada para o
sepulcro, onde viu dois anjos vestidos de branco no lugar em
que estivera o corpo de Jesus, que lhe perguntaram por que
chorava. "Levaram-me o meu Senhor, e não sei onde o puse­
ram”. E dizendo isto, olhou para trás e viu um homem em
trajos de hortelão que lhe disse: "Mulher, de que choras? E
que procuras?” — "O Senhor, respondeu ela, se tu és quem
daqui o tirou, dize-me onde o puseste, e levá-lo-ei”. Deu-se
então o Senhor a conhecer, chamando-a pelo seu nome de Ma­
ria, e ela exclamou Rabboni, que quer dizer meu Mestre; e
o Senhor lhe disse: "Não me toques, que ainda não subi a
meu Pai; mas vai a meus irmãos (os Apóstolos) e dize-lhes
que eu vou subir a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso
Deus”. Estavam os Apóstolos mui afligidos, quando ela lhes
contou que tinha visto o Senhor; nova que êles não creram.
Não tornavam em si da angústia as mulheres que não
achavam no sepulcro o corpo de Jesus Cristo, e mais ainda
quando viram diante de si dois mancebos de refulgentes ves-
tiduras (os mesmos dois anjos, que vira a Madalena) que ven­
do-as espavoridas e cravados no chão os olhos, lhes disseram:
"Por que buscais entre os mortos o que vive? Buscais a Jesus
Nazareno a quem crucificaram? Não está aqui. Não temais:
como o tinha dito, ressuscitou. Lembrai-vos que estando em
Galiléia, vos disse: Importa que o Filho do homem seja en­
tregue nas mãos dos pecadores, para o crucificarem e ao ter­
ceiro dia ressurgirá. Vinde e vêde o lugar onde foi posto, e
prontas ide dizer aos discípulos e a Pedro que êle ressuscitou”;
e lhes disseram mais que Jesus Cristo seria antes que elas em
Galiléia, onde o verão como lhes prometera; e logo se lembra­
ram da promessa, e a nova da Ressurreição acalmou o terror
que os anjos lhes causaram. Saíam do monumento para ir dar
aos Apóstolos parte do que viram; eis que Jesus as saúda, e
transportadas de alegria e assombro se chegam a beijar-lhes
os pés e adorá-lo. "Não temais, lhes disse, ide dizer a meus
Irmãos, que vão a Galiléia, que lá me verão”. Foram logo
contar aos Apóstolos e mais discípulos o que viram e Jesus
lhes dissera; mas êles o tomaram por delírio, e não lhes deram
nenhum crédito.
C R ISTO

LiçAo LIV
Jesus dá-se a conhecer a dois discvpulos e a Pedro —
Aparece aos Apóstolos
Enquanto as santas mulheres anunciavam a Cristo que
viram ressuscitado, alguns soldados que lhe guardavam a se­
pultura, que acordaram do pavor com que os amortecera o
anjo que derribou a pedra, partiram a Jerusalém contar o
caso aos principais sacerdotes, que deliberaram com os sena­
dores darem aos guardas muito dinheiro, para que dissessem
que de noite, enquanto dormiam, vieram os discípulos de Jesus
e roubaram o corpo: o que assim fizeram, e êsse boato se espa­
lhou e soou longo tempo entre os judeus.
Iam nesse mesmo dia dois discípulos a Emaús, vila arre-
dada duas léguas e meia de Jerusalém, e caminhando falavam
no que passara naqueles três dias, quando se lhes juntou e com
êles (sem que o conhecessem) caminhava. Perguntou-lhes de
que falavam, e que motivo tinham de tristeza; a que Cléofas
respondeu: "Tão estrangeiro és em Jerusalém, que não sabes
o que nestes dias ali passou? — Acêrca de Jesus Nazareno,
tornaram êles, que foi um Profeta poderoso em obras e pala­
vras; e da maneira que os príncipes dos sacerdotes e nossos
magistrados o entregaram à morte e crucificaram. Esperá­
vamos nós que resgatasse Israel, e eis já três dias que isto
passou; bem que algumas mulheres, que estavam conosco, nos
espantaram dizendo, que indo de madrugada ao monumento
não acharam o corpo, e que anjos lhes apareceram; e disseram
que êle vivia; também alguns dos nossos foram ao sepulcro
e acharam tudo como as mulheres o tinham contado; mas a
êle não viram”.
Daqui tirou Jesus motivo para lhes exprobrar sua incre­
dulidade. "ó insensatos, de pesado e tardio coração em crer
tudo o que foi dito pelos Profetas; não era pois necessário
que Cristo padecesse assim para depois entrar na sua glória?”
Depois lhes explicou quanto dêle disseram todas as Escrituras,
principiando por Moisés e acabando pelos Profetas. Chegados
à vila foi caminhando como quem ia mais longe, mas êles o
detiveram, dizendo que ficasse com êles, que se fazia tarde e
o dia fechava; assim entrou, e sentado com êles, à mesa, to­
mou o pão, benzeu-o, e partindo-o lhos ofereceu. Súbito se lhes
200 A N T O L O G IA D E VID AS C É L E B R E S

descerraram os olhos, viram o que dantes não viam, conhece­


ram a Jesus, que logo desapareceu diante dêles, ficando a di­
zer: "Não é certo que o coração nos ardia quando pela estrada
nos explicava as Escrituras?” Erguem-se, e partem a Jeru­
salém aos Apóstolos que juntos falavam de Jesus certamente
ressuscitado e que aparecera a Pedro; e lhes contaram que o
mesmo lhes acontecera na estrada, e que o Senhor se lhes dera
a conhecer no partir do pão; não obstante o que, houve ainda
discípulos que não creram.
No lugar onde os Apóstolos com mêdo dos judeus estavam
juntos, falavam das diversas aparições de seu Mestre, quando
sobre a tarde, estando à mesa, e as portas fechadas, Jesus se
manifesta e diz: "Paz convosco: sou eu; não tenhais mêdo”.
E tendo-os assim saudado, os argüiu de incrédulos, e duros do
coração, que não criam em sua Ressurreição, nem se rendiam
ao testemunho dos que o viram ressuscitado. Encheram-se os
Apóstolos de espanto e mêdo, e o tinham por fantasma, quan­
do Jesus, para os sossegar, lhes disse: "De que vos pertur­
bais? Olhai meus pés e minhas mãos. Sou eu. Tocai-me,
e considerai que um Espírito não tem carne e ossos como em
mim vêdes”. E lhes mostrou as chagas nos pés, e nas mãos,
e no lado.
Não podiam ainda os Apóstolos crer no que viam, tão en­
levados de pasmo estavam e de alegria; então lhes pediu Cristo
de comer, e êles lhe apresentaram um pedaço de peixe assado
e um favo de mel que êle diante dêles comeu, não que preci­
sasse sustento que só cabe à vida mortal, não à eterna que
pela ressurreição tomara, mas para mais sensivelmente os
convencer que era êle, e que com certeza ressuscitara. Tendo
comido e dado os restos aos Apóstolos, lhes disse pela segunda
vez : "Paz convosco. Como meu Pai me enviou, eu vos en­
vio”. Soprou sobre êles, e disse: "Recebei o Santo Espírito;
serão remitidos os pecados a quem vós os remitirdes, e retidos
a quem vós os retiverdes”.
Não se achava São Tomé com os mais Apóstolos quando
Jesus a êles se mostrou do modo que vimos, e quando lhe con­
taram que tinham visto o Senhor, disse: "Menos que não veja
nas suas mãos os sinais dos cravos, e meta o dedo nas abertu­
ras dêles, e a minha mão na chaga do seu lado, nada creio”.
O Filho de Deus, que encaminhava ao estabelecimento da fé
de sua ressurreição todas estas incredulidades, não desampa­
rou a Tomé; antes estando êste oito dias depois no mesmo sí­
C R ISTO 201
tio com os mais discípulos e as portas fechadas, entrou e os
saudou: "Paz convosco. Mete, disse então a Tomé, o teu dedo
e repara nas minhas mãos; e chega a tua mão e mete-a no
meu lado, e não sejas incrédulo, mas fiel”. — Meu Senhor e
meu Deus! exclamou Tomé já mudado”. — "Tomé, lhe disse
Jesus, crêste porque viste: bem-aventurados ps que não viram,
e creram”.

L ição LV

Várias aparições de Jesus Cristo — Estabelece a São Pedro


cabeça da sua Igreja — Dá as ultimas instruções a seus
discípulos, e sobe ao céu — Vinda do Espírito Santo sôbre os
Apóstolos

Estando alguns discípulos na praia de Genesaré apareceu-


-lhes o Senhor, e depois duma pescaria miraculosa comeu com
êles alguns peixinhos assados e pão que pela sua mão distri­
buiu aos discípulos. Achava-se ali São Pedro, com outros
Apóstolos, e disse-lhe Jesus: "Simão, filho de João, amas-me
tu mais que êstes?” — "Sim, Senhor, respondeu Pedro, bem
sabeis que vos amo”. — "Apascenta as minhas ovelhas, lhe
disse Cristo. Simão, filho de João (segundo Jesus), amas-
-me?” — "Sim, Senhor, tornou Pedro a responder, bem sa­
beis que vos amo”. — "Apascenta os meus cordeiros”, repetiu
Jesus. E fazendo-lhe terceira vez a mesma pergunta, Pedro
comovido de que seu Mestre parecia duvidar do seu amor, lhe
disse: "Senhor, que tudo conheceis, bem sabeis que eu vos
amo”. O Salvador, que quis com o tríplice testemunho do seu
amor ressarcir as três vêzes que o negara, lhe confiou as suas
ovelhas (quer dizer o cuidado das almas), dizendo-lhe: "Apas­
centa as minhas ovelhas. Em verdade, e muito certo te digo,
que quando eras moço te cingias a ti mesmo, e ias onde que-
rias; mas quando fores velho te estenderão as mãos, e outro
te cingirá e elevará onde tu não queiras”. Com estas pala­
vras lhe denotava a morte com que havia de glorificar a Deus;
e com efeito competiu ao príncipe dos Apóstolos que, como seu
Mestre, foi crucificado.
Diversas vêzes se mostrou ainda aos Apóstolos nos qua­
renta dias que depois de sua Ressurreição ficou no mundo, o
202 A N T O L O G IA D E V ID A S C É L E B R E S

que fazia para lhes confirmar com muitas pyovas que estava
vivo, e conversar com êles acêrca do reino de Deus. Deu por
fim várias instruções aos Apóstolos, explicando-lhes o sentido
das Escrituras, dizendo-lhes que, segundo o que estava escrito,
convinha que Cristo padecesse morte, ressuscitasse ao terceiro
dia, e que em seu nome pregassem a penitência e remissão dos
pecados a todas as nações, e começando por Jerusalém. Rati­
ficou então a missão que lhes dera, dizendo: "Todo o poder
me foi dado no céu e sôbre a terra; ide por todo o universo
pregar o Evangelho, doutrinai os povos, batizando-os em nome
do Padre, do Filho e do Espírito Santo. Os que crerem serão
salvos, os que não crerem serão condenados”. Assegurou-lhes
que em seu nome fariam muitos milagres, expulsariam demô­
nios, falariam novas línguas, beberiam veneno sem que lhes
prejudicasse, e impondo-lhes as mãos sarariam enfermos. E
para fortalecê-los no ministério que lhes confiava, prometeu-
-lhes que sempre estaria com êles até à consumação dos sécu­
los, e os revestiria da virtude do Excelso pelo Espírito Santo
que do céu lhes enviaria.
Depois de se manifestar a seus discípulos várias vêzes na
Galiléia, apareceu-lhes pela última vez em Jerusalém, onde lhes
ordenou que ficassem até à vinda do Espírito Santo, que nestes
têrmos lhes prometeu: "João batizou na água; mas vós sereis
batizados no Espírito Santo”, como dizendo que seriam cheios
e como inundados de seus dons e virtudes; e lhes perguntaram
se seria então o prazo de restabelecer o seu Reino de Israel?
Ao que respondeu que lhes não era dado conhecer os tempos
e momentos que Deus reservou em seu soberano poder: "Mas
recebereis, lhes disse, a virtude do Espírito Santo que baixará
sôbre vós, e dareis testemunho de mim em Jerusalém, em tôda
a Judéia e Samaria, e até às extremidades do universo”.
Estas foram as últimas palavras de Jesus Cristo sôbre a
terra. Levantou as mãos, abençoou seus discípulos e em sua
presença se foi elevando ao céu, até que uma nuvem lho escon­
deu a seus olhos. Ainda atentos o seguiam até a perder de
vista, quando dois mancebos vestidos de branco súbito lhes
apareceram e disseram: "Varões de Galiléia, por que estais
olhando para o céu? Êste Jesus, que deixando-vos se elevou ao
céu, assim virá como o viste subir”. Adoraram os Apóstolos
ao que deixava a terra para ir sentar-se à destra de Deus.
C R ISTO

Dali (92) voltaram cheios de alegria para Jerusalém, onde se


encerraram esperando pela vinda do Espírito Santo.
Passados dez dias em retiro e oração, estando com os
Apóstolos Nossa Senhora, outras santas mulheres e uns cento
e vinte discípulos, no dia de Pentecostes, eis que se ouviu um
grande ruído como dum vento rijo, que encheu toda a casa.
Ao mesmo tempo apareceram no ar umas línguas de fogo, que
pousaram sobre a cabeça de cada um dêles. Ficaram todos
cheios do Espírito Santo, e começaram a falar diferentes lín­
guas, segundo o mesmo Espírito os inspirava. Ficaram desde
então os Apóstolos novos homens, e cheios de ânimo e de sa­
bedoria, foram pregar por toda a terra a doutrina de Jesus
Cristo, confirmando-a com milagres, com a santidade de sua
vida e com invencível paciência nos suplícios.

(92) Crê-se ser no monte Olivete.


Êste livro foi composto e impresso para
a Livraria e Editora LOGOS Ltda., na
Gráfica e Editora MINOX Ltda., à Rua
Mazzini n.° 167, em maio de 1961 —
São Paulo