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2017

- 02 - 23

Revista de Direito Ambiental


2016
RDA VOL.83 (JULHO - SETEMBRO 2016)
TEORIA GERAL E PROTEÇÃO AO MEIO AMBIENTE

Teoria Geral e Proteção ao Meio Ambiente

1. Dano ambiental e a segregação social pela poluição:


ponderações ao julgamento da Ajax Baterias e a injustiça
ambiental

Environmental damage and social segregation by pollution:


reflections to the judgment of Ajax Batteries and
environmental injustice
(Autores)

BEATRIZ SOUZA COSTA

Doutora e Mestre em Direito Constitucional pela UFMG. Professora do Mestrado em Direito Constitucional
Ambiental e Desenvolvimento Sustentável na Escola Superior Dom Helder Câmara. Pró-reitora de Pesquisa na
ESDHC. biaambiental@yahoo.com.br

MARCOS EDMAR RAMOS ALVARES DA SILVA

Mestre em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pela Escola Superior Dom Helder Câmara. Especialista
em Direito Público pela Faculdade de Direito do Vale do Rio Doce. Advogado. marcosedmar@avalicon.com.br

Sumário:

1 Introdução
2 Delineamentos do caso envolvido no julgado
3 Escorço histórico da (re)evolução da legislação ambiental até o advento da Constituição de 1988
4 Dano ambiental e a segregação social pela poluição: julgamento da Ajax Baterias e a injustiça
ambiental
5 Da responsabilidade civil solidária pelo dano ecológico
6 Considerações finais
7 Referências

Área do Direito: Ambiental

Resumo:

Este artigo tem por objeto examinar o acordão proferido no julgamento do REsp 1.310.471/SP. O objetivo é
analisar como a injustiça ambiental, marco teórico deste estudo, promove a segregação social pela poluição,
e como o Judiciário na execução de sua função julgadora pode contribuir na reparação dessa injustiça.
Justifica-se esse estudo em razão da conjugação da luta pela igualdade social com a questão da justiça
socioambiental, centro dos debates na atual sociedade de risco. Para tanto, a presente pesquisa alicerçou-se
na análise de doutrinas, artigos e jurisprudências relacionados ao tema. Buscou-se compreender o problema
através do método dedutivo, alicerçando-se na análise de doutrinas, artigos e jurisprudências relacionados
ao tema.

Abstract:

This article aims to examine the judgment in the trial of Special Appeal 1310471/SP. The goal is to analyze
how environmental injustice, theoretical framework of this study, promotes social segregation by pollution,
and how the judiciary in the performance of their judging function can contribute to repair this injustice.
Justified this study due to the combination of the struggle for social equality with the issue of environmental
justice, the center of discussions on the current risk society. Therefore, the present study has its foundations
on the analysis of doctrines, articles and case law related to the topic. We tried to understand the problem
through the deductive method, basing on the analysis of doctrines, articles and case law related to the topic.

Palavra Chave: Injustiça ambiental - Segregação pela poluição - Direitos fundamentais - Constituição
Federal - Proteção ecológica.
Keywords: Environmental injustice - Segregation by pollution - Basic rights - Federal Constitution -
Ecological protection.

1. Introdução

Tema relevante à seara ambiental-constitucional, a fundamentação da (in)justiça ambiental como mote nas
decisões proferidas pelo Judiciário, alcançou significativa importância nos últimos anos, como forma de
correção histórica daqueles que estão à margem da sociedade, submetidos à sua própria sorte.

Este artigo propõe analisar o acórdão proferido em 21.02. 2013 no julgamento do REsp 1.310.471/SP, de
relatoria do Ministro do STJ Herman Benjamin, em que se manteve a condenação da empresa Ajax
Acumuladores Ltda (Ajax Baterias) ao pagamento de multa proveniente de infração ambiental, com
fundamento na responsabilidade civil solidária e no princípio in dubio pro salute.

Perseguindo esse objetivo, observa-se de enceto os delineamentos do caso envolvido no julgado, orientado
pelo relatório exposto pelo relator do acordão.

O estudo prossegue com a evolução histórica das normas relacionadas ao meio ambiente, até o meio
ambiente ecologicamente equilibrado ser alçado ao patamar de direito fundamental, como preceitua a
Constituição Federal de 1988.

O próximo passo refere-se à análise dos fundamentos da decisão, estabelecendo como a inação do Estado na
implantação de políticas públicas inclusivas e a inadequada fiscalização ambiental, podem provocar a
segregação social pela poluição, com anotações aos conceitos da sociedade de risco, injustiça ambiental e
responsabilidade civil solidária pelo dano ecológico.

O escopo é estabelecer como a injustiça ambiental, marco teórico deste estudo, promove a segregação social
pela poluição e como o Poder Judiciário na execução de suas atividades precípuas pode contribuir na
reparação dessa injustiça, para, prontamente, tecer as considerações finais

Justifica-se esse estudo em razão da conjugação da luta pela igualdade social com a questão da degradação
(socio)ambiental, centro de debates nas sociedades contemporâneas.

Buscou-se compreender a abordagem pelo método dedutivo, pois, parte-se da narrativa textual histórica da
proteção ambiental no Brasil como elemento amplo, percorrendo a ineficiência do próprio Estado em
afiançar essa proteção através de políticas públicas estruturantes, para, gradativamente, estreitar na
problemática central da pesquisa, qual seja, a injustiça ambiental e a função judiciária corretiva. Para tanto,
a investigação consolidou-se na análise de doutrinas e artigos relacionados ao tema.

Espera-se com este estudo estimular a reflexão sobre como reparações por danos causados ao meio ambiente
podem, de alguma forma, minimizar a profunda desigualdade e miséria social no Brasil.

2. Delineamentos do caso envolvido no julgado

A decisão que se comenta refere-se ao Recurso Especial promovido pela Acumuladores Ajax Ltda, uma das
maiores empresas brasileiras de fabricação e reciclagem de baterias automotivas, localizada na cidade de
Bauru/SP, referente à condenação ao pagamento de multa administrativa, derivada de auto de infração
lavrado em 20.09.2002 pela Vigilância Sanitária, órgão Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, por
descumprimento de normas ambientais. 1

A infração da empresa consistia em reiterada emissão de chumbo (Pb) na atmosfera, expondo e


contaminando, por esse metal pesado, o meio ambiente e a população hipossuficiente residente no entorno
de seu parque industrial.

Infere-se da decisão que a conduta da empresa contaminou 303 crianças que apresentaram grau de
plumbemia acima dos limites estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde – OMS. Há também menção
de contaminação de trabalhadores que cultivavam produtos hortifrutigranjeiros nas imediações do setor
metalúrgico da Ajax Baterias, de córregos e animais, embora tais fatos não tenham motivado a multa
discutida no recurso especial.

No recurso apresentado, a Ajax Baterias sustentou que a contaminação poderia ter ocorrido por outros
fatores não exclusivos do funcionamento de seu setor metalúrgico, pois terceiros desmanchavam baterias e
manipulavam chumbo, além de que o metal se acha presente em alimentos (latas com soldas),
medicamentos, cosméticos, etc., materiais esses encontrados com facilidade às margens do córrego
contaminado e afluentes.

Relatou também à existência de uma fábrica clandestina que “lavava” baterias no córrego contaminado, sem
contar com quaisquer procedimentos capazes de reter os resíduos, sendo que a água utilizada nesse processo
escoava pelas ruas do bairro, desaguando no córrego Vargem Limpa.

Sob essa perspectiva, articulou que não haveria como afirmar, com certeza indiscutível, que o chumbo
encontrado no sangue da população resultou, necessariamente e apenas, do rejeito lançado ao meio
ambiente na cadeia produtiva.

O Min. Herman Benjamin desconstruiu esses argumentos, ao ressaltar que além desses fatos não terem sido
devidamente comprovados no curso da ação na instância inferior, como forma de quebrar do nexo de
causalidade entre a conduta e o dano, a responsabilidade ambiental (inclusive administrativa) encerra
natureza solidária.

Os fundamentos adotados no auto de infração foram os de expor a população moradora dos arredores da
empresa ao contaminante chumbo, fato este que resultou na contaminação de 303 crianças a teores do metal
no organismo acima dos valores de referência da Organização Mundial de Saúde – OMS, ocasionando sérios
riscos à saúde da população, provocados pelas emissões atmosféricas oriundas da empresa recorrente.

Esses acontecimentos motivaram a interdição da empresa pela Cetesb, órgão de controle da poluição do
Estado de São Paulo.

Deve-se, antes de aprofundar nas minúcias do assunto determinante da pesquisa, apresentar uma breve
evolução normativa ambiental do ordenamento jurídico pátrio, uma vez que, somente à partir da conjectura
de que o meio ambiente ecologicamente equilibrado constitui fragmento integrante dos direitos humanos
fundamentais, inafastável à salutar qualidade de vida das pessoas, é possível justificar que a sua
inobservância provoca injustiça merecedora de reparos.
Ainda neste raciocínio histórico-evolutivo, é essencial demonstrar a mudança de paradigma do bem
ambiental como mero instrumento da concepção privatista ou liberal-individualista, até a configuração do
meio ambiente como direito fundamental, para compreender os fundamentos da decisão.

3. Escorço histórico da (re)evolução da legislação ambiental até o advento da Constituição


de 1988

O direito ambiental no Brasil transpôs uma lenta e gradativa evolução até forjar o ideal de direito
fundamental. Sarlet e Fensterseifer, 2 descrevem que a evolução da legislação ambiental brasileira comporta
três fases, a saber; (1) fase fragmentária-instrumental, (2) fase sistemático-valorativa, e (3) fase da
“constitucionalização” da proteção ambiental.

A primeira etapa da evolução legislativa – fragmentária-instrumental – compreende todo o período que


antecede a Lei 6.938/1981, denominada Política Nacional do Meio Ambiente, já que antes dessa lei não existia
um sistema normativo ecológico no Brasil estruturado, nos moldes como se observa hoje.

Razões não faltam para justificar esse entendimento.

Na opinião de Costa 3 até a segunda metade do século XX pouca atenção foi dada ao meio ambiente no Brasil,
e as propostas que se apresentaram não se preocupavam de forma consciente com a proteção ambiental.

A Constituição imperial de 1824 não fez qualquer regramento à preservação dos recursos naturais, embora o
país fosse essencialmente exportador de produtos primários extraídos da natureza.

Descreve José Afonso da Silva. 4 que a concepção privatista foi durante muito tempo, um empecilho ao
desenvolvimento de normas de proteção ambiental no Brasil e “predominou a desproteção total, de sorte que
norma alguma proibia a devastação das florestas, o esgotamento das terras, pela ameaça do desiquilíbrio
ecológico”.

Salienta Horta 5 que no período republicano as questões ambientais se confundiam “com a autorização
conferida à União para legislar sobre defesa e proteção da saúde ou com a proteção dos monumentos
históricos, artísticos e naturais, às paisagens e locais particularmente dotados pela natureza”.

A Constituição de 1934 possuía características intervencionistas na ordem econômica e social, atribuindo à


União o poder para legislar sobre riquezas do subsolo, mineração, metalurgia, água, energia elétrica,
florestas, casa e pesca e sua exploração, refletindo o espírito da época, como relembra Bessa. 6

Nesse período ampliou-se a legislação infraconstitucional “relacionada ao meio ambiente”, conduzida pelas
obras de infraestrutura necessárias ao desenvolvimento econômico do país.Exemplo de norma
infraconstitucional relevante editada naquela ocasião e ainda em vigor é o Dec. 24.653, de 10.07.1934, Código
de Águas, que permitiu ao Poder Público controlar e incentivar o aproveitamento industrial das águas,
visando à exploração para produção de energia elétrica.

Neste cenário que surgiram as primeiras normas protetoras, mas de incidência restrita, destinadas a
proteger o direito privado na composição de conflitos de vizinhança, segundo José Afonso da Silva. 7

Entre a Constituição de 1934 até o advento da Constituição de 1988 o “Direito ambiental” no Brasil
experimentou lenta e gradativa evolução.Diversas leis foram promulgadas nesse interstício, porém, todas
sem a presença de “fundamentos ecológicos” na regulação da utilização dos recursos naturais, pois o Direito
Ambiental nos parâmetros observados atualmente não se fazia presente, nos dizeres de Sarlet e
Fensterseifer. 8

Nesse intervalo sucederam a Lei de Proteção aos animais (Dec. 24.645, de 10.07.1934), o Dec. 50.877, de
29.06.1961, que dispôs sobre o lançamento de resíduos tóxicos ou oleosos nas águas interiores ou litorâneas
do país que, inclusive, teve o mérito de estabelecer em seu art. 3.º o conceito de legal de poluição; o Estatuto
da Terra (Lei 4.503, de 30.11.1964), que trouxe em alguns dispositivos a ideia de função social da propriedade
e o Código Florestal (Lei 4.771, de 15.09.1965) que destacou os institutos da área de preservação permanente
(APP) e da reserva legal (RL).

Pela projeção nos rumos do direito ambiental, vale registrar que, paralelamente as modificações legislativas
no sistema jurídico brasileiro, a I Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
Humano, realizada em Estocolmo em 1972, tornou-se o marco inaugural da inclusão das questões ambientais
na pauta internacional, pois , como bem observa Rezek, 9 “o ideal da conjugação harmônica do
desenvolvimento com a preservação ambiental marca presença nos princípios de Estocolmo”.

Neste encontro, os países que obtiveram um desenvolvimento desenfreado durante décadas, à base da
exploração de recursos naturais existentes, tanto em seus territórios quanto no solo dos países em
desenvolvimento, propuseram uma nova política econômico-desenvolvimentista, que, por certo, encontrou
resistências, como aponta Costa. 10 (2013).

Obviamente, a proposta de uma nova mentalidade protecionista ao meio ambiente, imposta especialmente
para os países em desenvolvimento, com a implementação de políticas reducionistas de emissão de gases
poluentes, desmatamento e regras ambientais mais rígidas à expansão industrial, dentre outras, entrou em
descompasso com a perspectiva desses mesmos países em desenvolvimento, no que se refere às ações
necessárias ao crescimento econômico.

Nesse sentido, Barbieri 11 relata parte do discurso do então Ministro do interior do Brasil, General Costa
Cavalcante, integrante da comitiva que participou da Conferência de Estocolmo, que reflexiona o momento
vivido, ao ressaltar que, para a maioria da população mundial, a melhoria de condições é muito mais questão
de mitigar a pobreza, dispor de mais alimentos, melhores vestimentas, habitação, assistência médica e
emprego do que ver reduzida a poluição atmosférica.

Não se pode esquecer que a concepção acima descrita, vinculada a despreocupação governamental com as
questões ambientais, não é fruto de um passado longínquo, em que as lembranças estão desbotadas pelo
tempo, sendo objeto de livros de história obsoletos, esquecidos num baú de guardados antigos. Esse
pensamento dominou e ainda domina as políticas econômicas de inúmeros países, razão pelo qual, o meio
ambiente ainda colhe os perversos frutos dessas extravagâncias.

Na opinião de Lemos, 12 a Conferência de Estocolmo em 1972 foi a divisa “do reconhecimento do direito
fundamental do ser humano ao meio ambiente equilibrado. A partir de então, começa a visualização dos
direitos da humanidade, que como gênero humano, inclui também as futuras gerações”.

Retomando o caminho da evolução das normas ambientais em nosso ordenamento jurídico, chega-se, enfim,
à Lei 6.938, de 31.08.1981, que regrou a política nacional do meio ambiente, seus fins e mecanismos de
formulação e aplicação, dentre outras providências, bem como rompeu com a fase fragmentária-
instrumental dando início à fase sistemático- valorativa.

A Lei 6.938/1981 (LPNMA) representa o marco inaugural do Direito Ambiental brasileiro, estabelecendo os
delineamentos normativos gerais a respeito da proteção jurídica do meio ambiente, seus objetivos, princípios
e instrumentos gerais. A Lei 6.938/1981 apresentou inúmeras inovações, e, dentre elas, a difícil missão de
conceituar meio ambiente, como prescreve o seu art. 3.º:

o meio ambiente como o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e
biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas.

O conceito estabelecido na lei ordinária recebeu críticas de Bessa, 13 pois o “conteúdo não está voltado para
um aspecto fundamental do problema ambiental, que é, exatamente, o aspecto humano. A definição legal
considera o meio ambiente do ponto de vista puramente biológico e não do ponto de vista social que, no caso,
é fundamental”.

No entanto, o próprio jurista reconhece que a definição proposta na lei refletiu o espírito histórico daquele
momento ao aduzir que no contexto da elaboração da Lei 6.938/1981 a proteção do meio ambiente era
considerada como uma forma de proteção à saúde humana, e não como um bem merecedor de tutela
autônoma.

Por outro lado, Costa 14 (2013) aprova o caráter inovador e surpreendente do conceito fixado na lei, pois o
legislador, intencionalmente, privilegiou a vida em sentido amplo e não somente o homem, como o centro
único de todo o meio ambiente:

Para uma época em que realmente não havia uma preocupação verdadeira com a preservação do meio
ambiente, entende-se que foi um conceito surpreendente. Apesar de o artigo citar que o meio ambiente é o
“conjunto de condições e leis”, não diz, necessariamente, que o homem é o principal sujeito deste meio
ambiente, conclui-se que as leis vêm para regular o meio em cujo corpo está incluído o homem. Portanto,
mesmo sem ter a intenção, o legislador privilegiou “a vida”. Neste diapasão, a lei dispõe claramente: “a
proteção da vida em todas as suas formas”.

Discorrendo sobre as inúmeras inovações trazidas pela Lei 6.938/1981, principalmente no que se refere ao
aparato administrativo-organizacional criado para tutela do meio ambiente, Sarlet e Fensterseifer 15
comentam que o regramento apresentou inovações legislativas que “... amarram a proteção ecológica à
atuação do Estado, criando novos deveres e obrigações para os entes públicos em matéria ambiental...”.

Destacam-se nas inovações criadas pela LPNMA, o Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), com o
objetivo de estruturar e organizar os entes federativos responsáveis pela proteção e melhoria da qualidade
ambiental e o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), órgão consultivo e deliberativo com a
finalidade de assessorar, estudar e propor ao Conselho de Governo, diretrizes de políticas governamentais
para o meio ambiente e recursos naturais além de deliberar, no âmbito de sua competência, sobre normas e
padrões compatíveis com o meio ambiente ecologicamente equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida.

A LPNMA introduziu uma perspectiva inovadora para à época, antecipando o que estava por vir na
Constituição Federal de 1988, pois “identificou, de forma até mesmo surpreendente, a importância da
qualidade, do equilíbrio e da segurança ambiental para assegurar proteção adequada à dignidade e à vida
humanas”, como asseveram Sarlet e Fensterseifer. 16

Também compreendem a fase sistemático-valorativa, o Dec. 91.145, de 25.03.1985 que criou o Ministério do
Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, a Lei 7.347, de 24.07.1985, Lei da Ação Civil Pública, que
consagrou o direito ao meio ambiente como direito ou interesse difuso e a sua tutela coletiva, a Lei 7.643, de
18.09.1987 que proibiu a pesca de cetáceos nas águas jurisdicionais brasileiras e a Lei 7.661, de 16.05.1988
que estabeleceu o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro como parte da Política Nacional para os
recursos do mar e da Política Nacional do Meio Ambiente.

A fase sistemático-valorativa mostrou-se substâncial à mudança de paradigma do meio ambiente


estabelecido na Constituição de 1988, pois serviu de fonte normativa e construtiva para proteção ecológica,
até então, não representada nas Constituições anteriores.

A Constituição Federal de 1988 iniciou a fase da “constitucionalização” da proteção ambiental e alçou o meio
ambiente a categoria de direito fundamental, ao estabelecer em seu art. 225 que “todos têm direito ao meio
ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida”,
impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras
gerações”.

Para Bessa 17 as Constituições que antecederam a de 1988 tinham enfoque voltado para a infraestrutura da
atividade econômica do Estado, com atenção na relação produtiva sem preocupação com a conservação dos
recursos naturais.

Contudo, esse viés sofreu profunda modificação com a Constituição Federal de 1988.

A diferença primordial entre o que postulavam as Constituições anteriores e o que se propôs com a
Constituição Federal de 1988 encontra-se na tentativa de harmonizar os interesses conflitantes entre o
desenvolvimento econômico e a questão ecológica, inserindo no texto constitucional o postulado de proteção
ao meio ambiente de forma sistêmica.

Um dos méritos da Constituição Federal de 1988 exterioriza-se no impulsionar o meio ambiente saudável e
ecologicamente equilibrado ao status de direito fundamental, construindo um aparato protetivo de
garantidas da qualidade de vida aos cidadãos e desenvolvimento econômico com respeito ao meio ambiente,
como expressa Bessa. 18

Nessa toada criou-se um extenso arcabouço normativo com vistas a promover a proteção ambiental em seus
mais variados aspectos, indo desde a criação do Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis
(Ibama) pela Lei 7.735, de 22.02.1989, da Lei de Agrotóxicos (Lei 7.802, de 11.07.1989), Lei do Sistema único de
Saúde – SUS (Lei 8.080, de 19.09.1990) como proteção ambiental e tutela da sadia qualidade de vida, passando
pelo Estatuto das Cidades (Lei 10.257, de 10.07.2001) com proteção do meio ambiente Urbano, Lei da Politica
Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.304, de 02.08.2010), até o novo Código Florestal (Lei 12.651, de
25.05.2012).

É impróprio neste artigo discorrer sobre os meandros das leis acima descritas, que, seguramente, pela
relevância que possuem na “ciência jurídica ambiental” merecem ser objeto de oportuno estudo
aprofundado.

Diante dessa evolução histórica, percebe-se que a proteção ambiental, “abrangendo a preservação da
natureza em todos os seus elementos essenciais à vida humana e a manutenção do equilíbrio ecológico, visa
tutelar a qualidade do meio ambiente em função da qualidade de vida, como uma forma de direito
fundamental da pessoa humana”, consoante José Afonso da Silva. 19

Não é por outra razão que Sampaio, Wold e Nardy, 20 enveredando nesse assunto, salientam que os direitos
fundamentais não são apenas direito no sentido jusprivatista, mas consignam também e, principalmente,
ações e tarefas do estado de caráter constitucional, visando afirmar e garantir o livre exercício dos direitos
de cunho liberal, buscando o justo equilíbrio para alcançar a tutela dos direitos sociais.O Ministro Herman
Benjamim trilhou-se por esse axioma para articular a sua decisão..

4. Dano ambiental e a segregação social pela poluição: julgamento da Ajax Baterias e a


injustiça ambiental

O caso em comento, revela a condenação da empresa Ajax Baterias por degradação (dano) ao meio ambiente,
poluindo-o ao lançar chumbo no leito de um córrego, contaminando ainda centenas de crianças moradoras
de uma área pobre, desprovida de estrutura mínima do Estado no que pertine a qualidade ambiental, à
elevados índices de chumbo no sangue.

Mas qual o conceito de degradação ao meio ambiente? O que vem a ser poluição ambiental?

A Lei 6.938/1981 (Lei da Política Nacional do Meio Ambiente) em seu art. 3.º 21 aduz os conceitos de
degradação da qualidade ambiental e poluição como sendo a alteração adversa das características do meio
ambiente e a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente
atinjam a saúde, a segurança e o bem-estar da população, afete a biota e as condições estéticas ou sanitárias
do meio ambiente.

Interpretando o texto da lei, verifica-se que tanto a degradação ambiental quanto a poluição consistem na
alteração do meio ambiente natural (flora e fauna) pela prática de atividade nociva, que afete os seres vivos
de maneira geral, com lançamento de substâncias tóxicas em desconformidade com os padrões normais e
regramentos fixados pelos órgãos fiscalizadores e instituições especializadas.

A ação predatória ao meio ambiente natural manifesta-se de várias maneiras, sempre destruindo ou
alterando os elementos que o compõem, através do desmatamento, poluição do solo, da água e do ar.

Nas palavras Américo Luís Martins Silva 22 existe “certa dificuldade para se chegar a um conceito de
poluição, já que ele abrange um grande número de aspectos, aos quais será dada maior ou menor ênfase
conforme a perspectiva adotada pelo técnico ou especialista”.

Certamente para o biólogo a poluição terá conotação de alteração de ciclos biológicos normais, com a
inserção de elementos que prejudiquem o desenvolvimento natural de espécies, comprometendo a
sobrevivência da biodiversidade, mas para o geógrafo a poluição ambiental está relacionada à gestão
ambiental de bacias hidrográficas, parques e reservas florestais, proteção da biosfera e contaminação do
solo. Assim, o técnico ou especialista extrairá o que mais lhe chama a atenção para estabelecer o conceito de
poluição.

Obviamente que nem toda poluição é passível de condenação, como explica Américo Luís Martins Silva, 23
pois, para isso ela

deve influir de maneira nociva ou inconveniente, direta ou indiretamente, na vida, na saúde, na segurança e
no bem-estar da população, nas atividades sociais e econômicas da comunidade, na biota ou nas condições
estéticas ou sanitárias do meio ambiente.

A Ajax Baterias alegou em seu recurso que à autoridade administrativa (Vigilância Sanitária do Estado de São
Paulo), adotou padrões de plumbemia (chumbo) no organismo humano da Organização Mundial de Saúde –
OMS, mais rigorosos que os previstos na legislação brasileira, pugnando pela nulidade do auto de infração.

Não obstante, o Min. Herman Benjamin decidiu que o Poder Judiciário, em conflitos que envolvem a saúde
humana, deve adotar padrões mais rigorosos, a fim de preservar os valores superiores resguardados pelo
ordenamento, ou seja, a vida e a saúde humana, com vistas a evitar e mitigar danos, mormente os coletivos,
intergeracionais e de difícil identificação, quantificação e reparação.

A perfeita compreensão da atuação do poder judiciário na reparação ambiental como forma de garantia dos
valores supremos afiançados pela Constituição traz, a reboque, a necessidade da introdução da Teoria
Sociedade de Risco neste estudo.

Sociedade de Risco, terminologia cunhada pelo sociólogo alemão Ulrich Beck na década de 1980, designa o
fenômeno do esgotamento do modelo de produção mercadológica em massa instituído após a revolução
industrial, em razão da tomada de consciência pela sociedade pós-moderna dos riscos globais e danos
irreversíveis provocados pelo continuo crescimento econômico, avanços tecnológicos e científicos
caracterizados pela lógica desse sistema, como aduzem Leite, Moreira e Achkar. 24

Neste sentido, afirmam Coelho e Ferreira 25 que o “o risco é algo decorrente da história da própria sociedade
contemporânea, marcada por mudanças, inovações, inseguranças”. O desenvolvimento da sociedade
denunciou a abissal desigualdade estrutural entre as nações e a revolução tecnológica impulsionou a
exploração de recursos naturais em escalas jamais vistas na história da humanidade, segundo segundo
Schons. 26

Canotilho e Leite 27 ressaltam, ainda, que a sociedade de risco representa “a tomada da consciência do
esgotamento do modelo de produção, sendo esta marcada pelo risco permanente de catástrofes”.

Beck descreve em sua obra que tais riscos se relacionam diretamente com a globalização, na medida em que
os efeitos são dissipados a todos, sem quaisquer distinções, diferentemente do que ocorria na sociedade
industrial em que os riscos correspondiam às diferenças sociais, econômicas e geográficas, nos dizeres de
Guivant. 28

Em contrapartida, percebe-se que Acselrad, Mello e Bezerra 29 assumem diferente perspectiva, ao afirmarem
que:

É possível constatar que sobre os mais pobres e os grupos étnicos desprovidos de poder recai,
desproporcionalmente, a maior parte dos riscos ambientais socialmente induzidos, seja no processo de
extração de recursos naturais, seja na disposição de resíduos no meio ambiente.
Entre os riscos, Beck, citado por Guivant 30, inclui os danos ecológicos produzidos por acidentes “químicos,
nucleares e genéticos, produzidos industrialmente, externalizados economicamente, individualizados
juridicamente, legitimados cientificamente e minimizados politicamente”.

Fica evidente que o paradigma da sociedade de risco não é uma questão meramente jurídica, mas, antes de
tudo política, pois caberá ao Estado à mensuração e fiscalização dos riscos, promovendo o efetivo controle
preventivo e repressivo em razão das gravosas consequências dos danos ao meio ambiente para a saúde
humana.

Contudo, faz-se necessário, no âmbito jurídico, a permanete vigilância para a preservação e proteção do meio
ambiente sadio, pois se trata de um direito garantido constitucionalmente e indis¬pensável à vida. Isto
porque em diversas situações à atuação fiscalizatória do poder governamental é falha ou ocorre
tardiamente, não garantindo a segurança e o bem-estar mínimo aos cidadãos, motivo pelo qual a presença do
judiciário se faz importante.

Mesmo sem uma correta adequação dos mecanismos jurídicos, ante a ineficiência do poder público em
consignar políticas públicas inclusivas, deve o Poder Judiciário agir para assegurar o cumprimento dos
direitos que correspondem aos comandos constitucionalmente protegidos.

Devido às particularidades do Direito Ambiental, os limites e alcances da aptidão jurídica sobre o qual está
investido o juiz devem basear-se no princípio da prevalência do meio ambiente (da vida) e no princípio da
precaução, também conhecido como princípio da prudência e da cautela, conforme explana Milaré. 31

Logo, na falta de elementos seguros quanto à cessação dos danos ambientais, torna-se indispensável que, na
busca da efetividade da prestação jurisdicional, seja acautelado o bem de maior relevância, que é, além de
tudo, a vida, como destaca o próprio Min. Herman Benjamin, aos dispor que no campo sanitário ambiental
imperam “o princípio in dubio pro salute e o princípio da precaução, ilação lógica da constatação de que, no
topo dos valores mais preciosos e resguardados pelo ordenamento, acham-se a vida e a saúde”.

Desse modo, na dúvida, não se deve aguardar uma definição inequívoca sobre quem causou o dano para
depois serem adotadas medidas preventivas, opta-se pela proteção imediata do ser humano e que conserve o
meio ambiente com fundamento no princípio in dubio pro salute ou in dubio pro natura.

Destarte, o juiz, aplicando o poder geral de cautela e com base no princípio de precaução, não está adstrito à
legislação interna, sendo essa, ponto balizador, referencial, mas não exclusiva para aplicação ao caso
concreto.

Com se percebe, a proteção constitucional da saúde e da vida, corolário de um meio ambiente


ecologicamente equilibrado, como preceitua a Constituição Federal de 1988, é a principal rédea do Judiciário
para assegurar o amparo eficaz à saúde das pessoas (in dubio pro salute).

A outro giro, é de se destacar que o dano ao meio ambiente pode configurar o chamado dano social, na
medida em que o dano ambiental é concebido como uma lesão ao interesse difuso, sendo certo que em
algumas hipóteses atinge também interesses na esfera privada.Com isso, conforme expõe Lemos 32 “haverá
modificação do patrimônio ambiental, podendo até mesmo atingir direitos personalíssimos”.

Enfrentando o tema da correlação da questão social com a questão ambiental, Schons, 33 explica que os dois
aspectos são frutos de uma mesma raiz histórica, pois na base “do sistema capitalista, que extrai seu lucro na
exploração do homem e na depredação do planeta, que mercantilizou tanto o homem quanto a terra, está a
raiz tanto da questão social quanto da ambiental”.

Com razão, Sarlet e Fensterseifer 34 sublinham que a submissão de “indivíduos e grupos sociais aos efeitos
negativos da degradação ambiental agrava ainda mais a vulnerabilidade das suas condições existenciais,
submetendo-os a um quadro de ainda maior indignidade”.

Nessa esteira, Lemos 35 evidencia que o princípio da dignidade humana “inspira as normas da ordem
econômica, dá à tônica da base ética da atividade econômica a ordem econômica, fundada na valorização do
trabalho e na livre iniciativa, deve desenvolver-se com base na dignidade humana”.

A história transmite que a questão ambiental está estritamente condicionada à desestrutura do Estado para
solução de problemas sociais e amparo as populações periféricas desde o final do século XIX, a partir dos
processos de reestruturação dos meios de produção que precarizou as relações de trabalho. Essa
desestrutura do Estado configurou-se no emblema para a constituição do Movimento de Justiça Ambiental
nos Estados Unidos da América nos anos 1980, que propalava a redefinição dos termos ambientais em razão
das “condições inadequadas de saneamento, de contaminação química de locais de moradia e trabalho e de
disposição indevida de lixo tóxico e perigoso”, como relatam Acselrad, Mello e Bezerra. 36

No entanto, a expressão “justiça ambiental” possui raízes nos movimentos sociais norte-americanos que, “a
partir da década de 60, passaram a reivindicar direitos civis às populações afrodescendentes existentes nos
EUA, bem como a protestar contra a exposição humana à contaminação tóxica de origem industrial”, de
acordo com Rammê. 37 O movimento de justiça ambiental evidenciou que a distribuição das externalidades
ambientais negativas, no modelo de desenvolvimento industrial vigorante, era intimamente relacionada à
questão racial.

A partir de vários estudos realizados nos Estados Unidos nas décadas de 1980 e 1990 correlacionando raça,
pobreza e poluição, estabeleceu-se a vinculação existente entre os problemas ambientais e a desigualdade
social, com a adoção de políticas inclusivas para maior participação das comunidades e das minorias no
tamada de decisão nos assuntos relacionados às políticas ambientais. Um dos lemas do Movimento de Justiça
Ambiental foi a designada “poluição tóxica para ninguém”, que propunha o enfrentamento ao deslocamento
espacial da poluição para a áreas periféricas e menos favorecidas, atrelando a questão social à noção de
justiça ambiental.

Por essa razão Acselrad, Mello e Bezerra 38 acreditam que a igualdade social configura-se no tratamento
justo e no desenvolvimento significativo de todas as pessoas, indistintamente, sem quaisquer predileções,
através da elaboração, desenvolvimento, implementação e aplicação de políticas, leis e regulações
ambientais.

A evolução social é um fator endógeno, ou seja, imposição interna, que a própria multiplicação dos bens de
interesses sociais relevantes propulsiona o surgimento da regra limitadora pelo Estado. Nesse vigor, reporta-
se novamente à decisão do Min. Herman Benjamim, que revela a terrível faceta da poluição ambiental como
forma de segregação social:

Infelizmente, o Brasil mostra-se pródigo em distribuição discriminatória de riscos ambientais. Como se não
bastasse a miséria material de bolsões urbanos e rurais da população, fenômeno que ainda nos atormenta e
envergonha como nação, após a Segunda Guerra Mundial e na esteira do processo de industrialização que
ganhou fôlego a partir de então, agregamos e impingimos a essa multidão de excluídos sociais (= injustiça
social) a nódoa de párias ambientais (= injustiça ambiental). Substituímos, ou sobrepusemos, à segregação
racial e social – herança da discriminação das senzalas, da pobreza da enxada e das favelas – a segregação
pela poluição, isto é, decorrente da geografia da contaminação industrial e mineral, do esgoto a céu aberto e
da paisagem desidratada dos seus atributos de beleza.

A pacificação social justa está interligada à concretização, pelos operadores do direito, do resultado almejado
pela sociedade. A correta aplicação e interpretação das normas, à obediência dos comandos exigidos em lei e
garantidos constitucionalmente, são regras mínimas a serem observadas para a garantia dos direitos dos
cidadãos, como revela Ribeiro. 39

A evolução social é uma das mais importantes formas de participação do povo nos rumos de um país e, por
essa razão, não se pode falar em justiça sem antes falar em dignidade, respeito ao desenvolvimento humano,
aplicação dos preceitos garantidos universalmente, como princípios fundamentais da dignidade da pessoa
humana.
E, é por meio da função judiciária, como guardiã e aplicadora imediata das leis, que esses preceitos – quando
não cumpridos – ganham existência real, como bem escreve Ribeiro: 40

Do ponto de vista social, o caráter difuso dos direitos e obrigações expectáveis, em contrapartida àqueles que
são oferecidos em termos concretos pelo sistema, dificulta ainda mais esse problema, sobretudo em
sociedades que, a exemplo da brasileira, têm da cidadania uma experimentação restrita em face dos níveis
baixíssimos de integração social e a tradição patrimonial de mando que marca as origens do poder no Estado
brasileiro. A insegurança jurídica das camadas excluídas da população na definição e reconhecimento
institucional de seus direitos leva-as a ter do Judiciário uma visão ambígua, pois, à medida em que
reconhecem no Judiciário o guardião das leis que definem e estruturam a ordem social que os oprime,
percebem a possibilidade lógica e real de re-avaliação judicial de seus direitos.

Ao reafirmar nos fundamentos da decisão à utilização de parâmetros de contaminação instituídos pela


Organização Mundial de Saúde – OMS, superiores ao padrão brasileiro, o Ministro relator evidenciou um
aspecto relevante.

Numa eventual opção judicial por um duplo padrão de controle de substâncias tóxicas e perigosas, menos
rigorosa para os segregados socialmente, sem forças para eficazmente reclamar seus direitos formalmente
estatuídos na Constituição e nas leis, e outra, mais rigorosa para uma elite-minoria com condições de se
autoproteger, seria, em certa medida, o mesmo que promover nova discriminação, desta feita pelo próprio
Judiciário, no sentido de reconhecimento da inexistência de desamparo do Estado à população carente,
fulminando com a perspectiva de salvaguarda constitucional a lhes proteger.

Como se divisa, o reconhecimento do direito ao meio ambiente sadio e equilibrado como fundamento para o
desenvolvimento de todos constitui valor protegido legal e constitucionalmente.

Vê-se, dessa forma, que a proteção ao meio ambiente é reconhecida como uma evolução dos direitos
humanos, na medida em que direitos humanos e meio ambiente ecologicamente equilibrado são
indissociáveis.

5. Da responsabilidade civil solidária pelo dano ecológico

No recurso apresentado, a empresa Ajax Baterias asseverou que a contaminação possivelmente ocorreu por
outros fatores, não exclusivamente relacionados ao funcionamento do seu setor metalúrgico, apontando a
existência de outros agentes que lançavam resíduos poluidores no meio ambiente local.

A responsabilidade civil, na convicção de Netto: 41 possui extrema relevância e “experimenta, atualmente,


notável evolução, com o aprofundamento matizado de seu estudo, sendo visível o surgimento, a cada dia, de
temas inéditos, a reclamar ponderações e análises”.

Devido ao grau de amplitude e as diferentes conceituações do instituto da responsabilidade civil descerradas


pelos mais renomados juristas, apresenta-se a de De plácido e Silva, 42 que a define como “dever jurídico, em
que se coloca a pessoa, seja em virtude de contrato, seja em face de fato ou omissão, que lhe seja imputado,
para satisfazer a prestação convencionada ou para suportar as sanções legais, que lhe são impostas”.

O instituto da responsabilidade civil está estritamente relacionado à noção de que somos todos responsáveis
por nossos atos e consequências, significando na prática, que determinada atitude que cause prejuízos a
outras pessoas, merece reparação.

O dano ao meio ambiente configura-se a partir do alcance de determinado nível impacto, isto por que, a
própria atuação humana, a rigor, provoca algum tipo de alteração no meio ambiente.

Em matéria ambiental, nos termos do art. 225, § 3.º, da CF/1988 e do art. 14, § 1.º, da Lei 6.938/1981,
vigora a responsabilidade civil objetiva, integral e solidária para o agente causador do dano ecológico, ou
seja, basta à vítima provar a existência do dano e o nexo com a fonte poluidora, independentemente da
confirmação da culpa do agente, para este responder de forma integral e solidária pelo dano que causou.

Prevalece esse preceito em razão das particularidades que envolvem a questão ambiental, pois a imposição
ao autor da ação reparatória de provar o liame causal, hipótese que se mostra tortuosa na prática forense,
não pode ser aplicada indistintamente aos casos de dano ao meio ambiente, provocando a flexibilidade nos
critérios de prova, como pronuncia Lemos. 43

Sendo assim, Ribeiro 44 ressalta a necessidade de facilitar as formas de provas, e cita exemplo semelhante ao
julgado em apreço:

Além de teoria mais adequada à questão ambiental, necessitamos de formas facilitadoras de prova. A grande
dificuldade de prova tem gerado o estabelecimento de presunções de causalidade. Por exemplo, se a
contaminação do rio se dá por determinado tipo de poluente emitido por várias indústrias de um complexo,
em princípio, todos os emissores poderiam ser considerados causadores dos danos. Apenas aquele ou
aqueles que demonstrarem que não causaram o dano deixarão de ser responsabilizados.

Discute-se na doutrina sobre a possibilidade de aplicação das tradicionais cláusulas excludentes de


responsabilidade no direito ambiental (caso fortuito, foça maior, culpa da vítima, licitude da atividade,
proveito de terceiro), mas a tendência é de não admiti-las, porquanto os danos são de interesse difuso com a
necessidade de integral reparação, consoante entendimento de José Afonso da Silva. 45

No julgamento, o Min. Herman Benjamin destaca que na apuração do nexo de causalidade no âmbito da
responsabilidade civil solidária, não se discute a cota de participação dos agentes na realização do dano, pois
se assim o fosse, o instituto perderia a sua vocação prática, consistente na facilitação do acesso à Justiça para
as vítimas.

Portanto, como a responsabilidade em matéria ambiental é objetiva, solidária e integral, caberia à empresa
Ajax Baterias comprovar a inexistência do nexo de causalidade, o que não se descurou em fazer, como se
extrai do acordão proferido.

6. Considerações finais

O conteúdo do julgado do REsp 1.310.471/SP retrata um episódio emblemático, de ampla cobertura e


repercussão na imprensa local e nacional, tanto pelo tipo de contaminante (chumbo), como por envolver a
contaminação de centenas de crianças moradoras de uma região desprovida de amparo estatal.

O julgado expõe também as mazelas do Estado brasileiro, no que toca à ineficiência do sistema sancionatório
administrativo e a lentidão do Poder Judiciário – que demorou longos 10 anos discutindo a validade da
autuação – descumprindo sua função jurisdicional de maneira eficiente e célere.

Não se pode negar, por outro lado, que a decisão do STJ reconhece a supremacia do direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado como parte integrante dos direitos humanos fundamentais, indissociável e
inafastável à sadia qualidade de vida das pessoas.

Ao Judiciário não basta somente aplicar a lei, cabe antes de tudo interpretá-la, não podendo se fixar às regras
hermenêuticas tradicionais sem observar o que o cerca, e, o reconhecimento de que a injustiça ambiental
provoca “segregação pela poluição” e descerra discriminação social merecedora reparação é digna de
exaltação.

Essa força coercitiva do poder jurisdicional, de impor o cumprimento das penalidades impostas, faz com que
a sociedade absorva o sentimento do justo da decisão, concretizando o fim almejado de pacificação dos
conflitos sociais, desígnio natural da atividade jurídica do Estado.

A reafirmação do conceito de justiça, composto pela pacificação social justa, proteção do bem comum e
desburocratização para a efetividade de direitos, são os escopos primordiais da própria jurisdição, e, a
mecanização das decisões judiciais somada ao embrutecimento dos operadores do direito, em nada contribui
para a redução da desigualdade social e pelo desejo de se alcançar algo mais sublime.

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RESPONSABILIDADE CIVIL EXTRACONTRATUAL DO ESTADO POR DANOS AO MEIO AMBIENTE


NO DIREITO BRASILEIRO, de Vladimir da Rocha França - RTNE 7/2014/39

PARADOXOS E CONTRADIÇÕES ENTRE A LEGISLAÇÃO, A FISCALIZAÇÃO E A PRÁTICA EM


MATÉRIA DE MEIO AMBIENTE, de João Luiz Hoeffel - RTSP 8/2014/31

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