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Análise Psicológica (2000), 4 (XVIII): 529-543

Tecnologia e individualismo: Um estudo


de uma das relações contemporâneas
entre ideologia e personalidade

JOSÉ LEON CROCHÍK (*)

A relação entre a constituição do indivíduo e a estabelece para o indivíduo uma forma de esca-
cultura, representada pela ideologia religiosa, par da neurose individual através da neurose co-
moral e política, é discutida pela psicologia des- letiva. Assim, o pai da psicanálise denunciava a
de o início deste século. Freud (1943), através da cultura, de um lado, por gerar, ainda que não di-
reflexão sobre a sua experiência clínica e sobre a retamente, a neurose individual, ao exigir que os
cultura, já indicava que a formação das neuroses indivíduos renunciem à sua felicidade e, de outro
associa-se com a repressão sexual e propunha lado, por oferecer, no lugar dessa felicidade, uma
para a educação a transmissão de conhecimentos ilusão coletiva.
sobre a sexualidade humana e a discussão sobre Reich (1981), estabelecendo relações entre o
a moral vigente. Ao final da década de 20, Freud marxismo e a psicanálise, trabalhou em sentido
(1986) defende a tese de que a base individual de próximo. Segundo esse autor, à repressão políti-
sustentação do ideário religioso são as necessida- co-econômica junta-se a repressão sexual, de tal
des psíquicas, sobretudo a de um pai protetor, de forma que não basta a consciência das contradi-
tal sorte que se a religião insiste já nos primeiros ções sociais para que a crítica social possa esta-
anos de vida dos indivíduos nos seus preceitos, belecer-se no nível individual. Em outras pala-
vras, consciência psíquica e consciência social
não coincidem, ainda que se relacionem.
Na década de 40, nos Estados Unidos da
(*) Docente do Instituto de Psicologia da Universi- América, é desenvolvido o estudo sobre a perso-
dade de São Paulo; do Programa de Pós-Graduação nalidade autoritária, que é um prosseguimento
em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Cató- dos estudos sobre autoritarismo e família do
lica de São Paulo, do Programa de Pós-Graduação em
Educação: História, Política, Sociedade da Pontifícia Instituto de Pesquisa Social, fundado na Alema-
Universidade Católica de São Paulo. Pesquisador do nha, tendo na sua condução, entre outros, Theo-
Conselho do Desenvolvimento Nacional de Pesquisa e dor W. Adorno, um imigrante desse instituto.
Tecnologia (CNPq). Esse estudo mostrou haver relações significantes
Endereço profissional: Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo, Av. Prof. Mello Moraes,
entre configurações psíquicas e adesão a diver-
1721, Caixa Postal 66.261, CEP 05508-900 – São sos tipos de ideologia: indivíduos não autoritá-
Paulo – SP – Brasil. rios tenderam a defender a ideologia liberal, tal

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como definida na época, e indivíduos autoritá- subjacente às ideologias examinadas: a conser-
rios, a ideologia conservadora. Como as correla- vadora e a liberal. Ela se apresenta em ambas.
ções entre as escalas que mediam essas duas va- Foi descrita também por Marcuse (1981 e 1982)
riáveis, ainda que positivas e significantes, ti- e por Habermas (1983). A distinção entre a
nham magnitudes medianas, os autores indica- ideologia da racionalidade tecnológica e essas
ram a existência de outros dois tipos de persona- outras reside no mascaramento que impõe a
lidade: o falso liberal – que defenderia o ideário qualquer propósito político presente no desen-
liberal não pela sua racionalidade, mas por moti- volvimento social, possibilitado pela aplicação
vação pessoal contrária à liberdade dos outros – da tecnologia. Dessa maneira, quer a perspectiva
e o conservador genuíno – que sustentaria o que apoie uma sociedade mais justa, quer aquela
ideário conservador pela sua racionalidade, não que insiste em manter a atual estrutura social não
apresentando características autoritárias. refletem sobre a não neutralidade da tecnologia.
O estudo de Adorno et al. (1950) gerou nas A idéia de progresso passa a ser inquestionável,
décadas seguintes muitos outros trabalhos, mas não importando que esse progresso não esteja
que, segundo Carone (S/D) e Vagostello (1997), voltado predominantemente para interesses uni-
não se atinham, em boa parte, à sua hipótese versais. O progresso e a tecnologia tornam-se
central, derivada não só da psicanálise, mas fins em si mesmos.
também da teoria da sociedade, e, sim, ao em- Como na ideologia da racionalidade tecnoló-
prego das escalas e às críticas à análise dos re- gica apresenta-se a naturalização do mundo hu-
sultados encontrados por esses autores. Algumas mano, as outras ideologias, mediadas por ela,
pesquisas recentes (Vala et al., 1999; Pettigrew, têm os seus fins também naturalizados. A pers-
1999) mostraram que as variáveis estudadas pe- pectiva que vê a história determinada unica-
lo grupo de Berkeley continuam sendo determi- mente pela estrutura social e não também pelo
nantes como preditores do racismo. Como a ideo- que a nega, que se converte em dogmática, e a
logia, segundo Horkheimer e Adorno (1978), e a perspectiva que não considera a história impor-
constituição da personalidade, conforme Adorno tante para balizar os valores, que se nutre do re-
(1991), são variáveis que mudam ao longo do lativismo, auxiliam, segundo Horkheimer
tempo, e não obstante a atualidade do estudo so- (1976), a perpetuar, na consciência humana, a
bre a personalidade autoritária, há que se supor, petrificação do indivíduo e da sociedade. Ambos
nos nossos dias, a relação entre outro tipo de – indivíduo e sociedade –, para a ideologia da
ideologia e outro tipo de configuração psíquica. racionalidade tecnológica, só são passíveis de
Dentro de uma perspectiva histórica, contudo, aperfeiçoamento técnico, mas não de alterações
as diferenças sociais e psíquicas, entre a nossa substanciais, o que caracteriza, segundo Adorno
época e a do estudo da personalidade autoritária, (1995a), a consciência reificada, resultante da
não implicam novas configurações social e psí- introjeção individual dessa ideologia.
quica, mas o desenvolvimento das que esses Essa ideologia não é independente do movi-
autores analisaram e criticaram, pois a sociedade mento do esclarecimento, discutido por Horkhei-
se autonomiza cada vez mais em relação aos mer e Adorno (1985), antes é produto desse mo-
seus membros e o indivíduo vive uma regressão vimento. Significa a vitória, talvez temporária,
psíquica maior. Essa afirmação encontra a sua da razão autoconservadora sobre a emancipató-
base na leitura de Lasch (1983), e, de certa for- ria, ou melhor, a distinção entre elas com o pre-
ma, já fora sublinhada por Horkheimer e Adorno domínio da primeira. Se a autoconservação é ne-
(1985), no prefácio à segunda edição de seu livro cessária para a manutenção do indivíduo e da
Dialética do Esclarecimento, em 1969. Assim, sociedade, quando ela se esgota em si mesma,
pressupomos que a ideologia substituta das ideo- retira a possibilidade de uma vida que não se cal-
logias liberal e conservadora e a configuração que em sacrifícios. Assim, os frankfurtianos re-
psíquica substituta da personalidade autoritária tomam o princípio freudiano de que a civilização
deveriam estar, em germe, presentes naquela se funda na renúncia dos desejos pulsionais, e,
pesquisa. tal como Freud, denunciaram que o sacrifício
Um tipo de ideologia, o da racionalidade exigido não foi compensado pela possibilidade
tecnológica, é apontada naquele estudo, embora de uma vida digna e feliz.

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Se, no século passado, era possível pensar a ção do qual se movimenta a dialética so-
contradição entre relações de produção e forças cial.» (p. 70)
produtivas, na defesa da tese que o avanço des-
As forças produtivas, entre elas a tecnologia,
sas últimas transformaria as relações de produ-
reproduzem as relações de produção também
ção, neste século, tornou-se visível que esse
servindo como um ‘véu tecnológico’, na expres-
avanço reproduz as contradições sociais, quase
são de Horkheimer e Adorno (1978). Reduzindo
que se fundindo às relações de produção, tornan-
a percepção do mundo através da expansão de
do-as invisíveis. A pergunta se atualmente existe
sua racionalidade, a visão tecnológica tende,
o capitalismo tardio ou a sociedade industrial é
nas diversas esferas da vida em que se apresenta,
respondida por Adorno (1986), que diz que a
a dotar essas esferas daquela racionalidade. Co-
atual sociedade não é menos capitalista que
mo o saber técnico utiliza procedimentos opera-
aquela examinada por Marx no século passado,
cionais na resolução de tarefas, tudo deve ser
ou seja, as classes sociais mantêm o seu antago-
alvo da operacionalização. A política, a educa-
nismo interno, contudo, a produção industrial, ção, a comunicação, a sexualidade, a família, o
que dá um ar de semelhança a tudo, não é menos trabalho, são entendidos através de uma única di-
notável: mensão: a da realidade existente e não através da
«...a atual sociedade é, de acordo com o história de sua constituição.
estádio de suas forças produtivas, plena- A ideologia da racionalidade tecnológica, po-
mente, uma sociedade industrial. Por toda rém, é mais do que um conjunto de idéias, cren-
parte e para além de todas as fronteiras ças e valores, mas já se configura, segundo Mar-
dos sistemas políticos, o trabalho indus- cuse (1982), como uma tendência a analisar to-
trial tornou-se o modelo de sociedade. dos os fenômenos através da razão instrumental,
Evolui para uma totalidade, porque mo- ou razão subjetiva, não se atendo às suas especi-
dos de procedimento que se assemelham ficidades; o predomínio é a lógica do sujeito e
ao modo industrial necessariamente se não a do objeto, o que significa que a realidade
expandem, por exigência econômica, tam- não é entendida em seus próprios termos, mas
bém para setores da produção material, nos do sujeito (ver Horkheimer, 1976; Adorno,
para a administração, para a esfera da 1995b). Na sua pretensa neutralidade não se dá
distribuição e para aquela que se denomi- conta da ‘natureza não conquistada’ que a acom-
na cultura. Por outro lado, a sociedade é panha: a necessidade da dominação sobre a natu-
capitalismo em suas relações de produ- reza, sobre o outro e sobre si mesmo.
A racionalidade tecnológica, não obstante,
ção» (pp. 67-68).
não é só ideologia, e, segundo Marcuse (1982) e
Apesar das diferenças em relação ao século Habermas (1983), auxilia a consolidar a base do
passado, continua-se a viver em uma sociedade progresso atrelado à emancipação. A crítica ro-
capitalista: mântica a ela lhe serve de complemento, pois se
nela se apresenta a compulsão a classificar e ana-
«Através de remendos e medidas particu- lisar todos os fenômenos pelo mesmo método,
lares, as relações de produção, apenas valorizando o universal em detrimento do parti-
para a sua autoconservação, continuaram cular, a ideologia romântica faz o contrário, cri-
a submeter a si as forças produtivas dei- tica o universal e, assim, o próprio pensamento.
xadas à solta. Característica marcante Enquanto uma anula a experiência, algo próprio
de nossa época é a preponderância das da «premonição» dos preconceituosos, a outra
relações de produção sobre as forças pro- anula a reflexão, que é a ação necessária para
dutivas, que, porém, há muito desdenham que o indivíduo possa se diferenciar; se a ideo-
as relações. Que o braço estendido da hu- logia romântica tem um ímpeto libertador, enca-
manidade alcance planetas distantes e minha-se no sentido contrário.
vazios, mas que ela, em seu próprio pla- Se a ideologia básica se alterou, a configura-
neta, não seja capaz de fundar uma paz ção básica de personalidade que lhe dá susten-
duradoura, manifesta o absurdo na dire- tação individual também deve ter se alterado, e é

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hipótese deste trabalho que se calca em caracte- superego. No caso da melancolia, o ideal de ego
rísticas narcisistas, mais fortemente do que no assumiria o lugar do ego, e esse seria convertido
passado. Essas características estão presentes no objeto, o que seria propício para explicar o
no tipo manipulador, descrito por Adorno et al. sentimento de inadequação presente no narcisis-
(1950) no estudo sobre a personalidade autori- mo, conforme discutiremos a seguir.
tária, e em outros de seus textos (1991 e 1995a). Um problema presente na discussão sobre o
Dizem respeito, conforme Adorno (1991), à ten- narcisismo aparece nos estudos psicométricos
dência regressiva à qual alguns indivíduos se en- sobre escalas construídas para mensurá-lo: a
caminham para poder sobreviver. O narcisista, distinção de alguns fatores do narcisismo rela-
contrariando o ideal de indivíduo autônomo, de- cionados ao desajustamento individual de outros
fendido pelo liberalismo, deixa de ser dono de fatores associados ao ajustamento. Watson e Bi-
seu destino, embora à sua consciência lhe pareça derman (1993) apresentam alguns dados: «Cor-
o contrário: relations with numerous measures including de-
pression have led to the conclusion that Autho-
«La configuración de la energía pulsional
rity, Self-Sufficiency, Superiority, and Vanity
en que se apoya el yo – según el tipo ana-
are less maladjusted, whereas Entitlement, Ex-
lítico freudiano – quando llega a dar el
ploitativeness, and Exhibitionism are more
paso hasta el sumo sacrificio, el de la
pathological» (p. 44). Esses fatores pertencem ao
conciencia misma, es el narcisismo. Apun-
Narcissistic Personality Inventory (NPI), cons-
tan a él con una fuerza probatoria incon-
truído por Raskin e Hall (1979), que afirmam,
trovertible todos los hallazgos de la Psi-
assim como Mullins e Kopelman (1988), calca-
cología social referentes a las regresiones
dos em Freud, que há um contínuo entre norma-
predominantes en la actualidad, en las
lidade e anormalidade.
que el yo se niega y al mismo tiempo se
Uma outra questão associada a essa é discu-
endurece de una forma irracional y fal-
tida por Mullins e Kopelman (1988) que, ao fa-
sa.» (1991, pp. 183-184)
zerem uma análise de correlações e uma análise
Em seu texto Tipos Libidinais (1974b), Freud fatorial considerando quatro escalas sobre o nar-
apresenta as seguintes caracteristícas do narci- cisismo, entre elas a citada acima – NPI –, veri-
sista: 1- Não apresenta tensão entre o ego e o su- ficaram que essa escala não se correlaciona com
perego, obstando o surgimento do sentimento de as outras três, o que é confirmado por terem en-
culpa; 2- Tende a assumir a posição de líder; 3- contrado o primeiro fator composto unicamente
O seu interesse principal é o da autoconservação, por itens dela. Outro dos fatores, avaliado pelas
não apresentando preponderância de necessida- outras três escalas, intitulado de «Sentimento de
des eróticas; 4- Apresenta independência, não inadequação, infelicidade e preocupação», não
submetendo-se à intimidação; possui grande se encontrava na definição dada ao narcisismo
quantidade de agressividade à sua disposição e pela American Psychiatric Association, em
gosta de impressionar os outros como «persona- 1980, e nem entre os fatores do NPI. Assim, na
lidade». A retirada de seu interesse, relacionado área dos estudos psicométricos do narcisismo, a
à libido, do mundo, voltando-o para o próprio tendência é se considerar que, embora univer-
eu, impede-o de estabelecer relações amorosas sais, os fatores subjacentes ao narcisismo podem
com outras pessoas. estar mais ou menos presentes nos indivíduos, e
Dos três agentes psíquicos, segundo Freud que alguns desses fatores associam-se ao mau
(1974b), o ego teria maior relêvo nesse quadro. ajustamento, mas ainda parece não haver acordo
Descreveu dois outros tipos psicológicos, além sobre quais seriam os fatores que compõem esse
do narcisista: em um deles os desejos do id são fenômeno.
predominantes, em outro, há a predominância do Como para Freud, o narcisismo é delimitado
superego. O tipo ideal, segundo o pai da psicaná- pelo movimento da libido, o que o caracterizaria
lise, seria uma combinação desses três tipos. As- é a predominância do ego como objeto de amor
sim, poderíamos caracterizar o narcisista pela em relação aos demais objetos. Dessa forma,
predominância do ego que se submeteria como quer as características de engrandecimento do
objeto de desejo ao id e não sofreria sanções do eu, quer as de sentimentos de inadequação se-

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riam universais, mas para delimitarem o narci- próprio destino, que por sua vez pode ser com-
sismo, devem ser interpretadas à luz daquele mo- pensado pelas defesas narcisistas. Essas visariam
vimento. Assim, a predominância dessas caracte- responder à sensação de incapacidade de os ho-
rísticas poderia delimitar uma personalidade co- mens poderem modificar a sociedade que lhes
mo narcisista ou não. Mais do que isso, seria a gera sofrimento, ao exigir a renúncia pulsional
combinação desses elementos com outros da di- sem oferecer nenhuma compensação para a feli-
nâmica psíquica que poderia configurar esse cidade individual.
quadro. Se o progresso, permeado pelo desenvolvi-
Diversas características do narcisista arroladas mento da tecnologia, não tem se voltado para in-
por Raskin e Terry (1988) – orientação defensi- teresses universais, mas aos interesses do capital,
va, considerar-se privilegiado, onipotência, into- as exigências para a autoconservação individual
lerância à crítica, entre outras – são comuns a al- continuam a estar presentes, obrigando ainda a
guns dos tipos de personalidade autoritária, des- renúncias individuais, quando seria de se esperar
critos por Adorno et al. (1950); além disso, deve- que à medida que a tecnologia avançasse a vida
se acentuar a relação que Adorno (1991) estabe- se tornasse mais fácil, exigisse menos sacrifícios.
lece entre o narcisismo, como qualquer outra Frente a essas exigências e ao sofrimento por
configuração psíquica, com as necessidades so- elas acarretado, o indivíduo tenderia a se voltar,
ciais. Nesse sentido, o trabalho de Lasch (1983) cada vez mais, para si, tentando mitigar o seu
evidencia, com detalhes, a relação entre a socie- sentimento de impotência. Assim, um dos objeti-
dade consumista, especular, e o tipo narcisista. vos desta pesquisa é o de verificar empiricamen-
Falta a essa caracterização, contudo, a distinção te se há relação significante entre a adesão à
feita por Green (1988) entre narcisismo de vida e ideologia da racionalidade tecnológica e caracte-
narcisismo de morte; o primeiro refere-se à rísticas narcisistas de personalidade, tendo como
constituição do eu, o último, à busca da ausência pressuposto que essa relação seja o aprofunda-
de tensão, na sua terminologia, a busca do neu- mento da obtida por Adorno et al. (1950), em
tro: «O Neutro ergue-se então de toda sua altura, seu estudo sobre a personalidade autoritária, en-
desafiando o pensamento. Tudo se complica tre a adesão à ideologia política-econômica con-
quando temos que tomar consciência de que o servadora e tendências fascistas de personalida-
Neutro é também a realidade indiferente à agita- de, avaliadas pela escala F.
ção das paixões humanas.» (pp. 26-27). O sen- Se esse pressuposto for verdadeiro, aliado ao
tido do Neutro contrapõe-se à busca do Um, do progresso obtido no tempo que separa esta pes-
eu idêntico. Neste, aparece o desejo do eu; no quisa da realizada por Adorno et al. (1950) –
Neutro, o desejo do nada, da ausência de vida. quase meio século –, foram geradas também
A busca, no narcisismo, de um estado inde- regressões aos níveis social e psíquico. A socie-
pendente das paixões, sublinhado por Green dade, permeada pela ideologia da racionalidade
(1988), e anteriormente enfatizado por Freud tecnológica, que oculta o aprisionamento das
(1986), parece se associar com a neutralidade su- forças produtivas às relações de produção exis-
posta pela ideologia da racionalidade tecnológi- tentes, exige cada vez mais sacrifícios indivi-
ca. Dessa forma, esse tipo de pensamento, que duais, quando seria de se esperar o contrário, ou
tenta iludir o sofrimento e as contradições da seja, que pudesse haver mais tempo livre para
realidade, pode contemplar o desejo narcisista de viver a vida como um fim em si mesmo, como
se julgar independente do mundo, e assim do defende Marcuse (1981), e não dedicada a um
sofrimento que esse provoca. Isso sugere que o trabalho sem sentido para o indivíduo. O narci-
fenômeno do narcisismo não pode ser examina- sismo, por sua vez, é uma configuração psíquica
do somente pela perspectiva psicanalítica e nem mais regredida do que a do sadomasoquista - que
tampouco prescindir dela. segundo Rouanet (1989) corresponde ao pseudo-
O aperfeiçoamento técnico, cada vez maior, conservador avaliado pela escala F – pela tenta-
da sociedade industrial e a sua crescente autono- tiva de romper com as relações objetais. Se essa
mização em relação aos interesses individuais dupla regressão ocorreu, deve-se esperar rela-
têm gerado o sentimento de impotência indivi- ções entre, de um lado, as características sado-
dual frente à possibilidade de ser dono de seu masoquistas, avaliadas pela escala F e, de outro,

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a adesão à ideologia da racionalidade tecnológi- kert: a escala da ideologia da racionalidade
ca e as características narcisistas de personalida- tecnológica (escala I) e a escala de característi-
de, e que essas relações sejam de menor magni- cas narcisistas de personalidade (escala N); cada
tude que a existente entre a adesão à ideologia da item tem seis alternativas de resposta – discor-
racionalidade tecnológica e as características dância total (1 ponto), discordância moderada (2
narcisistas de personalidade, pois temos como pontos), leve discordância (3 pontos), leve con-
hipótese que essas últimas têm substituído aque- cordância (5 pontos), concordância moderada (6
las estudadas por Adorno et al. (1950). Verificar pontos) e concordância total (7 pontos); quanto
essas relações constitui-se em outro objetivo maior for a pontuação, maior, respectivamente, a
desta pesquisa. adesão à ideologia da racionalidade tecnológica
Como se pressupõe que as variáveis – ideo- e maior o número de características narcisistas
logia da racionalidade tecnológica e narcisismo – de personalidade. Inicialmente a escala da ideo-
tenham, cada uma, diversos fatores, um terceiro logia da racionalidade tecnológica tinha 46 itens
objetivo deste estudo é o de analisar cada uma e a escala de características narcisistas de perso-
delas quanto à sua estrutura fatorial. nalidade, 42 itens. Após serem aplicadas aos su-
jeitos, selecionamos 20 itens de cada uma delas
que melhor seguiram os seguintes critérios: 1-
1. MÉTODO média entre 2,0 e 6,0 pontos; 2- desvio padrão
superior a um ponto; 3- correlações significan-
tes, ao nível de 0,01, entre o item e o escore total
1.1. Sujeitos da escala. Todos os itens escolhidos para este es-
tudo seguiram esses critérios, além disso, mos-
Os sujeitos desta pesquisa são primeiro-anis- traram ter estabilidade temporal, verificada em
tas de cursos da Universidade de São Paulo. Fo- duas aplicações feitas a 49 sujeitos, no intervalo
ram feitas duas coletas de dados dos alunos do de três semanas, nas quais os itens escolhidos
curso de enfermagem, uma em 1996 e outra em para a presente pesquisa obtiveram correlações
1997, obtendo-se respectivamente amostras de significantes, ao nível de 0,01, entre os escores
39 e 43 sujeitos. Outras duas amostras foram ob- obtidos nessas duas aplicações. Para as escalas,
tidas, em 1997, no curso de Psicologia – 62 su- com o número de itens original, obtivemos os se-
jeitos – e no curso de Fonoaudiologia – 18 su- guintes resultados relativos à estabilidade tem-
jeitos. Ao todo, fizeram parte da pesquisa 162 poral: escala I: 0.90; escala N: 0,94. No que se
sujeitos. A idade média dos sujeitos foi a de 21 refere às medidas de coerência interna, avaliadas
anos, com desvio padrão de 2 anos. Com exce- pelo Alpha de Cronbach, os resultados foram:
ção da amostra da psicologia, que continha su- escala I: 0,92; e escala N: 0,91.
jeitos de ambos os sexos (20 sujeitos do sexo O conceito de ideologia da racionalidade
masculino e 42 sujeitos do sexo feminino), as tecnológica e a elaboração dos itens da escala
demais eram compostas unicamente de sujeitos que avaliou a adesão a essa ideologia tiveram co-
do sexo feminino. Nessa amostra, não houve di- mo base os textos de Adorno (1972, 1991, 1995a
ferenças significantes entre os dois sexos em e 1995c), Horkheimer e Adorno (1985), Marcuse
relação aos escores obtidos nas duas escalas (1981 e 1982) e Habermas (1983). Já o conceito
construídas (que serão descritas mais à frente): de narcisismo baseou-se em alguns trabalhos dos
escala da ideologia da racionalidade tecnológica frankfurtianos (Adorno, 1969, 1991; Marcuse,
(t = 0,51, 60 g. l. e p <0,01) e escala de caracte- 1981 e 1982), em alguns textos de Freud (1974a,
rísticas narcisistas de personalidade (t= 0,95, 60 1974b, 1986), nos textos de Lasch (1983), de
g. l. e p< 0,01), razão pela qual foi possível ana- Green (1988) e de Costa (1984).
lisá-los conjuntamente. A ideologia da racionalidade tecnológica traz
como paradigma a razão subjetiva ou instrumen-
1.2. Material e Procedimento tal, tal como a define Horkheimer (1976), e se
expressa na ciência positivista e na técnica, que
Para verificar os objetivos desta pesquisa, fo- desde o século passado, segundo Marx (1984),
ram construídas duas escalas com itens tipo Li- já contribuíam para a substituição de mão-de-

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obra viva pelas máquinas. O que rege essa ideo- Para o cumprimento dos objetivos desta pes-
logia é a lógica formal ou lógica da identidade, quisa utilizamos também a escala F. Foi aplicada
que abstrai de diversos particulares os seus ele- à amostra da psicologia (62 sujeitos) e a uma das
mentos comuns em busca da classificação, orde- amostras da enfermagem (43 sujeitos). Os dados
nação, quantificação etc. A ausência das contra- de precisão e validade sobre a Escala F são
dições e a tendência a sistematizar os fatos são apresentados no estudo sobre a personalidade au-
características dessa ideologia. A realidade tal toritária. Pesquisas das últimas décadas (Rofé &
como pode ser captada é tida como o referente Weller, 1981; Stankov, 1977) têm utilizado essa
último, sem se perguntar pela sua gênese e po- escala, ampliando a sua validade.
tencialidades de transformação; ela é naturaliza- Adotamos a última configuração da Escala F
da e eternizada; disso resulta um hiper-realismo (forma 40/45) formulada e testada por seus auto-
que se alia com a busca pragmática dos resul- res. Ela foi traduzida para o português, mas não
tados, e a percepção imediata passa a se destacar precisou ser adaptada, pois quase todos os seus
da realidade como a sua verdade. A ênfase na itens fazem sentido para a nossa cultura. O item
competência e, portanto, na solução dos proble- 22 ‘It is best to use some prewar authorities in
mas imediatos, passa a ser a tônica para a adap- Germany to keep order and prevent chaos’ não
tação ao mundo atual. Assim, os problemas po- foi utilizado por requerer conhecimento histórico
líticos tornam-se problemas administrativos; os que lhe dê sentido. Assim, a escala compôs-se de
problemas sexuais disfunções que apontam para 28 itens.
falhas do desempenho individual; as questões
educacionais tornam-se falhas do sistema de en-
sino ou do aprendiz; os problemas econômicos 2. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
convertem-se em falhas do sistema; os proble-
mas familiares são reduzidos à psicologia; os va- Para se conhecer a estrutura fatorial das esca-
lores se conformam à realidade estabelecida, las utilizou-se a análise fatorial em compontentes
não são refletidos, a não ser pelo grau de adapta- principais, com rotação Varimax. O número de
ção que permitem; o lazer e o trabalho devem ser fatores extraído seguiu o critério da magnitude
organizados tendo em vista a perpetuação do dos ‘eigenvalues’, que foram sempre maiores do
existente. que 1,0. A carga fatorial foi considerada signifi-
Para a construção da escala de características cante de acordo com o tamanho da amostra
narcisistas da personalidade, elaborada em con- (Hair et al., 1995, p. 385), no caso, igual ou
junto com Maria de Fátima Severiano, os itens maior do que 0,45. As matrizes iniciais das aná-
foram apresentados na primeira pessoa do lises fatoriais foram compostas pelos coeficien-
singular, para que os sujeitos pudessem se po- tes de correlação de Pearson. Para se saber a re-
sicionar mais diretamente frente a eles. Algumas lação entre os escores das escalas, empregou-se
questões apresentam a idéia do tempo; se o nar- também o coeficiente de correlação de Pearson.
cisismo tende a abolir a noção do tempo, o pre- A análise e discussão dos resultados serão ex-
sente deve ser mais valorizado do que o passado postas na seguinte ordem: análise fatorial da es-
e o futuro; de forma similar, a morte deve ser ne- cala I; análise fatorial da escala N; e análise das
gada, assim como a velhice ou tudo aquilo que correlações entre as escalas.
possa implicar mudança. Outras questões apre-
sentam a valorização do corpo saudável, a afir- 2.1. Análise Fatorial da Escala da Ideologia
mação da aparência, posto que para o narcisista a da Racionalidade Tecnológica (Escala I)
apreciação dos outros é importante. Outras di-
zem respeito aos seguintes temas: relaciona- A análise fatorial dos 20 itens dessa escala
mentos superficiais; o consumo desenfreado, (KMO=0.74 e Teste de esfericidade de Bart-
que indica uma tentativa de resposta ao senti- lett=423,28, p<0,001) resultou em cinco fatores
mento de vazio interior; a necessidade de mode- que congregaram 14 itens, pois um deles foi re-
los, ensejada pela ausência de um eu bem esta- tirado pela medida de adequação da amostra,
belecido; e sentimentos de inadequação e insatis- quatro por terem baixa comunalidade e um por
fação. ser o único a representar o que seria o sexto fa-

535
TABELA 1
Média, desvio padrão, correlação entre o fator e a escala I, alpha de Cronbach e porcentagem
da variância explicada dos fatores da escala I

Fator Média Desvio Correlação Alpha % Variância

Pragmatismo 3.64 1.50 .79** .70 24.0


Normalização 3.58 1.60 .69** .53 10.5
Sistematização 5.09 1.44 .56** .39 7.9
Aparência 3.62 1.35 .64** .43 7.4
Moralismo 4.45 1.71 .58** .41 6.9
Escala I 3.95 1.01 – .76 56.7

**p<0.01

tor. Estabelecidos os escores para cada um dos menor correlação entre um item e o escore da
cinco fatores, através da soma dos escores obti- escala, composta pelos fatores, foi 0,37 e a
dos nos itens que obtiveram carga fatorial satis- maior 0,61, sendo que todos as correlações item-
fatória de acordo com o tamanho da amostra teste foram significantes ao nível de 0,01.
(igual ou maior a 0,45), aplicamos outra análise A seguir descreveremos cada um dos fatores
fatorial que resultou em um único fator, do que obtidos, considerando o conteúdo que expres-
deduzimos que todos eles avaliam uma mesma sam; a análise será feita tendo em vista o signifi-
medida: a ideologia da racionalidade tecnoló- cado da concordância dos sujeitos com os itens,
gica. deixando implícito o significado da discordância.
A Tabela 1 apresenta em relação a cada fator Todos os itens tiveram carga fatorial significante
obtido: a média, o desvio padrão, a correlação em um único fator.
com o escore obtido na escala composta por es- O primeiro fator foi denominado de ‘pragma-
ses fatores (14 itens), o alpha de Cronbach e a tismo’ e é constituído pelos seguintes itens, com
porcentagem da variância total. a respectiva carga fatorial, explicitada entre pa-
Lembrando-se que o escore varia de um a sete rêntesis: ‘Com os recursos científicos e tecnoló-
pontos e que quanto maior o escore maior a ade- gicos de hoje somos mais livres que antigamen-
são à ideologia da racionalidade tecnológica, po- te.’ (0,84); ‘Com os recursos científicos e tecno-
de-se verificar pela Tabela 1 que o escore total lógicos de hoje somos mais felizes que antiga-
foi próximo ao ponto médio da escala, e que o mente.’ (0,71); ‘A realização profissional deve
fator denominado ‘sistematização’ foi o que apre- ser avaliada, principalmente, pela produtivida-
sentou maior escore seguido pelo de ‘moralis- de.’ (0,59); e ‘Se a pena de morte diminuir a cri-
mo’, os outros três ficaram com médias abaixo minalidade, ela deve ser aprovada’ (0,49). O pro-
do ponto médio da escala. As correlações entre gresso, representado pela ciência e pela técnica,
os escores fatoriais e a escala foram todas signi- não parece ser questionado em relação aos cus-
ficantes ao nível de 0,01. O alpha de Cronbach tos sociais e à desigualdade social, ou seja, não
obtido pelos fatores ‘sistematização’, ‘aparência’ se considera que o progresso das relações sociais
e ‘moralismo’ estão abaixo do que seria desejá- não acompanhou, como deveria, o progresso
vel. O total de variância explicada foi de 56,7%. técnico e científico, tal como discutimos na in-
Ainda que não apresentados na tabela, deve-se trodução deste trabalho, à luz do pensamento de
ressaltar que, entre os 14 itens examinados, a Adorno. A desvalorização da satisfação pessoal
menor média obtida foi 2,86 e a maior 5,68; o e da determinação social sobre o comportamento
menor desvio padrão foi 1,75 e o maior 2,07; a individual, presente nos dois outros itens, parece

536
confirmar a idéia de que o progresso de meio se está em questão é a eliminação daquele que de-
converteu em fim e a de que é o resultado que linqüiu, ou seja, não se conformou às normas.
importa, independente dos sacrifícios necessá- Enfim é pensado o funcionamento normal, usual,
rios para alcançá-lo. Na realização profissional, das pessoas, mas não as dificuldades individuais
a satisfação gerada pela própria atividade e por de adaptação a uma sociedade contraditória. O
anseios pessoais é desvalorizada frente à produ- que as leva a agir de maneira ‘anormal’ parece
ção, além do que parece não importar o que se não estar em questão, ou não são perceptíveis à
está produzindo, lembrando o operário que consciência.
constrói o trem que levará as vítimas para Aus- O terceiro fator, composto de dois itens, foi
chwitz, sem se importar com isso, mas apenas denominado ‘sistematização’: ‘O político deve
com a tarefa bem realizada (ver Adorno, 1995a). ter boa formação escolar para representar nossos
No último item, o pragmatismo se evidencia; não ideais culturais.’ (0,79); e ‘A violência atual de-
importam as injustiças que possam ser feitas corre, principalmente, do fato da impunidade ser
através da pena de morte, mas a sua eficácia. Em muito grande.’ (0,57). A sociedade atual parece
suma, o progresso, o trabalho, o combate à vio- ser concebida como a melhor possível, mas pas-
lência devem ser avaliados, principalmente, por sível de aprimoração, tal como apregoava o
seus resultados, não importando se acarretam, ou ideário liberal. Ela é entendida como um siste-
não, mais desenvolvimento e justiça sociais e as ma, o que permite atribuir a especificação e
conseqüências sobre os indivíduos. Claro que a funcionamento de cada uma de suas partes e uma
concordância com os dois primeiros itens pode- visão imediatista. Se cada parte do sistema social
ria ter outros significados, mas analisada em deve funcionar adequadamente, o político deve
conjunto com os dois últimos itens levou-nos a ser preparado pela escola, atrelando a ele a idéia
pensar que é a produtividade associada à reso- da competência, sendo que a idéia de represen-
lução de problemas imediatos que está em ques- tante de interesses de setores sociais aos quais se
tão. vincula parece ser menos importante; a violência
O segundo fator, nomeado de ‘normalização’, é falha da instituição policial e da justiça e não
constitui-se de três itens: ‘Seria importante que o parece ser devida a problemas sociais. A impuni-
homossexual tivesse um acompanhamento psico- dade é percebida como causa e não como efeito
lógico para poder rever a sua escolha sexual.’ que retroage sobre a causa. A sistematização pa-
(0,69); ‘Um filho de pais separados terá mais rece associada com a normalização, presente no
problemas emocionais, que um filho que tem fator anterior, ainda que a correlação obtida entre
pais que vivem juntos.’ (0,68); e ‘Os lincha- eles seja a de 0,20, significante a 0,01, mas de
mentos devem ser entendidos, principalmente, baixa magnitude. Pode-se diferenciar os dois fa-
pelo descrédito da polícia e da justiça.’ (0,61). O tores, argumentando-se que o referente à norma-
conteúdo de seus itens, sobretudo o dos dois pri- lização dá ênfase ao que seria necessário para
meiros, parece estar associado com uma visão evitar os desajustes individuais e o da sistemati-
normal de diversos fenômenos. Assim, o homos- zação, às falhas institucionais. Deve-se lembrar
sexualismo é um problema de desvio psicológi- também que o terceiro fator teve um alpha de
co, a família tradicional permitiria melhores Cronbach baixo.
condições para o desenvolvimento emocional do O quarto fator – ‘aparência’ – é composto dos
indivíduo e a justiça imediata – presente nos lin- seguintes itens: ‘As telenovelas são boas quando
chamentos – seria devida a falhas de instituições apresentam personagens que são facilmente
sociais, sem alusão às características individuais identificáveis no cotidiano.’ (0,71); ‘Seria um
presentes na nossa sociedade de massas, que per- ato de benevolência se a nossa cultura pensasse
mitem a satisfação de desejos regredidos como a meios de execução indolor para os criminosos’
crueldade por exemplo, e sem pensar que as (0,61); e ‘Os pais devem mostrar carinho pelos
falhas da justiça e da polícia são próprias de uma filhos, mesmo que não seja espontâneo.’ (0,55).
sociedade contraditória; quase que se poderia A dificuldade de pensar além do visível, o falso
afirmar que a concordância com esse último humanismo, que não pensa na injustiça da pena
item seria uma defesa do linchamento, se assim de morte, e a concordância com a falsa demons-
for, menos do que falhas das instituições o que tração de afeto parecem corresponder a uma

537
atitude de preservação do existente, sem nenhu- com elas não se identifiquem, segundo Adorno
ma visualização de alteração social possível, (1991).
tendo um cariz de humanismo, humanismo esse
que, segundo Marx (1978), é contraditório à es- 2.2. Análise fatorial da escala de caracterís-
trutura do capitalismo. Se o mundo existente é ticas narcisistas de personalidade (Esca-
considerado inevitável, cabe, ao que parece, dar- la N)
lhe uma melhor aparência. É uma atitude pró-
xima ao cinismo. Da análise fatorial dos 20 itens da escala de
O último fator é composto por dois itens e foi características narcisistas de personalidade
nomeado de ‘moralismo’. Os itens que o compõe (KMO=0.77 e Teste de esfericidade de Bart-
são: ‘O adultério mostra a imaturidade do adúl- lett=662,23; p<0.001), foram obtidos seis fato-
tero.’ (0,75); e ‘As prostitutas deveriam ter aten- res. Dois itens foram eliminados por terem bai-
dimento psicológico e reeducação para terem xas comunalidades, um por não apresentar carga
melhor encaminhamento na vida.’ (0,63). As fatorial considerada adequada em nenhum fator e
‘escolhas’ sexuais são pensadas à luz da imatu- um outro por ser o único a representar o que se-
ridade, mas, nesse caso, diferentemente do fator ria o sétimo fator. O terceiro item do fator 2 teve
normalização, parecem mais associadas às falhas carga fatorial significante também no fator 1
morais do que psicológicas. O fato de o item so- (0,46), ainda que menor do que a obtida no fator
bre a homossexualidade, formulado de maneira 2 (0,57); optamos por preservá-lo e interpretá-lo
semelhante ao das prostitutas, não pertencer a somente nesse último fator. Os seis fatores obti-
esse fator, levou a pensar que está mais associa- dos foram submetidos a outra análise fatorial,
resultando em um único fator de segunda ordem,
do à percepção de problemas de desenvolvi-
que supomos ser referente às características nar-
mento individual do que de julgamento moral.
cisistas da personalidade.
Isto é, os problemas referentes ao homossexua-
A Tabela 2 apresenta em relação a cada fator
lismo parecem ser entendidos, principalmente,
obtido: a média, o desvio padrão, a correlação
como de ordem emocional, afetiva, e os de in-
com o escore obtido na escala composta por es-
fidelidade e prostituição, como de ordem moral.
ses fatores (16 itens), o alpha de Cronbach e a
Um e outro, não obstante, não consideram as de-
porcentagem da variância total.
terminações sociais sobre os comportamentos in- Como pode se verificar pelos dados da Tabela
dividuais. 2, o escore médio da escala esteve abaixo do
Em síntese, os cinco fatores da escala da ponto médio (4 pontos). A pontuação mais baixa
ideologia da racionalidade tecnológica caracteri- foi obtida nos fatores nomeados de ‘ausência de
zam-na pelo pragmatismo, pela normalização projetos’ e no de ‘inadequação’. Todas as corre-
dos comportamentos individuais, pela crítica às lações entre os fatores e o escore total da escala
falhas sistemáticas das instituições, pela aparên- N foram significantes ao nível de 0,01. Os alphas
cia e pelo moralismo. Todos fazem abstração de Cronbach obtidos são, em geral, razoáveis
quer das contradições sociais, quer dos conflitos tendo em vista o número de itens de cada fator.
e necessidades individuais. Os fatores aparência A porcentagem de variância explicada pelos seis
e pragmatismo evocam a adaptação imediata à fatores é de 59,1%. Ainda que não apresentados
sociedade existente, sem críticas, ou seja, na tabela, deve-se ressaltar que para esses 16
implicam o conformismo; os fatores sistemati- itens a menor média foi 2,30 e a maior 4,60; o
zação, normalização e moralismo apontam para menor desvio padrão foi 1,50 e o maior 2,25; e
falhas nas instituições e nos indivíduos, ou seja, que as correlações entre cada item e o escore
à má adaptação desses. Segundo essa visão, ao composto pela soma dos itens variaram entre
que parece, se as instituições fossem aperfeiçoa- 0,33 e 0,61, sendo todas significantes ao nível de
das e os indivíduos bem formados por elas, os 0,01. A seguir analisaremos o conteúdo de cada
problemas individuais e sociais seriam corrigi- um dos fatores da escala N.
dos; não há a crítica às contradições sociais e O primeiro fator, denominado de ‘prestígio’, é
nem a compreensão que os conflitos, os desajus- composto de três itens: ‘Para alcançar prestígio e
tes, individuais são derivados delas, ainda que sucesso social trato de minha aparência física de

538
TABELA 2
Média, desvio padrão, correlação entre o fator e a escala N, alpha de Cronbach e porcentagem
da variância explicada dos fatores da escala N

Fator Média Desvio Correlação Alpha % Variância

Prestígio 3.40 1.32 .69** .57 22.8


Imagem 3.91 1.51 .69** .57 10.0
Autopreservação 3.68 1.52 .71** .58 7.2
Individualismo 4.07 1.38 .66** .49 7.0
Inadequação 3.27 1.68 .48** .52 6.5
Ausência de Projetos 2.86 1.59 .47** .50 5.6
Escala N 3.59 0.93 – .79 59.1

**p<0.01

acordo com a última moda.’ (0,75); ‘Sinto-me pulsões agressivas e a relacionada à fase oral de
bem na companhia de pessoas influentes.’ incorporação sem limites dos objetos de desejo.
(0,68); e ‘Não suporto receber críticas.’ (0,49). O Ao mesmo tempo, o conteúdo desses itens pare-
conteúdo dos três itens parece indicar a neces- ce indicar a manutenção de uma imagem de
sidade de ser valorizado pelos outros. As idéias pessoa forte que não corresponde necessaria-
de uma sociedade hierárquica e de não poder co- mente ao que se é; além disso, parece revelar
meter falhas parecem também estar presentes. também a dificuldade de reflexão tanto em rela-
Procura-se seguir as normas e os valores estabe- ção a si mesmo quanto aos outros, o que levaria
lecidos, o que configura um certo conformismo; à submissão ao mundo existente. Tal como o
contudo, o receio de ser avaliado pode indicar outro fator, implicaria certa fragilidade egóica.
uma certa fragilidade do eu que não parece ter O terceiro fator foi denominado de ‘autopre-
condições de avaliar a crítica alheia, o que abri- servação’ e é representado pelos seguintes itens:
garia também, possivelmente, a fragilidade da ‘Geralmente, sinto-me frustrado(a) por não con-
auto-reflexão. O conteúdo desse fator parece seguir o controle de minha forma física.’ (0,75);
estar associado com o que foi denominado de ‘Considero prioritário cuidar bem do meu corpo
‘authority’, no Narcissistic Personality Inventory através de exercícios físicos.’ (0,70); e ‘Pensar
(ver Raskin & Terry, 1988). que um dia envelhecerei me causa pavor.’ (0,49).
O fator seguinte – ‘imagem’ – contém os se- São itens relacionados ao controle do corpo e à
guintes itens: ‘Tenho dificuldades em expressar tentativa de preservar-se jovem e saudável. Tal
sentimentos que envolvam meus conflitos e so- como Lasch (1983) acentua, com base em Kern-
frimentos.’ (0,73); ‘Tenho uma admiração incon- berg, para o narcisista, o tempo deve ser evitado
dicional pelos meus superiores.’ (0,66); e ‘Sinto- e a idéia de manutenção de um corpo bonito e
me verdadeiramente livre quando posso gastar saudável parece colaborar com isso. Em suas pa-
comprando as coisas que desejo.’ (0,57). Os lavras: «Em uma sociedade que tem horror à ve-
itens parecem indicar a necessidade de manuten- lhice e à morte, o envelhecimento implica um
ção de uma ordem hierárquica sem conflitos e a terror especial para os que temem a dependência
possibilidade de o indivíduo receber do mundo o e cuja auto-estima requer a admiração geralmen-
que deseja através do consumo. Parecem se unir, te reservada à juventude, à beleza, à celebridade
nesse fator, a necessidade ligada à fase anal, des- ou ao encanto pessoal» (p. 66). Menos que ao fa-
crita por Freud (1973), de preservar o mundo das tor vaidade, presente no NPI, o apego ao corpo

539
parece estar associado ao desespero relacionado A presença do desejo de ‘aprisionar’ o tempo e
a ter de depender dos outros e não poder ser mais de auto-suficiência – presentes em outros fatores
admirado pela beleza e jovialidade. descritos – talvez se unam neste.
O quarto fator – ‘individualismo’ – é compos- Em síntese, o narcisismo avaliado por essa es-
to dos seguintes itens: ‘Considero-me, geral- cala se expressa pela necessidade de prestígio, de
mente, auto-suficiente.’ (0,81); ‘Busco incansa- autopreservação, pela superficialidade da vida
velmente o sucesso.’ (0,59); e ‘Considero que al- (avaliada pelos fatores ‘imagem’ e ‘ausência de
guns produtos evidenciam mais a minha perso- projetos’), pelo individualismo, e, ao mesmo
nalidade.’ (0,48). Os itens parecem apontar a tempo, pela sensação de inadequação. As feridas
idéia de independência e força pessoal, a neces- narcísicas descritas por Freud (1959) e enfatiza-
sidade de se destacar dos outros, não necessaria- das por Costa (1984) seriam compensadas pela
mente por características próprias, mas pelo que tentativa de se obter prestígio. O sofrimento seria
é valorizado socialmente – o sucesso. Tal como iludido pela tentativa de auto-suficiência, contro-
no fator anterior, a idéia de negar a dependência le do tempo e do corpo e pela superficialidade
dos outros e poder se bastar a si mesmo – a inde- das relações com os outros e consigo próprio.
pendência do sofrimento provocado pelo mundo, Mas essas tentativas não evitariam o sentimento
segundo Freud (1986) – parece estar presente, de inadequação.
mas enquanto aquele se referia ao tempo, esse se Poder-se-ia pensar que os fatores das duas es-
refere à força pessoal. Esse fator tem conteúdo calas fossem dependentes entre si, ou seja, que
similar ao denominado de ‘auto-suficiência’ no avaliassem a mesma variável. Para termos dados
NPI. Parece, contudo, indicar também o desejo para responder a essa questão, fizemos uma aná-
de ser único, que descreve Green (1988), e, as- lise fatorial em componentes principais com ro-
sim, além da auto-suficiência, tem-se o indivi- tação Varimax, envolvendo os fatores das duas
dualismo. escalas, delimitando a extração a dois fatores. Os
O penúltimo fator – ‘inadequação’ – apresenta fatores da escala I agruparam-se no fator 1 e os
dois itens: ‘É difícil eu encontrar satisfação.’ da escala N, no fator 2, com exceção do sexto
(0,85); e ‘Freqüentemente sinto-me estranha- fator dessa última, que não obteve carga fatorial
mente inadequado como se não pertencesse a acima de 0,45 em nenhum dos dois fatores.
lugar ou grupo algum.’ (0,61). O conteúdo des- Dessa forma, com alguma segurança, podemos
ses itens parece significar um sentimento de es- afirmar que as duas escalas mensuram variáveis
tranhamento, de não estar nunca bem. Parece distintas.
ilustrar o narcisismo de morte descrito por Green
(1988), mas também as queixas do melancólico 2.3. Análise das Correlações entre as escalas
que, segundo Freud (1974a), lamenta-se constan- I, N e F
temente pela perda de um objeto que não sabe
muito bem qual é. Lembra igualmente a sensa- Não apresentaremos, devido aos limites desta
ção de vazio, explicitada por Lasch (1983). Pare- exposição, as correlações obtidas entre os fatores
ce se associar com o fator de ‘sentimento de in- das escalas I e N, descritos anteriormente, mas
felicidade, inadequação e ansiedade’, descrito destacamos que todos os fatores de cada uma das
por Mullins e Kopelman (1988). escalas correlacionaram-se significantemente
O último fator – ‘ausência de projetos’ – é (p<0.01) com o total da outra escala, com exce-
composto dos seguintes itens: ‘Não nutro espe- ção do fator ‘moralismo’ da escala I e o fator
ranças de um tempo melhor no futuro. O pre- ‘inadequação’, da escala N; além disso, obtive-
sente é o que realmente importa.’ (0,79); e ‘Pre- mos correlações significantes, ao nível de 0.01,
firo me relacionar bem com várias pessoas do entre os escores de todos os fatores da escala I e
que ter um relacionamento emocional profundo da escala N com o escore da Escala F. A média
com alguém.’ (0,73). O conteúdo de seus itens dos escores dos sujeitos na escala F foi de 3,34,
parece se associar com uma certa superficialida- e o desvio padrão 0,92.
de de relações e falta de projeto de vida, ou seja, O coeficiente de correlação de Pearson encon-
a dificuldade de se relacionar profundamente trado entre os escores dos sujeitos nas escalas I e
com alguém e com o próprio desenvolvimento. N foi igual a 0,47, significante ao nível de 0,01,

540
o que indica que quanto maior a adesão à ideolo- econômico, desenvolvida por Adorno et al.
gia da racionalidade tecnológica, maior o núme- (1950), contudo, a correlação obtida parece in-
ro de características narcisistas de personalidade dicar que, se estamos nas últimas décadas estu-
e vice-versa. Quanto mais o indivíduo percebe o dando bastante o narcisismo, precisaríamos aten-
mundo como um sistema criado e mantido pela tar mais para o sadomasoquismo, ou autoritaris-
intervenção da técnica mais apresenta caracterís- mo, avaliado pela escala F e, segundo os dados
ticas narcisistas de personalidade, que revelam, desta pesquisa, para a sua relação com a ideolo-
entre outros significados, a necessidade de se gia da racionalidade tecnológica. Como a corre-
tornar independente dos sofrimentos existentes. lação entre a escala I e a escala F foi maior do
Já o coeficiente de correlação de Pearson que a encontrada por Adorno et al. (1950) entre
obtido entre os escores dos sujeitos na escala da essa escala e a do conservadorismo político-eco-
ideologia da racionalidade tecnológica e na nômico, podemos pressupor que a ideologia da
escala F foi igual a 0,62, significante ao nível de racionalidade tecnológica se associa mais com
0,01, evidenciando que quanto maior é a adesão tendências psíquicas regredidas do que a ideo-
à ideologia da racionalidade tecnológica, maior é logia política conservadora. Mais do que isso,
a tendência ao autoritarismo e vice-versa. Assim, caberia pensar se ela não envolve aspectos que
não só os aspectos narcisistas de personalidade seriam comuns às ideologias políticas de direita
estariam associados à ideologia da racionalidade e de esquerda, conforme postulamos no início
tecnológica, mas também os do sadomasoquis- deste trabalho, e por isso seria mais associada à
mo. Por trás da aparência da neutralidade da tendência fascista de personalidade do que aque-
técnica podem estar presentes desejos de destrui- las ideologias políticas. Em síntese, o apreço ir-
ção; a tecnologia permitiria a sua expressão e refletido pela tecnologia se vincula mais ao sa-
manifestação, o que pode ser entendido como domasoquismo do que ao narcisismo, ainda que
uma forma sutil de violência, disfarçada até também se associe a esse último, esse apreço pa-
mesmo para o sujeito que a pratica. rece também estar mais relacionado com o que
Os escores dos sujeitos na escala F e na esca- mede a escala F, do que com a ideologia política
la de características narcisistas de personalidade conservadora. Certamente, são necessários novos
também se correlacionaram significantemente estudos para confirmar ou não os resultados
entre si, ao nível de 0,01; o coeficiente de corre- obtidos nesta pesquisa.
lação de Pearson obtido foi igual a 0,54. Isso
indica que quanto maior o número de traços nar-
cisistas, maior a tendência ao sadomasoquismo e 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
vice-versa. O alheamento do mundo, presente no
narcisista, tal como a neutralidade da técnica, A forma de socialização contemporânea me-
não seria, necessariamente, desvinculado de im- diada pela formação predominantemente técnica,
pulsos sadomasoquistas. Deve-se lembrar que a defendida pela necessidade de profissionais
descrição do tipo manipulador feita por Adorno competentes para a solução de problemas ime-
et al. (1950) associa essa configuração autoritá- diatos, parece corresponder, em parte, à necessi-
ria com o narcisismo e que o NPI, desenvolvido dade de vazão de desejos narcisistas e sadoma-
por Raskin e Hall (1979), traz entre os seus fa- soquistas. O pragmatismo, o hiper-realismo, a vi-
tores um que avalia a manipulação e exploração são normalizadora e naturalizadora de todas as
dos outros. esferas de vida parecem nos afastar, de um lado,
Como a magnitude da correlação entre a esca- da percepção das contradições sociais, de outro
la I e a escala N foi menor do que as encontradas lado, da percepção dos conflitos individuais. Os
entre cada uma dessas escalas com a escala F, a sentimentos e o sofrimento do indivíduo, pro-
hipótese da existência de maior regressão psí- porcionado pelas duras exigências sociais, são
quica e social atualmente do que na época do es- aparentemente negados sob a forma do narcisis-
tudo da personalidade autoritária não se confir- mo ou pela adesão à ideologia da racionalidade
mou. Claro que essa hipótese não foi testada di- tecnológica. Mais do que isso, a neutralidade
retamente, pois para isso deveríamos ter aplicado aparente de um e de outro parece estar permea-
também a escala de conservadorismo político- da, por vezes, por impulsos destrutivos.

541
Tal como Freud (1986), Horkheimer e Adorno são necessárias novas pesquisas com maior nú-
(1985) perceberam a dialética do desenvolvi- mero de sujeitos e com características distintas
mento social. A tecnologia é fundamental para a daqueles que participaram deste estudo, e o
emancipação da miséria humana, ela dá a base aperfeiçoamento de alguns fatores da escala I pa-
dessa emancipação; não obstante, na sociedade ra que sejam mais precisos, para que os resulta-
da autoconservação, ela favorece a regressão in- dos desta pesquisa possam ser confirmados e se
dividual e social, por exigir sacrifícios indivi- possa ter idéia da extensão do problema aqui dis-
duais, que não são compensados socialmente. O cutido.
sentido da vida é expropriado quando a vida é
atrelada ao trabalho e a relações sociais e indi-
viduais, que servem à reprodução e manutenção REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
da ordem social e à autoconservação individual.
Certamente, a sociedade como organização entre Adorno, T. W. (1969). Opinión, Locura, Sociedad. In T.
os homens e para os homens, assim como a au- W. Adorno, Intervenciones (pp. 137-160). Caracas:
toconservação, são fundamentais, mas se a vida Monte Ávila ed..
Adorno, T. W. (1972). Teoría de la seudocultura. In T.
individual se restringe a essa última, não nos W. Adorno, Filosofía y superstición (pp. 141-
afastamos muito da reprodução da vida dos ou- 174). Madrid: Alianza Editorial.
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encontra, deveria se voltar para a felicidade e li- industrial? In T. W. Adorno, Sociologia (pp. 62-
berdade individuais, exigindo menos sacrifícios 75). São Paulo: Ática.
dos indivíduos. Adorno, T. W. (1991). De la relación entre sociología y
psicología. In T. W. Adorno, Actualidad de la
Poder-se-ia pensar que uma formação indivi-
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em si mesmo pudesse se contrapor à educação Adorno, T. W. (1995a). Educação após Auschwitz. In
voltada imediatamente para o trabalho, e portan- T. W. Adorno, Palavras e sinais (pp. 104-123). Pe-
to para a técnica, mas, segundo Adorno (1972), trópolis: Vozes.
ela é igualmente deformadora, pois quando a Adorno, T. W. (1995b). Sobre sujeito e objeto. In T. W.
cultura se estabelece como um fim em si mesmo, Adorno, Palavras e sinais (pp. 181-201). Petrópo-
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o seu objetivo de resolver os problemas humanos Adorno, T. W. (1995c). Notas marginais sobre teoria e
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cionar que durante o fascismo alemão, pessoas Adorno, T. W., Frenkel-Brunswik, E., Levison, D. J., &
cultas defenderam a violência praticada. Não se Sanford, R. N. (1950). The authoritarian persona-
deve, também, abandonar a educação associada à lity. Nova Iorque: Harper and Row.
Carone, I. (s.d.). Teoria crítica e psicologia social. São
técnica, pois ela é importante para mitigar o so-
Paulo: EDUC.
frimento humano. Ao que parece, seria desejável Costa, J. F. (1984). Violência e psicanálise. Rio de Ja-
uma educação que pudesse pensar a tecnologia e neiro: Graal.
seu desenvolvimento tendo como fim a pacifica- Freud, S. (1943). La moral sexual «cultural» y la ner-
ção entre os homens e não o progresso como um viosidad moderna. Buenos Aires: Editorial Ame-
fim em si mesmo ou a adaptação imediata ao ricana.
mercado de trabalho. Freud, S. (1959). Introdução ao narcisismo. In Obras
Completas de Freud, Vol VII. Rio de Janeiro:
Claro, os dados obtidos nesta pesquisa indi- Delta.
cam que a adesão à ideologia da racionalidade Freud, S. (1973). Três ensaios sobre a teoria da sexua-
tecnológica não é plena, que os escores obtidos lidade. Rio de Janeiro: Imago.
nas escalas N e F não são elevados, contudo, de- Freud, S. (1974a). Luto e melancolia. In Obras Com-
vemos lembrar que os sujeitos pesquisados são pletas de Freud, Vol. XI. Rio de Janeiro: Imago.
estudantes universitários e que é provável que os Freud, S. (1974b). Tipos libidinais. In Obras Completas
de Freud, Vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago.
escores obtidos com sujeitos menos escolariza- Freud, S. (1986). El malestar en la cultura. In N. A.
dos e de menos posses sejam maiores, tal como Braustein (org.), A medio siglo de el malestar en la
aconteceu com os escores da escala F na pesqui- cultura de Sigmund Freud. México: Siglo Veintiu-
sa de Adorno et al. (1950). De qualquer forma, no.

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heimer, Adorno, Habermas (pp. 313-343). 2.ª ed.
RESUMO
São Paulo: Abril Cultural.
Horkheimer, M. (1976). A eclipse da razão. Rio de A pesquisa relatada neste artigo teve como objetivo
Janeiro: Editorial Labor. verificar a existência da relação entre a ideologia da
Horkheimer, M., & Adorno, T. W. (1978). Temas racionalidade tecnológica e características narcisistas
básicos de sociologia. São Paulo: Editora Cultrix. de personalidade. Esse tipo de ideologia e esse tipo de
Horkheimer, M., & Adorno, T. W. (1985). Dialética do personalidade foram considerados como substitutos
esclarecimento. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar parciais das ideologias e configurações psíquicas ana-
Editor. lisadas no estudo de Adorno et al. sobre a personali-
Lasch, C. (1983). A cultura do narcisismo. Rio de Ja- dade autoritária. Foram construídas 2 escalas com
neiro: Imago. itens tipo Likert – a escala da ideologia da racionalida-
Marcuse, H. (1981). Eros e civilização. Rio de Janeiro: de tecnológica e a escala de características narcisistas
Zahar. de personalidade –, que foram aplicadas em conjunto
Marcuse, H. (1982). A ideologia da sociedade indus-
com a escala F a 162 alunos da Universidade de São
trial. 6.ª ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores.
Paulo. As duas escalas construídas foram submetidas a
Marx, K. (1978). Manuscritos econômicos-filosóficos e
outros textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural. análises fatoriais em componentes principais, com ro-
Marx, K. (1984). O Capital: Crítica da economia polí- tação Varimax; a escala da ideologia da racionalidade
tica. Livro I, volume 1. São Paulo: Difel. tecnológica mostrou ser constituída por 5 fatores e a
Mullins, L. S., & Kopelman, R. E. (1988). Toward an outra escala, por 6 fatores. Encontramos correlações
assessment of the construct validity of four mea- significantes entre as três escalas aplicadas. Conclui-
sures of narcissism. Journal of Personality Assess- mos que a defesa de uma visão técnica, sistemática,
ment, 52 (4), 610-625. normatizadora da sociedade e dos indivíduos é per-
Pettigrew, T. F. (1999). A sistematização dos preditores meada e fortalece as características narcisistas e sado-
do rascismo: uma perspectiva empírica. In J. Vala masoquistas da personalidade.
(org.), Novos racismos: perspectivas comparativas Palavras-chave: Narcisismo, ideologia da raciona-
(pp. 79-101). Oeiras: Celta Editora. lidade tecnológica, personalidade autoritária.
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