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UCAM – UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES

MARLENE TERRA

PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

SÃO PAULO - SP

2017
UCAM – UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES

MARLENE TERRA

PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

Artigo Científico Apresentado à Universidade


Candido Mendes - UCAM, como requisito parcial
para a obtenção do título de Especialista em Direito
Processual Civil.

SÃO PAULO - SP
2017
PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL

RESUMO

Com o advento do Novo Código de Processo Civil este estudo busca analisar como
foram recepcionados no novo códex os princípios constitucionais relativos ao direito
processual civil. Este artigo busca principalmente uma reflexão sobre os efeitos
práticos de tais princípios no cotidiano dos operadores de direito e da sociedade em
geral.

Palavras-Chave: Novo CPC. Princípios constitucionais. Neoprocessualismo.

ABSTRACT

With the advent of the New Code of Civil Procedure this study seeks to analyze how
the constitutional principles related to civil procedural law were received in the new
code. This article mainly seeks a reflection on the practical effects of such principles in
the daily life of lawyers and society in general.
Sumário

INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 1

PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS NO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL ..... 3

1. Princípio do devido processo legal............................................................. 4

2. Princípio da isonomia................................................................................... 5

3. Princípio do contraditório e ampla defesa ................................................. 6

4. Príncípio do juiz natural ............................................................................... 6

5. Princípio da inafastabilidade da jurisdição ................................................ 7

6. Princípio da publicidade .............................................................................. 8

7. Princípio da motivação das decisões ......................................................... 9

8. Princípio do duplo grau de jurisdição ....................................................... 10

9. Princípio da proibição de prova ilícita ...................................................... 11

10. Da razoável duração do processo ............................................................. 12

11. Da cooperação entre as partes .................................................................. 13

CONCLUSÃO .......................................................................................................... 15

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................................ 16


INTRODUÇÃO

Ao estudar o Novo CPC, percebe-se uma preocupação do legislador na busca


de um processo mais simplificado, objetivando maior celeridade e menor
formalismo na busca do bem jurídico almejado. Observamos também um viés
constitucional reforçando os princípios e garantias previstos na nossa Carta
Magna, de forma positiva.

Em seu primeiro artigo, tem-se positivado tal viés:

o
Art. 1 : O processo civil será ordenado, disciplinado e
interpretado conforme os valores e as normas fundamentais
estabelecidos na Constituição da República Federativa do Brasil,
observando-se as disposições deste Código.

De sua leitura observa-se uma preocupação em garantir que o processo civil


seja interpretado em consonância com os princípios constitucionais, além de
ser um instrumento para efetivação dos direitos e garantias fundamentais.

Apesar do código anterior não trazer de forma tão expressa a aplicabilidade


dos princípios constitucionais no direito processual civil, estes princípios
sempre nortearam as decisões que vemos em nossos tribunais, pois sua força
normativa sempre esteve presente.

Mesmo assim, o NCPC inova ao instituir, por exemplo, a cooperação entre


todas as partes do processo:

Art. 6º: Todos os sujeitos do processo devem cooperar entre si


para que se obtenha, em tempo razoável, decisão de mérito justa
e efetiva.

Neste contexto, cabe trazer à colação, o ensinamento de Luiz Guilherme


Marinoni, no livro Novo Curso de Processo Civil, onde trata exatamente desse
ponto, acerca do cooperativismo processual: “encarar o processo civil como
uma comunidade de trabalho regida pela ideia de colaboração, portanto, é
reconhecer que o juiz tem o dever de cooperar com as partes, a fim de que o
processo civil seja capaz de chegar efetivamente a uma decisão justa, fruto de
efetivo ”dever de engajamento” do juiz no processo. (MARINONI, 1996, p. 147)

1
Estas pequenas pinceladas vão delineando um retrato cada vez mais claro: a
hierarquia que estabelece a Constituição Federal como a lei maior a ser
observada em todas as decisões, e que irradia seus princípios e disposições
por toda a sistemática processual em todos os ramos do direito.

Neste estudo revisaremos os princípios constitucionais que já eram


contemplados no antigo código, bem como os novos princípios introduzidos
pelo NCPC.

2
PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS NO NOVO CÓDIGO DE
PROCESSO CIVIL

Considerando-se que para qualquer ramo do direito, os princípios são fontes


basilares de conhecimento, seu estudo tem importância relevante para o bom
desempenho do operador do direito.

Neste contexto, é fundamental definir inicialmente seu conceito. Segundo


Miguel Reale (REALE, 1991, p. 299), “os princípios são certos enunciados
lógicos admitidos como condição ou base de validade das demais asserções
que compõem dado campo do saber”.

Já Plácido e Silva (PLÁCIDO E SILVA, 1991, p.447), estudioso dos vocábulos


jurídicos, ensina que “os princípios são o conjunto de regras ou preceitos que
se fixam para servir de norma a toda espécie de ação jurídica, traçando a
conduta a ser tida em uma operação jurídica”.

Ilustrando ainda um pouco mais este conceito, trazemos o comentário de Celso


Antonio Bandeira de Mello acerca dos princípios em geral:

Princípio é, por definição, mandamento nuclear de um sistema,


verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia
sobre diferentes normas, compondo‐lhes o espírito e servindo de
critério para a sua exata compreensão e inteligência, exatamente
por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no
que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico. É o
conhecimento dos princípios que preside a intelecção das
diferentes partes componentes do todo unitário que há por nome
sistema jurídico positivo. (MELLO, 1981)

Assim, estabelecida a grande importância dos princípios no sistema jurídico,


conclui-se que, os princípios são os pontos básicos e que servem de base para
a elaboração e aplicação do direito.

O art. 5º da Constituição Federal, não só declara a igualdade de todos perante


a lei, como também garante essa igualdade através de outros princípios
insculpidos no próprio artigo. A título de exemplo, pode‐se mencionar:

a) Princípio do devido processo legal (CF, art. 5º, LIV);

3
b) Princípio da motivação das decisões (CF, art. 93, IX);

c) Princípio da publicidade dos atos processuais (CF, art. 5º, LX);

d) Princípio da proibição da prova ilícita (CF, art. 5º, LVI);

e) Princípio da presunção da inocência (CF, art. 5º, LVII);

f) Princípio da razoável duração do processo (EC 45/04)

Enfim, a própria Constituição Federal criou mecanismos que visam garantir que
tais princípios sejam observados na aplicação das leis infraconstitucionais.

1. Princípio do devido processo legal

O princípio do devido processo legal encontra‐se expressamente consagrado


na Constituição Federal, insculpido no artigo 5º, inciso LIV, com a seguinte
redação:

Art. 5º: ...


LIV ‐ ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o
devido processo legal;

Para uma grande parte da doutrina, com destaque para Cruz e Tucci (CRUZ E
TUCCI, 1989, p.30), todos os demais princípios derivam do devido processo
legal. Nelson Nery Júnior (NERY JR, 1996, p.29) em sua obra Princípios de
Processo Civil na Constituição Federal, concorda com este posicionamento,
pois entende que, com a adoção do devido processo legal, já decorrerão todos
os outros princípios que pretendem a garantia de um processo e de uma
sentença justa.

O devido processo legal é uma garantia constitucional em benefício de todos


os cidadãos, assegurando tanto o exercício do direito de acesso ao Poder
Judiciário, como o andamento processual de acordo com regras pré-
estabelecidas.

Por fim, vale ressaltar o ensinamento de Cintra, Grinover e Dinamarco, acerca


do princípio do devido processo legal:

4
O devido processo legal, como princípio constitucional, significa
o conjunto de garantias de ordem constitucional, que de um lado
asseguram às partes o exercício de suas faculdades e poderes
de natureza processual e, de outro, legitimam a própria função
jurisdicional. (CINTRA; GRINOVER; DINAMARCO, 1998, p.56)

2. Princípio da isonomia

O princípio da isonomia abriga em seu bojo, dois princípios que se interligam: o


princípio da Igualdade das Partes e o da Isonomia Processual.

O caput do art. 5º da Constituição Federal de 1988 menciona que:

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer


natureza, garantindo‐se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do seu direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes.

Desta leitura depreende-se que o princípio da igualdade de partes no processo


deriva da igualdade de todos perante a lei. Tal igualdade, no processo civil, se
traduz na isonomia processual.

Para COUTURE (1981, p.182), o princípio da igualdade domina todo o


processo civil e, por força da isonomia constitucional de todos perante a lei,
impõe que ambas as partes da lide possam desfrutar, na relação processual,
de iguais faculdades e devam se sujeitar a iguais ônus e deveres.

Nos ensina NELSON NERY JÚNIOR (1996, p.42) que dar tratamento
isonômico às partes significa tratar igualmente os iguais e desigualmente os
desiguais, na exata medida de suas desigualdades.

Para CINTRA, GRINOVER e DINAMARCO (1998, p.53-54), a igualdade


jurídica não pode eliminar a desigualdade econômica, é por essa razão que na
conceituação realista de isonomia, busca‐se a igualdade proporcional. Em
síntese, essa igualdade proporcional é o tratamento igual aos substancialmente
iguais.

5
Em síntese, o princípio da isonomia processual resume‐se em equilibrar o peso
das partes no processo, compensando as possíveis desigualdades existentes
entre ambas.

3. Princípio do contraditório e ampla defesa

A Constituição Federal expressa em seu artigo 5º inciso LV:

LV ‐ aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos


acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla
defesa, com os meios e recursos a ela inerentes.

Sobre o princípio do contraditório, ENRICO TULLIO LIEBMAN (1980) comenta:

A garantia fundamental da Justiça e regra essencial do processo


é o princípio do contraditório, segundo este princípio, todas as
partes devem ser postas em posição de expor ao juiz as suas
razões antes que ele profira a decisão. As partes devem poder
desenvolver suas defesas de maneira plena e sem limitações
arbitrárias, qualquer disposição legal que contraste com essa
regra deve ser considerada inconstitucional e por isso inválida.

O contraditório é constituído por dois elementos: a) informação à parte


contrária; b) a possibilidade da reação à pretensão deduzida. Diante destas
considerações, é possível notar que, para que a parte possa estabelecer o
contraditório e exercitar a ampla defesa, é necessário que esta tenha ciência
dos atos praticados pela parte contrária e pelo juiz da causa.

4. Príncípio do juiz natural

O princípio do juiz natural pode ser encontrado na Constituição Federal nos


seguintes incisos do artigo 5º:

XXXVII ‐ não haverá juízo ou tribunal de exceção;

LIII ‐ ninguém será processado nem sentenciado senão pela


autoridade competente;

6
O princípio do juiz natural objetiva principalmente vedar a criação de tribunais
de exceção ou de juízos ad hoc, ou seja, a proibição de nomear juízes
especialmente para julgar casos específicos.

O inciso LIII do artigo 5º da Constituição Federal dá dupla garantia ao cidadão,


já que garante que os jurisdicionados só serão processados e julgados por
alguém legitimamente integrante do Poder Judiciário.

DJANIRA MARIA RADAMÉS DE SÁ (1998, p.25), em síntese, menciona que,


neste primeiro aspecto, o princípio do juiz natural protege a coletividade contra
a criação de tribunais que não são investidos constitucionalmente para julgar,
especialmente no que tange a fatos especiais ou pessoas determinadas, sob
pena de julgamento sob aspecto político ou sociológico.

5. Princípio da inafastabilidade da jurisdição

A Constituição Federal traz em seu artigo 5º:

XXXV ‐ a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão


ou ameaça a direito;

A esta prerrogativa dá-se o nome de DIREITO DE AÇÃO. O direito de ação é o


meio que o cidadão possui para obter a aplicação da lei através do processo
nos casos concretos da vida cotidiana.

O direito de ação é um direito público subjetivo que pode ser exercido até
mesmo contra o Estado, que não pode recusar‐se a prestar a tutela
jurisdicional. É de tal modo rigoroso o dever do juiz em garantir a tutela judicial
que sua omissão pode configurar crime de responsabilidade.

NELSON NERY JÚNIOR (1996, p.131) cita: “em que pese o destinatário
principal desta norma seja o legislador, o comando constitucional atinge a
todos indistintamente, vale dizer, não pode o legislador e ninguém mais impedir
que o jurisdicionado vá a juízo deduzir pretensão”.

7
6. Princípio da publicidade

A Constituição Federal de 1988 expressa este princípio em dois artigos:

Art. 93: ...

IX ‐ todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão


públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de
nulidade, podendo a lei, se o interesse público o exigir, limitar a
presença, em determinados atos, às próprias partes e seus
advogados, ou somente a estes;

Também, pode‐se encontrar o referido princípio contido no artigo 5º, inciso LX


da Constituição Federal:

Art. 5º: ...

LX ‐ a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais


quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem.

Em consonância com este principio constitucional, o Código de Processo Civil


determina:

Art. 11. Todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário


serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de
nulidade.

Parágrafo único. Nos casos de segredo de justiça, pode ser


autorizada a presença somente das partes, de seus advogados,
de defensores públicos ou do Ministério Público.

O artigo 189 traz, expressamente, quais são os casos que correm em segredo
de justiça, sendo que tal procedimento não viola, em hipótese alguma, a norma
constitucional.

Art. 189. Os atos processuais são públicos, todavia tramitam em


segredo de justiça os processos:
I - em que o exija o interesse público ou social;
II - que versem sobre casamento, separação de corpos, divórcio,
separação, união estável, filiação, alimentos e guarda de
crianças e adolescentes;
III - em que constem dados protegidos pelo direito constitucional
à intimidade;
IV - que versem sobre arbitragem, inclusive sobre cumprimento
de carta arbitral, desde que a confidencialidade estipulada na
arbitragem seja comprovada perante o juízo.

Para Arruda Alvim, o princípio da publicidade dos atos no processo é um


princípio essencialmente ético:

8
A publicidade é garantia para o povo de uma justiça justa, que
nada tem a esconder; e, por outro lado, é também garantia para a
própria Magistratura diante do povo, pois agindo publicamente,
permite a verificação de seus atos. (ARRUDA ALVIM, 1990, p. 30)

A publicidade obrigatória aos atos do processo permite a ampla defesa, na


medida em que permite que as partes possam intervir no processo durante
qualquer de suas fases para discutir qualquer prova juntada ou decisão do
magistrado.

7. Princípio da motivação das decisões

Este princípio está intimamente ligado ao princípio da publicidade, tanto que


sua previsão legal, tanto na Constituição Federal, quanto no NCPC, aparecem
em conjunto nos mesmos dispositivos:

CF/1988:

Art. 93: ...

IX ‐ todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão


públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de
nulidade, podendo a lei, se o interesse público o exigir, limitar a
presença, em determinados atos, às próprias partes e seus
advogados, ou somente a estes;

NCPC/2015:

Art. 11. Todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário


serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de
nulidade.

Fundamentar todas as decisões significa justificar as razões de fato e de direito


que levaram ao convencimento do magistrado. Tal fundamentação deve ser
motivada de forma substancial e não fornecida como mera formalidade.

Segundo TERESA ARRUDA ALVIM (1993, p.70), “não se pode confundir


sentença com um ato de imposição pura e imotivada de vontade. Daí a
necessidade de que venha expressa sua fundamentação (CF, art. 93, IX).”

9
A motivação da sentença tem também a finalidade de uniformizar a
jurisprudência, servindo também para futura análise em julgamento de
possíveis recursos.

Na medida em que uma decisão motivada indica o raciocínio e conclusão do


magistrado, este demonstra sua imparcialidade e demonstra agir em
consonância com um princípio que é garantia inerente ao Estado de Direito.

8. Princípio do duplo grau de jurisdição

O princípio do duplo grau de jurisdição não se encontra expresso na CF/88, no


entanto, se depreende seu significado a partir dos artigos que seguem:

Art. 5º: ...

LV ‐ aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos


acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla
defesa, com os meios e recursos a ela inerentes.

Da mesma forma, ao definir a competência do STF e STJ, os respectivos


artigos 102 e 105 da CF/88 prevê como atribuição destes órgãos o julgamento
de recursos.

Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente,


a guarda da Constituição, cabendo‐lhe:
I ‐ omissis
II ‐ julgar, em recurso ordinário:
III ‐ julgar, mediante recurso extraordinário (...);

Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça:


I ‐ omissis
II ‐ julgar, em recurso ordinário;
III ‐ julgar, em recurso especial;

O princípio do duplo grau de jurisdição garante à parte vencida, total ou


parcialmente, recorrer desta decisão, submetendo o caso a uma nova
apreciação por parte de outra instância judicial.

O reexame das decisões judiciais é um instituto antigo, que já era previsto nas
antigas legislações como do direito romano, babilônico, grego, islâmico, etc.

10
Assim como o sentimento de inconformismo diante de um julgamento não
favorável é inerente ao ser humano, toda decisão judicial que possa vir a
prejudicar um direito ou interesse deve ser recorrível para evitar falhas que são
igualmente inerentes ao ser humano.

Segundo HUMBERTO THEODORO JÚNIOR (1995, p.28), os recursos,


todavia, devem acomodar‐se às formas e oportunidades previstas em lei, para
não tumultuar o processo e frustrar o objetivo da tutela jurisdicional em
manobras caprichosas e de má‐fé.

9. Princípio da proibição de prova ilícita

A Constituição Federal proíbe, de forma expressa, a utilização no processo de


provas obtidas por meios ilícitos.

Art. 5º: ...


LVI ‐ são inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por
meios ilícitos;

O artigo 369 do Código de Processo Civil menciona os tipos de prova admitidos


no processo:

Art. 369. As partes têm o direito de empregar todos os meios


legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não
especificados neste Código, para provar a verdade dos fatos em
que se funda o pedido ou a defesa e influir eficazmente na
convicção do juiz.

Considerando a importância das provas para o convencimento do juiz e


sucesso na obtenção do bem jurídico almejado, o princípio da licitude das
provas é fundamental no Estado Democrático de Direito.

Em síntese, o princípio em questão garante a inadmissibilidade da utilização de


provas, seja no processo civil ou penal, quando obtidas por meios ilícitos ou
moralmente ilegítimos, conforme dispõe o art. 5º, inciso LVI, da Constituição
Federal e artigo 369 do Código de Processo Civil.

11
10. Da razoável duração do processo

A Emenda Constitucional 45/04 trouxe a Reforma Constitucional do Poder


Judiciário que introduziu, entre tantas outras mudanças, dentro das previsões
dos direitos fundamentais, a garantia ao cidadão da duração razoável do
processo, como explicita o artigo 5º, inc. LVXXVIII da Constituição Federal:

LXXVIII - a todos, no âmbito judicial e administrativo, são


assegurados a razoável duração do processo e os meios que
garantam a celeridade de sua tramitação.

Considerando que a marca da sociedade atual é a rapidez e a instantaneidade


em todos os âmbitos, era de se esperar que o ordenamento jurídico viesse a
refletir esta característica.

A sociedade passou por grandes transformações nas últimas décadas e o


judiciário vem procurando adequar-se. Como exemplo podemos citar o
processo eletrônico que há alguns anos atrás era impensável.

Neste bojo, a PEC 45/04 ao introduzir na CF/88 o princípio da razoável duração


do processo, presta um serviço à sociedade contemporânea que não tem mais
tempo de aguardar por anos uma decisão judicial que vai ditar a vida de
pessoas físicas e jurídicas.

A importância deste princípio permite aos operadores do direito que cobrem,


fundamentados em princípio constitucional, que seus processos decorram
dentro de um prazo razoável – mesmo sendo este um conceito que envolve
alguma subjetividade.

José Rogério Cruz e Tucci (1997) apresenta reflexão importante, sobre esta
preocupação global:

A preocupação global em torno da duração intolerável dos feitos


é patente, já que esta configura um enorme obstáculo para que o
processo cumpra seus compromissos institucionais. O tempo
pode causar o perecimento das pretensões, ocasionar danos
econômicos e psicológicos às partes e profissionais aos
operadores do direito, estimular composições desvantajosas, e
conseqüentemente, gerar descrédito ao Poder Judiciário e ao
Estado como um todo. (CRUZ E TUCCI, 1997, p. 89)

12
Em resumo, o processo não pode ser demasiado demorado, mas não há como
este se efetivar de modo instantâneo devido à complexidade das partes e
provas envolvidas.

Alternativas novas já começaram a ser adotadas, como as citações por meio


eletrônico, mas é necessário garantir e concretizar a razoável duração do
processo, sempre primando pelo justo, pela justiça.

11. Da cooperação entre as partes

Este princípio insculpido no NCPC não é encontrado expressamente na CF/88,


mas segundo os doutrinadores, advém de outros princípios reconhecidamente
consagrados, como o do devido processo legal, o do contraditório, das
motivações das decisões judiciais e da publicidade dos atos processuais.

Nas palavras de Gil Ferreira de Mesquita:

A função jurisdicional somente poderá ser desempenhada


satisfatoriamente pelo magistrado, se este contar com a
colaboração das partes (autor e réu) através da formulação de
suas razões, o fornecimento de informações e a produção de
provas. O contraditório presta-se justamente, de início, para a
manutenção do processo como fenômeno dialético, necessário
para que ambos os litigantes tenham no decorrer da atividade
processual as mesmas condições para a defesa de seus
interesses, já que sujeitos parciais da relação jurídica
processual. (MESQUITA, 2003, p.156/157)

Esta corrente doutrinária, entretanto, entra em choque com outra que prevê a
inconstitucionalidade do princípio a partir do momento em que a própria carta
magna diz que ninguém é obrigado a fornecer provas contra si.

Quando pensamos em termos de direito civil, existe um dispositivo no Código


Civil que fala em boa fé objetiva. Este dispositivo está mais alinhado com o
novo dispositivo no NCPC do que a própria CF/88.

Bebendo nas fontes do direito romano, observa-se que as partes buscavam o


direito quando não conseguiam acordar-se entre si. Neste contexto, é fácil
observar que cada uma destas partes tinha uma visão peculiar a cerca do

13
ocorrido, e precisavam, portanto, da decisão de uma autoridade superior, para
decidir a lide.

Ao analisar o instituto, muitos citam as lições do jurista e professor português


Miguel Teixeira de Sousa, que explicita a cooperação como uma soma de
deveres – principalmente destinados aos magistrados – que envolve desde
prestar esclarecimentos, como também de consultar a parte quando
necessário, prevenindo-a e auxiliando-a. Nessa linha, esclarecem as lições de
Daniel Mitidiero (2015):

O princípio da colaboração estrutura-se a partir da previsão de


regras que devem ser seguidas pelo juiz na condução do
processo. O juiz tem deveres de conhecimento, de diálogo, de
prevenção e de auxílio para com os litigantes. Esses deveres
consubstanciam as regras que estão sendo enunciadas quando
se fala em colaboração no processo. (MITIDIERO, 2015)

Assim, como dito, aparenta ter havido um verdadeiro reforço do modelo


constitucional de processo, onde a cooperação se daria entre as partes e o juiz.

Com relação aos magistrados, o que esta inserção de princípio sugere? Cabe
ao juiz esclarecer no processo quanto às manifestações das partes: questioná-
las quanto a duvidas ou obscuridades em suas petições; pedir que esclareçam
ou especifiquem provas feitas em termos genéricos, etc..

No novo CPC, um dos vários exemplos vem do art. 357, § 3º:

“Se a causa apresentar complexidade em matéria de fato ou de


direito, deverá o juiz designar audiência para que o saneamento
seja feito em cooperação com as partes, oportunidade em que o
juiz, se for o caso, convidará as partes a integrar ou esclarecer
suas alegações”.

A obrigação de esclarecimento se mostra ainda em uma segunda dimensão: o


juiz deve não só buscar a clareza das partes, mas ser, ele mesmo, claro. É
neste contexto, de cooperação, que se infere melhor a co-relação entre o
NCPC/15 e a CF/88, quando esta última estabelece o dever de fundamentação
das decisões do juiz já citado nos tópicos anteriores.

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CONCLUSÃO

No presente estudo, apresentamos uma abordagem do direito processual civil


do ponto de vista constitucional, com especial destaque para a importância dos
princípios constitucionais positivados no novo CPC.

Os princípios e normas constitucionais irradiam-se agora sobre os diferentes


ramos do direito, repercutindo de forma prática no processo.

Dentre os vários princípios elencados, observamos alguns explícitos,


diretamente expressos no texto legal, e outros implícitos, que, embora não
tenham ganho texto expresso de lei, são observados rotineiramente na
sistemática processual moderna e reconhecidos pela doutrina e jurisprudência.

O novo código de processo civil abrigou em seu texto a diretriz principiológica


constitucional, acompanhando os avanços do neoprocessualismo e
incorporando essa evolução em seus dispositivos, o que traz maior segurança
jurídica à sociedade e reforça o conceito de justiça que deve ser garantida em
um Estado Democrático de Direito.

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LEGISLAÇÃO

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível


em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>
Acesso em 07/02/2017

BRASIL. LEI Nº 13.105, DE 16 DE MARÇO DE 2015. Código de Processo Civil


(2015). Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>
Acesso em 07/02/2017

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