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Título original:

Spektrum der Literatur

Coordenação:
Prof. Doutor Olívio Caeiro

Tradução:
Dr." Maria Lídia Rodrigue
Dr." Maria da A sunção Pinto Correia
Dr," Maria Filomena Guarda

Revisão tipográfica:
Manuela Ramos

Maqueta e sobrecapa:
Fernando Rochinha Diogo

Fotomecãnica:
Regracomp

C> Círculo de Leitores e Bertelsmann Lexikothek Verlag GmbH


Edição exclusiva para a língua portuguesa
Composto por Fotocompográfica, Lda.
Impresso e encadernado em Agosto de 1991
por Printer Portuguesa, Ind. Gráfica, Lda.
Edição n." 2979
Depó ito legal n." 48651/91
ISB 972-42-0355-7 (obra completa)
ISBN 972-42-0368-9 (vol. 1)
Sumário
A literatura na Pré-História e na Antiguidade 8 Petrarca: Cancioneiro 106
A dança e o canto 8 - O aparecimento da literatura escri- Villon: O Grande Testamento 109
ta 10- O cântico religioso 12 - As primeiras epopeias 12 Gil Vicente: As Barcas 112
- A literatura grega 13 - A epopeia 14 - O poema di-
dáctico 14 - A lírica 17 - A tragédia 18 - A comédia 21
Rabelais: Gargântua e Pantagruel 115
- A literatura em prosa 22 - Helenismo 23 - A litera- Camões: Os Lusíadas 118
tura romana 24 - O drama 24 - A epopeia 25 - Os Cervantes: D. Quixote 122
neotéricos 26 - A elegia amorosa 27 - A literatura latina
em prosa 27.
O pícaro 125
Início de uma tradição: o Lazaril/o de Tormes 125 - So-
o primeiro livro de Moisés 28 bre a e trutura do romance picaresco 127 - O pícaro e a
Homero: lIíada 31 moral 130 - A magia da erenidade 132.
Esopo: Fábulas 34 Lope de Vega: Fuente Ovejuna 133
Safo: Poemas 36 Montaigne: Os Ensaios 135
Sófodes: Antígona 38 Torcato Tasso: Jerusalém Libertada 138
Aristófanes: Lisístrata 41 Sbakespeare: A Tempestade 141
Tucídides: A Guerra do Peloponeso 44 Grimmelshausen: As Aventuras de Simplício Simpli-
Platão: República 47 císsimo 144
Cícero: Filípicas 50
Horácio: Odes 53 Da sociedade feudal à sociedade burguesa 147
Virgílio: Geórgicas 56 A evolução da Alemanha um caso à parte 147 - O novo
Tácito: Anais 59 sistema económico 148 - A nova imagem do Mundo 149
- A literatura inglesa 151 - A literatura france a 156-
A literatura alemã 163 - A literatura portugue a 168.
Literatura e formação cultural na Europa medieval
Vieira: Sermão da Sexagésima 171
62
Racine: Fedra 175
A tradição da «Idade Média» 62 - Os fundamentos 62 -
A reforma cultural e o Estado centralizado 66 - Cri e e Molíere: O Misantropo 177
declínio do rena cimento carolíngio 67 - A literatura e a Choderlos de Lados: As Ligações Perigosas 180
formação na viragem do século 69 - As mudanças radi- Swift: As Viagens de Gulliver 183
cais do século XI 70 - As novas forças: ciência e cortesia
71 - Novos centro 76 - Cultura urbana 77 - O Renas-
cimento italiano 79 - O humanismo europeu 80. O Robinson Crusoe e as suas imitações 186
Robinson Crusoe 186 - A Ilha de Fe/senburg 187 - O
A Canção de Rolando 82 Robinson Crusoe como livro infantil 188.
Walther von der Vogelweide: Poemas 85
Literatura utópica 190
Definições de utópico 190 - Formas do utópico 191- O
A poesia trovadoresca 88 utópico no mito e no conto maravilhoso 191 - Romances
O amor como literatura na Idade Média 92 utópicos 192 - Utopia e ciência 192 - Da utopia à ficção
Dante: A Divina Comédia 103 científica 196.
Sterne: Tristram Shandy 197 A literatura na era burguesa 243
Voltaire: Cândido 199 A posição do arti ta na ordem social burguesa 243 - Divi-
Diderot/D' Alembert: A Enciclopédia 202 são do trabalho. A educação do homem pela arte 244 -
Beaumarchais: O Dia Louco, ou as Bodas de Fígaro Desilusão, sonho e esperança 246 - A política napoleó-
nica e os direitos burgueses 246 - O espaço público bur-
205 guês e a possibilidade de eficácia da arte 247 - O caminho
Sade: Justína 208 para a interioridade 248 - Crítica desfavorável 249 - Na-
Franklin: Autobiografia 211 poleão e a transformação da Europa 249 - Literatura
política 250 - Restauração 252 - Frentes internacionais
254 - Os movimentos de independência nacional 255 -
O espaço público da burguesia e a literatura 214 Intelectuais na política de intervenção 255 - A revolução
Importância geral do espaço público literário 214 - A de 1848 256 - A revolução industrial 257 - A investiga-
transformação ocial e os espaço público históricos 215 ção sistemática nas ciências naturais 257 - Os primórdios
- O pressupostos político-económicos da burguesia no do movimento operário 257 - O século das migrações 258
século XVTII 216 - O espaço público político de dobra-se - A literatura da grande cidade 259 - A evolução do
no literário 216 - A importância de Lessing para o espaço romance 260 - A arte do romance como ciência social 261
público literário burguês 219 - A decadência do espaço - A evolução da lírica moderna 262 - Silêncio e isola-
público burguês 220. mento 263 - Imagem e negação da realidade 263.

Wieland: Aristipo e Alguns dos Seus Contemporâ- Goethe: Fausto 264


neos 222
Goethe: A Paixão do Jovem Werther 224 Para o desenvolvimento do teatro burguês 267
Schiller: Os Salteadores 227 Progressos limitados 270 - Mundo fantástico e campo de
Moritz: Anton Reiser 230 batalha 272.
Hõlderlin: O Arquipélago 232
Bonaventura: Vigílias 235 HotTmann: O Vaso de Oiro 275
Kleist: Noivado em São Domingos 237
Jean Paul: O Cometa 240 Índice 277
Apresentação

Porquê uma Panorâmica Literária?


Vivemos na era da tecnocracia. As actividades quotidianas e o comportamento humano estão
hoje condicionados à tirania dos números, ao enquadramento numa planificação, à mera
existência no quadro da informâtica. Somos, porque o papel que desempenhamos no palco da
vida exige de cada um de nós um perfil como tal delineado; agimos, porque as imposições
profissionais e outras nos condicionam a um esquema horário e a normas de actuação
predeterminadas; existimo ,porque a nossa identidade se encontra devidamente registada
no computador. Donde, nestes tempos, o desenvolvimento espectacular das matemáticas,
da economia planejada, do comandamento electrónico. Subsistimos neste mundo, afinal,
sob o domínio das ciências exactas.
E;, todavia, ainda hoje permanecem, como um substrato indestrutivel, as ciências do espírito.
A história cabe o registo da evolução do homem ao longo dos tempos, naquilo que de positivo ele
realizou, para consolação de termos vindo ao mundo, 0!J em quanto de negativo se transviou,
como exemplo dos caminhos que não devemos trilhar. A filosofia cumpre a exploração desse
domínio oculto que é o espírito, um atributo que até ao indivíduo automatizado dos nossos
tempos confere a consciência do privilégio entre os outros seres da criação. A arte nas suas
múltiplas manifestações -a música, as artes plásticas, a criação literária- cabe a função de
exprimir, através de uma inventiva [antasiosa, o impacte que sobre o espírito desencadeiam os
factores do mundo ambiente e até os mecanismos mais longínquos da mera recordação. Por isso,
a humanidade dos nossos dias continua a buscar no contacto com a literatura um dos seus meios
de refúgio contra a materialidade do universo envolvente. Nunca, como hoje, tanto se produziu e
tanto se publicou, nos domínios da difusão cultural e das múltiplas formas da invenção literária.
Justifica-se, pois, como oportuno e altamente proveitoso, o lançamento em Portugal deste
Panorama da Literatura Univer aI. Nele se abrange, em conspecto vasto e aprofundado, a
análise histórica do fenómeno literário, desde os seus rudimentos pré-histáricos, ainda anteriores
à invenção da escrita, até à complexa diversidade dos nossos tempos. Cada um dos capítulos deste
longo percurso é confiado à competência de grandes especialistas alemães e, na adaptação para
o leitor português, novos capítulos foram introduzidos, a cargo de peritos nacionais, afim de
se completar a panorâmica.
De assinalar são sobretudo os critérios inovadores que presidiram à concepção deste historial.
com vista a torná-lo mais profícuo e mais sugestivo para os seus utentes. Em vez do relato
puramente [actual, optou-se por uma multiplicidade de abordagens de natureza crítica, cada uma
delas visando uma dada manifestação literária característica de um momento histôrico e
relacionando-a precisamente com o conspecto cultural e a sociedade dessa época. E a literatura
como tradução de uma ambiência humana sui generis.
Para ilustração complementar a cada um destes sectores temporais, segue-se a apresentação, por
capítulos autónomos, dos seus autores mais representativos, através da análise de uma das suas
obras capitais, com irradiação para a globalidade da respectiva produção literária. De notar
também o recurso, por vezes, ao testemunho de obras programáticas, científicas e outras, sempre
que o enquadramento histórico o justifique, bem como afocagem de outros campos do saber
susceptíveis de ilustrar o papel que a literatura desempenha na expressão do espírito humano.
A versão dos textos para português foi confiada a um grupo de competentes germanistas, tão
versados no domínio da língua alemã como no das ciências literárias. Os aparatos bibliográficos
em apêndice permitirão ainda complementar a sede de conhecimentos que a leitura geral venha
porventura a despertar.
Assim, com todas as características acima apontadas e a preocupação do rigor que presidiu à sua
publicação, tudo nos leva a crer que este Panorama da Literatura Universal poderá constituir um
prazer instrutivo para amplas camadas de leitores, desde os estudiosos da matéria até aos
inúmeros sedentos da cultura, aqueles a quem a aridez do mundo envolvente conduz a uma
interiorização no refúgio do pensamento.

aLÍVIO CAEIRO
Rita Marnoto

Petrarca
Cancioneiro
Csnzonicre (Rerum Vulgarium Fragmenta) (composto entre 1342e 1374)
Lírica de Francisco Petrarca (20.7.1304-18.7.1374)
as páginas desta obra Francisco nha de conta a tradição poética que o tos religiosos, são algumas das fontes
N Petrarca fala-nos da sua expe-
riência amorosa, apresentando-a,
precedeu. O trovadores provençais e
os stilnovistas (grupo de poetas italia-
que assimila e recria. Mas é funda-
mentalmente a importância conce-
porém, de uma forma substancial- nos activo nos finais do século XIIl), dida à subjectividade do amante e a
mente inovadora, se tivermos em Ii- Ovídio e Virgílio, além de muitos tex- minuciosa atenção com que são des-
crito o mais íntimo movimentos da
sua interioridade a diferenciar este li-
rismo do modelo do amor cortês.
Com o magistério poético de Pe-
trarca, nasce uma nova forma de can-
tar o amor, que será imitada por
ucessivas gerações de poetas petrar-
quis ta . Se o Cancioneiro é o pequeno
livro de que as damas de corte se fa-
zem sempre acompanhar (chamam-
-lhe o «Petrarcazinho», diminutivo
que se faz sinal do apreço afectivo que
lhe dedicam), e em cujas páginas en-
contram o reflexo directo da suas
próprias vivências sentimentais, todos
os grande poetas do Rena cimento
se propõem imitar o eus temas e o
seu e tilo.
Ma as suas página englobam não
só poemas de tema amoroso, como
também compo ições de empenha-
mento civil; assim os sonetos em que
critica a depravação que grassa na
cúria papal, então sediada em Avi-
nhão, ou a célebre canção «Itália rni-
nha, e bem que o falar eja em vão».
E este o primeiro cancioneiro que
não e resume à compilação de poe-
mas de várias proveniências, sendo
antes, na sua totalidade, de autoria de
um só poeta. O título de Cancioneiro
foi-lhe concedido, aliás pelos seus
leitores, por uma questão de hábito;
Petrarca atribuiu-lhe, na realidade,
um título em latim, Rerum Vulgarium
Fragmenta (Fragmentos de coisas vul-

Retrato de Petrarca. de autor anónimo.


Florença, Museu dos Ofícios.

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PETRARCA

gares), provavelmente para o distin- Ro to do Cancioneiro.


guir das anteriore compilações e para
chamar à atenção, como humani ta,
para a importância assumida, na sua egredo do nome da amada. Daí os
feitura, pela lição dos antigo. jogos de palavras entre o eu nome,
E ta recolha seleccionada e orde- Laura, «I' aura» (a brisa), «I' auro»
nada compreende 317 sonetos, (o ouro) e «lauro» (o louro, planta
29 canções, 9 sextinas, 7 baladas e frequentemente associada ao mito de
4 madrigais. Petrarca trabalhou nela Dafne, a ninfa que se transformou em
até aos último anos da sua vida, qua- loureiro para escapar à fúria amorosa
se como se se tratasse de um diário. de ApoIo).
Cada composição era escrita de ante- No tratado intitulado Secretum, a
mão numa pequena folha de papel, e per onagem Francisco é acu ada por
depois sucessivamente aperfeiçoada e Santo Ago tinho de cantar Laura por
limada, até er in erida num ponto do vaidade, já que o seu nome era pare-
Cancioneiro de forma alguma e colhi- cido com «laurea» -a consagração
do ao acaso, o que implicava, muitas literária- e com «lauro» - o louro
vezes, a reordenação do todo. É que, que coroa os poetas célebres -, e
embora a obra seja constituída por também o eu amigo Giacomo Colon-
uma série de textos independentes, na o acusa, numa carta, de ter criado
estabelecem-se entre eles íntimos elos uma personagem de ficção. Cremo,
de ligação. O seu agrupamento em no entanto, que e ta figura feminina des mitológicas. O louvor da figura fí-
pequenos núcleo ora obedece a cri- que perpassa as páginas de toda a sica não tem razão de ser, no entanto,
térios de ordem temática e estilística, obra de Petrarca não deixará de ter à margem do do seus predicados aní-
ou se ba eia em contraposições estéti- um sustentáculo factual. É com muito mico , entre os quai avultam a pure-
co-formais, permitindo também, em realismo que, ao responder ao amigo za angelical, a honestidade, a humil-
muito caso , uma espécie de diálogo Colonna, Petrarca invoca o sofri- dade, a corte ia e a gravidade.
textual à distância entre os diver o mento tanto e piritual, como físico, e A evocação da figura feminina é in-
poema, empre de acordo com um enquanto tal incontestável, que a sua cindível de um momento no tempo e
princípio de equilíbrio entre unidade paixão lhe inculca, ou que, no Se- de um lugar no espaço que a enqua-
e variedade. Foi o próprio Petrarca, cretum, refere os sucessivos partos dram. Petrarca tem uma consciência
demais a mais, a dividi-Ia em duas que deformaram O corpo de Laura muito aguda da inexorável passagem
parte, intomaticamente delimitadas (o amor por uma mulher casada era per- do tempo, em consonância, aliá, com
por textos que assumem um signifi- feitamente aceite pelos cânones epo- um dos autores da Antiguidade cuja
cado fulcral no âmbito da lírica pe- cai ); e recorde-se igualmente a nota leitura aprecia de sobremaneira, Sé-
trarquesca, o oneto inicial «VÓ que aposta na folha de guarda de um dos neca. O Cancioneiro é todo ele e can-
ou vis em rima e parsa o orn» onde códices que lhe era mais caro, Vir- dido por uma érie de compo ições
o livro é apresentado ao público, e as gílio, onde, entre vicis itude que e que a sinalam o aniver ário do ena-
cançõe com que e abre e termina a prendem com a biografia de pessoas moramento, a quais, ao mesmo
egunda parte, «Eu vou pensando, e e pecialmente queridas, regi ta a data tempo que conferem um andamento
no pensar me assalta/Uma piedade da morte de Laura, ocorrida a 19 de narrativo à recolha, vão recordando o
tão grande de mim mesmo», expre - Maio de 1348, e recorda o dia fatal do sucessivo escoamento de anos, meses
são acabada e extrema do sofrimento enamoramento, quando a viu pela e dias. Lembrar as «claras, frescas e
do amante, e a famosa canção à Vir- primeira vez, na Igreja de Santa Cla- doces águas» tem razão de ser, por-
gem, «Virgem bela, que de sol ve - ra, em Avinhão, a 6 de Abril de 1327. que foi nelas que, numa determinada
tida». Embora avulte, na egunda Tudo leva a crer, portanto, que o ocasião, Laura banhou o eu pés.
parte, um tom elegíaco, as etiqueta poeta se tivesse de facto apaixonado ão que o elementos da atureza
através das quais o leitores vindouro por uma mulher real, que encontrou circundante ejam descrito com por-
vieram a designar cada uma dela , em em Avinhão, embora essa figura fosse menor; é que ele valem obretudo
vida e em morte, parecem-nos inade- transposta para a e fera lírica de pela re onâncias interiores que im-
quadas. Se no primeiro núcleo se acordo com os seus ideais estético- plicam.
pressente a morte de Laura, também -literários. Ao tema da atureza associa- e de
no segundo, a par do tema do doce Laura é retratada como uma mu- muito perto uma certa voluptuosi-
sonho com a amada morta a sua fi- lher loura, cujos dotes físicos são dade na dor. Petrarca escreveu
gura é evocada enquanto viva. enfatizados através de uma série de mesmo dois tratados em que faz a
Sabe-se que a mulher que inspirou imagens naturai : os eu cabelos ão apologia do afastamento dos vícios da
o Cancioneiro e chamava Laura, em- ouro, a sua tez neve, o olho dois sói mundanidade, De Vita Solitaria e De
bora as pesquisas tendentes a identifi- ou dua estrelas, as pestana ébano, Otio Religio a. Célebre o oneto «Só
car a sua figura civil não se tenham a face rosas, os lábios coral, os den- e pensativo, os mais deserto campo /
revelado, até à data, concludentes. tes marfim; mas a sua beleza é mani- vou medindo a pas o tardos e len-
Petrarca observa, a este propósito, a festamente uperior à da atureza, tos», cujo ritmo compas ado e faz
norma cortesane ca que pre creve o bem como à de uma érie de entida- um só com a própria gestualidade do

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PANORAMA DA LITERATURA UNlVERSAL I

o Combatecontrao Amor, obra atribuída


a BartoJomeu di Giovsnni, inspirado
na linha do tema do Cancioneiro,
de Petrsrcs. Londres, NationaJ GaJlery.

hesitações e as questões que, nestas cir-


cunstâncias, se colocam ao poeta são
múltiplas e dilacerantes. Mas o que é
mais surpreendente é a precisão com
que descreve os mais íntimos movi-
mentos da sua subjectividade e a luci-
dez com que analisa todos os meandros
do seu eu. «Porque cantando a dor se
desacerba», confessa Petrarca. O can-
to é, ao mesmo tempo, veículo de cla-
rificação interior e desabafo amoroso,
e é através dele que o homem se con-
fronta não só com os obstáculos que se
lhe colocam, entre religiosidade, fatali-
dade e racionalidade como também
consigo próprio. É esta a medida da
grandeza do homem moderno.
Assim, a figura de Laura adquire
um valor simbólico, que se sobrepõe a
qualquer tipo de questão acerca do
seu estatuto civil. Laura passa a en-
carnar todos os desafios, todas as
questões cósmicas, todas as possibili-
dades de apreensão do mundo real, e
o amor passa a ser, como até aí nunca
caminhante que percorre locai inós- pelo de taque conferido à presença fí- o fora, um sentimento e uma forma
pitos e com a sua amargura, e no qual sica de Laura. O amante encontra-se, de existir que ultrapassa em muito o
a comunhão entre o amante e o am- por isso, numa situação dilacerante: efémero da paixão: «Fez-me procurar
biente que o circunda é levada até às por um lado, não consegue adorar desertos países, feras e ladrões rapa-
suas últimas consequências. O prota- aquela que tanto ama como simples ces, híspido dumos, duras gentes e
gonista procura na Natureza conforto espírito desligado do corpo, mas, por costumes, e todos os erros que intri-
para a mágoa que o dilacera, mas ela outro, sabe que qualquer tipo de as- cam peregrinos montes, vales, palu-
interpreta e ecoa tão fielmente o seu piração mundana fará cair por terra a des, e mares e rios, mil laços por toda
pesar, que ainda o agudiza mais. integridade e, como tal, o carácter a parte armados.»
Laura ctistingue-se, logo à partida, exemplar da ua vivência amorosa.
das mulheres cantadas pelos anteces- E este o pano de fundo conceptual
sores de Petrarca, na medida em que a partir do qual poderemos compreen- BIBLIOGRAFIA
a sua presença, sem deixar de ser eva- der melhor um dos aspectos do estilo Umberto Bosco, Petrercs, Bari,
nescente, ganha um grau de materia- do Cancioneiro que mais celebrizou o Laterza, 1961 (2.' edição revista);
lidade que nem as inspiradoras da seu autor, o uso sistemático da antí- Ugo Dotti, Petrercs e la scoperta
poesia dos stilnovistas, nem a própria tese, do oxímoro, ou de outras figuras della conscienza moderna, Milão,
Beatriz, de Dante, alguma vez haviam de contraposição, para exprimir os es- FeltrineUi, 1978; Raffaele Ama-
ostentado. Da mesma feita, contudo, tados contractitórios e as incertezas ex- turo, Petrarca, Bari, Laterza, 1981;
Michele Feo, «Petrarca ovvero
envolve-a um halo de divindade que perienciadas pelo enamorado: «Não
I'avanguardia dei Trecento», in
dela faz uma presença angelical um encontro paz, nem estou em guerraz
Studi Petrarcheschi, I, 1983; Emest
emissário dos Céus na Terra. Estatuto e temo e espero; e ardo, e sou um geloj' Hatch Wilkins, Vita deI Perarca e
que tem como correlato as hesitações e vôo sobre o céu, e jazo em terra./ la formazione de] «Csnzoaiere»,
que se colocam ao poeta em relação e nada agarro, e todo o mundo abraço.» ao cuidado de Remo Cesarini, Mi-
à índole do amor que lhe dectica. (Versos certamente presentes na me- lão, Feltrinelli, 1985; José V. de
Sendo a mulher mensageira do mória de Camões quando escreve: Pina Martins, «Francesco Petrar-
Além o amor não poderá deixar de «Amor é um fogo que arde sem se ver1 ca premier des modernes», in Hu-
se erigir, à maneira stilnovista, em é ferida que dói e não se sentezé um menisme et Renaissance de I'Italie
exercício de aperfeiçoamento espiri- contentamento descontente.») au Portugal. Les deux regards de
tual; mas Petrarca associa a esse senti- Um dos grandes críticos de Petrarca, Jsnus, Lisboa-Paris, Fundação
mento, como os provençais, o impul- Ugo Dotti, atribui-lhe a chamada «des- Calouste Gulbenkian, 1989.
so do desejo, o que é corroborado coberta da consciência moderna». As

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