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VIAGEM AO BRASIL

nos anos de 1815 a 1817

COMPANHIA EDITORA NACIONAL


SÃO PAULO
,

VIAGEM AO BRASIL

,
BIBLIOTECA PEDAGÓGICA BRASILEIRA

SÉRIE 5.a
BRASILIANA VoL. 1
* (SÉRIE GRANDE FORMATO) *
Direção de
AMÉRICO JACOBINA LACOMBE

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- "' ~- ~~~ --------

MAXIMILIANO
(Pdncipe de WiecL-Neuwied)

VIAGEM AO BRASIL
Tradução de

EDGAR SÜSSEKIND DE MENDONÇA


e
FLÁVIO POPPE DE FIGUEIREDO

2.a EDIÇÃO
Refundida e anotada por
OLIVÉRIO PINTO

Príncipe Maximil ian o de Wied Neuwied


( ex . Bo/. do Museu Na cional, tomo VII) .

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COMPANHIA EDITORA NACIONAL
SÃO PAULO

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Advertência dos Editôres

EM 1931, quando começamos as publicações da "Brasiliana", uma


das cinco séries de que se compõe a Biblioteca Pedagógica Brasi-
leira, as primeiras dificuldades, - e não foram poucas as que tivemos
de enfrentar para levar por diante essa iniciativa, - não chegaram a
abalar-nos a confiança no seu êxito completo. A consciência profunda
de que êsse empreendimento corresponde a uma aspiração geral, e
estava destinado a prestar os maiores serviços à cultura brasileira,
deixava-nos tranqüilos sôbre o acolhimento com que mais dia menos
dia acabariam por consagrá-lo todos os que se dedicam aos estudos
nacionais. Mas a aceitação unânime que logrou a nossa biblioteca de
estudos brasileiros, o impulso que adquiriu, os rápidos progressos que
realizou e a repercussão que teve nos maiores centros de cultura exce-
deram, alguns anos depois, a nossa expectativa e nos permitiram apre-
ciar ao justo o alcance cultural dessa obra verdadeiramente fecunda
e o ardente interêsse do público pelos estudos e problemas nacionais.
Em 1937 já atingia a "Brasiliana", a primeira centena de volumes,
com a História Econômica do Bras.il, de RoBERTO SIMONSEN, tendo
Exemplar levado, portanto, cêrca de sete anos, para alcançar êsse alto grau de
desenvolvimento e de expansão. Era a primeira vez, no Brasil, 4
talvez na América, que subia a tão elevado número uma coleção de obras
sem aplicação didática e profissional. Em 1940, a série que já ultra-
passa 175 obras, completará, num período de menos de três anos, a
1958
segunda centena de volumes. Se se considerar, porém, que êsse
Obra executada nas oficinas da crescimento quantitativo extraordinário, exatamente calculado em 200
S!i.o Paulo Editora S/ A. - S!i.o Paulo, Brasil
VIII IX

volumes em menos de 10 anos, foi acompanhado de um constante alemão, as anotações lançadas ao pé da página ou no fim dos capítulos
progresso qualitativo, mediante critério cada vez mais rigoroso de por um dos nossos maiores especialistas em zoologia, e a nitidez das
seleção, ter-se-á a compreensão mais clara das perspectivas que abriu primorosas ilustrações do texto, mostram à evidência o empenho que
e do interêsse que despertou essa coleção de estudos brasileiros. Além pusemos não somente em conservar, na edição brasileira, todo o
das obras, de autores nacionais, publicadas pela primeira vez, incorpo- interêsse do original, mas em atualizar e enriquecer o texto primitivo
raram-se à Brasiliana numerosas reedições de livros fundamentais e de comentários seguros e oportunos. A nova série da coleção não
as primeiras edições em língua portuguêsa de obras antigas e modernas podia, pois, iniciar-se melhor e estamos certos de que o público brasi-
de viajantes e sábios estrangeiros. leiro lhe dispensará o mesmo acolhimento com que consagrou defini-
tivamente a iniciativa da "Brasiliana", animando-nos a novos empre-
í.sse êxito invulgar, que devemos à simpatia com que o público
endimentos em favor da cultura nacional.
nos acolheu a iniciativa e ao apoio franco e generoso que nos trou-
xeram os aplausos de uns e a colaboração valiosa de outros, nos animou
COMPANHIA EDITORA NACIONAL
a alargar o plano primitivo, criando na série "Brasiliana" uma secção
Rua dos Gusmõs, 639 - São Paulo
especial de obras em grande formato. A experiência nos havia mostrado
a inconveniência de publicar, no formato pequeno dos livros dessa
coletânea, certas obras que, pelo número e pela importância das
gravuras, seriam sacrificadas em volume de menores dimensões. As
gravuras, reduzidas em tamanho para reprodução em páginas dos
volumes comuns, perderiam sem dúvida, com a nitidez, parte de seu
interêsse pitoresco ou de seu valor documentário. Daí a resolução que
tomamos de publicar em volumes de formato maior essas obras que
exigem, pela sua natureza, melhor apresentação material, difícil e,
em certos casos, impossível de se obter em volumes de proporções
reduzidas. Essa iniciativa representa, pois, mais um esfôrço para corres-
ponder à confiança do público e facilitar a incorporação, na série
"Brasiliana", de obras do maior alcance e interêsse que dela ficariam
excluídas por uma dificuldade de ordem puramente material, fácil de
ser removida, sem quebrar a unidade orgânica de concepção e de plano
dessa coleção.
Inauguramos a série Brasiliana (formato grande) com a edição
brasileira da notável obra Viagem ao Brasil} por MAXIMILIANO}
Príncipe de Wied-Neuwied, já vertida para o inglês e o francês.
A quem já teve contato com essa obra de primeira ordem, pela leitura
do original alemão ou de qualquer das traduções, francesa ou inglêsa,
não poderá passar despercebido o interêsse particular que representa,
para os estudos sôbre o Brasil, a divulgação, em língua vernácula,
dêsse livro geralmente tão pouco conhecido. A tradução feita sôbre
a edição francesa e cuidadosamente revista de acôrdo com o original
PREFACIO DA l.a EDIÇÃO

"Uberall auf der Erde findet der gebildete Mensch


Unterhaltundg und Beschiiftigung, doch gebuhrt
unter allen Klassen der Menschen hierin dem
Naturforscher der Vorrang" ...
Reise nach Braftlien, 11, p. u.

N ESSA OPULENTA BRASILIANA legada pelos sábios estrangeiros que


nos visitaram no decurso do século passado, o livro da Viagem
ao Brasil, do Príncipe Maximiliano de Wied é, sem contestação possí-
vel, um dos mais preciosos e encantadores. Não temendo paralelo
com quaisquer outros, sob muitos aspectos até a todos se avantaja, recla-
mando para si pôsto de relêvo muito especial. Pelo menos, nenhum
com êle logrará rivalizar na estima dos que entre nós se dedicam aos
estudos zoológicos, pois que ainda hoje poderá servir de guia fiel e
ameno para o conhecimento da fauna das zonas percorridas pelo
douto e apaixonado viajante. Com efeito, às vagas indicações em que,
via de regra, se comprazem os relatos dos exploradores-naturalistas,
contrapõem-se no livro admirável do príncipe-zoólogo informações sem-
pre exatas e precisas, de extraordinário valor e permanente atuali-
dade. Aliando à mais intransigente probidade científica a bonomia e
serenidade de espírito do verdadeiro filósofo, nas descrições dos sêres
e quadros de nossa Natureza uma só vez não lhe escaparam inexpres-
sivos lugares comuns, exageros ou fantasias, deslizes tão freqüentes
nas obras dos melhores autores, e ainda muito menos conceitos tends.n-
ciosos ou deprimentes sôbre a gente e a terra alvo de sua curiosidt'"de
esclarecida. Referindo-se aos mamíferos ou aves que ia encontrando,
jamais se limitara Wied a escrever - "vi um bando de macacos",
"atirei num lindo papagaio" ou "esvoaçavam borboletas multicores"
- mas, invariàvelmente, preocupara-se em indicar de modo inequívoco
a espécie zoológica de que se tratava, apontando-lhe o nome pelo
qual poderá quase sempre ser rigorosamen e identificada, ou, quando
XII VIAGEM AO BRASIL PREFÁCIO DA 1. a EDIÇÃO XIII

se supunha diante de uma forma não descrita, ~m fornecer ~ súmul~ assim a grande floresta do Rio Doce, impiedosamente devastada para
dos caracteres necessários ao seu futuro reconhecimento. Mmtas espe- o fabrico do carvão, assim as matas do sul da Bahia, de cuja gran-
cies novas foram assim apresentadas pela primeira vez, ordinàriamente diosidade guardo uma das minhas mais vivas impressões de naturalista
em notas extratexto, fato absolutamente relevante para os sistematistas, em campanha. A fauna, acossada em todos os recantos, por tôda
e de todo excepcional nos trabalhos do gênero. Como se pressentisse parte perseguida, vê-se ameaçada de extermínio até nos últimos r~du­
ainda a importância capital que viria a adquirir, com o evolucionar da tos em que se refugiara. E as vozes que se levantam para profl1gar
ciência biológica, o estudo da distribuição geográfica em para~elis­ essa destruição imprevidente e bárbara, condenam-se a cassandrear
mo com as modificações morfológicas apresentadas pelas formas v1vas, esterilmente junto a uma turba delirante, atenta apenas à hora que
0 autor timbrara sempre em informar com escrupuloso cuidado os passa, e sequiosa de colhêr dela todos os frutos em seu exclus1vo
lugares de observação ou de procedência dos ex~m~l~es que co~igira. benefício.
E' desnecessário encarecer o valor dessa contnbmçao, até hoJe de Encerremos, porém, esta digressão inicial, passando ao verdadeiro
inestimável auxílio à tarefa dos continuadores. motivo por que se ousaram estas linhas.
Não obstante, porém, essa feição, por assim dizer especializada, O livro da viagem do Príncipe de Wied teve originàriamente,
- que admite ao lado da simples narrativa dos incidentes de viagem, a em língua alemã, duas edições simultâneas, ambas em dois
apresentação de novidades científicas, nunca resvalara o escritor a um tomos, datados de 1820 a 1821; uma, em grande formato in-4t~,
falar técnico capaz de tornar a matéria inabordável, ou menos atraente, acompanhada de magnífico atlas e aparentemente privativa dos subs-
ao leitor comum. Antes, pelo contrário, a singeleza do estilo, a fide- critores constantes da lista nela publicada; outra, de pequeno formato
lidade inflexível na exposição dos fatos, o realismo esplêndido no in-8vo e em caracteres góticos, desacompanhada de atlas e apenas
debuxo das cenas, a que realçam amiúde requintes de pormenor, verda- possuidora de duas cartas geográficas referentes à zona percorrida. Con-
deiros selos de autenticidade, a associação harmoniosa da curiosidade do temporâneamente, sob os olhos do autor, saiu também a lume pelo
sábio com a sensibilidade do esteta, tudo contribui para tornar a menos uma edição francesa, seguida de outras, em quase todos os
leitura da "Viagem" raro prazer intelectual, pelo menos para quantos idiomas cultos. Em português, não consta que haja aparecido alguma
o artificialismo da vida nos tempos atuais não haja embotado de todo tradução antes da presente, feita primitivamente da edição francesa
os sentimentos que prendem o homem à natureza, essa "única bíblia e depois pelo anotadoi· refundida perante texto da edição alemã, que
verdadeira" de que falou o poeta. Lê-lo é acompanhar o .viajante em procura reproduzir tão fielmente quanto possível. Restituíram-se então
sua longa e acidentada peregrinação através das matas vugens e dos ao texto trasladado muitos trechos que injustificáveis escrúpulos, ou
agrestes descampados, sentir com êle tôdas as emoções que o salteavam preocupações de brevidade, haviam feito suprimir na primeira, man-
a cada trecho da jornada, admirar a solene beleza dos quadros admi- tendo intacto tudo quanto pareceu indispensável para manter intactas
ràvelmente descritos, e até participar dos sustos, riscos e privações, a na obra as verdadeiras feições e todo o valor de documentol.
que não se poderia inevitàvelmente furtar. Transportando-nos men- No que tange aos inúmeros nomes vernáculos de animais e plan-
talmente a lugares primitivos e distantes, revivendo épocas que o pas- tas mencionadas pelo autor, matéria que a tradução francesa decidira
sado reveste com a inexprimível magia peculiar às coisas extintas, é sacrificar completamente, mas para nós de tão extraordinário interêsse,
como se muitas vêzes nos víssemos num mundo diferente, longe do tu- procurou-se tanto quanto possível respeitar a grafia do original. Apa-
multo e da vertigem da hora que passa; um repouso salutar alheia-nos recem elas em composição comum, não raro porém entre aspas, para
por instantes das tribulações costumeiras; o espírito, atento ao segredar que mais fàcilmente se destaquem das apelações técnicas latinas, com-
das vozes interiores, sente-se conduzir insensivelmente ao recolhi- postas em grifo, consoante praxe generalizada. A estas, mais ainda do
mento propício às reflexões transcendentes, e o pensamento alçando- que aos nomes vernáculos, houve timbre em mantê-las intactas. Assim,
se à meditação dos grandes problemas inacessíveis à sua peq~enez, foram-lhes conservadas peculiaridades chocantes muitas vêzes com as
curva-se perante o enigma impenetrável do Cosmos, testemunha Impas- atuais convenções da nomenclatura, como seja a inicial maiúscula
sível e eterna dêsse misterioso drama em que somos comparsas efême- nos nomes específicos de natureza substantiva, adotada sempre por
ros e inconscientes. Dos quadros e cenários pintados pelo naturalis- Wied, a exemplo do que praticara Lineu. Também não se supri-
ta, breve não existirá mais que pálida reminiscência; das imensas. e miram as vírgulas entre os nomes científicos e o autor por êles respon-
magníficas matas que êle vira e descrevera, há menos de século e me10,
o pouco que ainda resta encontra-se quase por tôda parte despojado dos (1) Aug. Salnt·Hilalre, Insuspeito para julga r, em carta a sua progenit~ra
colossos vegetais que nelas se exibiam em sua primitiva pujança; (datada de São Joã o dei Rei, fever. 24, de 1822), emite o mais honroso concetto
sôbre a veracidade de Wied (cf. trad . brasll. in "Brasiliana", vol. V, 2.• ed., 1988, p. 88).
XIV VIAGEM AO BRASIL PREFÁCIO DA l.a EDIÇÃO XV

sável. Isso explica as freqüentes discrepâncias com relação às notas Apesar de ter sido, como conceitua o autor há pouco referido,
do comentador, onde, é ocioso dizer, tôdas as normas nomenclaturais "excelente ornitologista para o seu tempo, reunindo ampla experiên-
foram cuidadosamente observadas. cia de campo a bom conhecimento técnico do assunto", o príncipe
Como já anteriormente foi assinalado, enriquecem o livro do Maximiliano não fôra muito afortunado com as formas que descreveu
Príncipe de Wied inúmeras notas marginais, versando quase sempre como novas. Contribuíram para isso várias circunstâncias, entre elas
matéria estritamente zoológica, ou remetendo a fontes bibliográficas. a rara liberalidade com que se apressara em comunicar a amigos e
Afora essas, juntara ainda o autor, em apêndice no final da obra, colegas os frutos de suas descobertas, dando margem a que se lhe
copiosa série de notas suplementares, ferindo muita vez assunto já antecipassem nas primeiras descrições. Assim acontecera com relação
tratado nas primeiras. Umas e outras, remetidas por asteriscos, inse- a muitos mamíferos, descritos por Kuhl 4 , e a número não menor de
rem-se na presente tradução sob o texto a que se reportam, assinaladas aves figuradas por Temminck em sua célebre coleção de estampas
estas pela abreviatura (Suplem.). Nenhuma confusão é também possí- coloridasll. Sem falar em Spix6, cujo livro é anterior aos Beitriige, em
vel entre as notas do original e as do comentador, para as quais se muitos casos, tiraram-lhe também a prioridade Lichtenstein7 e Vieillot8,
adotaram chamadas numéricas, em série ininterrupta. o primeiro antecipando-se-lhe na descrição das mesmas formas, e o
Uma palavra convém acrescentar sôbre estas últimas, pôsto que, segundo conferindo às de Azara nomes válidos perante as convenções
quase exclusivamente zoológicas, de algum modo destoam das que é do Código internacional de Nomenclatura zoológica9 •
comum acrescentarem-se às obras congêneres. Seu fito principal é A biografia do príncipe de Wied, tão interessante para os seus
auxilia[ o leitor a tirar do livro tudo quanto êle encerra de instrutivo admiradores, está ainda por escrever-se. Entre nós escasseiam inteira-
no capítulo da história natural, quer facilitando a identificação das mente a êsse respeito fontes informativas; o mais que sabemos consta
formas vegetais ou animais apontadas, quer indicando as publicações de um pequeno ensaio publicado por Afrânio do Amaral10 de par
mais recentes a que poderão recorrer os desejosos de melhor informar-se. com a fotografia reproduzida no presente volume.
Grande atenção foi prestada ainda às questões de nomenclatura,
tão irritantes para os que a elas não se acham afeitos, mas às vêzes OuvÉRIO PINTO
de todo indispensáveis à elucidação dos pontos de sistemática.
Há nos comentários, freqüentes referências aos Beitriige zur Natur-
geschichte von Brasilien, obra notável em que o Príncipe de Wied,
anos depois da publicação do seu relato de sua viagem, tratou, sob
critério estri~amente técnico, das formas animais que lhe fôra dado
observar2 • Sob o título de Abbildungen zur Naturgeschichte Brasilien's
(Weimar, 1823-31) publicara êle também esplêndida série de estam-
pas coloridas de animais, em regra extraordinàriamente fiéis e magnl.-
ficamente executadas.
Os exemplares zoológicos levados do Brasil por Maximiliano de
Wied na sua maioria ainda existem, cuidadosamente guardados pelo
American Museum of Natural History, de New-York, que em 1870
os adquirira, juntamente com tôda a coleção que àquele havia perten-
cido. Conquanto zoólogo, ou antes naturalista, na acepção mais lata
(4) HEINRICH KOHL, Beitrãge zur Zoologie und vergleichenden Anatomie, Frank-
do têrmo, o Príncipe de Wied foi mais que tudo apaixonado ornitolo- fort, sôbre o Meno (1820).
gista. O valor de sua obra nesta especialidade evidencia-se ao pri- (5) CoNRAD JAooB TEMMINCK e LAUGIER DE CHARTRoussE, Nouveau Récueil de
meiro exame, e tem sido atestado pelas autoridades mais competentes planchea coloriéea d'oiBeaux, semi-foi., 5 vol. (1820-1889).
(6) J. B. SPrx, Avium Species Novae quas in itinere per Brasiliam anniB 1817-1810
tais como J A. Allen, a quem se deve pormenorizado estudo crítico ;usau et auspiciiB Maximiliani Joaefi etc., vol. I (1824), vol. li (1825), Muncben.
sôbre os exemplares "tipos" das espécies criadas pelo grande viajante 3 • (7) VerzeichniBB der Doubletten des Zool. Mus. Berlin, Berlim, 1828.
(8) Artigos sôbre ornitologia no Nouveau Dictionnaire d'Histoire Naturelle, Paris,
Détervllle (1816-1819) •
. (2) Os Beitrãge compreendem quatro volumes editados em Welmar. dos quais (9) Dêsse código, Indispensável a todos quantos militam no campo da zoologia,
o pr1me1ro trata de Anflbios e Répteis, o segundo de Mamlferos e os dois restantes foi dada à estampa uma recente edição em vernáculo no tomo VII (1950) dos
de Aves, vindos a lume em datas diferentes: I (1825); 11 (1826); 111, 1.• parte Arquivos de Zoologia do Estado de Sdo Paulo, com Introdução e notas de Atr. do Amaral.
(1820); lll, 2.• parte (1881); IV, 1.• parte (1882); IV, 2.• parte (1833).
(10) AFRÂNIO oo AMARAL, Maximiliano, Pr,ncipe de Wieà, In Boletim do Museu
(8) Cf. Bulletin of American Museum of Natural Hiatory, vol. li, p. 209-276. Nacional, vol. VII, num. 8, págs. 186-208 (1981).
PREFÁCIO DA 2.a EDIÇÃO

O curto lapso de tempo em que se esgotara a primeira publicação


em vernáculo da "Viagem ao Brasil", do príncipe Maximiliano
de Wied-Neuwied, prova é de que não exageramos a importância
dêsse livro notável e o interêsse que iria êle despertar entre todos
brasileiros amantes do passado e da natureza de sua terra. Graças a
isso, muitos anos não se fi zeram necessários para que a desejada
oportunidade nos surgisse de trabalhar no preparo de uma outra
edição, em que fôssem eliminadas, tanto quanto possível, falhas e
omissões encontradas na primeira e, no que toca às notas elucidativas,
aproveitacf,as novas fontes de informação, só mais tarde postas ao
alcance do comentador.
Livre das injunções que da primeira vez eram de molde a nos
1·estringir a liberdade, tais e tantas são as alterações agora introduzidas,
que êrro não haveria em considerar a presente uma nova versão do
texto original, utilizada desta feita não mais a edição alemã in Bvo,
mas sim a de grande formato, tida, a justo título, por edição princeps.
Essa tarefa, escusa dizer, longe de ser enfadonha, trouxe-nos satisfação
tanto maior quanto nos propiciou ensejo para, em mais de um
caso, dar a palavra ao próprio autor que, primeiro crítico de sua
própria obra, nada menos de trinta anos após ter ela aparecido,
dedicara um opúsculo especial a "Quelques corrections indispensables
a la traduction française", só ultimamente para nós tornado acessível.l
Depois daí, puderam também os comentários beneficiar-se das aprecia-
ções, reparos e subsídios com que houveram por bem honrar-nos
pessoas competentes. Colaboração voluntária, essa última, a que
somos nimiamente gratos e, conosco, estamos certos, todos os admiradores
da obra do insigne viajar.
No que diz respeito à zoologia foram os lagartos, e especialmente
os ofídios, objeto de pormenorizada análise da parte de Afrânio do

(1) Convém saber que o referido opúsculo veio a !um~ três anos após a publicação
do trabalho similar, em alemão, a que adian•e se fará mais minuciosa referência (v. nota 73) :
XVIII VIAGEM AO BRASIL PREFÁCIO DA 2. a EDIÇÃO XIX

Amaral, reconhecida autoridade no assunto, permitindo, como se verá, senão ambos, conjuntamente. De seu próprio punho sabemos ser a
completar ou retificar muitas das notas referentes a êsses animais. grande maioria dos quadros que ilustram _as suas descrições, e ainda
Semelhantemente, esclarecimentos muito interessantes sôbre localidades muitos outros que não tiveram a oportuntdade de ser nelas aprovei-
do Rio de janeiro nos foram comunicados em carta por um distinto tados, por desnecessáriosa.
colaborador anônimo, filho da terra fluminense- Pio Lourenço Corrêa, As divergências que ressaltam da comparação do texto presente .co"!
de Araraquara, relembrando intermináveis cavacos sôbre história-na- 0 da edição anterior, não reclamam, de modo geral, nenhuma JUSh-
tural e dias proveitosos de sertão e mata, brindou-nos também com ficação especialj jaz todavia exceção a eliminação das iniciais
inteligentes comentários, inclusive lingüísticos, terreno predileto de maiúsculas nos nomes latinos de espécie, mesmo em se tratando de
suas lucubrações. substantivos em aposição ao nome genérico, pois pare c~ provado. q_ue
Em extenso ensaio biobibliográjico sôbre o nosso sábio viajante, ao proceder de modo diverso conformara-se o naturalzsta germantco
chama H. Baldus1 a atenção para a excelência da contribuição do com o que é de uso em seu idioma pátrio.
príncipe de Wied no terreno da especialidade em que é hoje um dos
mais profundos conhecedores, convencendo-nos de que na "Viagem ao São Paulo, 7 de Janeiro de 1956.
Brasil" não fica o etnógrafo aquém do zoologista. Opondo-se embora,
com severidade, a certas generalizações a· que se arriscara o naturalista, ÜLIVÉRIO M. DE OLIVEIRA PINTO
a ponto de qualificar de superficiais e pouco escrupulosas algumas de
suas informações, reconhece o autorizado crítico pertencer o príncipe
Maximiliano, no campo da etnologia brasileira, ao número dos maio-
res pesquisadores do século passado, ao lado de C.F.P. v. Martius,
K. v. den Stein e P. Ehrenreich. Num paralelo com o primeiro,
Wied lhe parece muito mais fiel à objetividade e, sobretudo, isento
do "sentimentalismo verbosd' que naquele parece censurar, como
contrário ao es,pírito científico, acabando por concordar em que o
"príncipe, em geral, revela uma compreensão que, mesmo em nossos
dias, é alcançada por poucos".
De resto, como se só em nossos dias os grandes méritos da obra
científica de Wied lograssem ser devidamente apreciados pelos seus
próprios compatriotas, de data recentíssima é o livro que na Alemanha
se publicou em sua homenagem 2, com o fim especial de salientar
a importância da contribuição etnográjica por êle prestada, e de dar
disso testemunho mediante inúmeros excertos tirados aos seus manus-
critos. A notícia biográfica de que se fizera preceder êsses excertos
lançam nova luz sôbre o pouco que sabíamos a respeito da persona-
lidade fascinante do autor da "Viagem", sem desfazer todavia em
nosso espírito a dúvida sôbre se nela seria· maior o pesquisador, ou
o artista. Dois modos de ser julgados por muitos antitéticos, ou inca-
pazes de se jazerem boa companhia, mas, na realida·de susceptlveis
de andarem juntos, com grande proveito para o patrimônio intelectual
da humanidade culta. Artista era·-o Wied na exata acepção do têrmo,
e antes de tudo pintor, manejando com igual habilidade, para atingir
os seus fins, ora a pena, ora o pincel, conforme as circunstâncias,

(1) HERBERT BALnus, "Maximiliano Prlncipe de Wled-Neuwled", Revista do Arquivo


Municipal, LXXIV, São Paulo 1941, pp. 288-291. (8) JOSEPH RoDER e IIERMANN TRIMBOBN, Maxinlilian Prinz ZU Wied. Unveri:Jf-
(2) Faz pouco tempo, por Iniciativa de H. Baldus, foram exibidos, em magnlflca fentlichte Bilder und Handschriften zur Vlllkerkunde Brasiliens, Ferd. DUmmlers Verlag,
exposição, na sala nobre do Museu Paulista, os originais de quase todos os desenhos Bonn, 1954.. São colaboradores Josepblne Huppertz, Udo Oberem e Karl Viktor Prlnz
e aquarelas que ainda nos restam do principe Maximiliano. zu Wied, autor êste último da biografia do prlncipe. ,
VIAGEM AO BRASIL
nos anos de 1815 a 1817
de
MAXIMILIANO
PRÍNCIPE DE WIED-NEUWIED

PRIMEIRO TOMO

Com uma carta da costa oriental do Brasil

FRANCFORT SOBRE O MENO, 1820


Impresso e editado por H. L. BRONNER

,
.
91 t I f t
lNDICE DO TOMO I
a o cfJ

. •
6 r af l l t en INTRODUÇÃO ... ... ·· ·· ····· ·· ··· ···· ······ ·· ··· ··· ············ .. .. .
PÁGS.
5
11
in btn ~Q~ttn t8a5 bi~ .a., I.

li.
TRAVESSIA DA INGLATERRA AO RIO DE JANEIRO

ESTADA NO RIO DE JANEIRO.


A cidade e seus arredores. Os índios de São Lourenço. Pre-
••• parativos para a viagem pelo interior . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

Ill. VIAGEM DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO.


9na~imiliAn Praia Grande. - São Gonçalves. - Rio Guaxindiba. - Serra
de Inuã. - Lago e Freguesia de Maricá. - Guarapina. -
tr i •t 1• !Bic•·!Jlr••itt Ponta Negra. - Saquarema. - Lago Araruama. - São Pedro
dos índios. - Cabo Frio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35

IV. VIAGEM DE CABO FRIO À VILA DE SÃo SALVADOR DOS CAMPOS


DOS GOITACÁS.
Campos Novos. - Rio e Vila de São João. - Rio das Ostras.
Cf r ft e r ~ a a b. - Fazenda de Tapebuçu. - Rio e Vila de Macaé. - Paulista.
- Curral de Batuba. - Barra do Furado. - Rio Bragança. -
Abadia de São Bento. - Vila de São Salvador, à margem
do Paraíba . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75

V. ESTADA A VILA DE SÃO SALVADOR E VISITA AOS PURIS EM SÃO


FIDÉLIS.
Vila de São Salvador. - Jornada a São Fidélis. - Os índios
Coroados. - Os Pu ris . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97

VI. VIAGEM DA VILA DE SÃO SALVADOR AO RIO ESPÍRITO SANTO.

Muribeca. - As hostilidades dos Puris. - Quartel das


Wfanffurr a. IDl. afbo. Barreiras - ltapemirim. - Vila ova de Benevente, à margem
do Iritiba. - Guaraparim ........ .... .................... 119
fJchecft ••• tci'lctl Ht !1. f . !rhur.
VIl. ESTADA NA CAPITA IA E VIAGEM AO R IO DoCE.

Vila Velha do Espírito Santo. - Cidade de Vitória. -


Barra do Jucu . - Araçatiba. - Coroaba. - Vila o~a de
Almeida. - Quartel do R iacho. - Rio Doce. - Linhares.
- Os Botocudos, inveterados inimigos .................... 141
4 VIAGEM AO BRASIL

VIII. VIAGEM DO RIO DoCE A CARAVELAS, AO RIO ALCOBAÇA E VOLTA


AO MORRO D'ARARA, À MARGEM DO MUCURI.

Quartel de Juparanã da Praia. - Rio e Barra de São Mateus.


- Mucuri. - Vila Viçosa. - Caravelas. - Ponte do Gentio, no
rio Alcobaça. - Estada neste último . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165

IX. EsTADA EM MORRO D'ARARA, MUCURI, VIÇOSA E CARAVELAS. ATÉ


A PARTIDA PARA BELMONTE.

Descrição da estada em Morro d'Arara. - Caçadas. - Os INTRODUÇÃO


mundéus. - Estada em Mucuri, Viçosa e Caravelas I!Jl

X. VIAGEM DE CARAVELAS AO RIO GRANDE DE BELMONTE.

Rio e Vila de Alcobaça. - Rio e Vila do Prado. - Os Pa-


tachós. - Os Machacalis. - Comechatiba. - Rio do Frade. Acontecimentos extraordinários, repetidas guerras, puseram duran-
- Trancoso. - Pôrto Seguro. - Santa Cruz. - Mogiquiçaba. te longos anos obstáculos insuperáveis ao desejo dos homens de
- Belmonte ......... .. ....... .... . ............. ..... .. . ... 209
percorrer as partes mais distantes do mundo, para ampliar os domí-
XI. ESTADA NO RIO GRANDE DE BELMONTE E ENTRE OS BOTOCUDOS. nios da história natural e da geografia; a Inglaterra, menos constran-
Quartel dos Arcos. - Os Botocudos. - Viagem ao Quartel gida por tais obstáculos, quase que, durante êsse período, foi a única
do Salto. - Volta ao Quartel dos Arcos. - Combate entre Boto- a contribuir para o enriquecimento dessas ciências. Entre os nume-
cudos. - Viagem a Caravelas. - Os Machacalis do Rio Prado. rosos benefícios que o restabelecimento da paz nos permite esperar,
- Volta a Belmonte ............................ . ........ 237 conta-se, para os homens animados pela paixão de realizar descobri-
mentos nos domínios da Natureza, a vantagem de poderem empre-
ender com sucesso importantes viagens e transmitir as riquezas que
forem encontrando àqueles de seus compatriotas presos ao solo pátrio
pela vocação, pela conveniência ou pela necessidade. Possa uma
sólida paz, tão ardentemente desejada, nos assegurar por longos anos
êsses inestimáveis benefícios!
O olhar dos naturalistas, por muitos anos, voltou-se principalmente
para o Brasil, cuja feliz situação prometia rica messe às pesquisas,
mas que, até agora, estêve tão rigorosamente fechado a quem quer
que quisesse percorrê-lo e estudá-lo.
Antigas relações de viagens, narrativas dos navegantes espanhóis
e portuguêses, informações mais minuciosas fornecidas pelos jesuítas,
finalmente as observações de Piso e Marcgrave 1 , constituíam tudo

(1) GEORGE MARCGRAVE, Historia Rerum naturalium Brasiliae, libri VIII, etc., Lug-
dunum Batavorum, 1648. Obra publicada juntamente com De Medicina BTasiliensi, libri
IV de Guil. Piso (num mesmo vol. e em seguida a esta última), sob os cuidados de
Joannes de Laet, autor também de multas obras, entre as quais merece referência
especial Novus orbis seu descriptio Indiae occidentalis, libri XVIII (Lugd. Batav., 1688,
foi.), onde são pela primeira vez descritos muitos animais da fauna neotrópica. O livro
de MARCGRAVE, cujo valor é desnecessário encarecer, domina tôda a literatura histórico-
natural referente ao Brasil, até o advento do século XIX, quando se inicia o grande ciclo
das explorações cientificas do nosso pais por sábios estrangeiros de tôdas as nações.
Da! os numerosos estudos a que tem dado lugar o homem e, multo particularmente,
a sua obra, de que já hoje existe, traduzida para o vernáculo e copiosamente anotada
por colaboradores especializados, primorosa edição facsimilar, dada a lume pelo Museu
Paulista (1942) sob os auspícios de Affonso d'E. Taunay autor êle próprio de extensa
noticia biográfica sôbre Marcgrave. Sôbre o assunto' consulte-se: RoDOLFO GARCIA,
Intr. Dicc. Histor., Geogr. e Ethnogr. do Brasil I, p. 863 e ss. (1922) ; ALFREDO DE
CARVALHo, Biblioteca Exótico-Brasileira, vol. III, p. 802 e ss. (1930); JuLIANO MoREIRA,
"Marcgrave e Piso" (na Rev. do Museu Paulista, XIV, p. 651 e ss., 1926).
6 VIAGEM AO BRASIL INTRODUÇÃO 7
quanto sabíamos a respeito dêsse país, descoberto há três séculos e bondade, encorajando-os e assistindo-os com os seus conselhos. Outros
tão interessante. Entretanto, êsse estado de coisas, que tanto difi- alemães, animados do mesmo zêlo, foram ao Brasil e certamente não
cultava os estudos sôbre o Brasil, sofreu uma feliz mudança. Acon- lhes faltarão ricos materiais para suas observações. Recomendados
tecimentos por demais conhecidos para que se necessite narrá-los 2 , ao Rei pelo Conde da Barca, ministro protetor das ciências, foi-lhes
levaram o monarca a transportar-se para êste belo pedaço de seus dada a permissão, não só de viajar sem obstáculos nas diferentes capi-
domínios, por êle ainda não vistos, e onde se encontravam as fontes tanias da monarquia, como também lhes fixaram generosamente uma
principais de suas riquezas, mudança de residência esta que deveria importância anual para se manterem5 ; deram-lhes passaportes conce-
ter uma extraordinária influência sôbre o Brasil. Efetivamente, o bidos em têrmos lisonjeiros, e as melhores cartas de recomendação
opressivo sistema dos entraves misteriosos foi abolido; a confiança para os capitães gerais das várias províncias.
se substituiu à inquietação, e os viajantes estrangeiros conseguiram Como o atual govêrno, com essas medidas esclarecidas e liberais,
permissão para penetrar nesse campo de descobertas. As intenções se afasta honrosamente do antigo sistema, em que o viajante, chega-
liberais de um rei esclarecido, apoiado em um ministério de valor, do ao Brasil, logo se via cuidadosamente cercado de soldados e vigiado!
não somente permitiram a entrada de estrangeiros no país, como enco- Em nome de meus compatriotas e de todos os viajantes europeus,
rajaram também suas pesquisas da forma mais generosa. Assim foi desejo que êsse solene testemunho exprima o reconhecimento de que
que o Sr. Mawe 3 foi contemplado com a permissão de ir visitar as me sinto possuído para com o monarca que tomou essas medidas libe-
minas de diamantes, de que a simples aproximação fôra até então inter- rais. Que inexprimível satisfação para o viajante longe de sua terra
dita aos estrangeiros, e que percorreu parte do território de Minas Gerais encontrar acolhida tão benévola e receber tratamento tão amistoso!
para estudar a sua mineralogia. Depois disso, alguns viajantes alemães Resulta também daí uma incalculável vantagem, de que participa
percorreram essa província. O Sr. d'Eschwege 4 , tenente-coronel do todo o mundo civilizado e culto.
corpo real de engenheiros em Vila-Rica, favorecido por uma perma- Quem quer que deseje percorrer utilmente o interior dêsse vasto
nência de muitos anos no Brasil, já deu a público interessantes memó- território, deve destinar a isso vários anos e dirigir os seus planos de
rias, e é com razão que devemos esperar importantes descobertas de acôrdo com tal determinação. Por exemplo, para alcançar Goiás e
homem tão profundamente competente. l.le mediu as altas cadeias Cuiabá, dois anos não são bastantes; que tempo, então, não será pre-
de montanhas de Minas Gerais, desenhou-lhes o perfil, e, em suas ciso para atravessar o Brasil até as fronteiras do Paraguai, até o rio
excursões mineralógicas, pesquisou os diferentes produtos dessas altas Uruguai, ou até os confins mais longínquos de Mato Grosso, onde
montanhas, onde êle, entre outras coisas, descobriu recentemente fon- uma pirâmide de mármore, talhada em Lisboa, marca os limites do
tes sulfurosas. Costuma acolher os viajantes estrangeiros com generosa reino na foz do Jaurul O território de Minas Gerais já foi percorrido
pelos Srs. Mawe e Eschwege; e se bem que o assunto não haja sido
(2) Refere-se o autor à transmigração da famllla real portuguêsa para o Brasil esgotado, é pelo menos em grande parte conhecido. Por conseguinte,
como conseqüência da Iminente invasão de Portugal pelas tropas napoleônlcas coman: à minha chegada ao Brasil, achei melhor orientar as minhas excursões
d_ada~ pelo general • Junot. O príncipe regente, com o grosso da esquadra fugitiva,
dtvldt~a que esta fora pelos temporais, arribou à Bahia em 28 de Janeiro de 1808; para a costa oriental do país, que, em grande parte, era inteiramente
mas Já em 7 de Março entrava D. João VI na baia de Guanabara, decidido a desconhecida ou que, até então, não tinha sido absolutamente des-
transformar o Brasil na sede da Monarquia, como complemento do ato (28 de janeiro)
pelo qual abrira os seus portos a tôdas as nações amigas. crita. Várias tribos dos primitivos habitantes dessas regiões ainda aí
. ( 8) J ?H>: MAWE, Travels in the interior of Brazü, particularv in the Gold. and. vivem em estado selvagem, sem terem sido perturbadas pelos europeus,
Dtamond. Dt.Strtets of that country etc., London, 1912. O autor, que estêve no Brasil
em 1807 e 1810, foi dos primeiros estrangeiros a ter permissão de visitar o nosso que gradualmente se vão espalhando em tôdas as direções. A alta
pais em caráter científico. Estêve em Santa Catarina, em São Paulo e principalmente cadeia de montanhas, desprovida de vegetação, do Brasil central, das
em Minas Gerais, ocupando-se quase exclusivamente de mineralogia. Deve-se-lhe noticia
vall~sa sôbre . os trabalhos de mineração do ouro em Jaraguá, perto da capital províncias de Minas Gerais, Goiás e Pernambuco, é separada da
paultsta. Mmto embora no relato de suas viagens nos dê, segundo a expressão de
Rod. GARCIA, "a Impressão bem nitida de que o mineralogista foi a Minas Gerais costa oriental por uma larga cintura de florestas virgens, que se esten-
tratar de seus interêsses, antes do que Investigar o que fôsse digno de atenção", a dem desde o Rio de Janeiro até as proximidade da baía de Todos
aparição de seu livro "constituiu quase um acontecimento mirfflco". Não admira, pois,
que. venha amiudadamente citado por WIEo, apesar de todos os defeitos com que o os Santos, isto é, por uma extensão de 11 graus de latitude, ou sejam
acmmaram alguns contemporâneos seus, Auguste Saint-Hilalre à frente dêles. (Cf. ALFR.
DE CARVALHO, op. clt., 111, p. 342).
(4) Dos trabalhos de EscnwEGE (Wilhelm Ludwig von), já publicados na época (5) Confirma-se o que diz o autor nesta passagem pelo conhecido exemplo de
em 9ue escr~vla WIED, é objeto de referência particular o intitulado Journal von seu patrício Fr. Sellow, em favor do qual, por decreto de 16 de Abril de 1820,
BraSllen (Wetmar, 1818, 2 vols.). A propósito, veja-se o titulo EscHWEGE na "Bibl. instituiu D. João VI uma_ pensão anual de 600 mil réis, "a fim de se ocupar em
Exótico-Brasileira" (vol. 11, p. 1ll) de ALFREDO OE CARVALHO e o cap. I da segunda al~as v111:gens e exploraçoes filosóficas por diversas partes do Brasil". Cf. M. Fleluss,
parte da presente obra. In Dicc. HtBt. Geogr. e Ethnogr. do Brasil, Introd. Ger. pág. 995 (1922).
8 VIAGEM AO BRASIL I TRODUÇÃO 9

198 léguas portuguêsas (165 milhas geográficas), ainda não ocupadas Silveira de Araújo, levantaram as costas desde Mucuri, São Mateus,
por colonos portuguêses. Até agora, só um pequeno número de cami- Viçosa e Caravelas até Pôrto Seguro e Santa Cruz.
nhos, acompanhando os rios que as atravessam, foram abertos com Tenho também que agradecer ao govêrno português ter êle, com
grande dificuldade. Nessas florestas é que os primitivos habitantes do seu modo de pensar esclarecido e liberal, permitido que eu apresentasse
país, fustigados de todos os lados, continuam a encontrar um seguro a meus compatriotas essa relação de minha viagem ao longo da
abrigo, e é aí que ainda se podem observar êsses povos em seu estado costa oriental, desde o 23° até o 13° grau de latitude sul. Dois
original. Como não haveria essa região de atrair de preferência um alemães, os srs. Freyreiss0 e Sellow7, que projetavam passar vários
viajante que não tinha em mente passar muitos anos nessa porção da anos percorrendo o Brasil, encontraram generoso apoio em Sua
zona tórrida? Majestade Rei de Portugal e do Brasil. Dificilmente um estrangeiro
Essas tribos indígenas, que habitam tais desertos, são desconhe- poderia penetrar no país com maiores vantagens do que êsses dois
cidas na Europa, com exceção talvez de Portugal. Os jesuítas, entre viajantes, pois êles conhecem a sua língua e os seus costumes, e as
outros Vasconcellos•, em suas "Notícias curiosas do Brasil", dividi- excursões que vêm realizando, já há muitos anos, os prepararam
ram todos os povos selvagens, tanto os que viviam ao longo da costa convenientemente para isso. Realizei em companhia dêles parte de
marítima como os que habitavam essas antigas florestas, em duas classes, minha viagem, havendo o Sr. Freyreiss me transmitido vários informes
a saber: os do litoral, que, um tanto civilizados pelos portuguêses, interessantes, pelos quais aqui lhe dou o testemunho de meu vivo
principalmente pelos jesuítas, eram chamados "índios mansos", e reconhecimento.
os das florestas e solidões do interior que, ainda bárbaros e O Sr. Freyreiss comunicar-me-á ainda as observações sôbre histó-
em parte desconhecidos, eram chamados "tapuias"; êstes últimos, tendo ria natural que fôr fazendo no prosseguimento de suas viagens, ava-
se mantido até agora em estado de cultura primitiva, merecem ser liando-se quanto me será agradável poder transmiti-las aos que amam
mais bem conhecidos. Os jesuítas e vários antigos viajantes, na ver- tais investigações.
dade, nos deram algumas notícias dessas regiões cobertas de florestas A presente narrativa deve, portanto, ser apenas considerada como
ininterruptas, porém muito imperfeitas e misturadas de incidentes fabu- a precursora de outras observações posteriores mais interessantes; novas
losos; não fornecem, também, pormenor algum referente à história
minúcias e pesquisas adicionais suprirão as deficiências que ocorrem
natural. Por isso, pouca coisa sabíamos, ou mesmo nada, sôbre os
no decorrer desta obra.
primitivos habitantes dessa região, que vivem ainda em estado nativo,
assim como sôbre as suas produções naturais, animadas e inanimadas. Sei quanto é temerário aventurar-me eu a publicar tais obser-
E, no entanto, quantas coisas novas e interessantes nessas paragens, vações, feitas durante uma viagem através duma parte da América
mormente para o botânico e o entomologistal Quando se deseja per- do Sul, depois do aparecimento da obra do nosso ilustre compatriota
corrê-las, é preciso de antemão resignar-se a gente a suportar uma
infinidade de aborrecimentos e obstáculos, tais como a falta de víveres (6) FREYREISS (Georg Willbelm) chegou ao Brasil em agôsto de 1813, recomendado
ao Sr. Lourenço Westin, cônsul da Suécia e Noruega no Rio de Janeiro, que lhe
para si e o pessoal que a acompanha, e pastagens para os animais de forneceu os meios necessários para fazer coleções de História Natural. Visitou
carga; dificuldades para transportar os objetos de história natural; primeiramente o interior de Minas Gerais, em companhia de Escbwege, fazendo importantes
observações sôbre os índios Coroados; jornadeava, portanto, independentemente de Wied,
chuvas de longa duração, umidade, e uma infinidade de outros contra- embora se tornasse seu companheiro em grande parte de sua viagem. Não mais deixou
o nosso pais, vindo a falecer no sul da Bahia, perto da Vila de Viçosa, onde foi
tempos. Porém, a mais penosa privação é a falta de mapas das sepultado (Cf. A. LoEFGREN, Rev. Hist. e Geour. de São Paulo, VI, 1901, p. 286).
regiões que se percorrem; o de Arrowsmith está cheio de erros; omite Deve-se-lhe, além de outros escritos, a obra Beitraeoe zur naheren Kenntnis der Kaiserthums
Brasiliens (Frankfurt, 1824) e a descoberta, na foz do Rio Pardo, do cu rioso morcêgo
rios importantes da costa oriental, e, pelo contrário, assinala-os em branco (Diclidu•·us albus Wied) denominado a principio, em sua homenagem, por Wied
Diclidurus treyreissii.
pontos onde não existem; dêsse modo, o melhor mapa do Brasil, até
(7) FRIEDRICH SELLOW (1789-1881) chegou ao Rio de Janeiro em meados de 1814,
então conhecido, é quase que inútil para os viajantes. Para remediar graças à interferência do Barão de Langsdorff, cônsul da Rússia, a quem o Brasil
essa falta, o govêrno acaba de ordenar que se faça um levantamento multo deve no campo das explorações naturallsticas. Tendo aceito o convite do príncipe
de Wied, ao cabo de alguns meses deixa todavia a sua companbla, resolvendo trabalhar
exato do litoral, a fim de se indicarem com precisão os perigos que por conta própria a interêsse do museu de Berlim, que dêle recebeu importantes coleções.
Não mais deixando o Brasil, dedicou-se especialmente à Botânica, sua especialidade,
ameaçam os navegantes. Essa útil tarefa já foi iniciada e hábeis ora à custa de instituições estrangeiras, ora mediante o auxilio financeiro a que já
oficiais de marinha, srs. José da Trindade, capitão-tenente, e Antônio se fêz menção em nota anterior. Após cêrca de 17 anos de viagens quase ininterruptas,
teye trágico fim,. morrend? afogado no Rio Doce (Cachoeira Escura), Estado de
Mmas Gerais. Sobre a VIda e os trabalhos de Sellow, extensa noticia poderá ser
procurada em Fr. HoEHNE, O Jardim Botéinico de São Paulo (1941, edição do Dept.
(*) Padre Simão de Vasconcellos. de Botânica da Secret. da Agricult. Industr. e Comere. de São Paulo).
10 VIAGEM AO BRASIL

Alexandre de Humboldt8 ! Mas a boa vontade pode suprir a infe-


rioridade dos recursos, e, se bem que não tenha a pretensão de apre-
sentar algo perfeito, ouso entretanto esperar que os estudiosos da
história natural, da geografia, dos hábitos e costumes de cada povo, I
encontrarão nas minhas informações contribuição não totalmente
despida de importância para os interêsses da ciência e da humanidade.
TRAVESSIA DA INGLATERRA
AO RIO DE JANEIRO

O Brasil, para o qual, há alguns anos, grande número de viajan-


tes tem convergido a atenção, apresenta a vantagem de estar separa-
do da Europa por um mar dos mais calmos. Se bem que as tempes-
tades sejam freqüentes no imenso Oceano, durante determinados meses,
mormente nos equinóxios, são entretanto menos perigosas nessas para-
gens do que nas próximas do cabo da Boa Esperança, cabo Hom etc.
Deixei Londres pela época em que comumente as tempestades
perdem a sua maior violência9; esperava, portanto, desfrutar uma
travessia calma e agradável. O nosso navio, o Janus, de 320 tonela-
das, saiu do Tâmisa por um belo tempo; e tivemos tanto maior con-
fiança no provérbio dos marinheiros inglêses - "evening red and
moming grey sign of a very fine day" 1o, quanto, na tarde de nossa
partida, o céu estava de uma côr vermelha magnífica. Uma brisa
fresca e favorável nos fêz chegar prontamente à embocadura do
Tâmisa; mas, à noite, mudou, e foi preciso ancorar.
Os primeiros dias de viagem são geralmente empregados em fazer
os arranjos a bordo e observar os objetos novos que nos cercam;
por isso passam muito depressa. Ao raiar o segu~do dia, t.udo pressa-
giava feliz viagem. Navegávamos em companhia de m~1tas em~ar­
cações de todos os tamanhos, que as velas enf.una.das faZiam deshz~r
rápidas sôbre a superfície das águas. Ao meiO-?Ia, essas agra?áveis
previsões se dissiparam, o vento tomou-se contráno e ~orno~ obn~ados
a bordejar. Passamos em frente de Margate, bomta Cidadezmha,
dobramos o cabo North Foreland, com suas penedias brancas e escar-
padas, entramos na Mancha e, à tarde, ancoramos em Downs, em frente
de Deal. Essa parte da costa inglêsa é inteiramente desabrigada;
nenhuma angra, nenhuma elevação, põem o navegante ao abrigo das
tempestades. Muitos navios estavam ancorados em frente de Deal;
entre os maiores viam-se os da carreira das índias e vários navios
(8) BAIÃo DE HnMBOLDT (Fried. Heinrich Alex. von ), célebre geógrafo e naturalista
alemão, nascido em 1769 e morto em 1859. De 1799 a 1804 empreendeu em companhia (9) Segundo a tradução francesa, a partida de Londres deu-se a 15 de maio
de Almé Bonpland uma grande expedição clentlfica à Améri ca Meridional , sem ter de 1815, Informe que não aparece na edição alemã e não se afigura multo exato.
podido contudo visitar o Brasil, cujo acesso lhe foi interditado pelas disposições draconianas Pelo menos, êle parece colidir com a passagem em que, mais adiante, conta·nos o
mterpostas pela côrte portuguêsa aos viajantes estrangeiros. Essa memorável expedição nosso viajante que a 14 de julho já eram passados mais de setenta dias que estava
foi relatada pelos viajantes numa série de publicações, enfelxadas sob o titulo V Oflage no mar. Assim a partida deveria ter·se dado nunca depois de 5 de maio.
aux régiorn~ équinoxiales du nouveau continent (181'-1827). ( lO) " Tarde rubra e manhã cinzenta, sinal de belo dia ".
12 VIAGEM AO BRASIL
TRAVESSIA DA INGLATERRA AO RIO DE JANEIRO 13
de guerra. Um navio de linha deu o sinal de recolher, transmi-
tido aos outros por um tiro de espingarda. Os ventos contrários novos e excelentes maçames. O grande número de navios que encon-
nos retiveram alguns dias nesse pôrto. O comandante aproveitou essa tramos no ancoradouro nos consolou de algum modo da perda de
p~rada para fazer provisão ~e carne fresca, verduras e alguns animais tempo que sofrêramos. Os grandes navios, todos êles, haviam amai-
VIVOS. A~ cabo de alguns d1as, o vento pareceu mais favorável, levan- nado os seus mastros de gávea e joanete, bem como as vêrgas, para
tamos. a ancora e dobramos o cabo South Foreland, acompanhados ficarem menos expostos ao furor da tempestade; os vasos de guerra
do bngue Albatross, comandado pelo capitão Harrinson. O vento, estavam amarrados a duas âncoras.
poré~, tornou-se de novo tão contrário e o tempo tão mau que foi Escapáramos do mais iminente perigo; mas, encerrados sempre
preciso regressar ao pôrto de Deal. Cresceu a fúria do vento; foi no navio, que as ondas varriam de modo terrível, levávamos uma
aumentado o _número dos homens que faziam quarto durante a noite; triste vida; por isso, sentimo-nos duplamente felizes quando a violên-
o céu se cobnu cada vez mais e não mais se distinguia o cabo South cia das vagas acalmou afinal e pudemos navegar em direção à nossa
Foreland de que estávamos tão perto. Finalmente, a tempestade arre- rota. Passamos em frente de Dungeness, avistamos os dois rochedos
bentou em :ôda a sua fúria; arriaram-se as vêrgas ("yards") para aumen- de Beachyhead, no promontório de Sussex, situado entre Hastings e
t~r a pro_:eçao contra ? _vento. ~sse mau tempo se prolongou por alguns Shoreham, onde em 1690 uma esquadra francesa bateu as esquadras
dias e nao deu ao VIaFnte, amda desacostumado ao mar, uma idéia combinadas da Inglaterra e da Holanda; avistamos ao meio-dia a
lisonjeira dos prazeres da vida de bordo. Uma tarde em que o vento cidade de Brigthelmstone, por abreviação Brighton, tão afamada pelos
pareceu mais favorável, um navio de guerra deu o sinal e todos os seus banhos de mar, e achamo-nos à vista da ilha de Wight. O mar
demais levantara~ âncora. Mas, ao cair da noite, novo perigo nos estava sereno, a lua iluminava o horizonte; a alegria reaparecera a bordo;
ameaçou; os navws navegavam a tão pequena distância uns dos outros as violas dos marinheiros se fizeram ouvir de novo; os jovens dan-
e se aproximavam tanto a todo instante, que foi preciso grande çaram, esquecendo as inquietações que os haviam atormentado.
pre:auçã? para não a?alroarem. Lá para a meia-noite, um grande Na manhã do dia 20 de maio, deixamos a ponta de Santa Cata-
naviO vew em nossa direção a todo pano; a escuridão não o deixou rina, na ilha de Wight, e em breve nos achamos em frente da ponta
ver, a não ser quando passou diante de nós, rente aos nossos bordos. de Portland, no Dorsetshire, donde se retira a bela pedra de cons-
O vento aumentava constantemente. trução empregada ~m Londres. Mas à noite levantou-se uma tem-
Ao raiar do dia a cena se modificou inteiramente. A atmosfera pestade tão rude que tivemos que bordejar para não ser atirados
sem nuvens p~recia serena e apenas velada por alguma neblina. contra os rochedos; uma de nossas velas foi estraçalhada pelo vento.
Durante todo dia, porém, a tempestade aumentou sempre de violência. Na manhã do dia seguinte, o mar forte e o vento pouco favorável nos
O nosso navio, inteiramente adernado, apenas se sustentava contra o forçaram a arribar em Torbay, pôrto seguro e amplo, rodeado por
vento com um pequeno número de velas; às dez horas da manhã, altos rochedos, fechado ao norte pela ponta de Portland e ao sul pelo
está~amos diante d~ .far_ol de Dungeness. Todos os passageiros se cabo Start Point. Pensamos então em aguardar o bom tempo, des-
senttam mal. Um silenciO completo reinava no salão de bordo; só o cansando dos reveses sofridos. Apenas dois navios que tinham o mesmo
interrompiam o sibilar do vento nas cordas e o assustador barulho destino que o nosso, fizeram sinais de que desejavam seguir a nossa
das <:ndas, batendo d~ encontro ao navio. O comandante fêz esforços esteira. Aproveitamos também o repouso para escrever cartas para
em vao para prossegUir a rota, mas teve que ceder e voltar ao ancora- nossa terra, antes de rumarmos para o oceano. À tarde dobramos
douro. Na volta, o vento nos favoreceu; percorremos em pouco o cabo Start Point, constituído por altas penedias recortadas, em
tempo e com pouco pano a mesma distância que leváramos a noite seguida às quais se estendem, como ao longo de tôda a costa do
inteira a percorrer. Um brigue que navegava conosco, viu-se cons- Devonshire, uma bela planície verdejante, cuja uniformidade é inter-
tantemente coberto pelas vagas; o nosso navio, tendo maior altura rompida pela côr amarela das flôres do Ulex, arbusto muito comum
acima das ondas, nos preservava em parte dêsse inconveniente. Che- nas duas margens da Mancha. Viam-se na superfície do mar penedias,
gamos à costa de Deal com tal violência que foi preciso arriar depressa contra as quais as vagas se vinham quebrar, espetáculo êsse que a
a _âncora par~ nã?. sermos atir~dos sôbre aquela, o que, porém, foi luz suave do sol poente vinha embelezar. Entrementes, o nosso navio
feit_.? com mUI~a dificuldade, pois o cabo correu com tanta rapidez que prosseguia em sua rota. Na manhã do dia seguinte, avistamos ao
a força _do atnto 9u~se que ir:flamou a :nadeira; já ia saindo fumaça, longe o forte Pendennis, perto de Falmouth, e deixamos a Mancha na
ma~ evitou-se o mcider:te atirando-se agua, e escapamos do perigo- altura do cabo Lizzard que se distingue pelos seus dois brancos faróis.
Felizmente o nosso navw, que era muito bom e sólido, tinha cabos As costas de Cornwall e do Devonshire não têm a coloração branca
das do North e South Foreland; apresentam uma côr avermelhada.

14 VIAGEM AO BRASIL TRAVESSIA DA INGLATERRA AO RIO DE JANEIRO 15

Achamo-nos enfim no imenso oceano; a terra desaparece~a inte~­ dos seus habitantes. Nos flancos das montanhas, que as nuvens não
ramente dos nossos olhos; o cabo Landsend, a ponta ma1s men- cobriam, viam-se verdes pastagens como nos Alpes, e grupos altos e
dional da Inglaterra, se furta à nossa vista no dia 22, ao meio-dia. cerrados de árvores ensombravam as pequeninas casas. Essa bela ilha
Depois ?aí, cessa tôda distração causada pelas coisas circundantes; desfruta do melhor clima; os vegetais da zona tórrida crescem aí
só se avistam o céu e o mar; todos procuram se distrair escrevendo; maravilhosamente; o calor forte se combina com grande umidade,
felizes os que fizeram uma ampla provisão de bons livros! e as chuvas são freqüentes, pois as torrentes a que deram origem sul-
cara_m profun?amente os rochedos escarpados da costa- Oitenta mil
Nada nos sucedeu de notável até Madeira, que avistamos no
h~bitantes retuam a sua subsistência da cultura da vinha, que dá um
décimo dia de viagem. Atiraram-se anzóis e outros instrumentos de
vmho procurado por todos, bem como da laranja, do limão, da banana
pesca, mas só se pescaram Trigla gurnardus11 , peixe excelente para
e de outros frutos excelentes.
comer. Bandos de golfinhos (Delphinus phocaena, Linn.) 12 nos acom-
Como não pretendíamos visitar Funchal, capital da ilha, conti-
panhavam de longe, principalmente quando o mar estava um tanto
nuamos a nossa viagem com um vento fresco, e cedo perdemos a ilha
agitado; atiraram sôbre êles, mas sem matar nenhum. Entre os nos-
de vista. Os v_entos alísios nos fizer~m chegar, ràpidamente ao trópico.
sos companheiros mais constantes achava-se particularmente a pequena
Bandos de peixes voadores se erguiam de ambos os lados do navio,
procelária preta (Procellaria pelagica), que os portuguêses chamam
acD:na da superfície das águas; quanto mais próximo do equador,
de "alma de mestre" 13 . Os marinheiros, que consideram como indício
ma1s numer~sos se tornam; são mais raros antes de chegar ao trópico.
de tempestade próxima a chegada de um bando numeroso dessas aves
A 6 de JUnho, cruzamos o trópico de Câncer, divertindo-nos então
em volta do navio, não a viam com satisfação.
com a variedade de moluscos que se mostravam à nossa vista. Aos
Um "cutter" da marinha real da Inglaterra nos anunciou que o 22°~ 7' d~ latitude norte avistam~s a primeira fisália (Physalia), molusco
seu país havia declarado guerra à França; convocaram imediatamente mmto smgular• 14 que a part1r dêsse ponto se mostra sempre em
os ~ossos marinheiros, mas, entretanto, nenhum foi tomado para o maior q~antidade, à medida que se avança para o equador, de sorte
serv1ço do estado. Essa notícia nos causou vivas inquietações, sobretudo que, mais ~o su_l, se vêem às centenas cada dia. Vários viajantes já
quando, passando em frente da costa da Espanha, vimos um navio t~ataram_ dess.e smgular produto da natureza e por isso senti um par-
se dirigir para nós. Mas os nossos alarmes logo se dissiparam; trata- ticular mteresse em observá-lo com atenção. A parte mais volu-
va-se de um navio inglês; êle se incumbiu de levar as nossas cartas mosa. do animal é uma vesícula transparente cheia de ar, que flutua
para a Europa. em nma d'água, e que parece exclusivamente destinada a sustentar a
No dia 1. 0 de junho, ao meio-dia, uma terra elevada e algumas p~rte superior nessa posição; a parte inferior apresenta oito a nove
montanhas se mostraram confusamente ao longe; era a grande ilha feixes de longos tentáculos gelatinosos que se prendem às raízes por
da Madeira. As seis horas da tarde, estávamos diante de Ponta tubérculos gelatinosos, curtos e espessos, formando uma massa na base
Parga, a sua ponta ocidental, que contornamos com vento fresco; o da vesícula. A vida do animal reside nessa parte do corpo: os ten-
mar estava coberto de procelárias, gaivotas e outras aves marinhas. O táculos são irritáveis, a vesícula não; êles se alongam, se contraem,
aspecto da Madeira é imponente, visto de qualquer lado; essa ilha seguram a prêsa, e são cobertos por uma infinidade de ventosas. A
se apre~entava aos nossos olhos como um rochedo imenso cujos cimos vesícula não parece sujeita a nenhuma variação; não consegui des-
se perdiam nas nuvens. Suas costas, escarpadas e negras, são recortadas
de vales e gargantas fundas; por tôda parte, as vinhas ostentam os (* ) Ver sôbre êsse molusco a nota do Sr. Tllesius, no volume terceiro da Viagem
seus pâmpanos verdejantes, entre os quais se elevam as casas brancas do Cap. Krusenstern em redor do mundo, edição em alemão, p. 1 f1 I08.
(H) Convém lembrar que a organização das fisálias (Phvsalia), animais perten-
centes aos Celenterados da atual classificação, na da tem que ver com a dos Moluscos
(11) Nos mares inglêses é a espécie comum do numeroso gênero Trigla. O nome de que já os havia separado, dentro da sua vasta "classe " dos Vermes o própri~
gurnardus é simples latinização de gurnard, palavra inglêsa oriunda de grognard, que Linneu; ela é extraordinàriamente mais simples e tem como traço mais ~racterlstlco
significa grunhldor e faz alusão ao hábito que têm êsses peixes de emitir singular a Inexistência de um~~; _cavidade corpórea vlsceral (celoma), da qual faz as vêzes, até
e caracterlstico ruldo, qua ndo seguros pelos pescadores, ou mesmo debaixo d'água. certo ponto, a própria cavidade digestiva. Dentro dos Celentéreos as fisá.lias ou
No Brasil os seus representantes mais afins são o "peixe-cabra " Prionotus beani e a "caravelas", . pertencem à subdivisão dos Sifonótoros, sêres formados por colÔnias
" cabrinba ", P. capella. errantes de mdivlduos elementares, à abertura de cujas cavidades gástricas corresponde
(I2) Phocaena phocaena (Linn.) na atual nomenclatura. Cumpre não confundir o qu~ descreve lmprôpriamente '\:YIED com o nome de ventosas. Mesmo lançadas
esta espécie, desconhecida no Mediterrâneo, com o verdadeiro golfinho, Delphinus delphiB à praia ~elas ondas, as carav_!!las sao de contacto temlvel, pela doloroslssima queimadura
Llnn., q_ue ocor~e naquele mar e tão Importante papel representou na antiga literatura que ocasiOnam com os órgaos microscópicos de defesa (nematocistos), de que são
greco-latma. Nao obstante, há no gênero outra espécie, Ph. relicta Abel, privativa do munidos os. seus tegumentos; por um fenômeno singular (anafilaxia) a vitima de um
primeiro aCidente torna-se multo mais senslvel aos ulteriores.
Mar Negro.
( 13) Não se confundam as "procelárias" (em alemão "Sturmvõgel", francês .. . 0 padre DUTERTRE (Hist. gén. des Antilles, 1667-91, 4 vol.) e LEBLOND (Voy. au:-e
Antilles), referidos por ALFR. FREDOL (Le monde de la mer 8.• ed. 188I p 190)
" oiseaux des tempêtes ") com as gaivotas, que são também ordlnàriamente aves oceânicas, deixaram dramática descrição dos efeitos da caravela. ' ' ' • '
mas pertencem a famllla perfeitamente distinta (Laridae).

16 VIAGEM AO BRASIL

cobrir aí o orifício de nenhum vaso. Com a morte do animal, ela não


murcha, e, mergulhada em espírito de vinho, conserva mesmo a sua
forma. A sua faculdade de mover-se é fraca; contrai-se em forma
de crescente; curva também as suas duas extremidades para baixo
e para cima; com êsses movimentos ergue-se de novo quando virado
pela onda. Pode-se tocar a vesícula sem sentir qualquer sensação de
dor; os tentáculos, porém, produzem uma comichão violenta. Os
portuguêses chamam êsse singular molusco "água viva" ou "cara-
vela", os inglêses "portuguese man of war"; os franceses "galere".
Mais próximos do equador, diminui o número dêsses moluscos e,
pelo contrário, aumenta o de Medusa pelagica 15 • Aves marinhas voa-
vam às vêzes em tôrno de nós. O nosso segundo comandante pegou
com as mãos, depois de uma rajada de vento, uma andorinha do mar
(Sterna stolida, Linn-), que, cansada, veio pousar a bordo; vimos
também fragatas (Pelecanus aquilus, Linn-)1 6 que haviam sido trazidas
dos rochedos vizinhos.
Enquanto atravessávamos a parte norte da zona tórrida, o tempo
se conservara geralmente belo; mas, depois, o calor que foi conti-
nuamente aumentando, tornou-se muito incômodo. Nuvens sombrias,
indícios de chuva e tempestade, se elevavam isoladas no horizonte;
espalhavam-se e aproximavam-se ràpidamente, trazendo uma borrasca
violenta e uma forte chuvarada, que num instante inundou o navio;
mas, comumente, o sol brilhava de novo meia hora depois. Quando
começou a se alterar nossa provisão de água potável, essas pancadas
de chuva foram recebidas com prazer. Os navegantes imprudentes
que, ao se aproximar semelhante meteoro, não cerram as suas velas
superiores, têm sofrido muito, com freqüência, dessas rajadas fortes
e bruscas, ou delas sido vítimas. O nosso comandante nos contou
que um acidente dêsse gênero se dera pouco tempo antes com um
navio, que soçobrava. O nosso teve uma vela rasgada; como se
tomavam sempre as necessárias providências, não sofreu outra avaria.
A 22 de junho, o "Janus", transpôs a linha. Não foram esqueci-
das as cerimônias habituais em semelhante ocasião. Ao sul do
equador, o tempo piorou. Chuvas de pouca duração, acompanhadas
de violentas rajadas, eram freqüentes; o mar se mostrava muitas
vêzes agitado; viam-se com maior freqüência procelárias, golfinhos,
toninhas e outros cetáceos maiores.
Cruzamos o equador aos 28°25' de longitude oeste de Greenwich,
porquanto, navegando antes nas paragens mais próximas da costa da

(l~) As medusas, também Celenterados, têm a forma caracterlstica de guarda-chuva


aberto; são ordinàriamente incolores e transparentes, e locomovem-se por movimentos
rltmicos dos bordos da umbrela.
(16) As "fragatas", notáveis pelo poder do vôo, formam um gênero de grandes
aves marinhas quase cosmopolita. Sabe-se hoje que a espécie nomeada por Linneu é
privativa dos mares da ilha Ascensão; nas costas meridionais do Brasil, a forma
que existe é Fregata magni/icens rothschildi Mathews, vulgarmente conhecida pelos nomes
de "tesourão ", "alcatraz" e "joão grande ". Na Bahia chamam-na "grapirá,, "pássaro
do sul", etc. (cf. nota 368).
TRAVESSIA DA I TGLATERRA AO RIO DE JANEIRO 17

Africa, onde apanhamos muita chuva e ventania, havíamos aproado,


para delas nos afastarmos, em direção oeste; o que nos levou para
as correntes marinhas que nos fizeram progredir em direção da costa
da América.
Na manhã de 27 de junho, durante o almôço, anunciou-se terra.
Todos acorreram ao tombadilho para contemplar a costa do Brasil,
que emergia do seio do Oceano. Surgiram logo, na superfície das
ondas, duas espécies de sargaços (Fucus) e numerosos indícios de terra
próxima; cruzamos, enfim, com uma embarcação de pescadores, carre-
gando três homens; chamam a essas embarcações "jangadas"; são
feitas de cinco a seis troncos de uma madeira leve que no Brasil
se denomina "pau de jangada". Koster nos deu uma estampa da
jangada em sua viagem ao Brasil 17 • Essas jangadas navegam com
grande segurança no mar; são empregadas na pesca ou no transpor-
te de diferentes coisas ao longo do litoral; andam muito depressa,
impelidas por uma grande vela latina, prêsa a um mastro curto. Tería-
mos com prazer aproveitado a ocasião, após uma longa travessia,
de conseguir peixe fresco; mas não valia a pena, para satisfazer êsse
desejo, correr atrás dos pescadores. Fizemos rumo para a costa; apro-
ximamo-nos dela o bastante para, ao meio-dia, reconhecer que está-
vamos próximos de Goiana ou Paraíba do Norte, na capitania de
Pernambuco. Tão perto da terra como estávamos, a fôrça do vento
teria podido, durante a noite, nos fazer correr sério perigo: feliz-
mente, pudemos virar de bordo a tempo, e voltar ao largo. À noite,
caiu chuva torrencial acompanhada de vento, que nos forçou a bordejar
durante alguns dias, quase sem mudar de posição. O vento soprava
furiosamente; o navio jogava com violência. A chuva não cessava;
quase não nos achávamos em segurança em nossos leitos. Os mari-
nheiros eram os que mais sofriam com a umidade; o perigo que
corríamos os obrigava a estarem dia e noite no passadiço; o "rhum"
a custo mantinha-lhes a coragem e a boa vontade. O aspecto do mar,
nas noites escuras, tempestuosas e chuvosas, era assustador; as vagas
barulhentas, alteando-se, vinham bater de encontro ao navio; a
imensa superfície das águas parecia em fogo; milhares de pontos
luminosos, faixas e largos traços de luz brilhavam de todos os lados,
variando de forma e posição a todo instante 18 . Essa luz semelha

(17) KosTER (Henry), Tmvels in Brazil (London, 1816, vol. de ~01 págs. com
mapas e estampas coloridas). O autor, natural de Portugal e filho de pais inglêses,
estêve uma primeira vez no Brasil, em 1810, permanecendo cêrca de ano e melo
entre nós e visitando vários Estados do nordeste. Em fins de 1811 voltou novamente ao
Brasil, estabelecendo-se com propriedade agrícola em Pernambuco (Itamaracá), donde
só saiu em princípios de 181~. Seu livro teve várias edições e constitui documento dos
mais preciosos sôbre a situação daquela parte do Brasil, no comêço do século passado.
Cf. ALFR. DE CARVALHo, op. cit., UI, p. 104 e ss.
(18) A fosforescência do mar é ocasionada ordinàriamente pela presença de
Hnimálculos microscópicos (Protozoários Cistoflagelados), dos quais o mais conhecido é
a Notiluca miliaris Suriray. A luminosidade é porém fenômeno muito difundido nos
animais marinhos, mormente nas grandes profundidades, onde não penetra a luz do dia.
' os vegetais e animais em putrefação o fenômeno deve-se à presença de diferentes
bactérias, ou mais comumente, de cogumelos.
18 VIAGEM AO BRASIL TRAVESSIA DA INGLATERRA AO RIO DE JANEIRO 19

muito a que se produz na madeira apodrecida quando molhada; é resplandeciam com brilho singular, era muito agradável. Os indí-
um fenômeno observado freqüentemente nas florestas. Durante cios da proximidade de terra aumentavam de momento em momen-
essas noites escuras e tempestuosas, a gente põe sua esperança no dia to: encontravam-se sargaços, plantas, troncos de árvores, tôda
seguinte, mas, por muitas vêzes, o dia raiou sem que melhorássemos espécie de coisas semelhantes; finalmente, no dia 14, ao meio-
de situação. _Eram tão nublados e escuros como as noites que os dia, vimos de novo a costa e reconhecemos distintamente à nossa
precediam; o pessoal de bordo não podia esconder os seus temores; frente o Cabo Frio, diante do qual existe uma ilhota rochosa. A
receavam uma tempestade mais violenta. Cada vez que ela parecia alegria se manifestou em todos; estávamos no mar fazia mais de
se anunciar, faziam-se os necessários preparativos para lhe resistir setenta dias, e só nos faltava fazer uma bem curta travessia para che-
à violência, preparativos que causavam inquietações e alarmes extre- garmos ao Rio de Janeiro.
mos aos passageiros. Havíamos cometido o grande êrro de muito nos Pela manhã, o J anus dobrou o Cabo Frio com uma brisa fresca
aproximarmos da costa nas vizinhanças de Pernambuco, pois, durante e favorável; no dia 15 vimos de perto a costa meridional do Brasil,
o inverno da zona tórrida, reinam tempestades em tais paragens. O pois aquêle cabo separa-a da costa oriental. O vento agitava forte-
comandante fêz o seu rumo, tanto quanto lhe permitia o vento, para mente o mar, que, semelhantemente ao das costas da Europa, tomara
alcançar o mar alto, mas se viu constantemente na obrigação de bor- a coloração verde-claro que tem perto de terra. A vista das montanhas
dejar, e, por conseguinte, não avançou muito. Enfim, oito dias depois do Brasil, notáveis pela beleza e variedade de suas formas, pelo ver-
de têrmos avistado terra pela primeira vez, o vento melhorou um dor de suas soberbas matas, iluminadas nessa hora da maneira mais
pouco e permitiu-nos tomar uma rota mais direta- Media-se com variada, pela sua extensão ininterrupta ao longo da costa, causava-
freqüência a fôrça das correntes, precaução necessária para quem navega nos prazer e entusiasmo extraordinários; figurávamos em nossa ima-
tão próximo da costa. Grandes aves marinhas, gaivotas ou procelárias, ginação as cenas novas que iríamos contemplar, e aguardávamos com
pairavam isoladamente sôbre nós, sem que pudéssemos atirar em impaciência a hora do desembarque. As montanhas selvagens em
nenhuma, enquanto as fisálias circundavam o navio, a cuja frente os direção às quais fazíamos vela, apresentam as mais diferentes formas;
peixes-voadores fendiam o ar, e grandes cetáceos jorravam água pelos são muitas vêzes cônicas ou piramidais. As nuvens cobriam-lhes
seus respiradouroslo. os cimos e uma névoa ligeira lhes emprestava um colorido suave
No dia 8 de julho, ao meio-dia, avistamos de novo a costa do muito agradável. Ao meio-dia, por uma brisa muito fraca, o
Brasil nas vizinhanças da baía de Todos os Santos. Ela se nos mos- termômetro à sombra se manteve a 19° Réaumur; desceu logo a 17 ° ,
trava sob o aspecto de lindas montanhas, acima das quais passavam numa calmaria que durou até à noite; um pouco mais tarde, o
nuvens espêssas. Via-se a chuva cair sôbre as praias e, no mar, supor- vento se tornou bastante forte, o navio se moveu ràpidamente, e na
távamos constantemente as alternativas de temporal, chuvas e ventos manhã do dia seguinte achamo-nos em frente da entrada da baía do
contrários. Como em tôdas as tardes, o vento soprava de terra; apro- Rio de Janeiro.
ximávamo-nos da costa de dia e, à noite, ganhávamos o largo: e A calmaria que sobreveio em seguida nos obrigou a ficar no mesmo
dessa forma nunca perdíamos a terra de vista. lugar, enquanto que a agitação do mar nos sacudia rudemente. Está-
No dia 10, o tempo se mostrou bom e o vento favorável. Passa- vamos perto da barra que conduz à real cidade do Rio de Janeiro;
mos os perigosos escolhos chamados Abrolhos ("abra os olhos"); assim, uma porção de pequenas ilhas, algumas surpreendendo pelas suas
pudemos tomar rumo direto a cabo Frio. A 22°23' de latitude sul, formas estranhas, erguem-se ali da superfície das águas, unindo-se
observei uma outra espécie de caravela (Physalia) 20 , muito menor do à massa das montanhas ao longe, o que constitui uma perspectiva
que a espécie comum e sem a coloração vermelha; é, sem dúvida, a muito pitoresca.
que Bosc em sua "Histoire naturelle des Vers" figura na estampa 19. A vinheta que acompanha o segundo capítulo 21 dá dela uma ima-
:ltsse animal apresentava-se em grande número. O calor do meio-dia gem muito verdadeira: os raios de sol refletem-se sôbre o espelho
nessas paragens se tornava cada dia mais forte: bastava uma xícara calmo do mar, que aparece ladeado pela cercadura pitoresca das mon-
de chá para provocar uma abundante transpiração. Em compensação, tanhas. Entre estas, à esquerda, vê-se o Pão de Açúcar, assim deno-
a temperatura das noites, durante as quais a lua brilhava e as estrêlas minado por causa de sua forma, enquanto à direita proemir1a a ponta

(19) Nos grandes cetáceos, como a baleia, a umidade do ar expirado pelas (21) Na edição alemã in-Bvo, com a qual foi conferida a presente tradução,
narinas, situadas na parte superior do focinho, produz, condensando-se, um jato de remete-se . freq_tJ.entemente para as vinhetas_ que ornam o comêço dos capltulos na
vapor, visível a grande distância. s;ran~e edição m-4to. Julgou-se de vantagem nao suprimir essas remissões, não só por maior
(20) Em nota inserta na edição francesa de sua obra, informa Wied que " a f1dehdade ao texto do livro, como pelo interêsse com que serão, provàvelmente,
recebidas pelos estudiosos.
segunda Physalia foi figurada por Lesson, no Atlas da V ovaue de la Ooquille" .
20 VIAGEM AO BRASIL TRAVESSIA DA INGLATERRA AO RIO DE JANEIRO 21
de terra em que fica o forte de Santa Cruz, pequeno, mas guarnecido Nossos marinheiros se viram forçados a trabalhar vigorosamente contra
de numerosos canhões. a fôrça das ondas, sem saber de que lado se achava o Janus. Ajudá-
Às 11 horas, como a brisa se tivesse levantado muito suavemente, vamo-nos o quanto podíamos, esvaziando ainda por duas vêzes o bote
o navio pôs-se a andar de forma apenas perceptível, embora esti- com as nossas botinas; finalmente, tivemos a felicidade de avistar por
vesse com todo o seu pano sôlto. Resolvemos aproveitar essa inação sôbre as ondas o tôpo dos mastros do nosso navio. Depois de muitos
para visitar as ilhotas mais próximas, e travar assim conhecimento esforços e fadigas, o alcançamos : estavam inquietos por nossa chegada.
com a terra do Brasil. O comandante fêz arriar um bote, e levou . Pouco caminhávamos, devido à fraqueza do vento, mas, mesmo
consigo alguns marinheiros; três passageiros, entre os quais eu, o assim, ancoramos à tarde no canal da entrada da baía. Essa entrada
acompanharam. Avançávamos sem perceber que a água entrava ràpi- é imponente e muitíssimo pitoresca. De cada lado se erguem penedos
damente no bote; por ter estado suspenso na pôpa do navio, o calor ásperos e gigantescos, semelhantes aos da Suíça, terminando em cumes
do sol abrira-lhe as juntas. Depois de têrmos penosamente trabalhado arredondados ou pontudos, alguns com denominações especiais; duas
para vencer as vagas, vimo-nos forçados a esvaziar o barco da água que pontas juntas têm o nome de "Dois Irmãos"; uma outra recebeu
o enchia; mas, como nos faltavam os instrumentos necessários para isso, dos inglêses o de "Parrotbeak" ("bico de papagaio"). Mais ao longe
tivemos que nos servir de nossas botinas. A altura das vagas nos se vê o Corcovado, que os habitantes do Rio galgam para desfrutar
escondia a vista do navio; por fim, depois de esvaziarmos duas vêzes
do soberbo panorama de suas cercanias. Depois de ancorados a cêrca
o bote, chegamos felizmente à "Ilha Rasa", assim denominada para
de uma milha inglêsa do forte, nossas vistas se dirigiram para a natu-
distingui-la da "Ilha Redonda" 22 , que é elevada. Mas, ao nos aproxi-
reza grande e nova que nos cercava. As montanhas recortadas em
marmos dessa ilha, reconhecemos que seria impossível nela desembarcar,
cima são parcialmente cobertas de matas verde-sombrio, do seio das
visto como de todos os lados se erguiam rochedos pontudos, sôbre os
quais uma multidão de polipeiros estendia verdadeira rêde de raízes quais emergem, altivos, os coqueiros de caules esguios. De manhã
e ramos. O mar se quebrava com tal barulho e com tanta fúria sôbre e à tarde, nuvens se abaixam sôbre essas enormes montanhas selvá-
êsses recifes, que, cheios de receio, tivemos de nos contentar em admirar ticas, escondendo-lhes os cimos; o mar vem bater-lhes espumante
de longe os belos arbustos copados que cobrem a superfície da ilha, aos pés, fazendo um barulho que ouvíamos de todos os lados, durante
e escutar o canto dos pássaros que se fazia ouvir acima de nossas cabeças. a noite inteira. À luz do sol poente, avistávamos na superfície do
O aspecto dessa ilha tropical era inteiramente novo e interessante para mar cardumes de peixes de vivas côres e cujo vermelho intenso produzia
nós. Nas pontas dos rochedos pousavam, aos pares, uma multidão um singular espetáculo. As algas (Fucus) e os moluscos que apanhá-
de gaivotas de dorso negro, em tudo semelhantes a Larus. marinus 23 vamos foram a nossa ocupação até o cair da noite; o sereno, extre-
dos mares da Europa. Atiramos-lhes várias vêzes sem matar uma só, mamente abundante nessas paragens, expulsou-nos do tombadilho.
p·ois logo ao primeiro tiro tôdas levantaram vôo, girando no ar como íamo-nos entregar ao descanso, quando um tiro de canhão ao longe
andorinhas, e soltando gritos ensurdecedores. Depois de demorarmos nos chamou novamente ao tombadilho. No fundo da baía, precisa-
cêrca de uma hora junto dessa ilha, pensamos em regressar ao navio, mente no ponto em que muitos grandes navios fazem supor que se
que não mais se avistava daí. A nossa situação se tornara crítica, acha situado o Rio de Janeiro, um espetáculo verdadeiramente magní-
pois reinavam nessa barra correntes que desviam insensivelmente os fico nos surpreendeu no meio da noite: era um lindo fogo de artifício.
navios de sua rota, atirando-os à costa. Há muitos casos disso•. Aguardamos o dia seguinte com redobrada impaciência; desde
o raiar do dia levantou-se âncora, e, com vento moderado, avan-
( *) As correntes maritimas da entrada da baia do Rio são muitas vêzes perigosas çou-se em direção ao pôrto. A alegria a todos animava, reunidos no
para os navios qua ndo sobrevém calmaria. Um acontecimento notável do gênero
ocorrera pouco a ntes de minha chegada. Um navio americano entrou e foi Jogo tombadilho. Um bote, trazido de terra por oito remadores índios •,
seguido por um corsário inglês. O americano hesitou muito tempo em sair, mas
enfim se decidiu; o inglês quis se aparelhar Imediatamente para persegui-lo. De nos trouxe dois pilotos, que guiaram o J anus ao seu ancoradouro, em
a côrdo porém com o regulamento do pôrto do Rio, é concedido um prazo de três frente da cidade. tsses marinheiros nos trouxeram belíssimas laranjas,
horas d e a nteced ência a um navio em relação a um inimigo que o persiga. O inglês
foi porta nto obriga do a esperar três horas, findas as quais soltou todo pano, e que nos pareceram tanto melhores quanto, depois de setenta e dois
perseguiu o a mericano. Mas, apena s a tingira as vizinhanças da Ilha Redonda, sobreveio
uma calmaria; a corrente atirou violentamente o corsário contra os rochedos; o navio dias que nos achávamos a bordo, não havíamos tido nenhuma fruta
encalhou, perecendo tôda a tripulação ao passo que o americano já se achava, havia fresca.
muito, ao largo.
(22) No original lê-se " Ilha rotunda ".
(23) A gaivota em questão, como pelo próprio autor foi depois reconhecido (cf. (*) Pelos portuguêses são chamados " indlos " todos os indigenas do Brasil , assim
Beitr. Natw·g. Brasilien s, IV , p. 850 ), é o cha mado gaivotão, L an1s domi nicanus Llcht., como, crrôneamente, é costume chamar-se de indios todos os habitantes primitivos do
comun issi mo na ba ia de Guanabara. vasto cont inente a mericano.
22 VIAGEM AO BRASIL

Vogamos de um lado para outro da estreita entrada, e aproxima-


mo-nos da cidade; os morros diminuíam de altura em cada margem
da baía e avistavam-se bonitas casas de telhados vermelhos, no meio
de pequenas elevações sombreadas por espêsso arvoredo, e dominadas
por coqueiros; embarcações passavam em todos os sentidos pelo pôrto.
Deixamos atrás de nós várias ilhas, entre as quais aquela em que li
Villegagnon construiu o forte Colligny, que ainda tem o seu nome.
Dêste ponto se avista grande parte da baía do Rio, a qual é cer-
cada de altas montanhas, entre as quais a serra dos órgãos se desta- ESTADA NO RIO DE JANEIRO
ca por seus picos, semelhantes aos dos Alpes suíços. Muitas ilhas
lindas se acham espalhadas pelo pôrto, o mais belo e seguro do Novo
Mundo, e cuja entrada é defendida de ambos os lados por fortes A cidade e seus. arredores. Os índios de São Lou-
baterias. De onde nos encontrávamos, via-se, em frente, a cidade do renço. Preparativos para a viagem pelo interior.
Rio de Janeiro, construída sôbre várias colinas a beira-mar. Oferece
ela uma bela perspectiva, com suas igrejas e conventos situados no alto.
O fundo do cenário por trás da cidade é constituído por montanhas
de forma cônica, arredondadas em cima e cobertas de florestas; em-
belezam extraordinàriamente a paisagem, cujo primeiro plano é ani-
mado por grande quantidade de navios de tôdas as nacionalidades. E' O Rio de Janeiro, que na última metade do século XVII contava
aí que reinam a atividade e a vida; canoas e chalupas passam em apenas 2. 500 habitantes com uma guarnição de 600 soldados•, hoje
contínuo movimento, e as pequenas embarcações de portos vizinhos se eleva à categoria das primeiras cidades do Novo Mundo. Como
enchem os intervalos entre os grandes navios das nações da Europa. existam muitas descrições dessa capital, seria entrar em inúteis repe-
Logo que a âncora foi arriada, fomos cercados por embarcações; tições pretender fazer uma descrição minuciosa. Barrow nos deu dela
uma trazia soldados que encheram o passadiço do navio. Empregados uma idéia bastante exata 24 ; mas depois de sua descrição, as coisas
da alfândega entraram a bordo; a comissão de saúde chegou também; mudaram muito. Cêrca de vinte mil europeus, vindos de Portugal
vieram oficiais que examinaram nossos passaportes; finalmente, o com o rei 2 5, se estabeleceram na cidade, daí naturalmente resultando
navio se encheu de uma porção de inglêses pedindo notícias de sua que os costumes do Brasil se modificaram pelos da Europa. Melho-
pátria- A última noite que passamos a bordo, após uma prisão de ramentos de todo gênero foram realizados na capital. Ela muito per-
setenta e dois dias, correu ràpidamente; havia um belo luar, o tempo deu de sua originalidade, tornando-se hoje mais parecida com as
estava levemente quente, mas agradável; ficamos conversando no cidades européias. Todavia, os estrangeiros recém-chegados se surpre-
tombadilho até bem tarde da noite, sem no entanto podermos disfarçar endem com o grande número de negros e mulatos que encontram nas
uns aos outros certa impaciência de ver chegar o dia seguinte. Nossa
imaginação preocupava-se vivamente com o futuro. No meio desses (* ) SoUTH EY, History of Brazil, vol. li. p . 667.
pensamentos, os meus olhos se dirigiram para os mastros do navio que
(2 4 ) JoHN BARRow, V 011aue to c_ochin:<Jhina, Londres, 1806. A obra foi traduzida
nos havia conduzido satisfatoriamente de regiões longínquas; esca- em fra ncês (Paris, 1807, chez Françcns Butsson ) por MALTE-BauN, em catorze volumes,
pando de numerosos perigos, estava tranqüilamente ancorado no com g1·andes acréscimos e correções na parte referente ao Brasil. J. Barrow (1764-1848)
foi secretário do almirantado inglês e grande na vegador, estando seu nome diretamente
pôrto: olhei-o com fundo reconhecimento. O viajante que, durante ligado à fundação da Royal GeograpWcal Soclety de Londres e a várias descobertas
geográfica s. Cumpre não confundir o seu citado livro com uma outra obra de autor
vários meses, faz do Oceano a sua morada, numa dessas grandes má- homônimo, cheia de erros grosseiros e Informações Inexatas, publicada em data muito
quinas móveis, experimenta para com ela um sentimento de gratidão anterior ( 1766). A inadvertência ocorre nos comentários aduzidos ao livro póstumo de
ALFREDO DE CARVALHO (Biblioteca Exótico-Brasileira, I, p. 171) .
quando chega a hora de deixá-lo; diz um adeus cordial ao marinheiro Sabemos o que era a cidade do Rio de Janeiro e seus arredores, ao tempo da
viagem de Wied, através da obra de MARTms (C. F. P. von) e SPrx (Joh. Bapt. von) ,
rude, porém franco, que por tanto tempo lhe prestou auxílio, dese- Reise in Brasilien (München, 1828-81, 8 vols. e 1 atlas in-foi.). Jt.sses dois célebres
jando-lhe no futuro feliz sorte em suas viagens sôbre o móvel ele- naturalistas, acompanha ndo o séquito da arquiduquesa Leopoldina d ' Áustria , primeira
Imperatriz do Brasil, ali aportaram apenas dois anos depois de Wled (Julho de 1817);
mento, tão enganador, a que consagrou a sua existência. ambos realizaram, em seguida, através de todo o leste e norte do Brasil, uma das
mais memoráveis jornadas de finalidade cientlfica. Sôbre sua obra consultem-se as
noticias que precedem a tradução recentemente (1988) editada pelo Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro.
(25) Jt.ste assunto já foi objeto de breve referência nestes comentários (nota 2).
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24 VIAGEM AO BRASIL

ruas, no meio da multidão que as enche; pois a população do Rio


de Janeiro conta maior número de negros e homens de côr que de
brancos.
Várias nacionalidades se dão encontro aqui pelo comércio, e de
sua união saíram novas e numerosas misturas. A classe que domi·
na sôbre tôdas as outras, em tôda a extensão do Brasil, é a dos portu-
guêses da Europa ou "filhos do Reino"; seguem-se os brasileiros
filhos de portuguêses, de origem mais ou menos pura; os mulatos,
provenientes da mistura de brancos e negros; os mamelucos ou mesti-
ços, saídos de brancos com índios; os negros d'Africa (também cha-
mados "muleques"); os pretos crioulos, nascidos no Brasil; os curibo-
cas26, nascidos de negro e índio; os índios puros, os habitantes primi-
tivos elo Brasil, entre os quais denominam-se caboclos os civilizados,
e gentios tapuias, ou bugres os que ainda vivem em estado primitivo.
Tôclas essas variedades ele côres se exibem no Rio ele Janeiro;
só os tapuias aí aparecem isoladamente como curiosidade. Desde que
se põe o pé nas ruas ela cidade, observa-se essa singular mistura de
gentes diversamente ocupadas, e junto delas uma reunião de tôdas as
nacionalidades ela Europa. Inglêses, espanhóis, italianos, são aqui
bem numerosos; chegam presentemente muitos franceses; encontram-
se em muito menor número alemães, holandeses, suecos, dinamarque-
ses, russos. Os pretos, seminus, fazem todos os trabalhos pesados; é
essa útil classe de homens que transporta tôdas as mercadorias do
pôrto para a cidade; reúnem-se para isso aos dez e doze e com
paus resistentes e fortes, carregam os mais pesados fardos, mantendo a
cadência do grupo por meio de cantos ou antes de gritos, pois não se
empregam veículos para êsses trabalhos. Por outro lado, vêem-se car-
ruagens e outros veículos, puxados por muares, rolar nas ruas, em
geral mal calçadas, porém dotadas de passeios laterais; a maioria
delas se cruzam em ângulo reto; as casas só possuem comumente andar
térreo, ou um só andar em cima; todavia, há enormes edifícios em
alguns pontos da cidade, sobretudo nas proximidades do pôrto, na
"Rua Direita", e perto do palácio do rei, que não é magnífico, mas
muito bem situado, descortinando-se dêle uma linda vista sôbre o mar.
Os principais edifícios são as igrejas, cujo interior é geralmente ornado
com magnificência; as festas religiosas, as procissões e outras ceri-
mônias parecidas são freqüentes; é um costume singular em tôdas essas
solenidades atirar, nas ruas, em frente às portas das igrejas, fogos de
artifício com grande estrondo e alarido.
O Rio possui um teatro lírico suficientemente espaçoso; aí se
representam óperas italianas; os bailarinos são franceses. O aque-
duto é uma obra grandiosa 27 ; o passeio à colina, donde êle se lança

(26) " Mamaluccos ", " Muleccos ", "Creoulos ", " Caribocos" é a grafia do original.
(2 7) Completando velhas canallzações cujo Inicio remonta a meados do século
XVII, a construção do aqueduto foi empreendida pelo governador Aires Saldanha
( 1 7 19·172~ ) . que resolvera trazer até próximo do centro da cidade as águas do rio
ESTADA NO RIO DE JANEIRO 25
para a cidade, é muito agradável; daí se desfruta um panorama do
pôrto e da cidade, que se estende num vale onde crescem coqueiros
(Cocos butyracea) 2 B. Para o interior, o Rio é rodeado de mangues
(Rhizophora). Essa vizinhança, e a sua situação geral não devem
ser muito favoráveis à saúde dos habitantes.
O europeu, transplantado pela primeira vez para êsse país equa-
torial, sente-se arrebatado pelas belezas das produções naturais
e sobretudo pela abundância e riqueza da vegetação. As mais belas
árvores crescem em todos os jardins; vêem-se aí mangueiras colossais
(Mangifera indica, Linn.), que dão uma sombra densa e excelente
fruto, os coqueiros de estipe alto e esguio, as bananeiras (Musa) em
cerradas touceiras, o mamoeiro (Carica) , a Erythrina 2 9, de flôres de
vermelho coral, e grande número de outras espalhadas por todos os
jardins pertencentes à cidade. tsses soberbos vegetais tornam os
passeios extremamente agradáveis; os bosques, que formam, ofere-
cem à admiração dos estrangeiros pássaros e borboletas que jamais
viram, entre os quais citarei apenas os colibris de dourada plumagem,
como os mais conhecidos. Os passeios à beira-mar não têm menores
encantos, pela vista dos navios que chegam das mais distantes regiões
do mundo- Não devo também esquecer o "Passeio Público", grande
praça plantada de árvores em aléias, terminando em terraço.
Até agora a natureza realizou mais para o Brasil do que o homem;
contudo, após a vinda do rei, muito se tem feito em benefício do
país. Devem-se contar entre tais benefícios, várias medidas tomadas
em favor do comércio, que é muito ativo e no qual, todavia, em
detrimento dos habitantes, a Inglaterra tem exagerada preponde-
rância, pois os navios portuguêses pagam direitos mais pesados do
que os da Grã-Bretanha. A circulação de consideráveis capitais tem,
contudo, enriquecido muito a cidade; a presença da côrte não contri-
bui pouco para tal prosperidade: ela sustenta grande número de pes-
soas, e os emissários das côrtes européias, bem como os estrangeiros
atraídos ao país por diversos motivos, têm sobremodo espalhado o
gôsto pelo luxo entre as diferentes classes da população. A aparência dos
habitantes, as modas, semelham em tudo às das capitais européias. Já
aí se encontram tantos artistas e artesãos de todos os gêneros e nacio-
nalidades, que em poucos anos pouca coisa faltará no Rio de Janeiro
do necessário ao confôrto da vida. Tem-se aí também em abundân-
cia frutas e outros produtos naturais, devidos à excelência do clima,

Cari~a, fazendo-as correr por grossos canais sôbre arcadas de pedra, desde os altos
do . Silvestre e de Santa Teresa até o Campo de Santo Antônio, hoje La rgo da Carioca.
Mms tarde, s~b o govêrno ~e Gomes Freire de Andrada, o viaduto sofreu completa
reforma, adqmrlndo a arqmtetura que ainda ostenta de duas fileiras de arcadas
superpostas. Cf. Rev. do Serviço do Património Histórico Nacional, N.• 4, pá.gs. 7 a 58.
, ( ~ 8 ) Refere-se P:~vàvelme_nte Wied à palmeirinha a nã, mais geralmente chamada
ca_tolé , Attalea humü•s MartiUs ( = Cocos butyrosa Linn. ), d e fruto comestível e
mmto comum da costa oriental do Rio de Janeiro pa ra o norte.
(29) Erythl'ina, nome genérico do " mulungu " e papilon ácea s afins.
26 VIAGEM AO BRASIL ESTADA NO RIO DE JANEIRO 27

e que o homem só sabe apreciar e aproveitar quando os obtém a As minhas cartas de recomendação proporcionaram-me benévola
custa do trabalho e da cultura, e quando consegue aperfeiçoá-los. acolhida no seio de várias casas. Devo citar, com profundo reco-
As laranjas, as mangas, os figps, as uvas, as goiabas (Pisidium pyri- nhecimento, o Sr. Westin, cônsul geral da Suécia, o Sr. Langsdorff33 ,
ferum, Linn.), os ananases (Bromelia ananas, Linn.), adquirem aqui cônsul da Rússia, o Sr. Chamberlain34 , "Chargé d'affaires" da Ingla-
excelente qualidade; há muitas variedades de bananas, entre as quais terra e o Sr. Svertskoff, da Rússia. í.sses senhores porfiaram em
a de "São Tomé", e a "banana da terra", que ainda se considera tornar agradável a minha estada no R_io de Janeiro e o meu c~mpa­
melhor para a saúde; ambas são muito nutritivas e saborosas. Entre triota Sr. Feldner35, major de engenheiros, cumulou-me de gentilezas.
as frutas que são vendidas na rua, notam-se os côcos, cujo leite 30 Promoveu-me alguns passeios campestres muito alegres, 9ue me prop~r­
é tão refrigerante; a jaca (Artocarpus integrifolia), cujo sabor é cionaram o ensejo de conhecer os belos recantos do R10. A excursao
dum doce desagradável; as melancias; as amêndoas da sapucaia (Le- mais interessante para mim foi a que fizemos à aldeia de São ~ou­
cythis ollaria, Linn.); as do pinheiro do Brasil (Araucaria). Dizem renços6, a única das proximidades da capital onde se encont~~m amda
que a cana-de-açúcar cresce espontâneamente no país, principalmente habitantes primitivos do país, outrora t~o numer~sos na reg1ao .. Pa_:a
nas imediações do Rio de Janeiro. Os mercados não são menos pro- melhor poder examinar essa gente, sa1mos da c1dade sob a dueçao
vidos de peixes de diferentes espécies, das mais singulares formas e do capitão Pereira, que conhecia muito bem o local- Tomamos uma
das mais belas côres; finalmente, as aves domésticas e as caças de embarcação para atravessar parte da baía. Um belíssimo tempo nos
tôda espécie vêm somar-se a essa abundância. Criam aqui uma raça favorecia; a cada instante, desfrutávamos panoramas deslumbrantes
de galinhas de bico e pés amarelos, que parece proveniente da África. que se renovavam sem cessar e cujo encanto aum:ntava com a diver-
A guarnição, atualmente bastante numerosa, mantém igualmente mui- sidade e vivacidade de colorido que tomavam os lmdos tufos de vege-
tos homens. A diferença entre os soldados vindos da Europa, depois tação, espalhados pelas margens da baía.
de terem servido na Espanha sob as ordens de Wellington, e aquêles Desembarcamos a pouca distância de São Lourenço, e pusemo-
que não saíram do Brasil, impõe-se à primeira vista- Aquêles têm nos a galgar pequenos morros, por um caminho sombreado por lin-
um aspecto todo militar; êstes são vagarosos e amolentados pelo calor das plantas; lantanas (Lantana)3 7 com suas flôres côr de fogo, vermelho
do clima; acabado o exercício, mandam os negros levar as suas armas carregado ou côr-de-rosa; helicônias (Heliconia) e outros arbustos de
para casa. aspecto igualmente gracioso, formam aqui moitas ce~adas. N~ ~lto
Não se espere uma descrição completa dessa capital e de seus da colina, as cabanas dos índios se espalham no me10 de laranJeiras,
habitantes da parte dum viajante que aí teve apenas pequena perma- bananeiras e outras plantas carregadas de deliciosos frutos. Aqui
nência. A muitos juízos precipitados e falsos se expõem os que pre-
tendem fazer pronunciamentos apressados, sem ter podido amadurecer (33) O Barão de LANGSOORFF, que estêve no Brasil nada menos de três vêzes,
suas idéias em longa observação, correndo, assim, o risco de tornar fêz longa permanência entre nós e merece menção muito esp~ial, já pelo espontâneo
interêsse que sempre votou ao estudo de nossa Natureza, Já por. ter cbef1ado, às
suspeita a sua veracidade. Deixemos, pois, a tarefa de descrever essa expensas da Rússia, uma expedição de larga enverg~~;dur~ pelo Bras1l Central. D~ssa
capital aos europeus que a puderam estudar mais à vontade e que, sem expedição, que transcorreu cheia de dramáticas penpéCJas _ e de lances até trá!!'ICOS,
deixou-nos o seu desenhista, Hércules Florence, viva descrlça!>, prlmelra~ente p~bli~da
dúvida, não deixarão esperar muito pelo fruto de suas observações3 1 • pelo Visconde de TAUNAY no tomo XXXVIII (1875) da Re1nsta do. l?_tshtuto Htst6nco,
Geogr. e Ethnogr. do Brasil. A êsse respeito, além do livro de Estevao Bourroul sôbre
Cheguei ao Rio durante o inverno da zona tórrida; a tempera- Hércules Florence, consulte~e o artigo de H. von IHERJNG no tomo V d a Rev. do
tura lembrava a dos meses mais quentes do nosso verão. Esperava Museu Paulista e 0 excelente resumo de RoooLFO GARCIA no volume I como introdução ao
Dkcion. Hist., Geograf. e Etnogr. do Brasil (1922), pp. 884-5.
ver cair chuva durante êsse inverno dos trópicos, mas, com grande (34) HENRY CHAMBERLAIN, cônsul da Inglaterra no Rio de Janeiro (1815-1829),
alegria, era um êrro da minha parte, não choveu: o que demonstra e pai do "lieutenant Chamberlain ", que se tornou especialmente credor de nossa estima
e gratidão por ter viajado pelo Interior do Brasil e, na qualld';'-de de deseruusta, deixado
o pouco fundamento da opinião vulgar de que, na estação fria da um álbum hoje raríssimo de Wiews and customs of the C•t11 and Ne>ohbourhood of
zona tórrida da América, chove constantemente3 2 • Rio de J~neiro (1819-20).' Dêste álbum há uma tradução brasileira feita por RUBENS
BoRBA DE MoRAIS e editada pela Livraria Kosmos (1948).
(85) WILHELM C. G. VON FELDNER (1772-1822). Mineralogista alemão, tinha entra.do
( 80) " Leite " está aqui pelo que usualmente se conhece por "água-de-eôco ", confusão em 1803 ao serviço de Portugal; admitido no exército, como tenente do estado-mawr
em que incorrem todos os autores estrangeiros. A água-de-eôco é um liquido levemente de artilharia passou-se para o Brasil em 1810. Fêz entre nós importantes descobertas
adocicado, de esquisito sabor, que enche completamente a cavidade do albúmen dos mineralógicas: e deu conta de suas peregrinações num llvro publicado após a sua morte
frutos verdes do coqueiro dito da praia (Cocos nucifera Llnn.) e ao depois gradativamente - Reisen durch mehr. Prov. Brasiliens, 2 vols. peq. (Lelpzlg, 1828), de que alguns
desaparece, por reabsorção. O leite-de-eôco, êsse é uma emulsão do óleo obtido pela trechos foram traduzidos pelo insigne publicista ALFREDO DE CARVALHO. Cf. a Biblioteca
expressão do albúmen, e de aspecto Idêntico ao do leite de vaca. A propósito, leia-se Exótico-Brasileira, vol. 11, págs. 188-9.
o que sôbre o mesmo assunto escreverá adiante o próprio autor. (86) Colônia de índios fundada pelo cacique Ara.ribóia, chamada depois Martim
(81) Veja-se a nota 24 supra. Afonso de Sousa. Faz hoje parte Integrante da cidade de Niterói, onde constitui
uma paróquia e bairro dos mais populosos.
(82) Esta versão é entretanto verdadeira para tôda a faixa litorânea do nordeste
brasileiro inclusa. a da Bahia. (37 ) Vide nota (68), adiante.
ESTADA NO RIO DE JANEIRO 29
28 VIAGEM AO BRASIL
O francês Jean de Léry 4 o e o alemão Hans Staden41 deram-nos, em
um paisagista teria motivos para aperfeiçoar o seu pincel, diante da suas interessantes relações de viagens, uma descrição fidelíssima do
rica vegetação dos trópicos e das cenas campestres duma natureza estado, dos usos e costumes dos Tupinambás; são tanto mais instru-
sublime. Os moradores estavam ocupados, em suas cabanas, na fabri- tivas quanto retratam ao mesmo tempo tôdas as tribos dos índios
cação de vasos com uma argila cinzento-escura, que toma côr aver- civilizados que vivem ao longo do litoral, e que os portuguêses deno-
melhada quando levada ao fogo. Fabricam com elas grandes vasos uti- minam "índios mansos". Southey em sua "History of Brazil", livro
lizando-se apenas das mãos, sem empregar a roda, e alisam-lhes a cheio de boas informações, e Beauchamp, em sua "Histoire du
superfície por meio de pequenas conchas que umedecem com a bôca. Brésil", obra romanesca, aproveitaram-se dessas fontes. Vascon-
Velhos e moços estavam sentados no chão. Os homens trabalham a cellos, em suas "Notícias curiosas do Brazil"•, divide em duas classes
serviço do rei na confecção de vasilhas. A fisionomia da maior tôdas as tribos indígenas do Brasil oriental, os civilizados ou domes-
parte dêsses índios trazia ainda os traços distintivos de sua raça; outros, ticados, "índios mansos", e as hordas selvagens, "Tapuias". Os pri-
pelo contrário, pareciam apresentar uma origem já mestiça. Os carac- meiros, por ocasião da descoberta do país pelos europeus, só habitavam
teres distintivos da raça brasileira, que observei em São Lourenço pela o litoral; dividiam-se em numerosas tribos, que não diferiam muito
primeira vez, e que depois sempre verifiquei são as seguintes: estatura entre si pela língua, usos e costumes. Todos êles engordavam seus
média, muitas vêzes medíocre; corpo bem proporcionado, reforçado e prisioneiros de guerra, matavam-nos nos dias de festa, com o "tacape"
musculoso nos homens; pele avermelhada ou pardo-amarelada; cabelos ou "iverapema"42 , maça ornada de penas, para comê-los em
duros, compridos, espessos, lisos, negro carregado; face larga bastante seguida. Citam-se entre essas tribos os Tamoios) os Tupinambás)
ossuda; olhos geralmente oblíquos, e, no entanto, o conjunto do rosto os Tupiniquins, os Tabajaras) os Tupis) os Tupiguás) os Temiminós)
bem feito, traços fortes, lábios comumente grossos; mãos e pés peque- os Amoigpiras, os Araboiaras) os Rariguaras) os Potiguares) os Cari-
nos e de forma delicada; barba ordinàriamente pouco basta e dura. jós) etc. Como a língua dêles era falada ao longo de todo o litoral,
O pequeno número de índios que moram nesse lugar é o resto da denominava-se "língua geral" ou "matriz". Os jesuítas, com especia-
antiga e numerosa gente que povoava esta região; não era, entre- lidade José de Anchieta, deram-nos dela uma gramática muito com-
tanto, nesse lugar, propriamente falando, que êles viviam. Originà- pleta... Se bem que todos êsses índios estejam hoje civilizados e
riamente, o Rio e suas circunvizinhanças eram povoados pela belicosa falem português, compreendem ainda algumas palavras dessa lín-
tribo dos "Tamoios". ~stes, expulsos em parte pelos "Tupin-Imba") gua, e alguns velhos ainda estão de posse dela, mas dia a dia se
(chamados Tupinambás pelos portuguêses), uniram-se em seguida a vai ela perdendo.
êsses índios contra os portuguêses, e fizeram, juntos, aliança com os Dela derivam todos os nomes de animais, plantas, rios, que se
franceses; mas, expulsos êsses europeus em 1567 pelos portuguêses, lêem nas relações de viagens pelo Brasil. Como era falada de São Paulo
os índios que tomaram o partido dêles foram em parte exterminados e (*) "Noticias antecedentes, curiosas, e necessárias, das coisas do Brasil", em
em parte repelidos para as florestas. Se se dá crédito a uma tradição Padre Simão de Vasconcellos, "Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, etc.".
(**) Pater JosEPH DE ANCHIETA, Arte da Língua brasilica. Lisboa, etc.
pouco verossímil, êsses Tupinambás foram forçados a recuar através
das matas até às margens do rio Amazonas, onde se estabeleceram. (40) JEAN DE LÉRY, adepto da reforma instituida por Calvino, veio para o Rio
de Janeiro em fins de 1556, a convite de Villegaignon, como ministro da nova seita.
Com efeito, é certo que se encontra um resto dessa tribo numa pequena Havendo privado longo tempo com os Tupinambás do Rio de Janeiro. aliados então
ilha situada na confluência dêsse grande rio com o Madeira, onde está aos franceses , à sua volta para a Europa redigiu o fruto de suas observações na célebre
Histoire d'un Voyaue tait en terre du Brésil, autrement dite Amerique, salda pela primeira
a povoação de Tupinambara3 8, que, depois, deu origem à de Tapa- vez a lume em 1578 (La Rochelle). Dentre as numerosas edições dêsse livro, de que
foram feitas traduções para as principais llnguas cultas, a publicada por Payot (Paris,
jós39: por aí pode-se avaliar a extensão imensa dessa nação indígena •. 1927), é uma das mais recentes e bem cuidadas. Cf. sôbre o assunto as notas de
Eduardo Tavares na "Bibl. Exótico-Brasileira", vol. III, p. 195 e ss.
(41) HANs STADEN, natural de Homberg (Alemanha, Hessen). que já houvera
(*) Segundo o Padre d' Acunha, citado por La Condamine, p. 137, as tribos dos
em 1548 visitado ràpidamente o nordeste do Brasil (Pernambuco e Paraiba) a serviço
Tupinambás e outros indios do litoral que têm afinidades com êles, se estendiam pelo de Portugal, conseguira no ano seguinte engajar-se numa expedição militar mandada pela
Brasil inteiro; é o que provam os nomes tirados de sua llngua, encontrados em tôda Espanha ao Rio da Prata, mas que, em virtude de um naufrágio, arribara em Santa
a costa oriental, ao longo do rio Amazonas, e mesmo no Paraguai, onde Azara lhes dá Catarina. Passando-se depois para São Vicente, viera a cair prisioneiro dos Tupinambás,
o nome de Guaranis ("Voyage dans l'Amérique méridionale ", tomo 11, p. 52). sob cujo cativeiro estêve durante cêrca de três anos, ao cabo dos quais conseguira escapar.
retornando finalmente à Europa. O que foram as suas aventuras durante essa longa
Os vocábulos de llngua guarani, citados por êsse viajante, apresentam algumas odisséia, contou num livro curioso, Geschichte eines Landes America uennant (1557), de
diferenças com a "lingua geral", mas ao mesmo tempo vários pontos de semelhança, que traduções existem nos diferentes idiomas. Alberto Lõfgren dêle publicou em 1900
de sorte que êsses dois povos parecem ter grande afinidade entre si. uma primeira tradusão brasileir~, enriquecida de notas de Th. Sampaio; pela Sociedade
Hans Staden, de Sao Paulo, fOI dada à estampa uma capricbada edição, prefaciada e
anotada por Francisco de Assis Carvalho Franco (São Paulo, 1942). Uma edição condensada
(88) Refere-se indubitàvelmente Wied, embora em têrmos relativamente vagos, foi publicada, mais tarde, por Monteiro Lobato (Cia. Edit. Nacional).
a "Tupinambarana", lugarejo e larga ilha formada pela confluência de rios na margem (42) Grafados " Tacapé" e "lwera-Pemme" no original.
direita do Rio Amazonas e a leste do baixo Madeira.
(89) No original " Topayos", que tudo leva a crer corresponda a Tapajós.
30 VIAGEM AO BRASIL ESTADA O RIO DE JANEIRO 31

até o Pará, nela se encontram tôdas as denominações, principalmente Quando Mem de Sá46 fundou São Sebastião (Rio de Janeiro),
de animais, empregadas pelos autores, sobretudo Marcgrave em sua em 1567, ~ando_u .cons~ruir a aldeia de São Lourenço para os índios
"História natural". Todavia, a adoção dessas denominações locais que se hav1~m d1stm~1do. nas lutas contra os franceses e os Tupinam-
nas obras sistemáticas causaram lamentáveis erros, pois, embora sejam bás, seus ahados, contnbumdo para a expulsão dos últimos; colocou-os
entendidas em vasta extensão da costa, sofrem grandes modificações, sob a direção de um certo Martim Afonso. Os jesuítas introduziram aí
conforme se verá no decorrer desta narrativa. Eis alguns exemplos de os ·:coitac~ses:· recém-convertidos, par~ de novo povoar êsses lugares.
palavras e nomes dessa língua: "jauarété" (Felis onca, Linn.), "taman- Assim os mdws que atualmente habitam São Lourenço são descen-
duá" (Myrmecophaga); "pecari" (porco); "tapiirété" (Tapirus ameri- dentes dessa tribo.
canus, Linn.); "cuia" (cabaça)•; "tapiia" 43 (povo bárbaro ou ini- Voltemos às pacíficas habitações de São Lourenço. Um engra-
migo), de que depois proveio "tapuia"; "panacum" (cêsto alongado); dado de paus, cujos intervalos são cheios de barro, forma as paredes
"tinga" (branco); "uassu" ou "assu" (grande); "miri" (pequeno). das cabanas, sendo que o teto é coberto de fôlhas de coqueiro. O
Os portuguêses adotaram e conservaram os nomes indígenas dos vege- mobiliário é dos mais simples. "Esteiras" de caniço colocadas sôbre um
tais comestíveis do país e dos alimentos que com êles se preparam. estrado de varas fazem as vêzes de cama; vêem-se algumas vêzes
Comem por exemplo o "mingau" das antigas tribos do litoral. "rêdes" feitas de cordas de algodão entrelaçadas, outrora usadas pela
Os nomes de animais citados por Azara44 em sua História natural tribo. ~sses dois modos de dormir são também adotados pelos portu-
do Paraguai, provam que essa língua era muito espalhada no Brasil guêses de classe inferior em todo o Brasil· Grandes vasos de barro,
e nos países vizinhos; são tirados do dialeto dos guaranis, mas em chamados "talhas", onde se conserva a água fresca, se encontram tam-
parte coincidem exatamente com os da língua geral. bém aqui, como aliás em todo o país; são feitos duma argila porosa
A primeira das divisões dos índios, segundo Vasconcellos, tendo através da gual a água filtra lentamente, de sorte que, evaporando-se
mudado completamente o seu modo de viver, perdeu necessàriamente na superfície externa do vaso, refresca o interior. Uma casca de
o seu caráter original. O mesmo não se deu com os tapuias; êstes côco, provida dum cabo de madeira, serve para tirar água da talha.
ainda se conservam no seu primitivo estado. Habitando o interior das Alguns potes de barro para a cozinha ("panelas"), cuias ou cabaças,
grandes florestas que orlam o litoral, e assim furtando-se aos olhares que fazem as vêzes de pratos, diversas bagatelas para vestimenta e
e à influência dos europeus que chegaram à terra dêles, viveram em ornamentação, algumas vêzes o fuzil ou o arco e as flechas para a
mais segurança e tranqüilidade que os seus irmãos que habitavam à caça, compõem o resto dos pertences.
beira-mar, com os quais, como com os europeus, estavam sempre em . Todo êsse povo vive em parte da mandioca (Jatropha manihot,
guerra. Dividem-se os tapuias em várias tribos e, o que é notável, Lmn.) e do milho que plantam. Não descreverei essas plantações,
tôdas elas falam línguas diferentes. Uma única, excessivamente es- porque Koster47 e Mawe 48 já deram os informes suficientes sôbre o
quiva, a dos Uetacás•• 45 , ou Goitacás, como a chamavam os portu- assunto. Além dessas duas plantas, que constituem a base da alimen-
guêses, habitava a costa oriental entre as tribos da língua geral, mas tação de tôdas as populações do Brasil, cultivam-se, em volta das casas,
falava um idioma absolutamente diferente vivendo em estado de pimenteiras. Várias espécies de Capsicum, das quais uma, a mala-
constante hostilidade para com essas, e dêles temidas tanto quanto gueta, tem frutos alongados e vermelhos, enquanto que a outra, chamada
dos europeus. Finalmente, porém, os jesuítas que de tal modo se tor- "pimenta de cheiro", os tem redondos vermelhos ou amarelos. Vêem-se
naram capazes de civilizar essas tribos selvagens, conseguiram, pela também moitas de mamoneira ("baga")•, de fôlhas recortadas e com
paciência, doçura e perseverança, dominar também o caráter intratável (*) Denominada "carrapato" em Pernambuco, segundo KOSTER, pãg. 376 (tomo 11,
dessa tribo. pâg. 287).
(46) No original lê-se "Mendo de Sã".
(*) As cuias são porções da casca de uma dada espécie de "cabaça" que quando . (47) HENRY KOSTER, Travels in Brazil, London, 1816, pp. I-IX, 1-501, com 8 pl.
vazia e limpa, fornece pratos e tigelas muito leves para com elas se comer 'e beber. colon_das, 1 plaJ?ta e I mapa. O autor velo ao Brasil em busca de melhoras para
Se fica Inteira e ôca e tem a forma duma garrafa, chamam-na de "cabaça". t!.sse uso a saude e residiu longos anos em Pernambuco, onde se ocupou de trabalhos agrfcolas.
e a palavra "cuia" derivam, como ficou acima dito, da llngua geral; um e outra foram Aportou entre nós nos fins de 1809, e em nosso país faleceu em começos de 1820
adotados no Brasil. depois de haver voltado por duas vêzes à Inglaterra. Observador consciencioso ~
(**) LÉRY, pãg. 15. benévolo de nos~ gente e de nossas. coisas, seu livro é um dos mais preciosos com
que c!?nta a hibllografla xeno-braslle•ra. Teve novas edições em Idioma Inglês e
traduçoes em francês e alemão; dela foi publicada também uma primeira versão portuguêsa
(43) No original "Tapyyia ". na r Rev. do Inst. Arqueol. e Geogr. Pernambucano (entre os n.os 51 e 90, salteadamente):
(44) Don FELIX DE AzARA, Voyages dans l' Amérique Méridionale, publicados po A. C. de A. Pin~entel. Em data mais recente, veio a lume a tradução completa
~Ba 0 ~ ~a, ~m prefãc10 _e notas de Luis da Câmara Cascudo (Cia Edlt Nacional
ras• 1 •ana , vo.
pelos manuscritos do autor C. A. WALCKENAER e seguidas da Histoire Naturelle de•
oiseaux du Paraguay, tradução do espanhol por Sonnini, Paris, 1809, 4 vols. e 1 atlas. 1 221, Sao Paulo, 1942). · · •
(45) Na edição de Payot (Paris, 1927), corresponde à página 94. (48) Veja-se a nota 3 dêste comentário.
32 VIAGEM AO BRASIL
ESTADA NO RIO DE JANEIRO 33
sementes de onde se espreme um óleo para as necessidades caseiras.
O Sr. Sellow, nosso botânico, achou junto às cabanas dos índios uma que a natureza ostenta as suas riquezas. Graças ao apoio do govêrno,
espécie de agrião (Lepidium) selvagem, cujo gôsto faz lembrar o de cujas disp_osições liberais tive a prova na benévola atitude para
do mastruço da Europa; contam os índios que é um remédio garantido conosco do ministro Conde da Barca, pude ativar os preparativos
contra as doenças do peito. Enquanto o Sr. Sellow colecionava nos de minha viagem. Obtive um passaporte e cartas de recomendação
campos, eu comprei aos índios, que os tinham presos em gaiolas de dirigidas aos capitães-gerais das províncias, concebidas em têrmos tão
madeira, uns lindos passarinhos, entre outros o tangará violeta e lisonjeiros para mim, que duvido se tenham dado iguais aos Vlapn-
alaranjado (Tanagra violacea), conhecido por "gaturama" 4 9 nessa zona. tes que me precederam. As autoridades eram solicitadas a nos prestar
Após essa curta, mas interessante, estada em São Lourenço, desem- auxílio e proteção tôda vez que o necessitássemos e a fazer chegar
barcamos próximo da casa de campo do Sr. Chamberlain, situada nossas coleções ao Rio, fornecendo-nos, quando pedíssemos, soldados,
numa pequena enseada cercada de rochedos. Está construída no guias, carregadores e animais de carga. Dois jovens alemães, Srs. Sel-
meio de encantadoras laranjeiras e cacaueiros (Theobroma), cujos low e Freyreiss, que conheciam muito bem os costumes e a língua
frutos crescem unidos ao caule; mangueiras (Mangifera indica, Linn.), da região, prometeram acompanhar-me na minha viagem ao longo da
que ultrapassam em altura os nossos maiores carvalhos, sombreiam costa oriental, até Caravelas, auxiliando-me nas pesquisas. Leváva-
uma fresca fonte que brota de estreita garganta, formando aí um mos dezesseis muares, carregando cada um duas caixas de madeira
retiro delicioso e ameno. As margens dêsse riacho, admiramos a diver- cobertas de couro cru, que as abrigava da chuva e da umidade.
sidade de formas dos frutos selvagens, síliquas, vagens, cápsulas e Tomamos a nosso serviço dez homens, uns para tratar dos animais de
nozes, e entre os quais é particularmente abundante o da paineira, carga, outros como caçadores. Todos bem armados, seguimos via-
árvore cujo tronco é inteiramente coberto de espinhos. E' nessa árvore gem, providos de munição suficiente e de todos os pertences necessários
que vive, conforme observou o Sr. Sellow, o soberbo e brilhante para colecionar exemplares de história natural, parte dos quais eu
Curculio imperialis, um dos mais belos insetos do Brasil, e cujas notá- trouxera desnecessàriamente da Europa.
veis metamorfoses serão fielmente descritas por êsse culto viajante.
Nas montanhas vizinhas, erguem-se, próximas à costa, muralhas de
penedos extremamente altas, onde crescem imensos cactos e a Agave
foetida 50 ; aos seus pés crescem bosques cerrados, cuja coloração escura
oferece os mais pitorescos efeitos.
Regressando ao Rio, visitamos também a "armação das baleias",
ou o estabelecimento de pesca da baleia. :esses cetáceos são muito
numerosos ao longo da costa do Brasil; atualmente, porém, perse-
guem-nos sem tréguas. Outrora, como se vê da descrição de Léry,
êles vinham até o interior da baía do Rio de Janeiro 51 •
Por mais agradável que fôsse para mim uma longa permanência
na capital, não entrava porém nos meus planos estacionar aí por
muito tempo, pois nos campos e nas florestas, e não nas cidades, é

(49) Tanaom (Eupltonia) violacea (Linn.). O passarinho, que o autor voltará


muitas vêzes a referir. é ainda conhecido vulgarmente por gurinl1atá (do tupi guira-enguetá), de Todos os Santos, próximo à ilhota de Madre de Deus, reg1ao onde é sabido haverem
vem-vem (Ceará), povi (Goiás), tieté, bonito, etc. A espécie, representada por duas varie- funcionado outrora numerosas armações. (Cf. FERNÃo CARDIM, Tratados da T erra e
dades geográficas, ocorre em todos os estados do Brasil, à exceção talvez de Mato Grosso; Gente do Brasü, Rio, 1925, J. Leite, p. 288; J. de LÉRY, Voy. au Brésil, Paris, 1927,
outras há, a ela muito afins, e por isso eventualmente conhecidos pelos mesmos nomes J. Payot, p. 137).
vulgares. Atualmente a pesca da baleia é praticada quase que exclusivamente nos mares
(50) Refere-se o autor à piteira (Fourcroya uioantea Vent.), da famllia das árticos e antárticos, principalmente pelos noruegueses, a quem se deve 0 destruidor
Amarilidáceas. invento do arpão-granada (Svend Foyn, 1868). Nos mares do norte ela culminou
(51) A pesca das baleias, de que uma meia dúzia de espécies, pertencentes a em 1905, qua~do 24 companhias: aparelhadas de. 63 navios, capturaram nada menos
noda menos de quatro ou cinco gêneros (Sibbaldus, Balaenoptera, Megaptera, Eubalaena) de 2 671 espéCJmens, que produziram 83 000 barris de óleo. Atualmente a indústria
desenvolve-se especialmente nos mares an.tárticos, onde a produção de 1928-1929 orçou
freqüenta os nossos mares, foi nos primeiros tempos uma indústria extremamente rendosa pela. apavorante cifra de 1 600 000 ba~ns.. (Cf. GuNNAR lsACHEN, em Geograpltical
em numerosos pontos da costa brasileira. Mas, se ao tempo de Wied era lícito R~v•ew_, XIX, PP· . 387-408).. Sôbre o histórico da pesca da baleia no Brasil, além da
exprimir-se como êle o fêz a respeito da progressiva escassez daqueles cetáceos, pode Hutórta do Brastl de Frei VICENTE DO SALVADOR (ed. de 1938, p. 397) e do extenso
dizer-se que hoje entre nós está completamente extinta a sua pesca regular. Não obstante, trabalho do Almi~ante Alvo;s ~âmara na Rev. Soe. Geogr. do Rio de Janeiro (1889,
de tempos em tempos encalham às nossas costas alguns espéclmens do gigantesco V, pp. 17-48), veja-se o rmnuCJoso estudo de WALTER ÁLVARES no Jornal do Comércio
mamífero. Tive, não há muito tempo, ocasião de presenciar um fato dêstes na baia do Ri_o de Janeiro (n.• de 21 de Ag. de 1988) e o pequeno artigo da D.A.C. no Estado
de São Paulo (1989, 27 Jan.) .
III

VIAGEM DO RIO DE JANEIRO


A CABO FRIO

Praia Grande. - S. Gonçalves. Rio Guajindiba.


Serra de Inoã. - Lago e Freguesia de Maricá. -
Gurapina. - Ponta Negra. - Saquarema. - Lago Ara-
ruama. - S. Pedro dos lndios. - Cabo Frio.

Após terminados os últimos preparativos em S. Cristóvão, vilarejo


nos arredores do Rio, acomodamos os burros num grande barco.
Deu-nos trabalho insano convencer êsses animais, proverbialmente
obstinados, a saltar para a embarcação, o que em parte se explica
pela falta, no país, de instalações apropriadas ao embarque dos ani-
mais de carga.
Partimos de São Cristóvão a 4 de Agôsto e atravessamos a grande
baía do Rio a caminho da povoação de Praia Grande 52, onde che-
gamos à meia-noite. Todos os habitantes estavam recolhidos: encon-
tramos, porém, alguns negros, que tinham acampado em plena areia,
ao ar livre; uma pequena fogueira espalhava débil calor, e ape-
nas leve roupa de algodão cobria-lhes os corpos nus, protegendo-os
muito mal contra o abundante sereno que então caía. Dirigimo-nos
imediatamente a uma espécie de hospedaria, cujo dono, embrulhado
em uma capa, e ainda estremunhado, nos veio abrir a porta. Foi
preciso permanecer aí todo o dia seguinte, porque a nossa "tropa" (no-
me dado a um certo número de animais de carga que viajam em
conjunto) só conseguiu desembarcar tarde do dia, devido à pouca
profundidade da água. Só novamente à fôrça de pancada foi possível
obrigar os animais a saltarem do interior do barco, serviço que entre-
tanto souberam bem conduzir os nossos dois "tropeiros", Mariano e
Filipe, ambos moradores de São Paulo, capitania situada mais ao

(~2) Hoje absorvida pela cidade de Niterói.


36 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 37
sul, onde há muito capricho na criação de muares. Acompanhados na vida. o prazer de uma dessas excursões que eu até então só conhecera
por alguns amigos, que amàvelmente quiseram assistir à nossa par- pelas interessantes descrições de Le Vaillant56 • Nossos cobertores e a
tida, deixamos Praia Grande a 6, na esperança de fazer uma boa bagagem estavam todos molhados pelo orvalho; mas os primeiros raios
jornada; cedo, entretanto, verificamos ser muito mais tedioso e incô- de sol logo os secaram. Após o almôço, cada qual tomou da espingarda
modo viajar com animais carregados, do que conduzir bagagens em e, bem provido de munição, foi explorar a bela região vizinha. Anima
carros. Os contratempos aumentaram pela dificuldade de conseguir os bosques uma multidão de pássaros que iniciavam os cantos matinais.
que muitos dêles, desacostumados à sela e aos fardos, transportassem Se, de um lado, nos deliciávamos com as notas melodiosas de uns,
uma carga penosa. Por isso, mal iniciáramos a marcha, quando, para de outro tínhamos a atenção chamada pela vistosa e brilhante plumagem
nosso sério aborrecimento e não pequena diversão dos espectadores, de outros. Num brejo próximo logo consegui uma franga d'água (Ga.Z-
quase todos os burros, no mais ridículo dos espetáculos, começaram linula), diversas espécies de tangarás (Tanagra) 51 de lindíssima pluma-
a sacudir fora as bagagens. Vários o conseguiram, enquanto outros gem, e um maravilhoso beija-flor. O sol se fêz mais opressivo e eu
escaparam por entre as macegas, de modo que levamos algumas horas voltei para o nosso pouso. Cada caçador então mostrou o que caçara.
antes que os nossos tropeiros pudessem restabelecer a ordem e con- O Sr. Freyreiss, entre outros pássaros, trouxe a soberba Nectarinia
tinuar o caminho. Isso impediu que fizéssemos grande avanço nesse azul (Certhia cyanea, Linn.)58.
dia 53 . Carregamos então a nossa tropa. Embora os animais não se tives-
Cêrca de duas horas depois, chegamos a um lindo campo emol- sem ainda aquietado e algumas vêzes alijassem as cargas, melhoravam,
darado por frágeis mimosas, de fôlhas penadas, onde paramos a fim contudo, gradualmente. A estrada seguia entre montanhas, cuja magní-
de nos habituarmos a acampar ao ar livre, se bem que houvesse habi- fica vegetaçã~despertava grande admiração; plantações de mandioca,
tações nas vizinhanças. Protegendo a bagagem da umidade da noite, canas-de-açúc r, laranjeiras, cercando as casas de arvoredos, alterna-
colocamo-la em semicírculo e adiante estendemos as peles para dor- vam com pe uenos brejos. Espêssas touças de bananeiras, mamoeiros,
mir; acendemos um bom fogo no centro. Cobrimo-nos com grossos altos e esbelt s coqueiros adornavam as habitações esparsas, enquanto
cobertores, fugindo ao forte sereno dêsse clima; os sacos de viagem várias e policr micas flôres desabrochavam sob as moitas baixas; entre
serviram de travesseiros. Nossa frugal refeição de arroz e carne dentro outras a Eryt rina vermelho-escarlate, com suas longas e tubulosas
em pouco estava pronta. Ceamos sob a constelada abóbada dos flôres, e uma Bignonia de flôres infundibuliformes, a que o Sr. Sellow
trópicos; a alegria sazonou a comida, e os lavradores das cercanias, deu o nome de coriacea. No meio dêsses arbustos se erguiam o
que voltavam à casa, observaram atentamente aquêle estranho bando Cactus, a Agave foetida, e soberbas touceiras de um caniço de fôlhas
de ciganos• 54 . A fim de nos acautelarmos contra ladrões, se é em leque. A Canna indica Linn.59, de lindas flôres vermelhas, cresce
que algum poderia aparecer, estabelecemos uma sentinela regular. à margem da estrada, às vêzes até dez ou doze pés de altura; mas o
Meus cães de raça alemã prestaram grande serviço, porque, ao menor forasteiro ainda mais se surpreende com a Bougainvillea brasiliensis6o,
ruído, corriam, latindo corajosamente, em sua direção. Estava bonita
a noite, e contemplamos muitas vêzes o esplêndido firmamento: o (56) FRANÇOIS LE V AILLANT (1753-1824). Célebre ornitólogo francês, nascido em
caburé 55 , pequena coruja bruno-avermelhada, piou entre as moitas; Paramaribo (hoje capital da Guiana Holandesa), a quem se devem importantes publicações,
na sua maioria Ilustradas magnlficamente, com estampas coloridas. A lnterêsse de seus
nos charcos em derredor cintilavam insetos luminosos e as rãs coaxavam estudos prediletos viajou através da África meridional ( 1781-1785), deixando dela
a descrição de que nos fala Wied e mais uma grande monografia das aves da região.
melancolicamente. A manhã seguinte ofereceu-me, pela primeira vez Não obstante o valor de sua contribuição, apontam os críticos muitas falhas e defeitos
em suas obras.
(*) Deve haver ciganos no Brasil, visto como Koster a êles faz referências ( pág.
(57) Os tangarás a que nesse momento se refere Wied não são os mesmos pássaros
899); eu, contudo, nunca vi nenhum. que o nosso povo, a exemplo dos primeiros cronistas (v. gr. CARDIM, Tratado, ed.
J. Leite, 1925, p. 58), conhece por êsse nome. Jtstes últimos se Incluem na familla
dos Pipridas e não devem ser confundidos com os que, sob aquela mesma apelação,
(~3) Com êstes contratempos devem estar bem familiarizados os que ainda hoje ~pa~ecem na generalidade dos livros de escritores europeus, obedecendo a velha praxe
viajam em certas zonas de nossos sertões. SPIX e MARTIUS tiveram também que msbtuida por Llnneu e Brisson (que modificara arbitrAriamente o nome em Tangara).
experimentá-los (cf. Viagem pelo Brasil, ed. do Inst. Hist. e Geogr. Bras., 1938, p. 169) e Com efeito, êstes últimos, adotando o nome indígena, tomado a Marcgrave, aplicaram-no
dêles me ficou inapagável lembrança, da vez em que excursionei em Goiás (cf. Rev. a uma multidão de aves incongêneres, de que fazem parte os sanhaços, os gaturamos,
do Museu Paulista, tomo XX, p. 1~). os sais, etc. Não obstante, Wied, em outras partes de sua obra, referir-se-á
(54) Aos a quem a nota de Wied venha a despertar interêsse pela matéria, ao têrmo "tangará" em sua atual acepção vulgar (cf. Beitr. Natur(J. Bras., lii, p. 413).
recomendo o recente e exaustivo estudo do Sr. José B. d'Oliveira China (em Rev. do (58) Cyanerpes cyaneus cyaneus (Linn.), da presente nomenclatura. Cf. O. PINTO,
Mus. Paulista. XXI, p. 823-669 - 1987). R ev. Mus. Paul., XIX, p. 251 (1985) .
(55) "Caburé" ou "Caboré", Glaucidium brasilianum (Gmelin) é a espécie referida; (59) E' planta ornamental ainda hoje largamente cultivada nos jardins. Cresce
apresenta-se com plumagem ora côr de ferrugem, ora parda; será referida várias também espontâneamente e é em alguns estados conhecida por "bananeira do mato", nome
vêzes pelo autor, que, por êsse fato a descreveu com os nomes de Strix ferruuinea e aliás comum a outras plantas de semelhante aspecto.
S. passerinoides. Tem hábitos semidiurnos, ouvindo-se, às vêzes, mesmo durante o dia, (60) Numerosas são entre nós as espécies do gênero Bougain'IJillea, umas trepadeiras,
o seu canto, que lembra muito de perto o do surucuá. Na Bahia viria a descobrir outr~s ,~r~rescentes~ tôdas ornamentais, e conhecidas pelos nomes de "primavera", "três-
Wied uma espécie ainda menor, a que chamou Strix minutissima. manas , ceboleiro , etc., conforme a espécie ou a localidade.
38 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 39
arbusto de um admirável colorido vermelho suave. Não são, porém, nistas nessa região. Todos os arbustos, especialmente as mimosas,
as flôres e, sim, as grandes brácteas que as revestem, que produzem são cheios de espinhos, e as muitas espécies de trepadeiras ("cipós")
êsse magnífico efeito. se entrelaçam tão estreitamente em volta dos troncos das árvores, que
Os habitantes da região, vestidos de jaquetas claras de um leve se não consegue varar tais brenhas sem uma grande faca de mato,
tecido de verão, e amplos chapéus redondos de copa baixa, olhavam- "facão". E' também necessário usar fortes calçados de sola grossa, ou
nos com visível espanto, quando passavam, a cavalo, por nós. Os botas de caça.
cavalos do Brasil são bons e ligeiros, se bem que pequenos; são origi- Os mosquitos atormentam extremamente o caçador, tanto no inte-
nários da Espanha, e têm geralmente o corpo bem feito e per- rior da mata como próximo da água. Conhecem-se êsses minúsculos
nas elegantes. As selas são ainda, como antigamente, pequenas e pesa- animais pelo nome de "maruim"6 5 ; são muito pequenos, mas sua
das, revestidas de veludo, e muitas vêzes curiosamente trabalhadas: picada causa violenta comichão. Alguns viajantes inglêses me asse-
têm um par de velhos estribos franceses de cobre ou ferro, trabalhados guraram que êles não diferem em nenhum ponto das "sand-fly" 66
em filigrana: muitos trazem mesmo um completo sapato de madeira das lndias Ocidentais•. Éramos, no entanto, largamente recompen-
para receber o pé. Os portuguêses, em geral, cavalgam bastante, e sados dos aborrecimentos pela novidade das coisas ambientes e, sobre-
muitos são excelentes cavaleiros. A andadura favorita é o "trote" tudo, pela beleza dos pássaros. Encontramos, nesse lugar, muitas plan-
e costumam prender pedaços de madeira nas patas dos animais para tas formosas; entre outras, na sombra, uma Salvia de flor vermelho-
habituá-los a êsse passo. Passando pela aldeia de S. Gonçalo 61 , que escura, que o Sr. Sellow chamou splendens•• e também uma ]usticia,
possui uma igrejinha, chegamos aó entardecer ao rio Guajindiba, onde de flôres róseas67.
paramos perto de uma estalagem solitária, ou "venda", como é chamada Como, apesar do calor excessivo, a terra estivesse ainda muito
no Brasil. úmida dentro dos balcedos, devido ao orvalho da noite, dirigi-me a
O Guajindiba62 é um riacho que serpeia, num gracioso leito de um campo aberto e enxuto, vestido de arbustos baixos, particular-
areia, entre densas matarias. Os campos prometiam bom pasto aos nossos mente a Lantana e a Asclepias cumssavica68 , com as suas flôres alaran-
animais, e os bosques estavam cheios de pássaros, o que nos levou a jadas. Aí, inúmeros colibris esvoaçavam e zumbiam em redor das
escolher êsse ponto. flôres, a modo de abelhas. Na minha volta, cacei alguns, entre os
Pelo amanhecer, quando nos dispersamos para caçar, corri à mar- quais o de bico vermelho (Trochilus sapphirinus, Linn.), muito
gem do rio, bordada por vicejantes e. admiráveis mimos~s. Esta p~~n­
ta é muito comum nas matas do Brastl, como em quase todas as regwes (*) V. 0LDENOORP, Caraib, I, p. 128.
(**) (Suplem.) O Professor Nees d'Esenbeck dá para esta bela planta os
tropicais. Dentro em breve descobri pássaros dos mais lindos: entre seguintes caracteres: S. calycibus campanulatis trilo bis coloratis, verticillis trifloris subnudis,
êles o tié (Tanagra brasilia, Linn.)sa, de côr vermelho vivo; o cuco follis deltridibus acuminatis serratis.
bruno-avermelhado, de longa cauda (Cuculus cayanus, Linn.) 64 e outras
(65) Os "maruins" ou "mosquitos pólvora" são minúsculos mosquitos hematófagos,
formosas espécies. Matei em P.ouco tempo grande número de aves •. e pertencentes principalmente ao gênero Culicoides, da fam!Ua dos Chironomidae e subfamllia
comecei a experimentar as dificuldades com que topam os excursw- dos Ceratopogoninae. As larvas desenvolvem-se na água estagnada ou em meios úmidos,
como as matérias vegetais em putrefação. Todos são extremamente molestos pelas suas
picadas e alguns têm sido criminados como vectores posslveis de certas moléstias
infecciosas. Cf. A. LUTz, Mem. Inst. Oswaldo Cruz, 1912, p. 1 e ss.; 1918, p. 45
(61) "S Gonzalves" no original. E' hoje a cidade de São Gonçalo, dita de e ss.; 1914, p. 81 e ss.
Niterói, sita ,;a E. F. Leopoldina e distante 9 quilômetros dessa cidade. (66) Pertencem êstes a uma outra famllia, a dos Simuliidae e, no Brasil, são
(62) Wied escreveu "Guajintibo". De uma carta endereçada por distinto conhecidos por "borrachudos" (Brasil central e meridional) ou "piuns". Suas picadas
colaborador anônimo, que apenas modestamente se assina ~Iuminense, tenho o prazer costumam ser ainda mais dolorosas do que as dos maruins, constituindo, durante o
de extrair alguns dados interessantes sôbre êste pequeno no que,_ nascendo ao norte dia, o maior flagelo a perseguir os viajantes, nas margens dos rios e do interior.
da cidade de Niterói "nos flancos setentrionais da Serra de Inoa, corre para norte, Ct. A. LuTz, Mem. Inst. Osw. Cruz, 1909, p. 124 e ss.: 1909 p. 218 e ss.
irrigando zona produt~ra de frutas", e desaguando "na costa leste da Bala de Guanabar~, (67) O gênero Salvia, da famllla das Labiadas, conta no Brasil grande número
bem mais ao norte do velho pôrto de S. Gonçalo e um pouco ao sul da foz do Macacu . de espécies silvestres e ornltófilas (a fecundação é promovida pelos belja-flôres), algumas
Como informa o mesmo missivlsta, o Rio Guajindiba é ainda "multo piscoso, e é um cultivadas; a descrita por SeUow ocorre do Rio ao Paraná e é vulgarmente conhecida
prazer subi-lo pela manhãzinha, pela grande variedade de pássaros que se pode observar: por diversos nomes como "sangue de Adão" e "Cardeal do México"· é ela representada
garças, socó-bois, martins-pescadores, ti és, etc.". em ~e.Ia estampa colorida no livro de J. DEcKEB, Asp. Biol. FI. Brasil, 1986, p. 288.
Just<ew, da famllia das Acantácc:as, apresenta flôres bilabiadas, agrupadas em cacho,
(68) Rhamphocelus bresilius (Linn.), mais conhecido por ".ti~·sangue" e "sangue- e Inclui no Brasil numerosos vegeta1s herbáceos ou arbustivos, de grande efeito ornamental.
de-boi" (Bahia). Da espécie há no este brasileiro duas raças distintas. Cf. O. PINTO,
Rev. Mus. Paul., XIX, p. 264. (68) As espécies de Lantana (fam. Verbenáceas), das quais os "camarás" ou
"cambarás" contam-se entre as mais conhecidas do povo, são dos vegetais mais comuns
(64) Pia11a ca11ana macroura Gambel é precisamente !!- "alma de gato", de que nos nossos campos e cerrados. Lantana camara Llnn. é representada em bellssima
fala e voltará a falar o viajante no curso de sua narraçao. Ave comum em tôdas estampa na pl. 40 do 111 vol. do atlas do Dict. d'Hist. Nat. D'Orbigny, 2.• ed. No
as matas do Brasil meridional, e representada noutras regiões por formas mais ou mesmo caso está Asclepias curassavica Llnn., vulgarmente "paina de sêda" "cega~lho"
menos afins. "oficial da sala", que aparece de igual forma em J. DECKEB, op. cit., 'p. 256. '
DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 41
40 VIAGEM AO BRASIL
santemente o próprio nome, bem-te-vi! ou tie-ti-vi! Perto de uma fazenda
comum; observei também o beija-flor de topete côr de ferrugem (Tro- o Sr. Sellow também achou uma bela e nova espécie de Canna de
chilus ornatus)•69. flôres amarelas. Um pouco além, chegamos a um trecho coberto de
Não vimos quadrúpedes nessa primeira excursão, exceto um mato rasteiro e rodeado de morros vestidos de mata, onde topamos,
pequeno tapiti (Lepus brasiliensis, Linn.)1o, que foi atirado pelo sôbre a frescura da sombra, várias poças de água clara. Inúmeros
Francisco, rapagote coropó pertencente ao Sr. Freyreiss. f.ste animal pássaros alegravam êsse lugar. O Inondé de AzARA (T. III, p.
é encontrado em tôda a América do Sul; assemelha-se ao nosso 461)14, côr de ferrugem e de penas caudais pontiagudas, trazia mate-
coelho selvagem, e a carne é um bom petisco. Francisco era o nosso riais para o seu ninho, entre os caniços. Não longe daí alcançamos
hábil caçador, pois sabia manejar a espingarda tão bem quanto o uma grande floresta: altas e esguias mimosas de casca branca, cecró-
arco, e a sua destreza, ao se esgueirar por entre os mais espinhentos e pias75, cacaueiros e outras árvores se enlaçavam tão intimamente com
intrincados labirintos, era espantosa. Como recompensa sempre lhe inumeráveis trepadeiras, ("cipós" dos portuguêses, "lianas" dos espa-
dávamos os pássaros, depois de esfolados; êle os espetava num pe- nhóis) que o conjunto parecia formar uma só e impenetrável massa.
queno espêto de pau, para assar, e devorava-os com grande apetite. Nos escuros cimos das árvores, as flôres da Bignonia Bellas (assim
Deixamos, depois, o Guajindiba e atingimos um denso bosque de chamada por Sellow, em virtude da marquesa de Bellas, que descobriu
Rhexia 71 , de dez a doze pés de altura, entremeado de árvores altas essa linda planta) esplendiam como fogo, além de muitas outras
e intercalado de clareiras. As baixadas eram envolvidas de todos os mais, não menos magníficas como ela: embaixo voejava grande
lados por altas montanhas azuis, forradas de vastas florestas e coquei- variedade de beija-flôres e de borboletas. Essa mata, entretanto, era
ros. Entre as manadas de gado que pastavam nos campos, voava apenas uma pálida imagem da selva primitiva que em breve conhe-
e saltitava em abundância o anum 72 prêto (Crotophaga ani, Linn.), cemos na Serra de Inoã•o.
como também o bem-te-vi (Lanius pitangua, Linn.) 73 a repetir inces- Passamos, depois, por trechos em que a floresta fôra queimada
em alguns lugares para fins de cultivo, ou, como se diz aí, para fazer
(*) (Suplem.) O "beija-flor de coleira" (Trochilus ornatus) das zonas de leste um roçado, ou uma "roça". Os imensos troncos queimados pareciam
do Brasil que percorri, parece um tanto diferente do figurado por Audehert e Vielllot;
porém duvido sôbre se será uma espécie diversa, tratando-se talvez de uma variação ruínas de colunatas, ainda parcialmente ligadas pelo cordame dos
ligada à idade, muito embora eu sempre tenha observado os mesmos caracteres, até
nos machos mais velhos. A coleira não é vermelho-bruna, as penas são porém cipós ressequidos. Enquanto aí nos detivemos incomodou-nos muito
brancas, com as pontas de um belo verde, de modo a formar nos bordos daquela uma o rangido forte e desagradável dos carros que usam nas fazendas.
ourela desta côr.
f.stes são ainda construídos de modo mais grosseiro e elementar: pesa-
(69) A forma típica de Hylocharis sapphirina (Linn.) pertence à Amazônia, devendo das e maciças rodas de madeira, com duas pequenas aberturas redon-
o exemplar aqui citado por Wied ser referido à raça meridional da espécie, por êle
mesmo descrita, com exemplares de Belmonte, sob o nome de Trochilus latirostris, das, giram com forte atrito em tôrno de um eixo 77 , produzindo agudo
no vol. IV, pág. 64 das suas Beitr. Naturues. Brasilien. e áspero ruído, que se ouve a grande distância. Não obstante parece
Trochilus (hoje Lophornis) ornatus Bodd, é também do extremo norte do Brasil
e repúblicas vizinhas; a de que trata Wied, como êle próprio veria mais tarde se ter tornado para os lavradores uma necessidade o ouvir esta maviosa
(Beitraue, IV, p. 79) , é espécie congênere, Lophomis mauniticus (Vielllot), bastante música; tão poderosa é a fôrça do hábito! Mesmo em Portugal
comum em todo Brasil central e meridional.
(70) "Tapiti ", nome dado pelos tupis à única espécie de coelho, ou lebre. perten- se utilizam ainda êsses rudes veículos. Os bois que puxam são
cente à fauna brasileira. A espécie Sylvilauus brasillemis (Linn.) conta quatro raças de tamanho colossal e da melhor raça; notei que os chifres eram
distribuídas pelo Brasil oriental e central.
(71) O gênero llneano Rhexia, da famflia das Melastomáceas, ulteriormente muito muito compridos e grossos; são geralmente guiados por um escravo
restringido pelos botânicos, não contém hoje nenhum representante no Brasil meridional. negro, que leva uma longa vara, em vez de chicote.
Em virtude da grande variedade de formas pertinentes ao grupo, só conjeturar é possível
sôbre as espécies observadas por Wied, as quais devem, contudo, corresponder às que, no Aproximamo-nos agora de uma cadeia de montanhas, conhecida
grande gênero Tibouchina, são vulgarmente conhecidas por "flor de Quaresma ".
(72) E' o nosso anum vulgar; Madentresser, escreveu Wied, na ignorância
por Serra de Inoã. O selvático espetáculo excedeu de muito tudo
ainda, talvez, do nome popular, da comunlssima ave. (74) "L'Inondé" de AzARA (edição francesa de Sonnini) corresponde ao pequeno
(73) Pitangus sulphuratus (Linn., 1766) é o nome aceito para a espécie a que Pássaro Certhiaxis cinnamomea russeola (Vieiilot), freqüente nas baixadas, onde sôbre
pertence o "bem-te-vi" comum. ~rbustos constrói o seu volumoso ninho de gravetos. E' comumente conhecido por
Divergindo de Wied, todos os ornitologistas modernos vêem em Lanius pitanuua corrufra do brejo", "curutié", etc.
(Linn.) não o conhecido pássaro de cujo canto provém a denominação onomatopaica (75) Ao grande gênero Cecr6pia, da família Moráceas, pertencem as imbaúbas,
de bem-te-vi, mas sim outro passarinho com êle muito parecido, o vulgarmente chamado de que a flora indígena é riquíssima em espécies, imediatamente reconhecíveis entre
"bem-te-vi de bico chato", ou "nel-nel". Boas razões assistiam todavia ao príncipe as outras árvores da mata pelo aspecto característico, malgrado grandes diferenças
em sua. opinião sôhre o assunto, por isso que Pitangua guacu de Marcgrave, origem do de porte.
nome llneano, outro não pode ser senão o verdadeiro bem-te-vi, bem identificado (76) lnoã (Wied escreve " lnuâ "), fazenda e estação ferroviária; a serra fica
pelo canto inconfundível, a que faz menção o grande naturalista do Brasil holandês. entre Niterói e Maricá..
Muitos anos depois da publicação do livro de sua viagem, num curioso opúsculo . ~77) . Aqui parece falha a observação do autor, visto como nos carros-de-bois o
intitulado Brasilien Nachtraue, Berichtigunuen und Buséitze zu der Beschreibunu meiner eiXO gira Juntamente com as rodas, nêle sõlidamente engastadas. O ruído é produzido
Reise im ostlichen Brasilien (Francfort sôbre o Meno, 1850), voltou o príncipe a defender pela fricção do eixo nos toscos mancais, também de madeira.
com calor o seu ponto de vista. A matéria é complexa e não caberia aqui discuti-Ia
nos seus pormenores. Cf. Pinto, Catál. das Aves do Brasil, 2.• parte, pág. 151, nota 1.
42 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 43

quanto a minha fantasia concebera até então sôbre as grandes cenas da para o pólo glacial, o oceano imens? sôbre o qual sopram os v~ntos
natureza. Entramos num profundo vale, em que a água muito lím- tropicais, a uniformidade da costa onental, as fnas correntes mannhas
pida ora corre sôbre um leito de pedra, ora descansa em lagoa tran- que rumam, em direção norte, da Terra de Fogo para o Peru; as
qüila. Pouco além de uma floresta imensa, da qual nenhuma ima- numerosas montanhas, causas de cachoeiras sem conta, e cujas cris-
gem pode dar uma idéia adequada. Por tôda a parte, as palmeiras e tas nevadas pairam muito acima das nuvens; a abundância de rios
as magníficas árvores da região se entrelaçavam tanto com as trepa- caudalosos, que, depois de curvas incessantes, sempre buscam o litoral
deiras, que era impossível à vista penetrar aquela espécie de muralha remoto; desertos sem areia e, portanto, menos ardentes; florestas
verdejante. Tôdas elas, mesmo nos raminhos mais tênues, estavam impenetráveis, que enchem as planícies bem irrigadas próximas ao
cobertas de plantas carnosas, Epidendrum, Cactus, Bromelia, etc., mui- equador; e que, para dentro do continente, onde as montanhas ,e o
tas das quais com flôres de tal beleza, que quem quer que as oceano ficam tão distantes, desprendem massas enormes de agua
contemplasse pela primeira vez não poderia esconder a admiração. embebida ou de formação local; tôdas essas circunstâncias dão à
Apenas menciono uma espécie de Bromelia, de flôres de um vermelho- planície americana um clima que, pela umidade e frescura, forma
coral carregado, e cujas fôlhas eram de um belo violeta na ponta; e a surpreendente contraste com o da África. Apenas a êsses fatôres se
Heliconia78, espécie de bananeira semelhante à Strelitzia, de invólucros devem atribuir a extraordinária opulência da vegetação e a exube-
côr de sangue e flôres brancas. Naquelas sombras espêssas, próximo rância das {rondes, que constituem o principal característico do Novo
às frias correntes da montanha, o viajante afogueado, especialmente Continente".
o nascido nos países do norte, goza de uma temperatura absolutamente Quando atingimos o alto da Serra de Inoã, vimos, acima das
refrescante, aumentando o encanto que essas cenas sublimes trazem grandes árvores, numerosos papagaios voando aos p~res com grande
ao espírito, incessantemente arrebatado pelo selvagem panorama. A alarido. Era o papagaio de cabeça vermelha, (Pstttacus coronatus
cada momento encontrávamos alguma coisa nova que atraía nossa do Museu de Berlim, ou Perroquet Dufresne, Le Vaillant)• 81 aí
atenção. Até as rochas se cobrem de milhares de plantas carnosas conhecido por "camutanga", e, em outras zonas, por "chauã",. devido
e de criptógamos: entre êstes belíssimos fetos (Filix), que em parte à sua voz. Aproveitamo-los muito, posteriormente, como ahmento.
pendem das árvores, de maneira pitoresca, como fitas emplumadas. Continuando a viagem, descemos a uma aprazíve_l re!?ião campe_st_;e,
Um cogumelo achatado, de côr vermelho-vivo, forrava os troncos secos; e passamos a noite na fazenda de Inoã. O p~opnetáno, ~~ cap1_tao,
enquanto um bonito líquen carmesim cobria de manchas arredonda- que rião demonstrou a menor surprêsa pela mesperada V1s1ta, cnava
das • a casca das árvores pu jantes. As árvores das florestas brasileiras bastante ·gado e aves nos seus domínios. Vimos, criados por êle,
são tão colossais que as nossas espingardas não lhes alcançam os cimos, bonitos bois, porcos gordos, de uma raça pequena e preta, com ~orso
de modo que muitas vêzes atirávamos baldadamente em magníficos caído, longo focinho e orelhas pendentes, galinhas, perus, galmhas
pássaros; porém muitas vêzes assim nos cobríamos de flôres su- de Angola, gansos da espécie européia e o pato almiscarado (."!-nas
cosas, que, infelizmente, éramos obrigados a jogar fora, porque mo~chata, Linn.), que às vêzes voava e tornava a voltar. :Este últ1mo,
cedo murchavam e não se podiam conservar num ervário. Um Re- como se sabe, existe nas matas do Brasil.
douté79 encontraria aí copioso material para esplêndido trabalho, de A Serra de Inoã é um braço que se projeta para o mar da
valor incomum. A luxúria e a riqueza do reino vegetal na América altaneira cadeia montanhosa que corre paralela à costa. Cobrem-na
do Sul é conseqüência da grande umidade que prevalece em tôda densas florestas, onde existem muitas qualidades úteis de madeira e
parte. E' uma nítida vantagem sôbre todos os demais países quentes, em que o caçador encontra abundante variedade de caça. O dia aí
e Humboldt8o se expressa com tanta felicidade a êsse respeito, que não transcorrido, levamo-lo a caçar, enquanto nos detinha a súbita doença
me posso furtar à transcrição de suas próprias palavras • •: "A estrei-
teza dêsse continente variadamente recortado, sua grande extensão (*) (Suplem.) O papagaio de testa vermelha (Psittacus Dufresnúmus) . Valll.,
era até aqui errôneamente designado como coronatus do Museu de Berlim. Os brasi-
leiros cbamam-no •·cha uá ", nome que imita muito perfeitamente a voz da bela e
inteligente ave; conhecem-no ainda por " Camutanga ", nome derivado da llngua dos
(*) Jtste belo !lquen vermelho já foi levado para a Inglaterra por Mawe Tupinambás, ou llngua geral, na qual êle tinha o nome de "Aiuru-Acamutanga "·
(pág. 271 de sua Viagem) e pesquisas foram feitas sôbre o emprêgo de sua matéria corante.
( **) V. ALEXANDRE VDN HUMBOLDT, Ansichten d er Natur, p. 14. (81) O conde SALVAOORI (lbis, 1890, p . 370), demonstrou que o papa gaio de
Dufresne, Amazona dufresneana (Shaw), da Guiana, é espécie diversa da que ocorre
(78) As espécies do gênero são conhecidas vulga rmente por " bananeira do mato", nas matas de leste do Brasil· esta ficou sendo chamada Amazona rhodocorytha (SALVAD.).
"bananelrinha do brejo". Heliconia angusti folia talvez seja a de que o autor faz menção. De há multo não mais exist~ no Rio de Janeiro; vive porém ainda no Espírito ~~nto
(79) JosEPH REOOUTÉ (1759-1840), exímio e apaixonado pintor de flôres, ao qual e especialmente nas matas do sul da Bahia, até Ca mamu, conforme se poderá verificar
se devem Importantes e magníficas obras, entre as quais é famosa a sôbre as através do relatório da excursão que realizei naquela zona, anos atrás (Rev. M tts. Paul.,
Lüiáceas, em 8 vol. In-foi. XIX, p. 124, 1985). Faz pouco que colecionadores do museu de São Paulo obtiveram-no
(80) Cf. ALEXANDRE HUMBOLDT, Ansichten d er Natur, pág. 14. também em Alagoas.
44 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 45

de um dos nossos animais. Conseguimos grande número de lindos Procnias por Jlliger, e se chama "arapong~" em tôda a costa ~rient!!·
pássaros; o Sr. Freyreiss, porém, atirou em vão no pequeno macaco Em côr assemelha-se bastante ao Ampelzs carunculata de Lmneu ;
vermelho e dourado, conhecido por "mariquina" (Simia rosalia, Linn.). é, todavia, espécie diferente, como o indicam su_ficientemente a gar-
í.sse belo animalzinho é aí chamado "sauí vermelho". Vive nas matas ganta verde pelada e a ausência da excrescência carnosa na testa.
mais espêssas e somente se encontra no sul, nas vizinhanças do Rio A ensombrada floresta que agora atravessávamos era extrema-
e Cabo Frio; pelo menos, nunca mais o encontramos para o norte. mente aprazível; bandos de papagaios voavam em derredor, numa
Os papagaios são muito numerosos nas florestas que cobrem essas
ensurdecedora algazarra; entre êles era part~,c?l_a~ente abun~~n \e
montanhas, especialmente algumas das espécies de cauda comprida
belo periquito, de rab~ pont~d~, cha~a_do t~nba nessa reg1~0 · 8
e cuneiforme, aí denominadas "maracanã", entre as quais o Psittacus Matei também um esqmlo da umca espeCie (Sczurus aestuans, Lm?.)
macavuanna•B 2 e guianensisB3, que se abatem aos bandos sôbre os que observei em tôda a viagemB8; di~tingue-o o pêlo pardo-ac~n­
milharais vizinhos.
zentado, misturado de amarelo. Os nativos que passavam, conduz~n­
Deixando Inoã, entramos noutra floresta de árvores gigantescas do tropas de animais pesadamente carregados, mostravam-se mmto
e imponentes, estreitamente entrelaçadas, onde se nos depararam algu- espantados com os tiros que ouviam de ambos os lados da estrad~,
mas coisas novas. Vimos a grande "aranha càranguejeira" (Aranea
disparados pelos nos~os caçadores ~ispersos ~trás da caça. Depois
avicularia, Linn.)B4, cuja picada, segundo se diz, causa dolorosa infla- de atravessarmos mmtas matas queimadas, pantanos e savanas, cer-
mação. Vive ela, como já verificou o Sr. von Langsdorff, principal-
cados por altas montanhas de p_edra, chegamo~ em extensos .ca~pos
mente sob a terra. Além dêsse curioso animal, vi muitos sapos enor-
interrompidos por charcos e breJOS, onde se VIam em abundanCia a
mes, não, contudo, tão numerosos quanto na Serra que acabára-
garça branca, o pavoncinho89 americano . (Vanellu_s cayennenszs~, a
mos de deixar, e onde, mal começava a escurecer, o chão ficava
"jaçanã", chamada aqui "piaçoca" (Parra 7acar;:a, Ln~n.) e ~a~ancos.
coalhado dêles. Entre muitas, observei uma espécie que provàvelmente
Havia gado pastando nesta várzea e por entre ele saltitavam mumeros
nunca foi descrita (Bufo bimaculatus) e que se caracteriza pela presença
melros de um violeta brilhante (Oriolus violaceus) 90 •
de duas grandes manchas escuras no dorsos5. Fios de "barba de
velho" (Tillandsia) de tamanho invulgar pendiam dos alvos e elevados Os muares estavam agora tão mansos que pude fazer fogo se~
troncos das mimosas. No tope de um alto galho ressequido, sob os apear. Com um só tiro consegui matar vários melros. Em quanti-
ardores do sol, brilhava um pássaro branco (Procnias nudicollis), dade não menor que as dos melros enco~trava-se C: anum (Crotophaga
cuja voz estridente soa tal qual o choque de um martelo na bigorna, ani, Linn.), tão comum no pasto e sobre as _:ercas como. o nosso
ou de encontro a um sino rachado. Pertence ao gênero denominado estorninho, em muitos lugares; mostravam-se tao pouco anscos que
podíamos quase passar a cavalo junto dêles.
(*) (Suplem.) A ave a que dou aqui o nome de Psittacus macavuanna Linn., À tardinha chegamos à freguesia de Maricá, junto ao _lago do
parece constituir efetivamente uma espécie diversa, da que os Srs. Temmlnck e Kuhl mesmo nome. A população dêsse povoado é de cêrca de Oitocentas
chamaram Psitt. 11/igeTi. Azara foi o primeiro a descrevê-la (ediç. de Sonnini. IV.
p. 55), denominando-a Maracana fardé (vide Kuhl, Conspectus Psitt. nas Verhandl. der
Kaiser. Leopold. Caro!. Acad. vol. 10, pâg. 19).
Por êsse motivo, na primeira parte de minha descrição de viagem, sempre se (86) p 1·ocnias alba (Hermann, 1788) é o nome que, em obediência !J-OS direitos
deverâ ler Psitt. Illioeri em vez de Makavuanna. de prioridade, vinga para esta espécie, próp_ria das. Gll;ianas, mas encontradtça também
no norte do Amazonas (Rio Negro). Procmas nudu:oll.s (Vleill.) ocorre nas matas de
(82) Como viria a reconhecer o próprio Wled (nota em apêndice), hâ aqui leste desde o nordeste da Argentina (Mlsiones) até o sul da Bahia.
equivoco; Psittacus macavuanna Gmelln (hoje Ara manilata Bodd.) não ocorre senão ' (87) "Tlriba" é, em todo 0 sul do Brasil, o nome vulgar das espéci«:s do grande
no Brasil central e na Amazônia. A ave a que se refere o viajante é a vulgarmente gênero Pyrrhura, entre as quais P. cruentata (Wted), a que o autor aqut se reporta,
chamada "maracanã"; seu nome mais antigo é Macrocercus maracana VIEILLOT, 1816 como seu descobridor (cf. adiante a nota (126). e texto correspondente), é gjralmente ,?-
(baseado em AzARA), que prevale e sôbre Psittacus illigeri Temm. & Kuhl. 1820. Miranda mais comum. Mais para 0 norte (Bahia) Wled fm encontrâ-las com o nome de fura-mato ,
Ribeiro propôs separâ-la das verdadeiras araras (Ara), no novo gênero Propyrrhura. que ainda vinga.
Cf. 0. PINTO, Cat. Av. Bras., pte. 1.•, pâg. 184. (88) A espécie lineana, guianense-amazônica. ocorrerâ também, quando muito, n.o
(83) Psittacus guianensis Gmelin (1788) é o grande periquito hoje denominado Brasil este-setentrional. A observada por Wled deve ter sido, com tõ,das as probabi-
Aratinoa leucophthal7n.a (Müller, 1766) em obediência às regras de prioridade. lidades, Guerlinguetus ingrami (Thomas). Cf. O. PINTO, Rev. Mus. Paul., Xvli, p. 295 (1931).
(84) Ao tempo de Wied as "aranbas caranguejeiras", apenas conhecidas, eram (89) Vê-se que o autor, pelo menos até aqui, n_ão ~?-avia recolhido nenhum nome
referidas cumulativamente à espécie guianense descrita por Linneu; hoje, entretanto, popular para 0 nosso "quero-quero", Belonopterus chilensts lampronotus (Wagl.), ave
formam elas uma vasta superfamUia, Theraphosoideas, que Melo-Leitão, em sua grande multo freqüente, ainda hoje, não só em nossas costas. ma:ftlm!ls, como nos pântanos
e bem conhecida monografia (cf. Rev. Mus. Paul., XIII, 1922, pâg. 1-488), divide do interior. Freqüenta igualmente as malhadas, s~ndo VIsto mvanàvelme~te nas fazendas
em nada menos de sete familias, com avultado número de gêneros e espécies. Claro dos sertões de Minas, Goiás e Bahia. A ave européia (Vanellu~ vane!lus !;-tnn.l,: comparad.a
é que se torna vã qualquer conjetura com respeito à espécie observada pelo natura- com a nossa por Wied, é o "pavoncinho" (também chamado avecomha ou abecolnha ,
lista alemão. • galispo", "verdlzela ", "abibe", etc.) dos portuguêses. Cf. O. PINTO. Rev. Mus.
(85) Bufo bimaculatus foi depois pelo próprio autor (Beitrage, I, pâg. 555) reco- Paul., XIX (p. 16 a 78) e XX (p. 18 e 42).
nhecido como simples "variedade" de Bufo agua Daudin, Isto é, do sapo comum, ou
"sapo cururu". Bttfo ictericus Spix (= Bufo marinus Boulenger, n ec Linné). Cf. D. (90) Refere-se o autor ao chamado "chupim" ou "vira-bosta" (Molothrus bona-
Cochran, in Buli. 206, St. Nat. Museum, U. S. A. riensis, (Gmel.)).
DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 47
46 VIAGEM AO BRASIL

ou montanhas, com rochas e florestas. ~arece que aqui se criam mui-


almas. Os moradores de uma casa um pouco afastada, diante da
tos cavalos, mas não prestam, sendo a mawr parte de pequeno tamanho.
qual paramos, fecharam as portas cuidadosamente. Todos os vizinhos
Vimos também cabras, de pêlo curto, brilhante e amarelo-avermelhado,
também se reuniram para nos contemplar, embasbacados; mas, quando
manchado de prêto. Não muito longe das margens do lago, ch_ega-se
começamos a esfolar e a preparar os animais mortos durante o dia,
a estrada arenosa que passa entre arvoredos para a pe9uena V ~la , de
moços e velhos sacudiram as cabeças e riram-se ruidosamente dos
Sta. Maria de Maricá, localidade principal da freg~es1~, constltmda
parvos estrangeiros. As espingardas de dois canos, para êles aparição
inteiramente nova, interessavam-nos ainda mais que nós próprios. O de casas acachapadas de um só andar, de uma 1gre1a e d~ ruas
lago Maricá, junto ao qual levamos um dia a explorar-lhe as cercanias regulares, mas sem calçamento. As construções não possue~ )an~las
de vidro, porém simples abertur~s, que, como no _Br_as1l mteiro,
arenosas, tem cêrca de seis léguas de circunferência. Suas margens
são fechadas com rótulas de madeira. Nas suas proximidades plan-
são baixas e pantanosas, e o peixe é abundante. Vi uma espécie de
bagre (Silurus) que nêle existe em abundância; parecem numerosas ta-se mandioca, feijão, milho, algum café e principalmente can_a-
as espécies dêsse gênero na costa oriental do Brasil. A beira do lago de-açúcar, que dizem crescer a c~nsiderável altura nos lugares férteis,
encontramos algumas conchas, porém só de uma espécie muito conhe- ao passo que mal vai além de seis palmos no solo arenoso:
cida; e nos pauis próximos, um caracol de terra ou brejo, de que me Vegetação sempre nova nos distrai enquanto prosseguimos; big-
ocuparei em outro lugar. As aves vistas na praia foram uma espécie nônias das mais lindas flôres se enroscam nos arbustos; encontra-
de gaivota muito semelhante ao nosso Larus ridibundus91 , com cabe- mos, também, alguns frutos de forma muito ~r!ginal: Observam os
ça preta, bico vermelho e pés da mesma côr; uma bonita espécie de botânicos que as leguminosas constit~em a faffilha ma1s n~m~rosa da
andorinha do mar (Sterna), pavoncinhos, uma espécie de maçarico flora brasileira. Não obstante as mmtas fazendas que aqm s~ encon-
(Charadrius), enquanto nas alturas pairavam os "urubus", assim tram, a região é selvagem e forma, entre altas e pitorescas montanhas,
sôbre o pântano como na mata. Foi aí que tive, pela primeira vez, amplo vale de superfície irregular, donde, cercados_ pelos arbusto~,
o prazer de caçar o "acabiray" (Vultur aura, Linn.), que somente sobem os troncos esbeltos das grandes árvores. Nas ornas destas, pre-
Azara soube, até agora, distinguir devidamente• o2. Assemelha-se, à sas aos galhos, vêem-se massas pardo-e~,cura_~; que .. são. as, casas de_ uma
primeira vista, ao urubu de cabeça cinzenta ("Iribu" de Azara), se pequenina térmite amarela, chama~a cupi ou cupim · Fo~nugas e
bem que a um exame mais acurado, mesmo voando a considerável criaturas semelhantes são no Brasil extremamente danosas ~s ~lan­
altura, se possa diferenciar do outro. ~sses abutres representam tações. Encontram-se aí em tal abundância êstes v?razes an~mais, e
uma dádiva da natureza em todos os países quentes; porque êles lim- tal é 0 número de suas espécies, que um entomatolog1sta pode~Ia escre-
pam o chão, que, a não ser assim, encheria o ar de exalações deletérias. , Ab eAles uin grande tratado São de tamanhos diferentes;
ver, so so re , · da d ·
O seu olfato é tão agudo, que, morto um animal, logo se precipitam uma das maiores espécies, que tem perto de uma polega e compn-
para o lugar, em grande número, embora um pouco antes nenhum mento, e cujo corpo é desproporcionad~mente ~osso, é , assada ~
fôsse visto, mesmo a distância 03 ; por isso, nunca os perseguem, sendo comida em muitos lugares, máxime em Mn~as Gera1s, onde ~ denomi-
igualmente numerosos nas regiões descampadas e nas matas. As nada "tanajura"o4. Outra espécie, peque~ma e_ vermelha, e terrivel-
zonas próximas do lago não parecem muito férteis, por causa do solo mente incômoda e daninha. Essas formigas sao, também, bastante
arenoso e alagado. Os lugares secos são campos, onde pasta o gado, prejudiciais ao colecionador, pois em pouco tempo ~estruíram grande
· e de nossos insetos, sobretudo borboletas. Nao raro penetram,
num ro 'dA . d d d
(*) As melhores gravuras dêsses dois abutres, ainda assim um tanto defeituosas, em massas compactas, nas casas de resi enCia, on e evoram tu o
são as de VIErLLOT, na Histoire naturelle du oiseauz de l' Amérique Septentrionale 95
tomo I, pl. 2 e 2 bis. A última é a melhor delas, não obstante a côr da cabeç~ que seja comível, especialmente doces -
não representar exatamente a natural. O que os autores chamam Vultur urubu não
possui, pelo menos no Brasil, a cabeça vermelha, mas sim côr de cinza, bem como Não existem meios de proteger êsses alimentos, a não ser o de
o pescoço. pôr os pés das mesas dentro de latas cheias d'água, ou untá-los com
(91) Esta espécie, que freqüenta todo o litoral sul-atlântico, do Rio de Janeiro
à Argentina, foi descrita por Wied com o nome de Larus poliocephalus (Beltr., IV, p. ( 94.) No original "tanachura". As tanajuras, mais conhecidas no sul por ."lçás",
854) ; corresponde a Larus cirrhocephalus Vieillot, anterior em data e por Isso prevalente. são as fêmeas aladas e o v i geras d,e várias esJ?écies do" gê_nero, A tta, CUJOS ind1vlduos
(92) Trata-se aqui do "urubu de cabeça vermelha" também chamado "urubu~­ neutros, ou operários, são as form1gas cortadeiras ou sauvas .
pelro" " urubu-eaçador ", etc. (Cathartes aura ruficollis SPrx) multo espalhado no litoral ( 95 ) Refere-se Wied partlcula.rmente às ch';'-mada~ " formigas de correição" (Fam.
e nos campos do interior. Mesmo em pleno vôo, é fácil distingui-lo do urubu comum, Dorvlidae, gênero Eciton, etc.), CUJOS bandos IDlgratónos, e carn!voros, fo~mados por
com ter a face inferior das asas, em grande parte, branca. ·mero incontável de indiv!duos, fazem pelos lugares onde passam verdade1 ra limpeza
(98) As reflexões de Wled sôbre os hábitos de espécie estendem-se às que lhe n~tre os outros insetos quaisquer animais pequenos, capazes de ser por êles devorados.
são afins. Sôbre a matéria há ainda multo que Investigar; veja-se o que tive ocasião ~f. WHEELER, Social Life among the Insects, London, I92S.
de escrever a propósito do "urubu-rei" na Rev. Mus. Paul., XX, p. 4.8.
48 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 49
piche; mas, a~nda assim, muitas vêzes elas vencem êsses obstáculos. daoo. Em todos os troncos vicejam plantas herbáceas e lenhosas,
Algumas espéc1es constroem, com certa qualidade de terra, nas pare- como Cactus, Agave e Epidendrum, ostentando entre os galhos entre-
des do~ quartos, túneis multi-ramificados, por onde sobem ou descem96. laçados flôres ricamente coloridas. Quando um tronco apresenta uma
~as tnlhas das florestas vimos e;ércitos inteiros de grandes formigas, cavidade ou fenda, plantas tais como Arum, Caladium, Dracontium
todas carregando pedaços de folhas verdes para os formigueiros97. e outras despontam em grandes tufos de sumarentas fôlhas verde-
. Uma floresta virgem em que depois penetramos, ofereceu-nos novos escuras, cordiformes ou sagitadas, de tal sorte que o viajante contem-
e mteres~antes c~n~rios. O tucano, (Ramphastos dicolorus, Linn.)98 pla a mais extraordinária associação de espécies vegetais. Entre as
com o b1eo prod1g~oso e a garganta de côr alaranjado-vivo, formando plantas acima mencionadas, aparece freqüentemente o Dracontium
?elo ~~nt~aste com a plumagem negra, pela primeira vez suscitou a pertusum, de fôlhas perfuradas do modo mais estranho: uma esplên-
lmpaClencta dos nossos caçadores; a sorte, entretanto, foi-lhes adversa, dida Maranta de flôres azuis também chamou a atenção do nosso
porque, as aves pousavam tão alto no tope das árvores, que nos era botânico.
1mposs1vel alcançá-las. Em nossa jornada de hoje gozamos uma cena divertida com o
, Passamos em seguida pela. terra escura de um charco e logo depois nosso índio Francisco. Alguém de nossa comitiva julgou ver um
estavamos novamente na argila vermelha. Quanto mais avançáva- pássaro no alto de uma árvore sêca e fêz fogo em sua direção; porém
mos, I?ais soberbas e imponentes se mostravam as florestas. O euro- logo verificou que o que lhe havia parecido um pássaro era apenas
P<;U vmdo do norte não tem a menor idéia dessa magnificência, nem o nó de um galho. Francisco, que com a vista aguda, comum a todos
h! palavras para descrever o quadro com tintas comparáveis às sensa- os filhos da terra, percebera o êrro desde o primeiro instante, conser-
çoes d~spertadas. C~esce em abundância neste lugar uma palmeira vando-se porém calado a espera do tiro, depois do qual prorrompeu
de ma1s ou I?enos tnnta pés de altura, chamada "airi-açu" na língua em ruidosa gargalhada que a custo conseguiu reprimir. Todos os
geral e em Mmas "brejeúba". Os selvagens empregam-na na construção sentidos do índio são muito agudos e aperfeiçoados, motivo pelo qual
de seus ar~os; seu caule é pardo-escuro e compactamente coberto de um engano dêsses lhe parece risível ao mais alto grau. Vêzes fre-
l~ngos esp~nhos, que se implantam em anéis horizontais. As fôlhas qüentes nos divertimos com Francisco; era fiel e tinha bom coração,
~ao co~pndas e penadas como em tôdas as espécies de coqueiro, de embora fôsse também muito birrento e genioso; era assim que fazia
JUnto a sua base pender:r;t os cachos amarelos, em que posteriormente questão de atirar o maior número de vêzes, e nas melhores aves. Por
se !?rmam os frutos, mmto duros e de um prêto reluzente, de forma certo não lhe faltavam esquisitices de índio; êle nunca saía para
ov01de e do tamanho de um ôvo de pomba. Há também em tôdas caçar em jejum como os outros, mas, pelo contrário, esperava o almôço,
essas matas ~I?~ siL?-i.lai;, espinhosa, que se conserva sempre pequena e ainda que êsse devesse demorar muito, e ter-se-ia tornado muito mau
é chamada a~n r:r;tmm . Nenhuma delas foi ainda introduzida nos para seus patrões se porventura se houvesse querido forçá-lo a
sistemas de H1stóna Natural, e apenas foram mencionadas por Arru- proceder como os demais.
Era nossa intenção, continuando a viagem, atingir Ponta Negra
. (96) Não se trata no caso vertente de formigas, mas sim das térmitas ou " · " nesse dia; porém perdemos o camiriho na labiríntica e quase impra-
;ns~tos qu~ [óor~am uma c~teg~ria bem caracterizada (Ord. Isópteros, Fam. Tern~í~l:}~:) ' ticável floresta que a estrada atravessava. Chegamos, entretanto, a
an o mor o _g•ca como bwlôgtcamente. Alimentam-se da matéria vegetal viva 0 ,_;
!norta ( made•r~~;.) e é com terra, saliva e resíduos da digestão, evacuados uma grande fazenda, cujo proprietário, Sr. Alferes da Cunha Vieira,
m~estlno, que eles constroem os carreiras onde se mantém ao abrigo da 1 pe 10
evitam a todo o custo. uz, que nos recebeu muito hospitaleiramente. Chama-se a propriedade Gura-
. A história nat~ral das té_rmitas tem sido objeto de aprofundados estudos, devendo pina1oo, e possui um grande engenho de açúcar, cujas instalações cor-
Citar-se, no que respeita à s espéCies sul-americanas, os de Silvestri (cf. Redia, I, 1906 ).
. (97) Faz-se referência aqui às saúvas (Atta), flagelo bem conhecido de todos os
agricultores! sôbre o qua} A. St. Hilaire proferiu a sua frase célebre: "ou 0 brasileiro
~ata a sauva, ou a sauva destrói o Brasil ".
(99) A primeira espécie (Astrocaryum avri auct.) ocorre nas matas da Baltia
A biologia da saúva de conhecimento onde, segundo Melo Morais (Bot. Brasil., 181, p. 91), é conhecida por " brijaúba", leve
t~d}spensável ao ~ombate eficiente da praga que ela representa para' a agricultura é variante do nome consignado por Wied. Ambas parece pertencerem ao grande número
OJe. bem co~ectda graças às pesquisas de vários entomologi stas à cuja frente dabe Astrocaryum Meyer, fartamente representado no Brasil. O autor citado é o Dr. Arruda
rre~CIO~~~ asXI e M. Autuori . do Instituto Biológico de São Paul~. Cf. Arquivos do Câmara, a quem se devem copiosos manuscritos sôbre a flora medicinal do Brasil,
X~~· (l;go·Í, p. I 82 ~~941) p. 197; XIII (1942), pg. 67 e 187; XVIII ( 1948 ), p. 89 ; e com base principalmente nos quais foi editado, em 1873, o Diccion . de Botan . Bnwil.
de JoAQUIM DE ALMEIDA PINTO.
(98)
~:ro ~le f es~ela
01
côr atribuída pelo autor à garganta da ave, vê-se ue a é ·
to l~melro a reconhecer mais tarde (cf. B eitr. Naturu. Bra~. IV ~sp :::;;•
u a a co_m o nome de R. Temminckii), não é descrita por Lfnne~ c~m d
(100) Vê.se que essa fazenda deve, seguramente, ter tirado o nome da lagoa
existente junto ao litoral fluminense, pouco antes de Ponta Negra. Segundo o informante
n e ea a que nos referimos em nota anterior (62) a verdadeira denominação dessa lagoa
~os~e r~~on~:'rpa~tos d •cg!oru s, mas sim R. a?:iel V_igors, que tem habitat ma is meridional seria "Gururupina "; não obstante, Moreira Pinto (Apontam. para o Diccion. Geograf.
madu I . edo seu •co esverdeado (e nao preto) e garganta amarela côr de limão do Brazil, 11, pág. 46) escreve Gururapina, ao passo que na " Carta corográfica do
espéciro,r a aranJa a no centro. Aliás, na Serra dos órgãos teve Wl~d noticia da Estado do Rio de Janeiro, comemorativa do 1.0 centenário da Independência", lê-se
e •neana sem cbegar a vê-Ia (cf. Beit!·. IV, p. 281). "Guarapina", grafia decerto mais próxima da registrada pelo nosso viajante.
DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 51
50 VIAGEM AO BRASIL

ao cansaço, e o costume de andar sempre descalços, dão-lhes grande


respondem às já descritas e figuradas por Koster e outros viaJantes.
superioridade nesse gênero de trabalho. A vinheta que antecede êste
A cana é colocada entre três cilindros verticais que se engrenam uns
capítulo representa dois dêles, de volta de uma caçada. Vestem-se
nos outros _ror meio de dentes de madeira dura, e assim a esmagam.
de uma leve camisa e calças de algodão; muitas vêzes levam uma
A cana sa1 do outro lado como palha espremida e completamente
jaqueta sôbre o ombro, usando-a quando chove, ou nas noites f:ias. A

achatada; e o caldo é recebido numa tina de madeira, colocada em-


Cobrem a cabeça com um chapéu de palha ou de felt:o. Um em to
baixo. Os cil_indros são movidos a bois, burros ou cavalos por meio
de couro, passando sôbre o ombro, sustenta o polvannho e o saco
de um compndo varal. Em seguida, o caldo é fervido em caldeiras
de escumilha, ao passo que o gatilho da longa espingarda. é geralme~te
e pôsto depois para cristalizar em grandes potes afunilados, com um
resguardado da umidade por meio da pele de um ammal. ~ss1m
orifício no fundo, por onde se escoa o líquido em excesso; a superfície
equipado, um dos caçadores trouxe-nos ~m macaco berrador o~, gua-
do ~çúcar que enche o pote é depois coberta com barro que se diz
riba"l04; outro tinha pendurado à espmgarda um grande_ tem (La-
servu para clareá-lo 101 . Assegurou-nos o Sr. da Cunha Vieira que,
certa teguixin, Linn.) e na mão alguns pássaros, entre os quais _cha~ava
com. 20 escravos, _obtém agora~ anualmente, cêrca de 600 arrôbas (de
a atenção um tucano. Os cães, que costumam levar consigo estes
32 hbras), o~ seJam 19.200 libras de açúcar; e que se tivesse mais
braços, poden~ fazer de 90 a 100.000 libras. Cultivavam a princípio caçadores, servem na caça de veados e porcos do mato.
a cana de Catena; tornando-se, porém, conhecida a de Taitilo2, e A temperatura de Gurapina era muito variável; havia dias tão
revelando-se_ es~a muito mais produtiva, substituiu quase completa- frios, que o termômetro marcava 13° Réaumur105 , ao meio-di~, embora
mente a pnmetra- tivéssemos períodos de tempo cálido e agradável. Muttas vêzes
Nosso amável hospedeiro deu-nos um alpendre bastante espaçoso penetrei naquelas matas sombrias que cobriam as m~mtanhas, e onde
para abrigar tôdas as pessoas com a sua bagagem e onde pudemos poderia ficar o dia inteiro, extasiando-me com a qm7tude e o solene
ainda acender muitos fogos e cozinhar. Tanto êle como os demais silêncio nelas reinantes, e apenas quebrados pelo vozeno dos bandos de
moradores da fazenda, vinham visitar-nos com freqüência e não tinham papagaios. Tanto mais satisfeitos e felizes vivía~os no me_io dêsses
meios de exprim~r a. admiração ante o nosso trabalho de preparar prazeres, nos arredores de Gurapina, quanto. ~av1amos obti~O farto
exemplares de htstóna natural. Como começassem a cair grandes suprimento de provisões frescas. As que o viaJante, no Brasil, pode
a~uaceiros,. demoramo-~os bastante aí, e quando o tempo levantou, carregar consigo consistem em farinha de mandwca (comumente cha-
t1vemos ótima oportumdade para caçadas produtivas nas altas mon- mada apenas "farinha"), feijão prêto, milho, carne salgada ("c~me
tanhas cobertas de mata, que circundam o vale cheio de canaviais. sêca" ou "do sertão")• e arroz. Em vez de carne sêca, consegmmo~
Um môço português, chamado também Francisco, que vivia na boa carne fresca; o proprietário da fazenda forneceu-nos grande
fazenda entrou para o nosso serviço como caçador, e revelou extra- quantidade de excelen~es lara~jas, como t~mbém de _agu~rdente de
ord~nário~ talentos nesse mister. Era de compleição franzina, mas cana, arroz, açúcar, fannha, milho e algodao; e era tao hbe:al, que
mmto reststente, de esplêndida pontaria e muito boa índole. Conhecedor não aceitou a menor retribuição por tudo isso. Essa re~usa o~ng?u-n?~
J?rofundo da região e da sua fauna, conseguiu-nos uma porção de a partir mais cedo do que o faríamos em outras Circunstan_Cias, Ja
m~eressantes. exe~plares, entre os quais devo mencionar a mariquina que a nossa situação ali, além de outra~ vantage~s, no_s trazia a de
(Szmza rosalza, Lmn.) 103 que até então não havíamos obtido. A "ara- obter abundante material para a proveitosa contmuaçao das nossas
ponga" (Procnias nudicollis), como já foi dito, era muito comum pesquisas científicas. Assim, despedimo-nos de nosso hospedeiro e
em tôdas essas montanhas e de todos os lados ouviam-se as notas metá- rumamos para Ponta Negra.
licas de seu canto. Francisco foi quem primeiro conseguiu êsse lindo (*) Em Pernambuco chama-se, segundo Koster (pág. 123 e 180), "carne do Ceará".
pássaro par~ a ?ossa coleção. Os bons caçadores brasileiros possuem
extraordmáno tmo para explorar as florestas; sua enorme resistência (104) Os "guaribas", ou "barbados", chamad~s no sul "bugios", formam hoje .o
grande gênero Alouatta Lacépede (= Mycetes Illtger, Stentor Geoffr.). A espéc1e
a que alude Wied outra não é senão o "bugio rui_vo", Alouatta fusca (Geotfr., 18I2),
_ (101) Introduzido no Brasil em começos do século XVII é êste ainda em todo de que Simia ursina Umboldt, 1815, é um dos slnouimos. Os macbos adultos têm o
sertao o processo usual de fabricação do açúcar, quer no que respeita à moagem pêlo ruivo ao passo que os jovens de ambos os sexos têm-no ordinàrlamente muito
da cana, quer no que se refere à cristalização do xarope e à refinação consecutiva. mais escur;,, às vêzes quase prêto. E' espécie exclusiva da faixa litorânea compreendida
Cf. Rev. Mus. Paul., XX, pp. 7 e 8. entre a BaWa e o Rio Grande do Sul, voltando a ser mencionada várias vêzes pelo
autor, no decur o da obra. Mais para o interior, nas bacias dos Rios Paraná e
(102) Wied escreve " OtaWtl", forma de transição entre o nome atual e "Otaheite" São Francisco, ela é substituída pelo "bugio prêto", Alouatta. ca.ra.va (Humboldt, ISll),
primitlv~~; ?enorninação da ilha principal do arquipélago da Sociedade (situado no Pací: que o príncipe de Wied iria depois encontrar, nos confins de Bahia e Minas.
fico meridional) . Cf. Wied Beitrllge, I, p. 48; idem, Abbildungen; H. von Iherlng, Rev. do Mus. Paulista,
_ (103) ~ontoceb~ rosalia (Linn.), cb31mado vulgarmente "sauim-piranga" e " mico- IX, 1914, p. 281-256.
leao vermelho . já hoJe multo raro, hab1tava as matas do Brasil oriental do Rio (105) O que equivale a 16° centlgrados.
de Janeiro ao Espírito Santo. '
52 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 53

Os caminhos eram às vêzes tão maus, que os nossos animais cor- Museu de Berlim), ali chamado "sabiá"I09, desferia o canto melancólico,
riam o perigo de atolar-se sob o pêso da enorme carga. Cavalgamos mas agradável, do cimo dos arbustos. Ao crepúsculo, os bacuraus
entre moitas espêssas de altas gramíneas, de Canna, de Rhexia e de (Caprimulgus) esvoaçavam ao redor dos nossos cavalos, e bem assim
pequenas palmeiras; encontramos, em algumas elevações, negros des- uma grande falena de côr azul-ardosiado (Papilio idomeneus, Fabr.)*,
bastando o mato com segadeiras de cabos compridos ou "fouces", de que poderíamos caçar muitos exemplares, se tivéssemos uma rêde
para tornar o terreno próprio à lavoura; e, em algumas fazendas própria. Achei um morcêgo morto pendurado num galho, na posição
que atravessamos, havia fileiras ou sebes compactas de laranjeiras. mesma em que devia estar antes de morrer. Pertencia ao gênero
Com os bolsos e as sacolas pesadas de passarinhos e de diversas Phyllostoma 110 e assemelhava-se bastante ao descrito por Azara com o
espécies de sementes então maduras, chegamos, por fim, à Lagoa da nome de Chauvesouris premiere ou obscure et rayée u . Foi o único
Ponta Negra. Nas margens brejosas e cheias de caniços dêsse bonito exemplar que vi dessa espécie durante todo o transcurso da minha
lago, vimos grandes bandos de jaçanãs ( Parra jacana, Linn.)I06 e viagem.
garças brancas, sendo que uma destas foi abatida pelo nosso caçador; Quando íamos examinar a flor de uma palmeira baixa, encon-
mesmo nos pântanos a plumagem branca de leite dessa ave conserva tramos, seguro a um ramo, o ninho hàbilmente construído de um
sempre a mais deslumbrante pureza, devido às longas pernas. beija-flor de coroa azul, espécie que se parece bastante com Tmchilus
Alcançamos uma venda solitária, não longe do lago, onde os via- bicolor (Saphir éméraude, Buff.).,.* 111 • Era elegantemente revestido
jantes abatidos pelo calor costumam refrescar-se com limonada, ou com musgo, tal como os ninhos do nosso pintassilgo ou de outros
melhor, com um ponche frio. Aí soubemos que a notícia da nossa passarinhos. Em todos os ninhos acham-se dois ovos brancos, extrema-
próxima chegada nos precedera, e que o proprietário já imaginara mente pequenos em algumas espécies. Continuando o caminho,
especular sôbre as nossas bôlsas. De uma eminência perto da casa, passamos à noitinha por uma porção de lagoas onde cintilavam
admiramos lindo panorama da lagoa, do oceano, e da região do Rio insetos luminosos e coaxavam as rãs, e, após longo dia de jornada,
de Janeiro que ficara atrás de nós. Mais além, nos matos que atra- chegamos a uma venda situada junto à lagoa Saquarema112 , onde
vessamos, descobrimos, e em quantidade, um pássaro ainda intei- encontramos os cargueiros e camaradas, que tinham seguido outro
ra_mente desconhecido para nós, o anu grande (Crotophaga major, caminho. Esperávamos encontrar as panelas no fogo; porém faltava
Lmn.) 107 . A plumagem é negra, lustrada de azul-ferrête e verde cúpreo. aqui tudo que é necessário para preparar uma refeição. Mandamos,
Aí ouvimos o fragor das vagas, e logo depois surgiram as dunas, de por isso, alguns serviçais em busca de provisões; mas demoraram
onde se viam as ondas espumejantes rebentarem violentamente de tanto, que começamos a desesperar da volta e despachamos outros
encontro às penedias selváticas da costa. Próximo à areia branca da atrás dêles, a cavalo. Voltaram com os nossos mensageiros, trazendo
"praia" há um intrincado mato de várias espécies de árvores mofinas apenas em seus sacos de couro ("bruaca") peixe fresco. A noite,
de crescimento tolhido pelos ventos do mar e pelas tempestades. Ness~ porém, já passara e a ceia converteu-se em almôço.
cerr~do, de cêrca. de vinte a trinta pés de altura, através do qual
contmuamos a v1agem ao longo da costa, vicejam altos Cactus. e (* ) (Suplem.) Minba borboleta se ajusta perfeitamente à descrição que dá
Fabricius de Idomeneus, como ainda concorda com a figura d e Seba, tomo IV, ta b. 81,
abundam bromélias de formosas flôres. Pequenos lagartos faziam fig. 8 e 4.
ruído nas fôlhas sêcas das moitas, enquanto o grande anu, e o tié (** ) V. DoN FELIX DE AzARA, Essais sur l'histoire naturelle des Quadrupédes
d e la Provin ce d e Paraguay. Tomo 11, p. 269 .
(Tanagra brasilia, Linn.) de plumagem vermelho-sanguínea, animavam ( *** ) Trochilus pileatus: 4 polegadas e oito linhas (medidas de Paris); corpo
de soberba côr verde-metálica; alto da cabeça, cauda bifurcada, remlges e grandes
a cena. Este lindo pássaro é muito comum no Brasil, sobretudo coberteiras das asas cinzento-escuras; região anal branca; bico direito.
perto do litoral e nas margens dos rioslos.
A tarde, estávamos entre o mar e um grande caniça! brejoso, (109) Turdus ruji ventris Vleillot, vulgarmente " sabiá-laranj eira" (São Paulo),
"sabi á~oca" (Bahia), " sabiá-gongá" (Pernambuco) etc. Admite-se que no nordeste
onde bandos de pássaros vinham chegando para dormir: o "tié" era do Brasil a espécie esteja diferenciada numa raça particular, Turdus rufiventris juensis
(Cory) de colorido apenas mais desbotado.
abundante, e o tordo de ventre vermelho (Turdus rufiventris do (110) :esse exemplar vem descrito nos B eitrãge (11, p . 200 ) com o nome de
Phyllostoma supet·ciliatum, sendo assim posslvel referi-lo, com segurança, a Artibem
jamaicensis Leacb. 182 1, em cuj as populações este-brasileiras é hábito sepa rar subespecl-
(106 ) Jacana spi n osa jacalUl (Linné), pequena pernalta comunlssima em tôda& ficamente como A. jamaicensis litturatus (Licbt., 1825).
as lagoa s e pân ta nos do sertão. Os dedos extraordjnà ria mente longos permitem-lhe (111) Em nota marginal dá Wied a descrição do beija-flor por êle observado,
a ndar cômodamente sôbre as grandes fôlha s dos aguapés (Nymphaea) que flutu a m na apHcando-lhe o nome de Trochilus pileatus; só ma is tarde (Beitr. IV , p. 85) é que
superflcie. O nome vulgar "piaçoca" (=aguapé-soca) está em relação com êsse fato. verificou corresponder êle a uma espêcie já anteriormente descrita por Gmelin, sob
(107) A espécie, encontradiça nas margens dos gra ndes rios do Brasil onde quer a denominação de Trochilus glaucopis (e hoje pertencente ao gênero Thalurania Gould).
que haja abundância de matas, é vulgarmente conhecida por "anum de' enchente" O " Saphir éméraude " de Buffon (Tha lurani a bicolor, Gmel.) é peculi a r às Antilhas
" anum-peixe " (São Paulo), " anum coroca ", "corola " (Bahia), etc. Cf. O. PINTO, Rev: e difere da nossa espécie principalmente pela côr da garganta , que é a zul, como o a lto
Mus. Paul., XX, p. 158. da cabeça (e não verde).
(108) Cf. nota 68 da página 88. (112) No original vem sempre "Sagoarema".
54 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 55

O lago Saquarema comunica-se com o mar e tem vasta extensão, (6400 réis) por libra; mas os próprios colonos destruíram o lucra-
cêrca de 6 léguas de comprimento por % de largura. A água é tivo comércio, adulterando essa valiosa mercadoria com farinha, a
salgada, e embora, em alguns lugares, desprenda um cheiro desagra- ponto de tomá-la imprestável. No dia seguinte, domingo, meus com-
dável, contém muito peixe. Existe aí uma povoação esparsa de panheiros assistiram à missa na Igreja de Saquarema; enquanto isso
pescadores, que habitam as margens, em casebres de barro. Cada eu fazia transportar a bagagem em canoas, atravessando o lago, e
casa possui um poço cavado no terreiro, que serve como cisterna, a os animais, descarregados, passavam a pé através da água pouco
água da lagoa sendo muitas vêzes suja. ~sses pescadores andam profunda.
muito à frescata, como todos os brasileiros, usam largo chapéu de Deixando o lugar acima, entrávamos agora em florestas cheias de
palha, calças leves e folgadas, camisa deixando o pescoço descoberto, belíssimas flôres. A maior beleza dessa zona está na quantidade de
e os pés descalços. Todos carregam à cintura uma afiada faca de lagos espelhantes, que se estendem de Maricá às cercanias de Cabo
ponta, com cabo de latão ou de prata. Esta arma é de uso geral Frio. Bandos enormes de aves aquáticas vivem nas margens dessas
entre os portuguêses; mas é muito perigosa, dando freqüentemente lagoas; principalmente andorinhas do mar, gaivotas e garças, de
lugar a assassinatos, mormente entre homens rudes como são os pesca- que em pouco tempo matamos grande quantidade. Impõe-se ao
dores de Saquarema. A venda situada nas margens do lago é mantida ornitólogo a observação de que a maior parte das aves aquáticas e
por tôda aquela gente, e os lucros são divididos entre êles; não é palustres dessa região tem espécies análogas na Europa; vimos assim
preciso dizer que os viajantes pagam aí mais caro que alhures. A uma espécie parecida com Larus ridibundus, o Larus marinus} e
uma légua mais ou menos dêsse lugar, fica a freguesia de Saquarema, Sterna· caspia} hirundo} e uma terceira muito semelhante a minuta 113 •
grande aldeia, ou antes pequena vila, com uma igreja. Como a A diferença que há entre estas aves, tanto na América como na Europa
nossa tropa tinha que atravessar a lagoa, que aí deságua no mar por é, muitas vêzes, insignificante. A menor das andorinhas-do-mar•
estreito canal, alojamo-nos numa casa vazia, e aproveitamos a oportu- era muito abundante nas dunas da costa; essas lindas aves voavam
nidade para explorar os arredores. como as andorinhas, e a brilhante plumagem branca mais se destacava,
Não longe da freguesia, ergue-se sôbre a praia uma colina, onde então, em contraste com os nimbos do céu sombrio. Por detrás das
estão a igreja, o cemitério e o pôsto telegráfico. Subimos a colina dunas litorâneas apareciam extensos pântanos, e o terreno arenoso de
ao pôr-do-sol. Que cena grandiosa e sublime contemplamos então! permeio era coberto de uma densa vegetação de coqueiros anões de
À nossa frente, o oceano imenso, espumejando aos pés do monte em cêrca de três pés de altura. Essa planta, que não tem caule, possui
que estávamos; à direita, nos longes do horizonte, as montanhas fôlhas penadas encurvadas para baixo, ou senão enroladas, e cachos
do Rio; mais próximo, o longo litoral recortado, e, mais perto ainda, presos a uma haste erecta semelhante à da Typha, e com coquinhos do
Ponta Negra; atrás, a serra coberta de matas, que se estendem também tamanho de uma avelã; alinham-se êstes como os grãos de milho,
até a baixada, e, de permeio, a vasta superfície espelhante do lago. e têm na base uma substância comestível, vermelho-amarelada, de
Aos nossos pés a freguesia de Saquarema, e, à esquerda, a costa, gôsto adocicado. A planta é conhecida neste lugar por "côco de guriri"
aonde as vagas vinham rebentar com tremendo estrondo. ~sse enorme ou "pissandó"•• 114 •
cenário, iluminado pelos últimos raios do sol agonizante, e aos poucos
(*) Chamo essa ave Sterna a!'Uentea: é fácil confundi-Ia com a nossa Sterna
esbatido nas brumas do crepúsculo, despertou em nossas almas a sau- minuta, mas é diferente; o tamanho excede o da ave européia, medindo nove polegadas
dade da pátria longínqua. Encostados numa sepultura, perto de um e uma linha; o bico e os pés são amarelos, a ponta do bico é preta; a parte
anterior da cabeça e tôdas as partes inferiores da ave são brancas, o alto da cabeça
montão de crânios empilhados debaixo da cruz de um muro musgoso, e o pescoço, negros; o dorso, as asas e o rabo de um lindo cinzento-prateado.
(**) (Suplem.) O Prof. Nees von Esenbeck chama a esta planta Allauoptera
ficamos a cismar silenciosamente. Então sentimos com intensidade pumila, caracterizando-a da seguinte maneira: "Classis Linneana Monoeci~ Monadelphla.
quantas privações tem que arrostar o viajante, que, impelido por irre- Fam. nat. Cicadeae. Spadix simplex. Flôres à' e 9 quincunciatlm positt. - à' Calyx
sistível desejo de alargar os seus conhecimentos, sente-se sozinho num triphyllus, corolla tripetala, filamenta 14, basi connata. Antherae llberae. 9 Calyx
et corolla maris, ampliores. Stlgma cuneiforme. trifidum. Drupa monosperma. " O Prof.
mundo desconhecido. A vista tentava em vão penetrar o misterioso Martius em sua já citada obra sObre as palmeiras, divulgará a descrição feita pelo
véu do futuro, e a imaginação calculava todos os reveses ainda por Sr. Ne~ von Esenbeck com os exemplares que lhe remeti.
vencer, antes de tomarmos às plagas natais, através do oceano desme- (118) A espécie em que Wied reconhece semelhança com Larus ridibundus (Linn.),
é, como ficou dito antes (v. nota 91), Larus cirrlwcephalus Vielll.; Larus marinus
dido. A noite pôs fim a essas meditações. corresponde a L. dominicanus Licht. (v. nota 23). Das três andorinhas-do-mar, a parecida
Voltamos para Saquarema, habitada principalmente por pesca- com Sterna caspia (e descrita em Beitraue sob a denominação de St. erythrorhvnchos)
é o "trinta-réis grande ", Thallasseus maximus Boddaert, da atual nomenclatura; a tomada
dores, que também tiram da agricultura parte da subsistência. Anti- por St. hirundo é St. ltirundinacea Lesson; a semelhante a St. minuta (St. aruentea
Wied) é a nossa Sterna superciliaris Vielll.
gamente criavam aí, em grande quantidade, a cochonilha, mas essa (114) De acôrdo com a nota acrescentada por Wied, em suplemento ao seu livro,
criação foi abandonada. Comprava-a o Rei pelo preço de meio-dobrão o "cOco de guriri" seria, segundo Nees von Esenbeck, uma Cicadácea ; entretanto, nas
56 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 57

Resolvemos passar a noite na fazenda do Pitanga, que avistamos outras coisas, a velha igreja. Pelo meio-dia, estava carregada a nossa
numa eminência fronteira, semelhante a um castelo antigo, deslum- tropa, e o administrador prestou-nos grande serviço acompanhando-
brantemente iluminada pelo branco clarão da lua. Cavalgando até nos a cavalo para indicar o caminho. Se a noite nos apanhasse, a
à casa, batemos no portão, que pouco depois se abria para receber- teimosia dos burros nos teria, decerto, feito perder na treva parte
nos. O obsequioso feitor (administrador) veio imediatamente indi- da bagagem, nos péssimos caminhos, então debaixo de ~huva; porque
car-nos a casa em que a farinha é preparada. Aí encontramos quartos os animais, sem poderem andar carregados pelas estreitas sendas da
espaçosos para todos, e por isso resolvemos permanecer alguns dias floresta, esbarravam nas árvores, alijavam-se da carga e fugiam para
e explorar cuidadosamente as vizinhanças. a mata. Gastamos tanto tempo para pegá-los e de novo amarrar-lhes
Esta fábrica de farinha era muito grande. Para preparar a farinha, os fardos, que resolvemos prosseguir com mais precaução e derru-
as raízes da mandioca (Jatropha manihot, Linn.)llõ são a princípio bar os troncos que nos impediam a passagem. Afinal, chegamos a
perfeitamente descascadas; depois, levadas a uma grande roda girante, um pedaço mais desbravado, onde havia grandes charcos, balcedos e
em pouco se reduzem a polpa fina. A massa é colocada em seguida enormes poças dágua, que fomos obrigados a vadear; contingência
em grandes sacos, feitos de taquara ou de embira, que são pendurados desagradável para os que iam a pé, sobretudo para os caçadores euro-
e esticados ao comprido; dêsse modo espremem-se os sacos, expulsando peus, ainda desacostumados a tal modo de viagem. Devido ao atraso
o líquido existente na polpa utG . A parte sólida restante é posta conseqüente a êsses aborrecidos estorvos, já era noite avançada quando
em seguida em grandes tachos, de cobre ou de barro cozido, nos chegamos à fazenda de Tiririca, aonde mandamos na frente um
quais fica completamente sêca pelo calor; porém a espêssa massa, para cavaleiro pedir pouso para noite. O proprietário, capitão-mor, desti-
não queimar, deve ser constantemente mexida por meio de um pau, nou-nos, de início, para nosso alojamento, o engenho de açúcar;
tendo na extremidade, transversalmente, uma tábua. O pó sêco, como, porém, lhe mostrássemos a nossa portaria (passaporte fir-
assim preparado, é chamado "farinha". Quando o tempo estava mado pelo ministro), tornou-se extremamente gentil e convidou-nos
úmido, muitas vêzes secamos os exemplares recentemente preparados para a casa dêle. Não aceitamos, porém, o convite, resolvidos, previa-
sôbre os tachos de mandioca; e embora deixássemos sempre uma mente, a ficar com o nosso pessoal.
pessoa vigiando durante a noite, perdemos alguns espécimes raros Tiririca é um grande engenho de açúcar, aprazivelmente situado.
destruídos pelo fogo. O engenho fica ao pé de uma verde colina, em cima da qual se
O tempo tornou-se muito frio; forte vento soprava sôbre o lito- ergue a casa do dono, rodeada por cêrca de vinte pequenos casebres
ral, o termômetro mal ia a 13° Réaumur ao meio-dia. Essa região, para os criados e os escravos. Enormes canaviais cercam a fazenda;
onde se alternam pântanos, campos, bosques e florestas, forneceu-nos seguem-se, mais além, densas e altas matarias; e bem defronte do
m~ito~ animais ~nteressantes. Nossos caçadores conseguiram, pela engenho existe um trecho inundado e pantanoso de campo, onde
pnme.Ira vez, a pcupemba (Penelope marail, Linn-)117, cuja carne afluem inúmeras aves aquáticas e ribeirinhas, que pudemos matar
é mmto sabor~sa, ~ também os tucanos verdes, ou "araçaris" (Ram- das janelas. Na manhã seguinte, depois de almoçarmos, com o nosso
phastos aracan, Lmn.) 118 , belas aves que dão um curto o-rito de amável hospedeiro espalhamo-nos pelo mato. O Sr. Sellow e eu atra-
duas sílabas. b vessamos os canaviais, e passando por outras pequenas fazendas, cer-
A paisagem, dêsse ponto, era ampla e admirável; um telégrafo cadas de laranjais, penetramos numa daquelas florestas virgens, que
se correspondia daí com o de Saquarema, que se divisava ao longe. durante a minha estada no Brasil sempre me proporcionaram as mais
Pitanga era a princípio um convento, como o parece provar, entre gratas emoções. Na orla da mata, altaneiros troncos de árvores
mortas traziam a marca do fogo, por meio do qual se havia desbravado
(*) Cf. Gilii Saggio di Storia americana, tomo li, p. 304 e ss., tab. 5.
- -- - a região. A mata era uma escura selva formada por velhas .árvor~s
Corrections à edição francesa (vide o prefácio desta 2.• ed.) o autor identifica a mencionada de porte colossal, tais como Mimosa, ]acaranda, Bombax, Bzgnonza
planta com a palmeira descrita por Martins sob o nome de Diplothemium campestre.
A obra de MARTIUs Genera et species Palmarum, etc., de que há menção na nota, e o pau-brasil (Caesalpinia brasiliensis) 119 , sôbre que como sempre
veio a lume em 1824. viviam, ou em que se enroscavam, Cactus, Bromelia, Epidendrum,
(ll5) Na edição alemã In avo lê-se "Mahinot", por evidente lapsus.
(ll6) Ct. 0. PINTO, Rev. Mus. Paul., XIX, p. H-15 (1935) . Passiflora, Bauhinia, Banisteria e outras trepadeiras, cujas raízes se
~117) Penelope marail Gmelin (= P . jacupeba Spix) é espécie amazônico-guianense
que nao ocorre a leste do Brasil. Nos Beitr(Jge retifica Wled o engano, aplicando prendem ao solo, enquanto as fôlhas e as flôres se expandem nos cimos
à ave de que se ocupa o seu verdadeiro nome, P enelope super cü i aris Illinger. Não
obstante, a ave este-brasileira é hoje considerada raça particular, sob a denominação
de P. supercüiaris jacupemba Spix. (119) Caesalpinia echinata Lam. A árvore existia em abundância nas matas
_ (IIS) Os "araçarls ", de que há no Brasil uma dezena de espécies, formam o do Brasil oriental e setentrional, do Amazonas a São Paulo. Tem ainda grande
genero PteroglosBU8, bem distinto do dos verdadeiros "tucanos", Ramphastos. E' exata emprêgo na Indústria tintorial, como verifiquei no Rio Jucurucu (sul da Bahia), onde,
a determinação da espécie, como se pode verificar pela descrição em Beitr., IV, p. 288. em 1933, pude ver grandes lotes destinados à exportação.
58 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 59

das mais altas comas, motivo pelo qual só podem ser examinadas troncos, em companhia do bonito pica-pau de topête amarelo-pálido
abatendo-se um dêsses gigantescos reis da floresta, cuja madeira, de (Picus flavescens)1 23, do de penacho vermelho (Charpentier à huppe
extrema dureza, desafia o gume mais afiado. et cou rouge, Azara)1 24 e de Picus lineatus 12 õ. Caçamos, às vêzes .
Entre as trepadeiras, é muito interessante a Bauhinia, cujos for- em quantidade grande, os periquitos de rabo cuneiforme, aí cham~do~
tes caules lenhosos crescem sempre em arcos de círculo alternados; "tiribas"+126. Ao entardecer, tive a sorte de obter o pavó, ou Pze a
a_ concavidade de cada arco é como que artificialmente escavada pelo gorge ensanglantée de Azara. E' um belo pássaro negro, do tamanho
onzel curvo de um escultor, e no lado oposto convexo há um espinho de uma gralha, tendo a parte anterior do pescoço de um vermelho
curto e rombo 120. Essa planta original, que fàcilmente se confunde vivo127. O Sr. Sellow não encontrou muitas plantas novas; mas achou,
com uma obra de arte, trepa ao tôpo das mais altas árvores. A fôlha em grande porção, a Alstroemeria ligtu, Linn., de belas flôres ver-
é pequena e bilobada; mas nunca vi a flor, se bem seja a planta melhas raiadas de branco. Caçou também uma cobra, que, embora
bastante comum. O aroma desprendido por muitas dessas trepadeiras muito comum aí, é uma das espécies mais formosas do grupo. E'
é forte e variável; o cipó-cravo tem cheiro muito agradável seme- conhecida na região por "cobra coral", ou "corais"; mas não se deve
lhante ao do cravo; outras, ao contrário, como observou La Con- confundi-la com a "Coraes" descrita por Lacépede, Daudin e outros••.
damine•, viajando pelo Rio Amazonas, cheiram a alho. Muitas dão O nome da cobra coral é de todo justo; o mais vivo escarlate alterna-
longos ramos para baixo, que se enraízam; o que estorva o caminho se, no corpo liso, com anéis pretos e branco-esverdeados, de modo que
do viaj~nte, ~brigando-o a cortá-los com o facão antes de poder o inofensivo réptil pode ser comparado a uma enfiada vermelha de
prossegmr. Ha galhos pendurados que, quando os agita o vento, dão, contas coloridas128. Conservei-a muitas vêzes em álcool; porém nunca
freqüentemente, rudes pancadas na cabeça do transeunte. Em geral,
a vegetação é tão luxuriante nesses climas, que veriws em cada velha (*) O papagaio conhecido na maior parte da costa 01~ental por tiriba, parece-me
ser uma espécie ainda não descrita, que eu denominei PBlttacus cruentatus. E' do
árvore um verdadeiro jardim botânico, muitas vêzes difícil de atin- tamanho de um tordo, tem um longo rabo cunelforme e . 8 polegadas e 11 linhas de
gir, e formado de plantas certamente na maior parte desconhecidas. comprimento; plumagem verde: o alto e a parte postenor da cabeça são castanho-
acinzentados; as bochechas e o mento verdes; entre o ôlho _e o ouvido, pardo-avermelhado;
Matamos aí muitos pássaros bonitos. O surucuá de barriga amarela atrás do ouvido, no lado do pescoço, uma mancha alaranJada; face anter!or do pescoço
azul celeste; na barriga e uropygium, uma mancha vermelho-sanguínea. PBlttacus erythro-
(Trogon viridis, Linn.) era muito comum; seu canto, de notas repe- gaster do Museu de Berlim.
tidas e cad_a ~e,z mais bai~as, ouvia-se em tôda parte121. Cedo apren- (**) (Suplem.) A que aqui chamo "cobra coral" é uma Elaps e não, como
anteriormente supus Coluber fulvius de Linneu (cf. Merrem, "Versuch elnes Systems der
demos a 1m1ta-los, e ass1m podíamos fàcilmente atrair o pássaro, Amphibien", pág. u4, e "Verbandl. der Kaiserl. Leopold. Caro!. Acad. ", tomo 10, pág. 105,
q?~ pousava nos ramos baixos, perto de nós, onde o matávamos sem onde eu apresento uma figura dêste belfsslmo réptil).
d1hculdade. Igualmente abundantes eram as subideiras (Dendroco-
laptes122 de Illiger), de que matamos muitas, quando martelavam nos (123) == Celeus flavescens (Gmelin). Cf. O. PINTO, Rev. Mus. Paul., XIX, P·
(124) "Carplntero gorro y cuelo roxos" de Azara. Phloeoceastes ro bus tus (LI cb -
166, com estampa.
(*) Cf. De La Condamine, Vot~aue, etc. p. 74. tenstein) da atual nomenclatura. Cf. O. PINTO, op. cit., p. 188.
(120) O matuto conhece estas trepadeiras (várias espécies do gênero Bauhinia (125) Ceophloeus lineatus (Linn.). As aves do Rio de Janeiro devem pertencer
Legum-Cesalpin.) pela expressiva denominação genérica de "cipó-escada". Chamam-nas' à raça típica desta espécie, a qual na Bahia é representada por uma outra, C. I.
também, às vêzes, atento o feitio bilobado das fôlbas, "cipó unha de boi" ou "unha improcerus Bangs & Penard, de menor tamanho. Cf. O. PINTO, Rev. Mm. Paul.,
de vaca". XVIII, 2.• parte, p. 59.
(126) Neste lugar descreve efetivamente Wled ~m~ espécie nova para a ClenCia .. .
. . (121) . Exata aqui a identificação da espécie, sendo difícil compreender como nos ornitológica. Sua descrição in-extenstt aparece nos _Bettrlige (IV, pp. 183-88)_, depol~ de
Be~trlige, fm e!a confundida com Trogon tliolacem Gmelln, exclusivo às Guianas e
adJacências. Nao obstante, é admirável de precisão a referência de Wled ao "surucuá" ter sido figurada por Temminck nas Planches Colortées (PI. 888). Tem habitat limitado
de que há no Brasil numerosas espécies, estreitamente semelhantes assim no canto' à faixa oriental compreendida entre Rio de J~neiro e a Ba,?~a (parte" sui), mas é
como nos hábitos. Trogon tliridis Linn. é, contudo, sinônimo de T;. strigilatus Llnn:, assaz comum nos lugares onde ocorre. Na Balua chamam-na fura-mato e sua atual
correspondendo êste _à fêmea e aquêle ao macho de uma mesma espécie. Como é apelação científica é Pyrrhura cru.entata (Wied).
regra e_ntr~ os trogonldas, os machos, cuja plumagem verde-metálica os torna uma (127) E' 0 "pavó" (no original "pavô") da lfngua vulgar, P11roderus scutatus
das ma1s lindas de nossas aves, contrastam fortemente com as fêmeas que têm côr (Shaw) da literatura ornitológica. Grande pássaro frugfvoro, que vive exclusivamente
sombria, acinzentada. O nome preciso da ave referida por Wied é Tr~gon strigüatm na floresta densa e pode ser encontrado desde do nordeste da Argentina até o sul
melanopterm Sirvalns. Cf. Oliv. Pinto, Papéis Avulsos do Dept. de Zoologia IX da Bahia (Cf. O. PINTO, Rev. Mus. Paul., XIX, p. 333).
p. 130 (1950). ' . (128) A espécie de que se ocupa Wled era até então desconhecida da ciência, na
(122) Dá Wied, para correspondente do têrmo em alemão, Spechtpirole Isto é qual Ingressou com o nome de Elaps corallinus, dado pelo seu próprio descobridor.
em tradução justa-lit~ral, "pica-pau-melro". Em ver_dade Dendrocolaptes é o gênero-ti~ (N. Acta Acad. Leopold. Caro!., X, p. 108, tab. IV, 1820). Outra é a descrita por
de uma ~as~ ~aml!ta de pássaros .. neotróplcos, CUJOS hábitos e organização lembram Llnneu e privativa da América Setentrional. Curioso observar que ao príncipe-zoólogo
antes a~ . sub1detras (famflla Certhtidae) ~o Velbo Mundo, que os verdadeiros pica-paus escapa;a a temlbllidade de sua espécie, venenosa como tôdas as pertinentes ao grande
(fam. Ptetdae). Representados por grande numero de espécies no Brasil, alguns freqUentam gênero Micrurm Wagler (Elaps Schnelder), em que o Brasil conta nada menos de 13
os campos, mas a grande maioria vive na espessura da mata, onde se alimentam espécies, segundo a "Lista" de Afrânio do Amaral (Mem. Inst. Butantan, IV, 1929, p.
71 e ss.). Conforme verificaram Stejneger e Barbour, (Micrurus Wagl. 1924), cujo
de larvas e l~etos, que catam hàb!lmente, esgravatando com o bico assovelado, e às tipo é M. spixii Wagl., por monotipla, prevalece sôbre Elaps Schneider (1801), gênero
vêzes lo~gufss1mo, as frinchas das cascas das árvores, os velhos paus melo apodrecidos, politfplco que, embora anterior em data, só teve o tipo ulteriormente fixado por
as touceuas de gravatás eplfftlcos. etc. À diferença dos pica-paus não dão batidas
Flemmlng (1822), em espécie estranha ao grupo das "corais" (Cf. AIIURAL, Rev. Mm.
ou marteladas no lenho com o bico, que é relativamente fraco e ' para Isso não se
presta. Na Amazônia são conhecidos genericamente por "arapaçus". Paul., XIV, p. 7 e ss.).
60 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 61

consegui fixar a bela côr vermelho vivo. No sistema de Linneu, essa tinha nem uma coisa nem outra, e acrescentou que ia ainda ver
espécie de cobra é, sem dúvida, a descrita com o nome de Coluber se nos podia dar água. Mandamos então alguns ~o~ nossos camaradas
fulv~us, segundo espécimes que perderam, no álcool, os esplêndidos explorar as vizinhanças . e comprar o _q_ue pr~Cisavamos em outras
matizes. fazendas. No dia segumte, de manhazmha, Já estava carregada a
À tarde, nosso hospedeiro convidou-nos a cear. Durante o repasto, nossa tropa e mandamo-la à frente; nós, porém, seguimos a cavalo até
as mulheres ~a casa, de. acôrdo com o costume brasileiro, não apare- à casa do Sr. Capitão, mandando dizer-lhe que queríamos apresentar
ceram, mas ficaram espiando, pelas frestas das portas e das janelas, as nossas despedidas. Quando êle apareceu, agradecemos-lhe, com a
os estranhos hóspedes; escravos negros dos dois sexos serviram a maior polidez, a gentileza do tratamento, e acrescentamos que tería~os
mesa. Como Mawe e Koster já deram circunstanciada descrição ,._ o cuidado de informar o Príncipe Regente, no Rio, sôbre a maneira
dêsse e de análogos costumes brasileiros, não preciso deter-me no por que tinham sido satisfeitas as amáveis ~~tenções do Govê~no,
a~s~nto. D~rante a refeição procuramos levar a conversação para manifestadas nos nossos documentos; ao que VISivelmente confundido,
var~as questoes referentes ao país; mas nosso hospedeiro, tão obse- embora rosnando de raiva, berrou: "Que tenho eu com o Príncipe
qmoso sob outros aspectos, pareceu-nos não poder, ou não querer Regente!"
dar qualquer informação a respeito. ' Prosseguindo a jornada, em breve alcançamos um charco rodeado
No dia seguinte, que era domingo, fomos cedinho à missa. Par- de densos matagais, à beira do qual é muito comum o "quero-quero",
timos após o ofício divino. O calor era intenso; refrescamo-nos, ou pavoncinho brasileiro (Vanellus cayennensis)•. Essa bela ave
por. isso, em camin~o, com ponche frio e excelentes laranjas, que, em tem aquêle nome porque à vista de homens ou de outros sêres estranhos
mmtos lugares, obtivemos grátis. Essa magnífica fruta pode ser chu- começam a bradar "quero! quero! quero!", com o que amedronta
pada, em grande quantidade, sem prejuízo para a saúde, mesmo tôdas as outras aves. Encontra-se em todos os pastos, campos e pân-
qu~ndo se . está a~ogueado; diz-se, porém, que não é saudável de
tanos do Brasil. E' também comum neste lugar a grande andorinha
nOite. Mmto mawr precaução é necessária com o côco e outras de coleira branca"'"' 131.
frutas refrescantes. Como a distância de Tiririca a Parati é apenas
(*) E' esta a ave a. que se refere MAWE (Travels inter. Braz., pág. 80), qua.n?o
de três léguas, avançamos através de pântanos e areais cobertos de diz ter matado bonitos "Lapwings", com um esporão vermelbo em cada asa e mmto
mata e chegamos cedo à fazenda, que vimos à distância, num campo, barulhentos. . .
(* *) A andorinha. ai encontrada. (Hirundo collaris) é uma. bomta. espéCie nova.,
e ond.e, dado o p:ecedente do último hospedeiro, deveríamos encontrar do tamanho do nosso Cypselus da Alemanha.. A plumagem é negro-acastanhada., tõda
ela lustrada. de verde; rodeando o pescoço, há um anel esbranquiçado. As pena.~ da.
acolhimento cordial. Fôra ou.trora um convento e possuía uma igreja cauda têm o ra.que terminando em espinho, cujo comprimento excede a uma linha;
n<?va e ~astante g.ran?e, próXImo da qual se erguiam vários casarões. os tarsos não são emplumados; os dedos, muito fortes e unido~, possuem .unhas agudas e
recurvas, próprias para trepar nas roci1a.s. Aci1el essa espéc1e, pela pnmelra. vez, nos
VImos a~, pela pnmerra vez, uma doença que é muito comum no sul rochedos próximos do Rio de Janeiro.
(Suplem.) Segundo o sistema. ornitológico apresentado pelo Sr. !EMMINCK na
do Brasil entre os negros e pode ser chamada de pés inchados129. nova edição de seu Manuel d'Ornithologie (prém. part. pág. XXXIX) Htrundo collar•s
:Estes começam por se cobrir de uma crosta dura e grossa como na é JJm Cypselus. Como ela só tem três dedos para diante e um para trás, eu não
a separei das andorinhas. Hirundo peloogia Linn. apresenta. exatamente a mesma
elefantíase. ' disposição. H. collaris vive nos montes rochosos do Rio de Janeiro e alhures, mesmo
em regiões planas, pôsto que haja. rochedos nas proxl?lldades, como por exemplo nas
Pedi~?s ao proprietário para passar a noite em sua casa; mas, lagoas de Maricá, Saquarema e outras, em tôrno de CUJaS margens voe)a.. Em contraste
ao co~ltrano ~os outros lavradores brasileiros, que até então só nos com esta grande andorinha, acha-se no Rio de Janeiro uma outra e~pécle mU;Ito pequena,
que tenho por ainda não descrita, motivo pelo qual. dou a segmr,. resumidamente, os
IJ?-ereCia~ elogws, deu-nos uma varanda13 0 miserável junto às estreba- seus caracteres. Hirundo minuta: 4 polegadas e 8 linhas de compriment.o, 8 polegadas
e 4 linhas de envergadura; bico negro; pés bruno-escuros; dedo médiO quase duas
nas, CUJa coberta nos abrigava da chuva, mas que nos deixava comple- linhas mais comprido do que os restantes; calcanhares implumes; dorso dos pés
tamente expostos ao tempo de todos os lados. Retirou-se à nossa escutelado; partes superiores inteiramente pretas, lustradas de azul-ferrête; CS:uda leve-
mente bifurcada. e sem brilbo, como também as asas; ventre, garganta. e peito alvos:
chegada, provando, assim, que os nossos amigos de Tiririca, apresen- coberteiras inferiores da cauda e crlsso bruno-pretas, às vêzes com algum hnlbo esverdeado,
rebordo dianteiro das asas um pouco escamado de branco; juvenis com a fronte
tando-o como homem hospitaleiro, tinham-lhe prestado imerecida e o baixo dorso mesclados de pardacento. Nldlfica abundantemente nos edifícios da. cidade.
homenagem. Mandamos pedir-lhe um pouco de arroz e de milho
(181) Trata-se de Streptoprocne zonaris (Shaw), uma das duas espécies conhecidas
para os animais, mas êle negou tudo, sob o pretexto de que não pelas denominações vulgares de "andorinha-coleira", "taperussu", "andorlnhão", etc. Por
exemplares fornecidos por Wled, foi ela pouco depois ( 1823) representada a côres por
Temmlnck. na PI. 195 do seu famoso Nouveau Récueil de Planches Coloriées, com o
(12_9) Afecção provàvelmt;nte do grupo dos micetomas. 1tstes têm como causa 0 nome de Hirundo collaris. Já era. todavia conhecida da. ciência, através de Sha.w (1796),
~esenvolVlmento, dentrl? dos teCidos, de determinados cogumelos parasitas, cujo número, cuja denominação por isso prevalece. No tomo III Beitriige, há informes complementares
Já bastante elevado, amda cada dia cresce, com o descobrimento de novas espécies. sõbre a ave dos quais o mais interessante é o que se refere à sua existência, por
.. (ISO) ;•vara_nda", t.êrmo empregado aqui no seu sentido de "alpendre ", "puxado" aquêle temp~. nas pedras do aqueduto ("Arcos da Carioca") da cidade do Rio. Outro
ou . t~lhe1ro , ma1s legitimo do que o de sala. de refeições, que veio entretanto a taperussu, do mesmo porte e encontradiço também nos Estados do. sul, é Streptoprocne
adqmnr, atualmente, em certos meios, especialmente entre os paulistas do Interior. biscutata Sclater, com uma nódoa. branca na nuca e outra no peito, em vez de colar
62 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 63

O calor estava, agora, mais abafadiço do que nunca; nem a mais todos os índios têm a fisionomia peculiar à raça, que foi descrita
tênue aragem perpassava, ao passo que a areia escura e sêca refletia mais detidamente a propósito da nossa visita a S. Lourenço; entre-
os raios do sol, aumentando a ardência atmosférica. tanto, ela é aqui ainda mais característica. As roupas e a linguagem
Na mata atravessada pelo nosso caminho, os caçadores mataram eram as das classes baixas portuguêsas, e somente em parte conserva-
uma bonita espécie de maracanã (Psittacus guianensis, Linn.)13 2, vam o conhecimento da língua original. Tinham a presunção de
que se encontra aí em bandos incontáveis. Chegamos, além da flo- querer passar por portuguêses e olhavam com desprêzo os irmãos
resta, a um lugar onde numerosos índios de S. Pedro ocupavam-se ainda selvagens das florestas, a quem denominavam "caboclos" ou
em melhorar a estrada: era para nós um quadro novo e interessante. "tapuias". As mulheres enrolavam os compridos cabelos, negros
Depois de transpormos alguns morros, apareceu-nos subitamente a como carvão, num coque no alto da cabeça, como as portuguêsas.
lagoa de Araruama• 133, que tem seis léguas de comprimento e, além Penduradas nos cantos das palhoças, acham-se as rêdes de dormir
disso, muito larga; comunica-se com o mar, légua e meia ao norte da família. Vêem-se também nelas muitas vasilhas de barro cinzento.
de Cabo Frio, e abunda em peixe. O sal é extraído, diz-se, em Os homens são em geral bons caçadores e habituados ao uso da
alguns pontos da margem. Matas e umas poucas habitações orlavam espingarda; os meninos têm ótima pontaria com os pequenos arcos
a praia oposta, e, à distância, sôbre pequena elevação, erguia-se a feitos da madeira do airi, chamados "bodoques" 135 • f.ste arco tem duas
igreja da vila de S. Pedro. Depois de têrmos andado a cavalo em volta cordas separadas por dois pedacinhos de madeira; no meio, as cordas
do lago, chegamos à venda da vila, onde encontrei os burros descar- se unem por intermédio de uma espécie de trançado onde se coloca
regados, e esperei pelos caçadores, que vinham fatigados do calor e a bola de barro ("pelota") ou uma pequena pedra redonda. A corda e o
da longa viagem a pé. Chegaram logo, trazendo muitos animais projetil são esticados para trás pelo polegar e o indicador da mão
interessantes, que mataram em caminho. direita, soltando-se depois repentinamente, para arremessar o projetil.
S. Pedro dos fndios 134 é um aldeamento indígena ("aldeia"), que Já o Barão de Langsdorff havia mencionado tal tipo de arco, visto
parece terem os jesuítas primeiramente formado com os goitacás••. por êle em Sta. Catarina; encontramo-lo em todo êsse litoral, e,
Há aqui, como era de esperar, uma bonita igreja, além de várias ruas, no Rio Doce, até os adultos o empregam contra os Botocudos, quando
mas as residências são simples casebres de barro, tôdas elas, bem não têm armas de fogo. São os índios extraordinàriamente destros
como a maior parte das habitações esparsas pelas cercanias, ocupadas nessa maneira de caçar, podendo abater um pequeno pássaro a grande
por índios. Tinham êstes um capitão-mor, (equivale a comandante distância; e o que é mais, até borboletas pousadas nas flôres, como
ou alcaide de sua própria raça), mas que não possuía nenhum privi- Langsdorff relata. Azara, na sua descrição do Paraguai•, conta que
légio além do título. Afora o padre, há poucos portuguêseS. Quase naquele país êles arremessam, com tais arcos, vários projéteis ao mesmo
tempo (êste instrumento está representado na fig. I da l3.a estampa).
(*) Esta lagoa é também chamada "lraruama" ou "Aruama ".
Koster, na sua viagem pela "capitania" de Pernambuco, descreve
(**) A Corografia bra8ílica, tomo 11, p. 45, diz o seguinte sõbre a origem dêste os índios mansos com precisão, porém faz dêles juízo bastante desfa-
aldeamento: Neste local os três Irmãos Corrêas, Gonçalo, Manoel e Duarte com o vorável; é possível, contudo, que estejam lá numa etapa inferior de
capitão Miguel Ayres Maldonado e muitos outros, em Abril de 1629, sob 'salvador
Corrêa de Sá, resolveram libertar dos tndlos Goltacás um vasto trato de terra civilização. Devo também observar que parte das acusações sôbre a
que lhes tinha sido dado de presente desde AgOsto de 1558. '
rudeza e o freqüente mau caráter dêsses índios se deve descontar
completo. São aves da famllla dos Apódidas (ant. Clpsélidas), grupo multo diverso
do tratamento errado e opressivo que outrora lhes dispensaram os
com o segmento terminal da asa (mão) multo mais longo do que nas verdadelr~ europeus, os quais, muitas vêzes, nem reconheciam nêles criaturas
andorinhas (Hirundfnidas), com que, não obstante, dada a semelhança de aspecto e
de hábitos, passam ordlnàriamente confundidas pelo povo. A disposição dos dedos a humanas, associando, aos apelidos de caboclos e tapuias, a idéia de
que fêz Wied referência em nota suplementar, varia multo nos representantes da familla animais, criados apenas para serem maltratados e tiranizados.
podendo ser dianteiros d!>is, três, ou mesmo todos quatro. Hirundo pela8(Jia Llnn.,'
1766 (= Chaetura pela(JtCa Llnn., 1758) é também um Apódida. Hirundo minuta Em linhas gerais, porém, deve reconhecer-se que Koster lhes des-
Wled (descr. na nota suplem.) corresponde a Hirundo cyanoleuca Vielllot, 1817 espécie creve corretamente o caráter; porque ainda mostram invariável ten·
tfpica do gênero Pygochelidon Baird. '
(132) E' o "Araguaf" de alguns Estado do Brasil, ou Aratinga leucophthalma dência para a vida indolente e desregrada. Gostam de bebidas fortes
(Müller) dos ornitologistas.
(183) Segundo THEODORo SHtPAio (Tupi na Geoor. Nac., 3.• ed., p. 228) o nome e detestam o trabalho, não têm firmeza em suas palavras e são pou-
"lraruama ", citado por Wied nesta nota, era o nome primitivo da lagoa e significa cos os exemplos, entre êles, de caracteres dignos de nota. Não que
" comedouro ou viveiro de lontras" (e não de arara8, como sugere a atual apelação),
etimologia por todos os pontos aceitável.
(134) Atual São Pedro da Aldeia, na margem setentrional da Lagoa Araruama
e não longe de Cabo Frio. A crer em Joaquim Norberto (Mem. Hist. das Aldêas dos (*) AzARA, Voyaues, etc., vol. li, p. 67.
Indios da Prov. do Rio de Janeiro) o aldeamento só teria sido fundado em data posterior
(16 de maio de 1617) à dada por A. de Casal. Cf. A. Moreira Pinto, Apontam. para (135) No original "Bodoc". Edição princeps da presente obra em alemão.
o Diccion. Geogr. do Brasa, 111, p. 161.
- ~-.....------~---~-----

64 VIAGEM AO BRASIL

tenham inteligência apoucada; compreendem ràpidamente o que lhes


ensinam, sendo além disso espertos e astuciosos. Um traço notável de
seu caráter é o orgulho indomável e a forte atração pelas suas matas.
Muitos dêles ainda não se libertaram das velhas crenças, e os padres
se queixam de que são maus cristãos. A profissão eclesiástica lhes
foi aberta, porém bem poucos a abraçaram. Havia em Minas Gerais
um padre índio, pertencente a uma das tribos mais selvagens. Era
um homem geralmente estimado e viveu muitos anos em sua paró-
quia; de repente, entretanto, desapareceu; descobriu-se que jogara
fora as vestes clericais e correra, nu, ao encontro dos irmãos das selvas,
entre os quais teve várias mulheres, depois de parecer, anos a fio,
fervoroso crente das doutrinas que pregara. Os negros que vivem
no Brasil são bastante diferentes dêsses índios; têm mais capacidade
e perseverança para aprender tôdas as artes e ciências; alguns chega-
ram mesmo a tornar-se homens muito notáveis•.
Enquanto os índios têm o suficiente para comer, não é fácil per-
suadi-los a trabalhar: preferem passar o tempo em danças e bebe-
deiras. As danças atualmente em voga foram tomadas aos portu-
guêses; delas, a mais querida é o batuque 136. Ao som da viola (gui-
tarra), tomam os dançadores, uns diante dos outros, diversas posições
indecorosas, batem palmas, estalam a língua • •, e não se esquecem do
famoso cauí• • • , que é feito, agora, apenas de farinha de mandioca,
milho ou batatas. As raízes são raspadas, cortadas em pedaços, cozidas
ao fogo e depois mastigadas; tomada à bôca a massa com os dedos,
a massa é posta numa vasilha, onde fermenta com adição de água,
convertendo-se numa beberagem algo nutritiva e enebriante, de gôsto
ácido e muito semelhante ao sôro de leite.
E' a libação favorita, que, em geral, se toma quente. O modo
de vida seguido por êsses índios ainda não se diferencia do dos antigos
habitantes do litoral. Os portuguêses adotaram muitas coisas dêles e,
entre outras, a preparação da farinha de mandioca. Usam no comêço
duas espécies de farinha; uma grossa, chamada "uy-entam" e outra
mais fina, de nome "uy-pu"• •••, e ainda hoje, embora civilizados,
êsses índios conhecem muito bem o nome "uy". Já naqueles pri-

(* ) Veja-se o 1. 0 volume, pág. 94 das " Beitrii.ge zur Naturgeschicbte " de Blumenbacb,
tanto para o que se refere à capa cidade intelectual dos negros, como para o que diz
respeito ao modo de vida e ao apêgo dos povos rudes à sua terra natal.
(** ) Cf. EscHWEGE, JournaJ, von Bra1ilien, 1. 0 caderno, pág. 59.
( *** ) SIMÃO DE VASOONCELLOS refere em suas NoticiCUI curiosas do Brasil, págs.
86 e 87, todos os tipos de cauf prepa rados naquele tempo pelos fndios do litoral;
a bebida era guardada em "talhas " que denominavam " igaçabas". Dêle enumeram-se
32 variedades, tais como o de "acaiá ", "aipi " (chamado também "cauí caraçu " e "cauí
macacbera " ), de " pacoba" (Pacoüy), milho ("Abatiüy"), ananás ("Manavy"), êste
mais forte e que fàcilmente embriaga, o de batata ("Jetiuy"), jenipapo, beiju ou
mandioca ("Tepiocuy"), mel de abelha selvagem, açúcar ("garapa"), caju, etc. Os
últimos são os mais estimados. Veja-se também sôbre o " caui " J EAN DE L t av, p. 12S.
( **** ) J EAN DE LÉRY, Voyage, etc., p. 116.

(136) Grafado por Wied "Baducca ".


DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 65

meiros tempos, preparavam o mingau engrossando o caldo de carne


com farinha de mandioca. Os portuguêses também adotaram isso.
Durante as refeições, colocavam do lado uma porção de farinha de
mandioca sêca, e iam-na jogando em punhados para a bôca com tal
agilidade, que não perdiam o mínimo grão. ~sse costume ainda
se observa entre os descendentes, bem como entre os lavradores por-
tuguêses*137. Os antigos Tupinambás distinguiam uma excelente
espécie de mandioca, a que davam o nome de "aipi" e que, assada na
brasa ou cozinhada em água • • , ainda hoje é largamente usada,
ora com aquêle nome, ora com o de mandioca-doce 138 • Como êstes,
outros costumes ainda hoje sobrevivem.
Embora professem a fé cristã, muitos só vão à igreja para salvar
as aparências, e assim mesmo poucas vêzes; são, além disso, supersti-
ciosos e cheios de crendices. Koster• • • chegou mesmo a encontrar em
Pernambuco maracás• • • • , numa casa indígena; prova de que em parte
ainda estão presos aos costumes dos antepassados. Contudo, à pro-
porção que se fizerem mais civilizados, a originalidade dêsse povo
e as últimas sobrevivências dos antigos costumes se irão desvane-
cendo, de modo que dêles não se encontrará futuramente nenhum
vestígio e só serão conhecidos através das descrições de Hans Staden
e de Léry.
Conversamos longamente com os habitantes de S. Pedro, que
aproveitavam a frescura da tarde à porta de suas choupanas. O capi-
tão-mor, velho indígena desconfiado, e com êle todos os moradores
do lugar, não pôde esconder a suspeita de que éramos espiões inglê-
ses; mesmo depois de lhe têrmos mostrado a nossa portaria139 não
ficou de todo satisfeito. Os inglêses são no Brasil muito malquistos;
e todos os europeus do norte, com cabelos louros e pele branca, são
tidos como pertencentes à sua nacionalidade.
Como as circunvizinhanças parecessem oferecer abundante mate-
rial para as nossas pesquisas, permanecemos aí vários dias. Os caça-
dores trouxeram-nos, por exemplo, alguns micos (Simia fatuellus,

(* ) lbid. p. 118 e 119.


(** ) lbid. p. 119.
(*** ) Koster's travels, etc. , p. 314.
( **** ) H a ns Staden chama-os Tamaracás.

(137) Para certos pontos do país, menos influenciados pela renovação dos costumes,
poder-se-á, ainda hoje, renovar a interessante observação registrada por Wied. A curiosa
usança presenciei-a, pelo menos eu, na Bahia, entre pessoas idosas, especialmente do
sexo feminino.
(188) E' sabido que no norte do país a mandioca doce, chamada também "mandioca
mansa ", "aipim " (Bahia), "macachera" (Nordeste) , ou simplesmente "ma ndioca " (São
Paulo e sul do Brasil), é de largo uso na alimentação, como substitutivo do pão, a
que certas variedades nada ficam a dever em aroma e sabor, mormente se servidas
ainda quentes e condimentadas com sal e manteiga.
(139) Wied escreve sempre textualmente " Portaria ".
DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 67
66 VIAGEM AO BRASIL

vanas especies, de grandes flôres amarelas ou brancas, motivo pelo


Lin~.. o . "sauí d: chifre") 140 e ~ma preguiça de coleira negra •1u qual uma é conhecida por ipê-amarelo, enquanto a outra, que fornece,
espeCle amda mmto pouco conhecida, que fomos encontrar, posterior- talvez, a madeira mais durável para construção naval, se chama ipê-
mente, em grande número, nos distritos do sul, mas não vimos nenhu- tabaco, porque do cerne, quando é partido, sai um pó esverdeado;
ma no norte. Sendo domingo o dia seguinte, todos os habitantes das o piquiá, cujo fruto é às vêzes comido pelo homem, e constitui ali-
redondezas afl~íram para a mi~sa. Fomos também à igreja, ante a mento comum dos macacos14 3; do mesmo modo, a pitomba 144 , o óleo
qu:l se este_ndia uma longa aléia de palmas ressequidas, fincadas no pardo (Laurus) 14 5 e o ipê-una (Bignonia) 146 , a mais dura de tôdas.
c!t~?· que tmha servido ~ara ~m festival passado. Um tal Sr. "capi-
Sendo esta elástica e ao mesmo tempo muito leve, os índios usam-na,
tao Carvalho: que tamb:m. foi, mostrou-se muito atencioso para co- às vêzes, na confecção dos arcos. Além disso, encontram-se aí o imbiú,
nos~o. _Possma na~ proximidades uma "roça" e em Cabo Frio, não
o jaquá, o grubu, a grumbari e a maçaranduba 147 , que apresenta, sob
mmto distante da vila, ,um~ c.asa, que nos ~fereceu insistentemente para a casca, um suco leitoso, com o qual os indígenas fazem o visgo; a
ho~pedagem, _quando la esuvessemos. Aqm em S. Pedro foi êle o nosso
graúna148, a "sergeira" (uma Cassia ou Mimosa de fôlhas caducas),
gma e convidou-nos repetidas vêzes a conhecer-lhe a casa das vizi-
árvore das mais belas e frondosas, de lenho bastante leve, capaz de
nhanças o que foi aceito pelo Sr. Sellow. Durante a missa observamos substituir a tília e o álamo, e usada no fabrico de canoas. Aí existe
muitos índios bruno-escuros, com as suas fisionomias características igualmente uma árvore chamada jarraticupitaia149, de casca aromática,
o que constituiu para nós, estranhos, espetáculo bastante curioso: usada como remédio pelos índios; o jacarandá1 50 ou bois de rase
A tarde, dançaram na casa do capitão-mor: o cauí andou em roda
(Mimosa), de um belo castanho-escuro, madeira dura, pesada, preciosa
e êles _mostrara~-se extremamente alegres. O padre estêve presente, para os ebanistas, e possuindo um ligeiro, mas agradável, perfume de
mas na~ parecia tratarem-no com _muito respeito, exceto na igreja. rosas; a parte branca externa da madeira não é utilizada, mas ape-
A VlSlta que ~ nosso companheiro bot~nico fêz à casa do Capitão nas o cerne; cuirana1 5 1 (Cerbera ou Gardenia), madeira muito
Carvalho, proporciOnou-nos alguns conhecimentos sôbre os interessan- leve com que se fazem pratos e colheres, e cuja casca produz um
tes espécimes das grandes florestas próximas de S. Pedro. Nelas
há u_~a ~norme abundância das melhores madeiras de lei e de plantas se destacam no verde da mata, como gigantescos ramalhetes coloridos, de belissimo efeito.
medic_mais. O_ sr. Car~alho fôra acusado de exportar essas preciosas Têm flôres amarelas T. chrysotricha Mart .. T. araliacea D. C., T. pedicellata Bur & Sch.,
etc.; roxas T. impetiginosa Mart. " Ipê-tabaco " ou " lpê-açu " é, segundo Lllfgren, nome
madei:as, que sao propnedade da Coroa, e prêso por ordem do govêrno; que mais prbpriamente se a plica à espécie T. pedicellata Bur & Sch. Da mesma familia
postenormente, provada a inocência, puseram-no em liberdade. · é o "ipê branco" (Zevhera tuberculosa Bur).
(143) Há vários " piqulás " ou "piquis", tlpicamente todos do gênero Caryocar
. O pau-brasil (Caesalpinia brasiliensis, Linn.), tão celebrado e conhe- (fam. Cariocaraceas). C. brasiliense Camb. é comum nos Estados do norte, até São Paulo.
Cido na Europa, é aí muito comum; também o ipê (Bignonia)142 de Dos frutos de uma espécie faz-se, principalmente em Mato Grosso, um licor do mais
requintado paladar.
(144) Wied escreve "Pitoma" (fam. Sapindáceas) . A pitombeira (Sapindus esculentus
_ (*) . A preguiça de coleira Bradvpus torquatus Illiger é uma espécie nova ainda Cambess) é planta hoje cultivada; produz fruto de polpa açucarada e comestivel,
nao descr1ta.. Difere muito pouco do "ai", em tamanho e forma; a côr, porém: é u'a não obstante a toxiclez de suas sementes e de sua casca.
mescla de Cinzento e avermelhado; a cabeça pende mais para o avermelhado e é (145) Haverá provàvelmente engano do a utor ao referir às Lauráceas o seu "óleo
misturada de branco. Na parte superior do pescoço bá uma larga mancha d~ pêlo pardo". Ora por êsse nome, ora pelo · nome de "cabreúva", são conhecidas plantas do
comprido e negro. Essa espécie tem nos pés três dedos como o "ai" e não dois, gênero llfyrocarpum (faro. Leguminosas, tribo Papilionáceas), e mais particularmente
como diz llllger no seu P•·odromus. a espécie llf. trondosus Fr. Ali.
(146) "Ipê prêto" ou "Ipê-una" são nomes também usuais para o "ipê-roxo "
,(140) E' quase i'!extricã:vel a confusão em que vivia a zoologia dos nossos "macacos- (Tecoma impetiginosa Mart.).
prego ao tempo de W1ed, remando ainda hoje muita obscuridade no tocante à matéria (147 ) "Imbiú" está provàvelmente por "imbaúba" (Cecropia); "jaquá" poderá
Torna-se ~~:ssim impossivel_ dizer com absoluta precisão de qual de nossos simios s~ estar por "jaca" (Artocarpus integrifolia Llnn.); "grubu" ?; "grumbari " ou "grumarié",
ocupa aqw o autor. Nao é, todavia, de Cebus tatuellus (Linn.), espécie guianense segundo Melo Morais, uma árvore (familia?) de madeira amarela, semelhante ao buxo,
que no Brasil poder:á ocorrer apenas na Amazônia setentrional. Tôdas as probabllidad~ em estrutura; "maçaranduba" (Mimusops elata Fr. Aliem.), grande árvore da familla
falam, pelo con~ráno, em favor de Cebu~ niuritus Goldfuss, 1809 (= Cebus cirri/er E. das Sapotáceas, ocorrente desde o Amazonas até São Paulo.
Geoffr.)\ conhecido en_tre o povo por "m1co de topete ", opinião que tem em seu apoio (148) "Baraúna ", "guaraúna " ou "graúna " (Melanoxylon brauna Schott .. Legumin.,
a autor!dade de_ Damel ~lllot (Rev. ot the Primates, 11, pp. 68 e I09). Não fala Cesalpin.), uma das nossas maiores árvores (Rio, Minas Gerais)cle cerne prêto-arroxeado,
contr_a _1sso a c1rcunstâ~C1a de haver o autor, nos Beitrage, tratado c. tatuellus e durlssimo. "Sergueira ", aparentemente indeterminável.
C. c•rnfer em tit~los d1stintos. O macaco figurado com o nome de C. cirriter nas
Abbildungen é ma1s provável que _pertença a C. varieuatus Geoffr. (149) No mesmo caso de "sergueira" (v. nota supra).
(141) Bradypus torquatus Ilhg. caracteriza-se de maneira inconfundivel pela grande (150) Há enorme confusão no emprêgo dêste nome vulgar, denominando-se "jaca·
m~ncha preta da nuca, e':ll contraste . com a côr clara, quase uniforme, do restante do randá", ora várias Leguminosas dos gêneros Dalbergia e Machaerium, ora algumas
pelo. Ocorre no Brasil onental, do RIO para o norte, havendo eu próprio conseguido um Biunoniáceas (gênero Jacaranda). As últimas são no sul mais conhecidas por "carobas"
couro dela em Pernambuco (1939), enquanto que o Museu Paulista recebera há anos dois e " carobinhas". O a que se refere Wied é, ao que parece, o "jacarandá prêto" (duas
e~emplare~ de I_ta~una _( Bahia). _Comp~eende-se mal que Wied a dess~ como e;pécie espécies, pelo menos, recebem êste nome vulgar: Machaerium incorruptibile Fr. Aliem.
nao descnta, pOis Já Ilhger a havia batizado em 1811. e Jlf. legaJe Bentb.), famosa pelo seu emprêgo nas obras de marcenaria antigas.
. ~142) Os verd8:,deiros " ipês" .ou "paus-d'arco" pertencem ao gênero Tecoma (fam. (151) Estará por "coirana"? E' possivel; mas as plantas correntemente chamadas
B1gnornáceas) ; há deles grande numero de espécies, algumas ainda mal estudadas ou por êste nome são, quando muito, arbustos (Cestrum, familia Solanáceas) e dificilmente
P~lo menos impossiveis de identificar precisamente, pela simples designação vu'lgar. poderão ser a mencionada por Wled.
Sao geralmente árvores de grande porte e lenho durissimo, que, durante a florescência
68 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 69
suco leitoso; a peroba 1 5 2 , dura e sólida madeira para construção naval, um forte. Uma enseada ("lagoa") entra pela terra firme, formando
que é usada pelo govêrno e declarada propriedade real; canela (Lau- um semicírculo, em cujas margens se assenta a cidade de Cabo Frio.
rus) , muito aromática, cheirando a canela; caubi (Mimosa), majole, Esta cidade, embora pequena e mal calçada, possui diversas casas de
sepepira, putumuju, aqui no Rio de Janeiro chamada araribá, e outras bonita e asseada aparência. A língua de terra, em que está construída,
espécies 15 3. Da mesma maneira, aí se encontram plantas medicinais é paludosa perto da lagoa e arenosa ao longo do mar, medrando aqui
em abundância: mencionarei somente algumas como a "herva moura arbustos de várias espécies. Descobrimos algumas plantas novas; entre
do sertão"+1 54 , que tem gôsto de alho; o Costus arabicus, empregado elas duas andrômedas herbáceas*, uma de flôres amarelo-pálido e outra
nas moléstias venéreas; a ipecacuanha preta (Ipecacuanha officinalis, de flôres róseas. Tôda a região circunjacente é cortada de lagos e
Arruda, que é, sem dúvida, a raiz preta do ]ournal von Brasilien de pântanos, e por isso dizem ser sujeita a febres; entretanto, os habi-
Eschwege, cad. l, com gravura); a ipecacuanha branca (Viola· ipeca- tantes afirmam que os fortes ventos do mar purificam grandemente a
cuanha, Linn., ou Pomba lia ipecacuanha, Vandelli), a "buta" ** , que atmosfera.
dizem substituir o chá, etcJ55 Os habitantes do lugar vivem da exportação de certos produtos,
Depois de têrmos caçado bastante, com os índios, nas cercanias como a farinha e o açúcar. ~les são objeto de um comércio com a
de S. Pedro, deixamo-los durante o dia e seguimos para Cabo Frio, costa, feito por algumas "lanchas". Essa região, bem como a próxima
cêrca de duas léguas de distância. Um atraso causado, em caminho, do Rio de Janeiro, era outrora ocupada pelas poderosas tribos dos
por um dos animais, deu-nos a oportunidade de matar uma "mara- Tupinambás e dos T amoios, que, no tempo de Léry, estavam aliadas
canã", ave descrita com o nome de Psittacus macavuanna 15 6; bandos aos franceses contra os portuguêses. Salema atacou-as em 1572, em
inteiros habitam essas florestas, e se abatem sôbre os milharais Cabo Frio, e infligiu-lhes memorável derrota, após a qual se retiraram
próximos das moradas indígenas, causando, muitas vêzes, grandes para o interior. Em conseqüência, os portuguêses se instalaram no
estragos. lugar. Na última metade do século XVII, um pequeno número
Já era tarde avançada quando atravessamos a lagoa em direção dêles vivia aí, fundada que tinha sido a aldeia de S. Pedro. Segundo a
à vila de Cabo Frio, e fomos recebidos pelo Capitão Carvalho em sua History of Brazil de Southey, havia perto um forte, sem guarnição.
casa. Cabo Frio é o conhecido promontório já por mim referido; Convidados por um capitão, que reside em S. Pedro, a visitar
formam-no altas montanhas rochosas, frente às quais ficam algumas o seu engenho de açúcar, embarcamos na manhã de um domingo em
ilhas; numa destas, próxima da costa, dentro de uma angra ergue-se companhia do nosso hospedeiro, o sr. Carvalho, e de um padre. Como
de costume, "esteiras" de palha forravam o fundo das canoas para nos
(*) (Suplem.) " Herva moura do sertão ", Canella axillaris Nees von Esenbeck: sentarmos. Os Tupinambás e outras tribos aborígines usavam embar-
C. floribus a xilla ribus nuta ntibus decandrls. O Prof. Nees v. Esenbeck dará. uma descrição
mais completa dessa planta nas publicações da Kaiserl. Leopold. Caro!. Acad. cações dêsse tipo, que os portuguêses depois adotaram. São feitas de
( **) Não pude acbar, par a determinação da familia a que pertence, nem flôres
nem frutos desta planta aproveitâvel, que será. talvez um Convolv olus. um único tronco de árvore, e extremamente leves; os índios manejam-
n as com admirável destreza. Variam muito de tamanho: umas são tão
(15 2) A spi dosperma peroba Fr. Allemã o (= A. polyneuron Müll.? ), dita "peroba estreitas, que quem vai dentro precisa muito cuidado ao mexer-se, para
rosa" , da fa m. das Apocin âceas é ârvore alterosa, muito abu ndante outrora nas ma tas
do Interior de S. Paulo, Minas e Rio de Janeiro. Pa rece ter os dias contados, tamanho não virá-las; outras, ao contrário, são de troncos de tamanha grossura,
é o consumo de que é objeto a sua utilissima madeira e o esgotamento quase completo
das últimas reservas. que oferecem segurança mesmo no mar, desde que não muito agitado.
(153) " Caübi"?; "majole ", provàvelmente por "monjolo" (Pi thecolobium, sp.); O canoeiro encarregado da direção fica em pé, e equilibra-se tão bem,
"sepepira ", ou " sucupira" (Bowdichia virgilioides H. B. K. e outras, da fam. Leguminosas,
subfam. Mimosas) , tida outrora como a mellior madeira para a construção de navios; que os seus movimentos não acarretam a mais leve oscilação. Os
"putumuju ", "ara ribá " ou "araroba " (Centrolobiunt robustunt Ma rt. e afins, fam. Legum.,
Papilionáceas ) . remos têm uma pá oblonga na extremidade e são manejados, a mão
(154 ) Em vez de " herva moura " (ou "moira "), lê-se no original " Herva moeira". livre, nas canoas pequenas, bastando dois remadores hábeis para impul-
Trata-se de uma solaná.cea, de espécie diflcil de precisar.
(1 55) Costus arabicus Aubl. entra na la rga e confusa sin onlmia das espécies indígenas sioná-las com extraordinária rapidez.
do gênero Costus (fam. Zingiberá.ceas) vulgarmente conhecidas por cana do brejo, c.
do ma to, c. da l n d i a, j acuanga etc., a lguns dos quais são nomes comuns a plantas de A lagoa era pouco profunda, e tão transparente, que podíamos ver
outras fa mllias, com que urge evitar confusão. nitidamente a areia branca do fundo, com a sua vegetação coralina;
" lpecacua nha" (ou ma is comumente " poaia " nos Estados do sul ) é nome usual de
vâ rias Rubiá.ceas de propriedades eméticas, a mais conhecida das quais é Psychotria em alguns pontos, chegamos mesmo a encalhar. Nas lagoas abun-
ipecacuanha M. Ar. g (= Cephael i s ipecacuanha Rich.); no sul do Brasil o vulgo
aplica também o mesmo nome, a vârlas Polygaláceas de anâlogas propriedades (Polygala
an gulata D. C., P. cor nuta Ma rt., etc.) . As "abútuas" ou 'butuá.s " constituiem numeroso (* ) O professor Scbrader de Glittlngen, a cuja bondade devo a maior parte das
grupo de plantas da fa mllia M enispermáceas (gêneros Abutua, Cissampelos, etc.), quase determi na ções de pla ntas cita das neste livro, reconheceu como novas essas duas pla ntas,
tôdas, como a " caa peba ", fa mosas pelos empregos na medicina popula r e oficial. e pertencentes a espécies até agora não descritas daquele gênero.
(156) Como jâ ficou dito, a espécie aqui referida por êsse nome é Ara maracana (Suplem.) Sôbre estas duas novas espécies de Andr6meda veja-se a noticia dada
Vielllot, cabendo a uma ave guianense o nome que Wled IIIe supôs. pelo Prof. Schrader no fac. 72 dos "Anzeigen de Gõttigen ".
70 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 71
dam gaivotas, andorinhas-do-mar, garças brancas e maçaricos. Duas sas doenças•. A maior parte das "fazendas" tem igreja, ou um
espécies de corvos marir:hos são, também, bastante comuns aí: u~a grande aposento arranjado de modo que nêle se possa dizer missa,
é o mergulhão pardo-acmzentado• 157 , e a outra uma assaz pareCida aos sábados e domingos. Os viajantes devem assistir às missas; porque,
com o corvo marinho europeu•• 15B; ambas pescam nessas águas e che- se assim o fizerem, lograrão muito melhor conceito por parte dos
gam bem próximo das casas da cidade. . moradores. Sempre nos trataram com gentileza e atenção quando
A fazenda do capitão, cercada pelas cabanas dos negros, fica apra- respeitamos êsse costume, mostrando manifesta frieza e aversão, quando
zivelmente situada numa colina. Vêem-se em tôrno montanhas cober- não fomos à igreja.
tas de mata e encostas silvestres, formando amável contraste com os Depois da missa, voltamos com o proprietário para a cidade, onde
canaviais verde-claros. A esquerda, numerosas manchas d'água e gra- vimos o que é ainda uma raridade nessa parte do país, isto é, o
ciosas moradas alegravam a paisagem, emoldurada, nos últimos planos, genuíno coqueiro (Cocos nucifera, Linn.). Essa bela árvore é muito
pelas montanhas azuis. comum para o norte, como observaríamos no decorrer da viagem;
Percorremos o engenho, que nos pareceu bem instalado. Para porém é bastante rara nas regiões do sul. Chama-se, na costa oriental,
engrossar e purificar o caldo da cana, com que se faz a aguardente, "côco da Bahia".
junta-se-lhe forte lixívia. Obtém-se esta jogando água quente sôbre Numa fazenda das proximidades de Cabo Frio, havia, segundo me
as cinzas de uma espécie de Polygonum, denominada "cataya" na língua afirmaram, duas tamareiras (Phoenix dactylifera, Linn.) que deram
aborígine, mas entre os portuguêses conhecida por "erva de bicho" 159 • frutos; uma, entretanto, fôra derrubada, e a outra deixara de dar100.
Essa planta tem sabor muito amargo e apimentado, e é usada em diver- Começamos a caçar e a fazer excursões por todos os lados, e
tomamos, com êsse intuito, os serviços de dois novos caçadores, práticos
( * ) E' talvez o "Petit Fou de Cayenne". BUFFON, pl. 973 (Pelecanus parvus).
(Suplem.) Apesar de certos pontos de divergência com a descrição de Buffon, da região, um de nome João, outro -Inácio. Em breve conseguiram
considero ser êsse o "Petit Fou de Cayenne", figurado na Pl. enlum. n.• 978. As para nós vários animais, especialmente macacos berradores ou "gua·
principais discordâncias entre a descriçã<! de Buffon e a ave brasil~ira por mim
observada estão no tamanho e na coioraçao. Buffon dá para o comprimento de sua ribas", provàvelmente da espécie descrita com o nome de Stentor,
ave apenas 1 'h pé, ou sejam 18 polegadas, ao p~SS? que_ a por mim observ::'da mede ou Mycetes ursinus, e cuja voz poderosa se ouve freqüentemente nessas
de comprimento 28 polegadas; além disso, e_sta última nao é _Preta, m_as Sim bruno-
acinzentada. A divergência no tamanho fàcilmente se expllcana na hipótese de ter florestas. Caracteriza-se pelo grande órgão vocal, pela grande caixa
Buffon tomado as suas medidas numa ave empalhada ou numa pele, ao mesmo tempo
que a dHerença de côr entre ambas não é bastante grande P::'ra separar . uma de outra. vocal que Humboldt, servindo-se de uma outra espécie do mesmo
Esta ave vive principalmente na parte sul da bala do R10 de JaneirO, vendo-se à gênero, figurou na 4.a prancha de suas "Beobachtungen aus der
tardinha voltarem do mar os seus bandos, dispostos em forma de ângulo, tal como
fazem os grous e gansos selvagens, e avançando céleres, quase rastejantes à superflcie. Zoologie".
(** ) (Suplem.) este corvo marinho, sem dúvida o mesmo representado por BUFFON Em virtude da densa barba do macho, o "guariba" é conhecido,
na Pl. enl. N.• 974, tem grande semelhança com o nosso Carbo graculus em pl~magel!'
juvenil, razão pela qual o Sr. TEMMINCK, na nova edição de seu Manuel d'Ormtholou•e nessa costa, por "barbado"; em São Paulo chamam-no "bugio"161 •
os considera uma mesma espécie. Restará todavia explicar ainda algumas pequenas
divergências descritivas. A ave européia consta ter a lris pardo-acinzentada, ao passo Além dêsses macacos, obtivemos também dos que têm dois topetes
que na brasileira ela é, nos indivlduos idosos, de um lindo azul; dá-se àquela de no alto da cabeça (Simia fatuellus, Linn.) e o pequeno "sahui"
28 a 24 polegadas de comprimento, enquanto que a maior das últimas que pude medir
tinha 26 polegadas e 8 linhas. Nunca vi mudanças na plumagem da ave brasileira. vermelho (Simia rosalia, Linn.), que não são raros nesta zona, mas que
Essas divergências fazem-me pensar que a espécie sul-americana deve ser separada
da nossa. desaparecem mais para o norte 1 6 2 .
(157) Era de todo procedente a suposição. largamente discutida pelo autor em ( *) Diz-se que, no Rio S. Francisco, essa planta é usada com vantagem na moléstia
nota suplementar, de ser o mergulhão de nossas costas, mais vulgarmente conhecido cllamada "ó largo". Consiste esta, de acôrdo com o médico húngaro que ali residia e
por "atobá", o "Petit Fou de Cayenne" de Buffon e Daubenton. Seu primeiro batismo descrevera as moléstias locais, numa dilatação do reto causada pelo esgotamento. Neste
cientifico foi dado por Boddaert (1788), quando ao criar denominações para as aves caso, a planta é fervida em água; deixa-se o decocto esfriar e depois se aplica em
figuradas por Daubenton nas suas célebres "Planches Enluminées", deu-lhe o nome de clisteres, como também em banhos.
Pelecanus leucogaster (Pl. 978), hoje mudado em Bula leucooaster leucooaster, feita .a
retificação genérica e a sua restrição à raça guiano-braslleira. E' ave ainda hoJe patologia indlgena, conforme se depreende da referência que invariàvelmente lhe fizeram
comum em nosso litoral sul-atlântico, inclusive nas balas de Guanabara e de Santos. velhos autores. Sôbre o assunto consulte-se a substanciosa slntese elaborada pelo douto
Cf. LUDERWALDT & PINTO DA FONSECA, Rev. Mus. Paul., XIII, p. 471 (1923). prof. Fernando São Paulo em seu precioso livro "Linguagem Médica Popular do Brasil"
(158) Refere-se Wied à ave comumente conhecida por "biguá", nome tran~portado (Rio, 1936, vol. 11, p. 48).
para a nomenclatura técnica por Vieillot que, conhecendo-o através da descrição de (160) E' sabido que a tamareira, como algumas outras palmáceas, é diécica, não
Azara, propôs chamá-lo Hydrocorax vigua. Hoje acorda-se em ver o biguá na ave a podendo, consegulntemente, frutificar quando não haja em próxima vizinhança plantas
que Humboldt, em 1805, deu o nome de Pelecanus olivaceus, hoje convertido em de sexualidade diferente.
Phalacrocorax olivaceus olivaceus (Humb.), feitas as necessárias retificações. . (161) Cf. nota da pág. 51. O "bugio ruivo " (Alouatta fusca E . Geoff.) tem
(159) O infuso de "cataiá", "cataia" ou "herva de bicho" (Polygonum ant•· larga distribuição, ocorrendo não só em tôda floresta este-brasileira, do Rio à Bahia,
haemm·rhoidale Mart.), sob a forma de ti sana ou de clisteres, além do seu emprêgo como ainda na Amazônia. Wied descreve-o à pág. 48 do 11 vol. dos "Beitrage" e
na refinação do açúcar, gozou efetivamente da reputação de heróico medicamento durante figura-o também em boa estampa nas "Abbildungen ".
algumas epidemias que assolaram o Brasil nos séculos XVIII e XIX. A doença a que (162) Sôbre o "mico de topete" já houve referênci a páginas antes (cf. nota,
refere Wied em nota era também denominada "maculo", "doença do bicho", etc. Grassou pág. 66). Parecido com êle, há na alta Amazônia um macaquinho, Cebuella pygmaea
outrora epidêmicamente em muitos pontos do Brasil, ocupando lugar destacado na (Spix), conhecido localmente por "mico-leãozinho ''.
72 VIAGEM AO BRASIL

Na beira das lagoas e pauis, principalmente perto dos mangues


(Rhizophora, Conocarpus e Avicennia) 163, descobrimos grande número
de buracos cavados na terra. Servem de refúgio a caranguejos chama-
dos aqui "guaiamu"16 4, e que não devem confundir com outra
espécie, encontrada na areia da praia, conhecida por "siri", ambas
as espécies foram mencionadas por Marcgrave. O guaiamu é maior
do que o siri; apresenta côr de ardósia suja, tendendo um pouco para
o plúmbeo, e sem manchas 165 • E' difícil de caçar, porque, ao menor
ruído, se esconde na toca. Adotei, por isso, para o apanhar, o chumbo
de caça. Constitui um alimento básico entre os brasileiros, cuja
indolência é muitas vêzes tão grande, que, tornando-se o peixe escasso,
vivem apenas do guaiamu, regime que achamos miserável. Vimos
freqüentemente na areia, entre as moitas, duas espécies de lagarto;
a maior delas, Lacerta ameiva de Daudin, tem o dorso verde e os
flancos manchados>IH 66. Também obtive, aí, a pele de uma gigan-
tesca serpente, a Boa constrictor1 6 7 • Daudin, erradamente, indica a
Africa como o único lugar nativo dêss'e réptil; quando é a mais
comum das espécies brasileiras do gênero Boa. Na costa oriental, os

(*) (Suplem.) E' esta a Lacerta litterata dos modernos naturalistas. Foi dada uma
descrição dela pelo Dr. KuHL em seus B eitrügen zur Zoologie (p. 116). Raramente
encontrei variações no colorido do animal brasileiro, de que se ocupa o referido autor
na página 88 do citado trabalho. Os individuos novos têm às vêzes a parte anterior
do dorso ponteada de escuro, ao passo que os mais idosos têm-na em geral imaculada
e uma bela côr verde-clara; os lados do pescoço são marcados com duas ou três
riscas longitudinais pardo-escuras; os flancos são verdes e enfeitados de cada lado
do ventre com séries perpendiculares de manchas arredondadas amarelas, rodeadas de
prêto. As figuras das estampas 90 e 88 de Seba, citadas por Kuhl, se é que pertecem
a êsse animal, estão millto mal feitas. Sloane parece ter representado o nosso lagarto
na Tab. 278, fig. 3.

(163) Nos manguezais vivem plantas de várias famllias diferentes, a que à estreita
adaptação ao mesmo habitat dá configuração e disposições fisiológicas análogas. Fazem
parte desta associação vegetal, entre outros, o "mangue vermelho" (Rhizophora mangle
Linn., fam. Rhizophoráceas), o "mangue branco" (Laguncularia racemosa Gaertn., fam.
Combretáceas) e o "mangue amarelo", às vêzes chamado também "m. branco", "siriba"
ou "siriuba" (várias espécies do gênero A vicennia, fam. Verbenáceas). Os do gênero
Conocarpus (fam. Combretáceas) são de habitat tropical e parecem estranhos aos Estados
meridionais. Vide a respeito o estudo de H. LuDERWALDT na Rev. Museu Paulista, XI, 309.
(164) Cardisoma guanhu mi Latr. O " guaiamu" é muito comum nos fundos das
baias e nos estuários lodosos dos rios, onde não de raro cava as suas tocas em terra
firme e a apreciável distância do limite atingido pelas altas marés.
No mangue prôpriamente dito é substituido pelo "caranguejo", (Oedipleura cordata
(Linn.), ordinAriamente muito mais procurado hoje pelos praieiros, como recurso alimentar.
(165) Os "siris" crustáceos de configuração e aspecto muito diverso dos acima
referidos, pertencem a várias espécies, bem distintas. O "siri de mangue" ou "siri-açu"
(Callinectes exasperatus Gerst.) tem hábitos análogos aos do caranguejo e é por igual millto
procurado pelos mariscadores. Outra espécie bastante apreciada é o "siri branco"
(Callinectes danai Smith) peculiar aos fundos arenosos e limpos. O "caxangá" ou "puã"
(Callinects sapidus Ratbb.) freqüenta os mesmos sitios que o precedente, mas é tido em
pouco aprêço.
Siris e caranguejos são seguros ou fisgados diretamente pelo pescador, enquanto
que os guaiamus, muito mais dificeis de capturar, como refere Wied, são caçados em
armadilhas, ditas ratoeiras.
(166) Ameiva ameiv a (Linn.), lagarto verde, fissilingüe, herbivoro, conhecido
ordinAriamente por "calango" ou "calangro". Existe, representado por duas variedades
geográficas (cf. Amaral, M em. Inst. Butantan, XI, 1987, p. 161) muito pouco diferenciadas,
desde o Amazonas até os Estados do Sul, onde freqüenta os terrenos secos cobertos
de capoeira rala. A longa descrição encontrada nos Beitrtige (1, págs. 170·184) é
completada por uma bela figura colorida, em Abbildunuen.
(167) E' a jibóia comum, ou Constrictor constrictor (Linn.) na nomenclatura atual.
~-- --- -- - --- _............_~ --~--------

DO RIO DE JANEIRO A CABO FRIO 73

representantes do referido gênero são conhecidos, na sua maioria, pelo


nome de "jibóia".
Prometeu-nos o capitão Carvalho remeter para o Rio de Janeiro,
a grande coleção já feita por nós, e que crescera consideràvelmente em
Cabo Frio, principalmente em aves aquáticas e ribeirinhas. Cedo,
porém, tivemos razões para desconfiar das importunas amabilidades
dêsse homem; vimos que êle agia por extremo egoísmo, que chegou
ao ponto de levar-nos a dar-lhe um atestado dos importantes serviços
por êle prestados. Fomos igualmente infelizes nas nossas relações com
o farmacêutico da localidade, personagem que, a princípio, parecia
tomar grande interêsse pelas nossas atividades, e a quem, por isso,
ensinamos alguma coisa. Logo verificamos, no entanto, que não
tinha a cabeça muito certa, e, embora tivéssemos a princípio paciência
com as suas imbecilidades, fomos por fim obrigados a tratá-lo de
maneira mais severa, quando êle começou a prejudicar-nos com intrigas
na vila; motivo por que, como soubemos mais tarde, a polícia o puniu
com alguns dias de prisão.

.
IV

VIAGEM DE CABO FRIO A VILA


DE SÃO SALVADOR DOS CAMPOS
DOS GOITACAS

Campos Novos. - Rio e Vila de S. João. - Rio


das Ostras. - Fazenda de Tapebuçu. - Rio e Vila de
Macaé. - Paulista. - Curral de Batuba. - Barra do
Furado. - Rio Bragança. - Abadia de S. Bento. - Vila
de S. Salvador, à margem do Paraíba.

A 7 de Setembro, atravessamos com a bagagem a "lagoa", pró-


ximo à vila, e reunimos os burros, que, durante a nossa estada, foram
pastar numa solitária "fazenda" da outra margem. A 8, acompa-
nhados pelo sr. Carvalho, deixamos os arredores de Cabo Frio e avan-
çamos vagarosamente pela beira da lagoa; porém, quando a estrada
enveredou pela mata, alguns dos animais fugiram. Fomos, por isso,
obrigados a varejar a floresta em tôdas as direções, .e só depois de um
trabalho insano conseguimos capturá-los. Logo após, a'b passarmos num
valado, a tropa, que ficara muito bravia com o longo estágio na boa
pastagem de Cabo Frio, ocasionou-nos dissabor ainda mais sério. Caval-
gava devagar, à frente da tropa, por êsse valo, quando ouvi, subita-
mente, atrás de mim, os burros todos em disparada, com as grandes
caixas de madeira que carregavam. A bêsta que eu montava disparou
também imediatamente, e com tal fúria que não houve possibilidade
de refreá-la. Puxei-a para um lado, a fim de que os caixões, levados
pelos animais em disparada, não me quebrassem as pernas e os joe-
lhos, vendo no mesmo momento tôda a tropa dispersar-se pela flo-
resta; quatro ou cinco dêles jogaram fora a carga, arrancaram e
arre?entaram os arreios. Paramos ofegantes e cansados, sem sabermos
preosar. ~ causa real dêsse tragicômico desastre- Em seguida, bate-
mos a vtzmha floresta em tôdas as direções, e só passado muito tempo
76 VIAGEM AO BRASIL DE CABO FRIO A CAMPOS DOS GOITACÁS 77

conseguimos, por fim, reunir os animais dispersos, graças ao auxílio causaram-nos mais um contratempo, atolando-se, por diversas vêzes, em
dos nossos hábeis "tropeiros". Alguns portuguêses, que caçavam veados lamaçais; fomos também atormentados pela picada de vespas vene-
nessa mata, e procuravam um cão perdido, puseram-nos na boa pista. nosas, chamadas marimbondos•. A ferroada produz uma inchação
O veado dessa zona é de duas espécies diferentes, que Azara descreveu e ao mesmo tempo dor intensa, embora passageira. A linda Bougain-
con; os nomes de "guazupita" e "guazubira" e que Mawe• chama villea brasiliensis173 adornava-se de flôres vermelhas, e bignônias, cober-
erroneamente ~a_llow Deer16 8. Koster diz mesmo, a respeito de tas de uma profusão de grandes flôres douradas, enfeitavam os cumes
u~a dessas e~peoes de veado, que matara um antílope* •, embora se sombrios das árvores soberanas.
saiba que ammais desta última espécie não se encontram no Novo Vimos, num vasto campo pantanoso, o jabiru (Ciconia· ameri-
Continente•• • 169 • Ao todo, há, no Brasil, quatro espécies de veados, cana, ou Tantalus loculator) Linn.)•• 174 e as garças de várias espécies,
que Azara descreveu, ~m primeiro lugar;_ e parece~ espalhar-se por sobretudo as garças brancas de neve, andando garbosamente••• 17 ó . O
grande parte da Amenca do Sul. A mais comum e o veado mateiro gado, aí, entra pela água e come as ervas que crescem nos charcos.
d~s portug~êses, veado vermelho, ou "guazupita", de que existe uma Uma grande cobra, de seis ou oito pés de comprimento, a "cipó"
Ótima descnção do autor acima 170 referido. ~sse animal se encontra verde (Coluber bicarinatus) 17 6, passou por nós, no alto capinzal, com
em tôdas as florestas e matagais, e é freqüentemente comido, se bem a rapidez de uma flecha; e um bando de maracanãs (Psittacus Maca-
que a carne seja sêca e dura. vuanna, Linn.) 177 pousou nas moitas da orla do campo. Um cavaleiro,
, Depoi~ de têrmos ~comodado a nossa tropa tão bem quanto pos- com quem cruzamos, deu-nos a boa notícia de que os caçadores, que
Sivel, contmuamos a VIagem através de florestas de árvores altas e mandáramos na frente, já tinham reunido uma porção de belos pás-
esgui~s, _entremeadas constantemente de trechos escampos, com brejos saros. Enveredamos ainda mais pela floresta, e refrigeramo-nos com
e_ camçais, onde vive:n grandes quantidades de garças, marrecas, maça- laranjas silvestres ("laranjas da terra") .... que são insípidas .. •••.
ncos e outras espécies análogas. Por tôda a parte ouvia-se o grito Suas flôres exalam um aroma delicioso, atraindo grande número de beija-
do q~ero-quero 171 , e, na mata, ecoava freqüentemente a voz alta flôres. Deixando a floresta, entramos num campo aberto, onde, numa
e estndente da araponga. Várias espécies arbustivas de Eugenia suave eminência, ficava a grande fazenda de Campos Novos, ou antes,
estavam carr~gadas dos frutos negros, maduros e muito gostosos, do Fazenda do Rei. Perto da casa do proprietário, um capitão, os case-
tamanho m~Is ou menos de pequenas cerejas 1 72. Cavalgamos por bres dos negros se dispõem num quadrado formando uma aldeola.
florestas maJestosas ~e árvores de casca esbranquiçada ou avermelhada, Essa fazenda, ou ao menos a igreja nela existente, foi construída
que desperta~ admiraçã? pelo seu porte altaneiro e ereto, enquanto, pelos jesuítas.
em plano subpce~te, mi~osas e ju~tícias floridas espalham delicioso ( * ) MAwE, pág, 134, cbama-as, erradamente, Jlfirabunde.
P<;rfume. Descobnmos ai grandes mnhos de térmitas, de oito ou dez ( ** ) (Suplem.) Isso significa que ambas as aves são confundidas no Brasil sob
o nome de " Jabiru ".
pes de altura, o que é prova bastante de sua idade. Os cargueiros ( *** ) (Suplem.) Vivem no Brasil duas garças inteiramente alvas, a pequena e
a grande. Azara cbama àquela " petit beron blanc à manteau" (vol. IV, p. 200) e a
esta "grand heron blanc à manteau " ( P. 201). A primeira é multo parecida com a
( *) J. Mawe's travels, etc. p. 80. "garzetta" européia, embora diferente, a última é a Ardea l euce do Museu de Berlim.
(** ) KOSTER's travels, etc. p. I36. (****) (Suplem.) A presença de "laranjas da terra" nessa mata era meramente
casual, e decorria do fato de ter sido o lugar sede de uma "fazenda • , cujas rui nas
(***) (Suplem.) A não existência de antílopes no Novo Mundo tem sido ultima- ainda em parte se podiam ver.
ment.e .~ontestada. pelos Srs. Lea~ e Blalnville; apesar disso, não deveremos abandonar ( ***** ) As laranjas, para serem boas, devem ser enxertadas, mesmo no Brasil; se
a OJ?Imao até aqm ger~lmente ace1ta, antes que venha ser definitivamente provada a exis- crescem selvàticamente, o fruto perde a doçura e até se torna amargo.
tência de um verdadeirO antilope na América.
(173) No original aparece Buginv illaea, por lapso evidente. Ja houve mençjio
(168) Nome inglês do "gamo" (Cervus dama Linn.) espécie privativa da metade anteriormente a estas belas árvores.
ocld ental do Velho Mundo. (174) Como se depreende da nota suplementar aposta pelo autor, há aqui refe·
(169) Essa passagem foi mais tarde (Wied, Quelques corrections etc) retificada rência a duas aves distintas, havendo a que Wied denomina Ciconia americana passando
pelo autor, que substituiu. "Novo Mundo" por América Meridional. (v. ~ nota 60). a chamar-se à luz da critica moderna Euxenura mauuari (Gmelin), enquanto que
(170) Mazama amer.cana . (Erxleben, 1779) (sin. Cer vus rutus Illig.). Os nossos Tantalus loculator corresponde a Mycteria americana (Linn.); a primeira é geralmente
veados foram ~studados em conJunto por Miranda Ribeiro (Rev. Mus. Paul. XI, p. 208 conhecida por "tabuiaiâ", ou "jaburu-moleque ", a outra por "cabeça sêca ", "cabeça de
e ss.), que neles reconheceu sete espécies. As referidas por Wied são 0 "veado pedra", "passarão " etc.
~atelro" • .,<Mazama am:;ricana (~rxl.), ~amado tam~ém "guatapará ", "guaçu-plta", (175) Pelo explicado por Wled em sua nota, as garças brancas a que se refere
suacu-ete , etc., e o veado catmguelro ' (Mazama stmplicicornis (llliger ) ) conhecido são a garça branca grande, de bico verdoengo, Casmerodius albus euretta (Gmel.), e a
ainda por "virá~, "birá", "virote", etc. O primeiro, relativamente grande' (cêrca de pequena, de bico negro, L eucophoyx thula thula (Molina), ambas muito comuns, tanto
1,50 m de compr1me!'to total) e tem o pêlo ruivo-pardacento; o segundo, muito menor no litoral maritimo, como nas margens dos rios e lagoas do interior.
(I metro de compnmento total, em média) apresenta côr mais clara balo-acinzenta da (176) A espécie em questão (cf. Wled, Beitr. I, p. 284 e fig. color. em Abbild.)
sem mescla de rmvo. Ambos têm vasta dispersão em tôda porção cisa'ndina da Améric~ corresponde a Chironius carinatus Linné, "1758, em que as escamas aparentam aspecto
d o Sul, equatorial e temperada. diverso conforme a fase do desenvolvimento. Cf. Amaral, Mem. Inst. Butantã, IV, p.
(171 ) Cf. nota (89) à pág. 45. 84 e X, p. 107.
(172) Refere·se cer~mente o autor às " jabuticabeiras" (Myrciaria cauli flora Berg. ( 177) Há engano na atribuição do nome técnico, como já foi observado em nota
e outras), mlrtáceas mmto encontradiças nas matas do Brasil meridional e oriental. anterior; trata-se, com tôda probabilidade, de Ara maracana (Vleill.).
78 VIAGEM AO BRASIL DE CABO FRIO A CAMPOS DOS GOITACÁS 79

Porque tivéssemos de esperar por um animal que ficara atrás, pequenas casas de barro às paredes das casas e dos ~uartos, como ~e
passamos aí vários dias, empregando-os em excursões pelas adjacências. pode ver na maioria das construções da costa onental do BrasiL
Um caçador italiano, filho de Nápoles, apareceu-nos na venda e mostrou- Considero-a idêntica à espécie que constrói as casas nas árvores.
nos a pele de um macaco, que vive em certa zona das grandes A nossa partida, a paisagem em frente era muito apr~zível. ~eque­
florestas e é conhecido, entre os habitantes, por "mono". Procura- nas eminências, cobertas de mata, cercavam a planíCie verdepnte;
mos êsse animal por muito tempo, mas em vão; posteriormente, porém, moitas de um raro e lindo verde vivo lembravam-nos as côres da
fomos mais bem sucedidos, e eu descobri tratar-se de uma espécie do nossa primavera da Europa. Consistiam de uma variedade de Gar-
gênero A teles•. E' o maior macaco da região que atravessávamos 17 8; denia, aí chamada "coirana", que é uma espécie provàvelmente não
os caçadores usam-lhe a pele para proteger da chuva o gatilho da descrita até agora, e que cresce até formar uma árvore, cuja madeira
espingarda. é usada para vários fins. Devido à considerável distância do mar,
As matas próximas de Campos Novos, embora só a uma certa as florestas abundam em macacos e caça variada.
distância da fazenda, estavam cheias dessas criaturas. Os nossos caça- A soberba e imponente floresta primitiva, "mato virgem", que
dores tinham matado muitos guaribas, ou "barbados"179 • Falando se estende, quase sem interrupção, de Campos Novos ao rio S. João,
dêstes singulares animais, o viajante inglês que por aqui andara tem- numa distância de quatro léguas, e em cujos frescos e umbrosos reces-
pos atrás e que não parece grande zoólogo, diz, cômicamente: "Des- sos penetramos, merece mencionar-se aqui .. Cedo atingimos ui? lugar
crevem-nos como grandes macacos barbados, que, dormindo, roncam pantanoso e pitoresco, cercado de coqueiros novos e touceiras de
tão alto a ponto de assustar o viandante"**. Nos pântanos vizinhos, helicônias. Formam êstes a mataria baixa, acima da qual se altanam,
descobrimos os bonitos ovos rosados do caracol que Mawe figurou imponentes, frondosas e sombrias, as grandes árvores. Eram comuns
com o nome de Helix ampullacea•••, suspensos, em cachos, aos juncos os "surucuás" (Trogon viridis, Linn.) de côr verde, azul e amarela,
e às gramíneas. :esse caracol é muito comum em todos os charcos secos cantando nos galhos sob a espessura das folhagens 181 • Imitamos-lhes
do Brasil. A concha é de um pardo-oliváceo escuro. Em tôdas as o canto e em pouco matamos vários, machos e fêmeas. E' uma das
florestas até então atravessadas, encontramos também, muito freqüen- aves mais freqüentes nesses lugares. A floresta prosseguiu cada vez
temente, o grande caracol-da-terra, que Mawe representou como varie- mais exuberante, e novas e magníficas flôres não regatearam trabalho
dade da Helix ovalis. Tem uma côr amarelo-alaranjada pálida; a ao nosso botânico. Vimos cipós entrelaçados da maneira mais sin-
concha, porém, é geralmente de um leve amarelo-acastanhado. Vimos gular, notadamente lindas Banisteria 182 , na sua maioria de flôres aJIIa-
aí, nos galhos dos arbustos, as casas de uma espécie de vespa (Pelo- relas, troncos de formas curiosas e, não raro, majestosos e imponentes
paeus lunatus, Fabr. S. Piez, p. 203) 1 80, feitas de terra e do tamanho coqueirais, ornamentos das florestas de que nenhuma desc~ção con-
e forma de uma pêra. Quebrando-as, vêem-se cinco, seis ou sete larvas, segue dar uma idéia justa. Sôbre nós, entre as ramagen~, VIam-se as
ou insetos adultos, espalhados na massa. Essa espécie tem estreita belas flôres das bromélias. Vozes inéditas de pássaros exCitaram-nos o
afinidade com a que descreve Azara • • • •, se não é a mesma. Prende interêsse, enquanto que a branca Procnias (araponga) era particular-
(*) A teles hypoxanthus, de membros compridos e uma cauda longa e grossa;
mente comum.
pêlo cinzento-amarelado; raiz da cauda, muitas vêzes, vermelho-amarelada; cara côr de O percurso pelo solo arenoso era fatigante, mas o_ cenário esplê~­
carne, com manchas e pontos escuros; comprimento total, da ponta do nariz à extremi-
dade da cauda, 46 polegadas e 8 linhas. O polegar da mão ou pé dianteiro é, dido da floresta pagava-nos generosamente as. canseiras. Descobr~,
apenas, um pequeno rudimento: o que distingue essa espécie da arachnoides do sr. no tronco oblíquo de uma árvore, uma cob~a cor de chumbo, de seis
Geoffroy, na qual os polegares são completamente ausentes.
(**) J. MAWE's Travels, etc., p. 188. ou sete pés de comprimento, que descreverei com o nome de Coluber
(***) (Suplem.) O caracol representado por Mawe deve ser considerado variedade plumbeus*183. Deixou-nos passar a todos sem se mover.
de H elix ampullacea.
(****) AZARA, V oyages, etc., vol. I, p. 173.
(*) o comprimento dêsse animal era de 6 pés, 1 polegada e 4 linhas; tinha 224
(178) O "mono" (Brachyteles arachnoides (Geoffr.)), conhecido também vulgarmente divisões no ventre, e 79 pares de escamas na cauda. As partes superiores eram côr de
por "miriqul" ou "burlqui ", ocorre ainda com relativa freqüência nas grandes matas de chumbo escuro; as inferiores, de um bonito branco-amarelado, brilhante como porcelana.
leste, onde é o gigante dos macacos; colecionei-o, pelo menos, nas matas do Rio Gongogi,
(este Bahia), anos atrás. O polegar, de que em regra não há nenhum vestígio, em (181) Cf. Nota 118. .•
certos espécimens pode apresentar-se sob forma rudimentar, fato que, indevidamente (182) Gênero de Malpighiáceas trepadeiras, a que pertence, por exemplo. o "caap1
interpretado, fizera, a principio, considerar a êstes espécie diversa, sob a denominação ou "timbó branco" do Amazonas.
de Ateies hypoxanthus Kubl. Wled descreve-o minuciosamente às páginas 82-45 do (183) Essa cobra, de que o Principe Informa alhures (Beitrage, I, p. 817) não
vol. 11 dos Beitrlige. haver encontrado mais do que o exemplar acima referido, outra não é senão a vulgar-
(179) Cf. nota 161. mente conhecida por "cobra preta", uboiru", "'limpa mato", ou, mais comumente, "mussu-
(180) Impossivel indicar com precisão o inseto em causa; mas, em qualquer hipótese rana ". A espécie, aliás já descrita antes de Wied por Daudln (Hist. Nat. Rept.,
trata-se de um himenóptero de vida solitária pertencente à família dos esfécidas, a VI, p. 330, pl. LXXVIII, I803), com o nome de Coluber cloelia, tornou-se hoje muito
biologia de alguns de cujos membros foi estudada por H. Fabre (Souvenirs entomologiques, conhecida, graças ao notável regime alimentar, constituído quase exclusivamente de outras
1879-91 ), Peckham (Vasps, Social INid Solitary, 1905) e outros. cobras, à maior parte das vêzes peçonhentas, circunstância que a torna eminentemente
80 VIAGEM AO BRASIL DE CABO FRIO A CAMPOS DOS GOITACÁS 81

Mandei que um dos meus caçadores a matasse, mas só com gran- costa e encontramos-nos numa bela eminência rochosa cheia de coquei-
de dificuldade conseguimos convencer o negro, carregador das plan- ros, que entrava pelo mar; perto, um riacho, chamado Rio das Ostras,
tas colecionadas, a transportar êsse grande réptil, inteiramente ino- desemboca no oceano. Andamos uns cem passos ao longo do riacho, e
fensivo, que amarramos com um pano à extremidade de uma vara descarregamos a tropa, para que o atravessasse. A água dêsse riacho é
comprida, apoiada ao ombro. Após ter vencido bom percurso, o negro clara, e as margens aprazíveis; numerosos ramos entrelaçados pendiam
sentiu um leve movimento da carga, e ficou tão apavorado, que a sôbre êle, encimadas pelos coqueiros esbeltos. Aí reside uma só famí-
atirou fora e fugiu. Um pouco além, encontramos os caçadores, que lia, composta de um português casado com uma índia. O homem
mandáramos na frente, sentados ao pé de uma velha árvore. Tinham pertence à milícia e é canoeiro. Parecia muito descontente com a
caçado algumas belas aves: vários tucanos, araçaris (Rhamphastos sua situação, porque o duplo encargo era bastante trabalhoso. Seria
aracari, Linn.), surucuás (Trogon), e o pequeno sauí vermelho (Simia extremamente fácil construir ali uma pequena ponte, o que evitaria,
rosalia, Linn.). aos viajantes, consideráveis perdas de tempo; porque, pouco depois
À tarde, chegamos ao rio S. João, que deságua no mar, perto da de ter tido o grande trabalho de carregar pela manhã, em São João,
vila aí existente. Tem trezentos a quatrocentos passos de largura, e tôda uma tropa, é-se obrigado, daí a duas léguas, a descarregá-la
é atravessado em canoas; os animais passaram-no a vau mais acima. de novo.
Desembarcamos na outra margem, na Vila da Barra de S. João, lugar Do outro lado do rio, encontramos, vazios, alguns casebres de
pequeno, com algumas ruas e construções sofríveis, segundo a moda do barro, cobertos com fôlhas de coqueiro, onde nos abrigamos de uma
país. Tem uma igreja, obra dos jesuítas, isolada num rochedo da praia. pancada de chuva. Antes de se alcançar novamente a praia por
Barra de S. João é um dêsses lugares onde se examinam os viajantes êsse caminho, atravessam-se algumas colinas quase que só cobertas por
e as mercadorias provenientes de Minas Gerais, por causa do contra- uma espécie de Bambusa de 30 a 40 pés de altura, chamado taqua-
bando de pedras preciosas para o exterior. No rio, até certo ponto ruçu. Os colmos formidáveis, que chegam a ter 6 polegadas de
navegável, havia cinco ou seis brigues ancorados- Um ferreiro inglês, diâmetro, sobem a grande altura, arqueando-se suavemente em cima;
aí estabelecido, contou-nos que navios inglêses já aportaram àquele as fôlhas são penadas e nos ramos existem espinhos curtos e fortes,
lugar solitário, e que, por isso, ia pedir o emprêgo de vice-cônsul. que os tornam uma barreira intransponível. Essa variedade de bambu
Dei-lhe para consertar uma porção de espingardas de caça, tendo o forma touceiras inextricáveis, onde a multidão de fôlhas sêcas e de
cônsul em expectativa se desobrigado a nosso inteiro contento. Os bainhas ressequidas produz, com a mais leve aragem, um sussurro
naturalistas em trânsito, no Brasil, sentem muito a falta de bons armei- peculiar. E' extremamente benfazeja ao caçador; porque, cortando-a
ros para o reparo das armas de fogo; porque é muito raro encontrar-se pelos nós, encontra-se, nos colmos mais novos, um líquido de agradável
quem possa fazer mesmo o trabalho mais simples nesse gênero. Cul- frescura, embora de gôsto adocicado e enjoativo, que atenua logo a
tivam perto de S. João grandes quantidades de arroz e mandioca; sêde mais ardente. Essa notável planta prefere os lugares monta-
e dizem que os terrenos são muito férteis, sobretudo rio acima; até nhosos e secos; por isso, é sobretudo abundante na capitania de
a areia, quando bem irrigada, produz com abundância. Minas Gerais, onde se fazem copos com os colmos.
Da língua de terra arenosa entre o rio e o mar, onde se ergue a Continuamos pelo litoral e descobrimos, próximo de habitações
vila, seguimos o litoral para o norte. Numa planura cheia de arbustos dispersas, outra planta útil, a Agave foetúia 1 B4 • As fôlhas, rijas e
de várias espécies, cresciam em abundância certa Amaryllis de flôres de bordos lisos, de 8 ou 10 pés de comprimento, formam sebes espês-
escarlates, Baniste1·ia de flôres amarelas e lindas variedades de murta. sas, do meio das quais sai um grosso caule de trinta pés de altura,
Tínhamos, à esquerda, uma altaneira montanha solitária, o Monte de carregado na ponta de flôres verde-amareladas, o que dá ao panorama
São João, diante do qual avança para o oceano uma planície coberta uma aparência original. A medula do caule, denominada "pita",
de pujantes florestas e, depois, de brejos. substitui a cortiça para o colecionador de insetos. Na praia também
Após passarmos através de algumas plantações de mandioca, recen- crescem palmeiras anãs, bromélias e outras plantas, enfezadas pelo
temente iniciadas, como o provavam os troncos carbonizados por aí vento e formando touceiras impenetráveis. Alcançamos, a seguir, a
dispersos, tomamos uma larga estrada de areia escura em direção à fazenda de Tapebuçu, situada numa colina próxima do mar, onde
fomos recebidos cortêsmente pelo proprietário, alferes da milícia. A
útil na luta contra estas últimas. Pseudoboa cloelia (Daudln), tal como é tecnicamente
conhecida atualmente, ocorre de modo geral em todo o Brasil, e em vários países limítrofes. posição dessa fazenda é muito agradável; logo por detrás erguem-se
A respeito consulte-se o belo capitulo a ela consagrado por Vital Brasil em seu bem conhe-
cido livro La D éf ense contre l ' Ophidisme (2.• ediç. São Paulo, 1914) . A curiosa evolução
cromática a que estão sujeitos os indivíduos desta espécie foi estudada por Amaral, em (1 8 4) O nome botânico carece de exatidão; estará quase certa mente por F oure>·oya
R ev. do M u s. Paulista, XV, pp. 105-9 (1927). qiqantea Vent., que é a • piteira " comum.
82 VIAGEM AO BRASIL DE CABO FRIO A CAMPOS DOS GOITACÁS 83

veneráveis florestas, dela separadas apenas por um lago, no qual as tampa perfeita e deixam cair as grandes sementes comestíveis•. Os
árvores se espelham encantadoramente. A eminência em que se acha macacos, e sobretudo as grandes araras vermelhas e azuis (Psittacus
a casa olha para uma vasta planície, coberta por impenetrável mata, macao e ararauna, Linn-)186, apreciam-nas muito. E' bastante difí--
de cujo meio se ergue a Serra de Iriri, serra isolada e digna de nota, cil, sem as asas dos papagaios ou a agilidade para trepar dos macacos,
de quatro ou cinco picos cônicos, também cobertos pela mataria; colhêr os frutos dessa árvore, tão altos ficam; em geral, abate-se
mais à esquerda, para o sul, fica, solitário, o monte de S. João. Em a própria árvore. Os índios se valem da ajuda das trepadeiras ou
nossa estampa 15 representa-se êste lugar, vendo-se a fazenda no pri- cipós, o que sem dúvida facilita muito a s~bida. Em outras excu:s~:s,
meiro plano e pouco além a lagoa. examinamos as flôres de uma bela palmetra, que, segundo a op1mao
As terras pertencentes à propriedade têm uma légua de compri- do Sr. Sellow, deve pertencer a um novo gênero. Seus lindos cachos
mento e são parcialmente plantadas de mandioca e arroz; também de flôres amarelas caem com inclinação suave, as espatas são gran-
se cultiva algum café. Na lagoa o peixe é abundante. Perto das des, em forma de canoa, e notàvelmente belas, assim como as pal-
habitações ficam laranjais, cujo esplêndido aroma atrai numerosos beija- mas penadas: ao cortar a árvore, vê-se que a madeira é muito dura;
flôres. Nossos caçadores encontraram, nos matos vizinhos, fartura desde, porém, que se atinge a medula porosa, ela cai imediatamente.
de caça; mataram papagaios, maracanãs, tucanos, pavós, e outras belas A 16 de Setembro, despedimo-nos da família do nosso bondoso
aves; também enriquecemos muito o nosso herbário. Encontrei di- hospedeiro e continuamos a viagem para Macaé. A chuva e o vento
versas espécies de coqueiros; entre outras, o airi, com cachos escureciam o amplo panorama da região, onde, sombria, a Serra de
de frutos maduros, e a palmeira espinhosa do charco, "tucum", Iriri se elevava sôbre as florestas pardacentas, e o morro de S. João
de estipe de cêrca de quinze palmos de comprido, que, assim como se delineava ao longe. O caminho de Tapebuçu ao rio Macaé segue
o pecíolo das fôlhas, se reveste de espinhos finos e acerados. Mawe por vasto areal na extensão de 4 léguas, quase sempre ao longo da
cita essa planta •, mas atribui-lhe fôlhas lanceoladas e dentadas, quando praia litorânea; aqui e ali, pequenos rochedos entravam pelo mar,
ela tem frondes penadas, com folíolos pontudos, macios e de bordos nos quais descobrimos conchas e musgos em não muito grande varie-
inteiriços. Arruda • • descreve-a melhor, porém não examinou a dade. Soprava um vento forte e as vagas espumejantes quebravam-se
flor; de acôrdo com a op1mao do Sr. Sellow, parece fora furiosamente nas fragas - Da praia arenosa sobe uma série de morros,
de dúvida que não pertence ao gênero Cocos1 85 • Seus usos já foram onde bonitas árvores e arbustos, enfezados pelos ventos, parecem
suficientemente explanados por Marcgrave, Mawe e Koster. Os ver- cortados: entre êles, vimos pés de maracujá com flôres grandes e
des folíolos (pinnulae) possuem fibras muito fortes; quebrada a fôlha, brancas, e o Cactus quadrangular, também de vistosas flôres níveas.
tira-se a casca superior verde, libertando-se as fibras; estas são tor- Estávamos agora na primavera dêsses climas; todos nós, até aí,
cidas e formam fios verdes e finos, muito resistentes, com que se tínhamos achado a temperatura geralmente fresca, e nunca mais quente
fazem ótimas rêdes de pesca. Essa palmeira cresce aí em abundância, que a dos cálidos dias de verão na Alemanha. A última milha da nos-
e dá pequenos côcos, duros e pretos, que contêm uma semente comes- sa viagem foi feita através de espêssa e alta floresta, na qual caçamos
tível. De uma outra espécie, tiram-se as fôlhas ainda dobradas, quando tucanos, araçaris e o pequeno cuco prêto (Cuculus tenebrosus)1 81 •
começam a se abrir no tope, arrancam-se-lhes a bainha e separam-se Numerosas espécies de árvores estavam desfolhadas, porque, embora
umas das outras, reunidas que são por um líquido viscoso, para
depois empregá-las na cobertura das casas, ou em trabalhos de trança- (*) V. M énagérie du Muséum d ' histoire naturelle, 5eme cahier, onde êste fruto é
Encontramos, nessas florestas sombrias, uma grande quantidade de representado na estampa do AGOUTI.
árvores majestosas. O ipê achava-se carregado de grandes flôres ama- (186) Houve durante muito tempo grande instabilidade na nomenclatura de nossas
relo-vivo, e uma outra Bignonia, de grandes flôres brancas, crescia araras vermelhas, aliás fáceis de confundir pelo observador desprevenido. Uma, todavia,
ocorre apenas nos Estados irrigados pela bacia amazônica; possui coberteiras externas
nos brejos. Bem acima das copas dos gigantes da mata, ergue-se a da asa amarelas, sem mescla de verde e coincide com a espécie descrita por Linneu, sob
o nome de Psittacus macao. A outra, embora ocorra na área da primeira, distribui-se
imponente sapucaia (Lecythis Ollaria, Linn.); possui fôlhas peque- principalmente pelo Brasil central e meridional, reconbecendo-se pelas suas asas tingidas
nas e enormes frutos pendentes, em forma de pote, que abrem uma externamente de verde, de permeio com o amarelo; corresponde ela à u araracanga"
de Marcgrave e é a mencionada por Wied. G. R. Gray batizou-a com o nome de
Ara chlm·optera, e êste é o seu exato nome científico.
(*) J. Mawe's Travels, etc., p. 127. Quanto à arara azul (Ara ararauna Linn.), dita "canindé", já ela não mais
existia nas vizinhanças do litoral à época em que o percorreu o nosso viajante. Todavia.
(**) Cf. ARRUDA, citado por Koster no apêndice, pág. 484. nos Beitrtige (IV, p. 154), informa-nos ter tido noticia dela no sertão da Bahia, através
dos camacãs de Jibóia.
(18~) Há várias palmeiras conhecidas por "tucum" ou "ticum". A referida por (187) Chelidoptera tenebrosa (Pallas) ou "andorinba-do-mato", comum nas margens
Wied deve ser Astrocarvum vulqare Mart., que fornece fibra tenacíssima e, por assim dos grandes rios do sertão. Não pertence à fam!lia, e muito menos ao gênero, dos
dizer, imputreclvel. cucos, mas sim à dos Bucônidas, de que o "joão-bôbo" é o exemplo mais conhecido.
84 VIAGEM AO BRASIL '
DE CABO FRIO A CAMPOS DOS GOITACAS 85

nessa região a maior parte delas guarde a folhagem durante o inverno, Nos alagadiços e matas percorridos, piscavam muitos insetos lumi-
as mais delicadas, entretanto, costumam perdê-la. Na sua maioria, nosos; entre êles, o Elater noctilucus, já citado por Azara *189, com dois
começavam agora a brotar, mostrando na ponta dos galhos, cobertos claros pontos luminosos verdes no tórax.
de folhagem verde-escura, as fôlhas tenras, amareladas ou verde-amare- Os bacuraus (Caprimulgus), cujo alto grito é pelos portuguêses
ladas, algumas vêzes tingidas de vermelho claro ou escuro, constituindo comparado à frase João corta pao, eram vistos ali em grande quanti-
belo e original ornamento. Outras se cobriam de flôres, e outras, dade, voando baixo nas trilhas sombrias da floresta, e muitas vêzes
ainda, de flôres e frutos ao mesmo tempo. Assim, a fusão da prima- pousavam no chão, pouco adiante de nossos pés 190 . Fizeram-nos lem-
vera com o outono, nessas encantadoras florestas tropicais, oferece brar do pio da coruja (Strix aluco, Linn.) das florestas européias, à
ao viajante nórdico o mais interessante dos espetáculos. Completa- hora do crepúsculo.
mente molhados da chuva, chegamos à vila de Macaé, à beira do Continuando o mau tempo, permanecemos em Barreto durante
rio do mesmo nome. f:ste, que não é dos menores, deságua aí no o dia 18 de Setembro e aumentamos nossas coleções com alguns
oceano, depois de atravessar a serra de Iriri, no seu curso de cêrca pássaros interessantes. De uma feita, quando procurava surpreender
de quinze léguas. Léry•, no livro de sua viagem, menciona êsse lugar, o cuco descrito por Azara com o nome de "chochi"**1 91 , e que eu
que os primitivos habitantes chamavam "Mag-hé". A êsse tempo, tentara caçar inutilmente, apareceu, de súbito, sôbre a minha cabeça,
habitavam-no selvagens, que estavam em guerra com os "Uetacas", ou um soberbo casal do milhano prêto e branco, de rabo em forma de
Goitacás, do Paraíba. garfo (Falco furcatus, Linn.), cuja plumagem de deslumbrante alvura
A pequena vila de S. João de Macaé se estende entre capoeiras, contrastava admirávelmente com as nuvens escuras 1 9 2 • Atirei imedia-
às margens do rio, que forma, na foz, uma curva em tôrno de uma tamente num dêles, escondi-me, e em pouco consegui abater o segundo,
ponta saliente de terra. As casas, acachapadas, são, em geral, limpas indenizando-me, assim, da perda do cuco.
e bonitas, feitas de barro, com paus a pique, muitas vêzes rebocadas Ficamos contentes em deixar Barreto, porque dois botequins, ou
e caiadas de branco. Possuem quintais cercados de troncos de coqueiros, vendas, meteram a nossa gente em sérias brigas. A viagem para o
onde se criam cabras, porcos e tôda espécie de aves domésticas. norte, ao longo da praia, é fatigante, em parte na areia sôlta; por
Os moradores fazem algum negócio com o produto das plantações, isso, já era tarde do dia quando atingimos o lugar de destino. Encon-
constituído de farinha, feijão, milho, arroz e um pouco de açúcar. tramos, a caminho, J:>onitos cercados de mimosas fechando os quintais
Exportam, também, madeiras; daí se verem, geralmente, ancorados, de algumas habitações, e também alguns coqueiros cultivados (Co-
alguns navios costeiros, sumacas ou lanchas. Dizem que, rio acima, cos nucifera), carregados de frutos, grande raridade nessa região. Pas-
para o interior, vivem os índios "Gorulhos", ou Guarulhos, em samos através de plantações de mandioca, onde os pés se erguiam den-
aldeias. A "Corografia Brasílica" cita essa tribo com o nome de tre os troncos derrubados e semicarbonizados, e o chão era regular-
"Guaru", e esclarece que, na serra dos órgãos, ainda existiam alguns mente revolvido em tôrno das raízes, como se faz com as batatas. Atin-
remanescentes dela, conhecidos por "Sacurus", inteiramente civilizados, gimos depois trechos pantanosos, vestidos de altaneiras bignônias de
os quais, talvez, tenham já hoje desaparecido. Diz-se que ainda são alvas flôres e de árvores imponentes.
encontrados, entre outros pontos, na freguesia de Nossa Senhora das
Neves••. Depois de passarmos alguns dias nesse lugar, devido ao (*) AZARA, voyages, etc., vol. I, p. 211.
tempo chuvoso, e de conseguirmos sementes de bonitas espécies de (**) AzARA, voyages, etc., vol. IV, p. 33.
bignônias188 e de outras plantas leguminosas partimos num domingo, (189) Pyrophorus noctilucus (Linn.), da atual nomenclatura.
porém de tarde, atrasados por causa de uns burros que fugiram. (190) Informa Wied (Beitr., IJJ, p. 318) que a espécie em causa era o comu-
Apanhamos um aguaceiro, novamente, durante légua e meia de níssimo bacurau Nyctidromus albicollis (Gmelin), muito a propósito chamado nos Estados
do sul "curingu ", ou "curiango " .
viagem, através de capoeiras e florestas, ao longo da praia litorânea, (191) O "cl10chi" de Azara não é outro senão o nosso bem conhecido "saci" ou
até à fazenda de Barreto, onde chegamos à noite e nos alojamos "sem-fim" (Tapera naevia (Linn.)). tão intrigante pela singular faculdade de, quando
canta solitário em algum galho, dar impressão sempre errada do local em que se encontra.
numa casa vazia. A biologia dessa curiosa ave, estudada recentemente por H. Sick (Rev. Brasil. Biol. XIII,
p. 145), é cheia de particularidades interessantes. avultando entre elas o hábito de depositar
os ovos nos grandes ninhos de vários pássaros da famflia dos Furnarlidas, de que o "joâo-
(*) J. DE LÉRY, Voyage, etc., p. 49. teneném" é exemplo bastante conhecido.
(**) V. Corografia brasílica, 11, p. 45. (192) E', com efeito, inapagável a impressão produzida pelo "gavião tesoura"
(Elanoides forficatus (Linn.)), quando contemplado em seu vôo magistral. Vide as refe-
(188) As bignônias (no sentido extensivo de planta da famflia Bignoniaceae) são rências que lhe fiz no meu trabalho sôbre as aves da Bahia (Rev. Mus. Paul., XIX, p. 104).
mencionadas ordinàriamente no texto de Wied sob o nome de "Trompeten" (= trombêtas), Falco forficatus é nome dado por Linneu na 10.• ediç. de Systema Naturae (1758);
"Trompetenbamuem", etc. Vê-se assim que êle não empregava o têrmo "Leguminosas " na 12.• edição (1766) aparece mudado em F. furcatus, que gozou ele preferência até
(" Schotengewachse ") na mesma acepção botânica dos tempos atuais. as modernas convenções de nomenclatura.
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As ruínas de um edifício, outrora considerável, aí existentes, bem À tarde, nossa caravana alcançou a praia, onde as ruínas de uma
como a aparência geral dos arredores, levaram-nos a concluir que êsses velha capela, na região arenosa, deserta e melancólica, casavam-se
lugares, antigamente, foram muito mais prósperos. Tivemo~ também harmoniosamente com o estrondo e o rugido dos vagalhões furiosos.
aqui a oportunidade de observar uma incrível quantidade de urubus Mato baixo e mofino se estendia para a floresta, atestando a violên-
(Vultur aura> Linn.), rodeando uma carniça, e tão pouco ariscos, que cia dos ventos reinantes. Por pequena língua de terra, entre o oceano
dividiam amigàvelmente os despojos com um grande cão, sem o mínimo agitado e uma comprida lagoa, continuamos a jornada até depois do
cuidado pela nossa presença1 93. Vimos, também novamente, grandes anoitecer, quando chegamos à morada solitária de um pastor, chamada
bandos de papagaios rabilongos (maracanãs e periquitos), que, em Paulista, onde não havia nada para nos saciar a fome, a não ser um
enorme algazarra, faziam as mais variadas evoluções no espaço. Todos pouco de farinha de mandioca, e algum milho para os animais.
os papagaios caçados tinham os bicos sujos de azul por certos frutos, Tínhamo-nos, felizmente, provido em Barreto com um pouco de carne
maduros então. Em alguns pontos da floresta, onde as árvores eram sêca e de feijão 196. Como a casa fôsse regularmente espaçosa, aí perma-
muito altas, matamos tucanos; e vimos, freqüentemente, à espreita, necemos o dia seguinte, para nos refazermos das fadigas.
nos mais altos galhos secos das árvores, solitárias aves de rapina, sobre- Bandos do papa-ostras brasileiro"' 197 (Haematopus) andavam pela
tudo o gavião côr de chumbo (Falco plumbeus> Linn-)194, que se costa; caçamos muitos. Nas matas vizinhas, em que as palmeiras
arremessa sôbre a prêsa num vôo impetuoso e destemido. são numerosas, matamos várias pequenas corujas, da espécie que os
Entre outras árvores observadas, estava a conhecida por "tento" *195 nativos chamam caburé"'"' 1 98, a qual não deve, porém, ser confundida
pelos portuguêses. Tem folhagem veludosa e verde-escura e dá gran- com a espécie mencionada, com o mesmo nome, por Marcgrave 1 9 9 •
des vagens com bonitas favas vermelho-carregado, que os por- Abatemos o palmito, muito comum aí, para lhe tirarmos a medula.
tuguêses usam como tentos nos jogos de cartas. Não pude observar Essa árvore é uma das mais elegantes da família dos coqueiros; o
a flor. Nos matagais arenosos dêsses lugares há muitas plantas estipe é um fuste alto, esbelto e anelado, no tope do qual uma coma
interessantes. pequena, de oito ou dez palmas penadas, verde-brilhante, ondula no
Descobrimos, nos charcos, uma árvore de oito ou dez pés de altura, espaço; sob essa bela copa, no estipe cinzento-prateado, existe uma
de grandes flôres brancas, que parece aparentada à Bonnetia palus- tumefação da côr verde-brilhante das fôlhas, que contém as fôlhas
tris .. ; uma bela espécie de Evolvulus• u; uma pequena Cassia de novas, ainda enroladas: dentro destas, ficam as tenras flôres por desa-
flôres amarelas"' .. "'; uma graciosa trepadeira florida Asclepiadea•••••
de lindas flôres branco-róseas; uma nova Andromeda"'"'"'"'"'"', de flôres (*) Esta ave, que os primeiros naturalistas não chegaram a conhecer, observei-a
vermelho-escuras, e as duas espécies do mesmo gênero já encontradas eu em grande quantidade na costa brasileira, dando pa ra distingui-la o nome de Haema-
topus brasiliensis. E' menor do que a espécie européia, mas tem o bico mais comprido.
em Cabo Frio; e muitas outras plantas. O Sr. TEMMINCK, a quem dei a conhecê-la, chamou-a na nova edição de seu "Manuel
d'Ornithologie " Haematopus palliatus (sec. part., pág. 582).
(**) Strix f errttginea ; 6 polegadas e 7 linhas de comprimento; côr vermelho-ferru·
(*~ E' a Onnosia coccinea, JACKS, nas T1·ansactions of the Linnean Society.
Pertence a genero novo, e foi encontrada, pela primeira vez, em Guiné. Não é citada gem, com diversas manchas amarelo-claro nas espáduas, e asas de grandes penas;
em Wllldenow. grande mancha branca na parte inferior da garganta; rabo côr de ferrugem, sem
(*~) (Suplem.) Wikstroemia fruticosa ScHRADER, op. cit., pág. 710. Acha-se manchas; ventre de um brilhante amarelo-ferruginoso, com estrias longitudinais brancas
em companhia desta planta, uma outra muito parecida, a Kiseria stricta do Prof. Nees e castanhas; i ris amarelo-escura. Essa coruja, que não tem orelhas, parece ser o
von Esenbeck: "Classis Linneana Polyandria Polygynia; Fam. nat. Guttiferarum. Corolla "caburé" de Azara.
pente petala, petalas integris. Calyx quinque-partitus, bracteatus Anthera e erectae liberae.
Germen triloculare, septis simpli cibus. loculis monospermis ". (196) No original "Feigões" ("feijões").
(***) Espécie nova, ainda não descrita por Persoon, nem por Willdenow, Ruiz (197) "Papa-ostras" é a tradução que melhor cabe ao "Austerfresser" dos alemães,
e Pavon. (Suplem .) Evolvulus phylicoides, ScHRADER, op. cit., pág. 707. a que os portuguêses dão, em sua terra, os nomes de "pêga-do-mar ", "passa-rios ",
( ****) (Suplem.) E' a Oassia uniflora Spr. "gavita", etc. A ave européia (Haematopus ostralegus (Linn.)) muito se parece com a
(*****) (Suplem.) Echites variegata ScHRADER, op. cit., pág. 707. nossa, que é, todavia, espécie distinta (H. palliatus Temm.) e vulgarmente conhecida
(******) Andromeda nova com flôres vermelho vivo. por "baiagu" ou "piru-piru ".
(Suplem.) Andromeda coccinea ScHRADER, op. cit., pág. 709. (198) "Orelhas" (ou "martinetes"), têrmo aqui usado na descrição da ave, são os
penachos laterais que algumas corujas possuem a ornar-lhes o alto da cabeça.
(198) E' singu lar que se tratasse do urubu campeiro, ou de cabeça vermelha, como (199) Conquanto o nome se aplique aqui a ave diversa, o primeiro naturalista
vemos confirmado em Beitrlige, Il , p. 65. a descrever o nosso "caburé" foi Marcgrave (1688); Brlsson .reproduziu a noticia em sua
(194) I ctinia plumbea (Gmelin ), conhecido vulgarmente por "gavião pomba" (nome grande Ornithologie (1760), a qual, por sua vez, serviu de base à Strix brasiliana de
comum a outras espécies) ou "sovi". Como o '·gavião-tesoura" , era. noutros tempos. Gmelln (1788). A ave, cujo nome atual é Glaucidium brasilianum, é muito comum em
visto com freqüência nas fazendas, pela época do vôo dos içás ( egundo me informou nossas matas, a cuja orla pode ser vista a cantar, (a voz do caburé lembra muito de
verbalmente o meu amigo Sr. Pio Lourenço, de Araraquara); hoje, porém, é em regra perto a do surucuá), mesmo durante o dia. Apresenta-se ora com plumagem pardacenta,
apenas encontradiço nos sertões mais distantes e menos povoados. Cf. O. PINTO, Rev. ora côr de ferrugem, donde tê-la descrito Wled duas vêzes nos Beitrãge, sob os nomes
Mus. Paul., XX, pp. 23 e 58. de Stri.x terruginea (vol. 111, p. 284) e S. passerinoides (p. 289). Outro tanto não
(195) Há várias leguminosas de sementes vermelhas conhecidas pelo nome de " tentos ", acontece, porém, com a sua Stri.x minutissima (p. 242), que provou ser uma boa espécie,
e como tais usadas. Uma das mais vulgares. a que chamam também de "c>trolina". é muito mais rara, e diferente da primeira pelo seu tamanho ainda mais exiguo. A propósito
Adenanthera pavonina (L.), Importada da Asia; na Bahia é mais conhecido o "ôlho dêste assunto, veja-se o que ficou dito nos meus "Comentários" (coment. 599) à edição
de pombo " ou "jequiriti " (Abrus precatorius Linn.), de sementes bem menores. brasileira da Historia Naturalis Brasiliae de Marcgrave (Museu Paulista edlt., 1942).
88 VIAGEM AO BRASIL DE CABO FRIO A CAMPOS DOS GOITACÁS 89

brochar; somente as flôres já desenvolvidas libertam-se da cáp- De Paulista, acompanhamos as dunas. Extensos paludes e lagoas,
sula verde. cobertos de caniçais, onde pastavam bois e cavalos, por vêzes em grande
Cortada do caule, essa tumefação ou cápsula, contendo as fôlhas número, afundados até o ventre, entravam pelo continente. Havia
no~as, mostram .um t;niolo t.ão macio, que se pode comer cru; quando aí, em grande número, maçaricos (Vanellus cayennensis), garças, gai-
cozido, porém, e mmto mais saboroso. Achamos·lhe a madeira muito votas, andorinhas-do-mar e marrecas; os maçaricos, chamados quero-
dura e deu-nos grande trabalho cortar a árvore com o facão. Nas quero, que já .citamos mais de uma vez como importunos para
várzeas, a palmeira tucum estava também florida; bem assim, nos o caçador, voam-lhe em redor da cabeça quando êste se aproxima dos
areais escampos, uma bonita espécie nova de Stachytarpheta• e um ninhos, da mesma maneira que as espécies européias2oa. Nas dunas
belo Cactus globoso, semelhante ao mamillaris, que apresenta na as capoeiras consistem geralmente de bromélias e cactos esbeltos, de
superfície uma penugem branca, envolvendo as pequenas flôres ver- permeio com outras plantas frondosas. As flôres brancas desabrocha-
melho-escuras. O sr. Sellow considerou-o espécie nova. vam na haste erecta dos cactos, cujos ramos são quadrangulares, penta
~ossas coleçõe~ ornitológicas não cresceram muito aí; porque des- e hexagonais; pareciam, porém, pertencer a uma só espécie, ou no
cobnmos pouca coisa nova, exceto algumas aves palustres. Nos matos máximo a duas, porque essas originais plantas espinhosas variam
baixos, e~ tôda essa costa, ouve-se o "sabiá-da-praia" (Turdus or- muito, de acôrdo com a idade, no número de ângulos. Os cactos
phoe~s, Lmn.)200 , que, de par col? uma plumagem nada vistosa, possui são sobretudo perigosos para os burros e cavalos em viagem; com
voz tao bela, qu.e deve ser considerado como dos primeiros pássaros efeito, se um espinho se crava no casco ou numa junta, o animal
cantores do BrasiL Nas casas, o pequeno "gecko" esbranquiçado••2o1 pode ficar estropiado. Descobrimos, na areia, a Turnera ulmifolia;
que sobe e desce pelas paredes perpendiculares, era muito comum; nos charcos, duas espécies de Nymphaea de flôres brancas, a indica
do mesmo modo, a lagartixa de coleira preta •• •202, ambos freqüen- e uma outra chamada erosa pelo Sr. Sellow, de flôres enormes; ade-
tes em tôdas as regiões que atravessei. Encontramos muito poucas mais, uma alta Alisma de flôres níveas, também nova, provàvelmente,
conchas na praia; e, nos brejos, viam-se aqui também, prêsas aos e de fôlhas estreitas e alongadas. Não era fácil alcançar essa bonita
galhos dos arbustos, as casas de barro da vespa já mencionada (Pelo- planta no fundo lamaçal; o Sr. Sellow afundou-se até considerável
paeus lunatus, Fabr.), em forma de pêra, e pontudas embaixo. altura, na água negra e lodosa; e não me foi menos penoso perseguir
ali algumas aves aquáticas.
(* ) (Suplem.) Stachytarpheta cracifolio., ScHRADER, op. cit., pág. 709. Essa vasta planura, coberta de matagal, é habitada por manadas de
(**? E', com tôda probabilidade, o Gecko spinicauda de DAUDIN, Histoire Naturelle
des Repbles, tomo IV, p. 115. bois, en.tregues a si próprias, mesmo à distância de vinte ou vinte e
(***~ Stellio torquat~s: parece aparentado ou idêntico ao Stellio quetz-1)aleo de cinco milhas de qualquer morada humana. Uma ou duas vêzes no
DAUDIN, H1st. Nat. des Repbles, I, p. 26. Essa espécie é de côr muito variável. Quando
nova, aprese_!lta, .no dorso, grandes estrias escuras, que desaparecem quando envelhece: ano, conduzem-nas os donos, proprietários das fazendas próximas, a
tor~a-se, então, cmzento-prateada, laivada de púrpura e cúpreo; tem, às vêzes, manchas um curral, ou recinto cercado de estacas, onde são contadas e mar-
ma1s claras: entretanto, o característico da espécie permanece sempre: uma mancha
esc~ra um pouco longa no lado do pescoço, adiante da espádua, assim como três cadas. Fizemos pouso essa noite no chamado Curral de Ubatuba 204 , a
estn":s _escuras, correndo e~ direção perpendicular sôbre as pálpebras cerradas. Tôdas as
descnçoes d_? quetz-1)aleo sao insuficientes; contudo, não pode ser confundido. A espécie cinco léguas de Paulista, numa espaçosa cabana de barro, situada
de colar preto é conhecida, na costa oriental, por lagarto. para dentro da cêrca. A região circunvizinha é uma vasta planície,
(200) M.irnus gilvus antelius Oberholser. Duas aves inteiramente diversas têm no que excede o alcance da vista. A água se acumula freqüentemente
nor~e do Bras1l o nome ~e "sabiá-da-praia ". Não são túrdidas, como os verdadeiros nas baixadas pouco profundas, ·formando lagoas, cobertas de capinzais
sab1ás . mas pertencem à VIZinha famllia dos mlmldas; tampouco a ave referida agora
por _Wu~d c~Jr.respoJ?de ~ .Turdm orphoeus Linn., que é peculiar às Antilhas. Sua determi- rasteiros, de que se alimentam as manadas de gado. Se alguém se
naçao c1ent1f1ca f01 rebf1cada no vol. III dos Beitrage (p. 658) onde a ave é identificada aproxima dêsses animais, levantam a cabeça, cheiram o ar e fogem a
com acê~o_. à que Lichtenstein tinha acabado de descrever, sob a denominação d~
Turdm bvidus. Essa todavia foi, por infelicidade, reconhecida hltimarnente inválida galope, com as caudas erguidas. E' sem dúvida admirável que êsse
por ~omonlrnia, perdendo a espécie o clássico nome de Mirnus lividus Licilt. pelo de M. útil animal pela extraordinária atividade e o cuidado dos europeus,
ant!!l•us Oberholser. Relativamente comum em tôda a faixa costeira do leste brasileiro
ao mver _o do se~ companheiro Mirnus saturninus (Licbt.), de que aliás existem várias raças' já se encontre na maior parte do globo. No norte, o boi pasta nas
com habttat distmto. '
. (201) A "laga_rtixa" doméstica, particularmente comum nos Estados do norte
frígidas florestas de bétula; na zona temperada, nos nossos aprazíveis
(Herntdactylus 1>W:bouta JoNNÉS, I818), é espécie estranha à nomeada por Daudin, corno
o r~conheceu dep01s o próprio Wied, ao descrevê-la sob a denominação do Gecko incanescens
(Bettr., I, p. IOI). (203) Sôbre êste pormenor da biologia do "quero-quero" veja-se a nota que inseri
na Rev. Mm. Paul., torno XX, ps. 12 e 42.
(202) Tropidurus torquatus torquatus (Wied) é mais um exemplo das inúmeras
~escobertas zoológicas ~e Wied, que dêle. nos dá u~ll: bela estampa em suas Abbildungen; (204) "Coral de Batuba" no original alemão. Ubatuba. topônimo que no Estado
este lagarto, encontrad1ço em todo Bras!) este-mendwnal. é na região nordestina substi- de São Paulo corresponde a importante pôrto de mar, significava na lingua dos indios.
tuído por uma subespécie P!i-rticular, Tr. t. hispidus, descoberta por Spix (Lacert. Bras. sem sombra de dúvida. abundância de ubás, ou seja a mesma planta várias vêzes referida
Spec. Nov. p. I2, tab. I5, f1g. 2). por Wied e hoje mais conhecida por "cana brava".
90 VIAGEM AO BRASIL DE CABO FRIO A CAMPOS DOS GOITACÁS 91

vales relvosos? entre m~tas sombrias de faias; nos trópicos, sob palmei- coropó 207, caçou o íbis de faces peladas e côr de carne, que Azara
ras e banane1ras; nas llhas dos mares do Sul, debaixo das Melaleuca descreve com o nome de Curucau raséU 08 ; outros mataram duas
Metrosideros e Casuarina. Indispensável ao homem civilizado o boi' espécies de gavião, das quais uma era uma bela espécie nova de mi-
multiplicando-se por tôda parte, engrandece-lhe a riquez~ e ~ lhafre'u2o9 com um disco facial à maneira do nosso Falco cyaneus, e
prosperidade- a outra Falco busarellus 21 o, de corpo côr de ferrugem e cabeça branco-
Ao cair da tarde, todos os caçadores dispersos se reuniram em amarelada. Descobri, nos arredores da casa, com os ovos, o ninho do
volta do _fogo aleg_re da cozinha, esperando cada um de nós pagar-se bem-te-vi (Lanius pitangua, Linn.) 211 , em forma de forno, fechado
da~ canseuas ~ saCiar a fome; infelizmente, porém, as provisões nunca em cima.
est1veram ma1S escassas do que então. Era, entretanto, inadmissí- Ao norte de Ubatuba, a planície se entremeia de extensas lagoas,
vel que um grupo de caçadores morresse de fome entre manadas de pouso de inumeráveis patos, garças e outras aves aquáticas e palustres;
gado bravio. Dirigimo-nos, por isso, à planície, colocamo-nos numa as espécies peculiares à região podem estudar-se nesse lugar, com par-
lon~a fila e tentamos matar um~ vitela; mas a noite surpreendeu-nos ticular facilidade. Disseram-nos que aí encontraríamos o belo e róseo
mmto depressa, ~ gado era mmto arisco, e cactos solitários, espalha- colhereiro (Platalea ajaja, Linn.) 212 e de fato o vimos, nesse dia,
dos no_ areal, fenam nossos pés. Fomos, assim, obrigados a desistir pela primeira vez. Cêrca de trinta dêles repousavam juntos, num
e a ad1ar, para a manhã seguinte, a caça imposta pela necessidade. local pantanoso, e logo nos chamaram a atenção como uma grande
Na casa ~riste e arruinada, onde a chuva entrava pelo teto, pouco mancha côr-de-rosa. Os caçadores se aproximaram devagar e mes-
repouso :1vemos nas rêdes que armamos, porque uma infinidade de mo rastejantes, quando mais perto; mas em vão; as tímidas aves
pulgas nao no_s deu trégua, além de uma multidão de bichos-de-pé levantaram vôo imediatamente e passaram, num esplêndido cortejo,
(pulgas da are1a, Pulex penetrans) 205 , dos quais, no dia seguinte, tira- sôbre as cabeças dos outros caçadores, que descarregaram, infelizmente
mos um número incrível dos pés. :f;sse inseto, sobretudo comum sem resultado, as espingardas de dois canos. Conseguimos apenas
em tôdas as casas vazias das regiões arenosas, penetra entre a pele enfeitar nossos chapéus com as lindas penas róseas das asas, que
e a carne da planta do pé e dos artelhos, e muitas vêzes mesmo sob (*) D. F. DE AzARA, Voyages, etc., vol. IV, p. 222.
as unhas dos ded?s. Dizer-se, como se ouve algumas vêzes, que êle ( **) Falco palustris: 19 polegadas e 8 linhas de comprimento: a cabeça é rodeada
por um disco igual ao da coruja, mistura de branco-amarelado e castanho-escuro; sôbre
penetra no própno músculo, é exagêro: localiza-se sempre entre a o ôlho, uma estria esbranquiçada; partes inferiores, vermelho-amarelado claro com listas
pele e a carne, apenas. Violenta comichão torna-lhe logo sensível a castanho-escuras longitudinais; garganta, castanho-escuro; coxas e uropfgio, vermelho-
ferrugem; tôdas as partes superiores, castanho-<!scuro; penas da asa e do rabo,
presenç~, ,tran~formando-se, depois, em leve dor: é aconselhável, por- cinzentas com listas castanho-escuras transversais.
tanto, t1ra-lo 1mediatamente com uma agulha, sem lesar-lhe o corpo, (207) Os coropós, assim como os coroados e os puris, são por alguns autores consi-
9ue é co~o. uma vesíc_ula cheia de ovos•. Para evitar a inflamação, derados descendentes dos goitacás, com que, pelo menos, apresentavam indiscutível e
próximo parentesco. Estudou-os, entre outros, Eschwege, que os pôde observar ainda em
e_ bom fnccwnar a p1cada com pó de tabaco ou unguentum basi- 1818, no Rio Pomba, em Minas Gerais.
lzcum206, vendido pelos farmacêuticos brasileiros. (208) Informa Wied nos Beitrãge (IV, pág. 699) que essa pernalta, nos dias de
hoje correntemente conhecida por "tapicuru ", tinha então na região por êle visitada o
Manhã, chuvosa e pardac~nta seguiu-se a essa noite desagradável; nome vulgar de carão ( "Caron "), hoje usual para ave diversa.
A espécie, através da descrição de Azara, recebeu de Llchtenstein (1823), o nome
e nossos estomago~ cedo n_os flzeram lembrar da caçada que iniciamos de Ibis infuscatus; Spix, pouco depois (1824), descreveu por sua vez a ave brasileira
sem suces~o no d1a antenor. Mandamos aos caçadores que montas- sob a denominação de Ibis nudifrons. Provado modernamente serem ambas raças
distintas de uma mesma espécie, e feita a correção do nome genérico, a ave referida
sem e sa1sse~ _pelo ca~po, ond~ e~palharam o g~do bravio, que por Wied passou a chamar-se Phimosus infuscatus nudrifrons (Spix). Ct. O. PINTO,
Rev. Mus. Paul., XX, p. 45.
correu em pamco em t_odas as d1reçoes. Nossos ammais, em geral, (209) Circus brasiliensis (Gmelln, 1788). Concordes estão os ornitologistas em
galopavam be_m; P?r. hm~ os caçadores Tomás e João conseguiram ver no presente gavião o "Caracara" de Marcgrave; a essa conclusão, contrariando a
velha suposição de que a ave marcgraviana fôsse o bem conhecido "carancho" (também
mat~r um b01 .. Fo1 1med1atamente esquartejado; saciamos o pessoal vulgarmente chamado "cará-<:ará"), chegara há poucos anos Schneider (Journ. für. Ornithol.,
Berlin, LXXXVI, pp. 94-95), à vista do original do desenho de Marcgrave. Falco
esfa1ma?o o m_a1s_ depressa possív:l e logo nos separamos para caçar. palustris Wied, nome também sob o qual o exemplar colecionado pelo nosso viajante
Há mmtas cunos1dades ormtológ1cas nessa região. Francisco, o índio foi belamente figurado por Temminck e Laugier (Nouv. Réc. Pl. color., n.o 22) e a
seguir redescrito nos Beitrtiue (Ill, p. 230), entra, por conseqüência, na sinonfmla de
Falco brasiliensis Gmelln, da mesma maneira que Falco buttoni Gmelln, 1788 e Aquila
maculosa Vieillot, 1807, origem das combinações Circus buttoni e Circus naculosus,
(*) Ct. OL. SwARTZ, em Sw. Vetensk. acad. n11a Handlingar, t. IX, para 1788, p,
40 e ss., com gravura. ambas ainda freqüentemente usadas na literatura ornitológica para o presente gavião.
tsse rapineiro tem larga distribuição na América do Sul (da Venezuela ao Estreito
de Magalhães) e, no Brasil, é não raro chamado pelo vulgo "Gavião do mangue".
. (205) Atualmente Tu nua penetrans (Linn.). Sôbre o bicho-de-pé, consulte-se 0 eru- (210) Busarellus nigricollis (Latham). Grande e belo gavião, de plumagem côr de
dito estudo de Arthur Neiva, em Estudos da Língua Nacional, Cia. Edlt. Nac. "Brasiliana" ferrugem, comum perto dos pantanais e lagoas, particularmente na Amazônia, onde o
vol. 178 (1940), p. 230 e ss. ' ' conhecem por "gavião belo" e "gavião padre".
(206) Velha fórmula em cuja composição entrâ o breu, pez negro, cêra de abelhas (211) Cf. nota 73.
e azeite de oliva. (212) Ajaia ajaja (Linn.); "colbereiro" da nomenclatura vulgar.
92 VIAGEM AO BRASIL DE CABO FRIO A CAMPOS DOS GOITACÁS 93

encontramos no charco. Garças, tapicurus• 21 3, patos, maçaricos e voaram em nuvens ao nosso primeiro tiro; esta última é a espécie
biguás animavam o. amplo cenário. As lagoas eram divididas por de pato mais comum em tôdas as regiões brasileiras que visitei 21 6bis
molhes cobertas de mato, constantemente procuradas por aves de Aproximava-se o crepúsculo, quando o nosso guia, um negro, nos
rapina, das quais caçamos algumas. Nas margens de uma delas, vi conduziu pela água a uma ilha pantanosa. Disse que o senhor dêle
a anhinga (Plotus anhinga, Linn) 214 ; que persegui em vão. Não viria com uma canoa para nos transportar através da lagoa Feia; não
correspondia êsse lugar ao seu verdadeiro habitat, que são os rios, onde apareceu, entretanto, nesse dia. Como o tempo ameaçasse aguacei-
depois conseguimos matá-la freqüentemente. A cinco ou seis léguas de ro, alguns dos nossos propuseram cavalgássemos de volta até a uma
Ubatuba, há um lugar chamado Barra do Furado, onde a lagoa Feia se pequena cabana, cêrca de meia légua distante, onde tínhamos encon-
lança ao mar, como está corretamente registrado no mapa de trado cinco ou seis soldados, aí de guarda para evitar os contrabandos
Arrowsmith • •. de diamantes vindos de Minas. Tornamos a êsse pôsto; os soldados
Arranjamos, desde logo, os meios de despachar, para o pouso acenderam-nos um bom fogo, deram-nos farinha de mandioca e carne
combinado, a bagagem e alguns dos caçadores que ficaram para trás, sêca, e palestraram conosco o resto da noite. De tez geralmente escura,
numa grande canoa pertencente a um morador solitário do lugar. E usam calças e camisas brancas de algodão, o pescoço descoberto e os
continuamos a jornada pelas dunas, próximo da furiosa rebentação pés descalços; e, como todos os brasileiros, trazem ao pescoço um
das ondas, divertindo-nos com o espetáculo dos numerosos maçari- rosário. Uma espingarda sem baioneta é sua única arma. Durante
cos (Charadrius), batuíras e baiagus (Haematopus), comendo uma o dia, pescam nas lagoas, de que tiram todo o sustento, fora da carne
porção de pequenos insetos 21 5 cada vez que uma vaga recuava. Passa- sêca e da farinha que recebem. Perto da cabana, estendem cordas de
mos por duas humildes cabanas de pescadores, onde nos indicaram couro entrançado, em que penduram o peixe para a secagem. A cabana
o caminho, orlado, do lado da terra, por amplos pantanais, onde pas- é disposta como um corpo de guarda, com diversos quartos, rêdes
tavam inúmeros bois e cavalos. Era verdadeiramente espantosa a para dormir e trastes de madeira.
multidão de marrecos e aves palustres que aí encontramos. Grandes Só na manhã seguinte apareceu a canoa com os caçadores, que
bandos escuros da Anas viduata 21 6 da espécie de espáduas verdes, foram surpreendidos pela noite, quando entretidos com os bandos de
dita assobiadeira, que AzARA descreveu com o nome de "ipecutiri"•• •, patos. Começamos então a atravessar a "lagoa", e, assim que desembar-
camos, os caçadores se dispersaram. Entre outras aves, matar.a m
(*) Entre as espécies brasileiras da familia dos pernaltas de bico falciforme, desta- o íbis de cara vermelha ("carão") 2 17, e o caracará (Falco braszlzen-
ca-se o "guará" (Tantalus ruber, Linn.) pela côr vermelho-vivo da plumagem.
Não encontrei essa linda ave em nenhum ponto da costa, e a Corografia B1·asílica afirma sis21B, bonita espécie de gavião. Quando reunidos na margem norte
que não existe mais na Ponta de Guaratiba, um pouco ao sul do Rio de Janeiro, da lagoa tivemos um desagradável contratempo; as mulas, que esta-
onde, outrora, era tão comum. Hans Staden diz que os tupinambás daquela região
usavam as magnfficas penas vermelhas para enfeite. vam pastando, foram atraídas para longe por cavalos, e nós passamos
(**) A Lagoa Feia divide-se em duas partes, ligadas por um canal; a sua confi- o dia inteiro debaixo de chuvas torrenciais, até que, ao anoitecer,
guração não está rigorosamente Inscrita em meu mapa, porque apenas a atravessei e
não lhe pude abranger tôda a superffcie. De acôrdo com a Corogratía Brasílica (t. 11, apareceu um pescador e nos conduziu à sua cabana, onde esperamos
p. 49) a parte norte tem cêrca de seis léguas de comprimento de este a oeste, e
perto de quatro léguas de largura; a parte sul, cinco léguas de comprimento e uma pelos animais desgarrados. Alcançamos, através de uma pequena
e meia de largura. Peixe abundante, água doce. A extensa superffcie é geralmente capoeira, a margem do rio Bragança21 9, que corre da lagoa Feia.
agitada pelo vento e, por isso, quase sempre perigosa para canoas; não dá calado a
embarcações maiores. A Barra do Furado seca nos perfodos em que o nfvel da água Aí existiam duas miseráveis cabanas de pescadores (que vêem repre-
baixa. Tôda e sa região é recortada, ao longo da costa, de numerosos lagos, muitos dos sentadas n~ vinheta dêste capítulo) onde tivemos recepção muito .cor-
quais omitidos no mapa. Com tal abundância d'água e a fertilidade do solo, cedo se
tornaria uma das zonas mais produtivas do pais, caso a habitasse um povo mais ativo dial. Eram constituídas, simplesmente, de um teto de sapé apoiado
e laborioso.
(***) D. F. AzARA, VO'I}ages, etc., vol. IV, p. 345.
(2 16 bis) A espécie a que o autor aqui se refere é Nettion bmsiliense (Gmelin) , cuja
(218) Por "tapicurus" são vulgarmente conhecidos todos os nossos ibfdidas de côr freqüência ainda hoje não desmente a observação registrada. Cf. Rev. Mus. Paul.,
preta ("schwartze Ibisse ", no original alemão), assim como "biguá" é o nome popular XX, pp. 23 e 47.
do corvo marinho ("Cormorane") lndfgena (Phalacrocorax olivaceus Humboldt). Quanto (217) " Carã o", como haveremos de ver mais adiante. aparece no livro de WIED
ao "guará " (Gum·a rubra (Linn)), de há muito desapereceu das costas meridionais do como nome de várias aves ribeirinhas ou palustres. A espécie a que se reporta o autor neste
Brasil. lugar, é Phimosus intuscatus nudifrons (Spix), uma das que o sertanejo chama "tapicuru".
(214) Anhinga anhinga (Linn.) Chamada também "biguá-tlnga", "cara r á", "miuá ", V. nota 208.
etc., é relativamente comum em quase todos os rios do sertão. (218) " Cnracará" ou "carancho". Polyborus plancus plancus (Miller, 1777 ) . um
(215) O têrmo "Insecten ", encontrado no original, corresponde à sua acepção dos nossos gaviões mais comuns nas zonas habitadas, onde não raro aparece disputando
primitiva e lata, abrangendo dêste modo também os crustáceos, que, com os vermes e a carniça com os urubus. Querendo ver-se na ave brasileira uma subespécie diferente
moluscos, são a prêsa habitual das pernaltas referidas por Wled. da da Terra do Fogo (pátria tfpica da espécie), dever-se-á chamá-la Polyborus plancus
caracara Spix, pois que, como vimos em nota anterior (n.• 209), Falco brasiliensis Gmelin
(216) São nomes vulgares dado a esta bem conhecida marreca "i rerê " e " marreca
viúva ", o primeiro Imitativo da voz, e o segundo alusivo ao colorido peculiar da cabeça, corresponde a outro rapineiro.
branca na metade anterior e preta no resto. (219) No original vem "Barganza ".
94 VIAGEM AO BRASIL DE CABO FRIO A CAMPOS DOS GOITACÁS 95

ao chão, e tinham duas pequenas divisões interiores. Nem tôda a pelos campos parcialmente inundados até grande altura, para desco-
nossa numerosa comitiva pôde passar a noite abrigada, mas apenas os brir, não sem perigo, a melhor trilha, a qual, entretanto, era tão
europeus, desacostumados ao sereno do Brasil. Sentamo-nos em esteiras, fatigante para os animais, que tínhamos tôda a razão de temer
com as duas famílias dos pescadores, em roda; a fogueira ficava no a perda de parte da bagagem. Contudo, atravessamos sem acidente
meio; e comemos peixe cozido com farinha de mandioca. os alagadiços, debaixo de chuvas copiosas.
As amabilidades dessa boa gente suavizaram o desconfôrto e Vencemos o último trecho das águas em canoas, perto da solitária
fizeram-nos, de certo modo, esquecer a dureza da cama. A dona da igreja de Sto. Amaro, e agora a nossa tropa começou a avançar por
cabana em que me alojei era uma criatura loquaz e jovial, de tez imensas planícies verdejantes. Tôda essa região plana forma as pla-
descorada, vestida muito ligeiramente e trazendo sempre à bôca um nícies dos Goitacás 221 , que se estendem até o Paraíba, e donde a
cachimbo, como a maioria das mulheres das classes baixas do Brasil. vila de S. Salvador tirou o nome adicional "dos Campos dos Goita-
Os brasileiros fumam, de preferência, cigarros feitos de papel, colo- cás". Encontra-se, nos capinzais dessas paragens, bem como em tôdas
cando-os atrás da orelha. Essa maneira de fumar não foi levada ao as campinas da costa oriental do Brasil, a Sida carpinifolia 222 de caule
Brasil pelos europeus, mas veio dos Tupinambás e de outras tribos lenhoso arbustiforme e de flor amarela: viceja luxuriantemente e
do litoral. Costumavam êstes enrolar certas fôlhas aromáticas numa serve muitas vêzes de morada a uma espécie de inambu, a que dão,
fôlha maior, acendendo-as na ponta •. Os cachimbos usados pelos aí, o nome de "perdiz"* 22 3. Tal espécie, ainda muito pouco conhe-
pescadores, como em todo o Brasil, particularmente pelos negros e cida, assemelha-se, na côr, à nossa codorniz, sendo, porém, um pouco
outras pessoas das classes mais humildes, constam de um pequeno reci- maior; mas oferece ao perdigueiro uma caça tão boa quanto a nossa
piente de barro cozido escuro, e de um tubo fino e liso, feito da haste perdiz, como tive ocasião de convencer-me por diversas vêzes. Depois
de uma espécie de feto, que cresce a considerável altura ("samambaia"), de cavalgarmos até ao anoitecer através dessa região, muito boa
a Mertensia dichotoma. Entretanto, prefere-se geralmente, entre tôdas para pastagem, e onde se viam grandes rebanhos de gado, chega-
as classes do povo brasileiro, tomar rapé a fumar; com efeito, o escravo mos, por fim, à grande Abadia de S. Bento, onde esperávamos encon-
mais indigente possui a sua caixa de rapé, de fôlha de Flandres ou trar o repouso e as acomodações que desde muito tempo não tínhamos.
de chifre; em geral uma simples peça de côrno de boi, tampada :Esse convento, pertencente à Abadia de S. Bento do Rio de Janeiro,
com uma rôlha de cortiça. possui terras e bens valiosos. O edifício é vasto, tem uma bonita igreja,
Mal raiara o dia nas cabanas apinhadas, e já os pescadores diziam dois pátios e um pequeno jardim interno, com canteiros cercados
as suas preces com grande fervor, depois do que banharam as crianças de pedras e plantados de balsaminas, tuberosas, etc. Num dos pátios
em água morna, prática usual entre os portuguêses, e, segundo pare- se erguem altos coqueiros carregados de frutos (Cocos nucifera) Linn.).
cia, impacientemente aguardada pela miuçalha. Em seguida, esten- O convento tem cinqüenta escravos, as choças dos quais ficam num
deram esteiras diante das cabanas, trouxeram peixe cozido e senta- grande largo, em cujo meio se levanta, do pedestal, um grande cru-
mo-nos todos no chão para comer. Logo que nos reconfortamos, os zeiro. Além disso, há um grande engenho de açúcar e muitas ben-
pescadores prepararam o barco para conduzir os nossos animais a feitorias. :Esse rico convento possui também muitos cavalos e bois,
vau, através do rio Bragança, que, nas proximidades das cabanas, e vários currais e fazendas nas cercanias. Recebe mesmo dízimas de
é tapado de caniçais. Milhares de aves aquáticas, sobretudo garças22o, açúcar de diversas propriedades das vizinhanças.
biguás, frangas d'água, mergulhões e outras, tinham aí os ninhos; ali O Sr. José Inácio de S. Mafaldas, eclesiástico que estava à
aparece, por vêzes, o lindo colhereiro côr-de-rosa. Entre os pescadores testa do estabelecimento, recebeu-nos muito hospitaleiramente. De-
que conduziram a nossa tropa, destacava-se particularmente um velho ram-nos quartos com boas camas nas compridas e frias galerias do
de longas barbas e de sabre ao lado. Um homem mais môço, montado convento, onde, das largas janelas, mesmo aí sem vidraças, se contem-
num pequeno cavalo, prometeu mostrar-nos o caminho através dos
campos alagados. Vestia-se de modo original: usava um gorro de (*) O sr. Temmlnck descreve essa ave com o nome de Tinamus maculosus. (Vide
Hist. Nat. Gén. des Pigeons e d es Gallinacées, tom. 111, p. 557.
pano, um pequeno jaleco, calções indo apenas até os joelhos e espo-
ras nos pés nus. De muito bom gênio e amável, ia sempre na frente (221) Lê-se no original "Goaytacases".
(222) O gênero Sida (fam. Malváceas) conta muitas espécies conhecidas vulgar-
mente por "vassouras ", "vassourinhas" (norte) "guaxumas " ou "guanxumas".
( *) JEAN DE LÉRY, Voyage, etc., p. 189. (228) Contudo, não se trata aqui da ave grande hoje conhecida em todo o Brasil
pelo nome de " perdiz" (Rhynchotus rutescens (Temm.)), • nhapupé" dos tupis da costa,
(220) Através de Beitrãge (IV, p. 629), sabemos que no rio Bragança foi colecio- mas sim de uma espécie bem menor (Nothura maculosa (Temm.)), vulgarmente chamada
nado o único exemplar de lindo socõzlnho vermelho (lxobrychus exilis erythromelas "codorna ". E', todavia, muito singular não tenha Wied feito sequer menção Inequívoca
(Vieillot)) conseguidos por Wied em tõda a viagem. à primeira, em todo seu relatório de viagem.
96 VIAGEM AO BRASIL

plava bela paisagem da extensa planície. No andar inferior do edi-


fício ficavam a cozinha e o engenho de farinha de mandioca, no qual
era fácil secar nossas coleções. Tiveram, ao mesmo tempo, a delica-
deza de descaroçar o algodão de que necessitávamos; para êsse fim é
de uso generalizado a máquina que o barão de Langsdorff estampou
na descrição de sua viagem, a propósito da estada em Santa Catarina. v
Aproveitamos do melhor modo o tempo aí gasto, divertindo-nos em
caçar patos, de que existem multidões incalculáveis nos grandes charcos
e "lagoas". ESTADA NA VILA DE S. SALVADOR
Prosseguindo a viagem, tivemos por guia um mulato, que trazia
um punhal numa botoeira, um sabre de lado, e esporas nos pés des- E VISITA AOS PURIS EM S. FIDÉLIS
calços, segundo o costume local. Conduziu-nos pela grande planície,
onde as casas eram cada vez mais numerosas, e os rastos dos carros
Vila de S. Salvador - ]ornada a S. Fidélis - Os
indicavam que nos íamos aproximando de uma zona mais populosa.
índios Coroados - Os Puris.
Vimos, à beira da estrada, sebes de Agave e Mimosa; atrás destas,
bananeiras e laranjeiras em flor; perto das residências, cafeeiros carre-
gados de flôres brancas de leite. Que esJ?lêndida vegetação! As
habitações e as fazendas surgiam mais e mais numerosas. Ao longo
de todo o caminho, o viajante encontra vendas, cujos proprietários
cumprimentam delicadamente os transeuntes, convidando-os a entrar, As planícies, que se estendem ao sul do rio Paraíba, eram outrora
portanto, a esvaziar os bolsos. Ainda ia alto o sol, quando chegamos habitadas pelas tribos selvagens e guerreiras dos "Uetacas"• ou "Goi-
à Vila de S. Salvador, situada na margem sul do belo rio Paraíba, tacás"225, que Vasconcellos coloca entre os Tapuias, porque falavam
numa região fértil e aprazível, vestida de vegetação de múltiplos matizes. uma língua diferente dos dialetos da língua geral2 26 • Dividiam-se
Nosso amável hospedeiro de S. Bento nos indicara, para a estada em três tribos, Goitacá açu, Goitacá jacorito e Goitacá mopi .. ,
na cidade, a sua própria casa, onde vimos os primeiros jornais, que mantinham perpétua hostilidade ent~e si. e ,contra os. vizinhos.
desde a nossa partida do Rio. Trazia a importante notícia da der- Contràriamente ao costume das outras tnbos mdigenas, deixavam o
rota do exército francês em Belle Alliance 224 , recebida com grande cabelo crescer e usavam-no sôlto; distinguiam-se de todos os seus irmãos
satisfação pelos habitantes da vila. pela tez mais clara, compleição mais robusta e maior fer~idade, al~m
de pelejarem mais bravamente em campo aberto. A esse resp71to,
tivemos algumas informações na biografia do Padre José de ~chieta,
onde, entre outras coisas, lemos: "Era esta sorte de gente a mais feroz
e desumana que havia por tôda costa, em corpos eram agigantados de
grandes fôrças, destros em arco, inimigos de tôdas as nações, etc:"·
Ainda mais: "O distrito que habitavam era pequeno dentro dos ter-
mos dos Rios Paraíba e Macaé, etc." 227 • Segundo o relato de Southey,

(*) JEAN DE L ta v, V oy1I17e, etc., p . 45.


(**) S. DE VASCONCELLOS, No tícias, etc., p. 39.

(225) O autor aqui, como em tôda a obra, escreve "Goaytacazes".


(226) Na classificação de Von den Stein, posterior à de Martins e anterior à de
Ehrenreicb os Goitacás formam um grupo étnico autônomo, à maneira dos Tupis e
dos J ês. ' Quanto ao têrmo tapuias, é noção assente que êle não e ncerra nenhum
conceito etnográfico preciso, sendo originário da Jfngua dos tupis, e servindo para
designar indistintamente todos os índios de _raça diversa d~ dêstes últimos e. porta~:~to
seus inimigos. Cf. RoooLFO GARCIA, cap. sobre a Etnografia na Intr. ao D1cc. Htst.
{22 4) Belle-Alliance, nome pelo qual os a lemães designam a batalha de Wa terloo, Geogr. e Etn. do Brasil, I, p. 250 (1922).
fica situada entre esta última localidade e Genappe, na Bélgica. Como é sabido, ali (227) Os trechos aspeados aparecem traduzidos no texto do original alemão. Vêm
foi Napoleão derrotado, em I8 de Junho de 1815, pelos exércitos aliados, sob o comando entretanto fielmente transcritos em nota marginal, de onde foram, tais quais ali se
de Welllngton e de Blücbet . acham, transferidos agora para o texto da presente tradução.
98 VIAGEM AO BRASIL ESTADA NA VILA DE SÃO SALVADOR 99

o padre João de Almeida •, horrorizado, encontrou entre êles, na habitantes, gente opulenta, possuidora de vastos engenhos perto do
floresta, um esqueleto humano inteiro e articulado. De acôrdo ainda rio, em alguns dos quais se ocupam cento e cinqüenta escravos ou mais:
com o mesmo autor, construíam as choças em forma de pombal, sus- além da aguardente, produzem-se, em cada um dêsses estabelecimentos,
pendendo·as sôbre um só moirão; tinham por leito um montão de anualmente, quatro a cinco mil arrôbas de açúcar.
fôlhas, e não bebiam água da chuva ou das cascatas, mas a que se Projetam-se aperfeiçoamentos no processo de fabricação e o em-
coletava em buracos cavados na areia • •. ' prêgo, para êsse fim, de máquinas a vapor. O engenho do Capitão
Essas três tribos guerreavam em tôdas as frentes, entre si, contra Neto Fiz, que se mostrou muito amável para conosco, possui vastos
os europeus e contra os índios da costa, mas foi sobretudo a colônia canaviais, além de duas outras fazendas no Muriaé. Nessa região, no
portuguêsa d~ ~spírito Santo que lhes sofreu os ataques. No ano de Paraíba e no Muriaé, já em 1801 havia duzentos e oitenta engenhos, dos
1630 foram senamente derrotados•• •. Daí por diante, eliminaram- quais oitenta e nove grandes e muito lucrativos•.
nos pouco a pouco, ou os submeteram e amansaram, donde resultou a Vê-se bastante luxo na cidade, especialmente no trajar, coisa
colo~lização do. Paraíba, q~e é atualmente a zona mais próspera entre em que os portuguêses despendem muito dinheiro. O asseio é geral
o. Rw de Janeiro e_ a Bahia. Tôda a região é ocupada por fazendas entre êsse povo, mesmo nas classes baixas, pelo menos entre os filhos
disper~as. e pla?~açoe~; e, na .margem sul do rio Paraíba, que corta do país. Visitando-se, porém, o interior, ou vilas menores, nota-se
e~sa fertll plamCie, cerca de oito léguas do mar, fica uma importante quase sempre que os colonos conservam os antigos costumes, não demons-
vila, que decerto merece o nome de cidade. trando a menor idéia de melhorar de condição. Vêem-se aí pes-
.A Vila S. Salvador dos Campos dos Goitacás tem de 4 a 5.000 soas abastadas, que enviam à capital, todo ano, várias tropas carre-
habitantes; a população de todo o distrito é calculada em 24.000 almas. gadas de gêneros, e talvez umas mil ou mil e quinhentas cabeças de
E'. ~e ordinário .chamada simplesmente Campos, sendo razoàvelmente gado para venda, mas cujos casebres, apesar disso, são piores do que os
edificada e possumdo ruas regulares e calçadas na sua maior parte, bem dos mais pobres camponeses germânicos; baixos, de um só pavimento,
como belos edifícios, alguns dos quais de vários andares. Balcões, feitos de barro e até mesmo sem caiação. Tôda a economia domés-
fechados com r?tulas de. madeira, à antiga moda portuguêsa, são ainda tica e maneira de viver estão no mesmo nível; mas poucas vêzes se
comuns. PróXImo do no há uma praça, onde fica o edifício público vê desasseio nos trajes. E' pequena a criação de gado na região do
em que ~e reúnem as autoridades municipais, e no qual, além disso, Paraíba, embora as suas planícies sejam tão próprias para isso. Criam-
está a pns~o. Há na c!dade sete. igrejas, cinco boticas e um hospital, se aí alguns muares; não são, porém, fortes e bonitos como os de
com capa~Idad.:_ para, cerca de vmte doentes. O lazareto é dirigido Minas Gerais e Rio Grande. Os carneiros e as cabras são pequenos,
por. um Cirurg~ao, alem do que consta haver no lugar médicos muito e os porcos não crescem tão bem como em outras zonas. Visitei os
mais competentes que em outras partes da costa, onde, muitas vêzes, Campos dos Goitacás, não para colhêr dados estatísticos a respeito da
se procura em vão um profissional digno de confiança. região (o leitor procurará outras obras para êsse fim), mas para
A_ situação da cidade é bastante aprazível; acompanha em longa conhecer o que houvesse de notável no povo ou nos produtos naturais.
e:'tensao a margem . do belo Paraíba. e of~rece lindo panorama, espe- Assim que consegui o meu objetivo, abreviei a minha permanência,
cialmente q~ando VIsta da estr~da, no abaixo. A paisagem ribeirinha e apressei-me em visitar, o que representava para nós a raridade de
é ~empre am,mada; uma quantidade de gente, na sua maioria de côr, maior interêsse, uma tribo de tapuias ainda em estado selvagem, existente
ag1t~-se contmuamente, e~treg:ue a~ co~ércio .e a outras ocupações. nas vizinhanças, junto ao Paraíba.
Pratica-se, em Campos, ativo mtercamb10 de diversas mercadorias· a O coronel Manuel Carvalho dos Santos, comandante do distrito
região, de Paraí?a acima produz, nesse particular, grande quantidaçle de S. Salvador e do regimento da milícia, recebera-nos mui polidamen-
de açucar; e existem grandes engenhos JUnto ao pequeno rio Muriaé, te; quando lhe comunicamos o nosso desejo de visitar a missão de
que desemboca na margem norte do Paraíba, oposta a S. Salvador. S. Fidélis, Paraíba acima, teve a gentileza de dar-nos um oficial e um
Café, algodão e outros produtos agrícolas dão otimamente; até ver- soldado como guias. Preparamo-nos prontamente para essa interes-
duras européias se encontram nos mercados. O principal produto, sante excursão, e partimos de S. Salvador a 7 de Outubro, deixando
entretanto, é o açúcar e a aguardente dêle destilada. Há, entre os ali a bagagem.
O Paraíba nasce na capitania de Minas Gerais, corre entre a serra
( *) Biografia do Padre João de Almeida. dos órgãos e a da Mantiqueira, em direção leste, estando já regis-
( **) SoUTHEY' s, Historv ot Brazil, vol. 11, p. 665,
(***) lbld., p. 666. (*) Coro grafia Bradlica, t. 11, p. 47.
100 VIAGEM AO BRASIL ESTADA NA VILA DE SÃO SALVADOR 101

trado no pequeno mapa que o Sr. Mawe fêz da sua viagem ao Tejuco. De forma globulosa, e feito de lanugens, é fechado em cima, e tem
Recebe diversos cursos d'água menores, o Paraibuna, o rio Pomba e uma entrada estreita. No Brasil há maior número de pássaros ·q ue
outros, e continua o trajeto através de florestas virgens, entre mar- constroem ninhos assim fechados do que entre nós, provàvelmente
gens pedregosas, até que por fim penetra, já próximo da foz, nas pla- porque são mais numerosos os inimigos dos filhotes.
nícies dos índios Goitacás. Aí, tôda a região é cultivada e movimen- As montanhas começam algumas léguas além de S. Salvador;
tada; entretanto, para além dessas planuras, as margens do Paraíba uma vez transpostos os canaviais, contemplamos à distância as alta-
são ainda habitadas por aborígines, só em parte civilizados e neiras florestas. Viam-se, nessas matas, manchas vermelhas, forma-
estabelecidos. das pela folhagem nova da sapucaia, que é de côr rósea quando brota
Nosso caminho seguia, a princípio, ao longo do rio, cujas mar- na plimavera. Estava-se, justamente, na mais favorável estação do
gens eram cobertas de capoeiras de belas mimosas, bignônias e outras ano para as excursões, porque em tôda a parte as fôlhas tenras
árvores análogas. Erguiam-se, perto da vila, altos coqueiros solitários: apareciam na mais encantadora diversidade de tons; a fragrante vege-
vinham, depois, campos e matagais, entre "fazendas" isoladas. Cedo tação cobria todo o panorama, e a suave temperatura era-nos sumamen-
perdemos de vista o rio, de que se afastou o caminho. Vimos, freqüen- te aprazível, a nós, homéns do norte, não acostumados aos grandes
temente, nos campos, em companhia do anum prêto (Crotophaga ani, calores. Depois de caminharmos cêrca de três léguas, atingimos de
Linn.) e do cuco pintado (Cuculus guira, Linn.), um "anum branco" novo as margens do Paraíba, que eram, nesse ponto, de admirável
dos portuguêses, que é muito semelhante ao primeiro na forma e na beleza. Três ilhas, parcialmente cobertas por imponentes árvores se-
maneira de viver. Essa ave, a que Azara dá o nome de "piririgua", culares, interrompiam-lhe a superfície. O rio, de largura não inferior
havia pouco tempo que era conhecida nas cercanias de Campos, dizen- à do Reno, corre com rapidez, e em suas margens se intercalam coli-
do-se que descera, nos últimos anos, dos planaltos de Minas às baixadas nas verdejantes, cobertas de florestas e cerrados, e vêem-se grandes
da costa. fazendas, cujos telhados vermelhos contrastam agradàvelmente · com a
folhagem verde, enquanto as choças dos negros formam pequenas
Por muitas vêzes admiramos a beleza e a fertilidade dêsses rin-
aldeias em tôrno delas (a vinheta que precede êste capítulo represen-
cões. Sucedem-se, à beira do rio, as grandes fazendas: vastos cana-
ta uma das menores destas casas). Os vales, entre essas colinas mar-
viais se alternam, nas alegres planícies, com extensas campinas. Bois
ginais, estão cheios de brejos aos quais uma espécie alta de bignoniá-
e cavalos, corpulentos e belos, além de alguns burros, pastam em
cea empresta, muitas vêzes, a triste aparência de mata ressequida.
grandes quantidades. Nos arredores de várias casas, num campo, admi-
Tronco e ramos são de côr cinzenta brilhante, e a escura folhagem
ramos uma dessas colossais figueiras 22 B, na expressão dos portuguêses,
verde-escura dá-lhe um sombrio aspecto de coisa morta, sobretudo
presente dos maiores que a Natureza ofereceu aos países cálidos; a
porque se adensa em bosques espessos; a flor, entretanto, é bonita,
sombr~ dessa árvore magnífica refaz o viajante que repousa sob as
copas mcrivelmente amplas, de brilhante matiz verde-escuro. As figuei- grande e branca. Há muitas outras plantas formosas; entre elas, uma
ras de todos os países quentes têm, em geral, troncos muito grossos, Cleome* arborescente, completamente carregada de enormes tufos de
galhos extremamente fortes e uma ramaria prodigiosa. Vi, no Brasil, lindas flôres brancas e côr-de-rosa 230 . Ladeavam o caminho bignônias
muitas, realmente gigantescas; nenhuma, porém, igualava as dimensões amarelo-vivas e brancas, e nas moitas das margens erguiam-se os tufos
do tronco da famosa dragoeira de Orotava, que tinha, de acôrdo da Allamanda cathartica, Linn.23 1 , de grandes . flôres amarelo-vivas.
com a medição de Humboldt, quarenta e cinco pés de circunferência. Quando estávamos, mais ou menos, a meio caminho, nosso guia
Nos ramos superiores da figueira mencionada, descobrimos o curioso levou-nos a uma fazenda vizinha, cujo dono, um capitão, nos con-
ninho do pequenino "bico-chato", verde e de barriga amarela Todus229. vidou mui hospitaleiramente a jantar. Em frente à casa dêle, que,
situada em suave eminência, domina belíssimo trecho do rio, havia
uma dessas lindas bignoniáceas, a chamada "ipê amarelo" 232, coberta de
(228) Várias espécies de figueiras bravas, dos gêneros Ficus, e Urostigma (fam.
Moráceas), F. benjamina Linn., U. doliarium Miq .• U, enor·me, etc., no norte do Brasil
(Bahia, etc.) mais conhecidas por "gameleiras", graças ao emprêgo que de sua madeira (*) (Suplem.) Cteome arborea ScHRADER, op. cit., p. 707.
bra_nca e leve, se fazia no fabrico de gamelas (usadas como tabuleiros, tachos, o~
bacms de banho). (230) Várias espécies do gênero Cleome (fam. Capparidáceas) têm vasta d;stribuição
(229) Conforme se lê à página 967 do tomo UI dos Beitrüge, o passarinho a no Brasil oriental, onde são ordinàriamente conhecidas por "massambês" ou "mus ambês",
que, por informações fornecidas pelos naturais, atribui Wied o ninho em questão, é "mussambés", etc.
o pequeno tirânida Todirostrmn poliooephaium (Wied), e pécie conhecida. em certos Estados (231) Planta sobejamente conhecida, muito usada nas sebes e jardins, pelo efeito
do Brasil em que ocorre, pelo nome de "tirri ", "relógio" e "teque-teque", e cuja descoberta ornamental de suas belas flôres caliciformes, de intensa côr amarela.
e primeira descrição a ciência lhe deve. Euler, que pôde descrever o ninho do pássaro (282) O "ipê-amarelo", também chamado "pau-d'arco" e "ipê-tabaco" (Tecoma
por observação própria (cf. Rev. Mus. Paul., IV, p. 40), confirma a suposição do zeloso chrysotricha Martius), é dos principais ornamentos da mata e floresce de agôsto a
e probo ornitologista germânico. outubro nos Estados do sul.
102 VIAGEM AO BRASIL ESTADA NA VILA DE SÃO SALVADOR 103
grandes flôres desta côr, que despontam antes das fôlhas; a madeira e alguns rolaram por ela abaixo. Contudo, passamos sem novidade
é muito forte e bastánte empregada. A tarde, continuamos a viagem, a profunda e rápida corrente, embora ficássemos completamente enchar-
mas fomos apanhados por violenta tempestade, que tornou penoso cados. Logo penetramos numa densa floresta, à margem do rio, que
o caminho antes aprazível. Da beira do rio subimos escarpada mon- prosseguiu, durante Íégua e meia, até S. Fidélis. Era, então, noite
tanha, o Morro do Gambá, cavalgamos-lhe pelo dorso dentro de fechada e a trilha, muito estreita, passando, muitas vêzes, sôbre a
espêssa mataria, e, quando a deixamos, vimos embaixo, surpresos, um própria barranca íngreme do rio, era inóspita e obstruída pela galharia
magnífico trecho do rio. Entre os picos silvestres, altaneiros e alcan- sêca e as árvores tombadas. O soldado, que conhecia bem o caminho,
tilados, destacava-se o cume rochoso do Morro da Sapateira, de. forma cavalgava adiante, e constantemente apeava, com o nosso pessoal, para
particularmente curios!l; e o contraste que fazia com as colinas verdes remover os obstáculos, o que nos obrigou, muitas vêzes, a afastar os
e risonhas, onde os habitantes ergueram as alegres moradas, aumen- cavalos a boa distância. Chegamos, por fim, a uma brusca e profunda
tava o encanto da paisagem. Bem sob os nossos pés, debaixo de uma ribanceira, atravessada por estreita ponte constituída por três troncos
rocha a pique, ficava uma pequena planura à beira do rio, onde de árvores. Puseram nela uma série de travessas, para garantir marcha
algumas casas ensombradas por coqueiros formavam um cenário enc~n­ mais firme aos animais; apesar disso, escorregaram em várias ocasiões;
tador. A trilha estreita seguia ao longo do abrupto despenhadeiro e alguns quase caíram. Com um pouco de paciência, conseguimos,
até considerável altura, para de novo descer ao vale, onde o viajante felizmente, superar mais essa dificuldade. Nas sombras da floresta,
se regalava, em cada fazenda, com o delicioso perfume dos laranjais. esvoaçavam inúmeros insetos luminosos, gritavam os curiangos (Capri-
Chegamos a um brejo, cheio de caniços e da Bignonia cinzenta mulgus), grandes cigarras se ouviam a extraordinária distância, e a
de flôres brancas, cuja altura chegava a vinte ou trinta pés. Nos estranha toada de um exército de rãs ressoava nas trevas notur-
galhos da última, inúmeras garças noturnas (Ardea nycticorax)• 233 nas da brenha solitária. Alcançamos, afinal, um campo à . beira
tinham construído os seus ninhos. Essa garça é muito parecida com a do rio, e achamo-nos de repente no meio das malocas dos ín-
Nycticorax da Alemanha, sendo apenas um pouco menor; parece,_ por dios Coroados de S. Fidélis. Nosso guia se dirigiu imediatamente
isso, ser a mesma ave. Vimos, em cada ninho, os adultos e os filho- à casa do padre, chamado João, e mandou pedir-lhe, por um dos
tes olhando-nos como a estranhos, inquisidoramente; nossos caçadores escravos, pouso para a noite; esbarramos, porém, numa recusa peremp-
mataram várias, mas não se aventuraram ao charco um tanto profundo, tória, e foram inúteis tôdas as tentativas para demovê-lo. Não fôsse
para a colheita. Informaram-nos que quantidade de jacarés (Croco- a gentileza do capitão, em cuja casa nos haviam tratado tão bem ao
dilus) costumam viver nesses lodaçais, mas não vimos nenhum. meio-dia, e certamente teríamos passado a noite ao relento. Encontra-
Após atravessarmos agradável região cheia de aspectos variados, mos abrigo na casa vazia dêsse gentil-homem, na qual armamos as
atingimos a fazenda do Colégio, já ao anoitecer; seguimos, porém, rêdes e dormimos com todo o confôrto.
antes que ficasse completamente escuro, até o pequeno rio do Colégio, S. Fidélis, situada nas belas margens do Paraíba, que tem aí gran-
que éramos obrigados a transpor. Os cavalos e burros tiveram q~e de largura, é u'a missão ou aldeia de índios Coroados e Coropós,
deslizar por forte rampa, que a chuva tornara de todo escorregadia, e fôra fundada, havia cêrca de trinta anos, por alguns frades capuchi-
nhos vindos da Itália. Eram, a êsse tempo, quatro missionários, um
( * ) (Suplem.) A garça noturna do Brasil tem todos os caracterlsticos da ave dos quais ainda vive aí como padre; outro reside na sua missão de
alemã, a própria côr dos pés, do bico e da !ris sendo a mesma; acha-se apenas uma
pequena diferença no tamanho, a ave européia medindo 20 polegadas de comprimento, Aldeia da Pedra, sete ou oito léguas rio acima; os dois restantes morre-
ao passo que a brasileira alcança 24 polegadas e 10 linhas. Essa diferença de porte ram. Os habitantes indígenas pertencem às tribos dos Coroados,
não constitui nenhuma base suficiente para fazer delas duas espécies distintas, tanto
mais quanto a mesma garça noturna ocorre também na América do Norte. Coropós e Puris, esta ainda selvagem e vagueante pelas vastas solidões
situadas entre o mar e a margem norte do Paraíba, projetando-se,
(283) A garça noturna sul-americana, depois de ter sido tratada pela generalidade para oeste, até o rio Pomba, em Minas Gerais•. Vivem atualmente
dos omitologistas da segunda metade do século passado como espécie autônoma, voltou
modernamente a ser considerada simples raça ou subespécie da ave européia, sob o em paz, defronte de S. Fidélis, mas, rio acima, em Aldeia da Pedra,
nome de Nycticorax nycticorax hoactli (Gmelin). Isso comprova a agudeza admirável estiveram, havia pouco tempo, em guerra com os Coroados. Na reali-
do senso sistemático de Wied, a quem a dúvida sôbre como proceder nesse ponto
diflcil faria ainda, em seus Beitraue (IV, p. 646), antepor uma interrogação ao nome dade, o principal retiro dessas duas tribos fica em Minas Gerais, donde
que a seu juizo melhor à ave competia. Convém a propósito lembrar a existência no
Brasil de outra garça noturna, Nyctanassa violacea cayennensis (Gmelin), vulgarmente se estendem à região mencionada, ao longo do Paraíba e do litoral.
.. dorminhoco ", "tamatião ", "sabacu ", cujos hábitos e aspecto são muito semelhantes aos
da anteriormente citada, mas da qual fàcilmente se distingue por ter o alto da cabeça
inteiramente prêto. Wied teve também a oportunidade de encontrar esta espécie, que (*) A Corouratia Brasílica não descreve acuradamente a situação dos Puris
vem descrita em Beitrtiue (IV, p. 652), com a necessária minúcia, mas sem indicação no baixo Paralba; com efeito, declara que êsses selvagens se acham a! reunidos em
de nome popular. diversas aldeias, o que não é verdade.
104 VIAGEM AO BRASIL ESTADA A VILA DE SÃO SALVADOR 105

Na margem direita ou sul se encontram os Coroados, e, em S. Fidélis, A diferença de linguagem entre as diversas tribos de aborígines
também alguns Coropós presentemente civilizados, isto é, fixados. do Brasil é assunto digno de investigação. Quase tôdas as tribos
A zona dêstes acompanha a margem sul do Paraíba até o rio dos tapuias têm dialetos peculiares, e da semelhança de certas palavras
Pomba; aí na margem esquerda do último rio, se acham ainda em em várias línguas alguns inferiram que elas derivam de nações
estado selvagem, mas já constroem choças melhores que as dos Puris, européias; mas sem razão, provàvelmente. Papa e mama têm, sem
com quem estão em guerra e por quem se diz que são temidos. O Sr. dúvida, entre os Cambevas ou Omaguas•, a mesma significação que
Freyreiss visitou-os na sua primeira viagem a Minas, não os encontrando entre nós, e a palavra ja, segundo se diz, na língua Coropó quer
mais de todo selvagens, mas, ainda assim, em condições mais primitivas dizer também sim, como em alemão. Afora, porém, essas coincidên-
que os irmãos do Paraíba • 234 • Esses aborígines, como disse, já cias fortuitas e insignificantes, não há menor identidade entre essas
estão quase to~os fixados; isto é, os Coropós inteiramente, e os Co- línguas e as da Europa. As armas originais dos Coroados, e às quais
roados na mawr parte; mal começaram, no entanto, a abandonar ainda estão fortemente presos, são o arco e a flecha, que só diferem
os costumes e maneiras selvagens; de fato, um mês apenas antes das dos Puris em algumas pequenas particularidades. Empregam, geral-
da nossa chegada, os Coroados de Aldeia da Pedra mataram, numa de mente, nas flechas, penas das lindas araras vermelhas (Psittacus ma-
suas excursões, um Puri, e festejaram ruidosamente o acontecimento cao, Linn.)2 35 , que se encontram, subindo o Paraíba, na "Aldeia da
d~~ante vários dias sucessivos. Entretanto, essas três tribos foram a prin- Pedra". A semelhança de tôdas as tribos que lhe são aparentadas, pos-
CipiO aparentadas, como o atesta a semelhança das línguas••. Cul- suem admirável destreza no uso dessa arma, e levam grande parte do
tivam mandioca, milho, batatas, abóboras, etc. São caçadores desde tempo caçando nas grandes florestas, que principiam não longe das
a infância e hábeis no manejo dos reforçados arcos e flechas. malocas. Afirma-se, na Corografia Brasílica••, que em cada morada
Ainda bem não alvorecera, e já nos dirigíamos às choças construí- se::npre residem várias famílias de Coroados, o que devo reduzir a
das pelos missionários para os Coroados e os Coropós. Achamos êsse duas. Outrora, êsse povo enterrava os chefes mortos em posição sen-
povo ainda bastante puro, de tez moreno-escura, fisionomia rigorosa- tada, dentro de grandes vasos de barro, a que chamavam camucis, e ba-
mente nacional, compleição robusta e cabelos negros como o carvão. nhava-se tôda manhã, ao alvorecer; presentemente, porém, êsses cos-
As moradas são boas e espaçosas, feitas de paus e barro, e as cober- tumes foram abandonados.
turas são de fôlhas de palmeira ou de bambu, como as dos portu- Como fôsse domingo o dia seguinte ao da nossa chegada a S.
guêses. Armam nelas as rêdes de dormir e encostam, num canto da Fidélis, assistimos, pela manhã, à missa na igreja do mosteiro, onde se
parede, o arco e a flecha. O resto dos rudimentares utensílios domés- reuniram os habitantes dos arredores, por pura curiosidade, para admi-
ticos compõe-se de panelas, pratos ou tigelas ("cuias"), feitas por êles rarem os estranhos visitantes. Padre João fêz uma longa prédica, de
mesmos de cabaças e da cueira (Crescentia cujete, Linn.), cêstos ("pa- que não entendi uma palavra. Visitamos, depois, o mosteiro desabi-
nacui_Is"~ de palma_:; entrançadas e muitos outros objetos. O traje é tado, a observar-lhe as curiosidades. A igreja é grande, clara e espa-
consutmdo de calçoes e uma camisa branca de algodão; aos domingos, çosa, e foi pintada pelo padre Vitória, morto havia apenas dois meses.
porém, vestem-se melhor e assim não se distinguem da classe baixa Esse missionário promovera zelosamente o bem-estar dos índios; que
portuguêsa; todavia, mesmo então, vêem-se, freqüentemente, homens lhe respeitavam muito a memória, ao passo que não pareciam amigos
sem chapéus e descalços- As mulheres, ao contrário, são mais ele- do padre atual. De fato, expulsaram-no certa vez, alegando que não
gantes, usam às vêzes um véu e gostam de atavios. Todos falam por- lhes podia dar instrução, porque era pior do que êles. A pintura
tuguês, mas geralmente empregam entre si a língua nacional. As línguas interior da igreja não se podia, decerto, chamar de bela, mas era
dos Coroados e Coropós são em extremo parecidas, e ambos, na sua tolerável e constituía um grande ornamento nesse lugar remoto e
maior parte, compreendem os Puris. Nosso jovem coropó, Francisco, quase deserto, surpreendendo agradàvelmente o forasteiro. Os nomes
falava tôdas elas. dos quatro missionários estavam inscritos atrás do altar; viam-se, dos
lados, vários quadros votivos, entre os quais uma pintura represen-
( *) Cf. EscHWEGE, Journal von Brasilien, cap. I, p. 119.
tando um negro, cujo braço ficara prêso entre os cilindros de uma
(**) A Corogratia diz que os Coroados são descendentes dos antigos Goitacás
(vol. II, p. 53), o que parece improvável, de vez que os últimos usam cabelos compridos (* ) Vide Viagem de DE LA CoNDAMINE, p. 54. Me mo entre os nova-zelandenses
enquanto os Coroados dos primeiros tempos tiravam o nome do costume de cortá-los eU: nossos antlpodas, as crianças chamam o pai de )Jah-pah. Vide DAW COLJ.J:<'s, Account
uma pequena coroa. ot the ~,:>gltsh Colony in New South Wales. London. 1798, IV, p. 5 35.
( ) Cf. Corografia brasllica, t. 11, pág. 54.
(~34)_ D~ "Viage!l' ao interi~r do Brasil", nos anos de 1814-1815, de G. W. Freyrelss,
até entao médita, publtcou traduçao a Rev. do Inst. Histórico e Geográfico de S. Paulo (235) Já anteriormente vimos que a arara a que o autor se refere é Ara chlorop-
{vol. XI, 1906, págs. 158-228), da lavra de A. Lofgren. Cf. nota 6, anter. tera Gray {Cf. Nota 186).
106 VIAGEM AO BRASIL ESTADA A VILA DE SÃO SALVADOR 107

moenda de cana, que parou imediatamente, quando o negro, na ram do rio, e nas quais existem numerosas fazendas. Em alguns
sua angústia, invocou um santo•. Acidentes assim acontecem comu- lugares, essas matas imensas e românticas vão longe, acompanhando o
mente aos negros, porque são muito imprudentes. O convento não rio, e se estendem, sem interrupção, pelo interior adentro. Do cume
é grande, porém possui razoável número de aposentos claros e alegres, sobranceiro das montanhas, divisam-se, embaixo, vales umbrosos inter-
e uma tôrre baixa. O trabalho de subir-lhe a escadaria meio arruina- ceptando o êrmo agreste, compactamente coberto pelos altaneiros gigan-
da, foi pago pelo aprazível panorama do belo e romântico vale. tes da floresta, e cujo silêncio só de raro em raro é quebrado pelas
(Nossa prancha representa essa igreja e uma parte da aldeia de São passadas do Puri saqueador e solitário. Para trás da fazenda, subimos
Fidélis, com as matas adjacentes). a um outeiro rochoso, donde contemplamos o mais deslumbrante e
Seria muito fácil, ao padre João, dar-nos, no dia imediato, bons ao mesmo tempo solene dos panoramas dessas imensas solidões. Mal
quartos no espaçoso mosteiro; mas a sua indelicadeza foi tamanha, nos reuníramos à numerosa comitiva parada ao pé do outeiro, quando
que se recusou mesmo a ceder-nos algumas provisões. Quando, pela vimos, de um lado, selvagens saindo de um pequeno vale e dirigindo-se
manhã, conheceu dos têrmos favoráveis em que estavam vazados os a nós. Sendo os primeiros que víamos, nossa alegria foi tão grande
nossos passaportes, achou melhor mostrar-se mais polido, e ofereceu- quanto a nossa curiosidade. Fomos-lhes ao encontro e, surpresos
nos um carneiro do seu rebanho, que compramos para o almôço. Ten- pela novidade da cena, estacamos antes dêles. Cinco homens e três
do-nos procurado depois da missa, com êle fizemos as pazes, o que pôs ou quatro mulheres, com os filhos, aceitaram o convite para se chega-
fim às animosidades. Todos os habitantes de S. Fidélis souberam da rem a nós. Eram todos baixos, não tendo mais de cinco pés e cinco
história da nossa chegada e manifestaram, em voz alta, a sua desapro- polegadas de altura; em geral, homens como mulheres, eram robustos
vação à conduta do padre- e de membros musculosos•. Estavam completamente nus, exceto
O ponto mais importante do nosso programa era, agora, o conhe- uns poucos que usavam lenços em tôrno da cintura, ou calções curtos,
cer os selvagens Puris nas florestas. Passamos, portanto, para a outra obtidos dos portuguêses. Alguns traziam a cabeça tôda rapada; outros
margem do Paraíba, onde tivemos amigável recepção na fazenda de tinham os cabelos naturais, grossos e negros como o carvão, cortados
um senhor "furriel". Nosso hospedeiro chegou até a mandar o irmão sôbre os olhos e caindo dos lados sôbre o pescoço; alguns tinham
à florest~ em busca dos Puris, para lhes informar da chegada de alguns cortado rente a barba e as sobrancelhas. Tinham, geralmente, pouca
estrange1ros que os queriam visitar. ~sse convite aos selvagens foi barba; esta, em muitos, formava apenas um ralo círculo em volta
u~ grande sacrifício que fêz para nos obsequiar, porque não só
da bôca e descia cêrca de três polegadas abaixo do queixo• •.
nao . lhe trouxeram nenhuma vantagem, como o prejudicaram Alguns traziam, na testa e nas faces, manchas vermelhas e redondas
con_s1deràvelmente. Quando bem acolhidos, fixam-se próximo às plan- pintadas com urucu (Bixa orellana, Linn.); no peito e nos braços,
taçoes e lhes consomem o produto, como se fôssem feitas para o seu ao contrário, usavam listas azuis, feitas com o suco do fruto chamado
benefício, chegando mesmo, muitas vêzes, a roubar camisas e calções jenipapo (Genipa americana, Linn.). São essas as duas côres empre-
dos negros que vão trabalhar nas matas circunvizinhas. gadas por todos os "tappuias". Em redor do pescoço, ou à tiracolo,
usavam fios de grãos negros e duros, no meio dos quais, na frente,
Havia pouco tempo que essa horda de Puris++ se tinha estabelecido se viam numerosas prêsas de macacos, onças, gato e outros animais
perto de.~- Fidélis e,_ no entanto, supõe-se pertença aos que exerce- selvagens. Alguns traziam dêsses colares, sem dentes. A figura 5
ram host1hdades no litoral, nas cercanias de Muribeca. Tanto isso é
da prancha 12 representa um dêsses colares, e a figura 6 um outro
verdade, que, logo depois da sua chegada, receberam, em S. Fidélis,
ornato análogo, que parece feito da casca de certas excrescências vege-
notícias sôbre um assassinato cometido por gente dela, na costa, o que
tais, provàvelmente dos espinhos de algum arbusto++•. Os homens carre-
prova que êles mantêm comunicação direta através das florestas; diz-
se até que se comunicam constantemente entre a costa e Minas•••. (*) Entre as tribos da costa oriental que eu vi, considero os Puris a de mais
Essa fazenda fica aprazivelmente situada à margem do Paraíba, baixa estatura. O sr. Freyreiss afirma que, em Minas Gerais, são êles mais corpulentos
Q~e os Coroados. Não vi essa observação confirmada em S. Fidélis, porque os Coroados
que é, aí, em muitos pontos, tão largo quanto o Reno. Sombrias, sao, ai, na maior parte das vêzes, mais altos e robustos.
densas, altas florestas se alternam com verdejantes colinas, que se abei- (**) Muitos escritores erraram por completo, dizendo imberbes os americanos,
embora tenham, geralmente, a barba fina e rala. Uma tribo de nativos, caracterizada
por ter barba mais forte, diz-se que habitou em Sipotuba; os portuguêses, por Isso,
chamavam-nos de "Barbados".
(*) KoSTEB conta fatos semelhantes à página 848.
é (***) ~sse ornato consiste em objetos castanho-escuros, ocos e alongados. cuja forma
(**) O nome Puris ou "Purys" é explicado por v. EscHWEGE em seu Journa.l perfeitamente semelhante à de um Dentalium donde se supôs fõssem de origem animal,
von Brasilien, cap. I, p. 108. até q':'e um exame mais acurado mostrou q~e eram feitos de uma crosta ou casca,
(***) São mais numerosos em Minas: pensou-se em removê-los e escravizá-los para sem duvida Invólucro de certos espinhos. Diz-se que também se encontram nas "Caxoeiras"
que se civilizassem, mas a tentativa falhou por completo. do Paraíba.
108 VIAGEM AO BRASIL ESTADA NA VILA DE SÃO SALVADOR 109

gavam longos arcos e flechas, que, como tudo o que produzem, trocaram, oblíquos; nariz curto e largo, dentes muito brancos. Alguns, porém,
a nosso pedido, por ninharias. eram de compleição mais delicada, pequeno nariz aquilino e olhos muito
Recebemos da maneira mais amigável essa gente curiosa. Dois vivos, de expressão às vêzes agradável, mas em geral grave, sombria e
dêles tinham passado a meninice entre os portuguêses, e falavam um desconfiada, obscurecida pela fronte abaulada.
pouco a sua língua, donde serem, muitas vêzes, de grande utilidade Um dos homens se destacava pela sua fisionomia de Calmuck. Tinha
para as fazendas. Demos-lhes facas, rosários, pequenos espelhos e uma grande cabeça redonda e os cabelos cortados a uma polegada de
distribuímos algumas garrafas de aguardente de cana, o que os tornou altura; corpo muito musculoso e entroncado; pescoço curto e gros-
extremamente alegres e comunicativos. Dissemos-lhes da nossa in- so; cara chata e larga; olhos oblíquos, maiores do que os comuns entre
tenção de visitá-los nas florestas, na manhã seguinte, se nos recebes- os Calmucks, muito negros, arregalados e ferozes; sobrancelhas pretas,
sem b~m : e, à nossa, p~omessa de levar-lhes, ainda, outros presentes, espêssas e muito arqueadas; nariz pequeno, mas de narinas dilatadas;
despediram-se contentiSSimos, e, em altos gritos e cantando, correram lábios relativamente grossos. ~sse indivíduo, que, segundo afirmaram
para as selvas. nossos homens, nunca fôra visto antes no lugar, pareceu-nos tão for-
Na manhã seguinte, mal deixáramos a casa e já avistávamos os midável, que todos nós, sem exceção, confessamos que não gostaríamos
de encontrá-lo, sozinhos e desarmados, num local solitário. Eschwege
índios saindo da mata. Fomos depressa ao encontro dêles, oferecemos-
lhes aguardente e os acompanhamos à floresta. Quando cavalgáva- dá como traço dos Puris a pequena estatura dos indivíduos do sexo
masculino; devo confessar que nenhuma diferença nesse particular
mos em volta dos canaviais da fazenda, encontramos tôda a horda
observei entre êles e os das outras tribos. Os Puris são geralmente muito
dos Puris descansando na relva. Aquêle grupo de gente nua e escura
baixos •, e, a êsse respeito, tôdas as tribos brasileiras são inferiores aos
constituía um espetáculo dos mais interessantes e singulares. Homens,
europeus e mesmo aos negros.
mulheres e crianças se misturavam, observando-nos com olhares
c~riosos: mas tímidos. Todos se tinham enfeitado do melhor modo pos- Todos os homens traziam nas mãos as suas armas, longos arcos e
Sivel; somente poucas mulheres usavam um pano em roda da cintura flechas. Algumas tribos sul-americanas, especialmente as do Maranhão,
ou do peito; a maioria estava completamente despida. Alguns usam lanças curtas de madeira dura, enfeitadas de penas; outras, como
homens se ornavam com um pedaço de pele do macaco por êles cha- as do Paraguai, Mato Grosso, Cuiabá e Guiana, bem assim as tribos
mado "mono" 236 , enrolado na testa; observamos também alguns tupis da costa oriental do Brasil, utilizavam pequenos cacêtes de
que .us~vam os cab~los cortados muito rente. As mulheres carregavam madeira dura, e até hoje ainda não os puseram completamente de lado;
os filhmho.s em faixas feitas de esteira, prêsas ao ombro direito; ou- a principal arma, porém, de tôdas as nações aborígines americanas, é o
tras os traziam nas costas, suspensos por faixas largas que passavam pela grande arco, ao lado da flecha comprida. Apenas algumas tribos que
habitam as planícies da América do Sul, os Pampas de Buenos Aires e
testa. ~s~a é a manei~a. pela qual geralmente transportam os cêstos
de provisoes, quando VIapm. Alguns homens e mulheres estavam mui- alguns rincões do Paraguai, e que vivem montados a cavalo quase todo
to pintados; tinham uma mancha vermelha na testa e nas faces o tempo e carregam uma longa lança como arma principal, usam, à
enquanto outros listavam o rosto de vermelho; outros, ainda, usa: semelhança da maior parte das tribos africanas, arco e flechas pe-
varo listas pretas ao longo do corpo, além de barras transversais pin- quenos• • . Não assim os tapuias da costa oriental; suas únicas ar-
talgadas; e muitos dos pequeninos estavam completamente mos- mas são arcos e flechas enormes, que, à maneira dos Paiaguás do Pa-
queados,. coin:o leopardos, com pequenas pintas negras. A pintura pa- raguai • • •, não levam num carcaz, porém na mão, devido ao grande
rece arbitrána e depender do gôsto individual. Algumas das môças comprimento. O arco dos Puris (fig. 1 da prancha 12) e dos Coroados
tem seis pés e meio, e até mais. E' liso, feito com madeira pardo-
usavam uma espécie de faixa em tôrno da cabeça; e as mulheres, em
escura, resistente e flexível da palmeira airi, e a corda é de fibras de
ge~al, amarr~m fortemente, em redor dos punhos e dos quadris, uma
gravatá (Bromelia). As flechas dos Puris têm, muitas vêzes, mais de
fatxa de estopa ou corda, para, dizem, torná-los menores e mais ele-
seis pés de comprido, são fabricadas de um bambu forte e nodoso
gantes.
("taquara"), que dá nas matas sêcas, e enfeitadas na extremidade inferior
· - Os homens eram, de modo geral, entroncados, baixotes e, não raro, de lindas penas azuis ou vermelhas, ou com as do mutum (Crax alector,
bastante musculo~os; c~beça grande e redonda; rosto largo, maçãs
quase sempre mmto salientes; olhos negros, pequenos e algumas vêzes (*) Cf. E CHWEGE, Journal von Brasilien, cap. I , p. 162.
(**) AzARA, Voyages, etc., vol. 11.
(236 ) Cf. nota 178 . ( ***) Ibid., p. 145.
110 VIAGEM AO BRASIL ESTADA NA VILA DE SÃO SALVADOR 111

Linn.), 237 , ou da jacutinga (Penelope leucoptera)238. As dos Coroados se o tempo é mau, os escuros moradores procuram proteção comprimin-
são feitas de outro caniço, sem nós. As flechas de tôdas essas várias do-se em roda do fogo e acocorando-se nas cinzas: fora daí, o homem
tribos são de diferentes tipos, caracterizados pelas pontas. O primeiro se estende à vontade na rêde, enquanto a mulher cuida do fogo e assa
(pr. 12, fig. 2) é a flecha propriamente de guerra. A ponta é do bambu a carne, que êles espetam num pau pontudo.
grosso mencionado anteriormente com o nome de "taquaruçu" (Bam- O fogo, que os Puris denominam "poté", é uma necessidade pri-
busa?) muito aguçado na extremidade. O segundo tipo (pr. 12, fig. 3) mordial para tôdas as tribos brasileiras: nunca o deixam extinguir-se
tem uma longa ponta de airi, com uma série de dentes de um lado. O e o alimentam durante tôda a noite, porque, doutro modo, devido à
terceiro, (pr. 12, fig. 4), de ponta rombuda, é utilizado para matar pe- falta de agasalho, seriam muito castigados pelo frio; e porque, tam-
quenos animais. Descrevê-las-ei adiante com mais pormenores, uma vez bém, traz a importante vantagem de afugentar as feras de perto das
que são geralmente idênticas em todos os tapuias da costa oriental. Ne- malocas. Os índios abandonam tais moradas, sem saudades, quando a
nhuma das tribos que visitei, nessa parte do litoral, envenena as flechas; região circunvizinha não mais lhes garante alimento sufici~nte; des-
porque a ignorância dêsses povos, ainda no mais baixo estádio da civi- locam-se, então, para outros lugares, onde encontrem mawr abun-
lização, não lhes permitiu, felizmente, conhecer essa arte; muito menos dância de macacos, porcos, veados, cutias e outras raças.
descobrimos, entre êles, qualquer indício das unhas envenenadas dos Os Puris deviam ter caçado grande número de macacos berradores
polegares dos Ottomacks do Orenoco•, ou do tubo que os índios aí ou barbados (Mycetes, Illiger), nessas circunjacências, e, de fato ofere-
faziam de enormes hastes de capim, ou das "esgravatanas" das tribos ceram-nos diversos pedaços mal assados dêsses animais; um dêles era u~a
do rio Amazonas • •. cabeça, outro um peito com os braços, mas sem a cabeça. Era, com efetto,
Saciada a curiosidade, pedimos aos selvagens nos conduzissem às repugnante! Sobretudo porque assavam a caça com a pele, que ficava,
suas choças. Tôda a horda partiu e acompanhamo-la a cavalo. O ca- assim, esturricada e preta. Dilaceram com os fortes dentes branc~s, êsses
minho conduzia a um vale que atravessava os canaviais; continuou, tenros petiscos mal assados. Dizem que devoram, da mesma n:;tanetra, por
depois, por uma trilha estreita, até que, afinal, no mais espêsso da vingança, carne humana; quanto, porém, a comer os própnos pare~tes
floresta, encontramos algumas choças, denominadas "cuari" na língua falecidos, como derradeiro tributo de afeição, de acôrdo com o refendo
dos Puris. São, não há dúvida, das mais primitivas do mundo por alguns antigos escritores•, não se encontra nenhum_ traço dêsse
(estão figuradas na prancha 3). A rêde de dormir, tecida de embira costume, pelo menos nos nossos tempos, entre os taputas da costa
(fibra cortical tirada de uma espécie de Cecropia) fica suspensa entre dois oriental. Os portuguêses do Paraíba afirmam, sem discrepância, que os
troncos de árvores, aos quais, em cima, está amarrada transversalmente, Puris comem a carne dos inimigos mortos, e, realmente, parece haver
com cipó, uma viga, contra a qual dispõem obllquamente, do lado alguma verdade nessa afirmativa, como veremos depois; mas jamais
do vento, grandes palmas, forradas embaixo com fôlhas de Heliconia ou no-lo confessaram. Quando lhes fizemos perguntas a respeito, respon-
de patioba e, quando perto das plantações, de bananeiras. Próximo deram-nos que só os Botocudos tinham êsse costume. Mawe conta q'!e os
a uma pequena fogueira, vêem-se, no chão, cuias feitas com os frutos da índios de Cantagalo comem os pássaros sem depená-los. Nunca v1 um
Crescentia cujete, ou umas poucas cabaças, uma pequena vela, várias miu- selvagem fazer isso; tiram, mesmo, com todo o cuidado, as vísceras, e com
dezas, bambus para flechas e pontas de flecha, algumas penas certeza quiseram se divertir à custa do viajante inglês... .
e provisões, tais como banana e outras frutas. Os arcos e as flechas Logo que chegamos às choças, começamos a troca de objetos.
ficam encostados numa árvore, e cachorros esqueléticos lançam-se, Presenteamos as mulheres com rosários, por que tinham predileção,
latindo estrepitosamente, sôbre o estrangeiro que se aproxima da embora arrancassem a cruz, e se rissem dêsse emblema sagrado da Igreja
mata. As choças são pequenas e tão expostas de todos os lados, que Católica; mostram, também, grande preferência por gorros de lã
vermelha; facas e lenços vermelhos, trocando prontamente os arcos
(*) A. HUMBOLDT, Anaichten der Natur, pp. 45 e 154.
(**) DE LA CoNDAMINE, V 011aue, etc., p. 65. e as flechas por êsses artigos; as mulheres são ávidas por espelhos, mas
não dão valor às tesouras. Obtivemos dêles, por troca, muitos arcos e
. (237) _Grax ale~tor Llnn. é espécie .~eculiar à região amazônico-guianense; a
aqUJ .em apreço d~nom1na-se c;ax blumenbachu Splx (= C. rubrirostris Spix), ou "mutum flechas, e diversos cêstos grandes. E êstes são feitos de fôlhas verdes
de. b•co ~er';l'elho , e é peculiar à grande mata costeira do Brasil médio-oriental. C!. de palmeira entrelaçadas; embaixo, na parte que se aplica às
W•ed, Bettrtiue, etc., I, pág. 845.
(238) No decurso de sua viagem terá o autor muitas oportunidades de referir- costas, têm um fundo trançado, e, dos lados, uma borda alta feita da
à "jacutlnga", Pipile jacutinua (Splx), bela ave galinácea, outrora multo abundante
nas matas virgens de todo o Brasil meridional, mormente na orla dos grandes rios mesma maneira, sendo geralmente abertos em cima. Carregam-nos,
Todavia, limitando-se a dar-lhe o nome cientifico de Penelope leucoptera pena é
que houvesse omitido a descrição necessária ao aproveitamento do último r{a Nomen-
clatura zoológica, dando ensejo a que Splx viesse a descrever a ave poucos anos depois (*) SoUTHEY's, History ot Brazil, vol. I, p. 879.
(1825), sob nova denominação. (**) J. MAWE's Travell, etc., p. 124.
112 VIAGEM AO BRASIL

como já observáramos, do mesmo modo que as crianças, aplicando-os


às costas por meio de uma faixa passando pela testa, e algumas vêzes
por meio de uma tira passando pelos ombros (na fig. 7 da pr. 12 está
representado um dêsses cêstos).
Todos os selvagens costumam, freqüentemente, oferecer à venda
grandes bolas de cêra, que juntam quando colhem mel silvestre. Uti-
lizam essa cêra escura na confecção dos arcos e flechas, e também para
velas, que vendem aos portuguêses. Os tapuias fazem essas velas, que
queimam muito bem, enrolando um pavio de algodão em tôrno de um
fino pau de cêra e, logo depois, rolando todo êle com fôrça. Dão grande
valor às facas, que penduram ao pescoço por um cordão, deixando-as
pendentes nas costas; consistem, em geral, apenas de uma peça de ferro,
que êles afiam constantemente nas pedras, conservando-as muito cor-
tantes. Se lhes dão uma faca, geralmente tiram fora o cabo e fazem
outra de acôrdo com o próprio gôsto, colocando a lâmina entre dois
pedaços de pau e ligando-os solidamente com um cordão.
Terminado o nosso comércio, tornamos a montar e fomos a outras
malocas, situadas mais para dentro da floresta; o caminho era fatigante,
estreito, atravancado de raízes, cheio de altos e baixos. Alguns sel-
vagens vieram na garupa dos nossos cavalos, e uma tropa inteira de
índios Coroados de S. Fidélis acompanhou-nos a pé. Num pequeno
vale solitário, no meio da mata, encontramos a casa de um português,
que mora entre os Puris. Daí, o caminho seguia em subida suave,
e logo chegamos às choças de numerosos selvagens, onde fomos de novo
atacados por uma quantidade de cães esqueléticos. Diz-se que os Puris
receberam êsses animais, a que dão o nome de "joare", dos europeus,
e eu os encontrei entre tôdas as tribos nativas da costa oriental•.
Havia, nas malocas, grande número de mulheres e crianças; viam-
se, em algumas, várias rêdes de dormir, se bem que houvesse, geralmente,
apenas uma em cada choça. Um Puri, ao ofertar-lhe eu uma faca,
desarmou a sua rêde e entregou-ma (ela está representada na fig. 7
da prancha 13); outros tiravam da testa as tiras de pele de macaco, os
colares do pescoço, e assim por diante. O Sr. Freyreiss entrou em nego-
ciação com um dos Puris para a compra de um filho, oferecendo-lhe
diversos artigos. As mulheres consultaram-se alto, no tom cantante que
lhes é peculiar, algumas com gestos de desaprovação; a maioria das
palavras terminavam em a e eram arrastadas, do que resultava forte
e singular vozerio. Era evidente que elas não se queriam desfazer do
menino; mas o chefe da família, um homem idoso, grave e de bom
aspecto, disse umas poucas palavras cheias de ênfase e ficou, depois,
durante algum tempo, olhando para o chão, perdido em pensamentos :
ofereceram-lhe, sucessivamente, uma camisa, duas facas, um lenço, uns
fios de contas de vidro colorido e alguns pequenos espelhos: não pôde

( *) Humboldt encontrou, na América Espanhola , muito cães sem pêlo; nós,


porém, não vimos nenhum dêstes nesse litoral.
ESTADA NA VILA DE SÃO SALVADOR 113
resistir a tentação: entrou na floresta e em pouco voltava, trazendo pela
mão um menino, que era, porém, mal conformado e tinha um ventre
muito dilatado, não sendo, por isso, aceito; trouxe logo um segundo,
que se aceitou. Foi inacreditável a indiferença com que o menino soube
do seu destino. Não mudou de fisionomia, nem mesmo se despediu dos
amigos, mas, ao contrário, montou alegremente atrás do Sr. Freyreiss.
Essa empedernida indiferença em tôdas as circunstâncias, alegres ou
tristes, se encontra na totalidade das tribos americanas. Alegria e tris-
teza não os impressionam muito; raras vêzes riem, e é pouco comum
falarem alto. A comida é-lhes o desejo mais premente; seus estômagos
precisam estar sempre cheios; comem, por isso, com rapidez fora do
comum, olhares ávidos, a atenção inteiramente voltada para o alimento.
Em compensação diz-se que suportam a fome por muito tempo. Dei-
xam-se geralmente atrair pelos canaviais das fazendas, em cujas
cercanias acampam: e podeis vê-los, sentados aos grupos, chupando
cana durante quase todo um dia. Cortam, também, grande quantidade
de canas e carregam para a mata. O caldo de cana é apreciado não
só pelos tapuias, como por tôdas as classes baixas do Brasil, entre as
quais o costume de chupar cana é geral. Koster• diz o mesmo de
Pernambuco.
Acabadas as trocas na floresta, tornamos a montar; com um Puri
na garupa de cada um dos cavalos, voltamos para a fazenda. A
horda inteira, de homens e mulheres, em pouco chegava aí, e todos
pediam de comer. Enquanto voltávamos, o selvagem que eu trazia à
garupa tirou o meu lenço do bôlso. Surpreendi-o no momento em que
o procurava esconder, e perguntei-lhe se queria dar um arco por êle, o
que logo aceitou : mas, depois, esgueirou-se ràpidamente entre a
multidão e não deu mais sinal de si. Alguns homens tinham bebido
muita aguardente e ficaram embriagados. Com bons modos nos livra-
ríamos dêles fàcilmente; os colonos, porém, de acôrdo com o critério
errado de considerá-los animais, ameaçam-nos logo com o chicote, o
que naturalmente lhes excita a cólera, acarretando a má vontade, o
ódio e a violência. Estavam, por isso, de todo encantados conosco,
estrangeiros, porque os tratávamos com brandura e delicadeza; também
se aperceberam de pronto, pelos nossos cabelos claros, de que perten-
cíamos a outra nação. Chamam, aliás, a gente branca, indistintamente,
"raion".
Como não pudéssemos obter, na fazenda, farinha para todo
aquêle povo, procuramos outros meios de atender às ruidosas recla-
mações dos seus estômagos. O dono da casa deu-nos um pequeno
leitão, de que lhes fizemos presente, dizendo que o matassem; dêsse
modo, tivemos oportunidade de observar com que selvagem crueza
preparam os animais para comer. O leitão pastava perto de uma

(*) KOST:EII, Travels, etc., p. 8.5.


ESTADA NA VILA DE SÃO SALVADOR 115
114 VIAGEM AO BRASIL

casa; um Puri avançou de mansinho e flechou-o muito alto, sob Os selvagens do Brasil acreditam em vários entes po?erosos, o_ maior ?os
a espinha; o animal fugiu berrando, com a flecha cravada. O selvagem, quais identificam ao trovão: so~ o nome .de tupa ou tupa. ~mtas
tribos concordam na denommaçao dada a esse ente sobrenatural, e, o
então, pegou uma segunda flecha e fincou-a na espádua do animal a
correr e depois o agarrou. Enquanto isso, uma mulher acendera o fogo. que é mais, algumas tribos Tapuias co?co:dam até com as Tup~s, ou
Quando todos nós nos aproximamos, feriram de novo o animal, no pes- índios que falam a língua geral. Os Puns dao~lhe o nome de Tupa; que
coço, para matá-lo, e em seguida no tórax. Entretanto, ainda não Azara faz derivar da língua dos Guaranis; ma1s uma prova de ahmdade
estava morto; grunhia e sangrava profusamente: sem fazer caso dos desta nação com as tribos da costa o.riental. Não se. v~em ídolos entre os
berros, puseram-no vivo ao fogo para chamuscar-lhe o pêlo, rindo-se tapuias, nem mesmo os maracás, mstrumento mag~co e protetor dos
gostosamente dos grunhidos que êsses sofrimentos lhe arrancavam. Só Tupinambás. Somente no rio Amaz~nas se tem , enc~n~rado algum~s
depois que os nossos protestos contra a barbaridade se tomaram cada imagens que parecem ter certa relaçao com a fe rehg~osa dos habi-
vez mais impacientes, foi que um dêles avançou e enterrou uma faca no tantes•. A maior parte dos índios da América do Sul guarda, també~,
peito do to~turado animal; no mesmo momento lhe rasparam o pêlo uma confusa idéia a respeito de um dilúvio universal, além de vána~
e o esquarteJaram• . Devido ao pequeno tamanho do leitão, muitos não tradições, como, entre outros, acentuou Simão de Vasconcellos nas Notz-
conseguiram um pedaço, e voltaram resmungando para a mata. Mal cias curiosas do Brasil• •.
se tinham ido, quando chegou, para êles, um saco de farinha de S. Fidélis, Não aceitamos o convite do nosso gentil hospedeiro para passar
que lhes mandamos ao encalço. a noite em sua casa, e voltamos no mesmo dia, atravessando o Paraíba,
A crua insensibilidade, como me mostraram êsse e muitos outros para S. Fidélis. Os índios Coroados do lugar estavam. muito des~on­
exemplos, é um traço predominante do caráter dos selvagens. E' uma tentes conosco, porque, como diziam, déramos tanta coisa ao~ Pu:is e
conseqüência necessária do modo de vida; pois é o mesmo que nada a êles; compramos, por isso, para de certo modo satisfaze-los,
tomam o leão e o tigre sedentos de sangue. Além disso, são-lhe peculi- alguns arcos e flechas. Visitamos, em seguida, o padre João. O Paraíba
ares o instinto de vingança, um certo grau de inveja, e um indomável passa-lhe em frente às jan~las da re~idê?cia, d~nde se a~arca uma
amor à liberdade e à vida nômade. Têm, em geral, muitas mulheres; vista magnífica do rio, o mawr da capitama do Rio de J'-':nei~o, e qu~,
alguns possuem quatro ou cinco, pôsto que as possam sustentar. De depois da cachoeira ou queda que fica acima de S. F1déhs, se diZ
modo geral, não as maltratam, mas o marido considera a mulher como ter setenta e duas ilhas: corre êle entre a serra dos órgãos e a serra
sua propriedade; tem que fazer o que êle ordena, e por isso anda car- da Mantiqueira. O rio estava,. ent_ão, na extrema va~ante; mas na
regada como uma bêsta de carga, enquanto, ao lado, êle apenas leva as estação chuvosa, dezembro e pneiro, transborda e munda grande
armas na mão. extensão das margens.
A língua dos Puris é diferente da da maior parte das outras tribos; Dêsse lugar parte uma estrada que, pelas montanhas, se dirige
guarda, porém, afini?ade com as dos Coroados e Coropós. Alguns a Cantagalo; outra vai para Minas Gerais. Cantagalo, fundada por
autores, entre os quais Azara, tendem a negar qualquer idéia religiosa alguns paulistas que andavam em busca do ouro, permaneceu durante
a essas tribos americanas; mas o assêrto parece pouco fundado, de vez muito tempo oculta nas florestas, até que, por fim, foi descoberta graças
que o mesmo Azara encontrou, entre alguns índios do Paraguai, noções ao canto de um galo, donde o nome. Quando os jesu~tas se e~tabelecer~~
que sem dúvida provêm de uma religião ainda rudimentar. O tradutor no Brasil, dizem que uma raça muito clara de índws habitava as VIZI-
de seu livro, o Sr. Walckenaer, fêz em vários lugares essa observação••. nhanças de Cantagalo•••. Os jesuítas aí descobriram areias auríferas,
Entre tôdas as tribos dos tapuias que visitei, descobri provas evidentes
de uma crença religiosa; estou, por isso, convicto de que não há um só
que os índios lhes levavam ao Paraíba, em embrul~os d:
papel, ~ela qual
pagavam ninharias. Nossa despedida do padre Joao foi mais amistosa do
povo na face da terra destituído por completo de idéias religiosas•••. que o primeiro encontro; todavia, muito mais cordial foi a que fizemos ao
bom velho que nos tratara com tanta benevolência: Tomamos a ~tra­
(*) Nem aqui, nem posteriormente encontrei, entre os selvagens, qualquer confir- vessar o Paraíba a caminho da fazenda do Sr. Furnel, e de novo vimos
mação do que o sr. Freyreiss diz na pág. 208 do primeiro volume do Journal von os Puris dirigindo-se ao engenho para chupar cana. O rapaz que o Sr.
BriUilien de EscHWEGE, a saber, que os selvagens nunca comem a carne dos animais que
êles próprios matam. Freyreiss comprara na véspera foi conduzido até êles, para se ver a
(** ) AZARA, VOflaoes, vol. 11, p. 34, em nota.
( ***) O fato de que o padre de São João Batista diz não ha ver encontrado
qualquer idéia religiosa entre os Coroados nada prova, pois que sendo êles considerados (* ) SoUTHEY' s H is tory of Brazil , vol. I , p. 620.
semelhantes a os Puris ainda bra vos, devem certa mente se comportar como êstes. Conclui-se
a ssim qu~ êles temem, sob o nome de Tupã, um ser sobrenatural e onipotente. Cf. ( ** ) SIMÃO DE VASCONCELLOS, op. cit., p. 47.
EscHWEGE s Journal, parte I onde, na página 165, a primeira palavra da lista de nomes (*** ) V. a descrição de Ca nta-Galo em J. MAwE, T r avels, etc., cap. IX, P· 120.
é a contestação do que se diz na página 106.
~. -- - ..
._. - --- .

116 VIAGEM AO BRASIL ESTADA NA VILA DE SÃO SALVADOR 117

impressão que causaria aos parentes; mas, para nosso espanto, nenhum Na manhã seguinte, depois que os nossos cavalos foram reunidos
se dignou lançar-lhe sequer um olhar; nem êste olhou para os pais e no campo, continuamos a viagem, e alcança_mos, pelo ~eio-dia, o Muriaé,
os parentes, sentando-se entre êles com perfeita indiferença. Não encon- que não é largo, mas é profundo e ráp1do, e se d~z causar ~andes
trei tamanha apatia em nenhuma outra tribo; parece, contudo, que estragos nas estações das chuvas: Nasce na serra do P:co, na regrao dos
ela só existe em relação aos filhos mais ou menos adultos, porque não Puris, e é navegável, como nos mformaram, na extensao de sete léguas.
lhes falta ternura pelas crianças menores. Enquanto um rapazinho não Há, nas margens, grandes fazendas, em que se produz muito
pode procurar a própria subsistência, é absoluta propriedade do pai; açúcar. Uma pequena canoa levou-nos pela corrente, e, à tarde, atin-
logo, porém, que fique de certo modo apto a fazê-lo, o pai deixa, por gimos um lugar donde se vê, graciosamente situada, estendendo-se na
assim dizer, de preocupar-se com êle. margem oposta, a vila de S. Salvador. Encontramos, nas cercanias,
Alguns Puris passaram por nós com as mulheres enormemente a aldeia de S. Antônio, antigo povoado indígena. estabelecido pelos je-
carregadas. As cargas consistiam nos filhos e em cêstos de fôlhas de pal- suítas com os índios Guarulhos, mas que, atualmente, não conta mais
meira, cheios de bananas, laranjas, côcos de sapucaia, bambu para "caboclos" entre os habitantes.
pontas de lança, cordas de algodão e alguns artigos de enfeite. O ma-
rido carregava um filho; suas três mulheres os outros, mais os cêstos
(a estampa 2 representa uma horda de Puris em viagem pela mata).
Despedimo-nos do nosso hospedeiro e dos índios e descemos a
margem esquerda do Paraíba, que achamos tão pitoresca e cultivada
quanto a margem direita. Vimos aí grandes fazendas cercadas de árvores
lindíssimas, entre as quais a sapucaia, com a tenra folhagem côr-de-rosa
em pleno brotamento, e carregada de belas e grandes flôres lilás de forma
admirável. Paramos perto da casa do Sr. Morais. ~sse inteligente agri-
cultor fizera algumas preparações de história natural, que nos ofereceu.
Ordenou, também, lhe selassem imediatamente o cavalo para nos acom-
panhar. Durante a nossa parada aí, algumas famílias de Puris vieram
acampar próximo da casa. São muito apegados a êsse digno homem,
que os trata de maneira sinceramente bondosa. Sem olhar para os
pn~juízos que lhe capsam, permite-lhes saquear as laranjeiras e as bana-
neiras, bem como os canaviais, do que, muitas vêzes, lhe vêm conside-
ráveis prejuízos. ~sse homem, que lhes granjeou a estima e o apêgo,
e que sabe como proceder com êles, foi mais bem sucedido do que qual-
quer outro em amansá-los e reuni-los em aldeias ou povoados. Acom-
panhou-nos pelas estradas montanhosas ao longo do rio, onde tivemos,
por várias ocasiões, que passar por lugares perigosos e ribanceiras
íngremes; penetramos, em seguida, numa sombria e majestosa floresta,
onde voejavam lindíssimas borboletas. Nesse lugar, vimos no rio,
junto à margem, uma ilhota tôda cercada de rochas escarpadas, na qual
havia algumas velhas árvores, repletas de ninhos, em forma de saco,
do guache (Cassicus haemorrhous). Canaviais, arrozais, cafezais (êstes
raramente), e algumas plantações de milho sucediam-se. A corrente
espelhante do Paraíba era recortada de encantadoras ilhas, umas
cultivadas, outras cobertas de mato. À tarde, chegamos a uma pla-
nura perto do rio, onde havia importante fazenda entre verdes pasta-
gens, na qual fomos bem recebidos e onde, por isso, resolvemos passar
a noite. Do outro lado do vale se elevavam altaneiras montanhas,
entre elas o morro da Sapateira, alta cadeia de vários picos.
VI

VIAGEM DA VILA DE S. SALVADOR


AO RIO ESPíRITO SANTO

Muribeca - As hostilidades dos Puris - Quartel


das Barreiras - Itapemirim - Vila Nova de Benevente,
à margem do Iritiba - Guaraparim.

A nossa chegada à vila tivemos a alegria de ver confirmada a notícia


da vitória de Belle-Alliance 239, com o qual também exultaram todos os
moradores do lugar. Começamos, em pouco, a fazer os preparativos
necessários para o prosseguimento da viagem, em direção norte, ao longo
do litoral; contratamos mais dois caçadores, além de um soldado, como
guia ; e tendo-nos despedido do coronel Carvalho dos Santos, coman-
dante, que fôra tão cortês, e de outros amáveis moradores de S. Sal-
vador, deixamos a vila a 20 de novembro e avançamos pela margem do
Paraíba, rumo à foz. A cidade acompanha até bom pedaço a beira do
rio, oferecendo uma bela paisagem. A massa de casas ergue-se imediata-
mente acima do rio; erguem-se, acima delas, coqueiros solitários, e o
magnífico fundo de cena {: formado pelas montanhas azuis longínquas.
A superfície reluzente do rio, que tem aí razoável largura, é cortada
em tôdas as direções pelas canoas remadas por negros, e as margens
são guarnecidas de capoeiras, pequenos capinzais e moradas pitorescas.
Um pintor poderia, desse lugar, fazer um lindo quadro da cidade e
e arredores. Nossa jornada, nesse dia, foi muito penosa; não só porque
o longo repouso tornara os animais indóceis, como por têrmos passado
por muitas fazendas em cujas cêrcas havia aberturas feitas pelo gado,
dando azo a que os burros por elas se transviassem. Vimos, nas cercanias,
gado vacum muito bonito; de fato, êsses úteis animais são, em todo o
Brasil, grandes, musculosos, bem proporcionados e de boa aparência.
Os couros de Buenos Aires, Montevidéu, Rio Grande e outras províncias
(239) Como vimos anteriormente (nota 224), designam o alemães por êsse nome
a batalha de Waterloo, vitoriosa para as armas prussianas.
120 VIAGEM AO BRASIL

das Américas portuguêsa e espanhola são famosos pelo grande tamanho.


Os bois, além disso, têm chifres muito maiores que os da Europa. Inú-
meros cavalos se criam igualmente nessas paragens.
A região é pitoresca e aprazível; ademais, encontramos algum
material novo de história natural, entre êles o lindo martim-pescador
azulado (Alcedo alcyon, Linn.) 24 o, de que consegui muitos. Cêrca de
meio-dia, chegamos à casa de um tenente, em cuja ausência fomos
bem recebidos pela mulher. Quando, de manhã, nos preparávamos
para partir, o tenente, que chegara durante a noite, mandou selar o
seu cavalo e acompanhou-nos à vila de S. João da Barra. O tempo
estava extremamente cálido: nas rasas poças da mata, já quase sêcas,
viam-se inumeráveis borboletas brancas e amarelas, que as buscam em
procura de umidade. Essa multidão de borboletas nos lugares úmidos
é seguro indício da proximidade da estação quente: vêem-se, então,
nuvens delas esvoaçando nas vizinhanças da água.
A vista do Paraíba era interrompida pelas capoeiras. O solo are-
noso provava que estávamos muito perto do mar. Lindas aves vieram
aumentar as nossas coleções, sobretudo martins-pescadores (Alcedo); e
quando atingíamos a margem do rio, tivemos ocasião de experimentar
um gênero de caça inteiramente novo para nós, a do jacaré, ou "al-
ligator" dêsses rincões Crocodilus sclerops241 • Vive êsse anfíbio•

(240) Refere-se Wied ao ma ior rios nossos martins-pescadores, M egaceryl e torquata


(LtNN. 1776), o único em que o colorido predominante da plumagem é azul ardosiado,
e não verde. Corresponde a Alcedo cyanea Vieillot (1818), e por êsse nome é descrito
por Wied à pág. 5 do volume IV dos Beitrage. A ave a que deu Linneu o nome de
Alcedo alcyon muito a êle se assemelha; é porém espécie diversa, peculiar à América
Setentrional e Antilhas.
(241) Pelos estudos modernos (cf. FR. SIEBENROCK, em Denks. Akad. Wien. math-
naturw. Kl., LXXVI, p. 29), verifica-se que o " jacaré " encontrado por Wied durante todo
percurso de sua viagem e ainda em Beitrage (vol. I, pág. 69 a 98) descrito como
Crocodilus sclerops, corresponde à forma descrita por Daudin, com o nome de Caiman
latirostris.
Muito se tem trabalhado e escrito sôbre as espécies de jacarés ocorrentes no Brasil,
assunto que entre nós foi objeto, anos atrás, de uma revisão por parte de H. LUEOERWALDT
(Rev. Mus. Paul., XIV, 1926, p. 887) e que, pela sua Importância, merece deter o
comentador por alguns momentos. Segundo K. P. Schmldt, autor de estudo mais moderno
e completo sôbre a matéria, os jacarés brasileiros até hoje conhecidos compreendem seis
espécies, repartidas em dois gêneros, conforme o resumo que dou a seguir, indicados
os nomes vulgares e a distribuição peculiar a cada uma.
Paleosuchus trigonatus (Schnelder): Venezuela, Guianas, Peru, Amazonas (Rio
Negro), Pará (Rio Tocantins).
Paleosuchus palpebrosus (Cuvier): Venezuela, Guianas, Amazonas (Rio Branco),
Pará (Rio Tapajós), Mat()-Grosso (alto Paraguai).
Caiman niger Spix, vu1g. "jacaré-açu ", "jacaré-una": Peru, Equador, Amazonas
(Rio Negro, Rio Madeira), Pará (Marajó e outras ilhas do delta).
Caiman latirostris (Daudin), vulg. "jacaré de papo amarelo", "ururau": leste
do Brasil (de Pernambuco ao Rio Grande do Sul}, alto Rio Paraná, baixo Paraguai.
Caim.an yacare (Daudin), vulg. " jacaretinga " confundido pela generalidade
dos autores com C. sclerops: alto Paraguai, alto Parnaíba.
Caiman sclerops (Schnelder): C. crocodilus, Linn. = Venezuela, Guianas,
Pará, Amazonas.
Persistem, contudo, muitos pontos obscuros, que ao futuro cabe esclarecer. Avulta
particularmente entre êles i). distribuição da espécie que o autor separou sob o nome
de C. yacare (Daudin). Com efeito, a sua presença em dois pontos tão distanciados
como o alto Paraguai e o alto Parnalba, induz à suposição de que ela deve existir
igualmente em tôda faixa intermédia do sertão brasileiro, fato que parece atestado pelas
informações dos naturais, que afirmam a presença nos rios do Brasil este-meridional de
DE S. SALVADOR AO RIO ESPÍRITO SANTO 121
em todos os rios do Brasil, máxime nos de pouca correnteza,
nos lugares pantanosos e nos remansos. ~stes se reconhcem logo
pela presença de plantas aquáticas de grandes fôlhas, tais como a Nym-
phaea, a Pontederia e outras, que emergem do fundo e estendem hori-
zontalmente as fôlhas na superfície. Entre elas é que o jacaré
deve ser procurado; aí o observador experimentado lhe descobre a
cabeça, que, espreitando a prêsa, sai fora d'água. Também se encon-
tram, por vêzes, no meio dos rios, especialmente nos ribeirões quase
estagnados, ou remansosos. Cobrem as margens do Paraíba bosques
de uma árvore de dezoito a vinte pés de altura, de caule esguio e grandes
fôlhas pubescentes e cordiformes (provàvelmente um Croton) .. , parenta
muito próxima do Tridesmys (Monoecia). Pode-se, por entre êles,
aproximar cautelosamente da margem e ver o jacaré com a cabeça acima
da superfície, aquecendo-se ao sol, aguardando a prêsa. A princípio,
quando nos acercávamos do rio sem pensar nêles, e sem conservar
o necessário silêncio, ouvíamos apenas o barulho que faziam ao
mergulhar; agora, porém, que nos aproximávamos cautelosamente para
descobrir donde vinha o ruído, certificamo-nos de que era produ-
zido pelos jacarés. Com a minha espingarda de dois canos, empre-
gando carga média, feri um dêsses animais no pescoço; êle ergueu-se,
virou de costas e afundou. Embora estivesse certo de ter-
lhe infligido um ferimento mortal, não tinha meios de içá-lo do
fundo da água; atiramos, da mesma maneira, em pouco tempo, em
três ou quatro outros, sem podermos apanhar nenhum. Não tínhamos
ido longe, quando ouvimos uns tiros adiante de nós e descobrimos,
cavalgando para lá, que os dois caçadores, que mandáramos na frente,
em pé numa ponte sôbre uma corrente remansosa, tinham ferido duas
vêzes um jacaré no pescoço, matando-o. Como houvesse, perto, algu-
mas cabanas de pescadores, conseguimos um homem com uma canoa
e um longo forcado de ferro com três dentes, com o qual sondou o
fundo, fisgou o animal e trouxe-o à tona.
O comprimento dêsse jacaré era de cêrca de 6 pés; côr cinzento-
esverdeada, com listas transversais escuras, especialmente na cauda;
ventre de um amarelo brilhante homogêneo. Ficamos muito con-
tentes por ter obtido o belo animal, ainda novo para nós; car-
regamos com êle um dos burros, do qual espalhava-se em tôrno um
cheiro almiscarado extremamente desagradável. O jacaré da costa
oriental do Brasil é muito inferior ao gigantesco crocodilo do Velho
Mundo, e mesmo aos existentes nos países da América do Sul mais
(*). !'arece duvidoso que o jacaré descrito por AZARA seja o Crocodilus scl erops:
sua Qdescr~çao é multo vaga e, além disso, registra côr muito diferente. Cf. Essais sur
l es ua,~rup edes du Paraguay, etc., vol. 11, p . 880.
( ) (Suplem.) Croton gnophaloides ScHRADER, op. cit., pâ g. 708.

dua~, espéci~~· que di.stingl;Jem pelos nomes de "jacaretinga ", C. yacar~, e "papo-amarelo "
DU ururau • C. lahrostns. Note-se de passagem, que o têrmo " jacar etinga", como é
regra enhe os nomes ':ulgares, varia de aplicação conforme a zona, bastando para
provâ-lo lembrar que W1ed o registra como usua l para a espécie por êle colecionada.
122 VIAGEM AO BRASIL DE S. SALVADOR AO RIO ESPÍRITO SANTO 123

próximos do equador. Humboldt viu o corpo dêstes últimos coberto porém, mais conhecida alhures por tatu-comum ou tatu-v_erda~eir<?,
243 . Separamos os _dOis an~ma1s
de vá:ias aves•; até a cabeça de um dêles, fôra espantosamente 0 qual, assado, constitui ótimo prato•
escolhida como pouso pelo grande e esguio flamengo. Os jacarés são durante a noite, pondo um num saco e outro num sóhdo cubiculo.
muito comuns no Paraíba, e os negros comem-nos algumas vêzes. Con- Quando nos dispusemos a comê-los no dia seguinte pela manhã, o
tam-se muitas histórias fabulosas a respeito da sua voracidade, mas a primeiro tinha atravessado o saco, furado a grossa parede de barro
espécie aqui mencionada, que tem no máximo 8 a 9 pés de compri- da casa e escapado. .
mento, não é temível, embora alguns pescadores mostrem cicatrizes Permanecemos dois dias em S. João para preparar nosso Jacaré,
nos pés, dizendo-as causadas pelas dentadas dêsse animal; e de nenhum 0 que nos ocupou um dia inteiro. Após terminarmos essa operação,
modo é provável que pudesse, como nos contaram, atacar e devorar retomamos a viagem. O juiz nos cedera quatro grandes canoas
um cachorro, que atravessava o rio a nado. Na corrente quase estag- e os canoeiros para o transporte da bagagem pelo Paraíba.
nada, perto da ponte acim_a referida, eram êles tão numerosos, que O vento agitava tanto a superfície do rio, que canoas pequenas corre-
sempre pudemos contar vános ao mesmo tempo; como, porém, atirás- riam o risco de virar. Ouvíamos constantemente o rumor do oceano,
semos em alguns a grande distância, tornaram-se ariscos e não obti- quando, longe, rio abaixo, remávamos em redor de uma ilha cobert,a
vemos mais nenhum espécime além do já descrito. Próximo da cor- de linda vegetação. Aí, entre outras, medrava uma bela Cleome herba-
rente, no chão aren~so, vimos moitas de Eugenia pedunculata, bonito cea, com cachos de grandes flôres br~nco-amareladas, de e.stames pur-
arbusto bem conhecido, que dá o fruto vermelho, carnudo, quadran- purinos; uma malvácea, de doze a qumze pés ~e altura, flor~s grandes
gular e saboroso, conhecido no país por pitanga. Cresce isolado amarelo-pálidas e fôlhas cordiformes .. ; a amnga244 , espéc1e notáv~l
no _pedúnculo, e todo o arbusto se carrega dêle; achamo-lo, nessa de A rum de caule comprido (A rum liniferum, Arruda)• • •, frutos ova1s
ocasião, mui~o fresco. Os cajueiros (Anacardium occidentale, Linn.) e flor esbranquiçada. . _
estavam flondos. Perto dêles, num pasto, vimos um bonito carneiro A seguir, atravessamos o segundo braço do no, remando, entao,
de quatro chifres. por um pequeno canal, entre duas ilhas, cujas águas, ensombradas
Chegamos, por fim, à vila de S. João da Barra, próximo da desem- de todos os lados pelas florestas altaneiras, são quase estagnadas,
bocadura do Paraíba, no oceano. Graças à interferência do tenente motivo pelo qual cheias de jacarés. Enquanto a canoa avançava
nosso companheiro, a casa da Câmara, edifício destinado à residência devagar, não tirávamos os olhos dêles. As raízes descobertas e arq~ea­
d~ oficial da coroa, foi-nos cedida. E' um espaçoso edifício com das do Conocarpus e da Avicennia, emergindo dos troncos a constde-
Óti_mos qu~r~os e u~ quint~l plantado com laranjeiras e pés de rável altura, formavam na margem estranho emaranhado. Vimos, entre
goiaba (Pszdzum pyrzferum, Lmn.), alguns dos quais em flor. S. João essas raízes, por vêzes, sôbre velhos tro?cos de. árvores e pedras da
da Barra é uma localidade que não se pode comparar a S. Salva- margem, jacarés aquecendo-se ao sol. Mmha espmg~rda estava. sempre
dor, pois que só tem uma igreja, ruas sem calçamento, casas de um carregada para êles, mas não tive nenhuma .o portumdade de attr~~- ~
só andar, construídas de paus e barro. Mas, por outro lado o rio canoa muitas vêzes balançava, e, antes que retomasse o eqmhbno
é nave~áv~ p~r n~vios de regular tamanho, brigues e sumacas, e tem necessário a uma boa pontaria, o animal mergulhava de novo. _Na
com:umcaçao Imediata com o oceano. Tôdas as embarcações com saída do canal, observamos, nas praias da~ ilhas, mu_itos dos mart~ns­
d_estm~ ~ S. Sal~ador _ passam por êsse lugar, embora o braço do pescadores azulados (Alcedo alcyon, Lmn.) 245 ; vtam-se, tamt;>em,
no proximo da vila seJa raso, e o canal, propriamente, fique do outro grande número de aves muito parecidas com o nosso corvo-mannho
lado_ de. algum~s ilhas_. • o~ habitantes são, sobretudo, pescadores e
mannheiros, CUJa subsistenCia é garantida pelo comércio, com S. Sal- (*) Essa espécie é o "Tatou noir " de AzARA. V. Essais sur l es Quadr. du Para(ltt(YJ,
etc., t . IJ, p. 175.
vador, dos produtos da região. Nossos caçadores, que vieram na ( **) Koster em apêndice observa que Arruda, em sua descrição das plan~s
frente, e encontramos na vila, tinham caçado diversos animais entre de Pernambuco, chama esta erva' de "Guachuma do mangue " (Hibiscus parnambucenns).
os quais, também, um casal de tatus (Dasypus) vivos. .f'.sses c~riosos (***) Arruda In loc. clt.
(Suplem.) Caladium liniter u m Nees de Esenbeck: C. caulescens .• erectum,
animais são muito comuns no Brasil, existindo várias espécies. A que follls sagittatls Iobls acutls spadlce spatbam cucullatum ovato-lanceolatam aequante, caule
conseguíramos apanhar viva se chamava, aí, "tatu-peba"242, sendo, attenuato. Ani~ua Piso, Bra's., p. 108. Parece ser diverso de Caladium arborescens, Ventenat.

(2U) Dasvpus novemcintus Llnnaeus. O "tatu-verdadeiro ", também multo comu-


(* ) A nsichten der Natur, p. Ul. mente chamado "tatu-galinha ", foi descrito por Wled (Beitréiue, li, p. ~ 81), com o nome
de Dasvpus longicandotus.
(242) Por "tatu-peba" conhece o povo, conforme as regiões diversos tatus · uma (2U) A planta é multo abundante nas margens do Amazonàs, onde constitui o
delas é o " tatu-peludo ", Euphractus sexcinctus setorus (Wied) , qu~ 0 nosso viajan'te fria refúgio predileto das " ciganas " (Opisthocomus hoazin Mueller) . V . a nota 827.
encontrar em abundância na região dos campos gerais (cf. BeitrOge 11 pág 520-29)
mas passado em silêncio na sua descrição de Viagem. ' ' · ' (U5) Cf. nota 240.
124 VIAGEM AO BRASIL DE S. SALVADOR AO RIO ESPÍRITO SA TO 125

(Garbo cormoranus), mas eram bem ariscas 24 6. Impossibilitados de tapuias, que algumas vêzes infestam essas paragens, quando, p~ra
fazer outros achados importantes aí, tivemos que nos contentar com meu não pequeno espanto, vi de súbito, em frente de mim,
o de duas espécies de Fucus, já encontradas perto do Rio de Janei- dois homens escuros e nus. Tomei-os por selvagens no primeiro
ro•, ao mesmo tempo que numa longa e estreita lagoa, atrás das momento, e preparava a espingarda de dois canos para me defender
dunas, tivemos também a boa sorte de matar um dos corvos marinhos de qualquer ataque, quando percebi que eram caçadores de
que mergulhavam. Ao norte dêsse lugar, a costa, a certa distância lagartos. Os colonos, que vivem esparsos nessas solidões, gostam
da praia, é atapetada por muitas variedades de arbustos, entre os muito da carne da grande espécie de lagarto (L.acerta teguixin, Linny 47
quais os mais freqüentes são a pitangueira (Eugenia pedunculata), denominado "teiú" na língua geral dos índws da costa. ;or 1ss~,
de frutos saborosos, uma nova espécie de Sophora de flôres amare- partem muitas vêzes, entre ~ataga~s e florestas,. em ~usca desses am-
las.,.., o Cactus hexagonal, e muitas outras espécies dês te gênero, mais, levando um par de caes tremados para esse fim. Qu~ndo os
enfezadas pelo vento. Acompanhado pelos Srs. Freyreiss e Sellow, cães se aproximam de um lagarto, êste se lança com a rapidez de
segui adiante da tropa, chegando antes da noite à fazenda Mandin- uma flecha para a toca subterrânea, que lhe serve de morada, donde
ga, que fica isolada na praia oceânica. Nossa gente, detida num é arrancado e morto pelos caçadores. Sendo grande o calor, êsses
estreito canal, só chegou na manhã seguinte. Aí encontramos o homens, cuja pele do corpo inteira fica tão tisnada pelo sol que
correio, que vai do Rio até à Vila de Vitória, sem prosseguir mais podem passar por tapuias, desnudam-se completamente. Carregavai?
para o norte, e recebemos cartas, que nos ocuparam agradàvelmente machados e dois lagartos de mais ou menos quatro pés de. compn-
a noite. mento, inclusive a longa cauda. f.sses caçadores, que conheciam bem
De Mandinga continuamos para o norte, ao longo da costa, mar- a região, asseguraram-nos que estaríamos, em menos ~e uma hora, . na
chando pelo amplo areal constantemente molhado pelo mar. O fazenda de Muribeca, onde pretendíamos passar a n01te. Com efeito,
caminho pela areia é bom e suave para o cavaleiro, mas os burros em breve passávamos a cêrca que lhe servia de limite. Na escura e
e os cavalos, desacostumados à vista e ao rumor das ondas escachoantes, imponente mata virgem achamos bonitas plantas, e o soberbo Convol-
detestam muitas vêzes essa via cômoda. A passagem de uma tropa vulus de flôres azul-celeste enlaçava-se nos arbustos, até grande altura.
pela areia branca e lisa, à beira do oceano azul, é um lindo quadro, O pio forte e grave do "juó"*, em três ou quatro notas, é ouvido,
vista de longe; porque, a não ser que a costa forme uma grande nessas matas imensas, em tôdas horas do dia e mesmo à meia-noite 248 •
reentrância, pode-se vê-la a tamanha distância, que os animais se redu- A carne dessa ave é tão saborosa quanto a das outras espécies do gênero,
zem a pequenos pontos. Na língua de terra saliente, onde o litoral às quais se dá, usualmente, o nome de "tinamus" ou "inambus".
suporta o mais violento embate da ressaca, encontram-se pedras perfu- Depois de atravessada a floresta, encontramo-nos em extensas
radas do modo mais extraordinário pela água. Algumas espécies de plantações recentes; de uma elevação, onde se viam troncos por terra
batuíras e maçaricos animam a costa, onde só existem umas poucas
(*) Tinamus noctivagus, espécie nova, ainda não descrita de "tinamu" ou "inam-
conchas e sargaços (Fucus). Depois de têrmos caminhado algumas bu ". E' menor que a "macuca" (Tinamus brasiliensis, Lath.) treze polelfadas e cinco
léguas por essa praia, uma picada levou-nos a algumas lagoas, rodea- linhas; partes superiores cinzent~scuras e pardo-avermelhadas; dorso .ma1s. para casta-
nho-pardacento; alto da cabeça, cinzento-azulado, com manchas; parte mfeno~ do dorso
das de eminências silvestres. Tôda a nossa tropa estava com e uropigio, pardo-avermelhado, ferruginoso; ademais, todo o. dors? apresenta estnas. escura~
transversais; mento e garganta, esbranquiçados; p~rte mfenor do pescoço, cmzenta.
uma sêde ardente; apeamos, por isso, para nos saciar, mas, com peito pardo-amarelado vivo; ventre de côr mais páhda.
grande aborrecimento nosso, verificamos que as marés tornavam salobra
(247) Tupinambis teguixin (Linn., I758), descrito nos Beitrüge (I, _Pál?s. 155. a 170)
a água dessas lagoas; e dois casebres de barro, a que recorremos o nome de Teius monitor Merrem. E' o maior de nossos lagartos, atmgmdo cerca de
para mitigar a sêde, estavam abandonados; entretanto, as pitangas, um metro de comprimento; pratica regime carnívoro, e é muito comum nas matas
do este baiano como a mim próprio foi dado observar (cf. Rev. Mus. Paul., XIX, p. 17).
que medravam em abundância nos arredores, atenuaram, até certo (248) E'' o "jaó" dos nossos Estados meridionais e o "zabelê" dos baianos e
ponto, a nossa decepção. Uma trilha, vindo da costa, cedo nos con- nordestinos. A Wied deve-se efetivamente, a primeira descrição dessa esplêndida ave,
cuja área de distribuição abr;nge todo o Brasil oriental, desde o .Piauí ao Rio Grande
duziu, através de espessos bosques, a uma grande floresta. Caval- do Sul. Como pertença a gênero diverso do dos macucos (Tmamus) o seu nome
técnico atual é precisamente CryptureUus noctivagus noctivagus (W~~d), por Isso q~e
gava adiante da tropa, observando as belas plantas, e pensando nos ::'tual'!'ente se têm como subespécie as populações do este-se~entnao (as da Bah1a
mclusJve) e da Amazônia, sob os nomes de C. n. zabele (Sp1x) e ç. n ...e.rvt~rOP'}!B
<!!'elzeln), respectivamente. Pelo mesmo nome "jaó", ou pela sua. vanante JUÓ .• sao
(*) Fucus lendigerus, Linn. é uma espécie intermediária entre Fucus incisifolitts amda designadas no Brasil central duas raças de uma outra espéCie bem caractenzada,
e latifolius. Touro. Hist. Fuc. Crypturellus undulatus (Temminck). Uma de habitat mais ~cide_ntal ~C. u. undul.atus
(**) (Suplem.) Sophora littoralis, SCHRADEB, op. cit., pág. 709. Tem.), ocorre em todo Mato Grosso em cujas ma tas é de ordmáno mmto comum amda
hoje; a outra (C. u. vermiculatus' Tem.), encontra-se em Goiás, estendendo-se para o
(246) Refere-se o autor ao chamado "biguá" (Phalacroco1·ax olivaceus, olivaceus norte até o Maranhão e ao sul até o oeste de São Paulo. Tôdas se lncl~em entre
Humb.), vigoroso palmfpede lctlófago muito comum nos estuários e nas margens lodosas o que de ~elhor temos em caça plumada; assemelham-~e fielmente nos hábitos, e só
das balas do litoral. educado ouv1do sabe distinguir os cantos das duas espéc1es tratadas.
DE S. SALVADOR AO RIO ESPÍRITO SANTO 127
126 VIAGEM AO BRASIL

E' sem dúvida desagradável tê-los tão perto;. mas deve ser le~­
em tôdas as direções, divisamos um quadro encantador da majestosa
solidão, às margens do Itabapuana, que, como uma fita de prata, brado que os colonos, pelo mau tratamento que d1spensa~a~ a~ habi-
vai coleando entre as selvas umbrosas, e corta uma planície verdejante, tantes aborígines, logo no comêço, foram o~ causadores pnne1pa1~ dessa
em cujo meio se localiza a grande fazenda de Muribeca, cercada de hostilidade. Nos primeiros tempos, a av1dez de lucros. e a sede de
vastas plantações. Em todo o redor, florestas imensas limitam o ouro aboliram todos os sentimentos humanos dos colomzad?res euro-
horizonte. Uma porção de negros, que trabalham nas plantações, olha- peus; consideravam-se animais êsses homens pardos ~ n_us, cnado~ ape-
ram com espanto para a nossa tropa, saindo da mata como uma apa- nas para trabalhar, como o demonstra a controvers1a, no do s;w
próprio clero da América espanhola, sôbre se os selvagens deVlam ou
rição do outro mundo.
Atingimos, primeiro, Gutinguti, que, juntamente com Muribeca,
não ser considerados homens como os europeus, ?e
que fal~ Az.ara,
no segundo volume de suas Viagen~. Que os ~~ns comam, as vezes,
forma a fazenda de Muribeca; pertenceu, outrora, ao lado de um os corpos dos inimigos mort<:s, conhrma~-n? vanas testemunhas de~sa
trecho da região de nove léguas de comprimento, aos jesuítas, que parte do país. O padre Joao, de S. F1déhs, assegurou-nos que, Via-
fizeram essas construções; é propriedade, agora, de quatro indiví- jando certa vez para o rio Itapemirim, encontrou na selva o corpo
duos associados. Existem aí, ainda, trezentos escravos negros, entre de um negro, morto pelos Puris, sem braços nem pe~nas, em volta d_o
os quais, porém, não há mais de cinqüenta capazes, sob a direção de qual havia uma porção de urubus. Acell:tuamos a~rma qu_e os P~r!s
um feitor, português de nascimento, que nos recebeu com muita jamais nos confessaram comer carne humana; depms _rodav1a dos 1do:
amabilidade. O trabalho é bastante árduo para os escravos; consiste neos testemunhos aduzidos, essa negativa carece de peso. Nosso Pun
principalmente em derrubar as matas. Plantam-se mandioca, milho, contou-nos, também, que a sua tribo finca num pau a cabeça dos
algodão e um pouco de café. O Itabapuana, rio pequeno, corre perto inimigos abatidos, dançando em tôrn~. Mesmo entre os Coroados ~e
de Gutinguti, e, quando enche, inunda os campos. A Corografia Minas Gerais, conforme o Sr. Freyre1ss, prevalece o costume ~e por
Brasílica chama-o errôneamente de Rerigtiba •, que é de fato, o Rene- um braço ou um pé dos inimi~os dentro de um vaso de caUl, que
vente; nasce na serra do Pico, não longe das fontes do Muriaé. é em seguida bebido pelos conv1vas. . , .
As grandes florestas das cercanias de Muribeca são habitadas por Durante a nossa estada em Muribeca, fizemos d1versos acresCI~OS
Puris nômades, que, nessas paragens e na extensão de um dia de às coleções de história natural. Não obst_ante as chuvas frequen-
jornada para o norte, se mantêm hostis. Supõe-se, não sem razão, tes, nossos caçadores aproveitaram bem as est1a_das- Nas grand~s matas
serem os mesmos que vivem amistosamente com os colonos de perto e alagadiços das margens do Itabapuana, faz mnho o pato alm1scarado
de S. Fidélis. Havia pouco, em agôsto, mês que precedera o da nossa (A nas moschata, Linn.)249, que ainda ~ão tínhamos encontrado.. Essa
visita, atacaram os rebanhos da fazenda, à margem do Itabapuana•• linda ave, que é comum ver-se domesticada na Europa, caractenz~-s~
e mataram, de maldade, trinta bois e um cavalo. Um rapazote pelas carúnculas nuas e vermelho-anegradas em redor dos olhos e ~o b1co:
negro, que tomava conta do gado, foi isolado dos companheiros arma- a plumagem é tôda negra, mais ou menos lustrada de verde e purpura,
dos, feito prisioneiro, morto, e, segundo afirmam, assado e devorado. os encontros das asas são, nas aves velhas, brancos como a neve, e pretos
Acham que êles separaram os braços, as pernas e a carne do tronco, nas novas. O macho velho é muito grande e pesado, e tem a carne
levando-os consigo; porque, pouco depois, encontraram no local a um pouco dura; os novos, porém, constituem bom prato, sendo, por
cabeça e o tronco descarnado do negrinho; porém os selvagens tinham- isso, bem-vindos ao caçador.
se internado precipitadamente pela mata. Reconheceram-se, tam- Nós, europeus, sentíamos muita dificuldade em caçar nesse~ lu_ga-
bém, as mãos e os pés, assados e roídos, e dizem que até se viam res pantanosos e silvestres, à beira do rio; mas os caçadores mdw~,
as marcas dos dentes. O feitor, que está sujeito a êsses ataques dos seminus, penetravam com muito mais facilidade nas brenhas. Tres
selvagens, tomou-se de profundo ódio, acentuando, repetidamente, que escravos negros também se ofereceram para caçar conosco; demos-
mataria de bom grado o nosso jovem Puri. "E' inconcebível", acres- lhes espingardas, pólvora e chumbo, e tôda tarde traziam certo núm~ro
centou, "que o govêrno ainda não tenha adotado medidas efetivas de animais, que eram então divididos. Entre êss~s figurava~ pn~­
para exterminar êsses brutos; se avançarmos, por pouco que seja, cipalmente garças, íbis, patos (Anas. moschata e vtduata), o Ipecu~l­
rio acima, encontraremos fatalmente seus "ranchos". ri" de Azara, ou pato de espáduas verdes, a garça real, bela espéc1e

(249) Cairina moschata (Linn.), vulgarmente "pato-do-m~to " •. "pato-bravp". ou


(* ) V. Corografia braeílica, t. 11, p. 61 . simplesmente "pato", é ainda bastante comum em certos rios do l!;ltenor do Bras1l. Foi
(**) ltsse rio aparece em diversos mapas com o nome de Comapuam; alguns 0 que verifiquei, pelo menos, em Goiás, no rio das Almas, nao longe de J araguá.
ha bitantes, ocasionalmente, o denominam Campapoana; mas o nome verdadeiro é o dado Cf. Rev. Mm. Paul., XX, p. t7.
no texto.
128 VIAGEM AO BRASIL DE S. SALVADOR AO RIO ESPÍRITO SANTO 129

até agora mal descrita, de corpo branco-amarelado e lindo bico característicos: a cabeça e os quatro pés, negros; o corpo, cinzento-
azul*, as garças brancas grande e pequena, ambas de deslumbrante acastanhado pálido; o comprido rabo, amarelo-avermelhado. Diversos
plumagem ~ranca,_ e muitos mais 25 0. O Itabapuana, do mesmo modo, carregavam os filhotes nas costas, e cedo descobrimos que se domesti-
deu-nos vánas randades. Num passeio rio acima os Srs. Freyreiss e cavam com facilidade. Entre as aves figurava uma interessante e
Sellow se divertiram com o espetáculo de um grande bando de lontras bonita espécie de pica-pau, que eu denomino Picus melanopterus* 254 .
(Lutra brasiliensis) 251 , caçando na água, adiante dêles, sem o menor A plumagem é branca, exceto as asas, o dorso e parte do rabo, que
su~al ?e alarma. A lontra brasileira difere da dos nossos rios europeus, são pretos; os olhos são rodeados de pele glabra alaranjada.
pnnCipalmente por ter o rabo um pouco achatado, como Azara obser- Em Campos, tínhamos contratado dois caçadores, que foram man-
v~; caráter êste inexi~ten~e nos espécimes empalhados e, por isso, esque- dados à barra do Itabapuana, onde tentariam a sorte, para depois
Cido ~as obras de h1stóna natural. O pêlo é muito macio e bonito. se encontrarem conosco em Muribeca. Como o prazo que lhes déra-
Nos n~s principais do interior _d? Brasil, no S. Francisco, por exem- mos se expirara havia muito, e tivessem levado as nossas melhores
plo, atmge um tamanho prodigiOso: é aí denominada "ariranha" espingardas de caça, estávamos seriamente apreensivos com a possibi-
e nã~ lontra. Conseguimos uma dessas grandes lontras da seguint~ lidade de terem fugido. Por isso, mandamos muito em silêncio uma
~a.neua. Informa;am-nos que avantajado animal, com mãos de homem, canoa com o nosso pessoal rio abaixo, até à foz, onde os caçadores
JaZia, m?rto, na agua. Fomos ao lugar para ver que estranha cria- foram surpreendidos sem nada fazer; tiradas as espingardas, deixamo-
tura sena essa, e topamos com uma lontra colossal de cinco a seis los que fôssem embora tratar da vida.
pés de comprimento, que de fato estava morta, U:as inda bastante A viagem de Itabapuana para o norte exige alguma precaução,
fr~sca para ser aproveitada ~as nossas coleções. Não pudemos desco- porque o viajante tem que atravessar um trecho de seis a oito légu~s,
bnr a causa da morte do b1cho, de vez que não parecia haver lesão até o rio Itapemirim, em que os Puris sempre se têm mostrado host1s.
externa. Como já tivessem cometido vários assassinatos terríveis nesse distrito,
Encontraram-se também jacarés, Itabapuana acima. Nas matas achou-se conveniente estabelecer um pôsto militar, chamado Quar-
reboavam os berros do macaco roncador (Mycetes ursinus)252, seme- tel ou Destacamento das Barreiras. O feitor de Muribeca resolveu
lhant~s a_os sons de um tambor, e a voz forte e rouquenha do sauí-açu acompanhar-nos a êsse pôsto. Seguimos através de grandes matas vir-
(Callzthnx personatus, Geoffroy)253, aqui muito comum. Os caça- gens, alternadas com extensões arenosas e descampadas onde desco-
dores mataram, em pouco tempo, quatro a cinco dêsses belos maca- brimos muitos rastos de antas (Tapirus americanus) 255 e veados. Afinal,
cos; porque, ao darem com um bando, disparavam ràpidamente e perto de uma alta cruz de madeira, alcançamos a praia lisa, da qual se
carregava~ d~ nov~, enquanto um o~ mais dêles procuravam impedir avistava uma leve enseada, terminando ao longe numa língua de terra,
q~e os ammais fugissem pela galhana. O saí-açu ainda não foi des- onde se erguia o quartel, no litoral montanhoso. Como essas para-
cnto em nenhuma obra de história natural. Tem os seguintes belos gens fôssem infestadas pelos selvagens, estávamos bem armados, le em
caso de ataque teríamos vinte cargas prontas para a defesa. Vários
(*) Ardea pileata, Latham; ou "Ie Heron blanc à calotte noire".
vol. .1
9 p. 192. Buffon, Sonnini, dos nossos tinham mesmo feito cartuchos, que podiam tornar a carregar
o mais ràpidamente possível. Os soldados pertencentes ao pôsto vêm
(250) Afor~ o "ipecutiri" de Azara (Nettion brasüien,is GmeHn) e o grande ato geralmente ter com os viajantes, quando percebem, à distância, uma
<9: ~sc(~ata (Lmn.)), .as outras aves aqui especificadas por Wied 'são: a "mar~eca
vmva. end.;ocygna v1duata (Linn.)), a "garça branca" (Casmerodius albus e retta tropa avançando pela areia branca; destarte, depois de têrmos vencido
~~~ehn~~· a .farça branca pequena" (Leucophoyx thula thula (Molina)) e a "garça 11real"
do' t~f:ri~~~ P• et:otus (Boddaert)), espécie peculiar às margens lodosas' de rios e lagoas uma légua ao longo da costa, topamos com uma patrulha de seis
(~51) Pela descrição dada resu~i~amente aqui e com muito mais desenvolvimento
homens, a maior parte negros e mulatos, que o oficial do pôsto mandara
nos Be•trtige (t: II, p. 320 e ss), verifica-se que a espécie referida por Wied é efet·- vir ao nosso encontro.
vamente a "ariranha", (Pteno_ura brasil!ensis, (Zimm.)), que nos Estados meridionais
concorre com a. lontra prõpnamente dita, Lutta paranensis Rengger espécie multo Cêrca de meio-dia, chegava nossa tropa ao quartel, onde fomos
menor e de hábitos notadamente noturnos. ' muito hospitaleiramente recebidos pelo alferes comandante. í.sse pôsto
(252) Cf. nota 104.
. (25~). Call~ceb!fS personatus (E. Geoffroy). O saá, ou saf-açu (no original "Saüassú") (*) (Suplem.) AzARA, no vol. IV, pág. n, descreveu êste pica-pau sob o nome
d~via existir P!"Imibvamente. em tôda m~ta costeira do este brasileiro, do norte de de "Charpentier blanc et noir", porém, sua descrição é multo curta e superficial, de
Sao Paulo a Minas e Esp.fnto Santo; hoJe parece antes raro. O Museu Paulista dêle modo que para torná-la clara seria necessário fazer-lhe muitos acréscimos.
possu.i um. exemplar, coleciOnado em VIla Colatina no ano de 1906 por E G rb A
espécie fm uma ~a~ "descobert~" que. a !:!ilhagem do Museu de' Lisboa· pr~pi~~u a " . (254) Leuconerpes candidus (Otto, 1796). Espécie bem conhecida pelos nomes de
E. Geoffroy St. HIIa~re, p_or ocasiao da mvasao napoleônica ; sua descrição data de 1812 , Pica-pau branco", ou "birro", e cuja primeira descrição, feita por Azara, tinha já servido
já sendo portanto conhecida ao tempo em que Wied escreveu 0 relato de sua .,.
viagem. ,.,.ande de base a Picus candidus Otto, publicado em 1772, na edição alemã da História Natural
de Buffon. Tornou-se, depois, o tipo do gênero L euconerpes Swainson.
A êle se deve, contudo, a primeira noticia sôbre o animal vivo e em seu habitat
natural. Cf. Beitrtige, li p. 107.
(255) Tapirus terrestris (Linn. 1758) , com a retificação atual da nomenclatura, à
luz das regras de prioridade.
DE S. SALVADOR AO RIO ESPÍRITO SANTO 131
130 VIAGEM AO BRASIL

da mata são astuciosos e destros, e sabem perteitamente . de todos


militar é constituído de um oficial e vinte praças armadas de carabina, os pont~s fracos dos colonos portuguêses, cuja língua mUitos dêles
sem baioneta. Numa eminência, sobranceiras ao mar, construíram
duas casas de barro e plantaram um pouco de mandioca e de milho, falam um pouco.
No dia da nossa chegada ao pôsto, percorremos as matas. e os
para a subsistência dos soldados. A costa sobe, nesse ponto, em ribancei- alagadiços vizinhos, acompanhados e guiados pelos sol~ados. Toda a
ras de argila, altas e perpendiculares barreiras, em cujo tôpo fica o nossa prêsa consistiu em algumas marrecas (An_as vzd~ata) e n~m
quartel; dêste se descortina, por isso, um amplo panorama do oceano, interessante pássaro novo para nós, pe_rtence~te a famiha das c~tzn-
para o norte e para o sul do litoral, onde as tropas dos viajantes são +256 Nadando próximo à costa, CUJaS pra1as procuram na pnma-
vistas a grande distância. '
~~:a, ~iam-se as grandes tartarugas marinh_as soerguendo lenta~ente,
Na terra, as construções do destacamento são compactamente cer- acima d'água, as cabeçorras redondas._ A n01te, desencadeou-se viOlenta
cadas por sombria floresta secular, em que já se havia começado a fazer tempestade e choveu a cântaros; razao por que o teto esburacado do
roç~dos. Em agôsto, dois meses, portanto, antes da nossa chegada, os nosso abrigo de pouco nos valeu.
Puns se aventuraram a atacar o pôsto. Vieram com o propósito de No escuro dia que se seguiu, tivemos o desagradável contrat:mpo
saquear as plantações dos soldados; e lançaram-se à emprêsa, abrigados de encontrar completamente desleixada, sem pontes nem cammhos
pelas árvores e pelas moitas; um soldado e dois cães ficaram feridos; transitáveis, a única rota ao longo da cost~. Perto dos casebres do
mas os Puris perderam três homens, mortos ou feridos, que foram "quartel", há um lugar onde estivemos a piq~e. de perder ~lguns dos
levados pelos companheiros. Desde então, o pôsto tem estado tran- nossos melhores burros- Tendo ainda que viapr quatro leguas _p~lo
qüilo, e os selvagens não apareceram mais nesse pedaço da costa. O distrito assolado pelos Puris, entre os rios Itabapuana e ltapem1nm,
quartel conserva como troféus as setas tomadas aos tapuias. tomamos a precaução de caminhar em grupo comp_acto, e avanç~mos
O oficial comandante mantém uma guarda permanente de três lentamente, sob escolta, através de uma pl~íCle arenosa, hrme
homens na embocadura do rio Itabapuana. Esse destacamento se e perfeitamente horizontal, acompanhando as mgremes encostas do
e~tabelece aí por prazo indeterminado, e já tem dado serviço durante litoral formadas de argila branca, amarela ou castanho-avermelha-
cerca de um ano; bem penoso deve ser, sem dúvida, morar nesses da••, 'e de camadas de arenito ferruginoso. • ·-
ermos, em que até as provisões são miseráveis, e onde só há case- As barrancas e a parte alta da costa são em toda a reg1ao coberta
bres de barro, cobertos de fôlhas de palmeira. A casa do oficial é, de florestas, em que ninguém se aventura a penetrar, po~ causa _dos
na ve~dade, espaçosa, contém vários quartos, mobiliados com trastes de selvagens; do nosso lado, nada tínhamos que recear, possUiamos vmte
maderra; mas o teto está tão arruinado, que deixa entrar a chuva. peças prontas para recebê-los, e, no entanto, a n~ssa gente c_on~em­
A construção do pôsto foi resolvida depois do massacre de seis pes- plou horrorizada o local onde os selvagens espostejaram as se~s mfe-
soas em lugar próximo da praia. Seis anos atrás, mais ou menos, lizes vítimas. Em poucas horas chegamos, num trecho barxo • da
sete pessoas voltavam de ltapemirim, a cuja igreja tinham ido, quando costa, à povoação de Siri, agora i?-teiramente ab~n?onada. ~m agosto
foram atacadas pelos Puris, salvando-se, de todo o grupo, apenas um último os Puris ou outros tapUiaS, atacaram subitamente esse lugar,
homem. Uma rapariga, que fugira ao primeiro assalto, foi perseguida matara~ três p~ssoas na primeira casa, e espalharam tal pavor, qw;
e cruelmente assassinada. Encontraram-se depois os corpos, com os todos os habitantes fugiram sem demora; ~penas duas casas, para la
braç?s e as pe_rnas arrancados, e o tronco descarnado. Logo em de uma pequena lagoa, estavam ainda habitadas, porque seus mora-
seguida, os Puns c_al?turaram um soldado nas cercanias e igualmente dores, bem armados, se consideravam em segura~ç~. Os selvagens
? mataram. O ofiCial comandante do Quartel das Barreiras deu-nos carregaram todos os utensílios de ferro e as provis.oes que puderam
mteressantes informações a respeito dos Puris. Assegurou-nos que, encontrar, retirando-se depois para a mata. Após esse assalto, o sar-
presente~ente, êsses s~lv~gens desejavam viver em boa paz com os
(* ) Procnias melanocephalus; cabeça negra, !ris vermelho-cinâbrio; tôdas as ~a[tes
portugueses;. o que co~n~I?e exatamente com os desejos manifestados superiores são da côr verde do pintarroxo; as Inferiores, verde-!lmarelado, com a xas
ao ~r. Morais, de S. Fidehs. Tal sol~ção seri~ muito vantajosa para transversais mais escuras; 8 polegadas e sete linhas de compru~~e'?to.
(**) De acôrdo com a anâllse do professor Hausmann de Gottmgen, esse

f
.. 6 .1"
ss1
o litoral; porque, achando-se os habitantes d1spersos, estão constan- que é um componente fundamental de grande parte da costa do Brasil, es~. e~dre ~
Utomargas duras, de que é também exemplo " Wunder-Erde " da Saxônia. omc e e
temente expostos aos cruéis ataques dêsses desalmados bárbaros e todos os caracterlstlcos com a lltomarga.
a região corre perigo de tornar-se deserta, a menos que sejam to:Ua-
(256) Como se conclui da nota acrescentada pelo autor, trata-se do " ~orocochó "
d~s. outras medidas. Os selvagens, senhores das florestas, surgem de (Ampelion melanocephalus (Wied) ) , ave encontradlça nas matas densas do Bra~ oriental,
sublto ora num or~ noutro ponto! _e somem tão depressa quanto desde a Bahia até São Paulo. Pela minha viagem ao Rio Jucurucu, vi-o ce a vez em
numeroso bando, numa ârvore de cujos frutos estavam a regalar-se.
aparecem, como se vm no ataque a S1n; conhecem os menores recantos
132 VIAGEM AO BRASIL DE S. SALVADOR AO RIO ESPÍRITO SANTO 133
gento-mor de ltapemirim, com cinqüenta homens armados, fêz uma quase transbordou: aliás, tem sempre correnteza maior que o Itaba-
"entrada" na mataria em busca dos Puris. Descobriu um largo caminho, puana. As montanhas donde desce se vêem a grande distância, com
bom para os cavaleiros, que levava a alguns ranchos e, daí, mais para os picos nitidamente recortados: conhecem-se por Serra de !tape-
o interior; não encontrou, porém, nenhum índio, e em breve teve de mirim. São famosas pelos trabalhos de faiscação de ouro, outrora
regressar, por falta de provisões. estabelecidos nas cercanias, no lugar chamado Minas de Castelo 260 ,
Para lá da lagoa de Siri, nas casas acima referidas, os quatro cinco dias de jornada rio acima. O distrito era, entretanto, tão asso-
soldados despediram-se de nós. Afastamo-nos do mar e entramos numa lado pelos tapuias que os poucos colonos portuguêses o abandonaram
bela mata, topando aqui e ali plantações. Estas também se acham há cêrca de trinta anos atrás, e foram morar na vila e arredores. A
sujeitas aos ataques dos selvagens, mas os moradores estão suficien- região do alto Itapemirim é habitada pelas hordas bravias dos tapuias,
temente armados. À proporção que avançávamos, a floresta se tor- sobretudo pelos Puris e, como os mineiros asseveram, por outra tribo
nava cada vez mais bela, fechada e altaneira; os troncos compridos e selvagem, que apelidam de Maracás. O massacre de Siri é atribuído
esguios formavam uma sombria trama, de modo que o caminho, coberto a êstes últimos. Os Botocudos, porém, que são os verdadeiros tiranos
de todos os lados, parecia um túnel estreito e escuro. Vimos muitos dêsses ermos, ainda fazem grandes incursões rio abaixo. Conta-se
gaviões, sobretudo o Falco plumbeus) Linn. 257, bastante comum nessas que, pouco depois de terem ouvido os moradores de uma fazenda
paragens, pousados nas cumeadas da galharia sêca de sobranceiras situada à margem do rio Muriaé, um barulho e um clamor intenso
árvores seculares, à espreita da prêsa. O milhafre branco de rabo vindos da floresta próxima, alguns Puris feridos apareceram e pedi-
bifurcado (Falco furcatus) Linn.) 258, uma das mais belas aves de rapina ram proteção aos portuguêses, dizendo que os botocudos haviam ata-
dessa região, planava constantemente acima da selva magnífica. Tería- cado e matado muitos de sua gente. Por todos êsses fatos, é evidente
mos gostado imensamente de caçar aí, não fôsse a multidão importuna que essas florestas estão cheias de selvagens independentes e hostis.
de mosquitos: rostos e mãos ficaram imediatamente cobertos de picadas, Acusam os tapuias de terem assassinado quarenta e três colonos portu-
e os cavalos e burros eram torturados pelas mutucas•259. Cedo atin- guêses do Itapemirim, no espaço de quinze anos. Apesar de tudo,
gimos terrenos escampos, onde os charcos e as lagoas estavam cheios abriu-se uma estrada através dessas perigosas solidões, indo de Minas
de marrecos, gaivotas e garças- Ao meio-dia, mais ou menos, chegamos de Castelo à fronteira de Minas Gerais, num percurso de perto de
ao rio Itapemirim, em cuja margem sul fica a vila do mesmo nome. vinte e duas léguas.
Está a sete léguas de Muribeca••, num local recentemente edificado, O capitão-mor do distrito recebeu-nos amàvelmente, após lhe
e possui algumas boas construções, não podendo, porém, ser conside- têrmos apresentado os passaportes; mandou para nossa casa
rada mais que uma vila. Os habitantes são ou agricultores pobres, abundantes provisões, lenha, água e outras necessidades, razão por
cujas plantações ficam nas vizinhanças, ou pescadores, além de poucos que lhe fomos agradecer pessoalmente, em sua fazenda. Esta casa
artífices. O capitão comandante, ou capitão-mor, do distrito de Ita- de campo fica à beira do rio, rodeada de belas pastagens, onde se via
p~mirim resi~e geralmente na própria fazenda, que não é longe da
grande quantidade de gado.
VIla; nesta vive um sargento-mor da milícia. O rio, no qual se viam
alguns pequenos brigues ancorados, é muito estreito, mas comporta Deixamos êsse lugar depois de alguns dias de permanência. À
certo comércio de produtos das plantações, como açúcar, algodão, pequena distância da vila, atravessamos o rio, perto do local em que
arroz, ~lho e madeira das florestas. Um temporal, que desabou na desemboca no mar. Nos alagadiços da região, encontramos freqüente-
serra, vew mostrar-nos quão rápida e perigosamente sobem as águas mente a ]atropha urens26I, muito mais dolorosa para os pés dos nos-
na zona tórrida; porque o rio se tornou logo tão caudaloso, que sos caçadores que as urtigas (Urtica) mais causticantes, por isso que
os seus pêlos picam mesmo através das roupas. Nas baixadas pan-
( *) SouTHEY, op. cit., escreve "mutuça ". V oi. I, p. 618. tanosas e à margem dos rios, ao longo de tôda a costa, o lindo tié 262
(**) Já LÉRv, à pág. 45 de sua viagem, cita esta região com o nome de Tapemirim. côr-de-sangue (Tanagra brasilia) Linn.) é muito comum; pelo contrá-
(257) Cf. nota I94. rio, nas montanhas e nas grandes florestas do interior, encontra-se bem
(258) Cf. nota 192 . mais raramente. Na foz do Itapemirim, vimos bandos enormes de
. (259) As mutucas são môscas. picantes e hematófagas, subordinadas à numerosa
famil1a dos Tabânidas, de que mais de 2. 000 espécies já foram descritas nos dois
hemisférios. De seu estudo foi pio!leiro e!ltre nós Adolfo Lutz, que sôbre eia publicou (260) Com o nome de Castelo é hoje ponto terminal de ramal férreo e dista
em I909 extenso trabalho na conhecida reV1sta alemã Zoologische Jahrbucher (suplem. X, 38 quHôm. de Cachoeira do Itapemlrbn.
fase. 4), de que os dados a lume nas Memória& do Instituto Oswaldo Cruz do Rio
de Janeiro ~ão a natural contlnuaçã_o. Com relaçfio especialmente às espécies encon- (26I) Vulgarmente "cansanção". E' a mais violenta das plantas urticantes indígenas
tradas no R10 de Janeiro e no Espinto Santo, publicou o mesmo autor em colaboração e muito comum nos Estados setentrionais.
com Artur Neiva, importante trabalho (cf. Mem. Inst. Osw. Cruz, I, n.o' 1, p. 28, 1909). (262) No original "Tijé".
134 VIAGEM AO BRASIL DE S. SALVADOR AO RIO ESPÍRITO SANTO 135

uma espécie de gaivota (Larus), assim como inúmeras andorinhas-do- e cujas flôres pendem de hastes que, a certa altura, se ar9ueiam p_ara
mar (Sterna). Batuíras (Charadrius) e maçaricos (Tringa) animavam baixo, e depois, na ponta, novamente se voltam para Cima; mUitas
o litoral, onde encontramos, na areia, em grande quantidade, pequeno flôres, de bainhas escarlates, cobrem a parte recurva elo pedúnculo,
curiango (Caprimulgus)• 2 63 e, na mata próxima, uma espécie maior que também possui belo matiz. :tsse esplêndido arbusto forma um
dêsse mesmo gênero. De acôrdo com Marcgrave, os brasileiros, nas verdadeiro caramanchão. A praia, nesse trecho, deu-nos algumas con-
circunjacências de Pernambuco, chamam êsses pássaros de "ibijau" 264 ; chas bivalvas e caracóis.
entretanto, no trecho litorâneo que visitei, são conhecidos por "ba- Passamos, perto ele Agá, pela povoação ele Piúma, ou Ipiúma,
curau". O calor era intenso e tínhamos muita sêde, que o nosso jovem onde um riacho do mesmo nome, navegável apenas por canoas, desá-
Puri ensinou a mitigar de maneira infalível. Arrancam-se as duras gua no mar. Existe, nesse lugar, uma ponte de madeira ele trezentos
fôlhas centrais das bromélias em cujos cantos se coleciona a água da passos de comprimento, assentada no ponto de maior ~argura do
chuva e do orvalho; e êsse néctar é sorvido levando-se ràpidamente riacho verdadeira raridade nessas paragens. As margens sao cobertas
a fôlha à bôca. de vegetação densa, e a água escura, côr de café, como a maioria
Nos pontos salientes da costa, encontramos nesse dia colinas pedre- dos córregos da mata e dos pequenos rios da região. Humboldt obser-
gosas, onde se erguiam numerosos coqueiros silvestres, cujas soberbas vou o mesmo com o Atabapo, o Temi, o Tuamini, o Guainia (rio
palmas ondeavam à fresca viração. O papa-ostras (Haematopus) era Negro) e outros rios. Na sua opinião, tiram esta côr s~rpreendente ~e
comum em tôda parte, bem como as batuíras e os maçaricos. Numa uma solução de hidrogênio carbonado, da exuberânCia de vegetaçao
bela floresta secular, divertimo-nos imensamente ouvindo os cantos for- dos trópicos e da grande quantidade de matéria vegetal impregnando
tes de vários pássaros, aos quais, ao cair da tarde, se veio juntar o o leito em que correm•.
de uma coruja; papagaios vozeavam em alarido, e o doce chamado Quando atravessávamos a ponte, os índios apareceram, de rosto_s
do juó (Tinamus) sobressaía no tumultuoso concêrto, repercutindo bruno-escuros característicos, curiosos de verem os estranhos. Um man-
longe, pelas solidões imensas. Alojamo-nos, nessa noite, na fazenda nheiro espanhol aí estabelecido fêz as vêzes de hospedeiro, dirigiu-se
de Agá, onde se cultiva mandioca, algodão e café. Matas extensas, imediatamente a nós em várias línguas, que manejava em parte, falou-
repletas de tôda espécie de animais ferozes, acompanhavam as planta- nos de todos os países que visitara, e mostrou-se convicto de q:'e
ções do lado do continente. Na noite anterior, uma grande onça éramos inglêses. Nos vales e mesmo em lugares elevados e secos, sao
("yaguarété") Felis onca, Linn. matara uma égua pertencente ao pro- comuns as touceiras de uma espécie alentada de cana, alta de dezes-
prietário, cujos caçadores, seguidos de seus cães, a procuraram em vão seis a dezoito pés, e de cujo caule UJ:? ~ouco compri~ido sai um
nas selvas vizinhas. Perto da fazenda, alta montanha arredondada e formoso leque de fôlhas lanceoladas e mte1ras; estas ma1s ou menos
solitária, chamada Morro de Agá, levanta-se dentre as florestas cir- se implantam num ponto único, subindo do meio delas uma lon_ga
cunjacentes. Formam-na rochas e precipícios nus e escarpados, e é haste, a que as flôres estão prêsas como pequenos pendões- Essa bomta
rodeada de elevadas colinas; do cimo deve-se descortinar magnífico espécie de cana é aí conhecida por "ubá", e mais para o norte, no
panorama. Próximo das habitações, descobri um pequeno charco, Rio Grande de Belmonte, por "cana brava" 266 , servindo aos selvagens
onde, pelo crepúsculo, ouvi, espantado, o notável coaxar de uma rã para a confecção de flechas. As touceiras formam massas impenetrá-
até então desconhecida para mim: soava exatamente como o martelo veis e cobrem regiões inteiras.
do funileiro ou do caldeireiro; apenas o som era mais profundo e Num pequeno vale aprazível encontr~mos um cerrado de árvores
cheio. Só muito depois conheci melhor êsse animal que os portuguêses imponentes e frondosas, tais como Cecropza, Cocos, Melastoma; entre
apelidam de "ferreiro" 265 devido ao coaxar. Outra curiosidade foi elas corre o escuro riacho Iriri, atravessado por uma pitoresca
uma densa moita de certa variedade de Heliconia, que ainda não vira; ponte feita de troncos. Tucanos e maitacas (Psittacus menstruus,
( *) Talvez aquêle a que VIEILLOT deu o nome de Caprimul{lua popetué em sua
(*) A nsichten der Natur, I, p. 298.
" Histoire naturelle des oiseaux de l'Amerique Septentr., vol. I, tab. 24".

(263 ) Nos Beitrage (III, p. 881 ) êste curiango é descrito como Capri mu lgus semitor- (266) Não tenho dúvida de que a esta grande gramínea, multo comum nas mar-
quatus Gmelln. Trata-se, não obstante, de uma subespécie particular, hoje corretamente gens dos rios da costa a tlântica, se deve a freqüência com que se encontra a palavra
nomeada Lurocalis semitorquatus nattereri (Temm.) . "ubatuba" na toponlmia indígena. A "cana brava" (G1/nerium parviflorum Nees d ' Esenb.)
recebe ainda hoje Inúmeras aplicações por parte das populações praieiras do norte, e
(264) "Ibiyau " no texto alemão. especialmente do Recôncavo baiano. Afora o emprêgo do raque das inflorescênclas como
(265) A espécie, com o nome de Hyla faber, vem minuciosamente descrita por vara de pescar, de seu côlmo fazem-se tira s longas, resistentes e flexlveis , usadas à
Wied em Beitrtige, vol. I, p. 519 e ss. Posteriormente, E. GoELDI observou-lhe os curiosos guisa de vime na construção de balaios, cestas e armadilhas de pesca, das quais é
hábitos de nidilicação, publicando a respeito importante artigo, nos Proceedings of I particularmente característica a que denominam " munzuá" , figurada no relatório da
Zoologi cal Society de Londres (1895, p. 89). excursão que fiz àquela zona. ct. Re1J. Mua. Paul., XIX, p. 25 e estampa.
136 VIAGEM AO BRASIL DE S. SALVADOR AO RIO ESPÍRITO SANTO 137

Linn.) 2 67 eram comuns, e foram abatidos pelos nossos caçadores. Os comércio, e aquêles navi~s ape~as se . ab;i~ava~ do. v~nt? desfa-
macacos pulavam tão àgilmente entre os galhos das árvores, que era vorável. Os jesuítas reumram ai, a pnnCipl~, seis mil mdws, fun-
impossível atingi-los. No ôco de um velho tronco descobrimos uma dando a maior aldeia dessa costa. A mawna, entretanto, abando-
gigantesca aranha caranguejeira 268 , que tencionávamos capturar depois nou-a por causa do duro trabalho exigido pela coroa, e devido à
de nos têrmos alojado, coisa, porém, que não pudemos pôr em prática. maneira tirânica por que eram tratados; espalharam-s~ po~ outras
Cavalgamos por uma região montanhosa, com matas e campos alter- paragens, de modo que tod~ di~trito ?e VIla No~a, mclumdo ~s
nados, e chegamos, à tarde, a uma última elevação, à beira do rio colonos portuguêses, não possm mais de Oitocentos t:_abitantes, dos q~ats
Benevente, donde súbito descortinamos formoso panorama. Ao pé de cêrca de seiscentos são índios. Embora a populaçao tenha decrescido
uma colina, na margem norte, víamos uma povoação, a Vila Nova tanto o comércio aumentou desde então. Com efeito, as exportações,
de Benevente; à direita, o espelho azul do oceano, e, à esquerda, o há apenas vinte anos atrás, não excediam de 100.000 réis, ao, passo que
rio Benevente, que se espraia como um lago; em derredor, soberbas atualmente subiram a 2.000 cruzados, só para o total de açucar expor-
e sombrias matas e, atrás destas, montanhas rochosas fechando o tado. Outrora, os selvagens livres perseguiram terrivelmente essa colô-
horizonte. nia de Iritiba, máxime os Goitacás e as tribos dos tapuias, dêstes
Vila Nova de Benevente foi fundada, à margem do rio Iritiba, ou sobretudo os Puris e os Maracás; o padre, porém, assegurou-nos que
melhor, Reritigba* 269 , pelos jesuítas, que aí reuniram grande número essas hordas selvagens nunca mais apareceram, desde que se começou
de índios convertidos. A igreja dêles e o convento contíguo ainda a celebrar, anualmente, em honra ao Espírito Santo, uma grande festa,
existem; êste, que nos serviu de pouso, é utilizado atualmente como com procissões e cerimônias religiosas.
casa da Câmara. Fica numa eminência sobranceira à vila, de cuja Vila Nova, propriamente, é um lugar pequeno, com algumas boas
sacada, no lado norte, se avista deliciosa paisagem. O sol mergu- casas, mas anima-se aos domingos, porque os moradores dos arredores
lhava no oceano azul-escuro que se estendia à nossa frente, transfor- vão aí assistir à missa. O capitão da milícia, que comanda êsse
mando-lhe a imensa superfície num mar de fogo. Os sinos bateram distrito, pertence ao regimento d~ E~pírito ~ant~,. cujo chefe é o ~oro­
a Ave-Maria, e, escutando-os, todos se descobriram para fazer as suas nel Falcão, comandante da Capitama. Vew visitar-.nos no dommgo
orações. Reinava o silêncio na vasta planície, apenas a voz do Tina- e, COJDO lhe pedíssemos bons caçadores, teve a gentileza de mandar-
mus210 e de outros animais da mata quebravam a solene quietude da nos alguns homens conhecedores da região; além dêsses, cont~ata­
cena noturna. mos um índio que era ótimo caçador. ~sses .homens conseg~Iram
Vimos diversos pequenos brigues ancorados no pôrto de Vila Nova, vários animais interessantes, entre os quais muitos macacos sai-açu,
o que nos levou a pensar, errôneamente, num grande comércio local: cuja alta voz se ouve freqüentemente nas margens do rio. Dois dos
cedo, porém, convencemo-nos do nosso engano. Há muito pouco caçadores encontraram, na floresta, uma grande cobra venenosa. Es-
tava imóvel num ôco de árvore, onde era difícil capturá-la; por isso,
. (*)_No mapa .de Faden, o rio é chamado "Iritibu", no de Arrowsmith, "Iritiba": um dêles subiu a uma árvore baixa e daí matou-a. Essa bonita cobra
a VIla nao está registrada em nenhum dêsses mapas.
é denominada "surucucu" na região, e atinge 8 a 9 pés de comprimento
. (267) Pionus menstruus (Linné. I766). Em que pese a Incerteza de alguns ornito- e considerável grossura; tem a côr amarelo-avermelhada, com um
logistas~ como Salvador! (Catal. Birds of the Brit. Mus., XX, p. 822), a clareza de
descriçao de Wied em Beitrtioe (IV, p. 237 e ss.) não deixa dúvida sôbre a identidade rosário de manchas losangonais no dorso. A forma dos escudos, das
da espécie, que outra não é senão a batizada Psittacus menstruus por Llnné com
b~se nas descrições de Brlsson (I760) e Edwards (I764). São dela, inequlvoca~ente, escamas e do rabo mostra que se trata da grande víbo~a das florestas
nao só o tamanho menor ("die Kleine Maitakka "), como também as características de Caiena e Surinan, descrita, se bem que um pouco mcorretamente,
sumariadas na diagnose pelo príncipe, entre as quais a côr azul..:eleste da cabeça, pescoço
e peito ("Kopf, Hals and Brusthimmelblau"), e ainda a tinta amarelada, ou vermelha, por Daudin, sob o nome de Lachesis* 21 I. Sua picada é muito. temida,
da base da maxila superior ("Sei te der oberen Schnabelwurzel oft geblich oder auch
helbroth "). Ornitologista consumado, soube muito bem Wied distingui-Ia da espécie dizendo-se que as pessoas mordidas morrem em menos de seis horas.
maior ("die grosse Maitakka"), de cabeça verde e bico pardo-amarelado (sem vermelho),
que ~orçosamen.te . encontrara também com freqüência no decurso da viagem, e aparece (*) Marcgrave menciona êsse réptil co~ o ,no!ne de "c~~ucucu"; nos últimos ~empos
descnta em Bettrtioe (IV, p. 245) sob o nome que lhe dera Splx de Psittacus flavirostris só o Conselheiro Merrem, um dos nossos mais distmtos repbhólogos, descreveu e figur<~u
posterior todavia a Psittacus maximiliani Kuhl, I820. ' uma pele Incompleta dêste animal nos " Annaeen da Wetterauischen Gesellschaft fur
(268) Cf. nota 84. Naturgescbichte ".
(26~) Em Reritiba, qu~ na llngua dos tupis significa ostreira, viveu seus últimos
dias ~ ab faleceu (em 9 de Julho de I597) o padre José de Anchieta, motivo pelo qual (27I) A suposição de Wied é de todo procedente, constituído hoje .o surucucu (no
n anbg~ Benevente passou a chamar-se Anchieta, em homenagem ao grande missionário. original " Curucucu ") a única espécie (L. ntuta, (Linn.)) •. do gênero Laches•s Daud., caindo
Cf. Cap~strano de Abreu, in "0 Jornal" (do Rio de Janeiro) de SI de agôsto de I927 em sua sinonímia Lachesis •·hombeata Wied, I 825, Bettr., I, p. 449. ,
(transcrito nas Cartas etc. do Pe. J. de Anchieta, S. J ., ecl. pa troc. pela Acad. Brasil. Também, das nossas cobras venenosas nenhuma se lhe avantaja em tamanho. .E
d e Letras, e anotada por Antônio de Alcântara Machado, I988). ovípara, ao contrário do que acontece com as serpentes do gênero Bothrops Wagl.,_ CUJaS
• (270) Re~ere-se aqui Wied, sem a menor dúvida, ao tantas vêzes citado jaó (que numerosas espécies, como a "jararaca", 0 "jaracuçu ", o "urutu ", etc.. sao ovovtvtparas.
e 1e sempre ouvir~ chamar "juó", como se diz ainda em certos rincões), ou "zabelê", Cf. AFRÂNIO no AMARAL, Rev. Mus. Paul., XV, p. 43 (I927); idem, In Cartas, etc.112de
CNJpturellus nocttvaous (Wied). Padre Anchieta, Rio de Janeiro, I93S, ediç. da Acad. Bras. de Letras, P· 135 (nota )·
138 VIAGEM AO BRASIL DE S. SALVADOR AO RIO ESPÍRITO SANTO 139

Seguindo de Iritiba, chegamos primeiro ao rio Guaraparim. Cam- casa de situação um pouco alta, onde apareceram imediata-
pos alagadiços e lamaçais se sucedem próximo à praia litorânea, alter- mente diversas p~ssoas, olhando com grande admiração para o
nando com pequenas moitas, ao lado dos quais, às vêzes se juntam, nosso índio pun, e acompanhando-lhe todos os movimentos.
para deleitar o viandante, trechos de mata virgem. Ouvíamos conti- Fomos bem recebidos nessa casa, que era espaçosa e tinha um amplo
nuamente o rugido do oceano, cujo litoral montanhoso era coberto aposento, onde em pouco um fogo vivo secava-nos as roupas, comple-
de matas. As ramarias tapavam o caminho escuro; orlavam-no árvo- tamente encharcadas pela chuva. Perto de Miaipé, fica a vila de Gua-
res majestosas e seculares, que tinham os troncos cobertos de um raparim275, aonde se vai ter por um caminho sôbre montes rochosos,
mundo de plantas, e os galhos, de fungos e liquens; coqueiros novos, que entram pelo mar. Próximo da vila, um braço de mar, de água
embaixo, se entrelaçavam com trepadeiras, cuja tenra folhagem, de salgada, corre para o interior; é chamado Guaraparim, e muitas vêzes
lindos matizes vermelhos e verde-brilhante, despontava; ao passo que, se fala dêle como de um rio-
muito acima de nossas cabeças, o penacho das comas de velhas pal- A vila tem cêrca de I . 600 habitantes, sendo, portanto, um tanto
meiras ondeavam no espaço, e os estipes se curvavam, estalando, para maior que a Vila Nova de Benevente: o distrito inteiro contém mais
a frente e para trás. Em certo ponto, encontrei um bosque admirá- ou menos três mil almas. As ruas não são pavimentadas, tendo ape-
vel, composto exclusivamente de palmeiras airi. Arvores novas e nas medíocres calçadas junto das casas, que são pequenas e quase
vigorosas dessa espécie, de 20 a 30 pés de altura, erguem os caules tôdas de um só andar. O lugar é, de modo geral, pobre; na vizinhança,
eretos e pardo-escuros, rodeados de anéis de espinhos; as belas palmas porém, existem grandes fazendas. Uma delas, com quatrocentos escravos
protegem o chão úmido do sol abrasador do meio-dia; enquanto outras negros, é denominada Fazenda de Campos, e outra, com duzentos negros,
mais novas, ainda sem caule formado, constituem a vegetação rasteira, Engenho Velho. Quando o último proprietário daquela morreu, sobre-
sôbre a qual se abatem, como colunas partidas, velhas pa!J;neiras sêcas veio uma desordem geral: os escravos se revoltaram e cessaram o tra-
e mortas. Em cima dessas árvores, votadas à destruição, trabalha balho. Um padre informou aos herdeiros em Portugal, do estado de
o solitário pica-pau de topête amarelo (Picus flavescens, Linn.), ou a ruína da propriedade, e ofereceu-se para restaurar a ordem, se lhe
bonita espécie de cabeça e pescoço vermelhos (Picus robustus)• 2 1 2 • dessem uma parte na fazenda. Assim se combinou; mas os cabeças
Perto de nós, a flor da Heliconia côr de fogo enfeitava as moitas dos escravos mataram-no na cama, armaram-se e formaram, nessas flo-
baixas, nas quais se enroscava um lindo Convolvulus de admiráveis flô- restas, uma república negra, que não foi fácil submeter. Tomaram
res azuis campanuliformes. Nessa magnífica floresta, as trepadeiras posse da fazenda, viviam livres sem trabalhar muito, e caçavam no
lenhosas mostram-se em tôda a originalidade, com formas e curvaturas mato. Ao mesmo tempo, os escravos da fazenda Engenho Velho tam-
singulares. Contemplávamos embevecidos êsse êrmo sublime, animado bém se libertaram, e uma companhia de soldados nada pôde
somente pelos tucanos, pelos pavós (Pie à gorge ensanglantée, Azara)27a, contra êles. :Esses negros se ocupam, sobretudo, em colhêr alguns
papagaios e outras aves. Nossos caçadores agiam em tôdas as direções dos principais produtos das matas, como sejam o odorífero bál-
e encheram as bôlsas de caça. Alcançamos, além dessa floresta, a samo do Peru, o óleo de copaíba e outro de espécie diferente.
povoação de Obu, constituída de algumas cabanas de pescadores, a :Este último se extrai de uma grande árvore, o "pau de óleo" 276 . Faz-se
duas léguas de Vila Nova. Essas habitações, à sombra de florestas nela uma incisão, e, quando a seiva escorre, enche-se o corte com
ou de densos cerrados, são geralmente mais pitorescas do que algodão, que se impregna da matéria resinosa: é crença geral que a
as situadas em lugares escampos. Uma povoação (vila sem igreja) incisão deve ser feita na lua cheia, e o óleo colhido no quarto min-
denominada Miaipé 274, ocupada por sessenta ou oitenta famílias guante. Os negros ou índios, que extraem êsse produto, vendem-no
de pescadores, abrigou a nossa tropa pelo escurecer. Alojamo-nos numa dentro da casca de pequenos côcos silvestres, cuja abertura, em cima,
é tapada com cêra. O bálsamo é tão sutil, que no tempo quente
(* ) ~sse nome foi dado pelos naturalistas de Berlim, depois que Azara descreveu
a ave no 4.• vol. de suas Viagens, p. 6, onde o chama de "Charpentler à huppe et se escapa através da casca espêssa. Atribuem-lhe, na região nativa,
cou rouges". maiores virtudes do que as que possui realmente•.
(272) (Celeu& flavescens Gmelln), de que há no Brasil pelo menos três raças e ( *) Vide MURHAY, Apparatus medicaminum, vol. IV, p. 52.
(Phloeoceastes robustus (Lichtenstein)), são os nomes atuais das espécies citadas. Cf.
Ouv. PINTO, R ev. !Jfus. Paul., XIX, p. 166 (1985). (275) Fica essa pitoresca localidade, que conheço por t ê-la visitado em missão
(278) O "pavó " (Pyroderus scutatus scutatus (Shaw)), de plumagem negra com um naturallstica pelos fins de 1942 (10 a 20 de outubro), numa concavidade do litoral
escudo vermelho no peito, é um grande pássaro fruglvoro, da famllla dos Cotlngldas, a cêrca de 70 quilômetros ao sul de Vitória, muitos de cujos moradores a procuram
encontradiço em tôdas as matas do Brasil este-meridional, do Rio Grande do Sul à Bahia. em suas vileglaturas. O significado etimológico de Guaraparim (que hoje pronun-
Possui voz cavernosa e caracterlstica, que dá ao ouvinte a impressão das batidas ciam Guarapari), seria armadilha (ou laço) para guarás (garças, provàvelmente) o que
de um monjolo, trabalhando ao longe (Cf. 0Liv. PINTo, Rev . Mus. Paul ., XIX, p. 288). é indicio de que devia ser bastante freqüentada pelas aves em que~tão. . ..
(274) " MiaYpé " no texto original. Povoação marítima, situada 6 quilôm. ao sul de (276) Várias Cesalpináceas do gênero Copaifera (C. officinaZ.s, Ltn., langsdorffu
Guaraparim. Desf. etc.) têm na llngua vulgar os nomes de "pau-de-óleo", "copalba", etc.
140 VIAGEM AO BRASIL

Os rebeldes negros das duas fazendas acima referidas recebem os


forasteiros de maneira amigável, e, nesse particular, são muito dife-
rentes dos escravos fugidos de Minas Gerais e outros lugares, que
se chamam "gaiambolos", devido às suas aldeias ("quilombos"), nas
florestas- Atacam êstes os viajantes, saqueiam e muitas vêzes matam; VII
razão pela qual existem aí caçadores de gaiambolos, chamados "capi-
tães do mato"*, cuja única tarefa é caçar os negros em seus refúgios,
ou matá-los.
O capitão da milícia de Guaraparim recebeu-nos polidamente e ESTADA NA CAPITANIA E VIAGEM
indicou-nos uma casa para passarmos a noite. No dia seguinte atraves- AO RIO DOCE
samos o rio, não longe da vila. Serpeia êle, pitorescamente, entre
mangues (Conocarpus) de um verde suave, e é limitado, à distância,
por verdejantes colinas: na margem norte há uma vila habitada por pes- Vila Velha do Espírito Santo - Cidade d~ Vitória
cadores. Cavalgamos através de grandes charcos, cheios de moitas Barra de ]ucu - Araçatiba - Coroaba - Vtla J.fova
da linda Rhexia de flôres violetas, e por belas colinas silvestres cober- de Almeida - Quartel do Riacho - Rio Doce - Lmha-
tas de airi e outros coqueiros, muitos dos quais foram motivo de res - Os Botocudos, invetera·dos inimigos.
insaciável curiosidade para nós; depois, passamos um grande canavial
de ubá, ou cana de fôlhas em leque, perto de Perocão, e atravessamos
um riacho por uma ponte de madeira. Seguimos a praia até à Ponta
da Fruta, onde várias casas, à sombra de pequeno bosque, formam
uma aldeia dispersa, cujos habitantes, descendentes de negros portu-
guêses, receberam-nos bem. Tiram parca subsistência das plantações o rio Espírito Santo27B, que ao lançar-se no_ ma_r é bast~nte caud_a-
e da pesca. Próximo da Ponta da Fruta, vimos, numa montanha dis- loso, nasce nas montanhas, nas fronteiras da cap1tama de Mmas Ger~1s,
tante, o convento de Nossa Senhora da Penha, perto da Vila de Espí- desce em diferentes rumos através das pujantes florestas dos tapmas,
rito Santo, para chegarmos à qual tínhamos de viajar cinco léguas. em que Pu ris e Botocudos. ':agueiam, e vem sair ao pé de uma dessas
Sucediam-se florestas, campos, cerrados e extensos caniçais brejosos. serras mais altas, que se d1ngem para a costa, e da qual o M~mte de
Viam-se nestes númerosas garças brancas e outras, e muitas plantas Mestre Alvaro se diz ser o ponto mais elevado. Os estabeleCimentos
novas e belas despertavam a atenção do forasteiro. Na relva, na mar- portuguêses na desembocadura dêsse belo rio são ~mito ant~gos; foram
gem arenosa de uma lagoa, descobri a cobra cipó verde** 277 , que deve severamente castigados pelas guerras con:
os, tapmas,_ e. parttcularm~nt;
o nome à sua forma esguia e flexível. E' de um verde-oliváceo escuro, com as três tribos dos "Uetacás", ou G01tacas, que Vlvtam no Paratba
amarela embaixo, cresce até 5 ou 6 pés, e, embora completamente Na última metade do século XVII, a região do Espírito Santo não
inofensiva, os brasileiros a matam onde quer que a encontrem, porque continha mais que quinhentos portuguêses e quatro aldeias indígenas,...·
antipatizam com tôdas as serpentes. Encontrei aí o esqueleto exemplar Presentemente, encontramos na margem sul do rio, não longe d~ fo,z
notàvelmente grande dessa espécie. numa linda baía, a Vila Velha do Espírito Santo, pequena e mtsera-
Não longe do pequeno rio Jucu, sôbre o qual passa comprida vel vila aberta, construída quase tôda numa pra\a. Numa. ~a~ extre-
ponte arruinada, que é preciso atravessar com precaução, encontramos, midades fica a igreja, e na outra, a casa da Camara (edlf~c10. real,
na costa, uma aldeia de pescadores; continuamos, em seguida, atra- ou câmara municipal). Numa alta colina coberta de vegetaçao, JUnto
vés de bela floresta secular e, por fim, atingimos a vila do Espírito
(*) Na história da vida do Padre Anchieta diz-se, a êsse respeito, entre outras
Santo, à beira do rio do mesmo nome. coisas: "Por êsse tempo, ano 1~54 pouco mais ou men'!s, movera~ guerra. os
moradores desta Capitania do Esplrlto Santo contra uma naçao de gentios pernlciOs~,
( *) Em Pernambuco tem o nome de "capitães do campo ". Cf. KosrER, Travels, bárbara, cruel e terrlvel por nome Goitacá, cujas noticias quero dar aqui brevemente, etc. ·
etc., p. 399. .. ....~ (**) Southey's History ot Brazil, vol. I, pág. 667.
(** ) Coluber bicarinatus, provàvelmente espécie nova: o seu principal característico
é um rosário de escamas careniformes de cada lado do dorso. Escudos ventrais ~~~; (278) Chama aqui Wied de Rio Espírito SaJ?tO ~ bala de Vitória; como êle
pares de escamas caudais, 137. próprio teve depois ocasião de explicar, nisso mats nao fêz que_ seguir o exempJo
(277) Parece útil acrescentar que as cobras-cipó verdes (Philodryas schottii, aestivus, dos naturais do pais, pois passando no lugar multo às pressas, na~ tlve~a .tempo .e
oltersi, etc.), se bem que pràticamente inofensivas, são serpentes opistóglifas, cujos dentes, explorar-lhe devidamente os arredores. Cf. Wied, Quelques correcttons mdtspensabl 1
embora minúsculos, podem infligir, em quem as segure imprudentemente, ferimento super- etc. (v. a nota 60 dêstes comentários).
ficial, mas ainda assim bastante dolorido e seguido de inflamação persistente.
142 VIAGEM AO BRASIL VIAGEM AO RIO DOCE 143
à vila, ergue-se o famoso convento de Nossà Senhora da Penha, um dos pequeno rio Jucu, cêrca de quatro léguas de ~itória. Essa casa per-
mais ricos do Brasil, dependente da abadia de S. Bento do Rio de tencia ao coronel Falcão, comandante do reg1mento da milícia do
Janeiro. Consta que possui uma imagem milagrosa de Maria, razão distrito e um dos maiores lavradores dessa parte do país.
por que o procuram numerosos peregrinos. Na época de nossa visita Ti~emos de novo notícias da Europa, porque existe um serviço
só havia dois eclesiásticos no lugar. de correio, por terra, do Rio de Janeiro até à cidade em questão,
E' bem penoso subir a íngreme elevação para gozar o indescrití- não continuando, porém, para o norte. Enquanto líamos as gratas e
vel e amplo panorama que daí se descortina; domina-se a imensa super- tão desejadas notícias do lar, uma multidão de gente de tôdas as côres
fície oceânica, e, do lado da terra, vêem-se belas cadeias de montanhas, envolveu-nos, fazendo os mais estranhos comentários a respeito dos
com vários picos e vales intermediários, donde surge pitorescamente nossos países e do motivo da nossa extraor~iná:ia visita: aí, també~,
o largo rio. A vila é formada de baixos casebres de barro e decai como em tôda parte, fomos tomados por mgleses. Voltando à VIla
a olhos vistos, desde que se fundou a vila de Vitória, na margem norte, Velha, encontramos, entre o nosso pessoal, alguns doentes de febre;
à meia légua de distância. Esta é um lugarejo gracioso, e foi esta se espalha tão ràpidamente, que em poucos dias a maioria estava
elevada à categoria de cidade depois de minha partida. Espírito Santo atacada. O mal era atribuído à água: mas, sem dúvida, é também
fôra outrora um govêrno subordinado, mas posteriormente fôra ele- causado pelo clima e pelas provisões 279 • Cedo, entretanto, curamos
~ado a capit~nia. A cidade de Nossa Senhora da Vitória é um lugar nossa gente com quina, e, assim que pudemos, dirigimo-nos à morada
hmpo e bomto, com bons edifícios construídos no velho estilo portu- de Barra de Jucu, onde o ar marinho, fresco e extremamente puro,
guês, com balcões e rótulas de madeira, ruas calçadas, uma câmara em breve completava o restabelecimento dos pacientes. Fizemos, então,
municipal razoàvelmente grande, e o convento dos jesuítas, ocupado arranjos para passar vários meses nesse novo abrigo, onde pretendía-
pelo governador, que tem, à sua disposição, uma companhia de tropa mos permanecer durante a estação chuvosa. Nossos caçadores percor-
regular. reram as florestas próximas e distantes.
~lém de v.ários conventos, há uma igreja, quatro capelas e um Barra de Jucu é uma pequena aldeia de pescadores à beira do rio
hospital. A Cidade é, entretanto, um tanto morta, e os visitantes, Jucu, que aí desemboca no mar, depois de um percurso cheio de
sendo raros, são objeto de grande curiosidade. O comércio marítimo coleios através das florestas, desde as grandes fazendas de Coroaba e
não é desprezível; por isso, diversas embarcações estão sempre aí Araçatiba. O peixe é abundante, e perto das margens há muitos
ancoradas, e fragatas podem aportar à cidade. As fazendas vizinhas lugares de agreste pitoresco. As casas dos pescadores de Barra de
produzem muito açúcar, farinha de mandioca, arroz, bananas e outros Jucu ficam mais ou menos dispersas; no meio delas, próximo da ponte
artigos, que são exportados ao longo da costa. Vários fortes protegem sôbre o rio, está a casa do coronel Falcão. ~sse opulento lavrador
a entrada do belo rio Espírito Santo: um, logo na foz; o segundo, possui várias outras fazendas nos arredores, a maior das quais, Araça-
construído de pedra, um pouco acima, com oito canhões de ferro; tiba, se acha a quatro léguas de distância. O coronel estava acostu-
e ainda um pouco mais acima, numa colina entre o último e a cidade mado a passar os verões em Barra de Jucu, para tomar banhos de
um terceiro fort~ com dezesse.t~ a dezoito canhões, alguns dos quai~ mar, de modo que lhe foi muito desagradável o fato de o governador
de bronze. A Cidade está edificada, um tanto desigualmente, sôbre ter-nos dado a casa dêle para nossa residência, fato, porém, que só
colinas aprazíveis, e o rio, que lhe passa atrás, corre entre altas encostas, soubemos depois. Veio, apesar disso, alojando-se em outra casa, na
em parte roc~~sas e em mui~os lugares nuas e cobertas de líquens. vizinhança, que se preparou para recebê-lo, até que se pudesse mudar
A bela superficie do grande no é semeada de numerosas ilhas verde- para aquela que ocupávamos.
jantes, e a vista, aonde quer que lhe siga o curso através da região, As mais interessantes excursões aí realizadas, para conhecermos
encontra sempre um pouso ameno em altaneiras e fragrantes monta- a zona circunjacente, levaram-nos, primeiro, imediatamente depois da
nhas vestidas pela mataria. ponte sôbre o rio Jucu, a uma bela mata virgem, que se estende em
À nossa chegada, alojamo·nos na Vila Velha do Espírito Santo,
porque aí tínhamos boa pastagem para os animais. Partimos, em (279) Dispensam comentário as suposições referentes à origem do impaludismo,
endemla que ainda hoje é o flagelo dos nossos rios do litoral e do sertão; nenhuma
seguida, em grandes canoas, para a cidade de Vitória, não sem certo noção se tinha então sôbre o papel fundamental dos mosquitos pernilongos (são respon-
perigo, devido ao forte vento que soprava do mar, e à largura do rio. sáveis numerosas espécies da famllla dos Cullcidas e subfamllia das Anofelinas) na
transmissão da moléstia, ocasionada, como se sabe, pela presença, no sangue, de proto-
O governador, a quem fomos cumprimentar, recebeu-nos com tôdas zoários do gênero Plasmodium, cuja descoberta, em 1880, se deve a Laveran. Como
a multiplicação dos mosqnitos depende da existência da água, onde vivem (a principio
as aparências de cortesia. Pedimos-lhe pouso na região, por perto da como larvas e depois como ninfas) até o momento de atingirem o estado adulto,
cidade, e êle destinou-nos uma boa casa em Barra do Jucu, na foz do explica-se Imediatamente a relação, verificada desde a antigWdade, entre a doença e
o melo físico.
144 VIAGEM AO BRASIL

direção à Vila Velha do Espírito Santo. Encontramos uma bonita


espécie de "sauim" 28o, até então desconhecida para nós (lacchus leu- ...:.
cocephalus, Geoffroy), em pequenos bandos, especialmente gulosos dos "'....
côcos de certo coqueiro silvestre; o porco espinho de rabo pre- t;'l
ênsil (o "Couy" de Azara) 281, e outros animais. Entre os pássaros, o
mais comum nessa floresta era a linda e azul Nectarinia cyanea (Cer-
thia cyanea, Linn.) 282 ; as seguintes espécies de dançadores 283 Pipm
pareola, erythrocephala e leucocilla; ainda uma pequena espécie até ~

aqui não descrita, que denominarei strigilata'* 2 B4 , uma linda espécie


"'<.>c
nova de saíra (Tanagra elegans)'*'* 2B5 e uma admirável espécie de ~"'
(*) Pipra strigilata: menor que a Pipra er·ythrocephala; alto da cabeça, verme-
~
"'c
lho-escuro; parte superior do corpo, verde-oliva; parte inferior, esbranquiçado com ,;:

-J
raias castanho-avermelhadas.
(**) Tanagra elegans: cabeça, amarelo-escura; dorso, negro com raias amarelas; <"l
garganta e peito, azul-esverdeado brilhante; lados e ventre, verde.
C'l
~
"'c
(280) No original lê-se "Sahui" e "Sahuim"; hoje a pronúncia mais usada no
norte é "sagili" ou mais prôpriamente sagüim ".
"'
"'
11

Callithrix leucocephala (Et. Geoffr., 1812). O gênero Callithrix Erxleben, 1777, 'i:
<:::
tendo como titulo Sintia jacchus Linn., por direito de prioridade, prevalece sôbre Hapale '-'
<:::
Illiger, 1811 e Jacchus Isld. Geoffr. :ele compreende muito dos macaquinhos vulgarmente

-
-<::
denominados sagüis não sendo deslocadas aqui algumas notas sôbre as espécies encon- <.>
<:::
tradas na região médio-Qriental brasileira. Callithrix l eucocephala (Geoffr.) reconhece-se ~
pela sua cabeça perfeitamente branca em tôda a metade anterior, em contraste com a
outra metade, que é preta, inclusive as orelhas e os tufos de longos pêlos que as ornam:
em C. penicillata (Geoff.) existente um pouco mais ao norte (Minas, sul da Bahia), só 6
~
a testa e as bochechas são brancas; C. flaviceps Thomas, também do Espírito Santo,
é muito destacado pela côr ferruglnea caracterlstica do alto da cabeça; C. jacchus (Linn.), .;
que é o sagüi comum na faixa litorânea do Brasil este-setentrional, desde o Recôncavo c
~
da Bahla, e o primeiro descrito pela ciência, tem porte bem menor e se caracteriza
pelos longos pincéis de pêlos das orelhas, brancos, e não pretos como em leucocephala, ~
cuja fronte e rosto alvos também não possui. ~
(281) Sob o nome de Hystrix insidiosa "Licht.", vem êste animal bem descrito c
IX)
por Wied no vol. II (pág. 484) dos Beitrage Naturges. Bras. e estampado nas Abbildungen.
E' assim posslvel identificá-lo ao ouriç<K!aixeiro comum, Coendou villosus (Fred. Cuvier),
um dos em que os espinhos se acham de permeio com pêlos abundantes, longos e ~
"'c
macios. Em Coendou prehensilis (Linn.), espécie bem maior e peculiar ao Brasil central,
o revestimento cutâneo é constituldo quase exclusivamente de espinhos, aparentemente sem
pêlos de permeio. -~...
(282) Cf. nota 58.
(283) Consoante o uso dos autores inglêses e alemães, chama-Qs Wied de "Manakin"
~
que significa "manequim" e foi primitivamente aplicado a uma espécie (Pipra manacus
Linn.), vulgarmente chamada "rendeira", e caracterizada pela presença, no queixo, de ~
"'c
penas com uma tal ou qual aparência da barba humana. Os nomes atuais das três
formas, aqui assinaladas pelo autor, são, respectivamente: Chiroxiphia pareola pareola
(Linn.), Pipra erythrocephala rubrocapilla Temm. e Pipra pipra cephaleucos Thunberg. Tôdas
ocorrem ainda hoje nas matas do Esplrito Santo e leste da Bahla, embora possam já
ser tidas como raras.
ê"'
<:::
(284) Por diferença apenas de um ano, perdeu Wied a prioridade na descrição
desta espécie, para a qual HABN (1821) já havia proposto o nome de Pipra •·egulus. "'
A conformação tôda especial das rêmlges secundárias dos indivlduos do sexo masculino, "'c
~
cujo raque anormalmente reforçado e espêsso parece relacionar-se com o seu emprêgo
nos combates que travam os machos uns com os outros, no perlodo nupcial, induziu
~
Bonaparte a fazê-la tipo de um gênero especial, sob o expressivo nome de Machaeropterus, <:::
hoje universalmente adotado. Machaeropterus regulus (Hahn), além da raça brasileira,
encontradiça nas matas de leste, entre Bahia e Rio de Janeiro, conta com mais duas
variedades, aparentemente estranhas ao Brasil. ~
~
(285) Tangara cyanoventris (Vieill.) da atual nomenclatura. Como já foi adver-
tido (nota 57), não se devem confundir os "tangarás" da atual linguagem vulgar E-
..."'
(fam. Pipridae), como também são chamados os "dançadores", com as apelações cientificas
Tanagra e Tangara (fam. Thraupidae), que se aplicam respectivamente aos gaturamos
e às safras, mais de acôrdo talvez com o sentido da palavra "tangará" entre os lndios
da costa (cf. Marcgrave, Hist. Nat. Bras., p. 214).
Tanagra elegans P. L. S. MUller (1766), que corresponde ao "Tangara de Cayenne"
de Daubenton, já havia recebido de Linneu o nome de Tanagra chlorotica; é, porém,
ave diversa da referida por Wied e inclui-se entre os vulgarmente chamados "gaturamos "
VIAGEM AO RIO DOCE 145

saí (Procnias cyanotropus)• 286 , cuja plumagem muda de côr con-


forme a luz. Podíamos estar sempre certos de encontrar as peque-
nas e bonitas tangarás numa certa árvore, as bagas pretas da qual
constituíam o seu alimento predileto. Há, também, veados nessa
mata; para caçá-los o coronel Falcão trouxe os seus cães de caça de
Araçatiba. Para matar, porém, animais raros e de grande porte, que
evitam a vizinhança do homem, procuramos as extensas florestas
seculares, distantes cêrca de duas a três léguas, nos arredores da
fazenda de Araçatibà.
Era muito agradável o caminho até lá; primeiro passávamos
através de grandes ' várzeas arenosas, repletas de plantas palustres as
mais diversas; subíamos depois morros, onde tufos de palmeiras novas
e outras belas árvores ofereciam sombra densa. Uma espécie de
gramínea parecida com o junco cobre os lugares escampos, em que o
pequeno tentilhão côr brilhante de aço (Fringilla nitens. Linn.) 2 8 7 é
muito comum. Cavalgando por uma trilha estreita na mata, topei
com uma grande cobra enrolada, que não arredou do caminho. Meu
cavalo estremeceu, e por isso saquei da pistola carregada e matei-a.
Examinando-a, vimos que era uma espécie inócua, e soubemos ser conhe-
cida na região por caninana. De mais a mais pertence ao gênero
ColuberU 288. Não foi sem muita persuasão que o negro do coronel
Falcão, que nos acompanhou, consentiu em carregá-la nas costas. A
imponente selva de Araçatiba era um êrmo solene; por tôda parte os
(*) Procnias cyanotropus: visto contra a luz, todo o pássaro é de um esplêndido
azulado; protegido da luz, é de um brilhante verde-claro; asas e garganta, negras; parte
inferior do corpo, branco. No Museu de Berlim recebeu o nome de Procnias vent.·alis.
(**) Esta espécie é, com tôda verossimilhança, a cobra variável de Merrem. Cf. a
B eytraege zu•· NatUI·gesclticlite de1· Ampltibien, 2.0 fac., pág. 51, estampa XII.

(São Paulo) ou "gurinhatás" (Bahia). Nos Beit.·(Jge (tomo UI, pág. 464) reconhece
Wied a confusão, descrevendo o pássaro com o nome de Tanagra citrinella, proposto antes
por Temminck, que dêle deu uma magnlfica figura na bem conhecida coleção de suas
"Pianches coloriées". Verificou-se ulteriormente que já Vieillot o tinha descrito (1819),
como Tanagra C1Janoventris, aceito pela nomenclatura, no que tange à apelação especifica.
E' passarinho pertencente ao brilhante e numeroso gênero das salras ", tecnicamente
conhecido por Tangara Brisson (= Calospiza Gray). Ocorre nas matas do Brasil oriental,
da Bahia a São Paulo, inclusive o leste de Minas.
(286) Em B eitrage (vol. Ill, pág. 385) já renuncia Wled o nome que aqui lhe
propõe; o pássaro ali aparece com a denominação de Pro cnias ventralis, proposto por
llliger, mas inédito até então. Ambas as apelações caem, todavia, em face de nome
mais antigo, Hi1·undo vil·idis, proposto por IIHger, em 1811, para a fêmea, cuja plumagem
peculiar, verde em vez de azul, fê-la ser considerada, a principio, ave distinta. Procnias
virtdis (lllig.), de que no Brasil ocorre também só a raça tlplca, é formosa ave, ainda
muito comum à margem dos rios e 1·egatos do interior, e especialmente no Brasil central.
(287) Denominação clentlfica inexata, que decorre da confusão (feita primeiro
por Gmelin, Syst. Nat., li, pág. 909) do nosso passarinho. o muito conhecido . " tsiu" ou
"serrador", com ave africana, de plumagem semelhante. Nos Beitrtige (vol. 111, p. 597)
aparece retificado em Fringilla splendens Vleillot, que não obstante teve que ceder lugar
a Tanagra jacarina Linn., nome mais antigo. A descrição lineana baseia-se em "Jacarini"
de Marcgrave que é, para a ornitologia, o verdadeiro descobridor da espécie, hoje
chamada Volatinia jacarina (Linn.), feita a correção do nome genérico.
(288) Coluber pullatus Linn., tipo, depois do gênero Spilotes, Wagler. Em Beitriige
(1, pg. 271-277) vem ela descrita com o nome de Coluber varia-bilis Merrem. 1790, que
corresp~lDde justamente à forma tlpica da espécie, onde A. do Amaral (Memor. Inst.
Butanta, IV, 1929, pg. 275-298) distingue mais duas raças geográficas. Com o nome
de C. poecilostoma descreve ainda Wied na referida obra a chamada "papa-pinto", para
a qual registrou os apelidos vulgares de "caninana de papo amarelo" e "c. de papo
vermelho"· Estas supostas variedades foram estampadas a côres em Abbildungen.
146 VIAGEM AO BRASIL VIAGEM AO RIO DOCE 147
papagaios esvoaçavam com alarido, e a vozeria dos macacos saí-açu e a cavalo, deixamos Barra de Jucu a 19 de Dezembro; o restante
se ouvia em todo o redor. Trepadeiras, ou cipós, das espécies mais belas de nossa tropa, que permanecera atrás, dirigiu-se para Coroaba a fim
e variadas, entrelaçavam-se nos troncos gigantescos, formando impene- de aí trabalhar. Poderíamos ter feito a mesma viagem por mar, em
trável mat~ria: as esplêndidas flôres das plantas carnudas, os pen- muito menor prazo; mas viajar ao longo da costa em embarcações
dentes festoes dos fetos, enrolados nas árvores, vicejavam luxuriante- pequenas e incômodas, e com tempo tempestuoso, não é muito
mente; em tôda parte, coqueirinhos novos adornavam o mato baixo, agradável.
sobretudo nos pontos úmidos; aqui e ali, a Cecropia peltata2B9, de Seguimos para Pedra d'Agua, casa solitária sôbre uma elevação
caule anelado cinzento-prateado, formava moitas distintas. Dessa majes- à margem do rio, com o fim de transportar as nossas quatro monta-
t?sa penumbra passamos inesperadamente para um trecho escampo, e rias e dois burros de carga através do rio Espírito Santo. Frente a
t~v~mos grata surprêsa quando, de súbito, descortinamos o grande edi- nós, no tôpo da serra situada da outra banda, vimos o notável
f~cw branco da. fazenda de Araçatiba, com as suas duas tôrres pequenas, rochedo de Jucutucoara, situado não longe de Vila de Vitória. Pa-
s~tuada numa lmda planura verde, ao pé do altaneiro Morro de Araça- recido com o "Dent de Jaman do Pays de Vaud", chama a atenção
tlba, montanha rochosa coberta de mata. Essa propriedade tem quatro- de longe; está colocado em tranqüilas e verdejantes eminências, par-
centos escravos negros, e plantações muito extensas nas cercanias cialmente vestidas de pequenas matas. Diante dêle, mais perto do rio,
especialmente de açúcar. Os filhos do coronel vivem em outras fazen~ fica a aprazível fazenda "Rumão", em frente da qual a Ilha das Pombas
das, não longe daí. ergue-se sôbre a superfície espelhante do rio. (Na estampa 4, há
Araçatiba foi a maior fazenda que encontrei durante a minha uma vista panorâmica dêsse lugar). Era muito agradável, das alturas
~iag;m. O edifício possui extensa fachada de dois pavimentos, e uma dessa margem, o panorama do belo rio, onde algumas lanchas e canoas
IgreJa; as choças dos negros, como o engenho de açúcar e as casas de pesca velejavam corrente abaixo. Pretendíamos atravessar logo,
de trabalho, ficam ao pé de uma colina, perto da residência. A mas por infelicidade nenhuma canoa apareceu para nos transportar;
?m~ légua mais ou menos, num pitoresco local à margem do rio Jucu, por isso, pedimos abrigo ao idoso morador de Pedra d'Agua e passamos
mteiramente cercada de grandiosas florestas virgens, situa-se uma a noite numa pequena cabana, que mal nos protegeu do vento e da
s~g~mda fazenda, chamada Coroaba, que pertence a outro proprie- chuva; entretanto, a boa vontade do nosso hospedeiro compensou a
t~no. C: governador começara a construir uma igreja em Sto. Agos- falta de confôrto. Ao cair da noite, o gado que pastava começou a
tmho, nao longe de Coroaba, razão por que estava residindo nesse reunir-se; observamos no meio dêle um curioso carneiro, que nos
lugar. Existe aí um pôsto militar de guarda contra os selvagens; nessa disseram ter resultado do cruzamento de um carneiro com uma cabra.
época, os soldados estavam ocupados em abrir uma estrada até Minas O animal se assemelhava muito à mãe; era gordo, corpulento e arre-
Gerais,_ para ~nde já viajara um oficial, por ordem do governador, a fim dondado, tinha pêlo macio de cabra e os chifres virados um pouco mais
de abnr cammho através das matas. O govêrno estabelecera em Sto. para fora • . Os cordeirinhos, que os meninos apanharam, mostravam
Agostinho cêr~a de qua~enta famílias, que vieram das Açôres, sobre- freqüentemente, no umbigo ainda mal cicatrizado, uma porção de larvas,
tudo ~a Terceira e S. Miguel, e a!gumas poucas de Faial. Essa gente, para matar as quais esfregavam mercúrio no lugar. Essas lar~as são
que v1ve em grande pobreza, queixa-se amargamente de miséria; fize- um mal bastante comum nos países quentes; onde quer que hap uma
ram-lhe magníficas promessas, que não foram cumpridas. ferida, as môscas estão prontas para desovar. Existe no Brasil outro
Ficaríamos muito satisfeitos se nos instalássemos em Coroaba mas inseto que deposita os ovos no tecido muscular ou debaixo da pele,
a in;t~ossibili~ade de encontrar aí acomodações para nossa nuru'erosa até do próprio homem; depois da picada dêste animal sobrevém
comitiva obngou-nos a permanecer em Barra do Jucu. uma pequena dor local, o lugar começa a inchar, até o momento em
Muitas coisa~ de_ que tínl_lam?s grande necessidade e que esperá- que os naturais, perfeitamente conhecedores desta nociva praga, extraem
vamos ter na Capitama (tambem simplesmente assim chamada a região uma pequena larva branca e alongada, cicatrizando-se depois a ferida.
do Espírito Santo) foram enviadas para Caravelas, fato que nos trouxe Azara refere-se provàvelmente ao mesmo inseto• •, acreditando que
não pequeno t~an~tôrn_o. A fim de remediá-lo, o Sr. Freyreiss e eu êle já penetra na pele como larva, o que não concorda com a nossa
resolvemos partir Imediatamente para Caravelas e lá acertar as coisas. experiência29o.
Levemente equipados, e acompanhados de alguns homens bem armados (* ) V. BUFFON, Supplement, t. V, p. 4 (ediç. in·l2).
( ** ) AZARA, Voyages, etc., vol. I, p. 217.
(289) São muito numerosas as espécies de " imbaúba " (Cecropia) encontradas em (290) Wled retere-se Inequivocamente ao " berne ", larva de uma môsca silvestre,
nossas matas de leste, sendo assaz problemático que nos lugares aqui descritos ocorresse (Dermatobia Cflaniventris, Macquart), da famllla dos ÉStridas. Só modernamente. gra~s
apenas a que recebeu o nome referido por Wied. aos esforços de investigadores estrangeiros e especialmente brasileiros, a curiosa biologia
148 VIAGEM AO BRASIL VIAGEM AO RIO DOCE 149

As canoas chegaram na manhã seguinte e então atravessamos do ataque dos inimigos 29 2 • Tentei aproximar-me de um ninho dêsse
o rio, que tem perto de mil passos de largura. Prosseguimos por um pássaro, mas fui impedido pelas vespas, que apareceram imediata-
vale, que se estende coleando logo por baixo das alturas em que está mente. Nos cerrados que margeiam a costa, habitam famílias pobres
Jucutucoara; vimos bem próxima a casa alvejante de uma fazenda e esparsas, que vivem da pesca e da colheita de suas plantações. São
pertencente a um sr. Pinto. Cruzamos o pequeno rio Muruim ou Pas- em geral negros, mulatos e outras gentes de côr. Há muito poucos
sagem, sôbre o qual passa uma ponte de madeira, geralmente fechada brancos entre êles; queixam-se logo ao forasteiro de pobreza e indi-
por uma porteira; e depois de cavalgarmos através de lodaçais cobertos gência, que só podem provir da preguiça e da falta de iniciativa, porque
de mangues (Rhizophora, Conocarpus e Avicennia), alcançamos a o solo é fértil. Pobres demais para comprar escravos, e demasiado
costa. Olhando para trás, distinguimos mais claramente a cadeia indolentes para o trabalho, preferem morrer de fome.
de montanhas de Espírito Santo, que o viandante não pode dominar Continuando para o norte, alcançamos um trecho onde moravam,
enquanto se acha colocado entre os pontos extremos de suas eminên- não crioulos ou mulatos, mas índios civilizados. As habitações se
cias. A três léguas de Capitania, conseguimos pouso para a noite na espalhavam por uma sombria floresta de magníficas árvores-gigantes;
pequena povoação de Praia Mole. trilhas escuras vão serpenteando de uma choça a outra; nos regatos
Aí, numa verde planície, um pouquinho acima do nível do mar, cristalinos, em que se espelha a bela vegetação, vêem-se meninos pardo-
encontram-se esparsas várias habitações. Numa delas, encontramos escuros, nus e com a cabeleira negra como carvão, pescando e brin-
amigável acolhimento; e como todos os habitantes tivessem muito cando. Descobrimos pássaros lindos nessa mata deliciosa; o "jacamar"
gôsto pela música, fomos, à tardinha, agradàvelmente entretidos com auriverde (Galbula magna) 29 3 pousava nos ramos rasteiros vizinhos da
música e danças. O filho no hospedeiro, que era muito hábil na água, à espreita de insetos; e vozes desconhecidas ressoavam na soli-
fabricação de guitarras (violas), tocava, e o resto da meninada dançava dão. Depois de quatro léguas de viagem, saímos da selva e contem-
o batuque 291 , entregando-se a estranhas contorções do corpo, batendo plamos, à frente, numa eminência sobranceira ao mar, a Vila
palmas e estalando dois dedos de cada mão alternadamente, imitando Nova de Almeida.
as castanholas dos espanhóis. Embora os portuguêses tenham grande Vila Nova é uma grande aldeia de índios civilizados, fundada
talento natural para a música, não se vê, pelo Brasil, outro instrumento pelos jesuítas: possui uma grande igreja de pedra e contém, em todo
senão a viola. Se o amor à música e à dança é geral entre o povo, o distrito, de 9 léguas de circunferência, cêrca de l 200 almas. Os mo-
também o é a hospitalidade, pelo menos na maioria dos lugares. Encon- radores da vila são principalmente índios, havendo também portuguê-
tramo-la aí; com efeito, nossos hospedeiros fizeram tudo para nos ses e negros. Muitos, tendo casas aí, só voltam das roças aos sábados
agradar e o tempo, assim, passou suavemente. e aos feriados. No convento dos jesuítas, que serve atualmente de
Deixando Praia Mole, chegamos cedo, na manhã seguinte, ao residência ao padre, ainda existem algumas velhas obras dessa ordem,
povoado de Carapebuçu. Dêsse lugar em diante, ao longo do litoral, se o que é uma raridade, porque as bibliotecas de todos os outros conven-
estendiam florestas, orlando as enseadas e cobrindo as pontas de terra. tos, deixadas ao abandono, se destruíram ou dispersaram. Aí, outrora,
Nessas matas, agora que o estio justamente começava, viam-se esvoa- os jesuítas ensinavam na língua geral; diz-se que a capela dêles, dos
çando inúmeras borboletas das espécies mais diversas, sobretudo Reis Magos, foi muito bonita. O lugar é morto, e não parece popu-
Nymphales. Aí observamos o notável ninho saciforme de um pequeno loso; também se vê muita pobreza. Os índios tiram a subsistência das
pássaro do gênero Todus) que sempre constrói próximo a casas de certa plantações de mandioca e milho; exportam, igualmente, um pouco de
espécie de vespa ("marimbondo"), com o fim, dizem, de se pôr a coberto lenha e de artigos de cerâmica, e mantêm uma pesca nada desprezí-

do inseto pôde ser completamente aclarada, verificando-se que, no tocante ao meio de (292) E' essa a mais antiga observação que conheço do curioso hábito que têm
propagação, a verdade estava antes com Azara. Com efeito, a môsca berneira não muitos representantes do gênero Todirostrum Lesson (na época em que escrevia Wied
põe diretamente os seus ovos na pele do futuro hospedeiro das larvas, mas deposita-{)s, ainda não desdobrado de Todus Linn., restrito às Antilhas), vulgarmente " teque-teque",
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ferreirinho ", "relógio", etc. Tive, por minha vez, ocasião de confirmar o fato, a prin-
em massa compacta, sôbre o corpo de outras môscas (como a môsca das estrebarias, cípio nas proximidades de Tapera (Pernambuco), em Todirostrum cinereum cearae
(Stonwxys calcitrans, Geoffr.) ). as quais se tornam assim simples porta doras das larvas, Cory. e depois em várias emergências. Estudando a Coleção Carlos Estêvão (cf.
prontas a abandonar na primeira oportunidade o veiculo transitório, por um hospedador Papéis Avulsos do Depto. de Zoologia, XI, pg. 191), registrei-{) em T. chTflsocrotaphum
adequado. ~ste é as mais das vêzes um animal bovino; mas pode ser também illi{le•·i Caban. & Heine, e vi-{) depois consignado independentemente por Assis Iglésias,
um eqüino ou porcino, sem falar no próprio homem, como no-lo refere Wied, e é no belo livro das suas reminiscências de viagem pelos sertões nordestinos, a que deu
fato de observação relativamente freqüente (Cf. Ouv. PINTO, Rev. Mus. Paul., XX, pág. 13). o titulo de "Caatingas e Chapadões", pp. 18~ e 187 (Edit. Nacional, vol. 271 da
São muito numerosas as contribuições bibliográficas sôbre a matéria, cuja impor- " Brasiliana ") . Na observação de Wied, como se conclui do que nos informam. os seus
tância científica e econômica salta aos ollíos, merecendo consulta, entre outras, as Beitraue (vol. III, pg. 967), a espécie em causa é Todirostrum poliocephalttm (W1ed), por
seguintes: ARTHUR NEIVA, Mem. Inst. Oswaldo flruz, 1914, p. 206; A. NEIVA & FLoaftNcro êle descoberta.
GoMEs, Collectanea dos Trab. do Inst. Butantan, vol. li, p. 3; En. NAvARRO DE ANDRADE, (293) Galbula rufoviridis Cabanis (confundida em "Beitl·aue", IV, p. 486, c'?m
Arch. do Inst. Biolouico, li, p. 58. G. vi1·idis Latham, espécie amazônica), vulgarmente "beija·flor do mato virgem", ".be!Ja·
(291) No original "Baduca". flor dágua ", "cuitelão ", etc. Comum onde quer que haja água fresca e ambiente rustlco.
150 VIAGEM AO BRASIL VIAGEM AO RIO DOCE 151

vel no mar e no rio Saí-anha294, ou dos Reis Magos, que passa além As florestas percorridas pelo Saí-anha, que se chamava Apiaputang
da aldeia. O Sr. Sellow, que posteriormente visitou êsse lugar, teve na antiga linguagem aborígine, seriam habitadas por Coroados e Puris.
oportunidade de conhecer a curiosa maneira de pescar com os ramos Também ouvimos falar de outra tribo, denominada "Xipotós", que
da árvore chamada "tingui", que Condamine refere como praticada no afirmam viver na região rio acima, entre o rio Doce e o Saí-anha; mas
rio Amazonas•. Cortam ramos de tingui, esmagam-nos e fazem molhos essas declarações a respeito dos nomes das diferentes tribos indígenas
com êles, jogando-os à água, sobretudo nos trechos em que há pouca não merecem confiança. Mais além, do Saí-anha ao Mucuri, o litoral
correnteza; algumas vêzes, represam o rio com êsses molhos, a fim de é quase que exclusivamente habitado por famílias esparsas de índios.
barrar o caminho ao peixe, que, intoxicando-se com o sumo misturado Falam apenas a língua portuguêsa e trocaram o arco e a flecha pela
à água, vem à tona e morre, ou pode ser fàcilmente apanhado à espingarda; até as moradas diferem muito pouco das dos colonizadores
mão. As plantas que produzem êsse efeito são espécies do gênero portuguêses; ocupam-se principalmente da lavoura . e da pesca do
Paullinia, e a ]acquinia obovata, arbusto de grãos vermelhos e fôlhas mar. Ao norte do Saí-anha, tôda a costa é coberta de densas flo-
de forma oval, que medra nas pequenas matas litorâneas, sendo, por restas. Em poucas horas se atinge o rio Piraquê-açu 297 (rio-do-peixe-
isso, denominada "tingui da praia"295. grande), como originàriamente os índios o denominavam. Aí, na barra
Em Vila Nova, ouvimos falar muito de um animal marinho, nunca ou foz, existe uma povoação chamada Aldeia Velha; e, um pouco
visto antes aí, e que uns índios mataram na praia havia pouco, a acima no rio, uma grande aldeia fundada pelos jesuítas, que reuni-
tiros de espingarda. Era grande, e dizia-se possuir pés parecidos com ram, nesse lugar, considerável número de índios. Alimentam-se sobre-
mãos humanas. Extraíra-se dêle grande quantidade de gordura. A tudo de peixes e mariscos; daí haver ainda, nas margens do rio,
cabeça e os pés foram enviados ao governador. Tôdas as nossas tenta- grandes montões de conchas. í.stes, segundo algumas pessoas, teriam
tivas para obter informações mais pormenorizadas sôbre êsse animal origem diferente, mas diversos autores• confirmam a asserção de serem
foram inúteis, mesmo porque partiram e cozinharam o esqueleto, e os índios grandes comedores de ostras, e as circunstâncias explicam
em parte o enterraram. De tudo o que soubemos, entretanto, parece suficientemente o fato; não há dúvida, portanto, que êsses acúmulos
que se tratava de uma foca ou de um "manati"296. de conchas derivam dos repastos dos antigos habitantes da zona.
Consta que, quando, posteriormente, vários colonos portuguêses se
(*) Viagem de CONDAMINE, p. U6. VASCONCELLOS também a menciona em SUas
"Memórias curiosas sôbre os tndios"; segundo êle, os lndios pescavam com fôlhas de fixaram no Piraquê-açu, os jesuítas levaram embora os índios que aí
"japical", com "cipó" (chamado " tlmbó putryara ") ou "tingui " também dito "tiniuiri ";
além disso, com o fruto "curaruapé ", com as raizes do "mangue", etc., p. 76. Vide
viviam, a fim de afastá-los dos portuguêses.
ainda, sôbre êste assunto: Blumenbach, em notas à Viagem ao Rio Berbice (ano 1671 ) Atingimos Vila Velha à tardinha. Depois de dobrarmos uma ponta
de ANDR. VAN BERKEL, p. 180, e também Krusenstern, I, p. 180.
de terra que entrava pelo mar, encontramo-nos de repente junto a
(294) No original "Saüanha" (= Saianha). um belo e vasto rio, que surgia das margens cobertas de florestas para
(295) O "tingui da praia" chamado também "barbasco" (Jacquinia armillaris Jacq.
fam. Teophrastáceas) é um dos muitos "tinguis " de que se serviam os nossos lndlos para se lançar ao oceano. Vila Velha consiste em seis ou sete cabanas
intoxicar o peixe. Os "ti mbós", usados para o mesmo fim, compreendem série numerosa cobertas de palha, num pequeno vale plano; dentre tôdas, apenas uma
de vegetais ictiotóxicos filiados a dlterentes famflias botânicas, e abundam particularmente
nas matas amazônicas; pertencem às Leguminosas papilonáceas o " timbó de Galena" casa é de aparência um tanto melhor, então ocupada pelo comandante
(Tephrosia toxicaria, Sw.), o "timbó legitimo " (Lonchocarpus nicou Aubl.) o " timbó
vermelho" ou "t. urucu ", além de muitos outros, na sua maioria do gênero Lo'nchocarpus; do distrito, tenente da guarnição de Espírito Santo. Fomos aí rece-
às Sapindáceas, várias espécies do gênero Paullinia (P. pinnata, Lin., P. urandiflora bidos com a maior gentileza em casa do Sr. tenente; os moradores
St. Hilaire), etc.; às Compostas os "conamis " (Olibadiun~ biocarpum Mart., Ol. surinamens~
Lln.), nome aliás comum a outras plantas venenosas, como Phyllanthus conami Aubl., exultaram com a oportunidade de falar a sêres humanos; con-
uma Euforbiácea. H asemann, citado por A. Neiva & B. Pena (Mem. Inst. Oswaldo Cruz,
VIII, p. 105), em artigo inserto no vol. VII dos Ann. ot the Oarneuie Museum (1911 ), sideram êsse pôsto, onde o oficial é mantido por alguns anos, como
trata longamente dos diferentes processos de tinguiagem.
(296) A presença de extremidades semelhantes a mãos humanas compromete a
uma espécie de exílio. O oficial aí estabelecido na época da nossa visita,
Wpótese de estar aqui em jôgo um Sirênio, corno o "peixe-boi", parecendo tratar-se antes queixava-se muito de falta de distração e de confôrto; eram mes-
de um Pinlpede, a menos que tenha havido êrro nas informações colhidas pelo viajante mo obrigados a dispensar, nesse lugar isolado, muitas utilidades neces-
naturalista. Que pin [pede? Seja como fôr, o peixe-boi, a que os tupis da costa oriental
chamavam "goaragoá", era nos primeiros tempos provàvelmente comum em todos os grandes sárias. Dificilmente se obtinham provisões, exceto farinha de man-
rios da vertente oriental do Brasil. O padre FERNÃO CARDIM (Tratados da Terra e Gente
do Brasil, ed. de J. Leite, Rio de Janeiro, 1925, p. 79 e ss.), deu-nos dêle longa e dioca e peixe. Os habitantes de Aldeia Velha são pescadores pobres;
pitoresca descrição, ao passo que a sua ocorrência na BaWa é testemunhada por Gabriel
Soares e no Esp[rito Santo por Anchieta; sua existência ainda em nossos dias no
contudo, o peixe é abundante no rio, que possui boa barra, de modo
alto Rio Doce foi-me verbalmente asseverada por Pinto da Fonseca, bastante conhecedor que as lanchas podem singrar até longe, rio adentro.
da fauna daquela região. Admite-se geralmente que a espécie seja a mesma do
Amazonas (Trichecus inunuuis (Pelzeln)); faltam-me entretanto elementos, para afirmá-lo
com segurança. ( *) SoUTHEY's, etc., vol. I, p. 86.
A prevalência de Trichecu.s Linn ., 1758, sôbre Manatus Linn., 1766, foi decidida
pela Comissão lntern. de Nomenclat. Zoológica (opinião 112; cf. Mem. I nst. Butantã,
v. p. 264). (297) No original, Pirakaa.ssu.
152 V I A G E 1\1 AO BR ASI L

Não havendo no lugar nada que nos pudesse deter mais, despedi-
mo-nos do nosso amável hospedeiro no dia seguinte, e atravessamos
o rio. A corrente era muito profunda, larga e rápida, e um dos
burros de montaria por pouco não se afogou, o que teria sido uma
perda irreparável nessas paragens. Um índio môço, do comandante
que manejava destramente a nossa canoa balançada pelas ondas, foi-
nos de muita valia. Nos lugares rasos, próximo das margens, vimos
gaivotas e andorinhas do mar, e numerosos bandos de Rynchops nigra
(Linn.)29B, bem conhecida pelo curioso bico. Além do rio viam-se
matas extensas, onde se espalhavam as plantações dos índios; culti-
vam principalmente milho, mandioca e "baga" (Ricinus), de cuja
semente extraem óleo. De novo entramos numa espêssa e bela floresta,
onde lindíssimas borboletas enxameavam sôbre flôres variegadas, e o
rugido do oceano ressoava em nossos ouvidos. A voz da jacupemba
(Penelope marail, Linn.)299, ave da mata pertencente ao grupo do
faisão, chamou a atenção dos nossos caçadores; sendo, porém, muito
arisca, não matamos nenhuma. Cedo alcançamos novamente a costa
e prosseguimos por mais quatro léguas, até que chegamos, pela tardi-
nha, ao pôsto militar do Quartel do Riacho. O litoral forma muitas
enseadas nesse trecho, o que dá ao caminho monótona uniformidade,
pois, mal se vence um promontório, e já outro aparece à distância.
Encontramos aí diversas espécies de sargaços ( Fucus), arremessados à
costa pelo mar, mas somente poucas conchas. A andorinha de colo-
rido azul-ferrête (Hirundo violacea)aoo nidificava em alguns grupos
de rochedos marítimos. Nesse trecho costeiro, vêem-se habitações iso-
ladas de índios, a grande distância uma das outras, esparsas entre as
capoeiras. Alguns habitantes se aventuram ao mar em canoa, em busca
de peixe. Um pequeno córrego, cujo fundo era tão mole que os
animais nêle se atolavam profundamente, deteve-nos muito tempo;
dois dos nossos tropeiros, Mariano e Filipe, despindo-se, procuraram,
com os animais de sela, e por fim, encontraram, um lugar mais firme,
por onde todos nós passamos sem acidente, embora um pouco molha-
dos. Ainda não havia escurecido quando chegamos ao quartel.
Quartel do Riacho é um pôsto militar, composto de um oficial e
seis praças, que tem por fim transmitir ordens e manter-se em comu-
nicação com a zona à margem do rio Doce. Na praia há duas casas,
uma das quais ocupada pelas famílias de alguns dos soldados, que tiram
o sustento das plantações próximas. O oficial subalterno que aí
comandava era um homem inteligente, e deu-nos informações muito

(298) Vulgarmente " talha-mar ", devido ao há bito de, quando pesca, voa r rente
à superflcie das águas, imergindo nela a parte de baixo do bico, que é muito mais
longa do que a superior, e comprimida lateralmente em lâmina cortante. As populações
extra-amazônicas da espécie são consideradas forma particular, ob a denominação de
Rhynchops nigra intercedens Saund.
(299) O nome da e pécie (Penelope sttper ciliari-s Temm.) , hoje conhecida apenas
por "jacu ", já foi retificado em nota anterior.
(300) E' a andorinha doméstica grande, PrO(J'M chalybea Linn ., determinação aliás
retificada pelo autor nos Beitrage (vol. UI, p. 354).
VIAGEM AO RIO DOCE 153
interessantes. Dêle soubemos maiores minúcias a respeito da guerra,
travada nas matas do rio Doce, com a tribo hostil dos Botocudos,
justamente quando atingíamos as fronteiras dessa nação. O próprio
oficial fôra atingido por uma flecha no ombro, quando servia num dos
postos do rio Doce; mas já estava completamente curado da peri-
gosa ferida. A tribo dos Botocudos (assim chamada pelos europeus)
vagueia nas florestas, à beira do rio Doce, até às nascentes dêste na
Capitania de Minas Gerais.
tsses selvagens se distinguem pelo costume de comer carne huma-
na e pelo espírito guerreiro: têm oferecido, até agora, obstinada resis-
tência aos portuguêses. Se algumas vêzes se mostraram amigáveis
em certo lugar, cometeram excessos e hostilidades em outro; daí nunca
ter havido um entendimento duradouro com êles. Muitos anos atrás,
existia um pôsto militar ("destacamento") de sete soldados a oito
ou dez léguas rio Doce acima, no local onde hoje se ergue a povoação
de Linhares; êsse pôsto estava guarnecido com uma peça de canhão
para proteger a projetada estrada nova para Minas. A peça, a prin-
cípio, manteve os selvagens à distância, mas, à proporção que foram
conhecendo melhor os europeus e suas armas, os temores desapare-
ceram. De uma feita assaltaram repentinamente o quartel, mataram
um dos soldados, e teriam também massacrado os outros, se êstes
não tivessem fugido e escapado pelo rio, tomando uma canoa, que
aconteceu justamente vir chegando com a salvação. Não podendo
alcançá-los, os selvagens encheram o canhão de pedras e retiraram-se
para as selvas.
Depois dêsse fato, o último mm1stro de Estado, conde Linhares,
declarou-lhes guerra formal, numa proclamação bem conhecida; orde-
nou que os postos militares já estabelecidos à margem do rio Doce
fôssem reforçados e que se instalassem outros, a fim de proteger os
estabelecimentos dos europeus e as comunicações com Minas através
do rio. Desde então não se deu trégua aos Botocudos, que passa-
ram a ser exterminados onde quer que se encontrassem, sem olhar
idade ou sexo; e só de vez em quando, em determinadas ocasiões,
crianças muito pequenas foram poupadas e criadas. Essa guerra de
extermínio foi mantida com a maior perseverança e crueldade, pois
acreditavam firmemente que êles matavam e devoravam todos os ini-
migos que lhes caíam nas mãos- Quando mais tarde se soube que
em alguns lugares, no rio Doce, simularam di~posições pacíficas, batendo
palmas, e depois mataram traiçoeiramente, com os formidáveis arcos,
os portuguêses que dêles se acercaram confiantes nas maneiras ami-
gáveis, extinguiram-se tôdas as esperanças de descobrir-se sentimentos
de humanidade entre êsses selvagens. Que, porém, essa opinião, depri-
mente para a dignidade da natureza humana, foi levada muito longe,
e que a incorrigibilidade dêsse povo provém tanto da maneira como
foram tratados, quanto da rudeza nativa, prova-o exuberantemente
154 VIAGEM AO BRASIL VIAGEM AO RIO DOCE 155
o benéfico resultado da conduta humana e moderada do governador mos grande proveito da experiência dos nossos jovens índios, que se
Conde dos Arcos, na capitania da Bahia, para com os Botocudos meteram pelas moitas com alguns vasos e colheram a água de dentro
r:si_dentes à marçem do Rio Grande de Belmonte. E' justamente 0 das fôlhas das bromélias. Essa água, pouco depois das chuvas, é
viaJante, que deixa o teatro dessa guerra desumana no rio Doce limpa e clara; agora, porém, que havia muito tempo que não chovia,
que~ mais se impressiona e mais a fundo pode refletir, quando: estava negra e suja; encontramos até ovos de rã e girinos. Coamo-la
depOis de algumas semanas, chega ao distrito do Rio Grande de Bel- num pano, juntamos suco de limão, aguardente e açúcar, e destarte
monte, e aí vê que os habitantes, em virtude da paz concluída três tivemos um esplêndido refrêsco. Nos pés de bromélia achávamos fre-
ou _quatr? ~nos atrás, vivem com êsses homens tão selvagens do modo qüentemente uma pequena rã amarelada•soi que, à maneira de mui-
mais, a:~mgavel, o . que assegura aos primeiros o sossêgo desejado, e tos animais dêsse gênero, desovam em terra; também encontramos,
aos ulti~lOs as mawres vantagens além da segurança. muitas vêzes, aí as suas pequenas larvas pretas. Não deve surpre-
A fi~ de explorar a ~otável região do rio Doce, de que ouvíra- ender o fato de, nessas regiões, répteis terrestres criarem os filhotes
mos :nmtos pormenores mteressantes. na Capitania, partimos pela em cima de árvores, de vez que, tão ricas são de fenômenos extraor-
manha bem cedo do Quartel do Riacho, acompanhados por dois dinários, em algumas delas até o próprio homem vive sôbre árvores,
soldados: e. atra~essamos ? ~iacho,_ donde se origina o nome do pôsto, como disso são exemplo os Guaraúnas, de quem o Sr. von Humboldt
e em cu~a Imed_Iata proximi~ade ficam as malocas. Daí partimos para dá interessante notícia.
uma fatigante JOrnada de Oito léguas pelo areal, sob o intenso calor Depois de repousarmos um pouco, prosseguimos a jornada até
de dezembro. tarde da noite, e por fim nos encontramos, ao luar, numa região
O solo é constituído de areia grossa misturada a quartzos e arenosa, plana e descampada, perto da foz do rio Doce. Os dois sol-
pequ_enos seixos, fatigante em extremo tanto para o homem como para dados, que tomáramos como guias, perderam o rumo, e fomos obrigados,
o ~mmal. Um tanto para o interior, as areias são cobertas de mato cansados como estávamos, a esperar longo tempo, até que descobris-
baixo, sobretudo ?e coqueiros anões•; mais atrás se erguem espêssas sem o caminho certo, que nos levou ao Quartel da Regência. Trata-se
~lorestas, nas quais, não longe da praia, fica o Quartel dos Combo- de um pôsto militar de cinco soldados, estabelecido na embocadura
IOS, o~de permanecem três soldados de guarda às comunicações. do rio Doce, incumbido de transmitir ordens ao longo do litoral,
, AI encontram?s rastros das colossais "tartarugas" marinhas, que transportar viajantes através do rio e vigiar as comunicações com a
vem à costa depositar os ovos em buracos cavados na areia. Em mui- povoação de Linhares. Passamos a noite na casa regularmente espa-
tos lugares se viam dispersos restos dêsses animais, tais como cara- çosa dos soldados, em que havia diversos quartos com trastes de madeira,
paças ; :squeletos, n?s quais causou-nos admiração o grande tamanho e um tronco••. Essa gente passa muito mal; peixe, farinha de man-
?os. cranws; descobn um que não pesava menos de três libras. Os dioca, feijão prêto e, por vêzes, um pouco de carne sêca, constituem
I~diOs comem a carne dessas tartarugas, delas extraindo grande quan- a sua única alimentação. São todos de côr, crioulos, índios, mamelucos
tlda?e de gordura; buscam, também, cuidadosamente, os ovos, dos ou mulatos. Mal raiara a manhã, e a curiosidade nos impelia a sair
quais se encontram muitas vêzes, num buraco, 12 a 16 dúzias. São e a contemplar o rio Doce, o maior rio entre o Rio de Janeio e a Bahia.
redon~os, brancos, revestidos de casca flexível e coriácea, contêm uma Nessa época, tôda a caudal rolava impávida e majestosamente para o
albumi,na clara como. água e uma gema de lindo amarelo, que têm oceano; a imensa massa d'água corria num leito que nos pareceu duas
bom gosto, embora saiba um pouco a peixe. Encontramo-nos com al- vêzes mais largo do que o Reno no ponto de maior largura. Poucos
gumas famílias de índios levando para casa cêstos inteiramente cheios dês- dias depois, entretanto, tinha diminuído alguma coisa. Só nos meses
ses ovos. O tamanho das tartarugas do mar pode ser avaliado pelas chuvosos, principalmente em Dezembro, é que fica tão volumoso; em
carapaças q~e e_ncontramos aí, com 5 pés de comprimento. outras épocas, especialmente após estiagens muito longas, vêem-se sur-
Ao meiO-dia~ quando o calor se tornou opressivo, nossa tropa gir por tôda parte do leito bancos de areia, de que, todavia, não se
estava por de~ais_ fatigada; não tínhamos água para saciar a sêde
ardente dos amma1s, ~ nem mesmo a dos companheiros que iam a pé, (*) Espécie nova e ainda não descrita da rã pequena, Hyla luteola, de tom
alagados d~ suor. Fizemos alto e procuramos abrigo à sombra do amarelado pálido, com uma estria mais escura através dos olhos.
(**) " Tronco " é um castigo militar. Consiste numa prancha comprida, colocada
ma~agal baixo; mas aí, também, o chão estava tão quente que foi em pé sôbre um dos bordos, na qual há cortada uma série de furos redondos, destinados
a prender a cabeça dos delinqüentes. A prancha fecha em volta do pescoço, e o homem
m~n.to pequeno o refrigério; nossos pés, entretanto, descansaram, e é obrigado a permanecer no chão a fio comprido. V. von EscHWEGE, Journal oon
aliviamos os animais, alijando-lhes a carga. Nessa emergência, tira- Brasilien, I, p. 128.

(301) Descrita em pormenor em Beitraue (I, pp. 585-8), depois de figurada nas
(*) Mais adiante há uma enumeração das diferentes espécies de palmeiras. Abbildunuen.
156 VIAGEM AO BRASIL VIAGEM AO RIO DOCE 157

observava agora nenhum vestígio. A foz, por isso, nunca é nave- restas; mas, devido à agitação do rio, ocasionada por violenta ve~­
gável; as grandes embarcações não podem entrar por causa dos bai- tania, a 25 de dezembro, os soldados aconselharam-nos a transfenr
xios e dos bancos de areia; nem mesmo lanchas, a não ser quando a partida para o dia imediato. A manhã seguinte estêve cálida e
as águas estão na maior cheia. O rio Doce nasce na capitania de serena, de modo que embarcamos, ao amanhecer, numa comprida
Minas Gerais, formado pela junção do rio Piranga com o Ribeirão canoa conduzida por seis soldados. Nossa comitiva se compunha de nove
do Carmo: pois é depois dessa confluência que recebe o nome de Rio pessoas, tôdas bem armadas. Para subir o :io Do~e na cheia, são ne-
Doce*. Atravessa uma vasta região plana e forma muitas peque- cessários quatro homens pelo menos, que ImpulsiOnam a canoa por
nas cachoeiras, três das quais, sucedendo-se com pequeno intervalo, meio de longas varas. Como há por tôda parte lugares rasos, que
são conhecidas por Escadinhas. As margens do belo rio são cobertas surgem como bancos de areia no período da sêca, as varas sempre
de espêssas florestas, refúgio de grande número dos mais diversos podem alcançar-lhes o fundo, mesmo quando as águas estão muito
animais. Aí se encontram, comumente, a anta (Tapirus america- altas; e, em circunstâncias favoráveis, é possível atingir Linhares em
nus), duas espécies de porco selvagem (Dicotyles, Cuvier), "pecari" ou um dia, mas não antes da noite.
"caitetu" e o "porco de queixada branca" (taitetu e tagnicati de O tempo estava lindo, e depois de nos acostumarmos ao balanço
Azara)3° 2 , duas espécies de veados (o gazupita e o guazubira de Azara), da estreita canoa, causado pelos soldados andando para trás e para
e mais de sete espécies de felinos, entre as quais a onça pintada a frente a fim de impulsioná-la, achamos a excursão muito agradável.
(yaguarété, Azara) e o tigre negro (yaguarété noir, Azara) são as Em plena manhã, a vasta superfície do rio cintilava ao sol; as mar-
maiores e as mais perigosassoa. Contudo, o rude selvagem Botocudo, gens distantes estavam tão densamente vestidas de selvas umbrosas,
habitante aborígine dessas paragens, é mais formidável que tôdas as que, em todo o percurso vencido, não havia espaço livre onde se
feras, e o terror dessas matas impenetráveis. A região é escassamente pudesse erguer uma casa. Ilhas numerosas, de vários tamanhos e for-
povoada, de modo que ainda não há vias de comunicação, exceto ao mas, recortavam o espelho das águas; eram cobertas de velhas árvores
longo do rio. E' verdade que, poucas semanas antes, se abrira na de frondes luxuriantes. Cada qual tem nome próprio, e, segundo
floresta uma picada (trilha) acompanhando a margem sul, mas estava dizem, aumentam de número à proporção que se sobe. Na cheia, a
longe de ficar pronta e só podia ser utilizada, por causa dos selvagens, água do rio Doce é turva e amarelada, e produz febres no consen~o
pelas pessoas bem armadas. O ministro de Estado Conde de Linhares geral dos habitantes .. O peixe é abundante, e mesmo o espadarte (Przs-
teve a atenção particularmente dirigida para essa bela e fértil zona. tis serra) sobe muito além de Linhares, até à lagoa de Juparanã, onde
Estabeleceu novos postos militares e construiu a povoação atual- é freqüentemente pescado.
mente, devido a êle, chamada Linhares, oito a dez léguas rio acima, Vinham das florestas os berros de numerosos macacos, sobretudo dos
no local onde se fundara o primeiro quartel. Mandou desertores e barbados (Mycetes ursinus), e dos saí-açus (Callithrix pers.onatus,
outros criminosos para povoar a nova colônia, que teria certamente Geoffroy, etc.)304. Vimos aí, pela primeira vez em estado. selvagem,
prosperado em curto prazo, não fôsse a morte arrebatar tão cedo o as magníficas araras (Psittacus macao, Linn.) 305 , um dos mawres orn~­
ativo ministro. Desde então, a zona ficou inteiramente ao abandono, mentos das florestas brasileiras; ouvimos-lhes os gritos altos e estri-
e, a não ser que se adotem medidas enérgicas, estará de todo deserta dentes, e as admiramos a esvoaçar, esplêndidas, por sôbre as cimas
dentro em pouco.
das altaneiras sapucaias. Podíamos reconhecê-las à distâ?cia pelos
Estávamos impacientes por subir o belo rio Doce, a fim de, se rabos compridos, e a brilhante plumagem vermelha refulgta deslum-
possível, conhecermos o teatro da guerra com os Botocudos nas flo-
brantemente sob os raios do sol. Periquitos, maracanãs, maitacas,
( *) Cf. v. EscHWEGE, Journal von Brasilien, I, p. 52. tiribas, curicas, camutangas, jandaias e outras espécies de papagaios
voavam aos bandos, em algazarra, de uma margem a outra, enquanto
(302) Nos porcos do mato brasileiros são reconhecidas ainda hoje duas espécies, o grande e majestoso pato almiscarado (Anas mos~hata.' Linn)~ 06
pertencentes ambas ao gênero Tayassu Flscher, I814 (com prioridade sôbre Dicotyles
Cuvier, I8I7): o "queixada", Tayassu pecari (Link, I795) (= Dicotyles labiatus Cuvler, pousava no ramo de uma Cecropia, na orla da mata, a beira do no.
I8I7), e o " ca itetu" ou "catêto", Tayassu tajacu (Linn., I758) <= Dicotyles to1·quatus O talha-mar (Rhynchops nigra, Linn.)307 permanecia imóvel, de pescoço
Cuvier) . O primeiro, maior e muito mais temível, reconhece-se pela sua maxila inferior
branca, e o segundo pela faixa ou coleira esbranquiçada que circunda a parte baixa
do pescoço.
(303) A " onça preta ", a que entre nós aplica m comumente a denominação de (804) Já ,houve ocasião de referir a êstes dois s ímios. Cf. notas I04 e 258,
todo imprópria de tigre, é uma simples variedade melltnlca da " onça pintada" (Felis respectivamente.
onca Linn.), reconhecendo-se sempre perceptivelmente sôbre o fundo negro as manchas (305) Ara chloroptera Gray. V. nota 186.
características da espécie. Distinguem os sertanistas e caçadores, sob nomes diversos,
certo número de variedade de onç.a; zoologicamente formam porém tôdas, como o (806) V. nota 249.
próprio Wied (Beitr. 11, p. 854) não tardaria a reconhecer, uma só espécie. (807) V. nota 298.
158 VIAGEM AO BRASIL VIAGEM AO RIO DOCE 159

encolhido, nos bancos de areia (coroas); tucanos e surucuás (Trogon ferir os ouvidos vozes surpreendentes de pássaros. Embaixo, junto à
viridis} Linn.)sos emitiam os altos gritos. f.sses animais selvagens e os água, havia algumas flôres esplêndidas, ainda novas para nós, entre
Botocudos, agora, aliás muito mais raros, são os únicos habitantes das as quais uma Convolvulus (ou planta aparentada) de flôr branca notà-
margens do rio. Escasseiam os colonos; apenas em dois lugares se velmente grande, e uma leguminosa da classe Diadelphia 31 1 , com gran-
estabeleceram algumas pessoas, suficientemente armadas para a defe- des flôres de um amarelo vivo, enlaçando-se às moitas num denso
sa. Carregam sempre as espingardas, quando vão às plantações; entrançado. Um jacaré, que se aquecia tranqüilamente ao sol, fugiu
e os que não têm armas de fogo possuem, pelo menos, um bodoque, com ao ruído dos remos. A s.a estampa da nossa edição in-4to representa a
que atiram pelotas ou pedras. Só de vez em quando, e passageiramente, viagem nesse estreito canal e dá precisa idéia de sua natureza luxu-
descem os Botocudos até essa baixa porção do rio. riante e majestosa. Breve chegamos a uma porção de ilhas, onde os ha-
Ao meio-dia, atingimos a ilhota denominada Carapuça (gorro), bitantes de Linhares fizeram plantações; porque somente nessas ilhas
devido à forma. Aí descansou o nosso pessoal fatigado; e achamos ficam a salvo dos selvagens, que não possuem canoas e não podem,
de todo impossível chegar a Linhares no mesmo dia. Para nos defen- em conseqüência, atravessar o rio, exceto quando a sua largura e a
dermos da rápida correnteza do rio, subimos até um estreito canal, profundidade são insignificantes. O guarda-mor reside na Ilha do Boi,
entre uma ilha e a margem, onde esvoaçavam inúmeras aves belas, e o padre de Linhares na Ilha do Bom Jesus. A meio-dia estávamos
especialmente papagaios, entre os quais as magníficas araras produziam à vista de Linhares, e saltamos na margem norte, depois de têrmos,
singular e admirável efeito, quando o sol poente lhes iluminava a com grande esfôrço, feito caminho contra a rápida caudal, no que duas
plumagem vermelha. As margens dessas ilhas e do canal são, na maior varas se partiram.
parte, revestidas pelas densas touceiras das altas ubás, a haste cuja Quando chegamos a Linhares dirigimo-nos à casa do "alferes"
inflorescência é empregada nas flechas pelos Botocudos. Quando a Cardoso da Rosa, que comandava êsse pôsto do rio Doce. Aconteceu
noite se aproximava, os soldados indagaram o que seria melhor, dor- estar ausente, na fazenda de Bom Jardim, situada noutra parte da
mir na Ilha Comprida ou numa das outras. A primeira foi rejeitada, povoação do lado oposto do rio. Fomos convidados logo a ir até
porque apenas a separa da margem estreito e raso canal, e não esta- lá depois da nossa chegada; atravessamos a larga e veloz corrente
ríamos livres de uma incursão dos selvagens. Fomos, por isso, para numa leve canoa, admiràvelmente dirigida por dois negros da fazenda,
a Ilha de Gambim, onde outrora os governadores costumavam passar e tivemos amável e calorosa recepção em casa do tenente João Filipe
a noite, durante as visitas à colônia do rio D.oce. O atual governador Calmon, onde se reunira jovial sociedade. Também nos encontramos
não continuou essas visitas, e encontramos o matagal da costa tão com o alferes, a quem cumprimentamos e demos parte do objetivo da
viçoso e denso, que um dos meus caçadores teve que abrir caminho nossa viagem. Percorremos a fazenda cujo proprietário foi o pri-
com o facão, antes que pudéssemos saltar em terra. Acendeu-se logo meiro a montar um engenho de açúcar no rio Doce. As plantações de
grande e alegre fogueira em lugar desbravado, donde voaram uma cana-de-açúcar, anoz, etc., estavam exuberantes; a mandioca, entre-
grande corujasoo e um pato almiscarado, temeroso dos inesperados tanto, não dá tão bem nessas paragens. O Sr. Calmon prestou grandes
hóspedes. As picadas dos mosquitos nos importunaram um pouco, serviços à região por sua inteligência e operosidade, encorajando a
mas dormimos tranqüilamente até a manhã. população, pelo exemplo, a cultivar a terra. Com dezessete escravos
Deixamos a ilha muito cedo, subimos o rio passando por diversas (pelo menos êsse era o número de então), desbravou considerável tre-
ilhas, até um canal entre a Ilha Comprida e a margem norte. A cor- cho da floresta, e provou, pelo florescente estado das plantações, serem
renteza não era aí tão forte, mas encontramos muitos troncos e galhos as margens do rio férteis em extremo, e próprias para tôda espécie
caídos, que precisamos remover antes de prosseguir. Os cerrados e as de cultura. Aí passamos um dia bastante agradável (28 de dezembro),
grandes árvores, que orlam êsse canal, oferecem o mais variegado e esforçando-se ambos, o alferes e o tenente, por nos serem amáveis.
magnífico dos espetáculos. Várias espécies de palmeiras, sobretudo o Linhares é ainda um povoado insignificante, apesar do trabalho
elegante "côco de palmito", conhecido em outras partes por "jissara"aio, desenvolvido, como foi dito acima, pelo ministro Conde de Linhares
de caule alto e delgado e pequena copa de fôlhas penadas verde- para o seu progresso. Por ordem dêste, construíram-se os edifícios
brilhantes, adornam essas florestas sombrias, de cujos recessos vêm numa praça situada em área aberta na mata, perto da beira do rio
(808) V. nota 121.
. (811) No sistema fito-taxinômico sexual de Linneu a classe Diadelphia forma um
(809) Graças aos Beitrtiue (III, p. 275) ficamos sabendo que se tratava do corujão conJunto heterogêneo .de quatro ordens, das quais a última, caracterizada pelo androceu
de orelhas, ou " jacurutu ", Bubo viruinianus nacurutu (VIeillot) e que dêle já havia de dez estames reumdos em dois feixes ordlnàriamente desiguais, é de tôdas a mais
Wied conseguido um exemplar no Rio Itabapuana. vas~ . e _compreende a grande maioria das Leguminosas Papllonáceas das modernas
(810) V. a nota 869. classificaçoes.
160 VIAGEM AO BRASIL VIAGEM AO RIO DOCE 161

e sôbre íngreme ribanceira de argila. As casas são pequenas, baixas, caçadores atirar de rifle numa delas, à distância de oitenta passos,
cobertas de fôlhas de palmeira ou de uricana, feitas de barro e não e a bala varou-a de lado a lado, ademais sem esvaziá-la. Entretanto
rebocadas. Ainda não tem igreja, sendo as missas oficiadas numa em experiências ulteriores, viu-se que um tiro mais forte, disparad~
casinhola. No meio da praça formada pelos edifícios, há uma cruz de a sessenta passos, jogava-a ao chão sem vará-la, e que ela constituía,
madeira, para cuja feitura se desgalhou simplesmente o cimo de uma portanto, defesa bastante contra flechas. Na Capitania e em outros
grande e bela sapucaia, pregando-se-lhe uma viga transversal. Os mora- lugares são feitas de sêda; por isso, muito mais leves, embora muito
dores estabeleceram as plantações, parte na mata circunjacente, parte mais caras. Na última refrega, próximo a Linhares, um Botocudo
nas ilhas fluviais. O tenente Calmon foi, entretanto, o primeiro, e é extremamente forte disparou, de perto e com tremenda energia, uma
ainda a única pessoa que abriu uma fazenda e possui um engenho. flecha contra um soldado. A flecha penetrou a cota, mas o dono só
Quando quis fixar-se na margem oposta a Linhares, levou ficou ferido levemente, de lado; contudo, mesmo quando a flecha
trinta ou quarenta homens armados e atacou um magote de Boto- é detida, sempre causa um choque violento.
cudos, que tinha resolvido disputar-lhe o terreno. Um dos selva- últimamente, abriu-se um caminho da fazenda de Bom Jardim
gens foi morto; mas cedo se compreendeu que essa horda, que somava ao Quartel do Riacho; êsse caminho passa por uma lagoa, deno-
150 arcos, não podia ser expulsa apenas pela fôrça, e adotou-se outra minada Lagoa dos índios•. Aí existe um segundo pôsto, chamado
maneira; foram ameaçados pela retaguarda e, por êsse estratagema, Quartel d' Aguiar. Residem no lugar algumas famílias indígenas,
compelidos à retirada. Desde então, nunca mais o incomodaram e oito soldados índios exercem a vigilância. Os índios civilizados
durante os três anos que aí residia. Se houvesse algum comércio portam-se como bons soldados contra os irmãos das selvas. tstes lhes
local, as diversas e valiosas variedades de madeira, que essas flores- votam ódio mortal, e dizem que os procuram atingir em primeiro
tas produzem em abundância, merecer-lhe-iam tanta atenção quanto lugar, porque os consideram traidores do povo. A certa distância
o fértil solo da fazenda. E' verdade que a peroba, excelente madeira além de Linhares, fica, na mata, o "quartel segundo de Linhares"
de lei para construção naval, é considerada propriedade da coroa; (a própria aldeia sendo considerada o primeiro), com vinte e três
mas o Sr. Calmon obteve permissão para construir belas e grandes soldados: na margem sul do rio Doce, estabeleceram-se dois quartéis
canoas de mar, que envia à Capitania e a outros lugares, carregadas para cima de Bom Jardim. O quartel de Ana dia possui doze sol-
com os produtos da fazenda e com muitos tipos preciosos de ma- dados; e o do Pôrto de Souza, que é o mais avançado, vinte homens.
deira, já freqüentemente mencionados. Há, em Linhares, oito gibões dos descritos acima, quatro em Pôrto
de Souza, e um em Anadia; os homens que os utilizam são obrigados
A fim de proteger tôda essa colônia dos ataques e crueldades dos a empenhar-se no primeiro ataque, em caso de ação.
Botocudos, estabeleceram-se, em diferentes direções, oito postos no
interior das florestas, os quais ao mesmo tempo se destinam a pro- O oficial comandante de Linhares tem uma tarefa muito penosa,
teger as ligações comerciais com Minas Gerais, ultimamente tentadas porque está obrigado, sem respeitar calor ou chuva, a visitar mensal-
~ente todos os postos, o que representa uma jornada de noventa
pelo rio acima. De fato, já tinham descid;, dessa província, soldados
em número suficiente, bem armados e providos de uma couraça defen- leguas. O Sr. alferes Cardoso da Rosa, que havia muito servia no
siva, chamada "gibão d'armas". Essas couraças, de que todos os postos lugar, manda os soldados dos quartéis patrulhar as florestas, para
possuem algumas, constituem proteção indispensável contra as flechas, a s_eg~rança d~s habitantes. Se encontram selvagens, dão alarma com
que o~ selvagens arremessam com grande fôrça. São largas, feitas ?Ois tiros se!?mdos, sinal a que acorrem todos em condições de mane-
de tendo de algodão e espêssamente acolchoados com várias camadas Jar uma espmgarda. Mas os selvagens atacam muitas vêzes as roças,
de paina; têm uma gola alta e dura, que protege o pescoço, e mangas e destarte Já mataram muitos habitantes de Linhares. Um fato dessa
curtas que cobrem a parte superior do braço; descem até os joe- o:dem aco~teceu bem recentemente em agôsto de 1816, no segundo
po~to de L_I~hares, onde, entretanto, um resoluto mineiro (nativo de
lhos, mas são incômodas por causa do pêso, sobretudo nas épocas de
calor. A vinheta dêste capítulo, na edição in-4to., mostra um par Mmas), ohoal subalterno, chefiou a defesa e repeliu os selvagens.
de soldados munidos dêsse protetor. A flecha mais forte, mesmo A população atual de Linhares compõe-se principalmente de sol-
quando disparada de perto, não penetra fàcilmente essa cota, e de d~dos, um al~eres, um cirurgião, um padre, e alguns colonos, que
nenhum modo tem fôrça bastante para produzir um ferimento sério. VIvem da agncultura. O padre, protegido, como nos disseram, do
E' verdade que a população tem nela confiança demasiada, porque
nos. asseguraram que mesmo uma bala não a consegue atravessar. pelos ~)to Dj>ols que estive em Llnhares, três soldados foram assassinados, nesse caminho,
norizadao d~u f~~~- em Abril de 1816 ; mais adiante se encontrará noticia mais porme-
A hm de convencer-me da verdade do asserto, mandei um dos meus
162 VIAGEM AO BRASIL VIAGEM AO RIO DOCE 163

governador Rubim, da Capitania, assumiu na colônia poderes que alguns Botocudos apareceram de súbito diante do segundo quartel
lhe não pertenciam, interferindo em todos os negócios, mesmo nos de Linhares, à beira do canal, e mataram um soldado a flecha. O
que não diziam respeito aos seus deveres oficiais; era muito temido, fato se deu poucos dias antes da nossa chegada, mas o cadáver não
porque vivia, alternadamente, aí e na Vila de Vitória, junto caiu, dessa vez, nas mãos dos Botocudos. Devido a essas circuns-
ao governador. tâncias e à estreiteza do canal, os colonos do rio Doce preferem a
Essa colônia, que se poderia tornar fàcilmente um dos pontos mais noite quando vão pescar no lago. ltste, cercado de margens monta-
importantes da costa oriental, era, ao tempo em que aí estive, diri· nhosas, tem perto de sete léguas de comprimento, de sudeste a noro-
gi_d~ de_ maneira cruel e errônea. Assim, as pessoas que quisessem este, meia légua de largura e de dezesseis a dezoito léguas de circunfe-
VIaJar unham de pedir permissão; não se permitia a nenhuma família rência. A profundidade é desigual, mas chega, em muitos pontos, a oito
consumir mais que uma garrafa de aguardente em três meses; e e doze toesas. Essa grande massa d'água é formada por um pequeno
muitas outras restrições análogas. O povoado, provàvelmente, teria rio312 e diversas correntes que se lançam no lago, vindos de NNO.
desaparecido, se não tivesse logo recebido socorro; com efeito, terei Desemboca, próximo a Linhares, através do canal referido, no rio
ocasião, na seqüência dessas viagens, de contar o que lhe aconteceu Doce, avolumando-se consideràvelmente quando os fortes ventos do
depois. sul lhe dificultam o escoamento através do mesmo canal. O fundo e
A estada no rio Doce foi, sem dúvida, uma das etapas mais as margens do lago são de areia fina, encontrando-se, aqui e ali, are-
interessantes das minhas viagens pelo Brasil; porque, à margem dêsse nitos ferruginosos. A cêrca de cinco léguas da entrada, fica uma pe-
rio, de cenários tão soberbos e tão notável do ponto de vista das quena ilhota de granito, que, devido à distância da margem, não
r~quezas naturais, tem o naturalista muito com que se ocupar e expe-
é visitada pelos selvagens, e oferece, por isso, seguro abrigo aos
nmentar as mais variadas e agradáveis emoções. Todavia, os frutos de pescadores".
nossa_s pesq_uisas teri;tm ~ido muito maiores, caso pudéssemos percorrer, Já em 1662, os Aimorés (Botocudos), Puris e Patachós foram men-
sem 1mped1mento e pengo, essas florestas ainda inexploradas. Dizem cionados por Vasconcellos entre as tribos tapuias do rio Doce; e embora
não ser fácil encontrarem-se paisagens mais deleitosas do que, por sejam os primeiros os verdadeiros senhores dessas paragens, os outros
exemplo, a da Lagoa de Juparanã•, extenso lago não longe de Linha- incursionam algumas vêzes até aí. O mesmo narrador também observa,
res, em comunicação com a margem norte do rio por meio de estreito com tôda razão, que alguns dos Aimorés ou Botocudos são quase
canal. ltsse belo lago é mencionado por muitos escritores antigos. tão brancos quanto os portuguêses. A desgraçada guerra sustentada
Sebastião Fernandes Tourinho, o primeiro a subir o rio Doce, em contra os Botocudos no rio Doce torna impossível conhecer de perto
1572, diz que topou um lago a oeste, que é com certeza essa lagoa; e estudar, nessa região, êsse notável povo; quem quiser vê-los aí,
apenas não coincide a direção do riacho que deságua no rio, nem a deve preparar-se para uma flechada. Porém mais ao norte, à mar-
cachoeira, além de que as distâncias são também diferentes. Consulte-se gem do Rio Grande de Belmonte, os habitantes vivem em paz com
a êsse respeito SIMÃo DE VAscoNCELLOS e a História do Brasil de êles, e, por isso, deixo tôdas as minhas observações sôbre essa interes-
SouTHEY. sante tribo de aborígines para o momento da minha visita a essa
O Sr. Freyreiss, que tornou a visitar Linhares alguns meses mai~ parte do país.
tarde, enviou-me a seguinte descrição de sua visita a essa lagoa, Linhares é ótimo lugar para o amante da caça: pois, quando
que reproduzo textualmente: "Um canal, que raras vêzes ultrapassa alvorece, os macacos se chegam tanto às casas, que se não precisa
sessenta p~s de largura, porém profundo, e de cêrca de légua e meia sair à procura dêles: os papagaios se reúnem em grandes bandos, e
de compnmento, conduz ao grande lago, onde o peixe é abundante. as magníficas araras são atraídas, na estação mais fria, por certas
As margens . do canal são ainda habitadas pelos Botocudos, outrora frutas. Estas grandes e lindas aves constroem os ninhos, todos os
chamados Aimorés, que possuem, mais ou menos a meio canal uma anos, na mesma árvore, desde que encontrem, ocos, um galho forte
passagem feita de cipós q_ue os portuguêses chamam impropria~ente ou tronco. São freqüentemente éaçadas; a carne é comida; as penas
de ponte. Essa ponte f01 cortada pelos portuguêses há vários anos das asas se usam para escrever, e, pelos selvagens, para enfeitar as
atrás, e os . selvagens não . procuraram repará-la; iludidos por êsse flechas, ou como adôrno. Na quietude, raramente perturbada, dêsses
fato, os habitantes estavam Imprudentemente tranqüilos, senão quando
(812) O rio a que aqui se faz referência deve ser o São José, tributário
do ângulo oeste-setentrional da lagoa. Visitei-o em setembro de 19U, atraldo pelo
( *) A palavra " Juparanã ", ou inelhor, "Juparaná" não provém da linguagem que se dizia de sua riqueza faunistica; todavia, multo pouco encontrei capaz de
d_os . ~ Botocudos ", q~e habitam es~ par~gel!_s. mas da "llngua geral " ; e "Paraná" lembrar essa época passada. Cf. A 1·quivos de Zoologia do Est. de S. Paulo, tomo IV,
SigmfiCa mar. ou mmta água. Essa lagoa nao está registrada no mapa de Arrowsmith. pp. 819-20 (1U45).
Faden menCionou-a pelo nome exato, mas não a colocou no verdadeiro local.
164 VIAGEM AO BRASIL

ermos não é difícil voltar para casa, à tardinha, com a canoa cheia
de caça; mas é preciso, em tôdas as excursões, estar sempre de guar-
da contra os selvagens. A experiência faz dos soldados de Linhares
bons conhecedores da maneira de perseguir um selvagem na floresta,
mas todos confessam que os Botocudos são caçadores muito mais
hábeis, e muito melhor conhecedores da mata do que êles; daí a grande VIII
precaução exigida por essa atividade e essas expedições às selvas. Em
geral, os mineiros (ou habitantes de Minas Gerais) são considerados
os melhores caçadores de selvagens, porque estão familiarizados com VIAGEM DO RIO DOCE A CARAVELAS,
êsse modo de vida e com as guerrilhas nas florestas, sendo, além
disso, um povo audaz e impetuoso. Em Linhares, a última entrada AO RIO ALCOBAÇA, E AO MORRO
importante contra os Botocudos, no último mês de agôsto, foi
chefiada pelo Guarda-Mor, que era um mineiro, banido de Minas
DA ARARA, DE VOLTA AO MUCURI
para aí; presentearam-nos com algumas armas e ornamentos dos
Botocudos, chegando mesmo a nos oferecerem uma criancinha, que Quartel de ]uparanã da Praia. - Rio e Barra do
fôra criada em Bom Jardim, depois que a mãe morrera em refrega. S. Mateus. - Mucuri. - Vila Viçosa. - Caravelas.
Satisfeito o fim de nossa visita a Linhares, despedimo-nos e conti- Ponte do Gentio, no ri_o Alcobaça. - Estada neste último.
nuamos viagem para o norte, ao longo da costa. Embarcamos numa
grande e cômoda canoa, que o tenente Calmon nos emprestou; e o
obsequioso proprietário teve a gentileza de acompanhar-nos. Na jor-
nada rio abaixo, visitamos o guarda-mor na Ilha do Boi, onde fêz
belas plantações de milho e mandioca. Percebemos logo, em sua casa,
que era mineiro, porque se alimentava mais de milho do que de farinha Depois de passarmos a noite com os nossos amigos no Quartel
de mandioca, o que constitui hábito característico dos habitantes de Regência, a muito custo, na manhã seguinte, a 30 de dezembro,
dessa província. Para reduzir o milho a farinha, fazem uso de um embarcamos os burros numa grande canoa, para passar o rio. Atra-
pilão, denominado "preguiça". O sr. Mawe deu uma figura dêle, vessamo-la nós em seguida, e à tarde, acompanhados pelos dois cava-
na descrição de sua viagem ao Tejuco•. Nossa canoa, muito segura lheiros de Linhares, fizemos a cavalo duas léguas ao longo da costa are-
e cômoda, provida de um tôldo, e bem suprida de provisões, levou-nos nosa e deserta, chegando ao Quartel de Monsarás, ou Juparanã da Praia,
em quatro horas à barra do rio Doce, à Regência, distância que nos onde servem sete soldados. Próximo a êsse quartel, existe uma longa
tinha tomado um dia e meio, quando subimos a corrente. e estreita lagoa, conhecida por Lagoa de Juparanã da Praia para
distinguir da muito maior, que fica perto de Linhares. No tempo
da cheia, a lagoa se comunica com o mar, nesse trecho da costa,
por um largo canal, que pode ser percorrido em canoas; então, porém,
estava sêco, e os animais carregados puderam atravessá-lo sem molhar
as patas. O quartel fica na praia, junto ao mar; logo por detrás
se estende a lagoa e, além, densas florestas, onde pudemos distinguir
grande número de palmeiras. Os soldados fizeram plan~ações f!-a.s
vizinhanças, de mandioca, milho e mesmo ótimas melanCias, suflcl-
entes para o seu próprio sustento. Possuem, além disso, algumas canoas,
e completam a alimentação caçando e pescando.
Encontramo-nos aí com um velho muito curioso, chamado Simão,
que, de longa data, morava quase segregado numa casinha . per~o do
quartel, sem nenhum receio dos selvagens. Embora mmto 1dos~,
ainda gozava de excepcional vigor e lucidez de espírito, sendo :_sti-
(*) J. MAWE's, Travels, etc., p. lU, com a gravura em cobre, sob o nome de "Sloth". mado por todos os vizinhos. ~le mesmo cuidava de suas plantaçoes,
166 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DOCE A CARAVELAS 167

era caçador e pescador consumado, e conhecia, em mmue1as, a região modo, deixar de passar os poucos lugares em que ela pode ser achada, e,
em derredor. Visitamo-lo diversas vêzes no pequeno eremitério, e por isso, um guia bem prático do caminho é de todo indispensável.
encontramo-lo, com as suas restritas necessidades, não só absolutamente Infelizmente, nenhum dos dois soldados tinha feito antes essa jornada.
satisfeito da vida, como, além disso, tão bem humorado e contente, Perdemos o primeiro lugar de aguada, chamado Cacimba de S. João,
que contagiava a todos com a sua alegria. Fêz-nos presente da pele mas encontramos o segundo, que é uma lagoa, num pequeno vale baixo,
de um grande tamanduá (Myrmecophaga jubata> Linn.) 31 \ aí deno- denominado Peringa, ao lado da estrada, quando, ao meio-dia, nos dis-
minado "tamanduá cavalo", morto por êle havia pouco. Em Mon- persamos em tôdas as direções, em busca de água: nós e os animais
sarás conseguimos outras raridades para as coleções de história natu- gozamos aí de algum refrigério. À tardinha, no local em que paramos,
ral; por exemplo, o Scarabaeus hercules31 4, o besouro· maior do Brasil, a procura foi infrutífera; não se encontrou nenhuma, e, por isso, não
que um soldado apanhou e nos trouxe vivo. Ulteriormente, um homem pudemos fazer uso das provisões, muito sêcas para serem comidas sem
trouxe, de uma vez, quatro a cinco cabeças dêsse raro escaravelho; água. Nosso único recurso, para matar a fome, foi comer um pouco
perguntando-lhe a causa da lamentável mutilação, soubemos que, em de farinha sêca de milho e os ovos de tartaruga, providencialmente
muitos lugares, as senhoras usam essas cabeças enfiadas em volta colhidos pelos soldados, os quais cozinhamos em água do mar. En-
do pescoço, como adôrno. quanto o pessoal se ocupava em procurar um pouco d'água e em apa-
A fim de obtermos a necessária escolta através dos ermos que nhar paus lançados na praia, descobrimos - que maravilha! -, a
se estendem até S. Mateus, dezoito léguas de extensão, pedimos ao curta distância da nossa fogueira, uma gigantesca tartaruga marinha
alferes, nosso companheiro, que nos cedesse dois soldados, como os (Testudo mydas> Linn.), que ia justamente pôr os ovos. Nada poderia
documentos, que recebêramos do ministro, Conde d'Aguiar, nos auto- ser mais bem-vindo à nossa esfaimada companhia; o animal parecia
rizava a solicitar. Tínhamos mostrado êsses documentos ao governa- ter aparecido expressamente para nos oferecer uma ceia. Nossa pre-
dor em Capitania, e lhe pedíramos assegurar-nos o pessoal indispen- sença não a incomodou; pudemos tocá-la e mesmo levantá-la, o que,
sável à consecução da nossa viagem. Neste ínterim, recebemos uma porém, exigiu a fôrça conjunta de quatro homens. Apesar de tôdas
carta dêle para o alferes de Linhares, autorizando-lhe a ceder-nos um as exclamações de surprêsa e das deliberações sôbre o que faríamos,
soldado. Considerando, no entanto, a extensão e a insegurança do a criatura não deu sinal de inquietação, a não ser uma espécie de
caminho até S. Mateus, ao próprio oficial pareceu muito temerário sôpro, mais ou menos como o ruído feito pelos patos quando alguém
expor um único homem ao perigo de voltar sozinho; as nossas ponde- se aproxima dos filhotes . Continuou a trabalhar como começara,
rações acabaram de convencê-lo, e conseguimos dois soldados para a cavando na areia, com os membros posteriores em forma de nadadeira,
escolta. Soubemos, depois, que o governador, muito injustamente, um buraco cilíndrico de oito a doze polegadas de largura; jogou
o punira com longa prisão: e lamentamos sinceramente ter acarre- a areia para os dois lados, muito regular e àgilmente, como se mar·
tado, a êsse digno homem, tão imerecido e severo tratamento. casse compasso, e começou imediatamente a pôr os ovos.
Tendo-nos despedido dos gentis amigos que nos acompanharam Um dos soldados deitou-se a fio comprido perto dessa fornecedora
assim tão longe, vencemos, no mesmo dia, seis a sete léguas ao longo da nossa cozinha, e foi retirando os ovos do buraco tão depressa a
do monótono litoral. Os dois soldados, um negro e um índio, paravam tartaruga os ia pondo; e assim reunimos 100 ovos em cêrca de dez
muitas vêzes para desencavar, n a areia, ovos de tartaruga, com que minutos. Pensamos em incorporar o belo animal às nossas coleções;
enchiam as mochilas. Embora isso nos desagradasse, porque as para- mas o grande pêso da tartaruga, que exigiria um burro só para
das nos atrasavam, tivemos, à noite, tôda razão para nos congratu- carregá-la, e a dificuldade de transporte de uma carga tão desajeitada,
lar com o fato. O trecho do rio Doce a S. Mateus, como já obser- levou-nos a poupar-lhe a vida, e a contentar-nos com os ovos. A
vamos antes, é uma solidão melancólica, na maior parte da qual nem vinheta do oitavo capítulo r~presenta com exatidão ~sta cena original.
mesmo água fresca se encontra; não se deve, portanto, de nenhum E-sses enormes animais, a midas e a tartaruga de concha mole
( 818) Myrmecophaua tridactyla Linn. (1758), nome vigente. Hoje, no Brasil, é
(Testudo mydas e coriacea), e bem assim a Testudo caretta ou Cau-
quase que exclusivamente conhecido por "tamanduá-bandeira". Multo encontradlço nos ane315, depositam os ovos, na areia, nos meses mais quentes do ano,
campos de Goiás e Mato Grosso. Incapaz de agredir, é temlbilisslmo na defesa, graças
às garras enormes e à vigorosa musculatura dos membros. Vem a talho referir, em apolo _( 81 5) As espécies aqui registrad as por Wied, apa recem usua lmente na litera tura
dessa asserção, o trlstissimo exemplo de um sertanejo, que conheci pela minha viagem zoológiCa_ atual com os seguintes nomes: Chelone mydas (Linn .), D ennatochely s <== Sphar-
ao Rio das Almas (Estado de Goiás), completamente aleijado, em conseqüência do rns) corwcea (Linn.), Caretta (Thalassochelys ) carett a (Linn.).
que me explicou, em lacônica resposta: "unha de tamanduá ". (V . Rev. do Museu _ Nos Beitrtiue (vol. 1, pp. 15 a 27) elas foram descritas com os nomes de, respec-
Paulista, XX , 1986). As referências a tamanduás feitas por Wled em seu relatório tlvamen~e, Caret~a ~esculenta, Sphargis mer c-urialis e Chelone i mbricata, devidos _
a Merrem.
de Viagem correspondem à presente espécie; não obstante, obteve êie no Mucurl (cf. Das tres, a pnme1ra e a última possuem carapaça ossifi cada, com revestimento de
Beitr ., 11, p. 589) um exemplar de • t a manduá-eolête", Taman du a t etradactyla Llnn. sub~tânc ia _córne.!' caracteristica; a segunda, que de tôdas é a mais ra ra e a que atinge
(814) Dynastes herculea da nomenclatura hodierna. ma10res d1mensoes, possui carapaça membranosa, sem revestimento de placas córneas.
168 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DOCE A CARAVELAS 169
sobretudo nesse trecho deserto da costa, entre o Riacho e o Mucuri; também a nós, europeus. Encontramos, do outro lado, um casebre
para êsse fim, dão à praia ao crepúsculo, arrastam-se pesadamente pela em ruínas, onde houvera um "quartel" (pôsto militar), próximo do
costa arenosa, cavam um buraco onde põem os ovos, enchem-no de qual existia muito boa água fresca.
areia, calcam-na e, uma ou duas horas depois do ocaso, voltam para Alguns índios tinham pernoitado no lugar, provàvelmente em
o mar. Foi êsse o caso da tartaruga que tão generosamente nos busca de ovos de tartaruga e de peixe, de que há fartura em Barra
supriu; quando tornamos à praia algumas horas após, tinha-se ido; Sêca; também se estendem, pelos arredores, "campos" extensos (tre-
tapara o buraco, e o largo rasto, deixado na areia, mostrava que vol- chos abertos, despidos de vegetação), muito bons para criação de gado.
tara para o seu meio natural. Uma só tartaruga dessa espécie pode As choças dos índios (ranchos) feitas de fôlhas de palmeira, ainda
fornecer, com os ovos, abundante repasto a todo um bando; porque, podiam ser vistas. ~? meio-dia, desc~brir~:ws uma caverna, na qual
segundo parece, a midas chega a pôr, de uma vez, dez a doze dúzias, havia uma queda d agua fresca e cnstahna, descoberta que, nesse
e a de concha mole, de dezoito a vinte. ~sses ovos constituem muito momento, era para nós de valor inestimável. A tarde e a noite passamos
bom alimento, e são, por isso, àvidamente procurados no litoral deser- de novo na costa deserta: a Remirea littoralis311 formava alguns pon-
to, pelos índios, como pelos brancos nas cercanias da colônia. tos verdes no areal; mas as palmeiras anãs eram numerosas, e mais
Nossa frugal ceia logo terminou; acendemos, a seguir, várias fo- para o interior, e:gu~am:se grande~ flo~estas ... Nada, além • do
gueirinhas entre os bosques de palmeiras anãs, a fim de afugentar rasto de feras na are1a, md1cava que seres v1vos V1s1tassem, por vezes,
as feras de perto dos burros. Na manhã seguinte, descobrimos na essas paragens. Mal tínhamos água para beber, e, conseqüentemente,
areia pegadas recentes de um grande felino que estivera rondando muito pouco para comer. Com a aproximação da noite, uma sólida
pelos arredores, durante a noite. O velho Simão assegurou-nos que e segura choça de fôlhas de coqueiro, para cuja construção todos nós
a onça preta, ou tigre negro (Felis brasiliensis) 31 6, chamado por Azara trabalhamos, estava pronta. Esperávamos descansar das fadigas do
"Yaguarété noir", não é rara nessas paragens: os portuguêses a conhe- dia; mas nuvens de mosquitos nos atormentaram tanto, que nem se
cem por "tigre" ou "onça preta"; Koster•, em sua viagem, também pôde pensar em dormir. Desgraçadamente, não pudemos fugir dêles
se refere a êsse formidável carnívoro, porém, o apelida Felis discolor, para o ar livre, devido ao pesado aguaceiro que caiu. Na manhã
- nome impróprio, porque só tem realmente uma côr. Parece mais
correto dar-lhe um nome de acôrdo com o país de origem, porque se
seguinte, descobrimos que os burros tinham voltado, em busca ?e
água, para a cascata onde saciaram a sêde no dia anterior, pelo melO-
encontra exclusivamente no Brasil; mesmo Azara nos informa que dia; e perdemos doze horas até conseguir recambiá-los; felizmen~e
o não viu no Paraguai. Pensamos ter ouvido os urros dêsses animais; os animais de sela não foram tão longe; por isso, recapturamo-los ma1s
mas o nosso sono não foi interrompido, e retomamos a viagem, cedo, cedo e cavalgamos na frente.
na manhã seguinte. A tardinha, chegamos à barra do S. Mateus, rio de tamanho ~egul~r,
A 1.0 de janeiro, dia em que nossa terra fica geralmente amor- de margens aprazíveis cobertas de mangues (Conocarpus e Avtcennza)
talhada em gêlo e neve, já às sete horas tínhamos uma ardente soa- e, mais além, de florestas. Duas lanchas (barcos pequenos) estavam
lheira, e, ao meio-dia, o calor era demasiado e intolerável. Na tarde ancoradas à margem sul; na margem norte fica a povoação chamada
anterior, quando a sêde nos afligia tanto, havíamos parado, sem o Barra de S. Mateus, constituída de vinte e cinco casas. O rio desce
saber, perto de água muito fresca; pois mal tínhamos uma hora de de florestas seculares, infestadas de tapuias, e forma diversas cachoei-
marcha a cavalo, e atingíamos Barra Sêca, saída de uma lagoa para o rinhas, sendo navegável, por sumacas, cêrca de nove léguas para o
mar. Em certas épocas é tão rasa que quase se interrompe, e se pode, interior. As margens são o trecho mais fértil da "comarca", porque,
junto à praia, atravessar a pé enxuto. Ao tempo, entretanto, o nível ao que parece, as formigas não fazem aí tanto estrago; nas florestas,
d'água estava alto, e fomos obrigados a vadear o profundo e veloz há abundância de jacarandá, vinhático, putumujt..t, sergueira e outras
canal, o que nos atrasou bastante. Descarregamos todos os animais; madeiras úteis.
os índios e os negros, habituados à água, despiram-se e, depois de Recebe o S. Mateus uma porção de pequenos rios, dos quais o
transportarem, na cabeça, as caixas para o lado oposto, levaram-nos Rio de Santa Ana, o Rio Prêto, ou Mariricu, e o S. Domingos
(*) KosTER's, Travels, etc., p. 102.
são os mais importantes. Estava, então, profundo, porque era a
época da cheia e talvez por isso ninguém daria atenção aos nossos
(816) Até então, estava o autor convencido de que a onça preta constituía um.a chamados e tiros, para que nos viessem buscar em canoa. Perambu-
espécie particular, diferente da onça pintada, pelo que lhe propusera o nome de Fel•s
brasiliensis; mas, ao tratar do assunto nos Beitrtige (vol. 11, p. 858) , já não tinha
dúvida de que a primeira é simples variedade melânica da última, opinião de há (317) Remirea marítima Aubl., ciperãcea comum em multas praias da costa atlân-
muito partilha da por todos os zoologistas (vide a nota 308 ) . tica e outrora usada na medicina caseira.
170 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DOCE A CARAVELAS 171

lamos muito tempo entre as pequenas matas e pela areia, e sentíamo- tos de chumbo velho e ferro, adaptou-lhe um gatilho de espingarda,
nos quase resignados à penosa contingência de passar a noite onde nos colocou-o na picada estreita por onde os selvagens costumavam vir em
achávamos, quando uma canoa, conduzida por dois escravos negros, coluna, puseram um pedaço de pau atravessado na trilha, ligando-o
veio e nos tomou. Nossa "tropa" só chegou tarde da noite; estavam, ao gatilho por meio de um cordão. Os tapuias apareceram pelo
porém, os dela, mais preparados para acampar, porque tinham alimento, crepúsculo e pisaram o pedaço de pau, como se esperava. Quando a
fogo e cobertores, e havia uma linda queda d'água, perto da costa, para gente da fazenda correu ao local para ver o resultado, encontraram
lhes aplacar a sêde. o canhão arrebentado e trinta índios mortos e mutilados, alguns ainda
Na pequena povoação de Barra de S. Mateus, alojamo-nos em no lugar, outros espalhados pela mata. Dizem que os gritos dos fugi-
uma venda, cujo dono era intitulado Capitão Regente. Nossos do- tivos se ouviam a grande distância em redor. Depois dêsse 'horrível
cumentos, e as recomendações do ministro, garantiam-nos, em tôda massacre, parece que a "fazenda" nunca mais foi incomodada pelos
parte, muito boa recepção. Segundo Arrowsmith, a "barra" do rio selvagens.
S. Mateus fica a 18°15'; segundo outros, a 18°50'; havendo mesmo No rio S. Mateus, cujo nome brasileiro original é Cricaré, encon-
diferenças maiores. A última posição parece a mais certa, de vez que tra-se um animal raro, que até agora só foi encontrado em muito
no lugar em que ficaria o S. Mateus por aquêle mapa, o Mucuri deve poucos rios da costa oriental. Trata-se do manati, ou "peixe-boi" dos
lançar-se no oceano. Aproximadamente oito léguas rio acima, ergue- portuguêses. A história natural dêsse curioso bicho é ainda obscura
se a vila de S. Ma teus, cuja situação não deve ser muito salubre, em muitos pontos; é bastante freqüente no rio em questão, dizendo-
devido aos pântanos vizinhos- Tem cêrca de 100 casas, possuindo o se que algumas vêzes sai para o mar e se dirige, ao longo do litoral,
distrito perto de 3 000 habitantes, incluindo brancos e gente de côr. para outros rios; assim, por exemplo, já foi capturado no Alcobaça.
Apesar de ser uma das vilas mais novas da região de Pôrto Seguro, Em S. Mateus, o refúgio preferido do manati é uma lagoa densa-
acha-se em situação próspera. Os habitantes cultivam grande quanti- mente coberta de caniços e gramíneas outras. Não é sem dificuldade
dade de mandioca, exportando, anualmente, 60. 000 alqueires de que pode ser caçado. O caçador, num pequeno barco, rema atenta e
farinha; bem como toras de madeira provenientes das florestas vizinhas. silenciosamente entre os caniços e o capinzal; se vê o bicho com o
Somente oito léguas, subindo o rio, além da cidade de S. Mateus, se dorso acima d'água, como acontece habitualmente quando está pas-
encontram terras cultivadas; isto é, no quartel de Galveias, último tando, aproxima-se com cautela e arremessa-lhe um arpão ligado a
pôsto militar estabelecido contra os selvagens. Cêrca de meia légua uma corda318. O manati fornece grande quantidade de gordura e a
rio acima, fica a povoação de Santa Ana, formada por, mais ou me- carne é apreciada. O osso timpânico do ouvido é tido como remédio
nos, vinte famílias de índios, somando setenta pessoas. Um Botocudo poderoso pelo povo ignorante, e comprado a alto preço. Embora
foi morto em Santa Ana pouco depois de nossa partida. Era um fizesse, constantemente, grandes promessas, durante a minha estada
homem idoso e usava grandes batoques de madeira nas orelhas e no de três a quatro meses na região, com o intuito de obter um dêsses
lábio inferior. O Sr. Freyreiss, que de novo visitou o lugar em animais, falharam as minhas esperanças, e fui obrigado a conten-
fevereiro, trouxe o crânio dêsse selvagem, que está agora em poder do tar-me em ver, ao voltar do Brasil, os manatis empalhados do gabi-
professor Sparrmann. nete de História Natural de Lisboa.
Nas matas à margem do rio S. Mateus, os índios não civilizados Além dêsse curioso animal, o rio S. Mateus tem abundância de
("tapuias" ou gentios) são muito numerosos, e vivem em constante peixes. Muitas espécies de um gênero chamado "piau", sobretudo a
guerra com os brancos. Ainda durante o último ano mataram dezes- que, pelo de que se alimenta, é conhecida por "piau-de-capim"3I9
sete pessoas. A margem norte é freqüentada pelos Patachós, Cumana- se encontra, no tempo da cheia, principalmente nos campos inun-
chós, Machacalis (os portuguêses os conhecem por Machacaris, mas dados. Por aí remam, em canoas pequenas e leves, os índios civili-
êles não sabem pronunciar bem o r) e outras tribos, até Pôrto
Seguro. Os Botocudos são também numerosos, dizendo-se que domi- (318) O "peixe-boi" (Trichechus inunguis (Pelzeln, ex Natterer MS.)) já foi referido
no Rio Doce, páginas atrás (nota 296). Atualmente é muito problemático que ainda ocorra
nam principalmente a margem sul; são temidos pelas outras tribos, em qualq_?er dos rios da costa oriental do Brasil. No próprio Amazonas, onde foi
e considerados inimigos por tôdas, que, dada a inferioridade de nú- outro_ra tão abund~~;nte, é já hoje bem diflcil caçá-lo; não virá longe o dia em que a
espécie se possa_ tnstemente dizer extinta de todo, a menos que venha em seu socorro
mero, fazem causa comum contra êles. As plantações de uma fazenda adequ~da proteçao. Sôhre os hábitos e os modos de eaptura dês e animal, encontra-se
minuCioso relato em José Verlssimo, " Pesca na Amazônia" (Fr. Alves edit., 1895, p. 48 e ss.).
situada rio acima eram comumente pilhadas pelos selvagens, até que o
. (319) A ~spécie é de identificação diflc 11. Deve todavia incluir-se no gênero Lepo-
proprietário imaginou um meio curioso de livrar-se dos aborígines hos- r~nus (da faml~a. Tet~?gonopteridae, ord. Caracii{ormes), cujos numerosos representantes
s~ ch~mados p1ahas ou "piavas" no sul, e " piaus" no norte e centro do Brasil.
tis. Carregou um canhão de ferro, que havia na fazenda, com fragmen- São peixes de escama e bastante reputados como alimento.
172 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DOCE A CARAVELAS 173
zados, flechando o peixe referido. Encontra-se em muitos lugares, e vestem-se à moda natal, e executam as danças nacionais. Pode obser-
entre os índios, essa espécie de caça ao peixe. O arco usado tem var-se isso, por exemplo, no Rio de Janeiro, num lugar próximo da
de dois e meio a três pés de comprimento, do tamanho do arco cidade, reservado para êsse fim.
denominado bodoque, empregado para arremessar pelotas; a flecha, Na fazenda das ltaúnas, encontramos um jovem Puri, que fôra
de cêrca de três pés de comprimento, é de taquara, tendo a ponta de criado pelo ouvidor; já falava português, e diziam ser muito dócil.
pau ou ferro, com uma farpa de cada lado. As poucas palavras que lhe sabíamos da língua nativa, conquis-
.. . Aproximadamente a meia légua de S. Mateus, o pequeno rio Gua- taram-nos logo a sua confiança. Lamentamos não ter conosco o nosso
pnttba desemboca no mar. Costuma-se embarcar nêle e subir três puri de S. Fidélis, que ficara atrás, à margem do Jucu. Itaúnas
léguas até a fazenda das Itaúnas, que pertence ao ouvidor da co- é uma fazenda de criação, com um curral ou cercado para o gado, e
marca de ~ôrto Seguro, o Sr. Marcelino da Cunha. As margens do uma miserável choupana para negros e índios que tomam conta dos
pequeno no, então caudaloso, são vestidas de vegetação densa; perto animais. O proprietário reunira, aí, algumas famílias de índios, para,
do mar ela é. formada principalmente pelos mangues, cuja casca se com o tempo, formarem uma colônia; destinavam-se, a princípio, a
usa para curtrr couros. A água é barrenta, como a da maioria dos proteger a costa contra os tapuias e Itaúnas e, por isso, conside~ado
pequenos córregos da mata, no Brasil, e o peixe é abundante; quando um quartel. Alguns índios, que por acaso iam pelo mesmo cammho
passávamos, alguns pescadores tinham justamente pescado uma canoa nosso, acompanharam-nos para o norte, vindos de Itaúnas. Le-
cheia. Saltamos numa roça deserta e parecendo abandonada, onde vavam as espingardas de caça, e conheciam perfeitamente a região.
esplêndidos ananases (Bromelia) medravam selvagens, grandes, suma- Passamos entre duas pequenas correntes, o riacho Doce e o rio das Ostras,
rentos e cheirosos. Abacaxis bons de comer não se encontram no ambas insignificantes, mas que, saindo dum pitoresco cenário de ver-
Brasil em estado selvagem, mas são fartamente cultivados nos sítios, dejante floresta encimada de belas palmeiras, formavam romântica
vingando tão vigorosamente como plantas silvestres. Utiliza-se também paisagem.
êsse fruto para a fabricação de aguardente; para o mesmo fim é em- Atingimos, pouco além, um local onde tapuias hostis foram vistos
pregado ainda o fruto do cajueiro (Anacardium). Esta árvore cresce em muitas vêzes. O lugar se chama "os Lençóis", porque, numa ponte
todos os trechos arenosos da costa oriental do Brasil. Assemelha-se à nossa rochosa, trechos de areia branca refulgente se intercalam com a relva
macieira; possui ramos vigorosos e as fôlhas se dispõem isoladamente, parecendo assim, do mar, que brancos lençóis foram aí estendidos.
dando, por isso, muita pouca sombra; a flor é pequena, de uma viva Os Patachós, habitantes dessas paragens, havia muito viviam pacifi-
c~r avermelhada; o fruto escuro e reniforme cresce ligado a um pe- camente, quando um dos seus foi morto, razão por que recomeçaram
dunculo carnudo, do tamanho e forma de uma pêra. Come-se esta as hostilidades. Perto do rio das Ostras, encontramos acidentalmente,
parte do fruto, de sabor um tanto ácido e adstringente. A castanha32o na praia, próximo do mar, um jacaré de cêrca de cinco pés de com-
é assada, ficando então muito boa, mas deve ser primeiro descascada. primento, que com certeza tencionava ir, por terra, de um rio a outro,
O suco da parte carnuda, sendo diurético, é bastante eficaz nas doenças sendo por nós surpreendido durante o percurso; tinha, à direita, o
venéreas e na hidropisia . penhasco rochoso, o mar à esquerda, e, impossibilitado de arredar cami-
. A jornada, à tardinha, tornou-se extremamente agradável, porque nho, ficou imóvel. Depois de muito instigado com uma vara, tentou
derxamos de ser atormentados pelos mosquitos, que muitas vêzes nos morder, mas pôde ser atacado sem perigo. ~sse animal, tão ativo
estragaram as mais belas tardes. Matas imponentes e sombrias for- e ágil quando novo, parece lerdo na velhice, arrastando-se vagarosa-
mavam grupos pitorescos nas margens, e o brilhante plenilúnio, em todo mente sôbre o chão. Depois de viajarmos cêrca de duas léguas, chegamos
o esplendor, veio completar o encantamento do quadro. Aproximan- ao ribeirão Barra Nova, onde há uma pequena povoação de algumas
do-nos da fazenda, ouvimos, distantes, os tambores dos negros. Os casas, construída numa eminência de moderada altura, porém íngreme.
escravos negros. procu~am cons~rvar os costumes do seu país tanto Paramos aí para descansar durante as horas de maior calor; e alcan-
quanto lhes seja possrvel; assim, por exemplo, encontram-se entre çamos, no lusco-fusco da tardinha, a foz do Mucuri, rio não muito
êJes todos os instrumentos de música referidos pelos viajantes da Africa, grande, que vem de densas florestas; os mangues marginais fazem-no
desempe~hand? o tambor papel predominante. Onde quer que muitos muito aprazível.
negros vivam JUntos numa fazenda, celebram as suas festas, pintam-se A vila de S. José do Pôr to Alegre, comumente denominada de
(320) No original "d.en _schwartzen Kern" . O têrmo "castanha", conquanto 0
M ucuri, está situada na margem. norte do rio, perto da foz. E' um lugar ·
saibamos usado <;Iesde _os pnme1ros tempos da colonização portuguêsa, através de Gabriel pequeno, constituído de trinta a quarenta casas, no meio das quais se
Soares e de Card1m, nao aparece n«? texto do principe de Wied. No interior de São Paulo, ergue uma capelinha, e forma um quadrilátero, aberto do lado pró-
ouvi dizer que a castanha de CaJu é popularmente conhecida pelo nome de "careta".
174 VIAGEM AO BRASIL
DO RIO DOCE A CARAVELAS 175
ximo ao oce~no. As casas são pequenas e quase tôdas cobertas de
palha; ~arneiros; P?rcos e ca.bras criam-se no largo que fica no centro. batizara muitos dêles. A aldeia há muito tempo não existe, tendo o
Os habita_?tes, mdws a mawr parte, são pobres e não comerciam; chefe morrido; mas, no local em que estêve situada, bananeiras e outras
algumas vezes, entretanto, exportam um pouco de farinha de mandioca plantas crescem em estado .selvagem, s.endo agora ~tili~adas p~los ín~ios
não h.a~endo, ~orém, engenhos de açúcar à margem do rio; apena~ nas suas excursões. Depois de uma JOrnada de cmquenta dias, o ca-
o ~scr~vao da v~la vende um pouco de aguardente e outros artigos de pitão" atingiu o litoral, e aí descobriu que seguira o curso do Mucuri,
pnmexra necessidade. Também existe aí um padre, e dois dos habi- e não do S. Mateus, como havia suposto. A viagem esbarrou em
tant~s exercem, alternadamente, a função de juiz, como em quase tôdas grandes obstáculos. Muitas vêzes as provisões faltara~; não ha~ia
as vilas do Brasil. animais para caçar e a pesca era pouco fru.tuosa. Ma~ttgavam, ~ntao,
raízes e frutos, ou arranjavam-se com palmito e mel silvestre, ate que
O padre Vigário Mendes, sacerdote do lugar, é, na zona, a umca
um acaso feliz lhes pusesse algum animal no caminho. Por felicidade,
pessoa que possui uma fazenda de tamanho razoável. E' dono de
não encontraram os Botocudos que vivem nas altas paragens dessa flo-
a.lgumas vacas, que lhe suprem de leite, verdadeira raridade nesse
resta, mas toparam-lhes, muitas vêzes, os ranchos abandonados, e che-
htoral. . <? Sr. Mendes, a quem fomos particularmente recomendados
garam mesmo a pensar que eram espreitados por êles. Os numerosos
p~lo. mimstro ~onde da Barca, recebeu-nos muito gentilmente. O
soldados-índios foram muito úteis ao capitão, como caçadores e como
mmistro possm aí, às margens do Mucuri, consideráveis trechos de
guardas contra os selvagens; porque entre o pessoal havia capuchos ~
terra, tendo-se tomado medidas para protegê-los dos selvagens.
outros, e até um botocudo, que fôra criado pelos portuguêses. Esti-
. Nas matas ~a região abundam os mais valiosos tipos de madeira. veram a pique de perder tôda a bagagem nas quedas do Mucuri, quatro
A fim de aproveitá-las, pretendeu-se instalar uma serraria· e um cons- dias de viagem rio acima. Construíram uma jangada de troncos de
trutor da Tur~ngia, de nome Kramer, foi contratado par; isso. Quase árvores para transportar as armas, as provisões, as ro':pas, etc., mas a
t?das. as ~~d~1ra~ da ~os ta oriental aí se encontram: jacarandá, oiti- jangada foi carregada pela correnteza, e tôda a carga JOgada fora dela
oca•. Jeqmtiba, vmhático, cedro, ~aixeta: ipê, p~roba, putumuju, pau- ao roçar pelos arbustos das margens; só com grande dificuldade, con-
brasll, etc. Como, porém, a reg1ao estivesse amda totalmente domi- seguiram pescar as armas de fogo.
nada p:los Patac?ós e ~el.as feras, e, por isso, até então não se pudesse Nos últimos dias dessa intrépida e perigosa viagem através da mata,
con~trmr a serrana, o mmistro ordenou ao sr. José Marcelino da Cunha, os viajantes ficaram reduzidos à fome absoluta; já estavam quase
o~v1dor da comarca de Pôrto Seguro, que fôsse para ali, reunisse 0 exaustos, quando atingiram inesperadamente, abandonada, a última
numero de braços necessários para abrir uma fazenda fizesse as plantação que existe à margem do rio, e pert~nce a Morr? d:Arar~,
plantações requeridas pelo sustento dos moradores e es~ravos, e os cêrca de dois dias de jornada da vila de Mucun. O bando mtetro ati-
pro~e~esse contra os ataques dos tapuias. Sucedeu, casualmente, que o rou-se vorazmente às raízes cruas de mandioca, entre as quais, desgra-
capttao Bento Lourenço Vaz de Abreu Lima, habitante de Minas Novas, çadamente, havia uma grande porção de "mandioca brava", espécie
que penetrara, ~as fronteiras da capitania de Minas Gerais, até às mar- venenosa•. Vômitos violentos, que foram a conseqüência, enfraque-
gens do Mucun, através das matas, tinha alcançado o litoral justa- ceram ainda mais os desencorajados aventureiros, quando alguns .dos
mente nesse mom~n.to. Seu aparecimento inesperado na vila de Pôrto caçadores tiveram a boa sorte de matar uma. gran?e anta (Tapm!'s
Alegre levou o mmtstro a dar outra ordem ao ouvidor; a de fornecer americanus), que forneceu a todos substanoal alimento. No ~1a
a êsse empreended?r mineiro o pessoal necessário para a construção de seguinte alcançaram a meta da corajosa emprêsa, e .entraram ~a vila
uma. estrada. transttável através das florestas, seguindo a rota tomada de Mucuri, entre as aclamações festivas dos habttantes. T~nha-se
por. ele. Ttve. o prazer de encontrar êsse homem interessante, e de agora decidido abrir uma estrada através. dessas florestas, segum~o a
ouvir-lhe, de v1va voz, os pormenores. da aud~z e perigosa emprêsa. picada do capitão; só esperavam, para 1sso, a chegada do ou~tdor.
Ocupando-se em procurar pedras precwsas, e VIvendo constantemente Para a derrubada, aos poucos, foram chegando, de S. ~ateus, Vtç?sa,
na ~ata, r:solveu varar por êsses sombrios e intrincados ermos, descendo Pôrto Seguro, Trancoso, e outros pontos da costa onental, mmtos
? no qu~ ele pensava ser o S.. Ma teus. Durante vários anos foi abrindo, homens, na maior parte índios, enviados com êsse objetivo.
as pró~nas expensas, uma picada através das matas; e quando o tra- Entre as montanhas de Minas Gerais e a costa oriental fracamente
balh? tmha tomado certo ~vanço, empreendeu a viagem a pé com vinte povoada, estendem-se ermos imensos, onde perambulam muitas hordas
e dois soldados e volu~tá~ws armados: Enco~t~ou a aldeia do capitão das tribos selvagens de aborígines, que, com tôda certeza, ainda per-
Tomé, famoso ~hefe. mdw que reumra abongmes de diversas tribos
nas florestas do mtenor, no alto Mucuri; nesse lugar já anteriormente (*) Até o suco dessa espécie de mandioca é nocivo e mata animais, como por
exemplo carneiros, conforme nos conta KoSTER (p. 870).
176 VIAGEM AO BRASIL

manecerão muito tempo insubmissas aos portuguêses. Tomaram-se


medidas para a construção, em diferentes rumos, de estradas através
dessas brenhas, a fim de facilitar o transporte dos produtos de Minas para
o litoral mais pobre e escassamente povoado, e garantir-lhe comunica-
ção mais rápida com as principais cidades e o mar. Constituindo os rios
as comunicações mais curtas, resolveu-se fazer as estradas ao longo
dêles. Uma foi aberta à margem do Mucuri, outra do Rio Grande de
Belmonte, uma terceira do Ilhéus, e duas mais estão sendo feitas à beira
do Espírito Santo e do Itapemirim, para Minas.
As florestas próximas do Mucuri são principalmente habitadas
pelos Patachós. Só acidentalmente andam os Botocudos por êsse trecho
da costa. Não obstante, encontram-se ainda nessas solidões muitas
outras ramificações dos tapuias; nos limites de Minas, os Maconis, os
Malalis e outros vivem em povoados fixos. Os Capuchos, os Cumanachos,
Machacalis e Panhamis também perambulam por essas matas. Parece que
as últimas quatro tribos se aliaram com os Patachós, para que assim
unidos possam fazer frente aos Botocudos, mais numerosos. A julgar
pelas semelhanças de linguagem, maneiras e costumes, as referidas tribos
parecem ter entre si estreita afinidade. Há vinte anos atrás, o capitão
Bento Lourenço batizou muitos dos Maconis e dos outros quando estêve
entre êles. Alguns, atualmente, se estabeleceram à margem do Mucuri,
porém outros vivem, segundo se afirma, mais para o norte, junto ao rio
Belmonte. Essa tribo tem, no rio Doce, a fama de ser extremamente feroz,
se bem a não mereça, de acôrdo com outras versões. Os Malalis, tribo,
agora, muito pequena, habitam o alto rio Doce, perto do destacamento
de Peçanha, tendo-se estabelecido aí, sob a proteção dos Portuguêses,
a fim de se defenderem dos Botocudos inimigos. As línguas das duas
tribos em questão, das quais se encontrarão exemplos no apêndice ao
segundo volume destas descrições de viagem, diferem grandemente das
demais tribos. Como disse, as cinco tribos aliadas possuem afinidades
nas maneiras e costumes. Fazem habitualmente um orifício no lábio
inferior, metendo por êle pequeno pedaço de bambu curto e fino, uma
de cujas extremidades pintam de vermelho com urucu. Usam curtos
os cabelos no pescoço e sôbre os olhos; alguns usam-nos rente em
quase tôda a cabeça. A maneira de todos os tapuias, pintam o corpo
de vermelho e prêto. Todos êles acreditam que o trovão seja a voz
de um ser poderoso, a quem chamam Tupã, palavra comum a muitas
tribos, entre as quais a dos Puris, e que é usada mesmo pelas tribos
tupis no litoral. Parentes próximos nunca se casam, mas, afora isso,
não seguem regras, obedecendo inteiramente às próprias inclinações.
As mulheres jovens consideram a pintura do corpo como o melhor
meio de agradar os homens moços, razão por que trazem geralmente
consigo um pouco de urucu•. Os Patachós, à margem do Mucuri,
(*) Além das tribos aqui enumeradas, a Oorografia Bradlica, t. II, p. H,
menciona outras como habitantes dessas paragens, cujos nomes, porém, nunca ouvi
na costa oriental.
DO RIO DOCE A CARAVELAS 177
têm-se mostrado, até agora, hostis; não havia muito, tinham assassi-
nado um índio à porta da própria casa, na fazenda do Sr. João Antônio.
Decorridos dez dias, prosseguimos a viagem. Quando deixamos
o Mucuri, a noite estava agradável e fresca e a lua-cheia refulgia
deslumbrantemente; o suave e acariciante clarão refletia-se na lumino-
sa superfície do mar sereno, compensando-nos da monotonia do cami-
nho ao longo do litoral, arenoso e plano. Enquanto isso o grande
bacurau •a 21 esvoaçava sôbre nossas cabeças, mas, infelizmente, a uma
altura a que não alcançava a espingarda de caça.
A cinco léguas do Mucuri fica o rio Peruípe; antes de se atingir
a ponta formada pela costa, a estrada se dirige para Vila Viçosa. Aí
perdemos o caminho, e fomos parar na bôca do Peruípe, onde encon-
tramos, esparsas, cabanas de pescadores. Tivemos que voltar. Era
1.. pleno dia, quando, saindo das capoeiras, entramos num campo verde-
jante à margem do rio, e vimos, sob um encantador coqueiral, a Vila
""
I: Viçosa, formada por cêrca de 100 casas. Um edifício branco, desta-
cando-se, pelo tamanho, das construções acachapadas circunjacentes,
""
1:;
c se reconhecia logo como sendo a Casa da Câmara, ou Edifício Real;
1,)

<::! dirigimo-nos para lá, e encontramos o ouvidor em companhia de dois


;:
capitães navais, José da Trinidade e Silveira José Manoel de Araújo,
..""
1>0
;:
que, conforme se disse, foram contratados pelo govêrno para fazer um
levantamento astronômico dêsse litoral e organizar uma carta. O sé-
t"" qüito do ouvidor era o mais misturado possível; pois, além de alguns
~
<I> portuguêses e escravos negros, incluía dez ou doze jovens botocudos de
"'<:l
., Belmonte, e um rapaz Machacali .
c O aspecto dos Botocudos causou-nos indescritível espanto; nunca
:.:>
c víramos antes sêres tão estranhos e feios. Tinham o rosto enorme-
<I>
mente desfigurado por grandes pedaços de . pau, que trazem no lábio
c
..::: inferior e nos lobos das orelhas: destarte, o lábio inferior fica muito
.E
z projetado para a frente, e as orelhas de alguns pendem como asas
largas sôbre os ombros; os corpos bronzeados estavam completamente
~~ sujos. Já eram muito íntimos do ouvidor, que os tinha sempre em
casa, a fim de lhes conquistar cada vez mais a confiança. Dispunha
de algumas pessoas que falavam a língua dos Botocudos, e deixou-nos

(*) Essa ave é urna e§pécie ainda não descrita do gênero, denominada por mim
Caprimulgus aethereus, porque sobe a grande altura no espaço, planando como um
gavião. Tem 22 polegadas de comprimento; plumagem côr de ferrugem, com manchas
pardo-escuras e anegradas. As pequenas coberteiras superiores da asa formam uma
mancha pardo-escura. Uma Usta transversal castanho-escura limita no baixo do peito.

(821) Nyctibius aethereus (Wied). Ao prlncipe de Wied cabe efetivamente a desco-


berta dêste "urutau ", que êle todavia confunde nos Beitrtige (vol. I li, p. 80S) com a
espécie descrita por Spix sob o nome de Caprimulgus longicaudatus. Depois de Nyctibiua
grandis (Gmelin), que ocorre também na mesma zona, e fAcilmente se diferencia pela
sua plumagem, cinzenta muito mais clara, é a maior espécie do gênero, a cujos represen-
tantes o povo aplica ainda, conforme os lugares, os nomes de "mãe da lua", "chor!'
lua", etc. Traço notável da biologia de tôdas as espécies de Nyctibius é o seu admi-
rável mimetismo protetor, referido por todos os observadores familiarizados com os. seus
hábitos e confirmado por mim, anos atrás, em curiosas circunstâncias, quando em viagem
de exploração ornitológica no rio Jucurucu. Cf. Rev. Mus. Paul., XVII, 2.• parte, pág. 182.
178 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DOCE A CARAVELAS 179

ouvir amostras do canto dos · selvagens, parecido com um uivo desar- parece gostar de água salgada, porque viceja melhor na areia varrida
ticulado. Muitos dêles tinham tido varíola havia pouco; ainda esta· pelo vaivém das ondas•. O espessamento existente na base do tronco
~am completamente c_obertos de cicatrizes e crostas, que, somando-se dessa espécie, quando nova, fá-la fàcilmente reconhecível. Navegan-
a grande magreza trazida pela doença, aumentavam ainda mais a feal- do-se para Caravelas, os olhos se comprazem, muitas vêzes, com a
dade natural. encantadora vista de altaneiros coqueirais, sob cuja sombra densa surgem
as pitorescas habitações campesinas. Tôda a costa coberta de man-
. A varíola introduzida na região pelos europeus, é extremamente
gues (Conocarpus e Avicennia), cuja casca é de grande uso em curtume,
pengosa para os índios; muitas tribos foram totalmente exterminadas
sendo exportada, com êsse objetivo, para o Rio de Janeiro. Um cur-
por ela. Vários dos serviçais do ouvidor morreram em Caravelas·
tidor desta cidade mantém uma porção de escravos, em Caravelas, só
muitos, porém, restabeleceram-se, segundo me garantiram a poder d~
para tirar e secar carregamentos inteiros de casca de mangue. Uma
aguardente, que lhes foi administrada em grandes doses. 'Os selvagens
grande embarcação veleja constantemente de um ponto para outro,
têm ~norme pavor dessa doença. Contaram-me um caso terrível a
transportando a casca, e é, por isso, denominada casqueiro. _ Há diver-
r:speito d~ ~ru:ldade_ de um colono. Para vingar-se dos tapuias, seus
sas espécies de mangues; para curtume, porém, prefere-se a casca do
VIZmhos e Inimigos, dizem que levou para as florestas roupas usadas por
mangue vermelho (Conocarpus racemosa), o qual difere muito, pela
pessoas mortas de varíola, tendo perecido numerosos selvagens em con-
menor altura e pela fôlha larga e oval, do mangue branco (Avicennia
seqüência dêsse procedimento desumano.
tomentosa), que tem fôlha estreita e alongada, carrega-se de uma cápsula
.. Quando o ouvidor partiu para o Mucuri, embarcamos a fim de oval de sementes lanuginosas, do tamanho de uma pequena ameixa, e
VlSltar Ca:avelas e o rio Alcobaça. A canoa foi deslizando, rio abaixo, é mais alto e esguioa2a.
entre as lu:~das margens verdejantes do Peruípe, e, no ponto em que A tardinha, a viagem tornou-se extremamente agradável; saía-
a leste o no se lança no mar: seguiu por um amplo braço, que vai mos de um canal para outro, pois que entre Viçosa e Caravelas há
ter a Caravelas.. . Altos . c~queiros se erguiam perto da Vila, empres- um verdadeiro labirinto, formado por uma multidão de ilhas de man-
tando bela e ongi,nal f~Iça<:> a? ,ranorama. O leite ou água que existe gues. Bandos de papagaios vozeavam nas capoeiras, mas eram to·
dentro do fr~to e mmto msipido e de mau gôsto nos côcos velhos dos da espécie da curica••a 24 . Vimos garças brancas sôbre as curiosas
que chegam a Europa; aí, porém, são colhidos antes de completa- raízes dos mangues, que, brotando muito alto do tronco, inclinando-se
me~t; _maduros, quand_o a água tem agradável sabor agridoce e é sôbre a água e enraizando-se na terra, formavam perfeitas arcadas em
mmtiSSimo fresca e refngerante. Preparam-se, na região, numerosos e várias direções. Uma pequena espécie de ostra se encontra em abun-
excelentes pratos com êsse admirável presente da natureza· assim
p~r e;emplo,. ralam o côco e o cozinham com feijão prêto, o' que lh~ (*) Encontramos confirmação dêsse fato nas Viagens de HUMBOLDT, vol. I.
?a go~to mmto bo~ 322 ; tamb~m ~azem dêle, com aÇúcar e outros (**) Psittacus ochrocephalus, Llnn ., ou amazonicus, Latbam. Cf. LE V AILLANT,
"Hist. natur. dos Perroquets", pl. 110.
~ngredientes, doces Ótimos, que mfehzmente não suportam uma viagem (Suplem.) Segundo o consenso dos naturallstas, a "curica" não é Psittacus ochro·
a Europa. _lJm coqueiro, às vêzes, carrega-se de cem côcos ao mesmo cephalus Llnn., mas sim Psittacus aestivus (v. Kubl, Comp. Psitt., no tomo 10 das
Verbandl. der K. L. C. Akad.); devemos, contudo, notar que as descrições de Linneu
tempo, _avahados em cêrca de cinco a seis táleres, de modo que uma são Imprecisas, podendo fàcilmente se aplicar às duas aves. Psittacua aestivus (LB
VAILLANT, pl. 110) não varia em seu pais natal, além do que nunca lhe encontrei
plantaçao de trezentos a quatrocentos coqueiros dá uma renda conside- nos encontros das asas penas vermelhas, como em Ps. ochrocephalus. À vista disso.
ráv~l. Uma árvore perfeita é vendida por 4 000 réis, ou um "Carolin", neste primeiro tomo da descrição de viagem, deve-se ler sempre aestivus em vez de
ochrocephalus.
mais ~u menos.. O lenho do coqueiro é também útil, porque é duro
e flexivel; por Isso, o tronco não se quebra fàcilmente num vendaval (323) Há desacêrto na nomenclatura dos mangues dada aqui pelo viajante, pois
mas se encurva e parte com estrépito. As raízes se estendem horizon: o vermelho corresponde a Rhizophora manule (fam. Rizoforáceas). Avicennia tomentosa
(fam. Verbenáceas), tem, segundo DECKER, Aspectos Biol. da Fl. Bras., p. 248, os
talmente n~ terra, for_mando espêsso emaranhado. De Peruípe para nomes vulgares de "mangue slriúba" e "guaplru", enquanto Avicennia nitida é chamado
~ sul, ao Rio d_e Janeiro, o genuín<:> coqueiro (Cocos nucifera) Linn.) "mangue amarelo".
(824) Pela nota aposta à margem, é-se levado a supor que o autor então identificava
e de extre~a Iandade; mas de VIçosa para o norte, sobretudo em acertadamente a "curica" com Psittacus anutzonicus Llnn. Entretanto, quer no Suple-
mento, quer em Beitrlige (Vol. IV, p. 205) a opinião de Wied se mostra em divergência
Belmonte, Porto Seguro, Caravelas, Ilhéus, Bahia, etc., é muito comum· com o que fôra concluldo pela critica ulterior.
conhece-se por "côco da Bahia" em tôda a costa oriental. A árvor~ Com efeito, a "curica" vem já em Marcgrave e a ela corresponde Anutzona anutzo·
nica Llnn., espécie cuja larga distribuição abrangia tôda a América do Sul setentr~onal
e oriental , desde a Colômbia ao Estado de São Paulo. A. ochrocephala Gmehn é
papagaio mais estritamente amazônico e só ocorre na porção mais setentrional da área
(322) No Recôncavo da Bahia, cuja culinária é f od · da primeira. Por conseguinte, onde no texto se escreve Psittacus ochrocephalus, devemos
o leite de côco ainda boje largamente no r d !lmosa ~m t o Brasil,. en~ra ler sempre Psittacus anutzonicwr e não Psittacus aestivus. Vide o nosso comentário
o chamado " feijão-de-leite ", a que Wied pa~i~~~!~me~~ mais apreCiados pratos regiOnais; sôbre o assunto (559) na edição brasileira do livro de Marcgrave, História Natural do
de moquecas e quejandos acepipes, merece bem os :a~~s re~~~e, a~u~o s:c~ia;~:.mento Brasil (Museu Paulista, edit., 1942).
180 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DOCE A CARAVELAS 181

dância na casca dessas árvores, bem como, também em grande quan- trara no solo durante uma tempestade; do mesmo modo que outras
tidade, o caranguejo multicor chamado "aratu"•325, pessoas presentes, ficou muito pouco satisfeito com a nossa opinião,
de que era, sem dúvida, um instrumento feito e perdido pelos selvagens.
Violenta tempestade, acompanhada de chuvas torrenciais, surpre·
O maravilhoso tem grandes encantos para as pessoas incultas.
endeu-nos aí, e continuou até nossa chegada a Caravelas, que atin-
gimos já pela noite, e onde nos alojamos na Câmara, residência do Cruzamos, em Pindoba, um pequeno córrego, em cavalos empres-
ouvidor. Caravelas é a maior vila da comarca de Pôrto Seguro. tados pelos proprietários das fazendas vizinhas, e marchamos por
Possui ruas retas cruzando-se perpendicularmente, cinco ou seis prin- ermos agrestes, onde florestas, cerrados e charnecas se sucediam. Nas
cipais e diversas outras menores; tôdas, porém, sem calçamento e fazendas esparsas se viam amplos alpendres, nos quais se prepara-
cheias de capim. A maior igreja fica num local aberto, perto da vam grandes quantidades de farinha de mandioca, produto principal
casa da Câmara. As casas da vila são bem construídas, mas geralmente da região. Abertos de todos os lados, são constituídos simplesmente
de um só andar. Caravelas mantém animado comércio dos produtos de uma cobertura de palha ou fôlhas de palmeira, suportada por for-
da região, sobretudo farinha de mandioca, um pouco de algodão, etc. tes moirões, resguardando muitos tachos grandes para secar farinha,
Exporta, às vêzes, 54. 500 alqueires de farinha por ano, o que, avalian- murados em volta.
do o alqueire pelo preço moderado de cinco patacas ou florins, repre- Numa secular floresta de árvores altaneiras e majestosas, fomos
senta cêrca de 272. 500 florins. ~sse comércio traz ao lugar conside- surpreendidos pelo estranho concêrto de uma espécie de pássaro a~é
ráv~l número de navios de Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro, Capi- então desconhecida para nós. Em tôda a mata ressoava o seu assob10
tama e outros pontos da costa oriental. Vêem-se aí, algumas vêzes, agudo e singular, composto de cinco ou ~eis notas penetrantes._ tsses
ao mesmo tempo, trinta a quarenta pequenas embarcações ancoradas; barulhentos habitantes da floresta se reumam em bandos, e, assim que
também são fre~.]üentes as oportunidades de mandar, pelo casqueiro, um começava a cantar, todos os demais se juntavam em côro. Nossos
cartas para o Rw. Os de Pernambuco destinam-se principalmente ao caçadores, presos da mais viva curiosidade, enveredaram logo pelas
transporte de farinha de mandioca, porque êste importante produto capoeiras, mas, apesar do número, deu-lhes grande trabalho matar alguns
é escasso nessa parte do país, onde, por vêzes, a fome surge nos perío- dêsses gritões. O pássaro é do tamanho de um melro•, e de um
dos de sêca, como Koster observou • •. cinzento-sujo muito pouco agradável à vista326 . Os portuguêses da
Tencionando, depois de nossa viagem ao Mucuri, onde decidimos costa o conhecem por "sebastião", e em Minas Gerais é chamado "sa-
passar algum tempo, voltar a êste lugar, nêle permanecemos, então, biá do mato virgem". Chegamos, ao fim da mata, à casa da Senhora
apenas três dias, e seguimos logo para o Alcobaça, que corre entre flo- Isabel, dona de grandes plantações de mandioca, senhora muito cari-
restas seculares, ao norte de Caravelas. Às suas margens fica a fazen- dosa e estimada, por isso, em tôdas as circunjacências. Como tivesse
da do ministro Conde da Barca, chamada Ponte do Gentio, que a fama de poder curar diversos males, era visitada por muita gente
desejávamos visitar. De Caravelas viajamos de canoa durante umas pobre e doente, que ela curava, ou mandava embora com present~s e
horas, rio acima, e depois continuamos por terra. À tardinha, chega- mantimentos. Foi-nos muito hospitaleira, e deu-nos, quando a deixa-
mos à pequena fazenda de Pindoba, onde fomos, nessa noite, mui
hospitaleiramente alojados pelo dono, Sr. Cardoso. A região é deserta (* ) Muscicapa voci{erans: dez polegadas de comprimento: partes superl_ores . cin-
zento-escuras, em alguns pontos com um tom pardacento ou amarelado; partes mfeno!es
e coberta de florestas ainda inexploradas, vendo-se, apenas, aqui e ali, de côr cinzenta mais clara; com o peito e a garganta um pouco mais escuros; aqm_ e
uma morada ou plantação. Encaminhando-se o assunto da nossa pales- ali, a ponta das penas das partes inferiores é um pouco amarelada. No Museu Zoológico
de Berlim lhe deram o nome de Mu$cicapa ampelina.
tra com o Sr. Cardoso para a região e suas curiosidades naturais,
mandou êle que trouxessem uma pedra, descoberta debaixo da terra; (826) Antes de Wied, a ave era já conhecida das matas da Guiana Fra~cesa,
era um arenito bruto, cortado em forma de machadinha. Entretanto, até onde estende a sua vasta distribuição; fôra descrita primeiramente por Fr. Le Va1llant
Hist. Nat. Ois. Nottv. et Rares de l'Amérique et des Indes, (1801) com o nome de
nosso hospedeiro afirmou ser um corisco (raio), o qual caíra e pene- "Cotinga cendré", mudado depois sucessivamente em Ampelis cin_erea (nom_e . inválido
por tê-lo usado anteriormente Latham, para ave diversa) e A. cmeracea VIeiilot (em
I817 e 1822 respectivamente), de acôrdo com as normas da nomenclatura Lineana. Cor-
( *) Mi.RCGRAVE se refere ao caranguejo chamado "aratu" pelos brasileiros, à pág. 185. responde a Mttscicapa plumbea de Lichtenstein (1823) e, depois (Catai. das Avu do
Brasil, 2.• parte, p. 28, nota 2) que consegui reabilitar para a espécie o n<;>me proposto
( ** ) V. KoSTER, Travels, etc., p. 135. aqui pelo nosso viajante, é hoje têcnicamente denominado Lipattuus voct{erans.
O canto (?) do "bastião", chamado ainda "tropeiro", é uma das vozes mais
. (325) Penso ref_erir-se Wied à esp~cle ~oniopsis ct·uentatus, notável pelo seu vistoso impre sivas das grandes matas úmidas do Brasil centro-oriental e amazôn!co·. Tive
colondo vermelho e CUJa presença parece mvanável nos lugares em que existe o mangue ver- já ensejo de externar a viva emoção que me produziu o ouvi-la pela pnme1ra vez,
melho, com o qual estaria em curiosa associação. Outras espécies, dos gêneros Grapsm nas matas do Gongogi, quando por ali estive a serviço do Museu Paulista, há mais de
Arattts, etc., recebem ainda o mesmo nome de "aratu", sujeito, como o comum do; quatro lustros. Cf. Rev. Mtts. Paul., XIX, p. 13 (1985) . Deve ser o mesmo pássaro
nomes populares, a aplicação muito extensiva. que Roquette Pinto, na Rond6nia, diz ser chamado "poaieiro ", no norte de Mato Grosso.
182 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DOCE A CARA VELAS 183
mos, um leitãozinho e um pato grande; pois, segundo nos assegurou, esteiras de palha e descansam a cabeça num pequeno travesseiro redon-
em Ponte do Gentio, nada encontraríamos para matar a fome. do. Vimo-los comer arroz à típica moda chinesa, com dois pauzinhos.
Alcançamos em po~co o rio Alcobaça, que é aí muito estreito, Alegraram-se muito com a nossa visita; contaram-nos, em péssimo por-
onde embarcamos. Subimo-lo durante duas horas, no frescor da tar- tuguês, coisas do seu caro país, e como lá tinham muito mais confôrto
dinha, passando pela fazenda do Sr. Munis Cordeiro; e atingimos, do que no Brasil. Abriram também as malas, onde guardavam sofríveis
em seguida, a fazenda do ministro, situada na margem norte. A porcelanas chinesas e de grande número de leques de ,diversas varie-
água do rio, em que há abundância de peixe e muitos jacarés, é escura. dades, que trazem para vender. As casas da fazenda, incluindo o enge-
As margens são inteiramente cobertas de densos cerrados e florestas; nho de farinha de mandioca, ficam numa pequena depressão do ter-
a aninga (Arum liniferum, Arruda) 327 viceja na água. Ponte do Gentio reno, perto do rio, entre duas elevações. Subindo a que está mais para
é _u~a fazenda c?m certa extensão de terra anexa, comprada pelo leste, na qual se ergue a povoação, pode dominar-se grande extensão
mmistro aos herdeiros do capitão-mor João da Silva Santos; foi, outrora, da zona circunjacente; tanto quanto a vista pode alcançar, tudo, até
muito prósp:ra. O an~e_:ior proprietário era um homem empreendedor, o horizonte longínquo, é coberto, sem interrupção, de matas sombrias;
que em vanas exped1çoes contra os selvagens mostrara não lhes ter exceto na margem direita do rio, onde se vêem, em alguns pontos,
mêdo ; e que, entretanto, na sua fazenda, vivera sempre em paz com habitações humanas.
êles. Foi o primeiro q.ue subiu o _rio Belmonte até Minas Novas. Depois Atravessamos as florestas vizinhas com os nossos caçadores e alguns
que morreu, a propnedade arrumou-se por falta dos necessários cuida- mamelucos indolentes, que aí viviam. Caçamos várias espécies de
dos. Em vez de manter-se a paz com os selvagens, provocaram-nos. animais; entre outras, pela primeira vez, a preguiça comum (Brady-
Um negro matou na floresta um índio da tribo dos Patachós; os sel- pus tridactylus, Linn.), pois até então só víramos a preguiça de coleira
vagens se encolerizaram e, por vingança, atacaram os negros numa das preta (Bradypus torquatus., Illigeri)328.
roças, matando-os a flechadas. Isso aumentou a desordem, acarretando a
desval_orização da propriedade; o ministro comprou-a por preço muito Nesse local, quase tivemos a desgraça de perder o sr. Freyreiss.
reduzido. Esforçam-se atualmente para restaurar a paz com os silví- Certa manhã, foi-se embora sozinho, com a espingarda de caça, e não
colas e melhorar o estado da fazenda. Aí estão residindo algumas voltou à hora costumeira do jantar. Caiu a tarde; fazia-se cada vez mais
~amílias ?e índios, alé~ de seis famílias de "Ilhores" (habitantes das escuro, e continuávamos a esperá-lo em vão. Nossos temores aumen-
~!h~s ~çores), . n?ve chmeses, escravos negros e um português, como tavam de momento a momento; mandei, por isso, que parte do pes-
feito~ (administrador). Os chineses foram trazidos, pelo govêrno, soal atirasse repetidamente, para dar-lhe aviso; por fim, ouvimos a
ao Rw de Janeiro, para que lá cultivassem chá; depois, mandaram amortecida resposta de um tiro, à grande distância. Ordenei imedia-
algun~ para _Caravelas e outros para aí, a fim de prestarem serviço tamente aos índios acorressem, com archotes acesos, ou antes tições,
como JOrnaleiros; são, porém, muito indolentes, e só executam trabalho ao ponto donde proviera o som ouvido. Felizmente, encontraram o com-
extrema~ente leve. Vivem conjuntamente numa casinhola; um dêles panheiro perdido, voltando com êle à meia-noite. Chegou extenuado,
se fêz cnstão e casou-se com uma índia. Conservaram os costumes do e contou-nos a perigosa aventura. Havia êle avançado demais por
seu país natal; celebram-lhe as festas, apreciam tôda espécie de caça uma picada pouco transitável da floresta, quando, de súbito, ela ter-
plumada, e parece não serem muito exigentes na escolha do alimento. minou; não obstante, prosseguiu e, ao p ensar n a volta, perdera por
Guardam o maior asseio e ordem em seu rancho de palha. As camas, completo o caminho. Levou o resto do dia a procurá-lo, marcando
por ex:mplo, são guarnecidas de finos cortinados brancos, dispostos com as árvores para saber por onde passara; mas foi tudo inútil. Afinal,
bom gosto, e suspensos, dos lados, a lindos ganchos de cobre. Essas
belas camas contrastam de maneira estranha com o miserável casebre (828) Brady pus t ridactylus Linn. e B. tor quatus Ill iger são as preguiças que ocor-
de p alha em que estão colocadas. Os chineses dormem em delicadas rem no Brasil médio-oriental.
Em ambas a s extremidades possuem três dedos com longa s unhas ganchosas; mas,
enquanto a primeira, muito mais comum e de á rea de dispersão notàvelmente mais vasta
(numerosas raças geográficas distribuídas do Rio Grande do Sul a Colômbia), tem todo
!327) . " A~i~ga-açu " é nome habitualmente usado para disting uir esta espécie. o pêlo de colorido pràticamente uniforme, pardo-acinzentado, a última se reconhece
Montncha~dta ln ntera ~Ar:uda) , entre outras . a ráceas indígenas, mais ou menos com a primeira vista pela larga mancha negra, sagitiforme e nitidamente destacada.. na
ela pa reCidas n ~ apa rencia _e ha!Jtta t ,_ gen ên ca rnente ch a ma das a ningas. Cresce em parte mais anterior da linha média do dorso. Em Beitr(ige (II , pp. ~00-7), insenu o
densas aglOJ_neraçoes n_a _POrçao ma1s baixa ~ lo~os~ de muitos dos rios que deságua m autor um minucioso estudo de Oken sôbre os crânios das duas espécies. Sôbre os
n~ costa onental_ brasileira, e fornece ma t.erml t extil pa ra o fa brico de cordoalha gros- nábltos singulares da espécie vulgar, há Interessantes observações de LODERWALDT, publi-
seira. Uma espécie do mes ~o gênero! Montnchardia ar borescens (Linné), dita " anlnga-uba ", cada s na Rev. do Museu Paulista (tomo X, pp. 795 e 812 e tomo XIV, pp. 39_5 e 396 ):
f?rma nas !"argens dos ri?S amazon!cos os conhecidos a ninga!s, morada predileta das A " preguiça real " (didactylus (Linn .)), " unau " dos tratadistas europeus,. nao possm
Ciganas (Optstlwcomus hoazm (Müller)) , que dela tira m o seu sust ento. (Cf. E. Goe!di, mais do que dois dedos funcionai s nas extremidades anteriores ; é mmto maior e
Bol . M useu Paraense, 1, 1895, pg. 167-1 84) . privativa da Am azônia e Guianas.
184 VIAGEM AO BRASIL

escalou uma montanha, na esperança de que, aumentando o campo


visual, pudesse descobrir a trilha, e só viu, entretanto, de todos os
lados, imensas florestas ininterruptas. Chegou, em seguida, a um
regato, que foi acompanhando na esperança de atingir o Alcobaça e
de caminhar pelo curso dêste até encontrar o caminho de volta à
fazenda; mas as esperanças de novo se malograram, porque o regato
logo depois se perdia num charco, terminando. A situação, nesse
ponto, tornou-se a mais alarmante possível. Extenuado pela fome,
afogueado pela enorme caminhada, encharcado pela água do riacho,
deixou-se cair, incapaz de continuar. Mas o crepúsculo se aproximava;
reuniu tôdas as energias, e construiu pequena choça de fôlhas de pal-
meiras. Aí os mosquitos o vieram atormentar terrivelmente; nem
podia ter sossêgo por causa dos selvagens e dos animais ferozes, tanto
mais quanto lhe faltava o indispensável para acender uma fogueira
que os afastasse. Resolveu esperar pela manhã, a qual, no entanto,
não lhe oferecia melhores perspectivas, de vez que não contava desco-
brir o caminho perdido, a não ser por acaso; e estava, além do mais,
tão mal fornecido de pólvora e balas, que a caça não o poderia sustentar
por muito tempo. Foi nessas angustiosas contingências que ouviu,
por fim - e quem poderá descrever com que alegria? - o nosso tiro de
Ponte do Gentio. Ergueu-se de alma nova, respondeu com dois tiros,
que, devido à atenção que púnhamos em perscrutar o silêncio da
noite, foram felizmente ouvidos por nós. Estivesse êle um pouco mais
longe, ou atrás de uma elevação, e não teria ouvido o nosso tiro, nem
nós os dêle; ser-nos-ia impossível encontrá-lo, e a sua sorte, nessas
brenhas medonhas, talvez fôsse trágica, pois que, na manhã seguinte,
pretendia procurar o caminho de volta justamente no rumo oposto
ao da fazenda329.
:f:.sse fato deve servir de exemplo para mostrar a necessidade da
maior cautela a todos quantos penetram sozinhos nessas selvas imen-
sas, sem as conhecerem um pouco, ou possuírem a extraordinária ha-
bilidade dos índios em retomar o caminho. O feitor de Ponte do
Gentio, português bem experimentado em caçar nessas paragens, per-
deu-se duma feita, vagando na mata durante sete dias; achava-se,
porém, munido de uma boa espingarda, pólvora e chumbo, de modo
que pôde satisfazer as mais urgentes necessidades e alcançou, por fim,
uma plantação à margem do Alcobaça. Dois índios, mandados pelo
ouvidor a seguir-lhe as pegadas e achá-lo, chegaram pouco depois dêle.
E' errado pensar que, nessas florestas, o alimento se encontra em
tôda parte. Apesar dos inúmeros animais que as habitam, pode-se, às

(329) Fato absolutamente semelhante deu-se com o autor destas linhas há alguns
anos (setembro de 1942), durante uma excursão naturalistica ao Estado do Espírito
Santo; com a diferença, porém, que a volta ao acampamento, à margem do Rio São José,
só se deu no terceiro dia após a partida . Do estado de espírito em que ficaram os
companheiros, poderá dizer o meu amigo e distinto colega Professor Benedito Soares
Monteiro, como tendo sido um dêles, nessa jornada aventurosa.
DO RIO DOCE A CARA YELAS 185

vêzes, vtapr dias seguidos sem descobrir um ser vivo; também aqui
a experiência mostra que os animais sempre vivem mais próximo
das habitações humanas, do que no interior das grandes florestas.
Nossas coleções receberam alguns acréscimos interessantes; porém
os insetos, sobretudo as borboletas, sofreram muitos estragos das formi-
guinhas vermelhas. Só conseguimos salvá-los aspergindo-lhes rapé. Dei-
xamos Ponte do Gentio a 25 de Janeiro, e voltamos para a casa da
Senhora Isabel, onde encontramos o pessoal ocupado em preparar
farinha de mandioca. Tivemos a atenção prêsa por um tucano (Ram-
phastos dicolorus Linn.)aao, domesticado: suas maneiras cômicas, o todo
desgracioso e o bico enorme nos divertiram muito. Devorava, com
incrível avidez, tudo que alcançasse e fôsse comível, sem excetuar
a carne. Ofereceram-no-lo de presente, mas declinamos, porque essa
ave não resiste ao nosso clima. Obtém-se aqui grande quantidade de
mel de uma espécie de abelha amarela, sem ferrão. Penduram ao
teto, para isso, pedaços de galhos ocos de árvore, tapados com barro
nos extremos, e tendo, no meio, um buraquinho redondo destinado à
entrada das abelhas. O mel é muito aromático, mas de modo algum
tão doce quanto o europeu. Mel com água, aí usado, é um refrêsco
muito agradável.
No dia seguinte, voltamos a Pindoba e, à tardinha, chegamos de
novo a Caravelas. Resolvemos nossos negócios em dois dias e embar-
camos novamente para Viçosa, numa linda noite de luar. Milhares
de vaga-lumes (Lampyris, Elater), e talvez ainda outros insetos lumino-
sos, luziam entre as moitas da margem. Quando chegamos à casa
da Câmara de Viçosa, os botocudos do ouvidor ainda aí estavam.
Mais que essa desagradável companhia, incomodou-nos o uivo con-
tínuo de um cão mordido por uma cobra venenosa. Deram-lhe o
suco do cardo santo (Argemone mexicana)33 1 , um cardo de flôres
amarelas, muito comum em tôda parte•; mas o animal morreu. Su-
põe-se, aí, erradamente, existir no Brasil um número de cobras peço-
nhentas maior do que a real. A exceção de algumas poucas e nomea-
damente das grandes espécies de Boa> os próprios habitantes da terra
afirmam que as cobras são, na maioria, venenosas. Há, certamente,

(*) Sem dúvida alguma. AzARA alude a essa planta, quando, nas suas Voyage1,
vol. I, p. 132, fala da cura de uma certa febre.

(380) Como já foi antes anotado, trata-se do "tucano-de·bico-prêto", Ramphastos


vitellinus ariel Vigors, da vigente nomenclatura. V. a nota 98.
(881) Não têm conta as plantas a que o vulgo atribula, ou mesmo ainda hoje
atribui, virtudes curativas, nos acidentes ofidicos. Desnecessário ~izer que estas apre·
goadas virtudes slo nada menos que Imaginárias e resultantes da observação falha do
povo, que, de modo geral. não sabe distinguir entre as cobras inofensivas e as serpentes
peçonhentas. Como o próprio fumo, o "cardo santo", chamado ainda "papolla ou dormi·
deira espinhosa", é uma papaverácea rica em principios tóxicos, cujos efeitos só podem
logicamente contribuir para o agravamento dos acidentes que deveria combater. Sôbre
esta interessante matéria, leia-se VITAL BRAZIL, La Detense contre l'Ophidi8me, 2.• ed,
1914, p. 225 e ss.
186 VIAGEM AO BRASIL DO RIO DOCE A CARAVELAS 187

algumas_ espécies venenosas, como, por exemplo, a víbora verde•aa2 com paus; passa, depois, entre capoeiras e densas flores'tas. Ainda
e . a J~ra~aca, ambas do gênero Trigonocephalusaaa; muito estava muito em comêço, simples picada, não muito larga; além disso,
mais ter~Iveis, porém, sã? a cascavel (Crotalus horridus)334 e o "surucucu" aqui e ali, troncos imensos de árvores a atravancavam. As léguas eram
(Lachests mutus, _Daudm, ou ~rotalus mutus, Linn.); a última, princi- medidas com um cordel e gravadas nos troncos das árvores, descascando-
palmente, que atmge sete a Oito pés de comprimento, se encontra em as e entalhando-os. Em alguns pontos da mata, ainda hoje encontramos
todos os pontos do Brasil335 . A serpente de chocalho, chamada pelos de pé os ranchos em que a turma de mineiros tinha pernoitado.
~ortuguêses "cobra casc~vel", ha~ita so~ente os lugares secos e altos; A altura da última plantação à beira do Mucuri, pertencente ao
e bastante_ comum em Mmas Gera1s e no mterior da capitania da Bahia. Sr. João Antônio, a estrada dos mineiros se aproximava da margem
J?e VIçosa voltamos ao Mucuri, mas não demoramos muito tempo e das casas nela construídas. Chegamos em companhia do Sr. Padre
na vila, p_orque o ouvidor já estava no lugar em que trabalhavam Vigário Mendes e do escrivão de Mucuri; e aí encontramos o Capi-
na fundaçao d,a nova fazenda de Morro d'Arara. O Sr. Freyreiss resol- tão Bento Lourenço, que nos recebeu, mais a sua gente, com uma
ve~ voltar, desse ponto, com a nossa tropa para a Capitania. Pre- salva de tiros, da eminência em que se erguia a sua morada- E' uso
fen subir o Mu~uri até às obras da mata, e passar alguns meses nessas geral, no Brasil, entre as corporações de homens armados, e especial-
florestas. ArranJamos a nossa bagagem e passamos ainda uns dois dias mente nos postos militares, quando forasteiros os vão visitar nos
em M~c~~i. Daqui fizemos algumas excursões a cavalo, uma para ermos do sertão, dar, em regozijo, tiros de espingardas, com cargas maio-
ver o 1~11c~o da nova estrada, que o Capitão Bento Lourenço, com res que as usuais. Passamos algumas horas agradáveis em compa-
seus romeiros e outros trabalhadores, já tinha começado e de que nhia do honesto capitão e do amável dono da fazenda, Sr. João An-
c~nstruíra três léguas. A estrada sai logo por trás das casas de tônio, e em seguida tornamos por água, à vila. Na manhã de 3 de
Porto Alegre e percorre, a princípio, terrenos pantanosos e terras des- Fevereiro, cada um de nós tomou rumo diferente. O Sr. Freyreiss
campadas (campos), cobertas de capim, onde se viam pontes tôscas feitas atravessou o Mucuri, de volta à Capitania3 36; e eu, com duas canoas,
segui rio acima. Já a considerável distância, saudamo-nos com tiros de
(*) (Suplem.) Cophias bilineatus, uma espécie bonita e até hoje não descrita espingarda e pistola, e logo nos perdemos de vista. O local escolhido
O exemplar que me trouxeram media 22 polegadas e 8 linhas de comprimento incluída: para a fazenda e a serraria do ministro, Conde da Barca, fica a
ai a cauda de 3 P?legadas e 8 linhas, ou seja cêrca de ';4 (sic) do co~primento
tota~. Placas ventrais 2IO, pares de escamas caudais 66. Forma geral esguia cabeça cêrca de dia e meio de viagem, subindo o Mucuri, e chama-se Morro
cord1forme, co~ duas grandes plaC!'s superciliares e recoberta, como 0 corpo, de 'escamas
pequenas! estreitas, alongadas, pontiagudas e carenadas. Ao lado das placas ventrais corre d'Arara, devido ao grande número de araras (Psittacus macao, Linn.) 337
uma séne de gra~des escaml!-s romboidais, quase lisas e só uma pequena depressão que ali se encontram. Indo para lá, achava-me agora em companhia do
em ~eu bordo supenor; ânus simples, recoberto por uma escama semilunar indivisa· cauda
terrmn_ada por un~a ponta aguda e córnea, de côr bruno-avermelhada e de I Ünha de escrivão de Belmonte, Capitão Simplício da Silveira, que foi de grande
compnmento. Todas as partes superiores coloridas de verde-claro muito brando e préstimo quando se tentou fazer um acôrdo com os Botocudos do rio Bel-
azulado, . marcadas de cada lado por uma linha amarelo-palha, sem brilho e formada
P~!l; séne das grandes e~camas marginais do abdômen; no alto do dorso duas séries monte. ~le e um jovem índio Menien•, que o acompanhava, falavam
d•s_tlntas de manchas, dispostas freqüentemente aos pares e sempre circundadas de
preto. . Ao longo de cada lado da cabeça, partindo do ôlho, cuja pupila é vertical a língua dêsses selvagens.
~ma h~ta amarelo-ferruglnea, ladeada e pintalgada de prêto; no occiput duas listas seme: As margens do Mucuri, cobertas de espêssas matarias, apresentam,
n antes • bor_?os das ma~ilas. guarnecidos de placas de viva côr amarelo-esverdeado margi-
l addas. de preto; parte mfenor da cabeça e garganta de intensa coloração amarelo-claro; devido aos freqüentes coleios do rio, que é em geral estreito, grande
a O mfenor do pescoço amarelo-claro vivo; ventre e lado inferior da cauda branco-
amarelados, os esc_udos. ven~rais com a base um tanto azul-esverdeada; lado superior da diversidade de pitorescas perspectivas. Tínhamos de fazer grande es-
C!L~eça e da porçao áianteira . do corpo finamente pontiadas e marmorizada de prêto; fôrço para impelir nossa canoa contra a corrente, então volumosa e
so dre .a cauda uma lista longitudinal azulada, sem brill10. Chamada no Brasil "cobra
ver e ou "surucucu de patioba ". rápida, trabalho dos mais fatigantes, pois o sol do meio-dia projetava
os raios ardentes sôbre nossas cabeças, e a madeira da canoa esquen-
(~32) Bothrops büineata (Wied), vulgarmente "jararaquinha verde" ou "surucucu
de patwba". ' tou tanto que mal suportávamos segurá-la. Os martins-pescadores ver-
• (338) Wied refere a Trigonocephalus as serpentes atualmente incluídas em Bothrops des, de ventre côr de ferrugem (A/cedo bicolor, Linn.)338, e a linda
O gen~ro Trtgonoce-phalus ?ppel (I8II) abrangia inicialmente espécies distribuídas hoj~
nos ge~eros Lachests Daudm (I808) e Bothrops Wagler (I824); com a designação há
anos fe1ta por A. _AlURAL (Cf. Rev. Mus. Paul., XIV, p. 87), da espécie ammodytes (- (*) Os "Meniens", que vivem em lmonte, são restos de:;enerados dos lndios
Crotalu~ mu~us • Lmn.), para seu genótipo êle se torna definitivamente sinônimo d-;;
Lachests, CUJa ~nica espécl~ é o _"~urucucu-pico-de-jaca", ou L. muta (Linn.). "Camacan", de que mais adiante daremos notícia.
(8~4) A '!nica espécie bra.s•le1ra do gênero Crotalus é C. terrificus Laurentius,
I768, hoJe por tôd~ parte conhecida pelo nome lusitano de "cascavel". Cf. Amaral In (336) Como se vê, Capitania é o nome ~elo qual, acompanhando hábito de então,
Mem. lnst. Butanta, X, I987, p. I6I. ' designa sempre Wied o atual Estado do Espírito Santo.
od (835) 9 "suru~ucu", que. é, ef_etivamente, a maior das nossas serpentes venenosas, (337) Vide o que ficou anteriormente sôbre as araras encontradas por Wied
P e avantaJar-se amda às d;mensoes dadas por Wied (até 8 60 m de comprimento (nota I85).
segundo A. Amaral); existe em todo o leste e norte do Brasil desde Minas e Espíriu; (388) Chloroceryle inda (Linn.) da atual nomenclatura. visto a prioridade de
?anto até _o A~azonas, estendendo-se ainda até a América C~ntral. Cf. a nota 850 Alcedo inda Linn., I766, sôbre o seu sinônimo ..4.. bicolor Gmelin, 1788.
mserta mais adiante. '
DO RIO DOCE A CARAVELAS 189
188 VIAGEM AO BRASIL

andorinha verde-branca (Hirundo leucoptera)339 são aí muito abun- de uma árvore próxima à fogueira, que êle parecia _contem~lar com
dantes; estas últimas pousam nos galhos secos e nos arbustos aquá- curiosidade. Nossos destemidos canoeiros índios, semmus, dertaram-s;
ticos, ou esvoaçam sôbre êles; em terra, só se encontram perto das logo, sem se cobrir, e alguns à distância da fogu;ira, no chão úml-
margens dos rios. Pousados nos velhos troncos debruçados sôbre a do, adormecendo profundamente. Nós, ~o contráno, embrulh,amo-nos
água, e nas rochas, vimos grande número de uma espécie de morcêgo nos grossos cobertores, num leito arranJado com ramos de arvore e
cinzento•3 40, que procura os lugares frescos durante o dia; distingue-se palmas de coqueiro.
pelo focinho proeminente. Matamos, numa árvore marginal, o belo Na manhã seguinte, durante o preparo do almôço, um bando de
pombo conhecido na costa leste por "pomba trocaz" e, perto da Bahia, araras pousou perto de nós, em grande ala~ido. Mariano, ~m dos
por "pomba verdadeira", trata-se da Columba speciosa .. dos natu- nossos, levantou-se dum pulo, pegou da ~spmgarda e aprox1m?u:se
ralistas341. cautelosamente. O estampido ecoou maJes~osa~ente pelas s.oh~oes
À tarde, atingimos a última plantação, pertencente ao Sr. João da mata, e 0 caçador voltou alegre, com a pnmetra dessas esplend1das
Antônio, onde, alguns dias antes, o Capitão Bento Lourenço nos sau- aves que conseguimos matar nessa viagem.
dara com uma salva de tiros; tinha êle seguido, então, com a sua Depois do jantar, embarcamos de novo, ~altando, à tardinha,
gente, mais para dentro da floresta . Como caísse o crepúsculo, saltamos num banco de areia, no qual fizemos uma fogue1ra. Enquanto ~repa­
na densa mataria e acendemos as fogueiras. A noite estava muito quente rávamos a arara para a coleção, vimos uma grande canoa che~a ~e
e linda, mas, como é comum nos países tropicais, extremamente úmida. gente rumando em nossa direção. Era o Sr .. Charles_ Frazer, mgles
Muitas vozes de aves, como as do caburé34 2, do chora-lua343, do bacurau possuidor de um estabelecimento ;m Comechat1ba, r:o htoral, perto de
(Caprimulgus) e da capueira (Perdix guianensis)3 44 , só se ouvem ao Pôrto Seguro, com sua gente. Tmha o mesmo_ dest1~0 que nós. P~s­
escurecer, quando vêm animar êsses vastos e solenes ermos. O caburé, samos a noite nesse lugar e, pela manhã, part1mos JUntos. Ao melO-
em particular, chegou-se muito perto de nós; sua voz tremida vinha dia, alcançamos na margem norte do Mucuri a entrada de um canal
estreito e sombrio de cêrca de dez a doze passos de largura. :esse canal
( *) V espertilio naso, espécie nova, com um focinho muito alongado, quase igual natural, antes int;ansitável por causa da ramaria coi?pactamente entre-
a uma tromba, e projetando-se como um apêndice sôbre o maxilar superior. Comprimento
total, duas polegadas e quatro linhas. A membrana da asa é multo peluda; orelha laçada sôbre êle, fôra desbravado, havia alg~ns d1as, por ordem do
estreita e muito pontuda; pêlo da parte superior do corpo, pardo-acinzentado escuro; ouvidor. Constitui a entrada para um bomto lago, bastante gran-
da parte inferior mais pálido, cinzento-amarelado.
(**) TEMMINCK, Histoire Naturelle des Pigeons et des Gallinacées, vol. I, p. 208.
de, chamado Lagoa da Arara, inteiramente cercado de mo~tanhas
cobertas de mata. Fôra justamente a um quarto de légua ao_m~ da
(1783),
(3 39) Hirundo leucoptera Gmelin (1788), nome precedido por H. albivent e1· Boddaert
ambos baseados na Hirondelle à ventre blanc de Cay~nne de DAUBENTON. lagoa que o ouvidor começar~ a edif~ca7 ~ propriedade do mm1stro,
Iridoprocne albivente1·, Bodd., como é chamada na moderna ornitologi a , ocorre d esde em Morro da Arara; já se unha pnnop1ado a derrubar a mata, ~
havia algumas cabanas construídas. O ouvidor recebeu-nos com amab~­
o nordeste da Argentina (Misiones), até a Colômbia e as Gu!anas.
(840) Rhynchisctts (= Rhychonycteris) naso (W!ed). Há no Museu Zoológico
de São Paulo exemplares dêste interessante morcêgo, colecionados no rio Doce, rio lidade, e eu me pus logo a arranjar as coisas para permanecer uns dots
Juruá, Mangabeira (Pernambuco) e Cidade da Barra (Bahia). Spix julgou ver nêle
duas espécies. Propôs para elas o gênero Poboscidea e descreveu-as sob os nomes de Pr. meses nessas brenhas solitárias.
saxatilis e Pr. rivalis, alusivos aos hábitos curiosos do animal, que é encontrado, ora
nas paredes lisas de rochedos a prumo, ora sôbre o leito dos rios, debaixo das pontes,
ou pendentes dos velhos troncos de árvores caldas.
DoosoN (Catai. Chiroptera Brit. Mus. p. 868) chama a atenção para o mimetismo
que, nas últimas circunstâncias, dificulta a visibiUdade dêstes pequenos morcegos, que
ordinàriamente se reúnem em colônia de número variável de indivlduos.
(341 ) E' a mais bela de nossas pombas silvestres; muito fácil de reconhecer entre
as CO!Jgêneres pela sua plumagem, ornamentada de linhas transversais semilunares que
lhe dao aspecto escamoso. Em minhas peregrinações ornitológicas, só me recordo tê-la
encontrado abundantemente no sul de Goiás, na região do Rio das Almas; ocorre porém,
aqui e ali, nos nossos sertões, desde o Amazonas até o extremo sul do Brasil. Conhecem-na
ainda em certos lugares por "piraú" e "rôla pedrês ".
(342) Sem ser prOpriamente diurno como a " coruja buraqueira " (Sp eotyto cunicula-
ria (Molina)), o "caburé" (Glattcidium brasüianum (Gmel.)) pode ser ouvido a cantar
mesmo durante o dia (donde o nome de "caburé do sol", de que também goza), divergindo
neste particular da generalidade das corujas. Sua voz lembra de perto a dos " surucuás"
e, imitada com sofrlvel exatidão, pode trazer a ave a poucos passos do observador.
Com êle é comum acorrerem então inúmeros passarinhos alarmados pela presença do
rapineiro, motivo pelo qual os colecionadores lançam freqüentemente mão do fácil
estratagema.
(843) O mesmo que "urutau " e "mãe-da-lua", Nyctibitts aether eus (Wied).
(844) Odontophorus cap~ira (Spix) é o nome da espécie existente nos Estados de
leste e sul do Brasil, onde também é chamada "uru".
IX

ESTADA EM MORRO D'ARARA, MUCURI,


VIÇOSA E CARAVELAS, ATÉ A PARTIDA
PARA BELMONTE
(De 5 de fevereiro a 23 de julho de 1816)

Descrição da estada em Morro d'Arara. - Caçadas.


Os mundéus. - Estada em Mucuri, Viçosa e Caravelas.

Para se fazer idéia do nosso modo de vida em Morro da Arara,


imagine-se uma floresta êrma em que um bando de homens constitua
um pôsto avançado solitário, suficientemente providos, pela natureza,
com o indispensável à vida, graças à abundância de caça, peixe e água
potável; mas, ao mesmo tempo, devido ao afastamento dos lugares
povoados, entregues inteiramente aos próprios recursos, e adstritos a
ficar em guarda constante contra os selvagens da floresta, que os
rodeiam de todos os lados.
Patachós, e talvez também Botocudos, rondavam-nos diàriamente,
à espreita dos nossos movimentos; andávamos, por isso, sempre arma-
dos; éramos de cinqüenta a sessenta homens capazes. Já se tinha
derrubado a mata da encosta de uma montanha, à beira da lagoa
amontoando-se umas sôbre as outras as árvores caídas.
Tôdas as manhãs vinte e quatro índios, muito úteis para êsse mister,
saíam para o trabalho; alguns levavam machados, outros um
instrumento em forma de segadeira ("foice"), prêso a um cabo
comprido; os primeiros derrubavam as árvores, os segundos, o bosque
e os arbustos novos. Quando uma grande árvore caía, arrastava ao solo
muitas outras menores; porque tôdas essas árvores são cerradamente
entrelaçadas de cipós fortes e lenhosos; muitos troncos, quebrados por
outros, permaneciam erectos como colunas colossais; plantas espinho-
sas, sobretudo caules da palmeira airi, que são cobertos de espinhos,
juncavam o chão, tornando essas derrubadas completamente impene-
192 VIAGEM AO BRASIL ESTADA EM MUCURI E VIÇOSA 193

tráveis. O ouvidor havia mandado construir cinco a seis cabanas perto animais pequenos, no seu vaivém costumeiro à beira do rio, procuram
da lagoa, cobertas com fôlhas de "uricana". Quatro dos nossos índios, uma passagem e, encontrando a abertura na tapada, pisavam no chão
que, à semelhança da maioria dos conterrâneos, são ótimos caçadores, constituído de gravetos entrelaçados; as pesadas toras de madeira vêm
e ainda melhores pescadores e canoeiros, eram mandados, tôdas as abaixo e matam o animal. E' comum fazerem, em linha, trinta,
manhãs, caçar e pescar o dia inteiro, e examinar os nossos mundéus, quarenta ou mais dêsses mundéus, onde a caça cai diàriamente. En-
ou armadilhas para animais, voltando sempre, à tardinha, com muita contramos, com freqüência, sobretudo nas noites escuras, cinco, seis
caça e abundância de peixe, principalmente piabanhas, traíras, piaus, ou mais animais de cada vez. E' preciso, porém, revistar as armadilhas
robalos e outras espécies. Logo que a nossa gente se reunia ao escure- uma ou duas vêzes por dia; porque, nos grandes calores, a caça
cer, não havia mais razão para temermos um ataque franco dos selvagens. apanhada apodrece depressa.
Contra uma surprêsa noturna, que êles não empreenderiam fàcilmente Por ordem do ouvidor armaram-se, em dois lugares próximos do
na treva, mas de preferência nas noites de luar, estávamos garantidos Morro da Arara, mundéus dêsse tipo: era o nosso principal meio de
pela vigilância dos nossos cães. Um grande cão pertencente ao ouvidor subsistência, pois, embora o povo da terra se sustente principalmente de
distiguia-se dos demais; parecia farejar os selvagens quando rondavam peixe, nós, europeus, sempre preferimos _c arne fresca. A p~ca (Coelo-
pela montanha, além da lagoa. Enfurecia-se nesses momentos, latindo genys paca)345, a cutia (Dasyprocta agutt)3 46, a macuca (Ttnamus bra-
sem parar na direção do local suspeito. Os Patachós, com tôda a certe· siliensis)347 e o tatu comum (Tatou noir, Azara), cuja carne é branca,
za, nos observavam dos sombrios esconderijos, não sem espanto e macia e saborosa, eram particularmente bem-vindos à nossa mesa. Um
de~agrado, e os caçadores precisavam de grande cautela para não se dia tínhamos ido examinar as armadilhas e atravessávamos a lagoa,
de1xarem apanhar desprevenidos. Ouvimos, muitas vêzes, êsses aborí- qu~ndo o índio que dirigia a minha canoa nos mostrou, de
gines imitar a voz da coruja, da capueira, e outras aves, sobretudo repente, uma anta nadando no lago e querendo alcançar a margem.
noturnas; porém nossos índios, igualmente hábeis nessa arte, nunca Atiramos de certa distância, mas a maioria dos tiros se perdeu, até
confundiam a imitação com o natural. Uma pessoa incauta se sen- que, por fim, o disforme animal foi ferido, porém ao de leve, porque ?
tiria, talvez, tentada a seguir a voz do pássaro, até que as flechas chumbo não conseguiu varar a pele grossa. Fomos à margem e segm-
dos tapuias lhe mostrassem o engano. Quando a nossa gente dan- mos o rasto sangrento, mas logo o perdemos de todo, devido ao gran-
çava o batuque nas noites de luar, tocando a viola (guitarra) e acom- de perigo que raspou o meu índio. Passou êle muito perto de uma
panhando sempre com palmas, estas eram repetidas pelos selvagens jararaca•34S de cinco pés de comprido, escondida entre as fôlhas
do outro lado da lagoa. O ouvidor, que não perdia ocasião de sêcas. Ela ergueu-se, mostrando os dentes formidáveis, e ia mordê-lo,
lhes tentar a amizade, fêz freqüentes esforços, durante a nossa estada,
(*) A "jararaca", referida em nossas viagens atuais, foi Introduzida nos sistemas
para os atrair, gritando-lhes: Schmanih (camarada! ou capitão) Neí sob o nome de Vipera atrox; ela, porém, difere da vlbo~a, pelas fossetas que se encontram
(grande chefe!) etc. porém em vão; não obstante, os índios, que mandá- nas bocbecbas de tôdas as serpentes venenosas da América do Sul que tive a oportunidade
de encontrar. Nos anais da "Gessellscbaft naturforschen der Freunde zu Berlln", ano
vamos à inspeção, notavam muitas vêzes, pelas pegadas, que os selva- terceiro p. 85 há uma descrição da "jararaca" da autoria de H. H. Tilesius, se é
que êss'e nome' em Sta. Catarina significa a mesma coisa que no Continente. A "jara-
gens se acercavam da derrubada durante a noite, explorando tôdas racuçu" é apenas um Individuo velho e muito grande da mesma espécie, diferindo
as circunjacências do acampamento. Uma noitinha, como esperásse- um pouco na côr, naturalmente, dos espécimes mais novos.
mos ser subitamente atacados, por causa da extraordinária agitação dos (845) Cuniculus paca (Linné) da atual nomenclatura. , . .
cães, estivemos em guarda constante, e aquêles que precisavam apa- (346) Conhecem-se hoje no Brasil nada menos de uma IJ!ela duzia de cubas, na
sua maioria da região amazônica; na era de Wled, porém, a unlca . espécie reconhecida
nhar água, combustível, ou fazer qualquer outra coisa na mata iam pela ciência era Dasyprocta aguti (Linn., 1766) , baseada em "Agub" de Marcgra':e e
sempre bem armados. portanto tipicamente este-brasileira. De qualquer modo, a ela deve referir-se o anrmal
mencionado pelo zoólogo. .
Nossas coleções receberam grandes acréscimos em Morro da Arara, (847) Tinamus solitarius Vleillot é o nome que cabe a esta 1!-ve, conheCid.a. or!l
por "macuco" (Brasil meridional), ora por "macuca" (Bahia). . Tmamus . brastltens>B
so·b retudo de quadrúpedes, graças aos mundéus. Os índios são extre- Latham deriva de Perdix brasiliensis Brlsson, equivalente a T•namus ma30r Gmelln,
espécie ' gulano-amazônlca, estranha ao Brasil oriental. Tinamus solitari~ estende-se
mamente hábeis no arranjo dessas armadilhas. Escolhem, para isso, ainda hoje ao nordeste, onde é representada por uma subespécie particular, Ttnamus sollta-
de preferência, um lugar na mata, próximo da margem de um rio. rius pernambucensis Berla, que corresponde precisamente ao "macucagua" de Marcgrave.
Aí levantam um comprido cercado de galhos verdes, formando ângulo (848) Bothrops jararaca (Wied, 1824), Isis, li, p. 1103, pl. VI. Largo contingent~
forneceu Wied à sistemática das serpentes solenóglifas (de dentes caniculados) brasi-
reto com a margem, e podendo ter de dois e meio a três pés de leiras, que, por aquêle tempo, estava ainda em plena elaboração. Seja como fôr
há a distinguir-se entre a "jararaca" propriamente dita, Bothrops jararaca (Wied)
altura. Em cada quinze ou vinte passos, deixam uma pequena aber- e outra espécie, notàvelmente parecida, B. atrox (Linn .), que ora se conhece pelo
mesmo nome, ora pelo de "caiçaca" (nordeste do Brasil ). Amb~s . ocorrem na
tura, sôbre a qual três toras de madeira, compridas e pesadas, são região oriental; mas a espécie em jôgo no caso presente é !!- prt!fleiTa, havel!do
colocadas obliquamente, escoradas com pequenos pedaços de pau. Os depois (Isis, li , p. 1103, pl. 6; Beltr. 1, p. 470 e ss.) o própno Wted reconheCido

-
194 VIAGEM AO BRASIL ESTADA EM MUCURI E VIÇOSA 195

quando, com um tiro feliz, a abati e salvei o apavorado caçador. Os guimos sempre caça abundante. De manhã, a qualquer hora que saís-
índios, e_ mesmo os caçadores portuguêses, vão sempre descalços à semos dos nossos ranchos, ouvíamos a voz, parecida com o som de um
caça_; pois calçados e meias são, no país, artigos muito caros para os tambor, dos barbados (Mycetes), e o ronco forte do guigó• 352, o~tro
habitantes, e, conseqüentemente, usados apenas nos dias de festa. macaco ainda não descrito; as araras, voando em algazarra sobre
Estão, assim, mais expostos às picadas das cobras, que muitas vêzes as cabanas, aos pares, três ou cinco, juntavam-se ao rumoroso
se escondem entre as fôlhas sêcas; contudo, mesmo nessas circuns- concêrto, que ressoava pela mata; e assim nos envolviam os bandos
tâncias, são os acidentes mais raros do que se poderia pensar. O horror de papagaios, de chauás, maitacas, jurus (Psittacus pulverulentus,
pelas serpentes sentido entre os habitantes é excessivo: o vulgo con- Linn.)ssa, curicas e várias outras espécies.
serva diversas, e por vêzes ridículas, crendices a êsse respeito: assim, Nosso pessoal trabalhava ainda na terminação das c_oberturas_ dos
por exemplo, . acredita~ que haja cobras de duas cabeças349; que ranchos. Os dois maiores, em que eu morava em companhia do ouvidor,
algumas se deixam atrair pela luz ou pelo fogo3 50, e que as espécies dos dois capitães navais e do moleiro alemão Kramer, tinham paredes
venenosas cospem fora o veneno, quando vão beber. de barro e as coberturas completas. Estas são usualmente feitas de
. Alguns dias mais tarde, consegui outra, completamente inofen- fôlhas de uricana, palmeira de caule pequeno e flexível, cujas belas
siva, mas de beleza notável, em cuja pele se sucediam anéis verme- e grandes fôlhas penadas (folia abrupt~ pinnata) i~plantam-se por
lhos, pretos e esverdeados; assemelha-se um pouco, no aspecto, à meio de pecíolos delgados; faz-se um feixe com vánas delas; ~s pe-
cobra coral ("cobras corais"), da qual, entretanto, é muito diferente•345. cíolos, muito compridos, são depois enrolados num sarrafo de madei~a_de
Nessas matas êrmas, era a caça o nosso mais agradável, útil e, coqueiro, e amarrados, debaixo, com um "cipó verdadeiro" (Bauhmza),
na realidade, único passatempo; e embora os perigos da floresta nos bastante grande para prender os feixes uns aos outr_os. As ri~as, com
enleassem bastante, obrigando-nos a adotar como regra nunca sair as palmas assim amarradas, são supe~postas de maneira q,ue dOis terços
senão em companhia suficientemente numerosa, mesmo assim, conse- da largura fiquem cobertos. Em seguida, cobre-se a cumeeira com outras
fôlhas, sobretudo com os compridos leques do coqueiro, a fim de torná-la
. (*) Coluber formosns, espécie não descrita; 32 polegadas e ~ linhas de comprido, absolutamente à prova de água. Essa cobertura, que aí sabem fazer
lnclumdo a cal;'da, que tem 7 polegadas;. 202 a 203 escudos ventrais e 65 a 66 pares de
e~camas caudats; ?beça de um alaranJado brilhante; !ris, vermelhão; 76 dentes na muito bem, é leve e sólida; deve-se, entretanto, fazer com que a fumaça
boca; a metade dtan~elra do corpo possui faixas transversais alternadamente pretas e a atravesse de quando em vez, porque, doutro modo, os insetos destrui-
a'.!_larelo-~~verdead'! páhdo; a traseira, alternando-se, listas pretas e largas listas de verme-
lhao. E um ammal de beleza Incomparável. riam as fôlhas sêcas dentro de um ano.
Construía-se, então, um rancho espaçoso para a oficina do fer-
tratar-se de _uma serpente até então não descrita, e perfeitamente distinta daquela
CUJO no~e fora dado por Lineu. Bothrops lanceolatus (Lacépede), que vemos amiúde reiro; porquanto, em virtude da dureza das diferentes madeiras ser-
usa~o. J_á. P_ara uma, já para outra das duas espécies referidas, é hoje considerado
estnto smommo da B. att·ox (Linn.). radas e trabalhadas, os instrumentos precisavam freqüentemente de
Com referência ao "jararacuçu ", que, como no-Jo informa a nota marainal supunha consêrto. O ferreiro, filho da região, era um morador de Alcobaça,
Wled_ ser apenas a própria " jararaca " depois de velha, ficou depois prov';..do 'constituir
espécie perfeitamente à parte, a que J. B. Lacerda denominou Bothrops jararacussu. a quem o ouvidor, querendo punir por certa falta, fizera prender
Cf. A. AMARAL, Rev. Mus. Paul., IV, p. 37; Mem. Inst. Butantan, XI, pp. 2I7-229.
(349) C~bras de duas cabeças, no sentido anatômico do têrmo, não aparecem (*) Callithrix melanochir, 85 polegadas e 10 linhas <!;e comprimento, incluindo a
~orno fato mmto :aro na teratologia dos offdios; é fácil verificá-lo pelos artigos, assaz cauda, que tem 21 polegadas e 10 Unhas; pêlo longo, .espesso e macl~; a face e as
mteressantes, publicados entre nós, por AFRANIO AMAILU., na Reviata ào Museu Paulista quatro mãos pretas; o pêlo é uma mescla de esbranqwçado. e enegre<;tdo, de modo a
(V oi. :XV, p. _!)5-101; 1927) e P. E. VANZOLINI, nos Papéis Avulsos ào Departamento de parecer cinzento; dorso castanho-avermelhado; rabo esbranqmçado, mmtas vêzes quase
Zoo_louw de Sao _Pa'!_lo (vol. VIII, 1947, pp. 278-293). A essas, contudo, não é que se branco, e, outras, amarelado.
aplica a expressao cobra de duas cabeças ", usada pelo povo e referida por Wled ·
o. que .o ~ulgo _conhe~e por tal, não são cobras no sentido zoológico do têrmo, ma; (352) Callicebus melanochir (Wied). Tive ocasião de observar repetidas v~~es o
Sim amma1s mmto diferentes, pertencentes, ora à classe dos lagartos (Amphisbaena) extraordinário concêrto entoado pelos "guigós" (Wied escreve "Gigó") nas matas vtzmhas
ora ao grupo dos anfíbios ápodes (Cecilia, Siphonops, etc.); nêles as duas extremidade~ do rio Gongogi; nenhum exemplar pude ali <!<?lecionar, e_ntretanto. . •
d? corpo serpentlforme são, à primeira vista, muito semelhantes: sugerindo a absurda A descrição, que neste momento nos dá Wted, de mais esta espécie por ele desco,-
hipótese de serem ambas verdadeiras cabeças. berta é perfeitamente válida perante as regras da nomenclatura e possivelmente precedera
(8~0) ~xiste, efetivamente, arraigada nos sertanejos do norte, a idéia, aliás farta- a publicada no mesmo ano (1820) por Kuhl, a quem o nome da espécie vive creditado.
mente a~rovettada pela literatura da ficção, de que certas cobras investem à noite contra Estaria êste exemplo no mesmo caso de Lipaugus vociterans (Wied), nome que me
a_s fogu~Iras, como que pr?curando ~ todo o transe espalhar os tições e apagá-los; tal coube reivindicar em favor do nosso insigne viajante-naturalista.. .
sm_gulandade parec~, todavia, ser atnbuida exclusivamente ao "surucucu" (Lachesis muta (853) "Chauá". ou "chauã", denominação popular onomatopa1ca da espécie Amazona
(Lmn.)), que, por Isso, é também conhecido pelo nome de "surucucu de fogo ". Do fato rhodocorvtha (Salvad.), que ainda hoje é papagaio relativamente comum nas matas
nunca pude CC!lhêr nenhuma observação fidedigna; mas, por mais estranho e paradoxal costeiras do médio leste brasileiro (vide nota 81); "maitaca", nome comum às duas
q~e se nos afigure, conta o testemunho de Spix e Martius, que narram havê-lo presen- espécies este-brasileiras do gênero Pionus; "jura", "jeruaçu", ou "moleiro", _são outras
Ciado no sertao de Minas, quando em. viagem de Tejuco para o têrmo de Vilas Novas. tantas denominações vulgares do maior dos papagaios indígenas, Amazona fannosa, (~od­
Ct. J. B. SPtx e C.. ~- P. ~arms, Vuzuem pelo Brasil, trad. brasil. edit. pelo Instituto daert, 1783), ou Psittacus pulverulentus Gmelin, 1788. O colorido particular dêste último,
Hlst. e Geogr. Brasileiro, R1o de Janeiro, 1938, vol. 11, p. 161. dando a Impressão de que o verde da plumagem tivesse sido empoado . de polvilho,
(351) Pseudoboa (= Oxyrlwpus p . p.) tonnosa (Wied 1820). A espécie uma das (dito no caso pruina), dá razão à maioria dos apelativos há pouco . refendos. Tôdas
que o vulgo denomina "coral falsa", foi contemporâneamente' descrita por Wied' nas Nova estas espécies foram por mim observadas e colecionadas no sul da Bahia, anos atrás (cf.
Ata Acad. Leop. Carol., X, p. I09. Pinto, Rev. do Mtts. Paulista, XIX, 1935, pág. 123 e segs.).
196 VIAGEM AO BRASIL ESTADA EM MUCURI E VIÇOSA 197

em casa durante a noite, mandando-o para aí trabalhar_ Enquanto os de patiobao Um negro mostra um macaco morto por êle, e os mineiros
trabalhadores levantavam as palhoças, os lenhadores desbravavam o e os soldados se vão reunindo aos poucos.
local em que se tinha resolvido fazer a serraria. O ouvidor deixou-nos, O capitão ainda desta vez voltou conosco para casa, deixando-nos no
com boa parte do seu pessoal, e permaneceu algum tempo em Caravelas; dia seguinte para se juntar à turma. Desejamos-lhe sucesso na pros-
nossa sociedade diminuiu bastante, mas logo recebeu grande refôrço. secução da árdua emprêsa, então cheia de perigos, pois ia encetar um
O capitão Bento Lourenço avançara tanto a nova estrada, com os trabalho exaustivo nos profundos recessos da floresta, próximo à estação
mineiros, que já se aproximava do nosso retiro. Os "picadores" chuvosa, geradora de muitas doenças. Morro da Arara nos parecia
(gente que segue adiante, marcando nas árvores a direção a ser agora quase deserto; quando, à tardinha, tôda a nossa gente voltava
seguida pelos lenhadores) chegaram um dia mais cedo, e anunciaram a do trabalho, não éramos mais de vinte e nove pessoas.
vinda da turma. Na outra tarde, aparoe ceu o capitão com oitenta ou Nosso sucesso na caça não diminuiu por isso; pois se armaram
noventa homens, alojando-se conosco. No pequeno espaço que ocupá- novos mundéus, que renderam muito. Para se ter uma idéia da abun-
vamos se reunia, agora, grande número de pessoas; os sons da viola, dância da caça nessas matas virgens, é indispensável dar, aqui, uma
o canto e o batuque entravam pela noite: eno'fmes fogueiras ilumi- lista dos animais mortos ou capturados nos mundéus, nesse período de
navam as derrubadas próximas, na escura floresta, e os clarões ver- cinco semanas35õ:
melhos iluminavam o vasto espelho da lagoa. A extensão da estrada,
Antas . . . . . . . . . . . .Tapirus americanus .. o. . ... . o. . . oo. . . 3
de M ucuri a êsse ponto, é de cêrca de 7 ou 8 léguas. Os mineiros des- Guazupita, Azara . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1
cobriram, perto do Morro da Arara, outra grande lagoa, abundante Veados · · · · · · · · · · { Gazubira... . .. . . . . ooo. o. ... . .... .. . o. . 2
em peixe, e na qual havia inúmeros jacarés; tiveram de ladear o lago Porcos-do-mato . . . Dicotyles labiatus, Cu v. . . . . . . . . . . . . . . . 11
e atravessar pantanais, motivo pelo qual o trabalho se atrasou muito. J
Barbados (Mycetes) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
Os homens de várias raças existentes na turma do capitão deram à
nossa sociedade feição pitoresca e original. Além de nós, alemães e por- Macacos . _.. _. _.. L~~~;~s d~. ~~~~~i~. ~.ã~. ~.~s~~~t~···~'..· .' .' .' .' .' .' 1~
tuguêses, tínhamos negros, mulatos, índios do litoral, um botocudo, um Coatis 858
• • ••• • • • • Nasua .. . .. . .. ... .. .... ... . .... ... . . .. 10
malali, alguns maconis, e capuchos, todos soldados de Minas Gerais. Tamanduás ..... . Myrmecophaga . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
Lontras ......... . Lutra brasiliensis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
O capitão e sua gente passaram uns dias em Morro da Arara, espe- Iraras""' . . . .. . . . . . Mustela . .. . . . . .. . . .......... . . . . . . ... 4
rando que o nosso ferreiro lhes consertasse os instrumentos e os fechos Mbaracajás Felis pardalis . o • • • • • • • • • 4• • • • • • • • • • • • •

das espingardas. Fêz a sua turma trabalhar diàriamente; a estrada


atravessou as derrubadas no espigão das montanhas, tendo-se aberto (*) (Suplem.) Denominei êste macaco Cebus robustus; o Dr. Kuhl deu uma noticia
uma trilha, ou picada, dos nossos alojamentos à nova estrada, que provisória dê! e em seus "Beitrãgen zur Zoologie ".
depois usamos nas caçadas. A 22 de fevereiro, o pessoal do capitão (855) A determinação e nomenclatura das numerosas espécies mencionadas na
deixou-nos para prosseguir o trabalho através da floresta. Alguns lista, algumas das quais já foram alvo de comentários, deixa de ser aqui objeto de
reparos, para os quais não tardará a se oferecer melhor oportunidade.
dentre nós os seguimos até certa distância pela estrada nova, dentro (856) Mazama simplicicorni8 (Illlger, 1811), vulgarmente "guaçu-virá", "vlrote",
da mata. Aí repousamos à sombra de veneráveis árvores seculares, "catlngueiro ", etc.
(857) Cebus robustus Kuhl, 1820, Beitr. Zool. Anat., p. 85 (sin. Cebus cucullatus
e nos regalamos com as bebidas refrigerantes dos mineiros. Uma cena Spix, 1828; Cebus subcristatus Gray, 1865). Coube-me, anos atrás (Pap. Avulsos do
D epartamento d e Zoologia, I, 1941, p. 111) reivindicar os direitos da presente espécie,
de que a nossa 6.a estampa dá idéia muito clara. Estamos todos sentados que Elliot (A Review of Primates, li, 1913, p. 64) e outros incluíram errOneamente na
em círculo, enquanto o capitão Bento Lourenço, distinguindo-se dos sinonímia de Cebus varieuatus. No Rio Doce (Estado de Minas Gerais) onde a encontrei
com grande freqüência, é ela conhecida com o nome de "mico topetudo". Com o
demais pelo grande chapéu de castor cinzento, prepara, numa cuia, a nome Impróprio de Cebus tatuellus Geoff., espécie amazônica, encontramos em Beitrtiue
bebida chamada "jacuba". As espingardas se acham encostadas aos (I, p. 76 e ss.) a noticia de outros micos encontrados pelo nosso viajante na região da
Serra dos úrgãos e em Cabo Frio, mas sõbre os quais o relatório da Viagem silencia;
troncos das árvores, tendo algumas os fechos protegidos da umidade correspondem êles a Cebus nigritus Goldfuss, de que a. cirrifer E. Geoffr. é um sinOnimo
usado ainda multo comumente.
com fôlhas de patioba. Alguns índios ainda mourejam em derrubar (858) Nasua nasua solitaria Schinz, 1821. A tendência atual é reunir em Nasua
as árvores, guardados por soldados índios, sentados nas provisões empa- 1W8Ua (Linn., 1766) todos os coatls encontrados no Brasil, e tratar como subespécies
as respectivas populações suficientemente diferenciadas. A região do Mucurl corresponde
cotadas ("muqueca" ou farinha de mandioca embrulhada)354 em fôlhas aos limites setentrionais atribuídos à área geográfica da subespécie supracitada, a qual,
mais ao norte, da Bahla ao Maranhão, é substituída pela forma tfplca da espécie.
Nasua sociali s Wied (Beitrüge, li, p. 288 ) é simples sinônimo, traduzindo o hábito que
(354) Difícil penetrar no sentido da expressão fechada no parêntese por Wied têm os Indivíduos novos de se reunirem em bandos mais ou menos numerosos (cf. C.
sabendo-se que "muqueca" (êle escreve "Mukãcke") significa, na Bahia certo mlllh~ da Cunha Vieira, Arquivos de Zoolog. do Estado de São Paulo, VII, 19~5. p. 447).
com qu~ é de praxe preparar os alimento_:;, particularmente o peixe, inolho que se (859) Causa reparo seja essa a única referência feita por Wied à !rara, Tayra
cara ctenza prmCJpalmente pelo largo emprego do limão e mais ainda da pimenta barbara (Linn.) , ou " papa-mel ", um dos carnívoros mais comuns nas matas do Brasil,
(de preferência a chamada " malagueta "). como no-lo informaria mais tarde (Beitrüge, li, p. 217) o próprio príncipe.
198 VIAGEM AO BRASIL ESTADA EM MUCURI E VIÇOSA 199
Gatos pintados ... Felis trigrina?•... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 Da classe dos insetos, obtivemos, em quantidade, o Cerambix longi-
Gatos mouriscos .. Felis yaguarundi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
Tatus .......•... Dasypus . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 manus364, e da dos répteis, a tartaruga do mato ou jabuti (Testudo
Pacas ........... . Coelogenys paca ...................... 19 tabulata)365, etc.
Cu tias .......... . Dasyprocta aguti . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 Após uma ausência ele cêrca de três semanas, o ouvidor voltou
com algumas canoas e muita gente. Deu-nos a triste notícia ele que
AVES COMESTíVEIS os selvagens, a 28 ele fevereiro, tinham matado cinco homens, mulheres
Mutum ........ . Crax alector, Linn. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8
e crianças, a uma légua aproximada da Vila ele Port'Alegre, na nova
Jacutingas ...... . Penelope leucoptera . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 estrada do capitão Bento Lourenço. Algumas pessoas, apercebendo-se
Jacupembas ..... . Penelope marail, Linn. . . . . . . . . . . . . . . . . 2 do grande e compacto bando dos tapuias, esconderam-se precipitada-
Macucas ........ . Magoua, Buffon . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 mente no mais espêsso da mata, tendo a felicidade de escapar. Um
Chororão ....... . Tinamus variegatus, Latham . . . . . . . . . . 6 homem de Mucuri, que trabalhava nas próprias plantações, na mata
Patos ........... . A nas moschata, Linn. . . . . . . . . . . . . . . . . 4
próxima ao local, ouviu os gritos lacerantes das desgraçadas vítimas;
Ao todo, 181 quadrúpedes e 30 grandes aves comestíveis. Com êle e o filho, já homem, tomaram logo das espingardas e correram
os macacos caçados, muitos filhotes também caíram em nossas mãos; em socorro dos infelizes; antes, porém, de chegar à cena de massacre,
não conseguimos, porém, conservar vivas por muito tempo essas frágeis o pai descarregou a arma, em conseqüência do que os selvagens fugiram
criaturinhas, provàvelmente porque não tínhamos alimento apropriado imediatamente. Deram com as vítimas banhadas em sangue, sem sinais
para elas. de vida, traspassadas por muitas flechas e cobertas de pequenas feridas,
Além de provisões para nossa cozinha, as caçadas forneciam-me feitas com a ponta das flechas; uma criança, que se escondera atrás
materiais para investigações de história natural, e o tempo, assim, de uma moita, passando despercebida, contou os pormenores do lúgubre
passava ràpidamente nessa solidão. Entre os animais encontrados, acontecimento- Como os selvagens não se retirassem depois do ataque,
menciono, apenas, algumas espécies até agora não descritas; assim, rondando pelas cercanias das plantações do Mucuri, foram estas aban-
a cotinga purpúrea • •3°1, o sabiá-cica • • *36 2, papagaio de voz notà- donadas pelos proprietários, que se refugiaram na vila. O ouvidor
velmente bem modulada, a maitaca de cabeça vermelha••••sss, etc. deu ordens imediatas para uma expedição, reunindo, para isso, gente
armada de S. Mateus, Vila Verde, Pôrto Seguro e outros lugares, após
(*) (Suplem.) :e:sse gato constitui uma espécie ainda não descrita, a que dou o que voltou ao Morro da Arara. Daqui, com dez ou quinze homens,
o nome de Felis macroura; dei dela uma nota prévia na tradução do "Regne Animal" retomou a estrada nova, permanecendo dois dias na floresta, nive-
de Cuvier, feita pelo Dr. Schlnz.
(**) Ampelis atro-purpurea; 7 polegadas e 9 linhas de comprimento; a plumagem lando um curso d'água para a serraria do ministro. Os dois oficiais de
d!JS pássaros velhos é purpúreo-anegrado, tendendo, no alto da cabeça, para o vermelho
vivo; penas das asas, brancas. A plumagem dos pássaros novos é cinzenta, com asas marinha, que vieram com êle, empreenderam, rio acima, a fim de
de penas brancas. levantar o mapa do percurso, uma viagem de dois dias, até a cachoeira;
(***) Psittacus cyanogaste1·: linda plumagem verde-escura; uma mancha azul
cobalto no ventre; rabo um pouco comprido; essa espécie, devido à voz, é freqüentemente aí encontraram o capitão Bento Lourenço, cujos trabalhos já tinham
criada nas casas.
(****) Psittacus mitratus; incluindo a cauda curta, 7 polegadas e 8 linhas de alcançado êsse ponto. O ouvidor deixou Morro da Arara no dia 9,
comprido; linda côr verde brilhante, com asas de penas azul-escuras; olhos e cabeça, voltando para a vila. Levou-nos os homens e as armas de que necessitava,
até ao pescoço, escarlates.
para enfrentar os selvagens; mas a expedição não deu resultado, porque
(860) Fez.is wiedii Schinz, 1821. Como veremos adiante no próprio texto da não encontraram os precavidos tapuias.
obra (p. 425), a descrição dêste novo felino foi fornecida pelo príncipe de Wied ao
tradutor alemão do Reino Animal de Cuvier, onde efetivamente aparece, impondo para Fiquei, então, de novo, em companhia só do feitor da fazenda,
o animal nova denominação, e reduzindo Felis macroura Wied à condição de nomen
nudum, inaproveitável à luz do Código Intern. de Nomencl. Zoológica. dos meus dois criados alemães, de cinco negros e seis ou sete índios,
(361) Xtpholerw. atro-purpurea (Wied), como atualmente se chama, é mais uma que iriam aos poucos, adiantando o serviço. Como os nossos mun-
espécie cuja descoberta se deve ao Príncipe. Ocorre comumente ainda hoje no Espírito
Santo e nas matas de leste da Bahia, inclusive as do Recôncavo; parece, porém, problemática déus não capturassem muita caça nas noites de lua, resolvemos cons-
a sua existência atual no Estado do Rio de Janeiro e em Pernambuco que assinalam os
limites conhecidos de sua primitiva área de distribuição. ' truir outros; fizemo-los em cima da montanha, do outro lado da
~362)_ O "sabi~-cica" ("~abiasicca", no original) ou "araçua-í-ava", nomes indígenas.
ou Tnclana malacl"tacea (Sp1x) da nomenclatura clentifica, é ave encontradiça do sul
da Bahia ao Rio Grande do Sui. Psittacus cyarr,ogaster Vieillot (1817), conquanto anterior (364) Acrocinus longimanus Linn., dito "arlequim da mata", "arlequim de Caiena",
ao de Spix, é nome prejudicado pela sua aplicação anterior a ave diversa, por Shaw (1811). grande e bonito besouro da famllia dos longicórneos ou "serradores" (Ceramblcidas)
(863) Pionopsitta pileata (Scop.) apelidada então na zona "maitaca da cabeça notá_!el pelo dimorfismo sexual que dá aos machos enormes patas anteriores, em despro-
vermelha", como informa textualmente Wied em Beitrage (vol. 111, p. 247), onde reconhece porçao com as demais.
ter sido a espécie já descrita sob o nome de Psittacus pileatus Scopoli (1769). Hoje é (365) Na Bahia o jabuti é comumente designado pela denominação de "cágado do
conhecida vulgarmente por "periquito rei", "cuiú-euiú ", "caturra" (Rio Grande do Sui). mato", tal como nos tempos em que por lá andara o nosso viajante naturalista (cf.
"Baitaca" ou "maitaca", em nossos dias, parecem nomes privativos às formas do Beitriige, I, p. 51 e ss.). E' ainda bastante comum nas matas do Rio Gongogi. onde
gênero Pionus. me recordo de ter visto, caçados na chamada serra do Palhão, muitos avantajados espécimes.
200 VIAGEM AO BRASIL ESTADA EM MUCURI E VIÇOSA 201

estrada nova. Prepararam-se trinta armadilhas e três fojos. Embora deram dessa quina, com os quais o capitão se curou, foram descas-
os Patachós nos prejudicassem muito, levando, por diversas vêzes, os cados muito grossos, e ainda frescos, de modo que não podiam
animais capturados, e escangalhando a cobertura dos fojos, ainda assim ser reduzidos a pó. Cortamo-los, por isso, em pedacinhos, e fizemos
conseguimos alguma caça, até que o local foi perturbado pelos um forte decocto, que bebemos. Os portuguêses, acostumados ao clima,
madeireiros, vindos da vila para construir canoas. As árvores abatidas beneficiam-se do remédio; porém nós, alemães, achamos que êle
eram a oiticica •, o jequitibá e o cedro, que, ao lado da sergueira, apenas adia o acesso, o qual volta, depois, com redobrada violênci~.
são o que há de melhor para construção de canoas. Como a falta de alimentação conveniente se tornasse cada vez ma1s
O mês de março chegou e, com êle, a estação fria, que começa sentida nessas precárias circunstâncias, e eu visse que não recobraria
com chuvas abundantessss. Fazia, às vêzes, forte calor pela manhã, a saúde continuando a sustentar-me de feijão prêto, carne gorda ou
interrompido ao meio-dia por violentas tempestades, que ocasional- salgada, a que estávamos reduzidos, resolvi transportar-me para a_ vila,
mente se prolongavam durante um ou dois dias, chovendo a cântaros. o que fiz no dia I O de março. Os fortes ventos que varrem o h tora I
Com um tempo assim, nossa morada solitária, num pequeno e sombrio nesse período, são mais benfazejos à saúde do que o ar abafado e
vale, dentro da mata, tornou-se extremamente melancólica; da mataria úmido das matas. A descida do Mucuri foi muito agradável, pois não
encharcada subiam vapôres como nuvens espêssas, envolvendo-nos de choveu. As provisões também escasseavam na vila, pois, na verdade,
tal modo, que mal se podia divisar a mata fronteira embora tão pró- nela reina, geralmente, muita pobreza; a população não tinha senão fari-
xima de nós. .tsse tempo variável e úmido causou muitas doenças; nha de mandioca, feijão e, às vêzes, um pouco de peixe. Nós, doentes,
febres e dores de cabeça tornaram-se freqüentes, e mesmo os índios, tivemos entretanto a sorte de obter alimento conveniente, comprando
filhos da terra, não ficaram delas isentos, a ponto de ser preciso mandar alguns frangos. De vez que não parecíamos melhorar com a quina bra-
vários dêles para a vila. Nós, estrangeiros, sofremos, com especialidade; sileira, mandamos um mensageiro à Vila de S. Mateus, o qual nos
estávamos desprovidos dos remédios necessários, sobretudo de quina, de trouxe um pouco da quina legítima do Peru. Esta, de fato, deu logo
todo indispensável aos viajantes nesses climas cálidos. cabo do mal; mas decorreram várias semanas antes de podermos
A febre também atingiu os da turma do capitão Lourenço, recuperar de todo as fôrças.
co~ maior violência; êle mesmo estava muito doente e enfraquecido. Em começos de maio, o Sr. Freyreiss, com o resto da nossa gente,
De1tando-se no chão molhado da mata, com falta de bebidas fortes, não apareceu no IVIucuri. Tinha feito uma curta estada em Linhares, ??
tendo para tomar senão água, e dada a absoluta carência de remédios rio Doce, encontrando êsse povoado muito diferente de quando ? VlSl-
apropriados, muita gente ficou tão abatida, que houve necessidade de tamos. Os botocudos, mais destemidos e ferozes do que nunca, tmham
mandá-la para a vila. Até êle próprio veio para Morro da Arara, onde o aparecido, de novo, numa grande horda. Na margem sul do rio, perto
tratamos por algum tempo, deixando-o ir mais ou menos restabelecido. do quartel d'Aguiar, próximo da Lagoa dos índios, mataram três soldados
De minha parte, ao perceber que a febre não me largaria, recorri à fibras. Ao ser quebrada, a casca inteira parece ser fo~mada ~e uma só substância,
quina que existe nativa no Rio Mucuri••as 7 • Os pedaços que me que é, externamente, vermelho-escuro, brilhante ~ mu!to resmosa; mternamente,. vermelho-
pálido sem brilho e muito pouco resinosa. E mais pesacla do que a água. o gõsto
é des~gradàvelmente amargo, mais adstringente do que o da quina v<;rmelha; o pó
(*) (Suplem.) Essa árvore foi descrita por Arruda, com o nome de Plerauina assemelha-se ao da rub. tinct., com a única diferença de que o da quma tende Pl!-ra
umbrosissima ( cf. o apêndice de KOSTER, Travels). 0
violeta, e o da rub. tinct. é pardo; não pode ser comparado com o da qwna
(**) Consiste es a casca de pedaços de quatro a seis polegadas de comprimento, vermelha. O decocto é pardo-avermelhado escuro; misturado _com uma infusão de
um~ ~ me~a a duas de largura, e meia (mais ou menos) de espessura. Os pedaços, na noz de galha dá um precipitado cinzento-avermelhado pard?, tao forte como o das
maiOria, sao curvos, de modo que o lado de dentro forma um canal de meia a uma outras espécies de quina; com cloreto de estanho, o precipitado, mais abundante e
P_?legada de largura e de um sexto a um quarto de polegada de profundidade. Externamente, espêsso, torna-se pardo-violáceo avermelhado; . com um decocto de casca de ca r~alho
sao pardo-avermelhados escuros, com manchas de vermelho claro; internamente, é de não há precipitado, mas uma mistura dos dms; com acetato de chumbo, o. precipitado
cõr _mal~ clara e de aparência Ienhosa. O lado externo é rugoso, nervado e sulcado é de um pardo-claro sujo, tendendo para o avermelhado; o tártaro emético dá uma
Iongitudmaimente, tendo, ademais, aqui e ali, fissuras transversais, tal como a casca ligeira tonalidade de fígado, o sulfato de _ferro um clnz:nto-escuro-azulado. e o sulfato
de A_ngu~tura. Ainda nesse lado se vêem pontos mais altos do que o resto da superfície, de cobre um precipitado vermelho-pardo-aCJnzentad<!_. Na? se p~em estabelecer dados
de cor Cinzenta e vermelho-dara, como que pertencente a uma formação exterior; trata-se, ~atlsfatórios para 0 uso interno dessa quina, pois nao le~e!, com esse Intuito, quantidade
provàvelmente, de um Hquen que se desenvolve sõbre a casca. Partindo-se nota-se suficiente para o dr. Bernstein, que é o autor da descr1çao precedente. S_eu uso pa~ece
que é quebradiço e um pouco brilhante, não havendo traços de tecido lenhos~ ou de mais vantajoso na raqueza do estômago do que o das outras espécies de quma.
Não pude empregá-la nas febres intermitentes. Sõbre êste assunto V. também v.
(866) E' sabido que em tõda a faixa costeira do Brasil este-setentrional, ao contrário EscWEGE, Journal von Brasilien, cap. Il, p. 36.
do que acontece com os Estados do Sul e o interior do pais, a estação chuvosa coincide (367) Wied não fornece qualquer dado botânico em que se possa apoiar qualquer
paradoxalmente com os meses mais frios do ano, Iniciando-se ordinàriamente em abril tentativa de determinação do vegetal a que se refere. Tal determinação é tanto mais
ou meados de março, e prolongando-se até julho ou agõsto. A observação de Wled, difícil quanto se sabe que no Brasil o nome de "quina" é aplicado, com epítetos. vários,
concordante aliás com o que pude eu próprio observar em minha viagem ao Rio a um sem número de plantas mais ou menos comprovadamente febrífugas e antlperiódicas;
Jucurucu (cf. Rev. Mus. Paul., XIX, p. 87), demonstra que a zona em que tal fato se não obstante, elas. na sua maioria. pertencem à mesma familia da quina do Peru. a
observa estende-se, pelo menos, até o sul extremo da Bahia em vez de ter o seu limite saber, as Rubiáceas, onde se Incluem nos gêneros Ladenbergia, Remijia, Coutarea, etc.,
m~ridional na região do Recôncavo, como é corrente supor (cf. H. MoruzE, Diccion. em algum dos quais é de tôda probabilidade situar-se a planta a que o autor se reporta.
H1.8t. Geogr. e Etn. do Brasil, introd. geral, vol. I, p. 112).
202 VIAGEM AO BRASIL ESTADA EM MUCURI E VIÇOSA 203

e, segundo se afirmava, os devoraram. Enviou-se contra êles, de Li- O maior serviço que o rei poderia prestar aos súditos, no Brasil,
n~ares, u~a entrada com tôda a gente que se pôde reunir (cêrca de seria a distribuição de médicos e cirurgiões competentes pelos dife-
tnnta e Oito pessoas); porém esbarraram com tamanho número de selva- rentes pontos do país, e o estabelecimento de boas escolas públicas,
gens, que acharam mais prudente bater em retirada. Em uma só das a fim de, gradualmente, dissipar a rude ignorância e a cega superstição,
"tocaias"• havia perto de quarenta homens armados de arco. f.ste que acarretam e espalham entre o vulgo tantas misérias e males. Tais
desfecho da emprêsa levou o pânico a Linhares, cujos habitantes, con- escolas são de todo inexistentes. Padres arrogantes, a que tanto falta
tou-nos o Sr. Freyreiss, fugiam aos grupos de quatro e de oito, com mêdo a energia quanto a vocação para o ensino e a educação do povo, têm,
de serem devorados pelos ferozes selvagens. A fazenda do tenente pelo contrário, contribuído ativamente para recalcar a razão sadia
Calmon ficou em situação muito crítica e perigosa. O guarda-mor, e o exercício do raciocínio, e impedir o progresso intelectual. Apesar
que estava em Linhares como prisioneiro, escapou-se para S. Mateus, de tôda a rusticidade, o vulgo possui, em alto grau, amor próprio e
o comandante do quartel de Pôrto de Souza desertou com seis soldados, orgulho, de par com uma ignorância completa da situação do resto
etc., de modo que a colônia, situada numa região das mais férteis, estaria do mundo; o que se deve atribuir, sobretudo, ao pernicioso sistema,
fadada a desaparecer, se o govêrno não adotasse medidas adequadas. seguido outrora por Portugal, de inteira exclusão do Brasil do inter-
. Depois de passar umas semanas em Mucuri com o Sr. Freyreiss, câmbio internacional. Um estrangeiro é aí encarado com espanto,
a fim de me restabelecer completamente, partimos para Vila Viçosa, ou com algo de semi-humano. Deplorando êsse obscurantismo, o amigo
onde nos acomodamos na casa da Câmara, e donde excursionamos pelos da humanidade deve rejubilar-se com as esperanças que o presente
arredores. govêrno, mais esclarecido, permite alimentar.
Vila Viçosa é um povoado aprazivelmente situado entre coqueiros. O rio Peruípe, regularmente largo, forma, antes de desaguar no
Mantém algum comércio de farinha de mandioca, que é exportada oceano, dois braços, dos quais a Barra Velha se considera situada a
pela costa.. Diz-se que, no último ano, a quantidade exportada atingiu 18° de latitude. Para cima, as margens são desabitadas, tendo-se aí
9 000 alqueires, no valor de 9 000 cruzados. Diversos habitantes possuem estabelecido, contra os tapuias, o quartel de Caparica. Diante da
pequenas lanchas, nas quais exportam, por mar, o produto de suas foz há bancos de areia, que tornam a navegação insegura. Durante a
lavouras. Aí vive um carpinteiro naval alemão; trouxe-o o navio nossa permanência no lugar, uma lancha carregada de farinha nau-
i~~lês, que naufragou, e ~tualmente exerce a sua profissão. Veio logo fragou no rio, morrendo quatro homens. As célebres ilhas rochosas
VlSltar-nos; porém, só mmto mal fala ainda a sua língua nativa. Con- denominadas Abrolhos, terror dos navegantes, ficam próximo, entre
sideram-no inglês no lugar. Caravelas e Viçosa, a poucas milhas da costa; pescadores dirigem-se
Os donos das lanchas são os moradores mais ricos e importantes. para lá, demorando vários dias ou mesmo semanas, e conseguindo
Entre ê!es, o. Sr. Bernardo da Mota distingue-se pelo bom coração muito peixe e tartarugas. As ilhas são cobertas de mato rasteiro, onde
e pela mtegridade. Conhecedor de muitas doenças regionais, pos- muitas aves marinhas fazem os ninhos, especialmente as "grapirás"
sumdo bastante experiência, adquirida gradualmente, esforçou-se em (Halieus fortificatus)368.
ser útil aos conterrâneos enfermos, aconselhando-os e dando-lhes bons
remédios. No clima quente do Brasil, os habitantes estão sujeitos a
Nas cercanias de Viçosa há matas de primeira ordem, êsse tempo a
parcialmente inundadas pelas chuvas freqüentes. Árvores altaneiras
nu~erosos males, sobretudo a várias enfermidades de pele e a febres espalhavam sombras amenas; entre elas, sobretudo, numerosos
p~:siste~tes, que, trata~as convenientemente por médicos ou cirur- coqueiros, cujas espécies conhecidas pelos habitantes se vêem na lista
giO~s, sao, decerto,. mmto pouco perigosas, mas das quais morrem anexa. Conhecem-se, na região à margem do Mucuri e do Peruípe,
mmtas pessoas, devido à falta da assistência necessária, ou ao trata- as seguintes espécies de palmeiras, tôdas elas tendo os caracteres externos
~ento i~próprio. O Sr. da Mota tentou, em Viçosa, atenuar êsse do gênero Cocos,; mas não se pode estatuir definitivamente que a
mconvemente tanto quanto possível; embora não tenha conhecimentos êle pertençam, sem exceção, porque não tivemos oportunidade de
médicos profundos, a experiência ensinou-lhe muitos tratamentos exce-
lentes e práticos; e dada a modéstia com que procede, adotando tudo de
(368) A espécie referida pelo viajante corresponde à Fregata nuzonificens rothschildi
bom e útil que lhe comunicam, seus conhecimentos e o alcance dos seus Math. da hodierna nomenclatura. Ela e as suas congêneres são ainda ordlnàriamente
benefícios vão-se continuamente dilatando. mencionadas nos livros didáticos com o nome de "!regata", por influência dos autores
europeus, franceses em particular. Tal denojllnação é, entretanto, inteiramente estranha
à lingua de nosso povo, que, em compensaçao, conhece a ave por número avultado de
apelações, va'"!áveis para cada região, como "joão-grande" (Rio. São Paulo), "alcatraz"
(* ) Tocaias são lugares que os selvagens preparam no mais esconso das florestas, (sul do Bras1l), "tesourão", "pássaro-do-sul" (Recôncavo), etc., sem falar no nome
ond<; se e_scondem à espreita dos Inimigos. Em geral, possuem várias em diferentes indígena "grapirá", ainda usual em alguns lugares. Em Fernando de Noron.ha e
loca1s: ad1ante, trataremos delas mais pormenorizadamente. Trindade ocorrem espécies Intimamente aparentadas com a que freqUenta o nosso htoral.
ESTADA EM MUCURI E VIÇOSA 205
204 VIAGEM AO BRASIL

examinar as flôres de tôdas. A êsse respeito, os botânicos nos poderão, empenachadas, arqueando-se como plui?as de ~ves_truz. S_?b a copa,
com exame mais acurado, dar melhores informações. 0 caule cinzento-prateado mostra uma mtumescenCia de tres a quatro
pés de comprimento, contendo as fôlhas novas e as flôre~, que formam
A. Espécies de palmeiras sem espinhos. como que uma medula, comestível, e chamada palmito. Entre a
L Côco-oA-BAHIA (Cocos nucifera, Linn.)369 não dá em estado parte lenhosa do caule e a intumescência verde contendo a medula,. cresce
selvagem, porém é muito comumente cultivado no litoral do Mucuri, e pende 0 cacho de flôres amarelas. O cacho de frutos é pequeno,
isto é, de 18° para o norte, até Bahia e Pernambuco; para o sul é constituído de coquinhos pretos, que mal chegam ao tamanho de uma
muito raro. Caracterizam-se, quando novos, por um espessamento na avelã.
base do caule, junto ao solo. 7. Côco-nE-GURmi (o Pissandó dos índios). Palmeira anã, que
2. Côco-oE-IMBURI; de fôlhas estreitas de regular comprimento, dá na areia das praias: de fôlhas lisas, porém arqueadas como plumas;
branco-prateadas embaixo, de um verde brilhante em cima; produzem as pinnulae são, muitas vêzes, um pouco enrolad~s para o la_do de dentro
cachos de coquinhos muito duros, que só os selvagens comem. e, ao mesmo tempo, duplas. Próximo ao solo ha um_ espadice, contendo
3. Côco-oE-PINDOBA •; não tem caule, brotando, apenas, do solo, coquinhos, que, na origem, é algo pontuda e revestida por uma polpa
belas fôlhas compridas; rente ao chão há um cacho de côcos comestíveis. doce, vermelho-amarelada, comida na região.
4. Côco-DE-PATI; tem um caule alto e grosso, vastas, pujantes e 8. Côco-nE-PIASSABA ou PIAÇABA: uma das mais úteis, notá-
colossais frondes, e majestosa aparência; o cacho de frutos é muito veis, e, ao mesmo tempo, belas das espécies; o fruto é do tamanho
grande, constituído de numerosos e duros coquinhos. e forma do N.o 5, e um pouco pontudo. Começa a aparecer nas pro-
5. Côco INDAIÁ-AÇU; de caule alto e forte, lindas e largas palmas, ximidades de Pôrto Seguro, tornando-se cada vez mais freqü,ente daí
e rachis lenhoso e rijo; as pinnulae são muito lisas, de bordos não den- para 0 norte, e sendo mais abundante na comarca d; Ilheu.s. Seu
teados, pontudas, de um verde-escuro brilhante em cima, embaixo de estipe é alto e forte, as pinnulae algo destacadas das folhas, todas as
um brilhante verde-claro. Dá um grande cacho de frutos, de nume- frondes , porém, subindo ~rectas, e ~ão pendentes como nas outras
rosos côcos comestíveis de cinco polegadas de comprido. O cacho é tão espécies; daí ter essa cunosa pa_lmena semelha~.ça com uma p~uma
grande que um homem o não pode carregar. E' uma árvore de porte turca de penas de garça. A bamba, quando seca, reduz-se a flb_ras
majestoso, a mais bela das palmeiras da região; havia, na Lagoa da lenhosas, finas e muito compridas, com que se fazem cordas para navios.
Arara, algumas grandes e imponentes árvores dessa espécie. O duro côco é trabalhado para a confecção de rosários.
6. Côco-nE-PALMITO, no Rio Doce, e mais ao sul; para o norte 9. Côco-nE-ARICURI ou ARACUÍ: palmeira de quinze a dezoito
às margens do Mucuri, conhecido por "côco-de-jissara". Os mais pés de altura, crescendo na areia das prai~s, ~as vizi~hanças. de Alce-
elegantes de todos. Caule muito alto e esguio; coma pequena, for- baça e Belmonte, tendo três, quatro ou ma1s fo~a~, CUJOS pecwlos mo~­
mada de oito ou dez lindas fôlhas verde-brilhantes, luxuriantemente tram, na origem, de ambos os lados, excrescenCias rombas e aculei-
(*) Nas diversas variedades de palmeiras acima enumeradas, os nomes acrescentados formes. Quando as frondes caem, ficam os pedúnculos: tornando-se
à palavra "côco" são, em sua maioria, os reais nomes antigos, provindos da llngua êstes em hastes curtas e muito ásperas- As frondes, elegantemente
dos Tupinambás e outras tribos Tupis aparentadas. Assim, por exemplo, um famoso
chefe indlgena era chamado Pindobuçu ou grande palmeira Pindoba. Vide SouTHEY's, arqueadas são verde-brilhantes e lisas. O cacho é formado de nume-
rosos frut~s drupáceos, redondos e do tamanho de uma ameixa gr~nde,
Histon;, etc. vol. I, p. 289, e outros trechos.
(369) Wied escreve invariàvelmente "Côcos", em lugar de "côco": "Côcos da revestido de uma saborosa polpa alaranjada. Fazem-se, com as folhas,
Bahia", " Côcos-de-lmburl ", etc. Essa grafia imprópria denuncia o pouco trato do
viajante com a nossa llngua e cumpria retificá-la na presente tradução. Se o chamado chapéus leves.
"côco-da-Bahia" ou "côcCKla-praia", como é mais ordinàriamente conhecido no
Nordeste, existia no Brasil antes do descobrimento, fazendo parte da flora indlgena, ou
se é planta exótica para aqui importada, é assunto ainda hoje muHo debatido. A opinião B. Espécies com espinhos verdadeiros.
mais corrente, já adotada por MARTIUS (Cf. Viagem pelo Brasil, ed. bras., 11, p. 89)
é a de que seja originário das Ilhas do Pacifico ou do Oceano indico, onde êle existe, 10. Côco-nE-Ami-AÇU: a grande palmeira airi. (conhec~da, em
ao lado de outras palmeiras estreitamente afins (cf. A. J. SAMPAIO, Pllytoueouraphia do alguns pontos de_ Minas Gerais, {1br "brejeúba"), CUJO só estlpe tem
Brasil, São Paulo, Cia. Edit. Nac., 1934, p. 199).
Quanto às inúmeras espécies que o autor menciona pelos seus nomes vulgares, nem 20 a 30 pés de altura, de côr pardo-escura e totalmente co?e~to de
sempre é fácil identificá-las com satisfatória precisão; não obstante, feita esta ressalva,
e advertindo que alguns nomes vulgares se aplicam freqüentemente a mais de uma espécie,
espinhos do mesmo tom, dispostos em anéis. O cacho é con~t1tmdo de
enquanto que denominações técnicas podem estar também antiquadas, apresento a coquinhos trigueiros, muito duros, ovais, um pouco acummados, ~o
seguir uma tentativa de sua determinação: "imburl", "imbiri", "pati", ou simplesmente tamanho de uma ameixa. Nos lugares em que é abundante, a pal:ne1ra
"blrl", Diplothemium caudescens MARTIUS; " pindoba ", Attalea compta MART.; "indaiá-açu "
ou "lndaiá ", Attalea indaya Drude; " palmito-doce ", Euterpe edulis Mart. e "jissara " forma capoeiras impenetráveis; medra nos matos en.?'utos ... Nao se
ou "jussara", Euterpe oleracea Mart.; "piassava" ou "plaçaba", Attalea funi{era Mart.;
"aricuri ", Cocos scllizophylla Mart.; "airi-açu" ou "ai ri", Astrocarymn ayri Mart.; encontra mais ao norte; não a observei mesmo nas circunv1zmhanças
"tucum" ou "ticum ", Bactris acanthocarpa, l\!art.
206 VIAGEM AO BRASIL ESTADA EM ~IUCURI E VIÇOSA 207
de Pôrto Seguro. Por isso, enquanto os Puris, os Patachós e os Bo- e nas cercanias de Caravelas: cresce nas árvores a boa altura e distingue-se
tocudos do Rio Doce fazem os arcos do lenho dessa árvore, as tribos pelo crescimento dicotômico. A haste lisa, bruna e luzidia, é esvaziada
que vivem mais para o norte, inclusive os Botocudos do Rio Grande da medula pelos negros, e usada nos cachimbos, com o nome de "canudo
de Belmonte e os Patachós do Rio do Prado, empregam, nesse mister, de samambaia".
o pau d'arco (Bignonia). As florestas dos arredores de Viçosa não nos interessaram apenas
11. Côco-oE-AIRI-MIRIM (pronunciado miri), de caule esguio e sob o aspecto botânico, mas também zoológico. A estação fria, obri-
espinhoso, e fôlhas rentes ao solo e ao longo do caule; o fruto é gando as aves da mata a arribar, em grande número, do interior para
pequeno, comido pelas crianças. o litoral, permitiu aos nossos caçadores matar inúmeros papagaios,
12. Côco-oE-TUCUM: tem um caule de quinze pés de comprido, sobretudo maitacas (Psittacus menstruus, Linn.)3 71 , tucanos, etc., que nos
crescendo nos charcos; ao passo que o airi prefere os lugares secos. servira:n de alimento. A carne do papagaio dá um caldo muito forte,
Caule e fôlhas espinhosos. O fruto é um coquinho prêto contendo mas não tive nenhuma confirmação do asserto de Southey •, de que
uma amêndoa comestível. Quebrando-se as pinnulae, aparecem deli- é usada como remédio. A linda cotinga negro-purpúrea (Ampelis atro-
cados fios verdes, muito resistentes, que são trançados sob a forma de purpurea) era freqüente nessas florestas; o belo e azul quiruá, ou
barbantes e assim usados na confecção de belas rêdes verdes de pescar crejoá (Ampelis catinga, Linn.)372, que se distingue, pela esplên-
e para outros fins. dida plumagem azul, de todos os pássaros do Brasil, era no Mucuri
Apesar de todos os caracteres diferenciais que essas várias espécies menos comum, bem como uma nova espécie de papagaio** 373 , etc. A
de palmeiras apresentam aos olhos do botânico, a maiotia possui uma incomparável plumagem do quiruá é empregada pelas freiras da Bahia
forma comum; as do gênero Cocos, de caule esguio, em algumas mais na confecção de lindas flôres feitas de penas. Entre os pássaros menores,
grosso em cima, noutras embaixo, e em outras, ainda, de diâmetro podemos apontar a Nectarinia cyanea (Certhia cyanea, Linn.) e a
todo igual, na maioria delas inclinado, provido de anéis salientes e spiza3 14 , às quais se dá o nome genérico de "saí". Conseguimos, tam-
com a parte mais alta anelada ou escamosa; as fôlhas são penadas, como bém, belas serpentes, como sejam vários espécimes de jararacas e
penas de avestruz, bela e graciosamente arqueadas, com pinnulae crêspas uma pele de jibóia (Boa constrictor de Daudin)•u, que não existe
ou um tanto encaracoladas, em algumas, noutras, erectas; são crêspas na África como afirmam alguns autores, mas é, no Brasil, a espécie
e prateadas no imburi; graciosamente recurvas, qual uma pluma, na mais comum do gênero.
jiçara; altaneiras, fortes, largas, projetadas em tôdas as direções e pen- A 11 de Junho deixamos Viçosa e partimos para Caravelas, onde
dentes para o solo na bela e imponente indaiá; subindo verticalmente a esperei pela chegada do Casqueiro do Rio de Janeiro.
grande altura na piaçaba, etc.
Resulta, do que ficou dito, que a região pela qual viajei é muito (*) SoUTHEY's History of B.-azil, vol. I, p. 627.
(**) Cinco polegadas e nove linhas de comprido; cauda curta; verde,. o peito,
mais pobre de variedades de ·p almeiras do que as do continente sul- o ventre e os lados tendendo ao azul; dorso côr escura de café; uroplgto quase
americano situadas mais perto do equador, nas quais Humboldt inteiramente negro; as duas penas medianas da cauda, ve~des, as inferiores averme-
lhadas, as outras de um lindo vermelho com largas extremtdades negras. No !du.seu
encontrou grande multiplicidade dessas magníficas plantas, de que nos de Berlim, essa ave es~ classificada. sob o nome de Psittacus tnelanotus. O pnnctpal
característico da espécie, só nítido, porém, no espécime fresco, é a orla cutânea do
dá encantadora descrição nos seus admiráveis "Quadros da Natureza"•. ôlho glabra e côr de vermelhão.
( ***) No livro de Seba, encontram-se as seguintes figuras de Boa constrictor,
Relacionados com as palmeiras, nos altos pontos dos Andes do Peru, que é fácil de identificar pelas suas manchas alongadas de ponta romba e truncada:
existem os fetos arborescentes (Filix), que se não encontram na costa tomo I, tab. 36, fig. 5 (de que parecem variantes tab. 53, fig. 1 e tab. 62, fi~. 1);
tomo li , tab. 101 (da qual parecem variedades tab. 100, fig. 1, tab. 104 e tab. 108, ftg. 3).
oriental brasileira, embora, errôneamente, alguns trabalhos modernos
sôbre esta região os registem aí 370 . Em compensação, as espécies baixas (371) Vide a nota 267.
(U72) Cotinga ntaculata (Müller), nome atual.
dessa família são numerosas e várias, tanto no solo como sôbre o tronco Houve engano do autor em reconhecer o pássaro bai":no em Am~elis cotinga L~nn.,
das árvores. Entre elas, a Mertensia dichotoma é comum no Mucuri espécie baseada na "Cotinga" de Brisson, ave da Amazôma. Ampelts ntaculata Müller
(1776), com base na estampa 188 de Daubenton, tem em sua sinonímia ilmpelis cincta
Kuhl, 1820, de uso clássico, até pouco tempo atrás.
(*) Ansichten der Natur, p. 243. A ave é longe ~e ser comum; durante minha permanência na Cachoeira Grande
do Rio Jucurucu não' consegui colecioná-la, nem mesmo avistá-la; vi-a .. porém, ao des~er
(870) Se Wied houvesse conhecido as matas da cordilheira marítima nos Estados o rio, no lugar chamado Ponte do Gentio (nome que aparece repetidamente nos rws
meridionais verificaria a improcedência, de sua tão categórica contestação. Os grandes da região). .
fetos arborescentes são elementos ali eminentemente característicos, contando-se em número (873) A espécie, Touit wiedi (Allen) da nomenclatura hodierna, vem descr!ta. n?s
avultado as suas espécies; a "samambaia real" ou "samambaiaçu" (Diksonia sellowiana) Beitriige, com o nome de Psittacus mel<:mOtus "Licht ", tornado inválido pela extsteneta
é particularmente notável pelo seu caule robusto, liso e ereto que não raro atinge de um homônimo anterior (Shaw, 1798). Deve ser hoje rara, não tendo sido por mim
a 6 metros de altura, enquanto que outras samambaias, como Alsophila corcovaden8i8, encontrada durante a viagem ao· sul da Bahia, onde, entretanto, pude conseguir numerosos
assinala-se pelo seu caule longo e flexuoso, sempre revestido pelas porções basais das espécimes de Touit surda (Kubl), sua próxima parenta. Larga deveria ter sido, todavia,
"sapitica", etc., foi já referido às notas 58 e 282; a segunda Chlorophanes spiza sua primitiva distribuição, visto que ia até o sul de S. Paulo (lguape). ,
au.xiliaris Zimmer. (874) A primeira é C11anerp es cyanea cyanea (Linn.), vulgarmente "sal", "safra ,
"sapitica ", etc., foi já referido às notas 58 e 282; a segunda Chloroph.anes sptza
axillCl'Tis Zimmer.


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VIAGEM DE CARAVELAS AO RIO


GRANDE DE BELMONTE

Rio e Vila de Alcobaça. - Rio e Vila do Prado. -


Os Patachós. - Os Machacalis. - Comechatiba. - Rio
do Frade. - Trancoso. - Pôrto Seguro. - Santa Cruz.
- Mogiquiçaba. - Belmonte.

Após uma espera de quatro semanas em Caravelas, o tão dese-


jado Casqueiro chegou, afinal. Trouxe-nos do Rio de Janeiro muitas
coisas de que estávamos necessitados, e recebeu as nossas coleções,
enviadas a amigos nossos da capital. O capitão Bento Lourenço
também chegara a C!ttavelas, logo depois de ter concluído a estrada.
Dirigia·se ao Rio, onde, como subseqüentemente nos contou, recebeu
uma comenda como prêmio dos seus esforços, além da patente de
coronel e do encargo de inspetor da estrada de Mucuri. Terminados os
nossos negócios, encetei viagem para o norte, ao longo da costa, ao
passo que o Sr. Freyreiss e sua gente ficaram no Mucuri.
Parti de Caravelas na manhã de 23 de Julho. Embora o período
mais frio dêsses climas já tivesse começado, o calor, no dia referido,
estava abafante. Os habitantes da região eram atacados freqüente-
mente de tosses, resfriados e dores de cabeça; pois o ,que chamam de
inverno tem, sôbre seus organismos acostumados ao calor, a mesma
influência que a primeira geada de novembro ou dezembro exerce
sôbre nós. Muitas pessoas morreram em Caravelas de doenças causadas
pelas mudanças de temperatura, ao passo que nós, estrangeiros, as
suportamos melhor. A planura escampa em que está situada Caravelas
é cercada de matas e cerrados pantanosos, onde se acham espalhadas as
roças dos moradores. Essas matas são muito mais aprazíveis na estação
bela do ano do que na de então; pois me pareceram muito mais bonitas
quando as visitei de novo, no comêço da primavera, no mês de
novembro.
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O canto alegre do sabiá (Turdus rufiventris)315 vinha da sombra A tardinha, alcançamos uma rápida corrente, denominada Barra
espêssa dos coqueiros, entre os quais encontrei, acidentalmente, um que Velha, porque é a velha ou primitiva bôca do rio Alcobaça, que atin-
deitara raízes no tronco escavado de uma grande árvore e já crescera gimos logo depois. Essas pequenas correntes do litoral constituem,
a considerável altura. Vai-se a cavalo por essa floresta até à foz do rio muitas vêzes, sérios obstáculos ao viajante, podendo detê-los durante
Caravelas, onde uma dúzia, mais ou menos, de cabanas de pescadores seis ou oito horas. Chegamos à Barra Velha no pior tempo; estava
forma uma pequena povoação. Da barra, ou embocadura do rio, muito caudalosa e veloz, não nos restando senão descarregar os animais
que é espaçoso e navegável, segue-se o plano arenoso da praia, contra e fazer alto. Mais atrás, dentro do cerrado, viviam algumas pessoas,
a qual o oceano, agitado pelo vento, arremessa, com estrondo, as vagas circunstância essa que só fomos conhecer posteriormente. Sentados
espumejantes. Do lado da terra, a praia é orlada por densos balcedos, por detrás do tronco tombado de uma árvore antiga, que de certo modo
enfezados pela ventania; formam-nos árvores e arbustos, de fôlhas nos protegia da cortante viração marinha, a qual lançava sôbre
verde-escuras, assemelhando-se às do loureiro, algo leitosa, sumarentas nós a areia fina da praia, logo acendemos uma viva fogueira, em cujo
e rijas; bem como as duas variedades de Clusia, de lindas flôres brancas derredor nos deitamos nos cobertores e capotes. Aí vimos uma das
e róseas, que dão em abundância por tôda a praia litorânea. Aí, como belas fragatas (Pelecanus aquilus, Linn., Halieus, Illig.)380 , que se
em tôda a costa oriental, se encontra freqüentemente o arbusto conheci- mostram na costa brasileira, voando a grande altura, em bandos de
do por "almécega" (Icica, Amyris, Aublet)3 7 6, que é em tôdas suas partes quatro, cinco ou mais ainda. Após uma pobre ceia, passamos a noite
muito aromático. Do mesmo exsuda uma goma extraordinàriamente nesse triste local, muito pouco defendidos, pelos capotes, do vento
cheirosa, de usos vários, sobretudo como pez ou resina para navios e áspero. Por isso, saudamos alegremente a alvorada do dia, que nos
como bálsamo e remédio para feridas. Grande parte dos cerrados da convidou a continuar a viagem; mas só às dez horas a maré baixou
costa arenosa é constituída pelas duas espécies de coqueiros de guriri e bastante para permitir que os animais passassem a nado; a bagagem foi
de aricuri3 77 , muito comuns no litoral, e já mencionados a propósito transportada na cabeça, pelo pessoal.
da nossa estada no Mucuri. A primeira estava então em flor e carregada Dêsse ponto, alcançamos em pouco tempo a foz do Alcobaça; bas-
de frutos verdes; a outra é mais bonita, atinge 15 a 20 pés de altura tante larga. Próximo ao oceano, as margens são cobertas de densos
onde o vento não sopre com demasiada violência; na costa, porém, é manguezais, porém logo depois substituídos por florestas imponentes
menor. Os belos frutos redondos e côr de laranja têm gôsto adocicado, e sombrias. Não longe da foz, na margem norte, ergue-se a Vila de
mas dizem não serem saudáveis. Na areia firme e plana, além do Alcobaça, numa branca planície arenosa, atapetada de capim rasteiro,
alcance da arrebentação das vagas, rasteja uma linda campanulácea pur- mimosas rastejantes, Plumbago de flôres alvas, e das belas flôres róseas
púrea (lpomoea littoralis) 318, de caule pardo-escuro semelhante a uma da Vinca rosea. Alcobaça tem cêrca de duzentas casas e novecentos
corda, e fôlhas grossas, leitosas, oval-arredondadas; encontrei-a em quase habitantes; a maior parte dos edifícios são cobertos de telha, e a
todo o litoral, onde se prende na areia. O mesmo acontece com duas es- igreja é de pedra. Faz-se aí, como em tôda a costa, algum comércio
pécies de flôres amarelas da classe Diadelphia, uma, rastejante, espalhan- de farinha de mandioca, de que se exportam anualmente, segundo se
do-se pelo solo, nova espécie de Sophora; outra, a Guilandina· bonduc, diz, perto de quarenta mil alqueires, para as principais vilas do litoral,
Linn., -com muitas vêzes 3 a 4 pés de altura e uma cápsula curta, larga, e para todos os lugares em que a referida planta não dá tão bem.
espinhosa, muito áspera. Entre essas plantas, o duro capim da praia Algumas lanchas se empregam no transporte do produto, trazendo de
(Remirea littoralis)319 medra abundantemente por tôda a parte. volta outros artigos da Bahia. :tsses pequenos barcos vão longe rio
acima, isto é, até a plantação do Sr. M unis Cordeiro, um dos moradores
· (875) T urdus •·u{iventris Vieillot, 1818, ou "sabiá de barriga vermelha " (aliás côr mais importantes de Alcobaça, cujo excelente caráter lhe granjeou
de canela) , "sabiá-<:Oea", etc., da nomenclatura vulgar, é ainda hoje bastante comum nos
lugares habita dos, sendo mesmo visto com grande freqü ência nos quinta is e jardins merecida reputação entre os conterrâneos.
arborizados do Rio de Janeiro, t ido como pá tria típi ca da espécie (Cf. nota 109).
(876 ) " Alm écega da pra ia", Amyris brasUiensis Spreng., ou I cica maríti ma Ca za r. O rio Alcobaça, denominado "Tanien", ou "ltanien" (ltanhaém)
(fam. das Burseráceas). no primitivo idioma brasílico, é abundante de peixe; dizem que até
(377) Convém não confundir o " aricuri " (Cocos schizophylla Mart.) com o " licuri "
ou "ouricuri ", outra palmeira (Cocos coronata Mart.) que mais tarde o autor iria
"manatis" 381 foram nêle capturados; a barra tem leito arenoso, com
encontrar em sua viagem de Conquista à Bahia. Não obstante, o que informa sôbre os 12 a 14 palmos d'água de profundidade, podendo ser transposta por
caracteres do fruto caberia muito bem aos da última. O primeiro é também chamado
"licurioba " no Recôncavo e adjacências.
(378) " Salsa da pra ia··. "bata ta da pra ia •· ou a in da "gitira na ., (l pomaea 7>es-c<l']Jrae (380) E ' a " grapirá " ou "joão grande ", já referido pelo a utor, páginas atrás
Sweet. ), planta rasteira comum em tôdas a praias a renosa s do Brasil orienta l, e (v. nota 868) .
fácil ue reconhecer pelas suas flôres campanullform es e roxas. (881) Nome pelo qual, os europeus, de ordinário, conhecem o " peixe-boi " (Trichechus
(379 ) Remirea mm·itimao Aubl., fa m. das Ciperáceas (Cf. a nota 31 7). inungui s (Pelz.)) e seus afins (cf. nota 318).
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sumacas pesadamente carregadas. Os seus sertões, ou sejam as seculares pois estávamos justamente na época da baixa. Do outro lado, perto
florestas de ambas as margens, são habitadas pelas tribos selvagens dos do rio do Prado, também havia manguezais, ficando a vila na margem
Patachós e Machacaris, a que já nos referimos por diversas vêzes, e as norte, num plano arenoso um pouco elevado- Estendidos na areia da
quais, nessas paragens e mais ao norte, visitam pacificamente as moradas margem, tivemos de esperar muito tempo, antes que alguns moradores
dos brancos, oferecendo, em ocasiões, cêra ou caça, em troca de outros se lembrassem de vir buscar-nos numa canoa. Deram-nos um pouso
produtos. Não os pudemos ver então, porque se tinham internado suportável, na casa da Câmara.
na mata. Nas florestas do Alcobaça são abundantes as madeiras de A vila do Prado, a princípio formada de índios, é menor que a
lei e as plantas úteis; o pau-brasil, por exemplo, e, sobretudo, grande de Alcobaça; com efeito, conta apenas de 50 a 60 casas e 600 habi-
quantidade de jacarandá e vinhático, extraídos pelos índios civilizados, tantes. As casas são em parte construídas em fila, em parte espalhadas
que formaram o núcleo original da vila, mas substituídos, atualmente, num branco terraplano arenoso. A Vinca rosea885 cobre êsse solo
na maior parte, por brancos e negros. Alcobaça é lugar salubre, de ardente, onde os nossos burros só encontraram escasso e ruim sustento.
atmosfera constantemente purificada pela viração marinha; entretanto, O lugarejo é ainda mais desprovido de recursos do que Alcobaça. Umas
durante grande parte do ano, os ventos e as tempestades são muito poucas lanchas mantêm pequeno comércio costeiro de farinha de
desagradáveis. A 5 léguas ao norte do Alcobaça, o Rio do Prado desem- mandioca, de que se exportam, anualmente, 8000 alqueires, ao lado
boca no mar; outrora os aborígines da região chamavam-no de algum açúcar e outros produtos das ma'tas e das plantações. O rio
Jucurucu""382 • O caminho até lá, pela costa, seguia a praia compacta é de razoável largura, abundante em peixe, a barra não é má para
e plana, onde o oceano se quebrava com fúria, encrespado pelo vento a navegação, pois deixa entrar sumacas carregadas. Por ordem